Última atualização: 25/01/2018

Prólogo


– Rápido ! Não temos tempo para você voltar lá atrás!
– Você pegou tudo ?
– O livro de ervas... Acho que deixei em cima do baú!
– Esquece, não vai fazer diferença!
aperta o passo!
– Parem de falar e continuem a correr ou eles vão nos alcançar!

Os quatro vultos contornaram as árvores da floresta, fugindo da fulgurante labareda de chamas que deixaram para trás.

– Até onde nós vamos? – prendendo o cabelo roxo, ofegou .
– Até onde for preciso. – respondeu entre respirações pesadas.

Elas correram até o final da floresta, bem do outro lado de onde deixaram a clareira e os homens que as perseguiam. Diminuindo os passos, as quatro respiraram fundo. Mal tiveram tempo de se recuperar da “guerra” e já estavam sendo caçadas novamente.

– Eles nunca vão parar... não até terem nossas cabeças em cima de suas lareiras!
– Não seja tão dramática . – riu pesadamente, seu rosto pingando suor e sangue que escorria de um dos cortes de sua bochecha – Eles são apenas fanáticos, provavelmente só querem parte da nossa magia. Mas se fossem caçadores...

O som de um galho se quebrando de baixo de uma bota fez as quatro se levantarem novamente. e ergueram as mãos, prontas para fazerem uma barreira de proteção, quando a sombra de um homem de quase dois metros se escondeu de trás de uma das árvores. e se posicionaram na direção oposta das outras duas, fechando o círculo. Do lado delas, uma sombra menor do que a primeira se escondia entre os arbustos, feminina e completamente familiar.

sussurrou – O corpo de Melanie... Ele está bem de baixo da terra... Morto, não é?
– Claro que está! Por que você está perguntando isso? – resmungou enquanto sentia a energia das raízes se movendo de baixo da terra, indo em direção a figura do homem.
– É que... eu pensei... ...
– Eu sei. – ela não tirou os olhos da sombra – Mas não tem como ser ela.
– Vocês acham que eles a pegaram? – perguntou com a voz fraca.

As sombras não se moviam, pareciam estar a espera de um movimento delas. pegou a mão de , transferindo o resto de sua magia, e juntas fizeram uma barreira de energia, ao mesmo tempo que ela levava as raízes em direção daquilo que pareciam ser os pés do homem.

– Pegaram e trouxeram essa vadia de volta para a vida? – riu um pouco descompensada – Ninguém seria estúpido de dar a ela uma segunda chance...
– Mas se eles realmente pegaram o corpo morto – frisou a última palavra – deve ser por algum motivo importante... – ponderou , ainda analisando a silhueta da sombra.

Os contornos da sombra eram definitivamente de Melanie, mas havia algo de errado nela. Parecia um truque que já tinha visto antes... Quando lançou a mão para frente, agarrando o tornozelo da sombra com as raízes, percebeu o que estava acontecendo ali. Ela segurou a mão de que se erguia aos poucos e balançou a cabeça, pedindo para que não fizesse nada. O homem não parecia assustado e mesmo quando puxou as raízes para derrubá-lo ele continuou imóvel, sem nenhum esforço. A menina continuou a puxa-lo com todas as suas forças, mas nada adiantava.

– O que tá acontecendo? – respirou fundo, sentindo seu pulso fraquejar e sua energia ser sugada – Gente...

Soltando da mão de , caiu no chão desmaiada, mas com a respiração calma como se estivesse dormindo.

– O que você fez? – gritou.
Em um acesso de raiva, a mais nova levantou a mão em direção à figura. Com os olhos brilhando em um amarelo topaz, acumulou uma jorrada de ar ao seu redor e ameaçou jogar na sombra.

– Espera ! – se virou, soltando a mão de e segurando a de – Eu já vi esse feitiço antes... São sombras hauríveis!

Tanto quanto franziram o cenho.

– São projeções que colhem toda a magia lançada neles e enfraquecem seu oponente, absorvendo sua energia e induzindo-o em um sono profundo. É magia negra.
– E como a gente faz para vencê-las? – olhou ferozmente para a sombra da menina.
– Temos que atacar a pessoa que as está controlando. Olhem para cima, eles devem estar nos galhos.

Juntas, as três ergueram a cabeça, prontas para encontrar os fanáticos que as perseguiam. Mas quando os olhares das meninas se encontraram com as centenas de sombras acima delas, as três ficaram de boquiabertas. Cada uma estava em uma posição diferente. Se misturavam entre si, homem e sombra, sombra e homem. Não tinha como elas adivinharem qual deveriam acertar.

– Quantos fanáticos eram mesmo? – com a cabeça erguida, se desesperou.
– Que eu me lembre eram só dois... – abaixou a cabeça, tentando pensar em um plano melhor.
– E agora? – perguntou.
– Corremos? – ponderou .
– Mas e a ?
– Atacamos? – ponderou de novo.
– Vamos acabar que nem a . – negou veemente.
– E que outra escolha temos?
– Até agora nenhuma...
– Que seja então. Vamos ver o que acontece se nós contra-atacarmos em potência máxima. – impulsivamente, levantou a mão e lançou uma corrente de chamas pelos ares.

As sombras que antes eram escuras se tornavam cada vez mais negras. lançava o fogo em direção a cada uma delas, mas nada acontecia. Um grunhido ou outro soava em seus ouvidos, mostrando que tinha atingido o invocador do feitiço, mas eram raros dentre aquelas várias sombras. Sentindo uma onda intensa de cansaço, a menina caiu de olhos fechados.

– Como ela é teimosa! – bufou – O que você quer fazer agora?

olhou para as duas amigas no chão e respirou fundo.

– Só vai.

Fechando as mãos em uma pequena concha, girou os punhos formando uma jorrada de ar e olhou para a amiga, esperando por sua ajuda. Revirando os olhos, colocou a mão no chão, puxando uma corrente de água.

–Espero que eu não me arrependa depois...

Juntando sua bola de água com a corrente de ar, as duas fizeram um ciclone e lançaram sob as sombras, que aos poucos diminuíam, mas não paravam de absorver a energia das duas. Os homens que tinham as encurralado ali iriam vencer, mas sentia que isso não seria tão perigoso quanto pensavam. Dando um último olhar antes de caírem em um sono profundo, e viram os dois homens saltarem da copa da árvore mais alta, pondo um fim a todas as sombras com um estalar de dedos. Antes de fechar os olhos por completo, viu de relance uma tatuagem de sol saindo do pescoço de um de seus sequestradores e então, dando um último suspiro, ela soube que tudo estaria bem.


Capítulo Um: Sejam Bem-Vindos à Greyson Hills

Firestone


– JULIAAA!
– QUE? – Julia Firestone subiu a escada preocupada – É bom que isso seja importante porque já estou atrasada para meu... Meu Deus.

Com o salto na mão e o brinco na outra, a mulher parou na porta do banheiro e encarou, perplexa, o reflexo de sua irmã pelo espelho.

! – ela olhou das toalhas manchadas de vermelho para o tubo de tinta caído no chão – Que diabos você fez?
– Eu só queria uma repaginada. Você sabe como é... Nova , novo cabelo. – olhou chateada para a cor e desabafou – Quando eu passei na farmácia, tinha pensado em algo como Lindsay Lohan ou Emma Stone, não uma Hayley Williams da vida. Mas essa maldita mulher sorridente me enganou... – balançando o cabelo vermelho como o fogo, amassou a mulher da caixa de tinta de cabelo e a arremessou para o outro lado do banheiro – Me ajuda.

Pegando uma toalha nova, Julia molhou a ponta na pia e começou a esfregar a cabeça da irmã.

– Mas que saco ! Justo na véspera do início das aulas?
– Eu queria mudar... Mas não era pra acabar desse jeito! AI! Isso não tá ajudando!
– E o que você queria que eu fizesse? – a mais velha revirou os olhos e continuou a esfregar. parou de resmungar e deu um sorrisinho para Julia.
– Não. Nem vem.
– Vai Jules! – a mais nova fez biquinho e se afastou da irmã – Você me ajudou naquele dia com seu abracadabra! Quebra esse galho pra mim, por favor!

A Firestone mais velha cruzou os braços e ponderou por alguns segundos. Suspirando, ela pegou a irmã mais nova e a virou para o espelho de novo.

– Essa é a última vez! – respirou fundo e levantou as mãos, colocando-as sob a cabeleira de irmã – Mas me prometa que você vai levar minha magia mais a sério. “Abracadabra” é só para criancinhas e honestamente você já tem dezessete anos, tem que ter mais maturidade ... Sem mamãe por perto, eu tenho que ter responsabilidades, e, usar magia para repintar o seu cabelo não é exatamente o melhor exemplo...
– Tá, eu prometo! – revirou os olhos, mas sorriu quando olhou para o reflexo da mais velha – Eu te amo e te respeito, você sabe disso Jules!
– Eu sei maninha. – ela abraçou a mais nova – Mas agora vamos logo que eu preciso ir!

deu um pulinho de felicidade e sorriu abertamente para a irmã
– Quero que você faça um ruivo decente – Julia ergueu a sobrancelha e encolheu um pouquinho, completando sua fala – Por favor.

Observando atentamente a cada passo de Julia, olhava fascinada para sua irmã. Passando os dedos por cima de sua cabeça, os fios que antes tinham uma cor forte se clareavam, tornando o conjunto em um lindo ruivo que nenhuma tinta de cabelo poderia fornecer. Dando dois tapinhas no topo do cabelo novo de , Julia pegou suas coisas e terminou de se arrumar.

– Agora eu preciso ir de verdade. Kade não vai me esperar por muito mais tempo. Se cuida irmãzinha. Te vejo amanhã de manhã. – piscou e sumiu pela casa.
– Valeu Jules! – gritou antes de ouvir a porta da frente se fechar. – Valeu mesmo...


Lockwood


Alarme para as seis horas? Certo.
Livros e cadernos dentro da mochila? Certíssimo.
Energia forte suficiente para o último ano letivo? Com certeza!

empurrou as almofadas de cima da sua cama e se jogou de barriga na colcha de passarinhos amarelos. Sua vida estava indo no eixo que tinha planejado nessas férias e ela podia sentir que nada daria errado nesse ano. O cheiro de roupa lavada e menta contornavam o quarto, dando um conforto extra para a menina. Ela mal podia esperar para rever sua adorável escola. Os novos clubes que ela entraria, mexer nos armários que tanto adorava e é claro, encontrar com os amigos e companheiros de classe – exceto por dois deles, de quem ela não precisava lembrar agora.

Tateando a cama, agarrou o celular e ligou para .

No andar de baixo, podia-se ouvir apenas o som da papelada sendo ajeitada sob a mesa. Sua mãe provavelmente estava cuidando da ficha dos novos alunos. Esperando atender no terceiro toque como sempre fazia, virou para o teto e encarou as estrelas que colara quando tinha dez anos. Ela mal podia acreditar que já estava no último ano do Ensino Médio. Em menos de alguns meses ela poderia começar a visitar faculdades e ver seu futuro brilhante se tornando realidade...

– Fala. – a voz de quebrou o silêncio.

se sentou na cama e olhou para a janela que dava direto para a de . As luzes estavam apagadas, mas as cortinas abertas.

