Última atualização: 06/11/2017

Prefácio

"Deitada em seus braços, os olhos dela brilharam pela última vez.
Ele sorriu.
— Querida — disse —, não vá."


Prólogo

Ele estava no quarto quando Hope abriu os olhos. Tirando o rádio à pilha sobre o criado-mudo ao lado da cama produzindo um chiado que deveria ser Every Breath You Take em sua versão mais irônica, não havia som algum no cômodo. Por isso o demônio cantarolava a música dentro de sua mente, evitando deixar qualquer ruído sair pelos seus lábios. Ele não queria atrapalhar, mesmo que não se importasse. Eram as regras.
Por um instante, assim que ela acordou, um traço de esperança brilhou nas pupilas dilatadas de Hope, mas, depois, tudo o que restou foi decepção. O demônio nunca tinha visto reação mais genuína: na maioria das vezes, eles se sentiam aliviados por terem falhado. Ela queria mesmo morrer.

Every breath you take

Hope sentou na cama, levando as mãos à cabeça. Ao seu redor, os vidros vazios de remédio cobriam toda a colcha vinho sobre a qual deitava. Ela deveria ter tentado os pulsos, pensou o demônio, mas não disse nada. Queria que Hope o notasse sozinha. Ele gostava de ver o medo nos olhos humanos quando percebiam a sua presença.
Mas Hope demorou, e ele ficou cansado de esperar. Então piscou os olhos sem vida e deu a eles o aspecto vermelho que chamaria a atenção dela. No momento em que ele fez isso, Hope sentiu frio, abraçando o próprio corpo. Então viu o brilho vermelho e gritou.

- O que... Quem é vo...

Every move you make

O demônio abanou as mãos. Não queria ouvi-la falar, principalmente porque a voz da garota estava rouca. Ela ficara muito tempo, apagada.

- Sou o seu demônio. - disse - É o que ganha quando tenta tirar a própria vida.

Hope pareceu confusa.

- Meu o quê?
- Demônio. De-mô-nio. Demônio. δαιμόν. Daimon. Daemonium. Ou o que mais tiver na internet.

Hope respirava com dificuldade. Do lado de fora começou a chover, e trovões iluminaram o quarto. Apesar do caos da tempestade, os olhos do rapaz sentado na poltrona continuaram sendo o ponto fixo para onde a menina lançava a sua atenção. Eles eram vermelhos e brilhavam como lanternas. Se ele era um demônio, ela não sabia. Mas sentia medo. Tanto medo que poderia morrer ali mesmo.

Every bond you break

- E o que você está fazendo aqui? - perguntou Hope com cuidado.

Ele sorriu.

- Só cumpro ordens.
- De quem?
- De quem você acha?

Hope arregalou os olhos, e ele piscou para ela. Poderia ser real? Não. Eram apenas os remédios mexendo com a sua cabeça. Ela havia tomado vários deles, claro, e não faria bem ao seu cérebro. Hope ao menos sabia como ainda estava viva. Vira na internet que aquilo resolveria os seus problemas. Algo tinha dado errado. Agora estava ficando louca.
A garota fechou os olhos, apertando-os embaixo das pálpebras. Esperou que aquilo o fizesse sumir como uma nuvem de fumaça encontrando um ventilador. Enquanto ficou ali, imersa no escuro, ouviu a respiração do demônio eclodir pelo quarto. Ela era calma e pesada, como se ele fizesse de propósito, e a presença parecia constante como um toque. Quando Hope abriu os olhos, porém, o rapaz não estava mais lá. As luzes vermelhas haviam desaparecido, e ela se sentiu aliviada.

Every step you take

Pensando em como tudo fora uma alucinação, Hope levantou e limpou a sujeira sobre a sua cama. Então tomou um banho e deitou para voltar a dormir, daquela vez com a intenção de acordar. Não estava animada, muito menos feliz; queria que seu plano tivesse corrido bem. Mas, por outro lado, não tentaria de novo tão cedo, pois não era teimosa àquele nível. Poderia pensar naquilo pela manhã, igual vinha pensando há semanas. E então, quando conseguisse mais remédios, os guardaria embaixo do travesseiro e os sentiria todas as noites até que tivesse coragem de novo.
Estava escuro, e a tempestade não parecia querer cessar. De vez em quando os trovões iluminavam o quarto e ela tinha medo de ver o demônio em algum canto do cômodo sombrio, então fechou os olhos para fugir do medo. Quando fez isso, o som de uma respiração atingiu seus ouvidos como um sussurro frio, e ela percebeu que não estava sozinha.
Nunca mais estaria.

