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Última atualização: 03/10/2020

Capítulo 1



A cidade nunca teve o aspecto de tão abandonada, como estava hoje, ruas vazias e escuras, postes de luz com uma péssima iluminação, o cenário piorava com tamanha neblina presente, era quase impossível distinguir qualquer coisa a cinco palmos de vista, nunca tinha visto nada igual e mesmo que um resquício mínimo de sua sanidade gritasse em sua cabeça que era melhor ficar em casa, lá estava ela, perambulando pelas ruas de Moscou, sempre se sentiu melhor vivendo sozinha, se deliciando de sua própria companhia.
Uma hora ou outra algum adolescente bêbado passava tropeçando ao seu lado, as pessoas pareciam nem notar uma garota com a aparência gélida andando por aí.
O silêncio nas ruas foi abruptamente incomodado por um grito de pavor ensurdecedor, ao longe poderia se escutar um choro baixo com um pedido de socorro, antes que a jovem desse conta, seus pés a levaram direto para um beco, ela conseguiu enxergar algo pequeno e machucado no fundo, seu coração se alarmou por um momento enquanto seus dedos agarravam o cabo de sua faca.

- Por favor, não me machuque... - o soluço escapou dos lábios da menina.
- O que aconteceu? - a voz doce e melodiosa de não combinava em nada com suas roupas e feições. - Posso te ajudar, conte-me, o que aconteceu?
- Ele... Eu não sei... Ele tentou me agarrar a força... tá doendo tanto - a menina dizia ofegante enquanto engasgava.

Com a ajuda da lanterna de seu celular, a menina se ajoelhou na frente daquela desconhecida e seu estômago se remexeu minimamente, ela tinha um corte fundo na lateral da barriga, no braço e um buraco em sua clavícula. Sem pensar duas vezes, ligou para a emergência relatando o ocorrido.

- Como se chama? Eu me chamo .
- K... Kimber...
- Kimberley, sim? Uh. Eu chamei a ambulância e vou ficar aqui com você até que ela chegue, certo? - a menina assentiu enviando a um sorriso pálido e cansado, suas pálpebras já estavam quase fechando quando a puxou para seu colo usando sua jaqueta para estancar o sangue. - Você precisa me ajudar, certo? Mantenha só seus olhos abertos que a ajuda já está a caminho. Tem alguém que você quer que eu avise?
- Ir-irmão...

As sirenes da ambulância já poderiam ser escutada de longe, alinhou o corpo mole e sangrento de Kimberley ainda mais e conseguiu pegar seu celular, pouco tempo depois os passos apressados dos enfermeiros invadiram o local, era tudo uma confusão de luzes e vozes, o corpo da garota foi colocado em uma maca, soros, remédios e procedimentos eram feitos, sentiu alguém se aproximando ao seu lado e voltou sua atenção a realidade.

- Boa noite, o que você é da menina?
- É... Eu sou amiga...
- Nós iremos levá-la ao hospital, você nos acompanha?

balançou a cabeça positivamente e subiu na ambulância, observou o celular em sua mão e cogitou a ideia se deveria realmente estar fazendo tudo isso, nunca tinha visto aquela menina, não a conhecia, seria realmente necessário todo esse esforço?
Um singelo movimento da menina fez com que o coração duro de se amolecesse, os dedos gélidos e pálidos de Kimberley se agitaram em sua perna, fazendo com que sua cabeça se movesse em resposta, a menina estava em um estado catastrófico e mesmo assim foi capaz de sussurrar um "obrigada" antes que suas pálpebras em fim se fechassem.
O telefone ainda tamborilava em suas mãos, mas, ela já tinha tomado sua decisão.

- Alô? Sim... Olha, aconteceu um problema com sua irmã e eu estou levando ela ao hospital... Tudo bem...

tinha sido deixada em uma sala reservada a familiares e amigos, desde pequena nunca gostou de frequentar hospitais, o cheiro, o clima, nunca fazia bem. Mas lá estava ela, depois de anos na sala de espera, tentando ter notícias de uma desconhecida, era até cômico.
A porta rangeu e um homem entrou desesperado, seus olhos castanho claro estavam arregalados e vermelhos, ele aparentava ter mais ou menos 1,82 de altura, mas na atual conjunção era semelhante a uma criança com medo. Sua feição ainda sim era seria e reservada, a voz forte e decidida do rapaz, fazia com que os nervos da recepcionista se exaltasse.

- Senhor, queira por gentileza falar um pouco baixo...
- Eu não vou falar baixo enquanto eu não souber algo sobre minha irmã... Kimberley , onde ela está? Quem foi que a trouxe aqui?

A recepcionista enviou a um olhar desesperador e o homem se virou abruptamente para ela se aproximando como um predador, antes que qualquer palavra fosse dita, o médico invadiu a sala chamando toda atenção para si.

- Senhora ? Eu sou o Doutor Eduardo.
- Como ela está?

O rapaz pigarreou irritado atrás do médico.

- Eu sou da família, quero saber o que está acontecendo.
- Eu queria justamente falar com a família, senhor...
- ... . O que está acontecendo?

ouvia e via tudo como se fosse o narrador, nada daquilo fazia sentido, ela só estava atrás de um bar e diversão essa noite e se encontrava agora em uma pequena confusão. Se realmente existia alguém lá em cima, esse alguém não ia muito com a sua cara.

- Não podemos afirmar o que aconteceu, ela sofreu algumas pancadas na cabeça, tem hematomas pelo corpo inteiro, mas isso não é o que nos preocupa... - agora o médico também tinha a sua atenção, de longe conseguia ver que algo não estava certo. - Sua irmã perdeu muito sangue... - os olhos de se desviaram para sua jaqueta e ela por um momento prendeu a respiração imaginando como deveria estar sua aparência. - O tipo sanguíneo dela é difícil nessa região, precisamos que alguém familiar seja o doador.

A fisionomia do rapaz pareceu afundar, seus olhos ficaram mais escuros enquanto ele passava as mãos de forma desesperada pelo cabelo.

- Não há possibilidade disso acontecer... Meu sangue não é compatível com o dela... E somos só nós dois.
- Sinto muito, senhor , estamos fazendo o possível para ajudá-la, mas sem um doador, as chances são mínimas.
- O Banco de sangue do hospital não está disponível? - perguntou pela primeira vez recebendo um olhar minucioso de . - Não existe nada que você possa fazer?
- O fator sanguíneo dela é AB positivo, nosso banco está escasso e isso só seria possível se a mandasse para outra cidade... - a cabeça de se agitou um pouco enquanto as palavras do médico iam a seu encontro. – Como ela perdeu muito sangue, não aguentaria uma viagem, precisa de um doador compatível.

estava zonza, isso parecida uma piada de mau gosto do universo com a sua vida, a confusão de vozes do médico com o irmão de sua nova amiga era dolorosa e ela sabia bem o motivo.

-... Eu vou entrar em contato com o meu pessoal, quanto tempo ela aguenta?
- Não será necessário... - o médico arqueou a sobrancelha por um momento. – Eu posso ser a doadora dela, meu tipo sanguíneo é compatível e minha saúde está ótima.

retirou sua jaqueta e subiu a manga de sua camisa exibindo suas veias, a cobra em seu braço parecia viva em contraste com sua pele pálida.
Por um momento o rosto de se iluminou, sua respiração se suavizou, ele se aproximou de e apertou seu ombro em forma de agradecimento. O médico a levou a um leito de hospital, retirou uma amostra para que o exame de compatibilidade fosse feito, o médico optou em colocar as duas meninas no mesmo quarto, enquanto Kim parecia em sono profundo, ela estava totalmente acordada e observava de forma silenciosa.

- Como você está se sentindo? – balançou a cabeça em forma positiva e o médico continuo checando os aparelhos. – É necessário um prazo de aproximadamente 3 horas, para realização dos testes pré transfusionais. A transfusão demora, em média, de 2 a 3 horas, eu ou uma enfermeira vamos continuar vindo aqui para observar se a paciente vai ter alguma negligência.

assentiu e observou seu sangue se misturando com o de Kim.

- Posso ter alguma reação?
- Sim, riscos pequenos e uma série de cuidados estão sendo tomados para que isso não aconteça. Entretanto, às vezes isto é imprevisível. Os sintomas mais comuns são, febre, calafrio, tremores e urticária pelo corpo – os olhos de se dirigiram momentaneamente até seu braço e retornaram ao médico. – Mas são leves e controláveis, não se preocupe.
- Se eu sentir algo fora desse parâmetro eu aviso imediatamente a vocês.
- Já fez alguma transfusão de sangue antes, senhora ? – ela balançou a cabeça de forma negativa.

Doutor Eduardo sorriu e deixou a sala, alguns calafrios passaram pelo corpo de e uma sonolência fora do comum à atingiu de forma forte, a cabeça da menina tombou para o lado oposto de Kim e ela sucumbiu ao sono.
Algumas horas depois sentiu dedos frios pela sua pele e mesmo sem força tentou em vão se mexer, a enfermeira passou as mãos gentilmente por sua cabeça e sorriu quando ela tentou se levantar.

- A transfusão foi um sucesso, vocês duas estão bem, mas é super recomendado que você passe o resto da noite aqui – a cabeça de estava latejando e um novo acesso estava sendo colocado em seu braço. – Aqui tem soro para hidratação e remédios para a tontura e dor de cabeça que está sentindo, está tudo bem, minha querida.
- E quanto a ela? – sua voz estava fraca e saiu em forma de sussurro.
- Até agora foi tudo um sucesso, mas, vamos deixá-la em observação para termos a certeza que o organismo dela não vai recusar – olhou para o lado e a menina continuava deitada na mesma posição de horas atrás. – Decidimos dopa-la para que ela se acalmasse, como perdeu muito sangue seu organismo entrou em choque. Não acredito em milagres senhora , mas você salvou a vida dela! – a garota sorriu enquanto sua mente lutava com os tremores que estavam passando pelo seu corpo.

Enquanto a enfermeira checava seus aparelhos e dava uma olhada em sua parceira, olhou em volta e encontrou os olhos de em si, na luz do quarto seu cabelo parecia ainda mais branco, sua postura não estava mais tão séria, mas sim cansada, ele estava encostado na parede e segurava a jaqueta dela em seus braços. Ela observou o metal em volta do pescoço que dava lugar ao dog tag do rapaz e riu ironicamente. Mesmo sua mente um pouco nublada fez algumas observações lógicas, ele não era do exército ou nada relacionado por conta da cor de seu cabelo e sua barba rala, mas já havia servido. O que não melhorava em nada a situação.
A enfermeira terminou seu trabalho e sorriu deixando a sala, entre as duas macas tinha uma poltrona e foi o exato lugar que se sentou, a respiração do rapaz estava controlada, mas sua postura se aparentava a um leão pronto para o bote.

- Não tive a oportunidade de te agradecer… O que você fez foi muito altruísta, não sei o que seria da minha irmã se não fosse por você.
- Não é necessário agradecer, fiz o que qualquer um faria em meu lugar, principalmente sendo mulher - sorriu marotamente e balançou a cabeça em forma de negação, a voz da menina ainda saia de forma baixa, porém firme.
- Do lugar onde eu venho, ações assim não existem! - a resposta pegou de surpresa e mesmo a contra gosto concordou com o rapaz em sua frente. - Posso te ajudar em alguma coisa?
- Agradeço, mas não, estou bem - voltou a sua atenção para a porta em sua frente. – Só não queria ter que passar muito tempo aqui, não gosto de hospital.
- Não vai nem me dizer seu nome? Acho que mereço…
- E lhe dar a oportunidade de buscar minha ficha e todas as informações? Conheço muito bem esse cordão em seu peito.

Touché.
soltou uma risada tímida enquanto passava a mão em sua placa de identificação pessoal.

- Você deve estar certa, foi uma noite muito complicada, acho que devia descansar – respondeu o garoto por fim repousando a cabeça na direção de sua irmã.


Capítulo 2



O dia amanheceu extremamente frio e úmido, tentou se mexer e seu corpo estava extremamente pesado, havia um lençol mais grosso em seu corpo e quando observou mais detalhadamente, o feitor disso era Alex, ele havia trocado o lençol dela enquanto dormia e agora ele estava com o fino. As mãos do rapaz estavam entrelaçadas com as de sua irmã e mesmo dormindo, era explícito que ele não havia relaxado em nenhuma circunstância. pegou seu celular na lateral de sua cama, havia várias ligações perdidas de Thomas, ela já até imaginava a dor de cabeça que iria ter por ter evaporado sem avisar a ele, mas esse problema seria resolvido mais tarde, se ele soubesse que ela estava internada no hospital...

- Bom dia! – murmurou e se mexeu desconfortável na cadeira. Os olhos dele pousaram em Kim e pode relaxar mais. – Como você… - seus olhos estavam arregalados agora e foi pega de surpresa.
- O que foi?

Ele apertou o botão para chamar a enfermeira e cinco minutos depois a porta se abriu e o médico entrou no quarto.

- , o que aconteceu?
- Parece que você está tendo algum tipo de choque anafilático ou alguma reação...

A enfermeira aplicou outro coquetel de remédios antes de falar algo com , a menina soltou um suspiro de forma aliviada, pousou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, por um momento a ardência e dor que sentia aliviou um pouco em seu corpo.

- Bom dia. Você ainda está sentindo algum incômodo ou dor? – assentiu. – Sensação de queimação na coluna? – assentiu mais uma vez enquanto o médico escutou seus batimentos cardíacos. – Dificuldade para respirar? – era perceptível que os batimentos de não estavam normal. – Você apresenta um quadro de espasmos musculares, isso acarreta a hiperventilação, mas acho que possa ter alteração cardíaca. Prefiro que você realize alguns exames, tudo bem?
- Sim!
- Preciso de um hemograma, coagulograma, parcial de urina, uréia, creatinina, bilirrubinemia continuava observando a menina de forma preocupada. - Verifique a PA, Fc e FR periodicamente, no último caso uma infusão de SF, mas quero ver todos os exames antes. Tudo bem? - a enfermeira assentiu.
- É muito grave, doutor? – o menino perguntou de forma ansiosa.
- Vamos fazer de tudo para que não seja, é normal o doador apresentar tonturas, desmaios ou queda de pressão, mas a alteração cardíaca não... Nós vamos te levar para outra sala para a realização de exames, tem alguém que você queira avisar?

A menina respirou fundo e negou com a cabeça atraindo os olhares preocupados de .
Uma parte sua queria ligar para Vincenzo e pedir que ele ficasse com ela, mas, antes disso, precisava saber se corria ou não risco.
foi levada para uma sala privada, realizou todos os exames e a sensação de que seu corpo estava fraco a deixava pior, demorou mais uma hora e meia para que todos os resultados chegassem o que foi um alívio para a tensão da menina.

- A alteração cardíaca foi confirmada, é raro, mas não impossível, não tem ligação direta com o rubor em seu corpo, mas as dores, a sensação de desmaio e dificuldade na respiração são normais. Seus exames estão bons, mas, você vai ter que passar a noite aqui por conta de suas hemoglobinas.

O estômago de se contraiu em resposta, o que mais queria era ir embora e sumir de todo esse caos.

- O senhor tem algum palpite do que pode ter acontecido?
- Sim. A transfusão aconteceu de forma rápida, você não preparou seu corpo para doar tanto sangue e isso desestabilizou suas hemácias e todo seu organismo, por isso ele pode ter entrado em choque. O que ainda não explica o rubor, achei que fosse algum processo inflamatório, mas foi descartado. Você sabe que seu fator sanguíneo é considerado raro e suas hemoglobinas são baixas?
- Já tive alguns problemas quanto a isso, todas as vezes que tentei doar sangue não consegui...
- Você colocou sua vida em risco, , nós deveríamos ter sido avisados que poderia ter algum risco. Se algo tivesse lhe acontecido a responsabilidade seria inteiramente minha – uma batida na porta chamou a atenção de ambos.
- Doutor Eduardo? Kimberley acordou.

O doutor assentiu e voltou seus olhos para .

- Vamos deixar vocês duas no mesmo quarto, tudo bem para você?
- Posso te pedir um favor? – perguntou enquanto a enfermeira começava os procedimentos para levar ela de volta. – Não queria que isso fosse contado para eles.
- Sinto muito, estava presente na checagem dos seus exames.

Ela foi levada na cadeira de rodas para o quarto, antes que pudesse abrir a porta, ouviu as risadas de Kim e isso a fez sorrir involuntariamente, era bom saber que conseguiu salvar a vida da garota.
Assim que entrou no leito os olhos de se viraram rapidamente até ela, ele estudava cada pedaço dela e um lampejo de preocupação passou por seus olhos, ela aproveitou que Kim não estava olhando e balançou a cabeça negativamente.

- Olá parceira! – a voz de Kim não estava tão fraca quanto a dela, mas era perceptível que as dores sim. – Soube que vamos dividir o quarto, seja bem vinda de novo!

sorriu e passou os braços em volta do pescoço da enfermeira para se sentar na cama, suas pernas pareciam geleia.

- Obrigada! - a senhora sorriu. - Você nos deu um susto ontem, hun?

estava em pé atrás de Kim penteando seus cabelos loiros, a enfermeira estava colocando mais um acesso em sua veia e mesmo que fosse gentil o suficiente, aquilo a incomodava, principalmente por saber que um dos remédios era algo comparado a um calmante.

- Eu queria te agradecer, não sei o que seria de mim se não for por você... – sorriu. – Sinto muito que tenha que ficar aqui, mas, pelo menos estaremos juntas.

- Após o almoço eu volto para checar novamente vocês e levar a senhorita para a tomografia. Tenham um bom dia! - a enfermeira deixou o quarto novamente e um silêncio confortável invadiu o local.

O almoço foi entregue meia hora depois, era uma sopa com uma gelatina de sobremesa já que Kim não poderia ingerir nada sólido por alguns dias, , por outro lado, preferiu tomar apenas um café, suas olheiras demonstravam um cansaço que ele preferia ignorar.

- Eu detesto hospital... - bufou Kim, o acesso em seu braço direito dificultava as suas ações.

ainda se sentia um pouco fraca, havia terminado seu almoço e continuava deitada, os olhos de acompanhavam cada movimento mínimo que a menina dava e isso estava começando a irritar.
Seu telefone tocou, no mesmo instante em que um enfermeiro loiro entrou no quarto, mais uma vez ela recusou uma das ligações de Thomas.

- Senhorita ? - Kim assentiu. - Vamos levar você para as realizações de novos exames para termos certeza que seu corpo não recusou a transfusão e não sofreu nenhum trauma.

se mexeu na cadeira para se levantar e foi impedido pelo menino, o telefone de tocou de forma frenética e dessa vez não teria como recusar.

“- Você está ficando louca?”
- Bom dia mon chouchou... - levantou a cabeça e observou mais atentamente a garota.
“- Não me venha com isso de meu preferido – ela sorriu ao ouvir a irritação de Thomas do outro lado da linha, já estava sentindo falta. – Como que você pode desaparecer para o outro lado do mundo e ainda tem a audácia de não atender o telefone, ?.”
- Não é o outro do mundo e nós dois sabemos que você não iria me deixar viajar ou qualquer coisa que te deixasse longe de mim por mais que dois dias... situações extremas pedem medidas extremas.
“- Sua inconsequência ainda vai me matar – dessa vez ele estava mais certo do que o normal, pensou mas antes que o pensamento piorasse a situação manteve a boca fechada e esperou que continuasse. – Sua voz está esquisita, onde você está?”
- Se eu te contar você nem acredita – a risada incrédula de Thomas fez com que seu coração apertasse, odiava omitir as coisas dele. – Não é nada comigo, mas não dá tempo de lhe contar agora...
“- Cinco dias longe e você consegue arrumar problema? Deve ser um novo recorde... Vou te dar um desconto, o dia foi cansativo, o nosso sargento vai nos mandar para uma daquelas missões que ninguém sabe muito bem o que esperar.”
- Sinto muito que eu não esteja presente.
“- Curta suas férias e apenas prometa que vai se cuidar, o que eu tenho certeza que não está fazendo, assim que eu voltar pego um avião e vou até você o mais rápido possível, tudo bem?”
- Prometo, me deixe com notícias...

Antes que desligasse ouviu a risada de Thomas e logo após o bipe do fim da ligação. e o garoto se conheciam há anos, ele era tudo que tinha de mais próximo de família, havia conhecido Thomas quando mudou de base e ao contrário do que todos achavam, nada ali passava de amor e confiança entre irmãos.

- Namorado? - perguntou de forma despreocupada.
- Irmão. Ele surtaria se soubesse o que aconteceu.
- Sobre isso...
- Gostaria que Kimberley não soubesse dessa parte, eu sabia dos prós e contras, já percebi que ela se culparia. Eu estou bem, !

Ele sorriu e passou a mão pelos fios brancos de seu cabelo, o contraste com sua pele atraia atenção de . Antes que mais alguma palavra pudesse ser dita, o celular dele tocou e sua expressão não era mais serena, ele murmurou algumas palavras incompreensíveis e se levantou da cadeira.

- Pode avisar a minha irmã que eu volto mais tarde? - Ela assentiu. - Se cuide!

As palavras de ficaram em sua cabeça por um longo tempo e estar sozinha só fixava ainda mais, enquanto Kim não retornava, uma parte sua tentava encontrar um argumento válido para ter colocado sua saúde em risco por alguém e uma breve lembrança passou por sua cabeça trazendo um sorriso tímido em seus lábios.

"- Juro dedicar-me inteiramente ao serviço da Pátria, cuja honra, integridade e instituições defenderei com o sacrifício da própria vida”.

Aprendeu no exército que toda vida deveria sim ser salva e realmente valia a pena todo o esforço, foi esse treinamento que recebeu, agora não seria diferente. Esses pensamentos fizeram se lembrar que Vincenzo deveria estar um tanto quanto preocupado. Com muita dificuldade conseguiu pegar seu celular e discar o número dele.

"- , graças a Deus, eu já estava preocupado..."

- Oi Vivi, me perdoe não queria incomodá-lo, mas, preciso de sua ajuda - escutou o senhor assentir do outro lado da linha e respirou fundo. - Não surte, ok? Eu estou no hospital...

"- No hospital? O que aconteceu , estou indo para aí... Você está sozinha?"

- Calma! Eu estou com uma amiga... A história é longa, mas eu preciso que você traga umas coisas para eu ficar aqui essa noite, poderia fazer isso por mim?

"- Claro, minha querida. Chego aí em mais ou menos trinta minutos e você me explica tudo o que aconteceu."

agradeceu e desligou o celular, olhou o acesso em seu braço e percebeu algumas manchas roxas pela região, não iria mentir e dizer que estava bem, entretanto, estava melhor do que quando acordou.
A porta do quarto abriu e Kim entrou, os olhos da menina estavam cansados e fora de foco, em várias partes de seu corpo havia algumas manchas roxas que denunciavam tudo o que tinha sofrido, ela sorriu para enquanto recebia ajuda para se deitar. A enfermeira levantou sua camisola e começou a limpar o ferimento de sua barriga, parecia ter sido fundo e saía um líquido rosado, notoriamente pior do que o em sua clavícula, a careta da menina demonstrava que o mínimo toque lhe causava uma dor absurda.

- Como você está se sentindo? - perguntou quando já estavam sozinhas.
- Um lixo! - Kim recostou na cama com dificuldade e continuou. - Cada parte do meu corpo está doendo, esse corte na minha barriga me impede de me mexer sem que eu sinta uma dor absurda, mas, o que está me preocupando é a minha cabeça. O médico preferiu fazer uma tomografia para dispensar algum trauma...
- Com o que exatamente você está preocupada?
- Estou confusa mentalmente, entende?
- Sinto muito por isso, Kim - a loira sorriu em resposta e uma ruga surgiu em sua testa. - Ah, quase me esqueci, seu irmão pediu para avisar que volta mais tarde.

Um muxoxo descontente foi dado em resposta e rapidamente a menina mudou de assunto.

- Agora que estamos sozinhas posso perguntar, qual é o seu nome?

sorriu, antes de responder percebeu que sua jaqueta estava dobrada na cadeira em que estava e junto dela sua tornozeleira de búzios.

- Eu me chamo . Porque esperou que estivéssemos sozinhas?
- Meu irmão tem o mal costume de ser super protetor demais, não quero que ele te sufoque.

assentiu e ambas começaram a falar sobre assuntos meio irrelevantes para passar a tarde, não demorou muito e uma batida na porta chamou a atenção, Vincenzo entrou com os olhos repletos de preocupação e a aparência mais paterna do que já pudesse ter visto, antes que pudesse falar qualquer coisa, à puxou para um abraço de urso, seu peito se suavizou a medida que ele afagava suas costas, a pior parte de ficar em um hospital era se sentir sozinha.

- O que aconteceu, filha? - ele pegou a sacola e lhe entregou. - Ah, antes que me esqueça, uma senhora passou lá no prédio vendendo, achei que era uma ótima hora de trazer uma de suas coisas preferidas.

Kim observava tudo de forma silenciosa, não queria atrapalhar o momento deles, mas uma pontada de tristeza lhe acertou, queria que seus pais estivessem vivos também.
sorriu quando viu um girassol dentro do saco, o amarelo das pétalas encheu o quarto com felicidade.

- Você é meu raio de sol, pai… - ela disse abraçando-o e depositando um beijo demorado em resposta e colocando o presente ao lado de sua cama. - Eu queria lhe apresentar a Kimberley.

O senhor sorriu em resposta e se dirigiu até a cama ao lado.

- me contou que estava com uma amiga, não sei qual tipo de flor você gosta, mas, trouxe isso para te animar também - ele retirou um lírio de outra sacola e entregou para Kim, os olhos da menina se encheram de lágrimas e seu sorriso ficou ainda maior.
- É lindo, muito obrigada, senhor...
- Pode me chamar de Vincenzo. Acho que o significado combina bastante com o momento - ele cumprimentou a menina e de forma gentil a abraçou, Kim colocou o lírio ao lado de sua cama e voltou a se deitar observando de forma silenciosa. - Agora me contem, o que aconteceu com vocês, meninas? - a voz dele era aveludada e rouca.

Vincenzo se sentou na poltrona entre as duas, tanto quanto Kim se entre olharam e respiraram fundo, foi a vez de loira começar a falar.
Ele acenou e ouviu tudo com atenção enquanto as meninas explicaram de forma alternada o que tinha acontecido, sabia que Vincenzo assim que saísse do hospital iria atrás para tentar desvendar quem teria feito tamanha atrocidade, fazia anos que ela não voltava para casa, mas sua relação com seu tutor não mudou nada, se conheciam extremamente bem.
Outra batida na porta foi ouvida e logo a enfermeira responsável por elas entrou.

- Desculpe atrapalhar, mas o horário de visita acabou e nós precisamos realizar mais alguns exames.

Os três assentiram, o rosto de se entristeceu, Vincenzo abraçou novamente Kim dizendo que foi um prazer a conhecer e lhe desejou melhoras, a enfermeira começou a troca do soro e o monitoramento dos aparelhos por a mesma.

- Quando elas vão receber alta?
- Se tudo ocorrer bem essa noite, amanhã mesmo, mas o repouso é extremamente importante.
- Amanhã estarei aqui para te buscar - ele depositou um beijo na testa de . - Trouxe algumas coisas para você, se cuide, qualquer coisa não hesite em me chamar - assentiu e abraçou novamente Vincenzo.
- Obrigada por tudo, sempre!

A checagem dos exames, aparelhos e a troca de remédios tinha sido concluída, agora faltava o mais importante: a noite passar de forma tranquila para amanhã elas receberem alta.
A tarde tinha sido extremamente agradável apesar de estarem em um hospital, o lanche foi melhor do que o almoço, porém, Kim ainda tinha bastante restrições, os presentes que Vincenzo trouxe havia deixado no quarto um aroma de flor - e felicidade.

- Posso lhe fazer uma pergunta? - questionou Kim mudando os olhos da TV para a menina ao seu lado, que concordou rapidamente. - Vincenzo não é seu pai, é?

sorriu e parou de mexer no girassol.

- Não, meus pais morreram quando eu era bem novinha, minha guarda ficou com ele.
- Sinto muito, - uns segundos se passaram antes de Kim continuar. - Os meus também estão mortos, confesso que quando ele chegou lhe trazendo presentes eu fiquei com uma inveja boa - um risada baixa escapou dos lábios de , mas logo sumiram quando ela observou a careta de dor de Kim.
- Você está se sentindo bem? Quer que eu chame um médico?
- Não precisa... - ela respirou com dificuldade antes de continuar. - Esse corte está doendo um pouco... principalmente quando eu falo.

se sentia sonolenta e sabia que era efeito de um dos remédios, mas as dores de Kim não a deixavam dormir de forma tranquila.

- Você tem total direito de me chamar a qualquer horário, tudo bem?

A menina sorriu e confirmou com a cabeça, alguns minutos silenciosos se passaram o sedativo ia relaxando cada vez mais as duas e não demorou muito para que o sono tomasse conta de ambas.


Capítulo 3



tinha certeza que a qualquer momento as paredes de sua sala iam diminuir tanto que respirar seria impossível, a preocupação em Kimberley o afetava mais do que pudesse pôr em palavras, era seu calcanhar de Aquiles e saber que ela estava sozinha com aquela menina que ele só sabia o sobrenome – mesmo que tivesse salvado a vida dela – não ajudava em nada. Escutou três batidas na porta e respirou fundo alisando os cabelos.

- Entre - murmurou rápido e se deparou com um de seus ajudantes.
- Não achamos nada, senhor! Mandei alguns homens vasculharem aquela vizinhança, mas aparentemente ninguém viu nada...
- Tudo bem – ele bufou. – Não acho que alguém vá dizer alguma coisa, mas fiquem alerta, continuo achando que foi proposital.

Ele assentiu positivamente e assim que fechou a porta, já estava com o telefone aposto.

“- A que devo a honra, princesa?”
- Preciso de um favor, cara... Kimberley sofreu um acidente...
“- Carajo ! O que aconteceu? Me passa o endereço...”
- Ninguém sabe ao certo, sei que tem alguns ferimentos bem sérios e acabou perdendo muito sangue...
“- Desembucha irmão, sei dos riscos, você não é compatível.”
- Ainda não consegui assimilar direito toda essa merda – passou a mão no cabelo novamente para anestesiar sua dor de cabeça. - Uma garota a encontrou, chamou a ambulância e foi sua doadora... Mas essa garota colocou a própria vida em risco, entende? Também está internada lá.
“- Você quer que eu a rastreie... Já sabe o protocolo: nome, sobrenome, máximo de informações possível...”
- Infelizmente só tenho o sobrenome: ! – escutou Santiago bufar do outro lado e quase conseguia o ver revirar os olhos. – Morena, cerca de 1.63 de altura, branca, olhos , ela tem uma tatuagem de cobra no braço com umas flores...
“- Você não sabe seu nome, mas reparou na cor de seus olhos? queria lhe responder que era impossível não reparar, mas se conteve. – Acabou de descrever metade das pessoas da cidade...”
- Acredite quando eu falo, é impossível você encontrar alguém igual a ela.
“- Você não se ajuda. Farei o possível, me deixe com notícias de nossa garota. Quando posso visitá-la?”
- Se tudo der certo, amanhã ela estará em casa.

A ligação foi encerrada antes que ele pudesse responder, confiava em Santiago e embora não soubesse muito, ele iria fazer o possível para encontrar o suposto anjo de sua irmã.
Concluiu seu pensamento enquanto arrumava suas coisas, estava de madrugada e ele sabia que só acalmaria os pensamentos se fosse ficar com Kim.



O barulho dos repetitivos tiros estouraram seus ouvidos, o melado que atingia seu rosto tinha cheiro de algo metálico, era denso, quente e escorregadio.
Sangue, seu subconsciente avisou.

- Shhh, não fale, meu amor! Vamos salvar você.
- Mamãe?
- Não se mexa e não grite, mamãe e papai te amam...

Um novo disparo ecoou e veio a dor... Angustiante, esmagadora e dolorosa... Não existia outro significado para aquilo, sua vista embaçou e ela soube que não teria chances. A última coisa que viu foi o olhar vazio e morto de sua mãe...

ACORDE!


Estava sonhando... sabia que estava sonhando, mas aquilo ainda a afetava, sabia que mesmo se perdesse a memória, aquela lembrança iria assombrá-la por toda sua vida, não se lembrava da última vez em teve uma noite tranquila sem pesadelos e se negava – fielmente – a tomar os remédios que os médicos prescrevem.
Foi tirada de seus devaneios quando um “click” na porta lhe chamou a atenção. Seus sentidos eram mais apurados que o normal – e mesmo relutante – sabia que os passos firmes entrando no quarto eram de . Sob a penumbra da noite sentiu o menino respirar fundo ao olhar e ver que sua irmã estava bem – viva – e sabia que estava sendo observada, seu corpo esquentava de uma forma incisiva , os olhos críticos dele estavam nela, mas não de forma ameaçadora.
Não haveria motivos para continuar fingindo que estava dormindo, era infantil e imaturo, se mexeu em sua cama e a dor incomodou de imediato, tentou adaptar seus olhos na meia luz do quarto, mas foi em vão. , por outro lado, não quis esconder nem um pouco que a observava, sua postura era tensa e sua aparência perturbada, ele estava encostado na parede em sua frente e seu rosto estava moldado em preocupação que se dividia entre Kim e ela. se sentia tão exausta, como se toda sua energia tivesse sido sugada para uma outra realidade e só precisou a avaliar por meio segundo e ver que não tinha motivos para achar que ela faria algum mal a Kimberley, não nas condições em que estava - ou em qualquer outra.
A postura dela não estava tão firme, seu moletom era cinza e preto e davam um aspecto infantil a ela, principalmente pelos cabelos úmidos.
Ali, sob aquela luz, a menina parecia um anjo...

- Como está se sentindo? – ele disse por fim sussurrando.

levantou as sobrancelhas e assentiu se movendo cautelosamente, o acesso em seu braço havia sido trocado quando pediu a enfermeira que lhe ajudasse a tomar banho, mas, impedia que ela conseguisse se mexer direito, Kim ainda dormia de forma pesada.

- Tirando o incômodo, me sinto melhor – um sorriso mínimo saiu dos lábios de enquanto ele chegava mais perto de sua irmã, seus batimentos estavam calmos e sua respiração suave.

Ele observou as flores e uma ruga atravessou sua testa.

- Recebemos visita... Uma pessoa de minha família – ela respondeu, parecia um erro dar detalhes de sua vida, entretanto percebeu que falava demais quando estava com ele.
- Tudo bem... Como ela está? – uma pausa foi dada enquanto ele a analisava. – O médico falou alguma coisa?

Algo no semblante dele fez com que ela se sentisse confortável com conversa.

- Kim pode ter alta amanhã, mas precisa de um repouso estritamente severo, fora isso, nada demais, dormimos a maior parte do tempo.
- Não acredito que ela não tenha falado pelos cotovelos, conheço o meu sangue – aquela menção fez com que o rosto de se contorce-se, era nítido a culpa de não poder ajudar sua irmã. – E você?

A pergunta tinha pego de surpresa.

- Não se culpe, – seu nome soou de forma diferente em sua voz e isso chamou atenção. – Estou torcendo que não tenha que passar mais nenhum dia aqui.
- Você é uma incógnita... Não vai mesmo me dizer seu nome? Acho que estou em desvantagem.

percebeu que enquanto falava, observava todos os seus movimentos e analisava até mesmo sua postura, e ele fazia o mesmo com ela – as unhas longas pintadas de preto, o cabelo remotamente bagunçado, as olheiras profundas, deixando sua pele um pouco mais pálida, mas sua boca estava um pouco corada. “Anjo”, pensou ele novamente.

- Só está em desvantagem se estiver jogando... E já posso avisar que não estou acostumada a perder! - sua frase terminou com um sorriso em seu mínimo, no canto de seus lábios.
Tirando os bipes dos aparelhos, o silêncio pairou sobre o quarto novamente continuava sentado, em sua cabeça palavras como: perigo, área perigosa e mantenha a distância, piscavam em letras vermelhas em um aviso silencioso, mas, seguindo a regra de sua famíliaa, ele nunca corria de um bom jogo, principalmente de uma pessoa como .
Em meio a seus pensamentos, ele percebeu que a menina tinha pegado no sono novamente, observou ela mais de perto e a cobriu mais uma vez, percebeu que assim como Kim, ela também tinha algumas manchas roxas espalhadas pelo braço, ele chegou a conclusão de que talvez a transfusão tenha agredido mais do que sua irmã.



Sua irmã estava irredutível, embora soubesse que era impossível discutir com a garota, a enfermeira em sua frente parecia discordar do óbvio.

- Eu não vou passar mais nenhum dia trancada nessa prisão branca – disparou irritada enquanto ele apenas olhava tudo encostado na parede. – ?

Ao seu lado observava em completo silêncio.

- Não vou me meter, irmãzinha! Mas quero uma opinião do médico.

A enfermeira bufou e saiu do quarto murmurando que não recebia o bastante para aguentar isso.

- Como você está? – perguntou Kim e a garganta de arranhou antes dela responder.
- Só quero ir para minha casa... E você?
- Do mesmo jeito! – Kim respondeu tentando não fazer uma careta enquanto sentava.

Antes que pudesse continuar a conversa, Eduardo entrou no quarto seguido pela enfermeira que agora parecia estar mais calma, as olheiras nos olhos dele denunciava que seu plantão estava quase o matando.

- Senhora ? – olhou para o médico de forma ansiosa. – o senhor Lopes já está aqui para buscá-la, a enfermeira Rosa irá te ajudar.

Um sorriso aliviado se formou no rosto dela, Rosa tirou o acesso e os aparelhos que estavam ligados em seu corpo. A menina abraçou Kim de forma rápida e sorriu para antes de sair do quarto.

- Senhora ? – os olhos dos irmãos estavam no médico agora. - Os resultados de seu exame estão bons, apesar de tudo, seu organismo se adaptou bem a transfusão, mas... – ele pareceu pensar alguns segundos e se dirigiu diretamente a . – Sua irmã passou por uma situação bastante complicada e dado a seus ferimentos, ela precisa de total repouso. Os cortes na clavícula e no braço foram superficiais, o problema está no corte na região abdominal e nas pancadas que recebeu na cabeça.
- Doutor, quero sua opinião, se o senhor disser que acha melhor ela ficar aqui, ela ficará pelo tempo que for necessitado... – viu a boca de Kim abrir em forma de reclamação e estendeu um dedo para que fizesse silêncio, recebendo um revirar de olhos em resposta. – Mas, posso lhe garantir que se eu levar minha irmã para casa ela ficará em repouso absoluto.

Eduardo continuou examinando os dois enquanto ponderava olhando os papéis.

