Última atualização: 19/11/2018

Capítulo 1

Blue Ridge, Georgia - Estados Unidos.

- And I’ll never let go cause there’s something I know deep inside. - ela ergueu a colher de pau no alto e depois apontou para Sky, que a encarava e abanava o rabo. - You were born to be my baby and baaby I was made to be your man.
cantava, fazendo do utensílio de cozinha o seu microfone, ela balançava o corpo no ritmo da música, e ria quando Sky latia, claramente adorando a bagunça que sua dona fazia.
- My heart beats like a drum… Flesh to flesh, one to one. - ela continuou a cantar, mas voltou sua atenção para a massa de brownie que mexia na vasilha, o forno já estava ligado, então não podia perder muito tempo.
Ela remexia o quadril enquanto despejava o conteúdo marrom na assadeira de alumínio, se virou e com uma mão abriu o forno, colocou a tigela lá dentro, girou o corpo para a bancada novamente e começou a pegar o que estava sujo.
- Ué. - colocou a mão na cintura, franzindo a testa.
notou que a colher de pau não estava mais na bancada, olhou para o lado e reparou que sua cachorra também tinha sumido.
- Sky, cadê você? - gritou, a chamando.
Andou até a sala e suspirou ao ver o animal de grande porte deitado no sofá, mordendo a colher de pau com vontade.
- Sua louca, me devolve isso. - ralhou com a cachorra, que ergueu a cabeça, encarando sua dona. - Não ouse! - a mulher apontou o dedo pra outra, notando que ela pretendia fugir. - Sky! - gritou novamente, vendo a cachorra sair em um pulo do sofá e parar em frente à porta de entrada da casa.
suspirou, sua cachorra tinha quatro anos de vida, mas tinha a mentalidade de um filhote, e sempre que era flagrada com algo proibido, ela saía correndo com o objeto na boca.
- Me dá isso. - correu até Sky, que também correu, dando a volta no sofá, indo para a cozinha.
A mulher rolou os olhos, andando rapidamente até o cômodo, sorriu ao ver que Sky estava encurralada no canto na parede, foi até ela e se ajoelhou, agarrando a colher de pau.
- Solta isso, menina. - puxou o objeto o mais forte que conseguia. - Vai ficar uma semana sem osso. - murmurou, após pegar a colher e notar que estava destruída. - Você é impossível. - se levantou, balançando a cabeça negativamente, e jogou a colher no lixo.
A mulher ouviu a porta da sala sendo destrancada e foi até lá, viu sua vó entrando em casa. Ela carregava uma pequena caixa nas mãos, deu alguns passos rápidos e tirou o pacote da mão de Bernice.
- Vejo que a senhora ganhou algo no bingo. - comentou sorrindo, olhando para o objeto em suas mãos.
- Ih, minha filha, você sabe que sou profissional nisso. - a senhorinha comentou, fazendo a neta rir.
A mais velha trancou a porta, deixando sua bolsa no sofá.
- E esse cheiro? O que está aprontando?
- Brownie, Vó. - respondeu, andando até a cozinha. - O que tem aqui? - colocou a caixa no balcão.
- Produtos de higiene, essas coisas. - explicou e foi até a neta, parando na frente dela. - Menina, você não tem que ir pro bar hoje? - perguntou, olhando para o relógio de pulso.
- Sim. - respondeu, abrindo a caixa e fuçando no que tinha ali dentro. - Mas ainda tenho tempo.
- Já é quase sete horas, .
- O quê? - ergueu a cabeça, arregalando os olhos.
Bernice mostrou o relógio pra neta.
- Nossa, Vó! A senhora olha o brownie pra mim? Vai ficar pronto em vinte minutos. - pediu e viu a mulher assentir, então ela correu para as escadas, tinha que tomar um banho e se arrumar para ir trabalhar no seu segundo emprego.

era uma jovem Americana, que morava com sua avó Bernice no interior do Estado da Georgia, mais especificamente na pequena cidade de Blue Ridge, que tinha aproximadamente dois mil e trezentos habitantes. tinha dois empregos, durante o dia trabalhava numa pequena loja no centro da cidade, e de sexta a domingo cantava no bar de um amigo da família. Ela sempre teve talento para música, desde pequena já demonstrava que queria ser artista, vivia cantando pela casa e participando de concursos musicais quando era criança. Mas nunca teve grandes ambições em sua vida, nunca desejou ser famosa ou ter muito dinheiro, então não passava pela sua cabeça ser cantora profissional e no fundo acreditava que não tinha talento para tanto.
Há dois anos ela cantava regularmente no The Last Stop, o bar mais movimentado da cidade, o dono do local era Chad, um grande amigo da família que tinha estudado com Shelby, a mãe de . Então ele a conhecia desde que ela era um bebê e sempre soube do talento dela para música, e quando herdou o bar de seu falecido pai, uma das primeiras coisas que fez foi chamá-la para cantar lá e até hoje sabia que isso tinha sido a decisão mais certa de todas.
- Vó, como estou? - ela indagou, após descer as escadas e chegar à sala.
Bernice tirou sua atenção da televisão e olhou para a neta, sorriu ao ver como ela estava linda, podia ser coisa de vó coruja, mas tudo que a vestia ficava bem nela, era impressionante.
- Está de matar. - afirmou, fazendo a outra rir.
A mais nova balançou a cabeça, ainda se surpreendia com as brincadeiras de uma senhora de quase sessenta e cinco anos, sua avó era muito moderna para a idade.
- O seu brownie ficou pronto. - a informou e ela assentiu.
foi até a cozinha e viu que o brownie já estava em uma tigela de vidro.
- Obrigada, vó. - agradeceu, pegando o recipiente e em seguida a chave de seu carro. - Já volto. - avisou, abrindo a porta da casa, ela saiu do imóvel e desceu os degraus da pequena varanda, indo até o seu veículo, onde colocou o brownie no banco do passageiro.
- Volta que horas? - ouviu Bernice indagar assim que ela entrou em casa novamente.
- Não sei não. - mordeu o lábio inferior. - Mas não precisa esperar por mim. - falou, observando a senhora assentir.
olhou ao redor, vendo Sky deitada no outro sofá que elas tinham na sala, andou até ela e fez um carinho em sua cabeça.
- Vou indo, Vó. - avisou, se aproximando da mais velha e se inclinou, lhe dando um beijo na bochecha.
- Boa cantoria. - desejou, sorrindo para a neta, que agradeceu assentindo.

A casa delas não ficava muito longe do centro de Blue Ridge, então pouco tempo depois a mulher estacionou o carro na avenida principal da cidade, que era onde o The Last Stop ficava. notou que alguns carros que estavam por ali tinham placas de outros lugares, o que era comum, afinal uma rodovia interestadual passava pela cidade, o que fazia do local um ponto de parada para muitos viajantes.
sorriu quando um homem segurou a porta do bar pra ela, já que a mulher tinha uma vasilha nas mãos, entrou no local e notou que o movimento estava bom, mas sabia que ainda ficaria mais cheio, andou até o balcão e viu a esposa de Chad sorrir ao notar sua presença no local.
- Ei, garota. - acenou, deu a volta no balcão, andando lentamente até , que sorriu para a mulher.
- Holly, está cada dia maior. - brincou, mencionando a barriga de cinco meses de gravidez dela.
- E cada dia mais faminta. - afirmou, com um sorriso no rosto. - Isso é o que estou pensando? - apontou para as mãos de , que segurava uma tigela de vidro, com um pano por cima.
- Promessa é dívida. - garantiu, piscando pra ela. - Seu brownie. - esticou a vasilha pra ela.
- Ai, você é um anjo. - sorriu, sentindo os olhos lacrimejarem, graças aos hormônios da gravidez.
- Que isso, só não queria carregar a culpa do seu filho nascer com cara de brownie, né. - riu de leve, vendo a outra balançar a cabeça negativamente.
- Se você me dá licença, vou levar isso lá pra cima. - informou e a outra assentiu.
Chad e Holly estavam casados há quase três anos, e esperavam o primeiro herdeiro, que chegaria em quatro meses. O casal morava na pequena casa que ficava em cima do bar que possuíam, o que facilitava em muito a vida deles. Holly era de Atlanta e trabalhava para uma das distribuidoras que vendiam produtos para o bar de Chad, os dois demoraram muito assumir o que sentiam um pelo outro, mas quando perceberam que estavam apaixonados nunca mais se desgrudaram. Holly abandonou sua vida na cidade grande e se mudou para casa do homem, ela nunca se arrependeu de sua decisão, pois estava correndo atrás de sua felicidade e de seu amor.
- . - Chad cumprimentou a moça, enquanto saía da cozinha do bar.
- Oi, chefe. - sorriu, acenando pra ele.
- Já falei para não me chamar assim. - rolou os olhos, ajeitando as bebidas no balcão. - Rudy não vem hoje. - a avisou e ela bufou.
Rudy era um jovem da cidade que tocava violão, enquanto ela cantava no bar. O problema era que por ser muito novo, ele não era tão responsável igual ela, e a deixava na mão muitas vezes. sabia tocar violão, não tinha problema algum com isso, só preferia não tocar enquanto cantava, era um gosto pessoal mesmo.
- Paciência. - deu de ombros, olhando para o pequeno palco em um dos cantos do bar. - Vou lá me ajeitar. - indicou o local com a cabeça e viu Chad assentir.
- Não esquece sua água. - a lembrou.
Antes de ir até o palco, foi para trás do balcão do bar e guardou sua bolsa no local de sempre, aproveitou e pegou uma garrafinha de água, como seu chefe tinha lhe dito para fazer. Ela andou na direção do palco e subiu o pequeno degrau do mesmo, começou a ligar todos os aparelhos eletrônicos do local, em seguida verificando se o violão estava afinado, depois testando o seu microfone. Sentou na banqueta e ajustou o pedestal para a altura que desejava.
- Boa noite. - falou no microfone, chamando a atenção das pessoas que estavam ali. - Meu nome é e vou cantar para vocês. - sorriu, dando os primeiros acordes no violão.
O repertório dela servia para todos gostos, a primeira música foi Paradise City, do Guns N’ Roses, seguida de One Last Breath do Creed, depois foi para Adele, cantando Rumor Has It, continuou nas mulheres com Blown Away, da Carrie Underwood, e depois Breakaway da Kelly Clarkson, voltou aos clássicos com Sweet Home Alabama do Lynyrd Skynyrd, e depois Livin’ on a Prayer do Bon Jovi, seguida de Best of You do Foo Fighters.
- Essa música é maravilhosa. - Holly suspirou, quando a amiga começou a cantar Pretty Hurts da Beyoncé. - Ai, não me aguento. - falou, secando algumas lágrimas que já desciam por seus olhos.
Algumas pessoas bateram palmas para assim que ela finalizou a música, a platéia conseguia sentir a emoção da cantora. A mulher chacoalhou a cabeça e suspirou, buscando energia para cantar mais algumas músicas, ficando nos clássicos de rock dessa vez. Meia hora depois, ela finalizou sua setlist e agradeceu ao público, acenando para todos, sorriu e foi até o bar, onde sua porção de batata fritas já esperava por ela no balcão.

pegou o copo de coca-cola e bebeu boa parte do conteúdo, sentiu um arrepio ao perceber como o refrigerante estava gelado, ela sabia que isso poderia prejudicar sua voz, mas amava a sensação do frio descendo por sua garganta. Ela apreciava sua batata frita quando um homem sentou em um banco ao seu lado, não o reconheceu, então pensou que talvez ele pudesse ser um viajante que tinha parado em Blue Ridge para descansar.
- Quanto você cobra? - o ouviu indagar, sua voz era rouca e baixa.
Virou o rosto na direção dele, arqueando uma sobrancelha, segurou uma risada ao ver que ele deu uma piscadinha.
- Desculpa, sou leal ao Chad, só canto aqui mesmo. - explicou, pegando outra batatinha.
- Não estou falando disso. - falou, tossindo em seguida.
não era idiota, ela sabia muito bem do que aquilo se tratava, e infelizmente era muito mais comum do que ela gostaria. Certos homens tinham essa mentalidade atrasada de que toda mulher que se apresentava em público estava disposta a fazer tudo por dinheiro, o que não era o caso dela. Mas já estava calejada, e tinha um jeito bem peculiar de se livrar dos homens que se aproximavam dela perguntando quanto ela cobrava para dormir com eles.
- Não? - franziu a testa, se fazendo de sonsa. - O que é então? - o fitou rapidamente.
- Você sabe. - riu fraco, a encarando.
- Sei? - apontou pra si própria.
notou um outro homem parando no balcão, mas não tão perto quanto o que ela conversava.
- 150 dólares? - o estranho indagou.
- Pelo quê? - voltou a questioná-lo.
O homem suspirou, balançando a cabeça negativamente. Ela olhou o outro cara, que conversava algo com Chad, ela o conhecia de algum lugar.
- 200? - escutou o homem ao seu lado falar, e dessa vez ela riu.
- O que te faz pensar que eu sou prostituta? - mais direta impossível, o que fez o homem quase engasgar com a própria saliva. - É o batom vermelho? - citou a cor que seus lábios estavam pintados. - Ou ser cantora em um bar? Hein?
o encarava, percebendo que ele estava surpreso com a atitude dela.
- Desculpe. - o homem pediu.
- Algum problema aqui? - Chad se aproximou, após ouvir as perguntas da amiga.
- Não. - ela garantiu, fitando o cara ao seu lado. - Ele já está de saída.
O homem olhou para Chad e depois , assentiu e se levantou, em seguida indo em direção a saída do bar.
- Babaca. - resmungou, sugando o canudinho de sua bebida. - Uma mulher não pode sair sozinha sem ser incomodada por um cara? - fitou o amigo, que deu de ombros.
se lembrou do homem que conversava com Chad, ela olhou para o lado e viu que ele não estava mais ali, franziu a testa tentando se lembrar de onde o conhecia.
- Que foi, ? - a voz do amigo chamou sua atenção.
- Quem era o rapaz que você estava conversando?
- Agora? Era o . - respondeu, o que não lhe ajudou em nada.
- O conheço de algum lugar, mas não sei de onde.
- Claro que conhece, é o , quem não conhece o sobrenome nessa cidade?
Ela arregalou os olhos brevemente, se dando conta de quem era o rapaz. Como poderia ter esquecido a fisionomia dele? O conhecia de vista desde sempre, e ele ainda era vizinho da sua melhor amiga. Não entendia como não o reconheceu de imediato, será que estava com problema na visão?
- Por quê? - Chad perguntou.
- Curiosidade. - deu de ombros. - Ele vem sempre aqui? Chad estreitou os olhos, tentando entender o súbito interesse dela no homem.
- É cliente regular. - explicou, a vendo assentir.
se virou, olhando ao redor brevemente, e até onde conseguiu ver, notou que o rapaz não estava mais por ali, mordeu o lábio inferior e voltou a comer sua batata frita.

Na manhã seguinte ela acordou com o sol que invadia a janela de seu quarto, se xingou mentalmente por ter esquecido de fechar as cortinas na noite anterior, suspirou e sentou-se na beirada da cama e olhou para o seu criado-mudo, pegando o porta-retrato que tinha ali. Segurou o quadro com as duas mãos, analisando a foto em que ela e sua mãe estavam sentadas na varanda da casa, abraçava a mãe pelo pescoço e as duas tinham um lindo sorriso em seus rostos.
- Como você faz falta, mãe. - lamentou, alisando a foto.
Shelby tinha acabado de se formar no ensino médio quando descobriu que estava grávida de , ela não estava planejando ser mãe tão cedo, queria poder fazer sua tão sonhada faculdade de Enfermagem, se estabilizar financeiramente e depois teria filhos. Seu namorado na época tinha o mesmo pensamento que ela, e ele nunca aceitou a gravidez da namorada, um pouco antes da filha deles nascer, o rapaz foi embora de Blue Ridge e nunca mais deu sinal de vida, ele tinha fugido de suas responsabilidades.
Shelby criou com a ajuda de seus pais, e quando a pequena estava com três anos de idade, a mulher realizou seu sonho de entrar na faculdade, e logo após sua formatura ela conseguiu um emprego no Hamilton Medical Center, um hospital numa cidade próxima, e trabalhou ali até o seu último dia de vida.
Era mais um dia normal na vida de , a rotina era sempre a mesma, sua mãe a levava para a escola e depois ia para o trabalho, não tinha nada de estranho naquilo. Até que na hora do intervalo chamaram a menina de apenas quatorze anos na diretoria, sua avó tinha vindo lhe buscar mais cedo e no momento em que viu o estado que a senhora se encontrava ela sabia que algo tinha acontecido. Shelby nunca chegou ao trabalho naquele dia, o pneu de seu carro furou a fazendo perder o controle do automóvel, invadindo a pista contrária da rodovia, colidindo de frente com outro carro. Nenhum dos motoristas sobreviveu ao impacto, duas vidas se perderam naquele dia, duas famílias foram destruídas. não sabia que era possível sentir tanta dor, aqueles foram os piores dias de sua vida.
Quando ela tinha seis anos seu avô teve um ataque cardíaco e acabou falecendo, mas naquela época ela era muito pequena para entender completamente o que tinha acontecido. Mas quando sua mãe faleceu, ela já era adolescente e tinha plena consciência de tudo, tinha perdido sua companheira, sua amiga, sua confidente e a pessoa que ela mais amava nesse mundo.
acabou perdendo o ano escolar, pois não tinha ânimo para nada, Bernice temendo pelo pior, levou a neta para se consultar com um psicólogo para que ela conseguisse seguir em frente, não foi fácil, mas após as primeiras consultas a menina foi melhorando, foram meses de tratamento até voltar a fazer as coisas básicas do dia a dia e sorrir.
Nove anos tinham passado desde aquele dia, a saudade que sentia de sua mãe ainda era gigante, mas hoje ela sabia lidar com aquele sentimento, tinha aprendido a conviver com a ausência de Shelby.
- ? - escutou sua vó a chamando, em seguida duas batidas na porta de seu quarto.
- Já vou. - avisou, se levantando e indo até a porta.
- Bom dia, minha querida. - a senhora desejou, vendo a neta sorrir. - Você pode descer? Precisamos conversar.
franziu a testa, buscando em sua memória se tinha feito algo de errado.
- O que aconteceu? - perguntou.
- Nada grave. - fez um gesto com a mão. - Te espero na cozinha. - avisou.
- Só vou tomar um banho e já desço. - falou, observando sua avó assentir e se virar, andando na direção das escadas.
se apressou, sua curiosidade estava aguçada para saber sobre o que Bernice queria conversar. Tomou uma ducha rápida, vestiu um short e uma regata confortável, deixou seus cabelos secarem ao natural.
- Vó? - desceu as escadas, já chamando pela senhora.
- Na cozinha, . - informou.
A mulher chegou no cômodo, vendo a avó encostada no balcão.
- Lembra quando conversamos sobre a cerca dos fundos?
- Ah sim, é isso? - suspirou, aliviada. - Lembro sim, o que tem?
Bernice andou até a porta da cozinha que levava para o quintal da casa, seguiu a avó, as duas saíram da casa e desceram os pequenos degraus que levavam ao gramado, caminharam um pouco até a cerca antiga que rodeava o terreno inteiro.
- Olha como está. - a senhora apontou para o estado deplorável da madeira.
- Nossa. - a mais nova fez uma careta, notando que metade da cerca estava destruída, com pedaços de madeira se soltando, ela tocou no cercado e reparou que não estava muito firme. - Acho que não dá mais pra adiar. - murmurou. - Vou ter que vender qual órgão pra arrumar isso? - brincou, vendo Bernice a repreender com o olhar.
- Tenho algum dinheiro no banco. - a senhora comentou.
fitou sua avó, agradecendo pela mulher sempre fazer suas economias e guardar dinheiro.
- Eu também. - garantiu. - Metade do que ganho no Chad vai pro banco, então posso usar pra comprar os materiais.
Bernice assentiu e indicou a casa com a cabeça, elas retornaram para cozinha.
- Conversei com algumas pessoas e me disseram que um profissional ia cobrar muito caro. - a senhora começou, atraindo a atenção da mais nova, que tinha parado em frente à geladeira. - A mãe da me indicou o rapaz que consertou a varanda dela, peguei o telefone dele e ele se ofereceu para vir aqui ver.
- Quem é? - abriu a geladeira, pegando o leite.
- É o menino do . - informou, sentando na pequena mesa redonda que tinha ali.
- ? O vizinho da ? - franziu a testa.
- Ele mesmo. - confirmou.
mordeu o lábio inferior, quase rindo das coincidências da vida. Ontem mesmo ela o viu no bar em que cantava, e hoje sua avó falava dele.
- Ele é mecânico e eletricista, mas parece que sabe mexer com construção também. - Bernice comentou, bebericando um pouco de café.
A mais nova colocou a caixa de leite na mesa, em seguida pegou uma xícara.
- Bom, se a mãe da o indicou, ele deve ser de confiança, certo? - mordeu o lábio inferior e sentou-se.
- É sim, vi aquele menino crescer. - Bernice garantiu. - O problema ali sempre foi o pai e irmão, sempre foi um bom menino.
riu da forma que a sua avó se referia ao mais novo da família .
- Vó, a senhora sabe que ele não é mais um menino, né? - sorriu, a vendo assentir.
- Claro que sei, ele se tornou um belo homem. - fitou a neta. - Um ótimo partido para qualquer mocinha dessa cidade.
- Sei… - ela balançou a cabeça. - Quando ele vem?
- Pode ser hoje a tarde? Imaginei que você gostaria de estar aqui.
- Tudo bem. - assentiu. - Só preciso ir na rapidinho, e depois vou ficar o dia todo em casa.
Bernice sorriu para neta, era tão bom poder contar com , saber que ela sempre estaria ali para lhe ajudar com o que fosse necessário.


Capítulo 2

“Pardon the way that I stare, there’s nothing eles to compare...”
(Can’t Take My Eyes Off You – Frank Valli)

desceu de seu carro e enquanto caminhava até a entrada da casa de olhou brevemente para a casa do vizinho de sua melhor amiga, notou que a famosa caminhonete azul não estava ali, indicando que o rapaz tinha saído.
Continuou seu caminho e subiu os três degraus que levavam até a varanda da residência e tocou a campainha, escutou uma movimentação vinda de dentro do local e sorriu quando a porta foi aberta pela moradora mais nova da casa.
- Tia ! - Willow gritou assim que viu a mulher.
A pequena menina de seis anos pulou no colo de , que rapidamente a segurou em seus braços.
- Oi, coisa linda. - riu, abraçando a criança.
- Filha, quantas vezes já te falei para não abrir a porta para estranhos? - vinha de dentro de casa e notou que a sua menina conversava com alguém.
- Sou eu, . - a amiga tratou de avisar logo.
A mulher sorriu ao ver Willow no colo de , a pequena tinha verdadeira adoração pela mais velha.
- Entre logo. - pediu, fazendo um sinal com a mão.
- Que cheiro delicioso é esse? - perguntou, vendo a amiga fechar a porta.
- Estou fazendo lasanha pro almoço. - explicou, se virando.
- Eu ajudei a colocar o queijo. - Willow fez questão de não ser esquecida na conversa.
- Isso não é justo. - murmurou e fez um bico em seguida. - Vão me deixar na vontade? - reclamou.
- Você pode almoçar com a gente, tia. - a convidou. - Pode, né mãe? - olhou para sua progenitora, que assentiu.
- Obrigada pelo convite, mas dona Bernice está fazendo torta de frango.
tirou o pano de prato que estava em seu ombro e bateu com o mesmo na perna da amiga, que deu um gritinho em reprovação. Willow soltou uma risada gostosa com o que tinha acabado de acontecer, o que ela não sabia é que as adultas faziam isso de propósito, apenas para divertir a menina.
- Safada, sabe que eu amo as tortas da sua vó. - riu, notando a cara de indignada de , que ia lhe dizer algo, mas se calou ao ver entrando na sala.
- Acabou a cerveja. - ele reclamou, coçando a cabeça em seguida. - Oi, .
- E aí, ? - cumprimentou o rapaz.
Willow desceu do colo da mulher, foi até o seu pai e o cutucou na perna, o fazendo olhar pra baixo.
- Vai no mercado? - questionou e ele assentiu.
- Posso ir junto? - pediu e o viu concordar novamente. - Vamos, tia? - ela se virou, fitando .
- Não posso. - lamentou. - Vim rapidinho só pra conversar com sua mãe, mas a gente pode marcar um dia pra passar o dia inteirinho juntas, o que acha? - colocou as mãos na cintura.
- Posso? - a pequena olhou para o pai e depois sua mãe, ambos assentiram.
- Só combinar o dia. - se aproximou, acariciando a cabeça da filha.
- Vamos, carrapatinho. - andou até a porta e chamou pela menina, que foi até saltitante até ele.

e sua família se mudaram para Blue Ridge quando o seu pai se aposentou da profissão de veterinário. Eles compraram uma fazenda na zona rural da cidade e por ali ficaram. Ela conheceu um pouco depois que chegou na cidade, era a única aluna nova na escola e por ter entrado no meio do ano escolar se sentia completamente deslocada, mas viu em alguém com quem poderia conversar. As duas se deram bem logo de cara, mesmo sendo um ano mais velha e estudarem em classes diferentes, isso não atrapalhou a amizade delas.

A mulher conheceu algum tempo depois, o rapaz era três anos mais velho que ela e trabalhava na pizzaria local. Entre namoro, noivado e casamento, os dois já iam para dez anos juntos, o que não era novidade para ninguém, pois a sintonia entre eles era perceptível a qualquer um. O respeito e amor entre os dois era bonito de se ver. E dessa relação tão linda nasceu Willow, uma adorável menina de seis anos.

- E o Spencer, como está? - indagou, vendo a amiga sorrir brevemente.
As duas estavam na cozinha, pois a dona do lugar ainda tinha que terminar alguns afazeres.
- Bem, enlouquecido com esse novo projeto, mas disse que vai tentar voltar semana que vem. - explicou e a outra assentiu.
- E você? Está tudo bem? Me parece meio preocupada. - perguntou, enquanto tirava alguns objetos do balcão e colocava na pia.
- A gente vai trocar a cerca lá de casa. - suspirou, pensando no dinheiro que ia gastar. - Sua mãe indicou o seu vizinho para a minha vó.
- Ah sim, o ?
- Isso! Hoje ele vai lá em casa. - mordeu o lábio inferior. - O que você acha dele?
- É um ótimo carpinteiro, mamãe adorou o serviço dele.
- E como pessoa?
franziu a testa com o questionamento da amiga.
- Como assim? - quis saber.
sentia-se envergonhada por sequer pensar naquilo, era horrível julgar as pessoas pelo que os outros diziam, mas não conseguia evitar.
- A fama deles não é das melhores.
A mulher rapidamente parou o que estava fazendo e se aproximou do balcão, encarando a outra.
- . - fechou os olhos por um segundo. - Por favor, não pense isso do , ele nunca mereceu o tratamento que as pessoas dão pra ele.
- Do que você está falando? - perguntou confusa com aquela afirmação da amiga.
- Você nunca falou com ele, não é? - assentiu ao ver a outra negar. - Por quê?
- Eu… - tentou pensar em algum motivo, mas não encontrou algum. - Não sei, acho que nunca tive a oportunidade. - deu de ombros.
- Então, agora você tem a chance perfeita. - sorriu sem mostrar os dentes.
- Você o conhece bem? - perguntou curiosa.
- O suficiente, mas a Willow sempre conversa com ele quando o vê.
- Ah é? - perguntou genuinamente surpresa. - E como ele é com ela?
- Normal, oras. - riu nasalado. - Mas ela diz que ele a trata como adulta. - balançou a cabeça negativamente, se lembrando das palavras da filha.
- Então, posso confiar?
- Sem dúvidas. - garantiu, sorrindo para a amiga. - E você vai adorar o trabalho dele, é tão detalhista e faz tudo com muito cuidado.
- Que bom, porque eu só sei pregar os quadros na parede e olhe lá. - riu de si própria. - Preciso ir agora, , outro dia volto com mais tempo.
- Tudo bem. - deu a volta no balcão. - Depois me fala como foi.
- Pode deixar. - assentiu, sendo acompanhada pela amiga até a porta da casa.

Bernice, e Sky estavam na sala de casa relaxando após o almoço, elas tinham esse costume de passarem um tempo juntas assistindo televisão logo depois da refeição de domingo, era a maneira de elas aproveitarem o dia.
- Acho que ele chegou. - a mais velha comentou assim que escutou o barulho de moto.
viu a vó se levantar e fez o mesmo, Sky apenas ergueu a cabeça e observou as duas mulheres, que agora iam na direção da porta principal da casa. A mais nova quase engasgou quando viu o meio de transporte que trouxe até ali, não fazia ideia da marca ou modelo, só sabia que era linda, desde sempre ela tinha essa pequena fixação por motos e adoraria ter uma.
- Oi, . - escutou a vó dizer e balançou a cabeça, se dando conta que continuava encarando o veículo de duas rodas.
- Boa tarde, senhora. - cumprimentou Bernice, que sorriu com a gentileza dele.
- Essa é minha neta, . - apontou para a mais nova.
A mulher desceu as escadas e sorriu para o rapaz, que segurava o capacete em uma de suas mãos.
- Pode me chamar de . - esticou a mão pra ele.
- É um prazer. - apertou a mão dela levemente, assentindo em seguida.
- Vem, vamos lá ver a cerca. - Bernice subiu as escadas e fez um sinal com as mãos, sendo seguida pelos dois.
Sky sentou-se ao notar a presença de humanos no local novamente, mas estranhou ao sentir o cheiro de alguém diferente, se levantou ao ver a porta sendo aberta e andou até as pessoas que entravam em seu território, latiu ao ver um terceiro indivíduo no local.
- Ei, Sky. - chamou a atenção da cachorra e foi até ela. - Está tudo bem. - acariciou a cabeça do animal, que olhou a dona e abanou o rabo. - Não precisa se preocupar, ela é mansa. - a mulher fitou , que assistia a cena atentamente.
- Só está te cumprimentando. - Bernice afirmou.
- Não tem problema. - garantiu, reparando que a cachorra olhava pra ele e viu se aproximar, esticando as mãos na direção dele.
- Me dê isso aqui. - pediu já segurando o capacete.
- Obrigado. - agradeceu ao vê-la colocando o mesmo no sofá.
- Vamos, a cerca fica nos fundos. - Bernice falou e já foi andando para a cozinha.
Ele seguiu a senhora e notou que e a cachorra vinham atrás dele.
- É lamentável que a madeira não seja eterna. - a mais velha reclamou e ele riu fraco.
- Vó, essa cerca existe desde que me entendo por gente. - a outra comentou.
- Sua mãe era uma jovem quando trocamos pela primeira vez. - informou, fazendo arregalar os olhos brevemente.
- É um milagre que ainda esteja de pé. - balançou a cabeça e parou de andar assim que chegaram ao fim da propriedade.
- Posso? - apontou para a cerca e olhou para Bernice.
- Vá em frente. - fez um sinal com as mãos.
sentiu Sky passar na lateral de sua perna e andar até onde o rapaz estava, ficou tranquila, pois viu que a cachorra abanava o rabo e queria apenas conhecer melhor o estranho que estava em sua casa. A cachorra cheirou as pernas dele por um momento, a mulher observou a reação de , que olhou para baixo e acariciou a cabeça do animal brevemente, o que foi mais do que suficiente para Sky se sentir à vontade e lamber a mão dele.
- Que abusada. - Bernice balançou a cabeça negativamente.
- Desculpa. - deu dois passos, com a intenção de afastar sua cachorra extremamente amigável.
- Tá tudo bem. - ele fitou a mulher e acariciou o animal novamente.
Ela parou e sorriu com a atitude dele, ficava nas nuvens quando alguém não se incomodava com Sky.
- O que você acha? - Bernice perguntou enquanto ele analisava a cerca.
segurou a madeira com a mão e deu alguns chutes, andou até o outro lado e fez o mesmo processo.
- Tem que trocar tudo. - olhou para as duas, que assentiram.
- Você acha que vai ficar muito caro? - fez uma careta e ele a encarou.
- Depende do tipo de material que comprarem. - olhou para Bernice, que fitou a neta.
abriu a boca para dizer algo, mas franziu a testa em seguida, seu conhecimento sobre cerca e material usado para construir uma era praticamente zero.
- O que você indica? Porque é óbvio que não sabemos nada sobre isso. - ele riu fraco com a informação dela.
- Preciso ir pra Dalton e ver o que eles tem lá. - colocou as mãos nos bolsos da frente de sua calça jeans.
- Aqui não tem? - franziu a testa, pensando na distância até o local.
Esse era um dos problemas de morar em cidade pequena, muitas vezes era preciso ir até uma cidade maior para comprar o que não tinha onde moravam. Dalton não era tão grande assim, tinha por volta de trinta mil habitantes, mas se comparada a Blue Ridge era uma diferença gigantesca.
- Até tem. - ele respondeu e a viu assentir. - Só que lá tem mais opções e consigo um preço melhor.
- Quando você acha que pode ver isso? - Bernice indagou.
Ele pensou por um momento, analisando os compromissos que tinha para os próximos dias.
- Terça, pode ser? Vou lá, faço o orçamento e trago pra vocês.
- Que horas? Terça é dia do meu clube de crochê. - a senhora informou e segurou o riso.
- Ele pode passar lá na loja, não pode? - fitou o rapaz, que franziu a testa. - Sabe o posto de gasolina do centro? - indagou e ele assentiu. - Eu trabalho numa loja infantil que fica do outro lado da rua, a Majestic Kids.
- Não conheço. - negou com a cabeça. - Mas não deve ser difícil achar.
- Então, trabalho até às cinco da tarde durante a semana, pode passar lá qualquer horário e me falar o orçamento.
- Tudo bem. - balançou a cabeça positivamente.
- Mas tenha em mente que sou idosa e vivo de aposentadoria e a tem dois empregos para ajudar nas despesas. - Bernice comentou em tom divertido.
- Vó! - a mais nova falou alto, rindo em seguida.
- Não vou cobrar caro. - garantiu. - Vocês têm alguma ferramenta? - olhou ao redor brevemente, notando uma espécie de casinha de madeira num canto do quintal.
- Ah sim, ali a gente guarda as tranqueiras. - brincou, já indo até o local e sendo seguida por ele. - Cortador de grama, pá, enxada... Essas coisas.
- Você cuida da grama? - perguntou, tentando imaginar a mulher fazendo esse tipo de serviço, ela parecia ser tão delicada.
- Claro. - riu fraco. - Tenho calos nas mãos pra provar. - falou, abrindo a portinha.
deu dois passos para frente, analisando o local melhor, pensando no que precisaria trazer de sua casa para consertar a cerca delas.
- Se faltar alguma coisa eu posso comprar. - ela mordeu o lábio inferior, incomodada com a expressão neutra dele.
- Não, o que você tem é suficiente. - a olhou brevemente.
- Que ótimo. - sorriu aliviada e de repente uma dúvida surgiu em sua mente.
- Como faremos com a madeira velha? Temos que contratar alguém para descartar?
- Eu tenho uma caminhonete, posso fazer isso. - explicou e ela quase se xingou por ter esquecido do outro meio de transporte dele.
- Ah sim, claro. - riu fraco.
- Agora eu preciso ir. - falou, olhando para ela e depois para Bernice, que observava os dois.
- Muito obrigada. - a mais velha se aproximou deles, com Sky andando ao seu lado. - Você vai nos salvar. - garantiu.
- É só o meu serviço. - deu de ombros.
- Então na terça você me procura? - indagou e ele assentiu rapidamente.
- Combinado então. - esticou a mão para ele, que a apertou com pressa.
As duas o acompanharam até a frente da casa e observaram o rapaz se afastando com sua moto.

Mais tarde naquele mesmo dia estava no seu quarto, se preparando para dormir quando recebeu uma ligação de Spencer, seu namorado.
- Oi, gata. - brincou, sabendo o quanto ela detestava esse tipo de apelido.
- Oi. - sorriu, sentando-se na cama. - Como está Miami?
- Um inferno de quente. - reclamou e ela rolou os olhos. - E você, tudo bem por aí?
- Sim, tudo tranquilo. A maior novidade por aqui é vamos trocar a cerca de casa, a bichinha chegou ao fim de sua vida. - brincou e conseguiu imaginar ele balançando a cabeça negativamente.
- Já contrataram alguém? - perguntou interessado.
- Um rapaz veio aqui, essa semana ele vai nos dar o orçamento.
- Um rapaz? - a voz dele estava desconfiada. - Quem?
- , foi indicação da mãe da . - explicou, mexendo no edredom de sua cama.
- Eu o conheço?
- Não sei, é o , você deve saber quem é. - deu de ombros.
- O quê? - a voz dele saiu esganiçada. - Ele esteve na sua casa e vocês estão cogitando contratá-lo?
- Sim…
- Não, deixa comigo que vou falar com uns amigos e resolver isso para vocês.
- Claro que não, Spencer. - foi firme, detestava quando ele duvidava de sua capacidade para solucionar alguma coisa. - A Vó e eu estamos cuidando disso, não tem por que se preocupar.
- Como não, ? Você está enfiando um qualquer na sua casa e ainda pede para eu não me preocupar? Isso não é possível.
- Spencer, você não está exagerando? - franziu a testa, confusa com aquela reação.
- Nada que envolva é exagero. - bufou.
- Do jeito que você fala parece que o cara é um psicopata que vai me matar, esquartejar o meu corpo e jogar meus restos para os crocodilos.
- Não duvido.
fechou os olhos, tentando controlar sua respiração, aquela era para ser apenas uma simples conversa de namorados que estão com saudades, não queria transformar aquilo em algo maior do que realmente era.
- Spencer, minha vó conhece o desde que ele era um menino, a e gostam dele e eu o achei bem normal. - concluiu, evitando mencionar qualquer coisa a mais.
- Você quem sabe.
- Isso é sério? - riu fraco, cansada daquele assunto.
- Preciso ir dormir agora, . - anunciou e ela rolou olhos.
Toda vez que o namorado era contrariado ele agia feito um moleque mimado e ela detestava isso.
- Boa noite, Spencer. - desejou.
- Obrigado. - agradeceu. - Dorme bem, .
E assim eles encerraram aquela ligação, ela acabou indo dormir completamente frustrada.

observava Kelsey, que terminava o atendimento de uma mulher que carregava um bebê adorável e simpático, que só sabia sorrir o tempo todo. Viu a companheira de trabalho entregar o cupom fiscal para mulher, que olhou na sua direção e acenou se despedindo, a criança viu o gesto da mãe e fez o mesmo, o que tirou risadas das mulheres do local.
- Ai, eu quero um desses. - a loira fez um bico. - Bebês são tão mordíveis.
- Sossega aí que até pouco tempo você era um deles. - zombou.
- Falou a idosa, você é só seis anos mais velha que eu. - a outra rolou os olhos. - E eu já tenho dezoito anos.
riu e balançou a cabeça negativamente, era engraçado como Kelsey adorava se gabar por ter dezoito anos, e ela não perdia a oportunidade de perturbar a menina por causa disso.
As duas eram as únicas funcionárias da Majestic Kids. trabalhava ali há cinco anos e cuidava de praticamente tudo, Kelsey tinha começado a trabalhar em horário integral há pouco tempo, a loja pertencia à sua família, então sempre estava por ali. Mas quando completou dezoito anos decidiu trabalhar oficialmente no local. Ainda não tinha decidido se faria faculdade e queria um tempo para pensar, porém detestava ficar sem nada pra fazer e por isso quis trabalhar.
- Precisamos repor o estoque de Carter. - avisou à , que assentiu e pegou o catálogo de roupas daquela marca.
- Já vou pedir de outros que vi que estavam faltando. - comentou, analisando as opções.
Kelsey arrumou algumas roupas na vitrine e aproveitou para olhar o movimento da rua, sentiu um frio na espinha ao ver quem estacionava o carro na frente da loja delas.
- Meu Deus, ! - se virou bruscamente, andando até a mulher.
- Que foi? - ergueu os olhos e estranhou a feição da mais nova. - Viu um fantasma, foi? - perguntou, notando que Kelsey estava mais pálida que o normal.
- Pior que isso. - deu a volta no balcão e sentou-se ao lado de , que a fitou preocupada, tentando entender o que estava acontecendo.
A mulher ia perguntar algo, porém foi interrompida pelo barulho do sininho da porta, que anunciava a entrada de alguém na loja. Olhou naquela direção, se perguntando se foi a pessoa que tinha acabado de chegar que assustou Kelsey, mas não podia ser. Não era possível, era?
- . - ela sorriu ao vê-lo andar meio incerto até ela.
O rapaz apenas assentiu e parou no balcão, ele fitou a loira ao lado de .
- Com licença. - a mais nova pediu, quase tropeçando nos próprios pés antes de sair dali.
- Ignore ela, não está bem hoje. - avisou ao rapaz, que apenas balançou a cabeça negativamente.
- Trouxe o orçamento. - tirou um papel do bolso de sua calça e colocou no balcão.
Ela pegou a folha e viu o que tinha escrito ali, os preços de madeiras variadas e os acessórios que precisaria, coçou a cabeça e mordeu o lábio inferior.
- O mais barato? - olhou pra ele, que deu de ombros a confundindo. - Me ajuda, . - suplicou e ele não segurou o riso.
- Essa madeira é melhor. - apontou no papel a segunda opção.
ponderou, vendo que a diferença de valores não era tão grande.
- Tudo bem. - assentiu, devolvendo o papel pra ele. - Quando você pode começar?
- A partir de quinta, se quiser. - cruzou os braços na altura do peito.
- Pode ser, vou sacar o dinheiro e te entrego amanhã.
- Sem problemas. - assentiu. - Qual o melhor horário?
- Minha Vó fica o dia inteiro em casa, às vezes ela sai para fazer algumas coisas, mas se você já estiver lá não tem problema.
- Tem certeza? - arqueou uma sobrancelha.
franziu a testa, estranhando aquela pergunta.
- Claro. - deu de ombros.
Se ela tinha entendido direito, queria saber se elas realmente não se importavam com o fato de ele ficar sozinho na casa em que moravam.
- Combinado pra quinta? - perguntou e ela assentiu.
deu a volta no balcão e dessa vez foi ele quem não entendeu o que estava acontecendo.
- Eu te levo até a porta. - sorriu, notando a confusão no rosto dele.
não disse nada, só se deixou ser acompanhado pela mulher, que estava sendo tão simpática e gentil com ele, o que o deixava um pouco desconfortável, pois não estava acostumado com isso.
- Até mais. - acenou pra ela, que ainda segurava a porta e acenou de volta pra ele.
- Tchau, .
se virou e notou que Kelsey estava atrás do balcão e olhava ao seu redor, como se procurasse por algo errado.
- O que deu em você? - perguntou, sentando-se ao lado da mais nova novamente.
- Como assim? Você viu quem entrou aqui?
A outra virou o pescoço tão rapidamente que até sentiu uma leve dor no local.
- Você ficou daquele jeito por causa do ? - arregalou os olhos.
- Claro, ele é um . - falou, como se o sobrenome fosse amaldiçoado.
não soube direito como reagir àquela justificativa de Kelsey, ela ficou apavorada com a simples presença dele ali? Era isso mesmo?
- Você tem medo dele? - perguntou incerta se queria ouvir a resposta.
- Você não tem?
- Medo? Não, eu… - foi interrompida com o barulho da porta sendo aberta, as duas olharam naquela direção e uma cliente entrava no local, Kelsey se levantou para atender a mulher.
estava em choque com o que tinha acontecido, era daquela forma que era tratado por todos em Blue Ridge? Então ela se recordou que precisou perguntar para se ele era realmente de confiança, pois deu ouvidos aos que os outros diziam sobre o rapaz. Isso fazia dela uma hipócrita? Estava tão confusa que nem saberia o que responder.

“Ele nunca mereceu o tratamento que as pessoas dão pra ele.”

As palavras de sua amiga ecoaram em sua cabeça; As pessoas realmente tratavam como se ele fosse um lixo? Um nada? Alguém que deveria ser desprezado? Temido? Isso não estava certo, ninguém merecia ter esse tipo de tratamento. cresceu sabendo que todos mereciam respeito e foi assim que ela tratava todos com quem conversava e não importava se ela não gostava daquela pessoa, sempre era muito educada.
E sentiu um incômodo profundo ao perceber que o mesmo não acontecia com e ela não conseguia aceitar essa situação, era inadmissível para , não sabia direito se poderia fazer algo para mudar essa isso, mas pelo menos a sua parte ela iria fazer.


Capítulo 3

“I'm lost without you
And there's nothing I can do”

(Holding on to Heaven – Nickelback)


finalizou sua xícara de café e a lavou rapidamente na pia, olhou no relógio e viu que ainda faltava meia hora para o horário que tinha combinado com Bernice. Aquele seria o terceiro e, provavelmente, último dia em que trabalharia na casa das mulheres , pois agora só faltava uma parte da cerca para ser colocada. Mas ele sabia que aquele seria o dia mais difícil de trabalhar, era sábado e estaria em casa, o que tornaria tudo mais complicado.
O homem ainda se sentia um tolo por ter dito que não conhecia a loja em que ela trabalhava, era óbvio que sabia muito bem onde ficava, numa cidade tão pequena como Blue Ridge seria impossível não saber. Porém na hora estava tão nervoso que não reconheceu o nome da loja, mas quando chegou no local quase riu de si próprio pela sua estupidez.
se sentia ridículo por ficar tão inquieto ao lado de , a sua simpatia e espontaneidade de certa forma o intimidava e a mulher ainda conversava com ele como se fosse um ser humano normal, diferente das outras pessoas da cidade, que preferiam manter a distância, o que ele até agradecia pois não gostava de socializar com os outros. Ao contrário de , que desde pequena chamava a atenção por sua alegria constante e o seu jeito extrovertido de ser, ele a conhecia de vista há anos, sempre a via pela cidade com sua mãe ou avó.
Para ela sempre foi apenas mais uma moradora de Blue Ridge, mas o seu ponto de vista sobre ela mudou quando a viu cantando pela primeira vez no The Last Stop, a voz de chamou sua atenção de uma forma inesperada, o tom dela lhe trazia uma paz que ele nunca tinha experimentado antes, a voz da mulher era como um calmante para os seus ouvidos e desde então escutar cantando tinha se tornado um de seus hobbies favoritos.
Mas ele nunca imaginou que um dia estaria trabalhando na casa em que ela morava. Conversar com Bernice era simples, a senhora era espirituosa e sempre tinha algo engraçado pra dizer. Nos dois dias em que já tinha trabalhado na cerca ela vivia indo até ele para levar água fresca, oferecer alguns biscoitos e frutas, inclusive ficou brava quando se recusou a almoçar com ela, o rapaz detestava incomodar os outros, mas depois muita insistência por parte de Bernice ele acabou cedendo ao pedido da senhora.
Então sabia que hoje não seria diferente, mas algo lhe dizia que quem iria aparecer nos fundos da casa seria , o que lhe causava arrepios pelo corpo só de pensar nessa possibilidade. não sabia definir direito o que sentia quando ela estava por perto, mas era algo diferente das sensações que já conhecia, suas mãos suavam frio e ele sentia que a qualquer momento o seu cérebro ia dar pane. O rapaz se esforçava ao máximo para agir naturalmente, o que ele até conseguia quando precisava tratar de algum assunto profissional, mas se algum tema pessoal surgisse na conversa ele tinha certeza que iria falhar miseravelmente e pagar algum mico gigantesco.
- Frouxo de merda. - se xingou, olhando no relógio novamente e viu que agora precisava sair de casa antes que se atrasasse.

(...)


- The world is a vampire…sent to drain ain ain, secret detroyers, hold you up to the flames, and what do I get? For my pain ain ain?- cantarolava enquanto dirigia até a sua casa após a manhã de trabalho na loja. - Despite of my rage I’m still a rat in a cage. - estacionou o carro ao lado da caminhonete azul de .
estava se sentindo uma rockeira naquele dia, então já pensava no repertório para aquela noite, sabia que a música que tinha acabado de cantar tinha um ritmo pesado demais para o bar e Holly surtaria com ela caso a cantasse.
- Chegou na hora certa. - Bernice disse assim que viu a neta entrar em casa.
- Almoço está pronto? - perguntou, tirando seu tênis e colocando a bolsa no sofá.
A senhora sorriu e assentiu para .
- E a Sky? - perguntou pela cachorra, que ainda não tinha aparecido para lhe cumprimentar.
Ela andou até a escada, olhando embaixo da mesma, que era onde a caminha da cachorra ficava.
- Ela está com o . - a mais velha explicou, fazendo a outra colocar a mão na cintura.
- De novo? - riu nasalado.
Sky tinha simpatizado com o rapaz e ficava o rodeando enquanto ele fazia o seu serviço, Bernice até tentou tirar a cachorra de lá, mas acabou desistindo quando disse que não tinha problemas.
- Bom, eu vou tomar um banho rapidinho e já volto pra gente almoçar.
- Tá bem, enquanto isso vou colocando a mesa. - Bernice a informou.

Pouco tempo depois desceu as escadas vestindo um shorts e uma regata, notou que sua avó não estava por ali e abriu a porta da cozinha, Bernice estava na varanda devidamente acomodada em sua cadeira e observava trabalhar, a mais nova riu ao ver sua cachorra deitada na grama ao lado do rapaz.
- Sky! - gritou por ela, que ergueu a cabeça rapidamente e olhou em sua direção, ela se levantou e como um raio correu até a sua dona. - Ei, garota. - se agachou e riu quando quase foi derrubada por Sky.
Bernice olhou para , que estava de costas e tinha a atenção focada na madeira que estava em suas mãos.
- Pode ir lá chamá-lo para almoçar? - pediu para a neta, que prontamente atendeu ao pedido de sua avó.
notou que ele tinha se agachado enquanto mexia na madeira, ela se aproximou com cuidado.
- Oi, . - cumprimentou e franziu a testa quando ele soltou a madeira rapidamente, a deixando cair no chão.
- Merda! - ele exclamou, sentindo uma pontada em sua mão.
O rapaz levou a mão até sua boca, mordendo a palma da mesma, notou que a mulher deu a volta para ficar na sua frente.
- O que foi? - ele não precisava fitá-la para saber que olhava sua mão atentamente.
- Não é nada. - balançou a cabeça negativamente e com certa dificuldade tirou a ferpa que tinha entrado em sua pele, mas o pequeno pedaço de madeira não saiu completamente.
fez uma careta, tentando entender o que estava acontecendo e viu futucando sua mão direita com a unha.
- Ferpa? - perguntou dando um passo na direção dele, que deu outro passo pra trás.
Ela imediatamente recuou, percebendo o desconforto dele com a sua aproximação.
- Minha mãe era enfermeira, acho que posso te ajudar. - mordeu o lábio inferior, esperando que aquilo fosse suficiente para que ele cedesse.
a fitou, depois olhou ao seu redor e se agachou para pegar a madeira que tinha derrubado anteriormente, a colocou encostada na cerca. Sentia o olhar de em si e era como se seu interior queimasse de vergonha por estar recebendo tanta atenção dela, a preocupação da mulher o deixava ainda mais sem graça, era apenas uma ferpa que tinha entrado sua pele, não era nada grave para se preocupar.
- O seu corpo provavelmente vai expulsar, mas você não precisa sentir dor até isso acontecer. - continuou, procurava de alguma forma tentar convencê-lo.
Ele se virou, sabendo que ela não iria desistir de tentar ajudá-lo, então não custava nada ceder para que ela resolvesse isso de uma vez.
- Posso ver? - a mulher deu dois passos na direção dele e sorriu quando ele estendeu a mão esquerda pra ela.
engoliu a seco ao sentir o toque dela, suas mãos eram delicadas e macias, ela segurava a mão dele com tanto cuidado que era como se fosse uma peça de porcelana que poderia quebrar a qualquer momento.
- Vamos entrar, você tem que lavar suas mãos pra eu tirar a ferpa, só preciso de uma agulha e pinça e resolverei o seu problema.
O rapaz sentiu-se envergonhado pela sujeira de suas mãos, que estavam cobertas de suor e terra por causa do trabalho que estava fazendo. soltou a mão dele, que apenas assentiu e a observou se afastar e entrar na casa, ele fez o mesmo caminho que ela e foi até o banheiro se limpar.
foi até o armário e pegou a caixinha de primeiros-socorros.
- O que aconteceu? - Bernice franziu a testa ao ver a neta mexer em sua máquina de costura.
- Preciso de uma agulha, está com uma ferpa na mão.
Ele voltou para a cozinha e ficou sem saber o que fazer, notou que a andava de um lado para o outro, sendo seguida por Sky.
- Sente no sofá, só vou esterilizar a agulha. - ela passou por ele.
atendeu ao seu pedido rapidamente, viu a mulher voltar para a sala e sentar ao seu lado, colocando uma caixinha branca na mesa de centro.
- Sua mão? - pediu e ele esticou o braço pra ela, que sorriu e analisou a pele dele com mais atenção.
Sky se aproximou dos dois e cheirou a caixa de primeiros socorros e olhou ao redor, em seguida a cachorra sentou-se no chão, ao lado das pernas de .
- Ela gosta de você. - comentou, colocando uma almofada em seu colo e apoiou a mão dele ali.
O homem apenas soltou uma risada nasalada, estava nervoso demais com os toques da mulher em sua pele para conseguir raciocinar direito, sentiu uma leve ardência em sua mão e fez uma careta.
- Desculpa. - ela o olhou rapidamente.
a viu furar sua mão com a pequena agulha e agora os movimentos dela eram tão delicados que quase não sentiu dor, em seguida a viu pegar uma pinça.
- Pronto. - sorriu, mostrando a pinça pra ele, que conseguiu ver o minúsculo pedaço de madeira ali.
A observou passar algum produto em sua mão e depois colocar um pequeno band-aid na ferida.
- Novo em folha. - ela brincou, o fitando. - Só não deixe a madeira te atacar novamente que estará a salvo. - zombou dele, tentando fazer com que ele falasse alguma coisa, já estava começando a se incomodar com o silêncio do homem.
O que não tinha ideia era que estava se sentindo um idiota pois só se atrapalhou com a madeira quando ouviu a voz dela tão perto de si chamando por ele.
- Obrigado. - agradeceu e ela se deu por satisfeita, pelo menos por enquanto.
- Agora vai lá pra mesa que o almoço já está esperando por nós.
O rapaz assentiu e viu que ela começava a arrumar o que tinha usado em sua mão, ele se levantou e sentiu que Sky fez o mesmo, o seguindo até a cozinha.

mordiscou os lábios um tanto inquieta, não era possível que não conversaria com ela ou sua avó. O rapaz comia em silêncio e só falava alguma coisa quando lhe perguntavam algo diretamente. Ela também notou que ele tinha dificuldades em usar a faca, a deixando cair no chão duas vezes, suspeitou que ele usava apenas o garfo em casa e estava tentando ser educado em não comer usando as mãos.
- Argh! - ela resmungou, deixando a própria faca de lado e pegou a asinha de frango com as mãos. - Bem melhor assim.
De canto de olho percebeu que ele a fitava com a testa franzida.
- Eu só como com colher mesmo. - Bernice fitou a neta, percebendo o que ela queria fazer. - , não tenha vergonha e pegue a coxa com a mão, ela fica até mais saborosa. - sorriu para o homem, que fitava o seu prato.
Por um lado ele estava se sentindo encabulado pela situação e sentia-se um patético por não conseguir usar a faca corretamente, mas não tinha esse costume, pois desde pequeno aprendeu a comer apenas com garfo ou colher, seu irmão sempre o zombou por causa disso, costumava dizer que ele parecia um animal comendo. Então ele estava fazendo o seu melhor para parecer civilizado enquanto comia, mas falhou em sua missão e foi surpreendido com a atitude das mulheres com quem almoçava, sentiu-se muito bem quando percebeu que as duas não se importavam em como ele comia e apenas queriam que ele se sentisse confortável com elas.
- Vó, a senhora vai no bar hoje à noite? - perguntou assim que viu deixar a faca de lado e pegar o frango com a mão.
- Minha querida, você sabe que durmo com as galinhas. - comentou, vendo a neta fazer uma careta.
A mais nova suspirou, sabia que sua avó adorava ouvi-la cantar, mas raramente ia ao The Last Stop pois ia para cama cedo.
- Vai perder um show de rock. - sorriu, se referindo ao estilo musical que cantaria naquela noite. - Você gosta, ? - olhou na direção dele, que estava focado em sua refeição, mas ainda prestava atenção na conversa das duas.
- Sim.
franziu a testa pela resposta monossilábica do rapaz.
- Qual sua banda preferida? - continuou, tentando puxar conversa com ele.
a fitou, notando que ela parecia genuinamente interessada em seu gosto musical.
- Led Zeppelin, AC/DC… - respondeu, tentando buscar em sua mente outra banda que gostava. - Nirvana, Red Hot.
- Ótimo gosto musical. - sorriu, satisfeita com as bandas que ele tinha citado. - Provavelmente vou cantar alguma música deles hoje.
O rapaz apenas assentiu, voltando sua atenção para a comida que estava na sua frente. o analisou brevemente, intrigada com o jeito quieto dele, à primeira vista ele não parecia ser tão tímido, mas agora percebia que era um homem bem fechado e que não gostava muito de conversar.
- Vê se não volta tarde, hein? - Bernice falou em seu usual tom de preocupação.
- Impossível, vó. - sorriu sem mostrar os dentes. - Mas a senhora sabe que eu sempre me cuido.
- Eu me preocupo com os tarados. - suspirou.
tinha comentado com Bernice sobre o pequeno incidente do sábado anterior, quando um homem a confundiu com uma prostituta. ergueu a cabeça, subitamente interessado no que a senhora estava dizendo.
- Vó. - ela esticou o braço, acariciando a mão da mais velha. - Sei me cuidar. - assegurou. - E o Chad sempre interfere quando os abusados aparecem.
O rapaz se lembrava muito bem do dia em que presenciou um babaca oferecendo dinheiro à para ela ir pra cama com ele. E agora com o comentário de Bernice ficou curioso para saber se isso acontecia com frequência.
- É normal? - perguntou, fazendo as duas olharem para ele, que pigarreou. - Os caras te assediarem? - completou.
o fitou, surpresa com a pergunta pois não esperava esse tipo de questionamento vindo dele.
- Não é toda noite. - respondeu. - A maioria que está ali já me conhece, mas sempre tem um viajante mais ousado. - ela fez uma careta.
Bernice observou a feição do rapaz, a sua experiência de vida lhe dizia que ali tinha uma mistura de preocupação e raiva, o que a deixou desconfiada.
Sentiu uma carícia em sua mão e olhou para , que tinha um sorriso lindo no rosto.
- Prometo que vou me cuidar. - assegurou novamente, se inclinou e depositou um beijo no rosto da mais velha, que assentiu. - Vó, que horas é a festa mesmo? - perguntou, querendo mudar de assunto.
Naquela tarde Bernice iria a uma pequena confraternização das suas amigas do bingo, era o aniversário de duas senhoras e elas resolveram fazer uma festinha na cidade de Jasper, que ficava a meia hora de Blue Ridge.
- Duas horas, mas não se preocupe que já tenho minha carona. - afirmou, vendo a neta sorrir.
- Incrível como a senhora tem mais amigas que eu e vive cheia dos compromissos. - brincou. - Acredita nisso, ? - o rapaz a fitou e riu pelo nariz.
- O corpo é de sessenta, mas a mente de vinte anos. - a senhora disse, fazendo gargalhar.
- E eu sou o contrário. - brincou, vendo Bernice balançar a cabeça negativamente.
O rapaz observava a conversa delas em silêncio, começava a se sentir confortável perto das duas, o que era algo raro pra ele pois dificilmente ficava a vontade com outras pessoas. Mas Bernice e eram diferentes, elas faziam questão de que ele se sentisse bem ao redor delas, parecia até que gostavam da presença dele. Esse pensamento o assustou momentaneamente, não podia ser isso, era impossível. As duas provavelmente só estavam sendo simpáticas com ele por causa do trabalho que ele executava no quintal delas, era apenas isso. Afinal, ninguém gostava de .

(...)