I'll be watching you


1 - Eu Mesma Quebro a Sua Cara

Não havia sensação pior que a do abraço frio do demônio, que parecia tocá-la mesmo quando estava com as duas mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans.
Ele era como uma presença constante.
O próprio inferno.
Hope odiava aquilo, mas já havia se acostumado com o incômodo. Nada na sua vida era agradável, e ele não seria uma exceção. Vinha lidando com seu demônio pessoal sozinha, sem nenhuma ajuda. Mesmo que quisesse, ninguém além de Hope via a criatura. Apenas ela. Como uma tortura imposta para fazê-la enlouquecer aos poucos, sem poder pedir socorro.

- Hope , está ouvindo?!

A voz era de Brooke Simons, sua melhor amiga. Ela a olhava fixamente por baixo dos óculos escuros de gatinho e esperava a resposta para uma pergunta totalmente ignorada por Hope, que ainda acordava aos poucos dos pensamentos.

- Ela nunca escuta nada - reclamou Barth, o garoto de chapéu engraçado sentado ao lado das duas. Era o melhor amigo delas.
- Hope , você não pode ser esquisita e surda. - alertou Brooke - Há limites até para os perdedores!

O demônio riu às costas de Hope, mas ela não achou graça. Barth, como sempre, colocou um pirulito na boca e conteve um sorriso malicioso. Ele adorava as provocações de Brooke, principalmente quando a garota estava diminuindo alguém. Hope percebeu que aquilo o fazia se sentir melhor.

- Você pode respondê-la - instigou o demônio, em um sussurro - Brooke não é melhor que você. Por que não mostra isso a ela?

Era irritante que só Hope pudesse vê-lo e ouvi-lo, porque ela queria responder a todas aquelas frases soltas que ele gostava de lançar. Odiava o modo como o demônio a achava manipulável, como se Hope fosse alguma garotinha sem cérebro esperando ordens. O que podia fazer - e o que sempre fazia - era ignorar tudo o que ele dizia mesmo que cada palavra ficasse presa em sua mente pelo resto da semana.

- É hora do show - comentou Brooke. Ela se apoiou nos cotovelos, deitando sobre o gramado recém-cortado da escola, e deixou as longas mechas de seus cabelos azuis caírem ao redor dos seios. Queria chamar atenção.

Hope lançou o olhar para o fim do caminho de tijolos, vendo que a amiga se referia à chegada de um carro em especial, qual ela sempre gostava de observar. Na verdade, todos gostavam de observar. Era o mais perto de uma TV que os adolescentes daquela cidade chegavam. Ninguém ali realmente tinha dinheiro para aquelas coisas. Os mais abastados gastavam suas mesadas com rádios a pilhas e derivados, assim podiam ouvir música no gramado da escola e fingir que eram mais descolados que todo mundo.
Inclusive, eles faziam aquilo, naquele momento. A alguns metros de Hope, You Make My Dreams Come True soava em um volume não tão alto, mas ainda assim irritante. Principalmente com o demônio às suas costas assoviando no ritmo da guitarra. não gostava de quando ele ficava muito feliz, não podia ser um bom sinal. Podia?

- Brooke, tente não constranger ninguém dessa vez - pediu Barth.

Simons riu, mas não desviou o olhar do carro negro repleto de garotos. Ela adorava os caras da banda, principalmente o vocalista, Thomás. Ele tinha os cabelos loiros e longos iguais aos do integrante de alguma das várias bandas preferidas dela. Brooke mal podia se conter toda vez que o via. Quando ele estava com os amigos, então, Simons o julgava irresistível! Havia algo nele que a lembrava de um astro do Rock, mesmo que o garoto só tocasse dentro da escola e ainda fizesse isso muito mal.

- Olha só aqueles músculos - comentou, mordendo o lábio inferior. Havia quatro garotos, mas ela só olhava um. Simons sempre foi muito decidida.