– Já sabe da novidade?
– Se você está se referindo a carreta de mudança estacionada no final da rua, sim já estou sabendo. Temos um novo vizinho.
– Não! Você não tá sabendo de tudo!

se levantou, indo até a janela, e colocou a cabeça para fora, analisando a casa de tijolos no final da rua Duncan. Do outro lado, ligou as luzes e fez o mesmo. Na casa 39, podiam-se ver as luzes acesas e um carro esportivo preto estacionado na garagem. Greyson Hills não costumava receber famílias novas, mas aquela definitivamente não era desconhecida pela população.

já está sabendo disso?

Mudando o olhar para a casa do outro lado da rua, deu de ombros para .

– Como ela poderia? esteve fora por dois meses, procurando um apartamento que não fosse mal assombrado pela prima maluca dela e tentando achar algo sobre os pais biológicos dela... Contamos a novidade amanhã.

Desligando o celular, desceu até a cozinha e olhou sua mãe sentada de costas, arrumando as pastas para o dia seguinte. Indo até a geladeira, ela pegou um copo de suco para si e para sua mãe.

– Quem são os alunos novos que estão te dando tanto trabalho? – falou brincalhona, deixando o copo ao lado de uma das dez pilhas sob a mesa.
– A maioria é da cidade. Johsons, Logans, Pauleys... Mas tem um aluno interessante nesse ano. – Tessa Lockwood retirou uma das pastas prontas da pilha do terceiro ano e deu para sua filha, que se sentou ao lado com o copo na mão – vai ficar sem palavras quando ver ele.
– Eu sei... – deu um meio sorriso – Vi o carro da mudança hoje mais cedo. Sorte que ela não voltou para a cidade ainda...
– O problema é que ela está procurando nos lugares errados.

parou de manusear a pasta e olhou curiosa para sua mãe. As duas dividiam tudo entre si, mas ela nunca chegara a falar sobre o que procurava. Não tinha como ela saber...

– Como assim? – perguntou deixando a pasta em cima da mesa.
– Ainda há muito que acontecer para ela encontrar o que está procurando.

Parando o que estava fazendo, Tessa olhou para a filha e ajeitou uma mecha de cabelo que caia em seu rosto. Ainda havia muito a se explicar para , mas essa ainda não era a hora disso acontecer. Por isso, Tessa apenas sorriu e deu um gole no suco.

– Vá dormir querida. Já está tarde e amanhã precisamos acordar bem cedo. – limpou a boca e fechou uma das últimas pastas de alunos do segundo ano.
– Você sabe que odeio quando faz isso né? Você solta essas coisas misteriosas e sempre me manda embora para não ter que se explicar.

Soltando uma gargalhada gostosa, Tessa abriu um sorriso maior ainda para a filha e deu de ombros.

– Boa noite .


White


fechou as janelas e jogou o celular para longe. Kade tinha saído há trinta minutos e ela já se preparava para começar a maratona de filmes clássicos quando a campainha tocou.

– Será que eu não posso ter um minuto de paz nessa cidade? – resmungou, calçando suas pantufas.

Descendo as escadas com preguiça, olhou para o relógio marcando nove horas e ligou as luzes, sentindo uma pancada forte na cabeça. Suas tonturas tinham ficado cada vez mais fortes nas férias. Fortes e pontuais. Passando a mão pelos olhos, ela olhou para a porta entre os dedos e seguiu em frente a passos largos. agarrou a maçaneta e escancarou a porta com pressa.

– Ei... – exclamou um garoto do lado de fora da casa – Aqui é a casa dos White? Você é a ?

– Depende de quem está perguntando... Eu te conheço? – desconfiada, segurou a maçaneta mais forte, pronta para fechar a porta na cara daquele garoto.

– Sou Gale, da Companhia de Teatro. Ficamos sabendo do seu interesse em nós e bom, todos os prováveis iniciantes devem receber esse presente no dia anterior à suas audições. Aqui está o seu. – estendeu uma caixa vermelha escura. – Boa sorte.

pegou o presente e o abriu. Dentre papeis desfiados se encontrava uma máscara de baile preta, encrustada de brilhantes vermelhos.

– O que eu faço com isso? – ela levantou os olhos e viu o garoto subir em uma moto, ligando o motor.

– Leve para a sua audição. O resto é surpresa. Quebre a perna novata!

E partiu, sem mais nem menos. fechou a porta atrás de si e olhou mais uma vez para seu presente. Era seu sonho de infância fazer parte da Companhia de Teatro da cidade, mas ela nunca tivera uma oportunidade de subir no palco para fazer um audição sequer. Como é que eles descobriram que esse era um de seus sonhos?

virou a máscara e a amarrou na cabeça. Que diabos ela deveria fazer com aquilo? Sentindo a tontura voltar em dobro, ela se sentou na poltrona de Kade e respirou fundo. Ele dizia que não era nada e que ela só precisava esperar um pouco para essas dores passarem, mas ela não tinha mais paciência para isso. Se levantando vagarosamente, foi até o escritório de Kade procurar por algum remédio que a ajudasse.

– Mas como ele é um porco. – resmungou analisando a bagunça na bancada do irmão mais velho. – Se eu fosse um cara de vinte e poucos anos onde colocaria os remédios?

olhou ao seu redor e viu uma bolsinha de couro em uma das prateleiras. Caminhou até ela e se esticou para pegá-la. Era pesada demais para ser uma bolsa de remédios, mas abriu-a mesmo assim. Tirando a máscara para ver o conteúdo melhor, arregalou os olhos ao ver inúmeras pedras coloridas dentro da bolsa. Uma mais bonita que a outra.

– Quem diria que ele colecionava pedras. – a menina riu descrente e pegou uma das pedras que mais lhe chamara atenção.

Segurando-a na altura dos olhos, sentiu o coração acelerar e a dor que sentia passar. Era como se sua energia tivesse se reequilibrado apenas ao tocar naquele objeto. balançou a cabeça para afastar tal pensamento e guardou a pedra no lugar que achou. Ela não acreditava nessas coisas místicas, mas não tinha como negar que algo tinha acontecido ali.

– Que loucura... – soltou encarando a pedra. – Que loucura mesmo.



Marin


amassou o papel do hambúrguer que comera e abaixou o mapa do condado de Minessota. A caneta vermelha estava traçada sob todas as estradas e cidades possíveis, porém nenhuma delas tinha dado o que queria.
As luzes fluorescentes da placa da lanchonete do lado de fora refletiam seus olhos marejados. Suas férias foram em vão. não descobrira nada além de pastos de vacas e fazendas latifundiárias e ainda teria de voltar de mãos vazias.

– Pronta pra fechar a conta, querida?

A menina levantou o olhar para a senhora de avental e cafeteira na mão. Ela apenas assentiu e voltou a olhar para o mapa.

– Minha mãe morava em River Falls. – a senhora sorriu, apontando no mapa uma das cidades riscadas por . – Não havia muito a se fazer por lá, mas ela adorava...

deu um sorrisinho amigável e secou os olhos com as mangas.

– Conheci todos esses lugares em dois meses.

As duas ficaram em silêncio enquanto a mulher ponderava.

– Estava procurando por algo? – ela se sentou a sua frente e deixou a cafeteira na mesa.
– Meus pais.

A senhora ficou em silêncio de novo, trocando o sorriso do rosto por uma linha fina na boca.

– A conta deu quinze dólares não é? – se levantou, quebrando o gelo. – Tome, fique com o troco. – deixou uma nota de vinte e se levantou com o chaveiro do carro pendurado no dedo. – Obrigada por ficar aberta até tarde. Preciso ir. Tenho aula amanhã e ainda preciso voltar para a minha cidade.

caminhou até o único carro estacionado naquela lanchonete e entrou no veículo. Seriam mais três horas dirigindo, por isso, colocou sua playlist favorita para tocar e amarrou o cabelo. Havia uma longa estrada para seguir e ela definitivamente queria chegar cedo para não perder nada do dia seguinte.
Dirigindo a uma velocidade acelerada, ela abaixou a janela e sentiu o vento bater em seu rosto. Ela não queria voltar para a rotina. Não queria voltar para o apartamento de sua prima que não dava sinal de vida há anos e não queria mesmo voltar para a escola. estava em seu último ano e por isso queria resolver tudo que tinha de pendente em sua vida – começando pelo fato de que não fazia ideia de quem eram seus pais.
olhou o espelho retrovisor e não encontrou a lanchonete. Agora era só ela e a estrada. A solidão que sentia não era ruim, era uma sensação de liberdade que ela só poderia ter naquelas três horas. Assim que ela colocasse os pés em Greyson Hills, sua atuação voltaria e a verdadeira se esconderia mais uma vez. Pelo menos até as próximas férias em que poderia se isolar mais uma vez...
Tamborilando os dedos no volante, ela olhou para o céu escuro e desejou que houvesse chuva para completar o seu conforto.


Capítulo Dois: Diga Adeus ao Verão


White


Era a vigésima vez que passava a mão por cima de sua bolsa para checar se a máscara que ganhara no dia anterior ainda estava consigo. Ela caminhava pela rua Duncan na maior calma, porém sua cabeça não parava de martelar as palavras do menino que a visitara ontem.

“... Ficamos sabendo do seu interesse em nós e bom, todos os prováveis iniciantes devem receber esse presente no dia anterior às suas audições... Quebre a perna novata.”

!

A menina parou na frente da casa 8 e olhou para a porta assustada.

...? O que você fez?

desceu as escadas desfilando com seu cabelo liso, iluminado pelo sol.

– Gostou? – ela sorriu marotamente – É uma cor única eu diria...
– É mesmo. – limpou a garganta e tirou a mão da bolsa – Tenho novidades, mas só vou contar quando encontrarmos as outras.
– Ih, a pequena tem um segredo! – riu feliz – Vamos pra escola logo! Nunca estive tão animada pela volta as aulas!

As duas enlaçaram os braços e seguiram até o final da rua. A bolsa no ombro de pesava a cada quarteirão andado e o suor frio descia por todo seu corpo. Ela queria muito entrar na Companhia de Teatro, mas não podia deixar de pensar em quem tinha saído dela e deixado a vaga livre... Isso não acontecia há anos! O grupo de teatro era sólido e não haviam brechas para o recrutamento de novos atores. Somente quando alguém desistia ou era expulso que uma vaga surgia... Respirando fundo, teve a sensação de que, nesse caso, a vaga tinha sido liberada por causa da última opção, o que piorava sua sensação de desconforto.


Lockwood


Ela não podia acreditar que Melanie Perales teve a audácia de roubar o seu lugar já no primeiro dia de aula!
franziu a sobrancelha enquanto caminhava pelo ginásio em direção às arquibancadas e encarou a menina que se ajeitava na primeira fileira, colocando suas coisas como se fosse dona daquele lugar.

– Oi Lockwood. – ela proferiu sarcasticamente. – Como foram suas férias?

A mal gosto, subiu um andar a mais e se sentou bem atrás de Melanie.

– Esclarecedoras. – soltou sem retornar a pergunta.

se ajeitou na segunda fileira da arquibancada e colocou suas coisas ao seu redor, guardando lugar para suas amigas. Todos os anos ela era a primeira a chegar no ginásio por conta de sua mãe, por isso sempre se sentava, impecavelmente, na primeira fileira. Mas nesse ano Melanie Perales é quem estava em sua arquibancada – e o motivo era claro: ela queria o seu lugar no Comitê.

Melanie se virou com um olhar vitorioso, e se virou novamente, batendo os cabelos nos joelhos de .

– Eu não vou me deixar ser afetada por isso... – soltou baixinho enquanto pegava uma das pastas que tinha organizado no dia anterior. – Não vou.
– Melanie! Querida! – a voz única de Cassidy Chang soou a poucos metros de – Como você conseguiu esse lugar?

Respirando fundo, a menina sabia que as duas estavam provocando-a, porém ela continuou na sua, de cabeça abaixada para o cronograma de estudos que tinha feito nas férias.

– Foi só prestar atenção no deslize dos outros, Cassie. – ela respondeu em um tom mais alto – Cheguei mais cedo e de cara encontrei com o professor Lee. Puxei assunto como sempre faço e já garanti minha vaga na disputa de líder do Comitê Estudantil. Já ganhei o voto dele no primeiro dia de aula! – riu e se virou, encarando da cabeça aos pés.
– E você ? Vai competir esse ano também?

Ela levantou o olhar e viu as duas meninas a sua frente com sorrisos presunçosos. Logo atrás chegavam e , prontas para salvar sua pele.

– Vou. – respondeu secamente e acenou para as amigas, que olharam confusas para as arquibancadas, já compreendendo o que estava acontecendo.
– Olha que ótimo... – Cassidy se virou para ver quem estava chegando e estreitou o olhar quando viu ao lado de . – Mel, abra espaço para mim, precisamos conversar. – As duas se entreolharam e Cassidy começou a sussurrar no ouvido da amiga.

Enquanto isso, soltava o ar pesadamente e fazia sinal com a mão para que as duas se apressassem. Melanie Perales era uma das pessoas que não suportava. Desde que se via por gente ela tinha que competir com a outra por tudo – principalmente pelo cargo no Comitê Estudantil. Nesse ano ela tinha certeza que iria garantir seu segundo ano no poder, mas também não podia deixar de sentir uma incerteza quanto a sua oponente.


Firestone


O ginásio não estava tão cheio quanto esperava, mas ela já podia sentir os olhares em cima dela. Passando a mão pelo cabelo, ela caminhou orgulhosa até e abriu um sorriso grande quando viu o olhar invejoso de Melanie.

– Será que dava pra chamar menos atenção? – sussurrou ao seu lado, evitando pensar no olhar incriminador de Cassidy, a estrela da Companhia de Teatro. – Por favor?
– Deixa disso ! – ela pisou forte na escada e mandou um beijo para que ainda esperava as duas impacientemente – É bom estar embaixo do holofote de vez em quando...

No andar de baixo, Cassidy riu alto, sendo acompanhada de Melanie, e se virou para as duas meninas que tinham acabado de se acomodar ao lado da outra.

– Pode apostar que uma de vocês não vai ter essa chance. – Cassidy encarou duramente , que mordeu a bochecha com medo – O holofote não é para todos, Firestone.

engoliu em seco e ergueu a sobrancelha.

– Como é que é?
– Claro que com esse cabelo cor de marca texto não era você quem ela se referia. – Melanie arqueou a sobrancelha. – Mas acho que o holofote que você vai receber é não é tão bom quanto pensa não...
– Isso é uma ameaça? – interferiu irritada.
– É um aviso garotas. – uma voz masculina cheia de sarcasmo e maldade soou no ouvido das cinco.

Levantando os olhares, elas se depararam com dois meninos que se juntaram ao grupinho da primeira arquibancada. olhou friamente para o mais alto e respirou fundo. Se tinha alguém que ela realmente não aguentava naquela escola era aquele casalzinho. se abaixou para beijar Melanie na frente de todos e jogou suas coisas no chão. Sentando–se ao lado da namorada, ele passou o braço pelo ombro de Melanie e soltou:

– Por que vocês estão falando com essa ralé?
– Porque vocês não estavam aqui! – Cassidy deu de ombros e puxou o outro menino para o seu lado. – Onde você estava ? Te liguei mil vezes ontem a noite! – falou sussurrando, mas alto suficiente para todos ouvirem.
– Eu estive ocupado Cassie. – o menino deu de ombros – Fazendo trabalho extra por sua culpa...

