Ascensão

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Última atualização: 03/08/2020

Capítulo I - A Chegada

O ruído do riacho diminuía gradativamente, a medida em que eu me infiltrava cada vez mais pelo bosque. Quanto mais eu avançava pelas folhagens, estranhamente mais silencioso ficava. Meus olhos esquadrinhavam todo o caminho e, por estarem alertas, foi fácil identificar que o motivo do silêncio é que não havia muita vida por perto, como normalmente há na natureza.
Isso já era um mal sinal, para qualquer ser humano capacitado do mínimo de raciocínio de sobrevivência, mas eu não podia recuar. Não havia vindo de tão longe para desistir. Aliás, desistir com certeza não era uma opção. Que outra escolha eu tinha, afinal? Regressar ao vilarejo de minha terra natal e ser banida de lá? Não precisava ter ficado para saber que este era o meu destino.
Eu simplesmente não me encaixava. Sempre fui muito diferente das pessoas com as quais convivia e estava cada vez mais difícil esconder. Simplesmente era muito para as pessoas assimilarem que uma mulher podia ter cérebro, podia questionar coisas. Sempre tive muitas perguntas, em busca de respostas que ninguém podia me dar – e concluí isso da pior forma possível. Minha tia fazia o que podia, mas estava claro que muito em breve a situação facilmente poderia escapar de seu controle. Algum passo em falso que eu daria, e a vila toda se voltaria contra nós. Admito ter muitos defeitos, mas ser displicente não é um deles. Então, eu comecei a reunir todas as informações que eu tinha. Alguns aldeões contavam histórias para as crianças de um lugar que era amaldiçoado, criaturas horripilantes e que devoravam almas, mas que também havia uma lenda sobre uma criatura mágica e muito sábia. A lenda dizia que seus feitiços e conhecimento vinham dos muitos livros que tinha em seu castelo, onde o acesso era permanentemente proibido. Em troca de alguns favores, consegui um livro da curandeira que falava sobre essa mesma criatura, além das montanhas.
Assim, com um lugar para se começar minha busca, eu parti.
Desde então venho caminhando há alguns dias, um mês talvez. Passei por alguns vilarejos pelo caminho, mas não me atrevi a atravessá-los e muito menos parar para conversar com alguém, depois do primeiro. Não queria correr o risco de perceberem que estava sozinha e ser seguida novamente – a primeira vez não acabou bem. Embora eu tenha conseguido um pouco mais de informações neste vilarejo sobre as lendas, não valia a pena ter problemas com estranhos e de problemas eu já tinha o suficiente. Estava ciente que tudo o que tinha eram apenas rumores, mas o que mais eu podia fazer? O único lugar que sabia que tinham livros, além deste da lenda, era a capital – eram caros e seu acesso era restrito quase que totalmente aos monges e aos nobres, porém. Não havia outra maneira.
A viagem, no entanto, estava sendo no mínimo interessante.
Nunca havia saído de Vergara antes, e apesar do caminho árduo, tudo era novidade. Pelo menos, eu estava tendo essa presença de espírito para apreciar tudo o que meus olhos podiam ver. No fundo, sabia que esta poderia ser a última e que estes talvez poderiam ser meus últimos instantes de vida – afinal, tudo pode acontecer dentro ou fora da vida selvagem e havia aprendido a aceitar isso. Essa talvez fosse a ideia a qual eu mais tinha orgulho de ter pensado e assimilado, verdadeiramente: a única certeza que temos da vida é a morte. Pensando logicamente, parecia-me, portanto, muito natural aceitar a sua chegada. Eu gostaria que ela fosse um pouco tardia, é verdade, mas sabia que não havia como lutar sobre isso – i>uma vez que o momento chega, não há escapatória.
Foi a primeira vez que senti que o conhecimento trazia uma certa liberdade, tendo em vista que há uma certa tendência em temer-se o desconhecido. Se esta descoberta estava ali, mesmo que fosse uma descoberta estritamente pessoal, é porque não temia ou havia concluído que não havia motivos para se temer. Ou pelo menos, não a ponto de me manter no mesmo lugar. E estava curiosa o bastante para seguir em frente.
Definitivamente, curiosidade era o que movia minhas pernas caminhando, mesmo em momentos de muito cansaço. Era o que me mantinha seguindo em frente agora mesmo, quando meus instintos me diziam que devia dar meia-volta.
Pensei várias vezes durante a caminhada o quanto isso era contraditório – a lógica da mente versus os instintos. Na verdade, pensando mais a fundo, isso não parecia ter o menor sentido e era nesse tipo de situações que entendia que precisava de respostas em outro lugar, coisas que ainda não estavam na minha mente.
Também me perguntava frequentemente: estas encruzilhadas que se formavam em minha mente, seria eu uma exceção às criaturas humanas, ou havia outros como eu? Se existem, onde estão? Seria possível que discutissem e expusessem seus pensamentos e encontrassem juntos soluções – se é que posso colocar assim –, para estes dilemas?

Pouco tempo depois, finalmente meus esforços foram recompensados. Pude vislumbrar entre as copas das árvores mais distantes um prenúncio de uma construção, aparentemente grande. E quanto mais eu me aproximava, maior era a noção do tamanho – era realmente um castelo imenso e imponente.
Localizado bem no centro de uma espécie de clareira, era constituído de materiais os quais eu nunca tinha visto. Esculturas muito elaboradas descansavam entre as inúmeras pilastras, como se fosse uma competição de qual trabalho era o mais primoroso. Eram um pouco sinistras, eu deveria admitir, mas isso não me importava – a construção me fascinava de forma tão latente que quase não notei o espetáculo particular, bem à frente da enorme porta principal.
Um frio terrível perpassou por todo meu corpo, deixando-me extraordinariamente tensa. Facilmente poderia acreditar que estava alucinando, mas sabia que não tinha repertório suficiente para criar aquela fantasia: dois corpos jovens inertes pendiam de um grande mastro de madeira cada um, bastante afiado em sua ponta.
Não precisei de muito tempo para concluir: corpos empalados bem na entrada – era um aviso nítido.
Não posso dizer quanto tempo fiquei ali parada, observando e pensando no que fazer em seguida. Novamente, eu me via em um caminho sem saída: não havia para onde ir, eu não podia voltar. A única opção que tinha era seguir em frente, não importava o que pudesse acontecer. Certamente, eu não era burra em imaginar que sairia algo de bom em entrar naquele castelo. Quando passei pela grossa porta de madeira, eu já havia feito a minha escolha.
Estava claro como água: era uma escolha entre a vida e a morte.


Capítulo II - Redenção

Mais silêncio.
O castelo conseguia ser ainda mais impressionante em seu anterior. A altura do teto era simplesmente surreal, algo que eu não conseguia entender como poderia ser construído. Havia uma forma de moldar rochas tão fortes em algo tão esbelto assim? Como era possível?
Mais alguns passos, observei as luzes solares transpassando as imensas janelas, em feixes que iluminavam parcialmente algumas coisas. Alguns móveis com certeza tão caros que deviam custar bem mais que a casa de minha tia, com pilhas de livros aqui e ali. Céus, que tipo de gente deixava livros jogados assim? Pessoas malditas como eu quase morrendo por aí em busca deles, e aqui estavam, jogados às traças.
De repente, não estavam mais lá. Na verdade, por um breve instante de segundo nada pude enxergar, algo rapidamente bloqueou minha visão, com uma leve brisa como acompanhante, que senti perpassar pelos meus cabelos. Foi algo tão impossivelmente rápido que apenas nos segundos seguintes, meu cérebro pareceu finalmente registrar o que havia acontecido: eu tinha companhia.
Seja lá o que estava em minha frente, estava muito, muito perto. Perto demais. O suficiente para impedir-me de fazer qualquer coisa relacionada a alguma fuga – certamente, seria mal sucedida. Antes de erguer os olhos para tentar descobrir o que me encarava, lamentei que a morte havia chegado cedo demais. Gostaria de ter lido algum livro antes, ou até mesmo um pouco mais, talvez.
Foi então que eu o vi pela primeira vez e nada poderia ter me preparado para aquela visão. Ou talvez eu já estivesse morta e aquela velha história de ser transportado para o céu estava se provando ser verdade; um belíssimo anjo fora enviado para me levar.
O anjo parecia zangado demais para a tarefa, porém. Mesmo entre os traços absolutamente perfeitos, sua expressão era dura demais para ser algo irreal. Meu coração batendo incontrolavelmente dentro do meu peito também.
Ele era real. Embora não fosse nenhum alívio perceber isso, também.
Realmente preocupada com o que poderia acontecer a seguir e sentindo uma energia correndo pelas veias que nunca havia sentido antes, pensei rapidamente em algo que poderia dizer que talvez poderia atrasá-lo, de algum modo.

— Perdoe-me — com algum esforço, consegui falar. Mal pude reconhecer a minha voz, parecia estranha, como se eu estivesse sendo enforcada. — Não sabia que estava habitado, achei... achei que...

Sua expressão lentamente dissolveu-se para algo mais especulador e minha mente derreteu. Como era possível alguém ter um rosto como aquele? Será que nada naquele lugar era banal?
Seus olhos claros como mel me avaliaram rapidamente, fazendo-me pensar que ele estava deliberando se me mantinha viva ou não. Isso me fez voltar ao ponto de partida novamente, percebendo que eu deveria estar falando naquele momento.

— Soube que este lugar detém bastante conhecimento, livros de diversas naturezas. É apenas isso o que busco, nada mais — ressaltei, apressadamente. Não sabia como explicar, mas algo me dizia que a criatura em frente de mim era extremamente perigosa e poucas chances de sucesso eu teria, tentando enganá-lo. Talvez a sinceridade alguma vez na vida poderia me manter respirando, para variar.
— É por isso que está aqui, está interessada no que pode descobrir? — seu tom era cético, mas infelizmente me distraí por sua voz, que irritantemente também era perfeita.

O que estava acontecendo, eu estava sonhando? Impossível. Nunca minha mente poderia articular algo tão excepcional. Eu nunca havia visto nem um resquício de tudo aquilo que presenciava agora e muito menos havia conhecido alguém tão belo na vida. Não havia nem ao menos um candidato para competição, ou suficiente para comparação.

— Sim — murmurei, lentamente, mais para mim do que para ele. — Vim de muito longe. Ao menos, deixe-me dar uma olhada em alguns livros e partirei, se assim o desejar.
— Está disposta a barganhar sua vida por livros? — disse ele, naturalmente, como se estivesse falando da vida de porcos prontos para o abate. Sem dúvida, meus instintos gritavam que eu deveria sair dali, depois dessa fala. Mas eu sempre fora muito decidida em minhas escolhas. Eu não iria ceder.
— Se for necessário — era obviamente uma pergunta retórica, mas ainda assim fiz questão de dizer. Se fosse para morrer, que morresse sendo eu mesma. — No entanto, tento me convencer que se quisesse me matar, já o teria feito.
— Não se engana em cogitar isso — subitamente, sua voz e expressão ficaram sombrias e ligeiramente melancólicas. — Realmente posso tirar a sua vida sem que se dê ao menos conta disso, mas não me interessa fazê-lo. Pelo menos não agora, tendo dito seu propósito aqui.

Enfim, ele me livrou de sua prisão invisível, colocando uma boa distância entre nós. Caminhou lentamente pela sala e privou-me da visão de seu rosto, pela posição que permaneceu. Uma parte de seu perfil era o máximo que podia ver. Ele claramente estava imerso em pensamentos, talvez decidindo se iria permitir minha permanência ou não. Não parecia nada empolgado em ter visitas, também.
Agora que estava minimamente segura – ou sem sinal de morte iminente, na verdade –, decidi que colocaria para fora a confusão de pensamentos que congestionavam a minha mente naquele momento, já que agora tínhamos tempo.

— Se permite dizer, é realmente fascinante tudo aqui — comecei, novamente admirando o lugar. — Nunca vi nada igual. Pergunto-me tantas coisas... como é possível construir algo tão majestoso? Sempre tive tantas perguntas, finalmente pareço ter encontrado ao menos algumas respostas. Não irei me demorar, se é o que te preocupa. Você pode me mostrar quais livros posso ver e não o perturbarei mais. Pode fazer suas condições, eu irei segui-las.

Eu poderia tagarelar mais, mas não tinha certeza àquela altura se ele estava ouvindo alguma coisa. Parecia profundamente perdido em suas próprias reflexões e talvez estivesse gastando palavras em vão, embora compusessem completamente a verdade.

— Tão disposta — algo que eu disse pareceu ter chamado sua atenção, porém, pelo tom de sua réplica. Talvez estivesse intrigado. — Será alguma peça do destino? Tamanha coincidência... — ele voltou a me encarar, e a força de seu olhar quase me fez cair de joelhos. — De onde você vem?
— Vergara. É um vilarejo pequeno.
— O que as pessoas dizem de você lá?

Sem poder evitar, fiquei encarando-o por um segundo inteiro. Muito provavelmente a minha expressão devia transparecer a minha desconfiança. Pelo pouco tempo em que estava ali, não era tão óbvio qualquer informação sobre mim, além do que eu já tinha mencionado, mas sua pergunta me pareceu completamente direcionada, e não algo que se pergunta para manter sua presa falando. Sem dúvidas, sua mente deveria ser mais rápida que a minha. Seria ele o objeto das lendas que eu ouvi?
Seria possível em algum ponto ter sido esquecido mencionar sua aparência? Eu já tinha ouvido certa vez de homens bonitos que perseguem corações de moças bonitas... aliás, este mesmo poderia ser o protagonista dessas histórias. Tantas perguntas...

— Com certeza eu não tive essa conversa a qual me alegro de ter aqui, com um ser sequer daquele lugar. Fico feliz em perceber que o senhor não parece chocado com as coisas que digo, então deve haver uma esperança para o mundo.

A criatura permaneceu em silêncio, me observando. Parecia ironia, mas eu parecia tê-lo chocado com a última coisa que disse. Mas algo me dizia que muito dificilmente eu poderia chocá-lo com algo tão provinciano que pudesse vir de minha mente. Com certeza aqueles olhos já haviam visto coisas bem mais complexas e não ortodoxas.

— Eu sou o responsável pela saudação que você passou a pouco, pensadora de Vergara. Tem certeza de que irá confiar em mim?

Bom, ele tinha um ponto. Ninguém em sã consciência poderia fazer pouco caso daquilo. E de maneira alguma eu fora uma pessoa violenta em algum momento, para sentir qualquer ligação com um ato tão vil assim. Preferiria pensar que deveria haver um bom motivo para que ele tivesse que ter feito isso, mas sabia bem que para alguns, não é preciso de muito para se irritar uma pessoa. É preciso de pouquíssimo para a barbárie tomar conta.

— Você me diz, devo me preocupar? Pode me esclarecer o que influenciou isto e eu poderei evitar.
— Com certeza não muito, mas você não chegou a este ponto — ele pareceu desconfortável com o assunto, seus olhos se desviaram para a janela. — Você está segura.
— Isso significa que posso ficar?

A expectativa tilintava-me por dentro. Dificilmente poderia acreditar que havia sido tão... fácil, se é que se pode dizer assim.

— Ao menos neste momento, não consigo pensar em um motivo para impedir que fique — ele não me olhou de volta quando respondeu.
— Obrigada — sem pensar, o agradecimento saiu de meus lábios. Não pude esconder a gratidão em minha voz, estava muito emocionada para sequer pensar em qualquer outra coisa. — Não tenho palavras para lhe agradecer — meu tom era fervoroso, como um crédulo diante de um milagre.

Ele então voltou suas íris claras e tempestuosas para mim, seu tom era categórico e duro como aço, quando voltou a falar.

— Não me agradeça ainda.


Capítulo III - Descobrindo

Movendo-se elegantemente pelo cômodo, sua mão fez um breve aceno para que eu o acompanhasse.
— Não existem muitas regras por aqui, mas prefiro que se atenha a biblioteca em que estamos indo no momento — sua voz de veludo ressoou pelo corredor que caminhávamos, embora ele mantivesse apenas um tom acima de um sussurro. — Há centenas de livros por lá, você poderia levar uma eternidade para absorver tudo. Permitirei que tenha acesso total a todas as alas, durante três dias. Hoje, porém, irei acompanhá-la.
— Vigiar, você quer dizer — não achei mal deixar as coisas esclarecidas. Embora não me tivesse passado despercebido sua cortesia, eu não tinha tempo para palavras no sentido figurado. Precisava saber em que tipo de terreno estava explorando, pois sabia que as coisas podiam mudar muito drasticamente e minha vida dependia de que estivessem como estavam. — Não me importo. Estou satisfeita que me permita ter acesso a qualquer tópico que possa ser do meu interesse, sendo assim, estou de acordo.

Não totalmente, na verdade. Três dias era muito pouco, tendo em conta o que ele dissera da quantidade de conteúdo que havia nessa biblioteca. Talvez fazendo com que ele percebesse que minha presença ali era insignificante, ele concordasse em me deixar ficar por mais tempo.
Um esboço de sorriso curvou seus lábios, mas por tempo insuficiente para contemplar a obra completa.

— Com certeza é um alívio saber que é pacífica, realmente não há motivos para me preocupar — ele parou em frente a uma enorme porta de madeira com abertura dupla, porém ele abriu apenas um lado e deu espaço para que eu adentrasse.

Eu poderia ter respondido a provocação, se não tivesse ficado completamente perplexa com o que meus olhos viam. A biblioteca era imensa! Estantes e mais estantes de livros, do chão ao teto, distribuídos em fileiras e com mais algumas estantes no chão, que dividiam o espaço.

— Incrível... Como conseguem organizar? — não pude deixar de perguntar.

Ele estendeu-me um pequeno caderno de couro, com anotações em uma perfeita caligrafia, descrevendo como todas as estantes estavam organizadas por ciências, algumas ali eu nem fazia ideia do que significavam, mas acenderam ainda mais minha curiosidade.
Por uma meia hora, eu praticamente esqueci da minha e da existência daquele ser que me acompanhava, perdida naquele mar de conhecimento. Havia tantas opções que apenas a tarefa de escolher era extremamente difícil, visto que eu tinha tão pouco tempo. Rapidamente minha mente concentrou-se em delinear as prioridades: primeiro estas ciências desconhecidas descritas no caderno? Ou ir para a seção conhecida que poderia responder algumas de minhas perguntas? Quando finalmente me decidi pela segunda opção, ainda assim havia muitas opções e fiquei um bom tempo contemplando os livros da repartição que queria.
Tantos exemplares... De todos os tipos e tamanhos, capas com cores vibrantes e outras nem tanto assim. A cada minuto me indagava como alguém poderia ser capaz de unir tanta coisa em um só lugar. Seria possível tantas obras já existirem assim, sendo que eu não havia visto quase nenhuma com meus próprios olhos? A grande parte das pessoas que conheci em minha breve vida mal sabia ler, tive sorte que meu tio me ensinara antes de morrer. De qualquer maneira, eu só conseguia pensar que o responsável por aquele trabalho só podia ser uma pessoa extraordinária. E muito poderosa. Quando tentava imaginar o custo que tudo aquilo que tinha à vista, a apenas um esticar de braço nas mãos, já era intimidante por si só. Uma fortuna com certeza foi gasta aqui e também em todo castelo. Quem seria tão poderoso, rico e sábio assim, mas que fosse desconhecido? Se fosse conhecido, com certeza saberia – afinal, minha vila realmente era pequena e remota. As notícias importantes sempre acabavam chegando por lá.
Nas primeiras páginas do primeiro livro que peguei já estava maravilhada. Não tive a resposta de todas as minhas perguntas, mas ali havia respostas de perguntas que ainda nem havia feito e me fez lembrar das minhas indagações se as outras pessoas também ficavam perdidas em questionamentos assim como eu, e foi então que eu me lembrei.
O dono do castelo que me acompanhava, também lia silenciosamente sentado do outro lado da sala. Sua elegância até em repouso era perturbadora, mas igualmente fascinante. Eu não podia negar, absolutamente tudo naquele castelo me intrigava, principalmente a personificação dele que estava ali à minha frente.

— Seria ousadia demais a minha questionar seu nome? — minha voz cortou o silêncio, parecendo um som muito errado para o ambiente. A curiosidade me corroía as veias, porém.
— Você me diria o seu? — murmurou, sem tirar os olhos do livro.
.
— Nome interessante — retrucou. Uma longa e estranha pausa se seguiu, até que ele respondesse. — Meu nome é .

Ele agora olhava fixamente para mim, esperando minha reação. Se algo já tivesse que ser pressuposto apenas com a menção de seu nome, dificilmente eu poderia fazê-lo, sendo que nunca havia ouvido ter sido mencionado antes.

— Fazemos uma dupla de nomes interessantes, suponho — quase me vi dar de ombros, confesso que já me sentia completamente à vontade naquele ambiente, embora soubesse que devesse ser cautelosa. — Como pode ver, trago muitas perguntas.
— E o livro que tem em mãos não as responde? — ele passou os olhos para seu livro novamente, estava nítido que queria demonstrar indiferença.
— Sim, porém também tenho perguntas sobre este lugar, este castelo... E a história dele — confiei em sua mente rápida para que ele entendesse o que eu estava querendo dizer. E não me decepcionei, pelo menos não pela falta de compreensão.
— A história deste lugar é algo muito complexo e sombrio para compartilhar. O que você precisa saber é que ele lhe permite o suficiente para a abertura da mente, para o entendimento do mundo e o que está a nossa volta.

Embora frustrada por não ter mais informações, não insisti. Sabia que já tinha muito em mãos e ambição nunca foi algo bem visto, pelos ensinamentos que corriam na vila. Ambição normalmente levava os homens a um caminho por vezes sinuoso, mas que no fim sempre levava direto para a morte, ou coisas piores. Compreendia que ser sábia constituía saber parar quando fosse necessário, sendo assim, permaneci absorta em minha leitura pelo resto da tarde.
Perto do período do dia em que os raios de sol já se tornavam escassos, foi quem me interrompeu depois:

— Está com fome?

Era uma pergunta simples, mas que trouxe grande significado. Principalmente para meu estômago, que não via mais do que rastros de comida por alguns dias. Mas denotava que talvez ali houvesse costumes não tão distantes dos humanos, embora eu desconfiasse veementemente que não fosse um. Porém, pensar na natureza de sua existência ficaria para outro momento, porque eu não podia recusar essa oportunidade.

— Para ser honesta, sim — fechei o livro delicadamente. Embora o exemplar estivesse completamente intacto, parecia extremamente frágil. Para um papel grosso em que os livros eram produzidos, encontrar um tão antigo assim era quase uma relíquia e sabe-se lá quanto tempo tinha. Foi difícil largá-lo, mas no momento eu tinha prioridades. — Não como apropriadamente há um bom tempo.

Ele pareceu ponderar por alguns segundos.

— Venha, então — ele se levantou em um só movimento, porém totalmente fluído. Já eu, como estava sentada no chão com as pernas cruzadas, demorei um pouco mais, meus músculos estavam totalmente rígidos por permanecerem parados em uma única posição por tanto tempo.

Caminhamos por outros corredores e cômodos, até chegarmos a um bem mais aberto, que eu reconheci que era a cozinha pelos utensílios universais que qualquer um pode reconhecer, desde que tenha visto uma antes na vida.
começou a mover-se com a graça de sempre, manejando os alimentos e ferramentas com segurança, como se fizesse isso há anos. Ali, sentada à mesa em silêncio apenas o observando, me fez perguntar a idade daquela criatura ímpar. Embora parecesse experiente, não poderia ser muito, porque sua aparência era de um homem novo, abaixo dos trinta. Se fosse novo, o que poderia justificar a inexistência de outros próximos em sua casa? Talvez fosse órfão? Sempre fora órfão? Se não, quem poderiam ser os progenitores de algo tão único? Seriam diferentes como ele? E onde estavam?

— Conte-me como é lá — sua voz interrompeu minha enxurrada de perguntas, porém.
— Perdão, o que disse? — precisei de um momento para voltar minha atenção ao momento.
— Sua vila — explicou, enquanto colocava os pratos na mesa, junto com a comida, com uma habilidade e rapidez que me fazia começar a me habituar; o extraordinário era o seu comum. — Disse que saiu de lá procurando respostas e fez insinuações que me dão a entender que se difere dos moradores. Você foi expulsa?

Expulsão? Realmente seria difícil acompanhar a velocidade de seu raciocínio. Algo que eu começara a ensaiar que poderia acontecer quando saí de Vergara, ele em pouco tempo já soube que seria algo que era um fato determinante.
Sua voz parecia um pouco mais dura que o normal, também. Ele também não me olhava nos olhos. Não que isso pudesse dizer muita coisa, mas por mais ignorante que eu pudesse ser do resto do mundo, sempre fui uma boa observadora e isso de certa forma facilitava na leitura das pessoas. Não poderia ser uma reação protetora sobre uma injustiça hipotética, uma vez que ele havia acabado de me conhecer e... Bom, o que eu sabia sobre o senso de honra de ? Era consideravelmente comum as pessoas serem ligadas a princípios e moral, mas me parecia meio incongruente atribuir a mesma lógica a uma pessoa que havia feito o que vi, quando cheguei. Não cabia a mim julgar qualquer coisa que seja, mas era tudo muito recente para fazer quaisquer conclusões.
Descartado essa possibilidade, o que mais poderia ser? Talvez não algo em relação a mim, embora a pergunta me tenha sido direcionada, mas sim algo em relação a ele? Poderia ele ter sido expulso de qualquer outro lugar, que não esse? Será possível que este castelo pertencera a qualquer outro dono?
Repensei rapidamente o que eu sabia de até então e o que eu havia observado neste breve período. Estava nítido que ele estava distante de qualquer normalidade conhecida, assim como eu mal parecia me encaixar entre os meus. Para que seu exotismo fosse interpretado como ameaça, era uma questão de segundos, até menos – as pessoas não costumavam pagar para ver. O mal tinha que ser arrancado pela raíz.
O mesmo poderia aplicar-se a qualquer outra criatura como ele, como um parente. Isso poderia justificar a falta deles, neste exato momento.
Possivelmente impaciente em esperar mais por uma resposta, novamente ele ergueu os olhos até encontrar os meus. Encarei de volta, tentando disfarçar minha frustração interna no acréscimo a coleção de perguntas, que parecia não ter fim.
Não havia respostas naquele ouro líquido, por mais que eu tentasse ver através dele.

— Não, não chegou a esse ponto — finalmente respondi. — Mas não acredito que fosse difícil acontecer. É uma vila pequena, com pessoas simples que possuem pensamentos simples. Tudo bem provinciano.

O cheiro da comida agora era insuportavelmente bom. Surpreendentemente, ele abriu uma garrafa que pude identificar como vinho e nos serviu, sentando-se à mesa logo depois. Parecia um pouco demais de gentileza, tendo em vista ambas as saudações que tive. Esperei uma menção que ele fosse propor uma oração apenas como uma espécie de desafio – estava bem óbvio que religião por ali era algo bem distante –, mas não aconteceu. Também não rezei, porque não rezava – na verdade, nunca fora muito religiosa.
A comida era carne de algum animal que não pude identificar, mas que estava extremamente saborosa; batatas assadas, pão e queijo como acompanhamento. Foi como um bálsamo para meus sentidos há tanto tempo inertes. Queria e muito demonstrar o mesmo nível de elegância que parecia transpirar, mas a necessidade falou mais rápido – eu praticamente ataquei a comida.
Meu apetite pareceu diverti-lo – a seu modo, é claro, não é como se ele fosse o tipo de homenzarrão que bate a caneca cheia de cerveja quase tombando a mesa enquanto gargalha –, sendo assim o jantar fora um acontecimento mais agradável do que eu poderia imaginar.
Embora fosse totalmente isolado, o castelo era extremamente calmo e pacífico. E por mais que eu tivesse tanta coisa para discutir e quisesse conhecer, a serenidade que compartilhamos enquanto apenas nos concentrávamos na comida foi inesperadamente confortável – como se nos conhecemos há muito mais tempo que algumas horas.
Era difícil julgar se minha companhia o incomodava, porque parecia sempre mergulhado em uma espécie de aura melancólica, por mais que quisesse demonstrar neutralidade, estava óbvio que nem tudo parecia estar perfeitamente em seu lugar. Poder captar ao menos essa pontinha do que pouco aparecia na superfície, já era o bastante para aumentar ainda mais meu interesse e minha inquietação. Odiava não saber de quase nada e quanto mais eu procurava, mais descobria o que ainda estava desconhecido. Odiava ter informações pela metade e principalmente ter a habilidade de notar mais detalhes do que a maioria, mas não ter condições de ir a fundo e revirar tudo o que tivesse vontade.

— Acredito que ainda queira passar na biblioteca, mas já irei mostrar-lhe seu quarto, se estiver de acordo — anunciou, quando terminamos.
— Sim, gostaria de ler mais um pouco antes de dormir — levantei-me junto dele. — Agradeço pela refeição, estava realmente sublime e ficarei muito grata se puder me dizer apenas, não é necessário mostrar, se não quiser.
— Lembra-se da grande escadaria que passamos quando viemos da biblioteca? — acenei positivamente com a cabeça. — Primeira porta à direita, depois de subi-las.
— Entendido. Irá me acompanhar?
— Poderá ir sozinha agora. Tenho alguns afazeres pendentes antes de finalizar o dia.

Com um aceno, ele rapidamente saiu e eu fiz o caminho inverso até a biblioteca. Espantosamente, não precisei acender as velas quando cheguei, a quantidade suficiente para minha leitura já estava acesa. Satisfeita e um pouco cansada, mas ainda muito curiosa, continuei meu desbravamento pelos livros, não demorando muito para ficar imersa no que lia.
Era muito fácil perder a noção do tempo com tanta coisa interessante, de modo que as palavras em algum ponto da noite começaram a formar um embaralhado de letras sob minha vista. Lentamente, comecei a sentir os efeitos da viagem, agora cobrando com muito mais força por um descanso, a mente caminhando vagamente para o reino dos sonhos... Mal percebendo que acabara adormecendo no sofá da biblioteca, até acordar pela manhã.


Capítulo IV - Perspcácia

Irresponsável.
Não havia outra palavra para me definir no momento. Como pude manter a guardar tão baixa? Cair no sono no meio da biblioteca em um castelo de um estranho? Onde estive com a cabeça?
Deslumbramento nenhum justificava colocar a própria segurança em segundo plano. Por deus, eu havia mal ficado um dia neste lugar, ainda havia sérias chances deste ser distinto ser extremamente perigoso e... Não só perigoso para a minha vida, mas para meu corpo também. Poderia ser bastante ingênua, já que era apenas uma jovem que havia experienciado pouco até aqui, mas desde cedo nós mulheres aprendemos que vivemos em um mundo extremamente cruel para nós. Somos vistas como meros objetos de prazer, que deve se submeter ao que lhe é imposto, sempre dispostas a submissão. Se não concordássemos com isso, era nos tirado à força.
O fato é que eu não conhecia o dono daquele castelo. Na verdade, não conhecia realmente nada sobre ele, era muito cedo para qualquer conclusão. Gostaria muito de poder me enganar com a tranquila refeição que me foi oferecida ontem à noite, mas na verdade isso poderia muito bem deixar toda a situação mais preocupante.

— Vejo que já está acordada, — pela primeira vez na vida, aquela voz de veludo me trouxe sensações muito diferentes ao encantamento de outra hora. — Bom dia. Se desejar, há comida na cozinha para o desjejum.
— Então percebeu que acabei adormecendo aqui? — questionei, consciente de que poderia estar parecendo bastante mal educada.

Foi um pouco difícil olhar para seu rosto desta vez. Embora nada tivesse mudado sobre ele, era eu quem o via agora sob outra perspectiva. Seu semblante não denunciava nada, além da habitual indiferença e melancolia das últimas horas. Por mais magnífico que fosse todos as linhas e contornos que formavam sua face, beleza nunca seria o mais essencial para mim. Não importava quão tentador fosse, não poderia permitir que isso mudasse meu senso de julgamento. Muito pelo contrário, agora me ocorria o quão fácil as coisas deveriam ser para ele, com aquela aparência.

— Sim, é claro. Não poderia removê-la, de todo modo. Além do fato que acredito que não se sentiria confortável, eu também não me sentiria em fazê-lo.

Sua resposta me alarmou um pouco. Seria possível que algo em minha fala ou expressão denunciou o que estava pensando? Discretamente, enquanto caminhava para fora em direção a cozinha, observei sua expressão, tentando ler o máximo que podia além do que estava na superfície. Não havia nada suspeito ali, talvez apenas uma coincidência.

— Tenha também um bom dia, senhor — cumprimentei, antes de sair pela porta.

Depois do café de manhã e poder me lavar em meu quarto, mantive-me com o nariz enfiado nos livros pelo resto do dia. Havia tanta coisa interessante que simplesmente não havia como ser diferente. era uma companhia extremamente silenciosa, então não tive maiores problemas em me concentrar. O que fazia me perguntar se ele estava deixando alguma tarefa de lado apenas para estar ali e se fosse o caso, deveria estar grata que mesmo causando certo transtorno ele havia concedido minha permanência. Difícil pensar que havia pouco para se fazer em um castelo grande como aquele, então esta pausa em sua rotina decerto traria certa quantia de problemas.
Quase como um retorno a esses devaneios, não me acompanhou no jantar desta vez, simplesmente desapareceu nas profundezas daquele labirinto rico e suntuoso. Deveria estar aliviada, diante de minhas preocupações pela manhã, mas ao invés disso a breve solitude deixa-me inquieta. Não podia descobrir muita coisa sobre ele já que mal conversávamos e suas expressões eram bastante neutras, porém ao menos no mesmo recinto eu sabia o que ele estava fazendo. Desconhecer era realmente inquietante.
Decidi levar o exemplar que estava lendo para o quarto dessa vez, para o caso de acabar adormecendo de novo. Desta vez estaria com a porta trancada, minimamente segura. Embora a porta não tivesse chave, apenas uma espécie de moderno tranco que nunca havia visto, ao menos ouviria algum barulho que poderia me despertar e dar-me algum tempo de me defender, se fosse necessário. Pelo resto da noite, continuei sem maiores preocupações.

O dia seguinte já era o terceiro dia e isso significa que em breve teria que estar saindo daqui, se não fizesse alguma coisa. Em contra partida, não vi por toda manhã e não fazia ideia de onde ele poderia estar, embora de alguma forma soubesse que ele tinha ciência exatamente de onde eu estava, qualquer fosse o local onde poderia estar. Não sabia explicar, mas a sensação de estar sendo observada era constante quando estava sozinha. Talvez fosse paranoia minha, mas também não era tola em concluir que ele simplesmente me deixara a vontade para fazer o que bem entendesse em sua casa. Assim como eu não o conhecia propriamente, o mesmo valia para ele.
Sua ausência deu-me tempo para pensar no que diria como proposta e ponderar possíveis cenários de respostas que ele poderia ter, ainda que ele poderia escolher qualquer um dos inúmeros cenários consideráveis. Resolvi ater-me a objetividade: provara neste pouco tempo que poderia muito bem não trazer problemas e poderia ajudá-lo em qualquer atividade que precisasse no castelo, até as mais complexas, se estivesse disposto em me ensinar. Levando-se em conta a quantidade de acomodações que aquele lugar tinha, não seria uma ideia absurda propor que ele tenha um ajudante. Por mais engenhoso que ele possa parecer, era extensão demais para apenas um ponto operante.
A comida não parecia ser um problema, uma vez que ele me oferecera as refeições até então despropositadamente. Poderia ser ignorância minha, mas pensava que se quisesse algo de minha parte, já teria sido exposto até então. Principalmente quando se tratava de assuntos bíblicos, os homens costumavam não ter floreios a este respeito, eram extremamente diretos, ainda mais quando tomavam conhecimento que estavam diante de uma mulher desacompanhada.
Restava então fazer a oferta e esperar que concordasse. E esperava com todas as minhas forças que desse certo, caso contrário, não havia mais o que fazer. O que faria de minha vida a seguir? Não tinha rumo, muito menos riquezas para trocar, nem outra parte da família em qualquer parte distante para visitar. Precisava convencê-lo de qualquer modo e apostar em sua generosidade que até então, se mostrava mais do que suficiente e esperar que não considerasse que estava pedindo muito além.

— Até que enfim! — não pude deixar de exclamar, quando o vi passar pela porta da biblioteca. Estava praticamente quicando de impaciência.

Sua reação foi apenas um arquear de sobrancelhas.

— Não esperava que estivesse à minha espera — comentou, enquanto senta-se na poltrona próxima a janela. — Achei que estivesse entretida em seus livros.
— E estou — menti. Não estava entretida em livros há pelo menos duas horas, a cada minuto meus olhos se erguendo das palavras para mirar se havia algum movimento na porta. — Mas também gostaria de conversar com você.
— Estou ouvindo, pensadora — e de novo estava ali o esboço de sorriso. Talvez diverti-lo fosse um bom sinal.

Fiquei de pé, era incapaz de me manter sentada mais um minuto sequer e passei a caminhar próximo a janela em que ele se sentava próximo. Consegui fazer com que fossem passos lentos, embora estivesse com vontade de correr até ele e praticamente implorar para que cedesse.

— Deixe-me ficar — fui direto ao ponto. — Permitiu apenas três dias, mas sabe muito bem que isso não é nem de longe tempo suficiente para ler sequer metade do que há aqui. Posso ajuda-lo a cuidar do castelo, se necessário. Acho que provei que não trarei problemas, uma vez que desejo ficar boa parte das horas de meus dias neste recinto.

Ele não respondeu imediatamente e não consegui mais deixar de olhá-lo, precisava descobrir o máximo que podia que ele estivesse pensando, embora raramente suas expressões me dissessem alguma coisa. Não sabia exatamente qual expressão era a minha, mas esperava que ela demonstrasse livremente o quanto deseja ficar e torcia para que isso o influenciasse, ao menos o mínimo possível, de algum modo.

— Não é seguro sua permanência aqui — finalmente pude ouvi-lo falar. Não pareceu uma negativa, mas sim mais como um aviso.
— Agradeço pelo aviso, manterei isso em mente caso fique em uma situação de risco de morte — apressei-me em replicar. — Mas isso não é suficiente para me manter afastada, acho que isso ficou bem claro quando nos conhecemos.
— Sim — ele murmurou, parecendo que fora mais para ele do que para mim. — O que faria se eu não permitisse?

Então eu não era a única a cogitar situações hipotéticas por aqui. Seria um bom sinal, esse ponto em comum entre nós? Difícil saber.

— Eu provavelmente tentaria invadir sua casa sem que percebesse, mas estaria bem ciente que isso não iria funcionar — dei de ombros, sem poder deixar de sorrir pelas ideias idiotas de passar despercebida que se passavam pela minha cabeça.
— Foi o que pensei — embora não sorrisse, algo em seus olhos pareceu como se estivesse. — Não gostaria ter de intervir em uma invasão tão violenta.
— Ah sim, muito violenta — concordei, agora rindo. — Posso ser bem criativa quando quero.
— Não esperaria menos, pensadora — ele se levantou, dando alguns passos próximos a janela e também perto de mim. — Já abri meu castelo há humanos outra vezes e como você mesma viu, a última vez não terminou muito bem.

Um calafrio percorreu todo meu corpo ao lembrar dos corpos na entrada. Definitivamente, não deveria ser uma forma agradável de se morrer. Não duvidava que poderia fazê-lo novamente, porém se fosse uma personalidade violenta ao menos isso poderia ter tido ficado em evidência em algum momento do pouco tempo em que estava aqui. Eu mesma passando pelos vilarejos precisei bem menos de um par de horas para descobrir pessoas assim facilmente.

— Não sei o que aconteceu aqui, é verdade — declarei, virando-me para encará-lo. — Porém confio que se você suspeitasse que minhas motivações pudessem ter metade do que outros que apareceram por aqui tinham, nós não estaríamos tendo esta conversa.
— Quantos anos você tem? — perguntou, de repente.
— Não sei ao certo o ano que nasci, mas não devo ter mais que vinte e dois anos. Por quê? — a confusão em minha voz era evidente.
— Você é bastante perspicaz para alguém tão jovem e inexperiente — e com essa declaração, ele passou a caminhar para a porta.
— Pode parecer repetitivo, mas... isso significa que posso ficar? — uma sensação bizarra me dominou quando fiz esta pergunta, porque era exatamente a mesma que fiz no primeiro dia em que estive aqui.

Como resposta, ele apenas moveu a mão direita para o bolso de sua calça, retirando um material que de onde estava, só dava para perceber que era de metal, deixando-o em cima de uma das mesas próximas à porta. Em seguida, novamente ele desapareceu.
Apressei-me a passos largos até a mesa, reconhecendo o objeto com uma onda de felicidade e gratidão: uma chave prateada, novinha em folha, que parecia se encaixar exatamente no ferrolho de meu quarto temporário – talvez agora, não tão temporário assim.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Nota de beta: AAAAAAAAAAAAA, não estava esperando essa perfeição. Adoro as palavras, o jeito que conversam, o medinho que dá de ele fazer alguma coisa como ela espera que faça... estou ansiosa pra ver como vai ser esse relaconamento deles daqui pra frente. Estou amando demais o que estou lendo.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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