Última atualização: 21/11/2018
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Capítulo 1

Primeiro movimento (Parte 1)

- Esse braço tá errado, ... – Ele comentou, apoiando as mãos na cintura e parando de dançar.
A moça parou imediatamente e ficou encarando-o, incrédula.
- Sério?! – Ela suspirou desanimada. – Eu tava fazendo assim desde o início, .
- Desculpa, eu não percebi... – Ele próprio balançou a cabeça. – Corremos tanto esses dias pra terminar a coreografia, que mal notei o precisávamos refinar!
- Sem problemas. Só me mostra como fazer do jeito certo e já corrigimos isso! – respondeu de maneira mais animada, fazendo-o sorrir.
- Ok! Você vai fazer assim... – mal percebeu que estava se aproximando dela.
Só notaram o que realmente estava acontecendo quando ele segurou gentilmente o braço dela, repousando uma das próprias mãos na cintura da moça a fim de corrigir a postura.
Ambos sentiram como se estivessem queimando a pele do outro.
- Acho que você conseguiu entender. – comentou, imediatamente soltando-a.
- Entendi. Assim, não? – resolveu repetir o passo corrigido para evitar que a situação ficasse mais desconfortável do que já estava.
- Isso mesmo. – E ele cruzou os braços, sorrindo, a fim de impedir as próprias mãos de fazer mais alguma asneira.
Afinal, eles tinham prometido que não iam se envolver.


Street


Desde o primeiro dia em que se conheceram, e se deram muito bem. Parecia que se conheciam desde sempre e não demorou para que percebessem que eram um ótimo par ao dançar.
Assim, a paixão que tinham em comum logo começou a ser compartilhada.
Apesar de ele fazer parte de um grupo e ela de uma companhia de dança, sempre tentavam arranjar tempo em suas agendas para dance practices. Nem que tivessem que dançar de madrugada durante a semana, lá estavam os dois, ensaiando os passos juntos.
Principalmente depois que ela pediu para que ele a ensinasse técnicas de Street – que definitivamente não era o forte de , apesar de que a moça conseguia fingir bem.
- Ah, você faz muito mais do que fingir! – Ele comentou em um dos vários ensaios que marcaram, meses após terem se conhecido. Estavam sentados no centro da sala, suados e cansados após horas dançando.
Apesar disso, para os dois, parecia que tinham se passado somente alguns minutos. Mal percebiam o tempo passando quando dançavam juntos.
- Ah, vai. Não precisa ser legal comigo só porque você é um cavalheiro. – respondeu após tomar um grande gole de água, provocando uma gargalhada nele. levantou logo em seguida.
- Não estou sendo legal, é verdade! Você é boa. Ou eu não estaria dançando com você quase toda hora. – E, dizendo isso, ele estendeu ambas as mãos para ela, pisando levemente nos pés de , para que ela tivesse mais estabilidade ao levantar.
- Então quer dizer que você gasta seu precioso tempo de artista famoso só com quem vale a pena? – Ela perguntou rindo e segurou as mãos de , fazendo-o rir novamente.
- Não foi isso que eu quis dizer...!
Mas ele a puxou para cima antes mesmo que pudesse terminar a própria frase. E, somente quando ela se levantou é que ele percebeu que a puxou com um pouco mais de força que o necessário. quase caiu novamente, porém a segurou fortemente em seus braços, travando as pernas para que nenhum dos dois se estatelasse no chão.
Ambos começaram a rir, porém todos os resquícios de seus sorrisos se esfacelaram no ar logo que se olharam nos olhos. Finalmente perceberam a situação na qual se encontravam. Estavam muito mais próximos do que esperavam.

E foi a primeira vez que sentiram seus corações batendo mais forte com a vista do outro.

Passaram longos segundos se encarando seriamente daquela maneira, sem dizer nada. Meses se passaram sem que notassem nada. Sempre acharam que o que tinham era uma ótima amizade e parceria na hora de dançar, nada mais do que aquilo. Porém, estando daquela maneira, um nos braços do outro... Não conseguiam controlar o sentimento que surgiu em seus corações e fez suas pernas bambearem.
- Desculpa! – Ele disse repentinamente, forçando-se a acordar daquele torpor momentâneo e puxar-se para a realidade. – Acabei te puxando forte demais.
- Sem problemas! – Ela respondeu com uma risada um tanto envergonhada, com as bochechas queimando em vermelho por conta da situação. – Não ocorreu nenhum acidente, então tudo bem!

Dizendo isso, ambos resolveram voltar ao dance practice, ainda entre risadas, como se nada tivesse acontecido.

Apesar de negarem, o acidente havia ocorrido. Seus corações simplesmente tropeçaram um no outro e, após aquele acontecimento, não havia mais volta.


Já era tarde. aguardava do lado de fora do estúdio, embrulhado em seu moletom e checando pela quinta vez se a touca que usava realmente estava cobrindo as pontas das orelhas – que pareciam congeladas.
A noite estava tão fria que ele podia ver a nuvem esbranquiçada que se formava toda vez que expirava contra o negro céu noturno.
Aguardava há mais de meia hora quando finalmente viu a criaturinha que tanto esperava saindo do prédio com sua mala de dança que, sinceramente, era quase maior que ela. sempre dizia que achava que caberia facilmente dentro daquilo lá.
- ! Aqui! Oi! – Ele acenou animadamente, chamando a atenção dela. A moça se virou e abriu um enorme sorriso ao vê-lo, dando uma pequena corridinha no dia frio para alcançá-lo. – Terminou seu ensaio?
- Oi, ! Terminei sim! – Ela respondeu sorrindo e acenando animadamente para ele. – Você ficou me esperando?
- Fiquei sim. Sua mala tá pesada? Quer que eu carregue?
- Não, obrigada. Consigo levar, sou forte! – colocou as mãos na cintura e com uma expressão destemida, fazendo-o rir. – Mas seu ensaio acabou cedo hoje, não? Você ficou me esperando todo esse tempo?
- Ah, não foi tanto tempo assim... – respondeu um pouco envergonhado, mudando de assunto rapidamente enquanto suas bochechas atingiam um tom escarlate. – Fiquei pensando se você não ia querer jantar. Conheço um lugar muito bom aqui por perto!
- Nossa, eu tô morrendo de fome. – A moça foi até um pouco dramática, provocando risadas nele. – Pra que lado, capitão?
- Para aquele, maruja! – Ele apontou prontamente, fazendo-a começar a andar na direção em questão. O próprio começou a caminhar ao lado dela, os dois próximos por conta do frio. – E como foi seu dia? Puxado?
- Yep. Mas compensou. Terminamos tudo que tínhamos para fazer, então sem problemas. – sorriu para ele, ajeitando a mala nos ombros. – E o seu? Tudo certo para o show?
- Tudo certo. Só tivemos que corrigir algumas coisas, mas todo mundo estava focado, então não tivemos muitos problemas. – Ele sorriu de volta, mal percebendo que as mãos deles estavam para se entrelaçar.
Já estavam acostumados a ficar próximos enquanto dançavam, portanto nunca notavam se a proximidade enquanto conviviam no dia a dia era normal ou não.
- Ah, que bom! Vocês vão precisar fazer outro treino puxado desses ou...?
- Não, tá todo mundo afiado. Agora é só ter certeza que tudo vai ficar bom no dia. – Dizendo isso, ele lançou um olhar enviesado para ela, com um pequeno sorriso no canto dos lábios. – Relaxa. Podemos voltar a fazer nossos treinos de madrugada.
- Jura? – Ela perguntou de volta na maior empolgação, fazendo-o dar gargalhadas. –Espera, não era por isso que eu perguntei, estou realmente interessada na vida de vocês! Mas não posso negar que senti saudades de dançar com você, vou fazer o quê?
- Obrigado... Também senti saudades de te encontrar todo dia. – se controlou para parar de rir, olhando-a com carinho. – Gosto de dançar com eles, mas com você é diferente.
- Temos mais liberdade. – completou sabiamente e ele concordou com a cabeça. – Podemos dançar como quisermos. Além de que você é excelente pra dançar Freestyle. Eu, por outro lado, sou uma negação.
- Negação?! , você precisa parar de falar assim de você mesma...! – Ele disse com uma risada levemente agressiva no fim da frase. – Já disse, você é ótima.
- Mas convenhamos, não sou tão boa quanto você. – Ela respondeu de maneira analítica, já cortando logo que ele abriu a boca para refutar. – Tenho ainda muita coisa a aprender com você, . E isso não dá pra negar!
- Continua não indicando que você não dança bem. – Ele a olhou de maneira dura e séria. – Nossos estilos são diferentes e o seu Freestyle é muito bom, no seu próprio estilo.
não conseguiu deixar de corar contra o vento gélido da madrugada. Mal percebeu que o rubor também se dava por conta dos dedos dele esbarrando levemente na mão dela enquanto andavam.
- Ah, é aqui! – E segurou-a repentinamente por um dos ombros, apontando para o restaurante ao lado deles. – Desculpa, mas já estávamos quase passando o lugar!
Rindo, abriu a porta para . O lugar era bem simples e provavelmente um dos únicos que ficava aberto até tão tarde. Só havia pessoas mais velhas e alguns homens bebendo silenciosamente em seus cantinhos. Um ou dois casais aqui e ali, o som das panelas e comida sendo frita ecoando da cozinha.
- Não é muita coisa, mas é o melhor lugar para comer depois que estamos cansados desse jeito. E nesse horário. – Ele comentou observando o restaurante e se adiantou para uma das mesas, puxando uma das cadeiras para que se sentasse. – Quer me dar seu casaco? Vou colocar junto com o meu na cadeira.
- Ah, obrigada! – E, com isso, parou atrás de , ajudando-a a tirar a pesada peça de roupa. Os dois achavam que suas bochechas estavam vermelhas por conta do calor da calefação do restaurante. – O cheiro da comida é muito bom! Não vejo a hora de experimentar!
- Você não vai se arrepender! – Ele tirou o próprio casaco e se sentou à frente dela. Ia falar mais alguma coisa, porém uma senhora parou ao lado dos dois.
- Seja bem vindo de volta, ! Muito trabalho no estúdio? – Ela perguntou com uma voz suave e melodiosa no meio da barulheira da cozinha. deu um grande sorriso de volta para ela.
- Não mais do que o normal...!
- E nossa! Você trouxe a sua namorada dessa vez? – A mulher perguntou empolgada. – Ela é tão linda!
Os dois ficaram imediatamente sem jeito, começando a dar risadas e falando um por cima do outro. A senhora não entendia mais nada.
- Eu não sou namorada dele! – finalmente conseguiu explicar e sorriu para a mulher. – Trabalhamos juntos. Também sou dançarina!
- Ah, esse garoto vive por isso! – A mulher olhou com carinho para ele. – Deve ser por isso que gosta de você. Não se preocupe, , não vou deixar que vocês passem fome! Já vou trazer o jantar, vocês precisam se alimentar...!
E foi embora.

Os dois ficaram se encarando com cara de paisagem.

- Ela não pegou os pedidos, ... Como que vai trazer a comida?
Com a pergunta de , ambos começaram a rir.
- Pelo menos, não vai deixar que passemos fome. É bom você ter um apetite grande.
- Meu Deus, tenho até medo... – E lançou um olhar assustado para a cozinha, fazendo-o rir enquanto tirava o gorro e deixava com os casacos.
- Eu tava pra te perguntar já faz um tempo... – comentou, apoiando os cotovelos na mesa. Sentia-se completamente à vontade perto dela e não via menor necessidade de ficar se esforçando para ser bonito a cada segundo. – Você coreografa, não?
- E por que você diz isso? – Ela perguntou de volta, com um sorriso divertido brincando nos lábios.
Ele lançou um olhar como se estivesse dizendo que entendia aquele sorrisinho atrevido nos lábios dela, sorrindo igualmente em seguida.

Mas, antes que pudesse responder, a dona do restaurante surgiu novamente, com duas canecas enormes em mãos.
- Pronto! Nada como duas cervejas para relaxar os pombinhos! – Ela comentou na maior alegria, deixando as canecas sobre a mesa e sorrindo alegremente antes de voltar diligentemente para a cozinha.
e somente riram e balançaram as cabeças, enquanto pegavam as cervejas.
- Ela não vai parar de achar que somos namorados, não? – perguntou ainda entre risadas.
- Essa mulher é obstinada, não posso fazer nada... – suspirou, ainda rindo. Em seguida, lançou um olhar significativo para a moça. – É melhor você aceitar o seu destino.
- Não me diga. Do jeito que somos viciados em trabalho, iríamos morar dentro daquele estúdio. – Ela disse antes de dar um gole na própria cerveja, fazendo-o se segurar para não cuspir a bebida entre risadas. – Imagina que lindo! Não precisaríamos nem pagar aluguel! Jamais chegaríamos atrasados!
- O máximo da eficiência! Todo mundo ia amar! – Ele respondeu no mesmo tom de sarcasmo. – Mas voltando... Você coreografa, não?
não respondeu, somente continuou encarando enquanto fazia uma trança lateral nos cabelos. Estava ficando com muito calor e sentia as bochechas ficando cada vez mais vermelhas.
- Digo isso, porque te vi dançando uma coreografia sozinha outro dia. Uma que só você sabia os passos e conseguia dançar perfeitamente. – Ele comentou com um pequeno sorriso nos lábios, respondendo à pergunta que ela fizera anteriormente. parecia chocada de ouvir aquilo.
- Não acredito que você me viu dançando aquilo...! – A moça comentou mortificada e ficou mais ainda quando ele balançou a cabeça afirmativamente e aumentou o sorriso.
O que fez com que plantasse a testa na mesa e não quisesse tirá-la de lá por nada naquele mundo.
começou a rir imediatamente, estendendo uma das mãos para afagar os cabelos dela de maneira brincalhona e fazê-la se levantar.
- Não precisa ficar assim! Eu gostei, você coreografa muito bem! Vamos, !
- Eu não mostrei aquilo pra ninguém ainda, ... – Ela comentou enquanto levantava a cabeça, a mão dele ainda entrelaçada nos cabelos sedosos de . – Juro que se você comentar com alguém...
- Eu já te dei algum motivo para não confiar em mim? – Ele perguntou de volta com uma piscadela. – Qualquer segredo seu está a salvo comigo, .
Esse comentário fez com que ambos trocassem olhares mais significativos, com carinho um pelo outro. Mal perceberam que a mão de escorregava vagarosamente para o rosto de . Faltava pouco para que os dedos dele alcançassem a pele macia da bochecha da moça, roçando levemente no lábio inferior dela.
Mas, claro, a comida tinha que chegar exatamente nesse momento.
- Vocês terão muito tempo para namorar depois! Agora seus corpos precisam de energia! – A dona do restaurante anunciou a chegada, fazendo com que ambos se assustassem e se separassem em um pulo, começando a rir em seguida.
E como era de se esperar, ela trouxe comida suficiente para oito pessoas.
Os dois ficaram encarando aquele monte de pratos cheios de comida, trocando olhares em seguida.
- Acho melhor começarmos, não? – perguntou, pegando os próprios hashis. – Ou não vamos terminar tudo isso essa noite.
- Ah, estava esperando você tomar uma iniciativa! – pegou os hashis com uma animação maior que o recomendável. – Estou morrendo de fome!
- Ótimo! Acho que tem o suficiente para nós dois!
Com isso, ambos brindaram com as canecas de cerveja antes de começar o banquete da noite.
- Hmmm, mas agora falando sério... – comentou repentinamente, ainda mastigando uma porção de kimchi. – Eu tive uma ideia.
- Talvez engolir antes de conversar? É uma ótima ideia. – respondeu com uma piscadela, fazendo-o rir.
- Não tenta fugir do assunto! – Ele apontou de maneira acusadora para ela com o hashi.
- Ok, ok. Diga.
- Acho que poderíamos fazer uma coreografia juntos. – disse finalmente, utilizando os próprios hashis para servir o prato de .
- Juntos...? – Ela estava um pouco em choque com aquilo. – Não sei se consigo te acompanhar, . Seus movimentos são muito travados e perfeitos, ainda estou penando para aprender seu estilo, você sabe disso.
- E está indo muito bem, por sinal. – E foi a vez dele de lançar uma piscadela para ela, fazendo corar levemente no calor do restaurante. – Mas pensei em fazermos uma coreografia juntos, cada um no seu estilo. Você puxando mais para esse seu lado de ballet e eu para o street. O que acha?
pensou um pouco, ponderando aquela proposta. Mordeu levemente a ponta dos hashis, mal percebendo o discreto sorriso que surgiu nos lábios de logo que os olhos dele pousaram nos lábios de .
- Sabe de uma coisa? Acho que poderia ficar bom. – Ela respondeu de maneira resoluta. – Você vai ter tempo de treinar comigo?
- Eu arranjo tempo pra você! – Ele comentou na maior alegria, fazendo-a rir. Em seguida, ergueu a caneca de cerveja. – Um brinde à nossa dança!
- À nossa dança! – repetiu e ambos bateram as canecas alegremente.
A dona do restaurante somente suspirou, sorrindo. Tinha certeza que eles seriam um ótimo casal.