Era por volta de quatro horas da tarde quando atendeu aos pedidos de Sky, que queria brincar com ela e foi até o sofá com o seu osso de borracha na boca, colocando o mesmo no colo da mulher, que riu e balançou a cabeça negativamente.
- Tudo bem, vamos lá. - desligou a televisão.
aproveitou para pegar uma garrafa de água na geladeira e levar para , que devia estar derretendo naquele calor escaldante do Estado da Georgia. As duas andaram até o fundo da casa e a mulher se apressou em satisfazer a vontade de sua cachorra, que a olhava com expectativa.
- Vai pegar. - jogou o brinquedo e Sky saiu em disparada, correndo atrás do mesmo.
A mulher se surpreendeu com a rapidez dele no trabalho, pois notou que ele estava instalando as últimas estacas de madeira.
- , trouxe água gelada. - avisou, chamando a atenção dele.
Ele assentiu e deixou o martelo no chão e deu alguns passos na direção dela.
- Obrigado. - agradeceu, pegando o copo que tinha acabado de encher com água.
Sky se aproximou de e deixou seu osso cair no chão, a mulher riu e pegou o brinquedo e o jogou longe novamente, que outra vez foi perseguido pela cachorra.
observou com mais atenção, ele usava botas de couro, uma calça jeans velha e uma camisa xadrez em tons laranja e branco, reparou que as mangas tinham sido cortadas, a transformando em regata. Seus olhos continuaram aquele percurso e ela reparou que ele tinha os bíceps bem definidos, provavelmente por causa de seu serviço braçal. Notou uma tatuagem na parte interna de seu braço direito e estreitou os olhos, tentando decifrar qual era o formato do desenho.
- Obrigado. - ele agradeceu e a franziu a testa ao ver a mulher balançar a cabeça negativamente.
sentiu algo encostando em sua perna e olhou pra baixo, vendo Sky o encarar com aqueles imensos olhos cor de mel, ele se inclinou pegando o brinquedo e jogou do outro lado do quintal.
- Você tem algum bicho em casa? - perguntou, estava curiosa pois sua cachorra raramente simpatizava com pessoas do sexo masculino. Tirando que ela adorava, os outros homens que se aproximavam ela simplesmente os ignorava, até mesmo Spencer, a cachorra não fazia questão de alguma de estar por perto quando o namorado de sua dona estava na casa dela.
- Não. - respondeu, devolvendo o copo pra ela.
- Você é o segundo homem que ela gosta. - riu nasalado e o viu franzir a testa.
O homem viu a cachorra subir as escadas da varanda e largar o osso por ali, em seguida ela foi até o pote de água dela.
- Ela tinha uns oito meses quando a adotei. - contou, também olhando para Sky. - Mas nunca se sentiu a vontade perto de homens, a veterinária disse que pode ser trauma, que talvez tenha sido maltratada por alguém do sexo masculino.
voltou o seu olhar para , que continuava a fitar Sky, ela tinha o olhar distante, como se estivesse se recordando do passado.
- Ela era tão tímida e medrosa, nem parece mais a mesma. - fechou os olhos por um breve segundo. - Sky sempre gostou do , mas ele é um amor e seria difícil não gostar dele. - riu, voltando sua atenção para , que ainda a observava.
sorriu ao notar que ele estava a encarando, segurou um riso quando o viu desviar o olhar.
- Isso não é comum. - ela apontou para a cachorra, que andava toda pomposa na direção de . - Te chamar pra brincar? É novidade pra mim, então achei que você tivesse algum animal, dizem os bichos sentem quando a pessoa tem um bom coração, né?
Ele entendeu errado ou ela acabou de lhe fazer um elogio? Era isso mesmo? Tentou tirar esse pensamento da sua cabeça, afinal não o conhecia direito para dizer algo de bom a seu respeito.
- Nunca tive bicho de estimação. - respondeu depois de um momento em silêncio.
O homem voltou a jogar o osso pra cachorra, que correu até o seu brinquedo.
- Sky é a minha primeira cachorra, mas minha vó tinha o Garfield, um gato laranja, gordo e preguiçoso, que só sabia dormir. - riu da lembrança. - Ele morreu bem velhinho.
quase sorriu sem mostrar os dentes, era falante e conseguia prolongar uma conversa com facilidade, independente do assunto. Diferente dele, que era mais quieto e observador, não costumava se alongar muito em suas conversas, não que fosse algo comum ter alguém para bater um bom papo, já que quase ninguém se aproximava dele.
- Você não tem vontade de ter um animalzinho? - ela sorriu vendo Sky sentar ao lado dele, descansando da brincadeira.
- Não tenho tempo. - balançou a cabeça negativamente.
Na verdade nunca parou para pensar no assunto, não conviveu com animais enquanto crescia, então nunca desejou ter um.
- Ah , eu tenho dois empregos e consigo cuidar da Sky, se você quisesse acho que conseguiria sim. - afirmou, o vendo abaixar a cabeça e fitar a cachorra, que agora tinha se deitado na grama.
sorriu de lado e em seguida respirou fundo, era cansativo conversar com alguém que falava tão pouco, ainda mais pra ela que sempre foi muito tagarela. Muitas vezes sua avó perguntava se seu maxilar não doía por falar muito, o que a fazia rir pois sabia que era um pedido de Bernice para que ela ficasse calada.
Ela escutou o telefone da casa tocar e desviou sua atenção para a porta da cozinha.
- Já volto. - avisou e saiu correndo, tomando cuidado para não deixar a jarra de água cair.
Entrou em casa rapidamente e correu até a sala, atendendo o telefone quase no último toque.
- Alô? - disse, ofegante pela pequena corrida.
- ? - franziu a testa ao ouvir a mulher do outro lado dizer o seu nome e sobrenome.
- Isso. - respondeu.
- Aqui é da clínica central de Jasper e você está como o contato de emergência de Bernice .
sentiu a respiração falhar por um momento com aquela informação.
- Ela é minha vó, o que aconteceu? - indagou, sentindo o desespero tomar conta de si.
- A Senhora Bernice teve uma crise de hipertensão e encontra-se internada, você poderia vir até aqui? - a voz da mulher era tão calma que incomodou .
- Cla-ro. - disse, sentindo a voz falhar. - Me passe o endereço, por favor?
Após tudo devidamente anotado em uma folha ela encerrou a ligação e olhou ao seu redor, processando o que estava acontecendo. Bernice havia tido uma crise de pressão alta e foi levada para a emergência.
- Vó. - colocou a mão na boca, sentindo o choro dominar o seu corpo, ela respirou fundo, tentando controlar suas emoções. - Merda! Merda! - bateu na própria testa, pois se lembrou que tinha levado seu carro para ser lavado e só o pegaria no fim do dia. - ! - lembrou-se do rapaz e da caminhonete dele estacionada do lado de fora.
correu até o quintal, pulando os pequenos degraus da varanda.
- . - ela praticamente gritou, o fazendo se virar depressa. - Eu preciso de você, minha vó passou mal em Jasper e eu tenho que ir pra lá o mais rápido possível, pode me ajudar? - falou numa velocidade impressionante que foi um milagre não se atropelar nas próprias palavras.
- Tudo bem, eu te levo. - garantiu, entendendo o que estava acontecendo.
- Obrigada.
No minuto seguinte os dois já correram para dentro da casa e em seguida pro carro do rapaz.

dirigia no limite da velocidade permitida, queria chegar o mais rápido possível em Jasper, sentia que iria explodir a qualquer momento pois notava o quão nervosa a mulher estava. Seu coração ficou pequeno quando ligou para e contou o que estava acontecendo e no mesmo momento começou a chorar compulsivamente.
de imediato se lembrou do dia em que recebeu um dos piores telefones de sua vida, que foi da polícia avisando que seu irmão tinha sido assassinado. O choque inicial foi inevitável e por alguns minutos ele não soube o que fazer ou pensar. Seu irmão era oito anos mais velho e nunca foi muito presente em sua vida, mas quando estava por perto era ele quem defendia e impedia que fosse espancado diariamente. Os nunca foram de demonstrar muitas emoções ou falar sobre sentimentos, mas não aguentou quando teve que reconhecer o corpo de seu irmão, ele chorou como nunca tinha chorado antes e sentiu um vazio tomando conta de sua vida e coração, não foi fácil ter a comprovação que ele estava, de fato, sozinho no mundo.
Então ele entendia perfeitamente o desespero de , que tinha perdido sua mãe quando era adolescente e agora só tinha sua avó Bernice. O homem conseguia imaginar a angústia dela sem saber como a senhora realmente estava.

tinha o olhar fixo na estrada à sua frente, sentia que a olhava algumas vezes, provavelmente preocupado com ela.
- Finalmente. - a mulher suspirou ao ver uma placa indicando a entrada de Jasper.
- Bernice vai ficar bem. - o ouviu dizer, a fazendo virar a cabeça em sua direção.
notou que buscava de alguma forma tentar confortá-la.
- Obrigada. - sorriu fraco.
Ele assentiu e mudou de pista, reduzindo a velocidade ao adentrar na saída para Jasper, notou que a mulher se remexeu no banco do carro, possivelmente tentando controlar sua ansiedade. O resto do percurso até a clínica foi silencioso, ele não sabia o que dizer e ela estava muito nervosa para conversar.

- Olá, minha vó está internada aqui, o nome é Bernice e…
- . - uma voz a chamou enquanto ela pedia informações para a recepcionista do local.
A mulher se virou e viu um grupo de senhoras reunidas ali, franziu a testa e depois reconheceu algumas, elas costumavam jogar bingo com sua vó.
- Bernice está lá dentro, mas só familiar pode entrar. - uma delas avisou.
- Ah sim. - assentiu e notou que as mulheres estavam visivelmente nervosas em saber sobre o estado de saúde da amiga delas.
- Sou a neta dela.
Ela se virou, voltando a conversar com a recepcionista, que estava atenta a toda a conversa.
- Só preciso de um documento seu, por favor.
Ela assentiu, entregando o que ela tinha pedido. Minutos depois finalmente teve a entrada liberada e procurou desesperadamente por sua avó, que estava na enfermaria do local.
- Vó. - ela quase gritou, avistando a senhora deitada numa maca.
Andou rapidamente até a mais velha e agora era incapaz de controlar suas emoções e começou a chorar.
- Minha menina. - sorriu fraco, vendo se aproximar e percebeu o estado da neta. - Não fique assim, estou bem.
A mais nova se inclinou e abraçou a avó com cuidado, não querendo lhe machucar.
- O que aconteceu? - indagou, fungando e limpando os olhos com o dorso de sua mão.
Bernice olhou para a neta, se sentindo um pouco culpada.
- Esqueci de tomar o meu remédio pra pressão essa manhã.
- Ah vó, mas eu lembrei a senhora antes de ir pra loja. - murmurou.
- Eu sei, eu sei. - balançou a cabeça negativamente. - Acho que até tirei da embalagem, mas o bolo ficou pronto e depois a Sky pediu pra sair e acabei me distraindo e não tomei.
- Poxa vida. - ela suspirou, notando que sua avó tomava algum remédio na veia.
- O que é isso? - estreitou o olhar, vendo que era soro e um analgésico. - Deu dor de cabeça? - franziu a testa, sabendo que esse era um dos sintomas na crise de hipertensão.
- Sim, parecia que minha cabeça ia estourar. - fechou os olhos por um momento. - Mas agora já passou.
ia dizer alguma coisa, mas viu uma enfermeira se aproximando.
- Vamos medir a pressão novamente? - ela olhou para Bernice e depois para a mais nova, que assentiu.
se afastou um pouco para deixar a mulher fazer o seu trabalho, mas observou tudo atentamente e em sua mente pedia que a pressão arterial de sua avó estivesse regularizada, assim ela poderia finalmente ficar tranquila.
- 12 por 8. - a enfermeira avisou e ela soltou a respiração que estava segurando.
- Que ótimo. - suspirou, fechando os olhos por um segundo e ao fitar sua avó notou que ela um tinha sorriso no rosto.
- Foi só um sustinho. - Bernice comentou, tentando amenizar a situação.
- Assim que terminar o soro a senhora precisa voltar ao médico para ser liberada, tudo bem? - a enfermeira informou, vendo as duas assentirem pra ela.
se aproximou novamente de sua avó e se inclinou, beijando sua testa.
- A senhora vai ficar bem? Preciso avisar suas amigas. - indagou e a mais velha assentiu. - Eu já volto.
A mulher voltou até a sala de espera e sentiu-se muito bem ao ver a alegria das amigas de sua avó quando as informou sobre o seu estado de saúde, elas queriam permanecer ali, mas garantiu que não era necessário e que o melhor seria cada uma ir para sua casa, a mais nova sabia que elas eram todas senhoras de idade e que se preocupar dessa forma não poderia ser bom.
se despediu delas e olhou ao redor, procurando por , que tinha ido estacionar o carro enquanto ela falava com a recepcionista do local, notou que ele não se encontrava na sala de espera e franziu a testa saindo da clínica e o viu encostado na parede do lado de fora.
- . - o chamou, que olhou rapidamente na direção em que ouviu o seu nome. - Vem aqui. - acenou com a mão e ele assentiu, andando lentamente até ela.
O homem reparou que parecia mais calma, até sorria pra ele.
- Minha vó esqueceu de tomar o remédio dela, acredita? - balançou a cabeça. - Aí teve uma crise de pressão alta, mas já foi medicada e agora a pressão já normalizou, não vai demorar muito a ter alta. - sorriu, o vendo assentir.
- Eu disse que ela ia ficar bem. - sorriu minimamente.
A mulher assentiu novamente, se aproximando dele e o abraçou pelo pescoço, o surpreendendo completamente. engoliu a seco e arregalou os olhos sem saber ao certo o fazer. A abrace de volta, seu idiota. Era o que o eu cérebro dizia, mas ele nunca tinha recebido um abraço de agradecimento antes em sua vida. Deveria a envolver pela cintura? Bom, era o que parecia ser o certo. Lentamente envolveu seus braços ao redor da cintura de , que estreitou ainda mais o aperto no homem.
- Muito obrigada, . - disse em seu ouvido. - Eu não sei o que teria feito se você não estivesse lá em casa. - ela fechou os olhos por um momento, sentindo-se muito bem por ter quem abraçar nesse instante.
respirou fundo e conseguiu sentir o aroma floral que vinha da mulher, era um cheiro tão gostoso que imediatamente o deixou mais confortável. Ela o envolvia de uma forma tão carinhosa, tão aconchegante, ele nunca tinha experimentado algo do tipo. Era uma sensação estranha ter alguém buscando conforto em seu corpo, nunca soube que um abraço era capaz de transmitir tanto afeto e o mais assustador era que estava gostando daquilo, ele que sempre foi avesso a contato físico.
Lamentou mentalmente quando sentiu o corpo dela se afastar do seu.
- Vamos ver minha vó? - a ouviu perguntar e a fitou.
balançou a cabeça, ainda processando os últimos acontecimentos e notou o olhar dela em si.
- Vamos. - assentiu, a seguindo para dentro da clínica novamente.


Capítulo 4

My heart is numb
The feeling that I get from
The way you shake your voice
(White Fences – Needtobreathe)


ajeitou os lençóis na cama, com a intenção de deixá-la o mais confortável possível, escutou a porta do banheiro se abrindo e correu até lá.
- Vó, falei pra me chamar. - ralhou com a senhora, a abraçando pelos ombros.
- Menina, eu já estou ótima. - balançou a cabeça negativamente.
- O médico disse para pegar leve nos próximos dias. - relembrou enquanto as duas entravam no quarto. - Isso significa não fazer esforço, dona Bernice. - usou um tom de voz mais tranquilo.
- Desde quando tomar banho é esforço, ? - a senhora franziu a testa. - E eu posso deitar sozinha na minha própria cama. - resmungou quando a neta a ajudou a se sentar.
- Só estou sendo cautelosa. - respondeu, se segurando para não rir da teimosia de sua avó.
Bernice arrumou os travesseiros da forma que achava melhor e finalmente deitou, se cobrindo em seguida.
- Vai ficar de guarda aí? - observou parada ao lado da cama com os braços cruzados. - , eu estou bem. - ela suspirou, conhecia sua neta muito bem. - Sei que você não vai ficar tranquila, mas pode tentar? Juro que não sinto mais nada, só um cansaço mesmo.
- Tem certeza? - estreitou o olhar e mordeu o lábio inferior.
- Absoluta. - assentiu. - E você já mediu minha pressão duas vezes desde que chegamos em casa. Estou ótima. - sorriu brevemente. - Vai descansar, se não quem vai ter um treco é você. - tentou brincar, mas a neta apenas balançou a cabeça negativamente.
- Vou deixar a senhora em paz, mas qualquer coisa é só me gritar, tá?
Bernice assentiu para e sorriu quando ela se aproximou e depositou um beijo em sua testa, viu a mais nova sair de seu quarto e fechar a porta atrás de si. A senhora não demorou a cair num sono profundo, o dia tinha sido cansativo e seu corpo precisava de um bom descanso.

franziu a testa ao chegar na sala e encontrar apenas Sky ali, quando voltaram de Jasper ela subiu com Bernice para ajudar a avó no banho e preparar sua cama para dormir, mas antes de subir pediu para que esperasse por ela porque não demoraria a voltar.
- Ele foi embora? - perguntou à cachorra, que apenas olhou para sua dona.
Foi então que escutou barulhos vindos do fundo da casa e foi até lá para ver o que estava acontecendo. Abriu a porta da cozinha e se deparou com ele arrumando todo o material que tinha deixado ali.
- ? - o chamou. - O que você está fazendo? - se aproximou, tocando o ombro dele com cuidado.
- Só estou arrumando a bagunça. - explicou rapidamente.
balançou a cabeça em negação e o segurou pelo braço, dessa vez com mais firmeza.
- Não precisa fazer isso agora. - falou, atraindo sua atenção.
soltou o martelo que segurava e se virou, olhando para o seu braço e em seguida para a pequena mão que o segurava, subiu o olhar e os seus olhos se encontraram com o de , que pareciam ter perdido o seu brilho natural, transparecendo o cansaço que ela sentia.
- Deixa pra depois. - a voz dela saiu mais baixa que o normal. - Agora falta pouco, né?
Ele não era capaz de respondê-la com palavras, então apenas assentiu.
- Minha vó já dormiu. - o informou. - Queria te agradecer de novo, você foi um anjo. - sorriu, acariciando a pele dele com o seu polegar.
engoliu em seco, era a segunda vez naquele dia que lhe fazia algum tipo de carinho.
- Não fiz nada. - conseguiu dizer, balançando a cabeça negativamente. - Qualquer um teria feito o mesmo.
- Mas era você quem estava aqui e me ajudou. - respondeu, sorrindo pra ele e suspirou.
O homem notou que ela estava exausta e precisava urgentemente descansar, então entendeu que era hora de ir para a sua casa.
- Eu já vou indo. - falou e a carícia em seu braço foi parando lentamente. - Posso voltar amanhã para terminar a cerca?
- Amanhã? - ela franziu a testa, cruzando os braços. - É domingo, .
- Não tem problema. - afirmou.
- Claro que tem, domingo é dia de descansar.
Ele estranhou o tom de voz dela, sentia como se ela estivesse lhe dando uma bronca, riu nasalado e balançou a cabeça.
- Em uma hora eu termino, .
A mulher arregalou os olhos por um segundo, tinha quase certeza que essa era a primeira vez que o ouviu dizer seu nome e foi inevitável não sorrir, sentia que ele estava finalmente se soltando.
- Tudo bem. - ela cedeu, no fundo tinha medo de insistir no assunto e ele se tornar mais fechado do que já era.
- Nove horas é um bom horário?
- Sim, pode ser. - assentiu.
acompanhou até a frente da casa, Sky que continuava deitada na sala viu a movimentação e seguiu os dois.
- Até amanhã. - a mulher sorriu assim que pararam ao lado da caminhonete dele.
- Até amanhã. - assentiu, entrando em seu automóvel.
A mulher esperou até que ele saísse por completo de sua propriedade antes de voltar para dentro da casa, riu de leve quando Sky latiu ao ver o carro sumir na rua, era como se a cachorra estivesse se despedindo dele. As duas voltaram pra dentro e não demorou a cair na sua cama e dormir profundamente, querendo esquecer o dia emocionalmente exaustivo que tivera.

(...)



Spencer estacionou o seu honda prius em frente à casa de sua namorada e sorriu pela expectativa em rever depois de tantos dias longe do seu amor; O homem tinha se formado em Engenharia Civil há três anos e no último ano tinha sido contratado por uma construtora de renome e vivia viajando pelo país para ajudar na execução dos projetos que fazia. Isso era excelente para a sua carreira como engenheiro, mas péssimo para a sua vida amorosa. Nos últimos dois meses só conseguiu ver três vezes e ele sentia que isso já começava a afetar o relacionamento dos dois, por isso tinha em mente uma proposta perfeita para a mulher e estava ansioso para saber a opinião dela sobre o assunto.
Ele franziu a testa ao sair de seu automóvel e notar outro veículo estacionado ao lado do carro de , não precisava ser um gênio para saber a quem aquela caminhonete pertencia, fechou os olhos por um segundo e bufou em seguida, continuou o seu caminho e tocou a campainha da casa, ouvindo os latidos de Sky.

se apressou ao descer as escadas, sua avó continuava descansando no quarto e sua cachorra latia de desesperada, e o escândalo que ela fazia não ajudava em nada.
- Sky! - ralhou com ela, que latia para a porta principal.
A mulher espiou pelo olho mágico e arregalou os olhos ao ver quem estava do outro lado.
- Spencer. - falou assim que abriu a porta.
- Olá. - ele sorriu fechado e segurava um grande buquê de rosas vermelhas.
Ele deu dois passou na direção da namorada, com uma mão a envolveu pela cintura e se aproximou o suficiente para lhe beijar carinhosamente, apoiou as mãos nos ombros dele e retribuiu ao beijo.
- Como eu senti falta disso. - sussurrou com a testa encostada na dela. - Pra você. - entregou as flores.
- Obrigada. - agradeceu, ajeitando o buquê em seu braço.
Sky latiu, atraindo a atenção dos dois.
- Oi, menina. - ele esticou o braço para acariciar a cabeça dela, mas a cachorra foi mais rápida e correu no mesmo instante, fazendo o homem dar de ombros.
riu nasalado e falou que colocaria o buquê num vaso para que as flores não morressem.
- Bernice saiu? - perguntou, olhando ao seu redor.
- Ela está deitada. - disse, ajeitando as flores num pequeno vaso.
- Ainda? - olhou no relógio de pulso, que marcava dez horas da manhã. - Temos uma idosa preguiçosa aqui? - riu, mas no segundo seguinte franziu a testa ao ver a feição fechada da namorada. - O que foi?
- Minha vó passou mal ontem, Spencer. - falou, visivelmente incomodada com a piadinha dele. - E pelo jeito você não checa suas mensagens, eu te avisei sobre isso.
- Eu vi, mas não achei que fosse nada grave. - colocou as mãos nos bolsos de sua calça.
- Qualquer coisa na idade dela é grave, até um resfriado. - cruzou os braços, o encarando. - A saúde dos idosos é mais delicada, caso não saiba.
Spencer arregalou os olhos, espantado com a hostilidade da namorada.
- Me desculpe, tá? Falei sem pensar. - ergueu as mãos no ar, em sinal de rendição. - Como ela está?
- Descansando. - respondeu e viu Sky se aproximar da porta da cozinha, ela sabia muito o que sua cachorra queria, então facilitou a saída dela para onde estava, abriu a porta e ela foi saltitante até o homem que finalizava o seu serviço.
- Quem está aí? - Spencer indagou, mesmo já sabendo a resposta.
- , tá terminando a cerca. - suspirou, tentando deixar a irritação de antes ir embora.
viu o namorado rolar os olhos e percebeu que o sentimento ruim que passava por seu corpo naquele momento não iria embora tão cedo. Viu que ele ia dizer algo, mas foi interrompido com Sky entrando no local em uma velocidade que ela só usava quando tinha feito algo errado.
- Volte aqui. - escutou a voz de e se virou o vendo na porta da cozinha.
Sua atenção voltou para a sua cachorra, que agora estava na sala.
- O que ela pegou? - indagou ao rapaz.
conhecia Sky bem o suficiente para saber que ela estava aprontando.
- Chave inglesa. - respondeu e franziu a testa ao ver o outro homem no local.
Spencer apenas observava tudo em silêncio, viu chamar a cachorra inúmeras vezes e correr até ela. A mulher já sabia como agir nessas situações e rapidamente recuperou o que estava na boca da cachorra, que obviamente ficou completamente babada.
- Vou lavar rapidinho. - fez uma careta, indo até o banheiro.
Sky andou até e sentou ao seu lado, fazendo Spencer franzir a testa ao notar a proximidade dos dois.
- Falta muito pra terminar? - perguntou em seu usual tom de voz profissional.
- Não. - o outro respondeu.
O homem assentiu, notando que o rapaz parecia incomodado com algo.
- É normal você trabalhar no domingo?
- Não me importo. - deu de ombros. - Bernice e precisavam da cerca pronta.
- Reparei que você tem feito muito por elas mesmo. - comentou, o analisando com calma.
- Prontinho, . - interrompeu os dois. - O que será que deu nela? Sky nunca pegou nada seu antes. - fez uma careta.
O rapaz olhou para a mulher que falava com ele, quase sorriu ao notar que estava pensativa, provavelmente buscando uma resposta para o comentário que ela mesma tinha feito.
- Preciso voltar ao trabalho. - disse e a viu o encarar e em seguida sorrir.
- Você sabe que já é de casa.
Spencer olhou para a namorada rapidamente, estranhando aquele comportamento dela. Desde quando ela tinha tanta intimidade com um ? Naquela cidade ninguém se aproximava deles, por segurança, pois quem chegava perto demais sempre saía machucado.
- O que foi isso? - indagou assim que voltou para os fundos da propriedade.
franziu a testa, analisando a postura defensiva do namorado.
- Isso o quê?
- “Você sabe que já é de casa”, poderia me explicar o significado dessa frase?
- Significado? - riu de leve, ela agora entendia perfeitamente o que estava acontecendo. - Preciso mesmo explicar?
- , eu não sou burro e você sabe disso. - ele cruzou os braços.
A mulher ia responder, mas Sky latiu e olhou na direção da porta da cozinha.
- Ela também virou amiguinha do ? - Spencer apontou a cachorra com a cabeça.
- Você sabe que é um sobrenome e não um vírus letal que ninguém pode se aproximar, né? - ela debochou, andando até a porta e a abrindo para Sky, que rapidamente correu para onde estava.
- Por que você está me tratando assim? - ele estava perplexo com a reação da namorada e não entendia o motivo para tal atitude.
- Porque você acabou de chegar e já fez piada idiota sobre a minha vó e agora está menosprezando o , que desde que entrou nessa casa só nos ajudou. Diferente do que você pensa, ele foi muito respeitador e ontem praticamente tivemos que obrigá-lo a almoçar com a gente.
A paciência de estava por um fio, não faltava muito para ela fugir para o espaço.
- Ele almoçou com vocês? , você sabe que o irmão desse cara é um assassino? Ele espancou um cara até a morte, tem noção do risco que vocês estão correndo com ele aqui? - Spencer já quase gritava e gesticulava freneticamente.
- Você está se escutando? - ela deu dois passos pra trás, não gostando nem um pouco do jeito que ele falava. - O irmão dele errou, foi julgado e condenado. Por que o deveria pagar pelos crimes dele?
- Quem sai aos seus, não degenera. - afirmou, respirando fundo e encarando a namorada.
Se ela achava que não tinha como se surpreender mais com comentários preconceituosos dele, descobriu que era possível sim.
- Oi? Que pensamento mais imbecil, Spencer. - balançou a cabeça negativamente.
- Você deixa um psicopata entrar na sua casa e eu sou o imbecil?
arregalou os olhos, completamente chocada com o que ele tinha acabado de dizer, ia lhe dar uma bela resposta, mas foi interrompida pelo pigarro de alguém. O casal imediatamente olhou na direção da porta da cozinha e encontraram ali, com Sky ao seu lado.
- Já terminei. - os informou.
engoliu em seco e sentiu uma estranha sensação em seu corpo, era possível notar o desconforto do homem, indicando que ele tinha escutado boa parte da conversa.
- Vou pegar o dinheiro. - sorriu sem graça e foi até a sala.
Ela já tinha pagado pelo material, agora só restava o dinheiro da mão de obra.
- Eu pago. - Spencer se prontificou, tirando a própria carteira do bolso de sua calça.
- Não! - se apressou em dizer. - Você não vai pagar! - falou em tom firme e decisivo.
Spencer abriu a boca para soltar algum tipo de comentário desagradável, mas pela expressão severa de acabou desistindo pelo seu próprio bem.
- Aqui. - ela contou as notas enquanto se aproximava do rapaz. - Acrescentei um extra pelo dia de hoje. - lhe entregou o dinheiro.
- Não precisa. - tirou duas notas e fez menção de devolver pra ela.
- Você vai me ofender se fizer isso. - fez uma careta e se recusou a pegar o dinheiro dele.
Ele riu nasalado, completamente incomodado com toda aquela situação.
- Tudo bem. – cedeu. Pelo pouco que conhecia da mulher, sabia que ela não aceitaria o dinheiro de volta. - Já vou indo.
- Claro, eu te acompanho até o carro. - afirmou e fuzilou o namorado com o olhar quando o ouviu bufar.
e andaram até a frente da casa em completo silêncio, Sky os acompanhou, deixando claro que não queria ficar longe do rapaz. A mulher o observou colocar suas ferramentas na caminhonete e mordeu o lábio inferior, precisava esclarecer uma coisa antes que ele fosse embora.
- . - chamou e deu um sorriso fechado quando ele se virou. - Não sei o que você ouviu lá na cozinha, mas hoje eu sei que você não é nada do que o povo dessa cidade fala, tive a oportunidade de te conhecer um pouco e vi que é um bom rapaz.
O homem a encarou perplexo por alguns segundos, ela não precisava dizer nada daquilo, pois as atitudes dela valiam muito mais do que palavras. não se lembrava da última vez que foi tratado com tanto respeito e educação por alguém, não só , como também a senhora Bernice, que era um poço de gentileza com ele. Então o que ela dizia era apenas a confirmação de tudo que já sabia, não era alguém babaca como Spencer, que o julgava sem nem se dar o trabalho de conhecê-lo melhor.
- Espero que não fique chateado pelo que ouviu. - a viu suspirar e ele franziu a testa. - Spencer é bem… - Babaca, ele completou mentalmente. - Inconveniente quando quer. - ela disse.
- Não tem problema, . - falou, afinal realmente não se importava.
A mulher franziu a testa e pensou em retrucar e dizer que tinha problema sim, que ninguém deveria ser tratado daquela maneira, mas achou melhor não prolongar aquela conversa, pois provavelmente era um assunto difícil pra ele.
- Eu vou indo. - apontou para o próprio carro.
- Claro. - ela sorriu e o viu se inclinar para fazer um afago em Sky, que aceitou de bom grado. - A gente se vê por aí? - perguntou e o viu assentir minimamente e ela sorriu.
não soube direito como se despedir dela e, como estava virando rotina, foi ela quem tomou a iniciativa de lhe dar um breve abraço, que ele lamentou o término no mesmo instante em que ela se afastou.
- Vai pela sombra. - sorriu, o vendo entrar no carro.
Sky latiu, como se também estivesse se despedindo, o que fez os dois rirem.

- Me desculpa, . - foi a primeira coisa que a mulher ouviu ao entrar em casa, Spencer estava sentado no sofá da sala com as mãos apoiadas em suas pernas.
- Eu sei que errei, mas desde o dia em que você me disse que aquele cara ia trabalhar aqui eu fiquei desesperado, ele é uma pessoa a ser temida e não colocada dentro de casa, entende?
A mulher franziu a testa e sentou no outro sofá, do lado oposto da sala. Sky se deitou nos pés de sua dona.
- Não entra na minha cabeça que você e a sua vó achem normal ter alguém como ele trabalhando pra vocês. Ele é perigoso, . - suspirou, passando as mãos em seu rosto. - Você já verificou se não sumiu nada da casa? Eu não duvido nada que ele tenha se aproveitado de um momento de distração de vocês e…
- Spencer, pare! - ela pediu, o fazendo a encarar com a testa franzida.
- Por que você está me tratando assim? - sua voz saiu aguçada, demonstrando sua surpresa.
A mulher respirou fundo, não acreditava que ele não entendia.
- Minha avó poderia ter morrido ontem, Spencer, ela já é idosa e teve uma crise de hipertensão, você tem ideia de como isso é perigoso? E você está preocupado com o quê? - cruzou os braços. - Com um rapaz que não fez nada pra nós, que desde a primeira vez que colocou os pés nessa casa nos respeitou como poucos; Ele chama a minha vó de senhora! Você sabe como isso é raro nos dias de hoje? Eu desconheço esse que você está descrevendo.
- Você realmente não entende. - ele balançou a cabeça, inconformado. - A má fama dele não é por acaso, .
- Você sabia que por muitos anos minha mãe teve essa tal de má fama que você está falando? - arqueou as sobrancelhas.
- O quê? - estreitou os olhos, confuso.
- Spencer, minha mãe era adolescente quando engravidou, tem ideia de como ela foi julgada nessa cidade? Eu cresci ouvindo que a fuga do meu pai era mentira, que na verdade ela tinha inventado essa história porque não sabia de quem eu era filha.
O homem abriu a boca para dizer algo, mas nem se atreveu, pois não tinha ideia do que falar, lhe faltavam argumentos para rebater o que a namorada tinha acabado de dizer.
- Minha mãe sentiu na pele o que era ser julgada, então eu não vou fazer com o o que fizeram com ela, o tratar mal só porque alguém disse que ele não presta. E mesmo que fosse verdade, as pessoas merecem ser tratadas com dignidade. - afirmou convicta de seus princípios. - E se você continuar com esse assunto nós vamos ter um problema sério, eu estou cansada da sua falta de respeito comigo.
- Não é falta de respeito, eu só quero cuidar de você e te proteger porque você é muito ingênua.
- Spencer, agradeço a preocupação. - sorriu sem mostrar os dentes. - Mas eu sou madura o suficiente para decidir quem eu quero perto de mim, espero que entenda e respeite isso.
O homem assentiu lentamente, sabia que era uma luta perdida. era alguém fácil de lidar, mas que odiava ser controlada e ele sabia muito bem disso, pois toda vez que tentava tomar as rédeas da situação era barrado pela namorada. No fundo ele entendia que se criou praticamente sozinha e tinha se acostumado a ser independente, mas esperava que um dia ela entendesse que não precisava viver dessa maneira pro resto da sua vida.
- Tudo bem. - falou, a fitando. - Ultrapassei o limite e não quero que a gente fique nesse clima estranho, passei tanto tempo longe e tudo o que eu desejo no momento é passar um tempo com a minha namorada. - sorriu abertamente e se levantou, indo até o sofá onde ela estava e sentou ao seu lado. - Me desculpa? - pediu a abraçando de lado.
- Está bem. - suspirou.
A mulher ainda estava bem chateada com tudo o que ele havia dito, mas também estava cansada de discutir e o que queria no momento era ficar em paz, então acabou o desculpando.

(...)


estacionou sua moto triumph scrambler em frente ao The Last Stop, sabia que ainda era cedo, mas era sábado e, consequentemente, o dia de maior lotação do bar, então preferia chegar antes e garantir um lugar. Assim que desceu da moto ele escutou o barulho de porta batendo e passos se aproximando, tirou o capacete e sabia que tinha alguém o observando, se surpreendeu quando viu quem era.
- Oi, . - ela sorriu, fazendo o coração dele bater mais rápido.
Além de linda, ela também sorria com o olhar. Como era possível?
- Você chegou cedo. - a mulher reparou.
Ele a fitou por um momento, notando que ela tinha os cabelos presos, deixando a mostra o seu pescoço, que era ocupado por um pequeno colar prateado.
- Minha vó perguntou por você. - a menção de Berenice o fez erguer o olhar.
- Como ela está?
- Bem, a pressão igual à de uma menina, como ela mesma diz. - riu, o fazendo rir nasalado. - Sabe, eu sempre quis uma dessas. - falou, o fazendo franzir a testa.
Então ela se aproximou ainda mais e passou a mão no tanque da moto, franziu a testa, nunca imaginou que teria interesse por motos.
- Não sei nada delas, mas acho fascinante. - confessou, fitando a moto com admiração. - Qual a marca dela? - perguntou, o encarando.
- É uma Triumph Scrambler. - respondeu, a observando olhar cada detalhe do painel e guidão.
mordeu o lábio inferior, estava louca de vontade para saber como era subir numa moto, então não queria deixar a oportunidade passar.
- Posso? - o fitou, fazendo uma cara fofa, para tentar convencê-lo.
O que ela ainda não sabia era que ele não seria capaz de lhe negar absolutamente nada.
- Claro. - quase gaguejou com o pedido dela.
Ela sorriu empolgada e deu a volta, ficando ao lado de , a mulher podia não saber muitas coisas de moto, mas sabia que para subir nela tinha que ser do lado do pedal. quase riu do jeito atrapalhado dela para montar em sua moto, o medo era evidente em seus movimentos, o que o fez se aproximar ainda mais.
- Nossa. - ela suspirou quando se sentou, inclinou o corpo um pouco para o lado, fazendo a moto sair do apoio do pedal. - Ela é pesada. - fez uma careta, sustentando o peso da moto com seus pés.
tentou respirar normalmente, mas ver sentada em sua moto era muito pra sua mente, jamais imaginou que um dia isso aconteceria. Uma mulher como ela em sua moto, e ainda curtindo o que estava fazendo. Ele sempre achou incrivelmente sexy ver uma mulher pilotando uma moto, mas ultrapassava todos os limites que ele conhecia, o jeito que ela se acomodava e tomava conta do veículo de duas rodas estava quase o tirando dos eixos.
sentiu que estava abusando da boa vontade do homem e impulsionou o corpo para sair da moto, mas a sua falta de conhecimento acabou lhe pregando uma peça e o peso da moto indo pro lado a assustou e ela soltou um gritinho de medo, pois achava que ia cair com a moto. agiu rapidamente e a segurou pela cintura, ele já tinha visto que não tinha subido o pedal de apoio, então a moto não cairia, somente a mulher.
- Céus! - falou, toda atrapalhada.
Ele praticamente a abraçava por trás, segurando o corpo dela contra o seu, sentiu um arrepio percorrer a sua espinha por causa do aroma que emanava, era um cheiro diferente de tudo que ele conhecia. A ouviu rir de leve e o peso em seus braços diminuiu um pouco, indicando que ela havia apoiado os pés no chão.
- Que mico, . - dessa vez ele riu da fala dela. - Pelo menos não derrubei sua menina.
As mãos dela tocaram as dele, em um claro sinal que poderia soltá-la porque agora estava segura e não corria o risco de cair no chão.
- Você está bem? Se feriu? - indagou a soltando com cuidado.
Ela se afastou um pouco, se virando pra ele.
- Só minha dignidade que se machucou um pouco. - brincou, tentando disfarçar a vergonha que estava sentindo. - Antes de pensar em ter uma moto, preciso aprender a montar numa primeiro, né?
riu do talento dela para zombar da própria desgraça.
- Você vai entrar? - ela tinha um sorriso no rosto, estava feliz por finalmente ver o homem se soltando na presença dela.
- Vou. - assentiu brevemente, ainda a observando.
- Então vamos. Só vim pegar um negócio no carro, a Holly deve estar estranhando a demora.
- Tudo bem.
a seguiu para dentro do bar, que ainda estava praticamente vazio, apenas com um casal numa das mesas mais afastadas do local.
- Agora entendi o motivo da demora. - Holly, que estava atrás do balcão, piscou para a mulher.
- Tira isso da sua cabeça. - riu, balançando a cabeça negativamente. - E sou uma moça comprometida, não se esqueça disso.
- Falando nele, vai aparecer por aqui?
- Não sei. - mordeu o lábio inferior.
Spencer ainda estava na cidade, mas sempre ia para Dalton ou Atlanta resolver alguma coisa do trabalho, então nem sempre estava em Blue Ridge de fato. Até porque ele só ficava ali por causa de seus pais que ainda moravam no local e por .
- Hoje ele tinha algumas reuniões em Atlanta, então acho difícil vir pra cá. - deu de ombros, já estava acostumada com as viagens dele. - Mas trouxe a revista, minha vó falou pra escolher o que você quiser.
- Ai que fofa. - a mulher sorriu.
Bernice adorava presentear as pessoas com os seus crochês, então ela se ofereceu para fazer barra nas mantas que Holly já tinha para o seu pequeno bebê.
- Bom, enquanto você olha a revista eu vou me preparar. - indicou o pequeno palco com a cabeça.

sorriu para Rudy, o rapaz que tocava violão, e analisou o seu microfone, conferindo se estava tudo certo.
- AC/DC, ? - ouviu o rapaz resmungar e soltou um riso.
- Vai dizer que já esqueceu? - riu, o vendo analisar a lista de músicas que ela cantaria naquela noite.
- Claro que não. - o mais jovem rolou os olhos. - Mas é difícil pra caramba, ainda mais acústico.
- Você fala como se eu tivesse o mesmo timbre de voz do cantor da banda, a gente tem que se adaptar. - comentou, balançando a cabeça negativamente.
- Eu sei, eu sei. - resmungou, ajeitando o violão.
A mulher riu, sabia que por ele só teriam músicas fáceis de tocar, mas adorava inovar e sempre colocava algo diferente em seu repertório, ela gostava do desafio de cantar algo totalmente fora do seu tom.

quase engasgou com a sua cerveja quando reconheceu uma de suas músicas favoritas na voz de . Ele estava no bar há quase duas horas e sabia que o show dela estava próximo do fim, então estava completamente focado na mulher e nas músicas que ela cantaria.
- How long, how long will I slide….separate my side. - a voz dela era tão suave que era como se o hipnotizasse. - I don’t, I don’t believe it’s bad.
não conseguia desviar o seu olhar de , ainda bem que ela era o foco de todo o bar, caso contrário, qualquer um seria capaz de notar que a sua atenção estava completamente nela. A versão acústica daquela música parecia ser melhor que a original, pelo menos era o que ele sentia naquele momento, nunca imaginou que Otherside soaria tão bonita na voz dela.
- Turn me on, take me for a hard ride. - ela cantarolou em um tom meio rouco, o que fez engasgar com a sua cerveja, o fazendo tossir duas vezes para se recuperar do efeito que ela tinha causado nele.
fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente, se achando bem bobo por ser um homem com mais trinta anos tendo esse tipo de reação por causa da voz de uma mulher.
- Muito obrigada. - a ouviu dizer e abriu os olhos, notando que ela tinha encerrado pela noite e agradecia a quem batia palmas.
Ele não conseguia desviar sua atenção da mulher, não sabia como parar de olhar para , a sua fascinação por ela era algo que o dominava por completo. Por isso ele se assustou brevemente quando viu o sorriso dela vindo em sua direção.
- Posso me sentar? - ela pediu, já puxando a cadeira na frente dele.
O homem apenas assentiu, a viu colocar seu lanche e um latinha de refrigerante na mesa.
- Gostou das músicas que cantei? - indagou, dando um longo gole em sua bebida.
- Sim, da maioria. - respondeu, ainda não acreditando que ela estava sentada ali.
Jamais, nem nos seus melhores sonhos, ele imaginou que isso poderia acontecer.

deu a primeira mordida em seu hambúrguer e teve aquela estranha sensação de estar sendo observada, mas não era por , que ela já tinha reparado que a encarava a noite toda, o que não a incomodou em nada, pois sentia que o olhar dele não tinha maldade. Porém, a impressão de agora era completamente o oposto. Ela deu uma olhada ao seu redor e notou que algumas pessoas a fitavam com uma expressão de horror no rosto, ela franziu a testa e não demorou muito a descobrir o porquê.
- Isso é sério? - murmurou e viu se remexer na cadeira.
Era visível que as pessoas reprovaram a atitude dela ao decidir sentar-se com um , o que era uma situação completamente nova para . Ela notou o desconforto do rapaz e achou que a melhor maneira de lidar com aquilo era ignorar o ignorante.
- Então, . - sorriu, o vendo franzir a testa. - Sei que eu quase matei a sua filha mais cedo, mas será que você me deixaria pilotar qualquer dia desses?
O rapaz franziu a testa. Primeiro porque ela continuou ali e ainda agiu como se ninguém estivesse os observando. E segundo porque aquela pergunta foi totalmente inesperada. Ela realmente estava pedindo para andar na moto dele?
- , é indelicado não responder o pedido de uma dama. - o seu tom era brincalhão e ele riu nasalado.
- Ela tem seguro, então, talvez, não seja um problema. - respondeu, dando um gole em sua cerveja.
arregalou os olhos, não fazendo questão alguma de esconder a sua surpresa. tinha feito uma piada e ainda por cima zombado dela? Aquilo estava realmente acontecendo? Ela sorriu genuinamente, se dando conta que o homem sentia-se bem na presença dela, bem o suficiente para se abrir aos poucos.


Capítulo 5


You try to fit, to fit me in a perfect box
You let me slip between the cracks...
(Faded – Cascada)


- Tia, minha mãe diz que tem muito sal. - a pequena comentou, enquanto as duas olhavam a seção de congelados do supermercado.
- Comer uma vez não mata. - falou, abrindo a porta e pegando uma embalagem de pizza.
- Igual formiga. - fez uma careta.
- O quê? - franziu a testa, tentando entender por que a menina colocou um inseto na conversa.
- Quando tem formiga no açúcar meu pai diz que posso comer porque uma não vai me matar. - olhou ao redor, abrindo um sorriso ao ver a seção de sorvetes do outro lado do corredor.
riu de leve do comentário da criança, Williow sempre a surpreendia.
- Você sabe que sorvete tem muito açúcar? - provocou a menina, que franziu a testa.
- Sei sim, minha mãe vive dizendo isso também.
- Chocolate? - a mulher perguntou, abrindo a porta e pegando alguns potes.
- Sim! - ela abriu um sorriso lindo. - E agora?
olhou para o seu carrinho, notando que ainda faltava muita coisa para comprar.
- Vamos escolher as frutas. - avisou e viu a menina assentir, andando um pouco na sua frente.
A mulher olhou para a lista de compras em sua mão e escutou a criança cumprimentar alguém, ergueu sua cabeça e sorriu ao ver quem era.
- Oi, . - cumprimentou, se aproximando dele.
O homem andava tranquilamente pelo supermercado e se assustou quando ouviu seu nome ser dito alegremente por uma voz infantil e em seguida por aquela voz que ele tanto adorava.
- Oi, Willow e . - as cumprimentou, tentando esconder o desconforto de ter sido surpreendido por elas.
- Meu pai adora essa cerveja. - a pequena comentou, se apoiando no carrinho dele. - Tia, aqui também tem pizza e sorvete.
- Willow! - a mulher chamou a atenção da pequena. - Desculpa, ela é muito curiosa. - puxou a menina levemente pelo braço.
- Que foi? - a criança fez uma careta.
- Não tem problema. - ele quis garantir.
balançou a cabeça negativamente e notou que ele observava as atitudes de Willow com um sorriso mínimo no rosto.
- Ele já comprou frutas. - ela comentou, ainda de olho no carrinho dele. - Tia, posso comer uva?
A mulher franziu a testa, mas então viu que tinha uma porção de uvas em sua mão. Ele notou o olhar de em si e viu que Willow também tinha o olhar fixo em sua mão.
- Quer? - ele perguntou para a menina, que imediatamente olhou para , esperando por sua aprovação.
- Sem problemas. - deu de ombros.
Willow quase gritou de felicidade e esticou o bracinho para pegar algumas uvas.
- Obrigada. - a menina agradeceu.
- E você?
se surpreendeu quando ele também lhe ofereceu.
- Ah não, obrigada. - recusou, ainda sentia-se satisfeita com o almoço que ela e a Willow tiveram mais cedo.
Ela o encarou por um momento, notando como o seu vestuário era diferente de quando não estava trabalhando, se surpreendeu ao ver que usava uma bermuda jeans, provando que ninguém era de ferro quando se tratava do verão escaldante do Estado da Geórgia. Ele também vestia uma camiseta preta com um desenho que ela não soube decifrar e a mulher quase sorriu quando viu que nos pés ele usava um all star preto, o que lhe pareceu ser algo bem peculiar para usar.
O olhar de subiu novamente pelo corpo do homem e viu que tinha sido flagrada por ele, já que a encarava de volta. Ela pigarreou, tentando esconder a vergonha que estava sentindo.
- Bom, temos que ir. - sorriu sem graça e o viu assentir. - Vamos, pequena?
Willow se virou para , concordando com ela.
- Tchau. - a criança acenou para o homem.
E se despediu com um sorriso fechado no rosto.
- Até qualquer dia, .
- Até. - ele assentiu novamente e seguiu o seu caminho, que era o oposto delas no mercado.
O homem franziu a testa enquanto caminhava até o açougue do local. Ele estava alucinando ou realmente encarou o corpo dele? Por um momento, achou que estava imaginando coisas, mas a reação dela ao ser surpreendida confirmou a sua suspeita. Porém, por qual motivo ela o analisaria daquela maneira? Ele não era um homem atraente e muito menos bonito para que ela se sentisse interessada.
chacoalhou a cabeça, só podia estar enlouquecendo mesmo. A única explicação que conseguia pensar naquele momento era que estava apenas conferindo sua roupa, nada mais que isso.
Afinal, jamais se sentiria atraída por .

(...)


acordou sentindo um peso em sua cintura, demorou alguns segundos para o seu cérebro processar o que estava acontecendo. Willow tinha metade do corpo em cima da mulher, o que a fez rir baixinho, era incrível a capacidade da criança de se mexer feito um peixe fora da água enquanto dormia.
- Meu amorzinho. - ela acariciou a cabeça da menina. - É hora de acordar.
Willow tinha passado o sábado inteiro com . Quando a mulher precisou ir cantar no bar, a pequena ficou com Bernice, que a colocou para dormir na cama de sua neta. Normalmente a menina ficaria o domingo todo na casa das mulheres, mas naquele dia iria almoçar com Spencer, que estava todo misterioso sobre algum assunto importante que precisava conversar com a namorada.
- Willow. - sussurrou, tirando a menina de cima de si.
- Tia . - choramingou, cobrindo o rosto com um travesseiro.
A mulher apenas riu da atitude da criança.
- Vamos levantar, você não quer comer panqueca?
Willow sentou-se rapidamente, fazendo praticamente gargalhar com aquela reação.
- Falou em comida e você desperta, né? - fez cócegas na pequena, que tentou se desvencilhar da mulher.
- Para, tia. - pediu, contorcendo o seu corpinho.
A mulher atendeu ao pedido dela prontamente e se levantou, fazendo um sinal com a mão para que a menina a seguisse.
- Vamos escovar esses dentes, vem.

Pouco tempo depois as duas desciam as escadas tranquilamente, a mais velha deu um suspiro de satisfação ao sentir o aroma de café invadir suas narinas, já a caçula do local abriu um enorme sorriso ao ver as panquecas na mesa da cozinha.
- Bom dia, dorminhocas. - Bernice cumprimentou as duas.
- Dia, Vó. - Willow respondeu, a pequena desde sempre chamava a senhora de avó.
- Oi, minha linda. - a mais velha de todas beijou a cabeça da menina em um ato de carinho. - Suas panquecas estão prontas. - ela sorriu ao ver a alegria da criança. - E seu café também. - olhou para , que agradeceu com o olhar e abraçou brevemente sua avó.
As três tomaram o seu café da manhã vagarosamente, Willow mais animada do que o normal por estar comendo panqueca, que era uma de suas comidas preferidas. sorria ao ver a felicidade genuína da criança, a mulher sentia-se tão bem quando a pequena passava o dia com ela, era como se todas as suas energias fossem renovadas.
- Sky! - Willow comemorou ao ver a cachorra sair de sua casinha.
O animal andou até onde a menina estava e a olhou em expectativa, sabia o que sempre ganhava quando Willow estava na casa.
- Vocês duas não tem jeito mesmo. - balançou a cabeça negativamente, vendo sua cachorra devorar uma panqueca.
- Vão fazer alguma coisa hoje? - Bernice indagou enquanto bebericava o seu café com leite.
- Não, a tia vai sair com o Spence. - a pequena informou, claramente insatisfeita com aquela situação.
- Ah é, vocês vão para Atlanta mesmo?
- Sim. - a outra deu de ombros. - Spencer diz que por aqui não temos restaurantes decentes. - fez uma careta em reprovação ao que o namorado sempre dizia.
Bernice apenas discordou com a cabeça, jamais criticaria Spencer na frente de Willow ou até mesmo de sua neta, sabia que ela era uma mulher já formada e capaz de tomar suas próprias decisões, mas nunca sentiu que o homem era merecedor de . Desde a primeira vez que o viu, percebeu que ele era bem diferente de , porém, como a neta gostava dele, a senhora preferiu respeitar a decisão da mulher, pois acreditava que tinha um bom julgamento e jamais se relacionaria com alguém que não lhe fizesse bem.
- Ai, tô cheia. - a senhora riu ao ouvir o resmungo de Willow.
- Comeu feito um dragãozinho. - implicou com a menina, que fez uma careta.
Bernice sorriu com a cena, adorava quando a menor estava em sua casa, o local ficava mais alegre.
- Carrapatinho. - a chamou pelo apelido que tinha lhe dado. - Precisamos ir, vamos arrumar suas coisas?
Willow fez um bico adorável, detestava quando chegava a hora de voltar para casa, ela amava os seus pais mais que tudo nesse mundo e tinha uma vida maravilhosa ao lado deles, mas adorava sair da rotina e mudar um pouco de ares, então não ficava tão feliz assim ao retornar para o seu lar.
- Tá bem. - suspirou, saindo de sua cadeira.
- Alegria, Willow. - a mulher tentou animar a pequena. - Você sabe que pode vir aqui sempre que quiser.
- Eu sei.
- Se eu te der uns cookies pra você levar pra casa, promete que vai melhorar essa carinha? - Bernice sugeriu e imediatamente os olhos da menina brilharam.
- Só falar em comida que tudo melhora. - riu, já indo em direção às escadas para pegar os pertences da menina.
- Você não é muito diferente dela, viu? - Bernice comentou, fazendo a neta gargalhar com aquela afirmação, pois sabia que era verídica.

estacionou o seu carro em frente à casa de sua amiga e xingava mentalmente o pneu de seu automóvel, que ela suspeitava estar furado, pois do nada o volante começou a puxar muito para o seu lado esquerdo, o que só poderia significar que o pneu tinha furado.
Willow saiu do carro e deixou a porta aberta, Sky não perdeu a oportunidade e seguiu a menina, rapidamente notou que estava na frente da casa dele, com o capô da caminhonete aberta, ela suspirou se dando conta que, provavelmente, não era única com problema com o carro.
- Pai! - a pequena gritou, vendo que estava com .
Willow correu na direção do homem com Sky em seu encalço, que também fez uma festa ao ver os homens ali.
sorriu com a cena e finalmente saiu de seu carro, indo para a parte traseira do mesmo, abriu a porta e destravou o compartimento onde ficavam guardados a chave de roda e macaco hidráulico.
- Precisa de ajuda? - enquanto posicionava as ferramentas ela escutou a voz de atrás de si. - Vi que o seu pneu furou.
- Você tem alguma coisa pra segurar o carro aí? Algum tipo de calço? Pra eu colocar no pneu traseiro.
O rapaz franziu a testa, pensando se tinha algo do tipo e imediatamente se virou para pedir a ajuda do seu vizinho. deu de ombros e aproveitou para soltar os parafusos do pneu que seria trocado.
- , aqui.
voltou segurando dois tocos de madeira em formato de calço para pneu, ela franziu a testa e sorriu em seguida, suspeitando a quem eles pertenciam.
- Coloca pra mim? - pediu e ele assentiu.
preparou o macaco hidráulico e esperou a confirmação de para que ela pudesse começar a subir o carro.

Sua atenção foi tirada de seu carro quando Willow chegou gritando por seu pai e o homem notou Sky perto dele, pedindo por atenção, ele acariciou a cabeça do animal e escutou praguejando em um fio de voz, mas não baixo o suficiente para ele que tinha a audição aguçada para qualquer barulho.
arregalou os olhos levemente quando a viu carregando um macaco hidráulico e, em seguida, um pneu. Observou se afastar dele e andar até , que pediu por um calço para o carro e rapidamente pegou os que estavam próximos dele, afinal, também estava arrumando o seu carro. não escondeu sua surpresa ao reparar que o vizinho tinha ouvido o pedido de , ele deu de ombros e entregou os tocos pra ela logo.
observava aquela cena como se um unicórnio tivesse brotado em sua frente e ele não acreditava no que via. Aquilo era totalmente novo para ele e, por um segundo, achou que estivesse alucinando. Mas não, aquilo era real. Estava completamente admirado com o que os olhos fitavam, era a primeira vez em sua vida que presenciava uma mulher trocando o pneu de um carro, ainda mais . Ela sabia até que precisava colocar algo no pneu traseiro como precaução para o carro não descer no caso do freio de mão falhar. A viu tirar a roda com facilidade e entregar a mesma para , que insistia em fazer o serviço por ela, que recusava educadamente, dizendo que apenas uma vez na vida um homem havia trocado o pneu de seu carro, e foi esse mesmo homem que lhe ensinou a fazer o que fazia agora.
umedeceu os seus lábios ao vê-la encaixar o estepe com precisão e depois sorrir satisfeita. A viu passar a mão na testa para secar o suor que escorria por seu rosto e a escutou xingar novamente, pois tinha sujado o seu rosto de graxa. Ele riu baixo pela frustração dela, já que em seguida fez a besteira de passar as mãos no short jeans, o sujando também.
Ele viu atender ao celular e se afastar brevemente de , que estava terminando de apertar o novo pneu em seu lugar, ela sentiu que sua tarefa estava cumprida e começou a descer o macaco, para depois o guardar juntamente com a chave de roda. Observou que ela pegou os tocos de madeira que sustentavam os pneus traseiros e olhou em sua direção, ele quase abaixou o olhar quando foi flagrado por ela, mas algo o impediu de desviar sua atenção dela, que andava em sua direção com um sorriso no rosto.
- Vejo que encontrou o seu amigo. - ela falou, olhando para o chão e o fez franzir a testa, mas então sentiu algo encostar em si e lembrou que Sky estava ao seu lado. - Muito obrigada, . - colocou os calços ao lado do carro dele.
- Deu tudo certo? - ele perguntou.
- Sim, agora preciso levar o pneu numa borracharia pra ver se tem como reparar.
Ele estreitou os olhos rapidamente, pensando que talvez pudesse a ajudar, mas antes que fosse capaz de dizer algo, resolveu participar da conversa.
- pode arrumar pra você. - deu de ombros, acariciando a cabeça de Willow, que até então observava tudo em silêncio.
- Ele remendou o pneu da minha bicicleta. - a pequena se manifestou.
sorriu para a menina e voltou seu olhar para o homem.
- O que você não faz, ? - tombou a cabeça para o lado. - Você pode ver pra mim? - apontou na direção de seu carro.
O homem apenas assentiu e a seguiu até o automóvel. Ele estava levemente frustrado, pois queria ter se oferecido para ajudá-la antes que tivesse se intrometido. Não culpava o seu vizinho, já que sabia que ele só tinha boas intenções, mas, às vezes, ele se incomodava quando alguém falava por ele.

- O que acha?
mordeu o lábio inferior e o observou pegar o pneu e analisar a borracha, ela tentou focar sua atenção em qualquer coisa que não fossem os braços definidos de , que estavam particularmente atraentes naquele momento.
- Tem conserto sim. - ele avaliou. - Terça te entrego pronto, se quiser que eu faça pra você, senão pode procurar um borracheiro de sua confiança.
- Quê? Claro que não. - riu, balançando a cabeça negativamente. - Quanto você cobra?
- Não é nada. - deu de ombros, pegando o pneu e o carregou na direção de sua caminhonete.
- Você pare com isso. - o seguiu, determinada a ser cobrada por ele.
- 200 dólares. - ela parou de andar no mesmo instante em que ouviu a voz dele, chocada com o valor.
Notou que voltou a mexer em seu carro e segurava o riso.
- Não acredito que vocês estão tirando com a minha cara. - ela colocou as mãos na cintura e revezou o olhar entre os dois, desconfiada.
parecia não se importar e estava focado em arrumar as velas de seu automóvel. Escutou finalmente rir e resmungar algo, provavelmente o xingando, mas ele a ignorou completamente.
- Tudo bem, fiquem aí se divertindo com a minha desgraça, porque eu preciso ir embora, vem Sky. - chamou a cachorra, que a obedeceu rapidamente.
se despediu de Willow, que a encheu de beijos enquanto a abraçava pelo pescoço, acenou para e , dizendo para o último que era bom cobrar um preço justo, senão ela o processaria e lhe tiraria sua tão adorada moto.

esperou que todos fossem embora para finalmente sorrir, abandonando a expressão impassível que colocou em seu rosto desde o momento em que resolveu brincar com . Ele estava surpreso consigo mesmo ao perceber que aos poucos a mulher estava derrubando alguns muros que ele havia construído para se proteger. Fazer piadas, por exemplo, era algo ele nem lembrava a última vez que tinha feito uma, mas desde que se aproximou ele já tinha feito duas com ela, e era algo que vinha naturalmente de si. E no fundo não poderia negar que estava adorando ver esse seu lado sobressair.

(...)


se ajeitou na cadeira do restaurante, olhando o seu pedido que tinha acabado de chegar. Seu estômago lhe agradeceu e ela instintivamente acariciou a barriga, escutou um risinho vindo de seu companheiro e o fitou.
- Que foi? Estou com fome.
- Não estou falando nada. - deu de ombros, fitando a própria refeição.
Spencer tinha levado a namorada para Atlanta, onde almoçariam e finalmente teriam algum tempo como casal, ele também aproveitaria a oportunidade para fazer o pedido que tinha em sua mente desde que chegara em Blue Ridge na semana anterior. Os dois tinham pouco mais de um ano de namoro e ele sentia que era a hora de dar um passo a mais na relação.
Spencer nasceu em Blue Ridge, mas desde pequeno estudou em Dalton, onde morava com seus avós, já que seus pais sempre amaram Blue Ridge e se recusavam a sair dali. Os avós do rapaz tinham uma condição financeira melhor e fizeram questão de colocá-lo na melhor escola da cidade, eles bancaram todos os estudos dele.
O rapaz nunca foi muito fã de Blue Ridge, a única razão para ir à cidade era para visitar os seus pais, até que conheceu quando foi ao The Last Stop com uns amigos que conheceu na faculdade. Ele se encantou por ela e sua voz, então na primeira oportunidade que teve a chamou para sair, mas foi rejeitado logo de cara, o que o fez persistir e chamá-la de novo, dessa vez ela acabou aceitando. Os dois não se deram muito bem não, era visível as diferenças entre eles e até o dispensou, porém Spencer não conseguia tirar a mulher da cabeça e pediu uma segunda chance, alegando que a falta de interesses em comum poderia ser melhor ainda, pois teriam a chance de descobrir coisas novas. Ela acabou sendo convencida pelas palavras dele e aceitou que tivessem algum tipo de relacionamento amoroso.
E no começo do namoro era incrível as descobertas que faziam um do outro, mas, infelizmente, com o tempo as diferenças entre eles iam ficando cada vez mais evidentes. Spencer não era burro, percebia que a relação deles estava por um fio e o que fim estava próximo, mas sentia que a distância entre eles era o que dificultava tudo. Por isso decidiu que era hora de mudar isso, diminuir o espaço entre ele e era a solução para os seus problemas.
- Você gosta de Atlanta? - ele perguntou, após um tempo em silêncio.
o fitou, curiosa com aquele questionamento.
- É uma cidade bonita, não tenho nada contra ela não. - respondeu, o fazendo rir de leve. - Por quê?
- E Detroit? - ele ignorou a pergunta dela, que franziu a testa com a menção do nome daquela cidade.
- Não sei, Spencer. - foi sincera, tentando entender o motivo daquela pergunta. - O que tem Detroit?
O homem respirou fundo, se preparando para fazer a proposta que vinha pensando há semanas.
- Detroit, aos poucos, vem se reconstruindo e superando o processo de falência. No último ano, vários empresários resolveram investir na cidade e a empresa que trabalho vai fazer um grande projeto de renovação urbana e me convidaram para fazer parte da equipe. - ele sorriu, orgulhoso de si próprio. - Na verdade, serei o responsável por tudo. E para isso acontecer, terei que morar lá e queria saber se você aceitaria ir comigo?
- Morar em Detroit? - questionou, deixando seus talheres de lado.
- Isso! O que acha?
- Spencer, eu fico muito feliz por você, de verdade. - afirmou e o viu franzir a testa. - Mas você sabe que eu amo Blue Ridge e nunca tive planos de sair de lá e que eu moro com a minha avó, não posso simplesmente a deixar morando sozinha.
- Se esse for o problema, ela pode ir com a gente, não sei se a sua cachorra poderia ir junto porque onde vou morar é um apartamento e não sei se…
- Espera. - ela o interrompeu. - Você já tem lugar pra morar? Isso significa que você aceitou a proposta?
- Claro que sim, é algo irrecusável, . - falou em um tom óbvio.
- Por que você não conversou comigo? Decidiu sozinho.
Spencer não entendia por que ela estava mudando o rumo da conversa.
- É a minha carreira, não tinha o que conversar ou pensar, é uma oportunidade única.
fechou os olhos por um momento, tentando não se estressar.
- Eu achei que você gostaria da chance de morar comigo, finalmente seria possível que o nosso relacionamento fosse normal. Viver juntos nos ajudaria muito.
- Você realmente pensa isso?
- Sim, . - ele sorriu, esticando o braço e segurando a mão dela.
- Spencer, se longe um do outro a gente já vive brigando, como você acha que vai ser morando na mesma casa?
- Mas as nossas brigas só acontecem por causa da distância. - retrucou, soltando a mão dela. - Nos dê uma chance, .
A mulher respirou fundo, querendo que ele entendesse de uma vez por todas o maior problema do relacionamento deles.
- Spencer, minha mãe está em Blue Ridge, minha avó também. A Sky está lá, minha casa e meu emprego também. Se eu te pedisse para largar tudo e morar comigo, qual seria sua resposta?
Ele finalmente entendeu onde ela estava querendo chegar, mas ele precisava ser completamente honesto.
- Não. - respondeu, a vendo assentir. - Mas é diferente, . Eu tenho uma profissão, toda uma carreira que não posso jogar no lixo para morar em uma cidade que não tem nada de bom a me oferecer.
nunca se sentiu tão ultrajada em toda sua vida, jogou o seu controle pro espaço com o que ele tinha dito.
- Você está dizendo que eu posso abandonar tudo porque a minha vida e carreira não são tão valiosas como a sua? - seu tom de voz ainda estava normal, sabia que estava em um local público.
- Não é bem isso o que eu quis dizer, mas pra você é muito mais fácil me acompanhar, do que o contrário. Você é mulher e… - sua frase não foi terminada, pois ele se calou quando a viu se levantar.
- Spencer, a resposta é não.
O homem arregalou os olhos ao ver a namorada pegar a bolsa e sair dali, o deixando sozinho na mesa. Ele rapidamente se recuperou do choque e a seguiu para fora do restaurante e não demorou muito para alcançá-la.
- ! - a segurou pelo braço, a fazendo se virar para ele.
- Me solta. - ela se desvencilhou do braço dele.
- Aonde você vai? Volta lá pra dentro, ainda temos muito que conversar.
- Não temos não, Spencer. - se afastou alguns passos. - Não importa o que você me diga, a resposta continua sendo não. Eu não vou sair de Blue Ridge e abandonar tudo o que tenho lá para te seguir, entendeu? Espero que fique claro pra você.
se virou e começou a andar para longe dele, desejando profundamente que não fosse seguida de novo. Ela virou a cabeça rapidamente e viu Spencer parado no mesmo lugar, olhando em sua direção. respirou fundo e continuou seu caminho, nunca achou que o seu namoro fosse terminar dessa forma.


Capítulo 6

Sometimes I wish I could take back everything
It be easier to never have known you
I would spare myself so much pain
(Wrong Man For The Job - JoJo)


- Você o quê? - arregalou os olhos depois de ouvir o relato da amiga.
tinha voltado de Atlanta e sentia que precisava desabafar antes de ir para casa, sua avó não precisava ver o estado de fúria em que a neta se encontrava.
- Eu não vi mais nada na minha frente quando ele começou o discursinho machista dele. – bufou, balançando a cabeça negativamente. - Em que ano o Spencer vive? Em 1920? Fiquei tão revoltada com as palavras dele que eu só queria ir embora dali o mais rápido possível.
observou , notando que a respiração da amiga estava irregular.
- Calma, . - tocou o braço da mulher. - Vou pegar um copo de água pra você.
assentiu e observou a amiga se levantar do sofá, aproveitou para fechar os olhos por um momento e respirou fundo, inspirando e expirando lentamente, numa tentativa de se controlar.
- Aqui. - lhe entregou um copo de água gelada e ela sorriu em agradecimento.
- Só de relembrar tudo, já me sobe uma raiva que nem sei dizer. - deu o segundo gole em sua água.
- Mas vocês já tinham vários problemas. - comentou, voltando a se sentar.
- Sim, eu acho que acabei adiando o inevitável. - deu de ombros, bufando. - Você acredita que ele chegou a sugerir que eu não levasse a Sky?
- O quê? - arregalou os olhos. - Ele não te conhece mesmo. - balançou a cabeça negativamente.
- Se me conhecesse saberia como ela é importante pra mim e nunca falaria uma coisa dessas. Abandonar minha menina? Nunca!
colocou o copo na mesa de centro e sentiu a amiga lhe abraçando de leve.
- A maneira que ele falou de Blue Ridge foi algo nojento de se ouvir, como se a cidade e as pessoas que vivem aqui fossem inferiores a ele. - fez uma careta.
- Spencer foi uma caixinha de surpresas. - afirmou. - Eu não imaginava que ele fosse assim.
- Eu tinha minhas suspeitas, mas acho que não queria acreditar que me deixei envolver com alguém como ele. - a mulher fechou os olhos, suspirando.
- Ei, não se culpe. - cutucou a amiga na barriga. - Você não é a única que já se relacionou com um babaca. - falou, fazendo a outra rir de leve. - Toda mulher pelo menos uma vez na vida já fez essa burrada.
- Você não. - retrucou e rolou os olhos.
foi o primeiro namorado sério que ela teve, e ele era quase um príncipe encantado. Então sempre brincava dizendo que a amiga tinha acertado na loteria quando conheceu o rapaz e começaram a namorar, não precisava ser um gênio para saber que os dois eram perfeitos um para o outro.
- Eu sei, sou a exceção à regra. - debochou, repetindo a frase que sempre dizia sobre ela.
- Besta. - rolou os olhos.
- Você ainda vai conversar com ele? – perguntou, acariciando o braço da amiga.
Ela deu de ombros, incerta com o que aconteceria dali em diante.
- De repente ainda precise colocar um ponto final. - opinou, mordendo o lábio inferior.
- Quem sabe. - a outra deu ombros. - Talvez eu não tenha sido clara o suficiente.
- A gente nunca pode duvidar de nada. - brincou, a fazendo rir. - Quer aproveitar que a carrapatinho saiu com o pai dela e se entupir de sorvete? - sugeriu em um tom divertido, querendo animar a amiga.
- Precisa mesmo responder? - piscou para a mulher, que riu.
As duas seguiram para a cozinha e agradeceu mentalmente por ter alguém como em sua vida, era uma pessoa tão compreensiva e que lhe dava todo o apoio que precisasse, independente do problema, ela sabia que sempre poderia contar com a amiga.

entrou em casa e sorriu ao ser recebida por Sky, que latiu e rodeou a dona, se enroscando em suas pernas. A cachorra abanava o rabo e deixava clara a alegria em estar na presença da mulher, Sky acabou deitando no chão de barriga pra cima, qualquer pessoa que tinha um cão sabia o significado desse ato: o cachorro queria ser acarinhado na barriga. riu levemente e se agachou, fazendo a vontade de Sky quando começou a lhe fazer carinho.
- Pensei que chegaria só mais tarde. - Bernice comentou, enquanto descia as escadas.
A mais nova olhou para sua avó e franziu a testa ao ver que a senhora estava toda arrumada.
- Vai sair? – indagou o óbvio.
- Sim, Gertrude me chamou para ir à Dalton, parece que tem um bingo novo lá e eu quero conhecer. – comentou, ajeitando o vestido que usava.
não segurou a risada e balançou a cabeça negativamente, se levantou e andou até Bernice, lhe segurando pelos ombros e se inclinou, beijando a testa de sua avó.
- Como foi o almoço?
- Quando a senhora voltar do bingo te conto. - sorriu fraco, fitando Bernice, que franziu a testa.
- O que aconteceu?
- Agora não, vó. - pediu, suspirando. - É a hora da sua diversão, não vou te perturbar com os meus problemas.
- , os seus problemas também são meus, você é a minha neta e a única pessoa que tenho nessa vida, não tente me poupar de nada. - ralhou com a mulher, a fazendo fechar os olhos e assentir brevemente. - Eu quero saber o que aconteceu. - amenizou o tom de voz, notando que havia algo de errado.
- Terminei com o Spencer. - deu de ombros. - Acho que finalmente percebi a cilada que tinha entrado.
- Minha linda. - Bernice imediatamente abraçou a neta, lhe envolvendo em seus braços e a apertando contra si.
- Estou bem, vó. - garantiu, sorrindo fraco. - Só um pouco chateada por não ter percebido antes que o namoro nunca ia dar certo.
A mais velha se afastou lentamente, segurando o rosto da neta entre suas mãos.
- Você merece muito mais do que ele, viu? - afirmou, acariciando as bochechas dela com o seu polegar direito. - Spencer nunca foi homem para você. - garantiu, voltando a puxá-la para um abraço apertado.
Sky se enfiou no meio das pernas delas pedindo por atenção e acabou fazendo as duas rirem e se afastarem um pouco.
- Vou cancelar o bingo. - Bernice avisou, andando até a mesinha da sala, onde ficava o telefone.
- Não, vó. - balançou a cabeça negativamente. - Pode ir se divertir.
- , já está decidido. Não vou te deixar sozinha em um momento como esse e não importa quantas vezes você me diga que está bem, vou ficar aqui e te fazer companhia.
A mulher sorriu e sentiu os olhos ficarem marejados, era tão bom saber que todas as pessoas que ela amava estavam a apoiando incondicionalmente.

(…)


entrou em casa após mais um dia de trabalho, deixou sua caixa de ferramentas ao lado da porta da sala e se apressou em tirar suas botas, pois aquela terça-feira estava mais quente do que o normal e ele sentia que os seus pés estavam prestes a derreter. O homem andou até a cozinha e abriu a geladeira para beber um pouco de água, fechou os olhos logo que sentiu o líquido refrescante descendo por sua garganta, ele sorriu brevemente e olhou o relógio de parede, que marcava quase cinco horas da tarde.
Naquele dia, tinha se comprometido em entregar o pneu do carro de , porém desde o dia anterior estava receoso em cumprir sua promessa, pois lhe contou que a mulher havia terminado o namoro com Spencer e isso o deixou preocupado, pensando em como ela estaria lidando com a situação. poderia apenas imaginar como era doloroso terminar um relacionamento amoroso, já que ele mesmo nunca se relacionou sério com alguém. Então, sentia que, talvez, fosse inadequado ir à casa dela naquele momento, mas por outro lado queria ver se ela estava bem, talvez até ajudá-la de alguma maneira.
até se achou tolo por pensar assim, não tinha intimidade com para sequer cogitar a possibilidade que ela precisaria dele, ainda mais com um assunto tão pessoal e delicado. E o que ele poderia fazer, afinal? A consolar? Mas como? Ele sentia-se estranho com o mínimo toque dela em seu corpo. Jamais teria coragem o suficiente para tentar abraçá-la.
- Eu sou um estúpido! - ele se xingou e jogou a garrafinha de água dentro da geladeira e bateu a porta com força.
bufou algumas vezes e foi tomar um banho, sabia que precisava cumprir o seu acordo com e não poderia a desapontar justamente agora que ela deveria estar sofrendo.

estacionou sua caminhonete do outro lado da rua, pois havia um carro parado em frente à casa das mulheres , ele franziu a testa e logo reconheceu o veículo.
- Spencer. - rolou os olhos ao mencionar o nome do homem.
O que será que ele estaria fazendo ali? achou que seria melhor ir embora e voltar mais tarde, mas viu o homem saindo da casa de e sua expressão não era das melhores. Spencer desativou o alarme de seu carro e ia entrar nele, porém do nada olhou na direção do veículo de e balançou a cabeça negativamente.
continuou assistindo as atitudes do homem e o observou retonar para a casa da ex namorada e bater na porta com força, gritando por . Foi nesse momento que ele percebeu que algo não parecia certo e saiu de sua caminhonete, pegando o pneu na carroceria, quando atravessou a rua já conseguia escutar o que Spencer falava para .
- Você acha que sou burro, ?
- Do que você está falando?
- Ele aconteceu!
viu Spencer apontando para ele e notou que o encarou visivelmente confusa.
- Não podia ter esperado eu ir embora para ligar pro seu amante? - a acusou e colocou o pneu no chão, ao lado do carro da mulher.
- Você enlouqueceu? - perguntou, balançando a cabeça negativamente.
Spencer bufou e se virou, descendo os cinco degraus da varanda e andou até , parando na sua frente.
- O que você fez? - indagou, deixando claro em seu tom de voz o quão furioso ele estava.
viu se aproximar dos dois e ele deu um passo para trás, sua calma estava desaparecendo aos poucos. O homem sempre detestou Spencer, mas sabia que não valia a pena sujar suas mãos por causa dele.
- Spencer, qual o seu problema com ?
Ele se virou e fitou , fazendo com que ficasse atento, Spencer poderia falar o que quisesse dele, mas com a situação era completamente diferente.
- O meu problema com esse lixo? É sério isso? Qualquer pessoa com um cérebro sabe que esse cara é um merda! - ele berrou, fazendo a mulher arregalar os olhos, assustada com o comportamento dele. - O que faz de você uma burra, já que… - Spencer não terminou a frase, pois entrou em ação.
estava cansado daquela atitude do homem com e o puxou bruscamente pelo braço, em seguida o derrubando no chão. olhou para , que estava com os olhos arregalados e o encarava em choque, ele se virou há tempo de ver Spencer se levantar.
- Vá embora! - ele ordenou e não acreditou quando o idiota começou a rir. respirou fundo, faltava pouco para sua paciência ir para o espaço.
- Sabe, , eu não te culpo. - balançou a cabeça negativamente e olhou para ele e depois para a ex namorada, o que fez dar um passo para o lado, na intenção de servir como escudo para e protegê-la do olhar do outro, pois não gostou da maneira que Spencer a fitou. - Ela é gostosa pra caralho e é boa de cama, faz sentido querer foder ela uma vez ou outra.
- Cala essa boca! - a mulher gritou e foi para cima de Spencer.
percebeu a movimentação dela e bloqueou sua passagem com o seu braço, a impedindo de se aproximar do babaca que estava praticamente implorando para apanhar.
- E , acho que os rumores sobre sua mãe ser uma vadia não eram tão falsos assim, já que você saiu igualzinha a ela.
não viu mais nada na sua frente, apenas seguiu os seus instintos mais primitivos e deu um soco em Spencer, o fazendo cambalear pra trás, ele não se deu por satisfeito e avançou novamente e lhe deu outro soco, que o fez cair no chão.
Spencer colocou as duas mãos no rosto, seu nariz latejava e não demorou muito a notar que também sangrava, ele ergueu a cabeça e viu parado na sua frente, o homem era a fúria em forma de pessoa e estava preparado para atacá-lo novamente. Ele procurou por , querendo ver a expressão fácil dela, mas se arrependeu no mesmo instante, pois viu o que ele estava fazendo e deu um passo na sua direção. Spencer foi surpreendido quando apareceu em seu campo de visão e o ignorou por completo, a atenção dela estava focada em , ela segurou o braço dele, o impedindo de fazer qualquer coisa.
- Ele já teve o que mereceu. - a ouviu dizer e balançou a cabeça, aquilo era o suficiente pra ele.
- Espero que… - tossiu antes de conseguir completar a sua frase. - Que você saiba a burrice que está fazendo ao me trocar por ele.
Sentiu os dois olharem em sua direção e com dificuldade Spencer se levantou, andando até o seu carro, queria esquecer que aquele dia aconteceu. e podiam ir para o inferno juntos que ele não se importava, iria tirar aquela mulher de sua vida e coração.

pressionou levemente o braço de , que ainda olhava fixamente o local que antes estava ocupado pelo carro de Spencer. Ela conseguia ver que o homem tentava controlar sua respiração, possivelmente tentando se acalmar.
- ? - sussurrou o seu nome, sentia que ia chorar a qualquer momento. - Ele já foi. - afirmou baixinho, mas notou que o homem ainda tinha o olhar fixo no mesmo lugar.
suspirou e o soltou, ele parecia perdido em seus próprios pensamentos e ela se deu por derrotada quando percebeu que não seria de capaz de ter a atenção dele naquele momento. Fechou os olhos já sentindo algumas lágrimas descendo por suas bochechas e tentou inutilmente conter o choro que estava por vir. Afastou-se de e sentou no primeiro degrau da pequena escada da varanda, mordeu o lábio inferior e um soluço escapou de sua garganta e imediatamente abraçou os próprios joelhos e abaixou a cabeça, querendo evitar que a visse chorando, mas era tarde demais.
Ele se virou quando se deu conta de que chorava compulsivamente, arregalou os olhos brevemente e sentiu uma angústia dentro de seu peito, notou que tremia por inteira enquanto seu corpo se entregava à tristeza que ela sentia naquele momento.
O que eu faço? Ele se perguntou. nunca tinha consolado alguém antes.
Quando era criança, sua mãe o confortava quando ele caía no chão e se machucava, o abraço dela era o que fazia se sentir melhor quase que instantaneamente. Ela não quer o seu abraço. Foi o que seu cérebro disse, ele sabia que não servia para esse tipo de coisa. Mas estava começando a se sentir um idiota por estar ali parado olhando para enquanto ela chorava, não parecia certo ignorar o que estava acontecendo.
deu alguns passos na direção da mulher e decidiu que ia se sentar ao lado dela, pelo menos ela saberia que ele estava ao lado, caso precisasse de algo. Ele agiu de forma lenta, calculando cada movimento que fazia e não tirava os olhos de , procurando por qualquer gesto de rejeição. Mas ela se manteve na mesma posição, quase como se não estivesse notando o que ele estava fazendo.
sentia-se tenso, aquela atitude não era comum para ele, o que o deixava bastante desconfortável, porém - mesmo sem saber – o fazia ter esse tipo de conduta. Ele não achava ruim, pois tinha plena consciência que o seu comportamento retraído e arisco o prejudicava, tanto na esfera profissional quanto pessoal. Sabia que não precisava mudar e ser alguém extrovertido, até porque isso seria impossível, mas não lhe faria mal tentar ser um pouco mais sociável.
- Obrigada. - o agradecimento de o tirou de seus devaneios e ele fitou o perfil dela. - Eu ainda não entendi direito a reação do Spencer. - ela fungou, limpando as lágrimas de suas bochechas.
- Ele nunca gostou de mim. - comentou, dando de ombros.
- O ódio que ele tem por você é doentio. – ela suspirou.
O homem assentiu, evitando olhar para o rosto dela.
- Já me acostumei. – afirmou e deu de ombros.
- Não deveria se acostumar. – discordou dele.
fechou os olhos por um momento, tentando controlar a confusão de sentimentos que havia dentro de si.
- Minha mãe sofreu tanto por causa de pessoas preconceituosas, ela escondia muitas coisas de mim para que eu não me sentisse culpada. - lamentou, enxugando algumas lágrimas teimosas. - Eu via o olhar de pena dos outros quando olhavam para mim, e também notava como julgavam a minha mãe.
- Por causa do seu pai? – perguntou. Ele conhecia a história de , já que o seu próprio pai tinha prazer em dizer que Shelby era uma perdida que tinha dormido com vários homens da cidade e não sabia quem era o pai de sua filha.
- É, minha mãe tinha um namorado que a abandonou assim que soube da gravidez. - contou e o fitou brevemente. - Mas ele contou para uns amigos que não era o pai, isso foi o suficiente para os rumores começarem. Minha mãe nunca fez questão de negar, afinal, não era da conta de ninguém. - deu de ombros.
- Sei como é. - assentiu. sabia exatamente como era viver assim, ser julgado e condenado por algo que não tinha feito. Mas com o passar dos anos ele aprendeu a não se importar com a opinião alheia, o que as pessoas pensavam dele não fazia diferença alguma em sua vida.
- Spencer foi cruel ao dizer aquelas coisas sobre alguém que não está mais aqui. Foi covardia atacar a memória dela dessa forma. - afirmou, sentindo-se aliviada por estar desabafando.
E novamente entendia perfeitamente o que sentia, afinal, o seu pai, seu irmão e sua mãe eram constantemente julgados pela maioria das pessoas que moravam em Blue Ridge, os dois primeiros até fizeram por merecer a fama que ganharam, mas sua mãe não. se lembrava pouco dela, pois tinha apenas seis anos quando Nora faleceu após sofrer um infarto fulminante, porém o que ele se recordava já era o suficiente para saber que sua mãe era uma mulher amorosa com os filhos. Infelizmente, após a morte dela a sua vida se tornou um verdadeiro inferno e ele sempre se questionava como teria sido crescer com ela ao seu lado, provavelmente ele seria um homem completamente diferente.
- Como ela era? - perguntou, queria saber se a mãe de era parecida com Nora.
- Minha mãe? - a mulher sorriu. - A melhor de todas. - comentou saudosa. - Era carinhosa, sempre estava preocupada comigo e ao mesmo tempo dava atenção aos meus avós, era um exemplo de ser humano. - suspirou nostálgica. - Você a conheceu? - indagou, o encarando.
- Só de vista mesmo. - respondeu e a viu assentir.
desejou que Nora e Shelby ainda estivessem vivas, certamente as duas se dariam muito bem, quem sabe até seriam amigas. Mas, infelizmente, isso não passava de um sonho, já que as mulheres partiram cedo demais. E ele se deu conta de que ele e eram parecidos nesse aspecto, já que os dois haviam perdido suas mães de uma maneira repentina e trágica, o destino tinha sido cruel com eles. não era o único que vivia sentindo a falta de alguém que amava com todas as suas forças, e isso o fazia admirar ainda mais, e ele já tinha um grande respeito pela mulher, que sempre o surpreendia ao demonstrar como era forte.
- Obrigada. De novo. - a ouviu dizer e a fitou.
O rosto dela não tinha mais traços de lágrimas, e seus lábios exibiam um pequeno sorriso. O que o surpreendeu totalmente, ela parecia estar recuperada e muito bem.
- Ah! Obrigada pelo pneu.
franziu a testa, depois de tudo o que aconteceu tinha até se esquecido do principal motivo para ter ido até a casa dela.
- Quanto é?
A viu se levantar, andar até o carro e em seguida analisar o pneu.
- Nossa, ficou novo em folha. - falou, se virando para olhar o homem, que permanecia sentado. - 200 dólares? - mordeu o lábio inferior, se recordando da brincadeira que ele tinha feito.
riu nasalado e balançou a cabeça negativamente, se levantou e andou até ela.
- Não é nada.
- Como não? - franziu a testa. - Você consertou o pneu do meu carro e não quer receber por isso?
- , não precisa me pagar. - garantiu, colocando as mãos nos bolsos de sua calça jeans.
- . - ela disse, o fazendo franzir a testa. - Me chame de , é o meu apelido. - sorriu brevemente.
quase riu ao ver arregalar os olhos por um segundo e assentir rapidamente, ele parecia desconfortável com aquele tipo de intimidade.
- Você socou alguém por mim, já pode me chamar pelo apelido. - deu de ombros.
Ela procurava uma maneira de facilitar as coisas para ele, que ainda parecia estar bem incomodado. - Ou pode continuar me chamando de , não tem problema algum.
fitou a mulher à sua frente, era algo tão fácil, mas que na sua mente problemática era um bicho de sete cabeças.
- Você que sabe. - ela deu de ombros.
Ele observou o sorriso dela murchar aos poucos, ela estava triste? queria que ele a chamasse pelo apelido e ele não conseguia fazer algo tão simples. Se xingou mentalmente e decidiu que tentaria fazer isso por ela, que sempre o tratou com tanto respeito e carinho.
- Tudo bem, . - falou e a viu sorrir novamente.
- Ótimo. - ela piscou pra ele e esticou a mão, como se os dois estivessem selando algum tipo de trato.
não entendeu muito bem, mas tirou sua mão direita do bolso da calça e apertou a dela.
- Hoje à noite, no bar do Chad.
- O quê? - ele estreitou o olhar, confuso.
soltou a mão dele e deu de ombros.
- Já que você não me deixa pagar em dinheiro, vou te pagar em cerveja. Topa?
quase engasgou com a própria saliva, ela realmente estava o chamando para ir ao bar? Ultimamente eles sempre se encontravam por lá mesmo, já que ele fazia questão de ir assisti-la cantar, mas não era nada combinado.
- ? - ouviu a voz dela o chamar, já que o mesmo estava perdido em seus pensamentos.
Ele estava tão chocado que não reparou que ainda estava com a mão esticada. Chacoalhou a cabeça e a fitou, ponderando a proposta dela. Sabia que ali não tinha maldade alguma e que estava apenas tentando se aproximar dele, o porquê ele nunca saberia de fato. Mas não custava atender a outro pedido dela, afinal, não era nada demais.
- Certo. - falou, reparando que ele sempre cedia quando se tratava de .
- Ótimo, a gente se vê mais tarde. - ela sorriu e piscou novamente pra ele, em seguida acenou brevemente e se virou, entrando em sua casa. ficou parado ali por alguns segundos, se perguntando se a última hora realmente tinha acontecido ou se era tudo imaginação da sua cabeça.


Capítulo 7

I will come, no, I won't run
I'm not scared to care
Come to me when you're in need
Set it free, let the truth breathe

(Let Your Tears Fall – Kelly Clarkson)


