FFOBS - Broken Words, por Fernanda Gonçalves

Finalizada em: 10/11/2019

Capítulo Único

O que antes já havia sido uma sala de estar organizada estava completamente tomada por caixas vazias e latas de cerveja, cadeiras viradas de cabeça para baixo, o chão manchado de qualquer coisa que tivesse sido derramada pelo dono da casa. A televisão estava ligada, mas nenhum som vinha dos vídeos caseiros que estavam sendo reproduzidos. Se houvesse algum sinal de luz do ambiente, poderia-se perceber tudo isso perfeitamente, mas havia uma escuridão tomando conta da casa, não só literalmente quanto figurativamente falando.
Onde antes parecia ter vozes ressonantes, risadas e felicidade foi tomado por uma sensação muito mais sombria e assustadora, quase como uma casa abandonada. A porta da frente estava trancada há dias, a cozinha inabitável, o segundo andar não via alguém no que pareciam ser anos. A única parte da casa que parecia suportar algum tipo de vida era a caótica sala de estar.
Lá, encostado contra a parede branca e fria numa pequena bola de tristeza e embriaguez, estava um fora de si .
Ele não sabia por quanto tempo estava ali, jogado pelos cantos e tentando entender o que tinha acontecido em sua vida nos últimos meses. Ele havia sido traído. Ele havia sido traído pelo seu melhor amigo. Havia sido esfaqueado pelas costas não somente uma vez, mas duas e não sabia como se sentir a respeito disso.
Houve um momento no qual ele não queria fazer mais nada a não ser marchar até a casa de , de novo, gritar à plenos pulmões, socar a cara dele mais algumas vezes apenas para gritar um pouco mais. Tudo isso era seguido por um momento de dor profunda, onde ele não conseguia evitar as lágrimas de sair de seus olhos enquanto se lembrava de tudo o que havia sido dito a ele por ambas as partes. Como ele poderia ter sido tão estúpido? Como ele não pode ver que havia alguma coisa acontecendo?
Desde o momento no qual saíra de sua vida, de sua casa - deles - ele parou de sentir algo. Haviam momentos em que a dor era insuportável e sentia que alguém o havia socado através do peito, alcançado seu coração e o arrancado para fora, apertando-o até que se tornasse poeira. Haviam outros momentos que ele sentia vontade de bater a cabeça dele contra a parede por permitir que algo assim acontecesse com ele. Ele deveria ter percebido. Ele conhecia os dois por anos. Sabia que havia uma época na qual era completamente apaixonada por . Ele deveria saber que algo desse tipo não iria embora do nada.
Mas então, pensamentos lúcidos tomavam conta dele e percebia que não deveria se culpar. Ela estar apaixonada por em algum momento da vida não significava que ela poderia ir até ele e ter um novo relacionamento. Ela já estava em um. Deveria ter sido fiel, deveria ter pensando em como se sentiria quando descobrisse. Ela deveria ter pensado nele. Mas não pensou. Ela não se importou com ele ou com seus sentimentos em nenhum momento, por mais que ela dissesse que não queria vê-lo machucado. Ela havia sido egoísta e só pensado nela.
E mesmo assim, ele não conseguia parar de amá-la.
Era um sentimento que o comia vivo, fazendo-o ficar acordado por noites apenas pensando no quanto ele era idiota. Ele estava apaixonado por uma garota que o havia traído com o seu melhor amigo. Como ele podia sentir algo por ela? Era desprezível.
tinha agonizado por dias e noites tentando tirar isso de sua cabeça, dizendo a si mesmo que estava tudo bem em pensar assim porque eles estiveram juntos por anos, eles eram íntimos, eles tinham sido alguém importante na vida um do outro, mas então vinha a memória daqueles olhos castanhos olhando para ele naquela noite, as lágrimas se acumulando neles enquanto ela dizia tudo à ele, como estava apaixonada pelo melhor amigo dele praticamente desde quando eles se conheceram, como ela, voluntariamente, começara a ter um caso com o tal melhor amigo como se não fosse nada, como se os sentimentos dele não importasse, como se ele não estivesse ao lado dela quando o mundo dela parecia estar desmoronando.