Quando a banda se aproximou ainda mais, Hope percebeu que havia dois novos integrantes. Alunos novos, com certeza, e provavelmente antigos conhecidos, porque ninguém entrava no grupo tão fácil, principalmente calouros. Era como ganhar na loteria, porque eles sabiam que a partir do momento em que tocassem guitarra e usassem jaquetas de couro, garotas como Brooke estariam sobre eles o tempo todo. Ou pelo menos era isso que Hope imaginava quando pensava nos motivos de alguém querer tocar na banda da escola. Não era como se eles ganhassem dinheiro ou reconhecimento por aquilo, era? Talvez fosse.

- É um hobby, - resmungou o demônio, ele sempre sabia o que ela estava pensando. - Não que você saiba o que isso signifique. O seu hobby é tomar comprimidos e tentar morrer, então não julgue os outros.

Hope o ignorou, e Brooke lançou o seu melhor olhar de flerte para o vocalista - que não correspondeu. Aquilo foi estranho porque, nas últimas semanas, eles não paravam com aqueles joguinhos. Foi até mesmo constrangedor quando Thomás passou pelo trio deitado sobre o gramado e ignorou cada um deles. Nem os amigos ao seu redor fizeram questão de notá-los, todos parecendo envoltos demais em suas bolhas egocêntricas para prestar atenção no mundo girando ao redor de seus instrumentos musicais. Um deles chegava a ignorar os próprios colegas, fumando um cigarro e andando com o olhar preso no chão. Havia uma guitarra nas suas costas e uma tatuagem negra subindo pelo seu pescoço. Hope tentou ver o que era, mas o garoto ficou muito distante e a imagem distorcida.

- Virou flerte por telepatia? - perguntou Barth, quebrando o silêncio - Porque eu não o vi responder.

Brooke, um pouco ofendida, levantou e endireitou a postura, retirando os óculos. Thomás se afastava com o resto da banda sem nem olhar para trás. Simons pareceu achar aquilo uma afronta.

- Isso é um absurdo, você não acha? - virou para Hope - Ninguém me ignora assim.
- O Bath ignora - riu, lembrando de como os três se conheceram: em um flerte.

Brooke Simons queria arrumar uma desculpa para falar com Barth, então pediu para que Hope trocasse de lugar com ela nas aulas de matemática. Eles nunca namoraram porque viraram amigos antes de qualquer outra coisa acontecer, mas a piada sobre Brooke ter sido rejeitada por Barth nunca morria.

- Ele é um otário. Não faz ideia do mulherão que está perdendo - piscou.

Os dois riram, se levantaram e puxaram Hope, que ficaria ali o dia inteiro se não fosse arrastada pelos amigos para dentro da escola. A menina não tinha a mínima vontade de entrar naquele lugar, por mais que lhe dissessem que seria legal. Os melhores anos da sua vida, segundo a sua mãe.

- É isso, galera. As férias de verão acabaram - Barth lamentou com um tom nostálgico.

A construção da escola, gótica e sem vida, tampava o sol da manhã e os deixava na sombra. De repente, tudo ficou frio. Hope percebeu que o demônio fumava. Mesmo que não tivesse ligação, ela sempre achava que era tudo por causa dele. E o demônio sabia. Tanto que lhe mostrou o dedo do meio e a mandou para um lugar nada educado:

- Eu não sou Deus, garota maluca! Não adianta me olhar assim, porque eu não controlo o tempo! Nem tudo é culpa minha.

A reclamação dele andou pelo ar em forma de fumaça, pairando ao redor de Hope com cheiro de nicotina. Brooke fungou ao seu lado, reconhecendo o cheiro. Olhou para os lados à procura de quem estava fumando, mas não encontrou. A decepção foi visível em seu rosto. Ela iria pedir o primeiro cigarro do dia.
Do lado de fora, ouviram o sinal tocar mais forte dentro da escola. Era o último aviso, o alerta para os atrasados e os preguiçosos que ainda estavam enrolando para passar pelas portas nada acolhedoras.
Nenhum deles parecia animado com aquele ano. Todos queriam estar em casa, no lago ou até mesmo naquele parque sem graça no fim da rua.

- Esse lugar é um inferno - comentou Brooke, desanimada. Ela ainda estava decepcionada com o cigarro.

O demônio de Hope riu da ironia da frase. Ela o ignorou.
Como sempre.

...