- Tem certeza, ?
- ... Meu apartamento é só uma quadra abaixo. – Ele comentou pela vigésima vez, rolando os olhos, apesar de estar sorrindo. – Não se preocupa comigo. Vou chegar vivo.
- Promete? – Ela perguntou enquanto ajeitava a bolsa de dança nos ombros.
Estavam parados na calçada, em frente ao apartamento de . Era um lugar grande o suficiente para que ela vivesse confortavelmente com uma de suas amigas. Como a amiga de era personal stylist de outros artistas, era evidente que as duas viviam em um lugar onde podiam ser protegidas de paparazzi, fãs insanos e outras coisas que vinham junto com a fama.
Portanto, realmente estava tudo bem para ambos andar por aquele pedaço da cidade de madrugada sem ter que se preocupar.
- Prometo. – E ele deu uma batidinha de leve na ponta do nariz dela com o dedo indicador, fazendo-a sorrir. – Eu te mando uma mensagem quando chegar em casa, pode ser?
- Ok. Não vou dormir enquanto você não me certificar de que chegou vivo. – suspirou, bocejando inconscientemente logo em seguida.
sorriu. Ela mentia e falava que não estava cansada e que podia aguentar a madrugada toda, mas tinha certeza de que quando deitasse na cama, capotaria até o dia seguinte no mais profundo dos sonos.
- Me promete que você vai dormir o suficiente para ficar descansada e saudável? – Ele perguntou repentinamente, sorrindo para ela. não conseguia ficar sem sorrir de volta quando ele a olhava daquela maneira.
- Prometo sim, . A gente se vê amanhã?
- Com certeza. Agora vai dormir. Boa noite, . – Dizendo isso, ele se aproximou dela, a fim de... Bom, nem ele sabia o que queria fazer para se despedir dela. Normalmente, somente acenavam um para o outro e iam embora, sorrindo.
- Boa noite, . – Ela respondeu com um sorriso, sem ao menos questionar a proximidade dele. Os próprios pés de começaram a se aproximar de .
E assim, sem ao menos notar o que estavam fazendo e como se fosse a coisa mais correta e natural do mundo, pousou uma das mãos no rosto de enquanto as dela encontraram o peito dele – os lábios de ambos se encontrando imediatamente em um beijo tão leve quanto uma pluma.
O toque era suave, porém foi o suficiente para fazer com que sentissem pequenos choques nos lábios, como se um milhão de fogos de artifício estivessem explodindo na pele sensível de ambos. Mal conseguiam sentir as próprias pernas e as respirações ficaram levemente falhadas – como se todo o oxigênio do mundo não fosse suficiente.
Ao se separarem, passaram alguns segundos observando o outro nos olhos. sorriu logo em seguida, as bochechas corando e ardendo como fogo. não conseguiu se conter e começou a rir junto com ela, segurando-a em seus braços.
O que estavam fazendo? Aquilo não fazia o menor sentido. Eram parceiros de dança, melhores amigos. Além de que, ambos tinham vidas extremamente ocupadas e não podiam se envolver.
Então por que aquele momento roubado no meio da escuridão da madrugada silenciosa, na qual não havia uma alma viva por perto, pareceu tão perfeito e correto?

finalmente olhou para ele novamente, sorrindo com os olhos cheios de tristeza. respondeu tanto o sorriso quanto o olhar.
- Não precisa falar. Eu sei. – Ele comentou imediatamente, antes que ela pudesse falar qualquer coisa. – Vamos nos encontrar amanhã para dançar?
- E fingir que nada aconteceu? – Ela perguntou de volta, no que ele concordou com a cabeça, vagarosamente. – Ok. Não podemos...
- Nos envolver. – completou, tentando repetir aquela frase como um mantra dentro da própria mente e se convencer daquilo.
- Concordo. – respondeu decididamente, porém precisaria repetir aquilo várias vezes para convencer seu coração de seguir sua mente lógica sem reclamações. – Então até amanhã, ?
- Até amanhã, . – Ele comentou, sentindo certo vazio ao vê-la se desvencilhando de seus braços e entrando sozinha em seu apartamento.
Puxando o gorro para baixo a fim de cobrir melhor as orelhas, começou a caminhar pelo silêncio da rua na madrugada, sorrindo consigo mesmo na metade do caminho.
Ninguém sabia o que tinha acabado de acontecer, somente eles. Era algo que só podia ter acontecido uma vez e nunca mais. Porém, ele estava feliz que tinha acontecido.
Ao chegar em seu apartamento, tirou os sapatos, deixando-os ao lado da porta de entrada, e imediatamente pegou o celular.

: Cheguei em casa, são e salvo. Pode ir dormir agora [4:29am]
: Ótimo. Fico feliz de saber que você tá inteiro [4:30am]
: E vai dormir também, eu te conheço [4:30am]
: Só depois do banho [4:30am]
: Você sabe que eu não consigo dormir sujo ;) [4:31am]
: Cama, . Vai pra cama [4:31am]
: Larga mão de ser tão limpo [4:31am]
: HAHAHAHAHAHAHA [4:31am]
: Primeira pessoa que me manda ser porco!! [4:32am]
: É porque você não viu a sua cara [4:32am]
: Tá falando que eu tô estragado, é? [4:33am]
: Você tá cansado [4:34am]
: MUITO cansado [4:34am]
: Tava conseguindo ver estampado no seu rosto [4:34am]
: E não gosto de te ver assim, [4:35am]
: Sei que você é o rei do trabalho duro, mas às vezes tem que descansar [4:35am]
: Você tem razão [4:37am]
: Ufa [4:37am]
: Achei que você já tinha entrado no banho e eu teria que ir até aí pra te arrancar semi inconsciente de sono do chuveiro [4:37am]
: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA [4:37am]
: Também não é pra tanto! [4:37am]
: Mas você tá certa, eu tô acabado [4:38am]
: Dormir vai me fazer bem [4:38am]
: Vai [4:38am]
: Você será outra pessoa amanhã [4:38am]
: Coloca um pijama quentinho e aproveita sua cama fofinha :) [4:38am]
: Bom, já estou de pijama [4:40am]
: E a senhorita? Já colocou o seu? [4:40am]
: Ou vou ter que ir aí te forçar a trocar de roupa? [4:40am]
: HAHAHAHAHAHA [4:40am]
: Fui mais rápida que você, querido [4:40am]
: Troquei de roupa há 5min atrás [4:41am]
: Ótimo [4:41am]
: Já deixou a mala de dança arrumada? [4:41am]
: Yep, amanhã é só pegar [4:41am]
: Então vamos voltar a ensaiar amanhã... Né? [4:41am]
: Com certeza! [4:42am]
: Boa noite [4:42am]
: Boa noite e beijos de nutella! [4:42am]
: Hahaha beijos de matcha ;) [4:43am]

Assim, ambos finalmente foram dormir.
Porém, antes de pegarem no sono, ficaram pensando em como seria sentir os lábios do outro com sabores de nutella e matcha sobre a pele.

You’re the Best thing about me

(Você é a melhor coisa sobre mim)

The best things are easy to destroy

(As melhores coisas são fáceis de destruir)

Why am I walking away?

(Por que estou indo embora?)



estava treinando na sala de dança. O chão de madeira era liso o suficiente para que seus pés deslizassem com facilidade, as sapatilhas de dança com o material perfeito para facilitar os movimentos. A bermuda preta de lycra se agarrava ao corpo dela, impedindo qualquer incômodo. Quando já estava muito suada, ela ficava somente com o top de esportes na parte de cima – mas não era o caso. Por enquanto, estava com uma camiseta cinza que era o dobro do próprio tamanho, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto.
Ela sentia cada batida da música dentro do próprio peito. Começou a acompanhar vagarosamente, somente sentindo a música levá-la aos poucos pela sala. Seus pés se acostumavam lentamente com o ritmo, até ganhar cada vez mais segurança.
Os braços dela se juntaram à melodia. misturava tanto o que já tinha aprendido com quanto o que já sabia. Em poucos segundos, já estava improvisando em seu próprio estilo – uma mistura dos dois, com bastante popping em alguns momentos, caindo nas pontas dos pés e fazendo movimentos fluidos com as mãos e braços.
corria pelos corredores, já atrasado para o ensaio com . Entretanto, quando começou a ouvir Cold do Maroon 5 enchendo o ambiente com uma batida gostosa para dançar, começou a sorrir com curiosidade. Sabia que era .
Ele diminuiu a velocidade gradativamente, chegando à sala sem fazer barulho algum. Parou à porta e se apoiou no batente quando viu dançando. Ela subiu na meia ponta e caminhou rapidamente pela sala em um clássico passo de ballet. Em seguida, caiu em plié, na quinta posição, completando o movimento com uma pirueta enquanto a perna que deveria estar dobrada ficava esticada. Quando terminou, começou alguns movimentos de braços típicos de popping – que ele tinha ensinado para ela na última “aula” que tiveram – arriscando-se em alguns movimentos de locking. Em seguida, a moça deu mais um giro, encontrando o rosto sorridente de parado à porta.
- ! Que susto! – Ela comentou rindo, parando de dançar enquanto colocava a mão no coração.
- Ah, não! Continua dançando, gosto de te ver improvisando...! – Ele pediu manhosamente enquanto sorria, caminhando na direção dela.
- Você tá aqui, eu não preciso mais dançar sozinha. – piscou para e voltou para sua mala de dança, recebendo um olhar de reprovação dele.
- Você só fala isso porque não quer improvisar na minha frente. – Ele analisou e ela se virou para refutar, mas não deu chance para que falasse. – Um dia eu ainda vou acabar com essa sua vergonha. Me aguarde, querida.
- Ih, então vou esperar sentada, querido. – Ela respondeu de maneira sarcástica, fazendo-o rolar os olhos. – Você é muito bom. Eu tenho todo o direito do mundo de ter vergonha de dançar na sua frente.
- Você não tem vergonha quando estamos dançando em clipes. – se aproximou dela com um olhar convencido, parando com as mãos na cintura. – Muito pelo contrário... Você faz questão de deixar todos os outros no chinelo e ser a melhor no MV.
- Ah, mas é diferente. Lá nós temos uma coreografia que treinamos até nossos pés sangrarem. – se aproximou dele da mesma maneira, parando a centímetros de , igualmente com as mãos na cintura. – E eu gosto que todo mundo saiba quem manda.
Ambos ficaram em silêncio durante alguns segundos, olhando-se nos olhos. deu um pequeno suspiro rápido, pensando consigo mesmo que aquilo fora incrivelmente sexy. Queria falar aquilo para ela, queria que soubesse. Ela precisava saber daquilo.
Mas eles não podiam se envolver. E ele tinha certeza que se comentasse aquilo, os dois iam rolar a colina da desgraça abaixo, sem conseguir sair dos braços um do outro.
Então era melhor não falar nada.
- Bom. Vamos começar? – perguntou com um pequeno sorriso nos lábios e indo para o centro da sala, aproveitando a música que estava tocando. – E, terminando o assunto: eu vou fazer você perder essa vergonha besta de mim.
- Nossa... – rolou os olhos, indo para o centro da sala junto com ele e parando próxima a . – Se você conseguir fazer isso, eu te dou um beijo.

Nesse momento, ambos congelaram. olhou assustada para ele, como se tivesse acabado de falar a coisa mais profana da face da Terra. replicou o olhar dela, da mesma maneira como olharia para alguém que tinha acabado de fazer uma algazarra quebrando algo acidentalmente.
- Desculpa. – Ela disse de maneira silenciosa, realmente arrependida da própria língua que não conseguia segurar.
deu um pequeno sorriso, com um pouco de dó dela. Sabia exatamente como ela se sentia. Antes da noite anterior, aquele tipo de brincadeira entre os dois era normal. Porém, após o beijo, não podiam mais brincar daquela maneira – por mais que tivessem prometido que tudo continuaria igual.
- Tudo bem. – Ele respondeu ainda com o sorriso nos lábios. – Vamos esquecer isso, ok? Agora vem cá, porque a noite vai ser puxada.
Os dois tentaram não levar aquela frase para um sentido mais sexy. Tentaram.
- Tenho até medo... – deu uma leve risada e parou ao lado de . – Vamos lá. O que você preparou para mim?
- Vamos melhorar esse seu locking? – Ele perguntou sorrindo e ela suspirou, derrotada. O que o fez rir imediatamente, fazendo-a sorrir da própria brincadeira. – Nem começa com o “eu não sou tão boa”, porque você já aprendeu bem! Falei: vamos melhorar!
- Ok. Melhorar. – Ela respondeu rindo. – Vamos começar por onde?
- Separei alguns movimentos que ainda não te ensinei e acho que você pode aperfeiçoar alguns da última vez. – E ele olhou para o espelho, fazendo-a fazer o mesmo. – Primeiro, você vai fazer assim com o braço.
E, com isso, as aulas começaram. seguia tudo que ele falava com diligência, às vezes irritada com a própria fluidez dos movimentos, sofrendo um pouco para fazer tudo travado conforme ele fazia. somente ria e falava que ela estava indo bem, continuando com o ritmo da aula.
Em pouco tempo, tinha ensinado tudo que queria e podiam se voltar para a parte do aperfeiçoamento. E era nesses momentos que ele a admirava cada vez mais.
- De novo. – disse depois de passar o mesmo passo pela décima vez. Literalmente.
- Não quer mudar um pouco...?
- Não. De novo. – Ela disse de maneira resoluta, voltando para o centro da sala. – Se não eu não aperfeiçoo essa porcaria. De novo.
- Ok. Tem certeza que aguenta?
- Tenho. Você não? – E lançou um olhar para ele que era feito de pura determinação. – Já disse, . De novo.
- Ok. Então vamos passar mais umas três vezes seguidas? – Ele perguntou somente para provocar. Gostava de ver aquela força nos olhos dela. Admirava toda vez que ela ficava daquela maneira.
- Pode ser. Você conta?
- Five, six, seven, eight! – E, foi só dar a deixa, que ambos começaram a dançar.
Enquanto ela fazia da maneira como ele ensinara, não desgrudava os olhos de . Analisava cada movimento das pernas dela, cada esticada de braço, cada onda feita com as mãos. Observava tudo com cuidado para poder corrigi-la.
Sempre fizera aquilo. Mas, naquele dia, o que ele sentia por ela quando a observava daquela maneira ficara somente mais evidente. nunca parou para notar o que se passava no próprio coração, mas finalmente percebera que toda aquela admiração se tornara um sentimento mais forte por . Ela era uma mulher excepcional – com a mesma força de vontade e determinação que ele tinha.

Observá-la dançando daquela maneira somente amplificava aquilo e fazia com que ele sentisse vontade de puxá-la pela cintura para dançar junto com ele.

balançou a cabeça, começando a segunda passagem dos movimentos. Tentou observá-la sem pensar em nada, confiando no próprio autocontrole e acreditando que conseguia se controlar para não pensar naquelas coisas – para reprimir os sentimentos.

Mas aquilo estava especialmente difícil de fazer.

Portanto, na terceira passagem, fez questão de não olhar para . Era melhor. Para ambos.
- Ok, tenho algumas coisas para corrigir. – Ele disse logo que acabaram a passagem. Precisava focar a própria mente em ensiná-la e comentar de dança de uma maneira analítica. – Logo no começo da segunda contagem...
- Aqui...? – E já repetiu o passo, fazendo-o confirmar com a cabeça.
- É, aí. O braço vem aqui, ó. – Dizendo isso, ele parou atrás de , puxando o braço dela para cima, a fim de ensiná-la a fazer o movimento correto.
tentava se controlar para não deixar a proximidade dele afetá-la. Porém, ao sentir os dedos da mão macia de entrando em contato com a própria pele, ela não conseguiu controlar o coração a dar uma leve acelerada. se lembrou quando ele pousou aqueles mesmos dedos em seu rosto antes de beijá-la na noite anterior.
E, de repente, parecia que ela estava sentindo todos os fogos de artifícios que o beijo de causou dentro dela.
travou o maxilar e tentou fazer de tudo para que ele não percebesse que ela estava engolindo em seco.
Mal sabia ela que estava se controlando em fazer com que ela não notasse que seus dedos estavam levemente trêmulos.
Ele respirou fundo, olhando-a resolutamente no espelho.
- Consegue fazer isso? – controlou a própria voz, que insistia em querer ficar tão trêmula quanto os dedos.
olhou para o reflexo dele no espelho. Tinha os olhos distantes, porém, logo que se encontrou com o olhar de , retornou a pensar de maneira lógica, com o próprio olhar determinado refletido à sua frente.
Ela sabia muito bem que ele não estava perguntando se ela conseguia fazer o passo. estava perguntando se conseguia levar aquela situação para frente. Se ela conseguia, assim como ele, fingir que nada tinha acontecido. Se ela conseguia fazer com que eles permanecessem somente melhores amigos.
- Consigo. – respondeu com a voz firme, olhando-o da maneira que amava ver nos olhos dela.
Ele sorriu, continuando a aula. Ela sorriu de volta, continuando a aprender tudo de maneira rápida e diligente.
Conscientemente, tinham acabado de definir algo da maneira mais decidida que conseguiram. Inconscientemente, estavam se apaixonando cada vez mais pela determinação do outro.


- Onde aquele moleque se enfiou?! – estava realmente fora do sério. E aquilo fazia com que risse cada vez mais.
Eles estavam em uma filmagem de um MV que ambos quase esqueceram que tinham. Mas, uma semana após a aula com a fatídica “decisão”, lá estavam eles em um galpão abandonado, escuro, às duas e meia da manhã, gravando a coreografia da música mais nova do grupo dele.
Para isso, lá estava como dançarina de apoio – fazendo exatamente o que ele falara que ela fazia: dançando melhor do que todo mundo e deixando claro que ela seria o destaque em todas as filmagens só com os dançarinos de backup.
Além de que, já era uma escolha óbvia de dançarina quando escolhiam quais iam dançar com os membros do grupo.
- ! Você viu o em algum lugar? – perguntou com as mãos na cintura, já claramente de saco cheio. Ela deu uma pequena risadinha. – O que tem de tão engraçado?!
- Você! – A moça respondeu de maneira sincera, apontando para ele. somente ergueu as sobrancelhas, como se não acreditasse no que estava escutando. – É muito engraçado quando você fica irritado, . Não é o seu normal, então, de verdade... É fofo, até.
Ele ficou observando-a, sem palavras, durante alguns segundos. Em seguida, começou a rir, olhando para o lado e balançando a cabeça em seguida.
- Ah, você não tem jeito... – comentou, já sentindo a irritação se dissipando do próprio coração. – Mas...
De repente, uma mão gélida encostou no pescoço dele. deu um pulo, como um gato, assustado demais para gritar. Quando olhou para trás e viu o dono da mão, encontrou rindo como se aquela fosse a coisa mais engraçada que acontecera no mês.
- Aish, seu moleque...!
- Obrigado por distraí-lo, ! – piscou para a moça, que ria horrores do susto.
somente olhou para ela, completamente incrédulo.
- Você...?
- Desculpa. Foi mais forte que eu. – Ela deu de ombros, parando de rir. – Na minha defesa, a idéia foi do .
ficou encarando os dois, ainda boquiaberto. Em seguida, ficou com cara de paisagem.
- Eu odeio vocês.
E foi embora.

e somente trocaram olhares e começaram a rir.
- Quem vai ser a nossa próxima vítima? – Ela perguntou empolgada. observou rapidamente o lugar e começou a sorrir.
- Olha o lá sozinho...! – Ele comentou, apontando discretamente. – Ele tá sentado bem de costas para aquela abertura escura ali...!
- ... Você é uma mente má. – comentou, sorrindo logo em seguida. – Eu adoro. Vamos!
Dizendo isso, ele imediatamente segurou a mão dela e começou a guiá-la silenciosamente até a passagem que falara. Quando estavam perto da caixa na qual descansava pacatamente, levou o dedo indicador aos lábios, sendo que confirmou com a cabeça que permaneceria quieta. Ambos se abaixaram um pouco e passaram silenciosamente pelo amigo – que não fazia idéia da presença deles por lá.
A passagem dava para um corredor escuro. deu uma corrida rápida para lá com , achando os lugares perfeitos para que ambos se escondessem. Apontou para uma caixa de um lado do corredor para que ficasse atrás da mesma e se escondeu atrás de uma caixa do lado oposto ao dela, sendo que os dois conseguiam se enxergar perfeitamente.

novamente levou o dedo aos lábios para que ela permanecesse em silêncio. Em seguida, ambos começaram a observar .

correu as unhas pela caixa atrás da qual se escondia. imediatamente levantou a cabeça, achando que tinha ouvido algo. Para completar, bateu algumas vezes em um armário de metal que tinha por perto. olhou para trás rapidamente, sendo que os dois se encolheram atrás das caixas.
- Tem alguém aí? – perguntou com as sobrancelhas franzidas e os dois permaneceram em silêncio. Ele balançou a cabeça. – Provavelmente estou escutando coisas...
Segurando o riso, pegou um pedaço de metal jogado perto de si e jogou na parede do outro lado do corredor.
O que fez com que se levantasse em um pulo, olhando de maneira assustada para o corredor.
- Mas o quê...?! – Ele perguntou para si mesmo e tanto quanto já estavam quase perdendo o controle.
- ... – A moça sussurrou com a voz um tanto rouca, ecoando pelo corredor escuro e chegando de maneira arrastada aos ouvidos do amigo. – ...
- O... O que... O que é isso...?! – perguntou, completamente aterrorizado. estava quase rolando no chão de tanta vontade de rir.
De repente, não aguentou e soltou uma leve risada, cobrindo a boca logo em seguida. Tanto ela quanto estavam se divertindo demais com aquilo.
- ! É você?! – perguntou colocando as mãos na cintura e claramente irritado com aquilo.
Quando disse isso, chamou e ambos saíram de mãos dadas da escuridão.
- Aish! Vocês dois quase me mataram do coração! – queria pegar a coisa mais próxima e atirar neles.
- Você não é o primeiro! – surgiu de qualquer lugar que estivesse por perto, claramente disposto a dar bronca nos dois, sendo apoiado por um amigo. – Eles quase me fizeram ter um infarto antes!
- Vocês que são muito fracos! – deu de ombros enquanto concordava com a cabeça.
- Fracos?! Vocês pararam pra notar onde estamos?! – abriu os braços, sinalizando o galpão. nunca esteve tão feliz de ter alguém do próprio lado em uma discussão. – Vocês dois parecem até irmãos! Seus doentes!
- Pode deixar que eu serei tão protetor e ciumento como um irmão de verdade para ela. – rebateu, inconscientemente segurando a mão dela novamente.
- Mas vamos lá, gente... Vocês realmente acham que nos colocariam pra gravar em um lugar perigoso? – perguntou ainda rindo, brincando com os dedos de e contente com o que ele tinha acabado de falar. Já o considerava um irmão e ficava feliz de saber que o sentimento era recíproco.
abriu a boca para refutar, porém não conseguia encontrar argumentos. Olhou para , como se estivesse pedindo ajuda, mas o próprio também não conseguia achar argumento algum.
Com isso, semicerrou os olhos e encarou , decididamente, apontando para ela.
- Nada mais de aulas pra você.
E, com isso, foi embora, sendo seguido por .
e somente caíram na gargalhada.
- Não se preocupa, ! Se ele não quiser mais te dar aulas, pode deixar que eu dou! – respondeu entre risadas.
Com isso, foram chamados de volta para a gravação. Já se colocando em seus lugares na coreografia, esperou até que ela estivesse ao lado dele antes de começarem.
- E nem se atreva a ir dançar com o . Você sabe que eu sou melhor. – Ele sussurrou ainda de maneira irritada, fazendo-a dar uma pequena risada.
- Pode deixar, . Você é meu parceiro de dança, mais ninguém.



Capítulo 2

Primeiro movimento (Parte 2)

Mesmo com as gravações, os dois se esforçavam para se encontrar e ensaiar, pensando na coreografia que fariam juntos. Claro, todo mundo sabia que eram os dois que estavam na sala de dança às duas e meia da manhã, repetindo os mesmos movimentos quinhentas vezes e depois estatelados no chão, sem conseguir respirar direito e literamente encharcados em suor.
Isso sem contar nas risadas. Vira e mexe, algum desavisado se assustava com a explosão de risadas vinda da sala.
e estavam se acostumando com o fato de que tinham se beijado. Falavam para si mesmos que foi somente um erro, um deslize de uma noite em que estavam muito cansados... Nada de mais. Tentavam se convencer que não tinham ultrapassado uma linha imaginária da qual não haveria volta.
Havia volta. Exatamente porque aquilo não fora nada de mais.
Ou pelo menos, era naquilo que queriam acreditar. Era disso que queriam se convencer.
Naquela noite específica, já estavam dançando há duas horas e meia. Eram onze horas da noite, pois conseguiram terminar seus afazeres do dia mais cedo e fora buscá-la enquanto se arrumava com sua companhia.
Ele andou rapidamente pelos corredores do estúdio, com medo de que já tivesse voltado para casa e estivesse esperando pacientemente pela mensagem dele falando que já estava disponível para ensaiarem.
Mas o celular dele acabara a bateria. Então lá estava ele, tentando correr contra o tempo, mas sem parecer desesperado. Ou alguém perceberia que ele estava mais empolgado que o normal para encontrá-la.
E aquilo ia contra tudo que estava tentando enfiar na própria cabeça nas últimas semanas. Ficar empolgado para encontrá-la em um nível normal era ok. Ficar empolgado demais? Era definitivamente ruim.
Por isso ele estava andando rápido. Seu coração queria correr, mas seu cérebro segurava a velocidade de seus pés.
Mesmo assim, não quis admitir que deu uma corridinha quando viu a porta da sala que servia de vestiário para a companhia de .
- ! – E ele escancarou a porta de supetão, gritando o nome dela, quase sem ar e com o coração explodindo no peito por finalmente ter chegado.
Ele só esquecera que aquele era o vestiário feminino da companhia.
Então o lugar foi tomado de gritos histéricos e mulheres se cobrindo ou jogando coisas em cima dele.
- DESCULPA! – se virou imediatamente, cobrindo os olhos com as mãos.
- ! O que você tá fazendo aqui?! – E, enquanto perguntava isso, pousou as mãos nos ombros daquele ser humano desavisado e empurrou-o para fora do vestiário, fechando a porta atrás de si.
- Desculpa! Eu achei que você já tinha ido embora! – Ele respondeu ainda de costas e com as mãos nos olhos, sentindo-se completamente envergonhado pelo que acabara de fazer.
Até ouvir rindo atrás de si.
- Ai, ... Você é realmente a melhor pessoa desse mundo... – Ela suspirou, pousando as mãos na cintura e dando uma leve risada.
finalmente se virou para olhar e responder alguma coisa que tinha pensado na hora para fazê-la rir. Mas, ao vê-la, ficou sem palavras: a moça estava vestindo a típica bermuda de dança – de lycra, no formato exato das pernas dela para facilitar os movimentos – e um top cor de salmão, os pés descalços contra o chão gelado, com a barriga e os braços a mostra, enquanto os cabelos emolduravam o rosto.
Ele sentiu as bochechas queimando logo que pensou que ela estava maravilhosa.
- Tá tudo bem? – imediatamente franziu as sobrancelhas. Afinal, nunca vira se comportando daquela maneira na frente dela.
- Tá, tá sim... – Ele respondeu balançando a cabeça, tentando ter um pouco mais de compostura e controlar o sangue que dava o ar da graça nas maçãs do rosto. Imediatamente, tirou o próprio casaco que usava e colocou sobre os ombros de . – Tá frio, ! Você não está sentindo, não?
- Ah, eu tava me trocando, né...! – Ela começou a justificar, rindo da reação dele. Porém, algo a atingiu como um raio e finalmente notou o estado em que se encontrava na frente de . – É, está meio friozinho mesmo...
Dizendo isso, a moça começou a colocar as mangas do casaco dele, que ficava gigante em , enquanto as próprias bochechas atingiam um tom rosa choque.
Se ainda fossem só amigos, não ia se importar de ficar daquela maneira na frente de . Mas aquela linha já tinha sido ultrapassada.
Ela própria balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos, enquanto ele fechava o zíper do casaco com cuidado. A linha não fora ultrapassada. tinha que se lembrar daquilo todo dia. Eles eram somente amigos. Só amigos.

O beijo fora um erro.

Um erro muito bom.

Mas ainda assim um erro.

Os dois suspiraram, enquanto observavam o outro. Como algo tão bom, que parecia tão certo, poderia ser um erro?

