Última atualização: 18/05/2018

Capítulo 1

Der Mond ist rot vom Sternenblut
Und auch in mir ist Fieberglut
Es glüht das ganze Firmament
Das kommt weil meine Seele brennt


Subway to Sally - Meine Seele brennt

A lua é vermelha por causa do sangue das estrelas
E há febre em mim também
O firmamento brilha todo
Porque minha alma está pegando fogo


2018

tinha três nomes e gostava que lhe chamassem por apenas um deles. Quando seu chefe o chamou pelo seu nome completo, ele se assustou, rabiscando a cópia do projeto de um motor que trabalhava.
Luitger Pascal!
— Senhor?!
— Venha comigo ao pátio.
— O que aconte...
— Só venha, homem!
Ele acompanhou o chefe pelo corredor do último andar. No elevador, nenhuma palavra.
foi percebendo que as pessoas não estavam em suas posições de trabalho, como seria o certo para uma sexta feira às quatro da tarde. Seu chefe era o CEO de uma empresa automobilística e muito pouco carismático com seus funcionários. Não era do seu feitio ser conversador ou casual e isso fez a tensão crescer no pobre homem dos três nomes. Antes de descerem para o pátio coberto que servia de estacionamento no prédio comercial, finalmente ele compreendeu.
— Feliz Férias! — Disse-lhe o CEO, dando-lhe um abraço.
— O quê?
foi envolvido por uma onda de pessoas que se acumularam na porta do estacionamento apertando sua mão e sorrindo, deixando-o desconfortável.
— O conde está de férias! — Alguém disse.
— Não sou conde...
— Foi uma decisão do departamento de crescimento humano que fizéssemos uma festa para comemorar suas férias. — disse o diretor de tecnologia colocando uma caneca de cerveja na mão de .
Sorrindo, o homem ativou a carapuça diplomática e agradeceu. Ele sabia que aquela era também uma chance de comemorar com a sua equipe o fechamento absurdo das vendas do fim de verão em quase 115%, uma meta inédita e que iria aumentar a carteira de todos os envolvidos.
Bebeu a caneca em sua mão e logo encheu outra, um amigo ofereceu um whisky irlandês e ele aceitou sem hesitar. Em um momento da festa, ouviu mais de seus subordinados diretos sobre o que fazer nas férias do que de seus colegas de gravata. Os primeiros lhe diziam para ele fazer bungee jump num lago no sul e ver novas séries de tv, enquanto que os últimos lhe passavam uma extensa lista de restaurantes e bares onde a água mineral custaria metade do salário dele.
Em uma dessas conversas, ele subitamente sentiu uma dor no peito.
Era uma dor comum a qual ele suportava pacificamente desde que se recorda em sentir. Durante sua vida ele consultou médicos e fez exames, mas nada foi capaz de diagnosticar o que poderia ser essa agonia que surgia em momentos imprevisíveis e não era física. Os psicólogos lhe disseram que poderia ser algo para lembrá-lo de uma responsabilidade, por conta de algum trauma infantil. Um padre já lhe disse para rezar três ave marias quando isso acontecesse. Nada foi efetivo. A dor surgia e desaparecia e de tão acostumado, ele nem mesmo desfazia a expressão serena que carregava.
Enquanto sua colega contava uma piada sobre o CEO e um cupê, ergueu os olhos sobre o ombro dela e notou uma mulher de costas e cabelos longos. Algo naquela imagem feminina fez ficar ansioso e rapidamente ele driblou a colega para ir até a mesa onde a moça estava de costas.
Antes que que aproximasse, a mulher se virou e ele parou no meio do caminho. A sensação de agonia dissipou no momento que a identificou como uma das engenheiras de campo de seu departamento. Ela seria uma oportunidade de uma aventura ébria, mas ele não teve vontade naquele momento. Virou o resto do whisky na garganta e voltou às conversas.
não bebeu mais e foi para a casa sorrateiramente enquanto os mais empolgados continuaram. Não podia acabar embriagado, porque era sua noite de vigília.

