FFOBS - Des Roten Faden, por Amanda Bento

Última atualização: 03/08/2018

Capítulo 1

Der Mond ist rot vom Sternenblut
Und auch in mir ist Fieberglut
Es glüht das ganze Firmament
Das kommt weil meine Seele brennt


Subway to Sally - Meine Seele brennt

A lua é vermelha por causa do sangue das estrelas
E há febre em mim também
O firmamento brilha todo
Porque minha alma está pegando fogo


2018

tinha três nomes e gostava que lhe chamassem por apenas um deles. Quando seu chefe o chamou pelo seu nome completo, ele se assustou, rabiscando a cópia do projeto de um motor que trabalhava.
Luitger Pascal!
— Senhor?!
— Venha comigo ao pátio.
— O que aconte...
— Só venha, homem!
Ele acompanhou o chefe pelo corredor do último andar. No elevador, nenhuma palavra.
foi percebendo que as pessoas não estavam em suas posições de trabalho, como seria o certo para uma sexta feira às quatro da tarde. Seu chefe era o CEO de uma empresa automobilística e muito pouco carismático com seus funcionários. Não era do seu feitio ser conversador ou casual e isso fez a tensão crescer no pobre homem dos três nomes. Antes de descerem para o pátio coberto que servia de estacionamento no prédio comercial, finalmente ele compreendeu.
— Feliz Férias! — Disse-lhe o CEO, dando-lhe um abraço.
— O quê?
foi envolvido por uma onda de pessoas que se acumularam na porta do estacionamento apertando sua mão e sorrindo, deixando-o desconfortável.
— O conde está de férias! — Alguém disse.
— Não sou conde...
— Foi uma decisão do departamento de crescimento humano que fizéssemos uma festa para comemorar suas férias. — disse o diretor de tecnologia colocando uma caneca de cerveja na mão de .
Sorrindo, o homem ativou a carapuça diplomática e agradeceu. Ele sabia que aquela era também uma chance de comemorar com a sua equipe o fechamento absurdo das vendas do fim de verão em quase 115%, uma meta inédita e que iria aumentar a carteira de todos os envolvidos.
Bebeu a caneca em sua mão e logo encheu outra, um amigo ofereceu um whisky irlandês e ele aceitou sem hesitar. Em um momento da festa, ouviu mais de seus subordinados diretos sobre o que fazer nas férias do que de seus colegas de gravata. Os primeiros lhe diziam para ele fazer bungee jump num lago no sul e ver novas séries de tv, enquanto que os últimos lhe passavam uma extensa lista de restaurantes e bares onde a água mineral custaria metade do salário dele.
Em uma dessas conversas, ele subitamente sentiu uma dor no peito.
Era uma dor comum a qual ele suportava pacificamente desde que se recorda em sentir. Durante sua vida ele consultou médicos e fez exames, mas nada foi capaz de diagnosticar o que poderia ser essa agonia que surgia em momentos imprevisíveis e não era física. Os psicólogos lhe disseram que poderia ser algo para lembrá-lo de uma responsabilidade, por conta de algum trauma infantil. Um padre já lhe disse para rezar três ave marias quando isso acontecesse. Nada foi efetivo. A dor surgia e desaparecia e de tão acostumado, ele nem mesmo desfazia a expressão serena que carregava.
Enquanto sua colega contava uma piada sobre o CEO e um cupê, ergueu os olhos sobre o ombro dela e notou uma mulher de costas e cabelos longos. Algo naquela imagem feminina fez ficar ansioso e rapidamente ele driblou a colega para ir até a mesa onde a moça estava de costas.
Antes que que aproximasse, a mulher se virou e ele parou no meio do caminho. A sensação de agonia dissipou no momento que a identificou como uma das engenheiras de campo de seu departamento. Ela seria uma oportunidade de uma aventura ébria, mas ele não teve vontade naquele momento. Virou o resto do whisky na garganta e voltou às conversas.
não bebeu mais e foi para a casa sorrateiramente enquanto os mais empolgados continuaram. Não podia acabar embriagado, porque era sua noite de vigília.

****


Nos dias de lua nova perdia o sono. Poderia ser culpa de algo místico, mas na verdade ele não conseguia dormir porque sabia que teria pesadelos. Por fim acabava acordado sentado na poltrona em seu quarto, passando os olhos pela mesma frase de um livro que demorava muito para terminar ou vendo o mesmo filme que já vira antes, ou qualquer outra coisa que não o deixasse dormir.
Mais que uma superstição, as noites de lua nova e insônia eram um hábito. Em alguns meses durava duas noites, em outros, quase uma semana. Enquanto a primeira fímbria de lua não surgia no céu, as pálpebras de não se fechavam.
Mas, naquele dia com a ajuda do álcool, adormeceu.

Um homem anda com dificuldade por conta de seu casaco pesado. Faz frio. O chão treme, pois pessoas estão batendo o pé na terra e levantando gotas de barro. Este homem que vê tudo, corre tentando passar por meio dos civis e nem percebe que alguns roubam-lhe as correntes douradas ou pedaços de sua roupa. Por fim, tira a capa de pele de urso para poder passar livremente e os plebeus pulam sobre ela para garantir um pedaço para o inverno.
O homem de repente sente o cheiro de queimado acoitando-lhe o rosto e o calor surgindo. Ele teme, ele teme por tudo o que já temeu antes. Em algum lugar, ouve uma voz conhecida proclamando a palavra sagrada de um deus injusto em latim.
Ele continua correndo até chegar frente a uma fogueira. Ele tromba em um padre que ora em círculo com outros, e quase cai de joelhos em frente a uma fogueira no momento que o carrasco move mais madeira.
Quando ele ergue os olhos, sobre as chamas que se iniciam, ele vê uma mulher. A mulher que ele ama, ele sabe, lá dentro ele sabe que ele nunca mais irá amar uma mulher como aquela. Ele chora.
O padre que estivera orando, olha para o homem que atravessou a barreira de monges e noviços, seus olhos são claros como um espelho e ele sorri.
A mulher chama seu nome. Chama alto e grita para que ele a tire de lá. Uma madeira estala e se rompe, voando em direção ao seu rosto bonito. Ela desmaia de dor no mesmo momento e sua cabeça pende sobre as cordas.
O homem que chora age e pula sobre o fogo.


despertou com um grito. Seu corpo inteiro ardia e sua camiseta estava úmida de suor. Demorando para perceber que era um sonho, sente o cheiro de queimado e corre até a cozinha: deixou uma panela no fogo e agora ela estava com o fundo chamuscado e o saco de chá seco dentro dela. Irritado, ele jogou a panela sobre a pia, molhou o rosto e a nuca ali mesmo. O que foi isso.  Ele sabia que era lua nova e que acabara adormecendo, mas dentre todos os pesadelos, ele nunca havia sentido uma onda de apreensão tão grande, muito menos acordado tão suado e com as mãos pinicando como se insetos o tivessem picado.
Seu celular tocou e ele atendeu ainda com a voz assustada. Ele sabia quem estava ligando.
Olá irmãozinho. Lua nova, não é? — a voz do outro lado era grossa.
— Leo.
Quando vem me ver?
— No final da próxima semana, acredito...
Vou precisar de você antes. Adiantei a restauração da ala leste do terceiro andar Kempenich e infelizmente não poderei me ater a detalhes pequenos...
— Leo, você sabe que não me interesso. — interrompeu .
Eu preciso de um favor.  Na verdade – a voz sibilou – preciso para daqui a pouco. A arquiteta chefe adiantou seu voo para avaliar um problema que não havíamos previsto e não tenho ninguém para buscá-la em Hazenport.
— Mande um táxi, eu estou ocupado.
Ocupado com seus pesadelos? A mulher precisa de um representante Eltz para recebê-la bem. Já que estou um pouco debilitado, achei que poderia contar com você.
Fez-se silêncio.
Eu conheço você bem, meu irmão. Sua voz está igual quando acordava com medo quando você ainda morava aqui. Com o que sonhou?
— Com nada que me lembro. Sinto muito mas não posso ajudá-lo. Vou passar as férias viajando.
É mesmo? Para onde?
— Para ver mamãe.  
Escute, , meu querido irmão... – Nessa hora já sabia o que viria a seguir. — Estou debilitado com a última medicação. Não posso garantir que a moça esteja segura aqui amanhã pela manhã sem alguém de minha confiança e com o meu selo. Isso significa muito para mim, é a primeira restauração desde 1920. Você sabe que se eu estivesse em condições de viajar, eu iria.
suspirou. Olhou o relógio na parede da sala: 1:30 am.
— Mande alguém, , são quase quatro horas de carro até Wierschem eu estou exausto...
Você já está acordado, irmão, e além do mais não vai voltar a dormir.
se calou e passou a mão sobre a sexta molhada.
— Tudo bem. Me mande os dados da mulher ou algo que me faça reconhecê-la.
E assim, exausto, concordou. E menos de uma hora depois, estava na estrada.


Capítulo 2

Es wird Morgen und du weißt
Zwei Seelen sind in deinem Leib
Und am Tag kannst du nicht leugnen
Was dich in die Nächte treibt.


Faun - Hörst du die Trommeln

A manhã começa e você sabe
Duas almas estão no seu corpo
E de dia você não pode negar
O que te guia durante as noites