Quando os alunos foram instruídos a seguir para o ginásio, Hope não achou, de todo, estranho. Ela pensou que, como em alguns anos anteriores, a diretora quisesse passar comunicados importantes a respeito de novas regras ou de reformas feitas na escola durante o verão. Brooke e Barth nem mesmo questionaram o motivo de todos os alunos estarem tão quietos, seguindo ordens da maneira mais rebelde que podiam: correndo pelo corredor principal em uma aposta idiota de quem chegava primeiro. Eles ainda estavam no clima de férias, mas Hope não. Tanto que ficou para trás quando os amigos seguiram como furacões para o ginásio, a despedida sendo o raspar dos tênis deles ecoando através dos armários.
Durante as férias, Hope mal saiu de casa. Ficou a maior parte do tempo em seu quarto ouvindo discos e desenhando, negando os convites de seus amigos para ir a festas e encontros. Ela ainda queria se matar; pensava naquilo quase todos os dias. Todo o seu tempo livre durante o verão e depois dele era dedicado a planos e sonhos com a melhor forma de morrer. Virara um passatempo. A sua versão preferida, até o momento, era a que ela cortava os pulsos no alto da sua colina preferida, vendo as luzes da cidade. Ela iria com o carro do pai até lá, e então sentaria no capô dele para sangrar até morrer.

- Fique longe dos pensamentos suicidas, Hope. Não vai querer condenar mais ainda a sua alma.

A voz do demônio foi como um alerta, fazendo-a acordar. Todos os outros alunos tinham sumido, e Hope era a última pessoa no corredor. Dali, ela podia ouvir os som das vozes fugindo pelas frestas das portas do ginásio. Não se surpreendeu. Andava tão distraída que esses acontecimentos viraram rotina. Hope sempre acabava sozinha, no meio de algum lugar.
A segunda coisa que a fez acordar foi um baque ecoando pelo corredor. Só com isso Hope realmente se mexeu, um tanto assustada. Ela não teria escutado o barulho se estivesse no auditório, com os outros, mas como estava do lado fora, não pôde deixar de se sentir atraída pela curiosidade. Aquele sempre fora o seu maior defeito.
Com o demônio às suas costas, Hope seguiu o barulho, que ainda ecoava através dos passos deixados para trás. O dia, que antes era ensolarado, acabara se tornando o mais cinza da semana, e com isso a escola ficara escura. Mesmo com as luzes acesas, sentia que havia algo sombrio ali. E ela estava certa.

- Não devia se meter em problemas, Hope - aconselhou o demônio.

Mesmo assim, Hope correu para onde a briga entre dois garotos se desenvolvia. Ela chegou perto o suficiente para reconhecer um dos caras da banda batendo em um dos caras do time de futebol. A menina não pensou duas vezes antes de puxar o que estava em pé para longe do que estava sobre o chão. Havia sangue, muito sangue. E um pouco de lama também.

- Eu avisei para você não se meter em problemas - o demônio revirou os olhos. Era claro que ele sabia o que aconteceria.

No momento em que Hope se enfiou na confusão, foi empurrada contra a parede de armários. Suas costas doeram quando o cadeado de um deles bateu contra os ossos e a pele, e ela ficou sem ar. Respirou fundo com os olhos molhados de desespero, e tudo parou por um momento, quando ela reconheceu o agressor como o rapaz da tatuagem que havia visto do lado de fora. Sua guitarra, antes presa nas suas costas, dentro de uma capa, estava quebrada e ensanguentada do outro lado do corredor. Ele a olhava com certa fúria, certa confusão, e Hope percebeu que ainda segurava o braço dele. Já ele a enforcava em um reflexo. O demônio, que observava tudo um tanto entediado, se aproximou e tocou os ombros do guitarrista. No mesmo minuto, como se tivesse levado um choque, ele se afastou.

- Eu podia me virar sozinha - Hope reclamou. Odiava quando o demônio se metia nas suas coisas.

O guitarrista a olhou com uma mistura de confusão e desdém. Não sabia com quem ela estava falando, mas não se importava.

- Saia daqui! - ordenou.

Hope se afastou do armário, ainda sentindo as costas doendo. Evitou pisar na poça de sangue ao se aproximar, tomando toda a coragem que tinha para argumentar:

- O que você vai fazer com ele? Eu vou chamar a diretora!
- O que você tem a ver com isso?!

E ela não sabia. Só sabia que não queria deixar aquilo acontecer. E não precisou. No minuto em que decidira que ficaria ali discutindo com ele, alguém apareceu no fim do corredor. Na verdade, não era apenas uma pessoa, mas três: Brooke, Barth e a diretora. Brooke corria na frente dos outros dois e empurrou o agressor de Hope assim que o alcançou.