E então, quando ele achava que tudo estava perfeito, quando ele pensou que o mundo dela fora consertado e que ele fazia parte disso, ela partiu o coração dele, quebrou o futuro que ele tinha para os dois, despedaçou os sentimentos dele além de qualquer reparo e saiu como se eles não fossem nada.
E tudo isso acontecera há uma semana e nem um dia havia passado no qual ele não sentia que estava acontecendo todas as noites, todas as vezes em que ele olhava para a porta da frente e esperava que ela voltasse. Porque não podia ser o fim. Tinha que ser algum tipo de pesadelo.
Mas não era. Ele estava lá, sozinho, dormindo no chão usando seus braços de travesseiro enquanto esperava que algo o tirasse de sua miséria.
Houve um barulho do lado de fora da porta, mas não era muito para que pudesse o tirar de seus devaneios, seu cérebro muito intoxicado pelas incontáveis latas de cerveja que ele havia bebido naquele dia, e vozes sussurradas podiam ser ouvidas do outro lado, mas nada parecia alarmar o coreano.
Era provavelmente só um de seus amigos, os que lhe restaram, tentando descobrir se ele estava bem ou não. Ryeowook havia passado por lá alguns dias antes, tentando fazê-lo sair ou fazendo seu melhor para convencê-lo a subir as escadas e tomar um banho, mas era em vão. iria se afogar em auto piedade e ele não precisava de ninguém por perto tentando evitar que ele o fizesse. Estava decidido a fazer isso pelo tempo que desejasse. Não havia mais nada para ele, tudo tinha sido destruído quando pisoteou em seu coração.
Mas não era Ryeowook dessa vez. Não era nenhum dos amigos restantes que ele tinha, mas ele não se importou. Poderia muito bem ser um ladrão e não moveria um dedo para pará-lo ou chamar a polícia. Ele deixaria tudo acontecer. Era o quão baixo ele estava se sentindo. Estava disposto a trocar sua vida se isso significasse não ter mais nenhuma dor, não sentir mais afeição por alguém que tinha causado nada mais do que problemas para ele.
A porta se abriu lentamente, o brilho fosco da lâmpada do poste iluminando a entrada e uma parte da sala de estar quase destruída. Passos leves entraram tentando não tropeçar em nada.
continuou escorado na parede, sem se importar com nada enquanto alguém entrava em sua casa. Não havia restado nada para ele lá, quem quer que fosse poderia muito bem colocar fogo em tudo.
Os passos pararam em frente a ele ao mesmo tempo em que ele ouviu uma longa inspiração e um profundo suspiro ecoar pelas paredes. Muito lentamente, levantou a cabeça e viu uma figura olhando para ele, o rosto escondido na escuridão da sala, mas ele tinha certeza de que olhava para ele com dó. Todo mundo o fazia ultimamente.
Se estivesse sóbrio e não se escondendo nas sombras, ele teria visto que não era qualquer pessoa. Era a garota que assombrava seus pensamentos por dias. Era a garota que antes havia sido o centro de seu mundo e o tinha despedaçado por completo. Se ele estivesse um pouco menos bêbado, a teria visto de pé em frente a ele, uma das mãos cobrindo a boca enquanto olhava para ele.
Seria egoísta dela pensar que ela era a razão para ele estar naquela situação? Estaria ela sendo muito arrogante se pensasse que tinha causado isso nele?
Mas ela não tinha tempo para ter aqueles tipos de pensamento, estava mais preocupada por e como ele parecia completamente fora de si. O cabelo estava ensebado, provavelmente por causa de todas as vezes que ele correu as mãos pelos fios e pela falta de banho. Os olhos estavam vermelhos e inchados como se ele tivesse chorado por muito tempo, sem mencionar nas manchas que tomavam conta de suas roupas. Ele estava uma bagunça e parecia estar tranquilo com aquilo.
sentiu alguém tocando seus ombros, uma sensação de calor espalhando por todo seu braço, mas mesmo assim não se importou em olhar para cima. Estava certo de que não era ninguém que pudesse ajudá-lo a sair daquela situação. Estava certo que ninguém nunca poderia ajudá-lo.
