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Última atualização: 13/04/2021

1.

Ripon, Inglaterra – 1530.

A corte era um lugar movimentado e disputado. Todos queriam estar na presença do rei da Inglaterra. Até mesmo para mim, filha dele, uma das princesas, tive que esperar sua permissão para retornar à corte. Eu era filha de uma rainha decapitada, acusada de ter sido infiel ao rei, tramando até a morte dele, o que era uma blasfêmia. O rei me manteve exilada até que eu completasse dezoito anos e só então permitiu meu retorno ao castelo. Porém, pelo que tinha ouvido, foi por pedido de sua nova esposa, que queria manter a família perto e o convenceu de que eu já tinha idade para ter um casamento vantajoso para ele. Mesmo sendo a princesa, a filha mais velha do rei, todos ainda me olhavam e viam minha mãe, a rainha traidora, que foi executada. Meu pai tratava-me com amor e respeito, da maneira que ele achava melhor, mas eu não conseguia ficar com ele por muito tempo. Ele era o rei, e tudo que ele pensava ou agia éramos obrigados a concordar. Eu nunca havia aprendido a como disfarçar o que sentia.
— Lady , seu pai, o rei, lhe mandou o convite para o começo das comemorações de final do ano. Todos ficarão no castelo e comemorarão aqui. — Margaret, uma das minhas damas de companhia, lia o bilhete do meu pai enquanto eu terminava de bordar outra camisa para ele.
— O ano passou tão depressa que até tinha me esquecido de que o Natal já está chegando. — comentei, observando o movimento da agulha atravessando o pano macio e branco como a nuvem. Percebi uma movimentação pelo quarto das minhas outras damas. Algumas riam e comentavam algumas coisas.
— Sobre quem elas estão conversando? — perguntei a Margaret. Ela sorriu meio tímida e sentou-se ao meu lado, mas antes pediu minha permissão e licença para isso.
— Essas festas são boas para conhecer pessoas novas, a senhorita sabe, conseguir um bom casamento. Seu pai convidou duques de muitos reinos, então elas já estão comentando sobre os possíveis pretendentes ao cortejo. — balancei a cabeça positivamente, sorrindo de lado e olhando para as meninas, que riam ainda.
— Peço permissão para contar-lhe algo que ouvi pelos arredores, Lady . — parei de bordar e coloquei as coisas em meu colo. Virei meu rosto para ela e esperei que ela falasse.
— O rei está pensando em colocá-la de volta na linha de sucessão. — ela abriu um sorriso, e pude sentir meus olhos encherem d’água. Aquilo tinha sido a melhor notícia que eu poderia ter recebido.
— Não conte isso a mais ninguém, por favor. — pedi, abaixando o tom da minha voz. Ela assentiu, ainda sorrindo, fazendo-me sorrir junto e, depois, olhar para minhas outras damas, que agora estavam de pé e vinham até mim.
— Lady , o dia está tão lindo lá fora. — estreitei meus olhos para Eliza, que tinha aquela expressão de que estava me implorando para fazer tal coisa. Olhei para a varanda e vi o gigantesco e estupendo jardim do castelo. Sorri de lado e assenti, fazendo as meninas pularem.
— Perdoe-nos, Lady. — elas pediram assim que viram que estava exagerando. Neguei com a cabeça e levantei-me. Ajeitei meu vestido caramelado, joguei meus cabelos cacheados para trás e caminhei lentamente pelo quarto. Elas pegaram as sombrinhas, tirando Margaret, que seguraria a minha e poderia aproveitar da sombra junto comigo.
Saímos do quarto, recebendo cumprimentos dos inúmeros guardas que tinham na porta e nos corredores do castelo. Todos se curvavam assim que passávamos. Agora, sorrir estava fácil, depois da notícia que Margaret tinha me dado. Chegando ao lado de fora do castelo, senti o calor do dia bater em minha pele. Segurei meu vestido e o levantei um pouco para poder caminhar mais confortavelmente. Margaret cobriu-me com a sombrinha, e eu dispensei, querendo caminhar um pouco afastada delas, observando o lago e os cisnes que ali tinha.
Pensando sobre o que ela tinha dito, talvez o povo gostasse tanto de mim que o próprio rei tinha conseguido ver isso e tivesse finalmente aceitado que eu também era da realeza, que tinha o direito de estar na sucessão do trono logo após meu irmão, que era bem mais novo. Tinha apenas nove anos de idade, mas ele seria rei após meu pai e antes de mim.
Assim que acordei de meus devaneios, escutei as meninas começarem a cochichar e Margaret pedir para elas se controlarem. Franzi o cenho e olhei mais à frente. Podia ver Henry, o melhor amigo de papai, o braço direito do rei e o duque mais poderoso que tinha. Meu pai o adorava e praticamente o considerava um irmão, mas eu odiava ter pensamentos absurdos com ele. Henry era um homem bem mais velho que eu, casado e com um filho. Mesmo assim, eu não conseguia não ficar nervosa em sua presença, como eu estava ficando naquele momento. Podia sentir minhas mãos suarem, meu coração se acelerar, minha respiração ficar descontrolada e falhada até me faltar ar. Tive que colocar uma mão em meu peito, tentando regularizar meu estado enquanto ele não chegava mais perto.
Engoli em seco e endireitei a coluna, fazendo um sinal para as meninas ficarem mais afastadas logo atrás e se controlarem, pois não era só eu que ficava nervosa daquela maneira em sua presença. Parei de andar quando vi que ele caminhava em nossa direção, já com um sorriso no rosto. Apertei minha mão em minha barriga, sentindo mais nervoso ainda. Devolvi o sorriso quando ele parou a minha frente e se curvou.
— Lady , a senhorita está radiante, como sempre. — alarguei o sorriso automaticamente e fiz meu cumprimento, abaixando-me um pouco e segurando a lateral do meu vestido.
— Sempre tão gentil. Fico lisonjeada pelas palavras, Vossa Alteza. — respondi, tentando controlar meu sorriso. Perto dele, eu não conseguia parar de sorrir. Parecia até uma boba da corte.
— Não devo lhe dizer isso, mas pode me chamar só de Henry. — ele estendeu a mão para mim. — Posso pedir sua companhia até a porta?
Assenti com a cabeça, ainda sorrindo. Encaixei meu braço no dele e segurei meu vestido com a outra mão. Minhas damas nos seguiram, mantendo uma distância pequena.
— Passará as festividades conosco também? — perguntei, tentando não o olhar novamente, porque seria um erro enorme.
— Mesmo se eu quisesse, não poderia recusar um convite do rei, ainda mais quando é feito pessoalmente. — dei uma risadinha e concordei com ele, olhando para as escadarias mais próximas. Então, deixei ser levada, e meu olhar foi em suas mãos. Eram grandes e fortes, fazendo minha mente viajar por elas. Umedeci meus lábios quando as imaginei segurando minha cintura com a força que elas pareciam ter.
Meu olhar ousou subir mais um pouco, e me peguei mordendo o lábio assim que cheguei em sua boca, que ainda sorria. Puxei o ar e o prendi um pouco, depois soltei-o lentamente e pude sentir meu corpo estremecer por tal ato.
— Se a senhorita me permitir, fico feliz que agora esteja na corte conosco e mais próxima do seu pai. — pisquei meus olhos antes de encarar os seus. Deixei meu sorriso se estender mais para o lado, demonstrando como tinha ficado feliz em ouvir o que ele tinha dito.
Não consegui desviar dos seus olhos extremamente azuis, que me encaravam de volta. Seus cabelos negros realçavam ainda mais a cor intensa de seus olhos e me faziam querer me perder ali e nunca mais ser achada.
— Muito obrigado, Lady . Foi ótimo ter a companhia da senhorita, mesmo que por alguns minutinhos. Posso tratar de negócios com seu pai com mais tranquilidade. — ele disse, se afastando em seguida, segurando minha mão e dando um beijinho nas costas dela. Abaixei minha cabeça em cumprimento.
— Fico feliz em ter lhe acompanhado e espero vê-lo nas festanças. — ele soltou minha mão com um sorriso ainda mais gentil no rosto. — Tenha um bom dia, Henry.
Ele alargou o sorriso, vendo que eu tinha aceitado chamá-lo pelo seu primeiro nome, mesmo que eu tenha praticamente sussurrado. Não falariam bem se me ouvissem o tratando pelo primeiro nome. Assim que ele desapareceu pelo castelo, soltei todo o ar que eu tinha segurado e coloquei as duas mãos em meu peito, controlando minha respiração.
— Definitivamente, ele é o homem mais bonito da corte! — ouvi uma das minhas damas dizer e tive que concordar, mesmo que só para mim.

Feriados e festanças.

Um vestido vermelho, mas não tão chamativo, pois só a rainha podia usar um vestido chamativo e ousado. No caso, da cor vinho ou roxo, como um exemplo. Optei por usar um penteado deixando meu pescoço à mostra, o que estava me incomodando já. Mas Margaret insistiu, dizendo que eu tinha ficado estupenda. Meu pai não gostou muito da minha escolha e me obrigou a usar um colar de diamantes extremamente pesado, mas digno de alguém da realeza mesmo. Era um colar da rainha, o qual ele mesmo o ofereceu para que eu usasse e ainda me deu de presente de Natal.
A parte chata das festas era que todos que tinham sido convidados se apresentavam ao rei e davam-lhe presentes. Eu me sentava ao seu lado o tempo todo e a rainha do outro lado. Fiquei prestando atenção nos detalhes dourados do meu vestido. Eram linhas bem finas, que faziam flores quase imperceptíveis pela longa saia. Dessa parte, eu tinha gostado bastante. O decote tinha sido outra coisa exagerada. Quando eu respirava, conseguia ver o movimento dos meus seios. Isso deixava-me um pouco constrangida.
— Majestade, o Duque de Suffolk. — parei de respirar naquele momento. Apertei os braços da cadeira e levantei minha cabeça, o vendo fazer sua reverência perante ao rei e, depois, nos cumprimentando e sorrindo gentilmente para mim. Acabei retribuindo seu sorriso e pude ver a felicidade no rosto do meu pai ao ver seu amigo. Ele até tinha se levantado e havia ido abraçá-lo. Olhei para a rainha, que sorria também. Eu até gostava dela, sempre tinha sido muito boa comigo. Isso era uma tremenda sorte, porque, se não fosse por ela, talvez nem aqui eu estaria. Provavelmente, estaria passando o Natal com minhas damas de companhia naquela mansão tão fria e solitária.
— Chega de tantas formalidades, e que a festa finalmente comece. — o rei anunciou, batendo algumas palmas. — Música! — ele ordenou, então logo os músicos começaram uma melodia alegre e contagiante, fazendo todos começarem a dançar pelo salão. Então, a festa realmente começar. A pior e melhor parte era que, em todas as festas, o lugar ao meu lado pertencia ao duque. Ter sua presença era minha alegria, mas também o meu nervosismo, e eu tinha medo dele acabar percebendo o que causava em mim.
— Lady . — Henry me cumprimentou antes de sentar-se ao meu lado. Abri o sorriso para ele e virei-me um pouco de lado.
— Duque. — antes que eu fizesse meu cumprimento com a cabeça, ele estreitou os olhos, em um tom brincalhão por eu não ter o chamado com seu primeiro nome. — Henry, perdoe-me.
Ele sorriu e abanou o ar, não dando importância. Um servo se aproximou e o serviu de vinho. Acabei pegando uma taça também. Afinal, que mal poderia ter?
— Permita-me perguntar, mas cadê sua família? Sua esposa, seu filho, não vieram junto? — perguntei, segurando a taça dourada com uma de minhas mãos, mas a apertando enquanto sentia meu corpo se enfraquecer por estar olhando aqueles olhos tão pertos. Contudo, de repente, tinham ficado tristes.
— Não tenho respostas muito alegres para essas perguntas. Minha esposa e eu não vivemos mais juntos. Ela deixou-me já faz algum tempo e, consequentemente, levou nosso filho. — ele respondeu, abaixando a cabeça e bebendo um pouco do vinho. Tirei o sorriso do rosto e segurei em sua mão, o que o fez encarar a minha mão sobre a dele.
— Sinto muito em ouvir tais tristes notícias, Henry. Rezarei por vocês se reconciliarem e serem felizes novamente. — disse. Poderia parecer mentira, mas eu faria exatamente isso. Henry era bom demais para sofrer assim. Ele merecia ser feliz, e ter sua família de volta era a forma de trazer a felicidade.
— Muito obrigado por sua gentileza, Lady . Não mereço tal bondade e muito menos ser o motivo de suas orações. — ele colocou sua outra mão sobre a minha. — Receio que não adiantará, então lhe peço para que reze pelo bem de seu pai, nosso rei, para que ele tenha vida longa.
Mordi o canto da boca e assenti, sorrindo quando ele levou minha mão até seus lábios, a beijando. Não consegui me controlar e soltei o ar, que saiu em um tom de suspiro, o fazendo franzir o cenho. Tirei minha mão das suas e virei-me para frente, pegando meu leque e me abanando. Observei minhas damas de longe e onde a atenção delas se encontravam: o irmão da rainha, outro duque. , loiro e alto, musculoso e até bronzeado. Ele era extremamente belo como a sua irmã, a rainha. Não tinha nem como negar. Porém, também era casado. Sua esposa não tinha uma boa reputação, pelo que diziam, mas não parecia incomodá-lo. Eram um casal infiel um com o outro, conforme o que o povo costumava falar. Terminei de beber o vinho e decidi tomar mais um pouco. O doce da bebida estava me ajudando a festejar, mas não o bastante para fazer-me ir dançar.
— Henry, leve minha bela filha para dançar! — quase engasguei com o vinho ao ouvir a ordem de meu pai. Encarei-o, e ele dava risada enquanto bebia. A rainha ao seu lado também se divertia. Ainda confusa, percebi Henry se levantar e vir à minha frente, oferecendo sua mão. — Vá se divertir. Você é jovem e merece dançar muito. — mais uma vez, o rei disse, e eu não podia nem pensar em negar. Sorri para ele em agradecimento e, depois, voltei a minha atenção para o duque à minha frente, segurando sua mão e entregando a minha taça de vinho para o servo, que já se punha ali para recebê-la.
— Seu pai está certo, não dançar em uma festa como essa é quase um insulto. — acabei dando risada do que ele disse, o que o fez sorrir divertido.
— Gosto quando consigo te fazer rir desse jeito, senhorita. — senti minhas bochechas corarem, até as cocei com a outra mão que não segurava a dele.
— O senhor é muito gentil mesmo. — respondi, pigarreando e sorrindo brevemente. Ele sorria de uma maneira diferente, como se visse que minhas bochechas tomaram outra cor, pelo jeito.
Nos afastamos assim que chegamos no salão, ficando um de frente para o outro. Homens de um lado e damas do outro. Depois que eles fizeram o cumprimento, fizemos a nossa reverência. Então, levantei meu braço direito, e Henry fez o mesmo, quase nos tocamos, mas apenas deixando as palmas das nossas mãos uma em frente à outra enquanto girávamos em sintonia. Eu segurava meu vestido e o balançava conforme a batida divertida e alegre da música, mesmo que ela parecesse ficar um pouco lenta em algumas notas. Fizemos o mesmo movimento com nossas mãos esquerdas. Voltando à posição inicial, coloquei um de meus braços para trás e, com o outro, segurei o ombro de Henry, quando ele deu um passo à frente e quase se colou a mim.
Senti sua mão segurar minha cintura, mas com delicadeza. Eu quase nem a sentia ali, e isso tinha me deixado até um pouco frustrada. Isso só confirmava que ele me via como uma menininha. Desviei um pouco meu olhar do dele e respirei fundo, deixando-o me guiar na dança. Soltei seu ombro, deixando meu braço ao lado do meu corpo, e ele puxou-me para mais perto. Prendi a respiração, sentindo a dele bater contra meu rosto, não conseguindo evitar e encarando seus lábios.
Ele se inclinou mais para frente, me fazendo declinar. Deixei-o me segurar em seus braços enquanto ele abaixava meu tronco e dava a volta. Ele me segurava com apenas um braço, mostrando como era extremamente fácil fazer aquilo. Então, com leveza, me levantou de volta, sorrindo de lado. Pude ver que, em seu sorriso, havia malícia, e isso fez com que aquele calor que eu sentia quando o via crescesse ainda mais por dentro de mim, que acabava me molhando em partes íntimas. Eu sabia o quanto aquilo era errado, mas não conseguia evitar, até que reparei que seu olhar não era para mim. Acompanhei seu olhar até uma mulher muito elegante e muito mais velha do que eu. Ela devolvia seu olhar com uma piscada. Senti minha garganta secar e afastei-me dele, o fazendo me encarar, sem entender o que tinha feito.
— Eu preciso de ar. — disse, então saí correndo dali para os corredores, me jogando contra uma parede qualquer e tentando me esfriar no mármore gelado. Fechei meus olhos, pedindo a Deus forças, porque eu precisava, e talvez ar também, porque estava faltando. Assim como dizem que o coração é traiçoeiro, a mente também é. A minha, por exemplo, estava me traindo naquele exato momento, colocando imagens de Henry, do seu sorriso único e contagiante, além de extremamente excitante, se era essa a palavra certa. Quando ele sorria, sua covinha no queixo aparecia, deixando-o ainda mais bonito, e eu nem sabia se era possível. Sem falar dos olhos, tão azuis quanto o próprio oceano ou o céu no dia mais claro e sem nuvens. Sua voz grossa e rouca… Toda vez que ele dizia “Lady ”, eu conseguia sentir vibrações desconhecidas dentro de mim, mas que agora se tornavam constantes com a presença dele.
— Lady . — abri meus olhos e dei um pulo, quase gritando junto com o susto que eu tinha tomado. Era o Duque , irmão da rainha. — A senhorita está bem? Seu pai ficou preocupado com a maneira que a senhorita saiu do salão.
Engoli em seco e respirei fundo algumas vezes, dando risada do susto que ele tinha me dado. Ele ficou sem entender, mas tinha um sorriso no rosto.
— Estou ótima, só precisava de um ar. O vinho deixou-me com… — comecei a me abanar. — Calor! — soltei o ar que eu tinha segurado.
— Quer que eu a acompanhe até a varanda para tomar ar fresco? Admito que lá dentro está muito quente mesmo. — observei-o estender sua mão. Segurei-a e comecei a caminhar ao seu lado para uma das varandas mais próximas, não vendo a hora de sentir o vento gelado esfriar o fogo intenso que eu estava sentindo. Ele abriu caminho assim que chegamos para eu fosse primeiro. Estava tão abatida comigo mesma que esqueci até de agradecer. Fui direto para a bancada e apoiei meus braços ali, respirando fundo o ar frio, sentindo todo aquele calor ir embora aos poucos.
— Obrigada pela preocupação, Vossa Alteza. — virei meu rosto para encarar o loiro parado perto de mim. Ele sorria, mas não tinha entendido o porquê do meu agradecimento. — Eu sei que não foi meu pai que o mandou vir até mim. Ele é o rei e está preocupado se seus convidados de reinos rivais estão bem acomodados para talvez um possível tratado.
Apoiei minha cabeça em minha mão e parei de encará-lo, levando meu olhar para o céu, que não estava tão estrelado, mas estava perfeito. Ele estava escuro, só com alguns pontinhos brilhantes, e aparentava até estar triste, mas essa era a beleza, definitivamente.
— Seu pai se preocupa com a senhorita, mas não vou dizer que a senhorita esteja errada. O duque lhe fez algo durante a dança? — parei de encarar o céu assim que ouvi a pergunta e engoli em seco. Encarei-o e neguei com a cabeça.
— Não, muito pelo contrário, Henry… O duque não fez nada. Ele foi muito gentil em dançar comigo. Só estava sentindo calor mesmo, e ele não tem culpa alguma disso. — pelo calor, ele tinha toda a culpa do mundo, mas nem ele sabia disso. sorriu, assentindo com a cabeça.
— O seu pai nunca permitiria que ninguém nessa corte lhe faça nada que não a agrade, a senhorita sabe. — balancei a cabeça positivamente, abrindo um sorriso agradecido.
— Muito obrigada mesmo pela preocupação, Vossa Alteza. — fiz uma breve reverência e me afastei dele, segurando meu vestido e indo para a porta da varanda. — Com licença, mas acho que já estou melhor para voltar para a festa antes que meu pai dê minha falta realmente. — ele concordou comigo, e, assim que eu virei, o senti segurar meu braço. Arregalei os olhos com aquela atitude.
— Perdoe-me por isso, mas a senhorita me concederia uma dança? — olhei para sua mão em meu braço, e só aí ele a soltou. Engoli em seco e tentei não pensar em nada.
— Claro, Vossa Alteza. — sorri de lado e voltei para a festa sem esperá-lo. Saí da festa sem ar e voltei mais ainda. O que tinha de errado comigo? Peguei uma taça de vinho, bebendo de uma vez só e deixando o líquido me refrescar. Olhei pelo salão e notei Henry me olhar do outro lado. Seu olhar era preocupado. Desviei imediatamente, pousando a mão em meu peito e sentindo minha respiração se estabilizar.
Começou uma nova melodia, e posicionei-me ao no meio de outras duas ladies. estava na minha frente já, sorrindo gentil para mim enquanto fazia o cumprimento, assim como todos os outros. Segurei os dois lados do meu vestido e abaixei-me como reverência, então levantei meu braço direito com delicadeza com o toque da música. Ele deu um passo para frente e tocou minha mão com sua direita. Mordi meu lábio ao encontrar seu olhar em mim, sem nem sequer piscar. Giramos de um lado para o outro, e sorri gentilmente para ele ao ver que dançávamos em perfeita sintonia. Paramos um em frente ao outro e senti suas mãos em minha cintura, conduzindo-me de um lado para o outro. Um dos meus braços estava para trás e, o outro, ao lado do meu corpo. Balançava a cabeça conforme o lado para que íamos.
— A senhorita dança muito bem, Lady . — abri mais o sorriso ao escutar seu elogio, fazendo um meneio com cabeça.
— Obrigada, Vossa Alteza. — nos separamos e, então, nos cumprimentamos. Bati palmas junto com os outros e fiz outra reverência para ele ao seguir meu caminho.
Dei um beijo na rainha, desejando bons feriados e boa noite. Não tinha achado meu pai, então prossegui seguindo sozinha para o meu quarto. Os corredores estavam escuros e vazios, frios também. Comecei a subir as escadas para o meu quarto, mas, em dos corredores que ela levava, escutei murmúrios, gemidos, sussurros e respirações ofegantes. Já era o bastante para que eu nem me aproximasse, apenas seguisse o meu caminho. Entretanto, se tinha algo que eu era, com certeza era curiosa. Dei lentos passos por aquele corredor, vendo sombras. Mantive o silêncio para que eles nem reparassem em mim.
Então, reconheci Margaret, minha dama de companhia, jogada contra a parede, praticamente quase sem roupa, seus olhos fechados e gemidos saindo de sua boca. Um homem encontrava-se por baixo de suas roupas, fazendo exatamente o que se passava pela minha cabeça. Engoli em seco e mandei a mim mesma sair dali, mas algo me prendeu mais, querendo ver até o fim, sentindo minha pele se esquentar e meu corpo reagir ao pecado.
Ela gemia cada vez mais alto, dando-me prazer, até. Deslizei minha mão pelo meu vestido, sentindo o tecido macio estimular-me mais. Umedeci meus lábios e senti o vestido esquentar mais o meu corpo, que pegava fogo. Eu sabia o que estava sentindo, queria estar no lugar dela. Parecia que ela estava sendo transportada para outro lugar, e o que ela sentia parecia ser a melhor sensação que eu nunca pude ter.
Então, o homem saiu debaixo dela quando ela segurou um grito estridente. Arregalei meus olhos ao ver que era meu pai. Abri a boca surpresa, colocando a mão nela e vendo-os se beijarem tão selvagemente. Dei alguns passos para trás e voltei para as escadas, subindo-as rapidamente e correndo o mais rápido que conseguia até os meus aposentos. Chegando lá, pude finalmente me sentir mais aliviada, porém ainda estava com aquelas imagens na cabeça e me sentindo tão culpada quanto. O que estava acontecendo comigo?


2.

Era Ano Novo. Como se já não bastasse a festa de Natal, que foi bem… calorenta para mim, agora tinha a do Ano Novo. Papai fez questão de fazer no jardim do castelo, um dos jardins, o maior e mais bonito. Passei a tarde me arrumando, colocando um vestido claro, bege quase champagne. Dessa vez, optei por deixar meus cabelos soltos, em largos cachos, apenas com a frente presa para trás, deixando meu rosto à mostra. Um colar de pérolas, presente da rainha, e escolhi usar luvas também, brancas e delicadas. Desci com minhas damas e meus guardas até o jardim, que estava todo enfeitado e iluminado. Uma melodia prazerosa tocava e permitia que eu sorrisse, gostando da festa. Todos me cumprimentaram assim que eu ia passando até chegar onde meu pai e a rainha se encontravam. Ele sorriu e se levantou quando eu me aproximei.
— Minha amada, princesa . — ele segurou minhas duas mãos e beijou ambas.
— Majestade e amado pai. — sorri da mesma maneira, curvando-me perante a ele. Depois, peguei a caixinha das mãos de uma de minhas damas e o entreguei. — Um presente apenas para honrar o meu amor e respeito pelo senhor, mesmo que seja mínimo pelo tamanho dos meus sentimentos, querido pai e prezado rei da Inglaterra. — mantive meu corpo curvado em uma reverência e umedeci meus lábios. Ele abriu a caixinha, aceitando o tecido banhado a ouro. Então, veio até mim e beijou minha testa em agradecimento. Todos aplaudiram. Assim que recebi permissão e o convite dele para me sentar, o fiz, sentando-me ao lado depois de cumprimentar a rainha, obviamente.
Coloquei minhas mãos sobre meu colo, balançando a cabeça conforme a melodia que tocavam. Passei meus olhos pelo jardim, que parecia mais como o paraíso de tão lindo que se encontrava. Mesmo que automaticamente, tentei controlar-me com todas as minhas forças, mas meu olhar foi direto para Henry, que dava gargalhadas com algo que lhe contavam.
Mordi meu lábio inferior enquanto assistia cada gesto que ele fazia, como ele manuseava a taça até seus lábios, depois lambia os mesmos, me fazendo até suspirar baixinho. Forcei mais meus dentes em meu lábio, que já doía. Peguei o meu leque e comecei a me abanar, lutando comigo para desviar meu olhar dele e parar com aquele tipo de obsessão que eu sentia por ele. Nunca poderia ficar com Henry, e ele também nunca me olharia da mesma maneira. Poderia perder a cabeça caso olhasse. Mas era impossível parar de olhá-lo, aquelas mãos grandes, aqueles olhos tão azuis que deixavam o céu com inveja.
— Fica impossível de não se reparar nesses olhares tão desejosos para o duque, que tem a idade de ser o seu pai. — levei um susto ao ouvir a voz do duque , irmão da rainha, bem ao meu lado. Parei de me abanar e o encarei, franzindo o cenho e mostrando confusão no que ele tinha falado. O mesmo soltou uma risada e bebericou seu vinho. — Não negue e nem se dê o trabalho. Logo Henry notará também. Só espero que ele faça a coisa certa e não arrisque sua cabeça por causa de lindos olhos como os seus, Lady . — o fuzilei com o olhar, mostrando que não estava vendo graça no que dizia, mesmo que fosse óbvio que ele soubesse de tudo. Isso me fez questionar a mim mesma sobre as minhas atitudes tão previsíveis e notáveis assim.
— Deixe-me em paz ou a sua cabeça que rolará! — o ameacei, estreitando mais os meus olhos na direção dele, que riu e terminou de beber seu vinho.
— Posso até perder, mas a senhorita vai comigo e Henry também. Mas fique tranquila, princesa, o seu segredo está a salvo comigo. Só queria que a senhorita soubesse que eu sei e que você deveria ser mais cautelosa. — ele piscou um olho para mim, me fazendo revirar meus olhos e me levantar dali de uma vez. Corri em direção ao labirinto e não parei, sentindo até o ar faltar devido ao espartilho, que não me deixava respirar direito. Parei por causa dessa falta de ar, que só cresceu. Encostei em um arbusto que se fazia de parede naquele enorme labirinto. Coloquei a mão no peito, puxando o ar e sentindo meus pulmões se encherem, ficando mais aliviada. Escutei passos perto e fiquei parada em silêncio, então ouvi a voz de Henry, que fez meu coração se acelerar.
— Deixa-a em paz, . — virei de frente para o arbusto e coloquei minhas duas mãos nele, encostando meu rosto ali para ouvir melhor. Os dois estavam ali do outro lado, o que fazia uma ansiedade estranha crescer dentro de mim.
— Por que se importa tanto? E o que acha que estou fazendo? — rebateu. Podia sentir que ambos estavam ressentidos e com raiva.
— Ela é a filha do meu melhor amigo e rei, devemos respeito a ela! — Henry praticamente cuspiu as palavras, e riu.
— E eu a respeito, caro duque. Na verdade, estou me preocupando com ela e com os sentimentos dela. — respondeu, me fazendo franzir o cenho em total confusão com aquela resposta.
— Para de falsidades e jogos para cima de mim. Não nasci ontem e estou onde estou exatamente por isso. — sorri de lado pela resposta de Henry.
— Você está onde está por ser um tremendo puxa-saco do rei, Henry. — disse, usando deboche. Ouvi Henry o empurrar contra o arbusto, que vibrou com o choque, fazendo com que me afastasse.
— Cuidado com o que fala. O rei é meu melhor amigo e meu irmão. Você gostando ou não, ele me escuta. — dei mais um passo para trás e pisei em um galho, o quebrando e fazendo barulho. Bufei com isso e voltei a correr, desesperadamente e, agora, ignorando a falta de ar, só parando quando finalmente cheguei à gruta no meio do labirinto. Ela estava tão linda. Sorri e acabei subindo até o topo, podendo ver todo o labirinto e o castelo por inteiro, inclusive a festa, que estava perto, mesmo parecendo estar longe dentro do labirinto.
Encostei-me na parede de pedras, deixando a brisa me acalmar enquanto assistia à festa dali, até me esquecendo do que eu estava correndo. A gruta era um dos meus lugares preferidos, e fazia anos que não a via, mas logo despertei da minha calmaria quando ouvi alguém pigarrear atrás de mim. Deparei-me com Henry se aproximando com cautela.
— Sinto muito pelo duque tê-la importunado. — ele parou ao meu lado com a expressão preocupada.
— Está tudo bem. — respondi baixinho, envergonhada pela dúvida de que tivesse contado a ele.
— O duque não me contou o motivo da implicância com a senhorita, mas se for algo que eu possa ajudar, conte-me, que não hesitarei em ajudá-la. — ele disse, olhando-me e me fazendo me perder no azul de seus olhos. Sorri para ele tranquilamente, sabendo que meu segredo estava a salvo, pelo menos do motivo dele.
— Está tudo perfeitamente bem. Duque está confuso com o que anda ouvindo por aí, mas logo cairá em si. — respondi calmamente, olhando para a festa e vendo os fogos começarem. Soltei uma risada, empolgada de como aquela cena ficava linda dali de cima, e segurei o braço de Henry, em total animação. Ele abriu um sorriso enorme e esplêndido logo em seguida. Fiquei tão admirada com o sorriso dele que me perdi dos fogos enquanto o encarava, mas voltei a olhar a paisagem quando Henry desviou o olhar de mim para o céu iluminado pelos lindos e coloridos fogos.
— Feliz Ano Novo, . — ele disse, virando seu rosto para mim, me fazendo parar de olhar as luzes no céu e encarar a minha cor preferida, que pertencia aos seus olhos. Abri um sorriso amigável, ainda encarando seu rosto tão perfeito que fazia meu coração palpitar. Aquilo tudo era uma verdadeira droga para mim, mas era inevitável.
— Feliz Ano Novo para você também, Henry! — respondi.
Então, ficamos ambos encarando o céu e a festa em silêncio, mas aquele momento foi o meu mais feliz Ano Novo. Estava tudo perfeito, tudo tranquilo. Era uma paz que eu nunca conseguiria encontrar palavras para descrevê-la. Porém, foi a última vez que eu tive um sentimento como aquele. O ano que acabara de começar seria onde tudo mudaria.
O ano em que minha vida finalmente começaria uma série de aventuras, tragédias, guerras, luxúrias, desejos, prazeres e dor.
A minha vida estava só começando, e eu não fazia ideia de nada disso naquele momento. Tudo que me importava era o homem de olhos azuis ao meu lado, e ele seria a única coisa que me importaria por muito tempo.


3.

O assunto que eu seria colocada na linha de sucessão cresceu. Eu estava feliz com essa notícia, mesmo que não me importasse muito. Não sabia se seria uma boa rainha. No entanto, o que me preocupava mais era o olhar de desconfiança que eu estava recebendo da rainha naquele momento. Ela estava grávida de papai e, se fosse uma garota, eu roubaria o trono dela. E, se fosse um menino, ele teria que crescer primeiro para se tornar rei. Isso me incomodava, costumávamos nos dar bem, mas, depois daquela notícia, ela nem “bom dia” tinha me dado mais. Papai sabia que isso não a tinha agradado e, por isso, ele me enviou para passar alguns dias em outro castelo. O castelo, o lar de seu melhor amigo Henry.
Quando eu achava que finalmente poderia superá-lo, olha o que a vida tinha me reservado. Na casa do homem dos meus sonhos, o homem que nunca me enxergaria da maneira como eu o enxergava ou como eu queria que ele me olhasse. E esse desejo aumentava a cada dia que eu passava com ele, ordens claras de papai que o Duque ficasse em sua casa para que me protegesse em pessoa de qualquer perigo. Sabíamos que a rainha não tentaria nada, ainda mais na casa do duque, ainda mais também por papai estar de olho nela e por ele ser o próprio rei de toda Inglaterra.
Henry fazia questão de me buscar no corredor e me acompanhar até a mesa para tomarmos café juntos todas as manhãs. Ele sempre me contava suas aventuras e todas muito engraçadas, as quais me faziam dar boas gargalhadas. Até que, naquela manhã, ele soltou que adorava ouvir minha risada, era um tipo de paz para ele. Isso fez com que todo o ar que eu tinha respirado não parecesse o suficiente. Henry fazia isso com tanta facilidade, seus olhos azuis sempre que me olhavam tornava o ar que eu respirava praticamente impossível de respirar. Não acreditava que aquilo fosse possível, mas ele fazia ser.
— Sei que está sentindo falta de casa, logo você poderá voltar para lá. — Sorri para ele ao ouvir suas doces palavras, dando mais uns goles no meu café antes de colocar a xícara na mesa com delicadeza, mas também para não mostrar que eu tremia de puro nervoso ainda pelo elogio à minha risada.
— Gosto da sua companhia, duque. — comentei baixinho, vacilando em olhar para ele e já me recriminando por isso. Ele era perfeito, mesmo que a perfeição não existisse. Até a maneira como seus olhos azuis escureciam em ambientes com pouca luz e a maneira como eles chegavam a cintilar na luz do dia.
— É uma grande honra ouvir isso, princesa. — Ele abriu o sorriso fechado, fazendo um breve meneio. — Seu pai a ama muito, era de se esperar que logo ele a colocaria de volta na linha de sucessão. Independentemente de sua rainha gostar ou não da ideia, o trono é seu por direito. — Senti minha pele vibrar quando o senti segurar minha mão em cima da mesa. Meus olhos foram até os deles, ficando perdidos propositalmente naquele azul intenso.
— Há tantos anos que me acostumei a ser apenas a filha do meu pai, a princesa sem direito ao trono, que agora que eu posso ter acesso a ele… Soa estranho, parece apenas um sonho distante ainda, caro Henry. Mas o que me deixa tranquila e calma, até mesmo confiante, é essa confiança em mim. — Meus olhos desceram até sua mão na minha, mas ele a tirou logo em seguida, como se tivesse caído em si do que estava fazendo. Porém, quase pedi para que ele continuasse e com certeza eu acrescentaria um “por favor”. O toque dele era tudo que eu precisava e queria.
— O povo ama e confia em seu pai. Se ele desejar que você seja a rainha, o povo a amará e confiará na senhorita. — Meus olhos sorriram para ele, deixando também que o ar saísse entre meus lábios de maneira pesada e até esperançosa ao mesmo tempo. — Chega de assuntos sérios, o dia está lindo lá fora. Um dia ensolarado com direito a uma vista linda do jardim. — Ele se levantou, fazendo sua reverência de retirada. No entanto, fiquei um pouco surpresa ao ver sua mão estendida para mim, como um convite. — Gostaria de ter sua companhia daqui a pouco no jardim. Você me daria essa honra? — Mais uma vez, acabei me perdendo naquele tom de azul, que pareceu ficar até mais claro devido ao tom de sugestão.
— Com toda a certeza, vou apenas me arrumar. — Pisquei meus olhos, pigarreando baixinho e tirando um sorriso de seus lábios. Segurei sua mão, e ele me ajudou a me levantar, deixando um beijinho no dorso dela para depois se afastar e sumir entre os corredores. Margaret me olhou assim que a encarei no canto da sala de jantar. Inspirei profundamente e fiz o sinal para ela me acompanhar até meus aposentos.
Optamos por um vestido mais leve de cor bege, os cabelos presos devido ao sol, que parecia estar quente mesmo lá fora. No entanto, eu bem sabia que o calor que eu sentiria não seria exatamente do sol. Os olhos azuis de Henry conseguiam me causar um calor imenso, o qual eu rezava para que parasse. Era cruel pensar que o afeto que ele sentia por mim nunca seria o mesmo que eu sentia por ele. Sabia também que era errado da minha parte manter esses sentimentos por ele, mas já era algo incontrolável para mim. Os sentimentos eram como o tempo – a tempestade viria, quiséssemos ou não. O duque se encontrava no jardim, Margaret me acompanhava e segurava a sombrinha para nós duas.
— A senhorita acha que ele sabe? — A ouvi perguntar baixinho, o olhar dele se mantinha em mim e um sorriso lindo no canto de seus lábios. Engoli a seco e olhei para ela, querendo me fazer de boba, mas não faria aquilo.
— Espero que não. — Soltei o ar e devolvi o sorriso para ele, fazendo uma reverência quando me aproximei, mas ele a negou.
— Não precisamos mais disso, . — Aumentei o sorriso com um ar mais divertido e ele fez o mesmo, estendendo o braço para que eu o acompanhasse. Segurei meu vestido e, com a outra mão, seu braço, começando a caminhar lado a lado com ele. Observei como o jardim estava espetacular mesmo, o céu extremamente azul, tão clarinho que nunca pareceu que já tinha visto tempestades ou tempos cinzas. As flores ganhavam outras cores, outros brilhos, e tudo estava perfeito.
— Vem, quero te mostrar como o lago fica estupendo em dias assim. — Sua voz saiu mais rouca e mais baixa, um sorriso um tanto travesso em seus lábios, que fizeram os meus ganharem outro tom de sorriso. Gostando daquele tom, assenti rapidamente e permiti que ele me guiasse.
— Acredito confiantemente em você. — disse de forma confiante mesmo, mantendo o sorriso largo em meus lábios. Henry me guiava por dentro de um dos jardins, e era mesmo incrivelmente lindo, cada detalhe, cada lugar, as flores. Mas era mais incrível ainda o fato dele ser a mais bela paisagem de tudo.
— Confia fácil assim mesmo? — o ouvi me provocar e ri de um jeito bom, leve e até alto, notando-o me encarando com um sorriso que… Deus!
— Tenho motivos para desconfiar? — questionei, rindo fraquinho.
— Espero que não, milady. — disse todo galanteador, me fazendo morder de leve meu lábio inferior e sorrir de lado.
Então, chegamos ao lago, o que me fez soltar um longo suspiro por ser exatamente da forma como ele tinha dito. Era lindo. Estupendo da forma como ele narrou, a cor dele combinava perfeitamente com o verde forte que havia à sua volta. O sol quente batendo e o banhando, fazendo a água parecer mais graciosa do que já era. O sorriso em meus lábios ficou ainda maior. Senti meu peito subir e descer daquela forma pesada por estar literalmente sem ar com aquela visão.
— Era esse brilho nos olhos que eu queria ver mesmo. — Henry comentou, me fazendo encará-lo logo em seguida, deixando o brilho em meus olhos transbordarem de forma intensa enquanto mergulhava em seus olhos azuis. — A forma como a senhorita me olha é… — ele começou. Seus olhos desceram por meu rosto, e eu perdi mais o meu fôlego, senti as pernas até fraquejarem.
Quando dei por mim, aquela falta de forças me fez perder o equilíbrio, e meu corpo foi para trás. Eu tentei segurar em Henry, mas acabei o puxando junto de mim e ambos caímos com força e profundidade dentro daquele belíssimo lago. Céus! Aquele era o momento perfeito para um possível afogamento, não é mesmo? Que vergonha! Meu Deus do céu! Que momento mais embaraçoso.
Puxei meu cabelo todo para trás e encarei o belo homem à minha frente. Seus olhos imensa e incrivelmente azuis me encaravam em surpresa, então levei minhas mãos para meu rosto, cobrindo minha boca com extrema vergonha. Porém, obviamente que meus olhos me traíram. Quando dei por mim, encarava aquele peitoral todo molhado com a camisa grudada, que marcava perfeitamente seus músculos. Sabia que não deveria olhar para Henry daquela forma, mas não conseguia evitar. Não sabia nem por onde ou quando havia começado olhar para ele daquele outro jeito quando ele sempre foi como um segundo pai para mim. Era um pecado? Seria punida por isso?
De fato que sim. Papai jamais permitiria se soubesse.
Então, quando fui realmente pedir perdão para o duque, ele simplesmente soltou uma gargalhada extremamente inesperada. Aquilo me fez abrir mais os olhos, completamente catatônica em vê-lo rir tão alto, e ainda mais uma risada absolutamente gostosa. Céus! A risada dele era perfeita, assim como ele inteiro. Henry até mesmo jogou sua cabeça para trás, gargalhando mesmo e jogou água em mim no instante seguinte.
— Ora, duque! — Soltei, devolvendo, jogando mais água em seu rosto e tirando mais risadas dele.
— Estava mesmo pensando em mergulhar hoje. Parece que leu minha mente, Vossa Alteza. — riu ainda mais, negando com a cabeça e passando os dedos em seus fios escuros. Adoraria saber como seria a sensação de tocar naquele cabelo, puxar uma mecha para trás.
— Então, de nada. — respondi, dessa vez rindo juntamente dele, ouvindo nossas risadas se misturarem.
— Receio que, com essa quantidade de roupas, a senhorita também estava pensando que um mergulho seria o essencial, praticamente a solução para o calor que estava sentindo. Certo? — brincou, sorrindo agora de um jeito que… roubou meu fôlego.
— Com certeza, o banho no lago com o vestido e tudo era o que estava em mente o tempo todo. — comentei com o mesmo tom de brincadeira, tirando um riso leve de nós dois ao mesmo tempo.
— Quando você era criança e sua mãe… Bem, você sabe. Estava no castelo com seu pai, tivemos uma tarde como essa onde você teve esse mesmo acidente. — contou com um tom de voz extremamente leve e nostálgico.
— Lembro-me que derrubei meu pai no lago e todos ficaram assustados porque o rei tinha caído. — completei, rindo um pouco ao lembrar daquilo também.
— E o rei acabou molhando a todos que estavam em sua volta com a sua ajuda. — riu um pouco mais, me olhando com mais admiração nos olhos, e eu senti meu ar ser preso.
— É uma das minhas melhores lembranças. Das poucas. — Minha voz diminuiu o tom, meus olhos caíram para a água e eu soltei o ar pesadamente.
Então, senti os dedos de Henry no meu queixo, fazendo com que meu rosto se erguesse e meus olhos encontrassem os seus tons azuis, que estavam mais claros devido ao sol, que clareava toda aquela área. Seus lábios formaram um doce sorriso, seus olhos presos nos meus por aqueles segundos, em que minha respiração foi presa automaticamente devido à sua aproximação. Sim, ele estava perto. Perigosamente perto. Quase perdi novamente as forças das minhas pernas quando vi seus olhos parecerem desenhar cada detalhe do meu rosto, decorando cada traço, até mesmo parar em meus lábios, e rapidamente seus tons azuis subiram até encontrar meus olhos de novo.
— Você se tornou uma linda mulher, Lady . — Sua voz saiu levemente rouca, em um timbre que fez até mesmo um arrepio intenso percorrer toda minha espinha. — Irá se tornar uma grande monarca, uma excelente líder. Sempre serei seu fiel súdito. — comentou mais baixo e extremamente mais sério.
— O senhor sempre terá minha confiança, apreço e carinho. — sussurrei, unindo as sobrancelhas e encarando seus olhos com muito mais profundidade. — Porém, tenho receio de que não sobreviva até realmente me tornar a rainha. Afinal, ainda não estou oficialmente na linha da sucessão, e a rainha no momento não quer nada disso. Ela vai dar um herdeiro ao meu pai e ele será o rei. — disse por fim.
— Desejo vida longa e próspera ao seu pai, Lady . Mas desejo o mesmo para a senhorita. — Foi o que respondeu também, mas não se afastou. Senti seus olhos queimarem minha pele um pouco mais naquela proximidade ainda perigosa.
— Alteza! Venha, deixe-me te ajudar, trouxemos toalhas para se secarem. — uma de minhas damas de companhia apareceu desesperada com toalhas para nos secarmos, e Henry sorriu divertido. Porém, se afastou no instante seguinte, saindo da água, e estendeu a mão para me ajudar.
— Obrigada. — agradeci com um sorriso gentil nos meus lábios, segurando sua mão forte e até mesmo respirando fundo. Imaginei aquela mão em minha cintura, assim como ele segurou em nossa dança.
Santo Deus, , pare de pensar nessas coisas!
Henry sorriu assim que me puxou para fora do lago, então minha dama de companhia me enrolou com aquele pano para me secar, também me abraçando com seus braços para guiar-me de volta à mansão do duque, dizendo que iria preparar um banho bem quente e relaxante para mim. Mas enquanto ela falava, virei meu rosto, olhando por cima de meu ombro para o duque de olhos azuis, vendo que ele me encarava de volta. Era pedir muito que aquele olhar para mim tivesse as mesmas intenções que eu tinha com ele?
Sabia que era, sim, pedir muito, já que se meu pai descobrisse algo do gênero, talvez Henry pudesse perder sua vida. Poderia ser considerado traição, porque também eu seria prometida para a realeza, somente a realeza. Outro medo que afligia meu coração era exatamente esse. Meu pai decidir me entregar a outro reino, fechando alianças, me protegendo da minha madrasta e também já me tirando da linha de sucessão daqui. Se ele decidisse isso, não saberia o que fazer para fugir.

[...]


Meus olhos se abriram no meio daquela madrugada. Meu corpo suava, o lençol pregava em minha camisola grudada em meu corpo. Não iria conseguir dormir naquele estado. Tirei tudo que me cobria e me sentei na cama, olhando em volta naquele quarto escuro. Respirei fundo e segui meu caminho até uma bacia de água, na qual enxaguei meu rosto e molhei um pouquinho do meu cabelo. Em seguida, vesti algo mais adequado por cima da camisola e decidi sair do quarto apenas para buscar água e tomar um ar fresco.
O solado da sapatilha apenas encostava a madeira enquanto eu dava passos extremamente leves pelos corredores daquela enorme mansão do duque, ainda me sentindo levemente envergonhada pelo que aconteceu pela tarde. Céus, se o meu pai tivesse visto uma cena daquelas, estávamos ambos encrencados. Porém, a verdadeira encrencada da situação toda era apenas e somente eu mesma. A cada segundo que passava perto de Henry, parecia nutrir aquilo que vinha crescendo dentro de mim. Uma admiração extremamente perigosa. Sentia pavor de um dia ele descobrir por alguma falta de controle que viesse de mim.
Soltei o ar de forma extremamente pesada quando parei na cozinha, pegando um pouco de água que tinha na jarra, bebendo uns bons goles e pensando seriamente em jogar o restante no meu rosto. Mas não haveria necessidade, a porta da cozinha estava aberta. Então, apenas saí para o jardim de trás da casa, sorrindo de forma fechada ao assistir como a lua cheia refletia aquele campo perfeito. Mordisquei meu lábio inferior, encostando minha cabeça no batente da porta mesmo, enquanto meus olhos se fecharam e foram diretamente àquele homem de olhos azuis.
Seus lábios entreabertos, sua respiração completamente quente contra a minha, sua pele clara encostada na minha. Aquele calor cresceu por dentro das minhas roupas, por baixo do meu vestido, como uma chama quente que percorria todo meu corpo, principalmente minhas coxas. Aquela chama lambia a parte interna das minhas pernas até atingir aquela área mais frágil e sensível. Suspirei forte com o calor intenso que roubou meu fôlego. Será que sentir os lábios do duque me provocaria sensações como aquela?
Oh, não! Seriam ainda mais intensas.
Abri meus olhos no mesmo instante quando um barulho estrondoso e ensurdecedor veio do leste, fazendo-me dar passos para trás e, ao mesmo tempo, congelar por causa dos barulhos que estavam vindo de todo lado. Tanto dentro do castelo como fora dele. Olhei em volta do campo e acabei vendo movimentações. Aquilo foi o bastante para que eu corresse para dentro da mansão. Tropecei na própria barra da camisola e fui direto ao chão, parando no corredor, e aquilo me fez grunhir baixo, em total desespero. Agora, gritos ecoavam de dentro do castelo, passos apressados, e eu estava começando a entrar naquele estado de pavor absoluto.
Consegui me levantar e correr pelo corredor, pegando um castiçal para poder iluminar enquanto sentia os batimentos do meu coração aumentarem de intensidade e velocidade. Estava perdendo o fôlego, mas meus olhos estavam focados apenas no caminho que tinha na minha frente. Deveria ir para o meu aposento, sabia que lá tinha uma passagem secreta e eu poderia me esconder nela até aquele possível ataque acabar. Mas, mesmo assim, meu peito estava apertado, porque estava preocupada com o duque. Aquilo era um ataque direcionado a… mim. Claro que era, eles ficaram sabendo do meu paradeiro.
Oh, céus! E Henry? Será que sobreviveríamos?
Assim que virei no corredor do meu aposento, corri o mais rápido que pude, mas fui interceptada por um homem mascarado. Soltei um grito a pedido de ajuda e, quando o mesmo tentou se aproximar, bati em seus braços com o castiçal, usando toda a minha força, aquilo fez a faca em sua mão cair no chão. No instante seguinte, o bati mais algumas vezes com aquele objeto, que estava basicamente sendo meu salvador. Então, quando o homem deu uns passos para trás, parecendo se recuperar, joguei o objeto nele e voltei pelo mesmo caminho, correndo pelos corredores em desespero, procurando um lugar para me esconder.
— Deus! — soltei em um berro quando virei a curva do corredor e alguém me puxou pelo braço, tampando minha boca e me jogando contra a parede.
Ele também estava mascarado, seus olhos intensos nos meus, sua mão tampando minha boca. Estava ofegante e apavorada. Meus olhos extremamente focados naqueles orbes, que estavam extremamente dentro dos meus. Era como se ele estivesse lendo minha alma, conhecendo meu medo e se alimentando dele. Mas, mesmo assim, não fez nada para me atacar ou me machucar. Apenas continuou me encarando e tampando minha boca.
Soltei meu ar contra a mão daquele homem e, então, ele se afastou apenas um pouquinho. Sua outra mão foi até seu rosto, e ele tirou sua máscara. Arregalei mais os meus olhos ao ver que era…
— Duque . — sussurrei, abismada.
— Você precisa sair daqui ou morrerá. — foi o que saiu de seus lábios.
O irmão da rainha queria me salvar?


Continua...



Nota da autora: Primeiramente, mil desculpas pela demora e sei que não tem perdão. Mas queria entregar um capítulo legal para vocês e eu tive um bloqueio com Blood Royals devido à me enfiar em vários ficstapes e especiais mesmo kkkk. Mas espero realmente que tenham gostado e me perdoem!
Aproveitem e deem uma olhada na minha nova longfic em parceria com a Jaden Forest.







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One Impasse – Restritas/Cantores/Em Andamento



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