****


Nos dias de lua nova perdia o sono. Poderia ser culpa de algo místico, mas na verdade ele não conseguia dormir porque sabia que teria pesadelos. Por fim acabava acordado sentado na poltrona em seu quarto, passando os olhos pela mesma frase de um livro que demorava muito para terminar ou vendo o mesmo filme que já vira antes, ou qualquer outra coisa que não o deixasse dormir.
Mais que uma superstição, as noites de lua nova e insônia eram um hábito. Em alguns meses durava duas noites, em outros, quase uma semana. Enquanto a primeira fímbria de lua não surgia no céu, as pálpebras de não se fechavam.
Mas, naquele dia com a ajuda do álcool, adormeceu.

Um homem anda com dificuldade por conta de seu casaco pesado. Faz frio. O chão treme, pois pessoas estão batendo o pé na terra e levantando gotas de barro. Este homem que vê tudo, corre tentando passar por meio dos civis e nem percebe que alguns roubam-lhe as correntes douradas ou pedaços de sua roupa. Por fim, tira a capa de pele de urso para poder passar livremente e os plebeus pulam sobre ela para garantir um pedaço para o inverno.
O homem de repente sente o cheiro de queimado acoitando-lhe o rosto e o calor surgindo. Ele teme, ele teme por tudo o que já temeu antes. Em algum lugar, ouve uma voz conhecida proclamando a palavra sagrada de um deus injusto em latim.
Ele continua correndo até chegar frente a uma fogueira. Ele tromba em um padre que ora em círculo com outros, e quase cai de joelhos em frente a uma fogueira no momento que o carrasco move mais madeira.
Quando ele ergue os olhos, sobre as chamas que se iniciam, ele vê uma mulher. A mulher que ele ama, ele sabe, lá dentro ele sabe que ele nunca mais irá amar uma mulher como aquela. Ele chora.
O padre que estivera orando, olha para o homem que atravessou a barreira de monges e noviços, seus olhos são claros como um espelho e ele sorri.
A mulher chama seu nome. Chama alto e grita para que ele a tire de lá. Uma madeira estala e se rompe, voando em direção ao seu rosto bonito. Ela desmaia de dor no mesmo momento e sua cabeça pende sobre as cordas.
O homem que chora age e pula sobre o fogo.


despertou com um grito. Seu corpo inteiro ardia e sua camiseta estava úmida de suor. Demorando para perceber que era um sonho, sente o cheiro de queimado e corre até a cozinha: deixou uma panela no fogo e agora ela estava com o fundo chamuscado e o saco de chá seco dentro dela. Irritado, ele jogou a panela sobre a pia, molhou o rosto e a nuca ali mesmo. O que foi isso.  Ele sabia que era lua nova e que acabara adormecendo, mas dentre todos os pesadelos, ele nunca havia sentido uma onda de apreensão tão grande, muito menos acordado tão suado e com as mãos pinicando como se insetos o tivessem picado.
Seu celular tocou e ele atendeu ainda com a voz assustada. Ele sabia quem estava ligando.
Olá irmãozinho. Lua nova, não é? — a voz do outro lado era grossa.
— Leo.
Quando vem me ver?
— No final da próxima semana, acredito...
Vou precisar de você antes. Adiantei a restauração da ala leste do terceiro andar Kempenich e infelizmente não poderei me ater a detalhes pequenos...
— Leo, você sabe que não me interesso. — interrompeu .
Eu preciso de um favor.  Na verdade – a voz sibilou – preciso para daqui a pouco. A arquiteta chefe adiantou seu voo para avaliar um problema que não havíamos previsto e não tenho ninguém para buscá-la em Hazenport.
— Mande um táxi, eu estou ocupado.
Ocupado com seus pesadelos? A mulher precisa de um representante Eltz para recebê-la bem. Já que estou um pouco debilitado, achei que poderia contar com você.
Fez-se silêncio.
Eu conheço você bem, meu irmão. Sua voz está igual quando acordava com medo quando você ainda morava aqui. Com o que sonhou?
— Com nada que me lembro. Sinto muito mas não posso ajudá-lo. Vou passar as férias viajando.
É mesmo? Para onde?
— Para ver mamãe.  
Escute, , meu querido irmão... – Nessa hora já sabia o que viria a seguir. — Estou debilitado com a última medicação. Não posso garantir que a moça esteja segura aqui amanhã pela manhã sem alguém de minha confiança e com o meu selo. Isso significa muito para mim, é a primeira restauração desde 1920. Você sabe que se eu estivesse em condições de viajar, eu iria.
suspirou. Olhou o relógio na parede da sala: 1:30 am.
— Mande alguém, , são quase quatro horas de carro até Wierschem eu estou exausto...
Você já está acordado, irmão, e além do mais não vai voltar a dormir.
se calou e passou a mão sobre a sexta molhada.
— Tudo bem. Me mande os dados da mulher ou algo que me faça reconhecê-la.
E assim, exausto, concordou. E menos de uma hora depois, estava na estrada.