- Vou liberar a senhorita, porém... Vou prescrever medicamentos e preciso que siga a risca todas as restrições, tanto alimentares quanto físicas, assim como todos os exames que eu pedir – o sorriso de Kim era de pura felicidade. – Se o corte na barriga infeccionar ou houver algum sangramento anormal, volte o mais rápido possível. O mesmo vale para sua cabeça, sintomas como tontura, dores e confusão mental são absolutamente normais, mas se for seguido de desmaio volte!
- Obrigada doutor – Kim respondeu enquanto a enfermeira lhe ajudava.
- Tenham um bom dia!

A manhã estava ensolarada, enquanto caminhavam até a saída, o telefone de Kim apitou indicando uma nova mensagem, e seu sorriso não passou despercebido.

- Eu espero que você não esteja aprontando nada...
- Eu não gosto dessa situação tanto quanto você... Prometi que ia ficar de repouso, então por esses dias não teremos visita, fora isso, ela também não pode fazer esforço - Kim segurava o lírio de forma protetora em seu colo.
- Não sei o que me incomoda mais, se é ideia de uma desconhecida em nossa vida dessa forma, ou a ideia de você estar tão íntima de uma pessoa que conheceu há dois dia...
- O que te incomoda é estar tão encantado e grato quanto eu. Não seja rabugento! – Kim disparou torcendo o rosto enquanto se ajeitava no carro, seu irmão a ajudava como podia com um cuidado redobrado. – Além do mais, sei o que preciso saber – conhecia o suficiente e sabia o que aquele olhar dizia. – Não direi o nome dela a você ou qualquer coisa relacionada.
- Não tem problema, Santiago já está fazendo o trabalho sujo – ele piscou dando a partida do carro.

A cara de Kim se tornou uma careta de completa irritação, seu rosto vermelho denunciava que, além de estar sentindo dor, ela estava completamente frustrada com e embora o garoto não se orgulhasse disso, faria qualquer coisa para proteger sua irmã, incluindo burlar a lei, como sempre.

- Não precisa ficar me rondando... Eu estou bem... – Kim começou observando seu irmão passar em sua porta pela vigésima vez. – Foi um susto… Porque não deita aqui?
- Sabe como me senti quando pensei...
- Eu sei, sempre soubemos que meu fator sanguíneo é difícil, mas, deu tudo certo, não deu?

assentiu e entrou no quarto observando mais uma vez o lírio que ela havia ganhado de presente, a imagem de voltou a cabeça e ele se perguntou se também estava bem.

Se ajeitou ao lado de Kim e fez o mínimo de movimento possível, sabia que ela estava tentando ficar completamente quieta, apenas mexendo as mãos para procurar alguma coisa na Netflix e seu ato foi interrompido por ele.

- Como está sua amiga?
- Nada de filmes de terror… – ela sussurrou e encostou a cabeça em seu ombro. – Você vai acabar ficando doente – jogou o edredom em seu corpo e relaxou quando os dedos dele começaram uma carícia gostosa em sua cabeça. – Sentindo algumas dores, mas, está bem.
A respiração de Kim se tornou suave, observou a irmã e pela primeira vez em anos agradeceu a Deus, sorriu e fechou os olhos, também precisava descansar.



A cabeça de iria explodir, tinha olhado todos os arquivos e documentos sobre o atentado do dia 21, seu caderno estava completamente rabiscado e grifado com palavras chave, foi tirada de seu devaneio com um bipe alarmado de seu computador, ela soltou uma risada irônica e se recostou mais na cama para admirar a tela.
O médico tinha pedido repouso, e ela estava se policiando para cumprir isso.

- Bem no alvo... – em sua frente, a tela mostrava um IP de computador anônimo e ela sabia muito bem quem poderia ser.

Não duvidava da capacidade intelectual de , mas sabia que ele tinha bastante influência em alguns lugares, se lembrava claramente de ouvir ele dizendo: vou falar com meus homens.
E mesmo que estivesse achando graça da situação, sabia que a pessoa por trás disso era extremamente inteligente e isso poderia ser perigoso, mesmo sem informações, tinha acertado em cheio. Mais uma vez pensou no motivo sujo que levou a ter saído do exército ou de qualquer lugar semelhante que tenha trabalhado, o futuro dele teria sido brilhante.
Depois que se alistou e conheceu Thomas, ela pediu que retirasse o restante de suas informações ou quaisquer rastros que ainda estivessem disponíveis, e como bom gênio da computação, ele conseguiu. Quando conferiu que estava tudo em ordem, fechou o computador e decidiu se dar ao luxo de tomar um banho de banheira, fazia tantos anos que nem se lembrava da sensação.
De forma calma, se despiu e ligou o chuveiro, acendeu um de seus incensos e o cheiro de casa invadiu seus pensamentos, era um dos preferidos de sua mãe, colocou alguns sais de banho e evitou olhar seu corpo no espelho, tinha tomado um susto quando tomou banho no hospital e percebeu que todo seu corpo agora tinha hematomas, a enfermeira explicou que era uma reação normal da transfusão, mas, mesmo assim não era uma coisa boa de ver.
Escolheu uma de suas playlists preferidas e relaxou na agradável água quente que cobria sua pele.

Santiago

Frustração. Era o sentimento que mais irritava Santiago e única coisa que ele estava sentindo no momento. Já estava fazendo milagre com apenas um sobrenome e meia dúzia de informações sobre a suposta garota de e quando teve a certeza que havia chegado ao que tanto queria... Não poderia estar mais errado, em sua frente havia apenas um nome: de Albuquerque .
Nenhum endereço, nenhum registro acadêmico, nenhuma data e nem mesmo uma única foto. A aba era um completo vazio e isso fazia com que os nervos de Santiago se exaltassem, nunca aconteceu coisa parecida, e só confirmava pelo menos duas coisas: Ou a tal escondia um grande mistério – e tinha alguém melhor que ele para a ajudar – ou era um fantasma.
E Santiago nunca acreditou em fantasmas.
Antes que ficasse ainda mais irritado, seu cérebro fez um click em algo que antes passou despercebido. Jogou o sobrenome no Google e confirmou o que estava pensando.

- De Albuquerque? – murmurou Sant se dando conta do óbvio. – Então a fantasma pode ser brasileira?

Pegando seu telefone, digitou três palavras sabendo que deixaria ansioso: Estou chegando aí.
Pegou suas coisas e saiu apressado até o seu destino.

O telefone de apitou e o garoto só precisou abaixar a aba de notificação para ler a mensagem de Santiago.

"Estou chegando ai!"

Ótimo, pensou, agora ele iria conseguir apaziguar - pelo menos um pouco - a sua curiosidade sobre aquela menina, tirou a cabeça de Kim de seu ombro e a ajeitou carinhosamente na cama se dirigindo até seu quarto. Cochilou por alguns minutos e acordou quando Santiago entrou sem aviso em seu quarto.

- Temos um problema, bro... - notou a ruga esquisita em sua testa, que demonstrava que era realmente existia um problema. - O nome da sua garota é de Albuquerque .
- Qual é o problema?
- Albuquerque é um sobrenome tipicamente de origem portuguesa, de forma bem resumida, o sobrenome chegou ao Brasil durante o período da colonização e ganhou bastante força nos últimos anos.
- Brasileira? Ela pode ser brasileira?
- O problema não é sua nacionalidade, o problema maior é não ter registro algum no banco de dados sobre essa menina. Data de nascimento, origem, tipo sanguíneo, árvore genealógica... Nada que mostre que ela realmente está viva.
- Não acredito em fantasmas, Mazzaropi...
- Então, meu caro Sherlock, sinto muito te informar que sua garota não é flor que se cheire... e ela tem alguém melhor que eu a escondendo, coisa que eu não admito.

tentava assinar as informações e em sua cabeça nada se completava.
Fantasma? não queria acreditar em nenhuma das hipóteses, primeiro, sabia que a garota não era um fantasma ou delírio de sua cabeça e segundo, se realmente Santiago estivesse certo e ela tivesse se escondendo...

- Qual motivo fudido alguém teria para se esconder?
- Estou frustrado... – Sant bufou – Como está nossa garota?
- Com dor, mas, reagindo bem... Amanhã vou com ela marcar alguns exames – mas a cabeça de estava em outro lugar no momento.
- Você não vai desencanar não é? – o garoto em sua frente revirou os olhos e acenou positivamente. – Bom, vamos dar um jeito nisso, mas estou surpreso e curioso.
- Surpreso?
- Achamos alguém a nossa altura. Não sei quem é essa menina, mas, dou total créditos. E ela salvou Kim, isso já conta bastante!

Kimberley

A luz do sol invadiu de forma brusca seu quarto, o cheiro que inundava o local não era de seu perfume doce, mas sim uma adorável fragrância de seu café da manhã preferido: panquecas com chocolate.
Se espreguiçou sorrindo, sabia que estava na ponta de sua cama a esperando com um daqueles sorrisos calorosos no rosto.

- Bom dia, bebê! Fiz seu café da manhã.
- Eu amo quando você cozinha, mas, bebê? Está tentando me comprar? – Kim arqueou uma de suas sobrancelhas e o viu rolar os olhos.
- Você reclama quando eu faço alguma coisa, reclama também quando eu não faço... É difícil cuidar de você...

A risada da garota ecoou pelo quarto, ela se levantou e dispensou a ajuda de seu irmão, foi até o banheiro para escovar os dentes, mesmo sem conseguir se mexer muito bem, Kim insistia em ser independente. Alex começou o café de forma lenta, pois estava esperando qualquer movimento em falso para ajudar.

- Não tem nada maior para vestir? - brincou olhando na direção dela que apenas deu de ombro. – Agora entendo o motivo que minhas roupas somem.
- Me poupe! - riu e ela voltou para cama.
- Santiago dormiu aí, queria te ver.

Kim encarou o irmão e captou o olhar dele e sua cabeça uniu todas as informações de forma rápida.

- Santiago dormiu aqui? - ele confirmou evitando olhar seus olhos. - Você é previsível, idiota!

Ela disse com a voz alta e estridente fazendo com que ele se assustasse e antes que pudesse esquivar, recebeu um tapa estalado em sua cabeça, a careta que a mesma fez mostrava que o ato havia doído mais em si do que no irmão. Era nítido, Kim conhecia seu irmão como a palma de sua mão.

- Como se eu pudesse esconder alguma coisa de você...
- O que você descobriu?
- O nome dela é de Albuquerque e eu suspeito que ela seja brasileira... – a boca da menina se abriu em um “o" surpreso, mas, não abandonou a repreensão em sua face. – Eu só queria pedir que tomasse cuidado, não achamos nada sobre ela e isso me deixa...
- Frustrado! , você invade a privacidade de uma pessoa e acha que pode... – ela deu uma pausa com a mão na barriga para afastar uma fisgada.
- Kim...
- Ela me salvou, não poderia ser um pouco grato e não cometer erros dessa vez? Santiago deveria sentir vergonha também, cadê esse outro idiota?
- Não me envolva nisso... – ele disse entrando no quarto e se sentando no chão com a cabeça encostada na perna dela. – O fato de fazer, não quer dizer que eu aprove ou concorde, só acho excitante o trabalho sujo. Mas, concordo com você, ela te salvou, deveríamos abrir uma exceção.
- Você tem tanta culpa quanto ele, mocinho. Não tente me comprar... , por favor, saia do meu quarto!

Nitidamente o clima pesado não iria passar tão cedo e antes que se tornasse pior, ele levantou saindo em silêncio, não era novidade para ninguém que Kimberley não apoiava as coisas que ele fazia. Tomou um banho gelado e tentou aprumar os pensamentos que eram pura culpa e antes de se arrumar passou no quarto de Kim.

- Seu exame está marcado para as 10 horas, vai passar em mais algum lugar depois? – perguntou, enquanto observava seu amigo ajudá-la.
- Preciso ir na faculdade e no estágio – respondeu amarga.

O caminho até o hospital foi silencioso e desconfortável, Kim continuou com as feições irritadas e Alex se manteve calado para não piorar sua situação, chegaram ao hospital no horário marcado fazendo com que a tomografia não demorasse tanto e estavam de volta ao desconfortável silêncio no veículo vinte minutos depois.
A faculdade dela era razoavelmente longe e isso fez com que os pensamentos dele se tornassem incômodos, odiava ter sua irmã chateada, principalmente quando era ele o motivo.

- Me desculpe, tá legal? Sei que extrapolei os limites, mas...
- Eu queria que você se colocasse no lugar das pessoas por um mero momento e se perguntasse: se fosse ao contrário, você iria se sentir feliz com isso? - voz de Kim se tornou séria e Alex sabia que ela usava aquele tom com seus pacientes.
- Não!
- Então NÃO FAÇA! Caramba, , custa você parar de ser tão... – ela suspirou alisando o abdome. – Sei que você se preocupa, sei que você tenta cuidar de mim da melhor forma possível, mas não me sufoque!

assentiu em silêncio, não se orgulhava da maioria das coisas que fazia e sabia que se fosse com ele, não iria gostar nem um pouco de saber que alguém estava tentando invadir sua privacidade, Kim, no final, sempre estaria certa.
A faculdade onde ela estudava era enorme e de arquitetura bonita, os pensamentos dele captaram várias passagens que talvez fosse legal fotografar, se arrependeu de não ter trago sua câmera.

- Seu olhar se transforma quando você chega em lugares assim - ele sorriu em resposta, mas logo uma senhora os encontrou.
- Sra. , lamentamos muito pelo incidente.
- Obrigada, coordenadora! Sei que as aulas estão acabando, mas, mesmo assim queria as atividades que os professores passaram, o médico pediu repouso então não poderei frequentar o final deste semestre, porém, não quero perde-lo, não quero atrasar minha formatura.

A coordenadora assentiu e sumiu pelos corredores em busca do material que Kim havia pedido.
- É bonito de ver o amor que você tem pela sua profissão.
- Não posso discordar – ela sorriu – Mas, também preciso disso para o estádio, as férias de lá são diferentes da instituição.

continuou observando de forma silenciosa sua irmã analisando os papéis e assinando os termos de comprometimento, agradeceu sorridente a coordenadora e seguiram juntos para o carro.
Antes que pudesse fechar a porta, a garota retirou o telefone do bolso discando rapidamente um número.

- Boa tarde, raio de sol!
“- Olá, como você está?”
- Estou melhor do que ontem, o que você acha de um programa hoje?
“- Ainda não estou bem o suficiente, o médico me ligou hoje e disse que meus resultados ainda estão abaixo do padrão, podemos deixar para outra semana?”

A fisionomia de Kim se tornou um pouco triste, mas ela concordou e se despediu, desligou o celular lançando um olhar na direção de e o mesmo se fez de desentendido ao seu lado, a próxima parada era o hospital que Kim estagiava.

- Podemos passar no mercado e comprar algumas besteiras para comer, perguntei ao médico e você não tem muitas restrições agora.
- Seria maravilhoso! – ela deu um sorriso em resposta e levou a mão até o abdômen.
- Está se sentindo bem?

Ela balançou a cabeça e seu irmão continuou o caminho em silêncio mais uma vez.


Capítulo 4



Quase vinte dias se passaram desde o incidente que tornou e Kim "amigas", agora que já tinha retornado ao médico e o mesmo lhe disse que estava bem o suficiente e poderia voltar às atividades normais, ela enfim iria conseguir fazer o programa que Kimberley tanto queria. Já estava tudo marcado, tinha o endereço em mãos e como boa convidada, levaria uma de suas garrafas de José Cuervo, mas, o olhar feio de Vincenzo não passou despercebido por ela.

- Sou totalmente contra você beber depois de tudo que passou, poderia pelo menos esperar mais um mês...

revirou os olhos e sorriu.

- Se eu passar mais um dia de repouso, eu vou ter uma síncope. Eu estou bem, e antes de fazer qualquer coisa, eu perguntei ao médico - ele torceu a boca e continuou com os olhos críticos.
- Se cuide, certo? Não hesite em me ligar.

sorriu e depositou um beijo na bochecha do senhor antes de entrar no uber, passou o endereço para o motorista e agradeceu por estar tão frio, sempre gostou do clima.
Do apartamento dela até a casa de Kim era quarenta minutos de carro, sabia que se tivesse vindo de moto teria chegado mais rápido, entretanto prometeu a Vincenzo que não iria pilotar se bebesse.

- Obrigada - o motorista sorriu e antes que pudesse pisar no primeiro degrau a porta foi aberta e o sorriso de Kim apareceu.



passou a tarde com sua irmã e isso fez o humor dele melhorar 10x mais, fazia tempo que os dois não curtiam um momento em família, quando ele não estava nos negócios, Kim estava no estágio ou na faculdade.
A menina estava cada dia melhor e após uma conversa com o médico, ele a liberou para sua rotina normal, exceto por bebidas alcoólicas ou atividades físicas com muito esforço.

- Sua dama está vindo? – Santiago perguntou de forma debochada enquanto preparava uma batida.
- Vá para o inferno! Colocou o refrigerante de Kim para gelar?

Ele assentiu.

- Vocês estão estritamente proibidos de fazer qualquer pergunta pessoal ou fingir que estão trabalhando como espiões – Kim falou com as sobrancelhas erguidas. – Estamos entendidos?
- Sim! – responderam em uníssono e bateram continência arrancando uma risadinha dela.

retirou os salgadinhos e ajeitou na bandeja, estava tudo pronto e não se lembrou da última vez que sua irmã ficou tão animada em receber alguém, Sant encostou no balcão ao seu lado e observou a menina olhar o celular e sorrir.
Antes que a campainha tocasse, ela abriu a porta exibindo um sorriso enorme no rosto e puxou a outra garota para um abraço de urso, a cozinha dava visão para a sala e porta de entrada e Alex observou quando sorriu e segurou Kim de forma gentil conferindo se a menina estava realmente bem, aquilo aliviou metade de suas preocupações.

- Sweetie!!! Seja bem vinda, estava com saudade – o sorriso largo moldava o rosto da outra garota.

segurava um saco e era puxada por sua irmã indo até a cozinha, não tinha vergonha nenhuma de demonstrar que estava olhando para ela descaradamente, embora ela não tivesse prestando atenção. Seus olhos avaliavam cada parte da menina, e ele se sentiu bem ao perceber que os hematomas sumiram, ela vestia um short e uma blusa preta de frio, seus cabelos estavam soltos e suas bochechas coradas – ele não sabia se era do clima, mas deixava extremamente fofa. Se sentia bem em saber que ela também estava melhor e gostava da ideia de tê-la em sua casa.

- Tá sujo... – ele lançou um olhar interrogativo para Sant. – A baba está escorrendo...

Santiago até continuaria com o deboche, mas a curiosidade era mais forte e se virou na direção da menina, por um momento pensou que realmente estaria vendo um fantasma.

- Concha de la lora! – murmurou, seu corpo perdeu um pouco as forças e seu rosto estava pálido.

Raramente Santiago falava em espanhol, só quando ele era pego de surpresa, ficava irritado ou bêbado, era evidente a primeira opção e isso não passou despercebido por Alex que o encarou com preocupação.

- Santiago, o que aconteceu? – a voz de Kim foi um pouco mais audível do que os zumbidos em seu ouvidos.
- ... Oi? – ele coçou a nuca recobrando a consciência.

Todos o encaravam de forma preocupada, o menino estava pálido, gelado e mudo, até mesmo que não o conhecia ficou assustada de sua reação esquisita.

- Santiago, essa é a , minha amiga. , esse é o Santiago, faz parte da família – ela sorriu, mas seus olhos estavam ambivalentes, ao seu lado continuava o encarando de forma cuidadosa e esquecia do mundo ao seu redor. – Meu irmão você conhece. Vou te mostrar a casa!
- Muito prazer, Santiago!

Mesmo querendo saber o que aconteceu não o fez, ao contrário, preferiu seguir Kim pelo corredor.

- O que aconteceu? - a voz de era grave e séria, Santiago continuou quieto. – Viu um fan...
- Não faça essa piada! – ele se debruçou na bancada virando o primeiro copo, fechou os olhos logo em seguida e virou mais um, seu coração ia sair de seu corpo.
- Já chega! - tirou o terceiro de sua mão de forma brusca. – Santiago, eu estou ficando preocupado!
- Ela é igual a minha irmã! Você viu os olhos dela? O sorriso? Minha irmã, cara! A Sally, isso é uma piada?

Ele ficou quieto e suspirou derrotado, quando percebeu a semelhança preferiu achar que era coisa de sua cabeça, se lembrava de Sally e sabia que era um assunto complicado para seu amigo. Santiago virou mais um copo de vodka e seus olhos estavam começando a brilhar demais – e ambos sabiam que não era pelo álcool.

- PARA! Não vou deixar você sucumbir de novo dessa forma, vai beber até desmaiar? Não comigo do lado.

Depositou um aperto forte no ombro de seu amigo e sentiu seu corpo tremendo, era estranho ver Santiago tão quieto e silencioso depois de tantos anos, sempre evitava falar muito sobre ela, a lembrança de sua morte era assombrosa.

- Irmão... Sei que deve ser muito difícil – ele assentiu uma vez. – Não imagino a dor que você sente, mas saiba que estou ao seu lado.

Santiago proferiu um sorriso e se virou.

- Não é a toa que você é minha família! – eles se abraçaram e ouviram passos vindos do corredor.
- O que vocês acham de fazermos uma brincadeira? – propôs Kim, continuou quieta e seus olhos se fixaram na imaginem de em sua frente.
- Qual seria? – perguntou Santiago distribuindo os copos de bebidas – evitando tocar a menina de algum modo. – Topo qualquer coisa!
- Pode ser de verdade ou desafio, mas sem o desafio – exclamou de forma reservada, os três a encararam quando ela prosseguiu. – Quem for respondendo bebe uma dose, se não responder, bebe duas.
- Pergunta e resposta? – Kim sorriu. – Bom que todos se conhecem.
- Gostei da parte do final, quem começa? – respondeu Santiago.
- Convidados primeiro! – estava encostado no balcão quando falou, virou a bebida de seu copo e sorriu malicioso. – Vamos começar?

abriu sua sacola revelando uma garrafa de José Cuervo e começou a distribuir as primeiras doses.

- Você ganhou todos os pontos por ter um bom gosto com bebida – Sant sorriu e pegou a garrafa. – Essa é a bebida oficial de la família.
- Qual a graça se eu não posso beber? – resmungou Kim. – Uma dose não vai me matar!
- Você não vai beber! – respondeu com uma frieza absoluta. – Você cuida da gente, nem adianta fazer essa cara Kim, ordens médicas.

concordou e com um sorriso nos lábios pegou o refrigerante na geladeira, mesmo que não conhecesse a garota, cada minuto ao lado dela tinha mais certeza que não oferecia risco algum a Kim ou a sua saúde e talvez isso fizesse ele se acalmar. Com a ajuda de Santiago, retirou a mesa de centro da sala e jogou as almofadas no chão para que todos se sentassem em círculo.

- , faça as honras!

Por um momento pensou ter visto um sorriso malicioso aparecer em seus lábios, mas logo desviou o olhar, se sentou na frente dela e fez um nota mental de como inconsistente seu melhor amigo estava bem próximo. Uma parte sua sempre soube que quando eles tivessem a chance de se conhecer, as chances de se adorarem eram ainda maiores, era impossível alguém não gostar de Sant e sua alegria, assim como ele estava percebendo que era impossível não se encantar por .

- Santiago... – o menino virou a cabeça para o lado e um arrepio subiu a sua espinha, ela lembrava Sally de todos os jeitos. – Você é latino?

Ele sorriu e passou as mãos nos cachos tirando-os da testa.

- Você ouviu, uh… Nasci no México, depois que me formei e que algumas coisas aconteceram, me mudei para Moscou - o sorriso de Santiago vacilou e mesmo a curiosidade de sendo grande, ela sabia os limites que poderia ir. - Essa foi fácil, garota.

Sant virou um shot e olhou para os três ali reunidos.

- Kim... - as unhas dela fazia um barulho engraçado no copo que segurava. - Como você descreveria a em três palavras?

As meninas se olharam e percebeu um carinho especial entre ambas, sua irmã ainda sorria quando respondeu de forma clara e direta.

- Sororidade, lealdade e esperança!

O sorriso de foi de pura felicidade, ela bebericou um gole da batida de limão e desviou os olhos para .
Kim sorriu e percebeu um imã, algo entre os dois que claramente eles não iriam perceber.

- - Kim pensou por uns segundos antes de perguntar. - Qual o significado da tatuagem em seu braço?

Ela levantou a manga da blusa e mostrou a cobra tatuada com uma flor.

- Renovação e renascimento, faz bastante sentido na minha vida.

Voltou a cobrir seu braço e os olhos dos outros três ainda estavam nela, sua próxima pergunta agora poderia ou não ser respondida. E ela apostava no não.

- Em que você trabalha, ?

Ela era extremamente esperta e sabia jogar muito bem com as palavras, Santiago olhou de para ela e balançou a cabeça, estava nítido que ela sabia sobre o banco de dados e no momento ele estava muito arrependido.
pegou dois copos de tequila e virou de forma rápida, agradecendo por não ser obrigado a responder, o olhar dela pairou sobre ele e logo mudou de posição quando seu celular ascendeu, ele conseguiu ver a foto de duas pessoas em sua tela de bloqueio e sua curiosidade falou mais forte.

- Qual foi a coisa mais constrangedora que você fez, Santiago?

Seu amigo bufou e arrancou uma risadinha baixa de Kim, ela recostou no peito de seu irmão e observou de forma concentrada os dois amigos em sua frente.

- Se for jogar pesado comigo, saiba que vai ter volta... - o menino estava ponderando se valia a pena ou não abrir alguns detalhes para . - Eu saí com uma menina, mas, os pais dela voltaram mais cedo para casa, o pai dela era metido a matador e eu sempre gostei muito de viver, sabe? - estava totalmente concentrada na história quando um sorrisinho mínimo brotou em seus lábios. - Eu tinha que sair o mais rápido possível do quarto dela e só tinha um caminho disponível: o telhado. O pior não foi ter andando no telhado da casa dela com as pessoas olhando e apontando, o problema era que eu estava completamente pelado - os olhos de se arregalaram e as risadas dos irmãos foi audível na sala. - Não por satisfeito, eu ainda vim correndo para casa. Liguei para esse idiota e o mesmo fingiu que nem me conhecia.

Sant tomou um shot e um gole da bebida em seu copo e continuou emburrado enquanto seus amigos riam da cena.

- Onde você nasceu, ? - a pergunta pegou a menina de surpresa e ele se sentiu estranhamente desconfortável por isso.
- Eu nasci no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro - a tequila desceu sua garganta mais quente que o normal.

A surpresa ainda era evidente mesmo que eles tivessem uma ideia sobre isso e nada se comparou ao olhar de de resposta, se sentia completamente exposta e quando olhou para o lado, percebeu que Santiago olhou feio na direção dele.

- O que você estava fazendo na rua naquele dia, Kim? - a menina se ajeitou mais confortável no peito do irmão e pensou por um momento.
- Eu acho que estava saindo de algum barzinho, mas não consigo me lembrar, não de forma clara. Tenho uma leve impressão de que alguém estava comigo, mas... - uma ruga apareceu em sua testa e logo sumiu. - Ainda bem que você me achou.

Mais um olhar cúmplice foi dado e a próxima pergunta foi a vez de pegar de surpresa, principalmente por vir de sua irmã.

- Qual o primeiro pensamento que surge em sua cabeça quando você olha , irmão?

Ele engasgou com a bebida e tossiu de forma surpresa, Kimberley sabia o colocar em uma saia justa, Sant reprimiu um sorriso e os olhos de estavam completamente vidrados em sua direção, isso fez ele se sentir constrangido.

- é uma incógnita para mim, na verdade, penso em várias coisas e em nada ao mesmo tempo, mas, se fosse para definir ela em uma única palavra, eu diria misteriosa.

O olhar dela estava menos incisivo quando sorriu em resposta e observou ele tomando mais uma dose.

- Você é um ótimo observador - ela levantou o copo em forma de brinde e ele repetiu o movimento piscando.

A garrafa de tequila estava no fim, os olhos de Santiago estavam bem mais brilhante que o normal, o rosto de estava dormente pela bebida que descia de forma rápida por sua garganta, algumas partes do corpo de estavam bem vermelhas pela quantidade de álcool. Kim continuou deitada e a cena em sua frente aquecia seu coração de forma prazerosa, a sala de casa dava espaço a gargalhadas e vozes, Sant estava tentando ensinar a uma música em espanhol, mas as palavras deles saiam emboladas pelo estado de embriaguez, ela realmente gostava da menina e não era só por ter salvo sua vida, ela inundava a todos com uma alegria sincera. também sorria com a cena e sua irmã observou que seus olhos agora davam lugar ao um brilho novo.

- E sua história, ?

Santiago deitou em seu colo, havia desistido de ficar sentado e estranhamente se sentiu à vontade com a companhia da menina. ficou um pouco inquieta e tentou disfarçar desembolando os cachos do cabelo dele, e percebeu que não era proposital a pergunta.

- Não tem nada demais na verdade! – ela sorriu de forma sem graça.

arqueou as sobrancelhas e a encarou mais fixamente, sabia que Kimberley estava o olhando agora, mas não se importou pois queria aproveitar a abertura na armadura.
Ela estava em sua frente e percebeu algo antes desconhecido pela blusa de manga, os braços do garoto dava lugar a algumas tatuagens, olhou detalhadamente e algumas te chamaram atenção.

- Duvido! – respondeu ele – Todos nós temos alguma história...
- Então me conte a sua - a resposta rápida pesou um pouco.
- Tocou em um assunto delicado, foge de toda essa burocracia – Santiago continuou de olhos fechados e não percebeu quando o controle voou em sua direção, acertando seu joelho. – Hijo de re mil putas – o sotaque fez sorrir um pouco, sempre gostou do espanhol porque lembrava o português.
- Sou um livro aberto, faça a pergunta que quiser... – ele disse e virou mais uma dose de tequila, manteve o contato visual e a atmosfera não estava mais tão leve.
- Porque saiu da área militar?

Kimberley prendeu a respiração e abaixou os olhos até seu copo, Santiago pareceu ter engasgado antes de uma gargalhada baixa sair de sua garganta, os olhos de se arregalaram e logo assumiram uma forma fria, sua pele estava mais vermelha ainda e sua postura assumiu uma forma mais severa.
Anjo das trevas, pensou .

- Perdão? – foi tudo que ele conseguiu dizer.
- Você é claramente ex-militar, ou você saiu ou foi expulso. Considerando toda sua postura e disciplina, você não iria sair... Então, qual é a sua história, ?

O clima continuou tenso, soube que estava cutucando algo e viu Kim levantar os olhos e em sua expressão um olhar triste passou.

- ...
- Conto isso se você nos contar de forma clara de onde você veio, já que toda a sua vida é um mistério, chego a dizer que é como uma página em branco, uma história por outra, o que me diz? – o sorriso debochado de mascarou o peso que as palavras da menina forçaram em seu peito.

O corpo de deu um espasmo e Santiago percebeu levantando os olhos e observando sua face um pouco mais seria, seu olhar era um misto de distância e frieza e por um momento ele achou que pudesse fuzilar pelo olhar.

- Esse tipo de assunto não deveria ser tratado com a influência de bebidas... – ele murmurou e soltou a respiração de forma baixa lançando um sorriso agradecido em resposta. olhou feio para ele e recebeu uma cotovelada de Kim que continuava com os olhos críticos.

O celular dela acendeu novamente e dessa vez ele pode perceber melhor a foto de bloqueio, era ela abraçada a uma outra pessoa, talvez fosse o homem que ela havia falado no hospital, mas porque se importava com isso? olhou o relógio de Santiago e percebeu que estava bastante tarde e Vincenzo deveria estar extremamente preocupado.

- Acho que já passou da hora de encerrar a noite, hun?
- Eu duvido muito que consiga me levantar daqui – Santiago falou quebrando o gelo e recebeu uma risada em resposta.
- Não sei por que ainda deixamos Santiago beber... – se levantou e ofereceu a mão para sua irmã. – Está se sentindo bem? – ela assentiu.

ajudou Santiago a se levantar, recolheu os copos e levou até a cozinha, Kim se aproximou e a abraçou antes de subir, seu abdômen tinha começado a doer.

- , foi um prazer conhecer você... – Sant depositou um beijo em sua bochecha e sorriu. – Apareça mais vezes, sim?
- Claro, quero ter a chance de ouvir seu espanhol bêbado!

Os olhos de Sant se abriram um pouco mais e com um sorriso triste, ele subiu as escadas indo para quarto hóspede, que a altura do campeonato era seu.
ainda estava em silêncio e observou estranhar o semblante dele.

- Quer que eu te leve em casa?

Ela balançou a cabeça e sorriu, quanto menos soubesse sobre ela, era melhor.

- Já chamei um uber, mas te agradeço muito.
- Você não confia em mim, hun?

foi em direção a porta com ele ao seu lado, não tinha percebido como era bonito e tudo ali o fazia ser muito atraente.

- Você não vai conquistar minha confiança tentando bisbilhotar a minha vida em um banco de dados
.

Ela piscou e desceu as escadas entrando no carro rápido o bastante para que ele pudesse responder alguma coisa. ainda estava parado na porta de casa com um sorriso idiota no rosto.
É lógico que ela sabia, pensou ele.

Santiago

A praia se abriu de forma branda e brilhante em frente à Santiago, o mar estava em um azul claro com ondas calmas e cristalinas, sentiu um formigamento em sua mão e rapidamente se virou.

- ¿No voy a entrar? – ela estava lá, sorridente, os olhos tinham um misto de felicidade e mistério. – Mi chico?

Santiago apertou os dedos mais forte e fechou os olhos desejando que esse momento se prolongasse por maior quantidade de tempo possível, já fazia tanto tempo...
Sentiu seus pelos da nuca eriçarem e foi forçado a abrir os olhos, a mudança de cenário foi drástica e eles não estavam mais na praia, não havia mais mar e sol, tudo era uma completa confusão e barulhos de bipes.

“Afasta”

“Recarregue...”


O aperto em sua mão não existia mais, as vozes do ambiente tomavam conta se sua cabeça e embora não fizesse força, lá estava ele refazendo todo esse trajeto depois de todos esses anos, ele estava mais uma vez lá, impossibilitado de fazer qualquer coisa.
Sua irmã estava na maca, os olhos não estavam mais , estavam escuros e arregalados em sua direção, magra, pálida, abatida. Quando foi que Sally deixou de ser a sua Sally e se tornou aquilo? Os bipes dos aparelhos se descontrolaram por uns segundos e depois tudo foi abaixando, ele ouvia os médicos dizendo que não tinham o que fazer, ouvia o choro de sua mãe, mas nada se comparava ao que ele estava vivendo.
Por um último momento, seus dedos agarraram os dela em uma súplica silenciosa e seus lábios com muito esforço se despediram para sempre.

- Lo siento mucho.

Seus joelhos cederam e ele foi de encontro ao chão...
E então ela se foi!

- Santiago
! – estava ao seu lado, ele sentiu seu corpo inteiro tremer, soube que tinha trincado os dentes enquanto dormia, e percebeu que seu rosto estava molhado. – Irmão?

O menino demorou alguns longos segundos para se recompor e conseguir formular alguma coisa, fazia algum tempo em que ele não sonhava com Sally, principalmente com o momento da morte dela.
Dor não era a palavra que ele encontrava para dizer o que estava sentindo e mesmo que tentasse, não iria conseguir por significado. estava ao seu lado, silencioso e observador, Kim entrou pouco tempos antes e sentou na ponta da cama, de alguma forma os três estavam se encostando – mesmo sem nenhuma percepção disso –, eram o alicerce, seu alicerce.

- Gracias... Hum, é, obrigado! É bom ter vocês!

Kim levantou com cuidado de seu lugar e o abraçou distribuindo beijos no topo de sua cabeça.

- Sabe que estamos com você, não sabe? - ele acenou a cabeça positivamente. - Somos sua família também. Vou fazer o almoço!

sabia que a desculpa do almoço era só para os deixar a sós. Sant olhou mais detalhadamente para ele e percebeu que o mesmo aparentava não ter dormido nada, as olheiras estavam mais evidentes que o normal - e isso o preocupava - respirou fundo e depositou um afago em seu braço rapidamente antes de se levantar, isso para eles valia mais do que qualquer palavra, sempre se entendiam pelo olhar e não seria diferente nesse caso.

- Vou ter dar a oportunidade de me dizer o que está acontecendo! - algo comparado a um muxoxo foi ouvido enquanto caminhou até a janela se encostando na madeira. - Precisa de um empurrãozinho?
- Se for para me empurrar de cima de um prédio, eu penso em aceitar... Acho que dessa vez eu vacilei.
- Já vacilou outras vezes e não ficou com essa cara de culpado. Desembucha!
- Não sei o que você espera que eu fale, estou me sentindo culpado, antes de ir embora, nós trocamos algumas palavras e ela confirmou sobre o banco de dados - o rosto de Santiago era um sinônimo perfeito de confusão. - Ela salvou a vida da minha irmã, eu deveria ter sido menos...
- Imbecil. Que bom que você assumiu seu erro, peça desculpa - revirou os olhos e mais uma série de dúvidas passaram pela cabeça de Santiago. - Ajuda se você começar a ser coerente.
- Preciso de sua ajuda!
- Não! Irmão, acho ótimo que você esteja em redenção e reveja seus conceitos, mas, não vou me meter nessa situação...
- É por conta da semelhança entre as... - a postura de Sant mudou de um extremo para o outro e não precisou de nenhuma repreensão para engolir as próximas palavras e mudar de assunto bruscamente. - Queria saber seu endereço e sei lá... Você é bom nisso, me dê umas dicas.

A primeira resposta de Santiago foi uma explosão de gargalhadas, o que levou a franzir o cenho de forma irritada.

- Do que exatamente você está rindo, Santiago?
- Você está se escutando? - o garoto em sua frente bufou mais uma vez e isso só fez Santiago achar ainda mais graça. - Tudo bem, certo! Você está realmente falando sério, hun? Infelizmente não posso te ajudar, não existe nada sobre ela em lugar algum.

Uma ideia passou pela cabeça de e não passou despercebido por ele.

- Eu não colocaria seus homens para segui-la, é uma péssima ideia.
- Você tem uma melhor?
- Já experimentou agir igual a uma pessoa normal, ? Peça o número dela para Kimberley, procure suas redes sociais, seja normal pelo menos uma vez e não vacila com ela, sua irmã gosta muito de .

