Contador:
Última atualização: 02/09/2020

Capítulo único

16/07/2020



"A Fórmula 1 é a principal categoria de automobilismo do mundo. A competição foi criada em 1950 pela Federação Internacional de Automobilismo com o objetivo de reunir os Grandes Prêmios que eram disputados na Europa." O show de velocidade e talento, assistido no mundo todo naquele domingo, onde os pilotos mais velozes disputavam o lugar mais alto do pódio, sendo então campeão mundial de pilotos da Fórmula 1.
O último e tão aguardado GP estava acontecendo em Abu Dhabi, no circuito de Yas Marina. Faltavam apenas cinco voltas para o final, cinco voltas que poderiam ser decisivas. Meu coração parecia querer saltar pela boca. Eu não era capaz de duvidar que isso acontecesse, porque era capaz sim de acontecer. Minhas mãos suavam, assim como meu corpo inteiro dentro daquele uniforme vermelho, mas respirei fundo pela milésima vez e voltei a olhar para a tela uma última vez. Não haveria mais pitstop, o que me deixava de certa forma aliviada. Entretanto, quando os gritos das torcidas aumentaram ainda mais anunciando a última volta voltei a ficar nervosa e de nada adiantou respirar fundo. Então, mais rápido que um piscar de olhos, era possível ouvir gritando e comemorando sua vitória, indicando o fim da corrida. A equipe toda foi à loucura, assim como eu, é claro. Após a comemoração de todos da equipe, assim que estacionou o carro em frente ao box, os espumantes estourados como de costume e mais gritos comemorativos, nós fomos deixando o local.
Toda final de campeonato era realizada uma festa de comemoração com os dez melhores pilotos da temporada junto de suas equipes, esse ano não seria diferente. Entretanto, eu acredito que agora você deva estar se questionando quem eu sou e o que diabos eu faço. Eu me chamo , ou para os íntimos. Tenho 28 anos, sou engenheira mecânica de fórmula 1, mais especificamente da Ferrari, há exatos três anos. Agora ele você já sabe, o queridinho das pistas, amado por todos, . Também conhecido como o meu maior pesadelo. Há exatos dois anos, nossa relação mudou da água pro vinho, transformando tudo em um jogo de gato e rato pra saber que cederia primeiro. Não importava a situação e nem o que estava valendo, nenhum de nós dava o braço a torcer. Mas o que realmente aconteceu pra ter chegado a esse fim, eu explico depois. Vamos voltar às apresentações.
A minha maior influência foi meu avô, que era apaixonado pelo esporte e sempre insistiu para que eu assistisse às corridas com ele desde que eu era pequena. Eu não poderia estar mais grata por ele ter me feito sentar a bunda no sofá todo final de semana, ter me explicado o que significava cada etapa daquele esporte e ter feito eu me apaixonar ainda mais, coisa que eu achava ser impossível. Com certeza, ele está feliz por eu ter chegado aonde cheguei, onde quer que ele esteja hoje. Atualmente, mantenho um apartamento fixo em Larvotto, onde o meu melhor amigo é também meu vizinho e a pior pessoa para se levar em festas, a não ser que você queira ficar de babá a noite toda, além de carregar um homem com quase o dobro do seu tamanho bêbado para casa. Mas Adam era sem dúvida o melhor conselheiro e ombro amigo que se poderia ter, além de me esperar sempre com uma forma cheias de cookies de chocolate quando eu voltava para casa.
- Ei, , quer uma carona? Tô indo pro hotel. - Michael disse ao passar por mim, me tirando dos meus pensamentos.
- Quero sim. - Respondi pegando minha bolsa de dentro do armário. Não via a hora de tirar o uniforme, tomar um banho e descansar por algumas horas antes da festa. Meu corpo implorava por uma cama ou não aguentaria por muito mais tempo em pé.
Michael era meu colega de equipe, estava na Ferrari o mesmo tempo que eu, nos demos bem logo de cara, podendo-se dizer que foi um milagre, visto que a equipe era majoritariamente composta por homens, quase todos machistas, pra falar a verdade. Não é à toa que a maioria pensava que eu e Michael tínhamos um caso, quando na verdade ele tinha uma família linda, fazendo de tudo para passar qualquer tempo livre com a sua filha. Não pense que eu estou na Ferrari apenas pelo salário, que é ótimo, porque eu amo o meu trabalho demais, mas às vezes as pessoas são capazes de nos tirar do sério com tanta suposição sobre a sua vida.
- Obrigada pela carona, Coleman. - Agradeci quando chegamos ao hotel.
- Te espero às oito em ponto. - Ele disse já dentro do elevador. Michael era meu par nas festas, sempre me salvando dos jornalistas inconvenientes.
- Você é o melhor. - Dei um beijo em seu rosto, indo em direção ao meu quarto assim que saí do elevador.
Finalmente pude desfrutar de todo aquele enorme quarto de hotel, daquela maravilhosa cama confortável e, principalmente, da banheira que implorava para ser usada pelo menos uma única vez. Tirei meu tênis, o macacão suado, seguido das meias, calcinha e sutiã, peças que foram de encontro ao chão para que eu pudesse deixar meu corpo relaxar na água quente da banheira. Céus! Eu poderia morar aqui dentro. Infelizmente não pude ficar mais do que vinte minutos de molho, meu cabelo precisava ser lavado e secado com antecedência. Saí da banheira e comecei a dar um trato no meu cabelo, os fios que costumavam ficar sempre presos devido ao trabalho começaram a se rebelar, mostrando a verdadeira faceta quando as ondas caíram pelas minhas costas. Desliguei o chuveiro quando os meus fios já estavam devidamente hidratados, não ficando mais que dez minutos embaixo da água, de novo. Na televisão passava mais notícias sobre a grande vitória da corrida de mais cedo, troquei de canal a fim de distrair minha mente com outros assuntos que não envolvessem o meu trabalho, pelo menos por algumas horas. Os clipes de música da MTV pareciam interessantes.