2018

quase dormia com o rosto afundado no xadrez Burberry de seu sobretudo quando ouviu a voz do motorista acordá-la.   — Senhorita, é aqui.
Ela rapidamente desceu e pagou uma gorjeta gorda ao homem que havia concordado em levá-la às cinco da manhã na propriedade Eltz, a trinta minutos de Wierschem.
O taxista achou estranho ela querer ir para a propriedade privada da residência dos Eltz em vez do Castelo. O povo de Wierschem não conhecia nada sobre a casa ou evitavam falar do assunto.
— Boa sorte na restauração do castelo. Se precisar de um meio de ir para lá, me procure. É perigoso fazer o trajeto daqui até lá a pé. — Disse o taxista.
— Obrigada, mas acredito que o conde irá me ajudar a chegar até o castelo. Vou ficar aqui na casa dele e depois vou para lá.
O taxista ergueu a sobrancelha e assentiu, ligando o carro e saindo dali. achou estranha a súbita mudança de humor dele e pensou se falou alguma palavra em alemão errada.
Era sabido, entre os historiadores, que a família Eltz vinha por anos mantendo restaurações escondidas e longe dos holofotes. Quando recebeu o convite do próprio conde Eltz para restaurar áreas do famoso Castelo, ela ficou feliz; Mas quando ele lhe disse para encontrá-lo em sua propriedade privada, ela aceitou o trabalho na hora.
No século XVIII o Castelo Eltz foi confiscado pela onda de revoluções anti-monarquistas que queria destituir tudo o que inspirava a nobreza. A Mansão Eltz havia sido projetada neste tempo para abrigar a família próxima ao castelo, mas escondido na floresta e nas montanhas. Ninguém tinha registro fotográfico do interior do lugar, e o mito que os Eltz escondiam obras de arte do governo alemão, só aumentava.
A casa por fora lembrava a estrutura de um chateau com arquitetura tradicional neoclássica das casas senhoriais do século de sua criação. Longas janelas distribuíam a fachada sob tetos cuneiformes desbotados pelo tempo. Não transmitia luxo, mas conforto.
Pelas fotos e suas pesquisas não achou que a mansão seria grande ou que a fizesse lembrar do Chateau de Balleroy, mas logo se recordou que a geração que construiu aquele recanto, recebeu influências de artistas e arquitetos franceses.
Ela pensava em tudo isso e tentava esconder o riso, enquanto estava parada com o queixo erguido na soleira da entrada, segurando sua mala. A porta principal se abriu e um homem jovem e bem vestido surgiu. Ele usava um fraque e luvas brancas. O lenço em seu peito trazia o brasão da família Eltz.
— Senhorita -Maria , se eu estou certo. — Ele curvou gentilmente. — Seja bem-vinda a Mansão e Propriedade Eltz.
— Muito obrigada, você está certo. Qual é seu nome? — perguntou , deixando o homem carregar sua maleta.
— Altmeyer, o majordomus. Sirvo a casa Eltz como meus pais fizeram e os pais deles.
— Hum. — disse , espantada com a corrente ininterrupta da exploração da força de trabalho de uma família. Calou seus pensamentos materialistas históricos rapidamente.
— O Edlerherr von Eltz und zu Kemperich está a sua espera para o desjejum. A senhorita pode se referir a ele como Conde Eltz-Kemperich ou Edlerherr Eltz-Kemperich, pois o título inteiro não precisa ser pronunciado a todo momento.
assentiu, atenta a decoração rococó no canto das paredes até o chão. A mansão por dentro fora decorada conforme mandava a moda do século e ver tudo bem preservado renovou o humor da mulher, deu-lhe energia. A pressão que ela sentia sobre o peito desde a hora que seu avião desceu em solo alemão se aliviou. Ela foi encaminhada por Altmeyer por um salão de música com um piano e uma harpa, uma biblioteca particular e outros espaços amplos até uma última porta. A mansão era compacta, mas transmitia um ar de muito requinte e historicidade conservada.
— Levarei sua mala até seu quarto.
— Meu quarto? Tudo bem...
— Altmeyer, senhorita.
— Não esquecerei mais. — fingiu um sorriso e o mordomo abriu a porta.
A sala de jantar era ampla e iluminada pela luz do sol pelas janelas altas. Um homem solitário, sentado a ponta de uma grande mesa, lia um jornal. Atrás dele havia um afresco com vários elementos que não prestou atenção no momento.
— Herr Conde e Edler von Eltz und zu Kempenich, esta é -Maria . — Anunciou Altmeyer.
— Senhorita . É um prazer recebê-la nesta manhã.
— Senhor... ou todos os nomes que seu mordomo me instruiu te chamar... Eltz. Sinto muito mas nunca consigo me lembrar os títulos completos dos nobres para quem trabalho.
— Chame-me de , é o suficiente. — Ele se ergueu. — Meu nome inteiro é cansativo e o título também.
A voz do conde Eltz ecoou pelo salão como se ricocheteasse pelas janelas e as fizesse vibrar, era de uma rouquidão requintada com cada letra pronunciada com perfeição.
— Junte-se a mim, por favor. — Estendeu a mão. — Os pains au chocolat ainda estão quentes.
— Agradeço o convite, , estou faminta. As bolachas secas servidas no trem ainda estão ardendo minha garganta.
— Nada mais justo a oferecer a dona das mãos que irão cuidar do meu castelo-museu nos próximos dias. Espero que esteja ciente de que qualquer um da minha curta família ou da minha extensa turma de empregados estará a sua disposição para as próximas semanas.
sentiu a textura dos anéis de ouro do conde quando apertou sua mão quente. Agora, vendo-o de perto, viu que ele usava um terno casual para um sábado de negócios com uma restauradora. Ainda que usasse abotoaduras douradas, algo nele despertava um desleixo proposital como a camisa cinza ou uma corrente de ouro sobre o pescoço pálido. Ele gentilmente se colocou atrás dela para tirar o casaco, apoiando-se numa bengala estilizada.
— Altmeyer está lento com os modos. Se me permite... — disse, retirando com cuidado e entregando o sobretudo dobrado para uma das empregadas ali à postos. — Leve isto para os aposentos da senhorita .
— Meus aposentos?
— Sim, achei que seria justo que tivesse um local em minha casa para que pudesse ir e vir quando desejasse. O castelo está há poucos quilômetros daqui.
— Eu agradeço, , mas não pretendo gastar demais de sua boa vontade. Ficarei aqui até me adaptar a Wierschem e procurarei um hotel.
— Como desejar.
Quando se sentaram, observava o conde e notou que usava uma sonda transparente diretamente nas narinas, presa por um fino tubo preso atrás das orelhas.
— Ah, isto. Não repare, por favor. Fico sem ar pela manhã. Às vezes você me verá com ela.  Assim como verá minha sombra manca se esgueirando pelas colunatas daqui.
— É imperceptível. — disse.
— Não para os olhos de alguém que trabalha para a história da beleza, não é mesmo? — o conde disse distraído. — A minha feiura será o contraste do seu trabalho por esses dias, eu sinto muito informá-la.
— Desde que entrei pela porta principal dessa casa não vi nada feio.  — Enquanto respondia, olhou o rosto do homem. Com os ossos do rosto bem esculpidos, dois olhos extremamente claros refulgiam a luz do sol que entrava pelas janelas, emoldurados pelas laterais raspadas do cabelo do homem e seus lábios ligeiramente ressecados. Ela percebeu que, assim como o castelo que cuidaria, iria gastar muito tempo observando aquele homem até seu último minuto de estadia ali.
O conde sorriu, fingindo certa timidez pelo floreio da arquiteta e a atenção que ela prestava nele. observou o banquete de desjejum a sua frente, com muito mais comida do que duas pessoas seriam capazes de comer as seis da manhã.
Conversaram sobre a arquitetura do salão e o afresco atrás da cadeira do conde, que se estendia do teto ao chão. Ele lhe contou detalhes sobre a criação daquela obra e o segredo que reservava: datava de 1810, feito para agradar uma moça que um dos condes cortejava, mas que acabou morrendo sem vê-lo pronto.
Com opiniões fortes sobre arquitetura, o conde conversava com tranquilidade e ouvia com cuidado a explicação de sobre a grossura que um vidro da janela deveria ter para aguentar a temperatura de 1800°C. Ele serviu café a e ela percebeu as veias saltadas e manchas roxas sobre as costas da mão dele.
Ainda falando sobre arquitetura e justificativas do conde sobre porque sua família optou por manter aquela casa longe dos civis, ele foi interrompido. A porta na extremidade do salão abriu com força. Um homem segurando uma mala de couro numa mão e casaco na outra entrou e fechou a porta.
— Então é essa a arquiteta que você mandou seu chofer especial esperar em Hazenport?
— Irmãozinho, que bom ver você de novo.
— Estou viajando a horas em alta velocidade, passando em sinais vermelhos para não deixar a moça sozinha e ainda fiquei a madrugada inteira no frio desgraçado da estação por nada.
ficou assustada com a brutalidade do homem estranho, o contrário de seu irmão.
— Eu peço mil desculpas...
— Desculpas, ?
— Você deveria se apresentar corretamente a nossa nova convidada: -Maria Köning, que será a profissional responsável por toda restauração da área Rübenach no próximo semestre.
O homem que acabara de chegar encarou de cima, sem sentimento ou opinião sobre sua presença, com os mesmos olhos cristalinos do irmão.
— Meu irmão já fingiu que desmaiou sem ar para que você fosse ajudá-lo?
Perdão?
— É típico dele. Fingir uma crise asmática para chamar atenção. Ele faz isso para todas as mulheres que traz para se hospedar aqui.
Fez-se um silêncio tenso.
Altmeyer. — o mordomo surgiu na porta. — Guie senhorita para onde ela deseja ir primeiro. — O conde suspirou e apanhou uma cigarreira dourada do bolso, tirando um cigarro fino de lá. — , se não se importar em acompanhá-lo. Eu e meu irmão precisamos conversar.
— Será um prazer. — finalizou o café e se ergueu. — Mande me chamar se precisar de ajuda com sua crise asmática, . Não irei recusar uma ajuda, ainda que falsa. — Apanhou um pain au chocolate e passou pelo irmão do conde sem olhá-lo, deixando os Eltz às sós no silêncio.
pensou ter ouvido um sino parecido com seu alarme do celular, mas quando o apanhou não viu nada na tela além do wallpaper da catedral de Westminster. Altmeyer guiou a convidada em silêncio. Quando passaram para o segundo andar, ela se deteve para observar a tapeçaria que pendia ali.
— Altmeyer, esta tapeçaria tem quantos anos?
— Sinto muito, senhorita , mas o edlerherr foi explícito em me ordenar a não responder qualquer pergunta que a senhorita tenha sobre a decoração, pois ele mesmo quem deseja lhe responder.
ergueu as sobrancelhas e se calou.
Em uma ala onde a decoração das paredes lembrava algo de feminino e infantil, com tons rosados e pinturas de musas, Altmeyer abriu uma porta dupla e revelou o aposento onde ela ficaria. O teto era alto e a janela tomava quase toda parede atrás da cama.
— Caso se incomode com a luz podemos trocar a cama de lugar.
olhou para a cama de dossel e madeira maciça que deveria pesar muito.
— Não se preocupe, está perfeito.
— Ethel será a encarregada de qualquer ajuda pessoal que a senhora possa precisar. Para acioná-la é só puxar o sino ao lado da cama e ela subirá o mais rápido possível.
— Isso existe até hoje? Sinos para chamar empregados?
— Definitivamente, senhorita, por que não?
— Achei que os russos tinham mandando acabar com isso.
Altmeyer expressou-se pela primeira vez, escondendo um riso. — Seu senso de humor é algo refinado, senhorita . Acredito que terá uma boa estadia. — E dito isso, saiu.
respirou pesado, ainda revendo todos os fatos da sua chegada até ali. A intensidade da presença do conde havia lhe prensado o peito e agora, longe dele, parecia respirar mais aliviada. Com o surgimento do outro Eltz ela ficara subitamente ofendida por sua presença rude.
Ela abriu uma das frestas da janela para respirar um pouco de ar frio e para arejar o cheiro forte de alfazema que emanava dos lençóis quando ouviu algo.
— Você foi totalmente um bruto! — a voz era do conde.
— Você foi totalmente filho da puta. Podia ter me avisado, ! O que lhe custava?
Você...você precisa se acalmar, , parar com seus shows de ira!
As vozes altas viam do pátio. esgueirou no canto da cortina para ver, viu que era as costas da casa, onde havia um jardim. Os dois homens discutiam na porta de um galpão ao lado da estufa com a porta aberta. O conde pendia sobre sua bengala, com o cabelo bagunçado pelo vento e gesticulando. O outro homem entrava dentro do galpão e quando saiu empurrando uma moto, ouviu mais um pedaço de sua voz.
— ... se você despendesse tempo para buscar uma caolha também ficaria irado! Eu já lhe disse uma vez e vou voltar a dizer: Eu não dou a mínima para aquele castelo idiota. Nem para você. Rezo todos os dias para que ele caia em cima de você e enterre toda essa merda.
arfou.
— E a sua herança? E o seu dinheiro?
— Eu trabalho e pago minhas contas, diferente de você! — disse o irmão do conde, subindo sobre a moto, sobre o cascalho. — Que fica sugando da herança de um bando de estupradores aristocratas, bancando o conde Drácula aleijado escondido nas montanhas!
Eu sou o responsável por cuidar da herança de uma família secular, fardo que era para ser seu. —  a voz do conde voltou a ser baixa e ameaçadora e não conseguiu ouvir direito.
— Quer me dar o fardo? Pode me dar. Encho aquela merda de dinamite e vai tudo pelos ares.  — o irmão do conde acelerou pela trilha de cascalho, virando para a frente da casa. O conde jogou o cigarro no chão e ficou apoiado sobre sua bengala.
desviou o olhar para a estrada e quando voltou a ver o conde, viu que ele a olhava diretamente. Ela se assustou e recuou, caindo sobre um criado mudo. O conde a olhara por um segundo com seus olhos cinzas e ela sentiu muito medo. De onde veio isso? Quando olhou de novo, o conde não estava mais lá.
Então sentiu-se muito cansada e se sentou sobre a cama. Respirou fundo de novo. Viu seu rosto ser refletido no espelho da parede a sua frente e levou a mão ao seu único olho negro, enquanto olhava pelo seu único olho castanho.

Capítulo 3

Omnia tenebrus sed ut testimonium perhiberet de lumine
Erat lux vera quae illuminat omnem hominem venientem in hunc
Mundum


Qntal - Nihil

É uma sombra, mas foi enviado para dar testemunho da Luz,
Essa foi a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que chega a este
mundo.


1194

Pela primeira vez em dias, não fazia tanto frio na floresta de Wierschen. O verão deixava as árvores com copas esverdeadas e os animais transitavam pelos vicinais ocultos dentro da vegetação. Fora da floresta, o burgo Eltz vivia em tranquilidade, servindo a família de nobres que morava no grande castelo. A produção de cevada e trigo era comum, além da criação de animais como porcos e ovinos.
Às margens do rio Moselle, de costas para a floresta, uma mulher murmurava uma canção. A trança que unia seu cabelo desfazia conforme ela se movia lavando lençóis no esforço primal de tirar manchas com as mãos. Era agradável sentir o cheiro da roupa sem fedor e ela empenhava-se muito naquilo. Ao seu lado, a cesta de roupa suja ia se esvaziando conforme a manhã surgia. Mexer com a água do rio naquela temperatura era agradável e lhe energizava.
Ela continuou cantando. Seu coração era de uma alegria inédita e verdadeira. Seu irmão havia retornado da Terra Sagrada, após anos servindo como cavalariço de um dos nobres o castelo.
O grande imperador Barbarossa estava morto e parte do exército voltou para casa, enquanto alguns cavaleiros ainda empenharam na façanha épica de tomar o poder das terras sacras dos sarracenos. O clima no burgo era de alegria da decisão do Conde de retornar em vez de continuar a arriscar a vida de seu exército sem a certeza da vitória. Uma grande festa de retorno estava sendo preparada e prometeu levar a mulher para ver o conde de longe e participar do banquete para os cavaleiros que voltaram. Diziam até que o conde iria agradecer cada um dos homens que lutaram com uma bolsa de prata.
E com essa ansiedade pelo banquete, ela continuou esfregando as roupas. Aprendera a fazer sabão com gordura limpa e flores de alfazema, o que deixava suas roupas mais limpas e com um aroma agradável. Mal podia esperar para contar para . Havia tanto que ainda não haviam conversado.
A moça parou de lavar uma de suas anáguas quando sentiu que estava sendo observada. Largou a roupa sobre a pedra e segurou a adaga leve que sempre carregava amarrada no tornozelo. Lentamente virou-se para trás e ouviu um gemido.
Um homem no chão tentava se erguer, usando calças de linho sujas de sangue e nada mais. Não havia uma parte de seu corpo que não estava suja ou ferida.
Assustada, a moça olhou ao redor. Caminhou até ele com a adaga na mão e ficou atenta a qualquer barulho na floresta. Quando viu que era seguro, abaixou-se e tomou o rosto do homem nas mãos.
— Água. — ele balbuciou.
— Quem é você?
— Água?
— O que houve? Onde está ferido?
— Água... — o homem levou sua mão grande e cheia de sangue para o braço dela, sujando-a, mas ainda segurando firme.
A moça virou o tronco do homem e viu que sua outra mão apertava uma ferida grande na barriga.
— Você está ferido. Venha, vou cuidar de você. Consegue andar?
— Água...
— Imaginei.
A moça correu até as suas roupas, apanhou uma camisa de seu irmão e preparou um curativo sobre a barriga ferida do estranho.
— Meu nome é e eu vou cuidar de você, confie em mim, tudo bem?
— Jerusalém...
— Você é um cruzado?
Então o homem virou seus olhos de veias estouradas, amarelados e doentes para a moça. Era como se ele, no fundo, dissesse: obrigado.
— Vamos ter tempo para conversar. Preciso que você junte suas forças para conseguir caminhar comigo, eu não consigo te levar sozinha. Você consegue?
Ele piscou e gemeu, um calafrio percorreu o seu corpo e ela viu a pele dele se arrepiando de frio.
— Vamos, cruzado. — jogou seu xale fino e remendado sobre as costas dele.
E com muito esforço, abandonou a cesta de roupas e segurou o estranho pela axila, tentando como pôde, levá-lo até sua casa há alguns metros dali. Ela nunca havia usado tanta força para se equilibrar em toda sua vida. O peso do homem era exaustivo em seus ombros, mas ela conseguiu arrastá-lo aos tombos e topadas.
Quando chegou nas margens de sua propriedade, ela tentou achar o irmão no arado mas não o viu.
— Deve ter saído.
O cruzado gemeu.

Dentro de sua pequena casa de pedra, madeira e barro que mais parecia uma cabana minúscula, colocou o homem estranho sobre o amontoado de palha e lã que era sua cama. Deu-lhe água e um pouco de vinho velho. O homem sorveu tudo de uma vez, engasgando e desesperado.
Calma e com seus dedos cheios de calos, trabalhando com a leveza de uma pluma, ela começou a cuidar dos ferimentos. Parecia que o homem fora golpeado com força na direção do rim e estava em estado muito grave, desafiando os conhecimentos de que já julgaria aquele homem morto.
— O que está te mantendo vivo? Sua fé?
O cruzado olhou-a. Lágrimas escorriam de seus olhos.
Ela apanhou um livro que mantinha escondido sobre um pedaço solto de madeira e começou os rituais que eram necessários: aqueceu o fogo, separou ervas e pedras, acendeu velas com aromas e apanhou galhos secos do lado de fora. Cantou em voz baixa, acalmando o peito do cruzado, que a observava andar pela cabana. Em breve, fez um emplastro e posicionou sobre o ferimento após lavá-lo e queimá-lo com um pedaço de ferro quente (ignorando a agonia da dor do estranho e as tentativas falhas dele de tentar evitar que ela fizesse isso). Após prender, enfaixar com tiras limpas de pano e selar com velas, partiu para os outros ferimentos. Um corte fundo no ombro, no peito e no rosto.
Com carinho e curiosidade, cuidou de cada um dos cortes e hematomas. Ficava imaginando o que aquele cruzado deveria ter feito para se machucar tanto e até mesmo se o homem era um cruzado.
— Um desertor. Você deve ser um desertor.
O bispo.
assustou-se. O homem estava de olhos fechados, ainda sofria a dor da cauterização.
— O que disse?
— O bispo... Expedit... o bispo...
— Acalme-se, você não vai a lugar nenhum se não se recuperar. Descanse para seu corpo fechar as feridas. — acariciou o cabelo dourado e cheio de cachos do homem, tirando as folhinhas secas uma por uma. — Você vai dormir, comer e então poderá ir falar com o bispo. Aqui ninguém irá te fazer mal. Meu irmão é um guerreiro, ele voltou da terra do Senhor.
Ao ouvir guerreiro o homem abriu os olhos assustados e tentou se erguer, assustando a moça.
— Guerreiro.
— Ei, acalme-se ele é meu irmão, não vai te fazer mau...
— Preciso ir...
— ... a lugar nenhum. — a voz de era tranquila e o empurrou de volta para o leito. — Você está protegido.
Após os carinhos suaves de e seu canto fez o homem dormir mais uma vez. Satisfeita com o trabalho de remendar o estranho, agora ficou observando-o. Possuía uma um nariz bonito e a pele, agora limpa, parecia macia e suave. Os lábios inchados e secos do homem eram tão atraentes que cortava o coração da mulher vê-los feridos.
— Quando você acordar vou te dar um beijo para que se lembre. — E beijou-o rápida. — Este é para que sonhe.
Depois se levantou rindo. Precisava ir buscar as roupas na beira do rio.

