Última atualização: 07/06/2018
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Trailer da fanfic

Prólogo

— Eu tive um sonho estranho essa noite...
— Sonho estranho? Que tipo de sonho?
— Estávamos nos casando.
— Esse sonho vai virar realidade, querido...
— Sim, ele iria virar se não fosse à parte que me deixou preocupado...
— E qual foi?
— Havia um leão invadindo o nosso casamento. Ele vestia uma gravata larga, e tênis all star. E tinha um violão pendurado no corpo.
— E...?
— E ele disse que ia te levar com ele, para, bem, serem felizes juntos. E rosnou para mim.
— E eu fui?
— Sim, você foi embora com o leão.

levantou-se da cama, rindo do noivo. Encaixou o celular dentro do cós do short de pijama, e ajeitou os fones de ouvido. O quarto estava vazio, praticamente inabitável. Havia apenas sua cama, com os lençóis, uma poltrona e uma penteadeira coberta com panos brancos. E nada mais, além de paredes e uma janela. parou na frente do único espelho que restou no banheiro, tentando desembaraçar os cabelos com os dedos enquanto conversava ao telefone.

— Não sei por que você está rindo... Eu fiquei preocupado, acordei suando frio, em desespero — Comentou ele, com a voz baixa. deu uma última risada antes de responder.

Todo aquele desespero era cômico, principalmente tratando-se de acontecer por parte do noivo, não da noiva. Afinal, normalmente espera-se que ela fique paranoica, não ele.

— Meu bem, foi só um sonho. E outra coisa: um leão? Não sei por que você está preocupado com o sonho que teve com um leão... É praticamente impossível isso acontecer. Nós não vamos nos casar na África — E ela riu novamente.
— Mas pra te falar a verdade, isso pode ser um sinal. Estou agora no google pesquisando o que sonhos com leões significam, e olha... Não é nada bom.
— O que o google diz?
— Infidelidade.
— Agora você me ofendeu.
— Me desculpe! — Ele reagiu rapidamente — Não é que eu esteja dizendo que você é ou será infiel... É só que tudo isso me preocupa.
— Você nunca foi supersticioso, não sei por que razão está preocupado com isso. Largue de neura, para de fazer disso uma fonte de estresse... Daqui a uma semana e três dias estaremos casados e felizes, e nada vai mudar isso — acabou sorrindo ao imaginar o quanto realmente estaria completa após entrar naquela igreja e dizer “sim”, finalmente sim, ao seu amado.
— Estaremos — Disse Antony, por fim parecendo mais aliviado.
— A que horas é meu voo? Você ainda não me encaminhou as passagens...
— Estarão no seu e-mail em cinco minutos, na verdade, acabei de comprá-las, estou no aeroporto. Seu voo sai em quatro horas. O que você vai querer de refeição?
— O jantar normal, está ótimo para mim. — A essa altura estava prestes a entrar na banheira, já transbordando água — Vou me banhar agora, e pegar um táxi para o aeroporto. Mal posso esperar pela última prova do vestido!
— A cada minuto nosso casamento está mais perto!
— Sim! Te amo, querido!
— Eu também! Até amanhã...
— Até amanhã.



Capítulo 1

Quarta-feira, 12 de Abril de 2017.
Dez dias.

O casamento é uma das tradições mais antigas no mundo. De acordo com a história, o casamento era visto como uma ferramenta de manutenção de grupos sociais, como nas sociedades Anglo-saxãs, por exemplo, onde o casamento foi especialmente utilizado como forma de estabelecer alianças e relações diplomáticas. Até 1140 D.C., o consentimento não existia, fazendo assim com que o ato de casar-se fosse meramente político e econômico, sem todo o romance que conhecemos ao longo dos séculos. Todavia, até hoje, no século XXI, o casamento ainda é utilizado como forma de promoção de alianças e acordos econômicos por algumas famílias.
Caso não nascesse naquele 27 de janeiro de 1992, naquele hospital, naquele céu cósmico que a tornou aquariana, causando aquela perturbação no tempo-espaço, certamente ela jamais conheceria Antony. Jamais teria a oportunidade de casar-se com ele. Toda aquela aliança diplomática seria formalizada junto a alguma outra família influente na costa leste americana, e não com uma mera moradora do subúrbio de Los Angeles. Mas graças ao direito Canônico, e a todos os filmes românticos de Nick Cassavetes, Mark Waters e Peter Segal, o amor servia como argumento para a união daquela pobre plebeia e aquele príncipe contemporâneo. E não havia, no mundo ou nas escrituras, uma razão para que esta não se tornasse a união mais extraordinária da história.
Hayes e Antony van der Baahrs.
Era uma quarta feira de primavera como qualquer outra que já existiu no planeta, exceto por um detalhe: faltavam dez dias para o casamento do ano. mal podia esperar para que seu dia chegasse. Nunca se sentira tão amada e realizada na vida.
Desde que conhecera Antony, numa conferência em Seattle, apaixonou-se perdidamente e esqueceu-se de sua antiga vida – se é que ela vivera todos esses vinte e dois anos. Ela gostava de dizer que Antony “a salvara”. Viviam grudados um no outro, e ele fazia de tudo para agradá-la. Jantares caros de última hora em Paris, feriados em Veneza, invernos nas estações de Esqui do Canadá e da Suíça, ou então fugas do frio na casa de verão da família dele, nos Hamptons. Férias na Tailândia, Ilhas Maldivas, Grécia... Os lugares mais belos de sua vida ela havia conhecido com o namorado. Presentes inesperados em meio de semana, bolsas, sapatos, joias... Um anel de noivado da Tiffany&Co. Um apartamento em Seattle, onde estava a sede da empresa do amado, apenas para que ficassem mais próximos. Ela não tinha do que reclamar. Estava prestes a ter o sobrenome de uma das famílias mais influentes dos Estados Unidos, os Van der Baahrs . Sr. Antony Van der Baahrs e Sra. Van der Baahrs. Esses nomes repetiam-se intermitentemente em sua cabeça, e sua imaginação vagava no futuro do casal. Uma cobertura no Upper East Side, com ampla vista para o Central Park. Um novo emprego na Clarks & Deymonds, um dos mais renomados escritórios de advocacia de Nova Iorque (emprego conseguido por mérito próprio, sem nenhuma influência de seu futuro marido, motivo pelo qual ela se orgulhava). Um casamento na Igreja de St. Peters, com um bolo feito especialmente para eles direto da Carlo’s Bakery, em New Jersey. Quinhentos convidados. Festa privada no Tribeca Rooftop, com banda e toda a sua família vinda direto de Los Angeles apenas para prestigiá-los. Céus, ela poderia morrer nesse instante, pois já estaria direto no paraíso. Sua vida estava maravilhosa, tentadora, e ela não tinha do que reclamar. Mantinha o controle de toda a situação, cuidava de tudo nos mínimos detalhes. Até as ex colegas de ensino médio, que antes caçoavam dela por ser baixinha e gordinha, praticamente imploravam pela sua amizade e as regalias que vinham junto.
Apenas dez dias para o dia mais feliz da sua vida.
O dia em que ela estaria oficialmente realizada.
Mal tendo visto o tempo passar, ela levantou-se da banheira em que estava imersa junto a seus pensamentos, e correu para o quarto, já atrasada para pegar o carro. Preferiu ligar para um motorista, para que não perdesse tempo. Enquanto enfiava-se num jeans e terminava de fechar sua mala, o motorista da empresa de Antony chegou. Saiu sem olhar para trás, sem nem ao menos despedir-se daquele apartamento que serviu de cenário aos últimos dois anos da sua vida.
No avião, em seu assento de primeira classe, ela relia o roteiro do casamento. Haveria uma orquestra que cantaria a música de entrada, logo então seus pais e padrinhos, damas de honra, o noivo, e finalmente ela. Planejava uma cerimônia memorável, com muitas canções para emocionar a todos os convidados. Seus votos estavam logo abaixo do planejamento, já escritos com duas semanas de antecedência, exceto a conclusão. Ainda não havia terminado, e não pretendia terminar tão cedo. Sua cabeça estava muito turbulenta para pensar neles dentro de um avião.
De repente, uma aeromoça veio em sua direção, com uma flor e um bilhete. Era uma linda rosa, tão vermelha que chegava a doer os olhos.

— Bom dia, senhora Van der Baahrs. Pediram que lhe entregasse isto — lhe estendeu a flor — tenha um bom voo.
— Para mim? — Ela estava boquiaberta — Obrigada! — Pegou a flor, um pouco trêmula.
Cheirou-a, e seu perfume era inebriante e delicioso. Rosas eram suas flores preferidas, qualquer cor que fossem. Abriu o bilhete, que dizia “Para ”.

“’... E todas as vezes que te abracei, abracei forte, pois queria que nossos corações se tornassem um só...’ Querida , um trecho de meus votos, os quais quero que você se lembre todos os dias de sua vida. Da nossa vida. Eu te amo. Antony”


Seu coração batia tão forte que quase saia por sua boca. Ela podia sentir o tremor dessas batidas em todo seu corpo, inundado de prazer e emoção naquele instante. Aquele bilhete inesperado era, de fato, a coisa mais doce do mundo. Ela sorriu sem perceber, quase chorando de emoção. Antony vinha sendo cada vez mais doce desde que a pediu em casamento, e isso a deixava cada dia mais encantada por seu noivo. Ele parecia mais próximo, ao mesmo tempo em que não media esforços para cuidar dela. Preocupava-se com tudo, de seus horários à sua alimentação. Era tão atencioso, e fazia questão de dizer que aquilo tudo ele fazia por amá-la demais. Ele era um homem maravilhoso. E ela não tinha dúvidas de seu amor.

O voo de Seattle para Nova Iorque foi tranquilo, e ela estava ansiosa para desembarcar logo e correr para abraçar Antony. Aquele bilhete tomou conta da sua mente nas cinco horas que se seguiram longe do solo. Assim que o avião pousou no aeroporto de La Guardia, tirou o celular do modo avião, para que pudesse entrar em contato com Antony e saber se ele já estava a aguardando no desembarque. Não havia mensagem alguma, então ela resolveu discar para ele.
No quinto toque, ele atendeu.

— Meu amor — disse — já estou em solo. Você veio me encontrar?
— Ah, olá, querida — ele respondeu, num tom de surpresa — É... Então... Eu tive um imprevisto, uma reunião de emergência. Não poderei ir buscá-la.

O semblante de murchou.

— Ah... Tudo bem.
— Mas vou pedir para que meu motorista te pegue!
— Não, não precisa, eu tomo um táxi para o hotel...
— Não, sabes que não gosto de você andando de táxi sozinha — Antony a repreendeu — é muito perigoso, e essa cidade é imensa.
— Antony, meu amor, eu não sou mais uma criança. Eu conheço a cidade. Eu posso pegar um táxi sozinha sem incomodar ninguém!
— Não, — Antony a repreende mais uma vez — Você sabe o quanto me preocupo contigo. Você vai com o Klaus, quer você queira ou não. Não pago uma fortuna para que ele não trabalhe!
— Você pode precisar dos serviços dele...
— Não. Eu me preocupo mais com você. Eu consigo me virar sozinho, caso necessite. E vou demorar também. Inclusive não precisa nem me esperar acordada...
— Mas ainda são cinco da tarde.
— Exato. Não sei quanto tempo irei demorar aqui, mas será bastante.
— Não vamos jantar juntos?
— Eu vou mandar prepararem um jantar para você.
— Antony, eu estarei no hotel, posso muito bem descer para o restaurante e escolher sozinha o que comer...
— E correr o risco de não entrar no vestido? — ele ri do outro lado da linha — De jeito nenhum, vida. Quero que continue gostosa para o casamento!
— É tão engraçado o modo como você quer cuidar de todos os setores da minha vida — ri.
— Tudo que eu quero é cuidar de você e te fazer feliz. Por isso sacrifico todo meu tempo me preocupando contigo, com o que fazes, como andas... Eu te amo demais.
— Eu também morro de amores por você.
— Até mais tarde.

E então ele desliga a chamada, sem que tenha tempo de respondê-lo. Ela encara o telefone um pouco assustada, mas ainda inebriada pelas declarações do noivo. Era difícil estar com raiva dele.
Após uma longa fila para desembarcar, e outra longa espera para que sua mala aparecesse na esteira de bagagens, finalmente conseguia sair pelas portas do desembarque. E lá estava Klaus, o motorista particular de Antony, aguardando-a.

— Boa noite, senhora — ele sorriu, tomando das mãos de a mala de rodinhas da Louis Vuitton que ela puxava.
— Boa noite Klaus! Como chegara tão rápido?
— Estava por perto — ele respondeu com prontidão — o senhor Antony pediu que eu a levasse direto para o hotel.
— Sim, por favor.

No caminho, segurava-se para não puxar assunto com Klaus. Ele era um ótimo motorista, sempre prestativo e pontual, e parecia ser uma boa pessoa. Mas Antony não gostava que conversasse com seus funcionários, mesmo os mais próximos. Não era ciúme, era cuidado. Mesmo assim, ela não conseguiu se segurar por muito tempo:

— Você vai ficar responsável por mim durante todos os dias, ou Antony vai deixar que eu pegue um táxi vez ou outra?

Klaus olhou para ela através do retrovisor do Audi.

— Ele pediu que eu ficasse às suas ordens. Parece que vai precisar viajar para a Inglaterra para resolver alguns assuntos de última hora...
— Ele o quê?! — ela exclamou, assustada. Antony não havia comentado nada sobre viagem alguma. E ela não poderia acompanha-lo, já que precisava resolver muitas coisas pendentes do casamento.
— Parece que ele acabou de decidir, já que pediu que o levasse ao aeroporto amanhã pela manhã cedo.
— Mas ele...
— Eu não tenho muito a lhe dizer — ele a interrompeu, ao perceber que poderia estar causando um conflito — mas acredito que ele vá comunicar à senhora assim que se encontrarem. Vou buscá-lo no escritório dentro de duas horas.
— Sim, eu... Tudo certo — ela sorri, e resolve mudar de assunto. Poderia discutir civilizadamente com Antony mais tarde — Ei, Klaus... Amanhã tenho minha despedida de solteira. Já está na sua agenda me levar?
— Na 1OAK? Sim — o carro passa pela ponte de Queensboro, e consegue ver ao longe os reflexos das luzes no East River — a que horas deseja ir?
— Dez da noite. Precisaremos de um carro maior, pois irei com quatro amigos... Ou fazer duas viagens...
— Posso providenciar outro motorista na empresa para que todos possam ir ao mesmo tempo.
— Obrigada, Klaus — sorri, e ele sorri de volta pelo retrovisor. Durante o resto do trajeto até o Plaza, na quinta avenida, ambos não trocam mais nenhuma palavra. Para ocupar sua mente, prefere prestar atenção na cidade ao seu redor, nos prédios e nos faróis dos carros.

Nova Iorque é, sem dúvidas, uma das metrópoles mais belas do mundo. Os ares são acolhedores e energizantes. Até os sons da cidade parecem acolher e abraçar.

Dentro de seu quarto, no Plaza, observava atenta o Central Park através de sua janela. As luzes da cidade continuavam a refletir em seu rosto, e ela percebeu que teria de lidar com aquilo para o resto da sua vida. Moraria há poucos quarteirões dali – e, inclusive, estava ansiosa para conhecer o novo apartamento. Em dois dias ela faria uma visita ao imóvel, para aprovar o projeto de decoração. Ela não havia dado muito palpite, pois Antony assumira total o controle com os arquitetos, mas ela tinha convicção de que o bom gosto do futuro marido não iria decepcioná-la. Afinal de contas, eles eram praticamente um só. Ela gostava de pensar assim.
Encarando seu reflexo no vidro, ela percebeu a porta do quarto abrir-se, e então avistou o noivo, trajando seu melhor sorriso que emoldurava aqueles enormes olhos verdes que ele carregava consigo. Ela sorriu, virando-se rapidamente na direção dele, e correu para ser agarrada por aqueles imensos braços. Antony, ainda sorrindo extasiado, abraçou-a forte, tirando seus pés do chão.

— Cinco dias longe de você e eu senti o controle da minha vida escorrer por meus dedos! — ele sussurrou em seu ouvido, beijando em seguida o topo da cabeça da moça.
— Você sempre tem coisas bonitas para falar — ela comentou, afastando a cabeça para encará-lo — eu gosto disso!
— Preciso sempre falar bonito para meus investidores...
— Mas será que a gente poderia conversar como duas pessoas normais agora?
— Não sei o que queres dizer com pessoas normais.... — ele a soltou, balançando a cabeça negativamente — nós sempre conversamos dessa forma.
— Eu quero dizer que você precisa relaxar um pouco. Conversar com sua noiva ao invés de seus investidores — ela deu a volta por trás dele, e na ponta dos pés alcançou seus ombros, para pressioná-los numa leve massagem — por exemplo... Podemos conversar com gírias. Usar gírias enquanto escolhemos o jantar de hoje!
— Sabes bem que eu não gosto de gírias, parecemos dois universitários membros de irmandades... — ele se vira na direção da noiva. Ela o encara com seus grandes olhos azuis, esperando derretê-lo, como sempre foi capaz de fazer.
— Há dois anos atrás eu era uma universitária membra de irmandade — comenta — e mesmo assim você se apaixonou por mim.
— Infelizmente você era. E ainda bem que me apaixonei por você! — ele sorri, passando os braços pela cintura de , segurando-a firme no ar — Assim você se tornou uma pessoa anos luz melhor! E eu te amo dessa forma — ela riu, e ele então a arrastou correndo até a cama, jogando-a sobre a superfície macia de edredons.
riu, percebendo que seu plano de derreter Antony havia funcionado. Como ela sentia falta daquele corpo sobre o dela!
E como se ele lesse seus pensamentos, finalmente apoiou seu peso sobre , e beijou seus lábios com toda a voracidade que a falta que sentira dela o permitia.
— Que história é essa de ir a Londres? — questionou, cessando o beijo. Antony sustentou seu peso sobre os braços ao lado do corpo da moça, e a encarou. Beijou seus lábios delicadamente antes de respondê-la:
— Tenho reuniões urgentes por lá. Precisarei ficar até a terça — ele a responde, suspirando.
— Terça? Cinco dias?!
— Eu preciso trabalhar, meu amor. — Ele joga o corpo ao lado dela na cama. — Mas vai passar logo. E te trago um presente!
— Eu não preciso de presentes. Eu só preciso de você aqui na semana do nosso casamento!
— Eu estarei na semana do nosso casamento. Ele é no sábado, e na terça à noite eu já estarei em solo americano...
— E nosso apartamento? E a prova do bolo? E a prova do jantar? E a mús...
— Eu tenho certeza que você será capaz de fazer tudo isso da melhor forma possível. Eu confio em você, eres uma mulher maravilhosa e de muito bom gosto — ele se aproxima para beijar a bochecha da amada. Ela suspira.
— Eu só queria que você também desse algum palpite...
— A Ana é sua madrinha, ela pode te ajudar... O seu gosto, é o meu gosto. Não se lembra? Somos um.
— Sim, mas...
— Chega de questionamentos — ele se vira de lado, apoiando cabeça sobre sua mão, e a encara. gira a cabeça em sua direção. — vou pedir o nosso jantar.
— Pelo menos a tempo de jantar você chegou...
— Sabes que faço questão de estar contigo sempre que possível. Deixei meus gerentes numa mesa de reunião para estar aqui agora...
— Obrigada — ela vira seu corpo na direção do dele, e agarra seu ombro, aproximando-se — Mas não estou com fome agora. Quem sabe...
— Sim — ele sorri, entendendo a vontade da noiva. Alcança seus lábios, retomando o calor do beijo que trocavam instantes atrás.

Quinta-feira, 13 de Abril de 2017.
Nove dias.

A boate estava lotada. Gente bem vestida se empurrando por todos os cantos, garçons correndo com bandejas para lá e para cá, nenhum lugar disponível no bar, e aquele cheiro de suor e perfumes caros impregnava a atmosfera do local.
sentou-se com suas amigas na área vip, que havia sido previamente reservada para elas. Quando se é noiva de um Van der Baahrs, todas as portas se abrem para você no mundo. A boate mais badalada de toda a cidade de Nova Iorque era praticamente sua, caso ela quisesse. Mas no momento, ela só queria aproveitar aquela despedida de solteira com suas melhores amigas e beber muitas doses de tequila e mojitos. Ana, Latecia, Ashley, Vicky e Dylan (que sim, é gay e prefere ser tratado com pronomes femininos) haviam até mesmo tirado folga em seus trabalhos no dia seguinte, apenas para aguentarem a ressaca e curtirem o SPA que iria promover para todas em seu hotel num pós-encontro. Ana e Latecia viviam em Nova Iorque, porém Ashley, Vicky e Dylan foram agraciados com passagens aéreas para voarem de Los Angeles e Nova Iorque apenas para participarem de todas as comemorações. Presentes de Antony, com o intuito de fazer feliz com a presença dos seus amigos.
Todas, sem exceção, seguravam naquele instante seu primeiro shot de tequila, enquanto aguardavam todo o ritual para tomarem o líquido ardente.
— Primeiramente, eu gostaria de agradecer — iniciou , com um imenso sorriso nos lábios — pela presença de vocês e pela amizade. Até o Dylan está aqui! Eu te amo, amiga — ela piscou — e eu tenho um carinho imenso por todas. Eu acho que já estou emocionada por conta das cervejas que tomamos antes de chegarmos, mas, de qualquer maneira, eu quero deixar claro que este casamento não vai mudar nossa amizade em nada! Nós vamos continuar saindo, nos divertindo, enchendo a cara... Eu não vou desaparecer! Eu ainda tenho vinte e quatro anos e prometo que só vamos ter filhos depois dos trinta, que é pra não atrapalhar o andar da carruagem e... Gente, a Ana, foi a melhor madrinha que eu poderia ter! Vocês são as melhores damas de honra que eu poderia ter! — era realmente muito fraca para bebidas e já estava alterada, se embolando com as palavras — é isso. Eu vou parar por aqui, porque já estamos loucos para beber isso e pedir outra rodada — ela se levantou, estendendo o seu copo ao centro da roda. Todos fizeram o mesmo — à melhor despedida de solteiro que já existiu nessa vida!
— A nós! — exclamaram juntos, e viraram seus copos na boca. Em questão de segundos todos estavam já vazios em cima da mesa, e os cinco amigos uivavam de felicidade.

O garçom repôs os copos na mesa mais quatro vezes, ou quem sabe cinco. perdera a conta no terceiro shot. Segurava em uma de suas mãos um copo com um drink desconhecido, que era muito doce e suave, portanto ela bebia como se saboreasse um suco de laranja. Aquilo era muito perigoso.
Há mais de dois anos não fazia esse tipo de coisa. Sempre estivera acompanhada de Antony nas festas em que frequentou nesse meio tempo, e estar sozinha com seus amigos, e principalmente sem Antony para controlar o quanto ela bebia, era arriscado. Mas ela gostava da sensação de estar fazendo algo errado. A rebeldia que sempre moveu seu espírito parecia finalmente ter aflorado novamente em sua pele, e ela podia sentir seu coração disparar com toda aquela adrenalina.
Ana se aproximou da moça, passando o braço por cima de seu ombro. Ambas pareciam se apoiar uma na outra para ficarem de pé por conta da embriaguez. gostava tanto da presença das amigas que era impossível não sorrir o tempo inteiro.

, o que você fez para que Antony te deixasse vir sozinha? — Ana perguntou, rindo. Sabia bem o quanto Antony era controlador.
— Nada. Ele entendeu que era meu momento, minha despedida... Não precisei dizer nada — respondeu, sorrindo. Tomou mais um gole de sua bebida.
— Tem certeza que não foi necessário usar seus dotes de advogada para argumentar com aquele pé no saco?
— Ei, não chame ele assim! — gargalhou — tudo bem que ele é irritante às vezes, mas eu o amo do mesmo jeito — encarou a amiga. Seus olhos vagavam por lembranças de momentos em que Antony havia sido a pessoa mais insuportável do mundo, mas ela continuava a sentir o calor daquela paixão ardente por ele. — eu o suporto.
— Só você. Eu o suportaria apenas pela fortuna. — Dylan apontou ao lado das duas, intrometendo-se.
— Eu não estou com ele pela fortuna!
— Mas não reclama das joias caras que ganha — O amigo sorriu, dando um beijo na bochecha de — Não estamos te julgando. Apenas dizendo o quanto a gente não gosta do seu futuro marido. Desde que você o conheceu. Mas amamos você.
— Vocês deviam dar uma chance a ele...
— Amor, eu dou uma chance a ele sempre, afinal, ele quem me deu passagens de primeira classe para estar aqui, na cidade mais bacana do mundo e pagou minha entrada na casa noturna mais bacana do mundo! — as duas riram do comentário de Dylan — Quando você pensou que eu: pobre e pé rapada, estaria em Nova Iorque, na 1OAK, respirando o mesmo ar que Jennifer Lawrence? — ele aponta com o queixo para perto da janela, onde um grupo de pessoas bem vestidas estava reunido, imersos em suas conversas.
— Aquela é Jennifer Lawrence? — questionou, impressionada.
— Filha, você está em Nova Iorque! — Ana chacoalhou a amiga — Acostume-se. Se você for mesmo frequentar a alta sociedade daqui, isso se tornará comum... Famosos, cantores, empresários, sobrenomes de peso... O seu próprio sobrenome. Você pode falar na porta de qualquer boate, hotel ou restaurante que quiser entrar, que você não vai nem pagar pelo seu consumo, talvez!
— Esses privilégios me incomodam um pouco, eu não sei como me sinto — não parava de sugar bebida pelo canudo do seu copo. Sempre que pensava no peso que carregaria ao possuir o sobrenome Van der Baahrs, ela ficava nervosa.
— Para de reclamar de privilégios porque a qualquer momento o Bruno Mars pode aparecer no seu casamento para cantar! — Ana rolou os olhos — Eu não reclamaria disso jamais.
— Será que o Antony seria capaz de fazer isso? — pensou alto demais, a ponto de proferir essas palavras.
— Esse cara é capaz de qualquer coisa. — Dylan virou-se na direção da pista de dança e do palco, que ficavam logo na lateral, próximos aos camarotes — e aquele DJ ali também, preciso confessar, é capaz de qualquer coisa comigo. Tudo que ele quiser! — e gargalhou, empolgado ao olhar para o jovem que acabara de subir no palco para começar a tocar. Posicionava seus fones de ouvido enquanto o DJ anterior terminava seu set.

olhou na direção à qual Dylan se referia, e pôde sentir um choque inexplicável atingir seu corpo naquele instante. Talvez fosse o amargo que provara ao sugar o último gole da bebida pelo canudo. Talvez fosse a brisa que vinha das saídas de ar condicionado bem acima deles. Talvez fosse a batida que saía das caixas de som e percorria sua pele como uma corrente elétrica fazendo-a se arrepiar.
Ou talvez fosse o simples fato de aquele rapaz estar olhando diretamente na direção dela. Olhos estáticos, rosto sério. Aquele maxilar trincado. Nada parecia se mover, e o mundo havia parado de girar. Seu entorno não tinha movimento. Apenas a música tocava. Ela reconhecia bem aqueles graves de House, que ela tanto ouvira nas festas universitárias que frequentou durante toda sua vida acadêmica. Os mínimos movimentos que ele fazia ao piscar pareciam perfeitamente sincronizados com o ambiente, com o compasso da música. E ela não conseguia se livrar daquele olhar. Sustentavam-se como se precisassem daquilo para continuarem vivos. Ela não tinha energia para desviar. Ele também não parecia estar disposto a ser o primeiro a deixar aquele momento.
sentiu seus lábios se abrirem, como se tomasse fôlego para dizer algo, mas logo fora interrompida por Latecia, que chegara pulando e gritando à frente dos amigos.

— Eu estou muito louca! Eu amo esse lugar! — berrou, para que todos ouvissem através da música, que parecia ter tido seu volume aumentado.
finalmente conseguiu desmagnetizar o olhar que trocava com o DJ. Encarou Latecia, que tinha os braços jogados para o alto e pulava no ritmo da música. Finalmente percebera que o mundo não havia parado. As pessoas continuavam dançando, a música continuava alta, as luzes continuavam piscando num ritmo normal e não em câmera lenta como ela havia presenciado segundos atrás. Piscou algumas vezes, retomando os sentidos.
— O que acabou de acontecer aqui? — Ana encarou .
— Eu... Eu não sei — ela respondeu — De repente eu... Fiquei paralisada...
— É, eu percebi, paralisada enquanto olhava praquele cara lá em cima — Ana riu — Só deixa eu te lembrar que daqui nove dias você vai se casar. Tudo bem?
engoliu em seco. Ainda não conseguia explicar o que acabara de acontecer.
— Para de fazer isso, ela só está bêbada — Dylan afasta Ana de , e toma da mão da amiga seu copo de bebida já vazio — espero que você não tenha se esquecido do quão travada a fica quando bebe.
— Faz tanto tempo que não bebemos tanto juntos, que eu nem me lembrava disso. Por via das dúvidas, ficaremos de olho na senhorita. Porque eu conheço esse olhar.
— Que olhar?! — exclamou, indignada.
— O olhar que você deu pro DJ, amiga...
— Gente, pelo amor, eu vou me casar! Eu jamais trocaria olhares com um... Com um... DJ de dezoito anos de idade que parece que acabou de se formar no colegial! — disse com repulsa. Odiava a ideia de ter sido tão vulnerável.

Aquele garoto era bonitinho? Com toda certeza.
Mas como ela mesma já havia dito, não passava de um moleque de escola que estava se aventurando como DJ. Inclusive ela começava a se perguntar como ele conseguira tocar em um lugar de tamanho prestígio como a 1OAK.
A raiva tomara conta dela de forma tão rígida, que sem ao menos perceber, estava se dirigindo ao banheiro. Ana foi atrás, preocupada, e puxou o braço de .

— O que houve?
— Nada. Eu só vou fazer xixi. Ou não posso fazer xixi por que vou me casar?

Ana solta seu braço, assustada.

— Nossa... Pega leve. Quer que vá com você?
— Não preciso de babás — demonstrava uma agressividade sem fundamentos. Até mesmo Ana, que esteve com ela em muitas festas, assustara-se.

Mas resolveu relevar. Entendia perfeitamente o quão nervosa deveria estar com toda a história do casamento, e a aproximação da data, quando de repente os amigos resolveram pegar no seu pé em plena despedida de solteira por conta de um DJ. Um inofensivo DJ que não tinha nem idade para beber legalmente.
seguiu seu caminho até o banheiro, e já dentro, apoiou-se sobre a pia, agradecendo mentalmente pelo isolamento acústico do cômodo. Encarou seu reflexo no espelho, e percebeu o quanto estava bonita naquela noite. Seus lábios carnudos eram destacados por uma forte camada de batom vermelho, e seus olhos azuis pareciam imensos com aquela luz que refletia do teto. Os cabelos curtos, loiros, extremamente claros - quase platinados - se emaranhavam em ondas bagunçadas na altura das orelhas. Sobre o topo de sua cabeça, um boné, escrito “Noiva”. Os amigos haviam mandado fazer para todos, com as versões “noiva”, “madrinha” e “dama de honra”. Eram divertidos.
Ainda encarando seus próprios olhos no espelho, lembrou-se de seu noivo, e do quanto ele não gostava que ela estivesse muito arrumada quando sozinha. Nem mesmo perto dele, já que pedia sempre que ela se vestisse de forma mais simples, mais desleixada, com pouca maquiagem. “A sua beleza natural é fantástica, e você não precisa ficar mais bonita ainda, pois assim pode chamar a atenção de outros homens”.
Antony era ciumento, e aquilo às vezes a deixava maluca, pois ela gostava sim de se maquiar. Gostava sim de vestir roupas curtas e provocativas. Gostava sim de arrumar seus cabelos. E, perto dele, aquilo precisava ser evitado para não gerar brigas. nunca fora de brigar, e evitava, a todo custo, qualquer discussão por motivos ínfimos. Maquiagem era um motivo ínfimo.
Como se Antony adivinhasse que estava a pensar nele, seu celular bipou em sua bolsa. Como não havia nenhum barulho no banheiro, a moça tomou um susto, tamanho o volume do toque. Desbloqueou a tela, lendo a mensagem recebida do noivo:

“Me encontre no The Landmark em vinte minutos!”

Seu rosto se contorceu numa careta. Se já estavam hospedados no Plaza, por que diabos iriam se encontrar em outro hotel? E se ele estava em Londres, por que a mandaria encontrá-lo em vinte minutos?
Poderia ser uma surpresa. Antony vivia cheio de planos e surpresas, e aquela parecia ser mais uma delas. Várias vezes ela fora enganada por ele, e quando percebeu, estavam em um jatinho indo para os Alpes. Seria, quem sabe, mais uma, dessa vez de casamento. Uma lua de mel adiantada, talvez?
Saindo da caixa de mensagens ela abriu o Safari, procurando pelo endereço do hotel. Digitou “The Landmark”, mas as únicas localidades que apareciam, eram em Londres. “222 Marylebone Rd, Marylebone, London, Reino Unido”. E ela não tinha a mínima noção de onde isso poderia ficar.
Uma incógnita se formou em sua cabeça. Sem nem perceber, estava discando para Antony. Ele atendeu nos últimos toques.
!
— Oi, meu amor. Como você está?
— Ótimo, eu estava... em um jantar com meu sócio, estou indo agora para o hotel. Já passa das três da manhã.
— Seu sócio? Três da manhã?
— Sim, o Joshua. Sabes quem é. E existe o fuso horário, caso não esteja lembrada...
— Sei... — ela pigarreou, tentando parecer o menos alterada possível ao telefone — O fuso horário. Quatro horas.
— Estou exausto, desligarei em breve. Onde estás?
— Na boate, com minhas madrinhas e o Dylan. Nesse momento vim ao banheiro — ela responde. Suspira, finalmente tomando coragem para falar sobre a mensagem — te liguei, pois recebi uma mensagem sua me mandando te encontrar em vinte minutos em um hotel chamado The Landmark.
— The Landmark?
— Sim. Um hotel. Eu pesquisei, pois pensei que estivesse me dizendo para sair da boate e te encontrar, sei lá, como surpresa... — ela comentou, com o tom de voz baixo, quase inaudível.
— Você está maluca.
A vergonha começou a tomar conta de . Suas bochechas instantaneamente se avermelharam, e ela pôde perceber isso através do espelho. Seu coração disparou, e as mãos começaram a suar. Parecia tão... Intimidadora, aquela conversa. Afinal de contas, por que mesmo ela havia ligado?
— Eu...
— Acabei de conferir em meu telefone. Eu realmente lhe enviei essa mensagem — Antony esclarece. parece mais aliviada. — Porém às quatro da tarde. Não entendo como foi parar no seu celular apenas agora...
— E por que motivo me enviou essa mensagem?
— Era uma reunião, enviei a todos os meus contatos — sua voz era tão firme que pareciam até mesmo acalentar o coração de — deve ter demorado a chegar para ti por conta do deslocamento. Essas empresas de telefonia gostam de nos colocar em momentos embaraçosos assim...
— É...
— De qualquer maneira, o que fazes na boate até essa hora? Espero que não tenha bebido muito, e esteja se comportando bem. Não seria legal uma mulher tão bela quanto você, perder a compostura...
— Eu estou bebendo pouco. Está tudo certo por aqui.
— Veremos o quanto está bebendo quando a conta do cartão de crédito me notificar no meu celular...
— Eu te disse que eu pagaria minha festa. Não preciso usar o seu cartão essa noite.
— Eu quero que use.
— Mas eu...
— Na verdade, eu exijo que use. — ele a interrompe — Preciso controlar os seus gastos, e com certeza essa conta ficará muito cara, e você ficará sem muito dinheiro na conta...
— Antony, eu tenho um salário. Eu posso pagar por isso.
— Prefiro que não pague. Guarde seu dinheiro pra usar com você mesma, para ficar bonita, comprar roupas, sapatos... Isso é o que eu ganho a cada dois minutos de trabalho...

bufou. Preferiu manter-se calada e obedecer. A conta da noite era realmente algo em torno do que Antony ganhava a cada dois minutos, e de seu salário custaria uma boa parcela. Ela gostava de sentir-se independente com seus gastos, mas preferiu calar-se e obedecer ao invés de iniciar uma nova discussão. Já tinha um nó suficiente na cabeça com toda a história da mensagem e do hotel.

— Por que se calou?
— Estou consentindo com o silêncio — ela o responde — usarei seu cartão.
— Quero que vá embora logo. Não fique até tarde nessa festa.
— Eu vou embora quando precisar ir embora. Não faz nem duas horas que estou aqui.
— Em breve, . Preciso desligar.
— Espera, eu...
— Eu te amo.

E então o telefone ficou mudo. Antony havia realmente desligado o telefone na cara dela.
Custou alguns segundos para que retomasse a consciência. Estava com os pensamentos embaralhados pelo quanto bebera, mas o fato de Antony ter desligado o telefone daquela forma a deixou tonta. Ele não costumava fazer isso.
Poderia estar estressado com a reunião e toda a história dela sair sozinha, pensou. Provável que, no lugar dele, ela também ficaria.
Jogou o celular dentro da bolsa e ajeitou seu boné na cabeça. Estava impecável. A noite estava ótima. A música e as bebidas boas. A companhia dos amigos. Ela não precisava perder a cabeça por conta disso. Amanhã conversariam com mais calma.

— Onde esteve todo esse tempo? — questionou Dylan assim que se aproximou do grupo — estávamos preocupados!
— No banheiro. A Ana me viu entrar. — ela respondeu, e olhou para a mão do amigo, que segurava um copo de bebida vermelha. Parecia apetitosa. Tomou da mão dele, que revidou com uma careta, mas resolveu ceder. Ela pretendia parar de beber, mas a conversa com Antony e toda a situação havia feito com que ela perdesse um pouco a paciência, e sentia a necessidade de pelo menos molhar a garganta com um pouco de álcool — Estava no telefone com Antony, também.
— E o que ele disse?
— Não é madrugada em Londres?
— Ele estava indo para o hotel, depois de um jantar com os sócios. A questão é: pagarei tudo que consumirmos com o cartão dele. Então, meus amigos... — apontou para o bar. Os quatro gritaram de felicidade, e correram na direção do balcão, deixando-a sozinha.

Por pura raiva, ela gastaria mais do que o planejado. Apenas para provocá-lo. Não havia engolido completamente toda a história do hotel, mas também se encontrava embriagada o suficiente para não conseguir pensar em possibilidades para Antony estar mentindo.
Os cinco amigos resolvem descer para a pista de dança, para curtirem um pouco do calor humano que emanava do meio das pessoas tumultuadas. buscou um canto perto do palco do DJ, onde ela pelo menos conseguia saborear sua bebida sem que esbarrassem nela. Àquela altura, percebera que seu boné havia desaparecido da sua cabeça, provavelmente por conta dos esbarrões que tomara até chegar ao seu canto. Seus amigos estavam mais longe, no meio das pessoas, e ela dançava sozinha, no seu próprio ritmo. Uma das mãos segurava o copo, a outra se estendia acima de sua cabeça, e ela chacoalhava os quadris de um lado para o outro, solta como uma pluma. Enquanto dançava, de olhos fechados, sentia seu corpo muito mais leve. A música, uma mistura de House e EDM, parecia ditar os movimentos de seus pés e seus braços. Ela já não tinha total controle sobre seus gestos. Apenas deixava-se levar. Aquele garoto era realmente muito bom com seus mixes. E aquelas luzes eram realmente inebriantes. Ela precisava abrir os olhos para perceber melhor, viver mais intensamente aquela sinestesia.
E no instante em que abriu os olhos, ela encontrou os dele. Aquele abominável garoto com fones de ouvido, que naquele instante a encarava, com a mesma expressão de antes: semblante firme, maxilar travado. Porém com um agravante: a menos de cinco metros de distância. Ela podia reparar em seus detalhes. Seu cabelo jogado para um lado só. Seus lábios finos, seu nariz longo, um pouco desproporcional para seu rosto. E seus olhos. Tão castanhos, tão intensos, tão brilhantes com todas aquelas luzes. E que faziam questão de sustentar os dela. estava tão chocada com aquela situação, que se esquecera de respirar, e, ao notar, suspirou forte. Piscou algumas vezes, para retomar a consciência, e percebeu que o rapaz ainda a encarava. Com todas as forças que conseguiu reunir, fechou a cara, como se questionasse os motivos de toda aquela atenção que ele a dava.
E então ele sorriu.
Aquele maldito sorriso.
Aquele.
Maldito.
Sorriso.
Quando se deu conta, seus joelhos tremiam e suas pernas bambeavam. Até sua barriga doeu, na boca do estômago, como se tivesse acabado de tomar um soco. E ele ainda sorria.
Ela abriu a boca incrédula, e ele, ao perceber, desviara o olhar, praticamente em câmera lenta. Foi como se ele quisesse dizer “não adianta evitar”.
Não adianta tentar fugir daquilo.
Quem havia olhado primeiro? Ele ou ela?
E como se ele adivinhasse que ela precisava voltar a dançar, o ritmo de sua música se alterou, colocando todos da pista para pularem em sintonia. respirou fundo, e sem tirar os olhos do palco, voltou a se mexer. Fez o possível para se aproximar de seus amigos, e quem sabe saindo do lugar onde estava, ficaria imune aos olhares do DJ.
— Alguém sabe o nome do cara que está tocando? — Perguntou, ao alcançar Ashley, Vicky e Dylan. Mal percebeu que Latecia e Ana estavam desaparecidas.
— Está interessada? — Dylan a encarou, sugestivo.
— Não! — ela gritou por cima do som — eu só queria saber o nome. Pois ele é muito bom!
— Parece que se chama , e está substituindo o residente...
?
. — Dylan confirmou novamente, e logo fechou os olhos, voltando a dançar.
olhou novamente na direção do garoto.
.
Ele voltou a olhar para onde ela se encontrava, e seu semblante se reduziu a decepção quando ele não a encontrou. Era ele quem estava a provocando! Ela sabia! Fechou os olhos novamente, segura de que ele não a encontraria no meio de tanta gente como ela estava agora.
Ledo engano, pois não é nada difícil encontrar uma cabeleira loira platinada em multidões. E, ao abrir novamente seus olhos alguns minutos depois, lá estava ele, encarando-a.
Ela não tinha o que fazer a não ser deixar-se levar. Iria ignorá-lo. Não retribuiria aqueles olhares, jamais. Seria forte o suficiente. Jurou tudo isso a si mesma. Nem beber, beberia mais. Apenas iria curtir o som – que por incrível que pareça era muito bom – e dançar muito, até não sentir mais seus pés. que a olhasse à vontade.
Afinal de contas, ela estava mesmo maravilhosa naquela noite.
A música se estendeu por mais uma hora e meia, e bolou passos sincronizados com os amigos e teve a audácia de remexer muito sua cintura. Pulou, girou, jogou os cabelos para os lados. Como era bom estar entre amigos dançando. Como era bom não ter Antony tomando conta de seus movimentos. “Você não pode dançar feito uma vadia”. Ela podia sim. Podia dançar da forma que bem entendesse. E com Dylan, Vicky e Ashley, ela dançou de todas as maneiras possíveis, até sua testa escorrer gotas de suor e seu cabelo grudar em sua nuca.
Durante todo esse tempo, um par de olhos escuros a observava. Mapeava todos os detalhes que pudesse daquele corpo que se movia para todos os lados da forma mais graciosa possível.
E ela não gostara nada disso.
Assim que percebeu que o jovem estava prestes a deixar o palco, depois de ser ovacionado pelo público, ela se esgueirou no meio dos corpos da pista, a fim de chegar até a saída lateral daquele palco.
Não tinha tanto controle sobre suas ações nem sabia ao certo o motivo de estar fazendo aquilo, mas ela precisava ir atrás dele.
Não aceitava ter sido encarada daquela forma. Ela era uma mulher praticamente casada. Seu boné dizia que ela era uma noiva. Ele devia ter respeitado isso, respeitado sua individualidade. se sentiu violada por aquele olhar tão... sedutor.
Quando percebeu, agarrava-se ao braço do rapaz, que se virou assustado ao receber aquele toque quente em sua pele.
— Você! — ela exclamou — Você é... Um...
— Eu sabia que você apareceria, mas não tão rápido assim... — ele então sorri. Aquele sorriso que, mais uma vez, a fez questionar a gravidade terrestre.



Capítulo 2

De todas as coisas que mais amava no mundo, o primeiro lugar pertencia a um sorriso e um par de olhos penetrantes. Ela acreditava ter o suficiente com Antony, mas sua certeza caíra por terra no instante em que ela bateu os olhos em . Pode ser que a culpada daquilo tudo fosse à bebida que consumiu mais cedo, mas, de uma forma ou de outra, ela havia sido tomada por ele. Toda a sua atenção e toda a sua essência estavam estáticas naquele ser.

― Não vai dizer nada? ― ele irrompeu o silêncio.

suspirou, procurando pelas palavras em sua cabeça. Mas, de repente, tudo que havia planejado dizer desapareceu. Ela nem se lembrava do motivo de estar ali parada à frente dele.

― Eu não… ― calou-se.

Ele a encarou profundamente, e ela precisou desviar os olhos, tamanho o desconforto que havia sentido ao ser observada de forma tão intensa.
Não se recordava da última vez em que alguém a olhou daquela forma.

― Por que veio até mim tão depressa? ― ele perguntou. Parecia extremamente sóbrio ― Assim… eu realmente imaginei que você viria, como já disse, mas foi rápido demais. Pensei que fôssemos trocar mais alguns olhares…

E então ela se lembrou.
Aquele garoto audacioso e abusado.

― Como você ousa?! ― exclamou por fim ― Ficar… me olhando daquela forma. Como se eu fosse uma presa, como se você estivesse se alimentando de mim com seus olhos!
― Eu? ― ele riu pelo nariz ― Eu não estava te encarando. Você quem não desgrudava os olhos de mim desde quando estava ali em cima, no camarote!
― Sim, porque talvez eu estivesse vigiando você, já que não tirava esses olhos de mim!
― A única coisa que fiz foi retribuir ― ele coçou a cabeça, um pouco sem jeito.
― Mentira! Você ficou me procurando quando eu saí da pista, porque eu vi. E aí você me encontrou novamente, e continuou olhando pra mim! ― exclamava e balançava os braços, com certa raiva ao proferir as palavras ― A única coisa que eu fiz foi.. foi… tentar me defender!
― Bela defesa vir atrás de mim ― riu de leve. Parecia muito calmo diante da exasperação de , e ao mesmo tempo irônico ― E antes que tente argumentar mais uma vez, eu realmente te procurei. Depois que você olhou pra mim pela primeira vez, seria uma afronta eu não reparar em você o resto da festa. Mas, novamente em minha defesa, a culpa foi toda sua…

se viu sem resposta. Ele estava a elogiando? Dando em cima dela?
O que diabos ele queria dizer?

― Você é rude! ― foi o que ela conseguiu exclamar.
― Rude por ter perdido a chance de te olhar por mais tempo, caso reparasse em você desde o início da festa… sim, rude! ― ele continuou.

cruzou os braços à frente do corpo, protegendo-se. Das palavras e também das investidas dele.

― Você não reparou que eu… ― e levando a mão à cabeça, notou estar sem boné. Havia perdido no meio da pista de dança, e só agora se lembrava desse detalhe inóspito.

― Reparei o quê?
― Nada! ― ela resolveu não afrontar. Ali, olhando fundo nos olhos daquele cara, ela confirmava o quão castanhos e o quão belos eles eram. Fortes o suficiente para fazê-la questionar sua sanidade. À beira de cometer a loucura de ceder àquele papo.
― Pensei que fosse me dizer algo importante ― ele suspira ― De qualquer maneira, meu nome é . E o seu?
Van der Baahrs ― ela proferiu seu futuro sobrenome, na esperança de que ele reconhecesse aquele som e percebesse o quanto ela era importante. Ou casada com alguém importante. Ou prestes a se casar.
― Prazer em te conhecer, ― ele estende a mão para cumprimentá-la. Durante toda aquela conversa ele ansiou por seu toque quente mais uma vez.

encarou sua mão, enquanto tentava se decidir entre ignorá-lo completamente ou provar a textura daquela mão tão grande e bonita. Seus dedos eram longos e encorpados, e algumas veias saltavam protuberantes no dorso. Parecia macia, ao mesmo tempo firme.
Por alguns segundos ela chegou até a imaginar aquela palma correndo por seu corpo. E quis se matar pelo tipo de pensamento insano.

― Pode tocar, eu não mordo ― disse ele, ao perceber que estava sendo ignorado.

Em milésimos de segundo, segurava sua mão, num movimento rápido, como se precisasse se agarrar a ele para permanecer viva. E no momento em que se tocaram, foi como se caísse de um precipício. Ou fosse salva de cair, tamanha a firmeza com que ele retribuía aquele aperto.
podia jurar que sua visão estava dividida numa tela dupla. De um lado, ela se via parada, observando aquele sorriso e aproveitando cada segundo do aperto que ele dava em sua mão. Do outro lado, aproveitava a firmeza com que a segurava, e a puxava para si. Envolvia sua cintura e beijava seus lábios sem ao menos pedir permissão.
Duvidava completamente da sua capacidade de separar a realidade das expectativas. Mas uma voz a dizia que, no fim das contas, ela vivia a primeira.
Nada de beijos, nada de apertos, nada de permissões.

― Você sempre para no meio das conversas e fica calada por longos minutos assim? ― , mais uma vez, cortou o silêncio.
― Desculpa, eu… Acho que bebi demais ― ela o responde, sem graça.

Ele encara as duas mãos ainda juntas. Levanta o olhar para novamente, mas ela parece não perceber.
― Por mim está confortável, a gente pode ficar assim o resto da noite, eu não ia precisar dessa mão mesmo... ― ele comenta num tom divertido.

finalmente nota que segurava durante todo esse tempo a mão de . Sentia sua palma até suada. O soltou, e tentou disfarçadamente limpar o suor na beirada da saia.
, me desculpe! ― ela sorri, ainda sem graça ― Eu acho que preciso de um pouco de água. E encontrar meus amigos. Não sei onde eles foram parar ― ela suspira.

a encara por alguns segundos, sem dizer nada. Até que ela coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha, demonstrando o quão acanhada com aquela situação ela estava. E ele consegue, inclusive, notar suas bochechas avermelhadas.

― Eu vou com você ― diz.
― Não! Não precisa… A gente já conversou o que tinha de conversar…
― Ah, é? ― ele cruza os braços ― E o que era?
― Você sendo um abusado e me encarando durante mais de duas horas!
― Então não conversamos direito ― ele a olha nos olhos ― Vamos ao bar, e podemos colocar isso em pauta mais uma vez. Eu tenho meus argumentos.
― Você não tem argumento nenhum comigo. Por mim, já deu! ― ela então gira nos calcanhares, mas faz tão depressa e tão impulsiva, que perde o equilíbrio e é amparada pelos braços de , antes que pudesse experimentar o gosto do chão.
― Você precisa de ajuda…
― Eu não preciso da sua ajuda! ― retruca.

Ele consegue perceber, com poucas palavras trocadas, o quanto ela apreciava aquele momento de rebeldia. Parecia querer provar a todo custo que era independente e tinha total controle da situação.

― Você precisa tanto da minha ajuda, que até agora não ficou de pé sozinha ― ele analisa, olhando para seus braços, ainda envoltos no corpo dela.

o empurra, emburrada, e com certa dificuldade coloca-se de pé novamente.

― Eu não vou te forçar a nada. Estou apenas oferecendo minha ajuda e minha companhia… Entendo um “não” ― ele faz aspas com os dedos ― Não vou insistir. Só estou aqui ainda, pois foi à senhorita quem me procurou…

suspira. sorri, disposto a realmente ir embora e não insistir naquilo, até porque aquela moça parecia uma boa roubada: cheia de más respostas e autoritarismo. Com toda certeza havia algo além daquele simples ato de ir tirar satisfação quanto aos olhares. Havia algo que ela não tinha contado, e por mais curioso que ele estivesse, não tinha o direito de insistir.

― Foi um prazer conversar com você ― ele diz antes de se virar.

E como se ela fosse uma daquelas pessoas facilmente manipuláveis numa psicologia reversa, ele ouviu sua voz:

― Espere!

nunca acreditou nessa tal psicologia reversa. Sequer cogitou utilizar alguma vez na vida com alguém, por mais que seus colegas da faculdade falassem o tempo inteiro sobre isso, principalmente quando iam a baladas. Aquilo fora um simples acidente de percurso em que ele, em sua maior sinceridade, iria mesmo embora.
Aquela atitude de parecia tê-lo atingido como vinte facas entrando em seu peito. Ele não sabia como agir. Iria esperar? Fazer companhia? Ela realmente precisava de ajuda, mas ele não tinha muita noção do que fazer, a não ser levá-la até o bar para se sentar e tomar uma água.

― Ué…
― Eu vou aceitar a sua ajuda ― ela sorriu. Novamente embaraçada, já que seu rosto retomou o tom rubro.

Ela parecia ter medo de falar com ele. O que era estranho, e o fazia questionar ainda mais a personalidade da mulher à sua frente.

― Você muda de ideia muito rápido ― ele ri, e estende o braço. Sem responder, toma aquele apoio, e juntos caminham entre as pessoas, até chegarem ao bar. Ainda em silêncio, ele puxa uma cadeira alta para que ela se sente, a última disponível, mas ele não se importaria em ficar de pé.

― Você não vai se sentar?
― Não preciso ― ele responde, sem olhar para ela. Estende a mão ao barman, que de prontidão vai até ele ― Duas águas, por favor.
― Espere, passe no meu cartão ― ela começa a vasculhar sua bolsa, atrás do seu cartão de consumo. Ainda estava disposta a manter o plano de gastar muito dinheiro às custas de Antony.
― Não precisa, hoje eu tenho consumo livre no bar ― ele finalmente olha para ela. Ela para, lembrando-se de que ele era o DJ e com certeza teria algumas regalias.
― Ah… ― não consegue dizer mais nada.

As duas águas chegam rapidamente, e são servidas em copos bonitos. observa a curvatura daqueles copos, e por alguns instantes deseja perguntar de onde são, para que adicione à sua lista de presentes de casamento.
A lista!
Ela precisava ir até a Saks e outras mil lojas de enxovais para registrar sua lista. Preferia muito mais passar o dia inteiro na Ikea e etiquetar tudo, mas era praticamente impossível que Antony aceitasse uma lista de compras inteiramente da Ikea. Soava muito distante da sua realidade. sabia bem que precisaria marcar os melhores e mais caros designers para sua lista.
Suspirou, ao pensar tudo isso. Naquele instante não conseguia se lembrar do nome de nenhum designer de talheres ou xícaras de porcelana.

― No que está pensando? ― Perguntou , ao perceber seu olhar distante.

sorriu, e estendeu a mão para pegar seu copo.

― Coisas da vida ― olhou na direção dele ― Ando muito estressada…
― E veio à 1Oak para tirar essa tensão com todas as bebidas? ― ele riu.
― Na verdade, sim ― ela concordou e tomou mais um gole de sua água ― Só acho que passei dos limites.
― Você está bem ― ele a conforta, e também toma sua água.
― Você não bebe? ― ela pergunta.
― Bebo sim… Mas não no palco. Eu estava vindo pegar uma bebida, inclusive, quando você me parou ― ele dá de ombros.
― E por que pediu só uma água?
― Não queria te assustar.

ergue as sobrancelhas, impressionada com aquela atitude.

― Olha, você pode beber, eu não vou me assustar. Me sinto estranha sendo a única embriagada no meio dessa conversa, inclusive ― ela ri ― Parece que você vai julgar cada palavra que eu disser, porque está sóbrio e ainda tem o raciocínio claro!
― Na verdade, eu não costumo julgar as pessoas ― ele a responde com sinceridade ― Mas vou beber. Pouco, pois preciso ficar de olho em você…
― Lá vem você com esses olhos pra cima de mim novamente ― ela diz, e ele dá de ombros, pegando um cardápio que se encontrava em cima do balcão.

Sem desviar a atenção do papel, ele resolve finalmente dizer algo construtivo:

― Se você pudesse se olhar, perceberia o quanto é impossível não ficar vidrado em você…

sente seu estômago revirar. Mas não de uma forma negativa… Foi como se ele se revirasse gentilmente, envolto por um rolo de plástico-bolha.

― Eu não sei o que dizer ― confessa.
― Não precisa dizer nada ― ele a olha por cima do cardápio, e então o coloca de volta sobre o balcão. Com um aceno de mãos, o barman está novamente à sua frente ― Eu vou querer uma Margarita, por favor.
― Tão comum… ― sussurra.
― Tão comum, porém ideal ― retruca a fala da moça. Ela ri ― Está rindo, mas, eu aposto que a senhorita já bebeu várias dessa hoje!
, eu gostaria muito de me lembrar do que bebi hoje ― ela continua sorrindo ― Mas é uma tarefa um pouco complicada…
― Compreendo ― ele arqueia uma sobrancelha ― Espero que se lembre bem dessa água que está bebendo agora.
― Lembro e faço questão de permanecer apenas com ela ― beberica mais um gole de sua água.

O drink de chega ao balcão, e ele estende para brindar com o copo de .
Ela o observa enquanto ele leva o copo de borda larga até a boca, e ao retirar, lambe os lábios para absorver o excesso de sal que grudara em sua pele.
Seus lábios são muito bem desenhados e rosados, e prendem completamente a atenção da moça.

― Você não gostaria de dançar? ― pergunta ele, após apoiar o copo sobre o balcão ― Modéstia à parte, eu sou melhor, mas o DJ que está tocando agora é muito bom também…

finalmente percebe o quão boa é a música que emana dos alto falantes. Durante todo aquele tempo em que conversou com , não havia percebido o som que os envolvia.
Com um aceno de cabeça, ela desce da cadeira na qual estava sentada, e segura a mão de para se equilibrar. Ele sussurra algo inaudível para o barman, e em seguida começa a guiá-la, segurando a moça, e com a outra mão livre, segura sua Margarita.
Em instantes os dois estão na pista de dança, e como se fosse conhecida de há milênios, ela se solta para dançar à frente dele. Sem nada para segurar em suas mãos, consegue estender os braços acima da cabeça e se remexer com liberdade. A embriaguez faz com que ela se balance com mais facilidade, e todos aqueles movimentos que ela fazia, agora a menos de um metro de distância, pareciam tomar conta da cabeça de .
Como era bom vê-la dançar assim, tão de perto. Ela tinha uma luz própria, e algo que prendia toda a sua atenção. Alguns minutos atrás, inclusive, enquanto tocava no palco, ele jurou ter errado a sequência do seu set, distraído por aqueles cabelos loiros que se balançavam por todos os lados na pista de dança. Obviamente ele não iria contar a ela. Não para perder toda a magia daquele momento que vivia, perto o suficiente para tocá-la, caso quisesse.
De certa forma ele queria mesmo tocar nela, apenas para averiguar se ela se tratava de um ser humano de carne e osso, e não uma projeção da sua cabeça.
Resolveu não fazer, já que qualquer atitude poderia assustá-la e espantá-la, visto tamanha rebeldia ela demonstrava. Preferiu terminar seu drink quieto, e em instantes já tinha um novo em mãos. O garçom iria servi-lo o quanto quisesse naquela noite. Não pretendia embriagar-se, não depois daquele contato com e de perceber o quanto ela precisava de alguém um pouco mais sóbrio que ela por perto. Mas iria aproveitar. Bastante.
Não era todo dia que ele podia consumir o que bem entendesse em uma das melhores baladas do mundo.
Aliás, não era todo dia que ele tocava em uma das melhores baladas do mundo.
Ele gostou da ideia de chamar aquele dia de… Pura sorte. E a cada minuto, sua sorte parecia aumentar ainda mais. Nada na sua vida nunca havia dado tão certo como naquela noite.
Piscou algumas vezes, atônito, ao perceber o quanto havia se aproximado dele nos instantes em que se perdera em seus próprios pensamentos. Ela lançava seus braços acima dos ombros de , e ele não tinha nenhuma saída daquela situação. Seus quadris se moviam de um lado para o outro, e a única coisa que ele conseguiu fazer foi segurar firme o seu copo, e acompanhar os movimentos dela.
Tudo pareceu muito natural a partir dali.
A maneira como ela cravou seu corpo no dele, ou meneou a cabeça na direção do seu rosto. De repente ele tinha o olhar preso no dela, e por mais que tentasse, com todas as suas forças, não conseguiu desviar. A música que tocava guiou o compasso daquela aproximação, e tomou conta das rédeas, ditando e orientando cada centímetro que se movessem.
Seu olhar era dominador. E ele estava disposto a ser dominado.
Repetia em sua mente um mantra que dizia para ele não se mover, não tocá-la, não fazer nada que pudesse prejudicar aquele momento. Ele sabia bem onde levaria, e decidiu deixar com que o universo tomasse conta dos acontecimentos futuros.
Afinal, tudo tende à hegemonia. Inclusive todos os corpos.
E por motivos de força maior, magnética ou gravitacional que fosse, os dois lábios finalmente estavam unidos.
precisou de alguns instantes para perceber o que acontecia. E, ao raciocinar que finalmente havia desfeito o espaço entre eles, ele relaxou. Parecia ter tirado um peso imenso de suas costas, e cada músculo de seu corpo se desfez suavemente.
Aquele beijo seguiu ditado pelo compasso da música. Os dois lábios se tocavam sedentos e perfeitamente sincronizados, deliciando-se com o gosto um do outro. O beijo de tinha o encaixe ideal para o seu, e suas línguas se revezavam nas carícias uma da outra.
Nunca, em toda a sua vida, havia experimentado um beijo que tivesse uma união tão certa com o seu.
E nunca, em toda a sua vida, havia experimentado um beijo que tivesse uma união tão certa com o seu.
A harmonia dos dois toques era surreal, e eles simplesmente não conseguiam parar. Se beijaram por longos minutos, como se nada mais no mundo importasse a não ser aquele beijo. As mãos de passearam pela nuca de e pela raiz de seus cabelos, na nuca, enquanto ele, com sua mão livre, segurou firme a cintura da moça, selando qualquer centímetro que pudesse existir entre os dois corpos.
estava imersa em seu beijo de uma forma que podia jurar não se lembrar nem ao menos do seu próprio nome.
Mas a realidade puxou seus pés para o chão novamente, e ela finalmente acordou daquele devaneio, lembrando-se do local onde estava.
Um local público, principalmente.
Afastou o corpo de rapidamente, que gemeu em descontentamento.
Ele então abriu os olhos, e sorriu na direção da moça, enquanto passava os dentes pelo lábio inferior. Ela riu, com uma leve preocupação e uma determinação inexplicável para prosseguir com a maior loucura que ela já fizera na vida, mas, que teve a certeza de que era a coisa certa a se fazer assim que seus olhos encontraram os dele imóveis na sua direção.
Aproximou-se, alcançando o ouvido do rapaz.

― Me leve para outro lugar ― sussurrou, alto o suficiente para que ele ouvisse.

se afastou, assustado e de olhos arregalados. Ela realmente havia dito aquilo?

― Para outro lugar? ― preferiu confirmar.
― Sim... Vamos sair daqui. Me leve para... ― ela parou por alguns segundos, tentando encontrar uma alternativa ― para sua casa. É isso, vamos para sua casa.
... Eu...
― Vamos, . Ou você tem algo muito importante aqui nessa balada hoje para resolver?

Ele podia jurar que ela estava fora de si. Mas, de repente, ela o olhou fundo nos olhos. E aquele vislumbre parecia ser capaz de convencê-lo a ir para uma guerra, caso ela quisesse.

― Vamos para a minha casa ― ele suspirou, sentindo o coração disparar no peito.

A cada segundo, aquela noite parecia ficar mais surpreendente. Ele não estava mais disposto a criar nenhuma expectativa, pois tinha a certeza de que seria atingido por mais uma reviravolta do destino.
colocou-se na ponta dos pés para beijar rapidamente os lábios dele num selinho, e então segurou sua mão, pronta para deixar aquele local.

― Só vou deixar uma coisa com meus amigos. Me encontre na saída ― ela sorriu, e desapareceu em seguida no meio da multidão.

Parecia saber perfeitamente onde estavam seus amigos, como se de repente seu corpo tomasse uma sobriedade instantânea.
E, na verdade, ela realmente sentia-se mais sóbria. Ou pelo menos no total controle da situação, já que faziam mais de uma hora e meia que ela não colocava uma gota de álcool na boca, apenas bebia água.
correu no backstage para pegar suas chaves e documentos, e rapidamente estava na porta da boate, esperando por . Batia as pernas de ansiedade, e procurava colocar a cabeça no lugar enquanto ela não aparecia, para acreditar em toda aquela situação.

― Vamos? ― ele foi surpreendido pela voz da mulher, que segurou seu braço firmemente.
― Estou esperando meu carro.
― Vamos de carro?
― Vamos.
― Pensei que a gente ia de táxi...
― Eu preferi vir de carro hoje, estava sem dinheiro para táxi ― ele sorriu.

Chamando a atenção de todos com um alto zumbido de motor, finalmente um Porsche Carrera 911 preto foi estacionado na calçada à frente dos dois. encarou o veículo, um pouco assustada por ser um modelo idêntico a um dos carros da coleção de Antony, exceto pela placa, que ela verificou disfarçadamente.
Rolou os olhos, imaginando um jovem metido e playboy descendo do volante e se exibindo para as mulheres que aguardavam na entrada da casa. Mas, ao contrário das suas expectativas, quem abriu a porta e desceu foi o manobrista da boate. Ele deu a volta no veículo e entregou um cartão a .
encarou tudo aquilo boquiaberta.

― Boa noite, senhor Foster ― disse o manobrista.
― Obrigado, boa noite ― respondeu, segurando o cartão ― Vamos? ― olhou para .

Ela estava imóvel, paralisada o suficiente para não proferir nenhum murmúrio.

? ― ele insistiu.

Ela balançou a cabeça, acordando de seus devaneios.

― Está tudo bem?
― Está... ― ela murmurou, tentando caminhar lentamente na direção do carro. deu a volta e adentrou o lado do motorista.

encarou a porta, sem reação. Ele abriu o vidro da porta onde ela estava.

― Você não vai entrar? ― indagou, um pouco assustado com aquela situação.
― Eu vou... Você não abriu...
levou uma mão à testa, percebendo a mancada.
― Desculpe! ― ele riu, a interrompendo ― Não estou acostumado a levar damas comigo... Eu devia ter aberto a porta para você. Sou um ogro, perdão! ― ameaçou abrir sua porta para descer, mas rapidamente abriu a do passageiro e adentrou o veículo.
― Não precisa se preocupar ― ela sorriu ― É que eu, infelizmente, estou mal-acostumada.
― Como assim? ― ele perguntou, enquanto fechava os vidros e ligava o ar condicionado.

pensou antes de responder. Não podia citar Antony - não para estragar o momento.

― Eu ando com motoristas particulares, e eles sempre abrem as portas. A não ser que eu dirija meu carro. Nesse caso, eu mesma abro ― ela sorri, satisfeita com sua resposta.

coloca o cinto de segurança e acelera o motor.

― Compreendi ― então arranca abruptamente, causando um barulho estarrecedor. o encara ― Desculpe ― ele responde, diminuindo a velocidade ― Estou acostumado a fazer isso sempre que arranco o carro.
― Entendi...
― Notei que você ficou um pouco espantada quando o manobrista me entregou as chaves. Mas não precisa pensar que sou um playboy babaca... Eu não queria causar essa impressão, mas o ogro aqui estragou tudo mais uma vez com essa arrancada...
― Eu não pensei isso...
― Eu sei que pensou, todo mundo pensa. Mas veja bem, estou usando tênis Vans nos pés. Playboys não usam tênis Vans, principalmente surrados e desbotados...
― Na verdade, eu fiquei um pouco em dúvida quanto aos tênis e o resto... Esse carro é do seu pai? Você usa na balada para impressionar garotas?

gargalha alto. O som da sua risada é rouco e encantador, e não consegue deixar de acompanhar.

― Não ― responde ao se recompor ― Esse carro é meu. Ganhei quando fui aprovado na faculdade. Na verdade, é a única coisa de valor que eu tenho... Meus pais me deram, e depois sumiram, pagam apenas o meu aluguel, pois se não pagarem é muito provável que eu vire um morador de rua ― ele ri ― Eu sou um DJ amador, e DJs amadores não ganham tanto dinheiro assim...
― Espera, é muita informação.
― Faça uma pergunta de cada vez que eu esclareço ― ele diz, sem desviar os olhos do trânsito.
― Como assim na faculdade? Você tem idade para estar na faculdade?
, eu tenho vinte e dois anos... Tenho idade para estar formado em determinados cursos, inclusive ― ele a olha rapidamente, com um semblante confuso.

se assusta, o encarando.

― Você tem vinte e dois anos?
― Tenho... ― ele confirma, sem entender muito bem aquela situação.
― Nossa, que mentira!
― Agora a senhorita vai duvidar da minha idade?!
― Você tem dezoito anos e acabou de sair do ensino médio! ― ela retruca.
― Não... Eu tenho vinte e dois anos e acabei de largar a faculdade de medicina no sétimo período...
bate a mão nas coxas, gargalhando alto.
― Isso é o que você usa para conquistar as meninas na balada e impressioná-las enquanto dirige para sua casa! Vamos, pode me falar a verdade, !

solta uma das mãos do volante e pega sua carteira no porta-objetos localizado perto do descanso de braço. Joga no colo de .

― Abra e veja você mesma...
abre a carteira, e se depara com o documento de .

James Foster. Nascido em 06 de junho de 1994.
Ela fez as contas rapidamente em sua cabeça, e comprovou que o rapaz tinha mesmo vinte e dois anos. Inclusive, faria vinte e três brevemente.

― Agora você acredita em mim? ― indagou ele, cortando o silêncio.
― Eu... Nossa... Como você consegue parecer tão novo?! ― ela parece chocada.
― Eu pareço com um jovem de vinte e dois anos...
― Não, você parece um adolescente!
ri mais uma vez.
― Você não está enxergando direito...
― Eu achei que estava prestes a fazer uma loucura, talvez até ser presa, ao ir pra casa de um adolescente. Eu já estava pensando no que falar para os seus pais quando a gente entrasse na sua casa e eles abrissem a porta!
― Você não precisa se preocupar com isso mais ― ele ainda ri ― Eu moro sozinho, e sou maior de idade.
― Eu estou muito chocada... Como você largou a faculdade?
― Eu queria ser DJ...
― Mas você ia ser médico!
― E daí? Não me identifiquei com a profissão...
― Mas...
― Aposto que você está prestes a dizer “mas é uma carreira estável, tem um ótimo salário”... ― ele a interrompe.

se cala. Era isso mesmo que ela diria.

― ...Mas não precisa se preocupar. Eu vou sobreviver. Não preciso de status nem de dinheiro pra ser feliz. ― ele sorri ― A gente pode conversar sobre isso mais pra frente, eu acho que você tem mais perguntas a fazer sobre outros assuntos.
― Eu tenho! ― ela exclama ― Por que você estava tocando naquela balada hoje, sendo que disse agora há pouco que caso seus pais não pagassem o seu aluguel, você não teria onde morar? É uma das melhores boates do mundo... Você deve ganhar muito bem ali!
― Eu ganharia, caso eu trabalhasse lá ― ele sorri. Para no sinal vermelho, e então olha na direção de ― Eu não sou residente. Apenas substituí o residente hoje, de última hora. Parece que ele quebrou uma perna a caminho de lá... Algo assim...
― Você tá brincando comigo?!
― Não... Não toco em grandes baladas. Toco em festivais, e mesmo assim não é no palco principal...

passa a mão pelos cabelos, espantada. Tudo que havia pensado sobre ele fora uma ilusão.
Aquele rapaz tornara-se um mistério num piscar de olhos.

― A gente precisa conversar por muitas horas até eu te conhecer de verdade ― ela comenta. Ele sorri, desvia os olhos dela e arranca o carro mais uma vez.
― Eu também preciso de um bom tempo para te conhecer ― comenta ― E estou muito interessado nessa parte...
sente seu rosto ferver. Ele parecia saber o que dizer nas horas certas e deixá-la acanhada.




Capítulo 3

Foi muito complicado o momento em que e precisaram apartar o beijo para descerem do carro. contava com a sorte de usar a garagem do vizinho que ficava exatamente ao lado do seu prédio, e assim que estacionara o automóvel, avançou em sua direção, não dando tempo nem para que ele desatasse o cinto de segurança. Beijaram-se fervorosamente por longos minutos na escuridão da rua, até que os vidros do carro se embaçassem e eles perdessem todo o fôlego ali dentro.

― O que acha da gente... continuar em casa? ― perguntou ele, ofegante.
― Sim ― mal respondeu e já abria a sua porta. Pulou fora do veículo com pressa, deu a volta e encontrou trancando o automóvel.

Ele segurou forte a mão da moça, puxando-a para fora do gramado e entrando sorrateiramente na portaria do prédio ao lado. Subiram dois lances de escada em silêncio, ambos tentando recuperar a respiração que ainda se encontrava descompassada, e planejavam, individualmente, cada um dentro da sua própria cabeça, a melhor forma para abordar o outro sem espantos e continuarem o que haviam interrompido, primeiramente na balada, e depois no carro.
Na cabeça de , ela já podia entrar no apartamento completamente nua, que estaria plenamente satisfeita. Na cabeça de também. Mas nenhum dos dois tinha coragem de falar.
Ao destrancar a porta principal que se instalava no fim do corredor do segundo andar, acendeu as luzes do apartamento, revelando um aconchegante loft com três ambientes e uma porta de correr que parecia esconder um corredor ao fundo da enorme sala de estar. Os móveis eram poucos, modernos e bonitos; a cozinha contava com uma ilha, dividindo seu ambiente com a sala de jantar, e um aparador atrás do sofá cinza servia como uma segunda divisória entre a sala de jantar e a de estar. O pé direito era alto, e uma das paredes era completamente coberta por janelas, desde o teto até o chão, e cortinas brancas gigantes tentavam esconder o mundo exterior.

― Uau ― arfou, ao observar seu entorno. Aquele lugar era realmente agradável e aconchegante ― Eu gostei da sua casa.
― Obrigado ― respondeu ― Eu quem pintei as paredes, montei os móveis e instalei aquela porta ― apontou para a porta de correr de madeira que ela havia reparado anteriormente ― O meu quarto e o banheiro ficam pra lá ― Ele esclareceu.
― Seu quarto?
― Sim... você gostaria de beber alguma coisa? ― perguntou ele, olhando na direção da cozinha. Gostaria de pular todas essas cerimônias, mas ainda tinha em si o medo de assustar .
― Não. Não agora, mas vou aceitar mais tarde ― ela respondeu, colocando a bolsa em cima da ilha da cozinha. Andou na direção da sala e parou de frente para a porta de correr ― Você disse que seu quarto fica aqui dentro?
― Sim, no final do corredor ― ele sorriu ― Por q...
― Preciso que você venha comigo até aqui ― ela o interrompeu.

Uma interrogação se formou no meio da testa do rapaz. Todavia ele preferiu não contestar, e apenas fez o que ela desejava: andou em sua direção, num misto de confusão e medo.

― O que houve? ― indagou ao se aproximar.
― Me mostre o restante da casa, oras. Preciso conhecer seu quarto... ― ela disse, com a voz suave.

deu de ombros e rolou a porta, revelando um estreito corredor pintado de cinza e com piso de madeira. Havia duas portas ali dentro.

― Aqui fica o banheiro, e caso precise usar, pode ficar à vontade ― ele apontou para uma delas. Depois, segurou a maçaneta da segunda porta e abriu-a lentamente, revelando seu interior: um quarto iluminado pelos fachos de luz vindos da rua, que atravessavam a enorme janela, e davam vista a uma pequena parte de seu interior. ― Este é o meu quarto.

Ao centro, uma cama baixa, coberta com edredons cinza e brancos, e travesseiros, parecendo extremamente macia e convidativa. Num canto, uma cômoda, no outro, uma escrivaninha com uma cadeira aparentemente confortável à frente. Havia também um teclado, um violão e uma guitarra, e caixas de som. Uma vitrola e discos de vinil velhos empilhados próximos às caixas. As paredes eram cobertas com pôsteres de festivais de música e quadros com frases e figuras divertidas, e uma delas era pintada de azul escuro. No criado-mudo ao lado da cama, um cinzeiro, e algo que se parecia com um baseado recém bolado.
respirou fundo, tentando sentir algum resquício de cheiro de maconha no ambiente, mas não conseguiu identificar nada. O quarto cheirava a roupa lavada e perfume masculino - e esse aroma era tão gostoso que chegava a deixá-la irritada.

― Pode ficar à vontade também para utilizá-lo caso necessite ― ele disse, numa falha tentativa de fazer uma piada e quebrar o gelo. Depois, percebeu que não fizera muito sentido, e ele precisaria ser melhor do que aquilo caso quisesse impressionar .
Mas não foi muito necessário o esforço, já que apenas com uma breve troca de olhares e um sorriso com o canto da boca, os dois já tratavam de unir seus lábios mais uma vez.
E agora, sem pudor: A porta da frente estava trancada, a bolsa de jogada em outro cômodo, e não havia ninguém ali naquele apartamento a não ser os dois. Ela estava pronta para o próximo passo e ansiava por aquele momento mais que o ar para respirar - e, na voracidade com que se beijavam, ela não parecia mesmo precisar de oxigênio.
As mãos de foram rápidas ao tomarem com força a cintura da moça e a aproximar dele, força suficiente para fazê-la gemer incomodada com a leve pressão que ele fizera. Mas ele não se importou. Muito pelo contrário, procurou desfazer cada centímetro que os separava, quase que fundindo os dois corpos, e com a outra mão livre, segurou forte os cabelos da nuca de . Ela sorriu entre o beijo, animada com aquela situação.
Como resposta, ela segurou também na nuca de , e tomou o controle daquele beijo, apertando sua velocidade e a pressão que fazia com os lábios na boca do parceiro.
Aquele beijo parecia não ter fim.
A euforia que sentia por todo o corpo enquanto ela o beijava e o formigamento entre as pernas denunciavam todo o desejo que tinha. Ele percebeu então o quanto sua calça começava a apertar na região da virilha, entregando de bandeja o tesão que sentia pela moça naquele instante em que se beijavam e seus corpos se colavam um ao outro.
E ela percebeu. Percebeu tão perfeitamente que, no mesmo instante, sua mão soltou a nuca do rapaz e começou a traçar uma rota pelo seu pescoço, seu peitoral, seus braços fortes, seu antebraço, e novamente o caminho até seus ombros, e desceu por sua barriga até finalmente tocar sua intimidade enrijecida e sufocada dentro daquele jeans. Apertou levemente por cima da calça, fazendo pressão na parte que cabia na palma da sua mão. apartou o beijo e jogou a cabeça para trás, arfando alto e respirando fundo.
Ele retirou a mão que segurava a cintura da garota e a levou até a curva de seu quadril, aproximando-a com mais intensidade de seu corpo, fazendo com que ela sentisse seu membro se chocar contra seu ventre. Ela tinha em suas mãos toda a excitação dele, porém queria fazê-la provar aquilo de forma torturante em sua pele, mesmo com tantas peças de roupa ainda existentes entre eles.
O que faziam parecia tão errado.
E, na verdade, era mesmo muito errado. estava noiva, seu casamento marcado para oito dias adiante, e ela estava, naquela madrugada, entregando-se ao deleite de uma noite nos braços de um rapaz desconhecido e misterioso, que ela conhecera há menos de duas horas numa balada.
O quanto ela seria julgada por aquela atitude? E se seu futuro marido descobrisse?
Ao notar que instantaneamente enrijecera seu corpo e seu beijo, tornando-se mais tensa, interrompeu o beijo e segurou o queixo da moça, fazendo-a olhar em seus olhos.
Como os olhos dela eram maravilhosos quando encobertos pela meia-luz do quarto.

― O que está havendo?
― Nada… Eu… Preciso ir ao banheiro ― engoliu em seco ― Você disse que eu poderia ficar à vontade, caso desejasse… ― tentou um comentário divertido para descontrair. suspirou, olhando-a preocupado. Ela apenas piscou, sem mais ter o que dizer.
― Você pode ir ― ele sorriu, tentando manter-se doce. Talvez ela estivesse mesmo passando por algum pensamento ruim, e precisasse de alguns minutos sozinha para decidir se seguiria com aquilo.

Ele entendia perfeitamente.
Principalmente por ter notado, recentemente, que ela não parava de rodar um anel no dedo anelar da mão esquerda. Um conhecido anel de diamantes, que aparentava, inclusive, ser muito caro. Ele se perguntou por alguns instantes quantos quilates teriam aqueles diamantes, e espantou os pensamentos ao se perder nos números.
Ele tinha certeza de que ela estava noiva de alguém. Ela só não parecia ter vontade de contar esse pequeno detalhe. E ele não seria o insistente, ainda mais que, caso fizesse, poderia colocar abaixo todo o clima que eles estavam tendo juntos.
Assim que se virou na direção da porta e andou com passos largos até lá, o rapaz sentou-se na cama, respirando fundo. Retirou os sapatos, passou uma das mãos pelos cabelos, jogando sua franja para trás, e olhou para o teto.
Ele queria mesmo ser pivô de uma traição?
De fato, quando a notou na balada, não fazia ideia de que ela era noiva. E fazia muito menos ideia de que, aquela simples troca de olhares, a traria para essa situação: dentro de seu quarto, na madrugada, parcialmente bêbada e aparentemente muito disposta a transar com ele. Ele jamais iria adivinhar esse fato, até o momento em que ela recostou o cotovelo no descanso de braço de seu carro e estendeu a mão para observar suas unhas. A luz que vinha do lado de fora do carro refletiu daquelas pedras diretamente em seus olhos.
Mas ela já estava dentro de seu carro, à caminho de sua casa. Como voltar atrás? Por mais que sua ética e sua moral o dissessem para fazer tal coisa, ele não conseguia.
Sentia que precisava ir além. Ignorar completamente aquele fato, até que ela mesma decidisse contá-lo. Até que ela mesma decidisse dar o primeiro passo para trás. Afinal de contas… Ele era solteiro. Estava vivendo sua vida de solteiro.
Quem estava escolhendo ser infiel era ela, sozinha. Ele não devia satisfações a ninguém.
E, no fim, ele desconfiava que houvesse um motivo muito maior para aquela simples infidelidade… Que ele iria descobrir. Mais cedo ou mais tarde.
Enquanto se perdia em seus pensamentos dentro de seu quarto, andava de um lado para o outro dentro do banheiro. Por sorte era um banheiro grande, e ela tinha bastante espaço para rodar feito uma barata tonta sem ter para onde ir. Cruzava e descruzava os braços, passava os dedos pelos cabelos, olhava para o teto e para sua aliança. O que diabos ela estava fazendo na casa daquele rapaz?
Debruçou-se na pia, encarando seu reflexo no espelho, num monólogo semelhante ao que tivera no banheiro da balada horas antes. A cena se repetia, porém dessa vez, sem aquele boné que escancarava em sua cara que ela era comprometida. E também sem seu batom vermelho que havia ido embora junto aos beijos que trocara com .
E que beijo!
Talvez o melhor beijo da sua vida inteira. O mais aconchegante e que tivera o melhor encaixe. Ela nunca, jamais, teria a oportunidade de beijar alguém de forma tão perfeita novamente. Era a chance da sua vida.
E, como se usasse aquele beijo como desculpa, ela o uniu ao fato de estar em sua despedida de solteira e pensou também que nunca, jamais, teria a oportunidade de estar na cama de outro cara novamente. Não de forma menos antiética.
Afinal, o que ela era? Noiva de Antony? Apenas noiva?
Como esposa ela faria juramentos perante um Padre. Mas como noiva… A única coisa que dissera foi “sim” durante o pedido naquele jantar em Veneza onde ele contratou violinistas para tocarem no restaurante em que estavam. Os violinistas iriam mandá-la para o inferno? Óbvio que não.
Que se danem os violinistas!
Ela iria transar com .
Num impulso, abriu a água fria e passou as mãos molhadas pelo pescoço, refrescando-se. Decidiu, então, jogar de forma ousada com .
Se aquela seria sua última noite com outro homem, faria dela a melhor.
Retirou sua camiseta com um movimento rápido, e junto dela a sua saia, antes que pudesse pensar em desistir daquela loucura. Olhou-se no espelho, e notou que trajava sua melhor lingerie da La Perla, que, inclusive, fora um presente de aniversário de Antony.
Antony, o seu noivo que estava muito ocupado num jantar com seus investidores em Londres, a 5.500km de distância dela, às vésperas de seu casamento.
Aquela renda branca que cobria seus seios ficaria maravilhosa no chão do quarto de .
Ela também não precisaria daquela aliança pelas próximas duas horas, então era melhor deixá-la sobre a bancada do banheiro.
Céus, como era bom poder justificar todas aquelas atitudes impulsivas com o excesso de bebida.
A porta do quarto foi aberta ruidosamente, revelando uma silhueta que se desenhava contra a luz do corredor. Pelo fato do quarto ainda estar no escuro, àquela visão pareceu ser um devaneio. Um corpo perfeitamente delineado, longas pernas em cima de um salto alto, e aqueles olhos azuis flamejantes escondidos nas sombras que olhavam fixamente em sua direção.

― Charl…
Shhhh ― ele a ouviu sussurrar ― Não diga nada. Vamos apenas… Seguir adiante ― completou.

respirou fundo, sentindo seu coração disparar no peito e suas pernas voltarem a formigar. Ele podia ter tido pelo menos alguns segundos para verificar se estava bem perfumado ou seus cabelos estavam alinhados.
Mas, muito pelo contrário, andou com passos largos em sua direção, sem desviar os olhos e sem dar chance para que ele também desviasse. A partir do momento em que seu rosto foi iluminado pela luz da janela, ele sentiu o coração querer rasgar o peito, e um calor inexplicável começou a tomar conta de seu corpo.

― Desculpe ter saído tão de repente ― ela sussurrou ao pé do ouvido do rapaz, projetando o corpo para frente para poder alcançá-lo ― Quero te recompensar por isso…

tomou o ar para respondê-la, porém antes de dizer qualquer coisa, ela segurou seu queixo e beijou docemente seus lábios.
Sua boca era quente e sua língua macia ao acariciar a dele.
Sem parar o beijo, aproveitou a posição de sentado, e após se livrar dos sapatos, apoiou os joelhos sobre a superfície da cama, ao redor do corpo do capaz, sentando-se em seu colo. Ao perceber o peso de sobre suas pernas, respirou fundo, sentindo um choque percorrer desde seus pés até sua virilha. Ah, sim, ela estava sentada em seu colo. E, enquanto o beijava, seus quadris começavam a se mexer lentamente, para frente e para trás, como se quisesse torturá-lo. E talvez ela quisesse.
Ao sentir o movimento de sobre seu membro já excitado, segurou forte a nuca da garota, aumentando a voracidade do beijo. Ambos tentavam recuperar o ar ruidosamente entre o beijo, e então ele tocou, com a mão livre, os quadris de .
Ao sentir o tato daquela pele macia sob a palma da sua mão, ele percebeu todos os seus sentidos se aflorarem em seu corpo, como se conseguisse perceber todos eles muito mais intensos. A tez de tez era tórrida, aveludada, e ele queria apertá-la com toda a força que conseguisse. Queria que ela estivesse mais próxima a ele. Durante alguns segundos, ele se perdeu naquele toque, acariciando com vigor a pele da moça, enquanto acompanhava os movimentos ritmados que ela fazia sobre seu colo.
Sabia que ela seria maravilhosa nisso ao vê-la dançar mais cedo. Podia até jurar ter desejado esse momento em algum lugar do seu subconsciente.
As mãos dela finalmente soltaram a nuca de , e envolveram seus ombros, conforme seus sentidos captavam o aroma daquele momento. Ele cheirava a perfume fresco, e aquela essência a inebriava. O calor que ela sentia espalhava-se pela pele do seu corpo inteiro, e parecia irradiar as mãos dele, firmes e ternas apertando fortemente seu quadril e suas coxas. Ela precisava sentir a energia da pele dele também. Segurou a barra de sua camisa e facilmente desfez-se dela, jogando-a no chão, e em instantes suas mãos passeavam pelo peitoral de , que ardia em chamas.
Enquanto espalmava suas mãos pelo peito de , ele não pode deixar de observá-la, notar os detalhes daquele rosto tão próximo ao seu. Seus lábios eram cheios e faziam uma curva maravilhosa, pareciam possuir o formato perfeito para envolvê-lo. Ele imaginou aqueles lábios correndo por toda a extensão de seu corpo, e teve a certeza de que iria explodir de tesão a qualquer momento. O latejar que sentia dentro de sua cueca transformou-se em pontadas, quase dolorosas, e ele fechou os olhos, prestes a perder o controle da situação. tinha os movimentos perfeitos demais sobre seu corpo, desenhando círculos imaginários com o meneio de sua pelve contra a dele.
Afastou-a, e disposto a dominar a situação, levantou-se, segurando-a no colo, e lentamente escorregou seu corpo até que ela alcançasse o chão. Envolveu sua cintura num movimento rápido, girando-a em direção oposta à cama, e respirou fundo antes de abaixar uma das alças do seu sutiã. Ela estava linda por trás daquelas rendas que revelavam disfarçadamente os bicos de seus seios eriçados, porém, seria muito mais bonita sem aquelas amarras.
Assim que seus seios pequenos e redondos foram revelados, o formigamento voltou ao corpo de , e ele fora tomado pelo impulso de se jogar de boca em um deles, enquanto com a outra mão segurava o peito livre de .
Ao sentir o toque úmido da língua de sobre seu mamilo, percebeu as pernas bambearem. Não tinha certeza se conseguiria ficar de pé por muito tempo, já que os movimentos suaves e delicados que ele fazia sobre sua pele estavam tomando conta de seus atos como se ela fosse um fantoche. Um forte e grave gemido ressoou de sua boca, fazendo com que a pele de se arrepiasse por completo ao ouvi-la. Ele estava no caminho certo.
agarrou os cabelos de , enquanto se deliciava com a sensação que ele causava em seu corpo. Aos poucos, sentiu que ele começava a abaixar os lábios, em direção à sua barriga. Ela sabia o que estava prestes a acontecer ali. E ela queria muito, com todas as forças, que fosse verdade. Delicadamente, ele se afastou e a empurrou em direção à cama, onde ela se sentou. Ele, então, olhou fundo nos olhos da moça, e num ímpeto segurou suas coxas, fazendo com que suas costas caíssem sobre a superfície macia, e suas pernas se abrissem para que seu corpo coubesse entre elas.
Seus olhos, em momento algum, foram desviados. Estavam completamente conectados, e as orbes escuras de vibravam em direção a ela na penumbra do quarto.
Ligeiramente, trocou os olhos da moça pela pele de seus seios, e os encarou de forma invasiva. Todo o restante de seu corpo também, até alcançar sua pequena calcinha de renda, onde ele levou a mão, acariciando-a por cima do tecido. Estava completamente úmido, como se tivesse sido mergulhado num balde de água. Ele sorriu ao perceber, e aquilo fez com que a vontade de tocar seus lábios sobre ela aumentasse exponencialmente. Beijou com os lábios macios sua barriga, seu ventre, sua virilha e a parte de dentro de suas coxas. Ajoelhado sobre o chão, Estava pronto para fazê-la delirar de tesão, e assim o iniciou, roçando a boca sobre a renda fina. se contorceu levemente, gemendo baixo, e então ele, morosamente, levou as mãos até as laterais da peça e deslizou-a pela pele quente e arrepiada de . Ele fechou os olhos por um instante, temendo perder o controle mais uma vez ao se deparar com a intimidade de , e então de forma sutil ele a observou, calmamente.
Ela era perfeita, comumente perfeita.
Umedeceu os lábios, respirou fundo, e antes de abaixar-se entre as pernas da moça, olhou para cima, encarando-a. Ela tinha os olhos fixos no teto, e as mãos seguravam forte o lençol. Assim que ela olhou para baixo, suas vistas se encararam por milésimos de segundo, e sem que ela esperasse, a língua quente de entrou em contato com a sua pele fina e extremamente orvalhada. Ela se contorceu mais uma vez, e ele voltou a encontrar sua língua e sua pele. Aos poucos, podia perceber que os gemidos e os movimentos de tornavam-se mais intensos, enquanto ele se revezava entre fortes lambidas e pequenas pressões sobre toda a extensão de sua vulva. A facilidade com que ele arrancava espasmos e chiados de entregava que ele sabia bem o que fazer e como fazer.
E jamais havia provado uma sensação tão prazerosa na vida. Era natural a forma como ele passava a língua sobre seu clitóris, concentrando-se no exato ponto que a fazia estremecer as pernas e perder o controle sobre os movimentos dos seus quadris. Ele segurava firme suas coxas quando ela perdia tal controle, como se quisesse garantir que ela estaria no lugar exato para ter a sensação exata que ele queria dar a ela. E, ao apertá-la mais contra seu rosto, ele não fazia noção de que a trazia cada vez mais perto de seu ápice de prazer. Sua língua era confiante e habilidosa, e traçava um caminho vigoroso por todo seu sexo. Como num piscar de olhos, ele se concentrou inteiramente no local que a fez gemer alto, praticamente num grito, e então se dispôs a ficar ali durante bons segundos, mantendo seu ritmo, até que ela se desfizesse por completa em volta dele.
E ela o fez. Seus músculos se contraíram de forma involuntária, enquanto sua cabeça pareceu ir até a lua e voltou. Naquele breve instante, não soube o que era respirar, muito menos o que eram batimentos cardíacos. Uma onda de prazer inundou seu corpo desde o dedo do pé até o último fio de cabelo. As pontas de seus dedos das mãos estavam dormentes, e pequenos espasmos ainda tomavam conta de suas pernas enquanto ela recuperava seu fôlego.
Com um último beijo em seu íntimo, ergueu a cabeça, sorrindo.
Aquele maldito sorriso.
Aquele maldito sorriso que resolvia dar sinal de vida durante seu momento de maior prazer em toda a sua existência.
O cérebro dela gravava aquela risada junto àquele êxtase sem que ela notasse.
Apressadamente ela se sentou, sem dar tempo para seu corpo se recuperar por inteiro, e agarrou o pescoço do rapaz, beijando-o. O gosto de sua boca era maravilhoso, era o gosto dela misturando-se ao dele, e aquilo a trouxe de volta ao prazer anterior ao orgasmo. Ela queria mais, muito mais.
Abaixou as mãos até a calça de , onde seu membro enrijecido fazia com que o zíper do jeans quase estourasse com tamanho aperto. Ela o abriu delicadamente, liberando de vez todo aquele volume, que a fez perder a respiração por alguns instantes.
Ele a auxiliou, tirando rapidamente a calça e ficando apenas com sua cueca branca, que delineava perfeitamente seu pênis longo, largo e ereto.
Respirando fundo, ajoelhou-se na cama, alinhando seu rosto à altura de . Seus olhos se encararam pela milésima vez naquela noite, e ela arranhou as unhas levemente em seu peitoral definido, descendo-a gradativamente em direção ao seu sexo. Ao tocá-lo, fechou os olhos, gemeu forte, e segurou sua mão, parando-a.
arregalou os olhos, curiosa.

― Hoje é você quem vai receber prazer ― ele sussurrou, olhando-a fundo nos olhos.

Fora uma decisão muito difícil da parte dele, quase dolorosa, porém, tendo em vista a entrega dela durante as primeiras preliminares, ele pôde perceber o quanto aquela jovem precisava de prazer na vida. Ela precisava sentir muito mais do que sentira. Ele não havia feito nem metade do que sabia, e ela já estava completamente desfalecida em seus braços.
E, se aquela era a última noite em que ela se entregaria a um outro homem, ele estava disposto a torná-la memorável.

― O que você…
Shhhh ― ele a interrompeu suavemente, e levou sua boca próxima à orelha da garota ― Deixa que eu tomo conta de você hoje… ― sussurrou ele, com a voz grave.

Ela sentiu o canto da boca repuxar-se num sorriso, e como se aquele fosse um sinal verde para prosseguir, ele a segurou novamente, jogando-a sobre a cama e girando seu corpo, deixando-a de bruços, com a bunda completamente empinada em sua direção. Ela gemeu com toda a movimentação, e ele não pode resistir a observar aquele corpo maravilhoso à sua frente. De repente, ele estava mais do que simplesmente excitado: ardia em chamas; e colocava sua mão no fogo para provar que compartilhava do mesmo sentimento.

― Espere um instante ― ele murmurou, e antes de virar-se, deu um leve tapa na bunda de . Ela girou o pescoço, tentando olhá-lo, mas só o que viu foi à silhueta dele andando em direção à cômoda e abrindo uma gaveta. Ao retornar, ela percebeu que ele, em algum momento entre seu trajeto da cama até a cômoda e da cômoda até a cama, havia tratado de retirar sua cueca, e exibia agora um dos pênis mais belos que ela já vira na vida.
Parecia ter sido desenhado à mão para um livro de anatomia.
Assim que se aproximou dela novamente, ele jogou alguns pacotes de preservativos sobre a cama.

― Eu sei que vamos precisar de mais do que um ― disse ele, entre os cabelos dela, e apoiando parte do peso do seu corpo sobre as costas da moça. Ela sentiu um tesão irreprimível ao perceber o toque do pênis dele contra a pele de sua bunda.

Ela o desejou ardentemente dentro de si.
E como se lesse seus pensamentos, tratou de apoiar o corpo em um braço, enquanto com o outro afastava os cabelos de de sua nuca. Beijou sua pele, que se arrepiou instantaneamente, e segurou firme seus cabelos para cima, arqueando as costas da garota.

― Diga o que você quer ― ele sussurrou.

― Diga ― insistiu, enquanto projetava seu quadril para frente, pressionando ainda mais a bunda de .
― Eu… Eu quero ― ela sibilou entre seus gemidos ― Eu quero você dentro de mim ― finalmente conseguiu dizer.

Totalmente concentrado no corpo à sua frente, afastou as pernas de , abrindo espaço para que seu pênis se encostasse na entrada da intimidade encharcada da garota. Ela gemeu positivamente em resposta, esperando que ele a penetrasse, e vagarosamente ele escorregou para dentro dela, arrancando de sua garganta um gemido rouco e expressivo. estava sedenta pelo afeto de , e ele parecia fazer questão de tornar aquilo muito mais prazeroso do que de fato parecia ser. Seus movimentos eram delicados, em partes para não machucá-la, e em partes para deixá-la muito mais inundada de tesão do que já estivera anteriormente.
Pouco a pouco suas investidas ficavam mais longas e os dois quadris se chocavam com um baque mais forte, e enquanto ela gemia forte e alto, ele soltou seus cabelos, segurou em sua cintura, e fez com que sua penetração fosse cada vez mais funda e compassada, até sentir seu pênis por inteiro dentro dela numa agilidade excêntrica . A partir daquele instante, os quadris de pareciam se mexer sozinhos projetando-se na direção dele, e até mesmo o barulho alto das duas peles se chocando parecia inundá-los de tesão. Suas dermes estavam abrasadas, os suores se misturavam, as vozes se uniam e se confundiam entre os gemidos. segurava firme o lençol da cama, a ponto de quase rasgá-lo, e sua mente era um turbilhão de pensamentos profanos em que era o protagonista.
E ele era mesmo. O protagonista dos momentos de prazer que ela sentia, como se fossem únicos na sua existência.
acompanhava os movimentos de penetração com os olhos, deliciando-se com a visão que jamais sonhara na vida, e sua cabeça estava a mil por hora, enquanto ele se concentrava na curva que as costas de arqueadas à sua frente esboçava. Ele queria mais dela, queria dar mais a ela, então tratou de concentrar-se no momento. Seus corpos tinham uma sincronia perfeita, e durante longos minutos, mantiveram-se assim, repletos de desejo um pelo outro, esquecendo-se completamente de qualquer medo ou timidez. não se lembrava da última vez em que havia gozado durante uma penetração, mas sem ao menos perceber, seu gemido havia se transformado num grito rouco e um espasmo percorreu todo seu corpo. Ao perceber que a intimidade da garota havia se contraído e se enrijecido, não teve mais forças para se segurar, e numa última estocada forte, sentiu todo o seu prazer inundar o preservativo que usava. Ofegante, saiu de dentro de e agarrou-se a ela, levantando-a de joelhos na cama e a abraçando forte por trás.
Sua cabeça estava perfeitamente encaixada na curva entre o ombro e a nuca de , e ele podia jurar que não conseguiria permanecer mais muito tempo de pé, tamanha tremedeira tinha nas pernas.
Respirou fundo, absorvendo o aroma que emanava da pele de , enquanto sentia o coração dela bater forte e pulsionar a veia do seu pescoço, próxima à bochecha do rapaz.

… ― ele sussurrou entre os suspiros ― Eu já volto ― beijou a pele suada da moça antes de soltá-la. Ela sentou-se na cama, apoiando o peso nos braços e arqueando o corpo para trás, enquanto o observava ir até a porta e desaparecer no corredor.
Em instantes, ele estava de volta, livre do preservativo, mas seu pênis ainda permanecia incrivelmente ereto. Ela observou aquilo, intrigada e empolgada ao mesmo tempo.
Ele havia despertado nela um sentimento que estava sufocado há bons anos: a insaciedade.
Antes que ele avançasse na direção da garota e a beijasse vorazmente mais uma vez, ela tateou a cama, à procura de um novo preservativo para que continuassem de onde pararam.



Capítulo 4

Por boas duas horas e deliciaram-se com o prazer um do outro. Fazia muito desde que provaram uma sensação tão gostosa e insaciável ao mesmo tempo como aquela. Os dois corpos estavam jogados na cama, ofegantes e suados, tentando recuperar o compasso normal de respiração. Olhavam-se fixamente nos olhos, extasiados, e não tinham pretensão de desviar tão cedo.
queria gravar em sua mente cada detalhe do rosto de .
Sua pele ávida, as sardas que timidamente se posicionavam no topo de seu nariz e suas bochechas, suas sobrancelhas grossas, os lábios rosados e o nariz pontudo que insistia em parecer maior do que o necessário. Seus olhos eram de um castanho intenso, e a forma como seus grandes cílios dançavam ao piscar a tiravam por alguns instantes a sanidade.
Como ela podia estar tão vidrada em alguém assim tão rápido? Precisava pisar no freio antes que todo aquele álcool que ainda corria por suas veias a colocasse numa emboscada com o próprio coração.

― Eu preciso beber água ― sibilou, tentando distrair-se com algo que não fosse o olhar de .
― Eu vou até a cozinha. Gelada?
― Sim ― ela sorriu ao responder, e girou na cama, colocando-se de barriga para baixo.

levantou-se e caminhou, ainda nu, para fora do quarto. Diante daquela situação, ela concluiu que não precisaria se vestir tão cedo também. Afinal de contas, após transarem incessantemente por tantas horas, eles já tinham intimidade o suficiente para não usarem roupas próximos um ao outro.
Olhando na direção do criado-mudo, viu novamente o baseado que havia notado mais cedo. Sentou-se e esticou a mão para alcançá-lo, e o cheirou, certificando-se que era mesmo um cigarro de maconha.
Lembrando-se da imagem de com uma camisa de estampa despojada, jeans e tênis Vans nos pés, além daquele rostinho de adolescente, ela concluiu que não devia se impressionar com o fato de ele fumar ilegalmente.
Inclusive, ao sentir o cheiro da erva tão fresca, um súbito desejo tomou conta de seu corpo. A última vez que fumara foi na faculdade, antes de conhecer Antony. Ele era muito intolerante quando a drogas, e, enquanto uma formanda do curso de Direito, estava mesmo na hora de parar com aquilo.
Mas a saudade apertava às vezes quando estava sozinha em sua casa sem nada para fazer.

― Espero que não esteja criando estereótipos meus na sua cabeça ― ela ouviu a voz de próxima, e deu um pulo, soltando o baseado sobre a cama. O pegou de volta, com medo de ter estragado, e verificou se estava tudo bem. O cigarro ainda parecia inteiro, mas seu coração disparado de susto.
― Na verdade... ― ela procurou as melhores palavras, mas percebeu que seria melhor falar a verdade ― Eu criei sim um estereótipo. É que você estava vestido daquela forma, e com aqueles tênis, e tem toda essa história de dj... Desculpa - sussurrou baixo a última palavra.
― Ei, não precisa pedir desculpas ― ele a respondeu ― Até que faz bastante sentido. Só faltou eu ser universitário! ― ele riu.
― É verdade. Eu aposto que você trouxe esse hábito da faculdade!
― Primeiro beck fumado no primeiro dia de aula. Desde então nunca mais parei ― ele respondeu, num tom orgulhoso ― Pra te dizer a verdade, eu acho que, em três anos e meio de curso, nunca cheguei a fazer nenhuma prova em que eu não estivesse chapado...
― Você tá brincando?!
― Não ― ele riu ― Mas agora diminuí. Fumo um desses por semana, faço durar uns três dias ou mais...

encarou o cigarro, e imaginou sentado em sua cama dando uma tragada e depois apagando a brasa para economizar.

― Esse está novo, pelo visto sua semana está apenas começando ― ela virou a ponta na direção dele, mostrando que não havia entrado em contato com fogo ainda.
― Eu ia começar hoje de madrugada ― ele sorri.
― Posso te acompanhar ou você vai fazer miséria para que ele dure a semana inteira também? ― perguntou, sentindo uma mistura de ansiedade e medo. Queria provar o cigarro, e, como era sua noite de despedida de solteira, nada melhor do que desobedecer a mais uma regra.

O sorriso de se alargou no rosto de forma inebriante. pensou que, com aquele sorriso à sua frente, talvez não precisasse de drogas para ficar fora de si.

― Vamos acabar com esse hoje ainda ― ele respondeu empolgado, e buscou um isqueiro no criado. Trocou o copo de água que segurava pelo baseado na mão de , e o acendeu habilidosamente enquanto ela bebia o líquido.

Antes de passar para , ele se levantou, para abrir a janela. Uma brisa fresca correu no ambiente, fazendo com que a garota se arrepiasse.
Ou quem sabe aquele arrepio fosse de puro receio. Ela devia mesmo fazer aquilo?
Encarou o cigarro estendido em sua direção, tentando decidir se colocava de vez tudo a perder ou tentava se redimir com o mínimo de dignidade que ainda a restava.

― E então...? ― interrompeu seus pensamentos ― Se você não tragar, ele vai apagar...

balançou a cabeça, estendeu a mão, e rapidamente tragava o cigarro.

Ao puxar a respiração, sentiu passar por sua garganta e caminhar até seus pulmões aquela fumaça densa. O gosto acre entrando em contato com suas papilas gustativas e o calor que correu suas entranhas no momento em que ela recobriu os pulmões com ar e segurou a respiração percorreu todos os seus nervos, relaxou todos os seus sentidos e ela se viu no céu.
Como era bom sentir o ardor da droga mais uma vez em seu corpo!
Ela soltou a fumaça morosamente pela boca, e tragou mais uma vez.

― Vai com calma. É praticamente pura ― a alertou.

fechou os olhos, saboreando o fumo mais uma vez, ignorando por completo. Aquele momento era dela! Foram quase três anos em abstinência.

― Tudo bem, você quem sabe ― ele riu pelo nariz, e se sentou ao lado dela na cama.

Assim que soltou a fumaça novamente, deitou a cabeça no ombro dele, e o entregou o cigarro com delicadeza.
― Desculpe... Fazia muito tempo ― ela sorriu ― Mas vou pegar leve. Quero ser capaz de conversar.
― Justo ― tragou rapidamente e então levou a mão livre até o cabelo da moça, acariciando a raiz de forma delicada ― Temos muitos assuntos para colocar em dia...
― Eu tenho muitas perguntas!
― E você acha que eu não tenho?! ― ele indagou, e riu antes de tragar mais uma vez e estender o baseado para .

Ela o segurou entre os dedos e o aspirou fortemente por duas vezes.

― Posso começar? ― estendeu de volta a ― Antes que isso tome conta da minha cabeça e não me deixe formular perguntas específicas ― riu.
― Claro. Sou, neste momento, um livro aberto ― ele deu de ombros.
― Certo. Então... Eu estou muito intrigada ― ela começou ― Por que diabos você largou a faculdade?
― Eu já te disse, não me identifiquei...
― Mas então por que começou?!
― Porque na época era o que eu queria. Hoje não é mais. Depois de viver o curso a fundo, percebi que não iria me dar bem na profissão. Eu tinha outras paixões...
― Como, por exemplo, ser DJ?
― Até o primeiro ano de faculdade eu nem sabia que era capaz de ser DJ ― ele ri, olhando para o lado para encará-la.
― Você é maluco, ?! Largar uma profissão de renome por uma coisa que você não sabia fazer há menos de dois anos atrás?!
― Não! ― sente uma súbita vontade de rir do desespero de pela sua vida acadêmica. Sua preocupação beirava a aflição ― Eu comecei na faculdade. Nas festas universitárias da minha república... Eu era de uma ótima república. Só de homens. Alguns jogavam pela universidade, então sempre tínhamos outras pessoas de outros times dentro da nossa casa, e as festas ficavam lotadas e animadas. Com o tempo, ficou impossível manter apenas uma caixa de som e um celular no shuffle ― ele olhou para o teto, parecendo devanear com aquelas lembranças ― um dia, entrei no YouTube para pesquisar como fazer, pelo menos, um mix com várias músicas para tocar continuamente. Depois disso, foi só ladeira abaixo! Me apaixonei completamente pela dissecação das músicas, das melodias, a possibilidade de criar algo novo a partir de um simples acorde em um violão ou um piano, por exemplo... Você sabia que a música eletrônica começou com a música erudita? ― ele olhou na direção de , esperando por uma resposta. Ela, por sua vez, atentava-se por completo à fala do garoto.

Ao perceber que aquilo fora uma pergunta, ela balançou a cabeça negativamente. No momento em que se moveu, percebeu a leve pressão que começava a tomar conta de sua cabeça, na região da testa. Ela sentiu tanta falta disso!

― Então ― ele prosseguiu ― Surgiu na música erudita. Mas, na verdade, foi uma galera massa na França nos anos 40 que pegou alguns ruídos produzidos por toca-discos e misturou com variações nas notas. Depois que inventaram o computador, ficou muito mais fácil manipular as notas e as melodias ― disse ele, olhando na direção do seu teclado ― Inclusive é por isso que se chama música “eletrônica” ― ele fez aspas com os dedos ― É produzida eletronicamente... É possível, por exemplo, criar um set de quase dez minutos apenas variando quatro notas no teclado.
― É sério isso?
― Sim.
― Então cria pra mim uma música com as notas: dó, ré, mi e fá! ― se levantou, sentando-se de frente para ele, e o olhou com o semblante sério.
― Não é assim tão simples ― ele riu ― Tem que ter uma escala musical. Se alguém criar um set com essas notas, nessa sequência, muito provavelmente vai ser mitificado! Eu falei que dá pra criar de um modo bem grotesco... A verdade é que a música eletrônica é complexa, tem muitos detalhes que não podem passar despercebidos...
― Como por exemplo...? ― ela o interrompeu.
― Como por exemplo a ordem que as coisas acontecem. Não é só pegar uma nota e distorcer ela eletronicamente! É preciso seguir uma ordem-base... Imagina que a música inteira é um quadro. Só que não tem como você pintar um Da Vinci sem seguir uma determinada ordem para a técnica ficar perfeita...
― Então você começa comprando a tela em branco, certo?
― Sim. A construção da música é como tentar pintar uma Monalisa com um público te observando... Você pega uma tela em branco. Primeiro, precisa criar o esboço, com um lápis, então você cria o esboço da música também... Quais são os elementos que você vai querer usar nela. Aí, você pega sua tinta, que no caso seriam suas notas, e começa a pintar... Faz o fundo, que vai ser a base, as notas mais simples que você vai colocar na intro... Elas vão começar sozinhas, e vão crescer... Elas vão ganhando elementos que irão incorporar a música, como se fossem as cores que você pincela aos poucos para criar o fundo da tela, e aos poucos vai deixando ele em segundo plano... Depois, você começa a pincelar seu primeiro plano, mas é aos poucos também, então primeiro você faz a pele da Monalisa, depois os cabelos... ― ele olhou para o teto, pensativo ― Isso seria chamado de break, aonde eu calmamente vou construindo a música. Depois, o Build Up, quando eu me levanto e vou fazer um xixi antes de continuar a pintar, uma pausa repentina, deixando as pessoas meio curiosas com o que eu vou fazer a seguir ― ele ri com a anedota, e script>document.write(Charlie) o acompanha ― Mas ai eu volto antes que todo mundo espere, e começo a jogar umas tintas maneiras e terminar os detalhes incríveis da Monalisa, como por exemplo, o olhar! Eu vou conectar tudo, vou fazer com que todo mundo fique muito agitado ao me ver pintando aqueles detalhes, e vou jogar detalhes do início, vou tirar, vou colocar novamente, vou jogar uma tinta que ninguém viu ainda, vou repetir uma tinta linda que eu coloquei lá no inicinho... Eu vou juntar tudo ― ele olhava para ela com uma empolgação sem igual. Seus olhos cintilavam na penumbra enquanto ele descrevia sua paixão ― Então, quando eu acabar, vou dar uma puta de uma pincelada final! Vai perder todos os elementos, gradativamente, até acabar tudo. E aí eu faço a minha assinatura! James Foster! ― ele sorri, passando a mão pelos cabelos. Olha na direção de , completamente deslumbrado.
― Uau... ― ela murmura, impressionada ― Eu acho que essa foi a primeira e mais incrível explicação que alguém já me deu sobre música eletrônica!

ainda sorria orgulhoso, enquanto encarava-o estarrecida. Fora mesmo uma explicação muito boa, e mesmo que ela começasse a sentir os efeitos da maconha em seu cérebro, aquilo tudo fizera muito mais sentido com a metáfora da pintura.

― Você não sabia de nada disso? Quero dizer, sobre a música eletrônica?
― Ninguém nunca esteve disposto a me contar ― ela respondeu, dando de ombros.
― Mas você gosta, né? Desse estilo musical?
― Sempre gostei muito! ― ela responde com empolgação ― Mas nada muito pesado. Ouvi demais esses DJs mais famosos enquanto estava nos primeiros períodos da faculdade, tipo David Guetta e Avicii...
― Pelo menos você ouvia!
― Sim, e amava... Queria voltar a escutá-los, mas creio que se o... ― ela interrompeu a fala bruscamente. Não deveria falar sobre Antony. Não ali, e não àquele momento, pois não estava nem um pouco a fim de dar maiores explicações sobre o assunto ter um noivo ― Creio que se eu ouvir novamente, não vou conseguir parar ― corrigiu.
― Certo! Então eu tenho um ótimo plano ― se levantou da cama mais uma vez, e ao perceber que o cigarro já havia se apagado, o colocou sobre o criado-mudo.
Buscou no bolso da calça jogada no chão o seu celular, e voltou a sentar-se na cama, ao lado de .
― O que vai fazer? ― perguntou ela, curiosa.
― Vou criar para você uma playlist com essas musicas que você curtia e te dar uma viagem no tempo de presente! ― Ele sorri, enquanto abre o aplicativo do Spotify.
o olha impressionada, e um sorriso involuntário toma conta dos seus lábios.
― Vai se chamar... The Awesome ’s Tracklist ― ele diz, enquanto digita o nome da nova playlist no aplicativo ― E eu vou atualizar ela sempre que me lembrar de alguma música da sua época.
― Nossa, você falou como se eu fosse uma velha!

Ele rolou os olhos.

― Da sua época de festas ― conserta ― Está melhor assim? Inclusive, vou colocar algumas modernas também, para você ir se inteirando...
― Bem melhor! Não é só porque sou três anos mais velha que você, que mereço esse tipo de comparação...
― Você tem vinte e cinco anos?
― Sim, completei há pouco... ― Ela o encara, com uma dúvida no semblante.
― Eu podia jurar que era menos ― ele suspira ― Mas eu fui estúpido. Levando em consideração que você já se formou, você deveria mesmo ser mais velha... Afinal de contas, você se formou em quê mesmo?
― Em Direito ― ela o responde de prontidão ― Me formei no ano passado. Esse ano passei na prova da ordem, e agora eu trabalho na Clarks & Deymonds, aqui em Nova Iorque... Na verdadem eu fui contratada na semana passada e vou iniciar daqui duas semanas, quando começar o próximo mês ― sorri, orgulhosa.

engole em seco, e seu semblante fica sério no instante em que ouve o nome do escritório em que iria trabalhar.
Por mais que ele não se importasse muito com toda a situação da sua família, ainda o incomodava ouvir o nome do escritório... Que seus pais eram sócio-proprietários.
Um raio pareceu atingir a sua cabeça ao finalmente entender que iria trabalhar para os seus pais.
Será que ele deveria mencionar este fato?

― Você se calou ― Ela comentou.
― Estava pensando uma coisa com relação ao que você me disse...
― O que era?
― Já me esqueci ― ele sorri, voltado à atenção para o celular. Percebe então que estava criando uma playlist e se distraíra no meio do caminho ― Sua playlist! Preciso terminar!
― É verdade, termine logo e coloque algo para tocar ― também parece não dar muita importância pra a distração anterior de .

O que era bom, e dava a ele certo alívio. Não que ele tivesse algum problema em contar a esse pequeno detalhe, porém, não parecia ser a hora ideal para isso, e ele também não costumava se orgulhar muito da sua família. Ele poderia contar mais tarde. Ou amanhã. Ou quem sabe... Nunca. Já que, ao que tudo indicava, ele jamais a veria novamente.
Um aperto se instalou em seu peito ao pensar nisso.
A única e última vez que se veriam...
Ele engoliu em seco novamente, sentindo o coração disparar no peito. Ele não sabia ao certo o porquê daquilo. Mas desconfiava que a intensidade com que se conectaram desde o primeiro olhar era a maior culpada de toda a situação.
Foi inexplicável a forma como uma onda de eletricidade percorreu seu corpo e o arrepiou no momento em que ele a viu, pela primeira vez, olhando em sua direção naquela boate.
não costumava ter certeza de muitas coisas em sua vida e era bem pagão para certos assuntos como destino, mas, naquela noite, ele viu todas as suas crenças caírem por terra e toda a convicção que nunca teve em sua existência, de repente, aparecer: aquela era a mulher da sua vida. Um futuro inteiro juntos passou por seus olhos em menos de um segundo assim que os dois olhares se encontraram, mais cedo.
E, só de pensar que todo esse futuro fora posto abaixo assim que ele viu aquela aliança no dedo da moça, um misto de medo e angústia tomava conta do seu corpo, como se segurasse seu peito e o contorcesse, amassando-o feito uma folha de papel velha.

― Estou começando a ficar sem paciência ― interrompeu seus pensamentos ― Coloque pelo menos uma música para tocar, e depois você adiciona as outras!
― Tá bom, sua apressada! ― ele ri, enquanto seleciona uma das músicas da sua playlist para tocar ― Essa daqui. De volta a 2013! ― ele então deu play em uma música, que tocou conectada pelo bluetooth à caixa de som. Ela reconheceu de prontidão “Don’t You Worry Child”, de Sweedish House Mafia.

A canção que fez com que ela fosse automaticamente transportada para a sala da sua república, em Berkeley, no ano de 2013. Havia acabado de aprovar as suas matérias para iniciar a Grad School, e naquele final de período, fazia questão de aproveitar ao máximo as festas que ainda teria condições de frequentar. Era muita gente dentro de uma sala só. O cheiro de cerveja e maconha ainda era nítido em sua memória, e todas as pessoas suadas e enérgicas dançando sobre o carpete também.
Ela fora muito feliz durante a universidade.
Pelo menos acreditou que tudo aquilo era felicidade até conhecer Antony, pois, a partir do dia em que conheceu o homem da sua vida, as suas escolhas passaram a tomar outros rumos. Outros rumos muito mais maduros, racionais e conscientes – e muito mais propensos à felicidade. Ela passou a encarar a vida como uma mulher adulta, traçar metas e alcançá-las sem fazer corpo mole. Antony, de certa forma, a salvara. Ela gostava de pensar assim. Muito provavelmente, se não tivesse o conhecido, não estaria hoje tão bem de vida: recém-formada, aprovada na Ordem, com um emprego num dos maiores escritórios de advocacia da Costa Leste... Abdicar de suas farras e loucuras fora excelente para dar a ela um sentido maior na vida. Tornou-se uma adulta.
Infelizmente, sentia falta do espírito livre que tinha há três anos. Retornar àquela sala, no ano de 2013, dilacerou seu coração... De uma forma boa. Ela estava, pelo menos enquanto aquela música tocava, de volta ao melhor ano da sua vida.
Um arrepio tomou conta de seu corpo enquanto ela fechava os olhos e sentia seus ombros se mexerem sozinhos, como se fossem completamente independentes dos seus comandos.
parou de olhar para o telefone e encarou aquela cena maravilhado.
, completamente nua, de olhos fechados, os cabelos emaranhados emoldurando seu rosto que serenamente sorria, e seu corpo se balançando no ritmo da música.
Sim, fora aquela mulher que ele vira dançar mais cedo, e fora aquela mulher que passou a dar a ele todas as certezas que duvidou durante a sua breve permanência na Terra.



Capítulo 5

encarava o teto, sem saber ao certo como reagir. Parecia estar tendo que tomar uma decisão que poderia fazer com que o mundo entrasse numa Terceira Guerra, e precisava ser o mais diplomático possível.
Aceitar o fato de que iria se casar e deixá-la ir, ou fingir não saber de nada e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para ela ficar?
A segunda opção exigia dele um esforço maior, daqueles que nunca fez na vida. Como por exemplo, preparar o café da manhã e trazer para ela alguns analgésicos, pois, pelo tanto que a moça bebera na noite anterior, certamente acordaria com uma gloriosa dor de cabeça.
Havia uma fresta aberta na janela, e a brisa fresca se atrevia a adentrar o quarto, anunciando a temperatura amena da primavera nova-iorquina. Ele se enxergou caminhando ao lado de no Central Park enquanto sentiam a mesma brisa se chocar contra seus rostos. Será que estava ficando maluco de vez? Que tipo de pensamento era aquele? Eles haviam passado apenas uma noite juntos. Poucas horas. Não fazia o menor sentido querer sair de mãos dadas pela rua.
E, como se aquilo fosse um sinal dos céus, deu um pulo da cama. Não precisava de mais nenhum argumento que o convencesse a ir em frente com aquela maluquice.
No fim das contas, o que o conformava era o fato de que, se tudo desse errado – o que certamente estava para acontecer –, pelo menos ele havia tentado.
Certificou-se de que ainda dormia de forma profunda e vestiu-se rapidamente em silêncio. Seu relógio marcava 08h15min da manhã, então ele teria que correr caso quisesse providenciar tudo que precisava na rua.

A claridade incomodava os olhos de , fazendo com que ela se revirasse na cama. Os lençóis eram macios e a faziam querer se embrulhar neles e se acalentar. Havia poucos travesseiros, menos do que estava acostumada em seu quarto no Hotel, e então imaginou que pudesse tê-los jogado no chão.
Até que entendeu que, na verdade, não estavam no chão, já que ela não se encontrava em sua cama. Repousava em algum lugar, qualquer lugar no mundo, menos na sua cama. Abriu os olhos desesperada e sentou-se repentinamente. Procurou por todos os lados algum detalhe que a lembrasse da sua localização e enfim, ao ver aqueles instrumentos musicais postos na lateral do quarto junto a algumas caixas de som, ela se lembrou.
Todos os momentos com aquele garoto atingiram sua mente como um raio, tão forte a ponto de deixa-la tonta. Olhou ao redor mais uma vez, certificando-se de que estava mesmo no quarto dele.
. O DJ.
Suspirou, tentando conter a emoção ao se lembrar dos momentos que passaram juntos. Sua cabeça doía, entregando o quanto ela bebera na noite anterior, e por alguns instantes ela desejou que a bebida tivesse tido o efeito de amnésia que as pessoas tanto falam por aí.
Mas não. Todos os acontecimentos estavam gravados em sua mente com detalhes de uma obra renascentista.
― Puta que pariu ― foi o que conseguiu proferir ao notar algo faltando em sua mão esquerda. Mais especificamente em seu dedo anelar. Um conhecido anel de brilhantes.

Deu um salto da cama, jogando os lençóis no chão acidentalmente, e tropeçou em direção ao exterior do quarto, enquanto recuperava suas roupas íntimas no chão. Ao entrar no banheiro, notou suas outras peças jogadas sobre a bancada da pia, e suspirou de alívio ao encontrar sua aliança de noivado. Estava intacta, dentro da saboneteira, como havia deixado na noite anterior. Encarou o objeto, sem a coragem de segurá-lo ou quem sabe colocá-lo de volta em seu dedo. Parecia tão frágil ali, dentro daquela fortaleza, e ela, por sua vez, tão frágil ao encará-la. Afinal de contas, como ela foi capaz de tamanha loucura?
Deveria colocar um ponto final nas coisas. Recordava-se muito bem de todos os argumentos para si mesma profanados naquele banheiro enquanto ela encarava o próprio reflexo durante a noite, e, de certa forma, arrependeu-se por ser uma advogada tão boa e saber posicionar tão bem seus prós e contras. Ela não devia ter sido tão convincente assim com si mesma, pois nesse caso, não estaria naquela situação constrangedora.
Vestiu sua roupa rapidamente, lavou o rosto, escovou os dentes com o dedo e penteou os cabelos com um pente que estava jogado por ali. Precisava estar no mínimo apresentável ao adentrar o Hotel, caso contrário, isso poderia chegar aos ouvidos de Antony. Retornou ao quarto com a aliança e sentou-se na cama, enquanto encarava o celular sem bateria. Maldita hora para ter esquecido seu carregador! Precisava com urgência chamar um Uber, já que sua carteira estava vazia para pegar um Táxi. Poderia muito bem ligar para Klaus também, mas assim Antony saberia onde ele a buscou e ela precisava causar o mínimo de perturbação possível no cosmos naquele instante. Qualquer movimento errôneo colocaria todo seu casamento em risco.
Todavia, ela precisaria esperar que chegasse. Só ele poderia emprestar-lhe um carregador. sempre fora aquela que saia de fininho antes do sol nascer, porém, naquele instante, estava sem defesas.
Mas, afinal de contas, onde estaria? Por partes ela agradecia não ter de encarar seu rosto ao acordar, mas por outro lado, intrigava-se a cada minuto passado, perguntando-se onde ele poderia ter se enfiado. Na sua cabeça não pareceu nada educado fugir ao amanhecer, ainda mais da sua própria casa.
A cada nova especulação, sua cabeça latejava mais um pouco. E ela reunia os melhores argumentos para agradecer pela noite e sair sem fazer alarde algum. Como sempre fizera, mas, dessa vez, após o sol nascer.

― Ah, droga! ― ouviu a voz dele vinda da direção da porta, e ergueu os olhos, assustando-se. Colocou a aliança no criado mudo de forma rápida e quase imperceptível ― Deite-se e finja estar dormindo, para que eu possa te acordar com um beijo ― e riu. enfim reconheceu o que ele carregava nas mãos: uma bandeja com pratos e copos cheios de suco que pareciam ser de laranja. Assim que ele se aproximou, ela pode notar ovos mexidos e croissants sobre os pratos. Também havia um copo com água e uma xícara de café.
Ela não respondeu, pois fora impedida pelo sorriso que se alargou em seu rosto. O que era aquilo?! Naquele ponto, perdeu tudo o que havia ensaiado em sua mente. Perdeu inclusive a força capaz de tirá-la dali.
sorriu de volta, e seus olhos cintilaram na claridade da manhã.

― Eu... ― ela finalmente tentou dizer algo ― O que é isso?
― Seu café da manhã ― apoiou a bandeja sobre a cama ― e aqui tem algo para você, acho que vai precisar ― e então ele tirou do bolso uma cartela de Aspirina.

encarou aquilo, divertindo-se.

― Por que acha que eu preciso disso?!
― Visto o quanto você bebeu ontem, pensei que fosse precisar... Mas se não quiser, não tem problema, vou guardar na gaveta, pois um dia eu mesmo precisarei ― ele puxou de volta a cartela ― Sempre tenho dores de cabeça terríveis quando passo da conta...
― Quem é você para achar que eu passei da conta?
― Sou , e não acho nada. Apenas imaginei que pudesse ter passado... ― ele ergueu uma sobrancelha. encarou sua mão com a cartela novamente, e suspirou, antes de pegá-la.
― Tudo bem, só um não vai fazer falta para você ― sorriu enquanto retirava um comprimido e logo em seguida o bebeu junto à água toda que estava no copo ― eu estava com sede.
― Imagino bem o porquê... ― ele a respondeu, num tom sugestivo, e sentou-se na beira da cama. Também pegou um comprimido para si e o bebeu com suco.
― Para de falar que eu bebi! ― ela exclamou ― Você está tomando o remédio também!
― Não estava falando sobre isso ― e olhando fundo nos olhos da moça, deixou com que um sorriso de canto brotasse em seus lábios.

se esqueceu do que era respirar. Sentiu seu rosto esquentar e teve a certeza de que estava vermelha feito um tomate. riu da reação da garota, e devolveu o copo à bandeja.

― Coma, antes que esfrie... Eu não sei bem do que você gosta, então preparei algo que você encontraria em algum Hotel. Se quiser outra coisa, pode ir à cozinha pegar ― ele disse e tomou um gole de seu suco.

encarou a comida e sua boca salivou de fome.

― Eu gosto do que você trouxe, muito obrigada ― ela sorriu e pegou uma colher com ovos ― Estão ótimos ― respondeu, após mastigar.

a retribuiu com um sorriso, e voltou a se concentrar em sua refeição. Permaneceram num profundo silêncio enquanto comiam, talvez remoendo todos os acontecimentos e tentando encontrar algo certo para dizer. Algo que não colocaria sua breve aproximação em risco.
Era incrível o fato de que simplesmente se esquecia da sua vida quando estava frente a frente com . Talvez fosse aquele sorriso que ele carregava nos lábios.
Como ela queria beijá-lo naquele instante! Contudo, lembrou-se mais uma vez do detalhe mais importante do seu presente: Antony. Ir para casa.
Aumentou a velocidade com que mastigava sua comida e bebeu rapidamente seu café. O remédio parecia demorar uma eternidade para fazer efeito, e sua cabeça doeu ainda mais quando seus batimentos cardíacos se aceleraram ao lembrar-se de que precisava ir embora.
Era muito mais fácil deixar para trás o mais rápido que ela conseguisse, do que prosseguir alimentando aquela loucura. Permanecer ali era um desatino sem fundamentos, e ela tinha muita coisa para consertar. Foi uma noite maravilhosa, uma experiência maravilhosa, mas ela tinha um futuro pela frente.
Não era um mero garoto de vinte e dois anos quem iria atrapalhar seus planos.

― Será que você pode me emprestar um carregador de celular? ― perguntou, segurando seu aparelho.
― Está na tomada ao lado da cama ― ele a respondeu. Rapidamente ela se levantou para conectar o cabo ao telefone, com movimentos espalhafatosos. percebeu aquela agitação, e a observou, intrigado.
― Por que tanta pressa?
― Eu preciso ir para casa ― ela o respondeu, ainda de pé. Ajeitou a saia e deu a volta na cama para alcançar seus sapatos ― Tenho um compromisso. E... Bom... ― ela respirou fundo, sentindo-se como Rose pendurada na borda do Titanic, prestes a pular no mar gélido do Norte. Ela iria contar. ― Eu preciso te falar uma coisa...

a encarava, com um dos cotovelos apoiado no colchão. Tomava calmamente seu café, como alguém que não espera receber uma notícia tão forte como a que ela estava prestes a dar. Aquilo, inclusive, a tirava um pouco do sério. Era como se ele já soubesse e tivesse uma defesa armada.

― Eu tenho um noivo ― ela o olhou fundo nos olhos, esperando por uma reação.

À qual ele não esboçou. Nada além de um breve sorriso, quase imperceptível.

― Eu já sabia ― ele a respondeu, pousando a xícara vazia sobre a bandeja de madeira.

O queixo de quase atingiu o chão. Como ele fora capaz de fazer tudo àquilo com ela, se já sabia que era noiva?!

― Você... Como...

apontou o queixo na direção do criado-mudo, e acompanhou com os olhos, encontrando finalmente sua aliança.

A droga da aliança.
Ele com certeza notara sua existência na noite anterior. Sem dúvida alguma.

― E você... Como pode...
― Eu vi sua aliança enquanto estávamos no carro ontem à noite, vindo para cá... ― ele começou sua explicação. apenas o observou, atenta ― Você estendeu a mão para observar suas unhas, e a luz refletida meio que me cegou. É impossível não notar um anel deste tamanho ― ele riu levemente ― Sem falar que, depois disso, comecei a notar o quanto você roda esse anel em seu dedo, parece que está um pouco largo.
― É que eu perdi alguns quilos nos últimos meses... Quero dizer, para o casamento.
― Ah, sim. Então... É isso. Eu já sabia. Percebi que você apareceu sem ele ontem depois que foi ao banheiro, e de certa forma, pensei que você não queria que eu soubesse dessa informação...
― Não queria. Na verdade, eu queria ter a oportunidade de estar novamente assim...
― Assim como?
― Assim. Com alguém. Com alguém que eu tive vontade de estar. A última vez que isso me aconteceu foi quando conheci meu noivo, e por mais que isso soe babaca da minha parte, eu sentia que estava presa durante todos esses anos. Imaginei que nunca mais sentiria atração por ninguém além do Antony, até que você apareceu na minha frente e eu perdi total controle da situação. Foi como... Uma nova aventura, que eu precisava provar ― vomitava aquelas palavras de forma rápida, até que, de repente, sua voz começou a falhar ― Uma aventura sem noção e muito, muito egoísta! Eu errei duas vezes. Foi... ― mais uma falha. Respirou fundo, sentindo seus olhos marejarem ― Eu traí meu noivo e te usei ao mesmo tempo. Tudo por mim. Porque eu queria atender a um desejo irracional e estraguei tudo. E você é um cara tão bom, tão atencioso, e eu te usei... ― ela parou para recuperar o fôlego e enxugar uma lágrima que insistia em escorregar por sua bochecha.

observava aquela cena com o coração na mão. tinha os ombros caídos, a cabeça baixa, a pele das bochechas avermelhada enquanto tentava lutar contra suas lágrimas.
Num impulso, levantou-se da cama e a abraçou. Um abraço tão forte que quase sufocava. Pousou uma mão sobre sua cabeça, apoiando-a em seu peito, e com a outra afagou suas costas.

, você não me usou. Você não foi completamente egoísta. Você só fez o que estava com vontade de fazer. Foi uma traição, mas você não botou tudo a perder!
― E você? Por que continuou com tudo isso, mesmo sabendo que eu era noiva?! ― indagou ― Você podia ter me impedido!
― Porque, de alguma forma, eu senti que você fazia parte do meu destino. ― Ele a respondeu com sinceridade ― Na verdade, eu ainda sinto... ― sussurrou, quase que para si mesmo.

não conseguiu encontrar nenhuma resposta. Era como se seu corpo não respondesse a nenhum comando que seu cérebro tentasse transmitir.
Destino. Uma palavra forte, com um significado gigantesco. A voz de pareceu ecoar em sua mente enquanto ela pensava repetidamente naquela locução, até que perdesse total sentido.
Eles não haviam se conhecido atoa. Havia uma força muito além do que eram capazes de entender. Ela poderia ter conhecido qualquer pessoa no meio de 7 bilhões existentes no mundo, mas não seria em vão encontrar logo alguém que sustentasse seu olhar daquela forma. Todos os arrepios que sentiu ao vê-lo pela primeira vez voltaram à tona, fazendo-a estremecer.

― Eu... meu destino... ― Tentou dizer algo, mas se embolou com as palavras ― Meu destino se cruzou com o seu por algum motivo.
― Sim. Portanto, não se culpe ― Ele voltou a afagar suas costas e depositou um beijo no topo de sua cabeça ― Não jogue a culpa toda em você ou toda em mim. Cada um de nós tem metade da responsabilidade sobre o que aconteceu, e vamos lidar com isso da melhor forma possível.
― O que você quer dizer com isso?
― Ainda não tenho certeza da resposta ― Confessou, finalmente.

A verdade é que não fazia a menor ideia de como lidar com aquela situação. Nada que ele fizesse poderia anular a culpa daquela traição, mas também nada que viesse a acontecer a partir daquele ponto mudaria o passado. Já estava feito.

― Me desculpe por...
― Ei, , você não tem que me pedir desculpas ― ele a interrompeu.
― Mas eu errei... eu fui atrás de você. Eu te pedi para me trazer aqui. Eu fui àquela festa estúpida, eu bebi demais... tudo foi culpa minha.
― Pare de remoer isso.
― Só me desculpe!
, eu não tenho pelo quê te desculpar! ― a afastou sutilmente pra olhar em seu rosto ― Simplesmente não tem razão pra você me pedir desculpas quando eu também participei dessa história!

olhou fundo em seus olhos. Eles eram extremamente sinceros e acolhedores. No momento em que tomou fôlego para falar, ouviu o toque alto do seu celular. Desvencilhou-se dos braços de , desesperada para atender à chamada. Alcançando o telefone pode ler o nome na tela brilhante: Antony.
Foi como se ele estivesse esperando que o celular se conectasse a bateria para chamar.

― Por favor, não diga nenhuma palavra. Eu te imploro! ― pediu, apontando para a tela do telefone.
― Não precisa implorar ― sorriu gentilmente e sentou-se na cama.

acenou com a cabeça e levou o telefone em direção ao ouvido. Enquanto conversava, afastou-se o máximo que o cabo do carregador a permitiu, para que pudesse ter privacidade.

― Alô, amor?
― Bom dia, meu amor. Eu posso saber onde a senhorita está?
― Bom dia. Eu estou... na casa de uma amiga. Da Latecia, uma amiga da Latecia. ― disse, tentando esconder o nervosismo de sua voz ― Dormimos todas aqui, pois... A Anna passou mal. Por quê?
― Eu quase morri de preocupação! ― ele exclamou, num tom amoroso ― Primeiro, o hotel me ligou dizendo que foram levar o café da manhã para você no quarto e não estava lá, nem havia dado entrada durante a noite. Depois, você não atendeste ao telefone! Eu liguei para ti mais de quinze vezes nos últimos sessenta minutos!
― Desculpa ― ela diz, com a voz baixa. ― Me desculpe, por favor. ― No momento em que pede desculpas pela segunda vez em uma mesma frase, ergue os olhos, para observar aquela conversa, mesmo que pouco escute por causa da distância.
― Eu irei te desculpar, minha amada - Antony continua com o tom doce ― Mas sabes bem que não gosto que deixe de me avisar onde estás. Não queres que eu comece a rastrear o seu telefone, queres?
― Não precisa rastrear o meu telefone, querido ― se assusta ao ouvir aquilo. ― Até porque a bateria dele está muito ruim, então você vai perder meu sinal várias vezes ao dia...
― Compre um novo telefone hoje. Use o meu cartão.
― Eu não sei se terei tempo de comprar um novo telefone hoje ― ela responde, lembrando-se dos compromissos no Spa com as amigas.
― Mandarei entregar no hotel para você.
― Querido, eu não preciso de um novo telefone.
― Falastes como se me pedisse um novo aparelho!
― Não! ― ela exclama ― eu só estava contando sobre a bateria e argumentando sobre essa questão de rastreamento desnecessário, não pedindo um novo!
― Quero saber por onde andas. Estou a dez mil quilômetros de distância. Não saber seus passos me preocupa!
― O que te preocupa? Eu não vou a lugar nenhum, meu amor.
― Você pode estar em risco. Eu não consigo imaginar te perder.
― Você não vai me perder. Acalme-se!
― Eu não vivo sem você, . Minha vida não tem sentido se você não estiver junto a mim...
― Eu te amo. E estarei sempre junto a você...
― Prometa.
― Eu prometo ― ela suspira, tentando não demonstrar preocupação. Olha na direção de , e percebe que ele a observa, extremamente concentrado.
Por alguns instantes acaba esquecendo-se de que ainda falava ao telefone com Antony.
― Amor, eu preciso desligar ― diz ela ― Preciso voltar ao hotel. Temos um dia de Spa hoje...
― Sei bem ― ele a responde ― De qualquer maneira, mantenha seu telefone carregado até que o novo aparelho chegue para você. Mandarei entregar o mais rápido possível...
― Já disse que não é necessário se preocupar com isso...
― Nada é desnecessário quando se trata de você.
sorri ao ouvir aquela frase.
― Eu te amo. Muito. Não se esqueça disso ― seu remorso parece falar por ela ao telefone. Era claro o tom de culpa que dominava a sua voz.
― Jamais me esquecerei ― ele a responde, e então desliga o telefone, sem dizer mais nada.

Ela encara a tela do celular, boquiaberta. Antony jamais deixara de dizer que a amava, principalmente ao final das ligações. Todas as ligações. Ela tentou se recordar de alguma vez em que ele não havia dito aquelas palavras antes de desligarem a chamada, e sua cabeça parecia um arquivo vazio. Momentos assim não existiam em sua memória.

― Posso perguntar o que houve? ― finalmente se pronuncia.

ergue o olhar em sua direção.

― Ele sabe ― ela diz, e joga o celular sobre a cama. Senta-se, passando a mão pelos cabelos nervosamente ― ele sabe!
― Ele sabe o quê?
― Ele sabe de tudo. Ele sabe que eu estou aqui. Ele sabe que eu o traí. Ele sabe! ― ela exclama. se aproxima devagar.
― Você não tem provas disso ― ele tenta amenizar a situação. Há muita coisa em sua cabeça que ele deseja falar, mas precisa ponderar e pontuar por partes.
― Ele não disse que me amava.

a encara, com as sobrancelhas unidas. Pensou que, caso fosse qualquer amiga sua proferindo aquelas palavras, certamente a essa altura ele estaria rolando no chão de tanto gargalhar. Mas era , e ela aparentava muito desespero enquanto dizia aquilo. Ele precisava ser cético.

― E como isso pode ser uma prova? ― ele indaga.
― Não me lembro de algum momento em que ele não disse ― ela o encara. Seu semblante é extremamente preocupado ― Sempre, desde que somos um casal, ele finaliza as ligações com um “eu te amo” ou pelo menos um “eu também” quando eu digo ― seus ombros caem.

leva uma mão à cabeça, coçando-a enquanto raciocina. Não consegue bolar uma saída estratégica perfeita para a situação, mas resolve dar o seu melhor.

― Duvido que ele tenha dito que te amava na primeira vez em que se falaram ao telefone. Com certeza tinham acabado de se conhecer ― deu de ombros.
― Você está tirando sarro da situação?!
― Não, de forma alguma ― ele se aproxima mais e apoia a cabeça no ombro da moça ― Só estou tentando te dar algum argumento. Você é advogada. Sabe disso melhor do que eu!

sorri. Meneia a cabeça para o lado e a apoia sobre a dele.

― Obrigada por tentar ajudar. Mas eu acho que preciso lidar com isso sozinha de agora em diante...
― Posso te perguntar uma coisa?
― Sim ― ela concorda, erguendo a cabeça para que ambos se olhassem frente a frente.
― Ele tem acesso às suas senhas do iCloud? ― pergunta.

Todo aquele papo de bateria ruim e novo celular havia despertado nele a dúvida com relação aos aplicativos de rastreamento.

― Sim. Até onde eu sei, tem sim...
― Ok, , ele sabe onde você está. ― balança a cabeça.

arregala os olhos, assustada com a comprovação da sua teoria. Por mais que ela tivesse ficado paranoica e gritado aos quatro cantos do mundo que ele sabia, sua mente ainda se agarrava ao último fio de esperança que colocava toda aquela loucura abaixo.

― É muito simples ― se levanta e vai até sua escrivaninha. Volta à cama com um iPad em mãos, e desbloqueia a tela. observa todos os seus movimentos com curiosidade ― Na verdade, não sei como você não chegou a pensar nisso...
― Buscar meu iPhone! ― ela exclama, dando um tapa na própria testa.
Exato abre seu aplicativo, que mostra a localização precisa do seu telefone ― Esse é meu celular. Como estou conectado na minha conta do iCloud, eu consigo rastreá-lo onde estiver com rede de celular e internet...
esfrega os olhos com a mão, revoltada consigo mesma por não ter pensado nessa possibilidade antes.
― Com o que seu noivo trabalha?
― Ele é herdeiro e CEO de uma multinacional de tecnologia da informação... Se chama BIT... ― ela suspira.
― O que significa BIT?
― Baahrs Institute of Technology ― ela diz. E, finalmente, todas as peças do quebra-cabeças se juntam em sua mente. Ela está tão chocada que não consegue nem ao menos se pronunciar, mas como se lesse seus pensamentos, se apossa da fala:
― E você realmente achou que o CEO de uma empresa de tecnologia da informação não teria acesso remoto ao seu telefone? ― ele passa a mão pelos cabelos ― Ele provavelmente tem os melhores Hackers do mundo trabalhando pra ele. Usar o aplicativo de busca do iPhone seria o mais básico, que qualquer cidadão comum faria ― ele ri, com um leve nervosismo ― Nesse instante, inclusive, ele já deve até saber o nome dos primos dos meus avós, já que você está na minha casa... ― e finaliza, levemente preocupado.

o encara, abismada.

― Eu não acredito que fui tão burra a ponto de me sujeitar a isso!
― Você não foi burra. Você só não tinha ligado os pontos ainda... ― Ele tenta deixá-la mais confortável. O semblante de migra de tristeza para raiva em um piscar de olhos. Ela se levanta, tira o celular da fonte de energia e o lança com força contra a parede.

se levanta, preocupado.

― Caralho! ― exclama, ao notar o celular estraçalhado no chão.
― Ele não pode saber mais nada sobre você ― ela se vira para ele, e o abraça ― Não pode! Eu não quero te colocar em risco!
― Ei, se acalma ― ele retribui ao abraço ― Eu não estou em risco.
― É lógico que está. , você precisa entender que o Antony é louco por mim. Ele me ama mais que tudo nesse universo, e muito provavelmente mataria qualquer pessoa que estivesse no seu caminho ― ela ergue a cabeça para encará-lo, ainda dentro do abraço ― Ele me ama. Ele me ama muito. Me desculpa, mas eu preciso ir embora, antes que isso possa ficar pior... ― Então tenta se desvencilhar de seus braços. Mas a segura forte, impedindo que se vá.
― Ei, me faz o favor de ficar calma? E não me peça desculpas. Você não me colocou em risco. Continuo numa boa ― ele a aperta, e de certa forma aquilo a acalma ― Você já destruiu seu telefone. Não tem como ele ter colocado escutas na minha casa durante a noite ― E ri ― É bem provável que ele já esteja acessando a câmera e o microfone do meu computador pela rede de internet, mas caso esteja, ele assistiu a um espetáculo durante a noite ― não consegue conter o riso. ― Pode ser que ele faça da sua vida um inferno daqui pra frente, mas eu vou estar aqui pra te ajudar, caso precise...
― Ele me ama, não faria da minha vida um inferno.

suspira. Ouvir aquela frase repetidamente já estava deixando-o ferido. Ele não precisava saber o quanto Antony amava . Não a todo instante. Mesmo que começasse a se conformar com o fato de perder , e principalmente se achar maluco por se apegar tão fortemente a alguém em tão poucas horas, ele não precisava ser lembrado desse detalhe.
― Certo ― concorda, sem a vontade de concordar. parecia estar cega aos abusos do noivo, mas não era a hora de confrontá-la. Ela já havia sido extremamente corajosa ao quebrar o telefone ― Eu acho que você precisa de um novo telefone.
― Preciso... Só não sei o que fazer com relação à espionagem... Nem você...
― Podemos colocar um adesivo na câmera, as pessoas fazem isso com medo do FBI. E você pode deixar com que a bateria acabe acidentalmente várias vezes ao dia... E, principalmente, voltar para ele, para não levantar suspeitas. ― Seu coração se contorce no peito ao dizer a última frase.
― Não tem como voltar para ele ― ela sorri, e o olha nos olhos, sentindo uma súbita vontade de não deixar o apartamento de nunca mais ― Antony está na Inglaterra tendo reuniões com seus sócios e investidores... ― diz, com certa ironia.
― Posso saber o porquê desse tom?
― Porque ele fica até a madrugada jantando com seus sócios, me manda mensagens acidentais marcando encontros com seus sócios durante a madrugada também, isso tudo na semana que antecede o seu próprio casamento! Enquanto eu preciso ficar aqui nessa cidade para escolher o enxoval, aprovar a decoração do apartamento, fazer a prova final do buffet, fazer a prova final do bolo, fazer a prova final do bar, fazer a prova final dos espumantes que vão chegar de avião da França, rever as marcações de lugares na festa, recepcionar minha família e fazer a prova final do vestido. Tudo bem que no último ele não me ajudaria, mas o resto eu esperava que fosse feito como um casal...
― E você tem uma semana para fazer isso tudo?! ― se espanta.
― Sim. A partir de amanhã, minha vida se tornará um inferno...
O estômago de se embrulha ao pensar em tanta burocracia antecedendo uma cerimônia de casamento. E, como as últimas doze horas foram regadas a muita insanidade e atitudes impulsivas de sua parte, ele resolve tentar seu golpe final. Colocaria sua vida em risco, principalmente depois de descobrir tantos detalhes importantes sobre o noivo da moça, mas não iria se perdoar caso não se arriscasse uma última vez naquele dia. tinha duas respostas: uma delas abriria um leque de oportunidades para os dois, e a outra o faria sentar-se em seu sofá durante a tarde e tomar sorvete enquanto assistiria a filmes de romance e choraria rios de lágrimas.
Ele precisava dizer aquilo, como precisava do ar para continuar vivendo.

― Se você quiser, eu posso... Bom, te ajudar. Com essas coisas.

O rosto de quase se transformou numa interrogação.

― Como assim você vai me ajudar?
― Bom, a carregar sacolas, provar bolos, conversar com arquitetos... Para que não faça sozinha. Não precisamos ir como um casal, eu vou apenas para te fazer companhia. Posso inclusive te ajudar com a prova do vestido, já que não sou o noivo e nenhuma maldição cairá sobre nosso casamento caso eu te veja vestida antes da cerimônia ― ele ri ― Mas se quiser ser um casal, não tem problema, eu inclusive estou aqui maluco para te beijar nesse instante e não sei se seria capaz de resistir por sete dias assim. Só não podemos ser descobertos. Vamos precisar de muitos adesivos nas câmeras!

gargalha, e volta a abraçá-lo forte. Perde total controle sobre as loucas palavras que exprime a seguir:

― O quão maluca eu seria se dissesse que quero?



Capítulo 6

encarou sem saber se estava vivendo ou apenas tendo um devaneio.
Ele iria.
Ele iria com ela.
Ele iria com ela em praticamente todos os preparativos para o seu casamento.
Sentiu o peito gelado com a descarga de adrenalina que invadiu seu corpo, denunciando que ele estava mesmo vivo.

― Você tem certeza disso?
― Se você não quiser ir, eu te entendo. Mas você se ofereceu. E essa loucura já tomou proporções astronômicas, então... ― Ela murmurou, sem graça.
― Caralho... ― Foi à única coisa que ele conseguiu dizer em meio àquele turbilhão de emoções passeando por seu corpo.
― Eu só não quero que você esteja em risco. Vamos tomar todas as precauções! ― Ela reforçou. Agora que já tinha dito a ele que queria que fosse, parecia cruel ele desistir. Ela tentaria de tudo para fazê-lo abraçar aquela loucura junto a ela.
― Já vou ao mercado hoje comprar adesivos! ― Ele a responde finalmente, e ambos riem. Se olham nos olhos, em silêncio, por alguns instantes.

sabia que o único risco que corria, não era o de ser morto a mando de Antony: mas sim o de se apaixonar. Tinha plena certeza de que, mesmo conhecendo aquela mulher há apenas pouco mais de doze horas, ele estava andando sobre uma linha muito instável e qualquer escorregão podia ser fatal. Mas, no fim das contas, poderia usar as fitas adesivas para tentar colar de volta todos os pedaços do seu coração que fossem se espalhar pelo caminho.
Ele se sentia como um masoquista: sabia que no fim se machucaria, mas a iminência da dor ao final não era nada comparada ao prazer e à felicidade que sentiria no percurso.
se aproximou, pegando-o de surpresa com o toque dos lábios nos dele.

― Eu preciso ir.
― O que você precisa fazer hoje? Já preciso estar com você? Só tenho que cancelar alguns compromissos e irei...
― Não, não precisa. Hoje é meu último dia de folga antes dos preparativos... Vou a um Spa com minhas madrinhas. A menos que você queira participar também!
― Acho que vou pular essa parte. Estou interessado mesmo é em comer doces e bolos ― ambos riem, e ele a olha profundamente nos olhos ― Você não precisa de um Spa... Eu posso te fazer uma massagem ― enterra a cabeça no pescoço da moça, beijando-o, enquanto uma das mãos passeia pelo braço dela, e sobe até seu ombro.
― E arrumar meu cabelo? Pintar minhas unhas? ― ela ri enquanto o responde. O toque de seus lábios na pele dela a faz sentir pequenos picos de eletricidade enquanto seus pelos se arrepiam.
― Faço. E faço outras coisas também, é um pacote completo ― Ele a olha nos olhos mais uma vez, com um sorriso malicioso, e sem que ela responda, invade sua boca com um beijo quente. Novamente ela teve certeza de que aquele beijo fora criado pelo universo para se encaixar ao seu.

Assim que ela retribuiu o beijo e encostou os dedos na nuca e raiz do cabelo de , ele a empurrou levemente em direção aos travesseiros, até que se deitasse e ele tivesse seu corpo sobre o dela. Sua mão percorreu um caminho fervoroso por seus ombros, o espaço entre seus seios, seu ventre, e pararam na barra da camiseta que ela usava. Sem cessar o beijo, ele encostou levemente as pontas dos dedos sobre a pele dela, por dentro da blusa, fazendo-a se arrepiar pela milésima vez nos últimos cinco minutos. À medida que a palma de sua mão se recostava sobre ela e trilhava uma viela em direção aos seus seios, ela prendia levemente a respiração, atenta aos toques do rapaz. Assim que chegou à lingerie da moça, segurou dentro de sua mão um dos seios dela, apertando-o levemente, fazendo-a arfar entre o beijo. Ele podia sentir, através da renda de seu sutiã, o quanto seu mamilo se projetava sobre sua pele. Ele o acariciou superficialmente com os dedos.
... ― ela gemeu com os lábios próximos aos dele ― Eu preciso ir... De verdade...
― Tudo bem, você pode ir quando quiser ― ele voltou a encostar os lábios nos dela, sem abandonar os movimentos que fazia por dentro de sua roupa. Com a mão livre, afagava os seus cabelos de forma suave.
― Eu vou... Agora... E...
― Vá ― ele sorriu, e afastou-se da boca da garota, para encaminhar seus lábios ao pescoço dela. Os beijos depositados ali já não eram mais tão românticos, e começavam a tomar um rumo cheio de desejo.

Ele queria estar dentro dela mais uma vez. Sentia o sangue pulsar quente no corpo, e a única coisa que desejava, naquele momento, era entregar-se mais uma vez à excitação que o causava.

― Eu tenho dez minutos ― ela se afastou, como se soubesse perfeitamente o que pensava, e o encarou fixamente ― O quão rápidos podemos ser? ― perguntou, provocante.

Ele sorriu, arfando, e ergueu o corpo, para se livrar da bermuda que usava e de sua camisa. Rapidamente ela ergueu os quadris para enrolar a saia para cima da barriga e retirar sua calcinha, e eles pareciam correr contra o relógio. O desejo dos dois escancarava-se com obviedade, e eles não podiam perder tempo. Ela o aguardou enquanto ele habilidosamente se cobria com um preservativo, e em instantes já estava por cima dela, com as mãos apoiadas ao redor de seu corpo.
Olharam-se nos olhos sem que fosse preciso dizer nada enquanto ele afastava suas pernas e se posicionava dentro dela, que gemeu alto e arqueou o corpo ao senti-lo a invadindo com seu prazer. fechou os olhos por alguns instantes, concentrando-se no momento, e suspirou vigorosamente antes de soltar o ar num gemido rouco. Ao abrir novamente os olhos, ele buscou as mãos de , levando-as até o topo de sua cabeça e entrelaçando seus dedos o máximo que conseguiu. Segurava-a com firmeza para que não se soltasse enquanto se projetava agilmente para dentro dela, que fechava os olhos e gemia no ritmo de suas investidas. A velocidade com que a penetrava começava a levar seus pensamentos para longe, e ele tentava se segurar ao máximo, mas já beirava seu êxtase em pouco tempo. Soltou as mãos de e afundou a cabeça em seu pescoço, respirando fundo o aroma doce que emanava de sua pele. Cada detalhe daquele momento parecia ser gravado em sua mente com precisão. A garota levou as mãos às costas dele, cravando suas unhas sobre sua pele, marcando-o, e sentia cada vez mais seu ápice se aproximar. Seu gemido se transformou num espasmo e se desmanchou completamente dentro dela ao perceber. Vê-la extasiada fazia com que ele perdesse todas as forças para continuar. Ambos respiravam forte e ruidosamente, olhando-se nos olhos, quando uma gota de suor escorreu da testa de diretamente para a ponta do nariz de . Ela riu, e ele a acompanhou, beijando-a docemente nos lábios em seguida. Jogou o corpo ao lado do dela, e girou a cabeça, para continuar mirando seu olhar.

― Conseguimos ― ela sussurrou, e sorriu ― Eu seria capaz de passar a manhã inteira aqui nessa cama com você... Mas realmente preciso ir. Obrigada por ter me feito ficar mais uns minutos ― se aproximou dele, e depositou um selinho em seus lábios. Levantou-se e ajeitou a roupa.

estendeu a mão para pegar a calcinha dela que ainda estava sobre a cama.

― Você está esquecendo isso aqui ― murmurou, jogando na direção dela.
― Sim, e é proposital ― ela sorriu e arremessou a peça de volta, no rosto dele ― Preciso ter um motivo para voltar...

gargalhou, e suspirou fundo, ainda com a lingerie no rosto.

― Você quer me matar, ... Já entendi... ― ele sorriu, e a colocou debaixo do travesseiro ― Vou deixar aqui para quando for dormir me lembrar do seu cheiro. E do seu gosto. E de tudo em você ― e se levantou.

Foi até o lixo e depois retornou, buscando sua cueca e sua bermuda. Correu até ela, enquanto vestia sua camisa amarrotada, e segurou em seu queixo ao mesmo tempo em que a olhava nos olhos. A luz da manhã invadia o quarto e dava às orbes de um novo brilho, como se tivesse uma cor completamente diferente da que ele conhecera na noite anterior. Ela sorriu.

― O que foi?
― Seus olhos são maravilhosos ― ele murmurou, e a beijou nos lábios.

sentiu as bochechas esquentarem. Estava acostumada a receber elogios por conta de seus olhos claros como a água, mas a forma como fora proferido por fez com que aquele cumprimento fosse muito mais intenso e verdadeiro.

― Obrigada ― respondeu, sem graça.
― Você quer que eu te leve até o hotel? ― ele perguntou, soltando-a, e buscando por seu celular sobre o criado-mudo.

parou por alguns instantes para pensar, pois não havia considerado a possibilidade de não conseguir pedir um Uber ao quebrar seu telefone. Passou a mão pelos cabelos, suspirando, e balançou a cabeça.

― Vou precisar... Afinal de contas, eu quebrei meu telefone, e pedir um táxi é um pouco complicado quando estou sem meus cartões ― riu. Apontou para as peças espalhadas no chão, próximas à parede ― Por falar nisso, preciso limpar essa bagunça!
― Não se preocupe, eu limpo depois que voltar ― ele se dirigiu ao banheiro ― Vou lavar o rosto e quando você quiser ir, é só me dizer...
― Vou te esperar na sala ― ela olhou em sua direção e esperou que ele sumisse de vista para pegar de volta a sua aliança, que ainda estava no criado-mudo. Ao encará-la, sentiu um leve remorso pelo que fazia, mas resolveu relevar, já que, depois de todas as revelações daquela manhã, um ódio começava a imperar em sua mente quando ela pensava no noivo.



Assim que ameaçou abrir a maçaneta do carro após desafivelar seu cinto de segurança, tocou seu braço para impedi-la.

― O que foi? ― indagou, virando-se de volta para ele.
― Você vai mesmo sair do carro sem se despedir de mim? ― ele pergunta, sorrindo.

ri e se aproxima dele, atirando-se em seus braços. Ele a abraça forte, mesmo sem jeito por estarem dentro do carro, e afaga seus cabelos enquanto ela enterra a cabeça em seu pescoço. Logo ergue os olhos para vê-lo, e ele sorri em sua direção.

― Até amanhã, diz, e sorri de volta.
― Até amanhã, ― Ele beija o topo da cabeça dela.

Assim que sente o toque dos lábios de , resolve jogar para o alto todos os riscos que corria ao beijar alguém em frente ao seu hotel, e ergue o rosto para alcançar os lábios do rapaz, que rapidamente a envolve em um beijo quente e carinhoso. Eles perdem a noção do tempo enquanto trocam carinhos, até que finalmente lhes falta o ar e precisam se separar.

― Preciso conseguir ficar sem esse beijo até amanhã ― Ela arfa enquanto recupera o fôlego.
― Vou fazer de tudo para me distrair, mas não creio que será suficiente ― Ele responde, e morde o lábio inferior.

avança para mais um beijo e enfim eles resolvem desfazerem-se dos braços um do outro.

― Eu preciso ir, de verdade! Te ligo amanhã ― Ela sorri e bate a palma da mão sobre a bolsa em seu colo, mostrando que tem o telefone de anotado. O endereço do rapaz também estava anotado. ― Se eu não ligar até o meio dia, você ligue no hotel e procure pelo quarto 912... Só para garantir...
― Ligarei às 11:59 ― Ele deposita nos lábios da moça mais um último selinho e volta a se aconchegar em seu banco.

enfim abre a porta do carro e sai, sem a coragem de olhar para trás. Ela sabe bem que não seria capaz de ir embora caso seu olhar encontrasse o dele mais uma vez.

Ela atravessa a calçada apressadamente e corre pra dentro do hotel. Ao adentrar e ser reconhecida por um dos recepcionistas, o mesmo vem em sua direção com passos largos.

― Senhorita Hayes, bom dia ― Ele diz, estampando um largo sorriso no rosto. Tem em suas mãos uma prancheta. Ela o reconhece, dos dias anteriores, em que esteve o tempo inteiro ao seu lado fazendo favores quando ela estava pelos corredores ― A senhorita estava agendada em um Spa às nove da manhã, e já se passaram uma hora e meia. Os convidados chegaram pontualmente e eu tomei a liberdade de encaminhá-los para as sessões até que a senhorita retornasse! Há algum problema nisso?
― Problema nenhum. Tive um imprevisto e precisei dormir na casa de uma amiga, perdi a hora e agora estou aqui correndo! Vou tomar uma chuveirada antes de descer para as sessões... ― Ela responde, ainda caminhando na direção dos elevadores.
― Tratarei de mandar amenidades para o seu apartamento em um instante ― Ele saca do bolso uma espécie de walkie-talkie e dá ordens enquanto esperam que o elevador chegue ― A senhorita tem alguma exigência para o Spa? Gostaria de mudar o cronograma de sessões pra ser incluída junto a seus amigos ou gostaria de iniciar o protocolo completo?
― Me coloque com eles, que está bom! Obrigada ― Ela responde e sorri gentilmente. O elevador se abre ― E... ― Ela para, antes de entrar, e se vira na direção do recepcionista. Finalmente lê o nome no crachá: Gael ― Gael... posso pedir um favor?
― Claro, senhorita Hayes!
― Eu quero três garrafas de champanhe e uma de uísque quando for ao Spa. ― Ela diz. Gael arregala os olhos, e ela percebe o quanto foi espantosa sua fala ― Para mim e meus amigos, no caso... ― Esclarece.
― Sem problemas, estarão lá em cinco minutos! ― ele retoma o walkie-talkie e se vira na direção da recepção.

suspira e entra no elevador. Ao chegar à sua suíte, as amenidades de banho já a esperam sobre a cama junto a um roupão impecavelmente branco e chinelos, e ela sorri ao perceber toda a mordomia que estava recebendo.
Antony podia sim ser um maluco que a perseguia, mas era um homem maravilhoso que a provia muitas regalias na vida e muitos mimos. Um atendimento exclusivo em um hotel maravilhoso às vésperas de seu casamento, por exemplo. Ela se sentia uma verdadeira princesa.
Pensar em Antony longe de tornava-se uma tarefa mais simples, e ela conseguia sentir novamente a chama da paixão que tinha pelo noivo. Olhar para aquela cama onde também protagonizaram boas cenas de amor a trazia de volta para a realidade, e por alguns instantes, ela se perguntou o que diabos fazia com outro homem. Só podia mesmo estar ficando maluca.

Ela precisou repetir a história mais de três vezes. Foram quase as duas garrafas de champagne até que Ana, Latecia, Ashley, Vicky e Dylan parassem de perguntar as mesmas coisas infinitamente até que tudo estivesse plenamente esclarecido.
havia passado a noite com o DJ da festa.
Eles haviam entendido muito bem essa parte, mas algo não entrava em suas cabeças: como ela fora capaz de fazer isso. Logo , a mulher mais apaixonada pelo próprio noivo que eles já conheceram na vida. A mulher que abriu mão de toda a sua vida, toda a sua liberdade, para se casar com um homem que ela jurava amor aos quatro cantos. E, por mais que ela tentasse argumentar e dizer que estava tudo bem, que ela havia cometido um erro muito louco e que não se repetiria – como ela tomara a decisão no banheiro, minutos mais cedo – ela sabia que precisava confessar.

― A verdade é que, depois que conheci o , eu já não sei mais o que pensar sobre meu casamento ― proferiu, após tomar coragem o suficiente para dizer aquelas palavras em voz alta. Todos os queixos quase atingiram o chão.
― Você está muito louca ― Ana balançou a cabeça negativamente ― Como você pode duvidar de um relacionamento de quase três anos só porque conheceu um rapaz há menos de um dia?!
― Eu não sei, Ana! ― a encarou, abismada ― Eu não faço a menor ideia, e é isso que está me tirando do sério!
― Não é possível que você esteja com saudades do Antony já que há menos de dois dias vocês estavam juntos aqui ― Dylan coçou a barba, tentando não encostar-se à lama em que os seis estavam imersos ― Sem falar que você já viveu vários dias longe dele enquanto viajava a trabalho, então não é uma justificativa plausível...
― Eu acho que é um sinal do universo para que você repense esse casamento ― Vicky comentou, dando de ombros.
― Lá vem você com esses papos viajados, Vicky ― Ashley repreendeu a amiga.
― Não, não é papo viajado! ― Ela rebateu ― Para pra pensar... Às vésperas do seu casamento você recebeu a mensagem do Antony e teve aquela discussão horrível na balada ― contou as palavras nos dedos enquanto se dirigia a ― No mesmo dia você conheceu esse cara. Ele fez isso tudo ai que você está falando, e foi à pessoa mais doce e gentil do universo. Você teve um orgasmo vaginal! ― todos arregalam os olhos quando ela diz isso em voz alta, mas ela pareceu não se importar ― Me conta quando que você teve um desses com seu noivo?!
― Não me lembro... ― sentiu as bochechas esquentarem.
― Exatamente. E agora vem a parte mais importante: você desconfia que o babaca do Antony está te espionando. Se não fosse esse rapaz, você jamais teria todas essas oportunidades de abrir seus olhos! Uma hora dessa você... Estaria... Bom, não sei, talvez em alguma loja chique comprando porcelana chinesa enquanto ele te vigiava pela câmera da própria loja e manipulava os vendedores para que te induzissem a comprar o que ele quisesse!

Todos os amigos encaravam Victória com as sobrancelhas unidas. Por mais surreal suas palavras parecessem, no fundo, faziam sentido. Independente da crença ou a não-crença de alguém. Podia ser puro fruto do acaso, mas podia ser também uma chance para reavaliar sua vida.

― A é quem passa a madrugada inteira fumando maconha e a Vicky me vem com esses papos doidos... ― Ashley balança a cabeça negativamente.
― Para, Ash! Admita que faz sentido! ― Dylan a encara.
― Claro que faz. E eu também acredito em signos!
― Não seja irônica ― Vicky rola os olhos ― Você é uma libriana nata!
― Eu não sou libriana... Eu não tenho signo nenhum! Essa coisa não existe!
― Falei pra vocês ― Vicky gargalha, e todos a acompanham, com exceção de Ashley que permanece encarando as amigas. No fundo, também se diverte com tudo isso. ― Bom, se é verdade ou não, nenhuma de nós vai poder afirmar... Vamos esperar para ver como as coisas vão andar. Temos uma semana, e é tempo suficiente para que tudo mude!
― Por falar nisso, o rapaz vai mesmo com você resolver as pendências do casamento? ― Ana pergunta, ainda sem acreditar que fora trocada por um garoto que conhecera há um dia ou menos.
― Sim... Mas ainda reforço que, caso você queira ir, podemos ir os três. É bom que temos carona no carro dele para todos os cantos!
― Ah, claro, até porque eu amo segurar vela! ― Ana ri ― Pode ir, amiga. Eu vou aproveitar esse tempo para adiantar algumas coisas do trabalho, e também vou providenciar o arremate das lembrancinhas. Sem falar que assim eu vou ter noites completas de sono e no dia do casamento não terei olheiras!
― Eu, em compensação... ― suspira.
― Pense pelo lado bom: caso passe noites em claro, vai ser transando com o ― Dylan pisca.

As seis amigas caem na gargalhada, e engole em seco após recuperar o fôlego. Questiona-se pela enésima vez se tomara a decisão certa. Bom, seu celular despedaçado e a sensação de leveza após passar uma noite maravilhosa com pareciam responder por ela.


À noite, com os cabelos sedosos, a pele hidratada e as unhas feitas, rolava de um lado para o outro na cama, sem conseguir pegar no sono, mesmo tão relaxada após o dia no Spa. Talvez fosse um pouco da ressaca após beber tanto na noite anterior e, como bônus, beber mais durante o dia com as amigas. Ou talvez remorso por tudo que fizera nas últimas vinte e quatro horas. De toda forma, ela não conseguia admitir a verdade: sua insônia se chamava .
Levantou-se, já conformada com a possibilidade de passar a noite em claro, e buscou no quarto sua bolsa. Ao lado dela estava um aparelho de celular novo, que Antony a enviara mais cedo, junto a uma mensagem e uma rosa. Pegou o bilhete impresso de um computador, e o leu novamente.

“Te cuido, pois te amo. Não sei o que seria de mim se você desaparecesse.
Dependo de você para viver.
Com amor - Antony”

Aquelas palavras pareciam mais uma nota de suicídio. Nas primeiras vezes em que leu o bilhete, sentiu o coração derreter com tanto carinho de Antony. Saber que ela era parte importante da vida dele a tirava do chão, e enchia seu peito de amor; mas, após alguns instantes repensando a possibilidade dele estar controlando sua vida e vigiando-a, toda essa dependência a levou ao desespero. Parecia sufocante ser o motivo da alegria ou, pior, da vida de alguém.
De toda forma, ela não poderia levantar suspeitas. Mais cedo abriu a caixa com o laço imenso onde havia um telefone novo, o ligou e configurou. Não se deu o trabalho de trocar suas senhas, pois sabia que de uma forma ou de outra Antony as descobriria, então apenas manteve o padrão de sempre, sem levantar suspeitas. Recortou pequenos pedaços de post-it da sua agenda e os colou sobre as câmeras do aparelho, e então ignorou sua existência até a noite.
Mas, naquele instante, ela precisava fazer algo. Colocou o aparelho dentro da bolsa e contou o dinheiro que ainda tinha. Seria suficiente para fazer o que tinha em mente. Trocou de roupa, passou perfume atrás das orelhas e em questão de minutos saia pelas grandes portas da recepção do hotel, em busca de um táxi na rua.

tentava pela quinta vez ler a mesma página do livro. Deitado em sua cama, com as luzes de cabeceira acesas, ele fazia o possível para se distrair. Queria enganar o seu coração ansioso, que implorava ao tempo que corresse e o dia de sábado chegasse logo. Ele queria ver , queria estar com ela. Sua cama parecia estranhamente vazia sem a presença dela. Bebera muitos copos d’água, comera muitos biscoitos, escovara os dentes mais de três vezes. A ducha parecia estar esgotada após tanto tempo debaixo dela. O computador não era interessante, música não era interessante, a TV não era interessante, o livro acabara de se tornar desinteressante e ele sentou-se na cama, prestes a colocar em prática uma nova ideia: arrumar o apartamento. Parecia estimulante varrer o chão e depois passar pano. Também limparia novamente todos os copos e taças da casa. E os pratos. Quem sabe as panelas...
Jogou as pernas para fora e calçou os chinelos, quando foi surpreendido pelo barulho da campainha. Quem diabos estava batendo em sua porta às dez da noite? Algum vizinho deve ter ficado preso para fora de casa. Ou seus amigos resolveram convidá-lo pessoalmente para sair – assim ele não teria desculpas para dispensá-los. Parecia um bom plano!
Andou em passos lentos até a sala, e apertou o interfone.

― Oi?
― Eu estava rezando para que esse fosse o seu número ― Uma voz familiar ressoou para dentro de casa. Ele soltou o botão do interfone rapidamente, como se tivesse tomado um choque.

Mas que diabos...? ?! Pensou, enquanto encarava o aparelho. Rapidamente retomou o botão, e aproximou-se para falar.

?
― Você vai me achar desesperada por ter aparecido aqui agora sem avisar?
― Sobe ― ele disse, e destravou o portão.

Respirou fundo, sentindo o coração acelerado, e passou a mão pelos cabelos. O que fazia em sua casa naquele momento?! Sem avisar?!
Cheirou a camisa, com medo de estar fedendo, mas percebeu que cheirava a desodorante e amaciante de roupas. Usava uma bermuda de moletom e nos pés tinha um par de chinelos, mas não acreditava que ela fosse notar: afinal de contas, ele estava em casa e não esperava receber visitas. Ainda mais dela!
Correu até a porta e a abriu, encarando o corredor. Seu coração encontrou uma forma unânime de bater ainda mais rápido assim que ele avistou aquela cabeleira loira surgindo na ponta da escada. Ele segurou forte o batente da porta para que não saísse correndo para abraçá-la – isso iria parecer extremamente exaltado.
Ela, ao vê-lo, sorriu largamente, e ele não pode evitar acompanhá-la.

! ― Exclamou, apertando o passo e alcançando-o com um abraço apertado. Ele a rodeou com os braços, respirando fundo e absorvendo o aroma agradável que emanava de seus cabelos.
― sussurrou ― O que... O que faz aqui?
― Eu não consegui dormir. Não consegui ficar sozinha. Desculpe vir sem avisar, e ser invasiva desse jeito, eu nem sei se você queria me ver mais e...

Ele afastou a cabeça enquanto ela tagarelava, e sem pensar duas vezes a calou com um leve selinho nos lábios.

― Você pode vir quando quiser ― murmurejou, segurando em seu queixo com as duas mãos e olhando-a nos olhos ― Inclusive... Obrigado por vir.
― Eu tinha seu endereço anotado ― ela sorriu ― Mas não tinha o número do apartamento. Tentei usar a lógica, e morri de medo de apertar o interfone de um dos seus vizinhos ― ela sorriu.
― Que bom que você conseguiu ― ele sorriu de volta ― Senti sua falta!

Ela se aproximou para beijá-lo nos lábios. Não conseguia resistir à tentação de estar a poucos centímetros de sua boca e não atacá-la.

Pouco a pouco adentraram o apartamento, sem apartar o beijo, e percebeu que estava, mais uma vez, fazendo uma bagunça em sua vida. Uma bagunça pela qual ela começava a se tornar viciada e que a cada instante perdia seu status de erro e ganhava um novo patamar: necessidade.



Continua...




Nota da autora: Oi genteeeeeee!!!
Depois de um mês desaparecida, aqui está mais uma atualização!
Bom, a maioria já sabe a bagunça que está a minha vida com a mudança, mas eu tenho boas notícias: finalmente tenho uma casa! Então agora eu tenho uma certa paz para sentar e escrever! Estou super feliz em retomar a fic – um mês sem botar as mãos nela foi um mês difícil de lidar!!!
Espero que gostem do capítulo! Se gostaram, deixem um comentário, se não gostaram deixem um comentário também pois assim eu sei o que devo melhorar!!
Não deixem de entrar no grupo do facebook e também não deixem de acompanhar as playlists da fic no spotify – elas são atualizadas quase que diariamente!!
No mais é só isso mesmo, qualquer coisa vocês podem me gritar que eu apareço!
Até o próximo capítulo!! ♥






Outras Fanfics:
Entre Fraldas e Guitarras
Outros/Em Andamento
Fale agora, ou cale-se para sempre
Shortfic/Finalizada


Nota da beta: Eu tô surtada com essa atualização, esse pp é tao neném, mas tão neném, quero um pra mim, gente! Que homão da porra <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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