Mas talvez fosse sua mente intoxicada, talvez fosse seu corpo pregando peças nele, porque só havia uma pessoa que poderia tocá-lo daquela forma. Havia sentido isso por tantos anos que não seria possível esquecer em apenas uma semana. Desejava aquele toque por meses quando estava fora, pensando nas sensações que o atingiam quando suas mãos corriam pelo corpo dele, dançando por seu cabelo gentilmente apenas para puxá-los firmemente quando o beijava. Mas não poderia ser ela. Ela tinha saído de sua vida e não havia como voltar, não depois do que tinha acontecido.
Lentamente, se desvencilhou da mão em seu ombro, a cabeça ainda voltada para o outro lado e todo o seu corpo pressionado contra a parede. Ele não tinha tempos para alucinações agora. Estava cansado de imaginar como seria se voltasse, se ela decidisse dar outra chance a eles. Havia criado mil e um cenários, cada um terminando com eles voltando, mas sabia que não iria acontecer. Não era justo, mas era assim que a vida acontecia.
Então, negligenciando completamente quem quer que estivesse de pé em frente a ele, o homem fechou os olhos e suspirou pesadamente, apenas esperando que a dor em seu peito fosse embora. Ela iria, eventualmente.
Ele ouviu um ruído de pés atrás dele, alguns sussurros corridos que ele não conseguia compreender e o distinto som da porta sendo fechada novamente, significando que ele estava sozinho mais uma vez. Não que ele se importasse. Precisava se acostumar com isso agora.
- O que aconteceu com você? - ele escutou através da sala escura, passos leves voltando para ele. A voz soava preocupada e calma, mas ainda com um tom de desaprovação, como se seu dono esperasse muito mais dele. E talvez essa fosse a verdade, ele deveria ser melhor, mas como pode se reagir quando você se dá de frente com uma traição de dois lados? As duas pessoas que ele mais confiava, as únicas duas pessoas que significavam tudo para ele, agiram por trás de suas costas e o mataram por dentro. Aquilo certamente não era algo que se pudesse superar do dia para a noite.
Um par de mãos pressionou contra sua testa, puxando para trás o cabelo que cobria seus olhos da melhor maneira que conseguia, tentando conseguir algo dele, mas ele não podia fazer nada. Estava cansado e desidratado demais pelas incontáveis horas chorando, algo que ele não se orgulhava. Ele não deveria derramar nenhuma lágrima por aqueles dois. Ele estava melhor sem eles, mas mesmo assim, não podia parar a cachoeira que caía de seus olhos. Cada noite era uma nova memória que cortava por sua mente, jogando-o de volta nos momentos em que ele pensava ser feliz, momentos que pensou que teria algum tipo de futuro com a garota que gostava e seu melhor amigo ao seu lado.
- … - a voz chamou novamente, os olhos dele lentamente rolando nas órbitas enquanto tentava entender o que acontecia ao seu redor. O som era calmo e reconfortante, como se estivesse tentando, finalmente, puxá-lo para fora do limbo, tentando consertar seu coração. Era um som gostoso.
E então, finalmente despertou de sua mente, os olhos tentando focar em sua sala de estar pela primeira vez em dias, percebendo que havia, realmente, alguém ali com ele. Uma pessoa de carne e osso e não apenas uma criação de sua mente atormentada.
Ele olhou para cima piscando algumas vezes, ajustando sua visão ao ambiente escuro ao seu redor, uma mão coçando os olhos meio que rudemente, fazendo-o ver com uma variação de pontos e luzes coloridas por trás das pálpebras. Era o seu primeiro indício de vida em uma semana inteira.
- Por que você está aqui assim? - a voz perguntou novamente e dessa vez ele sentiu todo o seu sangue congelar. Não podia ser falando com ele. Ela já tinha ido há muito tempo viver com quem ela estava realmente apaixonada, deixando-o naquele estado. Como ele poderia estar ouvindo a voz dela? Tinha que ser outra fantasia.
Balançando a cabeça, ele se virou para o outro lado, algumas lágrimas rebeldes saindo de seus olhos enquanto tentava seu melhor para não desmoronar na frente dela, mesmo que fosse só uma ilusão.
- Quando você vai parar de me atormentar? - ele murmurou, os punhos se fechando em socos, os olhos fechando-se enquanto batia no chão.
olhou para ele preocupada. Ela nunca o havia visto tão fora de si. Ela sabia que era culpa dela, que ela havia feito isso com ele, mas não se sentia nada bem com isso. Ela queria ver olhando para ela e xingando-a. Queria vê-lo gritando para ela dar o fora de sua casa, xingando-a e a chamando do que quer que fosse, não deitado lá em tamanha letargia enquanto ela tentava trazê-lo de volta a esse mundo. Era algo que ela nunca imaginou que veria e a matava. A matava ver alguém tão feliz e cheio de alegria havia se tornado uma pilha de ossos em questão de uma semana e por causa dela.
- Você quer que eu vá? - ela perguntou lentamente, se abaixando na altura dele, a voz nunca subindo um tom.
- Quem se importa com o que eu quero? Você não vai sair mesmo - ele murmurou rolando os olhos, a mão direta se fechando ao redor da lata de cerveja mais próxima, viajando até seus lábios. - Você está sempre mexendo com a minha cabeça, .
A garota olhou para ele e suspirou. Ele estava olhando para ela, mas não a via. Ela estava certa de que ele estava tão bêbado que achava que aquilo era algum tipo de alucinação, que ela não estava ali. E era uma droga saber que isso tinha acontecido tantas vezes que ele não tinha mais vontade de lutar contra.
- E se eu te dissesse que eu estou realmente aqui? - ela perguntou mais uma vez, sua mão timidamente buscando pela dele para mostrar que era ela e não uma miragem. - Você acreditaria em mim?
soltou o ar em um tom zombeteiro e balançou a cabeça.
- Boa tentativa - murmurou trazendo a cerveja até seus lábios e tomando um longo gole.
suspirou, a mão não mais tocando-o gentilmente. Ela precisava que ele parasse de beber e ficasse sóbrio. Ele poderia achá-la uma vadia, mas ela não gostava de vê-lo naquele estado e mesmo com o que ele pensasse dela, ela não iria deixá-lo daquela forma por muito mais tempo. Então, resoluta, a garota deu um tapa na lata de cerveja, tirando-a das mãos dele, um resmungo vindo de quando o líquido se espalhou por toda parte da frente de sua camisa e pelo chão.
- Isso é algo novo - ele disse de forma arrastada, os olhos finalmente encontrando os dela - realmente os encontrando - e balançou a cabeça. Em seus sonhos, ela nunca tirava a bebida de suas mãos. Ela iria caminhar até ele, mostrar algum tipo de preocupação, tentar convencê-lo a sair daquele estado e então rolar os olhos e dizer para ele que ele havia sido apenas uma perda de tempo, que ela estava melhor sem ele. Era com isso que ele estava acostumado.
Ter aquela mudança nos eventos foi algo realmente fora do comum para . Tanto que ele realmente considerou que isso pudesse estar mesmo acontecendo, mesmo que fosse ilógico. Por que ela iria voltar para a casa dele em primeiro lugar?
Tentativamente, se levantou do chão, os pés falhando enquanto caía para trás, as costas acertando a parede e usando-a de apoio. Ele não se lembrava de estar bêbado para começar, mas sua vida tinha sido um limbo de eventos pelos últimos dias e desde que seu corpo tinha apenas ingerido o líquido amargo, sentiu o estômago revirar, a bile visivelmente fazendo seu caminho até sua boca, mas ele engoliu de volta. Não era a hora e nem o lugar de vomitar. Se estava mesmo ali, ele queria entender o que estava acontecendo. Se ela já o tinha visto deitado no chão, como se a sua vida tivesse se acabado, ele não precisava se envergonhar mais do que isso.
O homem finalmente se firmou em pé, as mãos ainda usando a parede como suporte, mas ele não parecia mais que iria cair de cabeça a qualquer instante. Ao invés disso, ele respirou fundo algumas vezes tentando clarear seus pensamentos enuviados, os olhos tentando ao máximo se focar na garota em frente a ele.
Ela estava lá, olhando para ele com preocupação preenchendo seus olhos, toda sua postura deixando óbvio que ela estava preparada para pegá-lo se precisasse e tudo o que ele podia fazer era se xingar. Porque ele havia feito uma promessa no dia que ela saiu pela porta da frente, ele tinha jurado que não a deixaria vê-lo vulnerável, ela não teria o prazer de vê-lo derramar mais uma lágrima por ela, ela não o veria se importando.
E lá estavam eles, olhando um para o outro pela primeira vez desde que ela tinha dito tudo a ele, desde que ele tinha visto a mensagem que ela mandara à , desde o dia em que ela quebrara seu coração em um milhão de pedaços e, porra, ela estava ótima. Era como se nem um dia havia se passado, como se ela estivesse voltando para casa depois da reunião que tiveram com a cerimonialista que contratara para o casamento, como se ela estivesse esperando para vê-lo e dizer à ele como tudo tinha ido às mil maravilhas e como eles teriam o casamento mais perfeito de todos.
O cabelo dela caía pelos ombros em ondas macias, a sala escura fazendo-o parecer um tom preto mais escuro do que o rico castanho que ele estava acostumado, mas ainda parecia que ela tinha acabado de sair de um salão. Os olhos dela brilhavam no reflexo da televisão muda no fundo, a linda cor âmbar agora parecendo mais um castanho escuro e, de alguma fora, parecia que ela estava ainda mais bonita.
E então lá estava ele, com o cabelo ensebado, uma barba por fazer no rosto, roupas sujas e olhos vermelhos e inchados, se eram pelo choro ou pela bebida ele não sabia dizer. Talvez eram as duas coisas, talvez era porque ele merecia por ter sido tão descuidado e deixá-la vê-lo daquele jeito.
- O que você está fazendo aqui? - ele perguntou, a voz tornando-se fria ao perceber que não era, realmente, um sonho. estava na frente dele. Ela tinha entrado na casa sem que ele soubesse, sem seu consentimento e tinha jogado a cerveja para longe de sua mão, fazendo uma bagunça na sala de estar.
A garota vacilou diante do tom bruto dele, os olhos escaneando o rosto dele na esperança de achar algum sinal de boas vindas, mas ela estava apenas se enganando. Ele não iria aceitá-la em sua vida, muito menos em sua casa, depois de tudo o que acontecera.
- Eu… Eu precisava pegar as coisas que deixei - ela murmurou, as mãos brincando com a barra da camiseta, de repente tímida. Ela não deveria ter vindo.
concordou com a cabeça algumas vezes, uma de suas mãos correndo por seu rosto enquanto tentava pensar no que dizer. Não era fácil ter sua cabeça gritando para mandá-la à puta que pariu enquanto seu coração estava martelando contra seu peito numa louca tentativa de fazê-lo buscar por ela. Ela já estava em outra.
- Você não podia ter pedido para outra pessoa? - sua voz ainda era fria, mas ele tentou diminuir um pouco ao ver que ela não estava numa situação melhor que a dele. Era óbvio que ela não queria aquele encontro tanto quanto ele.
- Eu também queria saber como você estava, - disse timidamente, a voz quase não saindo.
não podia acreditar no que estava ouvindo. Ela pensou que ele era algum tipo de idiota? Ela não tinha o direito de entrar na vida dele e dizer que ela queria saber como ele estava. Era uma piada muito cruel, ter seu coração despedaçado de novo. Era como se ela quisesse vê-lo sofrer dando falsas esperanças de que ela se importava. Talvez ela o fizesse, de um jeito muito sádico, mas isso não dava o direito a ela. Até onde ele se importava, ela podia fingir que nunca o tinha conhecido, podia continuar com sua vida e nunca mencioná-lo. Ele já estava farto.
Mas era mais fácil falar do que fazer e ele aprendeu aquilo da maneira mais difícil. Ele deveria tê-la mandado embora imediatamente, ele deveria ter dito que ela era uma bela de uma filha da puta, ele deveria ter queimado todas as coisas delas pelo o que ela tinha feito. Mas era como se ele quisesse se fazer sofrer, ele queria se entocar em sua própria miséria, queria se sentir como um merda. Porque então ele saberia que tinha sido real. Era aquele sentimento - a falta de sentimentos negativos na verdade - que o faziam ver que tudo o que eles tinham vivido tinha acontecido, que as memórias deles haviam sido feitas, que eles dividiram uma vida. Eram esses pensamentos que o faziam olhar para ela e sentir nada a não ser anseio, com se ela fosse a cura para sua dor, como se ele precisasse dela mais do que ar. Era ali que ele se humilharia ainda mais.
- Fica - ele implorou, os olhos finalmente derramando todas as lágrimas que estivera segurando durante o dia. Ele teria pensado que já chorara todo o líquido presente em seu corpo, mas parecia que estava errado, como tinha estado sobre praticamente tudo.
Se não estava com o coração partido antes, se a imagem de naquela condição já não tivesse feito seu coração se apertar em seu peito, seu pedido iria.
Ele parecia tão pequeno, como uma criança implorando para a mãe não a deixar, como se ele precisasse de alguém para o segurar e caminhar com ele pela bagunça que estava sua vida naquele momento e ela não pode evitar um pequeno soluço de escapar por seus lábios. Ela tinha feito isso a ele. Ela tinha o estragado tanto e agora ele estava tentando fazê-la ficar em sua vida quando deveria chutá-la dela e ela não podia evitar de se sentir despedaçar por inteira.
- … - ela começou, a cabeça balançando de um lado para o outro. Ela não podia dar a ele o que ele queria, ela não podia mentir para ele dizer que ficaria porque isso apenas faria com que ele se afundasse ainda mais no abismo em que estava.
- Não, não - ele murmurou, as mãos buscando pelos braços dela rapidamente, segurando-a no lugar, os olhos procurando pelos dela. - Me escuta, . Eu sei… Eu sei que não há nada que eu possa fazer para mudar isso, mas fique só uma noite. É tudo o que eu estou pedindo. Uma noite e então você pode ir e eu não vou mais te procurar. Só… Eu só preciso de você agora, .
Ele estava despedaçado. A voz estava rouca, os olhos vidrados nos dela, as lágrimas rolando pro seu lindo rosto e ele a segurava como se sua vida dependesse disso. Ela podia senti-lo tremer em ansiedade, como se estivesse com muito medo em ficar sozinho. E por uma pequena fração de segundo, ela realmente pensou em fazer o que ele pedia, sucumbir ao seu único desejo. Mas então a razão tomou conta das emoções dela e ela se desvencilhou da ideia. Ela não poderia. Ela não poderia enganá-lo, não novamente. Ela tinha esperando por ela do lado de fora e ela já tinha quebrado o coreano em frente a ela demais. Seria egoísta dela fazer algo daquele tipo.
- , me escuta - era a vez dela implorar e ele a ouvia atentamente, como se ela pudesse segurar toda sua atenção pelo tempo que quisesse. Lentamente, ela buscou pelas mãos dele e as segurou firmemente, olhando nos olhos dele enquanto as palavras saíam de sua boca pausadamente. - Você sabe que eu não posso ficar. Não é certo, não é saudável. O que nós tivemos, por melhor que tenha sido, acabou e eu sinto muito.
- Eu sei, mas...
- Por favor, , não torne isso mais difícil do que já ela. - Ela suspirou. - Eu não posso ficar. Não é justo pra você. Não é justo para ninguém.
fechou os olhos. Ela estava saindo da vida dele mais uma vez e não havia nada que ele pudesse fazer a respeito disso. Ela tinha escolhido o caminho dela, tinha escolhido outra pessoa ao invés dele, mas tinha levado o seu coração sem nem saber e ele odiava isso. Odiava que ainda a amava, odiava que ela tinha tanto impacto em sua vida, odiava que ele não conseguia odiá-la, odiava que ela estava sendo a pessoa sensata, odiava o que ela tinha feito para ele e odiava o fato de tê-la conhecido. Sua vida teria sido muito mais simples, sem nenhum tipo de drama.
- Nós dois sabemos que você está dizendo isso porque está bêbado - ela disse novamente, a voz o despertando de seus pensamentos. - Se você estivesse sóbrio, teria fechado a porta na minha cara e gritado. Você teria mudado todas as fechaduras e colocado fogo nas minhas coisas. Pelo menos é o que você deveria fazer, mas por favor, , não faça isso com você mesmo.