- Se encostar nela de novo, eu mesma quebro a sua cara! - ameaçou.

O garoto da banda quase riu, mas desistiu assim que viu o rosto enfurecido da diretora. Ela olhou dele para o menino e o sangue no chão e balançou a cabeça.

- Venham comigo - disse, e então lançou o olhar para Hope - Vocês dois.

O demônio riu, coberto de razão.
Hope não deveria ter se metido em problemas.



2 - Eu Amo Essa Música!

Enquanto seguia a ordem de se dirigir para a sala a diretora, Hope percebeu que as mãos do garoto da banda estavam cobertas de sangue. Um pouco era dele, mas o restante com certeza pertencia ao menino que o guitarrista quase matou. Hope se sentiu extremamente mal ao ver que uma ambulância tinha sido chamada para tirar o garoto do corredor. Ele não se mexia, quase não respirava. Estava inconsciente.
Quando entraram na sala da diretora, a luz laranja incomodou Hope. Lhe dava dor de cabeça. Nervosa e pensando em todo o sangue que vira no chão do corredor, ela se dirigiu para uma das duas cadeiras à frente de uma mesa bagunçada e ficou lá, segurando as mãos trêmulas. Enquanto encarava a madeira escura e escutava os passos da diretora contornando a sala para sentar em seu lugar habitual, percebeu que o guitarrista também sentou. Diferente dela, ele o fez com calma.

, espero que você não tenha saído da sua escola católica para causar tumulto na minha escola normal — comentou a diretora, e Hope demorou alguns segundos para perceber que não era com ela.

Então era o nome dele. Parecia combinar com o garoto de um jeito extremamente significativo, como se devesse dizer algo a Hope; ela o reconheceu como se reconhecesse uma música que gostara muito no passado. Só era difícil dizer qual.

— Tecnicamente, a sua escola é do governo e a minha escola é de um padre já morto da Escócia.

Ele não sorriu quando respondeu, mas Hope podia jurar que se divertia. Lilian, como era o nome da nova diretora da escola, sorriu, gostando de discutir com ele simplesmente por saber que, no fim das contas, o garoto nunca sairia ganhando. O poder das advertências e castigos era dela.
Hope prendeu o ar dentro dos pulmões. Já sabia que não gostaria do que viria a seguir porque, querendo ou não, ela estava do mesmo lado da mesa que ele. Tudo o que dissesse a afetaria também.

— Quer explicar por que espancou um colega de classe no primeiro dia de aula, — perguntou a diretora, pulando as formalidades, — ou prefere ir direto para a sua advertência?

riu sem humor algum na voz. Naquele momento, o pescoço de Hope latejou exatamente onde ele havia apertado a sua pele. Lembrou-se vagamente que o menino também riu enquanto a atacava.

— Eu o espanquei porque ele matou a minha irmã — respondeu de maneira breve e direta. A diretora congelou no lugar. Então uma expressão de reconhecimento apossou o rosto dela.
— Audrey — deduziu ela. — É sua irmã.

O menino não respondeu. Não era preciso. De repente, Hope se lembrou de onde aquele nome era familiar: Audrey — ou a garota desaparecida das férias de verão, como a chamaram nos últimos meses. Ninguém tinha coragem de pronunciar o seu nome.

— Achei que ela estava desaparecida — Hope disse antes mesmo de notar que pensava em voz alta. e a diretora a olharam. — Por que diz que Audrey está morta?

soou frio quando rebateu:

— Já se passaram dois meses. Ainda acha que a encontrarão viva?

Hope engoliu a seco. Queria responder que não, mas parecia cruel demais. Ficou quieta.

— Não — o demônio sussurrou, encostado contra a porta da sala. Ele sempre falava o que ela não tinha coragem de dizer. A diferença era que ele nunca seria ouvido. — Ela está morta.
— Acho que ela está viva — respondeu aos dois, se concentrando em ao continuar: — E que, ao invés de sair por aí batendo em pessoas, deveria procurar por ela.

A expressão do guitarrista mudou, mas Hope não soube dizer se ele ficou surpreso ou furioso. Era difícil deduzir, principalmente porque a diretora interrompeu o diálogo para aplicar uma advertência carregada de uma vingança pessoal. , por algum milagre, não foi queimada pelo fogo e quase sorriu quando ouviu que estava livre de castigos. Só precisaria ajudar a polícia a fazer um relatório quando fosse preciso. O jogador de futebol que agredira estava no hospital e o caso tinha sido levado até as autoridades no momento em que ele entrara na ambulância.

— Posso ir? — perguntou , e só então ela percebeu que ainda estava sentada ao seu lado.

A diretora disse que não. Às costas de Hope, o demônio falou junto com ela:

— E eu? — a voz dos dois em uníssono a incomodou. — Posso ir?

Então, junto com a diretora, o demônio respondeu:

— Sim.

...

Depois que saiu da sala da diretora, Hope não quis ir para casa. Mesmo com a permissão e uma conserva da diretora com os seus pais através do telefone, ela preferiu seguir Barth e Brooke para o ginásio da escola, onde todos os alunos se juntavam nas arquibancadas. Do lado de fora, o trio pôde ouvir os murmúrios e conversas desenfreadas, mas foi só quando entraram que tudo ficou em silêncio.
O boato já tinha sido espalhado.
A porta fechou, e eles andaram um atrás do outro enquanto sentiam que eram observados. A maioria dos alunos tinha a atenção presa nas marcas roxas que começavam a se formar no pescoço de Hope. Ela se sentiu incomodada; Brooke adorou. Barth colocou um pirulito na boca e continuou andando como se nada estivesse acontecendo.
Quando sentaram, as conversas recomeçaram.

— Silêncio! — alguém pediu. Era o professor de história. — Preciso da atenção de vocês.

Com Brooke de um lado e Barth do outro, Hope se sentiu exposta quando ele disse:

— A diretora Lilian iria comandar essa reunião, mas teve que se ausentar por causa de um problema. Por isso, eu levarei adiante. Quem falar alguma coisa durante o tempo em que minha voz ecoar por essas paredes, vai ficar o ano inteiro cumprindo detenção após as aulas. Entendido?

Todos balançaram a cabeça de forma afirmativa, ele sorriu e continuou:

— Nesse verão, uma aluna da nossa escola desapareceu. Houve muitos grupos de busca para encontrá-la, cartazes e até mesmo anúncios na TV, mas não tivemos notícias. Isso não quer dizer que algo de ruim aconteceu com ela, muito menos que alguém daqui fez isso, mas é sempre bom ter precaução. Estamos em uma cidade muito pequena, onde todo mundo se conhece, mas tentem tomar cuidado ao falar com estranhos ou apenas conhecidos. Não entrem em casas e carros de pessoas que não sejam realmente de confiança. Às garotas, principalmente, peço que andem em grupos. Não saiam sozinhas. Aos meninos, cuidem das meninas. Estamos em um momento de união. Obrigado.

Durante todo o tempo em que o professor falou, Hope não tirou os olhos do chão. Se sentia mal, desconfortável. E assustada. O demônio às suas costas já até sabia no que ela estava pensando:

— Você acha que ele pode estar certo! — ficou surpreso.

Hope levantou os olhos para ele e então os levou para o professor de história. Isso não quer dizer que algo de ruim aconteceu com ela, ele disse. Parecia uma mentira deslavada e supérflua.

— E é uma mentira — afirmou o demônio. — Mas sabe que não estou falando sobre isso.

Não, ele não estava falando sobre o discurso do professor, mas sim sobre ter razão quanto ao capitão do time de futebol ter matado a sua irmã. Hope ainda se lembrava da raiva, do sangue, do ódio, da certeza na voz dele quando disse que Audrey estava morta. E também havia aquela sensação, naquele momento, naquela arquibancada do ginásio daquela escola. Algo estranho, como se Hope fosse um animal assustado no meio de leões famintos.
Aquelas pessoas eram más. Sempre foram. Desde que eram crianças e jogavam ovos no telhado de Hope por ela não querer ir a uma festa de aniversário, desde que espalharam boatos a respeito de Brooke ser uma vadia, e desde que Audrey desapareceu após uma festa no meio do verão.

— Ah, sim — comentou o demônio, recostando-se contra a arquibancada. — Isso é verdade. O maluco quase tem razão.

Hope engoliu a seco.
Não era só o capitão.
Em um sussurro, ela completou o pensamento:

— Todos aqui são suspeitos.

...

Enquanto Brooke Simons rodava a cadeira de rodinhas na qual Hope estava sentada, Bartholomew Hudson fuçava nos discos de vinil da amiga de cabelos azuis. Ele adorava a coleção dela, principalmente porque a maioria dos discos não podiam ser encontrados nas lojas daquela cidade. Brooke viajava muito e, de cada lugar que ia, trazia um de recordação.

— Bartholomew Hudson, se você estragar qualquer um deles com as suas patas sujas, eu juro que te mato — avisou Brooke. Ela não estava brincando. Amava demais os seus discos.

Barth, que tocava em um naquele exato momento, recusou e disfarçou.

— Não vou! Estou apenas olhando.

Hope riu deles, sentindo o pinicar dos pincéis de maquiagem de Brooke tocar-lhe a pele. A menina parecia uma miragem correndo para lá e para cá ao redor de .

— Você acha que vai ficar bom?

Hope se olhou no espelho ao fazer a pergunta, inclinando-se para frente para ver melhor. havia deixado marcas em seu pescoço, e elas não eram fracas; eram escuras e constantes ao redor de sua pele pálida, misturando-se às veias esverdeadas embaixo da camada branca que não via nem dez minutos de sol há anos. Uma visão horrível, sim, mas a menina não se importava tanto assim com a aparência para tentar mudar. Já havia aceitado que nunca seria bela e bronzeada como as garotas da TV, por mais que tentasse. E ela tentava.
Hope não quisera prestar queixa quando o xerife chegou à escola para colher um relatório, mas não a agradeceu por aquilo. Na verdade, o menino pouco parecia se importar com o que ia lhe acontecer. Havia um quê de satisfação em suas feições sempre que ele olhava para as mãos machucadas, que fazia Hope se lembrar de um kamikaze — ou de um maluco. estava certo de que havia obtido vingança pela irmã mesmo que ninguém realmente acreditasse que ela estava morta. As pessoas ainda tinham muitas esperanças nos pequenos mistérios daquela cidade.
não se importou, não fizera aquilo por ele. Só não queria perder tempo na delegacia, muito menos alertar os seus pais. Também achava hipocrisia demais acusar alguém de querer fazer mal à sua integridade física quando ela mesma pensava naquilo o dia todo. Se avaliasse bem, estaria até mesmo fazendo um favor a ela, se acabasse apertando demais o seu pescoço. Hope não parava de pensar no ar faltando nos pulmões, no escuro eterno. Estava virando um vício.

— Minhas maquiagens não são das melhores, mas posso dar um jeito — respondeu Brooke. Ela havia passado quase um quilo de base e pó no pescoço de Hope para tentar esconder as marcas. — É a primeira festa do ano e você não vai aparecer lá desse jeito. Juro.

Hope concordou com a cabeça, e o demônio riu. Ele parecia saber que ela até mesmo havia gostado das marcas. A fizera ter uma outra ideia sobre a morte: enforcamento. E se a garota amarrasse uma corda no pescoço e pulasse da sacada do seu quarto? Pelo menos não sujaria o capô do carro do seu pai de sangue.

— Quem se importa com essa festa? As pessoas só querem beber — reclamou Barth. Era verdade, mas Brooke acreditava que não. Ela sempre defendia as primeiras festas do ano como se elas fossem um feriado nacional.

No fundo, sabia que a amiga só queria muito pegar o carinha da banda. Por isso a animação. Hope não a julgava, ele era bonito; mas parecia frio e distante como todos os outros caras com os quais a amiga de cabelos azuis havia saído. Devia ser o tipo dela.
Hope mal podia esperar para chegar à escola, passar pela porta de entrada e procurar um lugar vazio na arquibancada para sentar e se esconder. Ela não ligava de passar a noite toda ali, sozinha, escutando música e bebendo. Só não gostava quando alguém tentava falar ou dançar com ela; quando isso acontecia, preferia estar em casa.

— Eu amo essa música! — pulou Brook de repente. A garota começou a dançar ao som de Losing My Religion, se esquecendo de ameaçar Barth de morte por ter tocado em um dos discos de ouro dela.

Hope gostava daquela música, mas ela lhe fez sentir algo frio naquela noite, quando cantou com o som da voz do demônio junto à sua:

"That's me in the corner.
That's me in the spotlight.
Losing my religion."




Continua...



Nota da autora: Sem nota.







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