Capítulo 2

Es wird Morgen und du weißt
Zwei Seelen sind in deinem Leib
Und am Tag kannst du nicht leugnen
Was dich in die Nächte treibt.


Faun - Hörst du die Trommeln

A manhã começa e você sabe
Duas almas estão no seu corpo
E de dia você não pode negar
O que te guia durante as noites


2018

quase dormia com o rosto afundado no xadrez Burberry de seu sobretudo quando ouviu a voz do motorista acordá-la.   — Senhorita, é aqui.
Ela rapidamente desceu e pagou uma gorjeta gorda ao homem que havia concordado em levá-la às cinco da manhã na propriedade Eltz, a trinta minutos de Wierschem.
O taxista achou estranho ela querer ir para a propriedade privada da residência dos Eltz em vez do Castelo. O povo de Wierschem não conhecia nada sobre a casa ou evitavam falar do assunto.
— Boa sorte na restauração do castelo. Se precisar de um meio de ir para lá, me procure. É perigoso fazer o trajeto daqui até lá a pé. — Disse o taxista.
— Obrigada, mas acredito que o conde irá me ajudar a chegar até o castelo. Vou ficar aqui na casa dele e depois vou para lá.
O taxista ergueu a sobrancelha e assentiu, ligando o carro e saindo dali. achou estranha a súbita mudança de humor dele e pensou se falou alguma palavra em alemão errada.
Era sabido, entre os historiadores, que a família Eltz vinha por anos mantendo restaurações escondidas e longe dos holofotes. Quando recebeu o convite do próprio conde Eltz para restaurar áreas do famoso Castelo, ela ficou feliz; Mas quando ele lhe disse para encontrá-lo em sua propriedade privada, ela aceitou o trabalho na hora.
No século XVIII o Castelo Eltz foi confiscado pela onda de revoluções anti-monarquistas que queria destituir tudo o que inspirava a nobreza. A Mansão Eltz havia sido projetada neste tempo para abrigar a família próxima ao castelo, mas escondido na floresta e nas montanhas. Ninguém tinha registro fotográfico do interior do lugar, e o mito que os Eltz escondiam obras de arte do governo alemão, só aumentava.
A casa por fora lembrava a estrutura de um chateau com arquitetura tradicional neoclássica das casas senhoriais do século de sua criação. Longas janelas distribuíam a fachada sob tetos cuneiformes desbotados pelo tempo. Não transmitia luxo, mas conforto.
Pelas fotos e suas pesquisas não achou que a mansão seria grande ou que a fizesse lembrar do Chateau de Balleroy, mas logo se recordou que a geração que construiu aquele recanto, recebeu influências de artistas e arquitetos franceses.
Ela pensava em tudo isso e tentava esconder o riso, enquanto estava parada com o queixo erguido na soleira da entrada, segurando sua mala. A porta principal se abriu e um homem jovem e bem vestido surgiu. Ele usava um fraque e luvas brancas. O lenço em seu peito trazia o brasão da família Eltz.
— Senhorita -Maria , se eu estou certo. — Ele curvou gentilmente. — Seja bem-vinda a Mansão e Propriedade Eltz.
— Muito obrigada, você está certo. Qual é seu nome? — perguntou , deixando o homem carregar sua maleta.
— Altmeyer, o majordomus. Sirvo a casa Eltz como meus pais fizeram e os pais deles.
— Hum. — disse , espantada com a corrente ininterrupta da exploração da força de trabalho de uma família. Calou seus pensamentos materialistas históricos rapidamente.
— O Edlerherr von Eltz und zu Kemperich está a sua espera para o desjejum. A senhorita pode se referir a ele como Conde Eltz-Kemperich ou Edlerherr Eltz-Kemperich, pois o título inteiro não precisa ser pronunciado a todo momento.
