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Última atualização: 29/07/2017




Prólogo


Para aqueles que viam de fora, ela poderia ser considerada uma garota de sorte. Com um histórico escolar repleto de boas notas e elogios vindos de todos os professores, era claro que ela seria a escolhida para ser a oradora da formatura do terceiro ano. Além de ser da comissão de formatura, capitã do time de vôlei e ter como namorado o melhor jogador de futebol da escola, ela ainda havia ganhado um prêmio por ser a aluna que mais havia se destacado, nos últimos três anos, na escola.
Mas não era só isso que tornavam uma garota sortuda. Ao ver seu nome da lista de aprovados no curso de Direito, na melhor universidade da América Latina, a Universidade de São Paulo, ela não poderia ser chamada de outra coisa que não fosse cheia de sorte.
Sorte era o que as pessoas de fora chamavam todo o esforço e dedicação que tivera em todos os seus anos na escola, especialmente nos últimos três. Todas as noites de sábado que ela havia ficado em casa para estudar, em vez de sair para beber junto com os outros de sua idade, todas as vezes que ela se negara a beber um pouquinho mais para não correr o risco de ficar com dor de cabeça no dia seguinte, todas as noites que ela havia ido dormir cedo, todas as vezes que ela havia dito não para garotos que ela nem conhecia, mas sabia que não seriam o cara perfeito que ela precisava do seu lado, lhe apoiando e lhe dando força.
Mas ela não se importava. Que dissessem o que quisessem dizer. Ela estava dentro de uma das melhores faculdades do mundo, enquanto a maioria dos seus amigos estava fora. Melhor do que isso, ela estava se mudando para São Paulo com sua melhor amiga, e seu namorado, que passaria a morar a poucos quilômetros dela, para estudar odontologia e seguir o caminho dos pais. Ele poderia visita-la sempre que quisessem matar a saudade.
Tudo estava correndo como planejado: suas ações, perfeitamente controladas e previstas, foram as responsáveis por lhe fazer seus sonhos se realizarem. Agora, nada poderia dar errado.




Capítulo 1



Estava sentada na mesma posição há tanto tempo, que já nem sentia mais minhas pernas. Sabia que o filme que havia começado a assistir já tinha acabado, assim como o que começou depois dele. Não que estivesse realmente prestando atenção. Na verdade nem sabia do que se tratava.
Aparentemente, nem mesmo Liam Neeson, em uma cena de ação totalmente coreografada, conseguia fazer meu cérebro parar de repassar de novo, e de novo, na conversa que tivera com Chris há um mês. Trinta e dois dias, para ser mais específica.
- Eu não quero mais, .
- Não quer o quê? – perguntei distraída, olhando para o bar esperando meu suco chegar.
- Não quero mais namorar. – ele disse direto. E aquilo foi mais que o suficiente para chamar minha atenção.
Com calma, entrelacei as mãos em cima da mesa e perguntei, no tom mais controlado que pude:
- O quê?
- Não quero que pense que estou apaixonado por outra, porque eu não estou! – ele disse. E então colocou sua mão por cima das minhas. – Mas acredito que já não somos mais como antes.
- É claro que não somos mais como antes, Chris! Moramos em cidades diferentes, estudamos em faculdades diferentes e temos rotinas completamente diferentes da que tínhamos no colegial!
Talvez meu tom de voz já não estivesse mais tão controlado. As pessoas ao redor começaram a olhar. Então respirei fundo, tomei todo o suco de laranja que havia sido colocado na minha frente – sem que percebesse – e, com o orgulho tomando cada parte do meu corpo, disse:
- Você tem certeza disso? Porque não você não vai poder voltar atrás, Christian. Não vou ficar como uma boba cheia de esperança esperando que o namorado mude de ideia...
Aquela onda de coragem impulsionada pelo orgulho definitivamente não estava esperando pela resposta que veio a seguir.
- Eu já me decidi. Eu quero terminar.

Foi , minha colega de apartamento, e melhor amiga a vida toda, que me fez voltar à realidade.
- Fala sério que você ainda está aí nesse estado deplorável!
Olhei volta pra entender do que ela estava falando. Quer dizer, talvez ainda estivesse usando pijama, mesmo que já passasse das quatro da tarde, e tivesse algumas embalagens de salgadinhos em volta do sofá. E em cima da mesa de centro. E no chão talvez tivesse uma panela com vestígios do brigadeiro que havia feito de manhã, mas isso não significava que estava numa situação deplorável.
- Eu já ia arrumar tudo, se é o que está insinuando.
- , por Deus! Por mais quanto tempo você vai ficar assim?
- Não sei do que está falando.
- Você passou as férias todas aqui, nem voltou pra sua cidade.
- É, mas você também não voltou! – há, por essa ela não esperava, não é?
- Fiquei só porque trabalho, e ainda assim consegui uma semana de férias para visitar meus pais, diferente de você que preferiu ficar jogada no sofá as férias todas em vez de visitar sua mãe.
Não disse nada, porque sabia que não tinha como argumentar com ela. Afinal, eu já havia tentado várias vezes no último mês.
- Isso é ridículo, ! Você não deve ficar lamentando o fim de um namoro, principalmente quando o ex-namorado em questão for Chris.
- Você nunca gostou dele...
- Não mesmo. E olha só, mais um motivo pra provar que eu estava certa.
- Eu só... Não entendo como as coisas chegaram a esse ponto. Quer dizer, as coisas entre a gente estavam bem. Pelo menos tão bem quanto um namoro de três anos pode estar.
havia sentado do meu lado, depois de jogar as embalagens de salgadinhos no chão, com cara de nojo. Eu estava mesmo precisando limpar aquilo tudo.
- Sabe o que é o pior? – perguntei. – Foi descobrir que ele estava me traindo! Mas pior do que isso, é que eu não poder culpar a menina, afinal, ela não tem culpa de Chris ser um idiota que trai a namorada.
ia dizer alguma coisa, mas a interrompi. Pela primeira vez nesses dias todos, percebi o que estava realmente me incomodando, e não era só o fato dele ter terminado assim, do nada.
- Sabe o que é AINDA pior nessa história toda? Foi ele ter terminado comigo. Quer dizer, não fui eu que saí por aí enfiando minha língua na boca de outras garotas. Não, não. Eu sempre fui uma boa namorada, ótima namorada, na verdade. Argh! Se eu tivesse descoberto antes, eu mesma teria terminado esse namoro.
me olhou de um jeito estranho, mas entendi o que seus olhos queriam dizer. Ela não acreditava em mim. Segundo ela, em nossas várias conversas desde o término – e até mesmo antes dele, quando as coisas estavam “aparentemente” bem – eu vivia numa bolha mágica com Chris. E provavelmente não teria terminado nada. Teríamos brigado, é claro. Talvez eu tivesse feito uma cena, e depois tudo teria ficado bem.
Maldito Christian.
- Ok, fico feliz em ver você reclamar de verdade. Quer dizer, eu estava respeitando o seu momento de “fossa-pós-Chris”, mas se você não começasse a reclamar das atitudes babacas dele, eu mesma iria começar.
- Mas você sempre reclamou das atitudes babacas dele.
- E você admitir que ele fosse um idiota com atitudes ainda mais idiotas já é um começo.
Suspirei. Ela estava certa. Passei um mês lamentado o término do namoro, me perguntando onde estava o problema, quando na verdade, acho que o problema era ele mesmo.
- Quer conversar?
- Nós já não conversamos? Tipo, umas trinta vezes? – ri.
- Talvez. Mas vou dizer uma coisa que já disse mais de cem vezes, e vou continuar dizendo até que entre nessa sua cabecinha dura: você não pode controlar tudo. Não pode planejar uma situação inteira, tentando prever a reação do outro. Não tinha como você adivinhar que Chris ficava com outra menina, nem tinha como você prever que ele iria terminar.
Suspirei de novo, porque, de novo, não tinha nada a dizer que já não tivesse dito. E talvez, só talvez, estivesse certa.
- E se quer saber, acho ótimo que vocês tenham terminado. Pelo menos agora você vai poder viver a sua vida aqui em São Paulo, sem se preocupar com ninguém mais além de você mesma.
- É, pode ser...
- Até porque, você era feliz antes de ter um namorado. Agora que terminou, e está na faculdade, vai poder ser ainda mais feliz. Não tem porque ficar sofrendo agora, especialmente porque foi ele que terminou, ou seja, quem está perdendo aqui, meu bem, é ele. Definitivamente ele.
- Você tem razão.
- E quando é que eu não tenho?
Nós rimos, ela relaxada, eu cansada.
- Que bom que concordamos. Agora vá tomar um banho, que vamos sair pra beber essa noite, como pessoas normais da nossa idade fazem.
- Não podemos sair pra beber. As aulas começam amanhã.
- , pelo amor deus, ninguém vai na aula no primeiro dia. – disse com a testa franzida. – Na verdade ninguém vai pra aula na primeira semana, pelo menos não se você for uma veterana.
- Bem, eu não vou perder o primeiro dia.
rolou os olhos antes de responder.
- Ok, mas também vai sair pra beber hoje. – e antes que pudesse argumentar, ela continuou. – E isso não foi uma pergunta.

Não foi difícil decidir nosso destino. Os vários barzinhos que eram cheios de estudantes, durante o período letivo, estavam praticamente vazios, à espera dos alunos que ainda não haviam voltado das férias. Escolhemos então o mais movimentado que, segundo , era o melhor e o mais frequentado pelos universitários.
- Você sabe que se quiser começar a ir nas festas da faculdade, o que eu aprovo, eu posso te fazer companhia. Algumas são muito boas, todas open bar.
Entramos no bar, encontrando um ambiente de excitação contida pelo retorno das aulas. O tom era de reencontro, cheio de abraços e comentários do tipo “o que você está fazendo aqui? As aulas de verdade só começam semana que vem!” Aparentemente, todos os alunos que haviam voltado para a primeira semana de aulas estava naquele bar naquela noite.
- E quer saber, se quiser ir às festas do Direito, eu me voluntario pra ir com você. Sabe como é, pra você não chegar sozinha e tal. E pra ter a chance de ver uns gatinhos usando terno. – continuou enquanto caminhávamos para uma mesa perto da janela.
- Garotos de terno são realmente sexy, mas lamento desapontar, os garotos não vão de terno para as festas da faculdade.
- Sério?
- Sério.
- Isso é mesmo uma pena. – fez bico. - Mas a oferta continua de pé.
Ri da naturalidade com que ela falava, e agradeci pela oferta. Se quisesse colocar em prática a nova , a que não fica sofrendo pelo ex-namorado idiota, com certeza iria usar de seu “voluntariado” para me acompanhar a lugares que não costumava frequentar. Como as festas do meu próprio curso, por exemplo
- Aquela menina ali não é da sua sala?
Virei a cabeça pra olhar onde apontava. Em uma mesa de seis pessoas, Iris era a única que conhecia.
-É sim, mas não conheço as outras pessoas.
- Quer ir lá cumprimenta-la?
- Não, vou me sentar pra segurar a mesa pra gente. E já que fui obrigada a vir até aqui, vou pedir algo pra beber.
- Esse é o espírito! – disse animada, sem perceber a tentativa de sarcasmo. – Peça o mesmo para mim. Eu já volto.
E então ela saiu para cumprimentar metade das pessoas que estavam no bar, como ela sempre fazia, em qualquer lugar em que ia.
Mal puxei a cadeira, e o garçom deixou o cardápio em cima da mesa. Olhei para cima enquanto ele se afastava. Ele era bonitinho. Fala sério, como nunca tinha reparado nele antes? Não que eu fosse com frequência àquele bar. Ou a qualquer outro bar. Esse seria um ponto a ser mudado aquele ano.
Pedi duas caipirinhas, uma delas com hortelã, para . Enquanto esperava o pedido chegar, novamente me peguei pensando em Chris. Por mais que me irritasse não conseguir tira-lo da cabeça, não podia evitar. No mínimo ridículo o fato dele ter terminado daquele jeito, especialmente depois de descobrir que ele não era o mais santo dos namorados.
Há duas semanas, depois de já ter chorado tudo que tinha direito, e começava a me recuperar, me convidou a ir a uma padaria ali perto de casa, para tomarmos café. Na verdade ela literalmente me arrastou, de pijama e tudo. Fui abordada por uma garota, dizendo me conhecer de algum lugar. Eu tinha certeza de que não a conhecia de lugar nenhum. E então ela se lembrou que me conheceu por uma foto de Chris. Antes de dizer que havíamos terminado, ela começou a contar sobre como o conheceu numa festa, muito triste por ter “terminado com a namorada”. Essa festa tinha acontecido ano passado, na nossa cidade, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Não precisei perguntar pra entender que eles tinham ficado. Não queria saber o que mais tinham feito. Mas sabia que, se ele tinha feito essa jogada barata uma vez, ele poderia ter feito muitas mais. Fala sério! Fingir que está sofrendo com um término pra ficar com outra. Maldito. E como disse pra , não podia culpar a menina, que acabei nem sabendo o nome. O único traidor ali era ele.
Depois disso, fiquei com vontade de falar alguma coisa. Ou muitas coisas. Pra ele, na cara dele. Só não sabia o quê, ou como.
E foi nesse momento que o vi. Ele estava sentado, com a cabeça abaixada, mexendo no celular. Os braços fortes apoiados na mesa, me faziam perguntar se ele era da Educação Física. A camisa social com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas na altura dos cotovelos, me mostravam que não, ele não era da Educação Física.
Os cabelos escuros estavam jogados para todos os lados. Ainda não tinha visto seu rosto, mas então ele levantou a cabeça, e não consegui olhar para outro lugar.
Os olhos verdes podiam ser vistos mesmo à distância e com a luz baixa. Os lábios grossos, o queixo quadrado, a barba por fazer... E o que seria a minha perdição, o sorriso ao cumprimentar o colega que passou. E naquele momento eu quis ser aquele colega.
Ainda o olhava – como poderia não olhar? – quando seus olhos chegaram à mim. Ele viu que estava vidrada, pateticamente, nele. Qualquer pessoa com olhos naquele bar veria.
Ele sorriu de lado e levantou uma sobrancelha. Entendi aquilo como um desafio a desviar o olhar, o que eu teria feito se ainda tivesse algum controle no corpo, coisa que não tinha naquele momento.
Ele apoiou as duas mãos em cima da mesa e fez menção de se levantar. Não descobri o que ele faria em seguida, ou para onde iria, já que chegou, sentando-se na minha frente, e cobrindo qualquer visão que pudesse ter do carinha na outra mesa.
- Está tudo bem?
Eu não saberia responder, então tomei um gole da minha bebida que havia sido colocada ali sem que notasse.
- Você está meio vermelha. Está passando mal?
- Não, estou bem. Com calor, talvez.
Tentei olhar pra trás de , mas ele não estava exatamente no meu campo de visão, especialmente agora que mais gente tinha chegado à mesa.
olhou pra trás, seguindo meu olhar.
- Uau, menina! Que gato!
- O quê? – me engasguei.
- Devo dizer, depois de Chris, você não poderia ter escolhido melhor. – ela disse com a própria bebida nas mãos.
- Do que você está falando?
se aproximou mais, curvando o corpo sobre a mesa.
- Do carinha sentado ali naquela mesa. O de olhos verdes, não é? – e então dando uma piscadinha, ela continuou. – Excelente escolha. Esse tem o selo de qualidade.
- Para de falar besteira, menina, eu não estou escolhendo nada.
- , você é uma péssima mentirosa. Não sei nem como quer ser advogada.
- Eu não sou. – disse de pressa. - E eu não preciso ser mentirosa pra ser advogada. – completei.
- É sim, seu corpo te entrega. – ela riu divertida. – Agora entendo as bochechas coradas, eu também ficaria toda vermelha no seu lugar.
- Para de falar bobagens.
Quando olhei para trás de de novo, ele estava olhando para frente. Voltei minha atenção para minha bebida.
- O que foi? Ele está olhando pra você? – ela perguntou interessada.
- O quê? Não. Quer dizer, não sei...
Mal terminei de falar e já estava com o corpo virado.
- É, ele está olhando pra você.
- Menina, pelo amor de Deus, para de dar na cara! – disse puxando seu braço. Ela poderia ser menos discreta?
- Minha filha, mais óbvia que essa sua cara vermelha só uma placa escrito “oi, gato, vem falar comigo”.
Mesmo tensa, ri daquilo.
- Fala sério! – ainda rindo.
- Fala sério você. Por que não vai falar com ele?
Arrisquei mais uma olhada.
- Ele está falando com um monte de gente.
Como se eu fosse falar com ele, caso ele estivesse sozinho. Aham, com certeza.
- Eu entendo, amiga. O famoso medo da rejeição em público. Eu entendo mesmo. Sorte eu já ter superado esse medo. – ela disse bebericando sua caipirinha. – Ah, ... Você ainda tem tanta coisa a aprender sobre a arte da paquera...
Ri de novo, dessa vez mais alto. Só ela mesmo pra falar essas coisas.
No final da noite, depois de algumas bebidas e um shot de tequila, por insistência da minha maravilhosa amiga, já não me importava realmente em olhar para o Adônis ali na outra mesa. Adônis era o nome que havíamos decidido dar a ele, pelo menos enquanto não descobríssemos o verdadeiro. Com uma beleza daquela, não foi tão difícil escolher como chamá-lo.
Quando já estávamos no caixa pagando a conta para ir embora, um garoto passou por nós me cumprimentando. Quando perguntou quem era ele, pensei um pouco antes de responder:
- Não sei... Acho que ele é da minha sala. Mas nunca conversamos. Na verdade nem sei o nome dele.
- Bem, você está solteira agora, e o seu facebook cuidou de estampar a notícia para todo mundo.
Olhei envolta procurando o Adônis. Onde ele estava?
- Ele foi embora enquanto você estava de costas, cumprimentando o cara da sua sala que você não sabe o nome.
Acho que não percebi que tinha perguntando em voz alta.
- Sério?
- Sério.
Fiz um bico involuntário. riu me abraçando enquanto saíamos do bar.
- Definitivamente, essa mais relaxada é uma das suas melhores versões.

