Última atualização: 25/10/2019
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Prólogo


A vida é imprevisível. Talvez em questão de horas, minutos ou segundos tudo pode mudar. Em uma noite, como qualquer outra, você se acomoda em sua confortável e familiar cama para descansar depois de um longo dia de estudos e trabalho. Quando apaga as luzes, fecha o seus olhos, sua mente passeia pelas lembranças e fantasias mais profundas, até mesmo por um compartimento proibido. Avalia os sentimentos naquele momento, os acontecimentos daquele dia ou alguma preocupação fica martelando na sua cabeça até que finalmente, se entrega ao sono que lhe envolve feito os lençóis da cama.
E em um último bocejo, prestes a entrar num sono profundo, todos os seus sentidos ficam em alerta e uma mão enluvada, um forte odor impregna seu nariz invadindo seus pulmões. Num primeiro momento, você luta na escuridão para se livrar daquelas mãos que te prendem. Sente aos poucos seus movimentos se tornando pesados, a mente embaralhar e a visão ficando turva, até que se entrega totalmente a escuridão.
Quem dera fosse apenas a escuridão de uma bela noite de sono, entretanto, em uma única noite tudo pode mudar.
E, principalmente, quando os seus olhos se abrem novamente e enxergam rostos desconhecidos. O macio do seu colchão é substituído pela maciez de um sofá de camurça. Assim como o medo, a compreensão de que algo errado está acontecendo lhe cabe perfeitamente feito uma carapuça.
Uma única pergunta ronda a sua mente incansavelmente: Onde eu estou?


Capítulo 1


Ohio, EUA - 3 horas antes.
Quando se fala em sentimentos tudo se torna muito abstrato para . Desde a infância fez escolhas que se mantivesse o mais longe possível dessa lógica, talvez tenha sido por isso que se identificou na carreira médica. Uma profissão que exigia menos emocional, forçava o lado racional pois, a última coisa que um médico deveria fazer era derramar lágrimas durante uma cirurgia cefálica. Claro que o motivo também era poder ajudar as pessoas, acabar com o sofrimento delas e contribuir para que vivessem muito mais. Entretanto, nunca foi chegada ao sentimentalismo. As pessoas que conviviam com ela diziam ser a rainha do gelo, coração de lata, mas a verdade é que nunca foi boa em externar os sentimentos que viviam lhe corroendo.
Para ela nunca foi fácil abraçar alguém ou beijar, até mesmo sua avó e mãe. Raríssimos são os momentos em que acaba agindo assim, optando demonstrar sua falta de contato através de atitudes como lavar uma louça, preparar uma comida deliciosa ou buscar a mãe no trabalho ao final de cada plantão. E aproveitar alguns instantes, namorando a fachada do hospital em que a mesma trabalhava algumas vezes por semana.
Desligou o motor do carro ao estacionar na frente do hospital, virou o rosto na direção do local e um sorriso sonhador surgiu. Suspirou extasiada com a sensação de alegria que lhe dominava. Amava hospitais e sonhava em um dia com a rotina da profissão. Observava as pessoas que entravam e saiam, cantarolando uma música que tocava no rádio e acenou algumas vezes quando alguém conhecido passava por ali.
— Em breve estarei aqui. - Murmurou ela num tom sonhador ainda sorridente, mas repentinamente a sensação de felicidade foi substituída por surpresa. As batidas do coração agitadas enquanto um rosto masculino repentino surgia, quase dentro do veículo pela janela do passageiro que estava aberta.
— Sonhando comigo de novo, baby? - Perguntou Joshua num tom debochado, seu belo rosto moreno impedindo a visão do hospital. Enfiou a cabeça pela janela aberta, um dos braços descansando na porta fechada.
revirou os olhos, fingindo uma expressão de descontentamento, mas sorriu achando graça em seguida.
— Até parece que iria desperdiçar minha atividade cerebral sonhando com você! - Rebateu num tom debochado, abrindo um sorriso convencido que se transformou em irritação ao perceber o que o homem pretendia.
Joshua Bennett é um ortopedista muito dedicado e conhecido em Ohio. Há dois anos chegou ao Dover Hospital que ficava em sua cidade e tornou-se parceiro de plantão com a mãe da jovem. Amelia é uma cardiologista bem conceituada no estado e há mais de dez anos atuava na emergência do hospital que já recebeu diversas condecorações pelo excelente atendimento. Acreditava que um dos motivos de amar a medicina e os mistérios do corpo humano era o fato de conviver com médicos que desfilavam durante todo o tempo de branco.
Além de aprender sobre o funcionamento do corpo humano, também tinha aprendido a tirar manchas dos jalecos da mãe e que no futuro, seria de grande utilidade.
— Preciso anotar essa! - Falou ele apressado enquanto abria o bloco de notas do celular e digitava o que havia sido dito pela garota. Guardou novamente no bolso da calça jeans branca e abriu a porta do carona, entrando e se jogando no banco. Colocou sua mochila no colo e soltou um suspiro de alívio.
— Eu não acredito que você continua anotando tudo que eu falo! Isso é ridículo! - Murmurou ela num tom irritado.
O rapaz riu e olha-a, bocejando em seguida.
— Não tenho culpa se você me dá os melhores foras! - Disse dando de ombros enquanto inclinava o assento, fechando os olhos e abraçando a mochila.
— Onde está minha mãe? - Perguntou ela enquanto olhava rapidamente o amigo, desviando o olhar em seguida para vasculhar a entrada do hospital que estava um pouco movimentado.
Ele abriu apenas o olho esquerdo, bocejando alto novamente.
— Ah, sim! Ela vai precisar estender o plantão por mais algumas cinco ou seis horas, parece que a Jane não conseguiu chegar. Pediu para avisar que volta de táxi. - Murmurou entre bocejos, fechando os olhos novamente.
suspirou chateada pois, tinha preparado o jantar para a mãe e em seguida, tentariam assistir algum filme antes que a mulher caísse no sono pesado.
Não respondeu ao amigo pois, o mesmo estava roncando no banco do passageiro. Apenas ligou o motor novamente, acendeu os faróis pois já era noite e começou a refazer o trajeto de minutos atrás. Teria que ficar mais algumas horas sozinha antes que finalmente, pudesse dormir e sonhar com seus bisturis ou alguma cirurgia complicada.
Um sorriso em seu rosto surgiu ao perceber o rumo de seus pensamentos.

Ottawa, Canadá - 4 horas antes.
1,2,3… - Repetia mentalmente no ritmo de sua respiração enquanto fazia movimentos de golpes no ar.
Os dois punhos cobriam seu rosto. Olhava para a frente enquanto alternava os socos de direita e esquerda, depois chutava o ar com uma das pernas. O corpo se mantendo sempre firme, evitando ao máximo se lançar para frente a cada golpe. Repetia todo o processo sem parar, a mente concentrada em acertar.
Estava alheia ao calor que esquentava sua pele avermelhada pelo esforço físico enquanto a endorfina lhe trazia paz e felicidade. Diariamente, entre uma preocupação e outra, encontrava o seu paraíso particular. Praticar algum tipo de atividade física lhe causava um contentamento tão grande, uma paz de espírito capaz de renovar suas energias para encarar a realidade. Costumava achar graça das pessoas que não conseguiam enxergar da mesma forma.
Um assovio alto e familiar estourou a sua bolha de paz, trazendo-a de volta a realidade. Parou seus movimentos e virou em direção ao som. Avistou o homem moreno de cabeça raspada que vestia uma calça de moletom cinza e uma regata preta, calçando chinelos encará-la.
— Hora do rango e cama! Preciso de você inteira amanhã! - O seu pai falou com uma expressão divertida enquanto suas mãos descansavam na cintura.
fez um gesto positivo enquanto engolia avidamente a água gelada de sua garrafinha.
Nasceu em uma família canadense de lutadores de MMA e que desde a infância aprendeu a gostar do esporte. Ronald , o seu pai, lutava na categoria peso meio-médio e chegou a levar o cinturão alguns anos antes dela nascer. Na mesma época, conheceu sua mãe, Carmen Tonluis que lutava na categoria peso pena. Apaixonaram-se através do amor que compartilhavam pelo esporte e aí, perceberam que seriam ainda mais felizes se estivessem um ao lado do outro. Graças ao relacionamento -imperfeito- deles conseguia acreditar que o amor verdadeiro realmente existia.
Atualmente, tinham uma pequena academia de luta que ficava no térreo do sobrado que viviam. Consistia em um espaço com tatames coloridos, sacos de pancadas, um ringue, vestiários femininos e masculinos. Adorava olhar as medalhas, troféus e as fotos de toda a carreira dos pais que ficavam espalhadas pelo lugar.
Aproximou-se do mais velho, ele fez uma careta e um gesto indicando que estava fedorenta e riu da expressão debochada da filha. Os cabelos loiros estavam suados e presos no topo da cabeça, vestia uma regata e calça moletom, seus surrados tênis nos pés. Subiram as escadas em silêncio, podendo ouvir o som da televisão no andar de cima e o barulho de panelas. A jovem estendeu a mão para o interruptor e desligou as luzes do lugar.
Sentiu-se satisfeita por mais um dia concluído, mas o frio na barriga lhe recordava que em breve teria um campeonato para disputar.

Swansea, País de Gales - 2 horas antes.
estava exausta e faminta enquanto aguardava o rotineiro jantar em família. Todas as noites, pontualmente às sete horas. Ela e seus pais, Suri e James , compartilhavam ideias, fatos sobre o dia além de saborear cawl cennin que era uma sopa deliciosa de alho-poró -sua favorita. Costumava apreciar esses pequenos momentos com sua família que lhe davam a certeza de que a vida é muito boa e do quanto tinha sorte por tê-los.
Estava sentada na grama verdinha daquela primavera enquanto envolvia as pernas com seus braços. O queixo descansava nos joelhos, sentindo a brisa do Canal de Bristol que é a maior baía da ilha da Grã-Bretanha. O vento tranquilo balançava as folhas das árvores e a grama. Sua casa e outras várias estavam localizadas no topo do penhasco, de costas para as águas escuras. Gostava de admirar aquela paisagem por horas ou até mesmo, ler um de seus livros favoritos.
Soltou um suspiro de satisfação enquanto observava o céu escurecer no horizonte, dando adeus a mais um dia e dando lugar ao luar que iluminava as águas do mar gelado.
Amava viver em Swansea, um lugar repleto de histórias e paisagens inspiradoras. Se um dia escrevesse um poema, com toda certeza, seria sobre as belezas encontradas em seus vales, as águas geladas do canal, os diversos castelos desgastados pelo tempo, mas que nos faziam sentir viver séculos atrás. O País de Gales tinha uma beleza indescritível e sentia-se abençoada por vivenciá-la desde que veio ao mundo.
Um dos seus maiores desejos que ocupava o topo da sua lista era viajar pelo país de carro, conhecendo cada cantinho desde o movimentado ao mais remoto, mas infelizmente, não seria possível por enquanto. Além de passar boas horas do dia na Universidade de Swansea, envolvida com várias pesquisas, também ajudava seu pai com pesquisas pessoais diante das descobertas tecnológicas do mundo a fora e ainda tirava um tempo para estudar. Vivia tão envolvida no lado acadêmico que teve que abrir mão de um lado seu muito pessoal e que sentia muita falta: atuação.
Sentia falta dos palcos, do desenvolvimento de personagens e todos os sentimentos em estar envolvida com algo que tanto amava. Os seus amigos do grupo de teatro da Associação de Swansea vivia pedindo para que voltasse, mas estava muito longe de isso acontecer.
Levantou-se e espreguiçou-se, ouvindo as juntas de seu corpo estalarem. Assumiu uma expressão triste com o rumo de seus pensamentos. Evitava pensar nesse lado da sua vida como uma forma de impedir que ficasse mal. Tinha plena consciência que em algum momento reduziria o ritmo e poderia voltar aos palcos. As pesquisas que estava envolvida corriam a todo vapor e era uma oportunidade única.
Olhou o relógio em seu pulso e virou-se, seguindo em direção a porta dos fundos da casa. Estava quase na hora do jantar e deveria se preparar para o dia seguinte.
Ela só não imaginava que tudo mudaria.

SUMÁRIO
Endorfina - é uma substância natural (neuro-hormônio) produzida pelo cérebro (glândula hipófise). Tem uma potente ação analgésica e ao ser liberada estimula a sensação de bem-estar, conforto, melhor estado de humor e alegria.
Peso Meio-Médio - categoria que o peso do lutador varia de 71 kg até 77 kg.
Peso Pena - categoria que o peso do lutador varia de 62 kg até 66 kg.
Cawl cennin - prato típico da culinária galesa que consiste numa sopa de alho-poró.
Canal de Bristol (Bristol Channel) - é a maior baía da ilha da Grã-Bretanha. Separa o sul do País de Gales de Devon e Somerset no Sudoeste da Inglaterra e estende-se desde a parte inferior do estuário do rio Severn até o Atlântico Norte.


Capítulo 2

Highlands, Escócia.

Assim como um abrir de olhos, após horas de sono, a escuridão partiu, dando lugar a uma claridade repentina. , e , atordoadas, tentavam se acostumar a visão e organizar as cenas aleatórias que corriam soltas por suas memórias, desde o momento em que colocaram suas cabeças no travesseiro. Olharam ao redor, entendendo que aquele ambiente não era o quarto de cada uma delas e que, muito menos, aquelas pessoas que estavam ali, faziam parte de suas famílias.
Exclamações de espanto, barulhos de algemas sendo forçadas e respirações preenchiam o ambiente. As jovens estavam sentadas, lado a lado, em um sofá vermelho camurça que estava posicionado no meio da sala. Em frente à elas, estava uma mesa lustrosa de mogno e diversas estantes com livros. As paredes eram feitas de blocos de concreto que pareciam esverdeados e desgastados com o tempo, o chão tinha o mesmo aspecto, lembrando castelos na época medieval. Além do sofá e as lâmpadas acopladas nas paredes pareciam não pertencer ao ambiente, uma mistura do passado com o presente.
Llonydd os gwelch yn dda! - sussurrou em galês, sua língua natal, numa forma de acalmar a si mesma enquanto via os diversos rostos desconhecidos. Os olhos arregalados, a expressão de nervosismo ao sentir as algemas frias que prendiam seus pulsos atrás do corpo.
— Seu desgraçado! Me solta! - Ouviu uma voz jovem e feminina dizer com explícito ódio em seu tom, chamando sua atenção fazendo com que virasse o rosto para o seu lado esquerdo.
Uma menina de cabelos loiros e com mechas azuis estava sentada ao seu lado. Ela se agitava ferozmente, os pulsos também estavam presos e tinha em seu rosto uma expressão furiosa, fazendo com que sua pele clara ficasse vermelha feito um tomate.

A todo instante, ela se debatia enquanto um homem posicionado atrás do sofá e que vestia preto da cabeça aos pés, segurava-a pelos ombros com ambas as mãos numa tentativa de mantê-la no lugar. O sequestrador tinha uma expressão de tédio acompanhada de um lábio inferior ferido. ficou admirada com a valentia da menina loira e suspeitava fortemente que o ferimento havia sido feito por ela.
As batidas de seu coração se aceleraram ao ouvir um suspiro baixo, próximo ao seu rosto. Virou-o para o lado oposto, encontrando uma jovem de óculos de grau e lindos cabelos ruivos que pareciam um ninho de passarinho por tamanha bagunça. Os belos olhos verdes pareciam preocupados enquanto observavam, assim como fizera antes, a menina de mechas azuis.
— Se eu fosse você, pararia de movimentar o seu pescoço dessa forma ou vai ter uma distensão muscular. - Falou a ruiva enquanto inclinava o seu corpo para frente, tentando ver a jovem enfurecida que estava sentada no lado oposto de .
A jovem loira pareceu se enfurecer ainda mais ao intensificar os movimentos que fazia com a cabeça, ora para trás, ora para frente e que acabou compreendendo, se tratar de uma tentativa de cabeçada.
A ruiva suspirou derrotada e deixou o corpo cair contra o encosto do sofá. observou-a em silêncio por longos minutos, até que decidiu se pronunciar.
— Como consegue manter a calma? - Perguntou num sussurro, aproximando um pouco mais o rosto. A jovem continuou com seu olhar preso na mesa vazia em frente à elas.
— Prefiro reservar minhas energias. - Olhou-a seriamente com aqueles olhos verdes frios e mexeu levemente uma de suas finas sobrancelhas, virando seu rosto novamente para a frente.
franziu a testa em confusão, mas que foi se suavizando a medida que ponderava as palavras da outra jovem. Não sabia o motivo de ter sido sequestrada de sua cama durante a noite, que horas eram ou onde estavam. A sala não tinha janela ou relógio, nada que indicava tempo ou local exato, apenas parecia estar presa em algum calabouço de um castelo da era medieval.
Llonydd os gwelch yn dda! - Sussurrou novamente, tentando acalmar os seus nervos e impedir que o pânico tomasse os seus pensamentos. Fechou os seus olhos e começou a listar em sua mente todas comidas que comeria caso, sobrevivesse. Técnica que aprendeu quando sofreu uma forte crise de estresse por causa de uma pesquisa.
— Tudo bem? - Ouviu um sussurro que reconheceu sendo da ruiva ao seu lado, mas manteve-se de olhos fechados e concentrada na sua lista.
Quando terminou a sua lista, respirou fundo e soltou o ar dos pulmões devagar. Ouvia a luta incansável da garota loira ao seu lado. Abriu os olhos e virou em direção a ela, prestes a alertá-la para se manter calma e preservar as energias para a fuga, mas o som do rangido de uma porta sendo aberta pôde ser ouvido atrás das jovens e ambas mantiveram-se em silêncio.
engoliu em seco enquanto os pelos da nuca se eriçaram diante do perigo.
👼👼👼

queria acreditar que estava sonhando. Queria mesmo, mas o formigamento nos braços que estavam presos atrás do corpo só provavam o contrário. Esforçou-se para lembrar o que aconteceu, mas sentia-se atordoada e não sabia o por quê. Quanto mais se empenhava em lembrar, mais sua cabeça doía. A única lembrança era de ter deitado para dormir, mas as lembranças estavam embaralhadas em sua mente e foi difícil compreender que realmente só havia existido escuridão, como em todas as noites da sua vida.
O som de sapatos de salto, batendo ritmadamente no chão de pedra em meio ao silêncio parecia querer deixá-las agoniadas. Estaria mentindo para si mesma, caso dissesse que não tinha medo, mas de uma forma estranha saber que não era a única na mesma situação lhe tranquilizava um pouquinho.
Avistou uma mulher e reconheceu-a, como a causadora do barulho. Esbanjava uma elegância ao caminhar em direção à mesa de mogno, os cabelos vermelho fogo estavam presos num coque que lhe dava uma aparência rígida combinada ao terno preto que vestia. Desviou o olhar para a esquerda e viu que ambas as meninas estavam numa postura tensa, os olhares presos à recém-chegada.
Milhares de questionamentos rondavam a mente de , entretanto, ela não conseguia se decidir sobre realmente querer descobrir as respostas.
A mulher acomodou-se em sua poltrona de couro em silêncio, sem pronunciar-se. Parecia estar tranquila, como se estivesse recebendo convidados e não fazendo três jovens de reféns. As mãos descansavam entrelaçadas sob a mesa, uma expressão serena por trás dos óculos de grau. Poderiam ter se passado segundos ou até mesmo horas, noção de tempo ali era algo impossível. O silêncio da mulher enquanto analisava todas com atenção, parecia ser um artifício psicológico para deixá-las amedrontadas. As palmas de suas mãos suavam frio, suas costas doíam pela postura tensa e os braços estavam dormentes. Ela só desejava acordar e descobrir que foi apenas um sonho.
— É muito bom revê-las, meninas. - A mulher disse, recebendo olhares de espanto e confusão, tinha um sorriso inesperadamente simpático em seu bonito rosto.
Talvez, tenha sido um engano, mas achou ter percebido um olhar diferente direcionado para si.
— Nunca te vi na minha vida inteirinha! - Rebateu numa expressão que beirava a desconfiança.
— Nem eu.
— Muito menos, eu.
Ouviu as meninas concordarem com suas palavras.
A mulher riu e soltou um suspiro, inclinando a parte superior do corpo para frente e ficando mais próxima de suas mãos e mesa.
— Digamos que nos conhecemos há muito tempo, quando vocês só sabiam arrotar, fazer cocô e comer.
encarou-a com uma expressão ainda mais confusa, mas conforme foi repetindo em sua mente o que foi dito pela misteriosa mulher, compreendeu perfeitamente.
— Impossível! - Manifestou-se num tom alto.
A mulher lançou-lhe um indecifrável olhar, mas foi rápido sendo substituído por divertimento.
— Primeiro, vamos as apresentações. Me chamo Davina Gibson Mackay e trouxe vocês até aqui com o interesse de receber ajuda… - ouviu o homem que
mantinha-se em pé atrás de , bufar indignado. - e também, protegê-las. - Falou seriamente enquanto observava-as cuidadosamente.
Sentiu um movimento repentino no sofá e olhou para o lado esquerdo novamente, em busca do motivo. Avistou a jovem loira levantar-se com as mãos algemadas para trás com uma expressão assassina em seu rosto. Tentou correr em direção à porta, localizada atrás do sofá, mas foi seguida pelo homem. Ele tenta agarrá-la por trás, mas a jovem faz um movimento com a cabeça para trás e acerta-o, fortemente, atingindo o nariz e fazendo esguichar sangue no mesmo instante. Exclamações de surpresa puderam ser ouvidas e identificou pertencer apenas a si e a jovem, que permanecia ao seu lado. Olhou para Davina e percebeu que observava tudo com uma expressão tranquila que não se alterou em nenhum momento.
Voltou sua atenção para a cena, ao ouvir xingamentos da jovem e vê-la sendo jogada no sofá. O homem resistia bravamente a dor do nariz, que havia sido quebrado, e ao sangue que escorria livremente por seu rosto. Algumas gotas pingavam sobre a loira já que o homem prendia-a novamente pelos ombros.
A jovem voltou a se debater incansavelmente numa tentativa de se libertar.
Davina solta um suspiro e levanta, dá a volta e para na frente da mesa, encostando-se nela. Cruzou os braços e encarou-as com um olhar divertido.
— O que você quer de nós? - Perguntou a jovem ao lado de , parecendo estar mais calma.
Davina encarou-a com uma expressão debochada.
— Bom, estou esperando que se acalme para que possa continuar. Ah, . Esse era o nome da jovem que lutou para se libertar.
— Como sabe o meu nome? - Perguntou numa expressão assustada.
A mulher soltou um suspiro impaciente e massageou as têmporas, num gesto que evidenciava sua impaciência.
— Será que vocês vão me deixar continuar ou terei que amordaçá-las? - Ameaçou, cruzando os braços novamente e encarando-as seriamente.
Recebeu o silêncio como resposta.
— Ótimo! - Falou num tom satisfeito, abrindo um pequeno sorriso e respirou fundo, ajeitando seu blazer e cruzando as mãos na frente do corpo. - Como estava dizendo, vocês estão aqui porque precisamos de ajuda e também, estarão seguras.
Conheço cada uma desde o nascimento, acompanhei cada fase de suas vidas e estou feliz em ver que estão bem.
encarou-a com a testa franzida, evidenciando sua confusão.
— A verdade é que vocês são filhas de nossas agentes. - Revelou e esperou por alguma reação.
— Como assim? Minha mãe não é mesmo uma agente! - Rebateu a morena num tom surpreso. - Com toda certeza, não é! - Riu.
encarou Davina, fazendo com que a mesma lhe encarasse e resolvesse continuar, não sem antes soltar um suspiro.
— Os seus pais não são seus pais. - Falou séria, mas abanou uma das mãos num gesto impaciente. - Ah! Vocês me entenderam!
— Fui adotada? - Perguntou num tom que beirava a incredulidade.
O olhar de ficou focado no chão enquanto tentava manter a cabeça fria, o suficiente, para raciocinar e pesar as palavras da mulher. Não seria possível ser adotada. Compartilhava de traços físicos e da personalidade de sua mãe, mas uma criança pode ser influenciada pelo ambiente e pelas pessoas que representam sua família ou nutre admiração. Seria mesmo verdade? Ela amava sua mãe e avó, mas jamais conheceu o seu pai ou soube quem era. Poderia ter sido adotada?
— Todas foram. Pretendiamos protegê-las do passado, deixaríamos viverem na ignorância para sempre, mas os planos tiveram que ser mudados. Cinco dias atrás, um infiltrado roubou o arquivo confidencial sobre cada uma de vocês e agora, correm perigo. - Falou calmamente, mas sem abandonar uma expressão séria.
riu e foi algo tão inesperado que todos, sem exceção, olharam-na. E nem ela compreendia a sua reação, mas a risada transmitia toda a incredulidade daquelas palavras.
— É assim que fazem agora? Sequestram e inventam uma história maluca para não assustar?! - Perguntou rindo novamente.
Davina bufou impaciente.
— Eu não sequestrei vocês. Estarão livres para ir, a qualquer momento.
— Jura? - Perguntou achando graça. - Fui tirada da minha cama durante a noite e nem sei se fizeram alguma coisa para minha mãe e a vovó! Isso não é sequestrar? - Perguntou num tom irônico, mas que evidenciava sua revolta.
— Não tínhamos outra escolha! Vocês correm perigo! - Justificou-se, os seus olhos evidenciaram a seriedade.
Aquela história era a coisa mais louca que já ouviu em toda sua vida e ela, pela primeira vez, não sabia o que fazer.
👼👼👼

A raiva dividia espaço com o desespero fazendo com que mordesse o lábio inferior com força. Lutava para manter o controle, afinal, os seus pulsos algemados ardiam e o cansaço já dominava o seu corpo. queria ter uma super força para ser capaz de libertar seus braços e arremessar o babaca que continuava segurando-a pelos ombros. Não sentia-se completamente satisfeita por ter apenas quebrado seu nariz, o idiota merecia muito mais. E toda a situação, a história maluca que aquela ruiva louca contou e o sequestro, tudo soava além do normal. Era filha dos seus pais e ponto final. Claramente, compartilhava os traços e gostos de cada um.
— Você é uma lunática! - Falou num tom irritado, forçou seu corpo para cima, mas a mão masculina usou de mais força para mantê-la no mesmo lugar. Levantou a cabeça, sentindo o topo da sua cabeça dolorida, olhando nos olhos castanhos do homem e recebendo um pingo de sangue em sua testa. - Me solta, seu babaca! Eu quero ir embora! - Ordenou num tom sério, encarando-o friamente, a voz evidenciando o ódio que nutria pelo rapaz.
O rapaz abriu um sorriso debochado enquanto retribuía o olhar.
encarou-o com mais ódio, poderia queimá-lo vivo com seu olhar.
— Suas mães pertenceram à nossa organização, vocês nasceram aqui e precisam ser protegidas por nós. - Falou Davina num tom sério.
A jovem voltou sua atenção para a mulher, encarou-a com raiva.
— Eu sou filha de James e Suri . - Falou a morena que estava sentada ao seu lado, tinha uma expressão determinada em seu rosto.
encarou-a com a testa franzida, atraída pelo estranho sotaque.
— Senhora Davina… - a jovem ruiva falou educadamente, atraindo a atenção de e da filha de James e Suri . - Como você havia dito, podemos ir embora quando quiséssemos. - Continuou pausadamente enquanto recebia um
olhar incrédulo de Davina. - Então, quero ir embora, agora. - Finalizou, dando ênfase ao seu pedido.
A mulher se aproximou do sofá, mantendo-se há aproximadamente um metro de distância, os seus olhos verdes pareciam pegar fogo.
— Assim como eu disse, estão livres. Gostaria apenas de dizer que vocês correm perigo e isso inclui, os pais que acreditam serem de verdade. - Disse séria e suas palavras, estranhamente, fizeram os pelos da nuca da jovem se arrepiarem. Engoliu em seco, as batidas de seu coração aceleradas e os olhos arregalados. O pânico -inesperado- parecia viajar por suas veias enquanto lhe faltava ar nos pulmões e surgindo o desespero em respirar. Aquela sensação foi nova e assustou-a. Pela primeira vez na sua vida, sentiu-se daquela forma. O ar na sala parecia carregado por algo muito pesado que martelava em seu corpo, ficando tensa. Fechou os olhos brevemente e respirou fundo diversas vezes, até que se acalmasse.
— Eu sei o que está sentindo. Aquele desgraçado nos atinge até mesmo sem ser citado diretamente. - Sussurrou Davina inesperadamente próxima, assustando e fazendo com que abrisse os olhos, encontrando-a, ajoelhada a sua frente e uma das mãos tocando a perna coberta pelo tecido da calça moletom.
Os olhos verdes penetrantes da mulher pareciam preocupados e prendiam sua atenção como um imã.
— Quem é ele? - Perguntou num sussurro que pensou ser seu, mas foi a morena ao seu lado, quem falou.
— Nosso pior inimigo. - Revelou Davina ao se levantar, ajeitou o seu blazer e fez um discreto sinal com a cabeça. Sentiu o peso das mãos do homem, abandonar seus ombros e em seguida, o som da porta sendo aberta e novos passos.
— Espero que não se arrependam. - Sussurrou Davina pela última vez, antes que tudo se tornasse escuridão novamente.


Capítulo 3

Ottawa, Canadá - horas depois.

despertou repentinamente, soltando uma exclamação de susto enquanto olhava ao redor e reconhecia a bagunça rotineira do seu quarto. Jogou-se de costas no colchão e encarou o teto. Aos poucos, foi se recordando do sonho que teve e franziu a testa, estranhando o fato de ter sido tão real. Quando virou o corpo de lado, encarou o relógio no criado mudo e arregalou os olhos em desespero, tinha perdido a hora. Raramente dormia até mais tarde. Levantou da cama em um pulo, vestiu o moletom e prendeu seu cabelo. Calçou os tênis e partiu em disparada pela porta, guardando o celular no bolso.
— Está muito atrasada! - Pronunciou-se Ronald numa postura séria enquanto alternava dar instruções aos alunos e evidenciar o atraso incomum da filha.
Quando terminou de descer as escadas e aproximou-se, ambos estenderam as mãos com os punhos fechados e encostaram de leve; um gesto de cumprimento acompanhado de expressões sérias. O pai analisou-a dos pés à cabeça enquanto cruzava os braços e soltou um suspiro derrotado.
— Você está doente? - Perguntou num tom calmo, mas os seus olhos não conseguiam esconder a preocupação.
A sensação que abateu sobre si quando encarou o seu pai tão de perto trouxe as lembranças do sonho que teve durante a noite. Justamente, recordou-se do momento em que a ruiva misteriosa revelava que ela e as outras foram adotadas. Sacudiu a cabeça de leve tentando esquecer aquela loucura que parecia tão real e o gesto inconsciente, fez com que seu pai interpretasse como uma negativa.
— Menos mal. - Comentou mantendo o mesmo tom de voz, entretanto, a preocupação havia abandonado o seu olhar. - Sua mãe está preocupada com você e por isso, não te acordei. Ameaçou me levar para o ringue… - O tom de sua voz e seu olhar transmitiram algo mais doce, trazendo um ar de riso ao rosto rígido. - Caso, te acordasse.
tentou evitar, mas a gargalhada escapou por seus lábios. Admirava muito sua mãe e a forma que conduzia o casamento de anos, assim como os negócios da família. Tinha a dose certa de pulso firme e amor. Desde pequena, sempre desejou ser como ela quando crescesse. O pai acabou rindo também.
— Jamais duvide da dona Carmen. - Intrometeu-se Patrick enquanto pulava para fora do ringue, a toalha encharcada de suor pendurada nos ombros. Ele parou em frente a jovem, secou os cabelos suados. Um outro rapaz, reconheceu ser Louis, desceu também.
— Igual aquela vez que o Numb desafiou ela para uma queda de braço. - Riu Louis enquanto secava as lentes dos óculos na toalha de Patrick.
Numb era um dos clientes da academia, um rapaz ruivo que decidiu que queria se tornar lutador profissional. Conhecia a boa fama de Ronald Campbel e veio, decidido a tê-lo como treinador. Na época, o pai estava viajando para acompanhar o UFC e fazer novos contatos, então, apenas Carmem estava disponível para o serviço. Ele fez pouco caso, sem acreditar que aquela mulher baixinha fosse realmente uma lutadora profissional. No fim das contas, acabaram numa queda de braço e para arrasar o ego do cara, Carmem saiu vitoriosa. Até hoje, Numb treina com a matriarca dos Campbel.
— Fiquei 20 dólares mais rica. - Lembrou num sorriso provocador. Patrick revirou os olhos.
— Você foi trapaceira! - Acusou Louis colocando os óculos e encarando-a. - Sabia que sua mãe ia ganhar!
riu e deu de ombros.
— Te perguntei duas vezes se realmente queria apostar. Patrick bufou e revirou os olhos.
— Vocês ainda não superaram isso?
e Louis o encararam emburrados, cruzando os braços.
Assim como o super-herói Flash é rápido, o divertimento de Ronald, também. Logo, o homem se tornou sério novamente e cruzou os braços, encarando os rapazes.
— Por que pararam? O treino ainda não acabou! - Falou num tom rígido enquanto os braços definidos estavam cruzados na frente do corpo. Ambos resmungaram enquanto retornavam ao ringue, assistia a tudo com um sorriso divertido no rosto.
— E você? - Perguntou o seu pai num tom sério, ela encarou-o com a testa franzida.
- O que está fazendo parada aí?
Ela estendeu as palmas das mãos para o alto num gesto de rendição.
— Minha mãe me deu o dia de folga, não foi o que você disse? - Perguntou com um sorriso esperto nos lábios.
— Ela não queria que te acordasse e pelo visto, já está bem acordadinha! - riu.
— Está rindo? - Perguntou com um sorriso divertido, mas substituiu por uma expressão maligna. O sorriso divertido da jovem abandonou o rosto, ao constatar que estava prestes a sofrer como os seus amigos. - Pegue suas luvas e vá para o ringue!
Ela soltou um suspiro derrotado e correu até o seu armário, pegando suas luvas pretas. Entrou no ringue, juntando-se aos amigos e começou a seguir as instruções do pai. Os três alternavam socos, chutes e se defendiam. Os seus rostos suados estavam estampados com sorrisos de desespero, afinal, Ronald Campbel não era conhecido por pegar leve.

👼👼👼
— Ela não atendeu? - Perguntou Ronald enquanto defendia os golpes do aluno com as luvas de proteção e indicava o que deveria fazer.
soltou um suspiro preocupado e colocou o celular na orelha. Ouvia o toque de chamada até cair na caixa postal enquanto roía a unha do polegar. Estavam na metade do dia e sua mãe não tinha retornado da rua. Costumavam acordar bem cedo, cumprir as tarefas para iniciar o dia de trabalho e a mesma, ia na feira comprar verduras e legumes frescos para fazer os sanduíches e as saladas que vendiam para os alunos. Entretanto, naquele dia, a mulher não tinha retornado no horário habitual.
— Nada. - Sacudiu a cabeça negativamente enquanto discava novamente o número.
— Assim como eu disse, estão livres. Gostaria apenas de dizer que vocês correm perigo e isso inclui os pais que acreditam serem de verdade. -
ficou tensa com o sumiço da mãe e pior, o sonho esquisito não saía de sua mente. Se questionava sobre ter sido seu sexto sentido lhe avisando que algo poderia acontecer, mas só poderia ser loucura. Costumava ter sonhos surreais e até hoje, nunca acordou como vencedora do UFC. A cada segundo tentava tranquilizar sua mente, mas a verdade é que estava morrendo de preocupação.
— Ei, sua mãe está bem. - Ronald falou repentinamente, acordando-a de seus devaneios. - Ela sabe se defender muito bem. - Percebeu a confiança no olhar do homem.
confirmou com um gesto de cabeça, tentando absorver as palavras do pai e ficar mais calma.
A porta de vidro se abriu, repentinamente, chamando a atenção de ambos. Soltaram o ar dos pulmões, aliviados, ao verem o rosto conhecido entrar no lugar.
👼👼👼


Swansea, País de Gales - 2 horas mais tarde.

As pessoas costumavam ligar o céu azul a felicidade e paz, mas pensava diferente. Sentia-se em paz ao deitar no gramado do quintal e ficar horas admirando o céu cinza chumbo, até que o primeiro pingo de chuva lhe atingisse no nariz. Sempre que podia ou sentia-se pronta para explodir, buscava ficar por horas assim até sentir que os seus limites estavam nos devidos lugares.
E aquele dia, acordou com a necessidade de fazer a terapia do cinza. Teve um sonho muito esquisito durante a noite e, de alguma forma, ficou um resquício lhe incomodando o peito. Assim que ficou sozinha em casa, tomou café e seguiu até a janela mais próxima, verificou que não chovia e que o céu estava gritando para ser admirado.
Pegou uma manta e vestiu um casaco por cima da camisola. Assim que pisou na varanda, uma brisa gelada balançou os seus cabelos e fez com que sorrisse. Quando achou o local ideal, estendeu a manta e sentou, ficou admirando as águas cinzentas e gélidas do mar abaixo no penhasco. Só conseguia pensar o quanto amava viver no País de Gales e que não poderia suportar, caso o seu sonho tivesse tornado realidade. Como não seria filha de seus pais? Soltou um suspiro cansado e massageou as têmporas, até que cedeu e deitou na manta. As mãos foram cruzadas na altura do estômago e abriu um sorriso de satisfação, o céu estava cinza escuro e anunciava uma chuva forte. Inspirou fundo, sentiu a brisa marítima e manteve um sorriso de satisfação.
! - Ouviu um grito repentino e abriu os olhos assustada, tinha adormecido no quintal.
O coração estava acelerado ao gritarem novamente por ela e a entonação de desespero. Levantou num pulo e deu a volta pela casa, quando percebeu que alguém lhe chamava da entrada. Teve que segurar na pilastra da varanda para não cair ao ver o estado da mulher. Christine estava repleta de fuligem pelas partes expostas de seu corpo, o cabelo ruivo estava revolto, mas o que realmente assustou Freyja foi o olhar de desespero da jovem. Os olhos verdes sempre tão alegres e belos de admirar estavam vermelhos pelas lágrimas, além de tristeza.
— Ouve um incêndio na Tec! - Ela explicou num tom desesperado enquanto gesticulava e via a expressão congelada de .
— Meus pais! - A jovem gritou em desespero e atravessou o portão em desespero. Entrou no banco do carona do pequeno carro vermelho da vizinha e partiu em alta velocidade.
… - Ela tentou falar. Respirou fundo e continuou: — Suri e James… eles…

— Eles o quê, Christine? – perguntou num tom frio enquanto não desviava o olhar da rua de paralepípedos a frente, as mãos apertando o couro do banco até ficarem brancos. Estava tentando não se desesperar, precisava estar tranquila para ajudar.
Christine olhou o perfil da jovem e engoliu em seco por ser a pessoa a dar a notícia.
— Não foram encontrados no prédio.
Os olhos da jovem ficaram úmidos e lágrimas começaram a escorrer pelas bochechas. Quando ouviu as palavras da mais velha, virou o rosto em sua direção e o terror estava estampado.
— Eles estavam em qual área, Christine? – Sussurrou, olhando-a friamente. Apertou mais o couro enquanto descontava os sentimentos que estavam prestes a transbordarem.
Christine manteve-se em silêncio enquanto não desviava o olhar da direção, até que soltou o ar dos pulmões quando sentiu arderem.
— No laboratório de testes. - Disse num tom calmo, mas a voz evidenciava a gravidade da situação.
Por dentro, estava surtando, mas por fora, mantinha-se sob controle apesar das lágrimas que escorriam por seu rosto. Suas mãos continuaram travadas no couro do banco, uma tentativa de extravasar os seus sentimentos. Ocorrer um incêndio no prédio da Tec e você estar no laboratório de testes, significaria a morte. Os seus pais e todos os funcionários sempre evidenciaram esse fato, sabia de cor e salteado. E ter Suri e James lá no momento errado. Fechou os olhos e apertou ainda mais o banco, sentindo o início de uma dor no peito. Abriu os olhos ao sentir a parada brusca do carro e quando olhou a cena, o auto controle sumiu. Saiu do carro em disparada enquanto as lágrimas molhavam o seu rosto.
O prédio da Tec ficava numa área afastada de outras casas ou prédios, consistia num prédio principal espelhado e diversos galpões ao redor. Tinham várias ambulâncias atendendo aos funcionários, dois caminhões do bombeiro em que lançavam água no prédio. olhou para o prédio em chamas e para os rostos ao redor, todos conhecidos. Correu até o homem e agarrou-o pelo jaleco sujo de fuligem em desespero.
— Cadê eles, Eric? - Perguntou chacoalhando-o com força pelo jaleco, os olhos em desespero e o rosto banhado pelas lágrimas. — Cadê? - Insistiu.
O homem que costumava auxiliar o pai nas pesquisas, olhou-a desesperado, sem saber o que fazer.
— Eric! - Gritou em desespero, balançando-o novamente. — Onde? - Gritou sem soltá-lo, quase rasgando o jaleco. Um bombeiro veio por trás de e agarrou-a pela cintura, tentando afastá-la do homem que estava com o rosto repleto de desespero.
— Eu não pude fazer nada, . - Eric respondeu com a voz embargada e um olhar de vergonha que a jovem jamais esqueceria em sua vida. — Eles ficaram presos na sala e não conseguimos quebrar o vidro.
— Mas e o sistema? - Perguntou num tom desesperado enquanto tentava se livrar do aperto do bombeiro.
— Momentos antes do incêndio, o sistema caiu e não conseguimos fazer nada. - Explicou num tom de voz emocionado e secou algumas lágrimas.
— Mas você não estava com eles? - Perguntou num fio de voz ao perder as forças e ser amparada pelos braços do bombeiro.
— Tinha saído segundos antes do sistema cair e o anúncio do incêndio. - Explicou e encarou-a em desespero. — Me perdoe, ! Me perdoe! O seu pai me ordenou para que salvasse minha vida… Eu preferia ter queimado junto com eles ao invés de deixá-los para trás. - Confessou num tom desesperado enquanto colocava as mãos no cabelo e puxava-os, quase arrancando-os. Caiu de joelhos em frente a jovem e começou a chorar feito uma criança.
derramou lágrimas silenciosas e, até mesmo horas depois ao incêndio, não saberia dizer o que aconteceu com sua boca. Ela livrou-se do aperto dos braços do bombeiro e encarou Eric com uma expressão de extrema frieza.
— Teria sido melhor morrer queimado junto com eles, Eric. - Ela falou num tom de desprezo enquanto secava as lágrimas e o olhava bem dentro dos olhos. — Do que conviver com a imagem dos meus pais presos naquela sala e a vergonha de ser tão covarde a ponto de abandoná-los. - Finalizou enquanto o encarava friamente e virava as costas para o homem.
Eric ficou com a boca escancarada em incredulidade enquanto via a jovem partir e todos que estavam por perto, poderiam afirmar o que saiu da boca de . Ninguém acreditou que uma jovem que costumava ser adorada por todos, disse algo tão cruel, e nem ela mesma poderia acreditar em suas palavras.
Ela caminhou para fora do local, deixando toda a movimentação de pessoas para trás. Os olhos derramavam lágrimas silenciosas e embaçavam sua visão. Uma dor dilacerante e que parecia arrancar todo o ar de seus pulmões, caminhou mais
alguns metros até que as pernas fraquejaram. Quando os joelhos quase tocaram o chão, sentiu braços envolverem seu corpo e ampará-la.
. - Ouviu uma voz conhecida sussurrar o seu nome.
Ela fechou os olhos e liberou o sofrimento que estava dentro de si. Deu um grito que sufocava a alma.
— Os meus pais, Christine. - Chorou. — Os meus pais morreram.

👼👼👼


Ohio, EUA - 5 horas depois.

— Não foi um sonho. - repetiu para si mesma enquanto envolvia os joelhos e encolhia-se no chão. O olhar da jovem estava preso ao homem ensanguentado que estava morto. Ele estava de bruços no chão da cozinha e uma poça de sangue ao redor. A cozinha e a sala estavam uma bagunça, tudo revirado.
Ela o matou, tirou sua vida com as próprias mãos. Assim como Davina avisou que fariam, eles vieram atrás dela. E estava agradecida por não terem encontrado sua mãe, apenas ela.
— Não foi um sonho. - Sussurrou várias vezes, encarando o corpo.
Ela ouviu um som de passos e parecia que mais alguém estava entrando na casa. Agarrou a faca que estava suja de sangue e caída ao seu lado no chão. Segurou o cabo com força enquanto chorava baixinho.
— Calma, . Somos nós… - Davina falou num tom calmo, mas tinha uma expressão de preocupação enquanto estendia as mãos num gesto para mostrar que estava desarmada. A mulher encarou o corpo ao chão e cutucou-o com a bota.
Sussurrou algo e fez um sinal para o rapaz que a acompanhava. Ajoelhou-se ficando na altura da jovem e tirou a faca de suas mãos trêmulas.
— Bom trabalho, . - Elogiou-a num tom baixo e colocou a faca no chão. — Vamos cuidar de tudo. - Tranquilizou-a enquanto a envolvia com os seus braços e ouvia o choro da jovem que tremia. Puxou uma seringa discretamente e espetou-a na nuca da jovem. Ela tentou se libertar dos braços da mais velha, mas o corpo foi ficando mole e sem forças até que a visão escureceu e tudo se apagou.
👼👼👼


— Vocês demoraram. - falou num tom frio, a expressão sem qualquer resquício de emoção enquanto sentava-se na manta e encarava o mar cinzento abaixo no penhasco. Ouviu passos na grama atrás de si e um suspiro.
— Eu sinto muito por eles. - A voz feminina de seu sonho falou.
— Todos nós sentimos. - Rebateu fria. — Foi ele, né? - Perguntou.
Quando não recebeu uma resposta, virou-se para trás e viu a mulher com uma expressão séria.
— Responda. - Ordenou ainda contorcendo-se para trás, encarando-a.
— Foi e faremos com que pague.
confirmou com um gesto de cabeça.
— Eu farei com que pague.
— Nós faremos isso juntas.
negou, voltando a encarar o céu cinzento e o mar a sua frente. Fechou os olhos para evitar a nova onda de lágrimas e soltou o ar dos pulmões. Levantou-se, dobrou a manta e jurou para si mesma que vingaria a morte de seus pais. Três dias que enterraram os caixões vazios e que Eric apareceu morto em sua casa. Além de carregar o peso da vingança, sentia-se como se fosse a responsável pela morte do homem. Foram as suas palavras cruéis que o machucaram e agora, teria que carregar o fardo. Ela teria que vingá-los e iria, mesmo que custasse a própria vida.
Virou-se e encarou Davina novamente. Fez um gesto afirmativo com a cabeça e seguiram até um carro que estava parado em frente a casa. Quando entrou no banco traseiro do veículo, a mulher acomodou-se ao seu lado e logo, sentiu uma picada no pescoço. Tentou reagir, mas o corpo ficou fraco até que a visão escureceu.
Mas as palavras sussurradas da mulher não lhe escaparam.
— Ele vai pagar, . Iremos fazê-lo pagar.

👼👼👼


estava concentrada em sua respiração enquanto saía do ringue. Espreguiçou-se e arrumou alguns tatames que estavam fora de posição. O lugar estava vazio e os pais já estavam dormindo. Ela ficou fazendo algumas tarefas até bem tarde, pois o sonho e o susto com o sumiço da mãe tinham mexido com os seus nervos.
— Você precisa vir. - xingou baixo enquanto colocava a mão em direção ao peito e respirou fundo tentando se acalmar. Virou-se numa expressão irritada e encarou o dono da voz que esteve presente em seus sonhos.
— Não foi um sonho. - Ela afirmou enquanto cruzava os braços e o encarava com desprezo.
O rapaz abriu um sorriso debochado e imitou a pose da jovem.
— E você acha que eu seria apenas um sonho? - Ele perguntou convencido. revirou os olhos.
— O que veio fazer aqui? - Perguntou secamente.
— As outras foram atacadas e aceitaram vir com a gente. Decidimos te dar a opção de escolher. - Ele falou num tom sério, abandonando a expressão de deboche.
Ela massageou as têmporas e soltou o ar dos pulmões, deixou os braços descansarem ao lado do corpo.
— Elas estão bem?
Ele deu de ombros e encarou-a seriamente.
— Você é uma garota esperta, vai saber o que é melhor para si e sua família.
— Acha que podem vir? - Perguntou apreensiva.
— Eles virão. Foram até elas, a próxima é você.
Os pelos da nuca de se eriçaram e um mau pressentimento lhe atingiu em cheio. A sua ficha caiu e entendeu que enquanto permanecesse ali, os seus pais e até mesmo, os alunos correriam perigo. Mas como deixaria os seus pais desprotegidos?
E como se lesse os pensamentos da jovem, o rapaz respondeu a pergunta silenciosa.
— Cuidaremos deles. - Garantiu e sua expressão de alguma forma, trouxe certeza para a jovem.
Concluiu que confiava nele.
— Tudo bem. Eu vou, mas se algo acontecer…
— Confie em mim.
Olharam-se em silêncio por alguns minutos, até que o rapaz se aproximou e por poucos segundos, pensou que ele fosse abraçá-la. Ele apenas puxou uma seringa do bolso e espetou rapidamente, impedindo que pudesse desviar. Agarrou-a antes que caísse ao chão e olhou-a adormecida em seus braços. Cuidaria da família dela, como se fosse a sua.




Continua...



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Nota da beta: Eita que o negócio está começando a esquentar, hein?! No aguardo de mais!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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