- Your body is a wonderland! - Michael cantarolou assim que abri a porta do quarto. - Uau, você vai arrasar com o coração do pobre piloto hoje. Dos pilotos, na verdade. - Fechei a porta do quarto, indo em direção ao elevador quando Michael estendeu o braço para que eu encaixasse o meu. Eu estava realmente satisfeita e feliz por ter colocado aquele vestido dentro da mala. Era um vestido vermelho, liso, de alças finas e que deixava minhas costas à mostra, assim como a tatuagem que cobria metade do meu braço até o pulso, mas que o uniforme fazia muito bem seu trabalho em cobrir. Eu também tinha outra tatuagem na coxa esquerda e abaixo dos seios, mas essas quase ninguém havia visto. Sim, ele infelizmente já havia visto todas. Por fim, dei uma última olhada no meu vestido no espelho do elevador antes de sair acompanhada de dentro daquela caixa metálica. A festa estava acontecendo no salão do próprio hotel em que estávamos hospedados, um dos hotéis mais chiques de Abu Dhabi. Afinal, o que não era chique e exalava riqueza naquele lugar?
Peguei a primeira taça de espumante quando o garçom passou ao meu lado, o que eu não esperava era que assim que eu virasse fosse encontrar aqueles malditos par de olhos. Aquele lindo par de olhos, por sinal, estava vestindo um terno branco e uma camisa vermelha que parecia ter sido feita exatamente sob medida apenas para aquele corpo. Aquele maldito corpo. Tomei o resto da bebida na taça e peguei outra em seguida, ignorando o olhar de reprovação de Michael em minha direção. Ouvi quando anunciaram uma foto da equipe reunida. Primeiro aquela social básica obrigatória, depois a diversão, é claro. Do grupo da engenharia eu era a única mulher, e da equipe toda só restava eu e mais duas colegas, Megan e Susan, mas elas tinham sido discretas e deslumbrantes nos seus vestidos pretos. Me amaldiçoei por alguns segundos por ter ido com aquele vestido vermelho chamativo, o qual não passou despercebido pelo olhar do fotógrafo.
- Uma bela dama não pode ficar escondida no meio de tanto homem. - O fotógrafo puxou minha mão para ficar na primeira fileira. Pude sentir meu rosto esquentar e sorri sem graça. - Vai ficar perfeita ao lado de . – Ok, Universo, com certeza você está afim de brincar com a minha cara hoje. É só uma foto , é só uma foto. Eu repeti pra mim mesma, odiava atenção em cima de mim. Senti um braço ao redor da minha cintura, eu sabia de quem era, e por isso mesmo resolvi não encarar o seu dono. Exatamente em um flash a foto foi tirada e pudemos, por fim, aproveitar tudo que estava ali ao nosso dispor. O braço da minha cintura se alargou, e eu pude sair o mais rápido que consegui.
- ? - Senti um aperto na minha mão de leve, mas logo a soltou, quebrando a corrente elétrica de quando nossos corpos se tocavam.
- Sim. - Me virei, por fim, encarando seus olhos.
- Você está linda esta noite. - Teria soado fofo se eu não soubesse que tudo fazia parte de seu charme. Charme esse que eu não era a primeira e nem seria a última a ter o prazer de desfrutar.
- Obrigada. Você não está nada mal. - Arrisquei um sorriso, mas tenho certeza que saiu uma careta. Eu estava nervosa, a sensação era sempre a mesma quando estávamos na presença um do outro. abriu e fechou a boca algumas vezes. Nosso assunto acabou ali, sorri mais uma vez, indo em direção ao outro lado do salão, onde dava acesso ao terraço do hotel, e eu poderia respirar um pouco de ar fresco.
Aproveitei mais algumas taças de espumantes, esquecendo de ingerir algum alimento também, dando espaço para o álcool ter efeito mais rápido em meu sangue quando eu me movi para sair do terraço e entrar novamente no salão. Mas, aparentemente, tudo estava girando. Agradeci mentalmente por ter algumas mesas, me sentei na mais escondida, a fim de ninguém me encontrar ali. A melhor parte das festas de final de temporada é que dificilmente algum jornalista era autorizado a entrar, então todos convidados ficavam mais confortáveis para se soltar e realmente aproveitar a noite. Não ter a atenção de ninguém em cima de mim esperando o melhor do meu trabalho era maravilhoso, por mais que eu amasse cada momento do que eu fazia, mas eu também precisava de um descanso às vezes, e esse era o momento certo.





- Eu não sinto mais meus pés! - Falei rindo mais uma vez da tentativa de moonwalk que Michael fazia. Não estava nem tocando Michael Jackson, e ele cismou que conseguia fazer a coreografia de Thriller. O álcool já estava passeando pelo corpo do meu amigo há algum tempo, com toda a certeza do mundo. - Ok, essa noite já acabou pra mim.
- Ok, princesa. Você sabe onde é meu quarto, mas não ouse bater na minha porta hoje à noite. - Ele disse me dando um beijo no rosto, dei um tapa em seu braço ainda rindo. Sacudi a cabeça e retribui o beijo em seu rosto, saindo do salão em seguida.
Encostei minha cabeça na parede ao lado do elevador, aguardando-o parar naquele andar. Encarei meus pés, estava louca pra tirar aquelas sandálias, me atirar na cama para finalmente descansar meu corpo num sono longo, já que meu voo seria no final da tarde apenas. O som do elevador chegando no último andar soou pelo corredor, seguido das portas metálicas se abrindo em seguida. Entrei no cubículo, apertando o número trinta na parede. As portas estavam quase se fechando quando escutei alguém gritar pedindo pra segurar, no mesmo instante apertei o botão, fazendo as portas voltarem a abrir novamente. O que eu não esperava era que o dono da voz fosse justamente a pessoa de quem eu fugi a noite toda. É sério mesmo, Universo?
- Obrigada. - Ele sorriu agradecendo.
- De nada. - Voltei minha atenção pro nada, olhando para todos os lados que não fosse o dele. Os vários botões da parede, de repente, pareceram interessantes.
Apoiei meu corpo na barra de ferro no fundo do elevador. Pra falar a verdade, eu tinha dúvidas sobre ser uma barra de ferro ou não, poderia muito bem ser ouro, já que tudo ali era chique demais, caro demais, tudo demais. Aquele hotel tinha quantos andares mesmo? Uns oitenta, no mínimo?! Olhei mais uma vez o visor indicando que tínhamos acabado de passar o andar cinquenta e cinco. O visor indicou o andar quarenta, ok só faltam dez e eu vou poder dormir em paz. Mas, antes que eu pudesse comemorar, a luz daquele cubículo começou a piscar até parar num solavanco por completo. Sem querer apertei o pulso de devido ao susto. Não, não. NÃO! Aquilo não podia estar acontecendo comigo.
- Estamos presos aqui dentro, é isso mesmo? - Perguntei mais para mim mesma do que para , mesmo sabendo que ele escutou.
- A-acho que sim. - Ele também estava nervoso, certo? Certo.
Fechei meus olhos com força, respirando fundo pela milésima vez. Nada, o elevador ainda estava parado no mesmo andar, e o pior, estava escuro. Senti quando os dedos de começaram a fazer um leve carinho na minha mão, subindo pelo meu braço, ombro e parando nas minhas costas. Deus, era um arrepio a cada toque.
- Eu sou claustrofóbica. - Respirei fundo, de novo. Não, eu não podia morrer ali dentro, por favor. Oi Deus...sou eu de novo.
- Tá tudo bem, nós já vamos sair daqui. - Seu corpo chegou mais perto do meu, mesmo que eu não quisesse manter essa proximidade, eu não tinha pra onde correr, senti a barra de ferro nas minhas costas, o toque e o corpo dele cada vez mais próximo do meu. Sua respiração bateu em meu rosto, no mesmo instante, a outra mão, antes desocupada, passou a fazer movimentos circulares em minha cintura. Confesso que a essa altura já não estava preocupada por estar presa dentro daquele elevador, estava preocupada se conseguiria manter minha sanidade intacta até sair dali. A resposta é não, um não bem grande quando percebi o que havia dito.
- Me beija. - Pedi baixinho, assim que enrolei meus braços em seu pescoço.
- … - Os lábios dele roçaram nos meus. Era provocação, então?
- Me beija logo. Você só tem que ser rápido em uma coisa hoje.
- Eu não quero ser rápido com você. Eu quero aproveitar cada segundo quando é você, .
tinha o mesmo efeito sobre o meu corpo, mesmo depois de dois anos. A corrente elétrica era instantânea quando nossos corpos se tocavam. Eu amava e odiava cada sensação que passava pelo meu corpo, mas ainda era inevitável não sentir aquilo. Grudei nossos lábios num beijo urgente, beijo esse que eu queria desde que coloquei meus pés naquele salão, desde que tivemos que ficar lado a lado para aquela maldita foto, desde em que nossos olhares se cruzaram naquela noite. Fui correspondida da mesma forma quando senti ele grudar meu corpo, como se fosse possível, ainda mais ao seu. Suas mãos hábeis me colocaram sentada na barra de ferro, fazendo-me fechar minhas pernas em sua cintura enquanto ele apertava minha coxa à mostra. Era errado desejar algo que eu não poderia ter? Era. Entretanto, aproveitar aquele momento somente meu e dele era tão prazeroso que nada mais importava na minha cabeça. Sua língua explorava cada canto da minha boca, e a minha fazia o mesmo trabalho. Puxei alguns fios de cabelo da sua nuca, causando um arrepio naquela região. Bom saber que eu não era a única com aquela sensação.
Eu precisava de ar, mas ter aqueles lábios junto aos meus era mais importante e urgente. Porém, um solavanco nos fez despertar e cair na realidade. O elevador voltou a se iluminar, me separei rapidamente de . A boca vermelha e levemente inchada, o cabelo bagunçado e a respiração falha, era assim que nós dois estávamos. Fechei meus olhos, soltei a respiração presa e encarei seus olhos mais uma vez.
- . - Ele fez menção de tocar meu rosto, mas neguei com a cabeça antes que finalizasse a ação.
- Não. - Já tínhamos ido longe demais.
- Eu sinto a sua falta.
- Eu também. Mas não quero passar por tudo aquilo de novo. - O som do elevador chegando no meu andar foi o momento certo para encerrar aquele e qualquer assunto que pudesse surgir. Abri a porta do meu quarto, tirei minhas sandálias e pude me atirar na cama, finalmente. Que noite longa.





Lar doce lar. Abri a porta de casa e pude sentir o cheiro dos cookies de Adam, ele sabia que eu estava voltando e fez questão de deixar um pote com cookies novinhos na minha cozinha. Eu tinha o melhor amigo do mundo, sem dúvida. Larguei a mala no meu quarto, já tirando a roupa para tomar um demorado e quente banho. Coloquei uma música pra relaxar, deixando meu corpo escorregar pela banheira em contato com a água quente em seguida. Prendi meu cabelo num coque no alto, vestindo o meu pijama composto por uma camiseta velha e a inseparável calça de moletom. Minhas pantufas do tigrão ainda estavam ao lado da cama, calcei-as indo para a cozinha preparar um chocolate quente para comer rezando com aqueles cookies deliciosos. A campainha tocou. Gritei um “entra”, já sabendo quem era.
- ! - Adam me abraçou apertado. Ficar o ano todo longe dele era uma das tarefas mais difíceis.
- Docinho. - Disse retribuindo o abraço. - Já vi seu presentinho. Senta aqui, come comigo. - Apontei o banco alto da cozinha. Coloquei duas xícaras na bancada, as enchendo com chocolate quente.
- Então, como foi de viagem? Trabalho, enfim, você sabe.
- Foi bom, tudo ótimo. Não importa quanto tempo passe, a emoção das corridas é sempre a mesma.
- Fiquei sabendo que você beijou um certo alguém na festa.
- Michael tá fazendo o trabalho de fofoqueiro dele direitinho, né?! - Coloquei um cookie na boca. Deus, aquilo estava uma delícia. - Nossa, isso aqui tá muito bom. - Tentei mudar de assunto.
- , não muda de assunto. - Encarei seus olhos verdes, ele não sairia dali até que eu contasse tudo que havia acontecido, mesmo sabendo que Michael já havia feito isso. Mas ele adorava quando as palavras saíam da minha boca, para então me lembrar em algum momento mais tarde.
Contar todos os detalhes da festa fez minha cabeça voltar alguns anos atrás, mais especificamente no meu primeiro ano de Ferrari, quando eu conheci o queridinho das pistas, consequentemente caindo em seus encantos.