Ao me jogar na cama, agora morta de sono, lembrei porque costumava não beber. Eu era, simplesmente, a pessoa mais fraca do mundo.
Já deitada, me esforçava para tirar o jeans, os calçados e a blusa, sem que precisasse me dar ao trabalho de levantar. Não que estivesse tendo muito sucesso.
Quando estava quase pegando no sono, tive uma ideia. Uma ideia brilhante, diga-se de passagem. Soube exatamente como responder a Chris. Soube o que dizer a ele, aquilo que queria dizer quando ele terminara, e quando fiquei sabendo da menina da padaria.
Tão simples. Tão fácil. Não sei por que não tive essa ideia antes.




Capítulo 2



Deveria ter acordado com o despertador. Ou com os outros três que deveriam tocar depois do primeiro. Sabe como é, só como garantia de que não perderia a hora caso não acordasse da primeira vez. Mas não foi assim que acordei.
No lugar de uma das melodias padrões que já vinham no celular, acordei com um toque alto demais para quem ainda está dormindo. Ainda com a luz apagada, e com a cabeça meio zonza, abri a pasta de mensagens.
Quem ainda manda mensagens?
Era de Chris. Chris, meu ex-namorado canalha.
Pensei o que ele poderia querer comigo, afinal, por que ele entraria em contato depois de um mês? A não ser que tivesse mandado por engano, o que não me surpreenderia.
Então me lembrei da noite passada. Mais especificamente quando já estava deitada, pronta para dormir – que é o que eu deveria ter feito.
- Bom dia, flor do dia. – apareceu na porta do meu quarto vestindo roupa de ginástica. Provavelmente estava voltando de sua corrida matinal. – Você está bem?
- Acho que fiz uma coisa ruim. – gemi.
olhou para o celular na minha mão e correu para sentar do meu lado.
- Nada de bom acontece quando uma pessoa que bebeu na noite passada acorda com o celular na mão. – ela fala. – O que você fez, ?
- Mandei uma mensagem para o Chris. – falei baixinho.
- O QUÊ?
- Eu sei! Mas ontem pareceu uma boa ideia.
- É claro que pareceu uma boa ideia, você estava bêbada! O que você mandou?
- Não lembro exatamente... Acho que algo sobre o término... Agora ele respondeu e ainda não tive coragem de ler a resposta. – disse.
Não queria ler o que ele mandou, porque não tinha coragem de ver o que eu tinha escrito. Na minha cabeça, era algo como “por que você me deixou, volta pra mim”.
- Ai, ! Deixa eu ver, e dependendo do estrago, decido se passo para você ou não.
- Ok... – disse lhe entregando o celular.
Nos segundos que leu as mensagens, não olhei pra ela. Não queria ver a vergonha alheia estampada na sua cara. E então, contrariando tudo o que eu esperava, minha amiga começou a rir.
- Nós temos que sair pra beber mais vezes! – ela disse, ainda rindo.
- Por quê?
virou o celular para mim. Na tela, a mensagem que mandei na note passada.

“Olá, Chris. Agora entendo que você estava certo. Terminar foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com a gente, especialmente para mim. Sou boa de mais para ficar com um cara idiota como você que não vê problema em trair a namorada. Obrigada por ter me poupado o trabalho. Finalmente percebi que o problema sempre foi você.”


- Adorei a atitude, girl power!
Ok... Então não tinha sido tão ruim quanto pensava.
- Qual foi a resposta dele?
Com uma careta, leu a mensagem.
- Disse que não queria que as coisas terminassem assim, blá, blá, blá... Nem que você descobrisse esse deslize da sua vida, blá, blá, blá... Ele não se orgulha disso... E espera que isso não atrapalhe o fato de vocês ainda serem amigos.
- Não somos amigos.
- Eu sei, ele é um idiota. Calma, tem mais. – e então continuou a ler. – Blá, blá, blá... Ele te chama para tomar um café qualquer dia desses.
- Fala sério!
- Eu sei! Ainda bem que você não está mais com ele.
Com a cabeça, concordei.
- Quer que eu apague a mensagem?
- Não, eu mesma posso fazer isso.
- Tem certeza?
- Sim. – eu precisava disso, deletar Chris da minha vida. E esse gesto simbólico, era o que eu precisava para colocar um ponto final na nossa história.
- Ok, vou tomar banho. – ela disse, se levantando.
- Pensei que não fosse para faculdade. – disse quando ela já saía.
- Eu vou para faculdade. Não vou para a aula, é diferente. – vendo a confusão no meu rosto, ela explicou – Hoje é o primeiro dia de aula, depois da Recepção aos Calouros, não posso perder isso. – piscou divertida e saiu.
Ainda sentada na cama, apaguei as mensagens. Mais do que isso, apaguei o seu número da minha lista de contatos. Apesar dos pesares, estava orgulhosa de mim mesma. Minha eu bêbada descobriu, antes da eu sóbria, que aquele relacionamento ter terminado, foi a melhor coisa que podia ter acontecido. De verdade. Porque, por mais que não quisesse admitir antes, meu namoro com Chris não era mais o mesmo, e não só pela distância.
Agora mais do que nunca sabia que Chris não era mais aquele cara perfeito que costumava beijar atrás da arquibancada do colégio. Também não era aquele cara que gostava de achar que era, durante os três anos de namoro.
Pensar em mim mesma como uma mulher solteira me dava a sensação de liberdade. E poder me expressar, e dizer para Chris – ainda que por mensagem e estando bêbada – aquilo que sentia, me deixava bem. Eu estava bem.

Tradicionalmente, a primeira semana de aula na Universidade de São Paulo é substituída por oficinas, atividades culturais e esportivas, e palestras educacionais, com o fim de recepcionar os novos alunos e integrá-los com os veteranos.
Oficialmente, as aulas começam na segunda semana, mas isso não impede que muitos alunos faltem, afinal, todo mundo sabe que a primeira semana é bem tranquila.
Devido à minha fossa pós termino, não compareci à Semana de Recepção aos Calouros. Não que teria realmente ido, de qualquer forma. Já havia ido uma vez, quando foi a minha vez de ser caloura.
Havia, de fato, vários alunos, mas poucos com um caderno nos braços. Uma vez que a recepção havia sido semana passada, com atividades importantes, que todo bom calouro da USP não gostaria de perder, essa semana, por ser a primeira, oficialmente falando, era a semana que teriam para cabular às aulas e fugir para o bar com os veteranos, a fim de mostrar como calouros também eram legais. Então não era difícil encontrar rodinhas de veteranos e calouros, esses muitas vezes identificados com uma plaquinha, um crachá, uma gravata ou qualquer outro objeto característico do seu curso.
Segui direto para a sala. Ainda na porta, reparei nos meus colegas. Tinha que admitir que havia mais gente do que esperava. Íris, a menina que estava no bar na noite anterior - a qual não quis ir cumprimentar por estar numa mesa com várias outras pessoas que não conhecia – já estava lá. Íris era a pessoa com quem mais conversava na sala. Era a única, na verdade. O que, parando pra pensar agora, era mesmo estranho.
Algumas pessoas passaram por mim pedindo licença, outras me cumprimentaram com um sorriso. Uma delas, inclusive, soltou um “ei, !”. Respondi a todos com educação, percebendo que não sabia o nome daquelas pessoas. Aquelas pessoas que estudam comigo há dois anos. Isso era deprimente. A única resposta aceitável que tinha, era de que realmente costumava viver numa bolha fechada com Chris, inacessível a conhecer novas pessoas – pelo menos sempre foi a teoria de , e agora percebia que fazia sentido.
Outra coisa que precisava ser mudada.
Me aproximo de Iris quando a vejo acenar dos lugares que guardou: as primeiras carteiras das duas fileiras do meio.
- Como foi de férias, ? – ela perguntou enquanto trocávamos um abraço.
- Foram boas. – obviamente que não iria contar que fiquei praticamente um mês inteiro lamentando pelo fim do meu namoro com Chris.
- Vi que você e Chris terminaram. – ela comentou.
- Pois é... – disse. Íris não disse nada, mas continuou me olhando como se esperasse por uma resposta mais elaborada. – Foi melhor assim.
Ela não pareceu satisfeita, mas não insistiu no assunto.
- Espero conseguir um estágio esse ano. – ela disse, mudando o rumo da conversa.
- Nem me fale.
Quando me mudei para São Paulo, pensei que finalmente saberia o que era ser independente, afinal, estaria morando com minha melhor amiga, em um apartamento só nosso, sem precisar dar satisfação aos meus pais, ou prestar contas de onde ia e com o que gastava. Mas a realidade de uma universitária, ainda mais uma que mora sozinha e começa a ter contas a pagar, é bem diferente. Ainda que os pais de e os meus nos ajudassem com as despesas mais pesadas, não me sentia muito adulta quando precisava pedir dinheiro à minha mãe quando queria comprar um vestido novo.
O professor entrou, e nos sentamos.
- Ei, vocês vão sair com a gente hoje? Recebemos vários calouros bonitinhos esse ano...
Ao olhar para trás, reconheci Isabelle. Ela morava no prédio vizinho ao meu, e sempre a via conversando com Iris. Apesar de sentar atrás de nós desde o primeiro ano, nunca havia trocado mais que um “bom dia”, ou “tchau” com ela.
Outro ponto a ser mudado.
- Eu vou! – Iris disse animada. Ela adorava recepcionar os calouros. Tinha um ponto fraco por garotos mais novos, ainda que não admitisse. – Liana também vai.
- Por falar nela, onde sua prima está? – Isabelle perguntou sem desviar os olhos da tela do celular.
- Vai chegar no intervalo pra sair com a gente.
De novo pensei que não via sentido em acordar cedo e ir para a faculdade, só para sair pra beber depois.
- Legal! – e então olhando para mim Isabelle perguntou: - E aí, , como foram as férias?
Quis rolar os olhos, mas não o fiz. Sabia o que ela realmente queria saber. Provavelmente queria que contasse sobre meu término de namoro para poder fazer comentários e dar palpites, além de ter uma fofoca a mais para contar.
- Foram boas. – se dei a mesma resposta que havia dado à Iris? Sim. Se me importava de parecer grosseira? Não.
Isabelle concorda com a cabeça, parecendo acreditar na minha resposta, ou simplesmente não se importando com ela E então disse que as delas também foram muito boas. Ela havia ido viajar com os pais, e tinha voltado semana passada, para a recepção dos calouros. Depois disso voltou a atenção para o celular.
- Sabe, Belle é assim mesmo. Fica no celular o tempo todo, sempre resolvendo algum problema, e agora ela deve estar terminando de organizar a saída de mais tarde. – Iris disse baixinho para mim. – E não se preocupe, ela não se importa com o fim do seu namoro. Pode ter certeza de que ela não vai lhe perguntar, nem insistir em nada que você não se sinta confortável em falar.
Imediatamente senti afeição por Isabelle. Talvez pudéssemos nos aproximar, afinal de contas. Ter mais uma pessoa com quem conversar na sala seria legal. Além disso, fazia parte da minha meta de ser uma nova ter novas amizades.
- Tudo bem, então, já está tudo organizado. – Isabelle disse, voltando sua atenção para nós. – A concentração vai ser no intervalo. Vocês duas vão, então, certo?
Acabei dizendo que não iria. Não queria perder a aula, ainda que fosse uma aula só de apresentação dos professores, sem conteúdo nem nada. Esse lado certinho da minha vida de estudante não sabia se conseguiria mudar um dia.
- Fala sério, !
- Relaxa, nem vamos perder nada, especialmente por ser primeiro dia. – Isabelle disse.
- Vamos fazer assim, se quiserem, podem tirar xerox do meu caderno amanhã, caso os professores passem algo de importante. Ou podem tirar fotos, simplesmente, como acharem melhor.
E então elas não contestaram mais o meu lado nerd, ao ouvirem a palavra mágica.
Eventualmente acabei descobrindo que quando se está numa universidade, um bom caderno para xerox era quase o equivalente a um maço de cigarro na prisão. Talvez um caderno completo, com anotações e comentários, fosse até mais valioso. E eu tinha o poder em mãos.
O barulho da porta se abrindo chamou minha atenção. Na verdade, sendo sincera comigo mesma, não foi a porta se abrindo e fechando que, de fato, me chamou a atenção.
Ao olhar para frente, eu o vi. Dessa vez sem as mangas dobradas, mas com os primeiros botões da camisa abertos, calça social perfeitamente alinhada e os cabelos tão bagunçados quanto na noite passada. Quando ele olhou para mim, senti um arrepio na nuca. Seus olhos estavam ainda mais verdes que ontem, se isso fosse possível.
Desviei o olhar, tentando focar em qualquer coisa que estivesse à minha frente. A coragem da noite passada tinha ido embora junto com o álcool.
- Caramba...!
Não precisei olhar para Iris para saber de onde tinha vindo a exclamação.
- Ele é aluno novo? – ouvi minha voz perguntando. A curiosidade falava mais alto. Foi Isabelle quem respondeu:
- Ele é do quinto ano... Já tive Direito Previdenciário com ele. Está cursando essa matéria de novo, depois de reprovar. – ela falou. Olhei timidamente para trás, enquanto ele chegava ao fundo da sala. Quando ele se sentou, olhei para frente de novo. – Na verdade muitos alunos costumam reprovar com esse professor. Dizem que ele pega pesado nas provas.
Em situações normais, sem dúvidas, eu teria ficado preocupada com o que Isabelle havia dito, e não tiraria os olhos do professor à minha frente e da lousa já quase completamente cheia de informações. Mas eu não estava em uma situação normal, já que a única coisa que tinha em mente, naquele momento, eram os olhos verdes como a água do mar.
Olhei para trás. Como um típico veterano que não se importa muito com o que o professor fala lá na frente, ele havia se sentado na última fileira, no canto mais escuro, bem em baixo de onde tinha uma lâmpada queimada. Sem realmente se importar com o conteúdo da aula, ele olhava para baixo, enquanto mexia no celular.
Isso facilitou para que eu pudesse olhá-lo melhor. De onde estava, tinha uma bela visão do corpo de um metro e oitenta, seus braços apoiados na cadeira da frente, seus olhos verdes iluminados com o brilho da tela do celular... Aquela sala estava ficando mais quente?
Foi quando passei a mão pelo pescoço, a fim de afastar os cabelos e encontrar um pouco de ar fresco, que ele olhou para frente. Não só para frente, mas para mim. Diretamente para mim.
Devo ter demorado alguns segundos para me tocar do que estava acontecendo. Só fui capaz de voltar atenção pra frente quando o vi levantar uma sobrancelha e soltar uma risadinha que não ouvi, mas tinha certeza de que estava ali.
Fala sério. Maldito cara de lindos olhos verdes e linda bunda numa calça social.
- Bom dia. – o professor disse. E foi nesse momento que me ajeitei na cadeira, a fim de não perder uma só palavra dele.
Sr. Enoch foi um juiz famoso no Estado de São Paulo, que passou a dar aulas de direito penal quando o momento da aposentadoria se aproximava. Agora ele trabalhava com consultoria jurídica em um escritório de renome no centro da grane São Paulo, além de dar aula em uma das melhores universidades da América Latina.
Eu tentei, tentei de verdade prestar atenção no conteúdo programático do semestre que o professor havia passado na lousa, mas minha nuca estava quente, como se um par de olhos verdes a estivesse queimando.
Não virei para confirmar minhas suspeitas.

Como todo bom primeiro dia de aula, a turma foi dispensada mais cedo. Lá fora, com Iris e Isabelle, nos juntamos a outros alunos de outras turmas. Foi fácil reconhecer os calouros dos veteranos. As cabeças raspadas, os rostos pintados – daqueles que não foram na Semana de Recepção aos Calouros –as risadas histéricas de excitação por estarem prestes a matar o primeiro dia de aula para sair com os alunos mais velhos...
Isabelle cuidava da logística, como ela mesma gostava de chamar. Como muitos alunos não tinham carro próprio, alguns até mesmo ainda eram menores de idade, ela cuidava para que ninguém ficasse para trás.
Ficar ali fora assistindo àquela tradição universitária já era mais do que fizera ano passado, quando passava boa parte dos meus intervalos na sala de aula, às vezes conversando com Chris, outras lendo um livro qualquer.
- Meninas, vocês estão sabendo da festa que o Direito vai dar no fim de semana? – Isabelle perguntou.
- Sim, eu e Liana vamos. – Iris respondeu.
- Legal. Já estamos vendendo os convites para quem não é aluno, ok? Então se conhecerem alguém que queira ir, é só passar o meu número.
- Você vai, não é, ? – Iris quis saber.
- Com certeza!
A animação podia ser forçada, mas a verdade era que iria nessa festa por ter prometido a mim mesma ser uma nova . Além disso, não deixaria que faltasse a uma festa do meu próprio curso, não quando já o fiz por dois anos, e, mesmo a essa altura do curso de Direito, ainda não sabia o nome de metade da minha turma.
- Assim é que se fala, garota! – Iris comemorou. – Vai ser no bar de sempre, Belle?
- Vai sim. Como é uma festa tradicional, o bar vai fechar pra turma de Direito nesse dia. Então levem suas carteirinhas, ou precisarão pagar pra entrar. – Isabelle explicou. – Além disso, tem também a festa de recepção dos calouros no mês que vem também. Só que os convites só vão começar a ser vendidos semana que vem.
- Assim que começarem a vender, você me fala? Assim já trago o dinheiro pro convite. – disse para Isabelle. Essa eu com certeza sabia que não deixaria eu não ir.
Quase como que por alguma força magnética, o vi novamente. Dessa vez ele estava mais longe, em meio a várias pessoas. Imagino se Isabelle, que parecia conhecer todas as pessoas daquele campus, saberia seu nome. O Adônis, como o apelidou noite passada, está rindo enquanto pintava alguma coisa na testa de um garoto, para logo em seguida tirar foto com ele. Quase consigo ouvir o som de sua risada.
- É isso aí, meninas, já deu minha hora. – disse olhando a hora no celular.
- Tem certeza de que não quer ir com a gente? Vai ser divertido... – Iris disse.
- Acredito em vocês. – falei, mesmo não acreditando, realmente – Mas vou me sentir melhor ficando pra aula, mesmo sabendo que, provavelmente, não haverá nada de importante. – e antes que tivesse que lidar com a insistência delas, completei – Além disso, ficando aqui, vocês não precisarão se preocupar em perder alguma nota importante, pois vou me certificar de copiar tudo que o professor disser, cada palavra, e amanhã empresto o caderno pra vocês como prometi. – disse sorrindo esperta. E como mais cedo, não houve nenhuma outra contestação.
Menos de cinco minutos depois já estava na sala de aula, que, surpreendentemente, ou não, estava ainda mais vazia. Terminando de responder a mensagem da minha mãe, prometendo ligar para ela quando chegasse em casa, o professor começou a aula. Ou pelo menos, o que deveria ser a aula. Depois de uma apresentação formal, e a explicação do que seria estudado naquele semestre, além da reclamação da ausência dos alunos, a turma foi liberada cedo.
Mesmo de longe, as conversas e risadas podiam ser ouvidas. Aparentemente a ideia de fazer uma recepção calorosa e bastante barulhenta não era exclusiva do Direito.
Passando pelas ruas da cidade universitária, me peguei pensando em Chris, e se ele estaria junto de seus amigos veteranos, dando as boas vindas aos alunos novos, numa calorosa recepção, como a turma do Direito estava dando. Se ele também estaria planejando sair para beber com os amigos e com os calouros...
não estava em casa. Segundo a mensagem que tinha mandado, tinha saído para almoçar com as amigas, e depois iriam a algum lugar com a turma nova da arquitetura. Não me importei realmente, gostava de ficar sozinha em casa. A não ser, é claro, pela parte da comida. A qual eu conseguia ser um fracasso, mesmo tentando seguir receita.
Em meio a um grande dilema – Leni’s Restaurante ou Maria Antonieta Bar, qual entregaria o almoço mais rápido? – liguei para minha mãe. Ela atendeu no terceiro toque, com uma grande saudação, como se não nos víssemos há meses. O que, teoricamente, não era mentira, já que havia desperdiçado minha chance de passar um tempo com a minha família, chorando no meu quarto em São Paulo, durante as férias todas.
- Reparei que você apagou as fotos que tinha junto de Chris do seu facebook. – ela disse.
Não sei por que fiquei surpresa. Quer dizer, é claro que o tema da conversa, hora ou outra, chegaria em Chris. Minha mãe sempre achava um meio de falar sobre ele, e não seria diferente agora, ainda que tivéssemos terminado há um mês.
- Pois é... Na verdade já deletei as fotos há um tempo.
- E por que fez isso?
Rolei os olhos pedindo a todas as entidades celestiais existentes para que me dessem paciência naquele momento.
- Mãe, nós terminamos. E é por isso que exclui nossas fotos juntos.
E ainda por cima nem exclui todas, porque tínhamos varias fotos em grupo, e não quis perder essas também.
- Ah, , me entristece tanto ver vocês separados... Vocês eram tão lindos juntos...
Paciência, por favor, eu preciso de paciência.
- Ainda tenho esperanças de que você vão voltar... Tenho mesmo.
- Bem, eu não teria esperanças se fosse você, mãe. Nós terminamos mesmo.
- Você não acha que Chris pode ficar chateado de ver que todas as fotos que você tiraram juntos foram excluídas? – ela perguntou como se não tivesse ouvido o que acabei de falar.
- Na verdade, mãe, Chris não tem que achar nada. E mesmo que ache alguma coisa, não me interessa. – e antes que minha mãe pudesse me interromper, e eu sabia que ela o faria, continuei – Exatamente porque eu e ele não temos mais nada juntos.
Mesmo não vendo seu rosto, eu sabia que a expressão de decepção estava ali. Decepção comigo, por não responder às suas expectativas de que Chris e eu já estaríamos prestes a voltar. Ela nunca gostou do fim do namoro.
- Vocês, jovens de hoje em dia, terminam e voltam como se trocassem de roupa.
Ela não disse, mas eu sabia o que aquilo significava. Ela ainda acreditava que voltaríamos, como se nada tivesse acontecido. Claro que não tinha contado a ela que havia sido traída. E que tinha sido idiota o bastante para só descobrir depois do término – término este, que ele causou.
Dando um fim à conversa, antes que perdesse a paciência, prometi que voltaria para casa assim que possível.
Depois de desligar, já tinha perdido a fome. O celular tocou novamente, dessa vez com outra mensagem. Íris e os calouros ainda estavam no bar, e ela não acreditava que eu não estivesse lá. Quer dizer, não podia mais usar a desculpa de não perder aula, mas podia usar a desculpa de ter tido uma conversa desagradável com a minha mãe.
A verdade era que não me sentia a vontade indo a esses lugares, cheio de gente que não conhecia. Eu não fazia parte daquele mundo. Sair da minha zona de conforto era a pior coisa que poderiam pedir a mim.
Não sou hipócrita a ponto de acreditar que essa atitude poderia ser mantida pra sempre. Até mesmo porque, se queria ser uma diferente esse ano, a mesma da noite passada, decidida e corajosa, e não a de agora, com o celular numa mão e o cardápio do Leni’s Restaurante na outra, uma hora ou outra, eu precisaria sair da minha zona de conforto. Mas essa hora não seria agora.
Meus pensamentos foram interrompidos com chegando em casa, fazendo barulho ao prender a alça da bolsa na maçaneta da porta.
- Ei, por que você está aqui e não está lá no bar bebendo horrores com a sua turma?
Como podia imaginar, minha melhor amiga estava meio bêbada, e, consequentemente, falando engraçado.
- E como é que você sabe que a minha turma saiu pra beber hoje?
- Porque todos os estudantes de São Paulo decidiram, aparentemente, irem para o mesmo bar. – ela disse revirando os olhos. – Inclusive o seu gatinho estava lá.
- Ele não é meu gatinho. – disse no automático. E então emendei imediatamente – Quer dizer, de quem você está falando?
sorriu esperta, e colocando as mãos na cintura, disse:
- Você precisa descobrir o nome dele. E o ano em que está. E a sala. – disse vindo para perto de onde eu estava, ainda sentada no sofá, rindo enquanto ela trombava com a mesa de centro. – E não se preocupe, ele não tem namorada.
- Como você sabe? - perguntei automaticamente de novo. E de novo, me xinguei mentalmente. – Quer dizer, não que eu me importe...
- Ah, me poupe! – ela gritou já do quarto. Colocou a cabeça para fora, apoiada no batente da porta, e disse – Vi ele ficando com algumas meninas hoje. No plural. – fez cara de nojo, e eu a acompanhei, fazendo uma careta. – E tinha outras tantas dando em cima dele. Se isso é ter namorada, não sei o que não é! – gritou a última parte, pois tinha entrado de novo. Não que fosse preciso gritar, já que o apartamento não era lá tão grande assim. Mas quem sou eu pra discutir isso com uma pessoa alterada pelo álcool.
Ri ao ouvir alguma coisa caindo no quarto. Fui até lá.
- Chris namorava comigo quando ficou com outra menina numa festa.
- Chris era um idiota ruim de cama. – disse bufando. – Esse cara não parece ser ruim de cama. Não parece ser ruim em nada, na verdade.
- Mas ele ainda pode ser um idiota... – disse refletindo momentaneamente. E então emendei – Quer dizer, não que eu me importe...
- Ah, , pode parar. – disse-me interrompendo. – Você tem que descobrir quem ele é. E se ele for um idiota, que seja apenas uma ficada de um dia. Ou uma noite. Ou um fim de semana. – fez cara de safada de novo. Mas então ela tropeçou na bolsa, que estava no chão, e não consegui segurar a risada.
- Ok, alguém precisa de um banho.
- É sério, ! Você precisa descobrir quem esse cara é. Por mim! Você é minha melhor amiga, e eu quero que você tenha essa felicidade.
- Você não sabe se vai ser uma felicidade conhecer ele. – disse ajudando-a a separar uma roupa limpa.
- Ah, sei sim. Vi os sorrisos daquelas meninas todas, então, meu bem, eu sei o que ele pode lhe proporcionar. E você me deve isso!
- Como é? – perguntei rindo.
- Como sua mentora! Meu papel na sua vida é te ajudar a se soltar, a quebrar esse monte de limite que a senhorita se impôs... E vai por mim, esse garoto pode te ajudar, e muito, nisso.
Ainda rindo, ajudei a tirar a camisa. Antes de entrar no banho, ela pegou o celular, mexeu por alguns segundos. O estado alegre e levemente embriagado aparentemente tinha sumido.
- O que foi? – pela falta de resposta, e a forma como jogou o aparelho na cama, entendi. – Nenhuma notícia de Lucas ainda?
- Não. E não me importo. Quero que ele vá para o inferno.
A verdade era que também estava passando por problemas amorosos, só que diferente da maioria das pessoas, tinha um jeito próprio de lidar com eles. De certa forma, eu a invejava. Nada de ficar sofrendo pelos cantos, nem chorando por horas, ou perdendo as férias escolares para ficar comendo chocolates e lamentando por alguma coisa que já não tinha mais.
Voltando para a sala, me peguei pensando no que tinha dito sobre o Adônis, percebendo que estava sim interessada em saber mais sobre ele. Mais do que isso, eu queria saber mais. Muito mais.
Se Isabelle estava certa, e ele fazia aula de Direito Penal conosco, então amanhã iria vê-lo de novo. E eu estava ansiosa por isso.




Capítulo 3



- Se quiserem, podem tirar foto do meu caderno. Apesar de que o professor não disse nada de relevante, só passou alguns livros que, segundo ele, são de extrema importância pra gente.
- Traduzindo, leiam cada página de cada livro, porque será exatamente o que vou pedir na prova. – Iris disse. E ela estava certa. Professores têm um jeito peculiar de avisar aos alunos como pretendem ferrar com suas vidas, caso não estudem o quando eles acham que você deve estudar.
Isabelle foi a última a tirar foto do meu caderno, sem realmente se importar muito. Sua atenção estava voltada a todas as fofocas do dia anterior. Aparentemente, uma saída com os calouros pode render muitas novidades. Iris estava particularmente satisfeita com os novos alunos, mas decepcionada com algumas idades.
- Devia ser proibido deixarem garotos de 17 anos entrarem numa universidade.
- Relaxa, amiga, daqui alguns meses isso muda. – Isabelle piscou esperta. - Ei, vocês sabem com quem Emma saiu ontem, depois que fomos embora do bar?
- Emma saiu com alguém ontem?
- Saiu. E foi com um dos novos. Essa menina não perdeu tempo. – Isabelle disse admirada, quase com orgulho. Não tinha amizade com Emma, como não tinha com quase ninguém na minha turma, quem dirá com os outros alunos do meu curso, mas conhecia sua história. Quase precisou trancar a matrícula ano passado, depois de um término difícil de namoro. Demorou anos pra ela perceber que seu namorado era controlador além do simples “é porque eu me preocupo com você”.
- Gente, fiquei sabendo que Rafael está solteiro de novo. – Isabelle disse mudando de assunto, fazendo com que me perguntasse se tinha alguma coisa naquela universidade que aquela menina não sabia.
- O do último ano? É sério isso? – Iris perguntou se virando na cadeira, ficando de frente para Isabelle, sentada atrás de nós. - Fala sério! Essa pode ser a minha chance! – ela disse rindo.
- Parece que a saída de ontem rendeu bastante conversa. – comentei. Não sabia exatamente do que estavam falando, mas queria fazer parte da conversa. Interagir, certo? Esse é o primeiro passo para sair do casulo.
- Você não faz ideia, menina!
- Pois é... Você podia ter ido, aposto que ia se divertir. – Isabelle comentou. – Mas entendo que fim de namoro é complicado.
E foi então que entendi. Elas achavam que não eu não tinha saído por causa de Chris. Porque, supostamente, ainda me encontrava numa fossa tremenda, causada pelo meu ex-namorado idiota. E o que acabou realmente me deixando com raiva, era o fato delas estarem certas.
Quer dizer, na minha cabeça já tinha decidido não fazer nada naquela tarde, porque eu não era exatamente o tipo de garota que saia da zona de conforto (não que não tivesse planos para mudar isso). Mas o fato de minha conversa com minha mãe ter nos levado a falar sobre Chris, especialmente da forma como foi abordado pela minha mãe, me deixou abalada sim. Mais pelo fato dela, aparentemente, não ver qualquer futuro que eu possa ter, a não ser com ele, do que outra coisa.
- Eu não estou deixando de sair por causa de Chris.
- É claro que não. É só que... É compreensivo você meio que ficar mais na sua... Términos são complicados. – Iris disse, enrugando a testa.
- Não estou ficando na minha! – na verdade meu objetivo aquele ano era fazer exatamente o contrário. Novas experiências, e tal... Não queria que pensassem que Chris tinha alguma coisa a ver com a forma como agia. Ele não tinha nada a ver comigo, pelo menos não mais.
- Se quer saber minha opinião, acho que foi bom vocês terem terminado.
- Por quê? – perguntei, mesmo que, no fundo, já soubesse a resposta.
- Você parecia outra pessoa quando estavam juntos. – Iris explicou. E eu sabia que ela não estava errada. Quer dizer, sempre soube que minhas amigas não gostavam dele – até porque fazia questão de deixar isso claro – mas fingia não perceber isso, já que Iris e Liana sempre foram bem simpáticas nas poucas vezes que se encontraram com ele. Até mesmo minha melhor amiga se esforçava. Diferentemente dele, que não parecia achar importante dar um sorriso, ou se mostrar educado, quando elas estavam por perto. E então eu precisava me esforçar por nós dois, para fazer a experiência não ser tão desagradável. Normalmente me fechava na bolha mágica que vivia com ele, para que Chris não se sentisse excluído, nem desconfortável quando, na verdade, o causador do desconforto era ele.
E então percebi – na verdade já tinha percebido há algum tempo, mas só tinha me permitido admitir agora – que ninguém gostava realmente dele. Com exceção, talvez, dos meus pais, que quase se afogaram em lágrimas quando souberam do término. Posso até arriscar dizer que minha mãe deve ter chorado mais do que eu, no fim de semana que tudo aconteceu.
Mudando de assunto – não sei se intencional ou não – Iris e Isabelle voltaram a falar do dia anterior, combinando de passar na biblioteca mais tarde para procurar os livros de Direito Penal que nos foram indicados.
E então lembrei de que teríamos outra aula de Direito Penal naquele dia, logo após o intervalo e que, junto com ela, a presença de certo par de olhos verdes. Confesso que não estava nem um pouco ansiosa para a aula, mas a expectativa de encontrar o deus Adônis estava ali, mais forte do que nunca.

A aula transcorreu bem. Diferente dos professores do dia anterior, a Dra. Leila não nos dispensou mais cedo após fazer as apresentações. Mais do que isso, ela garantiu que tivéssemos uma boa pesquisa para fazer ao chegar em casa – não que acreditasse que muitos alunos a fariam.
O intervalo foi no mínimo estranho. Dois anos naquela universidade, e foram poucas as vezes que, de fato, saí da sala de aula durante os intervalos. Isso era, no mínimo, deprimente. Algumas pessoas da sala vieram se sentar na mesa em que estava com Isabelle e Iris, e sua prima se juntou a nós em certo momento, trazendo consigo alguns colegas da sua sala. Percebi que nunca tinha feito parte de um grupo como aquele. Ou de qualquer grupo, na realidade. Rodinha de conversa? Não me lembrava, pelo menos não desde o colegial, quando ainda frequentava as festinhas na piscina na casa de uma garota relativamente rica da minha turma.
Quando voltamos para a sala, a ansiedade bateu de novo. Automaticamente me senti uma boba por esse tipo de reação, mas a simples expectativa de vê-lo já provocava reações que não estava exatamente acostumada a sentir. Não sabia nem defini-las. Preferi chama-las de ansiedade.
Como no dia anterior, o professor chegou, e nada dele. Me perguntei se viria, de fato. Mas então, antes da porta se fechar por completo, ele a abriu totalmente, lhe dando passagem para que entrasse.
- Esse sabe como fazer uma entrada. – Iris comenta baixinho.
Concordei com ela, até porque nem tinha como discordar de uma coisa dessas. O cara parecia ter saído de um filme de Hollywood, com o cabelo todo bagunçado, abrindo a porta, assim, como se fosse dono da sala, chamando atenção de todo mundo.
- Parece que alguém está interessada nele... – Iris diz. E isso chamou minha atenção que, até então, estava acompanhando seus movimentos até a mesa do professor.
- O quê? Quem?
- Você, bobinha. – ela diz revirando os olhos.
- Não estou não. – disse automaticamente.
- Tudo bem se você se interessar por alguém depois de terminar um namoro... – Isabelle disse, mas a interrompi.
- Não tem nada a ver com isso! – falei meio com raiva. Por que essa mania de achar que tudo que faço está relacionado com Chris, de alguma forma?
- E comparado ao seu ex, esse aí parece ser bem melhor. Quer dizer, pelo menos ele conversa com as pessoas, e cumprimenta quem passa por ele... – Iris disse. – Quer dizer, não que Chris fosse de todo ruim, mas sabe como é...
E o pior é que eu sabia mesmo. Chris não era do tipo sociável, pelo menos não com as minhas amigas. Educado, talvez simpático, mas nada agradável. E então uma memória veio à minha cabeça, de um dia que Chris apareceu, sem mais nem menos, no apartamento que morava com , quando já estávamos para nos encontrar com Iris. De como ele não gostou nadinha de ter que ir junto, de como não fez questão de sorrir ao cumprimentar alguém, de como ficou emburrado a noite toda e depois reclamou do bar, falando que estava cheio de mais, e quase não dava para conversar. Naquela noite fomos embora cedo, ainda que fosse aniversário de Iris. Nem esperamos o parabéns.
Chato pra caralho.
Fala sério! Como fiquei com um cara desses por tanto tempo?
- Se quiser eu posso apresentar vocês. – Isabelle disse. – Estamos na mesma turma de Direito Agrário.
Precisei de alguns segundos extras para entender do que ela estava falando.
- Ah... Obrigada, eu acho. – disse meio sem jeito. – Mas não precisa.
Quer dizer, uma coisa é imaginar conhecê-lo e... Fazer coisas. Outra bem diferente era, de fato, conhecê-lo e ter a chance real de fazer coisas. Nem deixei que minha mente entrasse nos detalhes do tipo de coisas poderíamos fazer juntos.
Íris disse alguma coisa sobre falar com alguém em algum lugar. Não que estivesse concentrada no que ela falava. O deus Adônis então terminou de conversar com o professor, e com um sorriso de lado, virou-se. Ele poderia estar olhando para qualquer lugar, mas por alguma razão, ele olhou pra mim. E andou na minha direção, já preparando para colocar o caderno na carteira ao lado da minha. Pelo menos era o que eu achava que ele iria fazer, se Iris não tivesse voltado da conversa com alguém, em algum lugar, retomando seu lugar de costume ao meu lado.
Sem perder o ritmo, ele continuou sua caminhada, indo para no fundo da sala, como ontem. Foi nesse momento que senti minha nuca queimar, como se alguém estivesse olhando firmemente.
Imediatamente quis confirmar minhas suspeitas.
- Não pensem que sou o tipo de professor que não se importa com a presença dos alunos na minha aula, pois não sou. A maioria de vocês faltou no primeiro dia, e, aparentemente, muitos não se importaram em faltar no segundo dia também. - Dr. Enoch começou seu discurso, ressaltando como as chances de se darem mal na disciplina dele eram grandes. Também comentou sobre os rostos conhecidos – ou seja, os alunos que já estavam fazendo aquela disciplina pela segunda, terça, quarta vez... – e sobre a chamada, que seria feita ao final da aula, “para garantir que ninguém saia antes”.
Foi então que percebi que descobriria o nome do deus Adônis pela chamada. E então fiquei ansiosa para o fim da aula, sem me importar realmente com as diferenças entre os crimes praticados contra a administração pública.
Minha atenção estava totalmente voltada para os nomes chamados, mas fui frustrada quando o professor maldito passou a pular vários “nomes já conhecidos”.
Ao caminharmos para o estacionamento, Isabelle chamou Iris para almoçarem no novo restaurante que abriu perto de sua casa. Quando o convite foi estendido a mim, recusei com a desculpa de que encontraria no shopping, o que, daquela vez, não era mentira. Sua amiga jurava que precisava de uma roupa nova para a festa no fim de semana.
- Por falar nisso, , você vai mesmo, não é? Não vai dar pra trás não...
- Não vou dar pra trás... Não dessa vez.

- Ok, me fala de novo como é que você está aqui no shopping, e não no seu estágio.
rolou os olhos antes de responder:
- Já disse que meu chefe está de férias, e a senhora que está no lugar dele é bem mais maleável quando algum estagiário pede para faltar. - ela disse. – Mas me conta sobre o gatinho Adônis ainda sem nome. Descobriu alguma coisa, tipo o nome dele?
- Não... – respondi, me sentindo num filme de investigação policial, em que estava em busca de pistas sobre o suposto assassino.
- Você está muito lerda nisso, ! Você não tinha dito que tem uma menina na sua sala que faz outra aula com ela? Certeza ela sabe o nome dele.
- Provavelmente...
- Então por que não perguntou ainda?
- Com que desculpa?
- E precisa de desculpa pra querer saber o nome do cara? Fala sério, , você não vive no século XVII não.
- Que seja...
Agradeci pela área de alimentação ser a mais cheia do shopping, assim ninguém estaria, realmente, prestando atenção na nossa conversa. Quer dizer, eu parecia mesmo uma velha falando assim. Mas o que eu podia fazer? Não é como se minha mãe tivesse me ensinado a ir atrás dos garotos quando quisesse ficar com eles. Em verdade, tinha sido exatamente o contrário.
- Você deve se permitir se sentir curiosa, e mais do que isso, sanar essa curiosidade. Não tem nenhum problema nisso.
Concordei com a cabeça, prestando atenção no prato à minha frente. Nunca sabia realmente como responder à quando ela falava essas coisas.
- E por falar em se sentir curiosa... Acho que você precisa começar a se relacionar com outros caras.
Ri irônica antes de responder.
- Me diga uma novidade. – não ter a capacidade de conseguir o nome de um garoto que estudava na minha sala já era sinal mais que suficiente que alguém aqui precisava começar a se relacionar melhor. – Mas não sei se estou pronta pra isso.
- Quer dizer, não digo que você deve sair transando com todo mundo. – olhei em volta para ter certeza que ninguém estava prestando atenção na gente. Essa menina tinha que querer falar sobre isso aqui? Agora?! – Nem sair colocando uma aliança no dedo, nem nada, mas se relacionar, sabe? Conhecer pessoas, se decepcionar com elas, e mais importante: aprender a lidar com isso... Porque você precisa perder essa insegurança absurda que tem.
- Não sei se minha insegurança é tão absurda assim.
- O fato de você ter insegurança não é absurdo, mas a forma como ela te consome é que não dá pra aceitar. Mas eu não te culpo. Quer dizer, seus pais sempre foram muito conservadores, e sua mãe sempre te reprimiu muito... Sem falar que Chris era um pé no saco que não deixava você viver além do relacionamento de vocês.
Percebi que, ainda que magoada com o que ela havia dito, não tinha como argumentar. De fato, sempre havia sido reprimida pela minha mãe – não que ela fizesse por mal, afinal, não podia culpar sua criação conversadora – e Chris, que deveria me ajudar a conhecer o mundo, só fazia com que me fechasse ainda mais pra ele.
- Até porque não tem como perder a insegurança, tipo, totalmente. Ela sempre vai estar presente, em vários aspectos e momentos. Mas você pode aprender a lidar com ela. – continuou falando, sem perceber meu momento de reflexão. – Já pensou nas oportunidades que você pode perder por causa da insegurança?
- Ou as que posso deixar de ganhar.
- Exatamente! – disse entusiasmada por eu, finalmente, estar concordando com ela. – E se você tentar e não der certo, beleza, bola pra frente. Mas o importante é tentar, é experimentar.
- Você sabe que eu não vou sair me atirando pra cima de qualquer cara que aparecer na minha frente, não é? – disse rindo.
- É claro que sei, e nem é isso que você deve fazer, até porque não são todos que são bons para você. Mas nem todos são ruins também.
- Espero que tenha razão. – e esperava mesmo. Pensar que Chris poderia ser o único cara com quem me relacionaria a vida toda era desesperador. Ainda mais porque a experiência não tinha sido das melhores, convenhamos.
- Você só precisa achar alguém que esteja na mesma sintonia que você.
- Mas eu nem sei a sintonia em que estou, como vou achar alguém que esteja na mesma que eu?
- Atração, amiga!
Revirei os olhos. Tudo bem, podia não saber muito sobre a arte da paquera, mas pelo menos isso eu sabia.
- Esse é o primeiro passo. E como você não está procurando um relacionamento sério, não precisa se preocupar em achar o cara certo, pelo menos não para namorar. Só precisa achar o cara certo para experimentar, um que supra as suas necessidades do momento.- talvez aquela última parte tivesse me feito corar, mas preferi não tirar a prova. Ela tinha mesmo que ser sempre tão direta? - Porque, convenhamos, não é como se você tivesse muita experiência.
- Muita experiência? , eu não tenho experiência nenhuma! Chris foi minha única experiência. – infelizmente, pensei. – Me senti uma virgem inexperiente.
deu risada, batendo palmas.
- Então você precisa experimentar mais! E não se sinta mal, nem envergonhada, até porque todo mundo precisa treinar.
Coloquei as mãos no rosto, agora tendo certeza de que estava totalmente corada.
- E se sentir mal, por um momento que seja, lembre-se do Capitão América, que tem 90 anos e ainda é virgem.
Dessa vez fui eu quem riu.
- A diferença é que o Capitão América é um personagem fictício, não uma estudante de Direito que acabou de sair de um relacionamento e não tem ideia do que fazer agora.

Na manhã seguinte, já estava na mesa tomando café da manhã quando apareci.
- Bom dia.
- Bom dia. – ela respondeu sem olhar. Sua atenção estava totalmente voltada para o celular. – Deixei o dinheiro da festa perto da sua bolsa, ok?
- Belezinha. – a festa de sábado estava sendo organizada pela turma de Direito, mas isso não significava que alunos de outras turmas não eram bem vindos, muito pelo contrário. Quanto mais gente melhor. Pelo menos segundo Isabelle. – Vai querer que compre convite para Lucas também?
- Não sei, ainda não falei com ele sobre isso. – ela disse. Concordei com ela, indo até a geladeira, e me sentando à sua frente em seguida. – Na verdade acho que vamos terminar.
- Você já conversou com ele? – perguntei preocupada. Ela tinha toda essa pose de nada-me-atinge, mas eu sabia como Lucas mexia com ela.
- Já. – suspirou. – E é por isso que acho que o que temos não vai pra frente. - Voltou a digitar no celular, esquecendo o café que estava tomando.
Resolvi não insistir, afinal sabia que enquanto ela não resolvesse aquela situação, ela não falaria a respeito. Além disso, tinha minha missão pessoal hoje, e não iria embora daquela faculdade sem cumpri-la: precisava descobrir o nome do deus Adônis. Até porque não podia ser tão difícil assim, certo?
Certo.

Para uma pessoa que evitou chamar a atenção para si a vida toda, especialmente a atenção da ala masculina – primeiro porque sua criação lhe dizia que garotas tinham que se preservar, e segundo porque, uma vez que tinha um namorado, não precisava da atenção de nenhum outro garoto – o simples fato de querer saber o nome de um cara, e consequentemente deixar claro que, talvez, tenha algum interesse nele, era sim, muito difícil.
Para mim estava sendo muito difícil.
Eu não era hipócrita, tampouco uma santa, mas a arte da paquera era algo novo pra mim, afinal não o fazia desde... Sempre, eu acho. Então esperei pelo momento certo para dar uma de Sherlock Holmes para cima de Isabelle, mas confesso que me sentia meio exposta. Quer dizer, fala sério, eu nem tinha amizade com a menina.
No intervalo, enquanto Iris contava sobre um carinha que ela tinha conhecido numa viagem que fizera com a prima – e eu tentava me inspirar na facilidade e naturalidade com que ela havia falado com ele, segundo sua história – vi o deus Adônis passar por onde estávamos. Ainda que ele estivesse longe, cumprimentou Isabelle com um aceno de mão e um sorriso. Talvez o momento que estava esperando fosse aquele.
- Qual o nome dele?
Ou talvez não. Talvez não tenha sido discreta, como pareceu na minha cabeça. Talvez Isabelle não estivesse esperando por uma pergunta meio de repente assim, ainda mais quando estávamos prestando atenção em Iris e suas peripécias das últimas férias. Talvez se não tivesse perguntado tão de repente não precisaria explicar a elas de quem eu estava falando – quando apontei, discretamente, a quem me referia.
- Ah... Seu apelido é Selva. Acho que todo mundo conhece ele assim. – Isabelle disse depois de olhar para onde apontei.
Eu sabia que na Universidade se tinha o costume de se dar apelidos para os calouros, assim que começava o ano letivo. Não que tivesse recebido um na minha época de caloura, até porque nunca havia feito parte do grupo bacana de calouros.
- Fala sério! – Iris disse rindo. Isabelle a acompanhou, e eu não entendi.
- O que foi? – perguntei perdida.
- Esse nome... –Iris disse ainda rindo contido, com a mão na boca.
- Eu sei... Quando ouvi pela primeira vez, também pensei que era algo relacionado ao estado “lá de baixo”. – fez aspas com a mão. – As pessoas podem ser criativas quando querem. Mas depois me explicaram que o nome era em referencia aos seus olhos verdes.
Depois de mais uma troca de risadinhas, entendi. E imediatamente senti as bochechas ficarem coradas.
- Mas você sabe o nome dele? – eu queria saber do nome, nome. Mas Isabelle não ouviu minha pergunta, e levantou da mesa quando foi chamada por outro grupo. Se despediu de nós com um beijo no ar, me deixando frustrada.
Que inferno! Não podia ser tão difícil conseguir a droga de um nome!
Como iria me relacionar com outras pessoas, aprender a paquerar, se o universo não colaborava comigo nem mesmo para descobrir um maldito nome? Tinha quase certeza de que não podia ser tão difícil assim.

À tarde em casa, frustrada e com raiva com minha falta de experiência/confiança/esperteza, certa de que aquele seria o pior ano na faculdade, recebi uma ligação, no mínimo, inesperada.
No ano passado, quando ainda acreditava que meu plano de vida estava tudo nos conformes, prestei uma prova para um estágio na advocacia Rassi-Potella & Associados, simplesmente um dos maiores escritórios de advocacia do estado de São Paulo, se não o maior. Lá trabalhavam grandes nomes da advocacia, referências no Brasil inteiro, e era lá que eu queria trabalhar.
Infelizmente não fui chamada para a vaga de estágio depois da prova objetiva e da entrevista. Apesar de ter aquele lugar como uma ambição de vida, acabei esquecendo da vaga de estágio – que não consegui, vale ressaltar. Até agora.
- Boa tarde. Esse é o celular de ?
- Quem está falando? – quase soltei um “depende”. Se fosse da pizzaria da rua de baixo com o resultado do sorteio de uma pizza de dois sabores, sim, este é o celular de ; mas se fosse de algum vendedor de jornal impresso (fala sério, quem ainda lê jornal?), sinto muito, mas mudou o número.
Não era venda de jornal. Nem telemarketing de TV a cabo.
Era a secretaria da Advocacia Rassi-Portella & Associados. Se ela queria bater um papo bacana? Com certeza não. Mas sim saber se ainda tinha interesse na vaga de estágio, pois, aparentemente, tinha surgido uma. Diante da minha confirmação, marcou para que comparecesse ao escritório amanhã para uma conversa sobre o estágio.
Quando chegou mais tarde, já estava com uma garrafa de vinho aberta, pela metade.
- Vem comemorar comigo, amiga!
Ela me olhou meio desconfiada, com certeza pensou que eu já estava bêbada – o que não estava no todo errado, visto minha resistência para álcool – mas nem esperou eu terminar de falar para pegar uma taça e brindar na minha.
- Estou muito orgulhosa de você, . – ela disse entre um gole e outro.
- Obrigada.
- Quer dizer que guardaram a sua ficha por, sei lá, três, quatro meses? Isso é estranho, mas também é muito bom.
- Muito bom mesmo! – disse enchendo minha taça mais uma vez. A essa altura nem me atrevia a tentar ficar em pé.
- Você é mais inteligente do que pensei. – disse rindo.
- Poderia dizer que fiquei ofendida com essa brincadeira, mas seria uma mentira.
riu, jogada ao meu lado no sofá.
- Esse vinho é muito bom, quando você comprou?
- Foi Chris quem me deu no meu último aniversario, antes de terminar comigo. – disse, enchendo minha taça que ainda estava pela metade. O vinho era mesmo muito bom. – Quando ele terminou, queria colocar fogo, ou jogar no bueiro, mas é um vinho muito caro, e seria um desperdício jogar fora.
- Eu nunca te perdoaria.
- Ainda bem que guardei. Nem me lembrava dele.
- Pelo menos uma coisa de bom aquele cara tinha que ter deixado na sua vida, não é?
Concordei com ela.
Antes de dormir, já na cama, pensei em como as coisas podiam melhorar tanto, de uma hora para outra. Afinal, essa era uma chance das coisas voltarem aos eixos. Com essa oportunidade, poderia voltar ao meu plano original de vida, ou como gostava de chamar, o “plano diretor” da minha vida.
E eu não deixaria essa chance passar.




Capítulo 4



O prédio onde funcionava a Advocacia Rassi-Portella & Advogados Associados era um dos mais modernos do centro jurídico de São Paulo. Contando com uma localização estratégica, visto de fora, era claro que ninguém ali dentro havia poupado dinheiro na sua construção.
A Rassi-Portella & Associados era um dos mais completos escritórios jurídicos do estado, pois contava, além dos serviços advocatícios de todas as áreas do Direito, com equipes especializadas em Mediação e Contabilidade, além de ter um andar só para o setor de RH e segurança do prédio.
Mas seu nome não foi criado apenas pela arquitetura, ou pela variedade de serviços oferecidos, mas pelos nomes que trabalhavam ali dentro. Um, inclusive, que era um dos advogados mais famosos das regiões sudeste e sul, se não do Brasil inteiro, Lucio Muniz, ou como eu o chamava, o Harvey Specter da vida real.
- Sua ficha é mesmo muito interessante. – disse a senhora do RH que cuidava da contratação de estagiários. – Notas acima da média, ainda no segundo ano publicou um artigo científico... – ela disse. Mas pela sua cara não acreditava que minha ficha fosse tão interessante assim. Isso, ou ela estava cansada de analisar perfis de estagiários. Preferi acreditar na segunda opção. – Como você deve saber, as vagas para estágio são muito restritas. Poucas pessoas passam pelo processo seletivo, e ainda menos conseguem continuar no estágio até o final do curso.
Concordei com ela. Eu, mais do que ninguém, sabia como não era fácil estar ali.
- A pressão do trabalho é grande, e combinada com a pressão da faculdade, a maioria acaba desistindo. Você terá que saber lidar com prazos, pressão sobre o seu serviço, e perfeição. Esse é o perfil que procuramos nos nossos estagiários, e não aceitamos nada menos que isso.
Mais uma vez concordei com a cabeça. Podia sentir a pressão do trabalho só de estar sentada de frente pra ela, ali, naquela salinha com o ar condicionado gelando até meus ossos.
- A maioria dos advogados da Rassi-Portella já foi estagiário um dia. Sabe o que isso significa? Você tem grandes chances de crescer aqui dentro.
- Eu sei disso.
- Se aguentar até o final do seu contrato, e do curso de Direito, e conseguir se destacar, suas chances de se tornar uma advogada associada são grandes.
- Isso é o que eu quero, senhora.
- Isso é o que eu gosto de ouvir. Por enquanto você vai trabalhar na equipe do Doutor Fernandez.
Por um segundo senti a animação diminuir. Quer dizer, eu sabia que não trabalharia, assim, logo de cara, com o Harvey Specter da vida real, nem imagino como devem ser os estagiários que trabalham com ele. Mas no instante seguinte já estava na mesma empolgação de quando cheguei, até porque, se o Doutor Fernandez estava ali, ele com certeza era alguém importante, disso eu sabia.
- Bem, você tem mais alguma pergunta? – ela perguntou depois de mais alguns minutos de conversa. Eu não tinha, pelo menos não agora. – Então você já pode levar os contratos para o setor de estágio da sua faculdade. Lembrando que uma cópia é sua, e a outra você pode me trazer na segunda, quando você começa.
Segunda-feira, fala sério!

A sexta-feira passou que nem vi. estava empolgada para a festa de sábado, e eu, que nem me lembrava mais porque andava tão desanimada semana passada, achava divertido até mesmo jogar as roupas em cima da cama para escolher uma blusinha que combinasse com a saia nova.
Lucas não iria a essa festa, mas eu sabia que isso não impediria minha amiga de se divertir. Homem nenhum tinha esse poder sobre .
- Apenas lembre-se de que essa festa poderá servir como aprendizado. – ela dizia enquanto me ajudava a passar o delineador. – Veja como uma sorveteria com vários sabores. Você pode ver de longe, mas se sentir vontade, você escolhe um, e se quiser conhecer vários, pode também, não tem problema nenhum. Então você vai descobrir qual é o que você mais gosta. E se a experiência não for boa, não tem problema, existem vários sabores por aí.
- Você está objetificando os homens? – perguntei rindo. – Não é exatamente isso que odiamos quando os homens fazem com a gente?
- Exato. E que isso sirva de lição, assim eles aprendem como é ruim estar nesse papel. – ela disse também rindo. – De qualquer forma, se permita tentar e falhar; se permita gostar e não gostar.
- Acho que o fato de gostar ou não, não depende muito de mim.
- Eu estou falando sério, garota! Não controle, não tente prever cada movimento, não tente criar cenários hipotéticos, isso nunca funciona.
Rolei os olhos. Criar cenários hipotéticos era automático. Quando dou por mim já tenho até diálogos prontos.
- Confie em mim, , a recompensa no final vale a pena. Você só tem que deixar fluir, é algo natural.
- , eu nem sei como paquerar!
- Isso é o tipo de coisa que a gente só aprende praticando. É tipo construir um prédio... você não vai construir o próximo Edifício Altino Arantes no primeiro dia de aula, mas se treinar, pode ser a próxima William F. Lamb da arquitetura.
Franzi a testa. Não tinha ideia de quem era aquele, como nunca tinha ideia de quem eram os nomes da arquitetura que ela costumava usar como inspiração.
- O arquiteto que projetou Empire State Building? O maior arranha-céu de Manhattan? – e então bufou rolando os olhos. – Você me decepciona às vezes.
Ri da cara dramática da minha amiga.
- Enfim, o que quero dizer é que você pode treinar com quantos garotos quiser, na festa. Aproveita que todo mundo vai estar meio bêbado. – ela fez cara de esperta, e tinha certeza de que ela mesma tinha planos para aquela noite. – Só tente, e se não der certo, tudo bem. Dificilmente você vai encontrar essas pessoas na faculdade mais tarde.
- Não estou tão certa disso. – disse me levantando indo olhar as peças de roupa jogadas em cima da cama. Se já tinha decidido o que usar? Não, mas estava trabalhando nisso, obrigada. – É uma festa do Direito, lembra? Então a maioria lá vai ser aluno do Direito. E adivinha quem mais é do Direito? Isso mesmo, euzinha aqui.
rolou os olhos, me passando uma saia para experimentar.
- É, mas você é de uma turma, dentre várias. Sem contar que vão muitos alunos além do Direito, como eu, por exemplo.
Saias pra lá, blusinhas pra cá. Acho que uma sapatilha foi parar de baixo da cama.
- Ok, vou fazer o meu melhor. – disse querendo por fim àquela conversa.
- Sem pressão.
- Ah, sim, claro. – ironia, olá pra você também.
- Não, é sério. O intuito aqui é não ter pressão, nem mesmo de você mesma. Especialmente de você mesma. Se permita para fazer o que bem quiser, sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar. Trabalhe para quebrar essas barreiras internas que você tem.
- Você está muito filósofa hoje, estou estranhando. – brinquei.
- Eu sempre tenho esses momentos filosóficos, a diferença é que agora você está, finalmente, me escutando. Você sabe que ainda tem muita coisa para desconstruir, mas pode fazer isso aos poucos. E eu sempre vou estar aqui para te ajudar.
- Obrigada, você é a melhor amiga que eu poderia ter.
- Eu sei. – ela suspirou. – Agora, pelo amor da deusa, decida que roupa colocar que já estamos atrasadas!

Por sorte o local da festa não era exatamente longe de onde morava, ou então já teria uma desculpa pronta para não ir. Mas não naquela noite. Naquela noite se divertiria como uma universitária normal da sua idade, em uma festa promovida pelo seu próprio curso. Mesmo que nessa festa a música fosse tão alta que não conseguisse ouvir minha própria voz. Ou mesmo que o jogo de luzes viesse diretamente na minha direção, ofuscando minha visão, e me fazendo esbarrar em uma ou duas, talvez até três pessoas.
disse alguma coisa, mas tudo o que consegui responder foi:
- O QUÊ?
Ela começou a rir e me puxou para o outro lado do bar, longe de onde a banda estava.
- Consegue me ouvir agora?
- Acho que sim. – disse apertando o ouvido. Acreditava que não conseguiria ouvir nada por um bom tempo.
- Estávamos perto demais da caixa de som. – ela explicou. – De qualquer forma, tinha dito que adoro essa banda. Eles sempre tocam nas festas que vou.
Concordei com a cabeça, aproveitando agora para olhar melhor o ambiente – não tinha mais luzes brincando com meus olhos.
O local estava cheio. As mesas que antes ficavam espalhadas pelo salão, estavam encostadas em uma parede, as cadeiras tinham sumido. O balcão do bar estava lotado, é claro. Nos cantos mais escuros, casais conversando, outros mais ousados, se beijando; outros sem noção, fazendo mais que apenas se beijar.
Íris e Liana estavam conversando com outro grupo de garotas que eu não conhecia, mas afinal, quem eu conhecia naquela festa?
- , olha só o seu deus Adônis ali!
Olhei para onde ela apontava. É claro que ele estaria ali, encostado no balcão do bar. E conversando com uma garota.
- Ele não é meu. – disse. Mas não corrigi a parte do deus Adônis, até porque não tinha o que ser corrigido nisso.
- Acho que você devia ir falar com ele.
- Você está vendo o mesmo que eu? Ele já está conversando com uma garota.
- Não, ela está conversando com ele, e ele não está nenhum pouco interessado nela.
Olhei para onde eles estavam de novo. Para mim pareciam estar tendo uma boa conversava.
- Como é que você sabe disso?
- Olha o corpo dele. – ela disse. Achei que era desnecessário falar que ela nem precisava ter pedido. – Seu corpo não está inclinado na direção da garota, mas o contrário. Enquanto ela tenta chamar sua atenção, passando a mão no braço dele, ele se esquiva. – ela parou para analisar a situação mais uma vez, antes de voltar a falar. – Ele está sendo educado. Normalmente os caras não são tão educados assim.
Continuei olhando para os dois. Não via nada daquilo que minha amiga estava vendo, mas, afinal, quem sou eu para opinar sobre a arte da paquera? De fato, tinha muito a aprender.
Tipo, muito mesmo.
- Pode ser, mas não sei... Acho que ele é muita areia para o meu caminhãozinho. – de fato, olhando ele de onde estava, todo lindo e sexy, com o cotovelo apoiado no balcão, a camisa apertada nos braços, subindo um pouco perto do quadril, com um copo de cerveja nas mãos e um sorriso arrebatador nos lábios, não via a mínima chance de que eu, euzinha aqui, poderia ter com um cara desses.
- Ok, primeiro, ninguém mais usa a frase “é muita areia para o meu caminhãozinho”. Em que século você está, menina? E segundo, você não poderia estar mais errada.
- Errado seria eu achar que depois de três anos sem paquerar, – não que tivesse feito isso antes, mas achei melhor omitir essa parte – tenho condições de chegar naqueles olhos verdes.
- Definitivamente não gosto desse tipo de discurso. Precisamos mudar isso, imediatamente. – ela suspirou. – Mas eu entendo o que quer dizer. A insegurança é mesmo uma vadia.
Não discordei.
- Mas então chega em outro garoto, em um que te agrade.
- Como se fosse fácil... – falei mais para mim do que para ela.
- Você precisa se desafiar, e mais do que tudo, quebrar esse tabu ensinado pra gente de que meninas não podem chegar em garotos. Olha só quantos garotos que você pode conhecer.
Olhei em volta. De fato, tinha mesmo muita gente ali, especialmente do sexo masculino.
- Mas se você não estiver se sentindo bem, ou mesmo confortável, é só recuar. Não tenha vergonha nisso. Só tome cuidado para não confundir desconforto com medo. O medo não pode ser mais forte, até mesmo porque, as melhores experiências acontecem quando saímos da nossa zona de conforto e nos desafiamos a fazer algo diferente.
- Você está certa. – disse. – E eu sei de tudo isso. E sim, vou fazer dessa noite uma boa experiência para a nova .
E eu tentei mesmo. De verdade.
Mas se parasse para pensar, levando em conta que aquilo era uma coisa totalmente nova para mim (desde a ir numa festa sem meu namorado – que, aliás, não existe mais, obrigada – até procurar alguém para “me divertir essa noite”, palavras da minha amiga, não minhas), não podia dizer que havia sido um fracasso total.
Quer dizer, dois carinhas vieram falar comigo, ainda que um deles estivesse bêbado demais para que eu entendesse qualquer coisa. O outro parecia ser bacana, mas então ele saiu para buscar uma cerveja, e nunca mais voltou.
Mas o que seria o meu ponto alto daquela noite, foi o fato de eu, euzinha, ter puxado papo com um garoto. Estava sentado em um canto, camiseta de Star Wars... De fato, se alguém chamaria minha atenção ali, com certeza seria a camiseta. Conversamos por alguns minutos, trocamos algumas risadas, perguntei onde ele comprava suas camisetas (uma expert na arte da paquera, eu sei), e demos mais algumas risadas. Até que a namorada dele chegou (também vestindo uma camiseta de Star Wars), e os dois foram embora.
Chris nunca aceitaria usar uma camiseta de Star Wars comigo numa festa. Ou em qualquer lugar. Nem mesmo para ficar em casa. Ele não gostava dos filmes, o que acabava sendo mais uma prova de que ele, definitivamente, estava longe de ser o cara perfeito.
Depois encontrei Iris, que aproveitou a oportunidade para me puxar para uma foto, o que, mais tarde, serviria como prova que eu, finalmente, tinha comparecido a uma festa da faculdade.
Não sei exatamente como, nem em que momento, mas quando dei por mim, estava sozinha no bar, frustrada, sentindo o suor escorrer nas costas, e com a certeza de que o rímel já estava borrado. Deprimente, no mínimo.
tinha sumido. Aposto que encontrou algum garoto para se divertir.
Eu queria encontrar um garoto para me divertir.
Foi quando alguém se aproximou do bar.
- Este lugar está ocupado?
A primeira coisa que pensei foi que não sabia de que lugar ele estava falando, já que não havia mais banquetas por perto. A segunda coisa que pensei foi se era possível, depois de beber a noite toda, imaginar caras gatos aparecendo do nada para falar com você.
- Não.
O deus Adônis então se aproximou mais – do balcão e de mim – ficando de costas para a garota que estava atrás do balcão, que não conseguia tirar os olhos dele. Senti vontade de dizer que a entendia totalmente.
Naquele momento, fiquei nervosa. Por um segundo não soube o que fazer. Quer dizer, eu estava bêbada, e as várias cervejas que tinha tomado – e não tinha me atrevido a contar – confirmavam isso. Mas ao lado do nervosismo, um sentimento diferente, uma vontade que não sabia identificar, mas que sempre aparecia quando esse cara chegava perto. E ele nunca tinha chego tão perto assim. Sentia que o frio na barriga poderia congelar meu corpo todo.
E foi então que percebi que eu o queria. Assim mesmo, sem medo, nem nada. Sem me preocupar se ele era meu colega de turma, ou com o que as pessoas da festa iriam pensar de mim. Ninguém tinha nada para pensar sobre mim, afinal. Naquele momento não me importei em saber o nome dele, idade, o ascendente no zodíaco, ou o que fosse. O nervosismo do começo da noite, o mesmo que senti quando ele chegou, não estava mais lá.
- Noite difícil?
- Eu que o diga. – disse irônica. Depois fiz uma careta ao sentir o gosto quente da cerveja.
- Mais uma? – ele perguntou apontando para o copo na minha mão. Sem que precisasse responder, ele pegou meu copo e estendeu para o rapaz atrás do balcão. Quando me devolveu, não foi só o copo que recebi, mas também o sorriso... aquele sorriso da primeira vez que o vi.
Experimentei a nova cerveja. Olhei para frente, para lugar nenhum, e pelo canto do olho percebi que ele estava olhando para mim. Não vou mentir, estava gostando da atenção. Mas o silêncio me incomodava. Resolvi eu mesma acabar com ele.
- Por que os homens são tão difíceis? – perguntei. – Digo, o que eles, vocês, querem?
Tudo bem, de onde, da minha mente hiperativa e alcoolizada, tinha saído aquilo?
É claro que ele me olhou surpreso, com o copo a caminho dos lábios – e que lábios! – totalmente sem resposta. Ninguém esperaria uma pergunta dessas assim, do nada.
Não sabia muito de paqueras, mas tinha uma ligeira impressão de que essa não era a melhor abordagem para puxar papo com o garoto que você quer beijar aquela noite.
- Sabe, minha amiga acha que eu deveria experimentar mais, sair com outros caras, já que acabei de sair de um relacionamento de três anos. – alguém precisava calar a minha boca, pelo amor da deusa! – Mas não é tão simples assim, entende? Quer dizer, não é como se eu tivesse muita experiência nesse negócio de ficar com várias pessoas. – por que eu estava falando aquilo? Não se fala para o garoto que você quer beijar, que você é péssima nisso!
Ele parecia estar se divertindo, pelo menos estava rindo. Eu mesma não me lembrava de ter dito algo engraçado.
Talvez estivesse mesmo bêbada.
- Ok, mas você tem alguém em mente, pelo menos? – ele perguntou. Nesse ponto ele já havia se virado, ficando de frente para mim. Estávamos na mesma posição que o encontrei com outra garota, mais cedo, quando cheguei na festa. Dessa vez, pelo menos, tinha certeza de que ele não tinha intenção de se afastar de mim, muito pelo contrário.
- Vários! – por que estava gritando? – Mas nenhum deu certo até agora. – lamentei. – Está vendo aquele garoto ali, o que está vestindo a camiseta do Darth Vader? Parece ser um partidão, não é? Pois bem, ele tem namorada. Está vendo aquele outro, aquele que está sentado em coma alcoólico? – apontei para o cara sentado/jogado no chão, encostado na parede. – Nós até chegamos a conversar mais cedo, mas ele ficou de buscar uma cerveja e nunca mais voltou. O pior é que fiquei esperando por ele. – e dando mais um gole na cerveja, perguntei - O quão patética eu sou?
- Eu não acho você patética. – ele disse sério dessa vez. – Acho você adorável.
O deus Adônis estava próximo, muito próximo. Seus olhos estavam escuros, sua respiração quase batia no meu rosto, e ele não ria mais. Senti minhas bochechas corarem, e o calor aumentou consideravelmente. Talvez tivesse dado algum problema no ar condicionado, ou talvez fosse o calor natural que esse cara trazia consigo. Eu ficava com a segunda opção.
- Mas ei, pelo menos você me salvou e me arranjou uma cerveja nova!
Ele riu de novo, e dessa vez eu o acompanhei – mais por nervoso por estar falando besteiras, que outra coisa. Então brindou seu copo no meu antes de beber novamente.
- Mas eu não estou procurando por um relacionamento sério, se quer saber. – eu disse. Duvidava que ele quisesse, de fato, saber sobre meus planos amorosos, mas curiosamente ele não tentava me interromper. – Já tive o bastante com o meu ex, um idiota ele. Acredita que ele me traiu?
Ele fez cara de surpresa, uma surpresa que não parecia nenhum pouco fingida, devo acrescentar.
- Um par de chifres, bem aqui. – apontei minha testa. O deus Adônis acompanhou meu movimento, com um sorriso no rosto. – E foi ele quem terminou! Acredita nisso?
Se eu estava contando àquele deus grego, maravilhoso, que fazia minha mente cantar Sex Back toda vez que aparecia, que havia sido traída pelo meu ex-namorado? Sim. Se eu estava envergonhada? Aparentemente não, pelo menos naquele momento. Se iria querer me matar no dia seguinte? Provavelmente.
- Ele é mesmo um idiota. Quer dizer, que cara iria perder a chance de ficar com você?
- Eu sei, não é? – disse meio irônica, meio rindo, meio confusa com o que ele havido dito. Se ele estava sendo irônico? Acreditava que sim. Se sua expressão dizia que não, ele não estava sendo irônico? Eu tinha certeza que sim.
- Se quer saber, você está melhor sem ele. – ele disse sério. Sem sorrisos maliciosos, nem ironias camufladas.
- diz a mesma coisa! Também diz que devo me envolver com outros caras para esquecer Chris. Mas eu já esqueci ele, entendeu?
- Estou vendo. – e ali estava a ironia.
- Não, é sério! Eu só não consigo acreditar em como as coisas mudaram do dia pra noite. Quer dizer, num dia eu tenho o namorado perfeito, e no dia seguinte eu tenho o ex mais imbecil de todos os tempos. – terminei minha cerveja. Tive sorte por ainda estar gelada. – A verdade é que faz três anos que não beijo outra pessoa. Eu nem sei mais como faz isso, digo, beijar um cara que não seja Chris. Quem dirá chegar num cara diferente.
O sorriso de lado estava lá quando ele se aproximou mais. Estávamos tão perto, que seu braço tocava o meu, sua respiração se misturava com a minha, e eu podia jurar que conseguia contar os diferentes tons de verde de seus olhos.
Aquele cara era real?
- Eu posso te ajudar com isso. Se você quiser, é claro.
Confesso que precisei de vários segundos para entender aquela frase, aquela.
Aquilo tinha sido uma proposta? Do tipo que eu achava que era?
- Sério?
Sério que eu estava perguntando se era sério que o deus grego mais gato daquela festa queria me beijar? Sério, ?
Espera, era isso mesmo que ele estava insinuando, certo? Eu não estava tão bêbada a ponto de imaginar isso.
- Claro, somos colegas de sala, não é?
- É...
- E somos duas pessoas que acabaram se esbarrando numa festa, se conhecendo.
- Verdade... – aquilo fazia sentido, ou pelo menos eu entendia o que ele queria dizer. Nada daquilo fazia sentido.
- Além disso, aposto que seria uma experiência nenhum pouco desagradável. – ele disse com um sorrisinho de lado. Ah, aquele sorrisinho malicioso...
- Isso não faz sentido nenhum. Eu nem sei o seu nome!
Se eu estava me lamentando sobre minha vida amorosa desastrosa, e o par de chifres que ganhei do meu ex-namorado, para um estranho, que nem o nome sabia, e que, por coincidência, era o garoto mais gato que já tinha conhecido e que, por algum motivo, queria me beijar? Sim.
Se só havia me dado conta disso agora? Sim.
Digo, não a parte do cara mais gato que já tinha conhecido, até porque isso não era novidade pra mim. Mas a parte de não saber o nome dele... Como pude não ter perguntado o nome dele antes?
Pelo amor de deus, , esse é o primeiro passo numa paquera!
- Não seja por isso. – e então estendendo o mão, disse – , seu colega de turma.
- Oi, . Meu nome é...
- , eu sei.
Seria mentira dizer que não fiquei surpresa. O deus grego sabia o meu nome, era isso mesmo? Acho que podia dizer que a noite não havia sido um fracasso total, no final das contas.
- Como você sabe? – perguntei. Depois me dei conta de que havia quase sussurrado, como se compartilhássemos um segredo. E ele me respondeu da mesma forma:
- Estudamos na mesma sala.
E isso me arrepiou mais do que poderia esperar. Foi do couro cabeludo até o último dedinho do pé. Não me lembrava de já ter sentido aquilo antes, mas na atual circunstância, não me lembrava de muita coisa. Até mesmo porque minha mente estava 110% focada nos olhos verdes à minha frente, ainda que minha atenção houvesse se deslocado para os lábios, os mesmos que haviam sussurrado aquelas palavras no meu ouvido.
Não sabia onde focar minha atenção, se nos lábios que sorriam, ou nas mãos que foram parar na minha cintura, depois no quadril. Minhas próprias mãos foram para seus braços, mais por precisar de apoio que outra coisa. Duvidava que a falta de equilíbrio fosse consequência do álcool.
Aquele cara conseguia me inebriar de tal forma, que acreditava que nem mesmo o destilado mais puro poderia.
Minhas mãos suavam pela expectativa. No meu estômago, uma verdadeira festa, com direito a música eletrônica. Na minha mente, todas as promessas sujas, mas silenciosas, que seus olhos fizeram antes de se fechar.
Não me decepcionou. Seus lábios eram fortes, a língua exigente. A verdade é que sentia como se fosse a primeira vez. Bem, não o era. Até porque, não me lembrava de ter tido um bom primeiro beijo, e aquele, definitivamente, era. Quer dizer, o cara sabia o que estava fazendo. sabia como beijar uma garota. Felizmente, eu não ficava atrás.
Minha experiência, ainda que não fosse das melhores, não me deixou em desvantagem. Até mesmo porque, minha mente cheia de questionamentos estava adormecida, deixando meu eu desinibido agir por mim. E estava agindo muito bem, obrigada.
Imaginava se estaria sendo bom para ele como estava sendo para mim. E o suspiro que ele soltou em determinado momento, respondeu minha questão.
Minhas mãos viajavam pelos seus cabelos sempre muito bagunçados, ombros, braços, e voltavam para os cabelos. Adorava seus cabelos.
parecia aprovar os meus também, pelo menos foi o que me pareceu nas várias vezes em que o puxou bem perto da nuca para, logo em seguida, voltar com outra onda de beijos fortes, exigentes. não soltava meu corpo, o que acabei agradecendo. Não sabia se conseguira ficar em pé sem apoio.
O beijo só acabou quando o ar faltou. Meus lábios formigavam, e imaginava que não estivessem muito diferentes de como os dele estavam, vermelhos, levemente inchados. Irresistíveis.
O mesmo sorriso que tinha, era o que eu tinha, ainda que provavelmente por motivos diferentes. Tinha cumprido minha missão aquela noite, não tinha? E com satisfação, devo acrescentar. Em todos os sentidos.
- Eu disse que não uma ruim, não disse?
Eu ri.
Não podia concordar mais.
- Acho que você estava certo no final das contas.
A conversa não se prolongou. Afinal, beijar o deus grego, , acabou sendo melhor do que conversar com ele.




Capítulo 5 – Parte 1



A primeira coisa que senti ao abrir os olhos foi uma pontada na cabeça, que se intensificou como se uma explosão estivesse acontecendo no meu cérebro, ao abrir a cortina do quarto. Grande erro. Sol e ressaca, ao mesmo tempo, definitivamente não era uma boa combinação.
O banho ajudou com a dor no corpo e o latejar na cabeça, mas o que realmente acabou salvando a minha vida foram os comprimidos deixados ao lado da minha cama, o que significava que já estava acordada.
Me perguntei como tinha chegado em casa. E quando tinha reencontrado que, num dado momento da festa, simplesmente desapareceu. Lembrava-me de ter encontrado Iris e Liana e dos flashs do celular – esperava que aquelas fotos nunca fossem parar no Instagram, podia até imaginar minha cara – e... do beijo.
É claro que me lembrava. Como poderia esquecer? Nem mesmo uma lobotomia tiraria as lembranças.
Tinha certeza que, a partir daquela noite, seria parte permanente da minha vida. E diabos, eu queria isso.
A pressão dos nossos corpos, a segurança com que me segurava, as mãos atrevidas, os lábios macios... Quase me faziam perguntar se tinha sido, de fato, um beijo. Porque até onde me lembrava, nunca tinha sido beijada daquela forma. Nem mesmo com Chris, na época de colégio, em que costumávamos nos encontrar atrás das arquibancadas, conseguia ser tão bom.
Quer dizer, sim, estava bêbada, e possivelmente todas as sensações que senti podem ter sido potencializadas por conta do álcool. Mas eu duvidava.
Mas isso não explicava como tinha chegado em casa, e isso sim me preocupava. Não estava acostumada a não me lembrar do que fizera, até mesmo porque raramente agia de forma impulsiva.
estava na cozinha, tomando café apesar de já passar das duas da tarde. Quando foi que adquiri o hábito de dormir até tarde?
- Bom dia, flor do dia. Sente-se, você tem muita coisa para me contar.
Gemi pela pontada que senti na cabeça, e pelo interrogatório que me esperava.
- Não sei do que está falando. – talvez se me fizesse de desentendida, poderia comer um paõzinho e tomar meu café sem parecer que estava numa cena de investigação policial.
A verdade é que não sabia se estava pronta para contar à minha melhor amiga minhas peripécias da noite passada, ainda mais quando me lembrava de todas elas. Sim, eu me lembrava da conversa constrangedora que havia antecedido o beijo. Sim, eu queria me esconder num buraco. E não, eu não queria dividir essa parte com ninguém.
- Ah, , por favor, nem tente bancar a envergonhada comigo que não cola. – puxou a cadeira para mais perto e esticou o corpo sobre a mesa. – Eu sei que você pegou o deus Adônis ontem à noite.
- O quê? Como você sabe? Você viu? – será que mais alguém tinha visto?
Quer dizer, é claro que mais alguém tinha visto, dado que estávamos numa festa. Mas não esperava que, realmente, alguém prestasse atenção.
- Não, mas agora eu sei. – ela sorriu esperta. – Na verdade desconfiei quando ele se ofereceu para te trazer até em casa.
- Ele me trouxe? – minha cabeça tinha voltado a doer.
- Você não se lembra?
Agora que ela estava falando, sim, eu me lembrava. Não que a dor de cabeça ajudasse na memória, mas a gente fazia o que podia.
- Já disse que não precisa, eu moro aqui perto. – eu disse.
- Não vou deixá-la ir embora sozinha numa hora dessas.
- Não estou sozinha, estou com a minha amiga. – eu insisti. Por algum motivo, as palavras saiam com dificuldade. Talvez não devesse ter aceitado uma nova cerveja.
- E onde está a sua amiga?
Olhei em volta, procurando por . Quando tínhamos nos separado mesmo?
- Vamos procurar a sua amiga.
Por sorte também estava procurando por mim, e não protestou quando disse que queria ir embora. Afinal, como ela mesma dissera, a festa já estava começando a ficar estranha, gente bêbada demais.
se ofereceu novamente para nos levar embora.
- Você está de carro? – perguntou.
- Não, estou de táxi, mas não me incomodo em acompanhar vocês.

Ainda que estivesse meio bêbada, lembro-me de tentando manter uma conversa comigo o caminho todo, mais por preocupação, que qualquer outra coisa. O conteúdo da “conversa” não me lembrava exatamente, até mesmo porque, depois de termos saído da festa, e entrado no táxi, o sono havia começado a bater, e provavelmente havia respondido a ele coisas totalmente sem sentido.
- Ai que vergonha! – gemi, colocando as mãos na cabeça. Queria poder me esconder no quarto e nunca mais sair.
- Por que vergonha? Por ter beijado o menino?
- Também! – naquele momento essa era a menor das minhas vergonhas. – E por ele ter me visto naquele estado.
- Ok, vamos ter mais uma conversa sobre desconstrução com a tia . – ela se ajeitou na cadeira, colocando o cabelo atrás da orelha. Podia imaginar o teor da conversa que viria a seguir.
- Primeiro, você não tem que sentir vergonha por ficar bêbada numa festa universitária, pelo amor de deus. Todo mundo estava na mesma situação, a maioria muito pior, pode acreditar. Ele, e nem ninguém, vai te julgar, até porque ninguém tem esse direito.
Tentei argumentar, mas ela continuou:
- Até porque, se o deus Adônis o fizer, ele é o maior babaca machista do mundo, e não merece nenhum pingo da sua atenção.
Tudo bem, talvez ela estivesse certa. Ninguém iria me julgar por isso, certo? Ninguém tinha esse direito, ainda mais um cara que tinha acabado de conhecer. E de beijar. Todo mundo fica bêbado às vezes.
- Segundo ponto, sobre o beijo.
Senti as bochechas corarem instantaneamente.
- Não fique com vergonha disso. É a coisa mais natural do mundo duas pessoas se beijarem. Ainda mais quando o beijo é bom.
- Oi?
- Você gostou? – ela perguntou rindo. – Sem rodeios, sim ou não?
- Bem, sim...
- Muito bem, agora pode desenvolver.
- Como assim?
- Quero detalhes, meu bem. Você vive três anos numa vida amorosa e social pacata, e quando finalmente começa a ficar interessante, quer me poupar dos detalhes? Sem chances!
Eu ri. Claro que Stuart não se contentaria com um simples “sim”.
- Além disso, sou sua melhor amiga, então é a sua obrigação me contar tudo.
- Tudo, tudo?
- Tudinho. Pode começar me dizendo o nome dele.
Mesmo agora sabendo como se chamava, não achava que “deus Adônis” sairia de moda, até mesmo porque nenhum outro nome se encaixava tão bem.
Então contei tudinho, a começar pelo seu nome, .