- Pronto, agora você está quentinha! – disse sorrindo, com sua expressão alegre de sempre, como se nada estivesse acontecido. Se pensasse demais, ele acabaria beijando novamente e aquilo não podia acontecer.
- Sim, sim, obrigada! – Ela sorriu de volta, segurando as mangas do casaco por dentro e aproximando as mãos das bochechas. queria morder o nariz de , de tão fofa que ela parecia. Imediatamente, segurou o tecido que sobrava nas laterais da calça para conter os próprios impulsos enquanto somente sorria de volta para ela. – Você me espera aqui fora para irmos dançar?
- Sem problemas, espero sim! – O sorriso dele aumentou e ela concordou com a cabeça, voltando para dentro do vestiário. soltou um suspiro audível, sentindo-se aliviado e relaxando todo o corpo, enquanto recostava-se à parede mais próxima. Abaixou a cabeça e ficou pensando durante alguns segundos, levantando-a novamente enquanto respirava fundo. – Foi um erro. Nada de mais. Vocês são amigos, , só amigos...
Ele repetia aquilo para si mesmo em um tom baixo, de olhos fechados. Precisava se controlar. Precisava colocar na própria cabeça que aquilo não era nada de mais.
Mas, como se para dizer que ele estava errado, a mente de imediatamente se lembrou de como estava naquela noite. E, novamente, ele se viu beijando-a em frente ao prédio da moça. Sentia a pele fria do rosto dela contra seus dedos, a bochecha macia de na palma da mão. Os lábios dela estavam quentes e levemente úmidos, macios e aveludados como um pêssego. Os lábios de pousaram sobre os dela com uma leveza de como se os dois estivessem em anos de relacionamento e os beijos de despedida fossem algo automático... Mas algo naquele simples beijo foi o suficiente para deixá-lo completamente curioso.
queria mais. Ele queria sentir os lábios de com força contra os seus, em um beijo longo, suficiente para acalmar todos os sentimentos que consumiam o coração dele como fogo.
- Aish! Se controla, seu besta...! – comentou batendo na parede atrás de si. Balançou a cabeça, irritado consigo mesmo. – Você disse que não era nada de mais! Você prometeu que não era nada de mais...!
- ...? – E surgiu do vestiário, assustando-o e fazendo-o dar um leve pulo por conta do sobressalto. – Falando sozinho de novo?
- Ah, você sabe. É uma mania que não dá pra evitar. – Ele respondeu rindo e piscando para ela, fazendo-a rir de volta.
ainda usava o casaco dele – agora com uma blusa por baixo – que ficava o triplo do tamanho dela. sorriu carinhosamente ao vê-la daquela maneira. Se dependesse dele, podia usar todas as suas roupas.
Mal sabia que a moça também estava afetada. Ao ver aquele sorriso nos lábios dele, não conseguiu deixar de dar um pequeno sorriso inconsciente e imaginar como seria bom tê-lo como namorado, sorrindo todo dia daquela maneira carinhosa para ela.
- Vamos? – Ele perguntou de repente, acordando-a de seus pensamentos. – Quer que eu leve a sua mala?
- Você já me emprestou seu casaco, . Eu posso levar a mala. – respondeu piscando para ele, enquanto ajeitava a mala no ombro. Não queria se aproveitar da boa vontade do amigo. – Já planejou algo para hoje?
- Mas é claro! Você já me pegou despreparado alguma vez?
E, assim, os dois conseguiram seguir para a sala de dança e iniciar a aula do dia. Ficaram lá durante horas, repetindo, repetindo e repetindo, até finalmente sentirem o suor escorrendo pelo rosto como se fosse água.
Sendo assim, quando não aguentaram mais, se estatelou no chão perto do espelho da sala de dança – sendo que a seguiu, deitando ao lado da moça.
Os dois ficaram encarando o teto durante um bom tempo, em silêncio, somente tentando recuperar as respirações.
- ... – comentou de repente, ainda respirando fundo.
- Hmmm...? – Ele se limitou a responder, de olhos fechados. Ela somente começou a rir enquanto ouvia a forte respiração dele, subindo e descendo de maneira ritmada.
- Nossa, eu te destruí tanto assim? – Ela perguntou ainda entre risadas.
- Não, querida. Acho que fui eu que peguei pesado demais essa noite e destruí nós dois. – respondeu com um sorriso enquanto olhava para ela. virou a cabeça também para olhá-lo.
Os sorrisos nos rostos deles sumiram paulatinamente. Antes, aquele tipo de brincadeira não importava muito: faziam direto e nem notavam o duplo sentido, simplesmente porque, para eles, não havia duplo sentido. Mas agora havia. E era um duplo sentido que eles desejavam que fosse real.
- Então... – retomou, como se não tivessem pensado em nada de mais. – Precisamos começar a pensar na nossa coreografia.
- Ah, verdade... – Ele voltou a encarar o teto, genuinamente pensativo. – Precisamos de um tema.
- Exato. – E ela o imitou, encarando o teto, sem perceber que aproximava lentamente a própria mão da mão mais próxima de . – Mas eu cheguei a pensar em outras coisas já...
- Como o quê? – E ele mesmo moveu a mão de maneira inconsciente em direção à dela. Já podia sentir até o calor úmido da mão de .
- Se vamos fazer danças complementares, nem tudo precisa ser igualzinho... – Ela jogou a ideia, vendo que ele a observava com curiosidade.
- Vocês vão fazer uma coreografia juntos?!
- MEU DEUS! – e gritaram juntos, encarando a origem da voz em um sobressalto. Teriam se sentado, mas estavam cansados demais para aquilo.
- ! Você não sabe bater, não?! – perguntou levemente irritado, com uma das mãos sobre o coração. Estava mais disparado que bateria de Escola de Samba desfilando na Sapucaí.
- Aqui não é seu quarto. Por que eu bateria? – O amigo respondeu dando de ombros e caminhando até o som da sala. – Além disso, achei que poderia ensaiar um pouco com vocês!
- Tudo bem, , pode ensaiar... – respondeu suspirando, deitando a cabeça novamente no chão. – Só não precisa matar a gente do coração da próxima vez.
- Você sabe o que dizem, né? – respondeu rindo. – Quando alguém se assusta assim, é porque estava fazendo algo de errado!
e simplesmente trocaram olhares e deram breves risadas, enquanto selecionava uma música qualquer. Deliberadamente, finalmente deixou que sua mão se aproximasse da mão dela e tocasse os dedos de – de maneira leve e discreta. A moça somente sorriu, voltando a encarar o teto, enquanto dançava despreocupadamente, observando atentamente seus movimentos no espelho.
Aquilo era algo arriscado – tanto para os sentimentos deles quanto para o fato de que havia mais alguém na sala. Apesar do toque suave como a pena da asa de um anjo que caíra despercebida pelo mundo, não conseguiu ficar sem fechar os olhos e apreciar o momento, movendo levemente os dedos e só desejando no lugar mais secreto da própria mente que pudesse entrelaçar a mão levemente úmida de e não soltá-la nunca mais. Percebendo os movimentos dela, lançou um olhar discreto para , finalmente notando na expressão do rosto da moça que aquele desejo de tê-la em seus braços era recíproco. Aquele toque somente fazia com que a sensação de aperto e falta de ar dentro dos pulmões deles piorasse – mas era muito bom para que se separassem.
voltou a encarar o teto logo que fez um passo que causou um baque com suas botas no chão. Ele notou que também foi puxada para a realidade, pois a moça parou de mover os dedos contra a mão dele – o que fez dar um breve sorriso melancólico. Não era só ele que notara o perigo: se os visse daquela maneira, nunca mais teriam paz e poderiam chegar perto do outro sem alguma piadinha sobre amor. E aquelas piadinhas eventualmente acabariam com eles, pois pensariam em tudo que poderia ser realidade e jamais iria se concretizar, sendo obrigados a rir com os amigos e falar que tudo aquilo era mentira – quando não passaria da mais pura verdade.
- Então... – disse repentinamente, ainda de olhos fechados, como se estivesse dormindo. – Pensei em algumas coisas pra nossa dança... Comecei pensando em cores, pra falar a verdade.
- Ah, eu devia saber que era isso... – respondeu com um sorriso besta nos lábios, encarando algum ponto distante do teto. – Você sempre “escuta” cores. Mesmo que a gente não tenha definido a música ainda, devia ter adivinhado que você ia pensar nas cores antes de qualquer outra coisa.
- As cores que me ajudam a saber que feeling eu quero pra coreografia, fazer o quê? – A moça respondeu de maneira displicente, fingindo que estava dando de ombros. Ele sabia que era o jeito dela de brincar com ele e aparentar não se importar com aquilo. – Se eu definir a cor da coreografia, consigo saber melhor que música quero pra combinar.
- E o que você pensou de cor até agora?
- Se você aceitar, estava pensando em usar uma das minhas paletas preferidas... Rosa, azul, roxo e âmbar. – Ela comentou com um breve sorriso, finalmente abrindo os olhos e observando algum ponto distante, claramente vendo qualquer outra coisa que não era o teto branco da sala de dança. – Acho que teríamos o suficiente pra fazer uma dança misturada, tanto com elementos de street quanto de ballet.
- É uma boa ideia... – E foi a vez de fechar os olhos, já imaginando com ficaria um MV com aquela paleta de cores. Não tinha esperanças de que a dança deles virasse um MV, mas não via nenhum problema em sonhar acordado com aquilo. Já podia se ver estendendo a mão para em um movimento típico de Michael Jackson, enquanto ela o segurava e confiava nele para apoiar todo seu peso ao estender a perna para trás em um arabesco. Em seguida, começariam uma sequência de locking com tutting, o fundo mudando para um azul celeste levemente arroxeado. – Funciona muito bem. Acho que ficaria bom, principalmente com as transições. Ia ser legal principalmente se você, em algum momento, começasse uma sequência mais de ballet e eu te seguisse fazendo praticamente a mesma coisa, mas com movimentos de street...
- Em Canon? Eu começo na primeira contagem e você me segue na segunda? – perguntou, finalmente olhando para ele novamente.
- Exato. Eu seguro sua mão e começamos a dançar igual, no mesmo estilo, logo que termina a sequência. – confirmou com um largo sorriso, contente de ver que havia outra pessoa nesse mundo que falava a mesma língua que ele.
Os dois nem perceberam que, quando suas ideias se complementaram, seus dedos se entrelaçaram imediatamente – finalmente realizando o toque que eles tanto desejam.
- Ia ficar muito legal. – finalmente se manifestou, fazendo uma pequena pausa para limpar o suor que escorria da testa com uma toalha que encontrou jogada por aí. – Os estilos de vocês dois seriam dissonantes e complementares ao mesmo tempo, acho que funciona bem. Já pensaram em qual vai ser o tema da dança?
- Não... Começamos a pensar nisso outro dia. – comentou enquanto se sentava, soltando a mão de . Não podia arriscar que o amigo os visse daquela maneira. E, logo que percebeu que ela também estava se mexendo, a ajudou a se sentar também. – Ainda não temos nada muito definido pra falar a verdade.
- Yep. Só decidimos que queríamos misturar nossos estilos. – A moça deu de ombros, apoiando no espelho atrás de si. – Mas ainda precisamos definir muita coisa. A música, inclusive.
- O que vocês acham da ideia de “amor proibido”? – jogou a ideia casualmente e os dois somente arregalaram os olhos, trocando olhares assustados quando perceberam que o amigo não estava olhando. Imediatamente checaram se suas mãos não estavam mais se tocando e sentiram os corações acelerando como se estivessem em uma montanha russa, prestes a cair a toda velocidade. Sentiam as pernas formigando e parecia que havia um cubo de gelo escorrendo por suas espinhas. – Não sei... Vocês falaram dos estilos, o ballet e o street, a mistura que pretendem fazer e tal... “Amor proibido” é um conceito que funciona muito bem aí, acho. Afinal, tem tanta gente que acha que esses dois estilos não se encaixam e vocês dois fazem funcionar tão bem...
jogou a toalha em qualquer canto de maneira tão displicente que os dois começaram a se acalmar um pouco. Conheciam o amigo e sabia quando ele falava alguma coisa para provocar e quando falava algo sinceramente. Naquele momento, quando voltou a olhar para o espelho, tornando a treinar seus movimentos perfeitos e sem erro algum, tiveram certeza que ele falara sinceramente – com o intuito somente de ajudá-los. Sendo assim, sentiram o alívio escorrendo pelos ombros enquanto abriam sorrisos.
- Mas sabe... Acho que é um conceito que funciona... – comentou lentamente, lançando um olhar enviesado para . Queria ver se ele concordaria com a ideia e se ela não estava ultrapassando barreiras. Queria muito que ele aceitasse, mas não entendia o motivo daquele sentimento. Futuramente, iria entender que só resolveu insistir no conceito de “amor proibido”, pois seria uma maneira de finalmente exteriorizar todos seus sentimentos por ele sem levantar suspeitas. Por mais que ela mesma estivesse ignorando o que sentia. – O que você acha...?
- Acho que fica bom sim... Podemos trabalhar em cima disso... – E, dizendo isso, mudou seu olhar para ela. Queria ter certeza de que estava confortável com aquela ideia... E não queria admitir para si mesmo que adoraria trabalhar com aquele conceito, principalmente nos momentos em que precisassem coreografar algo típico de amantes. Ele fez questão de apagar aquilo da própria mente em segundos, mas não pôde deixar de imaginar os dedos de correndo pela sua bochecha lentamente enquanto ele somente fechava os olhos no meio da dança. – Se você quiser.
- Bom, acho que vocês dois querem! – disse com uma risada. – Já se perguntaram isso umas três vezes, podem parar de repetir esse assunto em looping!
somente lançou um olhar de morte para o amigo, enquanto suspirava. Em seguida, a moça ergueu uma sobrancelha.
- Ô seu folgado! Você vai mesmo deixar essa toalha jogada aí?! – Ela perguntou indignada, apontando para . – Usa minha toalha e depois joga por aí que nem roupa suja, é isso mesmo?
- Não sabia que era sua, desculpa! – respondeu assustado, imediatamente pegando a tal toalha do chão e colocando sobre o aparelho de som. – E nem pensa em brigar comigo, porque vim até aqui pra dançar com vocês e nada até agora!
- Eu tava dando uma pausa, tá? Não sou feita de ferro! – A moça respondeu rindo e se levantou imediatamente, aproximando-se do amigo. – Mas vamos lá, agora você tem minha atenção, querido.
- Ótimo! – Ele comentou fingindo estar bravo, mas sorrindo de maneira até um pouco infantil logo em seguida. – Vamos ver o que você anda aprendendo...!
- ! – virou para , que ainda estava sentado no chão, apoiado no espelho da sala. – Você não quer vir dançar com a gente?
- Ah, por enquanto não, ... Preciso dar uma pausa também! – E ele sorriu. – Podem ficar aí, juro que não vou julgar ninguém!
Com isso, segurou a mão de e a fez dar um giro pela sala, começando a dançar com ele.
apoiou os cotovelos nos joelhos e recostou a cabeça no espelho atrás de si. Um pequeno sorriso brincava nos cantos dos seus lábios, enquanto seus olhos a observavam atentamente, cheios de carinho. Ele gostava de observar como o corpo de se movia quando a moça dançava. E ia gostar mais ainda de coreografar um “amor proibido” junto com ela.


- Krumping, ? Sério? – estava indignada, com as mãos apoiadas na cintura.
E lá estavam eles novamente naquele galpão abandonado no meio do nada, prontos para dançar no chão laminado de água. Tiveram alguns dias de descanso enquanto a equipe de edição trabalhava no MV, mas daí o diretor teve a “brilhante ideia” – palavras do próprio homem – de colocar o grupo e só um grupo seleto dos melhores dançarinos para fazer a coreografia no galpão abandonado, sobre a água e depois com chuva falsa caindo sobre eles.
Não seria nada fácil. Novamente era de madrugada e estava frio. Porém, para o conceito do MV, não era possível usarem roupas quentinhas: estavam usando regatas e jaquetas de couro, calças skinny rasgadas e correntes penduradas na cintura ou sobre o peito, com botas que não eram nem um pouco impermeáveis.
Enquanto esperavam para fazer a maquiagem, e conversavam sobre seus próximos ensaios e o que incorporariam na coreografia que ainda estavam tentando descobrir o conceito – deixando a ideia de de “amor proibido” em standby, somente para utilizá-la se não achassem nada melhor.
- Sério! Krumping tem uns movimentos bem legais e acho que tá na hora de você aprender. – Ele respondeu sorrindo largamente, quase como se estivesse se divertindo com a desgraça da amiga. – Nossas coreografias usam krumping e tem uma delas que tem bastante disso. E nem vem me falar que eu sei que você já tirou a coreografia e sabe dançar!
- Saber dançar aquela coisa talvez seja uma palavra forte demais... – A moça suspirou e se sentou em um dos caixotes próximos. – Eu sei o básico dela. O resto improviso como sei e acaba virando algo mais puxando pra ballet do que pra street em si.
- Jura? – Ele ergueu uma sobrancelha. – Eu ia adorar ver isso um dia.
- Pois é. Infelizmente nem tudo que a gente quer acaba acontecendo na vida real, né querido? – comentou de maneira sarcástica, sorrindo docemente em seguida.
- Para de ser envergonhada comigo, mulher. – respondeu seriamente e ela conseguia ver que ele não estava de brincadeira por conta da maneira que a olhava.
- Um dia, talvez. Mas não será hoje. – Ela suspirou de volta, admitindo a vergonha que tinha de dançar livremente na frente dele. – Krumping é muito difícil pra mim, ...
- Ah, eu tenho certeza que você dançaria com a maior facilidade, ! – surgiu repentinamente, já com a maquiagem e pronto para a gravação. Ele claramente estivera escutando toda a conversa, já que a cadeira em que estava sentado para que a maquiadora trabalhasse era logo ao lado deles.
- Desde quando você terminou...? – franziu as sobrancelhas e logo que se levantou para ir à cadeira, já que estivera esperando a maquiagem de acabar, viu se sentando casualmente, como se nada estivesse acontecendo. – ...
- Não é minha culpa, você que demorou demais! – O amigo respondeu, ignorando o olhar de morte que lançava para ele, sorrindo logo em seguida.
- Pode ir tirando essa certeza da sua vida então, . – suspirou, claramente ignorando o fato de que queria esganar e aparentemente o amigo não se importava com aquilo. Enquanto isso, se sentou ao lado dela na caixa, observando enquanto voltava a se sentar na frente deles. – Eu sou péssima de krumping. O já tentou me ensinar uma vez e posso te garantir que foi uma experiência traumática.
- Ela quase me bateu umas três vezes. – completou imediatamente, antes que pudesse perguntar. – Mas não foi porque você era péssima! Foi porque eu não prestei atenção!
- E provavelmente porque ele é um péssimo professor. – comentou claramente para provocar o amigo, recebendo um olhar de morte de . somente começou a rir. – Mas brincadeiras à parte, você é boa de street e dança em geral. Com um pouco mais de treino, vai tirar krumping de letra, eu tenho certeza.
- Não é tão difícil assim, . É só a questão de acostumar com os movimentos, que nem você fez com tutting, por exemplo. – E nisso, lançou um sorriso doce para ela, fazendo-a suspirar quase derrotada.
- É que vocês dois não estão entendendo. Krumping para mim seria como um fouetté triplo pra vocês. – A moça apoiou os cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos, suspirando. Estava sofrendo com a ideia de dançar de uma maneira ridícula na frente de .
Sempre tivera aquele problema, porém, após o beijo, aquilo somente agravou exponencialmente. Queria que a visse como uma excelente bailarina em geral, não somente em um estilo específico. O pensamento de dançar de maneira desconjuntada na frente dele, sem conseguir coordenar os movimentos direito e acabar fazendo algo totalmente horrível a assustava. Em algum lugar escondido do coração de , ela tinha medo que perdesse o interesse por ela; que repentinamente ela se tornasse algo completamente indiferente para ele. A moça sabia que aquilo não tinha fundamento algum – pois claramente se sentia atraído mais pela personalidade do que qualquer outro motivo fútil – mas não conseguia conter aquele sentimento.
- Fouetté...? – franziu as sobrancelhas imediatamente, lançando um olhar para , para checar se o amigo conhecia que tipo de movimento era aquilo.
- Deve ser algo de ballet. – deu de ombros, tão confuso quanto .
- É algo de ballet! – finalmente se manifestou em sua cadeira, apesar de ter os olhos fechados enquanto a maquiadora passava o pincel cuidadosamente por sua pálpebra, colorindo-a de marrom café. – Algumas pessoas falam que é o passo mais difícil que existe!
- Ninguém te perguntou! – respondeu rispidamente, levando um leve tapa de enquanto a moça se levantava. – Ei...!
- Não sei se é o mais difícil... É trabalhoso, isso tenho que admitir. – Ela comentou, tirando as botas e escorregando algumas vezes com as meias sobre o chão até achar uma superfície lisa sem nada em volta. e a observavam atentamente. – Mas depois que você pega o jeito, ele flui.
- Ah, eu já vi seus fouettés, . São lindos. – comentou com um sorriso sonhador nos lábios.
- E posso saber por que o sabe disso e a gente não? – cruzou os braços com uma ponta de ciúmes se manifestando em seu peito. Dependendo da situação, ele admitia aquele sentimento com uma facilidade incrível.
- Porque a gente fez um dance practice uma vez e conversando sobre ballet, acabamos comentando disso. Ele pediu para que eu dançasse e eu dancei. – E somente sorriu. – Fim de história.
Essa resposta só fez com que e lançassem olhares suspeitos para . Quando o amigo abriu os olhos para que a maquiadora pegasse mais maquiagem, encontrou-os encarando-o.
- Que foi? Vocês que não puderam ir naquele dance practice no dia. – deu de ombros, convencido a não se sentir mal sobre aquilo. – E você chegou atrasado, .
- Chegou?! – nunca soubera daquele fato. queria bater em si mesmo e só lançou um sorriso um tanto sem jeito para ela.
- É... O teve que ficar mais tempo nas gravações naquele dia. Logo que eu consegui, saí do estúdio e corri para a sala de dança, mas você já tinha ido embora há uns dez minutos. – Ele contou, bagunçando os próprios cabelos para se distrair do fato de que estava começando a sentir as bochechas ardendo em vermelho. – O comentou que você tava cansada, então pedi pra ele não falar nada, pois sabia que você voltaria e, se soubesse depois, ia se sentir culpada de não ter me esperado.
- Claro! Você saiu correndo pra dançar comigo! Poxa, ! – E balançou a cabeça, sem conseguir acreditar nele.
- É. Enquanto isso, eu tava lá, que nem trouxa, gravando. – suspirou, fazendo com que todos começassem a rir da desgraça dele. – Bom, já que você está aí, sem sapato, pode mostrar pra nós agora, né ? Como chama mesmo? Fouetté?
- É. Fouetté. E triplo ainda por cima. – Ela respondeu piscando.
Antes que pudessem falar qualquer outra coisa, porém, ela se colocou em uma quarta posição com os pés bem espaçados, em uma postura típica para início de pirueta. Pegando impulso com a perna de trás, se levantou em meia ponta na perna esquerda, dobrando a direita até que formasse um quatro, realizando um giro perfeito. Nada de especial até ali.
Porém, quando seu corpo estava quase de frente para eles novamente, saiu da meia ponta e caiu em plié, enquanto a perna direita se estendeu para a lateral, pegando impulso novamente para mais uma pirueta. Assim que a perna se dobrou no quatro novamente, a perna esquerda subiu na meia ponta como antes para viabilizar o giro. E, depois que ela terminou o movimento, ainda o repetiu mais uma vez.
Na terceira pirueta, , caiu novamente na quarta posição que fizera no começo, para iniciar o giro, porém dessa vez usou a perna de trás para ancorá-la de volta no chão e segurar a força dos movimentos para que parasse. A moça tinha um sorriso plácido no rosto, como se tivesse acabado de fazer a coisa mais simples do mundo.
Enquanto isso, e somente a observavam boquiabertos, completamente pasmos e sem conseguir acreditar no que tinham acabado de presenciar.
- Isso é um fouetté triplo. – Ela comentou rindo, as bochechas corando em vermelho ao ver a expressão dos dois, mas logo conseguindo controlar os sentimentos.
- Ela consegue fazer até sete sem cair! – teve que complementar e os dois somente ficaram mais impressionados ainda.
- Calma! Não é bem assim! – agitou as mãos, negando tudo enquanto se aproximava. – Três é meu número perfeito para fouettés. Consigo fazer bem até cinco. Depois disso começo a andar e a coisa começa a ficar estranha. Se ultrapasso de sete, vai desandar tudo e provavelmente eu cairei no chão. De bunda.
- “Andar”? Como assim? – franziu as sobrancelhas. Estava acostumado com termos de dança, mas não sabia o que aquilo significava naquela frase.
- O ideal do fouetté é que você consiga começar em um lugar e terminar nele mesmo. Acontece que chega uma hora que, pra se equilibrar, você começa a ir mais para o lado, começando em um lugar e terminando uns centímetros mais para o lado. – explicou, sentando-se novamente ao lado de . – Meu sonho é conseguir fazer o solo da Odile sem andar e sem me esborrachar no chão.
- Solo de quem...? – E estava tão perdido quando .
- Odile! – se meteu na conversa novamente, aproximando-se dos amigos após terminar a maquiagem. – É do ballet do Lago dos Cisnes. A bailarina principal faz o papel da Odete, o cisne branco, e da Odile, o cisne negro. É um dos papéis mais difíceis que tem e mais disputados entre as bailarinas, precisa ser muito boa pra conseguir fazer.
- E o solo da Odile são trinta e dois fouettés seguidos, se não me engano. É uma coisa linda de se ver. – respondeu sorrindo, claramente sonhando com aquilo.
- Trinta e dois? – estava chocado, levantando-se rapidamente para que ninguém tomasse seu lugar na cadeira de maquiagem. – Fazer três que nem você fez já é difícil e incrível! Imagina trinta e dois!
- Pois é. Por isso é preciso ensaiar até os pés praticamente sangrarem. – deu de ombros. – É por isso que sou tão dura comigo mesma e sempre quero ser perfeita nos movimentos. É algo que você aprende dançando ballet.
- É mais exigente até do que o Exército. – respondeu com uma risada sem humor, fazendo-a sorrir enquanto concordava. Ele sempre se admirava com o fato de que era tão forte e resistente. Não sabia com detalhes a trajetória dela para se tornar a dançarina que era, porém sabia que não fora fácil: enfrentara a própria família para seguir seus sonhos, assim como eles fizeram, e passara madrugadas forçando o próprio corpo para ser nada menos que excelente. Isso fazia com que ele a admirasse absurdamente. – É por isso que você é tão incrível, .
- Obrigada, . Você também é bem incrível. – Ela respondeu com uma piscadela, fazendo-o sorrir em resposta.
- ...? – Uma das maquiadoras se aproximou repentinamente. – Terminei de maquiar a última pessoa, você quer vir comigo para agilizar o processo?
- Ah, claro! Pode ser! – A moça imediatamente se levantou, feliz que estava na sua hora de ser maquiada. – Depois que terminar a minha já vamos gravar, certo?
- Certo. – A maquiadora sorriu e tornou a atenção para e . – É bom já ficar a postos, meninos. Não vou demorar muito com ela.
Sendo assim, se sentou na cadeira ao lado de e fechou os olhos para iniciar a maquiagem. Os dois achavam que estavam sendo bem discretos, abrindo os olhos e observando o outro pelo espelho, trocando alguns sorrisos rápidos quando ambos se encontravam de olhos abertos. Quando o outro estava de olhos fechados, somente aproveitavam para observar durante alguns rápidos segundos, antes de voltar a atenção para os pincéis. Porém, as maquiadoras logo notaram essa troca de olhares e, concordando com pequenas risadinhas inaudíveis enquanto e estavam de olhos fechados, começaram a fazer hora quando algum dos dois abria os olhos, demorando um pouco mais para pegar a maquiagem ou fingindo ter que trocar de pincel – algo que deixou e bem contentes, apesar de nem perceberem que podiam aproveitar seus olhares por conta da ajuda das maquiadoras.
Naturalmente, apesar de enrolar, a maquiadora de acabou a dele antes. Sendo assim, com a desculpa de esperar ficar pronta para ajudá-la a não escorregar no chão molhado, ele ficou aguardando, em pé mesmo, contendo a vontade de olhá-la no espelho, pois não queria ser muito óbvio. As maquiadoras somente trocavam risadinhas inaudíveis, achando que ele estava sendo a pessoa mais fofa do mundo – de braços cruzados, sério, fingindo estar completamente alheio ao que estava acontecendo.
- Estou pronta, vamos? – finalmente perguntou, enquanto pegava a jaqueta de couro da cadeira em que havia pendurado.
se virou para responder e prontamente acompanhá-la até a área da filmagem, porém assim que a viu ficou sem palavras. As roupas dela eram completamente negras, a blusa regata larga e rasgada expondo os braços delineados e elegantes. Os cabelos emolduravam perfeitamente o rosto e a maquiagem somente acentuou as melhores características dela. Apesar de ser mulher, como os integrantes e outros dançarinos eram homens, a maquiagem de seguira a deles, somente um pouco mais carregada e esfumaçada por ter olhos maiores, a boca com um tom levemente mais avermelhado e certamente mais brilhante com o gloss. Seria horrível para dançar, pois seus cabelos grudariam o tempo todo, porém ficaria maravilhoso no MV. Enquanto ela colocava a jaqueta, só ficou observando a cara de paisagem de – levemente boquiaberto com a beleza dela.
- O que foi? – A moça perguntou novamente, observando-o com grandes olhos inquisidores em inocência.
- Ah, o quê...? – E nem ele sabia muito bem o que ela tinha perguntado. Estava muito distraído com a maneira como a sombra cor de café emoldurava a parte de baixo dos olhos de , da mesma maneira que fizeram nos olhos de . Porém, com ela, havia ficado completamente diferente e muito mais gracioso, além de impactante. – Vamos?
- Sim, vamos. Mas por que você tá me encarando com essa cara perdida? – Ela perguntou rindo, começando a caminhar com . Os dois mal notaram quando as maquiadoras começaram a rir e comentaram entre si que ambos formariam um ótimo casal.
- Eu te encarei...? – Ele perguntou balançando a cabeça e se amaldiçoando mentalmente. – Desculpa, não era minha intenção! Não é nada...
- , você ficou um bom minuto me olhando com cara de poste, não é possível que não seja nada! – respondeu com uma boa risada ao fim da frase.
deixou que chegassem à metade do caminho, onde não havia mais ninguém por perto, somente o pessoal que faria a gravação à frente e a produção toda atrás. Ele olhou em volta, checando se haveria alguém perto o suficiente para ouvi-lo, porém todos estavam longe. Se ele mantivesse a voz baixa, poderia falar com ela, poderia responder à pergunta de sinceramente...
A questão era: ele devia? Prometeram não se envolver, repetiram milhões de vezes que aquele beijo não fora nada. Mas só ele sabia como ficava acordado durante a madrugada, sozinho em sua cama, encarando o teto e relembrando o toque dos lábios de nos seus... Só ele sabia como queria mais. Como queria segurá-la em seus braços, beijá-la sem medo algum, chamá-la por algum apelidinho tonto... Como queria se sentar com ela embaixo das cobertas e assistir filmes durante uma noite fria, terminar um dance practice com ela em seus braços, beijá-la enquanto a encostava em um dos espelhos da sala de dança, subindo as mãos por dentro da blusa de enquanto ela suspirava.
prometera que não se envolveria com ela. Mas não conseguia conter a própria mente de imaginar como um relacionamento com ela não seria nada menos que perfeito. Podia se ver claramente de mãos dadas com , na neve, levando-a para a casa de chá mais próxima para que pudessem comprar chocolates quentinhos e aquecer os narizes com o vapor enquanto ela ria daquela maneira que ele achava maravilhosa.

Aquela imagem fez com que as palavras travadas na ponta da língua de ganhassem vida própria.

