Última atualização: 24/05/2020

Prólogo

A história que estou prestes a contar não envolve um grupo de adolescentes normais de uma cidade grande. Não se trata de uma análise profunda sobre os jovens nem explica como o mundo funciona. Essa é apenas parte da história de Greyson Hills. Estamos no Norte dos Estados Unidos, um dia antes do final das férias e como toda boa história, temos quatro meninas no Ensino Médio. Mas não se engane! Elas não são meras personagens a procura de um príncipe encantado. Estão a procura apenas do encantado. Acredite ou não, a magia existe e se esconde nos lugares mais inesperados. Como eu sei disso? Ah meus caros... Prazer, meu nome é Davina.


Capítulo 1

A rua Duncan estava completamente iluminada nessa noite.

A festa da fundação de Greyson Hills sempre envolvia barracas de comida, brinquedos e um palco com música ao vivo. Todos na cidade se reuniam para aproveitar o último dia de verão e as famílias dos fundadores trabalhavam, como de costume. No final da rua, onde estavam montadas barracas de brincadeiras, , , e olhavam para o céu a espera dos fogos de artifício.

- Não acredito que as férias já passaram. – suspirando, colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
- Não acredito que o Ensino Médio já acabou. – completou.

O som de estouro vindo da floresta fez as quatro levantarem os olhares. Atrás das casas coloridas, luzes explodiam no ar, tocando o céu e rasgando a noite. Distante das meninas, as famílias brindavam com champanhe e as crianças gritavam de alegria, aquele era mais um ano de sucesso para a cidade. pegou sua câmera e tirou fotos da feira, dos sorrisos e das amigas olhando para cima.

- Não acredito que sobrevivemos todos esses anos... – ela guardou as polaroides. – Mal posso esperar para a formatura!
- Isso porque você já tem seu futuro todo planejado... – respirou fundo, sem tirar os olhos da lua. – Todas vocês têm e eu ainda estarei aqui... O que eu vou fazer sem vocês comigo?
- Você deveria tentar sair da zona de conforto, . – sorriu, abraçando a amiga. – A adolescência não dura para sempre e nós precisamos sobreviver no mundo de alguma forma. Faculdade é só uma porta, mas você não precisa escolhê-la agora. Tome tempo para entender quem você é e o que deseja ser...
- Mas não demore muito. – interrompeu. – Greyson Hills é um lugar de partida. Ficar aqui por muito tempo é o mesmo que não existir no mundo real.

Elas se entreolharam. O barulho dos fogos e dos risos no fundo não se comparava ao silêncio que se instalou entre as quatro. Faculdade, cidade grande e mudanças. Tudo isso e um pouco mais as aguardavam no fim daquele ano. abraçou as amigas e disse:
- Não sejam tolas. Temos tempo para pensar, viver e fazer todas as besteiras que nossa juventude precisa! Quando tudo estiver acabando, faremos a promessa de continuarmos unidas, mesmo estando em lugares diferentes. - Ela sabia que suas palavras não eram garantia. As outras também tinham noção disso. respirou fundo e decidiu não pensar no futuro, apenas viver.
- Acabamos por hoje?
- Acabamos. – saiu do abraço e foi apagar as lâmpadas da barraca. – Mudando totalmente de assunto, vocês não acham que a noite foi meio parada? Onde estão os casais à moda antiga que tentam ganhar pelúcias de presente para suas namoradas? E as crianças que disputam entre si pela melhor arma de água? O que está acontecendo com nossa cidade interiorana? – dramaticamente pegou os ursos que sobraram na tenda e jogou um para cada.
- Com essas pelúcias nem um bebê iria querer. – riu segurando seu urso deformado. – Além do mais, amor à moda antiga não existe. – colocou-o de volta na mesa.
- A meu ver, Brisbane parece ser a exceção... – a menina rapidamente encarou , os olhos cheios de fúria.
- Não mencione esse embuste em forma de Tom Brady com o cérebro de Steve Jobs.
- Isso foi um elogio ou um insulto? – sussurrou para , que apenas revirou os olhos.
- Ele está mais para presidente dos Estados Unidos do que jogador da NFL. Mas isso não importa, o que nós realmente temos que lembrar é que todos estão na festa de Melanie e Cassidy. – bufou. – Menos nós.

As festas de Melanie Perales e Cassidy Chang eram as mais agitadas da cidade. Sempre, no último dia de férias, as duas sediavam a festa de boas-vindas que seria assunto durante o primeiro semestre inteiro. Apenas os populares eram convidados. Às vezes o evento era aberto, mas nunca para as quatro. A verdade era que festas não faziam parte da vida das meninas, muito menos popularidade.

- Quem liga para isso? – balançou a cabeça. – Nós já temos nossa tradição. Não precisamos ser estereótipos de adolescente. - ela entrelaçou o braço no de e a puxou. e fizeram o mesmo e seguiram do lado.

Descendo a rua Duncan, as quatro observaram as casas vazias. Todos estavam aproveitando a noite, provavelmente reunidos na prefeitura para o grande jantar. Assim que passaram pela casa amarela, a última da sequência, não pode deixar de olhar para a janela no alto do canto esquerdo.
- Os Brooks ainda não voltaram? – seguindo o olhar, perguntou e recebeu um balançar de cabeça como resposta.
- Deveriam ter voltado a dois verões atrás.

deu de ombros e seguiu sem olhar para trás. As quatro costumavam caminhar pela cidade no silêncio, aproveitando a natureza calma que rodeava. Em eventos grandes, quando todos os moradores se reuniam, elas gostavam de ter as ruas só para elas. Era uma sensação inexplicável de liberdade. O caminho era simples: passaram pelo colégio fechado, atravessaram a estrada que ligava Greyson Hills até Virginia e chegaram no centro da cidade.

- Será que o Rei do Hambúrguer ainda está aberto? Queria tanto aquela batata frita gordurosa... – colocou a mão na barriga. Elas trabalharam o tempo todo e não tiveram tempo de jantar.
- Pelas horas eu duvido. – apontou para o relógio da praça principal marcando 23 horas. – Mas tem sempre o Lucy’s.

sabia que a amiga falaria isso e logo tratou de pegar a chave da lanchonete na mochila. Lucy’s era a única lanchonete da cidade que estava sempre aberta para as meninas.

- Vocês quem vão cozinhar dessa vez! – ela resmungou, liderando o caminho. costumava trabalhar lá nas férias e era amiga da dona, por isso tinha passe livre para usar o lugar.

Destrancando a porta, as quatro entraram sem delongas. acendeu as luzes e a decoração dos anos cinquenta se iluminou: chão com ladrilhos preto e branco, luzes fluorescentes rosas, bancos vermelhos estofados e é claro, o balcão azul esverdeado com a assinatura de todos os moradores da cidade. correu para a cozinha e jogou a mochila no balcão, colocando uma moeda no jukebox. Tudo normal como sempre... Exceto pela projeção violeta que atravessava a janela até os pés de . Brilhando do outro lado da rua, a placa de luz roxa atraiu a atenção da menina.

- Clarividência, adivinhação e tarot.

Aquilo era novo, mas, em Greyson Hills, novo não era comum.

- Nunca tinha notado essa casa antes. – surgindo do lado de , franziu o cenho.
- Será que tem alguém lá? – se aproximou, analisando o carro na entrada da casa, um fusca marrom com placa de outra cidade. O sobrado era iluminado apenas pela placa na entrada e, nas janelas, cortinas pesadas escondiam o interior.
- Acho que nós deveríamos conhecer o lugar. – com um sanduíche na mão e a boca cheia, chegou suavemente. – Quero saber se vou virar capa de revista em Paris!

Todas sabiam que a cidade era famosa por seus mistérios envolvendo o sobrenatural, por isso tinham certo receio de se aventurar nesse mundo desconhecido. Apesar das brincadeiras, era a que mais acreditava nas histórias que rodeavam Greyson Hills, sua irmã sempre contava casos de dar arrepios. As meninas se entreolharam, estavam com pé atrás, mas compartilhavam a curiosidade. Enquanto as quatro observavam a casa, uma luz na entrada se acendeu, como se estivesse convidando-as a entrar. Em Greyson Hills, as aventuras eram raras, mas quando apareciam, eram memoráveis.

- Vamos.



Do lado de fora tudo parecia normal. A rua estava deserta e a noite em seu ápice. A casa número nove se destacava apenas por sua placa neon. Na entrada, a porta de mogno tinha um olho mágico que reluzia, indicando que havia alguém na casa. As quatro meninas se colocaram lado a lado, pensamentos a mil. Tinham perguntas demais e coragem de menos. A primeira a ameaçar a tocar a campainha foi .

- Espera! – segurou o braço da amiga. – Nós temos certeza disso? Não sei se acredito nessas coisas de adivinhação, mas também não quero brincar com espíritos... Vocês sabem como os filmes sempre acabam e eu tenho certeza que eu não sairia dessa viva. Olhem para mim, sou a personificação da primeira a desaparecer!

colocou as mãos no rosto, dramática como gostava de ser. revirou os olhos, impaciente, e tocou a campainha.

-NÃO! – a mais nova gritou.
- Deixa de ser boba, - puxou os braços de para baixo. – duvido que seja de verdade. – Mentira, mas ela realmente era a mais cética das quatro. – Depois que essa besteira acabar temos que voltar correndo. Amanhã começam as aulas e quero ter uma boa noite de sono...
- Um segundo! – uma voz feminina cantarolou do outro lado da porta, fazendo se calar.

Sons de passos soaram na casa, pisadas secas no chão como se a mulher estivesse descalça. O silêncio da rua foi quebrado pelo tilintar das chaves e o rangido da porta se entreabrindo. Para a surpresa das meninas, uma mulher de uns trinta anos surgiu, revelando os pés descalços e os dedos pintados de esmalte azul. Os longos cabelos ruivos e o anel de serpente no dedo indicador eram apenas algumas partes que se destacavam na mulher e seu sorriso simpático estampado no rosto convidava as quatro a entrarem.

- Não esperava receber clientes tão cedo! – ela riu, balançando levemente a cabeça – Não cedo temporalmente já que está de noite, mas cedo no sentido de tão logo... Bem, vocês me entenderam. Certo?

Juntas, elas balançaram a cabeça.

- Entrem por favor! – a mulher adentrou a casa primeiro. – Sejam bem vindas ao meu santuário! - sentiu um frio na espinha, como se estivesse em um lugar errado. deu um passo a frente, querendo acabar com aquela experiência o mais cedo possível. – Me chamo Davina, com que posso ajudá-las?
- Minhas amigas e eu queríamos conhecer seu trabalho... – seguindo o caminho da mulher, disse sem fraquejar. A imagem das quatro refletia nos espelhos das mais diferentes molduras, pendurados no corredor que levava à sala principal da casa. – Isso seria possível?

As meninas se reuniram na sala de Davina enquanto ela se sentava em sua cadeira de veludo vermelho atrás da mesa redonda, coberta por uma toalha branca com desenhos bordados. A luz vinha de velas espalhadas pelo quarto e do lustre de cristal pendurado sobre as cinco. Pensativa, Davina brincava com um baralho enquanto olhava para as meninas a sua frente. A mulher analisou cada uma, percebendo logo suas personalidades distintas e algo a mais.

- Não acho que seja uma boa ideia. – sussurrou para que prontamente assentiu. As duas tinham a respiração pesada. A primeira por estar preenchida de medo e a segunda por não estar se sentindo confortável na situação. Davina, percebendo a insegurança das duas disse:
- Sentem-se, por favor. – espalhando o baralho na mesa com as faces para baixo, a mulher prendeu o cabelo – Quero que vocês estendam as mãos e sob as cartas sintam a energia delas. Selecione uma de sua preferência e direi o que os astros comunicam através delas.

As meninas se sentaram, , , e , nessa ordem, e fizeram o que a mulher aconselhou. estava determinada a acabar com a brincadeira logo e não demorou para pegar sua carta, escolheu a primeira que seus olhos avistaram. , nervosa, respirou fundo e pegou a carta no meio de um amontoado, virando uma das cartas para cima sem querer. A face descoberta atraiu atenção de todas. O desenho em aquarela revelava duas máscaras, uma branca e outra escura como a noite.

- Esse não é um tarot comum... – intrigada pela imagem, olhou desconfiada para Davina.
- Eu mesma confeccionei! – a mulher riu da expressão assustada de . – Não se preocupe querida, essa carta não lhe pertence, mas é um presságio. Tome cuidado com pessoas que invejam sua arte. Vamos lá, continuando!

, confiante, puxou a carta que repousava no topo de uma das pilhas no centro da mesa. , por sua vez, pensou antes de escolher a sua. Seus dedos estavam secos e quando passou a palma da mão por cima da carta mais distante das outras sentiu as pontas dos dedos formigarem. A mulher não tirava os olhos das cartas, cada movimento era analisado e estudado. Ela não precisava saber o nome das meninas, muito menos o motivo delas estarem ali, a única coisa que realmente importava é que elas estavam destinadas a viver esse momento e Davina seria responsável por introduzi-las nesse mundo. A mulher tinha certeza do que sentia nas meninas e aquele tipo de sensação só poderia significar uma coisa: magia pura.


Capítulo 2


- E então, o que acontece agora? – batucou os pés no chão de madeira, ansiosa pelo que estava por vir.
- Virem as cartas e deixem sob a mesa.

As quatro prontamente revelaram suas cartas, curiosamente, todas tinham um elemento da natureza desenhado em cores pastel. Davina sorriu ao vislumbrar aquela sequência inédita. As cartas nunca mentiam e aquela era a primeira vez que a mulher vira os elementos juntos em uma leitura.

- Isso é incrível... Quem são vocês? – ela levantou o olhar para as meninas, os olhos brilhando como as estrelas.

olhou a carta em tons verdes e notou que o desenho da árvore no centro lhe era familiar. O tronco retorcido e encravado com jóias, as folhas emaranhadas com flores brancas. Onde ela teria visto essa imagem antes?

- O brasão da família... – ela sussurrou quando a lembrança da mesma árvore no broche de sua vó saltou em sua memória. – Somos os Lockwood. – disse firmemente. - Esse símbolo, eu já o vi em nossa casa. O que está acontecendo? – a menina, assustada com a coincidência, encarou Davina.

A mulher se levantou e correu para a estante do outro lado do quarto. tocou no braço de , tirando-a do transe. As quatro trocaram olhares cúmplices, os símbolos nas cartas não eram mistério para elas. Cada carta tinha o brasão das famílias fundadoras, suas famílias. Lockwood e sua árvore milenar, Firestone e a chama flamejante, White com o furacão dentro de um vaso transparente e Marin com as ondas do oceano. Davina abriu um livro de bolso com capa de couro e começou a folhear rapidamente.

- Vocês vêm de uma linhagem muito antiga e rara... Achei! Lockwood, White, Firestone e Marin. Os cinco iniciadores. – animada, a mulher correu de volta para seu lugar e colocou o livro aberto em cima da mesa. – Eu sempre esperei por esse momento!
- Será que dá pra explicar o que está acontecendo? – puxou o livro para perto e encarou os símbolos espalhados pelas folhas. Pareciam runas desenhadas a tinta. – Isso é um culto? chama o 911!
- Eu sabia que não devia ter entrado aqui. – se levantou, arranhando o chão com a cadeira.
- Esperem! – Davina se levantou e em um só movimento, todas as velas da casa se apagaram, deixando apenas o lustre iluminar a noite. prendeu a respiração e deixou um palavrão escapar. Aquilo não era normal. – Deixem eu explicar.
- Por favor. – passou a mão pelo rosto. – Nossas famílias não são apenas fundadoras dessa cidade, certo? – disse, começando a juntar os pontos.
- Não. – a mulher respirou e com um balanço das mãos, todas as velas do salão se acenderam. As quatro olharam perplexas. Se isso fosse um programa de televisão, definitivamente seria a hora dos apresentadores se entregarem, mas ninguém apareceu. – Suas famílias são fundadoras do convento de bruxas dos Estados Unidos. Vocês fazem parte da linhagem mais nobre de todas. Meninas, pelo que os astros me dizem, vocês têm o dom de seus familiares. Vocês são bruxas!

O tempo pareceu estagnar em um piscar de olhos. Nenhuma delas acreditava no que acabara de escutar. Como poderiam acreditar em uma história dessas? Greyson Hills não tinha bruxas. Era impossível, não era? se recostou na cadeira, reunindo todas as memórias que tinha para justificar o que acabara de ouvir. Ela não sabia muito sobre sua família e o único parente que tinha contato era sua prima. Talvez ela pudesse engolir aquela revelação. Mas as outras? Elas sempre tiveram laços fortes com suas famílias, se fosse verdade provavelmente teriam descoberto mais cedo. piscou três vezes, passou a mão pelo rosto duas e olhou para o horário em seu celular. Na tela bloqueada, a foto dela com seu irmão no jardim da casa fez seu coração apertar. “Nós não somos bruxos, somos normais”, pensou. apenas segurou a risada, sentindo uma alegria correr pelo corpo. Ela já sabia que essa possibilidade poderia ser real, sua irmã sempre lhe deu dicas e sua família não era exatamente comum. A revelação foi apenas uma confirmação de que ela era especial. E , ela estava indignada. Sua mãe teria de abrir o jogo se isso realmente fosse verdade. Ela não iria acreditar em uma mulher que conhecera a apenas alguns minutos, tinha de ouvir essas palavras saírem da boca de sua própria mãe. “Bruxas” a voz de Davina ressoou na cabeça das quatro.

- E como isso funciona? – quebrou o silêncio. – Temos poderes como nos filmes?
- Não exatamente. – Davina limpou a garganta – Nós fazemos parte do convento de magia branca, magia conectada ao universo. Os poderes que nós temos são simples, a natureza tem um padrão e nós conseguimos moldá-la da nossa maneira. Mas, como vocês são de linhagens especiais, seus poderes são específicos e concentrados nos elementos da natureza que cada família foi designada.
- E o que nós fazemos com isso? Não é como se fosse acontecer outra guerra mundial. – riu – Não existem bandidos em Greyson Hills.
- Os poderes são parte de vocês, o que acontecerá com eles é por conta de cada uma. Essa noite vocês devem conversar com suas famílias. Descobrir o que puderem e então começarem o treino. Se seus poderes ainda não se manifestaram é porque eles não fizeram sua iniciação.
- Isso tudo está parecendo muito doido. – balançou a cabeça. – Muito Hitchcock para meu gosto. Vocês já viram American Horror Story? – ela se virou para as amigas – ser bruxa só traz problemas. Eu não quero isso.
- O que você assiste é um exemplo de magia negra. – Davina riu, não pretendia contar tudo hoje, mas queria ter certeza de que elas se manteriam no caminho da luz. – O poder tem duas faces realmente, mas com a orientação correta vocês não serão corrompidas. Seu sangue não permitirá. Apenas um bruxo de sangue nobre se converteu para o lado negro, mas essa história não vem ao caso. O que importa é que vocês compreendam quem realmente são e o que acontecer depois depende de vocês.

Assim que Davina calou-se, um som ensurdecedor invadiu o quarto e todas as luzes se apagaram na casa.

- Que merda é essa? – gritou antes de sentir seu corpo pesar e seus olhos se fecharem.
- Nos vemos em breve garotas! - a imagem dos dentes de Davina alinhados em um sorriso seria a última coisa que as quatro lembrariam daquela noite.


Capítulo 3

No dia seguinte, acordou em seu quarto, o corpo pesando contra os lençóis gelados. Um raio fino de sol brilhava no chão e o seu despertador tocava, dizendo que mais um ano letivo iria iniciar. Do outro lado da porta fechada, o tilintar de panelas indicava que sua irmã acordara mais cedo para preparar o café. A menina tocou os pés descalços no chão de madeira e uma corrente percorreu seu corpo, junto com flashes da noite passada.