⛦⛦⛦


passou o dia e a noite olhando o homem estranho dormir sobre sua própria cama. Era madrugada quando despertou, ainda sentada sobre a cadeira de sua vigília, quando ouviu um barulho do lado de fora da casa. Após olhar o homem em sua cama e ver que ele continuava dormindo, saiu da casa segurando o machado de cortar lenha.
Ela segurou a tocha do suporte e ergueu para ver quem vinha pelo vicinal chamando-a.
! — não era um chamado, era um grito.
! — era outra voz, trombando na oliveira que havia ali — A maior puta do mundo! A puta remendada ao meio! A puta que matou o marido!
Ela deixou a tocha no suporte e viu quem vinha na sua direção. Seu sobrinho, ainda criança, empurrava um homem cambaleando: , embriagado de novo.
— Johannes, o que aconteceu com seu pai?
— Ele bebeu de novo, tia. — O garoto disse, era possível de ver que ele chorava.
olhou com raiva para o irmão e deixou o machado no chão com força. Esbofeteou duas vezes até ele cair no chão.
— Eu só não bato... em mulher igual você... porque se não você me mata. — disse o ébrio, gargalhando. — Me mata...
— Johannes, anjo querido, vá para dentro da casa. Temos um convidado hoje, então não faça barulho.
O garoto assentiu, aliviado e coberto de ranho. apanhou um toco de madeira e golpeou o irmão na cabeça. Seu coração doeu ao vê-lo tombar na lama, mas era o melhor a se fazer com um bêbado.
Dentro da casa, viu seu sobrinho olhando diretamente para o convidado adormecido.
— Quem é esse homem?
— Não sei ainda, querido, mas ele estava ferido na floresta.
— Será que ele é um cavaleiro?
se abaixou e tirou a boina remendada do garoto, apanhou um pano molhado de água com flores e começou a limpar o muco do rosto dele.
— Não sei, mas se for ele poderá nos pagar um dinheiro quando estiver bem.
— E se ele for maldoso?
— Ele não é mau...
— Então por que está doente?
— Ele não está doente. Está machucado e perdido e nós vamos ajudá-lo. Chega de perguntas, o que seu pai te deu para comer?
— Vinho.
— Seu pai está fora de si. Venha, vou fazer um mingau.
— Com mel?
— Com mel!
O menino sorriu e o abraçou. Depois de comer, o garoto adormeceu em sua cama improvisada ao lado do homem estranho. ainda não tinha tecido outra manta e acabou ficando acordada envolta no xale ao lado do fogo que manteve aceso para fazer o mingau. Desde que voltara da cruzada seu irmão bebia demais e falava coisas desagradáveis. Ele partira sem saber que tinha um filho com sua esposa e delirou quando descobriu que ela morreu no parto. O garoto fazia de tudo para ficar perto do pai e fugia para acompanhá-lo nas noites de bebedeira.
Da janela pequena ao lado da porta, ela viu o irmão dormindo sobre a lama. Suspirou fundo e saiu da casa mais uma vez. Jogou um amontoado de palha sobre ele, para que não sentisse frio.


Capítulo 4

To protest the moon
To protest the idea of sleep
To balance our calm and our urgency
To protest their notion of fraternity and race


ROME - Le Chatiment Du Traitre

Para protestar contra a lua
Para protestar contra a ideia de sono
Para equilibrar nossa calma e nossa urgência
Para protestar contra a noção de fraternidade e raça.


2018

despertou quando já era noite. Após o encontro complicado com o conde, ela permaneceu em seu quarto analisando informações que pudesse achar sobre os irmãos Eltz. Almoçou no quarto por sua própria insistência com Altmeyer e lhe disse que ainda precisava descansar.
Várias abas estavam abertas no navegador do seu notebook sobre os Eltz. Até então apenas havia visto fotos do conde em sites de universidades e revistas de história. Era conhecido por ser generoso em doar dinheiro para projetos de pesquisa em diversas variações e por ser muito reservado em relação a história da sua família e sua própria. Em nenhum momento foi mencionado que ele possuía um irmão.
percebeu que não sabia o nome do segundo Eltz e mesmo que agora soubesse como ele parecia, não o achou em nenhuma das fotos do conde.
Um site de fofocas de péssima reputação, conhecido por suas costumeiras notícias falsas, tinha uma manchete sobre o conde e sua vida pessoal.

“O reservado conde Eltz leva uma vida de segredos, mas já foi visto em restaurantes com modelos italianas nas épocas de fashion week”


ergueu uma sobrancelha ao ver um homem muito parecido com o conde sentado em uma mesa num restaurante em Verona, vestido casualmente e usando óculos aos abraços com uma mulher.

“A mulher da foto foi identificada como Fatema Turli e não voltou a ser vista com conde Eltz ou nas passarelas outra vez.”


Na mesma hora em que ela leu a frase, alguém bateu na porta e saltou da cama.
— Senhorita , sou eu. .
A mulher fechou o computador e foi para a porta.
— Pensei em chamá-la para jantar. E para poder conhecer melhor a casa. Se estiver...
Ela abriu a porta e o conde parou de falar. Ele abriu um sorriso tranquilo. Estava bonito usando um pullover sobre a camisa e os grandes olhos perscrutando-a
— Disposta.
— Claro. — Ela fechou a porta e começou a trançar os cabelos para abaixar o volume. — Dormi por horas. Ou eu estava cansada de viagem ou a cama é muito boa.
— Os colchões são trocados todo ano, mesmo que ninguém durma neles há anos. É costume.
O Eltz parecia tranquilo ou aquele era seu estado para sempre: algo entre o sereno e o austero. Não usava a sonda no nariz naquela noite.
— De todo modo, gostaria de me desculpar sobre o comportamento do meu irmão.
— Não se desculpe. Os problemas de família não são mais um luxo dos nobres, os plebeus também os tem.
— Sem dúvidas. Antes de te mostrar o motivo de eu ser tão insistente em pedir para que você viesse mais cedo do que planejamos, vamos caminhar pelas alas comuns. Você é a primeira estudiosa que não é da família permitida aqui, estou ansioso para ter alguém com quem discutir segredos.
sorriu e começou a andar ao lado dele, sorvendo o perfume de loção pós barba de bom gosto mista com o cheiro de canela que ficava no ar. O conde tentava ocultar seu problema de locomoção apoiando-se discretamente com a bengala. A mulher não perguntou sobre isso.
— Se você se cansar das minhas explicações, me interrompa a qualquer momento.
— Não se preocupe, . É um prazer meu ouvir homens explicando coisas que já sei.
O conde riu.
— Me interrompa no ato, por favor.
Começaram a andar pela mansão calmamente. parava para observar um vaso ou um quadro e o conde a aguardava, em silêncio ou tecendo comentários inteligentes sobre a decoração. ouvia e concordava, precisava assumir que o conde era um grande conhecedor de arte.
Passaram por um jardim de inverno anexo a sala de música e a biblioteca. Uma árvore segurava um balanço sobre o chão de pedras e algumas trepadeiras na parede que não era de vidro.
— Essa oliveira está aí há anos. A casa foi construída ao redor dela.
— Tem algum motivo?
— Não que eu saiba. Por aqui, temos acesso a biblioteca particular de minha mãe. Ela mantinha seus livros favoritos separados.
Entraram numa sala de teto baixo e com uma poltrona vermelha. As paredes tinham livros onde as capas tinham quase o mesmo tom rosado. Um quadro emoldurado de uma mulher estava em destaque sobre a lareira pequena.
— Isso é Manet?
— Minha mãe ama os franceses. Meu pai comprou para presenteá-la quando estavam noivos.
— Isso... é mesmo um quadro dele?
estava surpresa em achar um quadro raro em perfeito estado, não conhecia a origem, mas o traço era inconfundível. Subiu os óculos para a ponta do nariz e chegou mais perto.
— Este quadro me lembra uma fase mais tardia o impressionismo. Algo entre 1880?
— Foi um dos últimos quadros de Manet.
— É muito bonito, de fato.
No quadro uma mulher segurava um pequeno guarda chuva e olhava fixamente para o observador. queria fazer perguntas, mas acreditou que não era o momento certo.
— Minha mãe revelou anos mais tarde que não gostou. Meu pai ficou triste.
olhou para , que olhava fixamente para o quadro e sorriu.
— É um dos que mais amo. Sempre gostei de vir aqui e observá-lo, imaginando quem poderia ser essa mulher. Hoje faço daqui minha sala de leitura particular. Pode-se juntar a mim quando quiser.
agradeceu e saiu da câmara. A tensão de ficar próxima do conde numa câmara pequena se dissipou. Ela percebeu que estava se agradando muito de ouvir a voz dele vibrar baixo em seu ouvido. Dentre todos os objetos que já viram, foi a primeira vez que o conde fazia um comentário pessoal.
Andaram mais um pouco, até o terceiro andar.
— Acho que está na hora de revelar o porquê a chamei antes, senhorita .
— Por favor, me chame de .
— É um hábito. — o conde virou por uma esquina, num corredor onde o papel de parede era listrado e não haviam esculturas ou obras de arte, destoava do resto da casa. — Eu a chamei porque gostaria que avaliasse um cômodo.
Ele parou em frente a uma porta.
— Quais são os tipos de dano?
— Vários. É um cômodo muito especial para mim e que até então não havia confiado em ninguém para restaurá-lo.
— Ficarei feliz em avaliar.
O conde levou a mão na porta e girou a maçaneta. Estava trancado. Ele suspirou sonoramente.
— Acredito que não poderei mostrá-lo hoje para você. Pelo que parece. — Ele respirou alto mais uma vez e tirou a cigarreira do bolso. — Você se importa de jantar sem minha companhia?
— Claro que não. — tirou os óculos e os pendurou no suéter. — O que houve?
— Acredito que tem alguém dormindo aqui.
assentiu, achando aquilo muito estranho.
— Você sabe voltar para a sala de jantar?
— Sim. Boa sorte.
fez o caminho de volta e parou quando chegou a esquina. Ouviu algo.
. — fez-se o som de alguém batendo numa porta. — Sou eu. Apenas eu.
Dali onde estava, ela pôde sentir o cheiro de cigarro ketrek do conde.
, estou sozinho.
A mulher ouviu o som de tranca, em seguida de porta abrindo e se fechando rapidamente. . Pensou. Esse deve ser o outro Eltz.

⛦⛦⛦


encontrou seu irmão de costas para a janela, recortado pela luz que vinha dos andares de baixo e da fonte. Ao longe, era possível ver as torres do Castelo Eltz iluminadas.
— Você a trouxe aqui para reformar este quarto, não foi?
ficou calado.
— Você queria que eu permitisse. — disse .
sentou-se numa cadeira, o único assento que havia além do chão. Todos os móveis estavam cobertos por lençóis. Um furo no teto e parte da janela cobertos com uma lona, isso era apenas o que estava à mostra na precária iluminação.
— Por isso me fez vir aqui e gastar meu tempo. — Continuou o irmão. — De outro jeito eu não viria.
— Não. — disse o outro. — Eu não preciso da sua permissão para reformar este quarto. É mais do que necessário, porque a casa estará à venda.
virou-se para o irmão, que fumava sem olhá-lo.
— Vender?
— Um dia.
— Você nunca mencionou isso.
, estamos velhos. Você odeia esse lugar e não tem filhos. Para que quer continuar com esse custo?
— E você? Por que decidiu isso?
— Olhe para mim, irmãozinho, — ergueu as sobrancelhas. — Eu sou um aleijado. O Drácula aleijado. Como acha que irei fazer um filho? Ou viver o bastante para criá-lo como um Eltz? — Ele tossiu e cobriu a boca com o lenço. — Essa casa deve ser vendida para que nenhum parente distante ou bastardo de nosso pai surja para clamá-la. E o castelo, doado para o governo.
franziu o cenho e cruzou os braços. Sua camisa tinha respingos de barro.
— Leo, você está exagerando. Existe outro meio...
— Você estava certo. O fardo de tudo isso é eu que carrego sozinho, a decisão também será minha.
— Não, não será. Não vou deixá-lo fazer isso.
Ah, então agora você quer saber dos assuntos da família? Depois de tantos anos bancando o ermitão humilde com seus motores? — riu sarcástico. — E toda a conversa de mais cedo? Sobre dinamite...
— Eu estava nervoso. Você me dá nos nervos.
— Você é mais sincero quando está bravo, por isso é tão bom irritá-lo.
revirou os olhos e virou-se para a janela.
— Eu não quero abrir mão dessa casa. Ou do castelo. — disse. Sua voz tinha pesar.
— Por que? Você não conseguiria se separar da dor no peito que sente quando está aqui? — tragou longamente. A fumaça com cheiro de canela se dobrou no ar. — Não consegue viver sem essa angústia que tanto sente uma vez por ano? Quando vem me ver no natal?
não falou nada.
— Eu também a sinto. Desde sempre. — concluiu.
— E por onde você vai se arrastar quando não tiver mais que morar aqui?
— Na sua casa em Frankfurt. Nós dois morando juntos, o que me diz? Você pode me apresentar alguma das suas namoradas comuns.
o olhou por cima do ombro, nervoso e deu outro riso sarcástico.
— A casa de verão na costa amalfitana. Abrir uma pensão e trabalhar. Quem sabe. Ou Airbnb como chamam.
quem riu.
— Você. Trabalhando.
— Posso colocar como qualidades da casa a presença de um conde asmático alemão. Atrairia muitos clientes.
— Você é um imbecil.
— Eu não sei o que faria. Como você, eu não consigo viver sem a dor que sinto aqui. Posso viajar para Xangai ou para a Patagônia: Não passo um dia sem sentir um gancho me puxando para este lugar. É como se eu nunca estivesse livre ou meu coração nunca pudesse se acalmar. — Na última tragada, engasgou e tossiu mais uma vez. Depois, continuou com a voz arranhada. — Nada no mundo é capaz de explicar isso. Assim como os seus pesadelos em dia de lua nova.
— Não os tenho mais.
— É porque você não dorme mais nesses dias.
ficou em silêncio mais uma vez.
— Como essa noite. O que pretende fazer para não dormir?
— Bagunçar seus livros e quebrar sua escultura de Minerva de novo.
fechou os olhos longamente.
— Não ouse.
— Talvez passar um susto em Altmeyer e na senhora Goint.
— Como você fez com o pote de tinta preta?
riu.
— Você assumiu a culpa para que papai não me deixasse de castigo.
— Fiquei um mês sem meu quebra-cabeça favorito.
— As penas para os aleijados eram menores.
Por um momento os dois irmãos se olharam e foi como se toda tensão se dissipasse. Anos de ausência e brigas dolorosas perderam o peso.
— Não vou vender a casa amanhã, mas esse é um assunto que ficará na minha cabeça por muito tempo. — disse.
— Só... não carregue o peso dessa decisão sozinho.
caminhou para a porta.
— Você sabe por que te chamei aqui? — disse quando o irmão passou por ele. segurou a maçaneta. — Eu não conseguiria entrar nesse quarto sozinho outra vez.
saiu do quarto, deixando sentado na cadeira, olhando para uma viga rompida no teto cuneiforme.

⛦⛦⛦


desceu diretamente para a área do bar, anexa à sala de música. Passou pelo balcão e alcançou um whisky. Sabia que os whiskies estariam cheios porque gostava de licores ou absinto.
— Você deve ser .
A voz feminina o surpreendeu. Ele se virou com o whisky na mão.
— Senhorita .
A arquiteta tinha o rosto indecifrável contornado pela trança de seu cabelo muito escuro. sentiu o coração acelerar.
— Eu estava indo para o quarto quando o ouvi. — Sua voz era dura. — Queria deixar claro que heterocromia ocular não me deixa caolha. Eu enxergo muito bem dos dois olhos.
engoliu a dose do whisky, nervoso.
— Você ouviu.
— Você e seu irmão discutiram embaixo do quarto onde estou.
— Eu sinto muito por...
— Conde, apenas... — Ela o interrompeu. olhava fixamente para os olhos bicolores da moça. — Certifique-se de não ficar na minha frente enquanto restauro seu castelo. Estou aqui para trabalhar e não para participar de caprichos de famílias nobres.
franziu o cenho. A mulher falava como se já tivesse trabalhado para todos os condes do mundo.
— Era isso que eu queria lhe dizer.
— Eu não sou conde. — disse, sua voz vacilou. — Só meu irmão tem o título.
— Você é o mais novo?
— Não. Eu só não o quis.
A mulher crispou os lábios, numa expressão de descaso.
— Eu ouvi que você não gosta muito mesmo de ter um castelo.
Àquele ponto o whisky no estômago de estava quase subindo pela garganta dele. Ele sentiu o pescoço arder, sentia raiva.
— É mais complicado do que pensa.
— Sem dúvida. — olhou-o pela última vez. — Boa noite.
— Boa noite, senhorita . Pode ter certeza que não vou ficar entre você e meu irmão de novo.
— Meu negócio não é com seu irmão. É com o seu castelo. Não confunda.
— Você vai ver que eles são a mesma coisa. — Ele disse, sem saber se a mulher havia lhe ouvido. Ele bebeu mais boas doses. Ainda sentia os olhos castanho e preto dela sobre seu corpo.
Por um momento pensou que a arquiteta parecia olhar com mais respeito para os respingos de barro em sua roupa do que para o seu rosto.
Vaca.