- Você está linda. Essa maquiagem só te deixou mais perfeita do que já é. – Ele comentou silenciosamente, em um tom que somente escutaria. Ao escutar cada uma das frases, a moça até se esqueceu de como fazia para respirar normalmente. – Foi por isso que te encarei: ninguém vai conseguir desgrudar os olhos de você nesse MV... Principalmente eu.
A última frase de foi dita em um sussurro, enquanto somente fechou os olhos. Ambos caminhavam lado a lado, em uma distância normal, com as mãos enfiadas nos bolsos das jaquetas de couro. Ela queria tocá-lo, enlaçar seus braços em volta do torso de e apoiar a cabeça no peito dele, em um abraço apertado. Ele queria enlaçar os próprios dedos nos dela, puxando-a para perto de si em um abraço, afagando os cabelos de que ele tanto gostava. Mas tudo que podiam fazer era continuar encarando o chão e caminhar normalmente, como se nada estivesse acontecendo. Como se não tivesse dito nada de mais.
- Você também está maravilhoso, . É por isso que não consegui olhar direito na sua direção até agora. – finalmente respondeu de maneira silenciosa, quase como um sussurro. arregalou os olhos, chocado com aquelas palavras, pois não achou que responderia. Após a promessa que fizeram, achava que qualquer comentário que ele fizesse com aquele teor seria completamente unilateral... Porém estava enganado. Lá estava ela, abrindo os próprios sentimentos para ele. Por mais que fosse por um pequeno momento roubado. – Teria te encarado da mesma maneira que você fez comigo... Acho que você vai chamar mais atenção do que qualquer outro nesse MV.
Com o fim dessa frase, ambos finalmente alcançaram o grupo de amigos e dançarinos que fariam a gravação. Conversaram um pouco com todos, como se nada tivesse acontecido, até o Diretor se aproximar e anunciar para que tomassem seus lugares, pois a gravação logo teria início.
E não foi fácil. Por conta da água, o chão ficou escorregadio e era difícil manter a estabilidade sem acidentes – ainda mais porque a coreografia rápida, dinâmica e complicada, com passos difíceis de executar até em um chão estável. Tiveram pequenos acidentes – como escorregões e até algumas quedas – mas nada que não estivesse finalizado perfeitamente em uma hora e meia de gravação.
- Ótimo! Vamos gravar a parte com a chuva em dez minutos, então nem pensem em descansar! – O Diretor finalmente comentou, enquanto todos procuravam algum lugar para sentar.
Nem adiantava se secar, pois acabariam molhados novamente. Como não seria nenhuma das cenas iniciais do MV, nem fazia sentido começarem secos: já podiam ir molhados que não teriam problema algum.
- ! Vem cá e me tira uma dúvida! – se aproximou da amiga, chamando-a para perto através de gestos com as mãos.
- Você tem um cobertor? Se não, nada feito! – A moça respondeu tentando aquecer os próprios braços, fazendo-o rir imediatamente.
- Infelizmente não, mas sou bem quentinho! – Dizendo isso, passou um braço pelos ombros dela. – Pronto! Melhor assim?
- Melhor. Diga o que você quer, fofo.
- O me disse que você e o vão fazer uma coreografia, confere? – Ele perguntou todo animado, fazendo-a rolar os olhos.
- Confere. Era pra ser um projeto só nosso, mas aparentemente ninguém sabe guardar segredo. – E cruzou os braços, enquanto e se aproximavam carregando bebidas quentes.
- E vocês vão coreografar com o conceito de “amor proibido”? – Foi só perguntar que e imediatamente se olharam como se tivessem sido descobertos por fazer a coisa mais errada do mundo.
- Ainda não sabemos. – fez o favor de responder enquanto ainda continuava impactada com a pergunta inesperada. Ele estendeu um copo branco com tampa para ela, sorrindo em seguida. – Chocolate quente. Para esquentar um pouco nesse frio.
- Ah, obrigada, ! Você é um anjo! – pegou o copo, acidentalmente segurando nos dedos de também. Ele demorou um pouco para soltar o recipiente, somente para sentir o toque dela durante algum tempo a mais.
- Eu que dei a ideia do “amor proibido”. – finalmente comentou enquanto pegava os copos da mão do amigo e soltava de . Afinal, o copo estava quentinho e todo mundo queria esquentar as mãos no recipiente. – Acho que ficaria muito bom com os estilos deles.
- Ficaria mesmo! Era sobre isso que estávamos falando até agora! – comentou animadamente após um gole de chocolate que fez suas bochechas ficarem rosadas com o calor repentino. – O Diretor até curtiu a ideia! Se a coreografia ficar legal, e temos certeza que vai ficar, vocês podiam gravar um MV! Acho que não seria nem um MV, seria só um vídeo curto, mas algo para colocar no meio dos shows como intervalos e no nosso canal no Youtube. Poderíamos desenvolver bem essa ideia de “amor proibido” dependendo da música que vocês escolherem e do feeling da dança. Vai ficar excelente!
- Mas ainda nem pensamos direito, tínhamos algumas outras ideias... – respondeu despreocupadamente, mentindo na cara dura. Não tinham nenhum outro conceito e adoraram a ideia do “amor proibido”, mas não podiam negar que estavam um tanto relutantes.
- Ah, , nenhuma ideia será melhor que a do , eu garanto! – O Diretor surgiu no meio do grupinho, assustando a todos e quase causando um acidente generalizado de chocolates quentes. – Quando decidirem a música e fizerem uma parte da coreografia, me mostrem, certo? Vamos desenvolver bem essa ideia maravilhosa que vocês tiveram de coreografar juntos e fazer bom uso disso para propaganda do show que está para lançar! Todo mundo adora uma história de amor proibido! Agora se preparem que vamos voltar a gravar em dois minutos.
Dizendo isso, o Diretor se afastou enquanto e somente trocaram olhares difíceis de decifrar. Não teriam muita escapatória: tinham que coreografar aquele tema. Em parte, estavam tensos, mas, de resto, estavam contentes que agora tinham uma desculpa para obrigatoriamente usar a ideia que dera durante aquele último dance practice.
- Parece que não temos muita opção, né...? – perguntou um tanto desconfortável, sendo que e imediatamente começaram a rir, sem nem perceber os olhares dos amigos.
- Claro que não! Estamos ansiosos pra ver a coreografia! – comentou alegremente, genuinamente curioso. – Quero ver o que vai sair disso!
e também sorriram, de maneira muito mais significativa para seus olhos. Eles também queriam saber o que aconteceria a partir dali, principalmente com a responsabilidade de fazer uma coreografia daquelas.


Capítulo 3

Segundo movimento - Ballet (Parte 1)

Semanas se passaram desde aquele dia. O MV finalmente foi lançado e o grupo ficou ocupado fazendo as promoções e apresentações que vinham após um lançamento daqueles. , por outro lado, fora chamada para fazer outra gravação, dessa vez para um clipe do grupo NCT – que, apesar dos vários integrantes, precisava de vários dançarinos de apoio para viabilizar o MV – o que a deixou indisponível por um bom tempo.
sentia que a sala de dança era grande demais para ele. Os dias se passavam e lá estava ele sozinho: o silêncio na rua e a batida da música que embalava seus movimentos de street vibrando pelo chão.
Ele sentia falta da delicadeza de ao dançar ballet, dos movimentos leves e cuidadosamente executados pela amiga. Sentia-se estranho ao olhar para o espelho e ver sua própria silhueta refletida no meio daquela enorme e sufocante sala branca.
Naquele dia especificamente, estava se sentindo mais sozinho do que o normal. Fazia dias que eles não se falavam nem por mensagens, pois ela estava destruída por conta das gravações, e semanas que não se viam. Parecia que o coração dele sentia o fato de que não estava ao seu lado.
repentinamente pegou-se observando sua própria forma no espelho. Lembrou-se de como comentara sobre posturas e como podia adivinhar facilmente se a pessoa fizera aula de ballet ou outro estilo de dança pela postura.
Ele ergueu uma sobrancelha. Imediatamente endireitou as costas, ficando o mais reto que conseguia, erguendo até um pouco a cabeça. Vira alguns vídeos de ballet com ela, além de que estavam eternamente tentando marcar uma sessão cinema na qual assistiriam ao ballet da Bela Adormecida – um dos vários na coleção de DVDs de .
Ela ensinara a ele algumas posições e também não era besta. Colocou os pés na quarta posição, esticando a perna de trás até a ponta dos dedos apoiarem no chão, os braços dobrados da maneira como a posição pedia. Aquela era a base para piruetas, ele se lembrava de quando o ensinou a parar daquela maneira. Só que ao invés de fazê-lo ser ridículo no meio da sala de dança, ela que fizera aquela pose. E ficava simplesmente deslumbrante quando mostrava seu lado elegante de bailarina.
- O quê? Alguém resolveu aprender a dançar ballet?
A voz dela ressoou pela sala como um sino de prata em uma manhã de inverno. se virou imediatamente, em choque, encontrando uma parada à porta da sala de dança, a mochila enorme apoiada no ombro, os cabelos soltos contrastando com a blusa enorme e larga – que mais parecia um vestido – as pernas cobertas por um par de calças jeans rasgadas nos joelhos e o all star vermelho surrado mal amarrado nos pés.
- ! Que saudades! – E saiu correndo na direção dela, imediatamente agarrando-a e tirando-a do chão, feliz em finalmente vê-la. – Faz tanto tempo!
- Nem me diga! Eu estava morrendo sem os nossos dance practices! – Ela respondeu rindo, retribuindo o abraço como conseguia, já que a mala de dança fora esquecida no chão. – Pra você estar dançando ballet, é porque ficou com muita saudade!
- Ignora e finge que você nunca viu aquilo. – Ele respondeu rindo de si mesmo enquanto a deixava no chão. – É sério, . Aquilo tava medonho.
- Não acho. Você tem porte de bailarino. Sua constituição física é boa para isso! – piscou para ele e pegou a mochila do chão, caminhando para seu fiel e conhecido cantinho na sala de dança.
quase suspirou ao ver a mochila de dança dela sendo jogada naquele canto. Era aquele o lugar ao qual o objeto pertencia e aquele ponto da sala ficava bizarramente vazio sem aquele troço grande o suficiente para enfiar a própria lá dentro.
Só depois que ela se sentou é que ambos perceberam o que a moça tinha acabado de falar. E aquilo fez lançar um sorriso um tanto safado para ela, o que percebeu com o canto dos olhos.
- Quer dizer que você fica prestando atenção na minha constituição física então...? – Ele colocou as mãos na cintura e lançou seu melhor sorriso convencido para a amiga.
- Para de safadeza, seu pervertido! – respondeu rindo, jogando não um, mas os dois pés do all star vermelho em cima dele. imediatamente caiu na gargalhada, esquivando-se dos sapatos. – Não foi isso que eu quis dizer, tonto!
- Sei que não foi...! – Mas claro. Ele resolveu provocar mais, de maneira sarcástica ainda por cima.
E mal teve tempo para se esquivar de uma sapatilha de salto atirada na própria direção. Por pouco não levou um sapato na testa.
- Hoje você tá atacado, não? – Ela balançou a cabeça, caminhando pela sala usando somente uma sapatilha, a fim de buscar a que fora estampada na outra parede.
- É que faz muito tempo que não te vejo. Daí fico besta desse jeito. – E o próprio comentou com uma risada um tanto envergonhada.
- Percebe-se. – ergueu uma sobrancelha enquanto se equilibrava em somente uma perna para colocar a sapatilha. – Mas também senti saudades, só por isso joguei os sapatos.
- Ah, mas que amor mais bruto...! – Ele suspirou de volta em tom de brincadeira, fazendo-a rolar os olhos enquanto ria.
- É, e pelo visto você gosta! – A moça parou bem próxima a , com as mãos na cintura.
- Adoro! – Ele respondeu imitando a pose e o sorriso que ela tinha no rosto, ambos a míseros centímetros de distância.
E só quando tiveram a vontade quase incontrolável de se beijar para matar as saudades é que perceberam que aquela situação era perigosa demais para eles. Os sorrisos diminuíram gradualmente e foi a primeira a se afastar, olhando para os pés.
- Gosto das suas brincadeiras tontas também... – Ela comentou, tentando, de maneira frustrada, não parecer tão afetada.
- Você é uma das poucas, eu sei... – passou a mão pelos próprios cabelos, bagunçando-os um pouco e tentando conter os tons de rosa que cismavam em tingir suas bochechas por conta da vergonha.
- Mas então... Você chegou a pensar um pouco mais na coreografia? – puxou logo o assunto para não pensarem muito naquilo. Ou acabariam se beijando efetivamente. – Ou só focou em mudar pro lado ballet da Força?
- Engraçadinha. – Ele comentou com os olhos semicerrados e um pequeno sorriso no rosto, imediatamente voltando para o clima brincalhão de antes. – Pensei em algumas coisas, mas ainda não definimos a música, né? Daí fica um pouco difícil...
- Eu cheguei a pensar nisso enquanto estávamos gravando... Se você não se importar, vou colocar a música que pensei, pode ser? Aí você vê se encaixa com o que pensou. – A moça sorriu de volta, aproximando-se do aparelho de som.
- Ah, claro! Sem problemas... – Enquanto respondia, entretanto, perdeu-se em seus pensamentos ao observar . Apesar de ter um pequeno sorriso nos lábios, os olhos dela estavam cansados como nunca. Ela parecia ter emagrecido desde a última vez que se viram e aquilo fez com que ele imediatamente franzisse as sobrancelhas. – ... Você não tá cansada não?
- Nope. Estou bem, ... – Ela respondeu automaticamente, fazendo-o rolar os olhos.
Sendo assim, se aproximou dela e abriu os braços. imediatamente olhou para ele e ergueu uma das sobrancelhas.
- O que você quer?
- Um abraço. – Ele respondeu com o maior sorriso do mundo estampado nos lábios.
- Mas você já me deu um! De urso até! – A moça balançou a cabeça, porém se voltou para ele. Era impossível negar abraços para .
- Eu sei, mas aquele foi de saudades. Agora posso dar um abraço de gente... – E, dizendo isso, a envolveu, os braços de presos entre os dois. Ele resolveu aproveitar o sentimento de tê-la em seus braços e logo o que era para ser somente um abraço rápido se tornou algo mais. Os dedos de se prenderam entre o tecido da blusa de e ele até arriscou repousar uma de suas mãos sobre os deliciosos cabelos dela. Somente nesse momento que ele abriu os olhos e, ao se ver no espelho, percebeu que estavam levando as coisas longe demais. – Sabia. Você emagreceu.
- O quê? – E imediatamente franziu as sobrancelhas, distanciando-se levemente de e encarando-o sem entender. – Você me abraçou só pra ver se eu tinha emagrecido?
- Exatamente. Estou preocupado com você, . Nunca te vi tão cansada. – Dizendo isso, ambos aproveitaram para se separar do abraço, relutantes em ter que deixar o outro. – Dois MVs seguidos é algo pesado. Não é pra todo mundo e é difícil de aguentar. Ainda mais que você teve que aprender a coreografia do outro na marra e com pouco tempo para ensaiar.
- Ah, eu aguento, . Não é a primeira vez que tenho que trabalhar além do meu limite. – A moça piscou para ele e voltou para o aparelho de som.
- Eu também já tive que trabalhar a ponto de chorar. E sei exatamente como precisamos de descanso em seguida. – Dizendo isso, ele se apoiou no aparelho de som, observando-a cuidadosamente. – Você precisa de tempo para relaxar.
- Mas eu relaxo quando estou com você. – respondeu de maneira praticamente inconsciente enquanto procurava a música que queria. – Nossos dance practices são momentos de descanso para mim, não trabalho.
somente a contemplou durante alguns segundos. A moça realmente parecia extenuada, mas não havia nada além de verdade nas suas palavras. Ele deixou um pequeno sorriso colorir seus lábios. Na própria opinião, era uma pessoa extraordinária. se lembrou das noites em que seu corpo não parava de doer de tanto treinar, quando se trancava no chuveiro às três horas da manhã e deixava as lágrimas escorrerem livremente, pensando se realmente conseguiria aguentar tudo aquilo. Mas ele tivera seus amigos do grupo para dar suporte a ele... Quantas vezes não o encontrara sentado no corredor do dormitório com hematomas nos tornozelos e oferecera todo o apoio e ajuda do mundo?
perdera a conta. Observando , sabia que ela tinha passado pelo mesmo. Ninguém alcançava um sonho sem esforço, dedicação e milhares de noites mal dormidas. Mas ele se questionava: quem a apoiara? Ela tivera um ombro amigo? Alguém que a ajudasse a se levantar quando estava cansada demais, machucada demais? Algo dentro dele o incomodava, dizendo constantemente que não, ela não tivera em quem se apoiar. Aquilo fez com que ele inconscientemente esticasse o braço até finalmente tocar a mão dela, acariciando-a cuidadosamente, como se fosse se desfazer com um toque mais forte.
Ela imediatamente voltou a cabeça para ele, franzindo as sobrancelhas. Era a primeira vez que ele a tocava tão diretamente daquela maneira. não sabia como reagir e não tinha ideia do que fazer com o sentimento quente e aconchegante que se criou em seu coração e dispersou por todo o corpo conforme o sangue bombeava por suas veias. Ela queria que ele não soltasse sua mão nunca mais.
- ...? – perguntou com a voz estupidamente falhada, o único resquício que tinha sobrado na própria garganta.
- Você sabe que pode contar comigo, não? – Ele perguntou, finalmente tirando os olhos dos seus dedos que se uniam para encontrar os olhos confusos da moça. – Aguentar essa vida que a gente tem e a cobrança não é fácil. Tenho a impressão de que você não teve muito em quem se apoiar pra se segurar em pé e quero ser essa pessoa. Quero que você venha me pedir ajuda quando precisar de força, ok? Você não precisa ficar sozinha.
- Não preciso me preocupar, por que você está aqui...? – Ela perguntou de volta, sem conseguir se policiar sobre o que estava falando. Normalmente, teria começado a rir e perguntaria de onde ele estava tirando tudo aquilo tão repentinamente. Mas havia algo no fato de ter feito questão de checar se ela tinha emagrecido, notado que ela estava cansada além do normal e a maneira como ele a olhava que a impediu de agir de maneira pensada.
- Exato. Porque eu estou aqui. – E deu um de seus lindos sorrisos que sempre fazia com que sorrisse de volta e ficasse com vontade de suspirar.