O homem olhou para ela sem piscar. Ela estava certa. Ele estava louco e sabia que iria se odiar na mão por estar soando tão vulnerável na frente dela, por implorar à ela para ficar, por se humilhar tanto.
- Você está certa, - ele resmungou, a cabeça se voltando para o chão enquanto fazia o caminho até o sofá mais próximo, o corpo se jogando contra o móvel e por pouco não acertando o chão. - Me desculpe.
balançou a cabeça. Não era ele quem devia estar se desculpando.
- Não é culpa sua, - suspirou e caminhou até ele, ajoelhando-se no móvel em frente à ela para que pudesse ficar na mesma altura que ele. - Tudo o que você tem que fazer é subir as escadas, tomar um banho, comer alguma coisa sólida e ir para a cama. Você precisa ficar sóbrio, . Eu tenho certeza de que vai se sentir bem melhor na manhã se fizer isso.
concordou com a cabeça, os olhos se fechando enquanto tentava ignorar a náusea que tomou conta de si quando deitou. Seria uma noite longa, cheia de comida gordurosa, banhos gelados e muito café.
Quando ele abriu os olhos, estava sozinho de novo e se não fosse pelo som de alguém recolhendo algumas das latas jogadas no chão, ele teria pensado que tudo não passara mesmo de uma alucinação.
- Eu estou indo, mas eu realmente espero que você se cuide, ok? - perguntou virando a cabeça sobre os ombros e lançando um último olhar sério.
Ele concordou bebadamente, seus movimentos não concordando totalmente com seus comandos.
- E as suas coisas?
olhou ao redor e suspirou. Os dois precisavam de um tempo longe um do outro.
- Eu vou pedir pro Ryeowook pegar amanhã.
E sem dizer outra palavra, ela saiu, a porta batendo atrás dela, deixando a casa no mais completo silêncio mais uma vez, mas dessa vez iria fazer melhor do que se recolher contra a parede e beber até não sentir mais nada. Ele precisava sair dessa, se juntar novamente e seguir em frente.
Ele não tinha em sua vida mais, mas isso não significava que as coisas paravam por aí. O mundo ainda estava girando, as pessoas ainda respiravam e nada o pouparia só porque ele sentia que era o fim. Não, a vida sempre acharia um jeito de fazer tudo ficar melhor, tudo o que ele tinha de fazer era parar de sentir pena de si mesmo. Não era culpa dele. Ele tinha feito tudo o que podia para fazer aquele relacionamento funcionar, mas ela não era realmente dele para começar.
E foi com esse pensamento de que ele não podia ser feliz com outra pessoa enquanto não fosse feliz com ele mesmo que se levantou do sofá e caminhou até a suíte do quarto. A vida ainda estava acontecendo e ele não deixaria a dele parar porque tinha sido o namorado e amigo perfeito de duas pessoas que não o mereciam. Ele ria se sentir melhor. Ele iria mostra a eles que não precisava deles. Ele ainda tinha amigos e pessoas que se importavam com ele e, para ser honesto, era tudo o que importava para ele.
E foi naquele momento que um dos tais amigos decidiu ver se estava tudo bem com ele, o toque do celular que significava que uma nova mensagem havia chegado ressoando pelo quarto. Pulando de pé, caminhou até a mesa de cabeceira e pegou o objeto retangular em uma mão, um pequeno sorriso aparecendo no rosto dele pela primeira vez no que parecia anos.
: Estou preocupada com você. Quer sair a parecer vivo um pouco?


Fim



Nota da autora: Fiquei por horas tentando decidir qual seria a dinâmica dessa história e por mais que me doa escrevê-la desse jeito… Não podia passar em branco. Claro, aqui estou eu novamente com mais um pouco de drama, mas pelo menos o final dá um pouco de esperança, né? Espero que tenham gostado!!





*insira aqui qualquer vídeo do Eunhyuk imitando o Yesung chorando*
Pronto, é assim que eu imaginei o Yesung enquanto lia essa fanfic inteira. HAHAHA Ai abiga, devia estar triste, mas você me conhece, você sabe que eu não resisto a um ser humano sofrendo. Ainda mais... Bem, Yesung! KKKK Adorei!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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