Última atualização: 13/10/2018
Contador:

Capítulo 1

Der Mond ist rot vom Sternenblut
Und auch in mir ist Fieberglut
Es glüht das ganze Firmament
Das kommt weil meine Seele brennt


Subway to Sally - Meine Seele brennt

A lua é vermelha por causa do sangue das estrelas
E há febre em mim também
O firmamento brilha todo
Porque minha alma está pegando fogo


2018

tinha três nomes e gostava que lhe chamassem por apenas um deles. Quando seu chefe o chamou pelo seu nome completo, ele se assustou, rabiscando a cópia do projeto de um motor que trabalhava.
Luitger Pascal!
— Senhor?!
— Venha comigo ao pátio.
— O que aconte...
— Só venha, homem!
Ele acompanhou o chefe pelo corredor do último andar. No elevador, nenhuma palavra.
foi percebendo que as pessoas não estavam em suas posições de trabalho, como seria o certo para uma sexta feira às quatro da tarde. Seu chefe era o CEO de uma empresa automobilística e muito pouco carismático com seus funcionários. Não era do seu feitio ser conversador ou casual e isso fez a tensão crescer no pobre homem dos três nomes. Antes de descerem para o pátio coberto que servia de estacionamento no prédio comercial, finalmente ele compreendeu.
— Feliz Férias! — Disse-lhe o CEO, dando-lhe um abraço.
— O quê?
foi envolvido por uma onda de pessoas que se acumularam na porta do estacionamento apertando sua mão e sorrindo, deixando-o desconfortável.
— O conde está de férias! — Alguém disse.
— Não sou conde...
— Foi uma decisão do departamento de crescimento humano que fizéssemos uma festa para comemorar suas férias. — disse o diretor de tecnologia colocando uma caneca de cerveja na mão de .
Sorrindo, o homem ativou a carapuça diplomática e agradeceu. Ele sabia que aquela era também uma chance de comemorar com a sua equipe o fechamento absurdo das vendas do fim de verão em quase 115%, uma meta inédita e que iria aumentar a carteira de todos os envolvidos.
Bebeu a caneca em sua mão e logo encheu outra, um amigo ofereceu um whisky irlandês e ele aceitou sem hesitar. Em um momento da festa, ouviu mais de seus subordinados diretos sobre o que fazer nas férias do que de seus colegas de gravata. Os primeiros lhe diziam para ele fazer bungee jump num lago no sul e ver novas séries de tv, enquanto que os últimos lhe passavam uma extensa lista de restaurantes e bares onde a água mineral custaria metade do salário dele.
Em uma dessas conversas, ele subitamente sentiu uma dor no peito.
Era uma dor comum a qual ele suportava pacificamente desde que se recorda em sentir. Durante sua vida ele consultou médicos e fez exames, mas nada foi capaz de diagnosticar o que poderia ser essa agonia que surgia em momentos imprevisíveis e não era física. Os psicólogos lhe disseram que poderia ser algo para lembrá-lo de uma responsabilidade, por conta de algum trauma infantil. Um padre já lhe disse para rezar três ave marias quando isso acontecesse. Nada foi efetivo. A dor surgia e desaparecia e de tão acostumado, ele nem mesmo desfazia a expressão serena que carregava.
Enquanto sua colega contava uma piada sobre o CEO e um cupê, ergueu os olhos sobre o ombro dela e notou uma mulher de costas e cabelos longos. Algo naquela imagem feminina fez ficar ansioso e rapidamente ele driblou a colega para ir até a mesa onde a moça estava de costas.
Antes que que aproximasse, a mulher se virou e ele parou no meio do caminho. A sensação de agonia dissipou no momento que a identificou como uma das engenheiras de campo de seu departamento. Ela seria uma oportunidade de uma aventura ébria, mas ele não teve vontade naquele momento. Virou o resto do whisky na garganta e voltou às conversas.
não bebeu mais e foi para a casa sorrateiramente enquanto os mais empolgados continuaram. Não podia acabar embriagado, porque era sua noite de vigília.

****


Nos dias de lua nova perdia o sono. Poderia ser culpa de algo místico, mas na verdade ele não conseguia dormir porque sabia que teria pesadelos. Por fim acabava acordado sentado na poltrona em seu quarto, passando os olhos pela mesma frase de um livro que demorava muito para terminar ou vendo o mesmo filme que já vira antes, ou qualquer outra coisa que não o deixasse dormir.
Mais que uma superstição, as noites de lua nova e insônia eram um hábito. Em alguns meses durava duas noites, em outros, quase uma semana. Enquanto a primeira fímbria de lua não surgia no céu, as pálpebras de não se fechavam.
Mas, naquele dia com a ajuda do álcool, adormeceu.

Um homem anda com dificuldade por conta de seu casaco pesado. Faz frio. O chão treme, pois pessoas estão batendo o pé na terra e levantando gotas de barro. Este homem que vê tudo, corre tentando passar por meio dos civis e nem percebe que alguns roubam-lhe as correntes douradas ou pedaços de sua roupa. Por fim, tira a capa de pele de urso para poder passar livremente e os plebeus pulam sobre ela para garantir um pedaço para o inverno.
O homem de repente sente o cheiro de queimado acoitando-lhe o rosto e o calor surgindo. Ele teme, ele teme por tudo o que já temeu antes. Em algum lugar, ouve uma voz conhecida proclamando a palavra sagrada de um deus injusto em latim.
Ele continua correndo até chegar frente a uma fogueira. Ele tromba em um padre que ora em círculo com outros, e quase cai de joelhos em frente a uma fogueira no momento que o carrasco move mais madeira.
Quando ele ergue os olhos, sobre as chamas que se iniciam, ele vê uma mulher. A mulher que ele ama, ele sabe, lá dentro ele sabe que ele nunca mais irá amar uma mulher como aquela. Ele chora.
O padre que estivera orando, olha para o homem que atravessou a barreira de monges e noviços, seus olhos são claros como um espelho e ele sorri.
A mulher chama seu nome. Chama alto e grita para que ele a tire de lá. Uma madeira estala e se rompe, voando em direção ao seu rosto bonito. Ela desmaia de dor no mesmo momento e sua cabeça pende sobre as cordas.
O homem que chora age e pula sobre o fogo.


despertou com um grito. Seu corpo inteiro ardia e sua camiseta estava úmida de suor. Demorando para perceber que era um sonho, sente o cheiro de queimado e corre até a cozinha: deixou uma panela no fogo e agora ela estava com o fundo chamuscado e o saco de chá seco dentro dela. Irritado, ele jogou a panela sobre a pia, molhou o rosto e a nuca ali mesmo. O que foi isso. Ele sabia que era lua nova e que acabara adormecendo, mas dentre todos os pesadelos, ele nunca havia sentido uma onda de apreensão tão grande, muito menos acordado tão suado e com as mãos pinicando como se insetos o tivessem picado.
Seu celular tocou e ele atendeu ainda com a voz assustada. Ele sabia quem estava ligando.
Olá irmãozinho. Lua nova, não é? — a voz do outro lado era grossa.
— Leo.
Quando vem me ver?
— No final da próxima semana, acredito...
Vou precisar de você antes. Adiantei a restauração da ala leste do terceiro andar Kempenich e infelizmente não poderei me ater a detalhes pequenos...
— Leo, você sabe que não me interesso. — interrompeu .
Eu preciso de um favor. Na verdade – a voz sibilou – preciso para daqui a pouco. A arquiteta chefe adiantou seu voo para avaliar um problema que não havíamos previsto e não tenho ninguém para buscá-la em Hazenport.
— Mande um táxi, eu estou ocupado.
Ocupado com seus pesadelos? A mulher precisa de um representante Eltz para recebê-la bem. Já que estou um pouco debilitado, achei que poderia contar com você.
Fez-se silêncio.
Eu conheço você bem, meu irmão. Sua voz está igual quando acordava com medo quando você ainda morava aqui. Com o que sonhou?
— Com nada que me lembro. Sinto muito mas não posso ajudá-lo. Vou passar as férias viajando.
É mesmo? Para onde?
— Para ver mamãe.
Escute, , meu querido irmão... – Nessa hora já sabia o que viria a seguir. — Estou debilitado com a última medicação. Não posso garantir que a moça esteja segura aqui amanhã pela manhã sem alguém de minha confiança e com o meu selo. Isso significa muito para mim, é a primeira restauração desde 1920. Você sabe que se eu estivesse em condições de viajar, eu iria.
suspirou. Olhou o relógio na parede da sala: 1:30 am.
— Mande alguém, , são quase quatro horas de carro até Wierschem eu estou exausto...
Você já está acordado, irmão, e além do mais não vai voltar a dormir.
se calou e passou a mão sobre a sexta molhada.
— Tudo bem. Me mande os dados da mulher ou algo que me faça reconhecê-la.
E assim, exausto, concordou. E menos de uma hora depois, estava na estrada.


Capítulo 2

Es wird Morgen und du weißt
Zwei Seelen sind in deinem Leib
Und am Tag kannst du nicht leugnen
Was dich in die Nächte treibt.


Faun - Hörst du die Trommeln

A manhã começa e você sabe
Duas almas estão no seu corpo
E de dia você não pode negar
O que te guia durante as noites


2018

quase dormia com o rosto afundado no xadrez Burberry de seu sobretudo quando ouviu a voz do motorista acordá-la. — Senhorita, é aqui.
Ela rapidamente desceu e pagou uma gorjeta gorda ao homem que havia concordado em levá-la às cinco da manhã na propriedade Eltz, a trinta minutos de Wierschem.
O taxista achou estranho ela querer ir para a propriedade privada da residência dos Eltz em vez do Castelo. O povo de Wierschem não conhecia nada sobre a casa ou evitavam falar do assunto.
— Boa sorte na restauração do castelo. Se precisar de um meio de ir para lá, me procure. É perigoso fazer o trajeto daqui até lá a pé. — Disse o taxista.
— Obrigada, mas acredito que o conde irá me ajudar a chegar até o castelo. Vou ficar aqui na casa dele e depois vou para lá.
O taxista ergueu a sobrancelha e assentiu, ligando o carro e saindo dali. achou estranha a súbita mudança de humor dele e pensou se falou alguma palavra em alemão errada.
Era sabido, entre os historiadores, que a família Eltz vinha por anos mantendo restaurações escondidas e longe dos holofotes. Quando recebeu o convite do próprio conde Eltz para restaurar áreas do famoso Castelo, ela ficou feliz; Mas quando ele lhe disse para encontrá-lo em sua propriedade privada, ela aceitou o trabalho na hora.
No século XVIII o Castelo Eltz foi confiscado pela onda de revoluções anti-monarquistas que queria destituir tudo o que inspirava a nobreza. A Mansão Eltz havia sido projetada neste tempo para abrigar a família próxima ao castelo, mas escondido na floresta e nas montanhas. Ninguém tinha registro fotográfico do interior do lugar, e o mito que os Eltz escondiam obras de arte do governo alemão, só aumentava.
A casa por fora lembrava a estrutura de um chateau com arquitetura tradicional neoclássica das casas senhoriais do século de sua criação. Longas janelas distribuíam a fachada sob tetos cuneiformes desbotados pelo tempo. Não transmitia luxo, mas conforto.
Pelas fotos e suas pesquisas não achou que a mansão seria grande ou que a fizesse lembrar do Chateau de Balleroy, mas logo se recordou que a geração que construiu aquele recanto, recebeu influências de artistas e arquitetos franceses.
Ela pensava em tudo isso e tentava esconder o riso, enquanto estava parada com o queixo erguido na soleira da entrada, segurando sua mala. A porta principal se abriu e um homem jovem e bem vestido surgiu. Ele usava um fraque e luvas brancas. O lenço em seu peito trazia o brasão da família Eltz.
— Senhorita -Maria , se eu estou certo. — Ele curvou gentilmente. — Seja bem-vinda a Mansão e Propriedade Eltz.
— Muito obrigada, você está certo. Qual é seu nome? — perguntou , deixando o homem carregar sua maleta.
— Altmeyer, o majordomus. Sirvo a casa Eltz como meus pais fizeram e os pais deles.
— Hum. — disse , espantada com a corrente ininterrupta da exploração da força de trabalho de uma família. Calou seus pensamentos materialistas históricos rapidamente.
— O Edlerherr von Eltz und zu Kemperich está a sua espera para o desjejum. A senhorita pode se referir a ele como Conde Eltz-Kemperich ou Edlerherr Eltz-Kemperich, pois o título inteiro não precisa ser pronunciado a todo momento.
assentiu, atenta a decoração rococó no canto das paredes até o chão. A mansão por dentro fora decorada conforme mandava a moda do século e ver tudo bem preservado renovou o humor da mulher, deu-lhe energia. A pressão que ela sentia sobre o peito desde a hora que seu avião desceu em solo alemão se aliviou. Ela foi encaminhada por Altmeyer por um salão de música com um piano e uma harpa, uma biblioteca particular e outros espaços amplos até uma última porta. A mansão era compacta, mas transmitia um ar de muito requinte e historicidade conservada.
— Levarei sua mala até seu quarto.
— Meu quarto? Tudo bem...
— Altmeyer, senhorita.
— Não esquecerei mais. — fingiu um sorriso e o mordomo abriu a porta.
A sala de jantar era ampla e iluminada pela luz do sol pelas janelas altas. Um homem solitário, sentado a ponta de uma grande mesa, lia um jornal. Atrás dele havia um afresco com vários elementos que não prestou atenção no momento.
— Herr Conde e Edler von Eltz und zu Kempenich, esta é -Maria . — Anunciou Altmeyer.
— Senhorita . É um prazer recebê-la nesta manhã.
— Senhor... ou todos os nomes que seu mordomo me instruiu te chamar... Eltz. Sinto muito mas nunca consigo me lembrar os títulos completos dos nobres para quem trabalho.
— Chame-me de , é o suficiente. — Ele se ergueu. — Meu nome inteiro é cansativo e o título também.
A voz do conde Eltz ecoou pelo salão como se ricocheteasse pelas janelas e as fizesse vibrar, era de uma rouquidão requintada com cada letra pronunciada com perfeição.
— Junte-se a mim, por favor. — Estendeu a mão. — Os pains au chocolat ainda estão quentes.
— Agradeço o convite, , estou faminta. As bolachas secas servidas no trem ainda estão ardendo minha garganta.
— Nada mais justo a oferecer a dona das mãos que irão cuidar do meu castelo-museu nos próximos dias. Espero que esteja ciente de que qualquer um da minha curta família ou da minha extensa turma de empregados estará a sua disposição para as próximas semanas.
sentiu a textura dos anéis de ouro do conde quando apertou sua mão quente. Agora, vendo-o de perto, viu que ele usava um terno casual para um sábado de negócios com uma restauradora. Ainda que usasse abotoaduras douradas, algo nele despertava um desleixo proposital como a camisa cinza ou uma corrente de ouro sobre o pescoço pálido. Ele gentilmente se colocou atrás dela para tirar o casaco, apoiando-se numa bengala estilizada.
— Altmeyer está lento com os modos. Se me permite... — disse, retirando com cuidado e entregando o sobretudo dobrado para uma das empregadas ali à postos. — Leve isto para os aposentos da senhorita .
— Meus aposentos?
— Sim, achei que seria justo que tivesse um local em minha casa para que pudesse ir e vir quando desejasse. O castelo está há poucos quilômetros daqui.
— Eu agradeço, , mas não pretendo gastar demais de sua boa vontade. Ficarei aqui até me adaptar a Wierschem e procurarei um hotel.
— Como desejar.
Quando se sentaram, observava o conde e notou que usava uma sonda transparente diretamente nas narinas, presa por um fino tubo preso atrás das orelhas.
— Ah, isto. Não repare, por favor. Fico sem ar pela manhã. Às vezes você me verá com ela. Assim como verá minha sombra manca se esgueirando pelas colunatas daqui.
— É imperceptível. — disse.
— Não para os olhos de alguém que trabalha para a história da beleza, não é mesmo? — o conde disse distraído. — A minha feiura será o contraste do seu trabalho por esses dias, eu sinto muito informá-la.
— Desde que entrei pela porta principal dessa casa não vi nada feio. — Enquanto respondia, olhou o rosto do homem. Com os ossos do rosto bem esculpidos, dois olhos extremamente claros refulgiam a luz do sol que entrava pelas janelas, emoldurados pelas laterais raspadas do cabelo do homem e seus lábios ligeiramente ressecados. Ela percebeu que, assim como o castelo que cuidaria, iria gastar muito tempo observando aquele homem até seu último minuto de estadia ali.
O conde sorriu, fingindo certa timidez pelo floreio da arquiteta e a atenção que ela prestava nele. observou o banquete de desjejum a sua frente, com muito mais comida do que duas pessoas seriam capazes de comer as seis da manhã.
Conversaram sobre a arquitetura do salão e o afresco atrás da cadeira do conde, que se estendia do teto ao chão. Ele lhe contou detalhes sobre a criação daquela obra e o segredo que reservava: datava de 1810, feito para agradar uma moça que um dos condes cortejava, mas que acabou morrendo sem vê-lo pronto.
Com opiniões fortes sobre arquitetura, o conde conversava com tranquilidade e ouvia com cuidado a explicação de sobre a grossura que um vidro da janela deveria ter para aguentar a temperatura de 1800°C. Ele serviu café a e ela percebeu as veias saltadas e manchas roxas sobre as costas da mão dele.
Ainda falando sobre arquitetura e justificativas do conde sobre porque sua família optou por manter aquela casa longe dos civis, ele foi interrompido. A porta na extremidade do salão abriu com força. Um homem segurando uma mala de couro numa mão e casaco na outra entrou e fechou a porta.
— Então é essa a arquiteta que você mandou seu chofer especial esperar em Hazenport?
— Irmãozinho, que bom ver você de novo.
— Estou viajando a horas em alta velocidade, passando em sinais vermelhos para não deixar a moça sozinha e ainda fiquei a madrugada inteira no frio desgraçado da estação por nada.
ficou assustada com a brutalidade do homem estranho, o contrário de seu irmão.
— Eu peço mil desculpas...
— Desculpas, ?
— Você deveria se apresentar corretamente a nossa nova convidada: -Maria Köning, que será a profissional responsável por toda restauração da área Rübenach no próximo semestre.
O homem que acabara de chegar encarou de cima, sem sentimento ou opinião sobre sua presença, com os mesmos olhos cristalinos do irmão.
— Meu irmão já fingiu que desmaiou sem ar para que você fosse ajudá-lo?
Perdão?
— É típico dele. Fingir uma crise asmática para chamar atenção. Ele faz isso para todas as mulheres que traz para se hospedar aqui.
Fez-se um silêncio tenso.
Altmeyer. — o mordomo surgiu na porta. — Guie senhorita para onde ela deseja ir primeiro. — O conde suspirou e apanhou uma cigarreira dourada do bolso, tirando um cigarro fino de lá. — , se não se importar em acompanhá-lo. Eu e meu irmão precisamos conversar.
— Será um prazer. — finalizou o café e se ergueu. — Mande me chamar se precisar de ajuda com sua crise asmática, . Não irei recusar uma ajuda, ainda que falsa. — Apanhou um pain au chocolate e passou pelo irmão do conde sem olhá-lo, deixando os Eltz às sós no silêncio.
pensou ter ouvido um sino parecido com seu alarme do celular, mas quando o apanhou não viu nada na tela além do wallpaper da catedral de Westminster. Altmeyer guiou a convidada em silêncio. Quando passaram para o segundo andar, ela se deteve para observar a tapeçaria que pendia ali.
— Altmeyer, esta tapeçaria tem quantos anos?
— Sinto muito, senhorita , mas o edlerherr foi explícito em me ordenar a não responder qualquer pergunta que a senhorita tenha sobre a decoração, pois ele mesmo quem deseja lhe responder.
ergueu as sobrancelhas e se calou.
Em uma ala onde a decoração das paredes lembrava algo de feminino e infantil, com tons rosados e pinturas de musas, Altmeyer abriu uma porta dupla e revelou o aposento onde ela ficaria. O teto era alto e a janela tomava quase toda parede atrás da cama.
— Caso se incomode com a luz podemos trocar a cama de lugar.
olhou para a cama de dossel e madeira maciça que deveria pesar muito.
— Não se preocupe, está perfeito.
— Ethel será a encarregada de qualquer ajuda pessoal que a senhora possa precisar. Para acioná-la é só puxar o sino ao lado da cama e ela subirá o mais rápido possível.
— Isso existe até hoje? Sinos para chamar empregados?
— Definitivamente, senhorita, por que não?
— Achei que os russos tinham mandando acabar com isso.
Altmeyer expressou-se pela primeira vez, escondendo um riso. — Seu senso de humor é algo refinado, senhorita . Acredito que terá uma boa estadia. — E dito isso, saiu.
respirou pesado, ainda revendo todos os fatos da sua chegada até ali. A intensidade da presença do conde havia lhe prensado o peito e agora, longe dele, parecia respirar mais aliviada. Com o surgimento do outro Eltz ela ficara subitamente ofendida por sua presença rude.
Ela abriu uma das frestas da janela para respirar um pouco de ar frio e para arejar o cheiro forte de alfazema que emanava dos lençóis quando ouviu algo.
— Você foi totalmente um bruto! — a voz era do conde.
— Você foi totalmente filho da puta. Podia ter me avisado, ! O que lhe custava?
Você...você precisa se acalmar, , parar com seus shows de ira!
As vozes altas viam do pátio. esgueirou no canto da cortina para ver, viu que era as costas da casa, onde havia um jardim. Os dois homens discutiam na porta de um galpão ao lado da estufa com a porta aberta. O conde pendia sobre sua bengala, com o cabelo bagunçado pelo vento e gesticulando. O outro homem entrava dentro do galpão e quando saiu empurrando uma moto, ouviu mais um pedaço de sua voz.
— ... se você despendesse tempo para buscar uma caolha também ficaria irado! Eu já lhe disse uma vez e vou voltar a dizer: Eu não dou a mínima para aquele castelo idiota. Nem para você. Rezo todos os dias para que ele caia em cima de você e enterre toda essa merda.
arfou.
— E a sua herança? E o seu dinheiro?
— Eu trabalho e pago minhas contas, diferente de você! — disse o irmão do conde, subindo sobre a moto, sobre o cascalho. — Que fica sugando da herança de um bando de estupradores aristocratas, bancando o conde Drácula aleijado escondido nas montanhas!
Eu sou o responsável por cuidar da herança de uma família secular, fardo que era para ser seu. — a voz do conde voltou a ser baixa e ameaçadora e não conseguiu ouvir direito.
— Quer me dar o fardo? Pode me dar. Encho aquela merda de dinamite e vai tudo pelos ares. — o irmão do conde acelerou pela trilha de cascalho, virando para a frente da casa. O conde jogou o cigarro no chão e ficou apoiado sobre sua bengala.
desviou o olhar para a estrada e quando voltou a ver o conde, viu que ele a olhava diretamente. Ela se assustou e recuou, caindo sobre um criado mudo. O conde a olhara por um segundo com seus olhos cinzas e ela sentiu muito medo. De onde veio isso? Quando olhou de novo, o conde não estava mais lá.
Então sentiu-se muito cansada e se sentou sobre a cama. Respirou fundo de novo. Viu seu rosto ser refletido no espelho da parede a sua frente e levou a mão ao seu único olho negro, enquanto olhava pelo seu único olho castanho.

Capítulo 3

Omnia tenebrus sed ut testimonium perhiberet de lumine
Erat lux vera quae illuminat omnem hominem venientem in hunc
Mundum


Qntal - Nihil

É uma sombra, mas foi enviado para dar testemunho da Luz,
Essa foi a verdadeira Luz, que ilumina todo homem que chega a este
mundo.


1194

Pela primeira vez em dias, não fazia tanto frio na floresta de Wierschen. O verão deixava as árvores com copas esverdeadas e os animais transitavam pelos vicinais ocultos dentro da vegetação. Fora da floresta, o burgo Eltz vivia em tranquilidade, servindo a família de nobres que morava no grande castelo. A produção de cevada e trigo era comum, além da criação de animais como porcos e ovinos.
Às margens do rio Moselle, de costas para a floresta, uma mulher murmurava uma canção. A trança que unia seu cabelo desfazia conforme ela se movia lavando lençóis no esforço primal de tirar manchas com as mãos. Era agradável sentir o cheiro da roupa sem fedor e ela empenhava-se muito naquilo. Ao seu lado, a cesta de roupa suja ia se esvaziando conforme a manhã surgia. Mexer com a água do rio naquela temperatura era agradável e lhe energizava.
Ela continuou cantando. Seu coração era de uma alegria inédita e verdadeira. Seu irmão havia retornado da Terra Sagrada, após anos servindo como cavalariço de um dos nobres o castelo.
O grande imperador Barbarossa estava morto e parte do exército voltou para casa, enquanto alguns cavaleiros ainda empenharam na façanha épica de tomar o poder das terras sacras dos sarracenos. O clima no burgo era de alegria da decisão do Conde de retornar em vez de continuar a arriscar a vida de seu exército sem a certeza da vitória. Uma grande festa de retorno estava sendo preparada e prometeu levar a mulher para ver o conde de longe e participar do banquete para os cavaleiros que voltaram. Diziam até que o conde iria agradecer cada um dos homens que lutaram com uma bolsa de prata.
E com essa ansiedade pelo banquete, ela continuou esfregando as roupas. Aprendera a fazer sabão com gordura limpa e flores de alfazema, o que deixava suas roupas mais limpas e com um aroma agradável. Mal podia esperar para contar para . Havia tanto que ainda não haviam conversado.
A moça parou de lavar uma de suas anáguas quando sentiu que estava sendo observada. Largou a roupa sobre a pedra e segurou a adaga leve que sempre carregava amarrada no tornozelo. Lentamente virou-se para trás e ouviu um gemido.
Um homem no chão tentava se erguer, usando calças de linho sujas de sangue e nada mais. Não havia uma parte de seu corpo que não estava suja ou ferida.
Assustada, a moça olhou ao redor. Caminhou até ele com a adaga na mão e ficou atenta a qualquer barulho na floresta. Quando viu que era seguro, abaixou-se e tomou o rosto do homem nas mãos.
— Água. — ele balbuciou.
— Quem é você?
— Água?
— O que houve? Onde está ferido?
— Água... — o homem levou sua mão grande e cheia de sangue para o braço dela, sujando-a, mas ainda segurando firme.
A moça virou o tronco do homem e viu que sua outra mão apertava uma ferida grande na barriga.
— Você está ferido. Venha, vou cuidar de você. Consegue andar?
— Água...
— Imaginei.
A moça correu até as suas roupas, apanhou uma camisa de seu irmão e preparou um curativo sobre a barriga ferida do estranho.
— Meu nome é e eu vou cuidar de você, confie em mim, tudo bem?
— Jerusalém...
— Você é um cruzado?
Então o homem virou seus olhos de veias estouradas, amarelados e doentes para a moça. Era como se ele, no fundo, dissesse: obrigado.
— Vamos ter tempo para conversar. Preciso que você junte suas forças para conseguir caminhar comigo, eu não consigo te levar sozinha. Você consegue?
Ele piscou e gemeu, um calafrio percorreu o seu corpo e ela viu a pele dele se arrepiando de frio.
— Vamos, cruzado. — jogou seu xale fino e remendado sobre as costas dele.
E com muito esforço, abandonou a cesta de roupas e segurou o estranho pela axila, tentando como pôde, levá-lo até sua casa há alguns metros dali. Ela nunca havia usado tanta força para se equilibrar em toda sua vida. O peso do homem era exaustivo em seus ombros, mas ela conseguiu arrastá-lo aos tombos e topadas.
Quando chegou nas margens de sua propriedade, ela tentou achar o irmão no arado mas não o viu.
— Deve ter saído.
O cruzado gemeu.

Dentro de sua pequena casa de pedra, madeira e barro que mais parecia uma cabana minúscula, colocou o homem estranho sobre o amontoado de palha e lã que era sua cama. Deu-lhe água e um pouco de vinho velho. O homem sorveu tudo de uma vez, engasgando e desesperado.
Calma e com seus dedos cheios de calos, trabalhando com a leveza de uma pluma, ela começou a cuidar dos ferimentos. Parecia que o homem fora golpeado com força na direção do rim e estava em estado muito grave, desafiando os conhecimentos de que já julgaria aquele homem morto.
— O que está te mantendo vivo? Sua fé?
O cruzado olhou-a. Lágrimas escorriam de seus olhos.
Ela apanhou um livro que mantinha escondido sobre um pedaço solto de madeira e começou os rituais que eram necessários: aqueceu o fogo, separou ervas e pedras, acendeu velas com aromas e apanhou galhos secos do lado de fora. Cantou em voz baixa, acalmando o peito do cruzado, que a observava andar pela cabana. Em breve, fez um emplastro e posicionou sobre o ferimento após lavá-lo e queimá-lo com um pedaço de ferro quente (ignorando a agonia da dor do estranho e as tentativas falhas dele de tentar evitar que ela fizesse isso). Após prender, enfaixar com tiras limpas de pano e selar com velas, partiu para os outros ferimentos. Um corte fundo no ombro, no peito e no rosto.
Com carinho e curiosidade, cuidou de cada um dos cortes e hematomas. Ficava imaginando o que aquele cruzado deveria ter feito para se machucar tanto e até mesmo se o homem era um cruzado.
— Um desertor. Você deve ser um desertor.
O bispo.
assustou-se. O homem estava de olhos fechados, ainda sofria a dor da cauterização.
— O que disse?
— O bispo... Expedit... o bispo...
— Acalme-se, você não vai a lugar nenhum se não se recuperar. Descanse para seu corpo fechar as feridas. — acariciou o cabelo dourado e cheio de cachos do homem, tirando as folhinhas secas uma por uma. — Você vai dormir, comer e então poderá ir falar com o bispo. Aqui ninguém irá te fazer mal. Meu irmão é um guerreiro, ele voltou da terra do Senhor.
Ao ouvir guerreiro o homem abriu os olhos assustados e tentou se erguer, assustando a moça.
— Guerreiro.
— Ei, acalme-se ele é meu irmão, não vai te fazer mau...
— Preciso ir...
— ... a lugar nenhum. — a voz de era tranquila e o empurrou de volta para o leito. — Você está protegido.
Após os carinhos suaves de e seu canto fez o homem dormir mais uma vez. Satisfeita com o trabalho de remendar o estranho, agora ficou observando-o. Possuía uma um nariz bonito e a pele, agora limpa, parecia macia e suave. Os lábios inchados e secos do homem eram tão atraentes que cortava o coração da mulher vê-los feridos.
— Quando você acordar vou te dar um beijo para que se lembre. — E beijou-o rápida. — Este é para que sonhe.
Depois se levantou rindo. Precisava ir buscar as roupas na beira do rio.

⛦⛦⛦


passou o dia e a noite olhando o homem estranho dormir sobre sua própria cama. Era madrugada quando despertou, ainda sentada sobre a cadeira de sua vigília, quando ouviu um barulho do lado de fora da casa. Após olhar o homem em sua cama e ver que ele continuava dormindo, saiu da casa segurando o machado de cortar lenha.
Ela segurou a tocha do suporte e ergueu para ver quem vinha pelo vicinal chamando-a.
! — não era um chamado, era um grito.
! — era outra voz, trombando na oliveira que havia ali — A maior puta do mundo! A puta remendada ao meio! A puta que matou o marido!
Ela deixou a tocha no suporte e viu quem vinha na sua direção. Seu sobrinho, ainda criança, empurrava um homem cambaleando: , embriagado de novo.
— Johannes, o que aconteceu com seu pai?
— Ele bebeu de novo, tia. — O garoto disse, era possível de ver que ele chorava.
olhou com raiva para o irmão e deixou o machado no chão com força. Esbofeteou duas vezes até ele cair no chão.
— Eu só não bato... em mulher igual você... porque se não você me mata. — disse o ébrio, gargalhando. — Me mata...
— Johannes, anjo querido, vá para dentro da casa. Temos um convidado hoje, então não faça barulho.
O garoto assentiu, aliviado e coberto de ranho. apanhou um toco de madeira e golpeou o irmão na cabeça. Seu coração doeu ao vê-lo tombar na lama, mas era o melhor a se fazer com um bêbado.
Dentro da casa, viu seu sobrinho olhando diretamente para o convidado adormecido.
— Quem é esse homem?
— Não sei ainda, querido, mas ele estava ferido na floresta.
— Será que ele é um cavaleiro?
se abaixou e tirou a boina remendada do garoto, apanhou um pano molhado de água com flores e começou a limpar o muco do rosto dele.
— Não sei, mas se for ele poderá nos pagar um dinheiro quando estiver bem.
— E se ele for maldoso?
— Ele não é mau...
— Então por que está doente?
— Ele não está doente. Está machucado e perdido e nós vamos ajudá-lo. Chega de perguntas, o que seu pai te deu para comer?
— Vinho.
— Seu pai está fora de si. Venha, vou fazer um mingau.
— Com mel?
— Com mel!
O menino sorriu e o abraçou. Depois de comer, o garoto adormeceu em sua cama improvisada ao lado do homem estranho. ainda não tinha tecido outra manta e acabou ficando acordada envolta no xale ao lado do fogo que manteve aceso para fazer o mingau. Desde que voltara da cruzada seu irmão bebia demais e falava coisas desagradáveis. Ele partira sem saber que tinha um filho com sua esposa e delirou quando descobriu que ela morreu no parto. O garoto fazia de tudo para ficar perto do pai e fugia para acompanhá-lo nas noites de bebedeira.
Da janela pequena ao lado da porta, ela viu o irmão dormindo sobre a lama. Suspirou fundo e saiu da casa mais uma vez. Jogou um amontoado de palha sobre ele, para que não sentisse frio.


Capítulo 4

To protest the moon
To protest the idea of sleep
To balance our calm and our urgency
To protest their notion of fraternity and race


ROME - Le Chatiment Du Traitre

Para protestar contra a lua
Para protestar contra a ideia de sono
Para equilibrar nossa calma e nossa urgência
Para protestar contra a noção de fraternidade e raça.


2018

despertou quando já era noite. Após o encontro complicado com o conde, ela permaneceu em seu quarto analisando informações que pudesse achar sobre os irmãos Eltz. Almoçou no quarto por sua própria insistência com Altmeyer e lhe disse que ainda precisava descansar.
Várias abas estavam abertas no navegador do seu notebook sobre os Eltz. Até então apenas havia visto fotos do conde em sites de universidades e revistas de história. Era conhecido por ser generoso em doar dinheiro para projetos de pesquisa em diversas variações e por ser muito reservado em relação a história da sua família e sua própria. Em nenhum momento foi mencionado que ele possuía um irmão.
percebeu que não sabia o nome do segundo Eltz e mesmo que agora soubesse como ele parecia, não o achou em nenhuma das fotos do conde.
Um site de fofocas de péssima reputação, conhecido por suas costumeiras notícias falsas, tinha uma manchete sobre o conde e sua vida pessoal.

“O reservado conde Eltz leva uma vida de segredos, mas já foi visto em restaurantes com modelos italianas nas épocas de fashion week”


ergueu uma sobrancelha ao ver um homem muito parecido com o conde sentado em uma mesa num restaurante em Verona, vestido casualmente e usando óculos aos abraços com uma mulher.

“A mulher da foto foi identificada como Fatema Turli e não voltou a ser vista com conde Eltz ou nas passarelas outra vez.”


Na mesma hora em que ela leu a frase, alguém bateu na porta e saltou da cama.
— Senhorita , sou eu. .
A mulher fechou o computador e foi para a porta.
— Pensei em chamá-la para jantar. E para poder conhecer melhor a casa. Se estiver...
Ela abriu a porta e o conde parou de falar. Ele abriu um sorriso tranquilo. Estava bonito usando um pullover sobre a camisa e os grandes olhos perscrutando-a
— Disposta.
— Claro. — Ela fechou a porta e começou a trançar os cabelos para abaixar o volume. — Dormi por horas. Ou eu estava cansada de viagem ou a cama é muito boa.
— Os colchões são trocados todo ano, mesmo que ninguém durma neles há anos. É costume.
O Eltz parecia tranquilo ou aquele era seu estado para sempre: algo entre o sereno e o austero. Não usava a sonda no nariz naquela noite.
— De todo modo, gostaria de me desculpar sobre o comportamento do meu irmão.
— Não se desculpe. Os problemas de família não são mais um luxo dos nobres, os plebeus também os tem.
— Sem dúvidas. Antes de te mostrar o motivo de eu ser tão insistente em pedir para que você viesse mais cedo do que planejamos, vamos caminhar pelas alas comuns. Você é a primeira estudiosa que não é da família permitida aqui, estou ansioso para ter alguém com quem discutir segredos.
sorriu e começou a andar ao lado dele, sorvendo o perfume de loção pós barba de bom gosto mista com o cheiro de canela que ficava no ar. O conde tentava ocultar seu problema de locomoção apoiando-se discretamente com a bengala. A mulher não perguntou sobre isso.
— Se você se cansar das minhas explicações, me interrompa a qualquer momento.
— Não se preocupe, . É um prazer meu ouvir homens explicando coisas que já sei.
O conde riu.
— Me interrompa no ato, por favor.
Começaram a andar pela mansão calmamente. parava para observar um vaso ou um quadro e o conde a aguardava, em silêncio ou tecendo comentários inteligentes sobre a decoração. ouvia e concordava, precisava assumir que o conde era um grande conhecedor de arte.
Passaram por um jardim de inverno anexo a sala de música e a biblioteca. Uma árvore segurava um balanço sobre o chão de pedras e algumas trepadeiras na parede que não era de vidro.
— Essa oliveira está aí há anos. A casa foi construída ao redor dela.
— Tem algum motivo?
— Não que eu saiba. Por aqui, temos acesso a biblioteca particular de minha mãe. Ela mantinha seus livros favoritos separados.
Entraram numa sala de teto baixo e com uma poltrona vermelha. As paredes tinham livros onde as capas tinham quase o mesmo tom rosado. Um quadro emoldurado de uma mulher estava em destaque sobre a lareira pequena.
— Isso é Manet?
— Minha mãe ama os franceses. Meu pai comprou para presenteá-la quando estavam noivos.
— Isso... é mesmo um quadro dele?
estava surpresa em achar um quadro raro em perfeito estado, não conhecia a origem, mas o traço era inconfundível. Subiu os óculos para a ponta do nariz e chegou mais perto.
— Este quadro me lembra uma fase mais tardia o impressionismo. Algo entre 1880?
— Foi um dos últimos quadros de Manet.
— É muito bonito, de fato.
No quadro uma mulher segurava um pequeno guarda chuva e olhava fixamente para o observador. queria fazer perguntas, mas acreditou que não era o momento certo.
— Minha mãe revelou anos mais tarde que não gostou. Meu pai ficou triste.
olhou para , que olhava fixamente para o quadro e sorriu.
— É um dos que mais amo. Sempre gostei de vir aqui e observá-lo, imaginando quem poderia ser essa mulher. Hoje faço daqui minha sala de leitura particular. Pode-se juntar a mim quando quiser.
agradeceu e saiu da câmara. A tensão de ficar próxima do conde numa câmara pequena se dissipou. Ela percebeu que estava se agradando muito de ouvir a voz dele vibrar baixo em seu ouvido. Dentre todos os objetos que já viram, foi a primeira vez que o conde fazia um comentário pessoal.
Andaram mais um pouco, até o terceiro andar.
— Acho que está na hora de revelar o porquê a chamei antes, senhorita .
— Por favor, me chame de .
— É um hábito. — o conde virou por uma esquina, num corredor onde o papel de parede era listrado e não haviam esculturas ou obras de arte, destoava do resto da casa. — Eu a chamei porque gostaria que avaliasse um cômodo.
Ele parou em frente a uma porta.
— Quais são os tipos de dano?
— Vários. É um cômodo muito especial para mim e que até então não havia confiado em ninguém para restaurá-lo.
— Ficarei feliz em avaliar.
O conde levou a mão na porta e girou a maçaneta. Estava trancado. Ele suspirou sonoramente.
— Acredito que não poderei mostrá-lo hoje para você. Pelo que parece. — Ele respirou alto mais uma vez e tirou a cigarreira do bolso. — Você se importa de jantar sem minha companhia?
— Claro que não. — tirou os óculos e os pendurou no suéter. — O que houve?
— Acredito que tem alguém dormindo aqui.
assentiu, achando aquilo muito estranho.
— Você sabe voltar para a sala de jantar?
— Sim. Boa sorte.
fez o caminho de volta e parou quando chegou a esquina. Ouviu algo.
. — fez-se o som de alguém batendo numa porta. — Sou eu. Apenas eu.
Dali onde estava, ela pôde sentir o cheiro de cigarro ketrek do conde.
, estou sozinho.
A mulher ouviu o som de tranca, em seguida de porta abrindo e se fechando rapidamente. . Pensou. Esse deve ser o outro Eltz.

⛦⛦⛦


encontrou seu irmão de costas para a janela, recortado pela luz que vinha dos andares de baixo e da fonte. Ao longe, era possível ver as torres do Castelo Eltz iluminadas.
— Você a trouxe aqui para reformar este quarto, não foi?
ficou calado.
— Você queria que eu permitisse. — disse .
sentou-se numa cadeira, o único assento que havia além do chão. Todos os móveis estavam cobertos por lençóis. Um furo no teto e parte da janela cobertos com uma lona, isso era apenas o que estava à mostra na precária iluminação.
— Por isso me fez vir aqui e gastar meu tempo. — Continuou o irmão. — De outro jeito eu não viria.
— Não. — disse o outro. — Eu não preciso da sua permissão para reformar este quarto. É mais do que necessário, porque a casa estará à venda.
virou-se para o irmão, que fumava sem olhá-lo.
— Vender?
— Um dia.
— Você nunca mencionou isso.
, estamos velhos. Você odeia esse lugar e não tem filhos. Para que quer continuar com esse custo?
— E você? Por que decidiu isso?
— Olhe para mim, irmãozinho, — ergueu as sobrancelhas. — Eu sou um aleijado. O Drácula aleijado. Como acha que irei fazer um filho? Ou viver o bastante para criá-lo como um Eltz? — Ele tossiu e cobriu a boca com o lenço. — Essa casa deve ser vendida para que nenhum parente distante ou bastardo de nosso pai surja para clamá-la. E o castelo, doado para o governo.
franziu o cenho e cruzou os braços. Sua camisa tinha respingos de barro.
— Leo, você está exagerando. Existe outro meio...
— Você estava certo. O fardo de tudo isso é eu que carrego sozinho, a decisão também será minha.
— Não, não será. Não vou deixá-lo fazer isso.
Ah, então agora você quer saber dos assuntos da família? Depois de tantos anos bancando o ermitão humilde com seus motores? — riu sarcástico. — E toda a conversa de mais cedo? Sobre dinamite...
— Eu estava nervoso. Você me dá nos nervos.
— Você é mais sincero quando está bravo, por isso é tão bom irritá-lo.
revirou os olhos e virou-se para a janela.
— Eu não quero abrir mão dessa casa. Ou do castelo. — disse. Sua voz tinha pesar.
— Por que? Você não conseguiria se separar da dor no peito que sente quando está aqui? — tragou longamente. A fumaça com cheiro de canela se dobrou no ar. — Não consegue viver sem essa angústia que tanto sente uma vez por ano? Quando vem me ver no natal?
não falou nada.
— Eu também a sinto. Desde sempre. — concluiu.
— E por onde você vai se arrastar quando não tiver mais que morar aqui?
— Na sua casa em Frankfurt. Nós dois morando juntos, o que me diz? Você pode me apresentar alguma das suas namoradas comuns.
o olhou por cima do ombro, nervoso e deu outro riso sarcástico.
— A casa de verão na costa amalfitana. Abrir uma pensão e trabalhar. Quem sabe. Ou Airbnb como chamam.
quem riu.
— Você. Trabalhando.
— Posso colocar como qualidades da casa a presença de um conde asmático alemão. Atrairia muitos clientes.
— Você é um imbecil.
— Eu não sei o que faria. Como você, eu não consigo viver sem a dor que sinto aqui. Posso viajar para Xangai ou para a Patagônia: Não passo um dia sem sentir um gancho me puxando para este lugar. É como se eu nunca estivesse livre ou meu coração nunca pudesse se acalmar. — Na última tragada, engasgou e tossiu mais uma vez. Depois, continuou com a voz arranhada. — Nada no mundo é capaz de explicar isso. Assim como os seus pesadelos em dia de lua nova.
— Não os tenho mais.
— É porque você não dorme mais nesses dias.
ficou em silêncio mais uma vez.
— Como essa noite. O que pretende fazer para não dormir?
— Bagunçar seus livros e quebrar sua escultura de Minerva de novo.
fechou os olhos longamente.
— Não ouse.
— Talvez passar um susto em Altmeyer e na senhora Goint.
— Como você fez com o pote de tinta preta?
riu.
— Você assumiu a culpa para que papai não me deixasse de castigo.
— Fiquei um mês sem meu quebra-cabeça favorito.
— As penas para os aleijados eram menores.
Por um momento os dois irmãos se olharam e foi como se toda tensão se dissipasse. Anos de ausência e brigas dolorosas perderam o peso.
— Não vou vender a casa amanhã, mas esse é um assunto que ficará na minha cabeça por muito tempo. — disse.
— Só... não carregue o peso dessa decisão sozinho.
caminhou para a porta.
— Você sabe por que te chamei aqui? — disse quando o irmão passou por ele. segurou a maçaneta. — Eu não conseguiria entrar nesse quarto sozinho outra vez.
saiu do quarto, deixando sentado na cadeira, olhando para uma viga rompida no teto cuneiforme.

⛦⛦⛦


desceu diretamente para a área do bar, anexa à sala de música. Passou pelo balcão e alcançou um whisky. Sabia que os whiskies estariam cheios porque gostava de licores ou absinto.
— Você deve ser .
A voz feminina o surpreendeu. Ele se virou com o whisky na mão.
— Senhorita .
A arquiteta tinha o rosto indecifrável contornado pela trança de seu cabelo muito escuro. sentiu o coração acelerar.
— Eu estava indo para o quarto quando o ouvi. — Sua voz era dura. — Queria deixar claro que heterocromia ocular não me deixa caolha. Eu enxergo muito bem dos dois olhos.
engoliu a dose do whisky, nervoso.
— Você ouviu.
— Você e seu irmão discutiram embaixo do quarto onde estou.
— Eu sinto muito por...
— Conde, apenas... — Ela o interrompeu. olhava fixamente para os olhos bicolores da moça. — Certifique-se de não ficar na minha frente enquanto restauro seu castelo. Estou aqui para trabalhar e não para participar de caprichos de famílias nobres.
franziu o cenho. A mulher falava como se já tivesse trabalhado para todos os condes do mundo.
— Era isso que eu queria lhe dizer.
— Eu não sou conde. — disse, sua voz vacilou. — Só meu irmão tem o título.
— Você é o mais novo?
— Não. Eu só não o quis.
A mulher crispou os lábios, numa expressão de descaso.
— Eu ouvi que você não gosta muito mesmo de ter um castelo.
Àquele ponto o whisky no estômago de estava quase subindo pela garganta dele. Ele sentiu o pescoço arder, sentia raiva.
— É mais complicado do que pensa.
— Sem dúvida. — olhou-o pela última vez. — Boa noite.
— Boa noite, senhorita . Pode ter certeza que não vou ficar entre você e meu irmão de novo.
— Meu negócio não é com seu irmão. É com o seu castelo. Não confunda.
— Você vai ver que eles são a mesma coisa. — Ele disse, sem saber se a mulher havia lhe ouvido. Ele bebeu mais boas doses. Ainda sentia os olhos castanho e preto dela sobre seu corpo.
Por um momento pensou que a arquiteta parecia olhar com mais respeito para os respingos de barro em sua roupa do que para o seu rosto.
Vaca.


Capítulo 5

Weißt Du zu rufen, weißt Du zu raten?
Weißt Du zu raunen, weißt Du zu sagen?


Saltatio Mortis - Equinox

Você sabe chamar, você sabe adivinhar?
Você sabe sussurrar, você sabe dizer?

1194

fez um guisado de almoço com repolho e gordura de porco. Estava irada.
— Seu pai é um irresponsável. Estava melhor sem ele aqui.
Johannes estava sentado sobre a cadeira de pés tortos. Observava a tia em silêncio.
— Você tem certeza que ele estava com a bolsa de moedas?
— Sim. Um homem pegou dele.
— Como era esse homem? Alto? Gordo? Se... Se pelo menos tivesse deixando-a aqui... — Ela mexia a panela de barro com força. — Estou a cada dia querendo que outra cruzada comece e ele vá embora.
O sol estava no meio do céu e já havia arado sozinha, metade do campo, enquanto Johannes jogava pelo chão as sementes secas de seu bornal infantil feito pela própria tia. A raiva passou e eles encheram a barriga. Johannes mal terminou de comer e começou a cochilar na mesa.
respirou pesadamente. Até ela estava cansada do trabalho. Mas a semente não se planta sozinha. Nem a água brota onde quero que brote. Pensou, segurando o corpo pequeno do sobrinho e colocando-o na cama que havia feito para seu irmão. O garoto rapidamente se acomodou na manta de lã. Deu uma rápida olhada para o homem estranho dormindo na cama dela e por um segundo se arrependeu de tê-lo acolhido. Eu poderia estar dormindo aí, sabia?
Checou a tez do estranho e contou quantas vezes o peito dele subiu e desceu. Havia trocado as tiras de pano e conseguido alimentá-lo com o resto de milho moído que ainda tinha na casa, em um mingau doce e nutritivo. O homem até então não havia despertado.
Do lado de fora, encheu um balde de água do poço a alguns passos dali e jogou sobre o irmão. O gato que estava dormindo sobre as pernas dele saltou longe.
O império é eterno! — ele gritou em latim.
No meio dos cabelos sujos sobre os olhos negros e furiosos, olhou a irmã tão furiosa quanto.
— Aprume-se. Precisamos terminar de plantar.
— Ora, mulher, terminasse você. Estou cansado.
— Cansado de beber? Você está fedendo e desde que voltou não pegou em um balde! Muito menos em uma enxada!
— Você se virou bem sem mim, pode continuar assim. Minha cabeça dói e vou dormir. — O homem voltou a deitar na lama. arremessou o balde de madeira na cabeça dele e ele gemeu. — Sua vaca!
— Por todos os seres do céu, ! Você não está mais em Acre! Você não tem mais um senhor nobre para obedecer! — gritou, com o sangue pulsando em sua testa. — Vá se banhar no rio. Quando voltar tome o chá que preparei sobre a mesa e volte para o campo para me ajudar. Quer que percamos outra ovelha? O que vai restar para nós no inverno?
O homem ficou olhando a irmã furiosa entrar para dentro de casa com as botas masculinas que ela usava fazendo barulho sobre o soalho de madeira. Massageando o supercilio sangrando e latejando, ele foi mancando para o rio.

⛦⛦⛦


amarrou as sementes à cintura e voltou a arar a terra. O processo era pesado e com o sol aquecendo sua pele, ela sentia sede logo em poucos minutos de serviço. A ponta de seus dedos estava ferida de calos por tirar os espinhos do cruzado que agora dormia em sua cama. Ele estava tão ferido e cheio de espinhos que parecia ter apanhado e rolado sobre roseiras. Limpo e remendado como estava agora, lembrava a um anjo que tropeçou do céu que agora esperava a palidez da sua pele absorver as equimoses que o manchavam.
A mulher olhou para a porta de casa, metros dali e viu a silhueta do irmão parada de costas à porta. Percebeu que não havia lhe contado sobre o cruzado e que ele iria ver um homem estranho na cama dela após anos de celibato. Pressentindo algo de ruim, ela largou a enxada e o bornal de sementes e caminhou até a casa.
Dentro da casa, segurava a espada que havia ganhado do cavaleiro que era seu senhor. Uma lâmina já frisada de tanto afiar, frágil e que não servia para combate, mas que a carregava como se fosse letal. Quando viu o homem deitado na cama da irmã, ergueu alto a espada na direção da costela. Uma fincada no coração. Rápido para a lâmina não prender.
Antes de traçar o caminho da espada para o peito do estranho, o homem despertou e ele ergueu o torso.
caiu para trás de susto e recuou enquanto o homem estranho que havia lhe tomado a espada agora brandia para ele, enquanto segurava com a outra mão o amontoado de panos ensanguentados sobre a ferida de sua barriga. O estranho sentou-se sobre a cama e começou a se levantar.
chegou no exato momento que o homem caiu segurando a espada e aos pés do irmão.
! ! Sua vaca, o que este desgraçado faz aqui!? — tremeu a voz, ainda recuado.
— O desgraçado aqui é você, ! — retrucou. Ela abraçou o estranho e o voltou para a cama. Os dedos dele seguravam com força a espada, mas ela a tirou dele e jogou para o canto. — Você fez o ferimento dele abrir de novo.
— Você sabe quem ele é?! Sabe o perigo que trouxe para cá? Para a casa de nossos pais?
ignorou o irmão e se curvou sobre o estranho, apanhou o rosto dele, agora desperto com dois desesperados olhos muito azuis e tentou acalmá-lo.
— Não sei. Mas vou cuidar até que ele volte a ficar bem. — disse, hipnotizada com os olhos do homem estranho. — Repouse.
— É o conde! O conde Eltz!
virou-se incrédula para o irmão.
— O quê?!
— O conde! — tinha os olhos saltados das órbitas. — , precisamos matá-lo antes que alguém veja que ele está aqui e mande nos matar!
— Do que está falando?
— Se algum guarda ver que estamos com o conde nessa situação... eles vão nos torturar e nos matar!
segurou a espada de novo, fazendo a lâmina tremer.
— Precisamos matá-lo e jogar o corpo no rio para que não o tracem até nós.
— De maneira nenhuma! — se enfureceu. — Conde ou não este homem está ferido e ficará aqui até que melhore!
, eu ordeno que saia da minha frente! — estava de pé e apontava a espada para a irmã.
— Você não vai matá-lo. — E a mulher curvou-se sobre o corpo do cruzado ferido. Viu que ele a olhava em desespero e que tremia muito. — Nem ninguém. Ele está sob a minha proteção.
— Você irá trazer mais desgraça para esta família! Mais do que já trouxe! Saia imediatamente ou mato você. E ele!
— E quem vai sobrar para você? O filho que você não se importa?
Nessa hora olhou para Johannes, que olhava a cena com cara de choro, agarrado na manta de lã de sua tia.
— Você está parecendo nosso pai. — disse e fechou os olhos longamente. Aos poucos saiu de cima do cruzado, que agora era um conde, e segurou sua mão. — A única desonra daqui é você. Que esqueceu o que é ser homem depois que voltou da Terra Santa.
— Ah, cale-se mulher. — colocou a espada sobre a mesa e apoiou-se nela, ainda tremia. — Você não sabe o que é o ferro da areia... aquilo tudo.... Mas manter esse homem aqui... — e saiu pela porta, conversando sozinho. viu de longe ele caminhando para floresta.
respirou fundo. Pegou a espada do irmão sobre a mesa e a escondeu sob o soalho.
— Volte a descansar, Johannes. Quando acordar venha me ajudar. — ela disse ao sobrinho. — E quanto a você, seu nome é ? — ela perguntou ao cruzado. Ele piscou, olhando-a de longe. — É um belo nome.
— Quem é você? — a voz saiu baixa, entendeu o que era pelo movimento da boca dele.
— Você não me conhece. Nem ao meu irmão. Moramos durante toda a vida em sua propriedade, trabalhando duro para fornecer a quantidade mensal de trigo aos seus guardas e pessoas do castelo. Se eu não faço isso, eles tomam uma de minhas ovelhas e passamos o inverno com frio e fome.
— Por que está fazendo isso?
— Porque meu coração diz que é o certo. E porque ninguém deve negar ajuda a outra pessoa.
Ela trocou as bandagens e o emplastro, seguida pelas expressões de dor do cruzado silencioso. Ao fim, ele adormeceu novamente.

⛦⛦⛦


Dias depois do reconhecimento do homem que a irmã tinha na cama dela, arou sozinho o resto do prado. Levou agua para as ovelhas e colheu batatas. Seu filho o ajudava nas tarefas e o tratava com respeito.
— O que você e sua tia fizeram o tempo todo em que eu não estava aqui?
— Plantamos e colhemos. Tia me ensinou sobre o nascimento das ovelhas e a cantar.
— Cantar?
— Sim. — o garoto começou a entoar palavras em um dialeto estranho, mas que já havia ouvido. O pai abaixou-se na altura do garoto e tapou a boca dele.
— Não diga essas palavras em voz alta! — cochichou. — Sua tia lhe ensinou o que mais? — Que a pedra quente pode sarar machucados e a que na hora de dormir os sapatos devem ser deixados virados para o nascer do sol para que o próximo dia seja produtivo.
estava assustado.
— Sua tia lhe ensinou coisas de mulheres. Você não deve nunca repetir isso na frente dos outros, está me ouvindo?
— Tia disse isso também. Mas achei que podia falar ao senhor. Ela disse que o senhor quem a ensinou.
Sh sh sh! olhava para os lados, como se alguém estivessem vindo pelo vicinal. Voltavam a pé da casa do vizinho, onde havia ido buscar milho e cebolas para o jantar de sábado. — Não foi eu... foi... Enfim, garoto, apenas não repita isso em voz alta mais uma vez.
— Por que devemos ficar calados sobre isso? Poderíamos ajudar mais pessoas e curá-las...
— Filho, preciso que escute. — pousou o alforje repleto de alimentos no chão e buscou as palavras. — Existem coisas que não podemos controlar e apenas nos resta temer e ficar em silêncio. Se mais pessoas descobrissem o que sua tia... e eu podemos ajudar pessoas doentes, eles nos machucariam.
— Mas, papai na igreja eu escuto o abade dizendo que é preciso ser caridoso. Eu odeio ir lá.
— Nós somos caridosos dando o que colhemos para nosso senhor das terras. Isso é ser caridoso.
— O senhor das terras é o homem que tia achou na floresta?
Agnsar respirou fundo outra vez.
— Sim.
Johannes riu.
— Eu sabia. Ele me disse que chamava .
— Ele conversou com você?
— Sim. Quando tia foi lavar roupa no rio, ele acordou e pediu agua. Eu dei.
— E o que mais?
— Ele perguntou o nome da tia, o seu, do vizinho e do homem do imposto. Aquele guarda que sempre faz mal para tia .
prendeu a respiração.
— E você disse a ele?
— Sim.
— Joahnnes, eu o proíbo de voltar a falar com ele.
— Mas papai...
— O que mais disse a ele?
— Ele perguntou sobre a cicatriz da tia . Eu lhe disse que foi o marido dela que fez e que doí no inverno. Ou dói quando ela pressente algo de ruim.
massageou a testa, nervoso.
— Johannes... nunca mais diga isso para alguém estranho. O que mais falou sobre o marido da sua tia?
— Que ele morreu.
— E o homem não te perguntou mais nada?
— Não. Ele agradeceu pela água e foi dormir.
— Ele fez perguntas sobre as coisas que sua tia usou nele? Os cantos?
— Não. Ele disse que estava se sentindo melhor.
olhou pelos lados do vicinal novamente.
— Se ele te perguntar algo, não o responda mais. Certo? — Certo, papai.
— Bom garoto. — abraçou o filho, era a primeira vez que o identificava como sua cria. Ele tinha as bochechas da mãe, mas o par de olhos negros e curiosos eram dele. — Vamos, vou lhe contar sobre quando bati em um homem por um mapa de tesouro persa em Constaninopla.
— Mas você não voltou com nenhum tesouro.
— Isso é outra história.

⛦⛦⛦


No domingo à noite, despertou. Na escuridão, viu um par de olhos olhando-o perto do fogo. Sem saber se aquilo era um sonho, ele tocou a ferida enfaixada em sua barriga e sentiu dor, lembrou-se que estava vivo.
— Como se sente, meu senhor? — A mulher o perguntou.
— É isto um sonho? — disse, com a voz arranhada. Falar doeu seu peito.
— É o que você achar que deve ser. — a mulher levantou-se e se aproximou. Uma cicatriz grande brilhou com a luz do fogo, cortava o peito da mulher surgindo de dentro de sua roupa até o canto de sua boca, devia tomar o tórax inteiro. — Volte a descansar.
— Você vem cuidando de mim noite e dia, desde que cheguei aqui. Você alivia minha dor e me acalma.
A mulher sorriu. Eles falavam muito baixo para não acordar a criança e o outro homem que dormiam ali perto. A mulher sentou na beirada do leito. segurou o antebraço dela com força.
— O que quer de mim? — ele disse.
— Quero que se recupere. Você chegou para mim como uma corça ferida, com o último sopro da vida nos seus lábios. Agora já está voltando a sentir e a comer. O som da sua voz é bonito como eu havia imaginado.
— Você foi mandada pelo bispo?
— Não. Eu não sei quem é esse bispo que você diz.
— Ele que mandou fazer isso. — O homem tocou o corte na barriga. — Os guardas dele fizeram o resto por conta própria.
A mulher ficou triste e segurou o rosto do estranho com as duas mãos novamente.
— Não deixe que ele a encontre. Ele te mataria pelo que fez a mim. Ele te mataria por me tirar do mundo dos mortos.
— O bispo deve ser o homem de Deus. Por que Deus iria querer fazer isso com você?
— O bispo não é homem de Deus. E Deus me esqueceu. Me deixou em Acre... com mil bocas esfomeadas... afogado em um rio! — lágrimas brotaram de .
Shhh, já passou. — A mulher beijou a testa dele. — O que você passou na areia quente, não chegará mais aqui.
O homem chorou em silêncio um pouco mais, observado por , que segurava a mão dele.
— Agora que está de volta, eu vou te proteger. Contra tudo o que te faça mal. O bispo terá que passar sobre meu corpo para chegar ao seu. Agora, durma.
deitou no chão ao lado do leito do conde cruzado. Adormeceu ouvindo-o chorar em silêncio.


Capítulo 6

I will keep this lonely room empty for you
I will leave everything unchanged, unaffected
Everything will stay the same
Nothing is ever gonna change
Forever I will keep this room empty for you
I will leave the streetlights on, shining for you
I will sing the songs we knew
Just to feel close to you

Eivor – Room

Vou manter este quarto solitário vazio para você
Vou deixar tudo inalterado, não afetado
Tudo ficará o mesmo
Nada vai mudar
Para sempre vou manter este quarto vazio para você
Vou deixar as luzes da rua acesas, brilhando por você
Eu cantarei as músicas que conhecemos
Apenas para me sentir perto de você

passou a manhã toda no quarto que o Conde havia pedido para avaliar. Após tomar seu café da manhã sozinha, ela havia sido levada até o cômodo por Altmeyer, que se recusara a entrar. “Evito pisar aqui, senhorita.” Tinha lhe dito.
não lhe tirava a razão. O quarto era escuro, mesmo com a luz que vinha da janela alta. Havia pouco espaço entre os objetos cobertos de lençol o que fazia parecer um labirinto sufocante com cheiro de naftalina.
— Como está o conde? — perguntou a Altmeyer.
— Ainda indisposto, senhorita.
assentiu e começou a tirar o lençol dos móveis. Talvez tenha sido uma sábia decisão do conde de não presenciar os primeiros passos da restauração. Pode não parecer, mas quando se diz respeito a memórias, dolorosas ou não, as pessoas tendem a se apegar de última hora as lembranças que elas causam. A mudança dói nos nobres e já havia presenciado isso de perto. Uma vez um duque inglês se recusou a deixar que ela reformasse a cabeça empalhada de um cervo, mesmo tendo pago a ela uma quantia que valia quase o castelo dele inteiro.
Se ele tivesse aqui, falaria alguma coisa? Ela achava o conde pouco passional e distante e tinha se instigado a ouvir dizer mais sobre sua vida pessoal. Ela pensava em tudo isso conforme os objetos iam se revelando.
Uma cama, criado mudo, penteadeira, estantes, espelhos aos pedaços, molduras, cadeiras, telas de pintura, carros de brinquedo e papel de parede antigo começaram a se revelar.
— Altmeyer. — Ela disse sobre a poeira que se levantou. — Você tem certeza que o conde não vai acompanhar, certo?
— Sim, madame.
— Tudo bem. — se posicionou em frente a lona que tampava o teto. — Avise-o que estou disposta a restaurar esse quarto e todos os objetos nele. Trabalharei aos fins de semana ou quando estiver livre da restauração do castelo. Vou fazer uma lista de tudo o que precisarei e peço que entregue a ele.
— Perfeitamente, senhorita.
— Quantos funcionários tem aqui?
— Perdão, senhorita?
— Preciso de pessoas dispostas a carregar, varrer e que tenham força para me ajudar a erguer vigas de madeira. Também de uma escada e um deposito de lixo. — se lembrava do pedido do conde de que só ela era permitida na casa, devido a reclusão da família. Trabalhar naquilo sem seus próprios funcionários seria complicado.
Altmeyer concordou com a cabeça a cada palavra e saiu. puxou a lona com força e os pregos que a prendiam se retesaram. Estavam enferrujados e começaram a se soltar conforme ela puxava. Logo a lona soltou e ela pôde estudar o dano: fogo.
Com a luz do sol entrando pela fenda no teto, sobre a viga rompida, analisou o restava daquele quarto circular. Seus olhos profissionais definiram por onde começar e por onde terminar. Listas de objetos e ferramentas se formaram em sua cabeça e logo calculou quanto tempo demoraria e os objetos que lhe dariam mais trabalho.
Ela abaixou-se e segurou a réplica de uma moto, amassada e sem rodas. achava importante conhecer a origem de destruição voluntária dos objetos de sua restauração, mas sabia que na vida dos nobres esnobes haviam muitos segredos que não valiam o risco de perder o trabalho por uma curiosidade.
Aos poucos, separou tudo em caixas que Altmeyer a ajudava a identificar, até que obteve ordem no espaço.
Madeiras aproveitáveis / Madeiras para descartar.
Tecidos /molduras / pintura e ilustração.
Réplicas.
Altmeyer pareceu perder o desconforto de entrar no quarto e a seguia para todo lado, segurando estantes pesadas ou escrevendo com sua letra bonita nas caixas. Alguns empregados silenciosos o ajudavam em tudo.
Em uma das vezes que Altmeyer saiu, recebeu uma visita enquanto apertava dois parafusos deitada embaixo da penteadeira. Quando viu pernas de alguém na porta, ela se afastou para poder vê-lo.
— Ora se não é o conde que não é conde.
Eltz olhou-a com desprezo.
— Senhorita .
— Você veio aqui para ajudar, certo? Pode levar aquelas telas para meu quarto, por favor. — e voltou a concentrar-se na penteadeira.
— Você sempre se veste como um encanador quando vai reformar uma casa?
respirou, impaciente.
— É algum tipo de sex appeal, ou...? — O Eltz continuou. — Seja lá o que for, o banheiro do meu quarto está com problemas, se você quiser passar lá para reformá-lo também...
saiu debaixo da penteadeira e se ergueu. Usava um cinto com ferramentas e uma faixa postural que apertava sua cintura para evitar lesões na coluna. O Eltz a olhou dos pés da cabeça.
— O que você quer aqui?
— Os empregados me disseram que você parecia o Batman. Eu vim conferir.
estreitou os olhos em desprezo atrás de seus óculos havana. O Eltz riu sarcástico.
— Você não saberia usar nem um terço dessas ferramentas.
— Chaves de fenda são as mesmas em qualquer lugar. — apontou para a ferramenta que a mulher segurava. — E como se fosse difícil remendar uma penteadeira.
— Por que você não tenta? Pelo que parece ninguém tinha coragem de entrar nesse quarto. Tiveram que pagar uma estranha para isso.
O Eltz continuou com expressão de nojo.
— Por isso mesmo. Onde já se viu um nobre com farpa nos dedos? Você está sendo paga para isso.
— Seu irmão, no caso, o meu patrão, está me pagando para reformar um quarto e um castelo – pagando muito bem – então se você puder me fazer a gentileza de me deixar trabalhar em paz e ir embora, eu ficaria agradecida.
— Altmeyer disse ao meu irmão que você não almoçou. Já são quatro da tarde e ele quer que eu a acompanhe na refeição. — virou os olhos. — Vou dizer que você já comeu.
— Faça isso.
— Ele insistiu em você seja acompanhada por algum Eltz caso tenha perguntas a fazer.
— Ele podia mesmo ter mandado um Eltz, você não parece um.
a olhou irado.
— Desrespeitar a família também estava no seu contrato, pelo que parece. Acho que você esqueceu com quem está falando.
— Você esqueceu o mínimo da educação. Você não é nem a metade do que seu irmão é nesse quesito.
— Tratar bem uma encanadora? Arrogante como você? — cruzou os braços e caminhou para dentro do quarto. — Eu já lhe disse que você precisa ir no meu quarto restaurar meu encanamento. Se é que me entende. — Ele segurou a réplica da moto do chão e ficou observando -a. — Eu tinha me esquecido disso daqui. BMW R32 de 1926...
— Senhorita, consegui o pincel de cerdas grossas que pediu e um pouco de éter. — Altmeyer surgiu na porta com a cabeça oculta pelas caixas que equilibrava nos braços. — Infelizmente não temos mais soda, mas mandei um lacaio ir comprar.
— Está ótimo, Altmeyer. É o suficiente para hoje. — ignorou o Eltz e fui ajudar o mordomo.
— Oh, mestre Luitger, precisa de algo? — O mordomo se virou para .
— Não, Altmeyer, já estou de saída. — O Eltz se direcionou para a porta, com a réplica da moto nas mãos e olhando irado para . — Apenas providencie a senhorita a ajuda que precisar.
— Perfeitamente senhor. Já irá descer para o almoço? A mesa está a postos.
— Não.
— Devo cancelar o almoço e o chá à sua espera e de senhorita ? — perguntou.
— Sim.
— Ora, senhor e o que vai almoçar? — Altmeyer seguiu no encalço do Eltz, preocupado. — Quer que senhora Goint lhe prepare um sanduíche?
— Não, Altmeyer. — E saiu.
— Avisarei o conde de sua chegada. Ele está querendo falar com o senhor desde ontem à noite...
— Ele tem meu celular, pode me ligar quando quiser saber onde estou.
— Sim, senhor.
— O conde que mandou você almoçar comigo, não é? — riu. O Eltz apenas a olhou. — Por que você não me convidou diretamente?
— E você iria?
— Talvez!
Altmeyer olhou de para , assustado.
— Mestre Luitger pediu para que fosse preparado um Sole Meunière* que a lembrasse de sua terra natal, senhorita .
já havia saído pelo corredor.
— Diga ao conde que mandei lembranças e que não vejo a hora de Vê-lo disposto, ! — disse, à porta, rindo.
a olhou com raiva por cima do ombro.
— Senhorita , devo cancelar o Sole Meunière?
— Não mesmo, Altemeyer. Eu comeria um leão agora. Vamos lá. Posso almoçar na cozinha?
— Na c-c-cozinha? — Altmeyer gaguejou. — Mas senhorita, a cozinha é apenas para funcionários, convidados ficam na sala...
— Sou uma funcionária aqui tanto quanto vocês. E não quero a companhia de Eltz. Tem uma cadeira para mim lá?
desatou a cinta postural e as ferramentas.
— Certamente. — Altmeyer parecia estar de bom humor. — Vou leva-la até lá. Mas devo alertá-la que que nosso corpo de empregados não é muito grande e...
Altmeyer começou a falar nomes e funções enquanto ouvia tudo atentamente. O mordomo a guiou para o anexo dos empregados que ficava em um lado da mansão, próximo a um antigo estábulo e o esqueleto de uma videira abandonada.
foi recebida por senhora Goint, uma cozinheira esguia e de cabelos vermelhos como fogo, aparentava jovialidade apesar de suas muitas rugas. Aos poucos, na cozinha larga e com uma mesa muito de madeira maciça onde alguns empregados liam ou conversavam entre si, foi conhecendo cada um. A velha cozinheira lhe contou com nostalgia sobre os pais dos irmãos Eltz, em como o conde Kaspar (o pai) gostava de caçar o como a Condessa Lavinia gostava de promover bailes secretos para funcionários e estudiosos que a família patrocinava.
— O sigilo é algo muito perene por aqui, senhorita. Preciso dizer que quando soubemos de sua chegada, foi uma surpresa.
— O conde até mesmo escolheu suas abotoaduras especiais. — disse um homem de cabelo grisalho, usava o mesmo uniforme de Altmeyer.
— Limpamos a estufa três vezes. Nem sei porquê. — disse outro homem, que passava pano no chão da cozinha, usando um avental. o reconheceu como um dos empregados que ajudaram a tirar caixas do quarto em restauração.
— Cientistas já vieram aqui. Mas uma artista plástica? A primeira vez. — Continuou senhora Goint. — Estamos curiosos com o que irá fazer, senhorita. Lembre-se de tomar um chá conosco e nos atualizar.
comeu tão rápido o prato feito para ela que se sentiu empanturrada. Elogiou a cozinheira e ouviu mais histórias.
Após um chá e biscoito de canela (e mais fofocas sobre o pai dos irmãos Eltz e uma professora de Fenomenologia de Grenoble), voltou para o quarto em que devia reformar. Mais tarde naquela noite, quando se preparava para dormir e olhava para a ponta dos dedos calejados, lembrou-se de uma frase de senhora Goint:
Os Eltz são viciados em arte e tudo o que a envolve. Perfeição, essas coisas. Há gerações. — a velha tinha um tom de voz entre um conselho ou uma ameaça. — Não se esqueça que a senhorita é um veículo dessa arte. E que esses meninos são desesperados.

⛦⛦⛦


acordou de madrugada com o peito dolorido. Uma dor que parecia surgir do estômago, passando por seu esôfago até a garganta, mas sobre a pele. Não era a primeira vez que despertava de um sonho ruim com uma floresta, um homem perseguindo-a e aquela sensação de estar sendo observada até quando acordava.
Do outro lado da janela, tudo estava escuro exceto pontos de luz distantes que pareciam ser as cercas da propriedade, no céu escuro, a lua nova ainda não tinha apontado.
Ela fechou-se num casaco e calçou as meias. Buscou pela água, mas seu copo estava vazio. Ao acender a luz do quarto, viu as caixas que havia mandando para o quarto, para analisar. Uma tela de um garoto brincando no chão, partida ao meio, estava virada para ela. Sentindo um calafrio, foi até a tela e a virou para parede.
Quanto menos olhos em mim melhor. E riu do pensamento medroso. Se distraiu olhando alguns pedaços de madeira rebuscada de molduras que teria que repetir o padrão na madeira nova.
Sutilmente, um som distante começou, distante, abafado. Era uma música que ela conhecia, mas não se lembrava do nome. O instrumento era conhecido também. Cravo**.
Ela colocou o ouvido na porta e o som fez-se mais nítido: Vinha de algum lugar da casa. O relógio marcava duas e meia da manhã e o som parecia na mesma altura do tic tac, parecia planejado perfeitamente para não ecoar muito alto, quase como um grito em um travesseiro.
saiu do quarto pelo corredor escuro, com algumas luzes que se acendiam pela sua presença nos rodapés, deixando os ambientes amarelados. Quando chegou na escada da tapeçaria, percebeu que o som ecoava do andar acima.
Ela continuou o caminho, passando por uma escultura de um soldado grego, algumas espadas em caixas de vidro, até o corredor onde o som ficou mais nítido. Ficou um momento escorada na parede fria ouvindo o som suave que vinha de algum quarto por ali. Ficou olhando para a janela, onde do lado de fora iluminava a fachada da casa, com a fonte e a entrada com um poste enfeitado iluminando o vazio da madrugada.
Quando o som se cessou, ela decidiu voltar. Pisando suavemente sobre o mármore gelado da escada, ela rumou para o quarto.
— Fazendo um tour noturno, é?
O coração da mulher quase saiu pela boca, de tanto susto. Eltz com uma camisa aberta segurava uma garrafa e parecia embriagado, apoiado na porta da biblioteca. deu as costas para ele e continuou subindo as escadas.
— Ignora meu irmão! Ele toca essa música quando tem pesadelos — O Eltz riu. — Lua nova, sabe? Todo mundo tem pesadelo na lua nova... — E soluçou.
não deu ouvidos. Continuou subindo as escadas, relembrando a todo momento do tórax descoberto do Eltz e a sombra de algumas tatuagens.

⛦⛦⛦


Existe algo que ele deseja. Algo tão dolorido quanto as prontas de metal de um chicote, tão visceral quanto veneno lento. Isso o consome, o deixa mal, o faz suar debaixo das camadas do hábito. É ódio? Não, não é. É outra coisa. É o que os gregos amavam, isso ele tinha por certo. Algo fadado a tragédia! Melpomene.
Pecado ele sabia que não era, mas virtude também não era.
Era ira. Era desprezo. Ele estava perturbado. Dentre todos os infortúnios em seu plano, o mais perturbador deles era ela. Uma mulher.
Desesperado, ele tenta olhar para os cadernos a sua frente. A iluminura que estava terminando para presentear a condessa. Desenhava um demônio que tentou nosso senhor Jesus Cristo em Getsêmani. Ave Maria! Ora pro nobis Deum!
Agunus Dei. Ele diz em voz alta. Sua mão treme mais uma vez. Enquanto desenha o demônio, a mão dele escorrega e risca o que acabou de fazer. Irado, o homem pega o livro e o arremessa no fogo. Gruni em voz alta.
Qui tollis peccata mundi, miserere nobis.


Capítulo 7

At night the war still comes to you
It makes it harder to join the dots
The river gets wider in front of us
Baby we're nothing but violence
Desperate, so desperate and fearless


Editors - Violence

À noite, a guerra ainda vem para você
Isso torna mais difícil juntar os pontos
O rio fica mais largo na nossa frente
Querido, somos nada além de violência
Desesperado, tão desesperado e destemido.


1194

As noites que se passaram depois que o cruzado e conde Eltz recuperava sua vida no leito de foram repletas de gritos de dor, desespero e choro. O conde chorava todas as noites de sono, perturbando a calma daqueles que tentavam dormir no mesmo teto. , em todas as noites, calmamente o acolhia em um abraço ou lhe acariciava a fronte. Chamava-o pelo nome até acordar e então ele chorava pelo resto da noite, em um estado de sonambulismo. Durante o dia, dormia calmamente.
pareceu ter recuperado do trauma que a Terra Santa havia lhe causado, não bebeu mais na taverna ou esqueceu-se do filho. Trabalhou no arado durante os próximos dias de verão enquanto a irmã pôde se concentrar em cultivar mudas curativas ou fazer novas roupas em seu tear.
Em um dos dias em que estava roçando o prado, ele viu três homens se aproximando a cavalo, com cavalos enfeitados com o manto da casa Eltz. Dois pararam e um deles veio até a oliveira que marcava o meio do vicinal. o abordou.
— Senhor, o que devo sua presença por essa terra?
— Viemos colher o imposto do outono.
— Mas o fim da colheita é para a próxima lua nova, senhor. — riu nervoso. — Temos algum motivo de ter reduzido o prazo da nossa produção?
Desde pequeno havia sido ensinado a responder a autoridade parecendo um imbecil. Seu pai agia sim e o pai dele, desde quando aquela terra ainda estava sobre o domínio romano.
"Eles não gostam de saber que você sabe contar. Ou conversar." Dizia seu pai. Conversar com autoridades também fazia lembrar de como seu pai era submetido a castigos com chicote e óleo quente se entregava um saco a menos quando o Castelo Eltz ainda não havia sido erguido. Aquele momento era de tensão.
— Com a volta antecipada do exército de nosso senhor conde a demanda por trigo foi aumentada para este mês. — O oficial lançou um olhar para a cabana. estava à porta. — Fiquei sabendo que você voltou como cavalariço de Edler Richard dos moinhos do norte. E que irá servi-lo...
— Quando ele retornar às atividades de treinamento, certamente que sim. Até lá...
— E o boato é que também recebeu uma grande quantia de prata de Edler Richard.
engoliu seco.
— Os boatos engrandecem muito o prêmio, senhor, de toda forma o que recebi foi para aumentar a produção. Compramos novas ferramentas e tiramos o moinho do penhor. — procurava sorrir o máximo que podia. Tinha medo do homem oficial entrar dentro de casa e dar de cara com um nobre que era para estar morto. — Aliás, quais são as notícias do castelo?
O oficial estreitou os olhos. Montado no cavalo, olhava para como se olhasse para uma pulga.
— Tem assuntos para tratar lá, camponês? Por que pergunta?
riu.
— Meu bom senhor, apenas curiosidades. Me acostumei a ouvir histórias do castelo na Terra Santa...
— Você deveria se envergonhar por isso — o oficial cuspiu no pé de . — E devia levar dez chicotadas por sua indolência curiosa.
caiu de joelhos.
— Meu senhor! Nobre senhor... — a voz dele se embargou e suas pernas dobraram até o joelho cair no chão — E-e-eu sinto muito por isso.
— Essa pena deverá ser acrescentada no imposto desse mês. Vou completar minha viagem até o fim do rio e passarei aqui na volta para apanhar a quantidade correta de trigo e do seu salário de cavalariço.
— Certamente senhor, é muito bondoso por nos dar esse prazo...
— Retorno na próxima semana.
Sete dias? Senhor o trigo demorará...
— Você quer colocar as suas costas ou a de sua irmã à disposição do meu açoite caso não seja entregue o que peço?
Senhor?! sentiu as mãos gelarem.
— Providencie o trigo. Estarei aqui na próxima semana, após completar a volta do rio.
O oficial deu as costas, com a brigandina da casa Eltz brilhando sob o sol do começo do dia. viu ele e os outros homens se distanciarem a cavalo. Sentiu uma presença se aproximar.
— Adalfarus quer mais trigo.
— Ele disse que com a volta do exército...
— Ele diz isso para mim todo verão e sempre toma mais do que temos. Uma ovelha, um saco ou algo absurdo. — ajudou o irmão a se erguer do chão, pois ainda estava de joelhos. — Por isso esperei por você. Por isso acreditei todo verão... ele mentia para me fazer entregar mais. — O sol brilhava os olhos castanhos da mulher. — Ele não irá parar de aumentar a taxa.
olhou para a irmã, sentiu um mal-estar tão grande que daria tudo por um gole de vinho.
, podemos falar com o conde , devolvê-lo ao castelo e assim podemos pagar o trigo...
, se for mesmo conde, não consegue nem mesmo dormir. — disse, como se o irmão tivesse acabado de falar algo tão impossível como colocar fogo na água — Se o entregarmos ao castelo, hão de comê-lo vivo!
bufou.
— Eu não vou deixar que isso aconteça. Temos um conde! O Conde! O senhor destas terras, o homem que pode pedir a cabeça desse oficial. — Ele segurou os ombros da irmã. — , ele pode nos dar dinheiro para irmos embora desta terra... Constantinopla talvez...
, já está firmado. Eu não permitirei que o levem. E não somos ciganos para abandonar nossa terra. — se livrou os ombros das mãos sujas do irmão — Enquanto não puder caminhar com as próprias pernas e decidir por conta própria, eu não vou permitir que ele saia daqui. Nem vou aceitar qualquer mal a ele. — estava calma, parecia enfrentar aquilo pela milésima vez.
— Você é capaz de oferecer nossos recursos parcos em vez de entregar um nobre caindo aos pedaços! Nós vamos morrer de fome! — bateu no chão o pequeno chapéu de tecido que usava para proteger a cabeça do sol nos dias de arar a terra. — Você protege um homem que passou a vida toda se alimentando do que fazemos enquanto nós comemos as sobras! Você pode contar cada uma das minhas costelas! E as dele? Pense em Johannes, pelo amor dos céus!
deu as costas ao irmão. Voltou para a cabine pequena e o deixou praguejando sozinho, em desespero.

⛦⛦⛦


Naquele mesmo dia, a noite começou calma. Após a janta, Johannes adormeceu rapidamente e saiu de casa sem dizer onde ia. Estava com as mãos enfaixadas por conta das bolhas que arrebentaram de suas mãos por ter passado o resto do dia cortando árvores e liberando espaço para arar mais trigo. Não conversou mais com a irmã.
tecia um casaco de lã para e passou a noite toda tecendo-o. Foi interrompida pelos pesadelos do cruzado, que só voltou a dormir em paz quando adormeceu segurando a mão da mulher.
Ela sorriu. Gostava da presença dele. Imaginava as histórias que ele não deveria trazer na memória. Ele conversava em latim quando dormia, falava palavras de ordem a um exército e suava frio. Em algumas noites, ele ficava tão nervoso que seu ferimento na barriga abria e precisava costurá-lo novamente, com Johannes segurando a vela para ela enxergar na madrugada.

⛦⛦⛦


Os dias se passaram e não cessou de buscar meios de fazer o trigo crescer.
— Precisamos de um milagre. — Ele dizia, para todo lado. Essa frase era seu bom dia e boa noite.
Ele buscava água do rio nas costas, forçava o único pangaré velho que tinham a caminhar pelo arado o dia todo, acreditando que os pés dele iriam amansar a terra e preparar melhor para o trigo surgir. Até mesmo trouxe um homem que encontrou na taverna, quem se intitulava um druida, para abençoar a terra.
assistiu tudo de sua cadeira, onde fazia roupas para todos da casa. Havia feito uma capa de frio para ela, um chapéu para Johannes usar aos domingos e uma camisa nova para usar quando fosse se apresentar como cavalariço. À noite, cuidava de e de dia, impedia de arrastar Johannes para sua empreitada impossível.
— Nenhum homem tem como passar por cima do ciclo da terra. Seu trabalho é em vão. — Disse, certa noite, vendo o irmão entoando cantos com o rosto sujo de terra no meio de um círculo de pedra.
— Um deus precisa ajudar. O deus da terra, do ar, dos corvos...
— O deus da cruz matou o deus da terra daqui. Junto com todos que acreditavam nele. — disse num tom sombrio. — Se os padres souberem que você está se sujando e cantando em outra língua, vão jurá-lo de bruxaria.
não deu ouvidos. Magro de exaustão, sujo por dias de trabalho incessante e louco por sua seara impossível, ele dormia quase todos os dias ao relento, no meio de ferramentas de trabalho ou de pedras ritualísticas com runas.

⛦⛦⛦


A semana passou e o trigo não cresceu. Na manhã do dia que o oficial do senhorio iria buscar o imposto, estava fraco de exaustão e teve que ser amparado por , que o alimentou e o fez repousar.
— Irmão, você e Johannes é tudo o que tenho. Eu não quero perder você para a loucura como eu já perdi você para o deserto. — Ela disse, entristecida, para o irmão que desmaiou de cansaço. — Repouse agora.
O dia correu tranquilamente. cozinhou e cozeu, ensinou a Johannes como fazer uma bebida forte com sal, camélia e pó de milho, para dar para os doentes. Ela preparou a janta e alimentou o sobrinho, colocando-o para descansar antes do sol se pôr.
Quando o céu começou a ficar rosa, a chamou.
— Seu nome é .
Ela se assustou.
— Certamente, senhor.
virou a cabeça para ela. Seus olhos não estavam mais amarelados e doentes, pareciam ter desperto de uma longa soneca: inchados e sonolentos.
— Por que está tudo silencioso?
— Perdão, senhor?
— Antes ouvia a voz de outra pessoa. Ouvia o ruído dos animais e do rio, agora está tudo muito calmo. — sua voz estava forte e ecoou pela casa.
foi até ele e o cobriu com outro cobertor.
— É porque você passou a ouvir os sons daqui e não os da sua cabeça. Aqui é assim. Silencioso.
O homem ficou olhando-a em silêncio.
— Repouse mais um pouco. Voltarei em breve.
Ela voltou a segurar a cesta e saiu fechando a porta.

⛦⛦⛦


esperou o sol abaixar, escorada na oliveira. Ao seu lado, havia separado três ovelhas e dois sacos de trigo. Quando escureceu, uma carroça entrou na propriedade, com duas tochas de fogo iluminando-a. Dois homens vinham a cavalo, escoltando-a. aos poucos foi vendo a silhueta do oficial Adalfarus e sua brigandina do castelo Eltz. Ver a face daquele homem a fez temer.
Ele desceu do cavalo e o animal foi amparado pelos dois oficiais subalternos que olhavam como se ela fosse uma sopa quente.
— Então, vejo que não tem mais trigo. Nem ovelhas.
— Vejo que o exército voltou novamente. — respondeu sem hesitar.
— Dessa vez você sabe que precisamos mais do que nunca da produção daqui.
— Certamente.
— Você devia ter aceito ser minha esposa quando o propus. Eu iria tirá-la desse chiqueiro de porcos. — Adalfarus desceu do cavalo e avaliou os sacos e as ovelhas. Ele tinha o rosto cheio de vincos e olhos muito escuros. Fedia a suor e banha de porco, que sentia a distância. — Agora que está remendada, nunca conseguirá outro pretendente. — o homem ria, ofender parecia ser sua diversão anual. — Eu ainda sou muito bom para você, não é?
— É bom, senhor Adalfarus.
— Seu sotaque do campo é um refresco. — Adalfarus parou de olhar os sacos e fitou a cabana. — Sabe, eu poupo você da fome. Seu irmão inútil e o rebento também. Mas não é o suficiente. Isso daqui não basta.
— Mas senhor, é tudo o que temos devido sua visita antecipada...
Adalfarus bufou impaciente.
— Dessa vez não bastará. Você não sabe o que passo no castelo quando defendo vocês, camponeses. Eu sou o advogado de vocês e faço o bem, mas não sou santo. Não tenho poderes milagrosos. — Adalfarus brandia o dedo para o alto — Onde está o seu irmão? Ele precisa estar aqui para receber uma lição. Para aprender a não gastar o que ganha e trabalhar para pagar o imposto.
Adalfarus virou para trás e apanhou o chicote de cavalos. empalideceu.
— Senhor, acredito que isso já seja demais, por favor...
— Seu irmão precisa disso. Precisa jorrar o sangue. Precisa saber que não se pode gastar o dinheiro assim. — Adalfarus soltou . — Eu confirmei com o senhor Richard. Seu irmão ganhou dezesseis moedas de prata quando retornou. E onde elas estão? Onde ele está? Onde está o imprestável?
temeu e tentou segurar o oficial, mas os dois subalternos dele a deteram. Eles seguravam seus braços com tanta força que ela nem tentou repelir.
— Senhor, ele está exausto. Irá dormir por dias. Ele trabalhou para fazer o trigo crescer...
Adalfarus riu, continuou olhando para a cabana.
— Senhor, eu imploro, não faça isso. O que for preciso. — caiu de joelhos, os sodados a soltaram. — Por favor!
Adalfarus virou-se para a mulher.
— Implora pelo que, sua meretriz? Seu irmão precisará disso para que aprenda a cuidar de sua família. Você não pode escondê-lo nas vestes. — Ele riu e começou a caminhar.
se ergueu e desvencilhou dos soldados. Arremessou a cesta na cabeça de um e chutou a canela do outro. Com o pano que carregava, amarrou rapidamente as mãos do que quando se curvou de dor. Os homens ficaram atordoados por um tempo.
Adalfarus não viu, pois continuou seguindo para a cabana. E lá dentro ele entrou.
, contudo, apareceu dentro da casa erguendo uma espada na direção do peito de Adalfarus. A espada de agora parecia mais firme na mão de quem sabia empunhá-la desde que nasceu.
— Ora, conde Eltz... — Adalfarus começou a andar de costas.
de pé parecia ter a envergadura do mestre de guerra que as lendas contavam. sentiu medo em vê-lo tão ameaçador – e tão forte. O corte em seu abdome sangrava sob a calça de linho e as cicatrizes de seu peito refulgiram à luz das tochas da casa.
— O que veio fazer aqui oficial? Veio me matar?
— Senhor, os rumores são que já está morto! E que traiu o bispo. Eu vim...
, o que ele veio fazer?
— Senhor... — ainda estava incrédula. — Ele veio tomar nossos recursos. Todo mês aumenta a taxa da propriedade, de modo que não posso pagar a taxa inteira. — Ela disse, destemida. Soube que aquela não era a hora de temer.
Os olhos do conde refulgiram com tanta ira que não acreditou que fosse aquele o homem que apareceu quase morto em sua soleira.
— Esta mulher não paga os impostos, senhor, eu faço o meu trabalho apenas, em nome de Jesus Cristo e a Virgem Maria. Você não irá acreditar numa bruxa mentirosa, nesta manifestação do demônio!
Os homens que atordoou àquela altura já haviam se levantado e livrado da amarra. Um deles se aproximava e o outro se afastava para o cavalo.
Jesus Cristo. Não ouço esse nome há muito tempo. Em nenhum dos dias que agonizei, ele apareceu. E pelo que diz... não é a mim você serve, mas a ele...
Adalfarus caiu no chão de joelho.
— Senhor eu sirvo a...
desferiu um tapa forte na face do homem, que caiu sobre o chão. Chutou-o repetidamente quatro ou cinco vezes na barriga e quando o oficial cuspiu sangue, ele se virou para .
— Você sabe matar?
Ela assentiu.
— Vá atrás do que fugiu. Mate-o para que não revele onde estou. — enfiou a espada na garganta de Adalfarus, esparrando sangue pela soleira da porta. Sem conferir o corpo, se aproximou de , com a espada suja. — Vá, mulher!
correu até o machado no estábulo e passou por e o subalterno que ela havia ferido com a cesta, engalfinhados numa luta. Ela tomou um dos cavalos amarrado na oliveira e zarpou atrás do homem que corria, mal podendo enxergá-lo devido a lua minguante.
Sua cicatriz doía e respirar parecia encher seu peito de fogo. Ela lembrou-se do irmão dormindo exausto e cheio de bolhas nos pés e nas mãos e do sobrinho que sempre tinha mais fome do que comida no prato.
Com lágrimas nos olhos e o peito esbraseando a cada galope, uma mão na rédea do cavalo e a outra no machado erguido acima da cabeça, galopou pelo terreno que conhecia como as linhas de sua mão. Pedra, cascalho, grama e trigo passaram pelos pés de seu cavalo como um tecido ondulado. A mulher só teria uma chance de abater o oficial subalterno e não iria desperdiçá-la.
Manteve os olhos abertos sem piscar e quando viu a chance, arremessou o machado no contorno difuso das costas do homem a sua frente. Ele não caiu do cavalo, mas diminuiu a velocidade.
Ela pareou o cavalo e, com a adaga que tirou do tornozelo, fincou sobre a perna do homem, que gritou de dor e tombou aos poucos para o lado, ainda preso a sela. O cavalo dele, assustado, continuou correndo pela estrada, arrastando o homem pelas pedras do vicinal.
Algum tempo depois, seguiu o rastro do cavalo desgovernado até a margem do riacho, onde o animal parou para beber água. Ela se aproximou, cautelosa, com um canto antigo para acalmar os animais que a ensinou.
Ao ver o homem respirando ruidosamente, se abaixou. Ele grunhiu, agressivo, mas não pôde se fazer claro com seu maxilar fora do lugar e a boca com os dentes pendurados para fora. Estava com ossos expostos entre a carne e alguns membros do corpo faltando. Ele cuspiu uma bola de sangue no vestido da observadora.
retirou a rédea e o bridão do cavalo. Segurou firme o couro das cordas quando se abaixou sobre o homem que grunhia alto e pedia socorro por meio de seus gemidos.
— A sua morte vai ser para que meu trigo germine.
Passou a rédea pelo pescoço do oficial quase morto e a apertou com força para a vida se esvair dele. Apertou com toda a força que tinha em seu corpo, inflando o peito com o esforço. Em um último ruído de respiração, o homem caiu.

⛦⛦⛦


A noite cobriu a sombra de enquanto voltava num trote calma para casa, com o cavalo do oficial amarrado ao que estava montada. Havia prendido o cadáver do oficial ao seu próprio torso, para que não pendesse. Passou pela carroça abandonada sem olhá-la.
estava sentado no banco na porta da casa, segurando o ferimento com a mão e com o peito largo respirando pesado.
— Você o apanhou. — Ele disse, enquanto se livrara do corpo. Por onde andava, arrastava a barra de seu vestido suja de sangue. — Muito bem. Foi o melhor.
— Sim, senhor. O que aconteceu aqui?
— Fui ferido de novo e isto voltou a doer. Estou lento.
— Não se preocupe, irei costurá-lo novamente. — Ela disse, amarrando os cavalos no estábulo e checando a água do cocho. — Acha que irão vir mais oficiais?
— Quanto tempo é daqui até o castelo?
— Três dias de caminhada em dias bons.
— Se assim for devemos ter alguns dias até que deem falta de Adalfarus.
O conde e a mulher se olharam, pela primeira vez, à luz. Estavam curiosos um pelo outro e desconfiados.
— Vou ajudá-la a enterrar estes homens.
— Não será necessário. Farei isso sozinha. — ela apontou para a ferida do abdômen do homem — Preciso que deite. Para... poder te curar.
Ele se ergueu, um pouco curvado por conta da dor. se aproximou e o amparou, vendo de muito perto o queixo barbado do homem.
— Por quanto tempo dormi?
— Você dorme de dia e fica tendo delírios durante a noite. Já fazem quase quinze dias que surgiu para mim.
deitou-se e continuou olhando para como se nunca tivesse visto uma mulher em toda sua vida, muito mais uma mulher coberta de sangue.
— Por que eles não acordaram com o barulho? Você os enfeitiçou?
— O que pensa que sou, senhor? — foi irônica. — Eu fiz água de valerianas, uma flor pequena, para que dormissem. Achou que eu era uma bruxa? Ou um demônio?
— Eu não sei o que você é.
— Então saiba que sou alguém que zela por você e deseja profundamente sua recuperação total.
— O que ganhará com isso? — O rosto de estava desconfiado.
sorriu.
— O que quiser me dar, meu senhor. Mas antes de qualquer coisa, desejo ganhar sua amizade.
O conde ficou olhando a mulher se mover pela cabana pequena. Em meio a tigelas de água cheirosa, suspiros de dor e suturas, eles não falaram nada. Se olhavam escondido, mas ficavam em silêncio.

⛦⛦⛦


dormiu após os curativos. começou o serviço que tinha que fazer. Distanciou-se de sua casa e no meio da floresta, cavou até amanhecer. Enquanto cavava, orava para os deuses que gostavam dela e para sua mãe.
Quando cavou o suficiente, apanhou sua adaga pessoal sempre presa em algum lugar da sua perna, ainda com sangue.
— Este, por maltratar quem trabalha — rasgou a carne do primeiro oficial em um formato de "X". — Este, por roubar a comida de quem amo — fez o mesmo no segundo oficial. — Este, por fazer meu pai trabalhar até a morte e levar meu irmão para longe de mim. — E repetiu o gesto no rosto de Adalfarus. — A terra irá consumi-los para sempre. A chuva irá sepultá-los. E o trigo irá nascer de novo. Será um inverno sem fome.
fechou os corpos em lonas velhas e furadas e os empurrou para a vala. Voltou a terra para seu lugar e selou o buraco quando o sol começava a surgir. Jogou sementes sobre a terra mexida e arrastou pedras para disfarçar. Ao fim do trabalho, chorou.
Após um tempo, a mulher surgiu da floresta encontrando olhando nervoso para o céu e sentado do lado de fora olhando por todo lado a sua procura. Johannes corria atrás de uma ovelha fora da cerca com um cachorro atrás de si.
Quando a viram montada a cavalo, começaram a falar os três ao mesmo tempo vindo em sua direção, mas ela não ouviu nenhuma palavra.
Ela amarrou o cavalo no cocho e começou a andar até eles, ainda com os olhos vermelhos e a boca seca. Sentia-se tonta. Quando a mulher sentiu segurando sua mão, ela desmaiou e a apanhou.
Começou a chover.


Capítulo 8

So spoke the wizard
In his mountain home
The vision of his wisdom
Means we'll never be alone
And I will dream of my magic night
And a million silver stars
That guide me with their light


Uriah heep – The Wizard

Assim falou o mago
Em seu lar na montanha
A visão de sua sabedoria
Mostra que nunca estaremos sozinhos
E eu irei sonhar com minha noite mágica
E um milhão de estrelas prateadas
Que me guiaram com sua luz


2018

Na sua segunda noite na Casa Eltz, não dormiu bem. A lua nova nublava qualquer iluminação do lado de fora e quando ela acordou pela terceira vez na noite conturbada de sonhos estranhos e vívidos, foi saudada pela escuridão completa. Irritada com a própria insônia súbita que não deveria existir em dias que ela estava exausta, decidiu se pôr de pé definitivamente. Após um banho e hidratantes, seu reflexo no espelho pareceu menos esvaído e irritadiço.
Em cima da cama, abriu sua valise francesa e avaliou todos os objetos que precisaria para o primeiro dia de trabalho no Castelo Eltz, de ferramentas a pen drives. Ela sempre optava por camisas cujo tecido fosse frio e fino para não a ferir após um dia todo usando cintas posturais ou equipamentos de proteção. Após certificar-se que não faltava nada, ela arrumou a cama e saiu.
A casa, ainda muito escura, recebia os passos de pela madrugada mais uma vez. O som da bota da mulher era a única coisa audível além do bater de asa de morcegos do lado de fora. Ela estava decidida a tomar uma caneca de moca com creme da cafeteira profissional que vira na cozinha e mais disposta ainda a chegar lá antes do resto da casa acordar.
Passando pelos salões, ela se deteve na biblioteca. Deu-se conta que era a primeira vez que estava ali sozinha, o que poderia ser uma chance de investigar os títulos mais atentamente. Após um tempo observando as placas que separavam as sessões das formas mais minuciosas, ela se deteve em um objeto novo: uma otomana carmesim com revistas e jornais bagunçados ao redor.
As manchetes estavam circuladas com caneta ou com a tradução em post its. Espanhol, polonês, inglês ou russo eram uns dos idiomas e todos os epígrafes tinham algo em comum: fotos de Eltz jovem em alguma situação embaraçosa.
Surpresa por descobrir que mais um Eltz foi alvo da mídia, passou a analisar as reportagens nas línguas que conhecia.

Milionário alemão é preso por roubar um busto em Helsinki.

Jovem herdeiro Eltz processado por destruir um quarto de hotel histórico em Poznan.

Primogênito de Kaspar Eltz é detido em George Town por apostas em brigas clandestinas e porte de drogas.

Dentre todas as manchetes polêmicas, uma delas chamou a atenção de : um muito jovem e sem camisa mostrava uma tatuagem de ciclo lunar no peito magro – e bonito. Os cabelos dourados ondulados caíam sobre um rosto disperso, fumando cigarro vermelho e sem parecer temer nada no mundo. Era de 1996.

Na manhã do dia 23 Eltz, filho de Kaspar Eltz, o 32º Conde Eltz und zu Kemperich atropelou um homem que passava com seu dobberman em Eisenter Steg, as margens do Meno. O homem foi levado para o hospital em estado grave e está internado na UTI. O rapaz foi preso no ato.

estava entre o riso e a incredulidade, pensando em onde Kaspar e Lavinia Eltz, pais de um delinquente e de um mulherengo deviam ter lidado com o rosto dos dois filhos tão expostos. O primeiro, surgindo em manchetes policiais, o outro, em rumores de affairs com modelos casadas ou mais novas que ele.
Quando percebeu, todas as revistas e reportagens variavam entre 10 ou 15 anos atrás e eram sobre multas de alta velocidade, direção embriagada, vandalismo, agressão a algum fotógrafo ou brigas em boates. Eltz tinha, de fato, um histórico peculiar. Pelas fotos, viu que ele tinha outras tatuagens escondidas: Uma centúria no braço, alguma palavra inteligível no centro do peito e na panturrilha, uma gravura medieval de um homem a cavalo. podia muito bem imaginar outras tatuagens de pirata que o nobre devia ter e que os flashes dos anos 90 não capturaram.
É por isso que amo trabalhar para os ricos. Pensava a historiadora, escorando-se no sofá, sorrindo para uma foto de apoiado em um Aston Martin segurando uma garrafa de champanhe e fumando o que parecia um baseado.
Foi nesse período, rindo das reportagens, que foi surpreendida.
— A senhorita, suponho, deve ser a Doutora .
A mulher se endireitou no sofá e olhou para quem a chamava. Do outro lado da biblioteca, um homem se aproximava. Tinha um sorriso calmo e o típico sotaque alemão daquela região.
— Sou Schöpfer, curador sazonal do Castelo Eltz.
O homem estendeu a mão e cumprimentou . Ele tinha olhos sedutores e escuros e um sorriso gentil atrás da barba castanha com algumas falhas. se sentiu imediatamente confortável com sua presença.
— Claro! Conde me falou sobre você. Acredito que já o conheço, não?
— Devemos ter nos vistos em algum evento, creio eu. Você também não é estranha.
colocou as mãos no bolso da jaqueta jeans que usava com broches de aviões.
— Temos muitos assuntos a serem discutidos antes que eu a leve até o castelo. Gostaria de partilhar o momento do café da manhã para isso?
— Com certeza.
— Conde Sigbert Eltz me pediu que viesse buscá-la para adiantarmos o assunto.
concordou com a cabeça, para ela ficando mais claro cada vez mais a obsessão do conde por controle. Todos pareciam obedecê-lo sem hesitar e ele parecia nunca deixar em paz.
Postdoc Hoffmann! Ou devo dizer Postium Doktorium em latim? — Altmeyer surgiu de uma porta, ainda de roupão, alegre e de braços abertos. Apertou em um longo abraço, deixando o outro enrubescido. — Seu galo velho! Chegando na calada da madrugada...
— Olá, Marcel. Bom vê-lo.
— Não achei que o veria antes das restaurações! Seu pai já sabe? Você entrando pela porta da frente, quem diria...
— Sim. — olhou nervoso para .
— Senhorita , este é Postdoc Schöpfer, professor emérito da King’s College na Inglaterra, diretor do departamento de estudos medievais da Universidade de Utrecht e ex-diretor de onde mesmo?
— Universidade Goethe. — acrescentou. — Até hoje apaixonado por falar o título dos outros em voz alta, Marcel? Está ficando cada vez mais chato.
— Dois doutores nesta biblioteca. Conde Kaspar ficaria orgulhoso.
— Ficaria se não tivesse morto. — acrescentou. Altmeyer riu pelo nariz aquilino. Seus olhos grandes olhavam para cada pedaço do amigo.
— Ainda insiste em cuspir no prato que o alimentou?
deu de ombros, encarando as estantes altas de livros.
— Todo nobre morre um dia e vira um homem igual a qualquer outro.
— Aliás, senhorita , é o orgulho do andar de baixo. O orgulho dos empregados da casa. E meu melhor amigo. Seu sarcasmo e eloquência fazem tão parte da decoração da casa como as obras de arte. — Altmeyer estava muito enérgico e alegre, não achava que ele tinha capacidade de sorrir e de repente se lembrou que ele devia ter a mesma idade que ela, apesar de seus modos sempre exagerados e a pompa de seu uniforme. — Vou avisar a todos que você chegou.
— Não, Marcel, esta é uma visita rápida. Em breve precisarei levar Doutora para o castelo.
.
. repetiu, rindo para o amigo. — Vamos apenas tomar um café e uns pains au chocolate de senhora Goint.
Altmeyer encarou o amigo, sem desfazer o sorriso e concordou. O mordomo fez o caminho todo até a cozinha dizendo como havia crescido com e sobre sua amizade de décadas, enraizada nos andares dos empregados da Casa. olhava divertidamente para como se pedisse desculpas por aquela introdução, enquanto girava os olhos quando Altmeyer dizia algo positivo sobre os Eltz.
Após um moca com creme, mais histórias de Altmeyer e , na cozinha que começava a receber o primeiro movimento do dia, e o curador do Castelo Eltz saíram da Casa. Altmeyer havia preparado lanches de sanduíche com atum e refrigerante para levarem. “Vocês ficarão o dia todo fora!” disse, fazendo prometer que iria voltar para o jantar.
Agora dentro do carro de , sem a presença ofegante do mordomo da Casa Eltz, pode aproveitar a presença do curador do castelo. Ele havia escolhido Uriah Heep para tocar enquanto falavam das áreas do castelo.
— A área Rodendorf está decrépita. O curador de verão não se ocupou de barrar a parte da porcelana. O cimbre da área Kemperich está descolando desde 2002 e o conde não fez nada para providenciar o ajuste. Eu sempre falo que precisamos de restauradores anuais, mas o conde Sigbert nunca me ouve. — Disse, ligeiramente irado.
— Você não parece se dar muito bem com os Eltz, ou é uma impressão errada?
olhou desconfiado para .
— Não mesmo. Principalmente com o mais velho. O doente consegue ser menos desagradável. — E fechou as expressões como se tivesse dito algo que não devesse. Suas palavras tinham amargura.
— Tudo bem, sua indignação ficará entre só entre os servos. — Ela disse, prestando atenção na letra da música The Wizard.
tinha as bochechas marcadas por uma acne devia tê-lo assomado nos dias mais jovens. Seu ar calmo e simpático demais para um acadêmico o tornava uma companhia muito agradável. não havia deixado de lado a sensação de que o conhecia de algum lugar. Os dois ficaram nomeando eventos que já haviam comparecido ao redor do mundo, mas nenhum ao mesmo tempo.
— Eu acompanhei sua restauração no Château du Grand-Lucé, foi um trabalho incrível, mas acho que devemos ter nos vistos lá...
— Eu não voltei no chateau depois da restauração. O americano não gostou da tinta que usei em uma escada.
fez um ruído de desaprovação enquanto coçava a barba. Concordou com em cada reclamação de algum outro nobre até a hora de chegarem no castelo. Aquele era o credo secreto dos funcionários de instituições históricas: acidade do que dizia respeito a nobres e como não sabiam de quase nada de sua própria história.

⛦⛦⛦


O caminho percorrido de carro da Casa Eltz até o Castelo Eltz no outono era permeado de árvores que começavam a perder as folhas, manchando o chão de tons de marrom. Uma neblina pouco densa se formava ao redor dos tetos cuneiformes da estrutura mista do castelo. Os traços edificados enxamiels se uniam a fortaleza românica, formando a personalidade única da estrutura secular acima da colina confidenciada no meio da floresta. abriu o vidro do carro conforme se aproximava, para ver o castelo se aproximando. No seu interior, uma onda de melancolia ia se tornando mais densa e começou a incomodá-la, mesmo que estivesse ouvindo agradavelmente contar sobre sua infância no andar debaixo da Casa Eltz. Ela bebeu o refrigerante que Altmeyer havia preparado para se distrair.
Estacionaram o carro ali perto e comentou algo sobre a ameaça de chuva. O sol estava preso entre as nuvens cinzas, sem calor e a luz racionada. A pé, curador e historiadora subiram a elevação que levava a entrada do Castelo, onde algumas pessoas se reuniam embaixo do pórtico de pedra.
cumprimentou os membros de sua equipe com abraços e cobrança de promessas que fizeram entre si durante o período de férias. Após as introduções a , começaram o tour pelas áreas principais do Castelo. Todos estavam empolgados e alguns nunca haviam visitado o castelo pessoalmente.
— É a primeira vez que venho aqui. — disse, quando entraram na sala dos cavaleiros, onde uma grande mesa de madeira estava guardada por cadeiras estofadas. Armaduras e armas estavam alinhadas nas paredes.
— É mesmo? Poderia jurar que já vi você por aqui. Talvez — fez uma pausa, olhando profundamente nos olhos de . — Talvez eu já tenha sonhado com você aqui — riu, um tanto envergonhado e fingiu uma tosse. — De toda forma, aqui vemos as rosas do pórtico. Elas precisam de uma mão de tinta e algumas, reconstrução do gesso.

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Le Dame Pirate — Era como os funcionários de a chamavam na hora de questionar sobre algo durante o tour de .
Quando pararam na cozinha Rodendorf, o curador conversou alegremente com um dos homens responsável pela restauração da área românica.
— Minha querida, senti sua falta. — Uma mulher grávida, com os cabelos escuros e a pele brilhante abraçou longamente, quando a conversa entre os homens estava muito chata numa disputa de quem sabia mais.
— Gabrielle, você está tão bonita. Não a vejo desde...
— Aquele templo lamanai em Belize, sim. — A mulher pousou a mão sobre a barriga protuberante. Falavam em francês. — Nunca mais me envolvo com mesoamericanos. Não é para mim, de fato. O calor é ótimo nas férias, mas eu quase tive uma combustão interna quando sai para trabalhar. Além do que, desde Phaedra, venho optando por trabalhar com linhas de novo.
— Quem diria, você a caçadora de tesouros, voltando para as linhas.
Gabrielle sorriu, com os olhos escuros brilhando.
— Ainda continuo caçando tesouros. As linhas de uma tapeçaria escondem muitos.
— Eu ia dizer que não a vejo desde Glastonbury. Na despedida de Anne-Julie. — sorriu com as lembranças. — Ela estava indo para a província de Guangdong, se lembra?
Gabrielle pensou por um momento.
— É mesmo. Isso tem poucos dias. Acho que estou ficando com a memória ruim. O estrogênio está consumindo o meu cérebro.
Após outro abraço, caminhou conversando trivialidades ao lado da amiga, segurando sua mão ligeiramente inchada.
As horas correram muito depressa, já quase ao final do tour pelas principais áreas do castelo, todos param na área com um pátio que continuava até a entrada do castelo. Ali podiam ver os três estilos de arquitetura que formavam o castelo. As janelas vermelhas erguiam sobre eles, transformando o pátio em um ninho de pedras.
A chuva caiu devagar e no meio dela, surgiu uma BMW do ano estacionando bem além da área onde era permitido estacionar.
De um lado, Eltz saltou. Usava um sobretudo azul marinho, com a gravata de detalhes dourados. Do outro lado, saindo da porta aberta pelo motorista, Conde Eltz saiu embaixo do guarda-chuva que seu empregado o amparava, usando uma capa sobre seu corpo esguio e alto. Os irmãos, com óculos escuros, pareciam muito iguais se não fosse os cabelos negro e castanho claro. foi ao encontro deles, passando pelas áreas com arcadas de pedra.
— Então são esses o Eltz. — Disse sugestivamente um rapaz ao lado de . Conversavam em inglês.
— Eles são bem... — ia completar o homem de cabelo grisalho.
— Um deles parece que transaria com você, te mataria e te congelaria no dia seguinte. — disse Gabrielle — O outro parece que te levaria para comprar uma ilha na França. E aí depois transaria com você.
— O outro parece que te levaria para conhecer a mãe dele e depois transariam. — Disse a mulher alta que estava à direita de . — Esse Diet aí.
? — riu. — Acho que vocês estão certos em todos os três. Acredito que os Eltz seriam bem capazes de fazer qualquer uma dessas coisas. é um bom homem.
— E você transou com qual deles, chefinha? — disse Gabrielle.
virou-se enfurecida. A equipe riu.
— Vocês já estão apostando?! — bufou.
— Só nos responda. — Disse a mulher alta.
Com nenhum deles! respondeu em francês.
— Eu falei. — Disse Gabrielle, levando a mão para o homem grisalho. — Ganhei de lavada. gosta de conhecer os nobres antes de despi-los.
pegou o dinheiro da mão do homem ela mesma e o guardou no bolso.
— Se eu ver vocês apostando a minha vida pessoal de novo...
— Em um cenário futuro... — disse a mulher alta — Considerando que vamos ficar aqui por uns meses, qual deles seria? O da bengala ou o loiro? Só para uma referência da minha pesquisa...
Judy, sua... respirou fundo. — Eu mesma vou matar cada um de vocês se não pararem com isso. Chega de apostas sobre com quem vou transar! — apontou o dedo na direção deles, que riam.
— Então você ainda vai? — perguntou a moça mais jovem.
! Como é bom vê-la. — Conde se aproximava, com um sorriso entre os lábios bonitos. — Sentiu minha falta durante esses dias?
virou-se rapidamente tentando acreditar que o conde não ouvira nada da sua conversa.
— Certamente, . — A mulher sorriu. Atrás dela, a Gabrielle deu uma nota de dez euros ao homem grisalho e o rapaz de cabelos cor de palha riu. — Como está se sentindo hoje?
— Ótimo! A chuva e o tempo nublado me alegram. — O conde se adiantou a apanhar a mão de e tirar os óculos para fitá-la com toda atenção possível. O chofer havia retirado a capa do chefe, mostrando outra vez o bom gosto com ternos que o conde tinha. — Estou me sentindo muito bem. Acredito que você e já tenham conversado?
Uma mulher de cabelos amarrados que desceu do carro conversava com em voz baixa, pareciam bravos um com o outro. Quando viu o conde olhando-o, foi até eles, secando o que a chuva tinha molhado em seu rosto.
— Conde Sigbert, senhorita vem sendo uma exímia profissional.
O conde riu.
— Você já compartilhou com ela como nos odeia, huh? Não confie em uma palavra que esse homem lhe disser sobre títulos, , ele é o jacobino mais articulado que já conheci.
ergueu as sobrancelhas.
— Não aperte demais a capa, conde Sigbert.
O conde riu e na risada foi assomado por um ataque rápido de tosse. Ele cobriu a boca com o lenço e se recuperou enquanto voltava a conversar com a mulher bem vestida e muito esguia. observava tudo de longe, escorado em um pórtico ainda usando os óculos escuros.
— Então, , é esta a sua tripulação?
— Sim. Venha conhecê-los. — tocou o braço do conde, gostando da presença dele próxima de novo.
Os funcionários de cumprimentaram o conde gentilmente com apertos de mão.
— Esta é Gabrielle, a responsável pela restauração das tapeçarias e taxidermia. Este é Simon, especializado em restauração metalúrgica — Apontou para o rapaz loiro. — Este é Petyr, encarregado da estrutura, ele que me ajudará na restauração da base do castelo. — O homem grisalho apertou a mão do conde com mais força.
— Sinto muito por seu pai, conde Sigbert Eltz. Uma grande perda para o mundo acadêmico.
segurou a mão do homem com as duas mãos.
— Agradeço de coração, senhor Petyr. Ele ficará feliz nos céus sabendo que escolhi as pessoas certas para essa grande restauração.
— Judy, a responsável pela pintura e restauração em madeira. — Cumprimentou a mulher mais alta que o próprio conde. — E esta é Agnes, minha auxiliar. — e por último o conde cumprimentou uma moça jovem com óculos grossos e os cabelos loiros enfeitados com uma faixa. Ela tremeu a voz.
— É um prazer...
— Prazer em conhecê-la também, senhorita Agnes. Admiro seu trabalho, deve ser complicado auxiliar uma mulher com tanto trabalho como sua chefe.
Agnes gaguejou um agradecimento. Quando o conde se virou para conversar com às sós, Judy cutucou a garota com o ombro
— Para de passar vergonha, tampinha. — disse. E a moça se endireitou, segurando a prancheta e fingindo ler algo muito interessante nela.

⛦⛦⛦


, acredito que você vai continuar um tempo sem ver a minha figura. — O conde disse, caminhando lentamente segurando o braço de e se apoiando na bengala preta coma outra mão. Caminharam alguns passos para dentro do corredor de pedras que ligava o pátio a área interna, onde a iluminação era mais escura. os seguia passos atrás.
— É uma pena.
— Fiz questão de vê-la antes de partir. Como estão sendo os primeiros momentos aqui no Castelo e as noites na Casa?
— Agradáveis. Você tem sido um anfitrião impecável, mesmo ausente.
— Você me lisonjeia. E o quarto, o que achou?
— Achei possível. O mais difícil será restaurar os quadros a óleo, pois precisarei importar a tinta específica para isso. Coisa que seu mordomo Altmeyer me ajudou. Em breve você terá o quarto igual a foto que me mostrou.
— Esplêndido. Sua competência vem sendo maior que a expectativa.
— No que diz respeito ao meu trabalho, , espero que mantenha suas expectativas sempre altas.
O conde sorriu abertamente outra vez.
— Farei isso. Ainda assim, aguardo ansioso pelas mudanças que propôs e por toda restauração. Estarei longe, mas meu irmão, ou Altmeyer estarão aqui para você.
, evolvida pelo charme que o conde lançava sobre ela, não conseguiu segurar o que disse a seguir:
— Nenhum deles o representa melhor do que você. Três homens não substituem um.
— Ah, ... — O conde desviou o olhar, não deixando de sorrir. — Você me infla com esse tratamento tão tenro. É uma flor surgindo no tapete de neve que vem sendo minhas relações aqui nessa região. — Ele fez uma pausa para seu sorriso desfazer. — Ainda sobre isso, fiquei sabendo de seu embate com meu irmão. Ele se prova como um péssimo homem e um excelente primata cada dia mais.
ficou em silêncio.
— Eu garanto que ele é um bom amigo. Quando você quiser arrancar a cabeça dele dos ombros pode ser um sinal que ele gosta de você. Ele tende a ser muito passivo agressivo com quem ele se atrai. — O conde estreitou os olhos, fingindo pesar.
desviou o olhar para , que estava com a cabeça virada em outra direção. Estava muito longe para ouvir o tom de voz baixo do conde.
— Já peço perdão antecipado por qualquer mal entendimento e alego piamente que ele não é o melhor representante da família Eltz nos assuntos da família. Mas é o que está vivo e saudável para acompanhar o momento delicado de restauração. — O conde atraiu o olhar de mais uma vez.
— Posso lhe perguntar uma última coisa, antes de partir?
— Sempre.
— Foi você quem colocou as revistas e jornais sobre o passado de seu irmão na biblioteca?
O conde desenhou um sorriso malicioso.
— Não conte para ele. Foi um pequeno troco pelo que ele vem fazendo com você. Ele fica extremamente nervoso quando vê a minha coleção de manchetes de seus anos gloriosos de playboy Eltz. — o conde sussurrou no ouvido de e em seguida beijou-lhe na face, roçando seu queixo bem barbeado suavemente na face dela, suavemente, apertou o ombro da mulher. — Até minha volta, senhorita e bom trabalho.
Do outro lado do corredor, revirou os olhos atrás dos óculos escuros, mas ninguém viu.
— Faça boa viagem, para onde quer que vá, conde Sigbert .
O conde, se distanciando vagarosamente, virou-se para uma última vez.
— Uma passada rápida no Vale dos Ventos de Dante. Volto em alguns dias.
— Mande meu abraço a Minos. Diga a ele que não me demoro. — ela disse, sem saber que o conde a ouviu. Voltou a caminhar na direção da sua equipe e quando passou por , foi abordada por ele.
— Meu irmão se foi, mas eu estarei como o responsável daqui.
— Quer dizer que será meu patrão? Assinará outro cheque para mim? Costumo pedir 45% antes, 30% durante e o resto quando estiver pronto.
— Significa que quero evitar o máximo de problema com você.
não havia tocado , mas ela se sentiu mal pela abordagem. Subitamente, sua garganta embargou e sua voz deve ter saído estranha.
— Problemas? Sinto muito, mestre Luitger, mas quem gerou problemas desde que chegou foi você.
— Não me chame assim, você não é uma funcionária da Casa.
— Então do que devo te chamar? — o encarou, sentindo de longe a colônia cítrica que emanava dele.
— Me chame de Eltz. E passe a me tratar como um.
fez uma reverência sarcástica. fechou o punho.
— A seu dispor, Conde Luitger Eltz. — Se ergueu e encarou-o — Te chamavam assim na cadeia, não foi? Ou você nem chegou a ficar muito tempo lá?
ficou em silêncio e pode ver de perto o quando ele a olhava profundamente atrás dos óculos de lente marrom. O queixo mal barbeado se moveu com o surpreso sorriso torto que ele lhe deu.
— Você não vai parar, não é?
negou com a cabeça.
— Não enquanto seu irmão não voltar. É a ele que respondo. Você está aqui como um cão de guarda de seu irmão, espero que não me morda.
— Eu não te garanto.
— É o que vamos ver. — ergueu as sobrancelhas. — Não fique no caminho entre mim e meu trabalho outra vez, como fez no quarto da Casa.
— Eu não sabia que você estava naquele quarto quando fui até lá.
— E mesmo assim quis almoçar comigo.
— Eu ia fazer um convite até você ser grosseira.
— Então acho que encontrei a solução: não me chame para nenhuma refeição ou qualquer outra coisa. Não quero ter nenhuma relação com você. Se você me viu trabalhando, se afaste. Se você me viu quando não estou trabalhando, se afaste ainda mais. Está claro?
manteve o riso torto, escorou-se na porta arredondada, fazendo o barulho ecoar pelo corredor.
— Sim, senhora.
— Passe bem. — voltou a caminhar na direção do pátio.
— Vejo-a mais tarde no jantar. — disse, seguindo-a até o pátio e depois indo conversar com a mulher de coque que conversava com o conde.


Capítulo 9

Sag, warum bin ich so allein bei tag und bei nacht
Such den einen, der mich befreit
Mich verehrt aus seinem tiefsten herzensgrunde
Und mit minne mich begehrt zu jeder stunde


Faun – Minne Duett

Diga-me, por que sou tão sozinha de dia e de noite?
Eu procuro por aquele que me liberte
Que me adore profundamente, do fundo de seu coração
E que amorosamente me deseje a toda hora

1194

Em uma jangada, a mulher luta contra o mar inteiro. O peso das ondas contra o corpo frágil de madeira do bote é maior e o cede em pouco tempo. À deriva, a mulher se afoga. O mar é salgado, é feito de suas próprias lágrimas.

acordou muito suada e enjoada. Se seu estômago estivesse cheio, ela teria vomitado. Ela se sentou e percebeu que estava sobre sua própria cama, onde antes estava o conde . Sua cabeça a lembrou de tudo o que aconteceu e ela olhou preocupada ao redor. Do lado de fora, ouviu vozes.
Ela viu pela porta que estava segurando sua espada na direção de que segurava um cabo de enxada. Estavam sem camisa e descalços sobre a terra batida. estendia seu peito suado e bronzeado por seus dias de trabalho no deserto, contrastando a palidez do torso de . Assustada, a mulher saiu da casa, cambaleando até tropeçar em um pedaço de madeira e cair no chão. Ela se apoiou, sentindo a cabeça girar e uma pequena sombra surgir a sua frente.
— Oi, tia!
— Johannes querido, o que está acontecendo?
— Eles estão apostando quem vai buscar o balde de água no rio.
— O quê?!
se levantou, sentido dor na palma das mãos ao se erguer. Quando percebeu, viu que suas mãos estavam enfaixadas primorosamente, sem nós e cheirando a alecrim.
— Quantos dias dormi, pequeno?
— Apenas um dia e uma noite.
— Seu pai te alimentou?
— Sim, assim também como ele buscou água e cuidou de você. Ele cozinhou pato e ervas.
Pato?! Onde ele arrumou um pato?
O garoto deu de ombros. Ele estava com roupas limpas e não tinha ranho no rosto, sinal que finalmente andou se preocupando com o filho.
Ela caminhou até os dois homens duelando, em meio a ruídos de pancadas e xingamentos, ainda sentindo a luz do sol muito forte na sua cabeça. empunhava a espada com muita determinação, enquanto , com o torso enfaixado, mas sem manchas de sangue, olhava para o adversário com fúria. por um segundo temeu que aquilo fosse de verdade.
Eles estavam tão empenhados desviando dos ataques ou rolando no chão que perceberam só quando ela chegou a poucos passos de distância.
! gritou pouco antes de se distrair, levar um soco de e cair no chão.
riu, mas antes de olhar para , lhe chutou na canela e ele caiu.
! gritou, alarmada e correu para o conde no chão.
— Me alegro em te ver de pé, minha irmã! — disse, sentado no chão. Desfez o sorriso quando viu que a irmã estava muito mais preocupada em segurar o bíceps do conde do que agradecê-lo.
— Meu senhor, meu irmão o feriu? Por favor o perdoe, ele deve estar bêbado. Ele é impulsivo demais, eu sinto muito por isso. — tocou toda extensão do braço do conde e sobre o abdome enfaixado, enquanto que ele apenas formou um sorriso bonito.
Ei, você pode começar me agradecendo por esse unguento de hortelã que fiz para aliviar a dor das suas costas, mulher. E por fechar as feridas da sua mão. Você deve ter cavado até a pele soltar de seus dedos. — Disse um muito ciumento.
— Você acabou de agredir o conde, ! Fique quieto!
— Estávamos brincando, senhora .
A voz do conde era muito suave e o modo carinhoso como falou o nome da mulher ecoou pelo campo como uma brisa.
— E o senhor está... — deixou de apertar o braço pontilhado de suor do conde, enquanto ele se levantou.
— Estou em ótimo estado, sim. — O conde ergueu a mão para ajudar a mulher se erguer. Não a soltou quando se levantou. — Seu irmão e eu estávamos numa aposta. Quem perdesse buscaria a água limpa do dia.
— O que, claro, foi o senhor quem perdeu. — disse, de braços cruzados. As duas pulseiras de couro que tinha no pulso brilharam. — Os baldes estão logo ali.
— Claro, homem. Você é muito bom em duelo. — deixou de olhar por um momento para fitar . — Sinto falta de soldados assim, que não tem medo de me bater.
— Respeitar a hierarquia nunca foi uma grande qualidade minha.
O conde riu, segurou a mão de mais forte.
— E a senhora, talvez queira voltar a repousar?
— Eu acredito que já dormi o bastante, meu senhor.
— Então, o que me diz de uma caminhada? Temos coisas a conversar. Posso buscar a água do dia depois.
— Talvez você queria vestir algo antes de sair, minha irmã? — estava muito vermelho.
olhou para os pés descalços e a barra da anágua gasta que usava por baixo do cobertor que se enrolara.
— Acredito que seja o suficiente. — Ela disse. — Andaremos aqui perto.
ofereceu o braço para segurar e começaram a andar rumo a floresta.
ficou olhando-os e se lembrou de ver o conde tomando para si muitas mulheres na Terra Santa e no caminho até lá, mulheres que ele desprezou rapidamente e que despareceram na messe.
— Papai, posso te ajudar a carregar a água hoje?
— Claro, garoto! Aquele conde perdeu e fugiu! Na próxima damos uma lição dele. — pegou a mão do filho e caminharam na direção dos baldes vazios.

⛦⛦⛦


— Como você me encontrou? — Perguntou . Ele e haviam caminhado até a beira do rio em silêncio.
— Aqui. Você veio da floresta.
— Como eram meus ferimentos, antes de você fechá-los?
— Feitos a espada e alguma arma pesada. Socos e pontapés devem ter ferido seus lábios, que estavam tão inchados que você mal pôde beber água. Os seus dedos estavam tortos e sua pele colada nos ossos.
respirou profundamente, continuaram andando mais um pouco em silêncio.
— O que você fez com o oficial do imposto pode te deixar em grande risco. — O conde parou, chegaram a uma clareira com uma pedra lisa possível de se sentar. Ele sentou-se no chão, cedendo o lugar para a mulher. Ela estava com as faces rosadas e olhos muito fundos. A cicatriz que tinha cintilou quando uma fresta de luz do sol a tocou.
— Não tenho medo. — Ela disse, curvando os lábios secos num sorriso calmo.
— Deveria ter. Assim como eu deveria estar morto. Você tem duas chances de sofrer por me defender.
— Na verdade, apenas uma, meu senhor. — a mulher ficou pensativa. — Corro risco por sua culpa apenas por ter te salvado. Quanto aos homens mortos enterrados no meu campo, foi apenas para proteger minha família.
O conde segurou a mão da mulher mais uma vez. Ficou olhando os calos duros e cicatrizes que ela tinha, tão diferente da mão da sua esposa que deveria estar em algum lugar no castelo. Estaria ela o esperando?
— O que foi, meu senhor? — disse sobre o silêncio de .
— Você é uma mulher muito forte. Mais forte do que muitos homens que já conheci. Me ajudou quando me acolheu e vou precisar que faça isso mais uma vez.
— Meu coração está a sua disposição, conde Eltz. — ela disse, segurando a mão do conde com força. Olhava para os olhos azuis dele com profunda admiração. — Por favor, me diga em como posso te ajudar mais?
— Preciso voltar para meu castelo, trazer as informações da Terra Sagrada, a qual nem cheguei a pisar, mas fui diretamente afetado por seus perigos. — O conde abaixou os olhos. — Existe uma ameaça a minha família, aos meus filhos e ao meu castelo. Um homem quer destruir minha linhagem.
— O bispo.
— Sim.
— Você chorou por esse homem. Foi ele quem te deixou assim...
— É preciso detê-lo antes que seja muito tarde e ele tenha matado meu filho e minha esposa, que estava grávida quando parti. Não sei se sou pai de outro garoto ou de uma menina... — Um tom de esperança surgiu na voz do conde. — Para isso, precisarei ir escondido a cidade, consultar um homem de minha confiança para saber se é seguro a minha volta. Para saber até onde foram espalhadas mentiras em meu nome.
— Senhor, podemos ir ao mercado ter com um dos mensageiros da cidade. Existe um homem muito esperto que deve um favor a mim, poderá ser útil.
ficou desconfiado.
— Não sei se é sábio confiar em qualquer um para essa tarefa.
— Deveria, porque ele não é da igreja. Os homens do deus cristão parecem ser os seus inimigos.
ficou ainda mais desconfiado.
— Como pode perceber, também não sou uma mulher do deus da cruz. Meu irmão e eu levamos Johannes a igreja para que os padres não venham nos caçar e descubram que podemos curar os doentes.
soltou a mão de lentamente.
— Não, não me repudie. — segurou a mão do conde de volta, com força nos dedos de unhas sujas. Olhou-o fixamente. — Você teve todas as chances de morrer nas minhas mãos, mesmo assim está vivo. Eu cuidei de você e o vigilei, coloquei-o em minha própria cama e no meu teto. Matei um homem para te proteger. Uma mulher cristã nunca poderia ter feito isso porque estaria ocupada demais temendo o juízo e mandando cortar as flores de seu jardim. Se quer fazer algo para me recompensar que seja não duvidar de mim.
sentiu receio, uma ânsia que doeu em seu estômago. Tão próximo da mulher que o salvou, não acreditava que ela poderia ser uma bruxa ou a esposa de um demônio. Não acreditou que uma pessoa que não vivia com as leis de seu deus poderia ser boa, mas então se lembrou de todos os sarracenos que conheceu na Terra Santa, dos moradores de Constantinopla e de toda a civilização nova que havia visto. As memórias de sua viagem passaram por seus olhos como cenas de um tapete bordado, se desfazendo linha por linha no silêncio e formando o rosto da mulher bonita e ferina que tinha a sua frente.
— Não me segregue. Carreguei você em todos os meus pensamentos, aguardei ansiosa por seu despertar. Seu sentimento de repulsa por mim ou minha família me preocupa e me faz temer pelas atitudes que pode tomar. Me faz arrepender de tê-lo salvo. — Uma lágrima saltou do olho da mulher.
... — O homem secou a lágrima e tomou o rosto dela nas suas mãos. — Eu não farei isso.
A mulher secou o rosto e se ergueu da pedra, afastando-se.
— Eu devo minha vida a você e confio em sua boa alma. — se levantou, aproximando-se. — Não me entenda errado. Viajei por estações inteiras para lutar contra aqueles que não aceitam Cristo. Ainda é... É uma nova sensação. Dê-me tempo para aprender.
curvou a cabeça e deu as costas ao homem.
— Esse homem no mercado, seria capaz de identificar um outro homem pela descrição que eu faria dele?
— Sim. Ele é de confiança. — ela respondeu.
— Então está feito. Temos dois cavalos, podemos ir juntos.
— Não prefere ir com meu irmão?
— Não, eu prefiro sua companhia. — esperou se virar, mas ela se manteve de costas, segurando firme seu cobertor. Ele caminhou até ficar mais próximo dela. — Não tenho ouro agora, mas irei retribuir tudo o que fez por mim.
— Eu não quero ouro, quero apenas que não faça mal a mim ou a minha família. Podemos negociar uma taxa menor de trigo para o próximo cobrador de impostos e um par de botas novas para Johannes. — Ela disse, se virando.
— O que desejar ter de mim, te darei. Selo essas palavras com meu coração. — O conde apanhou a mão da mulher e beijou-a. — Agora, precisamos voltar. Você deve estar se sentido cansada por dias de vigília e porque... matar um homem é cansativo.
olhou-o longamente.
— Não foi a primeira vez que matei um homem, meu senhor.
não ficou tão surpreso como ficaria ao ouvir que uma mulher matou um homem.
— Por acaso isso tem relação com seu ferimento? — Ele apontou para o pescoço de .
— Meu marido fez isso em mim quando eu perdi o filho que esperava dele. — retirou a coberta dos ombros e a jogou no chão, deixando a anágua fina remendada cair solta sobre seu corpo. Abriu os primeiros laços do peito para mostrar o começo do corte, no topo de sua barriga. — Ele disse que iria me abrir para buscar o filho.
— Eu sinto muito... — O conde abaixou-se para apanhar a coberta e evitou olhar para a cicatriz da mulher. — O que aconteceu logo depois disso? Por que esse homem não foi punido?
— Ele foi punido. Por mim. — falava muito baixo. Sua voz podia ser quase sempre confundida com um canto de pássaro nas vezes em que não estava brava com seu irmão. — Meu irmão me encontrou ferida e me tirou da casa. Quando fiquei forte de novo, matei meu marido.
— Eu me entristeço por isso, .
— Diga-me, conde Eltz, é muito feio de se olhar?
então olhou plenamente para o talho brilhante costurado do umbigo a orelha de , com falhas e queloides, surgindo na pele tenra da mulher como um fio óleo na água. Por fim olhou para os olhos claros de mel que apareciam no rosto dela quando era tocada pela luz.
— Não. Você é uma mulher forte e sem medo. Meu respeito por você cresce cada dia mais. — apanhou a ponta do laço da anágua de e amarrou, roçando seus dedos na pele quente da mulher mais do que o que deveria — Está frio aqui dentro da floresta e você não comeu. — Colocou o cobertor de volta nos ombros da mulher. — Vamos discutir nossa viagem de amanhã em sua casa, sim?
continuou inexpressiva.
— Você me deseja?
sentiu novamente o aperto no estômago. Sentia-se um garoto de novo, aquecendo o rosto quando se via perto de uma mulher.
— Sim. Eu a desejo, desde quando parei de delirar. Ou ainda estaria delirando?
tocou a testa do homem, em seguida a face. Ele a olhava com os olhos atentos.
— Você está quente de fato, deve ser a febre. — Concluiu. — Vamos voltar para a casa. Lhe farei uma água de hortelã.
sorriu. Em silêncio, caminharam de volta para a cabana. Em um momento, segurou a mão de .
— Você está fraca. Vou segurar sua mão para segurá-la, se cair.
o olhou pelo canto do olho e sorriu.


Capítulo 10

We can never go home
We no longer have one
I'll help you carry the load
I'll carry you in my arms


Editors – No Sound But The Wind

Não podemos mais ir para casa,
Já não temos mais uma
Ajudarei você levar a carga,
Eu levarei você nos meus braços

2018

Marcel Altmeyer era o responsável pela organização da Casa Eltz há quinze anos. Desde sua maioridade, não fez outra coisa senão entregar-se ao trabalho de mordomo na casa, cargo antes ocupado por seu pai que decidiu se aposentar e abrir um bar num país tropical. Esse trabalho o fazia dormir após cada morador da casa já estivesse repousando e acordar antes de todos. Nos últimos dias, desde a restauração do Castelo e do quarto mais fatídico da Casa, ele veio tendo minutos retirados de seu repouso cada vez mais. Mesmo que tivesse a mesma idade de seus dois patrões vivos, sentia-se responsável por eles.
Após uma semana que senhorita estava na casa, indo toda manhã para o Castelo e retornando após o horário do jantar, Altmeyer ainda sentia o impacto da moça em seus patrões ou mais precisamente, em mestre Luitger, o Conde Incorreto.
Os empregados não gostavam de e Altmeyer não era exceção. O mestre havia levado muito a sério a revolta da adolescência e foi um dos grandes motivos de processos trabalhistas da casa. A repulsa de todos se instalou como vírus através de boatos engrandecedores e principalmente após a morte de Kaspar Eltz.
Devido a esses fatores e a pouca paciência que Altmeyer tinha com o Eltz mais velho, o mordomo sempre revirava os olhos quando era chamado. Naquele momento, foi para a sala de maquetes.
Dentro de uma sala longa, sem lugar para sentar, cortinas escuras e iluminação amarelada, centenas de maquetes se acumulavam ordenadas por gosto pessoal. Tudo ali era pensado para não estragar nenhum dos materiais, incluindo inclinação do piso, carpete e até a temperatura era mais fria ou mais quente dependendo da necessidade.
No meio de cubos de vidro com navios e outros meios de transporte, Eltz estava curvado sobre uma réplica de uma motocicleta. Estava como sempre dentro da Casa: malvestido ou quase não vestido. Altmeyer sempre achava que o mestre se portava com anarquia, desrespeitando um ambiente secular como aquele que o mordomo tanto zelava. A presença dele ali era como uma grande espinha na testa.
— Altmeyer, me fala que horas a vaca chega.
Eltz, sem camisa, embriagado e com um robe gasto por cima dos ombros, além dos óculos na ponte do nariz e luvas de silicone questionou sem olhar para o mordomo. Em baixo da mesa, seus pés descalços batiam sobre um tapete de Arraiolos que devia valer toda a previdência de Altmeyer. O mordomo não olhou, mas acreditou que o mestre deveria estar sem calças.
— Mestre , a senhorita já chegou. Está repousando.
— Você já perguntou se ela vai querer jantar comigo hoje? — permanecia muito ocupado em pintar a roda da motocicleta. De longe, Altmeyer sentia o odor de álcool e descuido.
— Ela vem deixando muito claro que não deseja sua companhia para nenhuma refeição, mestre Luitger, e afirma que o senhor só deve convidá-la para algum encontro se for o seu funeral. — Altmeyer acrescentou.
abaixou a moto e olhou para o mordomo. Sua pele estava pálida e indicava que ele não saiu muito da casa nos últimos dias.
— Que mulher interessante. Cada dia mais interessante. — curvou os lábios bonitos em um sorriso malicioso. — Você acha que ela gosta de mim, Altemeyer?
— Eu acho que ela deve tolerar sua presença, mestre .
— É uma boa resposta.
recurvou-se na cadeira, expondo o peito largo sem camisa e com tatuagens desbotadas.
— Quando fui com meu irmão ao aeroporto, você sabe o que ele me disse, Altmeyer?
— Juro que não faço a menor ideia.
— Ele disse que -Maria é uma mulher inteligente. E que me odeia. Ela me odeia por eu ser um idiota. Eu não sou um idiota, Altmeyer. Eu tenho gostos refinados. Gosto de bons vinhos e sei a história da Antioquia. Eu sei a maioria das declinações latinas e estudei espanhol. Eu sou praticamente o homem ideal para . Não faz nenhum sentido ela achar que eu seja um idiota. Você acha que eu sou um idiota, Altmeyer?
— Não faço ideia de porquê ela achar isso, senhor. — Altmeyer olhou fixamente para o rosto barbado e desleixado do outro. — Sobre você ser um idiota, não concordo, nem discordo. Muito pelo contrário...
— Sabe o que eu disse para ele? Para o meu irmão quando ele disse que eu sou um idiota?
— Também não passa diante dos meus olhos nenhum deslumbre do que possa ser, senhor. — Altmeyer permanecia indiferente.
— Eu disse que toda mulher me odeia e que isso nunca me impediu de cortejá-las. Em algum momento elas mudam de ideia bem rápido.
— Mestre , devo trazer a janta até esta sala ou o senhor vai continuar alimentando seu corpo apenas com whisky? — Altmeyer disse, depois de suspirar profundamente.
— Me traga aquele licor de avelã do meu irmão. Irei acabar com ele.
— Senhor, se embriagar não trará nenhum...
— Não estou bêbado! Estou completamente são. Tão são que poderia demiti-lo por seu sarcasmo. — estava rancoroso.
— Eu sinto muito, mas como o senhor não é mais um Eltz e não poderá fazer isso. O senhor é meu patrão representativo, pois respondo direta e unicamente ao conde e eddlerherr Eltz. olhou amargurado para o mordomo.
— Fico muito feliz toda vez que você não me obedece dizendo que não sou um Eltz. É a minha dose diária de contato social nas minhas férias. Uma vez por ano você renova minha lista de assuntos para falar com minha terapeuta, seu desgraçado.
— Além do licor particular de avelãs italianas do Conde , o senhor deseja mais alguma coisa, mestre ? —Altmeyer piscou longamente.
— Me traga uns pistaches salgados. Avise a senhorita que uma hora ou outra ela vai ter que jantar comigo.
— Farei questão de ser o mais sincero possível em transmitir seus sentimentos para ela. — Altmeyer concluiu, dando as costas para o Eltz deserdado e fechando a porta.
O mordomo fechou os olhos longamente e rumou para os aposentos de .

⛦⛦⛦


Após algumas batidas na porta, a historiadora abriu a porta atrás de seus óculos grossos que ampliavam os olhos bicolores da mulher. Fitou Altmeyer com cansaço.
— Deixe-me adivinhar: o playboy o mandou aqui. — Ela disse, tirando a máscara descartável do queixo.
Altmeyer achou graça e confirmou com a cabeça.
— Contudo, senhorita, minha visita não se deve somente a ser um pombo correio. Vim também trazer o jantar, o qual a senhora prefere que seja privado — o mordomo se moveu para deixar a empregada que trazia uma bandeja entrar no quarto.
— O cheiro está muito bom. Obrigada, Ethel. — agradeceu, a moça curvou-se e saiu. Altmeyer permaneceu na porta, observando . — Altmeyer, entre. Eu gostaria de te fazer umas perguntas.
O mordomo entrou no quarto e fechou a porta. Observou sentar-se no banco tripé em frente a uma tela partida ao meio, no centro do quarto.
— Claro, senhorita. A que devo a honra de sua curiosidade?
— Primeiro de tudo: qual é o problema de Eltz?
— Essa pergunta tem várias respostas.
— Eu o vi andando ontem à noite na garagem, tropeçando de bêbado. Eu juro tê-lo ouvido conversar sozinho em latim. Ele bradava frases sem nexo algum como se estivesse brigando com alguém. — dizia, costurando a tela a sua frente. Os dedos da mulher trabalhavam com calma e precisão, enquanto a linha unia o tecido da tela. Altmeyer se aproximou mais, intrigado. O cheiro de tinta a óleo misturado a alfazema estava enjoando-o. — Quase toda noite ele sai em uma moto, sem capacete ou equipamento apropriado.
— Mestre é a ovelha negra da família Eltz desde pequeno, senhorita. — Altmeyer sabia que não podia falar aquilo, mas já estava farto do Eltz mais velho zanzando pela casa. — O contrário do irmão.
— Eu vi uns recortes de reportagens sobre uma otomana outro dia. Eram todas sobre .
Uma sombra passou no rosto de Altmeyer.
— Hum, e quais reportagens precisamente a senhorita viu?
— Destruir quartos de hotel, abuso de drogas... — moveu a mão na direção de Altmeyer, apontando para um banco. — Sente-se ali, vamos... não é como se você estivesse dentro do quarto de um Eltz. Pegue uma cerveja pendurada nesse Dionísio.
Altmeyer olhou saudoso para o pacote de cervejas belgas pendurados no braço de uma escultura do deus dos prazeres que estava sem a cabeça e apanhou uma garrafa. Olhou o rótulo lentamente e depois para as costas da historiadora. Ele apreciava conversar com , era sempre educada, divertida e se interessava nos assuntos triviais.
— Sabe, senhorita , por muito tempo fez dessa casa um inferno. — Altmeyer sentou na cadeira ali próxima e bebeu da cerveja. — Desde que nasceu, na verdade. Eu nasci depois, mas sempre presenciei meu pai correr para esconder algo que o rapaz havia feito ou servir de cobaia para experimentos dele. Em épocas de festa na casa, era o apocalipse. Condessa Lavinia queria tudo impecável, mas estragava todo o trabalho que tínhamos. Vomitava nos arranjos de flores, escondia cigarros nos tapetes ou sabotava a música para tocar algum punk inglês. — O mordomo pausou, se lembrando de sua infância.
“Durante a adolescência ele foi mandando para um internato católico na Irlanda. Sim, antes que a senhorita pergunte, internatos ainda existem. Ele retornava nas férias, fingindo ter corrigido o comportamento, mas no segundo dia que estava aqui já tirava a paz de todos e o círculo continuava: visitas de mulheres desconhecidas, bebidas por toda casa e gritaria.”
— E ?
— Conde sempre foi mais quieto, é de nascença. Ele nasceu prematuro e teve problemas com isso ao longo da vida.
— Tem a ver com o... — apontou para seu próprio nariz.
— Também, mas na verdade nunca ficamos sabendo porque conde usa sondas pela manhã. Ele passou a usar isso recentemente.
— E o que ele tem na perna?
Altmeyer hesitou em responder. Deu mais um gole na cerveja.
— Uma má formação óssea na perna direita prejudicada por uma poliomielite que ele contraiu nos primeiros dias na incubadora. Isso prejudicou seu joelho e o crescimento da sua perna. Ele passou toda infância na cadeira de rodas.
parou de costurar para prestar mais atenção no relato.
— Enquanto aterrorizava a todos?
— Sim, mestre nunca parou. Ele sempre se envolveu nos ofícios dos automóveis.
— Automóveis?
— Sim, ele é diretor de produção uma empresa em Frankfurt. Acredito ser essa a única coisa que fez aquele homem ficar quieto. Quando eu era pequeno, lembro de vê-lo demorar dias em um projeto maluco de melhorar as rodas da cadeira de Conde . Ele me fazia ir na cidade buscar peças e outros materiais; ou usava para testar a cadeira nova, empurrando-o para lá e para cá. Até que seu pai...
Altmeyer parou. Sentiu-se mal por um momento, a cerveja queimou suas bochechas.
— Senhorita , acredito que já sejam detalhes demais.
tirou os óculos e virou-se no banco para encarar Altmeyer.
— O que ia dizer?
Altmeyer olhou nervoso para os cantos. Abaixou a voz.
— Conde Kaspar não suportava o que o filho primogênito fazia e sempre o repreendia. — Altmeyer bebeu bem mais cerveja. — Aos quinze anos ou menos, quando conde estava se livrando da cadeira de rodas, mestre fez um par de muletas para incentivar o irmão a dar os primeiros passos. Mas... — Altmeyer estava muito receoso. — Conde caiu e quebrou uma das costelas, o que foi bem... bem complicado. Ele passou meses acamado e com a saúde fragilizada. Mestre voltou para o internato e ficou proibido de ver ou falar com o irmão por mais de um ano.
tinha surpresa no rosto. Altmeyer se sentiu estranhamente indisposto.
— Acredito que já tenha sido o suficiente para senhorita entender que bom... era um pouco excêntrico. Na verdade, até hoje. Essa história está amargando a cerveja. — Altmeyer levou o lacre até os olhos.
— Isso tem relação com o que estou restaurando aqui nessa mansão?
Altmeyer desviou o olhar da garrafa para a mulher.
— Sim, mas não posso lhe dizer nada mais além disso. Aquele quarto é assunto dos irmãos Eltz. Tudo o que te contei... foram coisas que vi com meus próprios olhos. e eu crescemos e vimos as coisas se desenvolverem drasticamente nessa família. O passado aqui é uma carga pesada nos ombros de todos. Mas esse quarto... não sabemos o que aconteceu.
Ficaram em silêncio, como se os dois esperassem as últimas palavras de Altmeyer caírem sobre o chão.
— Aquele é o quarto de Eltz. — A voz de saiu falha e ela bebeu um pouco de cerveja. — Os carros quebrados, as motocicletas...
— Sim. Era o quarto dele. Era o único lugar onde ele dormia e hoje... hoje ele dorme em qualquer lugar da casa, ou não dorme. Ontem provavelmente ele dormiu na garagem. Às vezes ele dorme no Castelo.
Altmeyer se calou e terminou a cerveja.
— Senhorita, preciso ser claro em te pedir que não comente nada sobre isso. Só coloquei as cartas sobre a mesa porque acredito na sua confidencialidade.
— Conte com isso, Altmeyer. Obrigada por sua sinceridade. Há dias estou curiosa por .
— E ele pela senhora. Não digo curiosidade, mas atração sem dúvida.
revirou os olhos.
— Se fosse por curiosidade, ainda lhe daria uma chance. A única coisa erótica nos nobres para mim é o dinheiro.
Altmeyer riu e se levantou do banco. Suas bochechas comumente pálidas estavam brilhantes e vermelhas.
— Devo ir. Dizem que cerveja em horário de trabalho nos embriaga mais do que fora. — ele soluçou, sua voz afinou-se.
— Que seja verdade! — ergueu a garrafa e bebeu.
— Obrigado pela cerveja, senhorita . Gostaria que eu esquentasse seu jantar?
— Não há necessidade.
— Me embriague mais para obter mais respostas. Meu senso moral tem um limite muito fácil de burlar se unir minha raiva pela indisciplina de mestre ao álcool. Passe bem, senhorita.
— Boa noite, Altmeyer! — o mordomo ouviu antes de fechar a porta. Continuou soluçando até a cozinha.

⛦⛦⛦


Interlúdio


Tränen brennen heiß in meinen augen
Ach, was ist mit mir geschehen
Seit mein auge dich gesehen
Alle zeit verfluch ich jede volle stunde

Faun – Minne Duett


Lágrimas queimam meus olhos
Oh, o que aconteceu comigo?
Desde que a olhei nos olhos
Eu condeno isso toda hora, o tempo todo

Um homem está nu em meio a mantas rústicas. Sua pele arrepia onde uma mulher, igualmente nua, o toca e se comporta como se já o conhecesse. A pele dele brilha na luz do fogo das luminárias, enquanto olha cada centímetro da mulher. Ele contrai os músculos lívidos de sua barriga como ondas do mar em uma tempestade, invadido pela ansiedade e obedecendo as atitudes da sua companheira.
Estão em uma cama de madeira, com dossel e outros requintes que só um homem muito rico poderia ter. Rosas ornam as paredes e dançam conforme as sombras são projetadas nelas. A mulher está sentada ao lado do homem e não tem pressa em ver, conforme as mãos dela percorrem cada extensão do corpo masculino, o suor que brota dele como água respingada em tecido. Ele ruboriza e geme de sofreguidão, dizendo o nome dela em voz alta.
... Eu amo você. Eu a amo profundamente, por favor...” em algum momento ele suspira, errando a respiração e os dedos de suas mãos retesam no lençol duro. Seu cabelo está bagunçado e os olhos agora emitem uma ira e desejo que enchem o quarto como se pudessem falar.
A mulher, que àquela altura se satisfaz vendo-o ser dominado, ainda o observa de cima até que, aos poucos, para de envolver o sexo do homem com as mãos para contemplá-lo. A visão da nudez masculina a agrada e ela conta cada uma das cicatrizes no peito dele. Não tem pressa, porque aquele é o momento que o homem é inteiramente seu. Orgulha-se de vê-lo bem e sadio, em plena forma física. Lentamente volta a tentá-lo, passando as mãos pelas coxas rijas masculinas e o provoca como pode, enquanto ele respira pesado e observa com atenção cada movimento. A boca da mulher alterna entre o sorriso ou traçar um caminho com os lábios sobre a pele quente e úmida dele.
O peito dela enche-se de uma alegria sedenta e o anseia. Deitando seu torso contra o dele, segura-o pelos cachos dourados e o aperta com as suas próprias pernas. Ele desconta sua raiva pelo gozo negado enterrando as mãos nas ancas macias de sua amada, arranhando-a e apertando com a força que naquele momento não se preocupa em medir. Ele sussurra em latim e na língua nativa entre maldições e palavras santas demais para o momento. Ela o beija e as bocas se preenchem, ávidas e nas curvas certas. O coração de ambos acelera até doer se espremendo nas costelas.
Ele a envolve como se seu propósito fosse agradá-la e nada mais existisse no mundo além daquele quarto. Ela fecha os olhos e vê pontos de luz, não sabe em qual rumo do sonho está, mas sente o prazer subir seu corpo pelo ventre quente e fazê-la contrair as pernas.
Dentro de pouco tempo, o suor de ambos amacia o lençol. Os dedos dele alternam entre enroscar nos cabelos da mulher ou fazê-la suspirar ainda mais. Ela o doma e o faz agradá-la. Os dois já sabem o que agrada um ao outro, pois seus corpos já estão unidos pelo tempo e por cordas invisíveis que não os deixam separar. O prazer alinha-se às promessas que saem dali e a dor se dissipa. A lua cheia invade o quarto e as sombras na parede movem-se cada vez mais rápido.
A mulher finaliza-se em cima do corpo do homem. Ela apanha a coroa que estava jogada de lado na extensão larga do leito e a coloca sobre sua própria cabeça. Seus seios projetam-se para o teto e o homem geme profundamente.

⛦⛦⛦


despertou assustada. Passou a mão na nuca e na testa e percebeu que estava coberta de suor. Seu coração parecia estar sobre os trilhos de uma ferrovia. Ela rapidamente apanhou um bloco de anotações e uma caneta ao lado de sua cama e começou a rabiscar:

· Coroa
· Rosas

Quando ia escrever um nome, não se recordou. Ele disse um nome. Qual foi o nome que ele disse? O nome...

· Um Nome
· Eltz

Ela ainda respirava pesado e tentou se recordar do nome da mulher. No seu sonho erótico, ela havia sentido cada uma das sensações como se fosse ela mesma a mulher que o homem se declarava. Esse homem era Eltz. Com o cabelo maior e o peito com cicatrizes, mas era definitivamente o Eltz mais velho apertando-a entre os braços fortes e beijando-a até...
A imagem de Eltz suado e com o rosto contorcido de desejo ainda nublava sua cabeça, até ela ouvir uma batida na porta.
— Senhorita , já são oito horas. A senhorita deseja...
pulou da cama e abriu a porta. Ethel a olhou assustada.
— Ethel... eu... Oito horas?! Oh meu deus...
— Pensando nisso eu preparei seu café da manhã. O seu chofer já está esperando-
a. — Desço em cinco minutos, Ethel, obrigada. — apanhou a sacola térmica que a moça segurava e fechou a porta com força.
Após vestir-se e lavar o rosto várias vezes, desceu correndo as escadas dando “bom dia” apressado aos empregados os quais desviava. Passou correndo pelos salões fechando os botões da camisa até a porta principal e entrou na Mercedes que a esperava, depois de quase tropeçar nos cadarços soltos da bota.
— Guillaume, me desculpe, eu perdi a hora. Você deve estar me esperando há muito tempo, eu sinto muito mesmo. — Ela disse, depois de fechar a porta e o carro começar a andar devagar. Tentou domar o cabelo no espelho do celular.
Um aroma conhecido e cítrico que sem dúvida não era a colônia do chofer estava pairando no carro. O motorista tirou o quepe preto, revelando cabelos louro escuros. Um par de olhos claros olhou para o reflexo de no banco de trás.
— Senhorita , bom dia. Hoje eu serei o seu chofer. E não se preocupe, não vou avisar seu chefe sobre o atraso.
contemplou assustada as costas da cabeça de Eltz, enquanto seu rosto queimava como o chão do inferno.
...
— Você finalmente disse meu nome. Sabe, eu sonhei com você essa noite. Fiz questão de aproveitar a única chance que teria de conversar com você, já que vem recusando todos meus convites para jantar.


Capítulo 11

Gáudent in caélis ánimae Sanctórum,
Qui Chrísti vestígia sunt secúti;
Et, quía pro éius amóre
sánguinem súum fudérunt,


As almas dos santos se regozijam no céu
que seguiu os passos de Cristo
e, porque pelo amor dele
eles derramaram seu sangue.

Gaudent in Caelis - Jean Maillard


1194

As noites de verão na floresta de Wierschem traziam chuva constante. A água caía sobre a terra trazendo todos os aromas do solo enquanto o irrigava e fazia ruídos quando pingava nas bétulas. As corujas se escondiam, passando noites sem piar e os linces se abrigavam nas tocas, deixando somente o som da chuva no ar.
, e Johannes se revezavam nos poucos lugares para sentar dentro da cabana. insistira em sentar-se no pequeno degrau da soleira, de onde a água respingava em seus pés descalços e o agradava.
— Amanhã sou eu quem irei com o conde Eltz ao mercado, está dito.
— Homem, você não precisa se endereçar a mim desse modo. Aqui não tenho ouro para ser conde mais. — Disse , sorvendo a sopa.
— Senhor...
— Não está nada dito. Eu irei com .
— Ora, !
— Não se esqueça que você ficou anos fora, , e eu vou dizer isso quantas vezes forem necessárias. Cuidei de tudo sozinha e ainda ia ao mercado normalmente. Você acha que eu não saberia guiar o conde?
— Você é capaz, mas isso é uma questão de segurança. Que proteção você tem a oferecer ao conde? Uma mulher e um homem estranho chegando sozinhos a cidadela...
— Uma viúva que frequenta o mercado de verão, acompanhada de seu pretendente.
parou o garfo rústico de dois dentes no ar, boquiaberto.
— Um pretendente...? Como acha que alguém acreditaria que você irá se casar?!
— Ou eu comi algo estragado ou você está se fazendo de burro. É um disfarce!
estava irada e a fitava com a mesma raiva do outro lado da mesa. Apenas Johannes fazia barulho enquanto comia, nem um pouco incomodado pela querela.
— Burro é quem vai acreditar em vocês dois!
— Ninguém demora tanto para entender as coisas como você, meu irmão.
— Acalmem-se. — olhava-os por cima do ombro. respirou pesado e enfiou o garfo na boca. — Acredito que ao lado de chamarei menos atenção, .
— Poderíamos ser dois cruzados chegando de viagem.
riu.
— Eu não posso ser a pretendente de , mas você pode? — disse, sarcástica.
levantou-se da mesa num pulo, ruborizado e ficou rindo.
— Seria uma honra tê-lo como meu pretendente, , mas nesse caso prefiro sua irmã.
gargalhou e ficou com o rosto ainda mais envergonhado.
— Não é isso! Eu... eu sou um soldado! Eu sei lutar caso vocês sejam abordados na estrada.
— Eu também sei lutar. E matar. — implicou, ainda tinha o sorriso malicioso enquanto mastigava.
— Sabe, mas não deveria. disse, se sentando novamente. — o conde é quem terá o voto final.
— Ele já se decidiu, seu estúpido saco vazio de bolas! Sou eu quem irá acompanhá-lo.
empurrou a irmã com o ombro e ela revidou da mesma forma.
— Não é a mim quem você prefere, conde ? — sorriu.
se ergueu da soleira, agora em pé quase roçava o topo da cabeça no teto da cabana. Olhou para os dois irmãos.
— Eu adoraria ser o pretendente de .
girou os olhos e terminou de comer, dando-se por vencido. sorriu para .

⛦⛦⛦


Desde quando acordou, não permitiu que dormisse em cadeiras ou no chão, preparou para si um amontoado de peles de ovelha sem costura e dormia sempre lá, enquanto olhava para a mulher dormindo no leito próximo a ele. O respeito pelas ações dela crescia no peito do conde cada dia mais, como nenhum outro servo fiel tivesse feito. Ele sentia uma urgência de vê-la a sós, mas além disso, de retribui-la. Imaginava-a vestida como uma senhora da corte, com pedras brilhantes nos cabelos escuros e um vestido italiano, ou até ela deitada numa grande cama de dossel em seu castelo e amando-o profundamente. Era assim que ele adormecia.
Nos últimos dias observava os Schöpfers*, como assim os denominou após perguntar sobre a origem da família e descobrir que sempre foram servos do castelo e nunca tiveram sobrenome além do nome do pai. O conde alegrava-se de passar o tempo ajudando-os, ciente que o trabalho manual que exercia o ajudava a clarear a mente e planejar sua volta. Nunca havia arado terra ou nem mesmo sabia que plantar trigo exigia tanto trabalho, nem mesmo criar ovelhas. Um lado seu temia que os irmãos Schöpfers rissem dele e sua ingenuidade com o serviço comum, mas ao contrário disso, a família lhe explicou tudo com detalhes e paciência.
O dia amanheceu com Conde Eltz e Schöpfer cruzando o prado além da floresta rumando para o mercado de Wierschem, que ficava a poucas horas a cavalo. Começaram trotando levemente, até que começou a colocar seu cavalo para andar mais depressa e ficar na frente da mulher.
— Você não sabe o caminho, meu senhor. Deixe-me ir na frente. — Disse , acelerando o trote e ficando muitos passos na frente de .
Com um querendo se mostrar mais veloz que o outro, acabaram chegando mais rápido do que previram. Contudo, sem saber quem ganhou a corrida, afinal, prenderam os cavalos a uma distância segura – e sua família nunca tiveram dinheiro para ter um cavalo. Aparecer no mercado sobre um despertaria desconfiança. Ambos usavam capa sobre as cabeças. estava barbado e com o cabelo cacheado contornando o rosto, o que ajudava a ocultar sua aparência além do capuz. Usava roupas que havia costurado.
— Se perguntarem, viemos comprar tecidos usados. Confie em mim e siga minhas ordens. Não podemos arriscar você ser descoberto. — disse, enquanto ajustava a capa do conde. Ele a observava com carinho, principalmente a boca da mulher tão próxima da sua. Ela usava um vestido malhado que mostrava seu busto liso e brilhante de suor por ter galopado tão rápido. No sol, ela brilhava como ouro.
Wierschem era pequena, com casas de pedra e seus terraços com arcadas, originados da herança italiana da conquista alemã e característica do império sacro romano germânico daquele tempo. Ruas estreitavam-se conforme se aproximavam do centro da cidade. Crianças bem vestidas andavam ao lado de mulheres com vestidos de bofes e os cabelos presos em uma rede. Aos sábados de verão uma feira de tendas pardas coloria o cinza monocromático das residências, com uma mescla de cheiro de banha de porco sobre a brasa e tortas de frutas típicas do verão. A feira trazia rostos de pessoas importantes do castelo ou de outros lugares, pois a cidade pequena servia como caminho para Castelo Eltz. Escondidos em meio as montanhas e a floresta, o castelo e Wierschem estavam a salvo de invasões, o que era um convite para apostadores, prostitutas e ladrões em favorecimento do número baixo de patrulha.
notou que estava com expressões de estranhamento e aproximou-se do ouvido dela para sussurrar:
—Você gosta de vir aqui?
— Sim. Mas hoje está diferente, não há música. Nos mercados de verão sempre tem música, hoje, parece que só os comerciantes fazem som. Uma vez um homem cantou na praça no verão passado. Foi bom ouvi-lo neste período.
— Meu castelo é cheio de trovadores. Um dia a levarei lá. Sou um admirador das artes. Você não deve saber, mas gosto de ler os romanos. — E dito isso, apanhou o braço e .
— Romanos?
— Tito Lívio, Apuleio... Eu costumava a ter uma boa biblioteca. Se o bispo não a tomou de mim... Sempre me criticou por meu interesse na leitura. Ele dizia que eu deveria gastar meu tempo e minha inteligência lendo a bíblia. Ou investir no mosteiro em vez de permitir música e teatro para a corte.
— Sempre há música em seu castelo?
— Antes da minha viagem sempre havia. Música, festins e teatro. — Mesmo falando muito baixo, era possível notar a nostalgia na voz de . — Eu já recebi o próprio Barbarossa em minha antiga casa. Ele ficou tão feliz em me conhecer e me deu o Castelo. Mas... isso é uma outra história.
— O senhor em breve conseguirá de volta o que é seu. — parou e o conde quase trombou em suas costas. Ela o olhou profundamente. — Eu irei te ajudar.
Ambos voltaram a caminhar se mesclando facilmente no meio do amontoado de pessoas no mercado a céu aberto. Quando encontrou o homem que buscava, ela tocou pelo braço para que a acompanhasse. Ele estivera distraído vendo a tenda de monge vendendo madeiras sagradas, alegando serem dos barcos que navegaram o Jordão.
— Esses padres não se cansam de mentir?
Shh fale baixo, meu senhor, ou irão nos ouvir. — o censurou.
Aproximaram-se de um grupo de homens que estavam numa competição de lançamento de toras de madeira. Um homem jovem, de pele lisa e com cabelos cor de palha segurava moedas de prata. Seu corpo magro envergava-se com leveza enquanto ele transitava recolhendo ou distribuindo moedas. Quando ele viu o rosto de ao longe, adiantou-se no meio do povo e completou a distância até ela.
, é bom vê-la. Está radiante nessa manhã. — Ele disse, apanhando as mãos da garota.
— Olá, Kivre, me alegro em te ver. — respondeu. — Preciso de um favor seu e não podemos ser ouvidos.
Kivre olhou longamente para o homem encapuzado ao lado de .
— Iremos aonde quiser, desde que esse viajante mostre o rosto.
— É sobre isso que precisamos conversar.
— O que está tramando, ? Já corre um boato pela feira de desconfiança desse homem...
— Este é meu pretendente, Alvo. Ele vem de Galícia. Agora vamos para outro lugar.
— Galícia, hum? — Kivre continuava desconfiado, mas fez questão de falar alto para que os outros o ouvisse. — Vamos caminhar um pouco.
estava nervoso, mas confiou nos olhos de e seguiram o rapaz se afastando da feira e aproximando das ruas estreitas.
— Qual é mesmo sua relação com este homem?
— Os pais de Kivre ensinaram a cuidar dos doentes antes de serem caçados pelos padres. Nós o acolhemos e ele se escondeu em nossa casa durante alguns anos. Hoje mudou de nome para escapar dos padres.
ficou surpreso. Sabia da investigação que a igreja tinha com povos que não obedeciam a Deus, mas nunca havia conhecido o impacto disso na vida dos indivíduos, na verdade, nunca se preocupara com isso. A imagem do bispo passou por seus olhos e ele se enraiveceu.
Mais afastados, o trio parou de andar. Estavam em uma rua onde as janelas estavam fechadas e não haviam crianças andando.
— Estamos seguros. E agora, , qual é o desafio que tem para mim nesta manhã? — Kivre perguntou, encarando .
— Quais são as notícias do castelo?
— Você não está sabendo de nada? está sempre por aqui, deveria ter lhe falado.
— Meu irmão andou se embriagando demais para prestar atenção em qualquer coisa. O que anda acontecendo?
— Coisas ruins. Dizem que o conde traiu a igreja e por isso Bispo assumiu o comando. — Kivre disse, limpando o barro das botas na parede. Sua voz era baixa. — Desde que isso ocorreu os trovadores foram expulsos do castelo. Alguns soldados foram mortos quando voltaram dizendo a verdade, outros estão presos e sendo torturados até mudarem de ideia.
Dizendo a verdade?
Kivre olhou para os dois lados e se aproximou mais de e .
— Bispo alega que o conde Eltz é um excomungado pelo papa e que voltou da Cruzada porque se recusou a seguir o desejo de Deus de tomar Jerusalém, abandonando o rei Belo e o rei Leão. Todo soldado ou nobre que levanta a palavra em defesa de Eltz é executado publicamente.
arfou.
— Isso é uma mentira! Eu só voltei para cá a pedido do Imperador Barbarossa, que se preocupou com a ameaça dos normandos de tomarem a capital. Meu exército retornou para proteger o Império!
— Quem é você? — Kivre se aproximou, mas recuou um passo.
— O que aconteceu com a família do conde...? — respirava pesado. O desespero começou a tomar conta do seu peito e ele apanhou Kivre pelo colarinho da camisa.
— Eu não sei. Existem boatos que foram mortos...
— Kivre, por favor, ele é amigo, diga-nos a verdade.
— Em tempos como esses não podemos confiar em ninguém, minha querida amiga. Muito menos a um homem encapuzado. Vamos, homem, responda quem verdadeiramente é! — Kivre retrucou, encarando a sombra do rosto do conde.
tirou o capuz, lágrimas de raiva apareciam do canto de seus olhos. Ele soltou Kivre.
— Eu sou Conde Rodolphus von Eltz, protetor de Wierschem, Senhor do Castelo Eltz antiga Torre de Menagem Platteltz, dado a mim pela boa aventurança do Imperador Barbarossa, o bondoso, como recompensa por ter lutado ao seu lado na conquista da Lombardia. Eu fui traído pelo segundo filho de meu pai, Bispo Expedit von , outrora meu melhor amigo e meu irmão de outra mãe.
Kivre assustou-se e caiu de joelhos no chão lamacento. apenas observava.
—Meu senhor... me perdoe por minha...
— Erga-se, homem, e diga o que aconteceu com minha esposa, minha irmã e meus filhos.
— Os boatos de que estão presos ou mortos, senhor. A todo momento funcionários próximos do castelo dizem coisas diferentes... é impossível saber ao certo...
me disse que posso confiar em você, isso é verdade?
Kivre assentiu fervorosamente.
— Então ouça a tarefa que lhe darei e ouça com muita atenção. Procure um homem chamado Wolknand. Se tudo estiver como você disse, ele deve estar a salvo, porque é esperto e teme por sua própria vida. Ele deve ter confirmado boatos sobre mim para sobreviver e deve estar à direita de , tentando domar o narcisismo dele. — disse. — Esse homem era meu mestre de armas e principal conselheiro.
— Senhor, muitos dos seus seguidores foram mortos, acredito que deva me passar outro nome para que eu busque...
— Somente Wolknand acreditaria. Eu confio nele e te dou a certeza que ele confiará em você também. — descreveu a fisionomia de Wolknand, com suas suíças grisalhas, cabelo grande sempre amarrado por tiras de corda e uma cicatriz na mão esquerda. Além disso, deu instruções sobre a segurança do castelo e as passagens secretas que haviam pelo lado da floresta. — Ele sai para caminhar na porta do castelo após o jantar quando o sol se põe, pois dormir de barriga cheia lhe traz pesadelos. Aproveite essa hora. Fale para ele que estou vivo e preciso de soldados para tomar o castelo de volta.
— Senhor, novos guardas patrulham o castelo, principalmente a entrada. Romanos, vindos pela ordem do papa.
e se entreolharam.
— Então isso irá aumentar ainda mais sua recompensa. Chegue até Wolknand e diga que estou vivo e que eu lhe mandei uma mensagem: O chão que piso não é alto para voar.
— Senhor?
— Sim, diga essa frase. Nessa ordem. Ele me reconhecerá de imediato.
— Não é melhor mandar algo que comprove? — disse, incerta.
— Não. Isso bastará. — respirou fundo, a vermelhidão da raiva sumia de sua face. — Acha que é capaz de fazer isso, Kivre?
— Não sou capaz, mas tentarei. Nem que eu morra aos pés desse homem. — Kivre estendeu a mão. — O senhor é um bom homem, ajuda meus amigos que vivem da música e da interpretação, tratou bem os soldados na Cruzada. Alguns de seus homens ainda vivem e são gratos por sua bondade, mas só falam de você quando estão bêbados nas esquinas.
apertou o antebraço do rapaz num cumprimento, olhando-o fixamente nos olhos claros.
— Ao fim de tudo isso, lhe darei tesouros do oriente ou que mais desejar, rapaz.
— Eu não quero ouro, mas posso querer justiça. Quando tudo se apaziguar, vou te procurar.
— Justiça de que, homem?
— Você saberá quando eu lhe disser.
— Se tudo se completar, tem a minha palavra de que farei a justiça que quer. — apertou os ombros do rapaz. — Me ajude a tomar o que é meu.
— Sim, senhor.
— Vamos embora, não estou com um bom pressentimento. — disse, olhando para o outro lado da rua, de costa para os homens.
— O que sente? — disse, se aproximando dela e olhando na mesma direção.
— Senhor... acredito que devamos voltar para a feira, por aqui... — Kivre disse.
virou-se na mesma hora e fitou-o.
— Kivre, o que está escondendo de nós?
O lábio inferior de Kivre tremeu.
— Nada, apenas vão embora. Depressa.
caminhou até o rapaz olhando-o vidrada.
— Kivre, pela honra de seus pais...
O rapaz tremia.
— Um homem será executado na praça ao meio dia... Por favor, não vão lá ver.
— Executado em praça pública? Isso nunca foi permitido por Barbarossa em todo Império... é desrespeitoso!
— Senhor... o imperador está morto. O Império ruiu. A igreja é quem manda aqui agora. — Kivre estava com o rosto retorcido de pena e remorso. — Eles executam um soldado que se recusou a mentir por dia... Para servir o exemplo e o povo não falar mais sobre isso.
Os olhos de ficaram baços, começou a andar, mas o deteve.
, vamos embora agora.
— Eu preciso ver com meus próprios olhos...
o empurrou na direção oposta e ele a encarou.
— Para que? Sofrer com os próprios olhos?
, não me impeça. — disse o conde, colocando o capuz e desviando da mulher, começando a andar depressa.
aproximou-se de um amontoado de pessoas que se reuniam a frente da igreja de Wierschem, uma estrutura românica baixa e rústica, próximos a feira. O ruído de pessoas negociando e conversando havia se cessado. e Kivre rapidamente alcançaram no meio da multidão.
— ...conhecido como o aprendiz do Conde Traidor... — apurou os ouvidos para ouvir quem anunciava a distância. Conforme aproximava, viu um homem sobre o palanque baixo, batendo no rosto do rapaz atado a uma tora de madeira. — O que um aprendiz tem a aprender com um traidor? Traição? — O homem anunciava a plateia, que praguejava contra ao homem atado.
Altmeyer? O que ele faz aqui? — disse para , ao seu lado, olhando para ele assustada. — Esse homem é o majordomus do castelo, ele cumpre funções domésticas...
— O bispo o mudou de função. Ele é agora o carrasco. Executa os traidores.
— Por isso, este homem morrerá. O inferno é a morada daqueles que não temem o Senhor e não vivem por sua Verdade e Vida. — Anunciou o homem que gritava para a plateia. Ele tinha nariz pontiagudo e olhos escuros. Usava vestes caras de funcionário do Império -ou agora, da Igreja.
— É mentira! O conde está vindo! Conde Eltz ainda vive! Ele retornará! Ele voltou a pedido do imperador Barbarossa — Gritou o rapaz, com a voz embriagada de emoção e choro. Três homens com arcos subiram o palanque e retesaram a corda com a flecha na direção do peito coberto de feridas do rapaz.
— Esse homem recusou o perdão de Deus hoje pela manhã, quando o misericordioso bispo quis ungi-lo... Morrerá como um pagão! Recebido por Satanás! — gritava Altmeyer para o público, que respondia com urros.
Naquele momento, as bochechas de recebiam o filete de suas lágrimas silenciosas. Ele olhou fixamente para o rapaz preso que chorava em voz alta, gritando o próprio nome dele. Aquele era segundo neto de Barbarossa, confiado pelo próprio imperador a para aprender a ser um soldado. O rapaz que saiu do castelo como uma criança magrela e havia voltado da Cruzada com pelos no rosto.
— Não... Não...
, não se precipite. Eles podem te matar aqui e agora. — ficou na frente de , mas ele ainda via o palanque acima da cabeça dela. Por um momento, os olhos desesperados do garoto encontraram o dele.
— Morra, traidor. E que o inferno o receba! — Altmeyer gritou e a ordem aos arqueiros foi dada. Três flechas cruzaram o peito do rapaz e o sangue jorrou no ar. O jovem gemeu e uma bolha do líquido vermelho estourou em sua boca pendida.
não escutou mais nada. Começou a passar pela multidão e não viu quem o segurou naquele momento. Ele foi arrastado, pois não sentia mais as pernas, para um pedaço afastado da cidade enquanto balbuciava palavras sem sentido e chorava copiosamente.
Quando esbofeteou-o três vezes até ele cair no chão de lama, ele voltou a realidade sobre o peso da perda.
— Não jogue tudo para o ar. Recomponha-se e vamos para casa. Você é um estrategista de guerra, não se deixe levar pela emoção. Não nesse momento.
— O filho de Philip.... — começou a chorar debaixo do capuz. — Morto...
o abraçou com muita força.
— Não poderei nem mesmo enterrá-lo.
— Eu pedirei para Kivre ou cuidar disso. Agora vamos embora.
obedeceu, ainda sem sentir os próprios pés e tomado pela amargura. Seguiu até o cavalo, pendendo sobre o peso do seu corpo. Na volta para a casa dela, não apostaram corrida.

⛦⛦⛦


De cima do palanque, Altmeyer viu o deslumbre de um rosto conhecido no meio da plateia. Um rosto contorcido pelo desespero. Se fosse quem estava pensando, ele seria promovido novamente.
A hora em que um prisioneiro morria era o momento de capturar as faces de maior sofrimento, pois eram essas as de seus colegas de traição.


Capítulo 12

Wait up, don't wanna wait up for you, baby
Still I wait up, lonely in the canyon
No love, there's no love, reflecting in the glow of
Million dollar man


Lykke Li – deep end

Espere, não quero esperar por você, querido
Ainda assim, espero, solitária no desfiladeiro
Sem amor, não há amor, refletindo no brilho de
Um homem de um milhão de dólares


2018

Corta essa. Para onde está me levando?
— Estou sentindo medo na sua voz, senhorita ? — debochou.
— Pare o carro, irei descer agora.
— Não faça isso. O meu motivo de ser seu motorista hoje é levá-la para ver uma parte do castelo que duvido que alguém saiba chegar além de mim.
notou os olhos curiosos da mulher no retrovisor.
— Uma parte?
— Uma outra entrada. Embaixo da ala Kemperich. A passagem secreta feita na época romana, quando o castelo era uma torre de menagem.
massageou o cenho longamente.
— Não é possível que isso exista.
— Você dúvida?
Após uns segundos, respondeu.
— Ok, você conseguiu atrair minha atenção.
sorriu torto e acelerou. O sonho que teve com ela foi uma novidade, ainda que nos sonhos ele sempre estivera sonhando com uma mulher de traços parecidos: Cabelos escuros e algo que, lá no fundo, dava a ele um aperto no peito. Características muito similares ao que representava para ele.
A imagem do momento certo, em seu sonho, que sua parceira nua em uma cama larga virou o rosto para ele permanecia enraizada nos seus olhos, mesmo se piscasse longamente. A no sonho tinha uma sombra em uma metade do rosto e uma cicatriz que cortava seu tórax – informação quase sobressalente devido ao foco de nos seios da mulher. Aquilo poderia ser um absurdo, mas dentre todos os motivos de suas divagações sexuais em sonho, aquela fora a mais vívida. Ao acordar, no banco do seu Aston Martin na garagem, por um momento achou que tinha dormindo com e a procurou no banco da frente. Foram longos segundos até perceber que aquilo tudo havia sido em sua cabeça e até limpar toda bagunça que havia feito sozinho.
— Então, como vai a restauração do castelo? — perguntou, enfim, tentando pensar em outra coisa.
— Vai tudo ótimo, , por favor evite conversar comigo além do necessário. Hoje não estou com paciência para as gracinhas de um playboy.
fez uma curva fechada. Ele acelerava muito para uma estrada de cascalho.
— E a restauração do quarto da casa?
— Em perfeita ordem. Já acabaram as perguntas que iria me fazer? — retrucou.
— Você está especialmente ruborizada e mau humorada para uma manhã sem nuvens no céu. Aconteceu algo especial para te privar de uma noite agradável de sono?
levantou os olhos da tela do celular para fitar com raiva.
— Não.
— Tudo bem... — disse após sustentar o olhar raivoso da mulher. — Não vou perguntar mais. Não quero atrapalhar o seu dia. Estou te levando para conhecer um lugar inexplorado e é assim que você se porta. Tudo bem. — E dito isso, passou a marchar e acelerou ainda mais, vendo apertar o cinto de segurança. Em algum momento, voltou a conversar com ela, enquanto ficou com a cabeça baixa sobre seu caderno.
— Você não vai perguntar nada para mim sobre o sonho que eu tive com você?
— Não me interessa.
— Deveria, porque foi muito interessante. Eu te chamava de . Você já ouviu falar esse nome?
olhou-o assustada.
— Eu já disse que não me interesso.
— Então por que o anotou? — questionou vendo-a anotar algo em seu caderno.
— Eu não anotei isso, Conde Incorreto, pare de me encher! — elevou a voz.
permaneceu calado e acelerando o carro mais que deveria. Estava começando a voltar a desgostar da mulher. O fascínio de seu sonho erótico estava ameaçado a ser substituído pela angústia e ansiedade que sentia desde o primeiro dia que viu .
— Deixei um moca com creme no porta-copos do outro lado do seu assento. Altmeyer me informou que é o seu tipo de café favorito. — disse, focado no velocímetro.
— Tomar um café a 200 quilômetros por hora seria uma proeza e tanto.
O homem piscou os olhos mais tempo que o normal, tentado a acelerar ainda mais, mas reduziu a velocidade.
— Obrigada pelo café. — respondeu e olhou-a novamente. Ela estava com os lábios cheios de creme e uma expressão muito mais calma. Ele segurou o riso.
— Que milagre. Você pode me dizer de novo?
— Dizer o que?
— O que acabou de dizer.
Café.
— Não foi isso. — riu, como se adorasse respostas mentirosas. Irritar até ela ficar com a ponta das orelhas vermelhas era um passatempo ótimo.
— Por que você não se concentra na estrada? Para não atropelar mais alguma pessoa.
Os olhos de ficaram baços e o sorriso se desfez.
— É mentira. Eu nunca atropelei ninguém.
— Seu irmão deixou um dossiê em uma otomana na biblioteca antes de partir. Me diverti muito aprendendo sobre suas tatuagens malfeitas.
olhou nervoso para o reflexo cínico da mulher.
— Você é restauradora de tatuagens? Se for, posso tirar minha camisa.
soltou um riso baixo e voltou a beber o café.
— De todo modo, a notícia do atropelamento em Frankfurt é falsa. Não foi eu.
— Realmente não me interessa.
— Eu assumi a culpa por outra pessoa.
— Não deixe o Vaticano te descobrir, ou eles vão te canonizar.
— Eu li que você é proibida de pisar lá, é verdade? — rebateu.
A tensão entre os dois era tão forte que se acendessem um isqueiro, o carro incendiaria.
— Estamos quites.
— O que você fez lá? Esbarrou em alguma prateleira no arquivo secreto?
— Isso não existe. Dan Brown é um mentiroso. — disse, riu. — Eu fui veemente demais em alguma das minhas crenças... digamos que tenha sido isso.
— Você está sempre brigando com quem te contrata? — Completou o homem.
— Estou sempre indignada com algumas coisas que vocês fazem.
— Mas agora me diga, os manuscritos originais estão lá?
— Não sei, não restauro papel. Depende...
— Afinal de contas, o que você faz? Ouvi os empregados dizendo que você é artista plástica. Meu irmão me disse que é uma arquiteta. Até Altmeyer não sabe definir, mesmo sendo o único cara que lembra o nome de todo mundo.
— Artista plástica, arquiteta, restauradora, historiadora e professora. Você pode me chamar de doutora.
— Espero que me conte um dia o que aconteceu para ser banida do menor país do mundo.
viu o reflexo de olhando pela janela, perdida em pensamentos e ficaram em silêncio por alguns minutos.
A estrada da Casa Eltz até o Castelo era asfaltada, mas nenhum carro transitava por lá. A paisagem entre bétulas amareladas de outono perdia suas folhas, formando tapetes úmidos de tons avermelhados no chão de musgo nas pedras.
— Chegamos.
— Assim no meio do nada? — ouviu dizer com a voz assustada.
— O túnel começa em uma caverna no meio da floresta de Wierschem.
Ele desceu do carro puxando sua mochila de couro e a mulher fez o mesmo. usava mais uma de suas belas camisas de tecido fino por baixo do seu sobretudo bege com detalhes em xadrez, um belo Burberry. se recordou do primeiro dia que a viu.
Ela o encarou, com seus olhos bicolores e brilhantes por cima das bochechas rosadas de frio. Olhar diretamente para o rosto de fazia sentir um cavado frio nas costelas.
— É por aqui. Quer que eu leve? — Ele estendeu a mão larga com dois anéis dourados para a maleta de .
— Não, isso vale mais que sua vida. — Ela disse e começou a caminhar. ficou ao lado dela.
se vestia com cuidado quando ia ao Castelo, desde quando seu pai o exigia isso: Um homem bem vestido é duas vezes mais difícil de ser desmentido, ele dizia e o homem lembrava disso olhando a barra de sua calça jeans raspando o lodo da base de algumas árvores. Ainda bem que não te ouvi hoje, pai. Ele pensou aliviado, imaginando seus sapatos Armani sujos no lugar das suas botas surradas de motocicleta.
Por outro lado, não se incomodava com o solo ou o frio e olhava distraída para a copa das árvores.
— Então — viu de novo medo na voz dela. — Esse local, é longe? — Ela olhava para trás, o carro estacionado no asfalto ficava cada vez mais longe.
— Não. Iremos andar um bocado quando estivermos no túnel.
— Você tem certeza que está me levando para o local certo? — Ela o olhou.
— Mas é claro. — Ele respondeu, esboçando um sorriso.
— Você parece empolgado. No dia que chegou ouvi você dizer que queria explodir esse lugar.
— Ainda quero, mas vou esperar você restaurar.
ainda continuava desconfiada. Andaram mais alguns metros até pararem em frente à entrada de uma caverna. abriu a mochila e tirou duas lanternas, dando uma para a mulher.
A caverna era baixa e estreita e foi se enlanguescendo conforme caminhavam nela. Após alguns metros, ela ficou com a largura de cinco homens e altura de dois. Animais pequenos rastejavam e água pingava das paredes, fazendo barulho além do eco dos passos dos dois. caminhou sem medo do escuro e desviando dos morcegos incomodados pela luz da lanterna.
— Por que o primeiro Eltz mandaria construir um túnel como esse? Ele é muito estreito para transportar carga.
— Eu acho que era para esconder ou fugir. O castelo foi feito nas montanhas como uma estratégia de guerra e um reforço de Barbarossa no oeste.
— Ele temia uma revolta dos normandos. Os três reis que saíram na cruzada sofreram golpes de poder quando retornaram para casa. — concluiu, intrigada com o teto. Em um momento, as paredes e o teto começaram a ficar decorados com o desenho de uma rosa. — A rosa...
— A mesma no salão dos cavaleiros no terceiro andar da ala Rübenach e...
— Também já as vi na ala Kemperich. — disse e olhou para . — Quem talhou essas rosas na pedra queria que quem soubesse o caminho mantivesse silêncio.
— Assim como o quarto que tem rosas na parede...
— Sua família gosta de controlar o silêncio dos outros, não é?
— Nesse ponto eu concordo com você.
e se entreolharam no escuro. Nos olhos dele passou um vislumbre de seu sonho no quarto da ala Kemperich, o qual era cheio de rosas nas paredes.
— De todo modo, não é por isso que a trouxe aqui. — voltou a andar. — As rosas permanecem entalhadas com a distância similar a cinquenta passos.
— Onde é o fim desse túnel?
— Ele tem três saídas, duas desabaram e uma sai exatamente dentro da primeira cozinha.
— Desabaram?! — ficou alarmada.
— Sim... estamos em um túnel de 800 anos.
, acho que é melhor voltarmos. Esse túnel precisa ser reforçado com lona e vigas de madeira. Precisamos medir o nível do ar aqui...
— Está com medo? — posicionou a lanterna embaixo de seu próprio queixo e fez uma careta.
Na escuridão, ouviu respirar fundo e voltar a caminhar.
— Me poupe. — O sotaque dela ficava mais nítido quando ficava irritada.
Ficaram em um silêncio tenso, até o túnel se afinar em uma escada.
— Os degraus devem estar com lodo então... — disse, mas foi interrompido.
gritou de susto e escorregou, caindo sobre e tentando segurá-lo desesperada. Os dois se desequilibraram e rolaram pelos degraus amaciados pelo musgo, numa pantomima de gemidos de dor e xingamentos.
caiu primeiro no chão e recebeu o peso de sobre si. Ele demorou para perceber que estava com o rosto colado na barriga feminina e umas das mãos sobre a coxa da mulher. Foram segundos muito agradáveis e mais um pouco ele mostraria sua atração de outro modo.
— Saia de cima de mim!
— Você caiu primeiro!
A mulher disse um palavrão longo em francês enquanto levantava a lanterna na direção dela.
— Você está bem? Se feriu?
— Não, mas meu casaco está um nojo agora.
— Você quem me fez cair, eu disse para ter cuidado.
— Você caiu em cima de mim! E não é leve! — estava com muita raiva. O canto de sua boca sangrava.
— Você se feriu...
— Foda-se. — Ela disse, dessa vez em alemão para fazer questão de entender o que ela dizia, curvando para a mala no chão. — Ilumine aqui.
Ela abriu a mala com seus cadernos, canetas, pen drives, livros e fotocópias.
— Está tudo em ordem. Mas a lanterna quebrou. — Ela disse voltando a ficar de pé. — Me dê a sua para eu ver se você se machucou.
o fez e em seguida recebeu o feixe de luz forte direto nos olhos, ficando completamente cego.
— Meu deus, mulher.
— Você se ralou. — aproximou para olhá-lo de perto e baixou um pouco a luz. — Está com o rosto sujo e com sangue.
— Você também não está bonita.
Então para a surpresa de , riu e o som ecoou pelo local. A mulher devolveu a lanterna, tirou um lenço do bolso e o entregou. Ele agradeceu, limpando o musgo dos cílios e das sobrancelhas, sentido o perfume da mulher emanar dali.
— Está ficando cada vez mais interessante essa exploração. — a mulher disse, iluminando o teto.
voltou a mochila para as costas e pegou a lanterna de . Estavam em uma ala quadrada com apenas uma saída.
— Essa foi a última escada, já estamos chegando. Por favor evite tropeçar em mais alguma coisa.
Andaram por um corredor estreito até entrarem no que parecia uma gruta. Um feixe de luz avermelhado descia do teto, que parecia muito alto, e iluminava diretamente um altar. Havia a escultura de uma mulher entalhada na pedra atrás de um largo caixote de pedra
soltou uma expressão de encanto e fez o mesmo. Quando pisou ali, lágrimas saíram de seus olhos e ele secou antes da mulher perceber.
— Isso é um mausoléu?
— Sim, um túmulo de uma mulher.
— Você já o abriu? — perguntou.
Não! respondeu rapidamente, como se a mulher lhe tivesse pedido para abrir uma ferida. — Nunca o abri e não acho que seja uma boa ideia.
— Eu não entendo até quando vocês Eltz irão me dar trabalho. Eu não consigo ter uma noite de sono tranquila porque a cada momento tenho que acrescentar mais um cômodo no meu planejamento de restauração. Quantos segredos mais vocês escondem?
— Esse deve ser o último.
— O realismo desses detalhes. Isso não é do século XII. Mas... — estava em conflito, se aproximando com cautela do túmulo enquanto dizia palavras em francês. Abaixou-se para ver as esculturas em torno da pedra do túmulo. — Isso é puramente românico. — Ela fez um sinal para iluminar mais de perto. — É como se...
— Esse túmulo fosse decorado ao longo dos anos...
se levantou.
— Isso mesmo. Existem três tipos de estilos diferentes aqui, eu precisaria dos meus materiais para poder examinar as camadas destruídas pela umidade. — contornava o túmulo, passando a ponta dos dedos em alguns lugares e cheirando outros. — Isso foi pintado. E o braço... nunca o encontrou? — Ela disse, mostrando o ombro cortado da mulher na estátua.
— Não.
— Quando foi a última vez que você veio aqui? — Ela tocou em um ramo de galhos secos unidos por um laço puído em cima do túmulo. não havia notado isso e ficou ao lado de para ver.
— Há alguns dias. — Ele disse, se lembrando do primeiro dia que vira na Casa e a vontade que teve de visitar aquele lugar. — Mas não foi eu quem trouxe isso.
— Pareciam rosas, pelos espinhos.
ficou hesitante olhando para os galhos secos. Sentiu-se traído e incomodado. Só havia uma pessoa além dele que conhecia aquele lugar e definitivamente ele não conseguiria caminhar até ali.
— Observe isso. — apontou para uma rachadura não muito funda no peito da mulher entalhada e depois subiu o dedo para o olho esquerdo fechado da estátua enquanto o outro estava aberto. — Isso é muito estranho. Porque um Eltz iria querer um mausoléu para uma mulher?
estava em silêncio. Olhando para a escultura medieval ele sentia algo se mover no peito, como se de alguma forma se coração quisesse sair do peito e colar na pedra. Aos poucos as imagens do seu sonho foram voltando, mas não seu sonho erótico, o sonho de ver uma mulher sendo queimada em uma praça.
, permita minha equipe analisar esse túmulo. — se virou para ele, estava muito séria. Perto um do outro, viu muita curiosidade nos olhos da mulher. — Quero ver o que há aí dentro. Pode conter...
Ela parou de falar e as expressões de seu rosto com as bochechas sujas mudaram para surpresa.
, você está bem? Você está chorando.
rapidamente se afastou e secou os olhos na manga já jaqueta.
— Podemos resolver isso em um outro momento.
— O que aconteceu? Foi algo que eu disse?
— Não, eu estou com alergia a alguma coisa aqui. Talvez seja hora de irmos.
o olhou, sendo coberta pelo feixe luz avermelhada do teto. Seus olhos estavam brilhantes, até mesmo a íris preta que parecia escura demais para brilhar.
— Tudo bem. Você pode me trazer aqui novamente em um outro momento? Posso trazer equipamento de luz para descobrir o que há escrito ao redor da estátua.
— Claro. — caminhou para a saída, sobre galhos retorcidos. o seguiu.
— De onde vem a iluminação? Não me lembro de um vitral no chão.
— De outra caverna, um buraco na pedra acima de nós e que suporta o peso do castelo.
concordou com a cabeça e começaram a caminhar. O padrão do túnel agora era da largura de três homens e o teto mais baixo, com archotes nas paredes espaçados por poucos metros.
tentou não pensar no túmulo ou imaginá-lo aberto. Aquele lugar havia sido seu refúgio desde que o descobrira e trazer alguém ali além dos que já havia trago lhe dava sempre uma sensação de ciúmes. Com foi diferente. Trazê-la ali o fez sentir como uma companheira de aventura, alguém que gostaria de ver aquilo. Foi o que aconteceu. O homem nunca tinha visto-a tão interessada.
Caminharam em silêncio por mais alguns metros até o fim, em uma parede de pedra escavada.
— Eu subo primeiro, alguns degraus podem estar soltos.
Ele disse, iluminando a escada de metal na parede. Começou a subir e indicar a quais degraus eram seguros para ela apoiar o peso. Após alguns minutos de escalada, chegou até uma porta pequena com largura apenas para uma pessoa sair. Após alguns empurrões, a portinha se abriu.
Ele saiu e terminou de puxar , fechando a porta de volta. Estavam em uma sala de parede de pedras cinzas.
— Ala Kemperich?
concordou, abrindo uma porta com luz nas frestas.
Seus olhos estranharam a claridade, mas não demoraram mais a se adaptar a ela do que a imagem à sua frente.
Conde Eltz estava sentado em uma cadeira, de pernas cruzadas e balançando sua bengala, escorado do outro lado do corredor de uma das entradas que contornavam o pátio principal.
— Irmãozinho. — ele saudou , fuzilando-o com os olhos cinzas. conhecia aquele olhar: raiva porque os planos dele não deram certo.
, voltou mais cedo?
— Senhorita ! Que surpresa ver você saindo de um vestíbulo com meu irmão. — se levantou, apoiando na bengala. O terno que usava naquele dia era azul marinho com uma presilha dourada na gravata. — Ainda por cima ambos sujos e ensanguentados.
! É bom tê-lo de volta. — sorriu, tentando limpar a poeira do casaco.
Um silêncio serviu para que os três se entreolhassem e ficasse claro o desconforto de conde .
— Calça rasgada, jaqueta de couro e uma gola rolê frouxa: Meu irmão você já teve dias melhores. — depois de julgar o irmão, olhou para . — Enquanto que a senhorita continua majestosa como sempre. Precisamos discutir um problema na área Kemperich. Eu voltei de viagem mais cedo por conta disso.
— Que problema?
— Uma antiga encanação se soltou e inundou um andar quase inteiro nessa madrugada. Eu não estava longe, pude chegar ainda pela manhã.
rapidamente apanhou o celular do bolso e olhou assustada para a tela. continuava olhando para o irmão.
— Fui informado por Altmeyer que você a havia raptado. — virou-se para o irmão. — Estou feliz que ela tenha apenas um aranhão.
— Não é culpa dele. — enfiou o celular no bolso e tirou o casaco sujo. Sua camisa ainda continuava branca. — Eu tropecei. — Olhou para .
levantou as sobrancelhas para o casal se entreolhando.
— O que aconteceu enquanto estive fora? Vocês transaram?
Não! e responderam em uníssono.
— Fico feliz que tenham feito as pazes, não me importa como. — riu pelo nariz. — Vamos analisar o problema, ?
— Com certeza.
A mulher e o conde saíram pelo corredor, conversando até o pátio. ficou de longe observando a calça escura de ainda suja de poeira e folhas secas. Ele olhou do outro lado do corredor, onde era a saída do castelo e viu de longe uma BMW branca, o carro do seu irmão.
Ele sorriu e foi até ela. iria voltar de carona, ou poderia ir caminhando pela floresta até chegar ao carro parado no meio da estrada.


Capítulo 13

What will we do now?
We lost it to trying
What can we say now?
Our mouths only lying


Son Lux – Lost it into Trying

O que vamos fazer agora?
Perdemos tentando
O que podemos dizer agora?
Nossas bocas apenas mentem

1194

saiu num trote feroz e Johannes ficou com sua tia em casa, responsável por separar as melhores sementes de trigo. ainda estava no mesmo lugar desde que chegou: sentado no chão, a beira do rio em que o encontrou. Por algumas horas, enfiou as mãos na terra e a jogou para cima, gritou, esfregou o rosto no chão e pulou no rio, tentando passar longos períodos sem respirar debaixo da água. Já fazia um certo tempo que o observava a distância entre as árvores.
— Meu senhor, talvez seja bom descansar, você não comeu nada desde o desjejum. — ela disse, decidindo revelar-se.
Descansar... Enquanto sou procurado. Cada dia aqui é a morte de um inocente. Cada parte do dia que perdi aqui, foi um amigo que morreu. — Ele ergueu a cabeça, mas não se virou. A camisa molhada colava nos músculos de suas costas arqueadas. — Como pude ser tão inocente... Cada momento importou e eu não vou deixar que isso se repita. Eu vou me entregar.
— Se acalme, agir sem pensar pode ser prejudicial...
— Do que vale esperar, então? O que devo fazer? Ir dormir? Ir descansar como você me pede? — se virou e levantou. Estava com os olhos injetados e vermelhos no rosto sujo e ralado. — Vocês pobres miseráveis dão valor demais ao descanso. Deve ser porque se matam de trabalhar!
suspirou de olhos fechados, após alguns segundos, disse:
— É preciso encarar o que aconteceu e pensar no jeito mais seguro de planejar sua volta...
— E o que acha que estou fazendo, mulher? Por acaso é uma idiota? Acha que estou olhando os peixes no rio? Fazendo buracos na terra para plantar?
— Me tratar com grosseria não irá fazer sua dor diminuir. — disse, com a voz pontilhada da raiva que domava.
— Que propriedade você tem sobre o luto e a dor? — completou a distância entre os dois. Seu olhar estava repleto de agonia. — Não converse comigo como se soubesse de tudo no mundo!
— Eu entendo o luto muito de perto e você não o está sentindo. Você está com raiva por ter confiado a bispo Expedit seu castelo e Wieschem na sua ausência. Eu não acredito que esteja sentindo dor pela morte do neto do imperador Barbarossa...
— Cale-se! Eu ainda sou seu senhor. O conde. Não diga tanta coisa sem sentido!
— Você não conseguirá sair dessa sozinho, assim como não consegue perceber que a culpa não é sua.
— Do que pensa que está falando, mulher? Olhe para si: uma camponesa. O que tenho para aprender ouvindo-a?
— Eu estou fazendo-o compreender que ficar se lamentando sozinho não te ajudará. Muito menos se entregar agora!
— Só eu posso salvar meu castelo e meus vassalos. Eu sou o único capaz de fazer isso. É somente pelas minhas mãos, . As mãos do Protetor de Wieschem!
gesticulava com as mãos abertas e um dos seus cachos pendia sobre a tez retesada de raiva.
— Perfeito! Estamos a salvo agora que o Conde Protetor está de volta. — , com a boca curvada de raiva, tirou uma adaga debaixo da barra do vestido e a jogou aos pés de . — Pois pegue esta adaga e o cavalo roubado que está no estábulo. Vista a brigandina esfarrapada de e vá! Vá tomar o que é seu, meu senhor, grande conde Eltz. Já que não precisa de mim ou da minha família!
seu um passo à frente, recuou.
— Não se refira a mim com tanta falta de respeito!
— Eu nunca te desrespeitei! Eu o trato como o senhor que é, mas saiba que as pedras do castelo não te fizeram mais forte só por nascer dentro delas, conde Eltz. Ainda somos iguais. Somos carne prestes a morrer. Cada passo que damos é para o mesmo destino, debaixo da terra. — estava com a veia da testa saltada, gesticulava como se o ar fosse um instrumento musical. — Eu acabei de assinar a sentença de morte de e Kivre quando pedi que trouxessem o corpo do garoto que morreu, seu amigo e afilhado, para que possamos dar a ele um enterro digno. O mínimo a ser feito pelo garoto. Foi apenas para isso que vim procurá-lo. Para avisá-lo que os únicos que se importam com você são os que você menosprezou a vida toda!
— Eu não pedi para irem!
Eu dei a ordem! Kivre e não precisaram de muito mais para realizar a tarefa, pois assim como eu, acreditam que você é bom e justo e estão inteiramente entregues a missão de ajudá-lo. — a cólera fez lágrimas surgirem nos olhos de . — Se puder me fazer um favor, nobre conde, que seja não achar que só os ricos choram por seus mortos. Não se negue ser ajudado por pobres moribundos. São estes mesmos pobres moribundos que não possuem nada que tiraram você do vale da morte. — ela apontou para o meio do peito de , descoberto pela camisa molhada. — Foi eu quem te trouxe para a vida. Nunca mais menospreze a minha história apenas para santificar a sua. Aqui, somos iguais. — e apontou para o chão.
chorava e estava com os pulsos retesados, os olhos vermelhos saltando lágrimas.
— Leve a adaga consigo! — bradou , quando não suportou mais encará-lo e deu as costas para a floresta.
— Eu não vou levar. Leve-a você para o castelo! Empunhada ou empalada. — Gritou de volta e sumiu entre as árvores.

⛦⛦


— Você acredita mesmo que o conde irá dar terra a vocês?
— Ele já nos deu um nome. Schöpfer. Acredito que seja um homem de palavra.
entrou na floresta de Wieschem, saindo da trilha quando encontrou Kivre conversando com um grupo de homens maltrapilhos na entrada da cidade. Ao ver de longe, o cigano correu ao seu encontro. Agora caminhavam conversando baixo, tinham um ar de familiaridade.
— Minha irmã me contou o que o conde te pediu para fazer. O que você pediu em troca?
Kivre olhou para .
— Conde Eltz é um bom homem e precisa tomar o que é dele. Esta cidade está um caos desde que ele partiu. Com a igreja aqui, meus negócios vão mal e eu não tenho como me sustentar sem levantar suspeitas. É para o bem de todos que o conde volte a assumir a coroa de edlerherr.
— Você não respondeu a minha pergunta. O que um enganador como você pode pedir a um nobre em troca de colocar sua própria vida em risco?
— Esse é um assunto meu e de conde . Você não precisa saber. — o cigano sorriu fechado e atravessou a pequena viela. Ele deslizava pela floresta como um elfo, elegante e esbelto. — Venha, precisaremos nos aproximar dos guardas.
— E qual é o seu plano?
— Em breve será a última troca de turno antes do anoitecer. Eu vou entreter os guardas enquanto você corre até o corpo.
— Eu vou ter que carregar?!
— Desde que voltou da cruzada você fede como um morto, não irá se importar de se sujar. — Kivre disse. — E eu precisarei impedir que algum guarda te siga.
— Ora, seu maldito. Você não reclamou quando eu...
Shh cale-se.
Os dois haviam se afastado dos muros cidade e se aproximavam de uma trilha de carroças. Uma grande vala no chão estava sendo cavada, enquanto alguns homens sujos trabalhavam exaustivamente, supervisionados por dois guardas que usavam o uniforme de oficiais do castelo.
— Você pode se camuflar como um desses escavadores, está tão limpo quanto um, enquanto eu converso com os guardas. Se aproxime dizendo que você veio para substituir o último escavador que convulsionou e morreu.
concordou com o olhar e eles se separaram. O homem ficou com a postura curvada e se aproximou da carroça onde havia dois corpos. Um era de uma mulher e o outro de um rapaz.
Três flechas no peito. É esse. Pensou, cobrindo o corpo da mulher com a lona suja da carroça e olhando para o corpo do rapaz, cujas roupas já haviam sido roubadas e ele jazia nu, pequeno e gelado. Seus pensamentos sobre quem poderia ser a mulher ao lado do rapaz se calaram quando ele ouviu:
Escória cigana! Normando!
olhou rapidamente para Kivre, sentindo o estômago revirar de susto, enquanto o amigo ainda passava ao lado da cova na direção dos guardas. Quem gritou foi um dos escavadores da cova. O trabalho cessou.
— Cigano! Ladrão! — Disse outro escavador.
— Ora, senhores... — ouviu Kivre dizer.
Os guardas olharam para Kivre e se aproximaram. rapidamente tirou o pano que trouxe no bornal e envolveu o corpo do rapaz falecido, preparando para carregá-lo até o cavalo o mais rápido possível. O plano foi comprometido.
— Você é um ladrão! Deve ser enterrado junto com os traidores!
— O que estão falando não diz respeito a mim... — Kivre disse.
— É verdade o que dizem…? É um cigano? — Uma voz rude irrompeu.
— De forma alguma, meu senhor oficial, eu estou à procura de um anel que minha amada perdeu....
— Mentiras! — A mesma voz que acusava Kivre bradou.
terminou de dar um nó no pano envolvendo o corpo quando levantou os olhos sobre a carroça. Kivre havia acabado de levar uma bola de barro e sujeira na direção do rosto. Enquanto ele limpava os olhos, os guardas chutaram para dentro da vala, onde ele caiu de joelhos.
Acima das risadas de todos, bradou um ei! e todos o olharam. Sem hesitar, o homem largou o defunto na carroça e correu até derrapar até a borda da cova. Kivre se levantava do chão, cego de terra nos olhos.
— Perdoem meu irmão, ele está procurando o anel da esposa que faleceu.
— Todo anel que cair nessa terra é propriedade do Bispo Wenedelin Expedit. — Disse um dos guardas desconfiado.
Kivre terminou de limpar os olhos e correu até a borda da cova, pegando a mão de e pulando para fora com facilidade.
— O meu pau também pertence ao bispo Wewe Expopopopo. Está à disposição o dia que ele me der a sua bunda. — Kivre, irritado, gesticulou na direção da virilha. Os guardas se assustaram.
— Cala a boca, Kivre, vamos embora. Tudo deu errado. — recuou até a carroça enquanto Kivre encenava.
Ei, onde pensam que vão? Voltem aqui! — Disse um guarda de um lado da cova.
já estava com o corpo nas mãos e Kivre gesticulava mais um ato obsceno.
— O que fazemos agora?
Kivre começou a adentrar a floresta e apertou o passo atrás dele.
— Corra pela floresta até chegar ao seu cavalo e vá embora.
— E você? Eles viram seu rosto.
Mesmo correndo e desviando de galhos, ambos se entreolharam uma última vez.
— Não se preocupe, meu amigo. Agora, minha vida está nas mãos do retorno de Conde Eltz. Sou um procurado por xingar um arcebispo. Sou um cigano e um bruxo novamente. Vá, meu amigo, vá!
E dito isso, Kivre virou-se e desatou a correr para a esquerda. correu mais um pouco na direção oposta e parou atrás de uma árvore larga. O peso do corpo nos braços o cansava e ele ficou nervoso esperando os guardas distanciarem os passos, mas os ouvia cada vez mais perto.
Hey! Estou aqui, seus cabeças de bosta! Já me trouxeram o bispo para meu jantar? — ouviu Kivre gritar, longe e os passos dos guardas se distanciarem de vez.
Ele segurou o corpo com força contra seu peito mais uma vez e correu até onde seu cavalo estava amarrado.

⛦⛦⛦


Um homem vestido com uma capa longa escura caminhava pelas entranhas do Castelo Eltz. Suas botas novas reluziam com a luz dos archotes e os empregados lhe davam passagem e não o olhava nos olhos. Ele conhecia cada uma das pedras novas e lisas das paredes que formavam aquela magnífica construção. Nasceu ali e finalmente, após seus anos de trabalho árduo, foi promovido a majordommus. Seu status cresceu como o do castelo, que a cada estação crescia mais cômodos.
Era o mais jovem mordomo a ser eleito a um cargo tão importante, nem mesmo seu pai tinha conseguido essa astúcia. Mais que um mordomo, também era responsável pelo tratamento dos prisioneiros e da anunciação dos executados todos os dias. Tarefa confiada a ele pelo próprio bispo.
Ele chegou a ala particular do bispo, que àquela hora havia acabado de jantar e era esperado que estivesse de bom humor. Passando pelos corredores antes da sala de jantar privada, o homem da capa negra ouviu a voz do bispo praguejando alto e não compreendeu a gravidade do cenário.
— Como eu posso ser capaz de governar uma cidade onde os corpos são roubados! Vocês sabem o que isso significa?!
O homem hesitou antes de abrir a porta, passando por dois outros guardas que ladeavam-na. Ele entrou na sala com uma lareira queimando. Bispo estava com as mãos na cabeça, virado de costas.
— Insurreição! É isso. — O bispo estava com a túnica vermelha caída sobre os ombros até metade das costas. Ele abaixou a cabeça e os ossos de sua nuca se projetaram embaixo da pele muito clara. A luz do crepúsculo vinda da janela o banhou enquanto professava com ira: — Esse povo está desesperado e eu não consigo calá-los. Eles fazem o que querem.
— Senhor, ainda estamos buscando...
— Estão? — O bispo virou metade do rosto. — Estão mesmo? Com que força? Com que precisão? Por que o vejo aqui em vez de lá embaixo? Buscando pelo corpo do neto de Barbarossa e por Adalfarus? Traga-me estes dois. Quero os dois em cima da minha mesa. Quero os corpos deles nem que sejam apenas ossos!
— Vossa Reverendíssima, eu vim articulá-lo sobre o roubo do corpo pelo cigano... não era esperado despertar sua raiva...
— Traga-me também o cigano. Quero minha mesa cheia de corpos como se fosse a festividade do natal. Traga-me todos. Vou santifica-los. Vá, homem imprestável! — O bispo bradou e sua voz ecoou nos vidros do salão. O oficial que estava ali se levantou e saiu pela porta aos tropeços.
O mordomo fechou a porta quando o homem passou, ouvindo o bispo respirar pesadamente ainda olhando a janela.
— Meu bom Altmeyer, diga que me trouxe um licor forte.
— Vossa Reverendíssima, eu lhe trouxe algo melhor.
O bispo ficou em silêncio alguns segundos e depois virou-se lentamente. Despido das vestes oficiais, ele estava com a túnica aberta, revelando sua forma física excelente demais para um membro do concílio papal e representante do Vaticano nas terras germânicas.
Ao contrário dos seus colegas curvados pelo hábito da cópia e da auto piedade, Bispo caminhava de queixo erguido e exibia seu tórax de músculos definidos e pronunciados acima da magreza comum dos clérigos. Algo nele emanava um ar clássico que Altmeyer só havia visto nas esculturas em Roma e nas descrições dos livros de Eltz, o distanciava dos ideais da pobreza e fome que pregava. Nu de frente, o bispo caminhou sem se preocupar em ser visto intimamente.
— E o que seria melhor do que o licor num dia péssimo como esse? Não me venha com mais problemas, Altmeyer.
— Encontrei a localização de Eltz. Ele está vivo.
A expressão do bispo se tornou alerta, os olhos fundos acinzentados se abriram e as sobrancelhas se juntaram.
— Ele o viu?
— Não. presenciou execução de Philip Hohenstaufen em frente à igreja. Em seguida, o vi fugir para o norte. Após seguir a trilha, o vi em uma propriedade às margens do Moselle.
— Como pode ter certeza que não te viram, homem?
— Fiquei entre o mato e as árvores. Ele está com uma mulher.
— Uma mulher?
— Não encontrei registros delas até então.
— Uma mulher. — O bispo desviou o olhar dos olhos de Altemeyer e caminhou até o fogo. — Como ela é?
— Perdão, meu senhor?
— Descreva-a.
Altmeyer descreveu a mulher que vira ao lado de Eltz. Alta e de postura rígida como de um soldado, botas de homem e vestido puído.
— Como é o rosto dela? — O bispo sentou-se numa cadeira ali perto. Seus olhos brilhavam com o desenho da brasa e sua cruz de ouro maciço refulgiu.
— Eu não saberia dizer senhor... — Altmeyer ficou desconfortável. — Ela tem o rosto de uma mulher normal.
— Dê-me detalhes, homem! — O bispo bradou. Irado. — O formato da boca dela, a cor dos olhos, a curva da face, o pescoço. As ancas... os seios...
— São de uma mulher normal, meu senhor, acredito que deva enviar um artista na próxima vez...
— Exercite sua poesia, meu caro.
Altmeyer trocou o peso do corpo para outro pé, parecendo ansioso.
— Ela tem cabelos escorridos muito escuros, olhos grandes e uma cicatriz...
— Uma cicatriz?
— Ela tem um corte no pescoço e no canto da boca. Não pude observar mais.
parecia feliz ao lado dela? Ele a segurava pela mão? Nada mais típico dele do que gostar de mulheres bonitas.
— Sinceramente não sei dizer senhor, eu só o vi com a face tomada pelo medo.
Uma mulher. Foi assim que sobreviveu. — O bispo disse, passando o dedo na mão cheia de anéis pelo queixo e pela boca.
— Ao nascer do sol investigarei com os vizinhos da propriedade sobre a passagem de Adalfarus. A última vez que ele foi visto foi quando passou o rio.
— Não leve nenhum homem consigo. Vá anônimo. — o bispo recostou-se na cadeira, deixando as chamas refletirem sobre seu peito e seus joelhos desnudos. — Se assim for, preciso elaborar uma maneira de abordar e sua prostituta.
Altmeyer franziu o cenho e se aproximou.
— Senhor, não podemos perder tempo. Se conde estava na cidade...
— Não o chame de conde! — O bispo interrompeu o majordommus, com a voz elevada. — Ele não é mais um! Nunca foi.
— Perdão, Vossa Reverendíssima. — Altmeyer se curvou. — Acredito que se o Traidor estava na cidade, provavelmente buscava por alianças com seus antigos amigos...
O bispo riu. Gargalhou e cada uma das risadas ecoou até o teto alto.
Alianças? Quem quer alianças com um morto?! — O bispo falou alto. — está morto e você, Altmeyer, é o único que acha que ele está vivo.
— Senhor, eu acabei de dizer que o vi...
O bispo se levantou e num rompante atravessou a distância até Altmeyer.
está morto! Eu vou deixar você se aventurar na ideia de achá-lo na floresta ao lado de uma mulher que deve ser bonita. Lábios carnudos... pele macia como um pêssego. E eu só vou acreditar que Eltz não morreu quando eu vê-lo. Como Tomé...
— Você estava conversando comigo como se soubesse que ele está vivo, meu senhor, perguntando da mulher.... Como pode achar que eu imaginei isso? E se tem tanta certeza da morte dele, me diga, onde ele está enterrado? — Altmeyer disse, olhando com raiva para o bispo.
Porém, assim que Altmeyer levantou o queixo, bispo desferiu um tapa com as costas da mão na face, arranhando a bochecha do mordomo com o anel de rubi.
— Não fale tolices. Eu o coloquei nesse cargo por conhecê-lo desde pequeno. E por confiar em você. Mas agora, suas palavras estão me fazendo duvidar disso.
— Meu senhor, é verdade...
Altmeyer foi interrompido novamente com outro tapa, seguido de outros. Até o bispo empurrá-lo contra a parede e ele cair no chão.
— Mentir só é parte do seu trabalho quando eu mando que você minta. Agora vá e traga-me um licor, antes que eu mande de volta para limpar latrinas. vivo... vocês me trazem cada aventura...
Altmeyer tinha lágrimas de raiva nos olhos. Se levantou um pouco tonto e saiu, batendo a porta com força.


Capítulo 14

Dreamer
Oh dreamer
What have you done with your light?
Dreamer
Oh dreamer
Have you come to realise
You get it all in with no return
It's just another life left alone


Lucifer – Dreamer

Sonhador
Oh sonhador
O que você fez com a sua luz?
Sonhador
Oh sonhador
Você chegou a perceber
Você recebe tudo sem retorno
É apenas mais uma vida deixada sozinha


2018

guiou enquanto acertavam alguns detalhes sobre o incidente. O cano que se rompeu inundou uma área expositiva de peças clássicas do século XVII, todas eram protegidas por caixas de vidro, o que reduziu a preocupação da mulher. O dano maior seriam os tapetes e os móveis de madeira com base no chão como as poltronas e um vaso.
— Não cheguei a avaliar pessoalmente, mas confio no julgamento de .
— Isso já aconteceu antes?
— Não sei precisar. Vamos conversar com calma no meu escritório, seus funcionários já me apresentaram um relatório dos danos. — parou de andar quando chegou a uma porta dupla ornamentada que abriu sem bater. — Mas antes quero que conheça...
parou de falar e ficou parado na porta, lá de dentro havia outra discussão. Dentro do aposento pequeno o suficiente para parecer um escritório atulhado de arquivos antigos, estava ouvindo uma mulher de cabelos presos num coque vociferar, com as mãos sobre o peito dele. Eles pararam se afastaram quando a porta se abriu.
, vejo que está bastante eloquente esta manhã. Pude ouvi-lo do estacionamento.
notou que , o curador do museu, em vez de usar sua corriqueira jaqueta jeans com broches de avião, estava com uma camisa bege encharcada colada no peito. e as calças dobradas no joelho, além de tudo, descalço e o cabelo preso.
— Conde Sigbert eu estava mesmo querendo falar com você.
— Estou aqui. — O tom de era desafiador.
olhou uma última vez para a mulher e contornou a escrivaninha até o conde.
— É culpa sua. — disse, sem rodeios. Atrás dele, a mulher encarou e elas se cumprimentaram com um aceno de cabeça tenso.
— Minha culpa? — o conde rebateu. Frente a frente, o conde era menor que o curador.
— O segundo andar da ala Kempenich está inundado porque alguém assinou que a vistoria de encanamento foi feita em março. A vistoria anual! — virou-se e apanhou uma pasta sobre a mesa. Seu cabelo preto ondulava conforme ele mexia a cabeça. Algo nele lembrava de um marinheiro no convés de um navio.
— Não sei do que está falando.
— Você assinou que a vistoria foi feita, mas não há recibo. O técnico de encanamentos e estruturas não veio nesse ano.
— O conde riu pelo nariz, menosprezando o curador. — Não acha que já é água demais para a tempestade em um copo? Suas afirmações servem para quê? Do que quer me culpar? Não deveríamos estar preocupados com os tapetes da ala?
— Este castelo é um monólito histórico! Deve ser preservado e você não tem capacidade para tanto! Por qual motivo você dispensou a vistoria? Ou a deu como concluída? Todo outono quando fechamos para reforma é a mesma coisa. Negligência, suborno de técnicos, descuido!
falava alto, a mulher loira se aproximou dele.
, querido, não acha que é hora de se acalmar? — A voz da mulher era livre de sotaque soava controladora.
O curador permaneceu de lábios crispados.
— Ouça sua esposa, . Ela parece ter razão. — soou sardônico como soava. achou-os, pela primeira vez, parecidos.
Aquilo, contudo, não abrandou a raiva de .
— Conde Sigbert, não fuja do assunto!
— Não ameace a administração do meu castelo outra vez, jacobino. Lembre-se do seu lugar.
não se moveu. A mulher loira o segurou pelo bíceps.
— Vamos, porque não mostra a doutora as partes inundadas?
— Não. Isso não será esquecido. Em janeiro levarei o caso ao governo. Estou farto de ver tamanho descaso com o Castelo, eles precisam ser informados! Estamos sobre uma propriedade histórica...
Não! —a mulher loira interveio.
— O que você anda fazendo com o dinheiro de do governo? Quais outros arquivos estarão preenchidos com relatórios vazios de verificação de segurança e com sua assinatura?
— Você fala tanta bobagem quanto seu pai. Não é à toa que ambos estão destinados a servir a minha casa. Por que você não faz igual ele e me obedece calado? Aqui, esta abotoadora esta frouxa. Aperte-a para mim. — ergueu o pulso no ar.
No ímpeto, acertou um soco na bochecha macilenta de , que perdeu o equilíbrio e caiu sentado no chão.
— Cale-se! Não envolva meu pai nisso! Você não tem o direito...!
— Aceite o que é de uma vez e me obedeça! É um servo! recusou a ajuda de a se levantar e falou ainda sentado no chão. — Você não tem frieza e intelecto para entender a fundo os projetos que regem esse castelo. Nunca terá!
— Você chama de projetos a corrupção que te suja os dedos. Eu não quero me envolver nisso!
— Então abandone seu posto. — provocou, levando os dedos ao lábio inchado — Volte a ser professor em Londres, Berlim ou qualquer outro lugar que te aceite, doutorzinho. Eu não acredito como meu pai gastou dinheiro pagando seus estudos...
— Você não é filho de conde Kaspar! Não merece ser relacionado a ele! — falou entredentes.
A mulher loira dessa vez segurou o marido pelo colarinho até ele a fitar.
— Vamos embora. Mostre a doutora o que precisa ser corrigido. Chega desse teatro.
— Eu não vou embora daqui. Este castelo é parte vital da pesquisa da minha vida. Diferente de você, eu me importo com cada pedra aqui! — gritou para no chão.
— Então comporte-se como um acadêmico. E não volte a tratar desse assunto com tamanha inocência. Não somos mais garotos. — O conde virou o rosto. — Vão, saiam daqui os três. , se puder acompanhar o casal até a ala afetada, conversamos mais tarde.
— Sim. — foi a primeira a sair sem olhar para trás.
Ela já estava na metade do corredor quando ouviu a porta bater e o casal discutir.
— Eu te falei para se acalmar, .
— Você também, Rowena! Sempre cobrindo a sujeira do conde onde quer que ele passe. Falta apenas você abanar o rabo como um cão obediente!
Eles caminhavam rápido. ainda bufava e pareceu perceber só naquela hora.
— Esta é Rowena Reus, . Advogada pessoal da família Eltz.
— Rowena Schöpfer. Ainda não assinamos os papeis do divórcio. — a mulher disse para e depois se virou para . — É ótimo conhecê-la finalmente, doutora. Acompanho seu trabalho diretamente. Conversamos por e-mail.
A mulher, ajeitando seu coque, não parecia ter presenciado uma cena desconfortável a poucos segundos e estendeu a mão firme para . A advogada tinha o semblante altivo, com as orelhas pontudas, o pescoço seco e os pulsos firmes sustentando joias minimalistas. Ela se vestia com esmero e era muito bonita.
— Espero que compreenda que a cena que acabou de ver não foi nada além de um patrão aparando as arestas com seu empregado, certo? — ela disse para , com um tom de voz tão manipulador quanto de pelos lábios com batom vermelho. Eles deviam passar muito tempo juntos. — Meu marido e o conde brigam umas três vezes por estação.
— Eu já disse que nos separamos! — interrompeu.
— Você quer falar sobre esse assunto novamente?
— Não está na hora de você buscar Johannes, hein?
— Ele já está na casa. — A mulher respondeu, abrindo a boca para dizer algo a , mas foi interrompida de novo.
— Você o levou para a Casa?! Eltz?!
— Seu pai queria vê-lo. Altmeyer disse que poderia vigiá-lo.
— Eu acabei de socar a cara do dono da casa e você deixa o nosso filho lá? O que ele vai fazer?
não é um crápula e você poderia se esforçar para compreendê-lo e Altmeyer irá cuidar dele até eu buscar. O conde me fez vir de Daschau para assinar um documento de...
O casal entrou na bolha de discussão intensa e íntima, deixando totalmente alheia aos acontecimentos, ainda mais incomodada pela cena do soco de em um homem com problemas de locomoção. Aquele casal se equilibrava entre uma linha tênue de se abraçar ou gritar um mais alto que o outro. A tensão sexual que emitiam estava deixando mais desconfortável do que era possível.
Pé ante pé ela recuou com a sua valise nas mãos, virando uma esquina e desatando a correr pelo corredor até atravessar o pátio principal, onde alguns membros de sua equipe carregavam objetos e tapetes molhados para fora da ala. Gabrielle, a responsável por tapeçarias, dava ordens a homens vestidos de cinza ocupada demais para ver .
A historiadora completou a distância pela escada de pedra, vendo as manchas de pés molhados surgindo no carpete.
— Pelos meus cálculos, teremos o atraso de aproximadamente três dias se o clima colaborar. — Agnes, a assistente de , surgiu atrás dela, quase matando-a de susto. A moça usava botas de galocha rosa choque. Começou a ler informações em seu ipad com a voz rápida. — O cano foi restaurado pela madrugada, supervisionado pelo curador e por Judy, que chegou ao castelo antes das quatro da manhã. Petyr pede que a madeira danificada da base das vigas tenha o prazo de até um mês para terminar de restaurar, pois anteriormente já estava infestada de cupins.
— Um mês?! Mande-o arrancar cada viga danificada e substituir por uma nova, ou a madeira não irá durar mais um ano nesse clima. — abaixou-se para analisar o piso com as mangas da camisa dobradas. — Não podemos comprometer outras áreas. Quero apenas Petyr e Judy aqui. Gabrielle pode voltar para as tapeçarias e Simon para a restauração metálica das peças do quinto andar Rodendorf.
— Eu só estava dando ordens porque a capitã não estava a bordo. — Gabrielle surgiu ofegante no topo das escadas e desviando de um homem carregando uma cadeira. — Parece que você perdeu a hora, chefinha. A última vez que vi você fazendo isso foi quando acordou na tenda daquele oficial coreano que supervisionava nossa expedição...
— Cale-se. Não é momento de histórias. — rugiu.
— Você nem mesmo se dá o trabalho de parar de se envergonhar. Você não é mais uma virjona, , por favor. — As mulheres se juntaram no centro da sala, enquanto andava abaixada analisando o chão que ainda tinha poças de água acumulada, escondendo sua face ruborizada. — Então, você já beijou o conde? Eu gosto dele. Aquele olhar maléfico que parece que vai te...
— Eu vou demiti-la desse projeto se continuar a me envergonhar, sua grávida depravada. Tenha um pouco de respeito aos ouvidos de Phaedra. — olhou ao redor para os homens de cinza que ouviam a conversa e falou entredentes. — Não é isso que eu faço dormindo na casa dos Eltz, você sabe.
— Eu estou com saudade de terminar o expediente do seu lado. Fofocando e bebendo.
— Irei passar uns dias no hotel em que estão hospedados. Espere, você anda bebendo?
— Claro que não, minha amiga. Aliás, o que aconteceu com você? Onde se feriu?
— Estava analisando uma caverna na floresta quando caí. Não é nada demais.
— Você está realmente péssima. Hoje a noite vamos colocar a conversa em dia, chega de mofar com nobres como se fosse um tapete deles.v olhou vencida para a amiga, que ainda a julgava. Agnes também a olhava assustada.
— Voltem ao trabalho, ok? Ainda teremos muito o que fazer. — disse e sentiu-se cansada.
— Sim senhora, eu já estava indo, madame. Eu sou irresponsável apenas quando exponho detalhes de sua vida pessoal em voz alta. Os tapetes e a naftalina me aguardam. Nos vemos mais tarde. — E Gabrielle se retirou, graciosa com seus sapatos amarelos antiderrapantes e sua barriga grande.
— Pela primeira vez na minha vida eu concordo com Gabrielle sobre o conde Eltz. — disse Agnes por fim. — Ele é muito atraente. Você quer que eu a leve até a área de enfermaria para se limpar?
revirou os olhos para a assistente e começou a avaliar cada canto do cômodo inundado.
— Ei, espere, , você está com a calça rasgada! Acho que vai precisar trocar...

⛦⛦⛦


Por Goethe, homem, você me assustou.
— Você sempre vem para esse lugar quando volta de viagem. É a sua masmorra, não é? Ou um calabouço?
havia acendido a luz e viu sentado em um barril, tomando uma caneca de um líquido que parecia vinho.
— Fiquei sabendo o soco que levou de . Eu já te disse para demiti-lo.
— Preciso dele tanto quanto preciso de um apêndice inchado. — parecia exausto. — Mas não posso demiti-lo.
— Por que não? Ele está aqui metade do ano e vocês brigam como cão e gato.
— Ele não era assim. Tão assim. Piorou depois que você comeu a mulher dele.
— Ah isso. Por favor não fale com tanta vulgaridade. Rowena e eu tivemos algo diferente.
Os irmãos Eltz estavam no subsolo da casa, na adega de teto baixo e soalho de madeira. Barris largos se equilibravam pelas paredes labirínticas, dividindo espaço com teias de aranha e roedores. Os vinhos e licores mais usados ficavam em uma outra área reservada, aquela onde se encontravam era reservatório de bebidas seculares que envelheceram no Castelo e em seguida foram transportadas para a Casa.
serviu o irmão da garrafa verde cujo rótulo era uma tira de pano, numa taça vazia que havia ali. cheirou e fez uma careta.
— Um toscano...?
— 1889. Figlia Del Re.
— Não é isso que eu estava planejando beber depois de um dia terrível.
— Ora, vamos...
Os irmãos brindaram e beberam o vinho que tinha o cheiro parecido com vinagre. bebeu tudo de uma vez e continuou com o rosto contorcido pela careta.
— Isto está péssimo. Vou vomitar meu estômago...
— Você sempre reclama de tudo.
— Está tão ácido que cuspirei verde amanhã, .
Ficaram um tempo em silêncio. , sentado no barril, mexia a taça para o vinho arejar. o observava de canto de olho. Sua caneca branca estava escrito: “#1 Playboy Driver”, um antigo presente de .
— Como estava Nova Deli?
— Como sempre. Cury, calor...
— Não foi isso que quis dizer.
— Por que o interesse? Você nunca acreditou em mim ou nos pesquisadores que patrocino. Se me lembro bem... — encarou o irmão, com suas olheiras grandes em destaque na única luz que pendia por um fio mal encapado do teto. — No meu trajeto até o aeroporto você foi muito eloquente em me dizer como eu estava perdendo tempo e dinheiro mais uma vez nisso. Gastando dinheiro do governo...
— Para começar, você não tinha abandonado essa ideia uns anos atrás? O que fez você resgatá-la agora?
desviou o olhar e se endireitou sobre o barril. Sua perna atrofiada pendia sem se mover.
— Sonhos outra vez, é por isso que perguntei. — disse, por fim, vendo que o silêncio do irmão poderia se estender por horas. — Ando sonhando com a mesma mulher e dessa vez eu a chamei por um nome, foi a primeira vez que me lembrei do que eu disse num sonho. Por isso perguntei.
— Qual era?
. — disse e o olhou assustado. — Esse nome te traz alguma lembrança?
— Como a mulher era, ? Era como uma pirata? Ou a mulher com o broche e a arma?
— Há anos não sonho com a mulher pirata ou... — viu diante de seus olhos o semblante libertino de no seu sonho da noite passada. — Foi diferente. E muito real.
, temos em mão uma evidência preciosa para a pesquisa... Se você pelo menos concordasse em ceder mais informações para o projeto, passar a preencher os relatórios de sonhos dos cientistas, teríamos um avanço...
— Não tem como concluir nada com base no que sonho, , até quando preciso te dizer isso? É só criatividade demais, ideias... Nada é de verdade.
— A bíblia foi escrita com base em relatos e criatividade, porque o projeto Des roten Faden seria diferente?
— Eu não acredito que você colocou um nome nessa maluquice. — fechou os olhos longamente.
— Esse projeto representa um grande avanço para a ciência. Pensa nos relatos históricos que são transportados em nosso DNA ao longo das gerações... Carregamos tanta coisa, fobias... imagens... e a recriação de nossos antepassados não seria diferente. — estava extasiado.
— Meus sonhos não têm nada a ver com isso. Você deve parar de acreditar em esoterismo e gastar dinheiro com charlatões que falam o que você quer ouvir.
olhou desolado para o irmão. há anos não via tanta dor nos olhos do irmão.
... você se irrita quando falamos nisso. Isso é uma prova de que você acredita... pelo menos lá no fundo. Se não se importasse... não ficaria assim.
— Eu me incomodo com você acreditando em tudo o que te falam, meu irmão. Você sempre foi assim. Fascinado por histórias de cavaleiros e cruzadas... Bispos e bruxas... É por isso. — , pela primeira vez em muito tempo, soou como o irmão mais velho que era. — Você precisa voltar a por os pés no chão em vez de se iludir com tudo isso. Além do mais, eu não sou o objeto de seu estudo paranormal mascarado de ciência. Meu distúrbio do sono já está sendo tratado com meus psiquiatras. Estou tomando remédios.
— Que remédios?
— Não te interessa no momento. São remédios para dormir.
— Você sonha quando bebe o remédio?
contemplou a parede a sua frente, cheia de garrafas até o teto.
— Não. — Disse após um tempo. — Eu não sonho. É par aisso que os remédios funcionam, , para você dormir. Não precisa sonhar. Nem se lembrar.
desenhou um sorriso fechado.
— Você não bebe os remédios na lua nova, não é? Assuma para si mesmo que gosta de sonhar.
— Não! Não gosto. Eu fico péssimo com meus pesadelos e há momentos em que não sei o que é ou não é real. — Ele encarou o irmão.
— Então me conte o que achou que foi real. Me conte sobre a mulher. Sobre .
brilhava os olhos como quando era criança e os dois irmãos se reuniam debaixo das cobertas no meio da madrugada para compartilhar as viagens astrais de seus sonhos. começou a descrever suas lembranças de uma em uma cama larga usando uma coroa, evitando os detalhes óbvios:
— A mulher era bonita, mas tinha muitos ferimentos no corpo. Seus pés eram feridos e ela tinha um corte no peito. Eu não podia ver, mas ela tinha uma sombra no olho esquerdo. Mas nada nela me impedia de amá-la. Eu sentia muito feliz no sonho... e era dono de uma coroa.
abriu o sorriso com a boca seca ao fim do relato do irmão.
— E o sonho no navio?
— Não sonho mais com piratas.
— Qual foi a última vez que sonhou com a mulher que comandava o navio? Acha que ela e essa tenham algo em comum? Talvez a espiã do broche?
pensou em dizer que se quisesse sonhar com piratas precisava apenas ver o mar, mas ficou calado.
— Há muito tempo.
— Você acha que isso é acaso? Que é acaso que nascemos aqui? — abriu as mãos. — Nessa casa, em Wieschem...
serviu mais vinho e ficou mais tempo em silêncio.
— E se nossas almas forem unidas pelo fio vermelho do destino como acreditavam os japoneses ou nosso DNA por uma fita de informações genéticas que nos leve a estar onde estamos? O que nós somos diante disso? O que será que nossos antepassados fizeram para estar onde estamos hoje? E que força motiva a nossa intuição ao escolher certos caminhos que nos levaram para o futuro? — ainda com a cabeça escorada na parede, contemplava o fio de luz bruxuleante e bebeu mais do vinho, sem fazer careta dessa vez. Um ar filosófico inquiridor pairava ao seu redor. — Você já sonhou com ?
— Claro que não. — respondeu rápido.
— Nem eu. Mas não acharia ruim que ela estivesse em meus sonhos mais secretos. Pode ser que a mulher que vejo seja ela. As mulheres que aparecem para mim são parecidas, mas essa não. A mulher sem cabeça, com um vulto escuro na cabeça. Sempre quando me viro para vê-la nos olhos, vejo um vulto escuro e a chamo de Melpomene. A musa da tragédia... — os olhos de divagavam pelos barris de vinho e cerveja. — Algo em me faz sentir raiva. No fundo do meu peito. Quando a vi pessoalmente, meu coração bateu tão forte que precisei me medicar. Quando conversávamos, eu me sentia atraído por ela. Quando estamos longe, sinto raiva.
não dizia nada, mas ouvia cada palavra do irmão com muita atenção.
— Seus sonhos continuam em primeira pessoa? — insistiu.
— Sempre são.
—Temos a mesma base genética, eu e você. Se sonhamos as memórias de nossos antepassados, o que garante que você esteja sonhando algo que tenha sido seu descendente direto? O que prova que pode ser você?
— Não era eu, Leo. Nada disso é real, você está exagerando. Beba mais e pare de falar tanta asneira.
, seus sonhos podem ser eu. Nosso DNA é relacionado. Cada membro da família...
— E as almas? Você não acredita nelas também? Como pode ser sua alma dentro da minha? E aquele guru que trouxe aqui um dia e ele lhe disse para evitar tomar chá de canela? Ele dizia que você tinha sido um padre em uma encarnação...
— Agora você acredita em almas.
— Ah, Deus. Eu sempre fico confuso conversando sobre isso com você. Por favor, na próxima espere eu me embriagar. — virou o copo de uma vez e foi sua vez de fazer careta. Serviu mais a , que também virou.
O silêncio pairou como o gosto amargo do vinho antigo na boca dos irmãos. se sentia desconfortável conversando sobre a obsessão do irmão em correlacionar a história da família Eltz com os sonhos de seus membros. No fundo, ele tinha medo que estivesse certo.
— Pode ser que eu tenha amado a mulher no seu lugar. E era eu quem estava feliz com a coroa nas mãos. — disse, com a voz ainda mais rouca, ligeiramente sombrio. — Talvez você pode ser o agente causador de tudo o que vejo quando sonho, e não eu. E talvez... seja .
Os irmãos se encararam. ficou desconfortável. Imaginar e juntos lhe despertou uma sensação ruim.
— Seja como for, não vou interromper o programa de pesquisa. Estamos tendo avanços, mas não posso traze-los à tona ainda. Pense sobre a contribuição que poderia fazer ao relatar seus sonhos com sinceridade aos cientistas. Pode ser que você me ajude em algo mais uma vez.
se ergueu, equilibrando o peso com a bengala.
optou por dormir na cidade esta noite. Até o fim da semana. O que você fez para espantá-la daqui?
— Eu não fiz nada demais. Não que eu não quisesse.
Hum olhou o irmão com desconfiança. — Vocês pareciam bem íntimos hoje cedo.
— Você andou indo ao Mausoléu antes de viajar? — indagou, como se tivesse pronunciado a letra maiúscula na palavra.
— Meu irmão, você está muito burro nas suas férias. Deveria sair mais, parece que está perdendo a noção da realidade, assim como a noção de estilo — apontou com o indicador para a calça rasgada de e camiseta branca. — E você sabe muito bem que não consigo ir até lá. Quem dirá andando. — pareceu ofendido. — Eu vou para meu quarto.
Apenas o barulho da bengala de conde se afastando na madeira da adega ecoou até ele chegar ao fim do corredor e fechar a porta com estrondo. Lá dentro, olhou para uma garrafa de licor envelhecido e outra de whisky empoeirada.
— Hey, , tudo bem se seu der uma festinha no castelo? — teve a ideia, olhando para todas as garrafas de whisky envelhecido.
— Só não destrua nada. — ouviu o irmão dizer, já distante.


Capítulo 15

ᚺᚨᛖᚷᛟᛚᚨᛖ᛫ᚺᚨᛖᚷᛟᛚᚨᛖ᛫ᚺᚨᛖᚷᛟᛚᚨᛖ᛫ᚹᛇᚢ᛫ᛒᛁ᛫ᚷᛟᛖ
ᚷᚨᛖᚷᛟᚷᚨᛖ᛫ᚷᚨᛖᚷᛟᚷᚨᛖ᛫ᚷᚨᛖᚷᛟᚷᚨᛖ᛫ᚷᛁᚾᚢ᛫ᚷᚨᚺᛖᛚᛇᚨ
ᚺᚨᚢᚷᛖᚾ᛫ᛗᚨᚢᚾᛖᚾ
ᛟᚲᚨᛚᚠᚨᛞᚺᛁᚱ᛫ᚺᛇᛏᛁᚱ


Heilung - Alfadhirhaiti

Hail, Hail, Hail I dedicate to the spear,
Gagaga, Gagaga, Gagaga I yell resoundingly
Thought, Memory,
And he's called Allfather


1194

tomou uma decisão e tudo ficou claro em sua mente.
Antes de qualquer ação, precisaria encontrar . Seu peito, naquele momento, doía mais do que doeu há dias quando foi surpreso na floresta e apanhou até perder a consciência. A dor de seu luto era ferrenha e por isso, ele a decantou na água do rio Moselle como se ela fosse um veneno na sua superfície da pele.
Horas antes de seus pensamentos chegarem a uma conclusão, quando e ele discutiram, ele caminhou pelo rio até se afastar da cabana e dos irmãos Schöpfer. Além de suas vestes encharcadas, carregava apenas a adaga da mulher, feita de ferro batido e com um bolo de panos esfarrapados como punho. A lâmina escura pelo tempo tinha equilíbrio e resiliência e fez desejar que tivesse conhecido em um outro tempo, onde ele poderia até mesmo desposá-la e tê-la por perto.
Vou dar a ela uma arma que se preze. Pensou, mal conseguindo enxergar a lâmina por conta da escuridão que já encontrava o céu. Sabia que se tivesse pensado em dar uma espada pequena para uma donzela anos trás, estaria fora de sua consciência. Contudo, não era nenhuma donzela e os tempos eram outros.
Voltando pelo caminho que fez, ele ouviu de longe um coro de vozes cantando. Além do coaxar de sapos e demais ruídos da floresta, aquele era o único som que os ouvidos do homem puderam discernir. Ele ficou curioso, como a música sempre o deixava, e seguiu na direção em que as vozes ficavam mais perto, hipnotizado.
Em uma clareira larga numa elevação aos pés da colina mais próxima do rio, uma claridade denunciava o local das vozes e tambor. Em silêncio, se ocultou em um arbusto, de onde pode ver o que se desenrolava.
Ao lado de uma tocha fincada no chão, segurava pedras nas mãos. Não estava vestida com suas roupas comuns, mas sim com um traje qual ela só usava quando fazia aquele tipo de cerimônia. A solenidade da ocasião parecia também lhe exigir flores no cabelo e assim como desenhos feitos de tinta preta enfeitavam seus braços e seu busto. , do seu lado, estava com o peito coberto com os mesmos símbolos da irmã e os cabelos ornamentados com uma coroa de galhos, tocava um tambor leve e circular de couro pardo*.
Os arrepios em sua espinha avisavam que ele se aproximava de algo que nunca havia visto antes, algo tão antigo quanto místico que devia ser respeitado. E pela ansiedade no seu peito, ele também sentia que aquilo era sagrado. Os odores, os trajes e a cena traduziam um momento de distanciamento da vida cotidiana daquele pedaço da floresta de Wieschem e totalmente alheio as tradições cristãs.
A lua se escondia nas nuvens e sua luz entrecortada tingiu de prata o topo da colina, acima da copa das árvores. Dali de cima era possível ver o rio Moselle e o vicinal para Wieschem, mas nada mais se via além da cabana de ao longe ou mais além do cobertor verde da floresta.
levou uma das pedras pequenas que segurava para os lábios e a soprou, para em seguida depositar sobre o montículo a sua frente que tinha o tamanho exato de um corpo coberto de pedras. Dos seus lábios secos pelo vento, a mulher começou a entoar uma prece baixa. , após terminar um canto, desenhou runas no chão em volta das pedras. conhecia aquela língua, mas não a ouvia há muito tempo.
 Aquilo que está sobre a terra pertence a ela, nasce para fecundar e morre para florescer.  cantou e começou a andar em volta do cadáver. Estava no idioma antigo e só compreendeu algumas palavras.
— Penas do corvo que voa, a memória esvoaça. Lombo do auroque que ruge, a força encontra. Cobra em círculo, o sangue que renasce. Lobo veloz, o sopro leva.  fechou os olhos e sua voz elevou-se aos poucos até que seu corpo começasse a se mover pela música do fundo de sua garganta e as notas fortes que vibravam no couro do tambor de . Os dois irmãos repetiram o canto e a ciranda em volta do corpo.
sentiu cada pedaço de seu corpo contemplar a cerimônia. Seus olhos não desgrudaram da figura diáfana de valsando e cantando com seus trajes translúcidos ondulando como se estivessem pairando no ar. O homem considerava-se grande conhecedor do passado, mas compreendeu naquele instante que nunca havia presenciado uma beleza tão natural como se fosse parte da paisagem e tão sedutora como nada mais ele havia visto. Suas lágrimas de emoção surgiram sozinhas.
A música não precisava mais do que os sons emitidos pelos dois irmãos para subir para o céu, encher o espaço da clareira e guiar os pés descalços dos dois. não soube por quanto tempo ficou à espreita, porque pareceu durar muito rápido. Quando cessaram, alguns rugidos no céu e raios de luz surgiram entre as nuvens, anunciando que uma possível tempestade chegaria em alguns instantes. encerrou o canto e apagou as tochas com terra, enquanto seu irmão tirou a coroa de galhos e pronunciou mais algumas frases para o monte de pedras do cadáver.
Quando o homem saiu, ficou mais alguns segundos ali. O calor da tocha se esvaía aos poucos e a única coisa que iluminava o local era a lua tampada pelas nuvens.
— Vocês fizeram o que não fui capaz de fazer. — permaneceu onde estava enquanto se aproximava, agora sentindo tremores por conta do frio de suas vestes molhadas. — Nada posso fazer se não os agradecer outra vez.
— Ele está em paz. — ela respondeu.
— Morreu como um verdadeiro guerreiro que se preparava para ser. Permaneceu fiel a mim mesmo quando já estava olhando para a morte.
Homem e mulher se encararam. Por trás da cor escura da tinta ao redor de seus olhos, ainda transmitia sentimento.
— Você é isso o que vejo, não é? Agora não tenho mais dúvidas. — disse .
— Nunca fui uma mulher da cruz. Nunca serei. Minha alma pertence a essa floresta. Aqui, eu posso ser o animal que habita no meu peito.
— Me perdoe por minha estupidez. Ver o garoto morrer me deixou... — olhou para o céu. O vento com dançou seus cabelos dourados que cobriam sua nuca. — Você estava certa ao dizer que todos vamos voltar para a terra. Somos pó esperando para ser soprado.
— Você irá conquistar sua coroa e seu castelo, mas terá força o suficiente para arcar com os preços disso? — disse.
ficou calado e se virou para voltar o caminho por onde veio. o acompanhou alguns passos atrás.
— Eu não sei, mas não vou mais envolvê-la nisso. A minha hora chegou.
Caminharam por alguns momentos em que o único barulho que havia eram as folhas do chão sendo arrastadas pela barra do vestido de .
— Não vá agora. Ainda não é a hora. — foi o que ela disse em algum momento.
— Para tomar o que é meu, amanhã eu parto sozinho. Essa é a verdade. — se virou, com os olhos ainda brilhantes de lágrimas. Ele evitava olhar para o corpo de brilhando pelo luar turvo. Ainda que estivesse escuro, a penumbra os identificava — Não quero que o próximo enterro que eu veja seja o seu ou de seu irmão. Mas assim será se continuar a cuidar de mim, por isso não vou envolver você no labirinto que me encontro. Você já me curou, estou forte e vivo graças a sua bondade. Já basta.
ficou em silêncio e se esforçou para identificar o olhar que ela lhe lançava. Um olhar lânguido e quase tão encantador quanto mágico, assim como a aura que ela emanava desde o ritual, ainda não havia saindo dele. O homem sentia-se cada hora mais inclinado a se aproximar dela.
, meu senhor, é tarde demais.
Ela, com as mãos pintadas de tons de preto e marrom mesclando com o fundo escuro entre as duas bétulas que se encontravam, segurou o homem pelo braço. Ele, enfeitiçado pelo corpo de revelando-se cada vez mais próximo e separado dele por um fio lençol transparente, cedeu. assim o puxou pelo braço até poder espalmar as mãos no peito rijo dele, enfiou os dedos por baixo da camisa úmida e tocou a carne quente. sentiu-se como se tivesse enfiado as mãos em seus músculos e segurava seu coração.
— Não é tarde... Se me seguir amanhã, você vai morrer. E se for para morrer, quero fazer isso sozinho. — já sussurrava, olhando para os lábios da mulher que se inclinava para ele. Os olhos dela brilhavam na escuridão como duas labaredas escuras.
— Eu não tenho medo da morte. — Ela sussurrou e segurou a cabeça dele com as duas mãos, sujando as bochechas e o pescoço dele com a tinta preta.— Nem do bispo, nem da cruz. Eu sou mais forte que todos eles... e posso te ajudar a ficar tão forte quanto. Ainda mais.
— Não quero perdê-la... Eu a desejo. sussurrou de olhos fechados, envolvido no transe que as carícias das mãos de agora faziam pela extensão do seu peito e a boca dela beijando-o no queixo. — Eu a quero tão profundamente que sinto que não sou capaz de suportar.
— Eu sou sua. Já pertencia a você desde quando o encontrei.— ela disse. — Mas você precisa ser forte. Me possuir pode exigir coisas de você.
— Posso ser o que espera. E mais.
segurou a mulher pela cintura, abraçando-a com a força que ainda tinha nos músculos do peito. deixava-se ser tocada com a idolatria de toques desesperados de um homem ensandecido por cada pedaço de carne do corpo feminino. Meses de privação do gozo compartilhado fazia o chão do estômago dele tremer e seus pensamentos se tornarem uma corda retesada esperando para lançar uma flecha de deleite. Cada pedaço do corpo da mulher era tocado, beijado e endeusado.
Os desenhos do corpo de foram transferidos para a pele úmida do dos braços, peito e das pernas de assim que as vestes dos dois foi para o chão. Em um beijo harmonioso, suas línguas tinham gosto da terra e da tinta que ainda estava sobre a pele da mulher somados ao sal das lágrimas nas bochechas do homem. Uma a uma, as flores do cabelo dela caíram no chão conforme ele enfiava seus dedos nas mechas e as puxava conforme o gozo se aproximava. Os aromas se misturaram com o cheiro das primeiras gotas de chuva que umedeciam a terra e respingavam sobre os dois.
Em um momento, segurou o rosto de pelo queixo para que ele a pudesse olhá-la no escuro.
— E você, meu senhor, me pertence, você me encontrou na floresta duas vezes e despertou em mim o que dormia há muito tempo. Agora já é tarde demais para fugir.
Sôfrego demais pelo desejo, nem mesmo se lembraria que havia lhe dito essa frase e tão logo a curvou sobre o próprio vestido estendido no chão, cobriu-a com seu corpo nu. A mulher diferenciava-se de qualquer outra mulher que ele já tivesse entre suas pernas, era altiva e sagaz, movendo-se para seu próprio prazer e guiando as mãos de para onde ela queria. Ela estendia-se para ele com graça e um desejo profundo de tê-lo dentro de si, manifestado por seus sussurros e suas unhas fortes que não tinham receio ao apertar avidamente os músculos nas costas dele.
Enquanto amava a mulher, perdeu o peso da corda que amarrava sua consciência e se libertou como um falcão abrindo suas asas. Foi assim que se viu ao erguer o torso e fechar os olhos em uma última estocada voraz naquele momento. Quando estava perto de seu gozo, levou a mão para o pescoço de e a apertou. Quando viu os olhos dela brilharem em sua direção, ele ouviu um corvo grasnar em algum lugar. Assim finalizou.
Ainda embriagado de prazer, cedeu o peso e deitou sobre a barriga de tentando recuperar seu fôlego.
— Precisamos voltar.
— Me dê... — suspirou. — Alguns segundos...
— Você está sangrando sobre mim. Seu ferimento abriu novamente. — disse, tateando a barriga de .
Ele ainda não sentia dor e não se moveu.
— Sei que você se sente um pouco fraco, mas volte comigo para a cabana para refazer o curativo. — acariciava os cabelos de com a outra mão.
— Não é necessário, consigo...
— Por favor, não discuta comigo. Você sabe que estou certa.
Após alguns segundos o homem se levantou um pouco vertiginoso e após se vestirem, voltaram para a cabana. brincava com os cabelos de no caminho e a segurava pela mão ou a abraçava, ainda que estivesse tonto.

   
⛦⛦⛦    


A água da chuva havia limpado todo o barro e tinta escura quando o casal chegou a cabana tremendo de frio. e Johannes já dormiam com o fogareiro crepitando e não despertaram quando os dois se secaram. contemplou dormindo em vestes limpas e não se parecia nem um pouco com o homem que vira tocando o tambor.
O casal estava exausto e não conversaram mais enquanto passavam por mais dos rituais que os dois já estavam familiarizados. Dessa vez aguentou a dor da sutura em silêncio e tudo o que disse ao final foi:
— Durma ao meu lado nesta noite.
Ela assentiu, com os olhos cansados e um sorriso satisfeito (pelo curativo bem feito ou pela oferta de ?). E assim fizeram quando a lua estava no centro do céu. adormeceu por alguns instantes com o corpo de do seu lado, ouvindo-a respirar suavemente.

 
 ⛦⛦⛦    


Aquela tranquilidade não durou muito e despertou antes de todos. Durante o tecido da noite no céu ele pensou sobre tudo o que iria fazer para recuperar o poder de Wieschem: começaria indo a cidade vestido de viajante e espalharia boatos sobre a volta do grande conde Rodolphus Eltz, em seguida ele mesmo localizaria seu companheiro de armas e imediato Wolknand e se armaria. Se tivesse sorte, se infiltraria no castelo e falaria com o bispo pessoalmente.
Ele beijou a boca de enquanto ela dormia e a contemplou. Promessas passaram em sua cabeça e ele não queria parar de observá-la. Seu coração encontrava esperança ao contemplar o semblante adormecido da mulher e desde que a amou na noite anterior, sentia algo diferente em si mesmo.
Com silêncio e calma, ele saiu da cabana e caminhou a esmo. O ferimento doía pouco e não o impedia de andar. Passeou pela plantação de trigo e acariciou algumas ovelhas no cercado atrás da cabana. Quando o céu se preparava para receber o sol, caminhou até o túmulo do garoto Hohenstaufen, como se referia ao neto de Barbarossa. Fez uma prece silenciosa para seu Deus e para qualquer outro que pudesse ouvi-lo ou aceitasse suas condições.
— Se a coroa for minha mais uma vez, prometo fazer de Wieschem um lugar próspero. Prometo cuidar dos viajantes e dos artistas, de todo coração verdadeiro e forte e daqueles que buscam por abrigo. — segurou um monte de barro nas mãos. — Prometo que todo Eltz irá cuidar desta terra e nunca mais abandoná-la, pois ela pertencerá a nós e ninguém poderá tomá-la novamente.
E com a mão suja, tocou seu próprio rosto. Permaneceu de joelhos no chão até o barro secar nos seus dedos. O sol estava se erguendo quando ele voltou para a cabana.

⛦⛦⛦


Tudo estava silencioso e isso preocupou assim que ele passou pela oliveira na porta da propriedade. Os cavalos não faziam barulho, as ovelhas estavam silenciosas e a porta da casa aberta. Ele chamou por e os moradores, mas ninguém respondeu. Sentido medo, correu até a casa e o que esperava, tinha acontecido.
Uma mancha de sangue estava sobre a manta onde dormiu. Sangue pelo soalho de madeira e sobre a mesa. Parapeito da janela, soleira da porta, por uma trilha de respingos pela plantação de trigo. saiu da casa e gritou a plenos pulmões, mas ninguém o respondeu. Ele correu pelo rastro de carroça próximo ao estábulo, junto a várias marcas de cavalo.
De onde estava, viu que o estábulo não tinha cavalos e a carroça de Adalfarus havia desaparecido. Seguindo mais a frente, encontrou um corpo.
.... caiu de joelhos ao lado do corpo de . O homem estava com o rosto desfigurado e as vestes rasgadas, parte de seu braço esquerdo esmagado, mas ainda respirava.
— Senhor... ainda bem que não estava aqui... — disse pelos lábios ensanguentados e inchados.
— Vou cuidar de você, homem, vou...
— Eles a levaram... Levaram ... Ela se recusou...
— Levaram-na viva?
O único olho aberto de se fechou em lágrimas e sangue e ele começou a chorar copiosamente, tremendo o corpo ferido.
— Eles a levaram viva... eles irão machucá-la até que diga a verdade... Mas ela não vai dizer.
— Dizer o quê?
— Que você está vivo.
segurou o rosto de para fazê-lo parar de tremer.
— Ela não irá morrer. Vou alcançá-los, mas antes preciso te ajudar. Onde está Johannes?
ainda chorava e não respondeu. o deixou ali e voltou para a cabana, procurando vestígios do garoto.
No silêncio tenso da pequena casa, ele ouviu algo vindo do soalho de madeira, uma respiração fraca.
— Johannes? Sou eu! ! Está seguro agora! Saia de onde está! Me diga que está aqui! — disse, olhando na direção da parede.
Uma tabua do chão se ergueu e Johannes surgiu de um buraco minúsculo. Estava com os braços arranhados e marcados pelo espaço minúsculo que se espremeu. Ele chorava tanto que tinha os olhos inchados e ranho no rosto. Correu para abraçar .
— Levaram-na, , levaram tia ... — soluçou, enquanto tentava aclamar o menino.
— Me conte...
— Tia sabia que algo não estava certo, a cicatriz dela estava doendo... ela me escondeu aqui e eu não vi nada... ela pediu para eu ficar calado... depois só ouvi os homens brigando com ela... o que vão fazer com ela, ?
— Acalme-se, eu preciso que você me conte com todos os detalhes que se lembra. Seu pai está vivo e vamos cuidar dele.
— Eles a chamaram de bruxa e que ela ia ser morta, mas a tia ficou calada, ela não disse nada para eles. Eu ouvi coisas quebrando, ...
abraçou o garoto mais uma vez.
— Tudo bem, está tudo bem agora. Você precisa confiar em mim, Johannes, porque agora é meu único aliado.
— O que vai acontecer com ela? Esses homens vão matá-la...
— Não vão, eu irei salvá-la. Mas antes precisamos cuidar do seu pai, ele está muito ferido. Eu não sei curar feridos, mas posso...
— Existe o druida na taverna e o povo da floresta, eles podem ajudar.
— Quem?
— O homem que abençoou a terra para o trigo crescer. Ele pode ajudar meu pai... e você. E o povo da floresta dá a tia o que ela precisa para curar... você precisar mostrar que é fiel e não uma ameaça.
— Mas, garoto... como isso é possível?
— Eles se escondem, só quem segue os deuses como tia é que sabe acha-los. Ela me ensinou, sei o caminho. — O garoto esfregou o rosto com as mãos, como se estivesse limpando o choro de vez e criando coragem. — Eles gostam de mim e podem ver se você é mau pelo seu cheiro e perguntando aos deuses.
encarou o menino que ainda tremia, mas tinha no olhar uma determinação adulta.
— Pode ser perigoso. Não sei se existem guardas vigiando aqui.
— Tia precisa de ajuda e confia no povo da floresta, no druida da taverna e no cigano Kivre... eu vou atrás deles.
— Então vá, mas vá por dentro da floresta, rapazinho. Leve isso. — entregou o punhal de para o garoto. — E se precisar matar um homem, não hesite. Diga ao povo da floresta que estou disposto a fazer tudo para que curem e me ajudem a salvar .
— Os deuses estarão ao nosso lado, . — Johannes disse com determinação e apertou o punhal contra o peito.
— Se for bravo e corajoso o suficiente para essa tarefa, vou nomeá-lo um dos meus cavaleiros quando voltar.
— Sim, senhor.
carregou o corpo inerte de para dentro da casa enquanto acompanhava com os olhos Johannes se sujar de terra para entrar na floresta como um lince.
Desde que desceu da colina onde Philip Hohenstaufen estava sepultado nas pedras, sentiu algo acordar dentro dele, uma força ou uma determinação que o havia abandonado nos últimos meses e que agora, fluía por seu corpo como ferro líquido diluído em seu sangue.
— Eles irão matá-la... — suspirou.
— Não vão. É a mim que querem. O preço está sobre minha cabeça. — disse, começando a limpar o sangue do rosto de . — Não vão cessar de me procurar....
— Vão queimá-la como fazem na Normandia e no sul... — fitou pelo seu único olho aberto. — Você precisa se entregar antes que ela...
não terminou, mas a resposta ecoou na cabeça de .
Antes que bispo Expedit a mate. Antes que meu irmão a mate. 


Capítulo 16

I set my sights on you
And I, I've got to have my way now, baby
All I know is that to me
You look like you're havin' fun
Open up your lovin' arms
Watch out, here I come
You spin me right round, baby
Right round like a record, baby
Right round round round


Bem, eu... Eu fixo meu olhar em você
E eu, eu tenho que fazer do meu jeito agora, querida
Tudo que eu sei é que, para mim
Você parece estar se divertindo
Abra seus braços do amor
Tome cuidado, aqui vou eu

Você me faz girar, querida
Girar como um disco, querida
Dando voltas e voltas

Dead or Alive- You spin me round


2018

— Hoje é dia de restauração da área exterior românica, ela deve estar ouvindo post-punk inglês.
Você sabe... Cabaret Voltaire, Talking Heads...
— Não sou muito envolvido com punk...
— Amanhã ela irá pintar um quarto na ala Rubernach e para restaurações entre o século XVI e XVII prefere ouvir Röyksopp. Thresh metal para o século XVIII e rock progressivo para o século XI. Uma vez a peguei ouvindo Verdi para reconstrução de estruturas de gesso. Ela afirma que tem um gosto de música variado e prefere ouvir tudo em seu discman.
olhava para a figura de pendurada em um andaime a muitos metros do chão mexendo a cabeça no ritmo da música em seus fones de ouvido enquanto lixava o parapeito de uma janela na área Kempenich. Do chão, a jovem Agnes anotava algo em sua prancheta inseparável.
— Se você não tiver mais nenhuma pergunta, preciso voltar...
— Na verdade tenho sim, senhorita — sorriu para a jovem, que o encarou desconfiada. — Quero saber mais algumas coisas sobre sua chefe...
— Sinto muito, senhor Eltz, mas se tiver mais alguma dúvida pessoal sobre doutora poderá se endereçar diretamente a ela.
— Não é nada demais, eu apenas gostaria de saber uma bebida...
— Acho que fui clara. Passar bem. — disse a moça com um último olhar sério e dando as costas para .
O Eltz olhou intrigado para a garota e sua arrogância fiel como a de um cachorro e outra vez para no alto. Por um momento ele se lembrou que aquela não era primeira vez que ele se sentiu atraído por uma mulher suspensa por cordas.

⛦⛦⛦


No décimo segundo dia de restauração do Castelo Eltz, encarava os resultados positivamente. O estouro do cano na ala Kempenich não foi suficiente para desanimar sua equipe ou atrasar seu cronograma de modo irrecuperável. Após alguns dias para se livrar de toda água acumulada nos vincos de madeira dos rodapés ou nos tapetes, conseguiram voltar a tratar as partes mais deterioradas do castelo que se concentravam principalmente nas alas Rodendorf e Kemperich.
No entra e sai de quartos, aposentos comuns e alçapões, o mais complicado era enumerar os objetos de decoração – alguns sem nenhuma previsão de como chegaram ali ou de sua data de fabricação. Os Eltz cuidavam bem do castelo, mas a bagunça histórica de artefatos que poderiam ter mais de 800 anos precisava de tempo e análise para se encontrar.
A restauração era separada por partes estruturais e arquitetônicas, objetos históricos por porte e obras de arte. Ao todo, os profissionais envolvidos no projeto tinham diversas patentes e especializações.
A fim de controlar tudo o que era feito, fazia reuniões diárias com o que chamava de “tripulação”: seus profissionais de maior confiança e responsáveis por determinadas áreas. Naquele dia, Petyr reclamava de algo sobre cupins, Simon fingia atenção ao ouvir o sermão sobre advertências por fumar em locais fechados, Gabrielle chegava atrasada e culpava os hormônios enquanto Judy tirava as farpas dos dedos. A pequena sala de reunião da equipe era reservada no primeiro andar do castelo, próxima ao escritório do curador era pequena para caber todos os presentes, as várias canecas de café e mesas atabalhoadas de cópias e desenhos.
— Fomos convidados pelos Eltz para um jantar hoje na cafeteria.
Ouve um assobio de aprovação de Simon, o resto da equipe foi se aproximando de .
— Recebi um e-mail hoje pela manhã do próprio conde dizendo que reservou alguns galões de cerveja feitos artesanalmente em um de seus conglomerados do ramo. — ela mal podia se fazer ouvida com Petyr conversando extasiado com Judy sobre apostas de bebida. — Além de algumas garrafas...
— De água. Não é? — Gabrielle interveio.
— De outras bebidas de sua coleção particular... Contudo foi enfática e fuzilou os homens que começaram a imitar uma dança embriagada no meio da sala — amanhã teremos o expediente normal, começando mais tarde a partir... — houveram sons de desaprovação — das onze da manhã. Lembrando que este é um convite fora do horário de trabalho e vocês tem o direito de recusar, mas devemos estar presentes como uma forma respeitosa de agradecer pela bondade do conde. Vamos procurar não exagerar para não comprometer o nosso rendimento amanhã... etc, etc... — massageou o cenho cansado.
— Relaxe um pouco, — Disse Petyr.
— É, mesmo, doutora, confie em nós. Não vamos envergonhá-la na frente dos pomposos Eltz. — Judy acrescentou. — Quero dizer, somos a melhor equipe de restauração histórica do mundo, merecemos esse momento!
— Eu confio em vocês e é justo. Vocês trabalharam duro depois da “enchente” da área Kempenich, o que ocorre é...
— Relaxe, não é como se já não tivéssemos um happy hour em Bruxelas. Quem lembra daquele castelo perto da capital? — Gabrielle riu — Simon acordou no estábulo, Petyr parou no hospital por começar uma briga com uma estátua...
— Não era uma estátua...
— Não era um estábulo, Gabrielle, sua fofoqueira inconveniente! — Simon franziu o cenho.
Os três começaram a discutir em voz alta e fechou os olhos longamente.
— Por favor... — começou.
— Hey, chefinha, os funcionários da casa vão vir? — Simon perguntou, se aproximando de . Seus cabelos cor de palha brilharam na luz amarelada, usava uma camiseta manchada de tinta escrita “Gypsy King”. — Aquele mordomo que veio uma vez trazer sua mala da casa Eltz...
Judy e Pety riram e começaram a cirandar envolta de Simon entoando:
— Eu não me importaria de vê-lo de novo. — Simon completou, rindo.
— Você não presta. — Gabrielle cruzou os braços, fuzilando Simon com os olhos.
— Doutor Schöpfer poderia vir. Não achei ruim ficar ao lado dele secando o chão naquele dia. — Judy disse, parando a ciranda. Uma mulher de 1,82m usando um uniforme de mecânico se fazia ouvir facilmente na sala.
— Ei, acalmem-se todos, sim?! Não sei quem vai vir! É apenas um jantar! — soou impaciente e xingou em francês. Conter o ânimo de historiadores e artistas plásticos perante o convite de bebida de graça após dias de trabalho pesado era ardiloso. — E ainda não temos nada para comemorar, o atraso que o encanamento causou ainda será sentido nos próximos dias mesmo que aumentemos a jornada para mais uma hora por dia. Recebi o convite diretamente do conde e decliná-lo parecia mal-educado...
— Ele irá vir? — Agnes interrompeu, levantando os olhos do caderno de anotações pela primeira vez.
— Até Agnes parece ter um interesse amoroso para hoje à noite! — Simon disse, olhando para a moça que evitou a provocação.
— Acho que sim. — confirmou.
— Eu vi apenas o outro irmão por aqui hoje, o loiro. Ele estava coordenando alguns funcionários de uniforme diferente dos que trabalham no castelo, na direção da cafeteria enquanto eu fazia registros fotográficos da área externa.
está por aqui? — tirou os óculos.
— O Eltz que tem a calça suja de barro e parece que acabou de andar quilômetros em uma Harley Davidson? Além de exalar uma tensão sexual com qualquer fêmea num raio de 50 metros?
Um silêncio de expectativa pairou nos funcionários olhando diretamente para e sua expressão de desconforto.
— É ele mesmo. Tomara que não seja o Eltz anfitrião de hoje. Venha comigo, Agnes, vou avaliar novamente o estado da parede do quarto 3B na ala K.
apanhou uma caixa grande com papeis, pinceis e vidros com vários rótulos entre “éter”, “encáustica”, “tempera”, “esmalte” e outros.
— Quanto a todos vocês, espero cordialidade. O conde com certeza espera algo especial de nós por nos ceder um convite como esse. Profissionalismo é o que peço, nada mais. Quando encerrarmos este projeto de restauração poderemos comemorar como quisermos.
E após um último olhar de inspetora, saiu com Agnes em seu encalço, atravessando o pátio.
— Agnes... você acredita que consegui passar o alerta para terem juízo na bebedeira de modo... adequado?
— Com certeza, doutora.
— Não quero que extrapolem. As coisas andam tensas entre o conde e o curador depois de... bom, precisamos fazer o máximo que pudermos para evitar outros problemas.
— Eles sabem disso. — Agnes caminhava rapidamente para acompanhar a chefe que galgava as escadas daquele castelo com pressa. — Doutora, você irá precisar de mais diluente? Ou de outras amostras de umidade para hoje?
— Não. — depositou a caixa de materiais no chão quando chegaram no quarto que cuidaria aquela tarde. Após acender a luz fluorescente profissional (que não aquecia e possuía um filtro para preservar obras de arte), calçou as luvas.
— Então, porque precisa de mim aqui?
desviou o olhar da parede descascada para a moça.
— O que mais você viu fazer por aqui?
Agnes ergueu as sobrancelhas.
— Ele ficou olhando você enquanto estava na área exterior B do anexo Kempenich. — Dizia como se tivesse contando uma fofoca engraçada. Algo na moça fez se lembrar de Gabrielle. — Ficou perguntando o que você ouvia.
— O que você disse?
— Falei que não era do interesse dele.
olhou aliviada para a moça.
— Obrigada, Agnes. é muito inconveniente.
A moça sorriu torto e assentiu.
— Ele pareceu muito interessado em você.
— Ele é interessado no que tenho entre as pernas. Nada mais.
— E isso é ruim? — Agnes questionou. ficou em silêncio encarando a parede do quarto.
— Enquanto eu estiver trabalhando para a família dele, é sim, Agnes.
Agnes riu, escorando-se numa caixa de madeira ali perto. Ficou observando sua chefe, com um pincel fino, cuidadosamente limpar a sujeira sobre a parede envelhecida. Aquela era uma das áreas mais antigas do castelo e havia sido veemente ao afirmar que ela pessoalmente tomaria conta da reconstrução daquele pedaço, contrariando o planejamento que fizeram.
— Vocês combinam. — Agnes concluiu.
— Não fale bobagens. é um playboy, um irresponsável que desafia Copérnico achando que o mundo gira ao redor dele em vez do sol.
— Vocês soam parecidos.
pousou o pincel e respirou sonoramente.
— Devo continuar os registros fotográficos do anexo B? — Agnes disse, pressentindo a paciência da chefe esgotar.
— Sim.
E a moça saiu sem dizer mais nada.

⛦⛦⛦


Já era noite quando pausou o pincel para massagear os olhos atrás dos óculos. A luz da luminária era forte e não a permitiu ver que o céu, lá fora, já estava escuro. Quando olhou pela janela, as únicas luzes que viu foram da cafetaria de turistas, uma área de recreação do castelo que, nos tempos em que o castelo fechava para a visitação, não era aberta.
De repente, se lembrou do compromisso do “happy hour para manter o espírito animador dos líderes da restauração” como conde Eltz havia intitulado o e-mail que ela leu pela manhã. Nele, a convencia de permitir seus empregados e encarregados diretos de restauração a se “aliviar a tensão causada por intempéries”.
Ela concluiu que poderia ser uma boa ideia guardando os óculos numa caixa em sua valise e desceu as escadas. Nos corredores escuros, ela se guiava por instinto e pelas lâmpadas de emergência em algumas esquinas. Não ouviu nenhum outro ruído no castelo além de suas próprias botas de biqueira de aço galgando os espaços escuros. Ao chegar no pátio, parou para soltar os cabelos e tentar parecer menos profissional em seu uniforme daquele dia, que contava com uma calça larga com faixa refletora e uma japona manchada de tinta por cima da camisa.
Do pátio, já podia ouvir música e conversa, além de uma música que não reconheceu. Entrou no espaço reservado para os turistas, onde havia a réplica de uma casa ao lado da cafeteria, ambas ligadas por mesas com guarda-sóis dobrados. viu de longe o salão com o brasão gravado “Schatzkammer”, seguramente guardado com mais alarmes que um banco suíço. Até mesmo seu acesso de arquiteta-artista- restauradora-chefe era limitado ali.
Ansiosa, ela entrou na outra porta, dentro do café onde era quente e com aroma de comida caseira. Entre as paredes de pedra, uma fumaça fina típica do acúmulo de muitas pessoas em um pequeno espaço em um dia frio e cigarro pairava. Ao longe, ela identificou, numa grande mesa escorada na parede, ouvindo Simon explicar alguma coisa muito compenetrado. Gabrielle comia uma fatia de torta grande, Judy e Petyr apostavam uma queda de braço rodeados por mais alguns funcionários da restauração que não se recordava do nome. Atrás do balcão, Altmeyer lia um livro sentado num banco alto.
Agnes foi a primeira a ver .
— Doutora, sua cinta de segurança. — Ela disse, entredentes, segurando um drink com guarda chuva e caminhando na direção da chefe. havia acabado de tirar a japona e colocado no suporte de casacos.
— Ah... — notou que ainda usava o cinto postural que a deixava vagamente parecida com uma encanadora ou entregadora de bebidas. Ela tirou, mas já era tarde. A queda de braço parou, todos os funcionários e Eltz a identificaram e ergueram seus copos. Vivas entre “le madam pirate chegou” foram quase uníssonos.
— Doutora ! Bom vê-la novamente. — olhou , enquanto discretamente abriu mais um botão de sua camisa.
o repreendeu com um olhar e caminhou até o balcão, passando por entre seus funcionários que lhe davam caminho e tapas nas costas. Altmeyer desgrudou os olhos do livro e pareceu feliz em vê-la.
— Ora, se não é senhorita ! Senti sua falta na casa. Estava aqui me perguntando quando você apareceria...
— Olá, Altmeyer. Onde está ? — ainda tentava tirar a cinta, mas não conseguia encontrar o fecho conforme ia sentindo cada vez mais que a estava olhando.
— Conde ? Por que ele estaria aqui? Digo, ele é um patrono das...
— Porque foi ele quem me mandou o e-mail sobre este... — por fim se soltou da cinta e a tirou com um arranco brusco. Altmeyer fechou o livro e ergueu as sobrancelhas. Suas mãos alcançaram um licor na prateleira. — Este happy hour...
— Estou aqui a mando de mestre , senhorita. Foi ele quem solicitou minha presença, sem mim isto daqui estaria o caos. Como aparentemente está sendo.
— Mas e o e-mail que me mandou? — perguntou, mas o olhar confuso de Altmeyer a respondeu.
— Já que está no inferno, senhorita, vamos brindar. — Altmeyer serviu um líquido âmbar em um copo pequeno para si e para ela. — Certo?
respirou pesado mais uma vez naquele dia e tomou a dose. O whisky desceu aveludado e gostoso, de repente, ela achou que aquilo seria menos pior do que imaginava.
está sabendo de tudo isso pelo menos?
— Sinceramente não sei. Até o momento que sai da casa ele estava num estado de péssimo humor, tocou cravo o dia todo e fez as refeições recluso. As únicas vezes que saiu nessa semana foi para tomar chá no terraço ou ver o andamento do quarto restaurado.
se divertiu por alguns segundos imaginando de pijamas tocando o instrumento.
— Ele é uma companhia melhor do que irmão, poderia ter vindo. O playboy me dá nos nervos.
Altmeyer colocou mais whisky para e, como resposta, ela bebeu.
— Obrigada, Altmeyer. Vou levar mais cerveja para você quando voltar a restaurar aquele quarto na casa.
O mordomo sorriu e olhou para alguém sobre o ombro de , ela não se virou para saber quem era, apenas se concentrou na sua bebida.
Após alguns minutos de silêncio de concentrada nos relatórios do seu celular, sua paz foi perturbada:
— Meus caros! Agora que todos já comemos a comida de Senhora Göint trazida da Casa Eltz, a melhor chef de cozinha da Alemanha e especialista em fazer pratos especiais para homens embriagados... — A voz de eclodiu sobre os ruídos da festa. Alguém abaixou a música. não se virou. — Eu proponho para todos aqui, grandes admiradores da arte e da história, uma brincadeira ébria! Feita para corações desafiadores e que... não temem a vergonha.
revirou os olhos.
— Eu tenho aqui um objeto valioso... Diana Cavalgando um Cervo! Uma obra feita em 1600 por Joachim Friess da Bavária.
não acreditou no que ouviu e se virou. Eltz estava em pé em cima de uma cadeira, quase roçando a cabeça no teto. Nas suas mãos estava uma escultura de ouro e prata, com a deusa da caça em cima de um cervo, cercada por alguns cachorros. E o pior: ele segurava aquilo sem luvas.
— Para quem não sabe, neste jogo a Diana vai cavalgar sobre a mesa e escolher o beberrão a virar o copo. O jogo original contava com correntes e o cachorro em forma de xícara, mas assim vai bastar para nós. — Os funcionários riram. — Quero saber quem aguentará esse jogo até o fim, pois a cada dose tomada, mais difícil fica de dar corda na Diana. Além disso, quem restar poderá compartilhar comigo a garrafa de whisky envelhecido 17 anos em barril de carvalho, mas não só... essa garrafa é de 1873 e nunca foi aberta. Pertenceu a coleção especial do meu tataravô que fez para presentear Otto von Bismark... — Ele parou para ouvir os sons de “oooh” que vieram de sua plateia a qual olhava ansiosa para a garrafa sobre a mesa — Se não quiser bebe-la, pode vender no e-bay. E então, cavalheiros e damas da arte, funcionários que vem servindo a casa Eltz primorosamente e penetras nessa festa, acertem-se em torno da mesa e vamos desfrutar de bebida de graça e chances de se envergonhar.
Os olhos de caíram em , que ainda o observava abismada.
— Por ordem de honra, doutora será a primeira a dar corda na Diana...
— Eu não vou participar deste jogo irresponsável, . Você está segurando sem luvas uma escultura secular!
A plateia olhou para como se ela tivesse falado uma blasfêmia.
— Está com medo de não suportar o álcool, ?
Naquele momento Agnes ficou boquiaberta e ouviu-se Gabrielle sussurrar: Eles se chamam pelo primeiro nome!
Além disso, ruídos de assombro pairaram dos que estavam ali. Após encarar , apanhou um pano sobre o balcão de Altmeyer e colocou seu copo de whisky sobre a mesa maior no centro do café.
— Vamos nessa, playboy.
A plateia e deu mais vivas, extasiada. Naquela atmosfera já meio embriagada, nada era mais empolgante do que bebida de graça e a chance de ganhar um dinheiro extra vendendo uma bebida milenar. apanhou o objeto das mãos de com o pano e colocou sobre a mesa.
Algumas pessoas começaram a se sentar: , Petyr, Judy, Simon, um dos faxineiros do castelo, a advogada de conde , dois homens que trabalhavam na área das construções, Agnes e por último Altmeyer.
— Não me olhe assim, senhorita, mestre me prometeu uma semana de folga se eu conseguir beber mais que ele neste jogo primevo. — Ele disse, ajeitando o fraque para sentar-se a frente de Simon.
sentou-se a frente de e o encarava com uma expressão fria nos olhos, enquanto que ele tinha muita malícia nos olhos azuis.
— Que vença o melhor, doutora. Será que consegue beber mais do que eu?
— É o que vamos ver.

⛦⛦⛦


E assim, o jogo começou. O vencedor precisaria beber sem vomitar ou dormir. Em algumas culturas, jogos de bebida duram dias e sabia disso quando deu corda no “brinquedo” de quatrocentos anos, que funcionava impecavelmente bem e atingia seu objetivo.
Sobre a mesa larga de madeira, o objeto fazia uma caminhada trôpega, até parar em alguma extremidade, obrigando a pessoa sentada naquela direção a beber. Em alguns momentos, o brinquedo empacava e era preciso dar corda duas vezes, em outros, não parava de ranger.
O primeiro a beber foi Altmeyer, que deu corda e o objeto seguiu seu caminho para Petyr. Em cada uma dessas rodadas, sentia olhando-a como se quisesse dizer alguma coisa e toda vez que seus olhos se encontravam ela desviava. Os que não estavam sentados na mesa, continuaram a festa escorados conversando em grupos ou observando o evento a distância.
— Onde está seu marido, Rowena?
— Ele não quis vir. As coisas andaram um pouco desconfortáveis. — indagava a advogada em voz baixa enquanto Simon bebia na sua vez. A conversa na mesa naquele momento era sobre futebol, o que não atraiu muito a atenção da historiadora— Acredito que ele vai tirar o resto do mês de afastamento.
ergueu as sobrancelhas.
— O jacobino se afastando daqui? Meu irmão nem está mais com o rosto inchado, Ele não levou tão a sério...
— Mas levou. — Rowena tragou um cigarro de filtro vermelho. — Você sabe como ele é.
ouvia a conversa mesmo que estivesse virada para Simon e Altmeyer que discutiam ativamente sobre um volante do Borussia. Rowena Schöpfer conversava intimamente com , quase aos sussurros.
—Espero que volte ao normal. Meu irmão não consegue tomar conta disso tudo sozinho.
não é o seu substituto, . — A mulher disse com um tom de ameaça, mas a conversa parou porque a Diana chegou ao cotovelo de . — E precisa de ajuda aqui.
— Hey, , — Simon o chamou, tirando um lenço da aba do blazer preto que usava, ignorando o olhar de estranheza de que lançou ao ouvir o tratamento íntimo. — Você sabe a última vez que usamos um objeto histórico de jogo de bebida? Foi uma flauta que que madame pirate achou no Himalaia. Tinha o quê? 700 anos, Judy? Petyr e eu passamos uma semana na prisão de U-Tsang por violação de patrimônio.
— A doutora pagou a fiança. —Petyr mastigava alguns amendoins.
— Vocês todos escondem muitas histórias. — sorriu, bonito com a luz parda da cafeteria sobre seus olhos azuis e evidenciando os músculos do início do seu peito revelados pela camisa aberta. evitava olhar nessa direção. — Queria saber de todas elas. Quem pode me contar quando foi expulsa do Vaticano?
Petyr olhou para Simon que olhou para Judy que olhou para Gabrielle, que não estava sentada na mesa mas assistia tudo de perto tomando um suco de caixinha. Agnes levou as mãos a boca.
— O quê? — indagou. Ninguém daquela mesa conversou. — Falei algo que não devia? — E olhou desafiador para .
A mulher encheu seu copo com Apperol e um champanhe francês que estavam na outra mesa. Após tomar um gole, estreitou os olhos para .
— Não posso mais pisar no Vaticano porque soquei um cardeal.
Todos na mesa estavam com a mesma expressão de susto.
— O quê? — Exclamou Agnes, que estava com as bochechas vermelhas. — Você não disse isso a ninguém...
— No meio da Basílica...? — não soube quem falou.
— Um idoso... — outra pessoa disse.
— Ele me chamou de bruxa. — A voz de nunca havia soado tão clara e sem nenhum pingo de tremor. No fundo dos seus olhos bicolores, havia uma sombra de diversão. — Eu estava cuidando de um Michelangelo quando o ouvi fofocando com outro cardeal sobre ter uma mulher cuidando da restauração de uma instituição secular sagrada e o quão ultrajante para a tradicional história da arte católica aquilo era. Cochichou em húngaro achando que eu não entenderia.
Ninguém se moveu na mesa.
— Digamos que agora se eu quiser ver Caravaggio precisarei ir ao Louvre. — bebeu outro gole.
— Fez certo, minha chefinha. Um brinde à nocauteadora de cardeais machistas! — Judy propôs e ergueu seu copo, os outros repetiram o gesto. — Ao fim da inquisição!
E todos beberam. ficou olhando para o conteúdo alaranjado do seu copo.
— Foi muito bonito da sua parte socar um idoso. — sorriu para ela.
— Não era um idoso. Era um velho conservador. Se eu pudesse, ainda socaria todos os outros homens brancos de meia idade agraciados pelo destino por nascerem podres de ricos e acharem que ser abastado é suficiente para não precisar pensar, ou o suficiente para ofender e menosprezar as mulheres. Mas, se eu fizer isso, correria um sério risco de não poder trabalhar nunca mais.
ergueu seu copo na direção dela.
— Fez perfeitamente bem, . Foi um ato nobre e eu bebo em sua homenagem. — bebeu, olhando-a por cima. — a próxima vez que eu for a Roma vou chamá-la para irmos juntos. Ou em outro museu, eu adoraria ver você batendo em alguém.
— Não estou ébria o suficiente para ouvir seus galanteios calada, Conde Incorreto.
— Posso me divertir só ouvindo sua voz.
Ninguém deu ouvidos aos dois, pois o assunto da mesa agora era político. Os copos não paravam de ser virados e as garrafas vazias eram rapidamente substituídas por outras. Cerveja, whisky, vermutes, martinis, vodcas e toda sorte de licores. Naquela festa, o único ser sóbrio era uma grávida fofoqueira que não demorou muito para ir embora, pois os demais já se debruçavam sobre as mesas ou sumiam.
Durante os vários assuntos que surgiam na mesa, sempre se expressava com muita personalidade e uma dicção invejável. Ouvi-lo era encantador e conforme bebia, mais atraente ele ficava. Era fácil esquecer toda truculência que exalou no momento que se conheceram no dia que chegou e não tinha similaridade com o playboy ébrio que ela viera tendo contato dias atrás.
Depois de alguns quartos de horas e muitas doses depois, na mesa restou Judy, e um dos motoristas do Castelo. Havia pouca gente dentro do café, Agnes dormia com a cabeça escorada na mesa e Petyr dançava com uma mulher que trabalhava com contabilidade no castelo. não tinha a menor ideia de onde as outras pessoas tivessem ido.
— A reforma na política de comércio exterior prejudicou muito o trânsito do petróleo. E a OTAN, mais uma vez não fez nada. — A Diana virou-se para após dar corda e o homem parou de falar para beber.
— É uma vergonha que a organização faça tanta vista grossa perante a influência dos Estados Unidos. — concluiu. Só ela conversava com àquela altura.
— É briga de cachorro grande. O que um país pequeno como o meu faria para mudar alguma coisa?
— No século passado seu país fez muita coisa para mudar o mundo, senhor Eltz, quando não queria mais ser pequeno. — Judy mal terminou a frase e levantou-se da mesa. — Acho que... — E saiu correndo para o banheiro
e riram.
— Também preciso ir. Já está tarde e infelizmente não tenho como vencer vocês dois. — O motorista disse, também se levantando meio trôpego. — Nunca vi uma mulher beber tanto.
gargalhou, acordando Agnes, que resmungou alguma coisa e saiu cambaleando para fora do café.
— É porque as mulheres do seu convívio não parecem se divertir o suficiente, então, herr Mayer! — caçoou e bebeu mais um gole servido da bebida, batendo o copo vazio sobre a mesa em seguida.
já estava com as mangas de sua camisa dobradas, agora retirava o relógio de pulso.
— Você fica muito mais divertida ébria. — Ele disse quando o motorista saiu.
— Deve ser porque é assim que tenho paciência com você.
— É tão difícil assim gostar de mim?
— É sim, . É muito difícil gostar de você.
Os dois se olharam de um jeito inédito até então: com interesse mútuo.
— Você ganhou a garrafa... Parabéns, venceu um jogo de bebida!
— Meu pai ficaria orgulhoso... ele e todo o coro da Igreja do Sagrado Coração de Jesus no número 42 da Rue des Cultivateurs...
— O que fará com seu prêmio?
olhou para a garrafa no outro lado da mesa e depois para o homem bonito a sua frente. Certamente não era o mesmo olhar que ela lançaria a um whisky de duzentos anos.
— Vamos beber.
sorriu.
— Você quer beber comigo? Você está me chamando para um encontro?
— Sim. Agora. Eu. E. Você. Na Schatzkammer.
se levantou e sentiu dificuldade de focar os olhos. fez o mesmo, tinha o sorriso de quem ganhou na loteria quando apanhou o gargalo da garrafa e dois copos no balcão.
— Ponha meu casaco, está frio. — Ele disse, se aproximando de uma que olhava há alguns segundos para os casacos pendurados ao lado da porta, não conseguindo encontrar o seu.

⛦⛦⛦


Sentindo de muito perto o aroma do perfume agradável de em seu blazer, caminhou ao lado dele até a “Câmara dos Tesouros” a casa onde ficavam os objetos de valor do Castelo, com o chão parecendo um terreno arenoso.
... — parou a porta da câmara. — Se você quiser, podemos beber isso outro dia...
— Quero beber agora. Com você. — se aproximou e ergueu o queixo para encará-lo, desenhou um sorriso. — Quero que você me fale o que sonhou comigo. Quero todos os detalhes...
— Eu...
— Não era assim que você planejava me foder? Aproveite antes que eu mude de ideia quando não estiver mais embriagada.
Os dois aproximavam suas cabeças como se fossem polos de imã. Até que parou.
— Vamos beber, ok?
Eltz, o playboy, o conde incorreto me recusando...?
— Não estou te recusando, doutora, estou tentando abrir esta porta. — digitou códigos de segurança e abriu a porta com um molho de chaves. — E está muito frio aqui, não consigo pensar direito.
Após alguns segundos de olhando fixamente para o chão tentando se manter consciente, abriu e eles entraram. Por dentro, a câmara tinha o teto baixo, com uma parede de pedra e várias caixas de exposição e algumas armaduras em pé.
— Foi uma boa escolha beber aqui....
Eles se encararam. estava vermelho pelo álcool e com as pupilas grandes.
— Vamos para o andar de cima. — Ela disse e ele a segurou pela mão. — Você até que não é tão insuportável, sabia?
— Posso dizer o mesmo de você.
Eles subiram uma escada curta até a área de cima, onde havia outra parede de pedra e o teto baixo sustentado por vigas. Enquanto deixava a garrafa e os copos no chão no centro da sala, observou as caixas de vidro com joias em exposição perto deles.
— É tudo tão lindo. Meu coração se alegra de poder ver manifestações de arte. A história me alegra...
aproximou-se.
— Você quer provar?
— O quê?
Ele sorriu como um garoto travesso e abriu o vidro de exposição, digitando uma senha. Sobre o veludo vermelho ligeiramente empoeirado, tirou o colar de ouro velho com um camafeu esverdeado e pedras preciosas, erguendo na direção do pescoço de .
— Não! — Foi a negativa mais mentirosa que havia dito e fez rir ainda mais. Qualquer coisa fazia os dois rirem àquela altura.
— Você precisa desabotoar essa camisa para que eu coloque em você.
Ela ergueu as sobrancelhas e obedeceu. Retirou o blazer, desabotoou a camisa até o fim e ficou com uma blusa fina e que deixava seu busto em bastante evidência. colocou o colar de duzentos no pescoço esquálido e se afastou para contemplá-lo sobre a clavícula feminina.
— Ficou perfeito. Você nasceu para usar isso.
— Eu gostei.
— Eu nunca vi uma mulher tão bonita em toda minha vida. Você me tira o fôlego, doutora .
riu, olhando para sua calça larga e as biqueiras da bota.
— Chega de bobagens e vamos atender seu pedido. — sentou-se no chão e começou a abrir a garrafa, após soprar a poeira. Seu espírito de show-man ainda não tinha abandonado. — Venha beber esse whisky secular com um playboy.
Ambos beberam. O primeiro gole desceu como uma pedra de brasa na garganta de , mas ela não fez careta. Ao contrário de .
— Uhhh esse é dos bons. A gradação alcoólica disto deve estar além do permitido nesse país.
, quero que me fale do seu sonho. — pousou o copo. pareceu desanimar, desviando o olhar para a parede oposta. — Você disse uma vez que em dia de lua nova todos tem pesadelos. E que sonhou comigo. Qual é sua relação com sonhos?
— Eu sabia que você não estava aqui só porque estava gostando de mim, não é? No fundo você é só uma pesquisadora...
— Isso não tem relação com o que perguntei, eu quero...
— Você é uma enxerida, sabia?
— Por que você quis me mostrar aquele lugar? Você já havia sonhado com ele?
Não! , será que não podemos ter um bom momento? Como se fôssemos...— Ele não terminou a frase.
— Você disse que eu me chamava no sonho. Bom, esse era um dos meus nomes falsos.
olhou para ela com o cenho franzido.
— Quando eu era criança, escrevia esse nome nas árvores e nos bilhetes secretos... depois usei como uma outra personalidade no meu período de faculdade. Achei, no mínimo, peculiar essa coincidência.
a encarava com seriedade. Bebeu outra vez o whisky secular.
— Seja o que for, coincidência ou não, eu também já tive sonhos ruins. Só eram ruins porque eu não sabia quem estava do meu lado e me sentia perdida quando acordava. Desde quando cheguei a Wieschem... não sinto isso mais. Vejo perfeitamente quem está nos meus sonhos.
— Eu não quero falar sobre isso. Sonhos são descarte de pensamentos, não dizem nada sobre nós...
— Não dizem? O que sonhei com você disse muita coisa. — disse e bebeu o copo. Quando o líquido bateu no seu estomago, ela começou a sentir um pouco enjoada e a cabeça rodar.
— O que sonhou comigo?
— Eu só conto se você contar o seu.
E essa foi a última frase que se lembraria desse dia. O resto ficou gravado em sua memória como flashes de um filme.

sem camisa, uma tatuagem em seu peito, letras difusas. sorrindo, ... com uma coroa. Uma coroa de ouro com muitas pedras. Eles conversando sobre o ser e o tempo, a garrafa pela metade. , de coroa e sem camisa, se inclinando para beijá-la.
E ela permitindo ser abraçada.


⛦⛦⛦


Eltz avistou de longe as luzes acesas na Schatzkammer. Quando desceu do carro, o frio cortou suas bochechas magras e suas fricções desagradadas. Ele caminhou alguns metros até chegar a porta fechada da cafeteria, caminhando com fúria até a câmara dos tesouros. Contudo, o que ouviu no caminho o fez parar.
Era uma voz fina cantarolando. Uma mulher loira e pequena estava curvada em um canto afastado das cadeiras ao ar livre. foi até ela.
— Senhorita, você está bem?
A moça virou-se, com a boca seca de frio e as bochechas avermelhadas. Seus olhos estavam molhados e as pálpebras quase se cerrando.
— Senhorita Janssen, o que faz aqui fora?
— Senhor Eltz, sinto muito... — Ela se levantou, mas tombou contra a mesa e a apoiou como pôde para não perder o próprio equilíbrio.
A moça fechou os olhos. sentiu o coração acelerar e acenou para o motorista, que veio ao encontro dele.
Herr Conde?
— Leve-a para o carro, ela está tremendo de frio.
O motorista tomou a garota nos braços sem dificuldade.
— E quanto a câmara, senhor?
— Só espero que não esteja lá com quem estou pensando. — completou, irritado. — Vamos embora.


Capítulo 17

I have burned my tomorrows
And I stand inside today
At the edge of the future
And my dreams all fade away
And burn my shadow away
I faced my destroyer
I was ambushed by a lie
And you judged me once for falling
This wounded heart will rise
And burn my shadow away
When I see the light
True love forever


UNKLE - Burn my Shadow

Eu queimei meus amanhãs
E eu estou aqui hoje
À beira do futuro
E todos os meus sonhos desaparecem
E queima minha sombra
Eu enfrentei meu destruidor
Eu fui emboscado por uma mentira
E você me julgou uma vez por cair
Este coração ferido vai subir
E queima minha sombra
Quando eu vejo a luz
Amor verdadeiro para sempre


1194

sabia contar até cem.
Seu pai a tinha ensinado a contar pouco além do 50 pois era essa a quantidade de saco de trigo produzido ou lã recolhida, nunca passava desse número. A mulher só foi aprender a contar os cinquenta restantes quando havia lhe dado cem pontos de sutura no peito e ela ainda podia contar as linhas de queloides em sua cicatriz todos os dias.
Ela se recordava disso no lombo do cavalo de um homem vestido de negro da cabeça aos pés, o executor do neto de Barbarossa. Ele a carregava de bruços, amarrada como o torso de um alce abatido numa manhã de caça.
No momento da abordagem, nada muito foi dito. O executor entrou em sua casa e tentou apanhá-la a força. Nem mesmo se identificou ou a ofendeu. Ela tentou fugir para desviar o foco da casa e impedir que vasculhassem o soalho encontrando Johannes espremido entre as tábuas. Os outros três homens haviam espancado até ele perder a consciência e parar de lutar após matar com as próprias mãos um guarda que estava ali.
Tudo estaria perdido se o que não habitasse no peito de fosse seu olhar de esperança para a ausência de em seu leito naquela manhã. Seus pensamentos sobre o irmão abandonado desacordado e abatido e o desaparecimento de apertavam seu peito e por isso, distraía-se contando os passos do cavalo. Sabia que estava indo para Wierschem pelo vicinal e naquele dia, não achou ninguém no caminho que pudesse pedir ajuda.
O sol estava alto, ela suava pelo contato direto com o pelo do cavalo, deixando-a levemente tonta pela exposição cruel e o nó forte nas cordas de suas mãos. Quando chegaram a Wierschem, entraram pelo portal principal, geralmente ladeado de guardas.
As dezenas de pessoas que iam e vinham nos afazeres da pequena cidade e aquelas que chegavam dos outros caminhos, pararam seus afazeres. Muitas cabeças surgiram nas janelas estreitas e terraços de arquitetura italiana. Logo, a rede de sussurros começou e ergueu a cabeça para encarar quem estava ali. Alguns a reconheciam por seus muitos anos indo a cidade para trocar lã e trigo por tecidos e sapatos no verão.
O homem que a tinha apanhado e prendido em seu cavalo chegou ao patíbulo onde esteve dois dias atrás, em frente à igreja. A população se aproximou para ouvi-lo dar explicações.
— Hoje não terá execução. — Houve um ohh de surpresa — Esta bruxa foi encontrada na floresta articulando contravenções contra a legalidade do poder do bispo concedido pelo papa, além de profanar o túmulo do conde morto. Ela será levada a bispo para que ele avalie o que resta da alma desta bruxa e ela irá morrer.
A plateia estava assustada.
— Ela irá morrer pois portava consigo um artefato maligno. — viu em outro cavalo um homem levantar seu livro envolvido em um pano. O homem vestido de negro continuava a discursar — Um artefato vindo das profundezas do inferno, entregue a ela pelo próprio demônio. O satanás!
Uma mulher na plateia desmaiou, os cochichos agora viraram vozes altas.
— Como o bispo é misericordioso, ele irá ungi-la. O bispo não tem medo de ver o demônio de perto e após for confirmada a unção dessa mulher com o tinhoso e for provado que foi o próprio demônio que a mandou espalhar pela província que Rodolphus Eltz vive, ela será morta. Todo aquele que repetir o que o demônio disse através dessa mulher, também morrerá!
— Morte!
— Morte ao demônio!
E a plateia começou a gritar contra . Ela observava em silêncio. Não tinha o que dizer.  
— E todo homem que acreditou que o corpo de Philip Hohenstaufen, neto de Barbarossa executado nesta mesma praça foi levado por Eltz... peça perdão para o Deus de misericórdia, pois o roubo do cadáver foi também obra da bruxa.
Demônio! — Jogaram em um monte de terra no rosto e foi decidido que era hora de partir.
— Espere! Espere aí! — Um homem largo e calvo veio bamboleando entre os habitantes da cidade. Olhou para o rosto sujo de .
— Para onde a está levando, Altmeyer? Quem irá julgá-la? — A voz do homem tremeu até encontrar firmeza. — Eu sou o meirinho de Wierschem, trago a brigandina Hohenstaufen! Exijo saber o que se passa!
O homem de negro virou o cavalo para encarar o outro.
— Albrecht... — ele disse, de nariz erguido.  — Poupe-se da vergonha. Você não cuida de mais nada aqui. Bispo Expedit é bondoso e o deixa brincar cuidando dos calabouços, mas no que diz respeito à lei, você não tem mais voz. Esta bruxa irá para o castelo e servirá de lição para quem mais acreditar que o Eltz está vivo.
Altmeyer desejou um bom fim de tarde ao meirinho e virou o cavalo para direção da estrada que dava para o castelo. Ele cavalgou na frente, abandonando a carruagem e os guardas que o seguiam. Cada galope ignorava a mulher presa no lombo do cavalo e a fazia bater o peito contra o animal.
nunca havia ido até o castelo, pois para adentrar naquele território de difícil acesso até mesmo para cavalos era preciso ter valiosos motivos. Motivos esses que uma camponesa de sua condição nunca teve. Ela se lembrava quando o castelo não passava de uma torre, andando ali com seu pai até o meio da estrada e pôde ver a ponta da torre. Naquele dia, ela pôde ver o castelo com duas torres pontiagudas para o céu, sua estrutura robusta de fortaleza e primórdios da arquitetura gótica se mesclavam para compor paredes instransponíveis de pedras negras, pequenas janelas de madeira vermelha no meio de um círculo de colinas.
⛦⛦⛦


Dentro das pedras do castelo, no pátio, Altmeyer saltou do cavalo. Alguns funcionários apareceram para desamarrar e segurar o cavalo pelo cabresto. O majordommus a observava.
— Tenho pernas. Posso andar daqui em diante. — Disse a mulher, limpando como pôde o barro que não havia escapado de seu rosto. Altmeyer assentiu e se virou. Começou a andar por um corredor apinhado de soldados.
os observou. De um lado, homens usavam o amarelo tradicional da casa Hohenstaufen, do imperador Barbarossa e obrigatório no exército do império (até mesmo o símbolo Eltz, um leão, era preto com o fundo amarelo). Do outro, o vermelho da igreja católica e suas várias cruzes negras ou brancas estampadas em estolas. Os homens discutiam entre si, falando alto e brigando em pequenos grupos. Ela se sentiu assustada, mas não demonstrou, permaneceu com o queixo ereto sem olhar diretamente para ninguém, evocando do fundo do seu coração a força e serenidade para ganhar o máximo de tempo que poderia. Se conseguisse enganar o bispo, poderia garantir que estava a salvo.
— Você deve estar estranhando a barulheira perto do silêncio incólume da sua floresta de bruxa. — Disse suavemente Altmeyer, sem se virar. Suas costas tinham o tamanho maior pelas ombreiras da capa escura que usava e os cabelos ondulados cobriam sua nuca. Seu tom de voz naquele momento não era nenhum pouco parecida com a mesma voz que tinha ordenado que seus homens espancarem . — O castelo é tranquilo, mas você não vai desfrutar do silêncio daqui. O lugar para onde você vai tem gritos e som de gordura pingando na brasa. É assim o inferno.
— Me agrada assados no jantar. Acredito que será uma boa estadia.
Altmeyer virou-se como se estivesse visto o satanás em pele e osso atrás de si.
— Malévola! Bruxa maculada! — ele segurou a boca de e a aproximou. Ela olhava com frieza para os olhos azuis do homem. — Quantos homens acha que irá converter para seu coletivo de degenerados? Vai arder em breve e serei eu o primeiro a ouvi-la gritar!
Os outros três guardas do castelo que os seguiam recuaram alguns passos. mexeu o rosto para se livrar do aperto doloroso em suas bochechas.
— O bispo irá dizimá-la, irá arrancar de você o diabo e jogar fora o corpo quando for um monte de cinzas... E eu mal posso esperar por isso.
— O que tenho de diferente que te faz me odiar tanto? Você não sabe meu nome e mesmo assim parece ver pela minha alma e julgá-la tão escura quanto as pedras das paredes...
— Quieta! Nestes ouvidos... nenhum mal entra. Nada! — Altmeyer gesticulou para seus ouvidos e deu as costas, passando por uma porta dupla e outro saguão. — O demônio em carne e osso... será por pouco tempo. — Dizia para si mesmo.
continuou caminhando pelas entranhas do castelo que era gelado mesmo em tardes de verão. As pedras frias não mantinham o calor lá dentro, nem mesmo o trânsito de todas as pessoas que trabalhavam ali.
Ao contrário do que imaginou, as pessoas que passavam por ela não a olhavam, pareciam nem mesmo notar sua presença. Realmente. O que tenho de diferente? Talvez o estado parco de seu vestido velho, a barra de suas anáguas roçando o chão e suas unhas sujas até seriam um critério de diferença, mas além disso, nada mais a destacava.
Chegaram a um corredor após alguns lances de escadas. Um cheiro novo as narinas atentas de surgiu. Era uma fragrância que nunca havia experimentado que foi entrando pelo seu nariz sem pedir licença. Pesada, forte e arrebatadora. Aquilo só poderia ser um incenso católico.
Altmeyer entrou por uma porta dupla ladeada de guardas e o mesmo fez seu séquito. O cheiro se intensificou e foi possível ouvir uma oração baixa:
...et Spirítui Sancto…. Sicut erat in princípio et nunc et semper et in saecula saeculórum…
Um homem estava de costas em no genuflexório. Ele era banhado pela luz da tarde entrava por um vidro azul e amarelo que tomava a parte inteira de uma torre e cobria-o por inteiro. Ao seu redor, na grande sala, duas mesas repletas de livros, mapas, papeis e iluminuras. Cadeiras de vários tipos e uma grandiosa tapeçaria ocupava a parede toda ao lado da lareira apagada.
— Vossa reverendíssima, eis a bruxa que trouxe Rodolphus Eltz dos mortos.
Haveria um silêncio se não fosse pelo ruído das vestes do homem que rezava levantando-se. Ele tinha cabelos escuros penteados para trás com esmero, o rosto muito magro esculpido e barbeado ostentando lábios grandes. Caminhou diretamente para a mulher, com sua longa dalmática azul marinho coberta de fios brilhantes de ouro no punho e na barra. Não expressava nada em seus olhos grandes.
vive?
— Sim. — Altmeyer respondeu. O bispo não tirou os olhos de .
— Adalfarus? Os ladrões dos corpos? Você tinha apenas uma missão, Altmeyer. — Ele completou a distância e parou na frente da mulher, curvando-se ligeiramente para olhar , que ainda tentava absorver a imagem daquele homem a sua frente.
Ela nunca havia visto um homem com uma beleza tão bem preservada e isso a assustou. Havia imaginado Expedit como um velho vincado e o que tinha a sua frente, era um homem com aroma agradável e uma beleza que a incomodava.
— Você me trouxe uma bela flor. Na maior parte do tempo sua incompetência me incomoda — Ele se virou para Altmeyer. — Mas hoje, parece que você acertou.
O bispo completou a distância até . Levou o dedo com um grosso anel de ouro e rubi na direção do pescoço dela.
— Cortada — direcionou o indicador pelo busto feminino, sem tocá-la. — Conforme Altmeyer descreveu. Botas de homem. Cabelos bonitos. Conforme Altmeyer... me contou. — Após pregustar cada pedaço de , o bispo encarou-a novamente. — Conforme meu majordommus disse, você conheceu meu irmão, minha cara senhora... como devo chamá-la?
— Senhor esta é uma bruxa, ela porta um livro do demônio! Ela diz coisas que devem ser levadas a julgamento, sua língua astuta pode querer dobrar sua fé. — Altmeyer advertiu. O bispo olhou para ele com a mesma dignidade que olharia para um rato. — Ela é má, vossa reverendíssima.
, filha de e irmã de o cavalariço de senhor Richards do Leste, o dono de nossa propriedade.
— Richards. Richards morreu na Cruzada. — O bispo deu as costas e foi em direção a uma mesa. finalmente respirou ao deixar de fitá-lo. — Seria culpa do seu cavalariço?
— Meu irmão é um bom homem, com certeza serviu bem...
— Bruxaria! A bruxa envenenou a espada que o irmão serviu.
— Não diga bobagens! — retrucou, batendo os pulsos atados contra suas coxas para intensificar sua raiva. — Não sou bruxa e meu irmão trabalhou muito para ganhar a afeição de senhor Richards. Assumiu o posto quando o antigo cavalariço morreu.
— Não deixe o demônio em você me interromper sua... — Altmeyer desferiu um soco ou um possível tapa na direção de que esquivou e recuou.
— Altmeyer, — bradou o bispo, sem se virar. — Vá embora, deixe senhora filha de e irmã de a sós comigo.
— Mas, vossa reverendíssima....
— Aproveite e vá limpar a fossa de hoje. Você está nervoso demais para saber lidar com assuntos do Castelo, vá lidar com o que definitivamente nasceu para lidar...
Altmeyer estava corado de ira, afastou-se de e com uma reverência, saiu.
A mulher permaneceu em silêncio observando as paredes, a longa janela e seu vitral de formas difusas que mesclavam cores.
— O Sagrado Coração de Jesus, como pode ver. — o bispo levantou uma faca para o vitral, depois apontou-a para tapeçaria. — Aqui, a Santa Virgem Maria.
olhou para a forma difusa do rosto de uma mulher em uma tapeçaria. Uma mulher como ela, com dois olhos, uma boca e um nariz e que segurava um corpo inerte nas mãos.
— O cheiro, acredito que nunca deve tê-lo sentido. Mandei que trouxessem para mim de Veneza, vem dos mouros. — O bispo caminhou até com a faca erguida, parou em uma distância muito curta. —Benjoim o chamam. Você gosta?
— Não tenho conhecimento de cheiros, meu senhor. — respondeu, sabendo que aquele poderia ser um truque para descobrir o entendimento da mulher pelas ervas. Ela estava muito alerta. — É agradável sentir.
O bispo curvou os lábios voluptuosos em um sorriso falso e curvou mais a cabeça para .
— O que fizeram com este rosto? Seu peito? — com a mão livre, ele limpou as duas bochechas de da terra que ainda restava.
— Eu caí de um cavalo, vossa reverendíssima. — vinha treinando essa mentira e ela saiu com a leveza de uma pluma.
— Você tem algo ao redor de si, nos seus olhos, que me dizem o contrário. Você carrega algo de muito doloroso, algo secreto. O que será, minha senhora filha de ? — o bispo pousou o indicador no canto do olho esquerdo de , sem pressão e depois analisou. — Tinta preta... nem um pouco usual.
sentiu medo pela primeira vez naquele castelo.
— Fui recebida com sujeira no rosto pelos cidadãos de Wierschem após o discurso de seu majordomus sobre minha alma. Não estou limpa, vossa reverendíssima.
O bispo fez novamente seu sorriso falso. Se o estivesse vendo sem saber que foi aquele mesmo homem que mandou matar Eltz, ela poderia ter se atraído profundamente.
— Acredito que tem razão. Você fala perfeitamente para uma mulher que nasceu na floresta e viveu lá. Diga-me, o que a fez se articular tão bem? Como você carregou o livro que Altmeyer diz que tem? — O bispo apontou a faca para a barriga de e segurou seu pulso atado, cortou a corda com a lâmina extremamente afiada. — O que é um livro para uma mulher?
— Serve como uma ferramenta para um homem que não sabe como usá-la, senhor. As letras nunca me foram ensinadas e se falo bem, é porque gosto de ouvir e falar.
— Falar com o trigo, eu presumo? Ovelhas?
— Não falo com animais. Nem com plantas, mas com os membros da pequena paróquia propriedade de senhor Richards, com meu irmão e com os mascates.
— E o meu querido irmão? — O bispo acariciou os pulsos avermelhados de , olhando para eles.
— Não sei a quem se refere.
Eltz, alto, loiro, nenhum pouco parecido comigo. É um galanteador e não gosta de ler a bíblia. Vocês dois devem ter dado muito certo. — Ele segurou uma das mãos de e depois a encarou.
A mulher tentou parecer normal, mas o bispo pareceu ter notado a sombra de susto em seus olhos.
— Irmão, senhor? Não conheço. Na minha propriedade tive a presença do meu irmão da Terra Sagrada e os vendedores de linhas, são meus únicos visitantes.
O bispo sorriu pela terceira vez.
— Você parece cansada, querida senhora . Talvez seja...
As portas se abriram. Um guarda entrou a plenos pulmões.
— Foi encontrado o Conde Traidor! Eltz vive e está na floresta. Ele conhece a bruxa.
soltou um ruído de medo que saiu de seus lábios sem que ela permitisse, arfando uma golada de ar. Foi o suficiente para o bispo, que não olhou para o mensageiro, mas sim para a mulher. Quando seus olhos se encontraram, ela percebeu que havia se denunciado.
— Muito bem, Altmeyer. — O bispo desviou o olhar para o homem de negro que surgiu ao lado do jovem mensageiro. — Dê louros e umas moedas ao garoto, é um bom ator. Mande-o para o seminário e se dará muito bem.
— Sim senhor. — disse Altmeyer, fechando as portas após olhar com malícia para .
piscou longamente e permaneceu olhando para a porta.
— Você parece nervosa, senhorita. Há alguns segundos... pareceu ter perdido o chão. — O bispo andou em volta de até parar a sua frente. — Eltz está morto, eu mesmo enfiei em suas costelas... — o bispo ergueu a adaga. — Algo que o lembrasse onde sua teimosia e irresponsabilidade pertenciam. Seu coração e seus segredos parecem agonizá-la, minha cara.
abriu os olhos.
— Oh, que força vejo nesses pontos castanhos. Que raiva bonita. — O bispo provocava. — Uma mulher assim só tem esse olhar quando é ferida. Maculada. Afastada de Deus. A tinta preta, você diz, é da sujeira, mas não é. Algo em mim não nega que o demônio em você é mais antigo que este castelo. Eu li sobre tintas e tambores que habitavam essa região e digo: aqui, debaixo da minha estola, só existe o poder do Santíssimo.
não deixou de fitar o bispo. A linha que unia seus olhares parecia tão retesada como um cabo de guerra.
— Seus deuses não têm força aqui. Então, diga-me de uma vez, onde está ? Não tente mentir para mim novamente, minha curta paciência tem um prazo, até mesmo para mulheres intrigantes como a senhorita.
ficou em silêncio.
—  Eu já disse, vossa reverendíssima. Não conheço nenhum . — respondeu, erguendo o queixo para encarar o bispo.
— Johann, precisamos conversar! Agora.
Foi a segunda interrupção. As portas se abriram no momento que o bispo levou sua mão cheia de anéis para o rosto de e a acariciou, olhando para os lábios femininos. Um homem robusto, de ombros largos e o rosto quase inteiro coberto por suíças grisalhas entrou olhando para um mapa. O bispo largou e caminhou até o meio da sala.  
— Agora não, Wolknand. — repreendeu, erguendo a palma da mão em protesto.
— Oh, é esse o demônio que dizem?
olhou bem para o homem que se aproximava. Ele era  perfeitamente igual a descrição de do homem que devia ser procurado por Kivre.
— Não parece tão temível como Altmeyer descreveu.
— Me faça o favor de voltar um pouco mais tarde, sim, Wolknand? Estou estudando quantos demônios a mulher traz em si e até então, perdi a conta.
— Senhor, precisamos discutir sobre a moradia dos templários do vaticano...
Wolknand parou de olhar com desprezo pra e estendeu um mapa sobre a mesa. O bispo deu as costas para e ambos começaram a discutir.
— O chão que piso não é alto para voar.
A voz de saiu fina pela primeira vez desde que foi raptada de sua casa e até então tinha dito as palavras com determinação, naquela hora, estava embargada. Ela sentiu uma força apertando sua garganta para que ela não dissesse aquilo, mas seu coração já estava desesperado. Uma lágrima escapou de seu olho esquerdo porque soube, no instante que Wolknand a olhou assustado, que havia se entregado.
— O que disse?
— O chão... — ela embargou a voz novamente. — que piso não é alto para voar.
Bispo não se virou para ela, mas para Wolknand que tinha os olhos saltados das órbitas. — O chão que piso não é alto para voar. — ela repetiu.
— Mas só os que voam podem o céu tocar. — a voz do bispo encheu a sala. Wolknand olhava para os olhos pontilhados de . — É claro. Nada mais previsível. Guardas!
Os guardas entraram na sala.
vive. ... vive. — o bispo se virou. Nos seus olhos não tinha nenhuma frieza, mas algo maníaco e cruel na forma que olhou para .  — Prendam a mulher. Leve-a para os aposentos de Marlene. Ainda tenho perguntas a fazer.
— Se foi vossa reverendíssima quem enfiou a faca nas costelas de conde Eltz... — bradou com a voz tomada de emoção. — Deveria aprender que para matar um homem, é preciso ter força.
foi retirada pelos ombros e olhou mais uma vez para o homem chamado Wolknand. Com a força que tinha, lutou contra as palmas das mãos que a apertavam e seguravam. Socou um dos homens, mas um deles deu um tapa forte no rosto e ela tombou sobre o chão. Quando acordou, não estava mais ali.

⛦⛦⛦


Em algum momento, um alarme soou. Bispo despertou de seu descanso raro e correu para observar o pátio através do vitral de seu quarto. Por uma fresta, viu o que o fez temer.
Dezenas de homens a cavalo fugiam do castelo Eltz, seguido por poucos oficiais. Quando os homens desapareceram do horizonte, seguidos por poucos membros da patrulha da igreja, a porta do quarto do bispo abriu.
— Wolknand fugiu, levando consigo uma dúzia de homens.
— Ele encabeçará a insurreição. Tudo o que precisava era da confirmação de que está vivo.
— A armada templária está se arrumando para seguir o rastro.
— Não é necessário. Eles irão voltar. É tarde demais.
— Vossa reverendíssima...
— A mulher, poderemos usá-la contra . Preparem o patíbulo. Quero que toda Wierschem veja o rosto de ao sentir o cheiro de queimado.
Altmeyer assentiu e saiu. O bispo não dormiu mais.


Capítulo 18

We were in a room so small
I could see the freckles on your arms
Making friends with all four walls
'Cause you thought when you turned your back
You'd do no harm


Rae Morris – Physical Form

Estávamos em uma sala tão pequena
Eu podia ver as sardas em seus braços
Fazendo amizade com as quatro paredes
Porque você pensou quando virou as costas
Você não faria nenhum mal


2018

Agnes Jansen acordou olhando para um teto que definitivamente não era do seu quarto de hotel.
Um mapa mundi clássico amarelado ocupava todo o teto, com dardos fincados em alguns continentes. Os oceanos atlântico, pacífico e índico formavam o azul que unia o topo das janelas e as portas.
Ela sentou-se na cama e uma leve tontura a tomou. Não pôde absorver os detalhes do local, mas sabia que era pitoresco. Estava em um cômodo de teto baixo e iluminação amarelada pelas cortinas cor de vinho, além da janela de vitrais azuis e vermelhos que formavam o que parecia um coração. Tudo no ambiente lembrava mais a cabine de um pirata do que um quarto, principalmente pelo biombo chinês e algumas réplicas de navios em garrafas nas estantes das paredes. Alguns quadros a óleo, de paisagens, estavam penduradas ou encostadas no chão ao longo de uma parede com detalhes em rococó. Um cravo e algumas partituras jogadas ao redor também compunham o lugar. Ao lado da cama de dossel em que Agnes se encontrava, dois criados mudos equilibravam um amontoado de livros, cigarros e lenços. Um cilindro de oxigênio estava do outro lado da cama.
Agnes tinha uma vaga ideia de quem teria um quarto com tanta particularidade e, para comprovar suas expectativas, ela cheirou o travesseiro e o aroma de benjoim misturado a cigarros de canela exalou.
Alguém bateu numa das portas e em seguida entrou sem anúncio. Agnes jogou o travesseiro que cheirava para outro lado.
- Bom dia, senhor. Sinto informá-lo, mas tivemos que chamar o veterinário de novo. Lukrez comeu outra barra de sabão.
Ouve um ruído de desaprovação e Agnes olhou surpresa na direção do som e viu conde Eltz sentado em uma poltrona e que mal abriu os olhos, uma faixa de luz entrava pela cortina e o iluminava no rosto.
— Que péssimo jeito de acordar, Altmeyer.
— Gostaria de informar também que o estimadíssimo Lukrez Eltz II passa bem e voltou a mordiscar os pés da otomana da sala de música. Senhora Göint comprou uma gravata azul turquesa para ele e agora sim ele se parece com um Eltz.
— Obrigado, Altmeyer. Descerei para vê-lo em breve. — curvou-se sobre os joelhos e olhou para a lareira apagada. Altmeyer fechou a porta olhando longamente para Agnes. — Senhorita Jansen, sinto muito por tê-la acordado.
—  Não foi nenhum problema. — Agnes disse.
O conde a olhou.
— Avise- me quando estiver descansada. Irei levá-la de volta para o Castelo. Ou para qualquer lugar que queira.
— Conde Eltz, o que aconteceu...?
— Você não se lembra do momento que a encontrei sem agasalhos do lado de fora do café? Você tremia como uma última folha soltando da árvore antes do inverno, mas cantava como um rouxinol.
Agnes olhou para suas próprias mãos sobre o colo. Ainda usava sua saia de tweed e um suéter verde.
— E-e-eu sinto muito, senhor, não...
— Vê-la dormir me trouxe paz, eu gostei. — Ele disse, se erguendo da poltrona. Estava desarmado de sua elegância tradicional: usava uma camiseta branca que retesava seus braços e o tórax esguio, quando se ergueu, olhou para o relógio de tiras de couro no pulso e os anéis que ainda carregava. — Não foi nenhum incômodo assisti-la.
Agnes se ergueu também, ainda com dificuldade em focar a visão. Aquele homem não parecia nenhum pouco com o galante conde Eltz com quem ela teve pouco contato. Ele penteou os cabelos para trás.
— Vou deixá-la a vontade. Após um bom café preto, acredito que nós dois possamos ir para o Castelo, o que acha?
— Senhor, me desculpe mas, onde estou?
— No meu quarto. —   se aproximou, apoiando sutilmente na bengala. — Você me disse ontem que tem medo de fantasmas e não gosta de dormir sozinha.
— Oh, meu deus...
— Então a trouxe para cá. — ele disse, sorrindo e passou por ela para alcançar algo no criado mudo. — Ah e claro, quando desejar que eu toque cravo para senhorita novamente, é só vir me visitar. Tocarei com prazer a música que desejar.
— Conde Eltz... — Agnes tocou a mão do homem quando ele passou por ela novamente em direção a porta, segurando o amontoado de papeis que juntou — Obrigada.
Ele sorriu, um pouco cansado e segurou a mão dela, beijando as costas com os lábios sutilmente secos.
— Aguardo-a para o café.
E com o aceno de cabeça de concordância de Agnes, completou a distância até a porta e ao abri-la foi saudado por cachorro no portal antes de fechá-la.

⛦⛦⛦


, há muito tempo, não sentia uma ressaca que fazia todos seus ossos doerem. Ela acordou com um ronco perto dela e quando abriu os olhos, viu um clarão entrando pelas janelas – e a cabeça de deitada sobre ela. As mãos dele a envolviam pela cintura.
Assustada, se moveu para desvencilhar, mas o homem a abraçou com força como se estivesse acordado.
— Não gosto de peixe frito. — ele disse.
, acorde! !
Ele abriu os olhos lentamente e ergueu a cabeça. Seu queixo ficou no meio exato dos seios de , ele esteve o tempo todo usando o peito da mulher como travesseiro. Ela ficou imobilizada.
— Ah... , querida.
Até que despertou de vez, esfregou os olhos com força e soltou um grito compreendendo a realidade com a força de um soco e livrando-se de . Ele estava descalço, sem camisa e com as ondas do cabelo loiro desordenadas. Ela também sabia que não estava melhor, usando sua calça de sinalização dobrada até os joelhos e sem um pé de meia. Sem olhar para o homem, ela começou a vasculhar por pedaços de suas roupas que estavam lhe faltando, como por exemplo, um soutien.
— Ei, espere , como você está? Dormiu bem? — se levantou, apanhando seu cinto. — Nós...
— Eu não quero saber o que aconteceu aqui, . — Ela disse, entredentes, procurando por sua camisa.
— Ei, , não precisa ser assim. Somos adultos. Qual é o problema... — entregou a camisa e a tomou. Por um momento a mulher ficou olhando diretamente para o peito nu do homem e com a sensação que algo nela estava acostumado a vê-lo assim.
, eu sinto muito, mas... não é o momento disso. Estou trabalhando para sua família, minhas inte...
— Foda-se minha família, estou falando de outra coisa. Eu e você. — Ele segurou a mão de e a puxou para perto de si. — Como ontem, quando ficamos juntos.
tentou não ceder ao magnetismo agradável que a puxava para ficar próxima do peito nu de e suas tatuagens que ela não se lembra do que era, pois estava focada demais nos olhos dele naquele momento. Um misto de enjoo e enxaqueca começou a tomá-la vagarosamente enquanto subiu suas mãos pelos braços nus dela, até os ombros e enfim no pescoço, onde a segurou pela nuca para fita-lo.
— Por favor, jante comigo nessa noite. Podemos ficar juntos, conversar melhor dessa vez sem nos embriagar até perder a consciência. Quero saber coisas suas. Nenhuma mulher é tão interessante como você, . — a acariciou levemente e a atraiu para um beijo.
Algo o interrompeu: o barulho de chaves girando em uma porta. soltou-se como se as mãos e os anéis de fossem fogo vivo e buscou vestir-se o mais rapidamente possível. Mais vozes conhecidas eram possíveis de serem ouvidas do primeiro andar.
permaneceu onde estava, observando calçar as botas.
— Então, o que diz do meu convite? Podemos conversar sobre...?
— Sabia que vocês estariam aqui. — Judy surgiu, girando um molho de chave no dedo indicador. — Desculpe, chefinha, mas a reunião começa em vinte minutos.
— Claro, Judy, obrigada. — atravessou a sala amarrando o cabelo enquanto Judy sorvia cada detalhe de um de calças desabotoadas e o peito atlético e musculoso como de um corredor e o abdômen torneado como de um homem que se excita para si mesmo. — Adeus, . — disse, olhando uma última vez antes de sair. Um olhar misterioso e que ao mesmo tempo não dizia nada.

⛦⛦⛦


O alemão soltou um ruído frustrado pelos lábios e olhou para o celular. Tinha pouca bateria, mas descobriu um novo wallpaper: mandando um beijo para o observador, usando a camisa dele.
Na galeria, mais fotos. Os dois se beijando, fazendo caretas e posando para a foto com sorrisos largos e ébrios. ficou muito tempo olhando para as bochechas coradas e os olhos bicolores da mulher que o enfeitiçavam como um ônix e um âmbar brilhantes. Singulares. Por um momento, se esforçou para lembrar o que fizeram na noite passada, mas nada lhe veio à cabeça. A última coisa que lembrou foi de lhe pedindo para contar sobre seu sonho com a mulher chamada . Ele olhou no mostruário de colares, o colar que usava nas fotos permanecia no mesmo lugar.
Em algum momento o lado restauradora deve ter falado mais alto e a feito colocar de volta no lugar. Ele abriu um belo sorriso, largo e divertido olhando para a joia e se lembrou de há quanto tempo não fazia aquilo. Olhou novamente para o celular e conferiu os contatos. Alguns flashes na sua cabeça lhe indicavam que ele deve ter guardado o telefone da mulher.

Aqui, vou anotar meu celular. Por favor, me faça companhia. Eu adoraria ter alguém com quem conversar sobre...

Ele não lembrava o final, mas ao ver o contato “” e uma foto de na identificação ele riu de novo.

Você queria alguém com quem conversar e agora terá. Por favor, pense no que te falei e jante comigo nessa noite. 09:40 p.m.

Antes de apertar “enviar”, ele ouviu uma risada que conhecia bem.
— Um milagre eu não precisar te encontrar coberto de vômito no meio da floresta, irmãozinho.
usando um óculos escuros, um cigarro e um copo de café para viagem surgiu. apagou a mensagem no celular.
— Como foi a sua noite com ?
— É ciúme que vejo na sua voz, meu irmão?
— Eu concordava com você comendo suas putas dentro do meu castelo. — se aproximou. Sua voz calma e sarcástica não transmitia todo o peso de suas palavras. — Mas a minha funcionária líder de restauração, dentro da câmara do tesouro, interrompendo o planejamento...
não é uma puta, , tenha o mínimo de respeito.
— Ah não? Porque toda mulher com quem você se envolve acaba se tornando uma. Geralmente antes de te conhecer elas já são.
se virou e empurrou o irmão, que desabou no chão sem dificuldade.
— Não fale de desse modo!
— Olhe para si, querido irmão. — sentou-se e ajeitou a perna inerte, observado pelos olhos estreitos de . O café havia se derramado em sua camisa branca e no blazer cinza. — Louco de amores por uma mulher que não o desejava. O que fez para transar com ela? A embriagou?
cerrou a vontade de socar o irmão com os punhos.
, se veio aqui para me provocar, conseguiu. Por que não vai se interferir no trabalho de algum dos seus funcionários?
— Vou tentar encontrar um funcionário que não tenha dormido com você. Minha advogada, a moça da recepção, a doutora em história da arte...
— Cale-se, ! E não ouse dissuadir . Ela e eu não temos nada e mesmo se tivermos, a vida pessoal dela não está na sua folha de pagamento!
— Ah , deve ser ótimo ser você. — apoiou o peso sobre a bengala e ficou de pé. — Sempre tem tudo o que quer e nada lhe é negado. Uma vida de prazeres facilitados ou de insistência? O que será de você e seus próximos objetivos agora que riscou da lista?
estava vestido sua camisa quando encarou o irmão com um último olhar irritado.
— Não me venha com seu discurso de filho doente. Ambos sabemos que não tive tudo.
— Não teve porque não quis.
— Não tive porque papai estava preocupado mais em ter um filho saudável do que dois sãos! Estava ocupado carregando seu corpo mole de quarto em quarto! — elevou a voz e se arrependeu no minuto que disse a última palavra.
— Foi um grande erro mamãe traçar profecias, não foi? — disse após um silêncio tenso. Seus olhos despontaram em uma melancolia já conhecida. — Um grande erro ter esperança demais que o segundo filho iria sobreviver, custasse o que custasse?
— Eu não quis dizer isso, , você às vezes...
— Pelos meus cálculos suas férias acabam nesta sexta feira. Não vejo a hora de você ir embora. — disse e se virou para porta.
ficou muito tempo de olhos fechados, se sentindo exausto e com vontade de vomitar pelo enjoo da ressaca ou pelas palavras que disse, indigestas. Ao despencar em uma cadeira no centro da sala, apanhou o celular e digitou a mensagem novamente.

Na verdade, a Diana de ontem era falsa. Eu não sou louco e nem todo tesouro Eltz é verdadeiro. 10:54 a.m

⛦⛦⛦


Passaram-se dois dias e muitas promessas de que nunca mais tomaria algo alcoólico até o estômago de voltar ao normal. Ainda que tivesse passado esses dias tomando remédios para enxaqueca, a mulher não se arrependia. Estava dividida entre uma paixonite pelo “playboy” que seduziu na Schatzkammer e a raiva de não conseguir se lembrar de muita coisa naquela noite. Após receber a mensagem de e notar o número dele gravado em seu celular como , ela viu algumas fotos que a fez rir: ela e trocando beijos, sorrindo e uma última que passou os próximos dias analisando cada centímetro: de perfil com a luz a seu favor, usando uma coroa.
Um calafrio percorreu seu estômago ao notar que aquilo não era novo em sua memória. Se recordou do sonho erótico e de se despir, mas não se lembrava de trocar com mais do que alguns beijos naquela noite.
Eu quero me lembrar. Isso é algo que eu quero me lembrar. Ela pensava, naquela noite às três da manhã, deitada no seu quarto do hotel em Wierschem. Suas mãos apertavam seu celular contra o peito com respingos de tinta branca e as unhas sujas de vermelho e azul.
Ela fechou os olhos, mas sua mente era invadida por um sem camisa, olhando-a com desejo e em seguida um com o rosto contorcido de prazer, isso automaticamente descarregou uma onda quente em sua barriga. Ela sabia onde aquilo ia dar e estava prestes a ceder, quando alguém a despertou. Após erguer-se de supetão, apanhou o peignoir salmão e abriu a porta.
Agnes a olhava com os olhos imensos, uma expressão de culpa e apertava contra o peito uma pasta.
— Doutora, eu sinto muito acordá-la, mas precisamos conversar. Este é o único horário que a encontro a sós.
abriu a passagem e fechou a porta.
— Claro, Agnes, acomode-se.
A moça se sentou na única cadeira do quarto minúsculo que mal cabia a cama e a mesa, enquanto apanhou um copo de água. Viu-a abrir a pasta com observações escritas a mão e algumas gravuras. O pijama de Agnes era uma blusa velha do The Racounters e calças estampadas.
— No dia do jantar na cafeteria eu me embriaguei... ok, não me orgulho disso. — Agnes aceitou o copo de água que ofereceu. — De alguma forma o conde Eltz me encontrou e me levou para sua casa. Não me lembro de muita coisa, mas ele tocou cravo para mim.
ergueu as sobrancelhas, Agnes parecia pensar muito antes de dizer as palavras.
— Mas... para completar essa história eu preciso abrir um parêntese: O motivo de eu querer ser sua aprendiz foi a sua determinação ao afirmar que a historiografia deve ser um ato diário de pesquisa. O estudo do passado serve para que os erros que aconteceram não sejam repetidos, para nos tornar empáticos com o sofrimento causado pela ignorância da violação da alteridade e o mais importante; aquilo que você disse em uma aula especial de recepção de calouros: ser mulher e estudar história é o dobro de responsabilidade, porque devemos buscar a voz que dez mil anos de civilização patriarcal tentou calar e temos o dever de buscar a verdade que roubaram de nós.
estava assustada, teve a sensação de ouvir um gravador na velocidade máxima. Podia ver nos olhos injetados de Agnes um apelo. Lembrou-se desse dia na Universidade Vrije de Bruxelas quando ainda lecionava e principalmente de uma Agnes muito atenta sentada na primeira fila.
— Não sei onde está querendo chegar.
— Eu preciso saber se isso é verdade. Se fiz a escolha certa em escolher ser sua assistente...
— Eu a escolhi porque parecia sensata, Agnes, bater na minha porta às três da manhã com um ar de conspiração não era o esperado.
— Doutora... jure que irá acreditar no que vou te mostrar.
— Eu não juro por nada.
— Por favor, jure uma primeira vez.
— Juro não te julgar pelo que vai me mostrar, é o suficiente?
Agnes se levantou e abriu a pasta sobre a cadeira.
— Eu acordei no quarto do conde nesse dia. Ele me galanteou e pareceu muito preocupado em recolher uns documentos que havia esquecido no criado mudo. Quando ele saiu do quarto, não dei tempo de perguntar a mim mesma o que poderia ser e... e pensei que ele estivesse escondendo algo importante.
apanhou a fotografia de uma iluminura em uma página e passou a analisá-la.
“Eu estava certa, doutora. Conde Eltz escondia documentos de uma pesquisa secreta. Ele tinha relatórios de um diário e na pressa de esconder tudo na minha roupa antes de ele aparecer, peguei o que pude, mas ainda lembro do que vi. Haviam fotografias de iluminuras, sempre nesse padrão, além de desenhos de rosas, um baú, fotos de joias e outros tesouros.”
não ouviu mais a ladainha da assistente. Não acreditou no que suas mãos seguravam e precisou apanhar os óculos de armação havana com as mãos trêmulas e levar o papel mais próximo da luz. A iluminura medieval era de uma mulher com um olho fechado e outro aberto, com um risco sobre o peito e segurando uma flor. A mulher nunca havia visto nada como aquilo, as cores preservadas perfeitamente e um pedaço cortado do texto original em latim o qual só pode identificar as palavras:
Bruxa, demônio e maldição.  — falou em voz alta e voltou a analisar as outras folhas de Agnes.
— Doutora, você nunca se perguntou porque nunca houve uma condessa Eltz nascida da família? A linhagem é de homens, nenhum dos condes tiveram filhas registradas.
Agnes segurava uma folha com nomes dos condes e eddlerherrs começando por “Rodolphus von Eltz”, terminando em dois nomes que já conhecia: “Kaspar Edgar von Eltz und zu Kempenich” e seu filho “Sigbert Walter von Eltz und zu Kempenich”.
— Também peguei isso. — Agnes entregou uma fotografia de um diário com capa de couro, escrito em francês. A imagem estava ruim, mas identificou algumas frases:

“Pedra de roseta: Bertie tentou me parar outra vez, mas eu afirmei que não farei isso. Os relatos de Schopfer precisam ser trazidos à tona para clarear a influência da igreja católica na construção do castelo Eltz e a liquidação das últimas tribos germânicas pré-romanas na Renânia. Isso só será possível se encontradas também as cartas e diários de Expedit, quem supostamente ensinou a mulher a escrever.”

— Eu chequei. “Bertie” pode ser Albertus Sigbert von Eltz foi o conde vivo que tomou conta do castelo a partir de 1931. O bisavô dos herdeiros atuais.
sentou-se na cama e levou a mão a testa.
— Agnes... Está tarde, você pode voltar para o seu quarto, por favor. Não estou me sentindo muito bem...
— Doutora, o que sente?
— Meu peito dói... — olhou para a assistente. — Não é nada com que se preocupar, vá descansar.
— Doutora, por favor... me diga que não agi errado ao apanhar esses documentos.
— Agnes, você agiu errado.
— Doutora, eu sinto muito, mas algo em mim me dizia para fazer. A minha intuição é que o conde está escondendo algo. Que essa família esconde coisas a vida inteira! Quem pode ser essa ?
— Nobres são assim, Agnes, uma teia de mentiras e abuso, mas não somos pagas para isso. deve conduzir essa pesquisa com outras pessoas, outros pesquisadores.
— Você se contradiz... olhe para isso. — Agnes segurou a iluminura. — E se essa mulher do olho fechado for a que é mencionada? E como os tesouros circulados, os mesmos que estão na Schatzkammer estão destacados? Quantas mulheres essa família esmagou nas pedras das suas edificações?
ficou em silêncio. A raiva que avermelhava as bochechas de Agnes a fez lembrar do passado.
— Agnes, não podemos nos envolver nisso, eu sinto muito... mas tudo isso pode ser apenas imaginação de conde .
Agnes começou a chorar, ficando muito vermelha e com os dentes cerrados. se recusou a se lembrar da mensagem que recebeu de dias atrás.
— Além do mais, isso é propriedade privada, não temos como pesquisar nada sem que nos autorizem.
— Eu confiei em você, na sua imagem e no seu trabalho... é assim ao final de tudo. Você é só mais uma restauradora atrás de dinheiro.
— Agnes...
— Dinheiro. Sempre dinheiro. Enquanto meninas crescem mundo a fora estudando o que os homens fizeram. E você, óh renomada doutora e artista Konig... você nunca se perguntou nas suas aulas de história porque as mulheres só aparecem no livro didático quando começaram a ser queimadas vivas e depois quando queimaram soutiens?
respirou fundo, duas lágrimas brotaram de seus olhos, o peso que sentia na boca do estômago era nauseante. Agnes falava baixo, mas ainda era possível sentir a vibração tensa de sua voz e a força que a motivava.
— Agnes, por favor, não confunda as coisas...
— Você era um espelho para mim, mas se for para fazer tudo por dinheiro, vou voltar para Bruxelas e dar aulas na escola primária para receber mais e trabalhar menos do que faço hoje. Passar bem, doutora .
— Agnes...
— Eu me demito. Mandarei meus documentos a sua contadora.
E a moça saiu sem olhar para trás, não teve força nos joelhos para se levantar e ir atrás dela. Sua mão trêmula apanhou a folha com a iluminura da mulher do olho fechado e outro aberto, idêntica a escultura da mulher do mausoléu que lhe mostrou. No quebra cabeça de sua memória, tudo rapidamente se encaixou e a dor que sentiu no peito a obrigou a fechar os olhos e repousar.


Capítulo 19

The one eyed old man told me that the face that I will see
Has paralysed a thousand brave men sure of victory
I cannot fight blindfolded and I'd freeze if I should see.
So I need to sacrifice my eyes to see all from within.


Bathory - The Lake

O velho homem de um só olho me contou que a face que eu verei
Já paralisou milhares de homens corajosos certos da vitória
Eu não posso lutar de olhos vendados e eu teria gelado se pudesse ver
Então eu preciso sacrificar meus olhos para ver tudo com o coração

Meu nome é Schopfer e aprendi a escrever na língua dos romanos. Demorei seis verões até conseguir me recordar com todos os detalhes o dia que sobrevivi a fogueira e este é o meu relato.

Me lembro de acordar no que mais tarde descobri ser o aposento de Marlene Eltz, a esposa de . Ninguém me dizia nada, apenas me davam comida e água. Era difícil manter a calma em um quarto tão suntuoso como aquele, com rosas na parede e uma grande lareira. Haviam frascos, vestidos e tudo o que uma condessa poderia ter. Da minha janela, eu ouvia todos os dias os trabalhadores construindo mais alas no castelo que para minha surpresa, ainda não estava finalizado. O ano era 1194.
Eu preferiria ter ido para o calabouço na cidade, ou para as catacumbas da igreja. A agonia de esperar em um lugar confortável deixou tudo muito pior.
O dia que vi Johann Expedit Eltz, o irmão de , novamente foi quando seu empregado Altmeyer me arrastou para o centro de Wierschem, para um cadafalso que havia uma cabeça de uma mulher pendurado no alto do tronco que seria meu destino. No caminho, presa no lombo do mesmo cavalo que vim, eu só pensava que poderia estar em algum lugar. Teria encontrado Johannes e e tudo estaria bem. Lembro-me de sentir o cheiro das bétulas sobre o céu nublado desse dia ruim e da memória de na floresta. Até hoje, sinto-as cegando meus olhos ao escrever.
Meu dever estava cumprido. Não havia mais o que temer ali. E isso foi demais para , que bateu na minha face quando Altmeyer me amarrou e só assim conseguiu arrancar de mim uma lágrima. Era raiva, meu caro leitor. Ele não suportou meu semblante quieto enquanto seus padres filtravam seus cânticos no ar, sem tambor e sem fogo, apenas homens magros vestidos de tantos mantos que suas vozes saíam roucas pela pressão dos tecidos. Que força um deus com esses seguidores tem? Esse povo da cruz deseja que choremos, que gritemos e rezemos. Essa religião é movida pelas lágrimas e a culpa. Minha seiva perante meu fim certeiro era como pó de mico na roupa daqueles que assistiam meu fim com júbilo.
Por cima do tapa quente de , veio o cuspe de Altmeyer. O bispo voltou para seu palanque a minha frente e me fitou de pé com nossos olhos a mesma altura. Eram os olhos mais frios que já vi. Não existe alma nas carnes que formam . Ele é como uma pedra, nasceu bruto e morrerá desse modo, a não ser que seja amaldiçoado. Não há nada de sagrado nos símbolos que traz, nem nas palavras que diz.
Certa de que minha vida encerraria ali e enquanto a dor não roubava minha consciência, eu comecei a cantar. O canto da morte, do corvo e do auroque.
Aquilo que está sobre a terra pertence a ela, nasce para fecundar e morre para florescer. — eu ainda posso ouvir minha voz valsar no vento e assustar as faces magras e pálidas que abaixo de mim me sentenciavam, mas cantavam para seu deus do perdão. — Penas do corvo que voa, a memória esvoaça. Lombo do auroque que ruge, a força encontra. Cobra em círculo, o sangue que renasce. Lobo veloz, o sopro leva.
— Calem a bruxa! Calem-na! — Ouvi em algum momento.
Mas era tarde, o fogo começou nos meus pés e não era seguro ninguém se aproximar. Continuei a cantar, olhando para o céu onde vi dois corvos sobre mim. Nesse momento, eu sabia que os deuses estavam ao meu lado e ainda não era a hora da minha morte, bastava agora escolher o que eu trocaria por minha vida.
Eu encolhi os dedos do pé para ganhar tempo, mas a madeira que cobria até os meus joelhos já estalava de calor e começava a soltar farpas contorcidas fumegantes sobre minha pele. Em um ponto, onde minha dor foi aumentando, eu não consegui segurar a minha prece e gritei de dor. E como doía. Doeu mais do que um machado rachando meu peito e quebrando minhas costelas. Meu grito soou como um trovão, soou como o animal que mora na minha garganta e só ecoa quando não sou humana, quando não sinto minha carne. Depois de gritar, eu voltei a cantar, porque eu sabia que não era meu fim. No céu, mais um corvo surgiu e os três rodavam em círculo. O tempo formava nuvens no céu.
Em um momento, já delirando pelo calor, vi chegar a cavalo cercado de homens. Ele correu até mim soltando-se da manta de peles e abrindo caminho na multidão. Então sentio uma dor no meu olho e padeci.
Acordei em seus braços quando era noite, no meio da floresta. Ele chorava com os olhos vermelhos e dizia coisas que não ouvi, porque sentia muita dor nos olhos e nos ouvidos. Estava surda e a única voz que ouvia era a minha.
Ainda lembro-me da vibração dos tambores e das vozes, dos corvos em silêncio e mulheres me limpando. Lembro-me da chuva forte, de uma fogueira e com o rosto machucado, coberto de tinta preta, beijando minha testa queimada com sua boca ferida.
Minha memória voltou quando estava em uma cama confortável e quente. Eu abri os dois olhos, mas não enxergava pelos dois. Sacrifiquei um deles em troca da minha vida, mas acordei mais alerta do que nunca. A dor ainda estava lá, mas não dificultou meus pensamentos ou minha língua. Agora eu vejo tudo com muita clareza.
Vi Johannes primeiro, que sorriu e me abraçou. Como foi bom receber o conforto daquela criança que eu tanto amo. Conversamos e ele me disse que estava de guarda e que todos queriam me ver.
Eu me sentei, mas quando fui pisar no chão vi que minha vida custou algo além do meu olho esquerdo, eu havia trocado a pele dos meus pés pela minha vida. Um deles estava envolto em tiras de pano e emplastos e o outro ainda com grandes bolhas de água no solado. Eu ainda não poderia caminhar e fiquei de cama por todo inverno.
veio cambaleante, junto a Kivre, ileso. Estávamos aqui dentro. Os pagãos e o cigano, no Castelo Eltz. Eu os impedi de chorar pois eu estava viva! Mais viva do que nunca estivera. Mas e a dor? Me perguntavam. Os encontros com a dor já faziam parte de quem sou. De vez em quando, nos vemos, mas tão logo nos separamos.
não podia me ver porque havia viajado a Roma. Foi ter com o papa durante muito tempo.
me disse que um monge cuidou de mim na manhã que voltei para o castelo, após ele e me levarem para ser cuidada pelo povo da floresta que ainda seguia a antiga religião. O povo que me levou até o deus que também não tem os dois olhos e mediaram meu encontro com ele.
O tal monge apareceu, pois eu pedi para vê-lo. Goswing era seu nome e naquela época era muito magro, precisava se abaixar para passar nas portas. Ao contrário do que eu esperava do povo da igreja, ele não era ignorante. Conversávamos por horas durantes os dias que se seguiram. Ele foi aprendiz de monge Das Gough Weit, o prior do mosteiro dos beneditinos do leste e membro dos Die Drei, os guardiões de Barbarossa - sei disso porque Goswing era um grande entusiasta desse homem. Ele era muito ansioso, sempre com medo de alguma coisa, mas quando conversávamos sobre flores e xaropes, me tratava como sua igual e sempre anotava o que eu dizia. Ele dizia que não via nenhum demônio em mim.
Numa noite já no fim do inverno, apareceu em meus aposentos. Eu estava acordada pelo barulho da neve contra a janela e não me assustei de ver a sua silhueta magra sem as camadas de estolas que usava sentar-se à beira da minha cama.
— Eu recebi o seu bilhete.
— Está muito escuro para eu começar a escrever.
— Não pense que porque fez de você sua consorte que você terá benefícios morando aqui. Irá trabalhar como qualquer outro. — a voz dele era um sibilo. Estava de costas para mim. — Esfregar o chão ou qualquer outra coisa que valha suas mãos sujas.
— Farei o que me pedir para fazer. Ele me trouxe aqui sem que eu o obrigasse, sem dúvidas terá planos para mim. Você não manda mais em Wierschem ou no castelo, é um padre qualquer agora.
Ele riu.
— Eu sempre mandei em tudo. Com ou sem aqui. Não sou mais o bispo, mas ainda sou um Eltz. Os privilégios de meu irmão valem a mim por meu nome. E você ainda terá o seu fim, Melpomene. Você ainda irá arder na fogueira.
— Antes desse dia, espero que me ensine a escrever no idioma dos padres e dos romanos.
— Eu não irei perder o meu tempo com tamanha imbecilidade.
— Se me ensinar, poderei conquistar o apreço de por você. Pensa que ato indulgente? Ensinando a mulher que você queimou a ler e escrever no latim?
Houve silêncio.
— Volte a mim quando pensar e se lembre: é bondoso, mas não sei porque ele manteve o homem que tentou matá-lo, que prendeu sua esposa e seus filhos em um calabouço, ainda vivo.
— Ele precisa de mim, você não entende...
— Precisa mesmo, meu senhor? Se precisa tanto, como foi a Roma sem seu antigo bispo, seu próprio irmão? — se levantou quando eu falei. — Pense na minha oferta, padre. Aproveite enquanto tenho a paciência de quem não pode se levantar.
E assim foi feito, fiz o homem que ordenou minha sentença de morte me ensinar a ler e escrever na língua dos romanos em troca da confiança de seu irmão.
Era necessário que eu escrevesse, na língua dos romanos, o que aconteceu durante os anos que se passaram. Neste tempo, homens não se preocupam com suas mulheres. E Eltz, desde que voltou de Roma, não foi diferente.

⛦⛦⛦


— Mamãe? Papai a está aguardando à mesa.
largou a pena de faisão com a ponta dentro de um pote de tinta e um pincel pousado ao lado da folha que escrevia. No seu colo, confortável dentro de uma bolsa de pano, um bebê dormia calmamente.
Ao se levantar com a ajuda de uma bengala, ela caminhou até a filha parada na porta. Era uma garota alta para sua idade com grandes olhos azuis.
— O que deu no seu pai de nos querer junto a ele nesta noite, Adelheid?
— Estou com muita fome para saber, mamãe.
— Vamos juntos, eu, você e Leuthold. Quem deve mais se recordar da voz do pai.
sorriu e apanhou a mão da menina quando fechou a porta de seu quarto, girando a tranca ao sair. Os cabelos loiros de Adelheid tinham gravetos e folhas secas nas ondas e aquela visão fez se lembrar de no dia que surgiu para ela.


Capítulo 20

The place where we met is haunted by thieves
Sifting through memories, from the foreign leaves
Oh, bank us your soul, now race with the clock
Immunity over, take a moment, then stop
But the beat of your heart
Is alone in the dark


Editors - All The Kings

O lugar onde nos encontramos é assombrado por ladrões
Peneirar memórias, a partir das folhas estrangeiros
Oh, banco-nos a sua alma, agora competir com o relógio
Imunidade mais, ter um momento, em seguida, parar
Mas a batida do seu coração
Está sozinha no escuro

2018

Altmeyer serviu uma dose de conhaque a na sala de música. O herdeiro Eltz estava tocando uma melodia barroca no cravo.
— Lua nova de novo, meu querido amigo Altmeyer. Já é a segunda de desde que ele chegou aqui.
— Optará pela vigília nesta noite, meu senhor? Ainda não recuperamos os documentos roubados.
— Não. Ainda não. Estou exausto. E quero continuar a não ver até quando ele for embora. Ele passou o dia fora andando com sua moto imbecil pela floresta. Testando os próprios motores que fez... A autoestima dele ainda irá matá-lo. — virou uma página da partitura, ainda com o tom de voz amargo. — Mas deve estar cansado e dormirá sem problemas. Vou tocar mais esta ária e subirei para meus aposentos, você está dispensado.
respondeu, acomodando a gola do robe xadrez em volta do pescoço e posicionando as mãos magras sobre as teclas. Tocou a primeira nota e a deixou ressoar, enquanto Altmeyer abriu a porta.
O mordomo, contudo, não saiu. Vendo pelo canto do olho a presença do vassalo inerte a porta, ficou incomodado e parou de tocar.
— O que foi, Altmeyer?
— Senhor...?
Então ouviu. Eram gritos vindos do andar de cima.
Altos, animalesco e doloridos.
— Vá. Vá na frente! — Ele gritou e Altmeyer abandonou a garrafa de conhaque no chão para correr. ficou com os grandes olhos azuis brilhando na luz amarelada da sala, tirou a sonda do nariz com uma careta de dor e se ergueu por alguns segundos sem precisar da bengala, quando sentiu que ia cair, apanhou-na no ar.

⛦⛦⛦


Um homem está desesperado. Há dois dias não bebe água e há uma semana não põe nada de sólido na boca. Sua comida naqueles dias é uma sopa embolorada vinda de latas norte americanas.
No peito, a Colt 1911 pendula fracamente, nas mãos, o Lee-Enfield Mk 1 treme. Ao olhar para trás, a chuva torrencial mal permite que ele distingue quem é seu aliado e quem é seu inimigo no emaranhado de homens lutando na terra de ninguém. Os elmos e chapéus de proteção agora voam pelos ares e esparramam barro ao baterem no chão. Ele mesmo está cego, tudo o que faz é erguer a trava do rifle e mirar nos capacetes pontudos aglomerados a alguns metros à sua frente.
A lama dança com ele fazendo-o tropeçar, ele luta contra o que se mistura entre o barro e as entranhas ainda quentes de um soldado. Pisando sobre ratos e membros, este homem mira outra vez.
— Munição! — Ordena, como um legionário, e um rapaz de quinze anos aparece atrás dele. Com as mãos trêmulas, entrega o pente mole de balas para carregar a arma atrás da trincheira deserta que se jogam e escorregam sobre os cadáveres.
Não há tempo para agradecer ou dizer algo além de compartilhar um olhar apreensivo entre os dois no meio do barro que endurece a face de ambos. A chuva cinza o céu cada vez mais forte. O homem que segura o rifle segue em frente quando seus aliados pulam na mesma trincheira que ele está.
Sozinho, sobre pela escada, dribla e pula o rolo de arame farpado como um cavalo de guerra em fúria. Ele não sente, mas suas pernas sangram e a vitalidade se esvai conforme a água pesa as roupas que ele usa pregadas no corpo.
Os alemães e suas cruzes de prata estão há vinte passos de sua frente. Ele desbravou a terra de ninguém, esse mesmo homem esfomeado lutou sozinho e botou o inimigo para correr. Mas, ao olhar para trás novamente, ele não vê ninguém. O rapaz da munição que corria com ele acaba de ser alvejado e tomba sobre o chão.
Agora o homem é o único em pé. Ao olhar para frente, os alemães ainda correm. Ele gesticula para trás, para que seus compatriotas o vejam, mas é tarde. Vindo do lado de seus aliados, uma granada estala contra o céu.
Ele sinaliza para que não façam isso.
— Ainda estou aqui! Sou eu! Não atirem em mim!
Ele corre para escapar do fogo aliado, mas rapidamente é tomado por um impulso que o arremessa para longe, contra o chão e ele não ouve mais nada.


⛦⛦⛦


chegou a sala de colecionáveis em que se instalou durante seu período na casa. Caminhou ofegante pelo esforço de chegar depressa à beira do leito improvisado do irmão: um amontoado de cobertores e almofadas no parapeito da janela em frente a escrivaninha onde eram restauradas as miniaturas.
estava vermelho de tanto berrar e gritar. Um de seus braços não se movia, parecia estar preso ao colchonete fino como se tivesse cordas invisíveis o segurando. Outros dois homens surgiram correndo e trombaram em para chegar a .
— Senhor, é preciso medicá-lo. — Disse Altmeyer, segurando uma seringa à luz. — Autorize, senhor.
MEU BRAÇO. O MEU BRAÇO, NÃO O CORTEM POR FAVOR... SÓ TENHO A ELE UM SOLDADO NÃO VALE SEM UM BRAÇO POR FAVOR... MEU BRAÇO gritava muito alto, estridente, e lutava contra os homens que o seguravam ainda de olhos fechados. O suor brilhava sobre o peito nu do homem, agora coberto de marcas das mãos que o detiam. Altmeyer colocou um pedaço de madeira revestido de tecido dentro da boca dele para morder e se calar.
ficou imóvel, conforme o ar sumia do seu peito e sua garganta se fechava aos poucos. Sufocando sozinho enquanto olhava para o irmão, do bolso do robe tirou uma bombinha de ar para asmáticos.
— Senhor? — Altmeyer insistiu dessa vez mais alto, erguendo a seringa e direcionando para o braço contido de . — Senhor preciso que permita... — Não. NÃO! censurou com a voz ainda mais rouca e se aproximou da cabeça do irmão, jogou no chão a bombinha e sentiu o medicamento entrando gelado pelos seus pulmões. — Vai ficar tudo bem meu irmão. É um sonho, lembre-se é um sonho.
ainda debatia as pernas, elevava o torso e o batia com força contra o parapeito da janela, relutante como uma cobra. largou a bengala de lado e tomou a cabeça do irmão com força, segurando-a pelos cabelos.
— Irmão... é um sonho. Meu amado irmão... por favor, se lembre que é um sonho — sussurrava. diminuiu a força da luta. afrouxou o aperto no couro cabelo e segurou o rosto do irmão pelas bochechas.
— Senhor, é perigoso, se afaste...
O chão que piso. disse, apertando as faces de um muito febril. — Não é alto para voar. encostou a testa na testa do irmão e fechou os olhos. — Mas só os que voam... podem o céu tocar. Acorde, irmão.
Foram alguns segundos até os dois funcionários soltarem , que pendeu as mãos frouxas sobre o leito e cessou de lutar. sentou-se ao lado dele e afundou o rosto nas mãos trêmulas.
Todos os criados saíram, seguidos por Altmeyer que olhou longamente para o patrão antes de fechar a porta.
. — A voz de estava rouca.
secou a lágrima singular que pendurou na sua pálpebra. Outras caíram. Ele suspirou. Chorou.
— Meu braço está dormente. Me ajude, por favor.
ficou alguns segundos limpando as lágrimas do rosto se virou em silêncio para encharcado de suor e com as pálpebras semicerradas e passou a massagear o braço do irmão com suavidade.
— Doi?
— Como nunca. Formiga.
Ficaram em silêncio enquanto cuidadosamente apertava os músculos de toda extensão do braço esquerdo do irmão.
— Me desculpe por ter te acordado. Eu estava cansado, dormi sem perceber... não poderia ter dormido...
ficou calado, concentrado e ainda respirando ruidosamente.
, eu sinto muito.
. — largou o braço do irmão e apanhou a bengala no chão para se levantar. — Não me peça desculpas. Você sabe o que acho disso.
sentou-se na cama improvisada e limpou o suor do rosto e do peito no lençol. Abria e esticava os dedos da mão. Sua voz estava embargada, ele tossiu várias vezes.
— Eu o vejo assim desde o dia que nasci. Toda lua nova a mesma coisa. Mamãe correndo para ir trancar a porta do seu quarto, papai colocando protetores de ouvido para eu dormir. Realmente, você faz bem em vir aqui somente no natal. Não faz bem para mim ter que lidar com você chorando e andando pela casa só porque a lua não está cheia.
Os olhos de encontraram os olhos injetados de e viu ali uma nota rara de tristeza.
— Você está velho, . Sempre foi velho. Mais velho do que eu. Eu dei um jeito de me cuidar, mas e você? Você continua precisando ter que eu mantenha isso estocado em casa quando vem. — cutucou de uma vez o estojo de seringa com a bengala e os objetos caíram da escrivania para o chão. Os olhos de acompanharam o trajeto. — Tenho que manter sedativos para seu sonambulismo, álcool para sua cabeça e o silêncio desses funcionários. Cada dia mais caros por sua culpa!
estava gritando, com o cabelo de aspecto oleoso desmanchando sobre a testa e as faces brilhando de suor de tensão e lágrimas que não secaram.
— Olhe ao seu redor! É isso que você faz! É isso que sua incredulidade faz! Já lhe dei todos os caminhos para acessar seus problemas e você continua sendo um bloco duro de burrice! — caminhou até , que massageava por conta própria o braço. — Quando vai aprender, hein? Quando, ? Quando?!
encarou o irmão de baixo, mas não falou nada.
— Eu o aceito por obrigação consanguínea. Você sabe muito bem que não poderia por os pés aqui. Papai estava certo. Você é maluco.
abaixou o rosto, permaneceu em silêncio.
— Em alguns momentos eu queria ser mesmo ruim para você. — cutucou o peito do irmão com a base da bengala. — Queria ser como papai. Mas não sou, sou bom não é? Você está aqui? Deserdado, mas está aqui. Doente da cabeça, mas está aqui.
, foi mais uma cena de sonambulismo. Sonho.
— Não foi um sonho, . Nenhum homem sonha e fica como você. Você é uma fera, um leão desgovernado. — curvou-se para encarar os olhos do irmão na mesma altura. — Você é um monstro que tem medo das memórias que carrega involuntariamente. No DNA. Dentro do seu sangue. Você é um monstro, um mentiroso e um burro. Não tem tato para espiritualidade, para ciência ou qualquer coisa que seja diferente da sua própria carne, diferente das verdades que carrega no seu próprio bolso e as julga universais. Eu o odeio. Eu o odeio tanto que quase odeio a mim mesmo por ser seu irmão!
escutou tudo olhando para o fundo dos olhos cristalinos de .
Hum? Não é isso que você é? Um grande pedaço de pedra? Sem alma, sem deus, sem passado e sem futuro!
— No meu sonho me levou até você. Outro sonho de guerra. Ele disse que meu braço precisava ser cuidado no posto do hospital porque não tinha condições de esterilizar. Mas você mandou amputar porque estava sem suprimentos.
recuou quando o interrompeu.
brigou com você, te socou no meio da tenda na frente de oficiais e você caiu sobre um homem em uma maca. Você estava fardado. Todos nós estávamos. Mas meu uniforme era diferente. Eu finalmente vi quem eu era. Havia uma bandeira da Inglaterra na manga do meu braço amputado.
recuou até bater contra a escrivaninha.
— Você mandou que batessem em até ele perder a consciência por deserção e mandou outro médico vir ao meu encontro. Ele cortou meu braço fora. Este foi meu sonho, Leo. Como quer que eu tenha acesso a minha alma se esse é o tipo de coisa que ela carrega? Seja lá alma, memória do DNA… qualquer uma das maluquices que você quer acreditar...
sentou-se na cadeira e desviou o olhar.
— Como quer que abra meu coração e minhas lembranças para pessoas estranhas, que eu fale como meu irmão sempre consegue me machucar nos meus sonhos? — se levantou, cambaleante ainda massageando o braço e rumou para porta. — Em todo sonho você está lá. Essa grande desgraça sobre meu sono me impede de ter noites de sono e cada lua nova fica mais difícil. E aqui, eu não consigo. Quem é o monstro?
sentou-se na cadeira e apanhou do chão a seringa de sedativo. Quando saiu, ele a injetou em si mesmo.

⛦⛦⛦


viajou até Hazenport, onde sabia que Agnes estava. A moça dividida o quarto com Judy, quem foi a delatora do possível paradeiro da moça.
— O que aconteceu, ? — Judy estava muito séria na noite anterior, em seu pijama cavado de shortes curtos. Tinha depositado uma caneca fumegante de chá nas mãos da chefe.
ainda estava se sentindo trêmula, pois a dor que sentia no peito ainda não a tinha deixado.
— Agnes me mostrou documentos que podem revelar segredos perigosos.
— O mesmo que ela encontrou no quarto do vampirão?
— Sim. — ergueu os olhos para a mulher muito alta e seus braços que tinham tonalidade mais escura nos antebraços. — O que ela te disse?
— Ora, nada! A garota confia em mim, mas não me falou. Ela confiava mais em você.
— Oh Judy. — apoiou a testa na mão livre. O cheiro do chá de camomila não a acalmava naquele momento.
— Tudo bem. Ela vai voltar. — Judy remediou.
— Não sei como agir. Eu não sei. Algo me diz que ela deveria acreditar no que ela me mostrou. Outro, me impede de agir. A minha ética profissional me impede de…. fazer certas coisas.
Judy observava a chefe, até desviar o olhar pela janela escura àquela hora. Eram quatro da manhã.
. — começou a mulher — Não vou te chamar de doutora porque o que vou te dizer não é profissional. — A mulher sentou-se ao lado da outra. — Você é uma ótima chefe. A impressão que tenho quando a vejo em dúvida assim é que você não consegue processar coisas abstratas. Amor e devoção parecem ser novidades para você.
— Ei, Judy, não é isso que estou falando… — se afastou com o quadril.
— Eu sei que a tampinha não ficaria chateada como ficou, vindo aqui arrumar as malas com rapidez e sem olhar para trás, se você não a tivesse ofendido. Entenda como ofender, ter ignorado alguma coisa que é muito importante para ela.
ficou em silêncio.
— Quando reformamos o Chateau de Grand Lucé você ficou com essa mesma expressão no olhar. Quando o americano não gostou do que você fez. O friso de madeira de bétula.
A mulher bebeu enquanto Judy falava.
— Ouça seu coração pelo menos uma vez e faça um esforço para não ser tão repreensiva. Conhecendo Agnes, sei que ela não criaria tanto caso se não fosse algo que a tocasse profundamente. E você não estaria perturbada assim se não sentisse o mesmo. Seja lá o que for, vale a pena estudar a proposta.
— Judy, você não sabe o que ela me mostrou. É perigoso.
— Um julgamento vindo de uma mulher que passa sete dias por semana pendurada em cordas e andaimes a muitos metros do chão.
Judy riu, olhou para a janela e ficou de pé.
— Irei atrás de Agnes. Ela merece pelo menos uma explicação. Não fui capaz de conversar com ela claramente.
— Agora?
— Quando a locadora de carros abrir.
— Escute, . — judy se levantou — Seja lá o que for, conte comigo para ajudar vocês duas. Eu as admiro muito e sou feliz quando estamos trabalhando juntas.
As duas se olharam até Judy puxar a chefe para um abraço apertado.
— Ok, ok.
— Vá buscar a tampinha. — E soltou .

⛦⛦⛦


Buscando a tampinha. disse olhando o chaveiro do carro na sua mão. Já estava dentro da estação.
No guichê, questionou a moça educada que a atendia se tinha visto uma moça parecida com a descrição que fez de Agnes. Foi informada que uma moça muito parecida tinha pegado o trem ha trinta minutos atrás.
correu até a plataforma indicada. Para um dia útil, o local estava vazio. O sol havia acabado de surgir e apenas um rapaz esfregava o chão e um guarda observava tudo de longe.
Não tinha sinal que o trem tinha passado, nenhum movimento. deixou-se cair em um banco e esfregou o rosto nas mãos. No seu celular, Judy mandava mensagens sobre as ligações rejeitadas de Agnes.
— Doutora . Agnes surgiu na frente de , que estava distraída demais olhando para seu celular, segurando uma mochila de couro pela alça e ainda a blusa do The Racounters da noite anterior.
— Agnes! — se levantou e observou a moça. — Você não partiu.
— Comprei a passagem, mas não fui.
Ah, que alívio. Por que decidiu não ir? Estou feliz que ainda está aqui.
— Intuição. Algo me disse que não era hora.
A moça apontou para um homem loiro de costas dentro de uma cabine que tinha a placa “gerente”. Discutia eloquentemente com um homem fardado.
— Me desculpe por não escutar o que você tinha a dizer.
— Você irá investigar o que mostrei? Foi para isso que veio? — Agnes soava fria.
— Meu motivo de vir aqui atrás de você é dizer que eu não consigo imaginar trabalhar sem você aqui. Preciso de você, sua inteligência, sua rapidez. Por favor, fique comigo até o fim desse projeto.
Agnes desviou o olhar para seus sapatos oxford azul bebê.
— Você irá…
— Um absurdo! — alguém disse em voz alta e bateu a porta. Ao se virar, viu Simon de óculos escuros, segurando um pedaço de papel. Sorriu quando viu . — Ah, damme pirate!
— Então essa é a sua intuição.
— Sim. — Agnes respondeu ignorando o tom humorado de .
— Você acredita que não vão devolver o dinheiro? Que país de merda, além de uma água horrível eles também não sabem trabalhar com atendimento ao cliente. — Simon devolveu o papel a Agnes e apanhou um cigarro. — Lugar miserável. Se eu tiver que beber água com gás de novo toda vez que eu pedir água mineral, vou ter um infarto.
Ele falava alto e com seu inglês quase musical. O guarda que estava ali acenou para o cigarro dele e para a placa, e ele mostrou o dedo do meio. O guarda desviou o olhar.
— Não vou acender aqui, seu alemão desgraçado. — respondeu com o cigarro entredentes.
— Simon, você não deveria estar na Schatzkammer? o repreendeu, cruzando os braços.
— Sim, mas vim ao resgate da tampinha. Não podia deixá-la ir.
Simon era alto, mas ao lado de Agnes, ficava ainda mais. Ele abraçou a moça pelo ombro.
— Certo. Estamos todos alinhados, agora vamos voltar…
— Na verdade, . — O tom de Kivre ficou sério. Ele tirou os óculos wayfarer e colocou no bolso da camisa jeans. — Existe algo que quero que saiba.
cruzou os braços.
— Ontem quando estava chegando ao hotel eu ouvi vocês conversando. Mas ei, não é culpa minha ter ouvido bom. — corrigiu, quando o olhou irritada. — Eu estava mesmo começando a duvidar de algumas coisas em relação ao vampirão. Você sabe que eu nunca questionei sobre as réplicas expostas em museus, ou tesouros falsificados. Na verdade, é mais fácil limpar e polir uma réplica do século XVIII do que uma original do século XII, mas tudo ficou estranho no dia que conde me cumprimentou. — Ele falava bem baixo e as mulheres juntaram a cabeça para ouvi-lo. — Ele usava uma abotoadura feita por um ourives francês, típica de um único artesão que usava camafeus de natureza morta com borda de ouro branco, numa técnica avançada para época. Só esse homem fazia esse tipo de jóia. Em toda história da França, ninguém conseguiu copiá-lo.
não se lembrou da abotoadura, mas reconhecia que usava belas jóias.
— Esse ourives viveu em 1690. — Simon olhou para as mulheres como se fizesse todo sentido do mundo. — Em 1690 o castelo estava tomado pelos franceses depois da guerra da Renânia. Agora me digam, como pode o conde ter uma jóia original rara como ovo fabergé em um período em que frances e alemães não se davam? Enquanto que metade dos tesouros da câmara do castelo são falsos?
— Existem um milhão de possibilidades, Simon, alguém pode ter roubado…
— Exatamente. Essa família fez alguma coisa muito séria para conseguir essa joia e centenas de outros tesouros da câmara, então por que manter réplicas? Onde estão os originais? Roubo ou não, só um Eltz teria coragem de usar isso em plena luz do dia com um bando de historiadores da arte observando. Eles exibem um patrimônio suspeito. O castelo com três estéticas, a bagunça dos móveis. Eles dizem que foi pacífico, todo esse lance da separação em Rodendorf, Rubenach e Kemperich.... mas você acredita mesmo em tudo isso? E isso é o que tem no castelo, na mansão Eltz então...
Os olhos voltaram para .
— Não podemos concluir nada só especulando isso, Simon.
Simon soltou um muxoxo de desaprovação e Agnes revirou os olhos.
— Doutora, se o que a tampinha pegou for verdade… pense no que temos em mãos? Podemos expor os Eltz, a história de verdade. O que aconteceu aqui durante a revolução francesa, no fim da terceira cruzada, a primeira guerra mundial… como pode esse castelo sobreviver a tudo isso sem sofrer nenhum dano e ainda por cima: sem ter nenhuma descendente mulher? — Simon insistiu.
olhou para Agnes.
— Eu contei para Simon.
— Agnes…
— Ela só contou porque eu pedi.
— E o que querem fazer, hein? O que querem que eu faça? Chame a sociedade vigilante da história para vir aqui avaliar se os tesouros são de verdade ou não? Investigar a árvore genealógica em busca de uma filha mulher dos Eltz? — estava irritada, mas ainda falava baixo. — Olhem só para vocês dois. Parece que não conhecem história. Todo lugar onde vamos é um amontoado de coisas erradas, construído numa pilhagem de imperialismo ou de genocídio. Vocês não são os super heróis em ter vontade de trazer tudo isso a tona!
— Então você não vai pesquisar? — Agnes perguntou. olhou para os trilhos, ainda com a face irritada.
— Não é assim que funciona. Os Eltz são malucos...
— Então como funciona, ? Diga-nos se devemos acomodar nossas bundas em cadeiras confortáveis enquanto a história não é revelada. — Agnes tinha raiva.
— É a nossa chance. Pense no impacto dessa pesquisa. Pode ser o começo da queda da monarquia simbólica. Você sabia que até hoje o governo alemão dá subsídios para manter o castelo? E que o conde recebe uma pensão do governo só para mancar por aí? — Simon também estava irritado, olhava para com muita raiva nos olhos claros. — Isso precisa ser mostrado. O museu passa para o governo e não tem mais desvio de dinheiro, além do valor histórico dessa pesquisa...
— Mais do que isso, você já deve ter pensado no impacto para a historiografia dessa região. Aquele diário, onde quer que esteja, relata sobre uma mulher chamada . Quem sabe o que ela pode ter sido? Quem sabe o impacto que ela pode ter ao descobrirmos que os Eltz tiveram uma mulher poderosa em algum momento do seu trono. O massacre das bruxas no século XII, mais mal contato que tudo o que já vimos antes...
deu as costas para os dois e ficou encarando os trilhos do trem por um longo e silencioso minuto. Um ruído distante indicava que um vagão estava próximo.
— Preciso conversar com alguém antes de começarmos a pesquisar sobre tudo isso. Algo me diz que não será a pessoa mais afetada pelo que descobriremos se levarmos essa cruzada adiante.


Continua...



Nota da autora: Olá, obrigada por acompanhar essa história!
Se está começando agora, saiba que temos um grupo no Facebook onde são compartilhados aesthetics e informações extras, além de lista de personagens e um dreamcast [link: https://goo.gl/tA1mrV ] Também temos um glossário para te ajudar a entender alguns termos que são mencionados aqui. [link: https://goo.gl/ZFHuFQ]
Boa leitura! E ah, não esqueça de conferir a playlist oficial com todas as músicas que aparecem nos epígrafes dos capítulos e tantas outras que me inspiraram para escrever.
Cada comentário além de ajudar a continuar, é um abraço imaginário. Então, coloque abaixo o que está achando dessa história! <3



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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