Última atualização: 07/09/2018

Epígrafe

it has been a beautiful
fight

still
is.


Prólogo

Existem muitas coisas na vida que não precisam ser ditas em voz alta. Quando as pessoas realmente se conhecem, apenas olhares podem decifrar o que sentimos ou devemos sentir.
Mas, às vezes, olhares e conexões raras não são o suficiente. Às vezes, você acha que aquilo vai ser para sempre. Que aquela ligação foi criada em existências passadas e que assim será por muitas outras que virão. Não é assim que o mundo funciona.
Conexões são quebradas. Com separações causadas por diversas razões: brigas, confusões, achismos e, na pior das hipóteses, mortes ou abandonos.
Foi assim que teve sua única conexão quebrada. Elena Blacklion. A garota com sobrenome estranho que nunca o julgou por nada. Uma separação terrível, cinco meses atrás. Separação essa que foi culpa de , por estar fazendo algo que não deveria. Ela foi embora. Ele continuou numa sobrevida, cada dia mais amargo.
Ela era linguística. Com especialidade em línguas mortas e as que ninguém se interessava. Enquanto todas as pessoas do mundo estavam aprendendo espanhol ou francês, Elena estudava línguas de tribos africanas, indígenas e até mesmo as de sinais – seu maior feitio foi aprender a língua dos elfos, por mais que ninguém mais soubesse falar e era só para entender o que se passava nos filmes.
Ela tinha palavras favoritas, que também eram de origem quase desconhecida. Ubuntu. Duyên. Trouvaille. Howzit. Lekker.
Mas barakah sempre foi sua favorita. Ela anotava em todos os lugares possíveis. Sempre que estava com uma caneta na mão, escrevia em alguma parte do corpo. Assim se tornou a sua primeira tatuagem. No dia em que a pediu em casamento. No meio do estúdio. Ela dizia que barakah sempre iria atrair coisas boas por ser uma palavra repleta de energias positivas.
Foi isso que chamou atenção de naquela manhã de outubro. Ele finalmente estava de mudança, tinha sido convencido a sair da casa que era deles. Para se desapegar do passado. Para se desapegar de uma pessoa que havia ido embora. Elena sempre escreveu diários, era uma mania de criança. Aquele diário em especial, verde e com brilhos discretos, tinha a palavra escrita na capa. Era a letra dela.
O diário era daquele ano. Coisas que às vezes não podemos dizer em voz alta. Mesmo com as pessoas que temos conexões raras. E estavam lá coisas que ela deveria ter dito a . A última página tinha data de uma semana antes dela ir embora, e ele começou a ler. Um verso em especial chamou atenção do modelo.
“Eu sempre soube que as pessoas poderiam esconder lados bons. Mas eu preciso que o Senhor mostre um melhor para o . Eu sei que ele é uma pessoa boa, mas ele precisa descobrir sozinho sobre isso. Por favor, querido Deus, ilumine a vida de meu menino e faça-o enxergar as coisas boas que ele pode fazer. Envie um barakah para a vida dele.”
Ao terminar de ler, tinha lágrimas por todo o rosto e páginas manchadas de água. Se até Elena o enxergava daquela maneira, como o resto do mundo o via?
Não foi naquele exato momento que decidiu mudar. Mas ele ia tentar, mesmo não sabendo exatamente como diabos iria fazer isso.


01 – Trouvaille

something lovely discovered by chance


Olha, eu não dou a mínima que Michael Caine tenha marcado com você hoje. A única pessoa que eu cederia essa vaga é a nossa rainha e, até onde eu sei, ela não se consulta com você. Então, por favor e pela falta de necessidade de um processo na sua vida, ligue para o Sr. Caine e diga que ela poderá ir amanhã. — murmurou com toda a falta de educação que conseguia ter. Mesmo filho de empresários milionários, alguém criado na alta sociedade e que conhecia de tudo um pouco, quando ele queria, conseguia ser alguém que nunca obteve acesso algum a educação básica — Como foi fácil. Você é realmente um doce, Srta. Beauchamp, até mais tarde.
— Esses caras são fodas, viu? — Robert gargalhou, rolando os olhos em seguida e encarando o amigo, que parecia não gostar nada da situação — O cara acha que só porque ganhou um Oscar pode passar na frente dos outros nas consultas. E outra, por que um homem daquela idade precisa de um ortomolecular? Ele precisa de uma agência funerária.
— Robert, você é tão engraçado que eu me pergunto todo santo dia por que não investe na carreira de comediante de stand-up! — A cara do modelo não era das melhores.
— Segura a onda aí, dude. Eu só queria…
Ajudar? riu de forma amarga — Pois, é o que você faz de melhor.
Robert Thomas III — isso mesmo, terceiro — não era um cara ruim. Ele era branco, cis, hétero, rico e que estudava direito em Cambridge e… Tudo bem, reformulando, ele não era um cara tão ruim. Ele fazia piadas sexistas entre os amigos, já ameaçara uma lésbica numa festa e disse que Amber Heard só queria fama no processo contra a suposta agressão de Depp. Mas, no fundo, bem no fundo, ele era melhor do que parecia. Todos os domingos, Robert dava um chá de sumiço nos amigos e ia num orfanato ajudar as crianças, levava brinquedos e comida. Também pagava o tratamento hormonal de homens e mulheres transgêneros que não tinham condição de bancar tudo. Robert até disse para o irmão mais novo, Weston, que não tinha problema ele brincar de Barbie com a irmãzinha. Caso ele fosse gay, estaria tudo bem, ou ele poderia ser só um ótimo pai. Ele estava estudando direito para ajudar nos negócios da família, por mais que sua vontade fosse fazer História para ensinar. Só que ninguém da família Thomas aceitaria um professor entre eles.
— Devíamos fazer uma festa de inauguração dessa casa. — Robert sugeriu, mudando de assunto para quebrar o clima — Esse sábado.
— Não tem como, sábado eu estarei na América. Papai me convocou para uma reunião. — Seu semblante apresentava total insatisfação com a situação — Você pode pegar a framboesa na geladeira? Eu deixei o leite no freezer para bater.
Robert levantou para procurar o pedido. Além da garrafa vazia de leite, havia apenas duas framboesas lá.
— Você tem certeza de que não comeu antes? Acho que, com isso, não dá para fazer um smoothie. — Deixou os ingredientes ao alcance da visão do amigo. tinha certeza de que havia passado no supermercado ontem e comprado as duas coisas.
— Eu não lembro se fui ontem mesmo. — Ele coçou a barba, estreitando os olhos — Espera, a nota fiscal!
foi até a carteira e tirou a nota fiscal do supermercado. 12/11/2017, 08h56min. O dia de ontem.
— Quais as possibilidades de você ser sonâmbulo? — Robert debochou, olhando a nota por cima do ombro de — Perda de memória recente?
Eu não sou a Dory. — Resmungou baixo. Tinha certa vergonha de assumir que havia ido ao cinema na pré-estreia assistir Finding Dory. Usara a desculpa da filha mais nova de sua mãe — Mas eu comi tudo que vi na frente quando terminei de arrumar a mudança. Devo ter comido e não lembro. Eu vou ao supermercado agora comprar mais, quer alguma coisa?
— Muçarela, quero fazer pizza.
— Você não encosta o dedo na minha cozinha porque sou eu quem vai limpar tudo depois. Peça pizza, muito mais fácil.
Antes que Robert pudesse falar algo, havia pegado a chave do carro e aberto a garagem. Deu partida ouvindo apenas gritos e xingamentos. Para ter certeza de que de não iria ficar na vontade, daquela vez ele comprou duas caixinhas de cada fruta que queria. Ao chegar em casa, tinha amora, framboesa, morango e kiwi. Além de um fardo inteiro de leite na garrafa.
Colocou duas garrafas no freezer e lavou as frutas para deixá-las expostas. Algumas foram separadas no congelador. Naquela noite, ele tinha todas suas malas arrumadas para a viagem intercontinental. Fez a vitamina e conferiu se todas as frutas estavam lá. Tudo como ele havia deixado, no mesmo lugar.
Já na manhã da sua viagem, não foi da mesma maneira. Um pouco de cada, as coisas tinham diminuído consideravelmente. Tinha duas garrafas vazias de leite, uma e meia a mais do que ele havia usado. Naquela mesma manhã e no Uber a caminho do aeroporto, contatou uma empresa de segurança para instalar câmeras em sua casa. Ele queria ver se estava realmente tendo crises de sonambulismo.
não era uma pessoa designada exatamente como alguém social. Ele preferia a distância dos outros, falta de contato humano e noites sozinhas. Desde que nasceu, na chuvosa manhã de 19 de novembro de 1992, ele teve certa dificuldade de socializar. Era muito apegado ao pai, mas assim que ele se divorciou da mãe de e se mudou para os Estados Unidos, as coisas começaram a ficar mais difíceis. Ele achava que o pai iria voltar para casa, porém recebeu a notícia de que ele teria um irmão mais novo. Uma família nova. Pior ainda foi o momento que ele soube que o irmão mais novo teria o mesmo nome que ele. Como uma substituição. Para completar, sua mãe havia casado novamente e estava pensando em começar outra família.
Sua inclusão na sociedade começou a piorar. Ele não queria sair. Ele não queria conversar com os outros. Ele não queria nem ter que ficar no mesmo cômodo que alguém de sua família.
Aos dezesseis anos, uma agência de modelo alemã estava procurando novas faces para uma coleção masculina adolescente. Ele, como qualquer outro padrão, conseguiu a vaga sem muito esforço. 1,91 de altura. Cabelos loiros e lisos. Olhos azuis. Branco com uma leve camada de bronze. De uma boa família e que poderia bancar as próprias viagens. Começou a criar nome pela Europa. Pelo menos três de cinco agências conheciam a revelação das passarelas: . Com dezessete, ele começou a financiar a própria casa e não deixou, em momento algum, alguém da sua família dar um único euro para ajudar. Aos dezoito, já havia pagado tudo, se mudado e terminado a escola. Fez faculdade de Economia para conseguir administrar o próprio dinheiro e começou a trabalhar fora das passarelas. Figurante em algumas séries, videoclipes, as marcas começaram a usá-lo como modelo de propagandas e, numa dessas viagens, ele conheceu Elena. Inglesa que estava estagiando na Rússia para aprender a língua. A conexão foi automática e, logo depois, eles estavam namorando, e ela havia se mudado para sua casa quando seu estágio acabara. Até o término, tudo tinha sido maravilhoso.
Depois disso que virou um caos. não dormia. Passava a noite atormentado por pensamentos autodestrutivos, pensamentos que o afastavam vertiginosamente da realidade. Ele não dormia. Não conseguia comer. Passou um mês sem trabalhar.
Mas aí ele percebeu que sua vida não poderia parar porque alguém saíra dela. Ele tinha um nome para manter, uma carreira, uma vida e seu próprio patrimônio. Alguém saíra de sua vida? Péssimo. Outras pessoas entrariam.
Ao chegar ao aeroporto, ele pensou várias vezes antes de embarcar. Já havia feito o check-in e estava apenas na espera para que pudesse viajar. Cinco minutos antes de decolar, ele ligou para a empresa de segurança e pediu para que eles fossem lá ainda aquela noite. Robert tinha a chave extra da casa e podia ficar lá só enquanto eles instalavam tudo. só teria acesso à câmera quando chegasse em casa para codificar a barra e sincronizar seu celular, mas, até então, Rob ficaria encarregado de tudo.
— Ei, você é o ?
— Não, ele é meu irmão gêmeo. — Ele nem sequer se deu o trabalho de ver quem era. Alguma fã. Uma pessoa melhor. Ele pensou, refletindo se aquela era uma escolha viável ou não — Isso foi uma piada. — Tentou ser legal, um sorriso amarelo no rosto.
— Eu não estou incomodando, certo? — Era uma garota. Não deveria ter mais de dezessete anos.
O sorriso mais simpático que ele pôde forçar estava em seu rosto.
— Claro que não. Você quer uma foto?
Sim. — Tinha um tom muito feliz em sua voz — E um autógrafo. Eu não estou incomodando mesmo?
— Não. — Perceber a imagem que as pessoas tinham dele foi um pouco doloroso. Incômodo. Eles eram fãs, eram praticamente quem pagavam as contas de . Foram eles que o colocaram ali e, meu Deus, o que as pessoas pensavam dele? Talvez não quisesse descobrir.
O voo foi tranquilo. Dormiu a maior parte do caminho e assistiu um filme já no finalzinho da viagem. não quis ficar na casa do pai, um hotel estava de bom tamanho. Privacidade, solidão e um mundo longe de problemas — família, diga-se de passagem.
O fim de semana passou lentamente. Cada vez que ele tinha que opinar em alguma coisa sobre os negócios, sentia uma parte de si querer morrer ali mesmo. O momento mais feliz com todos os parentes foi quando eles o levaram de volta até o aeroporto. Paz. Tranquilidade.
O cheiro da Inglaterra parecia deixá-lo mais calmo. Casa. Como se todos os problemas do mundo tivessem ficado nos Estados Unidos da América. E não é como se fosse mentira, todos os problemas do mundo estavam naquele país dissimulado.
Claramente, não era muito fã do lugar.
Sua casa estava intacta por fora. Não tinha sinal de fogo ou bebida. Pelo menos isso. Robert não havia tacado fogo na casa, e ele ainda tinha móveis. Ao abrir a porta, se deparou com o amigo dormindo no sofá, abraçado a uma almofada e com um enfeite novo no carpete da sala: várias caixas de pizza espalhadas pelo chão. Robert era mesmo um amante da comida.
EI! gritou só de perturbação, fazendo o rapaz se assustar e cair do sofá para o chão — Bom dia, flor do meu jardim.
Robert não parecia tão feliz ao levantar do chão.
— Ah, vai tomar no cu. — Saudou, esfregando os olhos com uma carranca no rosto — Da próxima vez que você pedir para alguém tomar conta de sua casa, eu vou te mandar chamar sua avó.
— Respeito com os mortos, seu mané. — Um sorriso frouxo se fez presente em . Claro que Robert estava estranhando aquela situação. Pensou em milhões de possibilidades para aquele sorriso de graça, mas devia ser só a distância do pai — O que você fez no fim de semana?
— Fiquei assistindo às entrevistas da Dua Lipa.
— A cantora das regras? Você não tem o que fazer?
— Você vai fazer uma campanha com ela. — A cara de Robert dizia que ele não estava brincando. Uma campanha com uma cantora. Mas espera, de onde saiu isso?
— Desde quando? — sentou no sofá.
— Desde que ligaram para você ontem perguntando se você aceitaria e eu disse que aceitaria sim, que seu empresário entraria em contato com você o mais rápido possível para ajustarem uma data plausível para os dois.
— E quem é meu empresário, Robert Thomas III?
Eu, é claro. Quem mais seria? Você não teria um empresário tão bom em um milhão de anos. — Ele se espreguiçou no sofá e olhou para o amigo — E eu não consegui mexer nas câmeras pelo meu celular. O aplicativo não aceita o iOS 10, e eu me recuso a atualizar.
— Não atualize, é horrível. — Ele foi até o sistema que havia sido instalado e Rob mostrou onde ele deveria usar o código. Carregou rapidamente, e as informações começaram a atualizar — A comida continuou sumindo? Sem ser, claro, o fato de você estar aqui.
— Eu achei que, como você o nosso querido sonâmbulo, estaria fora, a comida ficaria intacta. Mas não, eu acho que não é esse o problema aqui. Todo dia tinha menos comida, e eu comecei a fazer as refeições em outros lugares para ver se não era eu mesmo.
estreitou os olhos. O que diabos estava acontecendo ali? Não eram ratos. Até onde ele sabia, ratos não abriam geladeiras. A partir daquele momento, começaria a gravar as próximas horas e deixar tudo armazenado no HD externo conectado ao computador — além do aparelho celular e do próprio computador. Não era normal uma coisa daquelas.
Os amigos passaram a manhã juntos, discutindo planos para a semana. Robert teve que ir porque tinha aula, e aproveitou para retornar a ligação sobre a campanha com a cantora, resolvendo todas as pendências e pontas soltas.
Ele era muito independente do mundo. Não deixava ninguém controlar nada do que ele tivera ou tinha, tinha feito de tudo para estar ali e até a sua faculdade tinha o propósito de controle. Era esse o problema; era obcecado por controle.
Depois de jantar na mesma monotonia, ele passou pouco tempo nas redes sociais, atualizando e postando uma coisa ou outra só para manter os números. Não estava cansado, mas adormeceu rapidamente por estar precisando de um tempo na própria cama.
A terça-feira amanheceu nublada. Com o inverno se aproximando, o tempo tinha a tendência de ficar fechado com mais constância. Parecia que era noite, mas ele tinha um trabalho para as dez da manhã. Precisava ficar pronto antes disso e ir para o local. Tomou seu banho, fez seu café e comeu. Só quase saindo de casa ele se lembrou das câmeras gravando tudo.
O computador foi ligado com dez telas diferentes de câmeras aleatórias espalhadas por toda a casa. Uma delas mostrava o próprio de costas mexendo no notebook. Olhou o horário que havia ido dormir e colocou as gravações lá, adiantando dezesseis vezes para que não perdesse tanto tempo e, ainda assim, conseguisse ver as coisas.
Foi aí que, às 02h28min daquela manhã, uma coisa estranha aconteceu. Estava lá a resposta para todos os problemas com sumiço de comida que vinham cercando .
Correu para seu telefone e discou o número de Robert o mais rápido possível. No terceiro toque, ele atendeu.
Você não vai acreditar no que eu acabei de descobrir.
— Não vou mesmo, . São oito de manhã, eu não sei meu nome. — Sua voz estava arrastada e sonolenta — Olhou as câmeras?
— Foi isso, isso que eu descobri. Descobri por que a comida anda sumindo sem explicação alguma.
O que foi? Desembucha logo.
— Eu não sei nem como falar isso... — Ele olhou para a tela do notebook mais uma vez, se certificando de que não estava louco e nem tendo alucinações — Tem uma mulher morando no meu porão.


02 – Duyên

a predestined affinity; the force that binds two people together as friends or lovers in the future


Robert e estavam há exatamente meia hora encarando o computador com as imagens. Mostrava de forma clara e extremamente nítida o que vinha acontecendo. Seu acesso ao porão vinha de uma porta na cozinha, a dispensa. Guardava toda a comida da casa ali e, numa espécie de alçapão, ele tinha acesso ao porão da casa. Claro que não tinha olhado muito o porão quando comprou a casa, não era interessante o bastante para isso. Um monte de caixa antiga, alguns móveis e lixo.
Eu arrumo isso depois. Foi o que disse a si mesmo depois que saiu de lá. O depois seria quando?
— O que vamos fazer? — foi o primeiro a se manifestar, intercalava os olhos entre o amigo e a tela — Chamar a polícia é o mais correto.
Eles irão prendê-la por invasão.
— E…? Talvez essa seja minha intenção ao chamar a polícia, não? Ela invadiu minha casa e anda roubando minha comida!
— Se ela fez isso, é porque precisa, não? Ninguém faz isso sem motivos. Vamos enfrentá-la e conversar com ela. Talvez perguntar o que se passa. Se é que ela fala nossa língua. — O vídeo ainda estava passando enquanto eles conversavam — Olhe, ela nem ao menos parece britânica!
analisou a imagem verde da luz noturna.
Ela é branca.
— Jesus do céu. — Robert bateu a mão na cabeça, rolando os olhos em seguida — Você envergonha tanto seu país que eu me pergunto por que não é americano. Sabe, aquela espécie horrível de pessoas que explodem os próprios prédios e culpam os muçulmanos, mas tudo é por causa de petróleo.
encolheu os olhos. Estavam estreitos ao máximo e a boca contraída numa linha fina.
Retire o que disse.
— Não. — Robert riu genuinamente, os olhos tão fechados que haviam ruguinhas nos cantos. Era adorável — Vamos voltar a falar da nossa invasora. Devíamos esperá-la atacar novamente e ir até lá, olhar para ela no flagra e gritar surprise, surprise, guess who’s here?
A opção de não a denunciar parecia absurda para .
— Ligar para a polícia é a nossa melhor chance. — Insistiu.
— Por favor, . — Rob juntou as mãos e olhou para o loiro com um apelo de cachorrinho — Se algo der errado, chamaremos a polícia. Mas vamos tentar sem ela, por favor.
ponderou, intercalando o olhar entre ele e a gravação da invasora, se dando por vencido.
Tudo bem. Mas se ela der um passo ameaçador, eu te mato.
— Ameaças vazias sempre foram seu forte. — Rob beijou a bochecha dele e começou a arquitetar um plano para capturar a invasora e fazer um questionário sobre ela. Claro que, na cabeça dele, aquilo era muito mais legal do que seria na realidade. Ele tinha uma certa obsessão com séries policiais e Sherlock Holmes.
Naquela tarde, os dois se encontraram novamente na casa de . As comidas estavam intactas, e eles concluíram que a mulher só atacava no período da madrugada. Onde ninguém poderia interferir.
O alçapão/porão que ela se escondia tinha outra porta atrás da dispensa. A área de serviço poderia esconder aquela saída de forma natural, era um pequeno portal que se escondia facilmente atrás da máquina de lavar.
Ambos homens tinham um vasto conhecimento de armadilhas graças aos acampamento de verão, que eram os lugares que os pais jogavam os filhos nas férias para se livrar deles. Como bons escoteiros, tinham deixado pequenos truques para enganar a mulher.
Descansaram por torno das nove horas, levantando silenciosamente um pouco depois da meia noite. A cozinha tinha duas divisões: a parte de comer e a parte de cozinhar.
Um pequeno balcão estava dividindo as duas partes. Do lado leste do balcão, tinham a geladeira, fogão, microondas, pia e dispensa para armazenamento — a dispensa que dava acesso ao porão. Já do lado oeste, mesa e cadeiras, uma pequena televisão — mesmo sua mãe insistindo que televisões na cozinha eram detalhes extremamente mal educados — e a porta com acesso ao quintal/jardim.
A primeira noite era a suposição. Eles iriam fechar a porta principal da dispensa e deixar apenas a que tinha acesso pela máquina. Se ela empurrasse a máquina, tinha conhecimento da existência daquela porta e, então, teria que dar a volta na área de serviço para poder chegar até a geladeira. E daí, eles poderiam ir para a parte dois do plano.
Do quarto de , eles tinham um balde de pipoca em mãos e observavam a mulher tentando empurrar a máquina de lavar. O notebook estava conectado à televisão e ouvir os barulhos da máquina sendo arrastada — o barulho real, não da câmera — dava arrepios na alma de .
Assim que ela empurrou toda a máquina, saiu correndo em direção à geladeira como se conhecesse a casa como a própria palma da mão. Parecia desesperada ao encontrar a comida. Qualquer um estaria se comesse apenas uma vez ao dia. E, ainda assim, ela tinha delicadeza em não bagunçar demais a geladeira ou não tirar muito de tudo, deixar um buraco que pudesse fazer falta.
— Como ela conseguiu empurrar a máquina de lavar? — se manifestou quando ela desceu, olhando chocado para Rob — Ela não parece pesar mais do que cinquenta quilos.
— Talvez ela só seja forte, mesmo fraca. Isso tem sentido, ?
— Não, mas já sabemos como pegá-la.
Na noite seguinte, eles deixariam a mulher entrar em casa. No mesmo esquema para assustá-la, acessaria a Apple TV e colocaria Chop Suey no máximo — tempo o bastante para Robert trancar a porta que dava acesso à área de serviço.
Com a dispensa trancada, ela não tinha saída.
Robert estaria a esperando na porta da cozinha, braços cruzados e uma postura muito mais assustadora do que ele mantinha nos momentos de tensão.
A tela da TV brilhou, e o grito de susto dela foi alto o bastante para acordar algum vizinho. Ela fez exatamente o planejado: correu para a porta da área de serviço, nada. Tentou a porta do porão, nada. A música tocava tão alto que ela sabia que não seria ouvida.
Tentou empurrar a porta, quebrá-la, talvez. Arrancava as próprias unhas tentando se livrar da barreira de madeira. Mas a mulher conhecia a casa como a palma da mão, sabia que havia uma janela que dava acesso à área de serviço. Não correu. Seus passos eram lentos e precisos. Olhou rapidamente para a sala e, ao concluir que não tinha ninguém, deu o primeiro passo em falso.
— Quer dizer que a bonita quer ultrapassar a muralha? — Robert segurou na cintura dela para mantê-la parada e, em resposta, recebeu uma unhada no rosto, quase atingindo o seu olho — Eu tentei ser legal, não espere mais de mim coisas legais.
Rob segurou os dois braços por trás e apertou para garantir que não houvesse fuga. Ela se debatia e chutava as pernas dele. desceu as escadas com pressa, seu olhar atento na presa fisgada nos braços do amigo.
Sofá. — Apontou para o sofá e foram em sua direção — Se você deseja não ser presa, é melhor falar.
Ela o olhava de volta como se despisse a alma dele.
Sem medo.
Sem pavor.
Como se não ligaria se ele a matasse naquele exato momento.
Falar. Se explicar. É uma opção interessante… — a provocou, se aproximando e vendo-a ficar mais agitada — E você está fedendo. Não toma banho desde quando? Aliás, você fala nossa língua?
— Acho que ela não fala. — Rob concluiu, apertando as mãos ainda mais porque ela só ficava mais agitada — E eu não aguento mais esse cheiro. Você pode, por favor, ligar para a polícia?
deu de ombros, discando o número da polícia e vendo que estava no segundo toque. Colocou no viva-voz só para garantir que ela ouviria. Os olhos dela brilhavam em desespero. Ela entendia sim o que eles estavam falando. Dava para perceber que entendia. O medo presente em sua essência era só para quem tinha conhecimento da merda que estaria por vir.
No quarto toque, alguém atendeu.
Alô?
— Bom dia, senhor policial. Eu gostaria de fazer uma denúncia.
— Bom dia, quem gostaria? E qual a denúncia?
— Sou , e…
Eu falo! — A voz dela foi um grito mudo, os olhos arregalados de desespero. Ele tirou o viva-voz da ligação e colocou o telefone na orelha.
— E gostaria de pedir que o senhor me conseguisse uma ordem de restrição para a minha vizinha. Ela é uma senhora por volta dos quarenta anos e eu tenho medo das espiadas que ela insiste em dar na minha casa. Tenho certeza de que alguma câmera foi instalada nas árvores e eu me mudei recentemente, não me sinto seguro com pessoas estranhas ao redor de mim, estando em minha vida sem convite. — Ele parou por alguns segundos, olhando para a intrusa — Sim, eu posso passar aí com todas as provas que serão precisas. O senhor está me ajudando muito. Sim, sim. Tenha um bom começo de dia, senhor policial.
guardou o telefone no bolso. Estalou o pescoço e logo depois os dedos. Fez um sinal positivo com a cabeça, e Robert soltou os braços da mulher. Ela não fez menção de que iria fugir, muito menos agredir algum dos dois.
— Você pode começar pelo seu nome. — Rob se afastou, observando o perfil dela e tentando imaginar há quanto tempo que ela não lavava o cabelo.
De início, sua voz parecia um nada. Um fio bem fraco que não iria ser ouvido com muita certeza. Depois de alguns segundos, pareceu mais viável entender o que ela havia acabado de dizer. . . Repetiu mais uma vez, agora com mais tom na voz e uma forma mais fácil de entender.
Kaled. — Agora havia soado como alguém normal — Eu moro aqui há mais tempo que você.
O comentário arrancou gargalhadas de . Talvez ela tivesse razão. Talvez ela morasse mesmo ali há mais tempo que ele.
— E por que você está aqui, ? — Robert perguntou daquela vez.
— Bem… Essa é uma longa história.
Kaled. Era só isso. Seu nome não tinha tanto mistério quanto outros. Nasceu em Damasco, no dia 7 de maio de 1997. Tinha quase quatorze anos quando os conflitos começaram. Uma guerra civil, que era o maior pesadelo da garota. Seu pai e sua mãe tinham cinco filhos com ela. Quatro mulheres e um homem. Uma das suas irmãs fora morta no ataque químico comandado por Donald Trump em abril daquele ano. A família havia tido muita relutância em sair da Síria, era sua casa. Mas, mesmo assim, a última opção pareceu a melhor naquele momento. Sua mãe não sobreviveu à viagem até Europa. Seu irmão mais velho não quis sair da França. Uma de suas irmãs havia morrido afogada num navio que ia não se sabia para onde.
Durante um mês, o pai, a irmã mais nova e ela eram a única família. A Inglaterra não era uma opção, mas eles não tinham mais lugar para ir depois de tantas viagens. O pai foi exportado. Ela não sabia onde e como a irmã estava. Viu-se sozinha num país que as pessoas a odiavam injustamente e sem perspectiva alguma de vida.
Começou roubando lanches, pediu por um tempo, mas as pessoas eram más. Tentou arranjar emprego e nada feito. Foi aí que ela achou aquela casa. Estava abandonada e não tinha mais ninguém para expulsá-la de lá.
só não ficou mais surpresa que o próprio quando viu que tinha alguém morando na sua casa. A comida era a melhor parte do dia. Quando ela viu frutas, leite e qualquer coisa que cobrisse seu estômago, não resistiu ou pensou em disfarçar.
Não sabia quanto tempo tinha que ela havia comido pela última vez.
Até que eles a acharam. E ali estavam os três.
Robert segurava o choro. Ele sabia que tinha uma intuição certa para impedir que ele chamasse a polícia. Ela era uma refugiada. Sem família. Sem casa. Sem nada. Rob olhava para o melhor amigo na esperança de encontrar um pouco de compaixão em seu olhar. Pena. Qualquer sentimento humano.
Queria gritar com . Olhar com os olhos do Gato de Botas e murmurar um “Podemos ficar com ela?”. Mas ele estava lá, frio como uma pedra de gelo.
Um silêncio que parecia ter durado anos até que ele abrisse a boca e deixasse a frase mais importante do dia sair.
Você pode ficar aqui. — Robert quase cantou Aleluia e dançou em comemoração — Mas até o fim de semana. Depois disso, já não é minha responsabilidade.


03 – Howzit

a sweet and south african way to say hello


não tomava banho só há algumas semanas. Não era tanto tempo assim, mas sentiu alívio da mesma maneira quando a água quente caiu pelo seu rosto e corpo. A porta do banheiro estava trancada, ela havia verificado pelo menos cinco vezes. Não confiava em nenhum dos dois — por mais que Robert tivesse passado mais confiança do que . O dono da casa parecia arisco e aparentava não gostar de ninguém, talvez nem do próprio amigo.
Mas ele havia permitido que ela usasse o banheiro social. Também havia emprestado roupas, produtos de cabelo e corpo. Robert foi até a Mansão Weston buscar roupas que iriam para a doação. Sabia que ficariam um pouco maiores que , mas nada preocupante. Também comprou um colchão para ela poder dormir melhor.
Não sabia se conseguiria convencer a deixá-la ficar mais alguns dias... Mas ele era estudante de direito. Qualquer coisa, procuraria leis o bastante para torná-la uma cidadã britânica legítima. Ou comprava um apartamento e, caso o pai perguntasse, era só o local que ele estava levando as namoradas para despistá-las uma das outras.
Aí sim ele deixaria.
Porém, não estava tão calmo assim. Os raios de sol já invadiam seu quarto quando ele ouviu o barulho do chuveiro ao lado cessar. Sua cabeça doía. Pensamentos em Elena. Será que ela voltaria para ele sabendo que uma mulher estava morando em sua casa?
Aliás, ainda tinha aquilo. Até segunda, uma mulher estava morando na sua casa. E, por mais que Rob estivesse tentando convencer a deixá-la por mais tempo do que apenas um fim de semana, ele não sabia se era o certo. Ele não a conhecia, não sabia se aquela história era verdade, se ela não era uma ladra qualquer ou, quem sabe, uma terrorista que estava só plantando uma bomba na vizinhança. E se tinha uma coisa que sempre fora, essa coisa era desconfiado. Ele desconfiava dos vizinhos, dos pais, das pessoas que trabalhavam com ele, até mesmo dos gatos, que sempre pareciam querer dominar o mundo. Rob, ele confiava em Rob. Não confiava na mulher que estava usando seu banheiro.
Saiu do quarto em direção à cozinha, descendo as escadas rapidamente e indo para o sofá. Não estava com fome e muito menos com sono. Sua mente trabalhava a mil.
Foi por isso que uma ideia idiota passou pela sua cabeça. Ele pegou um pedaço de papel e começou a rabiscar coisas antes que esquecesse e que sua coragem e ideia fossem para o fim do poço. Quando Robert apareceu, estranhou ao ver uma coisa que quase nunca tinha visto antes: escrevendo num papel. Por ser uma pessoa que vivia de tecnologia, fazia tudo no celular ou no notebook. Alguns meses atrás, ele havia presenciado a cena de comprando um livro que Elena queria e parado sem saber o que fazer porque ele não lembrava de como se pegava numa caneta.
Ridículo, ele sabia.
— O que você está fazendo? — Robert perguntou, tentando ler o que os garranchos de significavam.
— Perguntas para fazer a . Quero saber se ela vai lembrar de tudo o que nos contou e aí, se tiver alguma mentira, a pego e levo para a delegacia.
— Você já parou para pensar que ela vai lembrar de tudo porque ela passou por aquilo? — Ele estava incrédulo com a vontade do amigo de enxotar a menina dali. Ela não tinha nem vinte anos!
Ele, com toda certeza, teria de conseguir um lugar para o mais rápido possível. Pensou em alguém que pudesse ajudá-la, algum amigo que estivesse disposto a fazer esse sacrifício e que não a julgasse de todas as maneiras.
Ei, os Nikolaj ainda moram perto de sua mãe? — Robert perguntou, fazendo parar de escrever de imediato. Ele sabia que não gostava de falar da ex-namorada, muito menos da família dela.
Eu não sei nada sobre os Nikolaj.
— Claro que sabe, eu sempre vejo você comentando nas fotos da Tolkien. Os Nikolaj são pessoas boas e sempre estão abrigando intercambistas na casa deles, talvez eles não liguem se passar um tempo com eles.
— Robert, você vê o quão estúpido isso soa? Falar com os pais da minha ex-namorada sobre uma doida que estava morando em meu porão?
.
Ouviram-se os passos da mulher logo em seguida. Ela era leve o bastante para não emitir som nenhum quando andava, mas estava fazendo questão de andar com passos firmes e fortes pela casa. Seu cabelo estava lavado e sua pele parecia até bonita sem aquele tanto de poeira por cima. Ela tinha um rosto magro, talvez pela nutrição horrível que estava tendo. Usava a camisa que havia dado porque era o máximo que não caía nela. A calça que ele havia emprestado estava em suas mãos porque não ficava presa, nem mesmo quando ela amarrava no mais apertado possível. Era humanamente impossível que ela pesasse mais de quarenta quilos. Debaixo da blusa, era possível ver os palitos que chamava de pernas. Eram tão finas que os ossos estavam em destaque.
— Se você for falar de mim dessa forma, por favor, use meu nome. Eu gosto dele, e as pessoas não me chamam de tem muito tempo.
— Você está bem? — Claro que a pergunta veio de Robert. Ele olhava com compaixão para a mulher — Está com fome? Eu trouxe comida, o que você gosta de comer?
Depois de meio segundo, ele percebeu o impacto que aquela frase tinha. Ela não era alguém que escolhia o que comer, só comia o que tinha na frente. Se tivesse algo estragado e sua fome não pudesse aguentar mais uns dias, era aquilo que ela comeria. Mas não respondeu, percebeu o arrependimento no seu olhar logo em seguida e, então, ela sorriu de forma mínima para mostrar que ele não tinha pecado em nada. Robert foi até a cozinha e trouxe um lanche enorme. O hambúrguer parecia maior que a bunda da mulher, e as batatas provavelmente a alimentariam durante uma semana inteira em qualquer outra situação.
— Eu não sabia se você gostava de refrigerante, então eu trouxe limonada. — Um sorriso real abriu nos lábios dela. Ela amava limonada. Mas ali, com toda aquela comida à sua frente somada à boa vontade de Robert em ajudá-la, as lágrimas não demoraram muito tempo em fazer presença nos seus olhos. Os dois não sabiam o que fazer, ajudavam em alguns projetos sociais, mas sempre de longe. Nunca tinham chegado tão perto para ver qual era o efeito que aquilo tinha nas pessoas.
Demorou um pouco até que se acalmasse. Ela fungou e limpou o rosto com o tecido da blusa. Então, fez a coisa que ninguém esperava: foi até Robert e o abraçou com toda a força que não tinha. Abraçou-o como se sua vida dependesse daquilo.
Quando ela deu a primeira mordida no hambúrguer, foi como se alguma entidade estivesse a possuindo e mostrando como seria se ela conhecesse um paraíso novo e totalmente maravilhoso. Cada célula do seu corpo respondia de forma positiva àquilo, e parecia que todas as coisas mais viciantes e gostosas do mundo estavam presentes naquele pedaço de carne.
Não demorou muito para que virasse um monte de nada. Ela devorou a comida com tanta rapidez que a cena se tornou nojenta. Mas logo não havia nem mais suco. sentia que não comia tanta coisa desde... Desde que estava em casa. Mesmo assim, um hambúrguer daquele tamanho seria algo que ela comeria com um ou dois irmãos.
Quando percebeu que não havia realmente mais nada para ela devorar, tomou o caderno da mão de Robert e coçou a garganta, chamando atenção da síria.
— Eu tenho perguntas para te fazer. Posso?
O tom de voz do homem não era um dos melhores. Posso? Ela tinha escolha? Sabia que não, então apenas assentiu com a cabeça e começou a mexer nos fios úmidos do cabelo, sem saber como reagir àquilo.
— Quantos irmãos você tinha?
Quatro.
— E quais os nomes deles?
— Duina, Laila, Zaida e Amin. — engoliu em seco. Tinha muito tempo que ela não falava o nome dos irmãos em voz alta. Sua garganta parecia ficar sem ar aos poucos, lembrando-se da família que havia perdido.
— E seus pais?
Robert pensou em intervir, mas teve medo da reação que poderia ter. Ele estava concentrado demais, afundado demais em tudo aquilo. parecia estar ficando verde, como se a simples memória de algo que não a pertencia mais machucasse. Ele sabia que machucava.
— Fátima e Omar.
— E qual foi a última vez que vocês comemoraram o Natal juntos?
Rob tossiu.
, eu acho que...
— Não, ela vai responder. — olhou da mesma maneira para a síria, parecia um pedaço de gelo de tão frio.
Eu não comemoro o Natal.
— Por quê?
— Porque minha religião respeita Jesus Cristo, mas não vê sentido em comemorar o Natal.
— E qual a sua religião?
Eu sou muçulmana. — Ainda assim, não havia sentimento algum no olhar do loiro.
— Como Osama Bin Laden? — Naquela frase, o medo de começava a se transformar em raiva.
— Sim, como Osama Bin Laden. Quando perguntam se você é cristão, comparam com a Idade Média, quando vocês mataram e roubaram metade do mundo com suas falsas verdades?
— Eu acho melhor não generalizarmos, de verdade. — Robert sentiu a faísca de raiva entre os dois. Talvez a resposta da síria não tenha ajudado muito, mas com certeza era o culpado.
— Na verdade, eu sou ateu. — O loiro sorriu de forma sonsa — E minha família não tem nada com outras religiões, eles vieram da Áustria.
Como Adolf Hitler?
— Ok, você estudou história. Isso é muito bom, podemos ir para a próxima? — Não houve resposta da mais nova — Você tem ficha criminal? — A cada pergunta, a vontade de voar em cima de aumentava em .
— Você pergunta isso para todo mundo ou só está questionando baseado na minha religião? — Rebateu, os olhos castanhos fixos no homem à sua frente — Não, . Você tem?
— Na verdade, sim. — Ele deu de ombros como se desse bom dia — Eu fui preso em 2014. Não durou muito tempo, mas fui preso, e isso me fez ter uma ficha criminal.
— O que você fez? — Ela estava séria, e os dois amigos se entreolharam, começando a rir copiosamente em seguida. não entendeu, se sentiu ridícula por não entender, e aquilo a deixava com mais raiva.
Ele queimou um cachecol da Grifinória no meio do Hyde Park. — A piada pareceu ainda mais ridícula diante da explicação. Ela não sabia do que diabos eles estavam falando e, ao perceberem que sim, ela não sabia do que eles estavam falando, o choque veio à tona — , eu posso te fazer uma pergunta? Eu sei que vai ser meio... pessoal, mas eu não vou te criticar ou nada assim, é só curiosidade.
Hesitou por alguns segundos, assentindo com a cabeça só pela simpatia instantânea que havia sentido com Robert.
Como você sabe que Hitler era austríaco e não entende quando falamos do Hyde Park?
— Na verdade, eu sei o que é o Hyde Park. Minha dúvida era em questão à Grifinória. Eu não sei o que é isso.
— Na verdade, isso é ainda mais chocante. — Respondeu, olhando para na esperança de ver ainda algum humor nele. Mas não, o concreto havia voltado. Sabia que o destino de era em algum lugar que ele a colocasse. havia sentido antipatia imediata pela mulher, e fazê-lo sentir simpatia depois do sentimento negativo era bem difícil — É uma das casas de Harry Potter. Você sabe o que é Harry Potter?
Ela apenas negou com a cabeça. Ele não perguntou, mas entendeu logo em seguida. Ela sabia que Hitler era da Áustria porque isso era uma prioridade, porque aprender fatos históricos e coisas importantes eram prioridades, qualquer coisa depois daquilo era dada como privilégio. E, Deus, ele nunca se sentiu tão mal por ver o quão privilegiado era. Ao perceber que, ao mentir para o pai, ele conseguia um apartamento novo, enquanto ela dormia escondida em casas abandonadas para não ficar na rua.
— Podemos conversar? — Robert perguntou para A sós. — Claro que se incomodou. Se eles não falassem na frente dela, com toda certeza o assunto seria ela.
assentiu, tantas coisas passavam pela cabeça dele. Por que justamente com ele? Não tinham outras casas melhores? O que ele ia fazer com ela? Era desumano até mesmo para ele expulsá-la dali quando ela não tinha nem o que vestir ou comer.
Ela pode ficar até ajeitarmos tudo.
— Ou você pode contratá-la como algo. Ela deve saber cozinhar ou, sei lá, lavar roupa. O dinheiro que você paga a diarista, dê a ela. Ela não vai gastar com nada. Juntando de pouco em pouco, vai sair da sua casa rapidinho.
ponderou por alguns minutos, analisando a situação aos poucos. Ele não sabia se ela realmente era boa naquelas tarefas, mas ele nem comia tanto em casa e mal bagunçava. Talvez, dizendo para si mesmo, aquilo era apenas uma desculpa. O loiro assentiu com a cabeça e não falou mais nada.
Vamos desocupar o quarto de hóspedes.
Simples assim. Subiu as escadas, indo até o quarto e tentando controlar sua respiração. O quarto de hóspedes estava repleto de coisas de Elena, tudo que ela havia deixado com ele antes de ir embora estava lá. E ele saiu da antiga casa dizendo para si mesmo que iria se livrar daquelas coisas, mas era muito... pessoal. Ela não ia querer de volta, doar parecia errado. Então, usar um quarto inteiro para guardar tudo pareceu a opção mais coerente.
Os diários estavam espalhados por ordem e, na caixa mais próxima, ele começou a colocar um por um. Não percebeu quando a síria chegou; a demora havia sido uma consequência de uma conversa com Robert, conversa essa que ele explicava para ela o que estava acontecendo e iria acontecer. Ela não perguntou o que devia fazer ou o que eles estavam fazendo, só começou a tirar outras coisas do cômodo.
Havia álbum de fotos que chamaram atenção de , mas ela sabia que era pessoal demais e não iria mexer naquilo. Até que achou um diário, verde e pequeno. O que estava escrito na capa chamou sua atenção.
Barakah.
tremeu ao ouvir a palavra.
O que disse? — Sua voz parecia afetada, como um filhote machucado à procura da mãe.
— Barakah. É uma espécie de dialeto árabe que quer dizer benção divina, como uma energia espiritual que pode ser transferida para outros. — Ao perceber o quão abatido ele parecia estar, ela não abriu, mas a curiosidade ainda estava ali — Isso é um diário? Quem escreveu isso parece ser muito sábio, olhe o que tem escrito na parte de trás: “As melhores peças da vida são aquelas pregadas quando nossos olhos estão fechados.”
E, como num passe de mágica, tudo fez sentido. Quando nossos olhos estão fechados. Quando não percebemos. Quando não esperamos. Uma benção.
— Você acha que o Barakah pode ser enviado para alguém como uma pessoa? — perguntou como quem não quer nada, tirando alguns retratos vazios e arrumando dentro do caixote.
— Bem, eu nunca pensei nessa forma. Sempre foi me dito que eram como missões, não importa do que ou com quem, eram missões em geral. Mas sim, pensando como uma pessoa que veio ajudar outra, ela pode ser uma missão. — Parou, olhando com desconfiança para o homem. Não confiava nele e era até estranho um diálogo sociável vindo dos dois, já que o dia havia sido apenas de briga para eles — Está esperando um Barakah na sua vida?
— Não. — Respondeu com sinceridade, sorrindo de forma mínima e respondendo a última parte apenas para ele próprio ouvir — Eu acho que já achei.


04 – Mangata

the road like reflection of the moon in the water


A luz do sol parecia estar distante do pequeno quarto, e o cheiro que se espalhava pela casa era de ovos e salsicha. Um pequeno sorriso se fez presente no rosto da menina e ela se estirou na cama. Sabia que teria um teste naquele dia e precisava estar com a barriga cheia e preparada psicologicamente para nada dar errado.
Tomou um banho longo e quente, não sabia o que estava por vir.
Quando ouviu o primeiro tiro, seu coração parecia querer parar.
Depois, foi uma bomba.
O cenário rapidamente mudou para sua casa explodindo. Ela nem sabia como tinha saído de lá. Não lembrava mais de teste nenhum. Por que ela tinha que fazer um teste? Era teste de quê? Do que falava?
! — Era sua mãe. O rosto de Fátima não durou muito antes de virar poeira em meio aos restos da casa bombardeada.
Mãe!
Mãe!
Pai?
Zaida?
gritava. Não sabia para quem ou o quê. Mas gritava.
! — A voz começou a ficar grossa e seu corpo chacoalhava para os lados — , acorde! É só um pesadelo, acorde. !
Foi então que ela sentiu um jato gelado vir em sua direção e pulou da cama com tudo. a olhava de forma desesperada. Ele não sabia o que fazer para acordá-la. Estava cozinhando o café da manhã quando os gritos começaram. Ele foi pego totalmente de surpresa ao perceber que não eram de ninguém da vizinhança, e sim da mulher que estava morando em sua casa.
podia ser a pessoa mais sem coração do mundo, mas, a partir do momento que havia entendido o que significaria na vida dele, tentou ser um pouco menos frio em relação a tudo. Claro que ela não cooperava tanto, era arisca a maior parte do tempo e extremamente agressiva, mas, bem, ele também seria se tivesse passado por aquilo tudo. Já era antissocial passando por besteira, imagina com aquele peso nas costas?
Você jogou água em mim? — Ela engoliu em seco.
Bom dia, , obrigada por me acordar de um pesadelo. Você é uma pessoa adorável. — O modelo imitou uma voz fina e rolou os olhos em seguida, já arrependido de tê-la acordado. Dormindo ela não era tão irritante.
— Bom dia, . Obrigada por jogar um balde de água gelada em mim no meio do inverno britânico. Você é realmente uma pessoa adorável e eu espero não morrer de hipotermia antes do meio-dia.
— O dia vai ser longo... — Ele jogou o balde no chão e fingiu que nada daquilo tinha acontecido, voltando para a cozinha, onde sua comida era muito mais importante que aquele pedaço de gente de trinta quilos e meio metro. Ok, parecia que ele estava falando de uma criança. Pedaço irritante de gente de dezenove anos, trinta quilos e meio metro.
Soava melhor.
Alguns meses atrás, as pessoas mal conseguiam ver em casa. Era algo que incomodava muito Elena antes dela ir embora. Ele vivia para trabalhar. E isso deixava uma sensação de inutilidade presente nela. A loira sentia que podia tirar os fardos da vida dele, que se ele deixasse-a entrar de cabeça e participar de tudo, seria muito mais fácil para que realmente dividissem uma vida de casados. O trabalho era o que livrava o homem dos fardos, era o que cansava sua mente o bastante para não lembrar do estresse que sua família o causava.
Mas Elena estava lá. Ela estava lá para ajudar, e ele não via importância alguma nisso. Não se importava em arranjar campanhas de duas semanas e ter que viajar no Natal. Chegar em casa às quatro e ter que sair às sete.
Ele nem prestou atenção quando entrou. Vestia uma das roupas que Robert havia comprado para ela e, também, o que o clima permitia. Não falou nada nem perguntou, simplesmente foi em direção à pia e começou a lavar a louça que estava lá. O acordo que eles tinham feito era muito melhor que qualquer coisa, na verdade. O colchão que Robert havia comprado foi devolvido, e ele trocou o dinheiro por roupas para ela — inclusive a que ela estava usando. pagava pela limpeza dela nos cômodos, e a única coisa que não a deixava fazer era que ela lavasse suas roupas.
Porque ela havia tentado e manchado todas as blusas brancas do rapaz. Blusas essas que agora eram delas, porque ele dissera com todas as palavras que não iria usar aquilo nem a pau.
Por mais que Robert tivesse dito que se ele saísse com a blusa daquele jeito e alegasse que era uma nova moda, as pessoas pagariam centenas de dólares sem ao menos contestar a origem. Bem-vindo ao mundo em 2017.
— Eu quero cortar meu cabelo. — se manifestou, terminando com a louça. O rosto dela estava sem expressão, assim como , e isso era algo a ser notável, pois parecia que ela havia absorvido os detalhes dele — Eu não podia fazer isso antes, mas eu não tenho ninguém que diga o contrário agora.
— Bem, é uma mudança. — Ele olhou para o cabelão escuro e sem uma única volta — Você quer cortar muito curto?
— Debaixo da orelha. — Ela parou em frente ao reflexo do micro-ondas e mediu com os dedos — Parece um tamanho bom. Você tem uma tesoura?
arregalou os olhos.
— Podemos ir ao salão, eu te dou de presente esse corte. Presente de Natal.
— Eu não comemoro o Natal. — O sotaque estava lá, carregando cada palavra de sua frase. tinha um jeito bonito de falar e, por mais que ele e Rob sempre zoassem as outras pessoas por falar um inglês estranho, era bonito de se ver. também tinha engordado um pouco, não havia mais o desenho dos ossos de sua costela. Como sabia onde ficavam as coisas da cozinha, procurou até achar uma tesoura de cortar embalagem. Era afiada e, se usada bem, rápida — Você tem a coordenação motora boa?
rolou os olhos. Era tudo o que ele precisava naquela vida. Por que ela tinha que saber o que aquela maldita palavra significava? Por que ela tinha que ser alguém que precisava de ajuda? Ela podia ser uma daquelas modelos chatas que não falavam e ficavam quietas.
— Kaled, vamos ao salão. Não é longe e, desde que eu me mudei, você nunca saiu dessa casa. Vamos. É bom ver um pouco da rua, pessoas, coisas além dessa casa.
— Vou tomar isso como um não. — Ela ignorou as tentativas dele de ser simpático e foi em direção à sala. Havia um enorme espelho lá, e ele só estava ficando mais irritado com aquela teimosia absurda dela. Era de se esperar que a relação deles melhorasse, que o convívio deixasse os dois mais próximos, mas ainda não havia o perdoado pelo interrogatório. Não mesmo.
Quando o loiro viu o jeito trêmulo que segurava a tesoura, bufou e começou a pisar de forma forte até estar atrás dela. Dizer que ele era mais alto era até calúnia, era tão pequena que era facilmente alguém confundida com uma criança. Ele queria perguntar quanto ela tinha de altura, não sabia se ela era baixa demais ou se ele era alto demais. Quer dizer, quase dois metros. Ele era alto demais, sim?
Ao sentir a presença dele tão perto dela, prendeu a respiração e deixou seu corpo tensionado e em posição de defesa. Era costume, sabia disso. era mais de uma cabeça maior que ela e isso a incomodou. Além de ser alguém que as pessoas gostavam de zombar, ela não tinha muitas maneiras de se defender. O que sabia de luta era o máximo que as mulheres podiam aprender em Damasco. Seu pai era evoluído, mas tinham algumas coisas que nem mesmo a evolução podia desconstruir. Ele era julgado por deixar as filhas usarem o que queriam, agirem da maneira de queriam e falar o que queriam. Já tinha sido ameaçado de morte por outros pais de meninas, que falavam que as filhas promíscuas dele iam só fazer mal para as outras meninas direitas de verdade. Como já era previsto, elas não tinham muitos amigos. Na verdade, não tinham amigos nenhum.
? Eu pedi a tesoura. chamou atenção dela. Estava lá, parado e com a mão esticada em cima do ombro dela. Ela nem havia percebido que ele estava lá quando na verdade já estava. olhou a mão de por alguns segundos, analisando se devia mesmo fazer isso. Sem muito para onde correr, deu o objeto em sua mão e voltou os olhos para o espelho.
Não havia se acostumado com a própria imagem ainda. Era estranho ver aquela pessoa que havia se tornado. Em partes, estava livre. Das regras impostas pelo seu povo. Das coisas que não podia fazer porque a religião não deixava. Usar calça jeans e blusa era um sonho de princesa, a pena era ter sido realizado de forma tão brusca.
Tão cruel.
pegou um pente e desembaraçou o cabelo úmido com cuidado, do mesmo jeito que fazia com Elena. Parou num lugar específico, mostrando para se era aquele o tamanho que ela queria, e a síria assentiu com a cabeça. O pente estava lá parado enquanto ele, menos trêmulo que ela, cortava os fios e deixava o excesso cair no chão. Tinha algumas pontas, claro que tinha, não era nenhum profissional, mas os dois começaram a cooperar um com o outro, e o resultado foi muito melhor do que ela esperava.
conseguia ver o próprio rosto, os traços que o tempo havia dado a ela. Um pequeno sorriso brotou em seu rosto e ela passou os dedos nas madeixas, pareciam mais leves, soltas e livres.
Como ela queria estar.
Uma pequena lágrima surgiu no canto do seu olho e fingiu não ver. Ele não sabia o que fazer, não naquele nível ainda. Era muito. Não tinha psicológico para os próprios problemas, ele assumiria os dos outros na medida do possível.
— Obrigada. — falou, quebrando o silêncio entre os dois. Um sorriso mínimo estava em seus lábios, e ela se abaixou de forma desconcertada logo em seguida, catando os fios de cabelo espalhados pelo piso. não respondeu, apenas assentiu com a cabeça e saiu.
Ele não sabia como agir. Não sabia o que fazer ou como fazer. Confuso, ele estava confuso. Era estranho ter que lidar com aquela bipolaridade constante que os dois tinham. Num momento estavam brigando e, no outro, ajudando em coisas banais e muito íntimas.
— Deixa eu tirar uma foto sua. — falou, e parou de forma brusca. Foto? — Qual é? Uma foto só, você não tira fotos também?
— Claro que tiro. — Ela respondeu de forma malcriada, jogando o cabelo no lixo do banheiro — Eu só não fiz muito isso. E, também, um ato de generosidade vindo de você é algo estranho. Você está se sentindo bem?
bufou, rolando os olhos em seguida. Mais uma pessoa estranhando um ato de bondade, e ela nem sequer conhecia o lado dele que as pessoas não gostavam.
— Eu vou tomar isso como um não. — Ele repetiu o que ela havia falado minutos atrás, guardando o telefone e dando meia volta.
Não. gritou, desesperada demais. Agoniada. Tirar uma foto era algo estranho para ela. Ela tirava poucas fotos, a maioria com sua família. Não sabia se tinha alguma foto de quando era pequena e sozinha. Uma, no máximo e sendo muito otimista — Eu quero. Vamos. Eu tiro sim.
Um sorriso pretensioso apareceu nos lábios de .
— Lá fora está com um sol bonito. Frio, mas a iluminação está boa. — Ele nem se importou com o que ela podia contestar, puxou a mão dela e a arrastou para o jardim da própria casa. Deixou parada ao lado de um cacto e não falou sobre pose ou nada disso, nem ao menos perguntou se ela estava pronta antes de clicar e capturar a imagem. Sorriu de forma contida e engoliu a vontade de rir, voltando a postura séria e indo até ela mostrar a foto — Ficou bonita. Eu vou postar.
— Postar? — Ela se assustou logo, pensando que a polícia viria atrás dela e aí ela teria que ser mandada embora novamente — Onde? Não.
— Eu corto seu rosto, pode ser? Combina com meu feed. — Mentira. Ele nem sabia por que estava fazendo aquilo. Mas era totalmente mentira.
— O que é feed?
— Você está com fome? Nem comeu nada. Vamos entrar para comer, Rob me deu a missão de te mostrar a história nacional e as coisas mais importantes da Inglaterra... — Puxou para a mesa. Ela não estava entendendo o porquê dele estar tão... alegre, mas também não reclamou. Não eram todos os dias que as pessoas viam um sorriso em — Que é basicamente te forçar a ver os oito filmes de Harry Potter e o de Animais Fantásticos, mas não vamos ver o segundo, porque eu só continuo amando a primeira saga porque foi antes da segunda.
— Você para de amar as coisas assim tão rápido?
— Só quando tem agressor no meio. — Deu de ombros — Hm, tem futebol também. Podemos ver algum jogo se você quiser, eu te explico as regras e até deixo você torcer para o melhor da Inglaterra, Arsenal.
— Estranho... — olhou de forma desconcertada para e depois focou a visão no pedaço de torrada — Rob me disse que o maior da Inglaterra era o Chelsea.
quase engasgou. Pior que isso só foi a reação seguinte: ele começou a rir. Gargalhar sonoramente de uma maneira quase inimaginável e, se não fosse tão sem criatividade, imaginaria ter inventado aquele som divino em sua própria mente.
— Você está bem? Rob disse que eu deveria ligar para ele caso você não estivesse bem. Tem certeza de que tudo está bem? — Ela parecia realmente preocupada.
— O que foi? Eu não posso rir na minha própria casa? — adquiriu uma expressão mais séria, arqueando a sobrancelha e sumindo com qualquer resquício da risada.
Não! — Soou rápida demais — Por favor, não, é só que é estranho te ouvir rir. Como é que vocês dizem? Como ver a rainha tomando banho. bateu a mão na própria testa ao ouvir isso. Era uma expressão que havia aprendido há pouco tempo e não parava de usar, mas o problema estava unicamente no fato de toda vez que ela falava, realmente imaginava a rainha tomando banho. Não era algo agradável — Pronto, me ensine algo. Me diga algo interessante sobre seu país, algo que as pessoas não saibam.
— Bem — ele coçou a barba, olhando para a comida no prato da síria —, o francês já foi a língua oficial da Inglaterra. De 1066 até 1362.
arregalou os olhos e passou alguns segundos processando aquela informação. Era realmente algo que ela não tinha ideia que havia acontecido. Não pela história precária que havia aprendido enquanto ainda estudava, mas nem mesmo Robert, que havia contado várias coisas da Inglaterra e Europa para ela, mencionou esse fato. percebeu o quão chocada a garota ficou e tentou amenizar o clima.
— Bem... Foi há alguns anos atrás e...
— 655.
— Oi? — As sobrancelhas dele se uniram e o homem tombou a cabeça, observando-a com cuidado.
— Foi há 655 anos, era isso que você estava falando. — respondeu com calma, brincando com a comida e beliscando um pouco — Por que você está me olhando como se tivesse visto a rainha tomando banho?
bateu a mão na cabeça, rindo em seguida e, mais uma vez, imaginando a cena drástica em sua cabeça.
— Quando você fez essa conta?
— Quando você disse alguns anos atrás. Eu gosto de números. — Ela deu de ombros, se concentrando de verdade na comida — Vamos assistir Harry Fantástico ou não?
Harry Potter.
— Potter não é o agressor? — Pareceu confusa e riu mais uma vez. Ok, com toda certeza não estava imaginando aquele som. Ele sabia mesmo rir — Você ensina de forma chata, Robert gosta mais de falar sobre isso. Ele me ensinou sobre uma guerra dos Sete Reinos. Alguma coisa com uma cadeira.
Game Of Thrones? — Ela assentiu com a cabeça de forma animada, parecia até mais feliz — Ok, você quer Harry Potter ou GOT? Porque o segundo são sete temporadas. Cada uma com dez episódios e os episódios têm uma hora ou mais.
— Bem... — terminou de comer, indo até a pia e levando tudo sujo que estava na mesa. Lavou rapidamente e deixou empilhado de forma organizada para secar e ela guardar depois — Eu não tenho nada para fazer, você tem?
— Eu tenho que ir encontrar Dua Lipa em dois dias. Acha que até lá conseguimos ver pelo menos três temporadas?
pensou por alguns segundos, parecia estar fazendo contas em sua cabeça enquanto ajeitava as coisas na sala para eles aprenderem sobre a história inglesa.
— Nós temos 48 horas até você encontrar a moça das regras. Acho que se ninguém dormir ou comer, chegamos no meio da quarta antes de alguém surtar por não levantar a bunda do sofá.
— Você consegue? — a olhou de forma desafiadora, um sorriso pretensioso nos lábios.
Droga, pensou , o sorriso dele é lindo demais.
— Eu não sei, meu bem, eu passei mais de dois dias morando no seu porão e comendo restos de comida. Isso sem contar o que eu passo desde os meus 14 anos. A pergunta que não cala é: você consegue?
estava com a sobrancelha arqueada, o cabelo meio torto e os olhos tão espremidos que mal se conseguia vê-los. A mão na cintura e o pé batendo. observou cada traço dela, como seu rosto não negava suas origens e, mesmo com toda a judiação que a vida havia feito com ela, ainda existiam traços bonitos por baixo da dor.
— É melhor você se sentar, Kaled, temos uma viagem de dois dias até Westeros.


05 – Dépaysement

the feeling that comes from not being in one’s home country


Esteja lá embaixo em cinco minutos.
Foi assim que acordou naquela manhã nublada de sexta-feira. O tom de voz do inglês estava tão empolgado quanto ele parecia estar. Os olhos frios e vazios. Havia uma sombra sob sua cabeça, como se, por algum acaso do destino, toda a escuridão do mundo tivesse resolvido ficar ali. Robert também não estava com uma cara boa, parecia que um carro havia passado por cima dos dois.
— Aconteceu alguma coisa? — ousou perguntar. O rosto ainda estava inchado devido ao tempo que estava dormindo. Ela não fazia o café de , já que, segundo o modelo, só ele conseguia fazer do jeito que gostava. Sempre acordava perto das dez, que era quando começava a preparar o almoço, ou antes, para assistir vídeos de como cozinhar tal coisa.
Os vídeos eram uma opção que não gostava, mas ela não queria assumir para eles que não sabia ler em inglês. Sim, ela era alfabetizada e isso era claro, mas na sua língua nativa. Não tinha precisão de aprender outra língua quando suas chances de sair da própria cidade já eram quase nulas. O inglês foi aprendido às pressas e aos poucos, e ninguém percebia em algumas pronúncias erradas graças ao sotaque carregado que ela tinha.
— Você atendeu meu telefone alguma vez essa semana? — perguntou, e percebeu que ele, mesmo que não tivesse percebido e ela sabia que sim, tinha se vestido daquela maneira vazia por um completo. Estava com um suéter preto de gola alta, uma calça preta, sapatos e meias pretas, um blazer que vinha até um pouco abaixo do joelho e completamente preto. Ele parecia elegante, no fim das contas.
— Atendi. Você me disse para atender. — Ela arqueou a sobrancelha com a defesa na ponta da língua. O telefone de estava tocando há muitos minutos e ele estava no banho. tinha gritado avisando, e ele, soltado um simples atende aí, abafado pelo barulho do chuveiro. Ela atendeu, disse que ele estava ocupado e, sim, estava em casa, também afirmando com certeza de que a ligação não estava errada. Disse que iria avisar que quem ligou tinha pedido para ele ligar de volta.
Ela não avisou, esqueceu, porque tinha queimado a calça favorita dela achando que era dele. Porque ninguém percebia a diferença de uma calça de um homem com 1,91 de altura para a de uma mulher de meio metro.
deixou os olhos entreabertos. Parecia bastante cansado e mal humorado. Massageou o espaço entre os olhos e soltou o ar longamente, olhando para Robert ao seu lado, como se dissesse eu avisei.
— Não tem como eles saberem que foi ela, isso não a torna automaticamente um alvo. — O moreno falou devagar, atraindo a atenção da síria. Alvo? De quê?
— Do que vocês estão falando? — Ela perguntou, já sentindo o coração disparar.
— Nada. — a cortou rapidamente, voltando os olhos para cima do amigo. Sendo sincero, ele tinha até esquecido o que representava ali. Estava tão acostumado com a presença dela que tinha esquecido de outras pessoas na vida dele e que, na verdade, ela era bem mais incomum do que ele pensava. Os olhos do loiro pousaram na síria mais uma vez, e ele notou como ela estava pálida, como parecia estar prestes a ter um ataque de pânico — , respira. Não é ninguém importante. Rob, ela não está respirando!
E, de fato, não se lembrava como respirar. O simples pensamento de alguém vindo atrás dela, tirando o pouco que ela tinha, para que... voltasse àquele mundo horrível de conflitos e guerra, voltasse para aquela casa que não era mais seu lar.
Tudo isso tirava muito rapidamente o ar de seus pulmões.
, fala comigo. — Quando ela começou a tremer, segurou o corpo pequeno entre seus braços para que ela não caísse no chão. Os olhos castanhos estavam sem vida alguma, pareciam tão vazios, que, por alguns segundos, achou que fossem reflexos dos dele, pois era assim que ele enxergava seus próprios olhos todos os dias no espelho — Ninguém vai tirar você daqui. Ninguém. Eu até queria te expulsar, mas seu frango é melhor que o meu. querida, vamos lá.
Demoraram alguns segundos até que ela conseguisse encher os pulmões de ar da forma certa. era séria, fria em alguns momentos, raramente tinha lapsos de bom humor e não fazia piadas. Ela não entendia sarcasmo e ironia na maior parte do tempo. Era tão literal quanto o Drax e a falta de metáforas do povo dele.
— Você precisa explicar as coisas melhor. — Ela respondeu assim que percebeu que não estava mais tonta, que tinha firmeza no chão o bastante para se soltar dos braços dele e ir até o próprio lugar no sofá — Do que vocês estavam falando?
— Foi um amigo que ligou quando você atendeu, e o Rob meio que deixou escapar que era a garota que morava comigo quando perguntaram quem era. — respondeu a pergunta da mais nova, encostando os cotovelos nos braços da cadeira e resmungando pela posição que suas costas estavam — E agora eles querem conhecer você.
Eles? — Ela estreitou os olhos. Ele tinha falado de um amigo e, de repente, o plural estava sendo usado. Por quê? — Diga que é mentira do Rob.
— Eu tentei, mas essa coisa linda aqui ainda fez o favor de dizer que, com toda certeza, você estaria na reunião de hoje. — O loiro estalou a língua e olhou com um ódio mortal para o melhor amigo — Eles são um grupo de amigos.
The Inn...
— Nem. Pense. Em. Usar. Esse. Nome. Ridículo.
Cada palavra de era como uma flecha de gelo em cima de Robert. Ele odiava aquele nome patético por diversas razões. Principalmente por quem havia o colocado. Eles não eram nenhuma boyband, não precisavam de um nome e de referências internas a personagens que sequer existiam.
— Enfim, só queríamos a confirmação de que você havia mesmo atendido o telefone. — Robert disse, sorrindo daquele jeito doce que sempre agia com a síria — Porque temos uma festa de aniversário hoje e você foi convidada, mas só vai se quiser.
— Você não precisa ir, de verdade. — resmungou, o queixo apoiado na mão e uma nova expressão ao arsenal expressões insuportáveis: tédio.
— Você não quer que eu vá — concluiu, um sorriso debochado nos lábios —, por que você não quer que eu vá?
— Quem disse que eu não quero que você...
— É porque a ex-namorada dele está lá e isso o deixa com um humor terrível. — Robert interrompeu , se vingando do que o mais velho tinha feito segundos atrás.
— A famosa Elena? — apertou os olhos ao ouvir o nome da ex, e Robert fez uma careta.
— Credo, Elena não, Deus tenha misericórdia. Amo a Lena, mas não vamos vê-la dessa vez. É a Tolkien que dá dor de cabeça para o . Mas não vamos focar nisso, porque esse garoto não sabe que o mundo na verdade não gira ao redor do umbigo dele e precisa perceber que, ao contrário do que Tom Fletcher diz, isn’t all abou’ you, baby. — Robert gargalhou com a própria referência, se sentindo o próprio Capitão América — Em primeiro lugar, você quer ir?
— Não. — começou, mas foi quem deu a palavra final.
— Sim. Eu quero.
— Uh, fogo. Gosto. — Robert ajeitou o cabelo e a posição em seguida — Não podemos contar quem você é, então, dissemos rapidamente que é uma intercambistas da França que está na casa porque estava na casa da mãe dele. Só que as crianças, insuportáveis como são, começaram a fazer um complô com você e a mãe do te mandou para infernizar a vida do nosso golden boy. Alguma objeção?
Ela processou as informações por alguns minutos, tombando a cabeça para filtrar mais uma vez tudo o que tinha acabado de ouvir.
Eu não sou francesa.
Deus, será que estamos lidando com o Sherlock da nossa geração? — engoliu em seco ao ouvir a frase cheia de ironia de . Respirou profundamente e virou o rosto para o moreno, depositando toda a atenção nele, porque era ele quem importava ali — As pessoas não mentem na Síria?
... — Rob olhou feio para o amigo, repreendendo sua ação.
— Foi com essa arrogância que você conseguiu empregos ou você teve que dormir com todo mundo para as pessoas não terem que ouvir você falar por mais de cinco minutos? Porque, sabe, a segunda opção é muito mais proveitosa para os dois lados.
não conseguiu falar nada ou, pelo menos, processar nada. Ela havia o respondido. Ela, . . Nem mesmo Robert acreditou quando ouviu. Todavia, a reação de Robert foi muito melhor que o choque de . Ele deixou uma gargalhada soar extremamente alta e irritante, aquelas gargalhadas que você nem percebe quando já está sem ar, rindo sem emitir som algum.
Foi aí que o maior choque da noite aconteceu: olhou para Robert e para em seguida e começou a rir com o amigo, soltando o mesmo tipo de gargalhada. Sem nem entender o que se passava na cabeça daqueles dois doidos, começou a rir também, e os três estavam lá, gargalhando até do vento que passava.
Garota, eu amo você. Sabe quantos dias é preciso para conseguir um sorriso no rosto desse babaca quando ele resolve entrar na lama? Muitos.
— Você não era sarcástica assim quando te conhecemos — limpou uma lágrima no canto do olho —, nem ousada. — Completou — A Inglaterra está te fazendo bem, querida.
— Bem, eu observo como vocês se tratam, como a ofensa é, na verdade, elogio. Demorou um pouco para que eu aprendesse, mas você pega o jeito aos poucos. — Ela mexeu nos curtos fios do cabelo escuro, bocejando em seguida — Eu sou uma intercambista francesa, estava na casa da mãe do e hoje vamos para uma festa. — Ela olhou para as próprias roupas e fez uma careta — Que horas? Quais as roupas que vocês usam nisso? Eu não sei lidar com pessoas, vocês sabem.
— Bem... — Rob olhou para a mulher na sua frente — Vamos tomar café e resolvemos isso aos poucos, ok?
O humor de não melhorou ao longo do dia. Ele sorria uma vez ou outra, mas eram sorrisos perdidos em relação a tudo. Robert tinha avisado a que o aniversário começava às nove, o que significava que eles tinham que chegar às onze da noite. Ela não perguntou por quê, eles eram bastante esquisitos sem que ela ouvisse as explicações doidas que tinham para dar. Ele também escolheu o que ela iria vestir, alegando que não era nada formal demais e, por isso, ela podia se sentir mais à vontade.
Mas esse já era um problema imenso: ela se sentir à vontade. tinha acostumado a usar jeans e blusa, mas sem sutiã? Por que ela não podia usar sutiã com aquela roupa?
No fim do dia, ela se sentiu um lixo pela falta de formalidade, que não era falta coisa nenhuma. ainda estava de preto da cabeça aos pés, mas sua calça tinha pequenos rasgões nos joelhos. Um blazer, dessa vez, com detalhes brancos nos botões e chegava no joelho, o protegia do frio britânico.
Robert usava uma calça social que combinava com seus sapatos, o suéter vinho parecia caro e delineava seus músculos contra o tecido. Uma jaqueta, que parecia ser de couro, fechava a roupa.
olhou para o conjunto de roupas que mais havia gostado e engoliu em seco. Demorava um pouco para ela se acostumar a mostrar tanta pele. A calça era jeans e de lavagem escura, cintura alta e literalmente, chegava a sua cintura. Usava tênis, um florido que havia ganhado de presente de Rob. O cropped branco era lindo e parecia perfeito na síria, mas ela queria ser só mais um pouco confiante para poder usar aquilo. Para não morrer de frio, tinha escolhido uma jaqueta de flores rosas e que era bem pesada. Tinha deixado aberto porque achava mais bonito assim. Nenhum colar, apenas argolas prateadas nos furos recém-adquiridos — que ela e Rob tinham feito um par de dias atrás.
? — Ouviu a voz do loiro a chamando e olhou em direção à voz. Ela nem ao menos conseguiu disfarçar ao olhá-lo da cabeça aos pés. Ridículo, pensou. Ele não era bonito. Muito menos bom. Robert era. Não ele. era mau. Não era bonito. Só usava roupa preta. E ainda era apaixonado pela ex-namorada.
— Estou pronta. — Ela respondeu, um meio sorriso no rosto. Seguiu os dois até o carro e ficou olhando para Robert, tentando olhar para ele daquele mesmo jeito. Mas ele estava bonito. Estava lindo. Não como o insuportável, mas ainda bonito.
Ao pararem em frente a porta, tombou a cabeça e engoliu em seco. Eles não iam caminhar a pé como sempre faziam, não, iam de carro.
Carro.
Aquele veículo inventado em 1885. Ela engoliu em seco. Não tinha andado em carro desde que chegara ali. Carros não tinham lembranças boas para ela, ela sabia que não. Não queria ir.
A partir daquele momento, ela não queria ir.
Mas, por incrível que parecesse, quem notara aquele desconforto presente nas feições da mulher fora . E , o frio e ridículo, , chegou ao lado dela com um sorriso vazio nos lábios e, do mesmo jeito que sorria, sua voz soou:
— Eu também não gosto muito de carros, mas deixo você escolher a música. — Empurrou o ombro dela de leve e deu de ombros. Ela respirou fundo e entrou no carro, encaixando o cinto o mais rápido possível, como se fosse toda a proteção do mundo.
Cheirava bem o carro. Tinha cheiro de limpeza e novo. deu partida e olhou rapidamente pelo espelho, para a carona que estava atrás. Não falou nada, mas mandou Rob entregar o celular para escolher alguma música.
Ela não soube se ele fez de boa vontade ou porque queria rir dela. era uma negação mexendo no iPhone X que o modelo tinha, era tão complicado! Mas, aos poucos, ela acertava uma coisa ou outra. Até tinha conseguido acessar o Instagram pelo aparelho de Robert e constar que, não, a foto que postara dela não combinava com o feed. Na verdade, quebrava as cores por completo. Porém, e Rob apreciavam o avanço que ela tinha com o celular e tinham comprado já um para ela, só não sabiam quando dar. O moreno tinha dito que quando ela aprendesse a fazer uma ligação pelo FaceTime, seria o momento certo. Já o loiro dizia que só quando ela aprendesse a usar os memes e gírias. Ela sabia que eles haviam comprado, tinha visto o celular escondido em cima da geladeira, mas não falou nada porque eles não sabiam do analfabetismo dela em inglês.
— De quem é o aniversário? — Ela quebrou o silêncio, mexendo nas flores da jaqueta.
— Thadeus. É um amigo de longo prazo, você vai gostar dele. — respondeu, voltando a atenção para a estrada no momento seguinte.
— Por que vocês não estão levando presente? — Ela perguntou só por perguntar, mordendo a boca por dentro e sentindo, como sempre se sentia, que estava incomodando ao encher os dois de perguntas.
— Já demos o presente antes. — Rob explicou, olhando para a menina atrás dele. Ela estava tão nervosa que não conseguia nem disfarçar, tinha quase a mesma cor daquela manhã — Me diz que você não vai vomitar.
— Eu não vou vomitar. — respondeu, ainda séria. Ela parecia não saber sorrir, sempre estava tão séria — Só estou nervosa.
Meu amor, não fique nervosa. — Robert estendeu a mão para ela e segurou os dedos da síria, fazendo um carinho fraco — Você vai gostar deles, eu tenho certeza de que vai. Eles vão amar você também.
Mas e as outras pessoas?
— Elas não estão mais lá, por isso falamos que tínhamos que chegar às onze. É quando a Carrigan expulsa todo mundo e ficamos só nós lá. Ela odeia festas, mesmo que não sejam dela. — explicou em meio a uma carinha de felicidade. Como se soubesse quem era Carrigan, mas ela apenas assentiu, como se estudasse em história quem era aquela mulher. Assentiu e não perguntou mais nada.
Ao estacionarem, toda a comida parecia querer voltar para fora da mulher. Ela não tinha vontade de sair do carro e quase, quase, pediu para ficar ali. Mas tinham pedido que ela fosse — mesmo que quisesse que não —, e ela queria ir. Ser uma mulher normal por alguns minutos. Conversar com pessoas normais. Fazer coisas normais.
Entraram na casa e nem ao menos parecia que havia tido uma festa ali. Ela via coisas mais assustadoras na televisão. Festas de jovens, soava algo como muitas bebidas e coisas proibidas. Aquela casa estava mais limpa que seu próprio quarto.
Tô chegando com os refri, rapaziada! — Rob gritou ao empurrar mais uma porta, a que dava acesso a uma sala que, aí sim, estava bagunçada. Mas não como um furacão, só como se tivessem muitas pessoas andando ali.
— Rob, quando você vai parar de citar tweets do Neymar em português? Ninguém entende. — Uma voz aguda e estranhamente conhecida respondeu e, por dois segundos, achou estar alucinando com algum tipo de Mãe Natureza ou Deusa Grega bem na sua frente.
A mulher era baixinha, muito baixinha. Como ela, só que menor. Tinha longos cabelos loiros e ondulados, tão longos que os pequenos cachos que formavam nas pontas passavam do seu quadril. Usava uma saia longa e lisa, uma blusa azul cheia de franjinhas e com alguns desenhos que não entendia. Os braços eram cobertos de pulseiras barulhentas, e ela andava com a graça de uma bailarina. O rosto era redondo e tinha algo adorável na falta de maquiagem dela. Era meio corada por natureza e, mesmo estando na Inglaterra, parecia meio vermelha do sol.
— Quando você parar de ficar falando do Bayern no meu país. Você tem que esquecer essa maldição de time na Inglaterra, foca no Chelsea. — Ela estreitou os olhos ao ouvir a resposta do moreno e olhou para ele de uma forma ameaçadora, mesmo que ela não parecesse fazer mal para uma formiga — Olhe só, meu time é tão melhor que seu Bayern, que seu amigo Klaus saiu de lá para vir para cá. Você acha mesmo que ele ficaria num time ruim? Claro que não, até ele sabe disso.
Meu namorado está no Bayern, caso não se lembre. Então, sim, eu amo o Chelsea, mas eu moro na Alemanha e não vou para jogos do Chelsea toda semana, muito menos ganho passe livre. O Bayern está em primeiro lugar na minha lista e...
— Tolkien e Robert, parem com isso. — interrompeu, se jogando num sofá e esticando os pés. Eles, ironicamente, pareciam ter se esquecido de que estava ali — O Arsenal é muito melhor que os dois times, por favor, sejamos sensatos. Vocês têm que aceitar que meu gosto de time é milhões de vezes melhor que o de vocês dois.
VOCÊ TORCE PARA O BORÚSSIA DORTMUND! — Nik gritou com o loiro, jogando uma almofada na direção dele — Você nem ao menos tem argumentos para defender isso. Pelo menos o meu time não tem jogador amaldiçoado que matou ALAN RICKMAN e DAVID BOWIE!
— Não devemos esquecer de Whitney Houston. — Uma voz rouca e extremamente sensual soou do outro lado da sala e mais um desconhecido surgiu no campo de visão do resto. engoliu em seco porque... não sabia por quê. Céus, aquele era, com certeza, o segundo homem mais lindo que ela já tinha visto na vida. A pele era bronzeada e bem mais escura que a dela, os cabelos eram escuros e batiam na altura do ombro, cheios e ondulados também. Ele era muito alto, talvez mais que , mas os músculos que delineavam seu corpo eram bem mais... atraentes. Os lábios carnudos faziam uma simetria perfeita com o nariz reto e os olhos cor de avelã — Por que estamos falando de futebol e vocês não me apresentaram a francesa?
Aleluia, achei que eu ia ter que fingir que entendo de futebol. — falou a primeira coisa que veio em mente e, quando as outras pessoas começaram a rir do seu sarcasmo, ela percebeu que deveria ter rido também. Mas não o fez, ficou com a cara séria e se aproximou o bastante para ficar perto de no sofá. Thadeus foi até ela e entregou um dos copos que estava nas mãos dele e aí, percebeu um detalhe muito importante: as mãos dele eram cheias de cicatrizes. Cicatrizes grotescas e grossas, que fizeram querer vomitar só de imaginar como ele deveria ter ganhado isso — Obrigada.
— É culpa da Tolkien, eu esqueci de apresentá-la. — levantou rapidamente do sofá e puxou a síria para mais perto do grupo — Onde está a Car?
— Aqui! — Carrigan surgiu de uma porta aleatória e abriu um sorriso perfeitamente branco e arregalou os olhos puxados — Gente nova? Menina, saia correndo enquanto dá tempo.
— Sempre é bom te ver, Car. — Robert a censurou, rolando os olhos — Foi ela que atendeu o telefone do . Kaled, esse é o nosso refúgio. — Ele olhou para , como se o provocasse só por falar o nome que ele tanto odiava — The Inner Circle. — E, aí, todos seguraram a risada e continuaram com o olhar no loiro, que parecia que tinha acabado de chupar um limão — Thadeus Bertollini, o aniversariante e nosso músico particular diretamente da Itália. Ele também é ótimo em artes marciais e é bem mais letal do que parece. — Apontou para o moreno, que acenou, e ela fez de tudo para não olhar as mãos machucadas mais uma vez.
estava tentando não pensar nisso, mas eram horríveis demais para ter sido apenas um acidente. Rob coçou a garganta e apontou para a última que apareceu, aquela que havia chamado de Car.
— Nossa biblioteca ambulante e também a mais politizada daqui, diretamente do Japão e estrelando A Princesa Perdida, Carrigan O’Donoghue. — Só naquele momento percebeu que os traços dela não eram padronizados como os de e Robert. Não, ela tinha olhos redondos e puxados, tão escuros que eram quase um tom de preto. Os cabelos, sim, eram pretos e tão lisos que não davam uma volta sequer, acima da orelha o corte, e aquilo combinava com ela. Era tão branca que sua pele parecia reboco de parede, e ela era alta, esguia, como uma modelo. Mesmo que fosse frio, ela parecia não o sentir. Vestia um conjunto cinza, a calça de cintura alta, que batia um pouco abaixo do umbigo, e uma blusa que mostrava todo o seu tronco quando ela levantava os braços. Usava maquiagem — os olhos estavam contornados de delineador e os lábios, pintados num vermelho carmim.
— É um imenso prazer conhecer você, ainda mais porque você está por aqui agora e essa daqui sempre some e me abandona com esses canalhas. — Carrigan estendeu a mão para , que apertou com uma interrogação enorme no rosto. Ela apontou para a loira, denominada Tolkien e que, a síria percebeu, era a ex-namorada que dava dor de cabeça a .
— Deve ser muito difícil para você. — Ironizou , finalmente, com um sorriso sincero.
— Não me atrapalha, caramba. — Robert empurrou Car e rolou os olhos — Eu estou empolgado aqui apresentando o Oscar e você vem dar uma de Kanye West e atrapalha minha premiação. Dá licença.
— Ok, Kanye — Carrigan levantou os braços em rendição — O espaço é todo seu.
— Ok, Taylor Swift, onde eu estava? — Rob pausou, colocando a mão na testa e olhando para Tolkien — Diretamente da Rússia com uma participação especial da Alemanha e da Inglaterra, Deus salve a rainha, conheça Tolkien Anami Camelia Nikolaj.
Por que, exatamente, o senhor citou meu nome inteiro, Robert Weston Terceiro?
— Primeiro: você não está autorizada a citar o terceiro do meu nome. Segundo: me deixa falar, caramba! Eu já perdi o fio da meada tantas vezes que é vergonhoso. Vou começar de novo e quem me atrapalhar vai receber uma sapatada na cabeça. — Ele tossiu como se estivesse aquecendo a voz e repetiu — Diretamente da Rússia com uma participação especial da Alemanha e da Inglaterra, Deus salve a rainha, conheça Tolkien Anami Camelia Nikolaj. Ela é formada em relações internacionais, tem uma clínica e ensina Yoga. Você sempre consegue saber que ela está chegando pelo menos meia hora antes porque ela só cheira a incenso e namora a maior cobra da Alemanha. — Todos explodiram em risadas, e ela só mostrou a língua para o inglês.
— Bem, ainda bem que você já conhece Robert e eu. Odiaria ouvir a voz desse cara por mais de cinco segundos. — , que tinha saído para pegar algo, voltou com um pote de salgadinhos e um copo de alguma bebida.
Claro que não, eu quero ouvir. Vamos lá, Rob. Me surpreenda.
O desafio estava claro em sua voz. Robert arqueou a sobrancelha e sorriu torto, coçando a cabeça e tentando pensar em algo legal.
— Com raízes das austríacas e um humor terrível, Alexander Winterbourne é o mais velho daqui, trabalha como modelo nas horas vagas, mas dorme com as pessoas para conseguir um emprego. É viciado em fazer playlists no Spotify e, secretamente, chora toda as tardes assistindo a morte de Mufasa em The Lion King. — O loiro fingiu bater palmas e, logo em seguida, mostrou o dedo do meio para o melhor amigo, que se fingiu de ofendido e colocou a mão no peito — Agora...
— Não! — Nik o interrompeu, saindo correndo e empurrando Robert do seu local de destaque — Eu vou fazer isso. — Ela tossiu, entortou um pouco a coluna e começou uma imitação muito engraçada da voz e do jeito de Robert — Nosso amigo aqui, com o sol, lua, vênus e ascendente em leão, não consegue ficar nem um segundo sem toda a atenção das pessoas em si. Um feat de um inglês com uma inglesa, Robert Weston Terceiro teve a infelicidade de nascer com um número no nome e, mesmo assim, finge não o ter. Estudante prodígio de Cambridge e dono de todas as boates de Londres, conheça nosso fuckboy.
— Então é verdade que a Tolkien xinga! Eu achei que as pessoas falavam isso de brincadeira. — Thadeus murmurou, bebericando um pouco do seu copo e recebendo uma olhada feia de Nik — Aliás, ótima imitação. Se não fosse pelo cabelo e peitos, eu jurava que era o Rob ali.
— Ela imita você melhor do que você mesmo. — constatou e deu risada, sentando ao lado do loiro no sofá. Aquelas pessoas a faziam se sentir um pouco mais normal, como se ela não precisasse ser alguém que não conhecia. Todos tinham, obviamente, seus defeitos. Também estavam expondo as coisas na frente de uma desconhecida e nem se importando com isso. Mesmo que soubesse de apenas um desentendimento perdido entre dois deles e suspeitasse ter mais coisas por baixo de tudo, ela percebeu que eles eram uma família.
Uma estranha, mas, ainda assim, uma.
— Você esqueceu do foco, panaca. — Thad disse para Rob, que parecia avoado em algo que Nik cochichava — Apresentar a francesa para gente.
— Mil perdões, princesa . — Ele fez uma leve reverência a síria e riu em seguida — Diretamente da Síria e com uma queda por porões abandonados, essa garota surgiu nas nossas vidas de um jeito muito incomum e...
Um silêncio se fez presente naquela pequena sala. Tão forte que pensamentos podiam ser escutados de longe.
Robert ficou logo vermelho, batendo a mão na própria testa ao perceber o que tinha acabado de fazer. tinha o rosto entre as mãos e estava prestes a gritar com o amigo, reclamar de como ele era idiota e tinha estragado tudo sem ao menos perceber.
Ele ia gritar, se a cena mais icônica não tivesse acabado de acontecer em sua frente.
Thadeus e Carrigan se levantaram e foram até Tolkien, ambos entregando uma nota de cinquenta euros para a loira, que cheirou o dinheiro e balançou no ar antes de finalmente explicar o que se passava ali que era mais interessante do que a mentira dos dois.
Eu disse que vocês estavam mentindo e que era uma péssima mentira por vários fatores e eles disseram que não, então apostamos. Se eu perdesse, ia dar cem paus para esses dois e, se eles perdessem, cada um ia me dar cinquenta. — Ela explicou como se estivesse dando bom dia e, antes que Rob pudesse perguntar quais os fatores, Nik continuou — Quantas pessoas na França se chamam Kaled? Mais árabe que esse nome não existe. Ela não tem os traços de uma francesa e os pais podiam até justificar esse gene nela, mas o sotaque denunciou. Eu já estive em países árabes e conheço o jeito deles de falar, o inglês dela é muito puxado para o árabe em si.
— Mas... — interviu, olhando para a loira com atenção — Não tinha como você saber quem eu era antes, não tinha visto meu rosto ou ouvido minha voz.
— Fui eu quem liguei para o , meu bem. Foi comigo que você falou naquele dia.
— Meu rosto?
— O Instagram desse carinha tem uma foto sua. Ele não tem namorada, ele não tem amigas que não sejam Car e eu, se é que eu posso ser denominada amiga disso, então não sobravam muitas opções. Não dá para ver muito seu rosto, mas foi um tiro no escuro.
engoliu em seco. Eles pareciam boas pessoas sim, mas não sabia se eram boas o bastante para mantê-la em segredo. Quer dizer, se os próprios amigos tinham inventado uma mentira, isso significava alguma coisa, não era?
Ela estava sentindo vergonha.
Olhava para os próprios pés e balançava-os de um jeito tímido.
— Olha — Foi Carrigan quem começou a falar —, eu não sei como você veio parar aqui e muito menos vou te julgar por qualquer coisa que você tenha feito, mas não estamos aqui para tachar você como alguém ruim ou até mesmo julgar e Rob por terem mentido. Se eles fizeram isso para te proteger, significa que se importam. Isso — apontou para todos ao redor, inclusive para si mesma — não é o que somos o tempo todo. Todos nós temos algo ruim para contar.
— E não se sinta pressionada. — Thadeus completou — Você pode contar a sua história quando quiser.
— Obrigada. — Ela olhou para e Robert e deu um sorriso fraco para os dois. Nunca poderia colocar em palavras o quanto ela era grata por eles, o quanto ela devia aos dois. Mesmo que às vezes parecesse que o primeiro fazia tudo de má vontade, ela, ainda assim, devia o mundo a ele.
Houve muitos minutos de silêncio até que ela engolisse em seco e, pela primeira vez na vida, deixasse seu coração falar mais alto que qualquer coisa. Ela sentia que podia falar para eles a verdade. Sentia que não seria mandada para longe só porque ser quem era.
Mas ela não podia só sentir, tinha que saber.
E só saberia se arriscasse.
— Eu sou refugiada, da Síria. Minha família e eu tivemos que sair de lá no começo desse ano e eles se perderam ao longo do caminho... essa é uma parte que eu não quero falar, não agora, não quando tudo parece estar ficando bem. — olhou para o teto da sala e mordeu a boca por dentro — Éramos sete, cinco filhos e meus pais. Quatro mulheres e um homem, a casa tinha cinco mulheres, era um saco quando a menstruação chegava e todo mundo ficava irritado junto. — Uma risada quase inaudível escapou de seus lábios, e prestava mais atenção, parecia uma versão inédita da história que ele já havia ouvido antes — Duina, Laila, Zaida, Amin e eu. Meus pais se chamavam Fátima e Omar. Morávamos em Damasco desde sempre, não tínhamos dinheiro nem nada assim. O básico para conseguir colocar comida dentro de casa e comprar o necessário para viver. Meus pais eram professores, só que eu não sei o que eles tinham na cabeça. Sempre foram diferentes demais das outras pessoas na nossa cidade. Papai sempre quis nos ensinar princípios diferentes daqueles que eram pregados, sempre foi muito bom com todo mundo. Ele sempre foi bom demais para aquele lugar. Meu irmão, Amin, gostava de cantar e tocava violão. Ele fez uma tatuagem escondida e quase o expulsaram de casa, foi bem engraçado. Duina era a mais inteligente de todas e Laila sempre foi a mais legal das irmãs. Ela era extrovertida e conquistava qualquer pessoa. Zaida era bem irritante quando queria, mas eu sabia que ela era uma boa pessoa, só gostava de atenção. Foi a mais nova por quatro anos até que meus pais engravidaram da Laila.
— Você era a mais velha? — Nik ousou perguntar. Estava sentada com as pernas cruzadas para dentro e os olhos vidrados na síria.
— Não! — respondeu como se fosse óbvio — Amin era o mais velho, depois vinha Laila, eu, Duina e, aí, Zaida. Acho que a ordem de idades é... — Ela pensou por alguns segundos e voltou a falar — Amin, 24, Duina, 22, eu tenho 19, a Zaida, 18 e a Laila, 13.
Você tem dezenove anos? — Dessa vez, foi Thadeus quem fez a pergunta, o choque estampado no rosto de todos os três — Ela é um bebê! Dios mio!
— Ei! — Ela o repreendeu, rindo do jeito que ele havia falado. Às vezes, nem a própria acreditava que tinha dezenove anos — Continuando... Bem, Zaida foi a primeira que morreu. A bomba a matou. — Sua voz estava fria. Ela não parecia estar nem falando da irmã. Ódio, era isso que estava por baixo de cada palavra de . O mais puro e terrível ódio — Mamãe foi a próxima, morreu de inanição na nossa viagem para este continente. Duina morreu afogada. Estava num barco cargueiro que não tinha capacidade nem para cem pessoas e estava carregando quatrocentos. Todos eles morreram. Amin gostou da França e acabou ficando por lá. Papai não se importou, só queria que ele estivesse vivo. E, então, viemos os três para cá. Laila, papai e eu. Meu pai foi deportado com pouco mais de um mês, Laila quis ir atrás dele e me desobedeceu. Estávamos morando num parque abandonado e eu ia buscar comida todos os dias, mas um dia eu voltei e ela não estava mais lá. Eu procurei por muito tempo, até que, numa dessas procuras, eu achei a casa dele. — apontou para , que nem sequer a olhava. Ele nunca tinha ouvido aquela parte da história, era realmente tudo inédito para ele — Eu morei no porão por muito tempo, pegava comida em todos os lugares possíveis. Você come qualquer coisa quando seu estômago não vê nada há dias e, bem, ele se mudou para lá e acabou com meu plano de dominar a casa. — Riu — Me acolheu e me deu abrigo, comida, uma cama e, bem... Uma chance de vida.
Thadeus, que estava sentado ao lado de Tolkien, chorava abraçado à loira. Carrigan observava tudo e, mesmo sendo a mais insensível dos cinco, tinha lágrimas nos olhos.
Nenhum deles sabia o que falar, e Robert sentiu necessidade de quebrar aquele silêncio, porque ele sabia de cada detalhe daquela história. Ele já tinha ouvido tudo aquilo antes porque já havia contado tudo.
— Pois é, gente, eu chorei que nem vocês quando descobri que o tinha sim um coração. — foi a primeira a gargalhar, sentindo um peso sair de suas costas quando ela percebeu como eles estavam calados. Nik riu em seguida, sendo acompanhada pelos outros dois e, por último, deu de ombros e agarrou a almofada do sofá, mirando na cabeça de Robert e acertando em cheio.
— Bem, eu não sei se esse é o momento certo para isso, mas eu acho que é sim, então... — Tolkien foi até e sentou aos pés da mulher — Bem-vinda ao Inner Circle.
petrificou ao lado da síria e todo mundo percebeu que seu rosto tinha virado uma máscara de rancor. Não disse nada, mas levantou em direção à porta, que tinham saído com comida, e ninguém disse nada. Eles pareciam saber por que o amigo estava assim, mas ninguém quis falar em voz alta.
— Todos temos nosso lado de coisas ruins, esse grupo é uma dádiva de aprendizagem e amizade. Todos nos conhecemos como a palma da nossa mão e você parecia precisar da gente tanto quanto precisamos de você, então, se quiser, bem-vinda. Se não quiser, o convite estará sempre aberto.
— Eu quero. — deixou a segurança tomar conta de si ao responder, segurou de volta a mão da russa e sorriu de forma agradecida — Mas eu me sinto péssima por saber poucas coisas de vocês. Preciso que me contem algo a mais, só para eu ficar quase quitada.
— Bem... — Carrigan deu de ombros e apontou para Thadeus — Ele é um italiano bastardo que veio de uma família católica que ainda acha que estamos na Idade Média.
— Ela... — Rob apontou para Carrigan — Nem se chama Carrigan de verdade, mas essa é uma história que ela precisa contar. Car é a filha de um imperador japonês, que saiu de casa para ser quem queria ser e foi banida da família.
Carrigan sorriu, parecendo ter orgulho daquilo.
— Ele é um inglês que quer ser frio, mas não consegue e passa tanto tempo fingindo ser outra pessoa que não sabe mais quem é. — Thadeus apontou para Robert, que continha um sorriso triste no rosto e apenas assentiu.
— O é um inglês frio como um iceberg, largado pela família e terminantemente vazio por causa da ex-namorada. — Tolkien falou, recebendo uma cara horrível de um recém-chegado na sala.
— E você é uma russa com a alma alemã que tenta ser luz o tempo inteiro para esconder as trevas que tem dentro de si. — Ele falou, calando todos ao redor. Havia uma tensão enorme entre os dois, algo que parecia muito mal resolvido.
— Eu sou a síria que fugiu tanto que ainda não sabe onde está. — disse para si mesma. Sua voz soou baixa, mas os outros ouviram do mesmo jeito.
— É... — Robert fez um carinho leve no braço de e encostou a cabeça no ombro dela, recebendo um cafuné leve — Eu acho que eu gosto do que somos.


06 – Pochemuchka

a person who asks a lot of questions


Por que você não fala da Elena?
Foi assim que chegou à cozinha naquela manhã. , que lia o jornal cuidadosamente, ergueu os olhos azuis até a síria e fixou o olhar nela por baixo dos óculos de grau.
— É bom dia que as pessoas costumam falar, mas se você insiste.
Como sempre, tinha uma carranca no rosto. Ele não estava sorrindo muito desde o aniversário de Thadeus. Ela sabia que havia acontecido algo entre Tolkien e ele. Ouviu gritos vindos do banheiro e um tapa logo depois. A mulher saiu de lá com o rosto vermelho e cheio de lágrimas, e , com cinco dedos marcados no rosto. Ninguém comentou nada. Rob pegou um copo de cerveja e salgados, sentou nos pés de e começou a falar sobre uma série que sairia na Netflix em fevereiro.
— Você não terminou bem com a Tolkien. Aparentemente, nem com a Elena. Por que continua falando com uma e não com a outra?
— Criaturinha maldosa e curiosa… — estreitou os olhos para — Não é da sua conta.
— Tudo bem. — Ela deu de ombros, pegando o requeijão e passando na torrada, como se aquele assunto não fosse nada demais — Eu vou procurar na internet depois de qualquer maneira.
parou sua leitura mais uma vez, deixou o papel debaixo dos cotovelos e apoiou o queixo nas mãos. Os olhos azuis pareciam ainda mais intimidantes e ele, mesmo sem querer ou de forma intencional, estava com a expressão de sarcasmo. Era parte dele. Nojo e sarcasmo diariamente eram as expressões normais que tinha no rosto.
— E você vai fazer isso com sua habilidade inigualável de leitura? — Estalou a língua logo em seguida, e os olhos afiados da mulher foram em sua direção — Ou você acha que eu não notei que você sempre usa o tradutor para procurar as receitas? E que quando usa uma receita escrita, traduz-a simultaneamente? Meu computador está em árabe porque você configurou tradução automática. Você achou que eu não ia perceber?
— Eu torcia que não. — Ela assumiu, mordendo a boca por dentro para fingir não estar afetada — Mas você vai ficar jogando isso na minha cara? Porque eu sei escrever o nome dela e o seu.
massageou as têmporas e tentou sorrir — Quando o momento chegar, você saberá o que aconteceu entre Elena e eu. Só… é muito recente para mim, tudo bem? Eu sei que mereço ser machucado depois do interrogatório que fiz para você, mas você pode pisar no meu coração quando eu voltar a ter um. Até então, vamos focar no estômago e nas suas tentativas de me matar de intoxicação, ok?
rolou os olhos e deu uma risada baixa. A comida dela não era tão ruim assim. Tudo bem que teve aquela vez que ela usou açúcar em vez de sal ao fritar os ovos e achou que as ervas dele de chá fossem tempero de carne, mas a comida não era de um todo ruim. Os dois tentaram manter uma conversa civilizada por algum tempo, mas nada que durasse muito. havia usado o telefone fixo para pedir uma pizza no almoço, e os dois também comeram sem ao menos conversar.
estava quieto, assistindo o jornal e pensando que acordaria cedo no dia seguinte para resolver as últimas pendências de sua viagem de negócios. O destino dessa vez era Dubai, e ele passaria um par de dias gravando e fotografando para a Calvin Klein.
— Você ficará os próximos dias sozinha, ok? Ou quer ir para casa de alguém? — A segunda pergunta soou um tanto interessante para . Ela nunca tinha dormido na casa de outra pessoa antes dos atentados. Nunca. Mesmo assim, ela não sabia como agir.
Quem?
Carrigan. Ou chamar o Rob para dormir com você.
— Acho melhor não, eu prefiro ficar em casa e não dar trabalho para os outros… A Nik está em Londres ainda? — jurava que não tinha sido proposital sua preferência por Tolkien, mas duvidava muito das palavras da mulher. As duas se deram bem de cara e ficaram a festa inteira conversando no canto, fingindo que o loiro não existia e fazendo isso muito bem.
— Eu acho que ela já está em Munique, mas posso ver alguma coisa. Carrigan vai gostar de estar com você de qualquer maneira, ela vive me assediando sobre quando vocês irão se encontrar novamente.
— Ela parece ser adorável.
Adorável? — O tom de foi incrédulo — Tente irritá-la e você vai conhecer um verdadeiro dragão. Nos últimos sete anos que eu conheço a Car, eu só tive o desprazer de querer brigar com ela nos primeiros meses e nunca mais vou me envolver com pensamentos errados.
— Que tipo de pensamentos errados? — soou curiosa.
— O tipo que possam elevar até mesmo o tom de voz. Carrigan não é o tipo de pessoa que você brigaria, pelo menos não conscientemente. Pessoas com o estado mental bom não se prejudicam de tal maneira.
arregalou os olhos e não falou nada, passou os próximos minutos refletindo como aquilo era estranho. Carrigan não parecia nem o tipo de pessoa que se meteria numa briga, imagina só alguém que pudesse causar todo esse trauma em ! Ela parecia tão… inofensiva! Com certeza, não queria irritar essa mulher.
— O que aconteceu com Thadeus? — A pergunta dela foi evasiva. Se pudesse, perguntaria tudo sobre todos. , que estava mexendo no telefone, moveu os olhos para a síria e continuou digitando — Você não vai me contar? — Ele negou e sorriu irônico, voltando a atenção para o aparelho — Eu posso perguntar eu mesma, meu analfabetismo não me impede de saber como os números funcionam.
Eu estou com o telefone.
— O fixo está bem ali.
Você não sabe o número dele de cor.
— Não — Um sorriso enorme surgiu nos lábios dela —, mas sei o do Rob. Tchau, .
A síria pegou o telefone fixo da casa e saiu correndo com o aparelho na mão. Não ouviu passo algum e percebeu, depois de alguns minutos, que estava no mesmo lugar de antes. Ele não havia se movido um único centímetro. Não. Nadinha. Era óbvio que ele não queria brincar, fingir que estava brincando ou qualquer outra coisa.
Não sabia porque ainda esperava sentimentos vindos de . Ele era a pessoa mais fria que ela conhecia.
rolou os olhos e foi até onde estava antes, indo direto para a pia, procurando algo para fazer. Foi nesse momento, nesse curioso momento, que uma criatura de quase dois metros passou voando até ela com o telefone na mão. A risada praticamente inaudível soou como uma gargalhada presa e forçadamente baixa. Quando ela finalmente alcançou , o loiro estava com o telefone nos dedos, o braço esticado e na ponta dos pés. tentava pegar o aparelho na mão dele, pulava, mas não chegava nem na metade. Foi quando ela fez cócegas na barriga dele e, assim que o homem reagiu, a menor pegou o aparelho e saiu correndo na direção contrária.
começou a rir e foi atrás, quase a pegando pelo ombro e tentando gritar dois segundos antes do desastre acontecer.
Se estivesse correndo um pouco mais devagar, teria prestado atenção quando gritara que ele havia tirado a escada da saída da casa e que era uma pequena queda, mas ela podia se machucar. E assim foi o que aconteceu. As risadas logo foram substituídas por gritos e estava no chão, o corpo encolhido, as mãos no tornozelo. Não olhou como ela estava, alcançou o próprio telefone no bolso e mandou um áudio rápido para Thadeus, largando o aparelho de qualquer maneira e se abaixando em direção a .
O pé estava começando a ficar inchado, mesmo ele sabendo que, com toda certeza, ela tinha torcido o tornozelo. Olhou as roupas da síria e concluiu que, sim, ela podia ir usando aquilo para o hospital.
— Vamos ao hospital.
Não! reclamou, tentando levantar e caindo mais uma vez, dessa vez resmungando de forma mais alta — Só precisa colocar gelo.
— Precisa engessar, vamos ao hospital.
, não! — Empurrou-o com força, fazendo algo enraivado surgir em . Os olhos do loiro transmitiam claramente sua mensagem: ele não estava brincando.
— Você não vai ficar em minha casa assim. Se você perder a porra de um pé, eu não vou comprar outro. — Com toda a força que conseguiu, ele se abaixou e pegou no colo, abrindo a porta lentamente e colocando-a no banco de carona com o pé pendurado no painel. Foi até a casa pegar a carteira e fechar a porta nas pressas, pois sabia que a mulher podia tentar fugir a qualquer momento. não disse nada, parecia irritada, e ele sabia que, sim, ela estava irritada e machucada.
Não sabia qual era a distância correta de sua casa até o hospital mais próximo, mas fez tudo para ser mais rápido. Ao chegarem, estacionou, já esperando a multa, e deu a volta, pegando a mulher no colo e sentindo que, se ele tivesse que pegar mais uma vez, receberia um soco da mesma. A emergência estava vazia e, assim que o avistaram, uma equipe pequena disponibilizou uma maca para colocar .
— Ela fica. — A recepcionista gritou do outro lado assim que começaram a arrastar a maca para longe de , e ele quase jurou ter visto suspirar de alívio — Preciso dos documentos dela para a ficha antes que vá.
gelou.
estava da mesma maneira.
Os dois se entreolharam de maneira tão assustada que foi por pouco que ninguém percebeu.
— Ela esqueceu os documentos em casa. Podemos adiantar a internação dela e eu tento entrar em contato com a mãe dela para pegar os documentos, ok? — mentiu na cara dura, tentando não hesitar ou gaguejar — Mas eu tenho quase certeza de que ela já tem ficha aqui no hospital.
— Preciso do nome completo para verificar, senhor.
Eu vou olhar com a mãe dela… — Mentiu mais uma vez, sorrindo para a mulher enquanto acelerava o passo para o outro lado. Quando se viu mais afastado das pessoas, começou a descer a lista de contatos até achar o nome da colega de trabalho e fotógrafa. Ligou para Anna Carbain, quase chorando de alegria quando ela finalmente atendeu o telefonema — Anna? Eu preciso de sua ajuda.
É bom dia que as pessoas falam, , mas se você insiste. — A voz da canadense soou do outro lado — O que foi?
— Preciso do número de sua prima.
Ava? O que você aprontou?
— Eu não posso explicar agora, mas você pode passar o número dela? Eu serei eternamente grato.
Só se você me falar por que você quer o número dela.
— Então me fale sobre o seu casamento com Gabriel.
Tudo bem, eu vou te mandar por mensagem. Passar bem. — E desligou. Não demorou muito para que a mensagem chegasse no telefone de e ele iniciasse a ligação para a americana.
Ela atendeu quase tão rapidamente quanto Anna.
Alô? — Ele soube que era o número certo quando ouviu o barulho do teclado batendo repetidamente no fundo.
— Ava? Aqui é…
, já consegui rastrear seu telefone, você demora muito para responder. Em que posso te ajudar?
— Ok, já que estamos tão íntimos… Eu preciso que você invada o sistema de um hospital e crie uma ficha para uma pessoa. Urgente.
Ah, só isso? — Ava rolou os olhos do outro lado do mundo — Preciso que você me diga só qual a senha do Wi-Fi do hospital.
— Ok. — Ele voltou à recepção — Qual a senha do Wi-Fi?
— A senha? royalbridge980.
— Obrigado. — Saiu na mesma velocidade que entrou — Ouviu?
Sim. Você vai usar o nome original da pessoa?
— Não. — Negou — Ela é…
A , eu sei quem é. Você não consegue segurar muita coisa de mim a essa altura do campeonato. — O barulho do teclado voltou segundos depois, pior do que tinha começado — Você tem alguma foto que possa parecer aquelas fotos de fichas?
— É incrível que você ainda não tenha invadido minha galeria de fotos também.
Eu posso fazer isso em meio segundo, estou tendo a decência de perguntar.
— Não tenho. — respondeu, se segurando para não fazer comentários depreciativos — Quando você conseguir, é só…
Pronto. Elizabeth Chambers, 21 anos, nascida em 05 de janeiro de 1996 em Manchester. A foto dela não foi tirada no dia porque a câmera estava com problema. Ela é uma paciente VIP que não precisa de outros documentos, e você só precisa pagar as coisas dela.
— Uau, você é realmente boa. — Ele sentiu medo, muito medo da mulher — Quanto eu te devo?
Eu sei que sou, não é à toa que eu trabalho para a CIA. — Finalmente os dedos pararam e ela gargalhou — Eu mando o valor por mensagem, vá socorrer a mulher.
— Até… — Antes que ele terminasse, a ligação foi finalizada — Mulherzinha estranha. — deu meia volta mais uma vez até a recepção e usou o tom de mentira mais uma vez — Elizabeth Chambers, era só isso!
— Deixe eu… — A recepcionista arregalou os olhos quando terminou de digitar, estranhando nunca ter visto aquele arquivo antes — Qual o seu parentesco com a Srta. Chambers? Preciso verificar se você está na lista de autorizados.
, eu sou o…
— Namorado, já achei. — quase engasgou com o ar ao ouvir o que a mulher tinha acabado de dizer — Ela irá… Srta. Nikolaj, bom dia!
— Bom dia, Nilma. Como você está? — Tolkien murmurou de volta e olhou com todo o desprezo que podia ter pelo homem — Hoje eu não vim visitar vocês, mas posso dar uma passada amanhã.
— A Srta. Chambers também é sua amiga? — A mulher se interessou, deixando totalmente de lado. Nik estranhou ao ouvir o nome, mas se fez de sonsa e assentiu com a cabeça.
— Sim, eu gostaria de saber o quadro dela. Ela já foi atendida, correto?
— Os médicos não passaram nada para o sistema ainda, mas, assim que sair, eu te aviso. — Ela piscou para Tolkien, toda a simpatia do mundo presente em sua voz — Schneider, você era o que mesmo?
. O namorado dela.
— Me lembre de lamentar mais tarde por essa conquista. — Tolkien murmurou só para ele ouvir e saiu de perto, caminhando até a máquina de refrigerante mais próxima.
Tolkien Nikolaj e não tinham uma boa relação. Na verdade, não podia nem ser chamado de relação o que os dois tinham. Se detestavam quase mutuamente e só se davam bem quando estavam em grupo. Tolkien não tinha orgulho algum da pessoa que ela se tornava perto do modelo, mas era algo que os dois não podiam evitar. Era como se o piloto automático de depreciação e ódio fosse acionado só por estarem um na presença do outro.
Naquela manhã, até a vestimenta de Tolkien estava diferente. A professora vestia preto da cabeça aos pés, os cabelos estavam prensados por um grande chapéu escuro e os olhos estavam cobertos por óculos de armação e lente negra. Até mesmo parecia mais pálida. Seria essa a mesma mulher que ele brigou na festa poucos dias atrás?
— Você parece péssima. — constatou — E, antes que eu esqueça, o que você está fazendo aqui?
— Você mandou um áudio para mim explicando o que aconteceu e pedindo para que eu viesse. — amaldiçoou a todos os deuses naquele momento, percebendo que nem ao menos tinha olhado o nome quando enviou a mensagem — E sim, eu estou péssima. Você quer um prêmio por fazer essa observação altamente astuta ou vamos continuar fingindo que isso importa? Quanto menos conversarmos, menos doloroso será.
levantou as mãos em sinal de rendição e sentou o mais longe possível da loira. Sabia que Tolkien não era rancorosa, uma pessoa ruim ou qualquer uma das outras coisas que ela era ao lado dele, mas era como se um despertasse o pior lado do outro sempre que estavam próximos.
Os dois continuaram se ignorando por mais algumas horas, até que um médico surgiu com notícias da mulher. Ela havia torcido o tornozelo e já estava engessado. Tomaria alguns remédios para dor e estaria fora de qualquer atividade física por um mês. Precisaria de duas muletas para se locomover e ajuda para tomar banho — essa era a melhor parte. Porém, só teria alta pela noite, e alguém teria que ficar com ela o dia inteiro. Tolkien, bem humorada do jeito que estava, deixou cuidando da parte financeira e foi até o quarto da mais nova. Ela dormia silenciosamente e estava com o pé engessado. Nik sentou na poltrona ao lado e se acomodou, sentindo seu corpo reclamar do tipo de dor que sentia, mas ignorando por completo. Não soube quanto tempo havia passado, mas murmúrios misturados com um sotaque pesado estavam tomando conta do cômodo.
Achei que você estivesse fora. — Foram as primeiras palavras compreensíveis vindas de . A mais nova tinha um sorriso cansado nos lábios e parecia estar quase tão irritada quanto Tolkien.
— Eu queria estar, mas não. Eu acabei tendo que ficar por aqui.
— Por quê? — A síria deixou sua curiosidade falar mais alto.
— Porque mesmo que você seja uma pessoa cheia de vida, às vezes… — A fala de Tolkien foi interrompida por uma porta sendo escancarada e um inglês mal educado — As pessoas não sabem bater na porta.
Só que, dessa vez, não estava mal educado como de costume, muito menos irritado e insuportável como ficava quando estava perto de Tolkien. Os olhos do homem estavam cheios de água e seu semblante era extremamente triste.
Eu não acredito que você fez isso. — Sua fala era diretamente para Tolkien, e se sentiu mais invisível do que quando era uma moradora de rua — Você não tinha esse direito, não tinha direito algum sobre isso.
— Eu ainda acho que essa é a minha vida. — Ela respondeu, olhando para de forma apática — Agora você pode ficar com a ? Eu estou com fome e preciso comer.
Ela teria chegado na porta.
Se não tivesse a parado pelo braço e forçado a loira a olhar em sua direção.
Se não tivessem tantas lágrimas nos olhos dela quanto nos dele.
— Não ouse falar sobre direitos que eu tenho ou não. Você não tem direito de opinar em nada sobre a minha vida. Nada. — Vociferou, a voz com tanta raiva que achou estar alucinando sobre aquele som ter realmente saído da pequena Tolkien.
— Você acha que eu gosto? De não ter opinião em sua vida? De não ser ninguém? De ver você definhando de pouco a pouco e não poder fazer nada? Eu já te perdi uma vez, Nik. Não deixa isso acontecer de novo. — Havia um tipo de súplica desesperada na voz de naquele momento.
não entendia porra nenhuma do que estava acontecendo, mas tinha encorpado o próprio Robert e desejava um balde de pipoca para poder apreciar o momento da maneira certa. Parecia que os papéis haviam sido trocados de maneira absurda e um tinha virado o outro.
Mas Rob não apareceu para trazer a pipoca ou melhorar o clima.
Tolkien que foi embora.
Entretanto, não antes de deixar a frase mais esquisita da noite solta naquele quarto de hospital.
— Eu achei que você já estava acostumado, . É isso que você faz, você perde as pessoas.
ainda estava parado na mesma posição quando o médico finalmente entrou, tagarelando muitas coisas sobre o almoço dela já estar vindo e se desculpando pelo atraso. prestou atenção no que ele falava e tentava não responder para não evidenciar o sotaque. Assentia com a cabeça e pensava nas coisas que podiam acontecer para que os dois tivessem agido daquela maneira um com o outro.
Não podia perguntar para ninguém, todos eles eram fiéis demais e sempre responderiam a mesma coisa. Tinha que esperar. Esperar para saber sobre tudo.
E ela não queria esperar para ter que saber.
Mas era assim que as coisas teriam que acontecer.
A espera, em tese e mesmo que uma coisa extremamente irritante, era a chave mais importante para aquele quebra-cabeça que se tornava cada vez maior.
Kaled só torcia para não perder nenhuma peça no meio do caminho.


07 – Jayus

a joke told so poorly and so unfunny that one cannot help but laugh


— Por que você não atendeu ainda essa maldita porta? — gritou assim que chegou ao térreo da casa. estava dormindo no sofá, e ele quis jogar a geladeira na cabeça dela. A campainha estava tocando há mais de quinze minutos e era humanamente impossível não ouvir.
havia tirado o gesso há uma semana e isso era um alívio para ambos. Tolkien e Carrigan haviam se tornado hóspedes constantes na casa de graças à falta de habilidade com banhos que tinha, já que só conseguia se apoiar em uma das pernas. Carrigan tentava ao máximo aparecer mais que Nik, mas seu trabalho a impedia de estar presente sempre que necessário. Tolkien já era outro caso. Ela estava afastada da clínica e iria passar o mês de dezembro inteiro em Londres. Como os pais também trabalhavam e ela não estava nos melhores dias para ficar bancando a professora de yoga, ficava livre sempre que possível. Chegou até mesmo a dormir com num dos dias e ambas fizeram uma noite das garotas. saiu de manhã nesse dia e não voltou antes do outro dia, evitando ter que olhar a loira por mais de dez segundos.
Na verdade, ele estava evitando olhar para qualquer pessoa por mais de dez segundos. Se um dia a relação de e havia melhorado, agora estava muito pior. Eles brigavam o tempo inteiro, e chegou a quase engessar a outra perna porque não quis acordá-lo para ajudá-la a descer as escadas. Numa noite, eles brigaram tão feio que Thadeus bateu, repetindo, bateu nele, com uma das muletas. Thadeus. A pessoa mais calma do mundo. Quem ninguém conseguia irritar.
E era o mesmo Thadeus que esperava do outro lado da porta, uma expressão séria e calma. Se ele ficasse uma hora inteira esperando, estaria da mesma maneira. Ou sentaria na porta.
— As pessoas dessa casa estão surdas? — O italiano sorriu enviesado para o inglês e deu de ombros em seguida, entrando sem convite — Oi, Ais… Ela está dormindo? Ah, ela está dormindo. Eu queria conseguir dormir assim.
— Ela é da Síria, consegue dormir com coisas piores.
Não ouse fazer piadas com bombas.
— Eu não ia fazer — levantou os braços e deu de ombros — Ótimo pensar que você pensa tantas coisas boas de mim, irmão. Mas antes que eu esqueça, e não estou sendo grosso, o que você está fazendo aqui?
Thadeus sorriu de forma sombria para o amigo.
me chamou.
O inglês estreitou os olhos e correu o olhar até a mulher, que estava no seu décimo oitavo sono. Como ela o tinha chamado?
— Suponho que vocês ainda não saibam se falar mentalmente — A frase soou amarga — E eu não vou nem perguntar, não me importa de qualquer maneira. Faça companhia a ela, eu vou sair.
Aonde vai?
A pergunta veio de uma sonolenta, sentada no sofá com os olhos vermelhos e o rosto inchado. O cabelo curto parecia bagunçadom, e a mulher não apresentava um humor agradável.
— Eu não sei se vocês lembram, mas as pessoas precisam trabalhar para se manter.
E, antes que pudesse falar ou ouvir mais alguma coisa, pegou a chave do carro e saiu porta afora. Educado como sempre, pensou. Não falou nada, mas sorriu em direção ao italiano. O corpo pequeno dela rapidamente foi apertado contra o homem num abraço cheio de carinho.
Ela sabia que era quase a mascote daquelas pessoas. A mais nova de todas e quem mais precisava de cuidado, foi isso que Rob disse uma vez quando ela o questionou sobre todos serem delicados demais com ela.
Thadeus não era muito chegado a contato físico e , muito menos, mas ali era algo que os dois estavam tentando quebrar. queria poder fazer isso com , queria se sentir à vontade o bastante para poder abraçá-lo às vezes, mas nem vontade de verdade ela tinha. Era só o mínimo esforço, mínimo. De tentar ser educada. De não grunhir sempre que ele aparecesse. De sorrir e acenar como uma pessoa normal e não se esconder da luz porque podia ser pega.
ainda não acreditava como as coisas haviam mudado tão rapidamente. Em um piscar de olhos, havia mudado a vida dela por completo. Ele ainda não era uma pessoa boa, ainda não se portava de maneira propriamente dita para humanos e, na maior parte do tempo, tentava ser a bruxa má de alguma história infantil, mas, ainda assim, ela era eternamente grata a ele.
Os dois se sentaram lado a lado no sofá, e descansou a cabeça no ombro do italiano antes dele começar a falar como havia sido o dia.

•••


se acalmou um pouco assim que chegou no estúdio, onde protagonizaria a campanha naquele dia. A maquiagem foi rápida e as fotos, mais ainda. Sobrou tempo de fazer vídeos e conversar com toda a equipe. Claro que todo mundo estranhou, o que ele estava fazendo? não ficava conversando com produtores, diretores de marketing, maquiadores e fotógrafos. Muito menos sorrindo para cabelereiras. Mas ele se esforçou ao máximo para não ser aquela pessoa enfezada e mal humorada de sempre.
Eram quatro da tarde quando ele estacionou em frente à casa dos Nikolaj, e Lola o recebeu com lágrimas e palavras tristes. Ele sabia o que a mulher estava sentindo porque tinha passado pela mesma coisa. Nik… Ele podia ressentir a mulher, discutir muito com ela e receber tapas na cara a cada seis meses quando eles achavam que podiam ficar no mesmo lugar juntos, mas não a odiava. Nunca poderia odiar Tolkien. Era errado até mesmo cogitar isso.
Quando saiu da casa acolhedora e familiar, entrou no carro e se encolheu no banco. Por puro costume, foi até o antigo número de Elena e clicou no microfone.
Ela não ouve ninguém. — Sua voz estava embargada e as lágrimas já escorriam com vontade — Por que ela está fazendo isso, Lena? Será que Nik não percebe que está machucando todos ao seu redor? Lola está deplorável. — Um soluço escapou e ele encolheu o corpo, limpando a água em seu rosto — Eu queria… — Ao perceber o que estava fazendo, rapidamente cancelou o áudio e jogou o telefone de lado, batendo no volante com força até sua mão doer. Iria para casa. Era isso. Casa. Sua casa era seu refúgio. estava com Thadeus e nem sentiria que ele tinha chegado.
E ela realmente não percebeu. Se estavam em algum lugar da casa, não era visível. O pensamento logo trouxe uma careta ao rosto de , e ele só deitou em sua cama e mandou mensagem para Rowan, perguntando se tudo estava bem. Jogadores do Bayern e inglesas. Se alguém um dia falasse para ele que suas amigas de infância se encontrariam naquela mesma situação de problemas e, ainda por cima, com jogadores do mesmo time, ele nunca acreditaria. Mas, de um lado, Nik estava com problemas e namorando Mats. Do outro, Rowan estava com problemas e não-namorando Joshua. Maldito fosse o dia que as pessoas da Inglaterra resolvessem fugir para Munique. Maldito fosse.
Demorou mais ou menos cinco minutos para que ele caísse no sono e algumas horas para que acordasse novamente. Foi ao banheiro e desceu para beber água ao mesmo tempo que sua campainha tocou.
Estreitou os olhos e foi até a tela da câmera, que ficava do lado de fora, só para ver Rowan Simmons bem ali. Que horas eram? Madrugada, com certeza. Ela não deveria estar ali.
Rowan era amiga de infância de . Quando você crescia com outra pessoa do seu lado, era anormal perceber que ela não estava tão presente em sua vida como já fora um dia. Rowan era assim. Ela sempre foi uma base que o loiro gostava de manter. Era ela quem dava bons conselhos e se importava sempre com ele, não com o que ele deveria fazer ou como as pessoas pensavam que ele podia agir.
Estava na Inglaterra havia algum tempo, não mais de duas semanas. Eles haviam saído alguns dias atrás para comer algo, e a primeira coisa que disse para ela após dois anos sem se ver foi: você está horrível. E os dois conversaram, falaram um pouco sobre a infância e as lembranças, pediram chá e foram amaldiçoados pela garçonete. Quando Rowan perguntou como estava a vida, ele só olhou nos olhos da morena e disse:
Tenho uma pessoa vivendo clandestinamente em minha casa. Refugiada.
E foi assim que ele contou tudo para ela. Como ela tinha parado lá, como isso estava o afetando, como o psicológico dele estava se curando de tudo aos poucos. Quando a pergunta fora rebatida, Rowan desabafou sobre tudo o que estava acontecendo. Sobre todos os velhos problemas que pareciam mais novos do que nunca. Sobre aquela bagunça que Munique e Londres tinham feito ao se misturarem de forma tão violenta.
Porém, quando abriu a porta, nenhum sinal da Rowan forte que ele conhecia estava lá. O rosto estava inchado e tantas lágrimas escorriam dos olhos dela que ele quase ofereceu água para ela não ficar desidratada. Mas não era água que Rowan precisava.
Era de um amigo.
a abraçou com força, puxando a morena para dentro de casa e fechando a porta com o pé. Beijou a testa com carinho, murmurando que tudo ficaria bem e que ele estava ali e sempre estaria. Que era assim que as coisas funcionavam e que eles sempre iriam ter um ao outro.
— Você quer água? — Ele perguntou. Claro que ela precisava de água. Alguns milhões de litros para repor toda aquela coisa salgada.
— Eu quero vinho. — Rowan respondeu rapidamente, atraindo atenção do loiro. Ele não protestou, no entanto. Foi até sua adega e selecionou seu vinho favorito para dias sombrios. Era aquele que, com quatro taças, as estrelas começavam a se mover sozinhas.
— Eu vou perguntar só uma vez: você quer conversar? — As duas taças pararam em frente a Rowan e as encheu rapidamente. Não houve resposta, contudo. A estudante de história apenas bebeu tudo como se estivesse virando um shot de tequila — Eu estou dando abrigo para uma criminosa?
— Não é porque eu vim para sua casa de madrugada que eu sou uma criminosa, longe disso.
— Eu abrigo uma refugiada, por que uma criminosa seria tão ruim? — Seu tom soou quebrado e ele deu de ombros, ignorando a censura no olhar da mais nova. O que ele poderia fazer, afinal? Rir da própria desgraça.
— Quando as coisas vão ficar fáceis para pessoas como nós? — Rowan perguntou, a segunda taça sendo tomada mais devagar dessa vez.
— Pessoas como nós não têm nada fácil. Algum carma da vida passada voltou e somos destinados a desventuras constantes.
Um brilho de humor surgiu no olhar da historiadora.
— Achei que não acreditasse em carma.
Bendito inferno em chamas, eu não acredito. — Foi a vez dele de beber tudo de vez — Mas, maldição. Eu tenho que justificar as desgraças da minha vida com alguma coisa, não é? Assumir que eu sou uma pessoa terrível e mereço tudo isso não é nada bom.
Rowan balançou a cabeça, concordando. Ela ficou por um tempo em silêncio, girando a taça de vidro na mão com o líquido escuro e olhando para um ponto fixo na parede. Por fim, acabou falando:
— Hoje de noite foi a primeira vez que falei com o meu pai em mais de dois anos — disse baixinho. — E foi horrível, pior do que eu poderia imaginar, sabe? Eu acho que ele nunca vai me perdoar pelo que aconteceu.
caminhou até ela, enchendo sua taça mais uma vez.
— Assim como você nunca vai perdoar sua tia e seu pai por terem omitidos coisas de você — falou e pôde ver o rosto dela contorcer-se de dor com as prováveis lembranças que vieram à mente.
Rowan tomou um longo gole do vinho.
— Isso é tão fodido! — disse, deixando o inglês surpreso com o uso do palavrão. — Por que minha vida não pode ser mais fácil? Por que essa merda tem que sempre voltar a me atormentar? Eu achei que tinha deixando tudo isso enterrado aqui em Londres, que eu podia ser feliz novamente, mas acho… acho que sonhei alto demais e acabei machucando pessoas que não tinham nada a ver com isso.
não precisou pensar muito para entender sobre quem ela estava se referindo ou sobre enterrar coisas do passado. Ninguém, melhor do que ele, sabia fazer isso.
— Ele veio até Londres para te ver, não é? — perguntou, pois tinha visto algo sobre o quase-ou-não-namorado-dela ter ido para Londres também. — Você sonhou algo com ele, achou que ele poderia te curar?
Os olhos castanhos se encheram d’água e quase se arrependeu de continuar a questioná-la, mas ele sentia que, de alguma forma, as perguntas estavam a ajudando.
— Se você soubesse como nos conhecemos, como se o destino tivesse pensado em cada detalhe, e a forma como nós nos ligamos rapidamente… , eu juro que é bem fácil sonhar com alguém assim ao seu lado pelo resto da sua vida. — Ela levou a mão ao rosto, limpando as lágrimas que mancharam suas bochechas. — E sim, ele veio aqui há alguns dias para esclarecermos as coisas.
— E como foi? Vocês se acertaram? Chegaram a um consenso se estão juntos ou não?
Rowan ergueu bem o rosto, nivelando o seu com o dela, castanho contra azul, e, se antes ele achava que ela estava uma bagunça, agora ele via o quanto ela parecia acabada, tanto fisicamente quanto mentalmente: com olheiras escuras abaixo dos olhos, a pele morena pálida, o rosto mais magro e cabelos opacos.
— Eu pareço alguém que está feliz? Que tem um namorado? Que essa conversa levou a alguma coisa boa? — falou, quase que de modo ríspido.
O loiro ergueu as mãos para cima, sabendo que tinha pisado em ovos. Guardou para si um pensamento, sabendo que era o melhor. Os boatos que correm é que você tem um namorado e o nome dele não é Joshua.
A terceira taça foi colocada para ela e não se importou mais com isso, tomando diretamente da garrafa. Era aquilo. Dois fodidos brincando de quem tinha a vida pior. Faltava apenas chamarem Tolkien para completar um clube que reclamava da vida. Rowan terminou sua dose e, quando ele fez menção de encher mais uma vez, ela negou.
Melhor que sobra mais, foi o que ele pensou. Não demorou muito para que enjoasse e largasse o vinho no centro, junto às duas taças.
Mesmo que, pouco tempo depois, eles voltassem a dar atenção para a garrafa e a secassem de vez.
— As coisas vão ficar bem, eventualmente. Momentos ruins são só isso, momentos. — Sua voz soou baixinha, e ele limpou o rosto dela, mesmo que novas lágrimas surgissem.
Rowan não falou mais nada. Estava tonta graças ao álcool. Tinha sido uma mistura de sentimentos com bebida e, para ela, tudo estava girando. logo percebeu. Permitiu-se rir da fraqueza para bebida e não negou que também estava um pouco tonto. Conseguia subir as escadas, mas ele provavelmente acharia graça dos degraus.
— Vamos, você precisa de uma cama. — Sugeriu, levantando e ajudando-a a ficar de pé. Os dois subiram as escadas rindo e sempre lembrando de fazer silêncio porque estava dormindo bem ali perto. Os passos até o quarto dele foram rápidos, e Rowan gargalhou de alguma coisa, pedindo silêncio, mesmo que a única pessoa que estivesse fazendo barulho fosse ela.
Se atrapalhou com os próprios pés e quase caiu no chão, sendo segurada por um debochado.
Pegou-a no colo e a deitou delicadamente em sua cama, dizendo para si mesmo que o sofá não era tão ruim.
Foi quando os olhos se encontraram rapidamente, uma pequena faísca surgiu e, com ela, uma casa inteira poderia pegar fogo. A morena não pensou duas vezes antes de segurar o pescoço dele e puxá-lo em sua direção, colando os lábios dos dois num beijo profundo e desesperado. aproveitou o apoio que a cama estava dando e deixou seu corpo cair por cima dela, as línguas se entrelaçando com desejo.
mordeu a boca de Simmons e se afastou, puxando a mulher para seu colo e facilitando o convite de mais beijos em cima daquela cama. Mas ele desviou quando ela tentou beijá-lo mais uma vez. Os lábios do inglês desceram para a clavícula marcada e mordidas arrepiaram Rowan. O jeito que ele lambia a pele dela e apertava os dentes nos lugares certos, que ela enfiava os dedos nos cabelos loiros e puxava com força, incentivando-o a seguir com aquilo.
Tudo parecia tão certo, mesmo estando tão errado.
Logo os dois se separaram mais uma vez, uma blusa voou para o chão e nem ao menos sentiu o frio daquele cômodo o atingir.
Foi quando começou a desabotoar a blusa de Rowan que ele percebeu o que os dois estavam fazendo. Alguns segundos antes, ela também havia percebido.
Mais uma troca de olhares aconteceu, sem desejo nenhum.
Rowan foi a primeira a gargalhar, tapando a boca com a mão enquanto seu corpo caía para trás e ela começava a se contorcer em longas risadas. também não perdeu tempo. Riu contra o travesseiro para não acordar ninguém e sua barriga começou a doer com o esforço esquisito que era uma gargalhada sincera. Os dois gargalharam tanto ao ponto de ficarem sem ar, da risada sair sem som algum e, mesmo assim, ainda ter graça. De Rowan cair no chão e continuar rindo, encolhida e com o corpo chacoalhando.
— Vai mais para lá. — A voz dela saiu rouca quando ela finalmente teve forças para levantar e cair na cama do homem. Empurrou o bastante para chutar os sapatos e se enfiar debaixo dos cobertores — Eu vou dormir aqui mesmo. Promete não me beijar essa noite?
— Eu? — O modelo se fez de desentendido e tirou os próprios sapatos, buscando o suéter no chão e se livrando dos jeans — Você quem me beijou, sua tarada.
— A bebida fez de você bonito. — Ela confessou baixinho, rindo debaixo do lençol. não se importou de abraçar a mulher e acomodá-la em seu peito, fazendo carinho em seus cabelos. Não. Aquela era Rowan. Eles podiam estar se beijando alguns minutos atrás, mas até mesmo a lembrança era engraçada, se você olhasse daquele ponto de vista.
Depois daquele momento, eles podiam se ver pelados e nada aconteceria.
— Você vai ficar bem, Rowan. Você sempre fica. — Beijou a testa dela da mesma maneira que fizera mais cedo e fechou os olhos.
— Você também, . — Ela retribuiu o beijo do homem, deixando um em seu queixo, já que não alcançava a bochecha — Nós dois vamos ficar bem. Isso é uma promessa.
E, mesmo ele odiando promessas de dedinho e sempre negando quando suas irmãs mais novas pediam, ele deu o dedo a torcer e sorriu antes de dormir.
Era uma promessa.


08 – Waldeinsamkeit

the feeling of being alone in the woods


— Eu não sabia que você podia realmente cozinhar.
Rowan comentou, o sono se dissipando aos poucos. Ela estava com um blusão de frio do homem e um short pequeno para ironizar a situação. Na verdade, era uma calcinha box, mas eles não ligavam. Não quando estava deitado ao lado da bandeja de comida só de cueca.
Se fosse qualquer outra pessoa, poderia ser presumido que eles passaram a noite fazendo coisas mais interessantes, mas não. A noite inteira foi só dormindo e, assim que o loiro acordou, foi fazer café para a amiga. Porque sabia que ser mimada era tudo que ela estava precisando ser naquele momento. Um pouco de atenção no que importa, e daí você esquece todo o resto.
— Cortar frutas e colocar coisas prontas não é considerado cozinhar. — Ele deu de ombros, a voz ainda rouca pelo sono.
— Você tem um ponto. — Piscou — E onde está ? Eu quero conhecê-la.
— Dormindo. — fez uma careta — Eu vou acordá-la e adianto que as decepções podem ser grandes. Ela não é exatamente legal de manhã cedo.
Rowan gargalhou e vestiu uma calça de pijamas para ir até o quarto da síria, buscando uma camisa no meio do caminho e a colocando também. Não gostava de ficar sem roupa perto dela. Por mínima que fosse a peça, ele se sentia nu.
Bateu na porta uma, duas, três, quatro, até cinco vezes. Nenhuma resposta. A porta estava destrancada, então ele enfiou o rosto dentro do cômodo anunciando sua chegada. Só que estava vazio.
Não.
Não.
? — gritou, atraindo atenção de Rowan, que ainda estava no quarto — ? — Tentou mais uma vez, passando pelos cômodos e olhando de um em um. Desceu as escadas correndo e, mesmo assim, ela não estava em parte alguma — Ela não está em lugar nenhum.
Ela… — Rowan tentou, procurando respostas plausíveis — Você não sabe mesmo onde ela está?
Eu pareço saber onde ela está? — Gritou e, de imediato, se arrependeu. Rowan não tinha culpa nenhuma ali. A voz calma da amiga o atingiu automaticamente, mesmo que ele não estivesse entendendo de verdade o que ela estava dizendo — Ligue para Tolkien, por favor.
calçou chinelos rapidamente, a chave do carro já no bolso do moletom. Mandou mensagem para Thadeus e Carrigan para saber se um dos dois tinha visto a síria. O italiano estava no estúdio, e a japonesa nem estava na cidade. Tolkien também não tinha visto e, antes que ele pudesse ligar para Robert, o estudante de direito apareceu na porta de sua casa com uma expressão sonolenta e confusa.
— Tolkien falou comigo. — Ele disse, olhando fixamente para Rowan com a blusa de . Não quis comentar nada para não soar chato, mas os dois faziam o que queriam de qualquer maneira — Oi, Rowan. Faz tempo, não é?
— É bom te ver, apesar das circunstâncias. — Ela sorriu sem graça e apertou a mão do homem.
Realmente, se Robert e Rowan sentassem para conversar em qualquer outra situação, passariam horas fazendo aquilo. Mas aquele não era nem de longe o momento apropriado para colocar o papo em dia e falar lorotas até o amanhecer.
— Você veio de carro? — O modelo perguntou, recebendo um aceno positivo do amigo — Ótimo — Ele jogou a outra chave na mão de Rowan e sorriu amargo —, ótimo, você dirige o Jeep. Eu vou pegar a SW4.
— Por que você tem dois carros? — Ela perguntou, sorrindo, numa tentativa de melhorar o humor do modelo. Não resolveu. Ele estava ainda com a expressão amarrada.
— Porque ele gosta de gastar dinheiro, vamos evitar as grosserias. — Rob interrompeu a conversa simpática dos outros dois e puxou Rowan até a garagem, ignorando as reclamações dela sobre precisar colocar uma roupa — Thadeus disse que assim que ele sair do estúdio, vai procurar também.
estava nervoso. Nervoso demais para não ser grosso com qualquer pessoa que dirigisse a palavra a ele.
— Vou ficar com a região do Hyde Park. — Ele parou em frente ao próprio carro e olhou para Robert — Separe os bairros entre vocês. Qualquer atualização, me avise.
Não era um pedido.
Rob sabia que não.
E ele não obedecia ordens de , mas, naquele momento, ele não ousou negar qualquer coisa. Rowan logo percebeu que ele se importava. Que ela não estava em casa. Que ela não sabia onde estava porque não tinha conhecimento das ruas de Londres.
Que estava perdida lá fora e qualquer coisa ruim podia acontecer com ela.
Ela não ousou falar isso na frente do homem. Não queria ver como ele lidaria com aquilo porque, ao que parecia, nem mesmo ele sabia que era assim que se sentia em relação a tudo aquilo.
Os três saíram sem falar mais nada. Rowan ficou com o resto de Chelsea, e Rob correu para Belgravia. Thadeus logo ligou para informar que já tinha procurado em boa parte de Kensington e que eles deveriam olhar as redondezas porque ela não poderia ter ido longe demais. Não a pé.
ligou para Rob assim que conseguiu estacionar o carro.
Eu estou indo nas lojas. — Foi a primeira coisa que disse — Me avise de qualquer coisa.
E, sem mais nem menos, desligou.
estava apertando o moletom que havia achado perdido no carro contra o corpo. O clima não estava dos melhores, e ele só queria voltar para cama. Mas não, ele saiu de loja em loja perguntando se alguém tinha visto aquela mulher. Mostrava as fotos ruins que tinha de , mostrava a altura e o nome.
Nada.
Ela tinha desaparecido. Virado fumaça.
— Se você resolvesse sumir, para onde você iria? — Perguntou para si mesmo numa estranha dúvida. Ele tinha tantas perguntas para que era… agonizante. Não tinha motivos para ela sair daquele jeito.
Não avisar.
Não deixar um bilhete.
Ao menos bater na porta e falar que estava saindo para caminhar e…
Ela podia ter saído para caminhar e agora não tem ninguém em casa!
Ele bateu na própria testa por não pensar nisso antes e discou o número da única pessoa que não tinha nada bom o bastante para fazer àquela altura do dia.
No quarto toque, Tolkien atendeu.
O que foi?
— Flor delicadíssima do meu jardim, você pode me fazer um favor?
— Não. — Do outro lado da linha, ela se abaixou procurando por algo na geladeira — Depende, eu posso comer seu iogurte de morango?
Você está na minha casa?
— Claro, caso apareça aqui? — Havia obviedade em sua voz — Estou aqui há meia hora. Qual o seu favor?
— Eu… — ficou desconcertado e coçou a barba — Esqueci. Daqui a pouco eu ligo para você. Tchau.
E desligou da mesma forma que havia feito com Robert.
Ele passou pelas redondezas do Hyde Park. Mostrou a foto para todas as pessoas que passavam por ele e a cada não que ele recebia, seu desespero aumentava numa escala absurda. Tinha medo de tantas coisas que era impossível colocar em palavras.
Mas foi se aproximando de uma das lagoas só para poder sentar um pouco que ele a viu.
Ela estava lá.
Quieta.
Silenciosa.
Sentada num banco e totalmente pálida. Seus pés estavam roxos, assim como seus dedos. Ele nunca pensou que veria tão pálida e sem sangue como naquele momento. Ela estava com muito frio. Qualquer pessoa perceberia isso.
se aproximou lentamente, observando o moletom no corpo e como parecia ter se encaixado naquele momento a peça estar em seu carro.
Ouviu que ela resmungava e deduziu que eram coisas em sua língua nativa, já que ele não entendia uma mísera palavra do que era dito.
— Você pode, por obséquio, traduzir o que estava dizendo? — A mulher se espantou com a voz do homem, mas olhou para ele com a mesma frieza que era usada de forma contrária em todos os dias.
— Eu estava dizendo como eu odeio frio. — sorriu sem mostrar os dentes e virou o rosto para frente mais uma vez, não dando atenção a E que o inferno parece particularmente interessante nessa época do ano.
— Ouvi dizer que não é muito difícil ir para lá. — O humor do inglês estava tão ruim quanto o dela, talvez fosse até mesmo uma disputa pessoal — Você podia ter avisado que iria sair.
Com minha maravilhosa fluência em inglês? o desafiou, os olhos semicerrados — Ou tentando avisar à sua amiga, que fez barulho a noite inteira?
Ele paralisou, assustado com a informação de que ela havia ouvido Rowan. E ele.
— Eu posso te ensinar a ler e escrever em inglês. — Sugeriu, fugindo do assunto — Ou você pode pedir para Tolkien, já que está tão próxima dela.
Eu não estou com ciúmes. desabafou e foi sincera, ignorando o convite dele — Eu não tenho por que sentir ciúmes de você e nada em relação a você porque eu sou só um parasita naquela casa, mas algumas coisas… Eu não gosto de ouvir. Me lembra… — Ela pensou em algo e, por alguns minutos, ficou em silêncio até balançar a cabeça como se espantasse aqueles pensamentos dali — Foi aqui que você queimou o cachecol de Harry Potter, não é?
— Na verdade… — sorriu, assentindo e tirando o moletom para jogar na direção da mulher — Foi naquele banco ali.
Seus dedos apontaram para um banco três depois do que eles estavam, e ela se permitiu sorrir enquanto se protegia do frio. se encolheu no banco, enfiando as pernas por baixo do moletom grosso e apoiando a cabeça nos joelhos. Os olhos castanhos estavam em , sem pudor algum e com tão poucos sentimentos que o calor da cor não estava presente no seu olhar.
— Você não é um parasita. — Ele precisou dizer. Ela sabia que não. Sabia sim. Mas era bom afinar com todas as letras e pronúncias possíveis. Ela não era uma parasita. — Você nem é minha convidada. Você é minha colega de quarto, ou casa, já que não dividimos quarto. Mas você pode sair daquela casa e ir, por exemplo, morar com a Car, quando quiser.
— Eu não quero morar com a Car. A comida dela é ruim. — Mesmo falando aquilo com seriedade e sem humor algum na voz, sentiu necessidade de rir — Se eu perguntar uma coisa, você promete ser completamente sincero comigo?
Ele hesitou, pensando no tipo de pergunta que ela enfiaria na cara dele naquele momento. Mas assentiu, pensando que a tentativa era melhor que a frustração.
Por que você me deixou ficar? Eu sou uma estranha, vocês me conheceram mês passado e não sabem nada de mim. Eu posso estar mentindo, enganando vocês. Podia estar fazendo isso o tempo todo até agora.
Ela estava certa. Infelizmente, estava absolutamente certa. Ela podia ser tudo aquilo e muito mais. Fazia… um mês? Um pouco mais, um pouco menos talvez. Faltava uns bons dez ou quinze dias para o Natal, e ele nem havia percebido que o tempo passara tão rápido.
— Eu não sei. — Não era mentira, mas também não era verdade. Ele não sabia ao certo, tinha uma ponta com ela saber o que tinha no diário, chegar no momento que ele queria se tornar alguém melhor, mas… não era o bastante. — Robert me convenceu e eu… Eu não estava mais acostumado a ter alguém comigo, foi estranho no começo. Eu acordava e você estava lá, eu dormia e você estava lá. Eu ouvi você chorar de noite, conversar com as paredes e murmurar coisas em árabe. — Os olhos pareciam mais escuros pela tensão que percorria sua voz e era despejada na mulher — Se você estiver mentindo, eu não sei se vou ser capaz de confiar em qualquer outra pessoa depois disso. Não porque eu confio em você, mas porque você está me mostrando que eu posso pelo menos tentar.
Tentar.
Ele estava tentando.
Ela quis rir. Porque se aquilo para ele era tentar, ela não queria ver quando ele decidisse que era o bastante.
Mas ela não iria mudá-lo. Não queria mudá-lo, era injusto e egoísta.
— Isso de confiança é tão difícil para mim quanto para você. — Confessou, sentindo o corpo mais quente e o momento mais confortável — Um pensamento em troca do outro. Com sinceridade.
foi mais uma vez pego de surpresa e se permitiu sorrir um pouco, parecendo até mais confortável com a situação.
— Eu estou pensando que tenho medo do que o destino me reserva, tenho medo das coisas que podem acontecer porque eu não sou você, . Estou pensando que eu não sou uma pessoa boa com uma vida sofrida, mas também não sou ruim. Existe algo nesse meio, e é lá que você pode me encontrar. Mas eu fiz coisas ruins e tenho medo do momento que elas vão voltar para mim.
— Fui eu que sugeri que Duina fosse no barco, mesmo que estivesse com cem pessoas a mais que o máximo. Ela foi a única que conseguiu entrar, e aí as pessoas acharam que tinham mais vagas e começaram a ir atrás dela. Todos os dias eu penso nisso, em como minha irmã morreu por culpa minha. Eu a vi afundar, vi minha família sair correndo e os guardas não deixarem ninguém passar para o outro lado. Era uma tortura. Todos os dias eu penso nisso. Acordo de madrugada e sento na janela para perceber que eu estou viva e ela não.
ficou calado. O que falaria? Ele não tinha nem palavras que pudesse chegar perto do que ele sentiu naquele momento. Ela se culpava, era isso que o eco repetia em sua mente. Ela acha que a irmã morreu por culpa dela.
Quis chorar. Quis chorar como havia feito várias vezes nos últimos meses. Mas não o fez.
Porque, naquele momento, ele precisava se mostrar forte. Por ela. Para que ela percebesse o quão forte era. Para que percebesse que nada era forte o bastante para derrubar pessoas como ela.
E, então, abraçou . Aninhou-a em seu colo e passou os grossos braços ao redor da síria.
E ela deixou. Encolheu-se no carinho do mais velho e encostou a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas calmas do coração dele e deixando que aquele som fosse a única coisa que realmente importava no momento.
— Valorize seu grande coração, . — Ele deixou um beijo singelo entre os cabelos da morena e acariciou os braços cobertos — Você escolheu abrir seu coração num mundo cruel, com pessoas ruins e, mesmo assim, continua deixando passagem para que os outros entrem e vejam o que tem dentro.
Os olhos se encontraram num rápido lampejo antes dele voltar a falar.
— Valorize isso. Tenha piedade daqueles que não podem sentir. Não mais.


09 – Litost

the feeling when someone imagine your own disgrace in the future and start to suffer


Por que você está cozinhando às três da manhã?
Foi a primeira frase de ao descer as escadas e se deparar com uma imagem extremamente intrigante: ao lado do fogão, preparando algo.
Havia sentido o cheiro de comida, era forte o bastante para chegar ao seu quarto, mas… o relógio não mentira, eram realmente três e pouca da manhã. Quem estava cozinhando de madrugada? Sentiu um medo rápido de ter uma 2.0 ali e, quando ela desceu com um frasco de xampu de 2L para atirar na cabeça de quem fosse, ficou em estado completo de choque.
— Porque eu perdi o controle da minha vida.
Ela percebeu os olhos avermelhados, as bolsas escuras e inchadas que eram suas olheiras. Sentiu pena. Porque ela era quem ficava desse jeito quase todas as noites, quem chorava, não conseguia dormir direito e passava mal sonhando com alguma coisa do passado.
Você está fazendo isso errado. — Referiu-se à comida, fingindo não estar vendo como ele estava deplorável. Todos tinham seus momentos ruins, ela mesma vivia sendo salva por ele. Uma semana atrás, tinha se perdido no meio do Hyde Park, e ele a ouviu, a consolou e falou coisas que não falaria normalmente. Era a hora de tentar retribuir.
Empurrou-o com o quadril, tomando frente no fogão e cheirando. Ele estava derretendo alguma coisa doce, pois o cheiro de chocolate estava forte. logo achou um bolo esfriando perto do balcão e supôs que era a cobertura que o mantinha ocupado no momento.
— Você usou chocolate mesmo? — A síria perguntou, amarrando com muito esforço o pouco cabelo para que não caísse nada na comida — Porque nós temos cacau em pó e o gosto não ficaria tão doce.
Temos? — Era o cúmulo, pensava. Nem ele mesmo sabia o que tinha ou deixava de ter em casa — Eu fui ao mercado comprar chocolate de confeitaria. E aí eu comprei cinco quilos.
Confeitaria? — A palavra não era estranha para , mas ela não sabia exatamente o que significava.
— Sim, tipo padaria.
Oh — A compreensão chegou em seus olhos — O que exatamente você vai fazer com cinco quilos de chocolate?
— Bem… — coçou a barba, analisando a mulher ao seu lado e procurando a resposta para ele ter realmente comprado cinco quilos de chocolate para fazer algo. Ele nem gostava tanto de chocolate assim — Coisas com… chocolate? — Sua resposta saiu interrogativa e quis rir, não o fazendo por puro respeito.
— Eu gosto de mexer com chocolate, quer que eu te ajude?
a analisou por um par de minutos antes de assentir com a cabeça. Sentia-se exausto, mental e fisicamente. Era como se ele tivesse puxado um caminhão por cinco quilômetros e depois nadado todo o Atlântico. Tinha tomado banho para acalmar seus músculos e a única coisa que fez foi chorar, usando para si mesmo a desculpa de que era só a água do chuveiro e não dele.
Cozinhar. Ele não gostava de cozinhar. Ele detestava cozinhar. Mas era uma opção para distrair a cabeça, pensar em qualquer outra coisa por pelo menos alguns minutos.
Os dias costumavam ser difíceis, mas as noites… Nada era mais agonizante que as noites. Rolar na cama o tempo inteiro. Pensar em coisas que aconteceram dez anos atrás. Arrepender-se por uma besteira que nem as pessoas afetadas ligam, mas você sim. Toda noite era a concretização do seu próprio inferno. O sono costumava chegar perto das quatro da manhã e, depois disso, era só mau humor e respostas afiadas.
Deixou tomar seu lugar e se afastou, observando a mulher e suas mãos ágeis na cozinha. Ela nem notava o quão rápido estava agindo.
Tinha engordado. Ele percebia aquilo pela maneira que o pijama estava mais apertado. O desenho de sua coluna já não era visível e seus braços tinham ganhado um pouco de forma.
— Como está a leitura? — Perguntou, tentando puxar assunto. No tempo livre, ele revezava entre os amigos o ensino da escrita e leitura do inglês com . Todos tinham, sim, tempo livre, mas os horários nunca batiam, e era como se ela tivesse vários professores de matérias diferentes, já que eles gostavam de variar a forma de ensinar. A mais exigente era Carrigan; a menos, Tolkien. A professora de Yoga começava colocando-a para copiar algumas frases e depois as duas já estavam fofocando sobre qualquer outra coisa que não envolvesse os estudos. Geralmente falavam sobre vestidos e maquiagem. Nos melhores dias, elas comiam alguma coisa e deixavam a bagunça para arrumar.
— Eu deixei um recado para você na geladeira, acho que não viu. — O bom humor dela era algo um tanto irritante naquele momento. Quem em plena três horas da manhã se oferecia para cozinhar para os outros? riu sem vontade, indo até a geladeira para ler o que tinha escrito no quadro mágico.
A letra era um pouco tosca. Não julgava, pois ela estava acostumada a escrever em sua língua de origem — e eram símbolos, na opinião do inglês.
tem cara de bunda”
— Devo discordar de sua opinião, todavia… Não mata um questionamento. — O sorriso do homem agora era verdadeiro, a graça acariciando tanto seu rosto quanto o tom de voz — Quantas bundas lindas assim você já viu?
— Não seja tão prepotente! — Ela rolou os olhos, um tanto emburrada porque havia corado. Ele não estava mentindo, mas ela tinha que fingir que sim — Você é branco, loiro e do olho azul, existem milhares de bundas que nem a sua cara em todo o continente.
Prepotente. — A palavra escorreu pela língua dele num desafio — Você está cada dia mais afiada. Não tem por que mentir, a Inglaterra está te fazendo bem, querida.
— E você, querido, precisa de uma boa dose de humildade. Agora faça furos no bolo por obséquio.
Ele arqueou uma sobrancelha, querendo rir mais uma vez, mas não o fazendo. Ela parecia qualquer criança quando aprendia palavras difíceis e as repetia todo o tempo. Quis assumir que aquilo que estava sentindo no fundo era uma pontada de orgulho, mas omitiu qualquer sentimento para não dar mais coisas para ela falar.
Fez o que ela pediu e despejou o achocolatado mais líquido no bolo, os furinhos fazendo entrar na massa para deixá-la molhada. Depois, a versão densa e com cheiro de diabetes cobriu toda a extensão do bolo de chocolate. Quando eles terminaram, já eram sete da manhã e os dois ainda foram comprar M&M’s para enfeitar. Às oito, quando estava pronto e lindo demais para ser comido, uma mensagem foi enviada e os outros — exceto por Tolkien — apareceram com donuts, bebidas e pães para que tomassem café da manhã.
tem cara de bunda? — Thadeus leu o que estava escrito no quadro mágico e quase engasgou com o café gelado — Não fui eu que ensinei isso.
— Ah, não, fui eu. — Rob levantou a mão, sorrindo com orgulho — Ela aprendeu outros derivados também para ofendê-lo.
— Bundão, desmiolado, irritante, insuportável, arrogante e um cuzão. — listou séria, se segurando para não começar a rir enquanto falava — Ele também me ensinou a te xingar de maneira educada.
— Eu estou impressionado com a capacidade de vocês de desvirtuar essa menina. — Carrigan fingiu choque e sorriu de forma felina em seguida, tapando as orelhas de para fingir que ele não ouviria o que ela sussurrou a seguir — Eu a ensinei a xingar educado antes de Robert.
— Acho fascinante a forma que vocês se unem tão rapidamente para coisas malignas. — rolou os olhos, fingindo drama, e estalou a língua em seguida, empurrando Carrigan levemente — Já que vocês adoram falar mal de mim, eu vou cancelar o Natal aqui em casa.
Não! — Responderam em uníssono, e olhou para todos de maneira curiosa. Seria a primeira vez na vida que ela iria comemorar o Natal e aquilo era… interessante.
— Nik vai passar conosco? — Foi a pergunta da síria.
— Não, esse Natal é só para os bastardos. Foi ideia do Thadeus. Nik tem uma família que faz questão de passar o Natal com ela.
— Vamos começar por ela ter uma família. — riu amargo, colocando um grande pedaço de bolo na boca.
— Você tem uma família! — Thadeus protestou e apontou para Robert em seguida — E você também.
— Não vamos entrar nessa discussão — Robert deu de ombros e fitou as mãos do italiano uma única vez antes de voltar a prestar atenção na comida.
notou. Estava quieta, observando o espaço pessoal de cada um. Os olhos dela fizeram a mesma viagem que os de Robert e ela não conseguiu segurar a língua antes de soltar a pergunta:
O que aconteceu com suas mãos?
Todos pararam.
Observaram a pergunta e como era absurdo que alguém tivesse coragem de perguntar aquilo.
Não porque era algo absurdo.
Mas porque quando e Robert perguntaram, eles não eram amigos. Eles quiseram debochar da mão do italiano e o loiro recebeu um soco no meio da cara. O moreno, no entanto, levantou os braços e disse que tudo tinha sido ideia de .
Mas Thadeus logo percebeu que eram apenas dois bêbados que não mereciam sua atenção.
E, no outro dia, quando estava num evento qualquer, achou a mesma dupla deplorável de amigos. Rob se desculpou, e estava com um olho roxo tão lindo que parecia uma pintura renascentista. Os três perceberam que chamariam mais atenção de patrocinadores juntos e não se desgrudaram desde então, a amizade e companheirismo foi algo que aconteceu com o tempo.
Mas não eram nenhum dos dois.
Não era um bêbado deplorável.
Não era com intenção ruim.
Era .
Com um sorriso envergonhado pela situação e vontade de sair correndo.
— Elas foram quebradas. — Sua voz saiu doce, como se ele estivesse falando sobre uma música nova. Todo o resto logo se assustou, Thadeus não falava sobre isso de maneira alguma. Nunca. A única pessoa que ele conversava sobre o passado era Tolkien, todo o resto sabia o que havia acontecido, mas não mencionava o assunto — Eu não fui gerado da maneira mais intencional possível e, bem… Anos mais tarde, eu descobri como as pessoas podem ser cruéis se não concordarem com alguma coisa vinda de você.
Ela engoliu em seco. Sabia bem como as pessoas podiam ser cruéis só porque você era um pouco diferente delas.
— Eles quebraram suas mãos? — Ousou questionar, tentando não olhar para os dedos, que agora pareciam até mais retorcidos.
— Sim. — Ele sorriu. Não havia felicidade alguma naquele gesto — Eu tinha nove anos, não era para ficar tão feio, mas… não quiseram pagar meu tratamento. Algumas pessoas do hospital que eu estava internado se sensibilizaram e tomaram minha guarda, pagaram para que eu fizesse as cirurgias que podiam salvar os restos de minhas mãos e minha fisioterapia. Foi assim que eu me apaixonei pela música. Luigi, meu tutor, me obrigava a tocar piano e violão todos os dias para que treinasse os movimentos.
Eu nunca te ouvi tocar, ou cantar. Você pode me ensinar a tocar piano?
— Que pergunta boba… — Ele fez uma reverência de leve e um pouco de luz surgiu no sorriso — Seria meu prazer.
— Onde está ele? Luigi? — Foi a última coisa que ousou perguntar.
— Ele morreu alguns anos atrás, antes que eu conhecesse esses dois idiotas. — Apontou com o queixo para e Robert.
Ela assentiu em concordância, sem saber o que mais poderiam falar naquele café. Um silêncio esquisito e desconfortável havia se instalado.
— Bem, antes que me perguntem o que aconteceu comigo, eu preciso ir trabalhar. — Carrigan arregalou os olhos escuros e levantou rapidamente, desamassando as roupas e julgando todos com aqueles olhos enormes.
Ela saiu como um furacão, não esperou que alguém falasse mais alguma coisa ou até uma despedida de verdade. Eles nem sabiam se ela realmente precisava trabalhar.
O resto da manhã foi um borrão, conversas e mais conversas, brincadeiras sem noção e piadas em momentos que não deveriam ter. Rob precisou ir para casa porque almoçaria com os pais, e Thadeus só foi porque não queria ficar sozinho com os dois.
tinha acabado de guardar a última louça quando apareceu com um embrulho na mão.
— Eu sei que você não comemora o Natal, mas… — Ele deu de ombros, entregando — Feliz Natal adiantado.
— Eu não tenho presente para você. — Ela sabia que era o telefone, mas, ainda assim, estava sem ação. Se talvez Robert entregasse…
— Aceite e isso será o suficiente. O que eu quero você não pode me dar.
sentiu uma dor no peito ao ouvir a última frase.
, , o que tem de tão quebrado aí dentro que nem você mesmo sabe se consertar?
Ela aceitou o presente. Não houve abraços ou um contato maior que um sorriso agradecido. Os dias se passaram e o clima estranho era um pouco alto. evitava falar diretamente com ele e mandava mensagem, mesmo se irritando com as correções diárias que o inglês fazia.
Se empolgou quando o dia da festa havia chegado. Era algo para ocupar a mente. Nunca tinha passado por aquilo e decorar a árvore, fazer comidas típicas e separar uma roupa para aquele momento era quase como um aniversário — e seu ponto ficou ainda mais forte quando ela lembrou que haveria uma troca de presentes.
Pela falta de coragem dela de pedir para que a levasse para fazer compras, Tolkien pegou-a em casa um dia antes e, com o dinheiro que ela recebia de pelas tarefas domésticas, as duas fizeram compras por um dia inteiro.
! Você vai ficar aí no quarto até o Ano Novo? — Robert gritou do fim da escada. A mulher estava parada no quarto, sem coragem alguma de descer. Todos estavam lá embaixo, tudo estava pronto e só faltava ela para que começasse realmente.
Mas era Natal. Ela não estava com sua família. Não sabia em que buraco a irmã se encontrava. Não sabia se o pai estava vivo ou se o irmão precisava de algo. E a consciência havia aparecido momentos antes porque ela estava se sentindo extremamente egoísta. De pensar tanto nela e esquecer aqueles que precisavam.
Era a primeira vez que ela estava usando um vestido curto. De lantejoulas coloridas. O pescoço estava ornamentado com uma gargantilha e um colar, seus brincos eram pesados como sua mãe teria adorado. Havia adquirido mais três furos em cada orelha e um piercing na cartilagem. O detalhe que mais gostava — além da maquiagem, que destacava suas sardas — era a argola de pressão presa em seu septo.
Respirou duas, três, cinco vezes. Tentava dizer para si mesma que estava tudo bem e que ela não cairia da escada.
Thadeus foi o primeiro que ela viu. Estava com calças brancas e uma blusa social da mesma cor. Os cachos longos haviam sido substituídos por um corte mais prático e igual ao de todos os outros homens do planeta — e havia deixado bem claro que odiara.
Carrigan usava um longo vestido de veludo, era preto e o contraste era absurdo contra a pele extremamente pálida. Parecia ter sido feito sob medida, já que era apertado nos lugares certos e a fenda, que ia da coxa até os pés, era do tamanho certo das pernas da japonesa.
Robert parecia o mais casual de todos. Um suéter bege e calça social, escura. Estava como o Robert de sempre, e ela até teria sorrido para ele se não tivesse visto bem atrás dele.
A calça deveria ser cinza. Ela não sabia qual era o tecido, mas era bastante bonita. Usava uma blusa social branca, até os botões eram bonitos. Uma gravata borboleta, preta. O cabelo parecia bagunçado propositalmente e os olhos azuis… estavam nela.
No olhar que os dois compartilhavam.
— Você… Você está… Você está arrumada.
Carrigan riu sonoramente.
— Quase trinta anos, uma década de experiência como modelo, trabalha com pessoas o dia todo e você não sabe elogiar uma mulher? — Sua voz estava tão provocativa quanto seu sorriso — Linda, era o que ele queria dizer. Você está linda.
— O gato roubou sua língua, ? — Com mais confiança do que durante toda sua vida, perguntou — Eu te desafio.
— A elogiar você? Eu prefiro que arranquem minha língua.
Canalha.
— Vejo que adicionou uma nova palavra ao seu arsenal de ofensas, querida.
E, como uma criança birrenta, mostrou o dedo do meio para o homem num gesto vulgar. Ele apenas riu, não tinha muito o que fazer além disso.
O resto da noite foi um borrão. Eles fizeram rapidamente a troca de presentes e sentiu medo de não agradá-los, mas o resultado foi bem diferente. Carrigan recebeu uma gargantilha com uma pedra negra. Era a pedra do signo dela, e Tolkien afirmou que daria sorte. Como um dragão que acumulava jóias ao longo de sua vida, os olhos da mulher brilharam mais que diamantes. Thadeus ganhou um caderno de partitura para que ele compusesse as próprias, e ela fez questão de cobrar uma melodia em sua homenagem. Robert recebeu um box com revistas de colecionadores da Marvel, edições diferentes e raras, já que ele vivia sempre afirmando que a única coisa boa dos USA era a MCU.
E, por fim, havia .
Era o mais difícil, até mesmo para Tolkien.
Como que se dá presente para alguém que tem tudo?
Foi com esse pensamento que ela comprou os materiais necessários para fazer algo em casa e com as próprias mãos.
O primeiro era um mini livro, escrito com a ajuda do Google Tradutor. O título dizia: Dez passos que homens estressados devem seguir para não morrer antes dos trinta. E o outro era uma caixa com pequenas trufas que apresentavam dias da semana e situações que podiam ser comidos. Ela havia feito todas as trufas — com os cinco quilos de chocolate de confeitaria.
Havia um sorriso besta no rosto do inglês. Por mais que ele não tivesse feito muito alvoroço, era o primeiro presente feito pela própria pessoa que ele havia ganhado durante toda a sua vida.
— É HORA DE MÚSICA! Vamos lá, eu me recuso a lembrar mais uma vez que vocês têm obrigações! — Rob gritou, quebrando o clima. Era uma tradição natalina daquele círculo íntimo, e Thadeus. Sempre cantavam no Natal. Geralmente, o loiro usava seu talento no violão e deixava o italiano cantar. Vez ou outra, ele arriscava soltar a voz, mas nada que gostasse de fazer com muita frequência.
? duvidou — E por que ele faria algo tão ruim com vocês? Já ouvi esse homem cantando no chuveiro e, tenho que admitir, eu prefiro a morte.
— Não seja tão malvada… — Carrigan gargalhou rapidamente, olhando na direção da síria — É Natal, o único dia do ano que fingimos que ele canta bem.
mostrou o dedo para as duas mulheres e pegou o violão, que já estava separado em um dos sofás. Thadeus sentou ao lado dele e ele começou a tocar as notas iniciais de More Than Words. Cantou pouco e deixou o italiano fazer isso na maior parte do tempo.
Sentia-se um pouco distante por não conhecer a música, mas nada que a matasse. Ela acompanhava o ritmo e, pela melodia, jurava ter ouvido uma vez ou duas com o próprio . Carrigan estava com uma taça de vinho na mão, cantava baixinho e Rob fazia o mesmo, abraçado nos pés da mulher e com uma expressão de puro carinho. O mesmo carinho que habitava nos olhos da plateia estava presente nos olhos dos que cantavam.
não percebeu quando a música acabou, estava compenetrada demais para perceber qualquer coisa ao seu redor. Mas Thadeus já estava começando outra quando a mente dela voltou para esse universo.
— Essa é minha música favorita no mundo…
Thadeus, não estamos num show, canta logo. — Robert o repreendeu e o músico fingiu que não era com ele que o homem falava.
— E eu espero que vocês gostem dessa apresentação.
O violão começou mais delicado, um som suave que ecoava pela sala. Antes que Thadeus começasse a cantar, ela já queria se jogar no chão e falar todas as juras de amor possíveis para o homem. Não sabia se era porque cantava, porque ele era diferente como ela ou porque Thadeus era uma pessoa maravilhosa, mas ela quis criar um pedestal para ele naquele exato momento.
Wise men say, only fools rush in, but I can’t help falling in love with you… e Thadeus cantavam juntos e o italiano não tirava os olhos do inglês. Carrigan puxou rapidamente Robert para dançar com ela e os olhou com admiração.
Assim que Thadeus viu a dança dos dois, tomou o violão da mão de num passe ninja e sorriu enviesado para o loiro.
— Ela quer dançar, vai logo. — Ordenou para que só ouvisse e apontou para a síria — Agora.
estreitou os olhos para o amigo e não contestou. Se aproximou de lentamente e estendeu a mão num convite mudo. Ela não entendeu de primeiro, mas aceitou assim que percebeu o que os dois estavam fazendo. As mãos se encaixaram e, no pouco que ela sabia sobre aquele tipo de dança, tentou não pisar nos pés dele.
Aos poucos, pegaram o ritmo, e Thadeus estava tão empolgado em seu show privado que repetiu a música do começo quando ela nem tinha acabado.
— Você estava errado. — quebrou o silêncio, atraindo a atenção de .
Estava?
— Você disse que não tinha família. Eu sei como são as coisas com sua família de sangue, mas… — Os olhos dela brilharam quando ela visualizou aquele grupo de pessoas — Eles são sua família, assim como você é a deles. Família não é obrigatoriamente algo de sangue, às vezes o destino prega peças na nossa vida.
Um sorriso brotou no rosto do mais velho.
— É bastante irônico que você esteja dizendo isso.
— Bem, eu acho que vim parar aqui por algum motivo… — Deu de ombros, rodopiando num comando de — Eu achei que hoje seria um dia terrível.
— Eu também, . Eu também.
Não houveram mais falas. Assim que a música acabou oficialmente, Thadeus puxou pelo braço e disse que era a vez dele de cantar porque ele queria dançar com . O que Robert não gostou, pois ele afirmou que aquela dança era obrigatoriamente dele porque ele havia sido a segunda pessoa a conhecer .
E, no final das contas, Carrigan foi a única pessoa que dançou com a síria pelo resto da noite.


10 – Pana Poo

the act of scratching your head in order to help you remember something you have forgotten


Levanta dessa cama, . Agora.
Era o que ele repetia para si mesmo a todo custo. Levanta, você precisa ir trabalhar. Você tem que ir para França hoje ainda e voltar amanhã. Vamos lá. Levanta daí. Tenha um dia produtivo. Você é mais que isso, você é maior que isso.
Você precisa ser maior que isso.
Mas ele não tinha tanta certeza assim se era mesmo maior que aquilo. Maior que todos aqueles demônios que o prendiam na cama, que o forçavam a ficar ali pensando em tantas coisas destrutivas, que eram ruins só de listar.
Olhou para o relógio mais uma vez. Ele precisava levantar em cinco minutos e, mesmo assim, chegaria atrasado.
Mas era aquele dia, então ele podia ficar daquela maneira.
Foi quando finalmente cedeu e arrastou a mão até o telefone, mandando uma mensagem qualquer dizendo que não estava bem e que precisava cancelar os compromissos daquela semana. Da semana inteira.
Ao finalmente tomar coragem para comer algo, encontrou dormindo — a coisa que ela mais sabia fazer — entre Robert e Thadeus. Era incrível a intimidade que a síria havia criado com os dois homens, talvez até mais que com Tolkien e Carrigan. Ambos prestavam atenção na televisão e nem ao menos deram atenção quando um semi-vivo passou por eles rápido o bastante para que ninguém percebesse.
Não ouviram o carro sair.
Nem quando ele voltou.
Não perceberam — ou fingiram que não — quando passou por eles com várias sacolas na mão.
Ninguém ao menos se deu o trabalho de ouvir o barulho vindo do quarto. Nem os passos exagerados. Nada.
Foi fácil para o modelo se afundar em sua cama king size, várias garrafas das bebidas mais fortes que ele havia achado e um edredom extremamente confortável só na espera dele para que ele ficasse encolhido ali.
Não percebeu quando acabou a primeira garrafa. Era ridículo como ele tinha dificuldade para beber em eventos sociais, mas sozinho? Sozinho ele podia secar uma adega, sem ajuda de ninguém.
não era uma pessoa ruim. Ele nunca fora. Tinha seus problemas de gente branca, mas nada muito irritante que impedisse as pessoas de gostarem dele. A fobia social era algo que nunca soube explicar, muito menos a demisexualidade, que sempre deu muito trabalho.
Ele era modelo, era uma profissão muito podre e, durante toda sua vida, essa parte ficou um pouco empatada. Não era brincadeira quando perguntavam quantas pessoas tinham ido para cama de alguém importante para conseguir algo. nunca foi uma delas, ele não conseguia. Perdeu muitas oportunidades. Deixou muitas pessoas irritadas. Ele nunca tinha conseguido ser casual, nunca. Quando era mais novo, seus pais duvidaram de uma certa heterossexualidade, pelo menos até Tolkien.
não era uma pessoa ruim. Ele era muito fechado. Descobriu o sarcasmo e a ignorância para acobertar todas as vezes que se sentiu extremamente desconfortável com as situações do dia a dia.
E houve três pessoas que souberam quebrar essa fobia, intimamente falando.
Thuna A-O.
Tolkien Nikolaj.
Elena Blacklion.
Ele não tinha vergonha alguma de admitir que só havia dormido com três mulheres em sua vida inteira. Thuna foi com quem ele perdeu a virgindade. Eram muito próximos no colegial e ela também era virgem, foi quase como um acordo entre amigos. Tolkien foi sua namorada durante muito tempo. Elena quase fora sua esposa. Todas tinham algo em comum: conheciam mais intimamente que qualquer outra pessoa.
As três também conseguiram sua maneira de sair da vida do homem sem querer olhar na cara dele.
Às vezes, era uma pessoa ruim.
A segunda garrafa morreu ao rolar para fora do quarto e fora esse barulho que chamou atenção de uma distraída na cozinha. Vidro deslizando contra o chão.
? — Chamou, esperando alguma reação. Nada. Teve medo de ir no quarto dele para ver o que tinha acontecido, então foi buscar socorro na fonte de informação mais próxima — Robert? Thadeus? Vocês viram o hoje?
— Ele foi para França. — Rob respondeu, os olhos vidrados na televisão à sua frente.
O quê? — Quem contestou foi Thadeus — Ele saiu de casa e voltou não tem uma hora. Eu até perguntei aonde estava indo, acho que ele não me ouviu. Ou não quis responder.
— Ué.
Não. Ele foi para França. Ele tinha um evento hoje com a porra da Calvin Klein. E amanhã de novo, com Kim Kardashian.
— Bem… — O italiano deu de ombros — Veja por si mesmo, ele está no quarto dele.
— Eu deveria apostar com você, deveria sim. — O inglês começou a resmungar e levantou para ir ao quarto do homem — Ia ficar rico na mão de bastardos, minha vida ia ser completa e eu… — Rob parou de relance e olhou para Thadeus, os olhos com uma compreensão que só faria a cena mais clara se houvesse uma lâmpada piscando em cima de sua cabeça — Que data é hoje?
Os olhos de Thadeus se arregalaram. Ele também havia entendido.
Mas, por pura precaução, os dois correram para cozinha e confirmaram no calendário a maldita data: 29 de dezembro, aniversário de Elena.
Droga, eu sabia que não devia ter marcado nada para hoje. Sabia. — Rob soltou um suspiro longo e voltou para o sofá. Thadeus soou mil vezes mais cansado quando fez o mesmo barulho.
Mas o que chamou atenção de foi o fato deles estarem no sofá. No sofá. Não vendo como estava.
Por que vocês não estão lá em cima?
não gosta de ser incomodado quando coisas assim acontecem. No aniversário de namoro dos dois, ele jogou um sapato em mim.
— E você vai ficar aí parado por causa de um sapato? Covarde. Vocês dois. — Ela começou a andar em direção à escada e virou só para dizer mais algumas — Eu esperava isso de você, Rob. Você é mais medroso. Thadeus, eu estou decepcionada.
E saiu pisando na cara de quem aparecesse em sua frente.
Mas a cena que se formava era bem pior do que qualquer coisa que ela havia imaginado. Bem pior. estava deitado no chão, uma poça de vômito ralo ao lado do corpo. Olhos vermelhos, talvez pelo choro que era ouvido no corredor. Havia bolsas profundas e azuis debaixo dos seus olhos.
. Você parece lixo.
Ele levantou levemente os olhos até a síria e gargalhou ironicamente, não mexendo mais que os lábios.
Kaled. — Cumprimentou da mesma maneira — Que bom que pelo menos uma missão da minha vida eu cumpri.
— Você está piadista, ótimo. Levanta daí que você vai tomar um banho.
Eu? — A risada soou amarga. Sofrida. Com uma coisa muito obscura escondida ali atrás — Eu vou ficar aqui no chão, obrigado pelo convite.
— É assim? — Ela o desafiou e pensou numa maneira engraçada de se vingar e tirá-lo do chão. Foi até a área de serviço e pegou um balde, desligou a água quente da pia de lavar roupa e encheu todo o recipiente com uma amostra grátis do inverno inglês. Foi pesado para trazer escadas acima e, assim que os dois covardes viram o que estava prestes a acontecer, não hesitaram em ajudar só para poder apreciar a cena. De pirraça e só para poder ameaçar o homem depois com o vídeo, ela assentiu em confirmação com a cabeça quando Robert pegou o telefone — Última chance, vai levantar?
— Vai dormir, . Me deixa em paz.
Foi o que eu pensei. — E então ela entornou todo o balde congelado bem na cara do inglês.
Primeiro ele gritou. Quando percebeu que a água não ia acabar, fechou a boca para não engasgar. Para piorar a cena e deixar tudo mais engraçado do que já estava, cruzou os braços e só esperou a água acabar para abrir os grandes olhos cor de gelo na direção da síria.
Você estava aí? Eu nem te vi. Queria limpar o chão.
E, antes que pudesse proferir mais algum xingamento para , ele virou o copo na direção contrária e vomitou mais uma vez. Saiu tanta coisa de seu estômago que, por pouco, ele não vomitou sua bile também.
— Vocês dois, limpem. — apontou para o chão do quarto e se abaixou para pegar o bebê de vinte e cinco anos. De início, achou que ele fosse cair também, mas colocou todo o peso do corpo no braço que estava o puxando para cima. Thadeus empurrou um pouco e finalmente ela conseguiu, praticamente arrastando o corpo dele em direção à suíte. Banheira, ótimo. Mais fácil — Um pé, vamos lá. Eu te ajudo a pôr o outro, mas você tem que colocar esse sozinho.
Demorou mais de um minuto para raciocinar e fazer o que a mulher havia pedido, mas, no fim, ela conseguiu que ele entrasse por completo na banheira. Ligou a torneira interna no jato quente e procurou os produtos de higiene que ele usava. Não que o homem estivesse fedendo, mas ele precisava daquilo.
Quando a água começou a ficar alta demais, levantou para deixá-lo lá. E ela deixaria, se o inglês não tivesse segurado sua mão com força e pedido com toda a fraqueza que havia em si:
Fica.
não teve reação por bons segundos. Não era o fato dele pedir para ela tomar banho com ele, mas era a vulnerabilidade presente no semblante vazio. A fraqueza que cada partícula do corpo dele exalava.
— Eu vou me molhar e atrapalhar seu banho.
— A tão corajosa Kaled tem medo de água? — Ele lançou um olhar desafiador para a mulher e, só por ver um pouco de sentimento naqueles olhos, ela cedeu.
— Eu vou sujar seus olhos com xampu, aviso logo. — Ela tirou a calça de moletom e deixou as pernas à mostra. Usava uma calcinha box preta que mais parecia outro short. Permaneceu com a blusa porque não era de manga. Ao ver o que estava fazendo, percebeu o quão estúpido soava por estar dentro da banheira todo vestido.
Ele levantou para abaixar as calças e tirar a camisa em seguida. Era estranho, para , encarar aquele homem daquela maneira. Claro que ela já tinha visto homens vestindo só cueca, em fotos.
Tentou não transparecer sua falta de reação.
Tentou não notar os músculos dourados no abdômen esculpido diretamente por deuses nórdicos e enviado para a Terra como tratado de paz.
Mas estava doido demais para notar. A água parecia mais interessante que os olhos curiosos da mulher à sua frente.
— Você quer conversar? — Ela perguntou, sentando em frente ao homem e cruzando as pernas. Tentava prestar atenção no rosto dele, mas estava impossível. Inclinou-se para encher a mão com água e jogar delicadamente no cabelo do mais velho, bagunçando os fios para deixar o líquido penetrar. não fez comentário algum.
Não sibilou uma única palavra.
Nada.
Era como se até mesmo o gelo presente em seu olhar tivesse derretido e virado um nada. Como o humor de alguém poderia oscilar tanto?
encheu a mão de xampu e começou a massagear o couro cabeludo, enfiando os dedos pelos cabelos macios e aproveitando a sensação. Parecia estar tão bom para ela quanto para ele.
— Eu não sou bom falando o que sinto. — A voz sombria assustou , mas ela apenas assentiu em confirmação — Sinto falta do que Elena e eu tínhamos.
A síria suspirou alto, não sabendo o que pensar sobre tudo aquilo. O que falaria? Por que diabos ela perguntou se ele queria conversar? Claro que ele queria conversar.
O que aconteceu com vocês dois? — Finalmente, ela deixou sua curiosidade falar mais alto que a vontade de entender tudo aquilo.
— Eu não sei. — E soou sincero, como se ele realmente não soubesse o que tinha acabado com o noivado dos dois — Eu só queria que ela aceitasse meu pedido de desculpas, por cinco minutinhos. Me ouvisse e entendesse o que aconteceu.
— E por que você não vai até ela?
Uma pequena pausa.
Eu não posso. Chegar perto dela. Nada disso.
evitou arregalar os olhos, mas a surpresa estava bem evidente ali. Elena tinha um mandato contra ? O que diabos ele tinha feito?
Tinha medo de descobrir. Tinha medo de ser a pessoa que não achasse um enigma. Se ela entendesse tudo aquilo… E se ficasse da mesma maneira? E se ficasse doida como ele?
— E a Tolkien, o que aconteceu com vocês dois? Quer dizer… Rob me contou que vocês se conhecem desde crianças. Vocês namoraram por muito tempo. O que aconteceu com vocês dois?
estava enxaguando o xampu do cabelo do homem quando ele abriu os olhos e deu risada pelo produto que entrou, mesmo não tendo graça alguma.
— Eu a perdi. — logo entendeu que era o bêbado dramático e solitário. Aquele que começa a resmungar sobre tudo do passado e, se você desse corda, virava uma tragédia grega — Se você me matasse, agora mesmo, não doeria tanto quanto doeu quando eu a perdi.
O que você fez?
— Você tem que prometer não me julgar.
arqueou as sobrancelhas e assentiu com a cabeça, espalhando o condicionador pelo cabelo do homem.
— Nik namorou um tempo com um cara, Klaus. Eles terminaram numa boa, continuaram amigos e tudo, disseram que perceberam que a amizade era maior que tudo. — Pausou, brincando com a água quente — E ela voltou para a Inglaterra, ficou um tempo com a família. Os pais dela moravam na Alemanha também naquela época. Nós sempre fomos próximos, e eu acho que os dois estavam afundados em algum tipo de dor que ninguém nunca vai ser capaz de explicar. Ficamos íntimos num nível que nunca tínhamos ficado. Demorou muito tempo, mas uma coisa levou a outra e nem percebemos quando éramos namorados.
parou de falar e passou longos segundos brincando com a água, se abaixando para auxiliar na retirada do condicionador e oleosidade de sua própria pele.
— Éramos jovens. Idiotas. Inconsequentes. Nik voltou para Alemanha e eu a visitava sempre. Era um país que eu tinha bons contratos, então a distância nunca foi um problema. — O suspiro que ele soltou foi tão longo que logo percebeu que a principal parte da história estava vindo — Eu não sei se você sabe, mas a Tolkien tem uma doença que basicamente é deteriorante. Ela te mata aos poucos e é um milagre que, na idade que ela tem, seja capaz de fazer tudo o que faz. Na época, eu não sabia de nada disso. Achei uns papéis e ouvi uma discussão dela com os pais sobre suicídio assistido caso não conseguisse o aval para um tratamento experimental.
Os dois já estavam afastados um do outro, a água quente já não estava tão quente e tinha espuma por toda parte. abaixou o corpo o bastante para que a água cobrisse até o pescoço. A banheira, tão larga que podia ser facilmente uma hidromassagem.
— Ela me viu. Ela olhou em meus olhos e falou que nada seria capaz de fazê-la ficar, caso ela não conseguisse fazer tudo o que ela era capaz. Eu fui embora naquele dia, não quis atender nenhuma de suas ligações. Não atendi nem mesmo quando ela veio direto da Alemanha para minha casa, querendo conversar. Eu a amava tanto. Ainda amo, não da mesma maneira, mas eu nunca perdoaria o destino de tirar aquele anjo da vida das pessoas.
— O… — A história estava tão tensa que ela sentiu medo de perguntar — O que você fez?
— Nunca a respondi. Nunca cheguei a conversar com ela. Passaram meses e eu estava 100% desconectado de Tolkien, não sabia nem se ela estava viva. Foi quando eu fui para Rússia a trabalho e conheci Elena. Ela foi... uma luz em minha vida. Tudo o que eu precisava. Só que, na cabeça de Tolkien, ainda estávamos juntos. Ela me escrevia todos os dias, mandava relatórios médicos e mensagens falando sobre o estado que ela estava. Ela desistiu do suicídio assistido por causa de mim.
— E, então, você voltou para Inglaterra com uma namorada.
— E não foi a pior parte.
Não?
— Tolkien e Elena se conheciam. E, para completar, se odiavam. Eu nunca fui capaz de imaginar Tolkien odiando alguma pessoa, mas eu vi, no momento que o olhar das duas se cruzaram pela primeira vez, que elas se odiavam.
— O que Tolkien fez?
— Disse que ia atrás do suicídio e que a culpa ia ser toda minha. — arregalou os olhos e pensou no quão pesado deveria ter sido ouvir aquilo — E depois ela virou para Elena e disse que ia voltar como um fantasma e ia assombrá-la todas as noites até que ela fosse embora dessa galáxia.
Os dois se permitiram rir daquela parte. Aquela parte, sim, parecia com algo que Tolkien falaria numa ameaça.
— Não ouvimos falar dela pelos anos seguintes. Por um tempo, eu realmente achei que ela tinha seguido em frente com aquela ideia. Mas ela abriu a clínica e os pais ficaram tão empolgados que mandaram convites até para mim.
— Foi quando vocês voltaram a se falar?
— Não! — Foi óbvio — Robert nos trancou num quarto e disse que só nos destrancava se voltássemos a nos falar. Não conseguimos olhar na cara um do outro pela primeira hora, depois fingimos estar nos falando para que Rob abrisse a porta. Tolkien socou a cara dele.
— Eu precisava ver isso — Riu, pensando na mulher pequena socando alguém — E o que aconteceu depois?
— Bem...
, você quer… As madames estão tomando banho juntas? Por que ninguém me chamou? — E, como se ele tivesse sido invocado, Robert surgiu do nada.
jogou sabão no olho de sem nem perceber. Se atrapalhou com o susto e começou a rir de nervoso, como se estivesse fazendo algo extremamente errado.
— Rob. Oi. Eu. É. Hm. — Ela levantou rapidamente da banheira, pegando uma toalha e quase caindo no próprio sabão — Eu tô com dor na perna, toma conta dele.
rapidamente saiu, sem nem ver a cara dos homens confusos naquele cômodo. Thadeus estava ainda limpando os vômitos que havia deixado de lembrança. Enxugou-se e trocou a própria roupa, pensando que não iria sair daquele quarto até o Ano Novo. Até o próximo ano. Ia fugir para a França.
Mas havia uma coisa errada. Algo faltando.
Algo que não se encaixava naquela história.
Elena.
E foi por isso, mesmo sendo extremamente errado e quebrando todas as respostas internas e o respeito que tinha por ...
Que ela abriu.
A pesquisa do celular.
Ficou cinco minutos pensando se aquilo era certo.
E, mesmo sabendo que não...
Digitou:
Elena Blacklion término .


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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