Na segunda feira de manhã, pela primeira vez, chegou na sala de aula antes de mim. Nada de entradas sedutoras, chamando atenção de toda ala feminina, nada disso. Dessa vez ele se encontrava sentado, quase comportado demais, com a perna cruzada, brincando com a caneta, na carteira ao lado da minha. Ou, pelo menos, na que costumava me sentar desde o primeiro dia de aula naquela universidade.
Aquilo não era coincidência.
Se não era boa na hora do flerte, imagina no pós flerte/pós beijo. Já não sabia direito esse negócio de ficar com um cara que acabei de conhecer, quem dirá conversar com esse cara que acabei de conhecer, dei um baita beijão, e reencontrei um dia depois.
É claro que eu sabia que o encontraria mais cedo ou mais tarde, estudávamos na mesma sala. Mas não tinha realmente parado para pensar em como reagiria, até porque, tudo o que menos precisava era de comentários maliciosos sobre o que tinha acontecido.
Resolvi começar com o básico: sentar-me. Ao lado dele. Ou, tecnicamente falando, no lugar de sempre que, coincidentemente, era ao lado que resolvera se sentar naquele dia.
- Bom dia. – ele disse com a voz rouca. Pensei se o tom poderia ser proposital para me seduzir – o que funcionaria, sem sombras de dúvida - mas então lembrei-me de que era segunda feira de manhã, e ele provavelmente estava apenas com sono.
- Bom dia. – simples, educada. Nada comprometedor, afinal, ele estava apenas sendo educado também.
- Como foi seu domingo?
Aja naturalmente, , pare de querer complicar sua vida.
- Normal, eu acho.
- Sério? – ele disse, rolando os olhos e passando as mãos no rosto. – O meu foi péssimo, fiquei de ressaca o dia todo, e ainda tive que sair para correr mais tarde com meu colega de casa. – e bufando, continuou. – Sabe como é, o cara é da educação física, adora uma corrida. – disse em irônico.
- Pois é... – o que mais poderia dizer? – Na verdade também estava meio ruim, mas minha amiga me deu uns comprimidos que acabaram tirando a dor de cabeça.
- Ah, a famosa colega de apartamento. Me lembro de você ter me contado dela na festa, ainda que minha memória preferida da noite de sábado não tenha sido nossa conversa.
Pensei por um segundo como responder àquilo. Não, eu não era lerda ao ponto de não entender sua indireta, que mais era uma super direta. Por sorte não precisei me esforçar para continuar aquela conversa, no mínimo, incomum, já que Iris e Isabelle chegaram junto com o professor.
Íris não escondeu a confusão ao ver ali na frente, ou talvez só estivesse confusa por ele ter chego no horário. Quando perguntou o que ele fazia ali, apenas dei de ombros. Eu realmente não sabia a resposta àquela pergunta.
- Ei, .
- Bom dia, Isabelle.
Então agora ela dizia o nome dele? Agora que eu já não precisava mais da informação? Bem, obrigada, universo.
- Vamos apenas não falar sobre a noite de sábado, ok?
Ele não fez objeções, ainda que o sorriso de canto estivesse lá.

Minha ideia era, no primeiro dia de estágio, no lugar em que sempre sonhei em trabalhar, escolher cuidadosamente a roupa que usaria, assim como os sapatos – ninguém merece bolhas logo no primeiro dia de trabalho – e sair de casa antecipadamente, a fim de encontrar uma boa vaga próxima ao prédio em que passaria minhas tardes.
Mas a realidade foi sair com a mesma roupa que havia usado de manhã, prender o cabelo – não tinha tido tempo de tomar banho, além de perder o maior tempão decidindo se iria de carro ou de metrô – e acabar parando num estacionamento que, ao final da tarde, iria arrancar uma boa quantia de dinheiro do salário que ainda não havia começado a receber.
E o estacionamento nem era tão perto assim.
- Boa tarde, . Que coincidência encontrá-la aqui.
Parei de andar. Não precisava olhar para saber quem falava, mas o fiz assim mesmo.
estava bem atrás de mim, no usual terno que deixava sua bunda atrativa, com as mãos no bolso, e o sorriso – que parecia nunca deixa-lo – convencido.
- Como está?
- Ah... Mais ou menos, igual de manhã, eu acho. – que tipo de resposta tinha sido aquela? Poderia pelo menos disfarçar que tinha uma super queda por homens de terno, especialmente por ele de terno.
passou a andar ao meu lado. Por algum motivo, resolvi que ali, no lugar menos privado de São Paulo, ou seja, no meio da calçada, seria um bom momento para ter a pequena conversa que queria ter mais cedo, só não sabia como começá-la.
- Olha, preciso deixar uma coisa clara. – comecei. – Não quero nada sério, sabe?
Ele parou de andar, me encarando.
- Quem disse em ter algo sério aqui?
- Eu não quero nada com você. – eu disse. Ele começou a rir antes de responder.
- Você sempre fala isso para os caras que te dão boa tarde na rua?
Fiquei envergonhada. Ele estava certo, não estava fazendo nada demais. Não é como se ele estivesse me pedindo em casamento, mas sabe como é, era preciso falar aquilo em voz alta. Mais para mim mesma do que para ele.
- Você tem cara de problema, . – eu disse. – Cara de menino problema para meninas como eu.
- E que tipo de menina você é?
- O tipo que não precisa de um menino problema agora.
Ele riu ainda mais divertido, como se tivesse contado a melhor das piadas. E levantando as mãos na altura no peito, diz:
- Muito justo.
Quando pensei ter deixado as coisas esclarecidas entre nós, continuei meu caminho. Chegar atrasa no primeiro dia não estava nos meus planos.
E parar de andar atrás de mim, não parecia estar nos planos de .
- Quer parar de me seguir?
- Não estou seguindo você.
- Ah, é mesmo? Então, coincidentemente, você está indo para o mesmo caminho que eu?
- Não sei. Para onde você está indo? – ele perguntou. E quando apontei, ele disse sorrindo – Olha só o que o destino reservou pra gente, senhorita . – e se aproximando nossos rostos, continuou – Eu também estou indo para o mesmo prédio.
- É mesmo? – perguntei meio irônica, meio tonta com seu perfume.
- É mesmo. – ele respondeu sorrindo. E tomando a frente, seguiu em direção ao prédio, deixando a porta aberta para mim, entrando logo em seguida, ao mesmo tempo em que cumprimentava o porteiro.
Fala sério, ele estava mesmo fazendo toda aquela encenação só para não dar o braço a torcer e não admitir que estava me seguindo?
- Boa tarde. – disse à secretária da recepção. – Meu nome é , e hoje é meu primeiro dia de estágio.
- Aguarde só um minuto, enquanto confiro o seu nome. – ela disse simpática. E com um sorriso maior do que o rosto poderia suportar, disse. – Oi, .
- Oi, Sara. – ele respondeu com um sorriso convencido no rosto. Fala sério que ela conhecia ela!
- O doutor Lucio Muniz está o esperando na sala de reuniões.
- Obrigado, Sara. - ele agradece a ela com um sorriso super exagerado, devo observar. E ao passar por mim, disse: - Boa sorte hoje. Espero que ninguém te persiga pelos corredores.
E foi assim, seguindo para os elevadores, com o sorriso mais convencido da história, que foi embora.

Devo dizer que, para um primeiro dia num estágio novo, até que estava me saindo bem. Quer dizer, não é como se a equipe, com quem iria trabalhar, fosse a mais receptiva de todas, mas todos me deram boas vindas. E logo em seguida voltaram a atenção para o computador.
Um, em especial, foi uma gracinha. Fernando, era seu nome, e acabou sendo o único a começar uma conversa comigo. Também foi quem ficou responsável por fazer um tour comigo, mostrando onde ficavam os banheiros, a cozinha (cuidado com o que deixa na geladeira, pode não estar lá na hora que for embora), a sala de arquivos (se tiver alergia a poeira, nem entre), as salas dos advogados (todos naquele andar pegavam causas, preferencialmente, da área cível; os advogados atuantes de outras áreas ficavam em outros andares, os quais não prestei realmente atenção), além de falar em que andar ficava a segurança, o RH (esse eu já conhecia, mas achei por bem não interrompê-lo), a contabilidade e a informática. Além, é claro, da biblioteca.
- É sério que tem uma biblioteca aqui?
- Esse é um escritório bem antigo, e antes que pergunte, sim, os livros são constantemente atualizados.
Também falou sobre os horários de entrada e saída, e a pausa para o café da tarde. Bem, isso eu já sabia, já que constava no contrato.
- Você leu seu contrato? Muito bem, parece que temos uma estagiária de Direito que faz jus ao curso. – ele disse. Pensei que não passava de uma brincadeira, mas no final do nosso tour Fernando contava algumas histórias de ex-estagiários que passaram a ser réus em ações que o próprio escritório propôs por condutas indisciplinares.
Fiz uma anotação mental de ler o contrato novamente, do começo ao fim, linha por linha, quando chegasse em casa.
- O doutor Fernandez está viajando, mas volta amanhã. – Fernando disse, ao voltarmos para nossas mesas, na sala dos estagiários. – Não tenho competência para te passar nenhum serviço agora, além disso, imagino que ele mesmo vá querer conversar com você antes de te passar qualquer coisa.
Eu entendia, é claro.
- O que posso fazer por agora, é lhe mostrar o caso em que estamos trabalhando agora, e ensiná-la a mexer no sistema do escritório. Você já recebeu seu login e senha?
- Não... – disse, decepcionada.
- Não se preocupe, até o final da semana você receberá um.
Depois de passar a tarde sentada em frente à tela do computador tentando não me perder no mar de informações que o sistema do escritório proporcionava, e lendo os processos mais urgentes em que os estagiários estavam trabalhando, a hora de ir embora chegou.
Não fiquei surpresa ao encontrar apoiado na mesa da secretária na recepção. Também não fiquei surpresa com o charme que seu sorriso esbanjava, o famoso sorriso “molha calcinhas”, como gostava de definir certos sorrisos – e o de certamente se encaixava nessa categoria. Sara, a secretária, nem mesmo dava bola para o cliente sentado ao lado, com cara de poucos amigos. Alguém ali tinha sido esquecido, e ele, que certamente tinha hora marcada, não estava gostando do charme de para Sara.
Passei por eles fingindo que não os tinha visto, o que, é claro, não funcionou. rapidamente estava ao meu lado, logo após ouvi-lo gritar um “até amanhã” para a secretária.
- Como foi o primeiro dia?
Queria poder dizer que tinha sido produtivo, empolgante, cansativo, até, mas a única coisa que fui capaz de responder foi:
- Foi legal.
- Decepcionada?
- Não! – esperava que ninguém tivesse ouvido ele. O que iriam pensar de mim, logo no primeiro dia? – Eu gostei. Só que tudo ainda é muito novo.
- Não se preocupe, a primeira semana é a pior. – ele disse. Paramos ao lado da porta e, como mais cedo, ele deu passagem a mim. – Se acabar se perdendo pelos corredores, não tem problema. – ele brincou. – Além disso, aprender a mexer no sistema é um saco, ainda mais com a informática demorando para criar o login para quem é novo.
- Não é?! Pensei que fosse a única a pensar que o sistema mais confunde do que ajuda.
- Não, todos os estagiários pensam assim. Bem vinda ao clube. – ele piscou para mim.
- Devíamos sair para comemorar o seu primeiro dia. – ele disse quando já estávamos do lado de fora.
- Eu vou sair, mas com a minha amiga.
- Beleza, então vamos juntos. Já decidiram onde querem ir?
- Eu não convidei você. – eu disse.
- Não, eu convidei você, não ouviu? – ele disse de forma marota.
Ri, desacreditando na ousadia que aquele garoto tinha.
- Você veio de carro?
- Sim. – disse suspirando, pensando nos dois quarteirões que teria que andar para chegar ao estacionamento. - Se tivesse chegado mais cedo, talvez conseguiria no estacionamento aqui da frente.
- Deixa eu adivinhar, você acabou enrolando, imaginando se deveria vir de carro ou de metrô, com medo de não achar vaga.
- O que te faz pensar isso? – perguntei com a testa franzida.
- Você parece ser a pessoa mais prevenida do mundo. – ele disse, dando de ombros.
- Você nem me conhece para falar essas coisas.
- Estou errado? – ele perguntou levantando as sobrancelhas.
- Bem, não. – admiti a contra gosto. – Mas isso não muda o fato de que você não me conhece.
- Então temos que mudar isso.
Fingi que não ouvi o comentário dele, aproveitando para fazer a pergunta que estava me matando há horas.
- Em que área você trabalha? – se estava mudando de assunto sem nem mesmo disfarçar? Sim, obrigada.
- Civil. Contratos de risco, mais especificamente.
- Por que estava numa reunião com o doutor Lucio Muniz?
- Porque sou estagiário da equipe dele.
- Isso é sério? – eu perguntei, talvez um pouco animada demais. – Você tem ideia de que trabalha com o Harvey Specter da vida real?
- O quê? – ele perguntou rindo.
- O quê, vai me falar que nunca viu Suits?
Ele continuava rindo divertindo, quando me respondeu:
- Não, mas agora vou começar a assistir.
- Faça isso. – eu disse. Não conseguir imaginar um mundo onde alguém não assistia Suits. – Eu tenho que pegar meu carro. Quer se encontrar no bar com a gente? – perguntei já sabendo a resposta, afinal, ele mesmo tinha se convidado. Ou, como ele mesmo tinha dito, ele tinha me convidado.
- Na verdade acho que vou aceitar a sua carona, já que vim sem carro hoje.
Eu não tinha lhe oferecido carona, mas nem perdi tempo falando isso. Só queria ir embora logo, pensando no dinheiro que perdia a cada minuto que deixava meu carro naquele estacionamento.
- Ah, e antes que me esqueça. – ele disse. – Na próxima vez, você pode parar seu carro no estacionamento do escritório. Além de ser no subterrâneo do prédio, é de graça.



Continua...



Nota da autora: Oi, gente! E aí, o que acharam desse encontro totalmente proposital? E que coincidência esses dois trabalharem no lugar, nenom? haha O que vocês acham que vai rolar nessa conversa de bar? E como eles vão interagir a partir de agora? Deixem nos comentários suas ideias e teorias! A segunda parte do capítulo sai logo, prometo.
Beijos de luz
Angel

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10. What If I (Ficstape #036 – Meghan Trainor: Title)




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