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Última atualização: 25/06/2020

Prólogo

25 de março de 2021. 19hrs.
Brooksfield, Dakota do Sul.


Em frente a uma tela de computador, via a live do jogo dos Lakers. Seu distintivo de xerife do condado de Brooksfield estava ao lado do celular. Junto às suas chaves do carro e mais um maço de cigarro.
Seu celular estava mais adiante, bastante longe, na verdade. O jogo tinha começado as 18:30 e naqueles trinta minutos iniciais não havia parado de tocar um minuto sequer.
Ele não queria atender.
Havia tido uma briga com sua esposa. Enquanto queria deitar numa cama e transar até o outro dia, Amy queria confraternizar com alguns casais de amigos. A vida social deles era bastante movimentada, ele não reclamaria, mas por muitas vezes, queria ficar sozinho.
Fato nunca facilitado por ela.
revirou os olhos passando suas mãos pelo rosto, olhou ao redor da sua extensa e sofisticada sala e sorriu. As mudanças projetadas e executadas na delegacia tinham ficado por sua conta, um investimento egoísta. Sua mulher tinha ficado completamente incomodada com aquilo. Teriam menos alguns milhares de dólares para comprar coisas extensivas, mas ele não se importava nem um pouco. Futuramente, o xerife da cidade se tornaria prefeito, assim como seu pai, seu avô e toda a dinastia .
Como presente do prefeito, um iMac 21 polegadas para que ele assistisse os jogos de basquete. Geralmente no lugar do jantar perfeitamente pré moldado pela sua esposa impecável.
- , pega – um dos seus assistentes jogou uma latinha de Heineken e ele sorriu pegando – Um jogador de prestígio nunca perde sua majestade, pelo que eu fiquei sabendo – ele deu uma piscadela e o gargalhou negando com a cabeça – As notícias correm soltas, você tinha talento, garoto!
- Sem querer demonstrar algum tipo de soberba – ele sorriu mostrando todos os seus dentes, esnobe – Eu jogo bem até hoje – afirmou divertido.
- Eu sempre fui péssimo no basquete, meu pinto sempre foi futebol – Tommy afirmou divertido – Nada comum nos Estados Unidos da América, não é? Tenho descendência Argentina! Tenho o sangue de Maradona nas veias – ele disse e o juntou as sobrancelhas – Você não conhece o Maradona? Que desafeto! – ele gargalhou olhando para a tela do computador - Quanto tá? – o homem alto e acima do peso questionou e o virou a tela do computador afim de que eles pudessem assistir juntos.
Tommy tinha na faixa dos seus sessenta anos, durante um tempo, foi agente do fbi, até que resolveu junto a esposa mudar-se para uma pequena e pacata cidade, com as indicações certas, ele chegaria para ser xerife e delegado do condado, mas não foi aquela a sua intenção. Tommy gostava de andar nas ruas e mesmo diante da sua idade, aplicar multa para jovens que costumavam beber mais do que o necessário. Sua esposa costumava afirmar que ele precisava de um pouco de calma ou então morreria num infarto, mas o Tommy não se importava. Ele só queria o que tinha, casando perfeitamente com as ambições do e da sua família.
Lado a lado, e o Tommy sorriam a cada movimento ou cesta feita pelo time que ambos tinham em comum. Aquela era uma quinta-feira típica de uma cidade de interior. Basquete e cerveja. Para o , mulheres ficavam em segundo plano. Ou terceiro, dependendo do incômodo e se tratando da sua esposa, talvez até em quarto plano.
O terno estava jogado por cima da cadeira e ele estava com o dedo indicador nos lábios, apreensivo. O time adversário havia feito três cestas seguidas e aquilo seria uma péssima notícia para os Lakers. Na intenção de vencer o campeonato depois de tantos anos na escuridão. Eles sentiam saudades da época do Kobe Bryant. – Eu sinto saudades do Kobe. O ano de 2010 foi inesquecível para mim. Batemos sete vezes os Celtics! Sete vezes, o jogador mais valioso das finais, bons tempos aqueles. – ele resmungou dando um longo gole na cerveja, sorrindo satisfeito ao término – Você não sente saudades dessa época?
- Filho, eu vi o Jordan jogar – ele disse sonhador e o o olhou sorrindo – Não existe melhor jogador do que ele - o mais velho afirmou negando com a cabeça, vendo o olhar para o celular mais uma vez, parecendo incomodado. Pelo horário, já deveria estar em casa com a sua esposa, mas mulheres não gostavam de jogos de basquete e ele não iria perder aquela partida de maneira alguma.
Escutou o celular tocar mais uma vez e negou com a cabeça – Não agora, Amy, não agora – ele sorriu cúmplice para o Tommy.
- Ela acostuma... – Tommy começou uma pergunta no momento em que o prefeito da cidade entrou a passos largos na sala do delegado. Tommy ergueu o corpo e reverenciou o prefeito nervoso, que sequer desviou os olhos do filho.
- Chame toda a sua equipe de investigação, filho – ele falou firme e o ergueu o corpo da poltrona pausando o jogo no computador – Você precisa vir comigo – ele afirmou um tanto pálido e o olhou para ele confuso.
- O que aconteceu, pai? O que aconteceu? Não tem ninguém aqui, passamos das 19 horas e não tem nada além de festas adolescentes, não tem...
- Você precisa vir a sua casa, – ele afirmou voltando o olhar pela primeira vez para o acompanhante do filho – Oi, Tommy. Precisamos de você também. Antes que o noticiário local chegue por lá.
- Na minha casa? – quase gritou pegando a carteira, o celular, colocando o blazer e o distintivo no bolso – O que houve pai? Quem morreu?
O prefeito de Brooksfield olhou para o filho, ele caminhou até o seu corpo e o abraçou fortemente – A Amy foi assassinada – ele disse e empurrou o corpo do pai com força. O homem cambaleou e Tommy o amparou para que ele não caísse ao chão.
saiu da sala e andou pelos corredores do prédio sem olhar para algumas pessoas que estavam ali de plantão. Na sua mente, ele tinha mandado todo mundo ir embora, mas algumas pessoas se limitavam a trabalhar demais. Seus olhos estavam vermelhos e aquilo não poderia ser possível. Ele mexeu no celular e viu as ligações. Seu pai tinha ligado mais de vinte vezes para ele, não havia nenhuma ligação da sua esposa. Apertando o número um da discagem rápida, ele entrou no Land Rover e deu partida cantando pneu. Sua esposa não atendia. O celular caía direto na caixa postal. tinha suas mãos tremendo. Em todos aqueles anos, a cidade contabilizava um número de mortes pequeno o suficiente para tornar o melhor distrito do estado, um dos melhores do país. Sua comunidade era unida e não existia ninguém capaz de acabar com a vida da esposa do xerife da cidade, não a nora do prefeito.
Adentrando sua rua em velocidade máxima, ele estacionou o carro de qualquer jeito na vaga e viu sua mãe parada com as mãos completamente ensanguentadas – Mãe? O que é isso? Mãe? – ele voltou a exclamar passando por ela que chorava abraçada a sua irmã que chorava tanto quanto ela.
entrou na sala, olhando ao redor. Uma cena de um crime. As manchas de sangue estavam por todos os lugares, inclusive nas paredes. Ele sentiu o pulso acelerar sem acreditar no que estava vendo, vestígios de um massacre. Um assassinato. Ela nunca faria isso consigo mesma, não a sua Amy. Suicídio estava descartado.
- Amy? Amy porra, cadê você? Merda de mulher! O que porra você está fazendo? – ele perguntou correndo pelas escadas da casa toda em vidro e magnífica até chegar no quarto deles e ver a esposa jogada sobre a cama.
Sob a luz do luar, o corpo dela repousava repleto de sangue. ligou as luzes do quarto sentindo a respiração falhar.
Ele fechou os olhos fortemente para depois voltar a abri-los.
- Não é possível – ele sussurrou chegando ao lado da cama e analisando as vestes em que ela se encontrava.
Amy estava vestida com uma réplica da roupa que costumava usar todas as vezes em que o capitão do time de basquete entrava em campo.
O uniforme das T-Leaders da cidade estava no corpo dela. Perfeitamente moldado. Para o , a sensação era de que ela nunca tinha deixado de usar.
Ele lembrou dos cabelos loiros presos, dos pompons que ela mexia sensualmente para um lado e para o outro, o recordou-se dos inúmeros momentos em que ela o beijou depois de uma vitória.
Sua esposa estava ali. Deitada com o seu uniforme e ele não conseguia sequer dar um passo à frente para tocar o seu rosto. Se sentia travado. A simples ideia de que aquilo estava de volta a sua vida o deixava nervoso. Aos poucos, foi agachando, até sentar ao lado do corpo dela na cama. A blusa estava toda ensanguentada e ele foi em busca daquilo que sabia que encontraria. O homem ergueu um pouco a blusa branca e azul para ver o que o tinha assustado anos atrás e que voltaria para assombra-ló.

R.

Amy era a letra R do nome da cidade.

Brooksfield.

Ele tinha um assassinato em mãos.
O assassinato da sua esposa.

escondeu o rosto na nuca dela, fechando os seus olhos. As lágrimas certamente não viriam, mas ele poderia descrever o que sentia como a pior sensação que pudesse percorrer o seu corpo.
Era difícil de acreditar.
Muitas vezes a Amy teve medo de que algo parecido pudesse acontecer, mas quinze anos já tinham se passado. Eles não eram mais adolescentes em busca de algo proibido, eram adultos e não precisavam conviver com a ideia de que aquilo ainda estaria ali para assombra-los. Tinham seguido em frente.
Como autoridade da cidade, ele tinha perdido mais uma cidadã.
Uma mulher cheia de princípios, repleta de amor. Caridosa e completamente linda.
Como homem, ele perdeu sua companheira desde o colegial, a mulher que havia escolhido casar. A pessoa mais importante para ele, depois dos seus pais.
E talvez seus amigos.
Ele beijou os lábios dela uma última vez sentindo as mãos tremerem pelo contato e levantou. Seu rosto estava repleto de sangue e ele não se importou, a Amy afirmaria que ele estava nojento e que por isso não merecia beijos, mas ela não poderia protestar ali.
Ela tinha perdido aquele direito.
Ele sentiu vontade de gritar, externar a dor que sentia, talvez a tentativa de assimilar que aquilo realmente tinha acontecido, mas não poderia. Ele precisava agir como um homem de princípios e acima de tudo, frio.
Seu engajamento político não traria para a sua vida nada que fosse menor do que ele já representava e demonstrar fraqueza, chorar ou gritar era sobre aquilo.
foi até o banheiro para tentar lavar-se e trabalhar, se assustando com o que tinha escrito em linhas de sangue.
No espelho do banheiro tinham palavras soltas. Elas não estavam alinhadas, muito menos tinham a mesma consistência. Letras com uma construção mais difícil estavam mais claras, diferentemente das vogais. As letras pareciam terem sido desenhadas com o dedo, talvez o indicador. Ele ergueu a mão até o espelho e recuou, não poderia tocar.
Nem iria.