assentiu, atenta a decoração rococó no canto das paredes até o chão. A mansão por dentro fora decorada conforme mandava a moda do século e ver tudo bem preservado renovou o humor da mulher, deu-lhe energia. A pressão que ela sentia sobre o peito desde a hora que seu avião desceu em solo alemão se aliviou. Ela foi encaminhada por Altmeyer por um salão de música com um piano e uma harpa, uma biblioteca particular e outros espaços amplos até uma última porta. A mansão era compacta, mas transmitia um ar de muito requinte e historicidade conservada.
— Levarei sua mala até seu quarto.
— Meu quarto? Tudo bem...
— Altmeyer, senhorita.
— Não esquecerei mais. — fingiu um sorriso e o mordomo abriu a porta.
A sala de jantar era ampla e iluminada pela luz do sol pelas janelas altas. Um homem solitário, sentado a ponta de uma grande mesa, lia um jornal. Atrás dele havia um afresco com vários elementos que não prestou atenção no momento.
— Herr Conde e Edler von Eltz und zu Kempenich, esta é -Maria . — Anunciou Altmeyer.
— Senhorita . É um prazer recebê-la nesta manhã.
— Senhor... ou todos os nomes que seu mordomo me instruiu te chamar... Eltz. Sinto muito mas nunca consigo me lembrar os títulos completos dos nobres para quem trabalho.
— Chame-me de , é o suficiente. — Ele se ergueu. — Meu nome inteiro é cansativo e o título também.
A voz do conde Eltz ecoou pelo salão como se ricocheteasse pelas janelas e as fizesse vibrar, era de uma rouquidão requintada com cada letra pronunciada com perfeição.
— Junte-se a mim, por favor. — Estendeu a mão. — Os pains au chocolat ainda estão quentes.
— Agradeço o convite, , estou faminta. As bolachas secas servidas no trem ainda estão ardendo minha garganta.
— Nada mais justo a oferecer a dona das mãos que irão cuidar do meu castelo-museu nos próximos dias. Espero que esteja ciente de que qualquer um da minha curta família ou da minha extensa turma de empregados estará a sua disposição para as próximas semanas.
sentiu a textura dos anéis de ouro do conde quando apertou sua mão quente. Agora, vendo-o de perto, viu que ele usava um terno casual para um sábado de negócios com uma restauradora. Ainda que usasse abotoaduras douradas, algo nele despertava um desleixo proposital como a camisa cinza ou uma corrente de ouro sobre o pescoço pálido. Ele gentilmente se colocou atrás dela para tirar o casaco, apoiando-se numa bengala estilizada.
— Altmeyer está lento com os modos. Se me permite... — disse, retirando com cuidado e entregando o sobretudo dobrado para uma das empregadas ali à postos. — Leve isto para os aposentos da senhorita .
— Meus aposentos?
— Sim, achei que seria justo que tivesse um local em minha casa para que pudesse ir e vir quando desejasse. O castelo está há poucos quilômetros daqui.
— Eu agradeço, , mas não pretendo gastar demais de sua boa vontade. Ficarei aqui até me adaptar a Wierschem e procurarei um hotel.
— Como desejar.
Quando se sentaram, observava o conde e notou que usava uma sonda transparente diretamente nas narinas, presa por um fino tubo preso atrás das orelhas.
— Ah, isto. Não repare, por favor. Fico sem ar pela manhã. Às vezes você me verá com ela.  Assim como verá minha sombra manca se esgueirando pelas colunatas daqui.
— É imperceptível. — disse.
— Não para os olhos de alguém que trabalha para a história da beleza, não é mesmo? — o conde disse distraído. — A minha feiura será o contraste do seu trabalho por esses dias, eu sinto muito informá-la.
