Última atualização: 13/05/2018
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Prologo

Para aqueles que viam de fora, ela poderia ser considerada uma garota de sorte. Com um histórico escolar repleto de boas notas e elogios vindos de todos os professores, era claro que ela seria a escolhida para ser a oradora da formatura do terceiro ano. Além de ser da comissão de formatura, capitã do time de vôlei e ter como namorado o melhor jogador de futebol da escola, ela ainda havia ganhado um prêmio por ser a aluna que mais havia se destacado, nos últimos três anos, na escola.
Mas não era só isso que tornavam uma garota sortuda. Ao ver seu nome da lista de aprovados no curso de Direito, na melhor universidade da América Latina, a Universidade de São Paulo, ela não poderia ser chamada de outra coisa que não fosse cheia de sorte.
Sorte era o que as pessoas de fora chamavam todo o esforço e dedicação que tivera em todos os seus anos na escola, especialmente nos últimos três. Todas as noites de sábado que ela havia ficado em casa para estudar, em vez de sair para beber junto com os outros de sua idade, todas as vezes que ela se negara a beber um pouquinho mais para não correr o risco de ficar com dor de cabeça no dia seguinte, todas as noites que ela havia ido dormir cedo, todas as vezes que ela havia dito não para garotos que ela nem conhecia, mas sabia que não seriam o cara perfeito que ela precisava do seu lado, lhe apoiando e lhe dando força.
Mas ela não se importava. Que dissessem o que quisessem dizer. Ela estava dentro de uma das melhores faculdades do mundo, enquanto a maioria dos seus amigos estava fora. Melhor do que isso, ela estava se mudando para São Paulo com sua melhor amiga, e seu namorado, que passaria a morar a poucos quilômetros dela, para estudar odontologia e seguir o caminho dos pais. Ele poderia visita-la sempre que quisessem matar a saudade.
Tudo estava correndo como planejado: suas ações, perfeitamente controladas e previstas, foram as responsáveis por lhe fazer seus sonhos se realizarem. Agora, nada poderia dar errado.


Capítulo 1


Estava sentada na mesma posição há tanto tempo, que já nem sentia mais minhas pernas. Sabia que o filme que havia começado a assistir já tinha acabado, assim como o que começou depois dele. Não que estivesse realmente prestando atenção. Na verdade nem sabia do que se tratava.
Aparentemente, nem mesmo Liam Neeson, em uma cena de ação totalmente coreografada, conseguia fazer meu cérebro parar de repassar de novo, e de novo, na conversa que tivera com Chris há um mês. Trinta e dois dias, para ser mais específica.
- Eu não quero mais, .
- Não quer o quê? – perguntei distraída, olhando para o bar esperando meu suco chegar.
- Não quero mais namorar. – ele disse direto. E aquilo foi mais que o suficiente para chamar minha atenção.
Com calma, entrelacei as mãos em cima da mesa e perguntei, no tom mais controlado que pude:
- O quê?
- Não quero que pense que estou apaixonado por outra, porque eu não estou! – ele disse. E então colocou sua mão por cima das minhas. – Mas acredito que já não somos mais como antes.
- É claro que não somos mais como antes, Chris! Moramos em cidades diferentes, estudamos em faculdades diferentes e temos rotinas completamente diferentes da que tínhamos no colegial!
Talvez meu tom de voz já não estivesse mais tão controlado. As pessoas ao redor começaram a olhar. Então respirei fundo, tomei todo o suco de laranja que havia sido colocado na minha frente – sem que percebesse – e, com o orgulho tomando cada parte do meu corpo, disse:
- Você tem certeza disso? Porque não você não vai poder voltar atrás, Christian. Não vou ficar como uma boba cheia de esperança esperando que o namorado mude de ideia...
Aquela onda de coragem impulsionada pelo orgulho definitivamente não estava esperando pela resposta que veio a seguir.
- Eu já me decidi. Eu quero terminar.

Foi , minha colega de apartamento, e melhor amiga a vida toda, que me fez voltar à realidade.
- Fala sério que você ainda está aí nesse estado deplorável!
Olhei volta pra entender do que ela estava falando. Quer dizer, talvez ainda estivesse usando pijama, mesmo que já passasse das quatro da tarde, e tivesse algumas embalagens de salgadinhos em volta do sofá. E em cima da mesa de centro. E no chão talvez tivesse uma panela com vestígios do brigadeiro que havia feito de manhã, mas isso não significava que estava numa situação deplorável.
- Eu já ia arrumar tudo, se é o que está insinuando.
- , por Deus! Por mais quanto tempo você vai ficar assim?
- Não sei do que está falando.
- Você passou as férias todas aqui, nem voltou pra sua cidade.
- É, mas você também não voltou! – há, por essa ela não esperava, não é?
- Fiquei só porque trabalho, e ainda assim consegui uma semana de férias para visitar meus pais, diferente de você que preferiu ficar jogada no sofá as férias todas em vez de visitar sua mãe.
Não disse nada, porque sabia que não tinha como argumentar com ela. Afinal, eu já havia tentado várias vezes no último mês.
- Isso é ridículo, ! Você não deve ficar lamentando o fim de um namoro, principalmente quando o ex-namorado em questão for Chris.
- Você nunca gostou dele...
- Não mesmo. E olha só, mais um motivo pra provar que eu estava certa.
- Eu só... Não entendo como as coisas chegaram a esse ponto. Quer dizer, as coisas entre a gente estavam bem. Pelo menos tão bem quanto um namoro de três anos pode estar.
havia sentado do meu lado, depois de jogar as embalagens de salgadinhos no chão, com cara de nojo. Eu estava mesmo precisando limpar aquilo tudo.
- Sabe o que é o pior? – perguntei. – Foi descobrir que ele estava me traindo! Mas pior do que isso, é que eu não poder culpar a menina, afinal, ela não tem culpa de Chris ser um idiota que trai a namorada.
ia dizer alguma coisa, mas a interrompi. Pela primeira vez nesses dias todos, percebi o que estava realmente me incomodando, e não era só o fato dele ter terminado assim, do nada.
- Sabe o que é AINDA pior nessa história toda? Foi ele ter terminado comigo. Quer dizer, não fui eu que saí por aí enfiando minha língua na boca de outras garotas. Não, não. Eu sempre fui uma boa namorada, ótima namorada, na verdade. Argh! Se eu tivesse descoberto antes, eu mesma teria terminado esse namoro.
me olhou de um jeito estranho, mas entendi o que seus olhos queriam dizer. Ela não acreditava em mim. Segundo ela, em nossas várias conversas desde o término – e até mesmo antes dele, quando as coisas estavam “aparentemente” bem – eu vivia numa bolha mágica com Chris. E provavelmente não teria terminado nada. Teríamos brigado, é claro. Talvez eu tivesse feito uma cena, e depois tudo teria ficado bem.
Maldito Christian.
- Ok, fico feliz em ver você reclamar de verdade. Quer dizer, eu estava respeitando o seu momento de “fossa-pós-Chris”, mas se você não começasse a reclamar das atitudes babacas dele, eu mesma iria começar.
- Mas você sempre reclamou das atitudes babacas dele.
- E você admitir que ele fosse um idiota com atitudes ainda mais idiotas já é um começo.
Suspirei. Ela estava certa. Passei um mês lamentado o término do namoro, me perguntando onde estava o problema, quando na verdade, acho que o problema era ele mesmo.
- Quer conversar?
- Nós já não conversamos? Tipo, umas trinta vezes? – ri.
- Talvez. Mas vou dizer uma coisa que já disse mais de cem vezes, e vou continuar dizendo até que entre nessa sua cabecinha dura: você não pode controlar tudo. Não pode planejar uma situação inteira, tentando prever a reação do outro. Não tinha como você adivinhar que Chris ficava com outra menina, nem tinha como você prever que ele iria terminar.
Suspirei de novo, porque, de novo, não tinha nada a dizer que já não tivesse dito. E talvez, só talvez, estivesse certa.
- E se quer saber, acho ótimo que vocês tenham terminado. Pelo menos agora você vai poder viver a sua vida aqui em São Paulo, sem se preocupar com ninguém mais além de você mesma.
- É, pode ser...
- Até porque, você era feliz antes de ter um namorado. Agora que terminou, e está na faculdade, vai poder ser ainda mais feliz. Não tem porque ficar sofrendo agora, especialmente porque foi ele que terminou, ou seja, quem está perdendo aqui, meu bem, é ele. Definitivamente ele.
- Você tem razão.
- E quando é que eu não tenho?
Nós rimos, ela relaxada, eu cansada.
- Que bom que concordamos. Agora vá tomar um banho, que vamos sair pra beber essa noite, como pessoas normais da nossa idade fazem.
- Não podemos sair pra beber. As aulas começam amanhã.
- , pelo amor deus, ninguém vai na aula no primeiro dia. – disse com a testa franzida. – Na verdade ninguém vai pra aula na primeira semana, pelo menos não se você for uma veterana.
- Bem, eu não vou perder o primeiro dia.
rolou os olhos antes de responder.
- Ok, mas também vai sair pra beber hoje. – e antes que pudesse argumentar, ela continuou. – E isso não foi uma pergunta.

Não foi difícil decidir nosso destino. Os vários barzinhos que eram cheios de estudantes, durante o período letivo, estavam praticamente vazios, à espera dos alunos que ainda não haviam voltado das férias. Escolhemos então o mais movimentado que, segundo , era o melhor e o mais frequentado pelos universitários.
- Você sabe que se quiser começar a ir nas festas da faculdade, o que eu aprovo, eu posso te fazer companhia. Algumas são muito boas, todas open bar.
Entramos no bar, encontrando um ambiente de excitação contida pelo retorno das aulas. O tom era de reencontro, cheio de abraços e comentários do tipo “o que você está fazendo aqui? As aulas de verdade só começam semana que vem!” Aparentemente, todos os alunos que haviam voltado para a primeira semana de aulas estava naquele bar naquela noite.
- E quer saber, se quiser ir às festas do Direito, eu me voluntario pra ir com você. Sabe como é, pra você não chegar sozinha e tal. E pra ter a chance de ver uns gatinhos usando terno. – continuou enquanto caminhávamos para uma mesa perto da janela.
- Garotos de terno são realmente sexy, mas lamento desapontar, os garotos não vão de terno para as festas da faculdade.
- Sério?
- Sério.
- Isso é mesmo uma pena. – fez bico. - Mas a oferta continua de pé.
Ri da naturalidade com que ela falava, e agradeci pela oferta. Se quisesse colocar em prática a nova , a que não fica sofrendo pelo ex-namorado idiota, com certeza iria usar de seu “voluntariado” para me acompanhar a lugares que não costumava frequentar. Como as festas do meu próprio curso, por exemplo
- Aquela menina ali não é da sua sala?
Virei a cabeça pra olhar onde apontava. Em uma mesa de seis pessoas, Iris era a única que conhecia.
-É sim, mas não conheço as outras pessoas.
- Quer ir lá cumprimenta-la?
- Não, vou me sentar pra segurar a mesa pra gente. E já que fui obrigada a vir até aqui, vou pedir algo pra beber.
- Esse é o espírito! – disse animada, sem perceber a tentativa de sarcasmo. – Peça o mesmo para mim. Eu já volto.
E então ela saiu para cumprimentar metade das pessoas que estavam no bar, como ela sempre fazia, em qualquer lugar em que ia.
Mal puxei a cadeira, e o garçom deixou o cardápio em cima da mesa. Olhei para cima enquanto ele se afastava. Ele era bonitinho. Fala sério, como nunca tinha reparado nele antes? Não que eu fosse com frequência àquele bar. Ou a qualquer outro bar. Esse seria um ponto a ser mudado aquele ano.
Pedi duas caipirinhas, uma delas com hortelã, para . Enquanto esperava o pedido chegar, novamente me peguei pensando em Chris. Por mais que me irritasse não conseguir tira-lo da cabeça, não podia evitar. No mínimo ridículo o fato dele ter terminado daquele jeito, especialmente depois de descobrir que ele não era o mais santo dos namorados.
Há duas semanas, depois de já ter chorado tudo que tinha direito, e começava a me recuperar, me convidou a ir a uma padaria ali perto de casa, para tomarmos café. Na verdade ela literalmente me arrastou, de pijama e tudo. Fui abordada por uma garota, dizendo me conhecer de algum lugar. Eu tinha certeza de que não a conhecia de lugar nenhum. E então ela se lembrou que me conheceu por uma foto de Chris. Antes de dizer que havíamos terminado, ela começou a contar sobre como o conheceu numa festa, muito triste por ter “terminado com a namorada”. Essa festa tinha acontecido ano passado, na nossa cidade, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo.
Não precisei perguntar pra entender que eles tinham ficado. Não queria saber o que mais tinham feito. Mas sabia que, se ele tinha feito essa jogada barata uma vez, ele poderia ter feito muitas mais. Fala sério! Fingir que está sofrendo com um término pra ficar com outra. Maldito. E como disse pra , não podia culpar a menina, que acabei nem sabendo o nome. O único traidor ali era ele.
Depois disso, fiquei com vontade de falar alguma coisa. Ou muitas coisas. Pra ele, na cara dele. Só não sabia o quê, ou como.
E foi nesse momento que o vi. Ele estava sentado, com a cabeça abaixada, mexendo no celular. Os braços fortes apoiados na mesa, me faziam perguntar se ele era da Educação Física. A camisa social com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas na altura dos cotovelos, me mostravam que não, ele não era da Educação Física.
Os cabelos escuros estavam jogados para todos os lados. Ainda não tinha visto seu rosto, mas então ele levantou a cabeça, e não consegui olhar para outro lugar.
Os olhos verdes podiam ser vistos mesmo à distância e com a luz baixa. Os lábios grossos, o queixo quadrado, a barba por fazer... E o que seria a minha perdição, o sorriso ao cumprimentar o colega que passou. E naquele momento eu quis ser aquele colega.
Ainda o olhava – como poderia não olhar? – quando seus olhos chegaram à mim. Ele viu que estava vidrada, pateticamente, nele. Qualquer pessoa com olhos naquele bar veria.
Ele sorriu de lado e levantou uma sobrancelha. Entendi aquilo como um desafio a desviar o olhar, o que eu teria feito se ainda tivesse algum controle no corpo, coisa que não tinha naquele momento.
Ele apoiou as duas mãos em cima da mesa e fez menção de se levantar. Não descobri o que ele faria em seguida, ou para onde iria, já que chegou, sentando-se na minha frente, e cobrindo qualquer visão que pudesse ter do carinha na outra mesa.
- Está tudo bem?
Eu não saberia responder, então tomei um gole da minha bebida que havia sido colocada ali sem que notasse.
- Você está meio vermelha. Está passando mal?
- Não, estou bem. Com calor, talvez.
Tentei olhar pra trás de , mas ele não estava exatamente no meu campo de visão, especialmente agora que mais gente tinha chegado à mesa.
olhou pra trás, seguindo meu olhar.
- Uau, menina! Que gato!
- O quê? – me engasguei.
- Devo dizer, depois de Chris, você não poderia ter escolhido melhor. – ela disse com a própria bebida nas mãos.
- Do que você está falando?
se aproximou mais, curvando o corpo sobre a mesa.
- Do carinha sentado ali naquela mesa. O de olhos verdes, não é? – e então dando uma piscadinha, ela continuou. – Excelente escolha. Esse tem o selo de qualidade.
- Para de falar besteira, menina, eu não estou escolhendo nada.
- , você é uma péssima mentirosa. Não sei nem como quer ser advogada.
- Eu não sou. – disse de pressa. - E eu não preciso ser mentirosa pra ser advogada. – completei.
- É sim, seu corpo te entrega. – ela riu divertida. – Agora entendo as bochechas coradas, eu também ficaria toda vermelha no seu lugar.
- Para de falar bobagens.
Quando olhei para trás de de novo, ele estava olhando para frente. Voltei minha atenção para minha bebida.
- O que foi? Ele está olhando pra você? – ela perguntou interessada.
- O quê? Não. Quer dizer, não sei...
Mal terminei de falar e já estava com o corpo virado.
- É, ele está olhando pra você.
- Menina, pelo amor de Deus, para de dar na cara! – disse puxando seu braço. Ela poderia ser menos discreta?
- Minha filha, mais óbvia que essa sua cara vermelha só uma placa escrito “oi, gato, vem falar comigo”.
Mesmo tensa, ri daquilo.
- Fala sério! – ainda rindo.
- Fala sério você. Por que não vai falar com ele?
Arrisquei mais uma olhada.
- Ele está falando com um monte de gente.
Como se eu fosse falar com ele, caso ele estivesse sozinho. Aham, com certeza.
- Eu entendo, amiga. O famoso medo da rejeição em público. Eu entendo mesmo. Sorte eu já ter superado esse medo. – ela disse bebericando sua caipirinha. – Ah, ... Você ainda tem tanta coisa a aprender sobre a arte da paquera...
Ri de novo, dessa vez mais alto. Só ela mesmo pra falar essas coisas.
No final da noite, depois de algumas bebidas e um shot de tequila, por insistência da minha maravilhosa amiga, já não me importava realmente em olhar para o Adônis ali na outra mesa. Adônis era o nome que havíamos decidido dar a ele, pelo menos enquanto não descobríssemos o verdadeiro. Com uma beleza daquela, não foi tão difícil escolher como chamá-lo.
Quando já estávamos no caixa pagando a conta para ir embora, um garoto passou por nós me cumprimentando. Quando perguntou quem era ele, pensei um pouco antes de responder:
- Não sei... Acho que ele é da minha sala. Mas nunca conversamos. Na verdade nem sei o nome dele.
- Bem, você está solteira agora, e o seu facebook cuidou de estampar a notícia para todo mundo.
Olhei envolta procurando o Adônis. Onde ele estava?
- Ele foi embora enquanto você estava de costas, cumprimentando o cara da sua sala que você não sabe o nome.
Acho que não percebi que tinha perguntando em voz alta.
- Sério?
- Sério.
Fiz um bico involuntário. riu me abraçando enquanto saíamos do bar.
- Definitivamente, essa mais relaxada é uma das suas melhores versões.

Ao me jogar na cama, agora morta de sono, lembrei porque costumava não beber. Eu era, simplesmente, a pessoa mais fraca do mundo.
Já deitada, me esforçava para tirar o jeans, os calçados e a blusa, sem que precisasse me dar ao trabalho de levantar. Não que estivesse tendo muito sucesso.
Quando estava quase pegando no sono, tive uma ideia. Uma ideia brilhante, diga-se de passagem. Soube exatamente como responder a Chris. Soube o que dizer a ele, aquilo que queria dizer quando ele terminara, e quando fiquei sabendo da menina da padaria.
Tão simples. Tão fácil. Não sei por que não tive essa ideia antes.


Capítulo 2


Deveria ter acordado com o despertador. Ou com os outros três que deveriam tocar depois do primeiro. Sabe como é, só como garantia de que não perderia a hora caso não acordasse da primeira vez. Mas não foi assim que acordei.
No lugar de uma das melodias padrões que já vinham no celular, acordei com um toque alto demais para quem ainda está dormindo. Ainda com a luz apagada, e com a cabeça meio zonza, abri a pasta de mensagens.
Quem ainda manda mensagens?
Era de Chris. Chris, meu ex-namorado canalha.
Pensei o que ele poderia querer comigo, afinal, por que ele entraria em contato depois de um mês? A não ser que tivesse mandado por engano, o que não me surpreenderia.
Então me lembrei da noite passada. Mais especificamente quando já estava deitada, pronta para dormir – que é o que eu deveria ter feito.
- Bom dia, flor do dia. – apareceu na porta do meu quarto vestindo roupa de ginástica. Provavelmente estava voltando de sua corrida matinal. – Você está bem?
- Acho que fiz uma coisa ruim. – gemi.
olhou para o celular na minha mão e correu para sentar do meu lado.
- Nada de bom acontece quando uma pessoa que bebeu na noite passada acorda com o celular na mão. – ela fala. – O que você fez, ?
- Mandei uma mensagem para o Chris. – falei baixinho.
- O QUÊ?
- Eu sei! Mas ontem pareceu uma boa ideia.
- É claro que pareceu uma boa ideia, você estava bêbada! O que você mandou?
- Não lembro exatamente... Acho que algo sobre o término... Agora ele respondeu e ainda não tive coragem de ler a resposta. – disse.
Não queria ler o que ele mandou, porque não tinha coragem de ver o que eu tinha escrito. Na minha cabeça, era algo como “por que você me deixou, volta pra mim”.
- Ai, ! Deixa eu ver, e dependendo do estrago, decido se passo para você ou não.
- Ok... – disse lhe entregando o celular.
Nos segundos que leu as mensagens, não olhei pra ela. Não queria ver a vergonha alheia estampada na sua cara. E então, contrariando tudo o que eu esperava, minha amiga começou a rir.
- Nós temos que sair pra beber mais vezes! – ela disse, ainda rindo.
- Por quê?
virou o celular para mim. Na tela, a mensagem que mandei na note passada.

“Olá, Chris. Agora entendo que você estava certo. Terminar foi a melhor coisa que poderia ter acontecido com a gente, especialmente para mim. Sou boa de mais para ficar com um cara idiota como você que não vê problema em trair a namorada. Obrigada por ter me poupado o trabalho. Finalmente percebi que o problema sempre foi você.”


- Adorei a atitude, girl power!
Ok... Então não tinha sido tão ruim quanto pensava.
- Qual foi a resposta dele?
Com uma careta, leu a mensagem.
- Disse que não queria que as coisas terminassem assim, blá, blá, blá... Nem que você descobrisse esse deslize da sua vida, blá, blá, blá... Ele não se orgulha disso... E espera que isso não atrapalhe o fato de vocês ainda serem amigos.
- Não somos amigos.
- Eu sei, ele é um idiota. Calma, tem mais. – e então continuou a ler. – Blá, blá, blá... Ele te chama para tomar um café qualquer dia desses.
- Fala sério!
- Eu sei! Ainda bem que você não está mais com ele.
Com a cabeça, concordei.
- Quer que eu apague a mensagem?
- Não, eu mesma posso fazer isso.
- Tem certeza?
- Sim. – eu precisava disso, deletar Chris da minha vida. E esse gesto simbólico, era o que eu precisava para colocar um ponto final na nossa história.
- Ok, vou tomar banho. – ela disse, se levantando.
- Pensei que não fosse para faculdade. – disse quando ela já saía.
- Eu vou para faculdade. Não vou para a aula, é diferente. – vendo a confusão no meu rosto, ela explicou – Hoje é o primeiro dia de aula, depois da Recepção aos Calouros, não posso perder isso. – piscou divertida e saiu.
Ainda sentada na cama, apaguei as mensagens. Mais do que isso, apaguei o seu número da minha lista de contatos. Apesar dos pesares, estava orgulhosa de mim mesma. Minha eu bêbada descobriu, antes da eu sóbria, que aquele relacionamento ter terminado, foi a melhor coisa que podia ter acontecido. De verdade. Porque, por mais que não quisesse admitir antes, meu namoro com Chris não era mais o mesmo, e não só pela distância.
Agora mais do que nunca sabia que Chris não era mais aquele cara perfeito que costumava beijar atrás da arquibancada do colégio. Também não era aquele cara que gostava de achar que era, durante os três anos de namoro.
Pensar em mim mesma como uma mulher solteira me dava a sensação de liberdade. E poder me expressar, e dizer para Chris – ainda que por mensagem e estando bêbada – aquilo que sentia, me deixava bem. Eu estava bem.

Tradicionalmente, a primeira semana de aula na Universidade de São Paulo é substituída por oficinas, atividades culturais e esportivas, e palestras educacionais, com o fim de recepcionar os novos alunos e integrá-los com os veteranos.
Oficialmente, as aulas começam na segunda semana, mas isso não impede que muitos alunos faltem, afinal, todo mundo sabe que a primeira semana é bem tranquila.
Devido à minha fossa pós termino, não compareci à Semana de Recepção aos Calouros. Não que teria realmente ido, de qualquer forma. Já havia ido uma vez, quando foi a minha vez de ser caloura.
Havia, de fato, vários alunos, mas poucos com um caderno nos braços. Uma vez que a recepção havia sido semana passada, com atividades importantes, que todo bom calouro da USP não gostaria de perder, essa semana, por ser a primeira, oficialmente falando, era a semana que teriam para cabular às aulas e fugir para o bar com os veteranos, a fim de mostrar como calouros também eram legais. Então não era difícil encontrar rodinhas de veteranos e calouros, esses muitas vezes identificados com uma plaquinha, um crachá, uma gravata ou qualquer outro objeto característico do seu curso.
Segui direto para a sala. Ainda na porta, reparei nos meus colegas. Tinha que admitir que havia mais gente do que esperava. Íris, a menina que estava no bar na noite anterior - a qual não quis ir cumprimentar por estar numa mesa com várias outras pessoas que não conhecia – já estava lá. Íris era a pessoa com quem mais conversava na sala. Era a única, na verdade. O que, parando pra pensar agora, era mesmo estranho.
Algumas pessoas passaram por mim pedindo licença, outras me cumprimentaram com um sorriso. Uma delas, inclusive, soltou um “ei, !”. Respondi a todos com educação, percebendo que não sabia o nome daquelas pessoas. Aquelas pessoas que estudam comigo há dois anos. Isso era deprimente. A única resposta aceitável que tinha, era de que realmente costumava viver numa bolha fechada com Chris, inacessível a conhecer novas pessoas – pelo menos sempre foi a teoria de , e agora percebia que fazia sentido.
Outra coisa que precisava ser mudada.
Me aproximo de Iris quando a vejo acenar dos lugares que guardou: as primeiras carteiras das duas fileiras do meio.
- Como foi de férias, ? – ela perguntou enquanto trocávamos um abraço.
- Foram boas. – obviamente que não iria contar que fiquei praticamente um mês inteiro lamentando pelo fim do meu namoro com Chris.
- Vi que você e Chris terminaram. – ela comentou.
- Pois é... – disse. Íris não disse nada, mas continuou me olhando como se esperasse por uma resposta mais elaborada. – Foi melhor assim.
Ela não pareceu satisfeita, mas não insistiu no assunto.
- Espero conseguir um estágio esse ano. – ela disse, mudando o rumo da conversa.
- Nem me fale.
Quando me mudei para São Paulo, pensei que finalmente saberia o que era ser independente, afinal, estaria morando com minha melhor amiga, em um apartamento só nosso, sem precisar dar satisfação aos meus pais, ou prestar contas de onde ia e com o que gastava. Mas a realidade de uma universitária, ainda mais uma que mora sozinha e começa a ter contas a pagar, é bem diferente. Ainda que os pais de e os meus nos ajudassem com as despesas mais pesadas, não me sentia muito adulta quando precisava pedir dinheiro à minha mãe quando queria comprar um vestido novo.
O professor entrou, e nos sentamos.
- Ei, vocês vão sair com a gente hoje? Recebemos vários calouros bonitinhos esse ano...
Ao olhar para trás, reconheci Isabelle. Ela morava no prédio vizinho ao meu, e sempre a via conversando com Iris. Apesar de sentar atrás de nós desde o primeiro ano, nunca havia trocado mais que um “bom dia”, ou “tchau” com ela.
Outro ponto a ser mudado.
- Eu vou! – Iris disse animada. Ela adorava recepcionar os calouros. Tinha um ponto fraco por garotos mais novos, ainda que não admitisse. – Liana também vai.
- Por falar nela, onde sua prima está? – Isabelle perguntou sem desviar os olhos da tela do celular.
- Vai chegar no intervalo pra sair com a gente.
De novo pensei que não via sentido em acordar cedo e ir para a faculdade, só para sair pra beber depois.
- Legal! – e então olhando para mim Isabelle perguntou: - E aí, , como foram as férias?
Quis rolar os olhos, mas não o fiz. Sabia o que ela realmente queria saber. Provavelmente queria que contasse sobre meu término de namoro para poder fazer comentários e dar palpites, além de ter uma fofoca a mais para contar.
- Foram boas. – se dei a mesma resposta que havia dado à Iris? Sim. Se me importava de parecer grosseira? Não.
Isabelle concorda com a cabeça, parecendo acreditar na minha resposta, ou simplesmente não se importando com ela E então disse que as delas também foram muito boas. Ela havia ido viajar com os pais, e tinha voltado semana passada, para a recepção dos calouros. Depois disso voltou a atenção para o celular.
- Sabe, Belle é assim mesmo. Fica no celular o tempo todo, sempre resolvendo algum problema, e agora ela deve estar terminando de organizar a saída de mais tarde. – Iris disse baixinho para mim. – E não se preocupe, ela não se importa com o fim do seu namoro. Pode ter certeza de que ela não vai lhe perguntar, nem insistir em nada que você não se sinta confortável em falar.
Imediatamente senti afeição por Isabelle. Talvez pudéssemos nos aproximar, afinal de contas. Ter mais uma pessoa com quem conversar na sala seria legal. Além disso, fazia parte da minha meta de ser uma nova ter novas amizades.
- Tudo bem, então, já está tudo organizado. – Isabelle disse, voltando sua atenção para nós. – A concentração vai ser no intervalo. Vocês duas vão, então, certo?
Acabei dizendo que não iria. Não queria perder a aula, ainda que fosse uma aula só de apresentação dos professores, sem conteúdo nem nada. Esse lado certinho da minha vida de estudante não sabia se conseguiria mudar um dia.
- Fala sério, !
- Relaxa, nem vamos perder nada, especialmente por ser primeiro dia. – Isabelle disse.
- Vamos fazer assim, se quiserem, podem tirar xerox do meu caderno amanhã, caso os professores passem algo de importante. Ou podem tirar fotos, simplesmente, como acharem melhor.
E então elas não contestaram mais o meu lado nerd, ao ouvirem a palavra mágica.
Eventualmente acabei descobrindo que quando se está numa universidade, um bom caderno para xerox era quase o equivalente a um maço de cigarro na prisão. Talvez um caderno completo, com anotações e comentários, fosse até mais valioso. E eu tinha o poder em mãos.
O barulho da porta se abrindo chamou minha atenção. Na verdade, sendo sincera comigo mesma, não foi a porta se abrindo e fechando que, de fato, me chamou a atenção.
Ao olhar para frente, eu o vi. Dessa vez sem as mangas dobradas, mas com os primeiros botões da camisa abertos, calça social perfeitamente alinhada e os cabelos tão bagunçados quanto na noite passada. Quando ele olhou para mim, senti um arrepio na nuca. Seus olhos estavam ainda mais verdes que ontem, se isso fosse possível.
Desviei o olhar, tentando focar em qualquer coisa que estivesse à minha frente. A coragem da noite passada tinha ido embora junto com o álcool.
- Caramba...!
Não precisei olhar para Iris para saber de onde tinha vindo a exclamação.
- Ele é aluno novo? – ouvi minha voz perguntando. A curiosidade falava mais alto. Foi Isabelle quem respondeu:
- Ele é do quinto ano... Já tive Direito Previdenciário com ele. Está cursando essa matéria de novo, depois de reprovar. – ela falou. Olhei timidamente para trás, enquanto ele chegava ao fundo da sala. Quando ele se sentou, olhei para frente de novo. – Na verdade muitos alunos costumam reprovar com esse professor. Dizem que ele pega pesado nas provas.
Em situações normais, sem dúvidas, eu teria ficado preocupada com o que Isabelle havia dito, e não tiraria os olhos do professor à minha frente e da lousa já quase completamente cheia de informações. Mas eu não estava em uma situação normal, já que a única coisa que tinha em mente, naquele momento, eram os olhos verdes como a água do mar.
Olhei para trás. Como um típico veterano que não se importa muito com o que o professor fala lá na frente, ele havia se sentado na última fileira, no canto mais escuro, bem em baixo de onde tinha uma lâmpada queimada. Sem realmente se importar com o conteúdo da aula, ele olhava para baixo, enquanto mexia no celular.
Isso facilitou para que eu pudesse olhá-lo melhor. De onde estava, tinha uma bela visão do corpo de um metro e oitenta, seus braços apoiados na cadeira da frente, seus olhos verdes iluminados com o brilho da tela do celular... Aquela sala estava ficando mais quente?
Foi quando passei a mão pelo pescoço, a fim de afastar os cabelos e encontrar um pouco de ar fresco, que ele olhou para frente. Não só para frente, mas para mim. Diretamente para mim.
Devo ter demorado alguns segundos para me tocar do que estava acontecendo. Só fui capaz de voltar atenção pra frente quando o vi levantar uma sobrancelha e soltar uma risadinha que não ouvi, mas tinha certeza de que estava ali.
Fala sério. Maldito cara de lindos olhos verdes e linda bunda numa calça social.
- Bom dia. – o professor disse. E foi nesse momento que me ajeitei na cadeira, a fim de não perder uma só palavra dele.
Sr. Enoch foi um juiz famoso no Estado de São Paulo, que passou a dar aulas de direito penal quando o momento da aposentadoria se aproximava. Agora ele trabalhava com consultoria jurídica em um escritório de renome no centro da grane São Paulo, além de dar aula em uma das melhores universidades da América Latina.
Eu tentei, tentei de verdade prestar atenção no conteúdo programático do semestre que o professor havia passado na lousa, mas minha nuca estava quente, como se um par de olhos verdes a estivesse queimando.
Não virei para confirmar minhas suspeitas.

Como todo bom primeiro dia de aula, a turma foi dispensada mais cedo. Lá fora, com Iris e Isabelle, nos juntamos a outros alunos de outras turmas. Foi fácil reconhecer os calouros dos veteranos. As cabeças raspadas, os rostos pintados – daqueles que não foram na Semana de Recepção aos Calouros –as risadas histéricas de excitação por estarem prestes a matar o primeiro dia de aula para sair com os alunos mais velhos...
Isabelle cuidava da logística, como ela mesma gostava de chamar. Como muitos alunos não tinham carro próprio, alguns até mesmo ainda eram menores de idade, ela cuidava para que ninguém ficasse para trás.
Ficar ali fora assistindo àquela tradição universitária já era mais do que fizera ano passado, quando passava boa parte dos meus intervalos na sala de aula, às vezes conversando com Chris, outras lendo um livro qualquer.
- Meninas, vocês estão sabendo da festa que o Direito vai dar no fim de semana? – Isabelle perguntou.
- Sim, eu e Liana vamos. – Iris respondeu.
- Legal. Já estamos vendendo os convites para quem não é aluno, ok? Então se conhecerem alguém que queira ir, é só passar o meu número.
- Você vai, não é, ? – Iris quis saber.
- Com certeza!
A animação podia ser forçada, mas a verdade era que iria nessa festa por ter prometido a mim mesma ser uma nova . Além disso, não deixaria que faltasse a uma festa do meu próprio curso, não quando já o fiz por dois anos, e, mesmo a essa altura do curso de Direito, ainda não sabia o nome de metade da minha turma.
- Assim é que se fala, garota! – Iris comemorou. – Vai ser no bar de sempre, Belle?
- Vai sim. Como é uma festa tradicional, o bar vai fechar pra turma de Direito nesse dia. Então levem suas carteirinhas, ou precisarão pagar pra entrar. – Isabelle explicou. – Além disso, tem também a festa de recepção dos calouros no mês que vem também. Só que os convites só vão começar a ser vendidos semana que vem.
- Assim que começarem a vender, você me fala? Assim já trago o dinheiro pro convite. – disse para Isabelle. Essa eu com certeza sabia que não deixaria eu não ir.
Quase como que por alguma força magnética, o vi novamente. Dessa vez ele estava mais longe, em meio a várias pessoas. Imagino se Isabelle, que parecia conhecer todas as pessoas daquele campus, saberia seu nome. O Adônis, como o apelidou noite passada, está rindo enquanto pintava alguma coisa na testa de um garoto, para logo em seguida tirar foto com ele. Quase consigo ouvir o som de sua risada.
- É isso aí, meninas, já deu minha hora. – disse olhando a hora no celular.
- Tem certeza de que não quer ir com a gente? Vai ser divertido... – Iris disse.
- Acredito em vocês. – falei, mesmo não acreditando, realmente – Mas vou me sentir melhor ficando pra aula, mesmo sabendo que, provavelmente, não haverá nada de importante. – e antes que tivesse que lidar com a insistência delas, completei – Além disso, ficando aqui, vocês não precisarão se preocupar em perder alguma nota importante, pois vou me certificar de copiar tudo que o professor disser, cada palavra, e amanhã empresto o caderno pra vocês como prometi. – disse sorrindo esperta. E como mais cedo, não houve nenhuma outra contestação.
Menos de cinco minutos depois já estava na sala de aula, que, surpreendentemente, ou não, estava ainda mais vazia. Terminando de responder a mensagem da minha mãe, prometendo ligar para ela quando chegasse em casa, o professor começou a aula. Ou pelo menos, o que deveria ser a aula. Depois de uma apresentação formal, e a explicação do que seria estudado naquele semestre, além da reclamação da ausência dos alunos, a turma foi liberada cedo.
Mesmo de longe, as conversas e risadas podiam ser ouvidas. Aparentemente a ideia de fazer uma recepção calorosa e bastante barulhenta não era exclusiva do Direito.
Passando pelas ruas da cidade universitária, me peguei pensando em Chris, e se ele estaria junto de seus amigos veteranos, dando as boas vindas aos alunos novos, numa calorosa recepção, como a turma do Direito estava dando. Se ele também estaria planejando sair para beber com os amigos e com os calouros...
não estava em casa. Segundo a mensagem que tinha mandado, tinha saído para almoçar com as amigas, e depois iriam a algum lugar com a turma nova da arquitetura. Não me importei realmente, gostava de ficar sozinha em casa. A não ser, é claro, pela parte da comida. A qual eu conseguia ser um fracasso, mesmo tentando seguir receita.
Em meio a um grande dilema – Leni’s Restaurante ou Maria Antonieta Bar, qual entregaria o almoço mais rápido? – liguei para minha mãe. Ela atendeu no terceiro toque, com uma grande saudação, como se não nos víssemos há meses. O que, teoricamente, não era mentira, já que havia desperdiçado minha chance de passar um tempo com a minha família, chorando no meu quarto em São Paulo, durante as férias todas.
- Reparei que você apagou as fotos que tinha junto de Chris do seu facebook. – ela disse.
Não sei por que fiquei surpresa. Quer dizer, é claro que o tema da conversa, hora ou outra, chegaria em Chris. Minha mãe sempre achava um meio de falar sobre ele, e não seria diferente agora, ainda que tivéssemos terminado há um mês.
- Pois é... Na verdade já deletei as fotos há um tempo.
- E por que fez isso?
Rolei os olhos pedindo a todas as entidades celestiais existentes para que me dessem paciência naquele momento.
- Mãe, nós terminamos. E é por isso que exclui nossas fotos juntos.
E ainda por cima nem exclui todas, porque tínhamos varias fotos em grupo, e não quis perder essas também.
- Ah, , me entristece tanto ver vocês separados... Vocês eram tão lindos juntos...
Paciência, por favor, eu preciso de paciência.
- Ainda tenho esperanças de que você vão voltar... Tenho mesmo.
- Bem, eu não teria esperanças se fosse você, mãe. Nós terminamos mesmo.
- Você não acha que Chris pode ficar chateado de ver que todas as fotos que você tiraram juntos foram excluídas? – ela perguntou como se não tivesse ouvido o que acabei de falar.
- Na verdade, mãe, Chris não tem que achar nada. E mesmo que ache alguma coisa, não me interessa. – e antes que minha mãe pudesse me interromper, e eu sabia que ela o faria, continuei – Exatamente porque eu e ele não temos mais nada juntos.
Mesmo não vendo seu rosto, eu sabia que a expressão de decepção estava ali. Decepção comigo, por não responder às suas expectativas de que Chris e eu já estaríamos prestes a voltar. Ela nunca gostou do fim do namoro.
- Vocês, jovens de hoje em dia, terminam e voltam como se trocassem de roupa.
Ela não disse, mas eu sabia o que aquilo significava. Ela ainda acreditava que voltaríamos, como se nada tivesse acontecido. Claro que não tinha contado a ela que havia sido traída. E que tinha sido idiota o bastante para só descobrir depois do término – término este, que ele causou.
Dando um fim à conversa, antes que perdesse a paciência, prometi que voltaria para casa assim que possível.
Depois de desligar, já tinha perdido a fome. O celular tocou novamente, dessa vez com outra mensagem. Íris e os calouros ainda estavam no bar, e ela não acreditava que eu não estivesse lá. Quer dizer, não podia mais usar a desculpa de não perder aula, mas podia usar a desculpa de ter tido uma conversa desagradável com a minha mãe.
A verdade era que não me sentia a vontade indo a esses lugares, cheio de gente que não conhecia. Eu não fazia parte daquele mundo. Sair da minha zona de conforto era a pior coisa que poderiam pedir a mim.
Não sou hipócrita a ponto de acreditar que essa atitude poderia ser mantida pra sempre. Até mesmo porque, se queria ser uma diferente esse ano, a mesma da noite passada, decidida e corajosa, e não a de agora, com o celular numa mão e o cardápio do Leni’s Restaurante na outra, uma hora ou outra, eu precisaria sair da minha zona de conforto. Mas essa hora não seria agora.
Meus pensamentos foram interrompidos com chegando em casa, fazendo barulho ao prender a alça da bolsa na maçaneta da porta.
- Ei, por que você está aqui e não está lá no bar bebendo horrores com a sua turma?
Como podia imaginar, minha melhor amiga estava meio bêbada, e, consequentemente, falando engraçado.
- E como é que você sabe que a minha turma saiu pra beber hoje?
- Porque todos os estudantes de São Paulo decidiram, aparentemente, irem para o mesmo bar. – ela disse revirando os olhos. – Inclusive o seu gatinho estava lá.
- Ele não é meu gatinho. – disse no automático. E então emendei imediatamente – Quer dizer, de quem você está falando?
sorriu esperta, e colocando as mãos na cintura, disse:
- Você precisa descobrir o nome dele. E o ano em que está. E a sala. – disse vindo para perto de onde eu estava, ainda sentada no sofá, rindo enquanto ela trombava com a mesa de centro. – E não se preocupe, ele não tem namorada.
- Como você sabe? - perguntei automaticamente de novo. E de novo, me xinguei mentalmente. – Quer dizer, não que eu me importe...
- Ah, me poupe! – ela gritou já do quarto. Colocou a cabeça para fora, apoiada no batente da porta, e disse – Vi ele ficando com algumas meninas hoje. No plural. – fez cara de nojo, e eu a acompanhei, fazendo uma careta. – E tinha outras tantas dando em cima dele. Se isso é ter namorada, não sei o que não é! – gritou a última parte, pois tinha entrado de novo. Não que fosse preciso gritar, já que o apartamento não era lá tão grande assim. Mas quem sou eu pra discutir isso com uma pessoa alterada pelo álcool.
Ri ao ouvir alguma coisa caindo no quarto. Fui até lá.
- Chris namorava comigo quando ficou com outra menina numa festa.
- Chris era um idiota ruim de cama. – disse bufando. – Esse cara não parece ser ruim de cama. Não parece ser ruim em nada, na verdade.
- Mas ele ainda pode ser um idiota... – disse refletindo momentaneamente. E então emendei – Quer dizer, não que eu me importe...
- Ah, , pode parar. – disse-me interrompendo. – Você tem que descobrir quem ele é. E se ele for um idiota, que seja apenas uma ficada de um dia. Ou uma noite. Ou um fim de semana. – fez cara de safada de novo. Mas então ela tropeçou na bolsa, que estava no chão, e não consegui segurar a risada.
- Ok, alguém precisa de um banho.
- É sério, ! Você precisa descobrir quem esse cara é. Por mim! Você é minha melhor amiga, e eu quero que você tenha essa felicidade.
- Você não sabe se vai ser uma felicidade conhecer ele. – disse ajudando-a a separar uma roupa limpa.
- Ah, sei sim. Vi os sorrisos daquelas meninas todas, então, meu bem, eu sei o que ele pode lhe proporcionar. E você me deve isso!
- Como é? – perguntei rindo.
- Como sua mentora! Meu papel na sua vida é te ajudar a se soltar, a quebrar esse monte de limite que a senhorita se impôs... E vai por mim, esse garoto pode te ajudar, e muito, nisso.
Ainda rindo, ajudei a tirar a camisa. Antes de entrar no banho, ela pegou o celular, mexeu por alguns segundos. O estado alegre e levemente embriagado aparentemente tinha sumido.
- O que foi? – pela falta de resposta, e a forma como jogou o aparelho na cama, entendi. – Nenhuma notícia de Lucas ainda?
- Não. E não me importo. Quero que ele vá para o inferno.
A verdade era que também estava passando por problemas amorosos, só que diferente da maioria das pessoas, tinha um jeito próprio de lidar com eles. De certa forma, eu a invejava. Nada de ficar sofrendo pelos cantos, nem chorando por horas, ou perdendo as férias escolares para ficar comendo chocolates e lamentando por alguma coisa que já não tinha mais.
Voltando para a sala, me peguei pensando no que tinha dito sobre o Adônis, percebendo que estava sim interessada em saber mais sobre ele. Mais do que isso, eu queria saber mais. Muito mais.
Se Isabelle estava certa, e ele fazia aula de Direito Penal conosco, então amanhã iria vê-lo de novo. E eu estava ansiosa por isso.


Capítulo 3


- Se quiserem, podem tirar foto do meu caderno. Apesar de que o professor não disse nada de relevante, só passou alguns livros que, segundo ele, são de extrema importância pra gente.
- Traduzindo, leiam cada página de cada livro, porque será exatamente o que vou pedir na prova. – Iris disse. E ela estava certa. Professores têm um jeito peculiar de avisar aos alunos como pretendem ferrar com suas vidas, caso não estudem o quando eles acham que você deve estudar.
Isabelle foi a última a tirar foto do meu caderno, sem realmente se importar muito. Sua atenção estava voltada a todas as fofocas do dia anterior. Aparentemente, uma saída com os calouros pode render muitas novidades. Iris estava particularmente satisfeita com os novos alunos, mas decepcionada com algumas idades.
- Devia ser proibido deixarem garotos de 17 anos entrarem numa universidade.
- Relaxa, amiga, daqui alguns meses isso muda. – Isabelle piscou esperta. - Ei, vocês sabem com quem Emma saiu ontem, depois que fomos embora do bar?
- Emma saiu com alguém ontem?
- Saiu. E foi com um dos novos. Essa menina não perdeu tempo. – Isabelle disse admirada, quase com orgulho. Não tinha amizade com Emma, como não tinha com quase ninguém na minha turma, quem dirá com os outros alunos do meu curso, mas conhecia sua história. Quase precisou trancar a matrícula ano passado, depois de um término difícil de namoro. Demorou anos pra ela perceber que seu namorado era controlador além do simples “é porque eu me preocupo com você”.
- Gente, fiquei sabendo que Rafael está solteiro de novo. – Isabelle disse mudando de assunto, fazendo com que me perguntasse se tinha alguma coisa naquela universidade que aquela menina não sabia.
- O do último ano? É sério isso? – Iris perguntou se virando na cadeira, ficando de frente para Isabelle, sentada atrás de nós. - Fala sério! Essa pode ser a minha chance! – ela disse rindo.
- Parece que a saída de ontem rendeu bastante conversa. – comentei. Não sabia exatamente do que estavam falando, mas queria fazer parte da conversa. Interagir, certo? Esse é o primeiro passo para sair do casulo.
- Você não faz ideia, menina!
- Pois é... Você podia ter ido, aposto que ia se divertir. – Isabelle comentou. – Mas entendo que fim de namoro é complicado.
E foi então que entendi. Elas achavam que não eu não tinha saído por causa de Chris. Porque, supostamente, ainda me encontrava numa fossa tremenda, causada pelo meu ex-namorado idiota. E o que acabou realmente me deixando com raiva, era o fato delas estarem certas.
Quer dizer, na minha cabeça já tinha decidido não fazer nada naquela tarde, porque eu não era exatamente o tipo de garota que saia da zona de conforto (não que não tivesse planos para mudar isso). Mas o fato de minha conversa com minha mãe ter nos levado a falar sobre Chris, especialmente da forma como foi abordado pela minha mãe, me deixou abalada sim. Mais pelo fato dela, aparentemente, não ver qualquer futuro que eu possa ter, a não ser com ele, do que outra coisa.
- Eu não estou deixando de sair por causa de Chris.
- É claro que não. É só que... É compreensivo você meio que ficar mais na sua... Términos são complicados. – Iris disse, enrugando a testa.
- Não estou ficando na minha! – na verdade meu objetivo aquele ano era fazer exatamente o contrário. Novas experiências, e tal... Não queria que pensassem que Chris tinha alguma coisa a ver com a forma como agia. Ele não tinha nada a ver comigo, pelo menos não mais.
- Se quer saber minha opinião, acho que foi bom vocês terem terminado.
- Por quê? – perguntei, mesmo que, no fundo, já soubesse a resposta.
- Você parecia outra pessoa quando estavam juntos. – Iris explicou. E eu sabia que ela não estava errada. Quer dizer, sempre soube que minhas amigas não gostavam dele – até porque fazia questão de deixar isso claro – mas fingia não perceber isso, já que Iris e Liana sempre foram bem simpáticas nas poucas vezes que se encontraram com ele. Até mesmo minha melhor amiga se esforçava. Diferentemente dele, que não parecia achar importante dar um sorriso, ou se mostrar educado, quando elas estavam por perto. E então eu precisava me esforçar por nós dois, para fazer a experiência não ser tão desagradável. Normalmente me fechava na bolha mágica que vivia com ele, para que Chris não se sentisse excluído, nem desconfortável quando, na verdade, o causador do desconforto era ele.
E então percebi – na verdade já tinha percebido há algum tempo, mas só tinha me permitido admitir agora – que ninguém gostava realmente dele. Com exceção, talvez, dos meus pais, que quase se afogaram em lágrimas quando souberam do término. Posso até arriscar dizer que minha mãe deve ter chorado mais do que eu, no fim de semana que tudo aconteceu.
Mudando de assunto – não sei se intencional ou não – Iris e Isabelle voltaram a falar do dia anterior, combinando de passar na biblioteca mais tarde para procurar os livros de Direito Penal que nos foram indicados.
E então lembrei de que teríamos outra aula de Direito Penal naquele dia, logo após o intervalo e que, junto com ela, a presença de certo par de olhos verdes. Confesso que não estava nem um pouco ansiosa para a aula, mas a expectativa de encontrar o deus Adônis estava ali, mais forte do que nunca.

A aula transcorreu bem. Diferente dos professores do dia anterior, a Dra. Leila não nos dispensou mais cedo após fazer as apresentações. Mais do que isso, ela garantiu que tivéssemos uma boa pesquisa para fazer ao chegar em casa – não que acreditasse que muitos alunos a fariam.
O intervalo foi no mínimo estranho. Dois anos naquela universidade, e foram poucas as vezes que, de fato, saí da sala de aula durante os intervalos. Isso era, no mínimo, deprimente. Algumas pessoas da sala vieram se sentar na mesa em que estava com Isabelle e Iris, e sua prima se juntou a nós em certo momento, trazendo consigo alguns colegas da sua sala. Percebi que nunca tinha feito parte de um grupo como aquele. Ou de qualquer grupo, na realidade. Rodinha de conversa? Não me lembrava, pelo menos não desde o colegial, quando ainda frequentava as festinhas na piscina na casa de uma garota relativamente rica da minha turma.
Quando voltamos para a sala, a ansiedade bateu de novo. Automaticamente me senti uma boba por esse tipo de reação, mas a simples expectativa de vê-lo já provocava reações que não estava exatamente acostumada a sentir. Não sabia nem defini-las. Preferi chama-las de ansiedade.
Como no dia anterior, o professor chegou, e nada dele. Me perguntei se viria, de fato. Mas então, antes da porta se fechar por completo, ele a abriu totalmente, lhe dando passagem para que entrasse.
- Esse sabe como fazer uma entrada. – Iris comenta baixinho.
Concordei com ela, até porque nem tinha como discordar de uma coisa dessas. O cara parecia ter saído de um filme de Hollywood, com o cabelo todo bagunçado, abrindo a porta, assim, como se fosse dono da sala, chamando atenção de todo mundo.
- Parece que alguém está interessada nele... – Iris diz. E isso chamou minha atenção que, até então, estava acompanhando seus movimentos até a mesa do professor.
- O quê? Quem?
- Você, bobinha. – ela diz revirando os olhos.
- Não estou não. – disse automaticamente.
- Tudo bem se você se interessar por alguém depois de terminar um namoro... – Isabelle disse, mas a interrompi.
- Não tem nada a ver com isso! – falei meio com raiva. Por que essa mania de achar que tudo que faço está relacionado com Chris, de alguma forma?
- E comparado ao seu ex, esse aí parece ser bem melhor. Quer dizer, pelo menos ele conversa com as pessoas, e cumprimenta quem passa por ele... – Iris disse. – Quer dizer, não que Chris fosse de todo ruim, mas sabe como é...
E o pior é que eu sabia mesmo. Chris não era do tipo sociável, pelo menos não com as minhas amigas. Educado, talvez simpático, mas nada agradável. E então uma memória veio à minha cabeça, de um dia que Chris apareceu, sem mais nem menos, no apartamento que morava com , quando já estávamos para nos encontrar com Iris. De como ele não gostou nadinha de ter que ir junto, de como não fez questão de sorrir ao cumprimentar alguém, de como ficou emburrado a noite toda e depois reclamou do bar, falando que estava cheio de mais, e quase não dava para conversar. Naquela noite fomos embora cedo, ainda que fosse aniversário de Iris. Nem esperamos o parabéns.
Chato pra caralho.
Fala sério! Como fiquei com um cara desses por tanto tempo?
- Se quiser eu posso apresentar vocês. – Isabelle disse. – Estamos na mesma turma de Direito Agrário.
Precisei de alguns segundos extras para entender do que ela estava falando.
- Ah... Obrigada, eu acho. – disse meio sem jeito. – Mas não precisa.
Quer dizer, uma coisa é imaginar conhecê-lo e... Fazer coisas. Outra bem diferente era, de fato, conhecê-lo e ter a chance real de fazer coisas. Nem deixei que minha mente entrasse nos detalhes do tipo de coisas poderíamos fazer juntos.
Íris disse alguma coisa sobre falar com alguém em algum lugar. Não que estivesse concentrada no que ela falava. O deus Adônis então terminou de conversar com o professor, e com um sorriso de lado, virou-se. Ele poderia estar olhando para qualquer lugar, mas por alguma razão, ele olhou pra mim. E andou na minha direção, já preparando para colocar o caderno na carteira ao lado da minha. Pelo menos era o que eu achava que ele iria fazer, se Iris não tivesse voltado da conversa com alguém, em algum lugar, retomando seu lugar de costume ao meu lado.
Sem perder o ritmo, ele continuou sua caminhada, indo para no fundo da sala, como ontem. Foi nesse momento que senti minha nuca queimar, como se alguém estivesse olhando firmemente.
Imediatamente quis confirmar minhas suspeitas.
- Não pensem que sou o tipo de professor que não se importa com a presença dos alunos na minha aula, pois não sou. A maioria de vocês faltou no primeiro dia, e, aparentemente, muitos não se importaram em faltar no segundo dia também. - Dr. Enoch começou seu discurso, ressaltando como as chances de se darem mal na disciplina dele eram grandes. Também comentou sobre os rostos conhecidos – ou seja, os alunos que já estavam fazendo aquela disciplina pela segunda, terça, quarta vez... – e sobre a chamada, que seria feita ao final da aula, “para garantir que ninguém saia antes”.
Foi então que percebi que descobriria o nome do deus Adônis pela chamada. E então fiquei ansiosa para o fim da aula, sem me importar realmente com as diferenças entre os crimes praticados contra a administração pública.
Minha atenção estava totalmente voltada para os nomes chamados, mas fui frustrada quando o professor maldito passou a pular vários “nomes já conhecidos”.
Ao caminharmos para o estacionamento, Isabelle chamou Iris para almoçarem no novo restaurante que abriu perto de sua casa. Quando o convite foi estendido a mim, recusei com a desculpa de que encontraria no shopping, o que, daquela vez, não era mentira. Sua amiga jurava que precisava de uma roupa nova para a festa no fim de semana.
- Por falar nisso, , você vai mesmo, não é? Não vai dar pra trás não...
- Não vou dar pra trás... Não dessa vez.

- Ok, me fala de novo como é que você está aqui no shopping, e não no seu estágio.
rolou os olhos antes de responder:
- Já disse que meu chefe está de férias, e a senhora que está no lugar dele é bem mais maleável quando algum estagiário pede para faltar. - ela disse. – Mas me conta sobre o gatinho Adônis ainda sem nome. Descobriu alguma coisa, tipo o nome dele?
- Não... – respondi, me sentindo num filme de investigação policial, em que estava em busca de pistas sobre o suposto assassino.
- Você está muito lerda nisso, ! Você não tinha dito que tem uma menina na sua sala que faz outra aula com ela? Certeza ela sabe o nome dele.
- Provavelmente...
- Então por que não perguntou ainda?
- Com que desculpa?
- E precisa de desculpa pra querer saber o nome do cara? Fala sério, , você não vive no século XVII não.
- Que seja...
Agradeci pela área de alimentação ser a mais cheia do shopping, assim ninguém estaria, realmente, prestando atenção na nossa conversa. Quer dizer, eu parecia mesmo uma velha falando assim. Mas o que eu podia fazer? Não é como se minha mãe tivesse me ensinado a ir atrás dos garotos quando quisesse ficar com eles. Em verdade, tinha sido exatamente o contrário.
- Você deve se permitir se sentir curiosa, e mais do que isso, sanar essa curiosidade. Não tem nenhum problema nisso.
Concordei com a cabeça, prestando atenção no prato à minha frente. Nunca sabia realmente como responder à quando ela falava essas coisas.
- E por falar em se sentir curiosa... Acho que você precisa começar a se relacionar com outros caras.
Ri irônica antes de responder.
- Me diga uma novidade. – não ter a capacidade de conseguir o nome de um garoto que estudava na minha sala já era sinal mais que suficiente que alguém aqui precisava começar a se relacionar melhor. – Mas não sei se estou pronta pra isso.
- Quer dizer, não digo que você deve sair transando com todo mundo. – olhei em volta para ter certeza que ninguém estava prestando atenção na gente. Essa menina tinha que querer falar sobre isso aqui? Agora?! – Nem sair colocando uma aliança no dedo, nem nada, mas se relacionar, sabe? Conhecer pessoas, se decepcionar com elas, e mais importante: aprender a lidar com isso... Porque você precisa perder essa insegurança absurda que tem.
- Não sei se minha insegurança é tão absurda assim.
- O fato de você ter insegurança não é absurdo, mas a forma como ela te consome é que não dá pra aceitar. Mas eu não te culpo. Quer dizer, seus pais sempre foram muito conservadores, e sua mãe sempre te reprimiu muito... Sem falar que Chris era um pé no saco que não deixava você viver além do relacionamento de vocês.
Percebi que, ainda que magoada com o que ela havia dito, não tinha como argumentar. De fato, sempre havia sido reprimida pela minha mãe – não que ela fizesse por mal, afinal, não podia culpar sua criação conversadora – e Chris, que deveria me ajudar a conhecer o mundo, só fazia com que me fechasse ainda mais pra ele.
- Até porque não tem como perder a insegurança, tipo, totalmente. Ela sempre vai estar presente, em vários aspectos e momentos. Mas você pode aprender a lidar com ela. – continuou falando, sem perceber meu momento de reflexão. – Já pensou nas oportunidades que você pode perder por causa da insegurança?
- Ou as que posso deixar de ganhar.
- Exatamente! – disse entusiasmada por eu, finalmente, estar concordando com ela. – E se você tentar e não der certo, beleza, bola pra frente. Mas o importante é tentar, é experimentar.
- Você sabe que eu não vou sair me atirando pra cima de qualquer cara que aparecer na minha frente, não é? – disse rindo.
- É claro que sei, e nem é isso que você deve fazer, até porque não são todos que são bons para você. Mas nem todos são ruins também.
- Espero que tenha razão. – e esperava mesmo. Pensar que Chris poderia ser o único cara com quem me relacionaria a vida toda era desesperador. Ainda mais porque a experiência não tinha sido das melhores, convenhamos.
- Você só precisa achar alguém que esteja na mesma sintonia que você.
- Mas eu nem sei a sintonia em que estou, como vou achar alguém que esteja na mesma que eu?
- Atração, amiga!
Revirei os olhos. Tudo bem, podia não saber muito sobre a arte da paquera, mas pelo menos isso eu sabia.
- Esse é o primeiro passo. E como você não está procurando um relacionamento sério, não precisa se preocupar em achar o cara certo, pelo menos não para namorar. Só precisa achar o cara certo para experimentar, um que supra as suas necessidades do momento.- talvez aquela última parte tivesse me feito corar, mas preferi não tirar a prova. Ela tinha mesmo que ser sempre tão direta? - Porque, convenhamos, não é como se você tivesse muita experiência.
- Muita experiência? , eu não tenho experiência nenhuma! Chris foi minha única experiência. – infelizmente, pensei. – Me senti uma virgem inexperiente.
deu risada, batendo palmas.
- Então você precisa experimentar mais! E não se sinta mal, nem envergonhada, até porque todo mundo precisa treinar.
Coloquei as mãos no rosto, agora tendo certeza de que estava totalmente corada.
- E se sentir mal, por um momento que seja, lembre-se do Capitão América, que tem 90 anos e ainda é virgem.
Dessa vez fui eu quem riu.
- A diferença é que o Capitão América é um personagem fictício, não uma estudante de Direito que acabou de sair de um relacionamento e não tem ideia do que fazer agora.

Na manhã seguinte, já estava na mesa tomando café da manhã quando apareci.
- Bom dia.
- Bom dia. – ela respondeu sem olhar. Sua atenção estava totalmente voltada para o celular. – Deixei o dinheiro da festa perto da sua bolsa, ok?
- Belezinha. – a festa de sábado estava sendo organizada pela turma de Direito, mas isso não significava que alunos de outras turmas não eram bem vindos, muito pelo contrário. Quanto mais gente melhor. Pelo menos segundo Isabelle. – Vai querer que compre convite para Lucas também?
- Não sei, ainda não falei com ele sobre isso. – ela disse. Concordei com ela, indo até a geladeira, e me sentando à sua frente em seguida. – Na verdade acho que vamos terminar.
- Você já conversou com ele? – perguntei preocupada. Ela tinha toda essa pose de nada-me-atinge, mas eu sabia como Lucas mexia com ela.
- Já. – suspirou. – E é por isso que acho que o que temos não vai pra frente. - Voltou a digitar no celular, esquecendo o café que estava tomando.
Resolvi não insistir, afinal sabia que enquanto ela não resolvesse aquela situação, ela não falaria a respeito. Além disso, tinha minha missão pessoal hoje, e não iria embora daquela faculdade sem cumpri-la: precisava descobrir o nome do deus Adônis. Até porque não podia ser tão difícil assim, certo?
Certo.

Para uma pessoa que evitou chamar a atenção para si a vida toda, especialmente a atenção da ala masculina – primeiro porque sua criação lhe dizia que garotas tinham que se preservar, e segundo porque, uma vez que tinha um namorado, não precisava da atenção de nenhum outro garoto – o simples fato de querer saber o nome de um cara, e consequentemente deixar claro que, talvez, tenha algum interesse nele, era sim, muito difícil.
Para mim estava sendo muito difícil.
Eu não era hipócrita, tampouco uma santa, mas a arte da paquera era algo novo pra mim, afinal não o fazia desde... Sempre, eu acho. Então esperei pelo momento certo para dar uma de Sherlock Holmes para cima de Isabelle, mas confesso que me sentia meio exposta. Quer dizer, fala sério, eu nem tinha amizade com a menina.
No intervalo, enquanto Iris contava sobre um carinha que ela tinha conhecido numa viagem que fizera com a prima – e eu tentava me inspirar na facilidade e naturalidade com que ela havia falado com ele, segundo sua história – vi o deus Adônis passar por onde estávamos. Ainda que ele estivesse longe, cumprimentou Isabelle com um aceno de mão e um sorriso. Talvez o momento que estava esperando fosse aquele.
- Qual o nome dele?
Ou talvez não. Talvez não tenha sido discreta, como pareceu na minha cabeça. Talvez Isabelle não estivesse esperando por uma pergunta meio de repente assim, ainda mais quando estávamos prestando atenção em Iris e suas peripécias das últimas férias. Talvez se não tivesse perguntado tão de repente não precisaria explicar a elas de quem eu estava falando – quando apontei, discretamente, a quem me referia.
- Ah... Seu apelido é Selva. Acho que todo mundo conhece ele assim. – Isabelle disse depois de olhar para onde apontei.
Eu sabia que na Universidade se tinha o costume de se dar apelidos para os calouros, assim que começava o ano letivo. Não que tivesse recebido um na minha época de caloura, até porque nunca havia feito parte do grupo bacana de calouros.
- Fala sério! – Iris disse rindo. Isabelle a acompanhou, e eu não entendi.
- O que foi? – perguntei perdida.
- Esse nome... –Iris disse ainda rindo contido, com a mão na boca.
- Eu sei... Quando ouvi pela primeira vez, também pensei que era algo relacionado ao estado “lá de baixo”. – fez aspas com a mão. – As pessoas podem ser criativas quando querem. Mas depois me explicaram que o nome era em referencia aos seus olhos verdes.
Depois de mais uma troca de risadinhas, entendi. E imediatamente senti as bochechas ficarem coradas.
- Mas você sabe o nome dele? – eu queria saber do nome, nome. Mas Isabelle não ouviu minha pergunta, e levantou da mesa quando foi chamada por outro grupo. Se despediu de nós com um beijo no ar, me deixando frustrada.
Que inferno! Não podia ser tão difícil conseguir a droga de um nome!
Como iria me relacionar com outras pessoas, aprender a paquerar, se o universo não colaborava comigo nem mesmo para descobrir um maldito nome? Tinha quase certeza de que não podia ser tão difícil assim.

À tarde em casa, frustrada e com raiva com minha falta de experiência/confiança/esperteza, certa de que aquele seria o pior ano na faculdade, recebi uma ligação, no mínimo, inesperada.
No ano passado, quando ainda acreditava que meu plano de vida estava tudo nos conformes, prestei uma prova para um estágio na advocacia Rassi-Potella & Associados, simplesmente um dos maiores escritórios de advocacia do estado de São Paulo, se não o maior. Lá trabalhavam grandes nomes da advocacia, referências no Brasil inteiro, e era lá que eu queria trabalhar.
Infelizmente não fui chamada para a vaga de estágio depois da prova objetiva e da entrevista. Apesar de ter aquele lugar como uma ambição de vida, acabei esquecendo da vaga de estágio – que não consegui, vale ressaltar. Até agora.
- Boa tarde. Esse é o celular de ?
- Quem está falando? – quase soltei um “depende”. Se fosse da pizzaria da rua de baixo com o resultado do sorteio de uma pizza de dois sabores, sim, este é o celular de ; mas se fosse de algum vendedor de jornal impresso (fala sério, quem ainda lê jornal?), sinto muito, mas mudou o número.
Não era venda de jornal. Nem telemarketing de TV a cabo.
Era a secretaria da Advocacia Rassi-Portella & Associados. Se ela queria bater um papo bacana? Com certeza não. Mas sim saber se ainda tinha interesse na vaga de estágio, pois, aparentemente, tinha surgido uma. Diante da minha confirmação, marcou para que comparecesse ao escritório amanhã para uma conversa sobre o estágio.
Quando chegou mais tarde, já estava com uma garrafa de vinho aberta, pela metade.
- Vem comemorar comigo, amiga!
Ela me olhou meio desconfiada, com certeza pensou que eu já estava bêbada – o que não estava no todo errado, visto minha resistência para álcool – mas nem esperou eu terminar de falar para pegar uma taça e brindar na minha.
- Estou muito orgulhosa de você, . – ela disse entre um gole e outro.
- Obrigada.
- Quer dizer que guardaram a sua ficha por, sei lá, três, quatro meses? Isso é estranho, mas também é muito bom.
- Muito bom mesmo! – disse enchendo minha taça mais uma vez. A essa altura nem me atrevia a tentar ficar em pé.
- Você é mais inteligente do que pensei. – disse rindo.
- Poderia dizer que fiquei ofendida com essa brincadeira, mas seria uma mentira.
riu, jogada ao meu lado no sofá.
- Esse vinho é muito bom, quando você comprou?
- Foi Chris quem me deu no meu último aniversario, antes de terminar comigo. – disse, enchendo minha taça que ainda estava pela metade. O vinho era mesmo muito bom. – Quando ele terminou, queria colocar fogo, ou jogar no bueiro, mas é um vinho muito caro, e seria um desperdício jogar fora.
- Eu nunca te perdoaria.
- Ainda bem que guardei. Nem me lembrava dele.
- Pelo menos uma coisa de bom aquele cara tinha que ter deixado na sua vida, não é?
Concordei com ela.
Antes de dormir, já na cama, pensei em como as coisas podiam melhorar tanto, de uma hora para outra. Afinal, essa era uma chance das coisas voltarem aos eixos. Com essa oportunidade, poderia voltar ao meu plano original de vida, ou como gostava de chamar, o “plano diretor” da minha vida.
E eu não deixaria essa chance passar.


Capítulo 4


O prédio onde funcionava a Advocacia Rassi-Portella & Advogados Associados era um dos mais modernos do centro jurídico de São Paulo. Contando com uma localização estratégica, visto de fora, era claro que ninguém ali dentro havia poupado dinheiro na sua construção.
A Rassi-Portella & Associados era um dos mais completos escritórios jurídicos do estado, pois contava, além dos serviços advocatícios de todas as áreas do Direito, com equipes especializadas em Mediação e Contabilidade, além de ter um andar só para o setor de RH e segurança do prédio.
Mas seu nome não foi criado apenas pela arquitetura, ou pela variedade de serviços oferecidos, mas pelos nomes que trabalhavam ali dentro. Um, inclusive, que era um dos advogados mais famosos das regiões sudeste e sul, se não do Brasil inteiro, Lucio Muniz, ou como eu o chamava, o Harvey Specter da vida real.
- Sua ficha é mesmo muito interessante. – disse a senhora do RH que cuidava da contratação de estagiários. – Notas acima da média, ainda no segundo ano publicou um artigo científico... – ela disse. Mas pela sua cara não acreditava que minha ficha fosse tão interessante assim. Isso, ou ela estava cansada de analisar perfis de estagiários. Preferi acreditar na segunda opção. – Como você deve saber, as vagas para estágio são muito restritas. Poucas pessoas passam pelo processo seletivo, e ainda menos conseguem continuar no estágio até o final do curso.
Concordei com ela. Eu, mais do que ninguém, sabia como não era fácil estar ali.
- A pressão do trabalho é grande, e combinada com a pressão da faculdade, a maioria acaba desistindo. Você terá que saber lidar com prazos, pressão sobre o seu serviço, e perfeição. Esse é o perfil que procuramos nos nossos estagiários, e não aceitamos nada menos que isso.
Mais uma vez concordei com a cabeça. Podia sentir a pressão do trabalho só de estar sentada de frente pra ela, ali, naquela salinha com o ar condicionado gelando até meus ossos.
- A maioria dos advogados da Rassi-Portella já foi estagiário um dia. Sabe o que isso significa? Você tem grandes chances de crescer aqui dentro.
- Eu sei disso.
- Se aguentar até o final do seu contrato, e do curso de Direito, e conseguir se destacar, suas chances de se tornar uma advogada associada são grandes.
- Isso é o que eu quero, senhora.
- Isso é o que eu gosto de ouvir. Por enquanto você vai trabalhar na equipe do Doutor Fernandez.
Por um segundo senti a animação diminuir. Quer dizer, eu sabia que não trabalharia, assim, logo de cara, com o Harvey Specter da vida real, nem imagino como devem ser os estagiários que trabalham com ele. Mas no instante seguinte já estava na mesma empolgação de quando cheguei, até porque, se o Doutor Fernandez estava ali, ele com certeza era alguém importante, disso eu sabia.
- Bem, você tem mais alguma pergunta? – ela perguntou depois de mais alguns minutos de conversa. Eu não tinha, pelo menos não agora. – Então você já pode levar os contratos para o setor de estágio da sua faculdade. Lembrando que uma cópia é sua, e a outra você pode me trazer na segunda, quando você começa.
Segunda-feira, fala sério!

A sexta-feira passou que nem vi. estava empolgada para a festa de sábado, e eu, que nem me lembrava mais porque andava tão desanimada semana passada, achava divertido até mesmo jogar as roupas em cima da cama para escolher uma blusinha que combinasse com a saia nova.
Lucas não iria a essa festa, mas eu sabia que isso não impediria minha amiga de se divertir. Homem nenhum tinha esse poder sobre .
- Apenas lembre-se de que essa festa poderá servir como aprendizado. – ela dizia enquanto me ajudava a passar o delineador. – Veja como uma sorveteria com vários sabores. Você pode ver de longe, mas se sentir vontade, você escolhe um, e se quiser conhecer vários, pode também, não tem problema nenhum. Então você vai descobrir qual é o que você mais gosta. E se a experiência não for boa, não tem problema, existem vários sabores por aí.
- Você está objetificando os homens? – perguntei rindo. – Não é exatamente isso que odiamos quando os homens fazem com a gente?
- Exato. E que isso sirva de lição, assim eles aprendem como é ruim estar nesse papel. – ela disse também rindo. – De qualquer forma, se permita tentar e falhar; se permita gostar e não gostar.
- Acho que o fato de gostar ou não, não depende muito de mim.
- Eu estou falando sério, garota! Não controle, não tente prever cada movimento, não tente criar cenários hipotéticos, isso nunca funciona.
Rolei os olhos. Criar cenários hipotéticos era automático. Quando dou por mim já tenho até diálogos prontos.
- Confie em mim, , a recompensa no final vale a pena. Você só tem que deixar fluir, é algo natural.
- , eu nem sei como paquerar!
- Isso é o tipo de coisa que a gente só aprende praticando. É tipo construir um prédio... você não vai construir o próximo Edifício Altino Arantes no primeiro dia de aula, mas se treinar, pode ser a próxima William F. Lamb da arquitetura.
Franzi a testa. Não tinha ideia de quem era aquele, como nunca tinha ideia de quem eram os nomes da arquitetura que ela costumava usar como inspiração.
- O arquiteto que projetou Empire State Building? O maior arranha-céu de Manhattan? – e então bufou rolando os olhos. – Você me decepciona às vezes.
Ri da cara dramática da minha amiga.
- Enfim, o que quero dizer é que você pode treinar com quantos garotos quiser, na festa. Aproveita que todo mundo vai estar meio bêbado. – ela fez cara de esperta, e tinha certeza de que ela mesma tinha planos para aquela noite. – Só tente, e se não der certo, tudo bem. Dificilmente você vai encontrar essas pessoas na faculdade mais tarde.
- Não estou tão certa disso. – disse me levantando indo olhar as peças de roupa jogadas em cima da cama. Se já tinha decidido o que usar? Não, mas estava trabalhando nisso, obrigada. – É uma festa do Direito, lembra? Então a maioria lá vai ser aluno do Direito. E adivinha quem mais é do Direito? Isso mesmo, euzinha aqui.
rolou os olhos, me passando uma saia para experimentar.
- É, mas você é de uma turma, dentre várias. Sem contar que vão muitos alunos além do Direito, como eu, por exemplo.
Saias pra lá, blusinhas pra cá. Acho que uma sapatilha foi parar de baixo da cama.
- Ok, vou fazer o meu melhor. – disse querendo por fim àquela conversa.
- Sem pressão.
- Ah, sim, claro. – ironia, olá pra você também.
- Não, é sério. O intuito aqui é não ter pressão, nem mesmo de você mesma. Especialmente de você mesma. Se permita para fazer o que bem quiser, sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar. Trabalhe para quebrar essas barreiras internas que você tem.
- Você está muito filósofa hoje, estou estranhando. – brinquei.
- Eu sempre tenho esses momentos filosóficos, a diferença é que agora você está, finalmente, me escutando. Você sabe que ainda tem muita coisa para desconstruir, mas pode fazer isso aos poucos. E eu sempre vou estar aqui para te ajudar.
- Obrigada, você é a melhor amiga que eu poderia ter.
- Eu sei. – ela suspirou. – Agora, pelo amor da deusa, decida que roupa colocar que já estamos atrasadas!

Por sorte o local da festa não era exatamente longe de onde morava, ou então já teria uma desculpa pronta para não ir. Mas não naquela noite. Naquela noite se divertiria como uma universitária normal da sua idade, em uma festa promovida pelo seu próprio curso. Mesmo que nessa festa a música fosse tão alta que não conseguisse ouvir minha própria voz. Ou mesmo que o jogo de luzes viesse diretamente na minha direção, ofuscando minha visão, e me fazendo esbarrar em uma ou duas, talvez até três pessoas.
disse alguma coisa, mas tudo o que consegui responder foi:
- O QUÊ?
Ela começou a rir e me puxou para o outro lado do bar, longe de onde a banda estava.
- Consegue me ouvir agora?
- Acho que sim. – disse apertando o ouvido. Acreditava que não conseguiria ouvir nada por um bom tempo.
- Estávamos perto demais da caixa de som. – ela explicou. – De qualquer forma, tinha dito que adoro essa banda. Eles sempre tocam nas festas que vou.
Concordei com a cabeça, aproveitando agora para olhar melhor o ambiente – não tinha mais luzes brincando com meus olhos.
O local estava cheio. As mesas que antes ficavam espalhadas pelo salão, estavam encostadas em uma parede, as cadeiras tinham sumido. O balcão do bar estava lotado, é claro. Nos cantos mais escuros, casais conversando, outros mais ousados, se beijando; outros sem noção, fazendo mais que apenas se beijar.
Íris e Liana estavam conversando com outro grupo de garotas que eu não conhecia, mas afinal, quem eu conhecia naquela festa?
- , olha só o seu deus Adônis ali!
Olhei para onde ela apontava. É claro que ele estaria ali, encostado no balcão do bar. E conversando com uma garota.
- Ele não é meu. – disse. Mas não corrigi a parte do deus Adônis, até porque não tinha o que ser corrigido nisso.
- Acho que você devia ir falar com ele.
- Você está vendo o mesmo que eu? Ele já está conversando com uma garota.
- Não, ela está conversando com ele, e ele não está nenhum pouco interessado nela.
Olhei para onde eles estavam de novo. Para mim pareciam estar tendo uma boa conversava.
- Como é que você sabe disso?
- Olha o corpo dele. – ela disse. Achei que era desnecessário falar que ela nem precisava ter pedido. – Seu corpo não está inclinado na direção da garota, mas o contrário. Enquanto ela tenta chamar sua atenção, passando a mão no braço dele, ele se esquiva. – ela parou para analisar a situação mais uma vez, antes de voltar a falar. – Ele está sendo educado. Normalmente os caras não são tão educados assim.
Continuei olhando para os dois. Não via nada daquilo que minha amiga estava vendo, mas, afinal, quem sou eu para opinar sobre a arte da paquera? De fato, tinha muito a aprender.
Tipo, muito mesmo.
- Pode ser, mas não sei... Acho que ele é muita areia para o meu caminhãozinho. – de fato, olhando ele de onde estava, todo lindo e sexy, com o cotovelo apoiado no balcão, a camisa apertada nos braços, subindo um pouco perto do quadril, com um copo de cerveja nas mãos e um sorriso arrebatador nos lábios, não via a mínima chance de que eu, euzinha aqui, poderia ter com um cara desses.
- Ok, primeiro, ninguém mais usa a frase “é muita areia para o meu caminhãozinho”. Em que século você está, menina? E segundo, você não poderia estar mais errada.
- Errado seria eu achar que depois de três anos sem paquerar, – não que tivesse feito isso antes, mas achei melhor omitir essa parte – tenho condições de chegar naqueles olhos verdes.
- Definitivamente não gosto desse tipo de discurso. Precisamos mudar isso, imediatamente. – ela suspirou. – Mas eu entendo o que quer dizer. A insegurança é mesmo uma vadia.
Não discordei.
- Mas então chega em outro garoto, em um que te agrade.
- Como se fosse fácil... – falei mais para mim do que para ela.
- Você precisa se desafiar, e mais do que tudo, quebrar esse tabu ensinado pra gente de que meninas não podem chegar em garotos. Olha só quantos garotos que você pode conhecer.
Olhei em volta. De fato, tinha mesmo muita gente ali, especialmente do sexo masculino.
- Mas se você não estiver se sentindo bem, ou mesmo confortável, é só recuar. Não tenha vergonha nisso. Só tome cuidado para não confundir desconforto com medo. O medo não pode ser mais forte, até mesmo porque, as melhores experiências acontecem quando saímos da nossa zona de conforto e nos desafiamos a fazer algo diferente.
- Você está certa. – disse. – E eu sei de tudo isso. E sim, vou fazer dessa noite uma boa experiência para a nova .
E eu tentei mesmo. De verdade.
Mas se parasse para pensar, levando em conta que aquilo era uma coisa totalmente nova para mim (desde a ir numa festa sem meu namorado – que, aliás, não existe mais, obrigada – até procurar alguém para “me divertir essa noite”, palavras da minha amiga, não minhas), não podia dizer que havia sido um fracasso total.
Quer dizer, dois carinhas vieram falar comigo, ainda que um deles estivesse bêbado demais para que eu entendesse qualquer coisa. O outro parecia ser bacana, mas então ele saiu para buscar uma cerveja, e nunca mais voltou.
Mas o que seria o meu ponto alto daquela noite, foi o fato de eu, euzinha, ter puxado papo com um garoto. Estava sentado em um canto, camiseta de Star Wars... De fato, se alguém chamaria minha atenção ali, com certeza seria a camiseta. Conversamos por alguns minutos, trocamos algumas risadas, perguntei onde ele comprava suas camisetas (uma expert na arte da paquera, eu sei), e demos mais algumas risadas. Até que a namorada dele chegou (também vestindo uma camiseta de Star Wars), e os dois foram embora.
Chris nunca aceitaria usar uma camiseta de Star Wars comigo numa festa. Ou em qualquer lugar. Nem mesmo para ficar em casa. Ele não gostava dos filmes, o que acabava sendo mais uma prova de que ele, definitivamente, estava longe de ser o cara perfeito.
Depois encontrei Iris, que aproveitou a oportunidade para me puxar para uma foto, o que, mais tarde, serviria como prova que eu, finalmente, tinha comparecido a uma festa da faculdade.
Não sei exatamente como, nem em que momento, mas quando dei por mim, estava sozinha no bar, frustrada, sentindo o suor escorrer nas costas, e com a certeza de que o rímel já estava borrado. Deprimente, no mínimo.
tinha sumido. Aposto que encontrou algum garoto para se divertir.
Eu queria encontrar um garoto para me divertir.
Foi quando alguém se aproximou do bar.
- Este lugar está ocupado?
A primeira coisa que pensei foi que não sabia de que lugar ele estava falando, já que não havia mais banquetas por perto. A segunda coisa que pensei foi se era possível, depois de beber a noite toda, imaginar caras gatos aparecendo do nada para falar com você.
- Não.
O deus Adônis então se aproximou mais – do balcão e de mim – ficando de costas para a garota que estava atrás do balcão, que não conseguia tirar os olhos dele. Senti vontade de dizer que a entendia totalmente.
Naquele momento, fiquei nervosa. Por um segundo não soube o que fazer. Quer dizer, eu estava bêbada, e as várias cervejas que tinha tomado – e não tinha me atrevido a contar – confirmavam isso. Mas ao lado do nervosismo, um sentimento diferente, uma vontade que não sabia identificar, mas que sempre aparecia quando esse cara chegava perto. E ele nunca tinha chego tão perto assim. Sentia que o frio na barriga poderia congelar meu corpo todo.
E foi então que percebi que eu o queria. Assim mesmo, sem medo, nem nada. Sem me preocupar se ele era meu colega de turma, ou com o que as pessoas da festa iriam pensar de mim. Ninguém tinha nada para pensar sobre mim, afinal. Naquele momento não me importei em saber o nome dele, idade, o ascendente no zodíaco, ou o que fosse. O nervosismo do começo da noite, o mesmo que senti quando ele chegou, não estava mais lá.
- Noite difícil?
- Eu que o diga. – disse irônica. Depois fiz uma careta ao sentir o gosto quente da cerveja.
- Mais uma? – ele perguntou apontando para o copo na minha mão. Sem que precisasse responder, ele pegou meu copo e estendeu para o rapaz atrás do balcão. Quando me devolveu, não foi só o copo que recebi, mas também o sorriso... aquele sorriso da primeira vez que o vi.
Experimentei a nova cerveja. Olhei para frente, para lugar nenhum, e pelo canto do olho percebi que ele estava olhando para mim. Não vou mentir, estava gostando da atenção. Mas o silêncio me incomodava. Resolvi eu mesma acabar com ele.
- Por que os homens são tão difíceis? – perguntei. – Digo, o que eles, vocês, querem?
Tudo bem, de onde, da minha mente hiperativa e alcoolizada, tinha saído aquilo?
É claro que ele me olhou surpreso, com o copo a caminho dos lábios – e que lábios! – totalmente sem resposta. Ninguém esperaria uma pergunta dessas assim, do nada.
Não sabia muito de paqueras, mas tinha uma ligeira impressão de que essa não era a melhor abordagem para puxar papo com o garoto que você quer beijar aquela noite.
- Sabe, minha amiga acha que eu deveria experimentar mais, sair com outros caras, já que acabei de sair de um relacionamento de três anos. – alguém precisava calar a minha boca, pelo amor da deusa! – Mas não é tão simples assim, entende? Quer dizer, não é como se eu tivesse muita experiência nesse negócio de ficar com várias pessoas. – por que eu estava falando aquilo? Não se fala para o garoto que você quer beijar, que você é péssima nisso!
Ele parecia estar se divertindo, pelo menos estava rindo. Eu mesma não me lembrava de ter dito algo engraçado.
Talvez estivesse mesmo bêbada.
- Ok, mas você tem alguém em mente, pelo menos? – ele perguntou. Nesse ponto ele já havia se virado, ficando de frente para mim. Estávamos na mesma posição que o encontrei com outra garota, mais cedo, quando cheguei na festa. Dessa vez, pelo menos, tinha certeza de que ele não tinha intenção de se afastar de mim, muito pelo contrário.
- Vários! – por que estava gritando? – Mas nenhum deu certo até agora. – lamentei. – Está vendo aquele garoto ali, o que está vestindo a camiseta do Darth Vader? Parece ser um partidão, não é? Pois bem, ele tem namorada. Está vendo aquele outro, aquele que está sentado em coma alcoólico? – apontei para o cara sentado/jogado no chão, encostado na parede. – Nós até chegamos a conversar mais cedo, mas ele ficou de buscar uma cerveja e nunca mais voltou. O pior é que fiquei esperando por ele. – e dando mais um gole na cerveja, perguntei - O quão patética eu sou?
- Eu não acho você patética. – ele disse sério dessa vez. – Acho você adorável.
O deus Adônis estava próximo, muito próximo. Seus olhos estavam escuros, sua respiração quase batia no meu rosto, e ele não ria mais. Senti minhas bochechas corarem, e o calor aumentou consideravelmente. Talvez tivesse dado algum problema no ar condicionado, ou talvez fosse o calor natural que esse cara trazia consigo. Eu ficava com a segunda opção.
- Mas ei, pelo menos você me salvou e me arranjou uma cerveja nova!
Ele riu de novo, e dessa vez eu o acompanhei – mais por nervoso por estar falando besteiras, que outra coisa. Então brindou seu copo no meu antes de beber novamente.
- Mas eu não estou procurando por um relacionamento sério, se quer saber. – eu disse. Duvidava que ele quisesse, de fato, saber sobre meus planos amorosos, mas curiosamente ele não tentava me interromper. – Já tive o bastante com o meu ex, um idiota ele. Acredita que ele me traiu?
Ele fez cara de surpresa, uma surpresa que não parecia nenhum pouco fingida, devo acrescentar.
- Um par de chifres, bem aqui. – apontei minha testa. O deus Adônis acompanhou meu movimento, com um sorriso no rosto. – E foi ele quem terminou! Acredita nisso?
Se eu estava contando àquele deus grego, maravilhoso, que fazia minha mente cantar Sex Back toda vez que aparecia, que havia sido traída pelo meu ex-namorado? Sim. Se eu estava envergonhada? Aparentemente não, pelo menos naquele momento. Se iria querer me matar no dia seguinte? Provavelmente.
- Ele é mesmo um idiota. Quer dizer, que cara iria perder a chance de ficar com você?
- Eu sei, não é? – disse meio irônica, meio rindo, meio confusa com o que ele havido dito. Se ele estava sendo irônico? Acreditava que sim. Se sua expressão dizia que não, ele não estava sendo irônico? Eu tinha certeza que sim.
- Se quer saber, você está melhor sem ele. – ele disse sério. Sem sorrisos maliciosos, nem ironias camufladas.
- diz a mesma coisa! Também diz que devo me envolver com outros caras para esquecer Chris. Mas eu já esqueci ele, entendeu?
- Estou vendo. – e ali estava a ironia.
- Não, é sério! Eu só não consigo acreditar em como as coisas mudaram do dia pra noite. Quer dizer, num dia eu tenho o namorado perfeito, e no dia seguinte eu tenho o ex mais imbecil de todos os tempos. – terminei minha cerveja. Tive sorte por ainda estar gelada. – A verdade é que faz três anos que não beijo outra pessoa. Eu nem sei mais como faz isso, digo, beijar um cara que não seja Chris. Quem dirá chegar num cara diferente.
O sorriso de lado estava lá quando ele se aproximou mais. Estávamos tão perto, que seu braço tocava o meu, sua respiração se misturava com a minha, e eu podia jurar que conseguia contar os diferentes tons de verde de seus olhos.
Aquele cara era real?
- Eu posso te ajudar com isso. Se você quiser, é claro.
Confesso que precisei de vários segundos para entender aquela frase, aquela.
Aquilo tinha sido uma proposta? Do tipo que eu achava que era?
- Sério?
Sério que eu estava perguntando se era sério que o deus grego mais gato daquela festa queria me beijar? Sério, ?
Espera, era isso mesmo que ele estava insinuando, certo? Eu não estava tão bêbada a ponto de imaginar isso.
- Claro, somos colegas de sala, não é?
- É...
- E somos duas pessoas que acabaram se esbarrando numa festa, se conhecendo.
- Verdade... – aquilo fazia sentido, ou pelo menos eu entendia o que ele queria dizer. Nada daquilo fazia sentido.
- Além disso, aposto que seria uma experiência nenhum pouco desagradável. – ele disse com um sorrisinho de lado. Ah, aquele sorrisinho malicioso...
- Isso não faz sentido nenhum. Eu nem sei o seu nome!
Se eu estava me lamentando sobre minha vida amorosa desastrosa, e o par de chifres que ganhei do meu ex-namorado, para um estranho, que nem o nome sabia, e que, por coincidência, era o garoto mais gato que já tinha conhecido e que, por algum motivo, queria me beijar? Sim.
Se só havia me dado conta disso agora? Sim.
Digo, não a parte do cara mais gato que já tinha conhecido, até porque isso não era novidade pra mim. Mas a parte de não saber o nome dele... Como pude não ter perguntado o nome dele antes?
Pelo amor de deus, , esse é o primeiro passo numa paquera!
- Não seja por isso. – e então estendendo o mão, disse – , seu colega de turma.
- Oi, . Meu nome é...
- , eu sei.
Seria mentira dizer que não fiquei surpresa. O deus grego sabia o meu nome, era isso mesmo? Acho que podia dizer que a noite não havia sido um fracasso total, no final das contas.
- Como você sabe? – perguntei. Depois me dei conta de que havia quase sussurrado, como se compartilhássemos um segredo. E ele me respondeu da mesma forma:
- Estudamos na mesma sala.
E isso me arrepiou mais do que poderia esperar. Foi do couro cabeludo até o último dedinho do pé. Não me lembrava de já ter sentido aquilo antes, mas na atual circunstância, não me lembrava de muita coisa. Até mesmo porque minha mente estava 110% focada nos olhos verdes à minha frente, ainda que minha atenção houvesse se deslocado para os lábios, os mesmos que haviam sussurrado aquelas palavras no meu ouvido.
Não sabia onde focar minha atenção, se nos lábios que sorriam, ou nas mãos que foram parar na minha cintura, depois no quadril. Minhas próprias mãos foram para seus braços, mais por precisar de apoio que outra coisa. Duvidava que a falta de equilíbrio fosse consequência do álcool.
Aquele cara conseguia me inebriar de tal forma, que acreditava que nem mesmo o destilado mais puro poderia.
Minhas mãos suavam pela expectativa. No meu estômago, uma verdadeira festa, com direito a música eletrônica. Na minha mente, todas as promessas sujas, mas silenciosas, que seus olhos fizeram antes de se fechar.
Não me decepcionou. Seus lábios eram fortes, a língua exigente. A verdade é que sentia como se fosse a primeira vez. Bem, não o era. Até porque, não me lembrava de ter tido um bom primeiro beijo, e aquele, definitivamente, era. Quer dizer, o cara sabia o que estava fazendo. sabia como beijar uma garota. Felizmente, eu não ficava atrás.
Minha experiência, ainda que não fosse das melhores, não me deixou em desvantagem. Até mesmo porque, minha mente cheia de questionamentos estava adormecida, deixando meu eu desinibido agir por mim. E estava agindo muito bem, obrigada.
Imaginava se estaria sendo bom para ele como estava sendo para mim. E o suspiro que ele soltou em determinado momento, respondeu minha questão.
Minhas mãos viajavam pelos seus cabelos sempre muito bagunçados, ombros, braços, e voltavam para os cabelos. Adorava seus cabelos.
parecia aprovar os meus também, pelo menos foi o que me pareceu nas várias vezes em que o puxou bem perto da nuca para, logo em seguida, voltar com outra onda de beijos fortes, exigentes. não soltava meu corpo, o que acabei agradecendo. Não sabia se conseguira ficar em pé sem apoio.
O beijo só acabou quando o ar faltou. Meus lábios formigavam, e imaginava que não estivessem muito diferentes de como os dele estavam, vermelhos, levemente inchados. Irresistíveis.
O mesmo sorriso que tinha, era o que eu tinha, ainda que provavelmente por motivos diferentes. Tinha cumprido minha missão aquela noite, não tinha? E com satisfação, devo acrescentar. Em todos os sentidos.
- Eu disse que não uma ruim, não disse?
Eu ri.
Não podia concordar mais.
- Acho que você estava certo no final das contas.
A conversa não se prolongou. Afinal, beijar o deus grego, , acabou sendo melhor do que conversar com ele.


Capítulo 5


A primeira coisa que senti ao abrir os olhos foi uma pontada na cabeça, que se intensificou como se uma explosão estivesse acontecendo no meu cérebro, ao abrir a cortina do quarto. Grande erro. Sol e ressaca, ao mesmo tempo, definitivamente não era uma boa combinação.
O banho ajudou com a dor no corpo e o latejar na cabeça, mas o que realmente acabou salvando a minha vida foram os comprimidos deixados ao lado da minha cama, o que significava que já estava acordada.
Me perguntei como tinha chegado em casa. E quando tinha reencontrado que, num dado momento da festa, simplesmente desapareceu. Lembrava-me de ter encontrado Iris e Liana e dos flashs do celular – esperava que aquelas fotos nunca fossem parar no Instagram, podia até imaginar minha cara – e... do beijo.
É claro que me lembrava. Como poderia esquecer? Nem mesmo uma lobotomia tiraria as lembranças.
Tinha certeza que, a partir daquela noite, seria parte permanente da minha vida. E diabos, eu queria isso.
A pressão dos nossos corpos, a segurança com que me segurava, as mãos atrevidas, os lábios macios... Quase me faziam perguntar se tinha sido, de fato, um beijo. Porque até onde me lembrava, nunca tinha sido beijada daquela forma. Nem mesmo com Chris, na época de colégio, em que costumávamos nos encontrar atrás das arquibancadas, conseguia ser tão bom.
Quer dizer, sim, estava bêbada, e possivelmente todas as sensações que senti podem ter sido potencializadas por conta do álcool. Mas eu duvidava.
Mas isso não explicava como tinha chegado em casa, e isso sim me preocupava. Não estava acostumada a não me lembrar do que fizera, até mesmo porque raramente agia de forma impulsiva.
estava na cozinha, tomando café apesar de já passar das duas da tarde. Quando foi que adquiri o hábito de dormir até tarde?
- Bom dia, flor do dia. Sente-se, você tem muita coisa para me contar.
Gemi pela pontada que senti na cabeça, e pelo interrogatório que me esperava.
- Não sei do que está falando. – talvez se me fizesse de desentendida, poderia comer um paõzinho e tomar meu café sem parecer que estava numa cena de investigação policial.
A verdade é que não sabia se estava pronta para contar à minha melhor amiga minhas peripécias da noite passada, ainda mais quando me lembrava de todas elas. Sim, eu me lembrava da conversa constrangedora que havia antecedido o beijo. Sim, eu queria me esconder num buraco. E não, eu não queria dividir essa parte com ninguém.
- Ah, , por favor, nem tente bancar a envergonhada comigo que não cola. – puxou a cadeira para mais perto e esticou o corpo sobre a mesa. – Eu sei que você pegou o deus Adônis ontem à noite.
- O quê? Como você sabe? Você viu? – será que mais alguém tinha visto?
Quer dizer, é claro que mais alguém tinha visto, dado que estávamos numa festa. Mas não esperava que, realmente, alguém prestasse atenção.
- Não, mas agora eu sei. – ela sorriu esperta. – Na verdade desconfiei quando ele se ofereceu para te trazer até em casa.
- Ele me trouxe? – minha cabeça tinha voltado a doer.
- Você não se lembra?
Agora que ela estava falando, sim, eu me lembrava. Não que a dor de cabeça ajudasse na memória, mas a gente fazia o que podia.
- Já disse que não precisa, eu moro aqui perto. – eu disse.
- Não vou deixá-la ir embora sozinha numa hora dessas.
- Não estou sozinha, estou com a minha amiga. – eu insisti. Por algum motivo, as palavras saiam com dificuldade. Talvez não devesse ter aceitado uma nova cerveja.
- E onde está a sua amiga?
Olhei em volta, procurando por . Quando tínhamos nos separado mesmo?
- Vamos procurar a sua amiga.
Por sorte também estava procurando por mim, e não protestou quando disse que queria ir embora. Afinal, como ela mesma dissera, a festa já estava começando a ficar estranha, gente bêbada demais.
se ofereceu novamente para nos levar embora.
- Você está de carro? – perguntou.
- Não, estou de táxi, mas não me incomodo em acompanhar vocês.

Ainda que estivesse meio bêbada, lembro-me de tentando manter uma conversa comigo o caminho todo, mais por preocupação, que qualquer outra coisa. O conteúdo da “conversa” não me lembrava exatamente, até mesmo porque, depois de termos saído da festa, e entrado no táxi, o sono havia começado a bater, e provavelmente havia respondido a ele coisas totalmente sem sentido.
- Ai que vergonha! – gemi, colocando as mãos na cabeça. Queria poder me esconder no quarto e nunca mais sair.
- Por que vergonha? Por ter beijado o menino?
- Também! – naquele momento essa era a menor das minhas vergonhas. – E por ele ter me visto naquele estado.
- Ok, vamos ter mais uma conversa sobre desconstrução com a tia . – ela se ajeitou na cadeira, colocando o cabelo atrás da orelha. Podia imaginar o teor da conversa que viria a seguir.
- Primeiro, você não tem que sentir vergonha por ficar bêbada numa festa universitária, pelo amor de deus. Todo mundo estava na mesma situação, a maioria muito pior, pode acreditar. Ele, e nem ninguém, vai te julgar, até porque ninguém tem esse direito.
Tentei argumentar, mas ela continuou:
- Até porque, se o deus Adônis o fizer, ele é o maior babaca machista do mundo, e não merece nenhum pingo da sua atenção.
Tudo bem, talvez ela estivesse certa. Ninguém iria me julgar por isso, certo? Ninguém tinha esse direito, ainda mais um cara que tinha acabado de conhecer. E de beijar. Todo mundo fica bêbado às vezes.
- Segundo ponto, sobre o beijo.
Senti as bochechas corarem instantaneamente.
- Não fique com vergonha disso. É a coisa mais natural do mundo duas pessoas se beijarem. Ainda mais quando o beijo é bom.
- Oi?
- Você gostou? – ela perguntou rindo. – Sem rodeios, sim ou não?
- Bem, sim...
- Muito bem, agora pode desenvolver.
- Como assim?
- Quero detalhes, meu bem. Você vive três anos numa vida amorosa e social pacata, e quando finalmente começa a ficar interessante, quer me poupar dos detalhes? Sem chances!
Eu ri. Claro que Stuart não se contentaria com um simples “sim”.
- Além disso, sou sua melhor amiga, então é a sua obrigação me contar tudo.
- Tudo, tudo?
- Tudinho. Pode começar me dizendo o nome dele.
Mesmo agora sabendo como se chamava, não achava que “deus Adônis” sairia de moda, até mesmo porque nenhum outro nome se encaixava tão bem.
Então contei tudinho, a começar pelo seu nome, .

Na segunda feira de manhã, pela primeira vez, chegou na sala de aula antes de mim. Nada de entradas sedutoras, chamando atenção de toda ala feminina, nada disso. Dessa vez ele se encontrava sentado, quase comportado demais, com a perna cruzada, brincando com a caneta, na carteira ao lado da minha. Ou, pelo menos, na que costumava me sentar desde o primeiro dia de aula naquela universidade.
Aquilo não era coincidência.
Se não era boa na hora do flerte, imagina no pós flerte/pós beijo. Já não sabia direito esse negócio de ficar com um cara que acabei de conhecer, quem dirá conversar com esse cara que acabei de conhecer, dei um baita beijão, e reencontrei um dia depois.
É claro que eu sabia que o encontraria mais cedo ou mais tarde, estudávamos na mesma sala. Mas não tinha realmente parado para pensar em como reagiria, até porque, tudo o que menos precisava era de comentários maliciosos sobre o que tinha acontecido.
Resolvi começar com o básico: sentar-me. Ao lado dele. Ou, tecnicamente falando, no lugar de sempre que, coincidentemente, era ao lado que resolvera se sentar naquele dia.
- Bom dia. – ele disse com a voz rouca. Pensei se o tom poderia ser proposital para me seduzir – o que funcionaria, sem sombras de dúvida - mas então lembrei-me de que era segunda feira de manhã, e ele provavelmente estava apenas com sono.
- Bom dia. – simples, educada. Nada comprometedor, afinal, ele estava apenas sendo educado também.
- Como foi seu domingo?
Aja naturalmente, , pare de querer complicar sua vida.
- Normal, eu acho.
- Sério? – ele disse, rolando os olhos e passando as mãos no rosto. – O meu foi péssimo, fiquei de ressaca o dia todo, e ainda tive que sair para correr mais tarde com meu colega de casa. – e bufando, continuou. – Sabe como é, o cara é da educação física, adora uma corrida. – disse em irônico.
- Pois é... – o que mais poderia dizer? – Na verdade também estava meio ruim, mas minha amiga me deu uns comprimidos que acabaram tirando a dor de cabeça.
- Ah, a famosa colega de apartamento. Me lembro de você ter me contado dela na festa, ainda que minha memória preferida da noite de sábado não tenha sido nossa conversa.
Pensei por um segundo como responder àquilo. Não, eu não era lerda ao ponto de não entender sua indireta, que mais era uma super direta. Por sorte não precisei me esforçar para continuar aquela conversa, no mínimo, incomum, já que Iris e Isabelle chegaram junto com o professor.
Íris não escondeu a confusão ao ver ali na frente, ou talvez só estivesse confusa por ele ter chego no horário. Quando perguntou o que ele fazia ali, apenas dei de ombros. Eu realmente não sabia a resposta àquela pergunta.
- Ei, .
- Bom dia, Isabelle.
Então agora ela dizia o nome dele? Agora que eu já não precisava mais da informação? Bem, obrigada, universo.
- Vamos apenas não falar sobre a noite de sábado, ok?
Ele não fez objeções, ainda que o sorriso de canto estivesse lá.

Minha ideia era, no primeiro dia de estágio, no lugar em que sempre sonhei em trabalhar, escolher cuidadosamente a roupa que usaria, assim como os sapatos – ninguém merece bolhas logo no primeiro dia de trabalho – e sair de casa antecipadamente, a fim de encontrar uma boa vaga próxima ao prédio em que passaria minhas tardes.
Mas a realidade foi sair com a mesma roupa que havia usado de manhã, prender o cabelo – não tinha tido tempo de tomar banho, além de perder o maior tempão decidindo se iria de carro ou de metrô – e acabar parando num estacionamento que, ao final da tarde, iria arrancar uma boa quantia de dinheiro do salário que ainda não havia começado a receber.
E o estacionamento nem era tão perto assim.
- Boa tarde, . Que coincidência encontrá-la aqui.
Parei de andar. Não precisava olhar para saber quem falava, mas o fiz assim mesmo.
estava bem atrás de mim, no usual terno que deixava sua bunda atrativa, com as mãos no bolso, e o sorriso – que parecia nunca deixa-lo – convencido.
- Como está?
- Ah... Mais ou menos, igual de manhã, eu acho. – que tipo de resposta tinha sido aquela? Poderia pelo menos disfarçar que tinha uma super queda por homens de terno, especialmente por ele de terno.
passou a andar ao meu lado. Por algum motivo, resolvi que ali, no lugar menos privado de São Paulo, ou seja, no meio da calçada, seria um bom momento para ter a pequena conversa que queria ter mais cedo, só não sabia como começá-la.
- Olha, preciso deixar uma coisa clara. – comecei. – Não quero nada sério, sabe?
Ele parou de andar, me encarando.
- Quem disse em ter algo sério aqui?
- Eu não quero nada com você. – eu disse. Ele começou a rir antes de responder.
- Você sempre fala isso para os caras que te dão boa tarde na rua?
Fiquei envergonhada. Ele estava certo, não estava fazendo nada demais. Não é como se ele estivesse me pedindo em casamento, mas sabe como é, era preciso falar aquilo em voz alta. Mais para mim mesma do que para ele.
- Você tem cara de problema, . – eu disse. – Cara de menino problema para meninas como eu.
- E que tipo de menina você é?
- O tipo que não precisa de um menino problema agora.
Ele riu ainda mais divertido, como se tivesse contado a melhor das piadas. E levantando as mãos na altura no peito, diz:
- Muito justo.
Quando pensei ter deixado as coisas esclarecidas entre nós, continuei meu caminho. Chegar atrasa no primeiro dia não estava nos meus planos.
E parar de andar atrás de mim, não parecia estar nos planos de .
- Quer parar de me seguir?
- Não estou seguindo você.
- Ah, é mesmo? Então, coincidentemente, você está indo para o mesmo caminho que eu?
- Não sei. Para onde você está indo? – ele perguntou. E quando apontei, ele disse sorrindo – Olha só o que o destino reservou pra gente, senhorita . – e se aproximando nossos rostos, continuou – Eu também estou indo para o mesmo prédio.
- É mesmo? – perguntei meio irônica, meio tonta com seu perfume.
- É mesmo. – ele respondeu sorrindo. E tomando a frente, seguiu em direção ao prédio, deixando a porta aberta para mim, entrando logo em seguida, ao mesmo tempo em que cumprimentava o porteiro.
Fala sério, ele estava mesmo fazendo toda aquela encenação só para não dar o braço a torcer e não admitir que estava me seguindo?
- Boa tarde. – disse à secretária da recepção. – Meu nome é , e hoje é meu primeiro dia de estágio.
- Aguarde só um minuto, enquanto confiro o seu nome. – ela disse simpática. E com um sorriso maior do que o rosto poderia suportar, disse. – Oi, .
- Oi, Sara. – ele respondeu com um sorriso convencido no rosto. Fala sério que ela conhecia ela!
- O doutor Lucio Muniz está o esperando na sala de reuniões.
- Obrigado, Sara. - ele agradece a ela com um sorriso super exagerado, devo observar. E ao passar por mim, disse: - Boa sorte hoje. Espero que ninguém te persiga pelos corredores.
E foi assim, seguindo para os elevadores, com o sorriso mais convencido da história, que foi embora.

Devo dizer que, para um primeiro dia num estágio novo, até que estava me saindo bem. Quer dizer, não é como se a equipe, com quem iria trabalhar, fosse a mais receptiva de todas, mas todos me deram boas vindas. E logo em seguida voltaram a atenção para o computador.
Um, em especial, foi uma gracinha. Fernando, era seu nome, e acabou sendo o único a começar uma conversa comigo. Também foi quem ficou responsável por fazer um tour comigo, mostrando onde ficavam os banheiros, a cozinha (cuidado com o que deixa na geladeira, pode não estar lá na hora que for embora), a sala de arquivos (se tiver alergia a poeira, nem entre), as salas dos advogados (todos naquele andar pegavam causas, preferencialmente, da área cível; os advogados atuantes de outras áreas ficavam em outros andares, os quais não prestei realmente atenção), além de falar em que andar ficava a segurança, o RH (esse eu já conhecia, mas achei por bem não interrompê-lo), a contabilidade e a informática. Além, é claro, da biblioteca.
- É sério que tem uma biblioteca aqui?
- Esse é um escritório bem antigo, e antes que pergunte, sim, os livros são constantemente atualizados.
Também falou sobre os horários de entrada e saída, e a pausa para o café da tarde. Bem, isso eu já sabia, já que constava no contrato.
- Você leu seu contrato? Muito bem, parece que temos uma estagiária de Direito que faz jus ao curso. – ele disse. Pensei que não passava de uma brincadeira, mas no final do nosso tour Fernando contava algumas histórias de ex-estagiários que passaram a ser réus em ações que o próprio escritório propôs por condutas indisciplinares.
Fiz uma anotação mental de ler o contrato novamente, do começo ao fim, linha por linha, quando chegasse em casa.
- O doutor Fernandez está viajando, mas volta amanhã. – Fernando disse, ao voltarmos para nossas mesas, na sala dos estagiários. – Não tenho competência para te passar nenhum serviço agora, além disso, imagino que ele mesmo vá querer conversar com você antes de te passar qualquer coisa.
Eu entendia, é claro.
- O que posso fazer por agora, é lhe mostrar o caso em que estamos trabalhando agora, e ensiná-la a mexer no sistema do escritório. Você já recebeu seu login e senha?
- Não... – disse, decepcionada.
- Não se preocupe, até o final da semana você receberá um.
Depois de passar a tarde sentada em frente à tela do computador tentando não me perder no mar de informações que o sistema do escritório proporcionava, e lendo os processos mais urgentes em que os estagiários estavam trabalhando, a hora de ir embora chegou.
Não fiquei surpresa ao encontrar apoiado na mesa da secretária na recepção. Também não fiquei surpresa com o charme que seu sorriso esbanjava, o famoso sorriso “molha calcinhas”, como gostava de definir certos sorrisos – e o de certamente se encaixava nessa categoria. Sara, a secretária, nem mesmo dava bola para o cliente sentado ao lado, com cara de poucos amigos. Alguém ali tinha sido esquecido, e ele, que certamente tinha hora marcada, não estava gostando do charme de para Sara.
Passei por eles fingindo que não os tinha visto, o que, é claro, não funcionou. rapidamente estava ao meu lado, logo após ouvi-lo gritar um “até amanhã” para a secretária.
- Como foi o primeiro dia?
Queria poder dizer que tinha sido produtivo, empolgante, cansativo, até, mas a única coisa que fui capaz de responder foi:
- Foi legal.
- Decepcionada?
- Não! – esperava que ninguém tivesse ouvido ele. O que iriam pensar de mim, logo no primeiro dia? – Eu gostei. Só que tudo ainda é muito novo.
- Não se preocupe, a primeira semana é a pior. – ele disse. Paramos ao lado da porta e, como mais cedo, ele deu passagem a mim. – Se acabar se perdendo pelos corredores, não tem problema. – ele brincou. – Além disso, aprender a mexer no sistema é um saco, ainda mais com a informática demorando para criar o login para quem é novo.
- Não é?! Pensei que fosse a única a pensar que o sistema mais confunde do que ajuda.
- Não, todos os estagiários pensam assim. Bem vinda ao clube. – ele piscou para mim.
- Devíamos sair para comemorar o seu primeiro dia. – ele disse quando já estávamos do lado de fora.
- Eu vou sair, mas com a minha amiga.
- Beleza, então vamos juntos. Já decidiram onde querem ir?
- Eu não convidei você. – eu disse.
- Não, eu convidei você, não ouviu? – ele disse de forma marota.
Ri, desacreditando na ousadia que aquele garoto tinha.
- Você veio de carro?
- Sim. – disse suspirando, pensando nos dois quarteirões que teria que andar para chegar ao estacionamento. - Se tivesse chegado mais cedo, talvez conseguiria no estacionamento aqui da frente.
- Deixa eu adivinhar, você acabou enrolando, imaginando se deveria vir de carro ou de metrô, com medo de não achar vaga.
- O que te faz pensar isso? – perguntei com a testa franzida.
- Você parece ser a pessoa mais prevenida do mundo. – ele disse, dando de ombros.
- Você nem me conhece para falar essas coisas.
- Estou errado? – ele perguntou levantando as sobrancelhas.
- Bem, não. – admiti a contra gosto. – Mas isso não muda o fato de que você não me conhece.
- Então temos que mudar isso.
Fingi que não ouvi o comentário dele, aproveitando para fazer a pergunta que estava me matando há horas.
- Em que área você trabalha? – se estava mudando de assunto sem nem mesmo disfarçar? Sim, obrigada.
- Civil. Contratos de risco, mais especificamente.
- Por que estava numa reunião com o doutor Lucio Muniz?
- Porque sou estagiário da equipe dele.
- Isso é sério? – eu perguntei, talvez um pouco animada demais. – Você tem ideia de que trabalha com o Harvey Specter da vida real?
- O quê? – ele perguntou rindo.
- O quê, vai me falar que nunca viu Suits?
Ele continuava rindo divertindo, quando me respondeu:
- Não, mas agora vou começar a assistir.
- Faça isso. – eu disse. Não conseguir imaginar um mundo onde alguém não assistia Suits. – Eu tenho que pegar meu carro. Quer se encontrar no bar com a gente? – perguntei já sabendo a resposta, afinal, ele mesmo tinha se convidado. Ou, como ele mesmo tinha dito, ele tinha me convidado.
- Na verdade acho que vou aceitar a sua carona, já que vim sem carro hoje.
Eu não tinha lhe oferecido carona, mas nem perdi tempo falando isso. Só queria ir embora logo, pensando no dinheiro que perdia a cada minuto que deixava meu carro naquele estacionamento.
- Ah, e antes que me esqueça. – ele disse. – Na próxima vez, você pode parar seu carro no estacionamento do escritório. Além de ser no subterrâneo do prédio, é de graça.


Capítulo 5 - Parte II


Ao chegarmos ao bar, já nos esperava. Melhor dizendo, ela me esperava, e não escondeu a surpresa/animação ao ver chegando comigo. Só faltou bater palmas.
Fala sério, ela poderia ser menos discreta?
- , essa é , minha colega de apartamento e melhor amiga. – ele se aproximou dela para apertar sua mão. – E esse é , meu... colega de sala. Fazemos direito penal juntos.
É claro que já conhecia ele, e sabia que não o conhecia só do direito penal.
- Vou buscar uma bebida pra gente. – disse indo em direção ao bar.
Não deu nem tempo de se afastar, e eu me sentar, para minha amiga expressar sua surpresa/animação:
- Não perdeu tempo, hein, amiga? Adorei a atitude.
- O quê? – e em uma fração de segundos, entendi. – Nada disso. Só trabalhamos no mesmo prédio.
Sua cara dizia que ela não acreditava que fosse só isso mesmo.
- E ele ainda trabalha com o maior advogado de São Paulo, aquele que eu sempre falo sempre.
- O tal do Harvey Specter da vida real? Caramba, esse não economiza mesmo. Além de ser gato, e beijar bem, ainda trabalha com o cara famoso.
- Pois é. Agora disfarça.
- Olá, garotas. – disse trazendo três cervejas. – Um brinde ao primeiro dia da !
bateu palmas, enquanto eu ri. Olhando para aqueles dois, sentia medo do que me esperava naquela noite.
- E então, , fale sobre você. – disse fazendo-me olhar para ele. – Você disse que eu não te conhecia. – ele explicou. – Vamos mudar isso.
- Ok... – disse pensando no que teria para falar de mim. – Faço direito na USP, estágio na Advocacia Rassi-Portella & Advogados Associados, e moro com a minha melhor amiga.
- Isso é decepcionante. – ele disse fazendo cara de tédio. – E você, ?
- Vinte e quatro anos, faço faculdade de arquitetura. Apesar de ter nascido no Brasil, meus antepassados eram árabes, por isso a origem do nome. E não, eu não falo árabe, antes que pergunte. – ela disse rolando os olhos. – E acabei de terminar com meu quase namorado.
- Como assim? Você nem me disse nada! – eu disse.
- Não queria estragar seu dia.
- Você quer falar sobre isso? – perguntei, apesar de já saber a resposta.
- Pela deusa, não quero falar sobre Lucas! – ela disse bebendo sua cerveja. era a melhor ouvinte quando o assunto era garotos, mas a pior oradora.
- Impressionante. – disse. – Sinto muito pelo término.
- Não sinta, eu não sinto. – ela balançou a mão no ar. – Agora fale de você.
E nesse momento eu prestei atenção. Percebi que eu mesma queria saber mais sobre ele.
- Meus pais são de Brasília, e minha mãe quase surtou quando disse que iria fazer faculdade em São Paulo. Direito não era minha primeira opção quando estava no colegial, mas acabei mudando de ideia no cursinho.
Fiquei esperando continuar a contar sobre ele, quando percebi que ele não falaria mais nada.
- É isso que você tem de interessante pra contar? – perguntei. É isso mesmo, se ele vai ficar me provocando, vou fazer o mesmo. Ou pelo menos tentar. – E depois fala de mim. – disse irônica.
- Mas você é um livro aberto.
- Não sou não!
- Pior que é sim, amiga. Você fala uma coisa, mas o seu corpo diz outra. – disse. Imediatamente corei, porque eu sabia o que ela queria dizer, a indireta que ela queria dar. Ou também tinha entendido, ou aquele sorriso de lado fica na cara dele o tempo todo.
- Que seja. – disse por fim.
- Também é a pessoa mais honesta do mundo quando toma algumas a mais. – disse rindo.
- Nem me lembre disso. –disse gemendo, escondendo o rosto com as mãos. – Parece que ainda estou de ressaca. Não sou acostumada a beber, já que Chris raramente bebia, pelo menos quando estávamos juntos.
- Hmpf! Aquele cara só atrasou a sua vida. – minha amiga sincera e carinhosa disse.
- A questão é que ficou um pouco bêbada e contou muita coisa interessante para um estranho, no caso, eu.
estava com os dois braços cruzados em cima da mesa, com o corpo inclinado para frente. Daquele ângulo, podia ver cada tom dos seus olhos verdes.
- Que tipo de coisas interessantes? – perguntei, admito, com medo. Não me lembrava de contar nada de tão interessante.
Nesse momento o celular de tocou, fazendo com que ela se levantasse pedindo desculpas, para atender num local mais privado.
- Não façam nada que eu não faria. – ela disse se afastando. O que é engraçado, porque não tem nada que ela não faria.
- Bem, você contou que está solteira. – ele disse quando já estávamos sozinhos.
- Isso é verdade, estou solteiríssima. Mas não entendo porque isso é interessante.
- É sempre bom saber quem está disponível.
Ok, não tinha como ter outra reação que não fosse rir. Talvez mais por nervoso por, de fato, ser engraçado, mas ainda assim não deu pra evitar.
- Já disse que não quero ter nada com você.
- Outch! – ele pois a mão no peito, fazendo cena. – Esse negócio de rejeição machuca.
- Não é rejeição. – disse ainda rindo, dessa vez, definitivamente, de nervoso. – Só não estou interessada em ter outro garoto problema na minha vida no momento.
- De onde você tirou que eu sou problema? – ele perguntou, inclinando mais o corpo sobre a mesa.
- Ah, por favor! – ele estava falando sério? – Esse sorrisinho de lado fala por você. E sem contar esse cabelo de domingo, todo bagunçado, e essa pose toda de garoto conquistador de corações.
riu alto, chamando a atenção das mesas ao lado. Até mesmo eu estava rindo.
- Você é mesmo uma garota sincera. E dessa vez nem precisou ficar bêbada. – ele disse piscando. – Mas não tenho intenções de lhe causar problemas, .
Mas eu sabia, que mesmo sem intenções, ele causaria problemas, se eu deixasse. Seus olhos verdes como o mar me causaria problemas. Seu sorriso me causaria problemas – já estava causando, na verdade. Às vezes tinha dificuldades de pensar direito quando ele ficava tão próximo assim.
E eu sabia que ele tinha consciência dos efeitos afrodisíacos que causava nas meninas, ele não era burro.
- Além disso, ainda estou te devendo uma ajuda.
- Como assim?
- Sábado eu disse que te ajudaria com a sua... questão. Sobre chegar nos garotos, adquirir experiência, essas coisas. Lembra?
- Talvez... – disse incerta.
- Estávamos no bar, você me contando sobre o fim do seu namoro, sobre chegar nos caras...
- Sei, sei, sei! – disse alto com a mão no ar. Já era embaraçoso o bastante ter dito aquilo tudo, ele não precisava ficar lembrando. Deus, que vergonha. Eu, definitivamente, nunca mais iria beber.
- Ok... e então nos beijamos.
- Você me beijou. – o corrigi.
- E você correspondeu.
- Eu fui pega de surpresa! – o quê? Eu fui mesmo. – Além disso, foi um beijo roubado.
- Você gostou.
Talvez não me lembrasse exatamente de como tinha parado no bar, com ele, beijando ele, mas me lembrava do beijo com muita clareza, obrigada.
Claro que não admitiria isso em voz alta para ele.
- Ok, talvez eu tenha gostado um pouco.
Ele levantou a sobrancelha não acreditando na minha resposta.
- De qualquer forma, onde quer chegar com isso?
- Nós podemos nos ajudar. – ele disse, simplesmente.
- Como?
- Você acabou de sair de um relacionamento de três anos. Provavelmente está com o mesmo cara desde o colégio. Não me admira que não saiba como chegar num cara de que está afim.
- Ok, continue.
- Eu entendo de flerte.
- Disso eu sei. – disse irônica. Me lembrava de dizendo que ele havia pego várias meninas no primeiro dia de aula ali mesmo, naquele bar.
- Eu posso te ajudar a acabar com essa insegurança.
- E o que você ganharia com isso? - eu perguntei meio sem acreditar no que ele estava propondo.
- Não sei se você sabe, mas estou cursando direito penal pela segunda vez com o doutor Enoch, e não quero ter que cursar uma terceira vez.
- E você quer que eu te ajude a estudar? – perguntei me lembrando dos filmes de comédia romântica que costumava assistir no colegial.
- Deus, não! – ele disse rindo. – Quero todas as suas anotações, assim como seus resumos para as provas. Isso vai me ajudar a estudar.
- Você quer dizer te ajudar a passar colando, né?
Ele não disse nada, preferindo beber sua cerveja.
- O que me diz?
Parei para pensar por um segundo. Meu caderno em troca de dicas de namoro/pegação/paquera, vindas de um garoto que mal conhecia. Mas que sabia beijar muito bem. Mas isso não vinha ao caso agora.
- Não sei... Isso é meio estranho. – disse por fim. De fato, era estranho. Parecia roteiro de filme feito para pré-adolescente.
- Não é, mas você é quem sabe. – e se aproximando, disse. – Seria nosso segredinho.
Percebi que ter segredinhos com ele não parecia uma má ideia.
E então percebi como aquela frase soava suja. Ou ele a fazia soar suja, falando daquele jeito, sussurrando. Deus, como estava confusa. Aquele garoto era muito problema.
Não respondi, pois fomos interrompidos quando um rapaz de aproximou da mesa em que estávamos.
- Pense nisso. – ele disse piscando para mim.
- E aí, cara, beleza? – o rapaz cumprimentou . – Olá, senhorita. – ele disse para mim, em sua melhor de pose de gentleman, beijando minha mão. – Grint, a seu dispor.
Precisei rir daquilo.
- , prazer. – me apresentei. – Grint é apelido?
- Na verdade é sobrenome. – ele disse sentando-se, enquanto pedia ao garçom uma dose de uísque.
- E qual é o seu nome?
- Boa sorte em descobrir isso, ele nunca diz o nome para ninguém. – disse rindo.
- O que é a vida de um homem sem um mistério, não é mesmo? – Grint perguntou. De novo, precisei rir.
- O primo dele também faz estágio no nosso escritório. – disse.
Tentei pensar em quem poderia ser, mas não era como se conhecesse muitas pessoas lá dentro. Quer dizer, aquele tinha sido meu primeiro dia, dá um tempo.
- Desculpem a demora. – disse ao voltar.
- Olá, muito prazer. – Grint estendeu a mão por cima da mesa. – Grint. É um prazer conhecê-la.
- E aí? – disse se sentando. – .
- É um prazer conhecê-la, senhorita.
- É, você já disse isso, cara.
- Poderia continuar dizendo a noite toda.
- Não continue, por favor. , vamos embora? Está ficando tarde.
O que tinha acabado de acontecer ali? Por um momento fiquei realmente perdida no momento interação Grint-.
- Mas ainda não são nem oito horas. – reclamei.
- Você adora dormir cedo. – ela insistiu.
- Não tão cedo assim.
Talvez ninguém tenha notado, mas conhecia minha amiga bem demais para identificar quando ela ficava emburrada. E naquele momento, ela estava. Grint, se percebeu, não demonstrou, pelo contrário, passou a contar sobre seu dia como se fôssemos seus amigos de longa data.
- Vocês não imaginam a confusão no laboratório hoje.
- Ainda não acredito que você faz química. – disse impressionada. Para um cara que se vestia como se fosse modelo de capa de revista, abusando de uma combinação calça cáqui, camiseta e lenço em volta do pescoço – ainda que estivéssemos em pleno verão paulista – ele estava se mostrando muito mais interessante do que poderia imaginar.
- Minha mãe dizia que eu gostava de explodir coisas quando era pequeno. Acho que as coisas não mudaram muito. – deu de ombros. – De qualquer forma, tem um garoto na minha turma, que pelo amor de deus, como foi que ele passou no vestibular mesmo? – disse colocando as mãos para cima, numa cena de inconformidade. – Quase colocou fogo nas amostradas todas! – disse ele rindo.
Para alguém que tinha acabado de chegar, ele parecia estar muito confortável, mesmo não conhecendo a maioria naquela mesa. Na realidade, ele parecia ser o tipo de pessoa que se sentiria confortável em qualquer ambiente, no meio de qualquer grupo, ainda que todos estranhos. E, apesar dele estar falando com todos nós, sua atenção estava, claramente, voltada para , que parecia não notar. Ou, pelo menos, fingia não notar.
- O que você achou do Grint? – perguntei à minha amiga, ao chegarmos em casa.
- Sei lá, tanto faz.
- Você fechou a cara depois que ele chegou. – comentei. – Algum problema com ele?
- Problema nenhum, até porque eu nem conheço o cara. – ela disse dando de ombros.
E com um sorrisinho malandro, disse:
- Acho que você gostou dele.
- Até parece. – disse bufando.
- Fala sério, você está corada! – eu disse apontando para seu rosto. – Ah, como é bom estar do outro lado. – disse me referindo ao fato de que sempre a corada ser eu.
- Eu não gostei dele, de jeito nenhum.
- Por que você não gostou dele?
- E por que eu deveria?
- Porque além de super simpático, o cara é engraçado pra caramba. – como ela podia não ter dado risada ouvindo ele? – Ele parece ter gostado de você. – eu disse.
- Espero que não, porque do contrário, só vai estar perdendo o tempo dele.
- Caramba, por quê isso?
- , você não entendeu, não é? – ela disse me olhando, parada no meio da sala. – Ele é o típico garoto branco, classe alta, que acha que seus olhos claros e cabelos loiros podem conseguir qualquer garota com um estalar de dedos.
- Então... Você não gostou dele porque ele é branco? – perguntei meio perdida.
- Não, mas porque ele se comporta como o padrão classe alta branca se comporta.
- Mas eu sou branca e sou sua melhor amiga.
- É diferente, . – ela disse suspirando. - Homens já possuem, naturalmente, um sentimento machista de posse, como se qualquer garota pertencesse a ele, de qualquer forma. Por eu ser negra, descendente de escrava, não posso permitir me envolver um cara desses.
E diante do grandioso ponto de interrogação que minha cara devia estar naquele momento, ela continuou:
- Veja, não é pelo fato dele ser branco, simplesmente, mas pelo fato de como ele se comporta. É o típico garoto que acha que tem o mundo nas mãos. Acaba vendo qualquer garota como um troféu a ser conquistado.
- Isso não tem sentido nenhum! Definitivamente essa não é você falando. – eu disse.
Ela pensou um pouco antes de responder:
- Admito que talvez isso seja uma síntese do discurso que ouvi do meu pai a vida inteira. – e antes que pudesse interrompê-la, continuou. – Mas não muda o fato de que eu concordo com ele. Olha, sou totalmente contra esse negócio de segregação racial e tudo o mais, mas a questão aqui é a forma como ele se mostrou se comportar. Não poderia sair com uma pessoa com esse perfil.
- E como você sabe que ele se encaixa nessa lista de caras que você deve manter distância? Você nem conhece ele. Como pode julgar uma pessoa que nem conhece quando você mesma já foi vítima de preconceito? Você, mais do que ninguém, sabe que pré-julgamentos não levam a nada.
- Pode ser. – ela disse envergonhada. – Talvez acabe mudando minha opinião sobre ele, e espero mudar, mas não muda o fato de que não, não estou interessada nele, obrigada. – ela disse encerrando aquele assunto. – Além disso, você sabe que tenho uma queda por morenos, de cabelos longos, de preferência.
- Claro, claro. – eu disse indo para o quarto.
Quando já estava quase pegando no sono, meu celular tocou, anunciando uma mensagem nova.
“Devemos sair mais vezes.
P.S.: estou ansioso para saber sua resposta em relação à minha proposta.
Guarde bem o nosso segredinho.
”.


Capítulo 6


Quando voltei para a sala de aula, depois do intervalo, não fiquei exatamente surpresa. Quer dizer, não é como se não esperasse que estivesse sentado no mesmo lugar que ontem, na carteira ao lado da minha. Também não é como se não estivesse ansiosa por isso.
Ele olhava para mim. Imagino se ele sabia o que passava pela minha cabeça.
O sorriso que deu ao meu aproximar, confirmou minhas suspeitas.
- Vejo que gostou de sentar na frente. – comentei.
- Somos amigos agora, e amigos se sentam perto.
Olhei para ele com os olhos cerrados. Claro, como se eu fosse cair nessa.
Como de costume, o senhor Enoch passou o esquema da aula na lousa, antes de começar a explicar a matéria. parecia mais entretido em qualquer coisa, menos no que se passava na sua frente.
- Não vai fazer anotação nenhuma? – perguntei, sussurrando para não chamar atenção.
- Para quê? Vou tirar xerox do seu caderno no final da aula. – ele respondeu no mesmo tom.
- Ei, eu não concordei com a sua proposta estranha.
- E por que não?
- Já disse, porque é uma proposta estranha.
Ele rolou os olhos antes de responder.
- Ok, não precisa pensar como um acordo, então. Pense apenas... Como uma ajuda mutua entre amigos.
- Quem disse que preciso da sua ajuda?
fez cara de surpreso, mas não deixou o sorriso de fora. Talvez ele não esperasse esse tipo de resposta. Provavelmente pensou que fosse pedir seu manual de paquera/pegação/namoro em PDF para estudar mais tarde em casa.
- Muito bem, então veja isso apenas como uma boa ação, ainda que unilateral. – e antes que pudesse protestar, ele continuou. – Você não quer se sentir culpada quando eu reprovar de novo, sabendo que poderia ter me ajudado, não é?
Fiquei olhando para a cara de coitado que ele fazia. Como podia ser tão cara de pau?
- Disfarça, pelo menos. – eu disse por fim.
Com um sorriso vencedor nos lábios, ele abriu o caderno e começou a copiar, vagorosamente, o que estava na lousa.
- Isso não significa que eu aceitei proposta nenhuma. Só prova como tenho um bom coração. – disse, colocando a mão no peito. Se ele podia fazer drama, por que não entrar na brincadeira também?
- Claro, claro...
Cinco minutos depois, soltou o primeiro suspiro. Com a testa franzida, ele olhava por tempo demais a lousa, e depois para o caderno de novo. Abriu a lei penal no celular, para conferir com o que estava escrevendo, e isso só o deixou com a cara ainda mais confusa.
- Talvez eu precisei mais do que o xerox do seu caderno. – ele disse baixinho.
Ri do que disse, e olhei para ele. Na posição em que estava, nossos braços quase se tocavam. Sentava despojado, com as mangas da camisa dobradas na altura dos cotovelos, os primeiros botões abertos. O cabelo estava bagunçado como sempre. Seu joelho quase batia na minha perna. Seu perfume estava ali, forte, presente, viciante. Ali ao meu lado, podia sentir cada aspecto da sua presença.
- O que ele está fazendo aqui de novo? – Iris perguntou sussurrando. Com um pulo, assustada por ser tirada da atmosfera que tinha em volta de si, respondi, dando de ombros:
- Não faço a mínima ideia.
Ainda que minha mente repetisse que ele só estava ali para garantir algumas cópias, uma voz sussurrava que não queria apenas pegar um caderno emprestado. E era exatamente por isso que eu estava torcendo, percebi.

- Posso devolver seu caderno mais tarde? – ele perguntou ao final da aula, enquanto arrumava minhas coisas.
- Claro, sem problemas.
Não é como se fosse ter tempo de estudar alguma coisa antes de ir para o estágio.
- Como é que vocês combinam de sair e você nem me conta, menina? – Iris perguntou. Ao perceber o brilho nos seus olhos, o famoso brilho de tem-fofoca-nova-no-ar, tratei de corrigir aquilo.
- Não estamos combinando nada. – eu disse. – Apenas fazemos estágio no mesmo escritório agora.
- Onde você está fazendo estágio? – percebi que sua pergunta tinha mais o intuito de testar a verdade nas minhas palavras do que de sanar uma curiosidade.
- Advocacia Rassi-Portella & Advogados Associados.
E aquilo foi o suficiente para deixar sua investigação de lado e despertar a curiosidade de Iris.
- Mentira! – abriu a boca, surpresa. – Fala sério, e você nem me contou essa fofoca!
- Não deu tempo. – eu ri. – Foi tudo muito corrido, sério. Comecei ontem, na verdade.
- Caramba... Achei que não contratassem estagiários fora dos períodos de inscrição. – ela franziu a testa. – De qualquer forma, agora que você está lá dentro, só quero saber quando é que vai conseguir uma vaga para mim.
Eu ri da piada. Porque não tinha um pingo de verdade naquilo. Ninguém “conseguia uma vaga” para outra pessoa na Rassi-Portella.
- Então... Vocês não estão saindo?
- Não, não estamos. Somos só amigos. Colegas, na verdade. – conhecia há uma semana, e não sabia praticamente nada da vida dele, exceto, talvez, que ele não era bom em direito penal, mas era especialista em usar seu charme.
- Mas vocês ficaram.
Não foi uma pergunta.
- Ficamos uma vez, na festa de sábado. Mas como disse, não temos nada de mais.
- Isso é uma pena. – ela disse suspirando. – Ele é um pedaço de mau caminho.
Eu não podia concordar mais.
- Se eu tivesse ficado com ele, faria questão de ser mais que só uma amiga. – ela disse piscando.
O tom malicioso na voz de Iris me incomodou, mas não disse nada. Não tinha nada a ser dito, na verdade. Não é como se pudesse ficar incomodada com outras garotas que achem um gato, até porque ele era mesmo. E não tínhamos nada, então não tinha porque sentir ciúmes, de qualquer forma.
- Não precisa fazer essa cara, não estou interessada nele. Já tenho meu alvo na mira.
- Que cara?
- Fala sério, . – Iris disse revirando os olhos. – Você é tão óbvia às vezes.
Não entendi o que ela quis dizer. Mas não prolongamos o assunto, afinal, eu tinha que almoçar mais cedo agora, já que tinha estágio à tarde, e pretendia chegar mais cedo para procurar uma vaga no estacionamento do escritório.
já estava me esperando no estacionamento da faculdade quando cheguei, já que tinha deixado o carro no mecânico no dia anterior.
- Não quero nem ver o rombo na minha conta bancária que essa revisão vai causar. – ela disse quando já passávamos pelos portões da faculdade. – Espero que dêem desconto para universitários.
- Eu duvido. – disse rindo.
não perdia a chance de falar do dia anterior, especialmente a parte em que e eu ficamos sozinhos na mesa. Apesar de jurar que não tínhamos “nos pegado em cima da mesa do bar”, ela continuava insistindo que não tínhamos só jogando conversa fora. Acabei me dando por vencida, e contando a ela da “proposta” feita por .
- Não acho que você precise da ajuda dele. Quer dizer, você é uma mulher independente, reverente e segura de si. Não precisa de macho nenhum para te ajudar a achar uma companhia à noite.
- Na verdade, se parar pra pensar, eu preciso sim. – disse rindo. – Não é como se eu tivesse prática nessa área.
- Talvez... Talvez não seja de todo ruim, quer dizer, imagina as coisas que esse cara pode te ensinar.
E o sorriso que ela lançou deixava claro que ela não estava falando de ensinamento sobre Direito.
- Pensando melhor agora, acho que esse acordo até que seria interessante. Quer dizer, umas dicas viriam a calhar para você, ajudariam a fazer essa segura de si mostrar as caras de uma vez por todas.
- Às vezes me pergunto se essa existe mesmo.
- É claro que existe! – disse bufando. – A bêbada é a prova de que a segura existe e só fica esperando uma oportunidade de se mostrar para o mundo.
- Ok, talvez você esteja certa. – disse parando o carro na frente do trabalho dela.
- Eu sempre estou. – disse uma piscadinha. – Tenha um bom dia. Espero que se divirta com . Ou que ele te divirta. Quer dizer, que o estágio seja divertindo. – bateu na testa, como se se desculpando pela “confusão não intencionada” das palavras. – Ou seja lá estágios de Direito são. Beijinhos.
Rolei os olhos, me despedindo da minha amiga, seguindo para o estágio.

Ao chegar no escritório fui direto para a sala do Doutor Fernandez. Além de se desculpar por não estar presente ontem, no meu primeiro dia, me deu boas vindas, e acabou por fazer o mesmo discurso motivador/ameaçador sobre como “a Advocacia Rassi-Portella poderia ser a divisora de águas na minha carreira profissional, isso, é claro, se eu aguentasse ficar até o final do curso e conseguisse me destacar”.
Agradeci pelas boas vindas e pelas palavras motivadoras-mas-não-tão-motivadoras-assim com um sorriso.
- Também quero que fique à vontade para tirar qualquer dúvida que tiver comigo. Espero que saiba aproveitar a oportunidade que está tendo.
- Pode deixar. E sim, vou aproveitar. Obrigada. – outro sorriso, esse mais nervoso que o primeiro.
- Já está inteirada do caso em que estamos trabalhando?
- Sim, Fernando me contou sobre o caso ontem, e também acabei lendo meio por cima o processo.
- Muito bem, então leia com mais atenção hoje. Cada página, cada documento que nos foi entregue. E pode começar a trabalhar com os outros estagiários.
O “trabalhar com os outros estagiários” significava exatamente isso: trabalho em equipe.
Eu nunca tinha sido boa em trabalhos em equipe.
Fernando foi quem me ajudou, me ensinando onde e como procurar por precedentes e jurisprudências sobre o caso em que estávamos trabalhando. Ele cuidava da parte prática, junto com os outros estagiários, enquanto eu ficava com a parte da leitura e pesquisa.
- O escritório já trabalhou com outros semelhantes? – perguntei em determinado momento.
- Acho que sim, por quê?
- Seria interessante ler em casos anteriores sobre essa matérias. Podemos achar algo que nos ajude.
- É uma boa ideia.
Fernando me levou até onde ficavam os arquivos. Comecei a procurar por processos que envolvessem divórcio, traição, e divisão de bens, que era, basicamente, do que se tratava o caso em que estávamos trabalhando. Quer dizer, a mulher já estava até mesmo noiva de outro cara, mas o ex-marido não queria dar o divórcio de jeito nenhum por, simplesmente, não aceitar o fato dela já estar com outro quando nem mesmo assinaram os papeis do divórcio ainda.
- Houve traição de ambas as partes, certo? – perguntei olhando o processo novamente.
- Sim. Mas ele não aceita que ela ainda esteja com o amante e queira se casar com ele. Além disso, se recusa a admitir que ele também traía.
- E como sabemos disso?
- Porque ele admitiu em uma reunião que tivemos com o advogado dele no início do processo, mas não pudemos registrar o que foi dito. E mesmo que tivéssemos, não teríamos como comprovar. Seria nossa palavra contra a dele.
- E ele descobriu que a esposa saía com outro porque colocou um detetive atrás dela? – perguntei olhando as fotos no processo. – Mas isso foi depois que ela descobriu sobre a traição dele, certo?
- Certo. Segundo a esposa, quando ela descobriu sobre a traição fizeram um acordo de poderem sair com quem quisessem, sem que o outro interferisse. Não queriam manchar a imagem das famílias. São famílias bem tradicionais de São Paulo, sabe?
E pior que sabia mesmo. A hipocrisia do ser humano me assustava às vezes.
- Agora ele não quer dar o divórcio, ainda mais se sair perdendo alguma coisa na separação de bens. Nosso trabalho é defender os direitos da mulher, e tentar fazer o melhor acordo possível.
Suspirei. Já não é fácil lidar com homem. Agir como um idiota possessivo, deixava as coisas ainda mais complicadas.
- Talvez você tenha a chance de conhecer o casal semana que vem, já que vão ter uma reunião com o doutor Fernandez, e ele costuma deixar os estagiários participarem de tentativas de acordo para entenderem como funciona o Direito na prática, e lidar com clientes, coisa e tal. E também porque alguém tem que servir o café. – disse com ironia, me fazendo rir da última parte.
- Claro, claro. Não esperaria nada menos que servir café num estágio de Direito.
Continuei na sala de arquivos, procurando agora, mais especificamente, casos sobre divórcio e traição que já tinham passado pelas mãos do doutor Fernandez. Assim, se conseguisse um processo antigo dele, seria mais fácil criar uma tese e defende-la, porque saberia qual o tipo de raciocínio e defesa que ele costuma usar nesses casos.
Talvez estivesse concentrada demais lendo os processos antigos do escritório, porque dei um baita pulo quando , simplesmente, chegou por trás, dizendo “bú!”. E depois quis socar seu rosto lindo, com o nariz perfeito, com olhos claros e lábios grossos que beijavam absurdamente bem, pela risada que deu.
- Desculpe. – o engraçadinho disse ainda rindo. Não respondi. Ainda estava com o coração disparado. Pensei que fosse alguém me pegando no flagra quando, em vez de olhar processos que já passaram pelas mãos do doutor Fernandez, estava lendo os processos do doutor Lucio Muniz. Até parece que perderia a oportunidade de ver como pensa o advogado mais foda de São Paulo. Mas as outras pessoas lá de dentro não precisavam saber da minha curiosidade.
- Que seja.
Com o sorrisinho de lado de sempre, ele se dirigiu à maquina de xerox. De costas para mim, disse:
- Parece que você já causou boas impressões.
- É mesmo? – perguntei sem estar exatamente interessada. Só queria devolver os processos nas caixas de onde tinha pego.
- É mesmo. Pelo menos nos outros estagiários, especialmente os homens.
- Todos devem estar se perguntando como foi que entrei sem ter passado por nenhuma seleção esse ano. – disse irônica.
mordeu o lábio antes de responder, e aquilo – quase – tirou minha atenção da nossa conversa. Quase.
- Poucos passam logo de cara, a maioria é chamada conforme surgem as vagas.
Concordei com ele, mesmo sem concordar de verdade.
- Semana passada uma garota nova foi para a equipe do doutor Gomez, um dos criminalistas do escritório. Ela também não passou por nenhuma seleção esse ano.
Dessa vez concordei com ele, aceitando o que ele havia dito.
- Já pode devolver meu caderno?
- Por que acha que estou aqui?
- Para tirar xerox de documentos sobre... contratos de prestação de serviços? – perguntei lendo os papeis que ele tinha deixado em cima da mesa.
- Isso também, mas os documentos podem esperar. – disse dando de ombros. – A que horas vai embora?
- Às cinco.
- Ainda no segundo dia e já indo embora mais cedo? – perguntou levantando uma sobrancelha. E ficando absurdamente sexy fazendo isso.
- Meu chefe dispensou os estagiários hoje, mas em compensação amanhã teremos que entrar mais cedo e sair no horário normal. E sem hora extra. – brinquei.
- Ah, pobres estagiários que trabalham sem ganhar hora extra... – ele disse estalando a linda. – Então o seu caderno estará na sua mesa antes das cinco horas.
- Obrigada. Mas boa sorte em achar a minha mesa. Eu mesma tenho dificuldade em encontra-la em meio aos montes de processos e papeis lá em cima. – disse andando de costas, pronta para sair dali, não sem antes empilhar os processos que seriam úteis para o caso.
No caminho para a sala, parei para tomar café com Fernando, quando este me chamou, e mais outros dois estagiários que ainda não conhecia. Ambos se apresentaram, não perdendo a chance de falarem que tinham começado a trabalhar ali no começo do segundo ano da faculdade, afinal, segundo eles, quem sabe o que quer para a vida, e tem vocação, costuma ser aceito cedo nos grandes escritório de advocacia.
Não entendi exatamente se aquilo tinha sido ou não uma indireta. De qualquer forma, logo percebi que não gostava de pessoas que tentavam se mostrar melhores do que as outras, e, de alguma forma, era exatamente isso que estavam tentando fazer. Se para me impressionar, ou fazer inveja, eu não sabia, e nem queria.
Fernando, por outro lado, veio em minha defesa:
- deve ser a mais bem qualificada daqui, já que não costumam chamar estagiários fora do período de seleção. Se o fizeram com ela, é porque a queriam e não estavam dispostos a esperar até o final do ano.
Os dois estagiários concordaram com a cabeça baixa, sem graça. Um até mesmo pediu desculpas antes de sair. O outro desejou boas vindas de novo e até se atreveu a dar um sorrisinho antes de sair.
Quando já estávamos sozinhos na cozinha, agradeci a Fernando.
- Que isso, não disse nenhuma mentira. Até mesmo porque foi muito bom deixa-los com cara de pateta. – disse rindo.
- Mas sabe, fiquei sabendo que outra estagiária foi chamada semana passada para trabalhar com o doutor Gomez.
- Não acho que seja verdade, porque o doutor Gomez não tem equipe própria de estagiários. Quando precisa de ajuda, costuma pedir aos estagiários da equipe de sua esposa.
Fiquei pensando no que Fernando disse o caminho todo até minha sala. A única alternativa era pensar que havia mentido para fazer com que me sentisse melhor, depois de revelar minha insegurança a respeito de ter começado o estágio fora de época.
Bem, eu não gostava quando mentiam para mim, seja qual for o motivo.
- , entrega para você.
A secretária do Harvey Specter da vida real me chamou. Não sabia que ela sabia o meu nome. Nem que ela sabia quem eu era.
Comecei a andar pelo lado contrário de onde ficava a sala dos estagiários, adentrando na parte onde ficavam as salas dos advogados. Aproveitei para dar uma espiada na sala do doutor Fernandes, que não estava lá. Fui mais atrevida e tentei ver dentro da sala do doutor Lucio Muniz, que também não se encontrava.
- Não é todo dia que uma estagiária nova consegue chamar atenção de . E olha que já vi várias tentarem. – disse estendendo meu caderno em minha direção.
Sua voz chamou minha atenção. A olhei desconfiada. Ela estava dizendo o que achava que estava dizendo?
- Não estou falando de mim, deuses! – disse rindo, com a mão no peito. – Ele é muito novinho para mim. Mas sabe como é, as paredes falam, as garotas fofocam...
- Estamos na mesma turma de direito penal. – disse simplesmente, pegando meu caderno, pronta para voltar à minha sala.
- Claro, claro... – ela não parecia realmente acreditar.
Preferi não me prender àquele detalhe. Provavelmente nunca mais a veria mesmo.
- E você, como conhece ? – mordi a língua por deixar que aquela pergunta escapasse.
- Bem, além de ser secretária de Lucio Muniz, e conviver com ele diariamente, também é Bella, a secretária mais bem informada e atualizada desse prédio. – Bella, a secretária mais bem informada e atualizada daquele prédio disse com um sorriso esperto de quem sabe demais, mas sempre revela de menos.
Eu ri.
- Ok, vou tomar cuidado com o que falar perto de você daqui para frente.
- Sabe, posso ser sua pior sua pior inimiga aqui, mas também posso ser sua maior aliada
- Claro, vou me lembrar disso.
Confusa com o conversa mais estranha que tinha tido até aquele momento, voltei para minha sala, arrumando minhas coisas para ir embora. Ao colocar o caderno dentro da bolsa, um bilhete caiu de dentro dele, que só podia ter sido deixado por uma pessoa.

Acho que essa amizade pode ser melhor do que imaginei.
Obrigado pelas anotações detalhadas, em cores diferentes. Tenho certeza de que vai me ajudar muito.
E não se preocupe, não me esqueci da minha parte do acordo.
Até amanhã.


Capítulo 7


Uma semana se passou desde o acordo-não-acordo que havia selado-não-selado com . E isso acabou resultando numa mensagem, logo cedo, dele, avisando que não iria conseguir ir para a faculdade hoje, e pedindo para que copiasse cada vírgula dita pelo professor, já que agora sua aprovação em direito penal dependia de mim.
Claro, como se só fosse para aula de direito penal para lhe passar as anotações depois.
Não me importei realmente. Quer dizer, tínhamos um acordo, certo? Não que tivesse aceitado expressamente, mas também não negaria uma ajudinha aqui, outra acolá, que, naquele momento de transações e descobertas, era tudo o que eu precisava.
Antes de conseguir enviar a resposta, recebi uma ligação. Não costumo atender ligações de números desconhecidos, e a demora em decidir se deveria ou não aceitar, fez a ligação cair. Isso, e a buzinada que levei do carro de trás por estar parada no semáforo quando este já tinha ficado verde.
Fazendo as vezes de , cheguei atrasada na aula, mas diferente dele, tentei não chamar a atenção de todos com uma entrada digna de comerciais de perfumes masculinos.
- Achei que fosse quando você abriu a porta. – Iris comentou. Já não ficava mais surpresa de chegar e ver sentado na primeira carteira como um bom e dedicado aluno de direito penal.
- Ele não vem hoje.
- Ok, o que está acontecendo entre vocês?
- Nada. – eu disse meio rindo, meio nervosa de ter que repetir aquilo. Até quando teria que dizer aquilo às pessoas? – Estou ajudando ele a estudar direito penal.
- Ah, sim, claro. E trocar uns beijos virou sinônimo de estudo quando?
Ri de novo. Se fossem outros tempos, provavelmente teria ficado roxa de vergonha, mas agora só achei graça da escolha do vocabulário.
- Não trocamos mais nenhum beijo depois daquela festa. Posso te garantir isso.
- É verdade, Iris. Vi ficando com uma menina sábado passado.
Olhei para Isabelle que mexia no celular, parecendo ignorar qualquer outra coisa que não estivesse na tela à sua frente, mas atenta a tudo que acontecia ao seu redor.
Ouvir que tinha saído com uma garota no sábado não foi música aos meus ouvidos, longe disso. Mas também não fiz grande caso. Talvez minha maior surpresa tenha sido o fato de desgostar de saber da notícia, do que, de fato, a notícia.
Mais tarde, ainda no estacionamento da faculdade, me ligou. Ela, definitivamente, não estava com o bom humor de mais cedo.
- , você passou o meu número para Grint?
- Claro que não.
- ... – disse pausadamente, em tom ameaçador.
- Passei para , e o que ele fez com essa informação eu não sei.
Claro, e eu também era a garota mais baladeira com fígado de ferro que aquele curso de Direito já tinha visto.
- Mesmo? – perguntou irônica.
- Não... – lamentei, ainda que segurasse a risada. – Se quer saber, eu não me arrependo. Digo, qual o problema? Grint parece ser uma gracinha.
- , me fala onde que eu tenho cara de sair com garotos “gracinhas”.
Rolei os olhos, ainda que ela não pudesse ver.
- Você entendeu o que quis dizer. O que você falou para ele?
- Disse que não, é claro.
- Não o quê?
- Sobre sexta.
E então tive certeza que ela rolou os olhos, ainda que eu não pudesse ver.
- Ele te chamou para sair?!
- Foi, e eu disse que não. – disse categórica.
- Nossa, você é difícil.
- Pois é, ele também acha isso, pois agora não para de mandar mensagens. – disse suspirando. – Não poderia sair com ele nem se quisesse, não vou ter dinheiro, já que vou a uma festa na quinta e não vai me sobrar nada. – outro suspiro. – Agora só semana que vem, quando eu receber.
De tudo o que ela disse só me apeguei a um detalhe.
- Que festa?
- Uma da minha turma. Eu te chamaria, mas é no meio da semana e...
- Eu vou.
- O quê? É sério isso?
O quê?,eu me perguntei. Mas resolvo, pela primeira vez na vida, não pensar sobre ir a uma festa no meio da semana, cheia de pessoas que não faço ideia de quem são. Quer dizer, por que não? Quantos universitários fazem isso? Pelo menos todos da minha sala, eu tinha certeza. Se queria me desafiar a fazer coisas novas, por não essa, por mais simples que parecesse ser?
- , é no meio da semana, e você vai ter aula no dia seguinte. Ou vai faltar à aula, ou vai para a faculdade parecendo um zumbie.
- Tudo bem, eu não me importo. – disse firme.
E depois de uma pausa reflexiva – acho eu – respondeu num tom de voz bem diferente de quando me ligou.
- Essa é a minha garota!
E antes de desligar, disse:
- Ah, e se quiser, posso te emprestar dinheiro para sair com Grint no fim de semana.
- Não, obrigada. Ficar totalmente falida essa semana acabou vindo a calhar.
E então desliguei a ligação percebendo que nem mesmo sei o local da festa. Mas essa informação – ou falta dela – percebi, não me preocupou.

- Como o pai está? – perguntei à minha mãe.
Não deveria estar conversando no celular enquanto estou no estágio, ainda mais segurando duas caixas de vinte toneladas, cada uma, ao mesmo tempo. Mas ei, se arriscar era meu novo lema, mesmo que isso implicasse uma coluna torta no final do dia.
- Ele está bem. Meio depressivo pelos cantos porque faz tempo que você não vem para casa, mas bem. – disse com certo humor. – E Chris, tem falado com ele?
Soltei, propositalmente, uma caixa de pesadíssima no chão. Por sorte não caiu nos meus pés, ou se não, além da coluna torta, sairia mancando do escritório.
- Não. E não tenho intenções de falar com ele.
Senti que repetia esse discurso todas as vezes que conversava com minha mãe pelo telefone. Não queria nem imaginar como seria quando nos encontrássemos pessoalmente.
- Não acredito que ainda não deu uma chance a ele.
- Mãe, eu não daria uma chance a Chris nem se ele pedisse.
- Você nem mesmo ouviu o que ele tem a dizer, nem atendeu às suas ligações!
Não sei o que me incomodou mais, o fato da minha mãe sempre – sempre mesmo – querer interferir na minha vida e nas decisões que tomo, ainda que extremamente pessoais, ou o fato dela estar defendendo Chris. Quer dizer, acorda, eu sou a filha dela!
- Mãe, Chris e eu não nos falamos desde que ele terminou comigo. E eu estou muito bem, obrigada.
Não sabia se era a sensação de ter conseguido um estágio como aquele por conta própria, ou por, finalmente, estar tomando as rédeas da minha vida, mas me sentia bem confiante nos últimos dias. Havia decidido que não correria arás de mais nada que não fossem meus sonhos, e Chris havia deixado bem claro que não queria fazer parte dos meus sonhos. Página virada, então.
- Eu sei que ele tentou ligar essa semana, mas você não atendeu. Como vão se ajeitar se insiste em ser teimosa e orgulha?
- Ele não me ligou... – e foi quando percebi que o número desconhecido de mais cedo provavelmente era dele. Eu nunca tinha, realmente, decorado seu número completo, só o final, e depois do término, o deletei sem pensar duas vezes (ou, pelo menos, é como gostava de pensar em como as coisas tinham acontecido quando me lembrava de gritando insultos a Chris e incentivos a mim).
Novamente, minha mãe preferiu ignorar completamente o que falei, e isso me deixou com raiva. Com muita raiva da minha mãe, mas especialmente de Chris, que, aparentemente, havia saído da minha vida, mas não da vida da minha família. O que ele queria, por que estava me ligando, por que não me deixava em paz, eram perguntas que passaram pela minha cabeça.
- Você sabe o que ele queria?
- Queria saber de você, mas não por mim, obviamente.
- Mãe, preciso desligar. Mais tarde eu te ligo. – digo antes que a estagiária que acabara de entrar me flagrasse batendo um papo em horário de trabalho.
Percebi que se soubesse disso, que Chris estava tentando entrar em contato comigo, há um mês, teria ficado esperançosa. Há duas semanas, confusa, mas não negaria o contato. Mas agora só sentia raiva. Raiva por ele não me deixar em paz, por me importunar, mesmo quando o próprio tinha pedido distância e eu, a muito custo, a dei.
Minha ideia era não deixar que essa conversa com a minha mãe abalasse o meu dia, nem me distraísse dos meus afazeres. Consegui cumprir a meta, pelo menos até a hora em que cheguei em casa. Preferi não contar à , já que quanto mais tempo insistisse no assunto, mais tempo ele demoraria para ser esquecido.
A aula no dia seguinte foi o bastante para não deixar que Chris, e suas supostas ligações, me distraíssem. Bem, pelo menos até chegar.
Dessa vez ele sentou-se atrás de mim. Atrasado como sempre, quando chegou, a carteira que passara a ocupar nos últimos dias já estava ocupada. E isso foi o bastante para tirar minha atenção de qualquer coisa que estivesse acontecendo à minha frente. Quase podia sentir sua respiração atrás de mim. A energia que transbordava dele era como um campo magnético, atraindo-me.
Arrisquei uma olhadela para trás. não se esforçava para prestar atenção na teoria da pena exposta na lousa, mas não poupou olhares e um sorrisinho de canto para mim quando o espiei.
Voltei os olhos para frente imediatamente, tendo certeza, agora, que não conseguiria prestar atenção em mais nada que não fossem seus olhos verdes como uma floresta proibida, me convidando a conhece-la.
Quando o professor dispensou a turma, pulou para a carteira da frente assim que esta ficou vaga. Entendendo a mão para mim, não precisei perguntar o que ele queria.
- Prometo devolver à tarde, antes que você vá embora. – disse guardando meu caderno na sua mochila. – Mudando de assunto, pensei em algumas formas de ajuda-la na sua... Jornada.
Rolei os olhos.
- Sem ironias, por favor.
- Não estou sendo irônico! – disse, mas ainda assim vejo o humor nos seus olhos. – Se parar para pensar, adquirir novas experiências e ter como objetivo mudar algumas atitudes acaba sendo uma jornada mesmo. Pelo menos segundo Grint. Ele sempre foi um fã de filosofia na escola.
Disse olhando para mim, como se confiasse um segredo que ninguém soubesse.
- É sério? Grint?
- Inacreditável, não é? De qualquer forma, pelo que você falou, seu problema é a insegurança.
- Não exatamente... diz que tenho muitos limites dentro de mim mesma.
- E você concorda com ela?
Suspirei, concordando.
- Então precisamos começar a fazê-la ultrapassar cada um desses limites, se desafiar.
- Se quer saber, eu já estou trabalhando nisso.
- É mesmo? – ele vira o corpo para mim, com uma sobrancelha levantada. – Posso saber como?
- Vou a uma festa na quinta feira.
Enrugou a testa, e com cara de confuso perguntou:
- Da arquitetura? E o que isso tem de desafiador?
- É no meio da semana, dã. – bati de leve na testa dele, o fazendo rir. – Para uma pessoa que nunca faltou às aulas, nem mesmo quando pegou dengue ano passado, e que ficou dois anos na faculdade sem ir a uma festa, acredito que ir à uma festa no meio da semana, correndo o risco de não conseguir ir para a aula no dia seguinte um grande avanço. Para mim é muito desafiador, se quer saber. Vai contra meus princípios de que estamos na faculdade para estudar.
- Sabe, não estamos na faculdade só para estudar, da mesma forma que não vivemos só para respirar.
- Eu sei. – digo. Agora eu sei, e estou começando a aceitar isso. É quase libertador ter esses pensamentos sem culpa.
- E onde vai ser essa festa mesmo?
- Não sei, só sei que é na quinta.
- Entendi. – disse se levantando. – Bem, a gente se vê hoje à tarde, então.
E com um frio na barriga, ainda que quase imperceptível, me peguei ansiando por esse encontro.

- Já pegou a nossa proposta?
Estávamos na sala dos estagiários, Fernando ao meu lado me ajudando a arrumar a mesa antes de irmos para a reunião com o casal mais famoso daquele escritório, prontos para fazer uma proposta para a separação de bens. Digo que o casal era o mais famoso do escritório porque meu chefe parecia fazer questão de contar a todos o tamanho da ação em que estava trabalhando, não fazendo força para esconder valores, especialmente honorários.
Quando perguntei sobre isso, discretamente – ou pelo menos o mais discreto que minha curiosidade permitia – a Fernando, ele respondeu que esse exibicionismo todo era devido a uma rixa interna velada que existia entre ele e o Harvey Specter da vida real.
- Mas eu não sei ao certo. Quer dizer, as pessoas não comentam muito sobre isso. Foi bem antes do meu tempo aqui, acho que no início da sociedade deles com o escritório... – disse pensativo. – Parece que trabalhavam juntos antigamente, mas agora é tudo uma grande competição de quem tem mais poder e influência.
Uma luta por poder, pensei. Poder no mundo jurídico, quem era o advogado mais foda.
Caramba, aquilo era muito Suits na vida real.
- O que ainda estão fazendo aqui? Por que não estão na sala de reuniões?
Meu chefe havia chego na sala dos estagiários, disparando perguntas. Tinha a gravata excessivamente apertada, o terno abotoado, com os botões parecendo a ponto estourar a qualquer momento, os cabelos com mais gel que o recomendado, e era possível ver o suor escorrendo na testa. Mas seu entusiasmo era evidente, especialmente depois de garantir, aos quatro ventos, que naquela tarde fecharia um dos maiores acordos do ano para a Rassi-Portella.
- Você, vá buscar os papeis que estão na minha mesa. – disse a um estagiário. E apontando para outro: - Vá buscar água, café e alguns biscoitos. Ah, sim, alguém avise a secretária para mandar me chamar quando os clientes já estiverem na sala de reuniões.
- Pensei que os clientes já tinham chego. – disse sussurrando para Fernando. E diante de sua concordância, perguntei: - Então porque ele não os espera na sala de reuniões?
- Ele adora fazer uma entrada teatral. – responde no mesmo tom baixo.
Seguimos para onde a reunião aconteceria. A sala não era exatamente grande, mas por causa das portas de vidro, que pegavam um lado inteiro da sala, assim como as janelas, que também eram do teto até a metade da parede oposta, somada com a mesa de reuniões, que ocupava quase a sala toda, tinha a sensação de estar em um lugar maior do que o real.
Aquilo era muito Manhattan, pensei.
O marido estava sentado de um lado da mesa com dois advogados ao seu lado. A mulher estava à sua frente, com a cadeira ao lado esperando pelo Dr. Fernandez, que não demorou a aparecer, cumprimentando a todos com a cabeça erguida, mostrando que aquele era o seu território, e era quem ditava as regras ali dentro. Infelizmente o gel havia começado a escorrer junto com o suor, mas ele parecia ignorar esse detalhe.
- Muito bem, sem mais delongas, vamos dar início à reunião para que ambos possam sair dessa sala satisfeitos, sim? – Dr. Fernandes deu um sorriso falso que não foi retribuído.
- Você conhece os meus termos. – o marido disse olhando diretamente para a esposa. – Se for me deixar para ficar com outro, vamos assinar o divórcio. E se o fizermos, quero metade das suas ações, assim como estabelece nosso contrato pré-nupcial, em caso de traição.
- Ações da empresa da minha família!
- Não interessa, é meu direito. Tudo que é seu é meu também.
Se eu fiquei com vontade de tirar aquele sorrisinho sarcástico da cara dele, imaginava a esposa, que estava bem à sua frente, pronta para pular em cima da mesa.
- Isso é um absurdo. – ela reclamou.
- Não vejo porque. Quem quis o divórcio foi você, meu bem.
- E você aceitou,querido.
- Tudo bem, tudo bem. – disse o doutor Fernandez tentando acalmar a situação. – Vamos conversar, pode ser? Deixem que os advogados cuidem disso. – arrumou a gravata apertada demais.
- Pois não aceito menos! – disse o marido ignorando totalmente o Dr. Fernandez. – E se insistir nisso, muito bem. Apenas me dê o que é meu de direito que assinarei os papeis do divórcio. Assim você pode ficar com o seu casinho de verão.
- Você também teve os seus casos! E começou antes de mim, antes de fazermos um acordo. Como pode ser tão cínico?
A mulher já estava ofegante. Recostada na cadeira, com as mãos fechadas em punhos, e olhando para o Dr. Fernandez como se disse “faça alguma coisa, não o deixe ganhar!”, continuou:
- Você não tem direito a nada. É a empresa da minha família que estamos falando, a empresa que eu trabalhei a vida inteira enquanto você gastava seu tempo jogando golfe com seus amigos sustentados pelos pais, exatamente como você.
- Eu tenho direito ao que eu quiser, querida. Veja bem, tenho provas da sua traição. Além disso, não faço ideia de que acordo está falando.
Enquanto meus colegas, todos sentados no sofá no outro canto da sala, olhavam para aquela cena com olhos de estudantes de direito, pensando se encontrariam precedentes para preservar os interesses da mulher, eu enxergava aquilo de outro jeito. Quer dizer, ele estava, claramente, querendo manipular a situação. Tirar vantagem de algo que ele mesmo começou, e se fazendo de vítima, fingindo ser o único prejudicado ali. Como se a errada fosse ela.
Ela, a mulher que o traiu. Ela, a mulher que aceitou não se separar quando descobriu que ele pulava a cerca, para preservar o nome e o patrimônio da família. Ela, a mulher que, ainda que também estivesse errada na história, era vista como a única errada, simplesmente porque ele tinha provas. E mesmo que não tivesse, ainda seria a errada, simplesmente por sermulher. Será que mais ninguém via o que aquele cara estava fazendo ali?
- E quer saber? Estou vendo que você não está disposta a me dar o que é meu por direito. – ele disse confiante, arrogante. Seus advogados ao seu lado com a mesma expressão. – Assim, quero mais que cinquenta por cento. Quero setenta por cento das ações, e não me venha com discursos sobre como sua família fundou a empresa, isso não me interessa.
- Só pode estar louco!
- Também não me interessa como as coisas entre nós começaram, quem traiu quem primeiro, se realmente existiu ou não esse acordo que você fica falando... Eu não vou sair perdendo.
- Muito bem, então você não me deixa outra saída. – disse a mulher, agora com a expressão neutra. Nada de parecer estar se segurando para não voar no pescoço do marido, não, só... Conformada. Suspirou antes de continuar – Podem chamar a minha testemunha, por favor?
Acho que estávamos todos muito concentrados na cena para entendermos que ela falava conosco.
- Ah, sim, claro.
Fernando se levantou e foi para fora.
- Testemunha? – o marido riu irônico. – Acha que uma testemunha vai servir para alguma coisa? Eu tenho provas materiais, fotos, comprovantes de pagamento de motéis com o seu cartão de crédito em dias que eu não estava na cidade... Acha mesmo que uma testemunha vai fazer com que eu mude de ideia? Se assinar o acordo que estou propondo, não precisaremos ir ao Judiciário.
- Quem foi que falou em ir ao Judiciário aqui? - Dr. Fernandez se pronunciou pela primeira vez desde que a reunião realmente havia começado. – Não, não, não. Vamos fechar um acordo aqui mesmo, não precisamos ir ao Judiciário para isso.
- Eu concordo. E é por isso que não vou assinar acordo nenhum que este homem me apresentar. – ela disse.
Nesse momento Fernando voltou, e com ele, trouxe outra mulher. Essa tinha bolsas em baixo dos olhos, e fazia questão de não olhar para os rostos que a encaravam, especialmente do marido, que parecia prestes cair da cadeira em que estava.
- Esta é Mariah. Você se lembra dela, meu bem?
Se os estagiários estavam de olhos arregalados, sem entender o que estava acontecendo à nossa frente, a expressão do Dr. Fernandez não era muito diferente. E chacoalhando a cabeça, ele pareceu finalmente entender o que estava acontecendo na sua mesa de reuniões.
- Sim! – ele disse, retomando sua compostura. – Mariah, uma de suas muitas amantes. Muito interessante o que ela nos contou sobre o relacionamento do senhor com ela. Especialmente a parte em que o senhor afirmou que tinhauma esposa enferma, entre a vida e a morte, com pouca expectativa de vida. E também a parte em que o senhor prometeu se casarem, e não sei se o senhor sabe, mas promessa de casamento, quando não cumprida, pode gerar indenização à parte prejudicada.
Ele olhou para Mariah que ainda olhava para baixo. E nesse momento me perguntei se ele estava, realmente, tentando captar Mariah como nova cliente enquanto uma bomba explodia à sua frente.
- Você não pode provar isso!
- Na verdade eu posso, especialmente quando o senhor deu entrada a um processo de habilitação para casamento no cartório. Isso prova má fé com a sua esposa, e com a mulher com quem prometeu se casar. Ainda que não tenha se casado, o que estaria configurando crime de bigamia, o senhor perde todos os direitos referentes ao patrimônio de sua ex-esposa, pois está comprovado o golpe que o senhor queria dar.
- Isso é um absurdo!
- Sabe, eu não queria usar Mariah dessa forma, e me desculpei com ela por isso, uma vez que ela é tão vítima quanto eu. Também não queria ter que chegar a esse ponto porque ainda tinha um mínimo de respeito por você. Mas depois do que me propôs hoje, ficar com as minhas ações e tomar o que foi fundado pela minha família... Não, eu não tenho mais respeito por você, nem pela imagem medíocre que insiste em preservar. Assim, eu lhe pergunto, ainda quer ir ao Judiciário, querido?
Não havia ressentimento na voz dela, não havia dor, nem submissão a uma situação inevitável, mas existia triunfo, existia poder. Poder de quem sabia que conseguiria o que quisesse, simplesmente por ser a mais esperta daquela sala.
- Se não quer, sugiro que assine o acordo feito pelo meu advogado, no qual você abre mão de tudo o que está exigindo. E não se preocupe, não pedirei nada que lhe pertença. Tudo o que quero é me livrar dessa aliança para poder viver com quem me valoriza.
Fui incapaz de fechar a boca depois daquela reunião de “conciliação”. Durante todo o caminho até a sala dos estagiários, Fernando lia as anotações que havia feito. Eu mesma não conseguiria anotar nada, nem se quisesse.
- Está impressionada com o rumo da reunião?
Eu ri. Se gostei do fato de que uma mulher traída e chantageada ter conseguido sair por cima?
- Pode-se dizer que sim. Quer dizer então que esse processo nem vai para o judiciário analisar?
- Não chegou nem mesmo a ser um processo. – Fernando disse. – Você vai perceber que aqui tentamos conciliar tudo em escritório, e levar o mínimo ao judiciário. Assim os clientes têm seus problemas resolvidos com mais rapidez, sem a morosidade da justiça, e o escritório lucra mais cedo também.
Concordei com o que disse. Na faculdade aprendemos que essa era a nova tendência de solução dos conflitos, especialmente em grandes escritório de advocacia de São Paulo.
Enquanto arrumava minhas coisas para ir embora apareceu, dessa vez sem tentar causar um infarto no meu coração jovem.
- Te procurei hoje, mas você estava escondida. – disse me entregando o caderno.
- Estava em uma reunião de conciliação.
- É mesmo?
- É mesmo.
- Bom para você. Parece estar se adaptando muito bem ao estagiário.
- Estou mesmo. – disse orgulhosa de mim mesma.
- Ah, doutor Lucio, essa é Amanda. – disse me fazendo olhar para cima. Quando vi quem estava à minha frente, desejei que tivesse uma cadeira por perto, caso caísse para trás. – É a nova estagiária da equipe do doutor Fernandez.
- Meus pêsames. - Harvey Specter da vida real disse dando um sorriso discreto, de lado. Tudo o que fiz foi rir. Não é como se estivesse em condições de fazer algo além disso, como dizer algo inteligente, por exemplo. – , quero você mais cedo aqui amanhã. Temos uma audiência à tarde e precisamos nos preparar.
- Claro, pode deixar.
E com um aceno discreto, Harvey Specter da vida real se despediu de nós, e foi embora.
- Ok, o que foi aquilo?
Ele sabia a o que me referia, não precisava explicar.
- Apresentei você a Lucio Muniz. Achei que você fosse fã do cara, ou algo do tipo.
- Eu sou. Obrigada, isso foi muito legal da sua parte.
- Eu sou um cara legal. – disse dando uma piscadinha, o sorriso de lado.
Olhei para ele estreitando os olhos, desconfiada da veracidade de suas palavras. Ele riu divertido.
- Então... Até segunda.
- Por que só segunda? – perguntou. – Não é como se trabalhássemos no mesmo prédio, ou estudássemos na mesma faculdade, não é? – disse irônico.
- Ok, então. Até amanhã, .
- Até amanhã, .
E foi no caminho para o estacionamento que percebi que meus dias na Rassi-Portella estavam ficando cada vez mais interessantes.


Capítulo 8


A música alta, misturada com o som das conversas, e a luz forte, fazia com que me perguntasse o que estava fazendo naquela festa. Quer dizer, minha semana tinha sido, no mínimo, inusitada – para não dizer estranha.
A começar pela faculdade, onde não perdia uma oportunidade de mexer comigo - um oi aqui, um sorriso ali, um aceno à distância... – nem mesmo quando tinha uma garota pendurada em seus braços. Literalmente.
Depois o papel de cupido que tive que fazer para Iris, que estava interessada em um calouro do primeiro ano. Aparentemente eu tinha “um jeito com as pessoas” – segundo Iris e a desculpa esfarrapada que havia usado para me convencer a falar com ele. Não me importei realmente. Foi divertido ver o garoto ficar todo vermelho quando perguntei seu nome, com a desculpa de que uma colega estava a fim dele. Foi quase como se estivesse olhando para mim mesma, três anos atrás, quando um amigo de Chris veio falar comigo.
E por falar em Chris, para deixar minha semana ainda mais anormal, sua ligação inesperada. Ou ligações, deveria dizer.
Atendi na quarta, porque o som do celular vibrando não deixava me concentrar nos estudos. Ou, se for sincera, por pura curiosidade de saber o que ele poderia querer falar comigo. Quer dizer, foi ele mesmo que terminou, que me afastou... Tinha, literalmente, sumido da minha vida. Por que aparecer agora?
Quando atendi, sua voz estava diferente. Talvez a ilusão de namorado perfeito-futuro-pai-dos-meus-filhos, que acobertavam suas atitudes, de certa forma, abusivas, havia desmoronado. Minha intenção era não estender a conversa.
- Está ocupada?
- Na verdade sim. – disse. E então completei, para não parecer grosseira demais. – Preciso estudar.
Ele riu.
- É claro que você estaria estudando na terceira semana de aulas. – não tinha o que falar sobre isso. Então ele continuou. – Por que não estuda à tarde? Você sempre preferiu a luz do sol para ler.
- Prefiro estudar à noite. – respondi. Percebi que não queria dividir com Chris o fato de que, agora, fazia estágio no maior escritório de São Paulo. Aquela era uma conquista que preferi guardar para mim.
- Verdade, você está começou a fazer estágio à tarde, não é?
É claro que ele sabia, como pude pensar que não? Minha mãe provavelmente havia contado a ele, indignada por estar precisando contar a Chris um aspecto da minha vida que eu mesma deveria ter contado, segundo sua lógica.
Apenas concordei com o que ele havia dito. Não tinha porque mentir. Pensei que, em cortesia aos bons momentos que vivemos juntos, eu lhe daria o direito de ter minha educação, nada além.
- E está gostando? Já se acostumou? Quem é o advogado com quem está trabalhando?
- Sim, sim... – disse para as primeiras perguntas. – Ah... É um bom advogado, você não deve conhecer. – e, de fato, ele não conheceria.
Silêncio na linha.
- E a faculdade, como está indo? Está gostando?
E diante de sua afirmação, percebi que me formaria antes dele. Mais do que isso, percebi que um não estaria na formatura do outro. Aquilo foi como um soco no peito. Uma realidade de afastamento que havia acabado de abater.
Fez-se silêncio de novo.
- Por que você ligou? – suspirei. Eu tinha que perguntar.
- Acho que estava com saudades da sua voz.
- Você não pode fazer isso. – cortei. – Foi você quem terminou, e eu demorei a conseguir superar.
Suspirei novamente, pensando que talvez, só talvez, ainda não tivesse superado totalmente.
- Me desculpe, . Não pude evitar. – e então com a voz mais baixa, continuou – Sinto falta de você toda. Fui um idiota por ter terminado.
Prendi a respiração, foi inevitável.
Não podia acreditar no que estava ouvindo. Nem mesmo sabia se estava ouvindo o que achava que estava. Mais do que isso, não podia me permitir criar esperanças com suas palavras. Estava muito bem sozinha, aprendendo muito sobre mim mesma. Estava passando por um processo de transformação interna, e não poderia estar mais satisfeita com isso. Não queria retroceder.
- Eu preciso desligar.
- Claro, claro. Desculpe por ter atrapalhado seus estudos. Boa sorte. A gente se fala.
Não respondi a última parte.

A música alta do DJ me atingiu de cheio quando voltei para o presente. Depois as conversas altas, e então a luz forte. Quase precisei proteger os olhos.
Se fiquei abalada? Sim. Talvez muito abalada? Sim.
Definitivamente, não esperava por aquela ligação. Muito menos aquela conversa. Percebi que, apesar do arrepio inicial por ouvir sua voz, não passou disso. A verdade era que não havia gostado da surpresa – e nem do arrepio inicial. Parando para analisar minha reação – que poderia ser totalmente patética, ou extremamente estúpida – fui até que muito racional. Forte. Não chorei depois de desligar.
Me perguntava se havia sido grosseira, ou curta demais, enquanto ele ligara para me fazer um agrado. Nem mesmo lembrava que Chris tinha um lado fofo como aquele. E então reprimia esses pensamentos, porque sabia que a probabilidade de criar esperanças com qualquer coisa que Chris faça, ou diga – como, por exemplo, várias ligações para dizer que sentia minha falta -, eram grandes.
Se estava tendo essas reflexões, nada festivas, no meio da sala de alguma república, na festa da arquitetura? Sim. Se estava sozinha? Infelizmente. Se havia perdido minha amiga? Nem me lembrava de quando.
- Se isso é se divertir, eu tenho muito a te ensinar, senhorita .
Pulei de susto.
estava atrás de mim – aproveitando minha distração para sussurrar no meu ouvido – sorrindo.
- O que está fazendo aqui?
- Estou numa festa, como você. – disse como se fosse a coisa amis óbvia de todas. E, bem, era mesmo.
- Oi, . – Grint me cumprimentou com um beijo no rosto. – Onde está sua amiga?
- Ah... – olhei em volta falhando na tentativa de encontrar naquele mar de gente desconhecida. – Ela sumiu. Mas deve estar na cozinha, participando de algum concurso de shot de tequila.
Grint mal concordou com o que disse, e já sumiu de vista, em busca de , acredito.
- Você não vai participar?
- Do quê?
- Do concurso. Imagino que você e tequila deve ser uma combinação deliciosa.
Fiquei estática. Acho que devo ter prendido a respiração, mas não poderia dizer com certeza. Um arrepio subiu pela minha coluna, e quase estremeci.
- Estou brincando. – ele riu.
A verdade é que não sabia se queria que ele estivesse brincando.
- E essa festa... Parece estar boa. – mudou de assunto, olhando em volta.
Acompanhei sua análise. Estávamos onde deveria ser a sala. O sofá tinha sido arrastado para uma parede, e a mesinha, que provavelmente ficava no centro, normalmente, estava em um canto servindo de apoio para os copos vazios ou cheios de cerveja quente. Algumas pessoas estavam sentadas na escada, outras se apoiavam no corrimão simplesmente por não conseguirem se manter em pé sozinhas. Alguns casais – ou trios – se atracavam nos cantos da sala. Outros, mais ousados, no meio da pista de dança.
- Pois é... – respondi suspirando. Quer dizer, a festa parecia estar boa mesmo. O problema ali era eu. Eu e meus pensamentos traidores que não saíam de Chris e sua maldita ligação inesperada.
- Você sabe onde ficam as bebidas?
- Na cozinha, eu acho.
- Então vamos comigo pegar uma cerveja.
Não contestei. O segui, deixando meu copo com cerveja quente em cima da mesinha de centro.
não estava na cozinha, e nem Grint. Imaginei se ele tinha a encontrado.
A competição ainda acontecia. Um a um, cada competidor virava seu shot quando chegava sua vez, enfileirados como estavam. O último rapaz da fila engasgou no que deveria ser seu décimo shot de tequila, e não consegui segurar a risada.
- Você já provou? – perguntou com a atenção voltada ao grupo que ria do garoto engasgado, o expulsando do jogo.
- Meu bem, eu sou campeã nisso. – disse. - Ou pelo menos era.
A atenção de se voltou inteiramente para mim. Seu corpo se virou na minha direção, e com um sorriso que mostrava que não acreditava em uma só palavra que havia dito, disse:
- Conte-me como uma garota que fica bêbada com dois copos de cerveja pode ser campeã no jogo de virar tequila.
Abri a boca fingindo-me de ofendida, até coloquei a mão no peito para aumentar o drama, mas quando respondi, estava rindo.
- Quando completei dezoito anos, me levou para comemorar meu aniversário. Chris estava viajando com a família dele, então seria uma noite só de garotas. Imaginei que seria uma noite regada de filmes do Chris Evans e alguns chocolates, mas ela me levou para um pub, onde viramos várias tequilas. Foi minha primeira vez. – ri. – Não me lembro de nada depois disso.
O sorriso que tinha no rosto enquanto contava minha história virou uma risada alta.
- desistiu antes de mim, se quer saber. Apesar de, até hoje, acreditar que ela tenha desistido por ser meu aniversário e querer deixar que eu ganhasse. Ou simplesmente porque estava preocupada com o meu estado de embriagues. Foi o meu primeiro porre.
Ele riu ainda mais.
- Estou impressionado.
Apesar de ser uma lembrança boa – pelo menos a parte em que, de fato, me lembrava – sabia que tinha bebido além da conta não só com a desculpa do jogo de virar tequila, mas porque Chris tinha preferido viajar a praia com a família, do que passar o dia do meu aniversário comigo.
Aquela lembrança, somada com a conversa que tivera com Chris mais cedo, trouxe de volta o estado de desânimo.
- O que aconteceu?
Achei que não teria sentido contar a que meu ex-namorado tinha entrado em contato para dizer que sentia minha falta. Quer dizer, eu nem o conhecia direito.
- Acho que não estou muito no clima de festa.
- Aposto que está preocupada com as aulas amanhã.
A verdade era que tinha evitado pensar nisso o dia todo, caso contrário nem teria saído de casa.
- Você não poderia estar mais errado.
- Não duvido. Você é surpreendente.
A proximidade de seus olhos, verdes como uma floresta, claros como o mar, me fez perceber que não queria ficar mal naquele momento, não quando tinha pagado trinta reais para entrar na festa – um absurdo se quer saber, mas quando se compra convite de última hora, a gente tem que aceitar pagar terceiro lote.Se estava ali, iria aproveitar.
- Quer saber, tive uma ideia. – disse chamando sua atenção.
Uma ideia para sair daquele clima depressivo que parecia estar, e começar a curtir a festa de trinta reais, como tinha que ser curtida. Uma ideia que não costumava fazer. Pelo menos não desde os meus dezoito anos.
- Vem, vamos jogar. – peguei sua mão, começando a puxa-lo.
- O que quer dizer? – o brilho nos seus olhos dizia que ele sabia muito bem o que queria dizer.
- Tem algo melhor para fazer?
parecia radiante.
- Não tenho nada melhor para fazer.
Ocupamos os lugares dos participantes que já haviam saído – alguns ainda se apoiavam na parede, um deles sentado no chão meio acordado, meio dormindo. Conseguimos um espaço vazio no balcão, onde dois copos foram colocados na nossa frente.
- Preparado?
- Você está falando sério? – ele disse rindo, provavelmente sem acreditar que, em segundos, estaria bebendo tequila com a garota que senta na primeira carteira e lhe empresta as anotações de direito penal. A mesma que ficou lamentando o chifre ganho do ex-namorado para um cara que nem sabia o nome.
Pensei por um segundo. Eu não estava preparada, nem de perto. Que irresponsabilidade, especialmente sabendo que teria aula amanhã cedo.
- Vamos logo, antes que eu desista.
Viramos ao mesmo tempo. fez careta ao tirar o limão da boca, mas nada comparada à minha careta, tinha certeza. Pulei no mesmo lugar por conta do gosto azedo, o que só fez com que ficasse tonta, a visão embaçada.
- Ok, não quero mais jogar. – disse com a voz rouca.
- Você é a pior jogadora do mundo!
- Mais tarde. – prometi rindo.
Ele riu, mas não contestou.
- Aparentemente você está ditando as regras hoje.
- Sim, eu estou. – e pretendia continuar assim, obrigada. Especialmente no que dizia respeito às minhas escolhas.
Fomos fora da cozinha, voltando para a pista de dança improvisada, eu me apoiando na parede. A mesa de centro no canto da sala tinha mais copos do que antes, e imaginei minha mãe vendo copos molhados em cima de uma mesa de madeira, e da indignação que sentiria pela falta de cuidado.
Depois de um copo de água – prontamente oferecido por – já me sentia melhor. Mas eu tinha pago trinta reais para estar ali, trinta reais saídos de um salário que não tinha começado a receber ainda, e não queria beber água.
- Menino prevenido. – disse ao pegar a cerveja que me oferecia com a outra mão, sem nem mesmo precisar pedir. – Gosto disso.
- Quando o assunto é cerveja, temos que ser assim. – brincou, ainda que soubesse que, no fundo, era a mais pura verdade.
Em uma rodinha mais ao longe, reconheci um garoto que havia tentado se aproximar mais cedo. Por conta do meu estado depressivo momentâneo, não dei bola para sua investida, o que fazia com que me arrependesse agora. De longe era até bonitinho. Nada comparado ao deus Adônis ao meu lado, mas ainda assim...
Percebi acompanhando meu olhar vidrado e nada discreto.
- Conhece ele?
- Não... – disse meio sem graça, quase sentindo as bochechas quentes. – Mas poderia.
estava com as sobrancelhas levantadas com meu olhou.
- Pensei que não fosse do tipo que chega nos garotos.
- Não sou, e é por isso que estou aqui e não lá, onde ele está.
Ele voltou sua atenção para frente, pensativo. E então sem olhar para mim, perguntou:
- E você quer falar com ele?
Pensei por um segundo. Nunca tinha pensado nisso, exatamente, simplesmente por nunca ter querido chegar num garoto. Sempre havia sido só Chris para mim, e depois do término não tinha me interessado por ninguém. Até conhecer , também conhecido como deus Adônis – por motivos óbvios.
não era exatamente o tipo de problema que precisava naquele momento – na verdade não precisava de problema nenhum. Além disso, precisava de experiências, conhecer novas pessoas e me desafiar. Isso eu sabia que queria. Então respondi que sim, queria conhecer o garoto que tinha vindo falar comigo mais cedo, enquanto bebia cerveja quente e pensava no meu ex-namorado.
- Vá falar com ele.
- Oh, como nunca pensei nisso antes?
Mesmo com a ironia palpável, riu. E ainda sem olhar para mim – talvez estivesse avaliando o garoto encostado na parede oposta, mas não poderia ter certeza – disse:
- Eu entendo esse tabu sobre mulheres não poderem chegar nos homens. Quer dizer, sei que existe, mas não entendo realmente. Quer dizer, acho isso muito sexy.
- Verdade? – perguntei interessada. era muito sexy, e era interessante descobrir o que ele achava sexy.
- Verdade. Uma mulher segura e decidida é muito sexy.
Pensei que eu mesma estava mais para insegura.
- Quer dizer, quem não é inseguro? – ele perguntou, sem realmente esperar uma resposta. E nesse momento uma garota passou por nós, ela com um sorriso de lado, ele com um sorriso aberto.
- Você, aparentemente.
- Isso não é segurança, é só... Coragem. Coragem de fazer o que se tem vontade. Seguir seus instintos. Se arriscar talvez seja a palavra.
Ter coragem para arriscar... Soava bem.
- Quer dizer, se quero conhecer uma garota, vou falar com ela. Como quando conheci você.
Dizer que não senti uma pontinha de euforia ao ouvir aquilo seria mentira.
- Você queria me conhecer?
- Sim, e se quer saber, foi uma das melhores decisões que já tomei, mesmo com medo de levar um fora, ou de ser totalmente ignorado pela mulher linda no bar, com um copo de cerveja quente na mão.
- Também gostei de conhecer você, . – disse rindo. E seu sorriso iluminou todo o ambiente, como o nascer do sol entrando pela janela.
- Se você tiver vontade, faça. Não se arrependa de não fazer algo que tenha vontade, como tenho certeza de que teria me arrependido se tivesse ido para casa naquela noite sem descobrir o seu nome.
- Você queria mais do que só descobrir o meu nome.
Ele riu.
- Não nego. De qualquer forma, se tivesse deixado o medo de ser ignorado falar mais alto, não estaríamos tendo essa conversa agora, e eu provavelmente reprovaria de novo em direito penal.
- Você não sabe se vai passar...
- Tenho fé em você e em suas anotações em diversas cores.
- Obrigada pelo voto de confiança.
Minha atenção voltou ao garoto de antes, ainda em meio a seus amigos, encostado na parede, conversando despreocupadamente, como se me convidasse a fazer parte da conversa.
- Parece... Errado.
- O que parece errado?
- Ficar com uma pessoa que nem conheço.
me olhou, virando o corpo na minha direção. Sua atenção agora era toda voltada para mim.
- Nosso beijo foi errado?
Definitivamente não.
- Não, não foi. Só... Não estou acostumada a esse tipo de sensação.
- Acho que se você tem vontade de fazer alguma coisa, não é errado, especialmente isso. Quer dizer, é da natureza do ser humano esse tipo de contato físico. Não é errado, é biológico.
- Claro, eu sei disso. – e sabia mesmo, racionalmente, pelo menos. Mas o sentimento era diferente. – Até porque para vocês é tudo muito mais fácil.
- Você está certa, e eu entendo o que quer dizer. Seus pais provavelmente lhe ensinaram a ficar esperando um garoto vir falar com você, e não o contrário.
E imediatamente me lembrei das histórias de princesas da Disney que minha mãe lia para mim quando pequena, e sobre como aprendi que uma boa garota – uma princesa – deve esperar pela chegada do cara certo – o príncipe.
- Meus pais também ensinaram isso à minha irmã.
- Você tem uma irmã?
Fiquei curiosa, esquecendo, momentaneamente, da conversa que estávamos tendo. preferiu ignorar.
- Não é errado. Se é uma coisa que você quer, não tem porque ser errado. Até porque, como já disse, particularmente acho a atitude sexy.
- Nunca tinha parado para pensar nisso. Aposto que vários homens também gostam quando a mulher toma a atitude. Os que não gostam, ou têm a necessidade de provar sua masculinidade a todo momento, ou ainda vivem no século XVIII.
- Exatamente. Sem contar que facilita muito a nossa vida, porque fica mais fácil de entendermos o que vocês realmente querem.
Eu ri.
- Pergunte-se o que você quer. E então saberá o que fazer.
Meu cérebro captava cada palavra que ele dizia, mas minha atenção estava inteiramente nos seus olhos. Verdes, brilhantes, convidativos, daquele tipo que você que não recusa convite nenhum.
Naquele momento o que eu queria era beijar o dono dos olhos convidativos. Pensei no que havia dito sobre coragem. Minha vontade dizia à minha coragem para beijá-lo ali mesmo, como ele fizera há duas semanas. Mas minha consciência ainda falava alto demais.
Devia ter continuado com o jogo das tequilas.
- Você vai falar com ele? Ele claramente não para de olhar para você.
Meus olhos foram para o garoto do outro lado da sala. E naquele momento sentia-me encorajada, inspirada.
- Obrigada pela dica.
Me perguntei como poderia fazer isso com tanta plateia. Ignorei a pergunta. Não estava interessada na resposta, somente na atitude. E eu a tive. Pela primeira vez.


Capítulo 8 - Parte II


Caio era um cara legal. Sorria quando, enfim, me aproximei. Se afastou do grupo de amigos, e me encontrou no meio do caminho (o que acabei agradecendo, uma vez que não fazia ideia de como agir quando o assunto era paquera, imagine paquera com público).
- Oi de novo.
- Oi. – eu disse sorrindo meio sem graça, lembrando que tinha o dispensado mais cedo. – . – me apresentei.
Cinco minutos de conversa depois, percebi três coisas: um, não foi impossível, não foi dolorido, e nem foi o fim do mundo eu, uma mulher, dar o primeiro passo e falar com um homem desconhecido. Dois, me sentia bem. Confiante, poderosa. Percebi, ali, que poderia fazer o que quisesse, se estivesse disposta. E três, em decorrência do dois, tive certeza de que queria estar usando essa coragem com outra pessoa, uma de olhos verdes hipnotizantes em especial, e não com Caio.
não olhava para onde estava com Caio, já que uma garota havia capturado sua atenção. Senti uma pontinha de vontade de fazê-lo ver o que estava perdendo, quem estava perdendo, por conversar com uma garota que não fosse eu.
Apesar da música alta, Caio tinha um bom papo, e não escondia a satisfação por ter sido paquerado. Aquilo aumentou meu próprio ego. E ao seu convidada para sairmos dali, aceitei de bom grado – até porque já não estava mais a vista, então poderia deixar de me preocupar em como fazer ciúme, e me concentrar apenas em Caio que, convenhamos, não era de se jogar fora.
Fomos para os fundos. Por se tratar de uma república universitária, não me surpreendi ao encontrar uma piscina – meio suja, devo acrescentar – cheia de universitários – alguns vestidos, outros nem tanto -, mesa de pebolim e sinuca. Tinham até um fliperama, este bem protegido de chuvas, na parte coberta.
- Quer jogar? – ele apontou para as mesas de jogos. Não sabia de qual ele falava, não que isso importasse muito - eu era péssima nos dois jogos. Mas resolvi entrar na brincadeira. Quer dizer, por que não?
- Claro. – disse me aproximando. – Mas preciso avisar que sou péssima em jogos de mesa.
- Não se preocupe, não são difíceis de aprender.
Não tive tempo para descobrir se o que Caio disse era verdade. Ele se aproximou de mim, depositando o copo que segurava em cima da mesa de pebolim. Ele estava próximo, tão próximo que podia sentir a colônia cítrica que usava. Tão próximo que pude prestar atenção nos olhos azuis, tão azuis como a água da piscina atrás de nós deveria ter quando limpa.
- Nossa, você é linda.
E o único pensamento que passou pela minha cabeça naquele momento foieu sei.
Pela primeira, sem rodeios ou necessidade de convencimentos, tive certeza. Eu sabia disso. Eu sei que sou linda. Nada de cabeça baixa, ou olhos envergonhados. Nada de bochechas quentes e sorrisos sem graça. Me senti bem em poder admitir isso para mim mesma. Uma afirmação que sempre esteve aqui. Eu sempre soube, e agora tenho a confirmação.
No momento seguinte sua mão puxou meu queixo para perto de si, e seus lábios colaram nos meus. Sem necessidade para rodeios, retribuí. Ao puxá-lo para mais perto, o cheiro da colônia ficou mais forte. O cheiro era bom. Assim como o beijo, bom. Nada de fogos de artifício de ano novo, ou desfile de carnaval na minha barriga. Também não podia dizer que o garoto beijava mal, isso seria uma mentira deslavada. Só que... Bem, existiam melhores. Um bem melhor, mais especificadamente.
- Vou buscar mais uma cerveja pra gente. – disse me dando mais um beijo, esse rápido.
Fiquei sozinha pensando no que tinha acontecido, desde o fato de ter bebido tequila, sabendo que teria aula no dia seguinte, passando por tentando me ensinar a arte do flerte, a minha iniciativa com relação a Caio e o beijo. Não tinha sido um beijo de tirar o fôlego, mas isso não significava que não aceitaria repetir a dose.
apareceu pouco tempo depois, com a mesma mulher com quem conversava antes. Ela com o braço em sua cintura, e ele a segurando pelos ombros. Ao se aproximarem, se despediram, ela indo para qualquer lugar que não me importava, e ele, em minha direção.
- E então? – perguntei.
- Eu é que pergunto. - se encostou na mesa de sinuca, ficando ao meu lado. Próximo, próximo demais.
- Digamos que foi uma experiência proveitosa. – dei de ombros. – Digamos também que vou querer repeti-la, futuramente.
Quando digo “repeti-la futuramente”, digo no sentido de ser decidida e confiante para qualquer decisão, especialmente quando se tratar de algo de quero. Mas não precisava saber que falava naquele sentido. Ele que entendesse como que quisesse – e eu sabia o que ele tinha pensado. Não que me importasse, realmente. No momento estava preocupada demais fazendo descobertas sobre mim mesma.
- Muito bem, é isso aí. – ele não diz olhando para mim, mas para qualquer ponto a distância.
- E você?
- Bem, não foi uma experiência tão proveitosa assim, especialmente quando a mulher tem namorado.
Abri a boca, sem acreditar.
- E você ficou com ela ainda assim?
Ele riu.
- Não, não gosto disso. Não fico com mulheres compromissadas. – disse ainda olhando para lugar nenhum. – Foi difícil fazê-la entender.
- Parece que ela ainda não entendeu.
seguiu meu olhar. Não muito longe de onde estávamos, a mulher ainda olhava para ele, ignorando piamente o que a amiga dizia.
- O que estava fazendo aqui, jogando? – mudou de assunto, sem dar importância para o que disse.
- Não sei jogar.
- Mesmo? – tinha uma sombra de sorriso nos lábios. – E ainda se diz uma universitária.
Ri da provocação.
- Vem, vou te ensinar.
Sem esperar por minha resposta, ele deu a volta na mesa, pegando dois tacos. Em seguida se posicionou atrás de mim, uma mão na minha cintura, o corpo colado no meu. Sua respiração bateu no meu pescoço, e os arrepios foram inevitáveis. A pressão que fez com o peito nas minhas costas, me tirou a respiração.
Ele tinha um sorriso nos lábios, um tipo diferente de quando sugeriu que me ensinaria a jogar. Antes divertido, agora cheio de intenções – que passavam longe de me ensinar os truques do jogo. Pelo menos desse jogo.
Me inclinei sobre a mesa, fazendo com que meu corpo pressionasse o seu. Deixei o decote à vista, o que não passou despercebido por . Pude ouvi-lo arfar atrás de mim, e foi como combustível para as intenções que não sabia que eu mesma tinha.
Minha vez de sorrir com segundas intenções. Aquilo não poderia ser a tequila, tinha certeza. Era uma sensação nova, uma que estava gostando. Poder provocar , sem medo de represálias – especialmente represálias vindas de mim mesma – me davam uma sensação de poder que nunca tinha sentido antes. Eu queria mais.
- Parece que alguém errou...
levantou uma sobrancelha para mim. Tinha errado vergonhosamente sua tacada. Até eu conseguia fazer melhor. Não podia culpa-lo, realmente, já que sua atenção estava toda voltada para meu corpo inclinado sobre a mesa, pressionando o seu por trás. Imaginava que se meus olhos transmitiam minha excitação, e se a resposta fosse afirmativa, sabia que ele não conseguiria terminar aquele jogo de sinuca.
Me surpreendi com meus pensamentos. De onde tinham vindo? Essa certeza, essa malícia? Não saberia dizer se a excitação que sentia era por ter quase entregue atrás de mim, os olhos verdes com um desejo explícito, ou se com o poder que descobria dentro de mim. Não importava. Eu queria mais. Dos dois.
- Isso é jogo sujo.
- Não sei do que está falando.
Afastei-me dele. Dei volta na mesa, parando do outro lado. acompanhou cada movimento. Antes de me inclinar para jogar, perguntei:
- Não vai me ajudar? Pensei que fosse me ensinar a jogar.
Não demorou para se colocar atrás de mim. Ainda com a sobrancelha levantada, agora com um sorriso no rosto, substituindo a expressão surpresa de antes, se colocou atrás de mim, como antes, e ao pressionar nossos corpos, me prensou contra a mesa. Arfei, sendo impossível ter outra reação.
- Então vamos jogar.
Não disse nada. Ainda segurava na mesa, precisando de apoio.
- Sabe, duas pessoas podem jogar esse jogo. – sussurrou, e novamente não pude evitar os arrepios.
- Achei que era isso que estávamos fazendo.
E sem esperar por sua resposta, me inclinei, e fiz minha tacada.
Sabia que não tinha marcado nenhum ponto, já que meu talento para jogos de mesa era próximo ao zero. Mas tinha certeza que estava na vantagem, com pontos de sobra, quando apertou minha cintura e arfou ao pressionar meu quadril no seu. Eu não era a única animada ali.
- Pensei que não soubesse jogar. – disse ainda sussurrando.
- Acho que sempre soube. Só não tinha encontrado um jogador à altura ainda.
Ele riu. Não divertido, não como se estivesse rindo de uma piada, mas sugestivo, como se tivesse ouvido exatamente o que queria ouvir.
Não sabia quando tínhamos parado de falar sobre sinuca e começado o nosso jogo particular. Não que isso importasse no momento.
- O jogo, . – chamei sua atenção. Os olhos estavam nos meus, excitados, ansiosos.
- Certo.
Eu sabia qual jogo ele queria jogar. E definitivamente, sabia qual eu queria jogar. E naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, talvez desde quando ainda namorava Chris, eu quis aquele jogo. Não me lembrava de ficar ansiosa assim com Chris, nem da última vez que ansiava pela expectativa. As coisas com meu ex-namorado era sempre muito... Mornas. Normais demais. Não havia expectativa, nem frio na barriga.
Mirei, e dei minha tacada. Dessa vez consegui encaçapar uma bola. Comemorei com um gritinho, batendo palmas.
A maior comemoração, percebi, era comigo mesma e minhas descobertas. Uma que não sabia que existia estava mostrando as caras, e estava adorando conhece-la. Isso era motivo para comemoração.
estava rindo junto a mim quando o garoto de antes voltou com dois copos de cerveja nas mãos. Por um momento me perguntei qual era seu nome, já que as únicas informações que ocupavam minha mente satisfeita eram as sensações de felicidade e euforia proporcionadas por minhas descobertas e pelas mãos de . Bem, não só suas mãos, mas todo o seu corpo, que respondia a cada toque ou aproximação minha.
- Está tudo bem por aqui? – Caio perguntou. Claro, Caio era seu nome! – Estou interrompendo alguma coisa?
O lugar onde antes estavam as mãos de , quentes como fogo, ficou frio quando ele as afastou. Dessa vez o arrepio era de saudade.
- Não. – disse, sem saber se teria algo mais para falar. Afastei-me de , envergonhada por ter apagado Caio, meu acompanhante naquela noite, que havia saído por alguns minutos apenas, da mente.
levantou a sobrancelha de novo. Não tinha mais o olhar travesso, mas um desafiador, decepcionado, me arriscaria a dizer, como se perguntasse “vai interromper nosso jogo para ficar com o cara que você nem se lembra o nome?”.
- Beleza, vou procurar Lis.
Não precisei perguntar para saber quem era Lis.
- Achei que não ficasse com garotas comprometidas.
- Sabe como é, toda regra tem uma exceção.
Assim que sumiu do meu campo de visão, senti raiva. Não de Lis, a garota não fiel que teria uma noite mais divertida que a minha, mas de , que daria a noite divertida a Lis.
Depois balancei a cabeça afastando tais pensamentos. não devia nada a mim. Ele poderia passar a noite com a mulher que quisesse, comprometida ou não. Além disso, eu mesma poderia fazer a diversão da minha noite.
E então olhei para Caio que ainda segurava os dois copos de cerveja, com cara de quem não sabe o que fazer depois de quebrar o clima entre duas pessoas. A excitação que sentia antes não existia mais. O carnaval na minha barriga acabou, e as escolas de samba estavam indo embora. Não queria ficar com Caio. Minha boca estava seca, mas não era cerveja que queria para molhá-la.
Talvez tenha aprendido a chegar num garoto, mas não sabia como dispensá-lo sem parecer uma cretina. “Oi, fofo, você serviu ao seu propósito. Obrigada”, não parecia ser adequado.
E foi quando chegou de lugar nenhum, com os cabelos mais bagunçados que os meus depois de pegar a garoa de São Paulo e o vento de fim de tarde.
- Estou indo embora. Quer dividir um táxi, já que moramos juntas?
Ela nem notou Caio, para o seu desagrado.
- Claro, por que não?
Despedi-me de Caio, pedindo desculpas por como a noite havia terminado. Ele não se importou realmente. Talvez tenha ficado aliviado em não precisar lidar com uma garota que se esqueceu do seu nome no instante em que deu as costas. Precisei correr atrás e que já estava do lado de fora, com o celular em mãos.
O caminho foi silencioso. Estava imersa demais nos meus próprios pensamentos, e parecia estar em outra dimensão.
Ao chegarmos em casa – depois de ter pago o táxi enquanto minha amiga batia a porta sem nem mesmo olhar para trás – cada uma foi para o seu quarto. Imaginei que ela estivesse bêbada demais para formular qualquer outra frase inteira. Não seria a primeira vez.
Já deitada na cama, olhei para o celular. Eu, definitivamente, não conseguiria acordar dali algumas horas para ir para a aula.
Fiquei alguns instantes olhando para a tela do celular, até esta apagar. Não sabia o que esperava encontrar. Ou talvez soubesse.
E cansada de esperar as coisas simplesmente acontecerem, quando poderia simplesmente fazê-las acontecer, decidi que poderia muito bem mandar uma mensagem a , em vez de ficar esperando receber uma. Por que não?
Talvez da próxima vez possamos chegar ao final do jogo.


Capítulo 9


É claro que planejava ir à aula naquele dia. E é óbvio que, depois de dormir somente três horas, eu não fui.
Fui direito ao estágio, com direito a buzinadas por ficar parada no sinal vermelho tempo demais respondendo às meninas porque tinha faltado aquele dia. Iris estava preocupada. Teria eu ficado doente? Sofrido um acidente a caminho da faculdade?

“Fui a festa ontem com e chegamos tarde. Não consegui ir para a aula.”

E ao final da mensagem:

“P.S.: Pelo amor de deus, copiem tudo o que os professores falarem, não deixem passar nada. Tiro xerox dos cadernos semana que vem.”

Meu lado desesperado não ficaria tranquilo se não mandasse a ultima parte.
De outra forma, meu lado desesperado e certinho demais nunca permitiria que eu saísse durante a semana para beber e faltasse à aula por causa disso. As coisas estavam mudando.
Com sorte não acordei com ressaca, talvez pelo fato de não ter enchido a cara e feito valer os trinta reais pagos. Mas minha cabeça explodia por ter ido dormir tarde e acordado cedo. Iria me certificar de desligar o despertador da próxima vez, obrigada.
Naquele dia estava particularmente atarefada. Aparentemente, meu chefe já me via como uma estagiária integrada ao escritório e ao ritmo de trabalho, preparada o bastante para lidar com coisas importantes – além de checar as datas de suas audiências e tirar xerox de documentos. Agora minhas tarefas se dividiam em fazer contestações e réplicas – tudo a nível de excelência, já que o Dr. Fernandez não aceitava nada menos que isso.
Voltando do banheiro – percebi que lavar o rosto com água fria era bastante eficaz para espantar o sono – quase não reconheci minha mesa. Quando foi que ficou tão cheia de coisas? E aquele monte de processos físicos? Achava que estávamos na era digital.E aqueles documentos todos? Onde estava aquela conversa de sustentabilidade? O planeta está morrendo em uma bolha de calor infernal, e as pessoas continuam usando as árvores para fazerem papel. E todos eles estavam ai, na minha mesa. E cadeira. E em baixo da mesa.
- Você precisa de ajuda? – Fernando, sempre muito solícito.
Não, preciso de férias. E se possível, dormir todos os dias, obrigada.
- Eu não recusaria. – suspirei.
- Você deve separar os processos por prioridades, sempre verificando os prazos. Depois separe por complexidade. Faça os mais fáceis primeiro para liberar espaço na mesa e diminuir o volume. Depois pegue os mais difíceis e se dedique somente a eles.
E então me entregou etiquetas coloridas.
- Eu costumo usar isso para diferenciar os urgentes, aqueles em que os prazos vão acabar antes, dos que posso deixar para depois.
- Obrigada. – fiz uma anotação mental de passar na papelaria o mais rápido possível.
- Se for alguma matéria que você ainda não aprendeu, pergunte. Pode perguntar para mim, se quiser.
- Você está em que ano da faculdade?
- No último. Me formo no final do ano.
- Então você já sabe tudo. – comentei. É claro que tiraria minhas dúvidas com ele.
Ele riu.
- Na verdade tudo o que eu sei, aprendi aqui. Acredite, na prática as coisas são bem diferentes do que os livros ensinam.
A conversa foi interrompida por . Cumprimentando a nós dois – sem dar sinais de que a noite passada seria usada para comentários maliciosos ou piadinhas envolvendo bebidas – ele se voltou para Fernando.
- Está confirmado o churrasco esse fim de semana lá em casa. Você vai?
- Vou sim, Grint tinha falado comigo mais cedo. Apesar de que chegarei mais tarde, já que meu namorado chega no sábado, e preciso buscar ele na rodoviária.
Claro, como poderia me esquecer? O tal primo de Grint que fazia estágio na Rassi-Portella, o mesmo que comentou enquanto estávamos no bar comemorando meu primeiro dia de estágio, era Fernando. Fernando Grint. O mundo era mesmo pequeno.
- Vou para a minha mesa, . Qualquer coisa você me chama, ok?
- Ok, obrigada, Fê.
Fernando se afastou, mas não. Agora sua atenção era voltada para mim.
Diferente do que pensei, não estava envergonhada. Não sentia vontade de enfiar a cabeça num buraco, e esquecer a noite anterior. Esquecer a mensagem. Mas isso não significava que não agradecia o fato dele não estar fazendo comentários ou piadinhas desconfortáveis.
- O que está fazendo aqui?
- Vim convidá-la para um café. Você parece estar precisando.
Não contestei. Se as olheiras estavam tão grandes quanto minha vontade de dormir, não recusaria um café. Bem forte, de preferência.
Seguimos para a cozinha, e o meu corpo caiu na primeira cadeira que apareceu. já preparava uma xícara Na máquina – café expresso oferecido pela Rassi-Portella, baby.
- Só me dei conta agora. – disse chamando sua atenção. – Onde é que você trabalha?
- Como assim?
- Por que não fica na sala dos estagiários como todo mundo?
Acho que estava tão deslumbrada/nervosa com o estágio, que só agora tinha parado para pensar nisso.
Ele riu antes de responder.
- Porque o Dr. Muniz tem uma sala anexa à dele para seus estagiários.
- Sério? – certeza de que arregalei os olhos de uma forma que nenhum café extraforte conseguiria fazer.
- Sério.
- Então vocês são especiais, ou algo do tipo?
Ele riu de novo. Devo dizer que apoiado na bancada, com as mãos nos bolsos da calça, a camisa abotoada e uma gravata frouxa pendendo no pescoço, era uma visão a se apreciar.
- Algo do tipo.
Sentou-se do meu lado com duas xícaras de café, entregando-me uma.
- O que você diria se puder ser especial ou algo do tipo também?
- O que quer dizer? Eu sou especial, essencial, na verdade. – brinquei. – Aquela máquina de xerox não trabalha sozinha, sabia?
Ele riu.
- Não duvido. – e depois de beber outro gole, continuou – Tem uma vaga aberta na equipe do Dr. Muniz.
E eu engasguei. Precisei procurar uma toalha de papel, antes de perguntar:
- Está falando sério?
Balançou a cabeça.
- E você está oferecendo a vaga para mim?
- Não estou oferecendo nada, estou apenas perguntando o que você acha da ideia, se teria interesse...
- Mas é claro que sim! – se tinha respondido antes de terminar de falar? Talvez. – Mas espera, eu não posso. Posso? Não tenho experiência nenhuma. Como isso vai funcionar? – se tinha começado disparar perguntar? Com certeza. – Vai ter uma nova seleção?
- Dr. Muniz não tem paciência para seleções, prefere escolher alguém que já tenha passado por uma.
- Isso significa que ele vai escolher alguém já esteja contratado.
- Exato.
- Alguém experiente? Com boas recomendações? – disparei a fazer perguntas de novo. - Eu acabei de entrar, nunca teria chance. – constatei. Fiquei tão chateada, que nem todo café extraforte daquela cozinha me animaria.
- Ele não gosta de estagiários que já tenham trabalhado por muito tempo com outros advogados. Diz que isso influencia no jeito de pensar e agir, e a única forma de agir que ele quer, em seus estagiários, é o dele próprio.
Demorei alguns segundos para entender a lógica do que ele disse. Talvez fosse a ressaca do sono.
- Isso quer dizer...
- Que você é uma possível candidata para a vaga. Uma ótima candidata, na verdade.
Fiquei sem palavras. Há alguns meses, a possibilidade de poder trabalhar na Rassi-Portella & Advogados Associados era ter o meu sonho (bem, um dos meus sonhos) realizado. Mas a chance de aprender Direito com o maior advogado de São Paulo (alguns diziam do Brasil) ia além de realizar um sonho, simplesmente porque nunca pensei ser possível.
- E como isso vai funcionar?
- Ainda não sei, até porque nada foi divulgado. Mas sei que Dr. Muniz está fazendo uma lista com os estagiários mais novos, e depois vai pedir a Bella que converse com o RH. Imagino que seja ela quem fará a seleção interna.
Claro, eu me lembrava de Bella. Bella, a secretária do Dr. Lucio Muniz. Bella, a pessoa que sabe de cada passo, cada fofoca, cada acontecimento dentro dos corredores daquele prédio.
- Acredito que também será Bella quem cuidará da papelada, inclusive de conversar com o advogado encarregado do estagiário escolhido para pedir sua dispensa.
- E você acha que eu posso ser dispensada?
Meu chefe gostava de mim, não é? Sou uma boa estagiária. Não boa a ponto do Dr. Fernandez não abrir mão dos meus serviços. Por outro lado, me lembrava de Fernando dizer que ele e Dr. Muniz tinham uma rixa antiga, o que significava que as chances do Dr. Fernandez se negar a me liberar só para deixar Dr. Muniz com raiva eram grandes...
, pare com isso!
riu, provavelmente imaginando meu debate interno.
- Tente não pensar muito nisso. Ainda não sei como ou quando as coisas vão acontecer.
- E quando vai saber?
- Logo. – disse se levantando, levando as duas xícaras – a minha cheia, já que essa conversa me deixou mais ligada do que se tivesse cheirado pó de guaraná.- Não fique ansiosa, ok?
Claro. Ele poderia também pedir ao padre para que não rezasse a missa.
- E não diga a ninguém. Não espalhe a notícia.
- Claro, pode deixar.
Como se eu fosse sair colocando cartolinas pelo prédio. Fala sério.
A verdade é que pensei que ficaria com a conversa com na cabeça o dia todo, mas por sorte tinha tanto trabalho para fazer, que o dia passou voando. Não tive tempo de ficar ansiosa, nem de criar expectativas que talvez nunca se concretizassem - ok, talvez só um pouquinho – já que os prazos estavam correndo e Fernando tinha ido embora mais cedo, e não poderia me ajudar a resolver minhas dúvidas.
Chegando em casa, enquanto esperava o portão da garagem do prédio abrir, reparei em um carro parado ali perto. Por que esse carro, dentre tantos outros chamou minha atenção? Porque não se tratava apenas de um carro, como o meu Ka Ford, mas um carrão que estava parado perto do meu humilde apartamento, que ficava num prédio de quatro andares que nem elevador tinha.
Naquele momento decidi que quando me formasse, iria ter um carro assim, nada menos que imponente e muito caro. E depois entraria em desespero sem ter como pagar. Mas isso era coisa para se preocupar no futuro.
Quando entrei, desligava o telefone.
- Pedi nosso jantar.
Meu estômago roncou vergonhosamente alto. Alguém estava com fome.
- Acredita que só agora percebi que não comi nada o dia todo? – perguntei me jogando no sofá ao seu lado.
- Bem, o meu caso é oposto do seu, mas isso não significa que não estou com fome agora.
Enquanto trocava os canais, procurando algum filme para assistirmos, ignorou mais de uma vez as ligações do celular. Em contrapartida, respondia a mensagens, sempre com um sorriso meio escondido.
- Com quem você está falando, e com quem não quer falar? – estiquei o pescoço, a fim de ver com quem ela falava.
riu meio sem graça. Maria Stuart nunca ri meio sem graça.
- Meu pai ficou me ligando o dia todo.
- Por quê?
- Porque não o atendi da primeira vez.
Aquilo fazia sentido. Digo, a insistência nas ligações.
- E por que não quer falar com ele, brigaram?
- De jeito nenhum. Apenas passei o dia ocupada demais. – e então virou o corpo para mim, começando a falar sobre o seu dia, ainda que ela nunca falasse sobre o seu dia. – Recebemos um cliente importante na firma, e com isso juntando com os vários projetos e prazos que precisamos cumprir, acabei nem vendo o dia passar.
Ah, sobre trabalhos, clientes importantes e prazos – os malditos prazos – eu entendia.
- Nem me fale! O calendário da minha mesa está irreconhecível de tantos prazos e anotações escritas.
balançou a cabeça concordando. E então voltou a responder as mensagens no celular.
- E com quem você está conversando agora?
- Ninguém importante. – deu de ombros.
- É mesmo? Porque parece muito importante, já que não saiu daí desde que cheguei.
fez uma careta, bloqueando o celular e o colocando em baixo da almofada.
- Tem razão, desculpe.
- Não precisa fazer isso. – eu disse rindo.
- Não, eu quero. Homem nenhum vai tirar minha atenção enquanto converso com a minha melhor amiga.
- Ah... Então estava falando com um gatinho?
- Ninguém importante. – voltou a repetir. – Conte-me sobre o seu dia.
Era óbvia a sua intenção de mudar o rumo da conversa, mas não me importei, afinal, queria mesmo contar a ela sobre o meu dia. Mais especificamente sobre o que falou. Quer dizer, não é como se ela fosse espalhar a notícia por aí.
- Mas não quero pensar nisso, até porque não posso criar esperanças. – eu disse depois de uma empolgada quase começar a comemorar algo que ainda nem aconteceu.
- Parece até que sabia que teria uma boa notícia hoje, porque pedi duas pizzas, uma doce e uma salgada.
- Você não fez isso!
- Desculpe. – ela não parecia nenhum pouco arrependida. – Costumo sentir muita fome no dia seguinte a que bebi.
- E onde estão essas pizzas?
- Não sei, vou ligar para saber se já estão a caminho.
Enquanto discava o número da pizzaria, me levantei, com o objetivo de tomar um banho rápido antes do melhor jantar da semana chegar.
Antes mesmo de sair da sala, meu celular tocou. Novamente um número desconhecido. Dessa vez resolvi atender.
- Alô?
- ? É Chris.


Capítulo 10


- ? É Chris.
Por um momento eu realmente não soube o que fazer, ainda mais quando perguntou quem era – provavelmente ficando curiosa com a minha cara. Quer dizer, não é como se eu estivesse esperando uma ligação dele. A verdade era que eu não queria outra ligação de Chris. Não depois da forma como fiquei abalada da ultima vez.
Não tinha contado à que Chris me ligara outro dia naquela semana. Não tive tempo, na verdade. E nem coragem. Sabia o que ela falaria, e sabia que ela estaria certa a respeito dos xingamentos que usaria.
-?
então mudou a expressão de curiosa para nervosa. Ela sabia que era Chris.
- Desliga na cara dele!
E como boa amiga que era, virei de costas, e comecei a falar – de novo – com meu ex-namorado traidor.
- O que foi, aconteceu alguma coisa?
Porque não teria outra explicação para duas ligações na mesma semana.
- Pensei em ligar para saber como você está.
- Estou bem. – talvez não tão bem quanto estava antes da sua ligação, mas achei melhor não falar a última parte. – O que aconteceu?
- Já disse, quero saber como você está. – ele suspirou. – Pensei em ir para São Paulo amanhã, já que segunda-feira é feriado.
Nem me lembrava que segunda era feriado. Talvez pudesse usar esse dia para colocar meus estudos em dia.
E talvez, só talvez, devesse me preocupar com isso mais tarde, e me preocupar mais com a conversa que estava tendo naquele momento.
- O que você tem para fazer aqui em São Paulo?
E nesse momento quase teve uma síncope. “Fala pra ele passar bem longe de São Paulo!” – só que usando palavras menos educadas.
- Bem... Estava pensando em vê-la.
Meu coração disparou.
Não é como se pudesse impedir uma reação dessas. Nunca mais passou pela minha cabeça revê-lo depois que terminamos. Bem, pelo menos depois que superei o término.
Diferentemente de como agiria meses atrás, naquele momento, apesar de ansiosa com a possibilidade, percebi que não queria ver Chris de novo.
- Eu acho que você não deveria vir.
- Por quê? Eu quero ver você...
- Bem, eu não quero.
Ele suspirou novamente.
- Sei que não fui a melhor das pessoas, especialmente o melhor dos namorados, mas estou tentando me reaproximar de você.
E meu coração disparou ainda mais.
Eu não quero pensar no que essa reaproximação acarretaria, principalmente com todos os avanços pessoais que tive nos últimos dias.
- Acho que você deve respeitar minha vontade.
Outro suspiro do outro lado da linha.
- Entendo você. Não se preocupe, vou dar todo o tempo que precisar para me aceitar de volta.
- Eu não...
- , vou ter que desligar. Te ligo depois.
E como da outra vez, não respondi a isso. Não queria que houvesse um depois. Quando penso em Chris – e ouço sua voz, especialmente quando diz que sente minha falta – eu fico mal. As memórias volta. Memórias de quando achava que as coisas estavam bem, só porque estavam acontecendo da forma como eu queria. Memórias de quando ele terminou comigo, sem mais nem menos. E então as memórias de quando soube da traição, e o pouco caso que ele fez com a minha mensagem corajosa após algumas bebidas.
Eu não era mais essa garota, mas ainda sofria pelas coisas que ela passou.
- Esse cara é doente, por acaso? A palavra “noção” tem algum significado para ele?
Apesar da situação, eu ri. Talvez fosse de nervoso – provavelmente o era – mas eu não me importava.
- O que ele queria?
- Vir me ver.
soltou uma risada irônica.
- Inacreditável. Mais fácil limparem o tio Tietê do que você aceitar ver ele de novo. – e diante do meu silêncio, perguntou – Certo?
- Certo. – respondi.
- , olha para mim. – pegou meus braços, dando uma leve chacoalhada. – Lembre-se do atraso que ele foi na sua vida. Não caia nessa de novo, ok?
- Ok. – e então foi minha vez de suspirar. – Ok! – confirmei rindo para deixar claro, diante da cara de “não-acredito-no-que-você-diz” de .
Assim que as pizzas chegaram, se certificou de que não pensaria mais em Chris e suas ligações inesperadas. Para isso, minha amiga escolheu um filme de zumbis, com direito a muitas mortes e decapitações, para assistir enquanto jantávamos, sem nenhuma cena romântica.

Acordamos cedo no dia seguinte, afinal, sábado era dia de faxina. Apesar de, nas ultimas semanas, inventarmos diversas desculpas para deixarmos a faxina de lado, já não podíamos mais fugir. Eu já nem podia mais deitar no tapete da sala sem começar a espirrar.
Então, com panos nas testar para parar o suor, roupas de ginásticas – que nunca foram usadas antes, pelo menos por mim – baldes de água e detergentes nas mãos, começamos a arrastar os móveis.
A música estava alta, mas não é como se nos importássemos de importunar os vizinhos, até porque não poderíamos ouvir suas reclamações.
Quando já tínhamos acabado, e colocávamos os panos para secar no nosso varal improvisado de apartamento, desligou o som. Agora os vizinhos não teriam mais porque reclamar.
- , você recebeu alguma mensagem de Alec hoje?
- Não sei, não olhei mais o celular depois que começamos o faxinão. Por quê?
- Por nada. – disse já se afastando. - Não combinaram de fazer nada hoje? – perguntou se virando.
- Não, ele tinha algum compromisso com os amigos. – e então emendei – Quer dizer, não que se ele não tivesse planos com os amigos nós teríamos feito planos juntos. Nós não fazemos planos juntos.
rolou os olhos frente minha fala enrolada.
- Ok, só queria saber.
- Por quê? – perguntei de novo, dessa vez indo atrás dela, recebendo em resposta um “por nada”, nada convincente.
Já no quarto, enrolada na toalha e pronta para tomar um banho mais que merecido, resolvi checar o celular. Qual não foi minha surpresa em encontrar uma ligação perdida de Alec, seguida de uma mensagem.
Segui para o quarto de .
- Alec me chamou para um churrasco na casa dele.
- É mesmo? – perguntou como se não estivesse surpresa. Exatamente porque não estava nenhum pouco surpresa.
- É mesmo. E disse que Grint a convidou também, mas você não respondeu.
- É mesmo?
- ... – usei meu melhor tom ameaçador. Parece ter funcionado, já que ela levantou as mãos, as palmas para frente, em sinal de rendição.
- Ok, ok, me desculpe. Ele me chamou enquanto conversávamos hoje cedo.
- Vocês andam conversando?
- Sim, desde quinta. – e quando já estava de costas, prestes a entrar no banheiro, disse baixinho – Quando nos beijamos na festa.
- VOCÊS SE BEIJARAM NA FESTA?
- Ei, não precisa gritar.
- Aparentemente preciso, já que você é a pior melhor amiga do mundo! – e diante da falsa cara de ofendida, continuei – Como não me contou isso antes?
- Desculpe. – agora realmente parecendo arrependida – Fiquei com vergonha. Digo, não vergonha de beijar um garoto, você sabe que não tenho vergonha das minhas conquistas, mas vergonha de beijar ele, especificamente. Você sabe, pelo discurso que fiz antes.
- Faz sentido. Continue.
- Continuar o quê?
- Detalhes, meu bem. Todos eles, agora.
E então ela rolou os olhos. Mas não se atreveu a me esconder as informações.
- Não me lembro exatamente como aconteceu, mas ficamos na festa. Mais de uma vez. Quando dei por mim, estávamos procurando um quarto vago, mas todos estavam trancados. – rolou os olhos de novo, diante do absurdo de não encontrarem um quarto desocupado.
- Muito bem. Continue.
- Bem, talvez ele não seja tão asqueroso como imaginei. – e antes que eu mesma pudesse dar algum discurso moralista, começando com “eu avisei”, ela continuou – Mas ainda não é o cara que quero ter ao meu lado. A minha filosofia de não-se-deixar-cair-nos-braços-do-seu-opressor ainda é a mesma.
Minha vez de rolar os olhos.
- De qualquer forma, ele sabe contar piadas, e tem uma pegada que nossa senhora dos beijos pervertidos! – se abanou. – Mas isso não muda o fato de que não, ele não é o tipo de pessoa que quero ter na minha vida.
- Porque ele é branco. – não foi uma pergunta.
- Também. Mas por conta de toda história de exploração sexual que o homem branco teve em cima da mulher negra e pela objetificação que até hoje a mulher sofre, especialmente a negra, por homens como ele.
- Entendo. Então vou responder a Alec que não queremos ir ao churrasco.
- Ei, eu não disse isso. Nunca recuso cerveja, você sabe disso.
- Então nós vamos?
- Você quer ir?
Não precisei pensar muito para responder.
- Sim.
- Então nós vamos.
Pouco tempo depois já estávamos do lado de fora, eu no volante e confirmando o endereço. O carrão do dia anterior ainda estava lá, estacionado no mesmo lugar. Quando comentei com que aquele carro seria meu num futuro não tão distante – eu esperava – minha amiga me fez prometer que a deixaria dirigir. Claro, como se isso fosse acontecer.
- Esse carro está aí desde quinta, quando saímos para a festa.
Eu poderia criar várias teorias para o porque de deixarem um carro como esse na rua desprotegido, mas a verdade é que estava mais preocupada em colocar o endereço no GPS do celular.
- Juliete comentou sobre um carro diferente parado aqui em frente desde terça. Acha que é o mesmo? – perguntou.
Juliete era nossa vizinha de frente. Quase nunca estava em casa, já que tinha aula em período integral e passou a ser obrigada a usar os computadores da faculdade para fazer suas pesquisas, quando um de seus gatos derrubou seu notebook no chão.
- Como ela saberia? Ela nunca está em casa.
- Seu notebook voltou do conserto. – explicou. – Sei disso porque ela foi lá em casa esses dias mostrar a foto do carinha da assistência técnica.
Balancei a cabeça concordando.
- Já imaginou esse carro estar aí porque o dono era um assassino e na verdade tem um corpo no porta malas? – perguntou, fazendo aquela cara que sempre fazia quando tinha ideias mirabolantes vindas dos filmes de ação que assistia.
- Ou o dono é um mafioso se preparando para cometer o crime do século. – entrei na brincadeira.
- Ok, a sua ideia de conspiração é mais divertida que a do corpo morto no porta mala. Vamos ficar com ela.
E então, com o GPS pronto, partimos.

Não foi exatamente difícil chegar ao local. Especialmente porque a música podia ser ouvida lá de fora, mesmo que ainda estivéssemos no início do quarteirão.
Foi Alec quem nos recebeu. Diferente de como o vejo todos os dias – de terno, camisa social e grava frouxa – hoje ele vestia uma bermuda colorida, com uma camiseta gola v, e os cabelos mais bagunçados do que nunca. E claro, o sorriso-derrete-gelos estava ali.
Diferente do que achamos, não se tratava de um churrasco com membros gatos de uma república composta somente por homens, mas um churrasco de família. Os pais de Grint e Fernando - irmãos – estavam em São Paulo de passagem, e resolveram visitar os filhos. Quando essa informação chegou a nós, imediatamente quis ir embora, com uma repentina – e vergonhosamente falsa – dor de barriga.
- Deixa de ser boba. Não é como se Grint fosse pedir você em casamento, ou apresenta-la aos pais como a futura mãe dos seus filhos.
- É bom ele nem sonhar com isso!
Fernando já estava ali com o namorado, e foi com eles que passei a maior parte do tempo. tentou ficar conosco, participar da conversa e fazer comentários, mas acabou desistindo quando percebeu que não entendia nada sobre jurisprudências, e nem estava por dentro das novas decisões do Superior Tribunal de Justiça. Isso acabou criando uma desculpa para minha amiga se afastar e se sentar em um banco ali perto, onde Grint também estava – mas sempre fazendo questão de manter pelo menos duas pessoas entre eles.
Em determinado momento, quando Fernando já contava peripécias sobre o começo do namoro, deixando seu namorado totalmente constrangido, Alec se aproximou sem fazer barulho, e me surpreendeu com apenas uma frase:
- Temos uma mesa de sinuca na sala de jogos. – uma frase inocente para qualquer um que ouvisse, mas cheia de significado para nós dois. – A sala está vazia. – a segunda parte sussurrada, deixando claro que seus pensamentos eram os mesmos que os meus. Não tive tempo de pensar em uma desculpa pra sair dali, Fernando foi mais rápido.
- É mesmo, agora temos uma mesa de sinuca! Vem ver, amor.
Fernando saiu puxando o namorado pela mão casa adentro. foi junto, com um impressionante interesse em conhecer a nova aquisição – ou simplesmente para fugir de Grint, que não tardou em segui-la.
Alec me olhou como se dissesse “eu tentei”. E eu sabia que ele tinha mesmo tentado.
Seguimos para a sala de jogos, onde as pessoas se dividiam em duplas para estrear a mesa de sinuca. havia colado em Fernando, alegando que não seria justo se o casal jogasse junto, sobrando para mim jogar com Tom, seu namorado. Alec foi para o lado de Grint, enquanto distribuía os tacos. A regra era simples, a dupla que encaçapasse mais bolas, ganhava.
Enquanto as duplas se revezavam para jogar, me aproximei de Fernando, puxando algum assunto sobre o que o namorado dele estudava, e quando se formaria e voltaria a morar em São Paulo. Nada próximo ao que assunto que queria chegar. Quer dizer, eu sabia que não poderia falar sobre isso com ninguém, mas vi a ali uma oportunidade de sanar minhas curiosidades. Então enquanto Alec analisava a mesa à sua frente, perguntei, num tom mais baixo:
- O que você sabe sobre doutor Lucio Muniz?
- Por que a pergunta?
- Curiosidade. – disse no automático. E então completei – Ele é uma lenda.
- Ele é mesmo. – Fernando concordou, como se aquilo fosse uma justificativa perfeita para a minha pergunta fora de contexto. – Sei que é muito rigoroso com seus estagiários, por isso faz sua própria seleção. Dizem que o RH fica maluco com as contratações e demissões dele. – balancei a cabeça mostrando que estava ouvindo cada palavra. – Não que eu já tenha ouvido falar de alguma contratação dele, já que todos que estão com ele estão há muito tempo.
- E você acha que, hipoteticamente, claro, caso ele precisasse de novos estagiários, eu teria uma chance?
- Não. – disse num tom firme. – Ele nunca escolheria alguém que já trabalhou com outro advogado, especialmente se o outro advogado for doutor Fernandez.
Dizer que murchei naquele momento seria eufemismo.
- Mas por que pergunta? Está pensando em tentar transferência?
- Não, é só uma curiosidade mesmo. Quer dizer, conheço muito pouco dos advogados do escritório, e como disse, Lucio Muniz é uma lenda.
- , para de distrair meu parceiro! – , naquele ponto, já estava vermelha. Quer dizer, minha amiga, absurdamente competitiva, era praticamente uma Monica Geller da vida real.
O jogo continuou. Alec não evitava esbarrar em mim e soltar pedidos de “desculpa” mais falsos que o cabelo loiro que insistir em ter quando diz dezesseis anos. Agora que não tinha mais o que conversar com Fernando, pude dedicar minha atenção em outra pessoa no recinto, e essa pessoa tinha nome, sobrenome e olhos verdes. Malditos olhos verdes.
Com uma gota da mesma confiança que senti na noite de quinta – e com a mesma falta de habilidade para sinuca – me aproximei da mesa para mais uma tacada desastrosa que provavelmente jogaria alguma bola para fora da mesa de novo. Não me importava, dessa vez estava mirando em alguém atrás de mim. Foi minha vez de pedir desculpas por esbarrar nas partes baixas de Alec.
Infelizmente não pudemos passar disso, meros esbarrões quase inocentes demais, afinal tinha mais gente no recinto – não que estivessem muito interessados no jogo. Grint claramente errava todas as suas tacadas com o intuito de deixar contente; Fernando e Tom tinham se afastado e conversavam baixinho num canto da sala – e pelas risadinhas que soltavam, podia imaginar o tom picante que a conversa se desenvolvia.
Mais alguns minutos depois, já podia ouvir gritando incentivos à Fernando, pois o jogo estava para acabar, e eles provavelmente sairiam campeões – claro, como se estivéssemos na Olimpíadas.
- Fim de jogo. Vencemos! – tinha os braços levantados, e comemorava com Fernando, enquanto este apenas ria.
Na hora de irmos embora, enquanto nos despedíamos dos presentes – quase suspirou agradecida quando os pais de Grint não estavam à vista – dei um abraço apertado mais que o recomendado em Alec, me demorando ao beijar sua bochecha – por acidente, perto dos lábios. Ao me afastar, Alec me olhava como quem dizia que o jogo estava bem longe de acabar.
A minha sorte era que estava me descobrindo uma ótima jogadora.


Capítulo 11


Foi na terça feira que as coisas começaram a sair da normalidade de uma semana meramente comum. notou que o carro preto – o carrão que queria ter quando me formasse e fosse rica – chegava todos os dias no mesmo horário, bem cedo, e ia embora quando começava a escurecer. Meu lado fã de Sherlock Holmes foi aguçado quando minha amiga reparou que ninguém entrava ou saia, e então incorporou seu lado Watson e anotou a placa do carro em um bloquinho de anotações com folhas da gatinha marie.
- Você acha que isso é uma boa ideia? – perguntei.
- Está brincando? Já pensou se o cara é um bandido mafioso pronto para dar o golpe em algum político importante? É o nosso dever desvendar esse mistério e falar com a polícia!
Resolvi que não colocaria em voz alta meus pensamento, afinal o que um político importante estaria fazendo num bairro universitário, e qual seria o motivo de que um bandido mafioso estaria atrás dele? – aparentemente na política brasileira bandidos mafiosos e políticos são a mesma pessoa.
Apesar de não estar mais saindo com Lucas desde que as aulas começaram, ele ainda era um estudante de jornalismo e tinha seus contatos. Nossa sorte foi que não nos negou ajuda, tendo seu lado jornalista investigativo aflorado, ainda mais com a possibilidade de ter um furo gigantesco que poderia ir para a primeira página do jornal da universidade, talvez até fosse tema do seu tcc.
Nosso encontro foi na praça de alimentação de um shopping, exatamente como nos filmes de espionagem, em um local com várias testemunhas, e com direito ao uso de óculos de sol, mesmo que estivéssemos num lugar fechado.
Nesse ponto a expectativa de descobrirmos algum plano maligno contra o governador do estado já tinha passado, mas a curiosidade de saber quem era o dono ou a dona do carrão ainda estava lá. Para nossa surpresa Lucas veio de mãos vazias. Aparentemente, a placa não tinha registro em nenhum banco de dados. Questionado sobre alguma falha na investigação informal, Lucas nos garantiu que seu contato tinha acesso a todos os bancos de dados de órgãos de trânsito nacionais, e o que o seu “contato” não achou nada. Como se aquele carro – ou a placa, assim como o proprietário ou a proprietária – não existisse.
- E bem, no sistema ele não existe mesmo. – Lucas disse. – Tem certeza que copiaram os números certos?
- Temos certeza. – eu disse, agora com a curiosidade três vezes maior. – De qualquer forma, obrigada pela ajuda. Sinto muito pelo seu tcc. – lamentei, agora ele teria que pensar em um novo tema.
- Sem problemas. Foi um prazer ajudar vocês.
Lucas claramente tentou conseguir um agradecimento de , mas fracassou.
- Acho que não fez nada além de seu dever como jornalista.
- Na verdade minha obrigação é escrever sobre a crise política do país, não investigar placas desconhecidas em carros desconhecidos. – se defendeu.
- Que profissão mais chata! – sussurrou para mim, mas deu um sorriso sem graça para Lucas, e soltou um agradecimento antes de irmos embora.

Foi na quarta feira que , incorporando seu lado impulsivo, e eu meu lado amante de romances policiais, nos aproximamos do carro misterioso-possivelmente-mafioso-cujo-proprietário-planejava-matar-o-governador.
O vidro abaixou lentamente quando fizemos força para enxergar do lado de dentro. Foi um momentos de tensão quando percebi que tinha mesmo alguém lá dentro, possivelmente um mafioso ou um terrorista maluco. Mas a verdade é que o motorista era até que muito bonitinho, e isso aliviou a tensão. Motoristas bonitinhos não podiam ser mafiosos terroristas que planejam matar políticos, certo? Ainda mais se pretendem fazer isso de dentro de um bairro predominantemente universitário.
- Olá.
- Oi. – minha amiga respondeu, e então me olhou pedindo ajuda. Claro que não tínhamos pensado na possibilidade de ter, de fato, uma pessoa ali dentro. Só queríamos fingir que estávamos em um filme com Liam Neeson e dar uma checada mais de perto. Sabe como é, curiosidade. – Quem é você?
- Um cidadão. – sua resposta saiu mais como uma pergunta. – E quem são vocês?
- Moradoras. – respondi. E depois de uma pausa, pensando no que falar, perguntei. – O que está fazendo parado aqui?
- Pensei que a rua fosse pública. E vocês, tem algum motivo específico para me tratarem como se estivéssemos num interrogatório?
Abaixamos a cabeça sem graça olhando uma para a outra. No que tínhamos pensado, afinal de contas? Sair interrogando as pessoas assim não é legal, especialmente se você desconfia que ele seja um mafioso assassino.
- Estou esperando meu namorado. – ele disse apontando para a padaria na calçada na frente. Olhando para onde ele apontou, vi outro homem saindo de lá com uma sacola e dois copos de café nas mãos. A vergonha ficou mais forte. – Estamos pensando em comprar um apartamento por aqui, o bairro parece ser calmo, então estamos conhecendo os prédios.
E aquilo fazia infinitamente mais sentido que ter um bandido mafioso que planeja assassinar o nosso governador corrupto.
- Claro, desculpe pelo incomodo. – disse. – Boa sorte na sua procura.
E já sem me sentir dentro de um filme com Tom Hanks, e eu fomos para a faculdade como duas estudantes comuns, cujas únicas preocupações eram o valor do xerox e copiar os malditos slides feitos pelos professores. Nada de excitante nisso.
Já no final da tarde, enquanto tentava arrumar minha mesa, fazendo anotações mentais para comprar mais post-its, o telefone tocou. Sabia que meu horário já havia terminado, mas não me ligariam se não fosse importante. Não reconheci o ramal, já que normalmente só era contatada pela secretária do Dr. Fernandez. Para minha surpresa – aquele dia estava sendo cheio de surpresas – era Bella, secretária do Dr. Muniz.
- Pode vir até aqui por um momento?
Não fosse pela conversa com Fernando no sábado, minhas esperanças estariam à mil. Mas sabia que provavelmente era só meu caderno que havia deixado com Bella, como já havia feito outras vezes.
O prédio da Advocacia Rassi-Portella fazia com que me sentisse dentro de uma casa gigantesca com vários cômodos – as salas dos advogados – e alguns vários andares – alguns dias depois que comecei a estagiar, Fernando me contou que existia um tipo de preconceito com quem trabalhava nos andares inferiores, como se ser “mandado para o andar de baixo” fosse algum tipo de punição aplicada aos advogados que perdem alguma causa muito grande e trazem prejuízo ao escritório.
Então enquanto passava pelas várias salas - algumas enormes, outras nem tanto – todas com portas de vidro – pude ver que a maioria dos advogados e advogadas dali, bem como suas secretárias, já tinham ido embora. Mas não Harvey Specter da vida real, que trabalhava incansavelmente em seu computador, dentro da sua sala, com pose de magnata poderoso. Nem Bella, sua secretária, com os cabelos tão ruivos que podiam ser vistos mesmo à distância.
- Vamos para um lugar com mais privacidade.
Segui Bella até a sala de reuniões que estive com doutor Fernandez há uma semana. Aquela sala, como todas as outras, tinha portas de vidro, com cortinas que poderiam ser usadas se a reunião demandasse mais privacidade. Não foi o caso.
- Sente-se. – ela apontou para uma cadeira à sua frente. Eu o fiz, agora mais curiosa do que nunca (talvez fossem resquícios da minha manhã investigativa, vai saber). – Acredito que você não saiba que estou cuidando de uma seleção para a contratação de um novo estagiário para a equipe do Dr. Muniz. A verdade é temos poucos candidatos que se qualificam para a posição, e você é um deles.
Dizer que fiquei surpresa seria eufemismo. Se não soube fingir falsa surpresa ao fato de estar havendo uma seleção, afinal eu já o sabia, fui compensada por não conseguir controlar os olhos arregalados quando ouvi que era uma das candidatas.
Minha atenção foi desviada para fora quando duas advogadas passaram rindo alto. Olhei para o relógio. A essa hora, nos outros dias, já estaria a caminho de casa.
- Tem algum lugar para ir? – seus olhos tinham uma falsa curiosidade.
- Não, claro que não.
- Muito bem, vamos começar então. – ela abriu uma pasta em cima da mesa, e começou a fazer perguntas. Perguntas essas que não me foram feitas quando passei pelo RH, como de onde vinha (São José do Rio Preto), porque tinha escolhido Direito (com certeza não para ouvir “mas vai fazer direito ou errado? Há-há-há”), porque escolher esta advocacia dentre várias outras opções... – O que você acharia de trabalhar com Lucio Muniz?
- Seria uma honra.
- Sim, seria mesmo. Mas o que quero saber é: você daria conta? – não tive tempo para responder. – Trabalhar com Lucio Muniz não é como trabalhar com qualquer outro advogado.
Comecei a pensar se Bella não estava exagerando um pouco na dramatização. Não é como se o trabalho pudesse mudar tanto de um advogado para o outro.
- Sim, eu daria conta. – disse com a voz firme.
Bella pareceu pensar um pouco, como se analisasse minhas palavras. Não é como se eu fosse dizer “eu quero trabalhar com o cara, mas sabe como é, não daria conta do trabalho não, foi mal”.
- Muito bem. Está contratada.
Engasguei.
- Como?
- Quer dizer, contratada você já estava, agora só vai mudar o ambiente de trabalho. – ela começou a juntar os papeis em cima da mesa, fechando a pasta. E já se levantando, parou quando viu que eu não fazia o mesmo. – Algum problema?
- Nenhum. – confesso que saiu mais como se fosse uma pergunta.
- Ok, já pode trazer suas coisas para sua nova mesa. Você deve saber que o Dr. Muniz possui uma sala para seus estagiários anexa à sala dele próprio?
- Eu sei, mas... Agora?
Bella me olhou de cima abaixo.
- Tem alguma coisa mais importante para fazer?
- Não...
- Então sim, agora.
E então, ainda meio tonta, meio confusa com o que tinha acabado de acontecer ali, fui buscar minhas coisas para arrumar minha nova de mesa de trabalho, numa nova sala, anexa à de Lucio Muniz, sempre sob os olhos atentos de Bella.

Foi na quinta feira que comecei a trabalhar com Harvey Specter da vida real.
Nada de apresentações, um buquê de flores em cima da mesa, ou uma garrafa de champanhe para dar as boas vindas à nova estagiária. Mas pelo menos recebi um boa tarde de cada um dos quatro estagiários, com direito a um sorriso colgate de .
Logo descobri que Harvey Specter da vida real era muito ocupado, e não tinha horário fixo no escritório. Isso acabei percebendo logo no primeiro dia, quando nos encontramos no saguão e subimos juntos para o último andar.
- Já está inteirada no caso em que estamos trabalhando?
Demorei alguns segundo para perceber que, como éramos os únicos no elevador, ele só poderia estar falando comigo.
- Estou chegando agora, então ainda não estou. – disse meio sem jeito. Não queria parecer uma perdida logo no primeiro dia.
- Me acompanhe. – disse assim que as portas do elevador se abriram.
Seguimos pelo corredor, até chegarmos onde Bella conversava com alguém ao telefone, parecia ser alguma discussão sobre qual o melhor horário para Dr. Muniz dar uma passadinha no gabinete do juiz para tomarem um café.
- Bella, apresente a o caso em que estamos trabalhando. Estarei na minha sala esperando que me leve a agenda do dia. – dito isso afastou, recebendo um aceno com a cabeça de Bella, que já agradecia pela disponibilidade do juiz e marcava o horário do encontro na agenda.
- Leve suas coisas para sua mesa, e volte aqui para que possa lhe explicar no que você irá trabalhar. – disse já se levantando, rumo à sala de Lucio Muniz.
Apesar de ter estado na sala de estagiário de Lucio Muniz na noite anterior, vê-la acessa e com os estagiários trabalhando a todo vapor, me despertava uma certa excitação. Eu era parte desse grupo seleto. Eu trabalharia com Lucio Muniz, Harvey Specter da vida real, referência para São Paulo, e um dos maiores nomes da área jurídica do Brasil.
já estava lá, sempre com seu sorriso à mostra, o cabelo bagunçado como se não fosse penteado há dias, a roupa bem alinhada, e os olhos mais verdes a cada dia.
- Fiquei sabendo que conseguiu a vaga. – ele disse baixinho, curvando-se para alcançar meu ouvido, enquanto me seguia para fora.
- Eu nem sei como isso aconteceu. – confessei. Tudo aconteceu rápido demais, a ligação inesperada da Rassi-Portella, minha contratação fora de época, a vaga surpresa para trabalhar com Lucio Muniz, minha transferência repentina... – Ainda estou meio perdida, se quer saber.
Ele sorriu, jogando a cabeça para trás, alongando os braços. Engoli em seco, me segurando para não morder o lábio.
- Acho que agora vamos sentar perto um do outro todos os dias. Quer que guarde lugar para você?
Eu ri da piada sem graça, mas a verdade é que meu cérebro foi inundado de pensamentos de que, a partir de hoje, nos veríamos todos os dias. Meus pensamentos foram parar no nosso jogo inacabado, só uma semana atrás. E então nas oportunidades que teríamos de continuar com as preliminares, agora que estaríamos tão perto um do outro.
Gostei dessa ideia. A ideia de preliminares me excitava, e os jogos estavam apenas começando, eu sabia disso.
- Não se preocupe, eu sei me virar. – respondi. Talvez fosse porque já podia dizer que conhecia , talvez fosse porque eu mesma estava tendo esses pensamentos sujos, mas a verdade é que, naquele momento, pude jurar que ele pensava o mesmo. Talvez até mais detalhadamente que eu, já que conhecia o prédio há mais tempo, e tinha certeza que conhecia salas desocupadas que poderiam ser usadas para... Bem, atividades extracurriculares, digamos assim.
E então, mudando de assunto, como quem não estava tendo pensamentos nenhum pouco jurídicos, perguntei:
- Chegou cedo?
- Eu sempre chego cedo. – ele disse. – E você também deveria se pretende se destacar.
Meio com pesar, fiz uma anotação mental que talvez devesse começar a almoçar no Subway para conseguir chegar mais cedo.
- O que está fazendo parada aqui?
- Bella pediu para que a esperasse, enquanto passa a agenda do dia para Dr. Muniz. Ela ficou de me passar o caso em que estão trabalhando.
E foi nesse momento que Bella chegou, passando por nós – não sem antes dar um beijo cortês em – e parando atrás de sua mesa.
- O quão próximos vocês são? – perguntou sem olhar para nós.
- Somos relativamente próximos. – foi quem respondeu.
- Aposto que são. – e ainda mexendo em seus papeis, nos lançou um olhar rápido, mas avaliativo, com um sorriso de lado.
Talvez meus hormônios recém descobertos e atiçados estivessem falando alto demais, porque podia jurar que senti um tom malicioso na voz dela. Não tive tempo para descobrir, entretanto.
- Está muito ocupado?
- Trabalho com Lucio Muniz, o que acha?
- Foi o que imaginei. – e ainda sem nos olhar, estendeu uma pasta em direção a , que a pegou prontamente. – Nessa pasta tem uma cópia do caso em que estão trabalhando no momento, por favor, passe todas as informações que irá precisar para trabalhar. – E com mais pastas nos braços do que poderia contar, Bella voltou sua atenção para nós. – Afinal, eu também trabalho para Lucio Muniz e acredite, estou extremamente ocupada.
e eu nos viramos para vê-la entrar na sala onde Lucio Muniz a esperava.
- Vamos, vou te passar o caso.
Já de volta à sala de estagiários – não a sala em que todos os estagiários ficavam, mas a que somente os da equipe de Harvey Specter da vida real trabalhavam – me passou a pasta, falando em tom baixo para não atrapalhar os outros.
- Estamos advogando para uma empresa na qual o antigo gestor assinou dezenas de contratos fraudulentos com alguns parceiros de comércio. É um caso muito grande, na verdade. E bem complicado, já que defendemos a parte que cometeu as fraudes. – ele disse. – Você se lembra de estudar contratos na faculdade?
- Sim. – eu me lembrava de passar os finais de semana em casa estudando para a prova, isso podia afirmar.
- Ok, na biblioteca temos vários livros que tratam de contratos fraudulentos, fraude contra credores etecetera... Você pode ir para lá estudar depois, se quiser. E claro, qualquer dúvida que tiver, pode falar comigo.
E de novo o sorriso colgate estava lá. Quase pude sentir o frescor de seu hálito. E de novo podia jurar que as intenções em suas palavras iam muito além de simplesmente responder perguntas sobre contratos.
- Vou me lembrar disso.
- , Dr. Lucio quer falar com você. – Bella anunciou com metade da porta aberta, e parte do corpo do lado de fora.
Fui até sua sala – bem do lado de onde estava. Agora entendo o porquê da sala dos estagiários ficarem ao lado da sua.
- Boa tarde, . Já está integrada à nova equipe?
- Claro, todos foram muito receptivos. – “muito” talvez seja exagero, mas quem sou eu para reclamar de alguma coisa? – Obrigada pela oportunidade, Dr. Muniz.
- Faça-a valer a pena. – e estendendo uma pasta à minha frente, continuou – Aqui estão todas as informações de que vai precisar para o pro bono. O processo é digital, mas acredito que você já esteja familiarizada. Qualquer dúvida que tiver em relação ao caso, é só entrar em contato com a parte que você irá representar. Alguma dúvida?
Pisquei algumas vezes, engoli em seco outras, e fiquei alguns segundos procurando minha voz. Se tinha alguma dúvida? Por onde começava?
- Pensei que trabalharia no caso dos contratos com o resto da equipe...
- Você vai. E também vai ficar responsável por esse pro bono.
Balancei a cabeça para assimilar o que me foi dito.
- Quando diz que ficarei responsável...
- Quero dizer que o processo será de sua responsabilidade, com a minha supervisão.
- Certo. – mas a verdade é que não estava nada certo. Para alguém que tinha sua maior experiência checando prazos e fazendo defesas que depois seriam revisadas, cuidar de um processo assim, logo de cara, ainda mais um pro bono, era no mínimo desafiador.
- Assim que der andamento ao pro bono, vou coloca-la para cuidar de uma reintegração de posse com . – talvez tenha sido minha cara de espanto, mas pude jurar que Harvey Specter da vida real segurou uma risadinha, ainda que quase imperceptível. – Você já aprendeu reintegração de posse na faculdade?
- Vamos começar a ver isso agora, na verdade.
- Então sugiro que comece a ler a respeito. Na biblioteca temos obras consagradas sobre o tema. – e diante de minha concordância, terminou – Está dispensada.
E antes que voltasse para minha sala – com a certeza de que precisaria de muitos post its coloridos daqui pra frente, Harvey Specter da vida real me lembrou de levar meu pro bono.
O dia seria pesado, e o estágio mais ainda.

Na sexta-feira acabei decidindo não ir à aula. Se fiquei em casa, deitada em baixo das cobertas, a manhã toda? Bem que gostaria. Mas a verdade é que fui direito para a Rassi-Portella fazer algumas pesquisas – contratos fraudulentos, usucapião, o pro bono...
A verdade era que quando estava com o Dr. Fernandez, todos os estagiários trabalhavam em grupo sempre sob sua orientação. Eu nunca havia tido um caso só meu, sob minha inteira responsabilidade, um que cuidaria sozinha, afinal estava o estágio só há três semanas. Mas Harvey Specter da vida real parecia não entender assim, já que deixou os direitos de uma pessoa nas minhas mãos.
Simples assim, sem pressão.
Fernando estava na biblioteca quando cheguei.
- Olá, senhorita promovida. Como está?
Se não o conhecesse provavelmente ouviria um tom irônico na sua voz, quando na verdade sabia que tudo o que tinha ali era curiosidade.
- Tudo bem.
Não pude deixar de notar os olhares tortos dos outros estagiários ali perto, mas não é como se não estivesse acostumada a isso. Afinal, só a minha contratação fora de época já foi uma baita exceção aos padrões da Rassi-Portella.
Percebendo meu olhar – e provavelmente entendendo meus pensamentos – Fernando deu uma risadinha.
- Se quer saber, você não é mais conhecida como a estagiária que entrou sem processo seletivo, mas como a nova estagiária do Dr. Lucio Muniz. – ele disse, e foi impossível evitar uma careta. – Eles estão com inveja de você.
Penso que ser chamada de nova estagiária do Dr. Muniz é bem mais legal do que ser conhecida como a-estagiária-que-entrou-sem-o-processo-seletivo-fodão-que-todos-tivemos-que-fazer. Até porque, no lugar deles, eu também estaria com inveja. Quer dizer, sou quase uma celebridade.
Se fizesse uma análise da minha vida desde o fim do ano passado, quebrar padrões era comigo mesma.
- E como você está? – perguntei mudando de assunto.
- Estou bem. E como está o novo ambiente de trabalho?
Imediatamente meus pensamentos vão parar em e seu perfume ridiculamente viciante que estaria, a partir de agora, a poucos metros de mim. Mas sabia que não é sobre isso que Fernando quer saber.
- Acredita que ele me deu um caso logo no primeiro dia de trabalho? É um pro bono, mas isso não significa que não é importante. – contei para ele. – Eu estudei contratos de locação na faculdade, mas a prática é muito diferente, especialmente quando a família é pobre e não tem mais onde morar. – disse suspirando.
- Você já leu todo o caso?
- Já sim.
- Faça um resumo e depois comece a sua pesquisa. Quando já tiver os artigos e sua tese de defesa em mãos, comece a trabalhar.
- Vou fazer isso. – disse confiante, ainda que por dentro estivesse num desespero só pensando no caso dos contratos fraudulentos, mais o processo de usucapião que trabalharia com (ai, minha nossa senhora dos beijos safados), sem contar com as tarefas usuais de dar andamento em todos os processos do Dr. Muniz, como o que fazia com o Dr. Fernandez.
- Está arrependida de mudar de equipe?
Fernando só podia estar brincando.
- Nunca.
Fernando riu.
- Precisa de ajuda?
- Achei que nunca fosse perguntar. – suspirei agradecida, afinal, uma ajudinha agora era tudo o que eu mais queria.
Depois de dividir minha hora de almoço no subway – como já previa que seria comum dali pra frente - com Fernando, encontrei falando em tom baixo com Bella, que respondia em tom ainda mais baixo. Quase precisei usar minhas habilidades – inexistentes, vale ressaltar – de ler lábios para entender sobre o que conversavam.
- Dr. Muniz ainda está em reunião?
- Está. Por que, é urgente?
- Um pouco, mas pode esperar. É sobre o nosso assunto.
E então perceberam que eu estava ali e ambos corrigiram a postura, voltando a falar em tom normal.
Suspeito, muito suspeito.
Ou talvez fosse só o meu lado Sherlock Holmes aflorado no começo da semana dando as caras novamente – o que fazia mais sentido.
- Veja se não é a nova estagiária. – Bella diz com um sorriso no rosto. – Já se adaptou?
- Bem eu comecei ontem.
- Então por que esta demorando tanto para entrar no ritmo? – seu sorriso já não era mais tão simpático. Alguns segundos olhando para a minha cara meio assustada, Bella riu. – Não precisa fazer essa cara. Você é nova, logo se acostuma.
- Você demorou muito para se acostumar? – perguntou em tom casual, entrando na conversa. Não passou despercebido aos meus olhos sua tentativa de tirar da vista a pasta que tinha em mãos, colocando-a no bolso interno do terno.
Ainda que fosse tomada pelo meu lado desconfiado – ainda resquícios das minhas aventuras no começo da semana – não pude deixar de reparar no quão sexy ele ficava guardando a droga de uma pasta de papel dentro da droga do terno.
- Como se eu precisasse me acostumar a alguma coisa. Meu bem, eu já nasci pronta. – disse rindo, agora com um toque de convencimento na voz. – Mas nem todo mundo é como eu.
Eu ri.
- De qualquer forma, precisa de alguma coisa com o Dr. Muniz? – diante da minha afirmação, respondeu. – Ele não está. Se quiser posso avisá-la quando ele chegar.
Automaticamente me lembrei de ouvi-los falando que Dr. Muniz estava numa reunião, mas achei por bem não contestá-la.
- Na verdade só queria informa-lo que já comecei a trabalhar no pro bono, e também no caso dos contratos fraudulentos.
- Bom trabalho. Mas não espere o mesmo elogio vindo de Lucio Muniz.
Murchei na hora. Qual era o problema em receber um incentivozinho?
- Não coloque muita pressão em si mesma. – disse, voltando a ser parte da conversa.
- Se puder ensinar como fazer isso eu agradeceria.
- O segredo é dar o seu melhor. A Rassi-Portella pode exigir muito dos funcionários, mas também sabe reconhecer o esforço.
- Muitos estagiários, a maioria na verdade, não aguenta o primeiro mês, quem dirá um ano inteiro. Não esteja nesse grupo. – e depois dessa frase motivadora, mas nem tanto, Bellaatendeu o telefone dando as costas para e eu.
Seguimos para a sala, cada um para sua mesa – uma do lado da outra, devo relembrar. De costas para mim ele guardou na última gaveta a pasta que havia escondido sob o terno. O pescoço estalou quando me estiquei para ter uma visão melhor, a pergunta presa na ponta da língua.
- E então, o que pesquisou hoje?
Ainda com os olhos cerrados, me perguntando se deveria tocar no assunto da pasta misteriosa ou não, mostrei a as anotações que tinha feito mais cedo.
- Muito bem, então estamos prontos para começar o trabalho.
E foi isso que fizemos a tarde toda, ainda que minha atenção estivesse divida entre o que discutíamos, e o conteúdo da pasta escondida.
E foi chegando em casa, na sexta à noite, que a minha semana se tornou, definitivamente, a mais inusitada – ainda me pergunto se no bom sentido da palavra – de toda minha vida.
Depois de um banho não tão demorado quanto gostaria, e de pedir uma pizza com borda recheada (porque uma semana como aquela merecia uma borda com queijo extra), enquanto esperava chegar do trabalho (ela avisou que chegaria atrasada), escolhendo a um filme na Netflix (missão quase impossível, eu sei), a campainha tocou.
Foi automático franzir a sobrancelha ao abrir a porta.
Do lado de fora, o mesmo homem do carrão – aquele que tentamos dar uma de jornalistas investigativas e falhamos miseravelmente. Ao seu lado outro homem, um que não me lembrava de tinha visto antes – talvez fosse seu namorado, vai saber.
- Lauren ? Boa noite. Polícia Federal. Podemos entrar?


Capítulo 12

Estava terminando de encher dois copos com suco de uva – o único que tinha na geladeira – para levar aos “policiais” que me esperavam na sala.
É claro que eu sabia que se tratavam de policiais de verdade, nada de colegiais passando trote na vizinha, já que mostraram suas credenciais. Não que eu tenha precisado pedir. Fizeram a identificação por iniciativa própria, depois que fiquei minutos estática, com a porta meio aberta e meio fechada, olhando para os dois à minha frente com cara de boba.
Na hora meu cérebro parou, e tudo em que conseguia pensar era “mas o quê?!”. Mas depois de abrir totalmente a porta e deixa-los entrar, lhes oferecendo limonada – sem saber exatamente se ainda tinha em casa – vim para a cozinha, e agora podia pensar melhor. Ou pelo menos tentar.
Quer dizer, o que a polícia federal poderia estar fazendo aqui, no meu humilde apartamento alugado? Queriam falar comigo, disseram. Mas o que eu, uma estudante de Direito, que nem mesmo tem dinheiro toda semana para a gasolina, poderia lhes ser útil? Não era possível que a Polícia estivesse me investigado pelas multas de trânsito. Tudo bem que onze multas em um ano não eram pouca coisa, mas eu tinha acabado de tirar carta, e paguei todas elas com minha mesada juntada. Claro que acabei dividindo os pontos com meus pais, já que não podia ter nenhum na minha carteira provisória.
Não podia ser isso, certo?
Voltei para a sala.
- Desculpem, a limonada acabou. Espero que não se importem.
Eles responderam com um sorriso, agradecendo pelo suco de uva.
Sentei-me no sofá da frente, de onde podia ter uma boa visão dos dois, caso resolvessem tirar um par de algemas e me levar aos berros para a delegacia mais próxima.
E na tentativa de espantar os pensamentos ridículos da minha mente hiperativa e criativa demais para minha própria segurança, perguntei:
- E aí, achou um apartamento para comprar?
O policial gato – é claro que ele tinha que ser gato, não bastava ser apenas um policial fardado como qualquer outro – e que descobri se chamar , ficou sério, fechando a cara. Seu parceiro o encarou, e eu me arrependi de ter feito a pergunta.
Irritar o policial armado não é uma boa forma de começar uma conversa, .
- Ainda não. – disse sorrindo duro. – Gostaríamos de fazer algumas perguntas.
Era agora, eles perguntariam sobre as multas e eu não fazia ideia de onde tinha guardado os comprovantes de pagamento.
- Qual a sua atuação relação com Christian Albuquerque?
Minha reação foi franzir a testa em sinal de confusão. Porque essa era, simplesmente, a única reação que poderia ter no momento.
- Vou ser mais claro e ir direto ao ponto. – o policial gato se aproximou, sentando na ponta do sofá. – Você está ciente do envolvimento de Christian e sua família com práticas ilícitas?
E então fiquei ainda mais confusa. Junto com a testa franzida, acho que abri um pouco a boca, mas não poderia ter certeza.
- Como... Tráfico de drogas?
Engasguei com a saliva.
Foram preciso algumas tossidas até ser capaz de recuperar a voz e falar alguma coisa.
- Caramba, isso é um absurdo!
- O que é um absurdo, , o fato de eu pensar que você sabe da prática de tais condutas ou a veracidade da prática?
- As duas coisas, eu acho! – dizer que estava muito, mas muito confusa, seria eufemismo. Eu já nem sabia mais o que estava aquele momento. – A família Albuquerque é uma família muito respeitada. Têm dinheiro, é verdade, mas a família toda é dentistas e eles têm um consultório gigante em São José do Rio Preto. Muitos pacientes importantes costumam se tratar no consultório deles, políticos até. – disse me lembrando da vez que vi um vereador da cidade saindo de lá.
- Sim, nós sabemos do envolvimento da família Albuquerque com alguns políticos da sua cidade, políticos esses que também estão sendo investigados, ainda que por outros crimes. Mas isso não é assunto para a nossa conversa.
Dessa vez tive certeza que abri a boca.
- Você notou algo de estranho nos últimos dias? Christian e você ainda mantêm contato?
E então eu entendi do que aquilo se tratava. Aquelas perguntas foram como um baque de realidade.
- Espera, isso é um interrogatório? – perguntei sentindo o sangue gelar. Meu deus, será que eu deveria ligar para um advogado?
- Não, isso é uma conversa informal. Queremos apenas que nos ajude com as investigações.
- Que investigações? – tinha certeza que minha voz estava mais estridente que o normal, um tom acima do recomendado, mas não é como se pudesse evitar. Se eu contratasse o serviço de advocacia da Rassi-Portella eu receberia desconto por ser estagiária?
Minha cabeça começou a girar, meu estômago rejeitando o almoço de mais cedo.
O policial ao lado, não tão gato assim, expirou impaciente antes de perguntar novamente:
- Christian entrou em contato com você recentemente?
- Não.
Minha resposta foi curta e dura, rápida demais. Foi automática, na verdade. Não parei para pensar. Primeiro por não saber o que estava acontecendo, aquilo era suspeito demais – ainda que soubesse que não deveria desconfiar da polícia que costumavam ser os goodguys de uma investigação criminal – e segundo para proteger Chris, mesmo que não soubesse exatamente do quê.
- Como estudante de Direito, você deve saber que mentir para a polícia, dificultando uma investigação criminal, é crime. – o policial gato, o que estava fazendo o papel de policial bom, enquanto o parceiro claramente era o policial mau, disse em tom contido.
Ignorei a pergunta que piscava em luz neon de como eles sabiam que era uma estudante de Direito – estaria a polícia me investigando também? – e parti para a resposta igualmente automática:
- Pensei que isso fosse apenas uma conversa informal. E de qualquer forma, também sei que não tenho a obrigação de dizer nada que não queria, especialmente fazer prova contra mim mesma.
- Que tipo de prova poderia fazer contra si mesma quando o que estamos fazendo é investigar uma organização criminosa na qual o pai do seu ex-namorado está envolvido?
A palavra organização criminosa gritou na minha cabeça. O estômago mais embrulhado que da primeira vez que fui em uma montanha russa.
Engoli em seco. Que tipo de conversa era aquela em que estava metida?
- Acredito que a polícia ainda não possa afirmar isso, ou não estariam tendo uma conversa informal comigo.
O policial gato riu irônico, mas não contestou. O policial não tão gato assim, com a pior cara desde que chegou, bufou antes de responder:
- Se são provas que você quer, são provas que você vai ter.
E aquilo me gelou inteira, da cabeça aos pés, porque naquele momento eu tive certeza de que teria aquelas provas, e eu não as queria.
Antes de irem embora deixaram um cartão. “Caso se lembre de alguma coisa”, disseram, simplesmente a frase mais clichê dos filmes de ação policial sendo dita para mim, em uma cena da vida real.

A verdade é que já estava sentada na mesma posição tempo demais para a saúde da minha coluna. Se me lembrava de vê-los se levantar, sair e partir? Não. O cartão de visita que me entregaram ainda estava em minhas mãos suadas demais, com os dedos trêmulos amassando o pedaço de papel.
Minha cabeça latejava. Milhares de perguntas se sobrepunham uma a outra. aquilo não fazia sentido nenhum.
O que tinha acabado de acontecer? Em um momento minha maior preocupação era decidir se pagava ou não por adicional de queijo no lanche, e no momento seguinte era decidir se contava ou não à porra da Policia Federal que meu ex-namorado – segundo eles, envolvido em uma organização criminosa (???) voltada para o tráfico de drogas (???) – tinha entrado em contato comigo ou não.
Bem, é claro que Chris tinha entrado em contato. Para dizer que sentia saudades. Que quer me ver. Que me quer de volta. Não para contar as fofocas do tráfico ilícito de entorpecentes, disso eu tinha certeza.
Quer dizer, eu não podia deixar de pensar... Se aquela conversa tinha sido real - e não fruto da minha imaginação cansada pela semana mais inusitada de toda a minha vida – isso significava que eu era uma suspeita? A policia achava que eu carregava umas trouxinhas na bolsa para revender na faculdade? Eu poderia ser presa?
Meu deus, o que estava acontecendo?
Virei o pescoço quando a entrou fazendo barulho. O movimento fez minha coluna estalar. Talvez devesse tentar mudar de posição por alguns minutos.
- O que aconteceu? – minha amiga perguntou.
- Recebi uma visita hoje. – eu disse. Quase não reconheci minha voz, estava branda demais, tranquila demais para o turbilhão de emoções que passavam por mim no mento. – A Polícia Federal acabou de sair daqui.
Ainda parada no mesmo lugar, não disse nada.
- Fizeram perguntas sobre Chris e sua família. – e engolindo a saliva algumas vezes antes de continuar, disse – A policia acredita que estejam envolvidos com tráfico de drogas.
ficou tão branca quanto sua pele escura poderia ficar.
- Ok, eu não acreditaria em uma palavra do que você disse se você não estivesse mais branca que calcinha de ano novo.
sentou-se do meu lado.
- Conte-me, com detalhes, o que aconteceu.
E eu contei. Com detalhes. Pelo menos o mais detalhadamente que minha mente confusa permitia. A cada vez que que repetia, as palavras faziam menos sentido.
Mas para as coisas pareciam fazer muito sentido.
- , não passou pela sua cabeça que... Que talvez Chris tenha entrado em contato, depois de dois meses, não para tê-la de volta, mas para outra coisa? – ela perguntou hesitante. nunca falava hesitante.
- Tipo o quê? Me convidar para conhecer os novos amigos dele? Para dar uma conferida no novo pó que eles receberam? – perguntei irônica. Deus, já estava cogitando ser verdade o que os policiais disseram.
- Não, não isso. Ele é um idiota, mas não é burro. – disse contida. Sabia que ela pensava muito mais do que estava dizendo, talvez tentando não me magoar, ou me assustar mais. – Mas é estranho, não é? A volta dele depois de tanto tempo, insistindo em vir aqui...
Comecei a pensar nisso. A verdade é que não queria admitir, mas esse pensamento já tinha passado pela minha cabeça e foi mandado a escanteio.
- Acha que talvez ele quisesse vir para cá para saber como andam as investigações? Quer dizer, levando em consideração que ele saiba que existe uma investigação envolvendo o nome da família dele.
- Acho possível.
- Mas não faz sentido! Se a polícia está investigando Chris, então as investigações estão acontecendo em São José do Rio Preto, não aqui...
- ... Então não teria porque Chris vir até aqui. – completou meu raciocínio. – Isso é mesmo muito estranho.
- Não gosto disso, . Não gosto de ficar no escuro, e de ter policiais batendo à minha porta. – eu disse. Minhas mãos ainda tremiam, assim como todo meu corpo. O tremor era de medo do desconhecido, e de raiva por ter sido metida numa situação dessas. Quem a Policia Federal achava que era para bagunçar minha vida assim, de uma hora para outra? – Só tem uma forma de resolver essa situação.
- Como?
Sem responder, me afastei de , indo para o corredor dos quartos. Com o celular na mão, procurei nas chamadas recentes seu número. Antes que desistisse dessa ideia, liguei.
Chris atendeu no segundo toque. Eu não estava em um dos meus melhores momentos, não tinha tempo para rodeios. Então antes mesmo dele dizer sua saudação, eu disse:
- Chris, é a . precisamos nos ver.

Chris chegaria no dia seguinte, na hora do almoço. Deixei claro que não nos encontraríamos em casa – não queria nem imaginar que objetos poderia jogar nele se o visse passar pela porta.
Também não alimentei a conversa, não deixei que Chris expressasse sua (falsa) satisfação pelo meu “convite” inesperado. Não se tratava de uma conversa calorosa e saudosa.
Combinamos de nos encontrar em um café perto da faculdade, bem movimento durante a parte da manhã pelos alunos que acabavam de sair das baladas, mas pouco movimentado à tarde, o horário que marcamos.
Eu já o esperava, sentada em uma mesa perto da janela, de onde podia ver o movimento na rua. Pensei que uma noite de sono ajudaria a colocar as ideias no lugar e entender a conversa mais inusitada e inesperada e estranha que poderia ter. Não ajudou, até porque não consegui dormir.
Minhas emoções eram um misto de ansiedade, pelo encontro com Chris – vê-lo pessoalmente depois de meses me deixava nervosa, devo admitir – e curiosidade. Meu lado racional, deveria concordar, queria saber que porra estava acontecendo.
Meu corpo enrijeceu no momento em que o vi atravessar a rua. Vi quando ele entrou no café. Também vi o sorriso que apenas Chris poderia dar, assim que me viu.
Não retribui. Minha cabeça estava cheia de mais para pensar em sorrir.
Ele sentou à minha frente, pedindo um café igual ao meu.
- ... – ele disse com o sorriso cheio de dentes, usando um tom saudoso – Como você está?
- Estou bem. – digo. – Chris, por que você veio falar comigo depois de meses em silêncio? - Fui direito ao assunto, simplesmente porque a curiosidade estava me matando, e as perguntas se tumultuavam para sair. Não sabia se poderia controla-las. Ele não teve tempo de responder, entretanto. – O que andou fazendo nesse tempo em que estivemos separados?
Mesmo com um olhar confuso, o tom de voz já não tão confiante como antes, ele respondeu:
- Você deve imaginar, . Tem alguma outra coisa que um universitário faz além de estudar? – ele tentou fazer piada. Pena para que ele que eu não estava no clima para piadas. – Também resolvi entrar para a bateria do meu curso, então as coisas estão bem corridas com os ensaios...
- E seus pais? – não queria saber da bateria do curso dele e dos seus malditos ensaios.
- Meus pais? – Chris estranhou a pergunta. Eu também estranharia se estivesse em sua posição. Talvez desse ter elaborado melhor a sequencia de perguntas a fazer, mas não estava em condições disso no momento. – O que meus pais têm a ver com a nossa conversa? – ele soltou uma risada fraca. O maldito riu da minha pergunta.
- Apenas responda.
- , o que está acontecendo? Isso não faz sentido nenhum...
- Apenas responda. – repito. Não poderia perder a coragem agora, tinha que saber de tudo.
- Meus pais estão em São José do Rio Preto, no consultório deles, colocando aparelhos dentários e arrancando dentes a mais. – ele disse, depois de bufar irritado. – O que meus pais têm a ver com essa conversa?
Chris estava nervoso. Ele estava nervoso com as minhas perguntas. Como se ele tivesse algum direito de se irritar comigo.
- Por que precisei mentir para a Polícia Federal quando me perguntaram se tinha falado com você recentemente?
Chris arregalou os olhos, a boca aberta.
- Polícia Federal?
- Há meses não nos víamos. Você deixou bem claro que não tínhamos mais nada, e que não queria mais contato comigo. – eu disse. Se parasse agora, não sabia se conseguiria falar de novo. – Um dia você aparece do nada, sem motivo aparente, e no dia seguinte a policia está batendo em casa.
- A polícia?
- Eu quero saber o que está acontecendo. – disse firme. – Por que a polícia está atrás de você? Por que você está atrás de mim agora? E o mais importante, por que a polícia acha que eu tenho alguma coisa a ver com o que quer que seja que seus pais estão metidos?
Percebi que estava tremendo de novo. Minha respiração estava falha, por ter falado rápido demais. Endireitei a postura e encostei na cadeira, depois de perceber que estava com o corpo inclinado para frente.
Chris tentou me interromper mais de uma vez, mas não deixei. Joguei as poucas perguntas que consegui formular com coerência. Ele tinha os olhos ainda mais arregalados, a boca abria e fechava, como se não soubesse o que falar.
Pois é, meu bem, foi exatamente assim que fiquei ontem.
Chris tinha as mãos erguidas, as palmas para frente, como se pedisse calma. Bem, eu não queria ter calma. Queria respostas.
- Primeiramente, eu não faço ideia do que você está falando.
Foi a minha vez de soltar uma risada irônica.
O café chegou, e como se tivéssemos combinado, ambos endireitamos nossas posturas, desviando os olhares. Respirei fundo. Tinha prendido a respiração, sem nem perceber.
Assim que o atendente se afastou da mesa, Chris voltou sua postura inclinada sobre a mesa e falou em tom baixo, os dentes cerrados:
- Meus pais não estão metidos em nada. – ele olhou para o lado, certificando-se de que ninguém prestava atenção na nossa conversa, e continuou – Não faço ideia do que está falando. Você conhece a minha família. Você me conhece.
- Conheço? Porque era exatamente isso que achava até você terminar comigo sem mais nem menos, e eu descobrir, por acidente, que você me traía há tempos.
- Você sabe que foi só uma vez. – ele respondeu depressa, se defendendo como se o que eu dissesse fosse o maior absurdo do século. Claro, como se fosse realmente importante a quantidade de traições pelas quais passei. – Além disso, eu me arrependo. Já pedi desculpas, inclusive.
Juro que tentei, mas foi impossível conter a risada irônica. Ainda bem que ele pediu desculpas, não é mesmo? Então as coisas já estavam resolvidas.
Precisei balançar a cabeça para voltar minha atenção ao motivo pelo qual o chamei até aqui. Não poderia perder o foco logo agora.
- A verdade é que eu sei que quem mente uma vez, pode mentir muitas vezes mais. – respondi em tom firme. – E você está se mostrando um ótimo mentiroso.
Chris arregalou os olhos. Ouvia suas palavras de negação, mas também via o suor de preocupação na testa. Claro que poderia ser fruto de surpresa, afinal, ninguém espera que a ex-namorada te chame para um café e comece a perguntar sobre as supostas práticas ilícitas dos pais. Mas tinha uma pulga atrás orelha, aquele sexto sentido que piscava como letreiro de motel em beira de estrada, que dizia que o nervosismo ia muito além da simples surpresa.
Chris pegou minhas mãos em cima da mesa, jurando que não sabia do que eu estava falando.
- Eu juro, de verdade, , que não faço ideia do que está acontecendo, mas vou descobrir. – quase acreditei na sinceridade de seus olhos. – Pelo nosso bem, afinal, não quero perde-la.
E então a conversa mudou de rumo. Foi tão brusca a mudança no tom de voz, na intensidade de suas palavras, que me perdi por um instante.
- Não sou sua propriedade para ser perdida. – disse puxando as mãos de volta.
Chris arregalou os olhos mais uma vez, mostrando surpresa.
- Você está diferente. – ele disse. Eu não poderia concordar mais.
- De fato, muita coisa mudou. A começar pelo meu guarda roupa que agora tem mais roupas sociais que calças rasgadas no joelho. – disse, pensando alto.
- Não, não é isso. Você está mais... – franziu a sobrancelha como se procurasse pela palavras certa – Confiante.
Bem, isso era verdade. Confiança essa que comecei a desenvolver há pouco tempo, e sabia que ainda tinha muito em que trabalhar.
- De qualquer forma, sei que não somos mais namorados, nem temos mais uma relação como antes, mas você é muito especial para mim. E pelo seu bem, e o meu próprio, eu prometo que vou descobrir o que está acontecendo.
E tendo seus olhos brilhando tão profundamente nos meus, eu acreditei em suas palavras, ainda que minimamente.
Mas isso não significa que abaixaria minha guarda, ou pararia de procurar respostas.


Capítulo 13


Com uma sacola do Subway nas mãos, andava a passos rápidos para chegar ao escritório antes que alguém notasse minha falta. Quer dizer, não é como se eu não tivesse nada de mais importante para fazer, como um brobono, por exemplo, mas hoje foi minha vez de comprar o almoço, e Fernando não deixaria que eu escapasse mais uma vez – ele praticamente bancou meu almoço semana passada toda.
E foi porque andava com a pressa que só quem mora em São Paulo conhece, que quase causei um acidente. Parar de supetão na calçada, quando várias pessoas estavam bem atrás de mim, acompanhando meu ritmo acelerado, não foi a melhor das ideias. Mas não é como se eu pudesse ter agido diferente.
, mais conhecido como o-policial-gato-que-me-interrogou-sexta-passada, estava saindo do prédio da Rassi-Portella & Advogados Associados com uma pasta em mãos. Na pasta, o emblema oficial da Polícia Federal do Brasil.
- Olá, .
Demorei alguns segundos para perceber que era comigo que ele falava. Ainda estava parada na calçada, agora sem receber xingamentos das pessoas que trombaram em mim anteriormente.
- Oi. – respondi. – O que está fazendo aqui?
- Você tem a mania de questionar o motivo de estar nos mesmos lugares que você, não é?
E então me lembrei da vez que em que eu e o “intimidamos” em seu carro, parado em frente ao nosso prédio, poucos dias atrás. Aquilo parecia ter acontecido há tanto tempo.
Por um momento pensei que o policial gato poderia ter ficado nervoso pelo meu questionamento, mas ele tinha um sorriso nos lábios, indicando diversão. Bem, pelo menos não tinha achado ruim da minha curiosidade descabida, e, de quebra, ainda ganhei um sorriso Colgate seu.
Para de ficar reparando no sorriso maravilhoso desse cara gostoso. O cara está investigando você, lembra?
- Se estava aqui com a intenção de me investigar, já vou avisando que não vai achar nada.
Ele riu. Os braços anteriormente cruzados agora se encontravam caídos ao lado do corpo, uma das mãos encontrando o bolso da calça.
- Não duvido da sua palavra. – e então se aproximando de mim, curvando o corpo em minha direção, disse em tom mais baixo, contido – Sabe porque as pessoas têm medo da policia federal? Porque somos bons no que fazemos, especialmente em investigações. Eu, particularmente, sou muito bom em ler expressões faciais quando faço parte de um interrogatório, e é por isso que sei, desde a hora em que você abriu a porta do seu apartamento, tudo o que você disse de verdade e de mentira.
Senti meu corpo ficar tenso na hora, e os pelos ficaram eriçados. Notei, entretanto, que o arrepio não foi por conta do que ele havia dito, mas de como havia dito. estava muito próximo a mim, seus olhos prendendo os meus, a respiração dura e a voz firme. E então percebi que os pelos eriçados eram excitação.
Excitação provocada pelos meus recém descobertos hormônios descontrolados e em ebulição.
- Er... Pensei que estivesse aqui por ter assinado algum contrato sem ler e acabou se arrependendo. – tentei fazer piada. – É mais comum do que imagina.
Ele riu de novo, e o arrepio deu as caras novamente.
- Não, vim apenas para coletar informações sobre o caso que estamos investigando, o mesmo sobre o qual tratei com você. – e antes que pudesse falar qualquer coisa, ele completou – E não se preocupe, não é nada sobre você. Já disse que você não é suspeita ainda.
O “ainda” martelou forte na minha cabeça.
- A advocacia Rassi-Portella, com a liderança do doutor Lucio Muniz está ajudando a Policia Federal no que podem, com as informações que detêm.
Aquilo me pegou de surpresa. No que um advogado especialista em contratos, poderia ajudar uma investigação criminal? Mais do que isso, que informações um escritório de advocacia poderia deter que fossem de interesse a Policia Federal?
- Bem, a gente se vê.
Novamente fui puxada à realidade pelo sorriso do policial gato, mas dessa vez quase não consegui respondê-lo. Minha cabeça era um turbilhão de informações incompletas, perguntas e mais perguntas que não tinham respostas.
Durante toda a tarde não consegui me concentrar nos papeis à minha frente. Meus pensamentos viajavam entre a conversa que tivera com Chris – e o calorzinho que senti no peito, ainda que preferisse não admiti-lo – e a conversa que tinha tido com – e a geleira que se formou em meu estômago.
E então passou pela biblioteca, com cara de cansado, os cabelos mais bagunçados que o usual, olhos pequenos e a boca entreaberta, os primeiros botões da camisa abertos, sem gravata – informal de mais para o ambiente de trabalho, mas quem sou eu para reclamar? E então mudou a expressão assim que passou por mim, trocando o bocejo pelo seu melhor sorriso.
Foi como se um vulcão entrando em erupção estivesse preso dentro do meu corpo.

No dia seguinte não fiquei até o final da aula. Não que estivesse reclamando. Ter recebido uma mensagem de me chamando para conversar, ainda que estivéssemos em período de aula, se mostrou melhor do que poderia imaginar. Não é como se fosse reclamar de estar perdendo aula de Direito Administrativo.
Minha amiga já me esperava, sentada a uma mesa mais afastada. Não me surpreendi por encontrar quase todas ocupadas por outros alunos que também não se importavam de perder a aula que estavam tendo. Me senti parte deste grupo.
- Você está se mostrando uma garota muito rebelde, . – disse com humor na voz.
- A culpa é sua, Stuart, que me convocou para “uma conversa muito importante e que não pode esperar a noite para acontecer”. – disse usando exatamente as palavras que ela usara na mensagem. Minha amiga poderia ser mais dramática?
riu sem vergonha.
- O que você tinha de tão importante para falar? – perguntei imaginando ser algum novo paquera. Não seria a primeira vez que me convocava para uma conversa urgente para mostrar fotos do tanquinho do novo cara com quem estava saindo. A diferença é que desta vez não a fiz esperar até à noite para conversarmos. Bem, não estava nos meus melhores dias, e alguns tanquinhos com certeza me animariam.
- Você percebeu que aquele carrão estava parado na frente do prédio de novo?
- Sério? Quando?
- Hoje de manhã. Notei quando saí para vir à faculdade.
- Será que chegou depois que eu já tinha saído?
- Eu duvido. – disse pensativa. E então com o tom de voz mais alterado, continuou – O que, a polícia ainda acha que você tem algum envolvimento com o que quer que seja que os pais de Chris estejam fazendo?
- Não sei... – mas a verdade é que estava mais confusa do que nunca.
Contei para sobre o dia anterior, e da conversa que tive com o policial gato, também conhecido como . E depois tive de explicar que não, eu não estava tentando esconder minha vida de crime da minha melhor amiga, mas simplesmente tinha ido dormir cedo, mesmo com a cabeça a mil, e não tinha conseguido esperá-la chegar em casa.
- Suspeito, muito suspeito.
Não pude deixar de concordar.
- Mas me diga, o policial é gato mesmo?
- !
- Gostoso? Você viu ele de farda? Adoro homens de farda.
Eu não poderia acreditar que a conversa estava tomando aquele rumo. Claro que , como amante de romances policiais, não poderia deixar de fazer aquela pergunta.
- Não tenho culpa! Quer dizer, na sexta estávamos muito tensas, e passei o final de semana todo jogando pragas em Chris, então não tive tempo para pensar nisso. Sabe como é, o momento era bem sério.
- O momento ainda é sério. – a lembrei.
- Mas agora está tomando outras proporções. Não só você está sendo investigada, mas o escritório também.
- Não, o escritório está ajudando nas investigações. – a corrigi. E isso tinha sido o que havia feito minha cabeça dar um nó de vez.
- Então tem muito mais coisa aí do que a gente imaginava.
Na verdade eu não imaginava nada, pois estava com a cabeça muito cheia com o que já tinha de concreto na minha frente para ficar criando hipóteses, mas preferi não dizer nada.
- Agora que consigo pensar mais claramente, preciso saber, e não me esconda os detalhes, se o policial é realmente gato.
Rolei os olhos.
- Sim, muito gato. – admiti. – E você não precisa de detalhes, já que você o viu quando fomos interrogar o dono do carrão.
- Mentira que ele é o policial que interrogou você! – tinha a boca aberta, o tom de voz alterado, as duas mãos em cima da mesa e o corpo inclinado em minha direção. – Caramba, eu achava que policiais gatos e gostosos só existiam nos filmes!
Eu ri. Não poderia concordar mais.
- De qualquer forma – retomei a parte importante da conversa, não que policiais gatos não sejam importantes, mas sabe como é, crimes, tráfico, e investigações federais costumam ser um pouquinho mais importante - o policial gato, que é realmente muito gato, disse que a Rassi-Portella tem informações sobre o caso que estão investigando.
- Isso é ainda mais suspeito.
Novamente concordei. E também que precisava descobrir o que andava acontecendo no escritório, simplesmente porque precisava descobrir o que estava acontecendo com a minha vida, e buscar informações na Rassi-Portella parecia ser mais fácil do que buscar informações junto à Polícia Federal.
- Acho excelente que sua vida finalmente tenha alguma ação, especialmente que essa ação toda envolva alguns policiais gatos, mas você deve tomar cuidado, . – disse com o tom de voz mais sério. – Assistir White Collar e agir como o verdadeiro Neil Caffreysão coisas diferentes. Você é só uma estudante de Direito que acabou de conseguir o estágio dos sonhos e que, por algum motivo que ainda precisamos descobrir, está na mira da policia federal por alguma coisa idiota que a família, do seu ex ainda mais idiota, fez. Tome cuidado.
- Tomar cuidado com o quê?
O momento tensão/preocupação/conselhos-de-sabedoria-da-tia- passou no instante em que chegou.
O cheiro do perfume foi a primeira coisa que senti. E isso foi o suficiente para mudar o rumo dos meus pensamentos instantaneamente. Depois foi sua voz rouca, como se tivesse acabado de sair da cama. E então sua imagem digna de comerciais de cuecas masculinas, a camisa pra fora da calça social, os botões ainda meio abertos, as mangas dobradas à altura dos cotovelos, e os cabelos bagunçados jogados sobre os olhos.
Me perdi por um instante. Será que pareceria uma psicopata se desse voz à vontade que estava sentindo naquele momento e, simplesmente, pulasse em cima dele e o agarrasse ali mesmo?
Mas então colocou as coisas que tinha nas mãos em cima da mesa para procurar uma cadeira, e vi o símbolo da Advocacia Rassi-Portella em uma das pastas. E me lembrei da conversa tensa e preocupada que estávamos tendo há pouco.
Tomar cuidado com o quê, tinha perguntado. Bem, eu não queria que ficasse sabendo no que estou metida, até porque nem mesmo eu sei no que estou metida.
percebendo meu momento de silêncio, e talvez interpretando-o somente como o segredo que queria guardar de , sem perceber o momento de admiração nada discreta – assim eu esperava – mudou de assunto da melhor forma de ser:
- Cuidado com os corações, pois vai arrasar todos eles na festa de sábado.
já estava de volta, com uma cadeira em mãos.
- Ah, vocês também vão na festa de recepção dos calouros no fim de semana? – ele perguntou.
- Pode apostar que sim!
Eu nem mesmo me lembrava dessa maldita festa. Também tinha me esquecido que havia chego semana passada – maldita semana passada – com os convites comprados.
Como se não fosse o bastante me preocupar em ter a policia me investigando e seguindo meus passos, agora teria que me decidir qual blusinha usar sábado que vem.
E foi assim que se seguiu a minha manhã de aluna rebelde que cabula a aula para conversar sobre possíveis crimes, investigações e policiais fardados. Pensar nas faltas e matérias perdidas eram um problema a parte. Minha maior preocupação, no momento, era sair daquele romance policial que parecia estar fazendo parte.
A vida de universitária estava se saindo mais complicada do que imaginei quando prestei o vestibular.


Capítulo 14


Quando finalmente estava começando a entrar no raciocínio do processo que acabara de pegar em mãos – porque eu não estava sendo paga apenas para cuidar de um pro bono e de um caso de contratos fraudulentos, mas também para dar andamento em todos os processo do Dr. Muniz – fui chamada na sala do meu chefe, mais conhecido como Harvey Specter da vida real.
A verdade é que eu não teria porque desconfiar de alguma coisa – como se já não andasse desconfiada o bastante nos últimos dias – se não fossem as persianas fechadas na porta de vidro, que dava visão pra o corredor. Ou estava chegando na sala após uma reunião particular, ou a reunião particular seria comigo.
Não que exista motivo para a segunda opção.
Harvey Specter da vida real estava sentado atrás da sua mesa, vestido um de seus impecáveis ternos que custavam mais do que o meu salário juntado o ano todo. Quando viu que entrei, ajeitou a posição, e fez sinal para que me sentasse à sua frente.
Imediatamente comecei a pensar em uma boa explicação por ter alguns prazos atrasados em minha mesa.
- Boa tarde, . – e sem ter tempo de responder, ele continuou – Como deve saber, nossa equipe está com muitos prazos para cumprir, e todo tempo é precioso para nós. – eu sabia. – Então, como não temos tempo a perder, vou direto ao assunto: qual é o seu conhecido acerca das investigações que envolvem a família Albuquerque?
Ok, talvez existisse motivo para a segunda opinião. Acho que a reunião particular estava sendo comigo.
- Como? – engasguei.
- Com certeza já deve estar ciente sobre as investigações. Acredito que já tenha sido questionada a respeito, antes de mim.
Sua expressão era séria e não deixava margem para dúvidas. Sua pergunta tinha sido retórica. Ele sabia que minha falta de palavras era surpresa por sua pergunta repentina, e não por ser a primeira vez que ouvia algo sobre aquilo.
- Bem, sei mais ou menos... – disse. A verdade é que é que sabia menos do que gostaria. – Confesso que fiquei bem surpresa quando a policia veio falar comigo em casa. Até pensei que fosse a respeito das multas de trânsito. – brinquei. Mas Harvey Specter da vida real não estava no clima pra brincadeiras, pois nem mesmo deixou um sorriso transparecer. Sua expressão ainda era impassível, indecifrável. Os lábios finos cerrados em uma linha, e os olhos atentos. – Quer dizer, a família Albuquerque sempre pareceu ser uma boa família. Ainda não entendo porque estão sendo investigados por crime de tráfico.
- Entendo. – e então trouxe as mãos entrelaçadas para cima da mesa, voltando seu corpo em minha direção, analisando-me. – Você ainda tem encontros Chris Albuquerque, seu ex-namorado?
- Não. – respondi imediatamente. Chris e eu havíamos terminado há meses.
- Não? – ele perguntou. E novamente senti que tinha sido uma pergunta retórica. – Nem mesmo para contar que foi abordada pela polícia federal?
Devo ter feito cara de surpresa, porque, bem, eu estava mesmo. Como diabos ele poderia saber disso?
- Como sabe?
- Eu não sabia, mas agora sei. – e então voltou a recostar as costas na cadeira, apoiando as mãos ainda entrelaçadas nas pernas. – Não estou aqui para julgar ninguém, , mas preciso que entenda que preciso saber de que lado você está.
E se já não estava confusa o bastante antes, tinha acabado de me perder naquela conversa.
- Você não está sendo julgada, então não se preocupe. Você já deve ter percebido que se trata de um caso grande e perigoso.E por isso preciso saber se posso contar com você nesse caso, ou se preciso contratar outro estagiário para minha equipe.
E então a confusão se transformou em surpresa.
- O senhor quer que eu trabalhe no caso? – então aquilo significaria estar por dentro das investigações, descobrir as respostas que tanto preciso para minhas perguntas, e finalmente não estar mais no escuro?
- Eu estou trabalhando neste caso, e tenho um papel importante nas investigações, e isso implica em meus subordinados. Por isso preciso saber se posso contar com você ou devo procurar outra pessoa.
- O senhor pode contar comigo. – é claro que ele poderia. Não é como se fosse sair correndo contar as novidades que rolam na Polícia Federal e na Rassi-Portella para Chris. – Mas... Eu não sou uma das investigadas? – aquilo tinha acabado de me ocorrer. Já tinha até mesmo sido interrogada pela polícia, ainda que o policial gato tenha insistido em falar que não passara de uma “conversa informal”.
- Talvez para a polícia, mas eu não vejo as coisas assim. Você não tem mais nenhuma relação com a família Albuquerque, e até segunda ordem, o filho deles não está envolvido no caso.
Isso era uma informação que não tinha. Então toda a surpresa que Chris havia demonstrado no café era verídica? Ele, de fato, não tinha ideia no que seus pais estavam metidos?
- De qualquer forma, a Rassi-Portella está envolvida neste caso com o intuito de ajudarmos nas investigações como pudermos. E, nesse momento, precisamos de pessoas em que possamos confiar. Além disso, em um caso grande como esse todo cuidado é pouco. Então toda eficiência e discrição são primordiais, e isso significa que não poderá falar sobre o que ouvir por aqui com qualquer pessoa, nem mesmo nos corredores da Rassi-Portella.
Eu entendi aquilo, de verdade. Discrição era importante, especialmente quando ainda não havia informações concretas. Mas a verdade é que tudo em que conseguia pensar era em chegar em casa o mais rápido possível para contar à sobre essa conversa. Precisava que alguém pirasse como eu estava pirando.
Por mais que tentasse manter minha postura e controlar minha expressão, por dentro estava em alvoroço. Sentia-me parte de algum filme de máfias, no qual a frase “uma vez dentro, nunca mais poderá sair” era dita por algum personagem dono de um bigode grande demais para seu rosto, e a música de fundo demonstrava toda a tensão do momento.
- Além disso, essa é uma oportunidade de você se destacar e mostrar que você não é apenas mais um dos estagiários aqui dentro.
- Sim, claro. E agradeço a oportunidade.
E foi olhando em seus olhos que percebi que não se tratava de uma simples “oportunidade” de mostrar serviço. Pois o que aquele advogado à minha frente queria saber não era apenas se podia confiar em mim, mas também se não usaria minha posição dentro da Rassi-Portella para ajudar os pais de meu ex-namorado.
Bem, eu não o faria. E com um estalo, me dei conta de que o caso era maior, muito mais do que acreditava.
A melhor parte era que, além de poder trabalhar com o Harvey Specter da vida real, e poder provar a mim mesma – e a Chris – que não, nós não tínhamos mais nada juntos, finalmente poderei descobrir o que estava acontecendo. Quer dizer, era meu direito saber no que tinha sido metida.
- E sobre o que se trata, realmente, o caso? Quer dizer, posso ter acesso às investigações? – perguntei.Porque não é como se a policia tivesse me dito alguma coisa. Na verdade queriam que eu dissesse algo de importante a eles, o que não pude, pois eu não sei de porra nenhuma.
Tráfico de drogas, eles disseram. Ok, e o que mais? Porque tinha certeza que a Policia Federal não começaria uma operação dessas, vigiando-me em meu apartamento – a ex-namorada do filho dos caras que possivelmente estão metidos com as pessoas erradas, com negócios ilícitos - se não fosse algo muito, muito maior que isso.
- No momento as informações que você tem são suficientes. Basta que cuide de suas tarefas, e mantenha discrição sobre o que conversamos. Quando for necessária, você será informada.
- Mas...
- Você não tem prazos para cumprir? – ele me cortou.
E certa de que não conseguiria mais nada ali, saí da sala.

No decorrer da semana, percebi que o mesmo carrão preto de antes sempre se encontrava parado em frente à portaria do prédio. Quando saía de manhã o carrão já havia chego, e só ia embora depois que voltava do estagiário.
Na sexta à tarde, quando estava chegando ao estágio, novamente tendo uma sacola do subway nas mãos, a qual carregava o almoço de, pelo menos, seis estagiários – não que eles tenham se oferecido para comprar daquela vez – um carrão preto, parado em frente ao prédio da Rassi-Portella, me chamou a atenção.
Não estava paranóica a ponto de pensar que todo e qualquer carrão preto, estacionado nas ruas de São Paulo, pertenciam à Polícia Federal. Mas o fato de o mesmo carrão preto estar parado em lugar proibido, e, aparentemente, não ser incomodado por isso, me chamou a atenção. Bem, isso e o fato de ver , mais conhecido como policial-gato-que-me-interrogou-semana-passada, podia ser visto por meio do vidro meio abaixado.
Fui até lá. Queria tirar algumas coisas a limpo mesmo. Apesar de não ter exatamente avançado em minha investigação particular, lembrava-me de ter me dito que não, eu não era uma suspeita. Ainda. Será que meu status tinha mudado?
Bati no vidro, vendo-o se abaixar até o final. O policial gato – mais gato que nunca, devo acrescentar – sorriu ao me ver. Ao sair do carro, no maior estilo modelo da Gucci, quase em câmera lenta, enquanto tirava os óculos escuros, e jogava os cabelos para trás, me perdi totalmente. Também não pude conter o olhar clínico e analisador que lhe lancei. Quer dizer, o fato dele estar usando colete a prova de balas por cima de uma camiseta apertada demais para seus braços fortes, já teria me chamado atenção. Mais foi todo o conjunto da roupa, do uniforme - e isso incluía a arma presa a sua cintura - que fez que com que perdesse os modos e o encarasse descaradamente.
Se já ficava de pernas bambas toda vez que encontrava e seu sorriso brilhante, tinha certeza que nunca mais o olharia com os mesmos olhos depois de ter essa imagem gravada no cérebro. Milhares de pensamentos, ideias, envolvendo esse uniforme – e ele sendo arrancado e jogado para longe – me atingiram. Precisei piscar algumas vezes para voltar à realidade e prestar atenção no que ele dizia.
- Parece que será comum nos encontrarmos por aqui de agora em diante. – ele disse.
E voltando aos meus questionamentos anteriores, ignorando – ou tentando, de verdade –seus olhos azuis claros, respondi:
- Isso, ou você continua me seguindo.
franziu a testa, se pelo sol em seus olhos ou por, realmente, não saber do que eu falava, eu descobriria em breve.
- Não precisa disfarçar, eu já reparei no carro de vocês parado em frente ao meu prédio a semana inteira.
Ele deu um sorrisinho contido. Ele sabia.
- Não vou pedir desculpas por medidas de segurança. – foi o que respondeu.
- Para que medidas de segurança se não sou uma suspeita?
- Se não é uma suspeita, então não tem com o que se preocupar.
Revirei os olhos. Não entraria naquele jogo. Até mesmo porque, não tinha tempo para aquilo. Estava atrasada para meu encontro com Fernando – e os outros quatro estagiários que tinham seu almoço na sacola que carregava.
Diante da minha atitude, ele apenas sorriu. E como percebi que não diria mais nada, apenas me despedi, lhe desejando um bom dia. Porque eu poderia ser considerada uma suspeita/não suspeita pela Polícia Federal, e ser vigiada de perto, mas ainda tinha educação, obrigada.
- Espera.
Virei para trás. deu os poucos passos que já nos separavam, parando na minha frente novamente, bloqueando minha passagem. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça. Cenas de filmes - como quando o cara tira uma folha do cabelo da garota, ou quando o policial de tocaia saca a arma, a aponta para a suspeita, a rende e a aprende ali mesmo, dizendo as famosas fases “você tem direito de permanecer calada. Tudo o que disser poderá e será usado contra você” – vieram como uma enxurrada. Se fosse para protagonizar um filme ali, que fosse a primeira cena. Não queria ser presa logo quando as semanas e provas estariam para começar.
- Você... Você vai à festa hoje à noite? – perguntou passando a mão nos cabelos.
Fiquei estática. E então meu cérebro hiperativo demais começou a trabalhar com força total de novo, criando novas hipóteses e novas imagens mentais.
- Ok, eu sei que, querendo ou não, posso ser parte dessa investigação maluca de vocês, e que precisam manter medidas de segurança, mas não acha que me seguir até uma festa universitária é demais? – perguntei em um folego só. – Quer dizer, vou andar com seguranças agora? Vocês vão começar a barrar as pessoas de chegarem perto de mim?
O sorriso de apenas crescia, transformando-se em uma risada. Provavelmente estava acostumado a ver esse tipo de reação das pessoas.
- Ou simplesmente estou perguntando porque também vou a essa festa, e não como segurança particular. – e dando de ombros disse – Não é o tipo de serviço que costumo fazer.
E então meu cérebro parou e travou. Fiquei confusa. A Polícia Federal iria realizar alguma operação em uma festa de recepção dos calouros? Tínhamos criminosos entre os novos alunos?
- Também estudo na USP, sabe? – e com uma postura quase tímida, passando as mãos nos cabelos disse – Entrei esse ano.
Minha surpresa não poderia ser maior. Definitivamente, não me lembrava das garotas terem comentado a respeito de um calouro de um metro e noventa de altura, cabelos loiros e olhos claros, braços gigantes e deliciosamente irresistíveis no uniforme da Polícia Federal, no primeiro dia de aula.
Mas também, parando para pensar, não parecia ser o tipo de pessoa de enche a cara de tequila no primeiro dia de aula, deixa seu rosto ser pintado, seu cabelo ser raspado, e dança Macarena para os veteranos se divertirem.
Confesso que fiquei sem graça pelas suposições que tinha feito, e pelas palavras desenfreadas que lhe disse. Mas, novamente com a educação que me foi dada, lhe dei parabéns pela conquista, dizendo que sim, eu iria à festa.
- Legal, então acho que vamos nos encontrar por lá.
- Acho que sim. Espero que não fique de olho em mim. – tentei fazer piada para quebrar o clima que minha mente hiperativa, somada com a minha boca sem filtro, criaram.
- Não posso garantir nada. – foi sua resposta. E então o clima tenso foi substituído por um clima de excitação. Se só de minha parte, não saberia dizer, mas se tivesse que chutar, diria que sua intenção era exatamente a de criar esse clima. Seus olhos claros tinha escurecido, e o tom de voz divertido de antes estava grave. Poderia arriscar dizer que até mesmo sua postura havia mudado, o corpo estava mais inclinado em direção ao meu, e até mesmo o cheiro de seu perfume parecia mais forte.
Arrepiar-me foi inevitável, e novamente me perdi em seu sorriso mais branco que propaganda de enxaguante bucal. Minha mente criativa começou a trabalhar a todo vapor, sendo preenchida, dessa vez, por imagens de um policial gato encarando-me de longe, ainda que o quisesse perto, e esse desejo sendo atendido.
Foi meu celular tocando que me trouxe para a realidade. Era Fernando, provavelmente querendo saber onde estava, já que estavam todos morrendo de fome, e com milhares de prazos para cumprir.
- Preciso ir. A gente se vê mais tarde. – eu disse, me afastando.
- Mal posso esperar.
E aquilo foi o bastante para ocupar meus pensamentos o caminho todo até a volta ao escritório.
Tudo bem, o que tinha sido aquilo? Flerte? Simpatia? Técnicas de investigação? Tudo junto ou nada daquilo? Porque alguma coisa tinha que ser.
- Desculpe a demora. – eu disse assim que encontrei Fernando na porta da cozinha.
- Tudo bem, imagino que deva estar bem cheio a esse horário. – ele lamentou. Não o corrigi dizendo que não, o subway não estava tão cheio a esse horário, pelo menos não enquanto estava lá, mas ainda assim me atrasei porque um policial, mais gato que os atores escalados para fazerem series policiais, estava flertando comigo.

Já na biblioteca, onde costumava ser o melhor lugar para se trabalhar, pois era silencioso e sempre tinha mais alguém por perto, caso precisasse tirar alguma dúvida, parecia que o evento no ano aconteceria dali a poucas horas. O burburinho era tamanho que até mesmo os advogados que passavam por ali pediam para que fizéssemos silêncio.
Aparentemente, a festa de recepção dos calouros podia não ser a festa mais esperada do ano, mas a expectativa para esta era grande. Praticamente todos os estagiários do escritório iriam. Acho que era a única universitária que nunca tinha ido a essa festa tão clássica entre os estudantes.
chegou trazendo com ele sua aura dominante, a qual atrai para ele toda atenção da ala feminina, independente de onde esteja.
- Animada para hoje à noite?
- Acho que estou normal. – mais que normal, na verdade. Só lamentava pelo preço do convite, que tive que pagar com o salário que nem tinha recebido ainda.
- Bem, eu estou bem animado, se quer saber.
Não imaginava o porquê. Pelo que lhe conhecia, ia a festas toda semana. Uma a mais, outra a menos, que diferença faria?
- É mesmo? Por quê?
- Bem, da última vez não conseguimos terminar nosso jogo. – ele disse baixinho, olhando fundo nos meus olhos. Imediatamente lembrei do nosso jogo, há algumas semanas, iniciado na festa da arquitetura. E dos toques. E do calor. E depois me lembrei no churrasco em sua casa, e dos olhares quentes, das palavras cheias de segundas intenções.
- Talvez possamos terminá-lo hoje.
Senti calor imediatamente. Nem me dei ao trabalho de questionar se o ar condicionado estava ligado. Eu sabia que esse calor somente a presença de causava. Somado com suas palavras então, sentia como se meu corpo fosse entrar em combustão.
- Quem sabe. – eu respondi.
- Estou contando com isso.
Pude ver em seus olhos o que aquilo significava, como ele se sentia. A expectativa que eu tinha era a mesma que ele tinha. Seus braços apoiados na mesa, o corpo curvado em minha direção, os olhos mais verdes que o mar, me diziam que o meu desejo, era o mesmo que o dele.
- Eu também. – eu disse. Porque precisava falar alguma coisa, precisava mostrar a ele que sim, eu também queria chegar o final daquele jogo. Meus hormônios descontrolados pediam por isso, e sabia que era a pessoa certa para apagar aquele fogo – ou simplesmente transformá-lo em um incêndio.
- Alguém não vai dormir em casa hoje à noite... – Fernando cantarolou baixinho, para que só eu ouvisse, quando já tinha se afastado.
E bem, era exatamente isso que eu esperava.

Já em casa, enquanto tomava banho, foi impossível não refletir sobre a forma com que me sentia quando pensava em . Ou no policial gato. Ou no garçom gatinho que trabalhava no bar em que fui com no domingo antes do início das aulas.
A verdade é que me sentia como se estivessem abrindo os olhos pela primeira vez em muito tempo. Não apenas porque namorava, mas porque não me permitia olhar para alguém com olhos de desejo, de vontade. Desejar alguém não era do meu feitio. Ou pelo menos achava que não. Reprimia esse lado, um lado meramente inerente à natureza humana, a coisa mais normal do mundo, como se fosse algo errado, de outro mundo. Como ou quando isso começou, não saberia dizer. Provavelmente da educação conservadora que tive com minha família, assim como tantas outras garotas têm.
A expectativa para aquela noite era tanta, que sentia que o coração sairia pela boca. Sexo casual não era algo com o qual estava costumada. A ansiedade e o medo também estavam lá. Tinha medo de não corresponder às expectativas do meu parceiro, e medo de decepcionar a mim mesma.
E sendo sincera comigo mesma, tinha medo de não conseguir sair satisfeita. Quer dizer, sei que não é fácil satisfazer uma mulher. Demorou um tempo até Chris aprender a fazer como eu gostava.
Mas tinha aquela aura de sedução e confiança, inerente a ele mesmo, e eu tinha várias imagens referentes a ele, quase fetiches, e tinha medo de sair decepcionada.
Ainda assim, o medo não era maior que a ansiedade. Ansiedade pelo que estava por vir, pelo desconhecido, pela nova experiência, e pelo que sabia que iria acontecer, ainda que não soubesse como. Mas eu sabia. Daquela noite não passaria. Nem mesmo meus hormônios recém descobertos aguentavam mais.
Ao sair do banho, separei a roupa que usaria naquela noite. Procurei, no fundo da gaveta, a única lingerie sexy que ainda tinha, com renda preta. Imediatamente me arrependi que ter jogado a maioria fora depois do termino com Chris. Mas aquilo era coisa para pensar depois. Se dependesse de mim, aquela gaveta ficaria cheia de renda logo, logo.
E olhando-me no espelho, vestindo apenas lingerie, e observando cada uma das minhas gordurinhas, celulites nas pernas e estrias no quadril, me senti poderosa. Estava pronta e preparada para o que quer que aquela noite reservasse.


Capítulo 15

Quando não fui chamada para a Rassi-Portella & Advogados Associados no ano passado, no primeiro processo seletivo pelo qual passei, pensei que, uma vez que meus planos não estavam seguindo o caminho pelo qual planejei, minha vida talvez passasse por algumas turbulências, afinal, estava saindo do roteiro que eu mesma planejara ainda no colegial.
Quando Chris, meu namorado nada perfeito, terminou comigo tive certeza que ruiria. Porque é isso que pessoas bem sucedidas fazem: elas planejam. E uma vez que meus planos não estavam saindo como queria – na verdade estavam indo pelo lado oposto – pensei que entraria em uma depressão profunda, da qual nunca sairia.
Bem, eu entrei em depressão. Primeiro foram os momentos de negação, depois os questionamentos de “onde eu errei?”. E então veio a aceitação, não menos dolorosa. Entender que não, eu não tinha errado, não com Chris, não com meus planos profissionais, foi uma libertação.
Entender e admitir que se quisesse continuar com meu objetivos teria que mudar meus planos, mudar minha forma de agir, foi difícil, mas necessário. Novamente, foi libertador.
E cá estava eu, em mais uma festa, a terceira, em um período de pouco mais de um mês, em meio a uma multidão que não conhecia, balançando o corpo ao ritmo de uma música que nunca tinha ouvido antes, segurando um copo de cerveja já vazio. E sim, eu estava me divertindo.
Não que minha mãe entendesse dessa forma.
Quer dizer, ela havia deixado bem claro mais cedo, na ligação que havia feito alguns minutos antes de virmos, o que achava dessa minha nova... “fase”.
Minha mãe não achava libertador eu finalmente estar mudando. Muito menos estar indo a festas no meio da semana, ou nos finais de semana. Minha mãe acreditava que havia me perdido em meus objetivos, que estava perdendo o homem perfeito ao não correr atrás de Chris (se ela ao menos soubesse!), que eu estava me perdendo.
Não, mãe, muito pelo contrário. Eu finalmente estava me encontrando.
E finalmente estava começando a dar ouvidos à pessoa mais importante e a que mais deveria ter influências sobre minhas decisões: eu mesma, , muito prazer.
Nada de ficar dando ouvido à pessoas desconhecidas. Nada de me preocupar com o que essas mesmas pessoas desconhecidas, e que me desconheciam, iriam pensar a respeito de determinadas condutas e/ou atitudes. O importante era como eu me sentia, como eu me via.
A frase “se dar ao respeito” nunca tinha feito tanto sentido.
Porque eu me respeitava, ou pelo menos estava começando a me respeitar. Respeitar meus desejos, minhas vontades, meus instintos.
Não que minha mãe entendesse dessa forma. E não era como se eu estivesse disposta a brigar com ela por conta disso. Quer dizer, precisar explicar – de novo e de novo – os motivos (mas não todos eles) porque não estava correndo atrás de Chris feito uma namorada arrependida – ainda que não fôssemos mais namorados, e eu não estivesse nenhum pouco arrependida – já era estressante o bastante, e mais do que desgastante.
Além disso, hoje era sexta-feira, e não estragaria minha noite explicando à minha mãe que não, Chris não era o partidão todo que ela acreditava ser, que sua família não era das melhores para se fazer parte no momento, e que não, eu não amava Chris e não estava disposta a dar-lhe outra chance. No momento só estava disposta a me dar chances. E estava muito bem assim, obrigada.
Aparentemente eu não era a única a estar superando limites e se dando chances, afinal não disfarçava sua procura por Grint – apesar de não admitir, é claro. Ela ainda não havia dado o braço a torcer e aceitado o fato de que Grint talvez não fizesse parte daquele grupo de garotos que ela prefere evitar.
- Você e Grint parecem estar muito próximos nos últimos dias.
Mais de uma vez vi trocando mensagens com Grint no decorrer da semana. Apesar de não ver seu nome da tela, imaginava que Grint era o mais provável a ser “perdedor-sem-chances” com quem parecia dar boas risadas a cada mensagem recebida.
- Não sei do que está falando.
Revirei os olhos.
- Ouvi você conversando com ele noite passada. – disse.
- E dai? – fingiu dar de ombros, apesar de poder ver em seus olhos que tinha sido pega de surpresa.
- Ouvi as risadas. – bati meu ombro no dela.
- Ele é um bom piadista. – ela respondeu simplesmente.
Não insisti. Minha amiga era a pessoa mais teimosa que conhecia.
E como se para dar mais munição para minha provocação, novamente desviou a atenção para o celular. Vendo o humor nos meus olhos, e meu sorrisinho significativo, guardou imediatamente o celular no bolso do vestido.
- Vamos beber. – disse me puxando em direção ao bar. Pensei que uma cerveja gelada agora seria bem vinda. Estava com calor, muito calor. pediu duas cervejas, e enquanto esperava dei atenção às pessoas ao meu redor.
Percebi que meus olhos ora procuravam olhos verdes, ora azuis.
E então o ambiente ficou ainda mais quente. Apesar do clima de verão, sabia que o calor que sentia não era fruto apenas da falta de chuva em São Paulo.
Em meu peito o coração batia rápido, como se estivesse na expectativa de algum acontecimento. E novamente procurei por olhos verdes. E então por olhos azuis. Percebi que o que mais esperava era poder encontra-los. Os dois, de preferência.
- Vamos dançar.
- O quê?
Fui tirada do nevoeiro que meus pensamentos me levaram. Pensamentos esses que, de uma hora para outra, não se dividiam mais em olhos azuis ou olhos verdes, mas que lidava muito bem com ambos os olhos, num mesmo cenário, bem como seus respectivos donos.
Tomei mais um gole de cerveja. Não estava gelada o bastante para me acalmar.
- Vem! – me puxou para a pista de dança improvisada. E foi na pista de dança que encontrei minhas colegas de sala. Juntas dançamos até a música acabar, e a próxima depois dela.
Com o suor escorrendo pelas costas e com a certeza de ter o rímel todo borrado, fomos buscar mais cerveja. E foi quando vi parado, escorado no batente da porta de entrada, a camiseta preta em contraste com a pele clara, os olhos verdes escuros colocando-me em uma bolha da qual eu não queria sair.
Ele olhava para mim. E eu para ele.
A ideia de buscar mais bebida foi substituída pelo impulso de um pensamento. Uma vontade.
- Vamos dançar. – disse já puxando .
Se minha amiga reclamou, eu não ouvi. Minha atenção era dividida entre e meus movimentos na pista de dança, tentando identificar a música que tocava.
Dessa vez não mexi meus braços e pernas de forma descompassada, nem joguei meus cabelos em todas as direções, rindo enquanto tropeçava em meus próprios pés, como fizera minutos atrás. Balançava o corpo no ritmo da música, balançando os quadris e dobrando os joelhos enquanto passava as mãos em meus cabelos de forma lenta. Não me importei em estar bagunçando os fios, apenas continuei o fazendo.
Quando a música aumento o ritmo, aumentei também os movimentos. Joguei os cabelos de um lado para o outro, de forma lenta e sensual, usando minhas mãos como auxilio para aliviar o calor, aproveitando para descer as mãos pelo meu corpo, seios, barriga e cintura, parando nos quadris.
tinha olhos – os olhos verdes que tanto procurei mais cedo - somente para mim, a boca meio aberta, as mãos paradas ao lado do corpo que não ousava se mexer.
Por dentro estava em chamas. Usava sua imagem de garoto problema, postura estática, os cabelos para todos os lados, olhos verdes cheios de promessas, como incentivo para continuar minha dança. A dança era minha, mas estava sendo para ele.
Arrisquei subir as mãos lentamente, levantando parte da blusa que usava. Não me importei que pudessem aparecer as estrias que tinha perto da cintura. Também não me importei com o fato de que as pessoas perto de mim não dançavam no mesmo ritmo que o meu, mas me encaravam em meu próprio show.
também me encarava. Ele parecia estar gostando. Mais do que isso, ele definitivamente estava adorando aquilo.
Poderosa e confortável, dançando por mim, mas também para , eu respirava com dificuldade quando a música acabou., ao meu lado, tinha a boca aberta, mas sem esconder sua surpresa, e muito menos ficar para trás, tinha me acompanhado a cada passo ousado. Pena que não tinha exatamente prestado atenção nos movimentos de minha amiga. Minha atenção estava em outra pessoa.
Sorte que a recíproca era verdadeira.
- O que foi isso? – perguntou enquanto íamos para o bar.
- Não sei. – respondi. – Apenas senti vontade de dançar. – disse simplesmente.
- Foi maravilhoso. – minha amiga respondeu com um sorriso nos lábios. – E sexy. – mudou o tom de voz. – Se até eu fiquei excitada, imagina . Coitado, deve doer até para andar.
Eu ri. Estava leve. Estava satisfeita. Sem pesos de questionamentos ou arrependimentos.
- Estou morrendo de calor. – comentei. E um copo apareceu na minha frente. Virando, me deparei com que tinha o braço estendido, oferecendo-me uma bebida gelada.
- Obrigada. – respondi. Bebi praticamente todo o conteúdo do copo em um só gole. Senti o gelado da cerveja acalmando o vulcão em erupção que meu corpo tinha se tornado.
- Vi você dançando. – comentou casualmente.
- É mesmo?
- É mesmo. – ele respondeu num tom mais grave, o corpo levemente inclinado em minha direção.
- Meu deus, esperem eu sair daqui pelo menos! – disse. – , onde está seu amigo perdedor?
não precisou questionar sobre quem seria o “amigo perdedor” para saber de quem se referia.
- Grint estava ao meu lado enquanto vocês dançavam. Não sei onde ele está agora.
olhou rapidamente para onde estava anteriormente, e com um sorriso satisfeito, como se tivesse encontrado seu alvo, disse, antes de se afastar:
- Tudo bem, podem continuar agora.
saiu rebolando, jogando os cabelos para trás, abrindo caminho entre as pessoas.
riu quando se afastou, e eu não pude me conter. É claro que não perderia a chance de fazer piada do nosso momento de tensão.
Em questão de segundos, senti a segurança de antes passando, a ousadia esvaindo-se. É claro que ainda suava muito, tanto que o cabelo grudava no pescoço, e blusa colava no corpo. Aquilo, definitivamente, não era nada sexy.
- Acho que preciso de um ar fresco. – disse me abanando.
imediatamente virou-se para o bar. Mas em vez de pedir duas cervejas, como imaginei que faria, ou mesmo dois copos de água (vai saber, estava calor, ué), pediu duas doses de tequila.
- Está brincando?
- Não estou brincando.
Ele não estava brincando. Seus olhos sérios me diziam que ele não estava brincando. O maxilar travado me dizia que ele não estava brincando. Seu corpo todo, desde o momento que chegou até mim - logo após minha dança sensual no meio da pista de dança, em meio a vários universitários bêbados e suados que eu não conhecia - me dizia que não, ele não estava brincando naquela noite.
Viramos juntos a tequila. Nem mesmo tive tempo de desfazer a careta que havia feito pelo azedo do limão, e já tinha a mão de estendida para mim.
- Vamos. – ele disse. – Vamos lá para fora.
E então foi nossa vez de abrir caminho entre as pessoas, de mãos dadas – e fogos de artifício explodindo na minha barriga - seguindo para o lado de fora, onde estava tão cheio quanto lá dentro. Será que a Universidade inteira estava naquela festa? E então vi meu ex-professor de Introdução ao Estudo do Direito em meio a uma rodinha de alunos que não conhecia, e percebi que sim, a Universidade inteira estava lá naquela noite.
puxou-me para mais perto dele para desviarmos de um casal, e pude sentir o cheiro do seu perfume cítrico, forte, impregnando nas minhas narinas e, eu sabia, também nos meus pensamentos. Cheiro é foda, porque faz despertar emoções que você nem sabe que existem. Cheiro desperta memórias, desperta desejos. E eu podia dizer, com certeza, que seu cheiro era delicioso, ainda que estivesse meio misturado com o suor.
- Quer jogar? – ele apontou para uma mesa de bilhar, aparentemente esquecida pelas outras pessoas, no meio do salão.
E então me lembrei do nosso primeiro “jogo”, e dos toques. Toques ousados, toques intencionais, provocativos. E então do nosso segundo “jogo”, no qual as intenções e os desejos ainda estavam lá, porém tínhamos que disfarçar, esconder a vontade de estar em qualquer lugar, menos ali, em meio a nossos melhores amigos. E então lembrei do seu cheiro, que ainda estava em minhas narinas, em meus pensamentos, e o desejo do primeiro jogo, somado às sensações que senti durante minha dança desinibida, foi triplicado.
Naquele momento não era jogar o que eu queria.
- Não quero jogar. – eu disse. – Não hoje.
Ele balançou a cabeça. Tinha entendido o que eu havia dito e, mais do que isso, o que não havia dito, mas estava ali oculto entre minhas palavras.
- Também não quero mais jogar.
Era loucura, mas naquele momento eu ofegava, porém não mais pela dança sensual, tinha certeza.
Nossa proximidade me arrepiou a pele. A troca de olhares intensos transformou o rebuliço em meu estômago em uma verdadeira festa de Carnaval.
- Tive uma ideia. – disse em tom baixo, olhando para mim, e apenas para mim. – Sei como podemos resolver isso.
Eu não perguntei o que precisava ser resolvido. Seu tom de voz baixo, rouco, me deixou sem palavras. Ele poderia resolver o que quisesse que eu não iria me opor.
- Vem comigo.
E eu fui. Não vi exatamente o caminho que fizemos, mas quando dei por mim, já subíamos as escadas que nos levaria ao segundo andar. abriu uma porta e entramos em um banheiro. Em segundos notei que, por ser no andar de cima de onde a festa acontecia, ainda estava limpo – e o melhor, desculpado. Pensei se poderíamos usar aquele cômodo. O pensamento durou apenas uma fração de segundo, pois todo e qualquer pensamento que poderia estar tendo sumiu no momento que envolveu minha nuca com uma mão, e minha cintura com a outra.
Sua boca veio sem aviso, a língua quente e exigente. Quando dei por mim, minhas mãos puxavam seus cabelos e arranhavam sua nuca com minhas unhas que não tinha tido tempo de fazer naquela semana.
Eu estava excitada. Muito excitada, principalmente pelo fato de estarmos nos pegando no banheiro de uma festa universitária, na qual nem mesmo me lembrava do porquê ter ido. Provavelmente para ter o prazer de me trancar no banheiro com , pois no momento suas mãos, lua língua, seus suspiros, eram o que ocupavam minha mente.
Podia sentir a umidade da calcinha. Para tentar aliviar o calor, apertava as penas uma na outra. E mesmo sentindo minhas pernas mais moles que gelatina, minha pele mais quente carvão em brasa, meu sangue bombeando forte no coração que batia descompassado, foi quem gemeu. Um gemido baixo, que só serviu para que me beijasse mais profundamente.
Não percebi quando aconteceu, mas num momento tinha suas mãos apertando minha pele por baixo da blusa, no outro estava sentada na pia com entre minhas penas. Pena que não do jeito que queria.
Foi ele quem parou o beijo. Podia sentia minhas bochechas coradas pelo calor, meus lábios inchados pelo beijo forte, minha pele arrepiada pela expectativa.
Estávamos ofegantes. Minha boca formigava, minha barriga estava agitada, minha intimidade pedindo por mais contato. A boca de estava vermelha, parte pela intensidade do beijo, parte pela coloração do batom que eu usava. Imaginei se minha imagem estaria tão sexy quando a dele. Impossível. Nem mesmo os modelos da Calvin Klein chegavam aos pés de naquele momento.
Ele sorria. Foi impossível não acompanhá-lo.
apertou mais o corpo contra o meu. Minhas pernas se fecharam na sua cintura, suas mãos nas minhas pernas. Minha vez de gemer. O contato, era aquele contato que eu queria. Mas ainda era pouco, muito pouco. O sorriso aumentou, de ambos.
- Prometi que resolveria isso. – ele disse, o tom de voz diferente, mexendo comigo. – Então vou cumprir a minha promessa.
Fingi que não sabia do que ele estava falando, dando de ombros e arqueando as sobrancelhas, como se desafiando-o a cumprir sua palavra. A verdade é que não me importava. Ele poderia resolver o que ele quisesse, que eu não me oporia.
voltou a me beijar, seus lábios, dessa vez, mais lentos, intensos, sensuais. Como se estivesse provando meu sabor, conhecendo cada parte minha.
Minhas mãos foram parar em baixo da camiseta que usava. As suas, em baixo da minha saia. Minha calcinha foi puxada para baixo, lentamente. O tecido branco, vergonhosamente molhado, impediu que escondesse sua satisfação pelo seu trabalho até o momento. O pedaço de tecido foi para no chão, e eu não poderia me importar menos.
Cruzando os braços na frente do corpo, puxou a camiseta que usava, dando-me a visão do paraíso. O abdômen definido, os pelos fazendo um caminho pelo triângulo que levava ao que escondia de baixo das calças. Precisei apertar as pernas novamente.
E foi com outro sorriso de deixar as pernas bambas, que ele ajoelhou-se à minha frente.
A próxima sensação que tive não soube descrever. Talvez porque tivesse sido surpresa, excitação, desejo, tudo junto e misturado. Cada movimento seu me fazia pedir por mais, e sabia que alguns desses pedidos saíram em voz alta.
Minhas mãos foram para os seus cabelos, puxando os fios sem piedade, deixando-os mais bagunçados que sempre. Foi inevitável apertar minhas penas em volta do seu rosto, mas segurou cada uma delas e as abriu novamente, dando-lhe livre acesso para sua exploração muitíssimo bem feita.
Por um instante fiquei com receio de que a música do DJ não abafasse meu gemido quando juntou seus dedos à língua. Apertando o mármore da pia com força, e puxando os cabelos de com a outra mão, ao mesmo tempo em que empurrava sua cabeça em minha direção.
Seus olhos eram divertidos, satisfeitos, pregados aos meus. Eu estava agindo exatamente como ele queria, respondendo a seus estímulos imediatamente ao toque da língua, dos dentes, e dos dedos. E ele não poderia estar mais satisfeito consigo mesmo.
Eu ofegava alto enquanto tentava me recompor. ainda segurava minhas penas apertas, colocando-se novamente na posição de antes para que pudesse me beijar após ter me levado ao paraíso.
Queria dizer alguma coisa, qualquer coisa. Desde um agradecimento bem humorado – meu humor estava ótimo, obrigada – até uma frase suja que sabia que só serviria para apimentar mais o momento – novas preliminares, para o que estava por vir. Mas a verdade é que no momento eu só conseguia sorrir satisfeita, leve.
me observava de perto, também ofegante, apreciando cada uma de minhas reações. Seus lábios estavam vermelhos, inchados, úmidos e carregavam um sorriso.
- Acho que podemos ir embora agora.
Podia estar satisfeita, mas longe de não aceitar o que estava por vir em seguida. A melhor parte ainda estava por vir.
- Também acho. – respondi.
Ao descer da bancada, vi pegando minha pobre calcinha – a única minimamente sexy que não tinha jogado fora após meu término com Chris.
Estendi minha mão para pegá-la, mas ele simplesmente guardou em se bolso. Diante da minha surpresa, ele respondeu:
- Vou guardar como uma lembrança de hoje. – disse piscando.
- Vai precisar de um pedaço de pano para se lembrar de hoje? – perguntei com um atrevimento que não sabia de onde vinha.
- Não precisarei de nada para me lembrar da noite de hoje. – ele disse me estendendo a mão, abrindo a porta e me dando passagem. – Mas ainda quero ter algo para guardar como recordação.
Pensei em como a calcinha tinha sido cara, e como nunca mais poderia usá-la com o sutiã que fazia conjunto, mas não poderia me importar menos com a perda da combinação das peças.
Naquele momento, eu só queria ir embora dali, afinal, tinha certeza de que a noite estava apenas começando.
Descemos as escadas de mãos dadas – havia muito significado naquele gesto, muito além de simplesmente dar apoio às minhas pernas bambas – sorrisos nos rostos, e pensamos mais sujos que pano de chão de cozinha.
- Eu já volto. Vou pegar uma água pra gente antes de irmos. – “porque preciso me hidratar depois da nossa brincadeira, assim como você” foram as palavras não ditas em voz alta, porém eu sabia que eram elas que seu olhar queria dizer.
- Ok. Não demore.
E foi com um sorriso fofo e um beijo rápido – um leve tocar de lábios, o completo oposto do que acabamos de fazer – que foi em direção ao bar, trombando nas pessoas, quase correndo. Ri daquilo. Ri por estar feliz, por estar ansiosa, por estar cheia de expectativa, por estar bem.
Dei alguns passos para trás para dar passagem a um grupo de garotas, e acabei esbarrando em alguém.
- Desculpe. – disse me virando. E qual não foi minha surpresa ao encontrar um par de olhos tão azuis quanto um céu sem nuvens, esbanjando seu sorriso capaz de derreter as forças nas pernas de qualquer mulher?
- Olha só, acabei te encontrando. – ele comentou. – Imaginei quando aconteceria.
- Veja só se não é meu guarda costas particular, que acha que sou uma criminosa. – brinquei com .
Fui recompensada com rindo. Puta merda, o clima estava esquentando?
- É estranho ver você aqui. – disse mudando meus pensamentos de rumo (meus pensamentos controlados por meus hormônios estavam no ápice!) – Quer dizer, não parece ser o tipo de lugar que encontraria um policial federal.
Especialmente um policial federal que fica extremamente gostoso vestido todo de preto, com o uniforme da policia federal, colete a prova de balas e de arma no coldre.
Mas que droga, o ar condicionado daquele lugar estava desligado?!
riu de novo.
Imediatamente olhei para o bar, procurando por . Minha vontade de terminarmos o que começamos mais forte do que nunca no momento.
- Você e vieram juntos? – perguntou depois de acompanhar meu olhar.
- Sim... – respondi. – Como você sabe? - meu deus! A policia federal estaria mesmo seguindo meus passos?! - Ah, claro que você o conhece. – bati na testa no instante seguinte que fiz a pergunta. – Você o conhece porque está sempre na Rassi-Portella, porque você está investigando a família do meu ex-namorado, coisa e tal. – brinquei.
- Aposto que ficaram decepcionados quando você não apresentou nenhuma prova circunstancial.
- Como? – franzi a testa, pensando se teria entendido certo.
- Você sabe, quando entrou para a Rassi-Portella.
- Que tipo de prova eu teria? – perguntei fazendo careta. Onde ele estava querendo chegar?
- Provavelmente a mesma que buscávamos quando fomos até o seu apartamento. E então descobrimos que essa prova não existia. – ele disse maroto, como se estivesse fazendo uma brincadeira. Mas naquela brincadeira eu não entrei. Não naquele momento. Não com aquele assunto. Não pra onde aquela conversa estava indo.
Minha confusão foi o bastante para fazer meu cérebro até então dominado por meus hormônios sexuais começar a trabalhar em hipóteses. Hipóteses não sexuais, digo.
- Espera... – e então minha hipótese foi interrompida quando chegou. Chegou e fechou a cara imediatamente ao ver . Este, por outro lado, tinha um sorriso fechado no rosto ao cumprimentar .
- Boa noite, .
- Boa noite. – e virando-se para mim, perguntou – Vamos, ?
- Ainda não. – e virando-me de frente para para que não perdesse nem por um segundo sua expressão facial, perguntei – Você conhece ?
não respondeu de imediato, e aquilo transformou minha pulga atrás da orelha em um verdadeiro circo de pulgas.
- Claro que sim. – foi quem respondeu. – está envolvido nas investigações, na medida em que a Rassi-Portella está. Quase sempre é ele o porta voz da Rassi-Portella, especialmente quando precisa cuidar da papelada que Lucio Muniz não tem tempo para cuidar.
Mas é o quê?
sabia, a todo o momento, a confusão em que minha vida estava metida? Sabia de Chris, da porra da investigação que a policia estava fazendo, inclusive que eu era parte dessa investigação?
- Aliás, foi ideia de trazê-la para o lado da Rassi-Portella. Infelizmente não adiantou de muita coisa. – continuou falando sem ter a mínima ideia do turbilhão de emoções que eu sentia no momento. Sem ter ideia do montante de xingamentos que estaria gritando se não estivéssemos numa festa universitária cheia de gente bêbada demais para reparar na nossa conversa incomum. – Quer dizer, de certa forma é um ponto positivo não ter ideia acerca da organização criminosa que investigamos, pois isso comprova que não é uma criminosa internacional.
E então minha cabeça começou a girar. As cervejas ameaçaram sair. Me estômago era um misto de embrulho e gelo. Meu peito doía, tamanha a velocidade com que meu coração batia.
Mil ideias. Mil teorias. Todas convergindo para o momento de agora.
As coisas começaram a se encaixar, e nunca imaginei que não gostaria do resultado. Minha contratação fora de época, os olhares que recebia dos outros estagiários, minha súbita transferência pra a equipe de Lucio Muniz... A aproximação repentina de e suas tentativas incansáveis de sermos amigos, de sermos algo mais, de ter minha confiança conquistada...
Aquilo tudo estaria interligado? As palavras, os gestos, os toques... Todo meu “relacionamento” com seria algo além do que acreditei ser? Seria possível que havia sido filho da puta a esse ponto?
- ... - ouvi me chamar. Sua voz era baixa, distante. Ou talvez fosse eu quem não estivesse com a mente ali no momento. Estava ocupada demais juntando os pontos e chegando na pior conclusão que poderia ter.
- Minha turma está me chamando. – disse. – Boa noite, pessoal. A gente se vê.
E então foi embora.
deu um passo para o lado. Seus olhos buscaram os meus, suas mãos, entretanto, ficaram paradas no ar. Esperto, muito esperto. Pois se ele tentasse me tocar agora, não responderia por mim.
O calor provindo da excitação estava passando. No lugar dele veio a raiva, pura e forte. Crua e simples. Um sentimento que me dominou por completo, e que tenho certeza que dominou o tom da minha voz também, pois não a reconhecia quando falei:
- Mas que merda...
- ...
- Que merda foi essa?
- ... – tinha olhos arregalados, a boca entreaberta. Suas mãos estavam com as palmas viradas para mim, como se pedissem calma. Aquilo só serviu para me irritar mais. Uma linha de suor descia pela sua têmpora, e eu sabia que ele suava frio. Era medo, era receio. estava sem saída.
- Você vai me contar tudo. – eu disse. – Tudo o que sabe. E vai ser agora.


Capítulo 16

- ... Calma.
- Calma é o caralho! –gritei chamando a atenção das pessoas em volta. – Calma é o que eu tive desde que a porra da polícia federal bateu na minha porta. Eu quero respostas, e você parece ter todas elas. – apontei o dedo em seu peito.
- Eu não tenho todas as respostas...
- Mas tem as que eu preciso, e no momento estou me contentando com elas. – o interrompi. – Pode começar a falar.
Cruzei os braços, fechei a expressão, apertei os dentes. , por outro lado, passou a mão nos cabelos, num gesto de desconforto, de incerteza. Seus cabelos que antes já estavam muito bagunçados pelo que acabamos de fazer – nem mesmo as lembranças quentes conseguiram amenizar meu momento de raiva pura – ficaram com os fios apontados para todos os lados.
- ... – ele disse calmo.
- é o meu nome, então pare de repetir isso! – gritei de novo, chamando mais atenção. Dessa vez o grupo de meninas que estava próximo de nós se afastou, imagino que temendo serem vítimas de uma briga física. E bem, não podia culpa-las. No momento, eu estava pronta pra uma briga física contra . – Eu quero informações e você as tem.
- , não aqui. – ele disse baixo. Imediatamente olhei para o grupo de meninas que, mesmo a distância, tinha a atenção focada na gente, prontas para terem uma fofoca a que compartilhar na faculdade na segunda feira.
- Muito bem, onde então? – perguntei. – Lá fora? Ou quer ir para algum quarto?
Até mesmo eu senti a acidez da ironia das minhas palavras. O duplo sentido era gritante. Não, eu não tinha intenção de usar o quarto para nada além de conversar. Conversa essa que não esperava ter com , porque, simplesmente, não eu não esperava que ele soubesse de alguma coisa.
Mas ele sabia. Ele sabia de muita coisa que estava acontecendo na minha vida, coisas que eu mesma não tinha ideia. E seu nervosismo só comprovava isso.
- Vamos apenas sair daqui.
pegou minha mão. Cogitei puxá-la de volta, mas a verdade é que também queria sair logo daquele ambiente com música alta de demais que me impedia de pensar direito.
Não havia muitos lugares privativos ali. Obviamente que quem tinha criatividade de sobra sabia encontra-los, como foi nosso caso mais cedo, trancados em um banheiro no segundo andar. O que não era o caso no momento. Eu não me importava se não tínhamos um lugar privativo, e parecia apenas querer sair do meio da multidão.
Fomos a um lugar mais afastado da pista de dança, onde a luz não chegava, assim como a música alta. Poucas pessoas se encontravam por ali, algumas jogadas no chão, outras soltando suspiros e grunhidos baixinhos. Claramente alguém estava usando aquele espaço escondido para se divertir, enquanto eu tentava entender o porquê do cara de quem eu gostava – porque sim, eu gostava daquele maldito, e essa era uma realidade que já me acometia há alguns dias, ainda que não tivesse me dado a chance de admiti-la antes – sabia coisas da minha vida que nem mesmo eu sabia.
- Pode começar a falar. – eu disse puxando minha mão da sua.
passou os dedos pelos cabelos, num claro gesto de incerteza, talvez desespero. Tinha certeza que não estava em desespero simplesmente porque descobri um “segredo seu” (que, ironicamente, dizia respeito a mim), mas porque esse “segredo” não podia ser descoberto por mim.
- Muito bem. – ele começou – Primeiramente, quero que saiba que nunca imaginei que as coisas chegariam a esse ponto.
- A esse ponto? Que ponto?
Ele fez movimentos com a mão, apontando para si e então para mim.
- Ah, esse ponto. Quer dizer que não esperava se encontrar entre minhas penas numa festa da faculdade? – perguntei irônica.
- Bem, é mais ou menos isso.
Não acreditei no que ouvi. Quis bater na cara dele. Não achava que poderia ficar tão ofendida com um comentário desses.
, em resposta aos meus olhos assassinos, arregalou os malditos olhos verdes.
- Não foi isso que quis dizer! Apenas que, no começo, quando ainda não sabia quem você era, não imaginei que as coisas chegariam onde chegaram.
Estreitei os olhos, apertando o maxilar.
- Você está piorando as coisas. – disse com os dentes cerrados.
- Eu sei, desculpe. – umedeceu os lábios, e eu precisei passar a língua nos meus. Senti uma fisgada na boca do estômago, especialmente quando ele fechou os olhos e passou as mãos nos cabelos. Joguei pra bem longe os pensamentos que estavam começando a se formar na minha mente. Foco agora, !
- Comece pelo começo e talvez eu não quebre a sua cara aqui mesmo e jogo seu cadáver na piscina. – eu disse.
- Muito bem. – ele concordou balançando a cabeça. – Tudo começou há mais ou menos seis meses, quando a polícia federal bateu na Rassi-Portella, no final da tarde, e quando poucas pessoas ainda estavam no escritório. Sei disso porque eu era uma das pessoas que trabalhavam até tarde com Dr. Lucio Muniz. A polícia estava atrás de um dos sócios da advocacia. Tinham suspeitas de que ele poderia fazer parte de uma organização criminosa que trabalhava no tráfico de drogas. – ele disse gesticulando com as mãos. – Pelo que entendi, a policia já investigava essa organização há muito tempo, e de alguma forma chegaram ao nome desse sócio. Não sei exatamente como fizeram isso, mas sabiam que poderiam encontrar esse advogado na Rassi-Portella. Bem, esse sócio não estava no escritório, ele nunca ficava até tão tarde.
Ele me olhava com atenção, enquanto eu nem mesmo piscava. Não poderia perder uma só palavra.
- Muito bem. Continue.
- Foi quando Lucio Muniz se envolveu no caso. Quer dizer, ele literalmente dá o sangue pela advocacia, e não poderia deixar as coisas ficarem como estavam. Então acabou se inteirando do caso, se envolvendo pessoalmente. Sei que quando estudante Lucio Muniz fez estágio no Ministério Público, e acabou ficando muito próximo do promotor de justiça que está acompanhando o caso juntamente com a policia feral, então acabou sendo fácil para ele ser parte da operação, especialmente depois de oferecer irrestrito apoio nas investigações, desde, é claro, que o nome da Rassi-Portella ficasse de fora da mídia, e que, uma vez que a prisão em flagrante do sócio acontecesse, essa fosse bem longe das dependência do escritório.
Até mesmo Lucio Muniz, o Harvey Specter da vida real, estava mais inteirado do que eu sobre os supostos crimes que a família do meu ex namorado cometeu.
- Lucio Muniz usou sua senha pessoal para acessar o computador do sócio procurado, dando acesso irrestrito à polícia. Não sei o que aconteceu depois disso, apenas que, alguns dias depois, ele foi preso e os boatos que deram na Rassi-Portella foi que ele teria tirado férias por tempo indeterminado, ficando sua posição vaga no escritório para a contratação de um novo sócio. Não foi difícil ocupar sua vaga, e logo a notícia de sua saída já não era mais comentada pelos corredores.Alguns dias depois os estagiários de sua antiga equipe foram dispensados, e sei que pelo menos dois deles vendiam drogas na faculdade, principalmente nas festas. Também não sei o que aconteceu com eles, se foram interrogados e liberados, ou o quê.
Ele deu de ombros como se realmente não se importasse. Colocou as mãos nos bolsos da calça, balançou a cabeça mais uma vez, como se pensasse como continuar.
- De qualquer forma, como acompanhei o caso, Lucio Muniz, juntamente com a diretora chefe da Rassi-Portella, que você provavelmente não conhece, pois ela é muito ocupada, e os estagiários só veem seu rosto se as coisas estão muito feias para o seu lado, me chamaram para conversar.
Me aproximei mais dele, sabendo que estava chegando a parte sobre seu envolvimento no caso. Não o interrompi. Deixei que contasse tudo o que tinha para contar, me aproveitando de cada palavra.
- Queriam discrição de minha parte, é claro. E bem, também queriam minha ajuda.
- Sua ajuda com o quê?
- Com a fofoca. Precisavam que eu mantivesse meus ouvidos alertas, caso ouvisse alguma conversa estranha pelos corredores. O medo deles era que tivesse mais alguém no escritório envolvido nessa merda.
- Muito bem, até aí eu já sabia, ainda que não com detalhes, mas não há nada de novo. – eu disse. A verdade é que já sabia do envolvimento da Rassi-Portella, ainda que não soubesse como ou o porquê do envolvimento. – Onde eu entro nessa história toda? – porque esse sim era o ponto crucial.
suspirou antes de responder.
- Você sabe que isso acabou se tornando um caso meio pessoal para o escritório. Quer dizer, todo mundo ali dentro poderia sair prejudicado. – e suspirando mais uma vez, disse – Sinto muito ter mentido. Eu não queria que as coisas tivessem chegado a esse ponto.
Se eu não estivesse tão confusa com o misto de emoções e sensações que sentia naquele momento – excitação, raiva, ansiedade – com certeza teria ficado caidinha pelo olhar brilhante que me lançou. Seus olhos pareciam tão sinceros, e tão arrependidos, que naquele momento eu quase quis abraça-lo e ir embora dali para terminarmos o que havíamos começado. Quase.
- Conversamos sobre isso depois. – eu disse. – Você ainda tem coisas para me contar.
E só para me garantir – digo, garantir que não iria pular nele a qualquer momento (se para bater na sua cara, ou enchê-la de beijos eu ainda não sabia) – dei dois passos para trás.
- A verdade é que, como já disse, eu nem mesmo sabia quem era você até que ouvi seu nome ser chamado na aula de Direito Penal. E então eu soube o que tinha que fazer.
- O que você tinha que fazer? – perguntei com o coração batendo rápido. Percebi que a expectativa por aquela resposta me deixava com medo.
Ele respirou fundo, e deu um passo para frente. E então gesticulando com as mãos, como se tentando me explicar algo que nem mesmo suas palavras conseguiam, ele disse:
- Novos estagiários não trabalham em casos grandes, e são poucos os que consegue entrar para a equipe do Dr. Muniz. Digo, ele é muito exigente. Mas eu acreditava que você poderia nos ajudar no caso, fornecendo informações preciosas, caso soubesse de alguma coisa.
Foi impossível não revirar os olhos. Fechei os olhos com força, tendo minhas suspeitas confirmadas.
deu um passo à frente, com a voz rápida, desesperado para conseguir se explicar.
- Quer dizer, o Dr. Muniz, como a polícia, não trabalha com a hipótese da família Albuquerque ser inocente, mas com a certeza de serem culpados. Você deve admitir que trocar aparelhos dentários não dá tanto dinheiro assim, pelo menos não o bastante para abrir uma conta na Suíça e não declarar no imposto de renda. Esse caso acabou se tornando algo pessoal para o escritório. Nosso contador foi mandado embora depois de ser interrogado pela polícia federal, porque é claro que todos os sócios acabaram sendo interrogados no final. – ele continuou falando, dessa vez muito rápido, como se estivesse contando uma fofoca muito bombástica. – Sei que o antigo contador ficou preso por um período, mas foi solto logo em seguida. Ficamos sabendo, recentemente, que ele foi encontrado morto em sua casa. Não sabemos se foi suicídio, como a mídia informou, ou se foi homicídio. Particularmente, acredito na segunda hipótese. Dr. Muniz não me conta muita coisa, não quer que eu me envolva mais do que já estou envolvido, se é que isso é possível.
Processei o que ele disse. A parte da suspeita de homicídio foi colocada de lado no momento. Precisava que ele terminasse sua história.
- Então...
- Então você me conheceu. – eu disse.
- Sim. E eu me aproximei de você. – seu tom de voz havia mudado de ansioso para cauteloso. Seus olhos, entretanto, me olhavam com atenção, buscando captar qualquer emoção que eu pudesse transparecer, qualquer reação que pudesse ter.
- Doutor Muniz pediu isso?
- Sim. Ele queria que ficássemos próximos o bastante para que eu pudesse conhecê-la, saber se escondia alguma coisa.
- Que decepção para vocês, não é mesmo? – ri irônica rolando os olhos.
Ele respirou fundo novamente.
- Bem, não posso negar que Dr. Muniz ficou decepcionado. Você poderia ser uma fonte de informações. Mas eu não. – ele deu outro passo, aproximando-se de mim. – Fiquei aliviado em saber que você não tinha nada a ver com isso, nada a ver com seu ex-namorado. Quer dizer... Você deve saber que meus sentimentos por você vão muito além dos nossos jogos.
Aquilo me pegou de surpresa. Se não estivesse tão decepcionada com o que ouvia, provavelmente meu coração derreteria naquele momento. Bem, quase aconteceu.
Quase.
- Não sei de nada.
- ... – ele deu o último passo que nos separava, e o perfume, o calor, as lembranças de alguns minutos atrás voltaram com tudo. Eu me entregaria a ele, sem pensar duas vezes, se não estivesse com uma frase presa na garganta desde que ele começou a falar. Aquela frase pequenininha que piscava feito letreiro de estrada, que saltava dentre meus pensamentos bagunçados.
- Você me usou.
tinha a mão parada no ar, a caminho dos meus cabelos. Segurou a respiração, os olhos travados nos meus que, eu tinha certeza, poderiam me trair a qualquer momento e soltar as lágrimas contidas.
- Não...
- Sim, me usou. Não tente dar outro nome ao que você fez. – dei um passo para trás, e então dei mais um.
- Talvez tivesse outras intenções ao me aproximar de você, mas essas intenções mudaram completamente no instante em que conversei com você pela primeira vez. Tudo o que conseguiu desde então na Rassi-Portela foi por inteiro mérito seu.
- Isso não é o bastante. – disse balançando a cabeça. – Você é igual a Chris. Porque como ele, você só se aproximou de mim para tentar tirar alguma vantagem.
- Chris é...
- Um falso aproveitador que ainda preciso tirar coisas a limpo, é verdade, mas que fez uso da minha patética mania de confiar nas pessoas para conseguir o que queria. – eu disse não deixando que ele terminasse de falar. - Então sim, vocês são iguais.
ainda tentou falar comigo, tentou segurar meu braço, pegar minha mão, chamar pelo meu nome, mas a nossa conversa tinha acabado.
- A não ser que tenha mais alguma informação que queira dividir comigo, você pode ir embora e me deixar sozinha, porque isso é tudo o que eu preciso no momento.
ainda insistiu, dizendo que estava sendo muito dura com ele, e que não estava vendo o seu lado. Bem, isso era verdade. Não estava interessada com o lado dele, apenas com a canalhice que ele fez.
- Muito bem, se você não, saio eu. – eu disse me virando para ir embora. E antes de me afastar, eu disse – Não me siga. Pelo me respeite nesse pedido.
Enquanto seguia para fora, me dividindo entre chamar um táxi e mandar uma mensagem a , percebi que não me seguiu.
Na mensagem para minha amiga, apenas disse que estava indo embora, pois não estava me sentindo bem, estava com dor de cabeça, provavelmente era apenas TPM, e que já estava indo para casa.
Não queria preocupar minha amiga que, com certeza, estava curtindo sua noite sem precisar se preocupar com problemas como a polícia federal, seu ex-namorado idiota, o tráfico de drogas, e seu novo paquera que, na verdade, só estava interessado em obter informações que ela não tinha. A noite de não precisava ser arruinada como a minha tinha sido.

Ainda que já tivesse rolado de um lado para o outro na cama, tinha certeza que não conseguiria dormir tão cedo. Pensando nas revelações de , minha mente se dividia entre excitação - por, finalmente, ter conseguido completar mais uma peça do quebra da cabeça da bagunça que minha vida tinha virado – e decepção, pura e simples.
Decepção por não ter conseguido entrar na Rassi-Portella por conta própria – tudo fazia sentido agora! Decepção pela forma com que se aproximou de mim, se tornou meu amigo, sempre muito interessado na minha vida, prestativo, sempre bem humorado e me presenteando com um sorriso encantador, não economizando nos olhares sedutores.
Tudo para conseguir informar que eu não tinha e que, ironicamente, eram as mesmas que eu tentava descobrir.
E então suas últimas palavras. Sentimentos, ele disse. Sentimentos que sentia por mim. A verdade é que essa palavrinha era muito perigosa, e teve um efeito em mim que eu mesma não esperava.
Bem, eu não sabia no que acreditar. Queria, de verdade, acreditar que aquilo era verdade, que seus sentimentos eram verdade, porque aquilo significaria que eu não era a única envolvida ali.
Envolvida até demais, se quer saber. Talvez tenha demorado um pouco – muito, na verdade – para perceber.
Infelizmente minha raiva no momento era predominante e unida à minha decepção, não permitia que meus pensamentos se voltassem para o meu lado romântico. Agora tudo o que queria era poder dormir e acordar com uma solução, com meus sentimentos definidos, e já sabendo o que fazer em seguida.
E sabendo que isso não aconteceria, porque as coisas nunca são tão fáceis, me levantei indo até a bancada, acendendo uma luminária e com um caderninho em mãos.
Anotações. Anotações talvez fosse um caminho para a solução, para me organizar, para me encontrar (ou pelo menos deixar de estar tão perdida).
No topo da folha escrevi “Polícia Federal”, e puxando uma flecha, escrevi “investigação – organização criminosa (?) – tráfico de drogas (??) ex-namorado e família traficante (????).
Logo em baixo fiz um novo tópico: “família Albuquerque – suspeita – praticamente culpada (?)”. Ok.
“Chris e reaproximação repentina – sabia que eu estava trabalhando na Rassi-Portella e do meu envolvimento com a polícia federal (?)”. Ok.
“Minha contratação fora de época + transferência para a equipe do Harvey Specter da vida real”. Ok.
Bitencourt” – esse ponto fiz questão de escrever em vermelho, vermelho como meus olhos cheios de raiva. Não pude colocar “ok” ao final, pois ainda tinha um enorme ponto de interrogação em relação a . Afinal agora sabia a real intenção por trás de sua aproximação, porém não queria acreditar que era só isso. Resolvi deixa-lo de lado, por enquanto.
Por mais que meu coração apertasse por pensar assim, teria que ficar em segundo plano, pelo menos enquanto resolvia outras questões pendentes. Questões essas que só aumentaram depois daquela noite. Questões essas que eu farei questão de responder uma por uma.


Continua...



Nota da Autora: Mil perdões pela demora. Em minha defesa, a faculdade está me consumindo e não vou estou conseguindo mais escrever como antes. Por outro lado, acabei entrando em 22382896329 ficstapes e projetos do FFOBS, os quais dei prioridade. Mas, como já dizia o famoso filósofo Chapolin Colorado, “não priemoscrânico!”, porque todos os próximos capítulos estão estruturados e já planejados, então sim, eu sei como a fanfic vai terminar e posso afirmar que MUITA coisa ainda vai acontecer, HAHHAHAHA
Me digaaaaaam, o que acharam dessa revelação? Já desconfiavam? Deixem suas teorias na caixinha de comentários aqui em baixo! <3
Mil beijos
Angel



Outras Fanfics:
Babá Temporária (Outros – Finalizadas)
Welcome To a New World (Mclfy – Shortfics)
Elemental (The Originals –Shortfics)

FICSTAPES:
10. What If I (Ficstape #036 – Meghan Trainor: Title)
06. Every Road (Ficstape #58 – The Maine – Black & White)

MUSIC VIDEO:
MV: Change (Mv Kpop - Shortfic)
MV: Run & Run (Mv Kpop - Shortfic)
MV: Hola Hola (Mv Kpop - Shortfic)

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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