- Isso foi real?

passou as mãos no rosto e analisou seus braços, a procura de qualquer evidência que confirmasse a loucura que havia acontecido há algumas horas. Nada. Ela pegou seu celular e olhou as notificações – nem um sinal de suas amigas. Jogando o aparelho longe, ela se levantou correndo para a frente do espelho. Apesar dos cabelos bagunçados, nada de novo em seu reflexo. Se ela realmente tinha poderes e tudo fora revelado na noite anterior, por que parecia que nada havia mudado?

“Seus poderes são específicos e concentrados nos elementos da natureza que cada família foi designada...”, a voz de Davina ecoou em sua memória.

Talvez a mudança estivesse em sua relação com a natureza, mas, se sua família tinha uma conexão com o fogo, como ela iria testar seu dom sem se machucar? Vasculhando seu quarto por algo que pudesse experimentar, parou o olhar sob algumas velas dispostas sob sua mesa. A imagem de uma chama queimando o pavio lhe veio à cabeça, mas nem uma faísca brilhou na vela. Ela franziu o cenho e pensando em labaredas, ergueu sua mão imaginando que iria ajudar, mas em vão. Perdendo a paciência, trouxe a vela para perto de seus olhos, mas o estrondo de sua maçaneta se abrindo e batendo na parede a fez pular.

- Algum problema com a vela? – Ava, sua irmã, ergueu a sobrancelha perfeitamente desenhada
- Muitos. – A mais nova bufou, batendo com o objeto na mesa. – Queria testar meus poderes. – disse sem pensar.

Assim que terminou de falar, sua irmã arregalou os olhos por alguns milésimos de segundo. Estaria na hora delas terem a grande conversa? Ava afastou o pensamento e apenas sorriu, puxando para a cozinha.

- Vamos bruxinha, não quero que você se atrase para o melhor dia do ano!
- Bruxinha... – suspirou e afastou aquela ideia ridícula do pensamento.



Do outro lado da rua, no lar dos Lockwood, terminava de se olhar no espelho quando sua mãe entrou no quarto. Ambas se assemelhavam de aparência. Os cabelos longos, as maçãs do rosto bem definidas e o olhar determinado eram marca das mulheres da família. Tessa, em seu conjunto azul escuro e seu famoso colar de pérolas, vislumbrou o reflexo de sua filha com orgulho.

- Preparada para o último ano?
- Como nunca. – A menina respirou fundo e se virou para a mãe. – Antes, tenho que lhe perguntar algo.
- Pode ser no carro? Temos que chegar cedo, você sabe...
- O assunto é delicado demais para se tratar no caminho.
As duas se sentaram na beira da cama. não se lembrava como havia chegado em casa, nem tinha certeza se o que ouvira na noite passada poderia ser real, mas ela sentia-se no dever de perguntar. Naquela casa não haviam segredos, desde que seu pai fora embora, eram só as duas contra o mundo. Descobrir algo que sua mãe ainda não havia lhe contado através de uma desconhecida fazia seu estômago revirar. Tessa percebeu a inquietação de sua filha e o olhar inquisidor.

- Mãe, os Lockwood são mais do que fundadores de Greyson Hills, não são?
- São uma das primeiras famílias a colonizar o país. – A mulher se fez desentendida. – Assim como as de suas amigas.
- E quem eram nossos parentes antes de serem expulsos da Inglaterra?
- Não foram expulsos! Nossos familiares buscaram refúgio na esperança de encontrar terras onde seus descendentes poderiam viver em segurança. Pensei ter lhe ensinado isso desde pequena.

respirou fundo, se acalmando. O tom de voz de sua mãe dizia que ela não estava muito satisfeita com aquela insinuação. Desviando o olhar, a menina percebeu o brilho do anel no dedo anelar de Tessa, a árvore do brasão da família.

- Que é isso em seu anel? – ela indagou, apenas para ter base para sua próxima pergunta.
- O símbolo dos Lockwood. – Tessa falou sem dar importância e encarou seu relógio de pulso. – Olhe filha, vá logo ao ponto antes que nos atrasemos mais ainda.

A menina levantou o anel para a mãe e limpou a garganta:
- Por acaso eles queriam garantir a segurança da linhagem pura de bruxos?



Batendo a porta do carro de Kade, checou os bolsos de sua mochila para garantir se realmente havia perdido a chave de seu Jeep. Provavelmente deveria ter esquecido na lanchonete ou talvez na caminhada na noite anterior. Uma noite de horrores, de fato. Ela fez questão de não pensar sobre o que havia acontecido com Davina e com toda aquela história de magia. Ainda que fosse adepta às fantasias em livros, ser algo além de humana estava fora de cogitação!

- Obrigada por me dar carona. – falou, assim que o irmão se sentou ao seu lado, ligando o carro. – Não faço ideia de onde deixei as chaves.
- Tá brincando? – Kade riu e encarou a irmã incrédulo – Essa já é a terceira chave que você perde. Acho que é de propósito só para que eu te leve ao colégio e faça todas as meninas suspirarem por mim. Você quer ter a fama de irmã do galã da rua Duncan, não é?
- A única fama que eu quero é na peça anual da cidade, pena que seu sorriso não pode me dar isso. Vamos logo que eu já estou atrasada!
- , para estrear na peça de fim de ano você precisa estar em um grupo de teatro. Quem está no comando da Companhia de Greyson High?

Seguindo a rua em direção ao único colégio da cidade, olhou para a janela triste ao lembrar de como era impossível entrar no grupo de teatro da escola. A Companhia era o clube mais disputado devido seu nível elevado e por constantemente se apresentar em outras cidades, inclusive na Broadway.

- Fletcher, - revirou os olhos - quem mais poderia ser.
- O pequeno Fletcher! – Kade riu sozinho. – Joguei lacrosse com o irmão mais velho dele. Eu o conheço desde que tinha bochechas rosadas e cabelo de porco espinho!
- Sua animação contagiaria se não fosse pelo fato desse garoto ser o mais exigente de toda a cidade! Sem contar com a estrela que é a namorada dele, o que faz as coisas ficarem triplamente difíceis.
- Sabe, o segredo está na confiança. Enfrente os populares! Mostre o dedo para eles, ria na cara do perigo. Quando eles perdem a autoridade, são só mais um bando de jovens com espinhas, você vai ver.
- Kade, sabe que como responsável você não deveria dar conselhos desse tipo.

Chegando no prédio, Kade embicou o carro no meio fio, alguns metros distante da entrada e, destrancando as portas, olhou para irmã. Ao dar um aperto na bochecha de , a tatuagem de furacão em seu antebraço fez a menina prender a respiração. Ela não conseguiria evitar a inquietação no fundo de sua mente para sempre.

- Quando você estiver na faculdade o papo vai ser outro. Te vejo no jantar!



Dentro do auditório, logo na primeira fileira, encarava impaciente a tela de seu celular. No reflexo do aparelho, ela observava seu reflexo cansado, consequências da noite anterior. Depois da sessão com Davina, ela acordou apoiada em uma das mesas do Lucy’s por volta da meia noite, sozinha. não sabia como, nem se o que havia acontecido era real, mas ela tinha certeza de que a casa do outro lado da lanchonete estava escura e sem o carro que antes estava estacionado.

- Pensei que seria a primeira a chegar. - falou ao seu lado, tirando-a de seus devaneios.
- Será que você pode me explicar o que houve ontem? – sussurrou para a amiga, conferindo se estava tudo certo com ela. – Como você chegou em casa? Voltou com as outras?
- Bom dia também. – A menina se acomodou na cadeira e arrumou a saia - Pelo que eu entendi, Davina nos levou para casa em seu fusca. Minha mãe me deixou em minha cama e imagino que com as outras foi o mesmo. Você também esteve inconsciente?
- Sim, acordei na lanchonete... Espera, você disse algo para sua mãe?

O palco, preenchido pelos professores, completou-se com a chegada de Tessa Lockwood, diretora do colégio. observou a mulher, elegante como sempre e aparentemente em seu estado natural.

- Quem disse o que?

A voz cortante de fez as duas se virarem. Ao seu lado, franziu o cenho e tombou levemente a cabeça:
- Já vamos começar com isso logo de manhã?
- Com um assunto bombástico desses, seria inevitável! Mas quero começar dizendo que eu tentei fazer a natureza ser minha subjugada e não deu certo. Nem uma faísca.
- Não é assim que funciona. – sussurrou, atraindo a atenção das três. – Nossos familiares precisam fazer a iniciação. Sem a transição ainda somos normais.
- E se eu não quiser ser anormal? – a voz fina de soou como uma confissão.
- É nossa obrigação. Depois da cerimônia temos uma aula vaga para a apresentação dos times e dos clubes na quadra externa, explico melhor assim que estivermos nas arquibancadas.

O som oco de duas batidas no microfone fez as meninas se calarem. Todo o auditório se silenciou para escutar as palavras de sua diretora e em seguida o hino nacional. Assim que ficou de pé, sentiu o bolso se sua calça jeans pesar. Discretamente ela colocou a mão e sentiu o pequeno volume de cartas. Quatro cartas para ser exato – a prova concreta de que o incidente da noite passada foi real.


Ao final da reunião, a maioria dos alunos saiu direto para as aulas, mas os do último ano se direcionaram à quadra externa. O sol começava a aparecer quando os chefes dos grupos da escola se posicionaram em frente das arquibancadas. Todo o time de futebol, sempre acompanhado das líderes de torcida, conversava e ria escandalosamente. As quatro subiam as escadas quando observou-os. Logo na ponta do banco, Melanie Perales e Cassidy Chang fofocavam sobre a festa da noite anterior, mas pararam ao perceber o olhar cortante de . , percebendo o que poderia acontecer, parou ao lado da amiga.

- Perdeu algo? – Melanie encarou de volta com mesma intensidade. – E você Lockwood, está se escondendo de mim? Soube que está relutante em relação ao debate para presidência do comitê estudantil.
- Não estou com medo, se é isso que quer saber. – cruzou os braços.
- E não é como se você fosse vencê-la. – completou, começando a ficar irritada.
- Meninas... – uma voz rouca soou atrás de .

Iluminado pelo sol, Connor St. Germain, um dos queridinhos do colégio, olhava diretamente para :
- Sem brigas, por favor. – Ele bagunçou os cabelos loiros – O dia nem começou!
- Jogue seu charme para cima dela longe de nós Connor! – Cassidy esbravejou.
- Com certeza. – O loiro piscou para e virou-se, caminhando em direção ao gramado, onde encarava-o intrigado.
- O que vocês ainda estão fazendo aqui?

Revirando os olhos, as duas subiram as escadas, ignorando o comentário de Melanie. e balançavam a cabeça em negação quando e se sentaram na fileira abaixo. A intriga entre as meninas e a dupla era antiga. Desde a infância, as meninas das famílias fundadoras sempre foram um grupo fechado, mas conhecidas em toda a cidade. Quando Melanie e Cassidy perceberam a atenção que era dada às quatro, a disputa entre os grupos se iniciou.

- Vocês não deveriam cair no jogo delas. – analisou o campo, notando que e Connor conversavam entre si enquanto olhavam para . – Isso só piora a situação.
- Eu pretendo ganhar esse ano. – Decidida, encarava o topo da cabeça de Melanie.
- Podemos falar sobre algo que realmente importa? – balançou a cabeça e se virou para as amigas, ficando de costas para o campo.
- Por favor. – Com a respiração pesada, encarou a amiga.

“ Em 1620, no ápice das Guerras de Religião e durante a perseguição que acontecia na Inglaterra, o navio Mayflower trouxe os primeiros colonos que procuravam liberdade para os Estados Unidos. Dentre os puritanos a bordo, cinco famílias entraram no navio com nomes falsos para sua proteção – nossas famílias. Assim que os colonos se estabeleceram na terra e criaram a colônia de Plymouth, as famílias precisavam desenvolver a sociedade, mas as condições eram difíceis, faltava alimento e infraestrutura. Os homens partiam em longas jornadas para explorar a terra, deixando as mulheres cuidando das casas e dos filhos. Durante uma noite quente de verão, uma das maiores tempestades atingiu o vilarejo. As casas estavam sendo destruídas quando as matriarcas de nossas famílias se reuniram e decidiram proteger a vila, sem se preocupar com as consequências que viriam ao expor seus dons.

Marin interrompeu a chuva pesada que caia, evitando que o rio alagasse a vila. Firestone cessou o incêndio nas casas, provocado pelos raios. White afastou as nuvens negras que se aproximavam no céu. Lockwood fez o solo absorver a água excedente, protegendo a plantação, única fonte de alimento da colônia.

Assim que a situação se estabilizou, as mulheres das famílias foram isoladas pelos outros colonos que tinham medo por não compreender o que havia ocorrido, enquanto a quinta família de bruxos que não se revelou no dia da tempestade fugiu, sem avisar as outras. Quando os homens que retornaram de mãos vazia souberam do ocorrido, os chefes da colônia se reuniram para decidir o que fazer com as quatro famílias de dons incomuns. Como os puritanos não tinham conhecimento dos dons dados pela natureza, determinaram que os hereges deveriam ser expulsos de Plymouth, mas poupados por salvarem os outros cidadãos. E foi assim que nossas famílias partiram em busca de outra terra, fundando mais tarde, Greyson Hills.

Sendo uma cidade fundada pelas linhagens puras de bruxos, outras famílias com dons se instalaram aqui ao desembarcarem no país. É por isso que histórias sobrenaturais sempre envolvem esse lugar. A magia que Greyson Hills abriga é uma das mais fortes e puras do mundo, porque partiu das mulheres mais poderosas de todas as gerações. Desde então, as famílias fundadoras fizeram a promessa de proteger o centro de magia. A cada geração, apenas um membro da família conserva os poderes de seu elemento, sendo atribuído o cargo de guardião. A magia possui duas faces, por isso os guardiões de Greyson Hills devem proteger a pureza que a cidade conserva desde sua fundação.”


- Quem é a quinta família? É dela que Davina se referiu na noite passada? – perguntou, tirando todas do transe.
- Onde fica o centro da magia? – acompanhou.
- E quando nós vamos assumir o papel de guardiãs? – perguntou por último.
- Eu ainda não tenho todas respostas. Minha mãe fez questão de contar o mínimo. Imagino que ela seja a guardiã da minha família, assim como Ava e Kade. – limpou a garganta. – Não tenho certeza quanto a sua família , mas imagino que seja sua prima, apesar dela ter saído da cidade.
- Sua mãe conhecia Davina? – com a mão na testa, indagou. – Como ela sabia onde cada uma mora?
- Minha mãe só sabe que ela é nova na cidade e que Davina controla o tempo, tem visões do futuro. Ela conhecia nossos endereços porque a cidade é pequena. – respirou fundo e deu de ombros. – Não precisamos nos preocupar ainda. Até que nossos familiares façam a iniciação não temos poderes.
- Mas do que precisamos proteger o centro de magia? – mordendo o lábio, voltou a olhar os outros alunos, todos agindo normalmente.
- Da magia negra.

As quatro se entreolharam aflitas. ia voltar a falar quando um grito a fez levar um susto:
- Lockwood! Tem algo mais interessante a compartilhar com o resto de nós?

As três meninas riram em silêncio da cara de , que se virou lentamente para o campo com todos os olhos em cima dela. A menina reconhecia perfeitamente aquela voz, o que a fez ficar mais irritada ainda. No meio da quadra estava Brisbane, encarando-a diretamente nos olhos apesar da distância. Ele era o capitão do time de lacrosse e do decatlo acadêmico, por isso fazia parte do elenco favorito da escola ao lado de , capitão do time de futebol.

- De maneira alguma. – respondeu cínica e cruzou os braços, ignorando o olhar falso de Melanie, também à frente dos outros alunos. – Pode continuar.
- Como eu ia dizendo, - assumindo a atenção, Fletcher, líder do grupo de teatro, falou – em nosso último ano, todos estão convidados a participar dos clubes extracurriculares. Para a Companhia, apenas uma vaga está livre. – O menino encarou sua namorada, Cassidy, com tristeza. - Testes começaram na próxima semana.

não podia acreditar no que acabara de escutar. Finalmente ela teria uma chance! Sabendo disso, abraçou-a de lado. Na primeira arquibancada, Cassidy observou a cena irritada. Ela não admitiria perder sua vaga para White.

- O mesmo vai para os Vikings. – assumiu o discurso. – Mas nada de novos quarterbacks! – arrancou a risada da maioria dos alunos.
- Para as Sirenas, somente as convidadas. – Melanie piscou para , claramente mostrando que a menina não seria uma delas. – E para o comitê estudantil, aceitaremos apenas aqueles com média acima de B.
- Ela fala como se fosse a rainha da escola. – revirou os olhos, apoiando os braços em seus joelhos dobrados. – Escutem minhas palavras meninas, esse ano eu vou assumir esse papel.
- Eu te ajudo. – manteve o olhar fulminante em direção a , que ria de algo que um dos meninos do time falou.
- Então eu vou conseguir a vaga da Companhia. – sorriu, evitando olhar diretamente para Cassidy.
- Desde quando o foco da nossa conversa voltou a ser dramas do Ensino Médio? – balançando a cabeça, respirou fundo. – Pelo visto eu vou ter que desvendar toda essa história de magia sozinha.

Assim que ela terminou de falar, o sinal tocou, indicando que o tempo livre havia acabado. Os grupos foram se direcionando de volta para o colégio, quando o som do escapamento de moto soou por todo o lugar. As quatro desceram rapidamente as arquibancadas e olharam o estacionamento. Desmontando da Harley Davidson preta, o garoto de capacete pegou a mochila e se virou para os alunos que ficaram na quadra. Ao retirar o capacete, as tatuagens de seu pescoço se revelaram, fazendo prender a respiração.

- Não é possível... – sussurrou ao seu lado.
- É ele. – acompanhou, segurando a mão da amiga.
- Os Brooks estão de volta? – estreitou os olhos em dúvida.
- ? – sussurrou, atraindo a atenção do menino da moto.


Capítulo 4

3 anos atrás

No jardim da casa amarela, e conversavam no balanço de madeira. A menina mexia seu corpo, tocando as pontas dos dedos na grama recém cortada, enquanto ele a olhava furtivamente, evitando pensar demais no que o burburinho em seu peito queria dizer. Era uma tarde morna de primavera, todas as flores inebriando o ar, quando o menino segurou a mão dela e a puxou para um beijo inocente e singelo.

2 anos atrás

Sentados no meio fio da Rua Duncan, segurava em seus braços pela última vez. Ela tentava desviar o olhar do carro lotado de malas e ele memorizava cada parte de sua namorada. passou a ponta do dedo sob a tatuagem recém feita de , uma rosa entrelaçada em uma adaga na lateral de seu pescoço, que segundo ele representava sensibilidade e força – tudo que eles precisavam para manter o relacionamento durante o tempo necessário, segundo a interpretação dela.


Hoje, o que menos esperava ver era de volta na cidade. O silêncio entre os dois era cortante, assim como as lembranças de sua história. Depois que os Brooks se mudaram para Nova Iorque, deixou de responder suas mensagens e nunca mais ligou para . Foram exatamente dois anos e cinco dias à espera, apesar de ele ter prometido que seria por apenas um verão.

Com o punho fortemente cerrado ao redor da alça da mochila, o menino caminhou em direção à quadra, onde todos o observavam. A cada passo dado, o pensamento dela acelerava. O tempo havia os distanciado demais, ela sentia que não deveria correr para abraçá-lo, por isso, apenas cruzou os braços tentando tranquilizar sua respiração e esperou que ele a alcançasse. Observando-o cuidadosamente, notou que estava muito diferente. Suas roupas mais escuras, o ar sério e novas tatuagens se revelavam a cada movimento. Aquele não parecia com o garoto que tinha se apaixonado e ele sabia disso.