Flashback.

Paris, dois anos atrás.

A matéria estampada continha uma foto minha e de aos beijos. Não era um simples beijo, era um beijaço, pra ser mais sincera. Abri os sites de notícias esportivas, e todos estavam estampando a mesma coisa. Senti, naquele momento, que minha carreira estava em risco, tudo que era notícia me relacionava com Charles, como se eu estivesse na Ferrari apenas por ele, quando na verdade eu tinha lutado muito pra conseguir aquele emprego. Eu não podia me dar ao luxo de jogar tudo para o alto apenas por um relacionamento, se é que eu podia chamar de relacionamento. Estávamos saindo há alguns meses, e estava sendo incrível dividir os meus dias com ele. Mas já era muito difícil estar naquele meio esportivo apenas por ser mulher, ser mulher e estar tendo um caso com um piloto famoso era pior ainda. O barulho do chuveiro cessou, deixando o quarto em completo silêncio outra vez.
saiu do banheiro apenas com uma toalha branca enrolada em sua cintura. Bagunçou seus cabelos, soltando alguns respingos de água pelo chão do quarto, caminhando em minha direção, me deixando ainda mais nervosa.
- Bom dia. - me deu um selinho, se afastou indo até a cama.
- B-bom dia. - Inalei o seu perfume. O cheiro amadeirado fez minhas pernas ficarem bambas, ainda bem que eu estava próxima da mesa, me apoiando ali mesmo.
- Já pedi café pra nós. O que acha de aproveitar o dia? Podemos fazer uma mini tour hoje, nosso voo é só amanhã. - Ele ainda tinha um sorriso no rosto. Eu queria beijá-lo de novo, explorar cada pedacinho de seu corpo. Mas as manchetes vieram à minha mente como um choque de realidade.
- Você leu o jornal hoje? - Perguntei desviando meus olhos para as folhas em minhas mãos. pegou com delicadeza o jogando de volta na mesa.
- Você sabe que é mentira tudo que estão dizendo, não sabe? - Confirmei com a cabeça. - Então, vamos esquecer isso. Eu acredito em você, sei do seu potencial. Nada do que disserem vai mudar o que eu sinto. Você é uma das melhores da equipe, eles não sabem o que estão falando. - Eu queria muito acreditar em suas palavras, mas o meu lado racional estava implorando para eu fazer a coisa certa. Mesmo que doesse, mesmo que fosse justamente a única coisa que eu não queria estar fazendo agora.
- Não posso deixar esse emprego escapar. Sei que no primeiro deslize não vão pensar duas vezes antes de me demitir. Não posso me dar esse luxo, desculpe, . - Peguei minha bolsa e minhas sandálias, saindo do quarto em seguida. Não olhei pra trás, não quis saber qual estava sendo a reação de naquele momento. Os últimos meses estavam sendo incríveis ao lado dele, mas também estavam sendo cansativos. Eu costumava ser o mais invisível possível, mas sempre tinha algum paparazzi atrás querendo saber sobre o nosso rolo. Nem eu sabia, como poderia explicar algo? Enterrei todos os meus sentimentos por ele a fim de não voltar a sentir aquilo nunca mais, mesmo sabendo que era impossível. Nos dias que se seguiram, eu tive certeza que ele estava decepcionado, eu também estava. Passamos a nos ignorar, conversando apenas quando era necessário e mantendo o mínimo de contato possível.



- Alô, terra chamando . - Adam estalava os dedos na minha cara, me tirando dos meus devaneios.
- Desculpe. - Tomei mais um gole, tentando fugir do assunto. Bufei irritada vendo o olhar de Adam sobre mim. - Nos beijamos, ok? Era isso que você queria ouvir? Pronto, falei.
- Sim, quero ouvir o que aconteceu também.
- Não aconteceu nada. Foi só um beijo, uma confissão de saudade por parte de nós dois, e só. Eu juro. - Enfiei mais um biscoito na boca.
- O que vai fazer agora?
- Como assim, o que eu vou fazer? Não há nada a ser feito.
- , você precisa se dar uma chance.
- Eu preciso do meu emprego, só isso. - Encerrei o assunto, colocando a xícara na pia, seguindo para a sala. - Quer escolher um filme pra gente? - Adam colocou um filme de romance água com açúcar, os lencinhos já estavam na mesa de centro, eu conhecia o meu amigo o suficiente para saber que ele ia chorar. Porém, os primeiros dez minutos foram o suficiente para eu pegar no sono e acabar adormecendo no sofá da sala.





