Última atualização: 05/06/2018

Prefácio

"Deitada em seus braços, os olhos dela brilharam pela última vez.
Ele sorriu.
— Querida — disse —, não vá."


Prólogo

Ele estava no quarto quando Hope abriu os olhos. Tirando o rádio à pilha sobre o criado-mudo ao lado da cama produzindo um chiado que deveria ser Every Breath You Take em sua versão mais irônica, não havia som algum no cômodo. Por isso o demônio cantarolava a música dentro de sua mente, evitando deixar qualquer ruído sair pelos seus lábios. Ele não queria atrapalhar, mesmo que não se importasse. Eram as regras.
Por um instante, assim que ela acordou, um traço de esperança brilhou nas pupilas dilatadas de Hope, mas, depois, tudo o que restou foi decepção. O demônio nunca tinha visto reação mais genuína: na maioria das vezes, eles se sentiam aliviados por terem falhado. Ela queria mesmo morrer.

Every breath you take

Hope sentou na cama, levando as mãos à cabeça. Ao seu redor, os vidros vazios de remédio cobriam toda a colcha vinho sobre a qual deitava. Ela deveria ter tentado os pulsos, pensou o demônio, mas não disse nada. Queria que Hope o notasse sozinha. Ele gostava de ver o medo nos olhos humanos quando percebiam a sua presença.
Mas Hope demorou, e ele ficou cansado de esperar. Então piscou os olhos sem vida e deu a eles o aspecto vermelho que chamaria a atenção dela. No momento em que ele fez isso, Hope sentiu frio, abraçando o próprio corpo. Então viu o brilho vermelho e gritou.

- O que... Quem é vo...

Every move you make

O demônio abanou as mãos. Não queria ouvi-la falar, principalmente porque a voz da garota estava rouca. Ela ficara muito tempo, apagada.

- Sou o seu demônio. - disse - É o que ganha quando tenta tirar a própria vida.

Hope pareceu confusa.

- Meu o quê?
- Demônio. De-mô-nio. Demônio. δαιμόν. Daimon. Daemonium. Ou o que mais tiver na internet.

Hope respirava com dificuldade. Do lado de fora começou a chover, e trovões iluminaram o quarto. Apesar do caos da tempestade, os olhos do rapaz sentado na poltrona continuaram sendo o ponto fixo para onde a menina lançava a sua atenção. Eles eram vermelhos e brilhavam como lanternas. Se ele era um demônio, ela não sabia. Mas sentia medo. Tanto medo que poderia morrer ali mesmo.

Every bond you break

- E o que você está fazendo aqui? - perguntou Hope com cuidado.

Ele sorriu.

- Só cumpro ordens.
- De quem?
- De quem você acha?

Hope arregalou os olhos, e ele piscou para ela. Poderia ser real? Não. Eram apenas os remédios mexendo com a sua cabeça. Ela havia tomado vários deles, claro, e não faria bem ao seu cérebro. Hope ao menos sabia como ainda estava viva. Vira na internet que aquilo resolveria os seus problemas. Algo tinha dado errado. Agora estava ficando louca.
A garota fechou os olhos, apertando-os embaixo das pálpebras. Esperou que aquilo o fizesse sumir como uma nuvem de fumaça encontrando um ventilador. Enquanto ficou ali, imersa no escuro, ouviu a respiração do demônio eclodir pelo quarto. Ela era calma e pesada, como se ele fizesse de propósito, e a presença parecia constante como um toque. Quando Hope abriu os olhos, porém, o rapaz não estava mais lá. As luzes vermelhas haviam desaparecido, e ela se sentiu aliviada.

Every step you take

Pensando em como tudo fora uma alucinação, Hope levantou e limpou a sujeira sobre a sua cama. Então tomou um banho e deitou para voltar a dormir, daquela vez com a intenção de acordar. Não estava animada, muito menos feliz; queria que seu plano tivesse corrido bem. Mas, por outro lado, não tentaria de novo tão cedo, pois não era teimosa àquele nível. Poderia pensar naquilo pela manhã, igual vinha pensando há semanas. E então, quando conseguisse mais remédios, os guardaria embaixo do travesseiro e os sentiria todas as noites até que tivesse coragem de novo.
Estava escuro, e a tempestade não parecia querer cessar. De vez em quando os trovões iluminavam o quarto e ela tinha medo de ver o demônio em algum canto do cômodo sombrio, então fechou os olhos para fugir do medo. Quando fez isso, o som de uma respiração atingiu seus ouvidos como um sussurro frio, e ela percebeu que não estava sozinha.
Nunca mais estaria.

I'll be watching you


1 - Eu Mesma Quebro a Sua Cara

Não havia sensação pior que a do abraço frio do demônio, que parecia tocá-la mesmo quando estava com as duas mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans.
Ele era como uma presença constante.
O próprio inferno.
Hope odiava aquilo, mas já havia se acostumado com o incômodo. Nada na sua vida era agradável, e ele não seria uma exceção. Vinha lidando com seu demônio pessoal sozinha, sem nenhuma ajuda. Mesmo que quisesse, ninguém além de Hope via a criatura. Apenas ela. Como uma tortura imposta para fazê-la enlouquecer aos poucos, sem poder pedir socorro.

- Hope , está ouvindo?!

A voz era de Brooke Simons, sua melhor amiga. Ela a olhava fixamente por baixo dos óculos escuros de gatinho e esperava a resposta para uma pergunta totalmente ignorada por Hope, que ainda acordava aos poucos dos pensamentos.

- Ela nunca escuta nada - reclamou Barth, o garoto de chapéu engraçado sentado ao lado das duas. Era o melhor amigo delas.
- Hope , você não pode ser esquisita e surda. - alertou Brooke - Há limites até para os perdedores!

O demônio riu às costas de Hope, mas ela não achou graça. Barth, como sempre, colocou um pirulito na boca e conteve um sorriso malicioso. Ele adorava as provocações de Brooke, principalmente quando a garota estava diminuindo alguém. Hope percebeu que aquilo o fazia se sentir melhor.

- Você pode respondê-la - instigou o demônio, em um sussurro - Brooke não é melhor que você. Por que não mostra isso a ela?

Era irritante que só Hope pudesse vê-lo e ouvi-lo, porque ela queria responder a todas aquelas frases soltas que ele gostava de lançar. Odiava o modo como o demônio a achava manipulável, como se Hope fosse alguma garotinha sem cérebro esperando ordens. O que podia fazer - e o que sempre fazia - era ignorar tudo o que ele dizia mesmo que cada palavra ficasse presa em sua mente pelo resto da semana.

- É hora do show - comentou Brooke. Ela se apoiou nos cotovelos, deitando sobre o gramado recém-cortado da escola, e deixou as longas mechas de seus cabelos azuis caírem ao redor dos seios. Queria chamar atenção.

Hope lançou o olhar para o fim do caminho de tijolos, vendo que a amiga se referia à chegada de um carro em especial, qual ela sempre gostava de observar. Na verdade, todos gostavam de observar. Era o mais perto de uma TV que os adolescentes daquela cidade chegavam. Ninguém ali realmente tinha dinheiro para aquelas coisas. Os mais abastados gastavam suas mesadas com rádios a pilhas e derivados, assim podiam ouvir música no gramado da escola e fingir que eram mais descolados que todo mundo.
Inclusive, eles faziam aquilo, naquele momento. A alguns metros de Hope, You Make My Dreams Come True soava em um volume não tão alto, mas ainda assim irritante. Principalmente com o demônio às suas costas assoviando no ritmo da guitarra. não gostava de quando ele ficava muito feliz, não podia ser um bom sinal. Podia?

- Brooke, tente não constranger ninguém dessa vez - pediu Barth.

Simons riu, mas não desviou o olhar do carro negro repleto de garotos. Ela adorava os caras da banda, principalmente o vocalista, Thomás. Ele tinha os cabelos loiros e longos iguais aos do integrante de alguma das várias bandas preferidas dela. Brooke mal podia se conter toda vez que o via. Quando ele estava com os amigos, então, Simons o julgava irresistível! Havia algo nele que a lembrava de um astro do Rock, mesmo que o garoto só tocasse dentro da escola e ainda fizesse isso muito mal.

- Olha só aqueles músculos - comentou, mordendo o lábio inferior. Havia quatro garotos, mas ela só olhava um. Simons sempre foi muito decidida.

Quando a banda se aproximou ainda mais, Hope percebeu que havia dois novos integrantes. Alunos novos, com certeza, e provavelmente antigos conhecidos, porque ninguém entrava no grupo tão fácil, principalmente calouros. Era como ganhar na loteria, porque eles sabiam que a partir do momento em que tocassem guitarra e usassem jaquetas de couro, garotas como Brooke estariam sobre eles o tempo todo. Ou pelo menos era isso que Hope imaginava quando pensava nos motivos de alguém querer tocar na banda da escola. Não era como se eles ganhassem dinheiro ou reconhecimento por aquilo, era? Talvez fosse.

- É um hobby, - resmungou o demônio, ele sempre sabia o que ela estava pensando. - Não que você saiba o que isso signifique. O seu hobby é tomar comprimidos e tentar morrer, então não julgue os outros.

Hope o ignorou, e Brooke lançou o seu melhor olhar de flerte para o vocalista - que não correspondeu. Aquilo foi estranho porque, nas últimas semanas, eles não paravam com aqueles joguinhos. Foi até mesmo constrangedor quando Thomás passou pelo trio deitado sobre o gramado e ignorou cada um deles. Nem os amigos ao seu redor fizeram questão de notá-los, todos parecendo envoltos demais em suas bolhas egocêntricas para prestar atenção no mundo girando ao redor de seus instrumentos musicais. Um deles chegava a ignorar os próprios colegas, fumando um cigarro e andando com o olhar preso no chão. Havia uma guitarra nas suas costas e uma tatuagem negra subindo pelo seu pescoço. Hope tentou ver o que era, mas o garoto ficou muito distante e a imagem distorcida.

- Virou flerte por telepatia? - perguntou Barth, quebrando o silêncio - Porque eu não o vi responder.

Brooke, um pouco ofendida, levantou e endireitou a postura, retirando os óculos. Thomás se afastava com o resto da banda sem nem olhar para trás. Simons pareceu achar aquilo uma afronta.

- Isso é um absurdo, você não acha? - virou para Hope - Ninguém me ignora assim.
- O Bath ignora - riu, lembrando de como os três se conheceram: em um flerte.

Brooke Simons queria arrumar uma desculpa para falar com Barth, então pediu para que Hope trocasse de lugar com ela nas aulas de matemática. Eles nunca namoraram porque viraram amigos antes de qualquer outra coisa acontecer, mas a piada sobre Brooke ter sido rejeitada por Barth nunca morria.

- Ele é um otário. Não faz ideia do mulherão que está perdendo - piscou.

Os dois riram, se levantaram e puxaram Hope, que ficaria ali o dia inteiro se não fosse arrastada pelos amigos para dentro da escola. A menina não tinha a mínima vontade de entrar naquele lugar, por mais que lhe dissessem que seria legal. Os melhores anos da sua vida, segundo a sua mãe.

- É isso, galera. As férias de verão acabaram - Barth lamentou com um tom nostálgico.

A construção da escola, gótica e sem vida, tampava o sol da manhã e os deixava na sombra. De repente, tudo ficou frio. Hope percebeu que o demônio fumava. Mesmo que não tivesse ligação, ela sempre achava que era tudo por causa dele. E o demônio sabia. Tanto que lhe mostrou o dedo do meio e a mandou para um lugar nada educado:

- Eu não sou Deus, garota maluca! Não adianta me olhar assim, porque eu não controlo o tempo! Nem tudo é culpa minha.

A reclamação dele andou pelo ar em forma de fumaça, pairando ao redor de Hope com cheiro de nicotina. Brooke fungou ao seu lado, reconhecendo o cheiro. Olhou para os lados à procura de quem estava fumando, mas não encontrou. A decepção foi visível em seu rosto. Ela iria pedir o primeiro cigarro do dia.
Do lado de fora, ouviram o sinal tocar mais forte dentro da escola. Era o último aviso, o alerta para os atrasados e os preguiçosos que ainda estavam enrolando para passar pelas portas nada acolhedoras.
Nenhum deles parecia animado com aquele ano. Todos queriam estar em casa, no lago ou até mesmo naquele parque sem graça no fim da rua.

- Esse lugar é um inferno - comentou Brooke, desanimada. Ela ainda estava decepcionada com o cigarro.

O demônio de Hope riu da ironia da frase. Ela o ignorou.
Como sempre.

...

Quando os alunos foram instruídos a seguir para o ginásio, Hope não achou, de todo, estranho. Ela pensou que, como em alguns anos anteriores, a diretora quisesse passar comunicados importantes a respeito de novas regras ou de reformas feitas na escola durante o verão. Brooke e Barth nem mesmo questionaram o motivo de todos os alunos estarem tão quietos, seguindo ordens da maneira mais rebelde que podiam: correndo pelo corredor principal em uma aposta idiota de quem chegava primeiro. Eles ainda estavam no clima de férias, mas Hope não. Tanto que ficou para trás quando os amigos seguiram como furacões para o ginásio, a despedida sendo o raspar dos tênis deles ecoando através dos armários.
Durante as férias, Hope mal saiu de casa. Ficou a maior parte do tempo em seu quarto ouvindo discos e desenhando, negando os convites de seus amigos para ir a festas e encontros. Ela ainda queria se matar; pensava naquilo quase todos os dias. Todo o seu tempo livre durante o verão e depois dele era dedicado a planos e sonhos com a melhor forma de morrer. Virara um passatempo. A sua versão preferida, até o momento, era a que ela cortava os pulsos no alto da sua colina preferida, vendo as luzes da cidade. Ela iria com o carro do pai até lá, e então sentaria no capô dele para sangrar até morrer.

- Fique longe dos pensamentos suicidas, Hope. Não vai querer condenar mais ainda a sua alma.

A voz do demônio foi como um alerta, fazendo-a acordar. Todos os outros alunos tinham sumido, e Hope era a última pessoa no corredor. Dali, ela podia ouvir os som das vozes fugindo pelas frestas das portas do ginásio. Não se surpreendeu. Andava tão distraída que esses acontecimentos viraram rotina. Hope sempre acabava sozinha, no meio de algum lugar.
A segunda coisa que a fez acordar foi um baque ecoando pelo corredor. Só com isso Hope realmente se mexeu, um tanto assustada. Ela não teria escutado o barulho se estivesse no auditório, com os outros, mas como estava do lado fora, não pôde deixar de se sentir atraída pela curiosidade. Aquele sempre fora o seu maior defeito.
Com o demônio às suas costas, Hope seguiu o barulho, que ainda ecoava através dos passos deixados para trás. O dia, que antes era ensolarado, acabara se tornando o mais cinza da semana, e com isso a escola ficara escura. Mesmo com as luzes acesas, sentia que havia algo sombrio ali. E ela estava certa.

- Não devia se meter em problemas, Hope - aconselhou o demônio.

Mesmo assim, Hope correu para onde a briga entre dois garotos se desenvolvia. Ela chegou perto o suficiente para reconhecer um dos caras da banda batendo em um dos caras do time de futebol. A menina não pensou duas vezes antes de puxar o que estava em pé para longe do que estava sobre o chão. Havia sangue, muito sangue. E um pouco de lama também.

- Eu avisei para você não se meter em problemas - o demônio revirou os olhos. Era claro que ele sabia o que aconteceria.

No momento em que Hope se enfiou na confusão, foi empurrada contra a parede de armários. Suas costas doeram quando o cadeado de um deles bateu contra os ossos e a pele, e ela ficou sem ar. Respirou fundo com os olhos molhados de desespero, e tudo parou por um momento, quando ela reconheceu o agressor como o rapaz da tatuagem que havia visto do lado de fora. Sua guitarra, antes presa nas suas costas, dentro de uma capa, estava quebrada e ensanguentada do outro lado do corredor. Ele a olhava com certa fúria, certa confusão, e Hope percebeu que ainda segurava o braço dele. Já ele a enforcava em um reflexo. O demônio, que observava tudo um tanto entediado, se aproximou e tocou os ombros do guitarrista. No mesmo minuto, como se tivesse levado um choque, ele se afastou.

- Eu podia me virar sozinha - Hope reclamou. Odiava quando o demônio se metia nas suas coisas.

O guitarrista a olhou com uma mistura de confusão e desdém. Não sabia com quem ela estava falando, mas não se importava.

- Saia daqui! - ordenou.

Hope se afastou do armário, ainda sentindo as costas doendo. Evitou pisar na poça de sangue ao se aproximar, tomando toda a coragem que tinha para argumentar:

- O que você vai fazer com ele? Eu vou chamar a diretora!
- O que você tem a ver com isso?!

E ela não sabia. Só sabia que não queria deixar aquilo acontecer. E não precisou. No minuto em que decidira que ficaria ali discutindo com ele, alguém apareceu no fim do corredor. Na verdade, não era apenas uma pessoa, mas três: Brooke, Barth e a diretora. Brooke corria na frente dos outros dois e empurrou o agressor de Hope assim que o alcançou.

- Se encostar nela de novo, eu mesma quebro a sua cara! - ameaçou.

O garoto da banda quase riu, mas desistiu assim que viu o rosto enfurecido da diretora. Ela olhou dele para o menino e o sangue no chão e balançou a cabeça.

- Venham comigo - disse, e então lançou o olhar para Hope - Vocês dois.

O demônio riu, coberto de razão.
Hope não deveria ter se metido em problemas.



2 - Eu Amo Essa Música!

Enquanto seguia a ordem de se dirigir para a sala a diretora, Hope percebeu que as mãos do garoto da banda estavam cobertas de sangue. Um pouco era dele, mas o restante com certeza pertencia ao menino que o guitarrista quase matou. Hope se sentiu extremamente mal ao ver que uma ambulância tinha sido chamada para tirar o garoto do corredor. Ele não se mexia, quase não respirava. Estava inconsciente.
Quando entraram na sala da diretora, a luz laranja incomodou Hope. Lhe dava dor de cabeça. Nervosa e pensando em todo o sangue que vira no chão do corredor, ela se dirigiu para uma das duas cadeiras à frente de uma mesa bagunçada e ficou lá, segurando as mãos trêmulas. Enquanto encarava a madeira escura e escutava os passos da diretora contornando a sala para sentar em seu lugar habitual, percebeu que o guitarrista também sentou. Diferente dela, ele o fez com calma.

, espero que você não tenha saído da sua escola católica para causar tumulto na minha escola normal — comentou a diretora, e Hope demorou alguns segundos para perceber que não era com ela.

Então era o nome dele. Parecia combinar com o garoto de um jeito extremamente significativo, como se devesse dizer algo a Hope; ela o reconheceu como se reconhecesse uma música que gostara muito no passado. Só era difícil dizer qual.

— Tecnicamente, a sua escola é do governo e a minha escola é de um padre já morto da Escócia.

Ele não sorriu quando respondeu, mas Hope podia jurar que se divertia. Lilian, como era o nome da nova diretora da escola, sorriu, gostando de discutir com ele simplesmente por saber que, no fim das contas, o garoto nunca sairia ganhando. O poder das advertências e castigos era dela.
Hope prendeu o ar dentro dos pulmões. Já sabia que não gostaria do que viria a seguir porque, querendo ou não, ela estava do mesmo lado da mesa que ele. Tudo o que dissesse a afetaria também.

— Quer explicar por que espancou um colega de classe no primeiro dia de aula, — perguntou a diretora, pulando as formalidades, — ou prefere ir direto para a sua advertência?

riu sem humor algum na voz. Naquele momento, o pescoço de Hope latejou exatamente onde ele havia apertado a sua pele. Lembrou-se vagamente que o menino também riu enquanto a atacava.

— Eu o espanquei porque ele matou a minha irmã — respondeu de maneira breve e direta. A diretora congelou no lugar. Então uma expressão de reconhecimento apossou o rosto dela.
— Audrey — deduziu ela. — É sua irmã.

O menino não respondeu. Não era preciso. De repente, Hope se lembrou de onde aquele nome era familiar: Audrey — ou a garota desaparecida das férias de verão, como a chamaram nos últimos meses. Ninguém tinha coragem de pronunciar o seu nome.

— Achei que ela estava desaparecida — Hope disse antes mesmo de notar que pensava em voz alta. e a diretora a olharam. — Por que diz que Audrey está morta?

soou frio quando rebateu:

— Já se passaram dois meses. Ainda acha que a encontrarão viva?

Hope engoliu a seco. Queria responder que não, mas parecia cruel demais. Ficou quieta.

— Não — o demônio sussurrou, encostado contra a porta da sala. Ele sempre falava o que ela não tinha coragem de dizer. A diferença era que ele nunca seria ouvido. — Ela está morta.
— Acho que ela está viva — respondeu aos dois, se concentrando em ao continuar: — E que, ao invés de sair por aí batendo em pessoas, deveria procurar por ela.

A expressão do guitarrista mudou, mas Hope não soube dizer se ele ficou surpreso ou furioso. Era difícil deduzir, principalmente porque a diretora interrompeu o diálogo para aplicar uma advertência carregada de uma vingança pessoal. , por algum milagre, não foi queimada pelo fogo e quase sorriu quando ouviu que estava livre de castigos. Só precisaria ajudar a polícia a fazer um relatório quando fosse preciso. O jogador de futebol que agredira estava no hospital e o caso tinha sido levado até as autoridades no momento em que ele entrara na ambulância.

— Posso ir? — perguntou , e só então ela percebeu que ainda estava sentada ao seu lado.

A diretora disse que não. Às costas de Hope, o demônio falou junto com ela:

— E eu? — a voz dos dois em uníssono a incomodou. — Posso ir?

Então, junto com a diretora, o demônio respondeu:

— Sim.

...

Depois que saiu da sala da diretora, Hope não quis ir para casa. Mesmo com a permissão e uma conserva da diretora com os seus pais através do telefone, ela preferiu seguir Barth e Brooke para o ginásio da escola, onde todos os alunos se juntavam nas arquibancadas. Do lado de fora, o trio pôde ouvir os murmúrios e conversas desenfreadas, mas foi só quando entraram que tudo ficou em silêncio.
O boato já tinha sido espalhado.
A porta fechou, e eles andaram um atrás do outro enquanto sentiam que eram observados. A maioria dos alunos tinha a atenção presa nas marcas roxas que começavam a se formar no pescoço de Hope. Ela se sentiu incomodada; Brooke adorou. Barth colocou um pirulito na boca e continuou andando como se nada estivesse acontecendo.
Quando sentaram, as conversas recomeçaram.

— Silêncio! — alguém pediu. Era o professor de história. — Preciso da atenção de vocês.

Com Brooke de um lado e Barth do outro, Hope se sentiu exposta quando ele disse:

— A diretora Lilian iria comandar essa reunião, mas teve que se ausentar por causa de um problema. Por isso, eu levarei adiante. Quem falar alguma coisa durante o tempo em que minha voz ecoar por essas paredes, vai ficar o ano inteiro cumprindo detenção após as aulas. Entendido?

Todos balançaram a cabeça de forma afirmativa, ele sorriu e continuou:

— Nesse verão, uma aluna da nossa escola desapareceu. Houve muitos grupos de busca para encontrá-la, cartazes e até mesmo anúncios na TV, mas não tivemos notícias. Isso não quer dizer que algo de ruim aconteceu com ela, muito menos que alguém daqui fez isso, mas é sempre bom ter precaução. Estamos em uma cidade muito pequena, onde todo mundo se conhece, mas tentem tomar cuidado ao falar com estranhos ou apenas conhecidos. Não entrem em casas e carros de pessoas que não sejam realmente de confiança. Às garotas, principalmente, peço que andem em grupos. Não saiam sozinhas. Aos meninos, cuidem das meninas. Estamos em um momento de união. Obrigado.

Durante todo o tempo em que o professor falou, Hope não tirou os olhos do chão. Se sentia mal, desconfortável. E assustada. O demônio às suas costas já até sabia no que ela estava pensando:

— Você acha que ele pode estar certo! — ficou surpreso.

Hope levantou os olhos para ele e então os levou para o professor de história. Isso não quer dizer que algo de ruim aconteceu com ela, ele disse. Parecia uma mentira deslavada e supérflua.

— E é uma mentira — afirmou o demônio. — Mas sabe que não estou falando sobre isso.

Não, ele não estava falando sobre o discurso do professor, mas sim sobre ter razão quanto ao capitão do time de futebol ter matado a sua irmã. Hope ainda se lembrava da raiva, do sangue, do ódio, da certeza na voz dele quando disse que Audrey estava morta. E também havia aquela sensação, naquele momento, naquela arquibancada do ginásio daquela escola. Algo estranho, como se Hope fosse um animal assustado no meio de leões famintos.
Aquelas pessoas eram más. Sempre foram. Desde que eram crianças e jogavam ovos no telhado de Hope por ela não querer ir a uma festa de aniversário, desde que espalharam boatos a respeito de Brooke ser uma vadia, e desde que Audrey desapareceu após uma festa no meio do verão.

— Ah, sim — comentou o demônio, recostando-se contra a arquibancada. — Isso é verdade. O maluco quase tem razão.

Hope engoliu a seco.
Não era só o capitão.
Em um sussurro, ela completou o pensamento:

— Todos aqui são suspeitos.

...

Enquanto Brooke Simons rodava a cadeira de rodinhas na qual Hope estava sentada, Bartholomew Hudson fuçava nos discos de vinil da amiga de cabelos azuis. Ele adorava a coleção dela, principalmente porque a maioria dos discos não podiam ser encontrados nas lojas daquela cidade. Brooke viajava muito e, de cada lugar que ia, trazia um de recordação.

— Bartholomew Hudson, se você estragar qualquer um deles com as suas patas sujas, eu juro que te mato — avisou Brooke. Ela não estava brincando. Amava demais os seus discos.

Barth, que tocava em um naquele exato momento, recusou e disfarçou.

— Não vou! Estou apenas olhando.

Hope riu deles, sentindo o pinicar dos pincéis de maquiagem de Brooke tocar-lhe a pele. A menina parecia uma miragem correndo para lá e para cá ao redor de .

— Você acha que vai ficar bom?

Hope se olhou no espelho ao fazer a pergunta, inclinando-se para frente para ver melhor. havia deixado marcas em seu pescoço, e elas não eram fracas; eram escuras e constantes ao redor de sua pele pálida, misturando-se às veias esverdeadas embaixo da camada branca que não via nem dez minutos de sol há anos. Uma visão horrível, sim, mas a menina não se importava tanto assim com a aparência para tentar mudar. Já havia aceitado que nunca seria bela e bronzeada como as garotas da TV, por mais que tentasse. E ela tentava.
Hope não quisera prestar queixa quando o xerife chegou à escola para colher um relatório, mas não a agradeceu por aquilo. Na verdade, o menino pouco parecia se importar com o que ia lhe acontecer. Havia um quê de satisfação em suas feições sempre que ele olhava para as mãos machucadas, que fazia Hope se lembrar de um kamikaze — ou de um maluco. estava certo de que havia obtido vingança pela irmã mesmo que ninguém realmente acreditasse que ela estava morta. As pessoas ainda tinham muitas esperanças nos pequenos mistérios daquela cidade.
não se importou, não fizera aquilo por ele. Só não queria perder tempo na delegacia, muito menos alertar os seus pais. Também achava hipocrisia demais acusar alguém de querer fazer mal à sua integridade física quando ela mesma pensava naquilo o dia todo. Se avaliasse bem, estaria até mesmo fazendo um favor a ela, se acabasse apertando demais o seu pescoço. Hope não parava de pensar no ar faltando nos pulmões, no escuro eterno. Estava virando um vício.

— Minhas maquiagens não são das melhores, mas posso dar um jeito — respondeu Brooke. Ela havia passado quase um quilo de base e pó no pescoço de Hope para tentar esconder as marcas. — É a primeira festa do ano e você não vai aparecer lá desse jeito. Juro.

Hope concordou com a cabeça, e o demônio riu. Ele parecia saber que ela até mesmo havia gostado das marcas. A fizera ter uma outra ideia sobre a morte: enforcamento. E se a garota amarrasse uma corda no pescoço e pulasse da sacada do seu quarto? Pelo menos não sujaria o capô do carro do seu pai de sangue.

— Quem se importa com essa festa? As pessoas só querem beber — reclamou Barth. Era verdade, mas Brooke acreditava que não. Ela sempre defendia as primeiras festas do ano como se elas fossem um feriado nacional.

No fundo, sabia que a amiga só queria muito pegar o carinha da banda. Por isso a animação. Hope não a julgava, ele era bonito; mas parecia frio e distante como todos os outros caras com os quais a amiga de cabelos azuis havia saído. Devia ser o tipo dela.
Hope mal podia esperar para chegar à escola, passar pela porta de entrada e procurar um lugar vazio na arquibancada para sentar e se esconder. Ela não ligava de passar a noite toda ali, sozinha, escutando música e bebendo. Só não gostava quando alguém tentava falar ou dançar com ela; quando isso acontecia, preferia estar em casa.

— Eu amo essa música! — pulou Brook de repente. A garota começou a dançar ao som de Losing My Religion, se esquecendo de ameaçar Barth de morte por ter tocado em um dos discos de ouro dela.

Hope gostava daquela música, mas ela lhe fez sentir algo frio naquela noite, quando cantou com o som da voz do demônio junto à sua:

"That's me in the corner.
That's me in the spotlight.
Losing my religion."


03 - Só Você Pode Me Fazer Mal

Uma música sobre morte tocava quando Hope entrou pela porta do ginásio da escola. Ela achou aquilo triunfal, quase épico; uma piada interna que só ela e Deus - ou o Diabo - entenderiam.


- Hope, você não pode beber, mas vou arrumar refrigerante para você! - garantiu Brooke. Ela sabia da medicação que tomava e falava como se fosse uma grande pena, mas Hope não ligava. Odiava álcool.

Barth e Brooke saíram para a mesa de bebidas, e Hope ficou ali. O ambiente escuro e as luzes em tons de vermelho e azul a faziam se sentir a estranha que era. Com suas pernas dando pequenos passos, ela endireitava e entortava a postura, mexia no cabelo e olhava para lugares distintos, mas nada parecia aceitável. Tudo o que fazia deixava claro o fato de que sua personalidade desajustada não se encaixava ao cenário que a cercava.

- Você parece a suicida depressiva que é - disse o demônio às suas costas. Ninguém podia vê-lo, mas mesmo assim ele colocou um terno e puxou o cabelo para trás. Ela quase o julgou, mas acabou fazendo o mesmo.

Hope puxou os lábios em um sorriso esperto.

- E você parece o ser cruel e sem alma que realmente é - retrucou, ouvindo-o rir.

Hope gostava quando conseguia falar daquele jeito porque, de algum modo, a fazia parecer menos frágil. Perto dele a menina sempre se sentia uma boneca de porcelana manuseável e sem valor, mas era bom quando mudava. Dava-lhe esperanças de que, se aquilo podia mudar de vez em quando, outras coisas um dia também poderiam seguir o mesmo rumo.
Uma música lenta começou, e casais se formaram ao redor de Hope. Eles seguiram para o meio da pista de dança e entraram em posição de um jeito quase sincronizado. Hope os invejou. Era como um filme adolescente passando diante de seus olhos, e ela só queira ser a garota com uma flor presa ao pulso e um rapaz a olhando como se ela fosse a menina mais bonita do mundo. Hope queria sair do baile e se divertir com os amigos, batizar o ponche e cantar com a banda; mas ela nunca conseguiria fazer aquele tipo de coisa.
A menina deu um passo para trás, encontrando um banco onde várias adolescentes esperavam sentadas que alguém as chamasse para dançar. Hope ficou ao lado delas. Não tinha esperanças de receber um convite, mas pelo menos não sentir dor nos pés. Dali ela também podia observar Barth e Brooke se divertindo perto da mesa de bebidas e se esquecendo completamente da existência dela. Era gratificante, de certa maneira.

- Isso é constrangedor demais até para uma garota que tentou se matar com aspirina - reclamou o demônio - Vamos, levante.

Hope o olhou com uma sobrancelha levantada. Ficou em duvida até perceber a mão dele estendida em sua direção. Ela riu.

- Não seria legal que me vissem dançando sozinha por aí - argumentou - E não era aspirina!

O demônio responderia se algo não o tivesse interrompido:

- Hope, só tinha refrigerante batizado, mas acho que não faz mal, faz?

Era Brooke, e ela chegava como um furacão. Barth segurava a sua cintura para que não se perdessem, deixando o chapéu que nunca largava de lado cair sobre os seus olhos. Por isso ele não viu o demônio, mas a amiga o enxergou. Claro como o dia.

- E quem é esse? - perguntou Brooke sem tirar os olhos do demônio.

Hope engasgou a seco e sentiu tudo parar por um minuto. Há anos o demônio a acompanhava e há anos ninguém nunca o havia visto. Droga, Hope pensou, ela podia mesmo vê-lo? Por que aquilo havia acontecido do nada?

- Com quem está falando? - perguntou Barth ao arrumar o chapéu.

O demônio sorriu de uma forma tão aberta e galante que Hope se amaldiçoou por notar tanto.

- Sou Damon - disse -, um amigo antigo de Hope.
- E você estuda aqui? - a garota de cabelos azuis ficou visivelmente interessada. Damon, como ele se chamava, era bonito demais para os padrões daquela escola.
- Não, eu só vim acompanhar Hope.

O jeito como ele a olhou em seguida a fez ter calafrios. Era estranho. Sua voz soando para todo mundo escutar parecia um daqueles sonhos repetidos várias noites seguidas. Uma pena que ninguém realmente o via, não como Hope. levantou, pegando a mão dele. Então se deixou ser guiada para o meio das outras pessoas e os dois dançaram até que ela risse sozinha.

- O que foi, Hope ? - o demônio perguntou.

Ela balançou a cabeça.

- O seu nome - disse, percebendo só naquele momento o significado - Você é mesmo um grande cretino sem alma, não é?

🌗 🌗 🌗


Oh where, oh where can my baby be?


Enquanto dançavam, Damon notou as marcas ao redor do pescoço de Hope. Elas eram escuras demais e a maquiagem muito barata. Foi preciso só um pouco de suor e cabelo para fazer o pó e o corretivo derreter, sumir e a deixar vulnerável de novo.
Ele passou os dedos pelas manchas roxas, o semblante sério e tenso quase como se estivesse incomodado. Hope sorriu:

- Está com ciúmes? - perguntou ela – Só você pode me fazer mal?

Os olhos dele ficaram vermelhos. A menina parou de sorrir. O demônio olhou por cima dos ombros, na direção de e sua guitarra preta. Ele estava ao lado do palco, se preparando para tocar com a banda. Hope não deixou de notar que não havia curativo algum nos machucados de suas mãos, como se ele não se importasse em deixá-los expostos.

The Lord took her away from me.


Então Damon se afastou, quase a empurrando. Hope pensou em perguntar o que tinha acontecido, mas ele sumiu e, em dois segundos, quem estava ao seu lado era Brooke. Ela queria saber tudo sobre o amigo desconhecido de Hope.

- Não somos muito próximos - respondeu ela - Só nos vemos quando as coisas estão ruins.

She's gone to heaven, so I've got to be good,


Brooke riu, achando que era uma piada. Então Barth se juntou a elas e os três dançaram juntos a noite inteira, até que a banda da escola entrasse e eles parassem para assistir junto com os outros.
Quando a festa acabou, vários grupos se juntaram do lado de fora, procurando carros e lugares para dar continuação para a noite. Não tinham o costume de dormir cedo, então claro que duraria até o amanhecer.
Hope não queria, mas acabou entrando com Brooke em um Jeep. Ela viu tarde demais que estava nele também.

So I can see my baby when I leave this world.


04 - Matamos Um Homem Juntos

Durante todo o caminho, Hope evitou olhar para o espelho retrovisor do lado direito do carro. Ela sabia que, por ele, a estaria observando. Por todo o tempo em que estivera no carro, mesmo que Hope não verificasse, sabia que ele a encarava apenas pelo modo como Brooke e Barth se cutucavam.
Quando o carro finalmente parou, o motorista e os dois amigos saíram pelo lado esquerdo e ela e pelo lado direito. Estava escuro e uma nuvem de fumaça denunciava a fogueira improvisada que os alunos haviam montado no meio da pista de corrida. O som das conversas e das brincadeiras ecoava como música no ar.
Ninguém viu quando segurou Hope pelo braço e a fez recuar os dois passos que tinha dado para longe do carro. Hope sentiu seu coração pular no peito. O toque dele era tão familiar que as marcas ao redor do seu pescoço pulsaram.


— Desculpe por isso — ele disse ao apontar o roxo em sua pele, o que a deixou surpresa. — Não consigo me controlar às vezes. É um problema de temperamento. Mas você não devia ter se metido no que não era da sua conta.

Ela riu sem humor.

— Sabe que aquele jogador ainda está em coma, não sabe? Devia me agradecer por não te deixar virar um assassino.
— O coma dele não vai durar muito — respondeu ao soltá-la.

Quando se afastou, Hope pensou nos sentidos de suas palavras. Primeiro pedira desculpas, depois fora grosseiro e, por último, simplesmente saiu. O que ele queria?

— Brincar com você — respondeu o demônio, e só então Hope o notou encostado no carro às suas costas.
— Ele não seria o primeiro — ela respondeu.

O demônio, com os braços cruzados e o olhar subindo e descendo pelo rosto dela, mordeu o lábio inferior. Hope não tinha dúvidas sobre o quanto ele sabia a respeito de sua vida antes de ela tentar se matar, mas julgava não ser muito. O demônio sempre ficava confuso quando a menina citava referências de seu passado.

— Quem brincou com você, ? — ele perguntou com calma.

Ela deu de ombros.

— O mundo.

...


O som do motor de uma moto em alta velocidade fez Hope encolher os ombros. Era alto e incômodo e lhe deu a sensação de estar mais perto da morte, principalmente quando pensou que a corrida iria começar em poucos minutos. Aqueles eventos sempre traziam tragédias, principalmente os que não eram supervisionados — e nunca eram.

— Ele parece um psicopata olhando para você — disse Brooke, mas também parecia uma psicopata olhando para .

Barth concordou, esfregando as mãos para esquentá-las. O calor da grande fogueira não parecia suficientemente forte para enfrentar o frio daquela noite e, aos poucos, as pessoas bebiam mais na intenção de fazer o sangue ferver. Não foi preciso muito tempo para que todos estivessem bêbados.

— Acho que ele está se sentindo culpado — respondeu Hope. — Me pediu desculpas pelo incidente no corredor.
— Ele é maluco — cuspiu Brooke. — Acho bom que todos nós fiquemos longe dele.

Hope se surpreendeu com a afirmação da amiga. Ela era o tipo de garota que não ligava para personalidades excêntricas, agressivas ou até mesmo violentas. Tinha um péssimo histórico quando se tratava de ex-namorados, carregando marcas que assombrariam o seu corpo até o dia de sua morte. Um conselho daqueles, vindo dela, só poderia significar que Hope não deveria ignorar de maneira alguma.
Porém, foi só se juntar a Thomás, dez minutos depois, que Brooke mudou de ideia. Quase sorrateiramente ela se juntou ao grupo de garotos e virou o foco da atenção de todos por todo o tempo em que conseguiu ficar sóbria o suficiente para permanecer em pé. Depois disso Barth a carregou para um canto e segurou os seus cabelos enquanto a amiga vomitava sobre o gramado do canteiro da pista de corrida. As pessoas passavam ao redor dos três e cochichavam sobre o comportamento da garota de cabelos azuis, e Hope agradeceu internamente por ela estar tão mal que ao menos pôde ouvir o que diziam.

— Eu quero ver a corrida — Brooke suplicava, mas tanto Hope quanto Barth sabiam que ela não conseguiria. — Thomás vai correr.
— Se ela continuar assim, a única corrida que vai ver é a que vai fazer até o inferno — comentou o demônio.

Hope o mandou ficar quieto, mas Barth e Brooke não podiam mais vê-lo e ela se sentiu uma tola por ter se acostumado aos dez minutos em que não pareceu uma louca.

— É um aviso amigável — o demônio se defendeu.
— Temos que levá-la até o carro, venha — Barth puxou Brooke e colocou os braços dela ao redor de seus ombros. Quando Hope se levantou, ele a tinha no colo: — Pode deixar que eu cuido dela. Fique e assista a corrida para nos contar tudo amanhã.

Hope não queria ficar, mas voltou a sentar no meio fio da calçada, sentindo o concreto frio tocar suas pernas. Barth acreditava que ela não era tão desajustada quanto parecia, que gostaria de permanecer sem eles para beber e ver a corrida com os outros; mas ela não queria ficar.

— Ok — concordou, vendo os dois se afastar.

O pesadelo do baile havia voltado: mais uma vez, não pertencia ao cenário em que se encontrava. Podia sentir que as pessoas percebiam aquilo apenas pelo modo como passavam e a olhavam ali, sentada no chão, com os braços ao redor do corpo para se aquecer.

— Você deveria beber um pouco — disse o demônio ao apontar uma garrafa que Brooke havia deixado para trás. — É o que as pessoas da sua idade fazem.

Hope o olhou em dúvida, mas não estava ponderando a sua oferta. De repente, outra coisa passara pela sua cabeça:

— Quantos anos você tem?

A risada dele fez folhas voarem do chão.

— Não se apegue a mim, Hope. Não sou seu amigo. Sou seu demônio.

Hope pegou a garrafa do chão e deu um gole. Ele estava certo, afinal. Uma dança no baile da escola ou um conselho amigável não diminuía o que ele era: um demônio. Alguém que ela nem ao menos sabia quais eram as reais intenções.

— Sinceramente, Damon, eu não sei mais o que qualquer um dos dois significa — respondeu.
— Com quem está falando?

Hope levantou os olhos. Era . Ele a olhava em dúvida segurando um cigarro aceso entre os dedos. Hope balançou a cabeça. O demônio havia sumido.

— Com ninguém.

Surpreendentemente, ele sentou ao seu lado. Hope recusou o cigarro que ofereceu, mas estendeu a garrafa para ele.

— Você não fuma? — perguntou o garoto, mas não parecia surpreso. — Porque tem cara de que sim.
— Não posso fumar.
— Por quê?
— Pelo mesmo motivo que você não pode beber — respondeu ao perceber que ele havia recusado a oferta.

juntou as sobrancelhas. A encarou por alguns segundos antes de dar de ombros e voltar a fumar. Não estava realmente surpreso, não em relação a ela. Um viciado sempre reconhecia o outro.

— O que faz aqui? — perguntou.

Hope não sabia responder, então deu de ombros.

— É o baile da escola.
— Você ficou sentada a noite toda — ele observou. — E depois dançou sozinha para sair e sentar aqui, de novo.

De repente, ela se irritou. Sabia que não se encaixava, mas odiava ver outras pessoas realçando aquele fato.

— Por que se importa?

riu.

— Eu não me importo. Só estava puxando assunto.
— Por quê?
— Porque matamos um homem juntos — ele respondeu. — Não é algo que une as pessoas?

Hope congelou no lugar, e só então bebeu um gole da garrafa que ela havia oferecido.

— O-o quê? — a garota conseguiu gaguejar.
— É, ele morreu. Acabei de saber.

Hope o observou beber mais um gole, e tremia tanto que o líquido quase transbordou pelos seus lábios. Então, como se nada tivesse acontecido, ele se levantou, levando a garrafa, e se afastou dela. A menina pensou em segui-lo — queria saber mais sobre as palavras que haviam saído de sua boca —, mas foi impedida por um grito. Um grito de uma voz que ela reconheceria em qualquer lugar.
Era Brooke.



05 - Eu disse que não fumo

Quando Hope alcançou Brooke Simons, sentiu todo o ar preso em seus pulmões escapar pelos lábios em um gesto de puro alívio. Ela estava bem; gritava porque, bêbada, girava com Barth sobre as pontas dos pés, os dois dando as mãos em uma brincadeira tola que faziam sempre que estavam bêbados demais para pensar.
Hope se aproximou e riu, cruzando os braços como uma mãe observando os filhos no parque. O demônio parou ao lado dela, ainda fumando, e também sorriu, mas aquilo não parecia bom. Ele odiava aquela felicidade boba, e talvez por isso tenha piscado e feito Brooke cair.
Os cabelos azuis de Simons praticamente desenharam uma cena em câmera lenta quando ela atingiu o chão, rindo e limpando as mãos na saia de pregas enquanto Barth sentava ao seu lado e se dobrava de gargalhar. Hope olhou o demônio vitoriosa, como se dissesse que ele precisaria de mais para acabar com a festa deles, mas a criatura havia sumido.


- Hope, venha aqui, Barth me deixou ver a corrida! - chamou Brooke quando a viu.

Ao se aproximar dos amigos, Hope também sentou no chão e dividiu a garrafa que Barth havia tirado do bolso da jaqueta. Brooke buscou na bolsa de couro repleta de remendos um frasco de comprimidos que espremeu sobre a palma das mãos e cheirou como uma nota de um dólar.

- Você não pode exagerar, Brooke - alertou Barth - Vai perder a corrida.
- Eu preciso disso para tomar coragem - respondeu a amiga - Thomás me chamou para correr com ele!

Quando disse aquilo, Brooke levantou, cambaleando, e puxou os dois amigos junto com ela. Barth e Hope haviam ficado sem fala, querendo discordar ao mesmo tempo em que sabiam não poder mandar no gênio difícil da garota de cabelos azuis.

- Eles vão começar! - gritou Simons, saindo correndo.

Hope e Barth a acompanharam até que ela estivesse perto da pista e, então, a deixaram ir na frente para que não perdessem bons lugares na plateia. De longe, viram o reflexo azul dos cabelos de Brooke se mover pela pista escura até que ela entrasse em um dos carros. A luz dentro dele se ascendeu e Thomás, atrás do volante, sorriu e a beijou como se a garota fosse um amuleto da sorte.
O carro que Thomás dirigia era o mesmo que Hope via chegar à escola todos os dias, mas ao contrário do habitual, dessa vez ele tinha a capota fechada. As máquinas estavam prontas, o ronco de dois motores reverberando no ar. Naquele momento, quando uma garota se colocou entre os veículos e levantou uma bandeira, o demônio começou a assobiar ao lado de Hope. Era a música do baile, a que os dois dançaram juntos.
Hope sentiu um frio invadir seu interior.

- Pare com isso - pediu.

Ele sorriu, começando a cantar quando os dois carros deram partida:

- we were out on a date in my daddy's car. We hadn't driven very far.
- Pare - pediu de novo.

O demônio continuou fumando e cantando, e Barth gritou em torcida ao seu lado. Havia algo errado, algo estranho. Algo ruim. Hope procurou Brooke pela pista, vendo-a através do vidro fechado. Ela gritava com os braços para cima e Thomás a acompanhava inclinado sobre o volante. Na plateia, tudo o que Hope escutava era o vazio sufocante da voz do demônio.
(there in the road, up straight ahead)
Estavam indo rápido, muito rápido. A pista estava úmida. O céu nublado. O demônio não se calava. Sua voz era suave, calma, afinada como no rádio. Parecia uma piada dentro de um filme de terror. A música...
(a car was stalled, the engine was dead)
...era sobre um acidente de carro, e, de repente, Hope entendeu que Brooke estava em perigo. Ela gritou com Damon, pediu para que parasse. A criatura a ignorou, cantando, às vezes sorrindo, em muitas ocasiões quase dançando.
(the screamin' tires)
Barth agora prestava atenção em Hope. Seus gritos eram abafados pela torcida, ninguém notando que o mau pressentimento exalado pelo demônio era real e podia dizer algo. Fazia frio por causa dele, mas todos só perceberam que o mal estava por perto quando um dos carros começou a deslizar, deixando marcas de pneu no asfalto.
(the bustin' glass)

- Pare com isso! Pare com isso! Deixe-a em paz!

Mas o demônio não parou.

- Pare!

(The painful scream that)

- Por favor, pare!

(I)

- Brooke!

(heard)

- Deixe-a em paz!

(Last)

Houve, de fato, um grito. Ele veio da pista e foi feminino, mas Hope não conseguiu ver de quem era porque a arrastou para longe da multidão. Ele a segurou pelos ombros e a fez parar de se debater e de chorar enquanto a mandava ficar quieta. Hope não queria parar. Queria voltar lá e gritar com o demônio até que ele desistisse de tentar estragar as coisas.

- Você é maluca?! Pare de me arranhar!

Então ela percebeu que havia cravado as unhas no pescoço de . Ele não poderia culpá-la. Havia por conta própria puxado a menina para longe da multidão e decidido arcar sozinho com as consequências de seu surto. O porquê, ela não sabia. Mas não pensaria naquilo naquele momento. O sangue escorrendo pelo pescoço de a distraía, fazia tudo parecer real.
Agora os dois tinham marcas deixadas pelo outro.

- Ele vai matar Brooke! Vai matar todos! - Hope não poderia ter certeza, mas suplicou por algum tipo de ajuda. segurou seus cotovelos e assoprou seu rosto úmido por diversos segundos antes de responder.
- De quem você está falando?
- Dele - apontou para a multidão, onde o demônio ainda fumava e cantava, mas não o viu - Por favor, faça alguma coisa.
- Já é tarde - ele lamentou - Você precisa se acalmar. Precisa parar de gritar.

Hope se calou, sentindo as pontas rígidas de seus dedos relaxarem. , aos poucos, se ajoelhou com ela até que a menina estivesse segura no chão e ele pudesse soltá-la. Então, com Hope tremendo e sentindo a garganta seca, ele puxou um cigarro de trás da orelha e ofereceu a ela.

- Eu disse que não fumo - Hope respondeu.
- Você fuma, sim.

Ela aceitou, deixando com ele a cortesia do isqueiro. Suas mãos ainda tremiam, seu corpo estava dormente. Ela fechou os olhos, sentindo a nicotina correr pelo sangue e a fumaça não ter saídas dentro de seus pulmões. Então abriu os olhos e viu que os olhos dele ficavam bem mais azuis com a chama do cigarro iluminando seu rosto.
e Hope ficaram ali enquanto as pessoas corriam ao redor deles, entrando e saindo da pista de corrida para ajudar os feridos do acidente. Uma ambulância chegou, a polícia também, e quando se ergueu sobre os joelhos, deixando-a ali, sozinha, Barth puxou Hope para cima pelos cotovelos e pediu ajuda para carregar Brooke até que estivessem longe da confusão.
Os três fugiram da polícia ao usar um caminho escondido por latas de lixo e chegaram à rodovia principal quando não aguentavam mais correr. Brooke tinha os braços sobre os ombros dos dois amigos e suas mãos, pendendo ao redor deles, estavam sangrando. Hope não perguntou nada sobre o que realmente tinha acontecido a Barth, mas o demônio às suas costas, andando atrás deles, parecia se divertir com uma piada interna.

- A moça da bandeira, a que dá a largada - comentou a criatura em certo momento - Aposto que vai ficar paraplégica.



06 - É de se Esperar que as Coisas Fiquem Difíceis

No dia seguinte, Hope sentiu que todos na escola falavam sobre o mesmo assunto. A garota da bandeira, como o demônio presumira, havia ficado paraplégica após ter sido atingida pelo carro de Thomás. Seu nome era Candice, e ela estudava na mesma escola que , mas a suicida nunca a havia notado até que passasse pelo seu armário, naquela manhã, e visse as mensagens de apoio pregadas na porta de alumínio. Era como se Candice estivesse morta. Todos lamentavam por ela. Aquilo fez Hope pensar em uma situação na qual Brooke fosse a vítima, ao invés de Candice; tinha certeza de que ninguém pregaria nada em seu armário. As pessoas eram ruins com ela porque Brooke não era perfeita, porque ela era a vadia da cidade. Felizmente, Brooke havia saído da situação ilesa — puxara o cinto no momento em que o motorista no comando de seu carro ficou visivelmente fora de controle — e ela não teria que passar pelo armário da amiga todas as manhãs e deixar por si mesma bilhetes de encorajamento.
Quando encontrou Barth na porta da sala de aula, Hope notou que ele estava sozinho. A preocupação com Brooke foi genuína e instantânea.


— Ela não quis vir à escola hoje — disse Barth. — Ainda tinha algumas partes do corpo doloridas.

Hope balançou a cabeça. Tudo estava estranho naquela manhã, até mesmo a voz de Barth, o chapéu que ele sempre usava torto sobre sua cabeça. O demônio não havia aparecido desde a noite anterior e Hope ainda sentia cheiro de cigarro em suas roupas. Não sabia se era dele ou de quando aceitara a oferta de , mas preferia a segunda opção. Lhe transmitia conforto.

— Ela se machucou muito? — continuou.

Apesar de ter voltado com Barth e Brooke para casa, Hope não perguntou sobre o estado da amiga durante o tempo que ficaram no ônibus, sentindo o frio da madrugada e a dormência causada pela passagem da adrenalina subir pelos seus corpos. Ao invés de questionar, Hope observou do banco de trás do deles as mãos machucadas de Simons passando pelos cabelos de Barth enquanto a menina dormia com o rosto escondido na curva do pescoço do amigo. Não pareciam graves, mas quem era ela para dar qualquer diagnóstico?

— Não foi grave para ela — garantiu Barth.

Hope assentiu, aliviada. Então entrou com o amigo na sala de aula e esperou que todos se acomodassem em suas mesas para começar a contar quantos haviam faltado e quantos haviam comparecido. Thomás estava lá, na primeira fileira, com um olho roxo. Parecia alheio a todo o caos. A única coisa que denunciava sua participação no acidente da noite anterior eram os dedos machucados, provavelmente por causa dos cacos de vidro quebrados com o impacto do corpo da garota da bandeira contra o para-brisa.
Hope observou Thomás por todo o tempo em que a sala ficou sem o professor visivelmente atrasado. Ele parecia tão... tranquilo. E ela sabia que havia motivos, afinal, o pai de Thomás era o xerife da cidade e ele sairia impune de toda aquela confusão. Apesar de ela saber que o menino ficara a noite toda na delegacia, ele e seus amigos sempre saíam impunes de qualquer situação. Todos eram filhos de membros importantes da comunidade: era filho do pastor, Thomás era filho do xerife e os outros dois garotos da banda, cujos nomes ela não lembrava, pertenciam à famílias ligadas à política. Prefeitos e colaboradores, acreditava.
Homens exercendo papéis de homens, como sempre. E Hope imaginava como ela se sairia se estivesse no lugar deles.

— Todos nessa escola decidiram morrer essa semana. Candice, Audrey, Victor...

A voz do garoto sentado na carteira da frente a acordou. Ele conversava com um amigo da fileira ao lado, provavelmente falando do acidente da noite anterior. Ela reconheceu o nome de Candice da noite passada; o de Audrey, irmã de ... E o de Victor, o capitão do time, qual havia morrido no hospital após ter sido atacado no primeiro dia de aula. O pescoço de Hope latejou.

— Audrey e Vivian não estão mortas — o outro discordou. — Uma está desaparecida e a outra paraplégica.
— Perdemos o capitão, então. Eu preferia que tivesse sido uma daquelas vadias. Temos um jogo semana que vem!

Hope se contorceu com a constatação. Aquelas vadias. Era um ódio palpável, e ela imaginou Audrey ainda na escola, meses antes, conversando com aquele mesmo garoto, e ele sendo amigo dela. As coisas mudavam quando prioridades surgiam. Antes, ele queria transar; agora queria ganhar um jogo.
Hope levantou da cadeira, de repente enjoada. Saiu da sala quando o professor de história passava pela porta, esbarrando nele e pedindo desculpas sem ousar parar. Queria sumir, queria respirar; queria tirar os gritos da noite anterior de sua cabeça. De repente, todas aquelas vozes não deixavam seu cérebro, e entre elas estava a de Audrey. Era tudo o que Hope podia escutar.

— Está finalmente se sentindo culpada, Hope?

Quando as vozes sumiram, tudo o que restou foi o demônio. Ela e o demônio. Ele sorria.

O quê?
— Está finalmente sentindo culpa por Audrey? — a criatura repetiu.
— Por que eu sentiria culpa?

Uma imagem passou pela cabeça dela, e Hope soube que foi o demônio que a colocou lá: uma festa adolescente. A festa na qual Audrey desapareceu. Todos dançavam, e Hope estava lá. Uma música tocava, (It doesn't hurt me) e era a mesma música de quando Audrey se aproximou para tentar conversar com Hope e a ignorou. Não queria ouvir. Estava bêbada, chapada, procurando por Brooke e Barth para poderem ir embora antes da polícia chegar. Ela não tinha tempo para conversar com Audrey. Por isso a ignorou, deixando-a para trás. O demônio estava perto, dançando, a seguindo e

(Do you want to feel how it feels?)

comentando sobre as pessoas ao seu redor. Ele contava pecados nos dedos, sorrindo com cada um deles, e quando parecia que esses pecados estavam próximos do fim, ele recomeçava. Dizia que humanos nunca cansavam de pecar.
(Do you want to know that it doesn't hurt me?)

— Pare com isso! — Hope gritou no corredor da escola, conseguindo se soltar daquela imagem.

Quando o demônio colocava alguma coisa na cabeça dela, era certo que Hope não podia fugir. ficava presa dentro da cena até que surtasse ou que a criatura cansasse de brincar com ela. Só então poderia voltar à realidade. Eram sempre experiências horríveis, porque não eram lembranças; era como estar lá de novo. Hope sentiu o barato da maconha, o suor da dança em suas costas, os pés cansados pelos saltos. Mas não era real. Não para ela.
O demônio riu. Ele sabia que Hope ainda escutava a música (Do you want to hear about the deal that I'm making?) da festa como uma música de fundo.

— É por isso que a sua raça é tão fraca — disse ele. — Vocês não aguentam o peso de seus próprios pecados.

Não houve respostas por parte dela. O professor de história apareceu, colocando-se na frente do demônio. Hope estava escorada contra a parede do corredor, e só com todos os alunos saindo das salas para ver o que estava acontecendo que a menina notou ter gritado alto demais.

— Você está bem? — perguntou o professor.

Ela balançou a cabeça. Ele discordou:

— Não parece. Venha, vou te levar para a enfermaria.


...



— Você deveria voltar para a sala.

Christian, ela pensou, era um bom nome. Bem melhor do que senhor Hodges ou professor de história. Hope poderia se acostumar a chamá-lo por aquele nome, se era o que ele queria. Pelo menos até que o seu mal-estar passasse e Christian voltasse a esquecer da existência da garota.

— Vou ficar aqui até a enfermeira voltar — ele avisou.

Hope queria ficar sozinha, mas não seria rude com ele. Christian estava tentando ajudar. Achava que Hope tinha passado por algum tipo de surto pós-traumático, resultado do acidente na pista. Ela não discordava, mas achava que era bem mais profundo que aquilo.

— Está tudo bem em surtar um pouco — disse ele com gentileza. — Com o desaparecimento de Audrey, o acidente de ontem e o suicídio de Victor, é de se esperar que as coisas fiquem difíceis.

Hope concordou roboticamente, mas parou e franziu o cenho.

— Suicídio? — repetiu. — O capitão do time se suicidou?

Christian pareceu surpreso por ela não saber. Já Hope se sentiu traída por . Ele havia mentido, dito que juntos acabaram matando Victor, e Hope realmente se sentiu mal por aquilo. Se sentiu culpada.

— Eu preciso tomar um ar, com licença.

Ela levantou da maca. Seu coração pulsava. Não bastava um demônio, agora havia dois para testar a sua sanidade. Hope não poderia aguentar se continuasse daquele jeito. Christian a segurou pelos ombros e a fez sentar de novo. Dizia que ela não tinha condições de sair andando por aí, e talvez estivesse certo. Poucas vezes na vida havia se sentido tão... Fraca. Era até mesmo como se algo estivesse sugando as suas energias.

— O que temos aqui, querida?

Era a enfermeira, Vivian, entrando na enfermaria. Hope se sentiu aliviada por vê-la. Era uma das poucas pessoas daquela escola com quem ela realmente gostava de conversar. Vivian era boa e via além de todos os distúrbios de Hope. Ela achava que devia ter algo com sua experiência na profissão.
Quando o professor saiu, olhando-a uma última vez para ter certeza de que Hope estava bem, a menina sentiu um calafrio. Pensou em , em como ele havia dito algo tão cruel. A acusou de assassinato, a fez pensar que tinha sido responsável pela morte de alguém...

— Ah, Hope, não se preocupe — o demônio interrompeu seus pensamentos, encostado contra uma maca, e garantiu: — Eu não vou deixar nenhum outro demônio tomar o meu lugar.



07 - Você Não Pode Me Ajudar

Uma sensação estranha acompanhou Hope durante todo o caminho de volta para casa. Quando ela ouviu as sirenes e viu as luzes no canto da rua que sempre, desde sua infância, foi tranquila, finalmente entendeu o porquê da sensação. Algo ruim tinha acontecido. Algo que fez Hope se aproximar da multidão, curiosa, e desejar ter seguido direto para casa, assim não teria que sonhar com a imagem de Audrey morta pelo resto de sua vida.


- Agora se sente culpada?

A voz do demônio não passou de um toque distante. Hope se distraiu com as luzes e as pessoas de uniforme. Naquele momento, a Rua dos Alfaiates não se parecia nada com o que ela estava acostumada, como se a graça das flores nos jardins e as senhoras sempre alegres de repente não passassem de vultos atrás de cortinas de janelas.
A música da festa estava de volta, baixa como um pensamento, constante como uma maldição. Hope fechou os olhos, depois os abriu, e então Audrey a assombrou de onde estava, sobre o asfalto da rua, deitada, morta e insistente. Seus olhos abertos e fixos em Hope a fizeram recuar com medo de ver algo que causasse mais pesadelos. Assim que ela saiu, um policial cobriu o corpo de Audrey com um plástico.
Longe da multidão, já caminhando de volta para casa, Hope se esquivou da rua e vomitou perto dos arbustos da casa da Srta. Petterson, sua vizinha. Algo em seu estômago e no barulho dos passos do demônio às suas costas a fez não aguentar a situação. A música estava de volta, e ela queria gritar. Por que o demônio não a deixava em paz? Ele não tinha nada a ver com aquilo.

- Eu sou todos os seus pecados, Hope. Tenho tudo a ver com isso.
- Me deixe em paz!
- Paz - a criatura recitou - Isso não existe.

Ele estava certo, Hope pensou.
A existência como um todo era bem relativa.


...


Quando Hope entrou em seu quarto com o gosto amargo do vômito ainda impregnado em seu paladar, teve outro daqueles sentimentos recorrentes a um acontecimento ruim se aproximando. O primeiro sinal foi a ausência do demônio, que sempre estava sentado em sua poltrona marrom quando ela chegava. Aquele móvel pertencia a ele desde o momento de sua primeira aparição, anos antes, e nunca teve coragem de contradizer o que ele parecia pensar.
Mas o demônio não estava ali.
Pelo menos não o demônio que ela estava acostumada a ver.

- Droga, o que é isso?

Hope deixou a mochila cair no chão - o que machucou muito mais a sua dignidade do que os seus livros. Ela respirou fundo, levando a mão ao peito. Então ascendeu a luz e, embaixo da cor laranja estética do local, encontrou encostado contra a janela.

- O que está fazendo aqui? Quem te deixou entrar?

Ele se aproximou dela, fechando a porta do quarto. Então a puxou pelos pulsos e a fez sentar na cama. Olhou-a nos olhos, perto. Quando pareceu encontrar o que queria, disse:

- Por que estava gritando o nome da minha irmã no meio da escola?
- O quê?
- Você teve um surto. Começou a gritar o nome da minha irmã e eu quero que me diga o porquê. Sabe de alguma coisa?
- É claro que não.

Ele soltou o pulso dela e levantou da cama. Parecia nervoso, muito nervoso. Então, quando Hope levantou também, ele a empurrou contra a parede e foi como o encontro dos dois no corredor do colégio se repetindo:

- Pare com isso! - Hope gritou ao sentir as mãos dele ao redor de seu pescoço.
- Diga a verdade!
- Estou dizendo!

prendeu a respiração. Então se afastou e soltou tudo em um suspiro nervoso. Hope percebeu suas pupilas dilatadas, as veias saltando. Ele deu dois passos para trás, sentou na poltrona que pertencia ao demônio e abaixou a cabeça com as mãos entre os cabelos. O som de sua respiração nervosa era tudo o que os dois eram capazes de escutar - exceto Hope, ela ainda ouvia os barulhos da festa bem no fundo de sua mente.

- Droga, você está chapado?

Se aproximou dele. Não era seguro, sabia, mas desde quando se importava com segurança? Hope era a garota que queria morrer. Segurança era relativo. Por isso ela continuou se aproximando e até mesmo ousou tocá-lo, sendo expelida com um quase tapa quando seus dedos alcançaram o braço dele.

- Ou você me deixa te ajudar, ou eu chamo a polícia.

A declaração pareceu ousada quando Hope a pensou, mas ao escutar as palavras saindo pelos seus lábios, tudo o que ela conseguiu pensar foi no quão ridícula estava soando. riu. Um riso nervoso que ela reconheceria em qualquer alma desesperada.

- Você não pode me ajudar.

A voz dele foi fria, mas Hope sentiu pena. O corpo de Andrey havia aparecido há menos de uma hora, a julgar pela movimentação na rua. provavelmente nem havia conseguido digerir a informação corretamente. Ele estava desesperado, e por mais que a violência fosse o seu modo de se expressar, Hope sabia que precisava ajudá-lo.
Sabia o que passava na cabeça dele, porque era óbvio: o corpo de Audrey encontrado no mesmo dia em que ela saiu gritando o nome da garota desaparecida pelos corredores da escola. Isso somado ao fato de que havia sido a última pessoa a vê-la levantaria suspeitas justificáveis.
Mas ela não sabia de nada que pudesse ajudá-lo.

- Eu sinto muito pela sua irmã - então, explicou: - Pensei nela o verão todo e, hoje, depois do acidente e daquela garota paraplégica, surtei por entender que ninguém está seguro nessa cidade. Eu não sabia onde ela estava e nem o que tinha acontecido, prometo. Se eu pudesse voltar no tempo, mudaria tudo naquela festa. Eu tentaria salvá-la.
continuou de cabeça baixa, ainda em uma espécie de surto. Não parecia disposto a ouvir e nem a acreditar. Hope finalmente perdeu a paciência. Quem ele achava que era para invadir a sua casa e acusá-la de qualquer coisa?!

- Você não tem o direito de cobrar nada de mim! - começou - Dentre nós dois, não sou a que conta mentiras! Por que não me disse que foi suicídio?

A drástica mudança de assunto fez com que levantasse a cabeça, tirando os dedos dos cabelos agora bagunçados. Ele a encarou e era óbvio que sabia do que Hope estava falando, mas não respondeu. Ela teve que repedir a pergunta:

- Por que disse que tínhamos matado o capitão do time quando na verdade ele cometeu suicídio?

Era estranho estar tendo aquela conversa. Era o tipo de conversa que ninguém nunca imagina que vá precisar ter. Mais estranho ainda era ali, no seu quarto, e a naturalidade com a qual Hope estava lidando com tudo aquilo. Aparentemente a sua convivência com o demônio a tinha deixado mais suscetível a situações de desespero e pavor.

- Porque ele matou a minha irmã, e eu enchi cara dele de porrada enquanto citava todos os motivos pelos quais ela não merecia ter morrido. Quando ele acordou do coma, aposto que se lembrou de tudo o que eu disse. Aposto que sentiu culpa. E aposto que se matou por isso.

Culpa. Aquela palavra de novo. Hope recuou um passo, a música da festa voltando à sua cabeça. Até aquela tarde, quando o demônio entrou em sua mente, Hope não pensava naquilo. Agora era tudo o que passava pela sua cabeça. Culpa. A festa. A música.
Culpa.

- Você se sente melhor com ele morto? - ela perguntou.

levantou da poltrona. Hope pôde jurar que o viu sorrir quando ele se aproximou, na direção da janela às costas da garota.

- Ah, sim, eu me sinto. - respondeu.

Ela queria impedi-lo de ir. Parecia um movimento muito aleatório: ele chegou, causou caos e então saiu, simples assim. Não deu explicações, não pediu desculpas, não tentou enforcá-la dessa vez até o fim... Então o que ele queria?
Talvez uma saída, ela pensou.
Mas nunca poderia ter certeza.



08 - A Cidade Está de Luto.

Não havia uma única alma em toda aquela cidade que não estivesse sentindo o peso da morte de Audrey . Hope sabia daquilo melhor do que ninguém. O demônio que a acompanha desde sua infeliz tentativa de suicídio parecia extremamente satisfeito. Ele costumava se alimentar de situações ruins, deixando o clima de qualquer cômodo no qual estivesse presente mergulhado em hostilidade. Para Hope, era difícil lidar com a bipolaridade das tensões humanas e demoníacas misturadas em uma só realidade; ou ela se sentia triste por Audrey, ou irritava-se com a felicidade do demônio. Os dois juntos era difícil de controlar.
Por aquele motivo ela estava arisca naquela manhã seguinte ao descobrimento do corpo. Mal dormira após a invasão de em seu quarto, sempre acordando com barulhos estranhos e não conseguindo dormir quando a mente insistia em divagar sobre a circunstância na qual ele simplesmente escolhesse apertar um pouco mais o seu pescoço. Não era saudável; não era normal. Mas ela gostava. A ideia da morte pelas mãos de outra pessoa fazia com que a culpa do suicídio diminuísse drasticamente, deixando as preocupações sobre o céu e o inferno de lado.
Era uma ótima questão moral.


- Hope, querida, você precisa comer.

Os olhos de Abigail encaravam os da filha insistentemente. Ela não estava acostumada a ver uma figura tão moribunda logo pela manhã. Hope tinha muitos defeitos, mas mau humor matutino não era um deles. Se a filha estava quieta, então algo de errado havia acontecido. Abigail sabia o que era - impossível não saber, naquela altura do campeonato -, mas preferiu não forçar a situação e deixar que a adolescente nada rebelde à sua frente falasse. A morte era uma coisa delicada demais para se escolher como assunto principal no café da manhã em família.

- Estou sem fome, mãe.
- Tome o suco, então. Só isso. É natural, vai te fazer bem.

Hope engoliu o copo todo em dois goles. Então olhou para a mãe em busca de aprovação e recebeu um leve e tímido sorriso como reposta. Gostava de satisfazer as vontades de Abigail quando a recompensa era um gesto tão simples e proveitoso como aquele. Hope odiava ser paparicada com outras coisas além das que achava merecer - bens materiais, por exemplo, eram repugnantes.

- Seu pai quer te levar para a escola hoje - disse Abigail - Ele está preocupado.

Ah, sim. Claro que o lado superprotetor de Vincent iria aflorar. Ele sempre aparecia quando as coisas ficavam horríveis, tentando fazer com que elas melhorassem. Hope não odiava de todo aquela atitude, mas, de vez em quando, achava que aparecer um pouco antes da bomba explodir seria de maior ajuda. Evitar um desastre era bem melhor do que controlar o desastre, segundo a sua experiência.
Audrey era a prova viva daquela filosofia.

- Tudo bem - Hope concordou, pegou a sua mochila e saiu da mesa.

Do lado de fora, Vincent a esperava já dentro do carro. Ele abriu a porta pelo lado de dentro quando a filha se aproximou e ligou o rádio junto com o motor. Quando o caminho até a escola se iniciou, Hope o encarou por alguns segundos, vendo que ele não tirava os olhos da estrada úmida. Ela entendia. Também evitava pessoas vulneráveis quando não fazia ideia de como ajudá-las. Era melhor do que simplesmente se sentir inútil diante de situações difíceis.

- Bom dia, pai.
- Bom dia, filha.

O barulho do limpador indo para a direita e para a esquerda incomodava Hope. Então, de repente, um estalar de língua tilintou do banco de trás. Era Damon. Ele estava caçoando da falta de jeito dos dois 's em relação a diálogos difíceis em manhãs tristes.

- Vai trabalhar hoje? - ela perguntou. Qualquer som era melhor do que as provocações da criatura às suas costas.
- A cidade está de luto por Audrey . Tudo ficará fechado por um dia.

Hope concordou com a cabeça. Não sabia que aquele tipo de coisa acontecia naquela região. Claro, a vizinhança era pequena, nenhuma grande crise aconteceria por vinte e quatro horas de não funcionamento, mas mesmo assim... Era estranho. Não parecia real.

- As pessoas não são tão egoístas quanto você, Hope - criticou o demônio - Elas se importam com Audrey. Bem mais do que você se importou naquela festa.

Hope aumentou o som do carro e limpou a garganta. Seu pai estranhou, mas não disse nada. Queria ser compreensível até onde ela o permitia.

- Pai, eu posso chamar Brooke e Barth para dormir lá em casa hoje?

Tanto Vincent quanto o demônio a olharam surpresos. A resposta de um, porém, foi diferente da do outro:

- Claro, filha. A casa é sua. Mas acha que hoje é o dia certo?
- Sua amiga de infância morre e você dá uma festa do pijama? Estou cada dia mais impressionado.
- Precisamos desse tempo - respondeu ela aos dois - Desse momento em que estamos juntos e podemos nos ajudar. Acho que é importante. Além do mais, Audrey não iria querer ninguém perdendo a vida por ela.

Pelo espelho retrovisor, Hope viu Damon sorrir. Um sorriso contido, frio, cheio de piadas internas e respostas espertas. Ela sabia o que ele pensava sobre união, sobre amigos e sobre o luto: era uma besteira. Tudo aquilo se perderia no momento em que as pílulas descessem pela garganta de Hope de novo.


...



Hope não imaginou que seria tão difícil frequentar a escola naquela manhã. Na verdade, ela nem tinha pensado naquilo até o exato momento em que passou pela porta de entrada e viu os cartazes, fotos e textos de apoio e luto ao redor das paredes e armários. Todos sentiam muito pela morte de Audrey, era a mensagem principal.


- Isso tudo está me dando arrepios.

Não, Hope pensou. O que estava causando arrepios em Brooke Simons não era o cenário quase apocalíptico da escola, mas sim o demônio que as acompanhava. Como sempre, ele parecia intrigado com a dor humana, julgando-a sempre que apontava a hipocrisia de quem nunca havia falado com Audrey e dizia estar triste pro ela. Damon era o causador da sensação ruim nas estanhas das duas amigas. Quando ele estava com raiva, elas sentiam. Assim como todo o resto.

- É só o primeiro dia - justificou Hope - Logo vamos nos acostumar com a falta dela.
- Eu duvido muito disso. Audrey era o pilar dessa escola.

Hope suspeitou que o próximo arrepio não fosse culpa do demônio. Na verdade, teve certeza de que veio de dentro de si, da parte inconsciente que sabia que Brooke tinha razão.
Audrey era o pilar daquela escola.
Era o pilar de todos.
As pessoas vinham negando, mas era verdade. Ninguém saberia como agir sem ela por perto. Principalmente quando a única coisa que ela havia deixado para trás fora um irmão sociopata descontrolado e maluco.

- Hope, Hope, Hope... - cantou o demônio, atrás dela - Espero que a morte de Audrey não tenha feito com que desse mais valor a ela! Isso seria um grande clichê da sua parte.

Ela o ignorou. Continuou andando e puxou Brooke para dentro da sala de aula no momento em que o sinal tocou. Sabia que o demônio odiava o acumulo de pessoas quando o desespero do atraso batia. Queria ficar longe dele, pelo menos por cinco ou dez minutos, e conseguiu. Andou calmamente até as duas carteiras no centro da sala, uma sua e uma de Brooke, ainda estranhando aqueles arrepios em sua pele, e notou que ainda chovia atrás das janelas da escola.
Quando sentaram, os outros alunos sentaram também. Todos tinham sido pontuais naquele dia, e Hope só descobriu o porquê cinco minutos depois, quando um homem alto, de cabelos castanhos e sobretudo marrom entrou na sala de aula e se apresentou formalmente:

- Bom dia. Eu sou o detetive White, encarregado de investigar a morte da colega de vocês, e estou aqui para fazer algumas perguntas.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.







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Batom Vermelho

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