- Sentiu minha falta? – disse irônico, observando-a dos pés a cabeça.

Em um ato reflexo, segurou o braço de . Ela engoliu em seco, sentindo as antigas feridas se reabrirem, e ele esperou.

- Não se faz isso com alguém que se ama. – Sussurrou, apenas para ele ouvir. sentiu um calafrio percorrer por seu corpo, realmente fazia tempo que não escutava essa voz. – Por que fez isso comigo? Onde você estava quando eu mais precisei?
- Você não vai gostar do que vai ouvir.
- Vai dizer que nunca me amou?

pronunciou essas palavras de maneira tão natural que se espantou.

- Sabe qual parte foi pior? – Ela precisava desabafar. – Foi imaginar. Criar milhares de motivos pelos quais você me deixou. A cabeça pode ser sua pior inimiga, sabia?

Os olhares trocados entre eles eram tão intensos que as pessoas ao redor começaram a se dispersar para deixá-los a sós. A menina respirou fundo e deu de ombros. Ela tinha feito uma lista de coisas a falar com quando o reencontrasse e não queria que ele assumisse o controle da situação ou fugisse dela, como sempre fazia.

- Eu pensei em desistir de você, . Mas quanto mais velha eu fico, mais entendo como é difícil viver em um mundo sem amor. Sozinha. Por isso eu vou continuar te esperando, mesmo quando você me afastar, eu estarei aqui, porque sei que você não é assim. Todo mundo merece amor, inclusive nós dois.

Assim que ela terminou, soltou a mão do menino. Antes que ela se afastasse demais, a puxou para perto, trazendo memórias antigas entre os dois.

- Pode ser que não seja isso que você queira ouvir, , mas eu voltei por você.
- Por que agora?
- Porque está na hora.

Em um piscar de olhos, revelou uma margarida branca em sua mão e a colocou na orelha de .

- Te vejo lá dentro.

Tomada pela surpresa, ela não sentia seu corpo e esperou a sombra de sumir para retomar o fôlego. A reação dele fora diferente do que imaginara. Caminhando para a piscina, onde poderia ter um momento sozinha para pensar, a menina balançou a cabeça e riu sozinha, pensando alto:
- E eu achei que sairia ilesa dos dramas.



- Vocês acham que foi uma boa ideia deixá-la sozinha? – abrindo o armário para retirar os livros, tamborilou os dedos na parede de metal. – Ainda mais com aquela versão gótica de ...
- Eles precisavam conversar. – deu de ombros.
- Não sei vocês, mas eu achei que ele ficou mais bonito, apesar daquelas tatuagens horríveis. – aprumou seu rabo de cavalo e olhou para o relógio no pulso, aguardando o sinal. – Nos encontramos no almoço e então vemos como está. Perfeito?

As outras duas assentiram e seguiu o caminho oposto de e . O colégio era consideravelmente grande para uma cidade como Greyson Hills, mas a pequena Lockwood tinha o mapa do local decorado desde a primeira vez em que pisara lá. Ela tinha o desejo de orgulhar sua mãe, por isso se empenhava em ser sempre a melhor. Sua meta era palpável, até ela conhecer .

Na entrada da sala de aula, e conversavam animados sobre os Vikings.

- Nós precisamos de você nessa temporada. Ninguém sabe jogar tanto na defesa quanto no ataque como você!
- , eu já expliquei que é impossível treinar todos os dias com os Vikings e manter minha média nas matérias...
- Mas você é o melhor em tudo, cara. Deve ter alguma maneira de conciliar o esporte e os estudos.

Revirando os olhos, pigarreou, pedindo passagem. Atraindo a atenção dos meninos, ela ergueu a sobrancelha e não pode evitar soltar um comentário na conversa dos dois.

- Ele não é o melhor em tudo.

, envergonhada, passou a mão pelo rosto e seguiu reto, deixando a amiga confrontar os meninos.

- Desculpe, mas a conversa é entre nós. – apontou o dedo para e ele.
- Lockwood! – deu um tapinha nas costas do amigo. – Essa é a garota de quem tanto falo!
- Hm... – trocou olhares cúmplices com o outro. - Vou entrando então. – O menino desapareceu na sala.
- O que quis dizer antes? – apoiou o braço na parede, analisando a menina de braços cruzados a sua frente – Quer disputar pela vaga no time?
- Se isso fizer seu ego diminuir, sim.

arregalou os olhos surpreso e sorriu:
- Então, que os jogos comecem.

deu de ombros e entrou na sala a passos largos. Ela sentia o olhar do menino em suas costas, por isso, virou-se para encará-lo, desafiadora. ergueu as mãos em rendição e entrou em seguida, acomodando-se na primeira fileira. A maioria das bancadas estavam ocupadas. sentava-se no fundo e mordia o lábio como se pedisse desculpa. Ao seu lado, onde deveria ser seu lugar, Fletcher acenava para ela com um pequeno sorriso cínico. “Esses idiotas!”, pensou enquanto respirava fundo e jogava sua mochila no único lugar disponível na sala – bem ao lado de Brisbane.

- Que surpresa! – ele riu, apoiando a cabeça na mão direita e olhando diretamente para o rosto da menina. – Bom dia, dupla!
- Cala a boca.
- , nós seremos parceiros durante o ano inteiro. Seria muito bom um pouco de educação mútua. Ou civilidade...
- ...

A menina não terminou sua frase ao notar que o professor entrou na sala. A mal gosto, ela se sentou na cadeira, puxando-a o mais longe possível dele. Poderia ser infantilidade sua, mas foi criada para ser a melhor e estava ali atrapalhando seus planos. Não tinha como eles se darem bem. Pelo menos não por parte dela.

- Quer parar de olhar para mim? – ela esbravejou, sem se virar para o menino.
- Desculpe, é que você é uma gracinha quando tenta me vencer... Você anota tudo o que o professor fala? – riu ao se aproximar do caderno de .
- Como eu faço para não matar esse ser humano com a minha caneta? – ela olhou para cima, arrancando uma risada silenciosa do menino.



No fundo da sala, estava prestes a virar a página de seu livro quando notou que alguém a observava de pé, ao lado da bancada. Erguendo o olhar percebeu que a encarava despreocupado. Com apenas o livro de Biologia na mão, ele apontou para a cadeira vazia ao seu lado.

- Posso?

A menina mal teve tempo de responder antes de perceber que aquilo não fora uma pergunta, mas sim uma constatação de que ele seria seu parceiro de laboratório. Seu rosto começou a esquentar ao ver que ainda estava fora da sala. Ela iria matá-la por não ter guardado lugar! fechou seu livro e mordeu o lábio, considerando se deveria iniciar uma conversa com ele. Para seu alívio, quebrou o silêncio.

- Você é a irmã de Kade... – ele não olhou para ela, provavelmente tentando lembrar seu nome
- .
- . – O menino se virou para ela e sorriu. – Vejo que gosta de poesia. – Analisou a capa.
- Honestamente, esse livro é horrível. – Os dois riram. – Kade me deu de Natal, mas não consigo passar da quinta página.
- E se eu disser que a autora é minha sogra?

Por um segundo, havia esquecido que e Cassidy eram um casal. De relance, a menina percebeu o sobrenome da autora – o mesmo de Cassidy – e sorriu desconfortável. Ela não podia acreditar que tinha falado isso.

- Desculpe.
- Não se preocupe. – acenou para , como havia prometido ao amigo, e prendeu a respiração ao perceber como a amiga estava irritada. – Tenho todas as cópias na minha casa e não li nenhuma delas. Não diga isso à Cassidy!
- Não há com que se preocupar. – Balançou a cabeça. - Não somos próximas.
- Eu sei. Tudo que Cassidy fala é sobre vocês. E não da melhor maneira...
- É o que eu digo para , não é saudável essa rixa, mas acaba sendo inevitável. – Suspirou, não acreditando que ela realmente estava conversando com .
- Marin, a ex-namorada de ? – se arrumando na cadeira, o menino se interessou pelo assunto. – É verdade que ele voltou?
- Você não o viu chegar?
- Não. Tive uma emergência maior. – Pigarreou, sinal de que não queria falar sobre isso.
- Suponho que você terá uma surpresa no almoço, então.

O menino se virou para frente, pensativo, e finalmente pode respirar. a encarava do outro lado da sala, como se quisesse entender o que estava acontecendo. Assim que a menina deu de ombros para a amiga, o professor chegou, atraindo a atenção dos alunos, exceto . Olhando de soslaio, ela percebeu que ele rabiscava algo na folha de seu livro. Em cima da bancada, seu celular piscava, indicando duas mensagens de Kade. Imeditamente, entendeu o que estava acontecendo. Não demorou para que o garoto ao seu lado rasgasse o pedaço de papel e passasse para ela.

“Sexta-feira, auditório, 18 horas”

- Antecipei seu teste por ser pedido especial. – Balançou o celular antes de guardá-lo no bolso.
- Você não precisava fazer isso. – Ela brincou com a caneta a sua frente. – Não quero favorecimento por termos um conhecido em comum.
- Quem disse isso? – levemente ofendido, sussurrou. – Eu sou o diretor, escolho quem eu quiser de acordo com o talento que estou buscando.
- Então porque me deu um horário diferente das audições abertas?
- A Companhia envia convites nas férias para os interessados dos anos anteriores, com audições em dias e horários diferentes, para que um não copie o outro. Como seu nome surgiu agora, tive que adaptar o procedimento. Geralmente os candidatos se preparam durante o ano para os testes.
- Tudo bem. – Ela engoliu em seco, sentindo a pressão aumentar sob suas costas. – Estarei lá.

encarou o papel a sua frente, envergonhada por seu irmão ter pedido ajuda à , mas guardou-o na agenda. Aquela seria sua única chance de mudar seu futuro. E ela não poderia desperdiçar essa oportunidade por nada. Principalmente agora que havia aberto uma exceção especialmente para ela.



Sentada na parte de trás das arquibancadas da quadra externa, observou o céu azulado. Sua ansiedade estava atacando, fazendo com que sua respiração saísse entrecortada. Apesar dela se mostrar forte para o mundo, muitos pensamentos costumavam fazê-la perder a cabeça. E o principal motivo agora era a sua ausência de poderes.

- Ei, quer companhia?

A menina fechou os olhos, soltando uma rajada de ar pela boca para tentar acalmar as batidas de seu coração. Ela nunca teve um ataque de pânico na escola, por isso não sabia como reagir. O menino, também com a respiração cansada, sentou-se ao lado de e colocou a mão em seu ombro.

- Está tudo bem?

Ela reconhecia aquela voz serena. Mordendo o interior da bochecha, a menina abriu os olhos, se deparando com um par azul bem a sua frente. Connor St. Germain a encarava preocupado, sem se importar com a gota de suor descendo em seu rosto.

- Se você conseguir me distrair dos problemas aqui, - apontou para sua cabeça. – ajudaria. – sorriu sem graça.
- Você tem o cara certo, então! – se ajeitando, Connor encostou-se na barra de metal ao lado da menina. – Tenho muitas histórias para contar, você prefere a do meu primeiro beijo ou da minha viagem para o acampamento no Maine?
- Primeiro beijo. – a menina percebeu que ele estava com a roupa de treino. – Não estou te interrompendo?

O loiro olhou para baixo e deu de ombros.

- Finalizo o treino depois. Está preparada para uma história mais trágica que Romeu e Julieta?
- Com certeza.
- Tudo começou quando tinha quatorze anos. Eu tinha marcado com uma menina, não direi o nome para manter a integridade dos envolvidos, de me encontrar no lago Pioty, na entrada da floresta de Greyson Hills. Perto das pedras, tem um lugar perfeito para se montar piquenique, por isso levei uma toalha, alguns salgadinhos e velas. – arregalou os olhos, imaginando como aquela história iria terminar. Connor sorriu, notando que ela estava se acalmando, e continuou. – A ideia original era só levar comida, mas eu tinha visto um filme romântico em que o homem colocou velas, então me convenci de que seria a melhor ideia! Tudo estava perfeito, ela estava caidinha por mim e eu encantado com o sorriso dela, quando chegou o momento. Eu me inclinei para beijá-la, mas acabei me atrapalhando e quando eu fui me apoiar melhor, acabei chutando uma das velas. O pior foi que eu joguei tudo no lago para apagar o fogo. Na toalha estava o celular da menina. Então, digamos que até hoje estou devendo uma toalha para minha mãe e um celular para ela... Mal comecei a trabalhar e já tenho dívidas em meu nome.

gargalhou, fazendo com que Connor a observasse aliviado. Ele sabia que essa história era a perfeita distração.

- Isso foi horrível!
- Ei, não teve graça na hora. – Ele mordeu o lábio e encarou-a. - Como você está? – perguntou mais sério.
- Bem melhor, obrigada. – Ela respirou fundo. – Achei que ninguém me encontraria aqui. Espero que isso fique só entre nós...
- , esse é um dos lugares mais movimentados. – Ele apontou para as inscrições nas barras de metal, iniciais de casais do colégio. – Mas não se preocupe. Segredo nosso. – Piscou para a menina e se levantou. – Vem, eu te pago o almoço.

Sentindo uma onda de calor percorrer pelo corpo, ela segurou a mão de Connor e o deixou guia-la para fora. Os dois caminhavam em direção ao prédio principal quando escutaram um grito vindo da quadra, onde outros garotos treinavam.

- St. Germain! - observava com as sobrancelhas franzidas, pedindo explicação de seu sumiço.
- Pensei em terminar mais cedo. – Bagunçou os cabelos e soltou a mão de rapidamente. – Faço tempo extra no final da tarde!

Connor se virou para com um sorriso amigável e voltou a andar a seu lado. riu confuso, compreendendo que tinha flagrado os dois saindo de baixo das arquibancadas, e voltou a dar os comandos para o time. “Essa é uma informação interessante para ser estudada mais tarde”, pensou o capitão antes de voltar a arremessar as bolas para sua dupla.


Capítulo 5

Afundando o corpo na água fria da piscina, Lana fechou os olhos na tentativa de acalmar-se. Desde pequena, ela se sentia protegida perto da água, como se fizesse parte dela. Agora, ela sabia o real motivo da conexão. Liberando todo ar de seu pulmão, a menina esperou a sensação de queimação surgir, mas obteve algo diferente como resposta.

- ?

Um sussurro surgiu à distância, um som peculiar que parecia vir de dentro da água. A menina estreitou os olhos, conferindo se estava sozinha de baixo d’água. Não havia mais ninguém além dela.

- , sou eu – o timbre feminino da voz de sua prima se fez mais próximo, como se viesse por trás de seus ouvidos. – Preciso que você preste atenção no que vou falar.

A menina não sabia ao certo no que pensar. Sua cabeça já estava ocupada com as memórias de e todas as revelações do dia. Ela aguentaria mais notícias, vindo de sua prima que um dia simplesmente desapareceu?

- Estou ouvindo – ela murmurou, incerta se aquela forma de comunicação realmente funcionava.
- Eu sei que está – a mulher respondeu com um tom divertido na voz. – Você deve estar se sentindo perdida nesse instante e eu sinto muito por não poder estar ao seu lado nesse momento. , eu não tenho muito tempo, então não conseguirei responder todas suas perguntas, por isso quero que apenas escute. No momento que deixei Greyson Hills, concedi os poderes de nossa família a você. Sua iniciação estará completa no momento em que você ler a epígrafe do livro dos Marin. Eu o deixei escondido no mármore de nossa lareira. Cuide muito bem desse livro, pois nele você encontrará tudo que precisa para aprender sobre o mundo da magia. A partir de hoje você deve ter muito cuidado com as pessoas ao seu redor, não confie piamente em todos. Há pessoas boas e más em todos os lugares, com ou sem magia. Seu papel como guardiã é evitar ao máximo cair na tentação do poder obscuro e sempre proteger suas amigas. Vocês quatro são as únicas responsáveis pelo equilíbrio da cidade e, indiretamente, do mundo como um todo. Sei que é complicado absorver tudo isso, mas, prima, todas as histórias são reais.
- Eu devo sentir medo? – mordendo o lábio, tentou não sentir saudade do abraço de sua prima e da proteção que ela lhe proporcionava quando moravam juntas.
- Não tema o desconhecido, tema apenas àqueles que o manipulam ao seu favor.
- Prima, - sentiu sua voz fraquejar – eu a verei novamente?

As águas ficaram silenciosas por alguns instantes e pensou que a conexão havia sido interrompida. Mas, antes que ela perdesse a esperança, o som se fez audível à distância:
- Se assim for o desejo das estrelas, sim, nos veremos novamente!

E então, a piscina ficou muda. fechou os olhos, absorvendo todas as informações e, assim que a última mensagem de sua prima foi guardada em sua memória, seu corpo tomou consciência e seus pulmões arranharam por ar. Impulsionando o corpo, ela se permitiu flutuar até a superfície, inspirando uma grande quantidade de ar. O dia mal começou e ela já estava planejando sair daquele lugar o mais cedo possível. Se havia algo escondido em sua casa que poderia ajuda-las a entender melhor o que aconteceria dali em diante ela não podia perder tempo. tinha que encontrar aquele livro, nem que isso significasse perder logo o seu primeiro dia de aula.

Correndo para o vestiário, ela pegou seu celular e enviou uma mensagem para as meninas. Enquanto secava seu corpo, a tela do aparelho acendeu, indicando uma notificação de um número desconhecido.

“Quer dar o fora daqui? - Brooks”

Seu estômago revirou ao ler o texto. Aquela mensagem era conveniente demais para um momento como esse, em que estava sem carro e precisava chegar em casa o mais rápido possível. Talvez a melhor solução para seus problemas seria subir na garupa de uma Harley, mas essa decisão também significaria passar o dia inteiro com o garoto que partiu seu coração. O que ela deveria escolher? agarrou o celular e saiu em direção ao estacionamento.


Parada ao lado da moto, a menina esperava impaciente. Assim que o sinal para o almoço tocou, a primeira pessoa a sair pela porta dos fundos foi . Andando a passos largos, ele abriu um sorriso presunçoso e balançou as chaves em seu dedo indicador.

- Olhe só para você! Nem parece aquela menina descontrolada que encontrei mais cedo! – riu sarcasticamente ao analisar os cabelos molhados e bagunçados de . – Você veio para a escola só para nadar?
- Eu vim porque achei que seria mais um dia normal – ela pegou o capacete que estendia e o colocou. – Mas por sua culpa tive que mudar os planos.
- Minha culpa? – o garoto se fez surpreso. – Se eu bem me lembro, essa cidade também é minha. Não preciso mandar um comunicado para cada cidadão dizendo que minha família e eu estamos de volta. – passou as pernas pela moto e ligou o motor.
- Poderia ter enviado um só para mim – sussurrou, subindo na moto, e segurou o menino pelos ombros.
- É sério? – ele se virou rindo e bateu no topo do capacete da menina. – Você diz que me ama de manhã e que sempre vai esperar por mim, mas não quer segurar em minha cintura algumas horas depois?

estreitou os olhos, sem cortar a conexão com . Seus olhos escuros desafiavam a menina. No passado, eles costumavam rir quando se encaravam por muito tempo, mas, hoje, isso não era possível - não quando os dois haviam mudado tanto.

- Eu vou segurar seu corpo, mas isso não significa nada – ela entrelaçou seus braços ao redor dele e então a moto começou a andar. – Só me leve para casa.
- Não quer ir para um lugar mais distante? – um tom de desapontamento soou em sua voz - Não é sempre que se tem uma Harley para andar.
- Minha casa .