Acordei com a campainha da minha casa tocando, na verdade, quase sendo quebrada de tanto que o dedinho da pessoa não parava de apertá-la. Caminhei o mais rápido possível que consegui, tropeçando pelo caminho algumas vezes. Abri a porta, levando um susto quando a pessoa simplesmente adentrou na minha casa fechando a porta com força, se apoiando na mesma.
- , o que raios está fazendo na minha porta às sete da manhã num sábado? - Disse entre dentes sentindo a raiva subir pelo meu corpo. Vi seu rosto suado suavizar, surgindo um sorriso sacana quando me fitou de cima a baixo.
- Você não sabe o prazer que é te ver sem aquele macacão vermelho. Apesar de que você também fica sexy nele. - Estreitou os olhos ainda me fitando.
- Eu juro que te toco no meio da rua agora se não falar o que está fazendo aqui.
- Ok. Eu tava fugindo de um grupo de fãs e paparazzi malucos. - Comecei a rir de sua cara, vendo-o ficar vermelho.
- Oh, pobre coitado. Você é apenas um menino indefeso, né? - Girei meus calcanhares subindo a escada novamente, o deixando para trás.
Voltei a deitar na minha cama, tentando pegar no sono novamente. Eu sabia que era folgado, não era a primeira vez que ele pisava na minha casa. Ia saber se virar muito bem no tempo que precisasse ficar ali, eu só esperava que não fosse por muito tempo. Eu devo ter dormido por no máximo umas duas horas, já que quando acordei meu corpo ainda estava cansado. Me levantei indo direto para o banheiro, fiz minha higiene matinal, entrando no box logo em seguida. A água quente fez meu corpo relaxar, colocando cada músculo em seu devido lugar.
Deixei meus cabelos soltos caírem pelos meus ombros quando terminei de me vestir. Eu amava usar calça jeans, optei por uma skinny de lavagem escura combinando com a sandália marrom de salto quadrado e baixinho e uma blusa bege com estampa de flores simples na frente. Durante as pequenas férias, eu gostava de vestir todas as roupas que durante o meu trabalho não era possível, não se eu quisesse fazer um trabalho bem feito durante o expediente. Peguei minha bolsa preta colocando meu celular e a chave do carro dentro dela enquanto descia as escadas. Cheguei na cozinha, o cheiro de panquecas exalava pelo cômodo todo. Eu amava panquecas.
- Er... Oi. Achei que você já tinha ido embora. - Abri a geladeira pegando uma jarra de suco de laranja.
- Não. Parece que têm alguns paparazzi ao redor do bairro. Mas eu juro que vou embora. - Ele disse sentando na mesa quando terminou de colocar dois pratos com panquecas.
- É claro que vai. - Sorri cínica, enfiando uma garfada na boca logo após. Nossa, aquilo estava muito bom mesmo.
- Posso te fazer uma pergunta? - Escutei perguntar num tom de voz mais baixo que o esperado. Soltei um resmungo dando a brecha pra ele prosseguir. - O que você e o Michael têm, afinal? - Fitei seu rosto, mas ele desviava o olhar do meu. Pensei por alguns segundos se continuava o provando e mentia sobre a minha real relação com Michael ou se contava a verdade.
- Pra falar a verdade, eu adoraria ter uma noite de prazer com ele, descobrir se aquelas mãos são tão ágeis como demonstra ser no trabalho, sabe. Descobrir até que ponto ele consegue me enlouquecer. Ele sem dúvida deve saber o que fazer na cama.
- Ok, chega. Já entendi. - Vi levantar da mesa furioso, colocando o prato na pia e ficando de costas pra mim. Soltei uma gargalhada alta recebendo um olhar de reprovação, o mesmo de mais cedo.
- Agora falando sério, é só amizade. Michael é gay e tem uma filha incrível. Estou indo passar o dia com eles. - Respondi por fim. soltou um suspiro de alívio? Ignorei-o, voltando a comer o restante das panquecas em meu prato. A campainha soou suavemente, não estava esperando ninguém, afinal eu já estava de saída. - Viu, é assim que se toca a campainha da casa de alguém. - Disse provocativa, vendo-o revirar os olhos.
- Tiaaa! - Holly pulou no meu colo, agarrando meu pescoço.
- Oi, princesa. Não sabia que vocês iam vir me buscar. - Meu sorriso se desmanchou quando eu vi o semblante preocupado de Michael parado na minha porta.
- Amiga, desculpa. Mas, na verdade, não viemos te buscar. - O olhei preocupada.
- Aconteceu alguma coisa?
- Meu irmão passou mal, agora tá no hospital. Estou indo lá pra saber qual a situação dele. Se importa em ficar com a Holly?
- Claro que não, já íamos passar o dia juntas, de qualquer forma.
- Ok, muito obrigada. Qualquer coisa que essa pestinha aprontar não hesite em me ligar.
- Relaxa, vamos aproveitar bastante. - Ele sorriu agradecido. Deu um beijo na bochecha da filha, voltando para o carro depois de nos despedimos. Fechei a porta da minha casa novamente, voltando totalmente a atenção para a figura do meu colo.
- Tá com fome, meu amor?
- Não tia, quero ver desenho. - Correu até a sala, se atirando no sofá com o controle em mãos, pronta para colocar no seu canal de desenhos favoritos. Os incríveis quatro anos da Holly eram poucos para aquele serzinho tão adorável e esperto. Os cabelos volumosos encaracolados caíam sobre seus pequenos ombros e o sorriso sapeca sempre pronto para uma nova travessura eram as características marcantes de Holly. Michael amava a filha mais que a si mesmo, a sua vontade de ser pai sempre falou mais alto, mesmo com a correria do dia-a-dia que o nosso trabalho causava. Quando ele e Brad se conheceram, a vontade de ter um filho era mútua, os fazendo batalhar na fila de adoção até conseguirem. Lembro do dia que ele me contou que tinham conseguido, não importava quem ou como fosse, eles só queriam um filho e o amariam para o resto da vida. Não tive dúvidas disso assim que pus meus olhos em Holly, ainda pequena, seguido de dois pares de olhos dos papais mais babões do mundo. Apoiei minha cabeça na parede próxima da sala, soltei um suspiro, admirando o quanto ela estava crescendo rápido.
- Te olhando desse jeito, eu até consigo acreditar que bate um coração aí dentro. - parou ao meu lado. Ele não tinha que ir embora, não?
- Hahá, engraçadinho. Tá ouvindo esse barulho? - Apontei para rua. - Acho que teu Uber chegou.
- É só o caminhão do lixo. - Revirou os olhos, voltando a ficar emburrado.
- Exatamente. - Sorri sem mostrar os dentes, mas recebi o dedo do meio de volta.
- Eu já tô indo embora, ok?
- Pode ficar se precisar se “esconder” mais um pouco. - Revirei meus olhos, voltando para a cozinha. Peguei os mantimentos para preparar um achocolatado para Holly, ela amava assistir desenho tomando a bebida.
- Eu sei que você quer minha presença, . - Eu só queria que tivesse um pinguinho de feiura, assim eu ia conseguir odiar ele ainda mais.
Pela primeira vez naquela manhã, reparei em sua roupa. Realmente, eu estava ferrada. mantinha os cabelos num tom de castanho claro muito bem cortados, combinando perfeitamente com a simetria de seu rosto. Os olhos pequenos, quase desaparecendo sempre que ele sorria, os lábios sempre convidativos para apreciá-los, às vezes devorá-los também. O abrigo preto de corrida caía muito bem em seu corpo definido, tudo na medida certa. Realmente, o titio Lúcifer estava a fim de me testar. Já dizia o ditado: Tá no inferno, abraça o capeta.
- Vou me arrepender disso, mas ok. - Mordi meu lábio ainda em dúvida se deveria ou não. - Quer passar a tarde aqui? Sabe, comigo e a Holly.