Ele arqueou as sobrancelhas e se levantou sorrindo, deixando pensativo.
Tinha certeza que não era só Kim que gostava dela.



escutou as vozes de Santiago e Kimberley, suas risadas e alguns xingamentos do andar de cima, embora gostasse dessa algazarra, não estava no clima.
Havia passado a madrugada toda pensando nos acontecimentos da noite passada, se sentia mal por N motivos, um deles rodava sua cabeça sem pedir licença: . E se já não bastasse isso, estava tendo problemas no trabalho. Não conseguia de forma alguma encontrar a tal menina que um de seus clientes pediu e seu prazo estava se esgotando, a pressão que estava em seus ombros era nociva para sua saúde.
Não era de sua personalidade ficar tão intrigado em alguém dessa forma, mas, algo em cheirava a problema, porém, não iria fingir que suas palavras não o deixaram culpado, era errado e ele sempre soube, só não entendia o motivo de estar tão confuso.
Por que se importar?
Tirando a opinião das outras duas pessoas que estavam nessa casa, ninguém mais conseguia deixar assim. Ele não sabia a resposta e tentava não pensar nisso, a conversa com seu amigo lhe chamou à atenção por muitas coisas e foi por ela que ele tomou a decisão de pedir a sua irmã o número dela, mas a dúvida de ligar ou não estava o matando.
Respirou fundo e tentou algumas vezes, mas o telefone caiu na caixa postal, esperou dez minutos e tentou novamente, uma hora ela teria que atender. A ligação chamou duas vezes até que sua respiração sonolenta foi audível do outro lado, foi o suficiente para ele ficar sem reação.

"-Alô?" - parabéns, ela estava dormindo. "Cacete... Alô?"

A palavra brasileira soou de forma fácil em sua boca e Alex sorriu involuntariamente, ele poderia não entender, mas, algo dentro de si tinha gostado de ouvir.

- Não estou surpreso que você não tenha salvado o meu número.

Um silêncio esquisito atravessou o celular e fez ele olhar o aparelho algumas vezes para ter certeza que não estava falando sozinho.

"- Se você queria ser meu amigo, acabou com as chances nesse minuto, porque você me acordou, ?" - a voz dela era um misto de surpresa e piada, mas, pelo menos era um avanço, pensou .
- Me redimir, você aceitaria me encontrar? Sei o que deve está achando, mas, eu não sou tão estúpido.

Parecer e ser eram coisas diferentes
, ele pensou e reprimiu a gargalhada na garganta, a última coisa que precisava era achar que estava debochando.

"- Isso deveria ser um pedido de desculpas? Fala sério, você pode fazer melhor" - escutou uma risada baixa em resposta.
- ... Olhe, poderia aceitar meu convite? Você nos fez um favor a algumas noites e eu não gosto de dever favores, principalmente quando eu fui um completo imbecil… - ele não tinha tato nenhum com as palavras, mas era verdadeiro em cada coisa que dizia, alguns segundos de silêncio passaram, era de longe algo mais embaraçoso que tinha feito.
"- Tudo bem, aceito seu convite."
- Sério? Quer dizer... Tudo bem. - a palavra patético piscava em letras grande de néon naquele momento. - Pode ser amanhã à noite?
"- Podemos marcar quando eu realmente acordar?"

Ele sorriu e percebeu que realmente não era nada com que estivesse acostumado, muito pelo contrário.

- Já passa das três da tarde, não seja preguiçosa - bufou do outro lado da linha. - Salve meu número, bae.

E com isso ele desligou o celular sem dar tempo de conseguir ouvir a surpresa do apelido, o sorriso no rosto dele era algo novo, coisa que Kim percebeu quando entrou no quarto do irmão.

- O que você está aprontando?

se jogou na cama animado.

- Nada irmãzinha, nada!



A ligação foi finalizada há cinco minutos e ainda estava parada olhando para seu celular e tentando entender o que tinha acabado de acontecer.
Cada segundo que passou, seu subconsciente riu da cara dela e confirmou com todas as letras que sua vida era uma piada de mau gosto. Não que o ato de redenção de não devesse ter sido aceito e admirado com cautela ou que o voto de confiança não devesse ter sido dado, mesmo tendo participação exclusiva de Thomas e seu e-mail malcriado que deixava duas coisas claras.

1. Você está sendo infantil e burra.
2. Não afaste pessoas boas.


Havia dado um jeito de contar todos os detalhes do último mês para seu amigo e quando ele tinha uma folga, a respondia. Seu último e-mail foi um exagero de esporros por não ter contato sobre sua visita ao hospital e pedidos para que não se afastasse deles, mesmo ressaltando que escondia algo de muito pesado, Thomas parecia ter virado fã número 1 do menino. E como sempre, os irmãos mais velhos eram responsáveis por colocar juízo e os irmãos mais novos eram responsáveis por obedecer - mesmo a diferença de idade ser quase nula.
Era isso, agora ela oficialmente teria um encontro com a pessoa que havia feito uma nota mental em não se aproximar.

- Você é patética, garota! - pegou um travesseiro e colocou entre seus olhos caindo na risada logo em seguida.

Uma parte de queria enlouquecidamente tirar férias e ter uma vida normal e menos problemática em Moscou, sair, se divertir, conhecer pessoas, seu trabalho era frustrante o suficiente para essa loucura, mas, sua parte obscura insistia em se martirizar pela morte de seus pais e nutrir raiva dentro de seu peito, e era esse sentimento que estava a movendo no momento em que ela levantou de sua cama e foi se arrumar.

Com o passar dos anos no exército, ela conheceu algumas "pessoas" que lhe renderam boas informações, e estava prestes a sanar algumas dúvidas.
Sempre soube que uma parte da família de sua mãe ainda estava viva, só precisava saber se todas as informações eram verdadeiras.
O local era totalmente afastado da cidade, uma estrada de terra mal iluminada - e bastante macabra -. parou a Troller um pouco mais afastada, abriu o porta luvas, pegou a Glock 9mm que estava escondida em um compartimento falso e colocou dentro da bota que usava. Assim que desceu do carro um arrepio surgiu em sua espinha.
Até que ponto ela iria?
Antes que pudesse bater, a porta abriu e um homem emergiu na escuridão, todas as suas peças de roupas eram pretas, havia alguns piercings em seu rosto junto a tatuagens que estranhamente ornava com tudo.

- Está muito tarde para alguém como você estar perdida por aí - o sotaque diferente atraiu sua atenção. - Quem é você?
- de Albuquerque.

Ele sorriu e algo em sua expressão fez achar que estava sendo esperada. A porta foi aberta e ela seguiu o homem pela escada, antes que pudesse chegar ao final, o cheiro de bebida e charuto invadiu seu nariz lhe causando um desconforto momentâneo, sua visão foi interrompida quando uma mulher parou em sua frente impedindo sua passagem.

- Mãos para cima, por favor! - um alívio percorreu todo seu corpo. - Limpa!

A mulher sorriu cordialmente e sumiu de seu campo de visão se misturando.
Quando ficou sabendo desse lugar, tinha em mente que isso aconteceria e arrumou o lugar mais prático - e mais ridículo também - para esconder sua arma. Olhou em volta e percebeu que estava sozinha, o salão era definitivamente enorme, várias mesas de jogos eram espalhadas, uma vez ou outra alguém falava um pouco mais alto, porém, percebeu três coisas importantes.

1. O silêncio.
2. A impecável limpeza.
3. Várias mulheres.


- Posso ajudá-la? - uma menina ruiva estava atrás dela, parecia ser mais nova e tinha um sorriso irônico nos lábios.
- Queria falar com Ded Snake!
- E quem deseja falar com o chefe?

A prepotência na voz dela fez se irritar, em um ato um tanto quanto bruto, puxou de dentro da blusa o colar que ganhou de presente anos atrás e entregou a pródiga em sua frente, era fácil reconhecer os "novatos".
Na placa estava o desenho de uma cobra e um punhal fincado, a garota observou por um instante e seus olhos se arregalaram minimamente.

- Queira me acompanhar, por gentileza - ela disse e entregou o cordão de volta a .

O corredor era longo e mesmo tendo várias outras portas, apenas uma chamou sua atenção. A ruiva deu três toques e um uma voz rouca mandou ela entrar.


Capítulo 5

.

- Quando me disseram que um Albuquerque estava aqui eu sinceramente não acreditei - revirou os olhos e sentou na poltrona em frente à enorme mesa de madeira. - O que foi? Veio cuidar dos negócios da família?
- Não seja ridículo! - James arqueou as sobrancelhas e tirou um charuto cubano da caixa para acender, prepotência era de família e não fugia à regra. - Já deve saber muito bem o motivo que me trás aqui.
- Não responderei nada que não me seja perguntado para que eu não me comprometa. E por gentileza... - ele soltou a fumaça e sorriu, aquele sorriso fez lembrar de sua mãe. - Tire a arma que está guardada em sua bota esquerda - sua expressão de espanto a denunciou antes mesmo dela negar. - Você é igualzinha a Izabella!

A menção do nome dela fazia com seu peito apertasse um pouco.

- Como você...
- Iza tinha o mesmo arquétipo. Guardava uma igual a essa… - ele apontou para a arma em cima da mesa e não fez menção alguma para pegar - ...na bota, um de seus canivetes no cinto e mais alguns extras escondidos por aí. Mas me conte, o que lhe trás aqui?
- Quanto tempo vocês iriam fingir que não existo?

A risada de James invadiu o local enquanto ele levava outra vez o charuto até a boca.

- Você acha mesmo que estava escondida? Nós nunca deixamos de observar você, mas, cumprimos aquilo que prometemos aos seus pais: não iríamos te procurar a não ser que você nos procurasse.

A confusão no rosto de fez James respirar fundo e se perguntar se valia a pena mesmo contar toda a verdade. Reviver aquela história depois de anos era de longe muito doloroso, até mesmo para ele.

- Eu sinceramente ainda não entendo - disse ela por fim. - Qual o motivo disso tudo? Tantos segredos, tantas mentiras... Achou mesmo que depois de todos esses anos meia dúzia de palavras bonitas iam comprar a minha confiança? Eles estão mortos!

A feição de James se tornou rude e seria, o bolor em sua garganta o sufocava.

- E você também estaria se não fosse por mim. Olhe em volta, nada disso soa familiar? Você carrega nosso brasão em seu pescoço assim como carrega em uma tatuagem no antebraço, não se faça de boba. Encare os fatos eu sou seu tio, você é minha sobrinha, e o único motivo de eu não ter te procurado ou entrado em contato foi para que você ficasse protegida. Talvez não acredite, mas, nós sempre cumprimos uma promessa. Você não é a única que perdeu alguém, !

Perplexa, era assim que ela se encontrava, algumas cenas invadiam sua mente e forçavam de forma dolorosa uma confusão de sons, imagens e pessoas. sempre teve essas lembranças, mas após o trauma da morte de seus pais, sua vida ficou mais conturbada e acreditar nos próprios pensamentos às vezes poderia ser uma escolha difícil.
A verdade era que há alguns anos descobriu que parte de sua família era envolvida na máfia de Moscou e se revoltou com firmeza sobre essa ideia. Se martirizou durante um bom tempo por ter marcado em sua pele a serpente. Demorou muito para a garota entender e poder aceitar a ideia que sua mãe e seu pai eram de acordo com tudo isso.

- Eu quero saber a verdade! - ela disse estalando os dedos de forma nervosa. - Chega de mentiras!

James ponderou por alguns instantes e assentiu virando dois portas retratos para que pudesse vê-los.
A primeira foto era de dois bebês, ela reconheceu sua mãe e ao lado dela parecia ser seu tio.
A segunda foto atingiu como uma bomba. Iza estava ao lado de James e o mesmo segurava uma criança que se grudava de forma carinhosa ao redor de seu pescoço.
Era ela!

- Não me admira que depois de todo o trauma você não se lembre de algumas coisas, não sei qual é o início de tudo isso, mas vou contar o que couber a mim - James soltou o ar de forma suave e continuou com uma seriedade absurda. - Sua avó se chamava Antonieta, quando meu pai faleceu ela conheceu Velásquez e foi o que chamamos hoje de amor à primeira vista. Ela fugiu do Brasil para Moscou, mas, o que ninguém sabia era que ele tinha ligações muito próximas com a máfia local - James abriu uma das gavetas e pegou um álbum entregando imediatamente a . - Fica mais fácil se você conseguir acompanhar. Continuando, quando minha mãe descobriu ela quis se envolver nos negócios, naquela época não era bem visto que mulheres se envolvessem, o que não adiantou de nada, teimosia e persistência vem de berço...

sorriu observando as fotos de sua avó e todas as outras pessoas que ela não se lembrava ou não conhecia. Seu tio deu a volta na mesa e se sentou mais próximo, sua sobrinha lembrava demais a irmã.

-... ela começou a dar alguns palpites, ensinou algumas coisas e logo já estava mandando. Velásquez foi envenenado por um rival e o final você já deve supor, não é?
- Minha avó ficou tomando conta de tudo isso? - ele assentiu. - E onde vocês entram?
- Sua mãe e eu éramos adolescentes quando tudo aconteceu, e eu não tenho do que reclamar sobre aquela época. Depois de uns anos, Iza voltou para o Brasil para estudar.
- Foi a época que minha mãe entrou para o exército.

O álbum em sua mão mostrava fotos que nunca havia visto de Iza, seu tio e dela, e outras que mostravam que sua mãe mesmo distante mandava para que ele acompanhasse tudo que acontecia com a família, principalmente a sobrinha.
Era inevitável que seus olhos não se enchessem de lágrimas.

- Você resolveu tomar conta de tudo quando minha avó morreu?
- Basicamente - ele sorriu. - Velásquez era infértil, não teria filhos, mas sempre foi um pai para nós. Quando nossa mãe morreu foi inevitável não tomar conta disso tudo.
- Minha mãe abriu mão?
- Sim, mas ela sempre esteve por perto.

Rapidamente entendeu porque no relatório oficial algumas partes diziam que Iza frequentava esses tipos de lugares.

- Você ainda não me disse por que eu nunca soube de nada disso.
- Você pode não se lembrar, mas saber sempre soube…

As fotos tinham acabado, ela devolveu o álbum e ficou observando seu tio, havia muita verdade no que ele falou e estava certo em dizer que sabia, mesmo que não lembrasse, ela conseguiu informações para ligar uma coisa a outra, só havia passado anos em negação.

- Um mês antes da morte, eles me procuraram e me disseram que estavam sendo observados. Eu coloquei todos os melhores homens que tinha para cuidar deles, e não conseguimos encontrar nenhum rastro. Thompson e eu pensamos que sua mãe estivesse sistemática por sua causa, mas não... Ela nunca esteve errada - não saberia dizer se os olhos de seu tio estavam marejados ou se era apenas a luz do ambiente, mas seu semblante havia se tornado triste e solitário em questão de segundos. - Naquele dia ela veio me visitar sozinha. Não avisou, simplesmente apareceu e passou a tarde aqui, eu achei estranho, mas, era sempre bom ter minha irmã perto, principalmente quando ela não tinha que mentir no trabalho por minha causa. Antes de ir embora, ela fez com que eu prometesse umas coisas...

sentiu seu rosto ficando quente e sua garganta fechando, tentou fazer saliva descer por sua garganta e nada. Ela se sentia seca e James percebeu, pois colocou em suas mãos um copo de água antes de continuar, sorriu e aceitou, mesmo que quisesse o copo do Martini que ele bebia.

- ...ela pediu que eu te deixasse longe desse mundo. Se acontecesse alguma coisa com eles, eu tinha que fazer você desaparecer. Sua mãe pediu que eu desaparecesse também, pediu que eu te protegesse com a minha vida... Eu fiz tudo isso. Quando recebemos a notícia do atentado a primeira coisa que fizemos foi tirar você da casa, liguei para alguns contatos na polícia e obtive ajuda. Depois falei com a advogada que cuidava das coisas de seus pais e ela me mandou vários papéis, um deles era a guarda para Vincenzo... - enquanto a feição de era surpresa, a de seu tio era uma máscara da dor e alívio - ...eu perdi minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha em uma porrada só... - ele sorriu e virou seu corpo. - Apagamos você da rede por um tempo e ficamos torcendo você seguir os passos de seus pais e fosse pra bem longe.
- Já estava tudo pronto? - James balançou a cabeça positivamente. - Então... Minha mãe sabia que iria morrer? O que você fez depois disso?
- Continuo protegendo você até hoje - as palavras pegaram de surpresa e de uma forma sincera aqueceram seu peito. - Sei que você há anos tenta desvendar todo esse mistério, saber quem foi o assassino, também tentamos fazer isso e não encontramos nada...
- E os homens que ficaram tomando conta deles?
- Estão mortos. Não me entenda mal, mas eu não poderia confiar em ninguém...
- Situações extremas pedem medidas extremas, sei bem - ela fechou os olhos e coçou as têmporas para aliviar a tensão. - Obrigada por me contar!

James sorriu, deveria ser um traço de família os olhos , ele lembrava demais as feições de sua mãe.

- Quer conhecer o lugar? - um lampejo de esperança passou por seus olhos e rapidamente sumiram.

respirou fundo e levantou.

- Preciso mesmo ir! - ele lhe entregou sua arma e assentiu.
- Eu entendo. Precisa de um tempo para assimilar tudo isso - James levantou e acompanhou a menina pelo corredor até a porta de entrada. - ? - os grandes olhos dela estavam na figura de seu tio em sua frente. - Pode me dar um abraço?

Ela sorriu de forma verdadeira e entrelaçou os braços em volta do corpo de James, ele respirou fundo e o alívio pairou sobre seu peito. Seus braços fortes envolviam de forma fraterna, fazia tantos anos que ele sonhava com isso e a ideia de sua sobrinha - mesmo que de uma forma desconfiada - estivesse de volta para sua vida era de longe um alívio para toda a tristeza que teve durante todo esse tempo.
James a soltou e o sorriso ainda estava em seus lábios.

- Não demore tanto dessa vez, querida.
- Não vou demorar.
- É uma promessa? Os nunca quebram uma promessa.

acenou positivamente indo para seu carro, sua cabeça estava completamente em confusão, mas, mesmo assim uma parte sua estava aliviada. Com tantas informações rondando sua cabeça o último lugar que iria era para o apartamento, pensou por um momento e decidiu que teria a folga que tanto precisava.

Estava na Central Station, e de todos os lugares na cidade, era a seu preferido. Tinha música e bebidas boas.

- Boa noite, senhorita, vai beber o que? - o garçom era loiro e seu sotaque russo carregado lhe chamou a atenção.
- Uma Kauffman Soft, pura, por favor!

Ele sorriu e preparou a dose para que observava tudo com um pouco mais de curiosidade. Assim que a dose foi colocada em sua frente, ela virou sem cerimônias e terminou colocando o copo de volta no mesmo lugar indicando que queria mais.

- Vejo que está a procura de uma distração - depositou um sorriso para o garoto que a observava. - Fugindo de alguém?
- Queria conseguir fugir de mim…
- Eu me chamo Diego - ele sorriu e preparou outra bebida para ela um pouco mais forte.
- . E você fugindo de quem?
- Da vida, talvez!

O sorriso que o rapaz deu em sua direção, fez ficar um pouco mais animada, observou Diego sussurrar algo no ouvido da garota ao seu lado e a mesma assentiu com a cabeça atendendo outras pessoas. Em um movimento rápido ele tirou o avental e veio ao encontro dela sentando ao seu lado.

- Serei seu acompanhante essa noite - ela ergueu um olhar e ele riu.
- Se você é o dono do lugar, por qual motivo estava trabalhando? - perguntou brindando com ele.
- Você é uma ótima observadora! Gosto de me ocupar fazendo alguma coisa ou ajudando. Não suporto a ideia de virar um deles...

Diego apontou para o outro lado do salão e ela seguiu com a cabeça confirmando o que sempre via ali.
Não esperava, mas acabou tendo uma ótima companhia pela noite toda.

.

Mesmo não deixando explícito, gostava menos de seu trabalho do que qualquer outra pessoa. Quando era mais novo e idealizava sua meta de vida, não era incluso trabalhar como caçador de recompensas. Não estava incluso ter que se submeter a certos tipos de situações para que outras pessoas não sujassem as mãos, e infelizmente estava em uma dessas situações.
Seu escritório era no quintal de casa, não queria Kim ou Santiago tendo ligação direta com isso e não se sentia a vontade de tratar sobre esses assuntos lá dentro, por muitas vezes seus "clientes" iam visitá-lo e naquela área tinha entrada e saída alternativa para que ninguém se esbarrar.
Família sempre a parte dos negócios.
Sempre preferiu trabalhar na parte da noite, se sentia mais disposto e pensava com mais clareza, o que não estava acontecendo no momento. Exatamente hoje seus pensamentos estavam se dispersando de forma autoritária e não estava lá com muita paciência para esse ato, estava acostumado a controlar tudo em sua volta, principalmente quando envolvia algo tão pessoal.
Levantou seus olhos e o porta retrato de seus pais em sua frente chamou rapidamente sua atenção. soltou o ar de forma triste e abaixou a cabeça se sentindo sufocado, e ele sabia bem o motivo. Antes de se dispersar mais, escutou duas batidas delicadas na porta, e sorriu confirmando o que estava esperando desde de cedo. A presença de sua irmã.

- Atrapalho? - o sorriso de Kim o acalmava.
- Você sabe que não, está se sentindo bem?

Ela acenou positivamente e se sentou de frente para ele. Os olhos de Kim eram penetrantes e fez desviar os seus para qualquer outro lugar.

- O que está te destruindo desse jeito?
- Estou tão ruim assim? - passou os dedos jogando os fios de cabelo para trás e encostou em sua cadeira.
- Aos meus olhos sim... Gosto desse seu cabelo loiro, mas sinto saudade dos fios morenos.

sorriu, e seus olhou alteraram entre sua irmã e seus pais. Kim percebeu e seu rosto se tornou uma careta triste.

- Passei o dia pensando neles, aliás, passei o dia pensando em muita coisa, só não sei se consigo te explicar exatamente o motivo...
- Sinto muita falta deles também...
- Você a cada dia que passa se parece ainda mais com a mamãe, a semelhança às vezes é perturbadora - o sorriso de Kim brotou em seus lábios e antes que ela pudesse responder, continuou. - Não concordo quando você me compara com ele. Papai jamais sucumbiria do jeito que eu sucumbi. Seria vergonhoso...
- Você me mostra que está ainda mais parecido com ele quando se cobra desse jeito e se coloca em uma posição de culpado - apoiou suas mãos em seus rosto e escutou sua irmã com toda a atenção do mundo. - Sei que você está desse jeito desde que perguntou sobre seu trabalho. Ela é uma ótima observadora, mas errou em achar que você era do exército. E qualquer pessoa que te conheça bem o suficiente, sabe que esse assunto ainda mexe muito com você, e eu como sua irmã sei que você não gosta de fazer metade das coisas que faz...

Os olhos deles estavam brilhantes pelas lágrimas que estavam sendo formadas, mas, seu peito estava cada vez mais aliviado.

- Acho que eu nunca vou superar o fato de não estar mais na polícia. A forma como tudo aconteceu me faz ter uma raiva que eu me desconheço. Esse sentimento me faz ter medo das minhas ações e tudo isso... - ele apontou ao redor. - Me deixa um tanto quanto envergonhado, porque eu sei que você é responsabilidade minha e a ideia de fazer alguma merda e atrapalhar a sua vida...

Kim levantou e com passos largos sentou no braço da poltrona de seu irmão, puxou o corpo dele para seu colo e de forma carinhosa começou a passar os dedos finos por todo o cabelo, desembolando alguns fios.
havia puxado fisicamente mãe. Moreno com os olhos , ainda mais claros no sol. E Kim puxou o pai. Loira, com os olhos que variava entre o da mãe e o verde de Joshua, seu pai.

- Eu sinto um orgulho enorme de você, sabe disso não sabe? - ele balançou a cabeça positivamente. - Olhe tudo o que conseguiu construir sozinho. Quando eles morreram, você tinha dezoito anos, todo o peso e responsabilidade você assumiu de braços abertos, abdicou muito de você para me dar apoio e suporte - fechou os olhos, sua postura não estava tão firme, as palavras de Kim o relaxavam. - Eu sempre achei altruísta você ter abandonado seu sonho por nós...
- Você nunca me disse isso.
- Adiantaria alguma coisa? Na maioria das vezes só a sua opinião importa, você se fecha nesse seu mundinho e não abre espaço para que eu entre, então eu espero.
- Sei que você sentiria muito mais orgulho se eu não trabalhasse desse jeito, você nunca gostou.
- Não vê a diferença, ? - os olhos dele se abriram e observaram de forma séria. - Eu não gostar do que você faz não quer dizer que não te apoie ou não me orgulhe. Se essa foi a forma que você achou para estar um pouco mais perto daquilo que você sempre quis, o que eu posso dizer? Da mesma forma que você não concorda com várias coisas que eu faço e mesmo assim me apoia - Kim exibiu um sorriso cordial para ele e seus olhos foram até o retrato em sua frente. - O orgulho que eu sinto, eu tenho certeza que eles sentem também, você faz o impossível sempre.

abraçou a cintura dela e aconchegou ainda mais a cabeça em seu colo, absorvia cada palavra que sua irmã dizia. Sua irmã era a voz de toda sua razão, e embora ainda tivesse um peso enorme em suas costas, as coisas ficam mais claras e maleáveis quando conversava com ela. Na sua cabeça, Kimberley escolheu a profissão perfeita para vida.

- Você é uma ótima psicóloga... - ela sorriu e apertou mais ainda os braços nos ombros de seu irmão. - E como irmã, você é perfeita, não sei o que seria de mim sem você.
- Detesto que você se cobre tanto, a vida pode ser leve, entende? Quanto tempo tem que a gente não faz nada juntos? - ponderou e balançou a cabeça. - Aliás, quanto tempo tem que você não faz nada a não ser ficar enfurnado nesse escritório?

O celular de vibrou e um número desconhecido apareceu na tela.

- Não vai atender?

Ele levantou e recusou a chamada.

- Tenho o número de todas as pessoas que possam querer falar comigo neste momento - o sorriso dela estava mais aberto e seu olhar era um misto de alívio e felicidade. - Saiu um filme interessante na Netflix que eu acho que vai gostar, mas você que vai fazer a pipoca.

A gargalhada de Kim fez seu peito se inundar de alegria. estava precisando de um tempo e sua irmã estava completamente certa.

- Fechado... - enquanto saíam do escritório e entravam em casa pela porta dos fundos, Kim pensou por um momento antes de perguntar. - Você está de férias, então?
- Mais ou menos, só preciso terminar uma coisa e pronto. O que você quer fazer primeiro?

A boca de Kim se curvou de forma pensativa.

- Monto nosso roteiro amanhã.

Ele assentiu e sentou no balcão esperando sua irmã terminar o que estava fazendo, algumas coisas estavam em sua mente, inclusive seu encontro com .

- Kim, você lembra daquele parque que íamos com nossos pais? - ela balançou a cabeça sem prestar muita atenção. - Você sabe se o lugar ainda continua do mesmo jeito?
- Era o Gorky, não era? Acho que sim, está pensando em ir lá? - assentiu e pegou o celular. - Sozinho?

Um sorriso tímido passou por seus lábios, Kim sorriu de forma divertida revirando os olhos

- Eu sabia que você está tramando alguma coisa!


Capítulo 6

.

Fazia alguns dias desde a última vez que encontrou com seus novos amigos e ficou extremamente atarefada com a limpeza que resolveu fazer em seu apartamento, mesmo sabendo que uma parte estava apenas tentando passar o tempo enquanto seu tutor estava fora. Vincenzo voltaria hoje de viagem e enfim ela iria conseguir conversar com ele e tirar todo o peso da dúvida de si.
Sua conversa com James a deixou com várias coisas pendentes em sua cabeça, coisas essas que sabia que apenas três pessoas iriam sanar e duas delas infelizmente estavam indisponíveis.
Mas, uma parte inconsciente estava sentindo falta da risada calorosa de Kim e até mesmo da forma assustada que Santiago a olhava, sem contar que ainda tinha um encontro pendente com , que de acordo com sua irmã estava aproveitando as férias em casa com ela, mas esses pensamentos a preocupavam pois ia contra tudo aquilo que pregava fielmente: Não se apegar.
Antes que outro pensamento invadisse sua cabeça e continuasse a confundi-la cada vez mais, seu celular acendeu e um nome apareceu na tela.
sorriu e sentou no sofá da sala para responder

?:
"Acho que você esqueceu o que me prometeu."

"Um passarinho loiro me contou que você está de férias, não quis atrapalhar."



Uma batida na porta chamou a atenção de e seu peito se encheu de incerteza e receio. Ela abandonou o celular em cima da mesa e atendeu a porta vendo Vincenzo sorrir de forma gentil e abraçar seus ombros tenso.

- Aconteceu alguma coisa? - fechou a porta e observou Vincenzo sentar no sofá.
- Eu conversei com meu tio!

O semblante dele se tornou uma máscara absoluta de surpresa, seus olhos passearam por todo rosto de a procura de qualquer indício negativo. A respiração de Vincenzo se tornou um pouco mais forte, ele esperou isso por tantos anos que há muito se tornou uma lembrança esquecida. continuou parada em sua frente, as mãos estalando seus dedos de forma rápida e demonstrou que estava mais ansiosa do que podia imaginar.
Izabella tinha a mesma mania.
Vincenzo bateu a mão ao seu lado no sofá e se virou quando a menina se sentou, uma parte sua iria ficar aliviado por não omitir alguns fatos tão importantes, mas uma outra parte temia pela segurança dela.

- Devo entender que James te contou até a parte que seus pais faleceram, sim? - sua voz rouca estava suave, mas seus olhos atrás do óculos denunciava um desconforto desconhecido antes por . - Ótimo, é a minha vez de te contar outras partes.

sentou mais confortável e ignorou qualquer coisa ao seu redor. Sabia que iria descobrir coisas sobre sua vida que nem imaginava que pudesse existir e embora uma pequena parte sua se sentisse traída, sabia que a outra estava extremamente preparada e ansiosa para saber todos os detalhes.

- Sua mãe e seu pai eram pessoas boas, mas, como todo mundo, tinham segredos. Após se formar e começar a servir no exército, Izabella não parou de ajudar seu tio - o olhar de se arregalou em surpresa por um breve instante. - Sempre que alguém dava indícios de estar observando ou planejando algo contra James, Iza o avisava e automaticamente ele mudava os planos.
- Mas, ela não trabalhava na polícia...
- O melhor amigo dela sim, ele trabalhava na polícia e ninguém jamais suspeitou que era o informante. Isso contribuiu para toda a "sujeira" ser mascarada e mais uma vez seu tio estava livre.
- Então minha mãe colocava a carreira dela em risco para proteger meu tio?
- Não necessariamente. Izabella sempre foi esperta e sua família era mais importante do que qualquer coisa para ela.
- Eu ainda não consigo entender o que eu tenho a ver com tudo isso...
- As coisas mudaram depois que você nasceu, . Não só seus pais começaram a ter alguns receios, James também está incluso. Thompson foi o primeiro a pedir licença, por isso seu pai ficava tanto tempo em casa. Raramente ele era chamado de volta a base, entretanto, Iza não podia abandonar tudo, entende? - assentiu. - Só que a base onde trabalhava não era a mesma, o sargento de sua mãe não era tão limpo quanto os bandidos que estão soltos, e diversas vezes Iza teve que pedir ajuda ao seu tio para conseguir salvar a própria pele.

O rosto de era uma máscara de confusão. Vincenzo retirou seus óculos e massageou as têmporas.

- Então eles trabalharam juntos? - Vincenzo assentiu acenando positivamente. pensou por alguns segundos e relembrou de todo o arquivo do assassinato dos pais. - Minha mãe não parou de trabalhar com o James, não é? Por isso as coisas começaram a dar errado, o sargento dela começou a suspeitar e colocou alguém para observá-la.

Vincenzo sorriu, mas seu olhar era triste.

- Ele estava trabalhando infiltrado, levava todas as informações para uma organização criminosa na Itália e estava próximo de conseguir o que tanto queria, matar o comandante e tomar a base. Sua mãe descobriu ouvindo uma de suas conversas e pediu para o irmão a ajudar. Não demorou muito e James conseguiu as informações. Acho que em tantos anos de vida eu nunca vi Izabella estar errada, não seria diferente dessa vez.
- Ela não tentou alertar alguém?
- Ela tentou contar para o comandante, depois de anos servindo e ajudando, achou que ele fosse lhe dar um voto de confiança... - os olhos dele se tornaram distantes. - Estava completamente enganada, além de suspender sua mãe por alguns meses, o comandante acabou soltando tudo o que Izabella falou para o homem. Foi nessa época que sua mãe descobriu uma coisa importante... Era mais seguro estar com a máfia do que com o exército. A organização veio atrás dela, armou uma emboscada e teriam conseguido se não fosse pelos homens de seu tio e ajuda do amigo policial.
- Essa organização não sabia sobre meu pai e eu? - Vincenzo balançou a cabeça negando de forma rápida. - O que aconteceu depois?
- Sua mãe foi atrás de cada um deles e os matou - arregalou os olhos, a ideia de sua mãe matando alguém fora do trabalho não conseguia entrar em sua cabeça. - Izabella tolerava muitas coisas, menos que colocasse sua família em risco. Resolveu a situação do jeito que estava acostumada.
- Acostumada?
- , antes de sua mãe abandonar os negócios da família, ela trabalhou durante alguns anos com seu tio. Percebeu que a máfia não se importava com idade ou gênero e lutou bravamente para mudar isso, foi difícil, entretanto, depois de anos conseguiu deixar os homens de James com uma certa humanidade. Nessa época Iza estava com idade suficiente para se alistar - fechou os olhos e seu coração batia de forma rápida em seu peito, toda a ideologia de sua vida estava sumindo de sua cabeça. - Entendo que isso foge de tudo que você sabia sobre sua mãe, mas, essa era a vida que tinha antes e apesar de tudo se orgulhava. Izabella não matou ninguém que não tivesse verdadeira culpa, era esse o termo com quem trabalhava com seu irmão. Os dois trabalhavam de forma justa e James implantou esse "novo sistema" para seus homens e alguns conhecidos. Quando visitou o esconderijo dele, não percebeu como são civilizados? Sei que teve encontros com outras associações. Contudo, a vocação de sua mãe sempre esteve explícita e James sabia que só iria ver a irmã feliz se ela seguisse o sonho, e deu total força para Iza seguir. Mandou-a de volta para o Rio de Janeiro e 1 ano depois estava trabalhando onde sempre quis, no exército.

continuou silenciosa, seus ouvidos forçavam as informações para sua cabeça e a deixou tonta com tudo isso. Ela lembrou das palavras de James e ficou com raiva, tinha pedido a verdade e ele omitiu informações extremamente importantes.

- Sei o que está pensando, . Foi eu que pedi para seu tio não lhe contar essas coisas - os olhos dela se tornaram frios. - Não queria que você entrasse em negação e se revoltasse contra ele. Sua família sempre foi conhecida por ter um gênio difícil e eu sei que você não iria acreditar tão fácil nessa parte da história.
- Vincenzo, peço para que você termine de contar tudo o que precisa de forma rápida... - as palavras de eram bruscas e o semblante dele se tornou um pouco receoso.
- Depois da morte dos seus pais as coisas se tornaram piores, fomos atrás do sargento que trabalhou com sua mãe e descobrimos que ele estava morto após tomar um tiro anônimo no batalhão, assim como o comandante. A maioria das pessoas que teve contato com seus pais estavam mortas e isso nos fez tomar decisões extremas. De início nossa preocupação foi você, com a ajuda do policial nós a tiramos da cena do crime e a escondemos, depois voltamos para a casa e destruímos qualquer evidência que Izabella ou Thompson haviam tido uma filha, mas seu tio não podia ficar com a sua guarda. Era o que Izabella mais pediu, então concordamos que alguém deveria ser seu tutor... - a voz de Vincenzo era extremamente carinhosa agora. - Pedimos para a advogada da família passar sua guarda para meu nome e ela providenciou tudo de forma rápida e sigilosa. Porém eu tenho uma suposição que estava tudo preparado.
- Quantas pessoas morreram ao todo?
- Sete pessoas ao todo.
- Sete? Quem são as outras três pessoas?
- A advogada, o policial e minha esposa... - a voz de Vincenzo era triste e um peso caiu nos ombros de . - Como eu disse, todos que tiveram contato direto com eles estavam mortos e isso fez James pedir para nós dois nos afastarmos por um tempo, ele se preocupava com a sua segurança mais do que a própria vida.
- Foi a época que voltamos para o Brasil... - ambos respiraram fundo e um silêncio esquisito pairou na sala. - Existe mais algum detalhe que queira me contar? - a voz de era absurdamente distante.
- Filha, quero que você entenda que tudo que fizemos foi para sua completa segurança, mudamos de país, cortamos qualquer tipo de contato com seu tio, não me arrependo de nada do que eu fiz.
- Agradeço tudo que fez por mim e sei que todos passaram por cima da própria vida para que eu pudesse ser salva. O que eu ainda não entendo é o motivo que nem mesmo você me contou toda a verdade... James fala que cumpriu com a palavra que prometeu aos meus pais, mas nesse aspecto ninguém pensou no que eu poderia passar ou pensar quando descobrisse.
- Quando você cresceu o bastante, eu pensei em vários jeitos de contar sobre, conversei com seu tio e ele deixou a responsabilidade em minhas mãos. Contudo, uma parte minha não quis trazer toda aquela dor e tristeza de volta. Eu ouvi todas as noites que você chorou, todos os pesadelos que teve, todo os traumas que te acompanham até hoje. Na época você estava terminando os estudos e um dia eu ouvi você falando que queria seguir o exército. Sei que errei em não ter te contado, mas conhecendo você o suficiente, eu sabia que na primeira oportunidade você iria vir atrás de tudo isso... - Vincenzo acariciou os cabelos de e os olhos dela estavam fechados. Nada se comparava a tudo que escutou. - Peço desculpa por não ter contado, filha. Queria poupar você de todo o sofrimento e confusão que pudesse tornar você triste de novo.

Os olhos de Vincenzo examinaram o rosto da menina. estava pálida, com olhar perdido e úmido e fez o coração dele se apertar. era sua filha, o amor que nutria por ela era de pai, e pensando nisso a puxou gentilmente para seus braços e a abraçou forte. Ela não conseguiu mexer nenhum músculo de seu corpo, seu cérebro estava em pane e a única coisa que queria era ficar sozinha e pensar em tudo isso.
Os minutos silenciosos pareceram horas até se mexer. Ela deu um beijo no rosto dele e saiu do abraço. Vincenzo conhecia a menina e sabia que precisava dar um tempo para ela assimilar tudo o que tinha escutado.

- Vou dar o tempo necessário para que você entenda e assimile tudo. Quando estiver pronta eu estarei aqui para você, tudo bem? - assentiu de forma mecânica. - Amo você, filha.

