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Última atualização: 01/09/2020

01. It's just a spark, but it's enough to keep me going

Aquela vista era admirável. As nuvens passavam de forma rápida e singela do outro lado da janela. O azul de todo o céu a deixava mais tranquila e fazia com que não lembrasse que estava em um avião. tinha medo de aviões. Na verdade, não deles, mas da altura. Era tão irônico, porque quanto mais alto o avião estava, mais a paisagem era bonita e mais a mulher queria olhar.
Respirou fundo, encostando a cabeça na janela arredondada. Os dedos batucavam em sua coxa, em uma tentativa falha de controlar a ansiedade. A morena não sabia exatamente o que estava sentindo. Nervosismo, ansiedade, medo... Ela estava sozinha. Sem sua mãe e sua irmã. E não fazia ideia de como sua vida seria agora, a partir de quando descesse daquele avião. Ela só tinha a mochila, algumas roupas e um celular quase sem bateria. Ah, e algumas barrinhas de cereais que havia separado como aperitivo durante toda a viagem.
Enquanto o avião passava novamente por algumas nuvens, parou para refletir um pouco. Não iria ficar na casa de nenhum parente, até porque não tinha algum que morasse em Londres e as únicas libras que tinha em sua carteira eram para cobrir poucas despesas. Sabia que logo teria de arrumar algo para se sustentar. Balançou a cabeça veemente, tentando, naquele momento, não se lembrar do enorme problema que teria pela frente.
Com isso, virou seu rosto para a paisagem e seus olhos se arregalaram com tamanha cidade abaixo de si. Ela estava em Londres!
Passou os olhos por cada lugar, cada bairro que poderia avistar da distância em que estava. Pôde avistar o London Eye, os carros parecendo miniaturas em todas as ruas, as árvores colorindo o Hyde Park. Olhou mais à frente e estreitou seus olhos. Conhecia àquele lugar. Claro! O Big Ben. Sorriu com toda àquela vista. O lugar era maravilhoso e a morena só conseguia lembrar de todas as vezes que sonhava em estar ali e de sua felicidade ao finalmente ter conseguido juntar dinheiro, no começo, para comprar a passagem.
Agora, depois de tanto tempo de espera e de horas sentada na mesma poltrona, estava se preparando para esperar o avião pousar e podia sentir seu coração tamborilar dentro de seu peito.
— Certo. Respire, . — disse, em um sussurro para si mesma. Sentiu o balanço do avião ao encostar no chão e fechou os olhos rapidamente, abrindo-os em seguida. Olhou em volta, avistando as pessoas tirando seus cintos e fez o mesmo, mas com um pouco mais de calma. Suas mãos trêmulas a impediam de fazer o ato com mais agilidade.
Ouviu a voz da aeromoça anunciando o fim da viagem e se levantou, pegando sua enorme mochila em cima do bagageiro. Uma pequena fila havia se formado em direção à escada. Ao ver alguns passageiros começando a descer, sentiu seu estômago embrulhar com a ansiedade. Era óbvio seu desespero por descobrir a cidade e estava começando a ver que as pessoas à sua volta estavam começando a notar. Assim que chegou sua vez, olhou escadaria abaixo, dando um pequeno sorrisinho. Era ali que começava sua nova jornada.
Desceu vagarosamente, sentindo o peso de sua mochila nas costas. Não via à hora de se sentar em algum lugar confortável e descansar devidamente. Pôs os pés no solo londrino e percebeu que até o ar parecia diferente. Passou por uma das aeromoças que estavam ali e recebeu um sorriso aberto em cumprimento. Era incrível como tudo era diferente, até a forma hospitaleira das pessoas.
Caminhou para a parte interna do aeroporto e suspirou. O frio na espinha tomou conta de todo o corpo da garota, dando calafrios. Ela não fazia ideia para onde iria agora, muito menos por onde começar. Ninguém estava aqui para dar as boas-vindas e a receber com um abraço apertado, assim como alguns em volta faziam. estava sozinha, completamente sozinha.
Olhou para os lados, avistando um jovem vendendo o mapa da cidade, então logo se adiantou, comprando um. De todas as opções, o trem ficava mais perto e seria mais rápido para chegar ao centro da cidade. Em seguida, dobrou o mapa cuidadosamente e o guardou no bolso da calça jeans, pronta para seguir seu novo destino: o terminal. Vários táxis estavam estacionados em fila indiana, esperando seus passageiros. Ela teria que andar um pouco até a linha, assim pouparia um pouco mais de dinheiro. Puxou seu celular e a bateria piscava, avisando a falta do carregador. tinha seu carregador na mochila e o que faltava, no momento, era uma tomada para pôr o aparelho para carregar.
Havia saído do aeroporto há pouco mais de uma hora e ao final já conseguia ver a Estação Paddington, assim se apressando e indo até o guichê. Ao comprar a passagem, soube que o trem logo sairia. Seguiu pelo terminal, avistando seu trem a ponto de partir e entrou, logo achando seu assento ao lado da janela. Não queria perder um segundo sequer de seu primeiro dia. Em poucos minutos, já podia perceber o transporte em movimento, indicando a ida para a cidade. Olhou para o lado, vendo algumas árvores passarem devagar, assim como os prédios e algumas casas. Era uma vista maravilhosa.
Ergueu seu olhar, vendo o céu, que antes era azul e agora estava cinza, e o vento gelado começava a adentar pelas janelas do vagão. Colocou sua mochila na cadeira ao lado, tirando dali sua touca preta e a ajeitou na cabeça. Assim, se aqueceu um pouco mais. Ao encostar suas costas na poltrona estofada e confortável do trem, pôde avistar a cidade se aproximando vagarosamente e seu sorriso foi crescendo pouco a pouco em seu rosto. Era final de tarde em Londres e a paisagem parecia mais uma cena de filme. Pegou rapidamente seu celular de um de seus bolsos e apontou em direção ao céu e à cidade, mas o pouco de bateria que tinha havia dado para apenas um clique. O aparelho havia descarregado.
Que sorte! Pensou a mulher, jogando o aparelho de qualquer forma na mochila e cruzou seus braços, de forma emburrada. Balançou sua cabeça e sorriu, àquilo não iria desanimá-la. Não naquele lugar!

✈️🎡


O embalo do trem parando fez com que despertasse de seus devaneios e começou a ajeitar sua mochila nas costas, pronta para descer, assim seguiu para porta de saída. Assim que pisou a plataforma, olhou ao redor, se dando conta de que já estava no centro de Londres. Caminhou quase dando uma pequena corrida até a rua mais próxima e se deparou com a movimentação dos carros, ônibus, motos e até mesmo bicicletas. Era tudo tão real para ela.
Já na calçada onde se encontrava, mal conseguia ficar parada. Todas as pessoas passavam por ela como vento e algumas esbarravam sem se desculpar. Chegou para trás, encostando seu corpo na parede de uma das lojas que se encontravam pelo centro. Respirou fundo e, mesmo estando um pouco nervosa, tentaria se situar. Primeiro teria que saciar sua fome. estava faminta.
Olhou para o outro lado da avenida e seguiu até a lanchonete, passando por toda a carraria mesmo aquilo sendo uma loucura. Alguns buzinaram e outros passavam por ela resmungando algo que a garota não conseguia entender. Fez uma careta e entrou na lanchonete, ouvindo aquele famoso sininho tocar assim que abriu a porta. Deixou um sorriso escapar, era mais uma daquelas cenas de filmes. Clichê até demais. Avistou várias pessoas lanchando nas mesinhas coloridas ao redor e procurou alguma vaga para se sentar. Como só havia espaço no balcão, se aproximou, sentando-se em um dos bancos e avistou a garçonete, com suas mechas loiras, se aproximar com um sorriso no rosto.
— Oi, boa tarde! O que vai querer? — puxou o bloco branco do bolso do avental junto à caneta e sorriu alegremente. A menina do outro lado parecia bem confortável ao trabalhar no local.
— Um sanduíche e um suco, por favor. — sorriu tímida ao pedir. Assim se permitiu olhar em volta. O lugar era bonito e aconchegante, as pessoas pareciam gostar dali.
Olhou para a janela ao seu lado e observou a movimentação do lado de fora, algumas pessoas apressadas, provavelmente indo para seus trabalhos ou casas, já que logo escureceria. Abaixou seu olhar, sentindo uma leve pontada de saudade de sua casa e sua família. Estando ali agora, e sozinha, se deu conta de como estava com saudade do Michigan. Mal sabia como sua mãe e sua irmã estavam naquele momento.
Balançou a cabeça veemente e se deparou com um pequeno mural do outro lado do balcão. Com um pouco de dificuldade, estreitou os olhos e percebeu que havia um anúncio preso ali. Esticou o corpo para entender melhor o que estava escrito e quase conseguiu derrubar os copos com a voz feminina ao seu lado.
— É um anúncio sobre aluguel de quartos. — ouviu a loira comentar, depositando o prato e o copo de suco em cima do balcão. Olhou-a seguir até o mural e arrancar o papel, o lendo e a entregando. — Parece que alguém está alugando por um preço bom. Você quer ver?
— Quero sim, por favor. — a morena pegou o papel um pouco amassado da garçonete e o leu. Era um preço ótimo e ela poderia pagar por dois dias, no mínimo. Sorriu de forma agradecida, pelo menos teria um lugar para dormir. Dobrou o papel e o guardou. Assim que saísse, procuraria o local.
Continuou ali por algum tempo, tomando seu suco, abocanhando seu sanduíche com calma e assim observou a cidade pela janela de vidro. Com sua distração, nem percebeu quando a mulher do outro lado do balcão a observava de forma divertida.
— Você não é daqui. É? — perguntou.
— Não. Sou de Michigan. — tomou mais um gole do suco. — Por quê?