- O meu cabelooooo, não acredito sua pestinha! - Holly tocou um punhado de farinha em mim depois de eu ter lambuzado seu rosto com um pouco de chantilly. O riso alto dela preenchia toda a cozinha. - Ok, tá na hora de limpar toda essa bagunça. Vai lá pra sala, sua espertinha. - Dei a colher com mais um pouco de chantili para Holly lamber, ela não pensou duas vezes antes de agarrar a mesma e ir correndo para a sala.
- Eu te ajudo a limpar. Afinal, eu que comecei. - levantou as mãos até a altura dos ombros assumindo a culpa, o que acabou sendo fofo devido a sua cara de cachorro pidão.
começou a lavar a louça enquanto eu guardava os mantimentos utilizados. Holly implorou para que eu fizesse cookies e uma tortinha de morango que ela amava, mas o pai não sabia fazer. No meio do processo, tive a contribuição dos dois ajudantes, mas no final das contas eles estavam ali apenas para roubarem os meus morangos, o que acabou resultando numa guerra de comida, mais específica, de farinha e chantilly, quando eles perceberam que eu não entregaria os morangos tão fácil assim.
- …- Virei na direção da voz, mas acabei recebendo uma meleca no meu rosto.
- Eu não acredito. É guerra, é? - tentei pegar o saco de confeiteiro da sua mão, mas era mais alto que eu, me impedindo facilmente de alcançá-lo. - Isso é injusto. - Fiz a minha melhor cara de gatinho do Shrek, mas acabei conseguindo pegar a mistura da sua mão.
- Hum, isso tá gostoso mesmo. - Provei um pouco do chantili que eu havia feito mais cedo.
- Tem outra coisa que é mais gostosa que isso, sabia? - Fui dar um passo pra trás, tentando manter a distância de . Qualquer contato com ele era perigoso. Entretanto, o chão da minha cozinha já estava tão melecado que eu acabei escorregando e, como se não bastasse, agarrei sua camiseta numa tentativa fracassada de me manter em pé, o que resultou em nós dois no chão.
- Ok. Primeiro, você aparece na minha casa às sete da manhã; segundo, usa a minha cozinha pra fazer panquecas, o que foi ótimo porque estava faminta; terceiro, suja a minha cozinha junto com a Holly, armando um verdadeiro complô contra mim. É isso mesmo? - Comecei enumerando todos os fatos daquele dia, ignorando a dor da queda enquanto me mantinha deitada no chão, mas parecia ignorar tudo que eu falava, já que ele mordeu o lábio tentando prender o riso. Mal sabia ele o efeito que isso tinha sobre o meu corpo. - O que foi?
- Nada. - Ele balançou a cabeça ainda me observando. Senti meu rosto esquentar com aqueles pares de olhos hipnotizantes em cima de mim. Meu corpo era uma verdadeira delatora, nada que ele fizesse passava despercebido, bastava apenas um toque em minha pele e tava feita a explosão de arrepios. - Você é linda até suja, sabia?!
- O que é um chantili perto de graxa de carro, não é mesmo? - Balancei a sobrancelha, vendo-o rir e concordar. Mas seu rosto já estava próximo demais do meu.
Um alerta vermelho começou a piscar de forma bem grande e chamativa na minha mente, mas eu não queria me mover dali, queria? Não. Deixei-me levar pelo momento, assim que senti a respiração de bater em meu rosto, fechando os meus automaticamente a espera de seus lábios sobre os meus. Para a minha surpresa, houve apenas um pigarreio alto e em bom tom vindo dele. Uma cara de interrogação assim que voltei a abrir meus olhos.
- Tenho que ir, já passou da minha hora. - FILHO DA MÃE! Ele estava me provocando esse tempo todo. Eu sabia que o meu rosto já estava num tom de vermelho mais forte que um tomate.
- É, já passou mesmo. - Me levantei rapidamente do chão, sem me importar se tinha o empurrado com certa força. Depois dessa tortura, ele bem que merecia. Tirei os cookies do forno antes que eles queimassem, tentando me distrair e esquecer o incidente que quase cometi bem ali naquela cozinha, naquele chão. - Vou ver se a Holly precisa de algo e já abro a porta. - Caminhei até a sala, mas a bichinha já estava dormindo esparramada no sofá, colada com o seu urso de pelúcia. Coloquei uma mantinha fina que eu sempre tinha por ali, cobrindo-a e depositando um beijo no topo de sua cabeça.
- Obrigada por ter deixado eu me esconder aqui. - Ele disse parando na porta com as mãos no bolso. Dei de ombros, sem me importar.
- Vou fingir que acredito nessa história de paparazzi. - Nos encaramos, ficando em silêncio. Agindo como dois adolescentes sem saber o que fazer ao se despedir depois do primeiro encontro.
- Tchau, . - Tão rápido como um piscar de olhos, senti os malditos lábios de sobre os meus. Apenas para provocar o costumeiro formigamento de sempre, quando minha boca sentia falta da sua.
- Vai pro inferno, . - Fechei a porta ainda ouvindo sua risada alta no outro lado. O que acabou me fazendo rir também, mas espantei os pensamentos e a possibilidade de abrir a porta e puxá-lo para dentro da minha casa novamente.





