Última atualização: 21/09/2020

Prólogo

Londres, fevereiro de 2015


Quando subi as escadas do hospital aos tropeços, o mundo era turvo e estranho ao meu redor. Percebi que ainda não havia nenhuma movimentação de fotógrafos na entrada. Se a notícia já tinha vazado, não tiveram tempo de chegar para clicar minha expressão de desespero. Mesmo se tivessem chegado, eu não ligaria.

O estado dela é grave, Harry. Foi só o que nos disseram.

Eu não sabia de muita coisa, só o mesmo que a minha irmã sabia quando me ligou assim que eu saí da reunião. Mas você só pode estar ficando louca mesmo, cuspi as palavras, rispidamente, na ligação. A deixei segura em casa quando saí apressado, tomando seu café e folheando um jornal vagabundo qualquer. Gosto dos jornais britânicos, quase podia ouvir, são todos tão dramáticos. Ela estava ótima. Se aquilo era alguma brincadeira das duas, era uma das péssimas.
Agora que havia chegado à casa, caí sentado no sofá como um peso morto e repassei dezenas de vezes cada palavra que saiu monotonamente da boca dos médicos. sofreu um ataque. Não levaram nada dela, o grau de violência da agressão denunciava ódio pela vítima, a encontraram abandonada em um beco perto de casa, ainda era cedo para conclusões médicas sobre os dois tiros. Ouvi tudo atentamente, mesmo que o conjunto daquelas palavras não fizesse o menor sentido.
Meu celular tocava sem pausa. Pássaros se agitavam em bandos no jardim lá fora.
Ela estava morrendo? Eu podia sentir que estava.
Peguei o celular com as mãos trêmulas e o joguei para longe, mas ele não quebrou. Continuava a tocar. De repente, o sangue ferveu nas minhas veias. Como o resto do mundo se atrevia a continuar o mesmo depois de hoje? Por acaso, ele não havia se tornado mais escuro aos olhos de todos também?
Levantei-me enojado com tanta injustiça, tomado irracionalmente pelo ódio como um animal. Quebrei todos os vasos que vi pela frente, joguei longe a mesinha de centro, chutei o sofá até a dor latejar na minha perna. Aquilo me dava quase prazer.
Não conseguia pensar em nada, não tinha controle sobre o que fazia, tudo o que me tomou foi o ódio. Eu sabia que aquele showzinho era simplesmente ridículo, mas só parei quando a sala estava um caos. Tudo me doía de dentro para fora, doía tanto que não conseguia nem chorar.
— Por favor... Por favor, por favor... — repetia, como um louco, agarrado pateticamente a uma almofada, quase em oração.
Será que ela chamou por mim? Será que pensou que eu estaria lá quando mais precisou?


Capítulo 1 - Go on, I dare you

Ilha de Manhattan, setembro de 2012


"Te levo na festa do Niall hoje?"

Eu enviei a mensagem, torcendo para que sim.

"Prometo pensar no seu caso..."

"Suspense é o que há..."

Mesmo na correria do camarim, tirei uma foto da maquiadora decidindo entre meus tons de pó e enviei, perguntando se deveria considerar me demitir.

— Pensou no meu caso, amor? — ri presunçoso quando ela entrou às pressas no carro.
— Eu ainda posso desistir... — debochou, do meu lado, beijando minha bochecha. — Você não arriscaria.
Como não ia perder a oportunidade, segurei seu rosto com a mão livre da direção um tempo a mais colado no meu, lhe dando um selinho mais demorado do que um realmente era. De repente, senti aquela sensação de segurança que já havia me acostumado, um arrepio de quem está apaixonado, mas desprovido de qualquer tensão, como se com ela o mundo fosse diferente, porém não fosse instável.
— Eu não arriscaria — concordei, me afastando e dando partida no carro. — Você está linda nesse vestido.
Sorriu consigo, passando a mão pelo tecido leve que parecia flutuar em seu corpo. A vi revirar os olhos em brincadeira, ligando o rádio em alguma música aleatória dos anos 80. Depois fez uma pausa.
— Achei que não ia dizer.

— Harry, estávamos falando de você! — Liam levantou seu copo, me abraçando de relance. Ele conversava perto da entrada com e uma garota que eu não conhecia, provavelmente, companhia dele na festa.
E, falando em festa, tudo lá tinha ficado ótimo. A decoração parecia com o gosto de Niall, a música era boa e os convidados... Bem, o que poderia dizer de cara era que eram energéticos. Me notifiquei mentalmente para parabenizá-lo mais tarde, mesmo que eu não estivesse exatamente no clima para curtir seu aniversário.
— Ah, é? — perguntei, curioso, entrelaçando minha mão na de e depositando um beijo na curva do seu pescoço. — Podemos aqui? — sussurrei, sabendo que enquanto um Liam já alterado pela bebida tagarelava, só ela me ouvia. Vi seu semblante travesso mudar ao entender o que eu realmente queria dizer.
A deixei na festa primeiro, tendo que dar a volta no quarteirão e entrar depois para que qualquer paparazzi fosse despistado. Bufei o trajeto inteiro, irritado com o trânsito, com ela, comigo, com o mundo. Para completar, a reunião de hoje foi o de sempre: chata e demorada. Eu estava exausto.
— Não seja bobo — esboçou um sorriso incrédulo, com os olhos semicerrados. — Você sabe que é melhor assim.
— Talvez eu não ache mais que seja — dei de ombros, na minha melhor postura defensiva. Sabendo no que a gente havia se tornado um para o outro nos últimos meses, eu achava inconcebível tanto esforço para esconder do resto do mundo nossa ligação. — Para você eu não valho nem o risco?
— Harry — sua voz vacilou em uma quase súplica, mas não consegui ceder dessa vez. Estava muito magoado para pensar em qualquer outra coisa.
— Você não respondeu a minha pergunta.
— Vocês estão me entendendo? A turnê mal terminou e os caras já querem pressionar, assim fica impossível — Liam argumentava, bêbado ao lado da moça, que o ouvia atentamente e me parecia em um universo à parte do meu naquele momento.
— Não vamos ter essa conversa de novo. Não aqui — ela apertou minha mão uma última vez, me lançando um olhar calmo, quase frio, de quem era adequada demais pra discutir relação comigo em um aniversário. Eu não precisava de muito para saber que ela estava irritada. — Foi um prazer. Liam, não exagere nos drinks por hoje — cumprimentou a moça com um sorriso quase profissional, bateu no ombro do meu parceiro de banda e saiu.
E talvez ela tivesse razão: proteger que estávamos juntos por um tempo devia ser mesmo o mais prudente. Ela sempre me dizia que tantas perguntas e acusações tão cedo só iam naturalmente ficar entre nós e quem mais experiente para concordar do que eu?
Acontece que o dia havia sido ruim e eu acabei misturando tudo. Senti uma pontada de culpa na barriga no mesmo instante.
Enquanto a via de longe entoar uma conversa animada com o aniversariante, além de Louis e a namorada, me senti o ser humano mais imbecil do mundo. Mesmo assim, decidi não ir atrás dela: já era mais que enturmada com o pessoal da banda, então estava muito bem sem mim e ir até ela agora só ia deixá-la mais impaciente comigo.
— Desculpa, mate. Dia ruim.
Virei o copo de Liam tão rápido que ele nem teve tempo de reclamar. Depois saí andando em passos largos, vendo que a bebida não melhorava meu estado de frustração comigo mesmo. Eu queria tanto ficar perto dela que a afastava e ficava mais longe ainda.

´s P.O.V

— E eu fiquei tipo, babe, segura a onda, essas coisas são assim — Louis gesticulava, já bem animado pela bebida. — Mas eu no lugar dela teria soltado o meu número no Twitter!
Em mais uma de suas dezenas de histórias engraçadas, eu acompanhava rindo com Eleanor, sua namorada, e Niall, o aniversariante da noite. Bebia meu recém-chegado drink, de certa forma muito à vontade, já que qualquer lugar com Louis e nossos outros amigos para mim passava longe do desconforto. Ele foi de quem eu mais me aproximei logo de cara na banda, quando fui apresentada aos meninos, e é claro que continuamos grandes amigos.
Harry não entendeu como pela primeira vez ele não era o garoto dourado, já que muito na banda girava ao seu redor. Eu conseguia perceber a curiosidade dele no ar. Acho que essa onda de diversão foi o que nos aproximou de início. Até que a brincadeira chegou ao fim e a gente se tornou inseparável.

...


— O que você está fazendo aqui? — abri a porta assustada e a figura alta de cabelo desarrumado foi logo entrando como se estivesse fugindo de uma perseguição, mas não havia peso nenhum na expressão de seu rosto.
— Não consigo dormir com tanto barulho no hotel. Posso ficar aqui com você? — senti uma mão sua na minha cintura, enquanto ele depositava um beijo na minha testa.
Nem meu humor e nem minha aparência eram os melhores às duas da madrugada, mas tenho que admitir que uma parte de mim gostou da visita inesperada, só porque era dele.
— Você não dorme de pijama? — perguntei, ao ver que ele não trazia nada consigo, e Harry sorriu pretensioso.
— Não, eu não durmo de roupa.
Até liguei a TV, mas nenhum dos dois se animou muito para prestar atenção em nada que passava àquela hora. Agora eu e ele estávamos no chão da sala, devorando meu pote de sorvete favorito em um silêncio quase prazeroso, só aproveitando a companhia um do outro e falando de vez em quando.
— Então os outros meninos fizeram mesmo a tal festa?
— Fizeram. E com certeza vai dar problema amanhã com a imprensa ou a polícia porque o som está muito alto. Não sei qual dos dois é pior. Parece que veio um DJ da Austrália só pra ser preso mais tarde — Harry me olhou, soltando uma risada baixa enquanto comia.
— Nós sabemos bem que ele vai. A tolerância do pessoal aqui na Inglaterra é ótima — respondi, ironicamente.
— Ei! — ele se aproximou, ofendido. — Você parece gostar muito dos ingleses — sussurrou, me provocando, e chegou mais perto ainda, segurando minha nuca. Senti seus dedos longos em meu pescoço e um tremor me percorreu. Não pude soltar nenhuma resposta igualmente arrogante, já que ele logo me beijou devagar, como se assim a gente aproveitasse o máximo um do outro. Seus lábios gelados pelo sorvete me deixaram arrepiada dos pés à cabeça e me perguntei se naquele momento ele sentia o mesmo.


— E você, por que fugir da festa? — arqueei as sobrancelhas. — Vai sair "One Direction" do mesmo jeito no jornal amanhã.
Saí do banheiro com meu pijama, já pronta para dormir. Senti o frio londrino percorrer minhas pernas, em parte descobertas, e cruzei os braços procurando me aquecer.
Deu de ombros.
— Precisava dormir. O voo me derrubou hoje — ele estava de costas, olhando a vista da janela enquanto tirava a blusa. — E queria ver alguém especial, então foi o que fiz.
Sorri junto.

You know, you look even better than the way
You did the night before
And the moment that you kissed my lips, you
Know I started to feel wonderful
It's something incredible, there's sex in your chemicals


— Uniu o útil ao agradável — me aproximei. Senti algo em mim amolecer um pouco, acompanhando a visão das luzes da cidade ainda acesas e um Harry descalço e sem blusa, me observando chegar. — Até que também senti sua falta.
— Gostei do pijama — tentei disfarçar as bochechas queimando ao perceber o olhar dele nas minhas pernas e subindo para a peça que eu vestia, como se estivesse memorizando cada curva do meu corpo. Ri por sempre usar estampas tão infantis para dormir. A da vez era com várias girafas minúsculas.

You're the best way I know to escape the extraordinary
This world ain’t for you, and I know for damn sure
This world ain’t for me, lift off and say goodbye
Just let your fire set me free


— É o meu favorito — brinquei, de volta, agora também acompanhando a vista do lado de fora mais de perto. Seus olhos pareciam tão claros que fiquei em dúvida se hoje à noite eram mesmo verdes e não uma tonalidade qualquer de cinza. Também não me contive ao olhar de relance suas tatuagens à mostra, como se eu nunca as tivesse admirado antes. Ele era bonito de um modo quase insuportável.
Harry me abraçou por trás e parecia gostar do cheiro em meu pescoço. Eu me esforçava. Mesmo quase às 3h da manhã me certifiquei de pentear o cabelo e passar meu perfume preferido.
— Vem — ele sussurrou, me guiando até minha cama.
Já deitada, fechei os olhos para aproveitar o momento. A sensação de estar entrelaçada com ele hoje parecia diferente, com tão pouca roupa entre nós e ao mesmo tempo calma em cada toque.
— Niall me ligou dois dias atrás, disse que você estava se maquiando todo para o show — ri baixo, apertando mais ainda sua cintura, sentindo sua pele gelada.
Ele me acompanhou soltando uma risada, beijando minha boca tão devagar que era torturante, a saudade e o desejo se misturando.
— Minha mãe também quis saber de você. Parece que alguém prometeu ir provar uma torta lá qualquer dia e sumiu — Harry disse, já bem próximo ao meu ouvido, soltando um suspiro pesado como se tivesse acabado de se dar conta de algo. — Queria ter ido atrás de você na noite em que discutimos. Passei a semana pensando nisso.
— O show de vocês já ia começar. E o que a gente ia fazer, se desentender no caminho também? — arrepiei, sentindo suas mãos frias em minhas costas, por dentro da minha blusa.

Life's not so bad when you're way up this high
Everything is alright, everything is alright
Moonshine, take us to the stars tonight
Take us to that special place
That place we went the last time, the last time


— Eu ia te beijar até você esquecer que eu sou um idiota — sorri, pensando em como ele era mesmo. Quando olhei para o seu rosto, Harry estava muito sério, concentrado em mim.
— Então beija.
Não precisei pedir de novo. As mãos de Harry passeavam pelas minhas pernas, apertavam minhas costas, me seguravam pelo rosto, repousavam nos meus seios. Seu corpo estava sobre o meu e ele aprofundava os beijos cada vez que eu gemia baixo, em êxtase total.
— Eu amo que a sua pele seja quente assim.
— Ela agradece a preferência — disse, divertida, e ele pareceu gostar.
— Quem agradece sou eu.

Don´t look down, don´t you never look back
We are not afraid to die young and live fast
Give me good times, give me love, give me laughs
Let's take a ride to the sky before the night is gone


Em resposta, eu dava beijos molhados em seu pescoço, passeava com as mãos por sua barriga, um toque pesado e lento que quase doía de tanta necessidade. Quando pressionei nossos quadris, senti a tensão sexual em nossos corpos. Harry estava com os olhos quase fechados, sorrindo satisfeito com o contato tão direto entre nossa pele.
Minutos depois, a chuva começava a cair pela cidade. Eu simplesmente amava o som dos pingos caindo — ainda mais aqui na Inglaterra, onde não era tão frequente como no Brasil. Minhas mãos seguravam os cabelos de Harry, que já havia subido uma parte da minha blusa para enterrar o rosto entre meus seios. Quando se deu conta da chuva também, sorriu mais uma vez. Ele pegou os lençóis e nos cobriu, me beijando por mais tempo até o sono chegar.
E eu não poderia adormecer de uma forma melhor, não poderia me sentir mais segura do que ali, em um desses nossos momentos cheios de toques e sussurros, e conexão e intimidade. Só pensava em como ele era melhor do que eu já poderia ter imaginado, em como ele era sempre mais.
— Harry?
— O quê? — abriu só um olho, depositando um beijo desajeitado no meu cabelo.
— Sobre a sua mãe e a torta... — ponderei.
— Vamos vê-la na quinta, então — ele propôs, alegre. E voltou a dormir.

...


— Você e o Sr. Emburrado estão fazendo algum joguinho para apimentar a relação? Por que estão distantes hoje? — Louis questionou, baixo. Ele me conhecia muito bem, então devia ter notado na hora o ar de incômodo na minha expressão.
— Exatamente por isso. Ele é o Sr. Emburrado — sorri fraco. — Só você e a mãe dele conseguem entender o que se passa nessa cabeça dura, eu vou morrer tentando.
— O segredo é deixar ele esfriar a cabeça um pouco. Ainda mais agora com o trabalho enlouquecendo a gente, ele só precisa espairecer — passou a mão pelo meu ombro. — Você me parece feliz.
— Pareço? — encostei a cabeça nele por alguns segundos.
— Parece. É o casamento despertando esse brilho em você — Louis disse, me fazendo revirar os olhos e tirar seu braço de perto de mim, como se estivesse furiosa com as idiotices de sempre dele, que só ria mais. — Harry adora o chão em que você anda e você sabe disso.
— Nem começa...
— As coisas vão clarear. Estou prevendo.
Foi minha vez de rir alto.
— Obrigada, mãe Tomlinson.
— Sempre que precisar.
— Lou, você não bebeu nada! — Eleanor puxou meu braço, falando alto. Ela vinha do bar com três taças na mão e, àquela altura, todos já estavam agitados pela bebida. — Perrie pediu que nós duas bebêssemos por ela também.
Ri alto. Perrie vivia sempre ocupada, mas nas vezes em que a vi, era sempre muito engraçada e simpática.
— É que você já bebeu tudo por nós três! — gritei, de volta.
— Ei! — Niall estalou um beijo na minha bochecha e meu sorriso aumentou na hora.
— Ei, você! — dei um soco de leve no seu ombro e lhe abracei de lado. — Quis comprar algo para você. Mandei deixarem no seu quarto no hotel.
Ele me apertou surpreso, dizendo que não era preciso. Fiquei feliz em ver sua animação e, de repente, estava animada também. Me distraí com o DJ se despedindo e aplaudi junto com todo mundo.
Me perguntei onde Harry estaria. Será que tinha se cansado de mim e procurado consolo pela festa? Ele me parecia tão esgotado mais cedo...
, você precisa ir ao palco cantar! — ouvi alguém gritar perto de mim e pulei de susto. Quando virei para olhar, Niall segurava a barriga de tanto rir da minha cara.
— Niall! — repreendi, mas não consegui me irritar por muito tempo. Era o dia dele, afinal. — E de onde você tirou que eu vou cantar?
Olhei de relance uma banda se organizando no palco e deduzi que teríamos música ao vivo pelo resto da noite. Cantar não era muito a minha praia, mas arriscava uma vez e outra quando treinava no piano. Eu simplesmente adorava a liberdade de poder criar sons que formariam uma sequência e seriam só meus.
— Por favor! Naquele dia, você e Louis cantaram no estúdio — Niall rebateu.
— Mas era só entre a gente — justifiquei.
— Vamos! É meu aniversário!
— Você pode escolher literalmente qualquer pessoa entre os seus convidados supertalentosos.
Ele rolou os olhos exageradamente.
— São só meus amigos escandalosos de antes da fama.
— E uma dúzia de celebridades.
— Subcelebridades. As de verdade mandei barrarem na entrada — lhe acompanhei em uma risada alta. Quando Louis subiu no palco para, em suas palavras, encorajar todos os outros otários dali a se soltarem, Niall assobiou alto com os dois dedos na boca e todo o resto foi à loucura, aplaudindo junto.
Louis nunca teve os modos mais delicados do mundo, mas alguma coisa em ver o cara com a voz tão doce nas músicas ser, na verdade, nem um pouco doce com as palavras fazia todo mundo o adorar completamente. Quando ele terminou sua apresentação para lá de performática de Like a Virgin da Madonna, isso ficou ainda mais claro.
Olhei para Niall e achei que só podia estar louca, porque realmente senti vontade de subir naquele palco. Mesmo sem música nenhuma em mente, mesmo sem fazer ideia do que eu faria quando pegasse no microfone, vi como Niall ficou feliz ao ver Louis lá em cima e, sinceramente, até eu precisava me soltar um pouco mais.
— Feliz aniversário — beijei seu rosto e corri para o holofote.
No trajeto, ouvi aplausos de incentivo e pensei no que faria. Minha zona de conforto era o piano, mas não havia um ali... A atmosfera da festa pedia algo divertido e não lento, e pensei em tentar com o violão. Parabenizei Niall de novo e brinquei sobre ser uma das otárias que Louis queria encorajar. Depois das risadas, um silêncio pairou no lugar em expectativa.
But babe you, got me moving too fast...
Comecei sem o violão e todos gritaram ao reconhecer a melodia. Fiquei feliz com a aprovação e continuei com acordes que ficavam mais animados ao longo dos versos. Eu estava tentando fazer uma versão acústica de Magic, uma música do segundo álbum da banda que não era tão reconhecida quanto às outras, mas sempre me dava uma sensação boa ao escutar. Fiquei com medo de estragá-la no violão, por não combinar ou por eu simplesmente não me sair bem, mas estava bem satisfeita.
You, you got that spell on me, I don't know what to believe — finalmente, tive coragem de correr os olhos entre os presentes. Vi Niall e Eleanor dançando, Louis cantando junto e todos ali pareciam empolgados com a homenagem inusitada à banda do aniversariante.
Procurei por Harry por alguns segundos. Se visse seu sorriso largo e sua expressão curiosa de sempre me perguntando o que diabos estava fazendo, mas desejando que eu continuasse, saberia que estava indo bem.
Em vez disso, o encontrei do outro lado do salão e três garotas pareciam tomar toda a sua atenção. Uma delas permanecia com a mão em seu ombro quando disse algo que o fez por fim virar em minha direção e nossos olhos se encontraram. Será que as conhecia há muito mais tempo? Seriam velhas amigas ou bem mais do que isso? Ele se despediu entre sorrisos e parecia vir para mais próximo do palco. Aquilo tudo era demais para que eu lidasse enquanto me concentrava em fazer algo decente para Niall.
Decidi não prestar mais atenção e me voltar completamente para o que estava fazendo. Me remoer sobre aquilo não daria em nada e com certeza não era a melhor hora.
— ‘Cause everything you do is magic, everything you do is ma-a-agic — finalizei, sem o violão, me esforçando para que minha voz soasse o mais afinada possível.
Bom ou não, as pessoas aplaudiram. Senti meus olhos se estreitarem quando sorri em agradecimento, antes de Liam subir ao palco para me abraçar e gritar no microfone:
— Um brinde a Niall James Horan! — virou para mim, levantando seu copo. — E a você!
Todos se juntaram aos gritos e desci, vendo que um homem já subia com os fones pendurados no pescoço. Ao que me parecia, o realmente contratado para cantar na festa.

— Me desculpem se estraguei a música de vocês — pedi, rindo do que havia acabado de acontecer. Ainda não acreditava que tinha feito mesmo aquilo.
— O quê? Foi meu presente e eu amei cada segundo! — Niall me abraçou por mais algum tempo antes de alguém gritar seu nome e ele ter que ir ver do que se tratava.
— A sua versão no violão ficou linda! — Eleanor juntou as duas mãos, como se estivesse em um sonho. Louis debochou do jeito da namorada e sorriu para mim.
— Vamos contratar você como membro honorário da banda.
— Obrigada — disse, já começando a corar ao ver que ela e Louis também tinham gostado. — Não aguentaria conviver com vocês cinco ao mesmo tempo por mais de um ano, Louis.
— Você e Harry provavelmente se matariam. Ou não sairiam do quarto por nada — provocou.
Depois de, como sempre, repreender Louis, me despedi dos dois, sentando em um dos banquinhos próximo às bebidas.
Não tinha a mínima vontade de provar mais álcool por hoje, mas me distraí com um dos cardápios. De certa forma, me sentia muito bem, e quando Don’t Stop Believin’ do Journey começou no palco, a noite só pareceu melhorar.

— Parece que alguém não sabe o que pedir — desviei rápido meus olhos do papel quando ouvi sua voz. Harry encostou nossos lábios, como se fosse inevitável. Quando se afastou, vi que sua expressão era de quase medo, por não saber como eu reagiria depois da nossa cena de hoje mais cedo. — Você se sai muito bem cantando. Preciso me cuidar.
— E você demorou — eu sorri com os lábios fechados. Ele se aproximou mais do meu banco, posicionando o corpo entre mim.
— Encontrei uns caras da gravadora e depois alguns conhecidos. Você?
— Fiquei com o pessoal — ele assentiu, olhando comigo Liam, para lá de embriagado, virar uma garrafa de whisky na cabeça de Louis. Todos ao redor despejavam gritos em incentivo.
Harry agora estava concentrado em mim e seu beijo era lento e molhado, como se eu fosse a única coisa interessante na festa. Naquele momento, naquele instante perdido, sua devoção por mim era quase palpável.
— Eu, hm... Não sei... — ele começou, tropeçando nas palavras, e logo soube do que se tratava. Harry era um desastre categórico em se desculpar. — Eu não sei o que deu em mim para discutir com você sobre aquilo. É claro que eu quero proteger a gente também e eu não tenho sido o melhor namorado para você e...
Arqueei as sobrancelhas na hora com o namorado. Parecia que o mundo havia parado por alguns segundos para nós dois, e não de uma forma romântica - de uma forma assustadora.
Sim, passávamos muito tempo juntos, os dois odiavam a distância e as mãos dadas por todo lado só podiam significar alguma coisa. Mas também sei que quando o vi tão íntimo daquelas garotas hoje me perguntei até que ponto ia sua fé em mim, até que ponto tínhamos um ao outro.
— Harry, o que você quer comigo? — despejei. — Você volta dos shows e me leva para todo lugar, tem a droga da moldura de uma foto minha na sua casa como se eu sempre tivesse estado ali... Eu honestamente não sei como ainda não estamos com a cara estampada em algum jornal e me preparo todo dia para acordar e ver que estamos.
Ele me olhava impressionado. Até eu estranhava o meu desabafo súbito.
, voc...
— ... E tem uma parte de você que eu sinto que nunca vou conhecer. A parte que some por uma semana e eu só sei onde foi parar porque as pessoas não param de falar sobre. A que volta sem me dar nenhuma explicação, porque você acha que eu não preciso ouvir uma, certo? Pois aqui vai, Harry: eu preciso, eu me importo e eu estou exausta de tentar fazer tudo sozinha.
— Por favor, , me deixa fal...
— Acontece que eu não posso ser compreensiva sozinha, nem se eu quisesse, e você parec... Que tipo de merda você está fazendo? — minha indignação em segundos se transformou no mais puro e paralisante choque.
— Me elevando aqui, assim fico bem visível e talvez prenda um pouco da sua atenção — Harry deu de ombros, com a expressão mais tranquila do mundo para alguém que estava em cima do batente mais próximo do abismo de um prédio colossal de 30 andares.
O compartimento de concreto acoplado à varanda em vidro chegava até um pouco abaixo de seus joelhos e é claro que com ele em cima a proteção do vidro não alcançava sequer a altura completa das pernas de Harry. Aquilo era no mínimo perigoso.
— Styles, você tem mais de 1,80 de altura. Não acha elevado o bastante para te notarem? — seu rosto se contrariou ao ser chamado pelo sobrenome, mas um brilho de diversão cintilava em seus olhos. — Você já tentou olhar para trás e ver o risco que está correndo?
— Prefiro não o fazer — sorriu fraco, com a sinceridade de quem admitia estar com medo também. — Você não pode negar que funcionou.
Revirei os olhos. Era o preço que eu pagava por me meter com alguém que entendia de performance — na verdade, alguém que trabalhava com elas.
— As coisas são se resolvem assim. Não estamos em High School Musical.
Harry me olhou bem sério.
— Não, claro que não. A música que acabaram de tocar era do Glee, mocinha — segurei meu instinto estúpido e quase natural de rir de suas idiotices e ele continuou. — Será que talvez agora podemos, os dois, conversar?
Procurei por qualquer sinal de brincadeira em seu rosto indicando que ele não estava falando sério, que não pretendia falar naturalmente comigo enquanto se arriscava daquele jeito, mas no fim das contas sua expressão era a mais insolentemente convicta do mundo.
Quis debochar da sua maravilhosa ideia imbecil, dizer que todos o veriam pagando mico ali, alegar náusea para ir embora. Mas acabei me dando por vencida e suspirando.
— As coisas que aquela mulher, Erica, me disse... — Harry se mexeu impaciente, as mãos apoiadas na cintura.
— Não acredito que você ainda a escutou! Eu já disse que não quero você envolvida nessa história — gesticulou, a voz suavizada como se indicasse que não estava realmente bravo.
— Bem, acho que já fui envolvida, não fui? — rebati, com ironia, rindo sem humor. — Você é muito egoísta em tornar isso só sobre você.
Não devia fazer nem mais de um mês desde o dia em que ela me puxou, cheia de si, para dizer que eu me afastasse dele e ainda assim parecia que haviam se passado vários.
"O que aconteceu entre ela e eu não tem absolutamente nada a ver com o que eu tenho com você. Eu sinto muito se ela te incomodou". Foi o que um Harry de expressão consternada me disse naquele dia. Ele estava apenas nervoso demais. Fazia um esforço enorme para não me ligar ao seu passado, como se eu fosse boa demais para saber das coisas que já aconteceram.
Antes daquele dia, sempre pensei que não precisasse saber como era a vida de Harry há algum tempo atrás, quando eu ainda nem o conhecia. Mas depois de ver de perto uma de suas companhias, percebi que talvez eu não quisesse saber também. Não foi a melhor das experiências.
Erica era uma das mulheres que costumavam divertir Robert, um dos sócios da gravadora dos meninos. Elegante, olhos lindos, cabelos escuros enormes, um decote maior ainda. Mesmo sendo muito nova para Robert, ela ainda era mais velha que Harry e o jeito que me olhava como se eu fosse uma garotinha iludida me fez querer me esconder.
— Acho que a egoísta aqui me parece você — Harry rebateu. — Julgando a nossa relação por uma história idiota que eu não tenho como mudar.
As acusações trocadas pairaram o silêncio entre nós. Mudos, enquanto a música ressoava mais alta do que nunca, um olhando fixamente o outro em anestesia.
Pensei no que Erica jogou na minha cara, a lua-de-mel que passaram juntos, como ele sempre arrumava alguém para se distrair, mas acabava voltando. Naquele dia, teve coragem de me perguntar como era o sexo e quando minha cara entregou que não tínhamos chegado a ele ainda, ela sorriu de satisfação e comentou que, se era assim, não sabia nem porque estava se preocupando.
Juntei forças na voz para dizer que se ela tivesse tanta certeza assim, não estaria se incomodando comigo. Mas, naquela noite, evitei tanto ficar próxima de Harry que ele não descansou até descobrir o motivo — e como odiava fazer papel de mocinha indefesa, disse apenas que me senti ofendida com o episódio infame.
Não tive coragem para dizer que estava morrendo de medo. Que estava aterrorizada com a possibilidade de entrar para esse mundo louco dele e no fim tudo que ela insinuou ser verdade.
— Ela disse que eu era uma boneca para você — continuei, finalmente. — Que eu ficava te esperando protegida dentro da caixa de vidro que você construiu ao meu redor e você continuava livre.
— E é isso que nós parecemos para você? — arqueou as sobrancelhas, agora demonstrando mágoa e certa decepção. — As pessoas sempre fazem as suposições mais duras nesse meio, . É quase comum. Mas você precisa entender o que sente apesar de tudo. No final, é o que importa.
Era aquilo. Harry no fundo queria saber como eu, a garota machucada e fechada em si que ele conheceu, realmente me sentia em relação a nós dois.
Logo seria uma certeza dele também, que então poderia fazer o que bem entendesse com aquilo. Então não, não falaria nada, não com tantas incertezas sobre ele ainda ao meu redor.
Eu o olhava firmemente, o rosto repleto de um senso de maturidade impassível, como se não estivesse falando com um pseudoadulto que gostava de passar o tempo se arriscando/fingindo ser o Homem-Aranha.
— Não espere que eu ache normal ser tratada pelos outros como um brinquedo seu, Harry. Porque eu nunca vou achar, nunca vou me acostumar a isso.
Harry finalmente desceu do maldito batente para se aproximar de mim. Tão próximo que eu não conseguia mais ficar irritada, não conseguia odiar alguém que me olhava com tanto cuidado.
— O que eu quis dizer é que preciso que você se acostume a ignorar muito do desconforto. Os holofotes são o mundo em que vivo, felizmente ou não — me encarou com aquele olhos brilhantes cheios de hesitação, agora revelando também tristeza com o que estava prestes a dizer. — E você parece ter repulsa cada dia um pouco mais. Me pergunto se um dia isso vai pesar mais do que eu em uma balança.
— Não, não é ass... — tentei consolar sua expressão enquanto acariciava a parte de trás de seu pescoço. Ele logo continuou.
— Lembra quando eu bati na sua porta, depois de um show, para dormir com você e fugir da loucura que é a minha vida? É isso que eu tenho feito desde que te conheci, . Achei que a esse ponto você já tivesse entendido — Harry roçou o nariz no meu rosto devagar, segurando meu queixo com uma das mãos para que eu entendesse bem o que queria dizer. — Não sou eu quem te mantém sob domínio, amor. Foi você que me lembrou como é ser eu mesmo de novo.
— Styles — era a única coisa na minha cabeça naquele momento. Ele me olhou muito feio novamente e corrigi, sussurrando um “Harry” logo em seguida.
— Só preciso que você me prometa que quer tentar.
Balancei a cabeça.
— Acho que posso fazer isso.
— Então não lhe peço mais nada — Harry me lançou um meio sorriso aliviado, como se eu tivesse retirado uma preocupação enorme de suas costas.
Depois o beijei com vontade. Ele pareceu surpreso, mas logo retribuiu. Senti suas mãos apertarem minha cintura em resposta, brincando com o tecido delicado do vestido, subindo e descendo junto com suas mãos. Era como se os dois estivessem comemorando as promessas silenciosas que eram feitas.
— Somos muito melhores assim, não acha? — brincou, e respondi com um tapa em seu ombro. Harry riu, ainda me apertando nos braços. — Se você não fosse apenas tão teimosa...
— Ou você tão arrogante...
— Isso mesmo — respirou profundamente e se afastou um pouco para me observar, o olhar esperançoso que eu não cansava de admirar em silêncio. — Nós seríamos perfeitos.
Exagerou no tom de voz, para deixar clara a brincadeira.
— Eca.
— Exatamente.
Fomos interrompidos pelo som dos convidados cantando - gritando - parabéns a Niall. Podia sentir a respiração ofegante de Harry assim como tentava controlar as batidas do meu coração. O abracei pelas costas quando Harry se virou para acompanhar a festa do amigo, que já se encontrava cambaleando perto do bolo enorme.
De repente, algo me percorreu por dentro. Apertei mais meus braços ao seu redor e podia jurar que meus dedos estavam tremendo.
Tentei deixar de lado a sensação ruim: eu estava segura e ele estava ali comigo, e estava disposta a manter as coisas assim por um bom tempo.


Capítulo 2 - Too bad

Parte 1


Londres, agosto de 2012


— Não consigo decidir entre os vestidos — suspirei, pelo telefone. Talvez essa seja a desculpa mais patética que alguém já inventou para não ir a uma premiação de música superbadalada. Afinal, quem recusaria ir a um Brit Awards?
— Escolha o mais fácil de tirar — sua voz na ligação soava inocente, inocente demais com aquele duplo sentido todo, e era como se eu pudesse ver o sorriso brincalhão do outro lado da linha.
— Harry Styles, você vá parando com as gracinhas antes que eu desista de vez — adverti, tentando parecer séria.
— Harry Styles! — fingiu surpresa. — Achei que já tínhamos avançado essa fase das formalidades!
— Que tal você me ajudar com as opções?
— Claro que não! Quero ser surpreendido. — Escutei o tom travesso na voz de Harry, que não parava de dar risada com o meu nervosismo repentino. Ele sempre dizia que me achava equilibrada demais para seu gosto, e agora parecia se divertir descobrindo que meu ponto fraco não poderia ser mais simples aos seus olhos: a tensão do show business.
Me atentei à tela do computador. Os vestidos não deixavam nada a desejar e eu sentia que poderia usar todos no mesmo dia se tivesse a chance. Era minha insegurança com a ocasião que traduzia toda essa minha má vontade. Não sei se ele fazia ideia disso.
De qualquer forma, o máximo que consegui argumentar com ele foi que eu iria sim, no final da premiação — com sorte, ainda assistiria alguma das indicações da banda —, e ficaria até o fim da afterparty. Bom, pelo menos foi o que eu lhe disse. No fundo, não tinha a menor intenção de ficar de molho em uma festinha exclusiva.
Harry, teimoso como sempre era, reclamou que o ponto de estar me convidando era requerer minha presença durante toda a premiação, mas eu rebati dizendo que não estava acostumada e podia me sentir enjoada ou claustrofóbica, já que vinha sentindo tontura com frequência. Ele logo entendeu.
— Você tem certeza de que não podemos nos ver depois do prêmio? — quase supliquei. — Eu posso cozinhar para a gente!
— Meu Deus, você só pode estar muito desesperada mesmo — ele riu, sabendo que eu era quase um desastre quando me arriscava na cozinha. — Não vai ser nada demais. Eu só queria que você estivesse lá mesmo que por pouco tempo, é um dia importante pra mim.
Graças aos céus não era uma ligação por vídeo e eu não precisava fingir que não estava fazendo cara de tonta com sua resposta.
— Bem, — comecei, ajeitando a postura, como se ele pudesse me ver — você não me parece completamente errado, afinal. Acho que posso escolher algo entre tantos vestidos. — Arrastei o mouse entre os modelos que ele havia pedido para sua assistente me enviar. Todos longos, e lindos, e caros.
Ele avisou que mandaria alguém do tipo ao meu quarto de hotel no dia da premiação, assim, em suas palavras, “eu teria ajuda e ele teria certeza de que eu iria mesmo”. Depois de remexer repetidas vezes a ideia de já ir recusando, resolvi não me opor; era ele que fazia questão e já deixar tudo resolvido talvez lhe deixasse realmente tranquilo.
— Que ótimo. — Podia sentir seu sorriso frouxo ao ver que me rendi. — Temos que registrar todos esses momentos importantes para mostrar aos nossos cinco filhos.
— Cinco? — exclamei, soltando uma risada incrédula. — Você é ridículo, Styles. Já reparou em como todo mundo na sua família é enorme? Imagina a dor de parir meia dúzia de vocês!
— Então você cogitou...
— Vá à merda, Harry Styles. — Desliguei e havia finalmente escolhido entre ir sexy ou ir confortável.
Confortável eu ficava sexy.

— Marcus, os brincos são todos lindos. — Levantei o olhar da cadeira onde acabava de retocar minha sombra. — E obrigada por tudo, meninas. Ainda pareço comigo mesma.
Marcus, Andrea e Evelyn se despediram com a mesma simpatia de quando chegaram. Três pessoas para me arrumar? Precisava perguntar a Harry se ele tinha entendido que ia levar minha família junto. Por outro lado, a tarde tinha sido divertida com tanta gente no meu quarto falando sobre penteados e tons de batom. Talvez fosse isso mesmo que ele tinha em mente: me distrair um pouco do nervosismo. Preciso confessar que funcionou.
Faltava mais de uma hora para a meia-noite e me permiti uma boa última olhada antes de ir. O vestido em um cinza quase prateado era uma obra de arte. O tecido por cima era leve e transparente, o que me fazia parecer flutuar a cada brisa que entrava pela janela do quarto. As mangas transparentes também eram longas e o corte sofisticado em cima dava um destaque sutil aos meus seios. Já a maquiagem, era leve como eu esperava, a não ser pelo batom vermelho que — eu não podia negar — ajudava a destacar meu rosto. Ao descer os olhos, me senti ainda mais bonita ao ver a fenda que aparecia de forma muito natural à medida que eu ia me movimentando.
Passei a mão pelo meu cabelo preso em um coque, os fios organizados de modo despreocupado, com a franja livre ajudando a moldar o rosto.
Me sentia linda. Não era exatamente um visual glamouroso de tapete vermelho, mas era elegante e arrumado e eu até aquele momento conseguia respirar dentro da roupa.
Meia hora depois, já havia chegado ao local e me identificado como convidada, sendo então escoltada pela entrada lateral até a parte de dentro do evento. Até lá, nenhum flash disparado na minha cara — o que era um grande alívio.
Cheguei ao hall do salão, mas não conseguia enxergar ninguém com as luzes apagadas por causa da performance. Gavin DeGraw foi introduzido no palco central e a apresentação acabou me distraindo por alguns minutos. Quando chegou ao fim, foi a vez da One Direction subir ao palco para receber um dos principais prêmios da noite e pelo visto eu havia perdido os meninos performando.
— Uau. — Liam observava a estatueta do BRITs que levaria para casa. — Apenas uau. Londres, obrigado por mais um desse, foi uma noite e tanto! O apoio de vocês significa muito e é sempre bom estar em casa.
Harry estava no palco, agradecendo junto aos outros em um blazer preto com detalhes brancos no bolso e na manga, o sapato também na mesma cor escura — tênis em eventos não era mais a coisa dele —, e o sorriso que ele e todos ali sabiam que ia conquistar o público pela televisão.
Ao final do discurso em agradecimento, saíram para os bastidores e eu fiquei perdida novamente. A ideia de ter chegado junto a eles não me parecia tão ruim agora. Resolvi esperar no restaurante, já que àquela altura não acharia mais a mesa em que ficaria mesmo. Em algum momento, pensei, algum deles precisaria pedir algo para beber.
— Grimshaw te mandou no lugar dele? Porque, gata, foi uma troca e tanto... Você fica mais bonita nessa roupa do que ele jamais conseguiria. — Virei o rosto e me deparei com a mão de A$AP Rocky depositada em meu ombro.
O que normalmente me faria surtar de empolgação, mas diante das declarações que rolavam sobre ele na mídia, só me deixou desconcertada. Ele era tipicamente o artista bem-sucedido que se valia das piores polêmicas mesmo sem precisar.
— Não viria no lugar de outra pessoa — debochei. — Deixa eu adivinhar: ele também avisa a você a cor que vai usar quando quer ser facilmente encontrado em algum evento cheio de gente?
Ele riu, e enquanto parava para tirar foto com uma das garçonetes, observei o quanto ele tinha se tornado uma estrela. Não, não apenas pelos fãs por todo lugar: Rocky se vestia, agia no palco e até andava como um astro. Continuei:
— Na verdade, não vejo Nick há um tempo. A última vez que nos falamos foi há algumas semanas, deve ser o trabalho sugando ele.
— Sei como é — respondeu. — Prometi a ele uma carona até a minha afterparty e agora estou perdido.
Finalmente, sorri, lhe dando algum crédito pelo sufoco em comum.
— Eu também.
O casal de apresentadores no palco fez os convidados rirem e eu virei a cabeça em direção ao holofote rapidamente. Não havia percebido que A$AP se aproximou para ver também e quando virei estava tão próxima que quase podia assumir que estava perto demais. Ele riu com o episódio, antes mesmo de eu me desculpar.
Só então notei Harry me observando de longe enquanto conversava com algumas pessoas em uma mesa próxima. Meu coração acelerava só ao sentir seu olhar tão precisamente em mim.
Notei seu ar de seriedade, o cabelo arrumado, a forma como estava elegante mesmo sem ter posto uma gravata, como todos na mesa prestavam máxima atenção a cada palavra. Mesmo de longe, podia perceber que ele exalava dinheiro e, porque não, poder. Ele parecia Harry Styles, da One Direction, das revistas de fofoca, dos programas de TV. Me perguntei se tinha espaço para mim nessa vida de popstar.
— Acho que vou dar mais uma olhada antes de ir. Foi bom te ver — garantiu A$AP. — Você sabe que é sempre mais que convidada, não sabe?
Ele agradeceu beijando minha bochecha sugestivamente, como o bom — e, só para constar, belo — galanteador que era. Seu perfume era sempre o mesmo, tão marcante que talvez levasse o nome dele. Com a fama que atingiu, não seria difícil.
— Foi bom te ver também — me despedi com um sorriso, desconversando a proposta. — É melhor você se apressar mesmo. O anfitrião não deve se atrasar demais.
Antes mesmo de o perder de vista, vi Harry, aparentemente sem humor, me lançar um último olhar e se despedir dos amigos. Ele não sabia disfarçar quando se incomodava com algo — ou simplesmente não sentia necessidade de fazê-lo.
Não tive muito tempo para sequer formular um pensamento direito, já que o que veio em seguida foi uma mensagem de Harry dizendo que tinha ido buscar o carro e que logo estaria me esperando pela mesma entrada lateral. Me perguntei se sua irritação havia sido apenas uma impressão da minha mente já agitada por estar ali.

Brincava com meus dedos até que avistei seu carro. Sentada no banco ao lado de Harry, notei que apesar de parecer mais relaxado do que antes, ele apenas me olhou de um jeito significativo, como se dissesse “Olá”, e desviou a atenção de volta ao volante quando viu que eu já estava acomodada. Até os músculos do rosto dele devem ter estranhado a expressão séria que estavam tendo que adotar.
Fiquei feliz ao ver que minhas companhias no banco de trás eram Lou, a hairstylist dos rapazes, com a filha Lux.
— Ah, mas hoje você conseguiu ficar mais linda ainda! — Lou apertou meu braço, como se quisesse mudar de assunto e ao mesmo tempo dizer que o mau humor do amigo não era nada demais.
! Você parece uma princesa! Não é, mamãe? — Lux falou, em meio a gritinhos, e eu já ia agradecer quando Harry virou para mim, agora quase sorridente com o comentário da menina, e percorreu todo o meu corpo com os olhos até parar nos meus. Senti um calafrio me percorrendo junto às suas orbes verdes, mas ainda assim não falou nada.
— Se você acha, então estou com sorte. — Cutuquei a criança, que riu baixinho, satisfeita.
— Então, A$AP Rocky? — Lou mudou de assunto. — Não sabia que se conheciam. E eu pensando em como faria para conseguir uma foto com ele!
— Era só ter chegado e pedido. — Harry fingia ser casual, mas algo em sua expressão denunciava que não era seu assunto favorito. Resolvi ignorar.
— Ele só é muito amigo do Nick, então nos esbarramos de vez em quando.
— Não era o que me parecia para ele — ouvi Styles provocar, tão baixo que eu mesma quase não ouvi.
— E você está com ciúmes — acusei, sorridente. Lou riu junto e ele suspirou pesado como se estivéssemos ficando loucas. Minutos de conversa fora depois, encostei minha cabeça no banco para observar o quanto a cidade parecia sempre linda e acordada, me lembrando subitamente do meu país de origem.

...


Arthur, tio de Harry, estava morto. Eu estava dirigindo até Cheshire o mais rapidamente seguro que conseguia.
Acho que não lembro claramente os acontecimentos das últimas 24 horas, só de que recebi uma ligação atordoada de Harry dizendo que queria me ver e me contando que o funeral seria hoje.
Me surpreendi ao me dar conta de que ele parecia fazer questão de me ter por perto em um momento como esse.
Ainda mais depois de termos passado uma semana inteira sem conversar direito. Talvez tenha sido o quase beijo na empolgação de uma conquista importante para o álbum da banda, o fato de Louis ter passado muito perto de flagrar tudo se tivesse chegado 10 segundos antes ou de termos nos afastado a tempo em um surto de sanidade — acho que é um bom modo de resumir o que aconteceu, mas pareceu bem mais complexo para nós dois. Se não fosse, não haveria esse abismo silencioso entre a gente nos últimos dias. Até agora.
Não posso evitar pensar em como tudo de repente deixou de ser engraçado. As investidas convertidas em brincadeiras, a forma como ele me beijava o canto dos lábios antes dos shows para dar sorte, a risada alta quando eu fingia odiá-lo com tudo o que eu tinha. Nada mais me parece tão leve e espero que isso não seja algo tão ruim quanto parece.
Minhas mãos tremiam no volante, por estar indo pela primeira vez ao lugar em que ele foi criado, sem saber o que esperar e em um funeral.
Zayn me contou que Arthur era um dos tios mais próximos de Harry, que sempre levava os meninos aonde precisavam no início da carreira. Isso era tudo que eu sabia quando estacionei meu carro no endereço que me foi enviado.
Havia me certificado de chegar pouco após o anoitecer e evitar a cerimônia do funeral em si por achar que seria adequado que fosse algo reservado aos mais próximos de Arthur — esperando que Harry não se importasse. Quando entrei, presumi que a sala cheia de gente fosse boa parte da família, ciclo de amizades, vizinhança. Logo me ofereceram chá e uns bolinhos, que quase aceitei, mas resolvi procurar por Harry antes. Uma mulher de preto, madura e com o olhar pesaroso veio me cumprimentar e insistir que eu me servisse. Era a viúva e seu nome era Josie.
— Meus sentimentos. E é muito gentil da sua parte. — Apontei para os bolinhos e a abracei rapidamente, ainda me sentindo uma intrusa em um momento tão íntimo, mas mais relaxada em saber que não incomodava. Dava para perceber que, em um dia normal, ela era alguém feliz, como se a cara de choro não fosse algo a que estivesse habituada.
Expliquei que era amiga de Harry e ele insistiu para que viesse.
— Ah, sim, Harry. — A mulher me olhou, tentando sorrir. Os fios castanhos caíam delicados em seus ombros, contrastando com o tecido escuro do vestido. — Era quase um dos filhos para Arthur. Andavam afastados, mas laços assim são sempre laços.
— Com certeza são — concordei.
— Parece que vocês já se apresentaram, afinal. — Harry se aproximou, quase imperceptível. Seu sorriso era triste, mas se esforçava para parecer animado ao me ver.
— Como você está? — Olhei meio preocupada, apoiando as mãos em seu peito, que ele logo tirou para depositar um beijo e continuar segurando.
— Melhor — garantiu. Josie parecia nos observar com um olhar curioso.
— Vou deixar vocês a sós um pouco. — Ela apertou meu braço e saiu para falar com mais gente.
O clima entre Harry e eu ainda parecia tenso e ele ainda parecia mais exausto do que nunca. Olhei ao redor, procurando traços dele nas pessoas do lugar. Com certeza sua mãe e irmã estavam por ali, e apesar de ter ouvido muito sobre as duas, era uma péssima ocasião para esbarrarmos.
Segurei o lábio inferior entre os dentes, sem saber ao certo o que falar. Seus olhos estavam avermelhados e distantes.
— Vem comigo — sussurrou. Algo em sua voz estava tão diferente, tão atipicamente deslocado ali que eu quis chorar.
Subi as escadas logo atrás dele e o terraço no terceiro andar da casa tinha o chão revestido de várias pedrinhas, com uma mesa redonda e algumas cadeiras ao redor em um azul enferrujado. O resto eram algumas plantas e, no canto, algo estava coberto com uma lona preta. Me parecia um lugar em que adolescentes iam para beber e conversar em paz. Me perguntei se Harry também já foi um deles, mas não mencionei nada.
— Meu lugar favorito na casa inteira. — Ele puxou uma cadeira e sentou logo ao lado.
— Aqui é lindo. — Se virou para mim, o vento violentamente soprando frio em nossos cabelos. Seguimos em silêncio por um tempo, nossos ombros se tocando.
— Eu ensaiava aqui com a minha banda antiga, se chamava White Eskimo. Você consegue imaginar como os vizinhos todos adoravam.
— Ah, sim. — Nós dois olhávamos para as ruas mais à frente. — Por isso a rua é tão vazia até hoje.
Ele riu como podia. Encostei a cabeça em seu ombro e o ouvi continuar:
— Era meu tio que convencia a todos de que não precisavam chamar a polícia. Quando o primeiro disco da banda estourasse, garantiu que estariam nos créditos — contou, com dificuldade, mas seu rosto sugeria um sorriso. — Ninguém nunca deve ter acreditado na conversa furada dele. Mas ele não brincava quando falava do disco de sucesso, meu tio acreditava naquilo.
— E olhe só você — sorri com certa admiração e Harry concordou com a cabeça. — Eu nunca ouvi falar de nenhum vizinho seu nos créditos do Up All Night.
— A promessa não incluía o primeiro disco da One Direction — justificou, meio brincalhão, como se fosse óbvio. Por fim, soltou um suspiro pesado. — Acho que nunca sequer cheguei perto de estar preparado para perdê-lo. Há anos não subo aqui, há meses não estávamos nos melhores termos e agora ele se foi para sempre... Não me parece nem real.
Dessa vez, ele afastou o rosto para me olhar e entendi na hora. Harry estava assustado. Com a perda do tio, com a incerteza de como ficaria sua família daqui para frente. Quis dizer que eu nunca iria embora, garantir que comigo ele não precisava se preocupar. Não o faria se sentir melhor?
Mas não podia. Não era assim que as coisas funcionavam. Nada nunca é igual para sempre e o máximo que podíamos fazer era torcer para que o tempo não nos afastasse em meio a tudo.

