Última atualização: 16/05/2019

Prólogo



Eu nunca pensei que um rápido encontro com um cara que há alguns anos era apenas o irmãozinho do meu melhor amigo poderia mudar minha vida. Vê-lo naquela noite, tão diferente do garoto de 16 anos que eu vi pela última vez antes de me mudar para Londres, foi como respirar ar puro depois de ficar presa em um quarto com fumantes.
Lembro-me de comentar com minha amiga o quão atraente aquele cara de ombros largos e cabelos loiros parecia de costas. Lembro também da minha amiga me incentivando a ir conversar com ele, ignorando completamente o fato de eu estar em uma relação séria que já era difícil de manter por causa da distancia. E ainda lembro mais ainda de quando ele finalmente se virou, sua familiaridade me atingindo como uma faca no estomago. Ele não se parecia nada com o Luke de antes e mesmo assim ele estava exatamente igual.
Estávamos ambos retornando à Austrália, ainda tentando nos readaptar. Ele vindo de uma longa turnê mundial e eu animada para redescobrir a minha cidade natal, aproveitar o maravilhoso clima australiano e, acima de tudo, rever meus antigos amigos. Isso até um garoto de 19 anos virar a minha vida de cabeça para baixo e me fazer questionar se voltar para a Austrália havia mesmo sido uma boa ideia.


01.


Verão 2016
O avião finalmente parou por completo e uma onda de alivio passou por meu corpo. Depois de voar por tanto tempo era bom saber que eu finalmente estava segura no chão. Saber que esse chão é o solo Australiano me faz ainda mais feliz.
Todo o processo de imigração e coleta de bagagem sempre fora um verdadeiro pesadelo para mim. Eu sempre havia odiado essa parte da viagem. Aeroportos eu amo, mas não conte comigo para aguardar em longas filas e responder perguntas de um agente federal.
Assim que as portas automáticas da área de chegada se abriram eu vi os rostos sorridentes dos meus pais. Apesar de eu ter os avisado que eles não precisavam me buscar, minha mãe nunca perderia a oportunidade de ser a primeira a me desejar as boas vindas de volta para casa.
“Como foi o seu voo?” Ela perguntou, me puxando para um abraço.
Suspirei sentindo seu perfume familiar.
“Longo. A Austrália sempre parece estar localizada em uma galáxia muito, muito distante.”
Papai riu da minha piadinha e me deu um beijo antes de seu abraço sempre um pouco desajeitado. Ele nunca fora de demonstrar muita afeição em público, mesmo que ainda me trate como sua garotinha.
Quando ele me soltou eu olho ao redor e me surpreendi com outro rosto familiar ali perto. Um que eu até havia visto algumas vezes em Londres, mas que ainda assim eu havia sentido muita falta. Jack Hemmings.
“Não acredito que você está aqui!” Falei, - provavelmente alto demais - enquanto corria para abraçá-lo.
“Você achou mesmo que eu não viesse?” Jack riu, seus braços já abertos para me receber.
Jack e eu havíamos estudado na mesma escola e éramos amigos desde que tínhamos uns 11 anos. Nós tínhamos um ótimo relacionamento, ele esteve lá para mim em tantos momentos e as nossas famílias viraram realmente amigas. Nunca houvera um momento em nossa amizade em que eu o havia visto ou pensado nele como mais que um amigo, apesar de que em um determinado período da nossa adolescência as nossas famílias pareciam torcer para que namorássemos. Isso nunca aconteceu, o que foi bom já que foi por volta dessa época que Jack conheceu Celeste e eles estão juntos desde então.
“Senti tanto sua falta! Você não vai me visitar há quase um ano, seu merda!”
“Eu sei, me desculpe. Mas agora não preciso mais, você está finalmente aqui.”
Eu me afastei dele e observei seu rosto por alguns segundos. Era tão estranho vê-lo tão adulto e com um rosto tão másculo. Quando nos conhecemos ele era apenas um garoto meio estranho, a puberdade só o encontrou alguns anos mais tarde.
“E Celeste?” Perguntei, olhando em volta.
“Trabalhando. Ela me pediu pra dizer que sente muito por não estar aqui hoje, mas que está animada para te ver no Domingo.”
Arquei minha sobrancelha. “O que tem Domingo?”
“Nós ainda não falamos para ela,” mamãe comentou, olhando para Jack.
Meu pai pegou minha mochila e Jack começou a arrastar minha mala enquanto caminhávamos para o estacionamento.
“Liz está organizando um churrasco de boas vindas para você no Domingo.”
“Fala sério,” ri, incrédula. “Sua mãe é um amorzinho. Ela realmente não precisava fazer isso.” Comentei com meu melhor amigo.
“Tente falar isso para ela!” Ele brincou.
“Sinto falta dela. Como ela está? E Andy?”
“Estão bem. As cosas estão um pouco doidas no momento porque Luke acabou de chegar de uma turnê de quase um ano.”
“Meu Deus, é verdade. Hemmo agora é um rockstar!” Brinquei, apesar de ter um fundo de verdade no que eu disse. A quantidade de vezes que eu ouvi a banda de Luke nas rádios de Londres era incrível. Todo lugar que eu ia havia alguém falando sobre 5 Seconds of Summer.
“Sim, é bem inacreditável.”
“Não consigo nem imaginar. Ele havia acabado de sair das fraldas quando eu me mudei. Como as coisas mudaram.”
“Você não faz ideia. Está uma loucura. Havia fãs do lado de fora da nossa casa algumas vezes. Meus pais ficaram um pouco assustados.”
Minha mãe nos interrompeu ao chegarmos ao estacionamento do aeroporto. “Jack, nós vamos levar para almoçar. Gostaria de se juntar a nós?”
“Eu adoraria, Sra. , mas tenho que voltar para o trabalho.”
“Ah, que pena. Tenho certeza que você e tem bastante assunto para botar em dia.”
“Com certeza.” Concordei, rindo com Jack. “No Domingo conversaremos até ficarmos sem voz, certo?”
“Certo!”
Após nos despedirmos de Jack, mamãe e papai me levaram para a casa deles. Eu já havia alugado um apartamento há algumas semanas, mas só de pensar em ter que organizar as coisas estando tão cansada da viagem me fazia querer chorar. Tomei apenas um banho rápido e me troquei antes de sairmos para o almoço. Pela janela do carro eu podia ver que Sydney não havia mudado muito nos últimos três anos. O clima ainda estava tão agradável quanto eu me lembrava e eu mal podia esperar para aproveitar o calor e a praia. Estávamos no verão e eu pretendia pegar um bom bronzeado o mais breve possível.
Até aquele momento eu não havia percebido o quanto eu havia sentido saudades de casa. Eu sempre acreditei que lar era mais um sentimento do que um lugar, mas nesse momento eu sentia que a Austrália era mesmo o lugar onde eu pertencia.

02.


A música estava nas alturas, o lugar lotado e eu podia sentir o suor escorrendo por minhas costas. Arrumei o boné na minha cabeça com cuidado para não mostrar o quão bagunçado o meu cabelo estava. Dei apenas dois passos antes se sentir uma mão em meu ombro.
“Luke,” Ashton chamou atrás de mim.
Olhei para trás e o vi apontando para o andar de cima. Segui seus passos pelas escadas e nós dois entramos em uma área bem mais vazia. Era impossível negar que estar em uma banda famosa nos dava alguns privilégios, alguns deles, como nesse caso, eram muito bem vindos. Algumas pessoas estavam ao redor do bar e eu e Ashton esperamos para pedir nossas cervejas. Eu podia sentir alguns olhares em cima de nós, a maioria femininos, mas alguns caras também nos olhavam com curiosidade.
“Duas cervejas,” pedi quando um cara atrás do balcão olhou para mim. Ele concordou e rapidamente nos trouxe duas garrafas geladas.
Sentei em um dos bancos vazios do bar e Ashton continuou de pé em minha frente olhando ao redor e mexendo a cabeça na batida da música que o DJ tocava.
“Isso também lhe parece estranho?” perguntou.
Dei de ombros. “O quê?”
“Estar aqui. Em casa. Não sei.”
“É. Um pouco,” concordei.
Ter voltado de uma turnê apenas alguns dias antes, depois de viajar por quase um ano, fez com que as coisas não parecessem muito normais. Estar em casa era ótimo, mas amávamos estar em turnê e trocar de cidade ou, às vezes, de país quase todos os dias. Pudemos experimentar diferentes clubes em diversos lugares, com pessoas e músicas diferentes. A Austrália quase não era mais familiar.
Eu tinha apenas 16 anos quando saí pela primeira vez em turnê com a One Direction, eu ainda nem podia entrar em clubes na Austrália. Agora poder entrar aonde eu queria era uma experiência diferente. Quando completei 18 anos eu estava longe de casa, na estrada, experimentando um novo mundo onde eu não precisava beber escondido por ser menor de idade.
Mais uma vez eu tirei o boné e puxei meu cabelo para trás. A temperatura parecia estar uns 40 graus. Dei um grande gole na cerveja gelada, quase terminando a bebida de uma vez.
“Comecei a escrever uma música ontem a noite,” Ashton comentou, sua voz um pouco mais alta para ser ouvido por cima da música.
“Boa?”
“Eh, precisa de mais atenção,” deu de ombros.
“Michael disse que vai nos encontrar amanhã, leva a música e damos uma olhada juntos. Mas acho que Calum vai visitar alguns parentes na Nova Zelandia.”
“Estou sabendo. Ele me ligou.”
Terminei a cerveja com um último gole e olhei ao redor, pela primeira vez realmente reparando nas pessoas naquela área reservada. Meus olhos passaram por algumas garotas dançando ao som da música e foram até uma mesa onde três garotas conversavam animadas. A única que estava de frente pra mim arregalou os olhos e sorri. Reconheci seu rosto familiar e sorri de volta.
“Já volto,” avisei a Ashton antes de andar em direção à ela.
Enquanto caminhava eu reparei no quão diferente ela estava. Seu cabelo estava mais escuro e seu corpo – delineado pelo vestido justo – ainda mais incrível do que eu lembrava.
“Hemmo!” Ela sorriu, jogando seus braços ao redor do meu pescoço e me abraçando com força.
“E aí, ?”
era a melhor amiga de Jack desde que eu conseguia lembrar. Eu ainda era um pirralho gordinho quando ela estava sempre em minha casa brincando com Jack e seus outros amigos. Até meu irmão conhecer Celeste eu achava que ele e acabariam juntos, o que era ótimo, pois sempre gostei dela.
Quando eu tinha uns 13 anos, cheio de hormônios adolescentes e achando a palavra “peitinhos” a coisa mais engraçada do mundo, eu comecei a enxergar de uma forma completamente diferente. Ela devia ter uns 17 anos e já era vista como a filha que meus pais nunca tiveram, mas pra mim ela era simplesmente a melhor amiga gostosa do meu irmão mais velho. Perdi as contas de quantas vezes tive que colocar uma almofada no colo ao vê-la pela casa usando apenas um biquíni.
“Você sabe que seu irmão é o único que me chama de , não é?”
“Bom, você é a única que ainda me chama de Hemmo,” rimos.
Observei seu rosto familiar com mais atenção e agora mais de perto e controlei o impulso de descer os olhos por seu corpo novamente.
“Olha só você todo crescido,” comentou e, ironicamente, seus olhos percorrem meu corpo de cima a baixo. “Qual a sua altura agora e desde quando você tem um piercing no lábio?”
Toquei o piercing com a ponta da língua e sorri. “Desde que eu tinha 17.”
“Ah, nossa, faz tanto tempo, não é mesmo?” Ela brincou. “Seu irmão me disse que você acabou de voltar de turnê.”
“Sim, há alguns dias. Ainda estou tentando me reacostumar com tudo.”
Ela suspirou. “Sei como se sente.”
Vi o flash de uma câmera explodir à minha esquerda e olhei para encontrar duas garotas – que eu podia apostar que eram menores de idade – com as mãos nas bocas e dando risadinhas enquanto se afastavam e sumiam no meio da multidão de corpos dançantes.
“Opa. Isso não foi legal,” comentou.
Dei de ombros, mesmo estando incomodado com a situação. “Não ligo muito.”
“Está de volta para umas férias merecidas ou apenas por alguns dias antes de voltar a dominar o mundo?”
Dei risada e balancei a cabeça negativamente. “Dois meses de férias. Nem sei o que fazer com todo o tempo que tenho em minhas mãos.”
“Ah, por favor,” riu. “Vá ser um adolescente normal, Hemmo.”
“Então eu não sou um adolescente normal?” Perguntei, confuso.
Ela fingiu pensar por alguns instantes e me deu um empurrão fraco de brincadeira.
“Da última vez que chequei adolescentes normais não tem garotas e fotógrafos os seguindo em todos os lugares. Ah, e acho também que eu se eu colocar o nome de um adolescente normal no Google eu não encontrarei milhares de resultados.”
“Isso significa que você jogou meu nome no Google?” Arqueei minha sobrancelha e observei sua feição mudar de divertida para embaraçada.
“Talvez eu tenha feito isso uma ou duas vezes quando estava em Londres. Mas em minha defesa She Looks So Perfect estava o tempo inteiro nas rádios e eu fiquei um pouco curiosa.”
“Então, você quer um autógrafo? Talvez uma foto?” Brinquei.
riu alto. “Ah, cala boca, Hemmo.”
Ouvi Ashton chamar meu nome mais uma vez e me virei , vendo ele caminhar ao meu encontro.
“E aí?”
Ele olhou de mim para e sorriu. Encarei isso como uma indireta e os apresentei.
“Essa é , amiga de Jack,” apontei para ela e depois para Ashton. “Ashton, colega de banda.”
“É um prazer conhece-lo,” ela disse apertando sua mão.
“Prazer,” Ashton respondeu antes de se virar para mim e sussurrar. “Precisamos ir.”
Balancei a cabeça concordando, sabendo por que ele havia sussurrado aquilo.
Garotas. Ou melhor, uma em particular que Ashton já havia ficado algumas vezes, mas era difícil fugir dos flashes e manter qualquer tipo de relacionamento às escuras.
Não é como se garotas fossem o único motivo para irmos aos clubes, mas estar no centro das atenções, por incrível que pareça, faz com que seja mais difícil conhecermos garotas. As que convivemos diariamente fazem parte da produção ou são as fãs que conhecemos do lado de fora dos hotéis e aeroportos. Então preferíamos aproveitar lugares onde podíamos apoveitar com certa liberdade e menos riscos de acabar com fotos nossas nas capas de todas as revistas de fofocas.
, temos que ir,” disse.
“Sim, claro. Foi bom te encontrar, Hemmo.”
Abracei novamente, dessa vez tirando-a do chão um pouco e ouvindo sua risada divertida em meu ouvido.
“Te vejo Domingo, certo?”
Ela concordou e acenou antes de se virar de volta para suas amigas.
Aproveitei a oportunidade para finalmente descer meus olhos por seu corpo, agora de costas para mim, e sorri comigo mesmo. Como eu imaginava, ainda melhor do que há três anos.
Antes de sair do clube, a olhei novamente e acenei rapidamente uma última vez.


03.


Eu sempre amei o verão na Austrália, mas depois de três longos anos na gélida e chuvosa Inglaterra, poder torrar no sol enquanto curtia um churrasco com meus amigos era uma experiência completamente diferente.
O céu estava completamente limpo e azul, as árvores estavam cheias e bem verdes e a temperatura elevada estava ideal para um dia fora de casa. O quintal dos Hemmings estava recebendo todas as minhas pessoas favoritas. Não que elas fossem muitas, mas eu sabia que as que realmente importavam estavam ali comigo.
Eu estava sentada na beira da piscina com Jack e Celeste, falando sobre a última vez que eles estiveram em Londres e nós saímos juntos, quando Luke apareceu. Observei ele caminhar até o isopor cheio de cervejas e pegar uma latinha. Ashton e um garoto do cabelo colorido fizeram o mesmo. De acordo com o Google, aquele era Michael Clifford, lembrei vagamente de vê-lo algumas vezes com Luke, antes mesmo de eu ir embora da Austrália, mas, assim como Luke, ele parecia uma pessoa completamente diferente agora.
“Não consigo acreditar no quanto Luke cresceu,” comentei com Jack e Celeste.
Celeste suspirou, desanimada. “Me sinto tão velha quando olho para ele.”
“Você se sente velha?” Jack riu. “Eu vi esse merda nascer e agora ele tem garotas o perseguindo e gritando seu nome aonde quer que vá.”
“Algumas delas perseguem até você,” Celeste comentou e eu percebi uma pontinha de ciúme em sua voz.
“Sério?”
Ela riu e confirmou. “Algumas pedem até foto com ele.”
“Isso é só porque elas acham Luke parecido comigo,” Jack deu de ombros.
Celeste me olhou de lado e nós rimos. Apesar disso, notei como as fãs tem razão, Luke parecia muito com Jack.
Luke e seus amigos se aproximaram e eu apontei para suas calças pretas.
“Não acredito que esteja usando calça preta, Hemmo.”
Ele olhou para as próprias calças e pareceu confuso. “O que tem de errado com elas?”
“Está calor demais para usar essas calças, Luke.” Celeste pontuou, antes que eu o fizesse.
“E meu Deus, como elas são apertadas,” brinquei.
Até mesmo Ashton e Michael deram risada.
“Está sugerindo que eu tire as minhas calças, ?” Luke não disfarçou o flerte em seu tom de voz e eu fiquei sem reação por alguns segundos.
“Está mesmo dando em cima dela? Vai procurar alguém da sua idade, pirralho.” Jack riu.
“Michael, gostei da nova cor,” Celeste apontou para o cabelo dele e eu fiquei aliviada pela mudança de assunto. Lancei um olhar para ela e percebi que ela notou o quão sem graça eu estava.
“É, estava precisando mudar um pouco,” Michael comentou, passando a mão pelo cabelo. “Acho que não fomos apresentados, sou Michael.”
Michael me olhou e sorriu, estendendo a mão para eu apertar.
,” me apresentei. “É um prazer conhece-lo, Michael.”
“É um prazer também, apesar de parecer que eu já te conheço bastante.”
Michael riu e olhou para Luke. Por um segundo achei que fosse uma brincadeira, mas não pude deixar de notar que Luke não pareceu confortável com esse comentário.
“O que isso quer dizer?” Perguntei, curiosa.
“Nada!” Luke se adiantou antes que Michael pudesse dizer qualquer outra coisa. “Michael não sai muito de casa, então o sol pode estar afetando seu cérebro um pouco.”
Ashton riu. “Hm, claro. O sol...”
Jack começou a fazer perguntas aos garotos sobre o que eles andavam fazendo nas férias e quais eram os planos para o verão e eu observei Luke que parecia focado demais no próprio pé, mas não escondia um sorriso no canto dos lábios. Tomei um gole da cerveja e mergulhei minha cabeça na piscina para me livrar da sensação de que o sol podia estar afetando o meu cérebro também.
Algumas horas – e cervejas – depois a casa estava praticamente vazia. Celeste precisou ir embora mais cedo para terminar algum trabalho então estava só eu e Jack na sala dos Hemmings, assistindo algum filme aleatório que eu não lembrava o nome. Meus olhos começavam a ficar pesados quando escutei o ronco de Jack. Sorri para mim mesma, lembrando que essa cena já acontecera infinitas vezes antes, Jack dificilmente conseguia chegar ao final de um filme sem dormir.
Levantei do sofá, na intenção de jogar uma água gelada no rosto antes de pegar um táxi para casa. Caminhei até o banheiro e me espantei com a quietude dentro da casa, meus passos quase silenciosos se tornaram altos demais. Por estar olhando a tela do celular me assustei ao dar de frente com alguém.
Luke.
“Foi mal, .” Levantei meus olhos para encará-lo e, sabe-se lá por qual motivo, não o respondi de imediato. Ele ainda estava usando a calça skinny preta, mas não vestia mais a camisa, revelando seu torso magro e ombros largos. Algumas sardas subiam por seu peito até o pescoço e eu odiei o fato de meus olhos seguirem esse caminho até encontrar suas órbitas azuis.
“Minha culpa,” admiti. “Estava olhando para o celular. Desculpa, Hemmo.”
Ele sorriu e uma de suas mãos foi até o cabelo bagunçado.
“Já está indo?”
“Hm, sim, daqui a pouco. Jack está apagado no sofá e eu não quero acordá-lo.”
Vi Luke hesitar por alguns segundos e então apontar para seu quarto. “Posso te mostrar uma coisa antes de você ir?”
Concordei e o segui até seu quarto. Era difícil não notar o quão pouco o cômodo havia mudado desde a última vez que eu estive naquela casa. Apesar de não ser o quarto que eu costumava frequentar – esse seria o de Jack - passei muitas vezes pela porta e sempre reparava nos pôsteres nas paredes. Ver que todos eles continuavam no mesmo lugar me fez sorrir.
“Whoa! Estou no quarto de Luke Hemmings. Eu devia postar isso no Instagram e deixar as garotas com inveja,” brinquei.
Luke riu, mas percebi que ficou um pouco sem graça com a insinuação.
“Eu achei uma foto,” ele disse, abrindo uma gaveta. “Aqui.”
Ele estendeu a mão e eu peguei a foto. Quando olhei a imagem precisei cobrir minha boca para abafar uma risada. Era uma foto antiga de todos nós. Eu, Luke, Jack e Celeste. Nós tínhamos por volta de 16 anos e Luke uns 12, ainda gordinho antes de atingir a puberdade.
“Esse foi um ótimo Halloween,” comentei, o olhando.
“Esse Halloween foi uma merda,” Luke respondeu, sorrindo. “Vocês me sacanearam umas cinco vezes. Acho que nem dormi aquela noite.”
Ri de novo. Não podia evitar as memórias que invadiram minha mente.
Sentei ao seu lado na cama, ainda admirando a foto em minha mão. Jack e Celeste estavam fantasiados de policiais, eu era a versão feminina do Coringa e Luke era uma das tartarugas ninja. De fato nós havíamos o atormentado naquele dia, o tempo todo pregando peças e o assustando e quase fazendo ele voltar correndo para casa.
Quando olhei para o lado percebi Luke me observando, seu piercing preso entre os dentes.
“Por que está me encarando?” Perguntei, empurrando-o de brincadeira com meu ombro.
Ele sorriu e balançou a cabeça. “Por nada.”
“Você está agindo de forma estranha, Hemmo.”
“Não estou. Só estava lembrando algumas coisas,” ele comentou.
Ele mordeu a parte do lábio onde estava o piercing e eu percebi que ele fazia isso o tempo todo, especialmente quando parecia nervoso. Quando notei que estava encarando seus lábios, voltei minha atenção para a foto.
“Está lembrando de como era o menininho da mamãe?” Brinquei.
“Eu nã-”
“Era sim,” interrompi.
Ele deu de ombros e riu. “Que seja. Não era isso que eu estava lembrando.”
Coloquei a foto na cama entre nós dois e olhei para ele.
“Então me conte. O que você estava lembrando, Hemmo?”
Por alguns segundos ele ficou quieto, parecendo entretido demais com o buraco no joelho de sua calça. O quarto estava um pouco mais escuro, provavelmente por causa de alguma nuvem encobrindo o sol que ainda brilhava no céu, mas eu conseguia ver que suas bochechas estavam um pouco ruborizadas. Ele limpou a garganta e apontou para a foto ainda na cama.
“Acho que foi por volta dessa época que eu meio que...” ele pareceu pensar em como dizer o que vinha a seguir e, mais uma vez, seus dentes prenderam seu lábio inferior. “Não sei, meio que comecei a ter uma quedinha por você.”
Sorri - um pouco mais do que deveria. “Aw, você tinha uma quedinha por mim, Hemmo? Que fofo.”
Ele riu e me olhou. “Você acha fofo?”
“Claro que sim. Você tinha 12 anos e era só o irmão mais novo do Jack.”
“Isso quer dizer que eu não sou mais o irmão mais novo dele?”
E lá estava o tom de voz sugestivo novamente, me pegando de surpresa e me deixando sem palavras. Limpei a garganta enquanto pensava em algo inteligente ou alguma piadinha que quebrasse a tensão no quarto.
“N-não foi isso que eu quis dizer,” gaguejei e me odiei por isso.
“Então me diga, . O que exatamente você quis dizer?”
Balancei a cabeça e prendi uma mecha de cabelo atrás da orelha, sentindo a tensão entre nós crescer a cada segundo que passava. Precisei abrir minha boca três vezes antes de finalmente encontrar minha voz.
“Eu quis dizer que-”
?”
A voz de Jack veio da sala e eu me levantei apressada.
Ouvi Luke suspirar alto, mas ignorei e caminhei até a porta do quarto.
“Estou no quarto de Luke,” respondi.
“Foi mal, peguei no sono,” Jack riu, entrando no quarto. “O que estão fazendo?”
“Nada,” respondi, me sentindo mais culpada do que deveria. “Hemmo estava me mostrando uma foto nossa daquele Halloween em que o assustamos várias vezes.”
Jack riu. “Bons tempos.”
“Eu já estava indo. Estou cansada.”
“É, acho que também vou. Te acompanho até a porta,” Jack ofereceu.
Olhei para Luke, reparando que seus olhos azuis e intensos acompanhavam meus movimentos.
“Tchau, Hemmo. Foi bom te ver novamente.”
“Sempre bom te ver, ,” ele piscou.
Saí do quarto sentindo que algo muito maior que somente nossa conversa sobre o passado acontecera ali. Minhas mãos estavam suando e eu as limpei no short jeans.
Me despedi rapidamente de Jack quando o táxi chegou e entrei no carro com minha cabeça trabalhando a mil por hora. Respirei fundo, descansando a cabeça no encosto do carro, mas todo o caminho até em casa não foi o suficiente para me livrar da estranha sensação que pesava em meu peito.

04.


Era um daqueles dias em que minha mãe queria a família toda reunida para um almoço. Eu estava sentado entre minha mãe e Celeste, comendo distraidamente, sem prestar atenção em uma história que Ben estava contando sobre algo que acontecera no trabalho dele naquela semana. Estava mais preocupado em olhar o celular, esperando Ashton me ligar para irmos olhar o apartamento que eu estava pensando em comprar.
“Quais são os planos para hoje?” Minha mãe perguntou, olhando de Jack para Celeste.
“Vamos sair para jantar com ,” meu irmão respondeu e eu imediatamente comecei a prestar atenção na conversa.
Minha mãe sorriu. “Que ótimo. Como ela está? Não pode ser fácil se readaptar depois de três anos longe.”
“Está bem, na medida do possível” Celeste deu de ombros, demonstrando que não tinha tanta certeza. “Acho o maior problema para ela é a saudade de Tom.”
“Quem é Tom?” Perguntei, tão abruptamente que Celeste se assustou.
Olhei para meu prato e fingi estar mais interessado na comida.
“O namorado dela,” Jack respondeu.
Olhei para meu irmão, sem compreender direito o que ele tinha acabado de dizer. Jack me encarou de volta e eu balancei a cabeça lentamente.
“Não sabia que ela tinha namorado.”
De repente a comida no meu prato era a última coisa em minha mente. Afastei o prato, sentindo meu estomago embrulhar e o olhei mais uma vez a tela do meu celular. Nenhuma mensagem de Ashton.
“Nós o conhecemos em Londres quando estivemos lá. É um cara gente boa. Eles já estão juntos há algum tempo, não é, amor?”
Jack concordou. “Acho que um ano mais ou menos.”
“Eles são corajosos por tentarem namorar a distancia. É uma merda.” Ben opinou de forma sábia. Ele já havia tido a mesma experiência e vivia falando que nunca dá certo.
“Foi o que eu falei pra ela.” Jack replicou.
Enrolei por alguns minutos, minhas pernas já inquietas debaixo da mesa. Quando a mensagem de Ash finalmente chegou, eu pedi licença e me retirei da mesa, levando meu prato até a cozinha. Por sorte todos também já haviam terminado de comer ou eu seria obrigado a ouvir um sermão sobre como não é educado deixar a mesa antes de todos terminarem. Minha mãe podia ser um pouco tradicional demais quando se tratava de reuniões familiares.
“Vai olhar o apartamento?” Jack perguntou, enquanto eu me despedia de todos.
Dei um longo suspiro. “Sim, ainda estou na dúvida.”
“É um puta apartamento, Luke. Difícil conseguir algo melhor nessa parte de Sydney.” Ele opinou.
“Eu sei,” concordei. “Mas estou realmente indeciso.”
Me despedi com um último aceno e me apressei para encontrar Ashton no carro do lado de fora.
“E aí, cara? Estou animado para ver esse apartamento.” Ele comentou, dando partida no carro.
Eu já havia visitado o apartamento algumas vezes, mas Ashton ainda não havia tido a chance de vê-lo pessoalmente. Eu queria a opinião de todas as pessoas mais próximas. Eu sabia que a opinião dos meus pais seria diferente da de Ash, Mike e Cal. Jack havia sido o que mais pareceu gostar do lugar e, como ele tinha seu próprio apartamento com Celeste, a opinião dele com certeza era valiosa.
No caminho até o apartamento conversamos sobre algumas ideias para o próximo álbum e a próxima turnê. Mesmo estando de férias, o assunto que mais conversávamos era sobre trabalho. Não conseguíamos evitar. Amávamos o que fazíamos. Estar em uma banda com meus três melhores amigos não parecia trabalho, fazer música era o que mais gostávamos e poderíamos fazer pelo resto de nossas vidas.
Quando chegamos ao prédio, eu peguei a chave com o porteiro, que já me conhecia, e levei Ashton até o apartamento. Ele olhou em volta, animado, apontando alguns detalhes e falando do que gostava no lugar.
“Cara, essa varanda é incrível!” Ele comentou.
Eu sorri e confirmei. A varanda era definitivamente a minha parte preferida daquele apartamento. Nenhum dos outros que eu havia visitado oferecia a incrível vista para o mar que podíamos ver dali. Fora que o espaço era realmente grande, o que era incomum para apartamentos mais novos.
“Se você não comprar esse apartamento, então eu vou comprar.” Ashton desafiou e, apesar do seu tom de voz brincalhão, pelo jeito que ele havia amado o lugar, eu não duvidava que ele realmente comprasse.
Observamos o mar azul à nossa frente por alguns instantes, contemplando a forma como o céu se fundia com o oceano, dois tons de azuis distintos e intensos.
“Você está mais quieto que o normal hoje.” Ashton falou me olhando. “O que está acontecendo?”
Dei de ombros. “Nada. É só uma grande decisão que preciso tomar. Quer dizer, é o meu primeiro apartamento, não quero fazer a escolha errada.”
“Você gostou desse?”
“Eu amei esse apartamento,” respondi com sinceridade.
“Você analisou as outras opções também?”
Ashton sabia a resposta para aquelas perguntas, mas ainda assim eu entrei no seu jogo.
“Sim, claro.”
“Então qual é o problema?”
Suspirei. “Eu não sei.”
“Não é o apartamento, não é?”
Soltei uma risada nasalada e balancei a cabeça. Eu não sabia se era por ele ser mais velho, mas Ashton simplesmente sabia certas coisas, ele era especialmente bom em ler pessoas, enxergar através de suas máscaras. Para mim ele era como um irmão mais velho. Como outro irmão mais velho. Ou ele sabia sentir no ar que havia algo errado, ou eu era muito ruim em esconder minhas emoções.
“O que te leva a achar que há algo errado?” Perguntei, curioso.
“Você não está sendo seu eu irritante hoje.” Respondeu de forma séria.
Nos entreolhamos e rimos. Era uma tarefa difícil ser o membro irritante da banda.
“É sobre a ?”
Isso é o que mais me assustava sobre Ashton. Não era a primeira vez que ele parecia simplesmente saber de algo. E não era só comigo. Acontecia com Michael e Calum também. Nós odiávamos isso, mas ao mesmo tempo agradecíamos por ter alguém como Ashton do nosso lado.
Soltei uma risada um pouco forçada e esquisita. “O quê?”
“Você está obcecado por essa mulher, Luke.”
Não consegui evitar a expressão de surpresa e ofensa.
“Claro que não!”
“Uhum, tá bom.” Ele debochou.
Balancei minha cabeça novamente, ainda chocado com o que ele havia dito. Eu havia falado sobre com ele pouquíssimas vezes, não havia obsessão alguma.
Não demoramos muito mais no apartamento. Decidimos matar tempo na casa de Ashton, tocando alguns instrumentos e tentando criar novas ideias e algumas músicas para o próximo álbum. Algumas horas depois nós tínhamos duas músicas que ainda precisavam de alguns – ou vários – ajustes e Michael havia se juntado à nós para uma sessão de música que incluía algumas das nossas bandas favoritas.
“Vocês estão com fome?” Perguntei, sentindo meu estomago começar a protestar a falta de comida.
Ashton deu de ombros. “Não me importaria de comer agora.”
“Estou sempre com fome.” Michael falou, guardando sua guitarra.
“Nando’s?” Sugeri um dos nossos restaurantes favoritos.
“Que merda, Luke. Toda vez que você fala Nando’s eu me sinto faminto.” Ashton protestou, já se levantando com suas baquetas na mão. “Vamos logo.”
Entramos no carro, conversando animados sobre as músicas que havíamos conseguido escrever durante a tarde. As letras eram realmente interessantes e Michael havia criado um riff na guitarra para uma delas que soava incrível. Lamentamos o fato de Calum ainda estar na Nova Zelândia já que ele era realmente bom com letras de música, mas sabíamos que ele ficaria animado para trabalhar com as que havíamos começado assim que voltasse para Sydney.
Quando chegamos ao restaurante a atendente rapidamente veio ao nosso encontro e perguntou quantas pessoas estavam em nosso grupo.
“Nosso grupo já está aqui. Obrigada.” Respondi rapidamente com um sorriso e entrei no restaurante.
“Que grupo já está aqui, Hemmings?” Michael perguntou, me seguindo.
“Ali estão eles,” respondi, apontando para a mesa onde estavam meu irmão, Celeste e .
Antes de sair de casa mais cedo eu havia perguntado para Jack onde ele pretendia jantar e, quando ele perguntou o motivo, eu apenas comentei que estava procurando por recomendações de bons restaurantes na área.
“Luke...” Ouvi o aviso na voz de Ashton, mas resolvi ignorá-lo.
Toquei o ombro de Jack e sorri. “E ai, irmão. Esqueci que você vinha jantar aqui.”
“Que coincidência, Luke.” Celeste me olhou, desconfiada e, diferente de meu irmão, não parecendo acreditar que aquilo era realmente uma coincidência.
Eu ri. “Pois é. E aí, ?”
“Hemmo,” Ele fez um pequeno aceno com a cabeça e ofereceu um sorriso amigável.
“Eu não sabia que vocês viriam para cá. Sempre bom encontrar meus irmãozinhos.” Jack comentou de forma afetiva, cumprimentando meus amigos de banda.
“É, Luke de repente ficou com vontade de comer frango.” Ashton comentou, dando ênfase na última palavra e apertando meu ombro com mais força do que eu esperava.
Michael riu do sarcasmo na voz de Ash.
“Bom te ver de novo, .” Ele cumprimentou.
“Digo o mesmo, Michael.”
“Por que vocês não sentam com a gente?” Jack ofereceu.
Reparei que, ironicamente, a mesa era exatamente para seis pessoas.
“Tem certeza? Não queremos nos intrometer.” Ashton falou ao mesmo tempo em que eu já fui sentando ao lado de .
“De forma alguma. Fiquem a vontade.” Ela mesma respondeu.
Ashton sentou com Jack e Celeste e eu fiquei entre e Michael. Aproveitei o momento em que Ashton começou a falar sobre a nossa tarde criativa e me virei para , diminuindo o tom da minha voz.
“Como estão as coisas, . Como está Tom?” Perguntei, tentando não soar muito interessado.
me olhou, estreitando os olhos, claramente confusa com o meu interesse, especialmente em seu namorado.
“As coisas estão normais e Tom está ótimo. Obrigada por perguntar... Eu acho.” Ela sussurrou a ultima parte e eu tive que controlar o riso.
“Ele vai vir te visitar? Eu adoraria conhece-lo.” Comentei.
Mais uma vez me olhou confusa e, apesar da sua desconfiança, eu estava mesmo falando sério.
“Eu não sei ainda. Ele está um pouco ocupado com o trabalho.” Sussurrou.
Eu podia estar errado, mas, a julgar pela sua entonação, ela não estava nem um pouco feliz com aquela conclusão. Havia um pouco de ressentimento em sua voz, mas, quando busquei seu olhar, ela rapidamente desviou sua atenção para Ashton que ainda descrevia o nosso dia.
Não conversamos muito depois disso. parecia distante e quieta, respondia apenas quando alguém a mencionava na conversa. Pensei em perguntar se estava tudo bem, ou se ela estava sentindo algo, mas não consegui encontrar a minha voz e preferi também permanecer calado.
Foi apenas quando terminamos de jantar que eu resolvi fazer alguma coisa. Como eu não queria chamar a atenção de ninguém, mexi o meu joelho debaixo da mesa, cutucando o dela de leve. Os olhos de não se desviaram do celular em sua mão, mas vi um sorriso comedido surgir no canto da sua boca e senti o seu joelho me cutucar de volta.
Não demorou muito para que deixássemos o restaurante. Nos despedimos de Jack e Celeste, já que o carro deles estava do outro lado do estacionamento, e seguimos para o carro de Ashton. Coincidentemente o de estava para o mesmo lado que o dele. Caminhei em silêncio e um pouco mais devagar que os meus amigos e, coincidentemente – ou não – caminhou no mesmo passo.
“Está tudo bem?” Perguntei num tom baixo, enquanto observava meus amigos logo à nossa frente.
balançou a cabeça, concordando, mas não me olhou, seus olhos estavam fixos no chão. Suspirei e me aproximei um pouco mais dela.
“Você não parece estar bem.” Tentei novamente, dessa vez observando seus movimentos.
Ela me olhou por alguns segundos, um sorriso fraco brincava em seus lábios, mas ele não chegava até seus olhos que ainda pareciam melancólicos.
“Não se preocupe comigo, Hemmo. Eu ficarei bem.”
Ela tentou apressar um pouco o passo, mas eu a acompanhei. Puxei um pouco a barra da camisa que ela usava, apenas para ganhar sua atenção novamente.
“Você quer ir para algum lugar?”
me olhou, desconfiada. “Eu estou indo para um lugar. Minha casa.”
“E se eu souber de um lugar onde você pode escapar um pouco de tudo isso?”
Seus olhos procuraram por algo em meu rosto, talvez uma expressão que demonstrasse que eu estava apenas brincando ou curtindo com a cara dela. Mantive meus olhos nos seus e esperei até que ela respondesse.
“Por quê?” Ela perguntou, me surpreendendo um pouco.
“Por que o quê?”
“Por que você se importa?” Ela sussurrou. “Por que você se importa comigo?”
Mordi meu lábio e olhei para Ashton e Michael por alguns segundos. Eles ainda conversavam distraídos e alheios ao que se passava entre mim e .
“Eu não sei,” respondi com sinceridade. “Eu sou um bom amigo, eu acho.”
“Nós não somos exatamente amigos, Hemmo. Eu sou amiga do Jack.” Ela deu um meio sorriso e me encarou.
“Nossa,” respondi, dramaticamente colocando uma das minhas mãos no meu peito. “Por que você está tentando magoar os meus sentimentos, ?” Perguntei em um tom divertido e ela finalmente riu, me empurrando para longe.
Quando ela ficou quieta novamente eu mordi o meu piercing, minhas mãos tão inquietas que eu precisei escondê-las nos bolsos da calça.
“Então, quer ir?” Tentei novamente.
parou de andar e eu fiz o mesmo. Ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha e olhou ao redor, parecendo um pouco nervosa. Ela suspirou pesarosamente antes de me olhar com um sorriso discreto nos lábios.
“Ok, Hemmo. Vamos escapar um pouco disso tudo.”

5.

O caminho até o lugar onde Luke estava me levando foi feito quase todo em silêncio. Exceto pelas direções que ela me dava, nós permanecemos quietos. Cheguei a perguntar para ele onde estávamos indo, mas ele apenas sorriu e deu de ombros, então eu não insisti.
“Você pode estacionar em qualquer lugar por aqui,” ele finalmente falou, quando chegamos em uma rua pouco movimentada.
Olhei a nossa volta, notando que aquele era uma área residencial e, pela janela aberta do carro, eu podia ouvir o barulho do mar. Concordei e estacionei na primeira vaga que consegui encontrar, atenta para alguma placa que dissesse que aquele local era ilegal para parar carros.
Quando saímos do carro, eu segui Luke pela rua vazia. O sol já havia há muito dado espaço à lua que brilhava no céu e a brisa que soprava fez com que eu me abraçasse, para me manter aquecida. Eu podia sentir os olhos de Luke em mim e pensei que ele fosse dizer algo, mas não o fez.
Luke entrou em um prédio imponente e muito bonito e eu segui logo atrás, vendo-o trocar algumas palavras com o porteiro. A minha cabeça girava com todas as informações que tentava processar, por isso acabei nem prestando atenção ao que eles falavam. Olhei ao redor do saguão em que nos encontrávamos, reparando nas plantas bem cuidadas e espelhos que revestiam as paredes. Por alguns segundos deixei que meu cérebro começasse a pensar demais no que estava acontecendo e comecei a me arrepender de ter aceitado o convite de Luke.
,” ele me chamou, desviando a minha atenção.
Ele indicou a direção do elevador e caminhamos juntos.
“Onde estamos?” Tentei novamente, vendo que ele tinha uma chave nas mãos.
Luke pressionou o botão do décimo andar e sorriu. “Você vai ver em alguns instantes.”
Balancei a cabeça e soltei um suspiro pesaroso. A subida até o andar foi rápida e silenciosa. Luke brincava com a chave em suas mãos enquanto mordia seu lábio inferior, brincando com o piercing. Eu não gostava do fato de conseguir apontar alguns de seus hábitos nervosos, especialmente porque isso significava que ele estava sempre nervoso quando eu estava por perto e isso não podia ser uma coisa boa.
Quando chegamos ao décimo andar ele caminhou até uma porta de madeira marrom clara e a destrancou. O apartamento estava vazio e escuro, mas, assim que Luke acendeu as luzes, eu pude ver o quão espaçoso o lugar era. O chão de mármore brilhava e a cada passo que dávamos o barulho ecoava pelo espaço vazio.
“É seu?” Perguntei, andando pelo apartamento.
Ele olhou ao redor colocando as mãos nos bolsos da calça. “Ainda não.”
“Por que não?”
Luke suspirou. “Eu não sei. O que você acha?”
Ri. “Eu acho que ele faz o meu apartamento parecer absurdamente pequeno.”
Ele gargalhou e caminhou até a varanda, abrindo a porta de vidro. Arfei, surpresa ao ouvir o barulho alto do oceano. Por estar escuro, eu não conseguia ver bem o mar, mas a brisa que entrava foi o suficiente para me fazer fechar os olhos e sorrir.
Quando eu abri os olhos, encontrei Luke me observando.
“O que foi?”
Ele balançou a cabeça e, mais uma vez, prendeu o piercing entre os dentes.
“Você faz muito isso, sabia?” Apontei.
Ele deu risada, sabendo do que eu estava falando. “Eu sei.”
Voltei minha atenção para o céu escuro e sentei no chão, sentindo o mármore gelado em minha pele. Luke pareceu inquieto por alguns segundos, mas então sentou ao meu lado.
“Você gostou?” Ele perguntou num tom de voz baixo, apontando para dentro do apartamento.
“Não sou eu que vou comprá-lo, Hemmo.”
Ele sorriu. “Eu gosto de considerar a opinião de outras pessoas.”
“É mesmo?” Perguntei e ele concordou. “Então eu achei ele incrível. Eu adoraria acordar com essa vista todos os dias. Ah, eu provavelmente colocaria uma rede nessa varanda e dormiria aqui mesmo.
Com um riso infantil, Luke concordou. “É, eu senti falta desse clima.”
“Eu senti falta de tudo relacionado a esse lugar. A Inglaterra foi boa pra mim, mas nunca considerei um lar de verdade.”
“Você não sente saudade de Londres?” Luke perguntou.
“Claro que sinto,” suspirei. “Algumas vezes. Na maioria das vezes eu sinto falta das pessoas que conheci lá.”
“Como seu namorado.” Ele afirmou.
Olhei para Luke ao meu lado, mas seus olhos estavam fixos em um ponto à nossa frente e sua expressão não revelava suas emoções.
“Sim, como meu namorado.”
“É por isso que você parece um pouco triste hoje?”
Encostei a cabeça no vidro atrás de mim e suspirei longamente.
“Relacionamentos a distancia são uma merda, Hemmo.”
Ele me ofereceu um sorriso educado. “É o que me disseram.”
Senti uma tristeza se acumular em meu peito e querer me sufocar. Algumas lágrimas se acumularem em meus olhos, mas eu pisquei rapidamente para me livrar delas. Aquele não era o momento ideal para isso. Quando levei um de minhas mãos para coçar o olho e impedir qualquer lágrima de cair eu vi que Luke me olhava com compreensão, era óbvio – para ele - que eu estava controlando minhas lágrimas.
Balancei a cabeça antes que ele pudesse dizer qualquer coisa. “Eu estou bem.”
“Nós temos diferentes definições de estar bem então.”
“Eu estou,” insisti, me assustando quando ainda mais lágrimas começaram a se acumular e eu tive que respirar fundo para controlá-las. Fechei os olhos por alguns segundos e senti uma lágrima solitária escapar, mas rapidamente a limpei.
Luke tocou a minha mão que ainda descansava em minha coxa.
“Vocês brigaram?”
Bufei, frustrada. “Eu já nem sei mais. Está tudo muito confuso e nós só estamos separados há duas semanas!”
Luke me olhou atentamente, seus olhos azuis revelando sua preocupação e suas sobrancelhas franzidas. Balancei a cabeça, tentando fazer com que a angustia dele se esvaísse.
“Desculpe. Não quero te encher com os meus problemas. Você está de férias, deveria estar em alguma festa com seus amigos.”
, eu te trouxe até aqui, lembra? Estou aqui por quero e não me arrependo da minha decisão.”
Ele encostou seu ombro no meu, empurrando-me um pouco de forma amigável, da mesma forma que havia feito no restaurante com o joelho. Eu o empurrei de volta da mesma forma, deixando que um sorriso contido se formasse em meu rosto.
“Céus, minha vida está uma loucura mesmo.”
“A de todos nós está.” Ele apontou sabiamente.
Olhei para o garoto ao meu lado e sorri agradecida. Ele piscou e relaxou, seus ombros encostando também no vidro atrás de nós e se alinhando aos meus. Por causa da nossa proximidade eu podia sentir o calor de sua pele viajar para a minha.
Puxei os meus joelhos para meu peito e abracei minhas pernas. O som das ondas quebrando era o único som que eu nunca me cansava de ouvir admirar. Os poucos carros passando na rua lá embaixo não era suficiente para quebrar a quietude daquela varanda.
“Esse é um ótimo apartamento, Hemmo.” Interrompi o silêncio.
Luke sorriu. “Eu sei.”
“Dá para fazer umas sessões de músicas ótimas nessa varanda. Você já trouxe os garotos aqui?” Perguntei, me referindo aos seus amigos de banda.
“Ashton esteve aqui hoje mais cedo e pareceu muito animado. Michael e Calum virão na próxima semana.”
“Eu não lembro de Calum,” revelei. “Nem de Ashton. Só de Michael.”
“É meio difícil não lembrar de Michael Clifford. Ele chama atenção.”
“Vocês não se cansam uns dos outros?” Perguntei, deixando minha curiosidade levar a melhor.
Luke gargalhou. “Na verdade não. Quer dizer, nós brigamos de vez em quando, mas estamos vivendo o nosso sonho, sabe? Nós nos ajudamos a manter os pés no chão. Sempre chamamos atenção uns dos outros quando começamos a fazer alguma merda.”
Não pude segurar uma risada imaginando a bagunça que aquelas quatro crianças deveriam fazer na estrada. Eu nem conseguia imaginá-los brigando já que eles pareciam ter uma relação tão boa.
“Nós respeitamos os espaços de cada um. Esse é o ponto mais importante.”
Concordei. “Posso imaginar.”
Cruzando os braços em meus joelhos, eu encostei a testa neles e fechei os olhos. Por algum motivo me vi respirando fundo algumas vezes, inspirando uma grande quantidade de ar pelo nariz e soltando lentamente pela boca. Senti uma das mãos de Luke nas minhas costas, os movimentos circulares ajudando a acalmar a minha inquietude.
“Se sentindo melhor?”
Virei para ele e sorri. “Estou agora. Obrigada, Hemmo.”
“Estou aqui pra isso.” Respondeu.
Sua mão não parou de fazer o carinho em minhas costas e eu não consegui me obrigar a pedir para ele parar, estava realmente me acalmando.
“Você é realmente um bom amigo, sabia?” Sussurrei.
Luke riu. “Então agora eu sou seu amigo?”
“Não foi o que eu quis dizer,” apontei, balançando a cabeça. “Você é um bom garoto, Hemmo.”
Encostei minha cabeça também no vidro e Luke fez o mesmo. Quando olhei para ele vi seus olhos azuis intensos me observando. Ele não estava mais sorrindo, sua feição era séria e seus olhos estavam atentos aos meus. Pisquei algumas vezes, mas não desviei o olhar.
“Não sou mais um garoto.” Ele murmurou.
Várias respostas passaram por minha cabeça, mas no final eu só sorri e concordei com a cabeça. “Eu sei.”
Eu não sei explicar por que não lhe dei uma resposta irônica ou até mesmo engraçada. Talvez fosse por causa do jeito que ele me olhava, demonstrava que ele sabia muito mais do que parecia.
Só quando uma buzina alta quebrou o silêncio que eu percebi o quão hipnotizada por sua íris azul eu estava. Ele também pareceu voltar para a realidade depois de piscar algumas vezes e pescar o celular no bolso para conferir a hora.
“Que droga, já está tarde,” comentei, olhando a tela acesa do celular dele. “Vamos, eu ainda preciso te levar em casa.”
Luke se levantou rapidamente e ofereceu as duas mãos para me ajudar a levantar.
O caminho até a casa dele não foi diferente da ia até o apartamento. O som tocando músicas aleatórias era o único barulho dentro do carro. Luke fitou a paisagem pela janela o tempo todo enquanto eu me concentrei nas ruas.
Quando eu parei em frente à sua casa, ele finalmente me olhou.
“Obrigado por ir comigo até o apartamento.”
“Obrigada por me convidar. Eu estava precisando fugir um pouco da minha realidade, Hemmo.”
Luke abriu a porta, mas antes de sair se virou novamente para mim. “Fico feliz em ser sua válvula de escape, .”
Com uma piscada e um sorriso galanteador ele saiu do carro, fechando a porta atrás de si.
Observei ele caminhar até a porta de casa e suspirei longamente. Antes de ir embora fiz questão de aumentar bastante o som do carro para evitar que o meu cérebro começasse a pensar demais no que havia acabado de acontecer.

6.

(esse capítulo também é do POV da )
O som do alarme preencheu o então silêncio do quarto, me fazendo despertar com um muxoxo. Desliguei o despertador e chequei o horário, apenas para me certificar de que, na minha confusão sonolenta, eu não havia apertado o botão de soneca como tantas vezes antes.
Eram sete da manhã de um Domingo. Acordar cedo no fim de semana nunca havia feito parte da minha agenda, mas quando se está nove horas à frente do seu namorado, é preciso se adaptar um pouco.
Escovei os dentes e limpei o rosto, na tentativa de despertar completamente e não parecer um zumbi na frente do meu namorado. De volta no conforto da minha cama, eu peguei o tablet e sentei em uma posição cômoda, mas não confortável o suficiente para correr o risco de eu pegar no sono novamente.
Assim que eu apertei o botão para a ligação de vídeo, Tom já atendeu.
“Oi, amor,” tentei soar animada, mas a minha voz ainda estava rouca e soou estranha e não familiar.
Tom riu. “Oi, meu amor. Bom dia.”
“Ugh, é cedo demais para bom dias e você ainda nem dormiu. Você saiu?” Perguntei, observando a camisa que ele usava.
“Sim, os caras do trabalho decidiram ir em um bar novo em Covent. Erin estava lá, ela sente sua falta.”
Erin era uma colega de trabalho. O namorado dela trabalhava com Tom, então estávamos sempre fazendo programas de casais.
“Aw, também sinto saudade dela. E sinto saudade sua,” comentei, vendo-o sorrir sincero como resposta.
“Você sempre pode voltar,” sugeriu. “Tenho certeza que consegue seu trabalho de volta facilmente. Todos te adoravam por lá.”
Rolei os olhos. “Ai, amor. Por favor, não começa.”
Tom nunca concordou totalmente com a minha decisão de voltar para a Austrália, mesmo depois de eu conseguir um ótimo trabalho em Sydney, com um salário muito melhor do que o de Londres. Ele também nunca fez questão de esconder como se sentia em relação a isso, então não perdia a oportunidade de falar como Londres é maravilhosa e o incrível futuro que poderíamos ter por lá.
“Não estou começando nada,” ele se defender. “Estou apenas mostrando que você tem opções.”
“É, você já deixou isso bem claro,” apontei, sem paciência para aquela conversa tão cedo em pleno Domingo.
Olhei para as minhas próprias mãos para tentar disfarçar o quão chateada eu estava. Mal tínhamos conversado por dois minutos e ele já conseguiu estragar o meu bom humor. Se eu fosse bem honesta, eu já queria desligar aquela ligação e voltar para o meu sono, que definitivamente estava bem mais agradável que aquela conversa.
“Não fica assim, linda. Desculpa, tá? Por favor, não me culpe por só querer você de volta aqui do meu lado.”
Suspirei. “Não estou te culpando, só gostaria que você fosse mais solidário.”
Tom ficou quieto por alguns instantes e eu o observei pela tela. Ele passou a mão por seu cabelo escuro e eu sabia que ele sempre fazia isso quando estava ansioso. Por ele ter saído com os amigos, seus óculos haviam sido substituídos pelas lentes de contato e eu conseguia ver seus olhos azuis com clareza.
“Desculpe, meu amor. Tem sido muito difícil para mim ficar aqui sem você. Seu cheiro está em todo canto nesse apartamento,” confessou.
Mordi meu lábio inferior, pela primeira vez naquela conversa desejando poder estar com ele e abraçá-lo com força. Sentir seus braços fortes me abraçando era o que eu mais tinha saudade. Apesar de não ser a intenção dele ao dizer isso, não conseguia deixar de me sentir um pouco culpada por tê-lo deixado em Londres.
“Eu sei que é difícil, mas não é como se você fosse o único a se sentir assim,” apontei. “Nós sabíamos que não seria fácil, certo?”
“Eu não acho que é pra ser tão difícil assim também,” ele sussurrou, me pegando um pouco de surpresa.
Respirei fundo e enxuguei uma lágrima teimosa que conseguiu escapar do meu olho. Pela proximidade com que ele segurava o seu celular do seu rosto, eu podia ver que seus olhos também estavam marejados, mas ele era muito bom em controlar suas emoções e segurar as lágrimas. Abracei os meus joelhos e permaneci em silêncio notando que aquela quietude entre a gente não era nem um pouco familiar, mas estava se tornando cada vez mais constante.
“Por que todas as nossas conversas ultimamente tem sido tão difíceis? Esse é para ser o nosso momento juntos,” falei com honestidade.
Ele deu de ombros. “Acho que é difícil ir de um casal que se vê todos os dias para um que se fala de vez em quando por chamada de vídeo.”
“Bom, é assim que tem que ser por agora, amor.”
Ele concordou, mais uma vez passando a mão pelo cabelo. A frustração agora estava bem clara em sua expressão, algo que eu já havia visto bastante desde que mudara de volta para a Austrália.
“Mas quanto tempo vai durar esse agora?”
Antes que eu pudesse respondê-lo, ouvi meu celular vibrar com uma nova mensagem e o peguei no criado mudo. Confusa, por estar recebendo uma mensagem tão cedo no Domingo, eu abri o aplicativo e li o que haviam mandado.
Oi, . Adivinha quem é?
Balancei a cabeça e dei um risinho espontâneo.
“Quem é?” Tom perguntou, notando o celular em minha mão.
“A Celeste,” respondi, automaticamente.
Rapidamente eu escrevi uma resposta.
Como conseguiu meu número, Hemmo?

“A namorada do Jack?”
“Sim,” respondi com um sorriso, mas a culpa por mentir me incomodou mais do que eu gostaria. “Ela acordou cedo e queria saber se eu também já estou acordada.”
Tom concordou e mudou de assunto, começando a falar sobre trabalho e a chance de uma ótima promoção que ele vinha querendo há algum tempo.
Quando o celular vibrou novamente eu li a mensagem discretamente.
Droga! Sabia que não deveria ter te chamado de .
Mordi meu lábio inferior para controlar um sorriso.
Você não respondeu a minha pergunta...

?”
Olhei para a tela do computador e rapidamente deixei o celular cair na cama.
“Desculpe, ela só queria saber se eu tenho planos para mais tarde.”
“Você chegou a ouvir o que eu estava falando?” Seu tom acusatório não passou despercebido.
“Claro que sim. Você estava falando sobre a promoção e a última reunião que teve com seu chefe.”
Em minha defesa, eu estava mesmo ouvindo o que ele estava dizendo. O problema é que eu não deveria estar dividindo a minha atenção entre meu namorado e o cara do outro lado do celular. Eu sabia que a culpa em algum momento iria me consumir e me causar muitos problemas.
Outra mensagem de Luke chegou, fazendo com que a tela do celular acendesse.
Eu tenho amigos influentes.
Apesar de querer gargalhar com a sua resposta, controlei o riso. Eu sabia que ele muito provavelmente havia pegado o meu contato no celular de Jack e eu não me importava com isso. Eu apenas não entendia seu interesse repentino em querer ser meu amigo e realmente esperava que ele não quisesse nada mais que a minha amizade.
Dessa vez eu não respondi, apenas voltei a prestar atenção em Tom e na nossa conversa que durou aproximadamente 40 minutos. Quando ele começou a bocejar e demonstrar todo o seu cansaço, achamos melhor desligar.
Ao voltar a deitar na cama, percebi que o sono tinha ido embora e eu me encontrava completamente acordada antes das oito da manhã. Decidi então que iria preparar algo para comer e assistir o que quer que estivesse passando na programação do Domingo de manhã.
Enquanto eu preparava algumas panquecas, lembrei da mensagem de Luke que ficara sem resposta. Fui até o quarto resgatar meu celular e, quando debloqueei a tela, vi que ele havia mandado mais uma mensagem.
Vou assumir que você pegou no sono.
Depois de colocar as panquecas no prato e derramar maple syrup por cima delas, eu me sentei no sofá e digitei uma resposta rápida.
Não peguei no sono.

Então você só estava me ignorando mesmo? Tudo bem. Não estou magoado.
Ri do seu jeito dramático e considerei se deveria explicar o motivo de eu tê-lo ignorado.
Eu tive que ignorá-lo. Acredite, foi por uma boa causa.

Dessa vez sua resposta não foi imediata. Chequei o telefone três vezes antes de finalmente senti-lo vibrar com uma nova mensagem.
Vou acreditar em você então.
Que bom. O que faz acordado tão cedo em pleno Domingo?

Antes de ver a sua resposta eu rapidamente limpei as coisas que havia sujado para fazer e comer o café da manhã. Odiava acumular esse tipo de tarefa. Voltei a sentar no sofá, na televisão algum episódio antigo de Grey’s Anatomy estava passando, mas não dei muita atenção.
Às vezes eu acordo cedo e atordoado achando que estou atrasado para alguma entrevista ou um show. E você, por que acordou tão cedo?
Suspirei, deixando que meus dedos ficassem suspensos sobre o teclado enquanto eu pensava em como responder a mensagem.
Relacionamentos a distância necessitam de certos reajustes, Hemmo.

Hm, isso responde muitas perguntas.
Levei cinco minutos pensando em uma boa resposta, mas, quando decidi que eu simplesmente não tinha uma, resolvi mudar o rumo da conversa.
Já tomou uma decisão sobre o apartamento?

Vou encontrar o corretor amanhã para dar a minha resposta final.
E a sua resposta final é...

Você saberá amanhã
Diga logo e não me provoque assim, Hemmo.

Por que não? Já ouvi falarem que eu sou bom nisso...
Tive que ler a mensagem algumas vezes para ter certeza de que ele realmente quis dizer aquilo, mas o emoji com uma piscadinha e as reticencias não deixava negar o tom de provocação da sua mensagem.
Eu não preciso saber disso.

Sua resposta foi confusa.
Jwjelelk
????

Deixei o celular cair no meu rosto.
Gargalhei imaginando a cena.
Parabéns, Hemmo. Você foi de galanteador para perdedor em tempo recorde!

Esse é o meu charme.
Balancei a cabeça, deixando o celular em cima do sofá e resolvi tomar um banho já que meu sono seria impossível de resgatar.
No final do dia eu fiquei surpresa ao notar a quantidade de mensagens que eu e Luke havíamos trocado. Nossas conversas foram desde 5 Seconds of Summer até meu novo trabalho.
Com o céu já escuro e depois de colocar o pijama, eu chequei o meu e-mail para ver se Tom havia enviado alguma mensagem, mas não havia nada na caixa de entrada. Não podia negar que estava esperando pelo menos uma mensagem me desejando boa sorte no novo trabalho, então não encontrar nada havia sido uma decepção e tanto.
Notei que já estava tarde e eu teria pouco menos que sete horas de sono e eu precisava dormir bem para ter um ótimo primeiro dia em uma empresa completamente nova para mim. Ajeitei-me debaixo dos lençóis depois de apagar o abajur ao lado da cama e rapidamente caí no sono.

7.

Ouvi gritos animados vindos da sala e peguei a cerveja na geladeira, antes de voltar para o cômodo onde meus amigos estavam. Calum já estava sem camisa, fazendo uma dancinha ridícula, que me dizia que ele havia ganhado outra partida.
“Ganhou de novo?” Perguntei, já sabendo a resposta.
Calum confirmou e demos um high five, enquanto Michael parecia bem mau humorado, tomando um gole de sua cerveja. Sentei no sofá ao lado de Ashton e peguei o controle das mãos de Michael.
“Prepare-se para perder, Hemmings. Hoje ninguém me derrota!” Calum ameaçou, já sentando no chão, olhos grudados na televisão.
Jogar vídeo game em um apartamento praticamente vazio era a nossa ideia de uma festa de casa nova, nesse caso, apartamento novo. Na verdade, meus pais e irmãos já haviam estado no novo apartamento mais cedo, mas agora já era quase meia noite e só restávamos nós quatro, o vídeo game e as cervejas.
Eu tentava me concentrar no jogo que estava disputando com Calum, uma partida de FIFA que normalmente eu jogava muito bem, mas minha mente estava um pouco agitada demais e o fato de eu estar esperando uma resposta ou uma ligação de uma certa garota não estava ajudando.
Eu havia contado a sobre a compra do apartamento na Segunda e na Quarta a havia convidado para a “festa” que agora já estava praticamente no fim. Ela visou que apesar de já ter planos com alguns amigos, tentaria passar aqui depois. Agora eu me encontrava ansiosamente desejando que ela não tivesse esquecido e me sentindo um completo idiota por deixar que meus sentimentos por ela fossem além da quedinha estupida que eu sentia desde os 13 anos de idade.
Como esperado, Calum facilmente me venceu no jogo e começou a fazer sua dancinha da vitória novamente. Antes que eu pudesse dizer o quão patética aquela dancinha era, meu celular vibrou no bolso.
E ai, Hemmo? Estou saindo do restaurante agora com meus amigos. Assumo que a sua festinha já tenha acabado?
Olhei para meus amigos que ainda discutiam sobre o vídeo game e balancei a cabeça.
Ainda estamos aqui. Junte-se a nós.



Hm, não sei. Acho que seria um pouco estranho já que Jack e Celeste não estão aí.
Não vai ser. Prometo. Só uma cerveja e então você pode ir embora se quiser.



A resposta dela não chegou imediatamente depois e a espera pareceu levar horas.
Ok, só uma cerveja.
Sorri para a tela do celular e Ashton me cutucou.
“Por que está feliz se acabou de perder?”
Dei de ombros. “Nada.”
Guardei o celular no bolso novamente, enquanto sentia Ashton me observar, seus olhos estreitos como quem suspeita de alguma coisa. Virei o resto da garrafa de cerveja para esvaziá-la e fui até a cozinha pegar outra.
Aproveitei que Michael e Calum ainda disputavam uma partida enquanto gritavam um com o outro e fui até a varanda observar a rua silenciosa lá embaixo. O barulho do mar era definitivamente o melhor calmante que existia. O céu estava estrelado, e a lua brilhava forte.
“Sua garota está vindo?” Ouvi a voz de Ashton atrás de mim e me virei.
O encarei, arqueando as sobrancelhas, sem saber do que ele estava falando. Um segundo depois eu entendi o que ele quis dizer. Ou melhor, de quem ele estava falando.
?” Perguntei, vendo-o concordar. “Sim, ela está vindo.”
“Você quer que a gente libere o apartamento pra vocês?”
Ri, incrédulo. “Ela tem namorado, Ash.”
“Ainda? Vamos lá, Luke, você costumava ser melhor nisso.” Ele comentou com um sorriso sacana no rosto, mas então seu rosto ficou sério. “Você está gostando mesmo dela, não é?”
Tomei um gole da cerveja enquanto encarava meus pés, tentando formular alguma resposta convincente em minha cabeça. Antes que eu pudesse responder ouvi a campainha soar pelo apartamento. Dei um tapinha nas costas de Ashton e caminhei até a porta avisando à Calum que tínhamos companhia e ele deveria vestir a camisa. Ele me ignorou, claro.
!” Falei, abrindo a porta.
me olhou de forma estranha e imitou meu tom de voz. “Luke Hemmings.”
Eu a puxei para um abraço e senti ela corresponder. Fiz um gesto para ela entrar no apartamento.
“Bem vinda!”
olhou ao redor e balançou a cabeça lentamente, provavelmente absorvendo a bagunça em que o apartamento já se encontrava.
“Bela decoração.”
“Oi, !” Michael gritou com um sorriso no rosto, seus olhos ainda grudados na televisão à sua frente.
“Oi, Michael. Oi, Ashton.”
Ashton, que ainda estava na varanda, acenou educadamente.
Fechei a porta, observando caminhar até onde Calum estava e meus olhos – quase sem querer – desceram até sua bunda, que estava muito bem valorizada pela saia longa e justa que ela vestia.
“Você deve ser a !” Calum comentou, se levantando do sofá.
,” ela corrigiu, lançando-me um olhar engraçado. “Você é Calum, certo?”
“Estou feliz por finalmente te conhecer!” Ele abriu os braços e a abraçou, ainda sem camisa.
“Oh,” me olhou, quase gritando por socorro, pega de surpresa pela recepção calorosa do meu colega de banda. “Esse é o membro afetuoso, pelo visto.”
Ashton, Michael e eu rimos enquanto Calum seguia a esmagando em seus braços.
“Eu ouvi muito sobre você,” Cal disse, finalmente a soltando.
“É, eu aposto que Michael e Ashton não param de falar sobre mim,” brincou.
Dessa vez fui eu quem ficou sem graça enquanto todos riam. Observei sentar no sofá e senti meu rosto esquentar um pouco.
“Quer uma cerveja?” Ofereci.
concordou e me seguiu até a cozinha.
“Pensei que você tinha dito que a festa ainda estava acontecendo,” comentou um pouco sem graça enquanto eu pegava a cerveja na geladeira.
Ri e apontei para sala onde meus amigos estavam. “E está.”
“Você poderia ter me dito que a sua ideia de festa envolvia apenas você e seus amigos de banda.”
“Mas aí você não teria vindo, certo?”
Ela observou o balcão onde descansava as mãos e sorriu.
“Não, não teria.”
“Tá vendo? Uma mentira inocente por uma boa causa.” Respondi, tocando a garrafa dela com a minha.
me encarou enquanto tomava um gole da cerveja e eu a encarei de volta.
, você joga FIFA?” Calum perguntou da sala, sua voz muito mais alta do que o necessário.
“Eles estão bêbados?” Ela sussurrou, enquanto voltávamos para sala.
“Sóbrios eles não estão.” Respondi, no mesmo tom.
Ela sorriu para Cal. “Eu amo FIFA!”
“Ótimo. Michael perdeu de novo. Agora é sua vez.” Ele disse, já entregando o controle para ela.
“Não precisa jogar se não quiser,” falei baixo, apenas para ela ouvir.
“Deixa comigo, Hemmo,” Ela sorriu enquanto tirava o salto que usava e se ajeitava no sofá.

**


Depois de ganhar de Calum três vezes seguidas, estávamos todos a olhando sem acreditar enquanto sorria convencida e terminava sua segunda garrafa de cerveja.
“Mas que merda,” Cal falou, inconformado. “Você tem um irmão mais velho ou algo assim?”
“Na verdade, sim, eu tenho.” Ela piscou para Calum. “E ainda cresci com Jack Hemmings. Ah, e eu sempre ganhava dos dois.”
“Porra, Luke, por que não me falou?” Calum me olhou.
Levantei as mãos, num sinal de inocência. “Eu não sabia do irmão!”
“Você não sabia que eu tenho um irmão?” me olhou, sua mão no peito, fingindo estar ofendida. “Que tipo de amigo é você, Hemmo?”
“Até onde eu sei você é amiga do Jack, não minha.” Brinquei.
Ela abriu a boca na intenção de falar algo, mas ou ela desistiu, ou não tinha uma resposta boa o suficiente. Gargalhei e ela se juntou a mim.
“Caras, vou chamar um táxi.” Ashton anunciou.
“É, eu vou indo também,” concordou, já se levantando.
Concordei enquanto minha mente trabalhava desesperadamente, na tentativa de achar algum motivo para manter ali comigo só por mais algum tempo. Pensei em alguma desculpa convincente que não envolvesse as duas cervejas que ela havia bebido, mas não consegui nada.
Enquanto esperávamos o táxi chegar, nós cinco arrumamos o apartamento, recolhendo o lixo e as garrafas espalhadas. Foi a primeira vez que reparei a quantidade de cerveja que havíamos tomado. Nós realmente gostávamos de beber.
Depois de se despedir de Michael, Ashton e Calum, caminhou até mim e me abraçou.
“Parabéns pelo novo apartamento, Hemmo. Ele é mesmo incrível.”
Sorri. “Obrigado.”
“Ah, já ia me esquecendo. Comprei um presente para você. Algo novo para a casa nova.”
Fui pego de surpresa já que ninguém havia comprado nenhum presente para mim, mesmo que fosse para o apartamento.
Rapidamente me despedi dos meus companheiros de banda e fechei a porta quando eles entraram no elevador. No sofá procurava algo dentro da bolsa. Sentei ao lado dela e ela me ofereceu uma caixinha.
“O que é?” Perguntei, curioso.
rolou os olhos. “Abre logo, Hemmo.”
Dei risada e abri a caixa em minhas mãos. Tirei de dentro uma caneca com um pinguim estranho e quando virei vi que havia uma frase.
Ah, não. Achou mesmo que eu me importava?

Dei uma risada alta e balançou a cabeça.
“É ridícula, eu sei, mas quando eu vi eu pensei em você e não pude deixar de comprar.”
“Eu amei. Obrigado, .”
“Por nada, Hemmo. Obrigada por ter me convidado. Eu realmente me diverti essa noite.”
Eu sabia que agora ela iria mesmo embora, não havia nenhum outro motivo para ela ficar. Sem saber o que fazer eu apontei para a caneca em minha mão.
“Eu tenho uma máquina de café e você não deveria dirigir depois de beber. Que tal uma xícara antes de ir?”
Ela olhou o relógio no pulso. “Já está tarde, Hemmo.”
“Só uma xícara. Vai te ajudar a dirigir de volta pra casa.”
Ela suspirou, mas então sorriu. “Certo.”
Ela me seguiu novamente até a cozinha e sentou enquanto eu pegava uma xícara e colocava na máquina. Enquanto esperávamos o café, eu sentei no banco ao seu lado.
“Em algum momento você vai decorar esse apartamento ou vai mesmo apostar nessa decoração minimalista?” Perguntou.
Eu ri, olhando o apartamento quase vazio. Eu gostava dele com poucos móveis, mas em algum momento eu acabaria comprando mais e tentando decorar algumas partes.
“Se eu conheço bem minha mãe, ela vai me fazer comprar um monte de coisas.”
Coloquei a xícara cheia de café na frente dela e peguei uma para mim também antes de sentar ao seu lado novamente. soprou o liquido quente antes de tomar um gole. Caímos em um silêncio confortável enquanto bebíamos nossos cafés.
“Por que tenho a impressão de que ultimamente eu tenho passado mais tempo com você do que com Jack?” Ela perguntou, repentinamente.
Sorri. “Talvez você finalmente tenha percebido que fez amizade com o Hemmings errado.”
“Ah, é?”
“Claro. Quem é o Hemmings que tem uma banda?”
Ela riu e me olhou. “Por que garotas gostam tanto de caras em bandas?”
“Você não gosta?” Questionei.
“Está brincando? Me leve em uma turnê e eu sou sua.”
Concordei. “Bom saber.”
sorriu timidamente e encarou a xícara de café. Pude ver que ela ficou um pouco sem graça pela forma como ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, algo que eu notei que ela fazia quando estava nervosa.
Ela virou para mim e por um segundo ficou séria.
“Para de me olhar assim, Hemmo.”
“Assim como?”
“Não sei, dessa forma, com esses olhos azuis. Não gosto deles.”
“Não?” Perguntei, um pouco ofendido, mas também curioso.
Ela suspirou. “Não é que eu não goste,” comentou, brincando com a manga da blusa que usava.
Meus olhos focaram na sua boca quando ela mordeu o lábio inferior e eu imediatamente imaginei como seria a sensação de ter o lábio dela preso entre meus dentes.
“Qual o problema então?” Questionei, sentindo minha garganta seca.
Me mexi desconfortável no banco, suspendendo um pouco a perna para disfarçar o que estava acontecendo dentro da minha calça.
deu de ombros e balançou a cabeça, finalmente seus olhos encontrando os meus novamente. “Eu não sei, mas você não deveria me olhar dessa forma.”
Por um segundo achei que ela estivesse brincando, mas sua feição permaneceu séria, seus olhos me encarando fixamente. Pela primeira vez reparei na cor das suas íris. Eu sempre pensara que eram castanhas escuras, mas agora podia perceber que eram um pouco mel e um pouco esverdeadas.
“Você está me olhando daquela forma de novo, Hemmo.” A voz dela me chamou de volta para a realidade.
Tomei um gole do café e evitei olhá-la.
“Então, você tem um irmão?” Falei, a primeira coisa que veio na minha cabeça.
Ela concordou, parecendo aliviada pela mudança de assunto.
“Sim, o nome dele é Chris.”
“Ele mora aqui?”
“Não, ele casou com uma americana e se mudou para Nova York há alguns anos.”
“Ele também é amigo de Jack?”
relaxou um pouco, sentindo a tensão entre nós se esvair lentamente.
“Eles se conhecem, mas não são amigos. Chris é mais velho que a gente.”
Depois de dar um último gole no café, ela se levantou.
“Eu preciso ir mesmo agora, Hemmo.”
Concordei, sem mais argumentos para mantê-la ali comigo.
“Tem certeza que está bem para dirigir?” Perguntei, pegando a xícara de sua mão e levando-a até a pia. “Se quiser sabe que pode dormir aqui e dirigir pra casa amanhã.”
“Estou bem. Obrigada, Hemmo.”
Acompanhei até a porta e ela me abraçou novamente, um abraço mais longo que o da outra vez, eu devo dizer.
“Obrigado pela caneca,” falei quando ela caminhou até o elevador.
“Boa noite, Hemmo.”
“Boa noite, .”
Quando ela entrou no elevador eu fechei a porta do apartamento. No caminho até o meu quarto eu fui tirando a minha roupa, cansado demais para terminar de arrumar a bagunça que havíamos feito mais cedo. Naquele momento eu só precisava de um banho frio.
E talvez a minha mão.

8.

Eu estava tremendo. Minhas mãos no volante estavam fracas e as lágrimas se acumulando tanto em meus olhos que eu mal podia enxergar. Estacionei de qualquer jeito na primeira vaga que consegui achar e respirei fundo algumas vezes, mas nem assim consegui me acalmar.
O dia estava destinado a ser ruim. Acordei atrasada, fiquei presa em um engarrafamento sem fim, cheguei atrasada no trabalho e quase estraguei uma reunião importante. Depois da reunião, é claro que minha chefe chamou a minha atenção e deixou claro que não tolera atrasos. Eu nunca havia me atrasado para qualquer trabalho antes. Eu sempre fui pontual, a primeira a chegar aos lugares. Depois disso, a minha ansiedade acabou terminando de estragar meu dia e me deixando com uma baita enxaqueca. E então, tudo só pareceu piorar ainda mais.
Quando saí do trabalho, completamente frustrada comigo mesma e sentindo que uma mão invisível estava esmagando meu cérebro pouco a pouco, recebi uma ligação de Tom. Eu só queria chegar em casa, tomar um remédio e apagar na cama, mas ao invés disso terminei em uma discussão com meu namorado que me levou a bater em outro carro. Tudo que aconteceu depois, aparece apenas como flashes em minha mente. Lembro de sair do carro, já a beira de uma crise de choro e pedir mil desculpas ao motorista do outro carro, apenas para ouvir dele que eu era uma péssima motorista e completamente inconsequente. Na hora fiquei tão chocada que não consegui reagir a suas duras palavras. O carro dele estava inteirinho, já que a batida havia sido fraca, mas ainda assim ele estava histérico.
Agora, eu não fazia nem ideia de onde estava e o misto de emoções dentro de mim, só fazia com que eu chorasse mais e mais. Claro que em cima de tudo isso, o meu celular apitava sem parar com novas mensagens de Tom. Eu sentia que poderia desmaiar a qualquer momento.
Eu nunca fora uma pessoa chorona, meus amigos estavam acostumados com a minha personalidade mais dura. Controlar as minhas emoções não era difícil, mas nesse dia eu não parecia ter qualquer controle sobre as minhas reações ou o que estava acontecendo. O fato de eu ter deixado que um cara, que nem me conhece, falasse merdas sobre mim, sem ter uma mínima reação – como, por exemplo, chutá-lo nas bolas – só provava que eu não estava sendo eu mesma.
Pesquei meu celular dentro da bolsa, ignorando todas as mensagens do meu namorado, e disquei um numero que eu já havia gravado há anos.
“Atende, Jack. Atende,” sussurrei, mas a ligação foi para a caixa postal.
Passei a mão por meu rosto, que era um misto de lágrimas já secas e as que ainda escapavam dos meus olhos. Tentei novamente, mas a mensagem de caixa postal foi a única voz do outro lado da linha.
Deixei o celular em meu colo e encostei a testa no volante. Eu ainda podia sentir meu corpo tremendo e tive que, mais uma vez, respirar fundo algumas vezes para tentar me controlar. O celular apitou e eu peguei rápido, imaginando que poderia ser Jack, mas era mais uma mensagem de Tom.
Sem paciência, abri a mensagem de uma vez.
Se você estivesse aqui nada disso estaria acontecendo.
Era o que a mensagem dizia. Não ousei olhar as outras que ele havia mandado. Aquela já havia sido suficiente para quase me fazer jogar o celular pela janela.
Com algumas lágrimas ainda escapando, fui até a minha lista de contatos e passei os olhos por todos eles. Eu estava tão acostumada a sempre pedir ajuda à Jack em situações como essa, que eu estava completamente perdida.
Um nome familiar na lista de contatos chamou a minha atenção e eu deixei que meu dedo pairasse sobre ele por alguns segundos, tentando decidir se eu deveria ou não fazer aquilo. Com um longo suspiro, toquei o nome e deixei que a ligação completasse, parte de mim ainda desejando que, assim como a ligação para Jack, essa caísse na caixa postal.
“Oi, ,” a voz de Luke veio do outro lado da linha e eu congelei.
Abri a boca na tentativa de falar alguma coisa, mas nenhum som saiu dela.
?” Ele tentou novamente, sua voz agora já com uma pontada de preocupação.
“O-oi,” consegui falar, minha garganta tão seca que minha voz não passou de um mero sussurro.
Mordi meu lábio, uma onda de emoções querendo me afogar novamente. Inspirei uma grande quantidade de ar e soltei aos poucos pela boca.
“Está tudo bem?”
“Eu...” Fechei os olhos, ainda tentando controlar a minha respiração. “Eu precisava falar com Jack, mas ele não atende o telefone.”
, por que você está respirando fundo? Aconteceu alguma coisa?” A voz dele já estava um pouco mais alta, o que me fez querer chorar ainda mais. “Você está machucada?”
Balancei a cabeça. “Não.”
Deixei escapar um pequeno soluço e percebi que agora a respiração dele é que estava descompassada.
“Onde você está?”
Coloquei a minha mão sobre a boca para evitar que ele ouvisse outro soluço e contei até cinco encarando o teto do carro. Eu estava fazendo ele se preocupar a toa e isso só fazia com que eu quisesse chorar ainda mais. Odiava ser um peso para outras pessoas. Eu só queria conseguir explicar pra ele que aquilo era, provavelmente, uma crise de ansiedade e eu estava sem o menor controle sobre as minhas ações.
“Honestamente, eu não sei,” respondi, finalmente.
Abri a janela do carro e olhei ao redor. O sol estava começando a se por e não havia nada naquela área remotamente familiar. Vi uma placa com o nome da rua onde eu estava e repeti o nome para Luke.
“Está vendo um prédio amarelo desbotado?” Ele perguntou.
Saí do carro e olhei ao redor, facilmente achando o prédio que ele havia citado. “Sim.”
“Certo, sei onde você está. Chego aí em uns dez minutos.”
Luke desligou antes que eu pudesse responder. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos, ainda sem entender nada. Voltei para o carro e peguei a minha bolsa antes de trancá-lo. Sentei em um banco ali perto e, pela primeira vez, notei que de onde estava eu conseguia ouvir o barulho do mar.
Desbloqueei o celular novamente e respirei fundo, antes de abrir o aplicativo de mensagem e começar a ler as que Tom havia enviado mais cedo.
Por que você desligou na minha cara? Não podemos nem mais conversar sobre nós? Não era assim que as coisas eram quando estava aqui em Londres.
Por que você não tira uma semana de folga e vem pra cá para podermos conversar?
, pare de ignorar minhas mensagens. Como podemos resolver isso dessa forma?
Tá legal. Não responda então. Estar em Sydney pelo visto está fazendo você tomar decisões imaturas. Isso não acontecia antes.

“Vá para merda, Tom,” sussurrei para mim mesma, deletando todas as mensagens e jogando o celular de volta na bolsa.
Como se bater o carro, estar com enxaqueca e levar uma bronca da minha chefe não fossem o suficiente, agora eu estava furiosa com o imbecil do meu namorado.
Permaneci sentada em silêncio, apenas observando os carros na rua e as pessoas passarem pela calçada. Ocasionalmente ainda limpava uma lágrima ou outra que escapava e me deixava ainda mais frustrada. Tentei ligar novamente para Jack, mas ele devia estar em uma reunião, já que ainda não atendia o celular.
Senti uma mão em meu ombro e pulei do banco, assustada. Olhei para trás e vi Luke, com um sorriso sincero no rosto.
“Vem aqui,” ele falou, me puxando pela mão e me abraçando com força.
No estado em que eu me encontrava, minha única reação foi abraçá-lo de volta, sentindo-me extremamente reconfortada por ele. Luke beijou meus cabelos e sua mão pousou em meu pescoço, fazendo um carinho gostoso e relaxante.
Senti ele relaxar o abraço e tocar em meu queixo, me fazendo olhar em seus olhos.
“O que aconteceu?” Perguntou, seus olhos analisando meu rosto, vendo os rastros das lágrimas secas em minha bochecha.
Por algum motivo me senti extremamente incomodada por ter seus olhos me fitando tão de perto e com tanta preocupação. Com Jack eu me sentia confortável o suficiente para chorar em seus braços até soluçar. Já havia acontecido algumas vezes na adolescência, uma delas quando um idiota partiu meu coração e meu melhor amigo estava pronto para partir a cara dele. Mas com Luke era diferente, toda vez que eu estava com ele um sentimento estranho me invadia. Demorei um tempo para perceber que esse sentimento era culpa.
“Você está bem?” Ele questionou, sem esperar que eu respondesse sua outra pergunta.
“Eu vou ficar bem, Hemmo. Como você sabia onde eu estava?”
Luke sorriu. “, você está a dois quarteirões do meu prédio.”
Olhei ao redor mais uma vez, mas, por só ter estado no prédio de Luke duas vezes, aquela vizinhança ainda não era familiar para mim.
“Desculpa ter feito você vir até aqui. Eu só...” Suspirei.
Por que eu havia ligado para Luke?
“Eu acho que vou pra casa.” Completei.
Antes que eu pudesse voltar para o carro, Luke tocou meu braço.
, é óbvio que você não está bem. Vem, vamos lá pra casa, eu posso fazer um chá pra você. Quando você estiver mais calma, então pode dirigir de volta pra casa.”
Apesar de querer desesperadamente sair dali, eu não podia negar que ele estava certo. Ainda não me sentia segura para voltar a dirigir, já que meu corpo ainda tremia um pouco e a mão invisível que esmagava meu cérebro agora tinha a ajuda de um martelo.
Concordei em silêncio e caminhamos lado a lado até o seu apartamento.
Já no conforto do sofá de Luke eu sentei e encostei a cabeça no recosto, tentando relaxar um pouco.
Luke foi até a cozinha e voltou pouco depois com uma caneca de chá. “De erva cidreira, para você se acalmar,” ele apontou.
Arqueei uma sobrancelha, achando graça que ele soubesse qual o melhor tipo de chá para a situação.
“Você sabe que minha mãe adora chás,” deu de ombros.
Tomei alguns goles do chá enquanto permanecíamos em silêncio. Luke parecia concentrado na televisão desligada, enquanto eu soprava o liquido quente e tentava ignorar a situação embaraçosa.
Sentar naquele sofá, me trouxe lembranças da noite em que joguei vídeo game com Luke e os garotos da banda. Eles eram divertidos e fáceis de conversar, mesmo sendo mais novos do que eu.
Luke se mexeu no sofá, automaticamente se aproximando um pouco de onde eu estava e me encarou com uma feição séria.
“Está se sentindo melhor?”
Balancei a cabeça. “Sim, muito melhor. Obrigada, Hemmo. Você realmente não precisava ter ido me resgatar,” comentei.
Luke riu, baixinho. “Não é isso que Jack teria feito?”
Concordei. “Ah, sim. Além disso, ele também teria me dado um sermão por dirigir enquanto tinha uma crise de ansiedade e colocar a minha vida e a de outras pessoas em perigo.”
“Você quer um?” Perguntou, se referindo ao sermão.
“Não mesmo,” ri.
“Eu imaginei.”
A sala caiu em silêncio novamente, nenhum de nós sabendo exatamente o que dizer naquela situação. Luke era muito mais quieto que Jack seria naquele momento. Se fosse com ele, a essa hora, Jack já saberia de toda a história e estaria xingando Tom de todos os nomes possíveis. Fora que com certeza estaria dizendo que iria até Londres dar uma surra em meu namorado. Mas com Luke, eu estava em um território desconhecido. Olhei meu celular rapidamente para checar a hora e ver se havia alguma ligação ou mensagem perdida, mas não havia nada de novo. Eu estava tão chateada com Tom por ter usados palavras tão duras, mas ao mesmo tempo desejava que ele tivesse ao menos ligado, alguma demonstração de ele sabia que havia me magoado.
“Quer conversar sobre o que aconteceu?” Luke perguntou, quebrando o silêncio.
Ofereci um sorriso sincero, mas balancei a cabeça. “Eu acho que nem conseguiria.”
“Tão ruim assim?”
“Meu dia inteiro foi uma porcaria, Hemmo.”
Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, o celular em minha mão tocou, o nome de Tom na tela me pegou de surpresa. Luke me lançou um olhar de compreensão e se levantou, saindo da sala e me dando um pouco de privacidade, apesar de eu saber que onde quer que ele estivesse na casa, ele ainda conseguiria me ouvir.
Caminhei até a varanda e respirei fundo antes de atender a ligação.
“A não ser que você esteja ligando para se desculpar, eu realmente não quero conversar com você agora.”
A conversa definitivamente não precisava de cumprimentos.
, você não pode fugir dessa discussão para sempre,” Tom respondeu, tão seco quanto eu mesma.
“Você só pode estar brincando. Uma hora atrás você literalmente me disse que não esperaria por mim pra sempre, Thomas! Tem noção do quão escroto isso foi?”
, me ouça,”
“Não!” Interrompi. “Você que precisa ouvir agora. Estou cansada de suas constantes tiradas sobre Sydney e das suas piadinhas sobre eu voltar para Londres. Eu estava contando com você para me ajudar nesse período de transição e eu sabia que não seria fácil para nós, mas você está tornando tudo isso impossível de lidar. A Austrália é onde eu moro agora. Aqui eu estou em casa. Se você não consegue fazer o mínimo esforço para compreender isso e me oferecer o suporte que eu preciso e espero de você, então essa relação não faz mais o menor sentido.”
Terminei de falar ofegante, mas sentindo que eu havia colocado para fora tudo que estava preso em minha garganta há dias. Tom ficou em silêncio por alguns instantes, mas então sua voz veio baixa e contida.
“Eu sei que fui um babaca nas mensagens e que não tenho sido o namorado perfeito, eu só sinto a sua falta. Desculpe por descontar a minha frustração em você, mas não tem sido fácil pra mim.”
Ri, sem humor. “E acha que tem sido para mim? Caralho, Tom, eu sinto a sua falta todos os dias, mas ao mesmo tempo percebo você se distanciar de mim e tratar a nossa relação como se só os seus sentimentos importassem.”
Ouvi uma voz masculina que não era de Tom do outro lado da linha, mas não consegui entender o que foi dito.
, preciso desligar. Tem algo importante que preciso resolver.”
Suspirei. “Achei que você já estivesse tentando resolver algo importante.”
, não torne essa conversa mais difícil do que ela já está sendo.”
Com um riso sarcástico eu juntei toda a minha raiva acumulada de um dia inteiro de puro estresse e ansiedade. “Quer saber? Vai se foder, Tom.”
Desliguei antes que ele pudesse responder e senti minha garganta fechar e as malditas lágrimas começarem a cair novamente. Por um descuido, o celular em minha mão caiu no chão, o que me fez chorar ainda mais e mais alto.
Sentei no chão ao lado do celular caído e escondi o rosto em minhas mãos quando ouvi os passos de Luke se aproximando. O fato de eu desejar que ele fosse Jack fez com que o choro só aumentasse e eu me sentisse uma sacana.
Meus soluços estavam altos e descontrolados quando Luke se ajoelhou ao meu lado e me puxou para perto de si. Tentei me afastar e dizer alguma coisa, mas ele apenas me abraçou com mais força e se movimentou lentamente de um lado para o outro. Sua mão estava em minhas costas, fazendo movimentos circulares, ao mesmo tempo em que eu soluçava contra seu peito e encharcava sua camisa.
Pouco a pouco meu choro foi cessando e eu pude ouvir as batidas aceleradas do coração de Luke. O som me acalmou mais do que eu poderia imaginar. Ele depositava beijos em meu cabelo, enquanto murmurava uma musica que eu não fui capaz de reconhecer, mas que fazia meu corpo todo relaxar em seus braços.

**


Abri os olhos lentamente, tentando me acostumar com a escuridão do cômodo. Minha mente confusa e meu senso de preservação trabalharam rapidamente para identificar onde eu estava, então me dei conta que eu só podia estar no apartamento de Luke, já que depois da ligação de Tom e a minha crise de choro, eu não lembrava mais nada.
Olhei ao redor, identificando a cama onde eu estava e alguns moveis no quarto. Tateei a cama e cheguei à conclusão de que eu estava sozinha, mas localizei meu celular ao alcance da minha mão. Acendi a lanterna e conferi a hora, me assustando ao perceber que já passavam das 11 da noite.
Levantei-me, com cuidado para não fazer muito barulho e caminhei até a sala. Apesar de a televisão estar ligada, Luke estava adormecido no sofá. Sua feição serena fez com que eu sorrisse comigo mesma. Sua respiração era calma e sonora e suas pernas longas estavam espalhadas de qualquer jeito.
Procurei algum papel por perto, mas claro que não havia nada por ali. Fiz uma nota mental para lembrar-me de mandar uma mensagem para ele pela manhã e, silenciosamente, saí do apartamento.
O silêncio nas ruas contrastava com a bagunça em minha cabeça. Havia tantos pensamentos e sentimentos bagunçados que eu só queria chegar logo em casa e dormir, de preferência um sono sem qualquer interrupção.

9.




Estávamos no estúdio novamente. Sim, ainda estávamos de férias, mas gravar músicas era a nossa ideia de diversão no tempo livre. Havíamos escrito algumas músicas que gostamos bastante, então decidimos que valia a pena gravá-las logo, para termos uma noção de como ficaria o resultado final.
Dessa vez, no entanto, havia algo diferente no estúdio, ou melhor, alguém. Uma pessoa extra, que agora estava sentada do lado de fora do aquário onde eu estava gravando a minha voz, enquanto a observava rir de algo que Calum havia dito.
havia me ligado dois dias antes para me agradecer por tê-la ajudado com toda aquela situação e depois a briga com o namorado. Ela pediu desculpas pelo incomodo algumas centenas de vezes, mesmo eu falando que não fora incomodo algum. Eu não sabia de onde a ideia de chamá-la para o estúdio havia surgido, mas me pareceu uma boa forma de distraí-la um pouco e ela realmente parecia precisar dessa distração. Claro que antes eu havia perguntado aos caras se eles se importavam, mas todos pareceram felizes em passar algumas horas com ela.
Saí do aquário, depois de gravar o refrão da música e fui recebido por um Michael excessivamente animado.
“Essa música está ficando incrível.” Comentou, com sua guitarra no colo.
“Eu acho que essa vai virar uma das minhas favoritas,” Ashton complementou.
Era a vez de Calum gravar a sua voz, então tomei o lugar dele ao lado de .
“Está se divertindo?” Perguntei.
Com um sorriso sincero, ela concordou. “Muito. Obrigada pelo convite, Hemmo. Eu realmente precisava de um dia assim.”
“Como estão as coisas?” Eu não sabia se deveria perguntar, mas depois de ver o estado em que ela estava no dia da briga, eu realmente gostaria de saber. “Com Tom,” adicionei.
Ela observou Calum por alguns instantes antes de focar sua atenção em mim novamente. Ela deu de ombros, mas sorriu, sem muita emoção.
“Estão confusas, muito confusas,” suspirou. “Estamos tendo muita dificuldade de nos entendermos e a distancia só está piorando tudo. Nós sabíamos que não seria fácil, estávamos preparados para as divergências que iriam surgir, então estamos tentando lidar com tudo da melhor forma que conseguimos.”
Concordei, levemente desapontado por ela, aparentemente, ter perdoado qualquer que tenha sido a merda que ele tenha dito ou feito no outro dia. Parte de mim queria mostrar que eu era um bom amigo e ficar ao lado dela, mas a outra parte só queria estar com ela.
“Você tem uma ótima voz, Hemmo,” comentou, trazendo-me de volta para a realidade. “Ainda lembro de você cantando em seu quarto com uns 13 ou 14 anos.”
“Ah, não.”
Ela riu. realmente não tinha ideia do quão difícil era pra mim, lembrar que ela esteve lá em todas as minhas fases estranhas da adolescência. Ela havia visto todos os meus cortes de cabelos ridículos e provavelmente lembrava das minhas ex-namoradas.
“Ah, era fofo, vai. Você e a sua franjinha emo.”
“Não era emo.”
“Hemmo, é tarde demais para tentar se defender.”
“Você sabe que eu também tenho lembranças embaraçosas suas que posso usar contra você, certo?”
Ela abriu a boca, dramaticamente e levou a mão até o peito para fingir estar chocada, mas então ela riu. “Não vamos entrar nesse mérito, ok?”
Ficamos no estúdio até o final da tarde, quando saímos o sol ainda brilhava no céu com poucas nuvens. Decidimos sair pra jantar já que estávamos todos famintos. Calum não hesitou antes de convidar , mas ela recusou educadamente o convite, dizendo que já tinha planos com uma amiga. Nos despedimos e, depois de alguns abraços, entramos no carro que nos levaria até o restaurante.
Depois disso eu não prestei muita atenção em mais nada. Minha mente parecia distraída e eu só queria ir pra casa e descansar.
O celular de Ashton tocou, chamando-me de volta para a realidade e ele comunicou que um dos técnicos de som do estúdio havia encontrado uma jaqueta.
“É da ,” falei, lembrando de vê-la vestida com a peça de roupa.
“É da nossa amiga, sim,” Ashton comunicou para a pessoa do outro lado da linha. “Estamos bem perto do estúdio, em um restaurante Japonês.”
Observei ele movimentar a cabeça algumas vezes e balbuciar alguma coisa antes de desligar.
“Eles vão trazer a jaqueta aqui,” falou.
Dei de ombros. “Eu devolvo pra ela.”
“Claro que devolve, Luke,” Michael disse, o tom em sua voz deixando clara a provocação.
“Ela já terminou com o britânico?” Calum perguntou, parecendo genuinamente curioso.
“Não,” respondi, meio sem vontade e não querendo entrar muito no assunto.
Por sorte o garçom logo apareceu e distraiu todos nós.
Quando saímos do restaurante, algumas horas depois, o sol já estava se pondo. A jaqueta de estava em minhas mãos enquanto eu tentava decidir se deveria devolvê-la agora ou deixar para outro dia. Algumas fãs estavam nos esperando do lado de fora do restaurante, então não pude mandar uma mensagem para . Esperei chegar em casa para decidir o que iria fazer.
Eu não podia negar que queria vê-la de novo. Ah, merda, eu queria vê-la o tempo inteiro. Eu queria saber quem eram seus amigos, além de Jack e Celeste. Queria saber mais sobre a sua vida, e ouvi-la contar sobre o seu dia. Eu tentava ignorar o que eu sentia quando ela estava por perto, mas era tarde demais e eu já estava completamente envolvido por .
Assim que cheguei em casa, peguei o celular no bolso. Olhei alguns aplicativos, tentando me distrair da vontade de mandar mensagem para ela, mas acabei cedendo e digitando uma mensagem rápida.

Estou com a sua jaqueta.

Por que essa parece uma daquelas mensagens de sequestro?

Hahaha

Quero 20 mil por ela.

Ela custou umas 50 libras. Pode ficar!

Nah, eu experimentei, mas ela não valoriza as minhas curvas.

Alguns instantes se passaram até eu receber a sua resposta.
Você é ridículo, Hemmo.

Mais uma vez me peguei tentando inventar alguma desculpa para vê-la novamente.

Estou próximo ao seu apartamento. Quer que eu deixe aí?

Se não for incomodar…

Estarei aí em alguns minutos.

Certo, eu demoraria muito mais do que se estivesse realmente por perto, mas rapidamente abri um aplicativo de táxi e pedi um. Eu sabia que deveria estar usando o meu tempo livre para fazer aulas de direção, mas essa era a última coisa em minha mente enquanto eu observava as ruas escuras pelo vidro do carro.
Quando cheguei em seu prédio, saltei do carro e respirei fundo, só então notando como minhas mãos estavam suadas. Eu estava me sentindo um idiota e provavelmente parecia mesmo um.
Eu não sabia explicar por que eu me sentia assim com . Algo nela fazia com que eu me sentisse nervoso e inseguro, como se eu precisasse sempre provar que era digno do seu tempo. Era provável que fosse consequência da diferença de idade, ou o fato de ela simplesmente parecer confiante de si o tempo todo, como se o mundo estivesse aos seus pés.
Bom, eu não sabia sobre o mundo, mas eu, certamente, estava.
Assim que eu abri a porta, notei seu rosto corado. Arqueei a sobrancelha, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa ela me puxou para dentro do apartamento e fechou a porta atrás de nós.
“Eu fiz algo errado!” Anunciou, em meio a risadas infantis.
“O que aconteceu?” Questionei, completamente confuso.
Olhei ao redor, notando o belo apartamento em que ela morava. Não era muito grande, mas a decoração era incrível para alguém que morava sozinha. Eu não conseguia ver nada que estivesse fora do lugar e tinha certeza que todas as superfícies estavam impecavelmente limpas.
“Ah, obrigada por trazer as minha jaqueta,” comentou, pegando a peça de roupa e deixando-a no sofá. “Consegue guardar um segredo, Hemmo?”
Abri a minha boca para responder, mas eu estava tão confuso que nenhum som saiu dela. Suas bochechas ainda estavam coradas e um sorriso brincalhão tomava conta de seus lábios. Não consegui impedir a minha mente de ir para um lugar perigoso e imaginar que era assim que ela ficava depois de transar. Ou depois de se masturbar.
“Vem aqui,” falou, apontando para a cozinha.
Assim que entramos no cômodo, eu vi algo em cima do balcão. Quando me aproximei percebi que era um pedaço de brownie. observou o doce e depois me olhou, enigmática.
“O quê?” Perguntei, ainda sem entender nada.
“Minha amiga me deu esse brownie,” ela respondeu e eu esperei que ela me desse mais informação. “É um brownie especial.”
“Por quê?”
Ela me olhou, impaciente, e levou alguns segundos até o meu cérebro processar o que ela havia dito e conectar ao fato de ela estar agindo daquela forma.
“NÃO!” Gritei, entre risos
“Hemmo!” Ela ralhou, colocando o dedo na boca em sinal de silêncio.
“É sério que você pegou um brownie de maconha?”
“Por que você parece tão surpreso?” Questionou, um pouco ofendida.
Ri. “Eu não pensei que você fosse esse tipo de garota.”
“Por que não?”
“Não sei. Você sempre me pareceu um tanto… Inocente.”
Ela abriu a boca, parecendo mais ofendida do que nunca. “Não sou uma garotinha inocente!”
“Você sabe que eu posso usar isso contra você se quiser que meus pais te odeiem, certo?” Brinquei.
“Bom, o seu irmão me convenceu a experimentar maconha pela primeira vez quando tínhamos 16, então acho que estamos quites.”
Gargalhei e balancei a cabeça. De todas as coisas que imaginei que pudessem acontecer naquela noite, brownie de maconha definitivamente não era uma delas.
“Eu assumo que essa não é a sua primeira vez?” sugeriu, apontando para o brownie.
“Está me chamando de maconheiro?” Fingi estar ofendido e ela riu.
“Ah, por favor, Hemmo. Você não morou em uma mansão em Los Angeles com a sua banda? Eu aposto que bebidas e drogas eram uma rotina para vocês lá.”
“Como sabe da casa em LA?”
Ela deu de ombros. “Eu falei que tinha jogado seu nome do Google.”
“Eu não sabia que a sua pesquisa havia sido tão extensa e ido tão a fundo.” Provoquei.
“Cala boca, Hemmo.”
Ela virou para pegar uma faca na gaveta atrás de si, mas não antes de eu notar o quão sem graça ela havia ficado. A noite só ficava melhor.
Ela cortou dois quadrados do brownie e me ofereceu um.
“O gosto é diferente?” Questionou, observando o doce em suas mãos.
Ri. “Eu realmente não sei! Nunca provei brownie de maconha antes, só o cigarro.”
Mordi um pedaço do brownie e notei me observando com expectativa. Não consegui segurar o riso com a cara que ela fazia.
“Tem gosto de brownie normal,” revelei.
finalmente mordeu um pedaço e mastigou lentamente, fazendo caretas. Comemos mais alguns pedaços em silêncio. Ficávamos nos olhando e rindo como se já estivéssemos completamente chapados.
“Acho que a gente devia parar de comer,” ela anunciou. “Eu li que o efeito demora mais do que o do cigarro.”
Ela guardou o pedaço que sobrou e depois se virou para mim novamente.
“O que faremos até começarmos a sentir o efeito?”
“Não sei,” respondeu, olhando em volta da cozinha e depois para mim. “Você parece muito com o seu irmão, sabia?”
Balancei a cabeça, encarando meus próprios pés. “É o que dizem.” Respirei fundo, tomando coragem para perguntar algo que eu sempre quis perguntar à Jack, mas nunca tive coragem. “Vocês já ficaram?”
“Eu e Jack? Não. Nunca.”
“Então você nunca sentiu atração por ele?”
“Onde quer chegar com isso, Hemmo?” Ela arqueou uma sobrancelha e sentou no balcão, seus pés suspensos no ar.
Encostei as costas no balcão ao lado dela e sorri. “Apenas curioso.”
“E essa curiosidade é repentina ou tem haver com o fato de eu ter dito que você se parece com seu irmão?”
Ela encarava as próprias mãos, sua voz num tom mais baixo que o normal. Observei seus cabelos longos caírem sobre seu rosto, cobrindo-o parcialmente.
“Eu só queria saber...”
Deixei a frase no ar e vi seus olhos procurarem os meus, seus dentes prendendo o lábio inferior como eu normalmente fazia.
“Se eu estou atraída por você?” Completou.
Concordei, incapaz de tirar meus olhos dos seus lábios. Ela sorriu de forma contida e balançou a cabeça.
“Eu tenho namorado, Hemmo.”
Virei-me para ela, a tensão entre nós crescendo e se tornando quase tangível. O rosto de estava corado novamente e seus olhos focados em mim. Meu coração estava completamente acelerado e o diabinho em meu ombro me mandava beijá-la de uma vez, mas eu sabia que a perderia se o fizesse.
“Isso não responde a pergunta.”
“Eu não ingeri maconha suficiente para responder essa pergunta, Hemmo.”
“Eu deveria te dar mais brownie, então?” Sugeri.
E, como um passe de mágica, a tensão foi embora. Ela começou a rir e eu acompanhei. Enquanto ela limpava as lágrimas que haviam caído por causa dos risos, notei que seus olhos já estavam vermelhos.
“Sabe o que a gente devia fazer?” Ela perguntou, de repente sua feição ficou séria. “Dar uma caminhada. Na praia!”
“Não sei se é uma boa ideia, .”
colocou a língua pra fora. “Por que não? Eu adoraria nadar no oceano agora.”
“Sério?”
Observei ela se distrair com algo no teto, mas quando olhei, não vi nada lá.
“Por que está tanto calor aqui? Estou faminta!”
“Você está chapada, isso sim.”
“Você não está?” Questionou, me olhando com curiosidade.
“Claro que estou, mas já estou mais acostumado com o efeito. Eu disse que você era inocente.”
“Não sou, não. Você não faz ideia das loucuras que eu posso fazer!”
Sorri, amando a postura defensiva que ela assumiu e o quão chapada ela estava. Ela continuou caminhando pela cozinha, abrindo a geladeira e os armários, tentando encontrar algo para comer.
“Fique a vontade para me mostrar.”
Ela gargalhou, mas então balançou a cabeça. “Eu tenho namorado, Hemmo. Eu tenho namorado.” Ela caminhou até a sala de estar e eu ouvi ela repetir a frase mais algumas vezes antes de voltar para a cozinha. “Eu tenho namorado,” falou, pausadamente e evitando me olhar.
“Você está me comunicando ou lembrando a si mesma?” Provoquei.
“Quieto, Hemmo.”
abriu a geladeira novamente e fechou logo depois. Me olhou, confusa.
“Que foi?”
“Nada.”
Ela continuou passeando pela cozinha. Em determinado momento ela chegou a quase dançar balé, seus braços balançando graciosamente no ar. Eu podia sentir meu corpo completamente relaxado e minha mente leve e livre de preocupações, mas ainda me encontrava consciente de tudo que estava acontecendo.
“Estou tão hiperativa. Por que você não está assim, Hemmo?” questionou. “Nem parece que você está chapado.”
Caminhei até ela e coloquei minhas mãos em seus ombros.
, respire.”
Ela inalou uma grande quantidade de ar e depois soltou lentamente.
“Sabe o que eu estava pensando?” Ela passou a língua pelos lábios, provavelmente de forma inconsciente, e então foi a minha vez de respirar fundo.
“O quê?”
Vi seus olhos perdidos em meu pescoço, parecendo completamente imersa em pensamentos por alguns segundos. Ela levou suas mãos até a minha camisa e começou a fechar os últimos botões que eu normalmente deixava abertos.
“O que está fazendo?”
“Fechando essas drogas de botões, porque é muito difícil eu me concentrar em qualquer coisa quando eu posso ver essas sardas no seu peito e pescoço.”
Não pude evitar o riso. Eu sabia que ela se arrependeria amargamente disso quando o efeito da droga passasse, ou então ela não lembraria de nada. Se ela não havia me dado uma resposta mais cedo sobre estar atraída por mim, agora ela havia acabado de confirmar.
Quando terminou de fechar os botões, ela os encarou.
“Melhorou?” Provoquei.
Ela soltou uma risada infantil. “Está parecendo um padre agora.”
“Você pode desabotoar se quiser,” sugeri.
Os olhos confusos dela encontraram os meus, depois desceram para minha boca e então para os botões novamente. Ela levantou as mãos até os botões, mas então parou e balançou a cabeça.
“Merda!” Sussurrou.
Acompanhei com o olhar enquanto ela saía da cozinha e batia a porta de algum cômodo no apartamento.
Tudo ficou quieto por alguns minutos. Desabotoei os botões que ela havia fechado, de repente sentindo muito calor naquela cozinha. Eu queria ir atrás de , mas algo me dizia que ela precisava de uns minutos sozinha. Só eu sabia o quanto eu mesmo precisava de um banho gelado naquele momento.
Ouvi um barulho alto em algum lugar e caminhei até a sala de estar.
?”
Enquanto eu andava até a porta fechada, que provavelmente era a do quarto de , ouvi sua risada alta.
“Hemmo!” Ela chamou, ainda gargalhando.
Abri a porta e a encontrei caída no chão, as mãos no estomago enquanto se contorcia de rir. Ofereci minha mão para ela se levantar, mas ao invés disso, me puxou com força, fazendo com que eu caísse ao seu lado.
“Eu tropecei,” explicou, tentando controlar o riso.
Nessa hora eu já estava rindo com ela… Ou rindo dela, não sabia bem. Meu corpo estava relaxado e minha mente leve demais já nem se lembrava de algo que não fosse o ali e o agora.
Eu nem saberia dizer quanto tempo demoramos para parar de rir. Primeiro as gargalhadas viraram risadas espaçadas, mas então nos olhávamos e tentávamos ficar sérios, apenas para acabar gargalhando novamente.
Quando finalmente caímos em silêncio, se moveu para mais perto de mim e descansou seu queixo em meu ombro, deixando seu rosto perto demais do meu. Eu podia sentir sua respiração em minha pele e aquilo estava me enlouquecendo.
“Olha, você abriu eles novamente,” comentou, tocando em minha camisa.
“Imaginei que você preferisse desse jeito,” brinquei.
apertou meu nariz de forma brincalhona e eu enruguei ele, arrancando uma risada dela.
“Você é um merdinha, Hemmo.”
Eu sorri, mais para mim mesmo do que pra ela.
Ela tocou meu queixo e deslizou o dedo até a minha boca, próximo do piercing em meu lábio inferior. “Eu gosto do seu piercing.”
Virei um pouco de lado para olhá-la e vi que ela encarava minha boca.
“É?”
“Uhum,” concordou. “Combina com você.”
Notei seus olhos começando a ficar mais pesados e ela ficou quieta. Ela descansou a mão, que antes estava meu rosto, em meu peito e eu a cobri com a minha, fazendo carinho com meu polegar. Ela suspirou pesada e audivelmente.
“Pensei que você fosse fazer alguma piada sobre beijar um cara com piercing no lábio,” comentou num sussurro.
Ela fechou os olhos e eu beijei sua testa.
“Eu ia,” confessei, meus lábios ainda em sua pele quente.
não falou mais nada. Eu não sabia se ela havia caído no sono ou estava apenas pensando. Sua respiração começou a ficar mais regular e eu permaneci em silêncio, encarando o teto branco. Depois de alguns minutos senti ela se mexer e entrelaçar nossos dedos, mas eu tinha quase certeza que o gesto havia sido inconsciente.
Beijei seus cabelos, antes de fechar os olhos e sentir meu corpo cada vez mais leve até adormecer.


10.


A primeira coisa que eu notei ao acordar foi o quão pesada minha cabeça estava. Demorei quase um minuto inteiro para conseguir ao menos abrir os olhos, pois todas as tentativas fizeram com que a minha cabeça quisesse explodir. Sussurrei um palavrão por causa da claridade e esfreguei meus olhos.
Um ronco baixo ao meu lado fez com que eu me virasse para encontrar Luke, dormindo pacificamente com sua boca meia aberta.
“Merda!” Sussurrei, levantando-me e indo até o banheiro. “O que eu fiz? O que eu fiz?”
Limpei meu rosto com água gelada e encarei meu reflexo no espelho. Alguns flashes da noites anterior passaram por minha mente, me fazendo respirar fundo. Eu não tinha certeza se já havia lembrado de tudo, mas a maior parte da noite já parecia estar mais clara em minha memória. Enquanto eu pensava em tudo que havia acontecido e em Luke ainda adormecido em meu quarto – por sorte, não na minha cama – escovei os dentes e prendi meu cabelo.
Abri a porta do banheiro cuidadosamente e observei Luke ainda adormecido no chão. Com a luz matinal que entrava pela janela, sua aparência era quase angelical e eu precisei resistir o impulso de simplesmente ficar ali, o observando.
Já na cozinha, preparei um café e sentei no sofá em silêncio. Ouvi um barulho perto de mim e notei que o meu celular estava jogado no sofá, quase caindo entre duas almofadas. Peguei o aparelho e olhei o horário. Já passavam das oito da manhã e a bateria já estava no final, mas eu não queria ir no quarto novamente para pegar a bateria, então apenas bloqueei a tela e guardei ele no bolso.
Enquanto tomava alguns goles do café, deixei minha mente vagar para a noite anterior. Eu lembrava de ter ficado muito hiperativa, andando sem rumo pelo apartamento enquanto Luke me observava e se divertia. A cena que mais se repetia em minha mente foi a que Luke me perguntava se eu sentia atração por ele. Não estávamos chapados ainda, ele não me perguntou por estar sob efeito da droga e eu não respondi pelo mesmo motivo.
Eu não podia negar que vinha pensando em Luke muito mais do que deveria. Havia todos esses pensamentos e sentimentos confusos que eu não podia entender e estar perto dele só piorava tudo.
“Ah, não! Eu falei sobre o piercing dele,” sussurrei para mim mesma. Cobri minha boca com a mão e balancei a cabeça. “Meu Deus.”
A imagem de Tom me veio à cabeça e eu senti uma pontada de culpa. Eu nunca o machucaria de propósito, mas ao mesmo tempo estar com Luke me fazia sentir como se eu estivesse traindo a sua confiança. As coisas não estavam boas entre a gente, mas estávamos tentando. Saber que eu não estava colocando todos os meus esforços na nossa relação, estava me matando por dentro.
Quando a minha xícara estava vazia e eu me senti mais alerta, passeei pelo apartamento, minha cabeça à mil, como se eu já estivesse acordada há horas. Tentei pensar na conversa que eu teria com Luke quando ele acordasse, mas eu me conhecia bem o suficiente para saber que no final acabaria falando o que não devia.
Eu estava na sacada, olhando a rua silenciosa quando ouvi passos dentro do apartamento. Esperei pacientemente quando ouvi uma porta sendo fechada. Assumi que Luke havia entrado no banheiro e aproveitei para respirar fundo algumas vezes, tentando me livrar da confusão de pensamentos.
Luke finalmente saiu do quarto e apareceu na sala onde eu me encontrava.
“Oi,” falou, com voz rouca e tudo o mais.
“Bom dia,” respondi.
Encarei o garoto à minha frente, notando quão mais jovem ele parecia com o rosto sonolento e os olhos pequenos, mas foi o cabelo bagunçado e apontando para todos os lados que me fez ficar sem palavras.
“Dormiu bem?” Perguntei.
Luke concordou. “Acho que sim. Como está se sentindo?”
“Hm, ótima, mas já bebi café, então acho que isso ajudou.” Apontei para a cozinha. “Quer um pouco?”
Ele pareceu um pouco desconfortável por alguns instantes, mas então concordou e me seguiu até a cozinha. A cena foi exatamente como a de quando estávamos em sua cozinha e ele fez café para mim, mas dessa vez era ele quem encarava as paredes brancas enquanto eu servia o café em uma xícara.
“Eu sinto que devia pedir desculpas por ontem à noite. Fiquei um pouco agitada demais.”
Luke riu, mas balançou a cabeça. “Eu me diverti.”
“Imagino que sim, enquanto eu fiquei um pouco fora de mim.”
Ele deu de ombros, sem dizer nada, apenas aproveitando o café.
O observei por alguns instantes, mas assim que meus olhos focaram em seu peito e eu vi sua camisa com os primeiros botões desabotoados, senti meu rosto esquentar instantaneamente e a vontade de me esconder em algum lugar onde ninguém jamais pudesse me encontrar. Fui até a geladeira e comecei a fingir que procurava por algo, tentando de todas as formas disfarçar as minhas bochechas vermelhas.
Como eu podia não ter lembrado antes? E como eu iria encará-lo? As imagens estavam claras em minha mente agora, a forma como eu não conseguia me concentrar em nada quando ele estava perto de mim e eu podia ver tão bem suas sardas espalhadas pelo peito e pescoço. Como se isso não bastasse, agora eu também conseguia lembrar de encarar sua boca, um sorriso malicioso brincando em seus lábios e me dizendo que eu podia desabotoar toda a camisa se quisesse. Quanto mais eu lembrava, mais mortificada ficava.
A cozinha estava em completo silêncio enquanto eu buscava por algo, qualquer coisa dentro da geladeira para desviar a minha atenção e a de Luke.
,” Luke chamou, não parecia ser a primeira vez.
“Hmm?” Finalmente fechei a geladeira e o olhei.
“Eu perguntei se você se machucou ontem quando caiu no seu quarto.”
“Eu caí?” Questionei, confusa.
Instintivamente levei minha mão até o meu cotovelo, lembrando subitamente que eu havia usado essa parte do corpo para evitar cair de cara no chão. Luke riu.
“Ah, não. Estou bem. Obrigada, Hemmo.”
Comecei a caminhar pela cozinha, desesperadamente procurando por algo em que eu pudesse focar a minha atenção. Eu podia sentir Luke prestando atenção em meus movimentos, mas evitei seus olhos.
“Você ainda parece um pouco agitada,” ele disse.
Balancei a cabeça negativamente e coloquei uma mecha do cabelo atrás da orelha. Respirando fundo, apoiei as duas mãos no balcão.
“Estou bem,” falei.
Luke terminou o café e caminhou até a pia, enchendo a xícara de água, assim como eu havia feito com a minha. Eu pude sentir o vomito de palavras vindo, antes mesmo que eu pudesse segurar.
“Hemmo.”
Ele virou para mim e se aproximou, também apoiando as mãos no balcão. Seus dentes brincaram com o piercing em seu lábio inferior e eu respirei fundo.
“Você, hm...” Lutei para encontrar as palavras certas e não soar como uma garotinha insegura. Isso era algo que eu definitivamente não era. “Sobre ontem à noite, eu-”
“Está tudo bem, ,” Luke interrompeu.
Sorri e levantei minha mão, num pedido para que ele não me interrompesse.
“Você não sabe o que eu vou dizer ainda.”
Luke riu e assentiu.
“Existe alguma chance de você não lembrar tudo que aconteceu ontem à noite?”
Encarei seus olhos atentos com um sorriso inocente em meus lábios e minhas mãos na cintura. Eu podia não ter soado como uma garotinha, mas eu definitivamente estava parecendo uma naquele momento.
Ele abriu um sorriso charmoso e arqueou uma sobrancelha. “Qual parte exatamente você gostaria que eu não lembrasse? Quando você se distraiu com a minha camisa aberta ou quando você ficou encarando o meu piercing?”
Estreitei meus olhos para ele, sentindo meu rosto voltar a esquentar e controlando a vontade de dar um soco nele. Luke riu e eu o empurrei para longe de mim.
“Vai pra merda, Hemmo. Você é mesmo um merdinha, sabia?”
Apesar de eu estar completamente sem graça pela sua honestidade, tive que controlar o sorriso que queria surgir em meus lábios. Em toda a minha vida eu nunca havia conhecido um cara que fosse tão aberto comigo. Nem mesmo Tom havia sido tão direto antes de começarmos a namorar.
“Você fica ainda mais bonita com as bochechas coradas, .”
“Ah, cala boca, Hemmo.”
Afastei-me dele e respirei fundo. Não podia negar que sua maldita camisa com os últimos botões abertos ainda estava me afetando, mas eu nunca deixaria ele saber.
“Você não era o Hemmings mais tímido?”
Eu podia lembrar de um Luke mais tímido e desajeitado quando eu e Jack éramos adolescentes. Agora não só ele parecia ter no mínimo 21 anos, mas também tinha uma confiança que me lembrava a do irmão.
“Eu era. Antes de saber que você tem uma quedinha por mim.”
Olhei para Luke, pega de surpresa por suas palavras.
“Eu não tenho uma quedinha por você. Luke, eu tenho-”
“Namorado,” completou, antes que eu pudesse. “Você disse isso bastante ontem à noite. Eu ainda não sei se você estava me comunicando ou lembrando a si mesma.”
“Ambos,” respondi, me arrependendo meio segundo depois. Eu havia mesmo perdido o controle sobre minhas palavras.
“Você não precisa me falar, . Eu sei que você tem namorado e respeito isso. Também te conheço o suficiente para saber que nada vai acontecer entre nós enquanto vocês estiverem juntos, mas isso não me impede de continuar te mostrando que você tem outras opções também, caso não dê certo com ele.”
Ficamos nos encarando por alguns instantes, nenhum de nós sabendo exatamente o que dizer. Eu não estava esperando tamanha honestidade e ouvir suas palavras me deixou sem reação.
Assenti. “Obrigada, Hemmo.”
Luke sorriu, genuinamente, seu rosto parecendo ainda mais jovem.
“Bom, acho melhor eu ir,” disse.
“É, eu preciso preparar algumas coisas do trabalho.”
“Obrigado pelos brownies. E se você precisar de alguém para comer o resto-”
“Pode deixar que eu chamo o Jack. Melhor não arriscar novamente,” completei sua frase, mesmo sabendo que não era isso que ele iria sugerir.
Luke riu e deu um passo em minha direção, me abraçando. Instintivamente, o abracei de volta, meus braços alcançando seu pescoço e trazendo-o para mais perto de mim. Por causa dos seus ombros largos, não pude evitar o meu rosto de se esconder na curva do seu pescoço e quase sem querer inspirar o seu perfume. Ele me abraçou mais forte, levantando-me do chão e me fazendo sorrir.
Tomei a iniciativa de me separar dele, percebendo que ele não parecia disposto a isso, mas se eu fosse completamente honesta comigo mesma, também poderia ficar naquela posição por um bom tempo.
Caminhei com ele até a porta e acenei uma última vez antes de vê-lo entrar no elevador e sumir de vista.


11.


O dia não seria fácil, eu soube disso no momento em que meu celular começou a tocar sem parar. Resmunguei, saindo debaixo das cobertas e alcançando o aparelho ainda no bolso da minha calça, jogada no chão. O nome de Ben piscava na tela.
“O que você quer?” Questionei, revelando meu mau humor.
“Bom dia pra você também, irmãozinho. E eu quero que você tome conta da Zoe hoje.”
Fiquei alguns segundos em silêncio, meu cérebro ainda adormecido tentando digerir o que ele havia dito. Zoe era a nossa prima de 2 anos e meio. Apesar de eu amá-la e achá-la o bebê mais fofo do mundo, não havia a menor condição de eu tomar conta dela por um dia inteiro.
“Pede pra minha mãe,” respondi, sem vontade.
Tirei o celular do ouvido para conferir as horas e percebi que já passavam das onze. Nem duas horas haviam se passado desde que eu havia chegado da casa de e eu ainda precisava de muitas horas de sono. Dormir no chão não ajudou a me recuperar da noite de brownies de maconha.
“Ela não pode. Jack e Celeste também já estão ocupados e a babá acabou de avisar que não pode vim. Vai logo, Luke. Levante essa bunda preguiçosa da cama e esteja na casa dos nossos pais em uma hora.”
“Mas eu não-” tarde demais, ele já havia desligado.
Com um suspiro cansado, eu levantei da cama e entrei direto no banheiro para tomar um banho e tentar despertar. Enquanto deixava a água gelada fazer seu trabalho, tentei me preparar mentalmente para um dia cheio de choro de criança e brincadeiras infantis.
Consegui sair do apartamento em meia hora. Coloquei um boné na cabeça para disfarçar o fato de não ter tido tempo para arrumar o cabelo. Assim que entrei no táxi percebi o quão quente o dia estava, vestir calça e camisa preta não havia sido uma boa ideia. Por sorte eu ainda mantinha algumas roupas na casa dos meus pais.
Resolvi ligar para Ashton e pedir ajuda. De nós quatro ele era o único com irmãos mais novos, então era o único que poderia me dar um suporte em uma situação como aquela.
“E aí, Hemmings,” ele atendeu, parecendo bem humorado.
“Por favor, diga que você está livre hoje,” implorei.
“Só pela noite. Acabei de chegar no zoológico com Lauren e Harry,” respondeu, se referindo aos irmãos. “Por quê?”
“Merda,” murmurei. “Preciso tomar conta da Zoe hoje.”
“Tenta Mike e Cal,” sugeriu.
Ri, sem animo. “O que eles sabem sobre crianças?”
“Verdade,” concordou. “Desculpa não poder ajudar, irmão. Se precisar de algo, me liga. Estarei em casa umas seis.”
“Valeu,” desliguei, desanimado.
Considerei ligar para Michael e Calum, mas eles provavelmente levavam ainda menos jeito com crianças do que eu.
Assim que abri a porta da casa dos meus pais, ouvi a voz do meu pai.
“Tem certeza mesmo que é confiável deixar Luke sozinho com ela?”
“Tenho. Ele consegue se virar,” minha mãe defendeu.
“Obrigado pelo foto de confiança, pai,” brinquei, entrando no cômodo.
Ele riu e me deu alguns tapinhas nas costas. “Divirta-se, filho.”
“Como estão as coisas no apartamento novo?” Minha mãe perguntou, também me abraçando e olhando meu rosto com cuidado, procurando qualquer sinal de que eu pudesse não estar me cuidando direito.
“Está tudo bem, só sinto falta da sua comida,” confessei.
Ela sorriu, orgulhosa. “Tem espaguete e almondegas no forno para você. Aproveite que ainda estamos aqui para comer logo. Acredite, Zoe vai te manter ocupado o dia inteirinho.”
“E aí, irmãozinho,” Ben entrou na sala e, assim como meu pai, me deu alguns tapinhas no ombro. “Obrigado por ter vindo.”
Zoe estava sentada no chão da sala, em sua volta estavam vários papeis com desenhos abstratos e uma caixa de giz de cera de diversas cores. Ela parecia concentrada demais nos rabiscos que estava fazendo para me notar ali.
“Sem problemas,” respondi. “Mas pra onde vocês estão indo, afinal?”
“Uma partida de críquete. Austrália contra Inglaterra. Consegui ingressos de última hora e nossos pais não sabiam que eles teriam que tomar conta da Zoe hoje. Não podemos perder essa partida, vai pegar fogo.”
Concordei. “Literalmente. Está quente demais hoje.”
“Por falar nisso,” minha mãe interrompeu. “Se importa de levar Zoe para a piscina? A mochila com as coisas dela está no seu quarto e a boia está lá fora.”
Ofereci um aceno de cabeça enquanto colocava comida no meu prato, só então percebendo o quão faminto eu estava. Enquanto eu comia, Ben conversava com Zoe, avisando-a que eu tomaria conta dela hoje e meu pai tentava fazê-la rir enquanto contava piadinhas sobre mim e pedia que ela me desse muito trabalho.
Não demorou vinte minutos para todos estarem saindo da casa e minha mãe pedir que eu ficasse sempre com o telefone por perto e ligasse caso precisasse de alguma coisa. Fechei a porta de casa e caminhei até Zoe, ainda entretida com os desenhos.
“E aí, princesa?” Sentei ao seu lado.
Zoe me olhou e sorriu. “Lewi.”
Sorri, gostando de ouvi-la me chamar pelo apelido que a minha família havia me dado quanto eu era criança. Observei ela fazer círculos pela página com um giz de cera rosa. Quando ela terminou, me entregou o desenho.
“É rosa,” comunicou.
“E ficou lindo. Gostei muito do seu desenho.”
Ela sorriu, pegando de volta o desenho e trocando o giz rosa pelo verde.
“O que acha de irmos para a piscina, Zoe?”
Ela me olhou com os olhos brilhando e um sorriso no rosto.
“Quero o patinho,” ela falou.
Apesar e eu não entender o que era o patinho, me levantei e peguei ela no colo.
“Vamos lá, princesa. Lewi vai trocar de roupa e nós vamos.”
No meu colo, a mãozinha dela foi até o meu piercing e ela mexeu, seu olhar curioso tentando entender o que era aquilo. Quando eu fiz um bico para ela ver melhor a argola, Zoe riu histericamente.
Depois de eu trocar para uma bermuda, colocar a roupa de banho apropriada em Zoe e passar protetor solar em nós dois, fomos para o lado de fora. Imediatamente ela apontou para sua boia em formato de pato e eu entendi o que ela quis dizer mais cedo.
“Patinho!” Ela gritou animada, quando eu a coloquei no chão. “Patinho! Patinho!”
Peguei sua mão e a boia e fui até a borda da piscina com ela, tomando cuidado para que ela não corresse para a água. Sentei, colocando as pernas dentro da piscina e coloquei a boia dentro. Da forma mais desajeitada possível, consegui colocá-la na boia e finalmente cair na água.
“Está confortável?” Perguntei, analisando para ver se ela estava segura dentro da boia.
Zoe concordou com uma aceno de cabeça, distraída demais para responder com palavras. O bico do pato fazia um quack quando ela apertava e Zoe ria toda vez que isso acontecia. Comecei a girá-la e ela respondeu com palminhas animadas.
“Lewiiiii!” Ela riu.
“Zoeyyyy!” Respondi da mesma forma.
Eu não esperava que fosse tão fácil mantê-la entretida na água, mas bastavam algumas caretas, alguns giros e o quack quack do patinho e Zoe ria histericamente.
Enquanto eu ajeitava as pernas dela nos buracos da boia, percebi que ela se distraiu com algo atrás de mim e, ao me virar, dei um salto para trás, assustado.
“Puta merda, . Você me assustou.”
sorriu, se aproximando da piscina. “Desculpe, não queria interromper vocês.”
Puxei Zoe para perto mim, notando que ela estava começando a boiar para longe.
Olhei para . “O que está fazendo aqui?”
“Aparentemente seus pais não estão seguros de que você sobrevive à um dia inteiro cuidando da Zoe,” ela riu. “Mas julgando pelos dois minutos que eu observei vocês, eu diria que ela está em boas mãos.”
“Então agora você entra de fininho na minha casa para me vigiar?” Ofereci um sorriso sugestivo e ela balançou a cabeça.
“Bom, em primeiro lugar, eu não estava vigiando você, estava apenas olhando vocês dois. E em segundo, eu só estou aqui à pedido dos seus pais.” Apesar do jeito que falava, um sorriso brincava em seus lábios.
“Certo, mas tome cuidado ou minhas sardas vão distrair você.”
colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha e estreitou os olhos pra mim.
“Só não te dou a resposta que merece, pois Zoe está aqui e ela é pequena demais para aprender as palavras que eu gostaria de dizer.”
Sua resposta me fez rir.
“Você vai ficar aí só olhando a gente? Cai logo na água,” sugeri.
“Não vim preparada para um dia na piscina,” ela argumentou.
se aproximou de onde estávamos e sentou na borda. Ela usava uma camisa branca e shorts de cintura alta que eram muito mais curtos do que eu gostaria que eles fossem. Ou tão curtos quanto eu gostaria, em qualquer outra situação. Com as pernas na água, ela sorriu.
“Está quentinha,” constatou.
Concordei, sem nem mesmo me tocar do quão intensamente eu estava olhando para as pernas dela até ela chutar a água em minha direção.
“Hemmo!”
Zoe riu e eu a empurrei na direção de .
“Oi, Zoe. Tudo bom, princesa?” Ela perguntou, sua voz infantil e o fato de ela usar o mesmo apelido que eu, me fez sorrir.
Zoe sorriu, mas ficou tímida e se escondeu atrás da cabeça do pato.
“Voltou a dormir depois que eu fui embora?” Perguntei.
“Hmm, não. Pra ser honesta eu estava prestes a tirar um cochilo quando sua mãe ligou, mas não diga isso à ela.”
“Por que não?”
“Eu falei pra ele que não estava fazendo nada,” deu de ombros.
“Você podia ter dito que não podia vir. Sabe disso, não é?”
sorriu. “Não sei se sou capaz de dizer não pra sua mãe.”
Zoe cutucou meu braço. “Lewi, quero fazer pipi.”
“Hm, certo,” respondi, completamente perdido.
O que eu tinha que fazer? Eu só precisava levá-la ao banheiro ou ela ainda precisava de ajuda?
Ouvi a risada alta de a olhei. “Não precisa entrar em pânico, Hemmo.”
“Não estou em pânico,” disfarcei, mas até a minha voz estava um pouco esganiçada.
“Avisa isso pro seu rosto então,” ela brincou. “Zoe, posso te levar ao banheiro, princesa?” Ela perguntou, olhando para minha priminha.
“Eu quero ir com Lewi,” ela respondeu, sua mão rapidamente procurando a minha.
“E se nós dois levássemos você?” tentou novamente.
Zoe me olhou, em dúvida, mas quando eu sorri ela concordou.
Tirei ela da boia e segurou sua mão enquanto eu saia da piscina. Zoe deixou a mão livre no ar, esperando que eu também a segurasse. Somente quando ela tinha nossas mãos seguras nas suas, começou a caminhar para o banheiro. Não pude deixar de rir da fofura e notei que fez o mesmo. Para convencer Zoe à deixar que a acompanhasse dentro do banheiro, eu precisei me posicionar com metade do corpo para fora e a outra metade dentro do banheiro enquanto ainda segurava a mãozinha de Zoe. Seria constrangedor, se não fosse tão engraçado. Pelo menos ela não chorou e pareceu satisfeita com a solução que encontramos.
De volta na piscina, reassumiu sua posição, com as pernas dentro da água, enquanto Zoe cantarolava uma música e brincava com o pato em sua boia. Observei prender o cabelo no topo de sua cabeça e seu rosto corado por causa do calor.
“Não vai mesmo cair?” Insisti.
“Não posso, nem trouxe um biquíni.”
“Eu acho que consigo um pra você,” menti. “Fique de olho na Zoe,” falei, puxando Zoe para mais perto de onde estava sentada.
“Não, Hemmo, não precisa. Sério,” argumentou.
“É rápido.”
Saí da piscina e rapidamente fiz o caminho até onde estava. Antes que ela pudesse antecipar os meus movimentos, empurrei ela dentro da piscina.
“Que droga, Hemmo!” Reclamou, ainda em choque e um pouco sem reação ao que tinha acabado de acontecer.
Entrei de volta na piscina e trouxe Zoe para perto de mim na tentativa de evitar que me matasse.
“Eu nem trouxe uma troca de roupa,” Falou, passando a mão pelo cabelo molhado e soltando-o.
Sorri. “Relaxe e aproveite o dia na piscina, . Pare de pensar muito nas coisas.”
“Eu estava relaxando e aproveitando, Hemmo. E você sabe que vai me pagar por isso, não é?”
Gargalhei e concordei, sabendo que ela me faria mesmo pagar pelo que fiz. Com a presença de Zoe, não demorou muito para ela realmente relaxar e começar a brincar com a minha priminha. Eu não sabia se Zoe era uma bebê fácil de lidar ou se era boa com crianças, mas não demorou muito para que as duas começassem a interagir e se divertir e Zoe parar de gritar por Lewi a cada cinco segundos.

**


“E agora, o que tem planejado para o dia?” perguntou, algum tempo depois, quando resolvemos sair da piscina.
Zoe estava em seu colo, enrolada em uma toalha.
Não posso mentir e dizer que não observei atentamente sair da piscina, sua camisa branca grudada no corpo e completamente transparente, fazendo seu sutiã preto ser visível debaixo do pano fino.
“Você se importa de dar um banho nela? Não me sinto confortável para isso,” pedi.
arqueou uma sobrancelha. “E o que você faria se eu não estivesse aqui?”
Ri. “Eu estaria completamente perdido.”
Já dentro de casa, eu mostrei à ela onde estavam as coisas de Zoe e peguei o que ela precisaria para o banho antes de pegar uma troca de roupas para mim e ir tomar banho na suíte dos meus pais. Fiquei surpreso quando não ouvi Zoe reclamar do meu sumiço. era mesmo uma encantadora de bebês.
Depois de tomar banho e trocar de roupa, fui até o quarto antigo de Jack para tentar achar algum short que Celeste pudesse ter deixado lá. Em uma das gavetas, debaixo de roupas que provavelmente já nem cabiam mais em meu irmão, encontrei um short feminino que Celeste devia usar para malhar.
?” Chamei, sem saber se ela já havia terminado de dar banho em Zoe.
Entrei no quarto e vi que ela estava terminando de vestir minha prima.
“Lewi,” Zoe sorriu ao me ver. Ela estendeu os bracinhos num pedido para eu pegá-la no colo e eu o fiz.
“Como você está bonita, princesa,” beijei sua bochecha. “Consegui isso pra você,” falei, me virando para .
Além do short de Celeste, peguei uma antiga camisa minha que eu nem usava mais. Ela pegou a roupa e, quando viu o short, me olhou, desconfiada.
“Achei no quarto de Jack. Celeste deve ter deixado aqui,” expliquei.
Ela concordou e entrou no banheiro.
Levei Zoe até a sala e liguei a televisão, escolhendo um canal infantil. Ela rapidamente se distraiu com as imagens na tela e eu aproveitei para ir rápido até a cozinha para pegar uma maçã, uma faca e um prato. Quando voltei, sentei ao seu lado e comecei a cortar a fruta para ela.
Eu já estava começando a ficar entretido com o desenho na TV quando apareceu. Antes que eu pudesse evitar, me peguei a olhando de cima a baixo. Vê-la com a minha camisa preta dos Ramones e os shorts curtos de Celeste foi o suficiente para me deixar mais excitado do que eu deveria.
Ela segurou a barra da camisa e a puxou para baixo, parecendo um pouco desconfortável com o tamanho do short.
“Celeste é mais baixa e mais magra que eu,” comentou, quando me viu a olhando. “Vou colocar essa roupa na secadora.”
Assenti, percebendo como ela falava com uma voz mais quieta que o normal. Seu cabelo estava molhado e algumas mechas estavam bagunçadas e caindo em seu rosto. Por algum motivo ela parecia mais jovem daquele jeito, quase como a adolescente de 17 anos que eu tinha uma quedinha quando tinha 13.
Enquanto ela foi colocar a roupa para secar, minha mente idiota de homem não conseguia parar de questionar se ela estava usando calcinha e sutiã por baixo daquela roupa, já que toda a roupa dela estava encharcada. Mudei de posição no sofá, ajeitando minha calça que, só com aquele pensamento, já ficou um pouco apertada. Imediatamente comecei a tentar pensar em qualquer coisa que trouxesse um resultado oposto ao que o pensamento de sem roupa fazia em mim.
Quando ela voltou para a sala e sentou no chão, ao lado de Zoe, fiz o possível para evitar olhá-la e imaginar a minha camisa cobrindo os seios dela sem sutiã. Permanecemos em silêncio, ambos parecendo um pouco desconfortáveis com toda a situação.
Minha mãe ligou avisando que eles já haviam saído do estádio, mas que iriam comemorar a vitória da Austrália sobre a Inglaterra na partida e voltariam um pouco mais tarde que o previsto. Ela sugeriu que colocássemos Zoe para tirar uma soneca já que ela havia brincado tanto na piscina.
me olhou quando eu desliguei o celular.
“Vou colocar ela pra dormir um pouco,” falei.
“Precisa de ajuda?” Ofereceu.
“Talvez.”
Ela riu e se levantou. Quando peguei Zoe no colo reparei que ela já estava um pouco sonolenta. Caminhamos até o quarto dos meus pais, onde minha mãe já havia preparado a cama para Zoe e deixado uma babá eletrônica com uma câmera. ajeitou o aparelho na estante para que ela filmasse a cama e pudéssemos ficar de olho na bebê.
“Ok, princesa. Dê tchau em que agora você vai descansar um pouco.”
Com os olhinhos já um pouco fechados, Zoe sorriu e acenou para .
“Tchau, ,” murmurou, nos fazendo sorrir.
Eu sabia que não gostava que usassem esse apelido, mas ela não pareceu se importar quando Zoe usou ele. Ela saiu do quarto, eu deitei com minha priminha na cama, cobrindo-a com um cobertor. Ela se aconchegou próxima a mim e eu a abracei, um pouco desajeitado.
Fiquei algum tempo mexendo em seus cachinhos loiros e, quando ela pareceu já estar adormecida, saí do quarto com cuidado.
“Foi mais fácil do que eu pensava,” comentei, ao encontrar do lado de fora do quarto com a babá eletrônica na mão.
Antes que ela pudesse responder, ouvimos Zoe choramingar no quarto e chamar meu nome. sorriu, solidária.
De volta no quarto, abracei Zoe novamente até ela parar de chorar. Senti as mãozinhas dela brincaram com a corrente em meu pescoço, mas ela não parecia disposta a voltar a dormir. Tentei mexer em seu cabelo novamente para ver se funcionava, mas toda vez que eu a olhava, seus olhos me encaravam de volta e ela sorria.
,” sussurrei, sabendo que ela poderia me ouvir por causa do monitor.
Ela colocou a cabeça para dentro do quarto e me olhou.
“O que eu faço?” Sussurrei.
Zoe acenou para quando ela entrou no quarto e caminhou até o outro lado da cama.
“Já tentou cantar para ela?” Sugeriu.
“Canta, Lewi,” Zoe pediu. “Mamãe sempre canta.”
Quando fez menção de sair do quarto, Zoe bateu no espaço vazio ao seu lado na cama e pediu que ela ficasse ali. Do jeito que ela pediu, eu sabia que não havia a menor chance de negar. Com um sorriso, ela deitou do outro lado de minha prima.
Suspirei, tentando lembrar alguma rima infantil, mas naquele momento nenhuma me veio a mente, então resolvi simplesmente cantar uma das nossas músicas. Como a letra de Waste the Night era uma das minhas favoritas, comecei a cantá-la baixinho, sentindo Zoe relaxar aos poucos.
colocou um dos braços embaixo da cabeça e se virou para mim. Ela fechou os olhos, evitando encarar os meus enquanto eu cantava da forma mais quieta possível. Fiz carinho nas costas de Zoe e observei seus olhos se fecharem e sua boca entreaberta, indicando que ela estava finalmente caindo no sono novamente. Continuei cantando, tentando evitar que ela acordasse novamente e acabei emendando a letra de Waste the Night com a de Vapor. Ao terminar de cantar, fiquei em silêncio por alguns instantes, observando Zoe e , adormecidas. Sorri comigo mesmo e coloquei uma mecha do cabelo de atrás da orelha, incrivelmente ela nem se mexeu, estava mesmo dormindo. Sem querer correr o risco de acordá-las, fiquei deitado ali por algum tempo, apreciando o silêncio no quarto.
Quando meu braço começou a doer por causa da posição em que eu me encontrava, saí da cama com o maior cuidado possível. Zoe se mexeu um pouco, mas não acordou. Peguei a babá eletrônica que havia deixado em cima da cama e fechei a porta silenciosamente.
Ouvi meu estomago roncar e me dei conta do quão faminto estava. Vasculhei os armários e a geladeira de casa, mas não achei nada apetitoso, então apelei para um aplicativo de entrega e pedi uma pizza. Enquanto esperava, sentei novamente em frente à tv, mas ao invés de ligá-la resolvi pegar o celular e mexer um pouco nas redes sociais.
A campainha de casa tocou 20 minutos depois. Estranhei, afinal o aplicativo dizia que o pedido levava de 35 à 60 minutos, mas ao abrir a porta e encontrar a entregadora de pizza com um enorme sorriso no rosto, eu entendi a rapidez.
“Desculpa a intromissão, mas podemos tirar uma foto?” Ela perguntou, depois que eu peguei a caixa de pizza das suas mãos.
“Claro,” respondi, um pouco contrariado, mas não querendo ser rude com ela.
Quando fechei a porta, me assustei ao ver na sala, me observando. Seu rosto estava um pouco amassado e o cabelo bagunçado.
“Por que está sempre chegando de fininho nos lugares?” Questionei, fazendo-a rir.
“Você se assusta muito fácil, Hemmo,” ela olhou para a porta fechada e depois para mim. “Pagou pela pizza com a foto?” Pelo seu tom eu sabia que ela estava apenas brincando.
Dei de ombros. “Bem que eu queria. Aceita?”
assentiu e sentamos à mesa da cozinha para comer. O silêncio se instalou entre nós novamente, assim como aconteceu mais cedo. Ela me lançava alguns olhares de vez em quando e eu fazia o mesmo. Meu celular vibrou em cima da mesa e eu li a mensagem de minha mãe, avisando que eles já estavam a caminho.
“Acho que estou liberada, então,” falou, terminando o pedaço de pizza. “Vou pegar a minha roupa e trocar para te devolver sua camisa.”
Balancei a cabeça. “Não precisa, . Eu nem uso mais ela. Pode me devolver outro dia.”
“Tem certeza?”
“Tenho. Ela fica melhor em você de qualquer jeito,” comentei com sinceridade.
Ela assentiu, sua feição e o fato de colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha demonstrando que havia ficado um pouco sem graça com o elogio.
“Obrigada, Hemmo.”
Quando ela voltou com suas roupas já secas na mão, caminhei com ela até a porta de casa.
“Não sei o que teria feito sem você hoje. Talvez meus pais tenham me dado crédito demais por acharem que eu poderia fazer tudo sozinho,” revelei, realmente grato pela presença dela.
“Tenho certeza que você teria dado um jeito. A Zoe gosta muito de você,” ela respondeu. “E eu me diverti de qualquer forma.”
“Que bom. Obrigada, ,” segurei sua nuca e beijei sua testa.
Quando me afastei ela me olhou, um sorriso tímido brincando em seus lábios.
Observei caminhar até o carro e suspirei, pela primeira vez me dando conta que eu não podia mais negar que estava me apaixonando pela melhor amiga do meu irmão.



12.


É engraçado como podemos nos tornar tão próximos de alguém, mesmo em um curto período de tempo. Quando Luke me apresentou aos seus amigos de banda, eu nunca pensei que desenvolveria qualquer tipo de relacionamento com eles. Lógico que eu havia gostado deles, os três eram divertidos, mas não imaginei que iriamos passar muito tempo juntos.
Bem, eu não poderia estar mais enganada.
Dos três, Calum foi o que eu acabei me aproximando mais. Com seu jeito tranquilo, eu o achava parecido comigo em alguns aspectos. Éramos ambos mais quietos, não como antissociais, mas apenas gostávamos do nosso espaço. Claro que eu também adorava passar tempo com Michael, ele tinha um jeito chamativo, falava sempre alto e fazia piadinhas, era impossível não gostar dele. Já Ashton era o único que eu não conseguia decifrar. Ele sempre ficava mais quieto quando eu estava por perto e eu constantemente sentia seu olhar sobre mim, sobretudo se eu estivesse conversando com Luke. Ele nunca foi rude comigo ou fez qualquer coisa que me levasse a acreditar que ele não gostava de mim, mas eu também tinha quase certeza que ele não tinha o menor interesse em ser meu amigo.
Não foi uma grande surpresa quando, em plena Segunda, recebi uma ligação de Calum. Ele já havia me ligado algumas vezes antes, normalmente para falar sobre tudo e nada ao mesmo tempo e me fazer rir como se já fossemos amigos há anos. A nossa relação era assim.
Dessa vez a ligação era para me falar sobre o aniversário dele, que, para ser honesta, eu não fazia ideia que seria naquela semana.
“Vai ser como a festa de casa nova do Luke? Só vocês quatro e eu humilhando vocês todos no videogame?” Brinquei.
“Não, mas eu ainda quero revanche por aquele dia,” reclamou. “Eu convidei Jack e Celeste, Hemmings número 2 não vai poder ir, mas Celeste confirmou presença.”
“Ah, que droga. Essa era a única desculpa que eu tinha para não ir,” sacaneei, ouvindo-o gargalhar do outro lado da linha. “Eu sou um gênio, eu sei.” “Não, espera. Eu tenho outra,” falei. “Eu trabalho no dia seguinte.”
Calum resmungou. “Não trabalha, não. É Australia Day na Quinta.”
“Merda!”
Nós rimos e ele só me deixou desligar o telefone quando garanti que estaria lá – e com um presente.
Como prometido, lá estava eu e Celeste, na casa que Calum e Michael estavam alugando já que, segundo eles mesmos, não tinham paciência para procurar por um apartamento. Na prateleira, perto da televisão e do videogame, estava o presente que eu havia lhe dado. Um miniatura do baixo que ele havia usado durante a turnê mundial em uma caixinha de vidro. Não havia sido nada fácil conseguir um presente tão legal em tão pouco tempo, mas, com um pouco mais de dinheiro e poder de convencimento, eu havia conseguido.
Não havia muitas pessoas na sala. Além de Calum e, claro, seus companheiros de banda, havia alguns outros amigos dele que eu não conhecia e pessoas que trabalhavam com a banda. Ele tentou me apresentar à todos, de um por um, mas depois de eu ameaçar contar para todos quantas vezes eu havia o derrotado jogando FIFA, ele desistiu da ideia.
Eu estava distraída, contanto à Celeste onde havia comprado o vestido preto que eu estava usando, quando senti um braço me envolver pelos ombros.
“Por que vocês duas estão aqui, afastadas de todo mundo, sendo antissociais?” Luke questionou.
“Papo de mulher, Hemmo, não queira saber,” brinquei.
Ele fez uma careta. “Tipo absorvente e essas coisas?”
Nós rimos e Celeste respondeu:
“Claro que não, Luke. Temos coisas mais importantes para falar do que isso. Por exemplo, estava me contando onde ela comprou esse vestido maravilhoso,” ela apontou para mim.
“Ahh,” ele respondeu.
Sem o menor pudor, Luke me mediu de cima a baixo. Percebi pelo olhar de Celeste que ela estava tão perplexa quanto eu.
Sentindo meu rosto esquentar, dei uma cotovelada em suas costelas e o empurrei para longe de mim.
“Hemmings, vá dar em cima de garotas da sua idade,” Calum se aproximou, pegando Luke pelos ombros e levando-o para longe dali.
“Nossa, é bem pior do que eu pensava,” Celeste comentou.
Olhei-a sem entender. “O quê?”
“Você e Luke,” ela respondeu, seu tom casual e sem muita emoção. Engasguei um pouco na cerveja e tossi.
“Do que está falando?”
“Você dois tem passado muito tempo juntos?” Perguntou.
Dei de ombros. “Algumas vezes, não muito tempo.”
Certo, eu estava mentindo descaradamente para ela e odiava isso. Mas a verdade é que eu não estava pronta para admitir para Celeste sobre os meus sentimentos. Sentimentos esses que eu ainda nem admitia para mim mesma.
“Vocês dois parecem um tanto íntimos,” comentou.
“Ele ficou aqui por 30 segundos, como pode dizer isso?” Se o meu rosto em chamas não me entregava, com certeza a minha voz esganiçada faria isso.
“Não sei, foi a impressão que eu tive.”
Quando eu não respondi ela continuou:
“Você sabe que pode me contar qualquer coisa, certo? E Jack não precisa saber de nada.”
“Não tem nada que ele precise saber,” dei de ombros.
“Certo. Bom, se algum dia houver, estarei aqui.”
Com isso, encerramos o assunto e eu relaxei um pouco, mas ainda assim sentindo a tensão em meus ombros começar a me incomodar. Quando ela se levantou para ir ao banheiro eu caminhei até Luke e o puxei pelo braço, nos afastando do grupo que ele conversava.
“Hemmo, você não pode fazer isso,” ralhei.
Ele me olhou, confuso. “O quê?”
“O jeito que você me olhou na frente de Celeste? Não faça mais isso,” insisti.
Ele levantou os braços, em sinal de rendição.
“Desculpa, não quis te deixar desconfortável.”
“Agora ela acha que pode estar rolando algo entre a gente e ela conhece o Tom! Tem noção da bagunça que isso pode causar?”
Luke segurou meus ombros, seu jeito de pedir que eu me acalmasse.
“Eu posso falar com ela, se quiser. Deixar claro que não existe nada entre nós,” ofereceu.
“Não precisa, eu já conversei com ela. Só… Pare.”
Ele mordeu o lábio para controlar o riso e assentiu.
“Se me permite dizer, você não torna as coisas fáceis para mim,” sussurrou.
Estreitei os olhos para ele. “O que quer dizer com isso?”
“Não pode ter saído de casa com esse vestido sem esperar enlouquecer metade dos caras nessa festa, .”
E lá estava ela de novo. A maldita honestidade de Luke que nunca falhava em me pegar de surpresa e me deixar sem reação. Não sei dizer por quanto tempo fiquei parada, apenas encarando seus olhos azuis que pareciam contemplar meu rosto, provavelmente corado, enquanto meu cérebro ainda ecoava suas palavras.
“Não pode continuar fazendo isso comigo, Hemmo,” murmurei.
Ele me olhou, sem entender.
Quando desviei meus olhos, encarando o chão, incapaz de continuar sustentando seu olhar intenso, ele tocou meu queixo e me fez encarar sua íris azul bebê, tão clara que eu podia ver minha tristeza refletida nela.
“Fazendo o que, ?”
Engoli em seco. “Fazendo com que eu sinta que estou traindo meu namorado quando estou com você.”
Dessa vez foi a minha confissão que o pegou de surpresa. Não pude deixar de notar que ele não reagiu imediatamente e que parecia procurar pelas palavras, perdidas em algum lugar detrás dos seus lábios.
Há dias eu tentava encontrar um motivo para eu me sentir daquela forma, sendo infiel ao meu namorado, mas a resposta era óbvia, eu só me recusava a admiti-la.
Quando eu percebi que Luke não iria dizer mais nada, apenas deixei-o sozinho com seus pensamentos e fui ao encontro de Celeste.
“Está tudo bem?” Ela perguntou, notando meu semblante.
“Hm, acho que sim. Só um pouco de dor de cabeça,” falei. “Vou ao banheiro.”
Enquanto caminhava até o outro cômodo, senti um olhar em cima de mim e não me surpreendi ao encontrar os olhos de Ashton seguindo meus movimentos. Entrei no banheiro, me sentindo extremamente incomodada pela forma como ele me olhava. Respirei fundo algumas vezes, encarando meu reflexo no espelho. Meu coração estava um pouco acelerado por conta da conversa com Luke, então me concentrei apenas em diminuir os batimentos de volta para o normal.
Alguns minutos depois, quando julguei estar bem o suficiente para encarar ao menos Celeste novamente, abri a porta do banheiro. Para minha surpresa, Ashton estava do lado de fora. Levei minha mão ao peito.
“Você me assustou,” confessei, com um sorriso amigável.
“Desculpe, não foi a minha intenção,” ele retrucou, seu tom era sério. “Podemos conversar?”
Não respondi de imediato, apenas o encarei, tentando decifrar sua expressão. Quando assenti, ele apontou para um quarto vazio que estava com a porta aberta.
Eu não fazia a menor ideia sobre que Ashton poderia querer conversar comigo, especialmente usando aquele tom de voz sério e expressão enigmática. Eu só podia assumir que era sobre Luke, já que ele era nosso único ponto em comum.
Olhei ao redor do quarto que entramos e notei que só poderia ser de Calum. Fotos suas com amigos e familiares estavam espalhadas por ali. A cama estava feita, mas longe de estar arrumada. Um baixo estava encostado na cômoda.
“Está tudo bem?” Questionei, cansada do silêncio.
Ashton hesitou por um segundo. “Não tenho certeza.”
Assenti, achando desnecessário dizer qualquer outra coisa. Ele havia me chamado para conversar, então só me restava esperar que ele dissesse de uma vez o que queria. Cruzei os braços, me sentindo desconfortável sob seu olhar.
“Olha . Eu sei que você conhece Luke e a família dele há muito tempo, mas eu também entendo que vocês dois nunca foram realmente amigos,” ele parou por alguns segundos e colocou a mão na nuca, claramente tão desconfortável quanto eu. “Eu notei que ultimamente vocês vem passando muito tempo juntos e parecem se dar muito bem.”
Ele pausou e eu fiquei sem entender o motivo.
“Hm, é… Nos damos bem,” confirmei, sem necessidade.
“Pra mim, Luke é como um irmão mais novo. Eu o conheci quando ele tinha 15 anos o vi crescer durante as turnês que fizemos, até ele se tornar o cara que é agora. Eu sei que ele pode parecer mais velho às vezes, mas ele só tem 19 anos. Ainda é um adolescente que, muitas vezes, se empolga demais com alguma coisa.”
“Desculpa, Ashton, eu não estou entendendo aonde quer chegar,” confessei.
“Eu quero dizer que ele é só um adolescente. Ele acha que sabe muito, mas ele não sabe nada ainda. A última vez que eu o ouvi falar tanto sobre uma garota, foi sua ex-namorada e ele ficou arrasado quanto eles terminaram.”
Caminhei até mais próximo dele e o encarei com toda a seriedade que consegui reunir. Ashton não baixou a guarda, apenas me encarou de volta.
“Não existe nada acontecendo entre mim e Luke. Eu tenho namorado.”
“E eu entendo isso, . Mas eu acho que Luke não compreende.”
“Claro que ele entende. Nunca escondi dele e já até conversamos sobre isso.”
“Então por que está deixando ele criar expectativas?” Seu tom agora era um pouco ofensivo e eu me senti atacada.
“Não estou deixando nada!” Quase gritei, atingindo meu limite de autocontrole. “Meu Deus, essa situação é ridícula. Ashton, eu tenho muito carinho por Luke e, acredite, me preocupo com ele. Nunca seria capaz de machucá-lo dessa forma.”
“Então eu acho que você deveria dar um passo pra trás e analisar a situação como um todo, porque Luke já está machucado,” A rispidez em sua voz fez com que eu quase quisesse resolver aquilo chutando as bolas dele.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Ashton me deixou sozinha no quarto. Sentei na cama e levei minhas mãos até o meu rosto. Eu queria gritar, apenas para aliviar a raiva que estava sentindo. Quem ele achava que era para falar daquela forma comigo?
?”
A voz de Luke soou de lado do fora do quarto e eu praticamente pulei da cama.
“O que está fazendo aqui? Celeste está te procurando,” ele entrou no quarto.
Assenti, as palavras de Ashton ainda ecoando em minha mente e me deixando sem palavras.
, está tudo bem?” O tom preocupado de Luke me chamou de volta para a realidade.
“Sim, estou bem,” me afastei um pouco quando ele se aproximou.
Saí do quarto sem nem ao menos conseguir olhá-lo nos olhos. Do jeito que eu estava, ele perceberia imediatamente que havia algo errado e eu não estava disposta a contar sobre minha conversa com Ashton. De volta na sala, sentei ao lado de Celeste que mexia no celular. Tentei colocar o meu melhor sorriso no rosto para que ela não percebesse nada e agradeci quando ela começou a contar sobre o final de semana em Queensland que estava planejando com Jack.
Pelo resto da noite eu evitei Luke. Toda vez que ele se aproximava, eu inventava uma desculpa e me afastava. Às vezes eu dizia que ia pegar outra cerveja, outras, fingia que queria falar com Cal ou Mike, qualquer coisa que me mantivesse distante dele. Evitar Luke não era fácil e ia contra minha própria vontade, mas as palavras de Ashton estavam gravadas em minha memória e o efeito delas era muito pior do que eu gostaria.
Quando eu e Celeste resolvemos ir embora, fui até Calum para lhe dar um último abraço e acenei de longe para Michael e Luke. Percebi o quão magoado Luke havia ficado por não ter ido me despedir dele, mas não ousei olhar pra trás enquanto sentia seus olhos seguindo meus movimentos.

Quando fechei a porta do meu apartamento, senti o alivio percorrer meu corpo. Nem me dei ao trabalho de trocar de roupa ou remover a maquiagem, apenas me joguei na cama, minha cabeça pesada e dolorida por causa da quantidade de pensamentos que a rondavam. Eu sentia como se tivesse enchido a cara, quando na verdade mal havia bebido.
Fechei os olhos e me permiti repassar a conversa com Ashton em minha mente, suas palavras duras me maltratando novamente. Eu estava mesmo machucando Luke? Estava, mesmo que de forma inconsciente, deixando que ele criasse expectativas? Mesmo depois de conversarmos sobre Tom, ele ainda esperava que algo acontecesse entre nós?
Eu não conseguia nem entender os meus sentimentos por ele, quanto mais saber o que ele pensava sobre a nossa relação. Recordei-me do dia em que falamos sobre a possibilidade de algo acontecer entre nós e como ele pareceu compreender que não havia a menor chance enquanto eu estivesse com Tom. Será que ele realmente entendia isso?
Era difícil para mim, acreditar que a conversa com Ashton havia realmente acontecido. Tudo parecia simplesmente surreal. O fato de ele achar que eu machucaria Luke de propósito fazia com um nó se formasse em minha garganta. Eu sabia que a intensidade da nossa relação só aumentava, assim como o laço que havíamos criado, e era justamente por isso que eu preferia me machucar à machucar Luke.
Meu celular apitou com uma nova mensagem e, assim que eu vi o nome de Luke na tela, desliguei o aparelho. Eu não estava preparada para falar com ele ainda. Primeiro eu precisava entender meus próprios sentimentos e parar de querer varrê-los para baixo da minha camada de medo.
Depois de um longo banho que ajudou a organizar meus pensamentos, peguei um caderno e uma caneta e deitei novamente na cama, pronta para colocar em palavras tudo que eu estava sentindo. Escrever sempre me ajudava a clarear a mente e entender a mim mesma. Eu odiava qualquer tipo de bagunça, mesmo que ela fosse interna.
Levou um total de trinta minutos para que eu tivesse três páginas cheias de frases e palavras aleatórias, mas que me ajudavam a compreender meus sentimentos. Reli tudo novamente, adicionando coisas aqui e ali e riscando por cima de outras.
Para minha surpresa, a campainha do apartamento soou, me distraindo da tarefa em mãos. Caminhei silenciosamente, sem acender a luz da sala, sem saber quem estava do outro lado da porta, até espiar pelo olho mágico e ver Luke ali. Com o celular nas mãos, ele digitava algo rapidamente e pela forma como estava inquieto, eu sabia que estava nervoso.
Eu fiquei ali, parada, minha mão na maçaneta, sem saber o que fazer. Luke tocou a campainha mais duas vezes antes de desistir e ir embora. Com a testa encostada na porta, eu finalmente consegui entender por que não consegui abri-la e encarar Luke. Ashton estava certo. Eu estava mesmo machucando ele.
Eu só não conseguia entender por que era eu quem estava sofrendo.


13.

Quatro dias haviam se passado desde o aniversário de Calum. Quatro dias de mensagens ignoradas por , idas até a casa dela e, por vezes, até esperá-la do lado de fora do prédio como um perseguidor. Ela nunca abriu a porta, mesmo quando eu sabia que ela estava em casa. Minhas noites de sono viraram madrugadas em branco e novamente eu me sentia como se estivesse com o pior jet lag que já enfrentei.
Não saber o que a motivou a me ignorar por completo estava me matando. Eu havia notado como seu comportamento mudou durante a festa de Calum e o seu súbito distanciamento, mas eu apenas assumi que ela não estava se sentindo bem no dia. Tentei até visitá-la depois da festa, mas depois de buzinar três vezes e ficar sem resposta, desisti e fui pra casa. Deixei mensagens e mais mensagens, mas ela nunca respondeu nenhuma delas.
Em um determinado momento, cheguei a cogitar ligar para Jack, apenas para perguntar sobre ela, mas isso resultaria muitos questionamentos vindos dele, especialmente o motivo de eu estar tão preocupado com ela. Eu não estava pronto para contar ao meu irmão que havia me apaixonado por sua melhor amiga. E que eu tinha quase certeza que ela também estava apaixonada por mim.
Era difícil me concentrar em qualquer coisa quando a minha mente repassava o tempo todo conversas que eu e havíamos tido, sempre procurando um motivo, algo que eu tivesse dito ou feito que a levasse a se afastar de mim. Será que eu falei algo que a magoou? Talvez a forma como a olhei durante a festa de Calum, a dura que ela me deu deixou claro o quão incomodada ela havia ficado.
“Luke?” A voz de Michael me puxou de volta par a realidade.
“Hmm,” o olhei, vendo suas sobrancelhas arqueadas. “Desculpa.”
Eu nem sabia por que estava me desculpando, mas pela sua feição e a forma como havia me chamado, assumi que houve outras tentativas de chamar minha atenção. Olhei ao redor da sala onde estávamos e notei que Cal e Ashton não estavam mais ali.
“Terra chamando, cara,” ele riu.
Forcei um sorriso. A verdade era que eu nem queria estar ali.
Estávamos na casa que Mike e Cal estavam dividindo, tentando passar para o papel algumas ideias que estávamos tendo para a próxima turnê. Eles estavam completamente concentrados e tendo ideia atrás de ideia, mas o mesmo não podia se dizer sobre mim. Minha cabeça estava uma bagunça e era difícil eu me concentrar em qualquer coisa.
“Ela ligou?” Michael questionou.
Encarei a tela do celular, já sabendo que não havia nenhuma chamada perdida de ninguém. Muito menos dela.
Balancei a cabeça. “Não sei mais o que fazer.”
Mike assentiu, mas não disse nada.
Calum e Ashton voltaram para sala com algumas cervejas nas mãos e um prato cheio de mini pizzas. Aceitei a cerveja, mas preferi declinar as pizzas, não estava com a menor fome.
“Estão falando sobre o quê?” Calum perguntou, sentando ao meu lado.
Dei de ombros, mas Michael sussurrou algo sobre .
“Vou tentar ligar pra ela de novo,” Calum se ofereceu, celular já em mãos.
“Não precisa, ela já deixou bem claro que não está disposta a falar com qualquer um de nós.”
Pelo canto do olho pude ver Michael e Calum olharem para Ashton e fazerem uns gestos estranhos em minha direção. Ashton balançou a cabeça, sua expressão indo de neutra para irritada. Franzi minhas sobrancelhas.
“Qual o problema?” Indaguei.
“Nada,” Ashton respondeu prontamente. Seus olhos iam de Calum para Michael, quase que desafiando-os a dizer alguma coisa.
“Ashton,” Calum resmungou.
“Deixa esse assunto pra lá, Cal,” Eu nunca havia visto Ashton usar esse tom de voz com nenhum nós.
Levantei e o encarei.
“Que merda está acontecendo?”
“Fala logo, Ash,” Michael implorou.
“Me falar o quê?” Minha voz já estava alguns oitavos mais alta do que o normal.
Ashton estreitou os ombros, parecendo mais tenso que antes, e suspirou antes de começar a falar.
“Não fique bravo, ok? Eu só estava tentando ajudar,” ele se justificou, antes mesmo de dizer o que estava acontecendo.
Foi ali que eu soube que tinha algo haver com o sumiço de . Eu não fazia ideia do que ele poderia ter feito, mas algo me dizia que eu não ia gostar nada do que ele estava prestes a me contar. Respirei fundo e aguardei que ele continuasse.
“Eu conversei com durante a festa de Calum.”
Meus punhos já estavam prontos para socar a parede, mas mantive o meu controle e apenas o encarei.
“O que você disse à ela, Ash?”
“A verdade! Luke, você está louco por essa mulher e, apesar de ter namorado, ela fica te dando esperanças!”
“Caralho, Ashton, ela não me dá esperanças. Acha mesmo que eu sou tão idiota assim? Eu sei que não tem a menor chance de rolar nada entre a gente enquanto ela estiver namorando. Nós conversamos sobre isso!”
Ele bufou. “Então por que ainda está correndo atrás dela? Está se machucando à toa!”
Nossas vozes elevadas, provavelmente já estavam sendo ouvidas do lado de fora da casa, mas eu não me importava. Calum e Michael apenas nos observavam, mas eu sabia que eles se intrometeriam imediatamente, caso passássemos dos limites.
“A única coisa que está me machucando é saber que o meu melhor amigo pediu para a mulher, pela qual eu estou apaixonado, se afastar de mim.” Confessei.
Nos encaramos por um tempo. Ambos com expressões de raiva em nossos rostos. Eu podia ver a veias no pescoço dele saltadas e seus ombros ainda tensos.
Ashton respirou fundo algumas vezes e então sua expressão se acalmou. Ele assentiu.
“Certo, eu fiz besteira,” admitiu. “Desculpe, nunca quis afastar vocês dois. Só estava tentando te proteger. Não deveria ter me intrometido.”
“Não mesmo,” falei, ainda irritado.
“Espero que você saiba o que está fazendo, Luke,” Ashton insistiu.
“Eu sei, Ash.”
Olhei para Michael e Calum sentados no sofá e agora me lançando olhares culpados por terem escondido aquilo de mim. Xinguei por baixo folego e saí da casa batendo a porta com força.
Caminhei pela rua vazia, sem prestar muita atenção para onde estava indo. Eu só precisava ficar sozinho um pouco e processar o que Ashton havia acabado de me contar. Eu queria gritar, ou socar alguma coisa, precisava de algo que me ajudasse a aliviar a fúria que ainda estava sentindo, mas não havia nada e nem ninguém que pudesse me ajudar.
Minhas pernas me levaram para uma ruazinha cheia de lojas e restaurante e eu caminhei mais um pouco, sem prestar atenção em nada. Duas fãs me pararam e pediram fotos e eu fiz o possível para ser simpático e forçar um sorriso para a câmera do celular. Quando esfriei mais a cabeça, acenei para um táxi que passava e entrei no automóvel, dando o endereço de ao motorista.
Durante o caminho até o apartamento dela, tentei ligar para seu celular novamente, mas a única voz do outro lado da linha foi a da caixa postal. Resolvi deixar uma mensagem.
, sou eu. Ashton me contou o que aconteceu na festa de Calum. Ele foi um imbecil. Por favor, pare de me ignorar. Estou à caminho do seu apartamento agora.”
Desliguei, torcendo para que ela ouvisse a mensagem. Eu havia falado tudo tão rápido que era possível que ela nem entendesse tudo.
Quando o carro parou na frente do prédio dela, peguei o dinheiro na carteira e entreguei ao motorista, saltando do carro rapidamente. Entrei, já pensando em pegar as escadas, sem paciência para esperar elevador, mas então ouvi a voz do porteiro.
“Ela não está aí,” falou.
Parei onde estava e me virei para olhá-lo. Eu já havia visto o senhor de cabelos brancos e sorriso simpático algumas vezes, mas fiquei surpreso por ele me reconhecer.
“Ela saiu há uns 10 minutos com um rapaz que parece muito com você.”
Jack.
Passei a mão pelos cabelos, perdido, tentando pensar no que fazer. Eu poderia esperá-la, mas não fazia ideia de quando ela iria voltar e corria o risco de parecer realmente um perseguidor.
“Posso avisar à ela que esteve aqui,” o porteiro ofereceu.
Sorri, grato. “Hm, não precisa. Vou ligar para ela.”
Voltei para a rua e caminhei mais um pouco enquanto encarava todas as últimas chamadas não atendidas por na tela do meu celular. Eu não sabia para quem ligar, para quem pedir ajuda. Somente os meus companheiros de banda sabiam sobre os meus sentimentos e eu estava chateado demais com eles para dar o braço a torcer e pedir conselho. Então resolvi ligar para Jack, nunca pediria para que ele me ignorasse.
“E aí, irmão?” Ele atendeu, animado.
“Oi!” Respondi, ainda tentando inventar uma desculpa para descobrir onde ele estava. “Está em casa?”
“Não. Por quê?”
Certo, péssima estratégia.
“Eu… Ia passar pra conversarmos. Nada importante,” garanti.
Olhei para os lados antes de atravessar a rua, meu cérebro trabalhando pesado para me ajudar.
“Está perto do seu apartamento?” Tentei novamente.
“Nem um pouco. Estou no Sandpit,” falou, se referindo a um restaurante famoso.
Quase fiz uma dancinha da vitória como a de Calum quando ganha no videogame, mas me controlei. Acenei para um táxi que passava.
“Aquele bar em Bondi Beach?” Perguntei, apenas para me certificar.
“Durante o dia ele é mais como uma cafeteria, mas sim.”
“Certo, bom, eu passo no seu apartamento amanhã, então,” falei, sem intenção alguma de visitá-lo.
“Está tudo bem? Você parece um pouco agitado,” seu tom mudou para irmão mais velho preocupado e eu sorri com a constatação.
“Está tudo bem, Jack,” desconversei. “Te vejo amanhã, irmão.”
Vendo o valor do taxímetro subir, comecei a pensar no tanto de dinheiro eu estava gastando com todas aquelas corridas de táxi. Eu realmente precisava começar uma autoescola o quanto antes.
Eu já havia visitado Bondi Beach muitas vezes, mas aquele lugar nunca cansava de tirar meu folego. A vista era sempre incrível e as praias pareciam te chamar. Sandpit era um bar muito famoso por causa da incrível vista para a praia.
Assim que saí do táxi, me surpreendi ao ver Celeste também chegando. Ela me encarou, confusa e esperou para que eu a alcançasse.
“O que está fazendo aqui?” Perguntou, sem rodeios.
Fiquei a olhando, sem conseguir pensar em nenhuma desculpa boa o suficiente.
“Luke, está aqui por causa de ?” Seu tom era um tanto maternal e isso fez com que eu relaxasse um pouco.
“Talvez,” confessei.
“Como você soube?” Perguntou.
Assumi que ela estava perguntando como eu soube que estava ali, então dei de ombros.
“Jack me contou.”
Celeste pareceu um pouco confusa e se mexeu desconfortavelmente.
“Jack te falou?” Repetiu, sua voz revelando surpresa.
Assenti, sem entender sua confusão.
“Luke, não sei se é uma boa ideia você ir lá dentro.”
“Por que não? Eu preciso falar com ela,” me defendi.
“Eu entendo, Luke, mas ela está muito frágil nesse momento. Terminar com Tom não foi nada fácil e, por mais que ela precise de amigos agora, ela provavelmente não sabe que Jack te contou e pode não gostar disso.”
Encarei a minha cuinhada em completo choque. Assim que ela decifrou a minha expressão, percebeu que tinha falado demais.
“Merda! Você não sabia do término.”
Sacudi a cabeça. “Quando?”
“Ontem. Ela nos ligou de noite e parecia muito abalada, então Jack achou que pudesse ser uma ideia tirá-lo do apartamento um pouco.”
Caminhei em volta de Celeste, pensando no que deveria fazer. Quando fiz menção de entrar no bar, ela segurou meu braço.
“Não é uma boa ideia, Luke. Ela precisa de um tempo para si mesma.”
Bufei. “Mas Jack está lá!”
Eu estava errado e sabia que não deveria estar lá, mas eu queria uma explicação. Precisava vê-la com meus próprios olhos.
“Jack é o melhor amigo dela, você sabe disso.” Ela me puxou um pouco, nos afastando da entrada. “Olha, eu não sei o que está acontecendo entre vocês, nunca me contou nada, mas eu vejo o jeito como vocês se olham. Eu conheço há muito tempo, sei que ela nunca trairia o namorado e que ela estava investida na relação com Tom até você aparecer. Agora ela precisa de um tempo. Ela está chateada e eu não acho que apreciaria a sua presença aqui. Dê um pouco de espaço à ela, ok?”
Mirei Celeste por alguns instantes, absorvendo suas palavras, uma por uma. Não consegui dizer nada, apenas assenti e me viei para ir embora, atordoado demais para continuar a conversa. Pela segunda vez no dia eu comecei a caminhar sem rumo. Bondi Beach estava cheia, como sempre, muitos turistas e locais aproveitando calor e a beleza da praia. Fui parado algumas vezes por fãs, mas não prestei muita atenção à nada, meus movimentos robóticos já meio automáticos. Em um determinado momento, resolvi tirar o tênis e caminhar pela areia.
Quando meus pés começaram a doer, resolvi sentar um pouco na areia e observar o mar. A turbulência em minha cabeça era impossível de controlar. A pergunta que mais me intrigava era; por que havia terminado com o namorado?
Por mais que eu gostasse de pensar que havia sido por minha causa, eu sabia que a relação deles não estava indo bem. Ela estava em meu apartamento no dia que a ouvi gritar no telefone com ele, palavras duras que mostravam que a relação estava longe de ser perfeita. Fui eu quem a confortou enquanto ela chorava até adormecer e tudo que eu queria era sanar sua dor.
Me apaixonar por havia sido fácil. Eu me sentia confortável com ela, nos dávamos bem, ela tinha uma personalidade fácil e amigável. Ela sempre teve um jeito forte e independente, mesmo na adolescência, eu me lembrava de sua popularidade, resultado da forma como ela conquistava todos a sua volta. Com as coisas iam muito além da sua beleza física, era o modo como ela fazia você se sentir. Desde a noite que eu a encontrei naquela balada, logo depois de voltarmos para a Austrália, ela sempre fez com que eu sentisse como se pudesse ser sempre eu mesmo com ela. Talvez por nos conhecermos há tanto tempo, eu sabia que ela me conhecia por inteiro, o Luke de antes da fama, desajeitado e deslocado, e o Luke de agora.
No final das contas, tudo me levava a um só pensamento; estar com era como estar em casa, no meu lar.
Depois de parar para comer alguma coisa em um restaurante qualquer, decidi seguir para casa. Fiquei tentado à passar no Sandpit novamente, apenas para saber se , Jack e Celeste ainda estavam lá, mas se eles me vissem, as coisas ficariam complicadas.
Ficar em casa sozinho e sem fazer nada, não ajudou a aquietar a minha agonia. Cheguei a digitar seis mensagens diferentes para , mas deletei todas elas antes de enviar. Pensei também em ligar para Calum, para me distrair um pouco, mas o fato dele e Michael terem escondido de mim o que Ashton havia feito, ainda estava me aborrecendo.
À nove da noite, depois de tomar banho, assistir qualquer porcaria na TV, jantar e digitar mais algumas mensagens, que foram prontamente deletadas, para , me dei por vencido. Novamente, tentei ligar para e mais uma vez sua caixa postal foi a única que me atendeu. Pela segunda vez no dia, peguei um táxi rumo à sua casa.
O porteiro do prédio ainda era o mesmo de mais cedo. Ele apenas acenou e me deixou subir. Peguei as escadas e subi os degraus de dois em dois, chegando no andar de completamente ofegante. Toquei a campainha e esperei pacientemente.
, por favor, abre a porta. Nós precisamos conversar.”
Tentei manter a minha voz o mais quieta possível, sem querer incomodar os vizinhos do outro lado do corredor.
O apartamento dela estava silencioso, então me aproximei ainda mais da porta.
, por favor. Me evitar não vai adiantar de nada. O que o Ashton falou… Nada daquilo é verdade. Eu só quero falar com você, ouvir a sua voz. Não saber se você está bem, está me matando.”
Quase um minuto se passou e nenhuma resposta. Caminhei de um lado para o outro no corredor, tentando pensar em algo para dizer, qualquer coisa que a fizesse abrir a porta.
Encostei minha testa na porta e decidi tentar uma última vez.
“Eu sei que você terminou com o Tom,” sussurrei.
O barulho do outro lado da porta foi tão baixo, que se eu não estivesse tão próximo e o local tão quieto, eu poderia pensar que meus ouvidos estavam me pregando uma peça. Esperei um pouco, talvez algum outro barulho que me dissesse que ela estava ali, mas não ouvi mais nada.
Caminhei até o elevador e pressionei o botão para chamá-lo até o andar, todas as minhas esperanças de vê-la, indo embora. Encarei a porta fechada até o elevador apitar, me informando que havia chegado.
Eu estava prestes a entrar e descer, quando aconteceu. Congelei no meu lugar e observei a maçaneta virar lentamente e porta se abrir, revelando .


14.

A hora que eu mais havia temido, finalmente chegara. Desde o momento em que eu entrei no avião no Heathrow Airport, prometi para mim mesma que iria evitar isso e lutar pelo meu relacionamento com tudo de mim. Bem, claramente eu havia falhado.
A conversa com Tom no Skype se estendeu por mais de 3 horas. Nenhum de nós dois parecia disposto a encarar o que estava acontecendo, apesar de sabermos que era a melhor decisão a se tomar. A nossa relação não era mais a mesma desde que eu anunciei, ainda em Londres, que voltaria para a Austrália. De qualquer forma, era muito difícil aceitar que nós não seriamos mais um casal, todos os planos que fizemos para o futuro, escapando por entre nossos dedos.
Por três longos dias eu planejei a conversa. Assim que eu voltei da casa de Calum, eu tive certeza do que precisava ser feito, mas nada podia me preparar para o quão difícil seria terminar um relacionamento de um ano com uma pessoa a quem eu ainda tinha tanto carinho e respeito. Se alguém me perguntasse, seis semanas atrás, como eu me via em cinco anos, a resposta com certeza envolveria Thomas. Agora ele começava a fazer parte do meu passado e eu não fazia ideia do que me aguardava no futuro.
Imediatamente após desligar a ligação com Tom, liguei para Jack. Eu estava tão acostumada a dividir toda a minha vida com ele que não foi fácil esconder parte do motivo do término. Como eu poderia falar em voz alta algo que eu ainda não admitia para mim mesma? Como explicar algo algo que nem eu compreendia?
Durante toda a minha vida, eu sempre gostei de ter tudo planejado. Sempre fui a certinha do grupo – sem ser careta,- mas aquela que gostava de estar preparada para qualquer coisa que pudesse acontecer. Eu gostava de seguir regras e saber para onde a vida estava me levando. Eu nunca me impedi de aproveitar as experiencias e fazer o que eu gostava, ser certinha tão significa ser chata. Claro que ter Jack como meu melhor amigo, ajudou bastante. Sempre que eu começava a ficar muito paranoica ou ansiosa ele estava lá com a mão estendida e pronto para me dar o empurrão que eu precisava.
Depois de prometer para Jack e Celeste que eu não ficaria trancada no apartamento, sofrendo, eles me deixaram desligar o telefone. Eu ainda me sentia atordoada, mas ao mesmo tempo, mais leve, como se o peso do mundo tivesse saído das minhas costas. Eu me permiti chorar um pouco, lamentar o fim do meu relacionamento e tudo que eu Tom vivemos ao longo dos meses. Acordar no dia seguinte fora mais difícil do que eu pensei. Eu me sentia vazia, como se houvesse algo faltando dentro de mim e eu não conseguia entender o que era. Jack me convidou para passar a tarde em Bondi Beach e eu prontamente aceitei. Seria bom respirar um ar fresco e apreciar a belíssima praia tão famosa em Sydney.
No restaurante, evitamos falar sobre Tom. Eu sabia que Jack estava curioso e queria saber mais sobre o que me motivou a terminar, mas ele não perguntou nada, apenas respeitou o meu momento, como sempre fizera.
Passamos a tarde conversando, bebendo e apreciando a vista. O céu estava limpo e o sol brilhava forte. Estar com Jack e Celeste sempre fazia com que eu me sentisse à vontade, eles eram uma família para mim. Por alguns instantes eu até me permiti esquecer a minha dor. Claro que, ao chegar a casa, a realidade me acertou como um tapa na cara. Ainda haviam fotos de Tom pelo apartamento e o tablet que eu usara para conversar com ele ainda estava na mesma posição desde o dia anterior.
Observei os porta-retratos espalhados pela sala, momentos diferentes que eu e Tom passáramos juntos. Um deles foi no primeiro dia que nos conhecemos, na casa de um amigo em comum. Outra mostrava a nossa comemoração de seis meses de namoro, uma viagem à Itália. A última era a minha favorita. Ela havia sido tirada no meu último aniversário, na Irlanda, estávamos com dois casais de amigos. No meu quarto eu sabia que ainda havia mais uma, nós dois, Jack e Celeste, na última vez em que eles foram até Londres.
Caminhei pelo apartamento por alguns minutos. Estar sozinha e sem nada para fazer me deixava ansiosa e me fazia pensar demais em coisas desnecessárias. Assistir um filme e fazer o jantar também não haviam aliviado a minha ansiedade. Depois de um longo banho, coloquei um short de moletom antigo e, de alguma forma, me vi com a camisa de Luke em minhas mãos, a mesma que ele havia me emprestado no dia em que cuidamos de Zoe. Depois de vesti-la, me olhei no espelho. Claro que ela era grande demais, tanto em largura, quanto em altura, já que batia no meio das minhas coxas, mas eu não podia estar mais confortável.
Deitei na cama com um livro e tentei me concentrar nas palavras que lia, mas o esforço era em vão. Até o silêncio no apartamento me distraia. Um barulho quase inaudível vindo da sala chamou a minha atenção. Sentei na cama e prestei atenção, só então me dando conta que era o meu celular. Eu havia o esquecido no sofá desde saíra com Jack e Celeste, não quis levar o celular para evitar qualquer ligação.
Desbloqueei a tela e vi que haviam algumas chamadas perdidas e uma nova mensagem na caixa postal. O celular começou a tocar novamente e eu vi o nome de Luke na tela. Ignorei a ligação e li a mensagem que Celeste havia enviado mais cedo. Respondi rapidamente, tranquilizando-a e reafirmando que não estava sofrendo e chorando sozinha. Depois liguei par a caixa postal para ouvir a mensagem deixada algumas horas antes.

, sou eu. Ashton me contou o que aconteceu na festa de Calum. Ele foi um imbecil. Por favor, pare de me ignorar. Estou à caminho do seu apartamento agora.


Sentei no sofá e fechei meus olhos. A voz de Luke continha tanta dor e emoção que eu senti meu coração acelerar. Considerei retornar suas ligações, mas ao invés, desliguei o celular.
Antes que eu pudesse voltar para meu quarto, a campainha soou pelo apartamento. Imaginei que fosse Jack ou Celeste, querendo se certificar que eu estava bem, então caminhei até a porta e olhei pelo olho mágico. Para minha surpresa, era Luke quem estava do outro lado.
, por favor, abre a porta. Nós precisamos conversar.”
O contraste da quietude da sua voz e o desespero contido nela me doeu mais do que eu esperava. Eu queria abrir a porta. Mais do que isso, eu quero vê-lo, sentir seus braços me confortando e suas palavras carinhosas que sempre faziam com que eu me sentisse melhor.
, por favor. Me evitar não vai adiantar de nada. O que o Ashton falou… Nada daquilo é verdade. Eu só quero falar com você, ouvir a sua voz. Não saber se você está bem, está me matando.”
Mordi meu lábio e suspirei. Minhas mãos estavam pressionadas contra a porta e eu mantive meus olhos fechados, sabendo que seria difícil evitar as lágrimas se eu os abrisse.
Um minuto de silêncio se passou antes de ele falar novamente.
“Eu sei que você terminou com o Tom,” ele sussurrou.
Com o susto que suas palavras me causaram, dei um passo pra trás e senti meu joelho estalar. Encarei a porta fechada, sem saber o que fazer a seguir. Será que Jack ou Celeste haviam lhe contado sobre o término? Por que eles contariam algo tão pessoal, especialmente depois que eu lhes pedi para não comentar com ninguém?
Esperei alguns segundos, apenas por esperar. Sabia que em algum momento teria que encará-lo e conversar. Pelo olho mágico eu vi a luz do elevador, indicando que ele estava no meu andar. Então eu virei a maçaneta e abri a porta.
A expressão no rosto de Luke foi da mágoa para o alivio. Até mesmo na pouca luz do corredor, eu pude reparar que a sua aparência não era das melhores. Olheiras ornavam a área dos seus olhos e seu cabelo, sempre tão cuidadosamente penteado, estava uma bagunça. E mesmo assim, sua beleza ainda era estonteante.
“Oi,” consegui falar.
“Oi.”
Ele ainda estava parado no mesmo lugar, com a porta do elevador aberta, sem saber o que aconteceria a seguir. Fiz um gesto para avisá-lo de que ele podia entrar e, com poucos passos, ele diminuiu a distancia entre nós.
Fechei a porta do apartamento e me virei, encontrando Luke me encarando. Ou melhor, encarando a camisa que eu usava. A camisa dele que eu usava. Vi um sorriso minusculo surgir em seus lábios e senti um certo arrependimento por ter escolhido aquela peça de roupa justo naquela noite.
“Como você descobriu?” Indaguei, curiosa para saber qual dos meus amigos eu teria que matar.
Luke colocou as mãos nos bolso da calça e deu de ombros. “Não importa.”
Pra mim importava, mas preferi não insistir.
“Por que me ignorou por tanto tempo, ?” A mágoa em sua voz era clara. “Sabe que nada daquilo que Ashton disse é verdade.”
Suspirei. “Hemmo, nós dois sabemos que tudo que ele disse é verdade. Pra ser sincera. eu me sinto grata por ele ter tido a coragem de falar na minha cara. Eu precisava ouvir tudo aquilo.” “E você achou que me ignorar era a solução? Que ia fazer com que eu sofresse menos?”
“Então você admite que estava sofrendo? Eu estava mesmo te machucando.”
Luke balançou a cabeça, agora um pouco irritado com o rumo da conversa. “Esse não é o ponto, . Eu não sou uma criança. Eu sabia que você tinha namorado e que nada ia acontecer entre a gente.”
“Então por que continuou insistindo? Por que ficou flertando comigo se sabia que eu tinha alguém?” Essa pergunta martelava na minha cabeça desde a conversa que tivemos na minha cozinha, na manhã seguinte a nossa noite de brownies de maconha.
“Porque eu estava me apaixonando por você e queria que você sentisse o mesmo por mim!”
Suas palavras me atingiram como a força de um soco, direto nos meus pulmões, fazendo com que fosse difícil manter a minha respiração calma. Nos encaramos por alguns segundos, sem saber o que dizer. Luke suspirou profundamente e mexeu no cabelo, demonstrando novamente sua frustração.
“Desculpe por ter te ignorado,” sussurrei. “Eu pensei que as coisas fossem melhorar se nos mantivéssemos afastados.”
“Você não precisava ter ignorado Cal também. Ele ficou realmente magoado.”
Assenti. “Eu sei. Vou ligar para ele manhã e me desculpar.”
Sentei no sofá e Luke fez o mesmo, sentando um pouco mais afastado do que eu gostaria. Ele me observou por alguns segundos.
“Como está se sentindo? Eu sei que terminar um relacionamento nunca é fácil.”
“Estou levando, eu acho. Você viu em primeira mão que eu e Tom estávamos tendo muitos problemas. Fomos tolos por achar que namorar a distancia daria certo.”
“Sinto muito,” ele ofereceu e eu sorri, agradecida.
Um flash de Celeste chegando ao Sandpit, seu rosto corado e sua expressão preocupada, piscou diante dos meus olhos. Agora eu entendia o motivo. Ri, sem emoção e Luke me olhou, confuso.
“Foi Celeste, não foi? Ela te contou.”
“Não foi por mal. Ela achou que eu já soubesse.”
“Você foi até Bondi hoje,” não foi uma pergunta, mas ele concordou.
Quando Jack atendeu o celular mais cedo, eu achei que estivesse conversando com Ben, o mais velho dos irmãos Hemmings, mas agora eu percebia que era Luke do outro lado da linha, provavelmente tentando saber onde nós estávamos.
“Por que você abriu a porta pra mim?” Luke perguntou, parecendo um pouco tímido por deixar a curiosidade falar mais alto.
Ele não estava me olhando, seus olhos azuis estavam fixos no chão e, pra variar, seus dentes brincavam com o piercing em seu lábio, me fazendo perceber que eu havia sentido falta de vê-lo fazer aquilo.
Suspirei. “Eu não sei.”
Puxei minhas pernas para mim e abracei meus joelhos.
“Acho que eu só queria ter certeza que você sabia que eu estava bem.”
Luke soltou uma risada sarcástica. “Você faz muito isso, sabe?”
“Isso o quê?”
“Essa coisa de dizer que está bem, quando não está realmente bem,” ele me olhou com um sorriso.
“Como pode ter tanta certeza de que eu não estou bem, Hemmo?”
Ele não respondeu imediatamente, manteve o sorriso no rosto e olhou para minha mão que descansava sobre a almofada do sofá. Luke se aproximou um pouco mais de onde eu estava sentada e pegou minha mão na sua, entrelaçando nossos dedos. Sua mão estava quente e era, definitivamente, muito maior do que a minha. Por alguns instantes ele pareceu alheio a qualquer outra coisa que não fossem nossas mãos, seus dedos brincando com os meus e seu polegar fazendo um carinho gostoso.
Eu suspirei audivelmente e isso pareceu chamá-lo de volta para nossa realidade.
“Ainda não acredita quando eu digo que sou um bom amigo, não é? Bons amigos prestam atenção.”
Ofereci um sorriso ao invés de uma resposta. Seus olhos se desviaram dos meus e olharam ao redor da sala, parecendo reparar pela primeira vez nos porta-retratos. Ele encarou cada uma das fotos por alguns segundos e eu acabei fazendo o mesmo.
Olhar as fotos agora era diferente de antes. Elas sempre estiveram lá, desde a mudança para Sydney, mas eu sentia que o significado delas havia mudado de alguma forma. Eu não conseguia evitar sentir um certo vazio ao olhá-las, mas ao mesmo tempo ficava feliz de tê-las, de saber que aquelas memórias eram minhas e que eu sempre as teria.
Apertei sua mão levemente e ele me olhou.
“Acho que elas me confortam de alguma forma. Me ajudam a perceber que o que tivemos foi real e, enquanto durou, foi ótimo. Será que sou maluca por pensar assim?” Brinquei.
Luke riu, mas balançou a cabeça. “De forma alguma. Cada um lida com suas dores de forma diferente.”
Virei-me para ele, sentando agora ainda mais perto. Nossas mãos ainda estavam entrelaçadas entre nós dois no sofá.
“Como se tornou tão sábio, Hemmo? Deve mesmo ser muito bom ter alguém assim como amigo,” brinquei.
Luke chegou a abrir a boca para dizer algo, mas então suspirou. Estreitei meus olhos para ele e vi que sua reação imediata foi ficar um pouco sem graça.
“O que ia dizer?” Questionei, reparando que o que quer que fosse era importante para ele.
“Nada. Esquece,” pediu.
“Então aquele papo de bom amigo só serve pra você? Também posso ser uma boa amiga, sabe?” Apesar do meu tom brincalhão, eu estava falando sério.
Luke riu e descansou a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto por alguns segundos antes de me olhar.
“Esse é o problema, ,” ele soltou a minha mão e se virou de frente para mim. “Não quero ser só seu amigo, você sabe disso.”
O que eu poderia dizer diante daquela declaração? Como admitir em voz alta que eu também não o queria apenas como amigo. Que a nossa relação havia deixado de ser apenas de amizade há algum tempo, mesmo antes de eu terminar com Tom? Falar isso em voz alta mudaria tudo, tornaria aquilo real e com meu término tão recente, meu coração estava completamente dividido. Parte de mim ainda sentia tanta culpa por ter me apaixonado por Luke enquanto havia outra pessoa na minha vida e isso me prevenia de me entregar à ele.
Senti o toque de Luke em meu rosto e só então percebi que ele estava enxugando uma lágrima que havia escapado. Pisquei algumas vezes, tentando me livrar das outras lágrimas que já estavam se acumulando em meus olhos.
“Você pode chorar o seu término, . Não precisa se fazer de durona o tempo todo,” ele comentou, seu tom brincalhão.
“Essas lágrimas não são pelo término, Hemmo,” admiti.
Com as sobrancelhas franzidas, ele me olhou, confusão clara em sua expressão. “Por que, então?”
Levantei-me do sofá e caminhei pela sala, dando as costas para Luke ao perceber que outra lágrima corria por minha bochecha. Meus pensamentos estavam bagunçados e, enquanto meu coração me dizia uma coisa, meu cérebro dizia outra.
Antes que eu pudesse responder sua pergunta, Luke se levantou e caminhou até mim.
“Fale comigo, por favor,” pediu. “Ver essa expressão no rosto sem saber o que está pensando, está acabando comigo. Eu só quero te ajudar, .”
Suspirei. “Esse é o problema, Luke. Sua presença aqui...”
Como eu poderia explicar que ter ele ali só me fazia querer chorar mais e me deixava ainda mais confusa do que eu estava. Isso o magoaria novamente, e era a última coisa que eu poderia fazer naquele momento.
“Talvez seja melhor você ir embora,” sussurrei.
“Você não deve me conhecer tão bem se acha que eu iria embora e te deixaria aqui assim,” ele respondeu. “Não vou deixar que você me ignore de novo.”
“Hemmo, por favor,” implorei.
Luke segurou meu rosto e fez com que eu encarasse seus olhos azuis, agora num tom tão claro que eu me via refletida neles. Era tão fácil saber o que ele estava pensando, ele era bom em se comunicar com o olhar.
“Eu vou embora,” falou. “Mas só se você me disser por que está chorando. Se não for pelo seu término, então tem algo mais te afligindo.”
“Hemmo, foi só uma lágrima estúpida! Eu estou bem,” insisti.
Eu deveria saber que ele não desistiria tão fácil. Não era esse um dos motivos que fizeram com que eu me apaixonasse por ele?
Com um suspiro frustrado, Luke soltou meu rosto e se afastou um pouco. Ele continuou me encarando, seus olhos percorrendo meu rosto em busca de qualquer indicação do que eu pudesse estar escondendo dele.
“Achei que tivesse dito que seria bom ter um amigo como eu,” resmungou.
Não pude deixar de rir, mas completamente sem emoção e agora também frustrada como ele.
“E eu achei que você não quisesse ser meu amigo,” respondi no mesmo tom. Luke não conteve o sorriso e caminhou até mim novamente, dessa vez segurando meu rosto com as duas mãos.
“Você não entendeu ainda, Stone. Eu serei o que você precisar que eu seja.”
A urgência em sua voz me pegou de surpresa. Meu coração batia completamente fora do controle, em parte pela declaração, mas também por conta da nossa proximidade. Nossos rostos tão perto que eu podia quase contar seus cílios.
“Não faz isso comigo, Hemmo. Você só está tornando tudo isso mais difícil pra mim. Você com esses seus olhos e tudo que você fala...”
Segurei seus pulsos e o afastei um pouco de mim.
“Não consegue entender que o motivo dessas lágrimas é você?” Perguntei, finalmente deixando que meu coração ganhasse e minhas lágrimas escapassem sem controle. “É você e tudo que você me causa, toda a confusão que você causou na minha vida e a forma como fez com que eu me apaixonasse por você.”
Dessa vez foram as minhas palavras que pareceram pegá-lo de surpresa. Em meio a minha visão embaçada pelas lágrimas, senti seus braços ao redor de mim, me segurando com força, enquanto ele depositava beijos em meus cabelos. Finalmente me permiti chorar tudo que precisava, me sentindo confortável para fazê-lo em seus braços.
Depois do que pareceram horas, Luke se afastou, apenas o suficiente para tocar meu queixo e fazer com que eu o olhasse nos olhos. Suas órbitas azuis não negavam sua satisfação, provavelmente causada pela minha declaração. Seus olhos percorreram meu rosto, demorando um pouco mais em meus lábios. Ele enxugou algumas lágrimas que ainda escapavam e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, seu toque tão delicado que um suspiro inconsciente saiu por minha boca.
Fechei meus olhos por um segundo, apenas aproveitando a sensação de tê-lo tão perto. Meu coração batia com tanta força que senti um medo irracional de que ele pudesse ouvi-lo. Quando abri meus olhos, encontrei o rosto de Luke ainda mais perto do meu. Sua respiração tocando minha pele e fazendo com que um arrepio percorresse meu corpo.
Por um milésimo de segundo meu cérebro comandou que eu me afastasse, mas então seu nariz tocou o meu e eu soube que estava completamente entregue à ele.
Eu não saberia explicar o que aconteceu à seguir. Num segundo seus lábios tocaram os meus, tão de leve que eu pensei ter sido a minha imaginação, no segundo seguinte Luke se afastou, seus olhos me observando com atenção enquanto ele caminhava até a porta e então me deixava sozinha em meu apartamento, meu coração batendo fora de controle e minha mente tão enebriada que eu me sentia tonta.





Continua...



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