A culpa também foi sua.

negou com a cabeça pegando o celular e tirando uma foto. Durante alguns segundos, ele pareceu apático, sem saber o que fazer diante aquela frase. Foi como voltar 15 anos atrás e reviver tudo aquilo. O homem negou com a cabeça e fechou os olhos, antes de pegar uma toalha e limpar o espelho.
Ele limpou cada vestígio da frase no espelho do seu banheiro. Obstruir uma evidência seria o ponto importante para que eles não agissem por impulso e a mídia não precisava saber de nada daquilo.
O homem lavou o rosto e suspirando, saiu do quarto.
Desceu as escadas se deparando com a equipe que trabalhava com ele todos os dias.
Sua casa havia se tornado a cena de um crime.
A sua vida tinha voltado a ser reflexo de um assassinato.
As pessoas o encarravam com um olhar acolhedor.
O mesmo olhar que foi lançado a eles quando tudo aquilo aconteceu.
negou com a cabeça se mostrando impenetrável.

A culpa também foi sua.

De si mesmo?
Da esposa?
Da Caroline?
Quem tinha culpa naquilo que havia acontecido?
O que eles haviam feito para uma retalhação daquele tamanho?
Por que a culpa também tinha sido dela?
O que a sua Amy não tão perfeita assim tinha aprontado?


Capítulo 1

O cemitério de Brooksfield era pequeno. Suas grandes árvores agora num tom branco diante a neve que havia caído na madrugada definia aquele local ainda com mais melancolia. Seus moradores marchavam até o espaço escolhido pela família para o enterro. O prefeito estava sentado ao lado da esposa, seus olhos estavam perdidos em lugar algum enquanto ele esperava seu filho.
Em algum lugar daquele cemitério, ele sabia que estava bebendo, provavelmente, resmungando e sofrendo pela morte da esposa, talvez não.
Conhecia bem o seu primogênito para saber que seu maior problema naquele instante era para com o condado, não ela.
tinha muito mais afinco para o poder do que ele e aos 21 anos queria se candidatar a prefeito, algo que depois de muita briga e discussão, foi modificado. Ele cursou Yale, se formou em direito, voltou para sua cidade natal com a namorada do colegial e afirmou que enfim estaria pronto.
Num primeiro momento, teve receio de que o seu filho não conseguisse. Era novo, apenas vinte seis anos, tantos desejos e sonhos para transformar aquele lugar, mas diferentemente do que acreditou quando viu seu filho já adulto e pronto para assumir um cargo de confiança, não optou para sua candidatura junto à prefeitura da cidade.
Ele voltou da universidade cheio de ideias e uma delas foi a de que ele ficaria como xerife do condado até que sua idade fosse notável para um bom prefeito. Casou-se com uma das garotas mais bonitas do lugar, seu amor adolescente, e vivia assim com a população do espaço ao seu lado. Sua carreira era notável e ele tinha muito mais força diante aos interessados no governo, caso tivesse somente chegado aos vinte e poucos anos e se candidatado como prefeito.
Gostava de chamá-lo de gênio nas horas vagas e na frente de outras pessoas, nunca em sua frente. Com fama de mulherengo, seu filho tinha que andar nos trilhos para conseguir uma carreira digna de quem queria muito mais do que a prefeitura de uma cidade. Ele queria o país.
- Onde está o , meu amor? – Tiffany perguntou com o braço entrelaçado ao seu – Onde nosso filho está?

Tiffany estava tão assustada quanto o seu marido. Aqueles dias foram angustiantes para ambos, nas manchetes do estado o rosto da sua nora estava estampado e ela tinha tido o desprazer de presenciar a cena logo após o ocorrido.
Os jantares de quinta feira eram na casa do seu filho, a Amy tinha um enorme apreço por ter a casa cheia, vestir-se impecavelmente e tomar algumas garrafas de vinho com os convidados que tanto gostava. Na aquela quinta-feira em especial, Tiffany foi junto a filha a uma confeitaria e por optar em levar uma torta, saiu de casa mais cedo. No caminho, as duas loiras foram conversando animadamente até que estacionaram o carro ao lado do carro da sua nora e presenciaram a porta escancarada, daí em diante, Tiffany viveu um completo pesadelo.

'A nora do prefeito de Brooksfield, Amy foi encontrada no seu quarto morta. Até o momento, não temos mais informações sobre a causa da morte, mas fontes seguras apontam para assassinato. Algumas testemunhas afirmam não ter escutado absolutamente nada que diferisse o acontecimento de uma simples quinta-feira comum na casa dos . A casa encontra-se isolada e logo mais, teremos novas notícias sobre o caso.'

Aquilo tinha o poder de destruir sua família e ali, ela só queria que nada de ruim acontecesse. Seus olhos percorriam a extensão dos túmulos a fim de encontrar seu filho, mas sabia que não conseguiria encontrá-lo. sempre havia tido um temperamento explosivo em pequenas ocasiões e costumava ser calmo, até mesmo frio, em momentos extensos e repletos de tristeza.
Tiffany relembrou a morte do seu avô e quando ele, aos 6 anos de idade, foi parado por um repórter que cobria o acontecido, o garoto sorriu e comentou que agora se sentia triste porque seu amigo mais velho e sábio tinha ido embora, mas que ele entendia e sabia que um dia, todos os seres que habitavam a terra também iriam embora. Aquele era o seu garoto, ela lembrou.
O futuro daquela cidade e talvez daquela nação.
Um jovem capaz de esconder emoções, um rapaz que costumava controlar tudo o que queria ou quem. Para os controle era uma virtude.

- Eu não sei onde ele está, provavelmente, está com uma garrafa de bebida afim de esquecer o que aconteceu – ele suspirou beijando a testa da esposa, cumprimentando as pessoas que passavam por eles e desejava seus pêsames – A família da Amy já chegou?
- Não, você sabe como a mãe dela costuma gostar dos holofotes, então, se prepare para um show de horror, meu amor – Tiffany comentou negando com a cabeça, levando uma mão até o colar de pérolas – Espero que o esteja calmo.
- Não se preocupe, meu bem, ele sabe o que está em jogo – ele afirmou olhando para um ponto específico e deixando seu olhar por ali.

Num canto isolado, ele viu um jovem de cabelos loiros encostado num túmulo, ele tinha uma garrafa nas mãos e o Prefeito não precisou analisar muito aquela visão para perceber de quem se tratava. Aquela reação extrema, porém, silenciosa, não pertencia a mais ninguém além do seu próprio filho.
segurava uma pequena garrafa de tequila. Suas mãos tremiam e ali, em meio às árvores, ele pensou no que ainda teria que resolver.
A causa da morte havia sido escondida. Ninguém tinha comentários que sobressaíam ao que a polícia da cidade estava informando e ele sabia que isso um dia iria explodir. tinha total certeza de que uma hora ou outra as pessoas começariam a comentar. O caixão da sua esposa havia sido lacrado, mais um motivo para o questionamento da população. As imagens que viu no seu quarto ainda estavam presas a sua mente e ele queria poder voltar aos seus dezoito anos, antes de tudo aquilo.
Ele levou mais um gole aos lábios. Não existia suspeito, não houve suspeito há anos atrás. Sua equipe de investigação tentava montar uma linha cronológica dos acontecimentos a fim de analisar com mais precisão a similaridade, mas nada parecia fazer sentido para ele naquele instante.
Amy estava morta. Sua esposa pacata e perfeita estava completamente acabada. fechou os olhos pesadamente.
- Merda de lugar – ele exclamou jogando a garrafa numa árvore, vendo-a se chocar com o tronco e seus cacos serem lançados ao chão coberto por grama banhada em neve – Isso é uma merda de vida – ele voltou a resmungar olhando para o líquido que havia modificado o tom da neve em alguns pontos específicos. Seus olhos ficaram perdidos ali por tempo o suficiente para que ele viajasse mentalmente até quinze anos atrás.
Faziam exatamente quinze anos que não pisava naquele cemitério. Aquela era a parte boa da pequena cidade, ninguém morria. A população não era idosa, as pessoas não costumavam morrer, o que sempre foi algo divertido para o homem. Seu pai já tinha ido algumas vezes, mas ele era o garoto revoltado e não se sentia muito bem caminhando pelos corredores escuros e repletos de árvores daquele cemitério que tinha o nome do seu bisavô.

Leonard .

Na magnífica entrada vitoriana a estátua do criador da cidade, que morreu com mais de cem anos, estava estonteante e imponente. Ele estava em cima de um cavalo e vestia a armadura de guerra. Um circo magicamente perfeito digno da sua plateia.
encostou a cabeça num túmulo e fechou os olhos, o homem se sentiu incomodado diante os pensamentos que assolaram a sua mente, logo que abriu os olhos se deparou com cabelos ruivos a sua frente e olhos verdes, cristalinos, escondidos num óculos de mais de mil dólares. Ela caminhou a passos lentos até o corpo dele e o abraçou sem falar absolutamente nada, ele não teve outra opção além de entrelaçar suas mãos ao redor da cintura dela e apertar, juntando ainda mais os corpos deles. movimentou suas mãos pelas costas dela, descendo um pouco mais e depositando suas mãos um pouco abaixo da sua cintura. Ela em contrapartida, percorreu os lábios pelo pescoço dele que revirou os olhos impaciente, respirando fundo.
- Agora não é hora, Penny – ele disse no ouvido dela com a voz rouca, escutando o gemido da mulher completamente disponível – Preciso repetir? – afastou o seu corpo do dela e passou a mão pelo cabelo em desalinho – Dá um tempo, ok? A Amy acabou de morrer, nem enterrada ela foi e você quer o que?
- Eu posso te ajudar – ela segurou a mão dele entrelaçando seus dedos – Eu posso ser o seu suporte, eu... eu posso ajudar você.
- Mulheres... – ele revirou os olhos se afastando dela novamente – Eu não perdi a minha mulher para colocar você no posto dela, não. Eu poderia ter colocado anos atrás e nunca quis – ele comentou – Você é uma transa boa, e só.
- Você precisa parar de ser um canalha, ! – ela exclamou alterada – Eu estou tentando ajudar você, meus sapatos estão apertando o meu pé e eu percorri todo esse caminho até você, eu procurei por você! – Penny deu passos até o corpo dele juntando os corpos de ambos, passando os lábios pelos dele – Por favor – ela assentiu com a voz trêmula – Me deixa te ajudar – ela sussurrou e ele encarou o rosto bem esculpido dela negando com a cabeça – Eu... sempre fomos amigos, eu posso... eu posso – ela percorreu uma mão pela sua perna, até subir até a virilha, percorrendo a mão pelo seu membro – Eu posso te ajudar – ela voltou a dizer no ouvido dele, mordendo sua orelha, antes de puxar a nuca dele com a outra mão para que seus lábios se chocassem.
afastou seu rosto rapidamente sem desviar os olhos do rosto dela.
– Penny, eu falei que não! – ele alterou o timbre negando com a cabeça – Tenha consideração, sua amiga morreu, não seja egoísta – ele afirmou seco – Que você só pensa em você eu sempre soube, só tente disfarçar, sim?
- Quem disse que a Amy... – ela iniciou a fala e parou por um instante – Desculpe, estou nervosa, todas nós estamos – comentou - Todas as garotas estão sofrendo, estamos todas com... - Ela desfez o nó feito no sobretudo, desabotoando os botões sabendo que ele a olhava curioso. Penny deixou à mostra o uniforme de líder de torcida para ele – Estamos todas aqui para homenagear a Amy.
Ele piscou algumas vezes olhando fixamente para a blusa que ela tinha no corpo. O tom de rosa estava meio gasto, uma relíquia de muitos anos atrás. A letra estava no meio das listras com diferentes tons de rosa e preto. A gola alta com uma faixa em pink e o restante em preto, as mangas cumpridas e o nome da escola na lateral.

Brooksfield college.

- Por que vocês estão vestindo isso? – seu tom adquiriu um timbre baixo, quase como um sussurro. olhou ao redor e foi até ela fechando o sobretudo com rapidez e destreza – Não fica andando por aí com isso, Penny, não façam isso.
- Por quê?
Ele negou com a cabeça apertando ainda mais o nó feito, vendo-a movimentar o corpo, gemendo baixinho.
– Porque a vida de todas vocês estão em risco, certo? – segurou o rosto dela por entre suas mãos e beijou a sua testa – Se cuida, Penny – ele afirmou e ela voltou a insistir.
Penny Hasting puxou o corpo do homem para si, sorrindo de lado, ela roçou o corpo de ambos enquanto ele se afastava lentamente sem um movimento mais brusco, mantendo ainda assim os dois próximos - Transar aqui nunca foi problema para você – ela sussurrou tentando outra aproximação, vendo-o movimentar diante seus passos laterais até afastar o corpo do dela completamente – Qual o problema, ?
Ele encarou a mulher impecavelmente bem vestida, com saltos altos e finos, um batom no tom dos seus cabelos e uns óculos escuros. Ela tinha um sobretudo preto e fechado, deixando à mostra somente a calça preta em alfaiataria.
– Sua melhor amiga acabou de ser assassinada – ele comentou simplesmente e sem desviar os olhos do rosto dela, observou a mulher retirar os óculos do rosto e encará-lo com os lábios tremendo. – Exatamente. E adivinha o que ela usava? Como ela foi encontrada?
- Não... Não é possível – ela sussurrou negando com a cabeça – Não ... não depois de...
- Qual é a sua letra, mesmo? – O homem sorriu sarcástico – Cuidado, viu? Você pode ser a próxima – Ele cantarolou observando o olhar da mulher arregalar – Ou você acha que quem quer que tenha feito isso quinze anos atrás vai voltar, acabar com a vida da Amy e ir embora? Óbvio que não! Vocês todas vão ser mortas, entendeu?
Penny encarou por alguns segundos. Seus olhos repletos de rímel piscaram diversas vezes na tentativa de assimilar com precisão o que aquele homem estava afirmando.
– Você está falando isso como xerife ou como... como...
- Eu estou falando isso como amigo, Penny, como o cara que te come há uns anos enquanto você vive casada e repleta de filhos – ele deu de ombros, frio – Cuidado na sua vida – comentou dando as costas para ela, caminhando por entre as árvores tentando assimilar as novas diretrizes que a sua vida iria tomar.

Na medida em que o seu corpo ia se aproximando do amontoado de pessoas, ele sentia os olhares voltarem para ele. Desde muito cedo, teve que lidar com aquele tipo de atenção, sua família sempre havia sido o centro daquele lugar e quando a adolescência chegou, adicionou a sua lista extensa de virtudes, a beleza. Loiro, alto, olhos azuis. tinha um sorriso capaz de acabar com a vida das garotas daquele condado, para completar, um aluno exemplar e o capitão do time de basquete. A braçadeira foi dele até o seu último ano do colegial e como todo garoto bem nascido, a universidade não tinha sido feita ali.
Para , aquelas pessoas eram como abutres. Eles ficavam esperando um tropeçar ou um segundo de deslize para começarem a se opor. Sempre foi constante a sensação de que a situação do governo da sua família se tornaria oposição ao pequeno vestígio de erro ou incapacidade, algo que nunca ocorreu.
Ele sabia que algumas pessoas tiravam fotos do viúvo que acabara de perder a esposa de modo tão brutal, mas para ele não se limitava somente em perder um ente querido. O não conseguia tirar a imagem do corpo da esposa da mente em momento algum, a menção de que aquilo havia voltado a acontecer tinha conseguido transformar um momento de sofrimento em algo que ele não tinha conseguido definir até ali. As perfurações na pele da sua esposa, a letra em seu peito. A colocação da sua pele e principalmente aquele uniforme antigo.
- ? – ele escutou seu nome e voltou o olhar para o seu lado esquerdo. Próximos a uma árvore, Richard e Nathan estavam parados, ambos estavam perfeitamente bem vestidos e tinham um cigarro nas mãos – Quer vir aqui, cara? – Richard questionou se aproximando do amigo que havia parado de andar – Como você está? – eles se cumprimentaram com um abraço e o loiro limitou-se em assentir sorrindo fraco.
- Nós ficamos... meus pêsames, cara – Nathan afirmou dando uma tragada antes de abraçar o amigo carinhosamente – Nós estávamos indo para a sua casa quando... quando vimos o que realmente tinha acontecido, a Penny ficou preocupada com o que tinha advindo, mas falei que seria melhor não entrarmos, você provavelmente gostaria de ficar sozinho.
- Ela ficou é? – ele questionou alheio vendo os dois amigos encararem seu rosto. passou a mão pelo face fechando os olhos por um segundo – Ela... ela era tão nova, eu... tão bonita – ele disse alheio para os dois homens – Eu não sei como alguém tem coragem de...
- Você não tem dúvidas? – Richard indagou – E que foi assassinato? O Timmy falou que as dilacerações... – ele cessou a frase percebendo que o amigo o olhava completamente pálido – Que.... que não deve ter sido fácil para você ver...
- Eu... foi do mesmo jeito, cara – sussurrou baixinho – Os cortes, a maneira em que ela ficou posicionada na cama como se estivesse dormindo, eu já vi aquela cena... eu não...
- Não, Chris – Nathan negou com a cabeça dando uma longa tragada antes de jogar o cigarro no chão, pisando em cima – Você está errado, eu acredito realmente que... foi semelhante eu não acho que...
- Que o que, Nathan? – voltou a perguntar – Que ela foi assassinada? Que foi a mesma pessoa que acabou com a vida da Caroline? Qual a letra da sua esposa? Cuidado, viu? – Ele afirmou veementemente – Eu tenho certeza de que foi um serial killer que acabou com a vida da minha esposa e dessa vez... eu vou acabar com a vida dele.
- Cuidado, Chris – Nathan afirmou negando com a cabeça voltando seu corpo para o amigo e o abraçando mais uma vez – Vou ao encontro da Penny, qualquer coisa... você sabe onde me procurar – Ele disse terno cumprimentando o Richard e caminhando para longe deles.
Richard e observaram o Nathan abraçar a esposa pela cintura e entrelaçar suas mãos as dela. Ele cochichou algo no seu ouvido e ela ergueu o rosto até que pudesse depositar um beijo rápido nos seus lábios, voltando o olhar para frente. Penny parecia estar num reality show. As câmeras imaginárias da mulher estavam focalizadas no rosto das pessoas que não tiravam os olhos das melhores amigas da Amy.
- 'A Penny estava preocupada' – Richard sorriu de lado transcrevendo o amigo, levando o a revirar os olhos – Você é muito garanhão, viu? A mulher não te esquece mesmo. Você tem comido ela?
- Raramente – Ele deu de ombros displicente – Minha amada e adorada esposa estava desconfiada nas pernoites em que fiquei de plantão na delegacia – sorriu de lado – A parte em que ela estava ficando louca por inventar que eu estava tendo um caso não estava funcionando mais e você? Como está a Hannah? – Ele questionou preocupado – Ela tem estado bem?
- Mais ou menos, ela... quando eu falei sobre o que tinha acontecido, ela não dormiu a noite e eu tive que sedá-la – Richard explicou – Inclusive, desculpa por nossa família, cara. Ela não tem condições de vir até aqui. Está com a minha sogra, as crianças também.
- Cara – depositou um braço no ombro do amigo – Não se preocupa com isso, cuida da Hannah, mantenha sua família, todo cuidado é pouco – Ele advertiu sério – Eu... eu sou um merda por ter feito tanta coisa errada com a Amy, mas... eu não... a culpa foi minha, você... não acha?
- Por que a culpa seria sua? – Richard sondou confuso – Não tinha como você prever o que estava ou ia acontecer, . Foi um acaso.
- Não foi um acaso, nem agora, nem há quinze anos atrás – afirmou encarando as pessoas mais a frente – Nada do que aconteceu com elas duas foi um acaso, Richard, absolutamente nada – Ele disse uma última vez, abraçando o amigo antes de caminhar até o túmulo aberto da esposa e ver seu caixão começar a ser movimentado.

não abraçou ninguém, nem chegou muito próximo aos pais da sua esposa.
Elena estava aos prantos e parecia posar para os flashes no seu melhor ângulo. A mãe da sua falecida esposa tinha cílios postiços e estava vestindo preto. Os lábios vermelhos e o cabelo perfeitamente alinhado e loiro davam a impressão de que aquela senhora completamente fantasiada de mãe aos prantos estava ali não somente pela morte da sua filha, mas para aparecer em frente a todos os jornais do estado, quiçá do país.
As rosas brancas estavam em suas mãos, a cerimonialista tinha entregado no momento em que o apareceu próximo ao caixão e ele estava com os olhos fixos naquela imponente e grande caixa de madeira maciça. Os detalhes em ouro estavam nas laterais do caixão, assim como o nome da mulher bem ao meio.

Amy .
Amada esposa, amiga e filha.

Durante três dias, teve que se preocupar com a cremação dela. Seus pais não queriam que sua filha fosse enterrada, mas tão diferente da tradição da sua família, ou a falta dela, a família tradicional tinha uma parte exclusiva daquele cemitério e assim como seus familiares, Amy também seria enterrada.
Elena chorou e suplicou para que tudo tivesse que ser feito à sua maneira, mas não deixou. A mulher não era dela e ao abdicar do seu sobrenome, ela seria uma para todo o sempre, participando de todos os rituais que eram cultivados de geração em geração.
O corpo passou uma noite na abadia da família no cemitério, algumas pessoas puderam ver e deixar rosas, outras eram proibidas por se tratar de um evento privado.
Em todo o momento o caixão dela esteve lacrado. Apenas os puderam passar um tempo com o corpo da Amy. Assim como apenas os estiveram presente no culto oferecido pelo pastor da cidade. Ninguém mais, ninguém menos.
Logo após o primeiro momento, a abadia foi aberta e os cidadãos comuns puderam deixar rosas para a falecida. O evento durou cerca de vinte minutos. Amigos e conhecidos da Amy compareceram em um bom número. O terceiro momento, era o último e daí em diante, a normalidade do sepultamento de uma cidadã comum.
Familiares gerais em frente ao caixão para depois o seu fim.
optou por silêncio. Não quis que ninguém afirmasse absolutamente nada, não escolheu por um pastor ou pela família afirmando quão perfeita a sua esposa era. Eles não precisariam de mais um interlúdio.
Quando mais rápido aquilo tudo terminasse, mais eficaz ele poderia voltar a ser um instrumento do trabalho daquela cidade, deixando de lado o marido sofredor que tinha acabado de ter a esposa assassinada.
As entrevistas começariam naquela mesma tarde e junto ao Prefeito da cidade, tinha um discurso a fazer.
Amy não voltaria mais para os seus braços, então que ele pudesse ser o responsável por matar nos mesmos braços que afagou os cabelos da sua esposa, aquele que acabou com a sua vida.
- Por favor, Amy, não nos abandone! – Elena afirmou retirando os óculos para evidenciar suas lágrimas – Por que, filha? Queremos justiça para você, quem fez isso precisa pagar! – ela se posicionou perfeitamente no seu melhor ângulo enquanto deixava suas mãos sob seu rosto afim de demonstrar sofrimento.
revirou os olhos encarando sua mãe que o recriminou apenas com um olhar. O homem negou com a cabeça desejando as últimas rosas sobre o caixão enquanto sua sogra ainda se limitava em chorar alto. As pessoas estavam num silêncio fúnebre e absolutamente ninguém se posicionou próximo a Elena naquele momento. Seu marido e pai da Amy, um sujeito simpático e infinitamente calmo, se limitou em deixar que suas lágrimas pelo sofrimento de ter perdido sua única filha fossem o suficiente para expor diante de todas aquelas pessoas.
Suas lágrimas continuaram por todo o momento em que a terra era jogada por sob o corpo da garota, ao longe, observou seu companheiro da delegacia e sem fazer muito alarde, caminhou até ele enquanto as pessoas entoavam alguma música que ele tinha total certeza de que a Amy odiava.

'Nos funerais, só se ouvem palavras de surpresa por aquele morto estar morto'
Jacques-Benigne Bossuet.

mantinha junto a sua mente frases célebres de todos aqueles que mantinham uma ideia diferente da sua, Jacques Benigne sempre acreditou na teoria do direito divino dos Reis, justificando que Deus delegava o poder aos monarcas.
Em se tratando de Brooksfield, uma cidade pequena repleta por descentes da sua dinastia em prol da unificação divina, onde a plebe os via não somente como uma família de políticos, mas a mão de Deus sob os homens, talvez Bossuet não estivesse tão incorreta assim.
Apesar de diferirem dos paradigmas da igreja, tinha a ideia de que mesmo protestantes possuíam o poder da divindade. No caso da soberania da sua família, assim como os Tudor na Inglaterra.
A democracia daquele lugar era mascarada por uma onda de nepotismo. Um reflexo de um país completamente em caos e uma política que passa longe da perfeição e transparência.
O sentimentalismo nem sempre era o caminho para grandes figuras e ele não se limitava a ser um ser humano sentimentalista.

caminhou até o Timmy e sorriu fraco para ele. Timmy tinha os olhos repletos em lágrimas e abraçou o outro fortemente a fim de confortá-lo.
- Senhor – ele começou com a voz embargada – Meus pêsames, eu não sei o que falar diante dessa tragédia, tudo o que o senhor puder ou quiser de ajuda, se precisar de alguns dias, se necessitar de um afastamento diante a dor que experimenta, eu me sinto em total controle para ajudar em tudo o que o senhor precisar.
- Não precisa Timmy, eu estou bem – ele afirmou depositando batidinhas nas costas do companheiro – Você sabe alguma novidade sobre a autópsia? Além do... do que eu já sei? – O loiro questionou um pouco temeroso – Eu... estou muito abalado diante do que está acontecendo, mas com muita força para lutar contra a pessoa que deferiu tanto mal a minha família.
- Não sei, não sabemos absolutamente nada – O mais velho afirmou – só uma coisa... o senhor teme pela... pela...
- Eu gostaria de uma viatura na casa da Laurie – Ele disse apontando para a morena que estava com o blazer aberto, exibindo para todos os presentes o uniforme de torcida em homenagem a amiga – Eu quero alguém vigiando a casa dela pelas próximas vinte e quatro horas – afirmou sério – E precisamos de alguém para auxiliar nas investigações, temos pouquíssimas pessoas.
- Mas... já foi solicitado senhor – ele afirmou sério e o o encarou confuso – Hoje pela manhã, chegou na delegacia uma garota, ela... ela se chama...

escutou passos distantes no pequeno cemitério e ergueu o olhar que estava até então preso no rosto do seu auxiliar. Ele movimentou seu corpo dando passos largos até o mais próximo da mulher que pode. Ela tinha cabelos curtos e escuros, olhos do mesmo tom de castanho. Sua pele alva e seus lábios vermelhos. Ela estava com uma calça de couro preta e uma camisa de botão, sobre os ombros, tinha um sobretudo nude e naquele momento, sem encarar seus olhos, ela passou a mão pela franja que caia pelo seu rosto. A mulher em questão estava completamente submersa em seu mundo e quando passou pelo sem enxergá-lo, levou o homem a virar o rosto de volta para onde seu assistente estava, vendo-a conversar seriamente com ele.
- O que você estava fazendo aqui? – caminhou a passos largos até os dois e ela ergueu o rosto até ele – O que você está fazendo aqui, ?
- Vocês já se conhecem? – Timmy perguntou olhando de um para o outro enquanto eles se entreolhavam sem desviar – Ela é... a nova detetive, senhor.
- Você é o que? – ele alterou a voz e algumas pessoas olharam para eles a fim de tentar entender o que estava acontecendo. pigarreou ajeitando o corpo, passando a mão novamente pelo cabelo – Você é o que?
- Oi, – ela sorriu lindamente para ele – Surpreso em me ver? – a mulher questionou zombeteira enquanto o homem ficou completamente vermelho – Surpreendi você? Em algum ponto? Não achei que você me reconheceria...
- Como... como eu esqueceria de você? – ele perguntou num fio de voz desviando os olhos dos dela e encarando o seu auxiliar que o olhou com os olhos arregalados, negou com a cabeça – Seja bem-vinda de volta. – Ele afirmou seco – Espero que você não demore muito – assegurou caminhando até seus amigos que olhavam para a recém chegada com um olhar incrédulo.
sorriu de lado observando todas aquelas pessoas. Timmy, ao seu lado, a contemplava como se estivesse esperando o momento em que a mulher fosse explicar o que estava acontecendo ali, mas ela não tinha o menor interesse.
Ela abriu seu melhor sorriso ao velhinho e o abraçou, revirando os olhos sem que ele percebesse – Irei precisar da sua ajuda, Timmy – ela voltou a sorrir falsa – As pessoas aqui não gostam muito da menina nerd que nunca conseguiu fazer parte das animadoras de torcida – sorriu triste enquanto o senhor de idade a olhou assentindo veemente – Meus pais morreram quando eu era muito jovem, sempre morei sozinha em Brooksfield e eu... sempre tentei fazer parte... eles nunca quiseram ou deixaram, eu nunca tive uma coroa – ela disse com lágrimas nos olhos.
- Ô meu anjo, como não? Você é tão linda quanto elas – ele disse simpático, tocando a mão da garota e beijando em sinal de respeito – Eu estou ao seu lado para o que você julgar necessário, eu e minha esposa estamos sozinhos por aqui, caso você não tenha onde ficar... nós... podemos ajudar você.
sorriu mais uma vez afastando a mão da dele. Seus olhos já não continham lágrimas e ela deu um beijo estalado na bochecha do velho, assentindo. A mulher desviou os olhos dos dele, depois caminhou lentamente até a saída do cemitério, limpando sua mão nas suas vestes para voltar a encarar mais uma vez aquelas pessoas que sofriam pela perda de mais uma animadora de torcida.
As lágrimas delas eram falsas, assim como as suas. O teatro era encenação, assim como o seu. Para , aquelas pessoas mereciam pagar por tudo o que tinham feito a ela no passado e por que não pagariam? – Não se preocupe, afirmou para si mesma – Não vou demorar muito na sua cidade perfeita, não se preocupe, querido camisa 10 – a mulher falou antes de caminhar pelas ruas desertas daquela cidade que tanto representou para ela. Os piores anos da sua vida. As piores pessoas que teve o prazer de conhecer. Não todas. Brooksfield representava a hipocrisia dos americanos e a sua soberba no pior parâmetro. Ela passou uma mão pelo rosto, suspirando pesadamente – Bom, duas já foram – afirmou colocando luvas pretas nas mãos, entrando no carro, seu olhar recaiu sob o retrovisor e um turbilhão de lembranças recaíram sobre o seu corpo, páginas de um livro que estavam lacradas – Seja bem-vinda de volta, querida


Capítulo 2

estava encostada na mesa que haviam designado para ela. Pequena, num canto escuro e bastante empoeirada. Depois de levar algumas horas até que ela deixasse o lugar habitável, a mulher enfim se sentou, o que não demorou muito tempo, fazendo-a levantar-se.
O computador estava quebrado e ela teve vontade de ir até a sala do xerife e gritar com ele, mas não o faria. Seus olhos fixaram-se na porta fechada da sala de reuniões e mordendo a tampa de uma caneta, ela balançou a perna completamente nervosa.
Seu primeiro dia no distrito não estava sendo um dos mais fáceis, teve que lidar com repórteres diante de uma investigação que não tinha absolutamente nenhuma informação e o seu companheiro de busca não era lá alguém interessado no que realmente tinha acontecido.
Para , o Timmy não tinha experiência o suficiente para ter que lidar com um possível assassino em série. As conversas não haviam sido com um grau de intensidade e informação, ele parecia ser um homem inteligente, mas não era astuto ou tinha noção de termos técnicos que definiriam as investigações junto a ela. A mulher se viu completamente sozinha num canto escuro de um lugar que ela não tinha absolutamente ninguém para ajudar.

Além dele.

não tinha perdido o tom esnobe com o tempo. Ficara sabendo que o até então capitão do time de basquete da escola havia ido a Yale e tinha cursado direito, o mesmo curso que ela. Em universidades diferentes, tinha conseguido entrar na Brown e desde o momento em que pisou na cidade de Providence, nunca mais saiu.

‘In Deo Speramus’

Ela tinha para si aquela frase desde o primeiro dia em que pisou na Brown. No começo, seu pensamento voltava-se o tempo todo para sua antiga cidade e com uma certa dificuldade, ela começou a se apaixonar. Tivera professores bons o suficiente para ajuda-la a superar seus traumas e ter como o lema, um ponto alto para sua vida a partir dali. nunca tivera uma religião e jamais julgou a soberania do Cristianismo, tampouco qualquer outra religião que discriminasse tudo aquilo que não qualificavam como os seus, mas deixando de lado seus paradigmas, em Deus esperamos, havia se tornado uma base fortificada de uma personalidade que fora construída por toda a sua vida e intensificada pelo campus. A Primeira faculdade dos Estados Unidos a aceitar alunos independente das suas religiões. Da Ivy League, a Brown era de longe, junto as suas crenças, a melhor faculdade para alguém como ela.
Sua carreira e sua vida chegariam no ponto em que sempre tivera sonhado e a cada dia que passava, seu almejado cargo no FBI se encontrava mais próximo das suas mãos, até o dia em que teve que responder a um pedido da sua mentora junto a um velho amigo.
E daí surgiu o momento em que recebeu o bendito telefonema.
era a melhor aluna nas aulas sobre investigação, havia sido assistente de uma psiquiatra forense no estudo de características específicas de assassinos em série e como eles vinham trabalhando na atualidade com o acesso à informação. Mindhunter era seu livro de cabeceira e a expressiva caracterização das mulheres naquele meio repleto por homens tornou a dupla que formaram em algo singular, chamando assim, atenção de alguns agentes.
tentava com todo o seu ímpeto, não pensar no que estava prestes a acontecer na sala de conferência. Não tinha sido convidada para enquadrar a equipe que participaria da coletiva e sequer se importou com tal feito. Não tinham muito sobre o que dissertar para os jornalistas que em sua grande maioria, possuíam o desejo de descobrir sobre todo, sem se importar com descrição.
Suas pernas não paravam de balançar e ela olhava para a enorme porta de tempos em tempos, muitos repórteres entraram naquele instante na delegacia e ela não pensou duas vezes em ir até a sala de conferência. A mulher aperfeiçoou o blazer sob o corpo e negou com a cabeça ao indicar o distintivo ais seguranças que barraram a entrada de qualquer outra pessoa que não trabalhasse na DP.
Um pequeno palco estava ao meio daquela sala, uma cadeira de couro bem posicionada e uma mesa. Em frente aquela mesa, algumas cadeiras estavam perfeitamente bem colocadas e Timmy estava sentado completamente jogado e a vontade numa cadeira da última fileira. o cumprimentou com um sorriso e ele sorriu cúmplice a mulher.
Timmy havia apresentado a para sua esposa. O homem mais velho a definiu como uma mulher sozinha que precisava de proteção, desejando que ela ficasse em sua casa por um tempo indeterminado, mas ela preferiu ficar num pequeno loft que alugou por uma temporada. Tempo o suficiente para resolver tudo. Ao menos ela esperava que fosse rápido. Levando-a para sua cidade.

Nunca mais precisaria pisar em Brooksfield novamente.

No fundo da sala, estava com as mãos na gravata enquanto o seu pai conversava algumas palavras ao seu pé do ouvido. Para os presentes naquele ambiente, o homem com a barba por fazer e intensos olhos azuis estava completamente seguro de si para quem acabou de perder a esposa. Uma hora ou outra ele sorria enquanto mexia mais um pouco na gravata afim de afrouxá-la. A equipe de comunicação da prefeitura estava se movimentando. Adicionando as câmeras em locais estratégicos para os melhores ângulos.
sentia alguns olhares sob o seu corpo, a maioria daquelas pessoas cujo não faziam ideia de quem era aquela mulher de calça jeans e scarpin que estava em pé observando cada milímetro daquele lugar. A desconhecida investigadora que já havia se tornado assunto em todas as rodinhas de fofoca. Muitas pessoas não se recordavam de quem se tratava, diferentemente do homem que acabara de perceber a sua presença.
afastou o corpo do seu pai e caminhou a passos onipotentes até a , seus olhos cruzaram com os dela e ele a cumprimentou com a cabeça, indo até o Timmy e afirmando alguns pontos ao mais velho. tentou escutar o que eles conversavam baixinho, sem obter sucesso algum. Aquele ambiente não era desconhecido para a mulher, diante da sua trajetória junto à psiquiatra e mentora, havia presenciado momentos como aqueles, em busca da solução de alguns casos. A única diferença era o lugar em que a ela se encontrava.
Anteriormente, sempre ficava na escuridão. Os holofotes nunca estiveram tão próximos ao seu corpo como naquele instante e sem conseguir concluir aquele pensamento, parou exatamente em frente a ela. Os olhos de ambos ficaram fixos um no outro e ele deu o primeiro passo para um cumprimento. O homem assentiu com a cabeça e beijou sua bochecha, a deixando um tanto desconcertada. Voltando o seu olhar para os olhos dela, ele deixou que um sorriso sorrateiro brotasse dos seus lábios quando ele sabia que todas as atenções daquela sala estavam sob os dois. sentiu o rosto ficar ainda mais quente diante o olhar em que ele a lançava e num misto de vergonha e inquietude, ela passou a mão pela calça e depositou as mãos aos bolsos, desviando os olhos do homem a sua frente – Boa tarde, investigadora – o tom de voz dele estava um tanto rouco e ela tentou ignorar o sex Appel que aquele homem exalava por todos os poros – Pronta para sentar ao meu lado na coletiva?
- Como é que é? – piscou os olhos algumas vezes tentando assimilar o que ele estava perguntando, a mulher voltou a visão para a mesa principal e observou uma cadeira idêntica à dele, num canto – Eu não vou sentar ali, não tenho o que responder – A mulher protestou e ele deu de ombros desinteressado – , as coisas não funcionam dessa maneira, existe um protocolo a ser seguido, eu não tenho material, sequer tenho em mãos o resultado da biópsia. Não faço ideia do que foi adquirido no DNA e não...
inclinou o tronco até o corpo dela e se aproximou do seu ouvido, sentiu o hálito de bebida alcoólica, fazendo a pulsação do seu corpo acelerar – Minha cidade, meu condado, minhas regras – o homem sussurrou no ouvido dela, antes de afastar o corpo de ambos e desviar o contato visual. Durante alguns segundos, eles ficaram na mesma posição, até que o xerife foi chamado por um dos seus assessores, caminhando até a mesa. encarou os olhos do homem que endireitou o corpo antes de uma contagem.
Ele atravessou uma pequena porta dianteira, ao lado do palco montado, observou a sua volta e as pessoas se estavam se movimentando a todo o vapor. Os retoques finais estavam ali, a sua frente. Uma coletiva de imprensa perfeita. Ela observou as cadeiras e cada uma delas continha um pequeno papel, nele, as diretrizes de como talvez a entrevista seria conduzida. A mulher caminhou até a última fileira e inclinou a cabeça a fim de ler o que tinha escrito junto a folha em de oficio milimetricamente pensada e adicionada ali.

O Departamento de polícia da Cidade de Brooksfield tem a honra de recebê-los na data de hoje.
É com imenso pesar que adicionamos acoplado a essa coletiva de imprensa, o triste acontecimento que envolve a nossa tão amada cidade.
Junto ao desejo de vingança, reconhecemos o trabalho espetacular dos nossos funcionários, liderados pelo nosso oficial e assim sendo, agradecemos qualquer tipo de contribuição.
De antemão, sejam breves e tenham sempre em mente a dor e a angustia que os familiares sentirão ao se deparar com matérias sensacionalistas, nós, apenas buscamos pela proteção das nossas vítimas.
Atenciosamente,
A direção.


piscou algumas vezes tentando entender o que havia lido naquele pedaço de folha de oficio A4, sua mente se demorou até realmente captar a mensagem prestativa. Era um ultimato, algo que nunca havia presenciado em toda a sua vida. Diante dos seus olhos, uma equipe da Polícia estava tentando limitar as palavras do jornalismo local, algo que a deixou um tanto perplexa.
Em alguns anos de estudo e trabalho na área, nada a havia alertado para o que se depararia ao retornar a Brooksfield. Certamente, o que viveria a levaria facilmente para um patamar de manipulação elevado.
Não que no mundo em que vivia, isso fosse um grande problema.

Três,dois,um. Todos a postos?

Uma mulher de estatura mediana, cabelos loiros e presos num rabo de cavalo, com fones de ouvido e segurando uma prancheta afirmou, num tom de voz elevado. Dois seguranças se posicionaram junto às abas de uma porta até abri-las. No mesmo instante, em perfeita sincronia.
não teve tempo para cogitar possibilidades, ao menor indício da porta sendo aberta, a mulher viu uma multidão de pessoas caminharem e se acomodarem de qualquer jeito nas cadeiras. Ela afastou-se rapidamente enquanto celulares, câmeras e gravadores foram posicionados. Quanto todos se estabilizaram, Renata, a mulher loira que possuía um crachá no meio no peito com seu nome escrito, assentiu para que as pessoas enfim fizessem silêncio.
Por toda a extensão da sala, alguns jornalistas cochichavam animadamente. Cidades pequenas tinham uma limitação muito grande de novos contratados e geralmente todo mundo tinha uma vasta lista de contato, algo que se aplicaria perfeitamente a Brooksfield. escutou a porta lateral ao palco ser minimamente aberta enquanto a Renata afirmava em alto e em bom som o nome do senhor do local. Ela prendera a respiração no instante em que ele caminhou a passos largos até a cadeira de couro, acomodando-se e erguendo a visão para os demais presentes.
Um silêncio mórbido tomou conta do espaço e todos os olhares estavam fixos no homem que estava com um semblante sério. A testa do estava franzida e linhas de expressão eram facilmente observadas por todos que estavam ali. Ao seu lado esquerdo, parado e analisando a postura do filho, estava o prefeito da cidade.
Sr. estava de terno. Suas mãos estavam nos bolsos da calça e ele tinha o olhar fixo. Algumas câmeras focalizavam o rosto do Prefeito e ele não se deixou abalar ou se intimidar.
- Primeiro o pronunciamento – a organizadora afirmou séria, enfim parando de percorrer a extensão do local, ficando seus pés junto a mesa enquanto os membros da imprensa observavam-na atenciosos – Logo após o pronunciamento do Xerife, investigadora, ao lado do Senhor estarão disponíveis para explicar algumas indagações da imprensa – ela afirmou – Agora, somente fotos e gravações, nada além disso – Renata finalizou o discurso e caminhou até a saída da sala, se posicionando ao lado da porta aberta, falando num comunicador.
sentiu o corpo tremular e sem ter tempo para procurar alguém, uma pasta fora entregue em suas mãos por um homem devidamente bem vestido. Ela abriu a pasta e começou a observar o material. Exames de DNA, imagens da cena do crime e nenhum tipo de novidade. Os Dna’s não interferiam nas buscas pelo culpado, só existia o dela até aquele momento. O modus operandi em comparado ao caso anterior era o mesmo e aquilo a incomodou um pouco. Não havia sido instruída a absolutamente nada e por isso, não tinha noção até onde falaria ou responderia as perguntas. Seu chefe lidava com uma certeza junto aos dois casos já vividos e não sabia como explicar nada daquilo aos jornalistas, principalmente por não ter estudado absolutamente nada.
pigarreou no microfone e ela ergueu o olhar para o rosto do homem, os flashes ainda pipocavam em busca do melhor ângulo do Xerife e ela nunca teve tamanha certeza diante das pretensões do .

Brooksfield era uma cidade pequena, não existia a necessidade de uma coletiva num âmbito profissional daqueles, mas ela entendia bem o porquê daquele show particular. – Boa tarde a todos – ele começou com uma voz completamente segura de si – é com muito pesar que me encontro nesta coletiva para afirmar que a nossa cidadã Amy fora assassinada em sua residência. Como chefe da jurisdição da cidade, afirmo que faremos o possível para encontrar o sujeito que cometeu tal barbaridade e como marido daquela mulher magnífica, afirmo que nada no mundo poderá suprir a ausência em que ela deixará nas nossas vidas – cruzou os braços tentando estudar as feições frias do homem. passou uma mão pelo rosto e suspirou pesadamente, fechando os seus olhos - O criminoso, no momento em que prática o seu crime, é sempre um doente – o homem afirmou negando com a cabeça – Fiódor Dostoiévski escutou o silêncio absoluto daquela sala e resolveu continuar – em Crime e castigo, Dostoiévski deixou visível o arrependimento e confusão da mente do personagem principal que assassinou duas mulheres, para mim, fica claro a qualquer custo de que não existem crimes perfeitos e uma hora, o criminoso tende sempre a se deixar questionar suas ações. Seja por uma lembrança de um passado diferente do habitual ou por um medo de ser pego. Assim dizendo, temos em mente que faremos o possível para trabalhar diante os erros e angústias do assassino em questão e caminharemos certos diante a bagunça que isso tende a definir nosso distrito. No mais, agradeço a compreensão e o carinho de todas as pessoas para conosco. Como marido afirmo, ainda dói e vai doer pelo resto da minha vida, como xerife deixo claro que colocaremos esse assassino na cadeia – por último, ele assentiu, olhando ao redor e fixando seus olhos nos do seu pai, que deixava um pequeno sorriso transcender pelos seus lábios.
olhou ao redor do seu corpo e pôde constar que as pessoas sequer conseguiam respirar com destreza.
colocou para as pessoas uma face do crime que talvez ninguém estivesse preparado e aquilo deixou a mulher ainda mais nervosa diante do que poderia fazer sentada ao lado dele. Com toda a citação filosófica e profunda dada anteriormente, um frio na espinha se fez presente e ela levou a mão a nuca. O homem apontou para a mulher e a chamou para que ela se aproximasse do seu corpo, não teve muito o que fazer além de caminhar pelo pequeno corredor até a cadeira que rapidamente tinha sido posta ao lado do homem. A mulher sorriu um pouco sem jeito e olhou de lado para o , ele não a encarava, somente bebericava algo dentro daquela xícara, o que levou a crer que não era café o interesse dele. pegou a xícara de café que fora depositada em frente ao seu corpo já acomodado na mesa ao lado dele levou aos lábios observando a porta da sala de reuniões ser aberta por um policial – Boa tarde, me chamo e sou a chefe de investigação desse caso, particularmente, no momento, temos em certeza o assassinato da Amy como premeditado. Um homicídio de primeiro grau. São os cometidos mediante envenenamento, emboscada ou crimes premeditados, como o caso que temos em mãos. Junto a futuras informações, entraremos em contato com a imprensa para novas coletivas, mas por hora... não temos mais a acrescentar – comentou se sentindo completamente incomodada, sabendo que tinha falado absolutamente tudo errado. Quando fora pega de surpresa, não preparou um texto, muito menos sabia como prosseguir.
Os cliques diante o seu rosto deixaram a um tanto tonta e ela deu mais um gole no café que estava em sua frente, ela teve a visão um tanto turva e ajeitando o óculos no rosto, a mulher sentiu a perna do roçar a sua num contato mais íntimo – Mantaremos uma força tarefa em no máximo três dias para conseguir maior resultado diante a procura de um suspeito – ele afirmou logo depois para assentir quando a chefe de comunicação da prefeitura afirmou que eles estavam prontos para as perguntas – lembrando que não iremos afirmar nada além do que já foi inicialmente combinado. Nenhum tipo de exposição dos fatos.
Algumas mãos foram levantadas e piscou algumas vezes na tentativa de contabilizar. Sua visão estava turva e essa reação se construía diante o nervosismo por estar presente junto aquelas pessoas. sorriu para o jornalista e voltou a roçar a lateral do seu joelho a da mulher ao seu lado.
- Boa tarde, me chamo Michael e a pergunta... por que a contratação de uma investigadora de outro lugar para esse caso em especial? – um homem de cabelos grisalhos, que segurava um gravador questionou – já existe algum tipo de suspeito?
- Primeiramente, oi Michael – respondeu – temos pouco tempo de investigação e não podemos afirmar nenhum tipo de questionamento referente a possíveis suspeitos, isso é restrito e confidencial. Não temos a intenção de alarmar ninguém.
- Presamos pelo bem estar dos nossos cidadãos e por assim dizer, fomos em busca de pessoas de fora do condado para nos ajudar com os esclarecimentos diante as pistas que encontraremos referentes ao caso – concluiu a frase da , movimentando a mão por sobre a mesa, a escondendo por baixo do móvel, percorrendo-a pelo joelho da mulher. sentiu o rosto corar e trocando um olhar com o homem ao seu lado, viu um sorriso no canto dos lábios, antes dele retirar a mão e voltar a segurar a xícara por entre suas mãos.
Uma mulher ergueu a mão assim que ele finalizou a resposta, ela quase ergueu o corpo da cadeira afim de que o escolhesse a sua pergunta e quando o homem apontou para a mulher, ela se limitou em deixar um sorriso espaçar seus lábios – Mayana, tudo bom detetive? Primeiramente, meus pêsames diante o que aconteceu e eu gostaria de saber se vocês já ligaram o caso que aconteceu com o caso Siena Merso ao assassinado da Amy. – Uma mulher na faixa dos seus vinte e poucos anos, caucasiana e bastante bonita questionou interessada – Ambas eram animadoras de torcida, então possui alguma evidência de um assassino em série?
- Bom, não iremos descartar nenhum tipo de possibilidade aqui. Como afirmado anteriormente, começaremos pela reconstituição da cena para depois partirmos para a investigação em si. Qualquer tipo de evidência ou movimentação diferente que tenha ocorrido pelas imediações do crime, estamos a postos para receber, o telefone para contato está disponível e teremos equipes vinte e quatro horas para analisar tais pistas, se forem possíveis – afirmou e olhou para ele completamente surpresa. Um silêncio voltou a se instalar no local. quando ele deu de ombros.
- Olá, xerife, meu nome é Couby e eu gostaria de saber se a vítima foi violentada – ele comentou e trocou um olhar com o . O homem sentiu o maxilar trincar e sem responder absolutamente nada, ele se limitou em negar com a cabeça um tanto incomodado. Desde o dia em que sua esposa foi morta, nenhuma reação foi mais plausível do que aquela que o se deixou transcender naquele instante e por observar o que tinha acontecido desde que havia sido designada para aquele caso, soube que seria melhor intervir.
- Couby, olá – ela afirmou forçando uma simpatia para com o homem negro e másculo que estava parado com um celular na mão – Essas informações até o momento são meramente pessoais e confidenciais, a coletiva a princípio somente teve um teor iniciativo; Tranquilizar a população, assim para como a imprensa, afirmando que estava tudo dentre os conformes até o momento, estamos trabalhando para conseguir obter resultados conclusivos do caso.
acenou para a mulher que organizava o evento e ela o olhou, ele ergueu uma sobrancelha e voltou a afirmar sem proferir uma única palavra, diante do seu movimento, a mulher afirmou aos presentes que as perguntas por hora haviam cessado, finalizando a coletiva.
Um burburinho se tornou presente e se deixou observar as pessoas tão confusas quanto elas, deu um longo gole na xícara e não falou absolutamente nada, algumas pessoas tiraram mais fotos de ambos e ela se aproximou um pouco do corpo dele, recuando logo em seguida, incerta diante ao que pareceria aquela aproximação para falar com ele.
- Por que acabou? – cochichou próxima ao que se limitou em dar de ombros sem afirmar nada. Aos poucos, os seguranças foram indicando a saída para os jornalistas que ainda estavam de um lado a outro, talvez tentando se localizar diante daquela interrupção. se encontrava assim como eles, completamente submersa em mais cliques que certamente sairiam na primeira página do jornal local. O prefeito da cidade se aproximou do filho e o cumprimentou, ela desviou os olhos das pessoas que saíam daquela sala e tentou assimilar o que verdadeiramente havia acontecido.
- Você foi perfeito, filho – o prefeito afirmou dando tapinhas nas costas dele, acomodou o corpo para trás e ergueu os braços sorridente – preciso e enigmático, acredito que a repercussão será bastante positiva – O velho sorriu largamente e seus olhos transbordavam orgulho. assistia aquela cena um tanto incrédula. A sua frente, pai e filho comentavam sobre a facilidade da coletiva e seus pontos positivos, em partes, eles e a divisão de homicídios, estavam afirmando a uma população que um assassinato havia ocorrido na pacata cidade de Brooksfield, um assunto para ser lidado com total discernimento e cautela, mas perante os dois homens que se cumprimentavam sorridentes, parecia um palanque político. Nada mais do que isso.
- Acho que eu poderia ter sido melhor – coçou o queixo pensativo – acredito que não atuei bem no papel de viúvo sofredor, talvez eu devesse estar suspirando ainda mais um pouco para cair nas graças do público.
- Você não precisa disso, meu filho. As pessoas já estão comentando sobre o seu sofrimento, tão jovem e solteiro novamente – o prefeito deu de ombros bastante satisfeito e voltou o seu olhar para o no momento em que ele rompeu numa gargalhada – Você é o garoto dos olhos do lugar, eu não poderia me encontrar mais orgulho – o mais velho afirmou.
- Vocês já perceberam que tem um assassinato para ser discutido? O assassinato de uma mulher? – questionou sem conseguir controlar a fúria que pairava pelo seu corpo – o egocentrismo dá uma trégua? – a mulher questionou erguendo o corpo da cadeira encarando o que agora a olhava sério – uma mulher foi morta e vocês possuem mais um assassinato nas costas, existem mulheres que vão sofrer por causa dos erros cometidos por vocês e vocês só conseguem pensar em si mesmos?
O prefeito observou a mulher de cima abaixo, torcendo o nariz. Seu olhar era completamente superior a ela e ele deu de ombros quando virou o rosto para o seu filho – quem é a garotinha, mesmo?
- , pai – falou divertido com a situação – a nossa pequena órfã – seu tom de voz era completamente esnobe e ela sentiu um pouco o corpo estremecer – O senhor não lembra dela? Estudou comigo no colegial e fora da escola foi estudada, não é ? – O sorriso de lado denunciava o tom de deboche em que ele afirmava aquelas palavras. Senhor voltou a observar a mulher se deixando sorrir junto ao filho.
- Não lembro muito bem – o velho observou – mas certamente você chamou atenção do meu filho – ele disse sorridente – espero que faça bem o seu trabalho, um rostinho bonito não é suficiente para mim, para ele pode até ser, mas para mim não – O prefeito deu de ombros cumprimentando novamente o filho enquanto caminhava a passos largos para fora da sala. voltou seus olhos até o e negou com a cabeça, transbordando ódio.
- Gostaria de saber que discurso foi esse – o olhou completamente contrariada – você não estudou para saber como se portar diante o público? Por favor, ! Pareceu um show de horror sem o menor resquício de profissionalismo – ela reclamou dando a volta na mesa enquanto era seguida por ele, passando pelos seguranças e policiais ao sair da sala – você passou dos limites.
- Por quê?
- Porque não estamos num palanque político, uma vida está em jogo, porque você... – ela negou com a cabeça completamente alterada – Como você chegou até aqui sem se importar com absolutamente nada além de si mesmo?
Ele caminhou afrouxando a gravata irritado – Você precisa ser sarcástica? – questionou e deu de ombros sem responder absolutamente nada – Eu estou falando com você, !
- Como? Nem percebi, está falando comigo? - ela comentou e ele ergueu o olhar ao redor puxando-a pelo braço até a sua sala, fechando a porta com o pé – você acha que você pode vir aqui e mandar na minha jurisdição? – questionou soltando o braço dela que massageou um pouco, juntando as sobrancelhas incomodada – não estou para brincadeiras, ! Eu estou falando sério, muita coisa está em jogo aqui.
encarou os olhos fulminantes dele e se limitou em cruzar os braços desafiadora. Nunca tinha se deixado limitar por homem nenhum que havia tentado diminui-la somente por ser mulher. A igualdade feminina estava atingindo níveis absurdos, ela conseguia lidar com homens sem que na sua grande maioria fosse diminuída pela sua beleza ou por ser mulher, mas ainda existiam jurisdições como a do . Repletas por homens machistas onde não existia nenhuma mulher policial ou detetive.
Quando recebera um telefonema da sua chefe, a mulher se colocou à estudar o que poderia fazer de novidade ali, sem muitas delongas, ela afirmou que o nepotismo era marca registrado da cidade como se ela realmente não conhecesse e aí, tudo se dava pelo seu local de nascimento.
Um passado remotamente diferente da realidade que a acompanhou por tantos anos.