Vincenzo chegou mais perto da menina e deixou um beijo em sua testa a observando uma última vez antes de sair. não o acompanhou com os olhos, mas ouviu quando a porta fechou e não demorou muito e sentiu seu rosto molhado.
Não percebeu, mas chorava, seus olhos foram até o painel de fotos e seu coração doeu, sempre amaria seus pais e os levaria por toda a vida, mas seu coração doía por saber que parte de sua vida era falsa, mesmo que fosse por sua segurança.

Kimberley.

A tarde passou tediosa e Kim não aguentava mais ficar em casa, antes era por conta de seu "acidente" e seu repouso, mas agora não tinha mais o que fazer. Não iria conseguir concluir o semestre na faculdade então tinha adiantado todos os trabalhos para a nota que pegou com a coordenadora.
Felizmente as férias do estágio acabaria em dois dias e isso a deixava com peito quentinho, sentia falta das "suas crianças”. Mas, o tédio que Kim sentia deixou-a irritada. estava indisponível com um cliente, havia conseguido encontrar a menina que estava desaparecida e foi pegar a recompensa. Santiago disse que estava ocupado resolvendo algumas coisas. Mandou algumas mensagens para e não obteve resposta. Kim estava frustrada e bufou levantando, indo para a cozinha, se não iria conseguir passar o tempo com seus amigos iria passar o tempo comendo.
Antes de começar a preparar um lanche, o barulho do carro de chamou sua atenção. A menina sorriu e foi pulando até a porta dos fundos, assim que ele entrou ela o recebeu com um abraço aliviado.

- Isso tudo é saudade? - perguntou e levou Kim agarrada em seu corpo até a sala.
- Eu não aguento mais ficar em casa sem fazer absolutamente nada... como foi lá?
- Tudo certo, estou oficialmente de férias por tempo indeterminado - Kim observou seu irmão sorrir de forma branda. - O que acha de nós dois sairmos hoje? Agora que você está liberada das restrições podemos beber alguma coisa.

O rosto de Kim iluminou e um gritinho animado saiu de seus lábios, observou a hora no relógio em seu pulso e sorriu levantando. Um pigarro saiu da garganta de antes de falar.

- Se quiser, pode chamar sua amiga. Eu cogitei falar com Santiago, mas ele comentou comigo que estava ocupado - Kim assentiu e um sorriso malicioso moldou seus lábios. - Quando estiver quase pronta me chama, vou tentar descansar um pouco.
- Pode deixar que falo com ela.

riu e balançou a cabeça entrando no quarto.

Santiago.

Se não bastasse os sonhos com sua irmã desde que conheceu , agora a culpa da morte dela voltou a cair sobre seus ombros com uma força fora do comum. Essa situação abalou Santiago da mesma forma que tinha acontecido há doze anos atrás.
Santiago se recusou a levantar da cama o dia inteiro, ignorou todas as vezes que seu celular tocou, e quando resolveu que era hora de tomar um banho, se arrependeu ao se olhar no espelho e seus olhos castanhos claros estavam opacos, sem vida e brilho. Sua pele abatida e os lábios sem cor.

- ¿Qué esta pasando contigo? - as palavras em espanhol saíram amargas de sua boca.

Não demorou muito e Santiago estava de volta em sua cama. Olhava o teto de forma triste e tinha medo de quando dormir ter o mesmo sonho. A repetição da morte de Sally estava o destruindo de forma rápida e dessa vez Santiago estava com medo de ser fatal.
Desde que Sally morreu, esse sentimento se instalou dentro de seu peito e nem os anos de terapia foram o bastante para a ideia sumir por completo. Esse foi um dos motivos - se não o único motivo - por ele optar por morar longe dos pais. Tudo em sua casa lembrava ela, desde as fotos nos porta-retratos até o cheiro de seu perfume que ainda pairava por um cômodo ou outro. Agora Santiago estava sucumbindo a aquela vozinha no fundo de sua consciência, era nocivo, doloroso, era destruidor.
Ele conseguia escutar a voz de Sally pedindo ajuda, ouvia todos os aparelhos ligados em seu corpo, ouvia as vozes dos médicos falando que não havia mais jeito e ouviu o coração dela parando de bater...
As lágrimas rolaram de forma forte por seu rosto, uma hora ou outra um espasmo passava por seu corpo e sua garganta engasgava. Santiago sentia uma dor absurda em seu peito, causando tanto desconforto que não conseguia respirar de forma correta.
Uma parte inconsciente sabia que poderia estar próximo de uma crise de pânico ou ansiedade, mas não se importou no momento. Em meio a um espasmo e outro, o celular de Sant acendeu, era perguntando se ele não queria realmente sair com Kim e ele, e mesmo querendo, não poderia aparecer nesse estado para seus amigos, já podia observar os olhos preocupados de e o choro desesperado de Kim. Não iria fazer isso com eles, não depois de ter passado toda aquela turbulência com a saúde da menina a pouco.
O inconsciente de Santiago só queria falar com uma única pessoa e por obra do divino ela estava ligando.
Santiago limpou as lágrimas e respirou fundo algumas vezes antes de atender.

"- Estaba rezando y tu nombre gritó un poco más fuerte en mi cabeza, ¿qué estaba pasando, hijo mío?" - um sorriso incrédulo passou pelo rosto de Santiago, mãe vem com um sexto sentido embutido, ele pensou.
- Pasé todo el día pensando en Sally.

A ligação ficou muda por alguns instante, Amélia respirou fundo, a voz de Sant não escondia que estava chorando desolado. O coração de sua mãe estava apertado e se culpando por não estar por perto.

"- Habla con tu madre, hijo mío, estoy aquí para ti."
- Kimberley tuvo un accidente y conocí a la chica que la salvó. Mamá, es extrañamente como Sally, la forma, la forma en que sonríe, el color de sus ojos... - Amélia ouvia tudo atentamente, seu coração se agitou um pouco com a informação. Tinha medo que a semelhança da menina com sua filha poderia causar um estrago grande em Santiago. - Es mi culpa, lo sé.
"- No es tu culpa, no te culpes por algo así, tu hermana te amaba más que a nada en el mundo" - um soluço escapou pelos lábios de Santiago. - "Te amo y me duele saber que, incluso después de todos estos años, esta culpa te persigue."
- Lo sé, necesitaba escuchar tu voz, mamá.
"- Cada vez que me llamas, escucho, rezo por ti" - a voz de Amélia o acalmava.
- Te amo, mamá, la bendición.
"- Que Dios te bendiga y te ilumine, te extraño."

Santiago finalizou a ligação, mesmo sabendo que sua mãe estava ao seu lado e sempre ficaria, sabia que a menção de Sally mexia em uma ferida que também estava aberta no peito de Amélia. Era de seu arquétipo ser assim, odiava preocupar sua mãe e não estava disposto a fazê-la sofrer por isso, mesmo significando que ele mesmo ficaria na merda.
A conversa com sua mãe continuou em sua cabeça rodando para que qualquer outro pensamento não pudesse atravessar essa barreira. As lágrimas continuavam descendo pelos seus olhos, o medo e a culpa se misturando em seu interior. Santiago queria poder descansar sem seus pensamentos o levarem para uma dimensão que o destruísse, e esse pensamento o levou a tomar uma medida desesperada. De forma deliberada, Santiago abriu sua gaveta de remédios e no fundo pegou uma cartela do calmante para emergências. Não se orgulhava e muito menos gostava de seguir por esse caminho, mas, era a única forma que ele iria conseguir dormir.
Tomou dois comprimidos e apertou o porta retrato de sua irmã em seu peito, por um momento uma ideia absurda passou pela cabeça de Santiago e logo se arrependeu, ele gostava de estar vivo. Sua cabeça cantarolou uma antiga cantiga de ninar que sua mãe cantava para eles quando eram crianças e no meio dela o remédio fez efeito.
Pensou nas palavras de Amélia e fez disso um mantra: sempre que você me chama eu ouço. Santiago soltou a respiração de forma calma pela primeira vez no dia e fechou os olhos.

- Cuidame mamá!

.



- Eu realmente queria ir dirigindo - Kim bufou, se sentindo frustrada.

revirou os olhos pela décima vez pelo o que parecia. Estava terminando de colocar a camisa e encarava a irmã na porta do quarto quando repetiu.

- Nós vamos beber, você sabe muito bem que eu não gosto de beber e dirigir, muito menos deixar você dirigir - foi a vez dela revirar os olhos. - O uber já está vindo.

ajeitou o cabelo e desceu atrás de Kim, não demorou muito e a buzina chamou a atenção deles.

- Einstein Lounge, por favor.
- Pensei que íamos para uma balada.
- Quero fugir de bagunça por hoje!

Kim assentiu e desbloqueou o celular, um olhar triste passou por seus olhos.

- Aconteceu alguma coisa?
- Nada demais. Está se sentindo bem?

assentiu.

Alguns minutos depois o carro estacionou, as pessoas passavam animadas de um lado para o outro, o sotaque russo se misturava ao inglês naquela parte da cidade de forma harmoniosa. Uma vez ou outra, alguém lançava olhares curiosos na direção dos irmãos e logo desviava. Kim abraçou ele pelo pescoço e sorriu animada.

O Einstein Lounge era o pub preferido de . Quando queria fugir de toda a bagunça da cidade era ali que ele se sentia bem. A arquitetura do lugar era bonita e aconchegante.
Kim estava observando seu olhar crítico antes de puxar a mangueira do Narguilé para os lábios, logo a fumaça rosa saiu de sua boca de forma densa atraindo seu olhar paterno.

- Porque você não investe na carreira de fotógrafo?
- É só hobbie, não sirvo para trabalhar com isso - Kim balançou a cabeça e revirou os olhos. - Preferia que você não usasse esse tipo de coisa, você sabe! - estendeu a mão para a outra mangueira e foi a vez de puxar a fumaça. O olhar de sua irmã era um misto de ironia e deboche. - Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

piscou para ela e a garçonete apareceu para anotar seus pedidos.

- Boa noite, o que desejam?
- Um Black Russian em um copo grande, por favor - Kim pediu e continuou com o narguilé nos lábios.
- Um Cosmopolitan duplo... Quer comer alguma coisa? - Kim assentiu e olhou o cardápio. - Eu estava com vontade de pedir uma porção de japonês.
- Por mim tá ótimo!

A garçonete anotou os pedidos e sorriu os deixando sozinho. O celular de vibrou e por um momento um alívio repentino passou por seu corpo, mas não era Santiago lhe respondendo, o menino soltou a respiração de forma rude e discou o número dele e esperou pacientemente, nem mesmo a música estava conseguindo o distrair naquele momento.

- O que aconteceu? - a bebida chegou pelas mãos de outro garçom e Kim foi a primeira a saborear o drink de café que escolheu. - Está com essa cara de preocupado desde que você chegou hoje cedo.
- Não estou conseguindo falar com Santiago, estou ficando preocupado, sabe? Alguma coisa não está certa - Kim manteve seus olhos no rosto de seu irmão e prosseguiu. - Ele ficou bastante perturbado com a semelhança de e Sally, tenho medo do que isso pode causar nele. Amanhã vou procura-lo!

Kim ponderou por alguns instantes entendendo o semblante de Santiago em sua casa. Agora fazia sentido e uma parte sua ficava mal por não estar com o menino nesse momento.

- Deixe que eu vou - Kim pediu. - Prometo te contar tudo, mas, deixe que eu vá falar com ele.

pensou por um momento e assentiu. A comida deles não demorou para chegar e preferiu mudar de assunto, sempre adorou a culinária japonesa e poder estar com sua irmã o agradava ainda mais.


Capítulo 7

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continuou deitada no mesmo lugar desde a noite passada, desligou seu celular e pediu para o porteiro do prédio não deixar ninguém subir ou incomodá-la.
Sua cabeça doía, seu peito doía, seus músculos estavam tão tensos que doíam a cada mínimo movimento que fazia, até respirar provocava dor. Era sufocante, fez sua cabeça imaginar várias situações impossíveis, e seu subconsciente implorou por ajuda, mas a maior parte dela ganhava: a parte que queria fazer sofrer até o último dia de sua vida.
Não conseguiu dormir a noite inteira, por diversas vezes ficou tentada em tomar os remédios que tinha para conseguir descansar, mas teve força o suficiente para se impedir.
Queria Thomas perto para ajudar, queria que os pais estivessem vivos para toda essa angústia sumir de seu peito. Seus olhos estavam inchados e a claridade doía quando ia de encontro a eles. Por um momento a imagem de Kimberley veio em sua mente em uma súplica silenciosa, mas não estava apta para pedir ajuda, não queria contar sua história e muito menos explicar porque estava assim, ainda era doloroso pensar em seus pais e todas as mentiras que haviam guardado por toda sua vida. Entretanto, existia um lugar que queria ir e talvez depois disso as coisas ficassem melhor.
O sol ainda não havia nascido completamente quando ela - com muita muita força de vontade - levantou da cama e foi em direção ao banheiro, fez o que pode para esconder a noite que passou, o que não foi muito possível e colocou os óculos escuro rosto, pegou a chave da moto e passou de forma rápida até a garagem ignorando qualquer coisa em sua volta.

O Cemitério Novodevichy é um dos cemitérios mais conhecidos da Europa, seus pais estavam enterrados lá e fazia algum tempo que não os visitava. Cumprimentou o guarda do local e antes de entrar respirou fundo, havia parado em uma floricultura e agora em suas mãos levava uma das flores preferidas deles: orquídeas.
A catacumba estava na área mais afastada do cemitério e levava o nome de "jardim dos anjos", dividia espaço com outras pessoas tão significativas quanto eles foram. agradeceu por ainda não estar nevando, pois mesmo a alguns metros de distância ela conseguia ver a foto deles estampadas na lápide e mais alguns passos a frase também podia ser lida: saudade é o amor que fica.
Ajoelhou em frente e por longos minutos as lágrimas desciam como cascatas de seu rosto e chegavam ao chão de forma rápida, colocou gentilmente as flores no chão e fechou os olhos deixando todo o sofrimento e confusão junto com suas lágrimas que lavam seu corpo e sua alma de forma branda.

Uma hora passou até estar pronta para levantar e voltar para casa. Seu peito não estava tão apertado e um sentimento de alívio tocou seus ombros, podia não acreditar em muitas coisas, mas sabia quando seus pais estavam por perto. abriu os olhos e encarou as fotos de Izabella e Thompson, um sorriso apareceu em seus lábios quando passou os dedos ali deixando um beijo carinhoso.

- Eu entendo vocês. Obrigada!

.

A sensação de era que sua cabeça servia de moradia a algum E.T e ele estava sapateando em seu cérebro. A noite com sua irmã tinha sido sensacional, o problema foi a quantidade de drinks que ele bebeu, três batidas na porta e a sensação de explosão na cabeça foi enlouquecedora.
Kim entrou silenciosa no quarto trazendo um remédio e um copo de água, o sorriso divertido estava em seus lábios e sabia que não escaparia das brincadeiras maldosas.

- Não levante, não quero mais te ver sem roupa - olhou embaixo da coberta e seu rosto se tornou vermelho de vergonha, Kim deu uma risadinha e ajudou o irmão a tomar os remédios. - O café tá pronto!
- Obrigada! - o olhar dela ainda estava um pouco triste e isso fez despertar mais rápido. - Pode falar, desde ontem você está esquisita.
- Não consigo falar com , estou ficando preocupada!

Eles trocaram um olhar cúmplice de forma rápida se entendendo em silêncio.

- Coma alguma coisa e se cuide, volto mais tarde.
- Vou ligar para . Me dê notícias!

Kim sorriu e balançou a cabeça de forma positiva saindo logo em seguida do quarto.
A fisionomia de invadiu os pensamentos de e ele se sentia preocupado, mandou uma mensagem e esperou. O conteúdo não havia sido entregue ao celular dela e isso fez se preocupar ainda mais, de forma rápida discou o número da menina e esperou ansioso para ouvir sua voz.

"- Alô?"

A voz de foi um sussurro triste e não precisou de muito para saber que a menina não estava bem.

- Oi, estávamos preocupados com você, está tudo bem?

murmurou um "uhum" baixo no celular e o peito de se apertou, mesmo nesse caso ainda parecia uma muralha impenetrável.

- Deixa eu te buscar, tem um lugar que sei que vai gostar.
"- Alex, não estou muito…"
- Confie em mim
pelo menos uma vez! Posso?

A ligação voltou a ficar silenciosa, um misto de conflitos passaram por sua cabeça, mas se acalmaram quando ouviu sua resposta.

"- Vou te passar o endereço... - um sorriso vitorioso brotou em seus lábios. - , não quero me arrepender.”



desligou a ligação e pulou da cama de forma animada, nem mesmo a dor de cabeça iria atrapalhar esse momento maravilhoso que teria. Não entendia, mas se sentia estranhamente feliz por saber que iria encontrar .

Meia hora depois e estava parado em frente ao prédio da menina. Avisou que estava esperando e cinco minutos depois a viu, os óculos escuros no rosto tentavam em vão esconder as olheiras e o olhos inchados, entrou no carro em silêncio, cumprimentou ele com um sorriso fraco e repousou a cabeça no encosto do banco fechando os olhos.
Como que alguém poderia mudar tudo em tão pouco tempo?
Era isso que pensava.

Kimberley.

Kimberley ligou para Santiago o caminho inteiro e nada, nenhum sinal do menino e isso se refletia agora. Já tinha batido na porta dele cinco vezes e não obteve resposta, cogitou chamar o porteiro, mas não queria fazer alarde.
Ela encostou a cabeça na porta e em uma súplica silenciosa pediu que nada tivesse acontecido com o menino. Olhou para a planta na porta de entrada e lembrou-se da chave reserva.

- Obrigada! - Kim murmurou olhando para o teto.

Abriu a porta e observou a sala vazia, a cada segundo o coração de Kim se apertou cada vez mais. Ela foi direto para o quarto do menino e seus olhos se aliviaram, Santiago estava ali. Kim fez uma busca minuciosa no quarto e encontrou a cartela de comprimidos ao lado da cama, leu de forma atenta e soube imediatamente que eram calmantes.

- Santiago? - balançou seu corpo mole e não obteve resposta. - Santiago, por favor. Não faz isso comigo!
Um choramingou baixo escapou dos lábios de Kim e não demorou muito a respiração de Santiago ficou um pouco mais ofegante e seus olhos se abriram, de forma calma Kimberley sentou ao seu lado e esperou seu olho entrar em foco.
A fisionomia de Sant era deplorável, seus olhos estavam inchados, as olheiras fundas em seu rosto e sua boca pálida demonstrou fraqueza. Em todos os anos que o conhecia nunca viu o menino desse jeito. Seu coração estava esmagado e preocupado, mas Kim assumiu uma postura firme para não podia piorar a situação.

- Oi Kim... - voz de Sant soou fraca, frágil e envergonhada. Ele viu ela segurando a cartela de remédios e desviou os olhos para o fundo do quarto. - Sinto muito, não queria que você me visse assim.
- Você precisa de alguns minutos para se ajeitar ou podemos conversar agora?

Santiago pensou por alguns segundos e olhou para o porta retrato ao seu lado.

- Quero apenas escovar os dentes.

Enquanto estava no banheiro, Kim foi até a cozinha e preparou um café bem forte para os dois, a tensão tomou conta de todo o apartamento e ela soube que a conversa com seu amigo não seria rápida.

.

O parque Gorky está situado às margens do Rio Moscou, e quando passou pela imponente entrada, observou as belas fontes com as esculturas, ao longe as quadras de vôlei de areia e ao seu lado algumas mesas de pingue-pongue, mais o que chamou sua atenção foi o lago com pedalinhos.
observou o sorriso tímido que apareceu nos lábios dela e suspirou aliviado, o dia estava ensolarado e isso contribuiu para que o parque estivesse ainda mais bonito. Antes de escolher um lugar para ficar, foi até a barraquinha de sorvete e pediu duas casquinhas.
v- Não sabia qual sabor você gostava, trouxe um misto.

sorriu e levantou os óculos escuros, seus olhos ainda estavam um pouco inchados, mas fingiu não perceber.

- É um dos meus preferidos. Obrigada!

observou seu olhar fissurado no lago e puxou suas mãos de forma gentil até a pequena fila.
Ele entrou primeiro e ajudou logo em seguida. Uma parte sua queria saber o motivo da tristeza da menina, porém sabia que ela não diria nada e ainda corria o risco de acabar o passeio antes de começar.
Um silêncio confortável pairou enquanto eles observavam o parque dali, por diversos momentos os olhos de paravam nela de forma curiosa e pareceu não se importar de estar sendo tão analisada. Os olhos dela tinham a coloração mais bonita que havia visto em outra pessoa e agora, com os raios de sol brilhando de forma intensa, mudavam de cor. Um sentimento de decepção moldou seu peito por não ter trago sua máquina fotográfica.
Teria alguma coisa em que não fosse nada menos do que surpreendente? Ele pensou.
passou os olhos pelo pescoço dela, sua nuca e se surpreendeu quando observou a camisa e a frase que estava estampada.
"if you can dream it, you can do it!"
Sua boca se curvou em um sorriso e ele desviou os olhos, percebeu e tentou em vão entender a reação do menino.

- Perdão? - a voz dela espelhou a completa confusão expressa em seu rosto, olhou novamente para a camisa dela e sorriu. - Surpreso?
- Bastante. Você e conto de fadas na mesma frase soa muito fora do normal. Desde quando você gosta de princesas, castelos e príncipes? - respondeu lambendo a casca do sorvete que derretia em suas mãos. - Me diga princesa, qual o seu conto de fadas preferido?

gargalhou e lhe entregou alguns guardanapos.

- Desde sempre, eu acho… me explique o motivo de estar tão surpreso, sabe tudo.
- Você não faz o tipo que acredita ou gosta de contos de fadas, sabe? - ergueu uma de suas sobrancelhas com o semblante um pouco mais sério. - Você consegue se imaginar no alto de uma fortaleza dormindo à espera de alguém te acordar com um beijo e ser feliz para sempre?
- Sou totalmente contra as pessoas beijarem as outras sem consentimento, mas não vamos problematizar os contos de fadas, uh? Porém, você não passou nem perto do meu preferido.

A atenção de voltou ao sorvete em suas mãos e continuou com os olhos bem abertos observando-a. Pensou em como sua aura estava mais leve e serena em comparação à hoje cedo.
Os cabelos soltos dela balançaram junto ao vento e o pôr do sol fez suas bochechas corarem ainda mais.

- No que você tanto pensa quando me olha? - os olhos estavam nos seus e fazia sentir um misto de curiosidade e intensidade antes desconhecido.
- Estou tentando desvendar os seus segredos, mas não ando tendo muita sorte!

sorriu travessa, colocou uma das mechas de seu cabelo atrás da orelha e olhou para o Rio Moscou ao longe.

- Não sou um livro aberto ou fácil de ser lido, .
v continuou fitando os olhos de e uma sensação serena se abateu sobre seu peito.

- Anjo, tenho uma lista de clássicos complexos em minha estante, não me importo em ter paciência…

A fisionomia de mudou. Invés de tímido, um sorriso enorme moldou os seus lábios, o contorno de seu rosto se iluminou e a menina ficou ainda mais viva sob os olhos de .

- Anjo? Gosto disso - estalou a língua no céu da boca e continuou com um sorriso no rosto. - Meu conto de fadas preferido é o da Bela e a Fera - ergueu as sobrancelhas por um momento pego de surpresa. - É tão inimaginável assim?
- Combina com você! Acho que é a primeira coisa que você me conta por livre e espontânea vontade.
- Perguntar antes de se render ao banco de dados nacional é sempre melhor - sua voz era minimamente ácida ao continuar. - Não concorda?

Esse assunto deixava incomodado pela culpa.

- Concordo e me arrependo. Você causou bem estar não só na vida de Kim e essa era a última forma que eu queria lhe retribuir. Sei que não tira o peso do meu erro, mas já se colocou em meu lugar?
- Sim! - a firmeza na voz da garota o pegou de surpresa. - Fora toda a problemática da situação da sua irmã, o meu tipo sanguíneo e toda bagunça que eu tentei solucionar, eu continuo sendo uma desconhecida e não tiro seu direito de querer proteger sua família, mas estou correndo o mesmo risco aqui... - apontou para ambos. - Você também é um desconhecido também e mesmo depois de ter errado, eu aceitei seu pedido de desculpas.

avaliou todas as informações por um breve momento, queria manter sua família em segurança, mas não poderia ser injusto com , se a menina quisesse fazer algum mal a Kim poderia ter feito, ou poderia não ter posto sua saúde em risco para que sua irmã estivesse sadia hoje.

- Kim fala que eu acabo pecando pelo excesso - a boca de se curvou em um sorriso infantil e fez se concentrar naquele único lugar. - Sei que você é uma pessoa boa e agora não somos mais tão desconhecidos assim.

assentiu e continuou com os olhos vidrados no céu que ficou cada vez mais alaranjado. retirou seu celular do bolso e apontou na direção do horizonte para capturar a linda coloração que se espalhou, aquele era seu lugar preferido do mundo e sentiu-se bem por compartilhar com . Olhou mais uma vez a garota e a imagem que se estendeu em sua frente era de longe digna de várias fotografias, pensou por um instante como seria tê-la como modelo e sorriu. Sem pensar muito no assunto - ou dar a chance de perceber - tirou uma foto e rapidamente bloqueou o celular.

- Esse lugar é mágico! Obrigada por me trazer!
- Meus pais, Kim e eu sempre viemos aqui, era um dos programas em família que tínhamos - foi pega de surpresa por ouvir algo tão íntimo. - Você só errou em uma coisa. - Alex estendeu a mão para ajudá-la enquanto desciam do cais para o cimento do chão no parque. - Eu não fui expulso do exército!

A informação atingiu com um alívio estranho. sorriu convencido e entrelaçou os braços com o de continuando passeio de forma silenciosa e agradável

Kimberley.

Kim estava sentada com pernas cruzadas e segurava seu café, observou Santiago em sua frente e desejou poder fazer algum milagre para ele não sofrer tanto. Estavam em silêncio a quase vinte minutos e quando Santiago respirou fundo e abriu os olhos, um balde de água fria caiu sob a cabeça dela.

- Minha irmã morreu quando eu tinha 12 anos, mesmo sendo mais velha que eu três anos nós éramos grudados. Quando Sally nasceu acabou desenvolvendo um problema no coração que até então não era grave... - Santiago deu uma pausa e uma lágrima escorreu por seus olhos. - A primeira crise aconteceu quando ela completou quinze anos, nós estávamos em casa e ela começou a reclamar de uma dor no peito, achamos que não era nada demais. O médico disse que o problema dela era apenas um sopro no coração e uma pessoa normal poderia viver com isso tranquilamente - Kim assentiu e continuou escutando tudo de forma silenciosa. - Levamos ela no hospital e o quadro dela se complicou pois não conseguia respirar sem a ajuda de aparelhos. Sally ficou internada por quinze dias e teve alta, o médico nos disse que estava tudo bem, mas que ela não poderia fazer esforço. Só que ela estava diferente e eu sabia que estava piorando, sabe? A partir daí começaram os desmaios, as febres rotineiras, perda de força, insuficiência respiratória. Nós fizemos todos os exames possíveis e ela estava "saudável".
- Ocorreu negligência médica?
- Bastante! O médico não fez o exame óbvio: tomografia. No dia em que Sally morreu, nós estávamos na praia, era nosso lugar preferido. Estava tudo bem até que nós começamos a brincar juntos e aconteceu a segunda crise, essa veio tão forte que ela chegou desacordada no hospital - as lágrimas de Santiago corriam forte por seu rosto, Kim pegou uma de suas mãos e entrelaçou. - Eu fui o caminho todo ao lado dela, rezando baixando para que Deus não a tirasse de mim. Sally tinha um tumor no coração bem raro, a maioria é benigno ou deriva de outros órgãos, mas o dela não, o dela apareceu de forma silenciosa e tomou metade dele antes que a gente pudesse fazer qualquer coisa.
- Já estava muito tarde para tratamento?
- Estava tudo tomado, entende? Sei que você entende porque trabalha no hospital de câncer - Santiago riu ironicamente e continuou. - O médico chamou nossa família para conversar e aconselhou que fôssemos nos despedir. Eu me lembro de todas as lágrimas que meus pais derramaram, mais nada doeu tanto quanto ver minha irmã naquele estado.
- Santiago...
- Ela morreu em minha frente, era uma confusão de aparelhos e médicos… os olhos dela estavam em meu rosto e me pediam ajuda... eu não pude ajudar. Ela morreu de mãos dadas comigo e seus olhos ainda estavam me observando - Santiago fechou os olhos e Kim puxou o corpo dele para o seu e o abraçou. - Isso me destruiu por tanto anos e agora piorou depois que eu conheci , sei que ela não tem nada a ver com isso, só que toda vez que lembro da semelhança entre as duas… A culpa da morte de minha irmã cai em meus ombros do mesmo jeito que caiu há doze anos atrás.
- Você não teve culpa alguma, entende? O médico deveria ter feito o trabalho dele.
- Ela me pediu ajuda Kim, e eu não pude ajudar. Imagine se fosse com ?

Kim se calou e seus olhos também estavam marejados, seu irmão era tudo que tinha na vida, não imaginava viver sem ele e nem queria imaginar algo assim. Santiago estava mole em seus braços e os espasmos de seu corpo sacudiam de forma leve o dela. Kim sentiu uma tristeza tão grande que era impossível colocar significado, sempre teve em Santiago um sinônimo de alegria e ver seu "irmão" tão destruído, com um olhar sem vida, fez seu coração se partir em milhões de pedaços. Ela optou por ficar em silêncio e esperar Sant conseguir colocar para fora tudo de ruim que sentia e aí sim ela iria ajudá-lo a dar um jeito em tudo isso.

.

O dia foi escurecendo e dando ainda mais espaço a lua cheia que aparecia brilhante no céu, faltavam cinco minutos para o parque fechar quando e foram para o carro.
Se pudesse por significado em sua tarde com , o mais próximo do sentimento que tinha no peito era bem-estar em todos os sinônimos da palavra.

- ? - ela virou o rosto para o rapaz e esperou. - Obrigada por ter aceitado!
O sorriso dela se escancarou ainda mais e sem dizer nenhuma palavra, deu a partida no carro fazendo o caminho de volta. era uma boa companhia até em silêncio e apreciava demais isso.

exibia um sorriso bobo no rosto quando parou no prédio de , queria continuar em sua companhia só para ter a certeza que ela não voltaria a ficar triste, mas sabia que existiam barreiras a ser quebradas antes disso.

- Obrigada de verdade pela tarde, !
- Espero que não tenha se arrependido.
v se esticou e deu um beijo carinhoso na bochecha dele. O sorriso de sem dúvida alguma era uma das coisas mais lindas que já viu e deixou seu peito vibrando em forma de alegria. Todavia, todos esses sentimentos a atingiram de uma tão abrupta que a sufocou. Ela se virou de forma rápida e saiu do carro, precisava pôr a cabeça em ordem antes de se apegar em qualquer sentimento, o que não precisava era de mais problemas em sua vida e tudo naquele menino cheirava a isso.
, por outro lado, continuou com a mesma cara alegre e não percebeu a súbita mudança no comportamento dela.

.

Mesmo evitando pensar, a sensação de alegria e acolhimento não saiu do peito de . Fazia horas que voltou para casa e mesmo assim ficou pensando na tarde agradável que teve.
Tinha que dar os parabéns a , nem nos seus melhores sonhos pode imaginar que ele seria tão educado e gentil ou que a ajudaria tanto mesmo sem saber o que tinha acontecido. O primeiro pensamento que teve foi alívio, o que menos precisava era um embate com o menino por algum motivo, e sabia que poderia acontecer dado ao gênio dos dois. Mesmo sendo um pouco fria, não era hostil e todo aquele cenário de bisbilhotar sua vida não a agradou de forma alguma, mas estava aliviada por ter acertado isso de uma forma harmoniosa.
Vincenzo passou em seu apartamento enquanto estava em seu encontro e deixou um risoto de camarão delicioso para ela jantar. O gelo dos dois deixou triste e fez uma nota mental de ainda essa semana o procurar e se acertar com ele também, mas antes precisava descansar.
Passeou pela lista de filmes e séries na TV e pegou celular abrindo na conversa de , percebendo que o ignorou sem a mínima pretensão.

?:
"Obrigada novamente pela tarde maravilhosa, espero que de alguma forma eu tenha a ajudado hoje mais cedo e torço para que esteja bem e hor."

"Não vou citar detalhes, entretanto, você me ajudou mais do que pode imaginar."



?:
"A surpresa pelo seu conto de fadas foi o bastante para meu coração, por favor, pegue leve com os detalhes. Boa noite, anjo."


sorriu com o apelido mais uma vez, estranhamente gostando de como soava.



"Boa noite, ."

repassou todos os acontecimentos nesses dois meses e seu coração ficou feliz por tanta coisa ter mudado.
Foi a primeira vez em anos que não sonhou com seus pais.

Kimberley.

Quando voltou para casa já passava da meia noite e sabia que talvez pudesse estar dormindo. O celular de Kim estava completamente descarregado, seu corpo exausto e a ideia de voltar a trabalhar amanhã não a agradou, depois de um dia desses só queria poder ficar na cama a maior quantidade de tempo possível.
Relutou muito sobre voltar para casa, não queria deixar Santiago sozinho pois uma parte sua estava bastante preocupada, mas seu amigo havia pedido para ficar sozinho e ela respeitou, mas antes ouviu ele prometer que não iria tomar remédios e se precisar estaria na casa dela a qualquer momento, e isso deixou Kim mais calma.
Antes de ajustar suas coisas para o longo dia que teria, Kim passou no quarto de seu irmão e observou a expressão serena em seu rosto, era explícito que a tarde de foi maravilhosa e ele merecia isso mais do que qualquer coisa. O celular dele piscou revelando uma mensagem não lida e daquela distância Kim conseguia ler bem o nome: Anjo.
Apenas uma pessoa poderia ser e um alívio passou pelo corpo de Kim. Saber que seus amigos estavam bem a deixou ainda melhor e com esse pensamento, ela resolveu que estava na hora de encerrar a noite de hoje e desejava com todas as suas forças que o dia de amanhã fosse melhor.


Capítulo 8

Kimberley.

O hospital Burdenko foi fundado no ano de 1706, nessa época o hospital era conhecido apenas como "Hospital de Moscou" e tratava apenas dos militares que ali residiam.
Foi pioneiro na cidade a ter uma ala inteiramente reservada para crianças com câncer, com uma equipe totalmente habilitada para o tratamento e também disponibilizando o dia da alegria, onde doutores e voluntários se caracterizam e passam a tarde com as crianças que estão internadas. Era esse hospital que Kimberley estagiava e pretendia trabalhar, a menina estava no último período de psicologia e cada vez que tinha contato com suas crianças seu coração se enchia de alegria, nutria um carinho enorme por todas elas.
Kim passou pela porta de entrada, bateu o crachá e foi em direção a sua sala, com o passar dos meses já tinha gravado todos os pacientes em todos os dias da semana e seu maior desafio - e mais apego - era daqui a 20 minutos: Sophya Smirnov.
Sophya era uma das pacientes mais graves que Kim cuidava, mesmo estagiando assumiu uma responsabilidade imensa quando aceitou cuidar dela. Desde de pequena a menina desenvolveu um tumor no tronco cerebral, isso a fez sofrer de fraqueza, rigidez muscular, perda parcial da audição, problemas com os movimentos da face e deglutição, fora os problemas com a sensibilidade. E contribuiu para Sophya parar a escola e ficar internada, com isso ela desenvolveu uma depressão tão severa que precisava de supervisão 24 horas por dia para não tentar nada contra a própria vida. E era esse o grande problema de Kim, mesmo com o relacionamento excelente, Sophya deixava bem explícito que uma hora ou outra conseguiria o que tanto desejava: sua morte.

- Oi Sophya, estou muito feliz em te ver!

Kim observou os fios de cabelos que cresciam, olhou o curativo que ela tinha na parte posterior de sua cabeça e de forma preocupada se sentou na cadeira em frente à cama. Os olhos azuis de Soph estavam perdidos e Kim sabia que quando estava desse jeito era porque tentava em vão buscar uma memória que não era mais sua.

- Ah, doutora Kim... Que bom que voltou! Estava sentindo sua falta.

Kim sorriu e voltou a ler a ficha de sua paciente. O tumor da menina tinha evoluído para a parte frontal do cérebro o que poderia ou não causar alteração na personalidade. Sophya estava um pouco mais debilitada desde a última vez, mas parecia a mesma.
Kim continuou lendo e anotando enquanto a menina observava curiosa.

- Como está se sentindo hoje, querida?
- Não ando sentindo muitas coisas, fora o cansaço meu corpo parece ser feito de gelatina - Soph quase não se mexeu enquanto respondia, estava apática e Kim pensou em como iria falar para seus pais que talvez não tivesse mais jeito. - Kim, você acha que Deus iria me odiar?

A psicóloga foi pega de surpresa, foi preciso mais do que alguns segundos para ela conseguir engolir o bolor em sua garganta e responder da melhor forma possível.

- O que te faz pensar nisso, Soph?
- Uma moça rezou por mim ontem, eu escutei quando ela disse, que se eu acreditar mesmo em Deus, eu estaria livre do sofrimento e a cura iria repousar em meu corpo. Eu sempre acreditei em Deus, doutora. Só que não quero estar viva, não quero continuar vivendo desse jeito. Os médicos pensam que o tumor está comendo meu cérebro e por isso eu não consigo assimilar o que acontece, mas eu consigo sim. Sei que minha mãe chora todos os dias por minha causa, sei que meu pai se culpa por tudo isso que acontece comigo, sei que alguns "deles" acham que eu sou um caso perdido e sei que você gosta de mim, mesmo não conseguindo me ajudar da forma que queria.

A garganta de Kim estava seca e mesmo surpresa Kim não poderia demonstrar a perplexidade em seu olhar ouvindo todas aquelas palavras, apenas agradeceu por estar com seu gravador, pois assim teria provas o suficiente para mostrar que Sophya não estava fora de si, a menina sabia exatamente o que acontecia em sua volta.

- Soph...
- Eu acho mais prático fingir que estou vegetando, assim eu consigo suportar a espera da morte. Você acha que eu sou louca? Isso é errado?
- Como sua psicóloga minha prioridade é cuidar de você e garantir que não tente nada contra sua vida e isso inclui seus sentimentos e seus atos...
- Sei que você é minha psicóloga, mas preciso de uma amiga... Não sou bipolar Kim, sei muito bem o que estou sentindo...

Kim respirou fundo e desligou o gravador em sua perna, foi em direção à cama de sua paciente e de forma gentil sentou e segurou as suas mãos.

- Eu não acho que você está ficando louca, querida, eu acho você muito forte! - os olhos frágeis da menina olhavam Kim com determinação e esperança. - Você quer minha opinião como amiga? Ok! Na Bíblia nunca esteve escrito que "aquele que crê em Deus está livre de sofrimentos", isso é um equívoco, as interpretações abrem de diversas formas para as pessoas e muitas vezes estão erradas. Parte da nossa humanidade é aceitar a inevitabilidade do sofrimento em algum momento e isso jamais te tornaria fraca. Você sabe das suas limitações e mesmo assim se preocupa com seus pais... - os cabelos de Soph espetavam sua mão enquanto acariciava sua cabeça. - É por isso que sei que não desenvolveu outras personalidades, mas, clamar pela própria morte não me deixa menos preocupada com sua saúde mental e é isto que me importa.
- Você acha que eu estou louca?
- Não! Eu acho que você está cansada, mas não louca.

Sophya assentiu e sorriu observando a forma que os dedos de Kim aliviaram a dor de cabeça que ela estava sentindo após a cirurgia. A psicóloga tinha material suficiente para provar que a menina ainda tinha um pouco de sanidade e preferiu passar o resto da consulta em silêncio. Poderia não ser o ato mais profissional, mas fez do mesmo jeito.
Quando o horário acabou, Kim ajeitou suas coisas para sair da sala, mas antes de sair Sophya chamou sua atenção novamente.

- Você tem fé em mim, doutora?
- Muita!

O sorriso de Soph deixou o coração de Kim quente, ela saiu da sala e reforçou que os enfermeiros não deixassem mais a menina sozinha em hipótese alguma e após isso foi até a sala de sua coordenadora para comunicar seu descontentamento com o grupo de orações.

- Samantha, sei que as pessoas que rezam aqui tem fé e querem ajudar, mas gostaria de pedir para que eles tomem cuidado com o que falam. Existem muitas coisas que não precisam ser ditas e vão contra as diretrizes do hospital.

A coordenadora ouviu a gravação concentrada e com o semblante sério.

- Você tem total razão, Kim. Sinto muito que isso tenha acontecido, vou deixar avisado para todos eles. E, muito obrigada por me comunicar. Kim concordou e ao observar o olhar de Samantha continuou esperando.
- Pode falar, Sammy.
- Qual seu tipo de relação com sua paciente?

Kim arregalou os olhos um pouco e engoliu em seco antes de responder.

- Psicóloga e paciente. Algum problema?

Samantha continuou observando em silêncio antes de balançar a cabeça e enfim responder.

- Tudo bem, pode ir, querida!

Kim saiu da sala e sentia tensa, principalmente quando se lembrou dos pais da menina. Como psicóloga deveria comunicar mais uma vez para eles o estado médico e mental da filha.

.

se permitiu ficar ainda mais tempo na cama enquanto sua cabeça ainda estava assimilando todas as informações, mas outra pessoa estava tomando um pouco de sua consciência, e isso vinha acontecendo com bastante frequência.
A tarde com mexeu - e muito - com seus pensamentos e acabou deixando em conflito. A forma que a tratou deixou muito mais a vontade do que pensou que poderia ficar, o fato dele não a bombardear com perguntas íntimas mesmo ao perceber que não estava em um dia bom, a conquistou ainda mais. A companhia de deixou mais leve e bem humorada - o que era raro. E a única certeza que ela tinha no momento era que queria cada vez mais perto, e não tinha problemas em admitir. só conseguiu desfocar do assunto é voltar a realidade quando o nome de Kim apareceu em seu celular e a fez lembrar de todas as mensagens que a menina tinha enviado e ignorou.

Kim ?:
"Sweetie, estou extremamente preocupada, apenas diga se está viva."


pensou por uns segundos e decidiu que estava na hora de agir como uma verdadeira amiga.

"Quero me desculpar com você dá forma correta."
"Que tal aquele programa de meninas hoje à noite?"



A resposta de Kim demorou apenas alguns segundos. 

"Seria maravilhoso!!!" "Eu voltei para o estágio hoje, meu dia está sendo difícil..." "Estou liberada às 19:30."

"Estou ansiosa para saber os detalhes..."
"Me passe o endereço e eu te busco."
"Até mais tarde, sunshine."



Ao contrário do que esperou, sentia uma adoração gratuita por Kim. Aliás, depois de toda confusão da transfusão a última coisa que esperou era criar um vínculo tão forte com Kim ou os outros.
E agora estava em uma situação que queria ter evitado de todas as maneiras possíveis, não estava em seus planos formar amigos ou criar laços. Então só podia torcer para nada disso a prejudicar, ou prejudica-los.
tomou um banho rápido e colocou suas roupas de malhar decidindo de última hora que iria voltar a correr para tentar aliviar a tensão que impregnava seu corpo e pensamento. Desceu o elevador, acenou para o porteiro e ligou seus fones deixando sua cabeça a levar para qualquer outro lugar, o que não ajudou em nada, ela continuava pensando nos pais, no trabalho e em .
Um dos momentos mais aconchegantes do passeio foi perceber como eles estavam em "casa" juntos e foi involuntário.

estava sentado no banco olhando contemplativo o por do sol perto do Rio, a respiração fazia seu peito subir e descer inúmeras vezes em um movimento sereno, negligenciando todo cansaço em seus olhos. Estava com a cabeça voltada para trás do jeito mais preguiçoso possível e os olhos encaravam o céu em amarelo, laranja e vermelho. Há muito tempo não sabia o que era assistir uma imagem assim tão calma e relaxada como estava, o que só se intensificava com ao seu lado. Os olhos dele estavam brilhando como pequenos vagalumes presos em papel adesivo em uma noite escura de lua cheia, do jeito que sempre gostava da noite. Havia também um sorriso acanhado no canto de seus lábios enquanto a boca abria e fechava rápido sussurrando algo. precisou de uma concentração absoluta para compreender que cantarolava algo.
A verdade era que queria se esquecer de tudo que a cercava, cada pensamento que pudesse conectá-la ao mundo de caos e problema que estava ali. E ela conseguiu ao lado de . Não havia nada em sua mente que não fosse a sensação do vento fresco contra sua pele que roçava levemente na pele de . A canção continuava saindo dos lábios dele, agora um pouco mais audível do que antes e percebeu que ele estava mais próximo.

- "And though the breeze is through trees move so pretty, you're all I see, as the world keep spinning round, you hold me right here, right now..."

Intencionalmente ou não, se inclinou ainda mais próximo dele e foi recebida por um sorriso ainda mais escancarado. levou as mãos até o rosto dela e efetuou um carinho lento pela região tirando um suspiro contente dos lábios de .

- Continua... - pediu ela encostando a cabeça no ombro de e fechando os olhos.
- Ô sorte... - sussurrou baixinho antes de continuar cantarolando...




perdeu a noção com a lembrança, e só deu conta que precisava parar quando o sol esquentou e enfim percebeu que estava bem longe de seu apartamento, e por incrível que pareça um pouco mais perto da casa de Kim. respirou fundo e riu ironicamente quando "best part" do Daniel Caesar começou a tocar em seu celular.

- Cometeu mais um erro mocinha: não ligue músicas às pessoas.

A ideia de correr e relaxar não ajudou em nada. Se já não bastasse a lembrança com , agora o assunto que rondava sua cabeça na volta para casa era ainda pior: Seus pais. Nem mesmo o funk do Rio de Janeiro foi capaz de desviar seus pensamentos e se sentia sufocada.

- Pensei que ia correndo até outra cidade!

O porteiro sorriu lhe entregando uma garrafa de água. o conhecia desde pequena e tentou responder o mais gentil possível.

- Acabei perdendo a noção do tempo...
- Está tentando fugir de alguém? – os grandes olhos negros dele a encararam um pouco interrogativo e não soube o que responder, então deu de ombros tentando fugir. – Seja o que for, é melhor resolver do que correr!

Ela balançou a cabeça e seguiu para seu apartamento.
Já que sua cabeça não deu trégua, a menina se rendeu a toda papelada do caso do dia 21. Seu peito insistia em dizer que existia uma ponta solta ou algo que antes passou despercebido por seus olhos, e agora, depois de todas as informações novas, tinha certeza.

"O homicídio em questão aconteceu no dia 21 de novembro de 2008. Segundo o perito, os bandidos entraram na casa das vítimas por volta das 02h da madrugada. Pegaram primeiro o pai que estava lendo na poltrona da sala e logo após foram atrás de sua esposa, que era o principal alvo.
De acordo com os legistas, as vítimas foram torturadas. Os assassinos amarram os dois e qualquer movimento que as vítimas fizessem, a corda que estava em seu pescoço, ficava ainda mais apertada, asfixiando-os cada vez mais...”


bebeu um gole de seu café e tentou assimilar de forma normal o que lia. Mesmo doze anos após o assassinato era sempre doloroso ler e vivenciar tudo aquilo novamente, um ciclo irritante e doloroso.

“... Algumas informações não haviam sido levadas a público, como: as vítimas eram militares: Isabela de Albuquerque era brasileira. Ela se formou na Escola de Formação Complementar do Exército (EsFCEx), prestou concurso e passou com excelência.
Após um tempo sua base mudou e ela foi mandada para Moscou, onde conheceu Thompson , também militar na época.
Eles acabaram se envolvendo um ano depois e se casaram..."


A cabeça de captou uma informação que não era tão importante até sua conversa com James e Vincenzo. Quando a base de sua mãe mudou, Isabela foi mandada para os Estados Unidos, não Moscou. Isa conheceu Moscou e seu pai em uma viagem a trabalho. E anos depois ela foi morar em Moscou, e mesmo após sua base ainda era nos Estados Unidos.
anotou a informação no caderno e respirou fundo para continuar.

"Nosso objetivo era buscar os indícios e motivo mais significantes para verificar se as vítimas estavam envolvidas de alguma forma com os assassinos, disse o comandante Jared Wrobleski.
Começaram então a aparecer detalhes muito sugestivos, como: e-mails trocados entre o Sr. para um IP desconhecido, que mais tarde foi reconhecida como uma organização criminosa, cujo a origem ainda é desconhecida.
Os investigadores analisaram os documentos da Sra. Albuquerque e confirmaram que ela esteve em vários lugares onde não estava habituada a ir, mas nenhum endereço foi confirmado.
Além disso, a polícia descobriu que quatro dias antes do assassinato o telefone fixo da família apareceu grampeado e uma das ligações era de Chris D. - nome de um dos suspeitos.
Durante os interrogatórios realizados após uma de suas detenções, Chris afirmou que não conhecia ambas as vítimas, mas que trabalhava realizando alguns trabalhos ilícitos e os nomes das vítimas foram citados. Chris também respondeu que nunca tinha visto a pessoa com quem acertava as coisas..."
"Apesar das investigações, o investigado parecia tranquilo e logo foi inocentado por esse crime...”


anotou outros pontos importantes fazendo uma correlação com as informações que tinha agora. Sabia que a organização criminosa citada era a parte de James na história, e isso incluía os lugares onde sua mãe passou a frequentar com tanta avidez.
O telefone de apitou e a fez levar um susto antes de conseguir voltar sua atenção ao aparelho e descobrir que era sua caixa de e-mail. Um sorriso surgiu em seus lábios quando percebeu ser mais um e-mail de Thomas, e isso deixou seu coração aquecido por alguns instantes fazendo a saudade apertar, mesmo sabendo que ele seria totalmente contra com tudo isso.

“... Ao ser perguntado sobre sua opinião no caso, o comandante foi ríspido, disse que o assassinato teria ocorrido por moeda de troca no sistema.
No momento nenhum suspeito está detido, não foi achado sinais de arrombamento, nem digitais ou qualquer vestígios do assassinato.
Os peritos que o examinaram o local alegam que o crime foi feito por profissionais e achavam difícil alguém descobrir alguma coisa.
De acordo com os investigadores, foi este complexo chamado de, complexo fantasma, que levou as autoridades a arquivarem o caso e alegar que não existiam provas ou suspeitos suficientes."


Essa parte da matéria deixava os nervos de extremamente agitados. Ela levou a xícara até a boca e percebeu que inevitavelmente tremia de raiva. O grande problema no meio disso tudo não era em si o assassinato dos pais, lidou com o luto durante muitos anos, o problema foi o descaso que todo mundo teve com eles.

"O tribunal deveria ter dado a sentença no dia 2 de março de 2009, mas adiou por que algumas perícias ainda deviam ser feitas.
Este foi o primeiro caso em Moscou que a acusação era baseada principalmente na anulação de testemunhas ou indícios.
Alguns moradores da rua foram chamados para prestar depoimento, todos disseram que não ouviram nada naquela noite e que a família era tranquila, menos uma senhora que preferiu não se identificar.
A senhora disse que viu duas pessoas conhecidas entrando na casa por volta das duas da manhã e saindo duas horas depois. Quando foi questionada sobre alguma característica dos assassinos, ela apenas disse que um deles tinha um escorpião tatuado no ombro."
"Logo após o depoimento a senhora sumiu e nunca mais foi encontrada. "Por falta de provas, o caso foi arquivado até segunda ordem."


Uma das piores partes no meio de todo o assassinato de seus pais era a negligência da polícia e de todas as partes envolvidas. E agora sabia bem um dos motivos, o amigo policial da mãe e a advogada da família estavam mortos, e soube que isso contribuiu muito para a falta de responsabilidade e falta de provas no caso. As alegações sobre a falta de provas e ligação dos pais com os criminosos era falsa, estava nítido e ficou ainda mais quando descobriu que as câmeras do condomínio simplesmente sumiram. Cada vez que lia esse artigo seu estômago embrulhava e sua cabeça doía.
Os arquivos batiam com as coisas que James e Vincenzo contaram, mesmo que nenhuma outra morte fosse citada e a organização não fosse confirmada, alguns buracos pareciam ter sido fechados mesmo após tantos anos. Outra coisa que agora entendeu era o porque seu nome não era citado ou porque não havia nada comprovando que Isa e Thompson tiveram uma filha.
Foi a primeira vez em doze anos que o peito de ficou um pouco aliviado em saber que algumas pontas soltas foram enfim resolvidas. Todavia, uma coisa continuava martelando em seus pensamentos depois de anos: quem era essa senhora?
olhou o relógio e respirou fundo deixando os arquivos de lado. Respondeu o e-mail de Thomas e ficou menos preocupada em saber que a base onde o amigo estava no Irã não tinha riscos de bombardeios e feliz de saber que cada dia que passava era um dia a menos para vê-lo.
Além de ter se tornado o fã número 1 de , Thomas agora nutria um carinho compreensível por Santiago e Kim, e isso só fazia ficar ainda mais ansiosa para apresentá-lo ao seus novos amigos.
contou de forma detalhada todos os acontecimento desde a última vez que tiveram contato, principalmente seu encontro despretensioso com . O computador que Thomas usa é muito difícil de ser rastreado e isso deixava às escuras sobre o local exato que ele estava, era difícil até mesmo para o menino manter contato a cada 15 dias, então só recebia respostas curtas e às vezes códigos que apenas ela entenderia.
A saudade de seu melhor amigo ainda presente em cada pensamento seu quando começou a se arrumar para encontrar com Kimberley.

.

tentou falar o dia inteiro com Kimberley. Sua prioridade era ter notícias de Santiago e por isso ligou para o menino, o que não diminuiu sua preocupação, mas respeitou o pedido de Santiago para não atrapalhar o trabalho dele. Então, sua outra opção era Kim, entretanto o hospital que sua irmã trabalhava estava uma loucura e seus horários voltaram a não bater de forma alguma. Agora se encontrava em um tédio absoluto lutando contra o ímpeto de chamar para sair novamente.
Medroso, era o que ele pensava.
Esse era o motivo do porque relutava tanto para tirar "férias" no trabalho. Tinha arrumado o escritório, os quartos, a sala e o quintal. Lavou o carro e terminou lavando as roupas de Kim que estavam sujas e agora estava deitado em seu quarto, olhando para o teto e bufando de tédio.
pensou por alguns segundos decidindo que pelo menos por hoje não queria dar brechas para problemas, mas queria enfim ter a noite de bebedeira que precisava.
Quarenta e cinco minutos depois, estava entrando em seu carro já arrumado e com um sorriso no rosto mandando uma mensagem para Kim e avisando que chegaria tarde.
O Will era localizado em uma área mais afastada do centro da cidade e a maioria da população que residia ali era Latina, Caribenha e Mexicana, as músicas, as bebidas e comidas eram todas típicas, e ali estava as raízes de seu melhor amigo. Santiago e ele pelo menos uma vez na semana passavam no Will para relaxar, era a segunda casa da família.

- Sozinho hoje, chico? - o senhor perguntou colocando uma cerveja em frente à como de costume.
- Minha vez de espairecer, Will!
- E o nome do espairecer seria qual? - bebeu um gole da cerveja e balançou a cabeça sorrindo. - Te conheço há anos e esse sorriso é novo!
- O nome dela é , foi ela que salvou Kimberley de um "acidente", Santiago lhe contou? - Will assentiu. - Não sei, alias eu só sei duas coisas sobre : ela nasceu no Brasil e seu conto de fadas preferido é o da bela e a fera, acredita? Isso me deixa perdido, essas informações não me dizem nada!

A risada rouca chamou a atenção de , ele continuou bebendo sua cerveja e observou o homem em sua frente colocar duas doses no balcão.

- A que estamos brindando?
- Há anos atrás estávamos conversando e eu te disse: “o dia em que você encontrar alguém que te tire da sua zona de conforto, você vai sentar no meu bar e dizer que está perdido.” - a lembrança atingiu de forma clara, eles viraram as doses juntas e se olharam. - La pasión llega a todos, chico!
- Paixão? - a palavra deixou paralisado, ele olhou para a garrafa de tequila e dispensou o copo virando o líquido no gargalo e tomou posse do recipiente, ele balançou a cabeça e sorriu antes de responder. - Não, paixão não!

Will depositou um olhar desconfiado e continuou.

- Me conte mais sobre essa , estou encantado!
- Não sei explicar direito o que aconteceu, não sei descrever os acontecimentos com muita clareza. apareceu coberta pelo sangue de minha irmã e mais parecia um anjo da morte do que um bom presságio. Confesso que no início eu fiquei desconfiado, você sabe como eu sou... Mas não demorou muito para eu ficar encantado com o jeito dela, a forma altruísta e empática, o jeito simples e sincero... - passou as mãos pelo cabelo e respirou fundo. - Eu não sei, ela trás um algo que toma conta de tudo, carrega um conforto, um sentimento de lar... Mesmo que eu tente entender não tenho uma definição por completa sobre , é sempre pelas metades, sem um ponto final ou de exclamação. é uma incógnita!
- Então deve ser uma mulher incrível. Algo mais que você queira acrescentar?
- Você nem imagina... - ficou mudo por alguns instantes e em seus pensamentos imagens de se fixaram. - Ah! Os olhos... Você precisa ver os olhos dela! Com toda a certeza minha cor preferida se tornou o banhado pelo crepúsculo!

estava com um sorriso bobo nos lábios quando parou de falar e Will percebeu o brilho bonito no olhar dele e não deixou de sorrir em reposta.

- Posso lhe dar um conselho? - balançou a cabeça e se concentrou em cada palavra. - Uma pessoa que deixe esse brilho no olhar é uma pessoa boa para se ter por perto. Não deixe ir embora!

Will sorriu, deu dois tapinhas nas costas do menino e foi até a outra ponta do balcão para atender outros clientes. Mas, as palavras estavam ecoando em sua cabeça. sabia que não estava apaixonado por - ou pelo menos achava - mas não sabia dizer o quanto estava encantado pelo jeito da menina.

E então olhou para ele pela milésima vez naquele dia, o sol envolvia sua pele como igual a um cobertor dourado e reluzia sob seus olhos ao mesmo tempo que um sorriso verdadeiro aprecia em seu rosto, onde os dentes brancos apareciam escancarado e deixava os lábios rosados ainda maiores. Foi a primeira vez que sentiu uma vontade absurda e genuína de beija-la e ao perceber isso, sentiu um leve rubor fingir as suas bochechas.
O dia ao lado de parecia uma fotografia capturada para a eternidade. sentiu seu próprio coração acelerar e ignorar tudo a sua volta e percebeu tarde demais que estava observando por um longo tempo quando a menina riu e falou:

- Um rublo por seus pensamentos...
- Essa é fácil, estou pensando em todas as cores que te acompanham! - franziu o cenho em um sinal silencioso para que ele continuasse. - Você é a soma das sete cores do arco-íris, o violeta, o azul, o anil, o verde, o amarelo, o laranja e o vermelho. Com todas as suas tonalidades diferentes ao longo de um dia em pleno brilho...

continuou muda, mas nada teve mais significado do que o sorriso de seus lábios e o brilho dos olhos refletido no próprio rosto, e isso trouxe um hábito antigo a tona, antes que pudesse controlar, começou a cantarolar baixinho uma de suas músicas preferidas: Luck do Jason Mraz.



A lembrança sumiu de seus pensamentos quando sua nuca esquentou e um arrepio súbito desceu por sua espinha. Antes de se virar ouviu a voz que tentou esquecer por anos.

- Sentiu minha falta, policial ?

.

- Vai me dizer o motivo de seu sumiço ou eu vou morrer de curiosidade?

Kim perguntou se jogando na cama com o balde de pipoca em uma mão e na outra dois copos de refrigerante, sorria ao seu lado segurando uma panela de brigadeiro e o controle da TV.

- Só se você conseguir pronunciar brigadeiro da forma correta.

Kim riu e rolou os olhos.

- "Brigaldeiron"... Bri... gal... deiro.

caiu na gargalhada e Kim estendeu a língua sorrindo. Era interessante a forma que as duas se davam bem e se entendiam, a sensação delas era como se a vida inteira estivessem passado juntas. era a amiga que Kim sempre quis e ela era a amiga que nunca teve.

- Fui visitar o túmulo dos meus pais e tirei um tempo para ficar sozinha, me ajuda a seguir a vida, entende?

Kim assentiu e leu as mensagens de soltando um muxoxo.

- Aconteceu alguma coisa?
- Preciso falar com meu irmão sobre Santiago, infelizmente nos desencontramos.
- Está tudo bem com ele? - um olhar esquisito passou pelo rosto de Kim, mas preferiu não questionar quando ela respondeu acenando de forma positiva. - Como foi o estágio?
- O mesmo cansaço mental de sempre, amo as minhas crianças, mas é extremamente difícil não ficar abalada - Kim pensou por um tempo e bateu na cabeça de forma leve. - Acabei de lembrar que nunca te contei sobre o meu trabalho...
- Mas, arrisco a dizer que você faz psicologia...

Kim sorriu e soltou um beijo para .

- Como você descobriu?
- É preciso ter muito autocontrole para passar tudo o que você passou e levar toda a situação de uma forma leve. Sei que deve ser uma profissional incrível!

A menina puxou para um abraço desajeitado, e seu rosto estava banhado por gratidão.

- Eu trabalho no hospital de câncer, mais precisamente na área infantil, e hoje eu tive consulta com uma paciente que desistiu de viver. Mesmo estudando durante cinco anos, depois de ter feito dez períodos ainda é doloroso contar para os pais que a filha deles é uma ameaça para a própria vida, entende? E eu tenho uma ligação muito grande com ela, coisa que não pode acontecer.

O rosto de acompanhou a tristeza que Kim refletia de forma solidária, às vezes se sentia da mesma forma em seu trabalho. O peso de não poder salvar todo mundo não era fácil de carregar.

- Sinto muito, sweetie! Sei que você faz o possível e torço para que fique tudo bem com ela. Se eu puder te ajudar em alguma coisa me avisa, tudo bem?

Kim analisou por alguns segundos e assentiu antes de falar.

- Você não é uma mulher de , uh?

concordou mastigando devagar e captando o olhar analítico de Kim, ainda era difícil não sentir vontade de correr todas as vezes que Kim a encarava daquela forma, mas estava ficando mais fácil com o tempo.

- Perdi a fé há muitos anos, mas acho bonito as pessoas que são religiosas. Meus pais eram as pessoas mais religiosas que eu conheci, não seguiam uma denominação, mas acreditavam fielmente em Deus.

Kim assentiu e deu o assunto por encerrado, não queria importunar com várias perguntas, gostava de saber que ela estava mais à vontade para desabafar sobre sua vida com tempo e paciência.
A atenção de Kim foi desviada quando percebeu em uma ação já conhecida e por um breve instante Kim falou da mesma forma que falava com .

- Ah, não , filme de terror não!!! - parou a mão e encarou Kim com um sorriso ladino no rosto. - Desse jeito você fica ainda mais parecida com meu irmão.

A menção da figura de fez o estômago de se revirar e um sorrisinho invadir seus lábios, o que não passou despercebido por Kim.

- Esse é um dos assuntos que não podem ser mencionados hoje?

gargalhou e balançou a cabeça em concordância.

- Noite das garotas!
- Ok, mas só se você aceitar assistir um filme de romance daqueles bem água com açúcar.

rolou os olhos mas assentiu em seguida se aconchegando ainda mais ao lado de Kim com um balde de pipoca no meio das duas.

Antes mesmo da metade do filme, Kim já tinha os olhos marejados e ela sorriu ao se sentir em casa mais uma vez, agora ao lado da enfim amiga.

O horário no celular de marcava 03h da manhã, ela levantou sonolenta, cobriu o corpo de Kim e retirou o balde de pipoca da cama, apagou a luz e desceu indo até a cozinha.
Seu sono a conduzia com uma ausência de interesse em qualquer outra coisa que não fosse chegar em casa, e foi esse desprendimento com a realidade que impediu de perceber quando a porta abriu e trouxe consigo todo o barulho da rua. Ele tropeçou nos próprios pés e derrubou as chaves enquanto tentava fechar a porta, levando a aparecer observando assustada.

- CARALHO!! - um urro descontente e embolado saiu de seus lábios. - Você tem algum problema comigo, sim? Por favor, seja boazinha... A minha irmã vai surtar se me ver assim - outro barulho saiu de seus lábios e continuou sem conseguir passar a chave na porta. - Todo mundo decidiu me tirar como idiota hoje, talvez eu seja um.

olhou ao redor e comprovou que não existia ninguém com , ela não precisou pensar muito para entender que ele estava bêbado e achou a situação engraçada, então resolveu se encostar na parede da sala e esperar a pequena guerra entre e a porta acabar.

- Você deveria ter chamado para sair, seu idiota! Não estaria brigando com a porta se saísse com ela. Aliás, sei que está com uma puta saudade e Will só fez piorar! Idiota!

O coração de bateu um pouco mais forte e seu lábio formou um sorriso convencido em ouvir o desabafo de , que se alargou ainda mais quando o olhar dele enfim a encontrou e ela percebeu as bochechas dele ficarem mais vermelhas.

- Chamando por mim, ?
- ?

Mesmo a menina tendo um sorriso nos lábios o semblante de era brusco e perturbado, seu maxilar estava tenso assim como toda a sua musculatura. arqueou as sobrancelhas e tentou entender o motivo da mudança de comportamento, constatando que não poderia ser apenas vergonha.

- Tive uma noite de cão e me sinto melhor se parar de me analisar, tenho Kimberley para fazer isso! - a voz dele era fria e cortante mesmo um pouco confusa pela bebida. - O que você está fazendo aqui?
- Aconteceu alguma coisa?

Algo passou pelo semblante dele e rapidamente sumiu. A casca que usava era forte demais.

- Vou perguntar de novo, o que você está fazendo aqui? falou ainda mais bruto causando um desconforto em .
- Perdão? Acho que a bebida te deixou mal educado!

ergueu as sobrancelhas e deixou as chaves na mesa de centro. Passou as mãos pelos cabelos e bufou descontente.

- , por favor, o que você está fazendo aqui? Não é um bom momento para você ficar perto!
- Vim visitar Kim! Agora quero saber qual é o problema, ?
- No momento? - os olhos dela se ergueram e seu rosto se empinou em um semblante autoritário, a boca de se curvou em um sorriso ácido antes dele responder. - Muitos! Na verdade, você nem imagina a quantidade de merda em que eu estou atolado... Mas, saiba que existe uma outra lista e nesta você ocupa um lugar de destaque, já que você não sai da porra dos meus pensamentos!

A última parte saiu baixinho dos lábios de e com muito esforço conseguiu ouvir. Ela balançou a cabeça e respirou fundo, não iria ouvir grosseria gratuita nesse horário - e em nenhum outro - e se não podia ajudar, a melhor opção é ir embora.
sustentou o olhar de e por uns segundos viu um misto de sentimentos passar por ali e aquilo a deixou de guarda baixa. parecia uma bomba prestes a explodir e tudo que queria era ficar ainda mais perto, mesmo que o letreiro de "desastre iminente" estivesse bem explícito.

- Não tenho culpa se você tem problemas, mesmo estando em um lugar de destaque eu queria ajudar... Mas se me permite, me admira saber que você age como um idiota toda vez que surge algum problema, ou toda vez que você bebe. Acho que realmente perdi meu tempo tentando me convencer que você merecia algum voto de confiança!

Os olhos de abriram um pouco mais, o rubor nas bochechas aumentou e um estalo ocorreu em sua feição, mas não queria pedido de desculpa, queria sair daquela casa antes da briga ficar pior, tinha uma ideia de como era o gênio de e o que menos precisava era de mais problemas ou piorar a situação dele, ou a deles.
passou rápido pelo menino, porém antes de poder dar mais um passo, a mão de puxou seu braço e a trouxe de encontro a ele bem rápido. O hálito de nicotina bateu em seu rosto e se misturou com a fragrância do perfume e da bebida. nunca ficou tão perto assim dele, e mesmo que uma parte sua não fosse admitir naquele momento, ela ficou extremamente balançada com a aproximação repentina, e ainda mais surpresa por sentir o toque delicado e gentil de em seu corpo - que respondia prontamente a ele.
O olhar dele estava mais escuro que o normal e ao contrário da forma que chegou, agora estavam bem abertos enquanto a encarava com uma seriedade antes desconhecida por . passou os olhos lentamente pelo rosto dela e parou em sua boca umedecendo os lábios de forma involuntária e fazendo a pulsação de aumentar em um nível absurdo em suas veias.
Irresistível era a palavra que piscava na cabeça de .

Anjo, olhe...

A voz de estava mais rouca que o normal e sentiu a nuca se arrepiar em resposta. Eles estavam perto demais, suas bocas se esbarraram uma na outra em uma súplica silenciosa para colocar fim na distância terrível que existia ali.
E queria, por Deus como ela queria por fim naquela distância e sucumbir ao desejo de ter os lábios dele nos seus, mas estava travada dos pés a cabeça.

- , acho que é melhor eu ir embora...

balançou a cabeça de um lado para outro, levou as mãos até o rosto de e depositou um afago carinhoso na bochecha dela.

- Me desculpe, eu não quis ser um idiota, mas parece que com você eu não consigo acertar nunca!

continuou quieta observando fixamente os lábios de soprarem as palavras de encontro a ela.

- Anjo, me dá uma chance de provar que eu não sou... isso! Eu te provo!

Com um autocontrole admirável, empurrou o peito de com um braço. não a soltou de início, mas ao captar o olhar de negligência em seu rosto se distanciou. Aquele olhar o machucou mais do que qualquer outra coisa.

- Te dou uma chance se você conseguir se lembrar de tudo isso amanhã de manhã, essa é a prova que eu preciso!

Por favor se lembre!
- o inconsciente dela gritava. depositou um beijo carinhoso no rosto dele e sorriu deixando atônito no meio da sala

P.O.V. X.X

03 hrs 15 min.


Dorogomilovo / Distrito administrativo do oeste da Rússia.

O homem estava sentado na poltrona bem relaxado, em sua mão estava um copo de Macallan 1926, envelhecido durante 60 anos em barricas de carvalho de Jerez e refinado para um bom paladar requintado. A sala luxuosa contrastava com a lareira no canto esquerdo e dava um ar mais aconchegante à meia luz.
O barulho da porta atraiu a atenção dele, o colega entrou na sala com o mesmo semblante sério e distante de sempre. Era bom vê-lo novamente.

- Devo entender que seu passeio pela cidade não superou suas expectativas... – o homem avaliou sua expressão e sentou na cadeira ao seu lado.

Ele continuou admirando a labareda com fulgor. Ah! Como seria bom poder resumir tudo a cinzas... Todos os problemas, todas as pessoas, exatamente tudo resumido a pó e cinzas.
"Do pó viemos, ao pó voltaremos."

- Não poderia ter sido melhor... – pontuou tomando mais um gole do whisky e vendo o outro se servir. – Alguma notícia boa?
- Não! Estamos com vantagem por ter o relatório oficial da polícia e não o que foi publicado. Contudo, ainda assim faltam umas partes importantes e a vantagem não vai durar se não conseguirmos achar a única testemunha viva – bradou irritado respirando fundo para continuar. - Já decidiu se vai aparecer ou pretende fazer seu trabalho sendo invisível? Sei que tem pessoas que adorariam saber que você está de volta.
- Vejo que continua com o mesmo bom humor de sempre, mas sinto te informar que encontrei um antigo amigo.

O homem deu um sorriso irônico e em seu pensamento cenas de horas antes se desenrolaram trazendo lembranças amargas para sua boca.
"Voltou para atormentar minha vida? Não perca tempo, já estou fudido."

- ?!

- Sim. Minhas suspeitas estavam certas, ouvi ele falando sobre com o dono do bar - um sorriso diferente surgiu nos lábios do homem antes de continuar. - Não posso dizer que minha recepção foi amigável, mas pelo menos estamos inteiros dessa vez.
- Tenho minhas suspeitas sobre esse rapaz, algo nele me cheira a sujeira - ele respirou fundo e perguntou com a voz um pouco mais séria. - Você ainda confia nele?
- Em ? - o homem perguntou encarando o amigo. - Ora, claro! Mas isso não quer dizer que ele é o mocinho, longe disso.
- E ainda sim confia nele?

Ele balançou a cabeça e bebeu mais um gole de sua bebida.

- Devo muito a !
- E isso quer dizer o que?

Um pensamento interessante pairou em sua cabeça, mas ele preferiu não dizer em voz alta.

- Deixe que de eu cuido!

É bom finalmente estar em casa!

.

O mundo estava fora do alinhamento normal para , suas lembranças não passavam de borrões e uma confusão mental que era atribuída a todas as doses que bebeu por pura raiva.
Tentou abrir os olhos sem tudo rodar e sua tentativa foi um fracasso, seu estômago embrulhou e sua cabeça latejou irritante, sua coluna reclamou de sua posição e só aí ele percebeu que tinha dormido na sala. O barulho do sapato de Kim fez a fisionomia dele afundar ainda mais, odiava que sua irmã o pegasse nesse estado, embora, a mesma não se importasse.

- Devo achar que a noite foi boa, então?

Kim foi à cozinha, pegou dois copos de café e trouxe para a sala, tirou um remédio de dor de cabeça do bolso e se sentou na ponta da mesa ao lado de uma garrafa de água encarando com um sorriso animado.

- Você não imagina o arrependimento que eu estou sentindo... - os olhos de Kim se ergueram e ela esperou ansiosa contar o motivo do arrependimento. - Encontrei um velho amigo de trabalho!

O semblante de Kim demorou apenas alguns segundos para concluir quem era.

- Ele está de volta? - tomou primeiro o remédio antes de buscar a xícara em sua frente.
- O que ele queria com você?

A voz dela saiu como um rosnado e fez medir suas palavras, o temperamento de Kim conseguia ser pior que o dele.

- Encher o saco, como sempre, nada demais! Estamos inteiros dessa vez.
- Nada demais e te deixou nesse estado? Conta outra !

A fisionomia de Kim ainda estava bastante alerta, mas por hora esse assunto não era o mais importante.

- Você sabe de toda nossa história, mas dessa vez não passou de uma conversa rápida e "saudável".

levantou e foi até a cozinha para pegar um pouco mais de café e Kim veio atrás mecânica e silenciosa. Ele olhou a louça suja e uma memória nublada tentou aparecer em seus pensamentos sem sucesso algum. Sua irmã acompanhou seu olhar e falou atraindo sua atenção.

- esteve aqui ontem, fizemos uma noite de meninas - o sorriso dela o deixou mais tranquilo. - Você estava aqui quando ela foi embora?

pensou por uns segundos e quanto mais tentava lembrar, mas sua cabeça doía.

- Não sei, Kim! A noite de ontem é uma completa confusão. Fico feliz que vocês estejam se dando bem!

Ela sorriu, olhou o relógio e depositou um beijo na testa de seu irmão saindo para o hospital.

- Trabalho meio expediente hoje, volto para o almoço, se cuide!

.

A noite de passou barulhenta. Não de sons, mas de pensamentos conflitantes em sua cabeça. Não sentia raiva de , sentia raiva da bagunça que ele causava em todos os pensamentos que estavam em sua cabeça. não iria negar que o quase beijo não mexeu com ela, entretanto o que mais a deixava irritada era saber que podia não lembrar ou não se importar.
Seu celular vibrou com uma mensagem de Kim em forma de agradecimento pela noite e ela respondeu tentando não ser tão curta e grossa. perdeu tempo suficiente tentando pensar em outra coisa que não fosse esse tumulto que sua vida se encontrava quando se lembrou de outro assunto inacabado. Vincenzo e ela continuavam distantes e esse assunto era prioridade no momento.
Vincenzo morava um nível abaixo do seu o que deixava a situação mais fácil.
bateu duas vezes na porta e não esperou muito para a resposta.

- Minha filha... - o sorriso dele iluminou seu rosto. Vincenzo puxou e a abraçou carinhoso. - Veio passar o dia comigo?
- Estava com saudade de você e da sua comida e sei que precisamos fazer as pazes, eu fui um pouco infantil.
- Muito pelo contrário, você sempre foi muito madura para sua idade e eu sei que tudo que ouviu mexeu muito com você e com razão... - eles se sentaram no sofá e massageou as têmporas cansada. - Eu sempre vou estar aqui para você, não importa as circunstâncias... Mas vejo que algo aconteceu.

O semblante de estava mais calmo, mas, seus olhos ainda tinham algo que ele não conseguia entender.

- Seus olhos te traem muito, mocinha. Quer conversar sobre isso?

soltou a respiração e tentou parecer controlada enquanto contava sobre todos os acontecimentos que Vincenzo perdeu.

- Você não chegou a conhecer o irmão de Kim, mas, desde que nos conhecemos... Eu não sei explicar, na verdade - revirou os olhos se sentindo idiota. - tentou procurar algumas coisas sobre mim no banco de dados com a ajuda de alguém, obviamente não encontrou nada.

Os olhos de seu pai estavam um pouco mais sérios agora, isso mexia com tudo que construiu durantes anos.

- Mesmo sem encontrar nada é um risco...
- Eu sei, mas entendo o lado dele, talvez eu fizesse a mesma coisa se um desconhecido aparece do nada para salvar a vida de Thommy ou sua... Enfim... Nós saímos, foi a iniciativa que ele teve para me pedir desculpas.

Os olhos de Vincenzo agora examinavam a menina por completo e sem dizer uma única palavra, o que deixava ansiosa e incomodada.

- Pai?
- Estou surpreso na verdade, faz quanto tempo que você não tem um encontro? - sua boca formou um sorriso e ficou um pouco mais corada. - Como foi?
- Me ajudou bastante, na verdade. trás um conforto que eu não sinto há muito tempo, me trás a sensação de casa, todos eles na realidade, mas com é diferente! Ele não me bombardeou com perguntas intimidadoras, pelo contrário, até o seu silêncio trás uma sensação boa. E eu não esperei que fosse gostar tanto, sabe?
- Do encontro ou do tal ? - as bochechas de estavam ainda mais vermelhas e ela tentou em vão desviar os olhos. - Fico feliz em saber que você conheceu novas pessoas que gostam de você, a menina Kimberley parece ser uma boa pessoa, mas, esse irmão dela...

assentiu e concordou com uma parte da preocupação de seu pai, gostava da companhia de , mas ainda não confiava 100% nele. E nesse momento pensar em fazia seu estômago se contrair.

- Você confia nele?
- É difícil de explicar, me sinto à vontade quando estou do lado dele, sua companhia é agradável, mas tudo nele cheira a problema, parece um letreiro ambulante escrito: cuidado! desastre iminente.

Vincenzo sorriu e se levantou, chegou mais perto da menina e com as mãos em seu ombro respondeu.

- Às vezes as pessoas só precisam de alguém que se sinta à vontade nessa desordem e bagunça que habita em nós. E você sabe bem como é se sentir perdida... - olhou Vincenzo com um olhar interrogativo e o mesmo exibia um sorriso paterno no rosto. - Só fique de olho e tome cuidado, certo? Ela assentiu e abaixou a cabeça bocejando involuntariamente ouvindo uma risada rouca em resposta. - Descansa um pouco, vou fazer o almoço para nós!

.

Antes de sua irmã entrar em casa, ouviu o barulho de seu carro sendo estacionado e ficou animado subitamente. Estava terminando o almoço e conseguia imaginar o sorriso dela quando entrasse, gostava da companhia da irmã, gostava da intimidade que tinham e gostava mais ainda de saber que eram uma família completa, apesar de tudo.
A porta abriu e Kim entrou, mas ao contrário do que esperou ela estava extremamente quieta.

- Kimberley o que aconteceu?

Kim se encostou no balcão e seus olhos eram inconclusivos.

- Precisamos conversar sobre um assunto complicado e eu preciso que você fique completamente calmo.

Os olhos de se ergueram e sua feição estava tensa. Kim por outro lado analisava todas as emoções do irmão, e isso o deixava ainda mais irritado.

- Eu conversei com Santiago ontem e a situação não é boa.
- Como assim? Eu falei com ele... Por que escondeu isso?
- Me deixe terminar! Quando eu cheguei na casa dele o encontrei dopado de remédios, ele teve uma crise de pânico e ansiedade por conta da irmã, desde que conheceu a semelhança entre elas trouxe memórias que a anos ele tentou combater - estava abatido, pensar que seu irmão passou por tudo isso sozinho mexia demais com ele. - Estou preocupada, ! Olhei nos olhos do Santiago ontem e não vi aquela alegria que ele tinha em viver, o ânimo da vida, não encontrei nada disso...
- Tudo bem, mas porque você esperou esse tempo todo para me dizer?
- Eu esqueci, na verdade!

bufou e Kim continuou o analisando do mesmo jeito que fazia no hospital fazendo os nervos dele se alterarem ainda mais.

- Kimberley, você não está tratando um de seus pacientes, tem como não ser a psicóloga comigo?

A fisionomia de Kim se tornou fria e irada em poucos segundos e foi o bastante para responder forma ríspida.

- Perdão?
- Não vamos começar, não é um bom momento - foi tudo que disse enquanto andava pagando suas coisas para sair.
- Ao contrário de você, eu não estava podre de bêbada ontem à noite e de ressaca hoje de manhã!
- O que isso tem a ver? Além de estar errada você tem amnésia? Te liguei o dia inteiro ontem e você resolveu não me atender, sabe muito bem que eu largaria qualquer coisa para ajudar Santiago, principalmente em um assunto tão difícil e triste como o de Sally. Você tentou resolver sozinha e me deixou fora disso, e não foi isso que combinamos, mas também não precisamos brigar por isso... Você está despejando suas frustações...
- Da mesma forma que você despeja as suas em nós? Eu agi do mesmo jeito que você age nos seus negócios e em metade das coisas que resolve, já imaginou que talvez a gente não precise mais de você também?

As palavras saíram da boca de Kim rápidas e cortaram como uma faca. deu um passo para trás e a sensação que lhe acometeu era de uma sequência dolorosa de tapas. Kim no mesmo instante se arrependeu e soube que tinha errado feio, ela deixou que todos os problemas do hospital respondessem por ela da pior forma possível e sem nenhuma razão.

- Irmão...
- Tudo bem, Kim! E vou dormir no Santiago, se cuide e me ligue se precisar.

respondeu sem encarar os olhos da menina, não iria continuar discutindo com sua irmã e precisava mais do que tudo ver seu amigo e ter a certeza que ele estava vivo.

Santiago.

Santiago sentia-se um pouco melhor, estava mais corado, mais disposto, porém uma parte sua se sentia mal por ter mentido para seu melhor amigo.
e ele se conheciam há anos e partilhavam tudo, todavia ele odiava demonstrar fraqueza para aqueles que contavam com ele. Era um defeito que Santiago nunca conseguiu mudar. Seus pensamentos foram interrompidos quando a campainha do apartamento tocou e três batidas brutas chamaram toda sua atenção, Santiago ultimamente estava começando a acreditar em coincidências e ver parado quando abriu a porta só dava mais força a isso.
Os olhos de estavam transbordando em preocupação, seu corpo estava tenso e quando seus olhos pousaram na imagem de seu amigo um suspiro fraco escapou por seus lábios. Ele puxou Sant pelo ombro e o envolveu em um abraço forte respirando fundo.

- Você jamais vai fazer uma coisa dessas de novo! - Sant balançou a cabeça concordando. - Não imagina como me senti em saber que você passou por tudo isso sozinho! Porra Santiago!
- Era exatamente isso que eu queria evitar, entende?
- Não? Eu deveria entender? Você é parte da minha família, se dói em você, dói em mim, se você sofre, eu sofro também...

Santiago sorriu em resposta e observou como o corpo de tremia de nervoso, e foi o bastante para supor de imediato que outras coisas haviam acontecido, mas antes que pudesse perguntar, o menino foi mais rápido.

- Como você está se sentindo?
- Um pouco mais disposto, sei que Kim lhe contou que eu tomei alguns remédios. Apenas fique tranquilo, a última coisa que eu quero é tirar a minha própria vida. Eu só não soube lidar com o fantasma de minha irmã andando por aí depois de doze anos.

assentiu e sentou na cadeira reclinável em frente à cama observando ainda mais Santiago, ele estava um pouco pálido e parecia não ter dormido muito bem, mas fora isso nada de alarmante.

- Minha sensação era sufocante, sei que errei em não pedir ajuda, mas realmente não conseguia. A dor era antiga só que a sensação era nova, entende? Em um dia eu estava bem, conversei, brinquei, bebi, fiz uma amiga nova. No outro os sonhos me abalaram, aí veio a crise de ansiedade, me deixando acordado durante várias horas e depois o pânico da morte dela... O que mais me afetou foi o pânico, a sensação foi de longe uma das piores coisas que eu já senti!
- Você não falou com ninguém?
- Minha mãe me ligou, parece que ela sempre sabe, não é? Só que eu não queria causar dor a ela também, na realidade eu realmente achei que fosse dar conta até o medo me cercar de uma forma assustadora, recorri aos remédios, pois estava com medo das minhas ações.

soltou uma respiração pesada e mexeu no cabelo inquieto, sua cabeça passava tantas informações que o deixou tonto.

- Eu estou bem, Hermano! Sinto muito ter escondido isso de você e prometo não fazer nada parecido, tudo bem?
- Eu agradeço muito! O que você vai fazer sobre?
- Quero voltar a procurar um profissional, tenho certeza que vai me ajudar bastante - suspirou fundo e relaxou um pouco. - E você, o que me conta?
- Kim e eu discutimos antes de eu sair de casa e acho que preciso de um lugar para dormir hoje - Sant balançou a cabeça e riu. - e eu tivemos um encontro!

O rosto do menino virou abruptamente em sua direção e seus olhos se arregalaram, um sorriso cínico começou a surgir antes dele responder com uma gracinha.

- Eu fico ausente por um dia e meio e você sai em um encontro? - fechou os olhos e inclinou a cadeira, sabia que Santiago teria exatamente essa reação. - Você alguma vez foi em um encontro com alguém?
- Santiago, não comece! - ouviu a gargalhada de seu amigo e não deixou de sorrir em resposta. - Já tive outros encontros, mas, não sei! Estou confuso...
- Você adora um problema, Hermano!

balançou a cabeça e olhou a foto que tinha em seu celular, não entendia porque gostava da presença de em sua vida. Santiago observou o sorriso de seu amigo e respirou fundo emergindo em pensamentos. sempre foi duro com qualquer pessoa que não fosse sua irmã e ele, e abdicou qualquer tipo de relacionamento por anos para dar suporte a Kim. O ver tão receptivo com outra pessoa - que também era tão boa quanto - deixava Sant relaxado, mas preocupado do mesmo jeito. não era o tipo fácil e isso poderia complicar qualquer coisa que pudesse envolver os dois.
O celular de Sant vibrou com uma mensagem de Kim para saber como e ele estavam e isso atraiu sua atenção de volta a realidade.

- O que aconteceu com vocês dois?
- Você conhece o gênio de Kim tanto quanto eu e a forma que odeio que ela me trate como um de seus pacientes, una isso a sua situação e você entende sozinho o que pode ter acontecido!

Santiago revirou os olhos e ligou a TV.

- Vocês dois são duas crianças que me dão trabalho.
- Ah sim, sou bem que dou trabalho!

levantou e se jogou ao lado dele olhando os jogos que passavam, uma parte de sua cabeça estava concentrado em qualquer esboço de tristeza que pudesse aparecer em seu amigo e a outra parte se odiava por deixar Kim sozinha e com isso ponderou suas opções unindo o útil ao agradável.

Anjo:
"Anjo, estou na casa do Santiago..."
"Poderia dormir com Kim hoje? Nós brigamos! E eu estou preocupado!"


A forma como o apelido fluía e se moldava a , deixou contente. Ele sentia cada vez mais vontade em contar algumas coisas do dia a dia a ela, mas o silêncio de no momento o incomodava. Tentou ligar duas vezes e não obteve sucesso, buscou em sua memória algo no passeio que possa ter feito e não achou nada, então desistiu de tentar entender.
continuava sendo uma incógnita em sua cabeça e qualquer tentativa de a entender resultava em uma completa frustração, mas algo em seu interior gritava que sim, existia algo errado.

Kimberley.

Kim tentou o dia inteiro desviar a atenção da briga com seu irmão, passou todas as anotações de seu estágio e seus pacientes para um documento e só faltavam mais algumas coisas para enviar à sua coordenadora e esperar o resultado para estar oficialmente formada, mas nada conseguia distrair sua cabeça, nem mesmo Sophya e todo o caos que a menina significava.
Os fones de ouvidos estavam altos o suficientes para ela não ouvir a buzina do carro de , e por muita sorte acabou olhando seu celular, percebendo três ligações perdidas.

- Oi sweetie! Aconteceu alguma coisa?

"- Eu estou aqui na porta da sua casa com uma caixa de pizza em mãos e umas cervejas, achei que você estivesse precisando."

Kim suspirou e desligou, pela primeira vez no dia o desânimo aliviou o peso em seus ombros e ela se sentiu um pouco mais animada. estava parada na porta da casa dela e exibia um sorriso extremamente amigável para a menina puxando a mesma para seu abraço com a mão livre.

- Como você soube? Conversou com meu irmão?
- Não exatamente! Não vim para falar sobre problemas, vim pra te fazer companhia e dormir aqui!

O olhos da garota brilharam e Kim bateu as palmas em animação percebendo a mochila nas costas da amiga.
se debruçou no balcão e seus olhos estavam um pouco abatidos quando Kim a observou.

- Uma coisa muito curiosa que eu percebi são seus olhos - franziu o cenho observando Kim tentando entender a frase. - Seus olhos são extremamente expressivos!
- Vincenzo fala a mesma coisa, muito difícil ser traída assim! - Kim pegou duas cervejas e colocou em cima do balcão sentando-se de frente para ela. - Acordei com uma sensação estranha com Santiago, sabe? Sei que nem o conheço direito... enfim, estou preocupada!

Kim assentiu e em sua cabeça tentou combater a vontade de contar a sobre ele, optando pelo mais fácil.

- Talvez você deva falar com ele, pode te acalmar mais.

assentiu e anotou o número do menino rápido. A companhia de diminuía o peso no ambiente da ausência de .

Santiago.

Santiago ouvia na cozinha preparando alguma coisa - que por sinal cheirava muito bem - quando seu celular acendeu. Ele observou o número, mas sua surpresa foi ainda maior quando leu o conteúdo da mensagem.

“Saudações brasileiras!"
"Preciso falar com você!”

“Saudações Mexicanas, chica!"
"Pode falar.”



Mesmo pensando por longos segundos tentando adivinhar o motivo que levou a menina parecer tão preocupada, nada chegou aos pés de ler aquelas palavras que apareceram em sua tela. Sua surpresa foi tanta que até mesmo quando voltou e questionou o motivo de sua perplexidade Santiago não conseguiu assimilar as coisas, apenas entregou o celular para o menino ler em voz alta.

- “Não sou muito ligada em religião, mas acredito em sexto sentido, confio muito quando algo apita em meu peito... Estou há alguns dias com o pressentimento ruim sobre você, tenho alguns sonhos com praia e hospital, e você sempre está lá! Sei que seus amigos estão ao seu lado, mas fico mais aliviada em ter a certeza que você está realmente bem! Desculpe se te assustei, não quero parecer louca... olhou para Santiago e continuou sem palavras. - Tá brincando?

Santiago deitou a cabeça e cobriu os olhos soltando uma gargalhada irônica logo em seguida.

- Às vezes eu acho que vivo em uma realidade paralela, sabe?
- O que você vai responder?
- Não sei, preciso colocar meus pensamentos no lugar. Será que Kim contou a ela? - balançou a cabeça negando. - Então, eu só chego a uma conclusão...
- Coincidências existem!
- Não se faça de idiota, isso não é nem de longe normal e você sabe!

riu e saiu do quarto voltando para a cozinha. Santiago observou o texto por mais alguns segundos e respirou fundo respondendo, se Deus queria lhe dar algum aviso, estava no caminho certo.

- O que você acha sobre ?

Santiago estava sentado em frente a e observou as milhares de emoções passarem por seu rosto ao lhe perguntar isso. Poderia não ser muito perceptível a ele, mas, estava nítido que o menino estava interessado.

- A pergunta certa seria: O que você acha sobre , não?
- Me sinto em casa! - a resposta de pegou Santiago desprevenido. - E me sinto perdido... Ah! Eu não sei como me sinto Santiago, tudo é muito confuso!
- O que está te incomodando além disso?
- Nosso passeio foi extremamente agradável e agora ela simplesmente está me ignorando!
- Então não foi tão agradável assim, uhn? - Santiago tentou em vão reprimir algumas risadas, mas a fisionomia de não ajudou em nada. - Não precisava me olhar assim! Tente puxar alguma lembrança em sua cabeça oca, vai que tenha cometido algum deslize? Não iria chocar ninguém!
- Você adora mesmo uma graça, Hermano!

.

estava quase terminando a janta quando seu cérebro fez um click. As palavras de Santiago ficaram ecoando em sua cabeça e trouxeram lembranças nubladas para o menino.

“ Qual é o seu problema, ?"
"Acho que realmente perdi meu tempo tentando me convencer que você merecia algum voto de confiança!"
"Te dou uma chance se você conseguir se lembrar de tudo isso amanhã de manhã!"


e ele tiveram a primeira briga e nem as lembrança dos lábios dela esbarrando com os seus tirou o peso em seus ombros e o buraco no estômago. Sua cabeça ainda era uma completa confusão, mas agora tinha uma certa ideia do que tinha feito.

- Eu sou um idiota! - os olhos de Santiago acompanharam o semblante perturbado do menino em silêncio. - Você estava certo!
- As duas coisas não me surpreendem, o que você fez?
- Afastei a pessoa que eu mais queria por perto! Eu sou uma piada! - se levantou e começar a andar de um lado a outro. - Eu estava bebendo no Will quando encontrei com...

Santiago engoliu em seco entendendo a quem a pausa incômoda se referia, e assentiu para ele continuar.

- Eu fiquei muito bêbado, me lembro disso, não me lembro como cheguei em casa, mas me lembro de Kim comentar comigo que ela dormiu lá - fechou os olhos com força querendo se agarrar a alguma coisa. - Nós brigamos porque eu estava puto, eu me lembro exatamente o que aconteceu, mas não me toquei antes pois estava preocupado com você! Merda!

A cozinha ficou em completo silêncio e quando fez menção de pegar seu celular, Santiago foi mais rápido.

- Não, nesse estado você não vai falar com ninguém!
- Santiago você não viu o olhar de negligência no rosto dela... Aquilo me matou...

Santiago apontou para a cadeira e fez sinal para sentar em sua frente.

- Você precisa se acalmar, depois que você estiver totalmente calmo aí sim eu deixo você falar com ela.

abaixou o rosto na mesa e respirou fundo tentando organizar seus pensamentos, a ideia de causar mal a o destruía por dentro, o sentimento era desconhecido, mas incomodava do mesmo jeito. Odiava ter o temperamento tão perturbado, odiava mais ainda às vezes não ter controle sobre seus atos. sabia que os olhos de seu amigo ainda estavam o acompanhando e optou por esquecer por um minuto que sua vida era tão fodida quanto ele.

- Eu vou te dizer o que eu faria se fosse você! - levantou os olhos e escutou atento. - A merda está feita, está chateada e você culpado, não tem como voltar atrás, mas tem como piorar e isso vai acontecer se você ligar agora. - Sant deu uma pausa e acompanhou sua fisionomia dele antes de voltar a falar. - Kim e ela estão juntas, imagine a situação que você pode causar querendo resolver agora? Não vale a pena e você sabe disso.
- Aí eu espero até amanhã e continuo parecendo um idiota?
- Você é um idiota esperando até amanhã ou não, . Você escolhe ser um idiota inteligente ou um idiota burro! - Sant levantou e deixou o celular em sua frente. - Era o que eu faria, mas a escolha é sua!

O menino saiu da cozinha e o deixou sozinho. continuou olhando para o aparelho enquanto absorvia todo o conselho de seu amigo e não era surpresa Santiago ter coerência e razão.
Uma parte sua estava desesperada para pedir desculpas a menina, todavia, a outra sabia que poderia sim acabar causando ainda mais discussão, e sua cota de brigas já estava sendo usada por sua irmã hoje, não precisava de mais problemas e dor de cabeça, então optou pelo mais fácil.

Anjo:
"Anjo... as coisas às vezes fogem um pouco do meu controle, mas a cada momento me lembro do olhar negligente em seu rosto me sinto um pouco pior..."
"Eu me lembro de tudo, me perdoe."


guardou o celular e voltou para o quarto. Santiago o observou em silêncio com um sorriso brotando em seus lábios.

- Falou com ela?
- Não exatamente!
- Ela é diferente, não é?
- Minha mãe diria que ela parece um raio de sol, mas, eu penso nela de outra forma!
- E qual forma seria essa?

passou as mãos pelo rosto e um sorriso verdadeiro apareceu em seus lábios.

- Sorte!

Santiago escutou atento e sorriu voltando a atenção para a TV em sua frente. sabia que era uma forma dele lhe dar um espaço para colocar seus pensamentos em ordem e apreciava demais ficar em silêncio para pensar. Neste momento o que tomava conta dele era a dona daquele perfume e voz que roubou toda sua atenção. O foco de era tanto em que naquele momento foi inútil não perceber o quanto estava encantado por ela, era impossível não lembrar da sensação de paz que trazia, e ao mesmo tempo era diferente estar tão preso a alguém dessa forma, literalmente se sentia fora da sua zona de conforto.
não era acostumado a ver o mundo de cima ou apreciar a calmaria de momentos, ele era um soldado programado para qualquer tipo de guerra, mas parecia que nada daquilo era real ao lado de , ao lado dela nenhum conflito era verdade, que a Terra era apenas paz que não se encontrava em nenhum lugar com os pés no chão, e se sentia bobo por pensar dessa forma depois de apenas uma tarde juntos.
A realidade era que depois de anos o corretor de dizer seria que seu coração estava em paz. Em paz por ela.

.

ainda estava lendo a mensagem de quando Kim voltou com outra bebida em mãos e observou seu olhar, a menina era péssima em tentar disfarçar qualquer coisa e sua amiga adorava isso, mas, não queria dizer que iria desabafar sobre todos os seus problemas, e Kim também sabia disso.
não percebeu, mas seu sorriso ficou cada vez maior ao reler todas as palavras de , o brilho em seu olhar ficou um pouco mais forte e seu peito ficou um pouco mais leve.

- Acho que esse sorriso tem nome e sobrenome!

O sorriso de Kim moldou seus lábios quando balançou a cabeça e deixou o celular em sua frente para ela conseguiu ler o nome de seu irmão antes da tela apagar.

- Seu irmão é um... é complicado!
- Meu irmão é complexo! O que ele fez dessa vez?

riu e tomou um gole da cerveja ponderando se valia a pena ou não falar. - Nos encontramos quando ele chegou alterado, aí você pode imaginar o que aconteceu...

- Entendo! Esse é o motivo real desse sorriso?

murmurou alguma coisa incompreensível e riu um pouco mais corada desbloqueando o celular para a amiga ler. O pedido de desculpas pegou Kim de surpresa e percebeu.

- Sabe qual é o problema de vocês?

balançou a cabeça em negativa e moveu os dedos em forma de silêncio para Kim, que gargalhou ao perceber como ela era engraçada quando estava mais alta que o normal.

- Podemos mudar de assunto? Prefiro manter minha dignidade e não tratar desse assunto embriagada!

Kim riu e assentiu antes de fazer um pedido.

- Vocês dois... Me prometa que vai dar uma chance para se aproximar.

arregalou um pouco os olhos ao ouvir as palavras de sua amiga e o peso delas, mas a resposta dela já estava pronta antes mesmo de pensar sobre isso.

- Prometo, sweetie!
- Quando você se sentir à vontade para conversar comigo, não só sobre isso claro, eu vou estar aqui.

Kim exibia um sorriso amigável. estava feliz com o pensamento de ter uma amiga depois de tantos anos e sua felicidade era tanta que ignorou todas as ligações que seu tio fez durante a noite. Queria ter um pouco de paz, queria sinceramente que sua cabeça desse uma folga. Sua vida era pesada, seus ombros estavam cansados de carregar tanto peso e as vezes sentia-se sem força para enfrentar todos os problemas em sua volta.
E pelo menos hoje estava conseguindo.
Kim continuou analisando em silêncio e atraiu a atenção dela.

- Pode perguntar, Kim! É fácil saber quando você está curiosa!
- Você é brasileira, nasceu e morou no Brasil? - ela assentiu.
- Recém nascida eu morei por pouco tempo, meu pai era de Moscou, então nos mudamos para cá.
- E nunca mais voltou? Tenho a impressão que você não estava morando por aqui quando me encontrou.
- Não! - sorriu e relaxou os ombros. - Quando meus pais morreram, Vincenzo e eu voltamos para o Brasil, quando completei idade suficiente optei pela EsFCEx, passei um ano estudando e me formei oficialmente como cadete, mas, precisei esperar quase dois anos para virar oficial do exército. Quando conversei com meu "pai" sobre me mudar para outro lugar, ele me deu total apoio, sabe? A morte dos meus pais ainda mexia muito comigo, foi minha escolha para recomeçar de forma mais leve. Demorou um pouco para o comandante aceitar me mandar para os Estados Unidos, eu era muito nova na época e fui chamada de inexperiente, sem contar que a base onde os brasileiros vão é o Haiti, mas, eu não queria.

Ao contrário do que parecia, falava bastante quando queria. Os olhos de Kim se arregalaram em surpresa por uns segundos e logo a menina abandonou a postura confusa dando lugar a uma curiosidade animada que antes era desconhecida.

- Você serviu ao exército? - assentiu sorrindo. - Eu jamais iria imaginar!
- Isso é ótimo, sabe? Dependendo no local não é muito legal que alguém me reconheça.
- Continue, quero saber todos os detalhes.

sorriu, bebeu mais um gole e continuou.

- Eu passei por vários testes físicos e psicológicos que testaram todos os meus limites e depois de muita burocracia e dor de cabeça fui aceita. Mudei de base com quase 22 anos e foi o "alto" daquele ano. O meu novo comandante foi um carrasco no início, mas, eu me adaptei muito bem. Tentaram me mandar para outros lugares, porém, eu nunca quis, formei raízes no EUA.
- Você está de férias?
- Pode se dizer que sim, estou de férias, faltam dois anos para que eu vire sargento e acharam melhor me dar um pouco de paz.
- E porque não foi para o Brasil invés de vir para cá?

Essa pergunta deixou incomodada, ela engoliu em seco forçando uma aparência calma antes de responder.

- Faz muitos anos que não volto para lá, Vincenzo se mudou para cá e desde então é onde eu chamo de lar. Mas, sinto saudades.
- Prometa que vai me levar para conhecer o Rio de Janeiro!

A risada de Kim preencheu a sala. assentiu e observou que a menina não percebeu o olhar esquisito que passou por seu rosto com a pergunta e suspirou aliviada, o que menos queria era que Kim soubesse o real motivo de estar ali.

- E qual é a sua história emocionante?

A menina balançou a cabeça e sorriu um pouco tímida antes de começar a falar.

- Eu quis sair um pouco de toda essa loucura e optei por tentar a psicologia... Foi a melhor coisa que eu já fiz, sabe?
- Você se encontrou, dá pra ver! Falta quanto tempo para você se formar?
- Se tudo der certo, eu me formo em dois meses, fiz as últimas provas e o estágio está quase acabando, preciso mandar tudo para minha orientadora e pronto... Estou uma pilha de nervos, mas completamente feliz e realizada.
- Tem notícias daquela paciente que comentou comigo?
- Na mesma, sweetie, o tumor dela avançou para parte frontal de seu cérebro, as dores dela estão chegando a um pico muito alto e os remédios não estão ajudando muito. Estamos tratando ela com um composto de codeína e morfina, mas, não está dando jeito.
- O tratamento não adianta?
- Retarda, mas, não cura. Sophya é uma menina extremamente inteligente e forte, é burrice o pessoal do hospital achar o contrário, ela sabe o que está acontecendo e eu sei que quando vacilarem... - a voz dela falhou por um momento. - Ela vai tentar algo.
- Isso te prejudica?
- Infelizmente sim. Ela é minha paciente, se algo acontecer com ela a responsabilidade é inteiramente minha, principalmente se o motivo for suicídio - o rosto de Kim se tornou um pouco triste. - Às vezes eu sinto como se eu não estivesse fazendo tudo que posso, sabe? estendeu as mãos e entrelaçou os dedos nos de sua amiga.
- Qualquer um que escute você falando sabe que você faz o impossível por todos eles, você trabalha com o coração e isso é lindo! Ela sorriu e soltou a respiração de forma lenta recebendo um sorriso amigável em resposta.



A música mencionada no capítulo é "Luck" do Jason Mraz.
O Rublo mencionado é a moeda Rússia.
EsFCEx é Escola de Formação Complementar do Exército e Colégio Militar, na vida real ela se localiza em Salvador, mas aqui eu optei por "imaginar" que ela está localizada no Rio de Janeiro.


Capítulo 9

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A sensação que acometia o peito de era que ele estava andando em círculos por algum tempo a procura de alguém que talvez fosse embora sem que ele pudesse evitar. Dessa vez o lugar que ele estava não tinha plantas secas e a poeira não estava tomando conta como da última vez, os móveis não estavam cobertos com os lençóis brancos e pela primeira vez em anos o sol entrava por todos os cantos da casa.
observou ainda estático da porta da frente uma imagem bastante conhecida, e esperou. Esperou pelo medo, pela incerteza, pela solidão, esperou pelo sangue e pela morte, mas nada disso aconteceu. Ao contrário de tudo que estava esperando o que encontrou foi infinitas vezes melhor… Ela estava ali, de braços abertos e com o mesmo sorriso amável e encorajador que sempre teve.

- Estava à sua espera, meu filho!

Os pés de não acompanharam o cérebro e em pouco segundos ele chocou o corpo com o de sua mãe a envolvendo em um abraço apertado. tinha certeza que estava sonhando, mas ao mesmo tempo também queria acreditar que pudesse ser real.

- Eu não tenho muito tempo… - Patrícia segurou os ombros de seu filho com toda gentileza e sorriu ao observá-lo com uma atenção redobrada. - Você está tão lindo!
- Mamãe… eu senti tanto a tua falta.

Patricia sorriu e levou os dedos até as lágrimas que desciam dos olhos de secando-as.

- Essa vai ficar de lembrança… - colocou uma gota em seu peito e segurou as mãos de seu filho com um pouco mais de força. - Deite aqui...

deitou a cabeça no colo de Patrícia e fechou os olhos sentindo o carinho que tanto sentiu falta. Seu corpo acompanhou o relaxamento momentâneo e por alguns segundos tudo era resumido a paz.

- Soube que você conheceu uma pessoa…

O sorriso de ficou ainda maior ao se lembrar de .
- Queria que você pudesse conhecê-la, ela parece um anjo, mãe. O problema é que como sempre sou eu que estrago tudo…

Patricia bateu de leve no ombro dele repreendendo por usar palavras tão duras consigo, era um hábito antigo de sua mãe.

- Acredite meu filho, eu a conheço. Chego a pensar que a conheço mais do que você. Eu não tenho o tempo que gostaria, mas vim te dizer que estou orgulhosa de ver o homem que você está se tornando…

fechou os olhos com força quando percebeu a visão ficar turva e embaçada, ele sabia o que aquilo significava.

- Preciso de você mamãe, fique mais um pouco.

Patrícia acariciou o rosto de sorrindo e deixou um beijo em sua testa.

- Se cuide, cuide da sua irmã, de seu "irmão" e mantenha por perto… Saiba que meu coração está sempre com você, me chame e eu volto correndo!




Quando acordou a primeira coisa que percebeu foi Santiago sentado em sua frente com um olhar preocupado no rosto e ele imaginava bem o motivo, mas precisava de alguns minutos em silêncio para conseguir aceitar a realidade.
De maneira inconsciente, a saudade apertou ainda mais em seu coração e isso conduziu mais lágrimas aos seus olhos. sempre soube que houve e haverá esse amor inimaginável por sua mãe, não importando que passe 10, 100, 1000 ou um milhão de anos. A saudade e a ausência sempre estarão ali, e se por um tempo foram esquecidas ele sabe que seu subconsciente dará um jeito de lembrar sentindo a falta de uma época que infelizmente não pode voltar. Mas mesmo com a dor da ausência, o amor e laço que tudo aquilo representa para ele ninguém iria tomar. O amor é insubstituível e a saudade seria eterna…
Santiago voltou para o quarto segurando duas xícaras de café e esperou até estar pronto para conversar, esse era o grande ponto alto de seu melhor amigo, Santiago sabia respeitar seus momentos.

- Obrigado! - respondeu pegando sua xícara.
- Está tudo bem? Você falou a noite inteira.
- Sonhei com minha mãe… Acho que estou começando a acreditar nas coisas que você fala sobre encontros espirituais.

Santiago riu.

- Qual foi o grande conselho que dona Patrícia nos trouxe?
- Posso dizer que minha mãe é uma grande fã de , o que não me surpreende…

A conversa foi interrompida por uma mensagem preocupada de Kimberley, e isso foi o bastante para trazer todos os problemas reais de volta aos seus pensamentos.

Irmã:
"Vai vir para o almoço?"
"Estou indo."


Não era da rotina de sua irmã acordar cedo aos finais de semana, então concluiu que deveria ter ido embora bem cedo, o que era ainda melhor. Não queria envolver sua irmã - a defensoria pública em pessoa - nessa situação. Em sua cabeça ele já tinha o planejamento completo para a situação com , a menina só precisava aceitar.

- Você está bem?

Santiago soltou os cachos e começou a desembaraça-los assentindo tranquilamente a pergunta. Ele sorriu e acenou indo para o banheiro, continuou observando o número de em sua tela antes de bloquear o celular e levantar sem perceber que seu amigo ainda o encarava.

- Existe um termo no Brasil que define bem o jeito que você está, e digo isso, pois eu mesmo fiz minhas pesquisas - balançou a cabeça e riu ignorando o tom de seu amigo. - está boiolinha por alguém...
- É bem da sua cara perder tempo com coisas inúteis… - ele murmurou e um sorriso debochado acompanhou seu rosto. - Mas, definitivamente você está certo.



Antes de ir pra casa, se certificou que Santiago estava realmente bem, a ideia de vê-lo sucumbindo a tristeza o apavorava demais. Sant era o sinônimo perfeito de alegria e se isso fosse diferente, o mundo não estava rodando normal. E agora enquanto ia para casa a vontade incontrolável de pensar em sua família - e principalmente em sua mãe - tomava conta de toda sua atenção.
não era uma pessoa totalmente insegura, mas sabia que alguns sentimentos contavam mais que outros, o fato de sua irmã ter dito que talvez eles não precisem mais dele, o machucou mais do que um soco iria o ferir e ele se sentia frustrado, pois sabia que nutrir esse sentimento o deixava pior. Ele lutava bravamente a assumir publicamente que a insegurança o afetava tanto, principalmente porque no fundo ele sabia que isso era a maior bobeira. Depois que seus pais morreram, assumiu uma responsabilidade enorme e não se arrependia de forma alguma, mas não escondia que por anos se sentiu sufocado e infeliz. Hoje em dia por mais autossuficiente que ele fosse, existiam sim opiniões que contavam muito em sua vida e não suportaria a ideia de errar com aqueles que contavam com ele, ou até mesmo ser o causador de qualquer que fosse o sentimento ruim que acarrete uma decepção. A realidade era que ele não lidava muito bem com o sentimento de negligência, pois o deixava vulnerável, e ele também não lidava bem com isso.
Demorou apenas uns segundos para ele olhar em volta e perceber que estava parado em frente a sua casa pensando, e não demoraria muito para sua irmã sair preocupada com ele. Kim era bastante conhecida pela precipitação e não estava em um bom momento para receber a enxurrada de perguntas que acompanhariam a situação se fosse pego. Por sorte, quando entrou na cozinha lá estava Kim em pé a sua espera, os olhos claros estavam cabisbaixos e ansiosos, ela olhou com uma urgência exagerada, abaixou a cabeça e se moveu rapidamente chocando seu corpo contra o do irmão.

- Eu sinto muito, muito mesmo, eu preciso muito de você, entende isso? Me perdoe boo!

envolveu sua irmã em um abraço forte e sentiu as lágrimas dela molhando sua camisa, fazia tantos anos que não ouvia o antigo apelido saindo dos lábios dela e por um momento foi levado até o enterro de seus pais e no mesmo instante sentiu um aperto no peito, ele fechou os olhos com força e apertou ainda mais a irmã junto de si. Não existia motivo para ter raiva de Kim, era sua irmã, sua melhor amiga, sua família e eles iriam resolver qualquer coisa desde que estivessem juntos.

- Me desculpe por te deixar triste e sozinha. Estamos bem, shhh… - depositou um beijo no topo de sua cabeça e sentiu a menina suspirando aliviada. - Amo muito você, Kim!

Kim fungou algumas vezes e continuou com os braços em volta dele por um tempo até estar bem o suficiente.

- Você está bem? - ela assentiu sem o encarar nos olhos. - Kim… como passou à noite?

Kim suspirou fundo e o acompanhou até a mesa.

- Um daqueles pesadelos de sempre… Hoje foi um pouco diferente, eu estava na rua daquela boate e quando pisquei senti um arrepio, algo parecido com um mau pressentimento e um medo repentino, e quando eu abri os olhos estava encarando o caixão de papai, mas dessa vez ele também estava ao meu lado segurando minha mão. Então acordei um pouco assustada - entrelaçou os dedos nos de Kim e sorriu encorajando-a. - Foi diferente e esquisito, mas tirando isso a minha noite foi ótima, é uma companhia incrível… Como foi com Santiago?
- Melhor do que eu esperei, apesar de tudo Santiago está bem e disposto a procurar ajuda…
- E o que mais?
- Sonhei com mamãe hoje… - respirou fundo e sorriu. - Foi libertador!

O sorriso que sua irmã exibiu deixou um pouco mais calmo, a sintonia deles era realmente coisa de outro mundo.



- Vai ficar em casa a tarde? - Kim perguntou terminando o almoço.
- Ainda não sei, preciso resolver outro assunto... - a boca dela se curvou em um sorriso de canto e ele revirou os olhos. - pareceu estar chateada comigo?

Kim soltou uma risadinha engraçada em resposta e levantou da mesa.

- Liga logo! Vou terminar os relatórios do estágio, qualquer coisa me chama.

revirou os olhos, pegou o celular no mesmo instante e escutou uma risadinha baixa de sua irmã, recebendo um beijo estalado na bochecha.

- Amo você também!

não precisou de nenhum segundo a mais para discar o número - já conhecido - de , e gostou de perceber que a menina dessa vez não o ignorou.

- Oi anjo! - o nervoso em sua voz era perceptível.

"- Oi, está tudo bem? Sua voz está esquisita..."

- Não, na verdade não está tudo bem… - ele ouviu respirar fundo antes de continuar. - Passei a noite pensando na forma que te tratei e quero consertar as coisas.

"- , não se preocupe… Você me mostrou que se arrependeu..."

- , eu me lembro de tudo naquela noite… - a ligação ficou muda por alguns instantes e isso o encorajou ainda mais. - Posso te levar em um lugar? É importante.

"- Só se você me prometer que vai me trazer um chocolate...”

suspirou aliviado e sorriu concordando de imediato.

- Chego aí em meia hora, tá bom?

Ele desligou a ligação assim que ouviu concordar e se surpreendeu ao se observar em frente ao espelho e encontrar o sorriso enorme que estava estampado em seus lábios. Os passos de Kim chamaram a sua atenção desviando seus pensamentos da menina e o trazendo de volta para sua casa, agora ele teria que colocar a segunda parte do plano em prática.

- E então?
- Tudo certo! - ele riu e viu sua irmã balançar a cabeça rindo. - Kim, preciso de uma coisa que sei que está com você.
- O que?
- A chave de casa...

Kim arregalou os olhos e ficou muda por alguns segundos, antes de enfim piscar e assenti. Ela subiu as escadas ainda em silêncio e não demorou muito para voltar, trazendo agora uma chave prata nas mãos.

- Tem certeza?

balançou a cabeça em concordância e pegou a chave sentindo todo o peso das lembranças em suas costas.

- Te vejo mais tarde!



.



passou o caminho todo em silêncio porque algo em não estava tão normal quanto ele parecia mostrar, e isso só se concretizou ainda mais quando observou a propriedade em sua frente e ficou surpresa ao encontrar uma mansão - literalmente - no lado de fora. A arquitetura era tão linda que os olhos dela brilharam, aquela parte da cidade parecia ter sido tirada de um livro de conto de fadas.
olhou para e ao contrário dos olhos dela, os dele estavam bem sérios e tensos.

- Está tudo bem, ? - perguntou um pouco receosa com o semblante dele.

apenas balançou a cabeça e sorriu amarelo antes de sair do carro e ir para a porta dela e abri-la.
O portão grande de cobre rangeu alto trazendo uma sensação de filme de suspense até mesmo para uma paisagem tão bonita. Ali, o vento também parecia ser um pouco mais sombrio do que em qualquer outro lugar de Moscou, aquela atmosfera fez todos os pelos do corpo de se arrepiarem, mesmo sendo tão bonita, a casa parecia estar escondendo um segredo mórbido. passou em sua frente e estendeu as mãos em um pedido silencioso que entendeu bem.

- Desculpe se você está assustada, mas queria te trazer neste lugar - ela entrelaçou a mão na dele e assentiu entrando ainda mais na propriedade.

A casa era linda, lembrava um mini castelo antigo e romântico do século XIX, as paredes e janelas brancas davam um ar mais claro ao local, mas o que prendeu a atenção de foi o jardim, ele tinha as mais variadas cores, formas e flores que variava entre Amarílis, Azaleias, Botões de ouro, Calêndulas, Camélias, Cravos, Lírios, Orquídeas, Petúnias e as preferidas de : Os girassóis. Mesmo a casa parecendo estar vazia há anos, o jardim estava bem cuidado.
O sorriso de se alastrou ainda mais enquanto andava por dentro das flores e árvores e observava o canteiro dos mais brilhantes girassóis que possa ter visto em qualquer outro lugar, a vontade de sentar entre eles e ficar ali durante a tarde toda os observando acompanhar o sol, cresceu consideravelmente em seu peito. e ela continuaram andando até a espreguiçadeira grande na sombra de uma das árvores e ali sentaram um de frente para o outro. Ele continuou em silêncio e percebeu que ele estava observando todo o ambiente com uma atenção um pouco maior do que o costume, e bem mais tensa também. Agora tinha certeza que fazia um tempo que ele não visitava o local.

- Faz anos que eu não chego perto dessa casa, e achei que nunca mais fosse vir aqui...

engoliu em seco e mesmo sabendo que sua curiosidade poderia não ser própria naquele momento resolveu perguntar o que já estava na ponta da língua.

- Onde nós estamos?
- Estamos na casa minha casa, bom, deveria ser... Meus pais foram mortos aqui.

Um novo vento gelado foi de encontro ao corpo de e sua primeira ação foi se encolher, já havia sentido a mesma sensação antes e não gostava em nada disso. O cheiro do local mudou momentaneamente e por alguns segundos achou que estivesse em um cemitério, não em um jardim tão bonito como aquele era. Ela ergueu os olhos e encarou com mais atenção ainda esperando ele continuar, mas ao que parecia ela que teria que perguntar e comandar toda a situação. A única ação dele foi fechar os olhos e encostar a testa na de , aumentando ainda mais o contato dos dois.

- Porque você me trouxe aqui?

respirou fundo e percebeu quando ele engoliu em seco para responder.

- Hoje eu sonhei com a minha mãe, e diferente das outras vezes, dessa vez foi algo comparado a uma libertação - continuou com a mão agarrada na dele e uniu ainda mais suas testas esperando em silêncio continuar, ela entendia bem aquele sentimento e estava emocionada em ouvi-lo dividir algo tão íntimo com ela. - Estar aqui hoje me faz ter o mesmo sentimento, e eu queria que você estivesse comigo. Esse era o jardim da minha mãe, foi a responsabilidade que eu puxei: deixá-lo inteiro até hoje. A parte da casa ficou por conta de Kim por eu não ter coragem de entrar, mas mesmo assim fazia anos que eu não olhava de perto o jardim.
- É um dos jardins mais lindos que eu já vi - assim, de olhos fechados e de mãos dadas a sensação deles era como estar sozinhos no mundo, e nada ao redor importava. - Me conte sobre sua mãe...

sentiu quando sorriu e não sorrir junto foi impossível.

- Minha mãe era uma das mulheres mais doces que existia na terra… Sabe, totalmente altruísta, sempre com um sorriso enorme no rosto e com um coração tão grande e bondoso que era impossível não se apaixonar por ela, mesmo tendo um gênio forte...
- Agora eu entendo de onde você puxou…- a risada rouca de trouxe uma sensação de paz gostosa no peito de . - Continue, me conte uma lembrança boa...
- A lembrança que mais se fixa em minha mente? Na verdade são muitas, são todas as vezes que minha mãe ia trabalhar. Todos os dias ela fazia questão de passar em meu quarto, me encher de vários beijos e dizer com a voz transbordando amor: mamãe volta mais tarde, mas saiba que meu coração está sempre com você, me chame e eu volto correndo! - ficou em silêncio e quando voltou a falar, pode perceber lágrimas sendo formadas em seus olhos e sua garganta. - Depois de tantos anos eu ainda continuo a chamando e ela sempre vem.

controlou as próprias lágrimas em seu rosto quando sentiu as de pingar em suas mãos, ela nunca imaginou ter um momento tão íntimo e especial com ele, o que ela realmente queria era abrir os olhos e dar todo suporte que o menino precisava, mas entendia os limites dele e só de saber que ele confiou nela a compartilhar esse momento já era o bastante.
Depois de alguns minutos foi que quebrou o silêncio dessa vez.

- Se você pudesse conhecer meu pai ia encontrar uma versão de Kim masculina, exceto a parte que ela fala pelos cotovelos… - soltou uma risadinha baixa ao se lembrar de noite com sua amiga. - Meu pai não, ele sempre foi um homem de poucas palavras, mas compensou em todas as atitudes que teve comigo e com ela. Minha irmã sempre foi mais grudada com ele, mas nossos momentos eram únicos também… Eu me lembro de todas as vezes que nós dois compartilhamos o sofá para assistir nossos programas preferidos, e não, não era só futebol. Meu pai e eu adorávamos assistir programas culinários, acredita? - gargalhou e balançou a cabeça descrente ao ouvir a risada baixa de em resposta. - A gente não precisava de toque ou palavra, eu sempre soube que o amor de meu pai era genuíno assim como seu orgulho, eu via isso em seus olhos cada vez que ele olhava para mim, para minhas conquistas e era assim todas às vezes que falava de mim para qualquer outra pessoa, ele era amoroso até mesmo quando me repreendia.
começou uma carícia leve nas mãos de e ouviu o menino suspirando em resposta.

- Acho que falta me contar sobre duas pessoas, estou certa?
- Você é bastante perspicaz, anjo! Eu tinha três anos quando descobrir que ia ter uma irmã, na época eu não entendi muito bem, mas ouvia minha mãe e meu pai dizer que ela seria uma princesa, então eu autenticamente soube que seria o protetor. Quando Kim nasceu, eu havia acabado de completar quatro anos e mesmo sendo uma criança, o nascimento dela foi um dos dias mais importantes em minha vida. Kimberley sempre foi a minha salvação, eu não sou religioso, mas sempre disse que a protegeria até depois da morte se fosse preciso, e tudo se concretizou quando nossos pais morreram. Na época, eu fiquei aliviado por ser maior de idade, a ideia de ser separado dela me deixou louco. Desde então eu assumi uma responsabilidade não só de um irmão e protetor, mas sim como um pai que tenho certeza que o meu queria que eu fosse. E não me arrependo!

Quando terminou de falar sobre Kim, percebeu que estava ainda mais emocionada ao perceber o tamanho do amor que habitava o peito de , o ver tão vulnerável em sua frente mexia demais com ela, mais do que pudesse perceber ou quisesse.

- E por último veio o Santiago… Eu o conheci assim que me mudei para Moscou… - antes de continuar, ele ergueu a cabeça e esperou até abrir os olhos. - Essa é uma parte da história que eu queria te contar, você não errou em achar que eu era militar, você só errou o trabalho. Eu servi o exército apenas por um ano, minha vocação sempre foi outra. Eu trabalhava como policial!

A expressão de mudou de curiosa e serena, para curiosa e surpresa, dada a todas as circunstâncias ela não imaginou que fosse policial, mas agora parando para analisa-lo com atenção, se sentiu uma idiota em não perceber antes. Era definitivamente a cara dele.

- Anjo, não vai dizer nada?
- Tava na cara desde o início… - riu e voltou a fechar os olhos e dessa vez foi ela que encostou a testa na dele. - Continue, babe.
- Babe?
- perguntou . - Eu gosto muito de como isso soa… O primeiro contato que tivemos foi de longe algo muito esquisito. Eu trabalhava na polícia e o menino tinha sido chamado para "quebrar" um dos sistemas de segurança de uma organização privada. Meu treinamento me ensinou a desconfiar desse tipo de gente, e confesso que na época eu não era uma pessoa muito legal. Mas acho que você já percebeu que é impossível não gostar de Santiago, seu jeito divertido, o sotaque Mexicano e sua devoção pela vida me salvaram. Foi uma das minhas piores épocas, mas essa história fica para outro dia - riu e assentiu mais uma vez. - Santiago trouxe o termo "família" de volta para minha vida, eu literalmente devo parte de minha vida a ele.

voltou a ficar em silêncio e pela primeira vez pensou no sentimento que crescia em seu peito. Ela estava sentindo-se protegida com os braços de em volta de sua cintura e buscou respirar lentamente, para tentar lembrar-se de algum outro momento que tenha passado com ele durante o tempo que se conheciam que não tenha sido exatamente maravilhoso como esse. Daquela forma com as mãos, a testa e o corpo dele tão próximo, estar ali não deixou somente o seu coração, mas também o seu corpo em alerta em busca qualquer reação adversa que poderia ter, mas nenhuma delas deu a cara. A novidade não era nem essas reações, era o jeito “bobo” que ficava com , ele já vinha dominando todos os seus sonhos e desejos como uma avalanche, mas essa sensação era nova, a sensação de que enfim estava no lugar certo mexia demais com . E era exatamente assim que se sentia quando estava em seus braços:
Boba.
Completa.
Em casa.

não lembrou em qual momento deixou ficar tão perto ou o que exatamente acontecia com o seu corpo e sua mente ao ficar tão próxima dele. era uma bagunça, mas uma bagunça boa em sua vida e esse sentimento que crescia em seu peito - e às vezes chegava a sufocar - crescia em um ritmo rápido, simples e leve com o passar dos dias. E ali em seus braços não queria estar em nenhum outro lugar, com nenhuma outra pessoa que não fosse ele. Queria permanecer envolvida com aquele corpo quente e perfumado, sendo preenchida com a sensação mais prazerosa do mundo que era ouvir a voz aveludada dele bem perto do seu ouvido lhe chamando de “anjo”.

- No que você está pensando? - perguntou levando uma das mãos até seu cabelo e alisando. ainda estava com os olhos fechados quando respondeu sem pensar muito no assunto.
- Em nós dois...

Quando enfim abriu os olhos viu uma das imagens mais lindas de toda sua vida. O sol atrás dele brilhava ainda mais forte por entre as nuvens e brilhava junto com a paisagem, como um anjo se erguendo em fogo glorioso dos céus.

- Do que você tem tanto medo exatamente, anjo?

tinha medo de se afundar ainda mais no que poderia estar começando a sentir por , pois sabia que uma vez que se permitisse isso, ela não seria capaz de voltar atrás, e talvez nem quisesse. Mas tinha medo de tudo isso atrapalhar seu plano ou atrapalhar a vida dele. De qualquer forma alguém perderia.
De início ela tentou ser delicada, mas estava tão desesperada que esqueceu completamente a gentileza quando puxou para mais perto, emaranhou os dedos nos fios de cabelo de sua nuca e ultrapassou toda a linha de limite que ainda existia naquele momento, limites que ela mesmo criou.
"Do que você tem tanto medo exatamente?"
De me apaixonada por você
.
Mas o que saiu de seus lábios foi completamente diferente.

- De você!

E grudou os lábios nos de forte o bastante cair em cima do corpo dele sob a espreguiçadeira. A língua dele foi rápida para pedir passagem e aprofundar o beijo com uma urgência bastante voraz, que foi igualmente correspondida por . E naquele instante a união deles chegou ao ápice, eles sentiam o calor dos corpos juntos, sentiam a respiração se misturando em uma só, sentiam todas as terminações nervosas de seus corpos vibrando em um único propósito e o mais importante: sentiam o ritmo do coração um do outro. Acelerando e se completando, do jeito que e eram: simultaneamente relacionados entre si.
apertou sua cintura, tocando a lateral do seu corpo e subiu até a sua nuca, deixando sua mão ali enquanto pressionava ainda mais o corpo contra o dela. foi parando o beijo distribuindo selinhos e dando um sorriso tímido em resposta ao ver que a encarava atordoado e bobo com os lábios avermelhados entreabertos, ele sorriu ainda mais e aproximou sua boca novamente a dela. mordeu seu lábio inferior e arranhou sutilmente o pescoço dele vendo-o fechar os olhos e puxar levemente os cabelos de sua nuca. A mão livre de passeou pelos braços tatuados de , aumentando ainda mais o contato, e soltou um gemido baixo quando prendeu seus lábios de forma suave por entre os seus dentes, acariciando com a sua própria língua. O telefone de tocou mais uma vez e ela bufou, entendendo que não seria capaz de ignorar novamente as ligações. soltou uma risada baixa e rompeu o beijo o mais delicado que pode, mas não se importando em permanecer com em seus braços.
Ela olhou o nome na tela de bloqueio e deu um tapinha na testa, se esqueceu completamente que seu tio estava tentando falar com ela desde ontem, com um olhar de desculpas ela atendeu, sentindo a carícia de em seus cabelos.

- Oi Jam… Tio?

A risada de James veio em resposta, mas, suas palavras não estavam tão felizes, ele soava um tanto quanto preocupado.

"- Pensei que para falar com você eu tinha que marcar um horário… - ela murmurou um pedido de desculpas e se calou. - Você teria como vir até aqui? Preciso conversar com você sobre um assunto."

levantou o olhar para observar e o semblante feliz e relaxado dele foi o bastante para amolecer seu coração.

- Pode ser mais tarde? - murmurou um "não tem problema" baixinho e rolou os olhos tampando sua boca. – Tio?
A risada de James chegou aos seus ouvidos em poucos segundos.

"- Não quero atrapalhar seu encontro, querida. Venha assim que possível."

desligou o celular e fechou os olhos deitando a cabeça ainda mais no ombro de , que sorria cada vez mais ao ter o corpo da menina em seus braços.



.



O sorriso de ativou uma onda de zelo e cuidado em seu peito que até então era desconhecida por ele, que o conduziu a ficar tão perto e abrir detalhes tão íntimos de sua vida a ela. A fisionomia doce de denunciou que ele definitivamente pela primeira vez tinha feito algo certo, mas nada, absolutamente nada se comparava a ter os lábios dela nos seus.
O frio em sua barriga era descomunal e chegava a deixá-lo enjoado, e tinha certeza que seu coração batia tão acelerado, com tanta euforia que era audível aos quatro cantos do mundo. Ter deitada em seu colo o deixava totalmente fora de suas faculdades mentais, mesmo que seu peito gritasse que era isso que queria desde o dia que colocou os olhos na menina. Ele aproveitou que estava com os olhos fechados e reparou ainda mais em seus detalhes, ela era tão pequena em seus braços, mas ao mesmo tempo era o corpo dela que trazia firmeza e reparou que se agarrava a ela como se ela pudesse segurá-lo no mundo. Ele reparou nas palmas das suas mãos juntas e em como a mão dela era tão macia e conseguia senti-la respirando contra si, como a asa de uma borboleta e se lembrou da primeira vez que sua mãe lhe mostrou uma flor, era uma Gazania, também conhecida como “flor do tesouro” e pensou que nunca tinha visto algo tão belo… Até conhecer .
Os olhos claros dela se abriram e o sorriso dela tomou conta de todo seu rosto, o que trouxe uma pontada no peito de , e agora ele entendia por que as pessoas gostavam tanto de manter contato. A última coisa que queria era ficar longe de .
Existe um buraco em seu estômago que dá espaço a um nervosismo, e essa parte quer puxá-la de volta para si, derramar toda sua admiração, sua devoção e todas as coisas que não consegue explicar, mas a sua outra parte ainda está atônito. continuava o observando em silêncio quando levantou seu queixo em um movimento bastante consciente e quando percebeu os dedos gentis dela estavam em sua nuca. colocou sua mão livre sobre o rosto dela e não conseguiu parar de tocar sua boca na dela, não em um beijo malicioso, mas sim um beijo terno e calmo.

- Eu não sei ao certo o que está acontecendo... – começou a falar ainda de olhos fechados, os seus lábios encostando levemente nos de arrancava risadas baixinhas da garota. – Mas, não quero que fique um clima estranho entre nós...
- Shhh… Te proíbo de começar esse papo ultrapassado, estamos no século XXI.

A sensação da risada de era deliciosa.

- Além do mais, não se pede desculpas depois de um beijo!

riu e abraçou ainda mais olhando o pôr do sol.

- Eu queria ter trago minha câmera para conseguir capturar tudo isso…
- A paisagem?
- Não só ela… As fotos são como o meu coração. E se pudesse transformar uma única foto neste momento, cada centímetro dela teria você.

se virou e encarou o rosto de com um pouco mais de atenção, e ele reparou nas íris dela dilatando e voltando ao normal tão rápido quanto a asa de um beija flor batendo.
Eu estou fudido em milhares de tons diferentes por essa mulher, foi o que ele pensou.

- Obrigada por me trazer aqui, por partilhar segredos comigo e deixar meu dia mais feliz, !

Ele ficou em silêncio por alguns segundos tomando coragem de falar o que estava em sua cabeça o dia todo.

- Você traz de volta o meu melhor, anjo…



.



estacionou a moto atrás de um arbusto e sorriu ao sentir que mesmo após o banho, o cheiro de estava impregnado em cada parte de seu corpo, mas logo afastou o pensamento, se voltasse a pensar nele pararia no tempo. Antes que pudesse chegar perto da porta, o mesmo menino da última vez estava lá para a recepcionar novamente. Ele sorriu e a cumprimentou com um aceno de cabeça.

- Veio vestida para trabalhar, bella donna?

tombou a cabeça para o lado e franziu a testa tentando buscar em sua memória a familiaridade do garoto em sua frente.



Bem lá no fundo da sala estava parado um menino. avistou uma caixinha preta em suas mãos e pela forma que ele se agarrava a ela dava a certeza que era precioso demais. O semblante do menino era triste e melancólico, os olhos estavam vermelhos, denunciado que provavelmente havia chorado. deu um passo à frente mas sua visão foi atrapalhada por seu tio. James se ajoelhou em sua frente e sorriu envolvendo com os braços.

- Tio, quem é ele?

James olhou por cima do ombro e acenou para o menino, ele continuou com a mesma fisionomia perdida ao se aproximar de e seu tio...

- Benjamin?




A voz de soou mais alta do que ela estava esperando, o menino por outro lado apenas abriu os braços e a envolveu em um abraço forte deixando um beijo no topo de sua cabeça abrindo ainda mais o sorriso.

- Eu sinceramente achei que você não fosse se lembrar… - o sotaque italiano de Ben desde criança sempre foi atraente e ela adorava.
- E você não moveu um músculo para me contar…- balançou a cabeça e deu um soquinho no ombro dele.
- Mia ragazza, na verdade as coisas estão uma loucura desde que você apareceu, não tive muito tempo para pensar… Mas essa conversa pode ficar para outra hora, James está te esperando.

assentiu e sorriu quando Ben deu a passagem rapidamente, não precisando de muito para encontrar seu tio. James estava em uma das mesas sentado e olhava os outros homens jogando rindo. conhecia bem aquele sorriso.

- Observando enquanto se matam? - ela se apoiou nas costas dele e olhou mais atentamente a imagem a sua frente. James cobriu gentilmente as mãos da menina com a sua e soltou a fumaça do charuto.

quase conseguia se lembrar da sensação de ter seu tio em sua vida à anos atrás.

- Gosto de os ver perdendo dinheiro no poker, você joga? - a menina assentiu com um sorriso travesso, entendia agora porque sua mãe era tão boa. - Te olhando aqui consigo imaginar ainda mais sua mãe, principalmente vestida dessa forma.

acompanhou o olhar de seu tio e percebeu pela primeira vez a roupa que estava vestindo combinava bastante com as roupas que os homens de James vestia, estava em casa.

- Então precisamos marcar um jogo com você, adoraríamos jogar com um Albuquerque que não nos roube! - o homem à direita falou e seu tio gargalhou um pouco mais alto.
- Acredita que eles acham que eu roubo? Inadmissível
- ele levantou da cadeira e sorriu para . - Bom te ver… Vamos?

Eles seguiram juntos até um enorme corredor que antes era desconhecido por ela, e percebeu que o prédio parecia ser bem maior do que parecia, o que atiçou ainda mais sua curiosidade. Ao contrário dela, James estava quieto e parecia até um pouco ansioso. O silêncio deu tempo suficiente para pensar em algo que Vincenzo falou.
"Você não percebe como eles são civilizados?"
E o pessoal de James realmente era, mais do que isso, pareciam uma verdadeira família, nada comparado aos trogloditas que já havia encontrado. Ela poderia não saber ao certo quantos homens trabalham ao todo ali, mas sabia que os de confiança estavam naquela mesa com seu tio quando entrou e isso já dizia tudo.
Os pensamentos dela foram interrompidos quando ele abriu outra porta e deu o espaço para ela passar. A sala era totalmente diferente da sala de seu tio, as janelas davam para a parte de trás do terreno com a vista magnífica do rio que ali passava, as paredes claras contrastavam com a mobília preta, mas nada foi tão emocionante quanto observar o detalhe na parede. Havia várias fotos espalhadas por toda a extensão e não foi preciso muito para encontrar um quadro com a foto de sua mãe pendurado, e ao lado uma foto de seu pai. O peito de se inundou de alegria quando observou os girassóis espalhados por cada cantinho da sala dando um ar ainda mais aconchegante. Os olhos dela encheram de lágrima antes de conseguir esboçar qualquer reação.
Literalmente o dia de foi cheio de surpresas.

- Eu nem sei o que dizer...
- Vincenzo me disse que você gosta de girassóis e mais algumas coisas, essa sala era de sua mãe - olhou em volta admirando um pouco mais. - Sei que você agora sabe de tudo e sinto muito que eu tenha omitido alguns fatos, então me senti na obrigação de passar essa parte da vida dela para você.
- É minha?
- Sim! Não estou pedindo para que você trabalhe comigo ou largue sua vida, longe disso, a última coisa que eu quero é bagunçar sua vida de alguma forma, mas tenha em mente que esse cantinho é seu, faça o que quiser com ele.

Ela sorriu e abraçou seu tio que retribuiu ainda mais forte. Alguns segundos depois James ergueu as mãos apontando até a cadeira para se sentar.

- Agora, realmente precisamos conversar - assentiu e recobrando a sua postura. - Eu tenho toda a papelada do assassinato de seus pais nessas gavetas e outras coisas que você depois pode dar uma olhada, mas sei que você deve saber tudo sobre aquele dia, sim? Pois então, no arquivo oficial eles citam uma senhora que pode ter detalhes do assassinato.
- Eu procuro ela há anos e nada.
- Nós também, contudo, eu consegui uma parte crucial dos papéis que antes estavam em posse da polícia… - James apontou para o envelope em cima da mesa e prontamente o abriu. - Nós achamos um nome: Masha Yolen. Eu fucei a árvore genealógica dela até os seus antepassados e não achei muita coisa, então pensei em duas hipóteses: ou a mataram ou a esconderam.
- O mais óbvio é acharmos que ela está morta, assim como todo mundo que teve contato com eles...
- Exato! Então eu pedi que um conhecido fizesse o trabalho sujo e ele foi até o fundo da investigação e me trouxe o arquivo oficial da polícia, com todos os detalhes e todas as inúmeras fichas dos suspeitos. - os olhos de brilharam. - Não achamos uma foto, mas achamos sua localização.
- Não me surpreende a polícia estar envolvida, e aí? Qual o próximo passo?
- Meus homens estão fazendo uma busca minuciosa pela cidade e qualquer senhora de idade que bater nos parâmetros, nós seremos avisados. Ela estaria mais ou menos na faixa dos 80 anos ou mais, então temos que abrir a janela que talvez esteja morta. Optei por procurar seus familiares também.

continuou lendo os arquivos quando uma coisa chamou sua atenção.

- A janela de senhoras pelo sobrenome pode ser muito alta, como vocês planejam filtrar?
- Pela cidade. Acredite quando eu lhe digo que não vão existir muitos Yolen andando pela Transilvânia - a risada de James preencheu a sala no mesmo instante que encostou na poltrona surpresa erguendo a sobrancelha.
- Tá brincando? Transilvânia? Cacete… - a frase em português saiu de seus lábios inconscientemente e atraiu ainda mais a atenção de James.
- Faz tantos anos que não escuto ninguém falar em português que às vezes esqueço que sou brasileiro. Mas foi exatamente essa reação que eu tive.
- Parece até uma piada de mau gosto ou um filme de terror que nunca termina - James balançou a cabeça e continuou sorrindo. - Até que visitar a cidade não seria má ideia, sou uma leitora voraz de histórias de vampiros, mas pelo seu olhar você não vai querer que eu bote a cara, é isso?
- Sim, não será necessário que você vá, não ainda. Algumas pessoas conhecem você através do exército, então não precisamos chamar atenção… Tudo bem para você?

Ela pensou por alguns segundos e concordou, era até melhor.

- Tenho um pedido. Quero saber de tudo que acontecer, certo? Sem omitir nada dessa vez.
- Pode ter a certeza que você vai ser a primeira a saber - ela sorriu e soltou um suspiro olhando em volta. - Vou te dar um tempinho para conhecer a sala e olhar tudo, se precisar é só me chamar.
- Obrigada, tio! - antes que James saísse da sala outra coisa passou por sua cabeça. - Er… Preciso de um favor...

James encostou no batente da porta e esperou ela continuar a falar.

- Você tem controle na cidade inteira?
- Sim! Deixei uma cópia de todos os documentos da nossa “organização” para que você consiga entender um pouco mais. Do que você precisa?
- Preciso de uma informação. Minha amiga sofreu uma tentativa de assassinato e basicamente ninguém sabe o que aconteceu - ela pensou por um minuto e mesmo achando impossível prosseguiu. - Eu cheguei a ficar no hospital por um tempo…
- Vincenzo comentou comigo e eu arrisco a dizer que estou um passo à sua frente, coloquei umas pessoas naquela área da cidade colhendo informações. - o sorriso vitorioso que ele deu fez pensar que talvez seu tio estivesse tentando a conquistar.
- Bom… Vocês já encontraram alguma coisa?
- Uma pessoa comentou que viu um homem saindo com uma menina loira e bateu com as características de Kimberley. Pegamos as características do suspeito e estamos buscando na cidade. Só precisamos descobrir como filtrar a lista, aquela bosta de boate é muito frequentada.

bateu as longas unhas na mesa pensando em qualquer que fosse a próxima ação.

- Procure pela lista de convidados. Aquela boate tem lista vip por noite. Eu arrisco a dizer que devemos começar com qualquer nome novo que tenha ido durante aquelas semanas, se não tivermos retorno aí passamos para a forma macro, o que você acha?

James balançou cabeça e assentiu abrindo a porta da sala.

- Divirta-se, mais tarde eu volto com notícias.



passou as últimas três horas e meia olhando os papéis que estavam dentro das gavetas, se surpreendeu por saber que seu tio confiou literalmente todas as informações da máfia - ou como eles se denominam: organização unificada - em suas mãos. não planejou demorar tanto tempo, mas mesmo com tanta coisa séria para resolver, seus pensamentos continuaram em . Ela queria controlar a forma pela qual reagia a ele, para ser mais específica ao beijo de mais cedo, que só ocorreu por mérito dela, mas que foi tão prazeroso quanto poderia ter sido. Era só pensar nele que seu estômago revirava com as malditas borboletas.
Irresistível, era uma das palavras que mais piscava em sua cabeça quando pensava em , e ainda era pouco para descrevê-lo. se sentia tão atordoada com a quantidade de informações que recebeu, que percebeu que era esse o grande motivo que lhe causava medo, não queria e na verdade nem podia se apegar tanto a alguém...
Seus pensamentos foram interrompidos quando escutou uma batida baixa na porta e James apareceu segurando uma bandeja com lanche.

- Se divertindo? Trouxe um lanche e aproveitei para ver se eu assustei você ou se continua tão controlada como aparenta.
- Muito obrigada! Estou um tanto quanto surpresa… É muita coisa, como você controla?
- Com muita paciência na verdade, não cuido disso tudo sozinho, acho que ainda não te expliquei como essa "área" funciona - James sentou e cruzou os braços. - A máfia russa ficou conhecida pelas operações e transações obscuras, pelo seu forte poder bélico e por sua facilidade em driblar os sistemas de leis do país. Inclusive, os antigos chefes costumavam, em seu ápice nos anos 1990, ter uma assombrosa influência na legislação do país, contestando as leis que fossem contra seus negócios, fazendo jus ao apelido de Vory v Zakone*
*Bandidos dentro da Lei*

- Essa parte eu lembro, na minha base o comandante nos explicou que a corrupção gerada pelas organizações era tanta que os criminosos chegaram até mesmo a manipular e empregar o próprio presidente russo, naquela época ainda era Boris Leltsin, eu acho, e fizeram isso para obter benefícios em troca de favores e apoio ao cargo.
- Foi isso mesmo! As organizações criminosas tinham tanto poder no país neste tempo que não era raro encontrar pessoas comuns e de baixa renda que realizavam serviços para conseguir de alguma forma fazer parte. Com a chegada do presidente Vladimir Putin, em 2000 e sua consolidação no cargo, a máfia russa viveu uma crise sem precedentes, tudo isso por que o presidente contou com o cego apoio dos criminosos sem nenhum tipo de advertência e isso tornou possível diversas estatizações de setores que estavam nas mãos da máfia e ainda mantiveram em torno de si mesmo uma força que reprimia até mesmo o poder judiciário. Assim eles conseguiram conter os poderosos… - ouvia tudo como se estivesse em uma aula de história. - Com a acusação e eliminação de diversos oligarcas e agentes corruptos da polícia, principalmente na época dos judeus, a organização perdeu muitos de seus contatos internos como: Roman Abramovich, Boris Berezovsky, Alexander Litvinenko, Mikhail Khodorkovski, Mikhail Prokhorov, entre outros, assim seu centro de atividades foi transferido para o estrangeiro, agindo principalmente na Grã-Bretanha.
- E como chegamos até a sua parte?
- Na época que sua avó morreu vieram às falências de muitas associações na Federação, as principais lideranças da máfia russa migraram para outros grupos de atividades similares, enquanto as outras associações migraram para atividades lícitas ou foram presos. Mas como sempre trabalhamos no sigilo ninguém descobriu que a nossa organização continuava de pé.
- Mesmo assim muitos ainda creem que apesar da quebra da máfia judaica, a Rússia ainda é comandada por organizações mafiosas originárias.
- Sim, e é por isso que tomamos tanto cuidado, somos uma das únicas que conseguiu vingar até hoje, uma das maiores do país, então temos muita responsabilidade em nossas mãos.
- Sua organização é diferente e é fácil descobrir o motivo. Porque se adaptaram a forma que minha mãe trabalhava? Sei que tem algumas regras e pilares
- Foi uma coisa boa para todo mundo, sempre fui adepto ao respeito à vida ao contrário de outras organizações. Quando Izabella nos mostrou que era possível fazer o "bem" mesmo trabalhando de uma forma ilícita, eu e todos os homens que aqui trabalhavam gostamos da ideia, claro que uma minoria ainda relutou, mas… - os lábios dele se ergueram em um sorriso ácido antes de continuar. - Ninguém é obrigado a ficar, mas tem que ter cuidado ao sair. Foi na mesma época que quebramos o tabu sobre mulher não poder comandar os negócios.

assimilou as informações e uma pequena parte ainda sentia certa repulsa, sua vida foi no exército e de uma hora para outra descobriu coisas que nunca pensou ser reais, mesmo no fundo gostando de saber todas as informações ainda sim era uma mudança brusca.

- É difícil assimilar tudo?
- Bastante! Fui treinada durante anos a combater o tipo de coisa que vocês fazem, mas no fundo eu até estou gostando de lidar com tudo isso.

assentiu e fechou os olhos, literalmente seu dia foi bem mais animado que esperava. James continuou sentado observando e algo no olhar dele fez pensar na mãe. Ela desviou o olhar para janela e contemplou a lua cheia que tomava todo o céu pensando no 380° que sua vida deu em menos de quatro meses, nitidamente a vida não era para amadores.
Outra batida rápida na porta despertou eles e o sotaque de Benjamin chamou a atenção.

- Encontramos o agressor da Kimberley!

Antes que pudesse perceber, já estava saindo porta a fora, o coração dela batia tão rápido em seu peito que poderia ser audível. Ela não imaginou que ia ser tão rápido e agora tinha um problema ainda maior em suas mãos: como contar para ? Era óbvio que o menino deveria saber.
A casa estava bastante acesa hoje, mas sua movimentação era pouca em compensação. percebeu que James não estava mais atrás deles e isso chamou a sua atenção, mas antes que pudesse perguntar observou Benjamin abrindo novamente a porta em sua frente. Ao que parecia o encontro seria no lado de fora.

- Você por acaso é incubido de ficar sempre a minha espera para abrir as portas ou…

A boca dele se curvou em um sorriso malicioso. Benjamin sempre teve uma beleza que chamava demais a atenção, e agora mesmo com todas tatuagens pelo corpo e algumas no rosto, continuava ainda mais atraente, principalmente com o estilo bad boy da cidade.

- Deixa eu limpar aqui... - Ben ergueu o dedo e passou no canto da boca de . - Il veleno sta correndo, piccola.

rolou os olhos e riu ao perceber que o menino não mudou nada durante os anos.

- Você ainda usa o seu sotaque como maior arma de sedução?
- Você sabe o que dizem, o sotaque mais atraente da Europa é o italiano!

Ben riu e balançou a cabeça tirando um Marlboro da carteira e o acendendo, ofereceu a que franziu os lábios recusando. Era um vício que tinha largado á alguns anos.

- Algum motivo específico para meu tio te deixar como meu segurança?
- Um dos homens de confiança, você já deveria saber.

Antes que ela pudesse fazer mais perguntas, Ben bateu na parede três vezes e um barulho oco chamou sua atenção, olhou mais detalhadamente e viu uma botão de biometria quase imperceptível ali. Um homem alto apareceu em seu campo de visão, e pelas olheiras em seus olhos ele parecia não dormir a dias, pois cansaço estava estampado em cada parte se seu corpo, ele sorriu e abriu passagem para ela e Ben entrar.

- Pode ir, eu cubro você!

O homem acenou para Benjamin e sumiu antes da porta fechar de novo.
A sala era grande e só reforçava que existia um mundo ali dentro - principalmente no subsolo - tudo muito bem organizado com uma segurança de última geração. O suspeito estava sentado na cadeira amarrado e com uma venda nos olhos, ela ergueu a cabeça e encontrou os olhos de seu tio a observando.

- Achei que fosse demorar mais, é ele mesmo?
- Sim! Foi fácil, ele era o único garçom que contrataram no dia, juntamos as pontas e o encontramos… - seu lábio formou uma linha tensa antes de terminar a frase.
- Qual é o problema? - Benjamin perguntou.
- Reviramos seu apartamento e achamos várias fotos da família da Kimberley, e isso inclui você - mordeu o lábio reprimindo um grito de raiva, isso era o que menos precisava. - Nós o interrogamos e colhemos algumas informações… Não sabemos ao certo com o que trabalha, mas sabemos que ele está incluso em alguns eventos ilícitos pela cidade e de acordo com o amigo dele ali, usaram a irmã para dar um susto. Suas palavras exatas foram: Castello vai cair da mesma forma que seus pais.

encostou na parede e coçou as têmporas tentando aliviar a dor de cabeça e a raiva que se formou, e uma pergunta nova pairou em sua cabeça.
Será que era perigoso?

- E sobre mim? O que ele sabe?
- Você era a próxima da lista dele, mas apenas por ser amiga dos dois, nada pessoal ou sobre seus pais foi encontrado. O que você quer fazer?

Ela encarou o homem desacordado, fora os hematomas perceptíveis espalhados por seu rosto, nada estava fora do normal. Na realidade não queria lidar com nada disso no momento e muito menos ser a juíza.

- Eu sei que você já tomou uma decisão… - a voz de Ben estava tão perto que se assustou momentaneamente. - E concordo com você, não acho que precise sujar as mãos nesse caso.
- Eu sei! Vou entregar ele para , mas preciso saber como. Não posso tirar o direito deles resolverem a situação, assim como não posso colocar o pessoal aqui em perigo.

James ouvia toda a conversa de e Ben calado, mas não escondia o orgulho que transbordava por seu rosto, principalmente quando a menina aprumou os ombros e aumentou o tom de voz.

- Preciso que vocês encontrem um lugar deserto para deixá-lo...
- E como você pretende avisar ao outro cara? Contando a ele que fomos nós? Tá achando que somos idiotas? Quem vai ser o pau mandado que vai fazer a ponte?
- E esse é o idiota do Beef… - Ben falou baixinho ao seu ouvido.

A voz do capanga alto era irônica e cheia de acidez, James deu um passo à frente e balançou a cabeça de forma negativa o parando, não era a primeira vez que lidava com um idiota.

- Com um dispositivo que foi inventado há décadas atrás chamado: celular. Não sei se você conhece, mas o celular tem um truque que chamamos de: ligação restrita e eu estou observando o meu pau mandado que vai falar com o outro cara. Ou você tem uma ideia melhor? - o homem balançou a cabeça e dessa vez continuou quieto. - Alguém tem mais alguma pergunta idiota ou podemos ir ao trabalho?

Eles abaixaram a cabeça e assentiram em silêncio, James observou tudo com um sorriso orgulhoso no rosto e Benjamin gargalhava ao seu lado. Poderia não ser como o exército, mas só o fato de desempenhar um papel parecido já deixava com a endorfina em alta.
O tal Beef chegou perto de se desculpando e erguendo o celular que iria usar, passou o número de para ele e depois de muitas tentativas o menino atendeu com a mesma voz mal humorada que ela teria ao ser acordada.

"- Alô?"

- ? Achamos o agressor da sua irmã… - encarou o homem em sua frente e revirou os olhos com sua sutileza.
Burro.

"- Que porra de brincadeira é essa? Quem é que está falando?"

- Acredite quando eu digo que não importa quem está falando, você apenas precisa saber que ainda existem pessoas que podem cuidar de você… - o homem repetiu todas as palavras que sussurrou.

"- Isso é alguma brincadeira de mal gosto?"

ia precisar ser um pouco mais sucinta para ele acreditar.
- A notícia que anda na cidade é que os Castello vão cair como os pais.

A ligação ficou muda por alguns segundo e só percebeu que prendia a respiração quando ouviu novamente a voz de , e dessa vez a raiva transbordava dela.

"- Estou ouvindo."

- Esteja pronto daqui a meia hora, eu volto a entrar em contato!

- Tem algum lugar em mente?
A voz de James chamou a atenção dela de volta a realidade. observou Benjamin assentir e chegou mais perto para ouvir.

- Onde o Rio desemboca, é distante da cidade e não chama tanta atenção. O que você acha?
- Eu gosto da ideia! Eu vou junto. Podemos ficar distantes para não deixar nenhuma pista, mas quero ver o que ele vai fazer.

James assentiu e saiu junto com os outros homens para ajeitar as coisas.



Caos… Tudo ali cheira a um caos próximo a estourar e ela se sentia no centro.
Já foi difícil estacionar o carro dentro de uma caverna e cobrir com galhos e estava mais quieta do que gostaria e sentia os olhos analíticos de Ben em si, o que já estava dando nos nervos. Aparentemente todas as três pessoas ali - James, Ben e Beef - olhavam com uma surpresa exagerada e chata, mas ela não estava com cabeça para reclamar.
Quando entrou em contato com a voz dele gelou toda sua espinha, a única emoção que conseguiu captar foi ódio, e tratar as coisas com ódio nunca dava certo. estava ansiosa, batucava o painel do carro com as unhas e retornou a um hábito bastante irritante: puxar a pelinha da boca. Olhou mais uma vez para onde o suspeito estava deitado e continuou achando esquisito o homem não esboçar ação nenhuma para fugir, parecia que ele estava aguardando por e isso também não era nada legal.
Meia hora depois o Audi apareceu brusco na estrada, desceu do carro com Santiago ao seu lado, e percebeu que pela primeira vez os dois pareciam irmãos, de alguma forma estavam tão parecidos que era perturbador.

- Você não acha que isso está esquisito? E se for uma emboscada? , você não pode sair correndo de casa a cara hora que alguém te liga e manda um presente.

bufou e se virou abruptamente para o amigo.

- Santiago, você não veio para fazer perguntas!

levantou o corpo do homem e puxou o rosto dele para o acordar, e não precisou esconder a raiva que sentia. Todas as suas ações eram brutas. Santiago continuou atrás do amigo em silêncio, mas sua feição era tão fria quanto um gelo. O agressor continuou com o rosto calmo sem se abater. se ajoelhou no chão e puxou o queixo do homem em sua frente de forma dura, a mão de Santiago pousou no ombro dele em uma súplica silenciosa para ele manter a calma.

- Quem é você? Para quem você trabalha?
- Você não coloca tanto medo pessoalmente, Castello. Continua o mesmo bobão órfão.

O rosto de Santiago se tornou mais amargo, fechou o punho e distribuiu um soco no rosto do homem fazendo o sangue escorrer do corte de seus lábios.

- Você é um merdinha! - o homem cuspiu o sangue no chão e riu. - Onde você estava quando sua irmã gritou por ajuda? Só vira homem nesta circunstância...- ergueu o punho e socou uma, duas, três, quatro vezes e só parou quando Santiago o puxou pelos ombros o afastando.
- Você não vai perder a linha assim!

Todos os nervos de estavam tensionados, cada palavra que ouvia fazia seu corpo tremer em uma raiva fora do comum, mas nada era comparado a ver daquele jeito, totalmente fora de si. Ela se lembrou do menino mais cedo e engoliu em seco.
Era chocante!

- O QUE VOCÊ QUER QUE EU FAÇA ENTÃO, SANTIAGO?

Sant balançou a cabeça e se virou para o homem, a voz dele era tão controlada e fria que surpreendeu no mesmo instante. Santiago era calculista, e esse tipo de gente era um perigo silencioso.

- Você sabe que vai morrer! Então fale, o que você queria? Quem te encontrou? Quem era o próximo?

A tensão dentro do carro foi palpável. Tudo ia por água abaixo se o homem mencionasse qualquer coisa sobre eles.

- A próxima da lista era a vadiazinha que anda saindo com ele, aquela morena que salvou Kimberley... - ele cuspiu o sangue no chão e continuou. - E dessa vez eu não iria parar… o nome dela, não é? Com aquele corpo eu ia conseguir...

Santiago trocou o peso de uma perna para outra e chutou o abdômen do homem em sua frente, o pegou pelo pescoço e levantou do chão com toda força. O homem começou a ficar roxo, mas a fisionomia de Santiago continuou suave. Apenas o corpo dele deu um sinal de raiva.

- Não. Ouse. Falar. Dela. - os olhos do cara estavam arregalados de medo dessa vez. - O que você quer?

esboçou um sorriso pequeno nos lábios ao perceber a imagem de Santiago se tornar um pouco mais preocupada, atrás dele mantinha a mesma fisionomia perturbada de mais cedo.

- Mandar um recado para ele - ele ficou de joelhos para responder apontando para . - Você tem muitos inimigos pela cidade Castello, assim como seus pais e a gente tá fazendo de tudo para acabar com você da mesma forma.
- Eu não temo a morte, seu filho da puta!
- Nem a dos seus protegidos? A próxima da lista ainda é a vadiazinha que você está saindo, o passeio de vocês hoje foi emocionante, não?

O corpo de tombou um pouco para trás e ele ficou pálido. Santiago ficou completamente paralisado, a respiração falhando e os olhos arregalados. O silêncio dentro do carro era ensurdecedor, soltou o ar e engoliu em seco tentando controlar a tremedeira de seu corpo, James cobriu a mão dela com a dele em um aperto reconfortante, mas nada seria capaz de tirar do estado de choque… Nada, ah não ser aquilo.

-... você tinha que ter escutado os gritos desesperados da sua irmã… - o homem continuou. - A forma que ela gritou foi excitante, o corpo dela esperneando sob o meu… Sua sorte foi que eu não estava com tempo para aproveitar, mas planejava fazer com a outra menina...

O tremor de raiva passou pelo corpo de Santiago, mas antes do menino concluir ou planejar qualquer ação o barulho do tiro ecoou pelo bosque e chamou a atenção de todo mundo. O corpo do homem caiu sem vida no chão e com um buraco na cabeça.
era extremamente certeiro.
O corpo de relaxou e ela não sentiu culpa alguma ao perceber que gostou de ver a morte dele. James ao seu lado ergueu as sobrancelhas com um semblante surpreso.

- Um ótimo tiro, na verdade! O menino tem um talento.

Ela concordou com a cabeça e continuou concentrada nos dois meninos que ainda estavam a poucos metros dali. O corpo de estava completamente paralisado, os olhos arregalados, o maxilar tenso, os lábios em uma linha fina, tudo deixava explícito a raiva que ele sentia, ele havia se transformado em um assassino frio, era percetível. Santiago virou de costas para o corpo com o mesmo rosto controlado e foi em direção ao amigo tirando a arma de sua mão, travando e guardando-a em sua cintura.
A relação deles era forte e unificada.

- Acabou, tá legal? Vai amanhecer logo e precisamos limpar tudo isso e ir para casa.
- A … Eu preciso ver se ela está bem, estão atrás dela Santiago.
- Hermano
, não é o momento.
- Que se foda o momento. é a prioridade, a minha prioridade.

O coração dela veio na boca e voltou algumas vezes, e ela nem tentou reprimir o sorriso que surgiu em seus lábios. Sentiu o olhar de James em seu rosto e suas bochechas arderam em vergonha.
Sant abriu a porta do carona e puxou o amigo forçando-o para dentro.

- Se acalme um pouco, eu limpo tudo, ok? Eu cuido disso.

Santiago abriu a mala do carro e pegou um pano preto indo na direção do corpo, o olhar dele era distante quando cobriu o defunto e poderia fácil acreditar que ele fazia aquilo todo dia, e talvez fizesse. Ver o menino tão diferente do que era mexia muito com .
Antes que pudesse erguer sozinho o corpo, as mãos de o ajudaram, ele levantou a cabeça e ergueu as sobrancelhas em dúvida.

- Vamos fazer isso juntos, você passou por coisa demais sozinho nos últimos dias!

A curiosidade da menina se elevou em alto nível depois de escutar as palavras dele, ela percebeu a fisionomia de Santiago vacilar por uns segundos, mas ao mesmo tempo prosseguiu firme. Eles foram até a beira do penhasco e jogaram o corpo sem remorso nas águas do rio.
Muito mais digno do que teria feito.

- Uau, esses meninos merecem os meus parabéns! - James murmurou.
- Não achei que eles fossem ter coragem - Beef respondeu.
- Nunca faltou coragem - ela respondeu atraindo a atenção dos outros homens.

Santiago tomou o lugar do motorista e quando entrou no carro deu a partida sumindo de vista alguns segundos depois.
James encarou a sobrinha rapidamente antes de dar a partida no próprio carro e voltar para a instalação. continuou calada e reclusa em seus pensamentos a maior parte do tempo para assimilar tudo o que aconteceu hoje.
Parecia um delírio coletivo do universo, mas pelo menos agora ela tinha uma certeza, poderia não ser perigoso, mas não era puramente a vítima na situação.



- Como está se sentindo? - seu tio perguntou a acompanhando até sua moto.
- Aliviada, menos um problema para lidar!

observou o sol surgindo no horizonte e coçou as têmporas em um sinal de cansaço. Estava esgotada tanto emocionalmente quanto fisicamente, passar a noite inteira acordada só fortaleceu ainda mais o esgotamento.

- Quer que eu peça para alguém te levar para casa? Você busca a moto depois...
- Não precisa!



James.

James assentiu recebendo beijo na testa de e um sorriso cansado, e ficou em silêncio observando enquanto a menina subia na moto e saía sem olhar para trás. Sentiu a presença silenciosa de Ben ao seu lado antes de desviar o olhar da estrada.

- Alguma ordem?
- Por enquanto não, mas vamos ficar vigiando os meninos, tive provas suficiente que o tal não é tão limpo quanto nós… - o menino ofereceu um de seus cigarros para James e ele aceitou se encostando na parede enquanto soltava a fumaça. - E quanto a minha sobrinha, fique por perto.
- Será um prazer!

Benjamin recebeu um olhar crítico de James e um tapa estalado em sua nuca, invés de reclamar ele riu e balançou a cabeça olhando o cigarro em suas mãos. Ben virou órfão cedo, então a maior parte de sua vida foi ao lado de James, e ele sabia que o garoto o respeitava acima de tudo, principalmente quando o assunto era .

- Ela se lembrou de você?
- Um pouco, ainda não tivemos a chance de conversar, mas… Não se preocupe.
- Preciso que fique de olho em Beef, eu tenho certeza que ele vai me dar trabalho…

Ben assentiu e se levantou.

- Vai para casa agora ou vai continuar aqui?
- Pode ir na frente e descanse, ainda preciso resolver umas questões.

Benjamin analisou o homem em sua frente e balançou a cabeça em resposta.

- Algum problema, filho?
- Eu ainda não entendo por que as pessoas travam guerras e conflitos sendo que os únicos frutos disso são terror e morte. - James virou a cabeça lentamente e acompanhou todas as variantes de emoções que passava pelo rosto dele. - Nada, deixe para lá, estou indo.
- Nunca pedi que você entrasse para tudo isso…

Ben levou as mãos até a cabeça de James e sorriu.

- Era a única forma de cuidar de você, pai! Te vejo mais tarde.
O peso no peito de James continuava o sufocando, agora ele teria ainda mais problemas e a cada dia que passava a esperança de solucionar o caso da irmã diminuía.



.

queria dizer que teve uma agradável noite de sono depois do passeio, queria dizer que dormiu e teve sonhos agradáveis, queria até poder dizer que conseguiu dormir, mas a realidade era totalmente diferente. Presenciar um assassinato não estava na lista de coisas agradáveis que ela queria presenciar, e agora, depois de algumas horas sozinha em casa, ela se deu conta de que matou um homem. Que ela ajudou na morte de um homem. Mesmo o homem sendo culpado, ainda sim era uma vida, e isso ia contra sua maior regra:
Todas as vidas podem ser salvas.
Não era a primeira e muito menos a última vez que tinha presenciado o assassinato de alguém, só que dessa vez foi diferente e ela não soube dizer o motivo específico, sabia que tinha ficado bem perturbada com tudo que aconteceu e passou as últimas horas se perguntando sobre a ideia de voltar para Moscou. Será que era boa? será que foi uma ideia boa continuar com tudo isso do assassinato dos pais? Será? Pela primeira vez se preocupou com sua saúde mental pois tinha a certeza que a qualquer momento poderia sucumbir ao caos de uns anos atrás, e não seria novidade acontecer novamente.
O primeiro desejo de sua mente era que Thomas estivesse presente. queria poder conversar e desabafar com alguém que não fosse a julgar ou a olhar torto. O segundo desejo de era fugir de toda essa confusão que se meteu há anos atrás quando fez da vingança a sua melhor amiga, mas infelizmente sabia que todo esse caminho não tinha volta ou era o que ela acreditava.

- Situações extremas, medidas extremas.

Ela pronunciou ácida, mas antes de virar o copo do Velho Barreiro seu celular tocou pela terceira vez e o nome de Santiago chamou sua atenção.

- Oi Santiago!

Ela escutou um suspiro baixo antes da voz de Santiago surgir no aparelho.

"- Por acaso está me ignorando?" - mesmo após tantas horas a voz dele continuou fria e distante. - "Está tudo bem, ?"

- Desculpa Sant, eu tive uma noite de cão e não estou muito disposta a conversar - a palavra "hipócrita" piscou em sua mente e o bolor em sua garganta ficou maior. - Está tudo bem?

"- Nem me fale sobre noite de cão. A noite passada está no top dez de situações que eu queria poder esquecer…" - concordou em silêncio e esperou ele terminar. - "Eu liguei para saber se está com você, mesmo suspeitando da resposta."

levantou da cama no mesmo instante a procura de suas roupas para se arrumar. Isso sim completaria a noite, tomando chá de sumiço.

"- ?"

- Não, mas eu suspeito de um lugar. Posso te ligar quando chegar lá?

O suspiro cansado de Santiago chamou sua atenção antes dele responder.

"- Que vida de mierda… Olhe , sei que tiveram uma tarde agradável ontem, mas ele também teve uma noite ruim..."

- Paciência é meu sobrenome, Sant. Até mais tarde!

A ligação mexeu ainda mais com os nervos dela. A sensação de estar sendo sufocada era presente cada vez que se mexia. Estava cansada e sem ânimo, queria ir para qualquer outro lugar que não fosse tão tóxico, mas para onde iria?

Por incrível que pareça a cidade de Moscou estava melancólica e com o típico tempo de chuva, e gostava disso, pois a chuva sempre foi presságio de sorte. Ela precisou de uma hora para conseguir chegar até o local que queria, na verdade demorou mais por a chuva ter aumentado consideravelmente o nível do rio, deixando a passagem desafiadora e quase impossível, o que só mostrava que faltava muito pouco para todo mundo ficar ilhado naquela parte. definitivamente não se concentrou em pensar em como estaria, mas sim em segurar sua língua para não aparentar saber demais, já que sempre ao lado dele falava abertamente sobre sua vida.
Ela estacionou a moto e rapidamente chegou até os portões tentando se proteger da chuva, mas seu peito continuou apertado ao não encontrar o carro de ali estacionado.

- Puta que pariu! - sussurrou sozinha abrindo os portões com certa brutalidade.

A boa educação ficou em casa enquanto corria até o jardim e chegava até a parte de trás, ontem quando veio aqui a casa tinha o aspecto de castelo, hoje o aspecto era mórbido e chegava a gelar seus ossos. A menina olhou em volta à procura de alguma sinalização de , e nada. Talvez ele estivesse dentro da casa ou talvez não estivesse mesmo ali, e isso era ainda pior. Ela cogitou sentar numa daquelas cadeiras e esperar, mas logo desistiu, pois sabia que isso não daria certo, até encontrá-lo não conseguiria ficar quieta ou em paz, e isso era angustiante.
Foi então que ouviu um barulho vindo atrás de uma das árvores a alguns metros de onde ela estava parada. forçou os olhos e viu uma parte do cabelo de e respirou fundo aliviada voltando a andar, agora exibindo um sorriso aliviado em seus lábios.
Os olhos de estavam emoldurados por olheiras de preocupação, suas feições estavam completamente perdidas, seus ombros caídos em sinal de derrota, mas seus cabelos estavam bagunçados mostrando uma rebeldia conhecida, e isso a acalentava de uma forma. Ela se aproximou dele e percebeu que suas mãos estava fechada em punhos com ferimentos ainda frescos, era nítido que estava arrasado, e talvez devesse deixá-lo em paz, porém, não iria e não queria.
virou e a encarou com os olhos marejados em um semblante diferente de todas as vezes.

- … - ele sussurrou com a voz arrastada. Ela não conseguiu decidir se ele estava feliz, surpreso ou irritado em vê-la.
- Oi babe, estou aqui!

passou uma de suas mãos livre pelos cabelos dele e observou um sorriso surgir no canto dos lábios acompanhado com um suspiro aliviado.

- É bom saber disso! - envolveu a mão de e gentilmente puxou a menina para seu colo. - Como você sabia onde me encontrar? - sua voz estava tão fraca e perdida...
- Eu só sabia!
- Eu não sou uma boa companhia hoje…
- Olha pra mim... - ela pediu e obedeceu rapidamente. - Eu não preciso saber o motivo, e na verdade não quero, mas você não pode me impedir de ficar aqui com você e tentar te animar. A única coisa que você pode fazer é aceitar…

Antes de responder um barulho de vidro chamou sua atenção e ela percebeu a garrafa de vodka ao seu lado. Não que fosse proibido ou coisa de outro de mundo encher a cara, mas algo na fisionomia dele se fechou em uma máscara ainda pior de decepção.

- Eu não tomei nenhum gole… juro… Queria vir para cá justamente para encher a cara e ficar aqui como o belo fudido que eu sou...

levou os dedos até os lábios dele e encostou sua cabeça na dele fechando os olhos.

- Não… Estou aqui, você não precisa mais se esconder! - o telefone dela tocou pela quinta vez e mesmo sem querer tentou sair do colo dele, sem sucesso.
- Não vai embora não… por favor.
- Não vou! Mas preciso avisar a Santiago antes que ele enlouqueça ou coloque a polícia atrás de nós… - ela levantou a tela do celular e percebeu as inúmeras chamadas perdidas.
- Promete? - sorriu e acenou positivamente saindo do Jardim.



- Eu tenho uma boa e uma má notícia...

voltou o mais rápido que pode para ficar perto de , depois de falar com Santiago e ver de perto o nível do rio, chegou a uma conclusão que talvez não fosse o recomendado, não neste momento.

- A má notícia primeiro…
- A boa notícia é que eu não vou a lugar nenhum… - um sorriso mínimo apareceu nos lábios dele antes que ela pudesse continuar. - A má notícia é que você também não, estamos ilhados!

O sorriso de sumiu, a pele dele ficou pálida e os olhos esbugalhados. Definitivamente isso não era o recomendado.



.

teve várias ressacas fortes ao longo da vida, mas, nada se comparava a ressaca moral que estava tendo.
Quando encarou os olhos de ali, seu estômago se embrulhou em resposta a vergonha que sentia, dessa vez ele queria ter a desculpa da amnésia alcoólica para evitar qualquer situação estranha com ela, mas não era possível. Mesmo acompanhado de sua fiel amiga Absolut, ele não teve coragem de beber nenhum gole e ao perceber que o achou entendeu que havia feito o certo.
Era incrível e um pouco estranho perceber o quanto a presença de melhorou seu dia e a carga emocional que possuía em seus ombros. Não foi a primeira vez que matou um homem, principalmente um que não era inocente, mas algo no ar da situação não estava cheirando a coisa boa e muito menos ao certo, assim como algo no olhar de fazia pensar que ela podia enxergar todos os seus pecados e a sua alma. Mas tudo isso evaporou de seus pensamentos quando ele entendeu que estava preso no único lugar que jamais imaginou estar, não entendia porque recorreu a sua antiga casa, ele tinha a casa de Santiago ou qualquer outro lugar do mundo, mas estava aqui. O que ele queria neste momento era o colo da sua mãe e infelizmente isso jamais teria de volta, não em vida, mas não planejou ficar preso aqui dentro, seja com ou sozinho não estava em seus planos e do jeito que a chuva aumentava consideravelmente o jardim não era o melhor lugar para isso.

- ? - os dedos gentis de estavam novamente em seus cabelos fazendo o carinho que ele tanto gostava. - No que está pensando?
- Que eu sou um pouco pior do que a pior pessoa do mundo… - riu e revirou os olhos. - Como está Santiago?
- Preocupado, distante… É estranho!

Com um suspiro pesado e frustrado ele concordou, de todos os erros que cometeu em sua vida, odiava meter seu melhor amigo em suas furadas, principalmente quando envolvia algo tão perigoso e sério. Santiago não merecia ter uma vida dupla como ele, mas aparentemente todo mundo que se envolvia com acabava na merda e esse pensamento equivocado estava quase o fazendo meter os pés pelas mãos novamente.

- Anjo… eu queria te pedir uma coisa!

ergueu o olhar e sua fisionomia mudou, algo em seu rosto escureceu em descrença e soube, o que fosse falar já estava explícito em todo seu rosto. Os segundos pareceram ter se prolongado enquanto ele observava as íris de acompanhando todas as suas ações, ele tinha certeza que ela conseguia ouvir todos os seus pensamentos e aquilo o fez perder toda a coragem.

- E então?
- Eu queria ter coragem de te pedir para ficar longe, mas só o pensamento de não ter você aqui… - fechou os olhos e puxou seu corpo para ainda mais perto dela. - Porra anjo… Isso é tão… louco!
- Você está com medo da minha reação sobre você, sobre a sua vida ou com medo de alguma outra coisa? - aquela pergunta deixou todos os nervos dele em puro desespero. Será que era possível Santiago ter contado? duvidava, mas estava em um momento tão vulnerável que mal pensou antes de sua boca responder por livre e espontânea vontade.
- Posso lidar com ameaças, mas, não sei se quero lidar com a sua ausência ou sua negligência quando descobrir que eu sou o vilão da história.

ficou quieta por alguns segundos e ele prendeu a respiração por puro receio das próximas palavras dela, algo em sua cabeça lhe dizia que o futuro que eles poderiam ter dependia daquela resposta.

- Tudo bem! - o encarou um pouco surpreso o sorriso que apareceu nos lábios dela. - Não precisa me olhar assim! Se você queria saber se eu vou embora ou não, a resposta é NÃO. , não me importo se você é o vilão ou o mocinho… - ela fez uma pausa e chegou ainda mais perto assumindo um tom mais sério. - O que importa é se você me quer por perto...
- Como você ainda me pergunta uma coisa dessas?

Mas ele entendia o motivo de tanta preocupação da parte dela, ele mesmo ultimamente ficava se perguntando em qual momento tudo ficou tão intenso entre eles. Quando estava ao lado de ele se sentia o homem mais corajoso do mundo e ao mesmo tempo um adolescente bobo.

- Vem cá… - deitou em seu colo e se alinhou ainda mais, o calor do corpo dela trazia sensações prazerosas no seu. - Gosto do jeito que a gente se entende assim...

sabia que não era isso que queria falar, só não sabia o que dizer no lugar, ao lado dela ele não conseguia formular muita coisa coerente porque invés da boca, era seu coração que falava. umedeceu os lábios e encostou a ponta da língua no dente canino antes de morder o inferior deles em um sorriso bastante provocador para o momento.
E porra! Isso fazia com que ele quisesse amarrar os próprios braços para controlar seu impulso de agarrá-la ali mesmo. Por que tudo em era tão provocador? Aquilo era algo que ele estava habituado a fazer e não havia pensado que provar do próprio veneno era tão frustrante e… bom. Ele continuou estudando-a profundamente, esperando que reagisse e algo começou a crescer em seu peito ainda mais e junto com isso a chuva desabou em suas cabeças atrapalhando toda a química eletrizante entre eles, trazendo outra preocupação para seus pensamentos: a casa.
não planejou nada disso, mas a única reação que teve foi entrelaçar as mãos na dela e correr pelo jardim até a porta de casa e foi surpreendente ver que ao entrar a decoração havia mudado drasticamente. No momento ele não pensou em Kim, em Santiago, nos pais, no homem que matou. Ele só pensava nela, todos os seus pensamentos eram dela.
estava ao seu lado em silêncio, as bochechas rosadas, o peito subindo e descendo rápido pela correria. Suas mãos não estavam mais nas dela, pois ela tentava em vão secar seus cabelos e desgrudar sua roupa fina de seu corpo. tentava ao máximo não olhar para seu corpo, tentava mudar o foco de seus pensamentos ao conseguir enxergar o formato de seus peitos, de seu quadril… Era uma prova de fogo e ele não queria que ela se sentisse desrespeitada. Os músculos de seu corpo estavam todos tensionados em nervoso, ele sentiu uma onda elétrica de medo passar por seu corpo e tremeu em resposta ao olhar para a sala, tudo aconteceu muito rápido. Em um minuto ele estava ao lado de e no outro era criança novamente e encarava o lençol branco com o corpo dos pais no chão, ele ouvia o choro baixo de Kim e o medo inundando seu peito. Aquilo o destruía aos poucos, antes de sentir os dedos de em seu ombro, ele sentiu as lágrimas quentes escorrendo em seu rosto.

- ? - ele sentiu as mãos dela em seu ombro e abriu os olhos a encarando esperou que fizesse qualquer outra coisa, ele esperou até mesmo que ela apenas fosse ficar ali quieta ao lado dele, mas nada se comparou ao jeito que ela se lançou para ele e o beijou. As mãos dele apertaram convulsivamente os seus ombros e ela ofegou ainda mais quando o corpo dele colidiu com o dela, fazendo-a andar para trás até seus ombros baterem na parede. olhou para com a óbvia malícia, ele podia ver seu rosto refletido nas íris claras dela e quase não se reconheceu, até mesmo sua voz soou estranha quando falou, mesmo para seus próprios ouvidos:
- Anjo... - ele começou. - Não quero cometer nenhum erro dessa vez... Não posso errar com você.

Os olhos dela pareceram se acender, seus lábios se moviam lentamente, os lábios suaves e deliciosos que davam lugar a boca dela, para a qual olhava como se estivesse a um milhão de anos de silêncio e desejando com esperanças.

- ... - disse ela, exalando seu nome em uma respiração baixa.

O som de sua voz formando seu nome completo, enviou algo quente e sombrio através de suas veias, e ele gostou. Suas mãos apertaram os ombros dela e ele tomou sua boca com um duro e violento desespero - nem ele mesmo sabia que estava tão desesperado - que dificilmente poderia ser chamado de beijo. Todo músculo em seu corpo se contraiu de uma só vez: o beijo preenchia todos os seus sentidos com suavidade, doçura. O aroma dos cabelos e da pele dela, a visão de seus olhos fechados, a vibração de seus cílios. . O anjo! E ela estava agarrando-o de volta, segurando-o contra ela tão intensamente, devolvendo cada parte do beijo com tanto vigor. tinha gosto de ferocidade, de chuva, e se perguntou como poderia ter imaginado mesmo por uma fração de segundo que fosse capaz de resistir ao frenesi que ela trazia. Ele sentiu um gemido se formando em sua garganta e forçou-o de volta com força para não atrapalhar nada desse momento.
As mãos dela se levantaram e tocaram a parte de trás de seu pescoço, seus dedos eram longos, delicados, mas não eram nada macios: os calos arranhavam suavemente a pele macia acima do colarinho de sua camisa e estremecia com o esforço de não perder o controle ali, naquele momento. se esticou para puxar a blusa molhada dele por sua cabeça, tirando-a rápida o suficiente para o deixar tonto. Ele alcançou sua camiseta logo em seguida, mas hesitou, sentia seu coração batendo contra suas costelas e paralisou.
Porra, por favor... não pare de me querer depois disso...
Os lábios dela se separaram dos dele enquanto ela olhava para ele: seu cabelo molhado se grudavam espessos por seu ombro, busto e testa. Ela era tão linda! Porra, como ela era linda! As manchas úmidas na camisa dela deixavam a blusa transparente e dava a visão de seus mamilos enrijecidos com o frio. Ele estava tão rígido que doía, alterava. colocou as mãos na cintura dela e percebeu que gostava de segurá-la dessa forma, como se estivesse prestes a levantá-la em seus braços, como se estivessem dançando, e ouviu a respiração dela acelerar ainda mais. Suas mãos deslizaram para cima no corpo dela, cobriram seus seios e seus dedos acariciaram o centro deles. deu um pequeno gemido arrastado e sua cabeça caiu contra a parede.
sentia duas coisas bastante distintas: desejo e triunfo, e elas dispararam por ele ao mesmo tempo em uma combinação inebriante. Ele tinha experiências com outras mulheres, mas nada nunca se comparou a e seu medo era não ter nenhuma segurança de que poderia confiantemente dar prazer a ela, e isso o deixava louco. Cada respiração acelerada que dava agora era como uma faísca que o acendia ainda mais e o queimava. Ele não havia pensado que poderia querer mais ela como queria agora, mas o fogo que o percorria por seu corpo o fez pensar na tempestade lá fora e como trouxe uma tempestade boa para sua vida. Esse pensamento o fez a beijar ainda mais profundamente, enquanto ela murmurava contra a sua boca com as mãos em suas costas puxando-o para mais perto. se arqueou contra ele, contra seu corpo que doía por tanto a querer, e podia ouvir sua própria voz dizendo o nome dela repetida vezes, tentando se controlar para não soar mais alucinado do que já estava.
enterrou o rosto contra ela, beijando sua bochecha, sua garganta, enquanto deslizava os polegares sob o cós de sua calça jeans e controlou o riso quando ouviu-a bufar sem paciência chutando a pilha molhada de jeans para longe. As mãos dele apertaram a delicada curva dos ossos do quadril, algo inesperadamente íntimo no contato trouxe um aquecimento ainda maior em seu peito.

- Eu quero você! - ela disse olhando em seus olhos. - Eu quero muito você!

Ele pensou ter sentido ela congelar, mas quem congelou por segundos foi ele, e voltou a beijá-la tão desesperado para não dar motivos para ela recuar, ele não suportaria a negligência de , não hoje, não aqui. abaixou as mãos e agarrou a bainha da camisa dela, tirando-a. Seu cabelo úmido jogou gotas sobre os dois e a sensação de queimação aumentava ainda mais. sorriu e acariciou o ombro dele, suas unhas varriam sua pele nua e o arrepiava ainda mais. Quando os dedos dela encontraram uma reta de contornos e chegou até sua virilha, o sangue dele correu ainda mais forte por suas veias e o deixou tonto. desabotoou o sutiã, livrando-se com agilidade e rapidez e se concentrado no cós do jeans dele. Deslizou a mão para dentro com um sorriso perverso no rosto e prendeu a respiração em sinal de espera. A mão de se fechou em torno dele, sua palma e seus dedos começaram um tormento quente e doce de vai e vem. pressionou sua testa no ombro dela, se concentrando e passeando nas ondas de prazer que o proporcionava, até que as ondas começaram a crescer e por puro medo de que acabasse muito cedo, ele se afastou abruptamente para se livrar de suas próprias roupas enquanto deu uma risada baixa e que abriu um rasgo através do plexo solar dele.

- Amor... - ela suspirou - Volte!

Seus braços estavam esticados para ele, convidando-o de volta para ela, o convite de seus sonhos. As mãos dele voltaram prontamente para seus quadris. a estava levantando para que ela ficasse presa entre o corpo dele e a parede, eles se olharam por apenas um segundo e aquilo pareceu uma eternidade. Lá fora o vento, a chuva e os raios se chocavam contra as árvores e o rio. Ali dentro daquela casa, que há anos não observava nada como aquilo nascer - um monumento ao amor perdido - eles estavam juntos e nada mais importava: O encaixe de e não era por espaço, eles se encaixavam no menor espaço inimaginável que pudesse existir, o espaço dentro dos corações, o espaço dos amantes que encontram o caminho de volta um ao outro depois de uma separação impossível.
inclinou a cabeça para beijá-la e aos olhos dela pareceu uma gentil reverência: começou em seus lábios, a curva de seu pescoço e depois seus seios sentindo-a tremer de prazer sob seus dedos. Suas longas pernas subiram e envolveram na cintura dele em um laço perfeito. levantou o rosto dela com os dedos e esperou por qualquer negligência ou pé atrás dela, o que não veio. passou os olhos na forma que a segurava, em suas mãos sob as coxas dela, e abriu a boca dele com um beijo, circulou a língua dele com a dela até ele não poder mais suportar e pressionou o corpo de para si e para dentro dela. Ambos ofegaram, estremeceram, o corpo de quente e macio em volta dele, os lábios dela se separaram, seus olhos se fecharam e ela pronunciou o nome dele baixinho em um gemido sofrido e delicioso, nunca acreditou que fosse gostar tanto de ouvir o nome dele daquela forma, mas estava errado. E foi naquele momento que entendeu um clichê que também nunca acreditou: eles se encaixavam como as peças de um quebra-cabeça, era a outra metade que ele queria, era algo tão extraordinário que duvidava que outra pessoa houvesse experimentado.
O barulho que saiu dos lábios de o trouxe de volta para a realidade.

- Você está bem, anjo? - ele sussurrou, espantado que ainda pudesse formar as palavras certas.

Os tornozelos de se entrelaçaram nas costas ainda mais forte, unindo ainda mais seus corpos e a ficção, e quase desmaiou com o contato. O suor brilhava na garganta dela, em sua clavícula, em toda sua pele, os cabelos úmidos estavam bagunçados e sua boca entreaberta.

- Não pare, por favor... não pare! - a voz dela tremeu.

sorriu ainda mais e começou a se mover cada vez mais forte, se arqueou contra ele, suas mãos se moveram para trás tentando se agarrar na parede à procura de algo para se segurar, mas desistindo e se agarrando ao seu corpo. Ela dizia seu nome repetidas vezes em uma súplica audível e não se importando em soar alto o suficiente, as mãos dele deslizaram por sua espinha, embalando seu corpo enquanto lutava por controle. A sensação foi tão intensa se elevou em uma espiral com cada movimento e cada deslize de sua pele contra a dele. A respiração dela vinha em suspiros soluçados carregados com um apelo silencioso. Os dedos de voaram para agarrar seus ombros, o prazer que sentia foi tanto que seus ouvidos estavam zunindo enquanto tudo explodia dentro dele e dela, queimando cada nervo em seu corpo.
caiu de joelhos, ainda embalando em seus braços, ela ainda o segurava tão forte quanto estava segurando antes. Eles estavam se segurando, atordoados e exaustos, como os únicos sobreviventes náufragos de uma tempestade.




Continua...



Nota da autora: 29 páginas, eu nem acreditei!!! Antes de mais nada eu queria me desculpar pela demora, eu ando me dividindo em duas (trabalhando e estudando), o tempo que sobra eu preciso descansar se não dá pane do sistema. Mas a verdade é que eu tento ao máximo escrever mesmo sem tempo pois é a minha válvula de escape.

Hoje eu parei para perceber e uau, ainda não acredito em todos os comentários que eu recebo, todo o amor e carinho que vocês depositam pela minha história e por mim, eu fico toda emocionada e choro viu? Eu tô muito feliz do rumo que Between Secrets está tomando (mesmo que alguns capítulos saiam do roteiro kakakaka rindo de desespero), tudo isso é por vocês e em meu peito só tem espaço para amor e gratidão.

Esse capítulo não estava no roteiro original, mas Alexandre invadiu meus pensamentos com tanta força, querendo contar detalhes que eu nem imaginava existir, acho que foi por isso que demorou tanto para sair. A história deles é detalhada e cheia de nuances, eles têm vida própria... e no final saiu melhor do que o esperando, eu sou muito boiolinha desse casal. Eu tenho o esboço escrito até o capítulo 12, então prometo que se tudo der certo eu volto o mais rápido possível por vocês.

Eu espero que vocês gostem tanto quanto eu, que fiquem cheio de amor e carinho pois é isso que eu sinto por todos vocês... aguardo os feedbacks e aguardo vocês no grupinho do face!!
Link do grupinho no face!

Com amor e carinho, Analua.


A história tem uma playlist no spotify, ainda estou ajeitando e colocando todas as músicas, mas, vou deixar o link aqui caso alguém se interesse.

Instagram dos personagens:
Pietra: @p.albulbell
Alexandre: @ alex.castelj

Desejo que vocês tenham tanto amor e carinho como eu tenho, sejam muito bem vindos e obrigada desde já.

Insta pessoal: @analuazevedo_

Beijos ?



Nota de Beta: Gente, eu tô chocada com tanta informação, morrendo de medo dessa empreitada onde a Pie está entrando não dar certo, medo de o Alex ser de alguma forma contra a organização e morta de curiosidade pra saber mais coisas sobre os dois e sobre o que eles fazem. Eu amei de mais o capítulo, perfeitamente bem escrito e cheio de revelações que eu amei. E esse final??? Eu estou radiante como acabou (mesmo depois de tanta coisa louca), fico feliz mesmo que eles se acertaram. Quero muito saber qual vai ser a reação deles depois dessa noite. Ansiosa demais por mais capítulos.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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