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Última atualização: 06/04/2021

Prólogo

Acompanhei o ritmo da batida que ecoava nas caixas de som, porém mantive meu olhar atento nos dançarinos à minha frente. Balancei a cabeça em sinal de negação ao ver que a primeira fileira estava novamente errando os passos que estávamos ensaiando o dia inteiro.
Dei pause na música que rodava no meu celular, consequentemente desligando a caixa de som e deixando que o silêncio reinasse no estúdio. O grupo me encarava com olhares cansados e irritadiços, cansados das minhas interrupções.
— Porra, gente, eu não estou entendendo vocês hoje. — falei olhando para o modesto grupo de oito pessoas. — Eu já perdi as contas de quantas vezes eu interrompi o ensaio hoje, e olha que só estamos no início da coreografia.
— Se você fosse um coreógrafo menos imprestável, não estaríamos tendo esse problema agora. — Jayden respondeu, tomando a frente do grupo e saindo da formação, ficando frente a frente comigo.
Encarei o homem à minha frente, não contendo o riso de escárnio, e o encarei dos pés à cabeça, notando a expressão soberba em seu rosto. Cruzei os braços à frente do corpo e balancei a cabeça levemente em sinal de negação. A necessidade de Jayden de sempre estar no comando era simplesmente patética.
— Bom, se você não está satisfeito, a porta é logo ali. — apontei com uma das mãos para a porta do local. — Não obrigo ninguém a participar do grupo, mas se você acha que eu sou incompetente, eu obrigo você a sair.
Quase pude notar a tensão presente nos olhos do restante do grupo espalhando-se pela sala e envolvendo eu e Jayden no meio, porém estava pouco me fodendo para isso.
— Se você me acha um mau coreógrafo, recomendo você formar a porra da sua própria equipe. — mantive o braço esticado na direção da porta.
Jayden revezou o olhar entre meu rosto e a porta que eu indicava, dando um tapa em minha mão e virando-se para sair. Não fiquei surpreso e muito menos mudei minha expressão ao ver sua namorada e seus amigos o seguindo para a saída do estúdio.
— Eu saio da porra dessa equipe, mas você e seu grupinho não pisam nunca mais nesse espaço para sequer um ensaio. — a voz raivosa de Jayden ecoou por todo o cômodo, fazendo com que os olhares do restante do grupo caíssem em mim.
Permaneci em silêncio até que Jayden batesse a porta do pequeno estúdio de Lauren, prima da sua namorada, e voltei o olhar para os membros remanescentes do meu grupo.
— Nós estamos completamente fodidos. — Dylan murmurou ao parar ao meu lado. — Não temos um lugar para ensaiar e muito menos uma equipe.
— Vou conversar com a Lauren, talvez ela...
A risada irônica de Dylan me cortou.
— Você acha que ela vai ficar contra a prima dela só pelo fato de que vocês dois se pegam às vezes? — o tom debochado de Dylan me fez revirar os olhos. — Não sei se é autoestima ou autoconfiança, porém você precisa baixar a bola.
— Não custa tentar. — respondi conforme me afastava, seguindo pela porta que me levaria até as escadas para a casa de Lauren.
Parei no meio do caminho ao ver Anna conversando com a prima, não contendo o revirar de olhos. Permaneci no degrau em que eu estava e apoiei minhas costas na parede, esperando que Anna fosse logo embora.
Fixei meu olhar em Lauren e sorri abertamente, aumentando um pouco mais meu sorriso ao ver a morena afastando-se da prima e descendo os poucos degraus que nos separavam.
— Não adianta me olhar com essa cara. — seu cenho franzido contrastava com o sorriso em seus lábios. — Anna já me falou tudo.
— E então? — questionei em tom baixo, alisando sua bochecha com meu polegar.
Lauren riu e negou levemente com a cabeça, afastando-se do meu toque e cruzando os braços à frente do corpo.
— Ela vai usar o espaço, , não posso deixar você aqui também. — murmurou ao quebrar nosso contato visual, tornando a olhar para a prima. — Sinto muito, mais você vai precisar arrumar outro lugar.
— Tudo bem, meu anjo. — beijei sua testa e me afastei.
Olhei para cima e observei Anna me encarando com um sorriso debochado nos lábios, levantei o dedo médio em sua direção, ouvindo uma risada baixa de Lauren.
Tornei a descer os degraus, seguindo com a minha pose de imbatível, porém a quem eu queria enganar?!
Eu estava completamente fodido, e só me restava uma opção.

Prólogo II

— Vamos, do início. — a voz de Andrea ecoou pela sala, sendo logo acompanhada da música que voltava a tocar.
Aquela deveria ser, sem sombra de dúvidas, a sétima vez que a música era iniciada para que conseguíssemos repetir com perfeição a nova coreografia. Meus pés doíam pela repetição dos mesmos movimentos em um espaço de tempo tão pequeno, mas o sorriso permanecia em meus lábios enquanto eu repetia os passos instruídos por Andrea.
Uma bailarina sempre precisa estar com um sorriso nos lábios.
— Kourtney, você está rodopiando atrasado. — Andrea parou a música, descruzando os braços e se pondo a andar entre nós, as dez bailarinas enfileiradas em duas fileiras com cinco cada. — Vamos mudar um pouco este ensaio. Koutney, Alissa e Jean, vocês irão passar a coreografia, enquanto isto, quero que as outras sentem e se atentem aos erros e acertos delas.
Caminhei para o fundo da sala, sendo seguida pelas outras meninas, e acomodei-me no chão de madeira, apoiando minhas costas na parede e fixando meu olhar em minhas companheiras de dança.
A melodia conhecida – tão familiar que já começava a me irritar profundamente – começou a tocar novamente, fazendo com que as três bailarinas paradas no centro da sala iniciassem a primeira parte da coreografia.
Parada, observando a dança sendo passada por outras bailarinas, eu conseguia enxergar seus erros e até mesmo perceber onde eu mesma estava cometendo meus erros.
Analisando a maestria do grand jeté de Jean, consegui visualizar meu erro em estar realizando a abertura das pernas demasiadamente tarde, acabando por perder alguns segundos a mais ao realizar o pouso.
O resto da dança – coreografada até aproximadamente a metade da música – ocorreu sem mais erros das bailarinas, fazendo com que Andrea chamasse a próxima leva de meninas para repetir os passos.
A melodia repetiu-se mais duas vezes, cada uma com um novo grupo de três bailarinas cada, enquanto eu permaneci sentada, no mesmo local, encarando as bailarinas recriarem os passos.
— Muito bem, garotas, acredito que após este ensaio, estaremos melhor no ensaio de sexta. — a voz de Andrea sobressaiu a música. — Nós vemos sexta, bom descanso e continuem treinando a coreografia.
Levantei-me do chão, seguindo as outras bailarinas que caminhavam em direção à saída da sala, e ouvi o murmúrio de Elisa assim que me juntei ao grupo.
— A favorita da Andrea não precisa repassar a dança separadamente, afinal, é a dançarina perfeita. — o tom de voz debochado de Elisa me fez suspirar baixo.
As risadinhas baixas em tom de concordância me paralisaram.
— Já que não pode pagar com dinheiro, o mínimo é que ela realmente seja boa. — Alissa sibilou, virando o rosto sobre o ombro e encarando-me.
Deixei que as bailarinas se afastassem e permaneci na sala, parada no mesmo lugar. Eu estava acostumada com aquele tratamento, já sabia que as outras bailarinas não gostavam de mim, mas não era simplesmente pelo fato de eu já ter me acostumado que aquilo não me abalava mais.
Abalava, e muito.
Passei boa parte da minha infância e adolescência acreditando que após o colégio, a diferença do tratamento pararia de ser definida pela conta bancária e pelo status social, mas isto não passou de um mísero engano. Aparentemente, ao contrário do que eu acreditava, o julgamento do ser humano só piora.
— Sabe que não deve ligar para o que elas falam, certo? — o tom suave de Andrea soou próximo a mim. — O mundo da dança não é amigável e elas te veem como uma grande concorrente, é por isso que te tratam assim.
Suspirei baixo, completamente frustrada, e virei de frente para Andrea.
— Mas me discriminar por minha condição social não é certo. — resmunguei.
— Concordo, não é certo. Ter mais dinheiro que alguém ou ter pais influenciadores não faz de ninguém uma pessoa melhor. Sua origem humilde fez você ser melhor que todas elas. — Andrea murmurou casualmente, como se não estivesse falando de suas outras alunas, fazendo-me arregalar os olhos. — Não me olhe assim, você sabe que é verdade. Tanto como pessoa quanto como bailarina.
Sorri e aproximei-me de Andrea, abraçando-a fortemente e sentindo o aperto ser retribuído na mesma intensidade.
— Muito obrigada. — murmurei ainda a abraçando. — Não sei o que seria da minha vida sem você, em todos os sentidos.
Andrea rompeu o abraço, segurando-me pelos ombros e deixando-me de frente para ela, fazendo com que eu encarasse seu rosto.
— Já que a classificam como a minha favorita, vou demonstrar todo o meu favoritismo. — franzi o cenho, não entendo exatamente o que aquilo significava.
— Se for pegar mais leve comigo nos ensaios, eu dispenso seu favoritismo. — murmurei arrancando uma risada de Andrea. — Quero entrar para uma companhia, para isto, preciso estar com sangue nos olhos e calos nos pés do tanto que você me fez ensaiar.
— Pode ter certeza que o meu favoritismo por você vai fazer com que eu queira que seja a melhor, mesmo que as outras garotas sejam minhas alunas. — Andrea sorriu abertamente e meneou a cabeça na direção da porta, um sinal para sairmos da sala. — Vamos almoçar juntas hoje, na minha casa.
Tentei não demonstrar a surpresa, mas tenho certeza que o pouco que meus olhos se arregalaram e minha boca se abriu, não passou despercebido pelos olhos atentos de Andrea. Fazia aproximadamente um ano desde que eu recebi o convite para ingressar no estúdio de dança de Andrea, o mais bem reconhecido de toda São Francisco, e desde o meu primeiro ensaio, uma conexão natural surgiu entre nós duas.
— Acredito que não é um convite do qual você aceite um não. — murmurei conforme saíamos da sala.
— Pode ter certeza que não. — afirmou, confirmando minhas suspeitas. — Apenas troque a sapatilha por um seu calçado e vista um short, chegando lá em casa você toma um banho com calma.
Confirmei com um aceno de cabeça e segui em direção ao trocador, ouvindo o burburinho das outras bailarinas assim que entrei no cômodo. Não me dei o trabalho de encarar nenhuma, apenas segui até meu armário, destravando-o com a combinação e pegando a singela bolsa que eu levava para os ensaios e meu par de tênis.
Fechei o armário e sentei no longo banco de madeira posicionado na frente da fileira de armários, tirando rapidamente as sapatilhas novas – graças aos meus turnos extras na loja de quadrinhos – e guardei-as na bolsa, tirando o short jeans.
Levantei-me do banco e vesti o short por cima da meia-calça e do collant, joguei a mochila em meu ombro e apoiei um pé no banco, calçando rapidamente um tênis e fazendo o mesmo com o outro pé.
— Bom resto de dia para vocês. — contentei-me em falar conforme saía do vestiário feminino, afinal de contas, minha mãe tinha me dado uma boa educação.
Segui o caminho até a saída do estúdio, observando Andrea conversar de modo entusiasmado com Lilian na recepção. Parei próxima a elas, mas não o suficiente para que eu escutasse sua conversa.
— Bom, qualquer coisa me mande uma mensagem ou me ligue se for muito urgente, só planejo voltar para o estúdio amanhã pela tarde. — Andrea encerrou o assunto conforme se aproximava de mim. — Não se esqueça de almoçar assim que as meninas saírem, não me obrigue a ligar de hora em hora para confirmar se você já realizou suas refeições.
— Pode deixar, chefa. — Lilian rolou os olhos ao falar, mas seus lábios continham um sorriso de lado. — Bom descanso, Andrea. Bom descanso, .
Sorri abertamente e despedi-me de Lilian com um aceno de mão, seguindo Andrea até seu carro estacionado no pequeno estacionamento ao lado do estúdio, local onde eu costumava deixar minha bicicleta antes de tê-la batido em um muro.
— Veio sem bicicleta hoje? — Andrea questionou, quase como se lesse meus pensamentos, assim que pisamos no estacionamento.
Concordei com a cabeça, mesmo que os olhos de minha professora estivessem focados à sua frente.
— Me desequilibrei na segunda-feira ao tentar desviar da criança que se jogou na frente da bicicleta e consequentemente acabei acertando o muro à minha frente. — murmurei fazendo pouco caso ao abrir a porta do carro de Andrea e sentar-me no banco do passageiro.
Tentei não demonstrar, mas aquele pequeno incidente tinha me custado mais do que eu gostaria. Minha bicicleta encontrava-se no conserto, o que me faria gastar dinheiro. Sem bicicleta, minha única opção era depender do transporte público, o que também me faria gastar dinheiro.
Eu não queria admitir, mas sabia que precisaria acabar arrumando mais turnos na loja de quadrinhos para que a situação lá em casa não apertasse.
— Mas você está bem? — Andrea questionou, encarando-me de modo a analisar se eu estava inteira.
— Sim, só alguns arranhões nas palmas das mãos e nos pés. — murmurei dando de ombros, podendo ver a pequena afirmação que Andrea fez com a cabeça, antes de ligar o carro e sair do pequeno estacionamento.
— Esse almoço lhe caiu em uma boa hora então. — falou com os olhos focados na estrada. — Além de que é ótimo para conversarmos sobre o seu desempenho.
Engoli em seco, sabendo que estava tentando dar o meu melhor, mas que ao longo do último mês – enquanto fazia mais horas extras do que eu aguentava para conseguir comprar novas sapatilhas, já que o solado das antigas estava desgastado – meu desempenho tinha caído.
E para manter minha bolsa, eu precisava não sair da linha de perfeição na qual eu adentrei.



Continua...



Nota da autora: Demorei – demorei horrores –, mas finalmente cheguei com o que deveria ser o capítulo um, mas acabou se tornando uma extensão do prólogo, narrado pela principal já que a história irá intercalar a narração dos principais. Bom, espero que vocês gostem e logo mais estou de volta com o capítulo um!



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