havia nascido no Canadá e se mudado criança para Brooksfield, mas para tirar qualquer tipo de má intuição daquele lugar que tinha tantas coisas negativas para lembra-lá, ela se limitou a mudar completamente seus antecedentes.
Para qualquer pessoa que se colocasse em posse da sua ficha, ela nunca havia pisado naquela cidade.
- Vamos lá... a sua possível candidatura a prefeito? Estou em dúvidas... Como você conseguirá agora que está solteiro? Solteiro não... viúvo. Sempre tive a ideia de que as pessoas preferiam confiar naqueles que tinham uma grande família com uma estrutura completamente efetiva e feliz, mas aí tem você, não é? O filho do prefeito e bisneto do fundador da cidade. Ainda estamos lidando com esse tipo de sujeira? – perguntou sentando-se na cadeira, cruzando as pernas enquanto ele ainda estava parado em pé – o nepotismo ainda se aplica da mesma maneira.
foi até o corpo dela, inclinando o tronco enquanto seus braços iam até as laterais da cadeira e ele se segurava ali, seus olhos azuis ficaram na mesma altura dos olhos dela e ela não desviou. Eles ficaram se encarando por um longo tempo. Uma infinidade de palavras prestes a serem expostas sem o menor intuito de partir para ataque. As faiscas eram bastante notórias, caso tivesse mais alguém naquela sala. se limitou em negar com a cabeça, deixou que um sorriso brotasse dos seus lábios. O sentimento de ter vencido aquela briga silenciosa a levaria a lugares espetaculares. Christina não costumava sair de uma discussão, mesmo que sem uma única palavra proferida, pelo menos até ali – Você é uma merda de uma mulher inconsequente, não é? – ele negou com a cabeça erguendo o corpo, indo até o frigobar pegando uma cerveja – você quer? – o loiro questionou e ela negou com a cabeça.
- Eu não bebo – afirmou e ele ergueu uma sobrancelha, gargalhando sonoramente. A mulher sentiu as bochechas aumentarem a sua coloração, a deixando um tanto sem jeito diante da reação dele – não mais, – ela disse virando o pescoço para olhar para o homem, que agora bebia todo o conteúdo da longneck de uma vez – Quanta testosterona, Brooksfield não saiu de você nem um segundo enquanto você estava em Yale? Nossa! Qual a necessidade de tomar todo o conteúdo de uma vez, isso não é... legal – a mulher afirmou enojada e ele se limitou em sorrir de lado.
observou o sorriso dele percebendo que ele continuava sendo o mesmo garoto de anos atrás, somente a barba existente que modificava um pouco naquele rosto bem esculpido e talvez algumas linhas de expressão e veias no pescoço. Ele continuava o mesmo cara. Ela endireitou o corpo na cadeira e virou o rosto para frente – o que nós iremos fazer daqui para frente?
- Eu tenho uma casa sem funcionamento, podemos montar uma equipe de ação por lá – ele afirmou sério – você quer quantas pessoas na equipe? – perguntou e levantou o corpo sobressaltada – o que foi, ? Você foi a pessoa contratada para solucionar o caso, eu tenho recursos, nós podemos ajudar você. Na verdade, você é a pessoa que tende a nós ajudar, irônico, não? Você ajudando a solucionar esse caso em especial? – o homem a observou estreitando o olhar enquanto ela estava com os olhos fixos num ponto cego naquele instante.
- Não acho que seja irônico, é o meu... trabalho – afirmou sem muitas palavras.
- Você tem envolvimento com o caso, menos que eu tenho, obviamente, mas ainda sim... eles não... não sabem disso?
- Eu não... eu não sou de Brooksfield na minha ficha, aqui... eu não coloquei nada daqui, eu... – ela parou de falar suspirando, negou com a cabeça, afastando por um momento aquela conversa até mesmo de si mesma e continuou o assunto principal – já que você está me oferecendo um imóvel que sabe-se lá como você conseguiu, todo atencioso.. Quem colocou aquela mesa no fundo do lugar completamente empoeirada e com um computador quebrado? – a mulher cruzou os braços enquanto ela voltava a abrir um largo sorriso para ela que negou com a cabeça – como você afirma que quer me ajudar quando na verdade, você quer me ferrar?
- Eu? Que injúria! Calúnia! Difamação! – ele brincou pegando outra longneck, abrindo com o dente – qual é... você precisa admitir, as brincadeiras eram a melhor parte da nossa adolescência.
- Óbvio, quando você era o mandante, não a pessoa que sofria as consequências – ela sentiu o rosto ruborizar enquanto ele que tomava mais uma vez a garrafa inteira de cerveja – você nunca sofreu consequência nenhuma, não é?
- E você sofreu? – a olhou jogando a segunda garrafa no lixeiro, ecoando o barulho pela sala enquanto ambos ficavam em silêncio se encarando – você realmente sofreu alguma consequência me tendo ao seu lado?
não respondeu. A mulher balançou a cabeça incomodada, evitando o olhar dele que estava completamente inquisitivo.
- Três pessoas são capazes de guardar um segredo, se duas delas estiverem mortas – afirmou baixinho e ele a olhou sério. caminhou até o corpo dela e segurou o seu braço, tocando por sobre o tecido da camisa, rapidamente se afastou dele e negou com a cabeça – o que foi? Você não cansa de ficar tocando nisso? Mais de dez anos, , supera.
- Superar o que? – ele riu – no momento eu preciso superar a morte da minha adorada esposa – o homem bateu palmas assentindo sorridente, indo novamente pegar outra cerveja – sabia que ela adoraria saber que você voltou? – torceu o nariz diante aquela afirmativa e negou com a cabeça – é sério! Ela falaria para todas as outras garotas querendo ter um momento nostálgico com elas... Sabe quem se casou com a Penny? O babaca do Nathan.
- Seu melhor amigo – observou voltando a cruzar os braços.
- E seu ex namorado – ele observou atento às reações dela.
torceu o nariz e fez careta – ele não é o meu namorado e nem nuca foi, , você não para com isso? – ela afundou o corpo na cadeira relembrando aquele passado no qual ela sequer falava sobre – você parece que continua aquela vida de anos atrás.
- Eu quero só ver quando ele souber que você voltou, ele não vai se controlar... – ele saiu cantarolando, deixando de lado por completo o que ela tinha comentado antes – você se casou, ?
- Não interessa – a mulher afirmou caminhando até a porta – eu não quero ter essa conversa com você bêbado, disse ríspida enquanto segurava a maçaneta abrindo – são 16 horas da tarde ainda, não é hora para você beber.
- Aqui? Brooksfield? Meu pai manda nessa cidade, minha família é dona da metade dela, quem disse que eu não posso fazer o que eu quiser? – ele voltou a sorrir terminando mais uma garrafa – ops – ele se preparou para jogar a longneck – e lá vai o faltando três segundos para acabar o jogo, de fora do garrafão – se movimentando, ele agachou um pouco, adicionando a garrafa por entre suas mãos acima da cabeça enquanto a jogava perfeitamente até a pequena cesta de lixo – três pontos e acabou o jogo! mais uma vez campeão e cestinha do nacional. Para onde o nosso número 10 caminhou? Onde ele estava naquela hora, ?
- Você já está bêbado? – a mulher perguntou um pouco preocupada e ele gargalhou negando com a cabeça – eu vou para a minha mesa.
- Eu fui atrás de você, você lembra?

voltou o seu olhar para o homem naquela sala e se deixou levar pelas emoções.
Eu fui atrás de você, você lembra.

sempre tinha sido o cara que conseguia manter todas as garotas da escola aos seus pés por frases de efeitos como aquelas. Mantinha um ar de que não se importava e realmente não dava a mínima para ninguém, o ponto crucial entre as garotas da sua idade era que ele era infinitamente bom com as palavras. Para ela, ele não tinha procurado pelo seu olhar na quadra, muito menos fora atrás da garota que naquela época era somente mais uma estudante. tinha um hall de mulheres para ir diretamente, para e aquilo sempre ficou claro.
- eu não estava lá, você sabe bem onde eu estava – ela respondeu por entre os dentes – onde eu vou sentar? – a mulher alterou a voz ao questionar enquanto ele caminhava até a sua mesa moderna e assinada por um arquiteto famoso, jogando o próprio corpo, dando de ombros. A flexibilidade da cadeira o levou para trás numa rapidez capaz de despertar em um certo incômodo por achar que ele cairia.
– Sei lá, , quer sentar-se no meu colo? – ele questionou – você era mais divertida naquela época, não, não... calma, você sempre foi chatinha, não é? – negou com a cabeça – a garota que teve os pais mortos num acidente de carro. Você não acha que a sua história parece com aquela série... como é o nome? Já sei! The Vampires Alguma coisa, não lembro o resto. A Amy adorava ficar revivendo aquela série idiota sem nada a acrescentar somente porque ela se achava a tal da garotinha que ficava entre dois caras, como é o nome dela?
pegou a garrafa que estava embaixo da sua mesa e começou a tomar o whiskey sem se importar com o lugar em que ele estava. Estava de saco cheio de todas as pessoas querendo que ele agisse com um pouco de loucura diante da morte da sua esposa e talvez se enchesse a cara, finalmente chorasse pela perda dela, já que não parecia se importar o suficiente – você trouxe essa garrafa quando?
- essa? – ele mostrou a ela sorridente – hoje pela manhã, o papai queria que eu desse meu pronunciamento e sempre que ele não está se importando com alguma coisa o bastante, ele se deixa beber para parecer um pouco mais emotivo e interessado no assunto, tentei fazer igual, mas não funcionou muito. Então, eu tive outra tática. Sabe qual foi? Eu lembrei que tem um serial killer a solto e ele pode matar pessoas que eu realmente gosto, por exemplo, a mulher do meu melhor amigo que tem um problema mental desde... – ele parou de falar enquanto ela o observava interessada – isso não interessa a você... mas e você, ... qual o seu trauma das t-leaders?
- Eu nunca fui t leader, não faço parte do grupo delas, eu... nunca fui – a mulher travou o maxilar ao afirmar aquela frase e ele pôde observar o quanto aquele assunto ainda parecia incomodá-la.
- Sim! Eu tinha esquecido – ele afirmou coçando a cabeça – eu esqueci que você não fez parte do grupo delas somente porque não tinha dinheiro o suficiente, esqueci disso. Que tolo eu sou. Por que você não fincou namoro com o Nathan? Ele sempre foi rico, poderia bancar você enquanto você trabalhava de garçonete.
sentiu todas as inseguranças voltarem ao seu corpo e sem afirmar uma única palavra ao homem que estava mexendo no celular completamente despreocupado, ela negou com a cabeça antes de sair daquela sala sem olhar para trás. A DP estava repleta de pessoas caminhando de um lado para o outro, a imprensa tinha sido certeira ao lidar com aquela morte como um assassinato recorrente, então os telefones não paravam de tocar um segundo sequer. Ela caminhou até sua mesa no fundo da grande sala, sentando-se na cadeira e espirrando algumas vezes. A mulher passou a mão pelo nariz e fungou ainda incomodada pela quantidade de ácaro existente ali.
Dois dias de volta naquele lugar e todo o seu passado tinha sido escancarado, sua boca salivou e ela quis encontrar um bar para virar um copo de vodka. Aquilo esquentaria seu organismo e talvez ela conseguisse continuar sem que aquele ódio que sentia por todas aquelas pessoas não interrompessem os seus planos. Seria necessária muita calma para que ela agisse com profissionalismo e deixasse de lado pessoas inconsequentes como o , seu chefe.
O grande problema daquele lugar eram as suas pessoas. Todas viviam a procura de um holofote junto à família nepotista e ela sempre se manteve distante, por hora. conseguia ter tudo o que queria sem arcar com as consequências dos seus atos e por isso aquelas pessoas da faixa etária de ambos eram tão inconsequentes. Elas se baseavam no filho do prefeito para agir e aquilo nunca daria certo.
Não tinha dado para ela, mesmo que indiretamente, num passado.

965 dias sem colocar uma gota de álcool na boca. No começo suas mãos tremiam ao se deixar próxima de qualquer bebida com um pequeno teor alcoólico, ela farejava o cheiro como um lobo faminto, mas com o tempo e o controle da mente aquilo foi deixado de lado, assim como muitas coisas na vida da .
A mulher apertou o botão para tentar ligar novamente o computador e escutou o beep interminável e a tela azul. Ela desligou na tomada completamente frustrada. Precisava começar a trabalhar, e quanto mais rápido se sentisse submersa em todos aqueles acontecimentos que tinham a necessidade de andamento, mais fugaz seria seu deslocamento para longe daquela pequena cidade.
não se definia como uma mulher com cicatrizes do passado, não sofria pensando nos erros que tinha cometido ou nos envolvimentos que a definiram como a pessoa em que ela havia se tornado. Ela lidava bem com tudo aquilo e sabia que o seu único problema seria a nostalgia de se deparar com assuntos em que ela não cogitava viver por mais de oito anos.
A vida que tinha construído estava esperando-a e tudo o que ela desejava, era voltar e recomeçar do momento em que teve que ir embora.
Sem nenhum vestígio em que o passado e o futuro se encontravam.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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