I have loved you for the last time
Is it a video? Is it a video?
I have touched you for the last time
Is it a video? Is it a video?


Sorri com melancolia.
— Com o tempo, as lembranças ruins perdem o peso. — De início, tive receio, mas acabei entrelaçando meu braço no seu, a sua manga aquecendo minha pele gelada. — Nós não podemos controlar tudo ao nosso redor, mas saber que passamos muitos dos nossos momentos favoritos com essas pessoas é o melhor presente que elas podem ter deixado.
— Pessoas como ele não deveriam morrer.
— Eu sinto muito, Harry. Queria poder fazer mais.
— Você já faz tendo vindo. Eu precisava tanto de você aqui... — Seu braço livre se moveu, sua mão segurando meus cabelos na parte de trás da nuca e me beijando demoradamente no rosto. Depois, puxou um pouco os fios que segurava para trás, com a intenção de deixar meu pescoço mais exposto ao beijo que depositava.

For the love, for laughter, I flew up to your arms
Is it a video? Is it a video?
For the love, for laughter, I flew up to your arms
Is it a video? Is it a video?


Assenti calada, meio sob anestesia. Como eu podia sentir tanto por alguém? Quando nos afastamos um pouco mais, notei seus olhos pesados me encarando.
— Você me parece cansado.
— Está tentando me levar para casa pra você? — brincou, com uma expressão séria, como se não acreditasse no meu oportunismo.
— Eu não te dou uma folga, não é? — retruquei, sorrindo. — Quando eu voltar para Londres, acho que você deveria aproveitar para descansar.
Ele relaxou mais na cadeira.
— Tem certeza que não quer passar a noite por aqui? Conhecer as outras mulheres da minha vida... — Rolei os olhos com a piadinha. — Minha mãe já botou os olhos em você quando subimos as escadas.
O quê? Eu não reparei. Será que ela se importou comigo aqui? Quer dizer, não sou da famil...
— Por favor — Harry me interrompeu, debochando. — Você está em um daqueles momentos em que não consegue ser racional.
— Ok, vamos fingir que você não disse isso. Assim ninguém discute, ninguém estraga o momento.
— Então você acha que estamos tendo um momento — interrompeu meu raciocínio, espertinho como nas outras vezes. Não admitiria em voz alta, mas estava aliviada por, de certa forma, ainda sermos nós mesmos na companhia um do outro.
Olhei em volta. A brisa fria ainda ventava em nossos rostos de um jeito reconfortante, como se garantisse: ei, tudo vai ficar bem. O terraço era familiar até para alguém que nunca foi lá, como eu. E estávamos os dois ali, após um dia péssimo, na maior parte do tempo apenas fazendo companhia um ao outro em silêncio, refletindo sobre a loucura que é a vida. Definitivamente, estávamos tendo um momento.

I have loved you for the last time
Visions of Gideon, visions of Gideon
And I have kissed you for the last time
Visions of Gideon, visions of Gideon


— Sim — afirmei. — Mas detesto ter que interrompê-lo.
Me desculpei com os olhos enquanto levantava. Ele me acompanhou com lentidão, mas não se opôs.
— Você é mesmo muito bonita para estar em um funeral.
— Não seja idiota.
Não seja idiota, Harry. Eu provavelmente estaria em muitos outros lugares como esse por você.
— Não combinamos de parar de brigar por um tempo?
— Verdade. — O observei por mais alguns segundos, meus olhos agitados em aflição. — Por favor, prometa que vai me ligar se precisar de alguma coisa.
Vi um sorriso fraco surgir em sua expressão, tão concentrada em mim. A noite já nos atingia de todos os lados.
Sentia alívio. Por estarmos a salvo, nos encarando, vivos.
— Talvez pedisse só por você e uma garrafa de conhaque pra me ajudar a passar por essa noite de merda — disse, e sabia que dessa vez era verdade. — Obrigado por hoje.
Concordei com a cabeça. Me perguntei se era só isso que eu era para ele, uma distração diante do que era ruim. Enfim o envolvi em meus braços em despedida, o que fez com que eu parasse de pensar no que representávamos um para o outro e me concentrasse no que éramos naquele instante.
Na metade do percurso, me virei e o vi ali com os braços cruzados. Parecia mais alto ainda em meio ao horizonte logo atrás. Ele olhava na minha direção, mas não sei dizer se exatamente para mim. Parecia bem disposto a passar o resto da noite sozinho ali, como se assim pudesse fazer todo o tempo perdido retornar.
Comecei a dar passos largos até onde ele estava. Harry parecia surpreso. E, meu Deus, naquele momento ele estava lindo. Mesmo com o sofrimento claramente pesando em seus ombros, seus olhos nunca estiveram tão verdes, seu cabelo nunca esteve tão despretensiosamente desarrumado, o jeito que me olhava nunca pareceu tão honesto.
Parei bruscamente a um palmo de distância, hesitando. Quando vi a dúvida em sua testa franzida e sua boca prestes a perguntar o que diabos eu estava fazendo, o beijei.
Ele parecia em choque no início, mas depois retribuiu. A forma como nos beijávamos era lenta, suas mãos passeando pela minha cintura, nossas bocas se movendo devagar. Minhas mãos estavam segurando forte a gola azul marinho do seu casaco e depois foram parar em sua nuca.
Não parecia o nosso primeiro beijo, era só o que eu conseguia pensar. Senti como se nós dois quiséssemos isso há tanto tempo que cada toque já era familiar.
Quando nos afastamos, seus olhos pareciam curiosos, com certeza mais despertos do que quando o encontrei. Não podia deixar de reparar no quanto aquele momento era péssimo para um beijo romântico no terraço, mas também senti como se com aquilo tivesse mostrado o quanto me importava com ele, o quanto queria que tudo passasse.
— Você... Mas o que... — Harry começou, sem saber exatamente como.
Lhe lancei um sorriso triste e saí me esgueirando pela escada. Tentava não tropeçar e parecer uma tonta quando eu sabia que ele ainda me olhava, sem entender o que houve direito.

Parte 2


Só voltei à realidade quando vi que no andar de baixo uma família inteira ainda estava em luto, conversando em voz baixa e abraçando uns aos outros em consolo.
Josie estava repondo o chá na mesa ao pé da escada e fiquei aliviada por saber que havia um rosto vagamente familiar para prestar condolências e me despedir na família de Harry.
— Josie — ela virou rapidamente, e parecia perdida na própria casa —, estou indo.
— Ah, aí está você. Vamos, tome uma xícara de chá comigo. — Fungou, parecendo disposta a interagir um pouco.
Segurei a bebida, incapaz de recusar. Me ofereceu leite no chá, como toda boa inglesa, mas não aceitei.
— No Brasil, — comecei a explicar, quando vi Harry descendo as escadas rapidamente, ainda com o semblante de desentendimento que estava instantes atrás — sempre bebemos apenas o chá, então ainda não consigo me render ao costume.
— Você é brasileira. Ah, meu Deus! — ela falou, um pouco mais alto do que antes. Parecia à vontade e de certa forma me senti menos travada também. — Nós devemos parecer tão sem graça para você!
— Ela disse que somos divertidos e o sotaque ajuda. — Harry parou ao meu lado de braços cruzados, depois de beijar a bochecha da tia. Sorri em resposta.
— Mas é muita gentileza da sua parte. Só não entendo por que quando lhe vi, sentia que não era a primeira vez — sorriu, o rosto se suavizando um pouco. Dava para ver que conversar comigo, uma desconhecida que nada se ajustava no que foi seu dia, a distraía dele por alguns minutos.
Expliquei, com estranhamento, que, ao contrário do que ela havia previsto, não fiz parte de nenhum editorial. Eu não me sentia feia, mas também não tinha nada demais para ganhar a vida com a minha aparência.
— Eu estudava direito ambientalista quando recebi uma bolsa da TEDx para morar em Illinois e fazer parte de uma equipe de pesquisa. — Josie parecia surpresa e acho que lembrou de onde tinha me visto. — Ainda me dedico a isso, agora em Londres.
— Ela dá palestras importantes, tia Josie — Harry disse, como uma criança que não entendia bem do assunto, mas ainda assim se sentia orgulhosa.
— Ah, então você deve ser muito boa mesmo — elogiou. — Harry, ela é muito inteligente para você!
Ele aproveitou o meu constrangimento para abrir o sorriso presunçoso de sempre.
— Eu sei. É que sou tão teimoso.
Tive que me controlar para não o mandar à merda, como em todas as outras vezes. Então alguém chamou por Josie no canto da sala e aproveitei para me despedir.
— Obrigada por me receber. Sinto muito por... — pensei em mencionar seu marido, mas com certeza ele não havia deixado seus pensamentos um instante sequer naquele dia. — Tudo.
— Ah, minha querida, obrigada. Por favor, volte aqui em outro dia, hoje está tudo tão conturbado que não conversamos direito.
Nos abraçamos e ela saiu. Mudei o olhar para Harry, me surpreendendo ao perceber que ele já estava me observando antes. Ele já ia dizer alguma coisa, quando seu celular começou a tocar. Soltou um suspiro e tirou o aparelho do bolso, então me olhou como se estivesse se desculpando.
— É o Caleb, lembra dele? O nosso empresário. Deve ser para perguntar como estou.
— Tudo bem. Vou voltar antes que fique tarde. — Notei que ele queria dizer algo, mas meu argumento era bom. Precisava mesmo voltar cedo e em segurança.
— Me avise quando chegar — disse, segurando meu pulso e massageando a região com os dedos. Relaxei com o toque tão familiar.
Senti vontade de beijá-lo de novo, mas era a coisa mais errada de todas. Ali, em meio a todos, não estávamos no torpor do terraço. As coisas eram reais aqui embaixo, com pessoas reais, em um momento real de tristeza e perda. Então só depositei um beijo demorado em sua bochecha e me afastei.
— Boa noite, Styles.

...


— Meu Deus! Não tem jeito, vou tomar você do Harry — Nick insinuou, enquanto me abraçava, com seu sotaque se sobressaindo em meio à empolgação. Coincidentemente, ele havia decidido passar primeiro naquela afterparty antes de ir à de A$AP.
— Pode ir saindo! Ela já disse que prefere os meus olhos — Louis se meteu.
— E sua namorada, espertinho? Está aproveitando só porque veio sozinho hoje? Vou dedurar você na primeira chance. — Nick deu um empurrão no amigo e Louis retribuiu. Me esforcei muito para parar de rir e finalmente conseguir falar.
— Vocês dois, parem com isso. Não sei se vocês notaram, mas é minha primeira vez na afterparty de um Brit Awards. — Encarei um e em seguida o outro. — É dever de vocês tornar isso divertido.
— Nosso? — Louis me olhou, assustado, de uma forma meio engraçada. — Achei que você fosse passar a noite grudada no seu príncipe britânico. — Se abanou, na sua melhor tentativa de imitar uma garotinha apaixonada.
— É, para variar. Antes você se divertia mais com a gente — Grimshaw concordou, e confesso que eles não estavam errados. Ultimamente, eles nem têm passado pela minha cabeça. Apesar da pontada de culpa, tentei entrar no clima de brincadeira.
— Nem venham com lição de moral. Louis, não o vejo sozinho há tanto tempo que agora que vi parece que lhe está faltando um pedaço — Nick gargalhou alto e a risada dele era a melhor. — E você, lindinho, não gostou de fugir logo depois do show passado com um dos entrevistadores?
Foi a vez de Louis ficar vermelho de tanto rir. Sorri satisfeita comigo mesma.
Depois, foi tudo uma agitação. Vários amigos dos meninos chegando, o som cada vez mais alto, as risadas sempre presentes. Em meio a isso, Harry conversava com um de seus empresários a poucos metros de mim, muito concentrado no que fosse que estavam discutindo.
Me perdi tanto em meus pensamentos enquanto comentava qualquer coisa com a namorada de Liam, que não percebi a mão de Styles em volta do meu braço, pedindo minha atenção.
— Vou pegar alguma coisa para beber. O que você quer? — Nada, só que você fale propriamente comigo. Não era para ter minha companhia que você insistiu tanto que eu viesse?, pensei.
— Estou bem, por enquanto. — Foi tudo o que consegui realmente dizer. — O que há com você?
— Nada. Parece haver algo comigo? — ele simplesmente respondeu, sem demonstrar nenhuma emoção.
— Bem, você insistiu para que eu viesse com você e mal conversamos direito hoje. Então é o que penso — respondi, sem a menor vontade de recuar. Ele deu de ombros.
— Você disse que chegaria pelo menos a tempo de assistir a um dos prêmios. Guardei seu lugar a noite inteira. Tenho certeza de que todas aquelas câmeras idiotas só conseguiram me pegar correndo os olhos pelo lugar o tempo todo. — Tentei falar algo, mas não sabia nem o quê. — E então quando te encontro, você está numa boa passando um tempo com o seu amiguinho rapper do momento. Você viu como ele olhava para você?
Senti vontade de perguntar o que diabos ele tinha a ver com isso, já que não éramos um casal.
— Não. — Lhe encarei calmamente, me esforçando muito para que minha voz saísse o mais firme e convincente possível. — Eu havia chegado há pouco tempo e estava procurando por vocês. Quanto a com quem converso, acho que tenho idade suficiente para decidir. Além disso, não entendo como você ignora a sua noite incrível de aplausos e prêmios para ficar se amargurando pelos cantos, sem motivos, por minha causa.

Harry’s P.O.V

Um prêmio é só mais um prêmio quando a sua vida é só isso por anos
, pensei. Mas lhe dizer aquilo soaria arrogante e depreciativo demais até para mim.
Observei em silêncio os olhos curiosos dela tentando me decifrar. Sentia que era a única coisa que ainda me lembrava de ser realmente eu. Era o que me restava de particular. Não era uma banda que eu dividia com outros caras, não era uma música que eu cantava mesmo que não fosse o compositor, eu não era mais uma das celebridades que as garotas amavam rodear só porque aquele era o momento. Eu era o Harry, o cara que ria das mesmas coisas que ela e deu sorte na vida.
E lá estava ela, me surpreendendo mais uma vez. A minha vida era boa e eu nunca reclamei, mas pela primeira vez estava bem na minha frente algo que eu queria muito e que o meu dinheiro não podia comprar.
— Você está linda. — Segurei o meu olhar perdido e pude perceber que ela quis imediatamente dizer algo. — Me surpreendo toda vez.
Nossos corpos estavam colados. Podia sentir o ar eletrizado, podia sentir a expectativa em sua pele, podia sentir tudo o que sempre quis e nunca achei que sentiria. E era por isso que eu precisava sair dali: se ficasse por mais tempo, sabia que não iria por mais nada.
Passei a mão pelos fios soltos de seu penteado e minha boca pressionou lentamente a sua por alguns segundos. Depois me afastei e finalmente saí pela pista de dança até o meu destino inicial.

— ... e posso garantir, Harry, seu futuro conosco é brilhante.
Quase não bebi. Em vez disso, conversava com um dos empresários da banda e outros amigos.
— Tão brilhante quanto a bunda daquela garota de azul? Difícil dizer — completou Tony, um de seus assistentes. Apertou meu ombro levemente e levou todos às risadas. Revirei os olhos, quase rindo do seu jeito imbecil de ser.
— Ela te olha sem parar desde que chegamos. — Um deles apontou com a cabeça. A garota não me pareceu intimidada. Algo em seu olhar sugeria que se intimidar não era com ela.
Já ia desviar o olhar e mudar o foco da conversa. Eu era obviamente um cara solteiro, mas não pegaria nada bem dar tanto mole a outra garota sabendo que poderia estar em qualquer canto dali, vendo tudo. Não estávamos exatamente nos melhores termos.
Mas então a vi, dançando com Nick e Louis na pista.
Quase nunca vi se soltar daquela forma, mas dava para notar que ela era do Brasil apenas pelo jeito que se movia na pista de dança. Sua pele tinha um brilho diferente, a expressão em seu rosto era leve e cativante, sua personalidade brilhava naturalmente como só tinha visto nas garotas de lá. E ela me parecia ainda melhor.
— Essa sua amiga é a mulher mais linda em toda festa. Parece ser muito divertida — Caleb, nosso empresário e até certo ponto amigo, comentou, rapidamente e se voltou para retomar a conversa com alguém.
— Por isso ele a carrega para todo lado — Willian provocou. — Mantém sempre ela em vista para que não fuja.
Não tive tempo de responder, uma grande pena, já que tinha a bronca pronta na minha cabeça em que repreendia Willian por ser tão lunático.
— Harry, filho! Quero lhe apresentar alguém — Caleb me interrompeu antes mesmo que eu falasse, e apertei a mão do homem baixo e já meio careca a quem ele se referia. — Esse é Morgan, será um dos nossos patrocinadores esse ano.
— É um prazer, jovem. Parabéns pela noite da banda.
— Para ser sincero, só alguém muito louco arriscaria seu dinheiro em nós — os homens ao meu redor riram alto e continuamos a conversa leve até que Morgan saiu de perto do barulho para atender ao telefone.
— Você não deve ser tão relaxado, Harry. Podem confundir suas brincadeiras com falta de seriedade — a voz de Caleb estava mais baixa e grave do que a que costumava usar. Era a repreensão que eu já havia há tanto tempo me acostumado.
— Por Deus, estamos em uma festa! Não posso baixar a guarda por alguns minutos? — Tinha certeza de que parecia uma criança mimada falando, mas sentia que a pressão se fechava em minha volta cada vez mais.
— Você é Harry Styles em todo lugar, filho. Principalmente, em uma festa cheia de contatos como essa. Acostume-se a isso.
Seu tom era paterno, mas havia algo de ameaçador em seus conselhos velados. Passei a ver em Caleb muito mais do que um empresário preocupado com o meu bem naquele instante. Talvez aquilo sempre estivesse ali, óbvio para mim, e eu nunca tivesse reparado.
Observei por mais alguns minutos. Ela continuava lá e meus amigos pareciam encantados em sua companhia: era esse o efeito dela nas pessoas. Lux estava animada demais para uma criança àquela hora da noite e dançava junto a ela de mãos dadas.
Louis cochichou algo em seu ouvido. Seja o que for, a fez apertar os olhos de tanto rir e virar outro shot do que eu supunha ser vodka em velocidade recorde. Quando terminou, seus olhos me encontraram. Sorri prontamente, em aprovação ao seu show inesperado.
Baby, keep your hands on me — ela acompanhava a música, cantando diretamente para mim enquanto dançava. — Know that I should leave, but I just can't leave you.
Entrei no seu joguinho, segurando o dedo indicador no ar e o girando em seguida. Demoraram segundos para que entendesse, mas logo começou a girar o corpo, movendo os quadris, me dando um visão de 360° das suas curvas naquele vestido.
Eu fazia o meu melhor para afastar as cenas mais profanas do mundo das outras mil maneiras possíveis em que ela poderia se mexer daquela forma, com aquele mesmo sorriso travesso nos lábios.
Quando a música animada em outra língua soou no espaço, logo percebi que era alguma em português. Nick se juntou a ela, arriscando passos de dança desajeitados e eu não pude deixar de rir da animação dos dois.
Quase uma hora depois, Tony havia sumido com uma das garçonetes, Caleb já deveria estar chegando em casa e o resto remanescente acendia charutos e fazia uso de, bem, várias outras substâncias no balcão. Não era o santo da turma, mas decidi permanecer sóbrio pela noite. Com alguma sorte, conseguiria levar em casa em segurança sem que ela gritasse comigo para que lhe deixasse em paz.
— Whisky, senhor? — o barman ofereceu, com certeza estranhando minha falta de interesse na bebida.
— Não por hoje, mas obrigado.
— Parece que alguém vai precisar de babá hoje. — Willian tirou seu cigarro da boca e comentou, maliciosamente. Segui seu olhar e cheguei até . — É a sua deixa.
Vários olhos além dos meus e dos de William a observavam. Aposto que nenhum por preocupação.
Eu sabia que ela não costumava beber muito e temi que aquilo fosse longe demais.
— Até outro dia, Will — me despedi, e resolvi ir até lá.
, seu pai chegou para te buscar! — Louis brincou, já se apoiando em mim. Não estava a ponto de um coma alcoólico porque aquelas festinhas eram quase parte da nossa rotina em turnê, mas o cara já teve dias melhores.
— Ei! — Ela apoiou as mãos em meu peito e tropeçou tão rapidamente que com certeza teria caído se eu não tivesse a segurado pelos cotovelos. — Achei que você já tinha ido embora!
Deu um beijo estalado na minha bochecha.
— Estava logo ali. — Indiquei o balcão com o queixo. — Acho que você precisa ir parando.
Tirei o copo de bebida da sua mão com cuidado e ela protestou.
— Harry! — se esticava para pegar, mas eu era uns bons centímetros mais alto quando ela estava com os saltos nas mãos. — Me devolve!
De repente, ela parou de tentar. Algo em seu rosto denunciava malícia e aquilo me deixava mais confuso ainda.
— Mas o qu...
Ela envolveu meu pescoço com os braços e me beijou com força. Demorei alguns segundos para retribuir, e quando o fiz não pude deixar de sentir uma pontada de culpa. Ela não estaria bêbada demais para aquilo?
interrompeu meu raciocínio pressionando mais o corpo contra o meu, e sua língua quente e ágil passeava pela minha fazendo minha respiração se agitar.
— Também tenho meus métodos. — Meu queixo quase caiu quando vi o copo de bebida de volta em sua mão.
— Você me enganou — tentei soar sério, mas realmente parecia um garoto de 16 anos impressionado.
You needed me — sua boca estava colada em meu ouvido quando ela cantarolou, junto à música alta. — To feel a little more and give a little less, know you hate to confess, but babe you needed me.*

*Você precisava de mim (...), para sentir um pouco mais e se importar
um pouco menos; sei que você odeia confessar, mas, amor, você precisava de mim.