- ! - Escutei Binotto, nosso chefe de equipe, me chamar. Michael mantinha uma conversa animado com ele. Podia apostar que ele estava tramando algo.
- Sim? - Disse parando ao lado dos dois.
- O carro é seu, . Faça um bom trabalho que eu sei que você é capaz. - Deu uma piscada indo em direção à sua sala novamente. Fiquei contente com a proposta tentadora de arrumar o carro sozinha, mesmo sabendo que ele ainda passaria por outros testes e nem sequer seria cogitado para ser usado nessa temporada. Mas eu preciso da minha equipe, F1 é sem dúvida um trabalho de equipe. Todos os carros de corridas eram escolhidos a dedo e fabricados pelas melhores empresas, envolvendo muitas pessoas e muito dinheiro nisso tudo. Não é à toa que a Fórmula 1 é um dos esportes mais elitizados e sofisticados do ramo automobilístico.
O dia foi longo, eram testes e mais testes sendo realizados, ainda faltavam alguns meses até a temporada começar oficialmente, mas, até lá, nós tínhamos que ter tudo sob controle. As corridas envolviam patrocinadores, as futuras escolhas de cada equipe e, principalmente, o futuro de cada competidor, assim como a reputação de cada marca. Tudo estava em jogo. Os treinos livres na sexta, a corrida classificatória no sábado e a corrida final, a que valia de verdade e dava o título de campeão para o piloto, no domingo.
- Ei, o que vai fazer quando sair daqui? - se abaixou de modo que eu pudesse ver seu rosto. Eu estava embaixo do carro dando mais alguns ajustes.
- Ir para casa. O dia foi longo hoje. - Larguei as ferramentas, indo até o vestiário com ainda me seguindo. - O que tem em mente?
- Queria conversar.
- Sobre?
- Qualquer coisa, me distrair.
- Topo uma pizza, tô morrendo de fome.
Saí da oficina, dirigindo até minha casa, o que não demorou mais de quinze minutos. O dia tinha sido longo mesmo, e eu estava cansada, mas sabia que quando pedia para conversar era porque havia algo o incomodando. Ele raramente falava sobre a sua vida pessoal, nem quando estávamos juntos anos atrás ele era de se abrir, e pelo o que eu tenho visto isso não mudou muito até hoje. O inverno já começava a dar as caras, trazendo consigo a brisa gélida como característica principal. Optei por vestir uma calça jeans preta, um blusão de lã fino em tom de bege e meu all star branco também. Nada de saltos depois de um longo dia de trabalho. Deixei meu cabelo solto, vestindo minha jaqueta jeans por último. A pizzaria não era muito longe da minha casa, quase dez minutos de caminhada, e eu estava lá, conforme o combinado. O lugar estava um pouco vazio, mas o ambiente era aconchegante demais. Além da pizza dali ser uma das melhores.
- Oi. - Me sentei em frente a . Ele havia pegado uma mesa mais ao fundo, onde quase ninguém poderia nos ver ali. Agradeci por isso.
- Oi. Pedi uma pizza metade calabresa e mussarela pra nós, tudo bem?
- Ótimo. A pizza daqui é muito boa. - a garçonete logo apareceu com nossas bebidas, havia pedido. Tomei um gole do meu refrigerante, sendo observada por ele.
- Er... desculpe atrapalhar, você poderia tirar uma foto comigo. - a garçonete, que não tirava os olhos de , pediu tímida. Me ofereci para tirar a foto, o que ela rapidamente aceitou. - Obrigada de novo. Vocês formam um belo casal.
- Acredite ou não, ela já me dispensou.
- Ele é um idiota. - Dei um tapa em seu braço, um pouco mais forte do que deveria. A moça riu, acreditando que éramos mesmo um casal, se afastando logo em seguida. - Te odeio. - Voltei a sentar no meu lugar enquanto um sorriso novo brincava em seus lábios.
A pizza chegou bem na hora que meu estômago roncou. Passar o dia dentro de uma oficina apenas com o almoço era bem difícil. Eu sabia que precisava me alimentar melhor, mas minha cabeça ficava ocupada demais às vezes, me fazendo esquecer totalmente de ingerir qualquer alimento ao longo do dia. Comemos em silêncio, não era constrangedor, longe disso. Era nossa maneira de dar uma trégua na nossa guerra e conviver como dois adultos normais.
- Eu sei que o objetivo era se distrair. Mas como se sente com os treinos de inverno chegando? - Coloquei o último pedaço de pizza na boca enquanto esperava uma resposta sua.
- Na verdade, isso tem me enlouquecido. Vai ser a primeira vez sem o meu pai lá, sabe. É uma pressão muito grande que eu mesmo estou me colocando. - Tomei mais um gole do refri. olhou para a rua, seu rosto com um semblante preocupado e triste. Ele precisava e queria um conselho.
- No meu primeiro ano na Ferrari, eu me cobrei muito. Muito mesmo, principalmente porque achei que aquilo dependia somente de mim. Mas eu estava tão enganada, de uma forma que você nem imagina. Eu moro longe da minha família há três anos, sei o que está sentindo. Sei também que é diferente e, às vezes, mais doloroso quando a pessoa que amamos não vai estar lá nem hoje, nem amanhã e nem depois. Mas saiba que não está sozinho, se eu te odiasse não estaria aqui. - Ele riu e pude ver seu rosto ficar mais calmo. - Seu pai está orgulhoso, pode ter certeza disso.
- Obrigada. De verdade.
- Eu preciso ir. Eu vim a pé.
- Te acompanho, mas estou sem carro também.
- Você mora para o outro lado, não precisa.
- Deixa de ser teimosa, . - Dei de ombros, saindo da pizzaria acompanhada de e do olhar da garçonete em cima da gente. Tenho certeza que ela estava louca para fazer mais perguntas, talvez até passar seu telefone a ele. Mas não a julgo, eu também faria se fosse ela.
- Como consegue lidar com a fama? Eu surtei na primeira oportunidade, e eu nem sou famosa. - Fiz uma careta, me sentindo patética. Eu não sabia lidar com determinadas situações, a quase fama que tentaram me colocar foi uma delas.
- Você é , a melhor engenharia mecânica da Ferrari. Quem precisa de fama? - Ri com a sua descrição. Eu era boa, mas nunca me considerei a melhor.
- Eu sei. Mas você é , campeão mundial de Fórmula 1. Viu só? Tem um peso diferente. - Parei em frente à minha casa, ainda esperando uma resposta da minha pergunta. - Sério, me responde. O que você faz?
- Eu só ignoro. Se você se prender a tudo que falam, você não vive. Não estou disposto a abrir mão da minha liberdade. - Deixei suas palavras vagarem na minha mente. Eu sabia que tinha uma pitada de indireta sobre a nossa relação, quando eu claramente fugi com medo das críticas e todos. Mas, também, sabia que ele estava sendo sincero.
- Boa noite, . Obrigada pela noite.
- Boa noite, . - Ele me deu um beijo no rosto, fazendo o caminho contrário ao da minha casa. Eu sentia tanto a sua falta, mas fingia não sentir nada, deixando os mesmos sentimentos guardados em seu devido lugar.





Estava aberta oficialmente a temporada de corrida da Fórmula 1. Eram dez equipes, vinte e uma provas e vinte competidores viajando pelo mundo todo. A primeira corrida acontecia sempre na Austrália. Já estávamos ali, e em menos de 24 horas estava tudo montado. A tensão era sempre a mesma, não podíamos descartar os acidentes nas pistas, e isso me deixava ainda mais nervosa. Um carro correndo a mais de 300 quilômetros por hora, se não freasse a tempo numa curva, por exemplo, poderia ser fatal. Trinta segundos para todos os mecânicos deixarem a pista. Agora eram somente os pilotos, seus carros e suas mentes. Focando toda a sua concentração numa prova de um pouco mais de uma hora de duração. As luzes vermelhas piscaram uma por uma, seguindo das verdes todas de uma vez só dando a largada. Os sons dos pneus em alta velocidade mais pareciam zumbidos para meus ouvidos. Meu coração acelerava tão rápido que era capaz de sair pela boca. Todos estavam vendo os erros de cada equipe, aquele momento em que todo mundo ficava vulnerável e ainda mais suscetível a cometer qualquer erro. Nada passaria despercebido pelas lentes dos jornalistas. Dessa vez, não tinha conseguido subir no pódio, mas a quarta posição ainda era boa para nossa equipe.
Desmontamos tudo novamente, trabalho feito por todos da equipe para seguirmos viagem, seguindo para o hotel em seguida.
A adrenalina ainda corria pelo meu corpo. Não sei se de saudade de todo aquele trabalho, não sei também se fazia parte para me dar coragem de fazer o que estava na minha cabeça durante o dia todo. Mas sei que era boa, eu amava aquela sensação. Tirei meu uniforme, indo tomar um banho quente, tentando não desistir de tudo no meio do caminho. Olhei mais uma vez meu celular, a mensagem de Michael piscava na tela. Desculpa, amigo, hoje não. Vesti meu roupão e saí do quarto. O primeiro passo eu tinha dado. O corredor vazio fez meus pés deslizarem até a porta do número 304 desenhado em dourado. Me senti uma adolescente novamente, sem saber o que fazer e torcendo para não me arrepender depois de bater naquela porta. Contudo, meu corpo implorava pelo seu, nem que fosse uma última vez, e eu rezava para que não fosse a última vez. Tomei todo o restinho de coragem e bati na porta, estava tão nervosa que nem me dei conta de quando a porta foi aberta. Os pingos d'água caíam de seus cabelos curtos descendo por toda extensão de seu abdômen, se escondendo por baixo de sua toalha amarrada na cintura. Encarei seus olhos, os quais mantinham um misto de surpresa e interrogação. , você precisa falar alguma coisa.
- Uma vez me disseram que se você se prender a tudo que falam, você não vive. Não é isso o que eu quero pra mim. Eu quero viver, e quero fazer isso ao seu lado. - Abri meu roupão, deixando à mostra a lingerie vermelha que eu estava usando. O meu corpo todo tremia, minhas mãos suavam e meu coração batendo tão forte podia ser ouvido naquele corredor silencioso. Mordi meu lábio, enquanto observava meu corpo ainda boquiaberto. Seus olhos brilhavam quando encontraram com os meus, fazendo-o dar um passo à frente.
- Eu também quero fazer isso com você. Mas, se você não sair correndo amanhã.
- Eu não vou a lugar nenhum amanhã. - Eu disse, finalmente, colando nossos corpos. Nos tornando um só, como há muito tempo não acontecia.


Fim.


Nota da autora: Acabou, ufa! Eu espero que vocês tenham gostado, porque eu amei escrever cada pedacinho dessa fic. Finalmente Charles e Jo ficaram juntos, porque eles mereciam, não é mesmo? Eu amei tanto esse casal que dá até um quentinho no coração.
Qualquer coisa estou à disposição no twitter @iwantjunes, e não esqueçam de deixar aquele comentário pra fazer uma autora feliz. Até a próxima.
Ei, e não esquece de entrar no meu grupo do Facebook



Nota da beta: MEU JESUS CRISTINHO, EU TÔ TODA ARREPIADA AQUI!!!! Eu vibrei por esse casal, torci cada segundo por eles! Obrigada pelo final feliz, fiquei com o coração quentinho hahaha. Fic perfeita com escrita perfeita, amei de paixão!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus