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Finalizada em: 20/01/2019

Capítulo 1 - A Residência Dos Malfoy

- Srta. Zuckker, acorde, já! - Escutei Madeline, minha governanta, falar grosseiramente, a convivência com ela não era nada fácil. Essa tal convivência só é necessária porque minha mãe foi morta por aurores quando eu tinha 1 ano de vida, e meu pai.... Bom, ele desapareceu há 7 anos, desde então, nunca mais tive notícias dele...
Madeline puxou minhas cobertas para o chão e a ouvi abrir as pesadas cortinas brancas, quando abri os olhos, uma forte luz os atingiu e tive que fechá-los novamente.
- Madeline, você poderia me deixar dormir mais, sim? - Disse eu, revirando os olhos, levantei e coloquei meu robe verde por cima do pijama.
- Você tem deveres à cumprir hoje, , portanto, tem de acordar cedo. - Ela falou secamente.
- Que deveres? - Perguntei de cenho franzido enquanto me dirigia para o banheiro, minha memória não era uma das melhores.
Madeline me seguiu até o banheiro, e enquanto ligava a banheira, disse:
- Os Malfoy vão te levar até a Copa Mundial de Quadribol, amanhã é a final e eventos importantes vão acontecer, consegue lembrar sozinha tais eventos?
Ah claro! Alguns "antigos" comensais da morte vão atacar hoje, o propósito eu não sei, só sei que vai ser épico! Quatorze anos sem ataques e o mundo bruxo vai à loucura, só quero ver a reação do Potter e dos amiguinhos dele.
- Sei bem de que eventos você fala, Mad, agora poderia, por favor, se retirar do banheiro e me deixar relaxar sozinha? - Falei com um sorriso inocente e irônico no rosto.
- Claro que posso, "madame". - Ela respondeu de forma irônica também. - Não demore muito, os Malfoy não gostam de esperar.
- Danem-se os Malfoy, se quiserem esperar, que fiquem à vontade, se não quiserem? Poupem-me de sua presença inútil. - Falei dando de ombros e comecei a tirar o pijama.
- Você vai realmente falar desse jeito sobre eles? Eles estão pagando o seu ingresso! - Madeline resmungou do quarto, incrédula.
- Estão pagando porque querem, eles sabem bem que eu tenho dinheiro de sobra para pagar meus próprios ingressos, se gostam de me bajular, não sou eu que vou impedir, não é mesmo? - Murmurei entrando na banheira.
- Você é terrível, , completamente terrível. - Ela disse rindo.
- Eu sei, eu sei, querida Madeline. - Murmurei baixinho, pendi a cabeça para trás e fechei os olhos, ouvi a porta bater, Madeline havia saído do quarto.
Com certeza todos que me conhecem devem se perguntar: "Nossa, , você não tem coração? Não vê quantas vidas Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e seus comensais da morte tiraram?"
Mas ninguém fala sobre as pessoas que o "lado de lá" mataram, todas as mortes são acobertadas pelo fato deles serem os "bonzinhos" da novela toda...
Aliás, podem até ter comensais da morte que matam à sangue frio, se eles escolheram que fosse assim, não posso pedir para pararem no meio do caminho. Sobre o meu caso, eu não quero ficar do lado dos que mataram a minha mãe, eu não tenho escolha, a família escolheu por mim, as circunstâncias escolheram por mim, e até mesmo os bonzinhos escolheram por mim, minha escolha foi feita no dia em que nasci, foi feita pelo meu sobrenome, foi feita pelas ações dos que têm e tiveram meu sobrenome, essa é a questão, meus amigos, do "lado de cá", eles esperam de você um legado, que sejam conhecidos pela indiscutível maldade, eles esperam que você mate e torture mais do que os outros, eles esperam que você fique do lado dele, Lord Voldemort.
Mas eles não ficam esperando você mostrar sinais de está do lado dele, eles te obrigam a ficar do lado dele, você não tem escolha, eu não tenho escolha. Prefiro fazer justiça à morte de minha mãe do lado dele do que ficar do lado dos outros que mataram ela. É assim que funciona a vida, e eu tenho de aceitar.
- , SAIA JÁ DESSE BANHEIRO! OS MALFOY JÁ VÃO CHEGAR! - Madeline gritou escandalosamente, ela era obcecada em impressionar os Malfoy, grande lixo que eles eram, fúteis e chatos, principalmente Draco, eu não gosto do Potter e tudo mais, mas o Draco deve ser apaixonado por ele de tanto que implica, é quase uma obsessão!
- JÁ VOU, QUERIDA GOVERNANTA QUE ME AMA MAIS QUE OS MALFOY. - Gritei de volta, revirei os olhos e sai da banheira, me enrolei na clássica toalha verde e adentrei em meu quarto, lá, uma louca Madeline colocava minhas roupas em um malão, meus itens de Hogwarts levitavam do armário para a cama, para depois serem enfiados na mala por Mad.
- Você toma banhos muito longos, já deveria estar pronta, ainda nem tomou café! - Madeline falou, colocando roupas e outras coisas dentro do malão.
- Você é muito bajuladora dos Malfoy, eles são um saco, e meus banhos têm um tempo suficiente para mim, se você gosta de banho rápido, o problema é seu. - Eu disse, fui até meu guarda-roupa e peguei um casaco, uma blusa de lã e jeans.
- Você responde demais as pessoas, tem que parar com essa mania feia, uma moça... - Madeline resmungava brava.
- Uma moça fala o que ela quiser e quando quiser, não temos de ficar quietas e aceitar o que homens dizem, e mulheres também. - Falei brava e voltei para o banheiro para me trocar, eu odiava quando falavam o que as mulheres ou meninas podiam ou não fazer em comparação com os homens, ridículo, as mulheres agora têm de segurar a fala perto dos homens?
Quando voltei para o quarto, o malão já estava fechado e Madeline havia descido, fui até a velha penteadeira e escovei meu cabelo, calcei minhas botas, peguei minha varinha e desci. Quando cheguei à sala de jantar, três cabeças louras estavam sentadas junto à Madeline, três dos quatro conversando, os Malfoy haviam chegado.
Todos estavam de costas para mim, exceto Madeline, ela foi a única que me viu revirar os olhos, mas fingiu que não havia visto nada.
- Olá, Narcisa, Lucius e Draco. - Falei enquanto sentava em uma das cadeiras de frente para eles, Draco pareceu mais feliz quando eu sentei lá, patético.
- Olá, querida. - Respondeu Narcisa com um sorriso no rosto.
- Como vai, senhorita? - Disse Lucius.
- Oi, . - Falou Draco.
- Estou bem e vocês? - Respondi, logo depois peguei uma jarra e servi suco para mim.
- Nós três estamos perfeitamente bem. - Respondeu Lucius antes que os outros dois falassem.
- Ótimo, sirvam-se, por favor. - Falei educadamente, passei geleia em um pãozinho e mordi um pedaço.
Os outros quatro começaram a comer, Draco olhava a todo o momento para mim, qual era problema desse menino?
Quando terminamos, Mad fez um feitiço e os talheres e pratos foram para a cozinha. Levantei e fui para sala de estar, com os Malfoy atrás de mim como se fossem minhas sombras.
- , depois tenho algumas instruções para passar a você e Draco. - Disse Lucius.
- Sobre o ataque que vai ocorrer? - Perguntei.
- Isso mesmo, são só algumas precauções a tomar, lugares onde devem ir quando tudo começar e sobre discrição. - Respondeu Lucius.
- Tudo bem. - Falei e engoli em seco, um silêncio se estendeu até que me lembrei do meu malão, fiz um movimento com a varinha apontando para as escadas e murmurei: - Accio malão. - Minha querida mala vinha levitando, logo depois parou perto dos meus pés, em questão de segundos.
- Impressionante, . - Disse Draco irônico, achou que eu tivesse feito isso para me exibir, francamente!
- Cale-se, Draco, sem bobagens. - Disse Lucius secamente para Draco antes que eu pudesse responder, Draco estremeceu e ficou de cabeça baixa, ele não sabe nem discutir.
Madeline voltou com uma travessa embrulhada nas mãos, foi até Narcisa e disse:
- Para a sobremesa, tenham um bom dia. - Estendeu a travessa para ela que pegou com um sorriso no rosto.
- Muito obrigada, Madeline. - Agradeceu Narcisa.
- Bom, vamos indo? - Perguntou Lucius, ele apontava para lareira, vamos utilizar o Pó de Flu.
- Sim, vamos. – Respondi indo pegar meu malão.
- Não precisa levar, , deixe que eu levo. - Disse Lucius pegando o meu malão
Madeline foi até a cristaleira e pegou um pote de vidro ornamentado e de lá tirou o Pó de Flu, Lucius deu passagem para Draco, que pegou um pouco do pó brilhante e dirigiu-se para a lareira.
- Residência dos Malfoy. - Gritou Draco, logo em seguida jogando o Pó de Flu na lareira, desaparecendo em seguida.
Fui até Mad e peguei um pouco do mesmo pó, assim como Draco, entrei na lareira e disse:
- Tchau, Mad, até a próxima! - Ela deu um fraco sorriso e eu prossegui. - Residência dos Malfoy.
Logo após jogar aquilo na lareira, senti como se estivesse sendo sugada por um enorme ralo, meu corpo parecia estar viajando entre lareiras muito rápido, o rugido em meus ouvidos era ensurdecedor. Como eu já estava acostumada, não senti as sensações ruins que muitos sentiam na primeira vez, fui passando entre lareiras aleatórias até que cai com força no chão.
Levantei e tive a visão de uma sala de estar que apesar de luxuosa, aparentava não ter "vida". Draco ria da minha cara, sua risada de gralha era alta.
- Qual é a graça? Idiota. - Perguntei, limpando a poeira de minhas calças.
- Você caindo, foi simplesmente hilário, . - Respondeu ele se recuperando do ataque de risadas.
- Como se você não tivesse caído. - Disse eu, sentando em uma das confortáveis poltronas que havia perto da lareira. - Hoje vai ser um dia memorável.
- Vai mesmo, quero só ver a reação do Potter, da Sangue-Ruim, do Weasley Pobretão e daquela familiazinha medíocre dele. - Respondeu Draco, sentando na poltrona que ficava ao lado da minha, como eu já disse antes, ele era obcecado por Harry Potter e seus companheiros fiéis.
- Não só deles, de todo mundo. - Disse eu, antes de finalizar o que eu estava dizendo, Lucius chegou trazendo a travessa que Madeline havia dado à Narcisa, um curto tempo depois, Narcisa também chegou trazendo meu malão.


Capítulo 2 - Estalos à Meia Noite

- Não entendendo o motivo de tanta sujeira em uma curta viagem. - Disse Lucius, firmando a travessa em uma só mão, tentando tirar a fuligem das roupas. - Onde está aquele Elfo imprestável?
Quis dizer que ele era o imprestável, não só ele, como grande parte da família, porém isso soaria antiético.
Um Elfo doméstico apareceu, logo Lucius jogou a travessa nas pequeninas mãos dele, que tremeram levemente com o contato entre suas palmas e o fundo da travessa.
- Senhora, Garvin deve levar essa mala para o quarto de hóspedes depois que Garvin levar isto para a cozinha? - Perguntou o Elfo Garvin.
- Sim, Elfo. - Respondeu Narcisa, batendo as mãos no tecido preto do vestido, Garvin imediatamente saiu com a travessa, levando para algum local na cozinha.
- Bem, e Draco, irei conversar melhor sobre o protocolo da Copa Mundial de Quadribol com vocês mais tarde, teremos alguma reunião aqui, peço que fiquem em outro cômodo. - Disse Lucius com a expressão fechada, ele não deveria gostar muito de ter todo aquele bando de gente em sua grandiosa e imponente casa.
Apenas assenti, assim como Draco, eu não queria discutir protocolos, tampouco queria estar aqui, o único lugar que me fazia sentir em casa era Hogwarts, o lugar que me deixava ser eu, de certa forma.
- , Garvin vai levar suas malas para o quarto onde você ficará, por favor, acompanhe-o. - Explicou Lucius, todos nós subimos para o segundo andar, Lucius e Narcisa adentraram o primeiro quarto, Draco e eu seguimos Garvin.
Ele abriu uma das últimas portas do corredor, mostrando um quarto grande e de carpete verde, com uma cama de casal de roupa de cama branca, em frente à cama havia uma penteadeira de madeira, com um belo espelho redondo. Garvin deixou meu malão sobre a cama e saiu, sorrindo disfarçadamente para mim.
- Garvin! - Falei antes que ele saísse, seus olhos esbugalhados se direcionaram para meu rosto. - Hm... Obrigada.
Draco franziu a testa para mim, Garvin sorriu e saiu, fechando a porta logo em seguida.
- Você acabou de dizer “obrigado” para um Elfo doméstico? - Perguntou Draco incrédulo, revirei os olhos.
- Draco, não é só porque você não teve educação que todos nós não tivemos também. - Respondi, fui até a cama e peguei o malão, levando-o para o guarda-roupa.
- Você é estressada assim com todo mundo ou guarda tudo só para mim? - Rebateu ele, sentando em minha cama.
- Na verdade, essa sou eu sendo legal com você! - Anunciei, dando um sorriso falso.
- , você é um amorzinho de pessoa, sabia?
- Claro que eu sei! - Sentei ao lado de Draco na cama. - Quem você acha que vai ganhar a Copa?
- Bulgária, com certeza! - Disse um sonhador Malfoy. - Eles têm Krum!
- Irlanda ganha fácil deles, os pontos também contam, não só o pomo. - Afirmei, cutucando as unhas da mão.
- Mas o pomo é o mais importante, isso é fácil, fácil para o Victor Krum. - Afirmou com mesma certeza, Draco.
- Você vai dizer que eu estou certa no final, Malfoy. - Murmurei, ele olhava para mim com uma cara de "sério mesmo?".
- Duvido muito que isso vai acontecer, Zuckker. - Respondeu com desdém.
- Olha, Draco, cansei da sua presença aqui, pode sair agora. - Conclui me jogando por completo na cama e empurrando Draco para que levantasse.
- Grande amiga você, me expulsando de um quarto na minha própria casa. - Balbuciou Draco, levantando.
Quando ele saiu, soltei um suspiro longo, queria meu quarto em Hogwarts, nas masmorras, mesmo que tivesse Pansy Irritante Parkinson na cama ao lado, só queria minhas aulas, meu quadribol, a biblioteca e minha liberdade.
Apesar de manter a aparência de indiferente sobre tudo aquilo, era minha única distração e diversão, eu esquecia meu pai, Lord Voldemort, a morte da minha mãe, corrupção no mundo bruxo e Madeline.
Se bem que Harry Potter complicava meu esquema todo de esquecer a futura guerra, que sem dúvidas aconteceria, com todos aqueles seus probleminhas com Lord Voldemort e tal. Eu deveria estar na escada, à reunião deveria estar rolando, mas simplesmente adormeci, ouvindo alguns murmúrios do andar de baixo.
Acordei com olhos esbugalhados sobre mim, num impulso, soltei um grito, Garvin gritou também.
- Que susto, Garvin! - Queixei-me.
- Desculpe, senhorita! - Murmurou Garvin. - Garvin não queria assustá-la, só acordá-la. O senhor Lucius está chamando-a para o jantar.
- Obrigada, já vou descer. - Respondi, Garvin deixou o quarto. Deixei minha varinha sob a cama, para ninguém pegar, e desci as escadas para a sala de jantar, os três já estavam lá e pratos cheios flutuavam de algum lugar para a mesa de mármore escuro.
Os pratos tinham uma pequena decoração na borda, os talheres de prata estavam organizados corretamente segundo as normas de etiqueta dos Malfoy, haviam duas taças de cristais para cada pessoa além dos outros talheres.
Sentei ao lado de Draco, de frente para Narcisa e Lucius, os dois últimos possuíam olhares cansados.
Após o jantar, Lucius nos levou para uma nova sala, sentamos em poltronas diferentes e ele começou a falar:
- Bom, ninguém precisa saber que vocês sabiam do ataque antes mesmo dele acontecer.
- Óbvio que todos os outros vão saber que nós dois já sabíamos. - Aleguei, fixando meu olhar em Lucius. - O jeito de Draco entrega tudo, ele se gaba com essas coisas, já dá pra ver que ele sabe só pelo olhar de superioridade.
- Com outros, você quer dizer...? - Perguntou Narcisa.
- Harry Potter, Hermione Granger, os Weasley e alguns outros amigos deles.
- Eu não faço um olhar de superioridade com esse tipo de assunto, . - Defendeu-se Draco.
- Ah, você faz sim, empina seu nariz e entrega o jogo todo para os outros. - Afirmei, Draco quase sempre estragava tudo. - Você simplesmente não disfarça!
- Ok, meninos, sem brigas. - Declarou Lucius. - Vocês vão ser discretos e correr como todos os outros, obviamente não serão machucados, mas finjam que vão.
- Não temos hora exata para o ataque, avisaremos pouco antes, assim vocês dois vão se separar de nós e ficarão juntos. - Continuou Narcisa.
- Corram para a floresta, nada haverá lá. - Terminou Lucius.
- Algo mais? - Perguntei, queria voltar a dormir, era como se tivesse tomado uma poção para o sono.
- Não, tomem seus banhos e podem voltar a dormir. - Respondeu Narcisa.
Draco e eu subimos, os dois ficaram lá embaixo, provavelmente para comer a sobremesa, sozinhos.
- Eu não me exibo para o Potter e aquela ganguezinha dele! - Iniciou Draco, lá se ia minha paciência.
- Draco, eu não estou com vontade de discutir com você agora, não, você se exibe sim e pronto, agora vê se vai dormir e me deixa em paz! - Respondi.
Caminhei para meu quarto e fechei a porta com força, eu não sabia o que esperar dos comensais amanhã, com todo esse planejamento, algo grande iria se iniciar. Para falar a verdade, apesar de saber que não sairia com nenhum machucado de lá, eu tinha medo pelas outras pessoas, era ridículo, mas eu tinha. E não podia brigar com essa sensação, apenas deixá-la bem escondida.
Acordei com um estalo de metal vindo de algum lugar, ainda era de madrugada, sentei na cama e peguei a varinha debaixo da mesma.
Mais outros estalos idênticos podiam ser ouvidos vindo do lado de fora, calcei minhas pantufas pretas e abri a porta com cuidado, para não acordar os moradores locais.
O som vinha de alguma sala lá embaixo, desci as escadas com passos fracos e murmurei Lumos, logo depois a ponta de minha varinha emitiu uma luz mediana.
Andei por alguns cômodos do andar, ainda ouvindo os estalos, até que o som ficou mais próximo em um cômodo que eu nunca vira, abri a porta cuidadosamente, apenas uma vela iluminava o quarto, lotado de quinquilharias, fechando as cortinas, havia um homem encapuzado, senti a espinha gelar, estava pronta para lançar algum feitiço quando o homem se virou.
Não era possível! Lá, vestido em uma longa capa preta, com o corte horrível de cabelo de sempre e varinha embainhada em alguma coisa na calça, estava meu pai, desaparecido há 7 anos, com o dedo indicador sobre os lábios, pedindo silêncio.
Fechei a porta delicadamente e corri para abraçá-lo, meu pai não fazia ideia do quanto eu sentira sua falta.
- Onde você estava?- Perguntei atônita.
- Bem, eu estava procurando nosso Lord. - Respondeu ele, nunca o vira tão animado, meu sorriso se desmanchou na hora.
- E você achou? - Exclamei com desdém, ele fica 7 anos fora sem dar noticia alguma, me deixa sozinha achando que havia perdido meu pai e nem me pergunta como eu estava?
- Achei, a questão é que ele não é o Lord ainda, mas ele se tornará novamente, e você vai ajudar. - Declarou ele. Ajudar na volta do Lord? Eu? Com meus singelos 14 anos vou ajudar a trazer um dos maiores bruxos das trevas que já existiram? Por Merlin! O que meu pai e o Lord tinham na cabeça?
- Eu não vou fazer isso, de nada vai servir minha ajuda. - Recusei, não fazia ideia do plano, mas aquilo me assustava.
Lord Voldemort estava vivo, disso eu nunca desconfiei, mas meu pai tem contato com ele, sempre foi um braço direito dele, o bajulava até demais, e agora, estão recrutando a filha do Zuckker para uma missão.
- , você não tem escolha, eu não vim até aqui para perguntar o que você quer, eu vim aqui para te dizer o que fazer! - Despejou meu sereno e dócil pai. Eu quis sair dali, se eu saísse, ele não viria atrás de mim, provavelmente não queria que ninguém soubesse que estava vivo e isso envolvia Ministério e milhares de outras coisas. Por fim, cumpri meu papel:
- O que exatamente tenho de fazer?
- Teremos um infiltrado na escola, ele irá se passar por professor e ele é Bartô Crouch Júnior. - Disse meu pai, esfregando as mãos umas nas outras com animação. - Você irá informá-lo sobre os acontecimentos na escola, vai surrupiar e fazer poções polissuco para Bartô manter o disfarce...
- Você sabe que preciso de muito material para fabricar tantas poções polissuco desse jeito, certo? - Adverti.
- Claro, querida, comprei material para poções infinitas, estão nessas sacolas! - Respondeu, apontando para cinco grandes e cheias sacolas de papel, que estavam largadas perto de algum objeto mágico coberto por uma lona. - Bem, você também tirará as suspeitas dele e lidar com alunos curiosos.
- E por que esse plano todo? Vão agir com a ajuda de quem? Além da de Crouch, claro. - Levantei a questão. O plano poderia funcionar, mas eles tinham que levar Harry Potter até Lord Voldemort, já que ele provavelmente aniquilaria o mesmo.
- Esse ano acontecerá o Torneio Tribuxo, Hogwarts receberá alunos, Bartô vai inscrever Harry Potter. - Esclareceu meu pai.
- Mas como vão garantir que Harry seja um escolhido? Muitos de Hogwarts se inscreverão. - Continuei.
- Provavelmente ele irá inscrevê-lo com um nome de uma quarta escola, assim só ele será escolhido. - Finalizou.
Certo, Torneio Tribuxo, poções polissuco, Bartô Crouch... Mas, espera aí!
- Bartô Crouch Júnior não morreu em Azkaban? - Perguntei.
- Todos achavam que sim, eu não lembro muito bem da história, porém ele está bem vivo e aceitou de bom grado a missão. - Sorriu meu pai.
- Ok, agora pode ir, estou com sono e amanhã tenho uma Copa para assistir. - Disse, e com um movimento da varinha, fiz as sacolas levitarem e pararem no ar.
- Vou te mandar correspondências assinando como Madeline, porém minha coruja será preta, a dela, branca. - Falou meu pai, se preparando para deixar a mansão dos Malfoy, eu já estava com a mão na maçaneta, quando ele continuou: - , lembre-se da sua mãe e de como ela gostaria de vingança por todos aqueles que a mataram.
Apenas assenti, um movimento com a varinha, e as sacolas me seguiram até o meu quarto no segundo andar.
Fechei a porta gentilmente e parei as sacolas em cima da cama, o malão levitou até o topo da cama e os objetos foram saindo da sacola direto para o grande malão de Hogwarts.
Então eu realmente aceitei ajudar, a coisa estava ficando séria, eu tinha certeza que depois desse ano, minha vida mudaria completamente. Como eu não sabia que estaria tão certa...


Capítulo 3 - Fogo

Os fracos raios de luz solar passavam pelas cortinas, o pesado malão estava bem ao meu lado, em cima da cama de casal.
Hoje aconteceria a 422ª Copa Mundial de Quadribol, onde Bulgária e Irlanda disputariam o resultado final. Consequentemente, era hoje o dia que os antigos comensais da morte se reuniriam e fariam algo logo após o jogo. Eu estava mais ansiosa do que nunca, apesar de Lucius ter avisado a Draco e eu sobre o provável ataque, Ainda não sabíamos o que realmente ia acontecer, ou os comensais não planejaram, ou preferiam não contar para duas crianças insignificantes.
Minha cabeça estava a mil com o "pedido" que meu pai fizera ontem à noite. Ainda não sabia como executaria tudo em absoluto sigilo, não sabia nem mesmo como era o alguém com quem trabalharia para a volta do famigerado Você-Sabe-Quem. E ainda acho ridículo quando as pessoas o chamam assim, se ele não está aqui - ainda-, por que não chamá-lo pelo nome?
Ouvi batidas na porta, pedi que entrasse e lá estava Draco Malfoy, com sua melhor cara de desdém, roupas de um tom levemente esverdeado e o cabelo louro claro cheio de gel, penteado para trás. Ele também continuava esquisito.
- Você ainda está na cama? - Perguntou Draco, entrando em meu quarto e fechando a porta em seguida.
- Não, Draco, onde você acha que estou? - Respondi.
Levantei, peguei a varinha deixada embaixo da cama e com um movimento da minha varinha, o malão levitou da cama para a parede onde ficava a grande janela de cortinas claras.
- Você vai para onde quando tudo começar? - Draco perguntou novamente, estava sentado no banco em frente à penteadeira, ajeitando os cabelos.
- Para bem longe de onde você estiver, se ficarmos juntos, vai ser meio óbvio. - Respondi, eu estava praticamente dentro da minha mala, pegando algumas roupas, Draco não podia ver meu estoque de ingredientes para Poção Polissuco. As coisas não estavam mais cabendo lá, mais tarde eu faria um feitiço de expansão, assim poderia guardar Hogwarts inteira dentro de meu malão.
- Ei, ! - Exclamou Draco, virando-se de seu reflexo no espelho redondo para me olhar. - Você escutou algo ou alguém lá embaixo ontem à noite?
- Não, Draco, eu estava dormindo! - Respondi engolindo em seco, fui até o banheiro com a minha roupa e tranquei a porta. Draco não poderia nem sonhar que eu estava trabalhando indiretamente para Lord Voldemort, ninguém poderia saber. A partir de agora precisaria ser o mais discreta possível.

- Usaremos uma chave de portal, deve estar algum lugar de nosso jardim, como somos, digamos, especiais, nossa chave de portal será aqui mesmo. - Gabou-se Lucius, estávamos os quatro nos grandes jardins da mansão dos Malfoy.
Narcisa e os outros dois estavam formais demais para meu gosto, estavam formais demais perto de mim, eu carregava uma mochila com feitiço de expansão, lá havia roupas extras, pena, tinta e papel para cartas, algumas poções de emergência e dinheiro bruxo.
No meio de um canteiro de margaridas, havia uma bola de futebol furada, Lucius a pegou com o nariz torto.
- Temos só alguns segundos, todos toquem rápido! - Nos apressou Lucius.
Corri para tocar a bola, os outros dois Malfoy fizeram o mesmo, assim, após poucos segundos, senti como se um gancho dentro de meu umbigo fosse irresistivelmente puxado para frente, meus pés deixaram o chão.
Eu podia sentir meus ombros tocando os de Draco e Narcisa, nós avançávamos em meio ao uivo do vento e rodopio de cores, e então...
Meus pés bateram no chão, caí sentada na grama, os outros três estavam esparramados no chão.
- 3 chegando da Mansão dos Malfoy. - Anunciou uma voz.
Me levantei e pelo que parecia, havíamos chegado a uma parte deserta de um provável pântano imerso em névoa. Adiante, havia dois bruxos com cara de poucos amigos, um segurava um relógio de ouro e o outro, um grosso rolo de pergaminho.
Ambos vestiam-se como trouxas. Lucius apanhou a bola furada e entregou ao homem do pergaminho, que a atirou em uma caixa cheia de chaves de portal usadas, a um lado. Entre elas, vi um jornal velho e latas de bebidas vazias.
- Bem vindos, senhores! - Exclamou o homem do pergaminho para nós. Lucius deu um sorriso falso, assim como os outros dois, eu simplesmente não fiz nada. - O primeiro acampamento, Sr. Malfoy, o gerente é o Sr. Roberts.
Lucius assentiu e fez um sinal para continuarmos a caminhar, depois de alguns longos minutos, avistamos uma casinha de pedra ao lado de um portão. Pude distinguir algumas formas fantasmagóricas de barracas ao fundo.
Havia um homem parado à porta, contemplando as barracas, percebi que ele era um trouxa. Lucius fez uma cara de desgosto enorme enquanto dirigia à fala ao homem:
- Você é o Roberts? - perguntou.
- Sou sim. - Respondeu o homem. - E quem é o senhor?
- Lucius Malfoy, duas barracas reservadas.
- Só uma noite? - Perguntou o Sr. Roberts, consultando uma lista pregada à porta.
- Sim. - confirmou Lucius, seu tom de voz era irritado, o pobre Lucius não aguentava trocar mais de duas palavras com um trouxa sem jogar um Avada Kedrava no mesmo.
- Agora, o pagamento, por favor, Sr. Malfoy. - pediu o homem, erguendo a palma da mão direita.
Lucius olhou para Narcisa, que continha uma das mãos dentro de uma bolsa, até que ela finalmente achou alguns trocados trouxas. Narcisa deu um grande maço de notas para Lucius, que por fim, as entregou para o homem. O portão abriu-se e nós seguimos em frente, agora eu tinha apenas uma alça da mochila pendurada no ombro, avistávamos diversas barracas, que pareciam muito pequenas por fora, mas eu sabia que elas eram bem maiores por dentro.
Andamos por entre as cabanas até chegar a uma de cor preta, havia um homem de grossas sobrancelhas e roupa formal em frente à barraca, como se estivesse fazendo vigia do local, provavelmente estava.
Os três entraram, só não entrei porque uma coruja preta e grande vinha carregando uma carta nas patinhas. Estendi o braço o qual eu não pendurara a alça da mochila, meu antebraço desceu ligeiramente com o peso da coruja. Retirei a carta, a coruja saiu logo depois, não esperando por alguma recompensa.
Assim, entrei na barraca com a carta em mãos. A cabana estava realmente muito ornamentada para ser só uma cabana, era o famoso padrão Malfoy de qualidade...
- , iremos dividir o quarto, mamãe e papai vão ficar com o outro, erraram no pedido da barraca. - Explicou Draco, ótimo, agora teria de aguentar o idiota. Ele olhava curioso para o objeto em minhas mãos.
- Que é, Draco? – Perguntei. - Perdeu algo aqui?
- Sim, de quem é essa carta? - Respondeu ele, me seguindo até nosso quarto, havia duas camas e um guarda-roupa separando as mesmas. Joguei minha mochila na cama à esquerda.
- Não é da sua conta, são negócios. - respondi, peguei a varinha na mochila e a coloquei dentro da minha bota, com a carta em mãos, sai do quarto. - Avise seus pais que vou dar uma voltinha, voltarei logo.
E sai, Draco quis me seguir, mas se ele fizesse isso, eu ficaria bem irritada, ainda mais, pois a carta havia sido escrita por meu pai.
Caminhei por entre as barracas em meio aos bruxos andando para lá e para cá, comemorando, vi alguns rostos conhecidos de Hogwarts bebendo Uísque de Fogo escondido.
De longe, consegui ver algumas cabeças de cabelos ruivos entrando em uma barraca, claro que viriam, Harry Potter e Hermione Granger deveriam estar lá também, imagino o susto que vão levar com o ataque.
Segui adiante pela fileira de barracas onde a dos Weasley estava, um dos gêmeos Weasley, que eu não sabia quem era, claro, estava na entrada, ele tinha um sorriso malicioso para mim.
- E aí, Zuckker? - falou ele, me seguindo no caminho até a floresta, onde eu pretendia ler a carta sozinha.
- Qual dos dois? - perguntei, numa tentava de expulsá-lo logo.
- Como assim? - perguntou de volta, confuso.
- Qual dos dois você é? Fred ou Jorge? - reformulei a pergunta, ele olhava para a carta.
- Ah, sou o Fred!- respondeu sorrindo.
- Weasley, se você não se importa, eu quero ler a minha carta, que você não tira os olhos, sozinha. - Disse eu, apressando o passo, ele fez o mesmo. - Na verdade, mesmo que você se importe, eu quero ler sem gente enxerida olhando.
- É uma carta de amor? Você não quer admitir para mim que tem um coração que não é de gelo?
- É isso mesmo, ninguém pode saber do meu segredo, então volte para sua cabana. - Pedi novamente, ele balançou a cabeça em sinal negativo, maldita hora que eu decidi ir pela fileira de barracas onde a dele estava.
- Eu não vou agora, Zuckker! - Explicou Fred, colocando as mãos no bolso, estava facinho de jogar um feitiço nele e sair correndo. - Não sem antes saber quem você acha que ganha a Copa.
- Se eu falar, você vai embora para sempre, certo? - perguntei.
- Felizmente, não posso garantir o para sempre, mas talvez eu vá embora.
- Irlanda, direto. - Respondi, já estava ficando sem paciência...
- Direto? Quer apostar? - Ele sugeriu, levantando as sobrancelhas. - Eu aposto que o Krum vai pegar o pomo, porém a Irlanda vence.
- Específico demais, Weasley. - Avaliei, estava fácil. - 150 galões está bom para você? Ou menos?
- Está perfeito. - Confirmou ele, parecia um tanto nervoso, mas não tirava o sorrisinho irritante do rosto.
- Certo, agora me deixa em paz. - pedi, a floresta já estava quase próxima.
- Te pego na saída, ! - Ele murmurou, passando a mão pelos cabelos. - Com o dinheiro, eu quero dizer.
Revirei os olhos e continuei andando, quando cheguei à floresta, abri a carta e acendi a ponta da varinha, pois as árvores faziam sombra no papel.
A carta de meu pai dizia:
", aqui é Madeline, enviando essa carta que você sabe que não é secreta.
Soube que vai haver um ataque, Bartô irá participar e você terá de disfarçar.
Para parecer fora de suspeita, se machuque, use um feitiço, ateie fogo em algo e se machuque. Não quero saber se vai doer ou não, Bartô irá me avisar se perceber que você não fez isso.
Conto com sua participação, não venha reclamar comigo, você não tem escolha.
Ass: Madeline Z."

Joguei a carta no chão e murmurei um feitiço, que a fez pegar fogo. Após alguns segundos, só havia cinzas na grama meio chamuscada.
Pois bem, o Sr. Zuckker queria que eu, logo eu, me machucasse para não acharem que estava trabalhando para o Lord? Quem desconfiaria disso em meio ao caos do ataque?
Ainda não sabia se seguiria as coisas impostas por meu pai, talvez até mesmo desistisse da missão que só estava me trazendo um monte de estresse...

Ainda não podia acreditar que o Weasley havia acertado no palpite, tudo aconteceu exatamente como ele dissera. Fui preparada com galeões no casaco caso perdesse, não que eu achasse que fosse mesmo perder, só não queria que ele viesse atrás de mim ou me chamasse de caloteira.
Pedi aos Malfoy que fossem na frente, Lucius deu um olhar significativo para mim e voltou para a barraca com os outros dois.
Fred me esperava com um grande sorriso vitorioso no rosto, tirei um saco de moedas do bolso e empurrei para ele.
- Como você acertou isso? - Perguntei.
- Você têm os seus segredos, - respondeu, checando o dinheiro - E eu tenho os meus, querida. Se os 150 galeões não estiverem aqui, eu vou atrás de você.
- E por que os 150 galeões não estariam aí?
- Talvez porque você seja da Sonserina, essa casa não é muito receptiva com a minha.
- Deve ser porque a sua casa é irritante.
- Ou talvez a sua seja...
- Não é não, Weasley.
- É sim, Zuckker.
- Não é, e eu não vou discutir com você. – Sorri. - Você sabe que eu estou certa.
- Certo, vou fingir que eu acredito nisso. - Fred gargalhou.
- Espero demorar para te ver, Weasley. - Entoei e me virei para a trilha de barracas que daria na minha, talvez começasse antes mesmo de eu chegar lá.
- Sonha comigo, . - Fred provocou, fazendo barulho com o saco de moedas.
- Merlin me livre desse sonho.

Eu estava próxima da barraca quando vi Draco correndo na minha direção com duas mochilas, nenhum sinal de Narcisa ou Lucius. Ele me entregou a minha pequena bagagem.
- Peguei a sua antes que destruíssem tudo, melhor a gente correr, ! - Draco falou, tentando me puxar pelo braço, mas eu mal me mexi, não podia ir, ele ia ver que eu me machucaria de propósito.
- Não, você vai para outro lugar, saia do campo, não sei.
Antes que ele fizesse qualquer pergunta, sai correndo, ele não veio atrás de mim.
Logo à frente, os comensais vinham mascarados e vestindo roupas pretas, brandiam as varinhas, alguns deles levitavam quatro trouxas, percebi que um deles era o trouxa da entrada do campo de barracas. Um dos comensais virou uma mulher de cabeça para baixo, fazendo sua camisola abaixar, mostrando suas peças íntimas. Mas o que era isso? Eu achei que seria só uma pequena amostra de que eles estavam de volta.
Alguns comensais botavam fogo em barracas, fazendo outras ficarem em chamas também, pessoas gritavam e corriam para a floresta, de longe pude avistar os Weasley, Harry Potter e Hermione Granger, eles estavam se separando, vi Draco se aproximar, lá vai ele estragar tudo...
Agora tinha de tomar uma decisão, me machucava para satisfazer as vontades de meu pai ou não?
Uma sensação estranha tomou conta de mim, eu olhava para os comensais na esperança de ter uma força vinda do nada, porém nenhum outro sentimento veio. Então eu corri, que nem um rato assustado, para uma das barracas perto da floresta que pegavam fogo, minha varinha estava guardada na bota. Olhei para os lados, ninguém prestava atenção em mim, então aproximei o antebraço perto do fogo, o ar parecia mais pesado, até que eu encostei a pele no fogo, não muito perto do pulso e nem tão perto do cotovelo, aquilo ardia como o inferno, eu gritava de dor, depois de um tempo que achei suficiente, me afastei com pressa da barraca em chamas, queimando meu dedão esquerdo também.
Minha pele se enchia de bolhas brancas, estava vermelha e dolorosa, corri para a floresta tropeçando em um galho que não tinha visto por conta da escuridão.
- Jorge, se afasta com a Gina, vou ver quem é. - Ouvi uma voz dizer, na verdade, era Fred Weasley, eu levantei do tombo, mas a pele doía ainda mais pelo atrito com o chão.
Continuei andando até esbarrar com ele, a ponta da varinha de Fred acendeu.
- Zuckker? - Impressionou-se Fred. - Merlin, olha essas queimaduras.
Eu tentei me desvencilhar e sair correndo, mas Weasley em puxou e me levou até um canto, tirando a sujeira da queimadura com os dedos.
- Seu idiota, isso pode infeccionar! - Gritei para ele, quanto mais eu puxava meu braço, mais dor sentia.
- Fala baixo, louca! - Fred me repreendeu. - Não quer que os comensais nos encontrem, não que eu ache que eles fariam algo com você...
- Weasley, tá doendo muito! - Soltei, fechando os olhos com força.
- Também, olha isso! Deve ser de segundo grau. - Fred levantou a varinha. - Agora vai doer pra caramba, se afasta e deixa os braços esticados.
Ele não ia fazer isso.
- Aguamenti. - murmurou Fred, um grande jato de água saiu da ponta da varinha, molhando meus braços e, por muito pouco, não me encharcando inteira.
A dor aumentou por um instante, logo depois começou a cessar. Logo depois o jato de água parou.
- Ok, agora o que eu tenho que fazer? - perguntou para mim.
- Colocar as bandagens, eu acho, não sou curandeira. - respondi.
- Certo. - concordou Fred. - Ferula.
Assim que ele murmurou o feitiço, bandagens envolveram o meu antebraço, logo depois ele repetiu, para meu dedão também não ficar com a queimadura exposta.
- Acho que você me deve uma, .
- Eu não acho, eu poderia ter feito isso sozinha.
- Poderia se não tivesse caído e se não tivesse duas queimaduras, admita e diga um “obrigada, Fred, você salvou minha vida”.
- Eu nunca, em um milhão de anos, vou te dizer isso. - bufei, passando os dedos não queimados na bandagem maior. - Você também nunca me dirá isso.
- Nunca se sabe, , acho improvável, mas pode acontecer. - argumentou Fred. - Vou voltar para meu irmão, se não ele achará que eu morri.
- Tchau, vou procurar os Malfoy.
- Acho que sei onde eles estão...
- Eu não, melhor você ir.
Ele se afastou, peguei a varinha na bota e iluminei o caminho, fui andando até ouvir uma voz gritar:
- MORSMORDRE!
E então algo irrompeu pelo céu, uma luz verde, eu sabia bem o que era antes mesmo de vê, só de ouvir...
A luz formou um crânio colossal, composto por estrelas esmeraldas e uma cobra saindo da boca, como uma língua. Aquela era a marca de Lord Voldemort, não vista há anos.
Gritos por todos os lados, algo ou alguém passou correndo perto de mim, decidi seguir, murmurei um Nox para cessar a luz da varinha, a Marca Negra já iluminava a floresta toda. Depois de muito correr, não ouvi mais barulhos, uma voz falou:
- Você é Zuckker? - Um homem tirou uma capa, se revelando e virando-se de frente para mim, tinha a pele sardenta e um tufo de cabelos louros.
- Você é Bartolomeu Crouch Júnior.
- Seremos parceiros por Lord Voldemort este ano, senhorita, me chame de Bartô.
- Você conjurou a marca? Por quê? - mudei de assunto.
- Aqueles comensais decidem tocar o terror em um evento desse porte, mas não tem coragem de procurar seu amo. - Esclareceu, parecia muito irritado com isso. - Apenas seu pai e eu fomos leais o suficiente. Tem o Pedro Pettigrew também, mas ele veio por medo.
- Pedro Pettigrew está morto.
- Eu também estava, querida! - Exclamou, Bartô começou a andar em círculos pela clareira, a marca negra ainda pairava no céu. - Pedro é animago, ele viveu todo esse tempo disfarçado. Ok, muito estranho, porém compreensível.
- Como conseguiu a capa? - perguntei.
- Querida, meu pai sabe que eu estou aqui, eu já a vi antes lá no estádio, a elfo não guardava lugar nenhum, eu estava sentado lá, invisível.
- Seu pai é tão falso... Até parece o meu. - Comparei, guardei a varinha na bota. - Vou voltar, os Malfoy já devem estar me procurando.
- Vejo que se machucou mesmo, seu pai e o Lord ficaram contentes.
- Dane-se. - Atrevi-me a dizer, ele desmanchou o sorriso. - Até breve, Crouch.
- Até mais, .
Assim, dei as costas para ele e voltei para o campo de barracas, isso tudo acontecera em um só dia, eu já podia imaginar o estrago que Voldemort faria assim que voltasse. Como ele voltaria? Não fazia a mínima ideia, mas os tempos difíceis estavam chegando, logo, logo os lados estariam se enfrentando mais arduamente do que nunca. O meu lado iria pra frente com tudo, não ligando para a destruição que causava, assim como meu pai não ligou para os ferimentos que eu teria quando fez aquele pedido, eu não esqueceria tão cedo.


Capítulo 4 - O Torneio

Hoje, apesar de ser o dia em que voltaria para Hogwarts, acordei com um péssimo humor por não achar uma posição boa o suficiente para dormir sem sentir dor nas queimaduras e ainda ter um pesadelo.
O pesadelo em si era bem idiota, o cenário era o campo de barracas onde acontecera a Copa Mundial de Quadribol há algumas semanas. Meu corpo estava pairando no ar, assim como àqueles trouxas haviam sido erguidos por comensais, ao olhar para baixo vi que era meu pai que tinha a varinha em mãos, seu rosto não estava escondido por uma máscara e ele possuía um sorriso enorme estampado no rosto.
Meu corpo estava em movimento, ninguém parecia ter pena de mim, todos riam e aplaudiam por uma tortura mais pesada. Até que eu parei, bem abaixo de uma barraca em chamas, de repente o ar ficou mais pesado e quente, coloquei meus braços para cima, eu ia abaixando cada vez mais, rumo à fogueira.
Olhei para os lados em busca de ajuda, algo ou alguém faltava, eu tinha certeza. Sem querer, cedi meus braços, as pontas dos dedos começaram a queimar, a mesma dor que eu já sentira, só que ali parecia pior, minha garganta queimava de tanto gritar, eu sentia meu corpo todo pegar fogo, mesmo que apenas tivesse encostados os dedos.
Então, quando eu menos esperava, alguém gritou Aguamenti, pendi a cabeça para o lado, na esperança de ver quem acabava com o que antes havia sido uma barraca.
Impressionantemente, era Fred Weasley. Talvez essa tivesse sido a pior parte de tudo, ele me encara, fiz o mesmo, Fred deu o típico sorrisinho malicioso e, subitamente, eu não sinto mais nenhuma dor.
Garvin havia me acordado aos berros, esse era o realmotivo de eu não ter sentido mais dor nenhuma. Finalmente eu deixaria a imponente mansão dos Malfoy, Draco já me torrara toda a paciência reserva que eu tinha para ele, não tinha mais chance alguma de continuar tão perto dele por tanto tempo.
Nós quatro tomamos um breve café, estávamos atrasados hoje, meu malão já estava arrumado e também internamente aumentado para caber todos os ingredientes que eu precisaria para fazer as poções Polissuco de Crouch.
Cheguei ao interior da estação de King's Cross completamente encharcada, chovia muito em Londres e os Malfoy só tinham três guarda-chuvas no carro e nenhum deles parecia querer dividir. Despedi-me dos três e passei pela parede que daria na nossa plataforma.
Como sempre, o lugar estava apinhado de bruxos, alunos e seus familiares, alguns se despediam, outros choravam e uns corriam atrás de seus animais de estimação. Fui andando para o final do trem, à procura de uma cabine, bem à minha frente, os Weasley se despediam, Fred Weasley me viu e, muito maduramente, sai correndo para o trem com meu malão, que não estava muito pesado por conta do feitiço que eu fizera mais cedo.
As minhas bandagens, assim como meu cabelo e minhas roupas, estavam molhadas, os ferimentos ardiam um pouco, eu teria que ir ao banheiro me secar e refazer o curativo.
Achei a cabine onde minhas companheiras de casa estavam, entrei e coloquei minhas coisas no compartimento logo acima.
- Hey, garota! - exclamou Pansy com a voz de anjo dela, me dando um abraço apertado demais, eu era a maior fã de abraços - Como foram suas férias?
- Foram as mesmas, como sempre - disse eu, as outras meninas, Dafne e Astoria Greengrass, vieram me abraçar também, mesmo eu estando muito molhada - E as suas?
- Foram perfeitas, viajei para a Alemanha - Pansy respondeu visivelmente feliz - Também acho que Draquinho me ama! Ele me enviou um...
- Desculpe, Pansy! - interrompi, indo para a entrada da cabine, que apesar de confortável, não era muito grande - Mas vou me secar e tudo mais, conte para Dafne e Astoria.
Ela balançou a cabeça em sinal de afirmação, porém pareceu chateada quando eu saí. Eu, infelizmente muito mais do que eu gostaria, era muito próxima de Draco, Pansy sempre me pedia conselhos para trazê-lo para perto e sempre me contava tudo que ela fazia com ele.
O corredor da locomotiva estava um pouco cheio, estudantes de outras casas conversavam, namoravam e o carrinho de doces também começava a passar. Eu estava quase chegando ao banheiro, mas fui interrompida por uma voz bem atrás de mim:
- Zuckker! - exclamou a voz, me virei e lá estava Fred Weasley com seu sorrisinho - Eu não acredito que você correu de mim.
- Eu não corri de você! - menti, seria muito ridículo admitir isso, mas evitar ele seria necessário por várias circunstâncias.
- Correu sim, eu não mordo se você não pedir, tá? - exclamou Fred, aumentando ainda mais o sorriso ao me vê revirar os olhos.
- Você é patético, sabia? - comecei a desenrolar a bandagem molhada, Fred estreitou os olhos.
- Ainda está doendo? - perguntou, se aproximando mais.
Quando vi que ele iria encostar à pequena porção de pele que começava a aparecer, eu puxei o braço para trás.
- Não quero falar sobre isso, Weasley - disse eu, voltei a me concentrar na situação que estava e segui o caminho pelo corredor, Fred não me chamou ou seguiu, assim era bem melhor.
Eu ainda teria que lidar com muito mais consequências de ajudar na volta de Lord Voldemort, teria de ser muito cuidadosa com as coisas que fizesse, se qualquer um desconfiasse, apesar de eu achar que ninguém é tão inteligente a esse ponto, tudo iria desmoronar um pouquinho.
Voltando para a cabine, vi Draco e seus dois comparsas, Crabbe e Goyle, em frente à entrada de uma cabine que eu apostava todo meu dinheiro em ser o local onde Harry Potter estava.
- , vem ver isso aqui - Draco me chamou, se afastou da porta e apontou para trajes à rigor que tinham uma aparência de segunda mão, pelo rubor que as bochechas dele tinham quando pousei os olhos nas roupas, deviam ser de Rony Weasley - Ridículo, não acha?
- Eu acho que você enche muito o saco das pessoas - disse eu, dei uma boa olhada na cabine, os alunos que estavam lá soltaram risinhos e Draco fechou a cara, sai antes que ele falasse qualquer coisa.
Chegando à cabine, Pansy e as meninas falavam do assunto de início de ano favorito delas: Meninos.
- , que bom que chegou! - falou uma animada Pansy, sorrindo de orelha a orelha - O que você acha do Draquinho? Ele não é um fofo?
- Eu acho ele um saco, não sei o que todas vocês veem nele - soltei, era sempre uma grande surpresa para Pansy o fato de eu não me interessar nem um pouquinho por Draco.
- , você é maluca? Todas nós o achamos lindo - exclamou Dafne, sua irmã dois anos mais nova, Astoria, concordou.
- O Blasio também é bonito, ? - perguntou Dafne - Quem te interessa?
- Quem me interessa? Ninguém - respondi, pegando as vestes de Hogwarts do malão, tentando não abrir muito para as outras não verem o grande estoque de ingredientes.
- Duvido muito! - exclamou Pansy, também se levantando para pegar suas vestes.
- Vamos falar de outra coisa! - pedi, fechando a mala e deixando-a em cima do assento, já que daqui há pouco tempo chegaríamos à Hogwarts - Compraram as vestes a rigor?
- Sim, meu vestido é verde esmeralda! - respondeu Dafne, animada, tirando um vestido do malão, era bem bonito - Astoria também comprou o dela.
- O meu é roxo bem escuro, trouxe da Alemanha! - explicou Pansy, também mostrando o vestido logo depois - E o seu, ?
- Eu mandei fazer, não está pronto ainda - menti, na verdade eu pretendia usar um antigo da minha mãe que Madeline me enviaria por correio-coruja, mas tocar nesse assunto com elas era muito desconfortável, elas faziam muitas perguntas, e a maioria eu não sabia responder.
Nos trocamos logo depois, o expresso já começava a desacelerar, até que parou de todo na estação de Hogsmeade. Quando as portas da locomotiva abriram-se, um raio foi ouvido, chovia muito.
Os alunos já se amontoavam na estação, Rúbeo Hagrid esperava os estudantes do primeiro ano com um grande sorriso no rosto, meio escondido pela espessa barba. Os alunos de outras séries tinham cerca de cem carruagens sem cavalos esperando na saída do local.
Fiquei encharcada novamente, eu já ia entrar em uma carruagem onde as meninas estavam quando Draco Malfoy me empurrou e entrou primeiro, deu um sorrisinho debochado e assim a carruagem saiu. Como eu já disse antes, não sei o que elas veem nele, talvez a infantilidade seja atrativa...
Tive que entrar na próxima, logo depois, Cedrico Diggory e os gêmeos Weasley entraram.
- ! Quanto tempo! - exclamou Cedrico quando a carruagem deu partida - Como você está?
- Tempo mesmo, a última vez foi por carta! - relembrei sorrindo, Cedrico era da Lufa-Lufa e apanhador do time de quadribol da casa.
- Hum... Cedrico, achei que você estivesse gostando da Cho Chang! - confundiu-se Jorge, cruzando os braços.
- Mas eu estou mesmo, Jorge - esclareceu Cedrico, Fred parecia muito quieto e franzia a testa.
- A carta era só sobre quadribol! - disse eu, olhando para a janela da carruagem.
- O que aconteceu com seu braço? E com seu dedo? - perguntou Cedrico, tocando na parte enfaixada do antebraço.
- Hum... Eu machuquei na Copa, durante o ataque - respondi meio nervosa, olhei para Fred, ele olhava para mim - Foi queimadura.
- E como você se virou para enfaixar isso no meio daquele caos? - Cedrico perguntou novamente, dessa vez era demais. Fred começou a rir.
- Bom, um cara aí me ajudou - respondi, tentando não rir - Vocês não conhecem. Nem eu mesma conheço.
- Do que você está rindo, Fred? - perguntou Jorge, acotovelando o irmão nas costelas, acho que ele pensou que seria falta de educação rir da menina com queimaduras.
- Não é nada, lembrei de uma piada que uma estranha me disse certa vez - respondeu, óbvio que ele não tinha história alguma.
- Qual história seria? - provoquei, ele teria que inventar algo agora, rápido.
- A história é só para maiores de dezesseis anos, Zuckker! - desculpou-se ele, os outros dois riram.
- Uma pena que eu só tenha quatorze anos, certo? - devolvi, com um semblante inocente.
- Uma grande pena que você tenha só quatorze anos e seja da Sonserina, sim! - confirmou ele, sorrindo do jeito de sempre para mim.
Talvez os outros dois tivessem muitas perguntas no momento, porém não disseram nada quando a carruagem parou. Finalmente em Hogwarts.
Jorge levantou-se e abriu a porta, fazendo um sinal de reverência e logo em seguida dizendo:
- Pode ir primeiro, !
Já ia falar que isso não era necessário, mas acabei descendo. Os outros três foram logo em seguida, parei para amarrar o cadarço do coturno, que soltara quando eu descera da carruagem. - Você quase estragou tudo - disse Fred, quando os outros dois se afastaram - Ninguém ia fazer perguntas sobre a história.
- Eu faria perguntas, não foi convincente! - falei, levantei e continuei o caminho, Fred andava bem ao meu lado.
- , você é muito curiosa para alguém tão nova - zombou Fred, repetindo "piadinha" de antes.
- Diziam que você e seus irmãos eram bons com piada, acho que se enganaram - exclamei, esperava muito que Pansy e as outras não me vissem com Fred, falariam coisas que eu gostaria de evitar.
- Pois é, né, não sou Harry Potter, sou insignificante.
- Talvez você seja importante para algumas pessoas que não dão a mínima para ele, então você é alguém - falei passando pela grande porta que dava para o interior do castelo, ele murmurou alguma coisa para mim, porém eu não ouvi, sai de perto antes que me alcançasse de novo.
O Salão Principal tinha o aspecto de sempre, estava decorado para a festa de abertura do ano letivo. Havia velas flutuando no ar sobre as mesas, os alunos das quatro Casas não paravam de falar, o burburinho era alto.
Havia algumas cadeiras vazias na mesa dos professores, uma era da Profª McGonagall, outra de Hagrid, que ainda atravessava o lago com os novos alunos, a última, apenas eu entre alunos e professores sabia, pertenceria ao novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Bartô Crouch usando um disfarce de algum auror pela poção Polissuco.
Será que nenhum aluno desconfiaria da conduta dele durante o andamento das aulas?
Acho que ele não estaria muito interessado em ensinar algo que repelisse Artes das Trevas sendo que ele mesmo era a favor da prática de arte das trevas.
O teto encantado para parecer o céu lá fora estava bastante tempestuoso, nuvens roxas e negras giravam por ele.
Eu estava sentada entre Pansy e Blasio, a garota me olhava de forma significativa por conta de Zabini estar do outro lado. Logo à frente, estavam as mesas da Corvinal, em seguida a da Lufa-Lufa e, por último, a mesa da Grifinória. Eu desconfiava que a nossa mesa era afastada da dos grifinórios para evitar intrigas entre as duas casas, como uma guerra de comida.
Quando a fome já começava a dar sinais, as portas do Salão Principal abriram-se e todos mergulharam em silêncio, Profª McGonagall conduzia uma longa fila de alunos novos para o centro do salão, onde seriam selecionados pelo Chapéu Seletor.
Minha seleção ocorreu muito rápido, o Chapéu não perdeu nem um minuto me dizendo a Casa.
Todavia, havia algo que o chapéu dissera que me intrigava até hoje:
"Vejo que não possui a frieza que seu pai possui, me impressiono até hoje com o que ele fez... Enfim, sua casa é SONSERINA!"

Óbvio que eu nunca tive coragem de perguntar nada para meu pai. Na verdade, poderia até não ser nada demais, meu pai é um comensal, ele não é santo e já fez coisas horríveis. Porém, o Chapéu aparentava ter uma tristeza tremenda quando disse aquilo, como se eu estivesse sofrendo as consequências dos atos do meu pai...
Palmas foram ouvidas, o Chapéu acabara de cantar uma música, ele sempre fazia isso no início dos anos, porém sempre com uma música diferente.
- Quando eu chamar seu nome, ponha o chapéu e se sente no banquinho - explicou a Professora Minerva aos assustados alunos - Quando o chapéu anunciar sua casa, vá se sentar à mesa correspondente.

Quando as sobremesas já haviam sido devoradas e os pratos já não continham nenhuma migalha, Alvo Dumbledore tornou a se levantar. O burburinho das conversas cessou novamente, apenas ouvia-se o uivo do vento e o barulho de chuva.
- Então - exclamou Dumbledore, sorrindo para todos - Agora que já comemos e molhamos também a garganta, preciso pedir sua atenção para alguns avisos.
"O Sr. Filch, o zelador, me pediu para avisá-los de que a lista de objetos proibidos no interior do castelo este ano cresceu, passando a incluir Ioiôsberrantes, Frisbees-dentados e Bumerangues-de-repetição. A lista inteira tem uns quatrocentos e trinta e sete itens, se alguém tiver interesse em lê-la, estará na sala do Sr.Filch"
O Sr.Filch era uma das pessoas mais chatas e carrancudas que eu já conhecera, ele odiava alunos.
Dumbledore continuou:
- Como sempre, eu gostaria de lembrar a todos que a floresta que faz parte da nossa propriedade é proibida a todos os alunos, e o povoado de Hogsmeade, àqueles que ainda não chegaram à terceira série.
"Tenho ainda o doloroso dever de informar que este ano não realizaremos a Copa de Quadribol entre as Casas"
Claro que todos os jogadores dos times de Quadribol praguejaram, inclusive eu, apesar de saber o real motivo por trás do cancelamento. Quadribol era uma das minhas paixões, entrara para o time como Batedora no segundo ano.
Dumbledore continuou, novamente:
- Isso se deve a um evento que começará em outubro e irá prosseguir durante todo o ano letivo, mobilizando muita energia e muito tempo dos professores, mas eu tenho certeza de que vocês irão apreciá-lo imensamente. Tenho imenso prazer de anunciar que este ano em Hogwarts...
No momento em que o Professor Dumbledore iria mencionar o Torneio, uma trovoada ensurdecedora foi ouvida e as portas do Salão Principal se escancararam.
Um homem apareceu apoiado em um longo cajado e coberto por uma capa de viagem preta. Todas as cabeças se viraram na direção do homem, ele baixou o capuz e sacudiu uma longa juba de cabelos grisalhos, caminhou em direção à mesa dos professores.
Esse era o disfarce de Bartô Crouch para o ano letivo em Hogwarts, Alastor Moody, um auror que possuía um dos olhos um tanto mágico...
- Gostaria de apresentar o nosso novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas - disse Dumbledore, animado, em meio ao silêncio - Prof. Moody.
Ninguém ali tinha coragem de encarar a aparência grotesca de Moody, porém eu fixei meus olhos no homem, para checar se era realmente Crouch.
Como se adivinhasse meus pensamentos, o homem correu os olhos pela mesa da Sonserina, quando seus olhos encararam os meus, ele fez um sinal com a cabeça e pegou um frasco do bolso, que sem sombra de dúvidas era Poção Polissuco.
Os jogos iriam começar...
Dumbledore finalmente revelou o que aconteceria em Hogwarts, o Torneio Tribuxo.
- O senhor está BRINCANDO! - exclamou em voz alta Fred Weasley, fazendo grande parte dos alunos rir, inclusive eu.
- Não estou brincando, Sr. Weasley - disse ele, soltando risinhos - Bom, alguns de vocês talvez não saibam o que é esse torneio, de modo que espero que aqueles que já sabem me perdoem por dar uma breve explicação, e deixem sua atenção vagar livremente.
Eu não prestei atenção em parte do que ele dizia, olhei para as mesas logo à frente, o meu olhar encontrou o de Fred Weasley, que mesmo de longe ainda tinha o sorrisinho irritante.
Ergui uma sobrancelha, ele não se intimidou e continuou me encarando.
- Ah, isso deve ser muito perigoso, Draquinho! - disse Pansy, me fazendo desviar o olhar, quando olhei de volta para a mesa, Fred já não olhava mais, teríamos ficado naquilo para sempre se Pansy não tivesse aberto a boca.
- Os diretores de Beauxbatons e Durmstrang chegarão com a lista final dos competidores de suas escolas e a seleção dos três campeões será realizada no Dia das Bruxas. Um julgamento imparcial decidirá que alunos terão mérito para disputar a Taça Tribuxo, a glória de sua escola e o prêmio individual de mil galeões.
Todos os alunos ficaram admirados com o prêmio e toda a glória, conversavam com os vizinhos, a mesa da Sonserina estava recheada de pessoas querendo participar, eu mesma participaria de pudesse...
Logo depois, Dumbledore revelou que apenas maiores de dezessete anos poderiam participar, destruindo os sonhos de grande parte dos alunos.
Ele deu mais alguns avisos sobre a chegada dos alunos de outras escolas, e então nos mandou para a cama. Ouviu-se um estardalhaço quando todos os alunos começaram a se levantar.
- Mas que raios! Queria tanto os mil galeões! - disse um menino da Sonserina, que eu não fazia ideia de quem fosse.
Me levantei também, as meninas, Draco, Blasio, Crabbe e Goyle andavam logo a minha frente.
Cedrico Diggory se aproximou de mim com um sorriso enorme no rosto.
- Deixe-me adivinhar - falei, sorrindo também - Você vai apresentar seu nome para a seleção?
- Com certeza! - respondeu, me dando um pouco de passagem em meio ao mar de alunos, Fred e Jorge se aproximaram - E aí, caras?
- Vamos enganar o juiz imparcial! - disse Jorge - Queremos participar!
- Duvido muito que consigam enganar o juiz - disse, parando, já que a entrada para as masmorras estava próxima.
- Não duvidaria de mim se fosse você, Zuckker! - alertou Fred, os outros três também pararam - Nós somos os Weasley, somos especialistas em marotagem.
- Certo, vou fingir que acredito – respondi - Vejamos agora quem é novo demais, não é?
Cedrico e Jorge explodiram em risadas, acenei com a cabeça para eles e segui para as masmorras.
Chegando lá, não perdi tempo no Salão Comunal e fui direto para o dormitório das meninas, indo para o quarto que dividia com Pansy, Dafne e Astoria. Fui para minha cama de dossel no fundo do cômodo e coloquei meu malão do lado da cama, para que ficasse meio escondido.
- , você participaria se pudesse? - perguntou Dafne, penteando os cabelos de Astoria.
- Claro que sim, vocês não? - disse, pegando uma roupa para dormir e um robe verde.
- Talvez sim, seria, hum... Interessante - disse Astoria, fazendo caretas quando Dafne puxava demais seu cabelo.
Apesar de Astoria ser mais nova do que nós três, a colocaram no nosso quarto, talvez por ser irmã de Dafne.
- Eu prefiro só ficar olhando mesmo! - disse Pansy, tirando as meias molhadas.
- Quem vocês acham que vai ser o campeão de Hogwarts? - perguntou Dafne, dando umas escovadas tão fortes no cabelo de Astoria, que doeu até em mim.
Eu quase respondi “Harry Potter”, porém não falei nada, balancei a cabeça negativamente e fui tomar um banho, deixando as três imersas em suas conversas.
Meu primeiro ano conturbado em Hogwarts estava só começando...


Capítulo 5 - Manchete

Caminhava pelos corredores de Hogwarts com Pansy e Dafne, estávamos a caminho da aula de Trato das Criaturas Mágicas. O temporal da noite anterior já se esgotara, porém o céu ainda parecia acinzentado.
- Droga! Agora temos aula com a Grifinória!- exclamou Pansy, checando um pedaço de pergaminho que haviam distribuído no café.
- E aí, garotas? - disse Draco Malfoy, se aproximando de nós três com os seus dois fiéis seguidores, Crabbe e Goyle.
- Oi, Draquinho! - suspirou Pansy, abrindo um belo sorriso para Draco, ele não gostava quando ela o chamava assim, porém não disse nada, só sorriu de volta.
- Aula com aquele meio-gigante inútil, quero só ver que grande idiotice ele vai trazer para a aula de hoje!- exclamou, Draco tinha raiva de Rúbeo Hagrid por trazer Hipogrifos para as aulas no ano passado.
Eu estava completamente alheia ao assunto, esperava algum sinal de vida de Bartô, pois precisaríamos de um plano, onde eu entregaria as poções, se teríamos algum código e coisas do tipo.
Não havia visto Crouch no café.
Até que o próprio professor apareceu do outro lado, fez um sinal para mim, indicando um corredor meio deserto e indo para o local logo depois.
- Eu encontro vocês lá embaixo - exclamei, me despedindo, seguindo para o outro corredor.
- Vai encontrar seu namoradinho, Zuckker? - gritou Malfoy, chamando atenção dos alunos da Grifinória e Corvinal que chegavam ao corredor. Parei e olhei para trás, Malfoy tinha um olhar maldoso.
Dei um sorriso tão maldoso quanto o dele, e respondi:
- Sim, estou indo encontrá-lo - observei que perto dele estava Lino Jordan, consequentemente, Fred e Jorge também estariam - Seu desejo era que ele fosse você, não é?
Voltei ao meu objetivo inicial, que não tinha nada a ver com namoro, era tão sério que Draco nem imaginaria. Ao final do corredor, "Alastor Moody" estava encostado em uma das paredes, bebendo de um frasco. Me aproximei.
- Querida! - exclamou, dando um sorriso - Precisamos discutir algumas coisas.
- Seja breve, eu tenho aula agora.
- Tentarei, não posso garantir nada - respondeu Crouch - Preciso de uma grande quantidade de poções, muitas mesmo.
- Eu sei, o efeito é de apenas uma hora - afirmei, olhando para os lados para checar se ninguém vinha - Precisarei usar a sala de Poções, não sei como vou conseguir isto sem que nenhum aluno, ou até mesmo Snape, perceba...
- Vou arrumar capas da invisibilidade, apesar de não ser a original, vão ter um tempo de efeito, assim você vai trocando conforme elas pararem de funcionar.
- Certo, começarei amanhã, então? – perguntei - Preciso também saber quantas poções você ainda tem de estoque.
- Até amanhã terei as capas, vou enviar por correio-coruja, não abra na frente dos amigos - pediu ele, desencostando o corpo da parede, fez um sinal para seguirmos o caminho - Tenho ainda noventa poções, parece muito, mas como você sabe, não é bom para um ano.
- Certo, se tiver que me dizer algo, envie cartas anônimas ou pacotes com siglas, por favor! - foi a última coisa que eu disse antes de me afastar dele e ir para os jardins.
O trabalho seria difícil de conciliar com as tarefas usuais do quarto ano, mas pelo menos manteria minha cabeça e meu corpo ocupados. Ultimamente eu andava muito triste, e nem sabia o real motivo por trás disso.
Desisti de ir para a aula de Trato das Criaturas, chegando aos jardins, sentei embaixo de uma árvore, com a bolsa a tiracolo cheia de livros, tinta e pergaminhos.
Encostei a cabeça na árvore, ali era um dos lugares que eu mais gostava de ir para refletir. Ao longe, podia ver pontos pretos fazendo alguma coisa, eram os alunos na aula de Trato.
- Você não deveria estar lá embaixo? - perguntou Fred Weasley, sentando-se ao meu lado, gelei por um breve momento antes de reconhecer a voz, achando que fosse algum professor.
- Você não deveria se sentar aqui - exclamei, encostando a cabeça novamente - Esse é o meu lugar.
- Esse também é o meu lugar - Fred declarou, pegando uma pedrinha dentre as várias que estavam no pequeno espaço entre nós e jogando para frente logo em seguida - Eu venho aqui para ficar longe de tudo, e você?
- Venho aqui quando eu quero refletir ou se estou triste - respondi, olhando para Fred... Ou Jorge? - Se eu chorar aqui, ninguém vai perceber.
- Profundo, Zuckker - admirou-se ele - Pelo menos não é o lugar onde você dá uns amassos. Eu já achei o lugar do Lino sem querer.
- Ei! Agora que eu percebi, não perguntei se você era o Fred ou o Jorge.
- Você sabia que eu era o Fred, minha presença é inconfundível.
- Fred, você se acha demais! - revirei os olhos, pegando uma pedrinha também.
- Ei, você não dá uns amassos aqui, não é? - Fred perguntou de novo, com uma expressão muito séria - Seria estranho.
- Eu nunca daria uns amassos aqui - respondi, rindo. Só alguém assim para pensar nisso...
- Consegui - gabou-se Fred, sorrindo e jogando mais pedrinhas.
- Conseguiu o que exatamente, Weasley?
- Fazer você rir, de verdade...- respondeu Fred, olhando para mim - Alguém como você ou do seu grupo normalmente finge que não acha graça.
- Grupos diferentes...
- Você sabe o que é, certo? - falou ele, parecendo muito mais sério do que na brincadeira anterior - Não é muito comum sermos amigos ou estarmos sentados no mesmo lugar sem jogar algum feitiço ou xingamento um no outro.
- Quem disse que nós somos amigos?
- Você sabe que somos amigos, você quer ser minha amiga.
- Nem nos seus sonhos mais profundos.
- Falando em sonhos, você sonhou comigo? - perguntou Fred, me fazendo me lembrar do pesadelo que tive, ele apareceu.
- Não, claro que não - omiti, não era completamente mentira, nem totalmente verdade - Quem, em sã consciência, sonharia com você?
- Algumas garotas de Hogwarts já sonharam e ainda sonham em ter esse carinha aqui! - falou, apontando para si mesmo - Seria diferente com você?
- Obviamente! - gargalhei, acho que ter alguma companhia lá era tão bom quanto ter meu momento, sozinha - Todos sonham em ter essa carinha aqui, mas nem todos podem...
- Depois eu que me acho demais! - exclamou, rindo também - Não é tão torturante conversar com você, .
- É muito torturante conversar com você, Weasley - fingi, jogando a última pedrinha para frente - Estou me segurando para não te jogar um estupefaça, você não sabe como é difícil.
Ele gargalhou alto, percebi que os pontos pretos começaram a subir de volta para o castelo, era hora de me afastar de novo.
- Melhor eu ir, Weasley! - exclamei levantando e batendo devagar na capa, para tirar a sujeira.
- Não seria bom ser vista comigo, não é? - desanimou-se ele, me entregando a bolsa.
- Não seria bom ser visto comigo, não é?- repeti, éramos algo complicado.
Se meus amigos me vissem com ele, eu seria amiguinha de alguém que tem exatas características eles tanto julgam, até eu mesma julgava quando era uma inconsequente... Talvez no fundo, continue julgando.
Se os amigos dele me vissem com Fred, ele seria um idiota inconsequente por conversar normalmente, sem troca de farpas, com uma Sonserina, filha de comensal...
Ele deu um sorriso típico, fui a primeira a sair de perto. Encontrei meus amigos perto das grandes portas, Draco fechou a cara quando me viu, mas não saiu de perto.
- Onde você estava, ? - perguntou Pansy, se aproximando, Dafne se posicionou do meu lado direito.
- Eu estava por aí, perdi a vontade de ir para a aula - respondi, não era mentira - O que aconteceu na aula de hoje?
- Ridículo, como eu falei! - intrometeu-se Draco, com sua expressão de desdém - Rúbeo trouxe Explosivins.
Então começamos uma ávida discussão sobre as criaturas que Rúbeo trazia, com destaque para as infinitas reclamações de Draco, que não parava de chamá-lo de meio-gigante idiota.
Astoria, Dafne e Pansy já haviam descido para o jantar, fiquei no quarto para me organizar melhor com os ingredientes para produzir as poções de Crouch, inclusive, eu trouxera outra bolsa com feitiço de extensão, para levar à sala de poções quando fosse lá de madrugada.
Acabara de escrever uma carta para meu pai, requisitando mais caldeirões, já que um só seria insuficiente para fazer toda aquela quantidade de poção. Assim que terminasse de arrumar tudo, levarei a carta para o corujal, assim ele vai receber em um local que a carta não possa ser extraviada.
Sai do quarto, escondendo o bilhete no bolso da jaqueta, minha varinha estava no lugar de sempre, dentro da bota, escondida pelos jeans. Peguei o caminho do corujal, encontrando Lino Jordan e uma garota na escada para o local, eles me pareceram muito envergonhados, parece que eu também encontrei o local de amassos dele.
Deixei a carta para a coruja que sempre usava para entregar minhas correspondências para Mad e desci para o salão principal. Como sempre, o local estava apinhado de gente, Pansy guardava um espaço no banco para mim, fiz meu prato, meus amigos conversam no modo aleatório, mudando de assunto tão subitamente que eu não consegui acompanhar, então só jantei mesmo.
- O Moody com certeza vai falar um monte de besteiras sobre nossos parentes! - exclamou Draco, bebericando um pouco do líquido em seu copo.
- Se ele mencionar o sobrenome Parkinson, eu vou debater, com certeza! - disse Pansy, talvez o verdadeiro Moody não falasse muito sobre os Parkinson, eles não eram tão polêmicos quanto os Malfoy ou os Zuckker.
- Quando vamos ter aula com ele? - perguntei, terminando de comer.
- Só na quinta-feira, com a Grifinória - respondeu Dafne, parecendo me notar só agora - Por que demorou tanto, ?
- É, Zuckker, por que demorou tanto? - perguntou Malfoy, dando um risinho sínico.
- Ah, uns problemas meus! – menti - Tive de ir à biblioteca.
Dafne se convenceu com a minha resposta, porém percebi que Draco não acreditou em nada que eu disse.
Depois das sobremesas, Dumbledore nos liberou. Levantei quando todos começaram a fazer o mesmo, porém parei subitamente quando Crouch me deu um sinal, fazendo Blasio Zabini esbarrar em mim, pedi desculpas e continuei andando.
Encontrei "Moody" em um corredor vazio, Crouch começou a dizer:
- As capas chegarão amanhã, você já tem um plano?
- Sim, pedi para meu pai se passar por um comerciante de caldeirões e enviar uma grande quantidade para Hogwarts, grande mesmo, assim ninguém vai desconfiar.
- Certo, você é inteligente... - exclamou Crouch, fiz um sinal de despedida para ele e voltei pelo caminho que daria para as masmorras.
- ! - gritou um dos gêmeos Weasley, vindo com Cedrico e seu outro gêmeo em minha direção.
- Assim você assusta a garota, Jorge! - disse Fred, rindo, olhei para ele, ele me olhou de volta e sorriu.
- Eu não me assusto facilmente - disse, olhei para os lados para ver se algum de meus amigos estava lá, ninguém - O que vocês querem?
- Queremos muita coisa, mas neste momento, queremos que você se junte a nós três e outros alunos todos os domingos para jogarmos Quadribol - disse Cedrico, cruzando os braços - Como você é uma ótima batedora, queremos te convidar.
- Dumbledore nos autorizou a fazer isso - esclareceu Jorge - Enquanto não atrapalhar o Torneio Tribuxo, claro.
- Certo, eu vou participar - respondi, Quadribol era uma das coisas que eu mais amava, então com certeza estava nessa, só não sabia como outros jogadores iam reagir, provavelmente eu era a única Sonserina a ser convidada.
Os três sorriram animados.
- Fred tinha certeza de que você ia aceitar! - exclamou Jorge, acotovelando o gêmeo.
- Como você tinha certeza disso? - perguntei, franzindo a testa.
- Ah... Você sabe, não é? - atrapalhou-se ele, coisa que eu pensei que nunca fosse ver - Quem não aceitaria? Digo, é Quadribol e...
- Ok, Fredoca, já entendemos! - riu Cedrico, trocando um olhar significativo com Jorge. Fred me olhava cauteloso.
- VÃO PARA SEUS DORMITÓRIOS, AGORA! - ouvi Argo Filch gritar para nós.
- Noite! - disse, dei um sorriso e voltei o caminho para as masmorras.
- NOITE, ! - gritou Jorge, em resposta, me fazendo rir.
No outro dia, acordei atrasada para o café da manhã, descendo para o salão sem pentear o cabelo meio desgrenhado.
Corri para mesa, ninguém poderia receber ou mexer nas minhas encomendas, seria péssimo se isso acontece. Porém, ao chegar ao meu lugar, nada estava lá.
Como se adivinhasse, duas corujas chegaram e deixaram um grande pacote e uma carta em cima do prato que usaria. Todos da mesa lançaram olhares curiosos para os pacotes, peguei-os e sai do salão, sem falar com ninguém.
- Ei, ? - perguntou Pansy quando eu levantava - Não vai comer? Saiu uma coisa no jornal...
Sentei em um degrau da escada e abri a carta, antes, olhando se ninguém se aproximava. O bilhete dizia:
"Cara , aqui é Madeline Z. recebendo seu pedido.
Irei fazer exatamente o que você pediu, é bom saber que anda se esforçando e tomando cuidado para que ninguém perceba nada...
Ass: Madeline Z."

Rasguei a carta logo em seguida, em vários pedacinhos para que ninguém conseguisse ler. Como sempre, meu pai só tratou de negócios, não perguntou como andavam as coisas e nem me respondeu se estava tudo bem com ele...
Voltei rápido para as masmorras e escondi o pacote embaixo da cama, percebi que agora teria aula com Crouch, então me apressei para ir para a sala.
A porta estava fechada quando me aproximei da sala, abri a mesma e todos se viraram para mim.
- Zuckker - chamou Crouch, olhando para a folha de chamada.
- Com licença! - respondi entrando na sala e ocupando o único lugar vago, ao lado de Neville Longbottom, que se assustou um pouco quando sentei ao seu lado - Presente!
- Por que chegou atrasada, Srta. Zuckker? - perguntou o professor.
- Fui checar coisas na biblioteca...
- Certo, que isso não se repita - falou, sacudindo a juba de cabelos grisalhos, guardando a folha - Certo, recebi uma carta de seu antigo professor, o Sr. Lupin, percebi que estão muito atrasados em maldições...
Crouch engoliu em seco e observou a sala toda com atenção.
- Então... Algum de vocês sabe que maldições são mais severamente punidas pelas leis da magia? - perguntou "Moody". Várias mãos se ergueram, mas Crouch apontou para Rony Weasley.
- Hum - disse Rony sem muita certeza -, meu pai me falou de uma... chama-se Maldição Imperius ou coisa assim?
- Ah, sim - disse Crouch, satisfeito - Seu pai conheceria essa. Certa vez deu ao Ministério muito trabalho, essa Maldição Imperius.
Crouch se apoiou pesadamente nos pés desiguais, abriu a gaveta da escrivaninha e tirou um frasco de vidro. Três enormes aranhas pretas corriam dentro dele, eu já tive uma aranha de estimação uma vez, porém ela fugiu no meu primeiro ano em Hogwarts, desde então eu desisti de ter qualquer coisa, com medo de perder.
Crouch meteu a mão dentro do frasco, apanhou uma das aranhas e segurou-a na palma da mão, de forma que todos pudessem vê-la.
Apontou, então, a varinha para o inseto e murmurou"Imperio!".
A aranha saltou da mão de Moody para um fino fio de seda e começou a balançar para frente e para trás, como em um trapézio.
Praticamente todos riram, menos Crouch e eu.
- Acharam engraçado, é? - rosnou ele - Vocês gostariam se eu fizesse isso com vocês?
As risadas pararam quase instantaneamente.
- Controle total - disse o professor em voz baixa, quando a aranha se enrolou e começou a rodar sem parar - Eu poderia fazê-la saltar pela janela, se afogar, se enfiar pela garganta de vocês abaixo... Há alguns anos, havia muitos bruxos e bruxas controlados pela Maldição Imperius- disse Crouch, falando sobre a época que o Lord fora o todo poderoso. - Foi uma trabalheira para o Ministério separar quem estava sendo forçado a agir de quem estava agindo por vontade própria.
Mal sabiam os alunos que um dos bruxos que trabalhara para Voldemort por vontade própria estava bem ali na frente. Percebi que Pansy e Dafne faziam sinais para mim, porém eu não entendia nada. Draco me olhava de canto, com uma expressão fechada.
Crouch apanhou a aranha acrobata e atirou-a de volta no frasco.
- Mais alguém conhece mais alguma? Outra maldição ilegal?
A mão de Hermione Granger se ergueu e, para a minha surpresa, Neville Longbottom também ergueu sua mão.
- Qual? - perguntou Crouch, seu olho mágico dando um giro completo para se fixar em Neville.
- Tem uma, a Maldição Cruciatus - disse Neville, em uma voz fraca, mas clara.
Crouch olhou para Neville, parecia reconhecê-lo. Desta vez observou-o com os dois olhos.
- O seu nome é Longbottom? - perguntou ele, o olho mágico girando, para olhar a folha de chamada.
Neville confirmou nervoso com a cabeça, mas o professor não fez outras perguntas.
Tornando a voltar sua atenção à classe, ele meteu a mão no frasco novamente, apanhou outra aranha e colocou-a no tampo da escrivaninha, onde o inseto permaneceu imóvel, aparentemente demasiado assustado para se mexer.
- Consegue permanecer em silêncio pelo menos um minuto, Srta. Parkinson? - perguntou Crouch, observando Pansy pelo olho mágico, ela continuava tentando chamar minha atenção. Pansy abaixou a cabeça, envergonhada.
- A Maldição Cruciatus - continuou Crouch - Preciso de uma maior para lhes dar uma ideia - Engorgio!
A aranha inchou. Estava agora maior do que uma tarântula. Ouvi um arrastar de cadeira, olhei para trás e era Rony Weasley, os cabelos ruivos me lembrando Fred, mas que droga!
O professor tornou a erguer a varinha, apontou-a para a aranha e murmurou:
- Crucio!
Na mesma hora as pernas da aranha se dobraram sob o corpo, ela virou de barriga para cima e começou a se contorcer horrivelmente, balançando de um lado para outro. Não emitia som algum, mas eu tinha certeza, se tivesse voz, estaria berrando.
Minha cabeça começou a latejar, memórias incertas vieram na minha cabeça. Era tudo muito escuro e turvo, porém podia ver uma mulher, estava se contorcendo no chão e berrando tão alto que achou que seus tímpanos estourariam. Não sabia quem era a mulher, nem quem era a pessoa que a fazia sentir aquilo, o lugar era familiar, porém ela ainda não reconhecera. A última coisa que ouviu foi uma voz gritar seu nome...
- Pare! - ouviu Hermione Granger dizer em voz aguda para Crouch.
Olhei para Neville, ele agarrava a carteira diante dele, os nós de seus dedos estavam brancos, seus olhos arregalados e horrorizados.
Crouch ergueu a varinha. As pernas da aranha se descontraíram, mas ela continuou a se contorcer.
- Reducio - murmurou Crouch, e a aranha encolheu e voltou ao tamanho real, ele a colocou de volta no frasco.
Os flashs da memória passavam pela minha cabeça, quem era a mulher que se contorcia? Quem executava o feitiço? Onde eu estava?
- Avada Kedrava - sussurrou Hermione Granger quando o professor perguntou se alguém sabia mais uma.
Muitos colegas de Hermione a olharam constrangidos, os outros permaneciam com a expressão irredutível.
- Ah! - exclamou Crouch, um sorrisinho torcendo em sua boca enviesada - Ah, a última e a pior... Avada Kedrava... a maldição da morte.
Ele enfiou a mão no frasco e, como se soubesse do destino fatal que teria, a aranha correu freneticamente pelo fundo do objeto, tentando escapar dos dedos de Crouch, mas ele a apanhou e colocou sobre a escrivaninha. O inseto começou a correr, desvairado, pela superfície de madeira.
Crouch ergueu a varinha e pressenti.
- Avada Kedrava! - berrou ele.
Houve um relâmpago de ofuscante luz verde e um rumorejo, como se algo vasto e invisível voasse pelo ar - instantaneamente a aranha virou de dorso, sem nenhuma única marca, mas inconfundivelmente morta. Várias pessoas abafaram gritos de horror. Rony Weasley quase caiu da cadeira.
Crouch empurrou a aranha morta para fora da mesa.
- Nada bonito - disse calmamente - Nada agradável. E não existe contramaldição. Não há como bloqueá-la. Somente uma pessoa no mundo já sobreviveu a ela e está sentada bem aqui na minha frente.
Naturalmente, era Harry Potter, que virou quando todos os olhares da sala de voltaram para ele.
Eu não sabia exatamente o que tinha acontecido com Harry Potter neste dia, não sabia porque o feitiço tinha se voltado contra o Lord, porém ele era o único em anos de magia que tinha executado tal feito, eu desconfio que o próprio Harry não saiba como sobreviveu.
Logo depois o professor pediu para que copiássemos o que ele dizia, ao meu lado, Neville continuava abalado, borrava o pergaminho a todo momento.
Dei uma olhada para trás, Pansy e Dafne continuavam a fazer sinais, e eu continuava não compreendendo absolutamente nada. Franzi o cenho e sussurrei "o que aconteceu?" para as duas, antes que elas voltassem a tentar me explicar, porém a sirene tocou e fomos liberados.
Todos os alunos comentavam pasmos, sobre a aula que acabara de acontecer.
Me aproximei de Pansy, Dafne e Draco.
- Que é que vocês duas tentavam me dizer a aula toda? - perguntei, guardando meu tinteiro na bolsa.
- Bom, íamos falar disso com você no café da manhã, mas você nem ao menos prestou atenção, logo saiu correndo - esclareceu Dafne, apontando para a pequena mochila em suas costas, Pansy abriu-a e de lá tirou um jornal, o Profeta Diário.
- Olhe a primeira notícia, - explicou Draco, pegando o jornal das mãos de Pansy e jogando em minhas mãos.
A capa estampava uma foto de meu pai, com a aparência de sempre, ele estava na Travessa do Tranco, a manchete dizia: "CHARLIE ZUCKKER DE VOLTA?".
Os textos contavam sobre o fato de meu pai ter sido um comensal, de quando ele desapareceu, inclusive mencionava meu nome, já que, mesmo que meu pai não se lembrasse, tinha uma filha, não uma serva.
Algo muito irônico, Charlie vivia dizendo para que eu não chamasse muita atenção, fez com que eu me machucasse para "evitar possíveis suspeitas" e aparecia assim? Os ferimentos não doíam tanto como antes, mas a experiência anterior já era dolorida o suficiente para que eu ficasse com raiva dele.
- , está tudo bem? - perguntou Dafne, checando meu rosto.
- Não, não está nada bem! - respondi, sai correndo para o banheiro mais próximo.
Ao chegar ao banheiro, dei descarga no jornal, arranquei os ferimentos das queimaduras, que agora eram minha pele avermelhada e destacada, com poucas bolhas. Encostei a cabeça na porta de um dos boxes, deixei meu corpo escorregar, batendo a cabeça na mesma porta diversas vezes. Isso era quase uma crise existencial.
O que me irritava mais era ele não dar a mínima para mim e me fazer cumprir tão arduamente "suas" ordens e no fim não fazer o mesmo. E se o plano fosse por água baixo que nem aquele jornal idiota? E se eu fosse descoberta? O que aconteceria? Eu seria presa?
Depois de ter meu pequeno momento de drama, sai do banheiro, não enrolei nada nas bandagens, tirei a capa e joguei por cima da bolsa, então meus ferimentos estavam totalmente expostos. Penteei meus cabelos com os dedos, mas não adiantou muito.
No corredor, os estudantes lançavam olhares de canto para mim, ignorei todos e fui para a sala da próxima aula, chegando atrasada novamente.
Sai mais cedo do jantar, caminhando por Hogwarts, só não fui para os jardins por preguiça de voltar depois, mas andar pelo castelo nunca me cansava.
Encontrei Pirraça, o poltergeist de Hogwarts, no caminho, eu era uma das poucas pessoas que ele não fazia nada, pois eu já o ajudara algumas vezes.
Cheguei até a sala dos troféus, repleta de taças e medalhas de diversos tipos de prêmios, desde Quadribol até Serviços Prestados à Escola. Fui observando cada um deles, distraída com o assunto de Charlie.
- Alô! - disse Cedrico, entrando na sala também - Vi que você saiu meio abatida e pela notícia do jornal, conclui que você estava totalmente abatida.
- Eu estou completamente abatida - suspirei, sentei em um canto da sala, Cedrico me acompanhou - Ced, ele ficou quase sete anos desaparecido! Fiquei sete anos preocupada! E antes eu nem tinha idade para me preocupar!
- É realmente complicado, ! - concordou ele, batucando os dedos no piso da sala - O pior é que você descobriu por uma manchete, ele nem te avisou!
- Eu preferia ter sabido pelo jornal mesmo.
- Eu preferiria que meu pai viesse até mim e me explicasse tudo - argumentou Cedrico, olhando para mim - Sabe? Me explicasse porque sumiu, onde ficou, se não se importou em nenhum momento comigo...
- Óbvio que ele não se importou! - exclamei, fechando os olhos - Os Zuckker tem um longo histórico de deixar o circo pegar fogo sem ligar se foi ele ou o colega que acendeu a fogueira.
- Você vai entrar em contato com ele? - perguntou.
- Não faço a mínima ideia de onde ele esteja agora, Charlie está sendo procurado pelo Ministério por trabalhos como Comensal - expliquei, suspirando novamente, ouvi passos se aproximando - Se eu entrasse em contato, era capaz de eu virar a busca número um dele...
- Nem nos chamaram para a festa! - reclamou um dos gêmeos Weasley, que entravam na sala.
- Queria que fosse uma festa mesmo - respondi, ao invés de uma festa, tinha ganhado vários pesos nas minhas costas.
- Novamente depressiva, Zuckker? - perguntou, agora eu sabia, Fred, sentando-se no outro lado, o lado não ocupado por Cedrico. Jorge estava logo à minha frente.
- Nunca deixei de ser, Weasley.
- Estávamos falando sobre o pai dela, vocês sabem, a notícia principal do jornal de hoje - adiantou Ced, os gêmeos balançaram a cabeça em confirmação.
- Ele vai adorar isso! - exclamei gargalhando de repente, os outros três me olhavam confusos - Charlie adora ser o centro das atenções.
- Então ele foi parar no lugar certo - sorriu Fred, rindo também - Será que ele não fez isso de propósito?
- Eu faria isso de propósito, claro que ele também fez - respondi, ainda rindo.
- Como vai na tentativa de conquistar o juiz imparcial? - perguntou Cedrico aos gêmeos, que deram um olhar cúmplice.
- Bom, vocês são os únicos que sabem das nossas ideias, portanto, não espalhem, queridos - pediu Jorge, rindo, tirou um pergaminho do bolso e entregou para que nós dois lêssemos.
Terminei antes de Ced, que analisava com cuidado, olhei para os ruivos com olhares ansiosos e desatei a rir de novo.
- Do que você está rindo, ? - perguntou Cedrico, dobrando o papel e entregando a Jorge.
- Não entendi o que tem de engraçado ali - confundiu-se Fred, olhando para o irmão.
- Vocês acham mesmo que o juiz imparcial é um homem, ou talvez uma mulher? Sinceramente! - perguntei me recuperando das gargalhadas repentinas.
- Achamos! - responderam os gêmeos, juntos.
- Óbvio que não é! Achei que fossem mais espertos! - falei usando um tom decepcionado.
- E então, o que seria? - perguntou Fred.
- Não sei, não estou organizando o evento – exclamei - Claro que não vai ser um bruxo, pode ser um artefato ou coisa assim, algo grandioso, não é uma competiçãozinha de escola, é um torneio Tribuxo.
- A teoria dela tem fundamento, não deve ser um bruxo - concordou Ced, voltando a batucar os dedos no piso.
- Certo, então temos de reformular todas as nossas técnicas! - decepcionou-se Jorge.
- Eu preciso dormir, se não eu caio na depressão pra sempre! - faleime espreguiçando, meus ferimentos estavam descobertos, Fred olhava intensamente para lá.
- Também preciso, mas não acho que eu cairia na depressão como você, ! - Cedrico respondeu, rindo e oferecendo a mão para eu levantar.
- Infelizmente, não tenho seu autocontrole, Ced! - balbuciei, triste.
Cedrico foi saindo na frente com Jorge, os dois nos deram boa noite e se afastaram, talvez de propósito.
- Zuckker, você tem certeza que se machucou sem querer? - perguntou Fred, quando ficamos a sós.
- Acho que meus ferimentos dizem que sim, não é? - respondi, abaixando a cabeça, estávamos a caminho das masmorras.
- Não foi isso que eu quis dizer - reformulou ele, engolindo em seco - Eu quis perguntar se você não se machucou de propósito, já que disse que é depressiva...
Não podia acreditar que Fred Weasley estava realmente preocupado... Será que estava mesmo?
- Fred, eu sou naturalmente depressiva - expliquei a ele, olhando diretamente para seus olhos, ele não mostrava o tão típico sorriso, o sorriso que eu sempre reclamava... - Não é por isso que eu vou me mutilar ou queimar de propósito.
- Certo... hum, não... sabe? Não faz isso.
- Eu não farei se me der um bom motivo, Weasley - aticei, olhando para ele de novo, dessa vez, o sorriso apareceu.
- Não quero que você morra, ué! - Fred respondeu, sorrindo ainda mais, me acotovelando levemente nas costelas.
- Que bom que você não escreve meu nome em um caderninho da morte...
- Existe um caderninho da morte?
- Óbvio que não, Weasley.
Havíamos chegado ao fim do corredor, a sala Comunal da Sonserina ficava no corredor à esquerda.
- Bom, então boa noite, - suspirou ele, deu um sorriso de canto - Tente sobreviver essas horas sem mim.
- Vou tentar não me apaixonar por você em umas oito horas de sono...
- Você é completamente formada por ironia - Fred gargalhou gostosamente, escorando na parede de pedras - É impossível resistir a mim, nem tente.
- Melhor você ir dormir, falta de sono não faz bem pra você - exclamei, rindo também.
- Noite, ! - desejou-me Fred, usando meu apelido pela primeira vez.
- Noite, Fred! - disse também, ele se afastou da parede e fez o caminho de volta, deu uma olhadinha para trás e sorriu, tropeçando nos próprios pés logo depois.
Entrei no salão comunal, indo para meu dormitório, talvez a falta de sono também não estivesse fazendo bem para mim...


Capítulo 6 - A Aposta

As semanas se passaram rapidamente, o plano que eu havia criado para a preparação das poções estava dando bastante certo, meu pai havia enviado uma carta a Dumbledore se passando por um comerciante de boa índole e enviado milhares de caldeirões para Hogwarts, eram tantos que ninguém percebeu quando eu usava, os caldeirões estavam escondidos por capas da invisibilidade, todo dia eu fazia mais um pouco, a única parte ruim era que a Poção Polissuco demorava muito para ficar pronta.
Os jogos de Quadribol independentes estavam sendo uma ótima distração, apesar de que, sem contar Cedrico, Fred e Jorge, ninguém gostava muito de mim, não que os outros três fossem meus fãs. Treinávamos um pouco todo domingo, com dois times bem fortes, só achei estranho o fato de Harry Potter não estar participando, já que ele era considerado um dos melhores apanhadores que essa escola já teve.
Meus amigos começaram a me encher de perguntas por estar passando mais tempo com Ced e os gêmeos, perguntas como: "Você mudou de lado?".
As aulas estavam ficando cada vez mais exigentes, principalmente as de Defesa Contra as Artes das Trevas. Bartô não estava dando folga nenhuma para os alunos.
Para as surpresas de todos os estudantes, até mesmo a minha, Crouch anunciara que ia lançar a Maldição Imperius sobre cada um de nós, a fim de demonstrar o poder da maldição e verificar se conseguíamos resistir à ela.
Para mim, Crouch só estava fazendo isso porque poderia torturar os alunos sem ser preso em Azkaban. Hermione Granger até tentou argumentar contra, mas de nada adiantou.
O professor começou a chamar os alunos à frente e lançar a maldição sobre eles, nenhum aluno tinha conseguido resistir.
- Zuckker, você é a próxima! - rosnou Crouch para mim, Harry Potter tinha acabado de ir, depois de quatro tentativas, conseguiu resistir aos efeitos.
Caminhei até à frente, esperando o comando do professor. Crouch ergueu a varinha e disse:
- Imperio!
Tive uma sensação maravilhosa de que flutuava, porém àquilo cessou rápido demais, foi como se eu me lembrasse do feitiço, me esforcei a ficar parada e colar tudo na minha mente, não deixando me levar pelos efeitos relaxantes da maldição.
Ouvi a voz de Crouch ecoar na minha cabeça, ao longe ele dizia Se pendure no lustre... Se pendure no lustre...
Meu corpo implorava para obedecer, mas eu permaneci firme no chão, dando o meu melhor.
Se pendure no lustre.
Agora tinha certeza de que não tinha a menor vontade de fazer o que o professor mandava.
Se pendure... AGORA!
O professor tentava me forçar, mas agora era ele que fazia um grande esforço.
- Olhem isso, todos vocês! - rosnou a voz de Crouch, as sensações desapareceram, eu estava exatamente como antes de Bartô executar a maldição. - Zuckker resistiu, perfeitamente, logo na primeira vez.
Todos me olhavam espantados, eles já haviam ficado assim quando Potter conseguiu, imagine comigo.
- Muito bem, Zuckker! - rosnou ele novamente, me afastei do centro da sala. - Muito bem!

Mais tarde, algum funcionário havia pendurado um aviso ao pé da escada, haviam muitos alunos em volta, cheguei mais perto, não consegui ler por conta da aglomeração.
- Quer uma ajudinha? - disse Cedrico Diggory, chegando mais perto também, assenti, ele não teve dificuldades ao ler o aviso em voz alta para mim.
TORNEIRO TRIBUXO

As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas, sexta-feira, 30 de outubro. As aulas terminarão uma hora antes...
Os alunos deverão guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de Boas-Vindas.

- Finalmente!- exclamei animada, tanto pela emoção de presenciar um Torneiro Tribuxo quanto por desejar que aquela missão acabasse logo. - Você ainda vai tentar participar?
- Com certeza! - respondeu Ced, com um grande sorriso, saímos de perto da bagunça de alunos - Ainda falta uma semana, estou realmente muito ansioso.
- Vou torcer bastante por você, se for escolhido, claro - murmurei, abaixando a cabeça ao lembrar do que Crouch faria.
- Achei que fosse torcer por mim, - disse um dos gêmeos, se aproximando junto com o irmão - Que decepção, Zuckker.
Com certeza era o Fred, típico.
- Vocês não vão conseguir se inscrever, e mesmo se conseguirem, não vou torcer por você, Weasley. - argumentei, tinha certeza de que eles não conseguiriam tão fácil assim... Fala sério, Dumbledore dirige essa escola e é bem certinho.
- Quer apostar? - perguntou Fred, dando o mesmo sorriso malicioso de sempre, Jorge levantou uma sobrancelha, como se perguntasse "O que você está fazendo?" - Ou tem medo de perder de novo?
- Medo de perder para você? Com quem você acha que está apostando?! - exclamei, rindo - Essa eu ganho, quantos galeões?
- Eu quero apostar vinte e cinco galeões, Jorge e eu temos um projeto, não podemos gastar muito - explicou ele, abrindo ainda mais o sorriso.
- Vinte e cinco galeões e mais o que? - falei, ele não ia ganhar essa tão fácil - Eu só trabalho com apostas altas.
- Essa tem coragem - admitiu Ced, rindo - Você já era, Weasley.
- Certo, vinte e cinco galeões e... - começou ele, antes que ele falasse algo, Jorge sussurrou para ele, os dois trocaram sorrisos cúmplices - Qualquer coisa que você quiser, mas se eu ganhar...
- Se você ganhar, o que não vai acontecer, você ganha vinte e cinco galeões e o que você quiser! - completei, sorrindo também, poderia usar o segundo prêmio muito bem... - Fechado.
- Fechado - repetiu Fred, estendendo a mão, estendi a minha também e apertamos as mãos, selando a aposta - Só não vai chorar depois.
- Você é quem vai chorar! - provoquei de volta - Preciso ir, vejo vocês mais tarde.
Os três se despediram e eu fui para o salão comunal, precisava pegar algumas coisas para a poção Polissuco, que exigia cuidados atentos.
Chegando lá, Pansy e as outras meninas estavam conversando, espalhadas pelos sofás e poltronas verde-esmeralda, algumas estavam sentadas no carpete cinza.
- , meu amor! - exclamou Pansy, correndo até mim e me puxando para a roda- Que bom que chegou, estamos finalizando os preparativos para nosso compromisso de hoje à noite.
Eu já falei que minha memória é horrível?
- Hã... Pansy - comecei meio sem graça, as outras meninas me olhavam muito animadas - Que compromisso?
- Não acredito que você esqueceu de novo! - Pansy reclamou, chateada - Qual o seu problema?!
- Me desculpem, é que eu tenho tanta coisa na cabeça e... Desculpem.
- Sem problemas, - respondeu Dafne, sorrindo - Vamos fazer uma das nossas reuniões hoje, para comer muitos doces e conversar sobre o baile! Vamos provar os vestidos e muito mais!
As outras meninas soltaram gritinhos de animação, antes eu era como elas, amava as reuniões que as Sonserinas faziam. Hoje em dia eu não curtia tanto, ia mais por conta de Pansy, Daf e Astoria.
- Certo, eu vou estar lá! - exclamei, tentando transparecer animação – Mas, por favor, me lembrem de mais algumas vezes no dia! Minha memória não é uma das melhores.
- Ok, ! Sabemos o quanto você é esquecida - murmurou Pansy, realmente muito contente, era por isso que eu frequentava as reuniões, para deixar minhas amigas felizes.
Me despedi delas e fui para o dormitório, peguei a bolsinha e uma capa da invisibilidade de curto prazo, já que não poderia mexer na poção hoje à noite, faria agora.
Escondi a capa na bolsa e sai do salão comunal, chegando perto da sala de poções, me escondi sob a capa e bati à porta.
Ela se abriu sozinha, Snape havia parado de falar, a turma de Fred e Jorge estava tendo aula agora. Entrei antes que ele fechasse a porta novamente.
- Quem está aí? - perguntou ele, severamente - Jordan, vá checar para mim!
Lino Jordan se levantou, passei em frente à mesa de Snape e fui para o canto direito da sala, Lino deu uma olhada e, naturalmente, não viu nada.
Snape mandou ele se sentar de novo e continuou uma explicação sobre poções do amor.
Fui para a bancada de caldeirões, perto de onde Angelina Johnson e os gêmeos estavam. Tentei fazer o mínimo de barulho possível enquanto mexia e checava os vários caldeirões de poções escondidos atrás da bancada, Snape e os outros alunos nunca iam para lá, então não descobririam. Me assustei quando vi um dos gêmeos olhar em minha direção, porém ele desviou o olhar e sussurrou para o irmão:
- Ei, Jorge! - Fred olhou para onde eu estava novamente, mas não chamou minha atenção nem nada do tipo - Você está sentindo esse cheiro?
- Que cheiro?
- É um perfume, sei lá! - disse Fred, também inspirando - Já senti isso antes...
- Weasley, já que está tão interessado na aula, - rosnou Snape para Fred, apontando para o pequeno caldeirão em cima de sua mesa - venha até aqui e nos diga que cheiro você sente com a poção do amor, anda.
Chequei as poções rapidamente e sai daquele canto, as capas "venceriam" amanhã.
Fred também se levantou, parecendo muito sem graça, curioso, já que ele não tinha vergonha de nada, Snape abriu o caldeirão e Fred aspirou o cheiro da poção, seu sorriso aumentou cada vez mais.
- É ISSO! - ele gritou, me assustando - Era o cheiro que eu estava sentindo, Jorge!
Jorge riu e Snape estava com a cara fechada de sempre, ele odiava mais do que ninguém a Grifinória.
- Professor, eu não sei explicar - disse Fred, aspirando mais, porém o professor tampou o caldeirão novamente - É um cheiro maravilhoso, mas eu não sei definir... É o perfume de algo...
- Ou alguém, não é, Weasley? - provocou Jordan, erguendo as sobrancelhas, fazendo a turma rir. Fred abaixou a cabeça, rindo.
- Chega desta besteira, sente-se, Weasley, menos um ponto por conversas paralelas na minha aula! - Snape falou, Fred tentou argumentar, mas Snape fechou ainda mais a cara e ele se sentou, receoso de que o professor tirasse mais pontos da Grifinória.
- Na poção do amor, você sente os cheiros que te atraem mais - explicou o professor - Como o cheiro que Weasley sentiu, não quer dizer que ele esteja apaixonado, Jordan, mas o cheiro do perfume possui fragrâncias que atraem ele. Como por exemplo, um perfume de lírios e hortelã, o cheiro dos dois ingredientes atraem quem o sente.
Do que será o cheiro? Ou de quem...?
Balancei a cabeça para tirar as perguntas do pensamento, precisava ir até Crouch, mas primeiro tinha de sair dali. A sineta tocou e Snape dispensou todos, aproveitei e sai também.
- Ei, Fred! - zombou Jordan, saindo da sala com os gêmeos, eles estavam fazendo o caminho que eu faria, então acabei seguindo e escutando a conversa - Quem é a gata da vez?
- Não tem gata nenhuma! - riu Fred, olhando para os lados - O que te faz pensar isso?
- Na verdade tem sim, Lino! - discordou Jorge, entregando o irmão - Sabe a Zuckker? Da Sonserina?
- Claro que eu sei!- exclamou Lino, sorrindo - Ela é bem bonita. Me viu junto com a Melissa na escada do Corujal outro dia. Ela é muito linda, a .
Meu Merlin, tinha mesmo que tocar no meu nome? Jorge havia bebido muito Uísque de Fogo, só pode...
- Cala a boca, Jordan - irritou-se Fred, revirando os olhos.
- Fred está totalmente na dela - entregou Jorge novamente, gargalhando da expressão de Fred, até eu quis rir, ele estava muito bravo.
- Uau, totalmente? - surpreendeu-se Lino, rindo também - Mas ela é mais nova, cara, será que não é errado?
Lino Jordan claramente tinha um tom de brincadeira, como eu estava escutando àquela conversa ainda?
- Quantas vezes eu vou ter que te mandar calar a boca, Jordan! - irritou-se Fred novamente.
- Relaxa aí, Weasley! - exclamou Lino, Jorge e ele se recuperavam das risadas - Só acho que ninguém ia curtir muito isso, você sabe, né? Sonserina, filha de comensal, e você...
- Ninguém tem que curtir nada, só eu - discordou ele, revirando os olhos novamente - Não que eu tenha algo com a .
- Até está chamando de ? - surpreendeu-se Lino - Ele está totalmente na dela, Jorge.
- Vamos andar depressa, não quero perder a aula de Moody! - Jorge os apressou. Eles continuaram falando sobre o assusto anterior.
Resolvi me afastar e tirar a capa, falaria com o professor na sala mesmo.
Cada casa tinha um apelido geral, uns eram os traidores de sangue, outros, sangues ruins, e eu, filha de comensal.
Quando cheguei perto da sala, a porta estava fechada, bati e a mesma se abriu.
- Com licença, professor Moody? - pedi, quase me atrapalhei, dei um sorriso para disfarçar - Posso te contar algo importante? É rápido.
- Claro, Srta. Zuckker - rosnou Crouch, todos os alunos olhavam para mim, dei uma olhada geral para a sala, Fred deu um sorrisinho. - Entre.
Caminhei pelo centro da sala até chegar à mesa onde "Moody" estava, ouvi risinhos atrás de mim e uma bufada.
- Terei as poções no dia três de outubro, tem o bastante para um mês! - sussurrei para Crouch.
- Certo, está indo muito bem! - sussurrou de volta - Não saia ainda.
Me afastei de Crouch, ele levantou e começou a dizer:
- Alunos, quero que vejam a impressionante habilidade de Zuckker.
Ah, que beleza! Eu pretendia sair rápido e ir para a aula de História da Magia, daqui a pouco os professores reclamariam que eu estava faltando demais às aulas - Ela foi a única aluna que resistiu à Maldição Imperius de primeira! - orgulhou-se o professor, os alunos me olharam impressionados, Fred deu uma piscadinha para mim, me fazendo revirar os olhos, qual era a dele? - Se importa em nos demonstrar?
- Não me importo, não - respondi um pouco aflita - Só não sei se conseguirei repetir de novo.
- Ah, você consegue sim - rosnou ele, preparando a varinha, fui para o centro da sala - Prepare-se!
E então ele murmurou o feitiço, tive a mesma sensação do começo, mas eu lutava para minha mente continuar sã e meus pensamentos no lugar.
Se pendure no lustre...
Foi o que eu ouvi o professor dizer, ao longe, continuei resistindo, sem muitas dificuldades.
Depois de muitas tentativas, o professor desistiu, eu voltei ao mundo.
- Que bruxa! - exclamou Fred Weasley, sorrindo, o comentário dele fez os outros rirem - Que bruxa, meus irmãos!
Olhei para Fred e sussurrei um "cala a sua boca", ele riu e sussurrou de volta "vem aqui me calar", um clássico...
- Belo comentário, Sr. Weasley, você é o próximo - rosnou Crouch, sentando-se novamente. – Obrigado, Srta. Zuckker, pode se retirar.
Assenti e sai da sala, antes, pude ouvir Lino dizer baixinho:
- Você realmente está na dela, cara!
Me perguntei da onde esses dois estavam tirando isso, era totalmente sem nexo... Não era?

- Por Merlin, Pansy! - gritou Katherine, uma aluna do quinto ano no meio da reunião - Que vestido incrível!
O dormitório que dividia com Dafne, Astoria e Pansy estava cheio de caixas de doces, malas e meninas. A reunião estava rolando há uma hora, não estava tão chata quanto eu pensei que estaria...
- Vocês já sabem o par de vocês? - perguntou Emília Bulstrode, comendo um feijãozinho mágico.
- Claro que não, bobinha! - exclamou Pansy, rindo e pegando um feijãozinho também, assim que o colocou na boca, fez uma careta - Ainda é cedo, não?
- Todas mostraram seus vestidos - notou Astoria, observando todos e parando em mim - Menos você, .
Estava torcendo para que ninguém perguntasse, talvez fosse usar um vestido da minha mãe que encontrei em um baú no sótão da minha casa.
- Eu já disse isso para Pansy antes - esclareci, sentando na minha cama de dossel verde - Vou pedir para Madeline mandar a costureira fazer um, eu ainda não tenho um vestido em mente.
- Estou muito ansiosa para as outras escolas chegarem! - disse Katherine - Essa escola está precisando de umas caras novas.
- Eu acho que o Ced vai se inscrever no torneio - falei, meio desatenta.
- Ced? Quem é Ced? - perguntou Pansy, franzindo a testa.
- Cedrico Diggory, oras - disse, como se fosse óbvio, até porque era - Apanhador da Lufa-Lufa.
- Ah, é porque não temos tanta intimidade com ele quanto você tem - riu Dafne, algumas balançaram a cabeça em sinal de concordância - Ultimamente você tem estado muito próxima dele e dos gêmeos...
- Concordo, não gosto disso, viu? - disse Pansy, comendo mais um feijãozinho, ela jogou o pacote do outro lado para mim e eu peguei um - Você está andando muito com traidores do sangue.
- Pansy, não começa, por favor! - pedi, revirando os olhos.
- Mas, ! - exclamou Pansy - Seu pai te mataria se soubesse disso.
- Primeiro meu pai tem que se importar comigo para saber disso, depois ele me mata - respondi, as outras não falavam nada, deixando-nos discutir sozinhas - Além disso, ele desapareceu há 7 anos, voltou esse ano e até hoje não tive nenhum contato com ele.
- Você não tem medo do que os outros vão pensar? - perguntou Katherine, sentando-se ao meu lado e pegando o pacote de feijãozinhos da minha mão - Sabe, se eles verem você com os gêmeos, ou se você ficar com um deles.
- Kat, sinceramente, quero que os outros se danem! - exclamei, já ficando sem paciência, pegando mais um feijãozinho - Quem cuida da minha vida amorosa sou eu, e obviamente não vou ficar com nenhum dos gêmeos.
Francamente, o que as pessoas dessa escola estão bebendo?
- Ok, vamos mudar de assunto? - sugeriu Dafne, murmurei um “obrigada” para ela - O que vocês acham de um jogo?

Já era dia 30 de outubro, a primeira leva de poções que eu fizera estavam prontas e entregues. As outras duas escolas já haviam chegado à Hogwarts.
Agora todos estavam no Salão Principal, os alunos de Beauxbatons se sentaram à mesa da Corvinal, já os da Durmstrang, se sentaram à nossa mesa, Draco ficou extremamente feliz quando o próprio Vítor Krum se sentou de frente para nós.
Dumbledore fez as honras e começamos o banquete, que possuía algumas comidas estrangeiras. Draco tentava conversar com Krum, mas era uma conversa difícil pelo fato de que ele falava outro idioma.
Um pouco depois, Ludo Bagman e o Sr. Crouch, pai de Bartô Júnior, se juntaram aos professores, Dumbledore e os outros diretores das escolas. Provavelmente seriam parte do julgue também.
Mais tarde, Dumbledore puxou então sua varinha e deu três pancadas leves na tampa de um escrínio que estava logo à frente. A tampa do escrínio abriu-se lentamente com um rangido. O bruxo enfiou a mão nele e tirou um grande cálice de madeira toscamente talhado. Seria um cálice totalmente comum se não estivesse cheio até a borda com chamas branco-azuladas, que davam a impressão de dançar.
O diretor continuou a explicação, dizendo que os alunos que quisessem participar deveriam colocar um papel com o próprio nome e o da escola de forma clara. Ele também explicou que havia uma linha etária, impedindo que alunos mais novos participassem. Lembrei dos gêmeos, que estavam certos de que atravessariam o que quer que fosse e entrariam no torneio, agora eles estavam completamente sem chances.
Assim que Alvo Dumbledore nos liberou, encontrei Fred, Jorge e Ced na saída, como se estivem me esperando.
- Zuckker, você estava certa - exclamou Fred, que reconheci pelo sorriso.
- Uma linha etária! - falei convencida - Eu vou ganhar a aposta facilmente...
- Bom, isso deve ser contornável com uma Poção para Envelhecer, não? O cálice não consegue distinguir quem tem ou não dezessete anos - Jorge disse, Fred balançou a cabeça em confirmação.
- Eu deveria ter apostado com os dois, iam ser cinquenta...
- Deveria ter apostado também! - exclamou Cedrico, os gêmeos fecharam a cara.
- Vocês não acreditam mesmo na gente - disse Fred, com falso tom de decepção.
- Não é bem que eu não acredite, sabe? - respondi, dando um sorriso que os de Fred - Mas acho que Dumbledore não... Como posso dizer? Não faria uma coisa tão fácil assim.
- , você acabou de me chamar de idiota? - exclamou Fred, rindo.
- Pessoal, eu já vou indo - Ced disse, antes que eu pudesse responder - Vou falar com a Cho. Noite!
- Olha, Fred, a Bell está me chamando - disse Jorge de repente, mas ninguém havia sequer acenado para ele - Noite, !
- Noite! - respondi rindo - Não tinha uma desculpa melhor, não?
- Claramente eles quiseram nos deixar sozinhos - acrescentou Fred, rindo - Voltando ao fato de que você me acha um idiota...
- Assim, não completamente - expliquei, seguimos caminho até a entrada do salão comunal, alguns colegas de Casa nos olhavam torto, incluindo Draco Malfoy, que faltou só cuspir de desgosto, abaixei a cabeça.
- O que você vai pedir se eu perder? - perguntou ele, se aproximando mais de mim quando viu Draco - Se for algo bom, eu perco de propósito.
- O que seria algo bom para você? - perguntei, encarando-o.
- O que você acha que seria bom para mim? - reformulou ele, talvez isso fosse um jogo?
- Não faço a mínima ideia, Weasley - respondi, pensativa.
- Você não vai nem precisar pensar em o que pedir, porque eu e Jorge vamos passar da faixa - exclamou ele, cheio de certeza.
- Não vão, a Poção para Envelhecer não vai ter o efeito esperado – discordei - E eu vou rir muito.
- Se eu ganhar, vou pedir para você usar um bottom de "eu amo Fred Weasley" por um mês - anunciou ele, eu nunca usaria isso, por Merlin!
- Eu não uso bottoms com mentiras - rebati, ele fez cara de surpresa.
- Ah, Zuckker! Não adianta esconder! - falou Fred - Eu sei que quando eu saio, você chora de saudade.
- Absolutamente verdade.
- Você mente muito mal.
- Weasley, daqui pra frente, é perigo para você - falei, assim que nos aproximamos da entrada.
- Infelizmente, você está certa - concordou ele, sorrindo novamente, como ele consegue sorrir tanto? -Noite, , bons sonhos comigo.
- E como sempre, eu peço para Merlin me livrar desses sonhos!
- Alguém já te disse que você mente muito mal, ? - perguntou ele, como se soubesse do meu pesadelo, ele só disse isso e voltou-se para o caminho da torre, sem falar mais nada.

Como o dia seguinte era sábado, a maioria dos estudantes teria tomado café da manhã mais tarde. Porém, eu não fui a única que levantei mais cedo, grande parte dos alunos estava no saguão, observando o Cálice.
Eu fui para lá, já que os gêmeos me disseram que colocariam o nome logo cedo.
O cálice estava no centro do saguão, em cima do banquinho que usavam para o Chapéu Seletor. Uma fina linha dourada fora traçada no chão, formando um círculo de uns três metros de raio.
Os gêmeos haviam chegado com Lino Jordan, Pansy também, ela se sentou ao meu lado e os irmãos e Jordan foram falar com Potter, Weasley e Granger.
- Alô, ! - disse Pansy, olhando os gêmeos com desdém - O que eles acham que estão fazendo?
- Eles acham que estão entrando no torneio.
Logo depois, Fred notou que eu estava lá, deu uma piscadinha e sussurrou "Já ganhei!".
Ele foi o primeiro a passar pela linha, por um momento todos acharam que funcionaria, Jorge foi tomado por um momento de euforia e entrou no círculo também. Mas no momento seguinte, ouvimos um chiado e os gêmeos foram arremessados para fora do círculo dourado. Eles aterrissaram dolorosamente, a dez metros de distância no frio chão de pedra e, para melhorar a situação, ouviram um forte estalo e brotaram nos dois, longas e idênticas barbas.
O saguão explodiu em risadas, inclusive Pansy dava risinhos tímidos, levantei e me aproximei dos gêmeos, dizendo:
- Vai me dar meus galeões agora ou só depois que fizer a barba?
- Engraçadinha você, hein?! - disse Fred, sorrindo, olhando para a barba do irmão, os dois estavam bravos com a situação, mas ainda assim estavam achando graça - Depois da barba, darei o seu dinheiro, Zuckker!
- Vou te fazer usar o meu bottom de " é maravilhosa".
- Sem chances, Zuckker.
- Veja só quem vai chorar agora, Weasley! - disse, chamei Pansy, dei a mesma piscadinha para ele e sai com ela. O trio - Harry, Rony e Hermione - estava surpreso por eu ter falado com ele, mas não disseram nada, pelo menos, não perto de mim.
- O que você estava falando com ele? - perguntou ela.
- Fizemos uma aposta, se ele não passasse, eu ganharia vinte cinco galeões e mais outra coisa de minha preferência...
- Vai pedir o que para o Weasley?
- Usar um bottom verde com letras prateadas dizendo " Zuckker é maravilhosa", logo abaixo tem uma serpente.
- Incrível! - admirou-se ela, rindo - Por quanto tempo?
- Quanto tempo de tortura você quer? - perguntei para ela, sorrindo. Pansy e eu já nos conhecíamos antes de ingressarmos em Hogwarts e, apesar de não concordarmos na maioria das coisas, continuávamos sendo amigas.
- Um ano ou dois?
- Não seja tão exigente, Pansy! - exclamei, rindo.
- Ok, então um mês está de bom tamanho! – disse - Você já tem o bottom?
- Com certeza, eu sabia que ia ganhar.

Agora era hora do jantar, iriam revelar os campeões do torneio. Não havia conversado com Crouch ultimamente, e não sabia se ele tivera êxito em sua parte do plano.
Cheguei um pouco atrasada, como sempre, e fui até a mesa da Grifinória, todos os alunos olhavam com surpresa. Fui até Fred com uma pequena caixa, que guardava o bottom, em mãos.
- Um mês, sem desculpas! - exclamei, deixando o bottom bem em seu prato.
- Você está brincando! - disse ele, dando um pequeno saquinho para mim - Você só pode estar brincando.
- E eu tenho cara de que aposta pra brincar? - perguntei, dando um sorriso maroto.
Os alunos da Grifinória estavam bastante confusos, Fred, apesar de ainda estar indignado, vestiu o bottom. Os estudantes que estavam próximos começaram a rir, dei uma última olhada para ele e me retirei para a minha mesa.
O salão iluminado por velas estava quase cheio, o cálice de fogo agora estava diante da cadeira vazia de Dumbledore. Além da revelação dos campeões do torneiro, hoje também era realizada a Festa das Bruxas, parecia durar uma eternidade aos alunos que espichavam o pescoço e olhavam os professores com impaciência.
- Espero que seja alguém da Sonserina, se não, vou torcer para Durmstrang - disse Draco, revirei os olhos diante do comentário idiota que ele fizera, eu era bem competitiva, então sendo da Sonserina ou não, o que importava era Hogwarts levar a melhor.
- Estou torcendo muito para a Elizabeth Hill! - exclamou Katherine, sorrindo para uma garota ruiva que estava afastada de nós.
- Eu quero é o Alex Young seja escolhido, uma menina não aguenta esse tipo de coisa - afirmou Blasio Zabini, todas as meninas direcionaram olhares raivosos para ele.
- Quem não aguenta esse tipo de coisa é você, Zabini. - respondi, as meninas concordaram - Nem se tivesse a idade apropriada concorreria, de tão covarde que é.
Blasio baixou a cabeça para o prato, envergonhado, as meninas sorriram para mim com aprovação, já que ele sempre soltava comentários desse tipo é ninguém nunca falava nada. Aonde já se viu falar que uma menina não pode vencer o torneio?
- E você, Zuckker? - perguntou Draco, dando um sorriso maldoso para mim - Está torcendo para seus amiguinhos ruivos idiotas?
Eu já estava esperando esse tipo de comentário do Malfoy, o desprezo dele pelos Weasley era tamanho que ficava insuportável. Mal sabia ele que os gêmeos não podiam participar...
- Eu estou torcendo para que seu nome apareça ali de repente e você seja engolido por um dragão em uma das provas.
- Uau! Ela fica estressada quando a gente fala mal dos traidores de sangue dela! - provocou ele novamente, os outros prestavam atenção, atentos e quietos, na nossa mesa, só se podia ouvir as risadas de Crabbe e Goyle.
- Draco, se você soltar mais alguma coisinha que seja sobre esse assunto, eu juro que quebro esse prato na sua cabeça! E na de vocês dois também.
- É ISSO AÍ, ZUCKKER! - gritou alguém.
- APOSTAM QUANTO QUE A ZUCKKER ACABA COM O MALFOY EM CINCO MINUTOS? - gritou outra pessoa.
Draco não se intimidou, mas também não discutiu, só balançou a cabeça em desaprovação e voltou-se para os seguranças dele.
Quando os pratos voltaram ao estado de limpeza inicial, ouvi o ruído de vozes aumentar, que cessou quase instantaneamente quando Dumbledore levantou-se.
O diretor disse que o cálice já estava quase pronto para decidir, também pediu para os alunos que forem chamados, viessem até o lado onde ele estava, passassem diante da mesa dos professores e entrassem na câmara ao lado, lá receberiam as primeiras instruções.
Uma parte de mim torcia para que o nome de Harry Potter não fosse chamado e a missão cancelada, mas outra parte, tão grande quanto a anterior, torcia muito para que o plano desse certo.
Dumbledore começou a chamar os nomes, o campeão de Durmstang foi Vitor Krum e de Beauxbatons, Fleur Delacour, uma garota bonita e de cabelos louro-prateados.
Quando Dumbledore anunciou o campeão de Hogwarts eu quase gritei de felicidade:
- O campeão de Hogwarts é - começou ele, fazendo um leve suspense - Cedrico Diggory!
A Lufa-Lufa explodiu em gritos de alegria e palmas, eu comemorei, recebendo umas caretas de colegas meus, mas não importava! Harry não havia sido escolhido, a missão não deu certo e eu podia ficar totalmente tranquila, já que um amigo meu iria concorrer!
- Excelente! - exclamou Dumbledore feliz, quando finalmente o tumulto serenou - Muito bem, agora temos os nossos três campeões. Estou certo de que posso contar com todos, inclusive com os demais alunos de Beauxbatons e Durmstrang, para oferecer aos nossos campeões todo o apoio que puderem. Torcendo pelo seus campeões, vocês contribuirão de maneira muito real...
Mas Dumbledore parou inesperadamente de falar, e tornou-se óbvio para mim o que o distraíra.
O fogo no cálice acabara de se avermelhar, expelindo faíscas. Uma longa chama elevou-se subitamente e ergueu mais um pedaço de pergaminho.
Com um gesto automático, vi Dumbledore estender a mão e apanhar o pergaminho. Ergueu-o e seus olhos se arregalaram para o nome que viu escrito. Ele pigarreou e leu o que estava escrito, sob os olhares de todos:
- Harry Potter!
Minha felicidade se dissipou instantemente, Crouch conseguira o que queria, agora eu não tinha dúvidas, alguém morreria ao final do torneio Tribuxo.


Capítulo 7 - Guerra De Batedores

Nunca havia ouvido tamanha baderna em um jantar de Hogwarts como aconteceu após Harry Potter desaparecer pela porta da câmara, levando ele aos outros campeões do torneio. Os poucos professores que ficaram para controlar os ânimos dos estudantes eram insuficientes, havia gritarias de comemoração e admiração por parte da mesa dos grifinórios, estes só faltavam pendurar uma gigante bandeira de cores vermelho escarlate e dourado no meio do salão.
Sonserinos e lufanos xingavam como nunca, se fossem tempos diferentes, eu praguejaria um pouco contra Potter, mas depois, deixaria de me importar, dessa vez era visível a minha total desanimação com o torneio, eu tinha uma participação, mesmo pequena e quase indiferente, no acontecimento.
Eu ajudei Harry Potter a se tornar um campeão contra à vontade dele, isso não era de todo errado, eu executava essa missão contra a minha vontade também.
Cansados de tentarem acalmar os alunos, os professores nos enxotaram do salão.
Pretendia falar com Crouch, não fazia desde a última entrega das poções, mas ele poderia estar necessitando de algum novo favor agora, com o plano estava se encaminhando para algum lugar. Esperei na saída do local por um tempo, como Crouch não aparecia, decidi falar com ele depois.
Minhas amigas já tinham ido para o dormitório, assim como os outros estudantes, me surpreendi ao ver Fred Weasley me esperando na porta de entrada do meu salão comunal. Quase ninguém que não era da Sonserina ia para as masmorras.

- Incrível! Harry conseguiu passar pela linha e colocar o seu nome - disse Fred quando me aproximei dele, ele queria conversar sobre o assunto que eu menos gostaria de ouvir, já teria o suficiente do mesmo pelas próximas semanas - Apesar dele negar firmemente de não ter se inscrito para torneio nenhum, não acredito, acho...
- Poderíamos, por favor, não falar do Potter ou de torneio? - perguntei, demonstrando cansaço, ele deu de ombros, o broche com uma cobra, preso em seu uniforme reluzia - Não aguento mais isso.
- Então vamos ver... - ele pensou por um tempo - Você está melhor com relação ao seu pai? Ele entrou em contato?
- Nunca estarei cem por cento bem com o meu pai - respondi, encostando na mesma parede, ao seu lado. Nunca diria se ele tivesse entrado em contato comigo também, pensei. - Perdi metade da confiança nele quando Charlie partiu, sete anos atrás, para fazer alguma coisa desconhecida.
- É possível imaginar o que ele foi fazer - resmungou Fred, fingi não ouvir, claro, ele estava pensando em uma reunião de comensais ou em meu pai procurando pedaços de Lord Voldemort por aí.
- Você deve estar se perguntando com quem eu passei o resto da minha vida - mudei de assunto, suspirando - Minha mãe foi morta por aurores quando eu tinha mais ou menos um ano, talvez, não sei direito. Desconheço a aparência, nome e família dela. Os únicos parentes do meu pai vivem na Irlanda, mas são apenas duas tias e minha avó, elas odeiam a Inglaterra agora e me odeiam também, então me visitaram apenas uma única vez, para checar se meu pai não estava jogado em uma rua - fiz questão de dar ênfase no “morta”- Contrataram uma governanta, Madeline, e me deixaram sob os cuidados dela.
- Grande família, hein? - disse Fred, ironizando minha situação - Só uma dúvida, , tem certeza de que sua mãe foi morta por Aurores?
- Tenho! - você sabe que não tem certeza de nada. Fred ficou mais intrigado ainda - Você viu como as batatas fritas estavam crocantes, hoje?
A tentativa de mudar de assunto falhou, ele continuou contrariando:
- , isso não é possível! Os Aurores só tiveram permissão para utilizar as maldições até o final da guerra bruxa, esta acabou quando Harry Potter, de alguma forma, sobreviveu ao feitiço de Voldemort. Isso aconteceu quando ele tinha um ano de idade, vocês têm a mesma idade, ou seja, é impossível sua mãe ter sido morta por algum Auror.
- Isso é possível, Fred, Potter acabou com a guerra quando, supostamente, matou Voldemort, assim, antes disso, poderiam ter usado um feitiço contra minha mãe.
- Harry faz aniversário em Julho - explicou ele - Os pais dele morreram em Outubro, a guerra acabou no último dia deste mês, o mesmo dia de hoje, 31 de Outubro, se você fizer aniversário antes disso, é possível - até que entedia muito bem do assunto - Quando você faz aniversário?
Eu não queria falar, ia dar vitória a ele, a morte da minha mãe era aquela.
Meu pai não ocultou a morte dela quando eu o questionei sobre que dia a mamãe chegaria do passeio dela, com seis anos, Charlie me revelou: homens maus haviam matado ela. Aos dez, descobri que esses homens maus eram chamados de Aurores. Essa era uma das poucas coisas que eu lembrava antes dos 7 anos, minha memória do resto da infância era praticamente nula.
- Eu faço aniversário no próximo mês, Novembro - respondi, engolindo em seco, depois da meia noite já estaríamos no mês do meu nascimento, repeti o que rondava minha cabeça - Eu tinha apenas seis anos, Fred! Perguntei para Charlie quando ela voltaria do passeio dela, parecia infinito, me disse “Ela foi morta por homens maus”.
- Ora, que coisa! - exclamou Fred, com uma ironia nunca vista antes - Ele era o homem mau, na verdade!
- Ninguém fala nada sobre ela, nem Charlie, nem as minhas tias e muito menos minha avó! - expliquei, a dor aparecendo novamente, como eu sentia várias vezes desde os seis anos, isso era pior do que ter o braço mergulhado em chamas - Por que é tão difícil acreditar nisso?
- ... - ele começou, cauteloso, “Porque sua mãe era outra vadia Comensal, assim como resto da sua família”, qualquer um diria, talvez fosse isso o que rondava a mente dele - Você sempre diz que seu pai é falso e mentiroso, acabou de falar, o resto de família te odeia, isso já não é um bom motivo para começar a se pensar que sua vida pode ter sido moldada em volta das mentiras?
- Fred, só cale a boca e vá embora! - disse eu, exausta de discutir algo tão angustiante e com certeza não estava aberto para mudanças de opinião.
- , estou tentando te ajudar, quem sabe ao procurar desvendar os mistérios que rondam a morte da sua mãe possa te deixar menos triste - a preocupação envolvia suas palavras - Até quando você ri consigo ver que continua infeliz e esgotada.
- Qualquer bruxo com uma varinha na mão tem o poder de executar o feitiço que bem entender – falei - Pode não ter sido com um ano de idade.
- Se for assim, por que tal Auror, seja quem ele for, não está em Azkaban? - perguntou ele, impaciente - Então por que ele disse um ano? Se estava sendo, supostamente, sincero, tinha de dizer toda a verdade.
- Ah! Que pergunta! - disse, rindo ironicamente - O perfeito Ministério da Magia não vai querer macular a imagem igualmente primorosa de seus anjinhos, mais conhecidos como Aurores. Óbvio que esse auror está solto, Fred, pode até ser Moody!
Claro que não era esse Moody que ele achava conhecer, onde estaria o verdadeiro?
- Não se combate o mal com mais maldade ainda, Zuckker. Seu pai não te ensinou as técnicas usadas, ele estava ocupado demais te mostrando a forma mais rápida de matar alguém, com Crucio ou Avada!
Novamente os lados bons e maus explícitos nas palavras dele, não sei por que me chateei tanto com isso, ao final de tudo, era a mais autêntica verdade.
- Todo mundo sabe que é com o Avada Kedrava, Crucio não mata, não exatamente... - foi o que eu decidi dizer, sem demonstrar mágoas contra ele.
Ninguém pode ter me mostrado as técnicas usadas pelos "anjinhos", mas diversas pessoas e situações haviam me ensinado a esconder meus sentimentos.
- Seu pai fez uma lavagem cerebral em você e nem se dá conta disso, !
- Vá embora, Weasley - pedi, saindo do lado dele, não conseguia encarar agora - Por favor!
- Zuckker, está acontecendo bem na sua frente...
- Então eu deixo você sozinho.
Entrei no salão comunal e, sem desvios, fui para o quarto, deixando de responder os chamados de Draco para entrar em uma discussão com ele e outros garotos. Quando cheguei ao quarto dividido com minhas amigas, todas dormiam serenamente, evitei fazer barulho para não acordá-las.
Atravessei o recinto até chegar em minha cama com dossel verde, me joguei nela, pensando que seria impossível fugir do meu destino. Quando nasci, comemoraram a vinda de uma futura nova peça do jogo de Lord Voldemort.
Tudo está traçado e eu não sou a única, outro grande exemplo é Draco, o sobrenome dele o define, a família dele o define, tudo que veio antes dele, o define. E eu não sou diferente.
A única diferença entre nós foi ter de lidar com todo esse fardo premeditado antes de Draco, tudo isso foi um favorzinho que Charlie fez para mim, me deixando sem ninguém para procurar seu amo e voltando com uma porção de tarefas como se nada tivesse acontecido.
Daqui alguns anos eu me imaginava com a marca negra no braço, isso se o Lord realmente voltasse, e executando tarefas cada vez mais pesadas. Eu já sabia disso, mas uma parte de mim pensava que Fred poderia pensar diferente sobre mim, não pensei nele tendo o mesmo desprezo que tinha pelos comensais para mim. Eu ainda não era uma.
Mas a frase já desbancava aquela parte esperançosa, Fred, como eu, sabia o que eu haveria de me tornar.


Seis dias se passaram desde a minha briga verbal com Fred Weasley e cinco da minha briga mais violenta com ele, por isso eu andava muito devagar, com um dos pés inchado e dolorido. Estava de noite e eu ia para a detenção que havia ganhado com ele, atrapalhava inteiramente meu plano de evitá-lo.
Tudo começou bem cedo, nos jogos de Quadribol. Havia pedido para Madeline me enviar meu taco novo, o meu havia quebrado no último jogo. As meninas estavam com ele quando eu cheguei ao campo, já que no café da manhã pedira para elas levarem para lá enquanto eu checava as poções, ocultando, claro, a última parte.
Agradeci e elas me desejaram um bom jogo, fui até os outros participantes dos jogos, mesclávamos os times a cada vez, ultimamente eu só tinha caído com Fred, tinha esperanças de uma mudança em relação a isso, eu queria vencê-lo e não dividir minha vitória com ele.
Hoje, os bancos do campo estavam mais cheios do que o normal, os estudantes aproveitaram o bom tempo para apreciar um jogo enquanto conversavam sobre acontecimentos e fofocas recentes.
Achava que Cedrico não fosse participar do jogo de hoje, mas ele só havia chegado atrasado, como não havia lhe dado os parabéns, decidi o fazer agora.
- Ced! Esqueci de te dar os parabéns! - exclamei animada, dando um abraço nele.
- Melhor torcer por mim, ! - respondeu ele, me abraçando também, nos afastamos em seguida - Não se renda ao charme de Vítor Krum, de Harry Potter ou da Fleur.
- Vocês dois querem mais tempo ou a gente já pode começar? - resmungou Fred, eu sabia, seu suéter tinha um F bordado.
Cedrico ficou um tanto surpreso com a rispidez do amigo, só não respondi por que talvez Cho Chang tirasse suposições não muito boas de minha resposta ácida, eu esperava que ela e Ced dessem certo.
Dividimos os times, de um lado: Daniel Turner, Katie Bell, Angelina Johnson, Zacharias Smith, Cedrico, Mark Wright e eu. Do outro lado: Charles Mason, Riley Lewis, Cho Chang, Alicia Spinnet, Sally Murray e os gêmeos.
Até que o jogo começou, a partida era narrada por Lino Jordan, minha função era proteger meu time dos balaços adversários jogando outro para cima do outro time. Tudo corria muito bem, meu time ganhava de 30 a 10, rebatia balaços com uma vontade incomum, provavelmente era um produto da raiva sentida.
“E a sonserina mais linda, Zuckker rebate o balaço na vassoura de Spinnet com uma força impressionável, Alicia não caiu, mas perde a goles para Angelina Johnson, que marca mais um ponto!”
Logo após essa narração de Jordan, Fred se irritou e bateu o balaço, de propósito, bem no meu pé, não me derrubando por muito pouco, rebati o outro balaço das minhas mãos, fazendo o mesmo bater em sua coxa. Ele soltou um grunhido, os outros jogadores começaram a perceber a pequena guerra acontecendo, e desceram para o gramado novamente.
Quando a bola chegava perto das arquibancadas, quase atingindo os outros estudantes, todos saíam de seus lugares, correndo.
- Não consegue me acertar, Zuckker? - perguntou ele, próximo de mim, fugiu ao jogar um balaço, errando novamente - DEVE SER POR ISSO QUE A SONSERINA SEMPRE PERDE!
- WEASLEY, VOCÊ ESTÁ MORTO! - toda a minha raiva de ontem se juntou a de agora, ninguém - além de mim - falava mal da minha Sonserina!
Arremessei um balaço em sua barriga, ele tentou, em vão, impedir, e acabou acertando o taco no próprio olho. Comecei a rir e não evitei a bola soltada por ele em minha direção, atingindo em cheio o mesmo pé. Soltei um grito, mais provável ter sido de raiva do que de dor.
- O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊS DOIS? - gritou Cedrico, lá de embaixo, a maioria observava em um canto mais afastado, receosos de que um de nós os atingisse com os balaços.
- ELES BRIGARAM, SABE COMO OS CASAIS SÃO, NÃO É MESMO? - respondeu Jorge, gritando com o propósito de nos provocar.
- CALE A BOCA, JORGE! - gritou Fred, arremessando o balaço no gêmeo, joguei o balaço nele e mergulhei em direção ao gramado, com a intenção de pegar a outra bola.
- PARA QUÊ ESSA GROSSERIA, IRMÃOZINHO? - respondeu Jorge, pegando o balaço das mãos de um dos goleiros e jogando para mim, havia mergulhado para pegar a bola, já que a outra agora era posse de Fred - MUDEI DE LADO, SÓ PARA VOCÊ SABER.
Alcei voo novamente, estava na mesma altura de Fred, nos encarávamos prontos para lançar as bolas em nossas mãos, nem notamos quando todos saíram do campo, saímos do transe quando uma voz severa nos gritou:
- SENHOR WEASLEY! SENHORITA ZUCKKER! - olhei para baixo, de longe pude identificar a professora McGonagall - DESÇAM IMEDIATAMENTE!
Ao pisar na grama bem aparada do local, vi a fúria por trás dos óculos de lentes quadradas da professora, e então ela começou a falar:
- O que vocês estavam pensando? - Fred tinha um olhar acusador para mim, como se ele não tivesse começado tudo isso - E se alguém tivesse se machucado? Ou pior, morrido?
- Ela não está muito longe de matar alguém... - ele tentou murmurar baixinho, mas nós duas ouvimos, McGonagall olhou com espanto para Fred, a professora não precisava saber da briga anterior para entender o significado do que ele havia dito.
- Enfim, espero que não se repita! - exclamou ela com a voz trêmula, mudando de assunto - Três semanas de detenção às quintas-feiras, sem Quadribol pelo resto do ano.
- Sem Quadribol? - perguntei, os jogos eram uma das poucas válvulas de escape que eu tinha.
- Sim, Srta. Zuckker - confirmou ela, Fred bufou ao meu lado - Têm sorte de que não teremos jogos oficiais este ano.
- Por Merlin! Você começou com tudo isso! - estava deitada em uma das camas da enfermaria do castelo, Fred e eu discutíamos novamente, começou quando Madame Pomfrey perguntou como tínhamos nos machucado daquele jeito - Weasley, pelo amor de Merlin, para de se fazer de desentendido.
- Não comecei nada, você estava atacando meu time!
- Talvez tenha feito isso porque a minha função no jogo é atacar seu time e defender o meu! - exclamei irônica. Madame Pomfrey passava um tônico no meu pé, seria necessário enfaixar e não usar sapatos nele, já que andaria mancando e os calçados poderiam causar mais danos.
- Você estava machucando os meus jogadores, Zuckker.
- Nenhum deles veio reclamar das minhas tacadas, deve ser você que não aguenta a pressão de perder.
Ele se calou depois disso, o melhor era não rebater mais, a não ser que ele fizesse um acusador para mim. A curandeira passava os olhos pelo meu braço, o qual havia posto nas chamas, parou antes de enfaixar meu pé e disse:
- O que aconteceu, querida?
- Hum...Me machuquei na Copa de Quadribol - omiti, a cicatriz ainda era evidente, porém o ferimento não estava tão feio como antes. Eu até esquecia dela.
- Está mais recuperada agora, mas vejo que a queimadura foi bem séria, vou lhe passar um creme para essa região - ela disse, assenti, a única coisa feita desde o dia do machucado foi trocar os curativos e molhar. Madame Pomfrey pegou o rolo de gaze e voltou ao que estava fazendo anteriormente.


Mancando daquele jeito eu ia chegar atrasada para a detenção. Eu pensei em pedir para alguém me acompanhar, não teria de andar segurando na parede desta forma, no entanto, minhas amigas pararam de falar comigo de repente.
Só cochichavam entre si e quando eu tentava me incluir na conversa, elas paravam de falar e saíam de perto.
Pensei que talvez tivesse esquecido uma das reuniões, mas, ontem, quando voltei para o quarto, estava acontecendo, não fui chamada.
Acabei resolvendo deixar para lá, se tivessem algo para me falar, diriam depois.
Fui interrompida no trajeto para a sala de Argo Filch ao ser puxada bruscamente para uma escadaria vazia. Era Bartô.
- , não consegui te contatar antes - disse ele, me soltando, meu pé latejava.
- Dá próxima vez, cheque se eu não estou com faixas enroladas em alguma parte do corpo - reclamei, recebendo um rolar de olhos dele, era esquisito, já que usava o olho mágico do Auror Moody - O que foi desta vez?
- Impaciente e irritada, não é assim que se trabalha para o Lord, querida.
- É assim que se trabalha para o Lord quando não se quer fazer nada para ele no momento.
- Mais respeito, qualquer filho de Comensal mataria por conseguir um trabalho que deixe o Lord orgulhoso.
- Estou começando a pensar que eu não sou filha de Comensal - respondi com desdém, há dias não recebia nada de meu pai - Um tal de Charlie que diz ser meu pai nunca mais me enviou uma cartinha perguntando se estou viva ou se já fizeram o serviço adiantado.
- Não temos tempo para esse seu drama familiar, - Bartô soltou, rispidamente - Preciso de muito mais poções do que você trouxe da última vez, foi um bom número, mas quanto mais, melhor. Talvez eu precise.
- Antes de você me jogar tarefas, quero te perguntar uma coisa - interrompi, ele assentiu irritado - Como você conseguiu enganar o Cálice?
- Sou um bruxo talentoso, querida, não foi tão difícil.
- Se é tão talentoso, por que não fabrica suas próprias poções?
Bartô, sob a face de Moody, prendeu a respiração brevemente, eu estava o tirando do sério.
- Preste atenção, - começou ele, fiz sinal para ele ir logo, caso o contrário, chegaria atrasada - Eu poderia muito bem fazer tudo sozinho, mas o Lord quis incluí-la nesse plano, disseram a ele que você treina essa poção desde sempre, você não se recorda?
- Eu não lembro muito das coisas de quando era mais nova, só o que me falaram.
- Então não fale do que não sabe - disse ele, dando um sorriso irônico - Eu sou a autoridade aqui, você é ajudante, portanto, faça o que eu mando.
- Posso ir agora ou vai me encher com mais coisas?
- Vá.
Manquei para a sala de Filch, brava.
Agradecer pelo serviço não era característico dos Comensais pelo visto...
A detenção foi silenciosa, nós dois estavam cansados de discutir. Filch nos liberou e voltei para o salão comunal da Sonserina, eu não pretendia mais falar com Fred, pelo menos não agora...
Disse a senha e atravessei a porta, parando assim que ouvi meu nome, uma parede de pedra as impedia de me ver.
- Gente, espera aí! - a voz era de Katherine - Por que não podemos falar com a ?
- Na verdade, você pode, só acho melhor não o fazer - respondeu Pansy - os pais de algumas de nós pediram para evitarmos falar com a .
- Era isso que queria nos dizer, antes da interromper a reunião? - questionou Emília Bulstrode.
- Era exatamente isso! - confirmou Pansy - Eu sei, ela é nossa amiga e isso é difícil. Porém nunca se sabe... Deve ser algo sério, meus pais nem explicaram o que aconteceu.
- Devo ter matado alguém e não me contaram - sugeri, entrando na sala principal, Pansy abaixou a cabeça - Cuidado para eu não morder.
- Não é isso, ... - Dafne tentou se explicar, mas eu não deixei, saí da sala e fui para o dormitório.
A bolsinha com coisas para poções estava em cima da minha cama, escondida pelo dossel. Precisaria achar um novo jeito de cuidar das poções, guardá-las sobcapas da invisibilidade e na sala de Snape dava um trabalho enorme, ele praticamente passava o tempo todo lá!
E agora, sem quadribol, sem amigas, sem o devido descanso - sem Fred, infelizmente pensei -, estava sem nada.
As minhas distrações agora seriam tarefas de Hogwarts, poções Polissuco e talvez, se eu não morresse por falta de sono, alguns livros da biblioteca.
Me joguei na cama e dormi rapidamente, reflexo de todos os pequenos desmoronamentos que aconteciam ultimamente.


Capítulo 8 - A Sala Precisa

- , sua cara é a de quem foi atropelada por um trasgo - Draco Malfoy disse, durante o café da manhã, eu comia o oitavo biscoito, havia esquecido de jantar no dia anterior - Por acaso você não tem dormindo?
- Eu durmo, só não o suficiente - respondi, minhas olheiras cresciam cada vez mais, eu mal pensava direito agora, ultimamente só frequentava as aulas, checava as poções, ia para as detenções e tentava ler alguma coisa da biblioteca, só tentava.
- Foi por isso que não veio jantar ontem e anteontem?
- Anteontem eu jantei.
- Não jantou, não.
- Jantei sim.
- Já disse que não, .
- Claro que jantei, Malfoy, eu saberia se não tivesse jantado.
- Ei, Zabini! - chamou Draco, ele sabia que as meninas não estavam falando comigo, então chamou uma pessoa próxima dele, Zabini se juntou a nós - Você viu a nesta mesa durante o jantar nos últimos dois dias?
- Não vi, não- respondeu ele, pegando um pãozinho - Por quê?
- Ela disse que estava aqui no jantar de anteontem, mas não estava.
- Ok, você ganhou, eu não jantei.
- Vai acabar morrendo desse jeito - murmurou ele, rindo.
- Acho que já morri.
- Novo fantasma da Sonserina, Barão Sangrento perdeu o posto dele.
- Finalmente tive algum reconhecimento nessa Hogwarts.

Pelo visto, estava distraída ao ponto de não lembrar de ter comido.
Ao término do café, fomos para a aula com "Moody", ele nos estava fazendo tentar resistir a maldição novamente. Apesar de ser uma aula interessante, eu havia bocejado umas dez vezes.
- Srta. Zuckker, sua vez, por favor - rosnou o professor, soltei mais um bocejo e fui para o meio da classe.
E assim, ele murmurou o feitiço e, como sempre, eu conseguira resistir. Porém, quando ele parou de tentar me forçar a subir no lustre, eu segurei em uma das mesas para não cair. Senti uma leve tontura e um zumbido no ouvido.
- Algum problema, Srta. Zuckker? - perguntou Crouch.
- Nenhum, foi só... Nada - respondi, voltando para onde Draco estava com seus "seguranças", Crabbe e Goyle.
- Certo, vamos prosseguir - continuou o professor, apontando para uma aluna - Srta. Granger, venha para o centro, por favor.
Hermione Granger odiava essa parte, mas como boa aluna, fazia os pedidos do professor.
- Eu disse que você ia acabar morrendo desse jeito - Draco sussurrou - Resistir a isso deve utilizar muita energia e concentração mental, , você não está dormindo e nem comendo.
- Eu durmo e como, Draco - respondi, observando Granger se pendurando no lustre da sala - Só não estou fazendo direito.
- Vai morrer.
- Um dia, quem sabe.
- Cedo.
- Melhore, Granger - sugeriu Crouch, as portas da sala de abriram - Podem ir.
- Só não vou primeiro que você - disse eu, saindo da sala acompanhada dos três. As meninas continuavam a não falar comigo.
- Quem garante isso?
- Eu te mato, simples.
- Não se eu te matar primeiro, Zuckker.
- Vocês dois são esquisitos - disse Crabbe, falando pela primeira vez em muito tempo, Goyle assentiu em concordância.
- É porque vocês não conhecem nosso maior plano, queridos - brinquei, piscando para eles - Deveríamos contar, Draco?
- Contem! - exclamou Goyle, curioso - Não vamos espalhar.
- Até poderíamos contar... - continuou Draco, sério - Mas depois teríamos que matá-los...
- Pelo amor de Merlin! Não!- Goyle murmurou, assustado.
- O plano é o seguinte... - Draco começou, dessa vez, segurando-se para não rir.
- NÃO!
Goyle saiu correndo na nossa frente, Crabbe foi atrás dele, rindo, já tinha pegado a piada.
Nem é preciso mencionar que Draco e eu explodimos de risada, Goyle havia ficado muito assustado.
Sempre digo que os Malfoy são um saco, porque eles realmente são. Normalmente, Draco ficava pior perto deles, porém, ele poderia ser legal quando queria.
- Qual a próxima aula? - perguntei, havia perdido o papel com os horários.
- Herbologia com a Corvinal, eu acho.
- Vamos descer para as estufas, então.
E nós descemos, só estranhei o fato de Goyle ter corrido para direção contrária da sala, vai ver ele pulou a aula.
Ao chegar às estufas, bati na porta da sala que a Professora Sprout costumeiramente utilizava.
- Sr. Weasley, abra a porta, por favor - ouvi a professora falar - Bezoar é uma pedra retirada do estômago da cabra, Srta. Harris. Não do estômago de um Hipogrifo.
- A aula é com a Grifinória, estranho - murmurei e, qual não foi minha surpresa quando Fred Weasley abriu a porta? Ao ouvir o sobrenome pensei que o irmão de Fred, Rony Weasley, apareceria, ele era do mesmo ano que nós dois, amigo de Harry Potter.
- Erramos, - disse Draco, rindo - Desculpa, Professora Sprout, aula errada!
- Tudo bem, queridos! - a professora desculpou, rindo - Sinal que gostam de Herbologia!
Eu não tinha dito nada até agora, o que eu poderia dizer?
Fred segurava a porta, dividindo o olhar entre Draco e eu.
- Que foi, Weasley? - perguntou Draco, ele odiava todos da família de ruivos.
- Vai embora, Malfoy - murmurou ele, Weasley também não era o maior fã dos Malfoy. Ele não mencionou meu nome ao expulsá-lo - Já viu que não é sua aula.
- Vamos, , quem sabe conseguimos chegar a tempo para a aula, seja ela qual for - chamou Draco, revirando os olhos para o ruivo à frente - Realmente, erramos.
- Eu não errei nada, Draco - disse, voltando para dentro do castelo, Fred continuava parado perto da porta, talvez pudesse nos ouvir, não estávamos tão longe das estufas - Perdi meu horário e você disse que era Herbologia com a Corvinal.
- Talvez seja Transfiguração com a Corvinal.
- O gênio sabe agora?
- Cale a boca, quem perdeu o horário aqui foi você.
No final, era aula de Feitiços com a Lufa-Lufa, chegamos na metade da aula e o Professor Flitwick nos deixou entrar.
Eu pretendia falar com Crouch na hora do almoço, mas como eu estava pulando refeições sem perceber, falaria com ele um pouco antes da última detenção.
Como a Professora McGonagall disse no dia da "guerra de balaços", tínhamos sorte em não ter jogos oficiais esse ano, para mim, continuava o mesmo. Quadribol era meu hobby e me dava ânimo para fazer as outras coisas, nesse ano precisava mais do que nunca do esporte.
Sobre as detenções, não era nada tão pesado.
A primeira tinha sido a mais recente, Fred e eu não demos uma única palavra. Na segunda, nós trocávamos breves frases enquanto limpávamos o local, eu pedi para ele fazer uma coisa no meu lugar, meu pé ainda doía naquela semana, ele fez e não reclamou.
Não tínhamos tentado pedir desculpas e nem nos forçamos a falar com o outro como se nada tivesse acontecido, era melhor desse jeito.
Ao final das aulas, fui checar as poções na sala de Snape e jantei em seguida, Draco me acompanhou para ter certeza que faria a refeição.
Não havia visto Crouch na mesa dos professores durante o jantar, segui direto para sua sala.
A porta se abriu ao me aproximar dela, Crouch, sob a face de Moody, estava sentado em uma poltrona, uma mala grande estava aos fundos da sala, quase como se estivesse escondida, provavelmente era onde ele guardava as poções que eu fazia. Outra coisa curiosa era um espelho pendurado na parede oposta à da poltrona, de frente para ele.
- A que devo a honra de sua presença, parceira? - perguntou Crouch, apontando para outro assento, não tinha o visto.
- É sobre o lugar onde as poções estão - expliquei, sentando, ele ergueu a varinha e uma bandeja com uma garrafa de Uísque de Fogo e um copo vieram até ele, ele fez sinal para prosseguir - Essa coisa de deixar os caldeirões na sala de Snape e cobri-los com capas da invisibilidade não vai funcionar por muito tempo.
- Por que não?
- Snape é quase desocupado e terrivelmente sozinho, ele passa quase o tempo todo ali! Até de madrugada! - exclamei, se Severo Snape não fosse um professor, provavelmente seria um bêbado, afogando as mágoas de um amor não correspondido e perdido em bebidas alcoólicas de um bar bruxo - E a demanda das capas é enorme, vamos gastar muito dinheiro, sei que isso não é problema. Além do mais, minha memória não é uma das melhores, certeza que algum dia vou me esquecer de cobrir o caldeirão ou trocar as capas.
- Você gostaria de um novo local para executar o preparo as poções, verificá-las e armazenar os ingredientes? Isso, sem que ninguém saiba o que está fazendo e você possa frequentar a qualquer momento? - resumiu Crouch, dando um gole da bebida.
- Basicamente, é isso, mas é quase impossível achar um lugar desses em Hogwarts, tem bruxo em todo lugar.
- Sei um lugar para você fazer isso, só não sei se ele ainda existe, talvez Dumbledore tenha bloqueado, apesar de achar que isso é impossível.
- Qual? - perguntei curiosa, como um lugar desses pode existir e, aparentemente, não ser frequentado por ninguém?
- O nome é Sala Precisa, ou Sala Vai e Vem - explicou ele, dando mais goles no uísque - Fica no sétimo andar do castelo, eu descobri quando estudava aqui, nem todos sabem da sua existência. Talvez tenha algum livro na parte reservada da biblioteca para te ajudar a saber mais sobre essa sala.
- Não tem em Hogwarts, Uma História.
- Você leu esse livro? - perguntou ele, zombando - Claro que não tem, é algo quase secreto.
- Todos deveriam ler Hogwarts, Uma História.
- Certo, vou ler para ver se presta - Crouch gargalhou, para ele era um absurdo qualquer um "perder tempo" com esse livro - Vou assinar um pergaminho permitindo que você procure alguma informação na seção restrita, você sabe como funciona, não é?
- Sei, Snape já me deu autorização no segundo ano, eu anotei as informações da Poção Polissuco por lá.
- O que uma garota de doze anos queria com uma receita de Polissuco? - perguntou Crouch, levantando-se, o copo permanecia em sua mão, ele abriu uma gaveta e tirou de lá um pedaço de pergaminho.
- Nada demais, só pregar umas peças...
- Como você conseguiu os ingredientes?
- Notei que ninguém abre as encomendas enviadas por correio, pedi para Madeline me enviar os ingredientes que encontrasse, achei que fossem mais caros.
- Lord Voldemort achou a nova Comensal perfeita - disse ele, terminando com o pergaminho - Tem que ser muito habilidoso para executar essa poção e você fez isso, com sucesso, aos doze anos. Além de ter planos ótimos para a pouca idade.
Me senti ligeiramente satisfeita com os elogios, mas Voldemort não achou nada, simplesmente caí, por obrigação, em seus pés.
- Já acabou? Tenho uma última detenção para cumprir - apressei, ele me entregou o pedaço de pergaminho, dobrei e guardei no bolso da calça - Qualquer novidade, vou informar.
- Por que você pegou detenção mesmo?
- Nada demais, só um clássico - respondi, indo para a porta, novamente, ela se abriu sozinha - Briguei com uma pessoa da Grifinória.
- Gostaria de ter visto, você pelo menos ganhou?
Fiquei um tempo pensando, eu me machucara, Fred tinha muito mais ferimentos que eu, seu olho tinha machucado agora, quanto ao resto, eu não fazia a mínima ideia.
- Ganhei.
- Então, valeu à pena - murmurou ele, assenti e ele deu um cumprimento com a cabeça.
Hoje, iríamos ficar sentados sem fazer nada, presos na sala de Filch. Segundo ele, não fazíamos nenhuma limpeza direito e depois ficava pior.
Uma hora e meia sentada em uma cadeira ao lado de Fred, sem ao menos falar com ele.
Fazia uns dez minutos que estávamos na sala apertada, decidindo o que era melhor de se olhar, o teto ou os nossos próprios pés. Cansado de ficar nisso, Fred levantou e abriu a porta, Filch não havia trancando, mas disse que viria de dez em dez minutos verificar se estávamos ali ou não.
Ele voltou um tempo depois com um balde cheio e uma corda.
- Pode segurar o balde? - perguntou ele, estava em cima da cadeira, fazendo alguma coisa desconhecida, provavelmente uma brincadeirinha para Filch.
Eu levantei e fui ajudá-lo, não podia simplesmente recusar, ele havia me ajudado da última vez. Terminamos aquilo exatamente quando ouvi passos caminhando para a sala.
Fred desceu rápido e colocamos nossas cadeiras o mais longe possível da porta e do balde.
- Vocês, pestes, se tiverem saído... - ouvi a voz amarga de Filch, aumentando à medida que ele abria a porta, ao o fazer, o balde, contendo o que parecia uma mistura de água e corante ou tinta, caiu.
Argo Filch soltou um berro, me segurei para não rir, daquele jeito bem conhecido, séria, mas com sorrisinho tentava aparecer no meu rosto.
- SEUS... EU VOU... - o zelador não sabia se gritava conosco ou se jogava a vassoura - MAIS MEIA HORA AQUI... Para os dois!
- Ela não fez nada, Filch - Fred disse, despreocupado - Mais meia hora só pra mim.
- Ela nem ao menos te ajudou?
- Já disse que não, eu só fiz ela ir mais para trás para não pegar água nela.
- WEASLEY, VOCÊ É UMA PESTE! - gritou o zelador novamente.
Fiz menção em falar que eu ajudei, mas antes que eu falasse, Fred foi primeiro:
- Você já disse isso incontáveis vezes, sempre é "peste" ou "criança estúpida" desde o primeiro ano.
Filch se calou, saiu da sala com a vassoura e murmurou algo sobre voltar depois. E eu ri, olhando de canto, Fred tinha um daqueles sorrisos que eu costumava implicar.
- Ele mereceu - murmurou, mais para si do que pra mim.
O resto da detenção passou sem novas emoções, nós rimos e depois não dissemos nada.
Meu corpo ainda pedia por uma cama e mais horas de sono, eu dormir e saí da sala porque Fred me acordou, dizendo que eu estava liberada. Murmurei um “obrigada” em meio a um bocejo e fui para o Salão Comunal, amanhã teria pesquisas para fazer.
- O que você quer na biblioteca? - perguntou Draco, tinha acabado de almoçar e estávamos a caminho de Madame Pince, a rígida bibliotecária do castelo.
- Nada demais, só quero ver se acho uma informação na seção reservada.
- E como você pretende fazer isso? - perguntou ele, havia tirado um pacotinho com varinhas de alcaçuz do bolso - Só podemos ter acesso com autorização de um professor.
- Se estou indo até lá para ir à seção reservada é porque tenho uma autorização, Malfoy - exclamei, mordiscando um pedaço de uma das varinhas de alcaçuz que Draco me oferecera.
A biblioteca ficava em um corredor do primeiro andar, logo chegamos e fui direto à mesa de Madame Pince. Estava com a bolsa que normalmente levava os materiais, para poder anotar qualquer informação relevante.
- Olá, Madame Pince - ela ergueu os olhos do pergaminho para mim e deu um breve sorriso - O professor Moody me deu autorização para checar a seção reservada.
- Mostre-me a assinatura, Srta. Zuckker - pediu ela, enquanto abria a bolsa para procurar o pedaço de pergaminho, ela ralhou com Draco - Sr. Malfoy, guarde esse doce agora! Se deixar qualquer pedacinho disso grudado em qualquer um dos meus livros, te jogarei uma azaração!
Entreguei a autorização para ela, Draco guardou o doce no bolso de novo, eu já terminara o meu, não foi preciso ouvir uma reclamação da bibliotecária, esta, inclusive, passava os olhos atentamente pela letra de Crouch.
Ela guardou o papel em uma pasta e me disse:
- Pode ir, qualquer dúvida, é só me chamar - Madame Pince pegou a varinha e a corda que separava a seção reservada do resto da biblioteca soltou em uma ponta, Draco me seguia, mas a bibliotecária o impediu - Sr.Malfoy, você fica, o professor deu autorização somente para ela.
Draco assentiu, relutante. Passei pela corda e comecei a procurar entre os vários títulos algum em que pudesse achar algo sobre a tal Sala Precisa.
Depois de muito procurar, no topo de uma estante mais afastada, achei "Os Maiores Mistérios Mágicos da Europa". Coloquei-o sobre uma das mesas de madeira e arrastei uma das cadeiras bem devagar, Madame Pince também não tolerava barulhos tão estridentes.
Pelo prefácio do livro, achei um capítulo extenso sobre os mistérios das escolas de magia da Europa. Abri na página sobre Hogwarts e comecei a procurar. E então, achei.
Sala Precisa, o livro tentava desvendar como aquela sala funcionava, teorizava sobre sua criação e sobre quais fundadores teriam tido aquela ideia.
A parte relevante, anotei no pergaminho:
"É uma sala no sétimo andar do Castelo de Hogwarts que aparece apenas quando alguém necessita de algo, atendendo então às necessidades de quem a procura. Para a sala surgir é necessário que o bruxo passe três vezes na frente da tapeçaria dos trasgos dançando balé, pensando fortemente naquilo que necessita."
Era simples, mas eu também precisava não ser encontrada. Guardei o livro, peguei a informação e guardei na bolsa, agradeci Madame Pince e sai do local com Draco, haviam outras aulas para comparecer.

Já era hora de voltar para o dormitório, mais cedo, pedi para Crouch reunir todos os meus pertences da sala de Snape e me encontrar no sétimo andar. Caso alguém nos visse, ele fingiria que havia me encontrado fora do horário e tiraria pontos.
- , esqueci de te entregar uma coisa - disse Draco, saíamos do salão principal juntos - No café da manhã, no momento que você saiu, o correio-coruja chegou. Tinha uma carta para você.
- Você não leu a carta, não é? - perguntei, e se fosse de Charlie?
Draco tinha um olhar de culpa, antes de pegar a varinha e azará-lo, ele explicou:
- Calma! Eu não consegui abrir, tentei, mas fiquei com uma coceira por uns cinco minutos, só você pode abrir.
- Onde está?
- No meu quarto, vou pegar e você espera lá na sala.
Chegando ao Salão Comunal da Sonserina, Draco foi direto para o seu quarto, sentei em um dos sofás pretos para esperar. As meninas se sentaram nos outros assentos próximos, permaneciam sem falar comigo.
- E se não for um baile, Pansy? - perguntou Katherine, impressionantemente, ela também me ignorava.
- Claro que é, gente! - Pansy exclamou, convicta - Para quê mais usaríamos roupas de gala? Para sentar em bancos esperando o ganhador do Torneio Tribuxo? Não!
- Está com esperanças de que Draco a chame para o baile?
Ela assentiu, olhos sonhadores. Pansy sempre gostou de Draco.
E falando no desgraçado... Ele chegou trazendo a minha carta, exatamente como a outra.
- Oi, Draquinho! - cumprimentou Pansy, sorrindo.
- Oi, Pansy! Tudo bem? - ele respondeu, sentando-se ao meu lado, puxei a carta de suas mãos - Caramba, , não vai fugir, não!
- Deveria ter me entregado antes.
- Estou ótima e você? - Pansy continuou a conversa, ela estava interessada na minha carta, aproveitando a distração de Draco, saí dali e fui para fora, caso ficasse lá, ele tentaria ler o que dizia.
A carta era como as que Madeline me enviava sempre, as mesmas que Charlie me mandava. Abri e, como eu esperava, a letra do meu pai apareceu:
"Olá, , fui informado por Bartô que amanhã acontecerá um passeio para Hogsmeade.
Peço que me encontre lá, na Casa dos Gritos, exatamente quando chegar.
M. estará junto comigo, vejo você amanhã,
Madeline Z."

Ótimo, eu pretendia não ir ao passeio para descansar, meu sono continuava todo atrasado, daqui a pouco dormiria no meio da aula.
Será que Charlie não podia me dizer o que quer que fosse por meio de carta? E Madeline? Por que a presença dela é necessária?
Queimei a carta e espalhei as cinzas pelo chão com o pé, ninguém, além de Filch, notaria.
Fui para o sétimo andar do castelo, Crouch me esperava em frente à tapeçaria que mostrava um bruxo tentando ensinar trasgos a dançarem balé.
- Achou alguma informação? - perguntou ele, todos os caldeirões que eu utilizava, que eram muitos, além de uma caixa com mais ingredientes estavam ao lado dele.
- O livro dizia que devo passar três vezes em frente à tapeçaria, pensando fortemente no que eu quero.
- Seja objetiva, pense em como precisa que a sala seja e não esqueça de que não quer ser encontrada.
- Você vai ter que sair daqui - disse, ele franziu o cenho, com dúvida - Não quero ser encontrada, lembra?
- Certo, vou sair! - exclamou ele - Sabe como vai levar os caldeirões com poções?
- Feitiço de convocação.
Esperei Crouch se afastar, observei se ninguém vinha e comecei a passar em frente com o pensamento:
Preciso de uma sala para fabricar poções sem que ninguém me ache.
Preciso de uma sala para fabricar poções sem que ninguém me ache.
Preciso de uma sala para fabricar poções sem que ninguém me ache.

E então, uma porta de madeira, entalhada com arabescos surgiu. A porta se abriu e tive a visão de uma perfeita sala de poções, murmurei um feitiço e os caldeirões me seguiram até a sala, a caixa levei na mão.
Ao entrar, a porta se fechou. Tinha uma enorme bancada com caldeirões à direita, à esquerda, havia três sofás com uma mesa de centro ao meio, mais para um fundo, um armário grande para armazenar frascos e ingredientes. Na parede de frente, uma prateleira de livros.
Sala Precisa era o mistério mais maravilhoso que eu conhecia.
Os caldeirões foram parar na parte vazia da bancada, a caixa, deixei em cima da mesinha.
Aquilo era perfeito para mim.
Confortável e escondido, só esperava que os alunos que soubessem desse lugar não pedissem por uma sala de poções também.
Dei uma rápida checada nos caldeirões e sai.
Crouch me esperava ao fim do corredor, perto das escadas.
- E então? - perguntou, enquanto descíamos.
- Funciona, Dumbledore não bloqueou.
- Tudo certo, agora?
-Tudo certo, agora.

Fazia dez minutos que esperava Charlie e Madeline na Casa dos Gritos.
Era um lugar esquisito, havia diversos móveis espalhados, os que não estavam quebrados, eram cheios de marcas de unhas e dentes. Além de muita poeira, cheirava um pouco a mofo.
Ouvi um barulho, mesmo sabendo que quase ninguém era louco de entrar lá, achando o lugar assombrado, preparei a varinha e me escondi atrás de um armário.
Vários outros barulhos se seguiram e foram aumentando à medida que se aproximavam da sala onde eu estava.
- ? Querida? - perguntou uma voz severa, mas com um leve tom carinhoso, Madeline - Somos nós, pode ficar tranquila.
Saí de trás do armário e Madeline fez um sinal para alguém lá fora, Charlie.
Ela deixou a porta aberta e veio me abraçar, foi meio desajeitado pela grande caixa que ela tinha em mãos. Madeline estava um tanto diferente, suas olheiras estavam maiores, assim como as minhas, seus cabelos grisalhos estavam curtos agora, em estilo “joãozinho”, usava seu tipo de roupa favorita, vestido longo com mangas compridas.
Logo depois, meu pai entrou. Ele me cumprimentou com a cabeça, fiz o mesmo.
Usava roupas escuras, como sempre, e uma capa com um grande capuz que cobria seu rosto, escondendo também os cabelos loiros e a barba que aumentara. A varinha estava em uma mão e uma sacola de papel na outra.
- E então? - perguntei, quebrando o silêncio - O que vocês têm para me contar?
- , viemos te trazer mais ingredientes para as poções - explicou Madeline - Achamos que precisaria.
Charlie ergueu a sacola de papel e prosseguiu:
- E como seu aniversário de quatorze anos está chegando... Hm, achamos que você gostaria de um presente.
Ele falava desajeitadamente, Charlie nunca foi bom com essas coisas de pai. Ele nem sabia o que era isso.
- Aqui, abra a caixa! - Madeline exclamou, animada, eu sei que falo que a convivência com Mad é difícil normalmente, mas quando volto de Hogwarts, ela é fofa, diz que sente minha falta. Depois de um mês, a severa Madeline volta...
Peguei a caixa das mãos dela e coloquei em cima de uma mesa meio bamba, ao retirar a tampa, um par de sandálias de salto preto estavam sobre um tecido vermelho. Um tecido vermelho bem bonito.
Retirei os sapatos da caixa e tirei o tecido delicadamente, este se mostrou um vestido de gala.
Era lindo. Tinha alças finas e decote em v um pouco mais fundo, a saia era rodada e talvez fosse até os meus joelhos.
- Era da sua mãe - Charlie disse, era a primeira coisa que eu tinha dela, sabia que havia alguns vestidos em um dos quartos, mas ele nunca me deixava chegar perto. Eu pretendia usar um deles escondido - Uma vez tivemos um baile em Hogwarts, ela foi a única que usou um modelo mais curto, as pessoas ficaram meio chocadas.
- Seu pai me disse que sua mãe guardou o vestido para a filha, ela tinha certeza de que teria uma menina.
Eu quis chorar, só continuei olhando o vestido e criando uma imagem da minha mãe com a minha idade usando ele.
- Certo, era isso, - Charlie se apressou a dizer - Precisamos ir.
- Feliz aniversário, - Madeline me abraçou novamente e eles se foram.
Guardei o vestido e os sapatos na caixa, peguei a sacola e enfiei com pressa lá dentro, a caixa não fechou totalmente, mas seria mais fácil de levar.
Saí da Casa dos Gritos, algumas pessoas estavam observando e ficaram surpresas. Eu me lembrei da discussão com Fred, agora tinha mais uma coisa dela, algo para me agarrar além da morte. Algo agradável e bonito, leve e provavelmente feliz. Como isso poderia ser uma mentira?
Ao chegar, já nos chamavam para voltar à Hogwarts, foi mais rápido do que os do ano passado, os professores e funcionários deveriam estar muito atarefados com a primeira tarefa, esta aconteceria em poucos dias.
Iríamos embora nas mesmas carruagens de sempre, com uns animais um tanto quanto diferentes puxando a carruagem, se não me engano, eram chamados de Testrálio, era a única coisa que sabia sobre eles.
Fui uma das últimas a chegar lá, havia duas carruagens quase cheias, a primeira tinha Pansy, Astoria e Dafne, como elas não estavam falando comigo, fui para a segunda.
Era melhor ter ido para a primeira. Como eu tinha uma sorte invejável, os gêmeos e Ced estavam lá, como no dia em que chegamos à Hogwarts.
Os gêmeos estavam sentados de frente para mim, Cedrico ao meu lado.
- , quanto tempo! - Cedrico brincou, ele tinha dito isso em nossa última viagem.
- Tanto tempo... Já está se preparando para o torneio?
Os gêmeos se diferenciavam pelos suéteres, eu ainda não adquirira totalmente a capacidade de diferenciá-los. Às vezes reconhecia a voz de Fred, se é que era diferente.
- Tentando, mas acho que conseguirei executar bem - explicou ele, um tanto aflito.
- Tenho certeza que vai.
- Desculpa, , posso te chamar assim, certo? Sou curioso - perguntou Jorge, assenti e ele prosseguiu - O que tem na caixa?
Ri com a pergunta dele, os três olhavam para a caixa, era preta e a tampa continha um símbolo dourado, era um brasão dos Zuckker, meu pai tinha várias coisas com esse símbolo.
- Meu traje de gala.
- Eles pediram um traje porque vai ter uma festa? É isso? - perguntou Jorge.
- Tudo indica que teremos um baile - confirmou Cedrico.
- Se um baile vai acontecer, teremos de levar um par...?
- Teremos.
- Será que a Cho aceita se eu pedir para ela ir comigo?
- Com certeza - Jorge respondeu, ele olhou para Fred e depois perguntou para mim - E você? Vai com o Malfoy?
- Malfoy? - perguntei, quase rindo - Claro que não!
- Por que não? - perguntou Cedrico.
- Draco é um amigo, normalmente ele é chato, eu não iria para o baile com ele – expliquei - Além disso, Pansy gosta dele.
- Você não pode gostar dele só por Parkinson gostar? - perguntou Jorge, que tipos de perguntas eram aquelas? Fred fingia que não prestava atenção.
- Poder, eu posso, mas não o faço porque nós duas temos gostos completamente diferentes.
- Qual o seu "gosto"? - perguntou Cedrico, rindo.
- Não sei.
- Então como você sabe que é completamente diferente? - perguntou Jorge.
- Vão se ferrar. - falei, revirando os olhos, todos riram, até mesmo o Sr. Weasley que não fala.
Eles deveriam estar brincando comigo, só pode. A carruagem parou.
- Depois dessa, saia primeiro, milady - Jorge fez uma reverência exagerada e desajeitada por estar sentado, saí e fui entrando no castelo, não sem antes ouvir, de dentro da carruagem:
- Conseguiam ser mais óbvios? - perguntou Fred.
- Fica quieto que fizemos um favor, você estava se remoendo - exclamou Jorge.
- Se eu fosse você, voltaria a falar com ela - Cedrico opinou.
- Não vou. - respondeu ele - Ela não quer falar comigo.
- Você tentou falar com ela para saber?
- Não.
- Então você não sabe.
- Depois a gente discute isso, vamos sair daqui que estou com fome - Cedrico pediu, me afastei com pressa.
Eu não sabia se queria ou não voltar a falar com ele, só era esquisito começar a ficar próxima de alguém e poucos meses depois, brigar com ela.
Não é como se eu odiasse Fred, era apenas um pouco de raiva. Não estava tão brava como naqueles dias, no entanto, uma pontinha de orgulho não me deixava conversar com ele primeiro, ele não falava, eu não falava.
O jantar só foi acontecer umas duas horas depois, fiz algumas tarefas adiantadas antes, guardei a caixa com o vestido e o sapato debaixo da cama e levei a sacola de papel comigo para o salão.
Ao terminar, fui para o sétimo andar do castelo, chequei se ninguém chegava perto e me certificando de que ninguém estava próximo, repeti o ritual para entrar na Sala Precisa.
Exatamente como ontem, a sala estava do jeito que eu havia deixado.
Comecei a trabalhar para melhor utilizar o local. Guardei todos os ingredientes no armário, meu pai havia também comprado mais materiais de fabricação, então, os que eu usava para a aula, guardei na sacola de papel.
Olhei todos os livros da estante, nunca tinha utilizado eles, eram bem avançados, entre todos aqueles da prateleira, um me chamou atenção.
Era um livro de tamanho médio, mas com muitas, muitas páginas. A capa era dura e preta, não tinha nada, além disso, nela. Ao abrir o livro, vi que era escrito à mão, em uma letra redondinha e fácil de ler.
O título me surpreendeu "Como Ser Uma Exímia Preparadora de Poções (para meninas e mulheres fortes)"
Tinha uma nota de rodapé dizendo "observação: todas as meninas mulheres são fortes". Aquilo me chamou atenção, até agora, não tinha um nome para aquela obra.
Ao virar a página, me deparei com um nome.
Diana Clark.
Um nome muito bonito, nunca tinha ouvido falar dela. Abaixo, do nome, Diana Clark explicou que escreveu este livro durante o sexto ano em Hogwarts.
Fui com o livro para um dos sofás e deitei, leria o prefácio agora:
"Cara leitora, deixo esse livro aqui no meu último ano em Hogwarts, espero que sua experiência seja tão boa quanto a minha.
Na verdade, espero que seja melhor, no meu primeiro ano, cai do banco quando o Chapéu Seletor indicou minha casa, no segundo soltei uma criatura que não devia, no terceiro, me perdi com alguém na Floresta Proibida - não faça isso! A não ser que tenha um bom motivo, como eu tive! -, no quarto, escorreguei nos jardins direto para o lago, no quinto, descobri que estava apaixonada, foi uma das piores melhores coisas, no sexto, quebrei a vassoura de um dos jogadores da minha casa faltando um dia para os jogos e, agora no sétimo, impressionantemente, não fiz nada além de estudar como uma louca!
Enfim, isso é um breve resumo da minha vida em Hogwarts, você irá acompanhar meus testes de poções e ganhará as receitas no final do capítulo. Em meio aos testes, ainda vai descobrir mais sobre a mim.
Desejo boa sorte a você e espero que esse livro não te influencie de uma forma ruim, minha mãe diz que eu posso ser muito persuasiva às vezes e isso deve ser ruim, contando o tanto de besteiras que eu faço!
Deixo esse livro na sala secreta que eu comecei a utilizar, tudo nos mesmos lugares, do jeito que eu usava, espero que você não mude! Agora você também faz parte da minha história.
Até o Epílogo, Diana Clark."

Diana parecia uma pessoa muito interessante, ela havia pedido essa sala e utilizado durante algum tempo, assim como eu. E deixou um livro de memórias e poções para a próxima pessoa que utilizasse, o quão incrível isso soava?
Decidi continuar a ler o livro, o primeiro capitulo tinha o título de "Trens, Bebidas e Poção Polissuco".
Minha noite estava feita.

Acordei com o baque da minha face batendo no chão e o barulho do livro de capa dura caindo. Caí do sofá.
Tinha dormido na Sala Precisa de novo. Novamente, lendo o livro de Diana. Depois de tomar banho e jantar, eu ia para a sala.
A escrita de Clark era muito boa, ela era desastrada, o que rendia muitas risadas em momentos engraçados do livro, eu já estava na metade dele. Além de ser muito divertia, ela era muito experiente em fazer poções, era umas das atividades prediletas dela. Diana não mencionara sua casa uma única vez, ela escreveu que preferia não revelar, para ler tudo sem julgamentos antecipados, achei isso maravilhoso.
Calcei os sapatos e deixei um jeito no cabelo, guardei a varinha na capa e sai, deixando o livro escondido em um fundo falso que eu "pedi" para a Sala Precisa.
Ao chegar no salão para o café da manhã, estavam todos muito animados e falantes, incluindo os alunos da Durmstrang que normalmente eram muito reservados.
Sentei à mesa da Sonserina, Draco, Zabini, Crabbe e Goyle pareciam fazer apostas.
- Por que estão todos animados? - perguntei, pegando uma torrada e passando manteiga nela.
- , em que mundo você estava? - perguntou Draco, interrompendo a conversa, os meninos me olharam como se eu fosse de outro mundo mesmo - Hoje tem a primeira tarefa.
- É HOJE? - minha memória se esvazia cada vez mais, onde eu ia parar? - Merlin, eu esqueci completamente.
- Onde você dormiu? - perguntou ele, mordi um pedaço da torrada - As meninas comentaram que você não estava no quarto.
- Fui cumprir uma detenção na biblioteca e acabei dormindo lá, acredita? - menti, pegando outra torrada - Madame Pince nem me acordou, apenas hoje cedo.
- Ela me assusta - disse Goyle.
- E o que não te assusta, Goyle? - perguntou Zabini, revirando os olhos - As meninas também estavam fazendo suposições.
- Que tipo de suposições?
- Elas acharam que você podia estar com Weasley.
Engasguei com a torrada, Draco riu, dando tapinhas amigáveis nas minhas costas.
- É sério? - perguntei, ao engasgar tinha chamado à atenção de pessoas da mesa da frente, os gêmeos passavam por lá, conversando com alguém, então, falei em tom baixo.
- Impressionantemente, é sério.
- Mas... Era mais fácil terem me perguntado.
- Elas perguntaram para o Weasley - disse Crabbe, sem importância.
- O QUÊ?
- DESCULPA! - gritou Pansy, sendo acompanhada pelas garotas que me evitaram durante dias até a parte da mesa ocupada por nós - Dane-se meu pai, vou falar com você do mesmo jeito.
- Desculpa, - disse Dafne, com um sorriso amarelo - Fomos infantis.
- Ainda bem que sabem - disse eu, sorrindo para elas - Que história é essa de perguntar ao Fre... Ao Weasley?
- Olha, ficamos sem falar com você por dias, não pode culpar a minha curiosidade, não é? - explicou Pansy, os meninos riram.
- Pansy Irritante Parkinson atacou Fred Weasley? - perguntei, ela revirou os olhos.
Chamávamos “Pansy Irritante Parkinson” o modo como ela ficava estressada e nervosa às vezes, Pansy claramente odiava o apelido.
- Você tem alguma dúvida disso? - respondeu Draco, discordei, Parkinson me deu um leve tapa no braço.
- Não é melhor irmos para onde a tarefa vai acontecer? Quero bons lugares - sugeriu Dafne, todos concordaram, e assim, descemos para os jardins onde uma grande estrutura nos esperava.
Havia barracas para os campeões de um lado, arquibancadas em volta de um tipo de arena, era como um cercado. Estava quase lotado, conseguiram lugares perto de Lino Jordan, Angelina Johnson e outros alunos mais velhos, eu já sabia quem iria para lá também.
Vários alunos utilizavam acessórios representando seus campeões favoritos, bandeiras da Grifinória, cachecóis da Lufa-Lufa, bandeiras de Beauxbatons e Durmstrang. Depois de um tempo, vimos o que seria a primeira tarefa, os gêmeos chegaram no exato momento em que alguns bruxos tentavam amansar um dragão cinza-azulado, eles o colocavam bem abaixo de uma ninhada de ovos, um deles, pelo que eu podia ver, era dourado.
- HÁ! - gritei, cutucando Draco, ele estava do meu lado direito, do lado esquerdo, Lino Jordan - Eu disse que esperava que um dragão o engolisse em uma das tarefas.
- Seus desejos não foram concedidos, meu nome não apareceu no Cálice.
- Uma grande pena, é verdade - lamentei, Pansy deu um tapinha na minha cabeça.
- Coitado, ! - disse ela, rindo.
- Coitada de mim.
- Zuckker! - exclamou Lino Jordan ao meu lado - Como você vai?
- Vou bem - respondi, não falava com Lino desde o último jogo de Quadribol - E você?
- Estou ótimo, não vi você esses dias! - disse ele, meio alto, um dos gêmeos riu, estavam na arquibancada de cima - Por onde tem andado?
- Sem querer me intrometer, mas já fazendo isso - disse Dafne, virei a cabeça para cima, conseguindo olhá-la - Ela tem andado em qualquer lugar, menos no Salão Comunal da Sonserina. Não vimos ela essa noite.
- É porque cheguei tarde - menti.
- Você disse que dormiu durante a detenção na biblioteca - disse Goyle.
- OPA! - disse Lino - Alguém mente mal.
- Não sou eu, com certeza - lembrei de que Fred sempre dizia que eu mentia muito mal, não era tanto assim - Olha só, a tarefa vai começar, fiquem quietos.
- E ela muda de assunto... - Pansy disse, rindo. Eles não calavam a boca.
Óbvio, todos ali pensavam uma coisa totalmente diferente do que eu realmente estava fazendo. Era melhor pensarem isso, continuava sem poder contar as coisas.
Anunciaram rapidamente como seria executada a tarefa e chamaram o primeiro competidor, Cedrico Diggory.
Minha torcida era toda para ele. Muitos gritos foram ouvidos quando Ced saiu de uma das barracas. Os alunos estavam estupefatos com o dragão no cercado. Agora eu entendia porque baniram isso por tanto tempo.
Cedrico começou a executar a tarefa, os lufanos iam à loucura. Ele transfigurou uma pedra em um labrador brilhantemente, tentava fazer o seu dragão ficar preocupado em pegar o cão enquanto ele ganhava tempo para pegar o ovo. Estava dando tudo certo, ele já tinha o ovo em mãos, porém o dragão inventou de mudar de ideia, Cedrico daria uma melhor refeição na cabeça dele. Agora estavam todos apreensivos com a situação de Cedrico.
- Sai daí, idiota, sai daí... - eu murmurava, apoiando a cabeça nas mãos - MERDA!
Gritei ao ver Cedrico se queimar com as chamas soltadas pelo bicho, meus pelos do braço se eriçaram, toquei a cicatriz no antebraço.
- Ele quase não saiu vivo dali! - Pansy gritou, depois de ouvirmos as notas de Cedrico - Esse torneio é para loucos! Continua achando legal participar disso, ?
- Sim.
- Mas você estava quase morrendo de aflição aqui! - ela gritou de novo.
- Continua perigoso, mas de um jeito legal - expliquei, ela balançou a cabeça de um lado para o outro, murmurando “Inacreditável”.
Depois de soar o apito, Fleur Delacour, representante de Beauxbatons entrou no cercado, encarava o seu desafio, um dragão esverdeado.
A vez de Delacour proporcionou momentos emocionantes também, ela tentava fazer o dragão entrar em uma espécie de transe com um feitiço, estava funcionando bem, ela, com muito cuidado, conseguiu pegar seu ovo, no entanto, em um certo momento o dragão de Delacour soltou um ronco, fazendo jorros de chama atingirem a saia dela, que pegou fogo. Ela conseguiu apagar com Aguamenti antes de grandes desastres acontecerem.
- Ela foi bem - disse Zabini - Mas não tem chances, é a única menina.
- Ah, cale a boca, Zabini - Dafne disse, revirando os olhos, Zabini sempre fazia comentários desse porte.
- Gente, para de frescura - ele continuou, tirei a varinha do bolso - Só estou dizendo a verdade... Sabe como é? Garotas não conseguem lidar com esse tipo de coisa...
Zabini estava na arquibancada mais alta, sem ninguém próximo, fiz um sinal para os que estavam em baixo se afastarem, ele estava muito ocupado com seu monólogo para perceber quando murmurei Aguamenti.
Um jato de água atingiu seu rosto.
- Não entende o que é “cale a boca”? - perguntei, ele parecia irritado, mas não falou mais nada.
- Como é que se diz? - perguntou Pansy.
- Um tal de poder feminino, eu ouvi falar - Dafne completou, sorrindo.
- Acho bem mais provável ganhar de Zabini em uma prova dessas - disse Malfoy, sorrindo.
- Grande amigo você, Malfoy.
- Ele é um amigo sincero, Zabini - Astoria disse, timidamente, apesar de fazer parte do nosso círculo de amizade, Astoria tinha muita vergonha de ser o centro das atenções na conversa, ela se soltava mais quando só haviam meninas.
- Depois dessa, eu ficava quietinho - Crabbe falou, a discussão não continuou porque o apito tocou novamente.
Dessa vez, Vítor Krum saiu da tenda, com o jeito curvado e carrancudo.
- Já ganhou - Draco afirmou, convicto, ele era um grande fã.
O dragão que esperava o jogador de quadribol era vermelho, Krum estudou o campo por um tempo, assustei ao vê-lo jogar um feitiço no olho do bicho, que soltou um barulho esquisito de dor. Ele foi correndo para a ninhada de ovos, no entanto, teve dificuldades, pois o dragão girava e andava para lá e para cá, agonizando.
No momento em que o dragão se afastou dos ovos, vimos que grande parte deles foram pisoteados por ele, Krum resgatou o ovo de ouro e, depois um pequeno trabalho - o bicho continuava rodando - terminou a tarefa.
- Não vi nada demais nele - disse Pansy.
- Você não sabe reconhecer um bom competidor, ele foi o melhor - disse Draco - Ele perdeu pontos, droga.
E agora era a vez de Harry Potter. E pelo visto, ele havia sorteado o pior de todos.
O dragão era negro e tinha um rabo repleto de chifres.
O apito soou novamente e Potter adentrou o cercado, depois de encarar seu desafio, ele ergueu a varinha e murmurou um feitiço que não consegui ouvir pelo estardalhaço que as pessoas faziam.
Nada aconteceu, todos ficaram na expectativa do dragão explodir ou coisa assim.
- Mas que merda o Potter está fazendo? - perguntou Draco, com desdém.
De repente, a vassoura dele apareceu à suas costas, ele montou nela e deu um impulso para o alto. Potter ficou brincando com o dragão por um tempo, até ele abrir as asas e tentar alçar voo, ao tempo que o dragão fez isso, ele mergulhou para pegar o ovo de ouro.
Harry Potter havia sido o mais rápido e saíra com o ovo e uma marca no ombro, feita pelos chifres do bicho. As notas dele foram muito boas.
- Karkaroff fez certo - disse Draco, novamente ofendendo Potter, Igor Karkaroff, diretor de Durmstrang, havia dado um quatro para ele.
- Certo aonde, Malfoy? - perguntou Lino Jordan, franzindo as sobrancelhas - Harry não fez nada de errado para levar uma nota dessas.
- Diz isso porque está do lado dele e não vê... - Draco rebateu, não fiquei para presenciar a discussão, já tinha muito do clássico Grifinória vs. Sonserina pelo resto do ano letivo.
O objetivo de Crouch era garantir Potter na terceira tarefa, eu não sabia muito sobre o torneio, talvez eles eliminassem quem tivesse menos pontos na segunda tarefa?
Crouch não pretendia me contar o plano dele, mas iria forçá-lo a dizer pelo menos uma parte do que estaria por vir.
Eu merecia aquilo. Noites mal dormidas, passadas na Sala Precisa checando e fazendo mais umas duas ou três, para sempre ter o suficiente, agora, com o maravilhoso livro de Diana Clark, minhas poções renderiam mais, então, não precisaria de uma produção tão exaustiva.
No caminho para o castelo, os estudantes gritavam versos de hinos criados no momento, os campões erguiam o ovo da tarefa, arrancando mais berros de seus torcedores, fora todo plano por trás da competição, era incrível ver tantos estudantes juntos, de escolas diferentes, casas diferentes... Mesmo havendo divergências entre eles, estavam juntos de alguma forma.
Logo à frente, Cedrico era cumprimentado pelos gêmeos, eu pretendia fazer o mesmo, no entanto, seria estranho, já que eu permanecia sem falar com Fred, tudo bem, estivemos os quatro na mesma carruagem, só ele não disse uma única palavra. O melhor era sair dali logo.
- ! Ei, ! - chamou Cedrico, fingi não ouvi-lo, mas acabei me direcionando onde os três estavam.
- Oi... - falei, meio sem graça, o que tinha acontecido? Eu não estava assim da última vez – Parabéns, Ced, você foi ótimo apesar de quase morrer de aflição ao ver você se queimar.
- Ele tentou dar aquela emoção, sabe? - brincou Jorge, eles usavam suéteres com as suas iniciais de novo.
- Faz parte da composição da tarefa - Ced disse, sorrindo, o ovo em suas mãos.
- Ele está se exibindo.
- Obviamente, esse era o foco, .
- Eu já vou indo - disse, olhando para os lados, Fred continuava acompanhando a conversa sem dizer nada - Um diabrete comeu sua língua, é?
Ele olhou para mim de soslaio, um sorriso se formava no seu rosto, ele desviou o olhar.
- Por que já está indo? Vamos comemorar - perguntou Jorge, levantando os braços em um sinal de “festa!”.
-Não sei se vocês notaram, mas tem um pouco de rosto nas minhas olheiras, preciso urgentemente dormir.
- Então é isso que você faz ao invés de dormir no próprio dormitório? - Jorge perguntou novamente, ele deveria estar com Fred quando Pansy deu uma de louca e perguntou se havíamos passado a noite juntos, isso me fazia querer rir.
- Eu durmo em outros lugares... - respondi, inocentemente, três pares de olhos arregalados se fixaram em mim - NÃO! Vocês têm a mente muito poluída... Merlin! Não foi isso que eu quis dizer... Melhor eu ir.
Eles relaxaram a expressão com a minha explicação meia boca, dei um tchau e fui para o dormitório para tentar pagar algumas horas de sono que eu devia a mim.
Antes fiquei pensando um pouco, será que Fred permanecia bravo comigo?
Eu, pelo menos, não sentia toda aquela raiva dele como antes, só levemente ofendida.
Porém, eu era orgulhosa demais para pedir desculpas ou puxar assunto. Se fosse desse jeito, nunca mais nos falaríamos como antes.

- FELIZ ANIVERSÁRIO! - Draco gritou em meu ouvido enquanto eu dava um gole do suco no almoço, levei um susto. Pansy e as outras chegaram com um bolo redondo e de glacê verde (pelo visto, sonserinos são muito fiéis a casa).
- PARABÉNS, ! - Dafne gritou, os outros companheiros de casa me desejaram parabéns também.
- Gente... Eu não falei que meu aniversário estava chegando.
- É, mas da última vez falou e disse que se fizéssemos um bolo, você jogaria na nossa cara. - explicou Goyle, com a boca cheia de carne.
- Dessa vez, você não disse nada, então podemos fazer um bolo e gritar parabéns bem alto para você - Pansy explicou, balançando a bandeja com o bolo - Pedi na cozinha, é de morango.
- Certo, essa é a última vez que farão isso, entendido? - esclareci, Draco afastou as coisas da mesa e Pansy deixou o bolo lá.
- Você tem sorte, conseguimos convencer Pansy a não fazer uma festa no salão comunal - Astoria disse, os outros assentiram.
- Vocês são muito chatos, só uma festinha de nada... - Pansy explicou, ofendida, ela me deu uma faca - Corta um pedaço e faz o pedido, o primeiro é seu.
Peguei a faca das mãos dela e cortei o bolo pensando:
Que tudo fique bem.
Que tudo fique bem.
Um pouco depois, todos os meus amigos estavam servidos, com um pedaço do bolo de glacê verde no prato, se havia cozinha melhor que a de Hogwarts, eu desconhecia, o bolo estava delicioso.
Mesmo sempre pedindo para não fazerem nada no meu aniversário, sentia gratidão por meus amigos terem feito isso por mim. Nós podíamos brigar, eu podia odiar Draco quase sempre, mas, como o Chapéu Seletor dizia:
“Na Sonserina, você fará seus verdadeiros amigos.”


Capítulo 9 - Dançando Com O Lado Sombrio

Era oficial.
Haveria um Baile de Inverno em Hogwarts, como tradição do Torneio Tribuxo. E só faltava uma semana.
Obviamente a escola estava um caos, era vestido para lá, terno para cá e muitos “será que ele vai me convidar?” ou “será que ela aceita meu pedido?”, até alguns “convida ele logo!” de meninas sem paciência com os dramas das amigas.
No meio dessa bagunça, estava eu, quase totalmente alheia ao assunto, sabia das coisas comentadas pelas meninas no dormitório e algumas conversas que acabava ouvindo.
A maioria das pessoas já sabiam que os trajes eram para um baile, porém isso não impediu a euforia de aumentar.
Sobre os pares: Pansy iria com Draco, Dafne com um garoto da Lufa-lufa, Astoria fora convidada por um sonserino do nosso ano. O baile era fretado para alunos do quarto ano para cima, mas isso não os impedia de levar alguém mais novo.
Enquanto todo esse dilema dos adolescentes de Hogwarts acontecia, eu praticamente morava na Sala Precisa, de vez em quando, até dormia por lá.
De uma aula para a outra, no tempo livre, ia para lá fazer poções, finalizá-las ou ler o livro de Diana Clark pela terceira ou quarta vez.
É claro que minhas amigas e Draco ficaram extremamente curiosos sobre onde passava meu tempo livre ou dormia, uma vez, Draco chegou a tentar me seguir, a tentativa foi em vão já que acabei o despistando.
No café da manhã, discutíamos se Dumbledore realmente contratara as Esquisitonas, uma famosa banda bruxa.
- É mentira - afirmou Draco discutindo com Dafne, ela era muito fã do grupo.
- Draco, certeza, o diretor contratou - Dafne argumentou, eles estavam naquilo há minutos - Você acredita na coisa dos barris de quentões, mas acha que as Esquisitonas não podem vir? Tolo.
- Gente, chega! - Pansy pediu, estressada, jogando um pedaço de biscoito em Draco quando ele fez menção de continuar - Vamos falar sobre algo mais interessante, por exemplo... Com quem a vai ao baile?
- Quê? - perguntei, falando pela primeira vez depois de muito tempo, estava distraída.
- Verdade, é a única sem par aqui - analisou Dafne, semicerrando os olhos para mim - Não recebeu nenhum convite?
- Com certeza ela iria receber um convite, mas não dá espaço para nenhum coitado se aproximar! Nas aulas ela não fala nem com a gente, não demora nas refeições e sai correndo para o lugar misterioso dela, só chega às masmorras para dormir.
- Isso quando ela dorme nas masmorras, certo? - perguntou Draco - Coisa que ela não tem feito ultimamente.
- Quem você queria que te convidasse, ?
- Sei lá, não me importa - respondi, estava dando zero importância ao par para o baile, não tinha ido atrás de algum garoto e nem percebi se algum tentava falar comigo, eu já tinha um vestido e vontade de ir, aquilo para mim, bastava.
Enquanto eles discutiam as melhores opções para mim, eu fazia algumas contas sobre o dia que deveria entregar as poções para Bartô, o trabalho que fazia me deixava perdida nele mesmo. Eu deixava algumas adiantadas, então, nem sempre todas eram entregues no mesmo dia.
- O que acha do Zabini? - perguntou Draco, estalando os dedos em frente o meu rosto - Está fazendo as contas de quê?
- Acho ele desprezível.
- Chris Harper? - sugeriu Pansy.
- Ele é chato e tenta ser divertido fazendo piadas que não tem graça nenhuma - eliminei a possibilidade.
- Você não consegue fingir que acha engraçado?
- Claro que ela não consegue, seria mais provável ela ficar emburrada durante uma música inteira.
- Cedrico Diggory? - perguntou Astoria.
- Ele vai com a Chang, da Corvinal. E eu não iria com ele, somos muito amigos para isso - alguns franziram as sobrancelhas - Vocês sabem que grande parte dos pares têm “segundas intenções”.
- Charles Mason?
- Ele namora.
- Julian Moran?
- Nunca iria com Moran - falei, revirando os olhos - Vocês já trocaram alguma frase com ele na vida?
- Ah, , o que você quer? - perguntou Dafne - Demos várias sugestões de garotos bonitos...
- Bonitos, mas todos me deixaram de saco cheio... Ou são amigos. - expliquei, perdia a conta toda hora com todas aquelas sugestões - Nenhum é interessante. E vocês não precisam ficar arrumando par para mim.
- , eu juro que vou dar um tapa em você se você falar “talvez” ou “sim” para essa sugestão... - Pansy começou, agora que conseguira finalizar as contas, percebi, tinha uma leva inteira para entregar hoje! - Fred Weasley?
- Merda - exclamei, levantando e pegando a bolsa - Digam ao Binns que eu tive alguma coisa, qualquer coisa.
- Você está fugindo da pergunta - Draco disse.
- Não estou- disse, suspirando - E se não tivesse nada para fazer, não responderia essa pergunta. Satisfeitos? Certo, posso ir.
- VOCÊ NÃO RESPONDEU! - ouvi Pansy gritar, antes de sair correndo para a Sala Precisa.


- Você perdeu duas aulas de História da Magia - Pansy disse, no almoço - Professor Binns acreditou que você teve um ataque de tosse muito forte.
- Por onde você anda, Zuckker? - perguntou Draco, franzindo as sobrancelhas.
- Por todos os lugares, Malfoy.
- É sério, você some do nada, perde aulas, dorme em outro lugar... , você tem um namorado? - perguntou Dafne, Pansy deu um tapa no braço dela, aparentemente todos pensavam isso, mas não queriam me perguntar.
- Nunca ouvi coisa mais estúpida, é claro que não, por que eu esconderia?
- Porque o cara é Fred Weasley. Já pensou o que diriam se estivesse com ele? E agora que sabemos que seu pai voltou, o que ele acharia? - Draco disse, com desdém, eram sempre as mesmas justificativas, sem sentido algum, nada acontecia entre Fred e eu.
- Não é o Weasley e nem ninguém, e só para acabar com as suspeitas de todos vocês, Weasley vai levar a Angelina Johnson.
E nenhum deles disse mais nada sobre o assunto, Draco balançou a cabeça negativamente e nós continuamos comendo.
Eu descobri que Fred levaria Angelina nos corredores, ela tinha falado relativamente alto enquanto eu passava por lá. Isso não era relevante, de qualquer forma.
Enfim, as poções teriam de ser jogadas no lixo se não tivesse chegado antes, a cor já estava a ponto de ficar amarelada, mas todas, no momento, já estavam engarrafadas e entregues a Bartô.
Graças a Merlin, o ano já estava acabando, assim como a missão, o problema era como ela iria acabar.
No fundo, eu não me sentia realmente preparada para estar perto de Lord Voldemort, o que com certeza aconteceria, ele nem estava vivo e eu tinha que cumprir suas ordens!
Grande ano em Hogwarts.


- Zuckker? - perguntou um aluno, provavelmente um primeiranista, parando-me no corredor. - Pediram para te entregar isso aqui.
- Quem? - perguntei, pegando uma carta das mãos dele.
- Infelizmente, tenho ordens para não dizer - respondeu e saiu correndo.
Franzi as sobrancelhas para a carta em minhas mãos. O envelope era preto, bem diferente, com um selo dourado. Como estava indo para o almoço, não tinha pressa, sentei em um dos degraus da escadaria mais próxima do corredor.
E tive certeza de que meus amigos só podiam estar zombando da minha cara.

.
Aqui estou eu apelando para um dos maiores clichês da vida, entregando uma carta anônima para você.
Isso vai ser recorrente, só para te preparar, minha intenção, não direi neste momento.
Mas, por agora, não tenho coragem de falar com você, o que é estúpido. Até a próxima.
Atenciosamente, eu.
P.S.: Espero que não tenha um par para o baile.


O bilhete acompanhava uma foto minha rindo, eles tinham sido muito criativos. Guardei a carta na mochila e fui para o salão.
Chegando lá, sentei no lugar de sempre, ao lado de Dafne e Katherine, eles riam, mas pararam assim que cheguei.
- Vocês estão de palhaçada comigo - falei, fazendo meu prato.
- Sobre o quê? - perguntou Pansy, bonito ela se fazendo de desentendida.
- A carta que enviaram. Vocês não têm nada melhor para fazer?
- A gente não fez carta nenhuma.
- Fala logo, Pansy, eu não vou jogar um feitiço em você ou coisa parecida, é só parar de tentar me arrumar um par.
- , é sério, que carta? Não sabemos de nada - disse Dafne.
- Até você está envolvida nisso, Dafne?
- Zuckker, ninguém aqui está sabendo de nada, cadê a tal carta? - perguntou Draco, tirei o envelope da bolsa e entreguei nas mãos dele - Que bonitinho, Zuckker, um admirador.
- A ideia foi sua, não é? Idiota.
- Deixa eu ver - pediu Pansy, quase arrancando a carta de Draco. Dafne, Katherine e Astoria foram para cima dela para que conseguissem ler também - Ah, QUE FOFO.
- Olha essa foto, , você está linda - disse Katherine - Quem será que mandou?
- Vocês - falei, irritada, peguei a carta de volta e guardei na bolsa.
- Não fomos nós.
- Então porque estavam rindo quando eu cheguei e depois pararam?
- É... Piada interna, só isso - respondeu Pansy, olhando para os outros - A questão é que não fomos nós. E se você acha mesmo que fomos nós, por que está guardando?
- Para eu sempre lembrar de revidar um dia.
- Você nem precisa guardar isso - disse Dafne, rindo - Já é vingativa naturalmente.
Eu tinha certeza, eles estavam fazendo tal coisa para me dar um ânimo em achar um par para o baile. Se eles achavam que faria isso, estavam muito enganados...
Ou talvez nem tanto.
A segunda carta foi entregue por uma garotinha loira do primeiro ano. Tinha a mesma cor de envelope e de selo, porém, desta vez, havia um outro papel além do bilhete.

.
Pensei que só bilhetes seriam sem graça, então, inventei umas coisas para você achar.
Como foi sua semana? Pelo que eu observo, você ainda tem o olhar triste, gostaria muito de saber o porquê, talvez um dia você confie em mim a ponto disso.
Bom, junto à carta, tem um pequeno papel com um lugar, vá até lá, espero que te faça sorrir um pouco.
Atenciosamente, eu.
P.S.: Espero que ainda não tenha um par para o baile.”


Eu até pensei em não seguir para o lugar indicado, mas a minha curiosidade era bem maior do que a irritação pela gracinha dos meus amigos.
O local era o campo de quadribol.
Ao chegar lá, uma vassoura estava pairada no ar, presumi que devesse subir. Lá de cima, podia ver algo, assim, dei um impulso e guiei a vassoura para o alto até chegar ao nível do objeto, chegando mais perto, vi que era uma versão menor de um taco de quadribol, que nós, batedores, utilizávamos.
E era também, bem parecido com o que eu usava, alguns desenhos e adesivos e até a cobra, representando a casa da Sonserina.
Dei um mergulho com a vassoura para voltar ao gramado do campo, lá embaixo havia outra carta, na grama mesmo. Com certeza aquilo não estava lá embaixo quando eu subi, também não vi ninguém colocando.

.
Eu sei que não foi a coisa mais divertida do mundo, mas pelo menos você achou legal, não é?
O taco de quadribol de uma ótima batedora.
Continue acompanhando as cartas, eu juro que vale a pena.
Mais ou menos, eu acho.
Atenciosamente, eu.”


- Vocês estão fazendo um ótimo trabalho - falei para as meninas e Draco, estávamos no salão comunal, conversando sobre a vida dos outros, muito produtivo.
- O que foi desta vez? - perguntou Draco.
- Uma carta pedindo que eu fosse ao campo de quadribol e lá no alto, havia um taco igualzinho ao meu, em miniatura.
- Esse aí realmente gosta de você, , por que não descobre quem é? E vai para o baile com ele... Quem sabe gosta? - Pansy sugeriu.
- Eu sabia que vocês estavam por trás disso! Eu não preciso de um par, por que é tão difícil entender? – perguntei - Vocês já têm os de vocês.
- Não fomos nós, por Merlin, você não consegue pensar em nenhum que possa gostar de você? - questionou Draco.
- NÃO! Se não eu já teria um par para o baile, não é?
- Ok, a questão é que não estamos por trás disso, não foi um plano meu ou do Draco, tem certeza que não tem ninguém? Observando, pelo castelo, no salão principal, sei lá... - Pansy repetiu o comentário de Malfoy.
- E eu por acaso fico observando se alguém está fazendo isso comigo?
- Ah, você nunca fez isso, ? Impossível - Dafne disse, levemente surpresa.
- Eu tenho mais o que fazer, como comer, por exemplo, e já chego atrasada nas aulas normalmente, imagina se ficasse parando para olhar.
- Um dia, vai encontrar alguém que ela não vai cansar de olhar, e isso não é agora, deixem ela quieta - Astoria, sabiamente, falou.
- Obrigada, Astoria, ela é bem mais inteligente que vocês.
Por fim, o assunto encerrou e eles voltaram a falar mal da vida dos outros. O principal era sobre quem ia com quem no baile e não aguentava mais isso, saí do salão e fui para a sala precisa, lá, pelo menos, ninguém encheria minha cabeça com vestidos, garotos ou pares.


Não preciso nem dizer que recebi as cartas durante a semana toda, amanhã era o dia do baile e finalmente os alunos ficariam mais tranquilos.
Sobre as cartas, apesar de ter certeza que era obra daqueles que eu chamava de amigos, segui as pistas e encontrei diversas coisas que se transformavam, muito criativas e de aparência mágica complicada, a cabeça de Draco não pensaria nisso nunca. Talvez Pansy ou Dafne.
Mas as coisas eram bonitinhas, fizeram um sorriso aparecer no meu rosto como não era de costume atualmente.
E agora estou em uma nova reunião das sonserinas, no nosso dormitório, como sempre.
- Ah, aquela reunião sem você foi muito sem graça - admitiu Emilia Bulstrode - Só disseram para parar de falar com você, foi muito infantil.
- É, estamos tendentes a fazer coisas infantis até pelo menos os cinquenta anos, até por mais tempo - disse para ela - Mas por que foi sem graça? Eu nem acrescento nada às reuniões, eu venho quase obrigada pela Pansy, e porque aqui é meu quarto.
- Você reclama o tempo todo e discute com a Pansy, isso deixa divertido.
- É, é muito chata - falou Pansy, ouvindo nossa conversa.
- Felizmente, chata - sorri para ela – Agora, qual é a pauta da vez?
- O baile, não é óbvio?
- Eu perguntei para ver se vocês mudavam de ideia e fossemos jogar dardos em uma foto do Draco ou jogar nele de verdade.
Elas riram do que eu disse, é... Talvez eu fizesse uma pequena diferença mesmo.
- Já que você mencionou jogos, , eu inventei um jogo com a Katherine, por favor, apresente, Kath.
Katherine e Pansy se levantaram, nós formávamos uma roda. Katherine abriu um pergaminho que estava em sua mão e começou a ler.
- O jogo consiste em falar três nomes e escolher um para azarar, não importa o feitiço, um para encontro em Hogsmeade e outro para, usaremos essa palavra de exemplo para representar algo a mais além de um encontro, “namorar”. (Pansy fez aspas no ar quando ela disse a palavra).
- Todas respondem e sem enrolação, estão abertas pessoas de todas as casas, até mesmo da Grifinória, não contaremos a ninguém mesmo.
Estranho elas incluírem a Grifinória nisso.
- Por que vocês fizeram isso em um pergaminho se o jogo é tão simples? - questionou Lucy, do nosso ano.
- Para passar as nossas ancestrais, esse jogo vai ser tão famoso quanto o Gilderoy Lockhart era, até mais!
- E que tipo de jogo é esse? Sem graça – falei - E Gilderoy Lockhart era péssimo, não sei como vocês suportavam as aulas dele...
- Ah, você não gosta de nada, pelo menos finge que é legal.
- VAMOS COMEÇAR!! - Pansy disse animadamente.
- Draco, Zabini e Julian Moran.
- Posso matar os três? - perguntei, sem cerimônia, era exatamente o que faria.
- Não, sabia que ia perguntar isso.
- Mas o Zabini e o Moran são entediantes, para não utilizar outras palavras. E falam cada besteira...
- Qual não é tão ruim entre os dois?
- Não tem como, por isso eu queria matar os dois – respondi - Nem ligo para as regras, mato os dois e vou em um encontro com o Draco com muito pesar no meu coração.
Nesta rodada, todas casaram com o Draco, espantosamente, ele fazia um “sucesso” na escola.
- Próxima, variando idades e casas: Cedrico Diggory, Lino Jordan e Fred Weasley.
- Ah, isso é um complô contra mim, não vou responder! - falei, lógico que Pansy tinha que falar isso - Nunca incluem a Grifinória em nada, desta vez permitiram... Obra de Pansy Parkinson.
- Ok, qual deles a gosta? - perguntou Lucy, sorrindo para mim, as outras meninas ficaram muito agitadas com a possibilidade de descobrir.
- Nenhum, por Merlin!
- Adivinha? Só não sei por que ela parou de falar com ele, não aprovo, mas não disse nada.
- E você tem que aprovar alguma coisa?
- Então você gosta dele mesmo? - perguntou Emília, rindo.
- Não, mil vezes não.
- Mas quem é, gente? - perguntou Mary, do quinto ano.
- Deixemos ela responder - Pansy sorriu maleficamente - Se não responder, consequências.
- Pode falar a consequência, eu aguento, você está tentando expor as coisas! Quando ficou má desse jeito?
- Sair com o Moran ou Zabini, você escolhe.
- Ok, eu falo, nem se me pagarem muitos galeões eu saio com eles - acabei me rendendo, era o fim do mundo bruxo sair com um daqueles dois - Não venham me encher depois e sem espalhar as opções, depois as pessoas acham que é verdade - enrolei pelo máximo de tempo que podia, até poderia tentar mentir, mas Pansy me daria uma punição pior - E só para constar, eu não gosto dele, só é a melhor opção.
- Fala logo!
- Eu azararia o Cedrico, ele é meu amigo e já sai com a Chang, sairia com o Jordan e, como eu disse, é a melhor opção, Fred por último.
- Eis a resposta, minhas caras, é o Weasley. Fred Weasley.
No fim, passamos uma parte da rodada discutindo o assunto Zuckker X Weasley, metade delas não sabia diferenciar Fred do Jorge, porém, grande parte casaria com ele ou Cedrico.
Esse foi nosso progresso na reunião, amanhã haveria uma especial, só para nos arrumarmos para o baile. Mesmo um pouquinho cansada do assunto, no fundo, eu estava ansiosa.


- Chegou o dia do baile e nossa querida não tem um par! - Draco começou o dia sendo chato, típico - Feliz Natal!
Não teríamos aula hoje para os professores prepararem o salão e para nós de Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang nos prepararmos.
- Não que eu esteja me importando, mas como você é desagradável, tomara que a próxima tarefa seja para ver quem acaba mais rápido com você. Ah, e péssimo Natal.
- Vocês ganharam presentes? - perguntou Draco, roubando um dos biscoitos do meu prato, mesmo que houvesse vários perto de Dafne, a quem ele poderia ter pedido.
- Ganhei dois livros da Mad - respondi, um era sobre batedores e outro era sobre bruxaria em outros países.
- Ganhei um montão de coisas da França, meu pai foi...
- COMO EU NÃO PENSEI NISSO ANTES? - gritou Pansy, no meio do salão principal, interrompendo Draco, todos olharam, já acostumados com os gritos dela - Por que não alguém das outras escolas?
- Ah, não, mal conheço! - recusei, era só o que me faltava - A comunicação vai ser complicada. Não. Tanta coisa para dizer...
- Tem vários que parecem ser legais da Beuxbatons.
- Exatamente, parecem. - tentei, pela última vez, acabar com a insistência delas - Pansy e Dafne, se eu quisesse ir com alguém, ou ao menos me importasse com o fato de não ter par, eu mesma procuraria encontrá-lo, porém, não é o caso. Vocês duas já têm ótimos pares, na verdade, só a Dafne, você está indo com o Draco, Pansy.
- Tinha que falar isso de mim...
- Continuando, vocês têm pares arranjados, não precisam se preocupar com o meu, ou com a falta dele. Vamos só nos arrumar e pronto.
- Por que não disse que não queria antes, bobinha? - zombou Pansy.
- Como eu disse, um dia a vai encontrar alguém, esbarrar, com certeza, ela não procura. - Astoria disse, chegando em nossa mesa, sorrindo, ela era mais nova, porém conhecia os dramas de Pansy e Dafne (e talvez os meus?!), podia muito bem ajudar nisso.
- Ok, já acabamos de falar da vida da ? Não podemos falar mal de alguém interessante? Ou que ninguém gosta?
- Vamos falar mal de você, Draco.
- Quer dizer que sou interessante, Zuckker?
- Não, quer dizer que ninguém gosta de você.
- Como continuamos te suportando?
- Se conseguem suportar você, é bem fácil me aguentar.


Finalmente, tinha chegado a hora de nos arrumarmos. O nosso dormitório estava cheio como nunca, até algumas meninas que não frequentavam as reuniões tinham vindo.
Lucy havia etiquetado os vestidos de cada uma, para não misturarmos e colocado na cama de Pansy, o meu ainda estava na caixa dada por Madeline e meu pai.
Katherine separou os sapatos na cama ao lado dos vestidos, a minha cama.
Todas as cinco correspondiam às cinco etapas que cada uma passaria até ficar pronta, isso era Sonserina, astúcia.
O sistema estava dando certo, eu já tinha passado por quase todas. Só faltava colocar o vestido.
- Cadê seu traje, ? Não tem nenhuma etiqueta - perguntou Dafne.
- Na caixa, eu vou vestir agora, espera aí.
O vestido era vermelho e ia até os meus joelhos, tinha alças finas e um decote em “V” não muito grande. E já foi da minha mãe, eu me sentia maravilhosa nele, mais leve, mais próxima dela.
Então, fui mostrar para as outras:
- O que acham? Não é cheio de coisas, mas...
- Você está linda! Meu Merlin, por que não mostrou antes?
- Ah, eu não tinha um vestido, esse era da minha mãe - disse, calçando os saltos, que nem eram muito altos, provavelmente Madeline imaginou que eu cairia, o que tinha grandes chances de acontecer - Sem perguntas sobre ela.
- Acho que nem precisa de par mesmo, olha só essa garota! - exclamou Dafne, sorrindo - , nunca te vi tão radiante.
- Só fiquei assim quando fui selecionada para esta casa, minhas amigas.


Depois de algum tempo, todas estavam prontas, nem preciso dizer que igualmente incríveis. Nosso clube havia feito um ótimo trabalho. Importante ressaltar que Pansy decidiu mudar o vestido de última hora, deixando de lado o tão falado que ela trouxera de viagem.
As meninas se juntaram aos seus pares que esperavam na entrada do salão comunal e eu fui seguindo, um pouco atrás, sozinha.
Porém, uma aluna da Lufa-lufa, parou-me no meio do caminho, entregando uma carta, eu até tinha esquecido!
Desta vez, talvez eu descobriria se só eram meus amigos tomando meu tempo ou se realmente tinha alguém.

. Feliz Natal!
(Finalmente?) As cartas acabaram, gostaria de encontrar com você quando pudesse.
Saia para os jardins no momento que quiser, eu com certeza notarei se você sair.
Não sei, talvez eu só queira ser seu.
E isso não tem absolutamente nada a ver com o que eu disse, desculpe-me.
Atenciosamente, eu.
P.S: Tomara que você não tenha arranjado um par de última hora.”


Já sabia o que fazer em um momento de tédio no baile, encontrar o dono das cartas.
Havia algumas pessoas na entrada do salão quando chegamos lá, Fleur Delacour aguardava na entrada, assim como Vitor Krum. Ao adentrar o salão, vi que os professores não tinham economizado na magia.
As paredes do Salão Principal estavam cobertas de gelo prateado e cintilante, com centenas de guirlandas de visco e azevinho cruzando o teto escuro salpicado de estrelas.
As mesas das Casas haviam desaparecido; em lugar delas havia umas cem mesinhas iluminadas com lanternas, que acomodavam, cada uma, doze pessoas.
Em uma das mesas, Pansy, Dafne, Astoria, Katherine e eu sentamos, cada uma das quatro com seu par, depois Crabbe e Goyle, sozinhos, sentaram-se, suas acompanhantes haviam mudado de ideia em cima da hora.
Logo após, os campões e as delegações de estrangeiros adentraram o salão, também com os respectivos diretores. Algo simbólico, eu diria.
Dumbledore deu início ao jantar, só tínhamos de dizer o prato do menu e ele aparecia em nossas mesas, realmente, não haviam economizado na magia.
Havia chegado a hora de dançar e, Dafne ganhou dez galeões de Draco, as Esquisitonas haviam sido contratadas para animar o baile. Quase todos se levantaram, até Crabbe e Goyle, poucos permaneceram em suas mesas.
Foi neste momento que o baile ficou cansativo, estávamos tendo uma boa conversa, mas, tinha chegado a hora dos pares ficarem um pouco sozinhos...
Eu duvidava muito que o dono das cartas conseguiria perceber se saísse, para a saída dos jardins tinha que passar pelo mar de alunos dançando em frente ao palco.
Não custava tentar.
Levantei da mesa, passei por outras, fui cortando por alunos completamente alucinados com a banda.
- Desculpa! - havia esbarrado com uma pessoa, impressionante como isso só tinha acontecido uma vez nesse tempo todo.
-Tudo bem...

Passei por lá, sem prestar muita atenção em quem tinha falado. Avistei as portas que davam para os jardins e segui para fora do castelo.
Fui para uma parte mais afastada, estava decorada assim como o salão. Os arbustos estavam iluminados com luzinhas piscantes, a grama havia sido aparada - meus pés agradeciam, a queda era muito mais fácil na grama alta - estava tudo lindo.
Olhando a lua e o ambiente, admiti para mim mesma, Hogwarts mantinha minhas energias, as coisas que me deixavam feliz estavam aqui.
E alguém me cutucou nas costas.
Virava ou não? E se não fosse? E se fosse alguém como o Zabini? Se bem que ele não pensaria em algo assim.
- Sou eu, , não precisa me azarar ou coisa assim, estou totalmente desarmado - o motivo de nunca ter pensado nele antes, não me vinha na cabeça, talvez estivesse desacreditada depois de tanto tempo. Eu virei, Fred Weasley sorria para mim, com as mãos no bolso da calça.
- É meio difícil esconder uma varinha usando vestido e salto, Weasley - e se não fosse ele? Não custava nada perguntar - Era você, o dono das cartas.
- Como eu disse na primeira carta, tive que aderir ao clichê.
- Presumo que você gostaria de me explicar os motivos antes?
- Com certeza, tem algum banco por aqui? - apontei para um em outra parte do jardim e sentamos - Ah, feliz Natal, e aniversário! Quinze anos, não é?
- Quatorze - falei, rindo, só ele para me dar parabéns depois de quase um mês.
- Tem certeza? Você me disse outra coisa.
- Você que se enganou.
- Mais nova do que pensava, ... Ah, voltando ao início - começou ele - Queria pedir desculpas sobre toda a situação, é uma área sensível para você e eu não tinha ideia de nada. Se você preferir, não vamos falar disso nunca mais, juro, nunca mesmo.
- Nunca é demais, vamos deixar para quando eu me sentir bem sobre o assunto.
- E também, sobre o jogo de quadribol, eu ri tanto depois, meu olho ficou horrível, seu pé, todo enfaixado e roxo, nós somos péssimos.
- Por esta, nem precisa pedir desculpas, eu ganhei mesmo.
- Eu não teria tanta certeza... Zuckker!
- Você se machucou três vezes. Fiquei bem melhor.
- Eu joguei no pé achando que a senhorita desviaria, mas, não deu certo.
- Está dizendo que facilitou para mim, Weasley?
- Jamais, estas palavras foram suas, inteiramente suas! - zombou Fred, sorrindo, tinha que confessar, eu senti falta dele.
- Também vou pedir desculpas, fui muito intolerante com você, já cheguei a ouvir coisas piores... - disse, retomando o assunto - Eu não estou brava há muito tempo, pensava que você quisesse parar de falar comigo.
- Nunca vou querer parar de falar com você.
- Duvido muito... Algum dia isso vai acontecer.
- Você se subestima, - Fred exclamou - É muito além do que acha... Por exemplo, você está linda hoje.
Deveria responder “obrigada”? Ou é muito convencido? Merlin, sentia-me estranha. Poderia ter falado tantas coisas, porém só sorri. Eu estava esquisita.
Podia ouvir a música animada do salão se tornar mais lenta, essa era a hora dos pares, realmente ficariam sozinhos.
- , você quer dançar?
- Eu não sei dançar muito bem.
- Eu também não, quer tentar? - Fred levantou e estendeu a mão para mim, era impossível recusar.
Fred colocou uma das mãos na minha cintura e eu, nas costas dele. Nossas outras mãos estavam atadas, nós começamos a tentar uma dança. Ele me guiava de um lado para o outro no meio da grama do jardim, e eu não conseguia parar de sorrir.
- E não é que está dando certo? - Fred riu, girando-me e depois trazendo de volta para si, mais perto do que antes.
- E negou saber dançar, Fred? - sorri, se eu estivesse guiando, certamente, daria errado, era fácil segui-lo - Ei, você não estava acompanhando a Angelina?
- Eu pedi que ela dissesse, de alguma forma, que eu a acompanharia, para você não desconfiar.
- Isso explica ela ter falado alto no corredor.
E ele me girou novamente, duas vezes desta vez, dizendo:
- A situação explica muitas coisas...
- Como...?
- Talvez eu só queira ser seu, no final de tudo.
Lembrarei desta noite como a que Fred queria me deixar sem palavras. A música havia acabado, não havíamos nos afastado nem um pouquinho, os meus olhos já haviam encontrado os dele há tempos e eu sentia ele chegando mais perto, se é que era possível.
- Fred, aqui sua cerveja amanteiga... Merlin, desculpa - Jorge chegou, claro, bruscamente nos separamos, além disso, ele nem tinha uma cerveja amanteigada na mão.
- Jorge, eu pedi só se desse errado - Fred exclamou, rindo - Bela desculpa ruim.
- Você desapareceu.
- E isso é bom, quer dizer que deu tudo certo.
- Não é como se eu fosse azarar ele ou coisa assim - murmurei, sorrindo, uma situação constrangedora - Não que minhas amigas estejam sentindo minha falta, mas vou subir.
- Vejo você amanhã, ? - perguntou Fred.
- Com certeza - Jorge respondeu.
- Eis a minha resposta.
Dei um abraço em Fred, cumprimentei Jorge e voltei para o castelo, se Dafne tinha me achado radiante antes, deveria ver agora.


- É impressão minha ou a está feliz? Estamos comendo há sete minutos e ela não me xingou nenhuma vez.
- está muito feliz, há semanas não vejo ela assim.
- Só sei que desapareceu no baile e depois voltou para o dormitório sorrindo mais do que nunca.
- Mentira, vocês eram as animadas demais ontem à noite.
- Bailes, , bailes nos deixam assim.
- Você quer dizer o pacote inteiro dos bailes...
- Como assim?
- Deixa, eu tenho que ir - falei, iria, claro, para a sala precisa.
- Nem cinco minutos com a gente! E não contou o motivo de ter sumido...
- Há coisas que devem permanecer conosco, Pansy. E eu só fui aos jardins.


Chegando à Sala Precisa, me joguei no sofá, na mesa de centro ao lado, o meu livro favorito esperava que eu lesse pela quarta vez, sim, quarta vez!
Diana Clark, autora do livro, tinha uma escrita tão envolvente, ela conseguia ser engraçada em todos os capítulos, até nos tristes, como quando falava de seu romance.
Ela me fazia querer escrever meu próprio livro de memórias, mas eu desistia depois, quem iria querer ler sobre a minha vida?
Hoje não tínhamos aula e eu pretendia passar o dia todo lá, porém, lembrei do que antes era meu lugar favorito em Hogwarts, a árvore perto do lago. Lá, tinha uma visão perfeita da propriedade do castelo e podia ficar sozinha, pois era bem escondido, não importava a estação, o local era sempre calmo e permanecia o mesmo.
Achei que levar o livro comigo não causaria problemas, saí da sala de poções e fui para os jardins.
Ao chegar na árvore, outra pessoa ocupava o lugar, um dos poucos que ficava por lá.
- Quantas vezes vou ter que falar para você, Weasley? Esse é meu lugar - disse, brincando, sentei ao lado dele, Fred sorria para mim.
- Eu não abrirei mão daqui para você, Zuckker, felizmente, teremos que dividir - respondeu ele - Como você está?
- Maravilhosamente bem, e você?
- Estupidamente bem, o que está lendo?
- Ah, eu achei esse livro perdido por aí, é de uma pessoa que estudou em Hogwarts - menti, se dissesse em que lugar tinha pegado o livro, teria que explicar o que estava fazendo por lá.
- Qual o nome?
- A autora é Diana Clark, o livro se chama “Como Ser uma Exímia Preparadora de Poções”.
- O nome dela é familiar... Ela é famosa?
- Provavelmente não, é manuscrito e tem cara de produção manual. Edição única.
- Autora misteriosa, gostei, posso lê com você? - pediu Fred.
Passamos praticamente o dia inteiro lendo, discutindo e rindo, sair da Sala Precisa tinha sido perfeito.
Por um momento, eu sentia que tudo estava bem, Fred me fazia esquecer de muitas coisas, a missão e até mesmo minhas próprias palavras. Como isso acontecia?
Eu não fazia a mínima ideia.



Capítulo 10 - A Deusa Romana

— Com licença, professora McGonagall. O professor Moody pediu que a senhorita Zuckker comparecesse em sua sala — ouvi Lino Jordan murmurar após bater à porta na aula de Transfiguração.
Há dias Crouch não me chamava. Era sempre eu que o procurava para deixar as poções.
— Por favor, senhorita Zuckker, ajeite seus materiais e vá ao encontro do professor — permitiu McGonagall. Lino agradeceu e o mesmo fechou a porta. A professora continuou com matéria do dia.
— O que Moody quer com você? — Draco, sempre intrometido, perguntou. Hoje dividíamos a mesa na aula. Uma falta de sorte sem tamanho.
Nem me dei o trabalho de respondê-lo. Saí da sala e fui até Crouch, que não possuía nenhuma turma no momento.
— O que aconteceu agora? — questionei, aproximando-me da mesa onde ele sentava.
— Encontrei Potter perambulando por aí uma noite dessas, provavelmente seguindo a pista que dei ao Diggory. Obviamente ele passou adiante para Potter, e ele carregava isto — Crouch disse, colocando um pergaminho sobre a mesa. Claramente era um mapa. Olhando mais atentamente, vi Hogwarts e diversos nomes andando para lá e para cá. — Exatamente. Incrível — murmurou Crouch ao ver minhas sobrancelhas levantarem-se.
— Como Potter tem acesso a isto?
— Não faço a mínima ideia. Mas ele tem uma capa da invisibilidade, a original. Não desconfiaria de nada.
— Isto é de extrema importância para o andamento do plano. Tendo acesso ao mapa, terei muito mais segurança com meus atos... E os seus.
— Como seu nome aparece?
— Senhor Crouch. O mapa não diferencia nomes de pais e filhos.
— É como se seu pai estivesse aqui... — observei. — Espero que não tenha me visto.
— Tenho certeza que não, caso contrário, ele diria. O garoto conta tudo, achando mesmo que sou o imbecil do Alastor Moody.
— Você não acha que é arriscado olharmos isso enquanto os alunos estão por aí? — Questionei. — Draco tem diversas desconfianças sobre mim. E não é só ele.
— É melhor do que ser vista por Filch e levar uma detenção — rosnou ele, guardando o pergaminho. — E estas desconfianças só acontecem porque você não toma o mínimo de cuidado.
— Vai começar... Se eu não tomasse o mínimo de cuidado, Bartô, provavelmente eu já teria sido vista.
— Não faço ideia do motivo de Lord Voldemort ter dado a você esta confiança... Pelo menos seu pai não é como aqueles outros imprestáveis.
— Grande coisa. Eu preferia continuar não sabendo de nada. Acha mesmo que eu estaria perdendo meu tempo fazendo as poções se eu pudesse escolher? Eu bem que tentei, mas, veja só... Não deixaram!
— Além disso, despreza o Lord. Francamente... Vá agora. Cansei de discutir. Se precisar de alguma informação, procure-me. Estarei com o mapa ainda.
— Você ao menos pegou os ingredientes?
— Ah, peguei algumas coisas da sala de Snape na noite em que recolhi o mapa de Potter — ele fez um movimento com a varinha e uma caixa flutuou até a mesa.
— Qualquer coisa, eu aviso.
Saí da sala com a caixa em mãos. Crouch me chamara lá para, basicamente, nada. Se já estava difícil assim, não queria nem ver quando Voldemort realmente voltasse...
— Aposto que a Fleur ganha essa — disse para Fred. Estávamos novamente sob a árvore conversando, coisa que tínhamos feito com frequência desde o Baile de Inverno.
— Aposto que o Harry ganha essa — revidou, sorrindo. — Quantos galeões você quer perder dessa vez?
— Você está se achando muito para quem só ganhou uma vez — apontei para o broche pendurado no seu uniforme. Tinha dado a ele há muitos dias, quando ganhara a aposta sobre o cálice. — Ainda temos um empate.
— Você é competitiva desse jeito porque a Taça das Casas é nossa há quatro anos.
— E você sabe que só ganham porque o Dumbledore bajula a Grifinória totalmente. E porque o Potter salva o mundo bruxo todos os anos.
— Se não fosse o Harry, não estaríamos nos falando... Provavelmente tudo estaria acabado no primeiro ano.
— Olha, para ser bem sincera, acho que o Potter só tem sucesso porque Hermione Granger é amiga dele.
— Para ser bem sincero, você está certa — Fred riu e encostou a cabeça nas minhas pernas. Eu era a pessoa que ficava estática, ele era o inquieto. — As garotas têm esse poder.
— Não poderia concordar mais. É por isso que odiamos Blásio Zabini, tudo bem?
— Certo, odiamos Zabini — concordou ele, balançando a varinha entre os dedos. — E o que ele fez?
— Quero dizer, nunca gostei muito dele. As garotas só foram perceber depois de um tempo. Pansy até queria que eu saísse com ele, acredita? — Expliquei, olhando para Fred, que subitamente parara de balançar a varinha. Ele semicerrou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente. Continuei: — Sempre fez comentários desnecessários sobre as meninas serem fracas em diversas áreas. Uma vez eu joguei água na cara dele, nunca um feitiço foi tão bem usado.
— Eu vi. Foi na primeira tarefa. Não estávamos nos falando. Ele mereceu — concordou ele. — Comecei a observar mesmo tentando ignorar você.
— “Comecei a observar” não é aquedado, Fred. Isso você sempre fez — exclamei, rindo. — Vai negar?
— Neste caso, é impossível mentir, — confessou ele, sentando-se novamente, de frente para mim. — Perdi a conta de quantas vezes parei só para observar.
As aproximações dele me deixavam levemente agitada desde da nossa dança no baile. Porém, não tínhamos tentado nada do que poderia ter acontecido nenhuma outra vez. Era uma pena que eu não tivesse coragem de tentar.
Ficávamos nos encarando até algum de nós começar a rir sem motivo. E ele sempre tentava chegar mais e mais perto.
— Senhores, este não é o momento mais adequado para entrarem? — Ouvi a inconfundível voz de Snape atrás de mim, nos fazendo desviar o olhar. — Daqui a pouco o jantar será servido, e sabem muito bem que não é permitido namorar em Hogwarts.
— Na verdade, essa regra não existe... — Fred assegurou Snape disso, enquanto nos levantávamos.
— Menos cinco pontos, senhor Weasley. Crio a regra agora mesmo.
— Professor, isso não faz sentido nenhum. Se você vai tirar os pontos dele, tem de tirar os meus também — disse. Snape sempre favorecia a Sonserina, ao contrário de Dumbledore.
— Não creio que seja necessário, senhorita Zuckker. Este deve ter coagido a senhorita a permanecer aqui com ele...
— E continua não fazendo sentido... Eu não sou coagida a nada. Ou você tira os pontos de nós dois, ou não tira de ninguém.
— Subam logo antes que eu mude de ideia. Não tirarei os pontos — murmurou ele, com um claro olhar de desgosto para Fred, que respondia com um grande sorriso irônico para ele. — Vá na frente, Weasley.
Fred piscou para mim e subiu mais rápido à frente.
— Só queria dizer uma última coisa, senhorita Zuckker: Sonserina e Grifinória não darão certo juntas. Nunca. E isso se aplica a Weasley e você — advertiu Snape, com um olhar sombrio, ao chegarmos perto dos portões de entrada.
— E você acha que eu não sei? Todo mundo diz isso... Eu não sei o que vai acontecer, se “essa coisa” vai dar certo ou não, mas nossa oposição não faz a menor diferença para mim — respondi. A expressão de desgosto dele só aumentou. — Até mais, professor Snape.

A segunda tarefa do torneio seria hoje. Mesmo assim, o torneio parecia durar séculos para mim. Hoje as arquibancadas estavam dispostas na margem oposta do lago e completamente cheias. O burburinho, como sempre, era alto. Ninguém sabia exatamente o que era além dos organizadores e os próprios competidores.
Na outra margem do lago, estavam os jurados — diretores e representantes do ministério — e três dos quatro competidores.
— Aposto que o Potter desiste nesta — riu Draco, com o desdém típico quando se tratava de Harry Potter.
— Vinte e cinco galeões que ele aparece — ouvi Fred, na fileira de baixo, dizer a Draco.
— Como se você, Weasley, tivesse os vinte e cinco — respondeu Draco. — Se você não ficar me devendo por anos, apostado.
— Quem vai ficar me devendo é você... Olha quem vem correndo ali! — Fred murmurou, vitorioso, apontado para alguém correndo até a mesa dos juízes. — Até o final da semana, Malfoy.
Ao meu lado, Draco revirou os olhos, tanto por ter perdido quanto por eu ter rido.
— Você não cansa de apostar... A nossa ainda está valendo — falei, olhando para os cabelos ruivos de Fred. Ninguém tinha reclamado das vezes em que ficamos conversando ali. Os meus amigos faziam questão de soltar tudo longe dele, porém não conseguiam disfarçar as pequenas coisas. Fred não dava a mínima, muito menos eu.
— Harry ou Fleur, . Só não decidimos o prêmio... — Ele sorriu, virando-se para cima. — Eu escolho depois.
— Como se você fosse ganhar.
— Dá para fazer silêncio ou é difícil? — Perguntou Pansy, irritada, balançando a cabeça negativamente para mim.
— Bem, os nossos campeões estão prontos para a segunda tarefa, que começará quando eu apitar. Eles têm exatamente uma hora para recuperar o que foi tirado deles. Então, quando eu contar três. Um... Dois... Três! — Uma voz reboou da outra margem do lago até as arquibancadas, anunciando o início da tarefa.
O apito produziu um som agudo e os alunos foram à loucura, batendo palmas e gritando aos montes. Os campeões se prepararam da sua forma e pularam no lago.
— Olha a cara de idiota do Potter! — Disse Draco, rindo e vaiando o mesmo com os outros alunos próximos.
— Não tem nada de mais. Deve estar esperando o efeito de algo. Ele colocou alguma coisa na boca — defendeu Dafne, recebendo olhares surpresos dos que vaiavam. Nem todos da Sonserina são ruins, nem tudo é uma briga com a Grifinória. Só de vez em quando, vai?!
— Ok, e agora? — Perguntou Pansy. — Não está acontecendo nada!
— É porque eles não recuperaram nada, Pansy, paciência...
— Ah, que tarefa sem graça. Prefiro a dos dragões.
— A graça deve estar lá embaixo — respondi. — A gente não consegue ver.
Depois de uns bons minutos, Fleur Delacour apareceu, mas sozinha, com o rosto assustado. Saiu do lago e foi atendida por Madame Pomfrey.
— O que aconteceu? — Perguntei e todos pareciam confusos.
— Acho que ela foi atacada! — Exclamou alguém na arquibancada ao lado.
Logo depois, Cedrico Diggory emergiu com Cho Chang, e o público fez um estardalhaço daqueles. A Lufa-Lufa aplaudia o campeão. Krum não demorou muito a voltar, acompanhado de Hermione Granger.
— Cadê o Harry? — Perguntou Jorge, ao lado do irmão. — Só falta ele.
E quando achávamos que Potter não voltaria mais, ele emergiu com Rony Weasley e uma garotinha loira, que deveria ser a irmã de Fleur. Esta ficou extremamente aliviada após vê-la.
Depois de uma breve discussão, os juízes deram a pontuação. Fleur receberia vinte e cinco, Cedrico, quarenta e sete, Krum, quarenta e Potter, por conta da sua “fibra moral” de certificar-se do salvamento de todos, recebeu quarenta.
Particularmente, eu achei uma burrice da parte dele.
Os campeões e outros alunos que estavam no fundo do lago foram levados para o castelo após um dos organizadores, Ludo Bagman, anunciar que a terceira e última tarefa seria realizada próxima ao fim de Junho. Os campeões tinham bastante tempo para se preparar, fosse o que fosse.
As arquibancadas foram ficando vazias e Fred me esperava. Meus amigos, vendo que ele conversaria comigo, não fizeram o mesmo.
— Ninguém ganhou — afirmei, enquanto subíamos de volta para o castelo.
— No fim, Harry ganhou mais pontos que a Fleur. Eu ganhei! — Exclamou ele, sorrindo.
— Não. Isso não estava nas regras — falei e ele tentou me persuadir. — Você, Fred Weasley, não vai me tirar mais nenhuma moeda.
E foi nesse momento que aconteceu de novo. Eu nem lembrava mais de ter acontecido, não lembrava da sensação ruim de ter visto aquilo.
Novamente, eu tinha uma visão deturpada. Era tudo muito escuro e com som abafado. Mas, mesmo assim, eu conseguia ouvir os gritos de agonia da mulher. O homem que estava de costas para mim e empunhava uma varinha, murmurava um feitiço.
Era absolutamente apavorante.
Embora tivesse toda aquela escuridão, eu conseguia enxergar a moça se contorcendo horrivelmente no chão.
Tentei gritar para que parasse, mas nada saía.
E eu voltei. Estava ajoelhada na grama. Fred tinha as mãos em meus ombros e uma expressão preocupada.
, você está bem? O que aconteceu? — Perguntou ele, segurando as minhas mãos para que levantássemos juntos.
— N-nada, eu acho. Foi só um mal estar. Eu só caí... — Murmurei. Desta vez, fiquei pior do que quando a coisa aconteceu na aula de DCAT. — Nada... Não foi.
— Vou te levar na enfermaria, você está muito mal — Fred disse e entramos no castelo.
A ala hospitalar ficava no terceiro andar do castelo e era comandada por Madame Pomfrey. Esta correu até nós dois ao chegarmos e me ver tão atordoada. Levou-me direto para um dos leitos.
— O que aconteceu? — Perguntou ela a Fred, colocando a mão em minha testa. A enfermaria estava relativamente cheia, com os campeões e cobaias da prova, todos olhando para mim enquanto deitava. Ótimo.
— Estávamos voltando para o castelo depois da prova, quando ela caiu do nada e os olhos ficaram vidrados. A chamei umas dez vezes e nenhuma resposta. Ela nem se mexia — respondeu ele e senti a cabeça latejar de repente. Agora, sim, tudo estava ótimo.
— Isso já aconteceu antes, querida? — Perguntou ela novamente, mais alto dessa vez, passando nos outros leitos e provavelmente dispensando alguns dos pacientes.
— Sim, uma vez — murmurei tão baixo que ela virou-se para nós, com as sobrancelhas franzidas. — Sim. Só uma vez. E estou com dor de cabeça.
Madame Pomfrey se aproximou de novo com dois frascos.
— Querido, você pode ir agora. Ela vai ficar bem — disse para Fred, colocando os frascos em cima de uma mesinha ao lado da cama, mas ele não fez menção nenhuma de sair. — Qualquer coisa você volta mais tarde. Ande, menino! E pensar que na última vez que os dois estiveram aqui, estavam quase se matando...
— Tudo bem, eu volto depois, — murmurou, sorrindo. — E vê se não morre até eu chegar.
— Grande ajuda, Weasley — falei revirando os olhos. Ele se afastou do leito e saiu da ala hospitalar.
— Certo — começou Madame Pomfrey ao vê-lo deixar o local. — Diga exatamente o que viu.
— O quê? — Perguntei. Não seria adequado falar o que vira. — Não disse que foi uma visão. Foi só um mal-estar.
— Querida, eu trabalho com isto há anos. Acha mesmo que pode mentir? — Perguntou ela seriamente, indo até um armário e pegando dois copinhos. — Diga o que viu e prometo não contar para ninguém. Só darei algum auxílio.
Fiquei um breve tempo pensando. Nem eu sabia exatamente o que era. Talvez não fosse tão inadequado contar.
— Basicamente, foram as mesmas coisas nas duas vezes que tive isso — respondi fechando os olhos por conta da dor de cabeça. — A primeira foi quando o professor Moody mostrou as maldições imperdoáveis. Não cheguei a cair por estar sentada. A visão, no geral era muito turva e o som, abafado. Mas era uma mulher se contorcendo e um homem realizando o feitiço. Ela gritava muito, não conseguia enxergar o lugar.
— Certo... Claramente você teve uma visão, querida. Só não sabemos se é do passado ou do futuro — explicou ela calmamente, colocando um pouco de cada um dos dois frascos nos copinhos. — Sugiro, caso sinta-se confortável em fazê-lo, conversar com o professor Dumbledore. Sem dúvida, somente se quiser. Agora beba de cada um.
Não me dei o trabalho de perguntar qual era o efeito dos elixires, só esperava que me fizessem dormir e acabar com a terrível dor de cabeça, que só aumentava.

— Ah, Weasley. Pelo amor de Merlin!— Ouvi uma voz distante dizer. Tinha o agudo de Pansy Parkinson. — Nem aqui você deixa a em paz?
Abri os olhos lentamente e lá estava a enfermaria e um garoto de cabelos ruivos em pé, próximo ao meu leito, discutindo com quatro sonserinos. Nem sinal da Madame Pomfrey. Um milagre.
— Não pretendo deixá-la em paz tão cedo, Parkinson — disse Fred, zombando dela nitidamente.
Óbvio que eles não iam parar de brigar.
— Tenho certeza de que ela não iria te querer aqui — Draco murmurou com desprezo.
— Jura, Malfoy? — Ironizou ele. — Pois eu tenho certeza do contrário.
— Podem calar a boca por um momento? — Pedi e os cinco finalmente focaram no motivo para estarem na enfermaria e brigando. Eu.
— Como está se sentindo? — Perguntou Fred, aproximando-se primeiro de mim, por estar mais próximo. Pansy, Dafne, Astoria e Draco se posicionaram do lado oposto.
— Com muita fome — disse e não era mentira. — Eu só dormi por um dia?
— Sim, . E o que, raios, aconteceu? — Perguntou Dafne, franzindo as sobrancelhas.
— Eu já não expliquei para vocês? — reclamou Fred.
— Não acredito em meia palavra de alguém da Grifinória, inclusive de alguém que não gosto — exclamou Pansy, dando um sorriso bem falso para ele.
— O sentimento é totalmente recíproco, Parkinson.
— Eu vou sair dessa cama e matar cada um de vocês. Parem de brigar! — Pedi novamente, algo quase impossível para eles. — E o que o Fred disse é verdade.
— Como você sabe se ele disse o que realmente aconteceu? Qual parte do “não acreditar em meia palavra” você não entendeu? — perguntou Draco.
Às vezes, eu bem queria que todos eles fossem que nem a Astoria. Não discutissem e não enchessem a paciência. Mas eram meus amigos, fazer o quê?
— E que parte do “parem de brigar” você não entendeu, Malfoy?
E a Madame Pomfrey finalmente se fez presente para organizar aquilo e expulsou quase todos.
— Quem chegou aqui primeiro? — Perguntou ela. — Chegou primeiro, continua aqui. O resto vai vê-la quando for liberada.
Depois de outra discussão, quando Pansy mentiu dizendo que eles tinham entrado primeiro e Fred dizendo que ele era quem chegara antes, Madame Pomfrey deixou ele ficar, mesmo sob os protestos de Draco (Grifinória sempre privilegiada em tudo).
— Seus amigos não dão uma folga mesmo! — Criticou Fred, sentando-se em uma cadeira que havia pego na enfermeira.
— E você cai totalmente na deles, Weasley.
— Tenho que manter a rivalidade entre as casas, Zuckker.
— Nesse caso, nós temos que continuar brigando? — Perguntei desconfiada, sentando na cama.
— Nem pensar, — replicou ele, balançando a cabeça. — Somos a única trégua eterna.
— Ou talvez eu só esteja tentando te conquistar para te matar depois.
— Tentando? Você já conseguiu faz tempo — revelou ele, sorrindo. — Agora você vai me matar bem antes do previsto.
Sinceramente, não sei se ficava irritada com ele por me deixar sem palavras de um jeito tão estúpido, ou se dava um abraço nele pelo mesmo motivo: dizer aquelas coisas.
— Eu tomaria mais cuidado se fosse você, Weasley — respondi tentando não deixar transparecer o quão nervosa estava.
— E eu tomaria cuidado se fosse você, querida — Madame Pomfrey interrompeu, trazendo uma fruta em mãos. — E tente fazer o que eu disse ontem. Você está melhor do que eu pensava. Pode ir agora. Mas coma isto.
Levantei da maca e saí da enfermaria acompanhada de Fred, que me levou até as masmorras e despediu-se, dizendo que precisava estudar.
Entrei no salão comunal, preparada para escutar as reclamações deles. Astoria, Dafne, Draco e Pansy me aguardavam jogados nos sofás e poltronas.
— Não pense que vai conseguir fugir.
— Fugir do quê? — Perguntei sentando ao lado de Astoria, que lia um livro.
— Você vai mesmo continuar falando com o Weasley? — Perguntou Draco cruzando os braços.
— Vocês dois, pelo amor de Merlin! — Exclamei irritada. — Isso é tão desnecessário! Vocês deixam de falar com pessoas de outras casas só porque são da Sonserina?
— Óbvio que não — disse Pansy. — Mas ele é traidor de sangue, . Você sabe o que nossos pais diriam...
— Eles ficariam extremamente irritados, mas tem algum pai aqui? Porque eu não vi nenhum por esses dias — suspirei. Era difícil! — Tem coisas que nós não pudemos mudar. Acreditem, eu sei disso! Já outras, podemos relevar. Além disso, vocês fazem tanta coisa e não contam para os pais. Sério mesmo que estão preocupados com um detalhe desses?
Todos ali abaixaram as cabeças. Parecia que não, mas nós carregávamos algo vivendo em meio aos comensais e outros considerados má companhia.
— E não estou pedindo para ninguém seguir o que eu faço. Só preocupem-se com o que vocês preferem ou não fazer — continuei: — Eu sei que isso cansa vocês também.
— Vou tentar, . Mas não garanto nada — respondeu Pansy. Draco concordou com a cabeça. — Agora vamos ao que interessa. Você viu alguém torturando uma mulher?
— Shh, Pansy — observei o resto do ambiente. — Vai que alguém escuta? Mas, sim, eu vi isso. A visão, no geral, era embaçada e o som abafado, mas com certeza era alguém sendo torturado.
— Sinistro — disse Dafne fazendo uma careta.
— Só você para ter essas coisas estranhas aqui nessa Casa. Vou até mudar seu sobrenome para Potter — Draco zombou e todos nós rimos, inclusive eu.
Harry Potter sempre tinha visões e outras coisas esquisitas.
— Não deve ser nada de mais. Só estresse.
— Estresse do quê?
— Da vida no geral.
— Mas você não acha muito estranho isso ter acontecido duas vezes? — Astoria perguntou de repente, depois de muito tempo só ouvindo. — Que foi? Eu prestei atenção no que o Weasley disse enquanto vocês brigavam.
— Estranho é, Astoria — afirmei, olhando para ela. — Só que não tem como saber quem são, se isso já aconteceu ou vai acontecer e o motivo delas estarem acontecendo. Madame Pomfrey sugeriu que eu falasse com Dumbledore.
— Quê? Falar com aquele velho maluco? Pomfrey enlouqueceu também! — Exclamou Draco.
— Ah, Draco! Você tem que reconhecer que o Dumbledore é um bruxo e tanto — disse Dafne. — A gente só não diz isso alto. Aposto que até seu pai acha.
— Jamais ele pensaria nisso.
— Enfim... Acham que eu devo falar com ele? — Perguntei. — É para ter um esclarecimento mesmo. Estou perdida.
— Acho que seria bom. Ele já viu muitas coisas. Quantas vezes Harry Potter já não foi na sala dele perguntar algo do tipo?
— Ok. A questão é: como entrar? — perguntou Pansy. — Ouvi dizer que a entrada é naquela estátua do Grifo, mas não tem abertura nenhuma.
— Que tal perguntar ao Snape? Ele pode ajudar — sugeriu Draco e eu concordei.
Procurei Snape em sua sala e até que eu conseguisse convencê-lo de que o assunto era exclusivo com Dumbledore (o que o deixou levemente irritado), ele disse como eu poderia entrar.
Tinha uma senha. E, por incrível que pareça, era “Bombas de Caramelo”. Snape disse que Dumbledore mudava sempre.
E foi o que eu fiz. Fui até o andar onde a estátua do Grifo localizava-se e murmurei “Bombas de Caramelo”. Primeiramente, achei que nada aconteceria. Logo depois, a estátua começou a mover-se, formando uma escada. Apressei-me em subir.
Bati à porta e ela automaticamente se abriu, revelando uma grande sala circular com muitas janelas e muitos retratos nas paredes. O escritório também tinha algumas mesas finas sobre as quais foram colocados delicados instrumentos de prata que zumbiam e emitiam pequenas nuvens de fumaça, bem como uma incrível coleção de livros e um pássaro na gaiola.
Sentado em uma grande mesa, estava o diretor Alvo Dumbledore, com vestes verde escuro, óculos de meia lua e uma longa barba branca. O diretor dava um breve sorriso para mim.
— Senhorita Zuckker! Pensei que nunca a veria em minha sala durante todo o seu tempo em Hogwarts — iniciou. — Queira se sentar, por favor.
Dirigi-me até a cadeira de frente para ele. Estava um tanto nervosa. Eu não sabia como começar.
— O que a traz aqui?
— Bom, é algo diferente — comecei. — Madame Pomfrey sugeriu que lhe fizesse uma visita. Eu tive a mesma visão duas vezes. Ela achou bom consultá-lo.
Os olhos dele deram uma leve comprimida antes de prosseguir:
— E o que a senhorita viu?
— As coisas estavam meio distorcidas, porém vi um homem torturando uma mulher. Provavelmente Crucio, já que estava empunhando a varinha.
— Conseguiu distinguir alguma dessas pessoas ou o local em que aconteceu?
— Não. Era um local familiar, mas realmente era muito difícil de reconhecer.
— Certamente, senhorita Zuckker. Creio que isto já aconteceu e a senhorita possa estar revivendo estes momentos — explicou ele, olhando atentamente. — Nada posso fazer, senão indicar-lhe que busque pela, considerada pelos romanos, Deusa da Caça. Vai eliminar muitas de suas dúvidas, estou certo disso.
— Entendo, professor Dumbledore. Obrigada por me receber — murmurei muito confusa.
— Não há de quê! Não exite em procurar-me quando necessitar — o diretor disse dando um aceno com a cabeça.
Por um momento, comecei a considerar o que Draco dissera. Dumbledore era realmente um velho maluco. O que a tal Deusa da Caça tinha a ver com a visão?
Nada.
Voltei para o salão comunal mais perdida do que antes.


Capítulo 11 - O início do fim

Praticamente havia me esquecido da “dica” de Dumbledore.
As coisas iam se complicar muito mais do que antes. E eu soube disso assim que recebi outra carta do meu pai, que eram sempre raras e necessárias de algum jeito. Mas eu juro que não via necessidade nenhuma naquilo. Nenhuma.
Minha avó e minhas tias estavam voltando para a Inglaterra.
Para isso acontecer, algo grandioso deveria estar ocorrendo. E eu já sabia o que era.
A última memória que tinha com relação a elas era o fato de aparentarem me odiar muito. Um desprezo, em grande parte, vindo de minha avó, Beatrice Zuckker. Aquela típica pessoa da família que julga todo mundo, até a própria neta que acabara de ser abandonada (porque foi isso mesmo que ele havia feito) pelo pai e não tinha ninguém para ficar.
Ela não me levou consigo para a Irlanda, nem permaneceu comigo. Deu-me Madeline como presente de consolo e nenhuma informação.
As coisas realmente estavam ficando sérias. Meu pai nunca teria convocado a presença dela e das irmãs se não tivessem absoluta certeza de que Lord Voldemort estava voltando.
E o que me assustava era ser (ao menos eu achava que era) a única aluna dentre todos ali a saber disso.
Benção ou maldição?
— Você ouviu alguma única palavra sobre o que eu falei? — Perguntou Pansy. Estávamos na biblioteca e Pansy dissera que ia estudar. Ela nem se deu o trabalho de abrir um livro para fingir que estava mesmo estudando.
— Não, Pansy. Estava pensando em outra coisa... — Falei, lembrando da carta que queimara mais cedo, como havia exigido o autor dela. Sem provas, sem acusações.
— Então pare de pensar agora mesmo! Eu chamei você aqui para falar sobre algo pessoal — murmurou ela.
— E o que seria essa coisa tão pessoal?
— Você está escondendo alguma coisa de mim! E não é Fred Weasley nenhum, porque vocês se falam bem abertamente.
— E você precisava me trazer aqui só para perguntar isto? — Questionei confusa, mas logo adiantei: — E não estou escondendo absolutamente nada.
— Primeiramente, eu contarei para os outros depois. Pensei que seria mais confortável falar só para uma das suas melhores amigas, de início — disse ela, dando um sorriso para mim. — E, depois, não adianta mentir. Esse ano você está muito esquisita. Sempre sai sozinha, some do nada, vai para não sei onde...
— Só estou dando umas voltas pelo castelo, Pansy. Por Merlin! Precisamos mesmo ter esta conversa? — Murmurei desanimada. Já havia mentido demais por um ano só.
— Precisamos, porque estou curiosa... E preocupada também. Claro! É sobre seu pai? E você não quer contar por conta daquele show desnecessário que demos outra vez? Já pedi desculpas sobre isso e...
— Pansy, escuta! E eu vou falar somente dessa vez sobre o assunto — sussurrei, olhando para os lados. — Tem algo acontecendo, mas eu não posso te contar de jeito nenhum. Não agora, pelo menos. E você não vai falar isso para ninguém, entendeu?
— Rose, eu não entendo...
— Não tem o que entender. É algo só meu por enquanto. E, talvez, por um bom tempo. Só prometa que não vai contar para ninguém.
— Eu prometo, Rose.
E eu esperava mesmo. Se alguém soubesse que dei uma pontinha da “missão”, as coisas piorariam cedo.
Quando entrou o mês de junho, o ambiente do castelo tornou-se elétrico e tenso novamente, todos ansiando pela terceira tarefa que definiria o campeão do Torneio Tribuxo.
E o grande dia chegou. Crouch havia pedido para que eu parasse de produzir as poções há umas duas semanas, dizendo que já tinha o suficiente até que pudesse sair de Hogwarts acompanhado do mestre.
Foi só nesse momento que eu realmente fiquei ansiosa, batucando em tudo o tempo todo e pensando nas diversas possibilidades de como esse dia poderia acabar.
Lord Voldemort invadiria a escola?
Tudo daria certo?
Tudo daria extremamente errado?
Seria descoberta?
Passei pela sala de Crouch antes de seguir para os jardins. Ele estava vibrante.
— Aprecio muito sua vinda aqui, Srta. Zuckker. Devo admitir que, apesar de ser inconsequente, você trabalhou bem — disse ele. Nunca sabia se ele gostava de mim ou não. Era muito confuso. — Sua parte acabou, por enquanto. Agora só aprecie o espetáculo.
— Hum... Você poderia, pelo menos, me dizer o que vai acontecer?
— Creio, somente, que os Comensais da Morte se reunirão novamente para celebrar ou se amedrontar com a presença de Lord Voldemort. Melhor ir para os jardins, Rosie. Não queremos estragar tudo bem no final, não é?
E eu me dirigi para as arquibancadas do estádio de quadribol, onde assistiríamos a tarefa tendo certeza de que alguma merda aconteceria.
É sempre assim — pensei — ele sempre consegue escapar. Já teria morrido antes se não tivesse muita sorte.
O estádio de quadribol estava irreconhecível. Uma sebe enorme corria a toda volta. Havia uma abertura, uma entrada para o imenso labirinto que tinha sido montado para o torneio. Quando cheguei, estava praticamente lotado. Decidi por pegar lugares bem afastados de quem me conhecia bem. Não foi difícil. Meus amigos e Fred estavam relativamente próximos na arquibancada, portanto fui para o lado oposto.
Estava ao ponto de roer minhas unhas quando a voz de alguém ressoou por todo o local.
— Senhoras e senhores, a terceira e última tarefa do Torneio Tribuxo está prestes a começar! Deixe-me lembrar a todos do placar atual! Empatados em primeiro lugar, com oitenta e cinco pontos cada: o Sr. Cedrico e o Sr. Harry Potter, ambos da Escola de Hogwarts!
Muitas pessoas aplaudiram nesse momento. Nem isso eu conseguia fazer. — Com o segundo lugar e oitenta pontos, o Sr. Vitor Krum, do Instituto Durmstrang! E, em terceiro lugar, a Srta. Fleur Delacour, da Academia de Beuxbatons!
Isso não ia começar nunca? Minhas mãos já estavam começando a suar.
— Então... Quando eu apitar, Harry e Cedrico! — Anunciou a voz. — Três, dois, um...
Um apito foi soprado com força e os dois correram para a entrada do labirinto. O mesmo aconteceu com os dois outros campeões em momentos diferentes, por ordem da colocação.
Era agora. O que eu temi por tanto tempo chegou. E isso não me tranquilizava nem um pouco, como achava que iria. O lado de fora se encontrava quase em absoluto silêncio, salvo por alguns murmúrios, por isso ninguém enfrentou alguma dificuldade para ouvir um grito proveniente de dentro do labirinto.
Uma tensão enorme pairava no ar. Ninguém sabia ainda quem havia gritado ou o motivo para tal. Provavelmente minhas unhas estariam acabadas até o final, de tão nervosa que estava.
Aparentemente um dos professores entrou no labirinto para ver o que tinha acontecido. O silêncio que predominava antes estava extinto e faíscas vermelhas apareceram no céu, vindas do labirinto. A cor não me parecia um sinal bom.
Uns minutos depois, a professora Sprout, de Herbologia, saíra com uma Fleur de rosto vermelho. Infelizmente ela perdera a competição. Fleur sentou-se com a diretora de seu colégio e algumas amigas.
Mais minutos com nada acontecendo. Dei uma observada em outras áreas da arquibancada. Meus amigos riam de alguma coisa, e Fred, que estava um pouco abaixo do banco deles, tinha uma feição surpreendentemente preocupada.
— É o Krum saindo de lá? Por Merlin! Achei que ele venceria — um estudante de Hogwarts, da Corvinal, falou, apontando para Krum, que vinha com o professor Snape. Ele parecia extremamente confuso e o professor levou-o diretamente ao Dumbledore.
Queria muito entender tudo que estava acontecendo, mas meu lugar na arquibancada ficava bem afastado de onde os professores e jurados estavam. Não conseguiria escutar nada porque eles sussurravam.
Novamente, nada acontecia, e todos já sabiam que a taça seria de Hogwarts de uma maneira ou de outra, já que os únicos competidores eram Cedrico e Harry. Agora, tudo estava bem mais calmo e quase ninguém permanecia em silêncio. Acho que eu era a única bruxa tensa em toda Hogwarts.
Eu tinha um belo motivo para ficar tensa. Eu sabia muito bem o que aconteceria e, novamente, eu era a única. Porém, tudo mudou quando, de repente, Harry Potter apareceu com vida no gramado do campo. Ele tinha uma taça na mão e outra... Coisa.
Uma enxurrada de sons seguiu-se quando todos notaram que Harry havia voltado. Gritos por toda parte, palmas e passos, tudo ao mesmo tempo. Eu levantei, só para tentar enxergar melhor a outra coisa, que parecia muito uma pessoa...
Dumbledore se aproximou de Harry, depois foi a vez de Cornélio Fudge. Foi aí que eu ouvi, e todos também ouviram alguém gritar.
— Ele está morto — a voz dizia tão claramente que, mesmo de longe, pude ouvir. — Cedrico Diggory está morto!
Levei a mão à boca imediatamente, sem acreditar. Tentei enxergar a “coisa”, que agora reconhecia como Cedrico, mas muitas pessoas estavam em volta. Senti uma leve tontura e a visão ficar meio embaçada. As vozes que, antes, faziam um baita barulho, pareciam ter sido silenciadas para mim.
Não pensei duas vezes e corri de lá, de volta para o castelo. Cedrico Diggory estava morto. Cedrico, meu amigo. E eu nunca sentira tanta culpa antes. Quase tropecei ao entrar no castelo, sem saber onde ia.
Corri por um tempo até chegar em um dos banheiros, que eu esperava ser o feminino. Abri uma das portas e sentei no vaso. Agora não tentava mais segurar as lágrimas para que ninguém me visse. Voldemort, com certeza, tinha voltado. Por algum motivo não conseguira matar Harry e quem não tinha absolutamente nada a ver com tudo isso estava morto.
Bati a cabeça na porta várias vezes, o que me deixaria com uma dor de cabeça dos infernos mais tarde. Senti o coração acelerar e uma terrível sensação tomou conta.
— Por que eu fui aceitar essa droga de missão? — Murmurei, passando a mão pelo rosto. — Por que Harry não morreu? Antes ele do que o Ced, ele não tinha nad...
— Por que você iria querer esse tal de Harry morto? Isso é um horror — ouvi uma voz dizer de fora da cabine, e eu reconhecia de outras vezes que conversara com ela. Tinha entrado no banheiro da Murta que Geme. — A morte é algo horrível, sabia? Olhe só para mim!
Abri o fecho da porta e saí da cabine. O fantasma da Murta me encarava com aquele típico olhar triste dela.
— Credo! Sua cara está pior que a minha. O que aconteceu?
— Nada que você possa saber, Murta — exclamei, indo até uma das pias e abrindo a torneira para tentar amenizar um pouco da cara horrrível, como Murta tinha descrito, e a sensação que se apossava.
— Oras! O que eu não poderia saber? Eu estou morta. M-o-r-t-a, mortinha...
— Eu sei, Murta, mas você não está somente morta, você também é um fantasma — disse, fechei a torneira e continuei: — Ou seja, pode falar qualquer coisa que escutar com quem quiser saber. E até quem não quiser.
— Por favor, conta para mim! Eu sou tão solitária... Não teria ninguém para contar — murmurou ela, soltando um suspiro triste. — Por favorzinho!
Fiquei um tempo olhando para ela. Se eu não contasse, provavelmente ela encheria a paciência da escola toda, já que ficaria extremamente triste. Ela poderia causar um problema quando ficava nesse estado emocional. E a escola inteira estaria muito abalada com o acontecimento recente no torneiro, não custava dar uma mãozinha depois de ter feito parte daquela desgraça toda.
— Meu pai me pediu... Pediu não, obrigou-me a fazer uma coisa. E eu fiz — comecei, sentando no chão do banheiro. Murta fez o mesmo do jeito que podia. — Eu não me importei com o resultado da coisa que estava fazendo porque, sinceramente, eu não podia me importar menos com a pessoa que sofreria.
— Que horror!
— Porém, deu errado. Um amigo meu sofreu ao invés do outro, e estou me sentindo culpada — choraminguei. Trocara muitas cartas com Cedrico no último ano. Só tínhamos nos afastado um pouco por causa da participação dele no torneio. — Não fui eu que fiz ele mor... Quer dizer, sofrer. Só que tive participação.
— Achei que minha vida fosse triste, mas a sua está se saindo pior — disse a Murta. — Não entendo porque você fez o que o seu pai queria, sabendo que algo ruim podia acontecer.
— Eu não tenho escolha, Murta. Infelizmente não tenho.
— Quem não teve escolha fui eu, que morri sem ao menos saber quem me matou. Apenas vi gigantes olhos amarelos e puf! Acabou — choramingou ela. — Você tem escolha. Todos vocês têm. E o que me resta? Ficar aqui para todo sempre, sem nem saber porque morri.
Ouvi vozes vindas do lado de fora do banheiro. Todos já deviam estar voltando aos seus dormitórios e discutindo sobre o que aconteceu. Achei melhor parar a conversa com a Murta antes que alguém ouvisse.
Despedi-me dela e saí do banheiro. Nem fiz questão de levar em conta o que a fantasma dissera, ela não entenderia.
Ao sair do banheiro, não vi uma pessoa que não estivesse com o semblante triste ou horrorizado. Senti as lágrimas voltando nos olhos e eles mal sabiam o que estava por vir. Resolvi que dormiria na Sala Precisa aquela noite. Eu precisava ficar sozinha.
— Rose? — Ouvi uma voz me chamar. Conhecia ela muito bem, então virei-me. — Merlin! Procurei você em cada lugar da arquibancada e não achei.
Eu nem conseguia responder. Fred também era amigo dele, também estava com os olhos tristes e não sorriu para mim como sempre fazia. Não tinha piada que amenizasse o momento. Ele se aproximou e segurei sua mão, levando-o para uma escadaria mais afastada. Sentamos em um dos degraus e eu nem pensei: joguei-me nos braços dele, sendo abraçada de volta.
A sensação piorou. Um medo de qualquer um descobrir, do que aconteceria no futuro... Meus batimentos não ajudavam em nada; continuavam acelerados e senti como se não pudesse respirar. Lágrimas caíam sem parar, as mãos voltaram a suar e começaram a tremer.
— Calma, Rose — ele disse ao ouvir meus soluços em meio ao choro. Acariciou meus cabelos e eu, automaticamente, pensei que não merecia isso. — Não chora, por favor. Eu estou me segurando para não fazer o mesmo.
Se ele soubesse, não chegaria nem perto de mim, não continuaria acariciando meu cabelo e nem me confortaria como estava fazendo agora.
Eu não merecia isso. Nem metade daquilo. Deveria mantê-lo afastado... Mas por que não conseguia?
— Rose, você precisa se acalmar...
— Não consigo! Não sei que sensação é essa. É assustadora! — Ainda sentia a tremedeira e angústia.
— É só o choque de algo tão... Cruel ter acontecido sem nem imaginar que pudesse ocorrer — disse Fred, tentando amenizar meu estado. O que ele não sabia é que eu já imaginava que isto poderia acontecer, só que com alguém diferente.
— Você não acha que eu devia estar acostumada? Sendo filha de quem sou...
— Não queria entrar nesse assunto de novo. Mas não é porque você é filha dele que seja igual a ele ou tenha que ser — respondeu ele, separando-nos e olhando diretamente para mim. — Nós temos livre arbítrio, Rose! E você precisa entender isso. Por exemplo, minha mãe quer que Jorge e eu sejamos do Ministério, mas Merlin me livre de trabalhar lá.
— Vocês querem mesmo ter a loja de logros, não é?
— É nosso sonho — respondeu Fred, dando um sorriso que me fez sorrir também.
Sequei as lágrimas e levantei, notando que a sensação se dissipava aos poucos.
— Acho melhor voltarmos para o Salão Comunal.
— Sim. O clima de comemoração do torneio está definitivamente acabado.
Fred, como sempre, acompanhou-me até as masmorras. Aguardei o tempo que imaginei que ele levaria para voltar ao salão de sua Casa e segui para a Sala Precisa, tomando cuidado para não ser vista por Filch ou algum professor, porém todos estariam tão preocupados e atarefados que nem ligariam para uma aluna andando pelos corredores fora do horário.
Chegando no andar e no local onde sabia que existia a sala, mentalizei a sala de poções pedida anos antes por Diana Clark e agora tão utilizada por mim. A porta surgiu e entrei no local, que estava exatamente como eu havia deixado antes.
Joguei-me no sofá. A culpa seria responsável pela minha insônia, Se ao menos eu soubesse...
Mas adiantaria mesmo alguma coisa? Charlie havia sido bem claro com o fato de que eu não tinha escolha. Eu teria feito mesmo se soubesse que Cedrico Diggory morreria sem motivo algum no final do torneio.
Decidi fazer algo que me faria esquecer um pouco o mundo, como sempre fazia: tirei o livro de Diana Clark do fundo falso e voltei para o sofá. Tinha lido tantas vezes e nunca achava esse tal epílogo que ela tanto falava ser a melhor parte do livro. Abri o prefácio, imaginando que, fazendo aquilo ligaria a imaginação, transformando as palavras de Diana em cenas na minha mente, e desligaria tudo que estivesse porta afora da Sala Precisa.

[…]

Uma semana havia se passado desde o fim do Torneio Tribuxo, mas o clima não se amenizara. Era notável o tanto de olhares que eram direcionados a Harry. Quase todos estavam diferentes. Draco não tinha feito uma piadinha ou comentário sobre Harry, algo raro de se acontecer, e nenhum dos meus amigos tocou no assunto Voldemort. Para alguns de nós, as coisas se comprovariam quando chegássemos em casa. Não precisaríamos debater se Voldemort voltara ou não. Saberíamos de qualquer jeito.
Crouch havia sumido. Não tínhamos mais aulas de DCAT e Alastor Moody assumira seu lugar novamente. Encontrava-me, às vezes, com Fred debaixo da árvore em frente ao lago e, muitas vezes, só apreciávamos o silêncio da companhia do outro.
Minha culpa ainda era um enorme peso nas minhas costas e eu não queria voltar para casa e encarar meu pai. Nem queria ver a cara de minha avó e minhas tias. A única coisa que sentia falta era Madeline, mesmo com o jeito meio rude comigo e o fanatismo pelos Malfoy.
Hoje teríamos a Festa de Despedida, na qual anunciavam o resultado do campeonato entre as Casas. Porém, esse ano, ninguém ligava para isso. Entrei no Salão Principal com meus amigos e fomos até a mesa da Sonserina. O salão tinha panos pretos na parede ao fundo onde a mesa dos professores era localizada, em respeito a Cedrico. Como sempre, haviam burburinhos em quase todas as mesas. A Lufa-Lufa era a mais silenciosa, e todas ficaram assim quando Dumbledore se levantou.
— O fim — disse ele olhando para todos — de mais um ano.
Ele fez uma pausa e dirigiu seu olhar à mesa dos lufanos, que possuíam as feições mais tristes e os rostos mais pálidos.
— Há muita coisa que gostaria de dizer a todos vocês nesta noite, mas, primeiro, quero lembrar a perda de uma excelente pessoa, que deveria estar sentado aqui, — ele fez um gesto em direção à mesa da Lufa-Lufa — festejando conosco. Eu gostaria que todos os presentes, por favor, se levantassem e fizessem um brinde a Cedrico Diggory.
Todos obedeceram. Os bancos se arrastaram e os alunos do salão se levantaram e ergueram seus cálices. Ouviu-se um eco uníssono, alto, grave e ressonante: Cedrico Diggory.
Senti vontade de chorar. Nunca tinha feito isso desde o dia da morte dele. Todos tornaram a se sentar e Dumbledore continuou:
— Cedrico era o aluno que exemplificava muitas das qualidades que distinguem a Casa da Lufa-Lufa. Era um amigo bom e leal. Uma pessoa aplicada, que valorizava o jogo limpo. Sua morte afetou a todos, quer vocês o conhecessem bem ou não. Portanto, creio que vocês têm o direito de saber exatamente como aconteceu.
Senti um arrepio gelado na espinha. Onde estaria Crouch? Haviam descoberto sobre ele? E sobre as poções?
— Cedrico Diggory foi morto por Lord Voldemort.
Um murmúrio de pânico varreu o Salão Principal. Todos olhavam Dumbledore, horrorizados. Draco, que estava de frente para mim, deu um olhar significativo. Nossos pais estavam envolvidos.
— O ministro da Magia — continuou Dumbledore — não quer que eu lhes diga isto. É possível que alguns pais se horrorizem com o que acabo de fazer, ou porque não acreditam que Lord Voldemort tenha ressurgido, ou porque acham que eu não deva lhes informar isto, por serem demasiado jovens. Creio, no entanto, que a verdade é, em geral, preferível às mentiras, e qualquer tentativa de fingir que Cedrico Diggory morreu em consequência de um acidente ou de algum erro que cometeu é um insulto à sua memória.
Quase todos os rostos estavam virados para Dumbledore nesse momento, menos de Draco, que cochichava algo para Crabbe e Goyle. Senti uma irritação. Será que ele não podia aliviar nem nesse momento? Joguei algo discretamente em seu rosto e fiz sinal para ele olhar para frente. O mínimo que ele tinha que ter era respeito.
— Há mais alguém que deve ser mencionado com relação à morte de Cedrico. — Continuou Dumbledore. — Estou me referindo, naturalmente, a Harry Potter.
Mais murmúrios foram ouvidos e cabeças viraram-se para Potter. Continuei fitando Dumbledore.
— Harry Potter conseguiu escapar de Lord Voldemort, e arriscou sua própria vida para trazer o corpo de Cedrico de volta a Hogwarts. Ele demonstrou, sob todos os aspectos, uma bravura que poucos bruxos jamais demonstraram diante de Lord Voldemort. E, por isso, eu o homenageio.
Dumbledore virou-se solenemente para Harry e ergueu sua taça mais uma vez. Muitos repetiram seu ato: levantaram-se, ergueram suas taças e repetiram o nome de Potter como haviam feito com Cedrico. Grande parte da mesa da Sonserina não se levantou, em desafio. Eu permaneci sentada. Coragem não era uma das minhas melhores qualidades, ou então estaria na mesa dos leões.
Quando todos se sentaram novamente, Dumbledore prosseguiu:
— O objetivo do Torneio Tribuxo era aprofundar e promover o entendimento no mundo mágico. À luz do que aconteceu, o surgimento de Lord Voldemort, esses laços se tornam mais importantes do que nunca.
O olhar do diretor foi de Madame Maxime, diretora de Beauxbatons, e Hagrid a Fleur Delacour e seus colegas de escola. Daí, para Krum e e os alunos de Durmstrang à mesa da Sonserina.
— Cada convidado neste salão — disse o diretor, demorando-se ao olhar para os alunos de Durmstrang, talvez porque seu diretor havia sumido — será bem-vindo se algum dia quiser voltar para cá. Repito a todos: à luz do ressurgimento de Lord Voldemort, seremos tão fortes quanto formos unidos e tão fracos quanto formos desunidos.
“O talento de Lord Voldemort para disseminar a desarmonia e a inimizade é muito grande. Só poderemos combatê-lo mostrando uma ligação igualmente forte de amizade e confiança. As diferenças de costumes e língua não significam nada se nossos objetivos forem os mesmos e nossos corações forem receptivos.
“Creio — e nunca tive tanta esperança de estar enganado — que estamos diante de tempos negros e difíceis. Alguns de vocês, neste salão, já sofreram diretamente nas mãos de Lord Voldemort. As famílias de muitos já foram despedaçadas. Há apenas uma semana, um aluno foi levado do nosso meio.
“Lembrem-se de Cedrico Diggory. Lembrem-se, se chegar a hora de terem de escolher entre o que é certo e o que é fácil — nesse momento, Dumbledore direcionou o olhar para mim. Era o que eu imaginava, mas claro que ele poderia estar olhando para a Sonserina em geral. — Lembrem-se do que aconteceu com um rapaz que era bom, generoso e corajoso, porque ele cruzou o caminho de Lord Voldemort. Lembrem-se de Cedrico Diggory. ”
Obrigada, Dumbledore. Eu já não tinha intenções de esquecer, agora é que não ia mesmo.

[…]

Pansy, Dafne, Astoria, Katherine e eu estávamos dividindo alguns doces na cabine do trem que nos levaria de volta a Londres.
— Como podem as varinhas de alcaçuz serem tão boas? — Exclamou Katherine, com a boca cheia. Tentávamos ignorar o assunto Voldemort gastando nossos galeões com doces do carrinho que passava pelo trem. E funcionava muito bem quando o desnecessário do Draco vinha encher o saco e me lembrar de “sangues-ruins” e “amantes de trouxas”. A vontade de dar um soco nele era absurda.
— Vocês vão passar as férias onde? — Perguntou Dafne, abrindo um sapo de chocolate com cuidado para que ele não fugisse.
— Dafne e eu vamos para a França! — Disse Astoria, animada, mas murchando um pouco ao dizer. — Isso se não ficar doente de novo.
— Você não vai, Ast. Relaxa — disse Dafne, sorrindo para a irmã.
— Meus pais convidaram Pansy para ir a Brighton conosco. Se os pais dela deixarem... — respondeu Katherine.
— Eu vou passar as férias mergulhada no mar da minha cama, olhando para a parede e pensando. E qualquer lugar seria melhor do que meu quarto — respondi, mordendo uma tortinha de abóbora.
— Credo, Rose, que desânimo! — Exclamou Pansy, fazendo careta. — Nem uma viagem?
— Devido às atuais circunstâncias, não teremos viagem nenhuma — respondi, revirando os olhos. — Possivelmente, o único lugar que poderei ir é a casa dos Malfoy e não quero ficar ouvindo as besteiras que o Draco fala durante as férias.
Elas riram do que disse, concordando que seria bem chato. Alguém apareceu na porta da cabine e deu uma batidinha. Olhei naquela direção e vi Fred abrindo uma fresta para falar comigo.
— Pode vir aqui fora? Queria falar com você — disse sorrindo e apontando para um pedaço de pergaminho. Franzi a testa e me levantei com a tortinha em mãos, ignorando as risadinhas das meninas.
— Quero seu endereço, Rosie Zuckker — disse Fred, rindo e apontando para meu rosto. — Tem um pouco de torta na sua boca.
— Ah! E por quê você quer sabe onde eu moro? — Perguntei, tentando achar onde tinha torta no meu rosto e limpando em seguida.
— Porque vou te enviar cartas, Zuckker.
— Corujas não precisam de endereço.
— É só por garantia. Então a senhorita poderia ou não me passar o seu endereço? — Fred exclamou, levantando uma sobrancelha.
— Segura a tortinha e passa o pergaminho, Weasley.
Trocamos os objetos e, enquanto eu anotava onde morava, Fred aproveitava para dar umas mordidas na minha torta, mesmo sob meus protestos. Jorge chegou com a varinha em mãos e um pacotinho na outra.
— E aí, casal? Como vão? — Perguntou ele, zombando de nós.
— Onde o casal está que não vi? — Debochei, fazendo os gêmeos sorrirem.
— Você não viu porque ele ainda não existe, Zuckker — rebateu Fred, pegando o pergaminho e a pena e passando o que sobrou da tortinha para mim.
— Aqui o que você pediu, Fred — falou Jorge, entregando o pacotinho e depois apontando para duas cabines a frente da qual eu estava. — Malfoy entrou na cabine do Harry.
— Para você, Zuckker, da Gemialidades Weasley — exclamou Fred, sorrindo maldosamente ao falar. — Você pode dar para seu pai ou para Malfoy se visita-lo...
— E o que, exatamente, é isso...?
— Caramelos Incha-Língua. Use bem — disse Jorge, sorrindo.
— Se eu ficar de castigo, a culpa é de vocês. Não vou resistir a usar isso.
— Pelo menos vai poder ler minhas cartas do seu quarto, Rose. Boas férias — disse Fred, aproximando-se e dando um beijo no rosto.
— Boas férias, Rose — disse Jorge, aproximando-se, também, e me dando um abraço. — Espero que meu irmão não encha seu saco.
— Infelizmente ele vai.
Fred sorriu para mim mais uma última vez enquanto ele e Jorge se aproximavam da cabine que era de Harry Potter. Ficaram observando por um tempo, até que percebi que haviam erguido suas varinhas. Franzi a testa, sem entender o que estava acontecendo.
Pouco tempo depois, as coisas fizeram sentido: Jorge, Rony Weasley e Potter apareceram chutando Draco, Crabbe e Goyle da cabine. Eles pareciam inconscientes.
— Se alguém perguntar, não foi a gente — Jorge falou para mim, rindo. Harry e Rony olhavam meio desconfiados, afinal, nunca tínhamos conversado. Concordei, rindo, e entrei na cabine.
Os doces já tinham quase acabado e todas olhavam, ansiosas para saber o que tinha acontecido.
— E então, Rose? Oque ele queria? — Perguntou Katherine, sorrindo de lado. — E não é que dá para ter uma “quedinha” por ele mesmo? Agora te entendo.
Todas, até Pansy, concordaram, rindo da cara que fiz.
Agora as madames acham isso? — Questionei, levantando as sobrancelhas em sinal de descrença.
— Sim, Rose — disse Pansy, ainda rindo. — Mas notamos tarde demais. Ele já está caidinho por você.
— Vocês veem coisa onde não tem — falei, sentando-me em um dos bancos. — Ele pediu meu endereço para enviar cartas, mesmo sabendo que não precisa.
— Está vendo? — Disse, Dafne. — Caidinho por você. Será que ele vai na sua casa?
— Só se ele quiser morrer cedo — murmurei, rindo e lembrando do pedaço de torta de abóbora que ainda tinha na mão.
— E o que é isso na sua mão? — Perguntou Astoria, apontando para a mão direita, onde eu segurava o saquinho.
—Caramelos Incha-Língua, exclusivos e feitos pelos gêmeos. Presente de boas-vindas após sete anos sumido — disse, referindo-me a Charlie.
— Está vendo o que meu livro diz aqui na página sete? — Astoria disse, pegando um livro na mochila ao seu lado e mostrando para nós. — Caidinho! E pela Rose...
— Há-há, que engraçado! — Exclamei enquanto as outras riam. — Você passa tempo demais com a gente, Astoria. Não pode!
Ficamos conversando até a chegada do trem na estação King´s Cross, em Londres. Pegamos nossos malões e nos despedimos depois de atravessar a parede. Madeline me esperava em suas típicas vestes longas. Ela sempre teve profundas olheiras e um olhar cansado, mas, hoje, estavam mais notáveis do que nunca. Ela deu um sorriso para mim. Arrastei o malão até o local em que ela estava e lhe dei um abraço.
— As coisas estão muito difíceis por lá? — Perguntei, afastando-me dela para caminharmos até o carro.
— Você sabe que ele voltou, não é? — Questionou de volta, suspirando audivelmente.
— Sim. Eu já tinha certeza antes mesmo de Dumbledore anunciar na Festa de Despedida.
— Seu pai nunca esteve com um humor melhor. Fiquei até impressionada. E isto no seu braço?
— Vai ficar a cicatriz, Mad. Eu deixei muito tempo no fogo...
— Ainda não acredito que ele pediu para que você fizesse isso...
— Eu não acredito que realmente fiz isso. Foram raros os momentos que lembrei disso. Depois de uns meses eu fiquei bem... Hum... Distraída.
— Pensei em pegarmos o “metro” dos trouxas hoje, assim você pode contar o motivo da sua distração... — disse ela quando chegamos à calçada em frente à estação.
— Você querendo pegar o transporte dos trouxas? — Surpreendi-me. Essa palavra era quase um palavrão em casa. Só que a diferença é que até palavrões eram permitidos, mas trouxa, não. A não ser que você tivesse a intenção de insultá-los, claro. — E eu tenho quase certeza que é “metrô”.
— Tanto faz o nome desta coisa. Troquei alguns galeões pelo dinheiro deles, o suficiente para nossas passagens. Então, o que acha?
— Vamos! Nunca andei nisso. Não vamos nos perder, não é?
— Eu me perdi hoje vindo para cá, querida. Agora peguei o jeito daquela coisa.
Então nos dirigimos para a estação mais próxima. Entramos na coisa e Madeline conseguiu tirar alguns comentários de Fred de mim. Só paramos com o assunto quando a nossa parada chegou.
Eu estava de volta em casa.
Passei uma parte da tarde desfazendo a mala, guardando as roupas de volta no armário, as penas e o tinteiro na escrivaninha e os livros na estante. Havia tirado o livro de Diana da Sala Precisa e o escondera no armário do meu quarto, fora de Hogwarts. Não queria correr o risco dos elfos acharem o livro enquanto limpassem o local. Ainda queria mantê-lo só para mim, mesmo já tendo lido o mesmo antes, com Fred. Mas ele era uma exceção.
Desci para a sala, com intenção de ir até cozinha pegar alguma coisa para comer antes do jantar. Chegando lá embaixo, Madeline saía da cozinha com um dos melhores jogos de chá que tínhamos em casa e levava a bandeja até a sala de reuniões, que fora intocada durante os sete anos que Charlie havia sumido. Ninguém tinha motivo para usar, então presumi que ele já tivesse chegado. Agora a questão era: quem estava lá?
Mad saía da sala sem a bandeja em mãos e viu-me parada, com um olhar questionador. Ela comprimiu os lábios e suspirou antes de dizer:
— Seu pai está tendo uma reunião e não quer ser interrompido.
— Disso eu sei. Quem está lá? — Questionei, aproximando-me de Madeline e tentando ouvir o que diziam na sala.
— Rosie, suba, por favor — ela pediu, olhando algumas vezes para a porta, como se temesse o que estivesse acontecendo lá dentro. — Não queremos arranjar problemas.
Acho que já dava para ter uma ideia de quem estava lá dentro. Eu apostaria em Voldemort. — Só finja que não me viu. Vá para a cozinha e eu terei descido depois que você entrou.
Ela relutou por um tempo, mas, no fim, jogou as mãos para o alto e foi para o corredor que levava até a cozinha, balançando a cabeça reprovando a atitude.
Aproximei-me da porta e fiquei feliz ao constatar que eles não falavam tão baixo. Concentrei-me para prestar atenção na conversa.
— Charlie, você sabe que ela não pode descobrir a verdade, não sabe? — Disse uma voz, bem... Como eu poderia descrever... Estranha. Podia dar uns arrepios ruins só de ouvir. — Isso causará problemas no que você jurou.
— Tenho ciência disso, Lord — meu pai disse em seguida, fazendo uma pausa. — Eu consegui acabar com muitas evidências. Inclusive, ela não lembra de nada.
Por que eu tinha uma sensação de que falavam de mim? Se fosse eu mesmo, o que não poderia saber? Não lembro do que?
A confirmação veio logo depois e de maneira sinistra. Voldemort falou mais alto do que antes:
— Por que não entra e se junta a nós, Rosie?
Quase congelei na porta. Porém, eu queria respostas. Respirei fundo e entrei na sala, tendo a visão mais estranha de todas: meu pai e Voldemort tomando chá na longa mesa de madeira no centro da sala, rodeada por estantes. Caminhei até a ponta da mesa onde os dois estavam.
Mas o que era mais estranho que isso? O próprio Lord Voldemort.
Seu rosto era diferente de tudo que eu já tinha visto. Ele tinha a pele muito pálida, fendas no lugar do nariz e olhos vermelhos. Não me admirava que as pessoas o temessem só de olhar.
— Algum problema, Rosie? — Exclamou meu pai, tirando-me do transe de olhar para Voldemort. Acho que minha expressão não era muito agradável.
— Só não sabia que o Lord das Trevas tomava chá — murmurei, dando um breve sorriso que não foi do agrado de Charlie. Mas não pareci irritar Voldemort.
— Muito tempo sem corpo nos faz tomar medidas sérias, Rosie — disse ele, calmamente. — Agora, diga-nos o que ouviu?
— Vocês não queriam que alguém descobrisse alguma coisa e isso poderia causar algum problema para Charlie. E essa pessoa não lembra de nada — repeti o que havia escutado e ousei perguntar. — De quem vocês estavam falando?
Nesse momento, meu pai olhou para Voldemort, que parecia se agradar muito com o fato de eu ser única a não saber de absolutamente nada. Ou, pelo menos, achavam que eu não desconfiava de que falavam de mim.
— O que você achou de sua missão, Rosie? — Voldemort ignorou minha pergunta e desviou o assunto.
— Para ser bem sincera, eu não faria aquilo de novo e não entendo o porquê de me darem essa tarefa, sendo que Crouch era bem capaz de fazer isso — admiti, lembrando-me subitamente que Crouch sumira. — Já que mencionei ele... O que aconteceu com Crouch depois que a terceira tarefa teve fim?
— Crouch foi pego pelo Ministério — disse Charlie. — Eles fizeram um dementador dar o beijo nele.
Que fim horrível o seguidor mais fiel de Voldemort havia tido. Ser beijado por um dementador era a pior coisa que poderia acontecer.
— Não era mesmo necessário ter feito aquilo, Rosie — disse Voldemort, tão calmo como sempre. Acho que deram chá demais para ele, mas era bom ver que eu estava certa. — Só te demos isso para ver se você tinha o que precisávamos...
Uma resposta bem vaga. O que eu tinha que ter?
— Uma última pergunta para você, Rosie. — Voldemort murmurou, desviando o olhar para meu pai, em seguida, perguntando diretamente a mim: — O que achou da morte do garoto que acompanhava Potter?
Nunca me veria livre de sentir culpa por conta de Cedrico. Eu tinha duas opções: ou mentia e agradava os dois, ou falava a verdade e via o que ia acontecer. Eu não tinha a intenção de agradar a Charlie.
— O nome dele é Cedrico e ele não deveria ter morrido — tomei coragem e falei a verdade. — Senti-me culpada por ele ter morrido, porque o considerava um amigo. Se eu soubesse que isso aconteceria, não teria feito parte.
— Acho que ela não foi tão bem preparada como você pensa, Charlie — Voldemort falou em um claro tom de deboche. Meu pai engoliu em seco antes de virar olhos raivosos para mim. — Fale o que pensa, Charlie.
— Não há jeito de você não ter culpa nisso, Rosie — disse meu pai, levantando da cadeira. — Você sabia de nossa intenção de trazer o Lord de volta e não disse absolutamente nada a quem poderia ter evitado os eventos. Você poderia acabar com o sofrimento de muitas pessoas no futuro se tivesse feito a coisa certa. Sabe disso? Você é como eu. Como nossa família. Pode até tentar ter as boas intenções, mas, no fim, você é exatamente como nós.
Voldemort parecia estar ganhando sua verdadeira diversão agora. Por que as palavras de nossos pais parecem ter um peso três vezes maior do que de qualquer outra pessoa? Mesmo que não gostemos muito deles, sempre levamos muito em conta o que eles dizem sobre nós, por mais que saibamos como realmente somos. Foi por isso que me senti pior quando Charlie disse tais coisas sobre mim. Eu realmente poderia ter evitado, mas não cheguei nem a pensar em contar para alguém.
Tudo porque meu próprio pai dissera para não contar a ninguém o que estava fazendo.
— Charlie, isso não faz sentido nenhum. Você sabe, não é? — Exclamei, com raiva. — Uma hora vocês me obrigam a fazer uma coisa e, depois, me julgam por ter feito exatamente o que me disseram para fazer? O que vocês querem?
— Ninguém te obriga a nada, Rosie — meu pai falou, por fim.
Olhei incrédula para ele. Que tipo de jogo era esse, que todos se contradiziam o tempo todo? Aquilo no rosto de Voldemort era um sorriso de satisfação?
— Chega a ser cômica essa situação. Não vou ficar aqui nem mais um minuto — falei, dando uma risada de escárnio. Fiz menção de sair, mas fui interrompida pela voz de Voldemort.
— Você sabe o que fazer para provar, Charlie. Use a Maldição Cruciatus nela — quando ele disse isso, não acreditei. Meu pai podia ser ruim, mas ele não faria isso... Faria?
— Para usar Cruciatus não é só mencionar as palavras, Voldemort. Tem que querer machucar seu oponente.
Voldemort ignorou-me e voltou a falar com meu pai coisas que não faziam sentido algum para mim:
— Lembre-se de como ela te deixava fraco no passado com toda a história de amor dela. Amor não cura nada, porque é um jeito de os humanos fazerem com que fraqueza seja vista de forma aceitável, Charlie. Mas fraqueza é, na verdade, imperdoável. Sua mãe lhe ensinou isso muito bem, creio eu.
Os olhos de Charlie se tornaram opacos de repente. Ele pegou a varinha do bolso do casaco e mirava para mim, porém não murmurou feitiço algum. Eu já começava a ficar assustada. A Maldição Cruciatus era horrível.
— Você não quer fazer isso, pai — falei, com a voz tremida e meio embargada. Senti os olhos lacrimejarem. — Minha mãe não faria isso e você também não.
— Como ela poderia saber, Charlie, se a mãe dela está morta? — Ouvi Voldemort provocar. Sua voz já ganhava um tom mais rigoroso e eu me assustava cada vez mais. Por que eu não conseguia correr daquela sala? — Faça agora.
— NÃO, CHARLIE. VOCÊ NÃO QUER FAZER ISSO!
— Como você poderia saber?
Fechei os olhos para tentar evitar o choro e foi nesse momento que eu me distraí. Quando fui pensar em abrir, ouvi a voz de meu pai murmurar Crucio, e senti uma dor tão forte que não consegui mais ficar em pé. Ajoelhei-me no chão, gritando de dor. Não queria abrir os olhos e ver quem realmente fazia isso.
— Para, por favor, Charlie — tentei falar em meio aos gritos de dor. Sentia-me contorcer no chão da sala de reuniões, sentia o corpo todo latejar, da cabeça aos pés, como se tivesse sendo machucada em vários lugares ao mesmo tempo. Mas o pior não era isso. Eu sentia como se minha alma tivesse sendo ceifada também. Ao tentar abrir os olhos, tinha a visão da mulher se contorcendo, e meus gritos agora misturavam-se aos del. E tudo se tornou pior, porque eu sabia o que ela tinha sentido. Minhas pálpebras fecharam-se para não ter mais aquela visão que me perseguia.
Quando achei que não aguentaria mais, as dores foram parando aos poucos. Abri os olhos lentamente, só para ver Charlie e Voldemort encarando-me jogada no chão. A visão começou a ficar turva e ouvi a voz já abafada de Voldemort, que tinha a varinha em mãos também:
— E parece que outra pessoa não está bem preparada como penso...
Foi a última coisa que ouvi antes de desmaiar, ainda com o abalo de ter sido torturada pelo meu próprio pai.
Acordei em meu quarto, ouvindo barulhos do andar de baixo. Sentei na cama ainda um pouco tonta, cocei os olhos e minhas memórias não deixaram que me deixasse iludir, pensando que tudo aquilo foi só um pesadelo. Senti vontade de chorar.
Ao afastar os braços do rosto, notei uma coisa em um deles e, quando vi exatamente o que era, as lágrimas escorreram sem piedade por meu rosto. Era uma tatuagem da Marca Negra. Símbolo de Voldemort e que alguns Comensais da Morte possuíam. O símbolo estava bem no antebraço esquerdo, meio torta por conta da cicatriz de queimadura que estava exatamente embaixo da tatuagem.
Realmente não tinha mais jeito. Levantei e fui até o guarda-roupa para pegar uma blusa de manga comprida. Eu queria evitar olhar para aquilo e precisaria esconder pelo resto dos meus dias. O burburinho lá embaixo não tinha cessado e resolvi descer para ver quem eram as visitas agora.
Chegando ao pé da escada, tinha uma visão bem ampla da sala. Madeline estava sentada de um lado do sofá com Charlie (não o chamaria mais de “pai” a partir de hoje) e, do outro lado, quatro pessoas, três mulheres e um homem, estavam sentadas com um monte de malas espalhadas por perto. Fui descendo as escadas e tive a certeza de quem eram. Minha avó e minhas duas tias. O outro, não conhecia.
— Ah, Rose! Que bom que acordou — Madeline disse, levantando-se quando cheguei na sala. — Não sei se você se lembra bem delas, mas esta é sua avó, Beatrice — Madeline apontou para uma mulher, claramente a mais velha de todas, sentada em uma poltrona. Ela usava óculos escuros mesmo dentro de casa, o que não fazia sentido nenhum. Não tinha como ver se, ao menos, ela olhou na minha cara. — Agatha e seu marido, Ivan — apontou para os dois que estavam lado a lado. A mulher tinha os cabelos castanhos curtos e segurava a mão de homem de cabelos cacheados. Os dois deram um breve sorriso para mim. — E esta é Mary-Anne — a última abriu um enorme sorriso para mim e, automaticamente, senti uma simpatia por ela. — Bem-vindos de volta a Londres — falei, sorrindo para os quatro. Por um momento, até fiquei feliz de não termos a casa vazia como sempre, mas minha avó não parecia muito feliz em me ver.
Porém, tinha um motivo para elas terem voltado. E era a o fato de Voldemort ter ressurgido.
Era o fim de um ano letivo, mas era o começo de uma guerra.




Fim.



Nota da autora: Por meio desta nota, venho agradecer a todos vocês que acompanharam a primeira parte da história de Dancing With The Dark. Foi incrível poder ler todos os comentários e saber que tinham outras pessoas tão animadas com a história como eu estava. Quero agradecer em especial a Milena, que fez trailers lindos para a fic e me ajudou muito em algumas coisas, além de ter dado a ideia do grupo de leitoras (apesar de eu achar que ninguém entraria haha) e muito obrigada às betas por verem todos os erros que eu nem tinha prestado atenção. Espero que continuem instigados a acompanhar está história, pois ainda há muito o que ler. Aguardo vocês em uma próxima e, novamente, muito obrigada!

Let




Outras Fanfics:
Dancing With The Dark: Destined

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