O ronco do motor invadiu a rua. Algumas pessoas viraram as cabeças para ver quem estava dirigindo. Não demorou muito para a moto pegar velocidade e tudo ao redor virar um borrão na visão. Ao observar o retrovisor, analisou a expressão de . Ele estava concentrado na estrada, mas seus pensamentos pareciam estar em outro lugar. Ela direcionou seu olhar para o pescoço do menino, onde notou a tatuagem da adaga acompanhada de algumas marcas. Pareciam arranhões antigos, cicatrizados com o tempo.

- O que fizeram com você? – sem pensar duas vezes, ela perguntou, passando a ponta do dedo sobre as cicatrizes. se encolheu levemente, tanto por vergonha quanto por ter se esquecido de como era carinhosa em seu toque.
- Não interessa – seu lado rude retornou.

Ela engoliu em seco. Por mais que amasse e estivesse disposta a esperar por ele, sua vontade de ouvir desaforo era mínima, principalmente quando havia assuntos mais importantes para tomar sua atenção. Por isso, o restante do caminho para sua casa foi silencioso. Ao virar na última rua de Greyson Hills, o menino reduziu a velocidade e analisou a paisagem ao seu redor - a rua dos Marin era a mais tranquila de toda cidade, com casas menores e vista para o lago Pioty - era um de seus lugares favoritos no passado. Os dois costumavam ficar no deque na beira da água, jogando pedras na superfície e conversando sobre a vida. Ao parar em frente a casa azul, desceu da moto e tirou o capacete. O garoto relembrava cada detalhe da entrada da casa, abismado ao perceber que nada havia mudado.

- Quer entrar?
- Não sei se deveria.
- Só estou lhe convidando para o almoço, nada além disso – destrancou a porta. – Podemos conversar com calma, começando pelo motivo de você dizer que voltou para Greyson Hills por mim e por estar na hora – fez aspas com os dedos, repetindo a fala do menino no início do dia.

desligou a moto e bagunçou os cabelos. As explicações para todas dúvidas de estavam na ponta de sua língua, mas ele não tinha certeza de que ela estava pronta para ouvi-las.

-Espero que você tenha algumas cervejas na geladeira, porque vamos precisar.



não sabia dizer o que ela estava fazendo na mesa do time de futebol. Quando Connor havia dito que lhe pagaria o almoço, ela imaginava que se sentariam em uma mesa para dois, comendo um prato delicioso, não dividindo a bancada com uma caixa de som, batatas fritas perdidas e casacos dos Vikings. Vasculhando a cafeteria, ela não encontrou nem .

- Espero que não tenha demorado muito – chegando com duas bandejas, o loiro sorriu sem graça.
- Nem um pouco! – aliviada, deu espaço para que ele se sentasse ao seu lado.
- Como você está? – Connor perguntou enquanto abria a tampa de seu suco.
- Ficarei melhor quando der uma garfada nesse macarrão – a menina riu, enquanto girava o garfo. – De qualquer maneira, você não precisa se preocupar tanto.
- Claro que preciso, - ele fez uma careta, indignado – se pretendo ser um bom médico, devo me preocupar com todos.
- Não sabia que você queria seguir essa profissão.
- Imaginou que eu jogaria futebol para sempre? – ela sorriu envergonhada, enquanto ele balançava os ombros despreocupado - Escuto isso o tempo todo. Eu preciso do esporte para garantir minha bolsa de estudos para o próximo ano, mas não pretendo ir para a Liga como os outros.
- E para onde você pretende ir? Sei que sua família inteira estudou apenas na Ivy League, deve haver muita pressão em sua casa.
- Gostaria de aplicar para todas do grupo, mas minha principal é Harvard. Meus irmãos estudam lá, então não vejo motivos para não fazer o mesmo.
- Jogador de futebol semiprofissional e futuro aluno de Medicina em Harvard. Isso é o que eu chamo de ascensão. O sobrenome St. Germain não é fácil de se carregar! – a menina se arrumou na cadeira, aproximando-se do garoto.
- Não é apenas quem tem cérebro e habilidade na quadra! – ele fez o mesmo, tocando sua perna na de .
- Você tem uma vantagem sobre ele – ela susteve o olhar de Connor, flertando abertamente.
- Qual seria? – St. Germain sorriu, entretido.
- Você tem jeito com as garotas, - a menina mordeu o lábio, fazendo o loiro respirar fundo – agradeça às suas covinhas.

Connor gargalhou, fazendo algumas líderes de torcida revirarem os olhos. Ela ainda não acreditava que aquele garoto estava dando tanta atenção para ela. Tudo parecia perfeito demais, até que os dois lugares vazios a sua frente foram ocupados.

- Divida a piada conosco Connor! – Melanie apoiou a cabeça em sua mão esquerda, sem sequer olhar para . – Tenho certeza que sua companhia já é um grande motivo para rir!
- Bem que eu imaginei que vocês dois estariam começando um romance – falou em voz alta, segurando a risada.
- Aster me contou que viu você saindo das arquibancadas durante o treino. Desse jeito não vamos ganhar as nacionais St. Germain! – um garoto do time soltou do outro lado da mesa, arrancando risadas de todos presentes.

Respirando fundo, não baixou o olhar. O loiro a encarava, pensativo, e então a menina decidiu responder à altura:
- Se estamos juntos ou não é problema nosso, mas garanto que caso Connor tire a sorte grande comigo, ele vai se sair melhor nos jogos que qualquer um de vocês.

Melanie riu, descrente do que escutou, e o time inteiro ficou em silêncio. Ao seu lado, Connor sorriu grato e segurou sua mão por baixo da mesa. Ela não tinha paciência para as brincadeiras do time de futebol, mas queria estar ali para conversar com St. Germain. Assim que Melanie abriu a boca para soltar um comentário para , seu telefone começou a tocar, indicando que estava ligando. A menina soltou a mão de Connor e se retirou da cafeteria para conseguir ouvir sua amiga. Na mesa, o burburinho retornou aos poucos e, enquanto o loiro terminava seu almoço, o casal a frente sussurrava, jogando olhares desconfiados sobre o garoto.

- Soube que Brooks voltou – para quebrar o gelo, Connor falou.
- Eu o vi, - encarou o menino a sua frente – o garoto ganhou corpo. Poderia servir de Running Back nessa temporada.

Connor engoliu em seco. Melanie fulminava , enquanto o capitão fazia o mesmo com o menino a sua frente. Aster era o mais popular da escola, tanto amado quanto odiado. Ele e St. Germain se tornaram melhores amigos quando deixou a cidade, mas, mesmo sendo muito próximos, Connor não deixava de sentir-se como um criado – apenas com um olhar, impunha uma ordem, por isso, o loiro estava compreendendo aonde aquela conversa iria chegar.

- Essa é minha posição, Aster.
- Por enquanto sim, mas não se esqueça que era dele antes de você entrar para o time – dando uma mordida em sua maçã, o capitão sorriu para a namorada. – Mas podemos discutir melhor sobre isso mais tarde.
- Sim, capitão – cabisbaixo, Connor seguiu o olhar maldoso do casal em direção à , do lado de fora das paredes de vidro.

Ao desligar o telefone, a menina voltou para pegar suas coisas. Na mesa, Connor era o único restante. Diferentemente de quando tinha o deixado ali, o menino parecia desapontado. Ela sorriu para o loiro assim que os olhos azuis encontraram os seus e então ele se levantou:
- Eu gostei muito de te conhecer, - os dois caminharam para fora da cafeteria – por isso queria saber se você gostaria de sair comigo algum dia desses.
- Claro! – surpresa, ela conteve a onda de felicidade que percorreu por seu corpo e sorriu animada.
- Sábado a noite?
- Combinado!

Com um sorriso contido, mas que ainda revelava suas covinhas, o menino beijou o topo da cabeça de e saiu caminhando com as mãos nos bolsos. Ela precisou recuperar o fôlego antes de correr até seu carro. Estava tão feliz que mal se lembrava da ligação de sua amiga, só sabia que deveria encontrá-la antes do último período. Mordendo o lábio, a menina ligou o motor e colocou sua playlist favorita para tocar. Nada mais naquele dia poderia surpreendê-la a ponto de superar o convite de Connor.


Estacionando na frente da casa de azul, notou que a moto de estava na garagem. Sem compreender ao certo o que estava acontecendo, a menina desceu do carro e caminhou em direção à porta da frente. Movendo a maçaneta, ela entrou na casa silenciosa. Tudo parecia normal, a mesa estava com pratos recém utilizados e a televisão ligada. Ela escutou passos ocos em cima de sua cabeça, o que só poderia significar que os dois estavam no andar de cima. Subindo as escadas rapidamente, a menina encontrou todos os recintos abertos e então, ao virar para entrar no quarto de , esbarrou com o garoto alto.

- O que você está fazendo aqui? – ele esbravejou, atraindo a atenção de , sentada no chão do outro lado do quarto.
- Eu é quem te pergunto – com o mesmo tom, a menina cruzou os braços. – Desde quando você tem o direito de aparecer na cidade e ter frieza de provocar minha melhor amiga depois de todo o sofrimento que causou?
- Por que vocês acham que que devo satisfação a todos? – resmungou. - Não acredito que das três amigas, você convidou justamente a mais raivosa – se jogou na cama, ignorando o olhar de .
- Nós já tivemos essa conversa – se levantando para apaziguar a tensão, sorriu para a amiga, agradecendo o apoio. – Basicamente, foi para Nova York para tratar de negócios de família e no final, foi obrigado a estudar em um internato.
- Credo, que antiquado – a menina riu. – Apesar de eu me entreter com a história dramática de vocês, eu preciso saber o que nós estamos fazendo aqui.

Sem delongas, revelou um pequeno livro de couro escuro e mostrou para :
- Esse é o motivo para todos nós estarmos aqui.



Ao final do período, arrumou seu material rapidamente e correu para a bancada de . Durante a aula de Química, ela recebera uma mensagem de texto de sua mãe, dizendo que precisava conversar com as quatro imediatamente.

- Você acha que vai ser alguma notícia boa? – ajeitando os livros, se levantou e seguiu para fora da sala acompanhada da amiga.
- Imagino que esteja relacionado ao que aconteceu ontem – estava tão ansiosa que mal se lembrou das importunações de durante a aula. – Talvez ela nos explique como será a iniciação. Antes de chegarmos no colégio, ela havia me dito que o procedimento deveria ser feito o mais cedo possível agora que estamos cientes de nosso futuro.
- Como você consegue aceitar tudo isso tão facilmente? – a mais nova reduziu a velocidade de seus passos, observando os colegas andarem tranquilamente pelo corredor – Eu não entendo como tudo isso pode ser possível. Somos apenas adolescentes! A única preocupação que deveríamos ter é com o vestibular ou o baile de formatura – passou a sussurrar para que ninguém além de a escutasse. - Não vejo como quatro meninas podem ser a chave para a proteção do equilíbrio entre o bem e o mal!
- , respira – a amiga enlaçou o braço na outra e a guiou para a sala da diretora. – Pense que tudo isso é uma grande aventura que nem todos têm o privilégio de viver!
- Mas você não considera as consequências que podem vir? É muita responsabilidade para nós.
- Uma hora nós temos que crescer. Não há como fugir dos planos do destino, mas nós podemos aprender maneiras de lidar com ele. Por isso quero entender completamente como tudo isso funciona - ela gesticulou aos ares.

Dando duas batidas na porta, se soltou de e girou a maçaneta. Para o espanto das duas, a sala estava mais cheia do que o esperado. Sentados no sofá, Kade e Ava conversavam, um tanto nervosos, enquanto Tessa terminava de fechar as persianas de suas janelas. Franzindo o cenho, encarou seu irmão que segurava um livro de couro – como o de Davina – e pigarreou:
- A senhora nos chamou?
- Sim , sente-se por favor – a diretora caminhou até a porta e a trancou. – e virão? – perguntou para sua filha.
- Não, mas podemos conversar com elas depois – acomodou-se ao lado da amiga.
- Eu sinto muito por vocês terem descoberto tudo isso desse modo – Ava balançou a cabeça. – Nós imaginávamos que demorariam alguns anos até que fosse necessário realizar a iniciação...
- Há uma idade específica para se tornar guardião? – a mais nova suspirou, desejando que tivesse mais tempo para viver tranquilamente.
- Comigo aconteceu aos vinte e dois anos – seu irmão respondeu, batucando o pé direito no chão de leve. – A tendência é acontecer nessa faixa etária. Quanto mais jovem for o guardião, mais poderes ele concentra.

As meninas se entreolharam surpresas. As quatro estavam prestes a completar dezoito anos, indicando que o quarteto era mais poderoso do que imaginavam.

- E é por esse motivo que estamos preocupados – dessa vez, Tessa se pronunciou. – Vocês quatro são uma combinação rara de guardiãs. Uma geração tão poderosa quanto à dos fundadores.
- As matriarcas... – sussurrou e recebeu balançar de cabeça de Ava.
– Isso significa que teremos algum problema com a magia negra? – concluiu.
- Infelizmente, cremos que sim – sua mãe continuou. – Atualmente, sabe-se que a magia negra é atraída pelo poder. É uma forma que se apossa dos praticantes de magia branca que ainda não têm total controle sobre seus dons. Vocês meninas, além de possuírem o dever de proteger o equilíbrio, terão de aprender a se fortalecer contra a obscuridade. Por isso queremos iniciá-las o quanto antes para poder começar o treinamento.
- Para isso, precisamos das quatro unidas e desses livros – Kade ergueu o objeto. – Estes cadernos são essenciais para qualquer bruxo. Nele, cada família escreve seus encantamentos e características específicas de práticas de acordo com seu elemento. O primeiro encantamento em todos os livros é o que permite a transferência de poderes.
- E o que acontece quando vocês concederem os poderes a nós? – a menina encarou seu irmão, preocupada.
- Nós detemos uma pequena parcela de poder, apenas o necessário para a vida cotidiana! – Ava mexeu os cabelos ruivos. – O trabalho durante esses anos foi simples, não há vilões como nas décadas passadas. Minha avó me contava histórias em que ela e os outros guardiões lutavam contra todos os tipos de seres sobrenaturais...
- Eu tenho uma dúvida – atraindo a atenção de todos, se pronunciou. – Na noite passada, Davina nos contou de um bruxo puro sangue que se converteu a magia negra. Ele seria membro da quinta família dos fundadores?

Abismado com a conclusão de sua irmã, Kade olhou para Tessa, esperando sua resposta. A mulher mais velha tirou os óculos do rosto e começou a limpá-lo, enquanto organizava as melhores palavras a serem ditas. A Firestone mais velha, pelo contrário, sorriu para as duas na tentativa de amenizar o clima e se prontificou a falar:
- Você está certa pequena White! A quinta família cujo sobrenome nos é desconhecido fugiu na noite do incêndio e permaneceu desaparecida durante séculos. Apenas há algumas gerações, um de seus bruxos ressurgiu em Greyson Hills, mas ele não era praticante da magia pura. Nenhum de nós sabe como ele se aliou ao lado negro, porém, segundo registros, o bruxo foi um dos piores seres a ser derrotado pelos guardiões da época.
- Ava – Tessa ergueu a sobrancelha, sondando-a. – Essa história ainda não vem ao caso. Primeiro precisamos que vocês pratiquem seus dons, depois podemos contar outras curiosidades sobre o mundo.

sentia medo. Sua imaginação não queria voar longe, muito menos ilustrar as supostas histórias que Ava havia revelado. Ela mal conseguia aceitar que era uma bruxa e já teria de começar seu treinamento. Kade, pelo contrário, parecia muito mais apto a esse trabalho. Seu irmão sempre fora destemido e confiante, ele era o White certo para proteger o mundo. , do outro lado, estava se acostumando com a ideia. Agora que sua mãe havia aberto o jogo, ela desejava desvendar todos os mistérios daquela cidade, começando pelo centro de magia que deveria proteger. Além disso, ela sabia que não havia orgulho maior do que herdar e dominar os poderes de sua família, por isso queria começar o quanto antes.

- Não se preocupem meninas, - Kade se levantou – por enquanto não há nada a temer. Faz anos que essa história aconteceu.
- Vocês só precisam permanecer unidas e se lembrar do lado em que estão. – Tessa completou, passando confiança para sua filha.
- Então estamos resolvidos! Podemos realizar a iniciação hoje a noite, no jardim dos White – Ava bateu palmas, animada. – Estejam prontas!

As duas meninas se entreolharam e então sentiram seus celulares vibrarem com uma mensagem de texto de :
“Tudo está começando.”


Capítulo 6

Reunidos na casa dos White, as quatro famílias se preparavam para a iniciação. Ao redor da fogueira no jardim, Tessa, Kade e Ava tilintaram suas taças de vinho e tornaram o último gole – uma celebração à última reunião em que teriam plenamente todos os poderes de seus elementos. Acompanhando as faíscas que crepitavam da madeira, a mais velha dos três ergueu o olhar para a janela do quarto da caçula dos White, onde as meninas se arrumavam. De frente para o pequeno espelho, todas observavam seus reflexos. As garotas usavam branco e encontravam-se descalças, como Ava havia pedido.

- Não sei o que o futuro nos guarda, - quebrou o silêncio – mas nós nascemos para isso. Teremos poderes e a oportunidade de utilizá-los para o bem. Independente de qualquer barreira que venha a aparecer em nossos caminhos, precisamos nos lembrar disso.
- Sem contar que a partir de agora estaremos mais unidas do que nunca! – completou, sorrindo mais tranquila.
- Estando juntas sei que tudo dará certo – abraçou as amigas.
- Sendo assim, que a nossa nova aventura comece! – entrelaçou seu braço no de e as outras duas fizeram o mesmo.

O tempo parecia desacelerar a cada passo dado pelas meninas e, quando as quatro chegaram na porta que separava a casa do jardim, o ponteiro do relógio finalmente pareceu congelar. Elas sentiam apenas os batimentos em seu peito e o frio na barriga, sintomas do medo de abandonar suas vidas antigas por uma nova totalmente desconhecida. , permitindo a curiosidade crescer em si, segurou o braço da amiga com firmeza e deu o primeiro passo em direção à noite escura. Ela sabia ser corajosa quando necessário e nesse momento coragem era ao que seu grupo mais precisava. Colocando-se ao redor da fogueira, as quatro se soltaram e logo em seguida seus familiares se colocaram ao lado de cada uma. , diferentemente das outras, tirou o livro dos Marin do bolso de sua jaqueta e esperou que os mais velhos lhe dissessem o que fazer, já que o caderno estava completamente escrito em latim - como havia presumido na manhã do mesmo dia.

- Non timere ignis aqua terra caelum – Kade começou. Assim que ele tocou o ombro de sua irmã, subitamente sentiu uma corrente elétrica percorrer por suas veias.
- Do fogo não temerei, pela água me conhecerei, o céu tocarei e na terra florescerei – Ava levantou seu rosto para a irmã, revelando pela primeira vez seus olhos coloridos em tons alaranjados. Percebendo o fascínio da menina, a mais velha piscou para , reassegurando-a de que tudo estava bem.
- Promitto Terra tuentur – Tessa girou suavemente os pulsos e fez uma flor branca se abrir em sua palma, colocando-a em seguida no rabo de cavalo de sua filha.
- Prometo proteger a magia e livrar o mundo da escuridão – recitou a única frase escrita a lápis e com a letra de sua prima no final da epígrafe.

Assim que seus lábios se fecharam, uma brisa morna percorreu toda extensão de seu corpo e seus pés pareciam flutuar. Tudo que conseguia fazer era olhar para as estrelas, brilhando no topo de sua cabeça como holofotes. Ela não fazia ideia do que estava acontecendo, mas dentro, no fundo de sua alma, parecia que as peças estavam se encaixando. Um clarão momentâneo em sua mente fez com que seu coração se acalmasse para que ela pudesse prestar atenção às cenas que desenrolavam diante de seus olhos. Na projeção, Marin podia enxergar uma versão de si mesma, reluzindo como a superfície da água em um dia ensolarado, caminhando em direção a outras três silhuetas brilhantes que remetiam a suas amigas. No momento em que as sombras se chocaram, outro clarão invadiu os olhos de e bastaram alguns instantes para que ela começasse a sentir seu corpo mais sensível e as pontas de seus dedos voltarem a tocar o chão. Instantaneamente, a menina mirou o olhar para suas amigas, presenciando algo que a ciência não poderia explicar.