Just one kiss on my lips
(Só um beijo nos meus lábios)
Was all it took to seal the future
(Foi o suficiente para selar o meu futuro)
Just one look on your eyes
(Só um olhar nos seus olhos)
Was like a certain kind of torture
(Foi como um certo tipo de tortura)


Os olhos de imediatamente encontraram os de em choque. Nenhum dos dois esperava que a música que ela comentara começasse a tocar repentinamente daquela maneira enquanto suas mãos estavam unidas de uma maneira tão íntima. O que era aquela letra? Parecia que estava falando diretamente com eles, revelando todos os sentimentos mais secretos que ambos se esforçavam tanto para reprimir dentro de si mesmos.

Just one touch from your hands
(Só um toque das suas mãos)
Was all it took to make me falter
(Foi o suficiente para me fazer vacilar)


O toque dos dedos de somente ficou mais óbvio enquanto o coração de fazia questão de bater de uma maneira descompassada. Ela começava a se questionar se fora uma boa opção colocar aquela música para tocar, mas agora não tinha como voltar atrás.

Forbidden Love
(Amor proibido)
Are we supposed to be together?
(Nós devemos estar juntos?)
Forbidden Love
(Amor proibido)


Os lábios de se curvaram em um pequeno sorriso sem humor com a ironia daquela letra. Sentindo a música caminhando lentamente pelo próprio corpo, os dedos dele se fecharam com um pouco mais de força na mão de , puxando-a vagarosamente para o meio da sala.
Ela não questionou: largou os aparelhos de som e deixou que seus pés seguissem como se estivesse hipnotizada, completamente entregue ao caminho que a música a fazia seguir. A batida crescia aos poucos e sabia aonde isso os levaria.
Quando a primeira nota de baixo soou grave pela sala e reverberou pelo chão, os pés de começaram a se mover em seus movimentos perfeitamente executados. o seguiu, dançando a melodia da maneira fluida como o ballet, em que era tão boa, exigia.
No momento que se virou novamente para , os olhares deles se encontraram de uma maneira quase tóxica. Sabiam o que deveriam fazer, o que deveriam dançar. Os passos que já tinham montado anteriormente da coreografia começaram a se materializar com uma naturalidade que nem eles esperavam. se movia ao redor de , ele sempre perto dela, porém sem poder tocá-la.
E estava nítido na coreografia como os dois sofriam com aquele fato.

Forbidden Love
(Amor proibido)
We seal the destiny forever
(Nós selamos o destino para sempre)
Forbidden Love
(Amor proibido)


Nesse momento, algo tomou de uma maneira que ela não sabia o que era: a música, a letra, a maneira como os movimentos nadavam em meio à melodia... Ela parou em frente a e, ainda na dança, repousou uma das mãos na face dele, movendo-a vagarosamente em um passo delicado de dança.
O choque de sensações que sentiu foi maior do que qualquer palavra que ele pudesse dizer. Fechando os olhos, somente abriu levemente os lábios em um suspiro, enquanto aproveitava aquele pequeno momento em segredo que podia aproveitar o toque de de maneira irrestrita.
A expressão no rosto de quase a fez perder a respiração.
Abrindo os olhos com o sentimento de seu coração batendo na velocidade da luz espelhado no olhar, segurou a cintura de com força e a girou pelo ar em um passo de dança não muito gracioso – afinal, ele nunca tinha dançado daquela maneira com alguém – mas que tirou o ar dos pulmões dela por um segundo.
Tocando os pés novamente no chão, eles coordenaram passos que ensinara anteriormente a . segurou a mão dela no fim da sequência, fazendo-a girar enquanto a música realizava uma contagem regressiva.
5, 4, 3...
Era mais forte do que eles. A dança os levava para outro mundo, um lugar em que podiam estar juntos e exteriorizar todos os seus sentimentos. Estavam absortos e não queriam parar nunca mais.
2, 1.
Quando a contagem chegou ao final, finalmente parou de girar, parando a centímetros do rosto de .
Voltando novamente para a realidade enquanto a música acabava, ambos começaram a se distanciar vagarosamente, completamente sem ar. Aquilo fora mais um erro que cometeram desde aquele beijo – que nunca deveria ter acontecido.
Com as costas encontrando as paredes repletas de espelhos da sala de dança, e tinham somente uma questão nas suas mentes: por que algo tão errado tinha que ser tão bom?
- UAU, essa é a coreografia de vocês?!
E esse berro à porta da sala fez com que os dois quase morressem do coração.
Na verdade, quase teve um colapso e de fato caiu no chão, sem força alguma nas pernas, somente pensando em como tinha sido boba por se deixar levar pela música. Se alguém os visse dançando daquela maneira sem contexto, os dois estavam mortos.
- ! NÃO FAZ ISSO! – não pôde deixar de gritar com o amigo enquanto tinha a mão no coração e se apoiava no espelho.
- O que foi? A sala não é particular! – O amigo respondeu, já se adiantando rapidamente até . – , você tá bem?!
- E você tem a pachorra de me perguntar isso depois de quase me matar...? – Ela perguntou de volta levemente sem ar, ajoelhando-se no chão e respirando fundo de olhos fechados, enquanto somente ouvia uma breve risada de e os passos dos dois se aproximavam.
- Eu senti saudades de você! Quando soube que estava aqui, vim direto pra sala de dança, pois sabia que a primeira coisa que faria seria dançar com esse pastel. Daí não deu pra evitar assistir enquanto vocês dançam, é uma química e tanto! – Dizendo isso, se ajoelhou em frente à amiga enquanto ela somente lançava um olhar rápido para . Ele também tinha um olhar de “não podemos fazer isso de novo” e aquilo a deixou aliviada. – É bom te ver novamente!
Com isso, a amassou em um abraço de urso, fazendo-a perder o ar por alguns segundos, mas causando um sorriso logo em seguida. também sentira saudades.
- ! – E a cabeça alegre de surgiu na porta da sala. – Você está de volta!
- O que é isso agora? A casa da mãe Joana? – rolou os olhos enquanto o amigo corria até eles, fazendo com que começasse a rir.
- E quem é você? O namorado dela, por um mero acaso? – respondeu da mesma maneira incomodada, mal percebendo como congelou no lugar.
- , você emagreceu? – se separou dela e a observava de cima abaixo com um olhar preocupado. – É pouco tempo pra ter emagrecido tanto. E parece cansada também. Esse maluco tá te escravizando pra dançar com ele, é isso?!
- Eu não fiz nada...! – jogou os braços para cima, quase começando a andar em círculos. Qualquer coisa que dissesse poderia revelar aquele sentimento que ambos compartilhavam e tentavam de todas as maneiras tratar como se não fosse nada.
- Não, eu que senti saudades de dançar com ele. – deu uma pequena risada enquanto segurava a mão que estendia para a ajudar a se levantar. – Eu emagreci sim, mas foi só um pouco. E também senti saudades de você !
- Eu nem precisei dizer e você já respondeu, quanta eficiência! – Ele riu e prosseguiu com um abraço apertado. Teria durado mais se não tivesse se afastado dela com as sobrancelhas franzidas e uma expressão completamente incomodada. – Você emagreceu bastante sim.
- Temos que remediar isso, gente. – comentou seriamente enquanto só observava tudo com as mãos na cintura.
Ele só queria dançar com ela.
- Noite da pizza? – perguntou seriamente enquanto o encarava de volta da mesma maneira.
- Noite da pizza. Eu vou pegar nossos casacos. – confirmou e já começou o caminho até a porta.
- Eu vou ligar lá e peço pra já prepararem nosso pedido! – E saiu correndo para pegar o celular.
e somente ficaram encarando a porta da sala de dança durante alguns segundos em silêncio, agradecendo mentalmente que nenhum dos dois percebera nada de estranho entre eles.
Em seguida, trocaram olhares e começaram a rir.
- Teremos bastante tempo pra dançar depois. – comentou enquanto ia até a porta, recolhendo os tênis de no meio do caminho. Ela somente riu enquanto jogava a mala de dança sobre o ombro.
- Sempre teremos tempo para os nossos dance practices. – A moça concordou e, aproximando-se da porta, olhou novamente para . – Eu senti saudades.
- Também senti. – pegou os tênis das mãos de .
Os dedos dela passaram pela mão dele um pouco mais vagarosamente do que o gesto exigia. Ambos sentiram o coração acelerando, lembrando-se de como tocou o rosto de enquanto dançavam.
Distanciando-se, procurou um banco para colocar os tênis antes de ir à pizzaria com os amigos. apagou as luzes da sala de dança e fechou a porta, certificando-se de que esta permaneceria bem fechada.
Eles se arriscaram demais durante o dance practice. Aquela dança e aqueles sentimentos não poderiam sair de lá.

- Quer mais um pedaço, ? – ofereceu enquanto pedia mais uma rodada de cervejas. A moça imediatamente começou a rir.
- Gente, não é pra engordar tudo que eu perdi nesses últimos dias em um dia só! Não é saudável!
- Ok. Eu vou pedir mais uma... Moça! – literalmente ignorou as palavras da amiga e, enquanto pedia mais uma pizza, tinha um ataque de risos como não tinha há muito tempo.
- É a nossa terceira pizza, ! Vai com calma!
- Não é só a senhorita que tá com fome aqui! – comentou e estendeu a mão para ela. – Passa o prato, . O último pedaço dessa daqui é pra você, esses dois esfomeados podem esperar a próxima pizza.
- Eu posso esperar...
- . Deixa esses dois sofrerem um pouco por interromperem o nosso ensaio. – disse seriamente, fazendo tanto quanto lançarem olhares indignados para ele.
- Agora que você falou, eles merecem sofrer mesmo. – incorporou a seriedade do amigo, o que causou mais indignação nos outros dois. – Pode me servir?
- Já tô com tudo pronto, só falta seu prato! – E sorriu largamente para a moça.
Ela estendeu o prato para ele e, nesse momento, seus dedos se encontraram. Enquanto e começavam com uma quantidade absurda de reclamações, e somente trocaram olhares.
Ele não distanciou o prato para não ter que largar a mão de . Era um dos poucos momentos em que podia tocá-la daquela maneira, então aproveitaria ao máximo. Demorando um pouco mais do que o recomendado para colocar o pedaço de pizza no prato – uns dois segundos a mais – sorriu para ela.
Como agradecimento, acariciou a mão dele com o dedão, por um rápido segundo, sorrindo ao ver a expressão de choque no rosto dele.
- Vocês ao menos estão escutando a gente?! – estava no ápice da própria revolta.
- Não. – Ambos responderam ao mesmo tempo.
Isso fez com que caísse na gargalhada enquanto somente ficou encarando o horizonte com uma expressão de vazio.
Sorrindo orgulhosamente um para o outro, a única coisa que e pensavam é que tinham descoberto algo novo.
E aproveitariam aquilo da melhor maneira que pudessem.

- Aish, mulher! O que você fez no seu rosto? – perguntou com as mãos na cintura, enquanto os amigos atacavam garrafas de água após um dance practice do grupo todo. Tinham uma coreografia nova a aprender e lá estava , aprendendo tudo junto com eles para apresentar nos programas das próximas semanas e, eventualmente, em shows.
- O que eu fiz...? – Ela mesma perguntou, olhando-se no espelho. Tomou um susto ao ver uma marca do que parecia graxa na bochecha. – Nossa. Como isso veio parar aqui...?
- É exatamente isso que eu me pergunto. – riu e parou em frente a ela. – Vem cá.
Como sempre faziam como amigos, estendeu a mão para limpar o rosto dela com os dedos. Ninguém além deles notou como seus olhos carregavam algo mais significativo. O toque dele não durou mais que três segundos, mas foi o suficiente para acelerar o coração de e fazer com que ela desejasse por mais. Ele tentou aproveitar o máximo que pôde antes de literalmente começar a esfregar o rosto da moça.
- Cruz credo, isso aqui não sai! Você esfregou a cara no asfalto por um mero acaso?! – segurou o outro lado da cabeça de e, cobrindo a palma da mão com a manga do casaco, começou a esfregar com mais vontade.
E lá se foi todo o momento romântico que resolveram aproveitar secretamente.
- Também não é pra usar o seu casaco de pano de chão, seu bruto! – respondeu, o rosto já começando a ficar vermelho, porém ria com toda aquela situação. Não podia negar que era minimamente engraçado.
- Olha que cara mais sem noção...! – rolou os olhos enquanto se aproximava, batendo nas mãos do amigo e fazendo-o soltar de . – Isso é jeito de se tratar uma dama?! Tem que ir com cuidado!
- Tenta você então, já que é tão...!
Mas nem teve tempo de terminar a frase: molhou a manga do casaco com a água que tinha na garrafa e começou a esfregar o rosto de com todo o cuidado do mundo. Estava demorando, mas a mancha preta saía aos poucos.
- É, , eu não queria admitir, mas... O tem mais jeito mesmo. – Ela foi obrigada a constatar, enquanto somente abria um enorme sorriso de “está vendo, eu sei que sou um ser humano sensacional”.
- Porquinha que esfrega o rosto no asfalto. – praticamente sussurrou ao passar por trás deles, aproveitando a situação para provocá-la.
- Olha aqui, saiba que eu... – Mas parou de falar assim que viu o rosto de : lá estava ele com a mesma marca na bochecha. – Olha. Quem. Fala. Porquinho de panceta de churrasco.
- Quê?
nem teve tempo de reclamar: em poucos segundos já estava sendo atacado por e seu jeito bruto de limpar aquela graxa que não sabiam de onde tinha surgido.
- Ai...! Sai daqui! Eu quero o me limpando, não você! – tentou empurrar o amigo, porém não o deixou escapar.
- Agora que você tá aqui, não tem como escapar. E como dá pra perceber, o tá ocupado. Agora para de se mexer!
Nesse momento, deu uma breve risada, no que olhou para ela. Ambos sorriram um para o outro: o plano tinha dado certo e conseguiram se tocar de maneira diferente em público, sem que ninguém notasse algo de diferente naquela relação.
Dependendo de como fosse, aquilo podia até se tornar algo mais frequente.

- , sua camisa tá uma bagunça! Vem cá! – o chamou com as mãos no backstage de um programa no qual iriam se apresentar. – Você tem que estar sempre alinhado, deixa que eu arrumo pra você...
- Nossa, nem vi que estava tão ruim assim. – comentou, sentindo os dedos de se fechando na gola da camisa dele e começando a arrumá-la. Ele somente sorria toda vez que sentia os dedos dela esbarrando de maneira desnecessária na pele quente do seu pescoço. Ele arriscou olhadas rápidas para os lados, a fim de se certificar de que não havia ninguém por perto, e abaixou o tom de voz. – Pelo jeito, você gostou bastante de tocar o meu pescoço.
somente sorriu de volta, de maneira levemente provocativa, mas que, em seguida, tornou-se o sorriso de sempre. Ele mesmo se questionou o que o tinha levado a falar aquele tipo de frase inadequada para um momento tão exposto, porém quando viu as bochechas de queimando no início de um tom avermelhado, somente sorriu.
- Tanto quanto gosto de dançar com você. – arriscou uma rápida e discreta piscada antes de se afastar, fazendo sorrir de maneira admirada. Nunca imaginara que ela corresponderia de maneira tão explícita. Ainda mais depois que prometeram não se envolver.
Ainda mais depois que prometeram não se envolver.
não sabia o que fazer com o próprio coração. Talvez estivessem indo longe demais, mas era muito bom para pararem com aquilo. Eles realmente sentiam carinho um pelo outro, queriam ficar juntos – ele perdera a conta de quantas vezes sonhara com , sentira seus lábios tocando os dela novamente – mas nada era tão simples assim.
Ele fazia parte de um grupo, ela era uma dançarina de apoio. Naturalmente, ele não podia namorar e, quando o fizesse, precisaria de toda a ajuda do pessoal de marketing – e praticamente do mundo todo, para ser sincero – para que tanto a mídia quanto as pessoas aceitassem aquilo. Além disso, tinha uma carreira como dançarina e aquela notícia, dependendo de como fosse recebida, podia acabar com todos os contratos dela e grupos que a chamassem para duetos, MVs ou tours.
balançou a cabeça e focou novamente no palco onde se apresentariam. Tinha que esquecer aqueles sentimentos ilógicos e trancá-los dentro de uma caixinha – pelo bem de ambos.
- O que estamos fazendo...? – Murmurou para si mesmo e respirou fundo. Levantando a cabeça e olhando o outro lado do backstage, ele encontrou estalando o pescoço e aquecendo os braços, preparando-se para entrar.
sorriu e começou a imitar os movimentos dela. Quando notou que ele fazia isso, imediatamente começou a rir.
Apesar de sua mente lógica mandá-lo controlar os sentimentos, não conseguia impedir o coração de bater mais rápido quando via aquele sorriso – era apaixonado pelo sorriso dela.
Entretanto, não era só ele.
- Aaaah, ! Você é sensacional! – exclamou enquanto ele dava o sorriso mais brilhante da face da Terra.
Mas ela não tinha como evitar. Era de madrugada e lá estavam eles em outro dance practice eterno, que foi obviamente prolongado por ela, , e . Se dependesse daqueles quatro, jamais sairiam da sala de dança. No final de tudo isso, quando todo mundo já estava cansado e jogado no chão da sala, suado e dando risada dos erros que cometeram durante todo o ensaio, sumiu durante uma boa hora somente para voltar com quatro marmitas quentinhas de lámen.
- Ah, não sou não! É o mínimo que eu podia fazer depois de todo esse tempo dançando! – ainda estava com aquele sorriso enorme nos lábios, entregando o pacote de lámen de cada um, fazendo questão de tocar a mão de ao dar o dela.
- Mínimo! – Ela respondeu com uma risada ao fim da palavra, sorrindo ao sentir a mão dele. – Esses dois aqui nem se movimentaram! , você tem o coração mais lindo do universo, é um ser iluminado e possui o talento digno da estrela mais brilhante do céu. Se isso não é ser sensacional, eu não sei o que é!
Ele se sentou em frente à na rodinha em que estavam, somente rindo da maneira mais envergonhada que ela já vira, as bochechas queimando em vermelho.
- Aish, mulher, não fala assim... Eu não sou nada disso... – Ele murmurou de volta, enquanto ria, somente levando um empurrão de para parar e falar daquela maneira de si mesmo.
- E eu não sou sensacional? Por que você também não fala assim de mim? – reclamou com as sobrancelhas franzidas enquanto mastigava, somente sendo agredido pelos hashis de .
- Você não consegue nem fechar a boca enquanto come, lá se vai toda a sua iluminação! – A moça respondeu imediatamente, provocando risadas nos outros dois. – Você já tem meio mundo pra te lembrar que é maravilhoso, me deixa dar um pouco de carinho pro e para de ser ciumento.
- Eu não sou ciumento... – resmungou para si mesmo fazendo bico enquanto escolhia qual vegetal ia comer em seguida.
- Imagina... – respondeu com os olhos semicerrados para o ser em questão.
A discussão continuaria se um assistente não tivesse entrado na sala e chamado .
- Hmmm, tem um entregador lá na portaria, falando que trouxe as bebidas e os doces que você pediu.
- Ah, é verdade! – imediatamente largou as coisas no chão e se levantou. – Pode deixar que eu vou buscar. ! Já que você quer ser um ser humano sensacional também, vem me ajudar a pegar tudo!
- Mas eu tô comendo...
- E para de reclamar que nem uma criança de cinco anos! – já cortou enquanto o amigo resmungava, sabendo que se levantaria logo em seguida para não ser taxado de criança. – Voltamos logo!
- Você é mais que sensacional, ! – gritou enquanto eles deixavam a sala, entre as risadas envergonhadas de e os suspiros de .
A moça somente sorriu enquanto voltou a comer seu lámen. Porém, no meio do caminho, encontrou o olhar de – que a observava com um sorriso carinhoso no rosto enquanto comia.
Por um momento, sentiu o coração acelerar. Será que tinha percebido algo? Será que estavam sendo óbvios demais? Bom, antes ele perceber, do que qualquer outra pessoa. Sabia que o amigo não espalharia nada para a mídia e ia ajudá-los a manter tudo em silêncio – provavelmente aconselhando-os a parar os ensaios e ajudando-os a cancelar a dança do “amor proibido” que estavam coreografando com tanto afinco. Porém, teriam o suporte dele para nada dar errado e poderiam acabar de uma vez com todos aqueles sentimentos que se encontravam no limbo.
Por mais que aquilo a machucasse, aquela perspectiva também era um alívio.
- O que foi? – perguntou com uma sobrancelha erguida.
- O jeito que você fala com ele. – respondeu e a moça prendeu a respiração. Tinha certeza que ele percebera. – Obrigado, .
- Hã? – Mas agora estava confusa. – Por que você está me agradecendo?
- O é o tipo de pessoa que finge estar feliz o tempo todo. – começou a explicar, dando um jeito de enrolar o próprio lámen no hashi. – Ele nunca fala quando está chateado e é muito raro encontrá-lo chorando. Ele literalmente se esconde pra chorar, ou faz isso quando sabe que ninguém está por perto. O é uma pessoa como todos nós e as pessoas esquecem isso... Existem muitos comentários maldosos sobre ele e às vezes temos até que proibi-lo de ver algumas coisas, porque pode acabar com a autoestima de qualquer um. Mas ele sabe o que está acontecendo e, mesmo assim, se força a sorrir e amar todo mundo. Então é bom que alguém o lembre de que ele é uma pessoa ótima nesse mundo.
- É sério isso? Ele foge de todo mundo pra chorar? – franziu as sobrancelhas. – Sei que ele é humano, estou acostumada a lidar com esse lado nos ensaios. Aliás, gosto dele assim: como pessoa, não como ídolo famoso nas telas das TVs. Mas sei que ele tem essa mania de sempre colocar um sorriso no rosto...
- Ah, sim. Olha, em todo esse tempo que estamos juntos, eu só o vi chorando uma vez. – comentou com um pequeno sorriso no rosto. – Fiquei muito preocupado, mas consegui ver o quanto ele se esforça pra parecer tão bem e não preocupar ninguém. Então, de verdade, sempre que você puder, fale desse jeito com ele.
- Uma vez só...? – E estava pasma enquanto confirmava com a cabeça. – Eu sinceramente não sei como ficaria se encontrasse alguém com um coração tão maravilhoso como o dele chorando desconsoladamente.
- Pra ser bem sincero, nem eu soube muito bem o que fazer. – deu uma breve risada sem humor e suspirou antes de contar a história. Tinha certeza que podia confiar aquilo à .

O relógio marcava três e quarenta e quatro da manhã. tinha acabado de chegar ao dormitório e simplesmente não aguentava de dor nas pernas e no torso. Seu corpo todo estava dolorido e ele realmente não sabia como tinha feito para chegar lá inteiro depois de um dia todo somente ensaiando.
As últimas semanas foram difíceis para ele. Comentários e mais comentários se empilhavam, desmerecendo todo o trabalho de . Os outros membros do grupo até o proibiram de entrar nas redes sociais depois que ele encontrara um comentário de uma garota falando que era horrível e extremamente sem talento, questionando o porquê de ele ainda estar no grupo e ninguém se livrava dele de uma vez. Para ela, somente empacava os amigos e não trazia nenhuma contribuição ao grupo... E o pior: depois desse comentário, houve quase literalmente um dilúvio de muitos outros concordando plenamente com a garota e até o esculachando ainda mais.
E foi aí que ele fora proibido de acessar as redes.
O celular dele até fora confiscado pelo Diretor da Produtora. Todos os aplicativos de redes sociais foram bloqueados e até o navegador de internet dava problema na hora de abrir. somente tinha acesso às mensagens pessoais e ligações, mais nada.
Assim, sentindo-se completamente inútil, ele começou a treinar. E treinar. E treinar. Até se esquecer de comer corretamente e dormir o mínimo necessário por dia. não percebeu quando seu corpo começou a gritar para que ele parasse: simplesmente tomava remédio por cima de remédio para a dor passar e continuar treinando. Ele tinha talentos. Ele valia a pena. E ia provar para todo mundo.
Mas, naquela noite especificamente, as coisas estavam difíceis de aguentar. se esquecera de tomar seus remédios e todo o cansaço que estava sendo mascarado pelas pílulas caiu nele como o mundo caiu sobre os ombros de Atlas. Ele estava sem energia, sem motivação e querendo desistir de tudo – literalmente tudo.
Parou na cozinha do dormitório, para não acordar os amigos, e levantou as calças até os joelhos. Seus tornozelos e a parte interna das batatas das pernas tinham hematomas enormes, os pés vermelhos e doloridos. Começando a sentir os membros latejando de dor, se deixou escorregar pelo armário da cozinha até se sentar no chão e começar a chorar.
A primeira lágrima que escorreu por seu rosto era tímida e quente, como se estivesse testando o caminho para as outras. Mas assim que esta pingou do queixo até a blusa, outras surgiram desenfreadamente e logo percebeu que não conseguia mais parar de chorar.
Apesar de tudo, ele permaneceu em silêncio. Não tinha o direito de acordar seus amigos, não quando ele era o culpado por todo aquele incômodo.
- ...? – A voz de ecoou pelo silêncio da madrugada, à porta da cozinha. viu o amigo de pijamas, esfregando os olhos e com a cara inchada de sono. Ao vê-lo chorando no chão da cozinha, os olhos de se arregalaram e ele imediatamente saiu correndo na direção de . – ! Tá tudo bem? O que aconteceu...? Meu Deus! Suas pernas!
- Não aconteceu nada, desculpa... – respondeu entre as lágrimas, a voz embargada e os soluços típicos de quem tentava se controlar de uma crise de choro repentina. estava ajoelhado ao lado do amigo, observando os hematomas, em choque. – Desculpa, ...
- Desculpa pelo quê? E como assim não aconteceu nada?! – não conseguia se conformar. Passou os dedos pelas pernas do amigo, mas tudo que conseguia fazer era continuar a pedir desculpas enquanto tentava controlar aquelas lágrimas inconvenientes. – A gente precisa cuidar disso aqui!
Falando isso, pegou vários gelos no freezer, embrulhou-os em um pano de prato e se sentou próximo aos pés de , encostando a bolsa de gelo improvisada em um dos tornozelos do amigo, que somente suspirou.
- Desculpa, ... De verdade... – finalmente falou depois de um tempo aproveitando o alívio proporcionado pelo gelo.
- Pelo quê? Você tá alucinando também? Será que tá com febre...? – se inclinou para frente e plantou a mão na testa de , encontrando-o quente, porém dentro do normal. Ajustou-se novamente em seu lugar, com as sobrancelhas franzidas.
- Por tudo que eu faço. Por empacar vocês. Por te acordar de madrugada pra cuidar de mim. Por ser um estorvo. – suspirou ao fim da frase e as lágrimas começaram a correr novamente por suas bochechas rosa choque. – Acho que o melhor mesmo é deixar o grupo e tentar algo como dançarino de apoio. Assim vocês não precisam...
- Cala a boca! – disse imediatamente, parecendo bravo. olhou para ele com um par de olhos assustados e vulneráveis. O coração de se apertou ao ver o amigo tão desolado. – Não fala uma asneira dessas! Nunca mais! É você quem nos ensina as coreografias, quem nos coordena antes de entrar no palco, quem cuida de nós durante as viagens. É você quem tira nossas dúvidas, ajuda nosso coreógrafo, aprende diversas línguas pra se comunicar com nossos fãs e produz músicas maravilhosas que eu nem chego perto de conseguir fazer. Você não pode sair do grupo, -ssi. A gente precisa de você. De verdade. Se aquelas meninas estão falando um monte de besteira sobre você, o problema é que elas são cegas o suficiente para não te enxergar.
- Isso não indica que eu não precise melhorar, ...
- E também não indica que você precisa se matar por causa disso! Você já é muito bom e vai ficar cada vez melhor! Mas não quero perder meu amigo por causa de uma coisa tão besta, por favor, ! – Os olhos de imploravam por bom senso do amigo. conseguira se controlar para parar de chorar, mas ainda era possível ver lágrimas latentes em seus olhos. – Vamos. Você precisa tomar um banho e descansar. Não pode ficar assim. Vem que eu te ajudo.
Falando isso, ajudou a se levantar do chão. Logo que se colocaram em pé, notou que tinha a cabeça baixa e as lágrimas começaram novamente a cair dos olhos dele como pequenos cristais atingindo a cerâmica da cozinha. não pensou duas vezes e abraçou fortemente o amigo. escondeu o rosto no ombro de e retornou a força do abraço, voltando a chorar da mesma maneira que antes, ainda silenciosamente.
- Conta comigo. Eu sempre vou te ajudar. Você é meu amigo e eu sempre estarei aqui por você, ok? – perguntou, já tendo que controlar as lágrimas que insistiam em começar a surgir, fazendo sua voz tremer no fundo da garganta.
- Ok. Obrigado, . – respondeu com o que lhe restou da própria voz e tentou se acalmar.
Não que estivesse magicamente bem... Mas as palavras de fizeram com que, no mínimo, as pernas de parassem de latejar.

riu ao ver a expressão impagável de choque no rosto de . Os olhos da moça estavam tão grandes e vulneráveis como os de naquela noite – e até parecia que ela estava prestes a chorar.
- Teve gente estúpida o suficiente pra falar que ele não tem talento...? – As sobrancelhas de se franziram, a voz não mais alta que um murmúrio.
- Existe louco pra tudo nesse mundo, ... Por isso eu digo! Quanto mais você conseguir enfiar na cabeça daquele sem noção que ele é tudo isso, melhor! – sorriu, tentando deixá-la menos desconsolada.
- Trouxemos os doces e as bebidas! – surgiu na sala com um sorriso enorme no rosto, ao lado de que carregava, assim como o amigo, várias sacolas.
- Como não sabia o que cada um queria, escolhi quatro doces diferentes, daí podemos dividir! – Ele comentou com um sorriso um pouco mais comedido nos lábios, mas infinitamente gentil.
imediatamente deixou as coisas no chão e se levantou, caminhando rapidamente até . Quando o alcançou, fechou os braços em volta do torso do amigo e apoiou a cabeça no peito dele.
Todo mundo, inclusive , só ficou encarando. , ao contrário dos amigos, continha a pequena risada que cismava em surgir no fundo da garganta.
- Ei, ... Tá tudo bem? – perguntou com a voz calma enquanto entregava as sacolas para que, na preocupação com , resolveu pegar todas de uma vez para liberar os braços do amigo.
- Tá sim. Eu só quero que você saiba que é uma das pessoas mais maravilhosas que já conheci. Não falo tudo por exagero, falo porque realmente acredito. – E deu um pequeno sorriso, ainda de olhos fechados enquanto somente escutava o coração dele acelerar. – Obrigada por ser quem você é, .
certamente não estava esperando por aquilo, mas foi uma surpresa bem vinda. Poder sentir os braços de em volta do torso dele e ouvir aquelas frases dos lábios da moça era quase como um sonho.
E o melhor de tudo: eles não estavam precisando se esconder.
- Obrigado por ser uma estrelinha nas nossas vidas, . – sorriu, retribuindo o abraço. Não da maneira que queria, mas como podia na frente dos amigos.
Ele queria que aquele momento congelasse e o tempo não voltasse a fluir nunca mais.





Continua...



Nota da autora:(24/09/18) Dance practice está de volta!!
E já vou avisando que esse é o último capítulo “calminho” que teremos. O próximo vai virar TUDO de ponta cabeça – a memória do amigo encontrando o pp chorando é só um preview do que teremos pela frente.
Espero que tenham gostado! A música que eles dançam é Forbidden Love da Madonna (que eu escutava em looping no auge dos meus treze/catorze anos), recomendo fortemente.
Agradeço a todo mundo que está seguindo e estou apaixonada por todos os comentários!! No fim do dia, é isso que nos incentiva a escrever. Muito obrigada por todo o carinho e até a próxima!
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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