— Bom, você é educada e tem um mochilão. — apontou para a mochila próxima aos seus pés. — O que faz em Londres? Desculpe a intromissão, você parece um pouco perdida.
A mulher soltou uma risadinha e a acompanhou, desviando seu olhar.
— Para falar a verdade, eu nem sei. Sempre foi meu sonho conhecer a cidade. Só arrumei minhas coisas e tomei coragem para vir.
— Ah, entendo. — se ergueu para atender outro cliente. — Só um segundo.
A morena balançou sua cabeça, assentindo e terminou de fazer seu lanche, sentindo sua energia voltar aos poucos. Antes de se levantar e se despedir da atendente que havia sido super simpática com ela, pegou novamente o anúncio e tentou ler o endereço, mas não fazia ideia de onde ficava. Desceu do banco, arrumando suas coisas.
— Você já vai? — a loira perguntou, fazendo-a levantar o olhar. Assentiu com um pequeno sorriso. — Eu saio em cinco minutos. Se me esperar, posso te levar até o apartamento.
— Tudo bem, eu espero sim.
olhou para o lado e, como iria esperar pela garota, sentou-se a uma mesinha ao fundo para dar lugar a algum novo cliente que entrasse. Aproveitou que estava por ali e procurou por alguma tomada próxima, mas não havia nenhuma. Seu celular ainda continuaria morto por um tempinho. Tirou a touca para ajeitar os cabelos e percebeu a mulher saindo enquanto colocava sua bolsa no ombro. Olhou para a outra e apontou com a cabeça para a saída do local.
Já na calçada e como a movimentação das pessoas já havia diminuído, as duas seguiram em direção à praça mais próxima e continuaram caminhando por ali. não fazia ideia de onde estava, só tinha certeza de que estava seguindo uma garota que não parava de falar um segundo sequer. O que era engraçado, já que se não fosse por ela, a garota estaria acabando de se ajeitar em uma calçada qualquer.
— E então, eu estou ajudando uma garota que mal sei o nome. — disse, e em seu rosto havia um sorriso amigável. A morena sorriu em resposta.
— Bom, eu que devia dizer isso, não? Estou seguindo uma garota que não sei o nome. — a imitou. Com isso, abraçou seu corpo, sentindo o frio tomar conta e apertou o casaco em si mesma. — Pode me chamar de .
— Certo, . — repetiu o nome da garota e riu consigo mesma. acompanhou sua risada, achando aquela menina até divertida. — Sou Anny. E é aqui que você fica.
A morena parou de frente para o pequeno prédio e observou os andares do lugar, vendo alguns acesos. Respirou fundo e curvou os lábios em um meio sorriso, virando novamente para a garota ao seu lado. Naquele momento, ela havia murchado um pouco ao perceber que ficaria sozinha mais uma vez. Tinha acabado de conhecer Anny e ela parecia ser uma ótima amiga.
— Eu nem sei como te agradecer. — relaxou seus ombros. — Obrigada, de verdade. Se não fosse por você, eu nem sei o que estaria fazendo agora.
— Não precisa me agradecer. Sério. — balançou as mãos. — Vamos fazer assim, se precisar de mim, é só me ligar. Eu tenho meu número anotado aqui, pode pegar.
Puxou sua pequena bolsa, vasculhando-a e tirou o pequeno pedaço de papel branco. Estendeu-o e sorriu em despedida, se virando para ir embora. encarou os números, colocando o papel dentro do bolso de seu jeans surrado e assim entrou no edifício. Na recepção, havia um senhor de idade, sentado com um jornal nas mãos. Parecia concentrado.
— Em que posso te ajudar, minha jovem? — ergueu seus olhos abatidos e sorriu reconfortante. Por um instante, a morena sentiu seu coração aquecer com aquele gesto familiar.
— Eu preciso de um quarto. Se não for pedir muito, o mais em conta que tiver, por favor.
Deu um pequeno sorriso amarelo e se aproximou do balcão. Odiava estar naquelas condições, sentia que a qualquer momento iria depender de alguém e aquilo, para ela, era o cúmulo. Era triste.
— É nova na cidade, sim? — comentou, indo até o mural repleto de chaves. Tirou um par de chaves com uma etiquetinha preta e estendeu. — Não é nada luxuoso. Você poderá passar a noite, ou quantos dias quiser.
— Está ótimo. Muito obrigada. — sorriu abertamente e tirou sua mochila das costas para efetuar o pagamento da estadia. Iria começar a contar suas libras, mas parou assim que viu o senhor estendendo suas mãos, como se negasse aceitar.
Estreitou seus olhos.
— Não, querida. Não precisa se preocupar com isso agora. Vá descansar e quando estiver de saída, poderá acertar comigo. — deu uma piscadela e apontou para a escada que dava acesso aos quartos disponíveis. A garota soltou todo o ar e balançou sua cabeça, assentindo e indo descansar devidamente. Ela não sabia o nome daquele senhor, mas o viu tão educado e gentil que só sentia vontade de abraçá-lo pela bondade com ela.
Já no corredor, colocou a chave na maçaneta e adentrou o quarto. Ao trancá-lo, permitiu-se encostar na porta e escorregar até cair sentada no chão.
estava exausta. Cansada, com sono e principalmente com saudade de casa. Sentia que estava perdida, sem rumo e começava a achar que não havia feito o certo em largar tudo para trás e seguir naquela viagem. Seria difícil se refazer ali, em outro estado, sozinha.
Ao estar ali, sentada, observou atentamente o quarto em que estava. Era pequeno, aconchegante e bem arrumadinho. Havia uma cama com um criado mudo no canto, uma janela com um móvel embaixo que continha uma televisão em cima e uma portinha em frente à cama, onde provavelmente daria para o banheiro. Com aquilo, deu impulso com seus braços e se levantou, caminhando em direção à cama e depositando ali sua mochila nada leve. Retirou a toalha de banho e uma muda leve de roupa, pronta para um banho. Respirou fundo. teria que pensar bem em como iria começar a fazer as coisas para não acabar na rua. Com poucas mudas de roupa na mochila, poucas libras, não sabia ao certo como iria ser.
— Será que isso tudo realmente foi uma boa ideia? — lamentou, em um sussurro para si mesma.
Com o pouco de ânimo que tinha, deixou o corpo cair sobre a cama arrumada e sentiu algumas lágrimas aquecendo suas bochechas geladas pelo frio daquela noite. estava com medo, muito medo. Medo de como iria ser, medo de acabar com fome e com frio, sem um lugar para dormir. Medo de tudo dar errado e ter que voltar para Michigan, frustrada por seus planos irem por água abaixo. Ela só precisava do abraço reconfortante de sua mãe, Lenna, agora. E se tudo aquilo fosse um pesadelo, só desejava acordar.
Fungou algumas vezes e enxugou as lágrimas que caíam teimosas por seu rosto. Não. Ela não podia se permitir continuar pensando tudo aquilo. Havia ido para Londres com um propósito de que, além de conhecer a cidade, iria se reinventar ali. Iria crescer ali e dar um futuro melhor para sua família.
Balançou sua cabeça, um pouco mais animada e afugentou todo e qualquer tipo de pensamento ruim. Pegou suas roupas e seguiu para o banheiro, querendo, naquele momento, um bom banho e um descanso devido. Afinal, tudo aquilo estava apenas começando e ela tinha certeza de que iria fazer suas melhores lembranças na cidade da Rainha.


02. Maybe getting lost is the right way to start

O dia seguinte após ter chegado à Londres havia passado rápido. havia aproveitado para descansar devidamente e fazer seu pequeno roteiro, pontuando todos os lugares que iria visitar e apreciar devidamente. Aproveitou para arrumar suas coisas, de forma que sua mochila ficasse mais leve. O que, de fato, não aconteceu. Não iria poder deixar suas coisas naquele quartinho, já que logo deixaria o hotel.
Revirou o corpo na cama macia e desarrumada, tomando coragem para se levantar. Enquanto estava ali parada, observou o raio de sol acima de sua mão, este adentrava entre a fresta da janela e da cortina fina. O pequeno ato fez a garota sorrir abertamente. Só de lembrar que agora era oficial e ela realmente estava em Londres.
era sonhadora. Desde pequena, sempre gostou de imaginar o que faria quando conseguisse sair do Michigan. Como vinha de uma família humilde, não tinha a regalia de ter um notebook ou um celular bom para que pesquisasse sobre os países encantados de que tanto ouvia falar quando mais nova. Se lembrava bem que em sua escola havia um globo e ela vivia rodopiando o objeto com os dedos, como se aquilo a fizesse ficar mais próxima de cada cantinho no mundo. Rodopiava decorando alguns nomes, alguns lugares que ela julgava que fossem bonitos.
Mas foi só ter acesso a algo melhor, que pode se apaixonar perdidamente. Se apaixonou assim que descobriu Londres. Assim que entrou no Maps e pôde ver detalhadamente as ruas, os bairros e as atrações do lugar. sabia que aquela seria sua primeira parada e, talvez, única.
Fechou seus olhos por um breve momento e suspirou. Suas lembranças eram nostálgicas, a fazendo lembrar de casa, mais uma vez, e de sua família. Ter deixado sua mãe e irmã para trás era o que mais apertava em seu peito, mesmo sabendo que Lenna havia sido o motivo de toda a motivação. Sua mãe sempre desejou o melhor para si e para Madison, sua irmã.
Ela não estaria ali se não fosse pelas duas.
Espreguiçou-se uma última vez e resolveu se pôr de pé. Era seu último dia hospedada em um quarto de hotel e, sendo sincera, não sabia como iria fazer a partir daquele dia. Havia gasto suas poucas libras tendo um pouco de conforto e agora o que lhe restava ainda era pouco para continuar gastando com o aluguel de um quarto.
Resolveu não pensar em seus problemas naquele instante. Estava focada em conhecer Londres inteira e era isso que iria fazer. Começaria por onde, afinal? London Eye? Palácio de Kesington? Eram tantas opções.
Optou por tomar um rápido banho, parando em frente ao espelho e notando sua aparência, o rosto delicado e a pele ainda bronzeada pelo sol de sua cidade natal. Caminhou enrolada na toalha até o centro do quarto e retirou uma muda de roupa confortável. Calça jeans e tênis, para variar. Era o que ela mais gostava.
Checou seu celular carregado e guardou seu carregador. Com isso, avistou que sua internet não estava funcionando muito bem, já que não conseguia carregar suas mensagens.
Com suas coisas arrumadas, pronta para sair, observou o quartinho mais uma vez e o trancou, seguindo para a escada e, com isso, indo em direção ao balcão. No hall, avistou o senhor da noite anterior.
— Oh! Você está aí. — comentou, ao ver a garota parada, o esperando. — Como dormiu? Espero que bem, apesar de nossos aposentos não serem cinco estrelas.
A morena soltou um pequeno riso, negando com a cabeça ao ouvir o comentário.
— Eu dormi mais do que bem. Agradeço por tudo. — sorriu. — Gostaria de acertar com o senhor os dias em que fiquei, por favor.
agradeceu ao senhor antes de sair de vez do local. Ele deu algumas dicas de onde e como chegar, fazendo-a a agradecer mais ainda. Com isso, apertou a alça de sua mochila e colocou os pés na calçada.
Naquele instante, ela teve uma visão bem ampla da avenida. Começou a caminhar pelo local, tentando observar o máximo que podia da arquitetura do lugar. Os ônibus passavam a todo vapor, assim como os carros que transitavam por ali. As pessoas passavam apressadas, ocupadas em seus telefones e outras passeavam. Ela nem sabia o que pensar, era tanta informação, tanta coisa para observar.
Ao chegar próximo ao centro de Londres, ao que seu mapa e seu GPS indicavam, conseguia observar melhor a beleza daquele lugar. Havia lojas das marcas mais famosas, algumas cabines telefônicas, daquelas que se vê em algum post no Tumblr.
Deu um pequeno sorriso ao se lembrar pesquisando as fotos e ergueu seu celular, fotografando-as.
Depois de andar um pouco mais, virou em uma das esquinas movimentadas e paralisou ali mesmo onde estava. Não poderia acreditar, mas estava ali, de frente ao Big Ben. Ficou alguns minutos encarando o enorme relógio até perceber que atrapalhava o caminho. Resolveu se aproximar lentamente, ainda sem acreditar. Observava cada cantinho, cada detalhe. Era demais para acreditar que realmente estava acontecendo.
No mesmo local, havia uma pequena fila e um guia turístico explicava melhor sobre o local. Queria tanto poder pagar para participar daquilo, mas não iria desanimar. Iria ser sua própria guia.
Ao seu lado esquerdo, conseguia avistar o London Eye, ao longe. Pegou seu celular do bolso e começou a fotografar tudo o que podia ver pela frente, sem se cansar.
Enquanto andava lentamente, sem se preocupar na hora que passava, observava cada banca, cada loja, cada pessoa que passava por ela. Somente quando sua barriga doeu, roncando alto, que havia despertado e lembrado de que ainda não havia comido nada.
Observou se perto dali havia alguma lanchonete e avistou uma lojinha de condimentos, logo adentrando-a.
O lugar era bonito, tinha a decoração colorida e o cheiro era convidativo. Resolveu pegar o necessário que saciasse sua fome e observou a fila do caixa, esperando pela sua vez. Com isso, ouviu alguns gritinhos, se assustando e estranhando. Havia algumas garotas no outro corredor, conversavam entre si animadas.
De onde estava, pôde ouvir um trecho da conversa.
— Você viu que eles vão estar pela cidade hoje?
— Não brinca! Eu preciso ver isso! Será que conseguimos...

Elas gesticulavam, falando como se realmente fosse alguém importante. Havia ficado curiosa, precisava admitir. Quem quer que eles fossem, faziam sucesso por ali.

✈️🎡


Com um pedaço do biscoito nos lábios, observava seu mapa em mãos enquanto caminhava lentamente entre as pessoas na calçada. Na direção em que estava, poderia seguir mais um pouco e encontrar o Hyde Park. Ou, se desse meia volta, encontraria um dos museus mais famosos da cidade. Era realmente uma dúvida daquelas.
Depois que deixou a pequena lojinha, encheu sua galeria do celular de fotos de cada lugar em que passava e selfies em frente a eles. Ela não podia passar em branco o fato de realmente estar ali. Quem sabe, postaria em alguma rede social. As pessoas a olhavam de soslaio, provavelmente se perguntando do que ela tanto tirava foto, mas não ligava. Ela queria mais era gravar tudo o que pudesse.
Resolveu por seguir em direção ao Hyde Park. Se deu conta de que sempre o quis conhecer e estando ali, poderia visitá-lo quantas vezes quisesse. Caminhou um pouco mais, com o vento bagunçando seus cabelos e um sorriso contido nos lábios. Era uma sensação maravilhosa.
O parque era tão grande quanto poderia imaginar. Ela não fazia ideia. Todas aquelas entradas e árvores tão verdes, do jeito que tinha visto no aplicativo. Percebeu também que muitas pessoas praticavam algum tipo de esporte, como caminhadas, corridas e yoga naquele gramado.
Com isso, resolveu seguir junto a elas, caminhando.
Cada folha que caía ao chão era memorável. O verde se misturava com algumas folhas ressecadas, que caíam com a chegada do outono. E além das folhas e árvores, havia flores, pássaros por todo canto. Parecia uma cena digna de filme americano. Isso a fez pegar seu celular e tirar mais algumas fotos.
Percebeu a cada vez que caminhava um pouco, havia uma entrada que dava para outro lugar dentro do Hyde Park. Você podia seguir para um restaurante, ou várias mesinhas onde alguns idosos jogavam xadrez. Se caminhasse mais um pouco, poderia seguir pelo caminho em que dava para algum monumento importante ou para a saída mais próxima. Era incrível.
O lugar parecia ter sido projetado de forma minuciosa, tão detalhada. Sabia que não conseguiria conhecer tudo em apenas um dia.
Com mais uma olhada, seguiu em direção à saída mais próxima. Parada ali, percebeu que estava em uma avenida bem movimentada, por sinal. A maioria das pessoas que passavam por ali estavam arrumadas. Terno, gravata, vestido e salto alto. E ali, tinha um dos maiores e mais bonitos prédios. Era de fazer qualquer um suspirar.
Inundada em seus pensamentos, observou um banquinho próximo e se sentou, retirando de sua mochila, uma touca. Naquele final de manhã, havia uma brisa gelada. Essa que a fazia se arrepiar. Era melhor estar aquecida com o que tinha, então.
Estando ali sentada, descansando suas costas no encosto do banco, uma única coisa inundava seus pensamentos. Uma única preocupação.
Como iria ser a partir de agora? Como se sustentaria?
A ideia inicial era de arrumar um emprego decente, para que conseguisse pagar sua estadia e suas contas no final do mês. Pensava, ao menos, em começar assim. Agora parecia estranho. Parecia incerto.
E se não desse certo? E se não conseguisse nada do que planejou?
Será que foi o certo a se fazer?

estava assustada, estava com aquele famoso aperto no peito. Queria voltar para casa. Era a vontade que, naquele momento, inundava sua mente. Em casa, teria sua cama, teria alimentação, teria sua família.
nunca se sentiu tão sozinha como agora.
Ergueu seu rosto e avistou o céu entre os galhos de árvores que ali estavam. Este estava cinzento, com algumas nuvens o rodeando.
— Eu posso fazer isso. — comentou, para si mesma.
Respirou fundo e se levantou, tentando se animar. Iria agora procurar alguma lanchonete para se alimentar, já que era horário do almoço. Não poderia pagar um almoço daqueles, mas iria comer algo. Com isso, atravessou a avenida e pediu licença a algumas pessoas ao chegar à calçada do outro lado, que estava lotada.
Caminhou por ali, observando o comércio em si do local. Era tudo muito bonito, organizado. O que mais tinha era loja de vestuário. Em uma delas, havia um pequeno cartaz na parede de vidro.
A garota resolveu se aproximar, curiosa para saber do que se tratava.
“Estamos contratando. Por favor, entre em contato conosco pelo número...”
Mal pôde terminar de ler, já estava anotando o número e o nome do local para entrar em contato. Talvez, quem sabe, as coisas estejam começando a dar certo? Esperava que sim.
Antes de começar a caminhar novamente, observou um aglomerado de pessoas mais à frente, próximos à esquina. A maioria estava agitada, comentavam algo entre si. Logo à frente dessas pessoas, havia um carro enorme estacionado. O carro deveria ser lançamento daquele ano, já que nunca havia visto um modelo como aquele.
Resolveu se aproximar um pouco. O que será que estava acontecendo por ali? Será que tinha acontecido algo?
Pôde perceber que, entre as meninas, havia quatro rapazes. Eles conversavam com elas, parecendo bem interessados no assunto. Quando comentavam algo, elas riam e gesticulavam de forma exagerada. Da forma que via, pareciam ser um grupo de amigos bem íntimos.
Para não ser notada, tentou se esconder próxima a uma das bancas em que estava a sua frente na calçada. Precisava admitir que estava bem curiosa.
Encostou seu corpo na lateral da banca e continuou os observando. Eles tiravam fotos, mostravam algo no celular e toda vez que os rapazes comentavam algo, as meninas pareciam se derreter ao trocarem olhares.
Relembrou um pouco de sua cidade natal. Nunca fora de ter muitos amigos, era bem seletiva quanto a isso. Sua única amiga na adolescência havia se mudado para longe e o único contato que tinham, às vezes, era por Skype. Sentia sua falta. Ou talvez sentia falta de ter uma amiga ali por ela.
Notou que, com a movimentação, um dos rapazes virou de forma que pudesse vê-lo melhor. sentia que ele não era estranho, mas também não o conhecia de forma alguma. Tinha seus cabelos castanhos ondulados, algumas mechas caíam em sua testa. Seus óculos escuros atrapalhavam descobrir como eram seus olhos. O sorriso em seu rosto era cativante, de forma que quanto mais você olhasse, mais teria vontade de sorrir também.
O rapaz era bonito. Tinha que admitir. Parecia ter uma beleza única.
Desviou o olhar, para que não desse a entender que estava encarando muito. Justamente ele. Aos poucos, retornou a olhá-los. Observou a cena um pouco mais, pareciam se despedir agora.
Sentiu uma pontinha de decepção. Iria adorar olhá-lo um pouco mais. A pele clara do rapaz era totalmente oposta à sua. Costumava achar o bronzeado tão atraente, mas vê-lo parecia ter despertado algo. Talvez estaria começando a gostar da pele clara americana.
colocou a mão na touca em sua cabeça, ajeitando-a e percebeu um pingo de chuva cair sobre suas mãos. Com isso, percebeu que iria sim, chover.
Seu coração acelerou tão rápido, preocupada em onde iria dormir com aquele tempo, que ao dar alguns passos para trás, acabou esbarrando na redonda máquina de doces. Esta se inclinou, quase caindo e, no mesmo instante, a morena o abraçou, pondo-o no lugar novamente.
Se desculpou com o responsável da banca e fechou seus olhos por um breve instante. O que estava pensando, afinal de contas? Quase havia feito um desastre e isso chamaria a atenção do rapaz que estava vendo antes.
Pela última vez, antes de sair do lugar, jogou um pequeno olhar ao grupo de amigos onde estavam e o rapaz, que antes olhava, agora estava encostado no carro esportivo. Suas mãos no bolso do jeans e os óculos virados em direção à morena. Desta vez, ele não tinha aquele sorriso que havia aquecido seu coração. Não. Ele estava sério. Sua expressão era de curiosidade. Como se perguntasse quem era a mulher que o encarava.
sentiu a vergonha tomar conta de todo seu corpo. Engoliu em seco e apertou a alça de sua mochila, se virando e saindo dali o mais rápido possível. Por mais que nunca mais o veria, estava envergonhada. Não devia ter olhado tanto assim.
Contornou a esquina com tanta vontade que não havia notado. Sequer percebeu.
O rapaz estava prestes a ir em sua direção.

✈️🎡


O final de tarde estava acabando, dando lugar ao céu escuro e com poucas estrelas de Londres. havia colocado seu casaco, suas luvas e tentava aquecer seu rosto de forma falha. Era uma noite daquelas, o frio parecia ter caído sobre ela.
Contou e recontou suas libras, percebendo que não havia como pagar mais um quarto naquela noite. Até poderia, mas e os outros dias? Ela não teria nada. Não até conseguir um emprego.
Podia dizer que estava começando a ficar desesperada, com sono e fome. Comeu o resto que sobrara do pacote de biscoitos e uma caixinha de suco que havia comprado.
No meio daquela avenida, tão movimentada e cheia de luzes, ela queria sentir um pouquinho de esperança. E como queria. Queria poder se convencer de que tudo ficaria tão bem a ponto de poder ligar para sua família e dizer que havia conseguido. Ela queria estar feliz.
Mas não estava. Sentia o medo. O desespero. O coração apertado e o corpo dolorido.
Sabia que teria que fazer algo que sequer havia imaginado.
Com o corpo cansado e a mente em um turbilhão de pensamentos, sem nenhuma solução, caminhou um pouco mais.
Uma pequena viela, um beco mal iluminado. O observou bem. Deu um passo para adentrá-lo, mas travou, virando seu corpo novamente para a avenida. Piscou algumas vezes, achando loucura o que havia pensado.
Rapidamente, pegou seu celular e com isso deixou cair o papel amassado que estava em seu rosto. Era um número. Havia se lembrado que o número pertencia à garçonete que havia lhe ajudado outro dia.
E se ligasse para ela?
Não. Mal a conhecia. Não a incomodaria também. Muito menos se fosse para pedir que passasse uma noite. Não a conhecia.
Mordiscou seus lábios, ressecados pelo frio e guardou o aparelho, desistindo da ideia. Ela não poderia fazer aquilo. Não poderia fazer nem o que estava pensando, mas percebeu ser a única solução.
Ela não iria dormir ali. Claro que não. Mas, talvez, se descansasse um pouco o corpo...
Olhou para os lados, verificando se alguém a olhava e adentrou o beco. Não havia ninguém por ali, nem mesmo um morador de rua. Havia uma grande lixeira e alguns papéis espalhados pelo chão. Passou os olhos por todo o lugar e notou um canto, não tão sujo. Ali se sentou e suspirou, deixando que todo seu ar escapasse.
Colocou as mãos no rosto, pressionando-o. não ia aguentar. E se seu sonho acabasse em pesadelo? Sentia que tudo iria desmoronar.
— Eu não posso fazer isso. — Sussurrou, para si mesma, e suspirou mais uma vez. O nó estava se formando em sua garganta.
E agora, o choro alto vinha à tona.
Sentiu suas lágrimas mornas descendo pelo rosto. Sentiu toda sua coragem se esvaindo de seu corpo. Ela não estava acreditando. Como havia deixado isso acontecer?
Fungou algumas vezes, ainda com o rosto molhado, e tentava se acalmar vez ou outra. Não conseguia pensar no que fazer, estava com tanto frio, com tanta fome. Não sabia como começar. Não conseguia organizar seus pensamentos.
E foi com toda essa preocupação, com toda dor e saudade de casa, que tudo começara a escurecer.


Continua...



Nota da autora: Oi! Como vocês estão? Eu estou com o coração super apertadinho com essa att! Escrevi me sentindo um pouquinho pra baixo ao imaginar toda a cena e a dificuldade de nossa PP, mas tudo isso valerá a pena, garanto a vocês! Agora, contem pra mim o que acharam! Vou adorar saber <3 Beijão!



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