Cassie limpou a garganta e se ajeitou no lugar, fingindo que ninguém ouvia a conversa.

– Falamos sobre isso depois amor. – cortou rapidamente o namorado.

No andar de cima, cutucou , que encarava o menino curiosamente. olhou para frente, tentando esquecer que aquele grupo insuportável estava a poucos centímetros de distância, e começou a procurar pelo único menino que valia a pena naquela escola. Connor St. Germain.

– Procurando por alguém? – quebrando o silêncio, riu olhando a menina desesperada.
– Não é por você meu querido... – respondeu secamente.
– Se é pelo Connor, ele só chega no segundo período. – Melanie soltou sem se virar para .

se fez de desentendida e olhou para as amigas.

– Porque nós estamos falando com eles mesmo?
– Eu sei lá. – balançou o ombro. – Só sei que daqui a pouco a reunião começa...

As três viram os alunos chegando em grupos e as arquibancadas lotando. Os professores começavam a se reunir e se ajeitar nas cadeiras e a diretora adentrou o ginásio. Tudo estava pronto para começar, menos uma mínima coisinha...

– Alguém sabe de ?


Marin


não tinha pressa. Todos os anos o primeiro dia de aula era a mesma coisa. As mesmas falas, os mesmos alunos, os mesmos professores... Não tinha motivos para correr. Com o fone nos ouvidos, passava pelos corredores vazios, deslizando as pontas dos dedos pelos armários. Ela quase não tinha dormido, seu cabelo ainda estava bagunçado da noite anterior e para começar bem o ano letivo ela estava de chinelo. Passando pela sala de artes, viu pela janela da porta um movimento estranho. Ela olhou para o relógio. A reunião já havia começado fazia meia hora e nenhum funcionário deveria estar fora dela... Com o coração palpitando de medo e curiosidade, ela tirou os fones e abriu a porta.


– MAS QUE MERDA! – uma voz estridente soou nos ouvidos de , congelada na porta da sala ao ver alguém que ela não esperava ver por um bom tempo.

Ela reconheceria aquelas costas em qualquer lugar. A parte da tatuagem no fim da coluna, ele continuava igual. Um pouco mais forte, mas inconfundível. Quando o menino se virou para ver quem tinha interrompido seu momento ela viu aqueles olhos únicos que só confirmavam o que já sabia. A menina que estava com o corpo exposto, puxou para si em tentativa de se cobrir e vociferou para .

– Sai daqui garota!

Brooks estava de volta à cidade... Mas aquele garoto não era mais o que ela conhecia. Ele a encarava de um jeito que congelava a alma. Ainda em cima da menina, olhou de cima para baixo como se quisesse memorizar sua imagem e depois voltou a olhar para a outra. Ele continuou os movimentos e tomou partida de onde tinham parado sem ao menos esperar sair da sala. Com nojo da situação, a menina colocou os fones de volta e saiu do lugar com um arrepio no corpo.

– Isso não aconteceu... – balançou a cabeça na tentativa de esquecer a cena.

Nojo. Era isso que ela sentia no fundo. A última imagem que tinha daquele menino não era nada parecida com aquela que acabara de presenciar. O que um ano em uma cidade grande não podia fazer com o garoto mais amável de Greyson Hills?

ficou sem ar. Que merda tinha acontecido com ? O que teria acontecido em Nova York para ele mudar desse jeito? Ela caminhou sem rumo pelos corredores e naturalmente encontrou a saída. Aquela imagem não queria sair de sua cabeça. precisava respirar. Quando abriu a porta para o pátio viu nuvens carregadas de chuva se aproximando de onde estava. De uma coisa ela tinha certeza – nem a maior tempestade limparia sua alma depois daquele encontro horroroso com Brooks.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber quando a fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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