Ela praticamente cuspia a letra da Rihanna na minha cara. E era tudo verdade.
Seu corpo se movia devagar perto do meu, as mãos passeando pela minha nuca e acariciando meu cabelo logo ali. Niall estava longe, dançando com algumas boas amigas, mas arrumou tempo para me dar uma piscadinha.
— Foi uma noite e tanto — engoli em seco. — E você já bebeu demais.
— Você é tão certinho. — Revirou os olhos, mas sorria ao se afastar, segurando minha mão como se estivesse prestes a rodopiar pela pista.
É, eu venho me esforçando para ser certinho desde que te conheci, mas ultimamente você tem dificultado.
— Vamos? Vou te levar em casa.
— Quero ir para a sua. — Arrepiei quando me beijou devagar mais alguns instantes. Tentei me recompor e pensar no que faria.
Talvez fosse realmente uma ideia melhor não a deixar passar a noite alcoolizada e sozinha em casa — se tratando dela, não me seria estranho acordar e descobrir que ela levantou no meio da noite e resolveu dar um passeio pelas ruas sob o efeito da bebida.
— Tudo bem, mas você precisa prometer que vai se comportar.
A garota ajeitou a postura, como se estivesse ouvindo os termos de um contrato muito importante.
— Mas é claro.

— Será que não podemos dar um pulinho na sua mãe? Acho que ela saberia cuidar de mim agora. — encostou a cabeça no banco do passageiro, me olhando como uma criança.
— Eu também sei cuidar de você.
Expliquei calmamente, desviando a atenção para o volante. Ela levantou as mãos em rendição.
— Sinto falta dela. É como se fosse uma família reserva quando a minha está longe — riu sozinha, e uma parte de mim ficou triste por as coisas serem assim.
— Sua família reserva é a minha titular e estão todos dormindo a uma hora dessas. Não podemos matá-los de susto — brinquei. — Chegamos.
Ela não me parecia muito impossibilitada, mas me certifiquei de que se apoiasse em mim do mesmo jeito. Foi quando pude sentir o perfume característico de seu cabelo, inspirando o cheiro dos fios.
— Nós dois estamos cheirando a álcool, Styles. Não é barato, mas álcool é sempre álcool.
— Você, não — repliquei, sem lhe dar ouvidos. — Pronta?
se esgueirou no carro para pegar sua bolsa e caminhávamos pelo caminho de pedras da entrada, quando ela parou de repente.
— Estamos em qual das suas casas?
Ri com aquela tagarelice toda em plena madrugada.
— A de Londres. É onde acontece o Brit Awards, lembra?
— Ah, sim. — Ela arregalou os olhos. — Bem, estamos sendo observados.
— O quê? — repliquei, paciente, à procura de algum paparazzi. A rua era privativa, mas, se estivesse correta, eles eram a única possibilidade. Todos os vizinhos estavam em suas casas, dormindo com as luzes apagadas.
Não havia ninguém.
, você bebeu mais do que costuma e...
— Minha visão está ótima! Tinha alguém nos assistindo logo ali. — Apontou para a direita, para onde eu estava de costas até pouco tempo atrás. — Olhe só, você mandou plantarem macieiras no seu jardim!
E com aquela frase repleta de empolgação àquela altura da noite, minha preocupação se esvaiu. Eu não lhe diria nada, mas eu sabia que não se sentia segura rodeada por fotógrafos e talvez aquilo estivesse a deixando em estado constante de alerta. Por agora, ela estava bem, e me convenci de que estava apenas enxergando coisas demais.
— Vamos, os vizinhos vão acordar com o nosso barulho.

Nas escadas, a garota à minha frente apressou o passo, mesmo em um belo vestido de festa, como se não tivesse bebido nada. Seu sorriso denunciava que estava se divertindo.
Vi que ela dobrou à esquerda, mas não sabia em qual dos quartos. Me dirigi até o meu no meu melhor chute e percebi, pelo silêncio absoluto, que ela estava escondida.
Mas que ótimo.
Já ia sair do quarto, disposto a procurar pelos outros e acabar logo com aquilo antes que ela tropeçasse, quando vi a luz do banheiro acesa. Me segurei muito para não me desmanchar em risadas.
— Muito bem, escondida exatamente onde eu precisava — abri um sorriso e disse, de repente. Percebi que ela era a assustada da vez.
— Como você me achou? — Revirei os olhos com a pergunta óbvia. Quem acende uma luz onde vai se esconder?
Tinha lido em algum lugar que um banho gelado depois da ingestão de bebida podia dar o efeito de choque térmico no corpo, então a ajudei com o vestido para que ela tomasse um quente bem rápido. Quando ia descer o zíper, sua mão me deteve e a encarei para entender.
— Ainda não.
Senti seus lábios nos meus, cheios de doçura pela primeira vez na noite. Quando nos separamos em busca de ar, confessei:
— Obrigado por ter ido hoje.
— Obrigada você pelo vestido. Parece que estou flutuando!
Ela se afastou, girando. A puxei pelo braço de novo lamentando a mínima distância entre nós.
— Por que você mandou três pessoas para me arrumar?
— Olhando assim para você... Percebi que era o número mínimo — provoquei, e sua risada alta preencheu o lugar.
Quando lembrei de que ela havia bebido e de que eu deveria me esquivar de seus beijos, já estava me empurrando em direção à cama e sentando no meu colo. Desde que começamos a efetivamente ser mais do que amigos, ela nunca havia me tocado daquela forma. Aquilo só poderia ser mais um efeito do álcool.
Meus olhos estavam fechados enquanto sua boca se ocupava com toda a pele que podia alcançar. E ela não imaginava o quanto eu havia sonhado com seu peito arfando sobre o meu, com o jeito que ela sorria quando parecia tão entregue a mim.
Um tremor me percorreu no momento em que gemeu na minha boca, quando apertei mais seu corpo contra o meu, pressionando sua cintura. Tudo em mim gritava que ela era minha, que aquilo era certo.
Mas ela não era. Não ainda, não naquele estado.

Climb on down
Off the chariot of gold inside my head, why don't ya?
It's been too long
I'd even hold your hand
On the way down even though you know you touch like Midas
Hallelujah


Reuni toda a minha sanidade restante e afastei meu rosto do seu. Era o máximo que eu podia fazer, por hora, na esperança de que isso me trouxesse alguma clareza. Sua boca tomou a minha de novo, tão rápido que mal pude agir.
— Preciso de você — sussurrou, quase indecifrável por causa da proximidade.
— Eu... — ofeguei, ainda tão concentrado nela. — Nós não podemos...
ficou de pé e me entreguei ao soltar um grunhido em lamento por ela ter se afastado. A verdade é que eu a queria desesperadamente. Senti suas mãos puxarem o colarinho da minha camisa para que eu levantasse e o fiz de um jeito quase descarado.
Ela se encostou na parede e fui junto, prensando seu corpo no local. Sua perna se entrelaçava em mim, suas mãos seguravam meu cabelo, as minhas passeavam por onde eu pudesse tocar.

Now I get in trouble over your body
Cause I can't have the only one I need
Tell my friend's they shouldn't let me be, yeah


— Harry. — Meu nome nunca soou tão doce, tão rendido, tão excitado. Não era nenhuma garotinha, afinal. A mulher diante de mim sabia o que estava fazendo.
, a gente não pode... — arfei, sentindo suas mãos hábeis percorrendo meu corpo por baixo da blusa. — Não assim.
Eu sabia que tinha que me afastar em algum momento, mas tentava adiar o quanto podia. Quando seu pescoço pendeu para o lado, irresistível, não pude deixar de desejar com todas as minhas forças levar minha boca até ali.
— Você sabe, Styles... — ela sorriu melancólica, aqueles olhos lindos brilhando a me observar. — Nunca estaríamos assim em um dia comum. Não te deixaria chegar tão perto.
Entendi aquelas suas palavras na hora.
nunca se abriu o suficiente comigo e ficava cada vez mais difícil entender o porquê, me aproximar daqueles mistérios, ganhar sua confiança a esse ponto. Não te deixaria chegar tão perto. Aquilo não significou fisicamente de forma alguma: era tudo o que ela já passou, que eu nunca poderia imaginar ouvir sobre.
Um pedaço do meu coração fora partido ali, naquele quarto, bem na frente dela. Não por mim, não só por saber que ela talvez nunca me deixaria entrar de verdade em sua vida. Por ter certeza do que eu já imaginava: seu passado escondia coisas sombrias, que aquela nunca mereceu e que a mudaram para sempre.

Oh God, I'm falling in my dreams again
Been masochistic to my hopeless head
Say that I could
Push you away if you pull back again
But I want it so bad
Yeah, too bad, yeah, too bad


Ainda tão próximos um do outro, deixei todo o desejo que meu corpo sentia de lado e beijei o topo de sua cabeça, finalmente pronto para me desvencilhar.
— É uma pena — respondi. — Acho que só me resta morrer tentando.


Continua...



Nota da autora: Não deixe de acompanhar a playlist da história no Spotify!
Ela será atualizada conforme a publicação dos capítulos, com músicas citadas neles e outras que descrevem bem o casal principal (vocês!).



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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