se encarou no espelho e fechou os olhos por um momento, sentiu uma lágrima solitária descendo por sua bochecha e bufou com raiva de si mesma e secou seu rosto. Sentia-se uma idiota por deixar as palavras de Spencer a afetarem tanto. sabia que ele estava furioso com o término do relacionamento e queria que ela sofresse na mesma intensidade que ele, então, o homem sabia que ofender a memória de Shelby seria a melhor maneira de atingir . E, infelizmente, ele acertou o alvo em cheio, as palavras dele a magoaram profundamente. Atacar Shelby daquela forma, além de ser um ato de crueldade e covardia, também acabou revelando a falta de caráter de Spencer, e somente por isso estava satisfeita, pois agora tinha certeza absoluta que terminar com ele tinha sido a melhor decisão, Spencer não merecia sua compaixão ou pena. E ela desejava com todas as suas forças que nunca tivesse que olhar para a cara dele outra vez em sua vida.
- Se acalme, . – falou olhando no espelho e respirou fundo. - Sua mãe não é nada do que ele disse e você não vai mais chorar por isso. - afirmou balançando a cabeça. – Você é mais forte do que essa tristeza. – fechou os olhos por um segundo. – E vai superar isso. – se fitou novamente e sorriu brevemente.
deu alguns tapinhas em seu rosto e iniciou o processo de maquiagem, não passaria nada muito exagerado, só precisava esconder os olhos inchados por causa do choro. Pouco tempo depois, ela estava em seu quarto escolhendo o que vestir, ainda era verão e optou por um short jeans, uma blusinha de tecido mais leve e nos pés colocou uma bota coturno. nunca teve um gosto sofisticado e não via isso como um problema, afinal, ela levava uma vida simples numa pequena cidade do interior, seu lema para vestuário e sapatos se resumia em uma palavra: conforto. A mulher não se importava com moda e raramente sabia as últimas tendências, comprava somente aquilo que era do seu gosto e que poderia pagar sem precisar apertar o seu orçamento.
- Dá pro gasto. – comentou se olhando no espelho e ajeitou o cabelo, que ela tinha prendido em um coque quase no topo de sua cabeça.
saiu de seu quarto e viu Sky correndo pela casa com o seu urso de pelúcia na boca, ela riu da cachorra que sempre se divertia sozinha. A mulher checou as trancas da casa duas vezes antes de sair e se despediu de Sky, que estava tão distraída e não deu muita bola para sua dona. Dez minutos depois ela já estacionava o seu carro em frente ao bar, sorriu minimamente ao ver que a moto do já estava ali.
- A que devo a honra de sua presença? – ela rolou os olhos ao ouvir a voz de Chad assim que entrou no bar.
- Você fala como se eu só viesse aqui pra trabalhar. – se apoiou no balcão e olhou ao redor rapidamente.
- E é mentira? – ele provocou e balançou a cabeça negativamente. – E os rumores? São verdadeiros? – indagou e ela franziu a testa, claramente confusa.
- Do que você está falando? – voltou sua atenção pra ele após localizar sentado numa mesa mais afastada do balcão.
Chad notou que procurava por alguém no bar e riu nasalado quando viu quem era a pessoa que ela queria encontrar.
- Que você e o Spencer terminaram? – voltou a perguntar.
- Ah sim, isso é verdade. – o fitou e estranhou quando ele arqueou as sobrancelhas.
- Então você realmente o socou?
- Quê? – ela arregalou os olhos. – Eu não, mas como você sabe disso?
- Boatos, , boatos. – riu de leve e deu de ombros.
não conseguiu esconder a surpresa ao descobrir que a cidade já estava fofocando sobre o que tinha acontecido, mas não deveria se surpreender tanto, visto que para um lugar tão pequeno, qualquer coisa já virava o assunto da semana.
- Ele mereceu? – Chad questionou, reparando que a mulher olhou novamente para onde estava.
- Sem dúvidas. – sorriu sem mostrar os dentes.
- Ótimo. – ele deu uma piscadela. – Agora vai lá sentar com ele, não quero te atrapalhar. – falou e gargalhou quando viu a expressão chocada que fez. – não para de olhar pra cá e você não sabe disfarçar muito bem.
A mulher tossiu de leve, envergonhada com a situação, e balançou a cabeça positivamente, riu de si própria e andou até a mesa mais afastada do bar.
- Boa noite. – sorriu, notando que ele já tinha uma garrafa de cerveja na mesa. – Eu que ia pagar, lembra? – sentou na cadeira em frente a ele.
- Boa noite. – respondeu e seus olhos imediatamente focaram nos lábios dela, que se destacavam devido ao batom vermelho que usava. – Não paguei por nada. – se explicou e ela assentiu.
- Ótimo! E o Chad me contou que as pessoas já sabem sobre o Spencer. – comentou, mordendo o lábio inferior. deu um gole rápido em sua cerveja com o gesto que ela tinha feito, deduziu que era algo inocente pra ela, já que vivia fazendo aquilo.
- Ah é? – questionou e ela assentiu.
- Acham que eu o soquei. – riu e o fitou, mas o sorriso sumiu de seu rosto assim que viu o estado da mão direita dele. – ! – se esticou, pegando a mão dele e analisando entre as suas. – Você se cortou o socando? – arregalou os olhos e o sentiu puxando a mão de volta, mas ela se manteve firme e não o soltou. - Você limpou e passou remédio? – perguntou, o olhando, e o viu assentir.
jamais se acostumaria com o toque gentil de , ninguém o tocava com tanta delicadeza igual a ela.
- Valeu a pena. – deixou escapar e ela o fitou de um jeito divertido.
- Não gosto de violência, mas eu estava cansada do Spencer. – suspirou, soltando a mão dele. – Acho que o maior arrependimento da minha vida sempre será ter o namorado.
até pensou em dizer algo em concordância, mas ela já se punia o suficiente, não seria ele quem diria algo para fazer se sentir pior. Mas desde a primeira vez que viu o casal, não entendeu o que os uniu, Spencer não servia para ela, jamais seria bom o bastante para alguém como . O desprezo que o homem tinha por pessoas que considerava inferior a ele era algo inexplicável. era um observador nato e de longe percebia que Spencer o detestava, sem motivo algum, já que a primeira vez que conversaram foi na casa de , ou seja, Spencer se achava alguém melhor que e isso já era mais que o necessário para não gostar daquele ser desprezível.
- Sky nunca gostou dele. – a mulher interrompeu os seus pensamentos e riu de leve. – Eu deveria ter prestado atenção no instinto da minha menina.
O homem até ia dizer algo, mas foi interrompido novamente.
- Boa noite. – Chad se aproximou da mesa deles com uma bandeja em mãos.
- Oba! Agora sim! – comemorou, pegando uma garrafa de cerveja.
- Vá com calma, você raramente bebe álcool. – aconselhou e ela assentiu, mas em seguida deu um grande gole em sua bebida.
- Hoje pode. – ela sorriu, o observando colocar uma porção de batata fritas na mesa e outra porção de asinhas de frango empanadas. – Como você sabia que era exatamente disso que eu precisava? – seu olhar era de surpresa total.
- que pediu. – indicou o homem com a cabeça e piscou pra ela.
sorriu abertamente e olhou , que estava sem graça com a revelação de Chad. O que ele não sabia é que não precisava ficar envergonhado com aquilo, pelo contrário, o gesto dele havia sido algo tão bonito que deixou encantada.
- Obrigada. – agradeceu, pegando algumas batatinhas.
- Não foi nada. – ele rebateu e a mulher quase rolou os olhos, aparentemente não sabia lidar muito bem com agradecimentos.
– Se sirva também, eu como bastante, mas não sou capaz de devorar tudo isso sozinha. – ofereceu e ele pegou uma asinha de frango.
- Posso te perguntar algo? – a fitou.
- Acabou de perguntar. – respondeu e riu em seguida ao vê-lo franzir a testa. – É claro.
- Por que você terminou com o Spencer? – indagou sem rodeios. realmente gostaria de saber o que aconteceu entre os dois.
não podia negar que estava surpresa, mas também gostava desse lado curioso do homem, assim seria mais simples construir uma amizade entre os dois.
- O nosso namoro nunca foi fácil, ele sempre foi muito controlador e a gente vivia brigando por isso, nos últimos meses se tornou insuportável e tudo piorou no último mês, percebi que ele era muito preconceituoso, sabe? – bufou quando se recordou de alguns comentários de seu ex.
- Como descobriu isso? – perguntou, genuinamente interessado no que tinha acontecido.
- Primeiro que ele odeia Blue Ridge e eu sou apaixonada por essa cidade, me chamou pra morar com ele em Detroit e sugeriu que eu deixasse a Sky pra trás e insinuou que por eu ser mulher, seria minha obrigação abandonar tudo e acompanhá-lo.
deu um gole em sua cerveja e balançou a cabeça negativamente, Spencer era um completo idiota. Qualquer um conseguia ver que era uma mulher independente, ela tinha dois emprego e fazia de tudo para cuidar de sua avó. Um homem de verdade teria orgulho de ter uma mulher como ao seu lado.
- E ele achou que você fosse o meu amante. – afirmou e riu de leve.
Ele se lembrou que Spencer tinha dito isso na hora da briga, mas era algo não fazia sentido algum.
- Por que ele achava isso? – indagou e a viu dar de ombros, ele notou que ela já estava na metade da segunda garrafa de cerveja e resolveu que deveria maneirar na quantidade de bebida alcoólica que ingeria naquela noite, afinal, provavelmente iria beber muito para tentar esquecer o que tinha acontecido.
- Porque ele é doido. – rebateu, dando um gole em sua cerveja.
tentou não se sentir ofendido pelas palavras dela, pois sabia que uma pessoa precisava estar com os neurônios fora do lugar para chegar a cogitar que ele teria alguma chance com ela, ou seja, Spencer não devia estar nos seus melhores dias.
- Eu jamais trairia um namorado, por mais babaca que ele fosse, tem que terminar um relacionamento antes de se envolver com alguém.
E ele ficou confuso com essa frase, talvez o seu pensamento anterior não fizesse sentido, nunca o menosprezou e o tratou como alguém inferior ou que não merecesse sua atenção. Mas isso também não significava que ela estaria interessada nele, apenas demonstrava como ela possuía um bom coração.
- Ele tinha ciúmes de você, , e queria que eu me afastasse. – confessou e riu quando ele arregalou os olhos brevemente. – Claro que ignorei o pedido dele. – deu de ombros. – Mas foi melhor assim. – sorriu genuinamente e terminou sua bebida. – Você tem sido um grande amigo, .
- Amigo? – perguntou surpreso com a afirmação dela.
- Sim, agora você vai ter que me aturar pelo resto da sua vida. – piscou pra ele e se levantou. – Já volto, vou pegar mais cerveja.
Se fosse fisicamente possível, o queixo de estaria no chão nesse momento. o considerava um amigo. Era isso mesmo que ela tinha dito? Ele chacoalhou a cabeça e piscou algumas vezes.

”Você tem sido um grande amigo, .”

Tudo bem que os dois tinham se aproximado muito nas últimas semanas, mas já era o suficiente para serem chamados de amigos? De acordo com , era sim. Então era recíproco? considerava sua amiga? A presença dela sempre o fazia se sentir bem, como se ela o quisesse por perto. Porém nunca teve uma amiga, ele sempre teve amigos, homens que ele gostava e o tratavam com respeito. Mas poucas mulheres sequer davam atenção para ele, a maioria tinha medo e se mantinha distante, com exceção de e Holly, que nunca tiveram problema em se aproximar dele. E, coincidentemente, as duas eram amigas de ; Será que elas também o consideravam um amigo? se deu conta que ia enlouquecer se continuasse a pensar nesse assunto, então balançou a cabeça negativamente e olhou pra frente, vendo andando na direção dele, a mulher carregava duas cervejas e sorriu assim que se sentou.
- Aqui. – colocou a garrafa na frente dele.
- Estou bem. – ele disse, a fazendo franzir a testa.
- O quê? Não vai beber?
- Melhor não. – assentiu e riu com a careta que ela fez, era adorável.
- Tudo bem, melhor pra mim então. – deu de ombros, começando a beber a garrafa de cerveja. – Não sabe o que está perdendo. – suspirou em sinal de satisfação pelo líquido que descia por sua garganta. O que não sabia era que queria se manter sóbrio para vigiá-la e evitar que qualquer coisa ruim lhe acontecesse.

As horas foram se passando e quando estava em sua sexta garrafa de cerveja, Chad se recusou a servir a mulher novamente, ela reclamou feito criança e bufou balançando a cabeça negativamente, o homem apenas riu e avisou que era hora da mulher ir pra casa antes que fizesse algo que pudesse se arrepender. se ofereceu para levá-la embora, já que era óbvio que ela não teria condições alguma de dirigir.
- Nós vamos de moto? – indagou com a voz toda embolada ao ver a Triumph estacionada em frente ao bar.
- Não, vamos com o seu carro. – respondeu, a levando até o automóvel.
demorou um pouco, mas achou a chave de seu carro e entregou pra , que rapidamente abriu a porta do carona e a ajudou a se sentar. Ele observou a mulher fechar os olhos por um momento e franziu a testa, suspeitou que ela fosse passar mal.
- Você está bem? – indagou com um tom preocupado em sua voz.
- Tô com sono. – resmungou coçando os olhos.
assentiu e ia fechar a porta, mas notou que ainda estava sem cinto. Não tinha outra opção, já que estava tão fora da órbita e não seria capaz de executar aquilo, então ele se inclinou sobre o corpo dela e travou o cinto de segurança, parou de respirar por um segundo quando sentiu dois tapinhas em suas costas.
- Bom menino, . – a ouviu dizer, como se ele fosse um cachorrinho que tinha acabado de cumprir uma tarefa.
Ele arregalou os olhos e ajeitou sua postura bruscamente, o tom que ela tinha usado parecia muito com a forma quando falava com Sky, foi inevitável não se sentir ofendido. Mas ao fitar a mulher, viu que ela tinha um sorriso sapeca no rosto, o que fez a raiva dele se dissipar instantaneamente, pois percebeu que era uma brincadeira inocente de alguém que estava bêbada.

(...)


estacionou o carro de em frente a casa dela, reparou que todas as luzes estavam apagadas, indicando que Bernice estava dormindo, o que não era estranho, já que era de madrugada. No caminho até ali, o homem também notou que se esforçava para ficar acordada, mas tinha sido uma luta inútil, visto que a mulher dormia profundamente.
- E agora? – ele se perguntou, olhando para a casa e depois para a mulher adormecida ao seu lado.
não sabia qual seria a reação de Bernice ao ver a neta nesse estado, ela era idosa e pelo que o homem conhecia de , era bem provável que sua avó nunca a vira tão chapada como estava agora. A mulher era tão responsável e fazia de tudo para que Bernice não passasse por estresse, ou seja, se a senhora visse a mulher nesse estado certamente ficaria nervosa e isso era tudo o que não queria naquele momento. já estava passando por tanta coisa em sua vida, e não merecia se sentir culpada por causar algo a Bernice. Foi pensando nisso que ele decidiu a levar para sua casa, em outra circunstância ele jamais tomaria essa decisão, mas queria ter a certeza que ficaria bem e que a avó dela não se estressaria, então era essa a sua única opção.

foi despertando aos poucos e a primeira coisa que percebeu foi que sua cabeça estava explodindo, ela resmungou de dor e lentamente abriu os olhos. Um pequeno fio de luz que entrava pelo vão cortina e iluminava o ambiente a fez perceber que não estava em seu quarto, ela arregalou os olhos e sentou rapidamente.
- Droga! – o arrependimento veio de imediato, pois a dor em sua cabeça se intensificou. – O que eu fiz? – perguntou e fitou ao redor, tentando identificar o local onde se encontrava.
Conforme seu organismo despertava, algumas memórias foram voltando para a sua mente, se recordou de estar no bar com e de ter bebido mais do que estava acostumada, por isso ele se ofereceu para levá-la embora, se lembrava de ter entrado no carro com ele e depois disso o seu cérebro se recusou a se lembrar de qualquer coisa.
- O que aconteceu? – franziu a testa e mordeu o lábio inferior. se levantou com cuidado e acendeu a luz do local. - Eu nunca mais coloco um pingo de álcool na boca. – resmungou, massageando as têmporas, procurando aliviar a dor que sentia.
Voltou a fitar o quarto e tinha certeza absoluta que nunca esteve naquele lugar, a decoração era bem simples e quase inexistente. As paredes eram brancas, do lado oposto em que ela estava tinha uma grande cômoda de madeira com uma poltrona ao lado, a cortina que escondia as janelas era de tom marrom escuro, se virou e viu duas portinhas, ali provavelmente era o closet, ao seu lado havia um criado-mudo, que também era feito de madeira, foi então que ela reparou que tudo ali era daquele material, inclusive a cama.
Ela observou que no criado-mudo tinha um porta-retrato, o pegou e na foto viu uma mulher com duas crianças, eram dois menininhos. A mulher tinha a criança menor em seu colo e o maior estava em pé ao seu lado, eles sorriam verdadeiramente para a foto. notou que no canto do quadro tinha algo escrito e arregalou os olhos quando conseguiu ler o que era:

e Merle, os meus anjinhos.
Com amor, mamãe.”

Quase deixou o quadro cair no chão pelo susto de ver algo tão pessoal e por se dar conta a quem pertencia o quarto em que ela estava. Mas era tão óbvio, como não pensou nisso antes? Com cuidado, ela colocou aquele objeto de volta em seu local de origem, e seu irmão eram uma cópia perfeita da mãe deles, nem se questionava. se lembrava vagamente do pai deles, já que o homem raramente saía de casa, pois sempre estava bêbado e sem condição alguma de andar sozinho pela cidade.
- Merda! – imediatamente sentiu-se culpada, na noite anterior teve que cuidar dela, pois estava tão chapada que era incapaz de fazer qualquer coisa sozinha. – Parabéns, . – bufou e gemeu baixinho devido a sua cabeça que latejava. – Não reclama, você merece isso. – olhou pelo chão e viu suas botas, sentou-se na cama e calçou o par de uma vez.

tinha facilidade em ler as pessoas e era praticamente um livro aberto, por isso era visível que ela escondia a mágoa que estava sentindo, o que acabou despertando em o seu lado mais protetor, foi o que o fez bater em Spencer e defender , nenhuma mulher merecia ser tratada daquela forma.
Infelizmente tinha herdado a má fama de seu pai e irmão, mas nunca sequer levantou a voz para uma mulher, quanto mais ofender e magoar propositalmente, então sua fúria ao ver Spencer desrespeitar era muito justificável, ele nem se lembrava da última vez que havia socado alguém, evitava ao máximo se envolver em brigas, mas foi inevitável e bem lá no fundo ele gostou de ter dado uma lição naquele imbecil.
O homem começava a ficar entediado, estava acordado há horas e já tinha preparado o café da manhã, agora só esperava despertar. Ele ainda não acreditava que a mulher estava dormindo em sua cama, parecia surreal demais para ser verdade. Fechou os olhos ao se lembrar da sensação que sentiu ao ter o corpo dela tão próximo ao seu quando a carregou no colo, foi algo tão diferente que ele ainda não sabia como lidar com aquilo. Era um sentimento tão novo e incomum, que de certa forma até o assustava, então balançou a cabeça negativamente, aquele não era o momento de tentar resolver a sua confusão sentimental.
saiu de seus devaneios quando ouviu o tão conhecido ranger da porta de seu quarto, era o aviso de que finalmente tinha acordado. O homem ajeitou a postura e apoiou as mãos no balcão, quase sorriu ao ver a feição um tanto perdida da mulher, que olhava tudo ao seu redor, e ele riu baixo quando ela esbarrou em um banquinho que ficava ao lado do sofá.
- Bom dia. – ele a cumprimentou, sua voz estava mais rouca que o normal.
- Bom dia. – respondeu ainda um pouco desajeitada, pois acariciava sua canela que tinha se chocado contra o banco de madeira. – Então é na sua casa que eu dormi. – comentou, analisando a sala. coçou a cabeça, num claro sinal de que estava sem graça e não sabia ao certo como explicar como ela tinha ido parar em sua cama. - Você tem remédio pra dor de cabeça? – a pergunta dela o salvou de dizer alguma besteira.
- Tenho sim. – assentiu rapidamente e andou até o armário para pegar o medicamento para a mulher.
continuou com o seu olhar curioso e observou que a casa de , num geral, não tinha muita decoração, era bem simples nesse quesito. Diferente da grande maioria dos móveis do local, que qualquer um conseguia notar que eram feitos de madeira maciça, e não precisava ser um expert no assunto para saber que isso significava que ele pagou uma fortuna pelos móveis.
- Aqui. – ouviu dizer e desviou sua atenção do pequeno aparador que ficava do outro lado da sala.
- Obrigada. – agradeceu pegando o comprimido e um copo de água que ele lhe ofereceu e tomou tudo de uma vez. reparou rapidamente na cozinha, que era bem pequena e apenas um balcão a separava da sala. – O que aconteceu? Lembro que você me deu carona e o resto não sei direito. – franziu a testa, em seguida fez uma careta por causa da dor de cabeça que estava sentindo.
Agora ele não tinha mais escapatória, para qualquer outro homem poderia ser algo fácil de explicar, mas não para , que tinha dificuldade em deixar as pessoas se aproximarem dele, então era sufocante para ele assumir que tinha cuidado dela porque se tornou alguém importante em sua vida.
- Você apagou no carro. – explicou, soltando a respiração que estava segurando.
- Faz sentido. – o interrompeu. – Não bebo mais que uma garrafa de cerveja, então mais que isso eu já vejo dobrado. – assentiu e o encarou atentamente.
- Eu não sabia como sua avó reagiria ao te ver chapada. – coçou a cabeça, nervoso com a feição estranha que ela fez.
- Minha vó está viajando, foi pra Charlotte visitar algumas amigas. - contou e ele assentiu lentamente.
- Me desculpa. – pediu e ela franziu a testa novamente.
- Não, . – negou veemente com a cabeça. – Não tem problema algum, você se preocupou com ela e eu entendo, deve ter se lembrado da crise de hipertensão e achou que poderia acontecer algo de ruim.
O homem se sentiu aliviado por ser tão compreensiva, desde que acordara naquela manhã estava preocupado com a reação dela ao se dar conta que havia dormido na casa de um .
- Mas confesso que estou surpresa por estar aqui. – sorriu minimamente. - Só me arrependo de ter bebido tanto. – resmungou e suspirou em seguida.
sentia-se bobo por estar perplexo com o comportamento bem natural de , por mais surreal que pudesse soar, mas ela era a primeira mulher que dormira em sua cama. Em seus trinta e poucos anos de vida, nunca teve uma mulher que passou a noite em sua cama ou em sua casa, as poucas que entraram no local só queriam saber de um sexo rápido e nunca passavam mais que uma hora ali, provavelmente tinham vergonha de serem flagradas na casa dele. Já tinha se acostumado e no começo até se incomodava com tal atitude, mas depois de um tempo percebeu que ficar chateado por isso só lhe faria mal, então passou a ignorar quando acontecia. Era óbvio que não escolheu dormir na casa dele, porém o fato de ela não estar surtando ou com pressa de ir embora já fazia toda a diferença para .
- O que você fez ali? – a escutou perguntar e notou que ela olhava para algo atrás dele, provavelmente o fogão.
- Café da manhã, quer? – ofereceu na esperança que a resposta fosse positiva, pois tinha preparado aquilo especialmente pra ela.
- Claro que sim! – afirmou, sorrindo abertamente.
- Quer que eu te sirva? – ele bem que tentou esconder o sorriso, mas não surtiu muito efeito.
- , você não tem cara de garçom. – falou e já foi dando a volta no balcão, riu ao ver a feição confusa do homem. – Você cuidou de mim a noite toda e sou muito grata, mas não sou folgada. – garantiu, passando por ele. – Onde tem prato?
- Aqui. – abriu a porta do armário mais próximo dele.
ficou na ponta dos pés para conseguir pegar a louça.
- Você já comeu? – se virou rapidamente e o viu negar com a cabeça. – Você só pode estar brincando. – arregalou os olhos brevemente. – , você faz muito trabalho braçal, não pode ficar tanto tempo sem comer. – ralhou com o homem e aproveitou para pegar outro prato. – Estou de folga essa semana, por isso me dei a liberdade de ir pro bar encher a cara e acordar tão tarde. – comentou, indo até o fogão e se servindo. E foi nesse momento que ela se deu conta de que talvez estivesse o atrapalhando. – Você não foi trabalhar por minha causa? – girou o corpo bruscamente, o encarando.
- Não, eu estava com a manhã livre. – garantiu e notou o olhar desconfiado dela em si, como se quisesse ter certeza que ele estava sendo completamente honesto com ela. – É sério, . – a viu sorrir ao escutar o apelido que ele ainda se sentia estranho em falar.
- Tudo bem, então. – assentiu, se virando novamente. – Isso tá com uma cara tão boa. – comentou, praticamente salivando ao ver os ovos mexidos e bacon que havia preparado.
- Você prefere suco ou café? – o ouviu perguntar e ponderou por um momento.
- Suco, acho que beber algo gelado vai ajudar na minha dor. – sorriu fraco e finalizou o seu prato.
voltou para o balcão e viu encher dois copos com suco, ela sorriu e sentou na banqueta, esperou que o homem se servisse para começar a comer. Ela sorriu ao saborear os ovos e bacon, estava tudo tão gostoso que até se controlou quando percebeu que comia muito rápido.
- Está delicioso, . – elogiou, o vendo assentir.
A mulher observou que ele tentava pegar o bacon com o garfo e não estava tendo muito sucesso, essa atitude a fez lembrar o dia em que ele almoçou em sua casa e ficou com vergonha de comer usando as mãos ao invés de talheres. franziu a testa e se questionou por que ele tentava agir de forma diferente quando estava com ela, não fazia sentido algum pra ela.
- Bacon se come com a mão. – falou, o fazendo olhar em sua direção. estreitou o olhar e viu pegar o alimento com a mão e enfiar na boca, ele engoliu em seco com o gesto dela. Jamais cansaria de ser surpreendido com a ousadia que ela tinha em muitas situações. – Você está na sua casa, sabia? Pode comer e fazer o que quiser. – ele sentiu o rosto esquentar ao ouvir aquelas palavras.
- Não costumo receber visitas. – explicou e cedeu ao o que ela tinha dito e pegou o bacon com a mão. É assim que começa, irmão, você cede um dia e quando se dá conta já virou escravo de mulher. Aquela maldita voz ecoou em sua cabeça, ela sempre aparecia quando começava a se aproximar de alguém.
– Ninguém quer ser visto com um . – deixou escapar e se deu conta que isso havia se tornado rotina quando estava por perto, ele confessava coisas que nunca tinha falado para ninguém antes e bem lá no fundo isso não lhe agradava. Você é um caso perdido mesmo, agora só falta a coleira. Aquilo não era possível. Até quando deixaria o pensamento de outra pessoa lhe perturbar daquela maneira?

o encarou sem reação e procurando por palavras, pois quanto mais conhecia , menos entendia todo o preconceito que ele sofria. Não precisava ser um gênio pra ver que ele usava uma espécie de armadura para se proteger, não havia outra maneira para sobreviver a tanta hostilidade. sentiu na pele esse preconceito nas poucas vezes que foi vista com ele em público e já foi o suficiente para se incomodar, ela não conseguia imaginar como havia sido para ele sofrer com isso a vida toda.
- , eu não importo. – afirmou, o vendo balançar a cabeça negativamente e ela franziu a testa. – Estou na sua casa, não estou?
- Mas não por vontade própria. – deu de ombros, pegando um bacon e enfiando na boca com mais força do que o necessário.
estava confusa, por que ele estava a tratando dessa forma? Ela não tinha feito nada de errado, tinha?
- Eu te chamei pra ir ao bar, lembra? – rebateu, notando que ele engoliu em seco.
- Como forma de pagamento, você mesma disse. – se levantou rapidamente e colocou seu prato na pia.
A mulher balançou a cabeça, tentando compreender o que estava acontecendo. Até cinco minutos atrás estava tudo bem entre eles, buscou em sua mente, procurando por algo que possa ter acontecido e engatilhado essa reação dele. Pois o homem que estava ali não era o que ela conhecia.

“Não costumo receber visitas.”

Então era isso? não estava acostumado a ter alguém em sua casa, ou seja, a sua presença ali o incomodava, ela tinha invadido o seu lar.
- Você não quer estar aqui, quer? – foi tirada brutalmente de seus devaneios ao ouvir a pergunta dele.
- O quê? – franziu a testa.
fechou os olhos e bufou, querendo se socar por seu repentino ataque de insegurança, pois era exatamente o que estava acontecendo. Uma voz em sua cabeça dizia repetidamente que só estava ali porque não tinha outra opção, se ela tivesse que escolher, jamais teria aceitado dormir na casa dele, ainda mais em sua cama. Então o que ela ainda estava fazendo ali? Devia ter ido embora no segundo em que acordou e percebeu onde estava, não havia motivos para continuar ali, aceitar o café da manhã que ele tinha feito e ainda ser simpática.

, eu não importo... Estou na sua casa, não estou?”

Ela deveria se importar! O que aquilo significava, afinal? estava completamente fora da sua zona de conforto e isso era capaz de enlouquecer o homem, até agora nenhuma mulher nunca quis ser vista ao lado de um , quanto mais dormir em sua casa. O que havia de errado com para não ligar? Aquilo não estava certo, definitivamente não!
- Me desculpe, . – a ouviu dizer e a encarou, a mulher afastou o prato de si e se levantou. – Eu não queria ter invadido a sua casa e privacidade dessa maneira, maldita bebida! – ela fechou os olhos por um momento e quando os abriu novamente eles estavam avermelhados e isso o assustou. – É melhor eu ir embora, antes que você se irrite ainda mais.
olhou ao redor, procurando por sua bolsa e a avistou no sofá, andou com cuidado até ela e podia sentir o olhar do homem em suas costas. Ela não tinha certeza, mas suspeitava que toda aquela situação era insuportável para , que cresceu com um pai alcoólatra e devia ter alguns traumas.
Onde ela estava com a cabeça quando achou que seria bom ficar bêbada na presença dele? Que ainda teve que cuidar dela. poderia ganhar o prêmio de Burra do Ano, pois era exatamente assim que estava se sentindo, a noite passada provavelmente deve ter engatilhado algum momento traumatizante para ele e o fez reagir daquela forma com ela. O homem não tinha tanta culpa, afinal, ela mesma sabia o que um trauma poderia causar em uma pessoa.
Era por isso que sentia que ia chorar a qualquer momento, não queria ser mais uma pessoa a magoar , o homem já havia sofrido o bastante com todo o preconceito que fazia parte de sua vida, ela nunca desejou também estar na lista de pessoas que o machucavam.
- Eu fui uma idiota. – se virou, o encarando. – Estava tão perdida na minha dor e me sentindo uma boba que não pensei em você, espero que você possa me desculpar algum dia.
a observou andar até a porta e abrir a mesma lentamente, quem estava se sentindo idiota naquele momento era ele próprio. Por que ainda deixava aquela voz ter tanto poder em sua vida? Sabia que toda vez que dava ouvidos a ela, acabava magoado e sozinho. Então por que não fazia diferente? Estava vendo escapar entre os seus dedos e se não fizesse algo naquele momento, provavelmente não a veria tão cedo. A possibilidade de se afastar dela o assustou de tal maneira, que não pensou e apenas agiu.
- Espera! – pediu, lutando contra todos os seus instintos. Ele deu alguns passos e segurou a porta, a impedindo de sair dali.
- Não, . – retrucou, se virando. – Eu fiz você se lembrar de coisas do seu passado e te entendo completamente, não precisa se preocupar. – garantiu e o viu franzir a testa. – Fui egoísta ao praticamente te obrigar a cuidar de mim enquanto estava bêbada, e sei que não deve ter sido fácil me ver completamente fora da órbita e isso lhe trouxe recordações desagradáveis. – assentiu e respirou fundo. – Me desculpa de verdade, nada disso deveria ter acontecido, eu ultrapassei todos os limites. – lamentou e mordeu o lábio inferior.
a encarou com a testa franzida, tentando entender do que ela estava falando.
- Você precisava beber para esquecer o dia que teve. – afirmou, sem tirar os olhos dela.
- Mas não era justo com você. – confessou, suspirando, e passou a mão no rosto.
- O que você está dizendo, ? – perguntou de uma vez, se tinha uma coisa que ele não gostava era de ficar rodeando um assunto, gostava de ir direto ao ponto.
- Do seu pai. – falou com todo cuidado do mundo.
A feição de foi se suavizando aos poucos, finalmente conseguia entender onde ela queria chegar. O patriarca da sua família sempre teve problemas com bebidas alcoólicas e a situação se agravou após a morte de Nora, sua esposa e mãe de . Então era isso? deduziu que a grosseria repentina do homem era devido ao pai dele, ela certamente pensou que a noite anterior havia engatilhado algo em .
- Você está se comparando ao meu pai? – perguntou e ela assentiu devagar. O homem se virou e andou até o balcão, sentou-se em uma das banquetas e balançou a cabeça negativamente. – Você o conheceu?
- Não, só o via pela cidade. – deu dois passos na direção dele.
- Ele é passado, . – assumiu, se sentindo estranho ao confessar aquilo em voz alta.
A mulher mordeu o lábio inferior, percebendo que aos poucos ia se abrindo com ela.
- Então não foi por causa dele que você ficou bravo? – se arriscou a perguntar, ainda temendo pela resposta.
- Não. – afirmou num tom de voz mais calmo. – Eu não estou acostumado a receber mulheres em casa. – resolveu contar de uma vez, já que ela tinha confundido tudo e achou que a reação dele havia sido por causa de algum trauma.
– Ah! – arregalou os olhos brevemente.
- E as poucas que vem aqui, nunca ficam pra dormir. – confessou e ela assentiu, digerindo o que ele lhe dizia.
observou que parecia um menino indefeso ao admitir que mulher alguma havia dormido em sua casa, bem diferente da atitude defensiva que presenciou há alguns minutos.

“Ninguém quer ser visto com um .”

Agora tudo fazia sentido, não estava realmente bravo com ela, e sim com a situação inusitada em que se encontrava. Uma mulher tinha ido para sua casa e passado a noite em sua cama, esse acontecimento por si só já deveria ser esquisito o suficiente pra ele.
Ela já sabia que não era como os outros homens que conhecera em sua vida, mas agora tinha a certeza absoluta que ele era único.
- Eu achei a sua cama confortável. – resolveu brincar para amenizar aquele clima estranho e o viu rir nasalado. – , se eu não confiasse em você, jamais teria enchido a cara de cerveja, você teve uma atitude honrada ao me trazer para sua casa e ter todo o cuidado para que eu ficasse segura, ainda se preocupou em não chatear a minha vó. – falou e deu alguns passos na direção dele. - Nos dias de hoje, sabe como isso é raro?
- Qualquer um faria isso. – negou com a cabeça, incomodado com a mania dela de enaltecer alguma atitude que ele tinha.
- Mas não foi qualquer um, foi você. – parou na frente dele e sorriu. – Você precisa aprender a aceitar um elogio.
Os dois se encararam e ela piscou pra ele, o que o fez desviar o olhar rapidamente, completamente sem jeito com a atitude dela. riu baixinho e apoiou as mãos nos joelhos dele, o que o fez voltar sua atenção pra ela, o homem paralisou ao perceber que ela se inclinava em sua direção. Sua respiração parou por um segundo ao sentir o rosto dela tão perto do seu, ele virou a cabeça lentamente para ver o que ela ia fazer e foi surpreendido pelo o que aconteceu em seguida, os seus lábios se chocaram com os dela.
arregalou os olhos quando notou virando a cabeça, mas já era tarde demais e o inevitável aconteceu, os dois se beijaram. Mas o susto de ambos foi tão grande que nem poderia considerar aquilo um beijo, tinha sido no máximo um selinho acidental. recuou rapidamente e deu um pulo de sua banqueta, quase caindo dela, e os dois se encararam com os olhos arregalados.
- Eu ia beijar a sua bochecha! – ela se justificou, notando que ele estava completamente envergonhado.
o viu chacoalhar a cabeça com violência e falar algo imperceptível, no segundo seguinte ele sumiu dali, praticamente correndo para o quarto onde ela tinha dormido, pensou em ir atrás do homem, mas se ela estava constrangida com o que tinha acabado de acontecer, não poderia nem imaginar como ele estava se sentindo. Decidiu que a melhor coisa a se fazer naquele momento era ir embora e esperar que as coisas se acalmassem e depois conversaria com , só desejava que aquele pequeno incidente não atrapalhasse a relação deles.


Capítulo 8 - Parte 1


Your eyes, they shine so bright
I want to save their light
I can't escape this now
Unless you show me how
When you feel my heat
Look into my eyes
It’s where my demons hide
(Demons – Imagine Dragons)


Para algumas pessoas, não fazia sentido algum morar em uma cidade minúscula e não conhecer todos que ali habitavam, e nasceram e foram criados em Blue Ridge, mas o destino nunca havia feito os dois cruzarem os mesmos caminhos. Até o momento em que Bernice ligou para e pediu um orçamento de trabalho. Daquele dia em diante, o caminho dos dois se cruzava quase que diariamente.
E depois do beijo acidental, então, aqueles encontros se tornaram mais frequentes do que gostaria, a mulher estava em todos os cantos da cidade, por um segundo ele chegou a pensar que estava alucinando, porém tinha cada vez mais certeza que era o maldito destino perturbando sua mente.
No mesmo dia do beijo, a viu na única farmácia da cidade, ele também estava indo para o local, pois sentia fortes dores no estômago, mas antes mesmo de chegar na porta do estabelecimento, notou que estava lá dentro, o que o fez dar meia volta e se esconder do outro lado da rua.
Isso mesmo, era um covarde que fugia de .
No dia seguinte, ele estava dirigindo pela avenida principal quando a viu com Bernice, ao que tudo indicava, as duas iam para a clínica da cidade, chegou a ficar preocupado e se perguntou se a senhora estava bem de saúde, mas deduziu que sim quando uma hora depois avistou as duas saindo do local com um sorriso no rosto.
Meu irmãozinho virou um stalker.
A voz de Merle voltou a perturbar sua sanidade e, em partes, ele até concordava com aquilo. Mas não era como se estivesse planejando seguir por Blue Ridge, o seu instinto de proteção que estava ativo e o alertava quando ela estava por perto. Porém, começou a ficar preocupado quando na mesma tarde a viu pela cidade com Willow, elas estavam saindo da sorveteria e a menina tinha um sorriso no rosto e não fazia questão alguma que controlar o tom de voz, ela falava tão alto que os ouvidos de fizeram questão de escutar cada palavra que ela dizia.
- Tia, minha mãe disse que posso ter um cachorrinho se for bem na escola esse ano, acredita?
- Nem adianta tentar roubar a Sky de mim. – ouviu responder.
- Ah não, eu quero um cachorro e não um cavalo. – a menina disse brincalhona e ele próprio segurou o riso.
- Como é que é?
conseguiu ver erguer Willow no colo e fazer cócegas na menina, que ria alto. O homem balançou a cabeça negativamente e saiu de seu esconderijo.
Exatamente, era a segunda vez que ele se escondia ao ver pela cidade. As pessoas de Blue Ridge não deveriam temer , pois ele era um covarde.
No dia seguinte, ele decidiu que precisava de um tempo longe da civilização e achou que pescar no lago da cidade seria uma boa ideia, distante de tudo e todos. Acordou cedo e preparou sua maleta de pesca, sentia que aquele dia seria produtivo e estava confiante que não seria perturbado por ninguém. O que não sabia era que o destino não estava ao seu lado, já que havia um único carro estacionado na beira do lago e ele freou bruscamente quando reconheceu o automóvel.
- Mas não é possível! – socou o volante e fechou os olhos por um momento.
O homem balançou a cabeça negativamente e bufou, aquela situação chegava a ser cômica.
- Sky! Volta aqui, na água não. – escutou gritar e ergueu a cabeça.
E lá estava ela, linda como sempre.
Stalker.
Ele rolou os olhos ao ouvir a voz do irmão lhe perturbando. Engoliu em seco e pensou no que poderia fazer, olhou ao redor e notou que ele tinha uma vista ampla do lago, mas quem estava lá não conseguiria ver tanto assim o estacionamento, pois algumas árvores tampavam a visão de onde ele estava.
- Você é um frouxo, ! – bufou, ponderando se deveria sair do carro ou não. Após poucos minutos, decidiu que ficaria ali mesmo, não queria correr o risco de ser visto por , sabia que ela provavelmente se aproximaria para conversar com ele e era justamente essa tal conversa que o homem queria evitar. permaneceria em seu carro até o momento em que tivesse certeza absoluta que não iria esbarrar em .
Ele só tinha se esquecido de um detalhe: o destino não estava do seu lado.

sorriu ao ver Sky chacoalhar a corda que tinha em sua boca, observou a cachorra correr em sua direção e soltar o brinquedo no chão, num pedido claro para que sua dona o jogasse longe para que ela pudesse correr atrás dele.
- Você não cansa, não? – ela riu, arremessando a corda.
As duas estavam no famoso lago de Blue Ridge, naquela manhã tinha notado que Sky estava mais agitada do que o normal, mesmo após o passeio de meia hora que tinha feito com ela, então decidiu ir até o lago para que ela pudesse se exercitar com mais liberdade. E a cachorra estava aproveitando a oportunidade como nunca, corria para todo o lado e depois se jogava na água.
Uma hora depois da chegada das duas no local, decidiu que era hora de ir embora, pois o lugar começava a ficar mais cheio, era verão e o lago costumava lotar nos finais de semana.
- Sossega, menina. – a mulher riu enquanto tentava secar a cachorra.
balançou a cabeça negativamente e se virou para guardar a toalha e abriu a porta para que Sky entrasse no carro, mas ela franziu a testa ao girar o corpo de volta e não ver sua cachorra.
- Sky? – a chamou, olhando ao redor. O estacionamento era todo aberto e não seria difícil achá-la. – Sky? – foi então que ouviu o latido tão conhecido por ela.
andou devagar, tentando localizar de onde vinha o barulho que sua cachorra fazia. A mulher estava tão focada em achar Sky que nem se deu conta de quem era o carro que ela se aproximava.
- Sky, o que você está fazendo? – fez uma pequena curva e viu a cachorra, que estava ao lado de uma caminhonete azul. – . – a mulher falou num sussurro, observando o homem acariciar a cabeça do animal.
não o via desde o dia em que o beijou acidentalmente, isso tinha sido há três dias. Até tentou procurar pelo homem, mas nas duas vezes que foi em sua casa ele não estava lá, sua esperança era o encontrar no bar, mas ele não aparecia no local há dias, o que a fez pensar que ele não queria vê-la.
Sky latiu e fitou sua dona, como se quisesse dizer que havia encontrado pra ela. balançou a cabeça negativamente e percebeu que o homem não tinha direcionado o olhar pra ela uma vez sequer.
- Oi. – o cumprimentou e o viu assentir, ainda sem a encarar. – Veio aproveitar o dia no lago? – tentou quebrar aquele clima estranho.
- Vim pescar. – respondeu, se afastando dela e da cachorra. O homem se virou para pegar algumas coisas na carroceria de seu automóvel.
- Você pesca? – ela não escondeu a surpresa em seu tom de voz ao fazer a pergunta.
- Sim. – respondeu e colocou uma mochila nas costas.
suspirou, sabia que estava em modo de defesa, o beijo tinha sido inesperado e, ao que tudo indicava, ele queria distância dela.
- Tudo bem. – sorriu sem mostrar os dentes quando ele se virou novamente. – Boa sorte.
apenas assentiu e acariciou Sky uma última vez antes de andar para longe delas. A cachorra choramingou e fez um carinho em sua cabeça, como forma de consolo.
As duas caminharam de volta para o carro e a mulher sentia-se triste, tudo o que ela não queria naquele momento era esse clima pesado entre ela e , os dois finalmente tinham começado a se entender, e agora por causa de algo tão banal haviam se afastado.
queria ser capaz de entender o homem melhor, com qualquer outra pessoa aquela situação seria resolvida facilmente e ainda viraria piada, mas não era qualquer um e por isso tornava tudo tão complicado. A mulher sentia-se frustrada por não saber o que fazer para melhorar a relação dos dois, só esperava que um dia se entendessem, pois ele já fazia falta em sua vida.

entrou em casa e quase foi atropelada por Sky, que saiu correndo à procura de seu pote de água, a mulher riu e viu sua avó sentada no sofá, com uma revistinha em mãos, pela cara que a senhora fazia nem era preciso perguntar o que ela estava fazendo, a mais nova sabia que ela estava jogando palavras cruzadas, pois esse era um dos vícios da mulher.
- Oi, vó. – sentou no sofá em frente à Bernice, que a olhou rapidamente.
- Sandler, comediante, quatro letras. – falou e a neta franziu a testa, mas em seguida já sabia a resposta.
- Adam. – sorriu brevemente.
- E o lago, como estava? – a mais velha perguntou, não tirando os olhos de sua revistinha.
- Tranquilo, chegamos cedo e deu pra aproveitar.
Sky voltou para a sala e andou até Bernice, colocando a cabeça no colo da mulher, que sorriu e acariciou a cachorra rapidamente, que em seguida deitou-se no chão.
- Cinco em romanos, uma letra. – a senhora voltou a perguntar.
- V. – a mulher respondeu, se ajeitando melhor no sofá e suspirou.
Aquele encontro inesperado com tinha a incomodado bastante, estava inconformada com toda a situação e queria tentar resolver aquilo, mas não conseguia ver uma solução.
- Aconteceu alguma coisa? – Bernice conhecia bem o suficiente para saber que algo perturbava a neta.
A mais nova a fitou, seu olhar era distante e diria que até um pouco perdido. Isso foi o bastante para a mulher deixar sua revistinha para outra hora.
- , o que se passa nessa cabecinha? – indagou carinhosamente.
fitou a avó, que não tinha ideia alguma dos últimos acontecimentos, pois decidiu que era melhor não contar sobre o beijo acidental, já que precisaria explicar o motivo que a fez dormir na casa de e ela queria evitar que Bernice soubesse sobre a sua bebedeira.
- Preocupações da vida. – respondeu vagamente e viu a mais velha franzir a testa, nada satisfeita com a sua resposta.
- É sobre o ? – Bernice indagou diretamente e surpreendeu a neta, que arregalou os olhos. – , você esqueceu o tamanho dessa cidade? É óbvio que fiquei sabendo da briga.
Foi impossível não esconder o alívio, por um segundo pensou que sua avó havia descoberto sobre o dia em que dormiu na casa de .
- E a senhora não me disse nada? – rebateu, sem conseguir esconder sua surpresa.
- Estava esperando o momento certo.
se remexeu no sofá, não era por acaso que diziam que avó era como uma segunda mãe, Bernice era a prova disso, nunca falhou em perceber quando sua neta não estava bem.
- É sobre o sim. – confessou, não vendo motivo para manter aquilo só pra ela. – Ele é difícil, entendo que faz parte da sua personalidade ser introvertido, mas sinto que não sei como lidar com ele e o seu jeito todo fechado. – suspirou, deixando claro o seu incômodo.
- O que você sabe sobre ele? – Bernice questionou, notando a neta a olhar com uma feição confusa.
- Sobre a vida dele? – indagou e viu a outra assentir. – Ah, os boatos dizem que o pai dele não era uma boa pessoa e que e o irmão sempre foram um problema. – mordeu o lábio inferior, buscando em sua memória o que já tinha escutado sobre a família . – O irmão dele foi preso após espancar um cara até a morte e depois acabou sendo assassinado na prisão, mas não sei até que ponto tudo isso é verdade. – deu de ombros, fazendo uma careta em seguida.
- Ah minha querida, a vida deles foi muito mais que isso. Talvez se souber o que eu sei você consiga entender melhor o motivo do ser do jeito que é.
sentiu-se angustiada, pois da forma que sua avó dissera, sabia que o que escutaria dali em diante não seria nada bom. Ela ajeitou a postura e focou toda sua atenção na mulher.
- William era o nome do pai de , ele e Nora se conheceram na escola, aquele típico casal desses filmes que você assiste. – comentou e a mulher riu nasalado, era óbvio que sua avó tentaria amenizar o clima pesado da história. – Mas desde jovem William tinha problemas com bebidas alcoólicas, vivia se envolvendo em brigas e até foi preso algumas vezes, os pais de Nora nunca aceitaram o relacionamento e os dois acabaram fugindo, sumiram por meses e quando voltaram ela estava grávida de Merle, acabaram se casando e foram morar num trailer em uma parte afastada da cidade.
- Imagino que isso tenha sido um escândalo na época. – a interrompeu brevemente.
- Você não tem ideia. – balançou a cabeça negativamente. – A mãe do William era uma grande amiga e sempre desabafava comigo sobre os problemas que tinha com o filho.
novamente se surpreendeu com uma revelação de Bernice, ela já estava se perguntando como a avó sabia tantos detalhes, mas agora tudo fazia sentido.
- Só que ele se regenerou durante a gravidez de Nora, começou a trabalhar e sustentava a pequena família, Merle nasceu completamente saudável e era um menino lindo. – a senhora sorriu, se lembrando do rapaz quando era apenas um bebê. – Os pais de Nora finalmente cederam e se reconciliaram com a filha e genro, tudo ia muito bem para eles e o passado turbulento ficou pra trás, Nora engravidou do segundo filho e eles não podiam estar mais felizes.
se viu sorrindo, sabia exatamente que aquela segunda criança era e, de certa forma, sentia-se mais próxima dele por saber mais de sua história.
- Ninguém sabe ao certo o porquê, mas William voltou a beber e acabou perdendo o emprego, Nora foi morar com os pais nessa época, Merle tinha onze anos e era um bebê. – a senhora suspirou, era difícil contar aquela parte do passado deles. – O que ninguém suspeitava era que o pai de Nora era viciado em jogos e havia perdido todos os bens da família, incluindo a casa em que moravam.
- Meu Deus! – a mais nova deixou escapar, não esperava por isso. – Ele apostou tudo em jogo? – indagou e a mais velha assentiu.
- O pai dela não aguentou e acabou tendo um infarto, não resistiu e faleceu horas depois no hospital. – Bernice fechou os olhos por um momento e respirou fundo. – Nora voltou a morar com William e levou sua mãe com ela, mas a minha amiga não aguentou todo aquele desgosto e acabou falecendo enquanto dormia. – falou em um fio de voz.
- Vó! – se levantou, notando os olhos lacrimejados de Bernice, sentou-se ao dela e a abraçou. – Que tristeza. – lamentou genuinamente.
- Foi muito sofrimento. – a mais velha suspirou, passando as mãos nos olhos. – Mas Nora foi uma guerreira, o mundo desabando ao seu redor e ela suportou tudo. Foi trabalhar numa das lanchonetes da cidade e assim poderia sustentar sua família, William ainda bebia, mas tinha certo controle e conseguiu recuperar o seu emprego, a vida novamente ia entrando nos eixos para os dois.
continuou sentada ao lado da avó e escutava atentamente a história dos .
- Mas a vida da família acabou quando Nora descobriu que William a traía, estava envolvido com uma vizinha, aquilo foi o fim pra ela.
A mais nova arregalou os olhos, inconformada com a sina daquela família, era tragédia atrás de tragédia, não tinham uma trégua.
- Infelizmente Nora não aguentou tanta dor e teve o mesmo destino de sua mãe, um infarto fulminante enquanto dormia.
- Eu não acredito. – sentiu os próprios olhos se enchendo de lágrimas.
- Meu coração se despedaçou no enterro, , o pequeno chorava tanto, mas tanto que Merle teve que sair com ele de lá para tentar acalmar o irmão mais novo.
E essa informação foi suficiente para desabar, começou a chorar e agora era ela quem estava sendo consolada.
- era tão pequeno. – falou entre soluços. – Não merecia passar por isso. – fungou, tentando enxugar as lágrimas.
- Ah minha linda, na época ninguém conseguia acreditar, todos já conheciam o histórico da família e sabiam que Nora fazia de tudo por eles, se matava de trabalhar para sustentar os filhos; Enquanto isso, William tinha uma amante. – suspirou, deixando claro o seu desprezo por toda a situação.
- Me perdoe por dizer isso, mas ainda bem que esse homem já está morto.
Bernice concordou silenciosamente com um aceno de cabeça.
- Pode continuar, vó, eu sei que tem muita coisa para ser explicada ainda.
- Bom. – a senhora suspirou. – No ano seguinte da morte de Nora, Merle se alistou no exército e foi morar em outro estado, em seguida foi transferido para a Alemanha.
- ficou sozinho com William? – ela interrompeu, arregalando os olhos.
- Infelizmente sim, mas o pai dele raramente estava em casa e o pequeno ficava muito tempo por conta própria. Isso durou uns quatro anos, eu creio, não me lembro ao certo, até que um vizinho denunciou William ao conselho tutelar, que foi até a casa e encontrou sozinho e doente, ele foi para o hospital e por pouco não foi parar em um abrigo.
engoliu em seco, pelas suas contas tinha dez anos de idade nessa época, ou seja, ele provavelmente se lembrava de todos esses acontecimentos, agora ela conseguia entender mais as razões para algumas atitudes dele.
- Merle finalmente interferiu na situação. – Bernice continuou. – Voltou pra cá e pediu para permanecer no país, foi transferido para a base de Fort Benning e levou com ele.
A mais nova voltou a arregalar os olhos, não fazia ideia que já tinha morado em outro lugar que não fosse Blue Ridge, aquela era uma completa novidade para a mulher.
- Até hoje ninguém sabe o que aconteceu, mas alguns anos depois eles voltaram pra cá e Merle estava com muitos problemas, os boatos eram que tinha sido expulso do exército.
- E como eles estavam? A senhora chegou a encontrar com eles em algum momento? – disparou em perguntas, querendo saber mais detalhes.
- Merle nunca foi uma pessoa fácil e não fazia questão alguma de ser alguém agradável, podemos dizer assim. , por sua vez, sempre foi muito quieto, então era difícil dizer algo sobre ele, mas no meu coração eu sentia que era um bom garoto. – a senhora sorriu, fazendo a neta imitar o ato.
- E William? – perguntou, querendo saber o destino do homem que agora ela detestava.
- Morreu logo após a volta dos meninos, o corpo dele não aguentava mais bebida e acabou sucumbindo.
- Ah... – não tinha o que dizer sobre a morte do patriarca dos .
- Essa foi a reação da cidade toda. – a senhora falou, mencionando a expressão da neta. – De certa forma, foi um alívio.
- Faz sentido. – deu de ombros, não tinha muito como ficar triste com a morte de um homem como William.
A mais nova da família mordeu o lábio inferior, deixando claro que estava pensativa com todas aquelas informações.
- Percebe por que é um homem tão retraído? – Bernice indagou, observando sua neta, que assentiu brevemente.
- Vó, por tudo que a senhora me contou, confesso que estou surpresa pelo ser do jeito que é, ele tinha de tudo para ser igual o pai e o irmão.
- Mas ele puxou a mãe. – a senhora afirmou, com um sorriso saudoso no rosto. – Nora era um ser humano cheio de luz, tenho certeza que todo o amor que ela deu ao o salvou de ser alguém ruim.
- Adoraria ter conhecido ela. – a mais nova suspirou, lembrando-se de sua própria mãe. O que a fez perceber que ela e tinham algo em comum, tiveram mães espetaculares que deixaram esse mundo de forma inesperada.
Se pra ela, mesmo com todo o apoio que teve, foi difícil seguir em frente sem sua mãe, não conseguia sequer imaginar como havia sido para , que era só uma criança e praticamente não tinha ninguém em sua vida.
- Consegui te ajudar? – a senhora indagou, notando que sua neta estava perdida em pensamentos.
- Sem dúvidas. – a mais nova sorriu, sentindo-se grata por Bernice ter compartilhado um pouco da história dos com ela. – Muito obrigada, vó.
- Espero que isso seja o suficiente para vocês acertarem os ponteiros. – falou, apesar de não saber exatamente o que estava acontecendo, Bernice tinha certeza que os dois haviam se desentendido. E ela gostaria muito que fosse amiga de , sabia como isso seria importante para os dois, desde a primeira vez que viu os dois interagindo notou que tinha algo ali, não importava muito o que fosse, mesmo que se tornassem apenas amigos, ela já ficaria extremamente feliz.

estava deitada em sua cama, encarando o teto de seu quarto há pelo menos meia hora. O que Bernice tinha lhe contado havia a afetado muito, ouvir as histórias da família tinha sido algo que a fez pensar na própria vida, imaginar que eles raramente tiveram um momento de paz e felicidade como família era doloroso demais.
cresceu sem um pai, a única figura masculina que teve em sua vida foi o seu avô, mas ele partiu desse mundo quando ela ainda era uma criança e a menina não tinha referência alguma do sexo oposto em sua casa, porém Shelby e Bernice sempre fizeram de tudo para que essa falta não a afetasse tanto, mas era uma tarefa praticamente impossível e ela tinha algumas feridas não cicatrizadas em sua alma e raramente deixava que os outros vissem esse seu lado vulnerável. Apesar disso, teve sua mãe e avó lhe mostrando o verdadeiro significado da palavra amor e por isso sua vida não foi tão difícil.
não teve ninguém, era um menino de seis anos que perdeu a mãe repentinamente, o pai era alcoólatra e ausente, acabou sendo criado por seu irmão mais velho, que também não era um bom exemplo de ser humano. Agora tudo fazia sentido, o jeito introspectivo do mais novo tinha uma explicação sensata e, de certa forma, se identificava com o homem, pois na sua adolescência ela se isolou bastante de todos, já que foi naquela época que ela mais sentiu a rejeição de seu pai, pois via as amigas tendo o que ela nunca teve: o amor paterno.
- ... – ela suspirou e sentiu um nó na garganta, no segundo seguinte as lágrimas começaram a descer por sua bochecha e sua visão se tornou embaçada.
Não era justo. Por que ele teve que passar por isso tudo? Uma infância destruída, uma adolescência inexistente e uma vida adulta solitária. não merecia nada do que havia vivido. Todo o ódio e preconceito que ele recebia de Blue Ridge era injustificável, o homem foi julgado e condenado pelos erros de seu pai e irmão, era inocente e nunca tinha feito mal a ninguém.
se lembrou da reação de Kelsey quando entrou na loja e das acusações de Spencer, o que fez o seu choro se intensificar, se aquilo doía tanto nela, não era capaz de imaginar como tinha sido para crescer dessa maneira, sendo rejeitado por todos. Não era por acaso que havia se tornado alguém tão ressabiado, sem alguém para confiar, o fez ser arisco e desconfiado porque nunca teve uma pessoa com quem pudesse contar, alguém que estivesse ao seu lado, lhe dando atenção e carinho.
Será que seria tarde demais para mudar isso? queria mostrar para o que era ter alguém do seu lado, uma amiga para todas as horas, desejava que ele pudesse a ver como uma pessoa de confiança, que jamais o trairia e o machucaria propositalmente. E foi esse pensamento que a fez ter certeza que não deveria desistir de , ela sabia que precisava investir e insistir nele, provar para o homem que ela se importava e queria fazer parte de sua vida.

(...)


Naquela manhã, achou que sair para pescar seria uma boa ideia, mas começou a perceber que estava errado quando encontrou com , ela sempre tão simpática, o tratando como se nada tivesse acontecido. Como a mulher conseguia? Ele não era capaz nem de olhar em seu rosto, quanto mais conversar com ela, o seu constrangimento era tão grande que sua coragem tinha fugido para outro planeta. E o destino decidiu que aquilo não era suficiente para o seu dia, no meio de sua pesca ele percebeu que o motor do pequeno barco que havia pegado emprestado tinha parado de funcionar, pelo menos ele tinha um remo que o ajudaria a voltar. O grande problema foi que uma tempestade de verão chegou a Blue Ridge sem aviso prévio, foi uma chuva tão forte e repentina que o homem mal teve tempo de chegar à margem do lago, quando entrou em seu carro já estava completamente encharcado e como desgraça pouca é bobagem, a estrada que levava até o lago foi inundada por um pequeno rio que passava por ela. não saberia dizer quanto tempo ficou parado no trânsito, mas quando estacionou o carro em frente a sua casa, ele tremia dos pés a cabeça, até os seus dentes batiam de tanto frio que estava sentindo.
Ele entrou em casa e já correu para o banheiro, precisava tirar aquelas roupas logo e tomar um banho quente, antes que pegasse um resfriado ou algo pior. Suspirou aliviado quando a água tocou sua pele, lhe dando um alívio quase que imediato, ousou até a sorrir quando seu corpo aos poucos foi recuperando a temperatura normal.
Franziu a testa no instante em que o seu momento de prazer foi interrompido pelo barulho da campainha de sua casa e até estranhou, pois raramente ouvia aquele som, já que era difícil alguém lhe fazer uma visita. Ele se apressou quando percebeu que a pessoa não ia desistir tão fácil, visto que a campainha foi tocada mais duas vezes.

estava de costas para a porta, encarava a caminhonete de e perguntava se o homem estava em casa, pensou na possibilidade de ele ter saído de moto, mas a chuva fina que caía no momento a fez pensar o contrário, já que não seria inteligente sair de motocicleta com o clima chuvoso que havia se instalado na cidade. Mas onde estaria a moto? Ela se questionou e mordeu o lábio inferior, e foi nesse instante que a mulher escutou um barulho vindo de dentro da casa, girou nos calcanhares e deu alguns passos na direção da porta, agora dando alguns toques na mesma.
- Já vai! – ouviu a voz de dizer e um sorriso mínimo nasceu em seu rosto. Ele estava ali e ela faria de tudo para resolver a confusão do dia em que tinha dormido na casa dele, acabar de uma vez por todas com esse clima estranho que havia entre eles.
- Quem é? – a voz dele voltou a dizer e ela franziu a testa.
- É a . – respondeu e esperou pela abertura da porta, o que não aconteceu.
- O que você quer? – foi a resposta que obteve e ela abriu a boca e arregalou os olhos, chocada com a falta de educação dele. Mas ela não se deixaria abater por isso, não mesmo.
- , se você tem qualquer tipo de respeito por mim, abra essa porta agora, por favor. – falou firme, mas ao mesmo tempo usou um tom gentil.
Escutou ele fazer qualquer barulho, como se murmurasse algo pra si próprio e em seguida ouviu o trinco da porta, que prontamente foi aberta.
engoliu a seco com o aroma que invadiu suas narinas naquele exato instante, era uma mistura que ela não saberia descrever, mas ao que tudo indicava, tinha acabado de sair do banho, o que justificava a demora em atender a porta. Ela balançou a cabeça ao perceber que o encarava, em completo silêncio.
- Oi, de novo. – sorriu sem mostrar os dentes. – Posso entrar?
- Pra quê? – aquelas respostas curtas e grossas estavam a tirando do sério.
Então, ela se achava no direito de retrucar à altura.
- Pra falar sobre o beijo. – rebateu, cruzando os braços.
A expressão de era impagável, uma mistura de choque e horror.
- Nós somos dois adultos, vamos resolver isso de uma vez. – o encarou, e tal ato o fez desviar o olhar rapidamente.
- Já que você insiste. – deu de ombros, dando passagem pra ela.
A mulher entrou na casa e franziu a testa ao ver algumas roupas jogadas no chão, se virou e notou que evitava olhar na direção dela.
- A gente precisa conversar e você sabe disso. – amenizou o tom de voz.
- Não precisa não. – respondeu, em seguida balançando a cabeça.
Ela o fitou, então se dependesse do homem aquela situação nunca seria resolvida? Mas não era possível.
- Como não? – estreitou o olhar. – Eu te beijei e agora você nem consegue olhar na minha cara.
E naquele momento ela sentiu como se estivesse vivendo um déjà vu, pois no mesmo segundo passou por ela e começou andar na direção do quarto dele.
- Não, você não vai fugir de novo! – rapidamente deu a volta no sofá, parando na frente de , e colocou as mãos no peito dele, o impedindo de andar.
O homem arregalou os olhos brevemente, chocado com a ousadia dela. Mas no segundo seguinte franziu a testa e bufou, irritado com a atitude da mulher.
- E eu também não vou embora. – afirmou assim que notou que ele ia dizer algo. – Isso não vai resolver nada, pelo contrário, só vai nos afastar cada vez mais.
- E por que você se importa tanto? – indagou, com a respiração desregulada devido ao nervoso que estava passando. – Você nem me conhece direito.
- É exatamente isso o que estou tentando fazer aqui, te conhecer. – o viu balançar a cabeça e rir nasalado.
- Pra quê? Qual o propósito disso tudo? – a voz dele ia subindo alguns tons enquanto pronunciava cada palavra. - O que a princesa de Blue Ridge ia querer com um caipira fracassado? – ele deu alguns passos para trás e bufou. - Eu não sou a porcaria de um projeto de caridade que precisa da sua ajuda! Você nunca foi nada minha vida e não é agora que vai ser, guarde a sua pena e bondade para alguém que precise dela. – despejou, completamente furioso.
piscou os olhos diversas vezes, completamente perplexa com o ataque de raiva do homem. Não queria saber se aquilo era um modo de defesa, uma maneira de tentar afastá-la dele, estava cansada dessa tática de e não aturaria mais aquilo calada.
- Chega das suas grosserias gratuitas, ! – retrucou e ele a fitou confuso, não esperando por essa resposta. – Princesa de Blue Ridge? Pelo visto não sou a única aqui que não conhece alguém, hein?
havia mexido em um vespeiro, não era mulher de ficar calada quando ofendida, ela devolvia na mesma moeda e raramente desistia de uma discussão.
- É muita audácia da sua parte dizer um absurdo desses, você sabe que o meu pai nunca me quis e que minha mãe morreu quando eu era adolescente. – bradou extremamente irritada com ele.
engoliu em seco com a forma que falava, era a primeira vez que a via tão furiosa com ele.
- Como você ousa? – a mulher bufava de raiva. – Eu sempre te tratei com educação e respeito, um beijo acidental já é suficiente para ser tratada com tanto desprezo? É isso o que eu mereço?
Ela o fitava tão intensamente que sentiu como se ela fosse capaz de ver sua alma naquele momento.
- O que você quer comigo? – ele retrucou, propositalmente ignorando a pergunta dela.
franziu a testa, será que seria tão difícil assim pra ele entender?


Capítulo 8 - Parte 2

You're so mean when you talk about yourself, you were wrong
Change the voices in your head, make them like you instead
So complicated, look how big you'll make it
Filled with so much hatred, such a tired game…

(Fuckin’ Perfect – P!nk)


- Ser sua amiga. – falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
engoliu em seco, ela já tinha dito isso algumas vezes, porém ele não conseguia acreditar naquilo. Ser amiga dele pra quê? Ele não tinha nada para lhe oferecer. Ser amiga dele não traria benefício algum para , então não entendia o porquê da insistência dela com aquele assunto.
- Isso é besteira. – o homem bufou, balançando a cabeça.
- O quê? – ela franziu a testa, não entendendo a afirmação dele. – Ser sua amiga?
- É. – deu de ombros. – Não preciso de amigos. – disse com tanta certeza que a fez arregalar os olhos brevemente.
sabia exatamente por que ele pensava assim, mas ouvir aquilo não deixava de ser menos chocante. nunca precisou de amigos porque ninguém jamais fez questão alguma de se aproximar dele. A reputação dos em Blue Ridge era tão negativa que pouquíssimas pessoas tinham coragem de ter algum tipo de contato com qualquer pessoa daquela família.
- , existe muita gente preconceituosa nessa cidade, mas eu não sou uma delas e você já deveria saber isso. – o encarou e o viu estreitar os lábios em uma linha fina, em um claro sinal de nervosismo. então amenizou o seu tom de voz, falando da maneira mais calma que conseguia. – Você não é um caipira fracassado, , você trabalha e se sustenta sozinho. E se você se acha um caipira só porque nasceu em Blue Ridge, então estamos no mesmo barco. – ela riu de leve. – E isso aqui não é um ato de caridade, eu quero ser sua amiga porque eu gosto da sua companhia, você é uma pessoa agradável, , por mais difícil que seja para você acreditar nisso. – suspirou, desejando que ele levasse a sério o que ela estava falando, mas para a sua tristeza, sentia que suas palavras não tinham muito valor naquele momento, por mais sinceras que tenham sido.

Os anos de rejeição e preconceito tinham o afetado tanto que algo dentro de não o deixava crer inteiramente no que ela dizia. até então nunca havia mentido para ele, mas era difícil acreditar que alguém como ela queria qualquer coisa com um , mesmo que fosse só amizade, como a mulher alegava querer.
- Você acredita em mim? – a ouviu perguntar e ele, novamente, se sentiu um completo covarde, pois não era capaz de responder aquele questionamento. – , eu estou sendo sincera com você. – foi inevitável não notar o tom de derrota na voz da mulher.
engoliu em seco ao perceber o motivo do silêncio de , ele não acreditava nas palavras dela. O que a fez sentir como se tivesse levado um soco no estômago, se ele não acreditava em suas palavras seria impossível se aproximar dele e ter a sua amizade, já que a base fundamental para qualquer tipo de relacionamento era a confiança. E se eles não tivessem isso, seria inútil insistir em se aproximar de .
mordeu o lábio inferior e sua expressão de esperança se murchou por completo, ela agora sabia que o beijo acidental foi apenas o estopim para algo que certamente iria acontecer a qualquer momento.
não confiava em .
Era fato que eles não tinham intimidade alguma para que ele pudesse confiar nela, mas o pouco tempo em que passaram juntos já tinha sido suficiente para confiar nele, por que aquilo não poderia ser recíproco?
Mas, novamente, estávamos falando de , uma pessoa que tinha motivo de sobra para não confiar em ninguém. se deu conta que não importava o quanto insistisse naquele momento, não cederia e ela não o culpava por isso. Afinal, não seria em poucos dias de convivência que o fariam perceber que não tinha motivos para desconfiar dela.
- Tudo bem. – ela enfim disse, incomodada com o silêncio dele.
se rendeu, pois aquela era uma batalha perdida. Nada do que dissesse ali mudaria a situação em que se encontravam.
- Espero que você fique bem, . – afirmou e sorriu fraco quando ele a olhou por uma fração de segundos. – Vou embora, não quero te perturbar mais.
reconhecia o seu fracasso, mesmo detestando a sensação de estar desistindo de algo que sentia que valia a pena, por agora, não conseguia ver outra solução. Recuar e deixar sozinho pareciam ser o ideal naquele momento, e era o que ela faria.
observou em silêncio quando ela saiu pela porta e o deixou sozinho, o homem fechou os olhos por um momento, suspirando em seguida. O seu cérebro estava satisfeito com o desfecho de toda essa confusão, mas o seu coração não se conformava, não era assim que era pra ser.
não era qualquer um, ele tinha muitos traumas e inseguranças que o impediam de ter qualquer tipo de relacionamento com . Ele nunca teve uma namorada, na verdade, nunca havia ficado com uma mulher por mais que poucas horas, essa era a realidade de sua vida.
Mas chegou em sua vida de surpresa e sorrateiramente quase derrubou todas as armaduras e barreiras emocionais que ele havia construído durante anos. A princípio, tinha a achado linda e, com o perdão da palavra, bem gostosa. Mas sabia que ela não olharia pra ele da mesma forma, então se contentou em apenas apreciar a beleza da mulher. Só que foi entrando em sua vida de uma maneira tão sutil que quando se deu conta já estava completamente envolvido por ela e isso foi assustador pra ele. E ali, completamente sozinho em sua casa, aquela sensação ficava ainda mais evidente.
Ele nunca tinha conhecido uma mulher tão cheia de luz como , ela tinha essa habilidade de entrar em um lugar e iluminar tudo ao seu redor. O sorriso dela era o ponto fraco de , toda vez que ela sorria era como se o seu mundo ficasse melhor, mais agradável de viver. E quando o sorriso era direcionado a ele ou por causa dele, era o seu fim, sentia como se fosse capaz de fazer qualquer coisa só pra ter o privilégio de ver aquele sorriso. A sua segunda fraqueza era a voz de , ainda se lembrava com clareza da primeira vez que a ouviu cantando, ela fez um cover da música Carry On My Wayward Son da banda Kansas, e ficou estático durante os quase cinco minutos em que durou a canção. A música relatava a história de um filho rebelde, que estava cansado de sofrer e que só queria ter paz em sua vida, a letra por si só já era de uma semelhança imensa com a vida de e ele, de certa forma, se sentia tocado por aquelas palavras, mas o acréscimo da voz de naquela melodia mexeu com ele profundamente. Era como se o timbre dela fizesse evaporar, mesmo que temporariamente, todas as dores que tinha em sua alma. Sua voz acalmava o seu coração e trazia uma paz que ele nunca havia experimentado anteriormente.
Aquele sentimento o fez retornar ao bar inúmeras vezes apenas para ouvir cantar, ficava em seu canto no fundo do estabelecimento apreciando cada música que saía da boca dela, era como se fosse sua dose diária de calmante. E com aquilo sabia lidar, era fácil e seguro, mantinha sua distância e nunca teria problemas. Mas então, aquela cerca surgiu em sua vida, agora falava com ele e queria ser sua amiga, ser alguém presente em sua vida. E essa possibilidade era aterrorizante para , ter uma mulher como o conhecendo de verdade era humilhante demais. Ele não se achava importante ou até digno de ter a amizade dela.
O que ele tinha a oferecer? Absolutamente nada. Era um caipira que trabalhava de manhã para ter o que comer à noite e que muitas vezes tinha que caçar por seu alimento na floresta, pois não tinha dinheiro suficiente para comprar carne no supermercado. Mal sabia conversar com qualquer ser humano, não era fã de socializar com outras pessoas, enquanto era extrovertida e não tinha problema algum em lidar com o público. não conseguia enxergar um motivo para a mulher ter interesse em sua amizade, então a única razão plausível era a pena e isso ele jamais aceitaria.
Então sua mente fez o que era a sua especialidade: afastar as pessoas. Foi ensinado desde sempre que a grosseria era a melhor maneira de manter alguém longe de si, então deixou o seu instinto mais primitivo entrar em ação e tratou com agressividade, já que sabia que era o modo mais efetivo de afastar a mulher de sua vida.
Mas por que ele estava se sentindo tão horrível? Nunca havia tratado uma mulher daquela maneira tão grosseira. E agiu assim logo com , sentia-se culpado. Mas por quê? Não era isso o que ele queria? não achava que o olhar triste que ela lhe lançou fosse doer tanto, a decepção que viu nos olhos de tinham o machucado de uma forma que ele não esperava, aquilo o pegou de surpresa. Porém, o homem sabia que não merecia nenhum tipo de compaixão, já que foi ele mesmo que procurou por isso. Agora teria que lidar com as consequências de sua atitude e com a ausência de em sua vida.

(...)


estacionou seu carro em frente ao bar e desceu para descarregar as compras que havia feito, iria fazer uma surpresa para a amiga.
- Você também? – ouviu a voz de Chad e olhou pra trás, notando que o amigo vinha em sua direção.
- Boa tarde pra você. – brincou e ele riu. – Do que você está falando? – franziu a testa e entregou duas sacolas pra ele.
- trouxe um carro de presentes, igual a senhorita. – falou divertido e ela balançou a cabeça.
- Só queremos mimar nossa sobrinha. – deu de ombros, empurrando a porta do carro com o quadril, já que suas mãos estavam ocupadas.
- Vamos, que as duas já estão te esperando. – ele iniciou o caminho até a porta lateral, que levava direto para a casa dele, sem precisar passar por dentro do bar.
sorriu enquanto subia a escada, pois já conseguia ouvir a gargalhada de Holly, que certamente ria de algo que e haviam lhe contado.
- Quero rir também, me contem a piada. – ela disse assim que entrou no ambiente e imediatamente atraiu a atenção dos três.
- tá sugerindo nomes para o bebê. – sorriu enquanto andava até a amiga, lhe dando um breve abraço.
- E qual foram as opções? – a mulher perguntou ao se aproximar do homem e lhe dar um abraço.
- Georgia, Blue ou River. – Holly comentou e sorriu para a amiga.
- George se for menino. – completou.
balançou a cabeça e cumprimentou a amiga, que estava sentada no sofá.
- Deixe-me adivinhar, Georgia por causa do nome do nosso estado, Blue pelo nome da cidade e River por causa do rio que corta a região? – ergueu as sobrancelhas e o amigo arregalou os olhos pela obviedade dos nomes.
- Eu gostaria de deixar registrado que veto qualquer sugestão de nome que o der. – Chad falou em tom brincalhão e riu da careta que o amigo fez.
- Amor, você quer Bear ou Racer... – Holly comentou, dando de ombros.
- Meu Deus... – não conseguiu segurar o riso.
- E você quer Puma... – Chad se defendeu e os amigos voltaram a rir.
- Acho que vocês deveriam deixar a missão de nomear o bebê pra mim. – enxugava as lágrimas que tinham caído por se divertir tanto.
- Georgia é bonitinho, vai. – argumentava sua escolha.
- Não é feio, mas é estranho, imagina? “Meu nome é Georgia e sou do estado da Georgia” - contestou e viu o amigo franzir a testa.
- Vocês estão repetindo tanto esse nome que vou acabar gostando. – Holly falou e sorriu pra ela.
- Preciso te tirar daqui então. – Chad se aproximou do amigo, lhe dando um tapinha nas costas. – Essa sua cara fofa convence as pessoas de qualquer coisa.
Chad e iriam até Atlanta comprar produtos para o bar, normalmente era Holly quem acompanhava o marido, mas os quase seis meses de gravidez a impediam de andar por muito tempo, já que nas últimas semanas ela vinha se cansando com facilidade. Chad então convidou para ir com ele, e sabendo que a amiga ficaria sozinha, ligou para e as duas decidiram que passariam aquela tarde com Holly, não só lhe fazendo companhia, mas também ajudando na decoração do quarto do bebê.
- Vão logo que não tem o dia todo. – Holly comentou e imediatamente olhou para , que franziu a testa.
A mulher viu Chad se aproximar de Holly e lhe dar um beijo, fez o mesmo com .
- vai com vocês? – foi inevitável para ela controlar sua curiosidade.
- Não, me emprestou a caminhonete, mas vamos até a casa dele buscar. – Chad explicou.
assentiu brevemente e observou os homens saírem do local, a discussão com a afetou de uma maneira tão intensa que até a simples menção do nome dele em uma conversa a deixava pensativa.
- , você tá bem? – perguntou, notando a feição da amiga.
- Eu? – ela balançou a cabeça e piscou algumas vezes, em seguida olhou para as amigas. – Tô sim, vamos aos trabalhos?
Holly e se entreolharam, conheciam bem o suficiente para saber que tinha algo de errado com a amiga. E por a conhecerem tão bem, sabiam que não demoraria muito para descobrirem o que estava acontecendo.
- Vamos. – assentiu, sorrindo para a amiga. – Vou separar as roupinhas para lavar. – disse, pegando as sacolas e já procurando por peças de roupas.
- E eu faço o quê? – olhou para Holly, que se levantou e andou até algumas caixas que estavam no chão.
- Aqui dentro tem algumas peças de decoração, boa parte precisa ser montada, você acha que consegue montar? – ela sorriu gentilmente.
- Você até me ofende perguntando isso. – brincou, já abrindo as caixas.
- Posso ajudar também, vocês sabem que não estou doente. – ela resmungou fazendo uma careta.
- Não, não. A senhorita recebeu ordem médica pra pegar leve, então deixa com a gente que temos tudo sob controle. – falou enquanto se sentava no chão e virava uma caixa.
- Você pode dobrar as roupinhas, se quiser. – falou enquanto enchia um cesto de roupas.
- Obrigada. – Holly sorriu agradecida e voltou a se sentar no sofá, apoiando as pernas na mesa de centro.

Algum tempo se passou e estava concentrada em encaixar as peças de um cavalinho de madeira, mas sua mente de vez em quando lhe enganava e a fazia pensar em , ela suspirava e balançava a cabeça toda vez que isso acontecia, entretanto, na última vez que fez esse ato escutou Holly rindo dela.
- Que foi? – franziu a testa, notando que a amiga dobrava algumas roupinhas que já havia lavado.
- Você quer conversar sobre o ? – a mulher arqueou as sobrancelhas e riu novamente ao ver arregalar os olhos.
não estava escondendo nada de suas amigas, até porque mesmo se quisesse seria impossível, pois as duas conseguiam detectar qualquer coisa diferente nela com uma facilidade incrível.
A verdade era que estava perdida, subestimou os traumas de ao achar que poderia ser amiga dele, pensou que respeitar o espaço dele seria o suficiente para ter a confiança do homem, mas não demorou a descobrir que essa tática não funcionaria. Então achou que o pressionar provavelmente daria certo, mas essa estratégia se mostrou mais desastrosa do que a primeira alternativa, por isso agora se via de mãos atadas.
- Terra chamando . – a voz de a tirou de seus devaneios e ela balançou a cabeça, a amiga se juntou a Holly no sofá e as duas se dedicavam a dobrar as dezenas de roupinhas de bebê. – Quer nos contar o que está acontecendo?
ponderou por um instante, uma hora ou outra ela contaria para as amigas o que tinha acontecido. Por que não agora?
- Foi depois daquele porre que você tomou? Porque antes disso vocês estavam bem. – Holly comentou em tom pensativo.
Ela e não eram bobas, notaram que e haviam se aproximado nos últimos tempos e até comentaram entre si que ficavam felizes em ver que finalmente estava deixando alguém entrar em sua vida. Se alegraram ainda mais quando souberam do soco que ele deu em Spencer, as duas nunca simpatizaram muito com o homem e quase soltaram fogos de artifícios quando souberam que havia terminado com ele.
- Foi sim. – a mulher admitiu, respondendo a pergunta da amiga.
mordeu o lábio inferior e olhou para as duas.
- Eu o beijei acidentalmente. – confessou e foi a vez dela ver as amigas arregalarem os olhos.
- Você o beijou? – deixou a roupinha cair em seu colo.
- Foi um selinho acidental. – explicou e as amigas se entreolharam. – Eu ia beijar a bochecha dele e ele virou o rosto, aí aconteceu. – deu de ombros.
- Você não está tirando com a nossa cara, está? – Holly indagou desconfiada, já que sabia que a amiga era especialista em fazer pegadinhas.
- Adoraria estar brincando, na verdade. – deu de ombros e suspirou em seguida.
- Ele retribuiu? – questionou, tentando entender completamente o que tinha acontecido.
- Foi uma fração de segundos, nem tinha como retribuir. – ela mordeu o lábio inferior. – Na verdade, ele fugiu. – fez uma careta.
- Fugiu? Como assim? – a amiga voltou a lhe questionar. – Literalmente?
- Sim. – riu nasalado. – E agora não quer mais saber de mim.
As amigas voltaram a se olhar e em seguida fitaram , que tinha uma expressão de tristeza no rosto.
- Vocês conversaram? – indagou, parando totalmente sua tarefa de dobrar as roupas.
- Eu tentei, mas ele teve um surto de raiva e desisti. – deu de ombros, fazendo um bico.
- Surto de raiva? – Holly franziu a testa. - Ele foi agressivo?
- Fisicamente não, mas ficou bravo e gritou comigo, dizendo que tenho pena dele e o trato como se fosse um projeto de caridade.
Holly balançou a cabeça, tentando digerir aquelas informações.
- Ele acha que você tem pena dele? – arqueou as sobrancelhas.
- é inseguro. – respondeu, antes mesmo que pudesse dizer algo. – Vocês não acham estranho que ele seja o meu vizinho e não tenha amizade com a gente?
- Ele é amigo do , não? – perguntou, um pouco confusa.
- Amigo não seria a palavra correta, nem sei se poderia dizer que são colegas. – balançou a cabeça negativamente. – Ele consertou o seu pneu, te socorreu quando sua vó passou mal e hoje está emprestando o carro pro Chad, mas quantas vezes ele pediu a nossa ajuda pra algo?
imediatamente se lembrou do dia em que machucou a mão consertando a cerca de sua casa e ela praticamente teve que implorar para fazer um curativo nele. E aquela afirmação de sua amiga confirmava a sua própria suspeita, que não sabia o que era ter alguém do seu lado e, por causa disso, nunca pedia a ajuda de ninguém, mesmo que fosse necessário.
- Você tem razão, . – Holly falou, concordando com a mulher. – Lembro que uma vez de madrugada o Chad ouviu um barulho estranho do lado de fora do bar e quando foi ver era o tentando consertar a própria moto, ele estava ali há horas e em nenhum momento bateu aqui pedindo por ajuda. – Holly contou, reforçando o comentário da amiga.
- Eu já perdi a conta de quantas vezes o chamei pra almoçar ou jantar lá em casa, ele nunca aceitou o convite, nem mesmo quando a Willow o convidou. – comentou em um tom pesaroso.
engoliu em seco, o problema não era só com ela, era algo muito maior e que, talvez, estivesse fora do seu alcance.
- Eu só queria a amizade dele, mas acho que estou sonhando alto. – riu fraco, cabisbaixa.
- E por que você quer ser amiga dele? – Holly indagou, tentando desvendar o que estava acontecendo.
franziu a testa e olhou para a mulher.
- Eu gosto dele, acho que seria importante ter alguém como o na minha vida.
- Importante? – ela tombou a cabeça pro lado, intrigada com a escolha de palavras de .
- Sim, eu quero fazer a diferença na vida dele, mostrar que ele pode confiar em alguém. – explicou, querendo deixar claro suas intenções.
- , sinto em lhe dizer que você sente pena do . – se manifestou, entendendo perfeitamente onde Holly queria chegar.
- O quê? Claro que não! – protestou, totalmente contrariada com a afirmação da sua amiga.
Aquilo não era verdade, sabia muito bem que não tinha pena de , o que ela sentia era empatia.
- Quando o Spencer foi um babaca, o que você fez? Terminou com ele, e agora você está me dizendo que o foi grosseiro com você e ainda quer ser amiga dele?
A expressão confusa de foi se suavizando aos poucos depois de digerir o que Holly tinha dito.
- A que eu conheço estaria aqui indignada dizendo o quanto despreza o e que ele é um machista que deveria ser comido por um crocodilo. – a mulher brincou, tentando não dar um clima tão sério para aquela conversa. – É normal que você sinta compaixão por ele. – Holly continuou e viu a amiga assentir. – A história de vida dele é triste e capaz de comover qualquer um, talvez você sinta que tenha até alguma afinidade com ele, mas pelo que está nos contando, você sente pena do e é por isso que insiste tanto em ter a amizade dele.
não tinha expressão alguma em seu rosto, então o estava certo esse tempo todo?
- Eu gosto da companhia dele... – tentou se justificar.
- Mas a sua determinação em ser amiga do é muito mais que isso, e não é errado você sentir pena dele, só que você é transparente, , e não deve ter sido difícil pra ele ver o mesmo que a gente. – esclareceu e viu a amiga assentir lentamente.
- Quanto maior a armadura, mais frágil é o ser que a habita. – Holly complementou, fazendo refletir aquela frase.
O mais novo era introvertido e isso não era novidade pra ninguém, a péssima reputação de sua família fazia com que as pessoas de Blue Ridge o evitassem, o que provavelmente era mais um motivo para ele se isolar cada vez mais em seu esconderijo interior.
deve ser muito vulnerável por dentro e aquele jeitão dele foi a maneira que encontrou de se proteger, ao perceber que você tinha dó dele, a defesa que ele encontrou foi te afastar. – a mulher concluiu, fazendo assentir vagarosamente.
- Então é uma missão impossível? – mordeu o lábio inferior, já se dando por vencida de uma vez por todas.
- Pra mim seria. – a mulher riu fraco. – Mas pra Joy não é não.
- Não a incentive. – brincou. – Mas Holly está certíssima, não vejo você desistindo dele tão cedo.
abriu um sorriso singelo, aquela pequena conversa tinha sido tão esclarecedora pra ela, sentia-se imensamente grata por ter Holly e em sua vida.
- Mas não seja tão insistente com , o trate com educação e tente ver ele como se fosse uma pessoa sem todo aquele passado trágico, sei que é quase impossível. – a mais velha das três aconselhou.
- Nem me fale. – ela concordou com Holly.
- E se ele for grosso com você, seja pior que ele, sei que é capaz disso. – zombou e piscou pra amiga.
- Sou uma florzinha. – ela tentou fazer uma expressão fofa.
- Aham, os tarados do bar sabem bem disso. – Holly afirmou e as três riram, em seguida voltaram aos seus afazeres e já estava se sentindo bem mais leve depois daquele papo que teve com suas amigas, era como se tivesse tirado uma tonelada de suas costas.

(...)


entrou na farmácia e o local estava praticamente vazio, ela pegou uma cesta de compras e andou até o corredor onde vendiam produtos de higiene pessoal, lá foi pegando o que sua avó tinha anotado na pequena lista que tinha feito.
- Nossa, isso tem ouro na composição? – comentou enquanto olhava a embalagem do enxaguante bucal, que em sua opinião estava com o valor muito alto. Colocou o produto de volta na prateleira e escolheu o de marca inferior, que era alguns dólares mais barato. Ela voltou a reclamar quando viu o preço das escovas de dente, fez uma careta e acabou escolhendo uma de modelo mais simples mesmo. procurava pelo fixador de dentadura que sua avó tinha pedido quando escutou o sininho da porta, anunciando que alguém havia entrado ou saído do local. Curiosa como sempre, ela olhou na direção da porta e arregalou os olhos ao ver quem estava ali: . Mas imediatamente notou que tinha algo de errado, ele estava pálido e andava cabisbaixo, estreitou o olhar quando ele começou a tossir sem parar. O viu espirrar e em seguida assoar o nariz com um lenço. Ele estava doente? Não conseguiu tirar os olhos do homem, notou que ele andou até o corredor de remédios para gripe e resfriado, ele continuou tossindo e aquilo preocupou , que mordeu o lábio inferior. A mulher pensou por um momento, não podia ignorar o que estava acontecendo, mesmo sabendo que queria distância dela. Então se apressou em pegar o que precisava ali na prateleira e andou até o corredor onde o homem estava, se aproximou com cautela e viu que ele tinha duas embalagens de remédio em mãos, provavelmente comparando qual seria melhor pra ele.
- ? – o chamou baixo e ele virou a cabeça bruscamente. – Precisa de ajuda?
a encarou por um momento, aquilo não era possível. Já não bastava ter sido surpreendido no outro dia? Tinha que acontecer de novo? O destino não brincava em serviço mesmo. Só que nesse momento ele estava tão fora do ar por causa dessa maldita doença que mal tinha forças pra responder .
- É só um resfriado. – falou, sentindo a garganta queimar pelo esforço.
Devolveu os remédios na prateleira assim que sentiu que precisava tossir. Notou se aproximando ainda mais e ela o analisava atentamente.
- Isso parece gripe. – ela comentou, franzindo a testa.
A mulher tinha quase certeza que não estava nada bem, era visível que estava muito doente. Ele voltou a tossir e ela colocou a mão em seu braço, querendo o confortar de alguma forma, mas se assustou ao perceber que a pele dele estava queimando.
- , você tá com febre. – falou alarmada e rapidamente colocou sua cesta no chão. queria protestar quando se aproximou ainda mais e segurou o rosto dele com as duas mãos, só que estava se sentindo tão cansado que o seu cérebro não conseguia processar nada direito. - Você está queimando em febre, . – ela constatou colocando a mão na testa dele. – Vai precisar de muito mais que um remédio, sua garganta tá doendo? – indagou e ele assentiu lentamente. – Você precisa ir ao médico. – constatou ao ver que ele suava frio.
- Não tenho dinheiro pra isso. – respondeu com a voz rouca devido a dor que sentia na garganta.
- Você não tem plano de saúde? – arregalou os olhos brevemente e o viu negar com a cabeça. franziu a testa, pensando no que poderia fazer para ajudar o homem. – Tem dinheiro para os remédios? – dessa vez o viu assentir. – Tudo bem, aqui eles sempre tem um médico que a consulta não é tão cara, eu vou pagar pra você e...
- Não. – ele retrucou rapidamente.
A mulher rolou os olhos e bufou com a teimosia dele, nem doente o homem cedia com facilidade.
- E depois você me paga de volta com o seu trabalho. – afirmou e o viu franzir a testa. – Não estou te dando opção, . – falou decidida, o surpreendendo. – Vem comigo. – ela pegou a cesta que estava no chão e estendeu a mão pra ele.
queria recusar, seu orgulho não queria aceitar aquela ajuda da mulher, mas seu corpo estava tão destruído pela doença que acabou cedendo ao pedido dela.

observou atentamente enquanto a médica examinava , ela tentava decifrar as expressões da doutora para ver se conseguia analisar por conta própria a gravidade da situação. Um pequeno apito se fez presente e o enfermeiro que ali estava pegou o termômetro, em seguida anotou algo em uma prancheta. se mexeu na maca em que estava sentado, deixando claro toda a sua insatisfação com tanta atenção que recebia.
- Senhor . – a médica falou, pegando o prontuário.
Se fosse em outra circunstância, teria soltado uma risada com a maneira que a doutora chamou o homem, era a primeira vez que ouvia alguém o chamando daquela maneira formal.
- Você está com gripe, não há duvidas. – afirmou sem tirar os olhos dele, num sinal claro de atenção ao seu paciente. – Sua garganta está infeccionada e isso está causando sua febre, que é o que mais me preocupa no momento.
- Por quê? – a médica se surpreendeu quando o seu paciente e a acompanhante dele perguntaram ao mesmo tempo.
- Me desculpe. – pediu, levemente constrangida com o acontecido.
- Você está com quarenta graus de febre. – suspirou e viu a outra mulher na sala arregalar os olhos. – Você precisa começar o tratamento imediatamente.
- O que tenho que fazer? – ele perguntou, deixando claro em seu tom de voz a preocupação que sentia no momento.
- Você vai tomar uma injeção agora. – avisou e deu o prontuário para o enfermeiro. - Vou te receitar alguns remédios e muito repouso, o seu corpo precisa de tempo para se recuperar. – o homem assentiu brevemente.
- Tudo bem. – assentiu lentamente, aquela gripe era mais séria do que ele tinha imaginado, foi ingênuo ao pensar que um simples remédio seria suficiente para lhe curar.
- Você me encontra lá fora? – indagou para assim que viu o enfermeiro retornar com a injeção que aplicaria no homem, assentiu e ela sorriu fraco pra ele, em seguida saindo da sala de atendimento.
A mulher aproveitou para pagar pelos produtos que tinha comprado e a consulta de , o valor final de tudo ficou bem acima do que ela pretendia gastar naquele dia, mas procurou não pensar muito naquilo, já que a saúde dele não tinha preço.
- Quanto ficou? – ela se assustou e deu um pulinho quando parou ao seu lado no caixa.
- Jesus! – colocou a mão no peito. – Já foi medicado?
- Já, peguei os remédios também. – mostrou a pequena cesta que tinha em mãos. – Quanto ficou? – repetiu a pergunta e ela franziu a testa.
- Segredo. – brincou, amenizando a situação. – Mas você vai trabalhar pra mim por muito tempo. – riu de leve e o viu balançar a cabeça negativamente.
espirrou e se sentiu culpada por estar brincando naquele momento em que ele mal tinha forças pra falar direito.
- Não se preocupe com isso, vamos focar na sua saúde, ok? Depois resolvemos as finanças. – sorriu de uma forma singela e ele assentiu.
Cinco minutos depois os dois saíram da farmácia, fez questão de acompanhar até o carro dele, pois não estava confiando muito no senso de direção dele.
- Você vai devargazinho, tá? – pediu, o vendo ligar o carro. – É sério, . – falou e ele a fitou brevemente antes de voltar a encarar o volante. - Não se esquece de tomar os remédios assim que chegar em casa, viu? – o avisou e ele concordou com a cabeça. – Por favor, se cuide. – pediu, genuinamente preocupada e apertou o ombro de leve.
O homem a fitou por um momento e a surpreendeu com um pequeno aceno de cabeça.
- Obrigada, . – ele agradeceu e foi impossível pra ela não abrir um sorriso imenso.
- De nada, . – devolveu e se afastou do carro, deixando que ele fosse embora.
andou até o próprio carro e seu coração dizia que não poderia deixar sozinho naquele momento, ele não estava em boas condições para cuidar de si, não confiava que ele descansaria de verdade ou que tomaria os remédios nos horários certos, então decidiu que o ajudaria a melhorar dessa gripe o mais rápido possível.




Continua...



Nota da autora: Oi, gente!
Me perdoem? Desde o fim da Copa do Mundo eu ando vivendo um inferno astral imenso e tive um bloqueio muito louco com uma das minhas histórias e bateu um desanimo completo. Mas agora estou – aos poucos – retomando a rotina de escrever. Não desistam de mim, ok? Eu nunca vou desistir das minhas fanfics.
Meu pai amado, como esse homem é difícil, hein? Vocês não tem ideia do quanto eu apanho pra escrever ele kkkkk espero que esteja conseguindo passar tudo o que eu quero e que a história esteja boa também pq né, haja sofrimento. Quando teremos alegria? Hahaha
Há tempos eu tava querendo fazer a PP ter um momento só com as amigas, não sei direito, mas acho que ficou legal e foi um acorda, menina pra ela também. O PP não é tão simples assim de lidar.
Vou fazer de tudo pra mandar o próximo capítulo esse mês ainda e como será a PP enfermeira cuidando desse doente teimoso? E surpresa: ela não vai cuidar dele sozinha. A nossa vovó favorita vai ser muito importante.
Até a próxima, galera.





Outras Fanfics:
Alba (Esportes/Futebol/Em Andamento)
The Last Hope (Restritas/Seriados/Em Andamento)
Minha Garota (Restrita/Finalizada)
05. Around U (Ficstape Ellie Goulding)
12. Army (Ficstape Ellie Goulding)
14. River (Ficstape Charlie Puth)


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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