Capítulo 5

Weißt Du zu rufen, weißt Du zu raten?
Weißt Du zu raunen, weißt Du zu sagen?


Saltatio Mortis - Equinox

Você sabe chamar, você sabe adivinhar?
Você sabe sussurrar, você sabe dizer?

1194

fez um guisado de almoço com repolho e gordura de porco. Estava irada.
— Seu pai é um irresponsável. Estava melhor sem ele aqui.
Johannes estava sentado sobre a cadeira de pés tortos. Observava a tia em silêncio.
— Você tem certeza que ele estava com a bolsa de moedas?
— Sim. Um homem pegou dele.
— Como era esse homem? Alto? Gordo? Se... Se pelo menos tivesse deixando-a aqui... — Ela mexia a panela de barro com força. — Estou a cada dia querendo que outra cruzada comece e ele vá embora.
O sol estava no meio do céu e já havia arado sozinha, metade do campo, enquanto Johannes jogava pelo chão as sementes secas de seu bornal infantil feito pela própria tia. A raiva passou e eles encheram a barriga. Johannes mal terminou de comer e começou a cochilar na mesa.
respirou pesadamente. Até ela estava cansada do trabalho. Mas a semente não se planta sozinha. Nem a água brota onde quero que brote. Pensou, segurando o corpo pequeno do sobrinho e colocando-o na cama que havia feito para seu irmão. O garoto rapidamente se acomodou na manta de lã. Deu uma rápida olhada para o homem estranho dormindo na cama dela e por um segundo se arrependeu de tê-lo acolhido. Eu poderia estar dormindo aí, sabia?
Checou a tez do estranho e contou quantas vezes o peito dele subiu e desceu. Havia trocado as tiras de pano e conseguido alimentá-lo com o resto de milho moído que ainda tinha na casa, em um mingau doce e nutritivo. O homem até então não havia despertado.
Do lado de fora, encheu um balde de água do poço a alguns passos dali e jogou sobre o irmão. O gato que estava dormindo sobre as pernas dele saltou longe.
O império é eterno! — ele gritou em latim.
No meio dos cabelos sujos sobre os olhos negros e furiosos, olhou a irmã tão furiosa quanto.
— Aprume-se. Precisamos terminar de plantar.
— Ora, mulher, terminasse você. Estou cansado.
— Cansado de beber? Você está fedendo e desde que voltou não pegou em um balde! Muito menos em uma enxada!
— Você se virou bem sem mim, pode continuar assim. Minha cabeça dói e vou dormir. — O homem voltou a deitar na lama. arremessou o balde de madeira na cabeça dele e ele gemeu. — Sua vaca!
— Por todos os seres do céu, ! Você não está mais em Acre! Você não tem mais um senhor nobre para obedecer! — gritou, com o sangue pulsando em sua testa. — Vá se banhar no rio. Quando voltar tome o chá que preparei sobre a mesa e volte para o campo para me ajudar. Quer que percamos outra ovelha? O que vai restar para nós no inverno?
O homem ficou olhando a irmã furiosa entrar para dentro de casa com as botas masculinas que ela usava fazendo barulho sobre o soalho de madeira. Massageando o supercilio sangrando e latejando, ele foi mancando para o rio.

⛦⛦⛦


amarrou as sementes à cintura e voltou a arar a terra. O processo era pesado e com o sol aquecendo sua pele, ela sentia sede logo em poucos minutos de serviço. A ponta de seus dedos estava ferida de calos por tirar os espinhos do cruzado que agora dormia em sua cama. Ele estava tão ferido e cheio de espinhos que parecia ter apanhado e rolado sobre roseiras. Limpo e remendado como estava agora, lembrava a um anjo que tropeçou do céu que agora esperava a palidez da sua pele absorver as equimoses que o manchavam.
A mulher olhou para a porta de casa, metros dali e viu a silhueta do irmão parada de costas à porta. Percebeu que não havia lhe contado sobre o cruzado e que ele iria ver um homem estranho na cama dela após anos de celibato. Pressentindo algo de ruim, ela largou a enxada e o bornal de sementes e caminhou até a casa.
Dentro da casa, segurava a espada que havia ganhado do cavaleiro que era seu senhor. Uma lâmina já frisada de tanto afiar, frágil e que não servia para combate, mas que a carregava como se fosse letal. Quando viu o homem deitado na cama da irmã, ergueu alto a espada na direção da costela. Uma fincada no coração. Rápido para a lâmina não prender.
Antes de traçar o caminho da espada para o peito do estranho, o homem despertou e ele ergueu o torso.
caiu para trás de susto e recuou enquanto o homem estranho que havia lhe tomado a espada agora brandia para ele, enquanto segurava com a outra mão o amontoado de panos ensanguentados sobre a ferida de sua barriga. O estranho sentou-se sobre a cama e começou a se levantar.
chegou no exato momento que o homem caiu segurando a espada e aos pés do irmão.
! ! Sua vaca, o que este desgraçado faz aqui!? — tremeu a voz, ainda recuado.
— O desgraçado aqui é você, ! — retrucou. Ela abraçou o estranho e o voltou para a cama. Os dedos dele seguravam com força a espada, mas ela a tirou dele e jogou para o canto. — Você fez o ferimento dele abrir de novo.
— Você sabe quem ele é?! Sabe o perigo que trouxe para cá? Para a casa de nossos pais?
ignorou o irmão e se curvou sobre o estranho, apanhou o rosto dele, agora desperto com dois desesperados olhos muito azuis e tentou acalmá-lo.
— Não sei. Mas vou cuidar até que ele volte a ficar bem. — disse, hipnotizada com os olhos do homem estranho. — Repouse.
— É o conde! O conde Eltz!
virou-se incrédula para o irmão.
— O quê?!
— O conde! — tinha os olhos saltados das órbitas. — , precisamos matá-lo antes que alguém veja que ele está aqui e mande nos matar!
— Do que está falando?
— Se algum guarda ver que estamos com o conde nessa situação... eles vão nos torturar e nos matar!
segurou a espada de novo, fazendo a lâmina tremer.
— Precisamos matá-lo e jogar o corpo no rio para que não o tracem até nós.
— De maneira nenhuma! — se enfureceu. — Conde ou não este homem está ferido e ficará aqui até que melhore!
, eu ordeno que saia da minha frente! — estava de pé e apontava a espada para a irmã.
— Você não vai matá-lo. — E a mulher curvou-se sobre o corpo do cruzado ferido. Viu que ele a olhava em desespero e que tremia muito. — Nem ninguém. Ele está sob a minha proteção.
— Você irá trazer mais desgraça para esta família! Mais do que já trouxe! Saia imediatamente ou mato você. E ele!
— E quem vai sobrar para você? O filho que você não se importa?
Nessa hora olhou para Johannes, que olhava a cena com cara de choro, agarrado na manta de lã de sua tia.
— Você está parecendo nosso pai. — disse e fechou os olhos longamente. Aos poucos saiu de cima do cruzado, que agora era um conde, e segurou sua mão. — A única desonra daqui é você. Que esqueceu o que é ser homem depois que voltou da Terra Santa.
— Ah, cale-se mulher. — colocou a espada sobre a mesa e apoiou-se nela, ainda tremia. — Você não sabe o que é o ferro da areia... aquilo tudo.... Mas manter esse homem aqui... — e saiu pela porta, conversando sozinho. viu de longe ele caminhando para floresta.
respirou fundo. Pegou a espada do irmão sobre a mesa e a escondeu sob o soalho.
— Volte a descansar, Johannes. Quando acordar venha me ajudar. — ela disse ao sobrinho. — E quanto a você, seu nome é ? — ela perguntou ao cruzado. Ele piscou, olhando-a de longe. — É um belo nome.
— Quem é você? — a voz saiu baixa, entendeu o que era pelo movimento da boca dele.
— Você não me conhece. Nem ao meu irmão. Moramos durante toda a vida em sua propriedade, trabalhando duro para fornecer a quantidade mensal de trigo aos seus guardas e pessoas do castelo. Se eu não faço isso, eles tomam uma de minhas ovelhas e passamos o inverno com frio e fome.
— Por que está fazendo isso?
— Porque meu coração diz que é o certo. E porque ninguém deve negar ajuda a outra pessoa.
Ela trocou as bandagens e o emplastro, seguida pelas expressões de dor do cruzado silencioso. Ao fim, ele adormeceu novamente.

⛦⛦⛦


Dias depois do reconhecimento do homem que a irmã tinha na cama dela, arou sozinho o resto do prado. Levou agua para as ovelhas e colheu batatas. Seu filho o ajudava nas tarefas e o tratava com respeito.
— O que você e sua tia fizeram o tempo todo em que eu não estava aqui?
— Plantamos e colhemos. Tia me ensinou sobre o nascimento das ovelhas e a cantar.
— Cantar?
— Sim. — o garoto começou a entoar palavras em um dialeto estranho, mas que já havia ouvido. O pai abaixou-se na altura do garoto e tapou a boca dele.
— Não diga essas palavras em voz alta! — cochichou. — Sua tia lhe ensinou o que mais? — Que a pedra quente pode sarar machucados e a que na hora de dormir os sapatos devem ser deixados virados para o nascer do sol para que o próximo dia seja produtivo.
estava assustado.
— Sua tia lhe ensinou coisas de mulheres. Você não deve nunca repetir isso na frente dos outros, está me ouvindo?
— Tia disse isso também. Mas achei que podia falar ao senhor. Ela disse que o senhor quem a ensinou.
Sh sh sh! olhava para os lados, como se alguém estivessem vindo pelo vicinal. Voltavam a pé da casa do vizinho, onde havia ido buscar milho e cebolas para o jantar de sábado. — Não foi eu... foi... Enfim, garoto, apenas não repita isso em voz alta mais uma vez.
— Por que devemos ficar calados sobre isso? Poderíamos ajudar mais pessoas e curá-las...
— Filho, preciso que escute. — pousou o alforje repleto de alimentos no chão e buscou as palavras. — Existem coisas que não podemos controlar e apenas nos resta temer e ficar em silêncio. Se mais pessoas descobrissem o que sua tia... e eu podemos ajudar pessoas doentes, eles nos machucariam.
— Mas, papai na igreja eu escuto o abade dizendo que é preciso ser caridoso. Eu odeio ir lá.
— Nós somos caridosos dando o que colhemos para nosso senhor das terras. Isso é ser caridoso.
— O senhor das terras é o homem que tia achou na floresta?
Agnsar respirou fundo outra vez.
— Sim.
Johannes riu.
— Eu sabia. Ele me disse que chamava .
— Ele conversou com você?
— Sim. Quando tia foi lavar roupa no rio, ele acordou e pediu agua. Eu dei.
— E o que mais?
— Ele perguntou o nome da tia, o seu, do vizinho e do homem do imposto. Aquele guarda que sempre faz mal para tia .
prendeu a respiração.
— E você disse a ele?
— Sim.
— Joahnnes, eu o proíbo de voltar a falar com ele.
— Mas papai...
— O que mais disse a ele?
— Ele perguntou sobre a cicatriz da tia . Eu lhe disse que foi o marido dela que fez e que doí no inverno. Ou dói quando ela pressente algo de ruim.
massageou a testa, nervoso.
— Johannes... nunca mais diga isso para alguém estranho. O que mais falou sobre o marido da sua tia?
— Que ele morreu.
— E o homem não te perguntou mais nada?
— Não. Ele agradeceu pela água e foi dormir.
— Ele fez perguntas sobre as coisas que sua tia usou nele? Os cantos?
— Não. Ele disse que estava se sentindo melhor.
olhou pelos lados do vicinal novamente.
— Se ele te perguntar algo, não o responda mais. Certo? — Certo, papai.
— Bom garoto. — abraçou o filho, era a primeira vez que o identificava como sua cria. Ele tinha as bochechas da mãe, mas o par de olhos negros e curiosos eram dele. — Vamos, vou lhe contar sobre quando bati em um homem por um mapa de tesouro persa em Constaninopla.
— Mas você não voltou com nenhum tesouro.
— Isso é outra história.

⛦⛦⛦


No domingo à noite, despertou. Na escuridão, viu um par de olhos olhando-o perto do fogo. Sem saber se aquilo era um sonho, ele tocou a ferida enfaixada em sua barriga e sentiu dor, lembrou-se que estava vivo.
— Como se sente, meu senhor? — A mulher o perguntou.
— É isto um sonho? — disse, com a voz arranhada. Falar doeu seu peito.
— É o que você achar que deve ser. — a mulher levantou-se e se aproximou. Uma cicatriz grande brilhou com a luz do fogo, cortava o peito da mulher surgindo de dentro de sua roupa até o canto de sua boca, devia tomar o tórax inteiro. — Volte a descansar.
— Você vem cuidando de mim noite e dia, desde que cheguei aqui. Você alivia minha dor e me acalma.
A mulher sorriu. Eles falavam muito baixo para não acordar a criança e o outro homem que dormiam ali perto. A mulher sentou na beirada do leito. segurou o antebraço dela com força.
— O que quer de mim? — ele disse.
— Quero que se recupere. Você chegou para mim como uma corça ferida, com o último sopro da vida nos seus lábios. Agora já está voltando a sentir e a comer. O som da sua voz é bonito como eu havia imaginado.
— Você foi mandada pelo bispo?
— Não. Eu não sei quem é esse bispo que você diz.
— Ele que mandou fazer isso. — O homem tocou o corte na barriga. — Os guardas dele fizeram o resto por conta própria.
A mulher ficou triste e segurou o rosto do estranho com as duas mãos novamente.
— Não deixe que ele a encontre. Ele te mataria pelo que fez a mim. Ele te mataria por me tirar do mundo dos mortos.
— O bispo deve ser o homem de Deus. Por que Deus iria querer fazer isso com você?
— O bispo não é homem de Deus. E Deus me esqueceu. Me deixou em Acre... com mil bocas esfomeadas... afogado em um rio! — lágrimas brotaram de .
Shhh, já passou. — A mulher beijou a testa dele. — O que você passou na areia quente, não chegará mais aqui.
O homem chorou em silêncio um pouco mais, observado por , que segurava a mão dele.
— Agora que está de volta, eu vou te proteger. Contra tudo o que te faça mal. O bispo terá que passar sobre meu corpo para chegar ao seu. Agora, durma.
deitou no chão ao lado do leito do conde cruzado. Adormeceu ouvindo-o chorar em silêncio.


Capítulo 6

I will keep this lonely room empty for you
I will leave everything unchanged, unaffected
Everything will stay the same
Nothing is ever gonna change
Forever I will keep this room empty for you
I will leave the streetlights on, shining for you
I will sing the songs we knew
Just to feel close to you

Eivor – Room

Vou manter este quarto solitário vazio para você
Vou deixar tudo inalterado, não afetado
Tudo ficará o mesmo
Nada vai mudar
Para sempre vou manter este quarto vazio para você
Vou deixar as luzes da rua acesas, brilhando por você
Eu cantarei as músicas que conhecemos
Apenas para me sentir perto de você

passou a manhã toda no quarto que o Conde havia pedido para avaliar. Após tomar seu café da manhã sozinha, ela havia sido levada até o cômodo por Altmeyer, que se recusara a entrar. “Evito pisar aqui, senhorita.” Tinha lhe dito.
não lhe tirava a razão. O quarto era escuro, mesmo com a luz que vinha da janela alta. Havia pouco espaço entre os objetos cobertos de lençol o que fazia parecer um labirinto sufocante com cheiro de naftalina.
— Como está o conde? — perguntou a Altmeyer.
— Ainda indisposto, senhorita.
assentiu e começou a tirar o lençol dos móveis. Talvez tenha sido uma sábia decisão do conde de não presenciar os primeiros passos da restauração. Pode não parecer, mas quando se diz respeito a memórias, dolorosas ou não, as pessoas tendem a se apegar de última hora as lembranças que elas causam. A mudança dói nos nobres e já havia presenciado isso de perto. Uma vez um duque inglês se recusou a deixar que ela reformasse a cabeça empalhada de um cervo, mesmo tendo pago a ela uma quantia que valia quase o castelo dele inteiro.
Se ele tivesse aqui, falaria alguma coisa? Ela achava o conde pouco passional e distante e tinha se instigado a ouvir dizer mais sobre sua vida pessoal. Ela pensava em tudo isso conforme os objetos iam se revelando.
Uma cama, criado mudo, penteadeira, estantes, espelhos aos pedaços, molduras, cadeiras, telas de pintura, carros de brinquedo e papel de parede antigo começaram a se revelar.
— Altmeyer. — Ela disse sobre a poeira que se levantou. — Você tem certeza que o conde não vai acompanhar, certo?
— Sim, madame.
— Tudo bem. — se posicionou em frente a lona que tampava o teto. — Avise-o que estou disposta a restaurar esse quarto e todos os objetos nele. Trabalharei aos fins de semana ou quando estiver livre da restauração do castelo. Vou fazer uma lista de tudo o que precisarei e peço que entregue a ele.
— Perfeitamente, senhorita.
— Quantos funcionários tem aqui?
— Perdão, senhorita?
— Preciso de pessoas dispostas a carregar, varrer e que tenham força para me ajudar a erguer vigas de madeira. Também de uma escada e um deposito de lixo. — se lembrava do pedido do conde de que só ela era permitida na casa, devido a reclusão da família. Trabalhar naquilo sem seus próprios funcionários seria complicado.
Altmeyer concordou com a cabeça a cada palavra e saiu. puxou a lona com força e os pregos que a prendiam se retesaram. Estavam enferrujados e começaram a se soltar conforme ela puxava. Logo a lona soltou e ela pôde estudar o dano: fogo.
Com a luz do sol entrando pela fenda no teto, sobre a viga rompida, analisou o restava daquele quarto circular. Seus olhos profissionais definiram por onde começar e por onde terminar. Listas de objetos e ferramentas se formaram em sua cabeça e logo calculou quanto tempo demoraria e os objetos que lhe dariam mais trabalho.
Ela abaixou-se e segurou a réplica de uma moto, amassada e sem rodas. achava importante conhecer a origem de destruição voluntária dos objetos de sua restauração, mas sabia que na vida dos nobres esnobes haviam muitos segredos que não valiam o risco de perder o trabalho por uma curiosidade.
Aos poucos, separou tudo em caixas que Altmeyer a ajudava a identificar, até que obteve ordem no espaço.
Madeiras aproveitáveis / Madeiras para descartar.
Tecidos /molduras / pintura e ilustração.
Réplicas.
Altmeyer pareceu perder o desconforto de entrar no quarto e a seguia para todo lado, segurando estantes pesadas ou escrevendo com sua letra bonita nas caixas. Alguns empregados silenciosos o ajudavam em tudo.
Em uma das vezes que Altmeyer saiu, recebeu uma visita enquanto apertava dois parafusos deitada embaixo da penteadeira. Quando viu pernas de alguém na porta, ela se afastou para poder vê-lo.
— Ora se não é o conde que não é conde.
Eltz olhou-a com desprezo.
— Senhorita .
— Você veio aqui para ajudar, certo? Pode levar aquelas telas para meu quarto, por favor. — e voltou a concentrar-se na penteadeira.
— Você sempre se veste como um encanador quando vai reformar uma casa?
respirou, impaciente.
— É algum tipo de sex appeal, ou...? — O Eltz continuou. — Seja lá o que for, o banheiro do meu quarto está com problemas, se você quiser passar lá para reformá-lo também...
saiu debaixo da penteadeira e se ergueu. Usava um cinto com ferramentas e uma faixa postural que apertava sua cintura para evitar lesões na coluna. O Eltz a olhou dos pés da cabeça.
— O que você quer aqui?
— Os empregados me disseram que você parecia o Batman. Eu vim conferir.
estreitou os olhos em desprezo atrás de seus óculos havana. O Eltz riu sarcástico.
— Você não saberia usar nem um terço dessas ferramentas.
— Chaves de fenda são as mesmas em qualquer lugar. — apontou para a ferramenta que a mulher segurava. — E como se fosse difícil remendar uma penteadeira.
— Por que você não tenta? Pelo que parece ninguém tinha coragem de entrar nesse quarto. Tiveram que pagar uma estranha para isso.
O Eltz continuou com expressão de nojo.
— Por isso mesmo. Onde já se viu um nobre com farpa nos dedos? Você está sendo paga para isso.
— Seu irmão, no caso, o meu patrão, está me pagando para reformar um quarto e um castelo – pagando muito bem – então se você puder me fazer a gentileza de me deixar trabalhar em paz e ir embora, eu ficaria agradecida.
— Altmeyer disse ao meu irmão que você não almoçou. Já são quatro da tarde e ele quer que eu a acompanhe na refeição. — virou os olhos. — Vou dizer que você já comeu.
— Faça isso.
— Ele insistiu em você seja acompanhada por algum Eltz caso tenha perguntas a fazer.
— Ele podia mesmo ter mandado um Eltz, você não parece um.
a olhou irado.
— Desrespeitar a família também estava no seu contrato, pelo que parece. Acho que você esqueceu com quem está falando.
— Você esqueceu o mínimo da educação. Você não é nem a metade do que seu irmão é nesse quesito.
— Tratar bem uma encanadora? Arrogante como você? — cruzou os braços e caminhou para dentro do quarto. — Eu já lhe disse que você precisa ir no meu quarto restaurar meu encanamento. Se é que me entende. — Ele segurou a réplica da moto do chão e ficou observando -a. — Eu tinha me esquecido disso daqui. BMW R32 de 1926...
— Senhorita, consegui o pincel de cerdas grossas que pediu e um pouco de éter. — Altmeyer surgiu na porta com a cabeça oculta pelas caixas que equilibrava nos braços. — Infelizmente não temos mais soda, mas mandei um lacaio ir comprar.
— Está ótimo, Altmeyer. É o suficiente para hoje. — ignorou o Eltz e fui ajudar o mordomo.
— Oh, mestre Luitger, precisa de algo? — O mordomo se virou para .
— Não, Altmeyer, já estou de saída. — O Eltz se direcionou para a porta, com a réplica da moto nas mãos e olhando irado para . — Apenas providencie a senhorita a ajuda que precisar.
— Perfeitamente senhor. Já irá descer para o almoço? A mesa está a postos.
— Não.
— Devo cancelar o almoço e o chá à sua espera e de senhorita ? — perguntou.
— Sim.
— Ora, senhor e o que vai almoçar? — Altmeyer seguiu no encalço do Eltz, preocupado. — Quer que senhora Goint lhe prepare um sanduíche?
— Não, Altmeyer. — E saiu.
— Avisarei o conde de sua chegada. Ele está querendo falar com o senhor desde ontem à noite...
— Ele tem meu celular, pode me ligar quando quiser saber onde estou.
— Sim, senhor.
— O conde que mandou você almoçar comigo, não é? — riu. O Eltz apenas a olhou. — Por que você não me convidou diretamente?
— E você iria?
— Talvez!
Altmeyer olhou de para , assustado.
— Mestre Luitger pediu para que fosse preparado um Sole Meunière* que a lembrasse de sua terra natal, senhorita .
já havia saído pelo corredor.
— Diga ao conde que mandei lembranças e que não vejo a hora de Vê-lo disposto, ! — disse, à porta, rindo.
a olhou com raiva por cima do ombro.
— Senhorita , devo cancelar o Sole Meunière?
— Não mesmo, Altemeyer. Eu comeria um leão agora. Vamos lá. Posso almoçar na cozinha?
— Na c-c-cozinha? — Altmeyer gaguejou. — Mas senhorita, a cozinha é apenas para funcionários, convidados ficam na sala...
— Sou uma funcionária aqui tanto quanto vocês. E não quero a companhia de Eltz. Tem uma cadeira para mim lá?
desatou a cinta postural e as ferramentas.
— Certamente. — Altmeyer parecia estar de bom humor. — Vou leva-la até lá. Mas devo alertá-la que que nosso corpo de empregados não é muito grande e...
Altmeyer começou a falar nomes e funções enquanto ouvia tudo atentamente. O mordomo a guiou para o anexo dos empregados que ficava em um lado da mansão, próximo a um antigo estábulo e o esqueleto de uma videira abandonada.
foi recebida por senhora Goint, uma cozinheira esguia e de cabelos vermelhos como fogo, aparentava jovialidade apesar de suas muitas rugas. Aos poucos, na cozinha larga e com uma mesa muito de madeira maciça onde alguns empregados liam ou conversavam entre si, foi conhecendo cada um. A velha cozinheira lhe contou com nostalgia sobre os pais dos irmãos Eltz, em como o conde Kaspar (o pai) gostava de caçar o como a Condessa Lavinia gostava de promover bailes secretos para funcionários e estudiosos que a família patrocinava.
— O sigilo é algo muito perene por aqui, senhorita. Preciso dizer que quando soubemos de sua chegada, foi uma surpresa.
— O conde até mesmo escolheu suas abotoaduras especiais. — disse um homem de cabelo grisalho, usava o mesmo uniforme de Altmeyer.
— Limpamos a estufa três vezes. Nem sei porquê. — disse outro homem, que passava pano no chão da cozinha, usando um avental. o reconheceu como um dos empregados que ajudaram a tirar caixas do quarto em restauração.
— Cientistas já vieram aqui. Mas uma artista plástica? A primeira vez. — Continuou senhora Goint. — Estamos curiosos com o que irá fazer, senhorita. Lembre-se de tomar um chá conosco e nos atualizar.
comeu tão rápido o prato feito para ela que se sentiu empanturrada. Elogiou a cozinheira e ouviu mais histórias.
Após um chá e biscoito de canela (e mais fofocas sobre o pai dos irmãos Eltz e uma professora de Fenomenologia de Grenoble), voltou para o quarto em que devia reformar. Mais tarde naquela noite, quando se preparava para dormir e olhava para a ponta dos dedos calejados, lembrou-se de uma frase de senhora Goint:
Os Eltz são viciados em arte e tudo o que a envolve. Perfeição, essas coisas. Há gerações. — a velha tinha um tom de voz entre um conselho ou uma ameaça. — Não se esqueça que a senhorita é um veículo dessa arte. E que esses meninos são desesperados.

⛦⛦⛦


acordou de madrugada com o peito dolorido. Uma dor que parecia surgir do estômago, passando por seu esôfago até a garganta, mas sobre a pele. Não era a primeira vez que despertava de um sonho ruim com uma floresta, um homem perseguindo-a e aquela sensação de estar sendo observada até quando acordava.
Do outro lado da janela, tudo estava escuro exceto pontos de luz distantes que pareciam ser as cercas da propriedade, no céu escuro, a lua nova ainda não tinha apontado.
Ela fechou-se num casaco e calçou as meias. Buscou pela água, mas seu copo estava vazio. Ao acender a luz do quarto, viu as caixas que havia mandando para o quarto, para analisar. Uma tela de um garoto brincando no chão, partida ao meio, estava virada para ela. Sentindo um calafrio, foi até a tela e a virou para parede.
Quanto menos olhos em mim melhor. E riu do pensamento medroso. Se distraiu olhando alguns pedaços de madeira rebuscada de molduras que teria que repetir o padrão na madeira nova.
Sutilmente, um som distante começou, distante, abafado. Era uma música que ela conhecia, mas não se lembrava do nome. O instrumento era conhecido também. Cravo**.
Ela colocou o ouvido na porta e o som fez-se mais nítido: Vinha de algum lugar da casa. O relógio marcava duas e meia da manhã e o som parecia na mesma altura do tic tac, parecia planejado perfeitamente para não ecoar muito alto, quase como um grito em um travesseiro.
saiu do quarto pelo corredor escuro, com algumas luzes que se acendiam pela sua presença nos rodapés, deixando os ambientes amarelados. Quando chegou na escada da tapeçaria, percebeu que o som ecoava do andar acima.
Ela continuou o caminho, passando por uma escultura de um soldado grego, algumas espadas em caixas de vidro, até o corredor onde o som ficou mais nítido. Ficou um momento escorada na parede fria ouvindo o som suave que vinha de algum quarto por ali. Ficou olhando para a janela, onde do lado de fora iluminava a fachada da casa, com a fonte e a entrada com um poste enfeitado iluminando o vazio da madrugada.
Quando o som se cessou, ela decidiu voltar. Pisando suavemente sobre o mármore gelado da escada, ela rumou para o quarto.
— Fazendo um tour noturno, é?
O coração da mulher quase saiu pela boca, de tanto susto. Eltz com uma camisa aberta segurava uma garrafa e parecia embriagado, apoiado na porta da biblioteca. deu as costas para ele e continuou subindo as escadas.
— Ignora meu irmão! Ele toca essa música quando tem pesadelos — O Eltz riu. — Lua nova, sabe? Todo mundo tem pesadelo na lua nova... — E soluçou.
não deu ouvidos. Continuou subindo as escadas, relembrando a todo momento do tórax descoberto do Eltz e a sombra de algumas tatuagens.

⛦⛦⛦


Existe algo que ele deseja. Algo tão dolorido quanto as prontas de metal de um chicote, tão visceral quanto veneno lento. Isso o consome, o deixa mal, o faz suar debaixo das camadas do hábito. É ódio? Não, não é. É outra coisa. É o que os gregos amavam, isso ele tinha por certo. Algo fadado a tragédia! Melpomene.
Pecado ele sabia que não era, mas virtude também não era.
Era ira. Era desprezo. Ele estava perturbado. Dentre todos os infortúnios em seu plano, o mais perturbador deles era ela. Uma mulher.
Desesperado, ele tenta olhar para os cadernos a sua frente. A iluminura que estava terminando para presentear a condessa. Desenhava um demônio que tentou nosso senhor Jesus Cristo em Getsêmani. Ave Maria! Ora pro nobis Deum!
Agunus Dei. Ele diz em voz alta. Sua mão treme mais uma vez. Enquanto desenha o demônio, a mão dele escorrega e risca o que acabou de fazer. Irado, o homem pega o livro e o arremessa no fogo. Gruni em voz alta.
Qui tollis peccata mundi, miserere nobis.


Capítulo 7

At night the war still comes to you
It makes it harder to join the dots
The river gets wider in front of us
Baby we're nothing but violence
Desperate, so desperate and fearless


Editors - Violence

À noite, a guerra ainda vem para você
Isso torna mais difícil juntar os pontos
O rio fica mais largo na nossa frente
Querido, somos nada além de violência
Desesperado, tão desesperado e destemido.


1194

As noites que se passaram depois que o cruzado e conde Eltz recuperava sua vida no leito de foram repletas de gritos de dor, desespero e choro. O conde chorava todas as noites de sono, perturbando a calma daqueles que tentavam dormir no mesmo teto. , em todas as noites, calmamente o acolhia em um abraço ou lhe acariciava a fronte. Chamava-o pelo nome até acordar e então ele chorava pelo resto da noite, em um estado de sonambulismo. Durante o dia, dormia calmamente.
pareceu ter recuperado do trauma que a Terra Santa havia lhe causado, não bebeu mais na taverna ou esqueceu-se do filho. Trabalhou no arado durante os próximos dias de verão enquanto a irmã pôde se concentrar em cultivar mudas curativas ou fazer novas roupas em seu tear.
Em um dos dias em que estava roçando o prado, ele viu três homens se aproximando a cavalo, com cavalos enfeitados com o manto da casa Eltz. Dois pararam e um deles veio até a oliveira que marcava o meio do vicinal. o abordou.
— Senhor, o que devo sua presença por essa terra?
— Viemos colher o imposto do outono.
— Mas o fim da colheita é para a próxima lua nova, senhor. — riu nervoso. — Temos algum motivo de ter reduzido o prazo da nossa produção?
Desde pequeno havia sido ensinado a responder a autoridade parecendo um imbecil. Seu pai agia sim e o pai dele, desde quando aquela terra ainda estava sobre o domínio romano.
"Eles não gostam de saber que você sabe contar. Ou conversar." Dizia seu pai. Conversar com autoridades também fazia lembrar de como seu pai era submetido a castigos com chicote e óleo quente se entregava um saco a menos quando o Castelo Eltz ainda não havia sido erguido. Aquele momento era de tensão.
— Com a volta antecipada do exército de nosso senhor conde a demanda por trigo foi aumentada para este mês. — O oficial lançou um olhar para a cabana. estava à porta. — Fiquei sabendo que você voltou como cavalariço de Edler Richard dos moinhos do norte. E que irá servi-lo...
— Quando ele retornar às atividades de treinamento, certamente que sim. Até lá...
— E o boato é que também recebeu uma grande quantia de prata de Edler Richard.
engoliu seco.
— Os boatos engrandecem muito o prêmio, senhor, de toda forma o que recebi foi para aumentar a produção. Compramos novas ferramentas e tiramos o moinho do penhor. — procurava sorrir o máximo que podia. Tinha medo do homem oficial entrar dentro de casa e dar de cara com um nobre que era para estar morto. — Aliás, quais são as notícias do castelo?
O oficial estreitou os olhos. Montado no cavalo, olhava para como se olhasse para uma pulga.
— Tem assuntos para tratar lá, camponês? Por que pergunta?
riu.
— Meu bom senhor, apenas curiosidades. Me acostumei a ouvir histórias do castelo na Terra Santa...
— Você deveria se envergonhar por isso — o oficial cuspiu no pé de . — E devia levar dez chicotadas por sua indolência curiosa.
caiu de joelhos.
— Meu senhor! Nobre senhor... — a voz dele se embargou e suas pernas dobraram até o joelho cair no chão — E-e-eu sinto muito por isso.
— Essa pena deverá ser acrescentada no imposto desse mês. Vou completar minha viagem até o fim do rio e passarei aqui na volta para apanhar a quantidade correta de trigo e do seu salário de cavalariço.
— Certamente senhor, é muito bondoso por nos dar esse prazo...
— Retorno na próxima semana.
Sete dias? Senhor o trigo demorará...
— Você quer colocar as suas costas ou a de sua irmã à disposição do meu açoite caso não seja entregue o que peço?
Senhor?! sentiu as mãos gelarem.
— Providencie o trigo. Estarei aqui na próxima semana, após completar a volta do rio.
O oficial deu as costas, com a brigandina da casa Eltz brilhando sob o sol do começo do dia. viu ele e os outros homens se distanciarem a cavalo. Sentiu uma presença se aproximar.
— Adalfarus quer mais trigo.
— Ele disse que com a volta do exército...
— Ele diz isso para mim todo verão e sempre toma mais do que temos. Uma ovelha, um saco ou algo absurdo. — ajudou o irmão a se erguer do chão, pois ainda estava de joelhos. — Por isso esperei por você. Por isso acreditei todo verão... ele mentia para me fazer entregar mais. — O sol brilhava os olhos castanhos da mulher. — Ele não irá parar de aumentar a taxa.
olhou para a irmã, sentiu um mal-estar tão grande que daria tudo por um gole de vinho.
, podemos falar com o conde , devolvê-lo ao castelo e assim podemos pagar o trigo...
, se for mesmo conde, não consegue nem mesmo dormir. — disse, como se o irmão tivesse acabado de falar algo tão impossível como colocar fogo na água — Se o entregarmos ao castelo, hão de comê-lo vivo!
bufou.
— Eu não vou deixar que isso aconteça. Temos um conde! O Conde! O senhor destas terras, o homem que pode pedir a cabeça desse oficial. — Ele segurou os ombros da irmã. — , ele pode nos dar dinheiro para irmos embora desta terra... Constantinopla talvez...
, já está firmado. Eu não permitirei que o levem. E não somos ciganos para abandonar nossa terra. — se livrou os ombros das mãos sujas do irmão — Enquanto não puder caminhar com as próprias pernas e decidir por conta própria, eu não vou permitir que ele saia daqui. Nem vou aceitar qualquer mal a ele. — estava calma, parecia enfrentar aquilo pela milésima vez.
— Você é capaz de oferecer nossos recursos parcos em vez de entregar um nobre caindo aos pedaços! Nós vamos morrer de fome! — bateu no chão o pequeno chapéu de tecido que usava para proteger a cabeça do sol nos dias de arar a terra. — Você protege um homem que passou a vida toda se alimentando do que fazemos enquanto nós comemos as sobras! Você pode contar cada uma das minhas costelas! E as dele? Pense em Johannes, pelo amor dos céus!
deu as costas ao irmão. Voltou para a cabine pequena e o deixou praguejando sozinho, em desespero.

⛦⛦⛦


Naquele mesmo dia, a noite começou calma. Após a janta, Johannes adormeceu rapidamente e saiu de casa sem dizer onde ia. Estava com as mãos enfaixadas por conta das bolhas que arrebentaram de suas mãos por ter passado o resto do dia cortando árvores e liberando espaço para arar mais trigo. Não conversou mais com a irmã.
tecia um casaco de lã para e passou a noite toda tecendo-o. Foi interrompida pelos pesadelos do cruzado, que só voltou a dormir em paz quando adormeceu segurando a mão da mulher.
Ela sorriu. Gostava da presença dele. Imaginava as histórias que ele não deveria trazer na memória. Ele conversava em latim quando dormia, falava palavras de ordem a um exército e suava frio. Em algumas noites, ele ficava tão nervoso que seu ferimento na barriga abria e precisava costurá-lo novamente, com Johannes segurando a vela para ela enxergar na madrugada.

⛦⛦⛦


Os dias se passaram e não cessou de buscar meios de fazer o trigo crescer.
— Precisamos de um milagre. — Ele dizia, para todo lado. Essa frase era seu bom dia e boa noite.
Ele buscava água do rio nas costas, forçava o único pangaré velho que tinham a caminhar pelo arado o dia todo, acreditando que os pés dele iriam amansar a terra e preparar melhor para o trigo surgir. Até mesmo trouxe um homem que encontrou na taverna, quem se intitulava um druida, para abençoar a terra.
assistiu tudo de sua cadeira, onde fazia roupas para todos da casa. Havia feito uma capa de frio para ela, um chapéu para Johannes usar aos domingos e uma camisa nova para usar quando fosse se apresentar como cavalariço. À noite, cuidava de e de dia, impedia de arrastar Johannes para sua empreitada impossível.
— Nenhum homem tem como passar por cima do ciclo da terra. Seu trabalho é em vão. — Disse, certa noite, vendo o irmão entoando cantos com o rosto sujo de terra no meio de um círculo de pedra.
— Um deus precisa ajudar. O deus da terra, do ar, dos corvos...
— O deus da cruz matou o deus da terra daqui. Junto com todos que acreditavam nele. — disse num tom sombrio. — Se os padres souberem que você está se sujando e cantando em outra língua, vão jurá-lo de bruxaria.
não deu ouvidos. Magro de exaustão, sujo por dias de trabalho incessante e louco por sua seara impossível, ele dormia quase todos os dias ao relento, no meio de ferramentas de trabalho ou de pedras ritualísticas com runas.

⛦⛦⛦


A semana passou e o trigo não cresceu. Na manhã do dia que o oficial do senhorio iria buscar o imposto, estava fraco de exaustão e teve que ser amparado por , que o alimentou e o fez repousar.
— Irmão, você e Johannes é tudo o que tenho. Eu não quero perder você para a loucura como eu já perdi você para o deserto. — Ela disse, entristecida, para o irmão que desmaiou de cansaço. — Repouse agora.
O dia correu tranquilamente. cozinhou e cozeu, ensinou a Johannes como fazer uma bebida forte com sal, camélia e pó de milho, para dar para os doentes. Ela preparou a janta e alimentou o sobrinho, colocando-o para descansar antes do sol se pôr.
Quando o céu começou a ficar rosa, a chamou.
— Seu nome é .
Ela se assustou.
— Certamente, senhor.
virou a cabeça para ela. Seus olhos não estavam mais amarelados e doentes, pareciam ter desperto de uma longa soneca: inchados e sonolentos.
— Por que está tudo silencioso?
— Perdão, senhor?
— Antes ouvia a voz de outra pessoa. Ouvia o ruído dos animais e do rio, agora está tudo muito calmo. — sua voz estava forte e ecoou pela casa.
foi até ele e o cobriu com outro cobertor.
— É porque você passou a ouvir os sons daqui e não os da sua cabeça. Aqui é assim. Silencioso.
O homem ficou olhando-a em silêncio.
— Repouse mais um pouco. Voltarei em breve.
Ela voltou a segurar a cesta e saiu fechando a porta.

⛦⛦⛦


esperou o sol abaixar, escorada na oliveira. Ao seu lado, havia separado três ovelhas e dois sacos de trigo. Quando escureceu, uma carroça entrou na propriedade, com duas tochas de fogo iluminando-a. Dois homens vinham a cavalo, escoltando-a. aos poucos foi vendo a silhueta do oficial Adalfarus e sua brigandina do castelo Eltz. Ver a face daquele homem a fez temer.
Ele desceu do cavalo e o animal foi amparado pelos dois oficiais subalternos que olhavam como se ela fosse uma sopa quente.
— Então, vejo que não tem mais trigo. Nem ovelhas.
— Vejo que o exército voltou novamente. — respondeu sem hesitar.
— Dessa vez você sabe que precisamos mais do que nunca da produção daqui.
— Certamente.
— Você devia ter aceito ser minha esposa quando o propus. Eu iria tirá-la desse chiqueiro de porcos. — Adalfarus desceu do cavalo e avaliou os sacos e as ovelhas. Ele tinha o rosto cheio de vincos e olhos muito escuros. Fedia a suor e banha de porco, que sentia a distância. — Agora que está remendada, nunca conseguirá outro pretendente. — o homem ria, ofender parecia ser sua diversão anual. — Eu ainda sou muito bom para você, não é?
— É bom, senhor Adalfarus.
— Seu sotaque do campo é um refresco. — Adalfarus parou de olhar os sacos e fitou a cabana. — Sabe, eu poupo você da fome. Seu irmão inútil e o rebento também. Mas não é o suficiente. Isso daqui não basta.
— Mas senhor, é tudo o que temos devido sua visita antecipada...
Adalfarus bufou impaciente.
— Dessa vez não bastará. Você não sabe o que passo no castelo quando defendo vocês, camponeses. Eu sou o advogado de vocês e faço o bem, mas não sou santo. Não tenho poderes milagrosos. — Adalfarus brandia o dedo para o alto — Onde está o seu irmão? Ele precisa estar aqui para receber uma lição. Para aprender a não gastar o que ganha e trabalhar para pagar o imposto.
Adalfarus virou para trás e apanhou o chicote de cavalos. empalideceu.
— Senhor, acredito que isso já seja demais, por favor...
— Seu irmão precisa disso. Precisa jorrar o sangue. Precisa saber que não se pode gastar o dinheiro assim. — Adalfarus soltou . — Eu confirmei com o senhor Richard. Seu irmão ganhou dezesseis moedas de prata quando retornou. E onde elas estão? Onde ele está? Onde está o imprestável?
temeu e tentou segurar o oficial, mas os dois subalternos dele a deteram. Eles seguravam seus braços com tanta força que ela nem tentou repelir.
— Senhor, ele está exausto. Irá dormir por dias. Ele trabalhou para fazer o trigo crescer...
Adalfarus riu, continuou olhando para a cabana.
— Senhor, eu imploro, não faça isso. O que for preciso. — caiu de joelhos, os sodados a soltaram. — Por favor!
Adalfarus virou-se para a mulher.
— Implora pelo que, sua meretriz? Seu irmão precisará disso para que aprenda a cuidar de sua família. Você não pode escondê-lo nas vestes. — Ele riu e começou a caminhar.
se ergueu e desvencilhou dos soldados. Arremessou a cesta na cabeça de um e chutou a canela do outro. Com o pano que carregava, amarrou rapidamente as mãos do que quando se curvou de dor. Os homens ficaram atordoados por um tempo.
Adalfarus não viu, pois continuou seguindo para a cabana. E lá dentro ele entrou.
, contudo, apareceu dentro da casa erguendo uma espada na direção do peito de Adalfarus. A espada de agora parecia mais firme na mão de quem sabia empunhá-la desde que nasceu.
— Ora, conde Eltz... — Adalfarus começou a andar de costas.
de pé parecia ter a envergadura do mestre de guerra que as lendas contavam. sentiu medo em vê-lo tão ameaçador – e tão forte. O corte em seu abdome sangrava sob a calça de linho e as cicatrizes de seu peito refulgiram à luz das tochas da casa.
— O que veio fazer aqui oficial? Veio me matar?
— Senhor, os rumores são que já está morto! E que traiu o bispo. Eu vim...
, o que ele veio fazer?
— Senhor... — ainda estava incrédula. — Ele veio tomar nossos recursos. Todo mês aumenta a taxa da propriedade, de modo que não posso pagar a taxa inteira. — Ela disse, destemida. Soube que aquela não era a hora de temer.
Os olhos do conde refulgiram com tanta ira que não acreditou que fosse aquele o homem que apareceu quase morto em sua soleira.
— Esta mulher não paga os impostos, senhor, eu faço o meu trabalho apenas, em nome de Jesus Cristo e a Virgem Maria. Você não irá acreditar numa bruxa mentirosa, nesta manifestação do demônio!
Os homens que atordoou àquela altura já haviam se levantado e livrado da amarra. Um deles se aproximava e o outro se afastava para o cavalo.
Jesus Cristo. Não ouço esse nome há muito tempo. Em nenhum dos dias que agonizei, ele apareceu. E pelo que diz... não é a mim você serve, mas a ele...
Adalfarus caiu no chão de joelho.
— Senhor eu sirvo a...
desferiu um tapa forte na face do homem, que caiu sobre o chão. Chutou-o repetidamente quatro ou cinco vezes na barriga e quando o oficial cuspiu sangue, ele se virou para .
— Você sabe matar?
Ela assentiu.
— Vá atrás do que fugiu. Mate-o para que não revele onde estou. — enfiou a espada na garganta de Adalfarus, esparrando sangue pela soleira da porta. Sem conferir o corpo, se aproximou de , com a espada suja. — Vá, mulher!
correu até o machado no estábulo e passou por e o subalterno que ela havia ferido com a cesta, engalfinhados numa luta. Ela tomou um dos cavalos amarrado na oliveira e zarpou atrás do homem que corria, mal podendo enxergá-lo devido a lua minguante.
Sua cicatriz doía e respirar parecia encher seu peito de fogo. Ela lembrou-se do irmão dormindo exausto e cheio de bolhas nos pés e nas mãos e do sobrinho que sempre tinha mais fome do que comida no prato.
Com lágrimas nos olhos e o peito esbraseando a cada galope, uma mão na rédea do cavalo e a outra no machado erguido acima da cabeça, galopou pelo terreno que conhecia como as linhas de sua mão. Pedra, cascalho, grama e trigo passaram pelos pés de seu cavalo como um tecido ondulado. A mulher só teria uma chance de abater o oficial subalterno e não iria desperdiçá-la.
Manteve os olhos abertos sem piscar e quando viu a chance, arremessou o machado no contorno difuso das costas do homem a sua frente. Ele não caiu do cavalo, mas diminuiu a velocidade.
Ela pareou o cavalo e, com a adaga que tirou do tornozelo, fincou sobre a perna do homem, que gritou de dor e tombou aos poucos para o lado, ainda preso a sela. O cavalo dele, assustado, continuou correndo pela estrada, arrastando o homem pelas pedras do vicinal.
Algum tempo depois, seguiu o rastro do cavalo desgovernado até a margem do riacho, onde o animal parou para beber água. Ela se aproximou, cautelosa, com um canto antigo para acalmar os animais que a ensinou.
Ao ver o homem respirando ruidosamente, se abaixou. Ele grunhiu, agressivo, mas não pôde se fazer claro com seu maxilar fora do lugar e a boca com os dentes pendurados para fora. Estava com ossos expostos entre a carne e alguns membros do corpo faltando. Ele cuspiu uma bola de sangue no vestido da observadora.
retirou a rédea e o bridão do cavalo. Segurou firme o couro das cordas quando se abaixou sobre o homem que grunhia alto e pedia socorro por meio de seus gemidos.
— A sua morte vai ser para que meu trigo germine.
Passou a rédea pelo pescoço do oficial quase morto e a apertou com força para a vida se esvair dele. Apertou com toda a força que tinha em seu corpo, inflando o peito com o esforço. Em um último ruído de respiração, o homem caiu.

⛦⛦⛦


A noite cobriu a sombra de enquanto voltava num trote calma para casa, com o cavalo do oficial amarrado ao que estava montada. Havia prendido o cadáver do oficial ao seu próprio torso, para que não pendesse. Passou pela carroça abandonada sem olhá-la.
estava sentado no banco na porta da casa, segurando o ferimento com a mão e com o peito largo respirando pesado.
— Você o apanhou. — Ele disse, enquanto se livrara do corpo. Por onde andava, arrastava a barra de seu vestido suja de sangue. — Muito bem. Foi o melhor.
— Sim, senhor. O que aconteceu aqui?
— Fui ferido de novo e isto voltou a doer. Estou lento.
— Não se preocupe, irei costurá-lo novamente. — Ela disse, amarrando os cavalos no estábulo e checando a água do cocho. — Acha que irão vir mais oficiais?
— Quanto tempo é daqui até o castelo?
— Três dias de caminhada em dias bons.
— Se assim for devemos ter alguns dias até que deem falta de Adalfarus.
O conde e a mulher se olharam, pela primeira vez, à luz. Estavam curiosos um pelo outro e desconfiados.
— Vou ajudá-la a enterrar estes homens.
— Não será necessário. Farei isso sozinha. — ela apontou para a ferida do abdômen do homem — Preciso que deite. Para... poder te curar.
Ele se ergueu, um pouco curvado por conta da dor. se aproximou e o amparou, vendo de muito perto o queixo barbado do homem.
— Por quanto tempo dormi?
— Você dorme de dia e fica tendo delírios durante a noite. Já fazem quase quinze dias que surgiu para mim.
deitou-se e continuou olhando para como se nunca tivesse visto uma mulher em toda sua vida, muito mais uma mulher coberta de sangue.
— Por que eles não acordaram com o barulho? Você os enfeitiçou?
— O que pensa que sou, senhor? — foi irônica. — Eu fiz água de valerianas, uma flor pequena, para que dormissem. Achou que eu era uma bruxa? Ou um demônio?
— Eu não sei o que você é.
— Então saiba que sou alguém que zela por você e deseja profundamente sua recuperação total.
— O que ganhará com isso? — O rosto de estava desconfiado.
sorriu.
— O que quiser me dar, meu senhor. Mas antes de qualquer coisa, desejo ganhar sua amizade.
O conde ficou olhando a mulher se mover pela cabana pequena. Em meio a tigelas de água cheirosa, suspiros de dor e suturas, eles não falaram nada. Se olhavam escondido, mas ficavam em silêncio.

⛦⛦⛦


dormiu após os curativos. começou o serviço que tinha que fazer. Distanciou-se de sua casa e no meio da floresta, cavou até amanhecer. Enquanto cavava, orava para os deuses que gostavam dela e para sua mãe.
Quando cavou o suficiente, apanhou sua adaga pessoal sempre presa em algum lugar da sua perna, ainda com sangue.
— Este, por maltratar quem trabalha — rasgou a carne do primeiro oficial em um formato de "X". — Este, por roubar a comida de quem amo — fez o mesmo no segundo oficial. — Este, por fazer meu pai trabalhar até a morte e levar meu irmão para longe de mim. — E repetiu o gesto no rosto de Adalfarus. — A terra irá consumi-los para sempre. A chuva irá sepultá-los. E o trigo irá nascer de novo. Será um inverno sem fome.
fechou os corpos em lonas velhas e furadas e os empurrou para a vala. Voltou a terra para seu lugar e selou o buraco quando o sol começava a surgir. Jogou sementes sobre a terra mexida e arrastou pedras para disfarçar. Ao fim do trabalho, chorou.
Após um tempo, a mulher surgiu da floresta encontrando olhando nervoso para o céu e sentado do lado de fora olhando por todo lado a sua procura. Johannes corria atrás de uma ovelha fora da cerca com um cachorro atrás de si.
Quando a viram montada a cavalo, começaram a falar os três ao mesmo tempo vindo em sua direção, mas ela não ouviu nenhuma palavra.
Ela amarrou o cavalo no cocho e começou a andar até eles, ainda com os olhos vermelhos e a boca seca. Sentia-se tonta. Quando a mulher sentiu segurando sua mão, ela desmaiou e a apanhou.
Começou a chover.


Capítulo 8

So spoke the wizard
In his mountain home
The vision of his wisdom
Means we'll never be alone
And I will dream of my magic night
And a million silver stars
That guide me with their light


Uriah heep – The Wizard

Assim falou o mago
Em seu lar na montanha
A visão de sua sabedoria
Mostra que nunca estaremos sozinhos
E eu irei sonhar com minha noite mágica
E um milhão de estrelas prateadas
Que me guiaram com sua luz


2018

Na sua segunda noite na Casa Eltz, não dormiu bem. A lua nova nublava qualquer iluminação do lado de fora e quando ela acordou pela terceira vez na noite conturbada de sonhos estranhos e vívidos, foi saudada pela escuridão completa. Irritada com a própria insônia súbita que não deveria existir em dias que ela estava exausta, decidiu se pôr de pé definitivamente. Após um banho e hidratantes, seu reflexo no espelho pareceu menos esvaído e irritadiço.
Em cima da cama, abriu sua valise francesa e avaliou todos os objetos que precisaria para o primeiro dia de trabalho no Castelo Eltz, de ferramentas a pen drives. Ela sempre optava por camisas cujo tecido fosse frio e fino para não a ferir após um dia todo usando cintas posturais ou equipamentos de proteção. Após certificar-se que não faltava nada, ela arrumou a cama e saiu.
A casa, ainda muito escura, recebia os passos de pela madrugada mais uma vez. O som da bota da mulher era a única coisa audível além do bater de asa de morcegos do lado de fora. Ela estava decidida a tomar uma caneca de moca com creme da cafeteira profissional que vira na cozinha e mais disposta ainda a chegar lá antes do resto da casa acordar.
Passando pelos salões, ela se deteve na biblioteca. Deu-se conta que era a primeira vez que estava ali sozinha, o que poderia ser uma chance de investigar os títulos mais atentamente. Após um tempo observando as placas que separavam as sessões das formas mais minuciosas, ela se deteve em um objeto novo: uma otomana carmesim com revistas e jornais bagunçados ao redor.
As manchetes estavam circuladas com caneta ou com a tradução em post its. Espanhol, polonês, inglês ou russo eram uns dos idiomas e todos os epígrafes tinham algo em comum: fotos de Eltz jovem em alguma situação embaraçosa.
Surpresa por descobrir que mais um Eltz foi alvo da mídia, passou a analisar as reportagens nas línguas que conhecia.

Milionário alemão é preso por roubar um busto em Helsinki.

Jovem herdeiro Eltz processado por destruir um quarto de hotel histórico em Poznan.

Primogênito de Kaspar Eltz é detido em George Town por apostas em brigas clandestinas e porte de drogas.

Dentre todas as manchetes polêmicas, uma delas chamou a atenção de : um muito jovem e sem camisa mostrava uma tatuagem de ciclo lunar no peito magro – e bonito. Os cabelos dourados ondulados caíam sobre um rosto disperso, fumando cigarro vermelho e sem parecer temer nada no mundo. Era de 1996.

Na manhã do dia 23 Eltz, filho de Kaspar Eltz, o 32º Conde Eltz und zu Kemperich atropelou um homem que passava com seu dobberman em Eisenter Steg, as margens do Meno. O homem foi levado para o hospital em estado grave e está internado na UTI. O rapaz foi preso no ato.

estava entre o riso e a incredulidade, pensando em onde Kaspar e Lavinia Eltz, pais de um delinquente e de um mulherengo deviam ter lidado com o rosto dos dois filhos tão expostos. O primeiro, surgindo em manchetes policiais, o outro, em rumores de affairs com modelos casadas ou mais novas que ele.
Quando percebeu, todas as revistas e reportagens variavam entre 10 ou 15 anos atrás e eram sobre multas de alta velocidade, direção embriagada, vandalismo, agressão a algum fotógrafo ou brigas em boates. Eltz tinha, de fato, um histórico peculiar. Pelas fotos, viu que ele tinha outras tatuagens escondidas: Uma centúria no braço, alguma palavra inteligível no centro do peito e na panturrilha, uma gravura medieval de um homem a cavalo. podia muito bem imaginar outras tatuagens de pirata que o nobre devia ter e que os flashes dos anos 90 não capturaram.
É por isso que amo trabalhar para os ricos. Pensava a historiadora, escorando-se no sofá, sorrindo para uma foto de apoiado em um Aston Martin segurando uma garrafa de champanhe e fumando o que parecia um baseado.
Foi nesse período, rindo das reportagens, que foi surpreendida.
— A senhorita, suponho, deve ser a Doutora .
A mulher se endireitou no sofá e olhou para quem a chamava. Do outro lado da biblioteca, um homem se aproximava. Tinha um sorriso calmo e o típico sotaque alemão daquela região.
— Sou Schöpfer, curador sazonal do Castelo Eltz.
O homem estendeu a mão e cumprimentou . Ele tinha olhos sedutores e escuros e um sorriso gentil atrás da barba castanha com algumas falhas. se sentiu imediatamente confortável com sua presença.
— Claro! Conde me falou sobre você. Acredito que já o conheço, não?
— Devemos ter nos vistos em algum evento, creio eu. Você também não é estranha.
colocou as mãos no bolso da jaqueta jeans que usava com broches de aviões.
— Temos muitos assuntos a serem discutidos antes que eu a leve até o castelo. Gostaria de partilhar o momento do café da manhã para isso?
— Com certeza.
— Conde Sigbert Eltz me pediu que viesse buscá-la para adiantarmos o assunto.
concordou com a cabeça, para ela ficando mais claro cada vez mais a obsessão do conde por controle. Todos pareciam obedecê-lo sem hesitar e ele parecia nunca deixar em paz.
Postdoc Hoffmann! Ou devo dizer Postium Doktorium em latim? — Altmeyer surgiu de uma porta, ainda de roupão, alegre e de braços abertos. Apertou em um longo abraço, deixando o outro enrubescido. — Seu galo velho! Chegando na calada da madrugada...
— Olá, Marcel. Bom vê-lo.
— Não achei que o veria antes das restaurações! Seu pai já sabe? Você entrando pela porta da frente, quem diria...
— Sim. — olhou nervoso para .
— Senhorita , este é Postdoc Schöpfer, professor emérito da King’s College na Inglaterra, diretor do departamento de estudos medievais da Universidade de Utrecht e ex-diretor de onde mesmo?
— Universidade Goethe. — acrescentou. — Até hoje apaixonado por falar o título dos outros em voz alta, Marcel? Está ficando cada vez mais chato.
— Dois doutores nesta biblioteca. Conde Kaspar ficaria orgulhoso.
— Ficaria se não tivesse morto. — acrescentou. Altmeyer riu pelo nariz aquilino. Seus olhos grandes olhavam para cada pedaço do amigo.
— Ainda insiste em cuspir no prato que o alimentou?
deu de ombros, encarando as estantes altas de livros.
— Todo nobre morre um dia e vira um homem igual a qualquer outro.
— Aliás, senhorita , é o orgulho do andar de baixo. O orgulho dos empregados da casa. E meu melhor amigo. Seu sarcasmo e eloquência fazem tão parte da decoração da casa como as obras de arte. — Altmeyer estava muito enérgico e alegre, não achava que ele tinha capacidade de sorrir e de repente se lembrou que ele devia ter a mesma idade que ela, apesar de seus modos sempre exagerados e a pompa de seu uniforme. — Vou avisar a todos que você chegou.
— Não, Marcel, esta é uma visita rápida. Em breve precisarei levar Doutora para o castelo.
.
. repetiu, rindo para o amigo. — Vamos apenas tomar um café e uns pains au chocolate de senhora Goint.
Altmeyer encarou o amigo, sem desfazer o sorriso e concordou. O mordomo fez o caminho todo até a cozinha dizendo como havia crescido com e sobre sua amizade de décadas, enraizada nos andares dos empregados da Casa. olhava divertidamente para como se pedisse desculpas por aquela introdução, enquanto girava os olhos quando Altmeyer dizia algo positivo sobre os Eltz.
Após um moca com creme, mais histórias de Altmeyer e , na cozinha que começava a receber o primeiro movimento do dia, e o curador do Castelo Eltz saíram da Casa. Altmeyer havia preparado lanches de sanduíche com atum e refrigerante para levarem. “Vocês ficarão o dia todo fora!” disse, fazendo prometer que iria voltar para o jantar.
Agora dentro do carro de , sem a presença ofegante do mordomo da Casa Eltz, pode aproveitar a presença do curador do castelo. Ele havia escolhido Uriah Heep para tocar enquanto falavam das áreas do castelo.
— A área Rodendorf está decrépita. O curador de verão não se ocupou de barrar a parte da porcelana. O cimbre da área Kemperich está descolando desde 2002 e o conde não fez nada para providenciar o ajuste. Eu sempre falo que precisamos de restauradores anuais, mas o conde Sigbert nunca me ouve. — Disse, ligeiramente irado.
— Você não parece se dar muito bem com os Eltz, ou é uma impressão errada?
olhou desconfiado para .
— Não mesmo. Principalmente com o mais velho. O doente consegue ser menos desagradável. — E fechou as expressões como se tivesse dito algo que não devesse. Suas palavras tinham amargura.
— Tudo bem, sua indignação ficará entre só entre os servos. — Ela disse, prestando atenção na letra da música The Wizard.
tinha as bochechas marcadas por uma acne devia tê-lo assomado nos dias mais jovens. Seu ar calmo e simpático demais para um acadêmico o tornava uma companhia muito agradável. não havia deixado de lado a sensação de que o conhecia de algum lugar. Os dois ficaram nomeando eventos que já haviam comparecido ao redor do mundo, mas nenhum ao mesmo tempo.
— Eu acompanhei sua restauração no Château du Grand-Lucé, foi um trabalho incrível, mas acho que devemos ter nos vistos lá...
— Eu não voltei no chateau depois da restauração. O americano não gostou da tinta que usei em uma escada.
fez um ruído de desaprovação enquanto coçava a barba. Concordou com em cada reclamação de algum outro nobre até a hora de chegarem no castelo. Aquele era o credo secreto dos funcionários de instituições históricas: acidade do que dizia respeito a nobres e como não sabiam de quase nada de sua própria história.

⛦⛦⛦


O caminho percorrido de carro da Casa Eltz até o Castelo Eltz no outono era permeado de árvores que começavam a perder as folhas, manchando o chão de tons de marrom. Uma neblina pouco densa se formava ao redor dos tetos cuneiformes da estrutura mista do castelo. Os traços edificados enxamiels se uniam a fortaleza românica, formando a personalidade única da estrutura secular acima da colina confidenciada no meio da floresta. abriu o vidro do carro conforme se aproximava, para ver o castelo se aproximando. No seu interior, uma onda de melancolia ia se tornando mais densa e começou a incomodá-la, mesmo que estivesse ouvindo agradavelmente contar sobre sua infância no andar debaixo da Casa Eltz. Ela bebeu o refrigerante que Altmeyer havia preparado para se distrair.
Estacionaram o carro ali perto e comentou algo sobre a ameaça de chuva. O sol estava preso entre as nuvens cinzas, sem calor e a luz racionada. A pé, curador e historiadora subiram a elevação que levava a entrada do Castelo, onde algumas pessoas se reuniam embaixo do pórtico de pedra.
cumprimentou os membros de sua equipe com abraços e cobrança de promessas que fizeram entre si durante o período de férias. Após as introduções a , começaram o tour pelas áreas principais do Castelo. Todos estavam empolgados e alguns nunca haviam visitado o castelo pessoalmente.
— É a primeira vez que venho aqui. — disse, quando entraram na sala dos cavaleiros, onde uma grande mesa de madeira estava guardada por cadeiras estofadas. Armaduras e armas estavam alinhadas nas paredes.
— É mesmo? Poderia jurar que já vi você por aqui. Talvez — fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos de . — Talvez eu já tenha sonhado com você aqui — riu, um tanto envergonhado e fingiu uma tosse. — De toda forma, aqui vemos as rosas do pórtico. Elas precisam de uma mão de tinta e algumas, reconstrução do gesso.

⛦⛦⛦


Le Dame Pirate — Era como os funcionários de a chamavam na hora de questionar sobre algo durante o tour de .
Quando pararam na cozinha Rodendorf, o curador conversou alegremente com um dos homens responsável pela restauração da área românica.
— Minha querida, senti sua falta. — Uma mulher grávida, com os cabelos escuros e a pele brilhante abraçou longamente, quando a conversa entre os homens estava muito chata numa disputa de quem sabia mais.
— Gabrielle, você está tão bonita. Não a vejo desde...
— Aquele templo lamanai em Belize, sim. — A mulher pousou a mão sobre a barriga protuberante. Falavam em francês. — Nunca mais me envolvo com mesoamericanos. Não é para mim, de fato. O calor é ótimo nas férias, mas eu quase tive uma combustão interna quando sai para trabalhar. Além do que, desde Phaedra, venho optando por trabalhar com linhas de novo.
— Quem diria, você a caçadora de tesouros, voltando para as linhas.
Gabrielle sorriu, com os olhos escuros brilhando.
— Ainda continuo caçando tesouros. As linhas de uma tapeçaria escondem muitos.
— Eu ia dizer que não a vejo desde Glastonbury. Na despedida de Anne-Julie. — sorriu com as lembranças. — Ela estava indo para a província de Guangdong, se lembra?
Gabrielle pensou por um momento.
— É mesmo. Isso tem poucos dias. Acho que estou ficando com a memória ruim. O estrogênio está consumindo o meu cérebro.
Após outro abraço, caminhou conversando trivialidades ao lado da amiga, segurando sua mão ligeiramente inchada.
As horas correram muito depressa, já quase ao final do tour pelas principais áreas do castelo, todos param na área com um pátio que continuava até a entrada do castelo. Ali podiam ver os três estilos de arquitetura que formavam o castelo. As janelas vermelhas erguiam sobre eles, transformando o pátio em um ninho de pedras.
A chuva caiu devagar e no meio dela, surgiu uma BMW do ano estacionando bem além da área onde era permitido estacionar.
De um lado, Eltz saltou. Usava um sobretudo azul marinho, com a gravata de detalhes dourados. Do outro lado, saindo da porta aberta pelo motorista, Conde Eltz saiu embaixo do guarda-chuva que seu empregado o amparava, usando uma capa sobre seu corpo esguio e alto. Os irmãos, com óculos escuros, pareciam muito iguais se não fosse os cabelos negro e castanho claro. foi ao encontro deles, passando pelas áreas com arcadas de pedra.
— Então são esses o Eltz. — Disse sugestivamente um rapaz ao lado de . Conversavam em inglês.
— Eles são bem... — ia completar o homem de cabelo grisalho.
— Um deles parece que transaria com você, te mataria e te congelaria no dia seguinte. — disse Gabrielle — O outro parece que te levaria para comprar uma ilha na França. E aí depois transaria com você.
— O outro parece que te levaria para conhecer a mãe dele e depois transariam. — Disse a mulher alta que estava à direita de . — Esse Diet aí.
? — riu. — Acho que vocês estão certos em todos os três. Acredito que os Eltz seriam bem capazes de fazer qualquer uma dessas coisas. é um bom homem.
— E você transou com qual deles, chefinha? — disse Gabrielle.
virou-se enfurecida. A equipe riu.
— Vocês já estão apostando?! — bufou.
— Só nos responda. — Disse a mulher alta.
Com nenhum deles! respondeu em francês.
— Eu falei. — Disse Gabrielle, levando a mão para o homem grisalho. — Ganhei de lavada. gosta de conhecer os nobres antes de despi-los.
pegou o dinheiro da mão do homem ela mesma e o guardou no bolso.
— Se eu ver vocês apostando a minha vida pessoal de novo...
— Em um cenário futuro... — disse a mulher alta — Considerando que vamos ficar aqui por uns meses, qual deles seria? O da bengala ou o loiro? Só para uma referência da minha pesquisa...
Judy, sua... respirou fundo. — Eu mesma vou matar cada um de vocês se não pararem com isso. Chega de apostas sobre com quem vou transar! — apontou o dedo na direção deles, que riam.
— Então você ainda vai? — perguntou a moça mais jovem.
! Como é bom vê-la. — Conde se aproximava, com um sorriso entre os lábios bonitos. — Sentiu minha falta durante esses dias?
virou-se rapidamente tentando acreditar que o conde não ouvira nada da sua conversa.
— Certamente, . — A mulher sorriu. Atrás dela, a Gabrielle deu uma nota de dez euros ao homem grisalho e o rapaz de cabelos cor de palha riu. — Como está se sentindo hoje?
— Ótimo! A chuva e o tempo nublado me alegram. — O conde se adiantou a apanhar a mão de e tirar os óculos para fitá-la com toda atenção possível. O chofer havia retirado a capa do chefe, mostrando outra vez o bom gosto com ternos que o conde tinha. — Estou me sentindo muito bem. Acredito que você e já tenham conversado?
Uma mulher de cabelos amarrados que desceu do carro conversava com em voz baixa, pareciam bravos um com o outro. Quando viu o conde olhando-o, foi até eles, secando o que a chuva tinha molhado em seu rosto.
— Conde Sigbert, senhorita vem sendo uma exímia profissional.
O conde riu.
— Você já compartilhou com ela como nos odeia, huh? Não confie em uma palavra que esse homem lhe disser sobre títulos, , ele é o jacobino mais articulado que já conheci.
ergueu as sobrancelhas.
— Não aperte demais a capa, conde Sigbert.
O conde riu e na risada foi assomado por um ataque rápido de tosse. Ele cobriu a boca com o lenço e se recuperou enquanto voltava a conversar com a mulher bem vestida e muito esguia. observava tudo de longe, escorado em um pórtico ainda usando os óculos escuros.
— Então, , é esta a sua tripulação?
— Sim. Venha conhecê-los. — tocou o braço do conde, gostando da presença dele próxima de novo.
Os funcionários de cumprimentaram o conde gentilmente com apertos de mão.
— Esta é Gabrielle, a responsável pela restauração das tapeçarias e taxidermia. Este é Simon, especializado em restauração metalúrgica — Apontou para o rapaz loiro. — Este é Petyr, encarregado da estrutura, ele que me ajudará na restauração da base do castelo. — O homem grisalho apertou a mão do conde com mais força.
— Sinto muito por seu pai, conde Sigbert Eltz. Uma grande perda para o mundo acadêmico.
segurou a mão do homem com as duas mãos.
— Agradeço de coração, senhor Petyr. Ele ficará feliz nos céus sabendo que escolhi as pessoas certas para essa grande restauração.
— Judy, a responsável pela pintura e restauração em madeira. — Cumprimentou a mulher mais alta que o próprio conde. — E esta é Agnes, minha auxiliar. — e por último o conde cumprimentou uma moça jovem com óculos grossos e os cabelos loiros enfeitados com uma faixa. Ela tremeu a voz.
— É um prazer...
— Prazer em conhecê-la também, senhorita Agnes. Admiro seu trabalho, deve ser complicado auxiliar uma mulher com tanto trabalho como sua chefe.
Agnes gaguejou um agradecimento. Quando o conde se virou para conversar com às sós, Judy cutucou a garota com o ombro
— Para de passar vergonha, tampinha. — disse. E a moça se endireitou, segurando a prancheta e fingindo ler algo muito interessante nela.

⛦⛦⛦


, acredito que você vai continuar um tempo sem ver a minha figura. — O conde disse, caminhando lentamente segurando o braço de e se apoiando na bengala preta coma outra mão. Caminharam alguns passos para dentro do corredor de pedras que ligava o pátio a área interna, onde a iluminação era mais escura. os seguia passos atrás.
— É uma pena.
— Fiz questão de vê-la antes de partir. Como estão sendo os primeiros momentos aqui no Castelo e as noites na Casa?
— Agradáveis. Você tem sido um anfitrião impecável, mesmo ausente.
— Você me lisonjeia. E o quarto, o que achou?
— Achei possível. O mais difícil será restaurar os quadros a óleo, pois precisarei importar a tinta específica para isso. Coisa que seu mordomo Altmeyer me ajudou. Em breve você terá o quarto igual a foto que me mostrou.
— Esplêndido. Sua competência vem sendo maior que a expectativa.
— No que diz respeito ao meu trabalho, , espero que mantenha suas expectativas sempre altas.
O conde sorriu abertamente outra vez.
— Farei isso. Ainda assim, aguardo ansioso pelas mudanças que propôs e por toda restauração. Estarei longe, mas meu irmão, ou Altmeyer estarão aqui para você.
, evolvida pelo charme que o conde lançava sobre ela, não conseguiu segurar o que disse a seguir:
— Nenhum deles o representa melhor do que você. Três homens não substituem um.
— Ah, ... — O conde desviou o olhar, não deixando de sorrir. — Você me infla com esse tratamento tão tenro. É uma flor surgindo no tapete de neve que vem sendo minhas relações aqui nessa região. — Ele fez uma pausa para seu sorriso desfazer. — Ainda sobre isso, fiquei sabendo de seu embate com meu irmão. Ele se prova como um péssimo homem e um excelente primata cada dia mais.
ficou em silêncio.
— Eu garanto que ele é um bom amigo. Quando você quiser arrancar a cabeça dele dos ombros pode ser um sinal que ele gosta de você. Ele tende a ser muito passivo agressivo com quem ele se atrai. — O conde estreitou os olhos, fingindo pesar.
desviou o olhar para , que estava com a cabeça virada em outra direção. Estava muito longe para ouvir o tom de voz baixo do conde.
— Já peço perdão antecipado por qualquer mal entendimento e alego piamente que ele não é o melhor representante da família Eltz nos assuntos da família. Mas é o que está vivo e saudável para acompanhar o momento delicado de restauração. — O conde atraiu o olhar de mais uma vez.
— Posso lhe perguntar uma última coisa, antes de partir?
— Sempre.
— Foi você quem colocou as revistas e jornais sobre o passado de seu irmão na biblioteca?
O conde desenhou um sorriso malicioso.
— Não conte para ele. Foi um pequeno troco pelo que ele vem fazendo com você. Ele fica extremamente nervoso quando vê a minha coleção de manchetes de seus anos gloriosos de playboy Eltz. — o conde sussurrou no ouvido de e em seguida beijou-lhe na face, roçando seu queixo bem barbeado suavemente na face dela, suavemente, apertou o ombro da mulher. — Até minha volta, senhorita e bom trabalho.
Do outro lado do corredor, revirou os olhos atrás dos óculos escuros, mas ninguém viu.
— Faça boa viagem, para onde quer que vá, conde Sigbert .
O conde, se distanciando vagarosamente, virou-se para uma última vez.
— Uma passada rápida no Vale dos Ventos de Dante. Volto em alguns dias.
— Mande meu abraço a Minos. Diga a ele que não me demoro. — ela disse, sem saber que o conde a ouviu. Voltou a caminhar na direção da sua equipe e quando passou por , foi abordada por ele.
— Meu irmão se foi, mas eu estarei como o responsável daqui.
— Quer dizer que será meu patrão? Assinará outro cheque para mim? Costumo pedir 45% antes, 30% durante e o resto quando estiver pronto.
— Significa que quero evitar o máximo de problema com você.
não havia tocado , mas ela se sentiu mal pela abordagem. Subitamente, sua garganta embargou e sua voz deve ter saído estranha.
— Problemas? Sinto muito, mestre Luitger, mas quem gerou problemas desde que chegou foi você.
— Não me chame assim, você não é uma funcionária da Casa.
— Então do que devo te chamar? — o encarou, sentindo de longe a colônia cítrica que emanava dele.
— Me chame de Eltz. E passe a me tratar como um.
fez uma reverência sarcástica. fechou o punho.
— A seu dispor, Conde Luitger Eltz. — Se ergueu e encarou-o — Te chamavam assim na cadeia, não foi? Ou você nem chegou a ficar muito tempo lá?
ficou em silêncio e pode ver de perto o quando ele a olhava profundamente atrás dos óculos de lente marrom. O queixo mal barbeado se moveu com o surpreso sorriso torto que ele lhe deu.
— Você não vai parar, não é?
negou com a cabeça.
— Não enquanto seu irmão não voltar. É a ele que respondo. Você está aqui como um cão de guarda de seu irmão, espero que não me morda.
— Eu não te garanto.
— É o que vamos ver. — ergueu as sobrancelhas. — Não fique no caminho entre mim e meu trabalho outra vez, como fez no quarto da Casa.
— Eu não sabia que você estava naquele quarto quando fui até lá.
— E mesmo assim quis almoçar comigo.
— Eu ia fazer um convite até você ser grosseira.
— Então acho que encontrei a solução: não me chame para nenhuma refeição ou qualquer outra coisa. Não quero ter nenhuma relação com você. Se você me viu trabalhando, se afaste. Se você me viu quando não estou trabalhando, se afaste ainda mais. Está claro?
manteve o riso torto, escorou-se na porta arredondada, fazendo o barulho ecoar pelo corredor.
— Sim, senhora.
— Passe bem. — voltou a caminhar na direção do pátio.
— Vejo-a mais tarde no jantar. — disse, seguindo-a até o pátio e depois indo conversar com a mulher de coque que conversava com o conde.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus