Última atualização: 13/05/2018

I. In The Club With The Lights Off

Quando imaginou que um dia herdaria aquele imenso galpão no centro da cidade, ela pensou logo no luxo. Ganharia, junto com minha irmã, rios de dinheiro e conheceria nos bastidores as melhores bandas do Estado. Mas a verdade não era nem de perto tão luxuosa.
Do luxo do sonho ao lixo do chão, lá estava ela varrendo o piso de madeira. Mais tarde era a noite do karaokê no Eletric e ajeitá-lo era função dela. E de . Que estava atrasado e que teria cada segundo descontado de seu já mísero salário, já pensava a rabugenta.
Havia , seu primo e escravo nas horas vagas, mas ele contava como meia ajuda. Teoricamente, ele estava limpando as mesas, mas de cinco em cinco segundos ele parava para checar o celular.
- Esperando a mensagem de uma tal de , primo? – inquiriu, quando repetia a ação pela milésima vez.
Ele bufou, já irritado pelos insistentes comentários da prima. Eram sempre sobre , seu imaginário amor por ela e a amizade interessante que eles tinham.
- , como está o Mark?
Mark era o ex não ex da . Eles eram complicados, indo e voltando, se odiando e se amando, numa distância de poucos segundos. Um típico relacionamento sanfona. Mas ela sofria com isso e era muito rude do primo jogar baixo assim.
- Pegou pesado, mané. – avisou ela, jogando a vassoura em cima dele.
- Ei, atentado! – acusou, desviando do objeto voador.
Assim que a vassoura voltou ao chão, pegou-a e caminhou até a prima, devolvendo-a.
- Como ela está? – inquiriu, manso. Sua voz tremia, de medo ou de ansiedade. E se aproveitou do fato para vingar-se:
- A vassoura? – fingiu observar meticulosamente o objeto – Acho que ela está bem. Veremos se ela ainda tem total capacidade de...
- ! – a interrompeu – Por favor.
- Não sei do que você está falando, priminho. – ela deu de ombros, fingindo-se de inocente.
- Você sabe. Só quer que eu me humilhe e fale o nome dela. – suspirou – Não vai rolar.
- Você quer apostar quantos segundos irá se aguentar na curiosidade?
- Tudo bem. – levantou as mãos, largando o pano na mesa mais próxima e seguiu em direção ao sofá. – Meu trabalho está feito. – exclamou, revoltado, emburrando a cara.
- Você fica tão irritante quando o assunto é . – bufou ela - O simpósio de engenharia mecatrônica terminou sexta passada, mas ela e o Matt resolveram passar o fim de semana em Chicago antes de voltar. Ela chega hoje. Satisfeito, bebezão?
Ele somente levantou o dedo do meio para ela, enquanto processava a informação que veria ainda naquele dia. Seu coração acelerou ao lembrar-se da imagem da mulher, das lembranças que eles tinham construído juntos.
O barulho da pesada porta lateral se abrindo, no entanto, atrapalhou suas divagações. apareceu, jogando a mochila na mesa mais próxima e retirando o paletó rapidamente.
- Uou, gatão, tira tudo pra mim! – brincou, rindo em seguida.
- Gostoso! – continuou – Continue, mostre tudo! – e pegou algumas notas no bolso de sua calça, jogando em cima do amigo logo em seguida.
abriu um sorriso ousado antes de jogar o paletó na cara de . Então se concentrou na gravata, afrouxando-a. Depois, fez uma dança sexual para os amigos, fazendo uma espécie de minhoca com o tronco. Nesse ponto, os primos já riam histericamente.
- , pare! Você não dança 1% do que o Channing Tatum dança. – comentou .
- Priminha, anda assistindo Magic Mike? Não é o tipo de filme para você.
- me arrastou. – a menina deu de ombros – Mas até que eu gostei. – completou, baixo.
Os amigos, no entanto, escutaram e riram, enquanto ficava vermelha.
- Então você gosta de um stripper, ? – perguntou, aproximando-se dela.
- Não de você.
- Ah, você tem certeza? – ele parou na frente da mulher e então mostrou os braços, fazendo poses para deixá-los aparentemente mais fortes. – Olha para eles. As garotas se matam por eles.
- Não estou nada impressionada. – forçou uma cara de tédio.
-Então olha isso. – levantou a camisa de botões, revelando o abdômen trincado.
Ela balançou a cabeça negativamente, ainda à procura de algo interessante.
- Te dou mais seis motivos para ficar muito impressionada.
Ela observou as unhas com esmalte descascado, brincando com o amigo. Deu de ombros, desinteressada.
- Vá em frente. Tente.
então recomeçou a dancinha que ele chama de irresistível. Então, uma de suas mãos foi para o fecho da calça social.
- Ok. – grita, interrompendo a cena. – , você não vai querer ver os motivos. Acredite em mim. – e ri.
- Oh. – a garota se dá conta e esconde o rosto nas mãos, envergonhada.
Os dois homens trocam risadas, mas, quando se joga no sofá ao lado do amigo, esse lhe dá um tapa no pescoço.
- Minha prima é inocente, moleque. – forçou uma voz brava – Perdeu a noção do perigo?
E riram novamente. bufou, irritando-se por ser motivo de piada. Novamente. Sua reserva e postura mais centrada geravam apelidos como santinha e inocente. Não é como se ela nunca tivesse feito nada, mas sua vergonha sempre a intitulava como pura.
- , que tal merecer seu salário? – a mulher murmurou, interrompendo de propósito a conversa dos dois amigos. Os cinco minutos passados foram suficientes para eles mudarem o assunto: da chefe do na Eletric, a , para a chefe do no estágio de arquitetura. Aparentemente, essa última era muito gostosa.
- , minha bela, estou cansado. Pegue um refrigerante para nós e venha nos sentar conosco. – teve a audácia de falar.
- Me dê o número da sua chefe, . Eu com certeza vou conseguir uma noite. – sussurrou.
- Não se engane, primo. Você é da . E você, – o chamou, jogando o pano na cara dele – Você tem cinco minutos antes de seu turno. E pode ir pegar três cocas bem geladas. E saia do meu lugar. – ele levantou, retirando o pano de seus olhos e a encarou – Obrigada. – ela completou, sorrindo e se jogando no espaço agora vazio.
afastou-se deles, indo para a o bar do lugar. suspirou, aconchegando-se confortavelmente bem no sofá depois de uma tarde de faxina. Encarou , mexeu as sobrancelhas e então lhe deu um tapa na coxa.
- Ai! – ele reclamou.
- Você mereceu. – deu de ombros. - Agora vamos falar sobre a . É um assunto que você gosta muito, não? – ele olhou para ela e fez questão de não responder. – Me diga, quando a pedirá em namoro?
- Hm... que tal nunca?
- É estranho vocês não estarem namorando, sabe. – continuou , ignorando a resposta do primo. Este bufou.
- Nós somos amigos, só isso.
- E desde quando beijar amigos é normal? – retrucou a prima.
voltou com três latinhas, distribuindo-as e jogando-se na poltrona na frente dos dois.
- É normal até demais, , você que é santinha. – deu língua para ela. – Vejamos o . – apontou para o amigo – Você já ficou com alguma amiga sua?
- Já. - deu de ombros - Com a , até. - fixou seu olhar no dele e riu.
- Você nem disfarça seu ciúme, mané – a garota exclamou, ainda rindo.
- Que nada! Só estou surpreso, não sabia disso. – limpou a garganta – De qualquer jeito, eu provei minha teoria. Amigos ficam com amigos. – virou para , subitamente preocupado - Vocês ficaram só uma vez, né?
- Sim, sorriu – Relaxa, eu não vou pegar a sua mulher.
- Você já pegou. – soltou, antes que pudesse se conter. A mesa inteira riu e comemorou com uma dancinha a vitória.
- Você acabou de admitir que gosta dela!
- Pare de graça, . Meu relacionamento com a é uma amizade com benefícios, só isso. – deu de ombros.
- Para mim, isso é safadeza - a garota retrucou, enumerando nos dedos: - E medo de relacionamentos.
- Às vezes você, , parece uma velhinha horrorizada com os jovens de hoje. – comentou, rindo, e ela fez careta.
- A questão, , é que não dá para ficar nessa sua “amizade com benefícios” para sempre – ela fez aspas com os dedos, evidenciando o quanto desacreditava naquela locução – Uma hora vocês vão ter que sossegar, casar, ter filhos.
O primo engasgou com o refrigerante e começou a tossir. , achando graça de toda a discussão, recomeçou a rir.
- , você é tão sonhadora! – resmungou , se recompondo - Quem lhe disse que eu quero ‘sossegar, casar, ter filhos’? - ele imitou a voz dela, a deixando irritada. A mulher lhe deu um tapa no braço antes de responder, ignorando o ruído de dor dele.
- Você precisa ter filhos! – afirmou, revirando os olhos. Então, apontou para o amigo a sua frente – não tem irmãos. Seus filhos serão os mais próximos de sobrinhos que ele vai ter. Pense nisso! Além disso, ele e eu vamos ser padrinhos do seu casamento com a . Já está tudo combinadíssimo – piscou o olho, sorrindo.
- Perdi o direito de escolher meu próprio padrinho? - ele bufou.
- E não seria eu? - inquiriu , confuso.
- Não. O Matt.
- Porra, , nós nos conhecemos desde os cinco anos.
- E mesmo assim não me contou que ficara com . – retrucou, não escondendo seu ciúme.
- Sabe, eu com certeza vou estar olhando para o . – os interrompeu, ignorando a conversa tensa dos amigos. Esses viraram para encará-la – Eu sempre fico olhando para a cara do noivo. Claro, as noivas estão belíssimas e sorrindo e chorando, – os olhos dela brilhavam - mas a cara do noivo é sensacional. O vai estar assim. Aquela cara meio “que merda estou fazendo” junto com “estou sendo engaiolado”, mais com “como está uma deusa” e “como eu amo demais essa mulher”. – ela sorriu, imaginando a cena – As fotos ficarão lindas! O pôr do sol magnífico iluminando o sorriso de felicidade dos noivos, as ondas do mar batendo na areia, produzindo aquele som característico. E a vestida de sereia, como se estivesse acabado de sair do mar...
bufa, revirando o olhar e acabando por encontrar com sua visão periférica os recém-chegados ao local. E a cidade. Os olhos dele esbugalharam um bocado e ele respirou profundamente.
Era uma total besteira, ele pensava, e que nenhum dos seus amigos descobrisse isso, mas olhar pra de volta depois de 15 dias longe foi de acelerar o coração.
- Ei, ? - passou a mão na frente do rosto do amigo, para ver se esse reparava em seu chamado. - , a está falando da sua cueca de casamento!
mal piscou os olhos e estava em sua frente, acompanhada de Matt, sorrindo:
- Amiga, escutei meu nome e um vestido de sereia. Não me diga que está planejando meu casamento outra vez!
virou para e sussurrou baixinho:
- Entendi porque você visitou o mundo da Lua.
bufou para a amiga e elas deram um abraço bem apertado.
- Vou é planejar o seu casamento, basta você achar um otário pra te aceitar. - exclamou, maldosa.
A amiga deu-lhe um empurrão, indignada, e reclamou.
- Sério, , você precisa sair dessa do Mark. - ela se apoiou no braço do sofá, para ficar no lado da amiga - Figurinha repetida não completa álbum.
- Você parece um homem quando fala desse jeito. - entrou na conversa.
- Eu sou um homem de mente, só estou presa no corpo de mulher.
- E que corpo! - comentou, a fazendo dar o dedo do meio.
- , desviando do assunto corpo e focando em sua hipocrisia. - retomou a atenção para ela. - Eu não posso ficar com Mark, porque ele é figurinha repetida, mas você pode ficar com centenas de vezes em um ano? Dois pesos, duas medidas?
- Ah, quer saber, vai se fuder. - brincou com a amiga, rindo - Eu acabei de voltar de viagem, foda-se o Mark, foda-me . - caiu na gargalhada - Desculpe, não pude evitar. Mas, sabe, são dois pesos, duas medidas mesmo. Porque você se apega e sofre durante meses. Eu não me importo nem um pouco.
- Você é realmente um homem. - Matt finalmente falou. Ele estava em pé, do lado de , mas ninguém havia percebido. tinha uma presença tão forte e chegara já movendo montanhas, que todo mundo o ignorou.
- Oh, - virou-se para ele e mordeu o lábio inferior, fingindo-se inocente - eu não te provei o contrário ontem?
engoliu em seco, observando a mulher.
- Vocês... - limpou a garganta - ficaram juntos?
- Algumas vezes - deu de ombros.
- A gente estava com saudades de vocês e das nossas famílias, sozinhos em um lugar distante... - Matt tentou justificar, mas logo o interrompeu:
- Ah, fala sério, a gente quis. Não precisa se explicar como se tivéssemos cometido um crime. Somos solteiros, somos amigos.
- Quem nessa merda desse mundo você ainda não pegou? - inquiriu por entre os dentes, respirando fundo. Raiva. Ele só conseguia sentir raiva dela. Por ser tão sem alma, tão sem coração.
então riu. Enquanto todos encaravam o mais novo casal, o rosto de surpresa escancarado sem pudor.
- Brad Pitt, Hugh Grant, Danny Jones, e outros milhares. Acredite. Mas vou ignorar o real conteúdo dessa pergunta.
O silêncio inundou a mesa, a tensão instalada no ar.
- Quase me esqueci de notificar os recém-chegados! – exclamou, mudando de assunto – Teremos A festa hoje para inaugurar a nossa nova casa.
- É assim que eu gosto, ! – animou-se, levantando as mãos e fazendo um high-five com o amigo – As nossas festas são as melhores! Alguma roupa especial? Ou talvez a obrigação é ir sem roupas?
Os garotos caíram na risada, mas ficou escandalizada demais para isso. deu ombros para a amiga, fingindo-se inocente.
- Não foi minha invenção, eu só ouvi por aí.
- Não se esqueça de me chamar quando você for, . – murmurou – Será divertido não perder tanto tempo tirando nossas roupas como em outras ocasiões.
- Ou me chame – Matt sussurrou a seu lado, deslizando uma audaciosa mão pela perna da mulher. – E podemos refazer as loucuras dos últimos dias. – ele exclamou, sedutor, fazendo a pele de arrepiar.
E, claro, o sangue de ferver.



II. Toda Escada É Uma Subida Escorregadia

- Então, Matt? Logo o Matt, ? – inquiriu, saindo do banheiro enrolada na toalha e trazendo a fumaça úmida para dentro do seu quarto. A amiga, que estava contornando os olhos com o delineador, deu de ombros.
- Qual o problema?
- Ele é nosso amigo. Ele faz parte do grupo.
- E? também faz. Isso nunca lhe pareceu um problema.
- Esse é exatamente o problema. é parte do mesmo grupo e ele é completamente louco por você. Além disso, eu sou team . Já tenho programado o casamento de vocês.
- ! – repreendeu .
- Ok. – levantou as mãos em sinal de rendição. – Me conte então como foi o simpósio e todo o rolo entre vocês.
- Amiga, foi um simpósio de engenharia mecatrônica e sua importância nos próximos vinte anos. Foi maravilhoso, mas os detalhes vão fazer você dormir – elas riram. – Sobre Matt, sei lá. Nós passávamos quase o dia todo juntos. Depois das palestras e exposições, nós saíamos para jantar ou então simplesmente ficávamos conversando no hotel. Rolou. – deu de ombros.
- E você está apaixonada por ele? – perguntou, embora já soubesse a resposta.
- Está brincando, não?
Elas riram de novo. Falaram sobre atualidades e futilidades enquanto se vestiam. Já praticamente prontas, só faltando a sandália e o batom, soltou a bomba:
- Tranquei a faculdade.
paralisou, olhando para a amiga.
- Isso tem alguma coisa a ver com aquele canalha do Mark? Porque eu o procuro e meto umas porradas nele! Quem ele pensa que é pra ficar falando besteiras pra você? , você tem que ignorar as merdas que ele fala do seu curso! O que importa é você estar feliz.
- Calma, sereia! – a interrompeu. – Não tem absolutamente nada a ver com ele. Eu decidi. Somente eu. Quero me dedicar exclusivamente ao Eletric, quero ajudá-lo a crescer e a brilhar.
- Hm. Se é o que você quer, se é o que te deixa feliz. – sorriu – Estou aqui para qualquer coisa.
- Eu sei. – elas se abraçaram. – Affs, esses seus peitos, . Porque você não doa um pouco para sua amiga aqui? Você com esses peitos de mulher maravilha, e eu com esses que herdei do meu pai!
Elas novamente riram, até que o celular de começou a tocar. Ela correu até a tomada mais próxima, onde ele estava, e atendeu.
- Priminho, estamos indo! Você não consegue ficar longe dela, né? – uma almofada voou até bater na cabeça da , que reclamou – Meu cabelo! Não, é a aqui, reprimindo os sentimentos!
- ! – , do outro lado da linha, e , do outro lado do quarto, gritaram juntos.
- Meu Deus, vocês estão definitivamente conectados. – a amiga exclamou, rindo. – Tudo bem, tchau. – desligou o telefone e virou para a outra mulher – Está pronta?
- Sim. Vamos pegar todos, ! – a amiga lhe olhou, fazendo careta – Ok, eu pego todos, você pega o Mark. Aliás, você ficou com o Mark nessas férias? – perguntou, mas logo depois continuou – Por favor, me diga que foi forte!
O silêncio invadiu o quarto. olhou-se no espelho, aparentemente muito interessada em sua própria imagem.
- Amiga, a resposta.
- Eu estava sozinha...
- !
- E solitária...
- !
- E carente...
- , não! Por quê? – fingiu chorar copiosamente. Tão dramática. – Não acredito que terei que ver aquela cara feia hoje!
- Notícia boa: não vai! – ainda completou - E ele não tem cara feia.
- Se você diz. – deu de ombros. – Me explica a notícia boa.
- Ele está viajando com os irmãos. Eles vão todas as férias para um lugar chamado...
- Informação suficiente. – afirmou a amiga, abanando as mãos. – E sua irmã vai? Não estou no clima para aturá-la hoje.
- Não sei, não comentei nada com ela sobre. Ela está resolvendo algum contrato, está desde cedo fora de casa.
Nesse momento, pisadas na escada foram ouvidas. Logo, Britney gritou para a irmã.
- Ok. – a mulher esbugalhou os olhos, assustada - Nós acabamos de convocá-la. Essas forças demoníacas...
- !
- O quê?
- Ela é minha irmã.
- Eu sei. Sinto muito por isso. – exclamou , forçando uma cara de tristeza. Dessa vez, a almofada voou para o outro lado do quarto, estragando o cabelo da mais peituda.

*

As duas amigas estavam finalmente saindo do apartamento em cima do Eletric, onde morava, quando Britney, sua irmã, disse que ela precisava de ajuda com a noite do Karaokê. Assim, prendeu a irmã lá e teve que ir até a casa nova dos meninos sozinha.
Ela, obviamente, odiou Britney por isso. Já não ia muito com a cara dela, porque ela tinha uma queda grotesca pelo primo, mas às vezes ela conseguia ser ainda mais irritante. Parecia querer atingi-la. Por isso, quando chegou ao endereço novo dos meninos e a porta abriu, ela não observou nada, só soltou toda a raiva em cima do primeiro a sua frente:
- ! Ela me fez vir sozinha! Prendeu a como uma escrava e me fez vir para cá sozinha! Eu mal sabia o caminho.
- Moramos a um quarteirão da sua casa, .
- Não mude de assunto! Aquela Bitchney! Argh. – ela se mexia sem parar enquanto falava.
- Tudo bem, mulher, se acalme. – segurou os ombros dela, tentando segurá-la. – Vamos pegar uma bebida. Vodca?
- Ah, Mr. Músculos. – falou, mais mansa - Você sabe me agradar. – piscou os olhos rapidamente, fingindo-se maravilhada.
- , assim eu não resisto. – brincou ele, enlaçando a cintura da amiga e caminhando com ela até a cozinha da casa.
- Não resista. – completou ela, fazendo os dois rirem.
Aquilo ali não rolaria nunca. Nunca mais. Eles ficaram um dia avulso, muitos anos atrás, mas não foi nada promissor. E não se repetiria por hipótese alguma. Mas , que estava mexendo na geladeira, pareceu ver o carinho dos amigos de maneira diferente.
- Até você, Brutus? De novo, aliás. – murmurou, mal-humorado.
- , você está tão cegamente apaixonado que não vê mais as coisas com clareza. – respondeu, sério.
A verdade é que odiou quando pensara aquilo. Não porque não achava linda ou uma pessoa sensacional ou porque prometera que não ficaria mais com a amiga. Não. Odiou porque sabia o quanto gostava dela. Estava óbvio. E ele nunca furaria o olho do seu melhor amigo.
retirou a mão de para preparar a bebida dela. Pegou um copo, colocou a vodca e misturou com um suco de frutas vermelhas. Então entregou para a amiga, antes de pegar uma cerveja pra ele.
Apoiou-se na pia, ficando de frente para , e começou a conversar com ela. continuava lá e olhou para eles enciumado. Não contente, resolveu abrir a boca novamente.
- Vocês vão ficar flertando na minha frente mesmo?
O casal soltou um bufo, mal acreditando nas palavras insanas do amigo.
- Você está totalmente louco, ! – exclamou.
, no entanto, resolveu agir. Pegou a amiga pela cintura e simplesmente a jogou em cima do amigo, de maneira um tanto rude. Enquanto isso, soltou:
- Fique com ela, , grude nela. Faça xixi em cima dela e marque seu território, babaca. – e saiu.
- Vai se foder, ! – gritou. Então, retirou-se de perto de . – Dois babacas.
saiu pisando forte e se dirigiu para a sala. A música invadia todo o ambiente, que já estava cheio de gente segurando copos e dançando. Vasculhou a escuridão por alguns segundos e logo encontrou o Matt, apoiado na escada, bebendo sozinho. Caminhou até lá e sorriu para o amigo.
- Escolhendo o alvo da noite?
- Eu já tenho minha escolha. – apoiou uma de suas mãos na cintura da mulher. - Só preciso que ela me queira.
- Acho que é seu dia de sorte, então. – afirmou ela, colocando os dois braços no pescoço do Matt. Deram um pequeno beijo.
- Espero que todos os meus dias sejam dias de sorte.
Matt, então, atacou o pescoço de , entre beijos e mordidas, e ela jogou a cabeça para trás, aproveitando as sensações. Arranhou as costas dele com as unhas e, de repente, as coisas estavam pegando fogo.
Eles sobem os degraus da escada cambaleantes, entorpecidos pelos beijos que voltaram a dar. No meio do caminho, mal percebem uma garota fazendo o caminho contrário e esbarram nela. O copo de vidro vai ao chão, o barulho chamando atenção de alguns presentes, ainda que a música estivesse alta.
Como um olhar atrai o outro, logo praticamente todos estavam olhando para o casal ensandecido nas escadas. Inclusive . Que, obviamente, não ficou nada feliz.
Mas e Matt nem perceberam. Continuaram a se beijar e, já no segundo andar, entraram no primeiro quarto. jogou o homem na cama e subiu em cima dele, colocando as pernas de cada lado dos quadris. Então, puxou o colarinho de sua camisa preta, aproximando as bocas novamente.
Ele, por sua vez, puxou os fios do cabelo dela para trás, para atacar o pescoço dela novamente. E logo depois o colo, descoberto pelo decote da blusa. remexeu-se em cima de Matt e ele gemeu em resposta.
A porta, então, se escancarou. Lá estava , observando horrorizada os dois.
- ! – gritou para a amiga, a repreendendo. – Saia de cima dele, vamos. – puxou-a pelos braços, a arrastando até ela estar longe da cama e de Matt.
- Você – apontou para ele – saia daqui. Tchau!
Ele levantou-se meio contrariado, tentando esconder a ereção aparente, e saiu pela porta, não sem antes soltar uns xingamentos. ignorou e sentou a amiga na cama novamente, enquanto a mesma gritava:
- Eu não gosto de mulheres, !
- Eu também não. Consideraria trocar de time pela Rita Hayworth, mas como ela está morta há uns 30 anos, sem chance.
- Essa revelação foi estranha. – afirmou , mas logo depois voltou a gritar: - Volta, Matt! Volta! – tentou tampar a boca dela, impedindo-a de continuar a falar, mas ela lhe mordeu.
- Endoidou, menina? – pegou nos braços dela e começou a sacudir – Você gosta do . Sabe o ? Aquele idiota, que por acaso é meu primo, que está totalmente na sua!
- Aquele babaca ciumento? – rebateu – E pare de me sacudir ou eu vomito em você.
- Que amor de pessoa você, sereia. – soltou-a e sentou do seu lado – E sim, esse mesmo. O adjetivo idiota englobava a parte dos ciúmes. – deu de ombros – Mas o que exatamente aconteceu hoje? Eu chego aqui depois de ouvir durante quarenta minutos Britney falar de sem parar e vejo...
- Ela estava falando de , de novo? Meu Deus, , Bitchney não sabe que ele e ela são primos? É incesto!
- É Britney. – repreendeu a amiga - E olha a hipocrisia... Você já não beijou seu primo?
- Já, mas foi há muito tempo. E ele era um primo distante e ... Tá, tudo bem. – bufou - Mas porque ela dá em cima dele descaradamente? Ele não está nem aí pra ela!
- Assim como dá em cima de você descaradamente e você não liga? – rebateu.
- Isso não é justo, . Estou alta para rebater argumentos desse tipo.
- Não importa. Deixe-me continuar. Eu finalmente chego, atrasada para A festa, e a primeira coisa que eu vejo é você e Matt fazendo uma cena na escada. Todos viram, . Inclusive .
- Jura? – pergunta, retoricamente, fazendo uma careta. – Pois não estou nem aí. – levanta-se num rompante e dá tchau para amiga. – Vou procurar Matt e ver se ainda consigo algo depois do susto que você deu nele.
- . – a chamou – Cuidado com Matt. Olhe os relacionamentos passados dele. São anos de namoro. Ele se apega. Matt é seu amigo, não o destrua.
- Ele sabe quem sou eu, sabe meu jogo. – deu de ombros.
- Não são só mulheres que acham que podem mudar quem gostam, Sereia. Só cuidado, porque é triste chegar ao final e não ter ninguém. – sorriu forçado e a amiga assentiu, recebendo as palavras, antes de sair do quarto.
viu sair e suspirou. Amava a amiga, mas às vezes odiava suas atitudes. Ela cometia muitas loucuras e pisava em vários corações sem pudor. De qualquer maneira, ela ainda estava com vontade de ir ao banheiro.
Encontrar foi pura sorte, porque, ao subir as escadas e abrir a porta do tal quarto, ela procurava o banheiro. Não devia ter perguntado para o primo, afinal. Não quando ele e Britney estavam conversando. parecia estranhamente interessado na prima e olhava para seu avantajado decote a cada dez segundos.
foi só uma intromissão chata para o casal e, ao perguntar onde era o banheiro, explicou de qualquer jeito. E, obviamente, de maneira totalmente errada. Decidiu, então, procurar o banheiro por si mesma. Depois de ver e Matt se pegando, praticamente nenhuma outra cena seria pior.
Escolheu a próxima porta aletoriamente. E a abriu. Ok. Podia ser pior. Ou melhor. Depende do ponto de vista. Se bem que o ponto da vista dela estava bem bom dali. Sim, definitivamente.
arregalou os olhos com a visão. Era outro quarto e neste tinha somente um cara, no canto oposto, vestido somente com uma cueca boxer. E ele podia vestir só aquilo sempre, se quisesse. Com seu peito definido, alguns gominhos na barriga tanquinho, braços fortes e pernas torneadas, até a santinha só pensou em uma coisa: gostoso.
Mas a única coisa que ela fez foi rapidamente virar de costas e sair, batendo a porta atrás dela. Ficou quase um minuto ali parada, só digerindo a imagem maravilhosa. Num impulso, bateu na porta. Então, resolveu reabri-la de vez. Entrou novamente no quarto do cara quase nu. Este que a encarou e soltou uma risada.
- Gostou do que viu, é?
- Eu bati e ia esperar você se vestir, mas me lembrei que eu já vi tudo que tem aí – apontou e deu de ombros. – Desculpa pelo inconveniente - Ele sorriu e ela se fixou em seu rosto. Ele era completamente bonito, confirmou ela. Mais uma olhada no corpo e... É... se perdeu em seus pensamentos novamente. De repente, simplesmente soltou: - Mas que saúde você tem!
Novamente, ele riu, agora mais forte. Ela abriu um sorriso, sentindo-se envergonhada, e saiu. Fechando a porta de vez. Voou pelo corredor e desceu correndo as escadas. Partiu para cozinha tão rápido que mal viu ali no canto, encostada na parede, sozinha, com uma garrafa de cerveja nas mãos.
Quando ela descera, minutos antes, procurando Matt, ela encontrou outra pessoa. Aliás, duas pessoas. Beijando-se tão desesperadamente que quase pareciam só uma. e Britney. A mulher tinha uma de suas mãos no pescoço enquanto a outra estava nas costas, abaixo da blusa. estava com as mãos na bunda dela. Na bunda dela!
E olhando aquilo, desistiu de Matt e de qualquer um. Desistiu da festa. Pegou algumas garrafas de cerveja e encaixou-se no canto. Ficando invisível para todo o resto. , por outro lado, tinha visibilidade total. Roupas, bem, aí já não há certeza.
estava sentada no balcão da cozinha americana, sacudindo a cabeça de acordo com a música e abastecendo seu corpo com alguns biscoitos que tinha encontrado.
- Minha linda, você está aqui. – apareceu. E a blusa dele estava com alguns botões abertos, mas era só - Garantindo sua cerveja? – o amigo brincou, já que a amiga não curte muito álcool. Todos consideravam uma boa decisão, levando em conta que ela já não tinha limites sóbria. Ela somente apontou para o pacote de comida e para a boca, que estava cheia e não podia falar. – Ah, enchendo a barriga, claro. Vou te apresentar esse cara aqui. Ele divide o apartamento aqui com a gente. Esse é o . , essa é a nossa santinha, a .
A tal quase engasgou com o biscoito na garganta, mas o forçou a descer. Na sua frente, sorridente e com roupas, estava o cara da cueca. Ela sorriu.
- Cara da cueca! – cumprimentou e virou-se para o amigo – Eu já o conheci, . Bom, pelo menos a bunda dele.
- Pois é. A invasora de quartos. – nomeou, com sorrisinho sacana - É bom saber seu nome.
- É bom vê-lo com roupas. – retrucou ela.
- Estou perdido. – o rapaz fez uma careta - Me expliquem essa história de quartos e roupas. – pediu – O que você fez com ela, ?
- Nada! – exclamou, levantando as mãos para o alto em rendição. – Ela que fez comigo. Invadiu meu quarto e meu viu de cueca. – então começou a rir.
- Foi culpa do bebezão do . Perguntei onde era o banheiro e ele me indicou o lugar errado.
- Não precisa mentir – fala, sorrindo de lado. – É um prazer – afirmou, estendo a mão.
- O prazer é meu. – apertaram as mãos e sorriram um para o outro. – Você tem uma bela bunda. – arregalou os olhos e caiu na risada novamente, mas os dois o ignoraram.
- Obrigada. É natural. Sem precisar de agachamentos nem nada.
- Parabéns aos seus pais. Fizeram um ótimo trabalho.
- Vou dizer isso para eles. – piscou para ela. – Vou pegar uma cerveja, quer algo?
- Talvez uma água para acompanhar os biscoitos. – balançou o pacote agora quase vazio. Ele confirmou e cruzou o ambiente, indo até a geladeira.
- Que porra foi essa? – grita para a amiga.
- Fale baixo! Ele está do outro lado da cozinha, não do continente.
- Não desconverse, ! – retrucou, embora tenha de fato abaixado a voz.
- Ele é muito gostoso. Eu fiquei nervosa. Sempre perco o filtro quando estou perto de caras gatos - deu de ombros – Pareço uma nerd de um filme do John Hughes.
- Você normalmente não tem filtro, mas isso que acabei de presenciar foi bizarro. – falou, recebendo um tapa no braço em seguida. – Ai, estou só falando verdades. Outra, sou muito mais gostoso que ele. Você devia ficar nervosa perto de mim.
A amiga encarou o amigo, esperando as risadas dele. Que não vieram.
- Ah, não é uma piada? – esbugalhou os olhos e a boca, então riu – Te conheço há muito tempo, . Te conheci durante sua puberdade. Momento nostalgia: foi uma fase bem crítica para você. Você sabe, as espinhas, o suor...
- !
- O quê?
- O filtro, lembra?
- Ah, sim. – suspirou. – Enfim, queria te pedir uma coisa. Não me deixe sozinha com ele.
- Não vou. Isso está muito divertido. – e riu.
Pouco a pouco a festa foi acabando. A bebida sumiu e, aparentemente, levou a maioria das pessoas também. No fim, só restaram o grupo de amigos e alguns vizinhos. Nem quinze pessoas.
agora estava jogada no sofá e, quando passou na sua frente, anunciando que tinha escondido algumas latas de cerveja e jogando algumas para os presentes, ela o chamou.
- Mr. Músculos! – o apelido funcionou, ele a olhando logo.
- Fale, cachorrão. – retrucou, aproximando-se da amiga, que deu um pequeno sorriso.
- Ele disse para mim que não gostava dela. – soltou , referindo-se a e Britney.
- , ele diz pra todo mundo que não gosta de você.
- ! Isso não ajuda! – bufou, frustrada - Você não é cupido ou algo assim?
- é cupido. Eu sou o algo assim. No caso, sou o capaz de te deixar feliz em um instante. E não estou falando de álcool. – piscou o olho para a amiga e, logo depois, foi até o som.
Escolheu uma música e foi até o centro da sala. Nos alto-falantes “I’m too sexy” começou a explodir. acompanhava cantando. Mostrava também seus dotes artísticos, dançando sensualmente. Quando eclodiu “I’m too sexy for my shirt” , ele tirou a camisa e a jogou para a , que a recebeu como se fosse um troféu.
Então, aproximou-se dela, mostrando o peitoral e fazendo ondas com o corpo. A mulher ria desesperadamente. Obviamente aquela cena não ia ajudar nada com , mas precisava sair daquela fossa momentânea. E ele não podia perder a companheira pegadora.
Infelizmente, a música logo acabou e em seu lugar tocou uma música latina. puxou a amiga pelos braços e logo estavam os dois girando, dançando, pulando e rindo. Na quarta música, todos os presentes já estavam mostrando o gingado e rindo um dos outros. Na sétima, eles já tentavam sambar.



III. Não Tira o Batom Vermelho

Um sonolento estava jogado no sofá da sala, em meio à bagunça deixada pela festa da noite anterior. Acordou, segundos antes, com o barulho de lavando louça. Aparentemente, era normal para o novo companheiro de casa tentar organizar a cozinha antes do meio dia de um domingo.
A ação gerou xingamentos, óbvio, mas eles não se estenderam para além da mente do rapaz. Gritar pioraria sua dor de cabeça, tinha certeza. Embora duvidasse que fosse pior do que a dor causada pelo tintilar da louça, que mais parecia gritos e rangidos de dentes do inferno.
Sentou no sofá bufando e logo entrou no seu campo de visão. Ele vinha da cozinha com um sanduiche na mão e uma expressão mal humorada, já tão usual em seu rosto. Jogou-se no espaço livre do sofá e ligou a televisão. Isso, faltava o barulho da televisão. Obrigada, !, pensou .
- De quem é o sutiã? – questionou, com os olhos grudados na tela.
olhou em volta e logo viu um sutiã vermelho rendado jogado no braço do sofá. O pegou, tocou-o minuciosamente, analisou-o, cheirou o tecido e jogou no rosto do amigo.
- É da , - soltou a mentira e deu de ombros - deixou de propósito. Como souvenir.
- Caralho, ! – grita, tirando o sutiã do rosto e devolvendo-o para . Como presente, o controle remoto também foi atirado na cara do amigo. Revoltado, se levantou.
- Calminha, girl on fire. – chamou o amigo pelo apelido, tudo para que ele olhasse de volta aborrecido - Vamos usar a cabeça de cima de vez em quando. Sente, aqui, querido. A aula do tio vai começar. – brincou ele, afinando a voz e ajeitando os óculos invisíveis no nariz. não se mexeu. – Anda, criança. – Dessa vez, o rapaz bufou e, contrariado, se jogou de volta no sofá. - Olhe o tamanho desse sutiã. Você acha que daria na ? Você já esqueceu o quanto eles são grandes?
- Me surpreende você saber – respondeu somente. riu.
- Bom, não dá pra ignorar aquilo. É como se fosse um imã e...
- . Vai se fuder.
- Você é tão ciumento, . – meneou a cabeça negativamente, demonstrando o quanto desaprovava as ações do amigo - E tão babaca. A está puta com você. Tinha que pegar logo a sua prima? De novo?
- A que fez a maior cena arrastando Matt para o quarto. – deu de ombros - Queria esfregar na minha cara.
- Quando vocês dois vão parar com isso? Com esse ciúme idiota. – bufou. Pegou o controle da televisão e o usou para desligá-la. - Ontem eu fiquei muito puto com você. Eu nunca ficaria com a .
- Já ficou.
- Isso foi há anos cara. – rebateu, revirando os olhos - Até antes de vocês começarem esse rolo. E não vai se repetir. Não estou falando que ela não é gostosa, porque, cara, ela é muito gostosa, muito gostosa mesmo. – bufou. – Mas, eu nunca faria isso com você, não sabendo dos seus sentimentos por ela.
- Não tem sentimento nenhum, porra.
- Pode ir parando com esse discurso cínico. Você não me engana. Não precisa admitir, mas também não me trate como idiota. – suspirou - É meio óbvio o que você sente por ela e ela corresponde, cara. Do jeito dela, mas faz. Mas essa não é a questão. Ela podia não estar nem aí para você. Podia se jogar em cima de mim. Até mesmo me oferecer o sutiã - deu uma risada - Eu recuaria. Eu não ficaria com ela. Você é meu amigo há quase 20 anos, . Meu melhor amigo. Me ajudou nos meus piores momentos. E você se importa com ela. Isso é suficiente. Ela é minha amiga, só isso. Nunca mais que isso. E não dê uma de CD estragado e fique repetindo que já a beijei. Se te dói esse fato, queria poder desfazer. Não posso. Mas posso te garantir sobre o futuro. – forçou um sorriso de lado.
- Porra, cara, assim você me faz chorar – apareceu na sala, interrompendo o acerto entre os amigos. Ele se jogou no sofá e então limpou suas mãos molhadas de sabão no rosto de .
- Ei! – reclamou o rapaz, afastando o outro.
- Esse grupo tem tanto drama. – continuou, ignorando . – Estou me sentindo em uma novela mexicana.
- Então se considere oficialmente parte do grupo, porque na sua estreia ontem você já colaborou para o dramalhão. – falou. Então, virou para . – O ficou rebolando de cueca na frente da ontem.
- Como é que é? – exaltou-se - Quem você está pensando que é para ficar em cima da minha prima?
- A é sua prima?
- Sim.
- Você ficou com ela ontem? – deu de ombros - Não pude evitar escutar a conversa de vocês dois. A casa é pequena.
- Não... Eca... – ele colocou a língua para fora, em sinal de nojo - Ela é como uma irmã.
- Ela é como uma irmã, mas você pode pegar a irmã dela? Muito boa sua lógica. – murmurou – Ele beijou a irmã da , Bitchney.
- O nome dela é Britney, , você sabe muito bem disso.
- Muita convivência com a . – se justificou – Mas meu ponto ainda continua.
- É diferente, ok? E... – ia falando, mas parou, lembrando-se do assunto principal. – Você ainda não explicou essa história de ficar rebolando na frente dela, . – apertou os olhos para ele.
- Eu não estava rebolando na frente dela. Ela que entrou no meu quarto e pelo jeito por sua culpa. – contorceu seu rosto em uma careta confusa e continuou. - Ela falou que você não explicou direito onde era o banheiro e ela saiu abrindo portas e acabou me achando.
- É porque o estava com a língua ocupada em outro lugar. – revelou e o amigo lhe deu um dedo do meio.
- Falou o cara que ganhou outro sutiã para a coleção. Quando comemoraremos 100 peças?
- Acho que já ultrapassamos esse valor, . – disse , fingindo-se sério – São muitos anos de negócio, como sabe. – e riram juntos.
- Vocês são muito confusos. – exclamou , depois de alguns segundos de silêncio – Precisam me explicar as histórias do grupo.
- Não tem nada. A gente é bem normal e liberal. Free way of life. – sorriu.
- Então quando acontece o sexo grupal? – questionou. engasga em resposta e começa a rir.
- Não tão liberal.
- Vamos ao que interessa. As gatas. Chicas. Moçoilas. Estão na pista pra negócio?
- Seu vocábulo é maravilhoso, cara. - comentou, rindo.
- é minha versão feminina. Cachorrão. Pegadora. Mas eu não tentaria nada se fosse você. Esse aqui é caído por ela. – explicou .
- Mentira, . – interrompeu - Pode ir em frente.
- Eu ia completar minha frase dizendo exatamente isso, que ele nega até a morte o fato. Mas o desespero é tanto que nem posso terminar de falar. – escutou o bufo de por conta de suas palavras. Continuou – Se quiser, aguente as caretas e o gelo depois. Talvez umas porradas. – deu de ombros.
- E a , solteira?
- Enrolada. Realmente enrolada. – pensou um pouco e então decidiu - Mas o cara é um babaca, então vai fundo!
- Vai fundo é o caralho. – interrompeu mais uma vez - Vai pegar minha prima não.
- Só você que pode pegá-las, né? - rebateu, recebendo de um dedo do meio.
- Quer dizer que basicamente é o dono do harém?

*

- Um uísque, minha linda.
- Um chá de boldo, tigrão. – sorriu pra , lhe entregando o copo com líquido amarronzado. - Na comunidade em que cresci nos ensinaram que essa planta cura tudo.
levantou as sobrancelhas, duvidando da afirmação, e tomou um gole da bebida. Sua primeira reação foi uma careta e depois ele estendeu a língua, fingindo que ia vomitar.
- Que negócio horrível. Nossa! – balançou a cabeça – É claro que sua tribo dizia que curava tudo. Ninguém conseguiu tomar isso para refutar!
A mulher riu, dando-lhe um pequeno tapa no antebraço. Então, voltou a organizar as bebidas na geladeira, não sem antes ordenar a tomar o resto do chá. Olhou para o amigo alguns minutos depois e ele ainda estava fazendo cara feia.
- Pare de fazer tantas caretas, . Você já se acostumou com o gosto, agora.
- Não são mais pela bebida ruim. É pelo traste. – mexeu a cabeça, apontando para as costas de - Ele está como uma alma penada, bem ali.
virou para trás, vendo Mark ao fundo. Ele deu um tchau com a mão e sorriu. Como se nada tivesse acontecido. Como se eles fossem um casal de namorados. Ou de amigos. Nem ela sabia. Suspirando, retirou o avental pela cabeça e jogou para .
- Vê se termina com as bebidas.
- Vou cobrar hora extra. Estou fora do meu horário de serviço.
- Eu também estou e te fiz o chá. São vinte reais, serviço mais bebida. Não aceito cartão. – e sorriu para ele.
Levantou o balcão e saiu da estrutura do bar, caminhando até as escadas e chamando Mark com um gesto. Ele subiu os degraus no encalço dela e logo eles estavam no segundo andar, moradia das irmãs. Ela abriu a porta de seu quarto e deixou ele entrar.
Ela iria começar a falar, mas assim que a porta bateu ele avançou, beijando-a profundamente e agarrando sua cintura. A mulher quase se perdeu nos lábios conhecidos, mas seu cérebro a alertou para cilada. Foi-se o tempo que aquele relacionamento a deixava feliz.
O empurrou. Primeiro levemente, mas foi ignorada. Então, mais forte e finalmente ele aumentou a distância entre eles.
- O que foi? – inquiriu o rapaz. Tão sonso. – Estava com saudades suas, . – ela bufou em resposta.
- Engraçado isso, essas saudades só aparecem de vez em quando, né? – Mark fez uma careta, perdido. – Porque você fica dias, até semanas, sem me procurar, fazendo sabe-se lá o que ou com quem. Aí, um dia, de repente, você lembra que eu existo! – riu, irônica – E é todo carinhoso, fofo.
- Nós namorávamos, amor. Nos víamos todo dia. Mas você terminou. Você não queria nada sério.
- Eu não queria nada sério com você, Mark. – rebateu – Eu sempre quis algo sério, mas com você simplesmente não era bom.
- Ei, tudo bem. Também concordo que está muito melhor agora. A gente continua com as partes boas, o carinho, os beijos, as noites, e não temos mais brigas e discussões bobas. É um ótimo esquema. – pensou por um minuto – Bem, não agora, que você está fazendo uma cena, mas em geral é muito bom.
- Esse é o ponto. Não está tudo bem, porque não é ótimo, nem muito bom. E se você ao menos prestasse atenção no que falo ou sinto, você saberia. – murmurou – Mas com você sempre foi assim. Nunca me escutando, não se importando com que eu penso. O que vale é o que você acha, pensa, faz, sente.
- Besteira sua, .
- A besteira é sua, Mark. Porque você estava sempre regulando o Eletric, ou minha faculdade, ou o meu relacionamento com meus amigos! – meneou a cabeça negativamente. – Não sei como fui tão idiota de continuar isso até hoje.
- Nós temos um acordo, . Você que propôs. Você terminou a droga do namoro e pensou em termos esse lance mais casual. E agora você quer acabar com essa porra? – se exaltou, elevando a voz.
- Primeiro, abaixa o tom. – começou, enumerando com os dedos na cara dele – Segundo, eu posso terminar essa porra que temos a qualquer merda de tempo que eu quiser. E sabe o que você vai fazer? – perguntou retoricamente – Abaixar o nariz, desfazer o bico e aceitar. – ele já ia interromper, mas ela não deixou – Calar a boca enquanto eu estiver falando, bem lembrado. – suspirou – Não que você mereça, mas vou lhe explicar o porquê. Eu não me dou bem com relacionamentos casuais e eu não deveria estar em um. Eu vejo e e toda a complicação, confusão e dor que trazem um ao outro e eu simplesmente me dei conta que não posso viver a mesma coisa. Mas, você, Mark – apontou para ele – Com você, nem casual, nem sério. Nem amizade. Nem simpatia. Não mais. Então, estou terminando qualquer coisa que temos. E espero nunca mais ver você na minha vida. – e sorriu.
Parece um tanto estranho sentir isso assim que terminou um relacionamento, mas se sentia completamente bem. Realizada. Toda mais leve, depois de retirar um grande peso de suas costas. Mark e aquele rolo só estavam fazendo ela se sentir mal.
Aliás, o dito cujo soltou alguns xingamentos, muito bem rebatidos por gestos e palavras e desceu as escadas correndo, prometendo nunca mais voltar. Que ele cumpra a promessa, pensou a mulher, voltando ao primeiro andar em seguida.
milagrosamente estava trabalhando, compenetrado na tarefa passada pela chefe. não queria atrapalhar, mas bastou ela suspirar e ele largou tudo, saindo do bar e andando até ela. Não falou nada, somente a abraçou apertado e afagou seus cabelos.
- Tigrão, está me sufocando.
- Desculpe. – afirmou, se afastando. – Você está bem? Não parece ter chorado.
- Não chorei. E estou bem, na medida do possível. – forçou um sorriso.
- Fico feliz por ele não ter te prendido ou algo assim. – brincou , em referência a profissão de Mark, policial. riu.
- Pode me dar mais um daqueles abraços? – inquiriu a mulher – São meio sufocantes, mas são bem reconfortantes também.
riu e novamente apertou os braços ao redor da amiga. Ficaram ali, no calor dos corpos amigos por alguns minutos, até que uma voz irritante atrapalhou:
- Larga minha prima, ! – fez o contrário do pedido, agarrando-a mais e dando um beijo no canto da boca dela. – Você parece um polvo, tentando agarrar todas com seus tentáculos.
A analogia fez todos caírem na risada. O casal se largou, sorrindo um para o outro, antes de seguir até a amiga, para lhe contar as novidades.
- Já estou sabendo. – avisou – Nós passamos pelo idiota do Mark e ele estava xingando você. Não foi difícil descobrir o porquê.
- Eu mal o conheço, mas já o considero um babaca. – comentou, fazendo sorrir.
- Acredite, esse pensamento é unânime por aqui. – completou.
- Não importa. O importante é que você acabou com ele de vez. – falou, puxando a amiga para um abraço. – Estou muito feliz! Agora você pode entrar no grupinho dos pegadores – apontou para ela e . – Super divertido.
- Menos, sereia. Vamos com calma. – sorriu para a amiga, que retribuiu.
- Assim é melhor mesmo, . – exclamou, depois de alguns instantes em silêncio - Sabe por quê? Acho que esse grupo nem existe mais – suspirou – Afinal, depois que você é tratada como um objeto pelo seu melhor amigo, não tem volta, né?
encarou , que desviava o olhar, e , que resmungava e balançava a cabeça.
- Eu não sei se quero saber o que houve. Só se resolvam, sim? E em uma hora, porque Eletric abre e tem que trabalhar. – forçou um sorriso. – Vá, mulher. – empurrou a amiga na direção do . Emburrada, ela continuou o caminho sozinha.
, então, observou os três rapazes ali. e , que já haviam falado, e Matt, em um canto, calado.
- Vocês, Matt e , vão se comportar? Ou terá que ficar de babá logo em sua primeira visita a Eletric? – inquiriu, vendo os garotos afirmarem que ficariam bem. – Ótimo. , me siga. – chamou o rapaz com o dedo - Você terá sua iniciação no Eletric.
- Uma bebida louca grátis? – perguntou ele, correndo atrás dela.
- Nada tão alcóolico.
- Um banho de cerveja? – arriscou mais um palpite.
- Até pode ser. – meneou a cabeça – Se você deixar o barril cair no chão e ele estourar, realmente será um banho. Obviamente, esse banho vai sair caro pra você.
- Eu vou ter que carregar um barril de cerveja? – inquiriu, a animação já sumida.
- Não. – começou, sarcástica. - Não um. Oito. – apontou para o depósito e sorriu para .
Enquanto arregaçava as mangas da camisa, e estavam em pé, de frente um para o outro, em silêncio. A mulher cruzou os braços no peito e chutou uma pedrinha invisível do chão. Então, suspirou:
- O silêncio não vai te ajudar.
- Eu não sei nem o que falar. – ele respirou fundo, genuinamente sério – Só posso te pedir desculpas. Eu fui um estúpido, tive uma atitude ridícula, me desculpa por isso.
- Acho que você não entende a gravidade da situação, . – bufou – Você me jogou em cima dele, você falou para ele marcar território – revirou os olhos só por repetir as palavras – E eu? Onde encaixamos minha vontade, meu desejo, minha decisão?
- Desculpe.
- Como posso considerar você meu amigo, se você me trata desse jeito? Eu sou realmente uma amiga pra você? Alguém que fica do seu lado nos momentos difíceis? Ou só sou uma coisa engraçada que também é agradável pra vista?
- ! – suspirou – Não é nada disso. Você é minha companheira, você entende meu jeito louco como ninguém. E eu te amo por isso.
- Engraçado jeito de demonstrar, . – bufou ela.
- Sim, eu cometi um erro, e peço perdão por isso. Prometo não repetir a burrada. Odeio ficar mal com você, mas não seja cruel comigo. Eu demonstrei quanto eu gosto de você quando paguei o mico de dançar pra te deixar mais feliz. É injusto você esquecer isso.
- É injusto você esquecer que eu sou uma mulher e me tratar como um boneco inflável, me jogando pra lá e pra cá. – negou com a cabeça - Aliás, piadas com meu corpo não ajudam. Eu sou muito mais que peitos grandes. Eu tenho um cérebro. Todas as mulheres têm. Nós sentimos, fazemos, pensamos, igualzinho aos homens.
- Eu sei, . Eu sei. Óbvio que você não se reduz a sua beleza. As outras partes de você são bem mais apaixonantes. Às vezes, no entanto, é muito difícil. Já é automático. – suspirou.
- O machismo nosso de cada dia. – ela elevou as sobrancelhas – Não é culpa exclusiva sua. Mas é sua função regular o que diz.
- , perdoe o moleque logo. – gritou do bar, enquanto mexia no celular. A mulher revirou os olhos.
- Já que estamos no momento de DR’s, acho que você também está devendo desculpas a , . – exclamou .
- Estava tentando te ajudar, idiota. – deu o dedo do meio para o amigo – Não tenho que pedir desculpas por nada.
- Bom, na verdade acho que você merece uma desculpa. – contrapôs . – Sabe, dessa tal que te marcou todo. – jogou, apontando para os arranhões já vistos por ela no pescoço de . – Não lembrava que você gostava de algo tão agressivo. – soltou uma risada seca.
revirou os olhos e ignorou a mulher. , então, virou-se para ela novamente:
- Prometo que farei o que você falou. Você consegue voltar a ser minha amiga? Podemos voltar ao nosso grupinho dos pegadores? – em resposta, riu.
- Sim, Mr. Músculos. – afirmou, abrindo os braços - Senti sua falta. – se abraçaram.
jogou-se no sofá, ao lado do Matt, e apontou para os amigos se abraçando e rindo um para o outro:
- Te irrita?
- Não, mas pelo jeito te irrita. – respondeu Matt, vendo o amigo dar de ombros - Você ficou meio louco com todo esse lance. Ele é só amigo dela. E ele é seu melhor amigo.
- Bem, você também era meu amigo. – desviou o olhar para ele - E está com ela.
- Nós nunca fomos tão próximos como você e . – bufou - Mas ainda foi errado o que eu fiz. Se servir de algo, desculpe. Não foi planejado, só... você fica um tempo conversando com ela e ela parece, bem, perfeita pra você.
- Eu sei. Acredite. – suspirou - Tudo bem, cara. Eu só... ela é imprevisível. Não consigo acompanhar. Isso me deixa louco às vezes.
- Não vou desistir dela. - avisou Matt.
- Não deve. – surpreendeu o outro - Vocês parecem um bom casal. E se ela estiver feliz, vou ficar feliz.
- Ok. Isso soou tão falso cara. – Matt observou, fazendo os dois rirem. – Você sabe que eu larguei o curso de mecatrônica, né? – viu o amigo assentir - Bem, escolhi outro. Engenharia de produção.
- Produção? Vai ser meu calouro, Matt? – arregalou os olhos e riu. – Esse trote vai ser muito divertido. – Matt fez uma careta, não tão feliz.
Outro que não estava tão feliz era . O Sol tinha caído e a noite mostrou-se fria, mas ele estava com calor. Além disso, cansado. Carregar barris não era uma tarefa fácil. Mesmo seu treinamento na academia não era tão pesado.
- Estou mantendo seus braços fortes. – exclamou, sorrindo.
- Devo agradecer por isso? – inquiriu ele, guardando o último barril para ela.
- Não. Eu devo. Obrigada, . Estou animada! Seus músculos podem servir de grande ajuda por aqui.
- O cara da cueca está a disposição da invasora de quartos. – jogou-se nos degraus da entrada do Eletric – Se ele não morrer depois de hoje. – ela riu.
- Ah, você vai ficar bem! – ela fungou - Não vamos esquecer essa história, né?
- Não! Vamos contá-la aos nossos netos. – exclamou , divertido. – Então, vinte e poucos anos, dona de um lugar como esse. Como isso aconteceu? Por acaso você vem de uma família milionária e ganhou o espaço como presente de formatura? – brincou ele.
- Você acha que uma milionária usaria mão de obra forçada do novo amigo? – rebateu divertida. – Herdei do meu pai quando ele morreu. Eu já vivia aqui com ele há alguns anos, mas o Eletric surgiu como ideia minha e da minha irmã.
- Sinto muito pelo seu pai. – ela assentiu, sorrindo forçado. – E sua mãe?
- Está bem. Ela e meu pai se separaram quando eu ainda era pequena. Eu morei com ela toda a minha infância e parte da adolescência. Ela virou hippie depois da separação e moramos em uma dessas comunidades. Mas odiava.
- Então veio morar com seu pai assim que possível? – deduziu ele - Sua irmã também?
- Basicamente. E não. Ela gostava de lá. Britney sempre gostou da proximidade com a natureza. Veio para cá por causa do nosso pai. Ele já estava mal de saúde e pediu pra ela vir morar com ele. Também veio com a ideia do Eletric. E começou a faculdade de administração pra isso.
- Você parece gostar daqui. Bem, todos eles. – apontou para dentro, se referindo aos amigos.
- Sim. – ela sorriu, melancólica. – É o nosso lugar, sabe? Nos sentimos protegidos e unidos aqui dentro. Você vai se sentir assim também, garanto.
Ele sorriu. Então, coçou a barba por fazer, meio sem jeito de puxar aquele assunto:
- , eu não pude deixar de, bem, notar que você acabou de terminar o namoro. Você está bem?
- Sim. – ela forçou um sorriso. – Melhor do que eu esperava. Foi a melhor coisa que eu fiz. Mark é um babaca, queria controlar minha vida e tudo. – revirou os olhos. – E não era um namoro. Era um... não sei a palavra. – riu – Ele me procurava de vez em quando e nós ficávamos juntos e tal.
- Um relacionamento tipo fênix. – afirmou – Também tenho um desses.
- Tipo fênix?
- É. Vocês terminam e parece que os sentimentos acabaram, mas uns meses depois o vadio do seu ex ressurge das cinzas. – a explicação fez ela rir.
Olhando para o lado, viu e observando-os com os olhos arregalados. Por sorte, eles não estavam na visão de , porque logo encarar não foi suficiente para os amigos. Eles começaram a fazer gestos.
Colocaram a língua pra fora e a mexiam loucamente, incentivando um beijo. tocou o braço de e esbugalhou os olhos. Então, se abanou e passou a mão pela barriga dele. Eles abriam a boca e faziam caretas exageradas.
falou mais um pouco, mas respondeu pouco. Só estava se segurando para não rir copiosamente do teatro dos dois ali do lado. Seus amigos eram doidos. E mal pareciam ter saído da adolescência, brincando daquele jeito.
- Ei, crianças! – chamou ela, assim que se levantou, acompanhada de . – Fizeram as pazes?
- Sim, mamãe. – exclamou , com uma voz manhosa.
- Mamãe pegadora! – acrescentou , fazendo o amigo rir e a amiga sentir vergonha. – Estávamos aqui para alertá-la que o Eletric já vai abrir. Você sabe, no caso de sua mente avoada se perder nos braços... no tempo.
- Sereia, você quer virar uma criatura imaginária, assim como suas parentes? – confrontou a amiga, com os olhos arregalados.
- Inocente. – levantou os braços – Vou jogar-me no sofá ao lado de e Matt. Aparentemente, eles viraram melhores amigos.
- É? – inquiriu somente, surpresa pela informação.
- Eles estavam rindo juntos quando saímos de lá. – deu de ombros.
As palavras de não foram suficientes e logo os quatro estavam indo encontrar os dois garotos. Chegando lá, se acomodaram nos espaços disponíveis.
- Matt vai ser meu calouro. – soltou, rindo em seguida.
- Por isso as risadas. – analisou - Uma de crueldade, outra de desespero. Agora fez sentido. – riram.
- Cara, você está fodido. é muito maléfico. – comentou.
- Você sobreviveu até hoje, . – afirmou.
- Verdade, novato. – confirmou – Mas não estou pegando a mulher do cara.
- Ela não é minha. – rebateu rapidamente .
- Não sou de ninguém, Sr. Músculos. Conversamos sobre isso. – alertou a amiga.
- Fantasias! – gritou , do nada, fazendo todos rirem. – Sexta-feira já é a festa à fantasia do Eletric. E eu quero saber suas produções.
- Surpresa. – afirmou , dando de ombros.
- Minha fantasia é Adão, como sempre. Seguindo a tradição de pouca roupa, mostrando meus dotes e facilitando na hora H. – revelou, levantando risadas.
- Ainda não sei. Talvez algo que combine com o da . – Matt falou.
- Brega. – murmurou.
- Estava pensando em anjinho. – soltou.
- Hm. É uma boa antítese, considerando as surpresas diabólicas que sempre temos nas festas do Eletric.



IV. Tiro, Porrada e Bomba

- Chefe, um Martini para essa moça bonita. – gritou do bar para , que bufou. O amigo tentava conquistar mulheres até enquanto estava trabalhando.
- Tigrão, eu adoro sua fantasia sexual de ser meu subordinado – ela brincou – mas se controle! Estamos no trabalho.
Quando ela entregou o Martini, recebeu uma careta do amigo e um agradecimento sarcástico.
- Se eu não conseguir pegar ninguém essa noite por conta de sua brincadeira, , você vai ter que ficar comigo. – deu de ombros, antes de receber um tapa da amiga.
- Não passou pela sua cabeça que talvez, só talvez, você não consiga ninguém por conta de você mesmo? – inquiriu ela.
- Não. – negou ele, sincero, fazendo a mulher rir.
- Bonjour. – apareceu, cumprimentando os dois.
Ela estava com uma peruca loira, olhos cobertos por um óculos de sol preto e um sobretudo cinza.
- Você é uma agente da polícia francesa? – chutou, fazendo a mulher revirar os olhos.
- Não sei. Continue falando em francês. – pediu – Aliás, já é de noite.
- Amiga. – ela bufou – Você sabe que meu vocabulário de francês se limita a essa única palavra.
- Bem, me surpreende, visto que você me fez assistir esse filme estrangeiro no mínimo sete vezes.
- Calúnia. Mas fico feliz que você tenha entendido. – a amiga respondeu dando de ombros, como se fosse óbvio.
- E eu fico feliz que você tenha resolvido usar o figurino mais coberto. – comentou, fazendo a amiga rir.
- Podem parar com a conversa paralela e explicar. – pediu .
- Sou Séverine, uma mulher casada que trabalha em um bordel às tardes. Lá, sou Belle de Jour.
- Eu tenho que assistir a esse filme. – exclamou urgente, fazendo as mulheres rirem.
Logo e chegaram. de Iron Man, com a armadura de ferro tecnológica contrastando com a armadura aparentemente enferrujada de , hoje Joana D’Arc.
- Zorro, ? Boa! Conquista a mulherada. – piscou pra ele, que só sorriu, sem graça. Coçou a barba, meio sem jeito, e abriu a boca para falar, mas desistiu no meio.
- Sabe o que, ? Vamos apostar! – afirmou, chamando atenção de todos. As apostas entre o grupo sempre eram ótimas. – Vamos ver quem honra melhor a camisa, quem é o mais pegador: eu ou você.
- O que eu ganho? – inquiriu ele, interessado.
- Um abraço de consolação pela perda. – pontuou ela, rindo.
- Olhe para mim, Cachorrão, não há quem resista. – ergueu os braços e deu uma volta em si mesmo, revelando somente a tanga com folhas verdes.
- Se você diz – deu de ombros – Quem perder faz qualquer coisa que o outro quiser.
- Até pagar um... – observou a amiga serrar os olhos para ele – sorvete?
- Vamos, Mr. Músculos. – cruzou seu braço com o do amigo, indo para a pista de dança.
Primeiro, fizeram alguns passos juntos, sorrindo um para o outro. Depois, com seus alvos escolhidos, partiram para o ataque. Um ponto para . Um ponto para . bateu na trave. foi distraída pela bebida colorida. Mais um ponto para . foi segurada pela cintura, mas ao virar seu sorriso sumiu... Falta!
- Ei, gata. Sou Mark. – e avançou com sua boca para a dela. A mulher virou o rosto rapidamente e então o afastou.
- Idiota. – gritou - Sou eu, . Melhor amiga da mulher que terminou essa semana com você.
- Não me importo – tocou o pescoço dela, trazendo-a para mais perto.
- Me larga, seu louco! – o empurrou - E saia do Eletric. E suma da vida da minha amiga. – saiu andando.
Foi até o bar. Acenou para o barman mais próximo e pediu uma tequila. Logo viu sua amiga ali, ainda trabalhando. Ficou em dúvida se contava a cena de pouco com Mark agora ou depois do fim da festa.
- Amiga, saia desse casulo. – murmurou para , logo depois de engolir o álcool – Venha mostrar essa fantasia sexy para todos! – exclamou, irônica.
riu, já que sua fantasia era uma calça e blusa de manga comprida, além de uma armadura com cor de ferrugem. Mas, ainda sim, levantou o balcão, saindo da parte dos funcionários e ficando do lado da amiga.
- Garotas, olhe o Matt! – chegou, abraçando Matt pelos ombros – Ele está de vestido! – e riu.
- Sou um soldado romano, cara. – Matt retrucou, antes de sorrir para .
- Uau, Matt, que coxas! Use vestido mais vezes. – soltou, fazendo todos rirem e Matt, meio envergonhado, agradecer.
- É? – rebateu – Dá próxima vez virei de cueca, então. Pra você só conseguir elogiar minha bunda! – as garotas caíram na risada e Matt fez uma cara de confusão:
- Acho que estou perdido nessa piada interna. – exclamou ele.
- Venha, Matt – lhe estendeu a mão – Vamos para a pista de dança.
Ele aceitou e a mulher olhou uma última vez para a amiga, colocou a língua para fora e mexeu-a loucamente, incentivando a beijar . Mas só a fez rir.
- Que bom que eles saíram. Tenho algo importante pra te falar. – começou, olhando para . Então, retirou a espada de plástico presa na cintura da fantasia e apontou para ele – Olá. Meu nome é Inigo Montoya. Você matou meu pai. Prepare-se para morrer – parafraseando uma expressão famosa do filme Princesa Prometida, de onde o fantasiado era personagem. Ele riu.
- Você foi a única que acertou minha fantasia. – revelou ele, animado – Apesar de ter dito isso para o personagem errado.
- Eu nunca perco oportunidade de citar falas da Princesa Prometida. – deu de ombros e sorriu - E sério que até agora ninguém reconheceu Westley, o melhor camponês/pirata/espadachim da história?
- Não. Um bando de gente sem cultura. Já fui confundido com o zorro e um simples pirata. Estou me sentindo ofendido. – resmungou – E a sua, hein? Uma guerreira fodona... Brienne de Tarth, de Game of Thrones?
- Alguém mais real.
- Joana D’Arc. – ela assentiu – Fantasia legal, mas percebeu que é a única que não está usando uma roupa sexy?
- Bom, isso é uma festa à fantasia, não um Cabaret. – respondeu, fazendo-o rir. – Me recuso a vestir roupa sexy.
- Quer guardar o tesouro para o prometido? – levantou as sobrancelhas, sugestivo. Ela deu de ombros, sem saber o que responder.
- Você realmente vai vestir só uma cueca na próxima festa? Quem você estará representando? – jogou ela.
- Capitão Cueca, talvez. Ainda não sei. Posso mudar para uma fralda e virar um bebê. – encarou a mulher e piscou os olhos antes de perguntar – Você cuidaria de mim? Me dar banho é essencial para eu manter a saúde. Aquela saúde que você elogiou. – riu.
- Se é pra manter tudo isso. – ela começou, tocando nos braços musculosos dele – Posso fazer um esforço. Afinal, temos que preservar as coisas deliciosas da vida. – dessa vez, foi se matou de rir.
- Você sempre fala tudo o que pensa? – inquiriu ele.
- Quase sempre.
- Presumo que isso te meta em problemas.
- Quase sempre.
Do outro lado do Eletric estavam e Matt, compartilhando uma garrafa de cerveja. Eles estavam até pouco na pista, dançando, mas o rapaz puxou a mulher para um canto mais silencioso para conversarem.
- Gostei da fantasia. – exclama. – Você está gostoso. – deu um selinho nele, mas Matt puxou seu lábio com os dentes e, depois, aprofundou o beijo.
- Você também está gostosa. Embora esteja muito coberta. – acrescentou, tentando abrir o sobretudo.
- Acredite, você não quer fazer isso. – ela o impediu e ele tirou a mão dela. – Então, estou em uma aposta com , tenho que ganhar ou estou ferrada nas mãos dele! – esbugalhou os olhos e sorriu – Nos vemos depois – encostou os lábios e virou-se para sair, mas Matt segurou seu braço:
- Que aposta?
- Quem beija mais. Eu estou perdendo. Só beijei um. Bem, dois com você. Ele com certeza já está no número cinco. Tenho que recuperar o tempo perdido. – sorriu e então virou novamente para sair dali.
- . – Matt chamou. Ela olhou para ele, já impaciente. – Você está falando sério?
- Porque não estaria? – devolveu com uma pergunta, confusa.
- E nós? – apontou para os dois.
- Matt. – suspirou, já sabendo o teor das palavras dele. – Você sabe como eu sou.
- Mas ...
- Eu sei que nunca estabelecemos nada, que nunca conversamos, mas achei que estava implícito. – deu de ombros – Desculpe se fiz mal. Eu não namoro sério desde que saí do colégio, gosto da casualidade. Você sabe disso.
- É. Pior que eu sei. – ele levou as mãos até os cabelos e os bagunçou. Soltou um bufo – Mas escutar de você dói.
- Sinto muito. – consolou o rapaz, afagando seus braços.
- Sei que não faz por mal, você não é cruel. E, acredite, seria melhor se você fosse má, eu poderia simplesmente odiá-la, tornaria as coisas mais fáceis. Mas, não. Você está quebrando meu coração e eu só consigo pensar no quanto você é carinhosa e protetora comigo.
fechou os olhos e respirou fundo. Então, o abraçou. Aquilo era difícil. Matt era seu amigo, era uma pessoa maravilhosa, com quem dividira muitas risadas e boas lembranças. Vê-lo sofrer e ser a causa desse sofrimento fazia a mulher se sentir a pior pessoa do mundo.
- Porque você imaginou que seria sério com você? – perguntou, curiosa - Você já viu como eu e ficamos juntos às vezes, mas nunca passou disso.
- Não sei. – ele a olhou e então forçou um sorriso. – Acho que é porque, bem, a gente sempre imagina que com a gente será diferente.
Diferente de Matt, e ostentavam grandes sorrisos nos lábios.
- Quer uma cerveja? – perguntou ele.
- Não bebo.
- Você tem um bar lotado de bebidas alcoólicas e quer, o que, uma água? – tentou adivinhar – Interessante. – foi buscar uma garrafa mineral e logo estava de volta. – Quer dizer que você nunca vai ficar bêbada e se jogar em mim, confessando seu amor? – ela riu.
- A parte do estar bêbada, com certeza não vai rolar. As outras partes não posso garantir. – ela ergueu as sobrancelhas em desafio, ele sorriu – Já passo vergonha suficiente sóbria. Meus amigos dizem que quando me produziram esqueceram-se de adicionar o filtro.
- Pois eu gosto, , que você seja defeituosa. – ele confessou, aproximando-se lentamente dela. Como eles já estavam muito perto, por causa do som alto, logo seus corpos estavam colados. arfou, sentiu seu corpo formigar.
Ele colocou as mãos nos pulsos dela e bem devagar foi subindo com elas, até seu pescoço. Então, sorriu. apoiou os braços nos quadris dele e sentiu a respiração do homem bater em sua testa. Ergueu um pouco a cabeça e, pronto, alguns milímetros e os lábios estariam colados. Chegaria o refrão da música e eles estariam experimentando as sensações de suas bocas unidas.
Um pulo os separou. andou dois passos para trás, meio desnorteada. Afastara-se por instinto, embora tudo que quisesse fazer era cometer aquela loucura. Respirou profundamente antes de encarar . , que a olhava meio perdido, as mãos na cintura, a respiração tentando se regular.
- Desculpe, não posso. – ela soltou, passando a mão pelos cabelos e tentando reconectar o cérebro ao resto do corpo – Eu só... acabei de terminar aquele rolo com Mark e... não sei, fiquei muito tempo naquilo, fiz mal a mim mesma. Só preciso de algum tempo pra mim. Pra tomar as decisões certas. Eu sei que é clichê, mas acredite, o problema sou eu, não você – ela deu uma risada, mas achou-se tão patética que parou no meio.
- Como desejar. – ele respondeu somente, sorrindo forçado. E ela sorriu também, porque aquela era uma genuína referência ao personagem da fantasia dele.
Falando em fantasia, quem não estava satisfeita com a sua era . Particularmente, ela amava Séverine e a coragem da mulher. Mas, pelo jeito, ninguém sabia quem era, mesmo depois de uma explicação. Ninguém conhecia o filme antigo.
Aliás, a quem queria enganar? Esse era o menor de seus problemas. Com Mark lhe cantando e todo o drama com Matt, ela estava totalmente perdida em seus pensamentos. Não sabia nem qual era o tipo de música que tocava e seu copo de vodca ainda estava intocado.
- Como você se chama? – apareceu na sua frente, perguntando a ela, que sorriu pela referência ao filme.
- Belle de Jour. – ela seguiu o roteiro, então abriu os braços e abraçou . – Obrigada por isso.
- Nada – deu de ombros. – Queria falar em francês, mas esqueci tudo que aprendi no colégio.
- Problema algum. Me fez mais feliz. – confidenciou .
- Meu maior desejo. – ele piscou o olho – Então, porque você tem essa mania de se isolar nas festas? Ou está com alguém ou simplesmente no canto, em outro mundo. Bom, nos dois casos em outro mundo. – consertou, observando um sorriso de lado dela.
- Não me faça perguntas difíceis, . É o meu jeito. – suspirou – Porque não está com Britney?
- Porque quero estar com você. E mais ninguém. – exclamou o rapaz, sedutor. No entanto, quebrou seu encanto ao acrescentar: - E porque ela está na capital, acertando algo para o Eletric. Ou para faculdade, não sei ao certo.
- Então, você está livre, leve e solto, essa noite? – inquiriu, sugestiva, colocando as mãos no ombro do rapaz.
- Sabe, Britney não me prende nenhuma noite. – falou, passando as pontas dos dedos nos braços da mulher, que instantaneamente ficou arrepiada – Mas há quem diga que eu já tenho dona. – desceu a mão pelo tronco da mulher. Ela, por sua vez, mordeu o lábio inferior.
Sem donos e também sem pares estavam e , jogados no sofá. A tarefa de consistia em animar a amiga, que estava meio cabisbaixa, e fazia caretas para isso. Efetivamente, elas deram certo e a mulher começou a rir.
- Eu e te zoamos com aquelas línguas e gestos loucos, quando você estava com , mas você precisa saber que é só brincadeira. Nós queremos o melhor pra você e a senhorita deve fazer o que tem vontade, somente.
- Eu sei, tigrão. – sorriu pra ele - Você e a sereia só são assim, meio loucos, mas divertidos.
- Está triste por quê? É em relação ao Mark?
- Não. Bem, não é que eu esteja saltitante pelo término.
- Deveria. – interrompeu .
- Não me chamo . O cara que quando terminou com a namorada de dois meses chegou pulando de alegria.
- Ela não era certa pra mim – justificou ele. – E se ela é a errada, porque me prender com uma, se posso ter quantas erradas quiser?
- É um bom ponto. – a amiga riu. – Mas Mark e eu, a gente tentou e não funcionou. E, convenhamos, ele é um babaca – assistiu o amigo assentir copiosamente – O único problema é que não sei se consigo ficar longe dele, sabe? Eu não consigo tê-lo como namorado, de fato, mas não sei se consigo me manter longe do policial sexy que aparece de tempos em tempos dizendo que me quer e...
- Pode parar por aí. – suplicou – Não quero te imaginar usando as algemas dele. – um instante de silêncio e o amigo completou, com uma careta: - Merda, já imaginei! Vou ter pesadelos a noite.
Mas dormir era um pensamento muito distante para e . Eles ainda conversavam, agora mais próximos, tocando um ao outro a cada oportunidade. Eram dois corpos que se conheciam e, quando juntos, ferviam.
- , minha belle de jour, - ele inspirou, sua testa colada na dela – está me deixando louco o fato de imaginar que você está sem nada por baixo do sobretudo.
A mulher passou o dedo indicador pelas linhas do rosto dele. Pela sobrancelha, bochecha, ponta do nariz, descendo até os lábios. Os contornou, vendo acompanhar o carinho, os olhos se perdendo pelo desejo. Então, ele mordeu levemente o dedo dela.
soltou uma risada de deslizou sua mão ousada por todo o seu braço, dos ombros até o pulso. Puxou-o, em seguida, virando o corpo, andando e trazendo um perdido grudado nela.
Ela chutou a porta do banheiro mais próximo e entrou, puxando . Então, o agarrou pelo colarinho e o jogou na parede. Ele chiou, mas a agarrou pela cintura, grudando os corpos e beijando-a ferozmente.
- Você sabe que eu tenho um fraco por homens tecnológicos e bonitos. – ela começou, abrindo a armadura - E que meu herói preferido é o Iron Man. – roubou um selinho e finalmente a tirou pelos braços de . – Você estava mal intencionado, rapaz. – concluiu ela, enquanto apalpava o homem – Onde raios está a abertura desse macacão? – reclamou, fazendo ele soltar um riso.
Ele abriu o fecho e retirou a fantasia rapidamente, se atrapalhando nos pés e quase tropeçando. Foi a vez de rir. Mas logo ela parou, puxando o pescoço dele e dando-lhe um beijo profundo.
A mão dele foi para o sobretudo da mulher, abrindo os botões, enquanto ela beijava-lhe o pescoço e os ombros nus. Logo a peça foi ao chão e agora, em , restava apenas uma lingerie branca. afastou-se para observar a mulher. Suspirou e passou as mãos pelo cabelo. É, aquela imagem sempre o afetaria.
Puxou para si, distribuindo beijos no colo e pescoço. E então os lábios juntos novamente, as pernas da mulher circundando a cintura do homem e ele a prendendo entre a porta do banheiro e seu corpo em chamas.
- Agora é só eu e você.
Sem personagens, sem joguinhos, como vieram ao mundo, eles estavam. Dispostos a serem totalmente descontrolados um pelo outro. Mãos reconhecendo a pele, beijos esquentando os ânimos, ruídos levando-os a selvageria.
Entre o tesão, o calor, a paixão, ainda puderam ouvir o grito de do outro lado da porta:
- Dessa vez vocês vão ter que limpar o banheiro! – e, com seus corpos entrelaçados, riram.



V. Everybody wanna steal... a cat?

- E aquelas pernas? – jogou, esbugalhando os olhos.
Ela e estavam no sofá do Eletric, esperando os garotos. estava no bar, pegando uma água e tentando sobreviver a mais uma ressaca. e acompanharam o amigo, com a desculpa de trazer comes e bebes para todos. Na verdade, só queriam escutar as aventuras de na noite anterior.
- Entende agora porque eu fiquei com ele, amiga? – retrucou , rindo. A ausência dos meninos por alguns minutos foi suficiente para elas comentarem sobre as coxas de Matt. – Mas não terei mais acesso a elas, . – ela continuou, fazendo uma careta – Meio que terminei com ele ontem.
- Explique-se. – pediu simplesmente. Os três retornaram e se jogaram no espaço livre. sentou ao lado de , pegando as pernas dela e as colocando em cima das suas. Ela sorriu em resposta.
- Ele reclamou por conta da aposta com o . Então eu tive que lhe jogar todo o papo de era só casual e que não viraria algo a mais. Ele ficou bem mal. – fez uma careta, passando um dos braços para trás da cabeça.
- Eu avisei.
- Sim, , você já sabia. – encarou a amiga. – Como sempre.
- Você terminou com o Matt? – inquiriu e viu assentir. – Vocês mudam os status muito rápido. – ela simplesmente deu-lhe o dedo do meio.
- Coitado, ele deve ter sofrido. – especulou a outra garota - Você é uma destruidora de corações.
- Ele usou essa expressão mesmo. – a garota revelou, soltando uma risada depois.
- Não ria! – deu um tapa na amiga – É cruel. Aliás, onde ele está?
Ninguém sabia responder, então deu de ombros, virando seu rosto para . As mãos dele estavam apoiadas nas pernas dela, uma delas deslizando carinhosamente pela lateral da coxa. A mulher puxou seu pescoço, dando-lhe um leve e demorado beijo.
- Arrumem um quarto, por favor! – exclamou, fingindo-se indignado – Estão acabando com a pureza da santinha.
- Tigrão, o que nós dois fizemos já destruiu tudo que tinha de inocente em mim. – respondeu a brincadeira, piscando e sorrindo. O amigo retribuiu, rindo. – Mas, honrando meu posto de cupido, eu preciso compartilhar algo desses dois! – ela apontou para o casal de amigos.
- Prima, isso é totalmente desnecessário.
- Eu fui ao banheiro feminino e estava trancado. – ela continuou, ignorando totalmente - Aí me informaram que viram os dois entrando alguns minutos antes.
- Não! – murmurou, descrente – Eles não fizeram isso de novo.
escondeu o rosto no tórax de , que a abraçou pelas costas e riu da reação do amigo, embora estivesse com vergonha daquela conversa. Andando pelo Eletric, ainda longe da vista de qualquer um dos amigos, estava Matt.
- Fizeram, ! Usaram o banheiro do Eletric de novo para se pegar. – ela gritou, ansiosa por revelar os acontecimentos – Mas dessa vez eu gritei pra eles limparem a bagunça depois, né. Porque dá última vez...
A risada geral interrompeu a narrativa dela. Até mesmo , que estava perdido no histórico do casal, matou-se de rir pelo jeito de . Até que Matt parou na linha de visão deles, um pouco distante, com a cara fechada e amassada. Com grandes olheiras e o cabelo todo desarrumado, além de ainda estar trajando a fantasia da noite anterior, agora toda suja, abarrotada e rasgada.
Um silêncio se instaurou.
- Nem um dia, . Que rapidez. – exclamou, seco, a voz rouca pela grande quantidade de bebida ingerida. Na noite anterior, depois do fora, ele pegara algumas garrafas e fechara-se no depósito, bebendo até cair. Literalmente.
- Matt. – chamou, cheia de culpa. Ela via o estado horrível dele e sabia que era por conta dela. – Me desculpe, realmente. – ela lembrou-se da posição com o e energicamente colocou os pés no chão, sentando-se ereta e desencostando do homem.
- Não se incomode. – gestou com a mão – , desculpe pelo depósito.
Ele meneou levemente a cabeça e virou, andando até a saída do Eletric. Os amigos se encararam e recuou quando tentou reconfortá-la. levantou, preocupada com as últimas palavras de Matt. Correu até o depósito e viu a destruição. Havia algumas garrafas quebradas, mas era o indício de vômitos que mais lhe chamou atenção. Ela balançou a cabeça, com nojo, e logo estava atrás dela, curioso.
- Bler! – ele exclamou, sem se conter. – Vocês vão querer ver isso. – avisou aos amigos.
Enquanto corria atrás de Matt, preocupada com situação do amigo ainda mais do que com a sujeira, todos se aproximaram da porta, ansiosos para observar o cenário crítico.
- Bom, já sabemos quem irá limpar isso. – começou , implicante.
- Você é o funcionário. – rebateu.
- Você é a culpada. E culpados cumprem penas por seus crimes. – ele deu de ombros - Estou te sentenciando a limpar essa nojeira.
- Não cometi nenhum crime. – exclamou a mulher.
- Bem, isso depende da perspectiva. – o amigo a olhou, sorrindo forçado.
*
Depois do incidente do depósito, que uma emburrada limpara, os amigos conversaram mais um pouco naquela tarde de sábado. Britney apareceu e deixou transparecer a raiva que sentia em ver e juntos. A conversa de alguns minutos com o primo foi suficiente para alguns gritos e uma subida furiosa pela escada. ficou tão despreocupada com o fato que, quando lhe contou, mais tarde, as palavras loucas da mulher, ela nem chamou a outra de Bitchney.
Já em casa, os garotos e , convidada especial da noite, jogaram videogame até altas horas da madrugada, com direito a guerra de pipoca e litros de refrigerante. Por isso, quando tocou a campainha da casa cedo no dia seguinte, ninguém atendeu.
Bufando, ela deixou as sacolas pesadas da feira no chão e começou a tocar incessantemente a campainha. Minutos depois e sem nenhuma resposta, ela já estava se odiando por se esquecer de pedir uma cópia da chave da nova casa. Seus amigos dormiam muito e, na antiga casa, ela sempre entrava e saia sem avisá-los.
Revoltada, desistiu, abaixando-se para pegar as compras, quando a porta finalmente se abriu. Ela observou primeiro os pés e as pernas do sujeito e logo viu o tronco desnudo e o rosto de . Suspirou, vendo o corpo do homem coberto somente com uma toalha presa na cintura.
- Até que enfim. Pensei que todos tinham morrido aí dentro. – resmungou ela, empurrando e adentrando a casa – Pegue as compras e traga para a cozinha, por favor.
Ela já ia andando até a cozinha americana, mas parou no meio do caminho, somente para observar o rapaz na tarefa. Viu os músculos dos braços dele se moverem quando ele abaixou para pegar as sacolas e também viu que ao levantar, a toalha ficara pelo meio do caminho. Dali, tinha uma visão completa da sua bunda.
- Bom produto. – soltou, com os olhos arregalados. Logo depois, todavia, virou o corpo, ficando de costas e respirando fundo – Mas acho melhor você vestir uma roupa. Pode deixar as compras comigo.
Ele se embrulhou na toalha e concordou, subindo as escadas e sumindo no segundo andar. Ela respirou fundo mais uma vez, a imagem repassando em sua mente, e andou até as sacolas, as pegando e levando até a cozinha. Mal tinha começado a separar os produtos quando o voltou somente com uma cueca.
- Não está com frio? – alfinetou.
- Meu corpo está pegando fogo. – rebateu ele, piscando para a mulher – E você já viu tudo isso, então.
- Eu gosto. – afirmou , com um sorriso, vendo se aproximar dela.
- Eu sei, . – deu um beijo rápido no pescoço dela, fazendo a mulher se arrepiar e sorrir involuntariamente, e parou ao seu lado. – O que temos aqui? – ele perguntou, olhando as frutas, verduras e legumes despejados no balcão. – É bastante verde.
- e desconhecem a palavra feira. Ou a palavra orgânico. – ela deu de ombros – Se eu não trouxer, eles se limitam a lasanhas pré-prontas e biscoitos.
- Você tem quantos anos, 50? – brincou ele, recebendo uma língua dela. – Você é a mamãe da turma. A sensata, controlada, responsável. – enumerou , antes de adicionar, sugestivo - Adoraria deixar essa mulher fora de si.
desviou o olhar, envergonhada, e o empurrou levemente. Aproveitou-se, claro, para tocar um pouco daquele corpo quase nu. A verdade é que somente dizer aquilo já a deixava meio louca, descontrolada, irresponsável.
- Esses garotos não vão acordar nunca? – a mulher murmurou, assim que terminou de arrumar os alimentos na geladeira. – Vamos assistir um pouco de televisão.
- Nós fomos dormir tarde – justificou, enquanto caminhavam lado a lado até o sofá. Sentados, ele continuou – está com , né. E ... bom, é . Ou está bebendo, ou está comendo ou está dormindo.
- Você esqueceu da parte das mulher... – observando o olhar de , ela percebeu o duplo sentindo da frase anterior. – Ah. – ele riu.
- Adoro esse seu jeito fofo e todo inocente. – suspirou – Como pode ter ficado com um cara como Mark?
- Estando cega e surda? – sugeriu, brincando. – Seriamente, não sei. Eu gostava dele. Teve um tempo que eu achei que realmente o amava. Acho que é uma loucura de sentimentos para qualquer jovem. – deu de ombros.
- Para quem está beirando os 50, é ousado se chamar de jovem. – ele jogou, recebendo um tapa em seguida. – Desculpe. Mas, voltando ao Mark, ele é um completo babaca. Quer dizer, dias depois de vocês terem terminado ele deu em cima da sua melhor amiga...
- Ele deu em cima de ? – esbugalhou os olhos e então riu, meneando a cabeça negativamente em descrença. – É um caso perdido.
- Eu pensava que você sabia... – murmurou , cauteloso. Não queria ter abalado a amizade das grandes amigas. – não ficou com ele.
- Óbvio. Relaxe, eu conheço minha amiga. Ela com certeza se esqueceu de me contar. Afinal, essa festa à fantasia foi tumultuada. – sorriu pra ele. – Você me disse... um dia desses... – pigarreou, sem saber como falar. Ou se ao menos deveria falar. – que você tinha um relacionamento como o meu. Você os chamou de fênix e tudo.
- Ah, sim. – ele suspirou e relaxou no sofá antes de continuar – O nome dela é Megan. Nós namoramos desde nossa entrada no colegial até um ano atrás. Um pouco mais que isso. Mas era um namoro complicado: muitas brigas, muitos gritos e muitas reconciliações loucas. Terminávamos e voltávamos sempre. Na época do vestibular, nós chegamos a terminar e voltar três vezes no mesmo mês. Antes de uma prova importante, bastava uma resposta mal-humorada e Megan terminava comigo. – ele deu um riso suave – Mas a gente gostava um do outro. Uns meses atrás, surgiu uma proposta de trabalho na Espanha e ela foi. Então, terminamos de vez.
- Ou até ela voltar? – e ele se limitou a dar de ombros. - Boa noite, dorminhocos! – exclamou, avistando os três no topo da escada. – Querem um café?
colocou o dedo indicador sob a boca, indicando que não era para a amiga falar. Observando-os melhor, e notaram que estavam todos vestidos de preto, com roupas coladas. Deixando muitas coisas que a mulher não queria ver marcadas.
desceu as escadas na ponta do pé, olhando para os dois lados ao fim. Então, virou para e deu alguns chutes e socos no ar, fingindo ser uma lutadora. Os dois sentados no sofá se mataram de rir, enquanto os outros dois de preto lutaram contra a vontade.
- Não podemos falar com vocês. – sussurrou , baixinho, como se tivesse contando um segredo – Estamos em uma missão!
Mal recuperados das primeiras risadas, os dois voltaram a rir. , e continuaram avançando até a porta, com passos lentos, cautelosos e ritmados. Então, abriram a porta e saíram por ela, escondendo-se enfileirados atrás de um vaso de planta. Muito efetivo.
Chegaram até o muro e ergueu os braços, pulando-o. O casal do outro lado só ouviu o barulho de seus ossos batendo no chão.
- ! – chamaram, baixo, e não obtiveram respostas.
Com um pedido, ofereceu a coxa e subiu nela. Logo, estava abraçada no muro. Chamou o amigo, que dessa vez respondeu.
- Tudo certo com águia. Câmbio, desligo.
Então, a vez de passar para o outro lado era da mulher. Como já estava na metade do caminho, foi fácil completar a tarefa. Por último, . Logo viram as mãos dele, mostrando o avanço do homem. Alguns minutos se passaram, no entanto, e nenhuma evolução.
- !
- Entalado. – respondeu ele, fazendo os dois amigos caírem na risada.
Já recuperada, decidiu ajudar. O amigo a levantou um pouco pelo quadril e ela deu as mãos a , tentando puxá-lo. A estranha combinação de forças estremeceu a base de , que, perdendo o equilibro, caiu no chão. Aí, a situação se complicou. e de mãos dadas, com os pés fora do chão, cada um de um lado do muro. O suor e a gravidade tentando os separar.
finalmente se recuperou e segurou a amiga. Então, com um pouco de força e cooperação, se juntara aos dois.
- Depois que as forças do submundo tentaram separar vocês e não conseguiram, nada nem ninguém irá. – comentou um filosófico . – Então, preguiça, está bem? – continuou ele. O silêncio se instalou. – Bicho preguiça! – repetiu.
- Eu sou a preguiça? – perguntou, vendo o amigo assentir. – Por quê?
- Não quero narrar os acontecimentos de minutos atrás. Você prefere tartaruga? – dessa vez a resposta veio em um gesto amigável: o dedo do meio. – Você está bem?
- Sim.
- Resposta completa, preguiça. Por favor. Vamos mostrar a organização da máfia. – pediu o amigo.
- Sim, - falou , a contragosto – tudo bem com o bicho preguiça. Câmbio, desligo.
Quem olhasse de fora pensaria que eram três malucos. Bom, talvez eles realmente sejam. Ainda mais considerando que todo o cenário, vestuário e atitude eram para sequestrar o gato do vizinho. tinha avisado para , no dia anterior, que era esse o pagamento da perdedora da aposta. E lá foram eles animados para a aventura.
Minutos depois, voltaram para casa, sem gatinho nenhum. Encontraram os amigos ainda no sofá, conversando. Eles foram para a sala com a desculpa de assistir televisão, mas nem chegaram a procurar o controle. Quando observou-os entrar, arrasados e cansados, levantou as sobrancelhas em curiosidade:
- Vocês podem me explicar essa maluquice?
- Íamos sequestrar o gato do vizinho. – soltou.
- O quê?
- Era a minha parte da aposta. – falou, observando o rosto da amiga – Da festa à fantasia. Eu e apostamos quem pegaria mais gente, eu perdi. – explicou – Às vezes você é tão lerda, .
- Eu entendi, . – revirou os olhos – Estou tentando achar a maturidade de vocês, só isso. Roubar um gatinho? Coitado!
- Fique tranquila. arregoou. – exclamou .
- É! Nós estávamos com o gato na mão, já prontos pra sair. Mas ele falou para pararmos. Cancelou a aposta. – bufou.
- Ele era muito fofo. Seus olhos estavam vendo minha alma! – justificou , fazendo e irem.
- Fico feliz que você tenha uma alma. – murmurou, dando um tapa no pescoço do amigo, que reclamou. – Agora vou tirar essa roupa ridícula. Me ajuda, ? – desviou seu olhar para a garota, que concordou. Deram as mãos e seguiram até a escada.
seguiu até o sofá e jogou-se entre os dois amigos, abraçando os dois pelos ombros.
- Essa aventura toda me deu fome. – desviou o olhar para – Sabia que é um chefe de cozinha?
- Sério? – a mulher esbugalhou os olhos.
- Não. – negou, mexendo a cabeça negativamente.
- Bom, ele sabe fazer lasanha e bolo. Pra mim, ele é um mestre das facas. – deu de ombros. A amiga sorriu.
- Vamos ver o que ele sabe fazer! – levantou – Para cozinha, chefe?
Enquanto se espreguiçava no sofá e ligava a televisão, eles andaram até a cozinha. Chegando lá, se cobriu com um avental.
- Acho que eu nunca te vi mais coberto. – exclamou, rindo.
- Venha. – puxou a mão dela, trazendo-a para o lado dele. – Me ajude. Pique as cebolas.
E ela fez. Dois segundos depois de começar, seus olhos já tinham começado a lacrimejar.
- All by myself. – começou a cantar, aproveitando o falso choro - Don’t wanna be. All by myself. - gritou ela, imitando Celine Dion - Anymore.
a olhou, arregalando os olhos, e então começou a rir copiosamente. Desistiu até do macarrão, para apoiar-se na pia e simplesmente gargalhar. o encara com um olhar mortal, fingindo-se magoada pelas risadas dele em meio ao seu choro, mas logo sorri para ele.
- Você é boa. – comentou ele, assim que recuperou-se. – Já tentou a vida com isso?
- Não. Eu só gosto de cantar, às vezes. – deu de ombros – Principalmente quando estou chorando completamente sozinha nesse mundo sofrido. – brincou, dramática, colocando a mão no peito e fazendo uma careta.
- Bem, aparentemente as cebolas sempre estarão te fazendo mal, . – exclamou, falsamente sério – Você precisa deixa-las ir.
- É difícil. – suspirou ela, resignada – Eu sei que elas me fazem sofrer e chorar, mas são tão gostosas. – eles riram.
- Você tem que picá-las. – informou , apontando para a cebola na mão da mulher - Não as deixe em rodelas ou elas estragarão o prato. Acredite em mim.
- Tudo bem, chefe. – levantou a faca e ofereceu para ele – Mostre-me seus dons.
- Não. – negou ele. – Fique com a faca. Eu vou te ensinar.
Ela virou-se para a bancada, de frente para a cebola, e sentiu nas suas costas. Ele deslizou um dos braços por sua cintura e se encaixou ali, meio de lado, abraçando a mão dela que segurava a faca. professou alguns ensinamentos em seus ouvidos, mas o sussurro junto a aproximação fez aquelas palavras parecerem poesia.
Juntos, eles cortaram o alimento. As mãos se tocando, as peles se grudando, os corpos se encontrando, a respiração no cangote, o cheiro do pescoço. A configuração química da cebola fez os dois derramarem lágrimas, em meio a pequenos sorrisos, também juntos. Talvez aquelas não fossem falsas. Talvez viessem de dentro de cada um, de emoções verdadeiras.
Mas acabou rápido. A cebola, a bolha. E eles se afastaram.
- Eu recusei o beijo e agora você está tentando me seduzir, ? – começou , abrindo um sorriso. – Ainda mais com esse corpinho de fora.
- Não estou tentando nada. – replicou ele, falsamente indignado – Só gosto de cozinhar com pouca roupa. É relaxante. – explicou.
- Bom, se você diz. – ela meneou a cabeça – Vou tentar qualquer dia.
- Você devia mesmo. – falou – Não sabe o que está perdendo, é...
- Não vou tirar agora, pervertido. – avisou, dando um pequeno empurrão no amigo.
Uma hora depois, todos os cinco estavam sentados na bancada da cozinha americana saboreando o macarrão ao molho branco preparado pelo casal.
- Nossa, , isso está maravilhoso. – exclamou , depois de mais uma garfada – Você se superou.
- Na verdade, fez praticamente tudo. – confidenciou a mulher – disse que ele era bom cozinheiro e queria testar a veracidade da informação.
- Passei, senhorita?
- Com certeza. – ela respondeu para o homem – Além de tudo, sabe cozinhar. É realmente uma perdição.
- ! – repreendeu o primo – O filtro.
- Só estou falando a verdade, . – deu de ombros – Ele é simpático, engraçado, gostoso, óbvio, e ainda cozinha. É um pacote completo.
engasgou com a comida, cobriu a boca para rir. , que havia acabado de beber o refrigerante de seu copo, teve seu ataque de risos e a bebida recém-tomada escorreu pelo nariz. Aí sim, depois da cena ridícula, todos pararam minutos somente para gargalhar.
- Alguém tem uma máquina do tempo? – inquiriu , recuperando a conversa. Todos olharam para o rapaz sem entender nada.
- Eu tenho, mas não conte a ninguém. – sussurrou, fingindo contar um segredo. – Estou sendo procurado pelo FBI por causa disso.
- Sério? – perguntou, esbugalhando os olhos. Todos riram em resposta. – Ah, você está zoando.
- Óbvio que ele está, . – confirmou. – Tem certeza que você conseguiu passar para a faculdade?
- Ei, eu sou muito inteligente! – rebateu o amigo, fazendo um biquinho em seguida.
- Claro, tigrão. – concordou . – Todos somos muito orgulhosos de você. – afirmou, apertando as bochechas de .
- Tire as mãos de mim – reclamou ele, tentando se soltar da amiga. Novamente, gargalhadas foram ouvidas. – Amanhã começam as aulas do semestre na nossa universidade. Só estava querendo comentar que as férias passaram muito rápido, que gostaria de voltar ao inicio delas. – bufou – Vocês são tão infantis!
- Desculpe, . – suspirou, embora tentasse segurar as risadas, que os outros não se preocuparam em soltar – Você vai voltar a sua tripla jornada, né? Faculdade, estágio, Eletric.
- Sim. Agora não posso acordar mais tarde. Isso é triste.
- Sabe o que também é triste? – interrompeu – Oh, não, não é triste. É feliz. - levou um tapa no braço do amigo - Amanhã começo a dar trote no Matt. – sorriu maléfico.
- E no resto dos calouros, . – completou, apertando os olhos.
- Sim, sim, claro. – deu de ombros, o sorriso cruel não saindo de seu rosto.
A louça foi jogada na pia e eles foram para o sofá assistir qualquer série na televisão. Começou como cinco amigos comentando as cenas de comédia, mas logo e , e entraram em seus próprios mundinhos.
Os dois primeiros do lado esquerdo de , virados um para o outro, discutindo algo e rindo de tempos em tempos. Os outros dois do lado direito, abraçando pelas costas e falando em seu ouvido, dando beijos repentinamente. No meio e seu fiel controle remoto.
- Eu deveria ter ficado com o gatinho. – resmungou para si mesmo.



VI. Guerra Perdida

e passaram na casa de pouco antes das sete da manhã daquela sexta. Ela já estava na portaria e correu até o carro quando o avistou, cumprimentando os amigos em seguida. Como e Matt eram os únicos com carro, eles geralmente davam carona para os outros até a faculdade, quando os horários batiam.
Três vezes na semana e tinham o mesmo horário de entrada e, também, a mesma aula, cálculo IV. Então, assim que estacionou seu carro, se despediu, enquanto eles dois caminharam juntos até o andar de matemática.
Andando lado a lado, com os braços roçando um no outro, tentou cruzar seus dedos com os da mulher. Queria dar a mão a ela, sentir a quentura de sua pele e mostrar para todos que estava com ela. Mas não parecia sentir a mesma vontade. Pela terceira vez naquela semana, ela recuou o braço, fingindo-se preocupada em arrumar os fios do cabelo que caíam na vista.
- Você entendeu a resolução do exercício de ontem? Fiquei confuso com a integral... – discorreu o rapaz, embora ele tivesse entendido a aula anterior. Só queria puxar um assunto depois do silêncio constrangedor que se instalara.
- Bem, não era tão difícil. Você conseguiu achar o determinante posto? Então, a partir daí... – começou , parando abruptamente quando tentou, mais uma vez, cruzar sua mão com a dela. Ela se afastou. Dessa vez não só o braço, mas todo o corpo. O homem não conseguiu reprimir o bufo.
- Que merda, .
- . Não vá para esse caminho. – pediu ela.
- Por quê? - ele inquiriu - Nós não estamos bem? Você não curte ficar comigo?
- Você sabe a resposta para todas essas perguntas. Você sabe tudo sobre mim, me conhece como ninguém.
- É exatamente por isso, porque... – parou, respirando fundo. – Deixe pra lá. Não quero discutir com você. - virou-se, andando em direção contrária a sala de cálculo e deixando sozinha.
- – a mulher chamou, correndo atrás dele pelo corredor e o segurando pelo pulso. Ele desviou o olhar para ela, para o fundo de seus olhos. Ela o encarou de volta e perdeu-se no rosto dele. Queria lhe falar tantas coisas, tudo que lhe atormentava, os sentimentos que transbordavam em seu peito, que machucavam seu coração, que deixavam sua menta confusa. Mas só sussurrou: - A aula.
O rapaz se desvencilhou das mãos dela e olhou para os pés. Seu coração martelava em seu peito. Ele queria confessar tudo à mulher: o que sentia, o que desejava, mas guardou. Porque estavam na faculdade, com um corredor lotado de atrasados. E, também, porque sabia qual seria a reação de . Simplesmente não estava preparado.
- Vou passar. – avisou – Mas você deveria correr. Sr. Martins não gosta de atrasos.
Três horas depois, estava junto com colegas veteranos para aplicar trote nos recém-chegados a Engenharia de Produção. Seu olhar já tinha capturado Matt, rapidamente, como em todos os outros dias. Logo no primeiro dia de trote, Matt foi apelidado de calouro fura-olho e ganhou uma plaquinha. Hoje, ela ainda estava em seu pescoço.
Durante a semana, Matt fora o encarregado de carregar as mochilas até o pátio, de puxar os hinos do curso, de dançar no meio da roda. Agora, ele estava parando o trânsito de carros, para os veteranos e demais calouros atravessarem, enquanto dançava para os motoristas qualquer música brega.
não pode conter as risadas. Era maravilhoso ver o amigo pagar mico daquele jeito. Pouco antes tinha pintado na pele do calouro um acróstico do seu nome. MATT. Mijão. Anta. Traíra. Trouxa. A composição ficara linda, com os adjetivos muito bem pensados depois de toda a situação com .
que ficara com Matt. Só pensar nesse fato o enchia de vontade de tacar um ovo nele. Observou o tal calouro, vendo que ele estava conversando e rindo com outra caloura. Andou até eles:
- Calouro Fura-olho, está paquerando a caloura? No meio do trote? – perguntou, um tanto autoritário. – Está sentindo falta dos ovos?
Era impossível Matt sentir falta dos ovos. Não depois de levar ao menos uma dúzia de ovadas só naquela semana.
- Desculpe, ilustríssimo veterano. – respondeu ele, cauteloso. Na verdade, ele estava bufando por dentro, raivoso como nunca, mas a semana lhe ensinara que ignorar a insolência do amigo era melhor. O tratamento exagerado não ia matá-lo, afinal.
- Você – apontou para a caloura loira, de olhos grandes, que antes conversava com Matt.
- Emily. – ela respondeu, sorrindo. iria dar um fora na garota, dizer que calouro não se identifica, mas as palavras se perderam em sua boca.
- Puxe uma música. – falou somente, vendo a caloura assentir, entusiasmada.
Na tarde seguinte, o grupo estava jogado no sofá do Eletric, tão preguiçosos depois do retorno das aulas que passaram minutos calados. , que havia passado toda a noite na festa dos calouros, mal podia manter seus olhos abertos. Quando falou, sua cabeça explodiu, e ele se arrependeu mais uma vez de ter bebido:
- ! – ela avistou o homem entrando pela porta, trazendo um saco de papel nas mãos. – Você demorou.
- Estava na cozinha, preparando essas bombas de doce de leite. – abriu o saco, entregando uma unidade para cada amigo, que arregalaram os olhos para o doce – Minha especialidade.
- Alguma ocasião especial? – perguntou , enquanto o resto se preocupava em degustar.
- Começo das aulas. – respondeu , vendo todos discordando com a cabeça – Primeiro final de semana depois do fim das férias? – tentou, incerto. Dessa vez, eles balançaram a cabeça, considerando a questão. – Estava com vontade de cozinhar. E como vocês estão sendo muito legais comigo, me recebendo. – deu de ombros, vendo finalmente todos concordarem com suas palavras.
- Sim, , nós te amamos! – declarou , abraçando de lado o amigo. – Principalmente depois de comer isso aqui. – ele deu mais uma mordida e gemeu em satisfação.
- Sinta-se livre para nos preparar doces sempre. – exclamou.
- Tem mais? – foi a vez de mostrar o quanto gostara e apontou para o saco em cima da mesa de centro.
- Está muito bom mesmo. – concordou.
- Você é o melhor cozinheiro do mundo, cara! – elogiou , avançando para pegar mais um.
- Não exagere. – sussurrou, embora sorrisse pelos vários elogios.
- É, não exagere. – reafirmou – Nada supera meu suflê de chocolate. Vocês imploram sempre para que eu faça.
- Sim! – quase gritou de emoção – Amamos seu suflê. Mas isso daqui – ela sacudiu a sua segunda bomba – está uma loucura. É dos deuses.
- cozinha melhor que eu? – a temida pergunta saiu num solavanco. Os três se entreolharam, sem saber o que falar.
- Ei, . – a chamou, tirando os amigos de um momento tenso. – Quer apostar?
- Cara, você definitivamente já é parte desse grupo. – comentou , se referindo à prática de fazer apostas.
O liquidificador e os ingredientes foram pegos na cozinha de . Ela e o desafiador prepararam a bancada do Eletric, já ligando o forno, e começaram a produzir. , e ficaram observando e, obviamente, apostando quem seria o vencedor. logo declarou apoio a amiga. ao amigo. Então, decidiu torcer pela prima.
A tensão se espalhou pelo ar e eles, de tempos em tempos, se encaravam, desafiando um ao outro com o olhar. tomou posse do liquidificador, jogando todos os ingredientes lá dentro. Então virou-se, para procurar a tampa perdida. Foi quando reclamou da demora e simplesmente apertou o ligar.
O resultado da adição mistura sem tampa foi a comida na cara dos dois cozinheiros, que estavam lado a lado. paralisou-se, sem reação. arregalou os olhos ao sentir aquilo em sua cara. Um misto de líquido branco, o leite condensado e o leite de coco, com um pó preto, o chocolate em pó, grudavam no rosto de ambos. O ovo, com seu cheiro horrível, escorria pela pele.
Um silêncio se instalou, até que começou a gargalhar dos dois. Esses se olharam, pegaram o liquidificador, viraram-se para o amigo e jogaram o resto da mistura nele, que arfou em resposta. Então, ele puxou pelo pescoço, passando seu rosto sujo no rosto limpo dela.
- Ah! – ela gritou, surpresa. Logo, pegou a sujeira dela e passou no cabelo de .
Aí a guerra começou. atacou , que atacou , que atacou , que atacou . Em um circulo interminável, a sujeira foi se alastrando entre eles. O leite condensado foi despejado nos narizes. Ovos foram tirados da caixa e quebrados em cabeças amigas. O achocolatado voou pela cozinha, cobrindo todos.
Com o fim dos combustíveis, eles caíram na risada. Da cabeça aos pés, estavam sujos. Mas também felizes. empurrou os meninos.
- Vou buscar toalhas. – exclamou, tirando os amigos do transe – e , vocês limpam. Conhecem o caminho para o depósito, peguem lá os utensílios pra limpeza. E, lembrem-se: é para limpar, não para sujar. Nada de se pegar!
desviou o olhar, desconfortável. mexeu nos cabelos, não melhor. Mas os amigos não perceberam, pois estavam rindo. Então, a mamãe da turma continuou:
- Eu, e vamos nos limpar e ir ao mercado. Já que, bem, não temos suflês e nem ingredientes. – saiu, seguida pelos rapazes.
- Pode deixar que eu pego o produto e os panos. – avisou, saindo de lá.
Quando voltou, eles começaram a dar um jeito na cozinha. Limparam o chão, a bancada, as paredes, as portas dos armários, os utensílios. Ao fim, cansados, jogaram-se no chão.
- Esse cheiro de ovo não vai sair de nossos cabelos tão cedo. – lamentou . O homem deu de ombros, observando o pano em suas mãos. Ela resolveu continuar: - Mas foi divertida, essa guerra de comida. Me lembrou minha infância, minhas férias com meus primos. – suspirou, nostálgica - Você, e jogavam comida um no outro quando pequenos?
agora observava seus pés, ignorando propositalmente a mulher. Ela bufou. Olhou para si mesma, a calça jeans suja, o tênis pegajoso, a blusa branca toda grudenta e machada que com certeza iria para o lixo. Bem, pensou ela, não há como afundar-me mais.
- , sobre ontem. – referiu-se a quase briga na faculdade - Acho que devíamos conversar sobre isso.
- Vou tomar banho. – ele levantou rapidamente, jogando o pano de lado.
- Você não vai me responder? Vai me ignorar? – também se ergueu, segurando já na porta – Eu estou aqui. – balançou o braço dele, chamando atenção. Ele a encarou, mas nem mexeu a boca. – Droga, ! Eu estou na sua frente e você não vai falar comigo?
- Não tenho nada para falar com você. – soltou, amargo. E ela largou o braço dele rapidamente, porque, de repente, o contato entre as peles estava queimando.
Quando os três voltaram das compras, e e a cozinha do Eletric estavam limpos e quase cheirosos. Cada um deles bem sozinho, também. O homem sentado no bar, mexendo no celular. A mulher encolhida no sofá, abraçada as pernas e com a cabeça escondida.
- Reflexão pós-sexo? – perguntou, ainda com um sorriso nos lábios pela piada contada por minutos antes.
- , vai se foder. – respondeu, grosso.
- O que está acontecendo com vocês? – perguntou, notando a tensão no ar.
- Nada, . – respondeu, rapidamente.
- É, nada, prima. – confirmou o homem, contrariado - É exatamente esse o problema. Os meses passam e nada acontece. Continuamos na mesma merda. Tudo bem nós fodermos no banheiro. E no quarto. E em qualquer porra de lugar. Mas dar as mãos? Aí não, aí é demais.
- ! – gritou , tentou frear as palavras dele. Então, bufou - Com eles você fala, é?
- Vou pra casa – avisou aos amigos, continuando a ignorar a mulher e levantou-se.
- Não vai não. – repreendeu, empurrando-o de volta a cadeira – Eu e faremos os suflês. Você, e dirão qual é o melhor. Quem perder, faz qualquer coisa que o outro queira.
- Eu definitivamente vou me lembrar dessas palavras. – afirmou, esbugalhando os olhos, divertido.
- Respeita minha prima, caralho. – respondeu, ainda raivoso pela situação com a outra mulher, dando o dedo do meio para o amigo.
- É bom te ter de volta, ciumento. – brincou, batendo nas costas do amigo em saudação – Já estava sentindo sua falta.
Dessa vez, não houve incidentes na cozinha. Algum tempo depois, os suflês estavam dourados e prontos para a degustação. Os três jurados se deliciaram até o último farelo. Então, conversaram entre eles, decidindo qual era o melhor doce.
- Declaro que o grande cozinheiro do Eletric é... – parou, fazendo suspense – !
Ele pulou, comemorando. Virou-se para e mandou um beijo no ar, enquanto a mulher cruzou os braços no peito. Ela não sabia o que era pior: perder a aposta para o rapaz, ter que fazer qualquer coisa que ele quisesse ou ver jogando na sua cara até o fim de seus dias.
- Perdedora – a apelidou, sorrindo maleficamente para ela – Você terá que me seduzir. – ergueu as sobrancelhas, em desafio.
- seduzindo? – comentou, rindo em seguida. Aparentemente, o chocolate tinha acalmado os ânimos.
- Ei! – reclamou a mulher – Eu sou uma sedutora! Minha personalidade maravilhosa seduz qualquer reles mortal.
- É verdade, . Quando ela começa a me chamar de gostoso, a falar que é louca por mim, que quer ver meu corpo nu... – murmurou , brincando.
- Sim! – também entrou na brincadeira, sacaneando a amiga – E quando ela me agarra pelo braço e me arrasta para debaixo da seção de frios do mercado? Meu Deus, me deixa completamente louca! – se abanou, teatralmente.
abriu a boca indignada e deu tapa nos amigos.
- Eu posso ser sedutora! – reafirmou, ajeitando a postura e desviando seu olhar para – Pegue uma cadeira, coloque ali bem no centro e prepare-se. – avisou-a, concentrada. – Vocês, observem a mestre! – falou, apontando para os amigos.
logo estava sentado, cruzando os dedos das mãos em nervosismo. Ele imaginava que não era exatamente como as mulheres que dançavam e seduziam em um pole dance. Mas, ainda sim, era . Ele não precisava que ela fizesse muita coisa para querê-la.
A mulher desfilou até ele, balançando os cabelos lentamente de um lado para o outro, no ritmo de uma música inaudível, com os braços movendo-se acima da cabeça. Então, já bem próximo do homem, suas mãos foram para os botões de sua camiseta, abrindo os três primeiros. O aumento do decote deixou o sutiã rosa com flores a vista.
- Esse é meu sutiã. – ela afirmou, erguendo as sobrancelhas. No mesmo minuto, , e caíram na risada.
- Prazer, sutiã. – falou, olhando diretamente para o mesmo e, consequentemente, para o que ele escondia. Então, levantou a vista e a encarou. Em si os sentimentos se misturavam: ele queria rir, porque aquilo estava hilário. Mas observá-la daquele jeito também fazia seu corpo tremer - Sutiã legal.
As palavras de fizeram os três observadores, que ainda nem tinham conseguido parar de rir, gargalharem novamente. chegou a se jogar no sofá e colocar a mão na barriga, que já doía pelo esforço. seduzindo seria piada para o resto do ano. Quem sabe, da vida.
A tal ainda não estava satisfeita com sua performance. Tentou, então, imitar os olhos de Capitu, oblíquos e dissimulados, que haviam capturado Bentinho. Mas a tentativa a deixara vesga e riu. , então, resolveu mostrar seus dons de dançarina. Tinha aprendido com o melhor, afinal. .
Imitando algum clipe da Beyonce, ou talvez alguma coreografia das festas na comunidade hippie, ela colocou os dois braços em frente ao peito e se sacudiu. As risadas foram novamente proferidas. Ela moveu-se, circulando a cadeira de e passando a mão pela pele nua dele. Dançou novamente para ele, dessa vez fazendo uma espécie de minhoca com o corpo, deslizando sua mão pelo mesmo e fazendo uma cara sedutora. Na cabeça dela, ao menos era.
- Gostosa! Seduzente! – gritou para a amiga, sem parar de rir.
Aliás, todos, com exceção de , concentrada no papel, e , tenso pela posição e pela garota, continuavam a rir copiosamente. Diante da cena tão incomum, mal perceberam quando três homens vestidos com ternos adentraram ao Eletric.
Eles caminharam juntos, o barulho dos passos se escondendo nas risadas. Observaram o casal, cuja garota, com a blusa aberta, fazia uma dança estranha. Desviaram o olhar para os três jogados no sofá, sorridentes. Até que eles ficaram à vista.
- Desculpe atrapalhar – um dos homens começou, limpando a garganta em seguida – a diversão.
- Posso ajudar? – inquiriu uma envergonhada , enquanto enrolava-se para fechar os botões da blusa.
- Não sabia que esse estabelecimento tinha atividades desse tipo – o mesmo loiro respondeu, analisando rapidamente o local com o olhar.
- Desse tipo?
- Sexuais.
- Oh, não. – murmurou apressada, agitando as mãos para fortificar – Eletric é um espaço pra beber, ouvir bandas, fazer festas, como um clube, uma boate. Nada desse tipo que o senhor falou.
- Então isso só acontece fora do horário de funcionamento? – ele ergueu as sobrancelhas. – Que bom que vamos resolver isso. Vocês e seus amigos já podem sair. Você tem até amanhã às 11 para retirar tudo seu do espaço superior. Queremos... como é? – parou, observando a papelada - o Eletric aberto já amanhã.
- O quê? Eu não estou entendendo nada. – falou , balançando a cabeça em confusão. - Quem é o senhor?
- Eu sou o novo dono do Eletric. – a avisou, jogando a papelada do negócio em suas mãos.



VII. Sob Meus Joelhos

paralisou com as palavras do loiro desconhecido. pulou da cadeira na hora, pegando os documentos da mão tremendo da mulher. Observou por um tempo, enquanto , e levantaram de seus lugares e começaram a falar, todos juntos.
- Como assim dono?
- O que isso quer dizer?
- Isso é uma pegadinha, certo?
As vozes se misturaram em mais perguntas e reclamações. O homem ignorou, encarando o rapaz que analisava os papeis. demorou para levantar a cabeça, mas, quando o fez, olhou triste para a .
- Eu não entendo muito de contratos, mas aparentemente a empresa Wikins é a nova dona do Eletric.
A mulher engoliu as palavras do rapaz. Então, saiu correndo, subindo as escadas para o segundo andar. Se aquela venda era verdadeira, Britney foi a vendedora. E, olhando friamente, ela tinha plena condição de fazer isso. Aquele galpão que elas transformaram em um clube e carinhosamente chamaram de Eletric era herança do pai delas, sim. E, portanto, as duas filhas teriam direito.
Na teoria. Porque, alguns anos antes, o pai delas usara aquele espaço como moeda de troca com Britney. Britney sempre gostara da comunidade hippie e, diferente de , nunca tivera pretensão de sair de lá. O pai, no entanto, a queria por perto, vivendo seus últimos meses ao lado dele. Ele já estava doente e usou o atual Eletric para convencê-la a vir morar na cidade. Inclusive, passou o lugar para o nome dela. E dela somente.
nem se preocupou com esse detalhe na época da morte, porque, afinal, era sua irmã. Não importava o que um papel dizia, porque na prática as duas eram donas do Eletric. Elas o construíram juntas.
Aparentemente, todavia, importava quem era tecnicamente a dona. Sendo só a irmã, ela pode vender, sem nem ao menos prestar qualquer esclarecimento ou informação a . E ela subiu as escadas, louca para ter essas explicações, mesmo que atrasadas.
Só que Britney não estava lá. esperava isso. Mas algo lhe disse que era além. Então, ela abriu às portas do armário, a escrivaninha, as gavetas da cômoda. E notou que não havia mais roupas, sapatos, maquiagem, livros. Estava tudo vazio.
Pouco mais de doze horas depois, saíra do Eletric com uma mochila nas costas, uma mala nas mãos e incontáveis lágrimas nos olhos. Os amigos estavam ali também, carregando suas coisas para a mala do carro. Ela iria ficar na casa dos garotos, por alguns dias, até decidir o que fazer da vida.
Embora visivelmente triste, ela estava melhor do que na noite anterior. Ela passara muito tempo parada, sem se mexer, sem chorar, somente tentando absorver a informação. Estou desabrigada, repetia constantemente para si mesma, mas a ficha caíra só de madrugada. Então, ela começou a pensar, estou desabrigada e sozinha. E, aí, caiu em prantos.
Mas acordou diferente, com seus amigos ajudando-a a empacotar e lhe dando apoio. Sim, foi horrível o que a própria irmã dela fez. Vendeu o Eletric que não somente era a moradia delas, mas o lugar que era uma lembrança do pai e o símbolo da felicidade presente e futura. Fugiu, desapareceu. A deixou. Não suficiente, a expulsou. E tudo isso martelava em sua cabeça. Mas ela não estava sozinha.
- Obrigada, pessoal. – ela expôs o que a muito queria falar – Vocês são maravilhosos.
Eles já tinham chegado à casa, então se jogou no sofá, foi para cozinha, enquanto e se distanciaram o máximo possível. Nem toda a surpresa da situação e o horror da prima e amiga bastaram para uma trégua entre eles. Como uma briga de gato e rato, eles continuavam a se ignorar, fingindo que o outro era invisível.
- Não é nada, santinha. Nós te amamos. – afirmou, sorrindo. Logo, entretanto, emburrou a cara. – E odiamos sua irmã. Não acredito que ela fez isso com você!
Mais cedo naquele dia, havia explicado para os amigos como aquela situação pôde legalmente ocorrer.
- Cretina! – acrescentou – Bem, vocês sempre criticaram meu apelido para ela, né? Ela é mesmo uma Bitchney.
- Verdade, ! Você sempre soube! – concordou , pensativo.
- Eu simplesmente não entendo. – comentou, meneando a cabeça negativamente. – Por que ela faria isso? Ela gostava do Eletric. E ela é sua irmã! Como te chutar para a rua desse jeito?
- Eu sempre disse que ela era uma pessoa sem caráter, uma ridícula.
- Bem, , nós sempre achamos que você estava com ciúmes. – exclamou, dando de ombros. – Embora de fato você estivesse. Talvez seja só uma coincidência seus xingamentos servirem tão bem.
- O assunto não é eu e , ! É você, sua situação, e a irmã desgraçada que você tem. – murmurou, furiosa. Então, bufou – Eu sempre senti que ela não era uma pessoa boa. Você pode achar que é drama meu, foda-se. Mas eu nunca gostei dela. – suspirou – Quando a conheci pela primeira vez, ela me olhou de cima a baixo e fez uma cara de desprezo. Nunca foi gentil comigo. Talvez com vocês, ela tenha sido legal, mas não foi meu caso.
- Sim, eu notei isso. – murmurou – Até falei com ela sobre. Mas sempre achei que era porque você era uma ameaça para o casal Britney e . Ela sempre foi apaixonada por você. – a mulher olhou para , levantando o queixo – E você sempre ignorou isso, mas sempre deixou em aberto. Quando chegou e você ficou louco por ela... Bem, não era só uma ameaça. Era um obstáculo real.
- Eu... – começou, mas interrompeu.
- Você não é louco pela , não tem sentimentos por ela, todos já sabemos disso. – ele afirmou, bufando – Quer que eu escreva na sua testa, caso alguém ainda duvide? – como resposta, levantou o dedo do meio para o amigo.
- Não ia falar isso, idiota. – para não perder o costume, jogou o controle da televisão em cima dele – Britney era um pouco exagerada. Na primeira vez que nós ficamos, - pigarreou – ela me afastou porque veio com histórias de casamento e filhos.
- Todos sabemos que você tem aversão a casamento e filhos, mesmo quando se trata de . – brincou.
- Porra, vocês não deixam eu falar sério, né? – ele bufou, escondendo um sorriso. – Enfim, ela tinha várias expectativas comigo. Para ficarmos juntos.
- E você foi horrível por usá-la para fazer ciúmes em . A iludiu. – afirmou.
- Bem, ela te deixou sem um lar. – argumentou, dando de ombros - Acho que, tratando-se de feitos horríveis, temos uma clara vencedora.
- Aliás, , você ficando com a Bitchney... que falta de critério. – comentou , amarga. O rapaz soltou um murmuro de reclamação, ignorando a mulher. , no entanto, resolveu responder:
- Ele fica com você, .
Dessa vez, uma almofada vinda do outro lado da sala atingiu o rapaz. devolveu a almofada, atingindo e logo aquilo se tornou uma guerra. Aproveitando a distração dos amigos, foi até a cozinha e apoiou-se na bancada.
- Precisa de ajuda?
- Não, mas adoraria a companhia. – falou, sorrindo. Então, fechou a cara: – Como você está?
- Triste, com raiva, querendo quebrar a cara da Britney e imaginando como me virar agora que estou sem teto. – a mulher suspirou, deixando a cabeça cair na bancada.
- Ei, - ele a chamou e ela lhe olhou – Você não é uma sem teto. Pode ficar aqui o tempo que quiser. Não precisa nem dormir no sofá. Já te ofereci minha cama. Podemos dividir. – com um sorriso safado no rosto, ele deu de ombros. Ela riu.
- Eu liguei para minha mãe para contar o que aconteceu. – começou ela, ajeitando a postura - Ela disse que na verdade tudo é culpa do meu pai por ter deixado herança, que por isso foi para comunidade, para se livrar dos problemas que bens materiais trazem. – bufou - É mentira. Foi para lá atrás de uma paixão antiga. As filhas nunca foram prioridade para ela. – ressentida, revirou os olhos. – Sabe... o que mais dói não é pensar no tempo, dinheiro e tudo que investi na Eletric. O pior é saber que foi a Britney que tirou isso de mim. Minha irmã mais velha. – ela desviou o olhar, tentando não chorar de novo. – Sinto falta do meu pai, ele era a única pessoa que realmente se importava comigo.
foi até e, com um sorriso pesaroso, a abraçou.
- Eu me importo com você. Seus amigos se importam com você. Eu sei que agora tudo parece meio cinzento e sem esperança, mas vai ficar tudo bem. Nós estamos aqui e vamos te ajudar no que precisar. – ele exclamou, beijando levemente seus cabelos.
- Obrigada. – ela sussurrou, a voz abafada pelo abraço com o rapaz. – E você está certo, vai ficar tudo bem. Vou parar de me lamentar e achar um jeito de resolver a minha vida. – por fim, obrigou-se a sorrir em esperança.

*

A nova semana começou e com ela as aulas na faculdade. Criou-se uma rotina. Os garotos saiam cedo de casa, sempre atrasados depois de comer o café da manhã que preparava. Então, eles tinham ou aula até tarde, ou estágio ou curso, e a mulher ficava em casa sozinha praticamente todo o dia. Sem o Eletric, ela ficara entediada logo.
Na quarta-feira, ela se sentiu sufocada naquela casa e resolveu ir até o apartamento de Matt. Sabia que naquele horário ele já estaria em casa. Ele a recebeu logo depois de um toque da campainha e lhe deu um abraço apertado.
- Saudades de você, garoto. – ela exclamou – Fiquei preocupada depois daquela cena do Eletric. Está melhor?
- Sim, sim. – ele se jogou no sofá – Quer algo pra beber? Você sabe o caminho para a cozinha. – ele sorriu, folgado.
- Mais que educação! – brincou ela, sentando do lado do amigo – Quer conversar sobre todo o lance? – ele a encarou e nada falou – Você e , o término e tal.
- Bom, não se termina o que não se começou, certo? – perguntou, divertido. Ao menos fingindo se divertir com aquilo.
- Ui. Uma facada amargurada. – ela pichou.
- Não, . Está tudo bem. – ele deu de ombros – Eu sei que fui um idiota. Minha mente sabe muito bem no que eu estava me metendo. Foi meu coração que se perdeu.
- Matt! – gruiu – Você quer que eu acredite que está bem depois de dizer uma coisa dessas? – ele riu.
- Você sabe como ela é, . Todo mundo sabe, inclusive eu. Me enrolei com ela sabendo disso. Nada sério viria disso, eu estava ciente. Sim, eu queria algo mais, mas no fundo eu sabia que nunca teria. Assim é . – suspirou – Como ela está?
- Em uma briga infantil com , mas bem. – sorriu. Vendo que ele queria saber em relação a ele, continuou: - Ela ficou chateada por te magoar. Se arrepende.
- Não precisa. – ele sorriu – Sempre achei que ela terminaria com . Ele sempre foi maluco por ela.
- Ah, eu sou team . – ela riu, demorando a perceber o que falou – Desculpe, Matt. Eu realmente gosto de você e sei que você seria um maravilhoso namorado...
- Mas não é para mim que os olhos dela brilham de desejo, não é pra mim que o sorriso dela aparece sem motivo algum, não é em mim que ela se perde com o olhar. Enfim, não sou .
- É isso. – ela riu, mais confortável. Sempre vira aquilo, tanto em quando em . Era o cupido deles não à toa. Aqueles dois tinham tudo para construir uma linda história de amor.
- Achava que eles tinham se acertado. – comentou – Por isso, achei estranho quando vi uma loira em cima do na festa dos calouros. Não cheguei a ver beijo nem nada, mas eles conversavam bem próximos. Ela era bonita.
- Sério? – perguntou , meio desinteressada. Parecia, pra ela, uma história inventada, uma outra visão de uma conversa casual. era totalmente apaixonado por . Não havia nada a se preocupar. – Então, volta comigo? Marcamos de assistir uns filmes essa noite lá na casa dos meninos.
- Ah, ! Você tanto me perguntou que esqueci! – ele bateu na testa – Sinto muito pelo Eletric. Como você está?
Então a amiga lhe contou os detalhes. Depois, ele lhe ofereceu abrigo e ajuda, que ela recusou e agradeceu. Então, ela retomou a pergunta, convidando-o para a noite nos garotos.
- Olha, . – ele suspirou, sério – Eu gosto muito de vocês, adoro passar meu tempo com vocês, mas preciso me afastar um pouco, ok?
- Por causa de . – ela completou o que era óbvio.
- Não. Por minha causa. – ele desconversou – Preciso ficar um tempo sozinho. Rever minha vida. Além disso, acabei de mudar de curso. Estou conhecendo os calouros e estudando. – Matt suspirou – Está tudo bem. Sério. – eles se abraçaram e ela se despediu.
Chegando a sua recente e temporária casa depois de meia hora no trânsito, ela avistou , na cozinha, fazendo a pipoca com manteiga. ainda estava enrolado no estágio, como avisara na mensagem. e estavam sentados o mais longe um do outro. De novo.
- Minhas crianças, - ela apontou para os dois emburrados - venham até aqui. Vamos resolver isso agora. – eles se aproximaram. – , descruze os braços e desfaça o bico. , guarde essa porra de celular ou vou jogar pela janela. – eles obedeceram. – Vocês têm quantos anos, dez? Qual foi o problema? Porque vocês estão se ignorando?
- Ele começou! – acusou, apontando para o homem.
- Oh, tudo bem. Acabamos de reduzir a idade para cinco.
- Não quero discutir essa merda. – falou.
- Não? – ergueu as sobrancelhas, em desafio. – Ok. – e saiu.
Foi para a cozinha e cochichou com . Quando ela voltou, sozinha, era quem mexia no celular. Ela chamou .
- Primo, estou tendo algum problema com a internet do celular. – ela fez uma careta – disse que há um ponto na sacada que tem um sinal maravilhoso. Pode me levar até lá? – pediu, sorrindo.
Ele bufou, mas levantou, acompanhando a prima e lhe mostrando o local. Enquanto isso, saíra da cozinha correndo e puxara pelos pulsos. Com ela não houve desculpas esfarrapadas. A mulher ainda gritou, confusa, reclamando da força, mas de nada adiantou.
De repente, ela também estava na sacada. Viu a amiga passar por ela rapidamente. Encarou , que olhava para trás de seus ombros e virou.
- Não! – eles gritaram juntos.
Mas foram ignorados. fechou a porta da sacada, passando o trinco interno. A amiga arregalou os olhos, surpresa, e foi até a porta e começou a dar socos.
- , abra isso! Pare de criancice!
- Vocês dois estão como duas crianças – escutou o grito da amiga e viu ela dando ombros – Então, vão ser tratados como crianças. Só sairão daí quando resolverem os problemas de vocês. Quero um beijo muito apaixonado no fim e casamento marcado. – ela sorriu, vendo dar um dedo de meio.
- Vai se foder! – gritou, chutando a parede.
Quarenta e seis minutos depois, eles estavam compartilhando um belíssimo silêncio. estava tentando dormir, debruçado na cadeira, depois do celular terminar a bateria. , que até então tinha se jogado no chão, levantou.
- Vou chutar a porra desse vidro até ele quebrar! – gritou, raivosa – Vou derrubar essa porta! Vou sair daqui, com sua ajuda ou não. !
- Você não tem dinheiro para pagar um vidro novo. Ou, pior, uma porta nova. – sussurrou. – Só fique quieta. Mais algumas horas e minha prima ficará com coração mole e nos tirará daqui.
- Horas? – bufou, escorrendo de volta até o chão.

*

- Você não vai soltá-los? – perguntou, descendo as escadas.
Ele tinha acabado de tomar banho, os cabelos ainda molhados. Gotículas de água deslizavam pelo seu tronco nu. Ele só vestia uma calça jeans.
- Você não vai vestir uma camisa? – rebateu ela, sorrindo.
- Por quê? Você adora me ver sem. – ele deu de ombros, sentando do lado dela, bem próximo, as peles quase se encostando. – Aliás, para você, quanto menos roupa melhor.
A semana tinha sido assim. e ficavam sozinhos e o homem se despia, sorria encantadoramente, piscava os olhos sedutores, tocava nela o máximo possível. Por muitos momentos naqueles dias eles tinham se perdido entre os olhares. mordiscava os lábios, lambia-os e ela só o imaginava fazendo aquilo nos dela.
A cena da festa da fantasia, da aproximação, da tensão, do tesão, era viva na mente dos dois. Eles reviviam o quase beijo em suas cabeças, desejando que ele tivesse de fato acontecido. Que as bocas dos dois tivessem se conhecido. Eles sabiam que seria delicioso.
- Ei. – exclamou, entrando em casa. Sua aparência estava arrasada. – Estou cansado, vou passar o filme hoje. Cair direto na cama. – ele sorriu, aproximando-se dos dois – Eu ia ser vela de qualquer jeito. – deu um beijo na amiga sorridente – Oi minha favorita roommate. E tchau. – acenou com a mão e subiu as escadas. Então, virou-se, lembrando do outro casal. – Os dois estão se pegando?
- Ainda não, mas cuidei para que isso aconteça. – falou, piscando o olho.
- Ok. – o amigo riu – Você me contará tudo amanhã no café. – e saiu de vez.
- Então, vamos assistir um filme enquanto esperamos ansiosamente os gemidos do casal vinte ou produziremos nossos próprios ruídos? – inquiriu, direto, fazendo a mulher rir.
A opção escolhida foi a do filme e, enquanto ele passava, buscava qualquer desculpa para tocar . No braço, no pescoço, nas pernas. Ela sentia a pele aquecer, arrepiar, tremer. Ela tentava respirar fundo, mas então ele soltava:
- É muita tentação, amor? – e deslizava uma mão despretensiosa pela lateral do corpo da mulher.
Ela lutava para não arfar. Queria gritar: sim! Muita tentação! E agarrá-lo loucamente. Tirar aquela calça que tampava muito e estava lhe incomodando cada vez mais. Mas ela apontava para o filme, soltava qualquer adjetivo e fingia-se interessada. Sabia que não caia no teatro, mas funcionava.
Até que o filme entrou em um intervalo e resolver pegar o controle, que estava do lado de . Em vez de pedir, ele simplesmente se jogou em cima dela, esticando-se para alcançar o objeto. Todo os seus músculos descobertos ficaram ressaltados. Ela pendeu seu olhar para seus braços e então seu tórax e costas. Não conseguia desviar seus olhos daquela perdição.
Então, fez o óbvio. O tirou dali e o empurrou, afastando-se o máximo possível dele.
- Não faça isso. – murmurou a mulher, passando as mãos pelo rosto e pescoço.
- Isso o que? – inquiriu , sorrindo de lado, se divertindo com o desespero da mulher.
- Ser charmoso comigo. Não fique me encarando com esses olhos azuis incríveis. Nem pisque eles lentamente como um personagem de desenho animado. – suspirou – E, por favor, dá para não umedecer os lábios? Pode parar com tudo isso – apontou para a cara dele.
- . – ele a chamou, baixinho. – Não resista.
Não resistindo ao confinamento na sacada estava . Estava odiando aquela situação. Estava morrendo de vontade de ir ao banheiro, mas esse era o menor de seus problemas. Ficar ali com estava deixando aquele lugar menor do que era. Embora fosse aberto e arejado, para ela parecia cada vez mais sufocante.
- , o que há de errado conosco? – se viu perguntando.
O homem, que estava deitado, percebeu o tom reflexivo da mulher. Suspirou, sentando-se lentamente. Logo, a encarou. Ela estava desconfortável e nervosa, mas, ainda sim, tão linda. Ele se esquecia do resto do mundo ao olhá-la. Mas, atualmente, somente lembrar-se dela não o deixava puramente feliz. Afinal, todos os problemas dos dois vinham junto.
- Eu nunca admiti isso, nem para mim mesmo, mas sei exatamente o que há de errado entre nós. – mexeu nos cabelos – Estamos em níveis diferentes no nosso relacionamento.
- Mas nós concordamos em manter casual. – ela argumentou - Nós conversamos sobre isso depois de nossa primeira vez e você gostou. Eu gostei. Estávamos satisfeitos. O que mudou?
- A vida, . A gente. Tudo muda. A única coisa que permanece é a mudança. – ele fechou os olhos e respirou fundo – Naquela época, era uma ideia maravilhosa. Funcionou por muito tempo. Tivemos ótimos momentos. Só não podemos mais repetir.
- Por quê?
- Já expliquei – respondeu, somente.
- Mas eu gosto de você. – ela afirmou, levantando-se e aproximando-se do homem.
- Gostar não é o problema. Acredite em mim. – riu, amargo.
- Além disso, - continuou – não conseguimos ficar longe um do outro. Há um imã imaginário que nos une sempre. Às vezes eu me pego pensando o quanto eu gostaria de estar do seu lado e, de repente, nós estamos juntos.
- Você também sente isso, é? – Ele sorriu. Depois, fechou a cara. – Acho que vamos ter algumas recaídas, sim, mas é algo que o tempo dará um jeito. Daqui a uns anos, não vamos mais nos sentir assim. O desejo vai se esvair. E vamos rir dessa situação toda.
- Não sei se quero rir. Não sei se quero me sentir assim. – ela suspirou – Gosto de desejar você. Gosto de ficar com você. – ela sorriu e segurou o pescoço dele, tentando aproximar suas bocas.
Ele quase se perdeu. Mas resistiu. Pulou para longe. Passou a mão pelos cabelos novamente, bagunçando-os completamente. Então riu, amargurado.
- , você precisa entender. Isso não é uma briguinha qualquer entre nós que algumas palavras e um quente amasso irão resolver. – bufou - Eu não posso fazer isso. Simplesmente não posso mais. – gesticulou com as mãos - Nós dois. Não posso mais fingir que não me importo, que esse lance casual é bom o bastante pra mim.
- Mas... – começou ela, se perdendo nas palavras. Sacudiu a cabeça, tentando organizar a confusão que aquelas palavras trouxeram.
- Não me venha com o papo de que combinamos isso. Combinamos isso? Sim. Não me importa. Eu podia ter assinado um contrato, teria que quebrá-lo. Não dá. – ele rangeu, raivoso – Infelizmente não dá pra controlar essa merda que está acontecendo aqui. – ele apontou para o coração. Então desviou os olhos, envergonhado.
- . – chamou ela, vendo-o abanar a mão.
- Deixa eu terminar, por favor. Deixa eu soltar toda essa merda que eu venho guardando comigo tanto tempo. – suspirou antes de continuar – Você é imprevisível, mulher. Me confunde. – ele riu, amargo – Eu quero algo e às vezes parece que você quer a mesma coisa. Então, no outro dia, você simplesmente não quer. – respirou fundo e a encarou - Você me deixa louco, . E isso é bom. – assentiu - Eu só queria ter um pouco de sanidade de vez em quando. Queria poder ter você pra mim. Só pra mim. E queria ser seu. Mas você não me acha suficiente.
- , isso não é verdade! Você é maravilhoso, é especial. Nossos momentos são inesquecíveis, incomparáveis...
- Então namore comigo. – ele a interrompeu.
- O que?
- Eu quero ter algo sério com você. Namore comigo, .
Um silêncio se instalou. Ela o encarou, os olhos arregalados, a boca escancarada de surpresa. Ele a observava de volta, o peito subindo e descendo fortemente, as pernas e braços tremendo de nervoso. Os corações dos dois batiam forte. Tantas confissões foram feitas ali. Os sentimentos flutuavam. Em especial, o pedido final de se repetia constantemente nos ouvidos dos dois.
Era agora ou nunca.
- Eu... – começou ela, respirando com dificuldade – , eu sinto muito. Eu não posso.
Pois que seja nunca.



VIII. Na Escuridão dos Sentimentos

- Eu sinto como se meu cérebro explodisse toda vez que saio dessa aula – a amiga de classe falou para , rindo em seguida.
sorriu para a amiga, antes de desviar o olhar. Então, quase tropeçou no degrau. Ele estava lá, no fim da escada que elas desciam. A amiga continuava a falar, mas a mulher não ouvia mais. Antes de uma respiração profunda, já estava do seu lado.
Ele cumprimentou a amiga de e logo ela se despediu do casal. mexeu no cabelo, desconfortável. Depois da briga, há quase uma semana, ela mal tinha visto . Nas aulas que ambos tinham juntos, ele sentava o mais longe dela e saia como um raio.
Esse seria um típico dia que ele daria carona à mulher, porque as aulas de ambos se estendiam até tarde da noite. Mas as caronas também não estavam mais funcionando. No primeiro dia depois do fatídico acontecimento, ainda ligou para ela perguntando se ela queria que passassem na casa dela, mas ela deu qualquer desculpa e eles não voltaram a ligar.
Mas hoje ele estava lá. As mãos nos bolsos da calça, o pé escorado na parede.
- Está chovendo. Pensei em te levar em casa. – exclamou ele, dispensando os cumprimentos.
- Obrigada, . Mas eu tenho guarda-chuva. – ela girou a mochila, tirando-a de suas costas e começando a procurar o objeto. Era uma desculpa perfeita para não precisar olhá-lo.
- Está caindo o mundo lá fora. – apontou para a janela escura e ela olhou rapidamente, antes de dar de ombros.
- Eu pego um táxi. Mas obrigada de novo. – falou, já ameaçando correr dali.
- , pare. – ele segurou seu pulso. – Só... – suspirou – vamos.
Eles seguiram lado a lado até o carro, a chuva os molhando no pequeno trajeto descoberto. Se jogaram no quentinho e seco carro rapidamente e respiraram fundo. O rádio manteve-se desligado e o silêncio tenso inundou o pequeno espaço, sufocando ambos.
Os dedos dos dois se tocaram quando ambos tentaram, ao mesmo tempo, ligar a música. O toque inesperado gerou um tremor que atingiu os dois, fazendo-os recolher as mãos rapidamente. guardou-a no braço do casaco e virou a cabeça para a janela, notando finalmente batidas de som ecoarem no carro.
Nesse momento, eles observaram a cidade se apagar completamente. Cada luz que saia das casas e apartamentos pelas janelas se esvaiu. Toda a claridade tão característica dos dias atuais simplesmente sumira. Tudo, de repente, tornara-se um breu.
Engraçado foi a analogia que a mente de fez. Ela pensou instantaneamente em sua vida e a dividiu em dois pontos. Antes, a claridade, a vida normal, feliz, em linha visível. Agora, a escuridão. Que chegou quarta-feira, depois de muitos minutos trancada com . Depois da conversa. Depois do pedido. Tudo em sua mente se tornou confuso e ela simplesmente sentia-se perdida.
Mas pensou em outra coisa e logo falou, com os olhos arregalados:
- Você viu isso? – inquiriu retoricamente – Ataque alienígena! Eu assisti a um vídeo que dizia que a falta de energia elétrica era a primeira...
- . – riu, desdenhando de suas palavras.
- Ei, é muita pretensão achar que estamos sozinhos na Via Láctea.
- Sim. Mas é muita ilusão achar que suspostamente seremos atacados como Holywood diz. – ela bufou – De qualquer jeito, está chovendo muito. Um apagão é comum nesses casos.
- Bem, é. – concordou, suspirando – Mas minha hipótese era bem mais legal.
Virando a rua, o rapaz teve que pisar abruptamente no freio. O engarrafamento para pegar a ponte que ligava as duas partes da cidade se mostrava grande. Em alguns minutos, eles perceberam que aquelas dezenas de carros não andavam. Estavam completamente parados, alguns deles até com seus motores desligados.
xingou. Ele oferecera uma carona a , porque a educação e o carinho por ela exigiram, mas se soubesse que passariam por toda aquela situação, teria ignorado sua cabeça e simplesmente saído sozinho. Ficar minutos, até horas com ela, era tudo que ele não queria. E, ao mesmo tempo, tudo que ele queria.
Afinal, ele estava disposto a namorar aquela mulher. Ele, pouco tempo antes, havia se declarado para ela. Falado como ele era louco por ela, como a queria, como tê-la superficialmente não era suficiente. Mas viu se assustar, se afastar e, finalmente, dispensá-lo. E então ele fez o mesmo. Porque se ferir uma vez já era suficiente.
Mas lá estava ele. Ao lado dela. Seu corpo, seu coração a querendo como nunca, enquanto ela fazia sua adorável feição de assustada. Seu cérebro enviando lembranças de que ela tinha acabado com ele, que dias antes ele chorava por ela. Era uma antítese de sentimentos entre os dois e também dentro de si mesmo.
No ímpeto, ele abriu a porta do carro e saiu. Ainda escutou uma surpresa gritar, perguntando que loucura ele estava fazendo. a ignorou, simplesmente precisava sair dali. Até mesmo os pingos cortantes e frios de chuva eram melhores.
Andou rapidamente, a cabeça baixa para proteger-se da chuva. A maioria do pessoal preso no trânsito continuava no carro. Mexiam no celular, conversavam, escutavam música. De maneira geral, estavam bem confortáveis, sem cinto, os pés para o alto. viu até um motorista dormindo. Ninguém buzinando, o que ele estranhou.
Alguns tiveram a coragem de enfrentar a tempestade e por vezes esbarravam no rapaz. Um desses, no entanto, tocou em , chamando-lhe atenção. Observando, viu que o senhor estava completamente encharcado. Ele devia estar do mesmo jeito, já que sentia o casaco pesar em seus ombros.
- Houve um acidente no meio da ponte. – ele gritava, ultrapassando o barulho da chuva – Grave. Os carros envolvidos cruzaram a pista. Há bombeiros, policiais e vários feridos. E, bem, está tudo interditado. Sem previsão para abrir. – avisou, andando em seguida.
- Obrigada. – agradeceu, já sozinho, suspirando em seguida.
Ponderou por um segundo o que fazer, girando 360 graus e notando o cenário, mas sentindo a água em sua pele e o frio lhe abraçando, ele resolveu voltar para o carro, correndo. Assim que avistou a porta preta, abriu, se jogando no banco. Logo começou a receber tapas no braço. Esbugalhou os olhos, pensando ter entrado no carro errado, mas, virando o rosto, visualizou os olhos raivosos de .
- Está doendo. – ele exclamou, tentando afastar as mãos da mulher do corpo dele.
- Porque me deixou sozinha?
- Sem drama, . Só fui ver o que estava acontecendo.
- Não é drama, merda! – ela bufou – Você sai como um louco, do nada. Eu não sei se você está passando mal ou o quê. E para completar você me deixa aqui, sozinha. Na quase escuridão, durante uma tempestade.
- Desculpe. – suspirou, desviando o olhar do dela. Ele fora impulsivo, tentando retirar a loucura de sua cabeça, que se esquecera de pensar o que aquilo significaria para ela. – Eu fui só ver o porquê do trânsito. – então lhe explicou a situação, repassando as informações que a pouco recebera.
assentia, tentando-se mostrar prática, mas a conhecia como ninguém. Viu quando ela esfregou as mãos uma na outra e depois nas coxas. Viu quando mordeu o lábio inferior e adquiriu um olhar perdido. Ele sabia que ela estava nervosa e se sentia desconfortável com a situação. E eram sentimentos recíprocos.
Harry não pode deixar de pensar “e se”... E se a discussão não tivesse ocorrido? E se ele tivesse parado a mesma, antes de exclamar tudo que guardava lá no fundo há tanto tempo?
não pode deixar de pensar “e se”... E se tivesse explicado melhor para Harry como se sentia? E se tivesse tido outra reação que não a de ficar paralisada, depois de escutá-lo? E se – e essa hipótese tinha passado na cabeça dela milhares de vezes naqueles dias – ela tivesse dito sim?
O barulho das notas musicais ainda ressoava no carro, mas ele já não era suficiente. As mentes já falavam muito mais alto. E, de repente, soltou:
- Não podemos ficar horas aqui, assim. Vamos enlouquecer.
- É. – ponderou, antes de abrir a porta – Vamos cometer alguma loucura. Juntos. – ele levantou a sobrancelha, em desafio e ela arregalou os olhos, a porta se abrindo em confirmação.
Eles saltaram do carro e correu até o rapaz, rindo.
- Vamos ficar ensopados! – ela comentou, embora não aparentasse estar realmente preocupada.
a puxou pelo pulso, arrastando-a entre os carros. Próxima parada: o bar de estrada logo à frente.

*

Depois de uma batalha para encontrar pilhas, finalmente as colocou na lanterna e soltou um gritinho quando viu a luz acender. Na escuridão por muitos minutos, ela já tinha batido o dedo do pé na escada e no sofá. Aliás, subir a escada foi uma aventura.
Um barulho, em meio aos trovões, se fez presente. Não eram mais que ruídos, mas diante do silêncio de até então, a mulher parou, esbugalhando os olhos. Prestando mais atenção, ela viu que vinha da sala, no andar de baixo. Alguém – ou alguma coisa – tentava arrombar a porta.
olhou em volta ao corredor, procurando algo pesado que pudesse servir de arma, mas nada encontrou. Resolveu, então, ir a cozinha para pegar uma faca. Talvez o rolo de macarrão, porque lhe faltaria coragem para usar o objeto pontiagudo.
Iluminando os degraus, ela desceu lentamente, fazendo o menor barulho possível. O arrombador, por outro lado, não se preocupava com a farfalhar do metal. Já no primeiro andar, ela sentiu o ruído mudar e paralisou novamente. Agora, a chuva parecia mais forte, como se tivesse dentro da casa. A porta batendo confirmou que havia alguém com ela na casa.
Apertou o botão da lanterna rapidamente, escondendo sua localização. Ela não podia mais enxergar, mas o estranho tampouco. Não podia mostrar-se onde estava tão facilmente, embora a ideia de pegar uma arma na cozinha estivesse totalmente descartada agora. Então, tomou a decisão mais sensata. Simplesmente esperou.
Ela escutou alguns ruídos e, pelos murmúrios baixos que vinham em seguida, parecia que o ladrão não era tão bom no escuro, não conseguindo se guiar sem bater nos móveis da sala.
Seguiram-se uns instantes de silêncio absoluto e tremeu, travando a respiração, o nervosismo saindo por cada poro de seu corpo. Então, sentiu algo se chocar com ela de frente e ela pendeu no ar, perdendo o equilíbrio. Seu braço ainda tentou encontrar o corrimão, mas a escuridão não permitia. Segurando a lanterna com força em sua mão, arfou, esperando a queda.
E ela veio. A mulher caiu sentada, a bunda batendo no chão duro. Ela gemeu e o estranho começou a rir. , ainda em posse da lanterna, a ligou e apontou para o invasor. Se aquilo não se tornasse um latrocínio, ela poderia descrevê-lo, afinal.
Mas só iluminou um risonho . Estava com os cabelos para trás, emaranhados e bem molhados, mas ainda sim era ele. A mulher bufou, sentindo o alívio inundar seu corpo. Mas, bom, assim que adrenalina se foi, a dor da queda chegou.
O rapaz abaixou-se, colocando as mãos na cintura da amiga e a ajudando a levantar, ainda rindo de toda a situação. Ela lhe deu um tapa no braço e forçou uma cara de brava, mas logo fez uma careta:
- Minha bunda dói. – reclamou, passando a mão no local em uma tentativa de aliviar a dor. – Vai ficar roxo.
- Deixe-me ver. – pediu ele, sério. Ela negou com a cabeça. – Eu posso fazer massagem, . – exclamou, abrindo um sorriso de lado. bufou e levou a lanterna acesa novamente para o rosto dele. – Acho que isso é um não.
- Acertou em cheio. – confirmou ela – Você me assustou, pensava que alguém estava arrombando a casa.
- Bem, eu moro aqui. – ele deu de ombros – Vou tomar um banho, colocar uma roupa seca e...
Um grunhido foi ouvido, interrompendo , e pulou de susto, se aproximando do rapaz. Ele segurou sua cintura, tentando estabilizá-la. Então, riu.
- É só o gato do vizinho, . Ele odeia trovões. – explicou ele, passando uma de suas mãos pelo braço da garota carinhosamente.
- Bem, eu também odeio trovões, mas nem por isso fico assustando os outros. – replicou a mulher, dando de ombros.
soltou uma risada. Então, olhou para a mulher, tão próxima dele. Sua mão deslizou do seu braço para seu pescoço e ele sentiu a pele macia dela. Desviou seu olhar para a boca entreaberta e reparou que ela fazia o mesmo, observando os olhos dele e a boca alternadamente.
Dessa vez, no entanto, não se afastou do rapaz. Ao contrário, abraçou-o pelo pescoço e acabou com a distância entre os dois, colando os corpos. Lentamente, aproximou os lábios dela dos dele e encostou-os de leve. Então, ousada, mordeu o lábio inferior dele, ouvindo soltar um gemido em resposta.
Ela soltou uma risada, sentindo-se poderosa, e ele logo lhe puxou sua cintura, jogando-a na parada mais próxima. ofegou, sentindo os lábios de em seu pescoço e subindo. Finalmente, a boca. Agora, a língua dele avançou, ansioso por sentir o gosto da mulher. Ela fez o mesmo, enquanto afogava as mãos no cabelo dele.
Não era calmo, era rápido, louco, insano. As mãos nada bobas exploravam o corpo um do outro, as línguas se descobriam. Arfavam e grudavam-se ainda mais.
puxou um das pernas da mulher para sua cintura, segurando a parte de trás da coxa e apertando-a. Ela gemeu e jogou a outra perna para cima, cruzando as duas nas costas do homem. Foi a desculpa perfeita para ele segurar sua bunda.
O barulho da porta, no entanto, quebrou a bolha dos dois. Eles pararam de se beijar e, agarrados um no outro carinhosamente, ficaram atentos nos ruídos. Logo, soltou , a colocando de pé no chão, escorada na parede.
- Algum dos garotos chegou. – ele sussurrou baixo, mexendo nos cabelos em frustração.
Ela bufou, não reprimindo o descontentamento de ser interrompida. Depois, concentrou-se em ajeitar a roupa, que estava bem amassada e fora do lugar. lhe chamou atenção, entregando-lhe a lanterna, que até então se encontrava no chão. Com toda a aventura a dois, o objeto fora jogado de qualquer jeito e, como constatara ao apertar o botão, era um milagre que ainda funcionasse.
- Ei, Luz, venha até mim. – a voz de ecoou no ambiente – Estou no escuro. sorriu e iluminou o amigo. A essa altura, já estava afastado da mulher. – Uou. Agora me deixou cego.
- Vou tomar um banho. – exclamou somente para a mulher – Pode deixar que me guio sozinho.
Embora ela não pudesse ver mais do que uma silhueta, sentiu quando ele saiu dali e foi para as escadas. andou para o lado contrário, indo até a porta, onde estava.
- Quem é, oh ser das lanternas? – proferiu, brincalhão.
- , tigrão. – jogou a luz em seu rosto, confirmando.
- É tão bom te ver. – ele a abraçou – Foi tão triste, . – choramingou – Não gosto de tempestades. – fez uma careta.
- Oh, . Está tudo bem agora. – fez um carinho no amigo – Você está seguro e... – apalpou os braços cobertos pelo casaco – encharcado. Tire essa roupa ou você vai ficar dodói.
O rapaz obedeceu, retirando o casaco, a blusa e a calça. Ele estava completamente molhado, como se tivesse tomado banho vestido. Considerou retirar a cueca, porque ela também fora uma vítima, mas achou melhor mantê-la. Por conta da escuridão, era importante garantir mínima proteção ao seu garotão. Aliás, mostrá-lo naquele frio era praticamente propaganda enganosa.
, no entanto, mal olhou uma segunda vez. Cruzou seu braço livre com o dele e foram juntos até a cozinha, o caminho sendo iluminado pela lanterna. Chegando lá, a mulher passou a lanterna para que, apoiado na bancada, a apontou para os lugares indicados por .
A mesma tinha decidido esquentar uma água para o banho do amigo. Com os chuveiros elétricos e a pele fria de , ela sentira pena dele. A voz manhosa e o biquinho de criança tampouco ajudavam. Então, lá estava ela no fogão, enquanto brincava com os dedos e a sombra provocada na luz da lanterna.
- É uma gaivota. – arriscou, vendo a sombra nos azulejos a sua frente.
- Uma gaivota de lado, ? – replicou um debochado.
- Ei, lembre-se que estou esquentando água pra você, tigrão. Modos.
- Desculpe. – murmurou – Mas você é péssima nisso, minha linda. É uma estrela pela metade, obviamente.
- Ah, claro, como pude não ver isso? – retrucou, irônica. – Não se faz coisas pela metade, !
- O que está rolando? – uma voz vinda de fora da cozinha perguntou. . logo virou a luz para o amigo. – É comida?
- Não, a está preparando a água para o meu banho – sorriu forçadamente.
- E você devia estar iluminando quem está perto do fogo. – ele voltou a posição inicial – Obrigada.
- Quer dizer que eu tive que tomar um banho assustadoramente frio, mas para o tem água quente? – resmungou .
- Ih, , está com ciuminho? – inquiriu , rindo. Aproximou-se da garota e a abraçou pelas costas – Ela é minha garota.
bufou, revirando os olhos.
- Cadê suas roupas, cara? – perguntou , vendo o amigo só de cueca.
- Posso te perguntar a mesma coisa. – desviou a lanterna para ele novamente – Senhor Só Ando de Cueca.
- E faça-se a luz! – reclamou e logo a atendeu.
- Bem, estou na minha casa, certo? Posso ficar a vontade. – se justificou, dando de ombros.
- Faço das suas palavras as minhas. Embora ache que você não devia trajar só isso enquanto estiver conosco. Sabe, é um tanto desrespeitoso...
- Engraçado você falar isso, querido. – o interrompeu, sarcástico – Já que, oh, você está tão vestido quanto eu.
- Ah, . – o amigo revirou os olhos – Mas é diferente. Eu sou eu. As garotas adoram me ver sem roupa. Quanto menos peças me cobrindo, melhor. – sorriu, malicioso. – É a vida.
- Eu não gosto, tigrão. – afirmou, mas respondeu tão rapidamente , que as palavras da mulher foram esquecidas:
- Bem, garanto que as mulheres também se sentem assim comigo. Principalmente . Talvez eu estivesse com menos que isso – apontou para a cueca – se você não...
- ! – a mulher gritou, o repreendendo com o olhar.
os encarou, meio perdido na troca de olhares. Vendo que nada mais sairia dali e que o assunto estava morto, ele decidiu contar a aventura da noite:
- Vocês não sabem o quanto sofri hoje, amigos. – ele suspirou. – Estava eu andando pelo centro tranquilamente, depois que sai da faculdade. Do nada, começou a chover muito. Eu peguei meu lindo guarda-chuva dos Vingadores e o abri. Saudades guarda-chuva. – fez um beicinho de chateado – Porque estava ventando muito e o pior aconteceu: o guarda-chuva virou ao contrário em meio a ventania. Eu tentei segurá-lo, mas foi pior. Então, ele simplesmente arrebentou uma parte e voou. – ele bufou – Era uma porcaria de guarda-chuva, mas eu tinha sentimentos por ele.
- Eu compro outro guarda-chuva igualzinho para você, Tigrão.
- Obrigada, minha linda. – ele sorriu genuinamente para a amiga, animado.
- ! – brandeou . – Ele tem mais de vinte anos na cara. Ele consegue comprar seus próprios guarda-chuvas.
- Respeite a dor, . – exclamou, abanando a cabeça – Depois de eu praticamente dançar tentando recuperar meu lindo e falecido objeto, eu segurei o choro e continuei o caminho, sentindo os fortes pingos de chuva em minha cabeça. Eu abaixei a mesma, tentando me proteger, e, por isso, não vi meu possível futuro. – ele esbugalhou os olhos – Do meu lado, uma poça d’ água. Na rua, um carro vindo exatamente para a minha direção. Pronto. Um minuto depois eu estava completamente ensopado.
- Todos já passamos por isso na vida. – afirmou. , entretanto, teve outra reação:
- Tadinho de você, . – a amiga abraçou-lhe e ele forçou o bico. – Mas agora podemos tomar um banho gostoso e quentinho. Vamos?
- Sim. – ele concordou, levantando-se – Talvez você tenha que me esfregar, sabe. Sinto minhas mãos muito duras, acho que pelo frio.
Vendo a mulher assentir, considerando as palavras de , enquanto ambos saiam da cozinha, só pode exclamar:
- É sério isso?
Mas foi completamente ignorado.

*

O bar de beira de estrada era bem simples. As cadeiras e mesas enferrujadas, a pintura das paredes descascada, um cheiro de mofo no ambiente. Mas, comparado à tempestade e ao frio no exterior, pareceu perfeito para o casal.
Eles se sentaram em uma mesa e pediram cerveja. Foi uma surpresa quando viram o copo de chope preenchido com uma cerveja artesanal. E a descoberta, assim como o gosto, foi aprovada por eles, que se serviram de muitas outras doses durante a noite.
O bar estava cheio quando entraram, sendo preenchido pelos vários motoristas parados no trânsito da ponte. Os minutos se passaram, no entanto, e ele foi se esvaziando. Duas horas depois, ele já estava praticamente vazio. Mas e ainda estavam lá, na mesma mesa, com diferentes copos.
- Não gosto de você. – soltou raivoso, do nada, a voz se enrolando pelo álcool. – Você me largou.
bufou, desviando o olhar para a janela. Viu a noite mais escura que o normal, sem as típicas luzes dos postes e das casas longe, por conta do apagão. Poucas eram as exceções, clarões na escuridão, lugares como o bar, com luz de emergência.
Balançando a cabeça e escutando os murmúrios bêbados de , ela notou que praticamente todo o álcool daquele bar não seria suficiente para dar a ela alguns momentos de paz com seus próprios pensamentos. Talvez desse a ela uma bela enxaqueca, mas não mais que isso. , a briga, a declaração, tudo ainda estava martelando em sua cabeça.
Levantou-se de supetão, arrependendo-se em seguida. Tudo balançou e ela apoiou-se na mesa, esperando a volta do equilíbrio. Ele não voltou completamente, no entanto. Uma alcoolizada é uma sem qualquer senso de direção ou equilíbrio. E, como ironia, é também uma cheia de vontade de dançar.
- Está tudo bem, ? – ergueu-se prontamente, acudindo a mulher. A bebida mexia com o emocional do rapaz, mas seus sentidos ainda eram bons. Tocou-lhe um dos braços e as costas, tentando ajudá-la, mas ela recuou.
- Nunca estive melhor! – forçou a mulher, com um sorriso abobalhado e os olhos esbugalhados. – Vou dançar.
Ela colocou as mãos para o alto, animada e andou até um espaço vazio perto do jukebox, que ela considerou uma pista de dança improvisada. tampouco tinha sido convidado para lhe fazer companhia, mas ele conhecia suficientemente bem para saber que ela precisava de alguém perto numa hora dessas. Se não para apará-la numa perda de equilíbrio, que fosse para acompanhá-la no mico que pagava.
A mulher escolheu a única música da Britney disponível e começou, concentrando-se, enquanto as primeiras batidas soavam. E, como previa, seus passos foram ridículos. Mexia os braços de qualquer jeito, tentando coordená-los junto com o quadril, mas sem conseguir. Os pés andavam para frente e para trás, para um lado e depois outro, mas as pernas se cruzavam e se atrapalhavam.
Ela quase caiu diversas vezes e estava sempre lá para segurá-la. Então ela sorria, boba, enquanto ele soltava boas risadas. Ele tinha certeza que para todos aqueles passos pareciam muito bem executados, mas na verdade era um algo muito estranho, louco e desiquilibrado.
Apesar de tudo, ele adorava. E não porque de vez em quando a mulher lhe abraçava pelo pescoço e se aconchegava no peito dele. Não, embora ele também amasse tê-la daquele jeito, tão perto. Mas era, sobretudo, porque ali estava a verdadeira . Sem receios, sem dúvidas, sem máscaras, só a sorridente, hedonista e divertida garota.
E não sabia se aquilo lhe fazia se sentir melhor ou pior. Ele, todavia, não podia negar um fato: que fazia ele sentir. E sentir é, afinal, o que faz a vida fazer a pena, não?
- Eu gosto de você. – ele exclamou, amargurado, no ouvido da mulher. – E você me largou.

*
Quem estava largada no sofá era . Depois das emoções da noite na escuridão, a madrugada chegara e desejara boa noite, um tempo depois do também se despedir. Então, a mulher aconchegou-se no sofá, afofando seu travesseiro e ajeitando a coberta, enquanto tentava em vão enxergar qualquer coisa se não o preto.
Decidiu fechar os olhos, já que não fazia qualquer diferença mantê-los abertos, e dormir. Inspirou profundamente e logo escutou um barulho estranho. Aprumou os ouvidos, mas nada mais escutou. Esforçou-se para não ficar nervosa, recordando as palavras e as risadas de mais cedo. Não era nada. Seria algum barulho na rua, decorrente da tempestade que não parava e da falta de luz, mas nada mais que isso. Não é nada, ela repetia internamente.
Mas era alguma coisa. Ou melhor, alguém. E ela sentiu quando esse alguém a agarrou pela cintura e pousou os lábios em seu pescoço. Ela gritou e se afastando, caindo no chão da sala no processo. Enquanto arfava, seus níveis de adrenalina e medo subindo, ela escutou uma risada já conhecida.
- Isso tudo é medo de se perder em meu corpo? – ele exclamou, com um sorriso malicioso.
- Porra, . – sentou no chão, resmungando com o amigo-que-deu-uns-beijos-algumas-horas-atrás. – Que merda você está fazendo aqui?
- Vim aqui pra gente continuar nosso amasso. – ele falou, como se fosse óbvio.
A mulher bufou, pelas palavras do rapaz e pelo cobertor que se enganchara em seu pé e a atrapalhava. Deixou-o sem resposta, até que conseguiu desfazer a confusão e novamente deitou na sua cama. Então, jogou a almofada mais próxima na cara de e falou:
- Vai embora, quero dormir. – e virou seu corpo, afundando o rosto na costura do sofá.

*

- Eu amo essa música! – gritou, levantando-se da cadeira em que estava.
Dessa vez, ela se apoiou e, sem acidentes, sorriu. Então, começou a cantar, fazendo poses e caretas exageradas, fingindo-se cantora em um show. gargalhou.
- Como é? – perguntou, reparando que o refrão saíra bem estranho e diferente da canção original do Survivor.
- It’s the eye of the tiger, it’s the cream of the fight! – gritou ela em seu ouvido.
- Creme, ? – ele soltou uma risada – É uma mensagem de como é importante passar uma pomada para lutar ou o quê? – brincou .
- Eu tenho certeza! – retrucou ela, depois de dar o dedo do meio para o amigo. – O que é, então?
- Emoção. – o refrão logo retornou e ele cantou junto, mostrando a mulher. – It’s the eye of the tiger, it’s the thrill – deu ênfase na palavra – of the fight.
- Você canta muito mal, . – ela afirmou, puxando o rapaz pelos ombros.
Tão rapidamente, a distância entre eles se dissolveu. O som, as pessoas, o bar, o mundo pareceram fazer a mesma coisa. Novamente, estavam a sós, com as respirações se misturando, as bocas tão próximas.
Elas se grudaram quase sozinhas. Os lábios conhecidos se moldaram, trabalhando junto nos movimentos, as línguas entraram, ansiosas. agarrou a mulher pela cintura com a necessidade nada extraordinária de tocar sua pele. Ela, por sua vez, agarrou o pescoço dele, deslizando as unhas pela região.
Em reação, ele mordeu o lábio da mulher e suspirou. Ela voltou a beijá-lo, primeiro um selinho, depois aprofundou. Um ato tão normal para o casal, mas ainda sim diferente a cada ocasião. O mesmo perfeito encaixe, a mesma loucura, o mesmo insaciável prazer, porém um beijo como nenhum outro. A cada vez, os detalhes mudavam tudo.
deslizou os lábios pelo pescoço da mulher, mordendo ali e escutando um gemido em resposta. Então, beijou o local. Desceu para o colo. Vendo-o descoberto toda à noite, ansiava por tocar ali, sentir o cheiro e sabor. E fez. jogou a cabeça para traz e suspirou, aproveitando o carinho. Soltou um muxoxo em protesto, quando sentiu os lábios do homem longe de sua pele. Mas logo eles se encontraram com seus lábios e tudo estava bem de novo.
Ainda se beijando, o rapaz abraçou a mulher pela cintura e, lentamente, eles foram caminhando, saindo do bar. quase esqueceu, mas deixou uma nota de cinquenta na mesa antes de abrir a porta e sair no escuro da noite especial. Ainda chovia, mas os pingos evaporavam quando chegavam perto do calor do casal.
Tropeçaram no desnível e se separaram para rir. Atravessaram a avenida de mãos dadas, correndo. Não havia mais trânsito e nem carros. Com exceção do carro de lá no canto, a estrada estava completamente deserta. Chegaram rápido até lá e empurrou o homem, o prendendo na porta. Então, foi sua vez de morder o pescoço. Ele arfou, passando a mão pelas costas da mulher, por baixo da blusa e do casaco. Agora, essa peça já não era tão necessária.
E a cada minuto que se passou e a cada beijo e apertão que rolou e a cada suspiro que se soltou, as peças foram sendo desnecessárias uma a uma. Começou devagar, acalentador, carinhoso. Tornou-se louco, forte, insano. Acabou devastador.



IX. Life is a Drind and Love's a Drug

suspirou aliviado, assim que viu que a torradeira estava funcionando. E a geladeira voltara a exercer sua função. Aparentemente, nada havia queimado e do apagão da noite anterior só restara lembranças. Ele tossiu, sentindo a garganta arranhar. Talvez fortes lembranças, pensou.
Resmungou, concentrando-se na cafeteira. Escutou passos se aproximando e, pela ausência do típico barulho da madeira da escada reclamando, presumira que era . Seu corpo se eriçou e as memórias dos dois se beijando invadiu toda sua mente. Ele suspirou, tentando raciocinar.
- Bom dia. – exclamou ela. Ele murmurou qualquer coisa, servindo-se do café. – Sim, , eu quero café. Muito obrigada por oferecer! – ironizou. Ele se limitou a dar de ombros – Que humor maravilhoso o seu. Precisa se afastar um pouco de , ele está te estragando.
- Já estou estragado. – abriu a boca, sua voz saindo rouca. – Fui rejeitado ontem e minha garganta dói. Aliás, eu tenho certeza que se eu não tivesse me arriscado tomando banho frio – dramatizou ele, vendo a mulher revirar os olhos em reação – eu estaria bem de saúde. Mas, bem, sabemos quem é o preferido por aqui, não?
- , você está especialmente chato hoje. – sussurrou , antes de suspirar. – Sinto muito pela garganta. Deixe-me ver. – ele a olhou, negando seu pedido, fazendo bico como uma criança emburrada. Ela arregalou os olhos, assumindo uma postura imperativa. – Abra logo.
Ele bufou, mas obedeceu. Apoiando-se na bancada, ele deslizou um pouco para ficar da altura dela. Então, abriu a boca. A mulher olhou por uns segundos e depois segurou seu queixo, aproximando a boca do rosto dele. Deu-lhe um leve beijo no canto da boca dele antes de falar.
- Tadinho de você. – passou as costas da mão por sua pele, carinhosamente.
Ele abriu um sorriso de lado, avançando suas mãos para a cintura dela e a puxando. sorriu e viu aquele gesto como incentivo para continuar. Então, aproximou as cabeças, os lábios quase se tocando. Quando a mulher pulou.
- Vou preparar um chá de gengibre para sua garganta. Ela está um pouco vermelha.
encarou quando a mesma se afastou para o outro lado da cozinha, pegando uma chaleira. A observou por um instante, tentando entender o porquê daquilo. Aí ouviu o rangido da madeira e entendeu. Logo, apareceu na entrada, a cara amassada, esfregando os olhos de sono.
- Quando eu for presidente proibirei que as pessoas acordem antes das nove.
- , você sabe que isso é uma atitude um tanto autoritária, né? – murmurou, sorridente, enquanto o amigo jogava-se na cadeira mais próxima.
- Você é boba, . As pessoas iam adorar minha proposta. Eu receberia o maior número de votos já visto! – exclamou. – Não acha, ?
O rapaz respondeu somente dando os ombros. Ele estava mal humorado novamente. Pela garganta, pela dupla rejeição em menos de doze horas, pelo empata-foda ao seu lado.
- Alguém acordou irritadinho, hoje. – jogou, provocando. Sendo ignorado, ele mudou de assunto – , no entanto, deve estar bem feliz. Não dormiu em casa. – ele sorriu, malicioso – Ele aproveitou que nenhuma garota conseguia ver sua feiura durante o apagão.
Os amigos riram. A cozinha seguiu-se em silêncio. serviu-se de café e biscoitos, reclamara de como o chá ardia e recebera, como resposta, uma língua de , que tomava seu próprio desjejum.
- Oh, , não te contei! – começou – Ontem eu estava sozinha aqui quando tudo apagou. Eu escutei uns barulhos estranhos e fiquei com medo de uma invasão, mas era só .
- Foi hilário! – interrompeu, rindo – Ela estava tão assustada com meu fantasma que caiu no chão. – esbugalhou os olhos e gargalhou.
- Não foi bem isso. – refutou ela, irritada. – Ele praticamente me empurrou!
- Mentira! – negou ele, fingindo-se transtornado.
- De qualquer jeito – deu de ombros – Foi um belo tombo. – sorriu – Minha bunda dói e está roxa. – forçou uma careta.
- Poxa. Deixe-me ver. – pediu, sério. A mulher negou. – , não seja puritana agora. Já vi sua bunda várias vezes.
- O quê? – perguntou, sem conseguir se conter. A mente dele já imaginava um segredo do passado entre os amigos – Como assim?
- Ué, já a vi de biquíni.
- , você fica olhando para minha bunda? – a mulher perguntou, arregalando os olhos.
- Bem, é difícil não notá-la, . – soltou, rindo em seguida. O tapa que recebeu da amiga no segundo seguinte, no entanto, não foi tão divertido.

*

- !
O rapaz parou no meio do corredor e olhou em volta, em busca do dono da voz que lhe chamava. Mas nem precisou. Na sua frente apareceu uma garota loira, seus olhos grandes demonstrando animação.
- E aí, caloura? Perdida?
- Emily. – retrucou ela. Qualquer outro veterano ficaria chateado, não se importando com o nome da loira. Mas só conseguiu achar a necessidade dela de se identificar adorável.
- Emily. – ele repetiu, prometendo a si mesmo que iria decorar o nome.
- Tudo bem? – Emily sorriu, ajeitando os livros nos braços. Ele se limitou a assentir. – Bom, eu estou com alguma dificuldade em cálculo e queria saber se você poderia me ajudar.
- Dificuldade em cálculo é quase um pleonasmo, Emily – brincou, reforçando o nome dela de propósito. Ela soltou uma risada – Tenho um tempo livre agora, podemos ir para a biblioteca. Só preciso comprar algo pra comer.
- Que ótimo, muito obrigada! – exclamou, ainda sorrindo.
analisou a mulher. Era um sorriso bonito, era um rosto bonito, apesar dos olhos excessivamente grandes. Era bem transparente, também. Via-se que Emily estava ansiosa, um pouco nervosa, mas sobretudo animada, somente a encarando.
- Então, eu vou lá. – comentou , apontando para a cantina da faculdade, já que a garota continuava parada em sua frente.
- Sim, sim, eu te acompanho. – ele concordou e então eles foram andando lado a lado – Você vai a festa sexta? – ela inquiriu.
- Claro! É um pecado perder uma cervejada da produção. – piscou o olho para ela, antes de rir.

dormiu em casa naquela quarta. E quando perguntado por um divertido , durante o café da manhã na quinta-feira, quem fora a azarada, ele mandou o amigo se foder e ficou calado o resto da refeição. Por sorte, foram só alguns minutos e logo os três homens saiam de casa em direção à faculdade.
A hóspede também decidiu sair. Ter pedido o Eletric e ser traída pela própria irmã ainda doía, mas reviver o sofrimento não lhe garantia dinheiro ou comida no fim do dia. Então, ela imprimiu algumas cópias de seu currículo, vestiu-se devidamente e saiu da casa temporária.
rodou pelo centro da cidade e seus bairros adjacentes toda a manhã e parte da tarde. Entrou em escritórios, bares, lojas. Embora ela gostasse de trabalhar em um clube como Eletric, o desespero e a graduação incompleta obrigavam-na que suas opções fossem menos rígidas. Além disso, ela aproveitara a busca e a caminhada para procurar também uma república barata com vagas. Ao fim, pareceu a mulher que era mais fácil encontrar na esquina o Papai Noel do que um emprego ou uma moradia.
Ao voltar para o provisório lar, suspirou, cansada. Enquanto fechava a porta, seus olhos vislumbraram uma mulher desconhecida, sentada em sua cama. Aliás, a cama que de dia era um sofá para as visitas. deixou a bolsa no móvel mais próximo e se aproximou de , também presente:
- Oi. – desviou o olhar para a mulher, vestida com um terninho. – Boa tarde.
- Lisa, essa é . , essa é Lisa, minha irmã. – as apresentou e trocaram beijos na bochecha.
- Então, bem-vinda a cidade? – exclamou, em dúvida do que falar. – É sua primeira vez por aqui?
- Não, não. – Lisa sorriu – Também fiz faculdade aqui, assim como meu irmão. Terminei o curso de direito há quatro anos.
- Exato. Por isso liguei para ela alguns dias atrás e lhe contei sobre a situação do Eletric. – começou o rapaz, cauteloso - Eu sei que não é algo que você queira espalhar para meio mundo, mas Lisa é uma ótima advogada, tem experiência no ramo imobiliário e...
- Tudo bem, . – interrompeu, dando um sorriso de lado.
- Ele me explicou tudo e, pelo que entendi, não foi feito um inventário depois da morte de seu pai, certo? – a mulher assentiu, Lisa continuou – Bem, um inventário é necessário sempre que o falecido tem bens. Se o casamento com sua mãe foi em separação de bens e você e sua irmã são as únicas herdeiras, você tem direito a metade dos seus imóveis. Sendo Eletric o único, cinquenta por certo dele é seu. E você consegue invalidar a venda dele facilmente, porque juridicamente ela é inexistente, já que não há concordância de todas as partes. – ela sorriu antes de concluir – Basta que peçamos para o juiz responsável abrir o inventário e você terá seu clube de volta.
Eles conversaram mais um pouco sobre as questões legais. Depois das palavras de Lisa, estava visivelmente mais aliviada. Seus olhos brilharam de esperança. E quando voltou da cozinha, minutos depois, com três xícaras de café, o bate-papo havia mudado drasticamente de assunto:
- Não, Lisa!
- Sério, . – confirmou a mulher, soltando risadas – O bigulim era tão pequenininho que meu pai por um instante achou que era uma menina.
- Lisa, pare! – suplicou, suas bochechas se avermelhando de vergonha.
- Olha, ele está corando! – a irmã murmurou, apertando uma das bochechas do rapaz – Fique tranquilo, sua namorada sabe que cresceu.
esbugalhou os olhos, antes de pegar uma das xícaras e praticamente obrigar Lisa a calar a boca, tomando-a.
- Fique quietinha, maninha. Por favor. – ela obedeceu, sorridente, bebendo o café quente.
Lisa já ia se despedindo e tudo parecia estar sob controle. Mas então, ela pendurou a bolsa nos ombros e virou para o irmão, falando alto o suficiente para escutar cada palavra:
- Ela é tão linda quanto você me falou, . E muito simpática. Gostei de sua namorada. – e, com um último adeus, saiu da casa.
virou para , que ria de toda a situação. Ver o seguro, confiante e desinibido com vergonha era maravilhoso. Por incrível que parecesse, ele ficava muito fofo daquele jeito e a mulher adorara conhecer a outra face dele.
- Ela estava me sacaneando, . Ela gosta de me constranger. – argumentou ele, enquanto pegava as xícaras e caminhava para a cozinha. A mulher lhe seguiu – Eu não falei de você com ela. Bem, falei do Eletric e da venda e que você estava morando aqui, mas não falei da sua beleza ou... – se interrompeu. – E eu não tenho pinto pequeno! Nem tinha quando nasci. Ela adora contar essa mentira para todas as garotas.
- Bom, ela me prometeu fotos. – a mulher sussurrou, se aproximando de , que abria a torneira para lavar a louça. – Eu seco.
- Isso é sacanagem! Eu nem posso ir até a Bitchney e pedir para ver fotos comprometedoras suas... – vendo que abordou um assunto delicado, tratou-se logo de se desculpar. – Desculpe, falei sem pensar.
- Tudo bem. – falou – Ela não teria fotos desse tipo, porque eu era um lindo bebê. E nunca fiz nada comprometedor. Sou santa, lembra? – o encarou.
- Não acredito. Quem estava me amassando outra noite não era nem um pouco inocente. – ele ergueu as sobrancelhas, instigando. Ela lhe deu um pequeno empurrão.
- Que eu saiba, você que me amassou. Afinal, eu estava grudada na parede.
- Isso é logística. – deu de ombros - Podemos mudar a situação agora mesmo.
riu, mas ignorou a proposta. Eles ficaram um instante em silêncio, somente concentrados na tarefa. Então, a mulher voltou a falar, agora séria:
- Obrigada, . – agradeceu – É muito gentil da sua parte ter falado com sua irmã e tudo. Foi maravilhoso saber que tenho muitas chances, me deixou extremamente feliz. – suspirou e abriu um sorriso - E você fez isso acontecer. Enfim, obrigada pela preocupação.
O rapaz suspirou, pegando o pano de prato das mãos da mulher e secando suas mãos. A pia ainda não estava limpa, mas a limpeza podia ser adiada por um tempo. Ele puxou os dois pulsos da mulher e se apoiou na pia, fazendo-a ficar de frente para ele, entre suas pernas abertas.
- Não precisa agradecer, . A gente tem esse... lance acontecendo e toda essa tesão entre nós é bastante forte, mas não somos só isso, sabe. – ele forçou um sorriso – Acima desse rolo todo, eu sou seu amigo. Eu estou do seu lado, estou aqui para te apoiar em todos os momentos. Você precisava de ajuda, eu ajudei, nada mais do que minha obrigação. – deu um leve beliscão na bochecha dela, de forma carinhosa – Tudo que eu mais quero é te ver feliz. Vou fazer tudo ao meu alcance para que haja sempre um sorriso no seu rosto.
abriu um grande sorriso, os olhos brilhando, abobalhada diante da declaração.
- Desse jeito. – completou , sorrindo junto.
E a mulher o pegou pelo pescoço, o trazendo para mais perto dele. E encostou os lábios nos dele. Não poderia fazer qualquer outra coisa. Agradecer àquelas palavras não parecia suficiente. E ela precisava mostrar que sentia tudo aquilo também, precisava responder a altura.
O beijo não foi ansioso, insano, cheio de desejo. Não, foi diferente. Foi calmo, lento, os dois explorando, destinados a conhecer cada parte do outro. Ainda sim, não foi menos mágico.

*

Era uma sorte ter decidido usar sua bota cano baixo e uma calça jeans mais justa para ir às aulas hoje, porque, no meio da tarde, ela recebera uma mensagem da falando sobre planos à noite. Na falta do Eletric, já que era questão de honra não pisar lá até que justiça fosse feita, o grupo de amigos começaria o cortejo pelos bares da cidade, em busca de um ambiente bacana.
O lugar eleito daquele dia fora o Vikings, uma espécie de pub, que ficava bem no centro. E a roupa da mulher era bem apropriada ao local, este mais rústico. Apesar de estar atrasada para encontrar seus amigos, por culpa do professor do último tempo, ela analisou o local assim que entrou, afinal, era sua primeira vez ali.
Havia bancos de madeira perto do bar e mesas mais afastadas. As paredes continham cartazes com piadas relacionadas à bebida e a esportes, além dos chifres característicos dos vikings. As televisões estavam passando um clássico do futebol, e viu vários vestidos com as camisas de um dos times. Por fim, ela reparou e soltou um sorriso, um painel de bebidas e grandes canecas. Era simples e acolhedor. Além de estar lotado de homens.
- Adorei esse lugar. – exclamou , logo que chegou a mesa dos amigos.
- Detestei. – retrucou, com uma careta – Só tem marmanjo. – as mulheres riram.
- Isso torna tudo ainda melhor, Mr. Músculos. – ela piscou os olhos para o amigo.
A mulher sentia olhares em cima dela. Virando-se, ela viu um rapaz vindo em sua direção, com um chope intacto nas mãos. Ele entregou para ela, que sorriu e agradeceu.
- Destilado na próxima, querido.
Vendo o tal bufar e desistir, ela riu. Então, cumprimentou todos os quatro amigos com beijos e abraços. , no entanto, passou um dos braços por sua cintura e a segurou, possessivo.
- , me solte, você está estragando minhas chances. – ele sorriu malicioso, mostrando que era exatamente sua intenção. abriu a boca, chocada e lhe bateu no ombro, se desgarrando de sua mão em seguida – Vou fazer isso com você na próxima festa. Está ferrado, irmão. – então ele riu.
- Tenha piedade de mim. Sofri na terça feira, na noite da tempestade. Eu estava... – a mesa inteira bufou, mas foi que falou por todos.
- Você já me contou isso. Nas duas vezes em que nos encontramos na faculdade. E olha que nem moramos juntos. – apontou para os amigos – Esses aqui devem escutar essa história sofrida – dramatizou, de propósito – a cada cinco minutos.
- Argh, vocês são tão chatos! – reclamou ele, emburrado, cruzando os braços. Novamente, os amigos caíram na gargalhada. – Mas, , você chegou em casa tranquilamente? Você fica até tarde na faculdade às terças, né?
A mulher assentiu, desviando seu olhar instantaneamente para . Ele também desviou o olhar, só que para a mesa, de repente tão interessante. Então ela suspirou e olhou de volta para o amigo.
- Foi tudo bem. Eu peguei uma carona.
- Você pegou aquele acidente na ponte? Ficou naquele trânsito? – perguntou, lembrando-se do que ouvira no jornal no dia anterior. – Disseram que foi bem feio.
- Sim. – ela mexeu no cabelo, desconfortável por estar mentindo para os amigos. – Fecharam durante muitos minutos a ponte, perdemos horas no trânsito. – deu de ombros – Mas deu tudo certo.
- Que bom. Passou pela minha cabeça que você viria com , mas aí me lembrei da briga e... – limpou a garganta, chamando atenção de , que estava entrando em terreno perigoso. – E também se deu bem aquele dia! Só voltou para casa no dia seguinte, com aquela cara de satisfeito depois de uma noite de sexo selvagem...
- Tigrão! – interrompeu – Lembra que quem não tem filtros sou eu, né?
olhou para os pés, esfregando as mãos nas coxas de nervosismo. encarou , os olhos esbugalhados pelas palavras do amigo. Então, o olhar do casal se cruzou. O desespero, o desconforto, em ambos os olhares. O segredo perpassando invisivelmente por eles. Mas naquela hora olhou para os amigos. Ela os conhecia há muito tempo e notou a troca de olhares e seus significados. Percebeu e entendeu.

*

- Vem pro meu mundo, vou te fazer de dama e eu serei seu vagabundo.
Um homem barbudo exclamou malicioso, para , enquanto ela e a amiga caminhavam até o bar do Vikings. As garotas ignoraram, mas compartilharam risadas pela cantada ruim. Chegando lá, sorriu para o bonito barman e pediu uma cerveja e uma Coca. Os homens, no entanto, não pareciam querer desistir da conquista. Aliás, também não pareciam ter senso de ridículo.
- Garota, acho que vou comprar um capacete. – percebeu que o careca sentado ao lado estava falando com ela, mostrando o feio sorriso. Ela revirou os olhos e não respondeu, mas ele não se deu por vencido. – Sabe, eu preciso me proteger das quedinhas que eu tenho por você.
- Então – ela resolveu respondeu, depois de soltar um seco e raivoso riso. – Aproveita é compra um assento para bunda.
- Pra que, linda?
- Porque o chute que eu vou te dar vai doer. – e sorriu forçado.
O rapaz murmurou um xingamento e saiu, pisando forte. A mulher bufou, desviando os olhos para o barman que voltava com as bebidas. agradeceu, pegando o copo gelado, mas a outra só encarou o homem em serviço, gostando do que via. Ele tinha ombros largos, braços musculosos e um sorriso maravilhoso.
- Vamos, ?
- Pode ir indo, – virou para a amiga, piscando o olho – Já te encontro lá. – então virou para o homem e sorriu – Esses músculos são do ofício? – mexeu nos cabelos, despretensiosa.
- São da genética. – ele piscou o olho para ela.
- Bom, você seria o pai perfeito dos meus filhos. Geneticamente falando, é claro. – deu de ombros, sorridente. Ele riu.
- Será um prazer praticarmos.
- Você não vai me oferecer nem um drink antes disso? – ela levantou as sobrancelhas, desafiadora.
- Para você, , - o barman a chamou pelo nome, mostrando-se muito observador – o melhor. Uma apresentação e uma bebida exclusiva.
Então ele pegou os instrumentos para a bebida: uma garrafa com um líquido azul, dois limões, um shake e, sorrindo, começou a balançá-los no ar e a preparar a bebida. A mulher retribuía o sorriso e, quando recebeu a bebida deliciosa, dispensou a cerveja e agradeceu, cheia de charme.
Eles trocaram flertes por mais alguns minutos, até que se despediu e voltou a mesa. Lá só não estava , que, como sempre, havia sumido. Um furioso a encarou e ele mal pode esperar ela sentar para abrir a boca:
- Atirando para todos os lados, ? – murmurou, ácido. Ela o encarou por um momento, sem entender, até que explicou.
- O bar todo viu a apresentação do barman pra você.
- Ah. Que eu me lembre, , eu recusei seu pedido de namoro. – respondeu a altura - Logo, minha vida amorosa não é da sua conta. – ele bufou.
- Ele estava te comendo com os olhos. – resmungou, a raiva escorrendo por entre suas palavras. – Você nem liga, né?
- Bem, eu não fiz mais do que paquerar. – ela deu de ombros, não se importando - E ganhei uma bebida grátis. Acho que me dei bem. – sorriu, forçado, para o amigo.
a olhou e bufou. Ele já ia retrucar, mas a cena logo ao lado dele chamou atenção. Um barman, que o rapaz agradeceu por não ser o da , vinha a mesa trazendo uma bebida. Ele entregou-a para e então apontou para o bar, onde havia uma linda ruiva sorrindo. Ele estava, obviamente, sendo cantado.
cerrou os olhos, o ódio tomando seu corpo. E, para piorar a situação, levantou o copo que ganhara e olhou para a mulher, sorrindo de volta, em um agradecimento silencioso. A mulher bufou baixinho e tentou respirar fundo, se controlando.
- Vai lá, a garota está na sua. – exclamou para o amigo.
- É, , querido. – concordou , cínica – Ela parece ser muito simpática.
Ela forçou um sorriso, os olhos faiscando de raiva. Felizmente, percebeu a reação de e não pode deixar de sorrir, feliz. Ele, claro, não iria atrás da ruiva, mas ver a mulher descontrolada de ciúmes era sensacional. Quando a observou novamente, louco para levantar e simplesmente beijá-la, ela lhe olhou com um olhar que ele adorou. Basicamente, ele dizia: se fizer isso, está morto para mim.
Mas não estava disposto a morrer tão cedo.



X. Sanidade à Beira da Loucura

- Está planejando torturar o ? – perguntou à amiga, vendo-a segurar um biquíni preto minúsculo.
deu de ombros, recolocando a peça no cabide e olhando as outras. Embora soubesse que estava brincando, sua resposta foi um tanto séria.
- Não acho que o problema seja o biquíni. – de fato, o problema estava nela e em suas atitudes. Vendo a cara da amiga, suspirou e soltou, direta:
- Você é a garota que fez chegar sorridente depois do apagão, não é Senhorita ?
A mulher ignorou, continuando a olhar os manequins. Então, estendeu um e exclamou, sorridente, que tinha achado o biquíni perfeito para si.
- Pena que você não é assim tão decidida quando se trata de amor. – murmurou , ácida.
- Vamos logo, . – exclamou , mudando de assunto – Escolha logo seu biquíni para nós irmos comer! – a amiga a observou – É serio. Não posso demorar muito, tenho prova amanhã, preciso estudar.
- , você não pode fazer isso com ! Ele é um idiota? Sim! É um babaca ciumento? Muitas vezes! Mas ele te ama. – bufou, a raiva transpassando nas palavras. Todos dentro da loja começaram a prestar atenção na cena – E você só pisa nele, porra. Não quer ficar com ele? Dane-se, você não é obrigada. Perca o amor da sua vida, não é problema meu. Mas não volte para os braços do depois de um dia difícil e alimente a fantasia dele.
- Pare de gritar, ! – repreendeu , com uma careta – Estamos no meio do shopping.
- É egoísta e cruel. E você não é assim. – completou, meneando a cabeça em negativa.
puxou pelo braço e elas saíram da loja, abandonando as compras, e andaram até um canto do shopping, perto de um dos elevadores. Lá estava deserto e elas poderiam conversar sem serem observadas.
- Eu sei que fiz merda, ok? – ela passou a mãos no cabelo – Eu sei que estraguei a porra toda. Mas não é tão simples. – bufou – Eu gosto dele. Você sabe, meio mundo sabe. Talvez não o suficiente para o que ele quer, mas obviamente sinto... coisas por ele. E, merda! Estávamos bêbados e aconteceu. Aconteceu como milhares de outras vezes nossas. Temos uma história que não dá pra ser ignorada facilmente. – ela bufou novamente – Também, porra, não obriguei ninguém. Ele também tem culpa nisso. me conhece, sabe exatamente minha posição. Tanto que nem me procurou, só ignorou a noite do apagão, porque é exatamente algo que eu faria e... – as palavras saiam atrapalhas de sua boca, então ela respirou fundo - E você não pode fazer um escândalo por causa disso!
engoliu a seco, ouvindo as confissões da amiga. Talvez nunca tenha visto falar tanto e tão sinceramente de sua relação com . E suspirou, se arrependendo de ter sido tão grosseira com ela. Afinal, aparentemente ela já estava se torturando sozinha.
- Desculpe, eu exagerei. – murmurou – Vocês são complicados. – forçou um sorriso. – Podemos falar sobre a viagem agora?
sorriu, aliviada pelo fim da pseudo briga e o começo de um novo assunto. Abraçou de lado a amiga e sorriu. Elas caminharam de volta a loja, para finalizarem a compra, enquanto conversavam empolgadas sobre a viagem para a praia no feriado.
- Você chamou o Matt?
- Sim, eu liguei pra ele ontem. – falou, antes de fazer uma careta – Ele disse que estava atolado em provas e trabalhos, mas agradeceu o convite.
- Uma péssima desculpa. – sussurrou . – Sinto muito por afastá-lo. Nunca foi minha intenção.
- Eu sei. – a amiga concordou – Mas você tem uma péssima mania de fazer seus amigos se apaixonarem por você! – soltou, em tom de brincadeira, fazendo a amiga abrir um sorriso.
Elas pegaram suas sacolas de compras e andaram em direção a praça de alimentação. Pediram duas pizzas, para levar o resto para os meninos. Era o mínimo, considerando que ela se acomodara na casa deles e, como ainda procurava um emprego, não tinha nenhuma previsão para a desocupação.
Enquanto elas esperavam o pedido, o celular de tocou e ela se levantou, afastando-se da amiga rapidamente. a olhou, sem entender. O que era tão misterioso que não podia atender a sua frente? Oh, será que era ?
- . – ela voltou, minutos depois, se jogando na cadeira – Eu queria fazer uma surpresa, mas não me aguento de ansiedade!
- Não me diga que está grávida, . – murmurou, fazendo a outra a encarar com as sobrancelhas arqueadas.
- Você é estranha. – decretou, logo abrindo o sorriso – Enfim. Arranjei um apartamento para nós!
- Estou meio perdida – foi a vez de arquear as sobrancelhas – Estávamos procurando um apartamento?
- Bem, você está morando de favor com três homens. Imaginei que estivesse desesperada para sair de lá. – deu de ombros.
- Sim, é de longe ideal. Mas tem um ponto importante, o porquê de eu estar dormindo no sofá dos meninos: não tenho dinheiro!
- É, eu sei – a amiga revirou os olhos, demonstrando que a informação era óbvia. – Meus pais já pagaram os três primeiros meses. Até lá, eu tenho certeza que você arranja um trabalho. A parte realmente importante é: vamos morar juntas! – deu um gritinho, animada. – Nós sempre queremos fazer isso.
- Verdade. Ficar 24 horas direto com você me parece realmente um sonho. – ironizou , recebendo um leve empurrão da amiga. Então, elas sorriram. – Porque você vai sair da sua república? As garotas que moram lá são bem legais, não?
- Sim, são – respondeu, sorrindo – Mas a dona já tinha nos avisado que queria o apartamento livre ano que vem, então resolvi começar a procurar logo, para não ficar desesperada na hora. Achei um, menor, mas um tanto caro para uma só pessoa. E quando você perdeu o Eletric, bom, perfeito! – ela esbugalhou os olhos – Não quis dizer que tenha sido bom você perder o Eletric, . E estou torcendo muito, e sei, que você vai recuperar, com ajuda da irmã do Henry, mas acho que as coisas se encaixaram, não? – concordou com a cabeça, tranquilizando a amiga.
- Tudo bem, roommate. – elas sorriram. – Ei, quão pequeno é esse apartamento? Pequeno tipo: vamos ter que dividir a cama?
- Pequeno tipo: vamos ter que dividir a escova de dentes. – e elas caíram na gargalhada.

*

A noite de sexta tinha chegado e a cervejada do curso de produção rolava no campus da universidade. A música tocava alta e a bebida era livre. foi em busca da última, pegando duas garrafas. Agradeceu ao veterano na barraca e se virou para sair do amontoado de sedentos por álcool. Deu de cara com Matt.
Sabia que ele iria estar na festa, já que era calouro, mas tampouco tinha vontade de conversar com ele. A ferida da traição ainda estava aberta e ignorar parecia-lhe a melhor solução. Todavia, não quando ele estava na sua frente e lhe cumprimentava com uma batida nas costas.
- E aí, Matt.
- Então, - apontou para as duas garrafas na mão de e continuou – Você e estão juntos?
- Não – fez uma careta, fingindo repudiar a ideia – Cansei dela. Isso aqui – sacudiu a garrafa – é pra outra gata.
- Você não está enganando nem a si mesmo, cara. – Matt murmurou, sorrindo forçado. – Enfim, como você está?
- Bem, cara. E você? Sumiu. A gente sente falta da sua companhia. – vendo o amigo dar ombros, continuou – E nem adianta falar que é a faculdade, calouro. Primeiro período é moleza! – sorriram.
- Ah, você sabe. – revirou os olhos – Vá lá antes que a cerveja esquente, . Não deixe a gata esperando!
viu Matt andar, saindo de sua visão. Suspirando, foi desviando dos grupos de amigos e dos casais apaixonados, até chegar à árvore em que a caloura Emily estava. Quando ela o viu, abriu um enorme sorriso e seus olhos grandes se cerraram.
Ele entregou a bebida e eles conversaram um pouco, tendo que falar no ouvido um do outro pelo som estridente saindo das caixas a poucos metros de distância. Quando mudou a música, Emily escancarou a boca e gritou, animada.
- Eu amo essa música! – exclamou, pegando um dos pulsos de – Vamos dançar.
foi arrastado até a suposta pista de dança. Na verdade, era um espaço perto do DJ, em que as pessoas arriscavam alguns passos. Emily virou-se para ele, balançando a cabeça, os braços e sorrindo. Depois, a mulher se aproximou do rapaz e jogou seus braços no pescoço do mesmo. Ele sorriu, abraçando-a pela cintura em resposta.
- . – ela sussurrou em seu ouvido – Quero te beijar desde o primeiro dia. – e mordiscou levemente a orelha dele.
Ele não deixou ela se afastar, grudando o corpo dos dois. Então, passou seu rosto pelo dela, cheirando seu pescoço e beijando sua bochecha. Ao virar o rosto, Emily já grudou os lábios. Não demorou muito para eles irem para um canto, onde as coisas esquentaram.

*

- Falta muito, ? – perguntou . As duas amigas despejaram a caixa pesada na mala da caminhonete, suspirando em seguida.
- Não. – respondeu ela, olhando para o carro já quase cheio. – Minha escrivaninha. Três, talvez quatro caixas.
- Vamos deixar para os garotos. – sugeriu a amiga, apoiando-se na lateral do veículo. ao seu lado. – Tem certeza que não quer voltar atrás? – inquiriu, observando os três na garagem da casa, levantando caixas.
acompanhou o olhar, notando os três amigos sem camisa. Os músculos à mostra, tencionados pelo esforço. Simplesmente levantou a sobrancelha para a amiga.
- O quê? – a encarou, dando de ombros – Você tem uma boa... atmosfera nessa casa. – elas riram.
vinha na direção delas com uma caixa em cima da cabeça. O corpo esbelto todo esticado, os músculos rígidos. Os quatro gomos de seu abdômen definido aparecendo.
- Ei, Mr. Músculos. – chamou, fazendo o rapaz olhá-la. – Seu apelido está se encaixando muito bem. Você está gostoso. – ela piscou o olho, brincando com o amigo.
- Você pode aproveitar toda essa gostosura quando quiser, doçura. – falou, tentando fazer uma voz sensual, mas só fazendo a amiga sorrir.
Então, afastou os braços um do outro e fez uma pose que era popular entre os fisiculturistas, porque forçava ainda mais a aparição dos músculos. Mas a caixa pesada ainda estava sendo carregada por ele. Seu equilíbrio para segurá-la não foi suficiente, entretanto, e ela se espatifou no chão, arrebentando e jogando livros para todos os lados.
sorriu amarelo para uma furiosa , que já avançava para arrumar a bagunça. Antes de abaixar para ajudar a amiga, no entanto, o rapaz olhou para trás, notando um emburrado o encarando.
- Porra , essa foi foda. – começou ele, fingindo-se irritado. – Nossa, você me gorou tanto que até a caixa caiu.
Obviamente, ele se referia ao ciúme de por e toda sua reação exagerada cada vez que o amigo brincava de flertar com a mulher. revirou os olhos e deu o dedo do meio, virando sua atenção para a escrivaninha em seguida. riu, pensando que quando se tratava de , o amigo não mudaria nunca.

*

Uma hora depois, dirigia seu carro, levando e para o novo apartamento das garotas. Eles estavam logo a frente da caminhonete, guiando o caminho e já se preparando para carregarem o peso todo de volto, agora retirando do veículo. ficara em seu antigo abrigo, arrumando em sua mochila seus últimos pertences.
Por conta do silêncio que inundava a casa, escutou quando Henry saiu do banheiro, depois do banho. , não satisfeito em ter derrubado a caixa de livros, minutos depois, quando já fechavam a garagem, conseguiu derrubar uma lata de tinta no chão. Com a batida, ela se abriu e espirrou em Henry, que ficou completamente pintado de branco. Assim, ele ficou com na casa, correndo para o chuveiro e só saindo de lá depois de descascar sua pele com a esponja.
Logo desceu as escadas, o cheiro de sabonete invadindo o ambiente. A mulher levantou a cabeça instantaneamente, o olhando. Revirou os olhos em seguida. Para variar, ele estava só de cuecas. Ela quase riu, mas então seu olhar foi para o corpo de Henry. Ela vira o primo e sem camisas também, pouco tempo antes, mas Henry era... diferente. Então, respirou profundamente, sentindo um calor a inundar.
- Ei, disfarce esse olhar. – Henry falou, desviando a atenção dela para o rosto dele. Que, bom ou mau, também era maravilhoso. – Você está me comendo com os olhos. Estou envergonhado. – brincou, cobrindo seu peitoral. sorriu.
- Sabe, eu realmente vou sentir falta disso... – começou ela, mordendo o lábio inferior e descendo o olhar por todo o corpo dele novamente, enquanto falava – esse peitoral, essas coxas, essa bunda maravilhosa. – as palavras saiam de sua boca sem que pudesse segurar. Como os amigos muito bem a chamam, sem filtro.
- Você pode tocar se quiser. – Henry exclamou, malicioso, depois que conseguiu conter o riso. – Afinal, você já perdeu muito tempo sendo uma santinha.
A mulher absorveu as palavras do rapaz e assentiu levemente, em acordo. Se impedindo de pensar duas vezes, ela simplesmente fez o que seu corpo e seu coração queriam.
- Que se dane. Preciso fazer isso.
E correu para Henry, pulando em cima dele. Ele riu, surpreso, mas a segurou pela bunda e as pernas. Ela, todavia, nem deu tempo para que ele se recuperasse. Já grudou os lábios e segurou seu pescoço, aprofundando o beijo.



XI. Verdade Nua e Crua

Uma música animada da Britney Spears saia estridente das caixas de som do carro, mostrando bem como os amigos estavam se sentindo. Juntos, os cinco iam aproveitar o quente feriado na casa de veraneio dos pais de , na região oceânica do estado.
E, não, não era nada estranho que estivesse sentada ao lado do motorista , por livre e espontânea vontade. Afinal, ela sempre era sua co-pilota nas viagens dos amigos. Via as sinalizações e era ótima em impedir as indesejáveis multas. Por isso, quando sentara ali uma hora atrás, ninguém nem recordou as novas circunstâncias.
Talvez tenha percebido, mas logo deixara pra lá. No pouco tempo que estava no grupo, já tinha entendido que as normalidades eram mal aceitas por ali. Além disso, estava animado demais com a primeira viagem dele com o resto do pessoal – e principalmente com - para se importar com qualquer outra coisa.
O toque de um telefone soou pelo carro. Já era a quinta vez que tocava e ninguém se prontificava a atender. Mas, daquela vez, um afirmou irritado:
- Quem está interrompendo a diva maior Spears?
Todos riram em resposta. abriu o porta-luvas, notando que a música vinha de lá. Então pegou o celular de e o balançou no ar. não perdeu tempo, retirando rapidamente da mão da mulher.
- Emily? – observou a tela do celular – Espero que ela valha a música que está interrompendo.
- O quê? – exclamou, confuso – Me devolva, – falou, estendendo uma das mãos para o amigo.
Mas, dirigindo, não podia fazer muito mais do que isso. E o rapaz não fez o que ele pediu, ao contrário, colocou o aparelho na orelha e começou a falar:
- Oi pessoa que não conheço. Aqui é o melhor, e também o mais gostoso, amigo do . Você é solteira?
- ! – repreendeu o amigo e, de costas, com somente uma mão, tentou pegar o celular de volta. Obviamente, fracassou, assistindo o outro só rir.
- Calma. Emily, né? Você é namorada do ? Como assim?
esbugalhou os olhos, encarou , engolindo em seco. deu um grito de surpresa. Então, a última atirou-se em cima do , tentando pegar o celular, mas ele a impediu e continuou a falar.
- Emily, você precisa dar um jeito em seu namorado, ele não compartilha mais nada com os amigos... E então, vocês pombinhos se conheceram onde? – pausa – Oh, na faculdade. Você é caloura dele, é? Nossa, nem pra ele conseguir alguém da idade dele! – pausa – Opa, desculpa, tenho certeza que você é gost... bonita, inteligente, simpática, encantadora. Qual sua altura? E cor dos cabelos? E peitos, você considera-se sortuda neste ponto? Qual é o número do sutiã?
- ! Para! – gritou, seriamente. Seu rosto chegou a ficar vermelho de nervosismo e raiva – Me dê o celular, agora.
Dessa vez, ele devolveu, não sem antes bufar. Não satisfeito, no entanto, enquanto tentava reparar os danos com a recente namorada, ele começara a gemer e suspirar.
- Vai, aaaar, , não para, continua – forçava uma voz mais fina.
- Cala a porra da boca, . Sorte sua eu não ter um controle por perto pra jogar na sua cara. – resmungou.
- Ah, , que falta de espírito esportivo. – suspirou, calando-se por fim.
O rapaz ficou mais alguns minutos falando no celular, até que por fim jogou-o no colo. Aí foi vez da disparar as perguntas.
- De que mar saiu essa oferenda, primo?
- . – a repreendeu. – Ela é minha namorada e se chama Emily.
- Eu não sabia que você estava procurando uma namorada. – comentou a mulher.
- Bem, se você se esqueceu, eu pedi a pra namorar comigo. Então, estava nos meus planos.
- Então Emily é o prêmio de recompensa? – espetou, fazendo revirar os olhos.
- , pare. Deixe ser feliz. Além disso, tenho certeza que Emily é maravilhosa. – falou, fazendo o resto do carro olhá-la com confusão. – O quê? Gente, eu sou civilizada.
- , você não está enganando nem a si mesma. – exclamou. – Se te faz se sentir melhor, independente de tudo, você com certeza ganha dela no aspecto peitos. Aliás, a pergunta que não quer calar é essa: porque trocar uma 42D por uma 40B?
- Hm, não pela personalidade, claro. – respondeu, irônico.
- Uma 40B pode ser uma maravilha, ok? – inquiriu , retoricamente, mostrando-se ofendida.
- Oh, minha linda. Você é... especial. – sorriu fofo para a amiga, tentando consertar a burrada que falara. Emily não era a única que usava o tamanho 40B, afinal. – E sua bunda compensa. Acredite.
As mulheres riram, dando um tapa no braço do amigo e falando, entre risos, pra ele parar de falar de sua bunda. Os homens, no entanto, não tinham achado tão divertido. emburrou a cara e desviou o olhar para janela. não conseguiu ficar calado:
- Puta que pariu, . Você não consegue ficar um dia sem cantar uma dessas duas?

*


- Finalmente! – brandeou, abrindo a porta do carro e rapidamente pulando dele. – Minha bunda está quadrada.
- Bem, ao menos você tinha como respirar. Fiquei imprensada no meio de dois espaçosos, me admiro estar viva.
- Você é uma boba, . Podia ter deitado nessa cama de músculos e passado a mão acidentalmente nos braços e pernas desses garotos malhados. – comentou, maldosa. A amiga riu.
- Sereia, você é tão pra frente. – ela ainda falou.
Os amigos saíram todos e esticaram as pernas. Mexeram nos celulares, conversaram um pouco, observaram o tão conhecido lugar. caminhou até a varanda e se jogou na cadeira mais próxima, suspirando em seguida.
- Já fiz minha parte. Fui o motorista. – ele disse - Agora quero uma cerveja. Por favor, meus servos.
O bufo foi coletivo, mas foi que falou:
- Sua namorada é tipo dona de casa dos anos 50? Porque ela está te deixando mal acostumado... – o interrompeu, subitamente animado:
- Emily é assim? Subiu mil pontos no meu conceito. Aquelas donas de casa... Minha fantasia!
e se olharam e reviraram os olhos diante de tanta idiotice.
- Claro que é uma fantasia, né. – começou, as palavras saindo como labaredas de sua boca – Alguém pra limpar, cozinhar, obedecer, fazer tudo por você e ainda se mostrar satisfeita... É realmente ótimo. – bufou.
- Não é bem assim...
- Quer saber, ? – o cortou – Eu não quero escutar as esfarrapadas desculpas pro seu machismo. também não, tenho certeza. Vamos buscar as bebidas, mas não porque é nosso papel como mulheres, como vocês homens da caverna acreditam. É só porque de repente o ar aqui ficou tão... desagradável. – puxou a amiga pelo pulso e virou-se em direção ao carro.
Chegando lá, abriram a mala e reviraram-na, só vendo algumas mochilas e caixas com comida. A cerveja, no entanto, não estava lá. Nem nenhum álcool, diga-se de passagem. bufou, ainda mais puta. Obviamente, aquela era a função de , comprar as bebidas e colocá-las no carro. Mas devia ser difícil pra quem não conseguia usar o cérebro.
- ! – ela gritou – Cadê a merda das bebidas? – ele a olhou, confuso. Ela suspirou profundamente antes de falar novamente – Você se esqueceu de colocá-las aqui, . Ou será que elas estão no seu cérebro oco?
- Porra, você esqueceu o principal, tonto? – murmurou, dando um tapa na cabeça do amigo.
- Ei! – reclamou – Calado, . – Então virou para as amigas, que já estavam de volta à varanda, apoiadas no muro. – , , me desculpem. Não é nenhuma surpresa, mas eu sou um idiota. Eu falo muitas besteiras e eu sei que isso não justifica e... – passou a mão pelos cabelos, nervoso - desculpem, só isso. Eu disse que ia tentar retirar os machismos e os preconceitos do meu dia-a-dia e estou tentando, realmente. Mas às vezes eu escorrego, esqueço, acho que não tem nada demais... Sinto muito.
- Se esforce mais, tigrão. – aconselhou – Mas tudo bem.
- Espero que não se repita. – acrescentou, sorrindo forçadamente, os braços cruzados no peito.
- E com esse clima maravilhoso – começou, divertido, tentando mudar de assunto e amenizar as tensões entre os amigos – Precisamos de bebidas ou até domingo alguém não sai vivo daqui. – brincou, rindo em seguida. Os amigos conseguiram sorrir. – Tem algum lugar que possamos gastar o nosso precioso, pouco, suado e contado dinheiro da viagem para recomprar?
- Não por aqui. Provavelmente na cidade, em algum bar. – deu de ombros – Mas, é como você falou, dói gastar nosso sofrido dinheiro. Por isso, tenho uma ideia melhor. Procurar nas outras casas do condomínio e pegar... emprestado. – levantou as sobrancelhas, malicioso.
- Eu gosto de como você pensa, . – sorriu pra ele.
- Não é a única coisa que você gosta em mim, . – piscou o olho.
- Ok. Eu preciso de uma bebida pra aguentar esse flerte descarado. – afirmou.
- Invasão? Sério? – falou, meneando a cabeça negativamente – Não vou participar disso.
- Santinha. – o primo revirou os olhos – É só um empréstimo, retribuímos nas próximas férias. Mas até que é justo, você não bebe mesmo.
- É. Você pode ser a juíza. Pra nossa aposta. – completou .
- Eu também gosto de como você pensa, garoto. Por que ficou tanto tempo longe de nós? – murmurou, sorrindo em seguida. – Então, qual é a da vez? Quem trouxer mais quantidade? Ou qualidade também conta?
Cada um por si, começou-se a busca pelo álcool. A escuridão da noite os ajudou a passarem despercebidos enquanto corriam até as casas vazias. O barulho de música alta misturado a conversa vinda de uma das casas também permitiu que algumas quedas e gritos se perdessem no ar.
Pularam muros, destrancaram portas, abriram janelas e, por sorte, não quebraram nada. obviamente se deu melhor. Já conhecendo o local, sabia exatamente quais das casas teriam bebidas e também as que tinham suas chaves embaixo do tapete.
Uma hora depois, o limite da prova foi atingindo. Pouco a pouco eles voltaram, carregando garrafas nas mãos. trazia sua quinta leva, e a terceira e a segunda. No total, jogadas no gramado estavam dezenas de diversas bebidas.
- Eu declaro campeão! – afirmou, o rapaz dançando em comemoração.
- Não vale, ele conhece tudo por aqui, estamos em desvantagem. – resmungou , com uma careta.
- Criança, você não precisa ganhar de mim, só de um deles já está ótimo. – deu um beliscão no braço dela, que em resposta deu língua – Mas, só pra constar, eu vou escolher o que o perdedor vai fazer.
- Bem, se eu perder, o que não vai acontecer, eu espero que você não peça sexo, . Não rebaixe seu nível a esse ponto. – ela respondeu, ácida.
- Vai se foder, . – forçou um sorriso falso.
- Sem preliminares, ainda estou aqui. – sussurrou – Se bem que eu adoraria...
- Nem complete, . – o cortou, revirando os olhos – Então, , quem perdeu?
Embora a mulher tivesse menos quantidade, havia basicamente vodca e uísque em seu estoque, tinha uma mistura boa, que o salvara, enquanto só havia trazido cerveja e da pior qualidade.
- Tigrão, sinto muito. – informou – costuma ser um carrasco.
- Que mentira. – ele forçou uma risada má, brincando – , irmão, é bastante simples. Aqui no condomínio temos um píer. Você vai correr até ele e pular na água. A água deve estar um pouco fria, mas nada mais do que uma aventura para contar aos netos. Ah, e tire tudo. Você vai fazer isso como veio ao mundo.
Os outros soltaram algumas risadas. , no entanto, somente assentiu. Suas mãos foram pra calça, já as abaixando.
- Ei, com calma. Vai ferir meus olhos. – exclamou, brincalhão. Mas concordou:
- Tem razão. Vamos até o meio da rua. O espetáculo já começa com um magnífico strip-tease. Você não adora fazer isso? – inquiriu, retoricamente, diante das incontáveis vezes que o amigo dançava algo que ele dizia ser sensual e envolvia roupas voando.
- Não tanto, mas eu sei que levo jeito. – ele respondeu, já andando junto ao amigo - E a adora, então faço pra agradar. – completou alto, virando e piscando para a amiga, rindo quando ela arregalou os olhos. Ela queria ir até ele e dar-lhe um tapa, mas se aproximar podia fazê-la ver mais do que queria.
retirou as peças lentamente, dançando a cada uma. Não de um jeito sensual, de um jeito estranho mesmo. Todos observaram da varanda, rindo de tempos em tempos. Mas foi quando ele decidiu se alongar antes de correr, esticando os braços até o chão, que todos caíram numa risada escandalosa.
- Vai! – gritou e o pelado começou a correr.
Os amigos foram atrás, vendo quando ele pulou na água e soltou um grito fino, que arrancou novos risos. Já no píer, os secos riam sem parar, enquanto tremia e xingava os vivos e mortos.
- Que bunda branca, cara! – exclamou.
- E você viu como ela é caída? – o outro rapaz acrescentou, brincalhão. deu somente um sorriso amarelo e um dedo do meio, se recusando a responder.
- Gente, e o documento? Eu quase não vi no escuro. – falou, virando-se para o amigo e gesticulando em pura provocação – Tão pequenininho que passa despercebido e...
A mulher estava perigosamente perto da borda. O suficientemente perto para que os braços de puxassem seus pés e ela caísse com tudo na água gelada, espalhando-a pra todo o lado. Ela arfou, uma mistura de dor e surpresa. O resto instantaneamente deu dois passos para trás e riu.
escancarou a boca e, ajeitando-se na água, deu alguns tapas no amigo. Ele usou sua força para segurar os pulsos da amiga e colocá-los para cima, tornando-os inúteis.
- Você acordou hoje com a ideia de por fim em nossa amizade ou é só impressão minha?
- Foi um gesto de amor. – ele forçou um sorriso. – Não posso ficar tanto tempo longe de você, tive que te trazer para mais perto. – ela mostrou os dentes, retribuindo o falso sorriso.
- Tome um amoroso dedo do meio, Mr. Músculos. – e lhe mostrou um.
- Você é tão carinhosa. – ele forçou uma voz meiga, piscando os olhos rapidamente em seguida. Então, riu, como se lembrando de algo – Você sabe como esquentar nossos corpos, gata?
- Eu tenho certeza que posso esquentar minha mão na sua cara. – ergueu as sobrancelhas. Então, desviou o olhar pra baixo e soltou uma gargalhada. - Uau, eu pensava que era impossível, mas está ainda menor agora.
- Você não tem mais plateia, . – ele apontou para o píer, que já estava vazio. Eles puderam ver os amigos no horizonte escuro, voltando para a casa – Mas continuo me sentindo realmente irritado.
- É? E o que você vai fazer? – ela desafiou.
Ele sorriu maléfico, pegando-a pelos braços. , em resposta, arremessou suas pernas com toda a força no abdômen do rapaz e começou a chutar. gemeu e a soltou. Então ela virou e começou tentar correr, nadando de tempos em tempos.
- Vem me pegar, bobão! – gritou, dando língua.
Jogou água no rosto do amigo e voltou ao nado estranho, fugindo dele. Não por muito tempo, no entanto. Ele a alcançou. Pegou-a pela cintura, colocou-a de barriga pra cima, cara a cara com ele. Então abriu um sorriso vencedor. Mas logo depois fechou. Encarou-a, respirando profundamente. Deslizou seus olhos dos olhos dela para os lábios da mesma. Aproximou-se lentamente, enquanto ela permitia-se somente observá-lo.
Então a empurrou para baixo, rapidamente, afundando-a. E soltou uma risada. voltou segundos depois a superfície, tossindo e olhando-o perplexa. A imprevisibilidade da ação, junto da possibilidade do beijo, a deixara tão distraída que ela engoliu água.
- Tudo bem, cortamos nossos laços aqui.
- Ei, pra quem segundos atrás estava praticamente implorando meu beijo... você muda de ideia bem rápido, meu amor.
- Oh, pare. – ela revirou os olhos. – Já conheço o que essa língua faz. Não me desagrada. Mas depois de ver o que você tem a oferecer de resto, sinceramente, perdi qualquer mínimo interesse que eu tinha em você. – brincou a amiga, vendo-o bufar.
- Porra, vamos parar de falar do meu pinto? Porque, sinceramente, você está falando tanto dele que está parecendo bastante obcecada, hein. – avisou. – Aliás, eu adoraria mostrar que ele é capaz de enlouquecer mulheres, mas você é tipo homem. Sinto muito, gata. – e forçou uma careta triste.
- Tipo homem? O que exatamente isso quer dizer?
- Você é mulher do meu melhor amigo. É inacessível.
- Que eu saiba, a mulher dele se chama Emily e tem peitos menores que eu. – ela desconversou - Informações passadas por você, diga-se de passagem.
- Oh, por enquanto. Me surpreende se isso durar mais do que alguns poucos meses. – ele parou – Mas não diga pra ele que eu falei isso.
- Não é como se eu fosse a melhor amiga dele, . Aliás, mesmo uma amiga. – ela deu de ombros – Não depois de todo o lance com o pedido de namoro e...
- Por que você disse não? – ele a interrompeu.
- Porque eu não queria namorar. – soltou o óbvio.
- Sim. Eu não gosto de me apegar, pego geral. – afinou a voz, tentando a imitar – Conheço o discurso. Mas continuo não entendendo. Não é possível que você não queira ficar com . As coisas funcionam entre vocês. A parte fácil, o sexo, parece ser ponto resolvido. Deve ser ótimo, porque puta que pariu, vocês transam em qualquer porra de lugar. Parecem coelhos. Mas não é só isso. Vocês têm a parte difícil. Têm uma puta amizade, se completam, se encaixam como nada mais. Então, eu sinceramente não entendo.
- Não é tão simples. – ela sussurrou, suspirando em seguida.
- Oh, é simples. O sentimento é simples. São as pessoas que complicam. Vocês que conseguem fazer uma completa confusão disso. Vocês são perfeitos um para o outro, . E você sabe que eu adoro seu jeito solto, sendo minha companheira, fazendo apostas de quem pega mais, mas acho que você fez a escolha errada. Pode me mandar tomar no cu, porque você não me perguntou isso, mas entre o sim e o não e o cinquenta por cento de chance de acerto, você escolheu a alternativa errada.
- . – ela gemeu, passando as mãos pelo cabelo, nervosa. – Você não pode me dizer essas merdas, cara. Não. – ela mordeu o lábio inferior e desviou o olhar. – Não quando eu já escolhi, quando eu já o destrocei. Não quando nada mais vai ser o mesmo. Não quando ele está com a porra de uma namorada e está feliz com isso. – seus olhos se encheram de lágrimas. – Não faz isso. – negou com a cabeça, reforçando a mensagem.
- Nada disso importa, . Vocês são maiores, vocês chutam o traseiro de todos esses obstáculos. Ele te ama, . Você o ama. É isso que importa.
A mulher jogou o corpo pra trás, afundando-se por completo na água gelada com a pequena esperança de que ela pudesse aliviar a combustão em sua cabeça. O amigo quase a puxou de volta, mas decidiu deixá-la. Seu coração parecia bem mais aliviado e ele falara tudo o que queria. Jogou tudo em cima dela, mas precisava fazer isso. Às vezes um tratamento de choque é necessário.
voltou somente minutos depois. Obviamente ela tinha tirado pausas pra respirar, mas somente isso, voltando rapidamente para o fundo da água e de seus pensamentos. Quando subiu de vez, aparentava ter absorvido tudo. Estava melhor, menos assustada e atormentada e sorriu para .
- Você, o cachorrão, cafajeste, pegador, falando todas essas merdas sentimentais? – brincou ela.
- Ah, eu me divirto. As mulheres que eu fico podem ser as erradas pra mim, mas são bem divertidas. – ele sorriu malicioso. Então, suspirou – Mas, sabe, eu acredito em pessoas certas. Pessoas destinadas a ficar juntas. E você e ... Eu vejo vocês com 80 anos de idade se pegando no sofá. Acredite, não é uma cena legal.
Ela riu, ele sorriu pra ela. Então, eles ficam uns minutos em silêncio.
- Estou perdoado? – pergunta de repente.
- Sim, está.
- Ótimo, porque as coisas aqui estão congelando. – ele esbugalhou os olhos, demonstrando que não era exagero - Eu achava que o frio ia melhorar com o passar do tempo, mas não. Preciso sair daqui. – afirmou - Meu pênis tá gritando. As bolas foram até pro estômago.
- Oh, , - riu - eu estava quase levando você a sério. Mas aí você foi me lembrar de que tá sem nada aí embaixo...



XII. Don't you wanna feel my skin on your skin?

- Ok, , já entendi que você não sabe jogar. Não precisa me assustar com essas tacadas acertando uma bola invisível ou, pior, a branca. – falou, depois de mais uma tacada horrível da mulher do outro lado da mesa. – Sinuca é fácil, é pura física. – gesticulou, pedindo o taco.
levantou o objeto e estendeu para o rapaz. No entanto, não soltou quando ele segurou a madeira com uma das mãos. , então, desviou o olhar pra ela e cerrou os olhos.
- Bem, vamos apelar para a tal física então... – ela jogou, olhando-o e tentando, sem sucesso, fazer uma cara de sedutora.
Ele soltou uma risada. Todavia, observando-a, notou que a mulher falava sério. ergueu as sobrancelhas e, aceitando o desafio, caminhou lentamente até ela. Foi até as costas dela e passou ambas as mãos nos braços dela, dos ombros aos pulsos, lentamente. Aproximou-se mais, encaixando seu corpo no dela. Abaixou-se para sentir seu perfume e beijou seu pescoço.
- Segure com firmeza o taco. – ele sussurrou no ouvido da mulher. – Eu sei que é difícil. Que, no momento, você está querendo segurar outro taco... – passou o nariz pela pele descoberta na clavícula dela - Mas concentre-se nas bolas. Nas bolas da sinuca, mulher. Você terá tempo para brincar com os outros instrumentos depois.
manteve-se parada, sentindo os lábios de em sua pele. Seu rosto já estava vermelho e a vergonha tomava conta de si enquanto ainda tentava absorver as palavras ousadas dele. Tudo bem que foi ela que tinha proposto a brincadeira, mas o apelo do rapaz mostrou-se bem mais adulto. Era a sem filtro ali, mas ele parecia bastante disposto a perder todos os limites com ela.
- Sabia que estariam aqui, seus viciados! – exclamou ele, sorridente – Há alguma aposta no ar?
Sorte ou azar, adentrou ao salão de jogos naquele momento, com uma toalha enrolada na cintura. havia se lembrado de pegar algumas toalhas e, graças a ela, eles não veriam a nudez pela segunda vez na mesma noite. Aliás, falando na mulher, ela praticamente empurrou pra trás e pulou para o outro lado, se afastando o máximo dele rapidamente.
- Não. – exclamou, não deixando de encarar quem tinha nos braços segundos antes e vê-la tentar controlar a respiração.
- Então, não tem graça. – virou o rosto para , que estava no canto do salão o tempo todo, mexendo no celular e bebendo uma cerveja, alheio ao mundo real. – , larga a porra do celular. Pare de falar com a Emily. Essa viagem é para aproveitar com os amigos. – havia um controle de televisão na mesinha ao lado do rapaz sentado. Quando ele fez menção de pegar, no entanto, ameaçou: - Jogue esse controle em mim e jogo essa toalha que enrola meu lindo corpinho no chão.
- , não faça isso. – exclamou. Ela também adentrara ao local enrolada com uma toalha nos ombros, tentando enganar o frio e suas roupas encharcadas - Ou você vai ter que pagar uma terapeuta pra mim o resto da vida. O pouco que vi à luz da lua já foi bastante traumatizante.
- Você está tão vidrada no mini . Acho que você gostou quando ele te levou pro céu, não? Pelos seus gemidos... – o amigo provocou e ela somente levantou o dedo do meio.
- Ele está brincando, . – falou, observando o primo – Respire fundo. Se controle.
- Não podia me importar menos. – ele deu de ombros, desobedecendo e voltando ao celular.
então encarou os amigos e fez uma careta, sem entender. Será que era só mais de suas cenas de fingir não ligar pra e seus relacionamentos ou Emily podia estar mudando o rapaz? a puxou pelo pulso, seu simples toque quente dispersando suas indagações, e lhe deu o taco de sinucas, para uma nova tentativa. Bastaram se aproximar da mesa, no entanto, para exclamar, com um sorriso divertido:
- Se vocês soubessem o que e já fizeram aí, nem iam chegar perto dessa mesa.
- Porra. Até aqui? Na mesa de sinuca? – falou, irritado – Profanaram lugar sagrado.

***


- Vou tomar banho. – avisou, saindo da sala de jogos. Ainda voltou para fazer um pedido – Os secos tirem as malas do carro, por favor. Eu quero dormir ainda hoje.
- Ei, eu vou primeiro pro chuveiro. – retrucou , já avançando atrás da amiga – Eu estou totalmente pelado embaixo dessa toalha. Está um frio da porra.
- Nem pensar. – ela falou, acelerando os passos até a casa. – Eu estou com essas roupas encharcadas.
- Pois bem. Que vença o melhor! – gritou , antes dos dois correram loucamente até o banheiro mais próximo.
franziu a testa, vendo a disputa dos amigos e riu. Então, virou-se para o primo:
- Eles sabem que a casa tem dois banheiros, não?
- Tudo é motivo para uma competição entre eles, você sabe. – murmurou, levantando-se do sofá e caminhando em direção a porta – Vamos fazer o que mandou?
- Own, , você faz tudo que ela pede, né? – respondeu , os olhos brilhando em emoção. O rapaz somente a encarou com uma careta confusa. – Você está totalmente na dela, priminho.
- , você precisa de tratamento. – ele revirou os olhos - Eventualmente, quando viajamos, temos que tirar as malas do meio de transporte. Isso não quer dizer absolutamente nada além do óbvio: ter acesso ao que você separou como essencial. Porque, surpresa, é essencial! - bufou - E eu não estou na dela...
- Óbvio que não. – interrompeu - Você tem namorada e tudo. Logo, impossível que você sinta qualquer coisa por . – ironizou.
- Vocês são todos uns babacas. – deu um tapa certeiro no pescoço do amigo, que reclamou e correu para ficar ao lado de . – Não conseguem falar de outra coisa que não seja eu e ?
- Claro que conseguimos. – a prima deu de ombros – Vocês só são mais interessantes.
Eles seguiram para o carro e começaram a retirar as bagagens, levando-as pouco a pouco até a sala da casa. Quando faltavam não mais que duas malas e um concentrado voltava ao seu veículo para terminar a tarefa, detém na sala, abraçando-a por trás e dando-lhe pequenos beijos no pescoço e apertões na cintura.
Todo o corpo dela ficou tenso. Em parte porque ela queria aqueles carinhos e eles, de fato, a levavam a suspirar e imaginar e quase suplicar por mais. Mas também porque eles estavam em público e pela segunda vez naquela noite tentava seduzi-la. O jogo parecia ter se invertido.
Preocupada com o possível aparecimento repentino dos amigos, olhava ao redor. Assim, encontrou em uma das paredes o quadro de fotos da família. E arregalou os olhos, porque era exatamente a solução para fugir dos braços de . Não que ela não quisesse ficar ali para sempre, só não agora, ali.
- Olhe! – apontou para o quadro, animada, e se afastou do rapaz - Agora posso provar que eu era uma bebê linda. – puxou o pulso de e o levou até o outro lado do lugar, mais perto dos retratos. – Essa sou eu. – mostrou.
- É seu pai? – ele inquiriu, apontando para um jovem com a pequena no colo. Ela assentiu – Ele parece um roqueiro dos anos 70, com esse bigode e essa camisa de bicheiro. – comentou, fazendo a mulher rir. – Você era muito fofa mesmo, . – ela sorriu em agradecimento, então virou-se para a foto novamente.
- Esse aqui é o . – ela mostrou um garoto, um pouco maior que a própria do mesmo retrato, com um grande sorriso sapeca no rosto, também no colo de um homem que, apesar de usar uma melhor blusa e estar sem bigodes, ainda parecia muito com o pai de . – E o pai dele. Difícil de acreditar, mas já foi fofo. Acredite, ele era menos irritante naquela época.
- É ele mais velho aqui? – perguntou , apontando para outra foto, onde havia dois adolescentes sem camisa com os braços pra cima dobrados, mostrando o muque.
- Sim. Ele e o . Quando eles tinham uns 13 anos, achavam que eram muito gostosos, então só tiravam fotos sem camisa. – ela revirou os olhos, porque os amigos eram muito magrelos - Eles chegaram a nomear os músculos deles. Se não me engano, esse – ela apontou para o bíceps – se chamava Rambo.
- Oh, . – riu – Você sabe que tem a vida desse garotos nas suas mãos, né? Você sabe todos os podres deles.
- Sim. Eu posso chantageá-los a qualquer momento. – ela mexeu as sobrancelhas, animada – É bem divertido ter esse poder.
- e ainda não estão aqui? – foi a primeira coisa que murmurou, assim que jogou as últimas malas no chão. – Estão demorando muito.
Os outros dois ignoraram a reclamação dele e o olhou com um sorriso no rosto.
- Você era muito feio, . Não que tenha melhorado muito, mas meu Deus! – exclamou o rapaz – Quer dizer, temos uma foto de um roqueiro dos anos 70, com uma roupa e um bigode ridículo, com todo o respeito , mas você consegue ser ainda mais engraçado!
- Vai se fuder. – se limitou a respondeu. Então, jogou-se no sofá mais próximo, novamente mexendo no celular.
- Você, e são muito próximos desde criança, né? – comentou, voltando-se à mulher e aos retratos. Ela assentiu. – Eles são como irmãos, não? – perguntou retoricamente, já continuando a falar, mais para si mesmo – São caras que estão sempre perto de você, te protegendo, mas o carinho entre vocês é simplesmente fraternal e...
- Puta que pariu. – um estressado interrompeu – Eles se afogaram no chuveiro, não é possível!
- Ou simplesmente resolveram tomar um profundo e longo banho juntos. – atiçou .
- Você está a fim de morrer hoje, não? – sussurrou , um pouco irritada, dando-lhe um pequeno empurrão. , por sua vez, só tinha bufado e ignorado o amigo.
e finalmente desceram, secos e devidamente vestidos, mas juntos, rindo. pensou que eles realmente não ajudavam a amenizar os nervos tensos de . Obviamente, ela sabia que os amigos não tinham feito nada e nunca fariam, mas quando se tratava do sentimento louco do primo, a cegueira e confusão pareciam vir acompanhando.
- Finalmente. – não pode deixar de falar. Então, completou:
- Ele não conseguia se manter quieto de tanta aflição pela demora. Estava prestes a ter um ataque cardíaco. – exagerou a mulher, virando-se para em seguida – Dá pra você falar pra seu teimoso e estressado amigo que não estava pegando a mulher dele?
- Não estava pegando sua mulher. – respondeu prontamente, olhando para . Então, continuou: - Até porque a mulher dele atualmente é a Emily, que está bem distante e tem peitos pequenos pro meu gosto.
- ! – o repreendeu, enquanto só riu e deu um tapa no braço do amigo – Assim você não ajuda.
- Eu não ligo. – avisou .
- Nós sabemos. – concordou, pensativo. – Será que esse lance funciona? Repetir uma mentira várias vezes faz ela virar uma verdade para nós? – refletiu.
- Ok. Minha hora de dormir. – falou. – Vou dormir onde? Que eu me lembre são quatro quartos e somos cinco.
- Eu obviamente tenho um quarto só meu, porque a casa afinal é minha.
- Tecnicamente, dos seus pais. – respondeu o primo - E se você morrer, eu sou a herdeira.
- Se eu morrer misteriosamente, vocês já podem denunciar minha prima. Ela está totalmente de olho em meus bens. – brincou .
- Calados. – disse – Os solteiros têm que ter um quarto só pra eles, para possíveis conquistas – ele sorriu malicioso para – Menos a , claro. e dividem um quarto, porque ele tá enlaçado e ela não vai trazer ninguém, mesmo.
- Ei! – reclamou - Talvez eu traga alguém, sim. - todo mundo riu em resposta.

***


- Eu acho que ele está morto. – afirmou , tocando com o dedo indicador o braço de um adormecido . , ao seu lado, revirou os olhos, mas sorriu.
- A barriga dele está mexendo, .
- Não quer dizer muita coisa. – a mulher deu de ombros, justificando – Deve ter uns bichinhos lá dentro pra queimar tanta gordura, afinal você já viu aquele tanquinho? – ela soltou, rindo e a meneou, pensando que a amiga não perdia uma. - São eles se divertindo na carne morta. – forçou um sorriso, sádica.
- Você é doente, garota. – deu um pequeno empurrão na amiga. – Ele é assim desde adolescente. Não adianta chacoalhá-lo, chamá-lo, nem mesmo ligar a música no último volume. Ele parece estar em um coma.
- Sorvete de flocos. – murmurou, gemendo baixinho.
As garotas arregalaram os olhos, franziram a testa e esperaram para ver se o urso hibernado tinha finalmente acordado. Alguns segundos e nada. bufou, enquanto falava:
- Será que isso é algum tipo de desejo, como das grávidas? E se ele não comer o espermatozoide dele sai com rosto de sorvete de flocos? – exclamou, aparentemente preocupada. riu.
- Depois eu sou a doente, né. – falou ela – Bem, eu proponho tratamento de choque. – Esbugalhou os olhos e, então, elas gritaram juntas: água!
Cinco minutos depois as duas voltaram ao quarto do amigo com um balde cheio de água gelada e dois sorrisos macabros no rosto. No fim da contagem regressiva, despejaram tudo em cima de . Ele pulou de susto, arregalando os olhos e xingando aos quatro ventos. As mulheres se acabavam de rir.
Então ele parou e as olhou profundamente, bufando de raiva. foi a primeira a entender que o rapaz não deixaria aquela pequena brincadeira sem resposta. Ela agarrou o pulso da amiga e a puxou para fora do quarto. logo entendeu e começou a correr junto. Elas jogaram as bolsas de praia nos ombros, por sorte já totalmente prontas e vestidas, e fugiram porta a fora. Um furioso as seguiu, enquanto elas corriam em direção à praia.
- Você está só de cueca, ! – gritou, sem diminuir os passos, tentando fazer o amigo desistir.
- Tudo bem, . – ele instalou o típico sorriso convencido no rosto, já automático - Eu sei que você sempre quis me ver assim.
A praia era próxima e logo elas estavam lá, com o rapaz tão perto. já estava agradecendo aos céus, porque não era exatamente atlética e respirar estava bem difícil pra ela. Mas foi quem parou abruptamente, encarando um ponto fixo. A amiga a acompanhou, ficando ao seu lado, colocando as mãos no joelho e dobrando-se para recuperar a energia. Então mal reparara o que tinha definitivamente abalado a outra.
Mas , um pouco atrás e na mesma linha de visão, viu exatamente o que fizera parar. E riu sozinho, colocando as mãos na cintura e até esquecendo de toda a raiva que o fizera correr até ali. Do mar saia um , todo molhado, com uma sunga preta que deixava todo seu trabalhado e bonito corpo à mostra. Ele bagunçava o cabelo rebelde e teve que respirar fundo.
- O gramado do vizinho é sempre mais bonito, não é, querida? – exclamou, já do seu lado, a abraçando pelos ombros.
- Por favor. – ela bufou, forçando-se a desviar o olhar. – Aprecio um corpo bonito. Nunca neguei que ele é... abençoado. Assim como você, Mr. Músculos.
- Você definitivamente não sabe mudar de assunto discretamente. – ele comentou, abrindo um sorriso em seguida – Mas eu gostei do elogio.
- Sempre. – ela deu de ombros, sorrindo de volta – Você sabe que está de boxer em uma praia lotada, certo? – ele assentiu, sem se alterar. – Eu aposto que você gosta disso também. – ele deu de ombros, mas seu sorriso lateral não escondeu a real resposta.

***


- Você já está ficando vermelha nas costas, . – falou, aproximando-se da amiga. – Me dê o protetor.
Ele ajoelhou-se ao lado da amiga e, concentrado, despejou um pouco do conteúdo e começou a espalhá-lo na mulher. observou aquilo e engoliu em seco, tentando afastar os ciúmes e as conspirações malucas sobre aqueles dois. Então, desviando o olhar, viu , bonita em seu biquíni, e sorriu.
- Bem lembrado! – exclamou, pegando o frasco – Você pode passar protetor em mim, ?
- Com prazer. – ela sorriu, aproximando-se dele para fazer a tarefa.
olhou em direção à , vendo que já tinha sumido e que a mulher o encarava, sem expressão alguma. Ele reprimiu uma risada maliciosa, sentindo-se ótimo que seu plano estava dando certo. Então voltou-se para a mulher que lhe tocava e sorriu pra ela, meigo.
- Uau, . Nunca tinha reparado que você era gostoso assim. – comentou e ele riu, meio envergonhado. Ele sabia que era ótimo para fazer se sentir enciumada, mas ver falando aquilo sem saber de suas intenções, sem qualquer pudor ou receio, o deixava um pouco embaraçado. Ela reparou, porque logo falou: - Desculpe, eu sou bem direta às vezes. Mas, sério, você tem umas costas maravilhosas, os ombros largos e tenho certeza...
A tosse estridente, estranha e um tanto conveniente de interrompeu a amiga.
- Está tudo bem, amiga? – perguntou, já devolvendo o frasco e se jogando na areia. somente a observou, feliz por dentro.
- Só perdida com tanto homem bonito. – mentiu, retribuindo o olhar de . – Você está perdendo tempo olhando para os nossos.
- Ah, eu definitivamente amo esse jogo. – recolocou os óculos escuros, para disfarçar os descarados olhares que ela daria aos corpos dos homens seminus. – Olhe aquele! – soltou, animada, meneando levemente a cabeça em direção a um tatuado.
- Porra. Ele é maravilhoso. – respondeu , assim que o avistou – Olha aquelas coxas. – e abriram os olhos, surpresos com as palavras tão diretas.
- Sim! – a amiga confirmou, alegremente – E aquela barriga e braços? Senhor! – se abanou com as mãos, fazendo a outra rir.
- Um tesão. – afirmou, fazendo os garotos arregalarem os olhos ainda mais.
- E imagina aquela barba roçando... – abriu um sorriso malicioso, mas um raivoso interrompeu:
- Puta que pariu. – soltou.
- Parem com essa conversa. – continuou – Por que vocês simplesmente não atacam o cara?
- Poxa, , é uma ótima ideia! – confirmou , sorrindo cínica – Obrigada.
Ela ergueu-se rapidamente, retirando areia do corpo, pronta para ir paquerar o tatuado. Ia começar a andar, mas aí viu , em pé, com os braços erguidos em pose, todo rígido. franziu a testa, sem entender. Ele nitidamente forçava os braços e peitoral.
- O que você está fazendo, ?
- Nada. – ele respondeu rapidamente, modificando a postura, agora revivendo a estátua do “O Pensador”, os músculos ainda mais rígidos.
- Não sou idiota. Você está a ponto de explodir. – virou-se para o resto dos amigos, gritando – Gente, olha como o está todo estranho, tenso. Vocês sabem me explicar o porquê?
- começou, revirando os olhos por tamanha obviedade – Ele está se mostrando para as gatas, valorizando os atributos dele.
- Propaganda enganosa, você quer dizer. – comentou . riu em resposta.
- É super comum, todo mundo faz. – completou , dando de ombros.
- Ei, eu nunca precisei fazer. – falou um convencido .
- Priminho, você é um mentiroso. – a mulher o apontou, revelando-o em seguida: – Você estufa o peito toda vez que está perto da .
Enquanto ele bufava, irritado, o pessoal caia na risada.



XIII. Just Pretending We're Cool

A música lenta saindo da meia dúzia dos violões servia de ótimo plano de fundo para as conversas, as danças envolventes e um gole de álcool de tempos em tempos. O grupo estava na praia, no famoso luau do condomínio. A escuridão da noite era acalentada por algumas tochas distribuídas ao redor da grande fogueira, no centro do círculo.
Sentada em uma das cangas estava , com um copo de vinho na mão, observando por entre as chamas o rapaz tatuado do outro lado da fogueira. Ele era o mesmo da praia, que horas atrás servira de paraíso para ela e . Sob a luz da lua, a encarando de volta com um sorriso malicioso nos lábios, ele parecia ainda mais bonito.
Embora um tanto lerdo, a mulher pensava. Eles já estavam flertando há muitos minutos, afinal, e ele não parecia estar perto de tomar uma iniciativa. Bem, tampouco se importava de ser dela essa função. Mais alguns segundos e ela se levantaria e iria até lá.
Um animado apareceu na sua frente, obstruindo sua visão do tatuado, e sorriu pra ela. Pegou o pulso da mulher e a puxou, ignorando as perguntas e a confusão da mesma. Passou a mão por sua cintura e a levou para a pista improvisada de dança, a alguns metros dali. É, parece que a conquista ficaria para mais tarde aquela noite.
Os dois encontraram , que sorriu para a amiga e a abraçou. Logo uma música mais rápida começou a tocar e começou a mexer os braços na frente do peito e eventualmente rebolar a bunda. As mulheres riram. Depois de alguns minutos, no entanto, elas tinham aderido aos passos malucos e sem sentido e se divertiam juntos com o amigo.
Do outro lado da praia, bebendo cerveja depois de jogarem uma espécie de futebol na areia, estavam e , conversando e observando as garotas e . meneou a cabeça para eles e então questionou:
- Agora o é o dono do harém? – relembrando o que havia dito semanas antes, em uma de suas primeiras conversas com os amigos e roommates.
- vive pela imagem. Mas na hora H, duvido que ele desse conta. – afirmou , sorrindo.
- Bem, acho que deve saber disso na prática, certo? – retrucou, ácido.
- Vai se foder, .
Nesse momento, viu os dois e virou-se levemente, dançando sensualmente e mostrando suas belas curvas. Piscou para e sorriu, triunfante. , em resposta, bufou, bagunçando os cabelos.
- Muita tentação para um cara comprometido?
- Você está a fim de morrer hoje, não, ? – virou para o amigo, irritado.
- Longe disso. Eu tenho altos planos para hoje à noite... – suspirou, voltando o olhar para os três amigos dançantes. Seu foco, obviamente, era e ele sorriu quando viu a maneira desajeitada que ela balançava o bonito corpo.
franziu as sobrancelhas e tentou capturar onde era, ou melhor, quem era o alvo de . Por sorte, ele percebeu a besteira que estava fazendo e desviou o olhar rapidamente, mantendo o disfarce.
- Está conferindo as gatas? Já achou alguém para aquecer sua cama hoje? – comentou, erguendo as sobrancelhas, malicioso.
- Você percebe que conseguiu em uma mesma fala misturar dois séculos, certo? É bastante estranho da sua parte, cara.
- Você está mudando de assunto. Muito mal, por sinal. – avisou.
- Sim, de fato eu quero mudar de assunto, porque falar sobre a escolhida da noite não é realmente meu tópico favorito. – concordou, dando de ombros, mas ressaltando em seguida: - Mas a minha observação foi bastante sincera e continua válida.
- Então, aqui também vai minha observação – sorriu – Você sabe que eu estou bebendo já tem algumas horas, logo eu não sei exatamente do que você está falando? Do tipo, não estou entendendo nada. Me perdi no meio. – riu sozinho.
- Ok, vamos nos achar. Me conte o que há nessa sua nova namorada, Emily.
- Hm... – ele fingiu pensar, então riu levemente – Dois braços, duas pernas e acredito que trinta e dois dentes.
- Fico feliz que ela tenha a arcada dentária completa. Mas, o que eu quis dizer, e eu vou falar isso com todas as letras, por que começou a namorá-la? E, antes que venha com alguma gracinha, deixe-me completar o raciocínio. Você pediu em namoro, ela recusou e dias depois você apareceu namorando. E então eu te pergunto: por quê? – deu um gole rápido na cerveja – Todo mundo está se corroendo pra perguntar isso, então estou fazendo o papel do diabo.
- Há mil motivos para isso, mas tudo se resume a: na cama ou fora dela é ótimo estar com a Emily. – ele sorriu de lado. assentiu, pensativo.
- Sabe, de qualquer outro, em qualquer outra situação, eu aceitaria essa resposta sem pensar duas vezes. Faz muito sentido. Mas você... você tinha . E, independente de taxarem ou não como namoro, vocês tinham as duas coisas. Pelo pouco que eu vi, vocês se completavam de tal maneira... – ele balançou a cabeça, sem saber mais o que falar. Já pensara nos dois como o casal símbolo. Apesar das brigas e implicâncias bobas, o olhar que eles trocavam, as farpas, tudo entre eles tinha, obviamente, muito desejo, mas era além: tinha companheirismo, tinha amor.
- Talvez. – ele deu de ombros, suspirando – Mas eu não tinha . Eu tive ótimos momentos com ela, nós compartilhamos muitas coisas boas e ruins. E eu quis tê-la, é verdade. – engoliu em seco e bebeu um gole da cerveja – Mas ela não quis. E no fim... a verdade é que nunca a tive. – mexeu nos cabelos, nervoso – Nem nunca terei. Ela é um espírito livre e eu não posso fazê-la suficientemente feliz presa.
esbugalhou os olhos, surpreso por se abrir tanto. Colocou a mão no ombro do amigo e bateu lá, como sinal de compaixão e respeito.
- Sinto muito, cara. – soltou somente, porque realmente não sabia mais o que falar. E porque ele sinceramente sentia pelo amigo, que parecia tão perdido e doído em seu amor confuso.
Sorte ou azar, duas meninas apareceram nesse exato momento, esbanjando sorrisos. Com garrafas de cerveja, ofereceram aos rapazes, para substituir as já quase finalizadas nas mãos deles. A loira alta foi a primeira a falar:
- Dois lindos rapazes sozinhos? – ela passou seus dedos delicadamente pelo braço de - É muito bom pra ser verdade. – piscou para ele.
- Definitivamente. – a morena concordou e, enquanto diminuía a distância entre ela e , a fenda de sua saia longa abrira e toda a coxa da mulher ficou exposta. limpou a garganta, desviando o olhar o mais rápido possível. Ela riu – Você gosta, é?
- Ah, ele gosta. – concordou, retirando a loira de cima dele e sorrindo forçado para ela. – Eu tenho namorada, sou muito bem comprometido. Mas tenho certeza que , meu amigo aqui, vai adorar vocês duas. Ele está em busca de uma noite diferente e inesquecível.
Então, saiu, deixando o amigo bufando, com duas lindas mulheres, uma em cada ombro. Ele tentou pedir desculpas, se desvencilhar, mas elas o seguraram ali e começaram uma conversa – e um flerte - com ele.
riu de , que tentava mostrar suas habilidades em um dos violões. Bom que ele tivesse seguido arquitetura e não a carreira de músico, pensava, enquanto olhava o resto da praia. O sorriso que estava implantado em seu rosto sumiu rapidamente quando ela notou com duas garotas. A cara dela fechou e vincou a testa, raivosa.
tinha as mãos no bolso do short, meio tímido, mas não afastava os braços ousados das garotas passando por seus braços e tórax. Ria de qualquer besteira que elas soltavam. E só faltava morrer de ciúmes.
Virou para e decretou, com um tom urgente:
- Eu vou pegar o primeiro cara que passar na minha frente. – afirmou, decidida.
- O quê? – falou, com uma careta de confusão. Então, pegou nos dois braços da amiga e começou a sacudi-la. – Quem é você e o que fez com minha amiga? – gritou – Sai, E.T. Sai, sanguessuga.
- , pare! – a empurrou levemente, para se desvencilhar da outra. – Você é muito estranha, sério. E agradeça por eu não beber, ou você estaria coberta de vômito agora.
- Bem, obrigada. Eu acho. – exclamou, antes de puxar a amiga para começarem a andar em direção a principal roda do luau. Onde estava e, coincidentemente ou não, onde também estava o tatuado bonito que flertara algumas horas atrás. – Eu vou para ação, amiga. Você vai se controlar e não agarrar qualquer um? – somente revirou os olhos, já mais calma – Eu sei que é difícil, mas deixe que eu faça isso por você. – piscou o olho, esperta. A amiga riu.
Elas continuaram a caminhar juntas, até que tomaram rumos diferentes. andou até o tatuado e lhe lançou um olhar, antes de soltar:
- Nós vamos só ficar na troca de olhares mesmo? Porque não estamos mais na pré-adolescência. – o rapaz esbugalhou os olhos, surpreso, mas abriu um sorriso, apreciando a direta da mulher.
- Eu estou disposto a trocar muito mais que olhares. – respondeu, malicioso.
- Não é exatamente uma boa cantada, - ela fez uma careta. Logo em seguida, no entanto, puxou o pulso dele para que ele levantasse – mas você é bonito demais, então é só descobrirmos um jeito de usarmos sua boca em uma melhor tarefa.
Enquanto e o estranho tatuado se afastavam da multidão, , por sua vez, foi em direção às pessoas e se sentou ao lado de , que a abraçou pelos ombros em um gesto de carinho. Por sorte ele já tinha desistido da ideia de tocar violão.
- Já pegou muitos, minha linda? – brincou com ela.
- Tantos que perdi a conta. – retrucou, sorridente, fazendo o amigo rir.
- Agora foi correr atrás do que lhe é direito? – ele olhou rapidamente ao redor, vendo dois pontinhos que sabia que era a amiga e o cara da vez – Ela já estava de olho naquele cara há um tempo.
- Sim. E ele é totalmente gostoso, então.
- Bem, eu também sou totalmente gostoso. E você está comigo. – deu de ombros. – Se você estiver solitária eu posso resolver sua questão. – piscou – Embora esteja preocupado com a quantidade de germes na sua boca depois de você ter passado o rodo.
Eles riram e mal perceberam , até que o mesmo se jogou entre os dois.
- Sempre agarrando minha prima, melhor amigo... – bateu forte no peito do , forçando um sorriso.
- Cara, porque tu não vai incomodar sua namorada? – revidou, enquanto encolhia-se para fugir dos tapas.
- Já vou agraciá-la com minha ligação. Mas antes, fofoca do dia: eu e estávamos conversando e chegaram duas gatas. Lindas, maravilhosas. Cada curva que meu Deus! Obviamente, elas olharam pra mim, se interessaram por mim, aí eu infelizmente tive que cortar as fantasias delas. Falei: babies, infelizmente, esse cara está comprometido.
- Affs, , você espera realmente que a gente acredite nisso? – bufou, revirando os olhos em seguida.
- Bem, acredite se quiser. Mas estava com elas até agora. – revelou, bombástico. engoliu em seco. , por sua vez:
- Ah, que lindo! Nossa criança cresceu! – afirmou, emocionado. riu brevemente, mas logo cortou sua alegria:
- Acho que não criamos ele direito, , meu amor. – meneou a cabeça negativamente – Ele as dispensou. Dispensou as duas! – gesticulou, tentando reforçar a questão.
arregalou os olhos e se levantou rapidamente, avisando que já voltava e caminhando rapidamente em direção a . Assim que o encontrou, já vindo na direção do grupo, ele o parou. O outro o olhou, sem entender, esperando que ele falasse alguma coisa. respirou fundo e colocou a mão nos seus ombros, com carinho, antes de falar:
- Cara, você não precisa esconder. Sério, não tem problema algum. Somos sem preconceitos. Você não precisa levar XX para casa se não quiser. – piscou o olho para ele e suspirou. Uns segundos de silêncio e ele retomou a fala: - Dito isso, vamos para lá antes que roubem nossos lugares.
, ainda sentada ao lado de , tentava conter a alegria com a recente informação, mas ainda assim não pode segurar um largo sorriso.
- Que sorriso é esse, prima? – ele inquiriu, curioso.
- Estou feliz, oras. – respondeu somente, enrolando-o enquanto tentava formular uma desculpa.
- Geralmente sorrisos expressam felicidade, mesmo. Quero saber o porquê.
- Porque... a vida é bela.
- Você é péssima mentirosa, . Só espero que isso não seja um código significando “peguei um cara super gostoso ou algo assim”. – ele suspirou – Você era tão inocente quando mais nova. Então, ficou amiga da e de repente está falando de homens e usando palavras... ousadas... é uma péssima influência pra você.
- Bem, - bufou antes de continuar – Sabemos quem daqui está mais envolvido com ela. E não sou eu, né, priminho?
e chegaram naquele instante, impedindo que aquele começo de discussão vingasse. estava com raiva pelas palavras de e toda a hipocrisia posta nelas, mas bastou olhá-la para que esquecesse tudo aquilo.
- parece estar conhecendo todas as tatuagens daquele cara profundamente... – comentou ele, com um sorriso malicioso.
- Eles deviam ter colocado um alerta por perto: somente acima de 18 anos e adeptos ao voyeurismo. – completou, rindo.
revirou os olhos e bufou, tentando ignorar os amigos. Ele sabia que faziam aquilo de propósito, jogavam em sua cara. Até parece que era o culpado de não ser ele com aquela noite.
- Bom, pelo menos ela está se divertindo. – comparou , dando de ombros.
- Ah, minha linda, você quer um pouco de diversão? – inquiriu retoricamente , sorrindo para a amiga – Porque eu posso definitivamente satisfazê-la nisso. – fez uma pequena pausa, vendo-a ficar calada. - Não? Se arrependerá depois, mas ok. Posso arranjar outro cara para você. Obviamente, não tão bonito e sedutor, mas...
- , você poderia me acompanhar até em casa? – interrompeu – Eu bebi demais e não estou me sentindo muito bem. Você poderia me agradar com um daqueles seus horríveis chás. – ele abriu um pequeno sorriso.
- Claro, . Vamos.
Levantou-se e deu um rápido adeus para os dois restantes, mas segurou seu pulso e virou-se para falar com :
- Você sabe que ela não é sua mãe, né? Ela quer ficar aqui, aproveitar a festa e pegar alguns caras.
- Ah, realmente, por que você nunca a usa para necessidades médicas, não? Já cansei de ver você pós-ressaca, , e é a que sempre te acode.
- Ok, ok. Eu decido o que faço da minha vida, certo? Certo. – falou – Está tudo bem, . E desestresse, . Eu não me importo de ajudar vocês e vou continuar fazendo chás milagrosos, então fiquem tranquilos.
deu um pequeno abraço no e, então, falou em seu ouvido: Depois conversamos sobre os outros caras. Quando ela se afastou, viu o amigo sorrindo, mais relaxado. Logo ela e se afastaram, andando lentamente pela areia, a música pouco a pouco diminuindo.
- Então, o que falou para o ? – perguntou, depois de alguns minutos em silêncio. deu de ombros e o ignorou.
Embora longe da multidão do luau, já com os pés já no asfalto, as batidas de You and I, tão conhecidas por , foram ouvidas perfeitamente. Assim que alguém começou a cantar, a mulher acompanhou, cantarolando a canção que adorava.
Don’t you worry there my honey
We might not have any Money
But we’ve got out love to pay the bills

- Maybe I think you’re cute and funny. Maybe I wanna do what bunnies do with you. – ela continuou – If you know what I mean.
- Ah, quer dizer que você quer fazer o que os coelhos fazem? – mostrou-se ligeiramente interessado nas palavras que ela cantara, olhando para com as sobrancelhas arqueadas.
tentou manter uma careta brava enquanto empurrava de leve o rapaz, mas acabou caindo na risada.
Logo eles estavam em casa. abriu a porta e a deixou daquele jeito para , já se encaminhando para a cozinha do local para colocar a água do chá para ferver. O outro, entretanto, não a deixou.
Puxou pelo braço, a virando para ele. Ela fez uma careta de confusão, mas antes que falasse qualquer coisa, ocupou-se de sua boca. Sem esperar, pressionou sua língua pelos lábios da mulher até que ela se entregasse ao ato. Não demorou mais que poucos milésimos de segundos. Então, as mãos dele foram para sua cintura, apertando-a. soltou um suspiro, mordendo o lábio inferior dele e afastando os dois rostos, não sem escutar um bufo do rapaz.
- Tenho a impressão que você não me trouxe aqui para fazer chá. – sussurrou , arqueando as sobrancelhas.
- Sua habilidade de dedução está afiadíssima. – comentou , roubando um selinho da mulher em seguida – Estou mais saudável do que nunca.
, então, pegou um dos pulsos do rapaz e simplesmente o arrastou até a escada, subindo-a em seguida. Bastou chegar à porta do quarto de para que ela o puxasse para um longo e profundo beijo. Ele a envolveu novamente pela cintura, circundando-a com seus fortes braços.
O beijo cortou-se e eles sorriram um para o outro, caminhando a distância que os separavam da cama. mexeu no cabelo, meio nervosa, meio envergonhada e com muito desejo. olhou para a mulher, se perdendo nos traços da mesma. A queria tanto e cada nervo do seu corpo tremia de insegurança e ansiedade. Parecia que tudo mudaria a partir dali.
Ela mordeu seu braço, encostou seus lábios no mesmo local e o olhou, travessa. Ele sorriu para ela, mas, principalmente, por ela. Colocou sua mão no pescoço dela e fez carinho lá, enquanto se aproximava para mais um beijo. Esse começou simples, delicado, singelo. Mas, de repente, decolou.
tinha seus dois braços no pescoço de e ele tinha as mãos no fim de suas costas, segurando-a em seu colo. As línguas se debatiam vorazmente e eles se agarravam um no outro. Queriam contrariar a lei da física e provar que, sim, dois corpos poderiam ocupar o mesmo lugar.
Ainda completamente envolvidos, as mãos ousadas de começaram a desabotoar a blusa de . Quando o beijo foi cortado, pela falta de ar, ele riu com sua boca grudada na dela, pelo desespero da mesma em ver aquela camisa longe de ser um obstáculo.
Assim que a blusa voou pelos ares, retribuiu e, entre beijos no pescoço e no colo da garota, retirou-lhe a blusa pelos braços. Eles finalmente caíram na cama e, com a mulher em seu colo, ele concentrou-se em seus peitos, cobertos por um sutiã preto. Não pensou nem uma vez antes de deslizar suas mãos até lá, sentindo-os. E, então, a boca as substituiu.
A mulher jogou a cabeça para trás, concentrando-se em aproveitar os carinhos. De vez em quando arranhava as costas do rapaz, por onde deslizava as unhas. Faltava muito pouco para ela ir para outro mundo, longe de tudo e todos, somente com .
Mas, então, ela escutou um barulho vindo lá debaixo. No mesmo instante pulou, afastando-se dele e correndo atrás de sua blusa. Vestiu-a e só aí pode respirar profundamente, aliviada. Parecia que algum dos amigos havia chegado a casa e ninguém poderia descobri-los. Não agora.
jogou seu corpo para trás, afundando-se na cama, e suspirou. Bagunçou os cabelos e bufou, não escondendo a frustração. Alguns minutos se passaram e pelo silêncio absoluto que voltou a reinar, a impressão de de uma volta precipitada havia sido falsa.
- Então, só pode ser escondido entre nós? – inquiriu, sério. respirou profundamente antes de responder:
- Posso ser brutalmente honesta com você?
- Você sempre é. – ele comentou, ajeitando-se na cama para observá-la melhor. – Mas o fato de ter me perguntado me assusta um pouco. – deu um sorriso forçado e continua a falar:
- Bem... Logo que terminei com o Mark, eu só conseguia pensar que não queria me envolver com ninguém por um bom tempo. Mas claramente isso não funcionou. Você estava realmente investindo o seu tempo em me seduzir. Ai eu fui para o plano B: ficar com você para matar a vontade. Por que a essa altura eu já estava quase te jogando em uma parede e pulando em você. – ela deu de ombros, sincera.
- Na verdade, você meio que já pulou em cima de mim, quando estava se mudando lá de casa. – ele ponderou, sorrindo malicioso.
- Mas eu tive autocontrole suficiente para não te jogar na parede. – retrucou e riu, concordando com a cabeça. Suspirou e então continuou, mais séria - O plano era ficar com você e voltar para o plano A, mas isso também não funcionou. Agora eu acho que não é possível matar a vontade de estar com você. Eu te quero, quase o tempo todo. E isso é bem louco e assustador. Eu quero entender o jeito que eu me sinto com você, quero me entender, nos entender, antes que nossos amigos saibam disso.
- Tudo bem, eu entendo. – ele sorriu de lado e agarrou a mão de , puxando-a de volta a cama. – Além disso, escondido é mais gostoso.
Ela sorriu e cruzou os braços no pescoço dele. Dessa vez, começou com um selinho. Pouco a pouco, eles vibraram juntos, enquanto encontravam inúmeros gemidos, diferentes calores, próprios sabores. Puseram fogo ao desejo e ambos ficaram chamuscados de prazer ao fim.

***


passou as costas da mão nos lábios, limpando os possíveis borrões de batom. Ela tampouco tinha um espelho para ajudá-la, pois continuava na praia. Poucos minutos antes ela se despediu do tatuado, afirmando estar com uma dor de cabeça. Os beijos e o amasso quente não deixaram ela a fim de muito mais.
Ele tinha uma barraca estratégica na areia, então vinha caminhando pela mesma desde que tinha saído do cubículo calorento. Seus chinelos de dedo estavam nas mãos e a canga enrolada na cintura. O vento batia forte àquela hora da madrugada, o barulho das ondas ressoando no silêncio, e foi retirando alguns fios de cabelo rebelde de seus olhos que ela o viu.
. Ele estava sentado na areia, próximo ao mar. As pernas dobradas, os cotovelos apoiados nos joelhos e um olhar pensativo para o horizonte. A garrafa de cerveja em mãos e as outras vazias no seu lado eram suas únicas companhias.
A mulher precisou de muito autocontrole para não ir até o encontro dele. Vê-lo assim só... suspirando, mal sabendo o que pensar. Queria abraçá-lo, escutá-lo e fazê-lo sorrir, mas sabia que ela era provavelmente a última pessoa que ele queria ver. E a culpa disso era exclusivamente dela.
Então desviou os olhos de , porque sabia que se olhasse um pouco mais iria se desmontar por inteira. E não podia fazer isso. Por ela e, principalmente, por ele. Passou a mão livre pelos cabelos bagunçados e respirou fundo, continuando a andar.
Já na rua propriamente dita, entre as casas do condomínio, uma música eletrônica começou a soar mais alto. Ela passou pelos autores do barulho, cerca de dez jovens que estavam na frente de uma das casas, dançando e bebendo. também não passou despercebida para eles.
- Ei, linda, quer uma bebida? – um dos mais corajosos perguntou.
- Não, mas aceito uma dança. – ela sorriu e outro deles puxou-a para mais perto, dançando com ela a batida.
Foram somente cinco minutos de brincadeira, mas conseguiu rir e momentaneamente esquecer a aflição de minutos antes. Entrou na casa sorrindo e mal percebeu a linda loira que estava apoiada na bancada da cozinha, com um copo na mão, somente de calcinha e sutiã.
- Olá. – foi a tal que exclamou para ela. , por sua vez, mexeu a cabeça, em um cumprimento silencioso.
ou ? – ainda inquiriu, embora tivesse quase certeza que era acompanhante do primeiro, pelo tipo. Peitos grandes, um corpo trabalhado e vaidosa.
- Não sei. – deu de ombros, sem se abalar – Amiga, só sei que ele é capaz de levar qualquer uma ao céu com aquela...
- Ok, eu realmente não quero saber. – a interrompeu. – Eu vou dormir. Fique à vontade. Vá e volte do céu quantas vezes quiser, só não acorde toda a casa ao fazer isso, sim?
- Sem problemas. Mas talvez você tenha que falar com o outro casal lá em cima. Eles estão bem... animados! Escute só.
Elas fizeram silêncio por alguns instantes e pôde ouvir uma risada de , seguida de um grito feminino. Reprimiu o bufo antes de afirmar:
- Que bom que todos estão se divertindo. – e saiu para encontrar seu fiel e fofo travesseiro.

***


No dia seguinte, levantou cedo, preparou o café e, notando a casa ainda totalmente silenciosa, pegou uma caneca fumegante e saiu dali. Caminhou até o píer e lá sentou, observando a linda paisagem e sorrindo pelas lembranças da infância.
- Preciso te perguntar algo. – uma conhecida voz se fez soar no meio da tranquilidade do mar. A mulher desviou o olhar, um pouco assustada, mas logo se desmanchou em um sorriso.
- Eu sei que a noite foi ótima – murmurou ela para – mas eu não vou me casar com você.
- Ah, é? – ele exclamou, mas não pôde deixar de rir – Pois espere alguns meses e outras noites como a de ontem para você mudar facilmente de ideia. – sorriu. aproximou-se da , segurou-a pela cintura e depositou um leve beijo em sua boca. – Bom dia, .
- Hm, definitivamente está ficando um bom dia. – respondeu ela, envolvendo-o pelo pescoço e juntando as bocas novamente, em meio a sorrisos.
encaixou-se no meio das pernas da mulher, aproveitando que ela estava sentada, e a abraçou. Depositou um beijo na clavícula dela e então a olhou, sentindo-a tão perto.
- Então, o que ia me perguntar? – ela perguntou e ele fez uma careta.
- Já esqueci. – ela riu – Vamos a outra. Por que está aqui tão cedo?
- Acordei cedo. – ela deu de ombros – Gosto daqui, do píer. Lembra meu pai. – sorriu e depois de alguns instantes lembrou-se de algo. – Sabe, foi exatamente ali – apontou para um pouco mais a frente – que dei meu primeiro beijo.
- Devo ter ciúmes? – brincou . sorriu.
- Pena seria mais provável. – afirmou, antes de explicar - Ele era um garoto do condomínio, de algumas casas adiante da dos meus tios. Nós já meio que gostávamos um do outro há alguns verões, mas naquele dia ele teve coragem de me beijar. Foi péssimo, mas, além disso, meu pai apareceu no meio da ação. – ela riu pela lembrança e acompanhou com um sorriso. – Meu pai adorava assustar os garotos. Ele era um bobalhão, mas cruzava os braços no peito fingindo ser mais forte e fazia cara de mau. Os garotos morriam de medo. Esse tal pulou na água e tudo. Nunca vi alguém nadar tão rápido. – suspirou – Sinto falta dele.
- Do adolescente do beijo ruim? , alô, você conseguiu algo muito melhor. – apontou para si mesmo, brincando e ela abriu um sorriso. – Eu sei, eu sei. – a voz dele mudou, mostrando que agora ele falava sério. – Lembre-se sempre dele, das coisas boas, e ele vai estar sempre perto de você.
- Obrigada, . – deu-lhe um beijo no pescoço - Eu te conheço há pouco tempo, mas você tem... – ele a interrompeu:
- Balançado seu mundo? Deixado suas pernas bambas? – sugeriu ele, sorridente.
- Sido um ótimo amigo. – completou.
- Outch. – colocou a mão no coração, fingindo-se ferido. – Dizer isso depois da nossa noite magoa. Poderia ao menos ter dito que eu era também um ótimo amante.
- Hm... talvez você seja. – ela deu de ombros, sacana, e então passou as mãos pelos ombros do rapaz – Eu tenho que confirmar.
mordeu o lábio inferior de , então ele se aproximou ainda mais, apertando o corpo dela no seu e tentando beijá-la. Ela resistiu por alguns segundos, desviando o rosto e fazendo-o errar os beijos por milímetros, mas finalmente as bocas se uniram. Sedentas, como se há muito não se encontrassem, as línguas se moviam, enquanto reconheciam as partes do corpo um do outro.
De repente, a brisa de começo da manhã não era mais suficiente e eles queriam simplesmente tirar todas as roupas e acabar com esse calor. Embora fosse loucura fazer aquilo no meio do píer, ainda tentou abaixar a blusa dela, enquanto distribuía beijos pelo colo da mesma. Circundando a cintura dele com as pernas, ela jogou sua cabeça pra trás, aproveitando as sensações.
- Que porra é essa? – um surpreso e puto gritou.



XIV. What a Wicked Way to Treat the Girl that Loves You

e pularam, assustados. Ele a coloca com os pés no chão antes de se afastar. Então, olha para o chão e respira fundo, adquirindo coragem antes de encarar . A mulher, ao contrário, encara o primo com um olhar de desafio. Ela não queria que os amigos descobrissem, de certo, mas tampouco abaixaria a cabeça por fazer o que todos faziam.
- O que foi isso? Meus olhos sangram! – ele gritou, bufando em seguida.
- Menos, , bem menos. “Isso” era o óbvio: eu e nos beijando. Sim, surpresa, sua prima santinha também faz isso! E não é da sua conta.
- Isso era bem mais que um simples beijo.
- Bem, sua prima sabe fazer mais do que beijar. E continua não sendo da sua conta. - retrucou ela, o que o fez ficar ainda mais vermelho.
- Puta que pariu. – passou as mãos pelo cabelo, nervoso – Quer dizer que agora vocês são um casal? , acorda, você acabou de sair de um relacionamento merda e já está se jogando de cabeça no mesmo erro.
- Muito obrigada pela porra do seu apoio, amigo. – murmurou , irado e irônico. – Minha vontade é me atirar nesse mar, só pra não precisar escutar seu ridículo desespero.
- Bem, - olhou para o outro, os olhos esbugalhados de raiva, o sorriso de malícia – talvez eu possa te ajudar a concretizar esse desejo.
- , - chamou atenção dele, fazendo-o desviar o olhar - qual o problema de eu e juntos? O real problema. Porque eu só vejo você e sua grande necessidade de me controlar. Ele é seu amigo, você o conhece tanto quanto eu.
- Esse é um dos problemas. Ele mora comigo e tudo mais, mas ele apareceu tem algumas semanas. Eu não o conheço o suficiente, muito menos você. Não sabemos quase nada dele. Ele pode ser um traficante internacional, pelo que eu sei.
- Você pode ser um babaca, , pelo que eu sei. – respondeu, também ficando puto – E olha que poucas semanas já foram o suficiente para descobrir isso.
- Engraçado, priminho. Há quanto tempo você conhece sua querida namorada mesmo? – soltou uma risada amarga – Dois pesos, duas medidas.
Vendo que havia sido vencido naquela perspectiva, bufou antes de continuar:
- Tudo bem, o casal vinte quer namorar. Ótimo. – quase podia-se ver o sarcasmo – Por que não anunciaram aos amigos? Por que estão escondendo o clima de romance?
- Por que algo me dizia que você seria extremamente irritante quando descobrisse? – refutou .
- Você não percebe, ? – ele revirou os olhos antes de continuar – claramente está te usando. Ele quer ter um lance com você, mas nada muito sério. Então, ele diz algumas coisas bonitas e fala que escondido é melhor, porque não tem tanta pressão dos amigos. No fim, ele só quer se aproveitar de você.
- Bom, adotando esse ponto de vista, eu devo ser a aproveitadora da história. – afirmou a mulher – Aquela história de sempre: usando o corpinho dele enquanto quero, depois vou jogá-lo no lixo. – brincou.
- , você pode me usar o quanto quiser. À vontade. Eu adoraria ser seu escravo sexual e fazer toda a sacanagem que você...
- Que porra! – esbravejou , interrompendo o amigo.
- Nós, na verdade, eu, queria manter o relacionamento escondido, porque não queria todos vocês se metendo.
- Ah, você não quer que todo mundo se meta na sua vida? Que interessante, considerando que você se mete na vida de todo mundo. – apontou – Ou você considera que me trancar na sacada com por duas horas não seja interferência na vida alheia?
- Tudo bem, chegou a minha hora de falar. – exclamou, mantendo-se firme em suas palavras - Primeiro, pare de falar de mim como se eu não tivesse aqui. Estou bem do seu lado e sou seu amigo. Ao menos, considerava ser, portanto, pare de me tratar como um qualquer, um estranho. Você está descontando tudo em mim, mas você está perplexo em ver que sua prima cresceu. Que ela faz tudo, sim, que você faz. Que ela não é realmente a santinha que vocês dizem. – suspirou - Eu admiro a relação tão próxima de vocês, como irmãos, mas você, , não é dono dela. Você não dita o que ela pode ou deve fazer. Você, no máximo, a aconselha e ela pode muito bem ignorá-lo. Aliás, na maioria das vezes, ela vai estar com toda razão ao fazê-lo. – soltou uma risada, concordando - Ela é como qualquer um de vocês e pode fazer o que quiser, assim como o resto do grupo. E você deve aprender a lidar com isso.
Continuou:
- Sabe a hipocrisia que nos roda, ? Se eu tivesse encontrado qualquer outra, você e seriam os primeiros a me parabenizar. Ontem mesmo você me jogou duas garotas. Falou para eu ir em frente, para uma noite e nada mais. Se decepcionou quando eu as dispensei. Bem, eu gosto da . Sendo ela sua prima ou não. Eu não a quero só por uma noite, eu realmente gosto dela. Mas você não consegue aceitar isso.
calou-se, porque realmente não tinha nada a dizer depois de tudo aquilo. Então, fez o que qualquer ser racional e irritado faria. Aproximou-se do amigo e o empurrou até a água. Dando-se por satisfeito, ele sumiu dali.

*


O celular de soou estridente, chamando atenção do casal também na sala, além da própria dona. Ele estava longe, no entanto, na bancada da cozinha americana e o sofá estava bastante confortável para levantar e atendê-lo.
- A noite foi intensa, é? Você está dolorida assim? – murmurou, notando que a amiga estava com preguiça.
- Vai se foder. – ela deu o dedo do meio para o rapaz.
- Eu posso pegar pra você. – ele continuou, ignorando a grosseria de – Mas aí tem aquela taxa de sempre. Eu atendo, seja quem for, e você sofrerá as consequências de minhas desgovernadas palavras.
No meio da fala de o celular tinha parado de tocar, mas segundos depois, quando pensava ter se livrado de quem quer que fosse, a campainha voltou a tomar o local. Ela bufou, antes de concordar com a proposta do amigo. Ele abriu um sorriso e levantou correndo, em direção ao aparelho.
- Aqui é o assistente da Sheilla. Ela está ocupada com um cliente agora, mas os preços são 50 a hora, mais 30 se quiser oral...
- Puta que pariu, ! – reclamou , embora segurasse a risada. – Se for meu professor de pesquisa? Estou ferrada!
- Opa! Lindsey, tudo bem? – ele demonstrou-se surpreso e seu rosto, por um segundo, ficou vermelho de vergonha.
- , é você? Tudo bem comigo sim e com você? – colocou a chamada no viva-voz e pode ouvir a voz rouca e nervosa da sua irmã do outro lado da linha. Lindsey tinha uma quedinha conhecida pelo amigo da irmã mais velha. – Eu vi a foto que você postou ontem no Instagram e você está tão... – limpou a garganta – quer dizer, todos vocês estão tão bonitos.
- Oi, pirralha. – gritou. Queria tranquilizar um pouco a irmã, dizendo que também estava ali. Lindsey deveria estar toda envergonhada.
- Ei, eu falo com ela. Foi o trato. – avisou e Lindsey só faltou gritar do outro lado da linha, concordando com a ideia dele. – Como você está, querida?
- Estou bem. Eu e meus amigos também fizemos uma pequena viagem este feriado. Foi bem divertido. Estou até preparada para estudar para a prova de segunda. – ela deu uma risada.
- Ah, estude muito, minha médica preferida. – ele respondeu, fofo. Então, olhou maléfico para antes de completar: - Seus pais merecem que alguma das filhas deles seja inteligente.
- Bobão! – a amiga gritou.
- Obrigada. – ela riu de novo. Tímida, se calou.
- E os garotos, estão muito assanhados? Eles podem ser terríveis. – suspirou – Mas qualquer coisa, me ligue. Eu vou até aí e digo a eles que você é minha namorada.
- Você faria isso? – Lindsey murmurou, num misto de surpresa e alegria desmedida.
- Claro, minha linda. Seria meu prazer. Imagina, todos os garotos morrendo de inveja de mim por ter uma garota maravilhosa nos meus braços.
- , você vai provocar um ataque do coração na minha irmã.
- Obrigada, . E , pare de gracinhas. Por que você não vai atrás do ? – rebateu, ácida e caiu na risada, enquanto a irmã bufava. Ninguém merecia escutar aquilo da pirralha da Lindsey.
- Você não sabe as notícias? Ele tem uma namorada agora. Sua irmã está sozinha.
- Não! – a garota surpreendeu-se – Ela não me contou isso! Ela está muito triste, chorando e tal?
- Não exatamente.
Eles conversaram mais alguns minutos, contando fofocas e tratando-se como grandes amigos. sempre muito fofo e gentil com a garota. Quando finalmente desligou, a mulher da noite anterior, que até então estava quieta apoiada num dos ombros dele, falou:
- Quem era?
- A irmã dela, Lindsey. Um amor de pessoa. – exclamou e logo continuou, maliciosa:
- Sim. Às vezes é uma chata, mas não posso negar que ela puxou os bons genes da família. Arrasa corações, até mesmo o do . Ela brinca com ele, enquanto ele é completamente louco por ela. – à medida que fantasiava, o amigo a olhava com uma expressão cada vez mais confusa.
- Algo assim. – respondeu ele, dando de ombros, mais preocupado em bisbilhotar o celular da amiga. – Ei, um cara te mandou uma mensagem. Ele tem um corpo maravilhoso. – riu.
- , eu amo que você seja um amigo gay, sem a parte do beijar homens. Afinal, eu posso aproveitar as melhores partes dos dois lados. – ela piscou, sedutora.
- Porra, você pegou as duas irmãs? – explodiu a acompanhante dele e só riu.
- Anh? – perguntou ele, lerdo. – Você está falando de e Lindsey? Não.
- Querida, uma das irmãs ele já pegou. A Lindsey tem só doze anos. Agora adivinhe quem foi. – riu, pulando do sofá, pegando o celular da mão do amigo e saindo dali.

*


se obrigou a ficar no mar até que se acalmasse completamente. havia sido um babaca, sem dúvida, e merecia até umas porradas, mas de nada adiantaria perder a razão. Então, ele literalmente esfriou a cabeça.
Saiu somente minutos depois e ergueu as sobrancelhas em desafio para , que o olhava. Quando ele começou a andar até ela, a mesma começou a desviar, correndo pelo píer.
- Você vai escorregar, seu louco. – ainda exclamou, entre risos.
Mas ele a alcançou facilmente, agarrando-a por trás e abraçando-a. Consequentemente, também a molhando. Ela deu uns gritinhos, mas logo eles foram abafados pelas risadas e os beijos que distribuiu em seus braços e pescoço.
virou seu corpo, acabando com a distância entre as bocas. Enquanto se beijavam, as mãos da mulher foram pra bunda do rapaz e ele quase pulou pela ação ousada, rindo nos lábios dela.
- Até ontem, eu não sabia que você era tão... safada, . – sussurrou , mordiscando a orelha dela ao fim. Ela sorriu.
- Geralmente eu não mostro meu lado safado tão rápido. – eles riram.
- Você não é nada santinha, como dizem. Você esconde uma tigresa aí dentro. – ele afirmou, levando a novas risadas.
- Você tirou essa frase tosca de algum filme. – comentou.
- Provavelmente.
- Na verdade, - suspirou antes de continuar - nós fomos rápidos demais para os meus padrões. Só há duas explicações para isso ter acontecido: ou você fez vodoo ou uma simpatia daquelas bem elaboradas.
- Ah, , tão ingênua. – ele pegou as mãos dela e moveu as mesmas ao longo do corpo dele – Olhe isso. Sinta isso. Você realmente acha que eu preciso de algum truque mágico?

*


- , eu te devo minha vida. – confidenciou, jogando-se no sofá ao lado da amiga. A mulher da noite anterior tinha acabado de ir embora, com uma cara raivosa e uma promessa de nunca mais voltar a vê-lo. Tudo que ele queria.
- Eu sou ótima em expulsar garotas. – ela sorriu, convencida.
- Sim, você é. Você é como uma namorada grudenta, mas sem a parte chata da discussão.
- Oh, não me elogie assim! Cuidado ou acabarei me apaixonando! – brincou, piscando os olhos de maneira exagerada. Ele sorriu.
- Ótimo, porque já sou completamente apaixonado por você. – abraçou-a pela cintura, acolhendo em seu peito e apoiando o queixo em seus cabelos.
- Eu já conheço sua tática, menino, e ela não funciona em mim. – empurrou-o levemente pela testa e ele gemeu em resposta, encostando-se nela novamente.
- Mentirosa! Ou preciso te lembrar daquele dia fatídico há alguns anos? Ou, claro, do episódio da praia e sua fascinação com o meu... pinto?
- Claro, tigrão. – concordou ironicamente, rindo em seguida.
Parou ao sentir enrijecer. Franziu a testa e olhou para ele, sem entender.
- Algo histórico acaba de ocorrer, . passou aqui, nos viu assim, provavelmente escutou nossa conversa e, surpresa, não reclamou, nem careta fez. – afirmou - Acho que presenciamos um milagre. – a mulher engoliu em seco, sentindo o gosto amargo daquelas poucas palavras.
Minutos depois, risadas soaram na porta de entrada e logo e apareceram. A primeira um pouco molhada, o outro completamente encharcado.
- Não vou perguntar onde vocês estavam porque, sinceramente, tenho medo da resposta. – levantou, franzindo a testa – De qualquer jeito, eu estava comentando com o sobre sairmos hoje à noite. Ir a algum bar legal, não sei.
- Ela quer ir ao novo bar mexicano. Beber tequila e sarrar nos novinhos. Não que a primeira ação precise ocorrer para que a segunda aconteça, claro. Mas de qualquer jeito. – deu de ombros e, em seguida, ouviu-se e, principalmente, sentiu-se o forte tapa recebido da mulher.
- Respeite minha amiga, senhor . – exclamou, cruzando os braços no peito e fechando a cara. – Onde já se viu, acusá-la assim! – meneou a cabeça negativamente, desacreditada. – Para seu conhecimento, ela nunca pegou menores de 18.
E então os rapazes caíram na gargalhada.
- Que absurdo... – resmungou, bufando – Minha reputação está segura com vocês, hein, amigos. – a ironia transbordou.
- Não é engraçado isso, ? – a voz de soou e todos viraram para a escada. – A gente acredita que são nossos amigos, mas aí você vira de costas – fixou seu olhar para , mandando a indireta - e apunhalam uma faca no seu coração.
- Você é tão dramático, . – revirou os olhos.
- Como enfiou uma faca no seu coração se você estava de costas pra ele? Não faz sentido. – afirmou, pensativo.
- , eu só ia mandar um se foder aqui, mas posso aproveitar e mandar logo vocês dois.
- Cara, você está muito estressado. – reclamou – Acho que é muito tempo dormindo abandonado. te dispensou, Emily não está aqui... A vida não deve estar sendo fácil pra você.
- Se o não te manda praquele lugar, mandou eu. Vai se foder, . – expôs – Falta de sexo não é justificativa pra nada, muito menos pro mau humor característico dele. Aliás, eu dormi com ele várias vezes, mas esse... temperamento nunca sumiu.
- Vai ver porque você não foi boa o suficiente, amor. – ergueu as sobrancelhas, em desafio. riu, descrente, antes de responder, ácida:
- Ah, é? E quando você implorava por mais, era algum novo código? Me explique então porque você chegava a tremer quando... – interrompeu:
- Ok. Eu realmente não quero escutar sobre a vida sexual do meu primo.
- É, , poupe-nos dos detalhes. – virou o rosto, novamente para – Aliás, alguém devia nos poupar de determinadas surpresas. Talvez até de sua presença. Tem gente que simplesmente não entende quando não é bem-vinda. Que acha que todo mundo é otário. Bem, pra essas pessoas, - os olhos de brilhavam e seu rosto contorcia-se numa careta raivosa – espero que estejam preparadas para as consequências de seus atos.
- Está me ameaçando agora? – finalmente falou, cuspindo as palavras. – Você está fora de controle, cara. Vai tomar no cu. Desce do seu palanque e caia na real. Você não é melhor que ninguém, você não é merda nenhuma. Então não me venha como santo, porque, por mais que você tenha ignorado o fato de eu ser seu amigo, eu te conheço muito bem.
- Uau! – exclamou , algum tempo depois. Suspirou antes de continuar - O clima está ótimo para irmos ao bar e festejarmos nossa grande amizade, não acham?
Entre resmungos, todos se afastaram, ansiosos por restaurar a paz e a tranquilidade do ambiente.
- , tente maneirar no olhar psicopata, ok? – sussurrou para o amigo, batendo nos ombros do mesmo - Isso realmente assusta.
O rapaz caminhou, então, para a cozinha, em busca de algo que matasse sua fome, antes que a mesma o matasse. Viu preparando um sanduíche com geleia que parecia maravilhoso.
- Ah, que generoso da sua parte. Obrigado! – esticou a mão, requerendo o alimento. revirou os olhos, mas acabou entregando o mesmo.
- Eu criei um monstro. – resmungou consigo mesmo.
- Ei, uma curiosidade aqui. – recomeçou, mordendo o sanduíche que, de fato, estava delicioso – O que você fez para deixa-lo tão irritado? Roubou seu último pedaço de pizza?
- Deixa isso pra lá, . – suspirou antes de continuar – Eu não roubei nada. Nunca foi dele, afinal.

*


- Outra rodada! – pediu e o muito solicito barman trouxe instantes depois as bebidas de cada um. Já era a quarta... ou quinta? Talvez sexta, já tinha perdido as contas. Aliás, tirando , que não bebe, todos ali já estavam bastante altos.
As duas amigas conversavam, comentando sobre os homens no local e relembrando histórias antigas. já havia sumido em busca de uma mulher, mas logo voltara, prometendo que era todo dos amigos aquela noite.
- Você com certeza levou um toco. – ainda exclamou, fazendo todos rirem.
Mas, de maneira geral, e mantinham a cara fechada. De tempos em tempos encaravam um ao outro, mas então viravam o rosto, raivosos. Até que não aguentou mais e decidiu que era hora de uma reunião do Clube dos Bolinhas. Ou algo parecido, mas não tão sexista. Puxou os amigos para o banheiro e, metafórica e literalmente, jogou ambos na parede:
- Eu não aguento mais vocês. – exclamou, bufando – Vocês estão enchendo a porra do meu saco! Eu quero conversar com meus amigos, me divertir essa noite e vocês dois estão como duas crianças birrentas, com essas caras feias irritadas. Não estão deixando eu ficar bêbado em paz!
- , não se meta. Você não tem senso nenhum, ainda mais depois de tanta tequila. – cuspiu. – Por que você não cala a porra da sua boca?
- , por que você não deixa de ser escroto? – retrucou, aparentemente tranquilo – Você está incrivelmente chato hoje. Não desconte em mim se você está raivoso. Aliás, não desconte em ninguém, a menos que você pague a conta no fim. – ele soltou uma risada, afetado pela bebida.
- , melhor não se envolver. – sussurrou , o mais calmo de todos. – Você não sabe o porquê da briga, não sabe o que ocorreu.
- Não me importa o que aconteceu, . Me importa que isso está afetando a minha noite, as minhas amigas. Me importa que já estou sem paciência pra aguentar a briga infantil de vocês dois. Então peço, por favor, resolvam-se. – murmurou – Agora, também, se não quiserem fazer isso por bem, tenho um ótimo jeito de convencê-los. – encarou os amigos com um olhar ameaçador e, diante do silêncio descrente dos mesmos, continuou – Se vocês não voltarem a ser amigos daqui a dez minutos, eu juro que faço um strip.
- soltou uma risada – Eu sei que sóbrio você já não tem limites, mas não exagere.
- Oh, ele fala sério, . – confirmou, observando compenetrado o olhar do amigo. – Felizmente pra você, você ainda não nos conhecia quando o último... episódio desse tipo ocorreu. Bem, acredite, a ameaça é real. E a imagem traumatizante é impossível de esquecer.
- Ei, eu tenho certeza que um strip meu é o sonho de muitas mulheres. E também homens, claro. – deu de ombros, ressentido – Aliás, talvez até de . Pelo que observamos, ele pode não exatamente gostar de garotas.
riu em resposta, seco.
- Eu acho que a possibilidade de se apaixonar por toda sua gostosura não é um problema, . – o mesmo olhou o amigo, confuso, tentando entender as entrelinhas escondidas naquela frase. Mas a bebida nublou tudo e ele desistiu, dando de ombros.
- Se resolvam, jogue um ao outro na parede ou se peguem loucamente, sei lá. Só voltem com um sorriso no rosto. Ou preparem-se para minha dancinha sexual. – piscou os olhos e saiu dali, deixando os dois sozinhos.
queria acabar com tudo aquilo e olhou para , ansioso, esperando que o mesmo começasse. Esse, por sua vez, com todo o estresse e orgulho em suas veias, limitou-se a bufar e a sair do banheiro, deixando o (ex) amigo sozinho.
Andou até o bar, disposto a beber mais um shot da bebida com maior taxa alcóolica. De repente, parecia estar sóbrio novamente. Fez sinal para o barman, que logo estendeu a bebida. jogou na garganta de uma vez, sentindo o líquido queimar. Mal sentiu se aproximar, até que ela empurrou-o levemente nos ombros.
- Até você, Brutus? Bebendo, agora? – ele apontou para a garrafa, que parecia de ice.
- Nada. Água com gás em uma garrafa chique. – deu de ombros
- Por que você está aqui? Saí do banheiro e deixei caminho livre para você e se agarrarem.
somente suspirou, apoiando-se na cadeira ao lado da qual ele estava sentado. Bebeu mais um gole da água e ergueu as sobrancelhas, antes de responder:
- Se não maneirar na paranoia, eu vou te socar. – ameaçou. O silêncio reinou por alguns segundos, enquanto respirava fundo e se preparava para as palavras seguintes – Você claramente está lidando com muita coisa no momento, mas está tratando essa situação como uma hidra.
- Hidra? – a careta de confusão explodiu no rosto dele.
- É. O monstro mitológico com várias cabeças que, se você corta uma, nascem duas no lugar... Você nunca estudou mitologia, não? Meu Deus. – revirou os olhos – Enfim, a questão é que você está exagerando. Você é minha família, meu amigo, meu primo-irmão e eu sei que a situação te preocupa. Você tem essa mania chata, embora às vezes um tanto fofa, de querer cuidar de mim. Mas você está lidando com isso da maneira errada, . – suspirou – De um jeito machista e controlador que só vai afastando as pessoas. Eu gosto de você, o gosta de você, assim como a , o e até o Matt. Mas, se você tornar essas discussões ridículas um hábito, não sei dizer até quando manteremos esse sentimento.
o encarou, vendo o mesmo fingir que estava caindo no sono. Reprimindo a raiva, continuou:
- Olha... eu gosto do , você sabe que eu nem beijaria ele se não gostasse. E eu amo você, mas, e escute muito bem essa parte, não estou pedindo sua aprovação. – reforçou sua voz, mantendo-a firme - Eu sou dona de mim mesma e se quero ficar com , casar ou só transar, é problema meu. Eu preciso e, portanto, observe que não é só um pedido, que você deixe de me tratar assim, de maneira possessiva e louca, como se eu fosse sua propriedade. E não venha jogar na minha cara que eu interfiro na sua vida, porque não é bem assim. Sim, é fato conhecido que eu sempre torci para que você e ficassem juntos e se casassem e tivessem ao menos uma dúzia de filhos. Eu seria madrinha de todos eles, sabe, me prometeu. – deu um pequeno sorriso – Mas eu respeitei a decisão de sobre o namoro, ainda que meu coração quebre por vocês. Você escolheu namorar a Emily e, por mais que eu discorde dessa decisão, eu nunca colocaria isso em jogo. Não vou tratá-la mal, não vou rejeitá-la e você sabe disso. – suspirou – E eu só peço que seja tratada de igual maneira.

*


Depois da lição dada pela prima, começou a pensar que, talvez, tinha exagerado. A briga parecia um tanto idiota, afinal. Então, procurou e vendo-o de volta a mesa, foi até lá e o chamou para conversar. Munidos de álcool, eles se jogaram em um dos sofás. encarou o amigo, esperando as palavras, mas o outro não sabia o que falar.
- Cara, foi mal por toda a situação e tal. – finalmente falou - Podemos ficar de boa?
- Podemos, claro, assim que você pedir desculpas.
- Eu acabei de pedir. – avisou e balançou a cabeça negativamente, deixando claro que não considerava aquelas poucas palavras uma boa desculpa. – Você está de sacanagem, né? Pois bem, eu sinto muito, . Pelo visto eu não devia ficar puto contigo, apesar de você estar pegando minha prima nas minhas costas.
- Sabe, não estou completamente convencido da sinceridade da sua desculpa... – cutucou.
- Oh, por favor. Eu sei que fui escroto, ridículo, possessivo e tudo mais. já jogou a porra toda na minha cara. E eu sei que minha preocupação com ela não é justificativa para me meter na vida dela e no relacionamento de vocês. Sinto muito. E sinto muito por ter falado coisas ruins sobre você.
- É. – suspirou – Ficou óbvio que você é super protetor com a , mas você descontou tudo em mim. Você ignorou a nossa amizade, me tratou como um desconhecido. Você me conhece, cara. Você sabe como eu sou, qual é minha índole, quais são meus sonhos e fraquezas. Não temos muito tempo como amigos, mas morar junto nos aproxima assim. Por Deus, você conhece minha irmã! Se existe alguém que queira falar mal de mim mais do que ela, eu desconheço. – ele riu – Mas, seriamente, você me magoou. De repente, eu não sou ninguém e quero só me aproveitar da sua prima. Eu podia jurar que você me conhecia melhor que isso.
- Eu o faço. – confirmou, batendo no braço do amigo – Eu admiro você e nossa amizade. Ah, e as comidas que você prepara! – riram – Eu avancei contra você porque, bem, era mais fácil. Era um jeito de tentar destruir tudo e, de alguma maneira em minha mente torpe, de proteger minha prima. Mas sei que não é bem assim. Que estava errado. Tudo que falei, soou falso. Espero que você – engoliu em seco, as palavras se mostrando difíceis de serem pronunciadas - me perdoe por isso.
- pedindo perdão? – esbugalhou os olhos e sorriu, divertido – Preciso gravar esse momento!
- Vai se fuder, . E, antes que eu me esqueça, há algumas regras que você deve seguir se quiser ficar com a minha prima. Seria igualmente bom segui-las se você pretende viver além dos vinte anos.
- Ah, sim, o de sempre. Estava demorando a aparecer. – reclamou, mas seu sorriso de lado demonstrou que tudo estava novamente bem entre os dois.

*


- E última e mais importante regra: - continuava a falar – de maneira nenhuma eu quero ver aquela cena terrível do píer novamente. Não aguentarei uma segunda vez. – colocou a mão no peito, dramático, fazendo se esforçar para segurar a risada.
- Sim, . Essa foi a regra número 6. E também a regra número 13. Eu já havia entendido da primeira vez. – murmurou, batendo no braço do amigo amistosamente – Só peço uma coisa, não conte nada a ninguém. quer ir com calma, descobrir o que nós somos, antes de anunciar pra todo mundo. Espero que você respeite isso.
- Claro, cara. – deu de ombros - Agora, vamos voltar pra mesa, porque fui negligente e algo muito errado está acontecendo: estou ficando sóbrio. – eles riram juntos, caminhando de volta para os amigos.
Mas os amigos deles não estavam lá. Eles se serviram de duas cervejas e se esparramaram no sofá aconchegante, observando o ambiente. já estava perdida, sabe-se lá onde, mas e estavam bem evidentes, dançando juntos de um jeito bastante, digamos, único.
- Parece a dança do acasalamento – não deixou de comentar , notando os amigos colados durante os passos.
- Porra, cara, eu acabei de aceitar suas desculpas. – reclamou – Eles são amigos, só isso. Pare de falar merda.
- Bem, por mim tanto faz. – bebeu um gole de álcool – Mas sabe o que eu acho? Que entrando nessa relação com a minha prima, você ganha de brinde. – ergueu as sobrancelhas enquanto falou e, logo depois, levantou-se e andou para longe, deixando bufando sozinho.

*


- Ei! – gritou, quando viu um vulto, que parecia ser , passando. Ela estava dançando, inspirada, tentando se equilibrar nos saltos depois de tanta bebida, mas, ao ser ignorada, decidiu parar e seguir o amigo.
O mesmo se jogou em um sofá perto da pista de dança e ao olhá-lo atentamente pode confirmar que era realmente o . Abriu um sorriso e, animada, correu até lá.
- Opa! – soltou ele, segurando a mulher pelo braço e impedindo que a mesma caísse. Bebida e equilíbrio eram incompatíveis para .
- , olá! – exclamou, sentando-se ao lado dele, bem próxima, as laterais dos corpos se encostando. Então, apoiou sua cabeça nos ombros dele, aproximando o nariz de seu pescoço. – Você está cheiroso... – confidenciou, as palavras saindo enroladas, seguidas de uma risada. – E quente.
- E você está bêbada. – retrucou.
- Sim, eu sei. – riu sozinha. – Mas sabe, você é muito bom de abraçar. – e passou os braços pelos ombros do homem.
respirou fundo ao sentir a mulher tão próxima. A bochecha dela estava no queixo dele, as coxas torneadas expostas, sua pele quente abraçada à dele. Mas não acreditou que aquilo era bom – e constrangedor – o suficiente. Assim, sem desencostar dele, ela passou a perna para o outro lado e, desajeitadamente, sentou do colo dele.
- Não, , pare. – suplicou, em meio a um suspiro. Suas mãos foram imediatamente para a cintura dela, para suas formas tão conhecidas, e ele mal percebeu.
- Só um pouquinho...
Ela colocou as mãos no cabelo dele e roçou as bochechas, lançando um pequeno gemido em seguida.
- Caralho! – solta ele e, então, inocentemente provocante, se ajeita no colo dele e seu corpo fricciona com o de . Ele grui, suas mãos percorrendo das costas ao começo da bunda dela sem qualquer controle. – Deus...
se desiquilibra novamente, caindo pro lado e o rapaz a ajuda. Mas, de alguma forma, aquele ato o retirou da inércia do prazer. A bolha explodiu e, voltando a raciocinar, a colocou sentada no sofá e sai correndo dali.

*


- Oh, meu Deus, olhe o ! – exclamou, apontando para o banco de trás e rindo em seguida. – Ei, tive uma ótima ideia.
desviou o olhar da estrada por um instante, observando o amigo com a boca aberta e a baba escorrendo pelo queixo. Também riu. Enquanto isso, tinha sacado o celular da bolsa e tirara uma foto do amigo, guardando-a cuidadosamente para a posteridade. Então, riu satisfeita.
- Eles estão acabados. – comentou a mulher, alguns minutos depois, olhando para o retrovisor apontado para os amigos com afeto. – Nem acredito que estamos voltando para a vida real – ela suspirou - Foi legal da sua parte se oferecer pra dirigir. Você sabe, com dor de cabeça e tudo mais.
- Nada que uma aspirina não resolvesse. E, além disso, depois da merda toda que eu fiz nessa viagem... bem, era o mínimo que eu podia fazer.
- Sou obrigada a concordar. – ela abriu um pequeno sorriso pra ele e encarou-a por um instante. Foi somente alguns segundos, uma coisa banal e rápida para qualquer um. Logo, ele voltou a prestar atenção no asfalto.
Mas, por algum motivo, a imagem de com seu coque desajeitado, suas olheiras abaixo dos olhos, seu sorriso bobo, grudou em sua cabeça. Mais do que isso, aqueceu seu coração, como nenhuma outra imagem de uma mulher fizera.
- Você se importa se eu dormir um pouco? Ou prefere que eu te faça companhia? – perguntou ela.
Ele de repente sentiu um desejo de responder a segunda opção. Preferia que ela fizesse companhia a ele, agora, amanhã e sempre. Naquele carro, naquela cidade ou em qualquer outra. Mas tudo isso era besteira. Ele já havia tentado e aprendera do pior jeito.
E havia Emily... Emily que o fazia rir, suspirar. Que é simples, que deixa claro o que sente, o que quer. Que não muda suas atitudes como muda de roupa. Que... não é .
- Sabe, , eu espero que você seja feliz. E Emily parece ser a melhor pessoa pra te deixar assim. – sussurrou , baixinho, a boca no banco do carona abafando o som.
Mas escutou e mais uma vez teve que olhá-la. Ela estava encolhida no banco, o rosto virado pra janela, os braços abraçando os joelhos. Ele suspirou. Alguns minutos depois, o completo silêncio dentro do carro pareceu lhe dar coragem para responder as palavras sinceras de à altura:
- Ninguém é como você.



XV. There's an art to life's distraction

- Você tem cinco minutos para levantar daí.
Uma almofada atingiu o rosto de , que gemeu em resposta. Ignorando a ameaça da amiga, ela abraçou mais apertado o travesseiro e se remexeu na cama.
Ela tinha acabado de terminar a lista impossível de cálculo e estava simplesmente acabada. Tinha decidido dormir às oito da noite e, quem sabe, ter o luxo de dormir até doze horas seguidas. Obviamente, a ilusão durou pouco mais de meia hora, quando uma barulhenta e irritante deu as caras.
- Levante, amiga. Levante, levante, levante. – começou a cantarolar.
- Cala a boca, . – foi tudo que a amiga falou, num misto de gemido, a voz saindo anasalada pela boca encostada no travesseiro quentinho e delicioso.
- É sexta-feira! Você se chama . Eu me recuso a te ver deitada essa hora.
- Quanto te pagaram pra ser chata? Pago o dobro pra me deixar em paz.
- Também te amo, amiga. E, bem, eu tentei ser legal, mas você não facilita. Da próxima vez vou jogar o meu salto 15 na sua cara. E se seu nariz grande quebrar minha linda sandália, você me pagará outra!
- Eu não tenho nariz grande – retrucou.
- . Um minuto. – falou, séria.
Bufando o mais alto possível, a amiga ergueu-se devagar na cama. Ao se sentar para o colchão, olhou para e lhe deu o dedo do meio e uma cara amassada.
- Ok. Nós só temos duas horas. Eu realmente espero que dê tempo para você ficar linda.
- Que bom que eu já sou linda naturalmente.
- Oh, claro, vamos acreditar nisso. – forçou , fazendo abrir a boca em falso choque.
- Você realmente quer que eu levante dessa cama?
- Você realmente quer um salto 15 estragando essa sua carinha – limpou a garganta - linda?
- Você está tão ferrada! Eu espero que, pra onde quer que você me leve, tenha álcool. E você vai pagar minha conta. E... eu vou comprar bebidas pra cada cara bonito que tiver. E... um balde de bebidas pros amigos também.
- Por sorte, não corro grandes riscos. – sorriu – Engraçado, algo me diz que você não terá muitas opções essa noite.
- Oh, por acaso você está me arrastando para ser babá? Ou... não! Você não me levaria para o asilo numa sexta à noite!
- Putz, como não tive essa ideia antes? Com certeza faremos isso na semana que vem! Hoje, infelizmente, não vai rolar, já que estarei trabalhando...
- Amiga, sexta-feira é sagrada! Ou Netflix ou balada, você não pode acabar com uma tradição... Calma aí. Trabalhar? Desde quando você trabalha?
- Desde hoje! – sorriu, animada, e correu até a amiga, pulando na cama. – Eu consegui um emprego em um buffet. Tem uma festa de 15 anos hoje à noite. E como eu sou uma super profissional, e uma super amiga, embora você definitivamente não esteja merecendo, estou te levando de penetra!
- Há bebidas alcoólicas? – a olhou, fingindo-se desconfiada, embora por dentro estivesse muito alegre pela amiga.
- Há bebidas alcoólicas.
- Hum, estamos conversando. – e sorriu para , genuinamente feliz.

*


- Você não estava brincando quando disse que não havia perigo. Há basicamente duas faixas etárias nessa festa. Até 16 anos e depois dos 40. Eu não achei um cara interessante e, você sabe, eu não sou exatamente criteriosa. – comentou com a amiga.
e tinham acabado de se esbarrar e resolveu atrasar por alguns minutos a distribuição de canapés de gorgonzola. Os adolescentes, que eram maioria no salão, pareciam muito animados com o show ao vivo, de qualquer jeito. Pelo menos, as meninas. Os meninos pareciam interessados em mais... ação.
- Poxa, a situação é realmente crítica, então. – ironizou, recebendo uma língua da amiga. – Em compensação, o que tem de pirralho achando que é gente...
- Meu Deus, eles estão atacando você também? Tinha esperança de que eles tivessem mais respeito com quem está trabalhando.
- Eles atiram para todos os lados, tipos, idades. Os hormônios estão loucos.
- Ah, convenhamos que eles crescem, mas não melhoram.
- Sim, mas pelo menos as espinhas desaparecem. – as amigas riram juntas.
- Também, as meninas da idade deles não parecem dar muita bola pra eles. – comentou, observando as garotas bem vestidas pulando em seus saltos e sorrindo de orelha a orelha para o cantor. – Aparentemente, o músico é mais interessante. Ele até é bonito, tem um charme com a guitarra, mas precisa de tanto?
- Ah, e você não suspirava pelo Backstreet Boys na sua época?
- Ei, não me difame. Eu sou da época do McFly. E ainda tenho sonho de casar com um deles um dia, admito.
- Eles já estão quase todos casados, . E inclusive tem filhos fofos.
- Eu não exatamente me importaria com isso, sabe. – deu de ombros.
- ! – repreendeu a amiga.
- Estou brincando, . – riu – Eu lá sou mulher pra casar? – piscou para a amiga.

*


subiu as escadas que mais cedo tinha apontado. Elas dariam, segundo a amiga, para o backstage. Segunda porta a direita e estaria na cozinha, onde, com o fim da festa, a outra estaria.
Os saltos estalavam quando tocavam no metal do chão, anunciando a passagem da mulher, mas, aparentemente, o homem estava muito distraído em seu próprio mundo para perceber. O resultado foi um esbarrão, que fez a mulher desequilibrar alguns passos e o homem erguer as sobrancelhas e repará-la.
E ao dizer repará-la, isso quer dizer olhar dos dedos dos pés ao último fio de cabelo, bem devagar e sorrindo aos poucos, mostrando que estava gostando do que via. Jeito Chris Keller de ser.
- Chris Keller não gosta de ser empurrado, mas aceita um jantar como pedido de desculpa.
A mulher o encarou, levando um minuto para entender que, sim, ele falava sério. O ar debochado e o sorriso de lado o entregaram.
- Eu não sei se isso foi uma péssima cantada ou o quê, mas de qualquer jeito, não, obrigada.
- Ninguém recusa Chris Keller. – murmurou ele, arrogante.
soltou uma risada, observando o tal Keller. Lábios grossos, cabelos premeditadamente bagunçados, postura insolente. O típico babaca.
- Prazer, ninguém. – retrucou ela.
- Acredito que você não esteja me reconhecendo - ele a olhou um instante, meio confuso. Se aproximou – Olha bem esses bonitos traços.
- Na verdade, eu sei quem você é. – o sorriso no rosto dele iluminou seu rosto e, naquele ângulo, ele parecia bastante bonito, com um toque de ingenuidade. – Você é o cantor da festa. Aparentemente, tem pré-adolescentes a seus pés. – então, o sorriso dele murchou e ele revirou os olhos.
- Sou Chris Keller. – recitou, como se óbvio fosse. Ela o olhou somente, esperando por mais. – Astro da música. Desejado por todas as mulheres do mundo. Você é uma sortuda por eu querer sair com você.
- Se você está dizendo... – ela sorriu, porque, ao fim, ele lhe parecera bem bobo, de um jeito quase infantil. Seu ar arrogante caia-lhe bem e suas expressões faciais eram engraçadas. – Infelizmente, eu estou atrasada para encontrar uma amiga minha. Mas foi um prazer te conhecer, Keller.
- Chris Keller. – corrigiu ele.
- Chris Keller. – arrumou – Eu sou a . Nos vemos por aí, astro da música. – piscou o olho para o rapaz, rindo em seguida.
Enquanto ele abria o sorriso, inocentemente achando que tinha conquistado a garota, ela deu às costas para ele, continuando seu caminho.
- Ei! Chris Keller é muito bonito para ser ignorado.

*


A campainha tocou pela quarta vez e, vendo que nenhum dos outros três espalhados pela casa iam atender a porta, levantou-se, não reprimindo um bufo irritado. Andou até a porta que não era de sua casa e a abriu.
- Você não tem a chave de sua própria casa? – ela perguntou para , que estava em sua frente, de mãos dadas com uma mulher pequena e sorridente. Emily, supôs. – Aliás, é um absurdo eu abrir a porta se eu nem mesmo vivo aqui.
- Esqueci no bolso da minha outra calça. E, convenhamos, você só não paga o aluguel, porque você está aqui praticamente todo dia. – rebateu ele, praticamente a empurrando para entrar em sua casa.
- Ei, não precisa me bater também. – resmungou – E, pelo amor de Deus, honre a educação que sua mãe maravilhosa te deu e me apresente a Emily.
- Sim, general. , essa é minha namorada, Emily. – virou-se para a citada e lhe deu um beijo na bochecha. – Em, essa é minha amiga . Ela estuda engenharia mecatrônica lá na faculdade.
Elas trocaram um beijo de cumprimento e, ao se afastarem, sorriram uma pra outra.
- É um prazer conhecê-la, Emily. fala muito de você. – a mulher comentou e a namorada olhou para o rapaz, sorrindo, suas bochechas avermelhando.
- Er... ele também sempre fala de você, . – obviamente, ela retribuiu a frase como educação, porque era uma clara mentira. E sabia disso, porque além de Emily não ser exatamente uma boa mentirosa, ela conhecia (mais do que) o suficiente de .
desceu as escadas da casa naquele momento, acabando com o assunto e chamando atenção para si. Não porque fazia barulho ao pisar nos degraus, embora de fato fizesse, mas porque tudo o que vestia era uma cueca box.
- Ei, povo. – ele se aproximou do grupo, abraçando de lado e lhe dando um beijo carinhoso no pescoço. Então, olhou para Emily e sorriu – Emily, bom te ver! Estava cansado de só te ouvir pelas paredes. – piscou o olho para o casal.
- ! – repreendeu o amigo, o qual ignorou, enquanto as bochechas de Emily ficavam vermelhas.
- Oi, , bom te ver de novo. – ela deu um pequeno “tchau” e ele se aproximou dela, pegando-lhe pela cintura em um abraço e a girando levemente. Seu rosto ficou ainda mais corado de vergonha.
- Tudo bem, cara, pode soltar minha namorada. – exclamou, tirando os braços do amigo de Emily.
- Sempre tão ciumento com as mulheres de sua vida, ... – murmurou, reprovando a atitude com uma careta.
- Por acaso não falta algo aí, ? – apontou para o corpo do mesmo.
- O que? - olhou para si mesmo por um instante, sem entender o que estava errado. Então, voltou a olhar para o amigo – Se você está falando do tamanho, é porque hoje está menos de 20 graus, não tem como ele se manter do tamanho extraordinário que...
- Quis dizer suas roupas, , roupas! – interrompeu, aumentando a voz. soltou uma risada. se absteve a dançar o que ele dizia ser sensual, passando a mão no corpo.
- Cuidado para não se apaixonar, . – ainda gritou. – Emily, você pode tocar em tudo que você quiser. Estando descoberto ou não. – ergueu as sobrancelhas, sedutor. E a mulher praticamente virou um pimentão, morrendo de vergonha.
- Tudo bem... Vou apresentar Emily para . – deu a mão para a namorada – E podem deixar que eu mesmo procuro onde ela está. – e saíram em direção à cozinha.
aproximou-se do amigo, abraçando-o enquanto via o casal sumir a vista.
- Você faz de propósito, né, ? Você gosta de ver o círculo pegar fogo.
- O círculo, o retângulo, o triângulo. – riu – O certo é circo, . Ver o circo pegar fogo. E, sim, eu gosto. – sorriu maliciosamente para a amiga, antes de morder, sob protestos, sua bochecha.

*


- Hmmm, , hmmm. – sussurrou, entre suspiros.
- Eu estou entrando nesse ambiente, por favor parem de fazer seja lá o que estejam fazendo e se cubram, pelo amor de Deus. – gritou para os dois, já pisando na cozinha, fechando os olhos por precaução.
- , pare de palhaçada. – a prima respondeu – Eu estou provando o molho da lasanha, só. Você tem uma mente maldosa. – ela fez uma pausa, olhando para a garota ao lado do homem. – Ei, você deve ser a Emily. Esperei tanto pra te conhecer!
E acabou com a distância entre as duas, abraçando apertado a mulher. Ao fim, sorriu.
- É um prazer te conhecer também, . É legal saber que vocês primos são tão próximos. Minhas primas e eu não somos muito amigas. – ela fez uma rápida careta, mas logo retomou o sorriso.
- Às vezes, a maioria delas, não é tão legal. Principalmente , que é muito intrometido. – encarou o primo com um olhar que poderia colocar medo em qualquer um. Não que se importasse.
- Falou a que prende pessoas em varandas... – retrucou.
- Acho que não é exatamente a hora pra falar disso. – se intrometeu. – E é bom te ver de novo, Emily. já tinha me feito mil perguntas sobre você, então é bom que vocês tenham finalmente se conhecido. – virou para a , pode fazer as 999 perguntas que eu não soube responder pessoalmente, agora.
- Chato. – a mulher lhe deu a língua, antes de voltar para Emily – Mas, sabe, Em, posso te chamar assim, né? – mal esperou o menear positivo de cabeça para continuar – estava escondendo você de mim! Há semanas que venho falando que quero conhecer você, mas ele sempre arrumava desculpas. Um completo absurdo porque, como você mesmo falou, eu sou praticamente irmã dele – ela continuou, sem nem parar para respirar, as palavras atropelando umas às outras - e estou tão animada que ele esteja namorando que queria conhecer logo a sofredora e dar conselhos e, bom, o primeiro deles seria: corra! Mas como acho que você não vai fazer isso, ele tem uma mania muito feia de...
- Realmente, muito difícil saber por que adiou essa apresentação. – interrompeu. – , você está assustando a Emily, sabe. E Emily, não tem quaisquer filtros, então você pode simplesmente mandá-la calar a boca às vezes.
- O quê? Eu vou calar a sua boca, , isso sim, e não vai ser de um jeito gostoso. – ameaçou.
- Vocês são um casal fofo. – afirmou Emily.
- Emily, querida, nós não somos um casal. E você não quer ver o quanto eu posso ser não fofa se você insistir nisso.
- Nossa, , você está assustadora hoje. Mais do que o normal, quero dizer. Em, o que ela quis dizer é que eles estão mantendo as coisas em segredo por enquanto e ela agradeceria muitíssimo se você não comentasse nada com ou ou, bem, qualquer um.
- Exatamente isso. Desculpa, Emily. – sorriu – E então, você aceita água, mate, suco, Coca, cerveja? Quer dizer, você já tem idade pra beber, certo? – alfinetou.
- papa-anjo. – completou , rindo.
- Vai se foder, . – xingou, levantando o dedo do meio também.
- Eu não quero nada, obrigada. – respondeu Emily educadamente.
- E eu? Não oferece nada para mim?
- Ah, priminho, claro! – começou , sarcástica – Ali oh, o armário onde os pratos estão. Aqui, na gaveta, os talheres. Copos no escorredor. Estou te oferecendo a irrecusável oportunidade de montar a mesa do almoço. E você não tem opção a não aceitar. – e forçou um sorriso.

*


- E o molho?
- Tenho que provar de novo – ela deu um sorriso sapeca – Sabe como é, já me esqueci do gosto.
- ... – tentou repreender a mulher, mas estava rindo quando ela pegou uma colher e provou novamente o molho branco. – E então, bom?
Ela olhou pra ela, sorrindo com os lábios sujos, revirando os olhos e gemendo. Ele a observou por um instante e logo a puxou pela cintura, encostando sua boca na dela.
- Engraçado, me esqueci do gosto dele também. – sussurrou entre os lábios dela e quando ela riu, lhe roubou mais um rápido beijo. – Parece que faz anos que não te vejo, sabe? Sinto falta de você morando aqui, era tão mais fácil.
- O que, você me atacar? – sua voz saiu dura, mas lhe abraçou pelo pescoço e sorriu ao fim.
- Ou você me jogar na parede. – deu-lhe um selinho – Sabe, eu acordava mais cedo para ver você fazendo yoga na sala. Algumas posições são...
- ! – ela interrompeu, escondendo o rosto em seu pescoço.
- Ah, não, desde quando sente vergonha? Você nem tem esse filtro, baby.
- Você tem razão. – murmurou sob o pescoço dele, mordendo a pele do mesmo logo depois.
- Ai! Você está agressiva hoje. Estou amando.
- Sinto falta de ver você cozinhando seminu. – voltou a encará-lo - Só não arranco essa sua camisa agora porque há outras pessoas nessa residência.
- Estou a ponto de disparar o alarme de incêndio e expulsar todos daqui. Então, não me provoque.
- Te provocar? Longe de mim. – sorriu, maliciosa.
Atacou primeiro a orelha dele, mordiscando a mesma. Então, desceu seus lábios levemente pelo seu rosto, puxando o lábio inferior. Desceu suas mãos, colocando-as na bunda de . Finalmente, puxou-lhe para um efetivo beijo.
- , - encontrou forças para se afastar por um instante da garota, que avançava de volta para ele - se eu expulsar todos daqui, acabou a lasanha.- Foram palavras mágicas, porque ela o soltou e se afastou no mesmo instante. – Quer dizer – ele começou, rindo da reação dela – que você troca um sexo selvagem e louco comigo por uma lasanha?
- Não, . Eu não troco um sexo selvagem e louco com você por uma lasanha, eu troco um sexo selvagem e louco com você por uma lasanha feita por você. Isso deve significar alguma coisa.
- Sim, significa. Que você é esfomeada. E completamente louca por mim.
- Completamente louca por sua comida, você quer dizer. – deu um empurrão nele – Volte a trabalhar que quero comer hoje ainda.
- É praticamente a mesma coisa. – ainda resmungou ele, indo em direção a lasanha para finalizá-la. ficou na pia, pensando e observando-o cozinhar, até que soltou:
- A gente só se vê assim, né? Na cozinha. – comentou – Sabe o que eu mais sinto falta de morar aqui? Você fazendo faxina seminu. Era maravilhoso.
- Você já me viu com menos, . E sendo ainda mais maravilhoso. – ela riu.
- Se você diz. – ainda provocou – Mas tem algo com a faxina, não sei... é um tanto erótico.
- , você é maluca. – riu – E tem um fetiche muito estranho com organização.

*


Finalmente, todos os seis estavam sentados à mesa e, servidos do prato principal, o silêncio reinava na casa. Até que a murmurou, entre gemidos:
- Oh, meu Deus, isso é tão melhor que um sexo selvagem e louco. – brincou com a conversa de minutos atrás com e este começou a rir, se atrapalhando com a comida na boca. O resto do pessoal, obviamente, não entendeu a piada interna, mas para alguém sem filtro como , tampouco sua frase foi estranha para os amigos. Para Emily foi um tanto, mas ela se ateve a corar.
- , você está precisando fazer sexo selvagem comigo. – exclamou, normalmente, como se estivesse falando sobre o tempo e não fazendo uma proposta sexual. – Tudo bem que cozinha bem e esta lasanha está uma delícia, aliás, , estou quase pagando você pra continuar morando indefinidamente aqui, mas sexo com o Tigrão Júnior... é coisa de outro mundo, baby.
- Eu não acredito que você o chama de Tigrão Júnior, ... – fez cara de nojo – Agora nunca mais vou conseguir chamar você de Tigrão sem lembrar disso.
- Acredite, minha linda, o Tigrão Júnior é mesmo inesquecível.
- Vocês se esqueceram que ainda são duas da tarde? Porque a conversa está proibida para menores de 18... – comentou.
- Ah, gente, é verdade, vocês estão esquecendo que a namorada do ainda é baby . Ela ainda deve estar na fase de transar no banco de trás do carro e tudo mais. – sorriu para Emily e olhou para , que estava puto – Estou brincando, , relaxe. Aliás, falando de sexo entre amigos, alguém tem falado com Matt?
cuspiu sua cerveja, enquanto caia numa risada e afirmava que era sua versão feminina.
- Eu sempre ligo pra ele e de vez quando o visito. – comentou, alguns instantes depois – Chamo para sair com a gente, mas ele arruma desculpas. Ele pergunta como todos estão, eu falo algumas novidades, como eu e dividindo apartamento, mas gastamos mais tempo falando sobre a faculdade e sua vida de calouro.
- Ei, por acaso esse Matt é calouro em engenharia de produção? – Emily perguntou e confirmou – Ah, eu estudo com ele. Ele é bem atirado, dá em cima de todas as calouras. Ganhou o apelido de arroz. – soltou.
- Ih, cutucou o amigo, com um sorriso atrevido – Não dá mole hein, olhos abertos, porque uma vez até tudo bem, mas duas já é perseguição – riu, mas o amigo lhe olhou tão emburrado que ele fechou a cara na hora.
- Sabe, Em, - começou , ignorando totalmente a ousadia de - ele acabou de sair de uma desilusão amorosa. – fez uma careta – Destruíram o coração dele e tudo mais. – virou para , lançando um olhar acusador.
- Então, Emily, está gostando do curso? – perguntou, tentando diminuir a tensão do ambiente.
- Sim, bastante. – ela sorriu - Estou sofrendo com cálculo e física I, mas tenho um veterano pra me ajudar. – olhou para , confidente.
- Oh, eu escuto o quanto vocês... estudam. – comentou , sorrindo maliciosamente. – Ok, está com aquela cara sádica e sinto que estarei morto nas próximas dez horas se não mudar de assunto. Então, lá vai, estou quase repetindo Sistemas Estruturais. Aquele professor me zerou o trabalho que valia 60% da nota, porque aparentemente o ângulo complementar...
- O que, ? Você está repetindo? Sua formatura é daqui a alguns meses!
- Bom, você, de fato, estará morto nas próximas dez horas, , porque eu vou te matar por falhar nessa matéria! – ameaçou - Você precisa se formar.
- E eu não sei disso? Já estou no 11º período, acredite, eu sei que já passou a hora de sair daquele lugar. Mas arquitetura é foda. E eu tenho que trabalhar, estagiar, aí sobra zero horas para todos os milhares de trabalhos complexos.
- Mr. Músculos, primeiro de tudo, não conte a derrota antes do fim. Ainda tem a prova final e eu tenho certeza que você consegue arrasar. – sorriu para ele – Acredite, eu sei o que é me ferrar em matérias. Eu mal consigo aprender o nome das minhas, quanto mais o conteúdo delas. Enfim, sei que é difícil, mas estou aqui para qualquer ajuda que você precisar. E tente conversar com seu professor, explicar sua correria, tentar uma segunda chance. Mal não vai fazer. – deu de ombros.
- Cachorrão, você é maravilhosa, sabia? – sorriu para a amiga – Merece aproveitar o Tigrão Júnior. – piscou o olho.
- Nossa, , você me trocou com tanta facilidade. – murmurou , fingindo-se triste – Estou magoada.
Então levantou-se do seu lugar e aproximou-se de , abraçando-a e a beijando no rosto, em seguida. Todo o grupo começou a rir, menos Emily, que ainda estava meio perdida com todas aquelas conversas paralelas e apelidos estranhos.
- Vocês só estão brincando ou realmente existem rolos entre vocês? Eu digo, entre todo o grupo. Vocês são amigos com benefícios, fazem aventuras ou o que? – inquiriu ela, corajosa, embora seu rosto corado mostrasse toda a sua vergonha.



XVI. Buscando em Outros Braços seus Abraços

- Eu fico com a última opção, ‘ou o que’. – exclamou , depois de um minuto de silêncio, em que os cinco amigos somente encararam uns aos outros.
- Emily, Emily. – começou, aproximando-se da mulher e lhe abraçando pelos ombros, deixando de lado. – Vou te contar todos os nossos podres. – sussurrou como um segredo.
- ! – brandeou o namorado dela, receoso.
- O quê, zito? Emily faz parte do grupo agora, ela precisa saber todos os detalhes sórdidos. – arregalou os olhos, dramáticos. – Você tem algo que queira esconder dela, amigo? – e o encarou.
- Não. – deu de ombros.
- Ótimo. – Ele sorriu – Vamos deixar o melhor pro final, certo? Então, eu e já ficamos uma vez. Bons tempos que não voltam. – olhou sedutor para a amiga, que só riu. – se acha muito superior para cair nos meus encantos, mas eventualmente ela vai ficar totalmente apaixonada por mim. – piscou para , enquanto um revirava os olhos pelas palavras – ... bem, digamos que nós temos uma mente aberta e aceitamos todos os tipos de amor – afirmou, lembrando do episódio da praia e de sua teoria subsequente.
- E eu já fiquei com a . – revelou, cortando o amigo.
- Ei, eu que ia contar. Era o gran finale! – murmurou , aborrecido por ter sido interrompido. Mas logo se desfez em um sorriso – Veja bem, Emily, e fizeram bem mais que ficar. E muitas vezes. Quando eu digo que fiquei com a , quer dizer um beijo. Com a total pegada ? Sim. Mas foi só um beijo. Quando diz que ficou com ela, quer dizer sexo a cada minuto livre.
- Obrigada pela imagem. – Emily ironizou e deu de ombros.
- está exagerando, Emily. – falou - Você sabe que o não se recupera assim tão rápido.
Todos a encararam, boquiabertos, sem qualquer reação. Então, começou a rir. Ainda, levantou-se da mesa, ajoelhou-se em frente a amiga e estendeu os braços a reverenciando. Ela riu, puxando o amigo pelo pulso e o abraçando.
- Você é maravilhosa, mulher. – deu um beijo na sua bochecha. – Uma inspiração de vida. – outro beijo – Não sei se quero ser adotado por você ou casar com você.
- Menos, . – exclamou.
- Foque no seu 40B, amigo. – retrucou.
- Ok, , você está totalmente fora da linha. Trate de buscar bebidas para todo mundo. – ordenou .
- Ah, , imagino sua reação quando souber os detalhes sórdidos ainda escondidos desse grupo. – comentou Emily, ácida.
, que já estava de pé puxando o amigo para acompanhá-la a cozinha, virou para a mulher e a encarou. Aquele olhar ameaçador, com as sobrancelhas estendidas, capaz de causar morte até a um imortal.
- Quer saber, mudei de ideia. Vão todos para o sofá e, , você está liberado. Em, querida – forçou um sorriso – você pode levar todos os pratos para a cozinha, né? E voltar com as bebidas para a sala? Você sabe, como um trote de iniciante do grupo.

*

- Ok, então eu começo. – exclamou Emily - Eu nunca fiz uma loucura bêbada.
Todos, com exceção dela e da , beberam o shot de vodca.
- Emily, por favor, não precisamos do álcool para cometer loucuras. – comentou – Na verdade, o motivo da não beber é porque se o fizesse terminaria sempre presa pela polícia. – brincou.
Depois de se acomodarem no sofá e conversarem um pouco, deu a ideia de jogar “Eu nunca” e lá estavam eles, prontos para revelarem segredos e ficarem bêbados.
- Eu nunca fiz um ménage. - Ninguém bebeu, a não ser o próprio , que fizera a afirmação, bufando. – Eu não acredito que você nunca fez, . Caiu em meu conceito. – fingiu-se triste, fazendo a amiga sorrir.
- Eu nunca mandei nude. – murmurou .
Os meninos beberam a vodca, fazendo caretas. , tímida, virou seu copo de coca com pimenta. Todos os rostos viraram para ela, os olhos arregalados de surpresa.
- Você? E nós a chamávamos de santinha até outro dia. Você está definitivamente deposta do título. Emily, você é nossa nova santinha. Total de copos virados: zero! E contando.
- , shiu. – mandou o amigo se calar – Eu nunca dormi com a pessoa no primeiro encontro. – Então, todos, com exceção dela e de Emily, beberam.
- Minha vez. Eu nunca fiz sexo nesse sofá. – jogou – Foi por pouco, mas nunca fiz mesmo. – e encarou , recordando-se da noite do apagão e da dispensa que levou.
, e beberam.
- Eu nunca peguei a ou o ex de um amigo ou amiga. – soltou.
- O que é exatamente ex? Ex-namorado só ou qualquer ficante?
- Ex-namorado. – respondeu, fazendo somente a beber. Todos a olharam.
- O quê? Eu perguntei pra ela antes, ela estava totalmente ok com aquilo. – deu de ombros. Emily revirou os olhos do outro lado.
- Bem, eu de novo. – a mesma disse – Eu nunca beijei duas pessoas na mesma noite.
Todos, menos ela, beberam.
- Quem é você? – perguntou a , surpreso por ela ter bebido. Novamente.
- Eu nunca disse que era santa, oras. Só sou mais seletiva e discreta que você.
- Uau. Bem, vamos agitar isso. – encarou e, em seguida, e logo sorriu maliciosamente. – Eu nunca transei no banheiro da Eletric.
- Você é um canalha, , sabia disso?
- Só beba, , porque não foi coisa de uma vez só.
- O que é Eletric? – inquiriu Emily, confusa, e a explicou. Assim que ele terminou, viu o olhar de sobre si mesmo.
- Estamos esperando, . Ou você vai deixar sozinha nessa? Você parecia bem presente naquele momento...
- , vai se foder. – xingou o amigo, bebendo o shot rapidamente.
- Esse jogo vai se tornar um ataque pessoal, ? – exclamou a mulher – Que seja. Eu nunca escutei de uma mulher, na hora H, que meu pau era pequeno.
Nesse momento, gritou, Emily esbugalhou os olhos e corou e e começaram a rir.
- Eu te odeio, . – revelou, bebendo seu shot da vergonha.
- Posso viver com isso, Mr. Músculos. , sua vez!
- Não, eu de novo. – falou, encarando – Eu nunca transei na mesa de sinuca da casa de praia dos pais de .
e bufaram e se limitaram a beber. , no entanto, virou para o amigo:
- Você passou dos limites, . Se controle, por favor.
- Bom, não fui eu que já prendi um policial. Não, desculpe. Eu nunca prendi um policial. Vocês sabem, com a algema dele mesmo, na cama, ele sem roupa. Isso te lembra algo, ?
- Ok, você foi definitivamente escalado para lavar e arrumar a louça. E está com sorte de eu não quebrar a garrafa de vodca nessa sua cabeça oca.
- Bem, eu adoraria continuar, mas tenho uma lista enorme de exercícios de álgebra para segunda e realmente preciso... – Emily foi interrompida:
- Não precisa arranjar desculpas, Emily. – soltou - O jogo está terminando por aqui.

*

- Ele não pode ser tão estranho assim, . – comentou, na semana seguinte, enquanto se ajustava no espelho.
- Amiga, você não tem noção! – a outra retrucou, enquanto mexia no celular – Eu perdi a conta de quantas vezes ele elogiou a si mesmo. E, ah, pequeno detalhe, ele fala em terceira pessoa!
- Isso é doentio.
- Exato. E aparentemente eu recusar sair com ele era um absurdo. – bufou – Que ego enorme.
- Vê, isso já não é tão estranho assim. Quer dizer, parece você. – completou.
- Como assim? – a amiga esbugalhou os olhos, sem entender a associação.
- , por favor. – exclamou, enquanto se sentava para amarrar o all star. – Quando um cara recusa você, você fica horas no meu ouvido reclamando.
- Não é isso. Eu só não consigo entender...
- Porque eles não querem ficar com você? Pode haver mil motivos e eu já te falei um milhão de vezes cada um deles. Mas você tem uma autoestima da porra!
- É totalmente diferente, ! Esse cara... Chris Keller – imitou sua voz, revirando os olhos em seguida – Sinceramente, é patético. Eu nunca sairia com ele.
- Seu direito! – ela pegou a bolsa pendurada na porta e jogou nos ombros – Não fique chateada comigo, eu amo seu jeito poderosa e convencida. E, pense positivo, você fala em primeira pessoa!
- Ah, vai se foder! – xingou, mas abriu um sorriso. Então, franziu a testa – Ei, onde a senhorita vai, posso saber?
- Na verdade, não.
- E se você for esfaqueada, sequestrada, morta?
- Eu só vou... dar um passeio, sua dramática. Está um dia bonito.
- Sei... Bem, obrigada por me convidar, Miss Misteriosa. Não faça nada que eu não faria.
- Ok, então eu posso fazer de tudo. – brincou.
- Exato – sorriu – Menos se arrepender.

*

- Olá. – solta para o espelho, vendo olhar para o mesmo. Ela o encara rapidamente e desvia o olhar, afundando o rosto no travesseiro e reafirmando que as cobertas faziam seu papel sob seu corpo.
- Eu não acredito que consegui fazer isso. É muito constrangedor. – exclamou a mulher, sua voz se deformando por causa do tecido da fronha.
O casal estava em uma suíte de um motel bem longe da casa deles, deitados exaustos depois de uma rodada. simplesmente não sabia como, de fato, ela tinha ido até o fim. Certamente se não tivesse a atacado com beijos carinhosos e toques aveludados nos lugares certos, ela teria reparado nas esquisitices da situação. Como o maldito espelho no teto do quarto!
- , você é sempre tão tranquila, sem grandes pudores.
- Bom, aparentemente encontrei meu limite. – retrucou, um tanto ressentida.
- Ei, não precisa ficar assim. – ele virou-se na cama, sem qualquer vergonha do seu corpo nu refletido no vidro, e acariciou os cabelos da mulher. – Se você não gostou do quarto, achou muito ousado, a gente pode tentar outro lugar da próxima vez.
- Não acho que mudar de estabelecimento adianta. – ela o olhou, recusando-se a avançar para a além do seu rosto – Não gosto da ideia. Uma vez, como algo louco e especial, tudo bem, mas fazer disso rotina? Parece que sou sua amante, que temos um relacionamento a esconder.
- Bom, não temos? – murmurou, ácido – Eu queria gritar pros quatro cantos do mundo que eu tenho a garota dos meus sonhos nos meus braços, – abriu um sorriso forçado – mas você quis manter tudo escondido.
- Você sabe o porquê, já lhe expliquei.
- Sim. Mas então, fazemos o que? Não podemos na minha casa, não podemos na sua, fica bem difícil.
- É por pouco tempo, podemos esperar um pouco.
- Ah, não. Eu desejo te agarrar e te fazer minha a cada hora do dia. E eu sou muito sedutor, você sabe, consigo te enlouquecer em dois segundos – piscou o olho - Então, a menos que você me algeme na cama, acho que abstinência será impossível.
- O que?... , você está com ciúmes?
- Bem, um pouco – ele resmungou – Eu fico sabendo pelo seu grande amigo que você algemou seu ex-namorado e sabe-se lá as loucuras que vocês fizeram. E comigo você mal aguenta um dia em um motel?
- É a representação do motel que me incomoda e não propriamente as loucuras do sexo. Eu posso ser bastante louca em todos os aspectos da minha vida, acredite. – ela sorriu e logo fez uma careta - E, sinceramente, se preocupar com o falecido é besteira. Ele é um completo babaca, enquanto você é maravilhoso. Pra você alcançá-lo no muro da vergonha da , você tem que fazer muita, muita, muita merda.
- Ah, isso com certeza me tranquiliza. – disse, sarcástico. – Eu não vou fazer nem uma merda sequer com você, .
- As suas bolas agradecem. – levantou as sobrancelhas, ameaçadora.
- Ok, - riu – eu tenho medo quando você assume essa postura agressiva. Deixa eu te contar uma noticia boa, então. Notícias sobre o Eletric.
- Sua irmã ‘advogata’ tem novidades? – os olhos dela chegaram a brilhar enquanto perguntava.
- Sim, minha irmã ‘advogata’ tem. – riu – Ela disse que já está tudo encaminhado. O inventário já está sendo feito e se houver necessidade de mais algum documento, ela te liga. E ela me garantiu que a causa está praticamente ganha!
- Oh, isso é perfeito! Mal posso esperar ter o Eletric de volta! – deu um sorriso do tamanho do mundo, a felicidade exalando de cada poro de seu ser – Eu sinto tanta falta daquele lugar. E dividir apartamento com a é uma merda, ela é muito bagunceira. – ele riu em resposta. – Mas talvez eu chame ela para morar no Eletric comigo. Você sabe, vai ficar apertado pra ela pagar sozinha e ela vai ficar sem apartamento pra morar... – justificou.
- Sei... – ele concordou somente. Então, a encarou por uns instantes de silêncio, antes de confidenciar: – Você é maravilhosa, sabia? Eu adoro você – deu um selinho na garota. – Seu jeito divertido e contagiante, - outro – sua sinceridade e lealdade – mais um – sua beleza.
Então, os toques de boca foram avançando. Orelha, pescoço, colo. E descendo... Para mostrar a que, de fato, ir até um motel não tinha sido uma ideia completamente ruim.

*

- Nem acredito que não tenho que vestir aquele uniforme de pinguim hoje. – comentou, sorridente, com a amiga, enquanto ambos adentravam na festa do curso de arquitetura. – Nem sabia mais qual era a sensação de ir a uma festa com as pernas de fora!
- Olha o drama! – rebateu, revirando os olhos – Você trabalhou em que, cinco festas? E você prefere calça jeans, de qualquer jeito. – ela encarou a amiga, vendo seu vestido básico preto alguns centímetros acima do joelho. – Mas hoje... você vai hiptonizar os boys desse jeito! Só, por favor, se você for capaz de se segurar, deixe alguns para mim. – brincou, fazendo a amiga rir.
- Isso definitivamente não será um problema. – sussurrou.
Dois eram os motivos. O primeiro, claro, é porque ela já tinha seu cozinheiro preferido e não precisava de qualquer outro para satisfazer suas necessidades. Uns amassos escondidos era tudo que queria essa noite. Mas também porque, meu Deus, aparentemente toda a ala masculina – e jovem - da cidade estava por ali.
- Olá, garotas! – apareceu na frente delas, já abraçando as amigas. – Vocês estão maravilhosas.
- Você não estava brincando quando disse que a festa da arquitetura era famosa, . – a mulher comentou – Esse lugar está lotado.
- Sinceramente, , não sei como você resistiu a não comparecer nos anos anteriores. Mas, também, as festas do seu curso costumam ser na biblioteca, com direito a medalha de ouro para o primeiro que acha o x ou algo assim. – sacaneou a amiga, que fez careta para ele.
- De fato, geralmente a engenharia mecânica rouba todos os nossos convidados, mas... precisa brincar com a desgraça alheia? Sabe, não ter festas quase me fez mudar de curso. – deu de ombros. e encararam um ao outro, precisando de alguns segundos para entender.
- Eu realmente acho que ela está falando sério, . – ele comentou.
- Pois é, eu também acho. É o que mais me assusta.
- Às vezes, parece que vocês esquecem como eu sou, gente. – sorriu - Mas vamos falar sobre essa festa... não sabia que arquitetura era um curso tão... masculino. – comentou, analisando o ambiente – Mr. Músculos, você pode ser o melhor amigo de todos e me apresentar o cara mais bonito da arquitetura.
- Bem, - ele encarou a amiga, estufando o peito e abrindo um brilhante sorriso – você já conhece o cara mais bonito, gostoso, cheiroso, simpático e inteligente do curso. Aliás, de toda a faculdade. Moi.
- Oh, claro. – abanou a mão – Obviamente, Sr. Modesto. Mas estou falando de um ser humano com alguns defeitos, não um Deus Grego como você. – piscou, fazendo-o ajeitar toda a postura e manter o sorriso no rosto, como uma criança recebendo um brinquedo novo.
- O Deus Grego aqui está disposto a lhe proporcionar horas sobre-humanas quando você quiser. Mas, sobre o ser humano defeituoso: ele tem namorada.
- Não sou nada ciumenta, você sabe. – com a resposta audaciosa da amiga, arregalou os olhos e olhou para a mesma, enquanto riu. – É brincadeira, acalme-se. Contento-me com o mais bonito solteiro.
- Hm.. vou pensar se realizo seu desejo, Cachorrão. Afinal, você pisa nos corações de todos que cruzam com você, com essas suas patinhas lindas. E não sei se agüento ter mais amigos com corações partidos por você. Mark, , a lista só tende a aumentar.
- Não sei se fico lisonjeada ou raivosa pelo seu comentário. Mas gostei muito da metáfora, então obrigada.
- Às ordens. Vou providenciar sua vítima de hoje, mulher. De qualquer jeito, eu me preparei para ser cupido essa noite, então não faz muita diferença.
- Cupido? Eu tenho medo disso. – suspirou – Me arrisco a perguntar detalhes?
-Você sabe que o mistério deixa tudo mais interessante. Mas como dica eu diria que o amor está no ar. Qualquer tipo de amor, quero dizer.

*

- Chris Keller está aqui para salvar a sua noite. – exclamou o rapaz de cabelo arrepiado, se fixando na frente de uma dançarina e solitária.
- Não me diga que você é o enviado de .
- Não sei quem é , mas sou enviado dos céus para te satisfazer. – soltou.
A mulher bufou. Duvidava que o cantor convencido do outro dia pudesse fazer arquitetura, mas, sendo ou não o prometido de , ele tinha, de qualquer jeito, falhado miseravelmente em sua missão.
- Vamos ser bem sinceros um com o outro, Chris Keller. Você realmente consegue conquistar alguma mulher com essas cantadas de merda?
- Mulheres caem perdidamente apaixonadas por Chris Keller – sorriu, convencido.
- Eu simplesmente não consigo acreditar que você é assim de fato. – ela comentou, rindo.
- Chris Keller é assim, de carne e osso. E fogo. E paixão. Por você.
Com um sorrisinho contrariado, ela revirou os olhos, diante das palavras do homem, e uma movimentação na entrada acabou chamando sua atenção. Fechou a cara instantaneamente. Um casal estava chegando agora na festa, a garota com uma saia preta que marcava seu corpo bonito, o rapaz com uma camisa dobrada em seus músculos, as mãos dadas os unindo.
- Tão doce que dá vontade de vomitar. – ela sussurrou, para si mesma, vendo o casal vinte.
- Chris Keller está perdido.
- Chris Keller deve parar de falar e usar essa boca para outra coisa mais interessante.
Dito isso, puxou-o, acabando com a distância entre eles. Não querendo começar leve, ela mordeu-lhe o lábio inferior, antes de, impetuosa, praticamente enfiar a língua na garganta do rapaz. Nos primeiros segundos, fez questão de olhar para , certo de que ele iria ver aquilo. De alguma maneira, como dos pólos magnéticos opostos, eles sempre conseguiam atrair um ao outro, mesmo diante de uma multidão.
Satisfeita, finalmente fechou os olhos e aproveitou o beijo.
Beijar era quase sempre bom, afinal.
E Chris Keller era bem melhor com a língua ocupada.

*

- Jay, esse aqui é , o famoso cozinheiro, também conhecido como estragador da minha dieta. – apresentou o amigo para o rapaz de cabelo curto e alargador nas orelhas, que sorriu – , esse é Jay, ele tem essa cara de roqueiro, mas é aquele que empresta todos os cadernos.
Eles se cumprimentaram e começaram a falar sobre a festa e a faculdade. De repente, percebeu que tinha sumido dali. Franziu o cenho, sem entender, mas então riu de algo engraçado que o Jay havia falado.
Este, por sua vez, interpretando a risada como um sinal, aproximou-se do recém-conhecido, tocando no braço malhado dele. Novamente, ficou confuso, mas, antes que pudesse reagir, viu o outro acabando com a distância entre as bocas.
Ele pulou, assustado, afastando-se de Jay no ímpeto.
- Ei, cara, foi mal, mas sou hétero.
- Sério? Nossa, eu que sinto muito por isso. – brincou, sorrindo – Mas isso é um tanto estranho. disse que você gostava de homens.
- O quê? Como assim? Eu nunca disse nada disso pra ele.
- Bem, ele não falou exatamente essas palavras, mas disse que aceitava todas as formas de amor e que você era um ótimo partido para mim. E eu sou declaradamente bi.
- Olha, isso não faz sentido algum, mas ainda sim parece muito algo que o faria. – exclamou, rindo – De qualquer forma, desculpe a confusão e a maluquice do meu amigo. Boa sorte na próxima!
Acenando com a cabeça, saiu dali, rindo e entendendo cada vez menos o amigo. Bom, deixaria para esclarecer que gostava de mulheres depois, embora não pudesse falar que estava gostando de uma mulher em específico. Bufou só de lembrar-se da situação. Queria, como um pré-adolescente bobo e apaixonado, gritar para todo mundo que era sua namorada... Ela era, certo?
- Opa, sem atropelar os outros! – uma moça gritou quando um desatento quase passou por cima dela. já abrira a boca para pedir desculpas quando ela continuou: – Ei, você, menino!
- Vivian, quanto tempo! – comentou, entusiasmado de ver a mulher de cabelos rosa depois de uns dois anos. Eles se abraçaram fortemente. – Nossa, aquele nosso barzinho não sai nunca!

*

Começou mais pela curiosidade. estava com uma Coca na mão, distraída com a música e abandonada pela amiga, que estava em algum canto com Chris Keller, mais conhecido como ser-estranho-que-fala-em-terceira-pessoa-com-quem--nunca-ficaria. Sei. Algo que, aliás, ela com certeza vai zoar no dia seguinte, mas por enquanto, estava suficiente se refrescar e olhar o ambiente.
Até que, bem, ela os viu.
e uma mulher de cabelo rosa. No início, foi só curiosidade, ela jura. Algo como: ué, uma pessoa de cabelo rosa falando com , legal. Mas, depois de alguns sorrisos trocados, risadas contagiantes – embora a música não deixasse ela ouvir as risadas, ela podia senti-las contagiantes – e toques bobos no braço, aquilo parecia ser... um pouco de mais.
sacou o celular do bolso, seus dedos avançando contra o inocente teclado. Assim que apertou enviar, retornou o olhar para o mais novo casalzinho. Sabia que o celular de estava sempre no vibrar e que, independente de todo aquele barulho e distração, ele saberia que tinha uma mensagem. E viciado como 99% dos jovens do século XXI, ele iria se consumir por uma vontade louca de saber do que se tratava.
Ponto. Ele desbloqueou a tela e leu ”me encontre no banheiro feminino. Vamos fazer desse um banheiro do Eletric”.
Um.
Dois.
enfiou o aparelho de qualquer jeito nas calças e deu um tchau bem rápido para a amiga de cabelo rosa.
É, parece, afinal, que tem algum poder.

*

- , você está aí? Está sozinha? – gritou da porta do banheiro e com o grito de afirmativo ele adentrou ao local, fechando a porta atrás de si. Seu sorriso ia de orelha a orelha e ele se aproximou da mulher, puxando-a pela cintura para perto de si. – Eu nem acredito que vamos honrar a memória do casal e . – tentou iniciar um beijo, mas a mulher recusou.
- Engraçado você citar isso, porque precisamente o que está martelando na minha cabeça e o que eu preciso esclarecer para você, caso haja, não sei porque, alguma dúvida a respeito, é que não somos e .
-Hm... isso quer dizer que você não quer fazer nada aqui? Tudo bem, podemos ir pra minha casa, aproveitar que os garotos estão fora. – reparando que a careta de brava não saia do rosto de , ele argumentou: - Podemos não fazer nada também, voltarmos pra festa. Hm... eu estou bastante perdido aqui, mas para mim não importa o como ou o quando, basta que seja com você, você sabe disso, né?
- Sei? – retrucou ela. Diante do olhar confuso do homem, deu uma curta risada sarcástica – Quem esta perdida aqui sou eu. Perdida nesse relacionamento, achando coisas, presumindo outras...
- O que tem de errado conosco?
- Bem, aparentemente a cláusula de exclusividade não está sendo bem respeitada.
- Sob o risco de me arrepender, porque você acha isso?
- Porque, , achei que, apesar de estarmos escondendo nosso... lance, exclusividade era um requisito bem claro, – a mulher bufou – o que quer dizer não ficar com garotas de cabelo rosa.
não pôde evitar a risada, o que fez ficar ainda mais furiosa. Quando a moça ameaçou sair dali, ele a segurou pelo pulso e proferiu as palavras mágicas:
- Ela era uma amiga do curso de inglês. E, pelo pouco tempo que você me deixou conversar com ela – provocou a mulher a sua frente -, eu descobri que ela namora. Uma mulher.
Instantemente, relaxou em seus braços e abriu uma espécie de sorriso-careta, envergonhada.
- Mas eu entendo todo o seu ciúme, afinal, o cabelo dela é tão lindo! Irresistível mesmo, né? – brincou, recebendo um empurrão da moça.
Ele a puxou para um beijo, mas o celular dela, na pia do banheiro, começou a tocar, quebrando o momento. , então, se esticou para pegar o aparelho e, com uma rápida e curiosa olhada, descobriu o dizer “gostosão” no visor.
- A menos que tenhamos acabado por quebrar uma barreira de um universo paralelo, como é possível um “gostosão” estar te ligando, se eu não estou te ligando? – comentou, entre a brincadeira e o ciúme.
- É o Mark. – deslizou o dedo pela tela do celular, recusando a chamada facilmente.
- Seu ex.
- Meu ex. – confirmou, embora não tivesse sido, efetivamente, uma pergunta. Mais como uma reação de quase choque.
- Ele está salvo como gostosão.
- Sim, esqueci de mudar. - ela deu de ombros.
Ele pegou o celular das mãos dela e também o seu em seu bolso e, poucos segundos depois, o dela estava novamente tocando.
- Eu sou só ? Que ótimo. – exclamou, bufando.
- Agora, quem está com ciúme, hein, bonitão?
- Eu, que, diferente de você, tenho absolutamente toda a razão para estar. Ela não é nem nunca foi nada minha, namora e gosta do que eu gosto. Já você nomeia seu ex de gostosão, enquanto eu sou só .
- Mas ele é só isso, só um policial gato que eu namorei.
- Esse é o seu jeito de melhorar as coisas? – ele a encarou – Porque definitivamente não está funcionando.
- Bom, eu gosto de você, eu quero ficar com você. Eu não quero saber desse outro aí. Ele é um ex por milhares de ótimas razões e nunca será mais que isso. Mas você... – inspirou fundo antes de continuar - você é especial. Você é o hoje e, algo me diz, é também o futuro.
Ele a puxou pelos antebraços, trazendo o corpo dela novamente para perto dos seus. Então, eles se abraçaram carinhosamente.
– Assim, seu corpo de volta colado ao meu, assim que deve ser. – sussurrou em seu pescoço, antes de depositar um beijo delicado ali. – Sei que somos exclusivos. Sei que somos importantes um para outro. Sei que eu quero um relacionamento pra valer com você. Então, a pergunta que fica é: – afastou-se somente alguns milímetros, para observar seu rosto ao ditar as palavras seguintes – , quer namorar comigo?



XVII. Got a Secret, Can You Keep It?

Não há nada tão delicioso quanto acabar com o bolo de chocolate durante a madrugada. Há algo mágico em saltar da cama, pisar no chão gelado, pegar a sobra na geladeira e sentar-se na cozinha escura, todas essas ações feitas cuidadosa e silenciosamente. Talvez seja a adrenalina, talvez seja a louca fome da madrugada,
não saberia dizer. Mas de uma coisa estava certa: estava uma delícia.
Deu mais uma colherada, engolindo um gemido. ‘Porque doce engorda tanto?’, se perguntava, enquanto estava em sua bolha de prazer.
Até que, boom, estouraram essa bolha ao acenderem a luz da cozinha. A mulher já se preparou para gritar um ‘ei’ irado, mas, ao levantar a cabeça, pronta para reclamar com a amiga, se assustou com quem estava ali, embaixo do portal, com uma cara amassada e somente uma cueca.
Sua primeira reação foi arregalar os olhos, sua mente demorando alguns segundos para entender a cena a sua frente e suas causas e consequências.
- Ei, ladra de geladeira. – ele exclamou, totalmente sem graça, dando um tchauzinho com a mão. Já ia virar e voltar ao quarto, como se nada tivesse acontecido, mas a mulher gritou:
- Espere aí, mocinho. –
levantou da bancada em um rompante, avançando contra o homem ali posto. Então, logo ao ultrapassá-lo, virou para ele, mandona: - Siga-me.
Alguns passos depois e eles estavam em frente ao quarto de
.
abriu a porta sem medir a força, sua raiva, decepção e surpresa alastrando-se por seu rosto. Já
vinha logo atrás, obediente, em um nervosismo evidente. Ele sabia que esse era, provavelmente, o pior jeito da melhor amiga da namorada descobrir o relacionamento dos dois.
Ah, sim, namorada. Embora seja meio óbvio que a resposta da mulher, quanto a pergunta de dias antes, tenha sido positiva, devido a toda a situação atual,
gostava de repetir que
era, de fato, sua namorada.
- Você pode me explicar porque
está andando por nossa casa só de cueca, dona
? –
praticamente gritou, fazendo sua sonolenta amiga pular de susto. Esta esbugalhou os olhos e fez careta, antes de exclamar somente um:
- Sinto muito, amiga. Eu queria te contar. Eu ia te contar.
- Por que não fez? Por que não me contou,
? –
desabou sobre a cama da outra, suspirando. Sua raiva já tinha se dissipado. Agora, restara a decepção.
- Eu só queria conhecê-lo antes. Ir aos poucos. Envolver terceiros depois. – deu de ombros.
- Eu te conto tudo, amiga. Tudo. E sei que muitas vezes vou escutar por isso, porque faço muitas merdas. Mas, ainda sim, eu te conto. Eu te conto quando eu vou soltar pum, cara. – ela soltou uma risada rápida. – Sei lá, você é minha melhor amiga. Eu achava que a gente compartilhava tudo.
- Nós fazemos,
. –
olha para a amiga. – Eu resolvi guardar isso porque, não sei, fiquei com medo. Da pressão, das expectativas. Sei que você não faria nada para me prejudicar. Mas eu também nunca quis prejudicá-la, embora talvez tenha feito exatamente isso forçando você e
...
- Ah,
, você não fez. – puxou a mulher para um abraço e as próximas palavras saíram abafadas – Esse é o seu jeito, amiga. Um tanto intrometida, sim, mas é quem você é e amo você. – se afastou, sorrindo forçando para amiga – E não perca noites de sono por conta de
e eu. Nós tivemos ótimos momentos, mas depois de um tempo começamos a nos enganar, um ao outro e nós mesmos. Se a culpa foi de alguém, foi minha.
-
, não! – ela já interrompeu, irada.
- Nah, deixa isso pra lá, não importa. Vamos falar desse casal maravilhoso, aqui! Mal descobri e já shippo tanto! – comentou, fazendo o referido casal rir - Desde quando vocês estão se pegando?
Então
contou a versão nada resumida da história dos dois. As brincadeiras de duplo sentido na cozinha, o evento do sofá, o dia em que faltou luz, a despedida amorosa de
da casa dos meninos.
ia atrapalhando a narração, de tempos em tempos, para acrescentar algo ou expor seu ponto de vista.
- Oh, Meu Deus! Então você era a garota que gritava no quarto de
, na nossa viagem. –
juntou as peças do quebra-cabeça, exclamando em seguida: – Amiga, não sabia que você era tão... expressiva!

corou, enquanto tanto ela quanto
caíam na risada.
Entre perguntas, revelações e risadas,
se pegou analisando o casal. Olhou primeiro para sua melhor amiga. Sorrindo de orelha a orelha, gesticulava animadamente, as bochechas rosadas. De vez em quando, procurava
e trocava algum olhar tão bobo e íntimo.
não estava menos sorridente e encarava a mulher sem pudor algum, seus olhos e sua mente perdendo-se em
.
De alguma maneira, enquanto afastavam os segredos, aproximaram seus corpos um do outro. E não bastava analisá-los separadamente. De alguma maneira, juntos, eles formavam algo diferente.
percebeu, pela primeira vez, que aquilo não parecia assustador. Para alguém de fora, parecia bonito. Para os protagonistas, parecia ser muito mais profundo que isso.
Nesse momento, quebrando a introspecção da mulher, a porta do quarto se abriu, revelando um Chris Keller malicioso.
- Chris Keller veio elevar o nível de... – ele começou a anunciar, até observar a cena que ali ocorria.
, com o pijama curto de horas antes.
, sob os lençóis, somente de sutiã.
largado de cueca. E, bem, mais nada. – Chris Keller foi enganado. Pela falta de roupas e os risinhos, pensei que vocês estariam fazendo algo mais... interessante.
- Nojento! –
exclamou, com uma careta.
Keller focou seu olhar na mulher, que até então desconhecia. De fato, apesar de estar saindo com
por alguns dias e saber que ela dividia apartamento com a melhor amiga, não havia conhecido a tal.
Até agora, quando caminhou até
, pegou sua mão e, cuidadoso, deu um pequeno beijo em suas costas. Usando de todo seu charme, encarou a mulher e falou:
- Acredito que nunca fomos apresentados, pois não esqueceria uma mulher tão bonita. – Nesse momento, mal disfarçou o desvio para o generoso decote descoberto da mulher. – Chris Keller ao seu inteiro dispor.
- Ei, se afaste da minha mulher. –
reclamou, dando um safanão no pescoço do rapaz.
- Carinha da terceira pessoa, sei quem você é. –
, por sua vez, nem tentou disfarçar a careta. Então, virou pra amiga: - Sério que você estava realmente ofendida de eu ter escondido o relacionamento com
? Quando você ia me contar que esse... ser estava dormindo em nossa casa, senhorita hipócrita?
- Culpada. – ironizou, revirando os olhos – Uma mulher solteira trouxe um cara para casa dela e passou a noite junto com ele. Enforquem-na!
- Você fala como se não tivesse qualquer problema,
. –
balançou a cabeça em negação – Ele fala na terceira pessoa!

***



cantarolava uma música aleatória, baixinho, enquanto controlava as panquecas no fogo. Distraído, nem mesmo os passos em meio ao silêncio do apartamento anunciaram o visitante em seu momento sagrado. Tampouco a educação do recém-chegado avisou sua presença. Somente quando uma mão intrometida entrou em seu campo de visão, ele percebeu que não estava mais sozinho.
Por sorte, reagiu rápido, dando um tapa nas costas da mão que tentara, sem sucesso, usurpar o café da manhã.
- Vou pensar se você merece uma dessas, cara.
- Chris Keller merece recompor suas energias depois de uma noite... de trabalhos. – riu, malicioso.
, por sua vez, só o olhou, com cara de tédio, antes de informar:
- Continue falando em terceira pessoa e você não vai por uma grama de comida nisso que você chama de boca.
Keller arregalou os olhos, horrorizado. Então,
riu. O outro apoiou-se na bancada da pia e, por mais estranho que pareça, permaneceu calado por alguns minutos. Até que suspirou e voltou a falar:
- Desculpa por ontem,
. Esqueço que nem todos têm o senso de humor Chris Keller.
- Essa é a pior desculpa que já ouvi. – bufou – Mas, de qualquer maneira, não deve se desculpar comigo, mas sim com a
. Afinal, você a desrespeitou.
- Bem, ela parecia bastante sua propriedade ontem – Chris cutucou, ácido, referindo-se a
ter chamado a namorada de “minha mulher”.
- Sim, nada orgulhoso disso. Foi uma atitude impulsiva e bem babaca. E, acredite, eu fui bem castigado ontem por essas minhas palavras.
- Nossa, você não gosta de ser castigado? – Keller inquiriu, abrindo a boca em falsa surpresa – Adoro quando a
me prende na cama, me pisa com seus saltos, faz eu gritar para ela...
- Eu realmente não quero saber sobre a vida sexual de vocês. Pretendo dormir sem ter pesadelos pelo resto dos meus dias. – murmurou
- De qualquer maneira, não foi esse tipo de castigo e você sabe disso.
-
,
... a vida sexual de Chris Keller deve ser apreciada. – sorriu, entusiasmado, ignorando tudo que o outro havia falado –
é... selvagem, sabe? Uma leoa para um tigrão... –
o interrompeu, não escondendo uma careta:
- Primeiro, leoas, pela natureza, acasalam com leões, não tigres. Segundo, já temos um tigrão no grupo, então você precisa de outro apelido.
Nesse instante, o telefone de
começou a tocar. Do outro lado,
, que parecia ter sentido que acabara de virar o tópico da conversa. Salvo pelo amigo de ter que continuar a escutar intimidades desnecessárias, e, claro, para não acordar as meninas, atendeu a chamada rapidamente.
- Ei, tigrão. – apontou para o celular, usando-o como argumento para sua fala anterior. Era isso ou simplesmente agradecer ao amigo pelo preciso momento.
- Você nunca me chamou assim... –
sussurrou, ainda pensando, depois de uma noite em claro. – Ei, quando eu disse que aceitava todas as formas de amor, não quer dizer que, você sabe, eu... as pratique. Eu gosto de mulher.
-
, eu sei. –
concordou com o óbvio. Mas o amigo continuou, não convencido:
- Aliás, eu acabo de sair de uma mulher. Literalmente. – riu, vitorioso – Uma after party particular, se é que você me entende.
- Sim, eu entendi. Logo na sua primeira frase. –
bufou, mal acreditando que por pouco havia se livrado de informações íntimas de Keller e lá estava outra pessoa para lhe contar mais. Ah, a ilusão.
- Nada como ceder a nossa mais profunda natureza. – afirmou, filosófico.
-
, você é ainda mais chato depois de uma foda.
- Tudo isso é inveja, Henrryzito? Logo você que deu um fora no meu amigo...
- Bem lembrado, precisamos conversar sobre isso! –
exclamou, lembrando-se de como o amigo atirou um rapaz para cima dele por acreditar, sabe-se lá como, que ele gostava de garotos.
- Não agora, estou chegando em casa e preciso dormir. – suspirou - Ah sim, o motivo de eu ter ligado. Hoje temos noite dos boys. E você está convocado.
- Noite dos boys? – repetiu, rindo da nomenclatura do evento. – Onde?
- Ei, eu também irei. - a voz de Chris Keller tornou-se estridente e até
, do outro lado da linha, ouviu.
-
, porque não me disse que estava acompanhado? Odeio ser empata-foda! – resmungou, chateado – No Vikings. 8 da noite. Seu companheiro é bem-vindo. – e desligou, mal dando tempo do amigo reagir.
- Ótimo, posso conhecer todos vocês! – Keller soou animado, enquanto
ainda estava paralisado pelas últimas palavras de
. – Obrigado pelo convite. – sorriu, nem passando por sua cabeça que, bem, nunca houve, de fato, um convite.

***


- Caras, esse é o Chris, o novo brinquedo da
. –
apresentou o rapaz em suas costas, logo que se aproximou da mesa dos amigos - Chris, esses são
e
. – apontou para os amigos.
Tentara fazer Keller desistir da idéia de comparecer. Falou que não seria tão divertido assim, que ele ficaria deslocado, que ele poderia aproveitar a noite com a
. Ele não desanimou por um minuto, no entanto.
Então, tentou passar-lhe a perna mesmo. Inventou outro lugar, mentiu sobre a hora, fingiu que tinham cancelado. Mas, ainda sim, ele simplesmente obrigara
a levá-lo com ele. Vocês já devem saber o quanto Chris Keller pode ser... persuasivo. Para usar o mais sutil dos adjetivos.
- Chris Keller está encantado em conhecê-los. – acenou para os rapazes, sorrindo convencido - Claramente o sentimento é mútuo.
- Sim, ele fala em terceira pessoa. –
já lhes avisou, vendo as caretas se formarem no rosto dos amigos. Jogou-se no sofá livre antes de continuar: – E, só para constar, Senhor
, ele era o intrometido hoje de manhã. Berrando ao telefone.
- Você está pegando o ficante da
? – sim, essa foi a dedução lógica que
fez. Vai entender.
- Claro que não! Eu não gosto de meninos,
. Sinceramente, não sei da onde você tirou isso.
- Ué, então por que você estava com ele tão cedo essa manhã? Vocês fizeram... a três... e não me chamaram?! – ele exclamou, parecendo surpreso e um pouco chateado. – Logo com
... Boa escolha. – sorriu, malicioso.
-
! Para com essa merda! –
gritou para o amigo.
- Ei,
, você namora, esqueceu? E a
é um cachorrão livre. – deu de ombros, abrindo um sorriso orgulhoso. – Conte como foi. – pediu, olhando para os outros dois.
-
, você só piora. –
bufou, revirando os olhos – Não aconteceu porra nenhuma comigo e com
. Seja em trio, seja em dupla. – ainda acrescentou: - Só para você ficar mais tranquilo,
.
- Vai se foder.
- Chris Keller gosta de mulheres. – exclamou o próprio, parecendo um tanto confuso.

aproveitou a deixa, achando por bem mudar de assunto.
ainda não tinha deduzido que
e
dividiam um apartamento e que Keller e
estavam juntos de manhã porque estiveram juntos com elas à noite anterior. Separados, mas juntos. Enfim, vocês entenderam.
- De qualquer maneira, é um prazer conhecê-lo, Chris. – estava longe de ser um prazer, mas nada como a educação vinda de berço, certo?
- Chris Keller.
- Eu sei...
- Chris Keller gosta que usem seu nome por completo. – esclareceu – Não sou qualquer Chris. Não sou qualquer Keller. Sou único.
- Tudo bem, cara. –
se segurou para não bufar – Então, conhece
há muito tempo?
- Ah,
e sua sutileza nata. –
cutucou. – Amigo, você não consegue superar mesmo, né? Chega a ser triste.
- Não, tem algumas semanas só, mas tem sido dias sensacionais. Vocês namoraram, é? – perguntou Chris, curioso – Nossa, deve ser estranho conviver com ela. Quer dizer, ela é maravilhosa, gostosa pra caralho, não dá vontade de tê-la de volta?
- Olha pra cara dele, Keller. Ele nem esconde essa vontade. –
comentou, enquanto
, em resposta, se limitou a erguer o dedo de meio.
- Ah, e aquele piercing? Como é alucinante... – mordeu o lábio inferior, só de recordar a noite anterior. E a antes dessa. E...
-
colocou um piercing? – o rapaz não conteve sua curiosidade.
havia mudado algo em seu corpo, furado sua pele por onde as roupas escondiam e, pela primeira vez em muito tempo, não compartilhara o segredo com ele.
- Oh, foi depois de você? Então, é melhor guardar a valiosa informação do lugar.
- Porra! Eu vou sonhar com isso hoje.
e seu piercing misterioso. – exclamou
.
- Bem, eu estou sonhando com uma cerveja gelada, porque essa está parecendo xixi. –
acrescentou, levantando-se em um suspiro – Alguém quer?
- Claro que você sonha com cerveja e não com mulheres... –
expôs, reflexivo – Depois ainda diz que não é gay – bufou, negando com a cabeça em descrença. – Pode se abrir,
, nós somos simpatizantes. E, sim, cerveja.
-
, é ótimo que vocês não tenham problema. Mas já te disse milhares de vezes que não sou gay e estou falando a verdade, acredite ou não. Desde que você não tente me empurrar homens – ou, diga-se de passagem, mulheres também –, como um cupido, eu realmente não me importo. – deu de ombros, tentando parecer calmo, embora estivesse um pouquinho irritado com a insistência do amigo. – Cerveja, mais alguém, última chamada.
- Traga logo quatro,
. Gay ou não é a sua vez de pagar a rodada.

***


O Vikings estava definitivamente cheio hoje. Afinal, era dia de jogo. Havia dezenas de homens uniformizados olhando vidrados para as televisões de centenas de polegadas. Outras dezenas estavam no bar, impacientes para pegar sua bebida e voltar a atenção para tela.
Mas, mesmo por entre todos eles, ela o encontrou. Magia ou não, seus olhos focaram exatamente em suas costas. Ela não sabia que ele estaria ali, só sabia que era a “noite dos boys”. Mas, teve seus olhos puxados até ele. E vê-lo por aquele ângulo já era suficiente para reconhecê-lo.
Não pode evitar o sorriso bobo. Quando
insistiu para que saíssem,
não estava muito animada. Trabalhara mais cedo em uma festa infantil, andando para lá e para cá por umas 4 horas. Suas pernas doíam e a Netflix a chamava. Mas a amiga insistiu e prometeu uma cadeira.
Então, ela viera. E lá estava sua recompensa por ser uma boa amiga.
Decidida, manteve o sorriso no rosto, dessa vez mais firme, e caminhou até
. Algumas licenças depois, ela passou seus braços pelo corpo do namorado e o prendeu, sussurrando em seu ouvido:
- Olá, gostoso. Você tem uma bunda maravilhosa, sabia?

tocou em seus braços alguns instantes depois, puxando a mulher para mais perto de seu corpo, enquanto mantia-se de costas para ela. Virou um pouco a cabeça, para retrucar:
- Você me canta assim desde o primeiro dia que me viu, em meu quarto, só de cueca. Você é cheia de más intenções, hein.
- Ou boas, depende do ponto de vista. – brincou ela, fazendo-o rir. Então, virou-se, para ficar de frente para
. A puxou para mais perto. Ela agarrou-o pelo pescoço, mordendo-lhe a bochecha – Vamos... você quer mesmo ver o jogo?
- Baby, você sabe que eu sempre irei preferir você.

***


- Caralho, o
se afogou na cerveja. –
comentou, depois que muitos minutos depois, o amigo ainda não havia aparecido.
- Chris Keller já está com a boca seca de esperar.
- Aparentemente, sim. –
concordou, ignorando o comentário de Keller - Ou foi esmagado pelos rivais, afinal, seu time é minoria aqui. – ergueu-se – Vou procurá-lo. E voltarei com as bebidas. Vocês, donzelas, podem se pegar enquanto isso.
Saiu sob xingamentos dos amigos. Ou de seu amigo e de Keller. O caralho que o chamaria pelo nome completo. ‘Único é meu pinto’, pensava, em sua mentalidade raivosa de cinco anos de idade. Sinceramente, se perguntava como
caíra tanto o nível depois de, bem, ele.
Caminhou até o bar, flutuando em seus pensamentos, enquanto desviava dos clientes e procurava
e sua camisa branca. Aparentemente, nada dele. Nem de suas bebidas.
- Três cervejas, por favor – pediu ao atendente. Já que sumiu, nada de cerveja para ele.
O cara do outro lado da bancada estava enrolado com tantos pedidos. Suspirando, apoiou-se no bar e olhou para o outro lado, a fim de espiar o placar do jogo. Mal teve tempo hábil para enxergar a televisão. Logo abaixo, em seu campo de visão, encontrou os cabelos dela.
Se não fosse o senhor do lado o apontando as bebidas, teria se esquecido delas. Depositou alguns dólares na bancada e decidiu seguir reto. Não queria saber de
. Não ali, não hoje, não quando fielmente acreditava que não precisava vê-la, sentir seus olhares, escutar sua voz. Já bastava o outro, penetra, contando-lhe o que lhe doía saber.
Mas seus pés não obedeceram. De alguma maneira, o coração tomou conta do cérebro. Foi bobo. As garrafas quase escorregaram da sua mão, ele quase tropeçou. Mas aquela cena, ela ali, seu jeito aflito e tão natural, simples, puro... ele não estava preparado.
- Ei,
. – conseguiu controlar sua voz, esta saindo tranquila. Viu o vinco de preocupação da mulher com o jogo que era transmitido. Quase riu. – Esqueci como você é vidrada em futebol.
-
. Isso é pra mim? – ela apontou para a cerveja e ele simplesmente a entregou. Pegaria outra pra ele depois – É meu time jogando. E perdendo. Estou ficando louca. – brincou ela.
- Você já é normalmente, mulher. – retrucou, piscando pra ela.
Eles se encararam por alguns segundos e
sentiu que ele iria perder sua atenção para o jogo. Então comentou:
- Já sei porque
sumiu.
- O quê? – ela já tinha virado seu rosto para o futebol, mas voltou a olhar para o amigo com curiosidade.
-
veio buscar bebidas a meia hora atrás. E está sumido desde então. – esclareceu.

olhou brevemente para os lados, como se procurasse alguém. Por sua vez,
pensou por um instante e percebeu que talvez tivesse acabado de fazer uma merda. Afinal,
e
eram um segredo e ele não sabia se a prima tinha contado para sua melhor amiga sobre o relacionamento. Antes de poder enrolar sua fala, no entanto, a mulher falou:
- Nossa, nem tinha percebido que a
tinha saído daqui, mas faz todo o sentido. – ela sorriu, maliciosa. Então, fechou a cara: - Espere, você já sabia? Porque raios
contou para você e não para mim?
- Ela não contou para mim, eu os peguei no flagra. – fez uma careta somente pela recordação - Ela não contou mesmo para você? Quer dizer, você é sua melhor amiga!
- Sim, exatamente, muito obrigada. Veja se coloca algum senso na cabeça de sua prima. Não me contou, eu encontrei
de madrugada, de cueca, em minha cozinha. Acredite, não foi legal.
- Ah,
, você não interpreta bem o papel de puritana. – comentou, fazendo a mulher rir.
- Chris está aqui com vocês, né?
- Chris Keller, o único, blábláblá. – o rapaz respondeu, imitando-o com irritação – Sério, como você aguenta esse cara?
- Ele é legal, depois que você o conhece. – respondeu, simplesmente. Ainda acrescentou: - Trate ele bem,
.
- Eu sempre o faço. – retrucou, fingindo-se ferido pelas palavras. A mulher meneeou a cabeça negativamente e sorriu, antes de falar:
- Você não me engana. Eu te conheço melhor que ninguém.

***


- Não é possível. – exclamou
, balançando a cabeça. – Existe algum tipo de portal para outro mundo nesse bar. Só assim para todo mundo sumir.
Ou, adicionou mentalmente, os desgraçados dos amigos dele tinham o abandonado com a mala falante ali, de propósito, enquanto fugiam do poço de achismo. Veja bem,
se considerava, digamos, possuidor de uma auto-estima bastante razoável. Sabia de sua capacidade e gostava de expô-la. Mas Chris Keller, meu Deus do céu. Era simplesmente outro nível.
- Chris Keller está fazendo sucesso. – murmurou o próprio, olhando para algum ponto sob o ombro de
. Claramente, tinha ignorado as palavras do recém-conhecido, pois aparentemente a loira a poucos metros era mais interessante.

olhou para trás, notando que, embora de fato existisse uma loira bonita atrás dela, ela estava muito preocupada com sua bebida e, arriscava dizer, nem tinha notado o irritante caidinho por ela. Então, bufou, negando com a cabeça.
- Keller Chris, você tem menos noção que eu. E, acredite, isso é difícil. – falou, levantando-se em seguida – Vou procurar meus amigos. Sinta-se livre para tomar um fora da moça ali.
Sem esperar resposta,
caminhou em direção ao bar, cada vez mais lotado. Aproveitando sua altura, começou a procurar
ou
, enquanto pedia licença por entre as pessoas.
- Opa, desculpa. – soltou, ao esbarrar num rapaz. – Foi mal, cara. – sacudiu a mão molhada, que por pouco tinha sido a única vítima. A jarra de cerveja continuava intacta na mão do outro, que só bateu nas costas de
em cumprimento.
Em seguida,
desviou o olhar e sua visão periférica encontrou duas pessoas conhecidas. Um homem e uma mulher, concentrados um no outro. Ele vincou a testa, surpresa por vê-la ali, mas, sobretudo, por vê-los juntos. Sorrindo um para o outro.
Esquadrinhou a cena e viu dois copos de cerveja na já metade. Outro, inteiro, já quente. Então, pensou
, ‘lá estavam nossas cervejas’. Bufou, já com um sorriso de canto. É, sua teoria estava certa, pelo menos um dos amigos realmente tinha sido abduzido para outro mundo.

, definitivamente, era louco por aquela mulher. Por ela, esquecia cervejas, brigas, foras. Queria ele, algum dia, encontrar alguém que o faria perder-se assim. Infelizmente, como o velho ditado diz, Deus dá nozes a quem não tem dentes, e aqueles dois ali lutavam contra todo aquele sentimento.
Suspirou. Não seria ele que os traria de volta a Terra.
Virou, caminhando para o lado oposto, a fim de que não pudesse ser descoberto pelos amigos. Procurou rapidamente por
e, não o encontrando, olhou para a mesa. Keller ainda estava lá, absorto no celular. É, definitivamente não era hora de voltar para lá.
Banheiro, você é tudo que restou.

***


- Ah,
. –
suspirou, quando a mão do rapaz desvendou sua pele nua.
Mas não pode continuar a falar, porque ele logo a puxou para um beijo. Em parte porque, afinal, aquela era uma pegação particular, apesar de estarem em um local bem público. A maior parte, no entanto, porque nunca era suficiente beijá-la.

se jogou ao beijo, passando suas mãos pelo corpo do rapaz. Semanas atrás, ela nunca imaginara que as coisas ficariam tão quentes no banheiro masculino de um bar, estirada entre as pias. Quer dizer, ela já sonhara várias vezes com isso, mas a realidade, com
, mostrava-se mil vezes melhor.
Um assobio fraco e constante soou. Mesmo com a gritaria dos torcedores, pela proximidade do dono do som aquele espaço reservado e silencioso, eles puderam escutar. Bom, pelo menos uma parte dos cérebros deles captaram a informação, devidamente registrada e aguarda para ocasião mais oportuna. No momento, eles só queriam ouvir e registrar, de todas as formas, um ao outro.
Mas o dono do assobio continuava a andar para o banheiro. Dentre todos os presentes, logo
, distraído, prestes a descobrir o que o resto dos amigos já sabia.
- ?


XVIII. After All Of The Fights and The Lies

Embora para o casal pareça ter ocorrido séculos atrás, se levar-se em conta as inúmeras vezes que já sentiram vontade de repetir a dose, foi somente no fim de semana último que os garotos encontraram as garotas,
e
prenderam-se no banheiro do bar.
Por poucos, o romance escondido-quase-conhecido-por-todos-menos-por-
foi descoberto pelo rapaz. Mas nada como uma singela voz, pertencente a uma bela e conhecida mulher, o chamando, para que ele mudasse todos os caminhos.
Sorridente pela memória de tal noite retornar a sua mente, ele caminhava pelo shopping, a procura de um presente para sua melhor amiga. E, claro, zoá-la como um bônus pelo esforço. Minutos atrás, falava com a próxima aniversariante pelo celular e, após um tanto de persuasão própria de
, confessou que tinha um novo trabalho, em complemento as festas que já estava participando. E não era qualquer trabalho, mas sim uma vendedora de milkshake, com direito a um chapéu ridículo. Palavras dela, não dele, mas que o homem gostaria muito de comprovar com seus próprios olhos.
Descobrir esse trunfo foi sua sorte, porque logo ao fim da ligação, após prometer que iria visitá-la logo mais, descobriu uma mensagem de
, o abandonando na última hora, com alguma desculpa tão tosca que ele imaginou que não seria mais que sexo com Chris Keller. Bufou, pensando estar no fundo do poço, se era tão facilmente trocado por um qualquer falante em terceira pessoa.
Mas ao menos poderia oferecer aos garotos um pouco de incentivo. Sob promessa de que iriam zoar
, em poucos minutos
e
o encontraram no shopping. Claro que, além de oferecer a locação exata da amiga, ele teria que lhes pagar um sorvete para cada. É, esse presente estava saindo bem caro, então
esperava que o chapéu fosse realmente ridículo.
Felizmente, seus desejos foram atendidos e superados extraordinariamente. Lá estava ela, atrás de um baixo balcão, mexendo na máquina de sorvete, com um chapéu em formato de um sundae, com cereja enfeitando-o. Simplesmente maravilhoso.

já sacou o celular, pronto para tirar fotos da prima, no que ele recebeu um grito abafado para parar. Até parece que ele perderia a chance de ter uma chantagem sobre ela.
- Eu sou um cliente, me trate com respeito. – murmurou, fingindo-se sério. – Vou querer um sundae de chocolate, em homenagem a sua vestimenta,
! Na conta do
aqui!
- E eu um sundae de morango, Smurf! –
exclamou, levando os dois amigos a risada e fazendo a namorada olhar de cara feia - O Smurf mais lindo e fofo do mundo, juro. – piscou o olho para ela, que ignorou.
- E eu só uma casquinha, porque esses desgraçados estão me extorquindo aqui. –
falou para a amiga, sorrindo – Aliás, eu queria saber se eu ganho o direito de te lamber todinha... – soltou, malicioso - Já que você é um sundae, claro.
- 8,67 e um grandíssimo vão se fuder, para vocês três. –
exclamou em resposta, falando em voz baixa e mantendo-se calma – Eu vou cuspir no sorvete de todos vocês e, se vocês querem sobreviver ao dia de hoje, desapareçam da minha frente logo depois. – ela sorri, como se suas palavras tivessem sido gentis.
- Ok. Tchau, menina Sundae. –
acrescentou por fim.
Os três amigos, lutando por suas próprias vidas, correram dali. Depois de muitas risadas e comentários, finalmente começaram a busca pelo presente da menina Sundae. E, como esperado, não foi nada fácil. Reviraram várias lojas e
não se mostrava satisfeito. Até que parou em frente a uma chamativa loja. Ali poderia ter alguma coisa... interessante.
Ele sorriu, feroz. Uma lingerie era exatamente o que a amiga precisava.
Apontou para os dois modelos da vitrine, um preto mais simples, todo rendado. Outro, vermelho, com cinta-liga e uma transparência.
- Emily já apareceu com um vermelho desses, Harryzito? Ou ela é mais clássica?
- Definitivamente mais clássica. Mas deliciosa. – sorriu, presunçoso.
- 40B, sim, sim, lembramos. Mas você não sente falta de um vermelho, uma
na sua vida?
-
, - revirou os olhos – só para constar,
era fã das fantasias. Bom, - deu de ombros – suponho que ainda seja. Lingeries sempre foram... básicas demais para ela.
- Ah, sim, é bem o estilo dela mesmo. – comentou – Estou pensando que é um ótimo presente.
-
, caso você tenha esquecido, o aniversário é da
.
- Eu sei,
. Eu tenho certeza que ela adoraria essa vermelha. Você não? Ela deve guardar toda a ousadia para a cama.
- Bem, eu acho que ela preferiria a preta. Mas, você é só um amigo dela, não faz sentido você dar qualquer uma das duas.
- Só um amigo? – ele inquiriu em resposta, erguendo a sobrancelha em desafio. –
,
, eu a conheço muito melhor que você. Vermelha é a escolhida e, sabe, eu realmente vou comprá-la para a
. – pausou, antes de completar, com um sorriso malicioso: - Nada melhor do que poder aproveitar o presente.
-
, vamos pensar antes de falar? –
tentara avisar ao amigo, mas ele ignorou.
- O que, Meu Deus,
! Você tem certeza que não é gay? Imagina essa calcinha mínima naquela bunda maravilhosa...
-
, cala a porra da boca! –
explode, fazendo o (ex?) amigo esbugalhar os olhos – Para de falar tanta merda e, principalmente, para de falar da porra da minha namorada! Ela tem uma bunda perfeita, mas sou eu que posso tocá-la e fodê-la, ok? Então pare de soltar indiretas e pare de tentar comer a minha garota! – saiu gritando as palavras, deixando o outro pasmo – E não vai comprar porra de lingerie nenhuma, caralho!
E, em um rompante, saiu pisando corredor abaixo, afastando-se dos outros dois.
-
e
? –
perguntou, simplesmente, ainda observando por onde o amigo saiu enfurecido.
- Sim,
. – tocou no ombro do amigo. – Péssimo jeito de descobrir, hein.

soltou uma risada forçada e então balançou a cabeça, mal acreditando nas novidades jogadas na sua cara. Não era possível.

.
Correu pelo shopping, quase atropelando as pessoas na escada rolante, caminhando até o Ice Cream Point. Viu primeiro seu ridículo chapéu e correu até ela.
-
, você está namorando o
?
Ela paralisou, com as mãos na máquina do sorvete. Era toda a resposta que ele necessitava.
-
– murmurou, mais alto, quando percebeu que ela não olharia para ela – você está namorando o
? E não me contou? Por que porra eu não sei disso?
-
, por favor, mais baixo. – ela pediu – A fila está grande, se você puder esperar...
- Caralho,
, esperar? O quanto mais? Quando você ia me contar que estava namorando a porra do meu amigo? Será que eu saberia a tempo da porra do casamento?
-
, sem palavrão! E mais baixo.
Ela olhou para as crianças, ansiosas pelo sorvete, que faziam uma cara estranha para aquele homem grande e furioso.
- Eu achava que nós éramos amigos,
! Porra, minha melhor amiga. Mas quer saber, pega essa porra dessa amizade, mistura com esse sorvete de merda na sua cabeça e enfia no... – parou o xingamento, quando finalmente sentiu os olhares assustados das crianças - naquele lugar.
Então, era isso, ele aparentemente foi o último idiota a descobrir o que nem mais era segredo.

***


Por algum delírio mental, alguém alguma vez na história do mundo disse que aniversários eram ótimos. Até parece. Como se já não bastasse não gostar de fazer anos,
ainda tinha que lidar com... a vida.
Primeiro, ser acordada por uma animada
, pulando em sua cama, às 6 fucking horas da manhã. Depois de trabalhar, em dobro, até a madrugada do dia anterior, porque, surpresa, seu primeiro dia na sorveteria tinha sido também seu último!
Aliás, esse é outro ponto.
, escroto como poucos, depois de toda a cena em seu local de trabalho, não dirigiu a palavra para a amiga a semana toda. Com alguma sorte, ele estaria ruminando toda a merda que fez. E ficar longe dele ela tudo que ela queria por agora. Quer dizer, nesse ponto da história,
sabe que decidir esconder o relacionamento dela com
está no TOP 3 de piores decisões da sua vida, porque todos os seus amigos descobriram acidentalmente, então ela definitivamente não sabia executar uma parte importante: o segredo.
Bem, digamos que seu namorado menos ainda. Outro com quem ela está em maus lençóis e contando. Porque, duas noites anterior, ele havia contado que tinha acidentalmente confidencializado a informação para
. Algo sobre lingeries e bunda, ela realmente não queria saber. Não depois da reação ridícula, exagerada e possessiva de
.
Não seria um ótimo presente de aniversário se todos sumissem?
Mas aparentemente, ela tinha se comportado mal no ano, porque ao atender a campainha do apartamento, não havia flores ou chocolate para ela. Ali, em frente a ela, com um sorriso no rosto, estava um embuste...er... conhecido somente como Mark.
- Que porra você está fazendo aqui? – ela soltou, revirando os olhos. – Aliás, como raios você sabe meu endereço?
Ela estava sóbria de Mark há meses, muito antes de se mudar com a
, antes mesmo de ir para a casa dos meninos. Para ele, ainda existia o Eletric.
- Ei,
, é tão bom te ver! – ele exclamou, suave, puxando a mulher para o abraço. Ela não reagiu e ele logo a soltou, mas seu sorriso não saiu do rosto – Eu fiz algumas pesquisas no trabalho – deu de ombros, como se não fosse nada usar as informações privilegiadas da polícia para interesses particulares. Algumas leis violadas, mas quem liga? – Queria tanto falar com você, sinto tanto a sua falta.
- Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. – retrucou, amarga.
- Eu... posso entrar? – inquiriu, ignorando a patada merecida da mulher.

simplesmente abriu mais a porta, deixando-o entrar. Então, viu Mark sentar no sofá e aguardar a moça sentar, o que não aconteceu. Ela somente se apoiou na poltrona e esperou ele falar.
- Escutei sobre o Eletric, sinto muito,
. – ele fez uma careta – Sei como você amava aquele lugar, mas tenho certeza que...
- Obrigada pela preocupação, mas eu estou dando um jeito. – o cortou.
- Então, - limpou a garganta, sentindo a dificuldade de manter a conversa. Ponto para a mulher! – como estão as coisas?
- Tudo certo. Na realidade, bem melhor porque você não está na minha vida, mas como minha mãe me ensinou a ser educada, vamos fingir que eu não disse isso, ok?
Ele a olhou para um minuto, estranhando aquela nova mulher.
- Ah, trouxe um presente para você! – retomou a conversa, erguendo-se e retirando um embrulho do bolso – Parabéns, baby!
Ele lhe estendeu o presente e se aproximou.
viu-se obrigada a sentir suas mãos tocando novamente suas costas em um abraço.
- Obrigada.
- Nada. É um cordão com um pingente de estrela. Lembra-se de nosso primeiro encontro, em que olhamos as estrelas? Estava tão bonito aquela noite, toda estrelada. Você estava tão linda. – comentou, suspirando em seguida. – Sabe,
, eu tentei esquecer você... – pegou as mãos da mulher, acariciando as mesmas com os polegares – Mas você é inesquecível. Sinto tanta falta de você, nossos beijos, nossas conversas...
- Oh, Mark, não, esse movimento não! – ela retirou suas mãos da dele e se afastou – Quando eu disse que eu nunca mais teria nada com você, que eu não queria te ver nunca mais, eu falei muito sério. Eu nem sei ainda porque abri a porra da porta pra você, porque você não merece. Então não venha com esse papinho de que quer voltar e está arrependido de suas merdas, porque isso é completa besteira!
- Nossa,
, quando você ficou tão fria? – perguntou, ácido – Onde está aquela mulher mansa e amorosa? Meu Deus, não quero essa nova você não, não estou assim tão desesperado.
- Mark – a mulher riu – me poupe, sim? Você adora como eu era porque eu era submissa, porque aceitava todos os absurdos que você fazia... bem, você está procurando um robô, não uma mulher. E definitivamente não eu. Então, não encha meus ouvidos com toda essa porra, porque eu não sou obrigada a lidar, muito menos ser simpática, com babacas.
- Ah, você está me rejeitando, é? Sabe,
, se você continuar assim, você nunca vai arranjar ninguém. Ninguém vai te aturar.
- Ai, meu Deus! Agora o disco travou. – revirou os olhos - Faz o seguinte, dá o fora da minha casa, sim? Porque eu estou melhor só do que mal acompanhada, pode ter certeza.
Um barulho na porta interrompeu a discussão e logo depois uma voz feminina começou a soar, junto com o barulho das chaves:
- Sei que você odeia comemorar, mas você ama chocolate, então trouxe um bolo... –
parou, assim que viu Mark em sua sala – Que porra você está fazendo aqui, traste?
- Saindo, felizmente. –
exclamou, já empurrando o homem pelas costas que, ainda sem reação, nada fez. Por fim, quando já na porta, a mulher jogou o presente e o embrulho no rapaz – Pra você dar pra próxima! Tchau, tchau. – e então, a madeira os separava. Felizmente, muito mais iria os separar daqui pra frente.
- Eu nem quero saber, amiga. – a outra exclamou, apoiando o bolo na bancada da cozinha – Estou possessa porque agora teremos que desinfetar a casa.

***


- Alguém está tentando me impressionar. –
exclamou, ao abrir a porta e se deparar com um
vestido de terno e gravata.
- Dizem que um homem de terno deixar qualquer mulher caída. – falou em resposta, sorrindo.
- E quem você está querendo conquistar? – inquiriu a mulher, fazendo-se de desentendida.
- Minha namorada. Na verdade, reconquistar. – ele suspirou – Sabe, não conte para ela, mas fui um babaca outro dia e ela não merece isso.
- Realmente, ela não merece. –
concordou – Ela é uma pessoa tão sensacional!
-

murmurou somente, rindo em seguida – Sinto muito, baby. – suspirou - Desculpa por tudo. Por contar para o
daquele jeito, por te expor, por ser possessivo. Eu sei que fui um idiota, mas eu falei sem pensar e me arrependi no momento seguinte. Não que isso justifique, mas, enfim... me perdoe, por favor.
- Hm... – ela respirou fundo e, então, sorriu de lado para o rapaz – perdoo. Mas só por que você é absurdamente lindo e sua bunda nesse terno faz meu coração derreter. – puxou-o pela aba da roupa - Você está embalado para presente. E, felizmente, hoje é meu aniversário.

sorriu segundos antes dela encostar sua boca na dele. Foram somente alguns dias longe, mas pareceu tortura. Era bom voltar ao paraíso.
- Então, porque está fantasiado? – a mulher perguntou, minutos depois, quando eles finalmente se afastaram alguns milímetros um do outro.
- Ah, as desculpas vem acompanhadas de um jantar romântico. Com direito a sobremesa e tudo, hein. – brincou.
- Olha, estou quase armando brigas semanais. – respondeu com um sorriso.
Mais feliz, a moça foi se vestir para a noite.
já tinha saído há algumas horas, então o namorado ficou na sala, sozinho. Aparentemente, nada de calças jeans hoje, pensou ao abrir o armário. Então, decidiu por um vestido preto de renda, simples, mas que amava. Passou uma maquiagem básica e sorriu para si mesma.
Quinze minutos depois, o casal estava no carro emprestado de
, indo para o restaurante o qual o misterioso
não deu qualquer dica. Uma música agitada tocava no rádio e ambos estavam distraídos, até que o rapaz lembrou:
- Baby, feliz aniversário! – exclamou, bufando – Eu esqueci desse pequeno detalhe. – ele falou, envergonhado, fazendo a namorada rir – Eu tenho um presente, mas esqueci lá em casa, então depois podemos passar lá. – fez uma pausa, vendo um sorriso atrevido surgir no rosto bonito da
– Não esse tipo de presente, - esclareceu, falando rapidamente - embora que eu possa te oferecer esse presente qualquer hora e dia que você quiser, a uma ligação de distância.
- Olha, desse jeito eu posso até mesmo começar a gostar de fazer aniversário... – comentou a mulher.
- Você não gosta? Muitos presentes, certo?
A mulher riu. Então, respirou fundo e fechou o rosto.
- Você quer escutar uma história um tanto triste e nostálgica?
- Qualquer coisa vindo de você.
- Nós passávamos esse dia juntos. Meu aniversário e o aniversário dele, na verdade. Eu e meu pai. Só nos dois, todos os anos. Nós tínhamos a mesma tradição. – as lembranças invadiram sua mente e ela suspirou, tentando evitar o choro - Panquecas no café, uma cidade escolhida aleatoriamente no mapa e uma roadtrip sob o som de rock dos anos 70. Então, quando ele se foi... – ela deu de ombros - Tudo perdeu sentido.
- Sinto muito por isso, baby. Mas, - ele estendeu a mão cegamente, procurando pela dela. Somente quando entrelaçou seus dedos, continuou – Você não está sozinha. Eu,
,
, até
, estamos sempre com você. E nós podemos construir novas memórias. – sorriu forçadamente para ela, vendo-a sorrir junto.
E
só pôde pensar que, apesar de ter sido maravilhoso que a namorada tenha compartilhado algo tão pessoal com ele, era um tanto tarde demais.

***


- SURPRESA! – um coro de vozes estridentes soou, assim que
abriu a porta de casa dos meninos.
- Carteira esquecida, é? – virou para
, acusando-o da desculpa que tinha usado para que eles passassem na casa dele antes do suposto restaurante – Seu danadinho. – puxou pela gola da camisa e, então, lhe deu um beijo de dar inveja a qualquer um.
Já que todos seus amigos sabiam, chega de beijos escondidos. É, definitivamente há lados positivos nessa história de assumir para o público.
Logo
abordou a amiga com um abraço gigante e um parabéns gritante no ouvido.
- Anos 80, hein? Vocês realmente me conhecem. –
sorriu.

e Emily foram os próximos, abraçando a aniversariante.
, até então com dois chapéus na cabeça, jogou um para
. Ambos estavam de ternos, idênticos, The blue brothers. Já Emily estava com um vestido pálido rodado e o cabelo solto em cachos.
- Não acredito que não pude me fantasiar de Sloane de Curtindo a Vida Adoidado. Festas à fantasia dos anos 80 são a desculpa perfeita pra minha obsessão! – brincou, fazendo os amigos rirem – Em, você está ótima de baby. Mas você está com uma fantasia de casal sem a parte do casal – alfinetou - Porque
não está de Johnny Castle? Um pouco de Swayze cairia tão bem nele...
- Ele não quis. – Emily comentou, revirando os olhos – Eu insisti tanto, mas seu primo é muito teimoso.
- Eu e
já tínhamos nos comprometido com nossa fantasia de casal, oras. Meses atrás.
- Nós decidimos fazer essa festa na semana passada,
. –
falou, virando rapidamente para
para pedir desculpas por isso.
- Sim. E desde a última festa a fantasia do Eletric, – ele fez uma pequena pausa, para falar: RIP Eletric - eu e
estávamos planejando o traje para a primeira oportunidade.
- Uau, olha só. Mais tempo que o namoro de vocês. É, faz sentido. –
concordou, ácida.
- O melhor você não sabe, namorada –
murmurou, mudando de assunto e aproveitando para usar o pronome de tratamento que deslizava tão bem em sua língua. Puxou a namorada pela cintura e a abraçou por trás, simplesmente porque agora podia mostrar ao mundo. Ainda, deu um beijo gelado no pescoço dela, ignorando os amigos olhando para eles, e suspirou seu cheiro. Aproveitou o momento, porque sabia que assim que revelasse a outra surpresa, ela iria escapulir de seus braços – Tem Karaokê.
E, ao piscar, ela já tinha sumido dali. Só pode escutar seus gritos entusiasmados.
É, definitivamente não foi uma perda.

***


Ela prometera que era a última música há, aproximadamente, 45 minutos atrás. Mas dessa vez seria mesmo,
pensou. Afinal, era sua festa e os convidados estavam um pouco irritados. No início, todos adoraram, porque ela realmente sabia cantar, mas depois, bem, ela monopolizou a brincadeira principal da noite.
- Don't you want me baby; Don't you want me, oh... – ela cantava, animada, balançando a cabeça para os lados ao som de The Human League.
Nos últimos acordes da música, ela viu
do lado da televisão, mexendo os quadris de uma maneira estranha e chamando-a com o dedo. Rindo, ela finalmente passou o microfone e caminhou até ele.
Assim que estava em seu lado, o amigo passou o braço pelas costas de
e a puxou para perto, num abraço.
- Parabéns, minha linda. Você merece tudo de melhor nessa vida e eu realmente preciso pedir desculpas a você. Podemos conversar lá em cima?
- Olha, eu gosto dessa sua carinha de arrependimento – puxou sua bochecha, recebendo uma careta de
– Vamos, Tigrão.
Eles subiram a escada e foram até o quarto do rapaz.
- Então, - ele começou, suspirando – eu fui um idiota – fez careta, antes de continuar. - Aquele dia no shopping, eu me senti tão traído, porque só eu não sabia e pelo jeito que descobri e tudo, mas nada justifica o meu jeito babaca. É isso. Peço perdão e espero que você possa continuar sendo minha melhor amiga maravilhosa. Desculpe por tudo, baby.
-
, você pode ser tão bajulador quando quer... –
comentou, num sorriso – Está desculpado, homem. Pode ficar tranquilo.
- Yeah! – fez um soco para o alto em comemoração – É com esse meu jeitinho que eu conquisto o coração de todas as mulheres dos Estados Unidos – piscou.
A mulher riu e lhe deu um empurrão.
- Você é um ser de outro mundo. – comentou ela.
- Obrigado. Ser desse mundo é um tanto, você sabe, comum. –
explicou, fazendo a amiga rir.
- Na verdade, eu também devo pedir desculpas. Não devia ter escondido de qualquer um de vocês. Até porque sou uma péssima mentirosa – brincou – Vocês são meus melhores amigos e sei que me apoiarão mesmo nas besteiras, então. Me desculpe pelo segredo e, também, pela maneira péssima que descobriu.
- Está tudo bem. Fui corno? Fui. Mas quem nunca foi traído que atire a primeira pedra! – zombou. Então, alguns segundos depois, suspirou – E aí? Vocês agora são o casal vinte do nosso grupo. Fim do posto para
e
.
e Emily nem mesmo estão no pódio. – brincou – Quão sério é o lance de vocês?
- O mais sério que pode ser. –
respondeu, com um sorriso. – Eu realmente gosto dele,
, e acho que a recíproca é verdadeira. Então vamos ver no que dá.
- Ok, eu aceito isso. Para além, vou shippar vocês dois, mas com duas condições: A primeira, se ele te magoar, eu posso dar um chute nas bolas dele. A segunda, se vocês casarem um dia, eu quero ser padrinho.
A amiga simplesmente o puxou para o abraço, porque essa era a maneira
de dizer que era uma amigo para todas as horas e que a amava, independente de qualquer coisa.
Ele não somente retribuiu o carinho, como também a tirou da cama, segurou sua cintura e a girou no ar. Isso também era a maneira
.
E, logo, eles estavam rindo descontroladamente.

***


- Ah,
, quando eu acho que você não pode inventar nada melhor, você me vem de Madonna em like a virgin. –
murmurou no ouvido da amiga, em cima da cantoria alta na casa, fazendo
sorrir.
Seu vestido branco de babados na parte de trás arrastava suas rendas até o chão. Assemelhava-se a um vestido de noiva, um desses rebelde, bem parecido com o clipe dos anos 80.
- Bem, eu ainda estou esperando que alguém me faça Touched for the very first time – ela cantarolou, interpretando a canção, o que fez
rir - então talvez o modelo dê sorte – completou.
- Opa, cachorrão, talvez hoje seu o seu dia. – o amigo sussurrou, antes de piscar o olho e sair.

nem teve tempo de ficar confusa. Lá estava
, a sua frente, sorrindo. Bette Davis Eyes tocava e
tentava seguir a batida, não tendo muito êxito. A mulher o olhou desconfiada e bastou que ele diminuísse o espaço entre eles para que ela sentisse o cheiro de álcool. Bêbado, ótimo, pensou.
- Ei,
, tudo bem? – ela perguntou, preocupada, tocando no braço dele.
Ele olhou para a mão dela em seu braço como se fosse uma novidade magnífica. Então, pegou seus dedos e sorriu para ela.
- Vamos dançar.
E eles se permitiram seguir o ritmo, colados um no outro, suas peles esbarrando.
até mesmo fechou os olhos, concentrando-se na respiração do homem a sua frente.
Até que, rápido demais, a música acabou e, com ela, a magia.
- Onde está a Emily? – perguntou, obrigando-se a afastar-se de
.
- Banheiro. – respondeu, simplesmente, olhando profundamente para a mulher.
- Bem, acho que ela deve estar procurando você. –
comentou, ele somente assentiu com a cabeça. – Obrigada pela dança – sorriu pra ele, virando-se de costas e saindo dali.
Ele encarou suas costas por alguns segundos e, ao virar a fim de começar a busca por sua namorada, tropeçou, perdendo o equilíbrio por um instante. Provavelmente não pela bebida.

***


As horas passaram como minutos e, de repente, só restavam os de sempre naquela zona que um dia fora uma casa.
e
estavam no segundo andar, no quarto onde se viram pela primeira vez.
- Você gostou, baby? –
inquiriu, preocupado com a namorada. Depois da lembrança do pai, ele ficou com medo que a mulher não gostasse da festa surpresa. Ele estava a ponto de matar seus amigos se eles, que a conheciam a tanto tempo, deixassem passar esse pequeno detalhe dela não gostar de aniversários. Mas, felizmente, deitada na cama com um sorriso cansado no rosto, ela parecia feliz.
- Adorei, namorado. Obrigada por tudo.
- Agora, eu tenho uma última surpresa. – ele sorriu, malicioso, o que a fez arregalar os olhos em expectativa.
Mexendo no celular, ele colocou para tocar uma música sensual. Então, aproximou-se da mulher e começou a retirar o cinto, olhando-a com uma cara de sedutor.

gritou em resposta, olhando para a apresentação do namorado. Este jogou o cinto no outro lado do quarto. Então, subiu na cama, colocando a namorada entre seus pés. Soltou seu quadril, tentando rebolar, enquanto passava a mão por seu próprio corpo.
Com um só puxão, retirou as calças e logo elas estavam sumidas também. Abaixou-se para mais perto da mulher, roubando-lhe um beijo molhado. Mas, quando esta ia puxá-lo pela cueca, ele negou.
- Não, senhora. O show não acabou. – então levantou e pulou da cama, indo até a porta.
- Ei, não vá embora. – ela reclamou, mas
simplesmente virou de costas.
Nesse momento, Old Time Rock & Roll começou a tocar.
deslizou pelo chão do quarto com suas meias, enquanto
gritava de animação do outro lado.
Assim, que ele girou, com um microfone invisível na mão, Bob Seger começou a cantar e,
, a imitá-lo, com toda a vontade. Enquanto a letra corria, ele andava pelo quarto.
Sua primeira parada foi a escrivaninha, quando apoiou suas mãos na mesma e começou a mexer sua bunda na direção da namorada, que gargalhou com o jeito do rapaz. Então ele girou, continuando a cantar e balançar seu corpo.
Logo, subiu na cama, usando uma régua recém-adquirida como guitarra e tapa-sexy. Dobrou-se, caindo de joelhos perto de onde
estava sentada, como um guitarrista em um solo.
Finalmente, levantou-se e começou a pular na cama, loucamente. E puxou a mulher sorridente para pular junto.
- Risky Business e sua famosa dança, eu amei! – gritou para o namorado, assim que eles se jogaram de volta a cama, exaustos – Você foi espetacular. A parte do strip também, quase melhor que Channing Tatum, hein.
- Feliz aniversário, baby. –
exclamou somente, dando um beijo inocente na bochecha.
- Obrigada por fazê-lo ser o melhor deles em muitos anos. – confidenciou, antes de puxá-lo para outro beijo, dessa vez não tão inocente assim.


XIX. I’m drinking to put my demons to sleep

O celular de tremeu na cabeceira de sua cama. Nas duas primeiras tentativas, o casal ignorou o chamado. Deitados na cama desde à noite anterior, estavam descobrindo um ao outro. Seus pontos de enlouquecer, de cócegas ou de amor.
Mas, na terceira vez, o rapaz não pode deixar de desviar o olhar para o telefone, curioso para saber quem insistia na ligação. E, bem, assim que viu quem era, paralisou.
— Não, baby, não atenda. — Emily ainda tentou persuadi-lo, em sua voz manhosa, puxando-o a partir de seu entrelaço de pernas na cintura do namorado.
Talvez, se fosse qualquer outra pessoa, ele deixaria pra lá. Mas, bem, ela nunca seria qualquer um.
— Oi. – ele exclamou somente, assim que estendeu a mão e colocou o telefone no ouvido. Ainda pode sentir Emily bufando de seu lado.
— Interrompi algo, ? – a voz de soou do outro lado – Porque eu realmente não vou pedir desculpas para isso. – murmurou, ácida.
teve que se segurar para não chamar sua atenção através de seu nome. Algo lhe dizia que Emily não ficaria mais feliz se descobrisse que era sua ex.
— Do que você precisa?
— Seu corpo nu. – soltou, rindo em seguida. – Tudo bem, desculpe, estou um tanto hoje. Sei que não comecei com o pé direito, mas queria lhe pedir um favor. O voo do meus irmãos pousa em uma hora e o uber está uma grana até o metrô.
— Nossa, eu nem sabia que eles estavam te visitando.
— Bem, nós não estamos sendo exatamente melhores amigos esses dias. Você sabe, você arranjou uma namorada e tudo mais. – ela comentou – Mas, ei, acho que me fazer um favor é um recomeço, certo?
— Tudo bem. – suspirou. – Passo aí em 15 minutos.
Ele realmente não precisou pensar por nem mesmo um minuto. Em sua defesa, o aeroporto ficava a aproximadamente 40 minutos da cidade e, bem, ele realmente amava aqueles adolescentes, por mais louco que essa declaração possa parecer.
Assim que ele desligou a ligação, encarou a raiva estampada no rosto da namorada. Verdade sempre, certo?
— Hm... era a . Seus irmãos mais novos estão chegando hoje, como sou o único motorista do grupo, ela me pediu para buscá-los.
Pela cara que Em fez, bem, verdade quase sempre.
— Pediu, é?
— Sim, er, bem, da última vez eu tinha prometido a eles que os buscaria. Eu... – limpou a garganta, a fim de ganhar tempo — ahn, bem, eles gostam muito de mim. São fissurados por videogames e sempre saímos juntos e tal.
— Imagino.
— Bom... – ele parou, sem saber o que falar. Parecia que cada palavra que saia de sua boca piorava sua situação — eu vou lá. Pra não os deixar esperando muito tempo.
— Claro. Não deixe ou seus irmãos esperando.
ignorou tentou se aproximar, a fim de dar um beijo em Emily, mas foi recebido por um virar de rosto. Alguém está bem ferrado. Suspirando, ele pulou da cama, vestiu sua calça e pegou sua carteira, antes de ouvir a voz feminina novamente:
— Quer saber? Eu também vou. Estou ansiosa por conhecê-los. – ela pulou da cama, procurando seu vestido.
A blusa do rapaz parou em seu pescoço. Não havia qualquer problema em Em ir, claro, afinal, havia espaço e ela era sua namorada. Mas, ao engolir em seco, ele percebeu que a sugestão imposição dela o havia deixado desconfortável. Era estranho, mas ela não se encaixa ali.
— Ah, baby, não precisa. – ele murmurou, enrolando-se para achar uma desculpa boa o suficiente. Mal sucedido na questão, ele continuou de qualquer jeito. – Você tem prova depois de amanhã e está toda preocupada. Aproveite para estudar. – sorriu forçado ao fim.
— Eu sei que não precisa, mas eu quero ir. – respondeu somente.
— Claro, mas, olha, não sei a quantidade de malas que eles trouxeram. Imagine, o carro já é pequeno, não podemos correr o risco.
Bufando, a mulher finalmente o deixou ir. Então, segurando o suspiro de alívio, ele correu porta à fora.
*
— Ei, . Obrigada pela carona.
Uma hora depois, com o avião já pousado, e esperavam os gêmeos no terminal 2.
— Nada, . – ele olhou para a mulher, não podendo deixar de abrir um sorriso — Eu adoro seus irmãos, você sabe disso. – suspirou, antes de continuar — Além disso, mesmo que você esteja duvidando atualmente, apesar de tudo, somos amigos. E amigos são para isso.
Seus dizeres bonitos eram também para si próprio. Ele sempre tivera carinho pela mulher e, tinha certeza, teria sempre. Mas seu lado emocional, seu corpo, tinha que entender que eles poderiam ser só amigos. Que era o melhor para os dois, afinal.
— Obrigada, . – ela tocou seu braço carinhosamente – Apesar do que falei, apesar de tudo que eu te causei, como terminamos, eu sei que eu posso contar com você. Eu te conheço e você é...
! – um grito tomou conta do espaço, interrompendo a conversa dos dois e chamando atenção não só deles, mas de todos no local.
Lá estavam, seus dois caçulas, já crescidos em seus 13 anos. Layden tinha alguns pelo em seu rosto, além de novos músculos em seus braços. Já Lindsey tinha um batom forte na boca e peitos que começavam a se aproximar do tamanho dos da sua irmã mais velha.
Alguns meses e tão diferentes. Vê-los assim deixa nostálgica, com saudades do tempo que eles eram pequenos bebês levados.
— Sabe, eu me sinto velha quando vejo que já são pequenos adultos. – ela comentou com o amigo, enquanto a distância entre os recém-chegados diminuía.
— Somos dois.
Layden foi o primeiro a abraçar , tocando-lhe as costas em um cumprimento masculino. Mas logo a outra chegou e abraçou-o pela cintura, fazendo daquele um abraço triplo esquisito. E, bem, deixando , com um riso sarcástico, de lado.
— Ah, bom saber que vocês tem tanto carinho pela irmã de vocês!
— Eu vejo você todo dia pelo skype – a menina exclama, enquanto o irmão completa, logo depois:
— Você não é boa no videogame, mana.
Ainda sim, eles se rendem a dar um abraço e um beijo em . Logo depois, os mais velhos pegaram duas das malas e seguiram para o estacionamento, que fez questão de pagar.
— Sua casa, ? – inquiriu, assim que saiu da rotatória do aeroporto.
— Isso. Eu planejei um monte de coisa para fazermos juntos hoje, meninos. Tem um museu super legal...
— Museu, bler. – Layden reagiu – Hoje é dia do , . Ele me prometeu jogar Playstation o dia inteiro.
— Ah, é? – a mulher olha para o amigo, que somente dá ombros, rendido.
— Você sabe que não resisto a esses pirralhos.
— Ei! – ambos soltaram em uníssono.
— E você Lindsey, também vai me abandonar? – virou a cabeça, mirando a garota.
— Hm... onde está o ?
— Lá em casa. – a menina não pode deixar de sorrir com a ideia. Afinal, era exatamente pra lá que os meninos iriam mais tarde.
— Bem, eu acho que devemos ver seus amigos hoje, irmã.

*

Ao som da campainha, abriu a porta, sem ao menos perguntar quem estava do outro lado. Por sorte (ou falta dela), eram somente dois adolescentes e uma jovem adulta, em um vestido curto preto e saltos altos. Ele os deixou entrar em sua casa.
— Finalmente vocês vieram me visitar! – o rapaz comentou, cumprimentando Layden com um toque de mãos e puxando Lindsey para um abraço apertado – Você está mais linda do que eu me lembrava, Lin.
A garota, no alto de sua paixão adolescente, ficou sem palavras ao encarar o amigo de sua irmã, restando suas bochechas avermelhadas de vergonha.
— Oi, , tudo bem? Eu ainda existo. – exclamou, chamando atenção. Ninguém estava lhe dignando um olhar, logo para quem era o foco a maioria das vezes. Era um tanto desconcertante.
— Oi, . – a abraçou pela cintura e depositou um beijo em seu pescoço – No dia que eu não reparar em você, mulher, você pode me internar, porque eu com certeza estarei doente. – piscou o olho e sorriu, safado – Mas desde quando você se veste tanto assim pra mim? – e então falou baixinho, no ouvido da moça – Você sabe que eu prefiro você sem roupa.
Por isso, levou um tapa da amiga, mas saiu rindo.
— Você é um cafajeste, , mas obrigada por isso, meu ego estava precisando. – ela sorriu – Primeiro dia que vejo meu irmão em meses e eles preferem a companhia de meus amigos a mim. Então, resolvi sair para um barzinho e depois night.
— Vai com o ser que fala em terceira pessoa?
— Você está namorando, ? – sua irmã se intrometeu na conversa, curiosa.
— Não, Lindsey. Desde quando eu faço isso? – falou, com um tom de voz de asco que fez rir. – E, senhor , seja legal. O nome dele é Chris.
— Não, , é Chris Keller. – retrucou o rapaz – Respeito, por favor.
— De qualquer jeito, não vou com ele. Vou sozinha. Sou uma mulher independente, estamos no século XXI. – ela deu de ombros.
— Entendo. Mas, sabe – ele olhou para a amiga de cima a baixo, não se importando em disfarçar – Eu não me importaria de ir com você. Definitivamente.
— Ok, se você... – foi interrompida por sua ansiosa irmã:
— Não, , você não pode ir! – ela reclamou, sua voz aumentando – Eu vim... eu e o Layden, claro, viemos ver você... – ela gaguejou, tentando justificar sua histeria — e o e viemos passar tempo com vocês e, bom...
— Eu não me importo de jogar só com o . – Layden informou, dando de ombros, o que fez sua gêmea urrar:
— Layden!
— Tudo bem, entendi o recado, maninha. – piscou para a mais nova – Eu vou sozinha. Fique tranquilo, , que eu vou aproveitar bastante. Fique. Você tem um fã clube.

*

Uma hora depois, uma Lindsey frustrada apoiou-se na bancada da varanda, sentindo a brisa noturna arrepiar seus pelos. Feliz, logo depois que saiu, ela puxou conversa com . Tentou ser simpática, riu de todas as piadas, embora somente pensar em olhá-lo fixo já lhe deixava toda vermelha.
No entanto, ele não parecia tão interessado nela. De tempos em tempos, mexia no celular, como se esperasse algo. Até que o telefone começou a tocar e ele pediu desculpas ao sair. Ao voltar, estava com um sorriso no rosto e anunciara que ia tomar um banho e, depois, pedir uma pizza.
Lindsey queria ser ousada como sua irmã e dizer que poderia lhe fazer companhia. Mas, fala sério. O que lhe faltava de peitos tinha de espinha na cara. Porque era tão idiota a ponto de acreditar que tinha alguma chance do querê-la, afinal?
, por sua vez, acabara de entrar na casa dos meninos, acompanhada de seu namorado, depois de uma tarde romântica no parque. Ela escutou antes mesmo de ver, e Layden jogando videogame. Os gritos estavam alto e, bem, muito mais palavrões do que o apropriado para um garoto daquela idade.
— Ei, , olha a boca! – bronqueou — Layden ainda é uma criança.
— Não sou criança, sou adolescente! – reclamou o outro.
— Ok, adolescente, venha falar comigo. – entrou na frente do jogo, escutando reações mal educadas. Mas, bem, ela estava acostumada a , e disputando no Playstation por horas. Ela ficaria bem. – Ande, menino.
Então o garoto, com a cara emburrada, levantou-se e deu um pequeno abraço na mulher. Ela, no entanto, não deixou que ele se desvencilha-se, apertando-o bastante.
— Me solta, tia. Eu estava ganhando do .
— Palavras mágicas. – retrucou somente, escutando o bufo em resposta.
— Por favor.
— Pronto – ele correu de volta para o sofá, antes que a louca mudasse de idade – Onde está sua irmã?
Apesar da resposta muito esclarecedora de Layden, que podemos resumir em “sei lá”, a encontrou poucos minutos depois, pensativa, na varanda. Depois dos cumprimentos – e abraços apertados demais, eu diria –, o silêncio se estendeu.
A mulher se jogou em uma cadeira e observou a noite cheia de estrelas. O céu escuro, os prédios em suas torres, as luzes brilhantes das casas distantes. Era triste como, no dia-a-dia, perdíamos grandes detalhes como aquele.
, posso te fazer uma pergunta? – começou Lindsey, envergonhada.
— Claro!
— Eu estou... gostando de... um garoto.
— Nossa, Lindsey, que legal! Seu primeiro amor. Qual o nome dele? Ele é da sua escola?
— Hm... quer saber? Deixa pra lá, eu posso resolver-me. – deu de ombros.
— Ah, não, tudo bem você não querer falar nada. Eu posso só nomeá-la de senhor misterioso e continuamos daí. – exclamou e a menina a encarou, insegura. – Mesmo. – confirmou.
— Ok. – respirou profundamente. – Esse garoto que eu gosto, bem, ele é bem bonito e simpático, mas, não sei, acho que ele não tem interesse em mim. Ele tem tantas garotas lindas sobre ele e não me dá muita atenção. Eu queria saber o que fazer para ele gostar de mim.
— Só seja você mesma, Lindsey. Por mais clichê que possa parecer. Você é maravilhosa e se ele não perceber isso, ele é um otário que não te merece. Eu sei que pode parecer loucura tudo que estou falando em sua idade, mas é a mais pura realidade.
— Você tem razão. Parece uma loucura. – soltou – Não quero que você me fale essas coisas, quero que você me ajude a conquistá-lo. Me dê, não sei, truques. Já tentei de tudo: eu rio de suas piadas, me produzo pra ele, mas... – ela bufa – Não sei. Eu queria poder ir às baladas que ele vai, dividir uma cerveja com ele...
— Uou, espere. – a interrompeu, assustada com as palavras da menina – Quantos anos tem esse cara?
— Eu não sei ao certo. 22, talvez? Mais ou menos a idade da minha irmã.
— Então, você não acha que seria mais lógico ele ficar com sua irmã e não você? – comentou – Você tem 13 anos, Lindsey! Você tem que se relacionar com meninos da sua idade. Que não bebem, que estão na escola, que estão crescendo como você.
— Não, você também não – a garota gritou de volta – Por que tem que ficar com todos eles? Matt e e... Argh! – bufou – Ele já me vê como a droga de uma irmã mais nova e isto é tão frustrante. Quero mostrar pra ele que sou uma mulher!
— Lindsey, surpresa, você não é uma mulher! – também aumentou seu tom de voz – Você é uma pré-adolescente e eu realmente entendo a sua ânsia, mas você precisa entender que...
— Ei, . – chamou, do lado de dentro. Deu dois passos para a varanda antes de continuar – Deixe que eu converse com ela, sim?
parou por um minuto e, finalmente, pareceu entender o que acontecia por ali. Felizmente, a paixão platônica de Lindsey não era um louco velho que poderia se aproveitar de suas ilusões infantis. Suspirando, deixou o local sem falar mais nada. Com , ela estaria segura.
Mas Lindsey não pensava exatamente desta maneira. Paralisada em seu lugar desde que escutara a voz de , uma primeira lágrima correu por seu rosto. Humilhação total, ela pensava.
— Lin, senta aqui comigo? – apontou para a cadeira, sentando-se ao lado.
— Eu quero ficar sozinha. – resmungou – Por favor.
— Eu a deixarei logo, logo. Só preciso dizer algumas palavras. Você nem precisa abrir a boca se quiser. – ela somente assentiu, ainda do outro lado da varanda. respirou fundo, antes de continuar – Primeiro de tudo, não fique envergonhada. Nunca se envergonhe de sentimentos bons, como amizade e amor. Se os outros não valorizam isso, é um problema deles.
“Mas, apesar disso, você precisa entender que nada vai acontecer entre nós. Por mais que machuque, você precisa entender que não há a menor possibilidade de nos envolvermos. Não é porque você é feia ou chata, porque você não é nada disso. Você é maravilhosa, divertida, linda e, quando eu a trato como uma minha irmã mais nova, é porque eu adoro você. Mas você tem 13 anos, Lindsey. Você acabou de virar uma adolescente. Ainda tem tanto a viver. Ainda vai beijar muitos garotos, quebrar o coração de alguns deles, espero. Vai aprender tanto.
Já eu, eu sou um burro velho. Eu me formo, se o professor tiver compaixão de mim – brincou -, agora, da faculdade. Eu trabalho. Eu tenho outra vida, eu quero outras coisas.
— É por causa da minha irmã, não é? – seu rosto, agora, estava completamente molhado — Ela é muito mais bonita que eu, eu sei. E simplesmente luta pelo que quer, não tem vergonha. Queria ser mais como ela. – confidenciou – Sou tão sem graça.
— Não, claro que não! é de um jeito, você é de outro. E tudo certo. Vocês são pessoas diferentes, afinal. E vou te encontrar um segredo: seus pais guardaram toda a beleza da família pra você.
— E para Layden?
— Não, você roubou toda a parte dele no útero.
Ela finalmente riu, por entre as lágrimas. E se aproximou, sentando-se do lado do rapaz. passou seu braço pelas costas dela e lhe deu um beijo no rosto.
— Sabe, eu entendo o que você está sentindo. – confidenciou, depois de alguns instantes de silêncio – Quando eu tinha 15 anos, eu me apaixonei por minha professora de francês. Ela devia ter quase 30 e usava roupas justas. Todos os garotos a adoravam, mas eu... eu realmente sentia meu coração bater forte, minhas mãos tremerem, toda vez que ela olhava para mim. – ele parou — Bem, podia ser porque eu não prestava atenção na aula e nunca sabia responder sua pergunta, mas, ainda sim...
A garota riu e aproveitou para secar seu rosto. Felizmente, tudo terminara bem. E, pela primeira vez, pensou, ele dera um fora e a pessoa saíra feliz (iludido, sim).

*


Há algo libertador em fazer as coisas sozinhas. Você sabe, aquelas típicas ações sociais: ir ao cinema, beber a noite, sair para a balada. , que hoje dançava sozinha numa boate qualquer, nem sempre foi tão corajosa. Mas, com o passar dos anos foi entendendo que podia se fazer feliz. Simplesmente. Que não dependia de qualquer outro para se divertir.
Mas, claro, a mulher não precisava entrar nesta conversa filosófica com o rapaz bonito em sua frente. Então, depois de nomes trocados e mais algumas futilidades da vida, eles se concentraram no que realmente almejavam.
Afinal, pensava, posso me divertir sozinha, mas de vez em quando gosto de proporcionar aos outros um tanto de felicidade.
Bem altruísta, não?
Ela o jogou na parede, aprofundando o beijo. Definitivamente não pensava em sair do mesmo jeito que entrou: só. Tim tampouco. Suas mãos foram explorando a pele da mulher, acariciando seu corpo.
— Baby, vou buscar uma cerveja. — ele exclamou, rouco, segundos depois dela quebrar o contato das bocas — Você quer uma?
Ela se limitou a assentir, sorrindo. Tim a puxou para um rápido beijo, então, e prometeu que voltava logo. mal ouviu, já voltando a aproveitar o dance que tocava alto na balada.
Agitava os braços e balançava a cabeça, no ritmo. Infelizmente, vislumbrou um cabeleira conhecida. Franziu o rosto, tentando processar quem era, enquanto a mesma entrou no banheiro. A fim de saciar a curiosidade e, de bônus, matar sua vontade, seguiu-a.
Escutou o vômito antes mesmo de vê-la. O banheiro, por milagre, estava deserto, com exceção da moça loira debruçada sobre o vaso, jogando seu estômago fora. correu até ela, segurando seus cabelos soltos a fim de minimizar os estragos.
— Você está bem? — a mulher perguntou, afagando as costas da outra, assim que pareceu ter retirado todo o conteúdo de seu corpo.
A loira olhou para trás, reconhecendo a voz. E pode finalmente constatar porque a moça lhe era familiar. Mais pálida do que o normal, com a boca manchada, ajoelhada no chão sujo do banheiro da balada, estava Em, namorada de .
— Emily? Como você está? — repetiu a pergunta— está por aqui?
— Não. — murmurou, levemente. — Estou bem.
Mas sua voz tremia e ela parecia frágil como papel, então , sem nem mais uma palavra, a ajudou a levantar e a levou até a pia. Enquanto Emily gargarejava, a outra molhou o pescoço e sua teste, suados. Logo, ofereceu papel.
— Você está com alguém que eu possa chamar?
— Minhas amigas… — ela pausou, limpando a boca — encontram alguns caras por aí.
— Nós podemos ligar para elas.
— Não, deixe pra lá. Elas me largaram. — deu de ombros.
manteve-se por alguns segundos calada, porque, sinceramente, não sabia como agir. Emily e ela não era exatamente melhores amigas, mas a garota estava sozinha numa situação bem ruim.
— Você quer que eu ligue para o ? — fez sua última tentativa.
— Não, por favor, não. — Em se embolou nas palavras, falando rápido. — Eu vou… Embora, . Só preciso de alguns minutos, mas você… Pode ir.
suspirou, olhando a mulher bêbada. Ir era o que mais queria fazer. Mas, lá estava ela, cuidando da sua inimiga, perdendo não só um boy gato, como uma cerveja gelada. Sem nem mesmo ter a garantia de que, ao final, saberia o porquê de toda aquela bebedeira.
— Eu vou ficar com você e vou levar você pra casa quando estiver boa pra isso. — comunicou a outra — me mata se eu deixar a namorada dele nesse estado sozinha— brincou. Obviamente, nunca deixaria nenhuma mulher naquela situação sozinha, independente de conhecer o namorado da mesma.
— Ele nunca seria capaz de matá-la, . Ele nem mesmo é capaz de esquecê-la.
Emily falou aquilo tão naturalmente, de um jeito que só a bebida era capaz de fazer, que mesmo se sentiu envergonhada e desviou o olhar, decidindo por ignorar as palavras dela.
— Você está melhor? Ainda está enjoada? — o menear de sua cabeça fez a mulher continuar — Vou chamar um taxi e te deixar em casa, ok?
não esperou o consentimento da mulher e ligou para a companhia. Aparentemente, havia tido algum acidente na estrada e o taxi mais próximo estava à 30 minutos de distância. Depois de um pouco reclamar, desligou o telefone, derrotada. Então, apoiou-se na pia e sentou em cima dela, afinal, não havia maneira de aguentar aqueles saltos mais um minuto sequer.
— Nunca imaginei que encontraria você nesse estado. Sabe, eu já passei por algumas situações assim, ja cometi algumas gafes quando bêbada, e, na verdade, é absolutamente normal pra quem bebe. Mas, não sei, você sempre foi mais tímida e certinha, então.
Encarou Emily. A cor ja estava no seu rosto. Ela já havia bebido um pouco de água e o rosto já estava limpo. Praticamente pronta para outra, eu diria.
— Você me dirá por que bebeu tanto assim?
— Não há um motivo. Eu estava a fim de beber, perdi um pouco a linha. Fim.
— Eu poderia acreditar nisso, mas, na boa, Emily? — ela bufou, antes de continuar, raivosa— Eu cuidei de você. Eu perdi metade da minha noite segurando seus cabelos e limpando seu rosto. Nem mesmo suas amigas estão preocupadas o suficiente. Então, eu acho que mereço um pouco de consideração da sua parte.
— Não há porra nenhuma, ok? Você sempre consegue se fazer de vítima, mesmo. Eu sou a doente da história, mas, de alguma maneira, é você que é a coitadinha! — atirou.
riu seco.
— Não quer falar, não fale, Em. Não tem problema. Eu ainda vou te deixar em segurança em casa e dar um jeito dos 10% da minha bateria durar o suficiente pra eu pedir um táxi pra mim. — suspirou — Falar ou não falar, não faz diferença. Mas eu queria entender, porque vejo ressentimento eu seus olhos. Porque não entendo como você continua distante e arisca mesmo nesse momento. Eu… — fechou os olhos e soltou o ar, sem saber como continuar.
— Hoje eu estava com o meu namorado — ela começou, enfatizando o pronome possessivo. Apesar da bebida ainda estar em seu sangue, as palavras fluiam bem — na cama. — ela engoliu em seco — E, então, você liga. E para tudo para socorrer você.
— Eu… Não sabia.
— Como eu disse, você é a vítima toda da história— ela retrucou, irônica— Você sabe como ele age, você sabe que basta que você diga a e ele corre como um cachorrinho. Você sabe que ele ainda gosta de você. E você, você o manipula. Você o usa sempre que possível.
— Eu não faço isso! E você não pode simplesmente chegar e falar isso. Você não sabe nada sobre mim.
— Não preciso saber nada mais sobre você. E definitivamente não quero. Entendo que vocês ficaram muito tempo juntos, que você sempre o usou durante todo esse tempo. Mas acabou! Compreende? Acabou! Ele tem alguém agora e você precisa se afastar.
Doeu. Doeu mais do que achou ser possível. Ela viu Emily chorar, enquanto continuou paralisada pelas palavras. Seu estrago era por dentro, dilacerando tudo por lá. poderia brincar com o fato, não gostar de Em ou do fato de namorar, querer o que eles tinham de volta. Mas ela nunca… Nunca o manipulara. Nada no relacionamento foi para obter vantagens unilaterais. Ela achava que eles eram amigos e que amigos ajudavam uns aos outros. Só.
Ela precisava saber se sentia-se assim. Se sentia-se preso a ela, ao sentimento, se ela o fazia sofrer. Mas, como falar com ele sobre isso? Sem expor toda essa cena? Sem ferir ainda mais Emily?
— Tudo bem, vou me afastar dele. — talvez a namorada estivesse certa, afinal— Eu nem sei mesmo como fazer isso, mas… Eu quero que ele seja feliz, Em. E você parece fazê-lo feliz. E é somente o que eu quero.
O silêncio se instalou no ambiente. Foi somente minutos depois que o toque do celular invadiu o espaço. Aparentemente, nem mesmo as mulheres queriam usar o banheiro, pressentindo o clima tenso.
O táxi chegou e elas pagaram a conta do bar e entraram no veículo. Foi somente a distância de um quarteirão de sua casa, que Emily voltou a falar, mais tranquila.
— Desculpe, . Desculpe por jogar tudo aquilo em você. Não é verdade. Eu sei que vocês são amigos e sei que você não o manipula. — respirou fundo — Eu falei isso tudo porque eu me sinto tão… Intimidada. Eu gosto tanto de e ele também gosta de mim, eu sei. Mas, às vezes acho que não é suficiente. Que ele não te esqueceu.
— Isso é bobagem, Emily. Ele claramente só tem olhos pra você. — lançou a frase automática. Sinceramente, tinha algumas dúvidas.
— Não é. Você não sabe, mas reparo como ele olha pra você. Ou o jeito que ele fica quando citam você. se ilumina. Seus olhos brilham, seu corpo reage...— suspirou.
— Chegamos. — o motorista avisou, cortando o momento. Emily olhou para fora, conferindo o endereço.
— De qualquer jeito, , você não tem culpa de nada disso. Então, espero que você possa me perdoar. — ela abriu a porta e saiu do carro — Boa noite.



Continua...




Nota da autora: Alguém por aqui, ainda?
Pedimos desculpas pela demora, mas temos um total de zero capítulos escritos e estamos tendo que conciliar nosso tempo (que tempo, eu te pergunto) pra escrever... Vida adulta, cês sabem como é.
Anyway, o que vocês acharam desse cap? Primeiro, sobre a visita dos irmãos da pp pegadora e toda a intriga da paixonite da adolescente. Depois, o encontro das que disputam o coração do . Ou será que já tem dona?
Por favor, comentem! Próximo capítulo encerra uma espécie de temporada, então teremos muitas risadas e felicidades, com o amigo maravilhoso FINALMENTE se formando.
Beijos,
Bruh Fernandes e Nanda S.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.




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