Ao redor da fogueira, cada uma delas apresentava uma característica nova, como se tivessem renascido. tinha os olhos da cor do fogo e, ao estalar seus dedos, faíscas surgiram iluminando ainda mais seu sorriso. encarava a nova cor de seus cabelos, um loiro claro como as nuvens, que esvoaçavam com o redemoinho que formava ao seu redor. tinha em seus tornozelos ramos de flores brancas que se entrelaçavam como adornos, a medida que ela sentia seu corpo se preencher de energia uma nova flor desabrochava. Por último, a menina restante levantou os braços na altura dos olhos, encontrando em sua pele uma tatuagem cristalina em forma de coluna d’água que se enrolava em seus antebraços. O desenho parecia mover-se, como se a água realmente estivesse envolvendo-a. Assim que todos ficaram em silêncio, as labaredas no centro da fogueira começaram a se alastrar, atingindo uma altura impressionante. As chamas emanadas tomaram cores azuladas e subitamente partículas cintilantes e frias se expandiram no ar, caindo levemente sobre as quatro, como neve em um dia de inverno. Ao fundo, uma corrente de vento úmido passou pelo corpo de todos ali presentes e na grama, margaridas começaram a surgir por entre os dedos descobertos de cada uma delas. Ao redor daquela pequena cidade, todas as formas da natureza pareciam ter acordado com o surgimento da nova geração, confirmando que, em algum lugar no centro da floresta de Greyson Hills, o epicentro da magia se renovava. Apenas as quatro famílias puderam presenciar tal espetáculo. , , e encaravam abismadas a tudo aquilo que a natureza escondia dos olhos mortais e então elas se entreolharam, inspiradas e começando a sentir em seus próprios corpos a dança de todos aqueles elementos.

- Enfim, que as estrelas lhes protejam – os três antigos guardiões se curvaram e desfizeram o círculo.
- A iniciação está quase completa. Só resta o último desafio – a certa distância, Tessa enunciou com a voz clara. – As forças da natureza irão testá-las para se certificar de suas intenções. Cada uma terá um desafio e no final, se todas forem dignas de possuir a magia dos elementos, haverá o grande teste em que as quatro terão de trabalhar em harmonia.
- Quando estiverem prontas, sigam o caminho iluminado, logo na fronteira da floresta – Kade apontou para o feixe reluzente entre as árvores.
- Retirem os feitiços dos livros quando for preciso e sempre sejam verdadeiras consigo mesmas – Ava entregou o caderno de couro para , assim como fizeram os demais para e . – Não tenho dúvidas de que as quatro são dignas! Apenas sigam seus corações e tudo dará certo.
- Nós já temos poderes? – a caçula dos White perguntou.
- Sim, mas não em sua totalidade – seu irmão sorriu carinhosamente. – Não se preocupem, apenas mantenham-se unidas. Estaremos esperando-as.
- Nos vemos em breve meninas, - Tessa assentiu orgulhosa – nossas novas guardiãs.


Alinhadas de frente a entrada da floresta, as quatro respiravam pesadamente.

- Me contem tudo! – finalmente quebrou o silêncio, intrigada. – O que vocês viram e sentiram durante a cerimônia? E o mais importante, como são seus poderes?
- Eu vi figuras iguais a nós e logo em seguida uma onda elétrica invadiu meu corpo... – balançou a barra de seu vestido, lembrando-se dos pequenos choques em sua pele. – Não sei descrever, mas assim que a sensação me invadiu parece que estou mais...
- Viva? – completou, sabendo exatamente como a amiga se sentia.
- Mais do que isso, - a mais nova riu envergonhada. – Me senti forte, revigorada. Poderosa.
- Foi uma sensação incrível! – concordou. – É como se nós estivéssemos finalmente vivendo nossa história.
- Imaginem como será ao final dessa noite – produzindo uma chama na ponta de seu dedo para testar se tudo aquilo realmente era real, saltitou animada. – Podem ver como tudo será mais interessante? Nós temos poderes! Não vejo a hora de aprender mais e colocar em prova todas minhas habilidades pirotécnicas... Falando nisso, vocês estão maravilhosas com a aparência de super-heroínas!
- Para ser sincera, seus olhos estão me deixando um tanto quanto inquieta – Lockwood cutucou a amiga. – Como você vai esconder de todos? De Melanie principalmente.
- Todas precisaremos omitir nossas novas características – ergueu os braços, mostrando para as meninas o fio d’água que percorria seus pulsos.
- Somente a tirou a sorte grande – riu. – E eu sempre achei que o loiro de Kade era natural! Mal sabia que precisaria de magia para alcançar aquela cor.
- Não sejam bobas – bagunçou os fios claros. – Nós estamos carregando os poderes de nossas famílias, cada uma a sua maneira. Não há motivos para nos envergonharmos disso! Temos que ter orgulho de nossa aparência.
- Você tem razão – piscou para a amiga e então se virou para as demais. – Depois pensamos nisso. Agora, acho que algo mais importante nos aguarda... – apontou para o caminho iluminado.
- O que vocês acham que acontecerá? – colocou as mãos no bolso de trás de sua saia branca.
- Depois do que vi na cerimônia, não há imaginação alguma que possa se comparar ao que pode acontecer – White mordeu o lábio.
- Será que não passou na cabeça de nenhuma de vocês a possibilidade de uma de nós não ser “digna”? – com a voz trêmula, suspirou.
- Acho que nós devemos parar de supor e seguir logo aquele globo de luz – Lockwood soltou, surpreendendo as demais.
- Juntas? – Marin estendeu o braço para Firestone.
- Juntas! – as outras duas fizeram o mesmo.

Trilhando caminho adentro, as meninas seguiam a luz, sem perceber que cada vez mais a floresta se adensava. No céu, a lua cheia produzia sombras no chão, contribuindo para o aspecto místico do lugar. Quando as quatro alcançaram o globo de luz, se depararam com uma clareira desconhecida. Assim que elas se soltaram, a bola brilhante escorregou lentamente pelo ar até atingir o solo e desaparecer, deixando as meninas na penumbra. No local secreto, haviam flores selvagens no gramado e um fino riacho correndo ao fundo. Elas mal tiveram tempo de conversar quando outro globo esverdeado e brilhante surgiu na frente das quatro. Uma voz feminina ecoou em seus ouvidos, dando início a fase final da iniciação.

“Cinzas às cinzas, pó ao pó, da terra viemos e na terra partiremos”

- Acho que essa é sua sussurrou para a amiga e se colocou alguns passos para trás, unindo-se as outras.

“Se o legado que anseias deixar fosse construído sobre o de outros, ficarias satisfeita com tal conquista?”

engoliu a seco. Desde pequena sua ambição a guiara, mas nunca havia passado por sua cabeça que talvez tal princípio fosse prejudicial aos outros. Ela era uma menina com garra, destemida, certa de si e tais princípios lhe davam certeza de que ela alcançaria seus objetivos de maneira honesta e por mérito próprio. Logo a resposta a ser dada era clara e sincera:

- Não. Meu legado será construído pelo meu empenho e não pelo proveito das conquistas de outros.

O ponto de luz liberou ondas verdes por toda extensão do corpo de .

“Muito bem. Eis seu elemento, Lockwood”

A menina sentiu seu elemento florescer em seu interior e, para testar se o que sentia era real, ela fechou os punhos e os olhos e imaginou um campo coberto de papoulas vermelhas. Tão fácil como respirar, soube instantaneamente que sua magia fez tal desejo acontecer. Quando ela se virou para ver o campo florido, seu coração pulou de alegria.

- Deu certo!
- ! Isso é incrível! – abismada com a distância que as flores alcançavam, bateu palmas. – Espero ser a próxima!

A menina mal se calou e o globo verde tornou-se avermelhado.

“Em um confronto com teu maior inimigo, há uma espada e uma pena. Qual escolherias para enfrentá-lo?”

- Só pode ser brincadeira – cruzou os braços. – Você quer a resposta ética ou a imediata?
- ! Não sei se é uma boa confrontar o globo dessa forma... – repreendeu a amiga.
- Responda o que o seu coração diz, como sua irmã aconselhou – completou.

Revirando os olhos, Firestone respirou fundo. Sempre lhe caracterizaram como impulsiva, sem limites, mas a realidade é que ela não passa de uma garota forte com reações ao mesmo nível. não admitiria curvar-se para qualquer pessoa, por isso ela já sabia o que deveria responder:

- Espada, mas não a utilizaria a menos que fosse realmente necessário. De pena já basta a que eu tenho de meu inimigo.

A voz tardou a soar, como se estivesse analisando a fala da menina.

“Por sua honestidade, eis o elemento dos Firestone”

Feixes alaranjados reluziram sob o corpo de . Entorpecida de felicidade, a menina ergueu a palma da mão aos céus e instantaneamente sentiu o calor emanar de sua pele, gerando uma coluna de labaredas.

- Obrigada! – Animada, ela se juntou a .

e seguravam as mãos, uma dando confiança para a outra. A esfera brilhante tornou-se azul em um piscar de olhos e logo Marin entendeu que seria sua vez.

“Trilharias o caminho do autoconhecimento se a estrada fosse obscura e solitária?”

Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e encarou a floresta escura atrás do globo. O maior desejo de era saber seu passado, descobrir seu futuro e consolidar seu presente, podendo assim finalmente pertencer a algo ou alguém. Mas ela tinha medo. Medo de estar sozinha.

- Sim e não. Com toda certeza eu seguiria o caminho do autoconhecimento, mas não sei se o conseguiria sozinha. Pelo menos não por hora.

Instantaneamente a luz iluminou todo o corpo de , como se quisesse protege-la. Com um sorriso sincero em seu rosto, a menina agradeceu e colocou-se ao lado das amigas, sem sentir a necessidade de testar seus poderes. Enfim, se colocou a frente do globo.

“Para alcançar teus sonhos precisas tornar-te outra pessoa?”

O estômago de White se revirou quando ela automaticamente se imaginou em grandes peças de teatro, rodeada de jornalistas e artistas. Ser tímida era sua característica marcante, talvez não uma das melhores, mas era parte de si e se seu sonho dependesse de uma mudança de personalidade forçada então não, não valeria tal sacrifício.

- Sei que preciso encontrar um meio termo, impedir que minhas inseguranças tomem lugar da versão de mim mais confiante, mas creio que para isso é necessário um impulso natural e interior. Ninguém pode me forçar a ser alguém que não sou.

A luz emanou ondas brancas e suspirou aliviada. Assim que ela expirou, uma brisa bagunçou seus cabelos e arrancou um riso suave e satisfeito de White.

“Lockwood, Firestone, Marin e White. Saudamos nossas novas guardiãs.”

O globo de luz rapidamente se dissipou, liberando pequenas rajadas brilhantes no ar, como se as estrelas tivessem descido ao plano terrestre. Com os pés descalços na grama, as meninas sentiram em todo seu corpo um tremor distante, mas que tomava contornos cada vez mais fortes. fez uma fina chama aparecer por entre seus dedos para iluminar a floresta. Elas estavam completamente sozinhas, nem mesmo os insetos se faziam presentes no local. , abrindo o livro de sua família, procurou por algo que indicasse qual seria o desafio final. Apesar de seus esforços, ela ainda não sabia discernir os símbolos e escritos do caderno.

- Devemos esperar muito tempo pelo grande final? – Lockwood fechou a capa com força, ansiosa pelo desconhecido.
- Imagino que não muito – disse sem pensar duas vezes. Seu corpo estava captando algo no ar. Uma corrente elétrica, talvez.
- Eu acho que será épico – riu. – Vamos lutar com um grande monstro ou quem sabe a força da natureza nos fará ultrapassar nosso pequeno conhecimento sobre essa magia e ensinar outros modos de utilizar nossos poderes. Pode ser que...
- Espera um pouco – interrompeu o fluxo de pensamento da amiga. – Vocês estão vendo a mesma coisa que eu?

No canto iluminado pelo brilho lunar, as quatro arregalaram os olhos na tentativa de enxergar melhor. Tendo certeza do que via, soltou lentamente o ar pela boca.

- Estamos perdidas.


Capítulo 7

Lobos. São animais interessantes os lobos – silenciosos, observadores, por vezes solitários, mas nunca sozinhos. Durante nosso treinamento somos obrigados a escolher um animal, um com o qual nos identificamos. Por conveniência, meu grupo acolheu o mesmo representante. Em minha posição, tenho visão de toda floresta e nem mesmo um pássaro no alto das árvores poderia me localizar. Ao meu lado, alguns metros de distância, Alfa mirava a lente da câmera fotográfica para o centro da clareira, onde quatro sombras se moviam inquietas. Acima, com o dedo indicador no gatilho, Beta fazia cobertura para nós enquanto se equilibrava graciosamente nos galhos da árvore mais a frente. Em nossos anos de treinamento, aprendemos a não agir por conta própria e sempre estudar o inimigo antes do ataque. A maneira mais inteligente de combater o sobrenatural é ser paciente: somos mais fracos que eles, mas não menos astutos.

Em meu bolso, senti o detector de ondas eletromagnéticas vibrar com mais força, alertando uma mudança no meio. Nos últimos meses, o padrão de variação do campo magnético era constante, nada além do normal, mas, nesta semana, picos de energia indicavam que algo estava por mudar. E aquelas aberrações à minha frente eram exatamente o que o aparelho queria delatar. Erguendo meu olhar para Beta, vi em seu rosto a repugnância direcionada aquelas quatro figuras. Todos nós temos motivos para continuar nessa operação. Todos temos um legado a carregar. Somos caçadores e devemos manter Greyson Hills segura.

Pelo menos eu e Beta temos certeza disso.

- Você detectou outra forma de energia? – assim que Alfa se aproximou de mim, sussurrou em meu ouvido.
- Sim. Imagino que seja por elas estarem juntas.
- Não, Ômega – ele pareceu irritado e rapidamente mostrou a última foto que tirara com a câmera de visão noturna. – Temos um penetra. Trinta graus a leste.

Levantei meu olhar para onde a silhueta da foto estaria. Logo atrás das meninas, diametralmente oposto à nossa localização, uma sombra se destacava entre as folhas. A imagem não fazia questão de se esconder como nós, mas seu rosto tampouco era distinguível na escuridão. Beta notou nossa agitação e seguiu seu olhar para onde eu encarava. Bastaria apenas um aceno com a cabeça de Alfa e o alvo inesperado seria abatido.

- Vamos aguardar. Algo não está certo... – ele retirou seu bloco de notas e preencheu um formulário. – Temos que reportar aos outros na volta. As iniciações não costumam ser assim.

Permanecemos calados novamente. A cada segundo o detector vibrava, atingindo picos de energia nunca antes marcados. Algo estava errado na cidade e por isso nós deveríamos acabar com tudo isso. Começando por elas.



Rápida como uma avalanche, uma fumaça espessa atravessou a floresta em direção às quatro. Encobrindo-as da cabeça aos pés, a penumbra se dispersou após alguns segundos e revelou um vilarejo rústico no meio de uma tempestade.

- Isso é real? – tocou a parede de uma das casas, mas, assim que o fez, sentiu o material se dissipar por entre seus dedos como vapor d’água. – É, acho que não.
- Deve ser uma simulação – analisando o ambiente, notou que a proporcionalidade da vila equivalia à clareira em que elas se encontravam momentos antes. – Ainda estamos na floresta.
- Vocês acham que esse é o epicentro? – perguntou, sentindo um frio percorrer pela espinha.
- Talvez – chutou algumas pedrinhas que rolaram e perfuraram o portão de uma das casas, atravessando a camada de fumaça que logo se repôs na miragem como se nada tivesse acontecido. – Acho que estamos em uma lembrança, naquela história que você nos contou . De volta às origens, a história das matriarcas.
- Se você estiver certa, então logo teremos de agir – apontou para o céu, onde uma densa nuvem ameaçava atirar raios.
- Vamos criar um plano – Lockwood amarrou o cabelo, ansiosa. – Imagino que, assim como aconteceu com nossas ancestrais, devemos agir com seu respectivo elementos. Controlar o que for possível e se necessário juntas!
- Nós conseguimos – puxando as amigas para um abraço, respirou fundo assim que sentiu as primeiras gotas de chuva caírem em seu rosto.

Com a primeira trovoada, uma sucessiva cadeia de ações começou a se desenrolar. Na direção das casas, um forte incêndio dominou os telhados de palha. logo se posicionou à frente das chamas, erguendo suas mãos automaticamente, como se seu corpo soubesse exatamente o que fazer. Seus olhos brilhavam um laranja iridescente a medida que ela se esforçava para domar o fogo e ela sentia em suas palmas o estalar das fagulhas que se aproximavam. planejava converter as chamas em energia e absorvê-la. A menina nunca imaginara que algo assim aconteceria com ela, mas algo dentro de si comandava suas ações com maestria. Em questão de minutos todo o calor do fogo se concentrava nela e o incêndio se extinguiu. Enquanto isso, correu em direção a região onde as nuvens se formavam. Ela não sabia exatamente o que fazer, mas mentalmente imaginou que a massa de ar se transformava em uma leve brisa de verão. White somente fechou os olhos e imaginou a mudança. Seus cabelos balançavam com o vento e ela pode sentir seu corpo se elevar, como se estivesse na altura das nuvens. Assim que ela expirou, soltando o ar pela boca e com força, o clima mudou bruscamente. O som das folhas se movendo tranquilamente fez a mais nova se acalmar. Sua parte estava feita.

, pelo contrário, estava com dificuldade em salvar a plantação atrás das casas. A pequena horta começava a alagar com a forte chuva e ela tentava ao máximo copiar o que sua ancestral tinha feito no passado. Apesar dos esforços, parecia que seus poderes não estavam funcionando. Suspirando para conter sua raiva, passou a mão pelo rosto tentando compreender o motivo de seu elemento não estar a obedecendo. Ela não iria desistir, então decidiu ser mais direta possível. Lockwood se abaixou, tocando na grama com suas mãos e assim que o fez sentiu a força das raízes de baixo da terra. Em um piscar de olhos, a lâmina de água que repousava sobre a plantação desapareceu, sendo absorvida pelo solo e dando lugar a pequenas flores que começaram a nascer. A menina não pretendia fazer isso, mas pelo menos conseguiu realizar algo. Mais distante, exatamente de baixo da chuva, sentia seu corpo congelar a cada gota que caia sob sua pele. Diferentemente das amigas, ela pensou em procurar por algo em seu livro. Mais cedo naquele dia, havia lhe ajudado a traduzir do latim o conteúdo de uma folha solta que estava escondida no final do livro. Segundo ele, as frases se referiam à força da natureza e o poder que poderia ser invocado dela. Assim como a menina não fez perguntas ao garoto sobre suas cicatrizes e repentina mudança, não questionou o conteúdo do caderno. Marin balançou a cabeça, tornando sua atenção para a situação, e repetiu em voz alta as frases escritas a caneta. Ela precisou repetir algumas vezes para obter algum resultado. Ao contrário do que houve com as outras três meninas, sentiu seu corpo perder parte de sua energia, como se todos seus poderes estivessem indo embora com a chuva. “Seria isso normal?” pensou a menina assim que as últimas gotas de água molharam seu rosto.

- E então? Conseguimos? – arrumando os fios loiros, respirou fundo, cansada.
- Acho que sim! - saltitou animada – Isso foi incrível!
- Precisamos treinar, isso é uma certeza – levemente irritada, murmurou.
- Estudar... Precisamos... – sentindo as palavras escaparem de sua boca sem controle algum, se apoiou no ombro de . Sua cabeça estava girando e parecia que seu corpo perdia as forças. – Já estamos em casa?

O corpo de caiu pesadamente sobre a grama molhada, frio e pálido. Assustadas, as outras se colocaram ao redor da amiga, tentando acordá-la. A fumaça que simulava o vilarejo se dissipou e as quatro estavam de volta na floresta. Sem se importarem se a iniciação estava completa, e carregaram apressadamente o corpo de de volta para a casa dos White enquanto corria na frente para avisar os mais velhos.


Assistir o desespero delas não me tocou, mas ver a quarta guardiã caída inconsciente – alheia a tudo que a envolverá – acendeu algo dentro de mim. Um sentimento que eu não soube identificar. Assim que as meninas desapareceram do local, passei a observar aqueles três caçadores do outro lado da floresta. Eles sabiam que eu estava ali, assistindo a todos, e eu fiz questão de deixar claro que não iria me esconder. Não desses idiotas.

Somente quando o último deles saiu de seu esconderijo, correndo na direção oposta à das meninas, que eu decidi retomar aos planos originais. Nessa noite, eu deveria certificar de que toda a simulação ocorreria como esperado e que as quatro fossem iniciadas. Principalmente Marin. Estalando os dedos, criei bolas de fogo para iluminar o local e com o indicador esquerdo as ordenei em um círculo ao redor de meu corpo. No epicentro, a energia renovada recentemente era exatamente o que eu precisava. Cruzando minhas pernas, deixei meu corpo levitar no ar energizado e então peguei o livro da família.

- Aperi epicenter. Libertas imperium.

Realizar o inimaginável, esse era o meu dever. Tenho consciência que sou uma pequena peça de um grande quebra-cabeça, mas, a cada passo dado, construo com minhas próprias mãos um mundo onde posso viver fora das sombras. Me chame de idealista ou corrupto, para mim tanto faz. O que me importa é trazer justiça para pessoas como nós, “bruxos”, mesmo que isso exija uma guerra entre mundos - e um toque rebelde de magia negra.

Abrir os poderes do epicentro para que a magia negra possa se apropriar de sua força será um trabalho árduo e dependerá de uma peça chave, mas estou apenas começando.

- Aperi epicenter. Libertas imperium – falei, abrindo um sorriso ao sentir uma leve mudança no ar, o cheiro de folhas secas incendiando alguns metros abaixo do meu corpo.



Perdida entre realidade e delírio, cambaleou para fora da cama. Ela estava sozinha em um quarto que não era seu, vestindo uma roupa seca, diferente da que usava no início da noite. Pela fresta da porta, ela pode ver a luz amarela do corredor e escutar sussurros preocupados vindo do lado de fora:
- Eu não acho que localizar Helena seja a maior de nossas prioridades nesse exato momento – a voz aguda de Ava se tornou mais baixa ao enunciar o nome da prima de . – O que aconteceu na iniciação deve ser algum padrão na família dos Marin. Me lembro que na nossa época Helena também passou mal, não chegou a um estágio alarmante como a pequena passou, mas foi algo do tipo.
-Pode ser que a energia liberada foi forte demais – Kade auxiliou. – Elas são novas ainda e nós três sabemos que essa geração será especial. As quatro são as primeiras mulheres a deterem os poderes juntas desde a geração das matriarcas. Isso é inédito! Não é de estranhar que acontecimentos fora do padrão venham a acontecer.
- Vocês têm razão, - a voz terna de Tessa soou preocupada – posso estar cautelosa demais. Zelo de mãe – os três riram juntos levemente. – Devemos deixar que essa noite termine bem, afinal, nossas meninas se tornaram adultas! Vamos descer e comemorar com elas.

Após ter certeza que os mais velhos desceram, se afastou da porta. Na janela, a lua brilhava baixa, mostrando ser tarde na madrugada. Pensativa, a menina não sabia dizer se o que fizera na floresta foi a causa de seu mal-estar. Era uma escritura encontrada no livro de sua família, como isso seria prejudicial? Sua prima deveria ter utilizado tal feitiço antes já que ela o encontrou entre suas notas. Talvez fosse algo de família como Ava havia apontado. Respirando fundo, a menina afastou o olhar da floresta que repousava tranquila como se nada houvesse acontecido, e balançou a cabeça, convencida de que seria algo leviano. saiu do quarto, mais estabilizada, e foi em direção ao andar de baixo, onde suas amigas se encontravam.

Sentadas no sofá, as quatro meninas dividiam alegremente suas experiências na simulação e sobre como deveriam prosseguir nos próximos dias. tinha a ideia fixa delas se reunirem diariamente e treinarem em algum lugar distante. Em sua agenda lotada, a jovem Lockwood separou um período livre para procurar um local perfeito. Já mal podia esperar para usar no colégio seus poderes, apesar de ela saber que deveria mantê-los em segredo a menina ansiava por se beneficiar das pequenas coisas que poderiam ser feitas com magia. ouvia atentamente as amigas quando o celular vibrou em seu colo. A notificação de mensagem vinda de um número desconhecido fez sua barriga congelar.

“O Lago dos Cisnes, cena final. Espero você.


arregalou os olhos, perplexa de que tudo isso havia ocorrido em um único dia. Primeiro ela finalmente conversara com , conseguindo uma audição especial, em seguida ela se tornara uma guardiã e por último fora designada a uma peça de teatro para apresentar – uma das mais difíceis inclusive.

- Sei que não tivemos tempo de dividir notícias de nosso mundo cotidiano, mas tenho uma novidade – a mais nova respirou fundo, atraindo o olhar das amigas. Mostrando a tela de seu celular, sorriu animada – Talvez eu tenha chances esse ano!
- Espere um pouco! Como Fletcher conseguiu seu número? E como foi que vocês se conheceram? – se animou, arrancando o celular da mão da amiga – Lembro como se fosse ontem quando a pequena se derretia de amor por ele!
- Eu tinha sete anos! – sussurrando para que Kade não escutasse a conversa, a mais nova pegou seu celular de volta – Nós conversamos hoje de manhã. Fletcher será meu parceiro de laboratório pelo resto do ano letivo.
- Nem me lembre – esbravejou, imaginando o sorriso vitorioso de . – Por culpa desse garoto – apontou para o aparelho no colo da amiga - eu serei a dupla do idiota do Brisbane, vocês conseguem acreditar nisso?
- Impossível! – riu, trocando olhares divertidos com que silenciosamente gesticulava com as mãos, fingindo uma explosão – Quem dera eu estivesse nessa aula para presenciar a terceira guerra mundial!
- Eu não sei como as pessoas conseguem gostar desse garoto, sinceramente, eu o acho um exibido. – tomou um longo gole de seu suco de limão, limpando a garganta.
- Um par perfeito! – provocou, recebendo uma almofada no rosto – Mas ainda são um casal abaixo de mim e Connor St. Germain...
- Eu sabia que ele estava te encarando demais durante a reunião na quadra! – disse orgulhosa – Tenho certeza de que ele te convidou para um encontro!
- Se você não fosse a bruxa da água, diria que é das adivinhações – abraçando a amiga, sorriu animada. – Vamos sair no sábado.
- Eu estou tão feliz por nós! – saltitou – O ano mal começou e tudo parece estar caminhando na direção certa!
- Espero que seja verdade, - respirou fundo e se deitou, apoiando a cabeça no colo de – mas agora tudo que quero fazer é descansar.

Reunidos na cozinha, Ava, Kade e Tessa assistiam as quatro meninas. Orgulhosos, eles tinham certeza que a cidade estava em boas mãos e que toda magia seria preservada graças ao forte laço envolvendo aquelas guardiãs - tão diferentes, mas certamente inseparáveis.


Capítulo 8

Na manhã seguinte, acordou dividindo seu colchão com . Após uma longa noite de magia e acontecimentos incríveis, as amigas dormiram em sua casa, mais precisamente em colchões infláveis no meio de seu quarto. se levantou e abriu as cortinas, deixando a luz invadir o interior. Do lado de fora na rua Duncan, algumas crianças passavam de bicicleta indo em direção a escola primária de Greyson Hills. Com medo de estarem atrasadas, a menina achou melhor acordar as amigas, mas queria fazê-lo de uma maneira mais especial. Lembrando-se da noite passada, quando apenas com um sopro conseguiu afastar a tempestade, inspirou fundo e soltou levemente o ar pela boca. Sua intenção era criar uma corrente de vento que afastasse as cobertas das três garotas adormecidas, mas o que ela obteve foi algo muito maior.

- Ah merda...

Arregalando os olhos quando percebeu que criara um vendaval, tampou a boca assustada e sentiu seu corpo congelar sem saber o que fazer. Em questão de segundos, a corrente de vento empurrou para fora de sua cama, resultando em um baque oco e uma série de palavrões em seguida.

- White, nem adianta se esconder. Eu sei que das quatro só você sabe fazer isso – com os olhos brilhando fogo, apontou para a corrente de ar que passava pelas estantes derrubando todos os livros.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – com os cabelos emaranhados pelo vento, passou a mão sobre os olhos – Será que é difícil abrir a janela e deixar o ar sair?
- Deixe comigo – abaixando-se para desviar do vendaval que se formava, abriu o trinco da janela permitindo a magia de sair e unir-se ao ar externo – Que belo início de dia! – a menina se virou para analisar a situação e riu ao perceber que a mais nova continuava congelada no canto do quarto.
- Desculpa... Acho que saiu um pouco do controle – deu um sorriso nervoso.
- Por falar em controle, - no batente da porta, a voz grossa de Kade fez as quatro se assustarem – temos que conversar sobre algumas coisas.
- Você viu tudo isso? – a menina perguntou ao seu irmão, com medo de levar uma bronca.
- Quando ouvi os xingamentos de percebi o que estava acontecendo – ele riu e se sentou na ponta da cama da irmã. – Vocês ainda não estão habituadas aos poderes, por isso precisam praticar antes de usá-los quando bem quiserem. Como todas gerações de guardiões, vocês devem treinar em um local distante da cidade e eu particularmente recomendo a casa abandonada no lado oeste da floresta.
- Casa abandonada? Nunca a vi antes – cruzou os braços – nem mesmo quando faço meu treino de corrida por lá.
- A casa só pode ser vista por pessoas como nós. Bem-vinda ao clube, Lockwood júnior! – Kade lançou uma chave antiga para .
- Como vamos achar a localização exata dessa casa? – a menina passou a chave em sua corrente, pendurando-a em seu pescoço para não perder.
- Acredite se quiser, mas será a casa quem irá encontrá-las.

Levantando-se, Kade respirou fundo:

– Eu acho vocês incríveis da maneira que são, por isso me custa dizer isso. A tradição entre os bruxos é disfarçar as mudanças externas recebidas após a iniciação. Como podem ver, eu sempre fui contra essa regra, – ele balançou o cabelo claro como o de - mas pelo bem de vocês, principalmente por serem uma geração especial, todo cuidado é pouco.
- Você tem razão – ergueu os braços, observando a coluna d’água se movendo tranquilamente ao redor de seus pulsos. – Por mais que sejam características únicas e incríveis, não podemos aparecer no colégio assim. Chamaria muita atenção e consequentemente atrairia muitas perguntas das quais não podemos responder.
- Isso não é justo – contestou, atraindo o olhar de todos. – Nós somos obrigadas a viver escondendo quem realmente somos? Para sempre?
- Enquanto o mundo humano desconhecer o sobrenatural, sim, somos – apoiou . – Além disso, se nós realmente somos uma geração inédita e poderosa, com certeza vamos atrair pessoas indesejadas. Quem sabe inimigos mais perigosos que Melanie Perales.
- Meninas, - Kade interrompeu, incerto se deveria continuar aquela conversa sem Ava e Tessa – o mundo mágico tem suas consequências, isso é inegável, mas não vamos tratar disso por enquanto. No momento, ninguém além de nós sabe que vocês foram iniciadas, por isso não há com que se preocupar. O máximo que peço a vocês é discrição e muita cautela no colégio. Ter poderes é sensacional, porém não sob os olhos de quem não os possui.

As quatro se entreolharam, concordando com o que Kade dissera. Nenhuma delas tinha ideia dos perigos reais existentes no mundo afora e o melhor seria disfarçar e agir como se nada houvesse mudado. passou uma mecha de cabelo atrás da orelha. Sua mudança fora a mais normal e ela poderia justificar a cor de seus fios se alguém lhe perguntasse. Além disso, essa era a característica mais próxima entre seu irmão e ela, por isso decidiu não se esconder.

- Eu vou ficar com o que tenho – se pronunciou e recebeu um abraço de seu irmão.
- Não duvidei nem por um segundo, pequena!
- Acho que você merece sorriu orgulhosa – principalmente agora que será a estrela da Companhia!
- Nada como uma bela mudança para te inspirar a persistir em seus sonhos – falou.
- Vou ter que aceitar essa derrota, - se aproximou das amigas – mas eu poderia dizer que estou usando lentes de contato coloridas.
- ! – as três disseram em uníssono.
- Me passa logo o feitiço Kade – Firestone revirou os olhos alaranjados pela última vez.
- Mutatio quae.
- Mutatio quae. – Marin, Lockwood e Firestone repetiram em voz alta e assistiram fascinadas suas características desaparecerem em um piscar de olhos.
- Agora, vamos. Vocês têm aula hoje!


Após o café da manhã na casa dos White, lembrou-se de não ter a chave de seu Jeep. A menos que elas fossem a pé até o colégio, alguém deveria se voluntariar a dirigir em seu lugar. Como apenas morava perto, ela deveria ser esse alguém. As quatro meninas foram para a casa vizinha, do outro lado da rua Duncan. No lar dos Lockwood, pegou a chave de seu Prius e rapidamente desceu para a garagem, impaciente. Esperando o portão se abrir por completo, tamborilava os dedos freneticamente no volante, como se estivesse com uma única ideia na cabeça:

- Nós não vamos para Greyson High hoje.

Engasgando com o suco de laranja que levava em sua garrafa, riu embasbacada no banco de trás do carro. deu tapinhas nas costas de sua amiga enquanto esperava completar sua frase.

- Quero encontrar a casa o quanto antes – Lockwood ergueu a chave pendurada em seu colar e olhou para , sentada ao seu lado. – Ontem na simulação eu não estava dominando meu elemento. Sei que nossos poderes são recentes e temos muito a aprender, mas me senti impotente diante da situação, como se eu não fosse suficiente para vencer aquilo. Vocês me entendem?
- Claro que entendemos, colocou a mão no ombro da amiga. – Nós sabemos desde pequenas que você é o tipo de pessoa que gosta de ter tudo sob controle.
- Sempre servindo de exemplo – completou.
- Mas sabemos também que tudo isso é uma forma de você orgulhar sua mãe – disse .
- Falhar é humano e nem sempre as coisas ocorrem do modo que desejamos. Por isso estamos sempre ao seu lado, nas vitórias e derrotas – levantou o olhar para , escutando atentamente o que a amiga dizia. – Apesar de, na maioria das vezes, você nos trazer somente vitórias.
- Eu achava que vocês não sabiam disso – soltando a chave das mãos, Lockwood secou uma fina lágrima. – Ser a filha perfeita, só entregar o meu melhor e nada abaixo disso... Obrigada por entenderem.
- São essas características que te fazem especial, não somente seus poderes – sorriu. – Agora, vamos animar esse astral! Essa é a primeira vez que nossa pequena irá matar aula, precisamos de uma trilha sonora à altura!
- Deixa comigo, - conectou seu celular ao carro, selecionando uma música.

Antes de seguirem o caminho para a floresta, as meninas passaram em frente a casa dos Brooks. O sorriso de logo se murchou quando ela viu a Harley estacionada. No dia anterior, e passaram a tarde inteira juntos, como nos velhos tempos. Mas ao invés de conversarem sobre programas de televisão e o próximo show que iriam, o assunto era outro. Brooks voltara para a cidade para ajudar a descobrir mais sobre sua família. Eles não haviam conversado sobre o fato dela ter se tornado uma guardiã e ela nem imaginou contar algo do tipo a ele, mas nas entrelinhas parecia que já sabia sobre o mundo sobrenatural. E quando ele traduzira o escrito no livro dos Marin, algo não encaixava. “Qual internato de Nova York ensina latim em pleno século vinte e um?”, pensou a menina.

- Quando nós chegarmos lá, qual será o plano? Perambular até a casa decidir aparecer para nós? – perguntou .
- Acho que sim – deu de ombros. – Não tenho muita experiência com casas ambulantes.
- Vamos treinar hoje – pegou o livro de sua família e começou a folheá-lo. – Mal posso esperar para tentar esses feitiços! Será que um dia nós vamos conseguir fazer mais do que apenas magia com nossos elementos?
- Pelo que Davina nos contou, imagino que não – Lockwood respondeu. – Mas se somos uma geração especial, talvez as regras do jogo sejam outras.
- Primeiro vamos nos concentrar no que temos, depois estudamos mais sobre o que pode vir além disso – White olhou pela janela, vendo os troncos dos pinheiros passarem como um borrão. – Vocês acham que existem outros seres sobrenaturais em Greyson Hills? Porque se somos guardiãs e precisamos proteger a magia de alguém, algo me diz que o universo de possibilidades é extenso. Proteger somente de seres humanos? Eu duvido muito.
- Não podemos descartar nada, mas acho que sua teoria não está errada. Quando chegarmos na casa, vamos estudar os livros de nossas famílias e ver se encontramos algo sobre outros seres – Firestone suspirou. – O único problema será descobrir o que significam todos esses símbolos – ela passou o dedo pelo desenho feito a tinta em uma das páginas.
- Quem dera existisse uma biblioteca de magia! – riu, apertando com força o livro dos Marin contra sua perna como se isso pudesse conter sua vontade de descobrir mais sobre o encantamento em latim que utilizara na noite anterior.


Percorridos alguns quilômetros, logo na fronteira entre Greyson Hills e Lake Vista, uma cidade vizinha, o carro de reduziu até parar na beira da estrada pouco movimentada. Entre árvores imensas e raios de sol que escapavam das folhas, as quatro se encontravam na parte oeste da floresta.

- Quando voltarmos para a cidade, Kade e eu teremos uma conversa séria – bufou, batendo em sua perna onde um inseto tinha pousado. – Como um responsável pode mandar quatro garotas sozinhas para um lugar deserto como esse?
- Não exagera, disse enquanto seguia uma trilha aberta adentrando a floresta. – Podemos nos proteger e não estamos tão distantes da próxima cidade.
- Vamos focar em encontrar a casa – seguiu a amiga. – Ou deixá-la nos encontrar.
- Será que a casa irá cair do céu? – riu sozinha, imaginando a cena.
- Aposto cinco pratas que é uma casa na árvore – a mais nova parou de liderar o caminho, deixando ficar na frente.
- Eu acho que é uma caverna – Marin deu de ombros e esperou Lockwood entrar na brincadeira.
- E eu sei que não se passa de uma casa normal e caindo aos pedaços no meio de um campo aberto na direção oposta dessa trilha.

apontou para um borrão em formato de casa e sorriu vitoriosa. Andando confiante, Lockwood tirou a chave de seu pescoço e se adiantou para abrir a porta da frente. Ela estava mais ansiosa para descobrir o que havia dentro daquele local do que analisar o exterior. Diferente da primeira, as outras três pararam do lado de fora.

- Não tem graça apostar com suspirou levemente decepcionada com o que via a sua frente.
- O que não tem graça é essa casa! – cruzou os braços. – Depois de centenas de anos, nenhum guardião quis reformar esse lugar? Nem quero saber como é lá dentro.
- Pelo lado positivo, temos um campo enorme para treinar e aparentemente não teremos muitas visitas – analisou o espaço livre e distante da estrada e das duas cidades. – A casa nós podemos mudar mais tarde.

