A Song About You

Última atualização: 27/10/2020

Prólogo

estava em êxtase.
Pela primeira vez, depois de tantos anos investido seu tempo e dinheiro em sua carreira musical, tudo parecia estar caminhando para o lugar onde ele sempre quis estar desde que havia aprendido a tocar sua primeira música na guitarra: The Orpheum Theatre.
Ele encarava o palco vazio enquanto as pessoas da staff terminavam os últimos detalhes para o show que ocorreria dali duas horas. Duas horas para que o seu maior sonho acontecesse e ele finalmente provasse para os seus pais que sua carreira musical teria um futuro e que nada havia sido em vão.
— Finalmente, huh? – ‘ cutucou sua costela com o cotovelo, tirando sua atenção do palco iluminado onde seus instrumentos se encontravam.
— Eu ainda não consigo acreditar que daqui duas horas nós vamos estar em cima daquele palco, é inacreditável. – ele sorriu, encarando os três melhores amigos.
— Nós trabalhamos duro para que isso acontecesse, cara. – murmurou. – Mas agora, eu estou morrendo de fome, será que podemos comer algo?
— Eu vou ficar por aqui para me certificar de que tudo vai dar certo, sim? – Bobby sorriu, abraçando os colegas de banda. – Me tragam algo sem carne.
— Você comeu um hamburguer hoje de manhã, cara. – franziu o cenho, soltando uma risadinha quando o guitarrista fez uma cara feia. – Ok, ok, você quem sabe. – levantou as mãos em rendição.
Ele pegou sua mochila, que repousava em cima da pequena banqueta em que eles se encontravam, colocando-a sobre seus ombros enquanto ele andava em direção à porta dos fundos do Orpheum. Puxou as chaves do chevette em que havia morado por alguns meses, abrindo a porta e jogando seus pertences no banco traseiro, esperando que e entrassem no veículo. Quando o fizeram, ele apenas se sentou no banco estofado e ligou a chave na ignição, tomando a Boulevard Street em direção à Domino’s da Sunset Boulevard.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que não conseguiu acompanhar ou processar a tempo. Tudo havia se tornado um borrão. Barulhos de sirenes e buzinas. E a sensação de algo empapado em seu rosto antes que tudo ficasse preto.

TRAGÉDIA: BANDA PROMISSORA SE ENVOLVE EM ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO, RESULTANDO EM QUATRO MORTOS E TRÊS FERIDOS.

Capítulo Um - Me & Ur Ghost

Los Angeles, Califórnia
Três anos depois



Eu estava em pedaços.
Ainda não sabia sequer o porquê de ter insistido tanto em finalmente voltar para Los Angeles depois de tanto tempo longe do lugar que me trazia péssimas lembranças. O fato de eu estar lá apenas um mês depois do acidente que tirou a vida dos meus pais ainda não ajudava nesse quesito.
A realidade era que eu havia partido daquela cidade quando resolvi cursar música em Nova York cinco anos antes, deixando escorrer por água abaixo o relacionamento com meus pais. Meu pai odiava o fato de eu não ter escolhido algo melhor, e minha mãe... Ela apenas aceitou que sua filha seguiria as mesmas aspirações que ela um dia tanto sonhou. E, por um curto período, eu realmente fiz. Até receber a ligação que me faria voltar às pressas para LA e encarar meu irmão em prantos.
Eu preciso de ajuda para começar a limpar as coisas na antiga casa, a menos que você tenha interesse em ficar com ela. Você vem?
Foram as exatas palavras de Carlos quando o advogado leu o inventário que declarava que, agora, os imóveis que um dia foram de nossos pais, estavam em nossos nomes. Eu demorei um tempo considerável para finalmente lhe dar uma resposta, e, depois de um mês, eu estava parada em minha antiga casa, com um coração quebrado e uma terrível sensação de tristeza. Senti o celular vibrar em meu bolso e o peguei, ligando a tela somente para encontrar uma mensagem de Flynn.
“Quer um abraço?”

As palavras eram simples, sem muitos emojis como costumávamos fazer anos antes. Me permiti finalmente levantar meu olhar, encontrando a garota em uma distância razoável de mim. Balancei a cabeça positivamente, sendo envolvida pelos braços curtos de Flynn enquanto eu me permitia esconder o rosto em seus cabelos cacheados e volumosos, sentindo as lágrimas descerem por meus olhos.
Flynn era minha amiga desde o berçário. Ela foi a primeira garota a falar comigo enquanto eu brincava com um piano de brinquedo, e desde então, havíamos nos tornado inseparáveis. Chegamos até a montar uma banda durante a adolescência com Nick e Carrie, a Double Trouble, que só acabou porque eu tive que me mudar para Nova York. Nossa amizade, entretanto, nunca sequer enfraqueceu. Principalmente por ela me visitar pelo menos uma vez ao ano, por todos os anos, desde o primeiro momento.
— Você não está sozinha, tá? – ela sussurrou, acariciando meus cabelos com carinho. – Eu estou aqui.
— Eu não pude me despedir, Flynn. – fechei os olhos. – Eu ao menos consegui consertar as coisas entre nós.
— Eu sinto muito, . – ela me apertou com mais força, como se aquilo fosse fazer com que todos os sentimentos ruins escorressem por meu corpo. – Você tem certeza de que está preparada para isso?
— Carlos está com a titia, acho que eles não conseguem lidar com isso agora. – limpei as lagrimas insistentes de minha bochecha.
— Você quer que eu vá com você? – Flynn arqueou uma sobrancelha e eu apenas balancei a cabeça em negativa.
— Isso é algo que eu tenho que fazer sozinha. – suspirei, encarando a entrada da casa. – Eu vou até a sua casa depois, ok?
— Se precisar de algo, você pode me chamar. – minha melhor amiga apertou meus ombros, me dando um sorriso tranquilizador antes de dar suas costas para mim e andar em direção à sua casa.
Respirei fundo e me virei em direção à casa onde havia passado boa parte da minha vida. Agora, sem meus pais ou meu irmão, a casa apenas parecia mórbida. Respirei fundo e andei em direção à porta de entrada da casa, procurando as chaves que havia pego horas mais cedo em meus bolsos. Não tardou para que eu as achasse, colocando-as na fechadura e girando-a, finalmente entrando no imóvel. Os móveis se encontravam intocados e limpos, denunciando que titia havia passado por lá como o velho furacão de limpeza que ela costumava ser.
Subi as escadas em passos rápidos, entrando em meu antigo quarto somente para encontrá-lo do mesmo jeito que havia deixado anos atrás: cuidadosamente arrumado, com o antigo baú de roupas de minha mãe descansando em frente à minha cama cheia de travesseiros e ursinhos de pelúcia. Me aproximei do closet, parando em frente da pequena prateleira onde minha caixinha dos sonhos ficava. A pequena caixa branca com diversos desenhos costumava ser meu pequeno segredo, o lugar onde eu guardava todos os sentimentos e composições. Me sentei na cama, abrindo a caixinha cuidadosamente para ler as letras e anotações que se encontravam ali. Pequenas lembranças de uma realidade distante onde eu ainda conseguia compor músicas e tocá-las. Uma realidade onde meu hiato já não perdurava pelos últimos dois anos.
— Você não estaria orgulhosa de si mesma, do passado. – balancei minha cabeça negativamente, fechando a caixinha e me levantando da cama, ao menos me preocupando em voltar a caixa no lugar.
Desci as escadarias mais uma vez, franzindo o cenho ao perceber as persianas abertas na sala. Dei de ombros, desenhando meu caminho pela cozinha onde a porta para o antigo estúdio de minha mãe se encontrava. Destranquei-a, parando em frente à porta de madeira, hesitante. Havia mais lembranças naquele estúdio do que em qualquer outro lugar naquela casa, o que repentinamente fazia com que eu me tornasse um poço de tristeza e nostalgia. Respirei fundo pelo o que parecia a décima vez naquele dia, pegando a chave de meus bolsos para destrancar o cadeado que impedia a porta de ser aberta. Deslizei-a pelo trilho, abrindo somente o suficiente para que eu passasse sem dificuldade.
O estúdio só não se encontrava do mesmo jeito que anos atrás devido à uma quantidade considerável de pôsteres colados na parede. Bandas como Nirvana, All Time Low, Breaking Benjamin e Linkin Park tomavam conta das paredes. Um piano descansava nos fundos do cômodo, um sofá de couro preto se encontrava no canto esquerdo de frente à uma pequena mesa de centro. O set de bateria montado no lado contrário do estúdio e alguns instrumentos musicais, junto de caixas amplificadoras, estavam intocados. Quase como se não tivessem visto um bom afinador durante anos.
Desenhei meu caminho em direção ao piano, coloquei a caixinha em cima da tampa superior, sentando-me em frente a ele. Levantei a tampa do teclado, tocando algumas notas aleatoriamente, tentando me lembrar da sensação de liberdade que há muito não conseguia sentir ao sentar-me em frente à um piano. Balancei a cabeça negativamente, me levantando para subir até o andar de cima do estúdio. Algumas sacolas e mochilas estavam espalhadas de forma desorganizada ali. Me permiti mexer nos objetos, achando algumas camisetas e uma pequena caixinha branca com os dizeres “Sunset Curve”.
Franzi o cenho, descendo as escadas até o tocador de CD’s que descasava próximo do sofá de couro. Liguei-o na tomada e abri a caixa do CD, colocando o pequeno disco branco dentro do tocador e apertando um botão para que ele começasse a tocar. Um conjunto de acordes começou a tocar, logo sendo acompanhado por um som de bateria que logo preencheu o cômodo.
Decolando, última parada! Contagem regressiva até explodirmos o teto, mete a cara, força total, uma marreta elétrica no coração.
Eu balançava a cabeça divertidamente à medida em que a música contagiante explodia o ambiente que há muito havia se tornado monótono. A voz dos vocalistas em perfeita harmonia, me fazia balançar a cabeça com diversão, algo que eu não sentia em eras.
— É uma música bem legal, se quer saber. – escutei uma voz gritando.
— QUE MERDA? – gritei, quando três garotos me encaravam com curiosidade. – Quem são vocês? – apertei o botão para que o rádio parasse de tocar.
Os três rapazes eram lindos, isso era algo que eu não poderia ao menos negar. Um deles vestia roupas pretas dos pés à cabeça, com exceção da camisa branca por baixo de uma jaqueta de couro, em plenos trinta graus do verão californiano. O do meio, também o mais alto, vestia um moletom rosa por baixo de uma jaqueta jeans e calças pretas, além de uma pochete em diagonal em seu peito. O último, usava um sobretudo jeans totalmente destruído, combinando com um colete, de gorro azul, calças pretas com rasgos nos joelhos e um par de vans. Seus cabelos eram muito parecidos com os de Zac Efron em High School Musical.
— Quem é você e o que você está fazendo no nosso estúdio? – o Zac Efron disse, arqueando uma de suas sobrancelhas. – Isso é meio que um crime, sabe?
Vocês estão na minha casa. – franzi o cenho. – Como vocês entraram aqui, de qualquer forma?
— O quê? – o garoto de jaqueta de couro indagou. – Nós sempre estivemos aqui.
— Não, não estavam. – me movimentei lentamente em direção ao piano, arrastando minha mão em direção à caixinha que repousava em cima da tampa.
— Ela sabe que a gente consegue ver ela se mexendo, né? – o loiro de moletom rosa sussurrou para o Zac Efron ao seu lado.
— Eu vou perguntar uma vez: quem são vocês e o que estão fazendo no estúdio da minha mãe? – indaguei, franzindo o cenho.
— Olha... seja lá qual for o seu nome. – Zac suspirou, me encarando com seus grandes olhos verdes. – Nós estávamos dormindo e você simplesmente invadiu a nossa casa, então você poderia, por favor, sair?
. – corrigi. – Olha, eu realmente não estou com paciência para lidar com isso, então, se vocês puderem simplesmente pegar essa ideia maluca e sair, eu ficaria extremamente grata. – cruzei os braços – A porta é ali.
— Reunião da banda? – o mais alto sugeriu, fazendo com que eles assentissem positivamente antes que eles se afastassem e formassem um círculo, debatendo algo de forma inaudível. Não levaram muito tempo conversando antes que o loiro se virasse em minha direção novamente. – Olha, Julien...
— É . – pontuei.
— Certo, . – ele sorriu. – Olha, eu sou . – ele apontou para si mesmo, soando como se estivesse falando com uma criança de cinco anos. – Esses são . – apontou para o de jaqueta de couro, que acenou com a mão. – E . – apontou para o Zac Efron. – Nós moramos aqui pelos últimos quatro anos e essa noite nós temos um show muito importante que precisamos ensaiar. É meio que o show das nossa vidas, então se você pudesse sair, eu ficaria imensamente grato.
—Isso é impossível. – ri, balançando a cabeça. – A casa está vazia faz três anos, não existe a possibilidade de isso ter acontecido.
— Nós podemos ligar para Ray, ele é o proprietário. – se aproximou e suas palavras acertaram meu peito como uma facada.
— Eu sou a filha dele, ele morreu tem um mês. – cruzei os braços, tentando não chorar.
— Isso é impossível, nós falamos com ele ontem e isso não poderia ter acontecido a menos que... – o que se chamava se intrometeu, apontando antes de ficar em completo silêncio. – Não tivesse sido um sonho.
— Não, isso não pode ter acontecido. – Reggiu riu. – Eu sonhei que tínhamos sofrido um acidente e então tudo mudou e nós ficamos naquele quarto onde o chorou.
— Eu não chorei. – o loiro se defendeu. - Você tem um telefone? – pediu, eu apenas assenti e retirei o aparelho do meu bolso.
— Vocês precisam que eu chame um Uber?
— Não. – negou. – Preciso que você pesquise por Sunset Curve no Google. – franzi o cenho. – Você poderia fazer isso, por favor?
— Se vai fazer com que vocês saiam mais cedo, tudo bem por mim. – desbloqueei a tela do aparelho, entrando no aplicativo para pesquisar pelo nome da banda. – Sunset Swerve?
— Sunset CURVE! – eles gritaram em uníssono, me assustando.
— Ok, ok. – levantei as mãos em rendição. – Sunset Curve, ok, entendi. – pesquisei pelo nome da banda, esperando os resultados no Google. Não tardou muito para que eles chegassem. Eu só não contava com o tipo de coisa que encontraria. – Não. Vocês têm certeza que esse é o nome da banda? Todas as manchetes dizem que essa banda se envolveu em um acidente de carro três anos atrás, que resultou em quatro mortos e três gravemente feridos no cruzamento entre a Sunset Boulevard, Figeroa Street e a Avenida Cesar Estrada.
— Claro que temos, não existe a possibilidade de não ser. – murmurou. – Não era um sonho.
— O acidente realmente aconteceu. – olhou para o chão. – Eu estou...
— Nós três estamos mortos. – balançou a cabeça. – E EU CHOREI POR TRÊS ANOS EM UM QUARTO? COMO ISSO É POSSÍVEL?
— Eu estou ficando maluca. – eu ri, nervosa. – Isso definitivamente deve ser uma alucinação causada por cansaço e luto, eu realmente estou alucinando. Não existe nada parecido com fantasmas bonitinhos, eu definitivamente estou ficando maluca. – me virei, fechando os olhos. – Eu vou fechar meus olhos e tudo isso vai sumir.
— Ela acha a gente bonitinho. – soou em meus ouvidos, me fazendo virar em sua direção. – Você também é bem bonita, obrigado. – ele sorriu.
— Eu não tenho como lidar com isso agora, definitivamente. – bufei, correndo porta a fora, sem ao menos dar atenção aos três garotos no estúdio.
— Wow, wow, wow! – Flynn gritou quando eu trombei contra seu ombro. – O que aconteceu? – ela me encarou de cima à baixo. – Parece até que você viu um fantasma.
— É, eu meio que vi. – ri nervosa. – O que você tá fazendo aqui? Achei que iria me esperar na sua casa.
— Imaginei que estivesse com fome e que as coisas estivessem complicadas por aqui. – Flynn levantou as sacolas. – Eu trouxe sorvete também.
— O que seria da minha vida sem você? – balancei a cabeça, olhando para trás, suspirando aliviada quando não enxerguei nenhum dos meninos. – Podemos ir até a cozinha, vamos.
A chamei, andando em direção à cozinha com um dos meus braços apoiados sobre os seus ombros enquanto Flynn tagarelava sobre o quão feliz ela estava por eu ter voltado a Los Angeles e que faria o possível para que eu não me sentisse sozinha durante o processo.
— Então, o que você pretende fazer agora que a casa é sua? – Flynn indagou, enquanto eu puxava uma das banquetas para me sentar. – Quero dizer, por piores que sejam, existem muitas memórias aqui.
— Sim. – encarei meu prato com os hambúrgueres intocados. – Eu ainda não sei, as coisas com meus pais não foram realmente resolvidas e eu sinto que se eu me livrar de tudo, vou estar apenas jogando tudo para baixo do tapete.
— Eu compreendo. – Flynn sorriu de canto. – Acho que é uma forma de ficar próxima deles, não é?
— Também, acho que devo isso a eles depois de tudo o que aconteceu entre a gente. – peguei um dos hambúrgueres, dando uma mordida. – Além disso, eu estava pensando em voltar para Los Angeles de vez.
— O quê? – minha melhor amiga sorriu. – E sua carreira em Nova York? Você não tinha meio que uma vida lá?
— É, sobre isso... – eu ri fraco. – Eu tenho estado em hiato por dois anos, como você bem sabe, então acho que preciso ficar um tempo afastada até conseguir voltar tudo nos trilhos.
— Sair de uma grande cidade para vir até o epicentro da arte nos Estados Unidos? Entendi. – ela foi irônica.
— Eu só estou tentando me encontrar de novo, entende? Muita coisa aconteceu durante esses cinco anos e eu sinto que não me reconheço mais. Além disso, Carlos está no último ano do colégio e eu não acho que ele vai querer ficar com a titia.
— Realmente, minha melhor amiga nunca ficaria mais que uma semana tocar. – Flynn levantou os braços. – Entendo que as circunstâncias sejam péssimas, mas eu fico feliz por você ter tomado uma iniciativa ao invés de fugir, estamos crescidas afinal.
— Eu sei, não é? – ri fraco, balançando a cabeça. – Eu vou precisar de uma ajuda para conseguir organizar tudo aqui, você acredita que eles nunca mexeram no meu quarto? Tudo está lá, do jeitinho que deixei.
— E o estúdio? – senti meus pelos se eriçarem. – Eles alugaram para uma banda alguns anos atrás, eles sofreram um acidente e os pais deles nunca vieram recolher as coisas, imagino que deva estar uma bagunça.
— É, quanto a isso... – murmurei, dando um gole em meu chá gelado. – Por incrível que pareça, está tudo bem organizado, o piano continua lá e tem alguns outros instrumentos também, acho que conseguiríamos fazer algo com aquilo.
— Você está pensando em vender tudo?
— Estava pensando em juntar os membros da Double Trouble de novo, na real. – ri fraco, dando mais um mordida no hambúrguer. – Quero dizer, faz um tempo que nós não tocamos juntos e acho que seria legal.
— É... Exceto que Carrie já não é uma figura presente na minha vida desde que você se mudou. – Flynn desviou seu olhar, encarando o próprio copo com refrigerante. – Nós meio que brigamos e a Double Trouble acabou, ela falou algumas coisas horríveis e eu não consegui ficar quieta.
— Como assim?
— Algo sobre você nunca ter gostado se importado de verdade com a DT. Também disse que se você se importasse, nunca teria nos deixado, em primeiro lugar. Honestamente? Eu achei que foi meio babaca, e sabendo de como as coisas aqui estavam terríveis, eu disse algumas coisas desagradáveis para ela.
— E Nick?
— Eles estão juntos. – Flynn riu. – Eles têm uma banda juntos, Dirty Candy. São os favoritos dos bares, as pessoas gostam bastante.
— Ao menos eles conseguiram o que sempre sonharam, fico feliz por eles. – dei de ombros, aquilo não era mentira. Carrie merecia seguir com seus sonhos.
— Ela só poderia ter continuado do mesmo jeito ao invés de deixar a fama subir pela cabeça a ponto de soar como uma pessoa egocêntrica sempre que tenta ter um diálogo com alguém.
— Eu não falo com ela desde que me mudei, ela meio que sumiu totalmente e me ignorava quando eu tentava falar com ela e explicar as coisas. – dei de ombros. – Acho que posso tentar ir até a mansão dela depois. – me levantei, desenhando meu caminho até a porta da geladeira para pegar os dois potes de Ben & Jerry’s do congelador e lançar um para Flynn. Senti meu celular vibrar em meu bolso e franzi o cenho, tirando-o de meu bolso para ler a mensagem na tela. – Tia disse que vai passar aqui para deixar minhas malas e Carlos daqui a pouco.
— Ela aprendeu a enviar mensagens de texto antes de simplesmente aparecer? Agora, isso é o que eu chamo de evolução. – riu, abrindo o pote de sorvete enquanto eu pegava duas colheres na gaveta ao lado da geladeira, voltando a me sentar em frente à Flynn. – Valeu. – pegou uma das colheres.
— Realmente, isso é algo que eu nunca sequer imaginei que seria possível. – balancei minha cabeça, tirando a tampa do potinho para pegar uma colherada generosa. – Mas, ela disse que já estava a caminho daqui, então não foi uma mudança tão drástica.
— Voltamos aos velhos hábitos, não é?
— Acho que é uma forma de ver isso. – ri fraco, olhando em direção à porta quando Tia Victoria passou pela porta com minhas malas e Carlos ao seu lado. – Oi, tia! Você deveria ter me dito que estava aqui, eu teria saído para te ajudar. – deixei o sorvete na mesa, andando em direção à mulher para abraçá-la. – Carlos.
Sorri de canto em direção ao meu irmão. O garotinho que antes chegava em meus ombros, agora estava cerca de uma cabeça mais alto que eu. Seus cabelos ainda escuros caiam por seu rosto de forma bagunçada em leves ondas, denunciando a falta de corte. Deus, como eu havia sentido falta dele.
— Vem cá, sua maluca. – ele riu, abrindo seus braços e andando em minha direção, me envolvendo com seus braços com força. – É tão bom te ver aqui de novo.
— É ótimo te ver também. – ri fraco, me distanciando. – Tia, obrigado por cuidar dele durante esse tempo. – sorri de canto, encarando meu irmão quando ele parou ao meu lado com um de seus braços em meus ombros.
— Não precisa agradecer, mija. – sorriu. – Você vai precisar de ajuda para fazer a limpeza da casa?
— É, sobre isso... – suspirei, coçando minha nuca. – Eu vou ficar em Los Angeles por um tempo indeterminado e eu pretendo ficar aqui. – sorri fraco. – São muitas lembranças para simplesmente jogar fora, então eu resolvi ficar com a casa e tudo o que tem nela.
— Oh... Você decidiu? – minha tia sorriu. – É ótimo saber disso, , assim posso ficar mais próxima de vocês e continuar te ajudando com Carlos. – ela sorriu animada e eu senti Carlos apertando levemente meu ombro em um pedido de socorro.
— Você não precisa se preocupar, tia, eu consigo lidar com isso sozinha. – dei meu melhor sorriso confiante. – Além do mais, você passou boa parte da sua vida cuidando da gente, você precisa viver também, sim? Por favor, não se preocupe. Eu sou uma adulta e consigo lidar com um adolescente.
— Eu insisto.
— Está tudo bem, tia, acredite. – sorri fraco. – Bom, eu vou levar minhas coisas até o quarto, fique à vontade.
Me separei de Carlos, puxando as malas de rodinha pelo hall de entrada em direção às escadarias de madeira que costumavam ranger sob o peso de meus pés sempre que eu as subia. Coloquei minha cabeça no portal da cozinha, chamando a atenção de Flynn.
— Você poderia... – apontei com a cabeça para meu irmão e minha tia, que agora sentavam-se na sala.
— Claro, me agradeça depois. – me deu uma piscadinha, jogando o pote de sorvete vazio no lixo antes de ir em direção à sala.
Peguei as malas pelas alças laterais, e com certa dificuldade, comecei a subir as escadas. Demorei um bom tempo para finalmente deixar as três malas, necessitando de três viagens para fazê-lo. Limpei as gotas de suor que se acumularam em minha testa, subindo a alça das malas para puxá-las em direção ao meu antigo quarto. Abri a porta e aos poucos fui colocando-as dentro do cômodo, fechando a porta atrás de mim antes de finalmente me virar para o resto do quarto.
— AAAAAAAAH!! ¬— gritei, sentindo meu coração disparar devido ao susto enquanto as três figuras espalhadas pelo quarto me encaravam. – Que droga! O que vocês estão fazendo aqui?
, está tudo bem? – escutei titia gritar do andar debaixo. – Ouvimos você gritar. – apontei para os garotos antes que eles respondessem, abrindo porta somente para que ela me escutasse.
— Está tudo bem, tia, eu só pensei ter visto uma aranha. – menti.
Ok. – ela respondeu, esperei mais alguns segundos para uma possível resposta, e, quando ela não veio, fechei a porta.
— O que vocês estão fazendo no meu quarto.
— Nós ficamos lá embaixo esperando você voltar, quando isso não aconteceu, nós resolvemos te procurar. – sorriu, mexendo em minha penteadeira. – Ei, eu consegui pegar! – ele pegou um porta-retrato entre os dedos indicadores, andando lentamente até a cama antes que ele caísse no colchão. – E eu derrubei.
— Sério mesmo? – grunhi, andando em direção à cama, o que fez com que se virasse para me encarar. – Vocês poderiam não mexer nas minhas coisas? – peguei o pequeno quadrinho, voltando-o no lugar de origem. – É realmente rude.
— Nós viemos porque você esqueceu isso aqui. – apontou em direção à caixinha branca que repousava em uma das prateleiras. – O que é isso, afinal?
— Nada que realmente importe, já que vocês vão sair daqui. – sorri, irônica, apontando para a porta.
— Agora eu quero saber o que tem nessa caixa, você instigou minha curiosidade. – fez um biquinho, o que teria sido adorável se eu não estivesse zangada.
Agora. – disse séria.
— Sim, senhora. – o loiro desapareceu no ar.
— Não precisa pedir duas vezes. – seguiu o outro, deixando somente no quarto.
— O que você ainda está fazendo aqui?
— Rude. – ele deu uma risadinha antes de sumir no ar.
Balancei a cabeça negativamente, passando a mão por meu rosto enquanto puxava as malas para o outro canto do quarto. Me joguei na cama fofa e fechei meus olhos, rezando para que tudo aquilo fosse uma alucinação de uma mente cansada.