— Desde que entrei pela porta principal dessa casa não vi nada feio.  — Enquanto respondia, olhou o rosto do homem. Com os ossos do rosto bem esculpidos, dois olhos extremamente claros refulgiam a luz do sol que entrava pelas janelas, emoldurados pelas laterais raspadas do cabelo do homem e seus lábios ligeiramente ressecados. Ela percebeu que, assim como o castelo que cuidaria, iria gastar muito tempo observando aquele homem até seu último minuto de estadia ali.
O conde sorriu, fingindo certa timidez pelo floreio da arquiteta e a atenção que ela prestava nele. observou o banquete de desjejum a sua frente, com muito mais comida do que duas pessoas seriam capazes de comer as seis da manhã.
Conversaram sobre a arquitetura do salão e o afresco atrás da cadeira do conde, que se estendia do teto ao chão. Ele lhe contou detalhes sobre a criação daquela obra e o segredo que reservava: datava de 1810, feito para agradar uma moça que um dos condes cortejava, mas que acabou morrendo sem vê-lo pronto.
Com opiniões fortes sobre arquitetura, o conde conversava com tranquilidade e ouvia com cuidado a explicação de sobre a grossura que um vidro da janela deveria ter para aguentar a temperatura de 1800°C. Ele serviu café a e ela percebeu as veias saltadas e manchas roxas sobre as costas da mão dele.
Ainda falando sobre arquitetura e justificativas do conde sobre porque sua família optou por manter aquela casa longe dos civis, ele foi interrompido. A porta na extremidade do salão abriu com força. Um homem segurando uma mala de couro numa mão e casaco na outra entrou e fechou a porta.
— Então é essa a arquiteta que você mandou seu chofer especial esperar em Hazenport?
— Irmãozinho, que bom ver você de novo.
— Estou viajando a horas em alta velocidade, passando em sinais vermelhos para não deixar a moça sozinha e ainda fiquei a madrugada inteira no frio desgraçado da estação por nada.
ficou assustada com a brutalidade do homem estranho, o contrário de seu irmão.
— Eu peço mil desculpas...
— Desculpas, ?
— Você deveria se apresentar corretamente a nossa nova convidada: -Maria Köning, que será a profissional responsável por toda restauração da área Rübenach no próximo semestre.
O homem que acabara de chegar encarou de cima, sem sentimento ou opinião sobre sua presença, com os mesmos olhos cristalinos do irmão.
— Meu irmão já fingiu que desmaiou sem ar para que você fosse ajudá-lo?
Perdão?
— É típico dele. Fingir uma crise asmática para chamar atenção. Ele faz isso para todas as mulheres que traz para se hospedar aqui.
Fez-se um silêncio tenso.
Altmeyer. — o mordomo surgiu na porta. — Guie senhorita para onde ela deseja ir primeiro. — O conde suspirou e apanhou uma cigarreira dourada do bolso, tirando um cigarro fino de lá. — , se não se importar em acompanhá-lo. Eu e meu irmão precisamos conversar.
— Será um prazer. — finalizou o café e se ergueu. — Mande me chamar se precisar de ajuda com sua crise asmática, . Não irei recusar uma ajuda, ainda que falsa. — Apanhou um pain au chocolate e passou pelo irmão do conde sem olhá-lo, deixando os Eltz às sós no silêncio.
pensou ter ouvido um sino parecido com seu alarme do celular, mas quando o apanhou não viu nada na tela além do wallpaper da catedral de Westminster. Altmeyer guiou a convidada em silêncio. Quando passaram para o segundo andar, ela se deteve para observar a tapeçaria que pendia ali.
— Altmeyer, esta tapeçaria tem quantos anos?
— Sinto muito, senhorita , mas o edlerherr foi explícito em me ordenar a não responder qualquer pergunta que a senhorita tenha sobre a decoração, pois ele mesmo quem deseja lhe responder.
ergueu as sobrancelhas e se calou.
Em uma ala onde a decoração das paredes lembrava algo de feminino e infantil, com tons rosados e pinturas de musas, Altmeyer abriu uma porta dupla e revelou o aposento onde ela ficaria. O teto era alto e a janela tomava quase toda parede atrás da cama.
— Caso se incomode com a luz podemos trocar a cama de lugar.
olhou para a cama de dossel e madeira maciça que deveria pesar muito.
— Não se preocupe, está perfeito.
— Ethel será a encarregada de qualquer ajuda pessoal que a senhora possa precisar. Para acioná-la é só puxar o sino ao lado da cama e ela subirá o mais rápido possível.
— Isso existe até hoje? Sinos para chamar empregados?
— Definitivamente, senhorita, por que não?
— Achei que os russos tinham mandando acabar com isso.
Altmeyer expressou-se pela primeira vez, escondendo um riso. — Seu senso de humor é algo refinado, senhorita . Acredito que terá uma boa estadia. — E dito isso, saiu.
respirou pesado, ainda revendo todos os fatos da sua chegada até ali. A intensidade da presença do conde havia lhe prensado o peito e agora, longe dele, parecia respirar mais aliviada. Com o surgimento do outro Eltz ela ficara subitamente ofendida por sua presença rude.
Ela abriu uma das frestas da janela para respirar um pouco de ar frio e para arejar o cheiro forte de alfazema que emanava dos lençóis quando ouviu algo.
— Você foi totalmente um bruto! — a voz era do conde.
— Você foi totalmente filho da puta. Podia ter me avisado, ! O que lhe custava?
Você...você precisa se acalmar, , parar com seus shows de ira!
As vozes altas viam do pátio. esgueirou no canto da cortina para ver, viu que era as costas da casa, onde havia um jardim. Os dois homens discutiam na porta de um galpão ao lado da estufa com a porta aberta. O conde pendia sobre sua bengala, com o cabelo bagunçado pelo vento e gesticulando. O outro homem entrava dentro do galpão e quando saiu empurrando uma moto, ouviu mais um pedaço de sua voz.
— ... se você despendesse tempo para buscar uma caolha também ficaria irado! Eu já lhe disse uma vez e vou voltar a dizer: Eu não dou a mínima para aquele castelo idiota. Nem para você. Rezo todos os dias para que ele caia em cima de você e enterre toda essa merda.
arfou.
— E a sua herança? E o seu dinheiro?
— Eu trabalho e pago minhas contas, diferente de você! — disse o irmão do conde, subindo sobre a moto, sobre o cascalho. — Que fica sugando da herança de um bando de estupradores aristocratas, bancando o conde Drácula aleijado escondido nas montanhas!
Eu sou o responsável por cuidar da herança de uma família secular, fardo que era para ser seu. —  a voz do conde voltou a ser baixa e ameaçadora e não conseguiu ouvir direito.
— Quer me dar o fardo? Pode me dar. Encho aquela merda de dinamite e vai tudo pelos ares.  — o irmão do conde acelerou pela trilha de cascalho, virando para a frente da casa. O conde jogou o cigarro no chão e ficou apoiado sobre sua bengala.
desviou o olhar para a estrada e quando voltou a ver o conde, viu que ele a olhava diretamente. Ela se assustou e recuou, caindo sobre um criado mudo. O conde a olhara por um segundo com seus olhos cinzas e ela sentiu muito medo. De onde veio isso? Quando olhou de novo, o conde não estava mais lá.
Então sentiu-se muito cansada e se sentou sobre a cama. Respirou fundo de novo. Viu seu rosto ser refletido no espelho da parede a sua frente e levou a mão ao seu único olho negro, enquanto olhava pelo seu único olho castanho.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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