Assim que elas subiram a pequena varanda na entrada da casa e espiaram o interior através da porta aberta, as três ficaram chocadas. No ambiente, estantes de madeira escura com os mais variados livros de capa dura preenchiam as paredes, um enorme lustre de cristal iluminava o local e o chão de mármore branco encontrava-se impecavelmente limpo.

- Eu retiro o que disse – Firestone sorria animada.

A sala principal levava a dois outros quartos, um ao lado esquerdo e outro ao direito, e no centro havia uma enorme escada que conectava o segundo andar. seguiu para o lado esquerdo, encontrando uma decoração semelhante a uma cozinha industrial, espaçosa e com uma enorme bancada. No lugar de panelas e talheres, os armários guardavam potes com ervas e materiais orgânicos que a menina não sabia discernir. Nas gavetas, anotações em um papel antigo feitas a tinta preta indicavam métodos de se fazer desde poções comuns até o elixir da vida. No centro da bancada repousava um caldeirão de estanho, bem utilizado, mas ainda conservado. “Agora sim sou uma bruxa completa”, pensou . Enquanto isso, no lado direito da casa, analisava alguns artefatos espalhados por todos os cantos daquela sala. Em toda aquela miscelânea de objetos, White viu uma estante com diferentes cristais. De imediato sua atenção foi atraída pela pedra repousada no centro, brilhante e incrivelmente transparente. Envolvendo a pedra entre suas mãos, ela sentiu seus dedos formigarem e uma sensação inebriante invadir seu corpo.

- Quartzo branco, é o melhor cristal para restaurar as energias – a voz de soou de trás.

se virou e viu a amiga com um livro aberto e de capa dura, provavelmente retirado da estante na sala principal.

- Imagino que todos esses objetos sejam mágicos ou que possuam algum poder.
- Também acho - não tirou os olhos das páginas daquele dicionário de cristais. – Aqui diz que turmalina negra afasta energias negativas e é ótima para proteção... Acho que todas vamos precisar de uma dessas.

Assim que devolveu o cristal ao seu devido lugar, as duas escutaram um barulho oco vindo logo acima de suas cabeças. Percebendo o mesmo som, chamou as duas amigas para subirem juntas. No segundo andar da casa, haviam alguns quartos e um banheiro. estava deitada em uma das camas e com as mãos no peito, como se tivesse acabado de levar um susto. No chão, um globo de cristal rolava pelas tábuas de madeira. se agachou para recolher o objeto, mas quando sua pele tocou na esfera, seus olhos ficaram opacos e tudo que ela podia enxergar eram cenas desconexas e rápidas demais. ?”, uma voz ecoou na mente de Lockwood. Tão veloz quanto quando entrou no transe, a menina piscou os olhos e voltou a encarar os rostos das amigas.

- Você também viu? – sussurrou, ainda se recuperando das cenas que presenciara ao tocar no globo.
- Sim – engolindo em seco, colocou o objeto sob a cama.
- E então? Vão nos contar ou vamos ter que ver por conta própria? – batia o pé impaciente.
- Talvez devêssemos esperar por Kade, Ava ou Tessa – tinha os braços cruzados, como se tivesse medo. – Eles podem nos ajudar a entender tudo isso.

As quatro permaneceram em silêncio. e retomavam os movimentos aos poucos e ponderavam se compartilhariam a mensagem com e . As imagens vivas se repetiam na memória de ambas. Um sinal, uma profecia. “Seria melhor deixá-las de fora”, ponderou Firestone, “mas tanto quanto apareceram na visão, ambas envolvidas em situações horríveis. Como posso dizer o que vi sem que as duas se assustem?”.

- Vi lobos, sangue e senti algo terrível em minhas entranhas – quebrou o silêncio, uma fina lágrima percorrendo seu rosto. Ela não queria imaginar, muito menos dizer em voz alta, o que aquela sensação em seu peito significava.

, respirando fundo, continuou a fala da amiga.

- Nós enxergamos coisas terríveis em torno de vocês duas. Situações que serão decorrentes de traições.


Capítulo 9

Traição. Sete letras, como os sete pecados. Um sopro, forte suficiente para derrubar uma trilha perfeita de peças de dominó. Destruidor. Os dias passam rápido quando a única coisa que ocupa sua mente é a preocupação – a constante virada de pescoço para conferir se alguém está atrás de você. Seja na vida real ou na peça de teatro, todos tememos a traição.

Assim como Odette.

Era nela que meu corpo pensava enquanto se equilibrava nas pontas duras da sapatilha - dançando no palco vazio, com o som do violino ao fundo e a luz que vinha do alto, ofuscando a imagem de nas poltronas. Estaria ele me julgando? Apreciando minha dança? Minha atuação?

Odette foi traída na cena anterior e eu seria a próxima.

Passaram-se alguns dias desde a visão de e e até o momento nenhum mal aconteceu. Nem comigo nem com . Mas essa tensão, a espera pelo pior, estava me destruindo. Uma dor psicológica e física, como a sensação em meu corpo nesse exato momento. Minhas pernas queimavam a cada passo e meus braços estavam firmes no ar, realizando um movimento por vez. Talvez a música já houvesse terminado, mas meu corpo queria continuar, como se a dança fosse uma distração do mundo real. Uma válvula de escape. Ao sentir o frio que o rastro de suor deixou em minhas costas, voltei para realidade - durante a sequência final de passos, percebi que meus pés não estavam tocando totalmente o chão.

Estive dançando no ar esse tempo todo?




De pé e na fileira central do auditório, susteve os braços cruzados. foi fenomenal em sua audição e sua dança era perfeita para o papel. A menina tinha a leveza natural que Fletcher procurava há tempos.


- Isso é suficiente, White. Pode descansar – o menino limpou a garganta, tentando chamar sua atenção.
- Então? – com ambos pés fixos no chão, engoliu em seco, rezando para que estivesse distante suficiente para não ter notado o detalhe “extra” em sua apresentação.
- Temos muito a trabalhar ainda – ele mordeu o lábio, pensativo, enquanto caminhava em direção ao palco. – Mas acho que você será uma boa adição ao grupo. Todas terças-feiras temos ensaio após a aula. Nossa apresentação final será no centro da cidade e se tudo der certo vamos nos apresentar na Broadway. Alguma pergunta?

arregalou os olhos, o coração pulsando de alegria. Isso queria dizer que ela conseguiu o papel principal? E mais importante que isso, ela estava dentro do clube? De repente todas suas preocupações desapareceram e tudo que ela podia pensar era no pequeno sorriso que tentava esconder. Era orgulho o sentimento que ele expressava? A menina tinha tantas dúvidas, mas seu corpo estava extasiado demais para que seus pensamentos se organizassem. Fletcher ficou logo a frente de , alguns metros abaixo devido a diferença de altura do palco, e estendeu sua mão para ajudá-la descer. Ainda distraída, esqueceu das sapatilhas em seus pés e, ao dar o primeiro passo em direção ao menino, rapidamente perdeu seu equilíbrio. Sua reação instantânea foi fechar os olhos e esperar pela queda, mas um par de braços enlaçou seu corpo e a manteve no ar por alguns segundos, até que as pontas dos pés de tocassem o chão com delicadeza.

- Obrigada! – respirou fundo, nervosa. Ela não podia evitar as borboletas na barriga toda vez que olhava para e agora que eles estavam a centímetros um do outro, ela não sabia como reagir.
- Por eu ter aceitado você na Companhia ou por ter salvo seu rosto? – riu, ainda repousando suas mãos nas laterais da cintura de .
- Ambos – a menina riu e olhou para os dedos de Fletcher, pressionando contra sua blusa. Ela nunca havia reparado nos braços de e em sua força. Seu corpo era definido, mas não exageradamente, Era perfeito para um dançarino e ao mesmo tempo para um jogador de futebol. Ele era perfeito.
- É bom você se acostumar com meu toque, - percebendo o olhar da menina, provocou – a partir de hoje, seremos parceiros de dança e atuação.
- Por um momento esqueci que essa é uma história de amor. E que você será minha dupla – ela riu nervosa, ponderando se deveria continuar naquele momento com .

O coração de poderia sair de sua boca de tanta ansiedade. Ela não fazia ideia de onde aquela coragem estava vindo. Talvez fosse a adrenalina que ainda corria em suas veias. Ela se sentia confortável de estar na presença de pela primeira vez em anos e certamente não queria que aquele momento acabasse. Ela desejava que aquele flerte inocente significasse algo para ele também. E a verdade é que se encantou pela menina assim que ela começou a dançar. seria a escolha perfeita. A única escolha. Até mesmo Cassidy não era tão boa no palco quanto . White tinha uma sutileza nos movimentos e, mesmo em uma das cenas mais carregadas emocionalmente em Lago dos Cisnes, ela conseguiu transpirar tranquilidade no exterior e transtorno no interior, como a personagem deveria ser interpretada.

estava impressionado e isso raramente acontecia.

- Fletcher! – o faxineiro chamou, esperando o menino no alto do auditório – Preciso fechar o colégio, você finalizou tudo?

O menino rapidamente soltou , assustado, e se virou para ver quem o havia chamado. Podendo respirar novamente, a menina sentiu um gosto amargo na boca. Um misto de decepção e desejo. Ela caminhou lentamente em direção à porta dos fundos que dava para o estacionamento onde seu irmão a esperava e, antes que pudesse sair, deu uma última olhada para . O menino subia as escadas levemente abalado, como se várias ideias estivessem em sua cabeça. Ele não olhou para trás, então saiu, feliz por ter conseguido o que queria, apesar de seu coração dizer que faltava mais alguma coisa.

Enquanto White ia embora e Fletcher conversava com o faxineiro, na lateral do segundo andar do auditório, uma menina alta e de longos cabelos negros observava a cena. Cassidy Chang estava ali desde o início e seus olhos estreitos não deixaram um detalhe sequer escapar – especialmente a dança no ar de White. Impaciente, Cassidy fuzilava as costas do namorado, que mal tinha ideia de que ela estava ali, assistindo tudo. A menina não conseguia digerir o que tinha presenciado, principalmente a parte em que segurou no ar, exatamente como ele fazia com ela durante os primeiros meses de namoro. Cassidy sentiu sua garganta queimar. Ela precisava agir e rápido, antes que roubasse mais do que seu lugar na Companhia. Chang desceu as escadas, pisando com força no chão de madeira.

- Fraternizando com o inimigo? E melhor ainda, traindo sua namorada? – ela falou assim que o faxineiro sumiu de vista e se virou em direção a ela.
- O que? – surpreso, o menino franziu o cenho.
- Eu vi tudo, Fletcher. Nem adianta tentar se explicar. Essa menina, além de roubar meu lugar na peça ainda ousa tentar roubar meu namorado! Pior, meu namorado ainda retribui o flerte como se fosse brincadeira!
- Deixa de ser dramática, Cass. quase caiu do palco e eu disse aquelas coisas para quebrar o gelo. Foi só isso! – o garoto caminhou em direção a namorada, notando que ela estava enfurecida – Você não tem com o que se preocupar. Vem, eu te dou carona para casa.
- Eu sei o que vejo, amor. Assim como eu tenho certeza de que as solas das sapatilhas dela não estavam nem raspando no chão, sei que o brilho nos seus olhos significa algo a mais. – Cassidy percebeu que engoliu em seco, como se ela tivesse o informado de algo que nem ele havia compreendido.
- Que quer dizer com isso? – o menino respirou fundo e balançou a cabeça, incerto sobre a lembrança de dançando. Ele tinha certeza que nada de estranho havia acontecido durante a audição.
- Quem sabe sua amiguinha possa nos explicar qualquer dia desses... Se você não consegue pensar direito com seu coração, pelo menos tente usar sua cabeça. Ou já se esqueceu de quem você é?
– Nunca. Sei dos nossos deveres e nada vai mudar, Cass.
- Não, não vai. Eu vou me certificar disso.

Sentindo o celular vibrar em sua mão, a menina olhou a tela satisfeita. Se estava tendo uma mudança de sentimentos, então Cassidy seria a única entre eles que se manteria no jogo, custe o que custar.

- Cassidy, o que está acontecendo? – uma voz rouca soou do outro lado da linha.
- Eu preciso daquelas fotos, Brisbane. Agora.

Desligando a chamada, Cassidy percebeu que a encarava assustado, incerto do que sua namorada faria. Em um ímpeto, a menina se virou de costas e se direcionou a saída.

- Não me chamam de Ômega por qualquer motivo.



Na manhã de sábado, estava desesperada. Faltavam doze horas para seu encontro com Connor St. Germain e ela não fazia ideia do que fazer para acabar com sua ansiedade. Ela podia sentir o calor em sua pele e olhos brilhavam como fogo. precisava de sua irmã. Correndo em direção ao quarto no final do corredor, a menina escancarou a porta. Apesar de ser oito da manhã, a mais velha das irmãs Firestone estava acordada, fazendo yoga em um canto próximo a janela. Equilibrando-se em apenas uma perna, Ava nem precisou se virar para .

- Eu sei do que você precisa – a mais velha respirou fundo e exalou todo o ar de seus pulmões. – Paz interior.
- Muito engraçado – fez uma careta sarcástica. – Meu encontro com Connor é hoje e preciso lotar minha agenda para não passar o dia inteiro sofrendo até o horário de vê-lo.
- Você precisa relaxar – Ava mudou de posição, alongando sua coluna. – Prefere o conselho de irmã normal ou de irmã com poderes sobrenaturais?
- O que você acha? – a mais nova riu sarcasticamente, apontando para seus olhos brilhantes. – Combinei com as meninas de treinarmos amanhã na casa abandonada, mas preciso de um aquecimento. Além do mais, um treino com minha mentora pode tirar o nervosismo da cabeça.
- Me espera no carro. Vamos dar um passeio – Ava se levantou e sorriu para a mais nova. – Coloque uma roupa esportiva, você vai precisar.
- Te dou cinco minutos! - disse e correu para se trocar. Ela queria se distrair e não havia maneira melhor de fazer isso do que passar o dia com sua irmã e utilizando seus poderes.

No carro, Firestone tamborilava os dedos em suas coxas. Da janela, ela conseguia ver que Ava estava a levando para dentro da floresta de Greyson Hills, um caminho que ela nunca tinha feito antes. A estrada pouco usada levou o carro de Ava até uma pequena clareira, onde a mais velha estacionou. estava confusa, mas animada. Ela sabia que as duas teriam que estar longe da cidade para que pudesse treinar, mas ela não tinha ideia de onde estavam.

- Vamos andando a partir daqui – a mais velha entrelaçou seu braço no da irmã e a guiou pelo caminho. – Vou te levar até o epicentro da magia. Lá vamos testar o seu potencial – Ava piscou para .
- Mal posso esperar – ela sorriu. – E como você se sente sem os poderes da família?
- Sinto que tenho uma responsabilidade a menos, - Ava deu de ombros – sei que você será uma boa substituta.
- E agora que você tem um tempo livre, que tal dar convidar Kade para uma rodada no bar?
- Não acho uma má ideia – as duas se entreolharam, compartilhando o mesmo pensamento. – Contanto que vocês quatro não se metam em encrencas, acho que posso tirar um tempo para mim.


estava prestes a soltar uma frase ousada para sua irmã quando de repente seus olhos depararam o espaço a sua frente. O epicentro, totalmente destruído.

Os olhos de Ava se arregalaram em choque. A clareira onde o epicentro se encontrava estava completamente queimada. No chão, a terra exposta e preta como carvão tinha símbolos encravados, como se um ritual tivesse sido feito ali. Ao redor, as árvores estavam carbonizadas e suas folhas tinham se tornado pó. deu alguns passos para trás e analisou os desenhos. Ela percebeu que eles formavam quatro círculos que se entrelaçavam, formando um espaço central por onde um feixe translúcido saia da terra e tocava o céu.

- Essa é a nossa fonte de energia? – a mais nova não conseguia deixar de olhar para o feixe brilhante.
- Sim – Ava mordeu o lábio. – Em toda minha vida, nunca vi símbolos como esses – apontou para os círculos.
- Você precisa ligar para Kade, mas sem segundas intenções por enquanto.
- , agora não é o melhor momento para brincadeiras – ela pegou o celular. – Não toque em nada... Alô? Tessa, temos uma emergência.

Ava se aproximou da cena, sem tocar nos símbolos, e deixou a irmã para trás. não sabia ao certo o que fazer. Ela sentia que aquilo era sua responsabilidade e precisava descobrir o que estava acontecendo. Quando Ava estava completamente de costas para , a menina foi até o círculo mais próximo e se abaixou até a altura do solo. A terra ainda estava úmida, o que indicava que o desenho era recente. Quanto mais ela encarava o símbolo, mais parecia que ele reluzia para ela, a atraindo. sentiu o calor em seu corpo aumentar, como se seus poderes tivessem acordado, e ela sentiu uma enorme vontade de tocar naquele relevo no chão. O brilho reluzia a cada centímetro reduzido entre o dedo da menina e o símbolo e assim que tocou o solo, seu coração deu um salto, como se sua pele tivesse tomado um choque. Por um momento, parecia que o tempo ao seu redor havia parado e que só ela estava ali. Ela e sua chama interior. olhou para a palma de suas mãos e encontrou um vapor emanando de sua pele, um mormaço azulado que se movia tranquilamente. Quando ela virou as mãos para analisar o dorso, o vapor logo se tornou uma rajada descontrolada, queimando algumas árvores a metros de distância e ricocheteando o corpo da menina para trás. Assustada, Ava derrubou o telefone e se virou lentamente para olhar a irmã. A mais nova estava sentada no chão, os olhos completamente negros.

- ? O que você fez?



A alguns metros dali, não distante do epicentro, uma mulher ruiva caminhava ao longo do curso do rio, cantarolando enquanto coletava flores que cresciam entre os cascalhos próximos da água. Davina imaginava que aquele dia seria comum como todos os outros e que logo voltaria para casa, para suas receitas de poções naturais. A mulher estava próxima de encontrar a medida perfeita para sua poção curativa e tudo que precisava era de margaridas fortes, nascidas na água das montanhas. Ela estava prestes a terminar, faltava apenas uma flor, quando um feixe azulado atingiu seu abdome.

Firme e gélido.

O corpo da mulher caiu contra o solo pedregoso. Inconsciente, seus fios vermelhos se misturavam com as flores amarelas, ambos dispersos no chão como uma trágica pintura. Ali, entre flores, a vida de Davina mudaria por completo. A bruxa não dedicaria mais seu tempo com poções curativas e leituras de tarot, ela passaria a ser algo que nunca imaginaria. Davina não seria mais ela mesma.



Nas últimas semanas de verão, na transição de estações, as tardes acabavam alguns minutos mais cedo. Aos finais de semana, gostava de ficar em casa, em seu pijama confortável e na companhia de um bom livro. De sua varanda, a menina tinha vista de toda paisagem – o céu colorido e a água refletindo sua beleza – e somente com isso ela se sentia completa, mesmo estando sozinha. Mas, desde que os Brooks retornaram para a cidade, seus dias começaram a perder o sentido e seu coração se lembrava do vazio na vida de . Sem prima, sem namorado e sem respostas sobre sua própria magia. precisava de ajuda, só não sabia exatamente onde procurar. Repousando em seu colo, o livro de encantamentos que a menina pegou da casa abandonada estava aberto. Ela brincava com sua xícara de chá enquanto tentava entender as frases nas páginas antigas.

- Raio de sol, calor de verão, faça dessa bebida um copo de vida.

bebericou o líquido para conferir se algo havia mudado. Segundo o livro que lia, todo encantamento simples deveria ser recitado de modo específico e direto para dar certo – a rima fácil foi um toque especial de . Quando seus lábios tocaram a bebida morna, prontamente seu corpo recebeu uma onda elétrica, como se ela tivesse acabado de tomar dois litros de café.

- Vou considerar que isso funcionou – risonha, a menina se sentiu orgulhosa e fez uma anotação na página do livro para que ela se lembrasse de como deveria realizar o encantamento no futuro.

O próximo encantamento era relacionado a levitação. Um encantamento simples que qualquer pessoa com magia poderia fazer. Mas ela queria mais. se sentia ousada e sabia que poderia fazer muito mais do que as instruções naquele livro. Repousando no topo de uma pilha de livros, o caderno dos Marin estava a chamando. Assim que a menina abriu a capa do caderno, as folhas começaram a se mover sozinhas e pararam em um capítulo especial, manuscrito com caligrafia de sua prima. No topo da página, dizia apenas que aquele encantamento chamava “Ira de Poseidon”.

- Grace e sua paixão por Percy Jackson – balançou a cabeça, lembrando-se de sua prima, não muito mais velha que ela. – Vamos ver do que seu encantamento é capaz, prima.

estalou os dedos e se arrumou na cadeira. O pequeno verso não tinha rima, mas certamente seria fácil de se lembrar.

- Eu respeito o poder dos sete mares. Do orvalho ao riacho, a água correndo em minhas veias.

A menina segurou o ar em seus pulmões quando notou que a coluna d`água em seus antebraços começou a se movimentar, como se estivesse acompanhando cada palavra que saia da boca de .

- A minha frente, no reflexo reluzente, me curvo ao elemento e vejo, sem ressentimento, o elemento se curvando para mim.

Erguendo os olhos do papel, viu a sua frente uma imensa coluna de água se erguendo lentamente no centro do lago Pioty. Como se estivesse se equilibrando, a coluna trêmula aguardava pelo comando da menina. Era incrivelmente alta, densa e bela, de tal forma que os últimos raios solares daquele dia davam a impressão de que a água brilhava. Maravilhada por ter conseguido realizar o encantamento, se levantou da cadeira e correu em direção ao lago, a poucos metros de distância de sua varanda. Com os pés descalços, a menina se aproximou da beira do lago e puxou levemente a barra de sua camisola para não molhar.

- Estamos conectadas! – risonha, a menina esticou o braço e no mesmo momento, a coluna começou a se mover em sua direção.
- Isso é sim é uma bela cena.

Assustada ao escutar uma voz rouca vindo de trás dela, se virou rapidamente, pronta para se defender, e como se quisesse protegê-la, a coluna d’água aceitou em cheio o menino e com tanta força que o derrubou a alguns metros de distância.


- Eu suspeitava que isso poderia acontecer se eu te surpreendesse, mas não imaginei que me bateria com tanta força assim – ainda deitado no chão, falou entre risos e gemidos de dor.
- Brooks, eu posso explicar! – correu em direção ao menino encharcado, ao mesmo tempo que ponderava se contaria a verdade para ele ou se inventaria uma desculpa.
- Eu sei que você me odeia, mas podia ter se expressado de outra forma – os olhos de miravam o céu lilás e assim que o rosto de apareceu em seu campo de visão, seu coração deu um pulo. Se ele imaginava que a visão de , perdida em seus pensamentos e com os pés na água, foi a cena mais linda que ele vira em sua vida, ele estava enganado.
- Não te odeio, esticou a mão para ajudar o garoto a se levantar, mas ele a puxou para baixo, aproximando seu corpo ao dele – Talvez só um pouco...
- É uma bela tarde de verão para se presenciar coisas inexplicáveis – ele sorriu ao perceber que a menina não estava desconfortável em seus braços e que ela pouco se importava em molhar o pijama. olhou para baixo e se deparou com os olhos curiosos de Marin.
- Você é muito complexo, sabia?
- Se eu não fosse assim, qual seria a graça? – ele retrucou.


respirou fundo e colocou a mão no peito de . Ela tinha se esquecido de esconder sua aparência de guardiã e a tatuagem ainda circundava seus pulsos. Mas Brooks parecia não ligar, como se tudo aquilo fosse normal para ele. E de alguma forma a menina sabia que era.

- Eu sei porque você voltou para Greyson Hills, . Você não se assusta com eventos inexplicáveis e por algum motivo você sabe ler uma língua morta – o corpo do menino se enrijeceu e reparou instantaneamente. – Você tem magia, não tem?

O menino umedeceu os lábios e voltou a olhar para o céu. “Estamos prontos para essa conversa?”, pensou o menino. ergueu seu corpo, apoiando-se de lado. Ao longe, qualquer um que visse a cena diria que aquele casal estava resolvendo problemas de relacionamento, mas na verdade aquela conversa seria muito mais do que isso.

- Talvez – foi tudo que ele respondeu. – Faça aquilo de novo. Com a água.
- Tudo bem – respondeu confusa, recitando as mesmas palavras de antes e rapidamente obtendo uma coluna de água.
- Agora, segure minha mão – se sentou atrás da menina, passando suas pernas ao redor do corpo de , e esticou o braço para que ela pudesse entrelaçar seus dedos nos dele. – Imagine qualquer coisa que queira fazer com a água. Se concentre na imagem.

sentiu sua camisola ficar úmida assim que seu corpo recostou no de . Ela podia sentir o coração dele pulsar tranquilamente, como se ele estivesse fazendo algo ordinário. O menino não tirava os olhos das formas que a coluna tomava diante deles – Brooks queria impressioná-la e sabia exatamente como. Segurando com sutileza a mão de , o garoto começou a erguer lentamente o braço, fazendo com que a água se projetasse em um globo e desgrudasse da superfície do lago. Formando um círculo perfeito, os dois se entreolharam maravilhados e a menina abriu um sorriso honesto, que não via há anos.

- Isso é incrível! Como conseguiu? – ela perguntou, girando a palma da mão para ver se o elemento a obedecia.
- Fizemos juntos – o garoto riu, vendo que se divertia ao ver o globo de água girar sob a luz do pôr do sol. – Uma das coisas que aprendi é concentrar poderes entre bruxos. Juntando a magia de linhagens diferentes, podemos fazer muito mais que isso.
- Você me ensina? – se virou para e tudo que ela pode ver foi os lábios do garoto, convidativos e ao mesmo tempo desafiadores.
- Foi justamente para isso que voltei, Marin.

Brooks notou que a menina ponderava algo e, para que eles não confundissem o que estava acontecendo ali, ele se levantou. No momento em que soltaram as mãos, o globo que levitava a alguns metros de altura se soltou em queda livre, aterrissando na superfície do lago com força, espirrando algumas gotas geladas no rosto de . E lá estava ela de volta para a realidade. Sem namorado nem melhor amigo. Os dois voltavam a ser desconhecidos.

Descanse um pouco, . Já está escurecendo e é melhor você ir entrando – bagunçou os cabelos e saiu andando em direção a sua moto. – Aliás, você deveria usar essa camisola mais vezes, é impressionantemente sexy e fofo ao mesmo tempo.

Levemente anestesiada, a menina se levantou e limpou o pijama. Quando ela abriu a boca para responder o garoto, ele já estava de capacete, com o motor ligado e o escapamento rosnando. revirou os olhos e acenou, sabendo que a olhava pelo espelho retrovisor.

- Abusado.



Se tinha uma coisa que Tessa Lockwood não era boa, era preparar o jantar. Desde que Tessa havia voltado do encontro com as irmãs Firestone, ela se encontrava perdida em seus pensamentos, considerando todas possibilidades que explicariam os desenhos encravados no solo do epicentro. Essa distração foi a principal culpada pelo cheiro de panela queimada que invadiu todos os cômodos da casa e acionou o alarme de incêndio. No andar de cima, não conseguia estudar com o apito do detector de incêndio em cima de sua cabeça e ela precisava se concentrar para o debate que teria na semana seguinte, em que disputaria pelo cargo de presidente do comitê estudantil.

- Mãe! O que você pensa que está fazendo? - irritada, a menina saiu do quarto e gritou no corredor.
- Minha intenção era fazer um grelhado com batatas, mas vamos ter que comer casca queimada... Como as folhas do epicentro... Elas estiveram em chamas por quanto tempo? - com uma toalha de mão pendurada no ombro, Tessa estava sentada na mesa, distante do fogão desligado.
- Se eu tivesse essa resposta, certamente te diria - a menina surgiu na cozinha.

Como se tivesse uma ideia, a mulher saiu de sua posição e correu para seu escritório, próximo dali.

- Sei que isso é angustiante para você, mas para mim, no momento, angústia é sinônimo de ver Melanie Perales ganhar o cargo no comitê. Meu cargo!
- Filha, será que você conseguiria fazer uma conexão com o ambiente do epicentro? Talvez pressentir quando foi que o ritual aconteceu através das árvores queimadas. As folhas podem transmitir sensações que poder ser facilmente captadas por você. O que acha?
- Acho que já está tarde para ir até aquele lado da cidade e que daqui a pouco nós precisamos jantar!
- Entendo - Tessa murmurou entre os sons de gavetas sendo abertas e fechadas - Vamos fazer o seguinte, jantamos no Lucy’s e depois passamos na casa dos Firestone para ver como se recuperou. Amanhã vamos todos ao epicentro ver o que podemos fazer.
- Combinado, daqui meia hora vamos para a lanchonete - subiu alguns degraus da escada, mas parou rapidamente. - E se possível, tente não incendiar nossa casa.
- Foi um pequeno deslize! - a mais velha riu e partiu de volta para a cozinha, segurando uma pequena folha com encantamentos para arrumar toda aquela bagunça em um piscar de olhos.

Esperando seu cheeseburger chegar, observava as pessoas que ocupavam as mesas ao seu redor. A maioria dos clientes da lanchonete nesse horário e dia eram alunos de Greyson High. Do outro lado do salão, na bancada, próximo à chapa, Melanie e dividiam um milkshake de morango. estranhou os dois estarem ali, sem seus amigos seguidores, em uma noite de sábado. Mas sua desconfiança não durou muito tempo, o tilintar do sino na porta indicava que Connor St. Germain havia chegado. O casal parecia saber que Connor estaria ali e os três se cumprimentaram a distância. Do lugar em que Melanie estava, ela podia observar a mesa de Connor se a necessidade de disfarçar. notou que o loiro parecia nervoso e estava mais arrumado do que o resto das pessoas naquele lugar.

- O encontro! - Lockwood sussurrou para si mesma, lembrando do encontro de .
- O que disse? - tirando os olhos do celular, Tessa mirou a filha, levemente confusa.
- e St. Germain! Eles tinham um encontro essa noite - notou que Connor conferia a tela do celular a cada minuto, como se esperasse uma mensagem especial.
- Sinto muito, mas hoje sua amiga não vai ter encontro algum. Depois do que houve, você sabe - a mulher passou a falar mais baixo. - Foi uma cena e tanto para a pequena Firestone.
- Será que eu deveria avisá-lo?
- Se quiser, pode ir.
- realmente estava inconsciente quando vocês a levaram de volta?

Tessa respondeu a filha com um aceno positivo de cabeça e voltou a responder seus e-mails. tomou um gole de sua água e se levantou, indo em direção à mesa de Connor. Assim que cruzou o salão, ela sentiu o olhar penetrante do casal na bancada. Ela sabia que estava sendo analisada, mas precisava acabar com a ansiedade de St. Germain.

- Oi, posso me sentar? - chamou a atenção de Connor e logo se deparou com seus olhos azuis.
- Claro - o menino respondeu levemente confuso. - Lockwood, certo?
- - a menina sorriu amigavelmente. - Sou amiga de , então eu sei que vocês tinham um encontro marcado para essa noite.
- Tinham? - Connor respirou fundo e afrouxou a postura na cadeira, como se estivesse aliviado.
- Ela está passando mal, provavelmente estará de cama pelo resto do fim de semana. Mas vocês podem remarcar, sei que ela adoraria sair com você! - percebeu que tinha se levantado e caminhava até eles.
- St. Germain! Que bom te ver aqui, parceiro - puxou Connor antes que ele pudesse responder - Venha, jante comigo e com Melanie.
- Tudo bem - o loiro respirou fundo e sorriu para Lockwood. - Obrigado por me avisar. Nos vemos por aí.

A menina acenou para o loiro e se levantou, pronta para voltar pra sua mesa. Mas, antes que ela pudesse ignorar totalmente a existência de Perales, não pode evitar de escutar o sussurro de Aster para St. Germain.

- Sua posição no time e sua vaga para faculdade estão em jogo. Você realmente quer perder essa aposta?

Lockwood seguiu andando como se nada tivesse acontecido, pois sabia que estava sendo vigiada. Mas por dentro, ela estava paralisada. “Uma aposta envolvendo ?”, ponderou a menina.

- Mãe, precisamos visitar as Firestones agora. - Mas nossos lanches...- Tessa parecia confusa com a súbita mudança de comportamento da filha.
- Leve para viagem, mãe.

Saindo apressada sob os olhares curiosos de Perales, Aster e St. Germain, mandou uma mensagem de texto para a . O trio se entreolhou e a boca rosada de Melanie foi a única a dizer:
- Ela sabe.



Sábado a noite era o período mais movimentado no Lucy’s e por isso servia como lugar perfeito para se encontrar com alguém de forma anônima. Em lugares cheios, poucas pessoas prestam atenção nos mínimos detalhes e era por isso que Brisbane e Cassidy Chang dividiam uma porção de batatas enquanto discutiam negócios.

- Eu não quero saber de burocracia, ! Eu estava lá com você, vi ao vivo e em cores o que aconteceu, não precisam vir com papelada para cima de mim. Eu sei como funciona a Sociedade e estou cansada de todo o sigilo que jogam para cima de nós.
- Mas, Cass, isso aqui vai além do que nós fomos treinados - o menino repousou a ponta do dedo indicador sobre o envelope pardo, colocado no centro da mesa. - Essa imagem vale mais do que nós. Nossos olhos não enxergaram perfeitamente as sombras daquela noite, mas o computador conseguiu e é por isso que se esse envelope cair nas mãos erradas, o estrago pode ser enorme.
- E você não confia em mim? - Chang ergueu a sobrancelha, esperando a resposta do amigo.
- Confio, em partes - ajeitando sua postura, o menino franziu o cenho. - Nós somos uma equipe desde sempre. Confio em seu trabalho e no de , mas tanto eu quanto a Sociedade tememos que ações precipitadas levem a fins trágicos. Tudo que aprendemos não serve mais. Isso aqui é novo e veio multiplicado por cinco. Temos que ser cautelosos, Chang. Precisamos executar tudo perfeitamente, caso contrário podemos acabar mortos.
- Sei disso, - a menina suspirou, ciente de que sua posição na equipe não lhe fornecia muito poder de fala na Sociedade. - Se pensa no pior, então porque você trouxe o que eu lhe pedi?
- Porque somos amigos de infância e eu te considero como igual, independente do codinome - sorriu fraternalmente. - Percebi que você estava inquieta quando te liguei, por isso precisava entender o que estava acontecendo. Se o que você presenciou no auditório for verdade, precisamos saber se a fotografia confere com seu relato.
- Falando sobre isso.
- Sobre ela - Brisbane corrigiu Cassidy de modo sério.
- Tenho certeza absoluta do que vi. Por isso preciso dessa fotografia. Quero mostrar para onde ele está se metendo.
- Entendo. Bom, os líderes não fazem ideia de que tenho esse envelope e prefiro que continuem assim, por isso não posso deixar que você leve a fotografia.
- Tudo bem, . Só me mostre essa maldita foto. Depois eu lido com .

retirou sua mão e deixou que Cassidy pegasse o envelope e o abrisse. Apressada, a menina abriu rapidamente o pacote por baixo da mesa, puxando discretamente duas fotografias coloridas. comia as batatas tranquilamente, como se nada de diferente estivesse acontecendo ali, mas para Cassidy, tudo havia mudado. Sua intuição estava certa e a lembrança de no palco não fora fruto de sua imaginação. Chang não conseguia acreditar que aquelas quatro garotas patéticas seriam a maior ameaça que Greyson Hills jamais presenciaria. Era simplesmente inacreditável.

- Você teve a chance de ver isso? - Cassidy não conseguia tirar os olhos dos rostos na fotografia, nítidos e facilmente distinguíveis.
- Sim. Honestamente, estou tão surpreso quanto você - o garoto deu um sorriso maroto, indicando o sarcasmo na fala. - Sempre soube que o repúdio de vinha de um poder sobrenatural. Só não sabia que seria literalmente um ódio natural...
- Sua paixonite por ela acaba agora, – engolindo em seco, Cassidy encarou o amigo. - Nós existimos para que coisas como elas não passem de mitos. E especialmente você não deve se esquecer disso. Até parece que essas quatro encantam os homens dessa cidade!
- Certo, já esqueci! Meu interesse por Lockwood é apenas profissional - ele riu e balançou a cabeça. –De qualquer forma, tentei analisar a quinta sombra, temos uma imagem exclusiva dela, mas mesmo com a análise fisionômica do computador central foi impossível achar um rosto corresponde no sistema.
- Ou seja, precisamos manter discrição até identificarmos a quinta sobra.
- Sim.
- Isso significa que eu não posso arrancar a cabeça dessa garota e que vou precisar assistir ela jogar encantamentos para cima de meu namorado - Cassidy fechou o punho com força.
- Sim - mordeu a bochecha, percebendo que aquela não era a resposta que a menina gostaria de ouvir. - Vou conversar com , tentar atualizá-lo sobre a situação. Por enquanto, o importante é estar atenta a tudo e não usar sua adaga favorita no pescoço de nenhuma delas. Caso descubram que somos caçadores, podemos ser pegos de surpresa.
- No jogo, tudo vale, . Nós contra elas. Quem estiver preparado antes ganha vantagem no primeiro tiro e convenhamos que eu sempre fui a melhor de pontaria.

Cassidy fechou o envelope e se levantou, pronta para sair. Brisbane sorriu orgulhoso e guardou o envelope em sua mochila. Os dois se despediram com um olhar e Chang foi a primeira a ir embora. Dentre os vinte minutos de conversa, ninguém na lanchonete notara que Cassidy e sabiam da existência da magia em Greyson Hills e ninguém além deles, nem mesmo Aster, Melanie Perales e Connor St. Germain que estavam do outro lado do salão, sabiam que , , e eram bruxas.


Continua...



Nota da autora: Quanto tempo não conversamos, hein? Sei que essa atualização demorou mais do que o normal, mas nesse período de isolamento social e mudança na vida de todo mundo, o relógio foi impiedoso e não me deixou voltar logo para continuar a história. Mas, agora que estamos aqui e você leu aproximadamente 6000 palavras, espero que tenha aproveitado um dos capítulos mais longos de BM. Eu adorei criar ganchos entre os personagens, tirando um pouco da interação apenas entre os casais, e dar o holofote para algumas figurinhas especiais. Nos comentários, me digam o que acharam e o que pensam que vai acontecer daqui em diante!

Espero que todas estejam bem e seguras nesse período difícil que passamos! Assim que eu conseguir, envio o próximo capítulo para dar um toque mágico na imaginação de cada uma de vocês!

Queria agradecer todos os comentários positivos e dizer que, para quem gosta de escutar música enquanto lê, a playlist da história está aqui embaixo, no ícone do Spotify! Caso seu coração não aguente esperar pela próxima atualização, a página do Tumblr de Black Magic pode te entreter no meio tempo, minha dica é acessar pelo computador, é lá que a mágica se esconde! Muito obrigada por escolherem a história, nos vemos logo bruxinha!


Outras Fanfics:
Satellite (Outros – Shortfic)
04. Why Try (Ficstape Ariana Grande)
02. Spaghetti (Ficstape Emblem3)

Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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