Capítulo Dois - Músicas Sobre Você

“Eu não quero escrever músicas sobre você; mas você aparece em tudo o que eu faço.”
Song About You, Mike Posner


Minha noite de sono havia sido conturbada. Os pesadelos em relação à perda de meus pais me assombravam, e a possibilidade de ter seres não-corpóreos morando no estúdio de minha mãe não me deixavam melhor. Cocei meus olhos mais uma vez, encarando o teto branco de meu quarto. Aquele lugar já não soava como casa havia muito tempo e mesmo assim eu insistia em me torturar um pouquinho mais.
— Porque perder sua inspiração musical não era o suficiente para você, não é?
Indaguei para nenhum lugar em especial, me levantando da cama e me permitindo começar a dar um jeito em minha vida. Prendi meus cachos em um coque bagunçado no topo de minha cabeça, focando na tarefa de começar a arrumar minha cama. Primeiro lençóis, edredons, travesseiros e, por último, os ursinhos de pelúcia que minha mãe insistia em me dar através dos anos.
Encarei as malas e decidi começar a arrumar as peças dentro do closet, uma vez que as antigas peças já haviam sido removidas do espaço havia um tempo. Puxei-as e as coloquei em cima da cama, abrindo-as para retirar as peças e pendurá-las ali.
Após longas horas dividindo cada uma das peças por cor, o trabalho de me habituar a minha nova rotina finalmente havia acabado. As roupas e sapatos já estavam devidamente arrumadas em seus lugares, me permitindo tirar um tempo para tomar um banho antes de encarar a realidade do estúdio.
Peguei a necessaire com meus produtos de higiene, levando-os junto comigo em direção ao banheiro no fim do corredor. Meus passos ecoando contra o piso amadeirado, causando uma pequena sensação de nostalgia quando finalmente cheguei até meu destino. Girei a maçaneta do cômodo, adentrando-o e trancando a porta atrás de mim. Apoiei a necessaire na pia de granito, aos poucos tirando os objetos de dentro dela e os ordenando em seus devidos lugares para que eu finalmente pudesse tomar meu banho. Girei o registro, me despindo e permitindo ficar um bom tempo embaixo da água corrente.
Ao finalmente terminar meu banho, parei diante do espelho e me encarei por algum tempo. Meu rosto mais duro comparado ao da adolescente de quinze anos que amava passar um bom tempo de admirando. Ri fraco com o pensamento, penteando meus cabelos e os modelando como costumava fazer anos antes. Amarrei a toalha ao redor de meu corpo e sai do banheiro, redesenhando o caminho em direção ao meu quarto, entrando no cômodo e fechando a porta atrás de mim.
Ei, , eu...
— QUE MERDA? – gritei, pulando devido ao susto da figura no canto oposto de meu quarto, segurando com mais força a toalha em meu corpo. – Deus, não é possível! – peguei a cruz que estava pendurada na parede ao meu lado e estiquei meu braço. – Sai, agora!
— Wow, wow, wow. – ergueu os braços, pulando os móveis em seu caminho para sair de perto da cruz. – Será que você pode parar por um segundo?
— Será que você pode parar de invadir o meu quarto quando eu não estou nele? – indaguei, parando na sua frente com a cruz ainda levantada, tendo somente a cama de casal entre nós. – Sério, qual é o problema de vocês com espaço pessoal? Nós precisamos criar limites aqui.
— Olha, eu precisava falar com você sobre a caixa. – ele sorriu, nervoso, pegando a caixinha branca de cima da prateleira. – Olha que maneiro, eu consigo segurar sem derrubar agora.
— Minha caixa! – soltei a cruz em cima da cama, andando em direção ao fantasma para pegar a caixinha de madeira de suas mãos. – Pare de mexer em coisas que não são suas. – censurei.
— Ah, qual é! – fez uma careta, se jogando na cama. – O que tem dentro dela?
— Minhas coisas, longe do que te desrespeita. – sorri, irônica, colocando a caixa de madeira na prateleira em que ela se encontrava antes. – Agora anda, sai do meu quarto.
— Minha curiosidade não pode ser atiçada dessa forma. – ele se levantou, encarando o objeto. – O que tem na caixa, ?
— Deus! – resmunguei, passando a mão por meu rosto. – É minha caixa de sonhos, tá legal? Eu costumava guardar pensamentos aleatórios e coisas que eu gostaria de tirar de dentro de mim quando mais jovem, hoje em dia é só um amontoado de coisas que me deixam triste. Agora, por favor, sai do meu quarto.
— Eu sinto muito, . – ele sorriu de canto, sumindo em pequenas partículas brilhantes poucos segundos depois.
Balancei minha cabeça negativamente, andando em direção ao closet para escolher algumas peças de roupas que não me fizessem derreter embaixo do sol do verão californiano. Troquei a toalha pelas peças de roupa, parando em frente da penteadeira por mais algum tempo para avaliar meu cabelo. Quando me dei por satisfeita, me arrastei em direção à mesa de cabeceira onde meu celular estava e o puxei, derrubando algumas folhas de papel no meio do processo.
Franzi o cenho, me esticando em direção ao chão para pegar as folhas bagunçadas no chão. Me sentei na cama, arrumando as folhas pautadas para avaliar o que estava escrito nelas. A letra caprichada de minha mãe se destacando nas partituras de uma das últimas músicas que ela havia escrito antes de falecer. Estiquei-as em cima da cama, lendo o pequeno recado que ela havia deixado ao fim de uma das páginas.
, você pode fazer isso, sentimos sua falta. – fechei meus olhos, sentindo-os queimarem com as insistentes lágrimas. – Eu sinto tanto a sua falta, mãe. – encarei o teto, como se isso fosse capaz de fazê-la me escutar. – Eu sinto muito por não estar aqui todo esse tempo.
Voltei a olhar para as partituras em minha frente, sentindo cada pedacinho de mim se despedaçar com cada uma das palavras que formavam aquela música. Engoli em seco, colocando o celular em meu bolso antes de pegar as letras e marchar determinada para fora do quarto, sendo parada por Carlos no meio do caminho.
? Tá tudo bem? – ele me encarou. – Por que você tá chorando?
— Nada. – sorri em sua direção quando ele deu um passo para frente, envolvendo-me em seus braços.
— Eu sei que é difícil, tá? Também perdi eles, você não precisa se fazer de forte para mim. – Carlos acariciou meus cabelos, segurando meus ombros para me encarar. – Obrigado por voltar mesmo assim.
— Irmãos cuidam um do outro. – sorri em sua direção, bagunçando seus cabelos com minha mão livre. – Eu vou para o estúdio, tá? Caso a Flynn apareça, você poderia avisá-la?
— Claro, vai lá. – Carlos deu de ombros, voltando a fazer o seu caminho em direção à sala de estar.
Arrumei as partituras em meus braços, focando-me em apenas não desistir no meio do caminho tortuoso em que estava seguindo. Mordi meu lábio com força, passando pela porta em direção ao estúdio, torcendo internamente para que os inquilinos dele não estivessem ali. Parei diante da porta de madeira e a puxei, encontrando o local totalmente vazio.
— Pessoal? Vocês estão aí? – franzi o cenho, esperando por uma resposta que não chegou. – Ok...
Dei de ombros, encostando a porta do estúdio e andando em direção ao piano ao centro dele. Respirei fundo, sentando-me no banquinho e distribuindo cuidadosamente as partituras de modo em que eu pudesse enxergá-las ao tocar. Fechei meus olhos, levantando a tampa que protegia as teclas, tomando coragem para fazer algo que, em dois anos, não havia me permitido fazer. Comecei a tocar as notas nas teclas, sentindo meus olhos arderem pelas lágrimas.
Aqui está uma coisa que eu quero que você saiba, você tem um lugar para ir… - comecei a cantar os versos da música, sentindo meu coração explodir em um misto de sensações assim como ele fazia em todas as vezes em que eu me deixava ser envolvida por toda a atmosfera musical em que eu era cercada. – Eu sei que não é a mesma coisa, você tem que viver e eu só quero que você faça isso... – abri meus olhos, encarando as letras em minha frente. – Então se levante e acenda novamente essa faísca, você sabe o resto de cor...
Senti os pelos de meu braço se eriçaram conforme eu me aproximava do refrão, a energia que havia tomado lugar no estúdio uma vez silencioso era quase tão visível como palpável. Senti as lagrimas escorregarem por minhas bochechas, me recusando a deixar que aquilo me afetasse de uma forma que não fosse combustível para que eu continuasse o que estava fazendo.
Acorde, acorde se é tudo o que você faz. – aumentei o tom de minha voz, cantando em plenos pulmões. – Olhe para fora, olhe para dentro de você, não é o que você perde, é o que você ganha erguendo sua voz para a chuva.... – fechei meus olhos, escutando a porta do estúdio se abrir para Flynn, que me encarava cantar com um sorriso em seu rosto enquanto corria em minha direção para se sentar ao meu lado e avaliar a letra. – Então acorde o espírito, eu quero escutá-lo, você não precisa ter medo, você não está sozinho...
Você vai encontrar o seu caminho de volta para casa. – Flynn me acompanhou no último verso, harmonizando sua voz com a minha enquanto nos encarávamos. – A vida não é o que você perdeu, é o que você ganha erguendo sua voz na chuva.
Acorde... – diminui aos poucos a velocidade das notas. – Acorde. – parei de tocar, sendo envolvida pelos braços de Flynn em um abraço apertado enquanto eu me acabava em lágrimas.
, isso foi lindo. – ela deitou sua cabeça em meu ombro. – Droga, eu acho que vou chorar. – riu fraco, se afastando de mim. – Eu senti ¬tanta falta de te ver assim e te ouvir cantando, eu estou tão orgulhosa.
— Todos os créditos vão para a minha mãe. – sorri de canto, encarando as partituras. – Ela quem fez essa, encontrei no meu quarto hoje.
— Rose era realmente uma compositora incrível, não é? – Flynn encarou as folhas. – Será que isso significa que você vai poder finalmente voltar a cantar? Quero dizer, você conseguiu fazer isso. – Flynn gesticulou para o ar. – Você deu luz ao estúdio com a sua voz, assim como você sempre faz.
— Eu ainda não sei, existe um grande abismo entre conseguir tocar algo da minha mãe e algo meu.
— Só o fato de você conseguir sentar aqui e tocar é um passo bem grande. – ela sorriu. – O que acha de assistirmos Grease com Carlos? Quem sabe assim você não se sente inspirada pela Sandy.
— Você realmente sabe como me convencer, não é? – balancei minha cabeça negativamente, me levantando de cima do banquinho para ser empurrada por Flynn pelo estúdio. – Mas eu acho que estou mais na vibe de Mamma Mia.
Mamma mia, lá vamos nós de novo!
Meu Deus, COMO EU PODERIA RESISTIR? ¬– me joguei contra Flynn, que me abraçou e segurou minha mão, soltando uma gargalhada enquanto pulávamos em direção à casa.
— Vocês realmente estão cantando Abba? – Carlos nos encarou, dando uma colherada no cereal em sua tigela.
Sim, eu estive de coração partido! – coloquei minhas mãos em meu peito, passando o microfone invisível em sua direção para que ele continuasse o trecho.
— Eu odeio vocês. – ele balançou a cabeça negativamente, deixando a tigela de lado para pegar o microfone invisível. – Desde o dia que você partiu. – ele cantou desafinado, pegando a minha mão e a de Flynn para que girássemos.
Meu Deus, como eu pude te deixar ir?
Flynn nos puxou em direção à sala, colocando pegando seu celular e digitando algo na tela poucos segundos antes de Abba explodir pelas caixas de som ao redor da sala, fazendo com que nós dançássemos pela sala da estar por longos minutos antes de nos jogarmos no sofá, completamente ofegantes e cansados.
— Lembra de como costumávamos fazer isso quando crianças? – Flynn me encarou com um sorriso. – Enquanto Carlos tinha toda aquela pira com fantasmas e dizia que iria se tornar um caça fantasmas. – sorri, nervosa com a menção de fantasmas.
— É, eu me lembro disso. – ri fraco, balançando a cabeça negativamente. – Isso tudo depois de assistir Os Caça Fantasmas.
— Eu fiquei com a música na minha cabeça por SEMANAS. – ele reiterou.
QUEM VOCÊ VAI CHAMAR? – Flynn me encarou, esperando pela resposta de Carlos, que veio em uníssono com outras três vozes.
OS CAÇA-FANTASMAS!¬– , e apareceram no sofá no lado oposto da sala.
— Eu amava esse filme! – sorriu. – Hey, , você acha que podemos assistir ele hoje?
— Cala a boca. – soltei um riso nervoso.
— O quê? – Flynn indagou, me encarando.
— Eu tive a impressão de escutar o Carlos falar algo, desculpa. – dei a minha melhor desculpa, sendo respondida com um dar de ombros.
— Ei, por que não nos disse que sabia cantar e tocar? – chamou minha atenção, respirei fundo antes de me levantar do sofá e encarar as duas únicas pessoas vivas, além de mim, presentes no cômodo.
— Vocês podem colocar o filme? Eu cuido da comida.
— Eu mataria por uma pizza. – encarou a própria barriga, sua expressão se igualando a de um filhotinho que havia caído da mudança. – Eu odeio estar morto.
— Tudo bem por mim. – Flynn sorriu, pegando o controle da TV. – Pipoca e doces? – encarou Carlos, que balançou a cabeça positivamente.
— Ótimo.
Sorri, nervosa, ajeitando meu celular em meu bolso antes de dar uma encarada nos três garotos em meu sofá, em uma súplica clara e silenciosa para que eles me acompanhassem até o cômodo. O que não foi difícil, considerando a habilidade que eles tinham de poder simplesmente aparecer no lugar que bem entendessem. Mesmo de forma indesejada.
— Vocês não podem simplesmente aparecer do nada quando tem pessoas ao redor, é estranho. – parei contra a bancada, puxando a pipoqueira de dentro do armário. – Sério, o que outras pessoas pensariam se três moleques simplesmente aparecessem magicamente no meio da sala delas?
— Que isso é demais? Eu acharia maneiríssimo. – sorriu, balançando os pés no ar e atravessando pela parede.
— Você poderia parar de chutar as minhas panelas, por favor? – encarei sua perna, o que fez com que ele parasse de mexê-la. – Obrigada. – sorri, procurando pelas pipocas para colocá-las no recipiente. – Vocês têm que parar com isso, é sério.
— Você não nos dá atenção, é muito triste termos que andar pelas ruas quando ninguém nos enxerga e você, a única pessoa que consegue fazer isso, apenas finge que a gente não existe. – fez uma carinha triste.
— Não liga para eles. – rolou os olhos. – Eles são inconvenientes assim mesmo.
— Disse o que também participou do diálogo. – coloquei as pipocas dentro da pipoqueira, procurando por recipientes onde pudesse colocá-las.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. – levantou sua sobrancelha. – Por que não disse que cantava?
— Porque tem um tempo desde que fiz isso e eu já não queria manter esperanças em algo que poderia não acontecer mais. – dei de ombros. – Além disso, não é como se fizesse diferença na vida de vocês. – fiz uma careta. – Desculpe, falta de hábito em falar com pessoas que já não estão nesse plano.
— Não ofendeu. – balançou a mão.
— Bom, você tem um talento em tanto e não deveria desperdiçar isso. – se aproximou. – Você deveria ouvir os conselhos do morto, isso meio que nos faz os seus guias espirituais e tal.
— Guias espirituais musicais. – corrigiu, levantando o dedo em riste.
— Sim, vocês serão meus anjos protetores e vão subir nos palcos comigo. – coloquei o recipiente embaixo da saída da pipoca, observando-as cair dentro dele.
— Ela está sendo irônica, né? – olhou em direção à .
— Você tem sorte de ser um ótimo baixista. – o encarou, balançando a cabeça. – Eu vi algumas de suas composições, você é realmente muito boa, não deveria desperdiçar seu talento assim.
— Você fez o quê? – repeti, arqueando uma de suas sobrancelhas.
— Hora de sumir, boa sorte, . – puxou , sumindo no ar.
— Eu talvez tenha mexido na sua caixinha. – ele me deu o seu melhor sorriso, me deixando distraída por alguns segundos antes de eu me lembrar o que ele havia feito.
— Você mexeu nas minhas coisas? - pontuei pausadamente.
— Você atiçou a minha curiosidade e eu não consigo deixar isso de lado, tá legal?
, vai demorar? – Flynn me chamou.
— Não, eu já estou indo. – gritei – Você tem muita sorte de eu estar com outras pessoas, porque do contrário, eu estaria realizando um exorcismo agora. – apontei em sua direção, pegando alguns doces na dispensa e colocando-os em outro recipiente antes de desligar a pipoqueira e pegar as comidas. – Aliás, ?
— Sim?
— Chama o , vou pedir para colocarem Os Caça-Fantasmas. – rolei os olhos. – E, pela última vez, fica longe do meu quarto.
— Ok. – sorriu em minha direção, desaparecendo em um poof.
Peguei as diversas bandejas e as equilibrei entre meus braços com certa dificuldade, me esforçando para não deixar que elas caíssem no meio do processo entre chegar até a sala onde Carlos e Flynn discutiam de forma acalorada sobre qual filme iriam escolher para assistirmos. Distribui as bandejas na mesa de centro, encarando Flynn quando ela chamou minha atenção.
— Ok, qual é o filme que vamos assistir? Carlos disse que quer ver Os Caça Fantasmas e eu quero ver Grease, você desempata. Não me decepcione. – Flynn sorriu.
— Me desculpa, Flynn, eu definitivamente vou em Os Caça Fantasmas. – soltei um risinho divertido, me sentando ao lado de Flynn.
— Eu te odeio, vou acabar com a nossa amizade aqui. – ela reclamou, me fazendo rolar os olhos quando a cutuquei com meu cotovelo.
Carlos colocou o filme e não tardou muito para que os meninos se materializassem no sofá no lado oposto da sala, brincando e rindo enquanto a cena da biblioteca passava no tela de televisão. ria, cantando a música de introdução enquanto me encarava, sorrindo de canto em minha direção antes de voltar sua atenção para o filme.



Continua...



Nota do autor: Bom, eu não tenho palavras para descrever o retorno que vocês me deram com ASAY desde que ela foi postada, então eu vou apenas deixar um agradecimento a todos os envolvidos, principalmente a Lala, que foi apoiadora número um dessa história. A CULPA É TODINHA DELA!!!!
No mais, eu tenho que dizer que estou amando escrever as interações dos meninos com a pp e entrar na cabeça dela sempre que abro os capítulos. É incrivel. HAHAHA
Agora ASAY tem uma PLAYLIST NO SPOTIFY, assim vocês podem aproveitar um pouco da vibe dos personagens também. O link ficará disponível aqui embaixo!
Até a próxima, pessoal!





Outras Fanfics:

The Heir (Longfic - Em Andamento)
The Roadie(Longfic - Em Andamento)



Nota da beta: Olha, eu fico MUITO feliz em assumir essa culpa! Hahahahaa Nunca vou esquecer de falar com você aleatoriamente no twitter, depois te encontrar no grupo do VIP e simplesmente SURTAR sabendo que você escreveria uma história para essa série INCRÍVEL! Você é demais e sempre vou ser a maior apoiadora dessa fic, porque EU NÃO TENHO CONDIÇÕES PARA ELA, durmo e acordo pensando em receber capítulos novos, então me alimente! HAHAHAHAAH Esse capítulo me deixou feliz demais, porque sou LOUCA por Mamma Mia, então já amei a cantoria. Li a cena dela cantando Wake Up com a empolgação da série, cantando na cabeça, juro hahaha Como amo essa música, esse início já está me matando e estou ansiosa por QUALQUER interação nova entre eles. MANDA MAISSSSSS <3

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