Última atualização: 06/10/2019

Prólogo

00. Dinastia é designada como uma sequência de governantes, um período de sucessão onde pessoas de uma mesma família permanecem no poder.


Um rosto angelical, mas que poderia se tornar em uma feição diabólica em dois segundos. Mãos frágeis, corpo pequeno e ao mesmo tempo um porte alto e forte. Tinha um sorriso torto em dias ensolarados, nos dias nublados um sorriso largo, o de canto era no frio que ela tanto ficava emburrada sem querer estar, e aquele que ela dava apenas para ele, o qual ela negava transparecer. Seus cabelos com o cheiro de flores, e a alma com o odor forte de morte. Ela era a mistura certa. A mistura em que ele se perdeu profundamente, e agora pouco se importava em gritar aos céus o quão apaixonado estava, afinal, sempre esteve. Apenas a queria. E parecia tão distante essa ideia, esse fato, essa metáfora, tudo o que relacionava a eles – de modo singelo e prévio – era difícil de definir.

Em meio a pensamentos percebeu a movimentação no prédio, estava acontecendo algo, e precisava saber logo o que era, já estava machucado o suficiente para enfrentar outra invasão. Correu imediatamente para trás da porta do ambiente em que estava. Preparou as mãos na alça da calça, pronto para tirar a arma, mas falhou por um momento e deixou a arma cair por conta das mãos trêmulas que o remédio causava, nesse momento ouviu passos e deduziu que já estavam dentro do cômodo. Atentamente, e surpreso, percebeu que não haviam mais movimentos, apenas o barulho da porta sendo aberta e ao mesmo tempo fechada bruscamente por Nait.

Ele suava frio, parecia fugir de algo. Ele levantou o celular que estava em sua mão direita sem dizer uma palavra, com o rosto preocupado, sua respiração ficava cada vez mais ofegante. Nait não vacilou, e se aproximou, agora entregando o celular nas mãos do homem parado à sua frente. Fixou o olhar e não conseguia acreditar no que vira. Porra, aquelas imagens eram reais? A sequência de fotos eram em dez, todas elas havia uma garota em um casarão aparentemente antigo, algo dentro dele apertou tanto por que sabia que não era nenhuma outra qualquer garota, era a sua.

del Rose. Ela tinha o cabelo preso, roupas formais, e todo detalhe que podia absorver, o homem o fazia. Não quis prestar atenção nos olhares curiosos que o cercavam, apenas permitiu-se sentir quando a sequência parou na última foto, e as perguntas em sua mente perturbada por demônios esgueirados surgiam. A informação era que ela estava prestes a entrar no THE-MK. OK. O homem colocou uma das mãos atrás do cabelo segurando ao máximo as suas cordas vocais para não estourá-las e não se machucar mais em quebrar toda aquela sala. OK. Foco novamente. A segunda informação questionável, por que ela estava de costas apontando o dedo do meio para a câmera? Como ela sabia que havia uma câmera?! Dude, o que ela está fazendo? Aquilo já bastava. Precisava agir mas não conseguia. Nait ao perceber a frustração no olhar, e a inquietação evidente do amigo, tomou o celular de suas mãos e guardou o mesmo no bolso. Sem dizer nada puxou uma cadeira e fez o mesmo que o amigo, fitou o chão com o olhar perdido tentando buscar alguma forma de ajudar.

— Precisamos pensar em algo — Nait sugeriu, enquanto sentia o celular vibrar mais do que o comum, não queria tirá-lo do bolso e encarar mais uma vez aquelas imagens de , ainda mais na frente do seu amigo.
— Pegue-o Nait — recebendo a ordem do homem desamparado a sua frente, ao mesmo instante, os dois olharam o aparelho, e se surpreenderam ao perceber que as imagens de já estavam circulando, não apenas no sistema do Institute de São Francisco, mas em todas as redes de todos sistemas disponíveis, detalhe: do mundo.

Logo tudo começou a fazer sentido, andando de um lado para o outro sob controle de um ser que não conhecia, sentiu o coração ser espremido, e se perguntava em como era tão estúpido assim?

— Ela quer se matar Nait — Nait olhou atentamente para o homem enquanto ele dizia com tom de desespero na voz, e complementou clareando a mente do mais novo — esse dedo do meio não foi para o pai dela. Foi para mim.

Virou as costas, sentindo cada parte do seu corpo despedaçar, pois o que Nait, ou qualquer pessoa não sabia, era que aquele gesto agradável com os dedos que fizera, foi exatamente como no primeiro dia em que eles se conheceram. Era uma mensagem. Ela tinha-lhe perdoado. Não o odiava, como foi dito tantas vezes. Havia se rendido, e mal sabia ela, que ele enfrentaria céus e inferno, tudo para tê-la novamente. A dinastia havia apenas começado, com ambos rendidos um ao outro.

Capítulo I

São Francisco, City of California.
Exatamente seis meses antes.


O parque estava meio solitário, assim como eu estava me sentindo naqueles últimos meses, e a minha única amiga para suportar não está me caindo tão bem como antes. Me refiro a cocaína. As vezes cafeína, e bem provavelmente coca, algo que apenas os devaneios de meus pensamentos ficam distantes da realidade que às vezes era difícil de encarar. Apertei o punho sentindo a leve ardência na ponta do meu nariz e a euforia em meu corpo sentado na estreita do lago. O vento socou o meu rosto fazendo-o arder um pouco por conta do ar gélido. Abracei meu corpo com vontade nenhuma de levantar dali. Olhei as horas no relógio de pulso, e já marcava mais de oito horas da noite, sabia que precisava ir, ou me atrasaria para um compromisso com meu “querido” pai. Quando decidi vir para o parque cancelei uma pós com Ash e mais alguns amigos, e a deixei em casa com a nossa única chave, Deus, queira eu que ela estivesse por lá, ao contrário, alguém ficaria extremamente desapontada, como ele dizia tantas vezes, ainda quando raramente eu frequentava a sua casa.

Passei por dois estudantes conhecidos da University of San Francisco, eles me cumprimentaram com um breve tchauzinho, e céus, não sei como ainda existem essas baboseiras de rivalidades entre as universidades, a University of San Francisco é ótima, assim como a SF State, que é a minha faculdade, onde atualmente curso o terceiro período de Ciência da Computação.

Andei mais um pouco, até avistar meu carro, o meu querido e bom amigo. Também posso dizer que é meu amante, Nissan Altima 16, da cor prata e um retrovisor quebrado, dispenso melhor apresentação. O relógio já marcava quinze para as nove, e meu encontro com meu pai seria daqui quarenta e cinco minutos. Entrei dentro do carro, jogando a pequena bolsa com a garrafinha de água no banco de trás, em que eu estava segurando. Liguei o carro logo saindo do estacionamento, com um pouco de pressa passei dois carros que buzinaram e xingaram algumas palavras, porém não ouvi, o som estava ligado ao som de Cage the Elephant, talvez a minha banda preferida do momento, se eu não estivesse tão viciada nas músicas do novo álbum do The Lumineers.

Dei uma acelerada chegando na avenida Toun, o que me chamou atenção era que pude ter passado sem perceber em alguma rua que tinham placas impedindo os carros de passarem por conta de alguma reforma, pois não havia carro nenhum ali, nem mesmo os sinais dos semáforos estavam ligados. Bufei revirando os olhos, afinal, sério isso? Justo agora que estou atrasada. Avistei o contorno da rodovia para retornar e fazer um outro caminho em que eu não gostava muito, o mesmo era longo e demorava uns quarenta minutos a mais pra chegar em casa. Em direção, olhei no retrovisor – o não quebrado – e vi um carro totalmente preto, parecia ser blindado, e mal podia enxergar o motorista. Dei uma freada brusca, senti meu seio bater de leve no volante enquanto aquele carro desconhecido acelerava, cada vez mais. Procurei meu celular rapidamente, mas percebi que estava perdendo tempo assim quando vi meu vidro traseiro sendo quebrado, e porra, eles estavam atirando no meu carro.

Não pensei duas vezes, a aflição e o medo estavam presos em minha garganta, mas tentei me manter firme e claro, não deixaria que esses sentimentos me paralisassem. Logo afundei o pé no acelerador conseguindo ter uma distância de aproximadamente 5 metros do carro que por algum motivo havia cessado com os tiros. Minha mente gritava, mas meu corpo ficou totalmente imóvel, era como se eu estivesse vivendo algo que não era real. A cada manobra, a cada esquina, senti que eu pudesse acordar e que tudo aquilo era, de fato, real, e não um sonho, pesadelo, talvez.
Foquei nas curvas, e usei o acelerador junto ao freio como meus aliados. Os tiros retornaram, mas entre os dois carros, assim que um entrou na pista ao lado desse que atirava, os que o diferenciava era apenas o modelo, percebi que era um Evoque, blindado também. Apenas consegui concentrar em não tremer. PORRA, CADÊ A POLÍCIA DESSA CIDADE? A cada tiro, era um risco a mais do meu carro capotar ou de me acertarem. Mano, como eu fui parar aqui? Por que isso está acontecendo? O que foi que eu fiz? É O MEU PAI? Aquele maldito imprestável, ele não pôde ter soltado algo… Ele não era capaz disso.

Tentei deixar as lágrimas não rolarem, mas não consegui não chorar, haviam tantos motivos para aquilo acontecer, e eu apenas me importava com um, por que basicamente aquilo seria o meu fim. Apertei minhas mãos suadas no volante, e conduzi os meus pés. A avenida Toun eu já havia conseguido passar, agora atravessar a ponte Golden, não sei se conseguiria ser capaz, pois eu tinha duas opções no momento, conduzi-los para a ponte e correr o risco de bater nos outros carros, ou, me levar para a minha própria morte. Troquei a marcha, e pedi perdão pelo que estava prestes a fazer.

Acelerei no último, nunca havia passado de 120 km naquele carro, agora eu já estava beirando aos 200 km. Faltava exatos 3 minutos para eu me aproximar da ponte, e consequentemente eles também. Pude ver que havia dois homens no carro, mas não consegui decifrar os seus rostos, eles estavam se movimentando de uma janela ou outra para acertar o Evoque que ainda permanecia na estrada. Nossa distância, de um carro para o outro, estava maior, talvez já haviam percebido os meus planos. 2 minutos. E os tiros voltaram, mas em minha direção, o Evoque apenas se distanciava em rodopios, em um instante pensei que ele fosse capotar na pista, pois o pneu era evidente o estrago.

1 minuto e 32 segundos. OUTCH! A dor no meu braço direito ardia como se tivessem colocado uma faca de ponta fina pelando a fogo. Olhei rapidamente, e sim, isso foi um tiro de raspão!!! O sangue escorria por toda concentração, pingando em minha perna coberta. 1 minuto. Eu precisava aguentar, eles já estavam distantes. 30 segundos. PORRA COMO DÓI. Finalmente! Não haviam muitos carros, ultrapassei todos que estavam minha frente, os tiros destinados a mim acertavam os carros atrás e todos pararam em uma espécie de barreira impedindo a passagem dos supostos homens que estavam ali para me matar. Já não olhei mais para o retrovisor, porém sabia que a perseguição havia acabado. Ou não, nunca se sabe o que está por vir.

Meu estômago revirou ao ver o sangue todo caído e espalhado pelo meu braço. E estava doendo, porra, como doía. Porém eu preciso pensar. Agora. O que fazer? Como ficar segura? A única pessoa em que eu pensei em ligar era Ash, mas eu não podia envolvê-la, aquilo estava arriscado demais. Eu podia ir para um hospital, mas seria óbvio demais, algum deles poderiam estar me esperando por lá, e simplesmente “terminar o serviço”. Atravessei a ponte em uma velocidade menos reduzida, e minha cabeça já estava totalmente ferrada, se eu ousasse tocá-la sei que explodiria. Rodei algumas ruas em função de despistar e estar ao máximo longe da ponte, e estas estavam um pouco vazias, outras cheias por conta de bares e baladas. Resolvi estacionar perto de um bar, havia muito movimento, e eu poderia estar de alguma forma segura no meio de pessoas.

Tirei a jaqueta em que eu estava vestindo, ainda bem que não estava muito frio, mas ainda sim, meu corpo sentia mais do que o normal. Amarrei a jaqueta no meu braço baleado para tampar o sangue, e impedir que escorresse mais. Em movimentos rápidos desci do carro e me infiltrei em uma fila com mais ou menos vinte pessoas, todas com olhares curiosos, mas pouco me importei, apenas disquei o número de Paul no celular o mais rápido que pude.

— A onde você está, ? — assim que meu pai atendeu a ligação, ouvi.
— Eu vou te mandar a minha localização, venha me buscar o mais rápido possível. — falei em um tom preocupado, e sério. Notei alguns cochichos e me irritei — Eu estou falando sério Paul, eu preciso que você venha me buscar, eu estava indo para casa e me perseguiram, estou com o braço todo sangrando por conta do tiro que tomei, eu apenas preciso de você aqui.

Não quis dizer que precisava dele aqui, ele nunca foi um pai presente, pelo menos não para mim, mas senti que era necessário.

— Estou em Londres, — Como ele estava em Londres, sendo que iríamos em sair juntos hoje à noite? — Eu estava te ligando por isso, tive que vir resolver uns assuntos pendentes de último caso, eram importantes.
— Eu sei, papai — disse cínica — Qualquer coisa é mais importante do que a sua família, pergunte ao Ben.
— Não coloque o nome de Benjamin em suas provocações .
— Ou o quê? Você vai trazê-lo a vida, Paul? — engoli seco — Eu não preciso de você. A partir daqui, eu me viro.
— Só me diz onde você est…

Desliguei o telefone sem chances de ouvir mais alguma coisa que ele pudesse me disser. Saí do meio da fila e andei em direção ao carro não muito distante, dei uma olhada ao redor do carro e na roda de trás, o pneu não estava furado mas em qualquer momento ele explodiria, assim como eu, que logo entraria em ebulição por conta do meu estado de pós-adrenalina. O frio fez com que meu braço ardesse mais, e fiz uma careta sentindo algo no meu ombro. Assustada me virei e dei um passo para trás.

— Você precisa de uma ajuda com o seu carro? — um homem de cabelos pretos, e um cigarro na boca, que , o deixava sexy, perguntou, se aproximando. Minhas bochechas coraram levemente por pensar aquilo, porém eu poderia usar a desculpa do frio.
— Não, eu já estou indo embora — falei enquanto eu ia em direção a porta, mas percebi que ele vinha logo atrás de mim. Apenas pare de ser ingênua, ele pode ser um dos caras que estavam dentro do carro atirando em você, dizia minha mente sem efeitos bárbaros.

Andei não dando muita importância, mas ele segurou no meu pulso, na tentativa de me parar, porém fui mais forte, e soltei bruscamente a minha mão da dele. Os passos eram longos, então ele parou em minha frente com as mãos na porta em que eu tentava abrir. O que esse cara queria, afinal? A minha mente estaria certa?

del Rose — ele disse praticamente fazendo eu sentir todo o cheiro do seu hálito de menta misturado com cigarro.
— Quem é você? — perguntei sentindo o medo tomar conta de mim, mas não demonstrei, permaneci com a postura pedindo aos meus bons deuses para que minhas pernas parassem de tremer.
— Eu estou aqui, mas não é por você — sua voz cada vez ficava mais baixa — Facilitei a vida dos ²roscas, eles me devem uma agora.
— Do que você está falando?
— Você não precisa saber disso agora. Faça o que eu disser. E confie.

Assenti com a cabeça, e percebi a sua mão em minha cintura. Fechei os olhos com medo do que poderia vir pela frente, mas, de qualquer forma, estranhamente, eu sabia que ele não iria me machucar.

— Entre no carro, mas antes disso, finja uma cara de brava e faça algo que demonstre que você está com raiva de mim.

Sem saber o que de fato fazer, o olhei nos olhos, aqueles olhos tão escuros e indecifráveis… Juntei toda minha raiva, e chutei sua barriga, me livrando da sua mão em minha cintura. Percebi um sorrisinho no canto dos lábios do garoto, era óbvio que aquela expressão de dor era fingida, nenhum soco que eu desse em alguém pudesse doer, não tinha força nem para levantar dois pesos. Virei abrindo a porta do carro, e entrei. Sem mais delongas, mostrei-lhe o meu dedo do meio, ele deu outro sorriso, mas agora era um sorriso espontâneo, fazendo com que minha vontade era de sair daquele carro e ir perguntar se eu o conhecia de algum lugar, e como ele sabia o meu nome, digo, o meu verdadeiro nome.

Coloquei as mãos na cabeça percebendo um pequeno corte, olhei para o lado, e vi muitas pessoas se aproximando do meu carro, não consegui distinguir quem era e muito menos o que estava acontecendo por que senti meu corpo pesar sobre o banco e a vista cada vez mais embaçada. Me rendi, encostando por completo na capa evidentemente suada, deixando apenas meus ouvidos atentos, logo após de fechar os olhos por completo somente quando vi que o perdi de vista.

*¹damn: é uma palavra expressiva em inglês com o significado de “merda” “poxa” dependendo do sentido e contexto da frase ou situação.
*²roscas: gíria para o significado de policiais, autoridades da lei
.

Capítulo II

“As águas percorriam pelo Green River, calmo e esverdeado desde sempre. A minha surpresa foi quando vi de longe Ben descer com uma cesta, apesar de estarmos ali para festejar, ele queria cumprir uma de nossas tradições: comer as maçãs do pé da Dona Áurea enquanto sentávamos à beira do rio. Sorri largo, deixando meu corpo ser abraçado pelo meu irmão, e logo nos sentamos como planejado. Trocamos poucos diálogos, nessa altura eu já podia imaginar o quão louca a sua vida estava, mas da mesma forma, sentia orgulho por ver meu homenzinho crescer. Nos distraímos observando os patos, e rimos muito com isso. As maçãs acabaram, mas a música começou. O som era da festa, já estávamos ouvindo fazia um tempo, mas algo nos chamou a atenção, que foi a nossa música. Dear God, Avenged Sevenfold. Como uma proposta indecente aceitei o pedido de meu irmão assim que nos levantamos, e dançamos lentamente como se fosse a última vez. E sim. Essa foi a última dança que fiz com meu irmão, e se eu pudesse de alguma forma saber, teria eternizado aquela dança como se também fosse a última de minha vida...”


— Onde estou? — em um tom baixo, consegui dizer alguma coisa. Desesperada e com uma força que meu corpo negou em produzir, tentei abrir meus olhos, mas tudo o que eu conseguia ver era um borrado, as imagens tudo distorcidas.

O pânico tomou conta do meu corpo, comecei a tentar me impulsionar pra frente, mas senti algumas mãos me segurando. Onde eu estou, afinal?

, amiga — reconheci a voz de Ash, assim me esforcei mais um pouco para abrir os olhos — está tudo bem agora, ok? Você está em um hospital, eu estou aqui, seus primos Tom e Kaith também estão, e até mesmo o seu pai. Você está segura agora.

Senti a mão dela acariciando o meu braço esquerdo, queria poder fazer o mesmo mas eu não conseguia ter forças nem para abrir os olhos.

— Você quer que eu vá chamá-los? — Ash perguntou mas eu neguei com a cabeça. Eu gostaria muito de ver meus primos, mas o meu pai, de modo algum. A última vez que eu marquei algo com ele, acabou aqui, idiota em uma cama de hospital sem saber porra nenhuma do que estava acontecendo.

Minha cabeça latejou, resmunguei baixo, mas Ash percebeu. Aos poucos eu estava conseguindo abrir os olhos definitivamente, e a tontura estava passando.

— Ash, me diz o que você sabe — falei enquanto ela me olhava e se sentava ao meu lado da cama.
— Eu acho melhor você descansar mais um pouco , não é bom você ficar falando sobre essas coisas agora — ela disse e novamente neguei com a cabeça.
— Eu preciso saber, isso vai apenas me ajudar — pedi agora segurando em sua mão, ela me olhava aflita e receosa do que dizer.
— Ok ok, mas se a sua família perguntar finja que você não sabe de nada, não quero ser a linguaruda, tá? — demos um riso fraco quebrando o clima tenso que estava no ambiente — Até que parte você lembra de ontem à noite?
— Eu estava no meu carro, e porra, Ash, o meu carro, destruíram ele — lamentei ao lembrar do meu carro, eu queria o filho da puta morto que fez aquilo com ele — Tirando isso, eu conversei com um cara, foi uma conversa bem estranha e breve, então eu entrei no meu carro, e eu apaguei totalmente, Ash.
— Pois é , te encontraram desacordada, aliás, foram várias pessoas, até algumas relataram que você teve uma briga com esse cara aí mesmo. Inventaram muitas coisas por que logo te reconheceram por conta dos jornalistas que estavam por lá — Ash dizia e eu prestava atenção em cada detalhe — Eu estava na casa do Luke e como nós havíamos combinado havia mais alguns amigos, tinha deixado a chave embaixo do nosso vasinho, e quando era quase umas dez da noite os noticiários começaram a bombar, assim como a casa do Luke. Do nada começou uma galera a me gritar, falando “a sua amiga está na tv”.

Imaginei a cena e ri sem querer de Ash me contando, ela me deu um leve tapa na perna, me fazendo rir mais. A dor estava dormente e os sentidos do meu corpo já estavam aguçados, quando mencionei em meu pai ter soltado algo, quis dizer, sobre a minha pessoa. Aqui em São Francisco, sou conhecida como Derpee, que é o sobrenome da minha mãe, assim como consta na minha identidade falsa que Paul me deu, assim que me mudei para cá.

— Então, logo me preocupei. De cara reconheci o seu carro e levei um susto do caralho, , no início eu achei que você estava tirando racha, mas eu pensei, logo a toda certinha fazendo racha em uma das avenidas mais movimentadas de São Francisco?! — começamos a rir mais, definitivamente eu nunca participaria de um racha, e ninguém precisava me conhecer para saber disso — Nisso eu liguei para o número de emergência que você me deu uma vez, mal sabia eu que era do seu “amado papai”. Ele estava te procurando que nem um doido, até que no mesmo momento chegou uns caras bem grandes na festa e perguntaram meu nome, eu fui com eles e encontrei o seu pai. Ele é vistoso, hein?
— Nossa, que nojo, Ash. — fiz uma careta e a menina riu um pouco alto, chamando atenção das pessoas do lado de fora da porta.
— Mas, Ash, não foi um racha e você sabe disso — ela assentiu, mas torceu o nariz, e quando ela torce o nariz eu sei quem tem coisa.
— Por algum motivo o seu pai disse que foi um racha , eu tentei avisar pra ele que você não faria aquilo, mas ele não me deu ouvidos — como assim?! Só conseguia xingá-lo em pensamentos, como ele tem a ousadia de dizer que era um racha? Eu levei um tiro no braço, porra!
— Ash, mas como acreditaram nele? O meu carro tinha marcas de tiros e tiros de verdade! Eu estou com um tiro no meu braço, mesmo que seja de raspão, é um tiro. E as câmeras, elas podem assegurar que estou dizendo a verdade — falei a olhando.
— Olha, eu não sei como ele convenceu, mas a mídia apenas repete que pais todos os dias enfrentam batalhas de jovens irresponsáveis e blá blá blá. Sendo que , você esperaria o quê? Mesmo que você fosse a responsável disso, você não seria punida, o seu pai é o governador de toda São Francisco, ele te livraria de qualquer uma.
— Eu sei — falei sentindo uma pontada no peito, não era tão simples daquela forma, ele não era apenas um governador, ele era muito mais do que aquilo — Obrigada Ash, de verdade. Desculpe por estar aqui. Aliás hoje é o seu primeiro discurso em uma sala de aula com o Erick, aquele professor chato que sabe tudo.
— Eu não o acho chato — ela disse fazendo um movimento com as mãos, ECA — É tão suculento , só não te ofereço pra provar, porque ainda está no meu prato.
— Obrigada, mas eu não como carne — rimos juntas, apesar de Erick fazer bem para Ash, eu ainda tenho medo de algum dia alguém ficar sabendo daquele envolvimento aluna e professor e dar mal para os dois, aliás que ele é doze anos mais velho que ela. É claro que para mim não há nenhuma restrição, a idade realmente não importa nada, desde que as duas partes são responsáveis e decididas do que querem. Mas infelizmente, a maioria ainda não pensa desta maneira.

Ficamos conversando mais alguns minutos, até que Ash precisou ir, com isso, logo os meus primos chegaram. Tom, era o mais velho da nossa turma, nossa diferença era de cinco anos, depois Ben e, Kaith, sendo a mais nova. Desde sempre tínhamos uma ligação incomum, são a única família por parte da minha mãe, éramos como irmãos na infância, mas nos separamos quando minha mãe faleceu e então mudamos para Londres. Nossos contatos eram em datas comemorativas apenas, porém eles tinham um lugar especial no meu coração, de Ben e do meu pai. Retornei para São Francisco após a morte de Ben, em dezembro do ano passado, meu pai continua em Londres, mas está sempre aqui por conta da política e os seus negócios que eu não gosto de me envolver ou ter consciência disso.

Ficamos duas horas conversando e fazendo brincadeiras, eu sentia muita a falta deles e ainda mais quando ficávamos juntos, a saudade era ainda maior, mais de Ben, por que sempre fomos nós quatro e eu tenho certeza que não sou apenas eu que sinto a falta dele. Fiquei sozinha comendo e assistindo um pouco de Tv, logo me vi pensando em como eu fui parar ali naquela cama de hospital, em um sábado, onde eu provavelmente estaria em casa afundando ainda mais nos livros da Rupi Kaur.

Ouvi um barulho de dois toques na porta e logo ela se abriu. Era Paul. Meu pai. Senti um desconforto ao vê-lo, a última vez foi no funeral de Ben. Ele se aproximou e me ajudou a tirar a bandeja com as comidas do meu colo.

— Como você está? — ele me perguntou, me olhando. Percebi que seu cabelo estava um pouco mais curto e com alguns fios grisalhos. O seu rosto continuava o mesmo, tinha apenas umas marcas da idade.
— Estou muito bem, apenas esse braço que ainda dói um pouco — falei e ele deu uma risada, por mais em que eu não gostava da presença dele, eu ainda não sabia como reagir, ou o que falar certamente — As enfermeiras me disseram para não me esforçar muito, assim a recuperação será mais rápida.
— Eu quero que você vá se recuperar em casa, na sua casa — ele me falou, como ele poderia pensar que eu aceitaria aquilo?
— Eu posso saber por quê? Eu tenho a Ash! E a Marga pode ir me ajudar em alguns dias. Pensei que estivesse claro para você que, naquela casa, eu não piso.
— Você vai , eu não quero ter uma discussão com você e já está decidido — Paul se levantou, não demonstrou um sentimento qualquer em me olhar.
— Me dê um motivo para ir, Paul.
— Eu odeio que você me chame de Paul— falou se aproximando mais uma vez, com uma cara não tão muito boa.
— Isso não é um motivo para eu ir para sua casa em Londres. Isso tem algo a ver com o que aconteceu ontem?

Paul olhou previamente para o teto, estava explícito em sua cara que sim.

— Eu não queria conversar com você sobre isso agora, mas para a sua segurança, apenas aceite . Amanhã você terá alta e as suas coisas já estão arrumadas. Vamos ter muito o que resolver. Apenas descanse.

Desviei o meu olhar irritado do dele e logo ouvi o barulho da porta se batendo com um pouco de força. O que significaria aquilo de “vamos ter muito o que resolver”? Ou algo relacionado com a minha segurança? Nunca fui envolvida com nada que ele fizesse, ou deixasse de fazer, nunca foi meu assunto, sempre que pude me manter longe, até mesmo da pessoa Paul, eu me mantinha. Algo estava muito estranho e a única coisa que poderia me tirar desse lindo de um belo de um karma, eram as perguntas que rodeavam a minha cabeça. Pensamentos que me levavam principalmente a noite anterior, questionando: quem era aquele homem? Eu iria vê-lo novamente?

***

— Tem certeza que não precisa de ajuda, ? Eu posso ir pra casa do seu pai e ficar com você por lá — eu ri com o telefone na orelha, mal sabia Ash que eu já estava em Londres.
— Amiga, não precisa, de verdade — falei ouvindo ela aquietar do outro lado da linha — Apenas quero que cuide das plantas, e use todas as minhas roupas. Só não leve nenhum boy, você sabe qual, pra minha cama. E se levar, Ash, eu te mato!

Gargalhamos enquanto eu trocava o celular de lado da orelha. Percebi que o caminho estava começando a ficar conhecido, então decidi desligar.

— Eu preciso desligar, te ligo assim que der — falei tentando não olhar para a janela — Amo você Ash, se cuida!

— Também te amo ! Se cuida você, louca.

Ri sentindo o coração apertar, Ashley é uma das melhores pessoas que eu poderia conhecer e ter na minha vida. Ela sempre foi uma amiga prestativa, responsável e muito parceira. Nós nos conhecemos no campus e ela já conhecia Ben, levamos um susto quando descobrimos que estávamos na mesma sala de aula, aliás nossos cursos eram diferentes, mas empreendedorismo fizemos juntas, e acabou se tornando uma amizade muito grande, ela de fato foi e é muito importante para mim, e para minha família… Pouco que restou dela.

Finalmente chegamos, cada músculo do meu corpo se contraiu ao ver que tudo estava como eu havia deixado há dois anos. Marga me esperava em frente da casa, ela e mais uns seis empregados do meu pai, eles realmente cuidavam muito bem da casa, a humilde casa em que cresci. Olhei ao redor, a entrada com o portão de metal cinza permanecia intacto, os lírios brancos que eram os meus preferidos estavam preservados ainda na entrada da casa, por sinal, muito bem cuidados. A fonte em frente da casa estava desligada, mas totalmente limpa, não havia uma sujeira na água que no momento estava parada.
Marga veio em minha direção, junto a dois homens do meu pai para pegarem uma mala pequena que eu trouxe, aliás minha recuperação seria rápida, nesta mesma semana pretendo voltar para São Francisco e ir frequentar minhas aulas e trabalhar nos meus afazeres.

— Como você está linda , ²schatz — sorri abraçando a mais velha. Sua aparência parecia cada vez mais jovem apesar da idade que a mulher tinha. Seu cabelo agora estava curto, repicado um pouco abaixo da orelha. E suas sardas continuavam destacando o rosto redondo, assim como algumas marcas da vida, como ela mesmo dizia, até por que a vida não foi fácil com Marga, filha de alemães rústicos, apenas pôde sair de casa para trabalhar quando ficou viúva.
— Minha schatz, Marga, você está mais ainda! — falei e percebi seus pequenos olhinhos brilhando. Como eu amo essa mulher. Enquanto andávamos, ela disse algumas coisas que não prestei muita atenção, apenas observei as paredes conservadas, com os detalhes de tijolo a vista e as janelas de madeira escura, por ela toda. Passamos pela porta imensa, e dei de cara com as duas escadas que se encontravam uma com a outra, a “monstruosa”, como eu e Kaith falávamos, por ela ser muito grande.

Os móveis continuavam os mesmos, houve apenas pequenas mudanças, especialmente no meu quarto, antigo quarto. A parede roxa com tons azuis me fizeram rir, cada parte daquele quarto tinha cada tipo de fase minha, era apenas olhar para a penteadeira. Metade tons de rosa e verde, outra totalmente preta com tentativas de voltar a cor branca, porém evidentemente as tentativas foram mal concluídas.

Passei a mão pelo pequeno quadro com o mural de fotos que eu tinha, os meus amigos do ensino médio, meu pai e minha mãe no casamento deles, eu e Ben, a épica foto de Tom vencendo Ben no xadrez e a cara de emburrado de Ben por perder, ele odiava isso. A nostalgia tomou conta de mim assim que vi Marga escorada na porta me observando.

— Aqui é vazio sem vocês — ela disse se aproximando com uma bandeja cheia de sanduíches, que me deu uma fome repentina — Mas me acostumei, agora,Paul, eu já não sei.
— Por que não sabe? Ele disse algo?
— Ele não diz, apenas o ouço. Eu não sei se posso te dizer isso, mas não conte nada — assenti com receio do que ela poderia falar — Tem dois meses que ele apenas consegue dormir assistindo os dvd's de vocês quando eram crianças, eu já vi, eu ouço sempre as risadas dele.
— Aqueles dvd's da caixa laranja?
— São todas as caixas.
— Ele sente falta de Ben, essa é a forma dele lidar com a dor Marga.
— Ele também sente a sua falta, schatz.

Abaixei a cabeça e comi um dos sanduíches que Marga me trouxera, percebi que ela se afastou e começou a desfazer a minha mala.

— Como você conseguiu lidar? — perguntei e ela me olhou sem entender — Eu digo, com a sua dor.
— Ah, eu tento me distrair com as coisas que tenho que fazer por aqui, schatz, não penso muito sobre.
— Queria ser como você.
— E você minha querida, como lida com a sua? — ela perguntou, ri com ironia como se a minha resposta já fosse óbvia.
— Nunca lidei Marga, eu não sei como fazer isso.

Ela me abraçou e logo me deixou sozinha no quarto. Já estava anoitecendo, percebi ao olhar para a grande janela do quarto. Peguei umas roupas, e me dirigi ao banheiro. Tomei uma ducha com cuidado ao me despir. Refiz os curativos no braço, alguns cortes na testa já estavam se cicatrizando. Fui para o quarto já vestida, e ouvi o toque na porta.

— era meu pai. Me sentei na pequena cadeira próxima da minha cama, e ele já estava dentro do quarto — Me desculpe não ter estado aqui para te recepcionar.

Assenti com a cabeça, ele parecia inquieto.

— Quero jantar com você ainda hoje, você aceitaria?
— Sim, eu quero saber o que você tem a me dizer — falei me levantando.
— Desça daqui uma hora — ele disse se virando para sair do quarto — Ah.. Estou feliz que você esteja aqui.

A porta bateu com um pouco de força, nunca tinha sentido aquilo, mas queria abraçá-lo, e sinceramente eu não me recordo quando foi a última vez que dei um abraço nele.

As horas se arrastaram, vesti um shorts jeans e uma blusa branca com alguns detalhes de renda. Coloquei um chinelo que eu nem me lembrava mais que o tinha e prendi o cabelo num rabo de cavalo alto. Desci sentindo o cheiro do macarrão, o coração pulou ao lembrar daquele cheiro, com certeza iria ter queijo.

Fui em direção a sala de jantar e não me agradou ao ver meu pai e mais dois homens engravatados. O jantar não seria apenas eu e ele? A raiva começou a crescer dentro de mim e evidentemente em meu semblante.

— Olá — Paul disse aguardando com que eu me sentasse — Acho que você deve estar se perguntando quem são esses homens.
— Prazer , sou Viestel Lorac — ele disse estendo a mão para mim, que fiz o mesmo.
— Sou Jamber Bannet, prazer querida — ele falou com o sorriso no rosto também estendendo a mão em forma de cumprimento. Jamber é o pai de Tom e Kaith, o reconheci assim que pousei os meus olhos sobre ele. Sem entender a presença de ambos homens olhei para Paul.
— Preciso que seja compreensiva — senti meu coração sair da boca, eu teria mais perguntas, mais questionamentos em minha cabeça? — Na noite em que eu discutiria o que nós vamos conversar hoje, foi quando você sofreu aquele atentado. Nós não chegamos a conclusão de que tentaram te matar, pois você mesma disse nos depoimentos aos nossos que eles conseguiram chegar muito perto e pararam com os tiros.
— Aos nossos? Como assim? — perguntei atordoada.
— Apenas confirme. — Viestel disse parecendo impaciente.
— Sim, isso aconteceu — falei olhando para os dois homens — Vocês são o quê? Polícia? Advogados? É por isso que estou aqui?

O homem que se apresentou como Viestel riu em deboche olhando para o outro do seu lado, que prestava atenção em mim.

— Não, nada disso — Paul respondeu fazendo com que Jamber o olhasse com reprovação.
— Somos malditos mafiosos aliados da sua família, querida — assustei apertando minhas mãos que estavam escondidas entre minhas pernas, Paul não parecia satisfeito com a resposta de Jamber, por outro lado, Viestel aumentou o seu sorriso irônico.
— O que estou fazendo aqui Paul? Eu não faço parte de nada disso.
, escute. — ele falou me impedido de levantar e me retirar do local — Nós achamos que algumas informações foram espalhadas da alta sociedade, e você está envolvida nelas, por isso, resolveram eliminar você, ou dar um susto em nós.
— Esse é um dos pontos, mas têm mais coisas, e…
— E me deixe, Viestel, eu quem vou conversar com ela — Paul o interrompeu.
— Quais são as outras coisas? — perguntei sentindo um pouco de medo.
— Bom, para permanecer em nossa sociedade requer algumas exigências e provas de fidelidade — Paul falava como se estivesse escolhendo as palavras e não era apenas eu quem estava percebendo isso — Uma das primeiras, é que as famílias pertencentes de alto poder, não apenas o líder, mas os seus herdeiros precisam passar por testes e serem avaliados, para que um dia sejam líderes e honrem o nome da família. E eu te poupei disso pela sua decisão. Você como mais ninguém sabe.
— O que você está querendo dizer com isso? — bati a mão com força na mesa expressando como eu estava irritada por não entender onde ele queria chegar!
— Chamamos de Institute, ou melhor, IMAM. É o Instituto Mundial de Aprendizes, são membros de famílias importantes em nossa sociedade. — Jamber falou me entregando uma pasta preta com as iniciais, recusei, mas da mesma forma ele colocou do meu lado.
— Pare de chamar isso de sociedade, vocês são uma máfia, são criminosos!
, não fale as…
— Paul, você quer que eu vá para este lugar? Espera que eu seja uma de vocês? Desde sempre eu nego fazer parte de qualquer coisa que te relaciona, porque além de ser errado, foi isso que matou o meu irmão, isso afastou e matou a mamãe, é tão difícil você compreender isso?

Me posicionei ao perceber que eu começaria a chorar na frente daqueles homens. Não podia. Precisava me manter forte, não demonstraria nenhum tipo de fraqueza ou que aquilo me abalava tanto. Mas da mesma forma, Paul sabia como eu estava totalmente machucada.

— Eu entendo , mas você precisa deixar um pouco esse orgulho, deixar a sua raiva de lado — Paul falou bebendo a água do seu lado — A condição diz que é obrigatório que o filho primogênito compareça, Ben iria neste ano.
— Por que Ben iria? — senti uma pontada forte no peito — Eu sou um ano mais velha que ele. Eu sou a sua primogênita.
— Ele iria no seu lugar , ele também, assim como eu, não queria que você se envolvesse.
— Como isso é possível? — perguntei.
— Anunciamos a sua morte em toda rede. — Jamber disse com tranquilidade me assustando.
— MORTE? COMO ASSIM? — praticamente gritei, como eles poderiam ser assim?
— Ainda estávamos pensando em como contatá-los que você não compareceria, nesse meio tempo, Ben estava vivo — Viestel falou com desconforto — Tivemos a ideia de fazer com que a sua imagem sumisse, apagamos os seus dados na faculdade de Londres e qualquer outra pista, te demos uma outra identidade, caso eles tentassem entrar em contato com você ou tentassem te encontrar, ou seja, você é como uma morta para eles.

Quando fui morar em São Francisco, Paul me deu realmente uma nova identidade, não era diferente do meu nome, ele apenas havia acrescentado um novo sobrenome e alegou que seria pela minha segurança em um lugar em que ele era um político de figura pública, e meios poderiam me fazer mal por suspeitaram que eu fosse algum tipo de parente dele. Tentei não surtar, mantive toda minha raiva dentro de mim mesma, não queria explodir. Eu não podia. E fora que Ben estava disposto a fazer aquilo por mim, talvez seja por isso que ele está morto. Por minha culpa.

— Eu conheço esse olhar, — Paul disse me olhando e tocando na minha mão, mas tirei ela do seu contato — Seja lá o que você estiver pensando, isso não envolve.
— Como não envolve? Meu irmão faria isso por mim! Talvez seja por isso que vocês não estão conseguindo ligar os pontos, eles descobriram e o mataram!
— Quando eu digo que você é morta para eles, eu falo sério — Viestel falou me intimidando, mas não demonstrei nenhum tipo de ação contra ele — Quando ligamos dizendo que você não compareceria, por que estava morta, culpamos nossos inimigos e eles acreditaram quando mandamos a cabeça de um deles.

Levei a minha mão até a boca, sentindo uma pontada no estômago, eu não conseguiria mais me manter firme. Precisava de ar. Aquilo estava me sufocando.

— Eles estavam convencidos da sua morte e por isso todas as papeladas foram feitas no nome de Ben, de todo custo ele iria em seu lugar — Jamber continuou a fala de Viestel, Paul apenas observava e aquilo me angustiava cada vez mais — Porém, aconteceu o que aconteceu. Esperávamos que eles ligassem dando o luto, mas não o fizeram.
— Por quê?
— Eles vieram pessoalmente e sabem sobre você, sobre estar viva. Sobre o que fizemos. — Paul disse abaixando a cabeça, como se estivesse falhando.
— Foram eles que tentaram me matar? É isso? — perguntei me levantando, aquilo bastava para mim.
— Não! Nós temos certeza que não foram eles. Eles não tinham ordem para isso. Os principais líderes do IMAM não permitiram, pois nós já havíamos feito um acordo antes de alguns descobrirem de fato.
— É por isso que ainda não descobrimos, mas estamos chegando perto, você tem que se certificar de que foi aquilo mesmo que aconteceu naquela noite, se não tem algo a mais — meu corpo paralisou, eu não tinha contado sobre o garoto que me “ajudou”. Mas estava convencida que não contaria, ele fez um bem a mim, então queria fazer a ele, por mais difícil que seja.
— Qual é o acordo, Paul?
— Ela não te chama de pai? — Viestel perguntou olhando para Paul, revirei os olhos assim como meu pai. Jamber apenas riu digitando algo em seu celular.
— Para a sua proteção, a proteção da família, e os seus amigos próximos, você de qualquer forma terá que comparecer.
— E se eu decidir não ir?
— Você não tem escolhas linda, você ainda não entendeu isso? — Viestel disse se levantando com o seu copo de whisky — Se você não for, o legado do seu pai, da família Del Rose, se perderá por completo, até não restar nada. E as ameaças a sua família serão constantes, aos seus amigos também. Esqueça Londres, esqueça São Francisco, é melhor dizer isso as pessoas próximas também.
— O que faz você confiar nesses homens, Paul?
— Eles são da família também , apesar de terem um legado com um outro ssobrenome. Tom e Kaith são filhos de Jamber e você sabe disso até então por que sua tia também era da sociedade, quando teve as crianças decidiu se afastar. Já Viestel, ele é casado com uma de nossas primas russas. Além de que, são famílias que há décadas se mantém sendo a nossa aliança com mais fidelidade e transparência.

Me surpreendo a cada informação que recebo, tudo aquilo estava acontecendo ao meu redor, debaixo do meu próprio nariz e nunca sequer percebi, nunca estava informada, achando que nem sabiam o meu nome, que não sabiam o meu paradeiro, e foi por isso que decidi ir para longe, mas isso não deu certo. Nem um pouco certo. Tudo tinha um plano, e muito menos desconfiei disso.

— É muita coisa para processar, eu entendo — Paul disse, e realmente era, eu estava sentindo o meu estômago doer de tamanha pressão, e o peso daquelas coisas todas cairem em cima das minhas costas. Precisava de uma resposta. Precisava saber o que fazer. Todas minhas forças queriam lutar para proteger a família, para proteger meus amigos, mas eu sei que não conseguiria, alguns contatos de confiança de meu pai ficariam ao nosso lado, porém outros que são a grande maioria se voltariam contra e ficariam a favor da sociedade, IMAM, seja lá o que isso for.
— Quando eu partiria? — perguntei, e na mesma hora, a atenção deles se voltaram para mim.
— Amanhã.
— AMANHÃ? COMO ASSIM EU IRIA AMANHÃ?
— Não grite , nós vamos te explicar tudo, você terá muitas informações. — Paul se levantou me olhando.
— Por que não me falaram antes? Eu não tenho tempo para pensar nisso, não tenho tempo para nada! Como eu posso decidir algo assim? Aqui e agora?
— Tentamos, mas você foi parar em uma cama de hospital. Você precisaria estar segura para saber. — Jamber respondeu a minha pergunta calmamente.
, preste atenção. Você precisa ser atenta em cada coisa que dissermos, pois quando você pisar naquele lugar, sofrerá e arcará com tudo isso que aconteceu.
— Por quê? O que podem fazer contra mim naquele lugar?
— Não é bem assim… É que todos acham que será Ben representando a nossa família, acham que você está morta. Apenas os grandes sabem sobre você, e sobre Ben.

A noite inteira absorvi cada palavra, cada informação, e a cada momento eu queria fugir. Ouvi diversas vezes que eu poderia conseguir mas senti medo, hoje mais cedo conversando com Marga admiti que não sei como lidar nem com a dor que causou a morte do meu irmão, então como eu conseguiria ir para um lugar sem conhecer ninguém? Um lugar cheio de pessoas criminosas, pessoas que já mataram outras, experientes em armas, em facas, em todos tipos de forma de luta. Apenas me sinto como uma pessoa normal, como fui a vida inteira, e sempre me neguei a isso, sempre. Porém, ouvindo aqueles homens, inclusive Paul, eu percebia em suas palavras que algo faltava, mas isso era apenas o meu consentimento, o meu particular sabia que eu deveria fazer aquilo.

Inúmeras vezes ouvi Ben me dizer que eu era forte e faria tudo por ele. O que não pude fazer em vida, o honraria em sua morte. Apertei os olhos os fechando por completo, apenas vendo o escuro e assim quieta na escuridão, consegui me recordar de uma lembrança que sonhei enquanto estava apagada no hospital. Não evitei as lágrimas assim que abri os olhos imaginando que Ben poderia passar por aquela porta e viria me contar algo inédito do seu dia para ficarmos sentados em minha cama por horas. Para conseguir dormir cantei baixinho, Dear God, mais uma vez…

A lonely road, crossed another cold state line. Miles away from those I love, purpose undefined. While I recall all the words you spoke to me, can't help but wish that I was there. Back where I'd love to be.” (Uma estrada solitária, cruzou outra linha fria de estado. Milhas de distância daqueles que eu amo, propósito indefinido. Enquanto me recordo de todas as palavras que você me falou, não posso evitar desejar estar lá, de volta ao lugar onde eu amo estar).


*¹dude: significa “cara/mano”, em inglês.
*²schatz: é “tesouro”, “precioso” em alemão.
* Clique para ouvir: Dear God, Avenged Sevenfold

Capítulo III

"I.M.A.M / Washington, DC – USA / since 1902.
Honra. Guerra Assimétrica. Sófis & Alliance. O Sangue acima dos Ditados."

A brisa fria da manhã de Londres me acompanhou até onde estou, após me despedir de cada canto daquela minha casa, pois mesmo que eu pudesse enganar aos outros que eu seria a mesma pessoa ao voltar para lá, eu sei que não posso enganar a mim mesma, também sei que nunca vou pisar da mesma forma como antes em casa, ou em qualquer outro lugar, era como se eu estivesse me despedindo de quem sou agora. Em meio a mil pensamentos, abracei contra o meu corpo a pasta preta que Jamber havia me entregado ontem, estava comigo dentro do carro que me levava do aeroporto de Washington, DC/EUA até o ponto de encontro com um conhecido de meu pai, para que ele me levasse ao IMAM e me passasse algumas instruções. Desde a fundação em Toronto, decidiram estabelecer um lugar fixo, e então, a melhor opção foi Washington. Me recordei das despedidas com Marga, mas talvez essa tenha sido a mais difícil, e com meu pai também, de qualquer maneira. A família Del Rose em si estava em perigo, não apenas nós, os líderes, mas também toda descendência, e querendo ou não, eu sabia o que tinha que fazer.

Dei mais uma olhada na pasta, e li em voz baixa algo que me chamou atenção.
“Toda a rede é obrigatoriamente responsável por checar as famílias ativas na sociedade. Ao completar vinte e três anos, legados de níveis superiores e inferiores há de comparecer. Exceções apenas para legados em que não possuem continuidade de geração para geração, sendo assim, automaticamente retirados da sociedade com punição suprema. É de total responsabilidade nascer e morrer para a rede. Fundadores.”

A cada página, coisas que Paul me contou sobre o IMAM, faziam cada vez mais sentido. Era como refrescar a memória. E tirando o fato, de que o sobrenome que carrego é de uma família Fundadora e isso eu sempre soube. Talvez tenha sido por este motivo que ainda estamos todos vivos após tudo o que aconteceu.

Chovia sem parar, coloquei um sobretudo de couro cobrindo a blusa branca que eu vestia por conta do frio. Estava com uma calça clara de coz alto que ficava justa no meu corpo, e por isso gostava tanto dela. O meu tênis era um vans preto como de costume, e me sentia confortável desta forma. O meu braço já estava quase recuperado, porém ainda sentia uma dor se eu o forçava, e incomodava demais. Desviei o olhar para a janela a minha esquerda, entramos em uma rua um pouco isolada, o motorista dirigia atentamente por conta da chuva, e isso me tranquilizou um pouco.

Vi dois carros pretos, fora deles havia uma mulher com aparência de quarenta anos, seu cabelo estava preso em um coque, usava um vestido verde escuro bem formal. No outro, um homem com os cabelos grisalhos jogados para o lado e um terno com gravata, também formal. Ambos com guarda-chuvas em mãos.

O carro parou próximo a calçada em que eles estavam, o motorista saiu rapidamente com uma sombrinha abrindo a porta para mim. O agradeci, e em seguida fui conduzida pela mulher, enquanto o homem levava as minhas malas e colocavam em seu carro.

— Me desculpe, mas eu não iria com ele? Voce é o Oshylei, certo? — perguntei antes do motorista da mulher fechar a porta.
— Sim minha querida, mas você não irá com ele. — a mulher respondeu, e vi o homem abaixar a cabeça negativamente, antes da visão dele sumir por ter a porta fechada em minha cara.
— Paul…
— Não importa o que seu pai disse, pessoas importantes precisam conversar com você, e nós vamos agora, ande logo Aiden, quanto antes chegarmos será melhor — ela disse me assustando um pouco, como era impressionante a intimidação que aquela mulher passava. Mas não senti medo, me coloquei firme e não deixei com que percebessem a pasta, a coloquei atrás do meu sobretudo, antes que por um acaso quisessem tomá-la.

***

Percebi que chegamos quando a mulher pegou o celular e discou um número dizendo que era para abrirem os portões X. O carro entrou em uma estrada de terra, e passou por um caminho no meio da floresta, com certeza ele já tinha feito esse caminho inúmeras vezes. A sensação era estranha, por mais que o caminho condizia com toda a descrição em que li na pasta, ainda senti uns calafrios. Em cerca de 5 minutos, a estrada era cercada por árvores mas já estava asfaltada, tinha postes com câmeras em todo lado, até nas árvores pude identificar pequenas câmeras. Quanto mais perto chegávamos pude ver uma enorme faixa de boas vindas com um jardim no meio do estacionamento, haviam vários carros, jovens com malas nas mãos, pessoas se cumprimentando e conversando, era como se estivessem entrando de fato em uma “faculdade”, até me recordei em quando ingressei na SF State em São Francisco, era bem semelhante. O estacionamento ocupava todo o espaço de entrada para o prédio principal, que era capaz de visualizar através das enormes árvores. Este tinha uma escada enorme, com acesso há vários tipos de reitorias, como a mulher me explicou brevemente no carro. Demos uma volta em volta do prédio, e logo atrás era possível visualizar vários outros, no que pude contar eram cinco, todos compostos por uma decoração de granito fosco em um tom branco gélido, com estruturas personalizadas em quatro andares. Havia um grande campo de futebol/basebol, seja o que eles jogam por lá, com arquibancadas por todo lado. Além dos prédios, próximo ao campo, haviam também grandes salões imitando uma quadra.

O carro se aproximou de um lugar em que não pude identificar muito bem, ele já havia dado a volta por todo o espaço. A mulher digitou uma senha, dois portões se abriram e percebi que entrávamos em uma passagem restrita. A estrada começou novamente, mas logo chegamos. Era uma casa, inteiramente de vidro com dois andares, inferior e superior. Tinham algumas cortinas brancas que tampavam específicos lugares.

Sem dizer nada, a mulher deixou o carro e me olhou para que eu fizesse o mesmo. Andei atrás da mesma, com receio do que eu poderia encontrar. A porta foi aberta por uma garotinha, atrás dela tinha uma moça de cabelos castanhos parecendo que iria repreendê-la a qualquer momento.

— Oi, você veio brincar comigo? — a garotinha perguntou segurando na minha mão. Dei um pequeno sorriso para ela que fez o mesmo me puxando sem que eu pudesse fazer algo. Ela me levou até a sala, tinha alguns brinquedos espalhados e me pediu para que eu me sentasse com ela.
, você precisa vir querida — ouvi a voz da mulher do carro, percebia o olhar intimidador dela sobre mim. Me abaixei até a garotinha que me olhava ansiosa.
— Eu tenho que ir, mas eu volto logo e podemos brincar com o que você quiser, combinado?

Ela sorriu e fez que sim com a cabeça, sorri de volta me levantando e seguindo a mulher. As paredes na parte interna da casa eram cinzas, o piso de madeira fazia com que o barulho do salto da mulher ecoasse.

Entramos em uma sala que parecia ser o escritório de alguém, e descemos uma escada onde no final do corredor havia uma porta com uma senha. Chegamos até ela, e a mulher digitou. Ao abrir, três homens se viraram para mim, sem nenhum olhar de surpresa, mas com curiosidade.

— Entre querida Del Rosie e sente-se — o homem que tinha uma cadeira atrás da enorme mesa, disse se sentando — Devo me apresentar. Sou Carlac , sangue legítimo dos fundadores do IMAM e da sociedade. Permita-me que conheça meus sobrinhos, Lash e Camb.

Eles vieram até mim e beijaram a minha mão em forma de cumprimento. Eles tinham a aparência de quase trinta anos de idade, já Carlac tinha uns traços mais velho, aparentava a beira de uns cinquenta anos. Mantive a minha expressão séria, aquilo estava ficando constrangedor, pois percebi que um dos primos não parava de me encarar.

— Seja bem-vinda ao IMAM. Agora neste momento está acontecendo uma palestra de boas vindas a todos, lá tiramos todas as dúvidas de cada um de vocês.
— Por que eu não estou com eles? E por que não permitiram que meu pai me trouxesse até aqui?
— Como você é ingênua querida Del Rosie — os três riram de forma assustadora — Você não está com eles, talvez por que seja preciosa demais, você não acha?
— Não, eu…
— Claro que você é, somos monstros para você, mas desconstruiremos essa imagem e quando você sair daqui, será uma de nós.
— O que te faz pensar que serei como vocês? Sempre me mantive longe de todos os negócios de meu pai, tudo que envolvia vocês.
— Vejo que você não revê as palavras para falar o nome do seu sangue — ele se levantou com um sorrisinho no canto da boca em um tom de ironia — Podemos te mandar embora agora.
— E depois ameaçar todos que eu conheço? Sujar o nome do meu pai? Você pode se achar o poderoso, mas eu tenho certeza que temos alianças o suficiente para derrotar vocês.

Começaram a gargalhar praticamente na minha cara, mas mantive a postura o fuzilando com o pior olhar que eu poderia ter, se eu o conhecesse o suficiente poderia dizer que o homem estava intrigado.

— Se você acha isso, por que está aqui? Ou melhor, por que seu papai te mandou para cá? — ele me olhava com raiva mesmo que não quisesse demonstrar isso — Reconsiderei a proposta de seu pai por conhecê-lo há tanto tempo e mesmo que houve uma traição contra a sociedade, agora diante dos meus olhos, entendo por que ele fez.

Engoli seco, em partes ele tinha razão e isso fez com que eu quisesse sair dali.

— Bom, o que você precisa saber é que são jovens de vinte e três anos que ingressam aqui. Jovens de famílias comuns com níveis superiores e inferiores, que como você disse, são as nossas alianças. Você tem dezenove, não é?
— Sim, eu faço vinte daqui três meses.
— Você não é nem um pouco preparada para estar aqui, mas entenda, não temos controle sobre isso. São regras. As famílias fundadoras são divididas por sangues de vários tipos, a sua está em um nível abaixo que o meu, e por isso, você tem uma idade determinada para entrar aqui.
— Me explique sobre as alianças.
— As famílias são subdivididas por níveis superiores e inferiores. As de níveis superiores estão em uma supremacia acima na sociedade, como aqueles que são os encarregados em missões, controlam os setores dos sistemas em cada país, são pessoas renomadas com a influência de que precisamos. Os inferiores, são encarregados pelo trabalho sujo, de acordo com o seu legado e a sua marca, alguns apenas transportam e exportam cargas pesadas de drogas, como um exemplo para refrescar a sua cabecinha, Del Rosie.
— E onde as alianças se encaixam nisso?
— Eu e você Del Rosie, somos de famílias fundadoras, você sabe o peso que nosso sangue carrega? Esses são os nossos contatos de confiança. — ele falou apontando para os seus sobrinhos — Lash e Camb são meus sobrinhos, mas os tenho como meus filhos, porém carregam o sobrenome Artuho, e os Artuho são uma família que está no tópico um de confiança dos e são de nível superior vindo desde os nossos antecedentes.
— Tudo está um pouco mais claro… Paul me disse sobre as famílias fundadoras, como funciona?
— São cinco famílias fundadoras. Durante séculos desde a fundação da sociedade que se expandiu para o mundo todo, nós as temos para o controle em massa. E são as principais, apenas nós podemos ter alianças e comandar o que quisermos, e elas são separadas em níveis mas apenas entre as cinco. O seu sangue, por exemplo, está em segundo, abaixo apenas dos . Você deveria parar de negar o que está em suas veias e agradecer pelo que tem. — o menino que deveria ser Camb disse se direcionando a mim, Carlac o olhava com orgulho. Pensei em revidar, mas nada saiu da minha garganta.
— Outra coisa que está em questão… — Carlac disse puxando a cadeira atrás de si — Apenas os grandes sabem sobre você e consequentemente da morte do seu irmão. Aliás, sinto muito pela sua perda… Fizemos todas investigações, nesses três meses, sem cessar, e os resultados não foram bons, mas ainda estão em andamento. Por ele ser uma pessoa muito importante para a sociedade, decidimos não expor, porém com você aqui, que também foi declarada como morta, já fizemos isso e está acontecendo agora naquela reunião.

Vi que os demais olharam para Carlac e abaixarem a cabeça, eles conheciam Ben? Digo, intimamente? Não me importava o que os outros sabiam ou não, apenas me foquei em estudar ali o comportamento de cada um, pois desde a primeira impressão, não gostei nem um pouco.

— Eu também sinto muito pela morte do meu irmão — falei firme tentando não demonstrar o quanto falar disso me atinge — Mas eu quero saber o que terei que fazer aqui exatamente, meu pai explicou, mas ainda não entra na minha cabeça. E sobre as outras pessoas… eu não me importo.
— Isso é bom… Que você não se importa. Aqui muitos vão te rotular, é preciso erguer a cabeça — Cam pronunciou pela primeira vez, dizendo com explícita certeza em sua voz — Você estuda maneiras para liderar, maneiras de usar as armas adequadamente, preparo físico e mental. Querida, são diversos outros tipos de aprendizados que o IMAM oferece. Você se torna o patriota que a sociedade tanto anseia, compreende? - Revirei os olhos sem que ele percebesse.
— Terminamos por aqui, no final do ano avaliamos a sua competência e conforme o seu potencial decidimos se a sua família mantém o nível em que está entre os Fundadores, se ainda ela pode ter a confiança e a capacidade por todos — Carlac se levantou junto a mim e me acompanhou até a porta. O olhei pela última vez e antes de sair ele segurou o meu braço assim que tentei passar — Vi que Susie gostou de você, ela não tem muita comunicação com os outros. Você não tem pressa para ir se acomodar, vão levar as suas coisas e deixar elas arrumadas, então caso você queira vê-la, tem a minha autorização.

Deixei um sorriso de canto escapar, assenti com a cabeça. Andei mais alguns passos do corredor assim que saí daquela sala, subi as escadas e encontrei Susie no tapete com os brinquedos espalhados. Deixei a minha bolsa de lado e sentei ao lado da menina. Não vi a hora passar, muito menos ela. Sempre me dei bem com crianças e era importante com que a filha do dono da porra de tudo gostasse de mim, porém não senti a necessidade de pensar dessa maneira, apenas me vi naquela menina, mesmo que meus primos estivessem por perto, eu me sentia sozinha e talvez ela conseguia ser bem mais do que eu era e continuo sendo a maioria do tempo.

***

Prédio 4, quarto 212. As paredes têm uma cor marfim, o espaço era acomodável, não tão grande mas também não tão pequeno. A cama de solteiro ficava no centro do mesmo, havia um armário de madeira que combinava com a madeira da cama, as minhas roupas estavam todas penduradas e arrumadas dentro do mesmo. Havia uma escrivaninha com um notebook, a minha senha e conta de usuário estavam em um papel, tinha um aviso em que a internet era limitada. Tínhamos 50% para usá-la no dia, apenas para casos importantes. Nada de redes sociais. Vi meu celular dentro de um saquinho plástico, ao ligar, percebi que não havia mais nenhum contato ou algum aplicativo. Minha foto com Ben continuava no plano de fundo, assim como a outra, minha e de Ash.

No quarto havia um banheiro pequeno, apenas para necessidades básicas. O chuveiro era no final do corredor, uma senhora havia me informado que o espaço tinha horários para as duchas, mas abriria porque recebeu ordens de Carlac.
Assim que senti a água escorrer pelo meu corpo, o peso do dia caiu junto da água e tudo o que estava acontecendo. E me senti no chão. Tudo o que segurei para chorar ontem, o que segurei para chorar hoje, estavam escorrendo assim como a água que descia. Doce e salgado, ambas se misturavam, eu podia sentir a cada segundo. Apoiei a cabeça no vidro do box e apertei minhas mãos contra meu peito nu, agora, como seriam as coisas? O que de fato eu teria que lidar? Mais do que nunca preciso me concentrar no que me faz querer sair daqui, com vida. Não me importa o que essas pessoas pensam, eles são perigosos, mas não prometo tomar cuidado, nem a mim mesma eu posso prometer isso. Sempre fui do tipo que arrisca, e eu estou disposta a arriscar. Mostrar do que sou capaz. Apenas preciso sobreviver a esses dias, a esses longos seis meses.

***

Março, segunda-feira.

Acordei com uma dor de cabeça e logo tomei um remédio que fez um efeito rápido. Percebi que estava atrasada, precisava estar no bloco 3 do prédio principal, sala 555, e sinceramente não faço ideia de como chegar lá.

Corri para o banheiro, fiz a minha higiene matinal rapidamente, logo fui até a porta e percebi uma muda de roupas com a etiqueta no plástico escrita “Uniformes”. Havia calças azuis, uma jeans, moletom e legging. Três camisetas pretas com o símbolo do IMAM, era uma cobra enrolada em um trono todo dourado, ri em um tom de deboche me recordando desse símbolo em algum canto da minha casa em Londres. Também havia uma regata preta, shorts e saia azuis. Lembrei que meu pai me disse que eu poderia apenas usar minhas roupas quando fosse algum passeio ou uma festa de entretenimento que o Institute nos fornecia.

Vesti a camiseta de manga curta, e coloquei a calça jeans. A sapatilha apertava meus pés, mas eu não tenho tempo para procurar outro sapato, apenas coloquei o que estava a minha frente. Em seguida, peguei a bolsa com alguns materiais necessários e deixei o quarto sentindo um frio na barriga de não saber o que viria em seguida.

O prédio estava num movimento muito grande, havia muitas garotas esperando pelo elevador, senti o olhar de todas elas em mim, pude ler a boca de uma delas, “quem é ela?” “Deixa de ser estúpida, é a garota que reivindicou o trono do pai e se fingiu de morta”, e muitas risadas debochadas, porém meu interesse era apenas em saber como me conheciam, aliás todos pensam que quem estaria aqui seria Ben, mesmo que fosse um treinamento. Ignorei controlando a minha raiva e por fim decidi descer pelas escadas, afinal, vi muitas garotas descendo por ali também. Minha cabeça deu um estalo de “acorda, ontem foi a reunião”, com certeza alguns iriam se lembrar do meu rosto estampado no telão ou algo semelhante.

Andei em longo passos, logo deixei o prédio e caminhei observando o grande jardim muito bem cuidado, a piscina ao ar livre que ontem eu não tinha reparado. Admirei os pássaros que brincavam no céu, brincavam com a sua liberdade e eu apenas queria aquilo, ser livre outra vez desse mundo que mal conheço, e definitivamente aqui me sufocaria mais do que já estou me sentindo sufocada.

O prédio principal não estava diferente do prédio em que eu estava, mas havia muito mais do que garotas, diversas pessoas de diversos lugares, eram explícitos no modo como andavam e como falavam. Não pude deixar de pensar “então a sociedade tem diversidade cultural?” Háhá, que “universidade” incrível, imagino o tanto de otários que fazem inscrições e infinitas provas para tentarem entrar aqui, e ficam se perguntando o por que de nunca conseguirem. Além do dinheiro que é investido nesse lugar para que a verdadeira identidade não seja revelada para as forças maiores, os “não-corruptos”, da polícia. Imagino também as diversas investigações que às vezes nem devem ser iniciadas por serem compradas em troca do silêncio e sigilo absoluto sobre o que realmente o “IMAM” é definido.

Olhei o número do armário que estava no chaveiro da minha bolsa, estava perto, apenas precisava subir mais algumas escadas. Logo cheguei no armário, percebi o olhar confuso de algumas pessoas em cima de mim, olhavam como se eu fosse um fantasma, mas o incrível de tudo, é que eu não me senti incomodada como esperei que me sentisse. Decidi desviar o olhar e girei a chave para abrir o cadeado do armário, mas ela ficou presa e xinguei baixo, isso era tudo o que não precisava agora.

— Você vai se atrasar para a sua primeira aula, não é? — levei um susto e falei um palavrão alto, fazendo o garoto soltar uma risadinha na minha frente. O olhei bem para analisar os seus traços, os malditos traços perfeitamente alinhados que ele possuía, como a pele branca maçã que me fez ter uma estranha vontade de tocá-la. Ele tinha o cabelo marrom escuro, era liso com uns cachos na ponta, não era tão curto mas também não tão longo. Seus olhos verdes omitiam quaisquer forma de tentar uma intimidação, e realmente, ele era bom nisso. Porém com a minha pessoa, ele teria que ser melhor. Bem melhor.
— Vou, eu preciso abrir essa merda, mas a chave está presa aqui — falei apontando e desviando o meu olhar do dele, então percebi que ele também estava me analisando. Ficou atrás de mim, sei que isso foi proposital, mas não vacilei, continuei intacta no meu lugar. Ele passou as mãos por cima dos meus ombros sem tocá-los e apenas com um movimento puxou a chave e a retirou, fazendo com que a força abrisse o armário — Obrigada.
— Eu aceito os seus agradecimentos, se você me disser o seu nome, ¹pastërti.

Eu diria, mas gostaria de saber o que significava o que ele me disse no final da sua fala. Aliás, eu nem entendia o que se passava na cabeça do mesmo pra agir desta forma. Eu hein, a minha primeira impressão desse lugar já não foi tão boa, agora parece que está apenas me surpreendendo, não sei ainda dizer se é uma surpresa negativa ou positiva.

— Meu nome é — falei colocando alguns livros dentro do armário, em seguida o fechei. Percebi que ele me olhava, queria saber mais. — del Rose.
— Sim, eu sei quem você é. — ele disse erguendo uma das sobrancelhas, revirei os olhos balançando a cabeça.
— Irônico, não é? — fechei o armário e o olhei mais uma vez — Como alguém não iria me conhecer?

Saí o deixando parado na porta do meu armário, olhei para trás uma última vez e ele sorria de forma perversa, céus, quem é esse garoto? Obtive a minha resposta em fração de segundos.

— A propósito, o meu nome é .

Ignorei o quanto aquilo estava sendo provocativo, o quanto aquele garoto que mal conheci me irritou por conta do efeito que causou em mim. O aviso que era para todos estarem dentro da sala já tinha passado, andei o mais rápido que pude identificando o número da sala. Percebi que todos já estavam em seus devidos lugares e um senhor careca com um óculos escuro conversava fazendo todas as pessoas ali na sala rirem.

— Com licença — falei sentindo minhas bochechas ficando cada vez mais vermelhas. Agora todos olhavam para mim. Andei até a segunda carteira de uma determinada fileira e me sentei, sem manter contato visual com os outros.
— Você não quer se apresentar, querida? Falar sobre a sua família? — o senhor dizia me apontando, engoli seco quando vi que era realmente preciso. Neguei com a cabeça ouvindo cochichos e recebendo olhares de diversos tipos — Vamos lá… Todos já se apresentaram.

Qual era a necessidade daquilo? Talvez não conhecessem o meu rosto, porém, quando eu dissesse o meu nome, tudo mudaria. Mas se eu não fizesse, aquele professor continuaria me encarando até que isso acontecesse. Bufei baixo tentando deixar meu corpo leve e então finalmente me levantei. Olhei para rostos desconhecidos que me encaravam com ansiedade e dúvidas, já outros nem tanto.

— Sou Del Rose, nasci em Londres, atualmente estou, ou melhor, estava cursando faculdade de Ciência da Computação em São Francisco, onde eu moro — aos poucos senti que o olhar daquelas pessoas mudaram, pareciam sentir pena de mim, e ao mesmo tempo confusas do por que a ²“dead girl” estar ali, é provável que faltaram ontem na reuniãozinha — Sobre a minha família, eu não tenho nada a dizer.

Me sentei conformada daquela situação, o senhor apenas me deu um sorriso compreensivo e continuou falando o que estava dizendo antes de eu chegar. Ficamos uma hora ouvindo sobre como o IMAM foi fundamental para a criação de líderes de extremos potenciais, e que seu nome era Otto Mourei e a sua família que foi e continua sendo a mais antiga e leal aliada dos Delavaris que é uma das famílias fundadoras entre as cinco, sendo que todo tempo repetia isso, constantemente, fazendo com que tirasse risadas da turma, ainda, tensa.

— Agora peço para que vocês façam duplas, vocês são em 28 pessoas, terá par para todos — as pessoas começaram a se juntar, até que entrou um garoto na sala chamando atenção de todos ali. O olhei mais nitidamente, espera, era aquele ? Ele cochichou algo no ouvido de Otto que pareceu conformado, como se aquilo já fosse esperado e de costume.

Virei a cabeça quando vi que ele me olhou e sorriu novamente daquela forma que eu odiei desde o primeiro momento. Odiei mais ainda o fato dele vir em minha direção.

— Está sem par? — ele perguntou puxando a cadeira e sentando ao meu lado.
— Por que não disse que estava vindo para cá também?
— Precisei ir fazer algo antes. Otto sempre me entende.

Revirei os olhos e ele riu de forma engraçada. Percebi que a sua perna balançava como quando alguém está ansioso para algo e que tinha uma marca de batom na beira dos lábios, apesar que fosse pequena, consegui ver. Resolvi prestar atenção em Otto, que passou duas folhas para cada dupla, todas estavam sentadas em seus lugares esperando. Logo ele começou a explicar.

— Nessas folhas há as instruções para vocês fazerem esse seminário. Leiam comigo — olhei para que estava com o olhar concentrado na folha — “I.Procurem pelos pertences de propriedades da sua família. II. Pesquisem e preencham dados da árvore genealógica. III. Faça a árvore genealógica de sua família. IV. Junte a sua árvore com a árvore da sua dupla. V. Ao juntarem as árvores genealógicas, juntem as propriedades e façam uma pequena análise de como liderariam esses pertencentes juntos.”"

Uma garota de cabelos ruivos levantou o braço e começou a falar as suas dúvidas enquanto ouvíamos um barulho estridente que identifiquei como um sinal para atualizar o horário para os palestrantes, ou professores.

— Vejo vocês amanhã, quero que tragam ideias de como vão começar — Otto disse se retirando da sala junto de outras pessoas. se levantou, me olhando como se eu fosse acompanhá-lo.
— Você conhece aqui? — perguntei logo após dele ter cumprimentado três garotos que passaram por nós ao sairmos da sala.
— Sim, todos os anos venho para cá, dessa vez eu vim de vez, para ficar e concretizar o que eu preciso fazer aqui.
— Por que vinha todos os anos?
— Eu era treinado, para que quando eu tivesse idade pudesse vir, assim como seria com o seu irmão.
— Como você conhece o meu irmão?
— Ora, quem não conheceu o Ben? — ele respondeu dando um sorriso nostálgico.
— Mas de onde você o conheceu?
— Faça perguntas que eu possa responder. Por favor.

Bufei. Mas respirei fundo mais de uma vez. Tentando concentrar em descobrir algo que envolva esse lugar. Conhecer afinal onde eu estou me metendo. As perguntas sobre meu irmão apenas surgiam, não é como se eu faço propositalmente.

— Você disse sobre entrar após treinamentos, apesar que aqui tem idades específicas… Porém apenas para famílias Fundadoras há exceções, não é?

Ele riu enquanto eu andava do seu lado o seguindo, podia ser mais como se eu estivesse seguindo algumas informações que eu precisava.

— Sim, mas eu tenho autoridade para entrar e sair daqui a hora que eu quero, entende? — ele abriu o armário jogando a bolsa que ele carregava dentro do mesmo — Ontem você conheceu Carlac, gostou dele?
— Isso não vem ao caso — falei sem expressar sentimento algum — O que ele tem a ver com isso?
— Sou filho bastardo, como costumo dizer ou melhor, me rotular assim — riu ironicamente ao dizer. Gostaria de perguntar, mas seria insensível da minha parte — Toda a rede Institute é comandada pelas pessoas da família de Fundadores , aqui é a base do Institute, e para não chamar muita atenção, Carlac prefere que nós ingresse na idade de que todos quanto os níveis superiores e inferiores ingressariam, pelo menos nós, da fundação . A nossa vantagem nisso tudo, é que temos os treinos, quantos anos nós quisermos, podemos vir pra cá e praticar tudo o que quisermos, todas as aulas em que temos dificuldades, missões, práticas, entre outros. É claro que não é a mesma coisa do que realmente fazer os seis meses valendo, como agora, mas ajuda na formação de tudo, principalmente no lado de fora, onde tudo isso se torna real.

Ele disse “nós”, a quem ele gostaria de se referir? Talvez poderia ser a família toda , ou não… Andamos mais um pouco chegando em um espaço vistoso e grande, haviam várias mesas, a estrutura se baseia em paredes de vidros, tinha uma vista sensacional do campo e do lago que era imperceptível. Muitas pessoas estavam comendo, percebi o enorme balcão com várias opções, e segui . Fiquei para trás quando cerca de dez ou mais garotos o cercaram, davam risadas altas e se abraçavam, como se estivessem se reencontrando. me olhou e me chamou com o polegar, logo já estava do seu lado e os garotos me encaravam esperando se pronunciar, mas fui mais rápida.

— Sou Del Rose, prazer em conhecer vocês rapazes — falei e eles se apresentaram, até que um deles me chamou atenção.
— Você é a irmã de Ben, mas não era para ele estar aqui? — assenti com a cabeça mesmo que aquilo me pegou de surpresa — Onde ele está? Até o que sabemos você estava morta.
— Cala boca cara, você não estava na reunião ontem? — um deles falou percebendo o meu constrangimento — Desculpe , ele é assim mesmo…
— Dudes, é melhor deixar isso para uma outra hora — disse segurando em meu braço com um pouco de delicadeza e me puxando com ele. Soltei a mão dele com rapidez e dei um breve tchau para os garotos.

Eu e pegamos nossas comidas, e saímos do lugar, decidi ir atrás do mesmo que me olhava com cara de poucos amigos. Ele permaneceu sem falar nada desde o que aconteceu e eu sabia que devia explicar algo para ele, mesmo tendo a convicção que ele sabia de todo o ocorrido.

, eu…
— Eu sei, ok? Você não precisa conversar sobre isso comigo.

Ele me interrompeu, mesmo se não fosse a intenção, ele foi rude. Voltei a minha atenção no meu prato, e mal toquei na comida, comi apenas as cenouras, já , parecia amar aquela comida.

— Precisamos ir — falei escutando o barulho estridente novamente.

A aula seria em um lugar aberto pelo cronograma que eu pude ver no papel que eu estava carregando pra lá e pra cá e conhecia bem, então apenas o segui após me vestir conforme pedia o regulamento daquela aula e a última do dia. Com todas pessoas que ele conhece, por que estava comigo? Será que era alguma ordem de Carlac? Ou apenas estava sentindo pena por eu não conhecer ninguém? Decidi que falaria com ele assim que ele saísse do banheiro. Vi o mesmo sentado na mureta pra fora, ele prestava atenção em um galho de folha, estava tão concentrado que até ficou surpreso ao me ouvir.

— Por que está aqui? Andando comigo? Ou se intrometendo nas perguntas dos seus amigos? — perguntei colocando as mãos na cintura, ele sorriu irônico me encarando. Aquilo realmente estava estranho para uma pessoa que acabou de te conhecer em um corredor.
— Eu não posso estar? Se não quer a minha companhia, peça.
— Apenas não estou entendendo.
— Nem eu estou entendendo a sua pergunta — como? Pensei deixando explícito em meu rosto — Eu te conheço de antes, o seu rosto foi familiarizado pra mim desde o momento em que te vi perdida naquele corredor. Como você perguntou, eu conheci sim o seu irmão e tenho certeza que se ele estivesse aqui, estaria junto dele também, assim como estou com você. Mesmo que eu não possa estar.

Pelo que entendi, eles não eram apenas colegas, eram amigos. Mesmo que através dos olhos esverdeados de não era possível encontrar algum sinal de vida, consegui ver o mínimo em como ele foi tocado por dizer aquilo. Achei melhor não perguntar mais nada relacionado, pois o tanto que estou confusa poderia piorar.

— Você pode pelo menos me responder que caminho é esse que estamos indo? Aqui no mapa não é bem esse…
— Você tem um mapa? — ele perguntou me olhando de forma inédita, com um sorriso divertido nos lábios. Respondi que sim com a cabeça, fazendo o homem a minha frente rir mais — Você é toda… brega.
— Por que é brega ter um mapa? Na “matrícula” não me falaram que eu teria um guia — fiz aspas com os dedos quando disse matrícula e entrei na brincadeira tentando me soltar ao lado dele, que andava um pouco mais depressa.
— É bom pra você conhecer novos caminhos, talvez quem sabe um dia você vai precisar… — revirei os olhos percebendo o tom malicioso em sua voz.
— Por que eu precisaria?
— “Isso não vem ao caso”, alguém que conheci me disse isso há uma hora. Você a conhece? — Revirei os olhos novamente, aquilo viraria costume quando eu estivesse perto dele. Acabei dando um sorriso amarelo para o mesmo que estendeu a mão para eu subisse as escadas, mas neguei fazendo sozinha. Apenas queria acabar logo com aquilo e ir para o meu quarto passar o resto da noite lá.

Abrimos a porta e a turma de pessoas que estava a algumas horas na sala de Otto, já permaneciam presente. De um outro lado, havia uma outra turma, porém não prestei muita atenção. Me aproximei do grupo, e perdi de vista, porém era algo bom isso, eu poderia ficar sozinha e pensar melhor, não ficaria me questionando pela sua presença.

O lugar era semelhante aos outros prédios com as paredes de vidro, observei o teto retrátil automatizado, no momento se encontrava aberto, e em volta era apenas árvores, aquela sala dava acesso à floresta. O piso de madeira laminado totalmente preto era evidenciado quando toquei os pés, e tinha vários objetos, estantes com armas enfeitando a sala para todos os lados, sacos de pancadas, máquinas para luta e defesa. Uma senhora nos chamou, fazendo com que as duas turmas se aproximassem próximo de um tatame preto com o logo do IMAM no centro do mesmo.

— Para testarmos as suas habilidades corporais, quero que peguem um papel dentro daquela pequena caixa. O nome que sair nesse papel, é o seu adversário. Vocês apenas podem parar, desde que, vejam o sangue escorrendo pelo corpo do seu inimigo — ela falava de uma forma tão comum, e a maioria das pessoas ali riam, achavam tão comum quanto ela — Com quem começaremos?
Muitas pessoas levantaram a mão, mas ela parecia querer selecionar. Andou chegando perto de mim, olhei para que também me olhava. — O que você acha de ser você a estrear nossa aula?
— Você está falando comigo? — perguntei e ela afirmou que sim com a cabeça. Como eu conseguiria lutar? Eu não sabia nem passar uma rasteira.
— Deixe que eu começo, Sânia — todos olharam para , ele entrou na minha frente e disse. Senti uma raiva crescer dentro de mim, agora ele também quereria fazer as atividades por mim? Tentei entender as suas intenções, mas meu sensor de empoderamento apitou, e apitou muito alto devido a essa situação que vou me meter.
— Não, ela me escolheu. Sou eu quem começo.

Ouvi alguns gritinhos, “vai garota!”, andei e ele segurou meu braço causando uma pequena dor no mesmo, o que me fez lembrar que eu ainda estava me recuperando.

— Você vai sair arrebentada de lá, não vai — ele cochichou, mas praticamente todos da sala ouviram.

Dei de ombros, e parei no centro do tatame com o papel na mão. Abri e li em voz alta, para mim o nome era desconhecido, exceto o sobrenome que eu identifiquei. O mesmo do pai de , o próprio Carlac...

.

Alguns olhares, até mesmo de Sânia, me assustaram e me deu uma repentina angústia. Onde diabos ele está que ainda não se pronunciou? Olhei ao redor enquanto todos da sala se entreolhavam amedontrados.

— Tire outro nome querida, não está participando desta aula hoje. — Sânia disse enquanto subia no tatame tirando com uma pequena força o papel de minhas mãos. Ela estava desconfortável com aquela situação, todos estavam com olhares receosos e assustados, imagino por mim, e a única coisa que eu gostaria de saber, era o motivo disso.

A porta abriu fazendo um barulho rígido, e de lá pude ver um jovem, aliás todos podiam ver por que afinal, todos estavam olhando para ele. Meu coração palpitou por um momento, pois eu conhecia aquele garoto de algum lugar, o garoto homem, seus braços musculosos, os cabelos mais pretos que o próprio escuro, os olhos exaltados, a boca… Aquela boca que exalava o cheiro de cigarro e menta. Era ele.

— Até que enfim , vai ter que tirar sangue de uma Del Rose hoje — alguns garotos que eu conheci mais cedo diziam enquanto ele se aproximava do tatame me olhando sem desviar o olhar assim como eu estava.

Era ele o garoto que me ajudou naquela noite. Ele me tirou da mira de uma arma.

O garoto que sonhei repetitivas noites, o dono dos olhos escuros. Ele estava ali. E não consegui mexer um músculo, assim como ele. Permanecemos intactos. Só pude sentir as batidas aceleradas que meu coração insistia tanto, fazendo com que eu tivesse a sensação de cair a qualquer momento. Eu tinha tantas perguntas, e a que mais me deixava intrigada, era o por que de ele ter estado lá justo naquela noite, e ainda mais por ter me dito que não era por mim.


* ¹“pastërti”: em albanês significa “pureza”.
* ²”dead girl”: “garota morta”, no sentido da fanfic é como algumas pessoas se referem a personagem principal.


Capítulo IV

Como se alguém tivesse estalado os dedos, o meu transe foi quebrado por completo. Assim que percebi, o garoto começou a gritar esbravejando para cima de que se aproximou de mim, pedindo para que eu saísse. Isso foi apenas o que consegui entender após o homem praticamente empurrar todas as pessoas que estavam a sua frente. Ele andava rapidamente em direção a , que estufou o peito e me colocou atrás de si, percebendo que eu não deixaria a sala. Todos meus músculos se contraíram a cada passo de para perto, senti como se eu estivesse dura, semelhante a uma pedra neste momento.

— O que ela está fazendo aqui? — gritou indo pra cima de , que lhe virou um empurrão no peito. As pessoas começaram a cercar o tatame, e não consegui ter reação a não ser ficar parada sentindo a minha pressão cair aos poucos — Você disse que não ia chegar perto dela, filho da puta!

não demonstrou nenhuma emoção, apenas estava com o punho fechado. Agora devolveu o empurrão com uma força para cima do homem, que quase lhe acertou um outro se não fosse pelos meninos que entraram na frente impedindo a briga continuar. Dei um passo para trás angustiada, me recordando de que já presenciei brigas, mas pela tensão das pessoas ao meu redor, estremeci mais ainda. Era algo que eu não gostava de ver e ainda mais estar tão próxima. Só queria deixar o lugar, mas não sabia como. Aliás, eu não pude entender nada do que eles falavam, era como se eles falassem em um outro idioma que desconheço, mesmo que eu saiba que a conversa me relaciona.

— O seu único dever era manter ela longe daqui e nem isso você conseguiu, porque você é um imprestável. Então se alguém tem que ficar longe da , essa pessoa é você! — cuspia as palavras, enquanto alguns dos meninos os seguravam com mais força.
— CHEGA! Todos saiam da sala, agora. Estamos encerrados por hoje. — Sânia disse praticamente gritando, então senti uma mão me puxando pelo braço, aliás, mesmo com aquilo tudo acontecendo, eu permaneci atrás de a todo momento. Olhei para o lado e percebi que era uma garota, tinha sardas e o cabelo loiro tingido, seus olhos eram bem puxados.
— Você é a , não é? — assenti, e ela sussurrava como se não quisesse que alguém ou algum deles a ouvisse — Você precisa sair daqui, não vai querer presenciar uma briga de e , ainda mais por sua causa.

Ela tinha um pouco de razão, mas eu precisava ficar para entender o que estava acontecendo, então neguei em ir com ela, agradecendo sem dizer muitas palavras. As pessoas iam saindo rapidamente sendo guiadas por Sânia que estava na porta e no tatame restou apenas eu, e .

— Eu quero que vocês me digam o que está acontecendo — falei, me colocando no meio dos dois, que pareciam estar mais calmos, mesmo com a troca de olhares fuzilantes — Eu preciso entender, por que vocês querendo ou não, já estou envolvida e não há como voltar atrás, estou aqui.
— Não, quanto menos você souber, será melhor. — falou baixo, percebendo o olhar de Sânia que se aproximava como quisesse ouvir algo.
— Você não sabe quantas noites eu fiquei com essas perguntas em minha cabeça, principalmente de quem você era ou se eu te veria novamente — olhei para , que estava com os olhos avermelhados e os punhos fechados — Me diga, o que aconteceu naquela noite e o que você sabe. Me diga por que vocês quase se mataram na frente daquelas pessoas envolvendo o meu nome. Vocês me devem isso.

Os dois se entreolharam por segundos que pareceram horas para mim, mas não adiantou de nada, continuaram calados. Era como se tivesse uma regra de sigilo entre os dois e o que mais me deixou nervosa foi o fato de fazerem aquele escândalo todo na frente das pessoas e sujar ainda mais a minha imagem, não que eu me importasse tanto pra isso, aliás eu não me importo nada, porém a chance de eu me destacar de forma positiva apenas ia pro ralo e a pressão cairia em meus ombros, novamente. Decidi que era melhor seguir o conselho da garota de antes quando vi que não consegui fazer com que eles me respondessem, então resolvi sair dali. Virei as costas saindo do local, deixando quatro pares de olhos atônitos.

***

,
FLASHBACK ON

Uma semana atrás…

Naquele dia específico, São Francisco tinha um ar úmido e sufocante. Não é a primeira vez que eu vim para esta cidade, as outras vezes foram para encontros formais. Digo formais, pois estes encontros são considerados normais para mim a vida toda, e bem, outros não são tão formais quando se envolve sangue. Mas hoje, é diferente. Eu vim conhecê-la. Não com um cumprimento, porém estarei todo tempo de longe, a analisando. Além de quê, isso não é necessário da minha parte em fazer, mas fiz questão de ser eu, a observar. A menina que nega até a morte - se for preciso - carregar o sobrenome Del Rose.

Temos uma missão e ela estará nela. Claro que a mesma não tem noção disso, apenas fará o que lhe foi pedido e, pelo que fomos informados, é necessário a nossa presença, pois nem todos sabem que a bomba da família Del Rose estourou, e estava ali, bem na minha frente. Porém, dentro da sociedade, apenas os grandes sabem e isso já é motivo o suficiente para a notícia ter aflorado de alguma forma.

A Universidade de arrecadará todos tipos de alimentos que a comunidade possa contribuir e ela estará no meio desse evento. O seu curso é um dos principais responsáveis para que esse mesmo aconteça. O que não sabem, é que este apenas abre espaço para o tráfico feito pelos homens do Norte, eles não são denominados por nome algum e mesmo sob tortura nunca entregam, mas eles consecutivamente vem roubando toda a nossa mercadoria. Meus caras dizem que eles não roubam, que extorquem, mas eu considero roubo, vendemos por um preço e eles vendem pelo dobro, ainda em espaço que não é permitido.

Respirei fundo descendo da van que estávamos, o campus estava rodeado de centenas de pessoas, geralmente não costumo presenciar isso, mas a ameaça dos demais foram diretamente a ela, e me senti na obrigação de vir, mesmo que a menina não signifique nada para mim. Ri em pensamentos, como se alguém significasse algo em minha vida.

Andei com uma sacola de poucos alimentos em mãos e os caras se espalharam depois de combinarmos um ponto de encontro. Conforme ia andando, fiquei em alerta ao vê-la e também ao reconhecer os homens do Norte. Dei umas duas voltas pela enorme calçada da faculdade, que estavam cercadas pelos dois lados com barracas fazendo as arrecadações. Andei mais um pouco e avistei mais centenas de pessoas em diversos caminhos, essa porra não teria fim nunca? Parei, ouvindo meu celular bipar e atendi imediatamente, vendo que era meu querido irmão.

, estamos com problemas e você está em São Francisco? O que deu na sua cabeça, dude? Precisamos de você aqui.” Estranhei ao ouvir a voz preocupada de , queria contar para ele parar de me encher o saco, ele entenderia e me deixaria em paz, porém aquilo era direito apenas a mim e me refiro a .

“Tenho uma outra chamada , não posso conversar agora.” É claro que eu queria conversar com ele, mas não menti na parte que havia outra chamada. E era de um dos meus caras, dizendo que encontraram os cabeças e estavam próximos da barraca de .

Fui imediatamente em direção a localização que ele me enviou, ficava apenas 5 minutos de onde eu estava. Andei o mais rápido possível e logo avistei os caras e Nait, meu principal e braço direito. Cheguei um pouco mais perto, e ele me apontou com o dedo a sua frente. Não acreditei no que vi.

tinha os cabelos negros e compridos preso em um rabo de cavalo alto, vestia uma calça jeans surrada e uma blusa preta coberta por sua jaqueta de couro, definitivamente muito diferente de quando a encontrei quando éramos crianças. Mesmo que o nosso encontro tenha sido rápido, reparei no vestido vermelho que ela usava e o mesmo penteado, porém seu cabelo era curto com uma franja que cobria seus olhos. O cigarro na sua boca ficava cada vez menor, de tanto que a mesma puxava, por um momento percebi que não era hábito. Seu olhar estava distante, ao mesmo tempo que estava cara a cara com um dos homens que eu procurava. Os dois conversavam tranquilamente, as vezes ele até fazia a menina soltar umas risadas. Mas o que me chamou atenção, foi ver ele tirando um pequeno embrulho de saco plástico transparente com uma certa quantidade de cocaína, e colocando no bolso da sua jaqueta, o agradecendo com um beijo estalado no rosto.

Aquilo me incomodou, senti um desconforto pesar sobre meu peito, porém não entendia o por que, apenas assenti, percebendo que o homem se distanciou de . Os meus caras logo foram atrás dele e aproveitei para ir mais perto da menina. Queria vê-la. Mais. Isso me intrigou de uma forma que era inegável por aquela expressão que pairava em minha aura suja, penso.

, bro — Nait me chamou interrompendo meu denaveio estúpido — Não é seguro você estar aqui, agora já vamos aplicar a correção e bem, ela não está sofrendo ameaças de verdade, você viu.
— Eles estão vendendo drogas a ela, isso é para afetar alguém? Ou realmente, ela tem uma ligação com eles? — o que mais me deixava desconfortável nessa situação, era que a droga era minha, e bem, eu não gostaria que ela se destruísse, sua imagem precisava ser zelada, eu devia isso a ela, devia isso a Ben. Porém eu não posso interferir na vida de uma pessoa que não sabe da minha existência, aliás eu posso, mas se trata dela, del Rose, e mesmo que ela não me conheça, estávamos ligados. Benjamin era mais que um amigo para mim, pois além de sócio, sempre fomos considerados irmãos um pelo o outro.
— Nós podemos descobrir isso pra você chefe — só quando um dos meus se pronunciou em voz alta percebi que tinha pensando em voz alta. Para passar despercebido, reuni os meus homens que estavam mais próximos dali, distribui as ordens e os deixei ir. Após isso, já não ouvi mais nada que Nait dizia, apenas concordei em deixar o lugar. Porém eu esperaria sair de lá, e a acompanharia até em casa.

A tarde passou mais rápida do que eu imaginava enquanto fiquei de vigília na barraca do outro lado da rua. Notei que pude conhecer algumas manias da menina, andava pra lá e para cá, era tagarela, e sempre que possível ria junto com os amigos de alguém que vinha entregar os alimentos. E percebi que ela era exatamente como Ben dizia, e até tinha uns extras. Tentei parar de analisá-la sem deixar escapar um maldito sorriso. É. Falhei.

A movimentação já havia acabado, e acompanhei os passos de vendo que ela ia até o estacionamento próximo assim que se despediu das pessoas que estavam desmontando a barraca. Notei que a mesma ia com pressa, e já entrei em meu carro, o bom foi que assim que cheguei em São Francisco acionei a minha garagem da cidade, e cá estou eu, com o Evoque que eu ainda não tinha feito uma estreia. Sem rodeios, minha atenção voltou para sua voz estridente que cancelava planos com a amiga, apenas queria saber o porquê, mas em segundos pude ver o carro da mesma já parado no semáforo, ela era habilidosa e esperta no volante. Sorri, colocando um cigarro no canto da boca com um pouco de dificuldade de acendê-lo. Virei o carro para uma esquina, duas, três, e quando fui ver já era a nona. Parque Central de São Francisco. O que diabos ela faria ali? A mesma estacionou o carro em uma vaga qualquer, e andou como se já tivesse acostumada com o lugar.

Decidi permanecer no carro quando vi que podia vê-la de longe. Estava sentada com as pernas cruzadas em frente ao lago próximo de uma árvore tão grande semelhante a altura de um prédio. A menina mexeu em sua bolsa, com um pouco de pressa, e olhou ao redor segurando algo em suas mãos. Curioso, me inclinei sobre o banco ignorando as chamadas em meu telefone, que nesse momento não me importa quem seja, definitivamente eu não atenderia. Ela continuou encarando a mão fechada, será que talvez essa seria a primeira vez que ela estaria se drogando? Tentei não focar em pensar nisso, mas há cada segundo aquilo me irritava. Agora, ela não tinha sorrisos, apenas se virou guardando na bolsa o que tinha em mãos, não fez nada, checou o celular e decidiu sair, com um semblante péssimo no rosto, não era preciso conhecê-la profundamente pra saber.

O que me chamou atenção assim que se levantou, não foi o fato dela ter quase se drogado em frente de um lago em um parque público, mas sim em dois homens que a observavam sem desviarem a atenção da menina. Segurei firme na arma que estava presa ao meu cós, porém eles se movimentaram assim que perceberam que se dirigia em direção ao seu carro novamente. Eu até seguiria viagem de volta a Londres se não fosse esses caras, e a curiosidade que me cercava em relação a ela. Ben sempre dizia sobre a irmã, a melhor das suas palavras e a mais usada era que se mostrava uma pessoa durona, mas não era. E destemida, isso obviamente ele dava a certeza que ela era, ou melhor, ela é.

Deixei que o carro fosse a minha frente, eles estavam claramente perseguindo o carro da garota que parecia não perceber nada de estranho a sua volta. Fiquei sempre a estreita da estrada, deixando os carros passarem por mim, em uma velocidade mínima do comum. Assim que as curvas em que ambos os carros davam pela cidade começaram a ficar perceptivas, acelerei, me assegurando em permanecer atrás do carro blindado dos homens.

Quis gritar para , dar algum sinal, mas eu pioraria o estado da menina ali, talvez eles poderiam pensar que ela chamou ajuda e se desesperar causando mais estrago do que foi solicitado. Olhei pelo retrovisor e vi que não haviam mais carros atrás de mim, e muito menos o blindado estava a minha frente, só consegui ver o Nissan de no final da avenida, parado no meio da rua. Sei que ela deveria estar se perguntando o que estava acontecendo, pois a avenida estava vazia. Aos poucos comecei a me tocar na armadilha em que a cercaram, mas não esperavam em que eu estivesse aqui.

O mínimo tempo que consegui ter para pensar, foi o mesmo tempo em que o carro afundou o acelerador disparando tiros no carro de . Logo a minha parte insensível se afogou, eu apenas sabia o que tinha que fazer. De modo automático, o meu carro já estava do lado dos demais que se entreolhavam com indignação e surpresa, mirei no pneu e dei tempo para que um deles se posicionasse no teto solar do carro, desta forma um pneu foi para o brejo, assim como o homem que recebeu um tiro na testa, tendo o seu corpo jogado para fora do carro.

Tentei manter a velocidade, mas eles se perderam, ficando um pouco pra trás, e olhava sem parar no retrovisor com as duas mãos posicionadas no volante, não consegui ver seu rosto, mas em nenhum momento a mesma deixou vacilar fazendo o carro rodopiar, porque mesmo que eu tenha conseguido ganhar um tempo pra ela, os homens ainda distribuíam tiros. Eu estaria um pouco mais preocupado se não soubesse que o carro fosse presente de Ben, com certeza estava propício a esse tipo de proteção, mas os caras foram espertos e usaram as balas certas, percebi, pois o vidro vigia foi quebrado deixando apenas cacos nas laterais.

Eles tentavam focar os tiros no Nissan, porém desviei, me posicionando atrás de , não há problemas se estavam me acertando, era na traseira do carro o destruindo por total. Assim que percebi a trajetória da menina, forcei colando no carro blindado, era absurdamente arriscado, mas apenas desta forma ela conseguiria chegar até a ponte. Permaneci colado, com a arma sendo disparada pelo vidro também quebrado do Evoque.

Foram dois minutos e alguns segundos, até o meu carro ser forçado para trás pelo carro blindado, mas a satisfação em ver nos despistar valeu mais do que toda a adrenalina repentina que meu corpo sofreu no impacto. Logo me ajeitei no banco, tentando encontrar os homens, mas apenas fui cercado por rostos conhecidos.

— O que eu disse pra você bro? — Nait dizia enquanto abria a porta do carro certificando que eu estava bem. Tirei o cinto pisando firme no chão, essa também é uma das minhas satisfações, mesmo após toda euforia, me manter em pé. Porém nada irá superá-la, o destaque só iria ser definitivo quando eu visse que a menina estivesse inteira.
— Vocês me encontraram apenas por que eu quis, e até tenho sorte nisso, pois quero o paradeiro dela o mais rápido possível — não me importei com os carros buzinando na entrada da ponte, e muito menos com a reclamação das pessoas em volta do Evoque destruído e a van que os caras posicionaram no meio da rua — Quero que quando a encontrarem a cubram com proteção máxima. Eu estava certo, que vocês aprendam com isso.

Na última frase, frisei em Nait que assentiu e abaixou a cabeça me jogando a chave. Em algumas situações semelhantes a essa, sempre levamos algumas lições, e hoje era a dele. Em questão de cinco minutos, que foi o tempo para retirar o carro destruído do meio da rua, os caras conseguiram encontrar a 2km da ponte, fiquei um pouco mais aliviado por ela não ter ido tão longe, até saber que seu braço estava machucado.

Dirigi em uma velocidade absurda do normal, chegando rapidamente na rua em que pude observar o Nissan estacionado em frente a um pub. Mas é claro que a missão não foi cumprida, então não seria tão fácil assim nos livrarmos daqueles homens. Meus caras cercaram a área toda, até se infiltraram nas filas, mas os prédios ao redor estavam comprometidos. Observei tentando captar qualquer sinal de algum deles, nas coberturas, janelas, enquanto pensavam que nós estávamos em desvantagem.

Tentei me esquivar assim que percebi o sinal de Nait que estava do outro lado da calçada, eu estava certo mais uma vez, eles estavam nos prédios. Andei o mais rápido que pude em direção a , e assim que seus olhos pousaram em mim, afrontei me virando e olhando diretamente o rosto do homem que posicionava uma arma típico ¹sniper sobre nós. Guardei cada detalhe do mesmo, antes que meus homens o segurrassem, quebrando o pescoço do mesmo, lentamente.

Meu sangue ferveu, pois não tive mais escapatória. Ela estava ali, na minha frente. Com seus dois olhos me analisando por inteiro, tentando me reconhecer de algum lugar. Apenas deixei meus instintos me levarem até um diálogo rápido e preciso com a mesma que apesar de estar - machucada, confusa e totalmente perplexa do que havia acabado de acontecer - permanecia espontânea, toda durona e destemida.

Quando ela me levantou um dedo do meio, achei tão original, que abaixei a cabeça e não deixei que mais ninguém visse a risada que soltei. Queria saber o motivo daquilo ter tanta graça, mas aos poucos vi que eu estava agindo sem pensar, meu corpo estava respondendo sem controle. No impulso. Exatamente sem pensar. Seria aquele o efeito que me causou? Aliás, achei melhor que, se ainda tivesse algum deles nos observando naquele momento, que não pensassem que me conhecia. Isso iria me comprometer, então espero ficar fora disso. Rezo para que ela não abra a boca, e talvez, esse não faça o tipo dela. Assim espero.

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FLASHBACK OFF

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POV ON


Quando decidi ir para o IMAM não achei que seria tão fácil, aliás quando comecei com os treinamentos eu tinha apenas treze anos, não que fosse uma decisão, nasci pra isso e sei determinadamente o que devo fazer. Contando que a decisão não foi apenas minha, meu pai, Carlac, sempre esteve por trás disso. O tédio de todo ano ser a mesma coisa estava me cansando aos poucos, creio que se não fosse pelos territórios que conquistei por conta própria durante esses anos fora daqui, e até mesmo do país, tudo não seria tão divertido quanto. O desafio de acordar e viver em uma vida dessas não é pra qualquer um, ser criado a base de sangue frio também não é uma coisa relevante para qualquer pessoa, todos os dias enfrento como uma dádiva, e faço o que devo fazer. Esse ano será a valer, pois eram posições em jogo, níveis e principalmente, o meu sobrenome. Porém na minha segunda aula, falhei em um principal teste que sei que Carlac não deixaria passar: o controle.

Quando saiu da sala, senti o peso de tudo o que aconteceu. Não queria me parecer indiferente com ela, mas precisei manter a postura diante da garota. As especulações chegariam a Carlac, mas de acordo com o protocolo do IMAM, ele deixaria para me punir assim que Sânia enviasse os relatórios. Mandei um dos meus de confiança combinar um encontro com e DeJei, para conversar sobre o que aconteceu, pois em um momento desses, Sânia já estava pronta com os relatórios descrevendo o que aconteceu, e em meses, Carlac me chamaria e chamaria também.

Entrei na pequena sala, aquela de costume de todos os anos em que passamos os meses aqui, o único detalhe que percebi de diferente foi o sofá, que definitivamente deveria ser trocado, com uma votação e eu os caras decidimos recriá-lo para o nosso último ano. Ali passávamos por diversos momentos, como quando enchemos a cara e o porre foi tão forte que todos conseguiram batizar o sofá com seus abençoados vômitos, fora que apenas as melhores garotas podiam entrar, de preferência as latinas. Me recordei quando abri a porta e vi Dejei em pé rindo de algo que contava, aquelas coisas já não eram mais tão importantes como antes, e sei que não voltarão a ser.

— Podemos inventar uma história — comecei deixando os dois se sentarem — Que já teve um envolvimento com , e…
— Não vai rolar nenhum pedido de desculpas? — Dejei perguntou tentando parecer o mais descontraído possível, mas, mesmo assim, engoli seco para não dizer coisas desagradáveis — Sei que essa palavra não existe no vocabulário de vocês, só que foi feio, hein? Não a briga, já vi piores, mas as palavras foram de acertar em cheio.
— Dejei, cala boca — começou, dei uma tossidela percebendo o desconforto eminente na expressão séria do rapaz — E não, quem entrou gritando foi você, então se tivermos que fuder a imagem de alguém será a sua, senhor Delavaris — continuou enquanto parecia saborear um gole de alguma bebida alcoólica que tinha em sua garrafinha preta que não me lembro o nome. Revirei os olhos não me arrependendo de quase ter lhe acertado um soco mais cedo.
— Cara, vocês precisam pensar. O pai de vocês não sabem que vocês eram amigos de Ben, muito menos dos negócios compartilhados, e se desconfiar disso, vão acusar que vocês fizeram parte do plano de traição contra a sociedade para que a menina não entrasse, ainda mais se alegarem que vocês tiveram um envolvimento afetivo com ela. — DeJei disse me olhando, e era verdade. Teríamos que pensar melhor. Antes eu costumava ser bom nisso, quando não precisava resolver as coisas de maneira mais um pouco, digamos, violenta.
— O que vocês sugerem? — perguntou se sentando ao lado de DeJei que lhe entregava mais uma das garrafinhas pretas em estoque, era a época em que eu andava com aquilo pelos corredores, seja lá aonde eu ia.
— Precisamos de uma aproximação com ela, imediatamente, pois se quisermos dizer que a briga foi por conta de gostarmos dela, será mais fácil nos livrar de outras explicações. — falei e DeJei pareceu não compreender.
— Mano, tem certeza? Sânia fará o relatório, enviará, e amanhã do nada vocês dois têm uma amizade grande com ?
— A nossa vantagem DeJei, é que os relatórios são enviados apenas quando completam quatro meses no IMAM. Então todos os problemas são resolvidos de uma só vez. E geralmente não temos problemas aqui, alguns casos são de brigas e só, não passa disso.
— Então foquem em se aproximar de — DeJei disse se levantando ao perceber que nossa reunião havia acabado — Não podemos soltar nada do que aconteceu lá fora. Muito menos para ela.
— Ela vai insistir — disse com um sorriso sapeca no rosto me fazendo sentir um incômodo — Nós sabemos que ela vai tentar ao máximo.
— Mas aí você vai calar a boca e não abrir nem um A para ela! Não é, irmãozinho?

Ele assentiu deixando a sala me mostrando o dedo do meio. Senti um desconforto ao me recordar do que esse gesto me lembrava… o gesto que me fez aquele dia. Se eu pudesse voltar no tempo, não teria a deixado sozinha, teria mantido o controle e ela não estaria aqui, mas quando se trata dela, percebi que não tenho controle algum.

***

Del Rose, ON

Terça-feira e a chuva caía sem parar. Ontem não tive muito o que fazer depois daquela tarde agitada, apenas vim para o quarto e tive uma visita inesperada de uma menina do prédio, o nome dela é Bea, de Beana, é a garota que quis me tirar do meio da confusão de e , após tudo aquilo, consegui agradecê-la, e ela já conhecia os meninos, então aproveitei para tirar algumas informações e ela me contou que eles nunca se deram muito bem, se encontram em reuniões de família por serem irmãos, e um fator é a pela idade, os dois são da mesma idade – vinte e dois anos -, e criados apenas pelo pai e o avô, Carlac e Carlos. Nunca poderia imaginar que quando conheci naquele corredor, ele seria o irmão do homem que durante esses dias todos não saía do meu pensamento por nada.

Conformada com a situação, ainda mais depois de ontem, coloquei uma calça de moletom e uma blusa de manga curta, todos trajes do uniforme. Por cima, coloquei um moletom preto, e o meu tênis vans surrado. Minha expressão desde que cheguei neste lugar não mudava, não me sentia confortável nem mesmo estando sozinha dentro do quarto, é como que a qualquer momento posso surtar. Surtar por não saber como estão as coisas do lado de fora, por não saber como estão meus amigos e se algo de grave anda acontecendo. Passei por muito tempo sendo a pessoa que se esquiva de tudo, mas agora não era o momento propício pra isso, quanto mais informações eu tiver, melhor será para conviver aqui.

Me olhei no espelho admirando algo que eu poderia ter autonomia na minha vida para cuidar, os meus cabelos, é claro. Ri em pensamento os soltando, não costumo deixá-los solto, mas para talvez melhorar meu humor deixei que eles caíssem pelas minhas costas. Hoje estavam mais cheios do que o comum, ele é uma mistura de liso com cacheado, e não entendo os seus dias, as suas fases, mas amo da mesma forma.

Minhas bochechas permaneciam rosadas assim como minha boca, meus olhos estavam cansados e não entendia o motivo. Apenas parei de me analisar quando senti o frio bater e meu braço latejar, mas aos poucos estou percebendo o efeito da recuperação, por coisas mínimas que antes eu não conseguia fazer, como levantar uma cadeira e mudá-la de lugar.

Peguei a minha bolsa, e abri a porta do quarto, logo vi Bea me esperando, ela estava com um guarda-chuva e me daria uma carona. Porém a sala em que eu deveria ir era no prédio 2 e a dela no prédio principal. Nos despedimos e segui o caminho com consciência que tomaria um pouco de chuva.

Andei colocando a touca do moletom sem me importar em molhar o celular que estava em minhas mãos, quando vi que a chuva engrossou achei melhor colocá-lo no bolso de trás da minha calça, e foi assim que vi um homem de cabelos arrepiados se aproximando com um sorrisinho amarelo, um pouco desconfortável, mas, ao mesmo tempo, tentando uma aproximação.

— Quer uma carona? — o reconheci pela voz. perguntou e neguei, novamente sua boca estava suja de uma tinta grossa cor-de-rosa — Qual é ? Você está tomando chuva.
— A sua namorada não vai gostar nem um pouco de te ver dando carona próximo a uma menina que você mal conhece, pastërti — falei sorrindo com sarcasmo o imitando dando uma ênfase no apelidinho idiota, enquanto andava rapidamente em direção a entrada do prédio.
— Estou impressionado, repetindo as minhas próprias palavras, pequena ? — sorriu com sinceridade, era novo aquele tipo de sorriso de . Fingi que não prestei tanta atenção e olhei para o chão, agora sem conseguir conter o meu sorriso.
— Eu não posso? Você mesmo fez isso ontem — questionei o deixando parado próximo de um banco. Me virei, e eu sabia que teria que o encontrar o restante do dia, então precisava dizer — E sobre ontem, eu não me esqueci. Quando eu achar que for um momento propício, eu espero que você ou me conte o que verdadeiramente está acontecendo ou o que aconteceu. Preciso de respostas para que eu me sinta segura de verdade aqui.
— Você está segura! — percebi sinceridade na sua voz, ele segurou em minhas mãos e meu corpo se arrepiou por um momento, eu não esperava por um toque de — Não vamos deixar que nada te aconteça.
, não quero que vocês me protejam, eu posso fazer isso sozinha, mas preciso saber do que exatamente me proteger…
— Eu sei, como você disse, no momento certo você saberá tudo, eu prometo . — assenti mas eu tinha conhecimento de que não podia confiar naquilo, então eu teria que pensar em algo e teria que ser rápido.

Me virei novamente e andei para a sala, senti o olhar de em mim, mas não apenas o dele, também estava lá, todo momento nos observando. Cogitei em ir falar com ele, mas não tinha liberdade para fazer isso, ainda mais depois do que aconteceu ontem e mesmo que eu tenha conhecido também ontem, ele aparenta ser mais fácil de lidar, mas para isso eu teria que passar por cima do cinismo, sarcasmo e o charme dele, que não seria difícil para mim, ou, pelo menos, eu acho que não será difícil.

Ao entrar na sala, percebi que a turma já não era mais a mesma, haviam menos pessoas, mais homens e poucas mulheres, provavelmente aquela aula seria para o tipo elevado no quesito do poder das famílias, nos fazendo ficar em uma turma diferente dos demais. A sala era escura, pouca iluminação, a luz era apenas em uma mesa destacando as facas que estavam em cima delas. Se fosse antes provavelmente eu me assustaria, mas estou me acostumando com esse ambiente aos poucos, aliás até no banho as garotas apenas falam das lutas e os tipos de armas que mais gostam, não que isso não seja incrível pelo fato de serem mulheres falando sobre esse assunto, mas no caso é preferível falarem sobre futebol ou revistas do que falarem sobre as partes do corpo humano mais deliciosas de ser torturadas. E até pelo modo de que dizem, elas realmente parecem certas do que fazem, assim como todos aqui.

— Sejam bem-vindos ao IMAM. Sou Ettanora e vou aplicar as funções de cada uma das nossas principais preciosidades para vocês. — a mulher loira dizia, tinha uma aparência de uns quarenta anos para cima, e uma cicatriz da boca até a testa. Me acomodei ao lado de uma garota de um cabelo comprido, logo percebi que estava atrás de mim junto a dois rapazes — Podem se aproximar da mesa e escolham a sua favorita.

Andei com um pouco de receio atrás de algumas pessoas, enquanto alguns recolhiam as suas facas. Me aproximei da mesa, e percebi o olhar de em mim. Eu não fazia ideia de qual escolher, apenas segui meu instinto e meus olhos vidraram em uma, ela era branca com uns detalhes curvados e no seu cabo havia um destaque vermelho da personalização do IMAM que a deixava radiante. A peguei rapidamente vendo o quanto ela se encaixava em minhas mãos, pude ver que ainda me olhava, mas agora com um sorrisinho no canto dos lábios, já , estava com uma expressão séria no rosto, parecia não gostar do que estava vendo.

— Quero que vocês a segurem de modo central curvado ao seu diafragma — a mais velha disse em um tom alto para que todos a olhassem e principalmente a escutassem. Percebi que não fazia ideia de que tipo de posição era aquela e percorri meu rosto e olhar desesperado para alguém da sala, e todos me olhavam, não com um tom de deboche ou piadinha, mas sérios. Imitei a garota baixinha que estava do meu lado, e engoli seco. É claro que todos perceberam, mas ao olhar para Ettanora, ela me fez um sinal positivo com a cabeça — Respirem fundo e imaginem o como esse objeto em suas mãos pode decidir se a sua vida acaba agora, ou depois. Mas é claro, há de ser no lugar correto.

Olhei ao redor e percebi que para as pessoas se concentrarem, alguns fechavam os olhos. Evitei olhar para ou , pois sabia que eles poderiam estar me encarando. Decidi fechar os olhos e tentar imaginar o que Ettanora propôs, mas só consegui ver uma faixa branca e ela se manchava de sangue a cada segundo. Abri rapidamente assim que ela passou por nós, formando duplas para testarmos as nossas habilidades em um tipo de aquecimento. Do outro lado da sala, ela me trouxe um garoto aparentemente mais velho do que eu, talvez ela quisesse colocar o mais experiente da sala, eu até poderia defini-lo daquela forma se na enorme estante não houvesse o nome de e a sua foto como o melhor ponteiro de arremessos cinco anos consecutivos.

O garoto me chamou atenção quando com um gesto parecia querer me ensinar algumas posições com a faca, algo me intrigava, que era o fato dele não falar. Mas puxei assunto e ele pareceu não entender muito bem. Tentei as línguas de meu conhecimento e vi que o russo deu certo. Ri fraco com o mesmo que parecia aliviado. Russo é uma das línguas que tenho domínio, pois tenho uma descendência muito forte em São Petersburgo, a antiga capital da Rússia, e ainda a minha família - mesmo que vá surgindo outros sobrenomes - está em peso por lá.

Com movimentos nem um tanto bruscos tentei soltar meu corpo aflito e seguir os comandos do meu companheiro ali que fazia tudo calmamente, fiquei o mais atenta possível para seguir as instruções e conseguir o posicionamento perfeito. A cada virada, ele vibrava e o meu corpo também. Por último, me agachei colocando a faca escondida atrás do meu cabelo, um pouco acima da nuca. O garoto, cujo nome é Yonas, vibrou dizendo um “muito bem” em russo, que finalmente, quebrou a tensão entre nós.

— Muito bem… Agora quero que vocês se espalhem pela sala — Ettanora falou em um tom mais alto do que antes, então imediatamente todos fizeram o que ela mandou. Fui para um canto da sala próximo a uma porta que eu não sabia se ela abria ou não — Vocês têm uma faca em suas mãos, precisam se livrar dela, não acham? Todos aqui são seus inimigos, mirem e arremessem em seus adversários.

O QUÊ?! Ela era louca? Como eu miraria uma faca em alguém? Ou arremessá-la em uma pessoa? O fato que mais me surpreendeu foi a agilidade dos demais, não pensaram duas vezes e as pessoas mais próximas arremessam sem piedade. Ouvi alguns gritos e corri pois percebi que a menina do cabelo chanel acertou a faca na porta ao lado em que eu estava. Fiquei de frente pra mesma que arrancou a faca da madeira numa rapidez surpreendente, me vi encurralada entre a parede e ela. Precisava pensar. Pensa , pensa. Você arremessa, ou ela arremessa em você. Pensa.

Segurei firme a faca em minhas mãos, ela ameaçou de arremessar, mas se aproximou fazendo com que tivéssemos um contato, então senti sua mão em meu estômago me empurrando. Caí sentindo meu corpo vacilar, porém antes do impacto no chão lhe acertei um chute no estômago a afastando de mim e assim que vi a distância da mesma, arremessei a faca com todas as minhas forças. Fechei os olhos por segundos percebendo a merda que fiz quando os abri e vi a faca atravessando a perna da menina que agora gemia de dor. Tentei me levantar sentindo uma dor no meu braço machucado, mas fui impedida pela mesma, que me chutava nas costas sem parar, como se não houvesse uma faca enfiada na sua perna. Encolhi meu corpo tentando me defender, apenas queria saber onde diabos estavam as pessoas daquela sala? Logo vi que juntaram alguns rapazes e a tiraram de perto de mim e me ajudaram com que eu me levantasse do chão. A dor estalou em uma única parte do meu corpo.

— Como está o seu braço? — me surpreendi ao ouvir me perguntar. Levei minhas mãos até meus braços e com um toque percebi que estava tudo bem, apesar do incômodo da dor. Mas minhas pernas tremiam, e meu coração estava tão acelerado, eu nunca havia sentido tanta adrenalina, nunca precisei pensar em tão pouco tempo, segundos, algo que pudesse me ferir e por mais que aquilo não foi certo, por um momento senti orgulho do que fiz, senti orgulho por que verdadeiramente fiz algo por mim.
— Está tudo bem, não deu tempo dela acertar em meu braço. Ainda bem. — ele deu uma risadinha e fiz o mesmo. Uma pequena curiosidade, assim como a dorzinha, estalou em mim. Não entendia os motivos dele ainda falar comigo e nem eu mesma conseguia me entender em como ainda converso com eles, como não os evito, depois da palhaçada e vergonha que me fizeram passar. A única coisa que posso pensar nesse momento é uma aproximação, talvez, por que apenas assim eu vou ter o que eu quero.
— Mas ela acertou as suas costelas — chegou entrando no meu meio e de , me fazendo rir mais e me acompanhou, enquanto fechou a cara — Não quebrou nada, está tudo certo ou vai precisar de uma cadeira de rodas?
— Está tudo bem de verdade, eu apenas não entendi por que ela agiu com agressividade, todos estavam acertando uns aos outros, não era o certo a se fazer? — questionei percebendo que Ettanora logo voltaria para a sala.
— Ela é uma Delavaris. Participou de todos os treinos desde os nossos treze anos, então provavelmente ficou abalada com uma novata como você acertá-la, isso para ela é como um confronto. Tenha mais cuidado a partir de agora, nunca se sabe. — falou saindo de perto, absorvi suas palavras, eu teria cuidado, definitivamente teria.
— Como vocês puderam perceber, tivemos um incidente, mas o importante é que não se machucou, não é querida? — Ettanora disse me olhando, percebi alguns homens recolhendo as facas do chão e limpando o sangue, falso sangue — Gostei do desempenho de vocês, foi algo surpreendente. Quero ver nas próximas aulas, espero que estejam no mesmo gás que esse para que apenas progridam. E mais uma coisa, para aqueles que foram atingidos, caso sentirem uma dor na região onde a faca adentrou, procurem a enfermaria. Já tivemos caso da dor permanecer, sendo que é apenas uma simulação, as facas reais por um bom tempo vocês não terão acesso.

Ettanora disse mais algumas coisas e logo depois nos liberou, mas antes, pude ver a garota com uma expressão furiosa em seu rosto me fitar da cabeça aos pés, todo momento ela estava lá sentada me olhando e apenas agora que fui perceber. Finalmente saí da sala colocando a toalha que eu havia limpado o meu suor dentro da bolsa, por um deslize ela caiu no chão e percebi que um menino moreno de dreads correu para me ajudar. Agradeci com a cabeça, então quando eu ia começar a falar se intrometeu.

— Esse é DeJei — olhei para o menino que estava rindo enquanto revirava os olhos — Essa é .
, você não cansa de ser chato? Guarde o seu ciúme para você — o garoto disse e olhei para que não ficou feliz com o comentário do amigo.
— Ele não tem ciúmes de ninguém, apenas da namorada dele, não é ? Todos os dias aparece com uma mancha de batom em diferentes lugares, é na blusa ou no canto da boca, por aí vai…
— Está me observando, pastërti? — perguntou convencido me fazendo dar um leve tapa no braço definido dele.
— Pastërti, essa seria a última coisa que eu faria no mundo. — o imitei como mais cedo, e quando percebi estávamos nós três gargalhando que nem idiotas no meio do corredor. Talvez aquele lance de aproximação não fosse tão ruim assim, por que afinal de contas, eu não precisava fingir ser uma pessoa que não sou. Incrivelmente, apenas estou me deixando levar sendo quem sou, e não mudando meus conceitos e ideologias. É claro que muito das coisas que acontecem aqui ferem o que eu acredito, mas esse é o primeiro passo para eu visualizar melhor onde posso fazer a diferença.

— Quinta terá uma pré em nosso prédio, está a fim de ir Del Rose? — DeJei perguntou para mim, percebi a reação de , ele apenas ficou calado e colocou as mãos no bolso.
— Pré de quê?
— Sexta, como tradição de todos anos, o IMAM fará um baile de boas-vindas, para nós e os outros que tiveram aqui antes de chegarmos, é mais para conhecer e ter boas relações para uma boa adaptação — falou, ele parecia estranho.
— Sim, e para dar uma agitada, fazemos uma “festinha” — Dejei fez aspas com as mãos enquanto me acompanhava, sorri para o mesmo que agora mexia em seus dreads emaranhados.
— Posso convidar uma amiga?
— Pode! Até duas se quiser. — o mesmo respondeu em um tom brincalhão, e ri junto a , que ainda estava estranho e queria entender o por que, mas é óbvio que não vou perguntar.
— Ok, vou conversar com ela. — falei tentando convencer DeJei, realmente eu não estava interessada, mas a empolgação dele fez com que eu desistisse de dizer um não logo de cara.Me virei após despedir dos meninos, encontraria com Bea para almoçar.
— Espera… — segurou em minha mão como mais cedo, me impedindo de andar e sem que ele percebesse quebrei o toque soltando levemente minhas mãos da dele — Não precisa ir se você não quiser.
— Está com medo que eu descubra quem é a sua namoradinha e eu fique te zoando toda vez que vê-la com o batom borrado? — falei e ele revirou os olhos me fazendo rir alto — Relaxa , eu sou uma garota comportada, jamais faria uma atrocidade dessas.
— Eu não tenho medo de você, pequena . Olha o seu tamanho… — Outch, ! Outch.
— Se der eu apareço por lá, ok? A gente se vê, .

Assim que andei para o final do corredor, vi sentado em um banco, a bolsa dele estava em cima das suas pernas cobertas e ele estava digitando algo em seu celular, seu olhar parecia vago. Seria estranho se eu passasse e não falasse um oi? Ou um até logo? Me aproximei de onde ele estava e agora quem me encarou com um olhar surpreso, foi ele.

— Ei… você está ocupado? — falei meio que engasgando, dei uma tossidela para disfarçar, mas minha cara não negou que eu estava nervosa, e se acalme , você apenas está tentando agradecer alguém — Obrigada… por hoje mais cedo.
— Você está me agradecendo do quê? — ele perguntou com uma expressão confusa em seu rosto.
— Eu apenas estou te agradecendo por você ter perguntado se estava tudo bem comigo, por ter me falado pra tomar cuidado — respondi em um tom mais firme, mas com aquela resposta me arrependi totalmente de ter ido lá.

Ele sempre é assim? Sério e arrogante? Vi que ele voltou a digitar em seu celular como se eu não estivesse ali. Sem pensar, virei as costas e saí andando pra fora do prédio, se eu soubesse que seria daquela forma, nem teria começado um diálogo com ele. Apenas senti um desconforto pela situação, mas se ele quisesse que fosse assim, então iria ser. Sou a mestre em fazer desconfortos em situações inusitadas, como já diz Paul del Rose.

***

, ON

“Merda!” exclamei vendo deixar o lugar. Eu sei que estou sendo contraditório, tive a ideia de me aproximar dela, mas eu não consigo. E não é algo que me importo, sou assim com todos, mas apenas fico intrigado pelo fato de minha defesa, o meu bloqueio não funcionar quando se trata dela. Algo me impede, além da Delavaris. Vaiot Delavaris. Agora tem essa pra ajudar, a minha linda pessoa-que-não-quero-definir-relacionamento está praticamente decretando morte a e se me ver com a mesma, o que existe entre nós seria acabado, e não posso, preciso fazer o que Carlac me diz, preciso fechar negócio com essa família, mesmo que seja usando a filha estúpida e mimada deles. É claro que o lance todo de romance definitivamente não é comigo, porém estou me esforçando sendo o cara que pede para a secretária enviar flores e logo agora, não posso simplesmente jogar tudo pro alto. e DeJei se aproximavam e me levantei esperando que eles chegassem.

— Vi o que você fez com falou com a expressão séria no rosto, fazia tempo que eu não o via falar algo sem algum tipo de sarcasmo ou piadinhas.
— E daí? — perguntei para o mesmo que revirou os olhos.
— Nada — respondeu com ironia, esse é o que conheço — Apenas saiba que você vai ter que aturar ela. Primeiro pelo nosso acordo, segundo que ela irá na nossa festa.

Ela vai na festa? Merda, merda! Ela deve estar com uma raiva enorme de mim, mas não me importo, quero não me importar, diz a minha fudida mente. Apenas quero entender o por quê de chamarem ela pra isso, eles sabem que trataremos de alguns assuntos e terão pessoas infiltradas no local, então por que diabos não deixam a menina quieta onde ela está?

— Foi ideia minha , não precisa querer matar o — DeJei falou, mas não prestei muita atenção, estava com raiva o suficiente para não conversar com nenhum deles, principalmente .

Andamos a caminho do refeitório para almoçar, de longe vi , que me olhou porém virou o rosto para o lado fingindo que não me viu. Essa situação é muito constrangedora, mas sem que eu quisesse sei que ela entenderia, pois a Delavaris se aproximava.

— Como está o meu homem? — ela perguntou se aproximando junto de suas duas servas – não amigas – eu poderia dizer.
— Nada mal — Vaiot deu um sorriso amarelo que fez meu estômago revirar, ainda mais sabendo que estava assistindo tudo aquilo.

Não que eu me importasse, mas por mais cedo perguntar se ela estava bem, se portar como um idiota em seguida, e depois ela me ver conversando com a menina que queria quebrá-la na briga sendo que em um outro dia entrei em uma sala gritando com meu irmão por ela estar ali. É injusto tudo isso por que até mesmo eu fico confuso e imagino como está a cabeça dela. Apenas queria poder consertar tudo isso, só queria que ela estivesse longe de tudo, assim como prometi a Ben, como um dia prometi a ela, mesmo que ela não tivesse consciência disso.

Andei perto de Vaiot e nos sentamos em uma mesa ocupada por algumas pessoas que logo se levantaram com seus alimentos e nos deixaram a sós. Por toda minha vida minha presença foi temida, então aquilo era comum. Mirei a atenção em Vaiot, e a conversa foi sobre alguns negócios que tínhamos em comum e precisávamos ter o controle aqui de dentro, antes que um de nossos inimigos tomassem o lugar em determinados territórios, porém temos nossas famílias que estão cuidando como podem, mas costumo dizer que seus negócios são você quem deve tratá-los, e bom, Vaiot não é diferente de mim neste aspecto.

Procurei com os olhos a saída mais próxima pra chegar até o cara da moto Honda azul, ele tinha se infiltrado dentro do campus para entregar as drogas da pré de quinta, mas logo vi que e alguns dos seus rapazes já estavam por lá. Me despedi de Vaiot com um selinho, nós nos beijamos algumas vezes mas nunca passamos disso e eu não tenho nem um pouco de vontade de ter algo a mais, talvez por saber que teria no momento em que eu quisesse, e bom, esse não faz meu tipo. Finalmente saí da mesa e enquanto colocava a minha mochila nas costas observando Vaiot deixar o refeitório fui surpreendido.

me disse o que você falou para ele e para DeJei — disse e deu um sorriso cínico mas mesmo que ela tentasse, não conseguiria ser cínica comigo — Fique tranquilo , eu não iria nesta festa nem que me pagassem pra isso, mas você pode chegar e falar simplesmente para mim, não precisa ir a amigos, ao seu irmão me mandar recado.
, eu..
— Não seja estúpido mais uma vez. Eu quis te dar esse recado, porque eu achei convincente a razão de você não me querer por lá. Ela é incrível, não é? — seu tom já não estava o mesmo, eu não conhecia esse lado dela — Avise da próxima vez, para que ela não erre a mira.

Ela se virou e consequentemente os seus cabelos foram soltos ao vento exalando o perfume de flores, não pude deixar de perceber que mesmo sendo ríspida daquela maneira, de alguma forma estava chateada, e era linda, porra, nunca a vi dessa forma. Coloquei o dedo indicador nos lábios já umedecidos a olhando sair, não quis, mas foi inevitável não prestar atenção no seu modo de andar tão segura e cheia de si. E sim, eu não queria que ela fosse na pré, mas eu nunca disse para que não a queria lá. Aquilo estava cheirando a algo que eu ainda não estava sabendo.

Quando me dei por conta fiquei parado ali apenas assimilando o que havia acabado de acontecer e pensando em quando foi que uma mulher tinha me deixado sem o que falar, mas em seguida avistei com Spencer, a garota do batom, que queria tanto descobrir. Eles pareciam discutir algo, mas interrompi do mesmo jeito.

— Ei bro, você não está…
— Não tenho tempo pra isso , apenas me diga o que foi aquilo — falei tentando passar uma seriedade para o meu irmão que evidentemente estava constrangido em frente a garota, mas da mesma forma, virei o olhar para que ria junto de umas duas garotas, e fiz com que ele entendesse, afinal, sei que ele não tirou os olhos por um minuto dela.
, não foi exatamente isso… — percebi o incômodo na expressão facial de Spencer, que deixou o ambiente imediatamente ao ouvir o nome de .
— Ela me disse cara, não adianta negar. Sou eu ou você que não a quer lá? — perguntei e ele colocou as duas mãos no rosto discretamente — Você não está ajudando com o plano, . Eu sei que mais cedo eu também não cooperei com nada, mas é apenas o começo disso tudo e as coisas devem estar em ordem.
, precisamos resolver em que cabine da festa será a reunião hoje — Nait chegou elevando o tom de voz, mas não perdi o contato visual com o de , que soltava risadas debochadas. Nunca conseguiu me irritar com aquilo, não seria hoje.
— Ela não pode ir, a melhor forma para impedir isso foi dizendo que você não a queria lá… Quando Dejei a chamou, você acha que concordei? Realmente terão muitos infiltrados — falou com franqueza, mas era evidente ainda em seu semblante que estava adorando aquilo — E relaxa, depois que ela te viu com Vaiot, a última coisa que ela vai querer é chegar perto de você.
— Como eu disse, não tenho tempo para as suas brincadeiras — aquela conversa estava indo longe demais e me fazendo perder o propósito do que por que de vir falar com ele — A única coisa que me preocupa é em manter o plano. Eu já te disse, hoje cedo eu falhei e…
— E falhou de novo — deu um passo fazendo com que nossos rostos ficassem próximos, era sempre dessa forma — Você não está levando isso a sério como deveria. Desde o começo foi assim. Como você pôde duvidar? Nós sabemos as coisas que estão acontecendo, é claro que ela pararia aqui se ainda estivesse viva.
— Mas é claro! Ela apenas está viva porque quando eu fui informado não fiquei de braços cruzados esperando o pior acontecer, eu estava lá… Diferente de você — cuspi as palavras em sua cara, o sangue fervia mais ainda dentro de mim, se ele queria mais uma briga, estava se metendo com o cara certo, ele sabia disso, sempre soube.
— É desde a formatura dele, não é? E o mais engraçado é você nunca me precisou dizer, era apenas em olhar pra ela, até o próprio Ben percebia isso e tirava onda da sua cara maninho — continuava e o fervor do meu sangue aumentava, era como se ele estivesse cutucando algo que sempre esteve presente dentro de mim. Apenas adormecia. E ao vê-la, se despertava. Afinal, ele tinha razão, mas nunca sairia da minha boca essas palavras, sei que não conseguiria admitir. E ele sabe — Isso não é sobre o Benjamin, não cem por cento. Ser o preferido do pai e obedecê-lo apenas ajuda, mas eu realmente gostaria de saber como ele iria se sentir em saber que você não faz metade do que ele pensa que faz.
— Você já foi melhor, não acha? — ignorei por completo me distanciando de que perdeu totalmente a sua pose cínica, apenas me olhava de uma forma diferente, como eu nunca tinha visto antes — Pode envolver o meu nome nas merdas que quiser, mas sabemos quem mais tarde as limpa.
— A sua merda é bem maior do que uma garota e eu sei disso por que estou sentindo o mesmo que você — ri tentando disfarçar qualquer sinal de preocupação e ódio que pairava dentro do meu peito — Não é uma qualquer. Então não, eu não vou me manter longe, se alguém for fazer isso, será você. Também sei que você não está me pedindo isso com palavras saindo da sua boca como ontem, ou outro qualquer dia, mas posso ver isso em você. Eu sinto muito brô, sinto muito até por mim mesmo, mas, de qualquer forma, já estou tanto dentro dessa como você está.

No momento preferi não responder, apenas me foquei em não lhe acertar o soco que eu havia prometido em mente, e também, focar em não arrumar outra briga e se meter em mais um relatório, ainda mais com a mesma pessoa e essa pessoa sendo o meu irmão. Essas discussões constantes com foi durante toda vida e não me surpreendia, pois toda vez que nos encontramos era a mesma coisa. Ele insiste em dizer que Carlac me prefere por me deixar no comando de alguns negócios, aqueles que ele tem consciência. Nosso pai não pode ter ideia de muitas coisas que acontecem por fora do sistema de controle da sociedade e como sempre cuidamos disso, principalmente eu, não deixamos com que ele saiba. Ter comando em um território de um negócio propriamente conquistado apenas por mim não seria a notícia mais convidativa para ele, pois crescemos sendo ensinados que tudo é feito pela sociedade e nada além mais disso.

— Não vale a pena — Nait me dizia enquanto vi saindo pelas portas dos fundos do refeitório com um cigarro entre os lábios, aquela conversa me incomodou de tal forma que não pude pensar em mais nada — Eu estava lá quando ele falou sobre você, talvez ela esteja até um pouco mais aliviada, é o que eu percebi pela expressão da menina… talvez não queria tanto ir.

Ignorei por completo o restante das coisas que Nait me dizia, pois as palavras de ecoavam em minha mente como bala disparada em um ¹looping eterno. Decidi então deixar o refeitório, me recordando de minutos antes – enquanto Nait decidia tudo sobre quinta com mais alguns rapazes – a imagem de meu irmão com um cigarro na boca que não fazia o maior sentido para mim, não tem explicação por que ele deixou esse hábito há um tempo e sei o que significava tudo aquilo para o mesmo…

Dei de ombros passando por todos os corredores, talvez uma explicação teria, talvez ele estava tão confuso como eu, e estar confuso para homens como nós, que sempre estão no controle de todas as coisas que nos cercam não é uma proposta bem-vinda ou tão convidativa. Perturbado, tirei um cigarro do bolso e entrei no elevador sem prestar atenção em quem estava no mesmo espaço, apenas o coloquei em minha boca para sentir um gosto diferente, e vi por uma última vez daquele dia. Ela estava sozinha e passando apressadamente até que nossos olhares se cruzaram, mas diferente das outras vezes não desviei, fixei meus olhos nos dela até que a porta fechou quebrando aquele momento.

Engoli seco me perguntando o por que dela ter parado de andar e não ter virado o rosto para mim como antes… E novamente a confusão se remexeu por dentro de mim outra vez e o controle, eu não sei nem onde ele está dentro do meu próprio corpo. O nome para todos esses fatos estranhos - mesmo que eu recusasse – estava a minha frente, debaixo do meu próprio nariz. E porra, como o desejo se torna incontrolável quando a tenho por perto, sendo que um desses barbáricos é querer conhecê-la, e me perco em metade do meu eu que grita para mantê-la longe, como eu deveria ter feito, mesmo sem querer.


*¹sniper: atiradores profissionais com uma arma específica a distância.
*²looping: o termo "looping" de "loop" é usado para se referir a uma "repetição infinita".


Capítulo V

A quinta feira no IMAM aparentemente seria longa pois a movimentação do prédio estava muito agitada e também pelo fato do dia estar ensolarado. Fiz um rabo de cavalo alto e apertei bem a garrafinha de água no meu cós do shorts preto para ginástica em que eu usara. Como havíamos combinado, fui de encontro a Bea no corredor, a mesma parecia empolgada assim como as outras meninas que nos acompanhavam. Nesse pouco tempo desde o começo da semana pude conhecer melhor Bea, descobri que os seus olhos puxados tinham origem do sudeste da Ásia, especificamente Myanmar, sua família pertence a um nível superior e assim como eu, ela perdeu um irmão, porém eles nunca chegaram a se conhecer. Logo avistei o campo e fiz um tchau para Bea, e para as outras meninas que agora estavam do seu lado. Assim que um homem careca guiou a nossa turma que também era diferente das outras demais que frequentei, andamos por volta do campo todo, fazendo exercícios de flexibilidade e agilidade, e isso percorreu durante toda a manhã.

Trabalhamos com o corpo, mas também com a mente. Depois de uma manhã toda com as aulas concentradas em apenas no campo, tive aulas do Otto, mas não compareceu, e fiquei fazendo algumas pesquisas diferentes das quais os outros estavam fazendo. Percebi os olhares de Delavaris durante as aulas, porém aquilo não me incomodou, apenas me fez com que eu me sentisse mais forte, ela saberia que eu não abaixaria a cabeça, fiz o que era para ser feito. Não vi durante o dia todo, e não que eu estivesse o procurando, apenas observei que também não vi . Nas aulas do campo percebi que ele não estaria presente, mas achei que nas aulas de Otto por ser minha dupla tinha a possibilidade dele aparecer, mas me enganei.

Bea se aproximou com as suas duas amigas que ficavam próximas do seu quarto, ela havia me apresentado mais cedo, elas eram simpáticas assim como a menina. Coloquei a bolsa nas costas, encostei a cabeça na porta do elevador que logo abriria para as meninas subirem, e percebi que Bea me entregava um pequeno ingresso digital e nele tinha o meu nome.

— Antes de você perguntar, foi DeJei que arrumou, ok, ? — sorri sem graça pra ela que bufou em seguida — Foi você quem me chamou pra ir, é sério que vai dar pra trás agora?
— Eu não estou dando pra trás Bea, apenas não estou me sentindo bem — sim, estou dando completamente pra trás com você amiga, mas eu não falaria os meus motivos por talvez eles serem confusos — Quero que você vá e poxa, divirta-se. Vocês três.
— Eu fico com você, , sem problemas…
— Não Bea, de jeito nenhum! Você vai a essa festa, eu preciso descansar, ok? Amanhã tenho certeza que nos veremos no baile — ela me deu um abraço e sorri pra mesma entregando em suas mãos o ingresso — Não vou precisar disso, leve com você.
— Fique — a garota de trancinhas ao lado de Bea disse guardando o ingresso na minha bolsa antes que eu pudesse impedir — Vai que você decide ir de última hora.

Assenti e me despedi das meninas, o corredor do prédio principal estava movimentado, então eu sabia que precisaria sair dali o mais rápido possível. Queria fazer como nos últimos dias, me enfiar nos meus livros de programação e escrever longos artigos, o mundo do crime estava me chamando mais a atenção ultimamente, por que será querida ? Ri em pensamentos dando longos passos enquanto eu subia as escadas pra chegar no segundo andar do meu prédio, já estava me acostumando com aquele caminho, e cada vez ficava mais rápido chegar.

Por lá já estava tudo um pouco mais calmo, a festa seria em duas horas, então logo aquele lugar ficaria vazio sem nenhum barulho, apenas para mim. Geralmente não costumo gostar de ficar sozinha, adoro festas, adoro dançar, gosto de me divertir com bebidas e sexo, por incrível que pareça, mas sei que agora tudo mudou, Não que eu deixe de gostar dessas coisas, mas prefiro estar sozinha em minha companhia do que participar ou estar em lugares que muitas pessoas desejam a minha cabeça, são nessas situações que valorizamos a nossa pessoa, e sei que estou aprendendo da pior maneira.

Peguei uma muda de roupas assim que entrei no meu quarto, uma toalha de banho também, mas antes de ir para o banheiro dei uma checada em meu computador, vi alguns e-mails de Ash e alguns de meu pai, eles queriam saber como eu estava e Ash com toda certeza estava muito brava perguntando por que eu não retornei as suas ligações e o motivo de nunca eu estar na minha casa em Londres, ela até mencionou de uma viagem para o Canadá, sério que eles tinham mentido isso pra ela? Canadá? Poderiam ser mais criativos, por que eu nem gosto de frio.

Deixei meu celular em cima da escrivaninha assim que desliguei o computador, saí do quarto e andei até ao banheiro, não tinha muitas meninas, apenas algumas enroladas na toalha deixando o lugar. Entrei em uma cabine qualquer, e pude observar que incrivelmente eu estava sozinha por lá. Tomei a ducha rapidamente retirando todo o suor do corpo e o cansaço, desejei por um momento um gole de martini, mas meus instintos e orgulho não me levariam a um único lugar que eu encontraria a bebida. Me sequei, e vesti minhas roupas íntimas, logo em seguida me enrolei na toalha. Joguei as roupas sujas dentro da repartição da mesma, para que no dia seguinte elas fossem pegas e lavadas. Cada repartição havia um nome específico, então em dois dias era apenas ir em sua repartição que as suas roupas limpas estariam lá.

Fui para o quarto segurando a toalha em meu corpo, mas ao sair do banheiro dei um passo para trás, havia algo estranho. A porta do meu quarto estava aberta, será que havia alguém lá dentro? Senti meu corpo levar um choque por um momento, como eu iria me defender caso alguém estivesse a minha procura? Assim como naquela noite, no carro…

Fechei os olhos tentando me concentrar na realidade e não paralisar os meus músculos de uma só vez. Andei para trás ouvindo o barulho de alguns passos para fora do quarto depois de todo estrondo que haviam feito lá do lado de dentro, logo me escondi atrás da porta do banheiro, se eles se aproximassem provavelmente iriam me encontrar, minha respiração e o barulho que meu coração disparado faziam eram mais alto do que qualquer barulho de pés e as suas botas grossas.

Prestei atenção em cada movimento, concentrei meus ouvidos naqueles passos, e logo já não pude ouvir mais nada, apenas passos em como se estivessem descendo as escadas rapidamente, como se estivessem correndo. Saí detrás da porta com cuidado, assim que observei que o corredor estava vazio, corri sem fazer barulho até o meu quarto. O susto que levei ao ver que tudo estava revirado tomou conta de mim mas não vacilei. Observei a cama que estava destruída, o computador no chão junto do meu celular e ambos quebrados. Minhas roupas estavam todas rasgadas e penduradas no armário que se encontrava quebrado também, a pia vazava água juntamente do vaso sanitário por estarem totalmente acabados. Coloquei a mão na boca contendo o sentimento de raiva que cresceu no meu peito, como aquilo era possível? Por que motivo de tanto ódio?

Entrei no quarto com cuidado para não pisar nos cacos de vidros espalhados pelo chão e imediatamente procurei por uma roupa, que estivesse intacta sem nenhum rasgo. Achei um vestido vermelho não muito curto mas que destacava o meu quadril, e o coloquei. Por cima vesti a minha jaqueta preta de couro, e nos meus pés calcei um coturno de cor semelhante que estava jogada próxima a escrivaninha, ou melhor, o que restou dela. Precisava sair dali, e ir pedir ajuda. A única pessoa que veio em minha mente foi , mas não nos falamos desde a última vez que ele me abordou dizendo que eu não precisava ir a festa, e sinto que tem me evitado depois daquilo.

O que eu faria? Isso poderia ter algo a ver com Carlac? Sei que eu não podia confiar nele, e muito menos em , mas uma vozinha chata me perguntava o por que de não confiar em sendo que ele me ajudou uma vez, e a outra dizia,“sua linda, as pessoas mudam”, até concordo por ser principalmente ele, que tem um temperamento a cada dia, ou melhor pra se dizer, a cada hora.

Andei pelo quarto tentando encontrar algo no meio da bagunça, tentei fazer o máximo possível de pouco barulho. Pisei em cima de algum vidro enquanto acendi o abajur que também estava quebrado, caraca, como isso ainda está pegando? A luz fraca do abajur iluminou metade do quarto, assim pude encontrar o que talvez propositalmente eu deveria ver, próximo a porta pendurado na maçaneta. É uma espécie de carta, estava embrulhada dentro de um envelope de papel fino e com uma cordinha a fazendo balançar. Logo peguei em mãos, com um receio finalmente consegui abrir e ler o que estava escrito.

“Pequena Del Rose, como vai? Me desculpe pelo estado do quarto, mas isso é apenas o começo do estrago que posso fazer em sua vida. Tenso, huh? Mas não fique, você tem apenas duas horas pra acabar com aquela festa… Oh, não não não, nem pense em não fazer isso, aliás eu sei o que está passando pela sua cabeça, ou não. Mas você tem escolhas, e bom, nós? Nós temos Ashley, e você quer mesmo fazer uma troca? P.s: você estava totalmente sexy dirigindo daquela maneira naquela noite. Deveria se arriscar mais, docinho.”

Guardei o papel no bolso da minha jaqueta percebendo a tensão em meu corpo assim quando meu estômago embrulhou ao ver fotos de Ashley na varanda da nossa casa em São Francisco. Algo aconteceria naquela festa que não agradavam essas pessoas, e eu precisaria me arriscar assim como eles mencionaram, então apenas precisava pensar de um jeito de acabar com tudo aquilo sem dizer nada para , , e outros organizadores, e também contando o fato de que eles não podiam me ver por lá.

Fechei a porta do quarto para não chamar atenção caso alguém passasse por ali e visse toda aquela bagunça, com certeza tentariam me acionar e tenho certeza que isso é uma coisa que eu não preciso agora. Andei em direção ao elevador, mas senti que esquecia de algo. Droga! Dei meia volta me lembrando do ingresso. Estava dentro da repartição, por que coloquei no bolso da minha calça quando o tirei da bolsa, e agora provavelmente não estaria mais lá. Porém isso não poderia me parar, sei que preciso entrar de qualquer forma naquela festa, e vou tentar.

Entrei no elevador me assegurando que o bilhete estava seguro no bolso da minha jaqueta, a tensão se exclamou em minhas artérias a cada andar que se aproximava do solo. Assim que cheguei no andar inferior, dei alguns passos com cautela observando se havia alguém pro lado de fora do prédio que aparentemente estava vazio. Já, saindo pela enorme porte de vidro, vi algumas pessoas bêbadas vomitando no gramado em frente do prédio, e consegui ouvir o barulho do som que é o meu destino. Cortei caminho por alguns corredores entre os prédios, os “becos”, e finalmente cheguei após muitos comentários de caras bêbados idiotas e um cheiro descomunal de maconha e cigarros. Atrás de um enorme arbusto foi a minha parada para observar as entradas do local, e aliás, onde afinal era essa festa.

As luzes iluminavam o espaço, era evidente que a festa estava acontecendo ali pelos efeitos estroboscópicos na entrada. Percebi que era o prédio onde aconteciam as lutas no subterrâneo, e também havia o enorme salão dos jogos, obviamente era pra lá que eu deveria ir. Quanto mais eu me aproximava, mais eu podia ver pessoas jogadas dormindo ou desmaiadas no chão, e uma fila consideravelmente grande para entrarem. É claro que eu não tinha tempo pra enfrentar aquela fila.

Caminhei em direção para a portaria enquanto soltei os meus cabelos que hoje estavam volumosos, odiava ter que fazer isso mas puxei o meu vestido o encurtando mais um pouco. Ao mesmo tempo que ouvi cantadas idiotas, também recebi alguns xingos e murmurações, porém dei de ombros e abri o meu melhor sorriso para o segurança que estava ali, não era bem um segurança, era um dos “estudantes” assim como eu, ele apenas aparentava ser mais novo do que os demais. Deveria estar em um dos seus anos de treinamento.

— O que eu posso ajudar? A fila é bem ali, Del Rose — ao mesmo tempo em que ele fazia uma pergunta, apontou com o dedo para a fila. Isso foi uma coisa que bem, digamos, eu também dei de ombros. Me aproximei do mesmo que permaneceu intacto em seu lugar, porém parecia surpreso.
— Você vai deixar que uma Del Rose fique em uma fila? — olhei para o seu crachá a procura de seu nome falando da forma mais intimidadora que eu poderia — É isso mesmo… Dustin Daniels?
— São ordens… Você nem deveria estar aqui — rodeei o menino fingindo coletar informações do mesmo que gaguejou. A partir dali, tive a certeza que passaria e definitivamente conseguiria entrar para essa maldita festa. Mas da mesma forma, o pressionei mais um pouco quando apertei a gola de sua camiseta bem passada, desejando obter uma informação que talvez eu já sabia a respeito.
— Ordens? — ele respondeu que sim a cabeça, apertei mais forte a gola em minhas mãos e o menino desviou o olhar de mim para o chão — Ordens de quem exatamente?
— Sr. e Sr. . — ele disse “OS”? Tentei ao máximo disfarçar minha indignação, mas até o ? Engoli seco retomando o meu sorriso amarelo.
— Abra essa porcaria… e Dustin, esqueça de que me viu por aqui. Esse é o nosso segredinho, ok? — talvez eu tenha sido um pouco ousada, tenha sido um pouco “não eu” de como resolver as coisas, mas neste lugar, estou aprendendo que o seu nome vale mais do que a sua própria vida.

Entrei em um corredor escuro com poucas luzes, elas indicavam o caminho para onde estava acontecendo a festa. Enjoada do que aconteceu anteriormente, andei esbarrando em algumas pessoas caídas no chão até finalmente chegar no local. O ambiente tremia e estava pingando água pelas paredes de concreto, como se recentemente tivesse havido um jogo ou alguma brincadeira estúpida de jogar bebida nas paredes. Me enfiei no meio das pessoas, que visualmente estavam completamente bêbadas e drogadas, aquilo cheirava a cocaína de longe, e também sexo pelas portas fechadas e gemidos incontáveis através das mesmas. Havia preservativos e muita bebida no chão. O som estava tão alto que eu não podia nem ouvir as minhas próprias palavras. Olhei ao redor para ver se eu encontrava algum rosto familiar, mas apenas vi pessoas da minha turma, que acenaram. O lugar estava lotado, isso me dava uma vantagem de que ou não me visse, também não arriscaria que DeJei me reconhecesse e contasse a eles logo em seguida.

Andei no meio das pessoas, cada passo adentro da festa pude ver mais e mais pessoas. Pensei quando finalmente parei por não conseguir passar, pois se eu fosse acabar com tudo isso, eu precisaria de uma bebida. Com muito esforço, saí do meio da pista e finalmente me sentei no bar, fui surpreendida rapidamente pelo supergato do barman que logo me trouxe um drink de whisky com gelo, sem que eu pedisse. Sorri olhando para o mesmo, que apontou com o dedo atrás de mim, surpresa me virei olhando, e congelei ao ver . Ele estava sentado em um dos sofás vermelhos próximos a pista de dança, abraçado de duas mulheres loiras. Ele sorria de forma irônica, como sempre fazia.

Voltei a atenção ao barman, e neguei a bebida me levantando. Eu precisava sair dali, ou mandaria com que me tirassem ou pior, e então Ashley estaria em perigo mais do que ela já está. Praticamente corri enquanto as pessoas me espremiam em seus corpos suados dançantes. Observei uma escada, e a subi. No final do corredor do andar superior havia uma porta que estava entreaberta, tentei abri-la diversas vezes quando percebi que já havia pessoas lá dentro que haviam fechado quando perceberam que eu aproximava, se estava atrás de mim, agora eu não teria mais tempo de sair dali. Caminhei em direção a escada para descer dali, mas como eu havia previsto, a subia com mais dois rapazes. Congelei onde estava pois o seu olhar me cobriu por inteira.

— O que faz aqui? Eu te disse que não precisava vir se você não quisesse, pastërti — perguntou se aproximando de mim, com um olhar surpreso mas também com um sarcasmo inconfundível em sua voz.
— Apenas quero encontrar Bea, preciso tirar ela desse lugar imundo. — tentei passar mas ele segurou meu braço com um pouco de força, então o empurrei de imediato. Como previsto, ele riu ironicamente.
— Aquele idiota vai pagar por ter deixado você passar — falou em meu ouvido, mas me afastei dele. Será que o que ele disse era sério?
— Eu pensei que nós éramos amigos, pensei que você queria que eu estivesse aqui — falei sem pensar, tentando o atingir, mas não percebi nenhuma mudança em seu comportamento.
— Quando você se tornou minha amiga? Aqui não temos amigos , apenas temos negócios. A sua presença aqui é insignificante, você não tem nada para oferecer — agora ele resolveu ser rude? Igual o irmãozinho? Não deixei que ele percebesse a minha decepção ao ouvir aquilo, mas já era tarde — Saia daqui agora, antes que eu peça que tirem você.

Vi que eles deram espaço para que eu descesse as escadas, mas antes de sair me virei e o encarei, pela sua postura vi que o mesmo estava levemente alterado.

— Não faça nada para o garoto — pedi sentindo minha garganta arder, ele me olhava diferente de alguns segundos atrás, percebi que a mudança de temperamento é de família, evidentemente — Se quer ser o babaca, aja novamente desta forma. Outras pessoas não tem nada a ver com você.

não expressou nada, apenas virou o copo que estava em suas mãos e o jogou longe com toda força que tinha. Desci as escadas precisando pensar em algo logo, o que faria com que aquelas pessoas saíssem da festa? Uma denúncia para o centro do IMAM não rolaria, pois a organização era dos filhos do dono daquela porra toda.

Reparei nas luzes e na música que agora estavam mais fortes, e se eu desligasse? Sei que isso é golpe baixo, que é clichê demais, mas a única forma de mandarem todos embora é acabando com a música, e consequentemente com a luz. Olhei para as escadas e não vi e nenhum dos seus rapazes a descerem para se certificar que fui embora, então eu sei que agora aquele era o meu momento.

Andei em círculos procurando a porta de onde vinha toda a iluminação e a música, mas não consegui encontrar. Avistei Bea de longe, ela estava totalmente louca, ri mesmo que eu estivesse desesperada. Aproximadamente a três passos de mim havia uma cabine no canto do bar, estava vazia. Era ali? As pessoas me espremeram mais um pouco, mas estava sendo mais fácil do que eu esperava.

A cabine estava fechada, mas a porta era frágil. Olhei ao redor e eu sabia que chamaria a atenção se eu tentasse destruir a porta com alguns chutes, mas todos estavam bêbados e provavelmente achariam irado. Chutei umas três vezes com toda minha força, e a porta partiu ao meio, a sua consistência era de uma madeira podre que parecia estar lá há anos. Coloquei a minha mão em volta da mesma e abri com a maçaneta destravando-a. Entrei na cabine e logo vi os computadores logados no som, não era simplesmente tirar as tomadas que emanava energia, eu tinha que fazer alguma coisa, e o que eu aprendi nesses dois anos na SF State sem dúvidas seria a hora de colocar em prática.

Olhei percebendo que algumas pessoas gritavam erguendo as mãos e estavam me olhando, será que eu sou uma espécie de DJ para elas? Ri enquanto entrei na programação do sistema do computador. Foi mais fácil do que imaginei, estava sem IP e qualquer tipo de programa que tentasse impedir novos códigos que o modificassem. Apertei o enter após digitar algumas repetições, e compilei todo programa, ao ser executado, as luzes e a música pararam imediatamente. Ficou um breu, e apenas vi pessoas saindo e esbarrando umas nas outras, não pude contar o meu sorrisinho sapeca, e claro, discreto.

Me levantei da cadeira deixando o computador ligado repetindo o código inúmeras vezes, seria difícil para eles conseguirem desfazer aquilo, talvez era um presente meu para os -, mesmo sem que eles soubessem que o presente viria de , a querida que eles- especificamente- do dia para a noite começou a evitar sem nenhum motivo, apesar que não estou nem um pouco me importando.

Andei em direção a porta que estava meio a meio intacta, a abri agora com facilidade, neste momento o que eu mais preciso é sair daqui o mais rápido possível, antes que alguém fosse checar. Saí enquanto eu segurava a minha jaqueta no braço esquerdo, mas senti meu corpo sendo puxado bruscamente pra trás, soltei um grito mas a pessoa foi mais rápida e tampou minha boca me puxando. CARALHO, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Me vi em um escuro evidentemente sendo puxada para um lugar onde não sei o que fariam comigo, agora não tinha como manter a calma, então soltei todo meu corpo e deixei ser levada voluntariamente pela pessoa que estava me segurando pelas costas e andando desta maneira. Era um homem, eu podia saber pela força e pelo porte físico. Quando percebi sua mão não estava mais em minha boca, então permaneci quieta apenas soltando a minha respiração e alguns suspiros ofegantes.

O caminho foi rápido, pude ver pequenos flashes de luz assim que entramos por uma porta grande, o lugar parecia ser semelhante a um túnel. Ele me soltou e não olhei para trás, apenas deixei que meu corpo caísse no chão, eu não queria ver quem era, apenas queria que deixasse Ashley em paz. Queria que não a tocassem, se tivessem que machucar alguém essa pessoa seria eu. Inúmeras coisas passam pela minha cabeça, mas tento ao máximo me focar em não encarar, e não há como me defender, não tenho nada comigo e me arrependo amargamente por não ter aceitado os presentinhos de meu pai.

— Me machuquem, façam o que quiser comigo, mas não toquem em Ashley, não machuquem o idiota do meu pai, não façam isso com pessoas que não tem nada a ver com esses planos psicóticos de vocês — gritei em meio ao meu choro, deixei algumas palavras falharem mas eu sei que ele entendeu bem. Percebi que ele se aproximou, e tocou em meus braços. Ele se sentou atrás de mim, mas, ainda assim, me recusei em olhar para o mesmo. Me senti fraca e tola por estar desta forma diante de uma pessoa, porém não consegui demonstrar outra coisa a não ser isso.
… sou eu — arregalei os olhos sentindo meu estômago revirar, aquela voz era de… ? Era ele? Me virei imediatamente e ele me olhava, seu olhar não tinha raiva, não tinha amarguras, e muito menos um escudo, ele estava ali, e eu sentia que era por mim, como naquela noite, mesmo que ela tinha dito aquelas palavras que não fizeram sentido nenhum.
, o que voc…
— Eu estou aqui agora. — disse e abaixei minha cabeça, limpei as lágrimas que escorriam mas elas retornavam cada vez mais. Eu não conseguia parar. Não conseguia impedir. Era a morte de Ben, o meu tempo negando isso com bebidas, até mesmo com algumas drogas. Era esse lugar e a pressão de tudo o que eu não queria viver, estar vivendo. Essas pessoas próximas de mim que eu não sabia como iriam me tratar, a pressão de não saber se eu acordaria viva no próximo dia.
— Me desculpe …Você…

Tentei falar, mas novamente não consegui. Abaixei a minha cabeça tentando limpar o meu rosto, e então senti meu corpo sendo envolvido pelo corpo de . Seus braços me apertavam de uma maneira aconchegante fazendo com que ficássemos cada vez mais perto um do outro. Cedi apoiando minha cabeça no ombro dele, e senti suas mãos acariciarem o topo da minha cabeça. Seus dedos faziam um movimento circular em meus cabelos, que eu queria sorrir e ao mesmo tempo dormir ali mesmo. Ele se aproximou mais, e também fiz isso. Antes ele estava atrás de mim, mas agora nos viramos um para o outro. A maneira em que ele me puxou desesperadamente para perto me fez acreditar que havia a possibilidade dele gostar disso… Nos olhamos previamente, mas seus olhos percorriam em meus detalhes mais íntimos, não senti vergonha e nem um pouco de timidez, apenas o deixei assim que o mesmo colocou as suas mãos em minha cintura me conduzindo para mais perto ainda.

Sem pensar, entrelacei minhas pernas em volta do tronco de ficando em seu colo, ele apertou minha cintura e procurou explorar minhas costas com a sua outra mão que não estava ocupada. Ele tentava me olhar nos olhos, mas se eu o olhasse de volta, o mesmo desviava o olhar, procurava uma outra parte do meu corpo que pudesse tocar.

Pude sentir a respiração de quando apoiei minha cabeça em seu peito, estava ofegante assim como a minha, tínhamos tanto oxigênio mas parecia que não havia nenhuma partícula ali. Seus dedos desciam fazendo um contorno pelo meu pescoço, e por um momento me perguntei se ele queria me provocar. O olhei e percebi que ele observava cada detalhe meu, e o mesmo já demonstrava isso desde o ínicio. Mordi os lábios sem que eu percebesse, mas acabei chamando a atenção do mesmo, que apertou mais ainda a minha cintura encarando minha boca como se a desejasse, e em vez de desviar o olhar, encarei também seus lábios perfeitamente alinhados e carnudos me fazendo sentir o mesmo desejo que o homem a minha frente. Ele segurou levemente a minha nuca e aproximou nossos rostos, me deixei levar passando as minhas mãos por seus cabelos e os seus braços fortes.

Senti a sua boca tocar a minha pele de forma lenta, e é uma das partes mais sensíveis do meu corpo. Abri não exageradamente os meus lábios os mordendo de forma agressiva, outra vez, vi que ele percebeu e então ele mordeu o meu pescoço segurando nos meus cabelos, e fez isso por toda extensão, a única coisa que pude pensar era em xingá-lo de todos os palavrões possíveis por estar me deixando ter esse efeito evidentemente em minha calcinha levemente umedecida. Forcei meu corpo sobre o seu, e pude ver que não era apenas quem estava tendo reações, ele também. Quando senti seu membro rígido sobre minha intimidade, não consegui me conter, fiz alguns carinhos em seus braços com as minhas unhas e o beijei imediatamente em seu pescoço. O homem soltou uns suspiros assim como eu fazia apenas por ele tocar em minhas coxas, e isso fazia com que meu vestido subisse, mas não me importei com isso, apenas afundei ainda mais o meu rosto em seu pescoço dando leves mordidas e beijos lentos enquanto eu podia sentir o seu cheiro que era tão penetrante a ponto de que eu não quisesse mais fazer nada, apenas permanecer ali.

Em um movimento rápido ele segurou meu rosto fazendo com que o mesmo ficasse próximo do dele, encarei os seus lábios rosados assim como percebi que ele encarava os meus. Senti desejo de beijá-lo, aquele mesmo desejo de antes, e não era apenas eu, mas como meu corpo sentia a necessidade disso. Nos aproximamos aos poucos, coloquei uma das minhas mãos em sua bochecha e acariciei com o polegar, vi que ele riu com os olhos, então fiz o mesmo, mas deixei o sorriso escapar não em meus olhos mas sim em minha boca. Ele sorriu de volta, um sorriso que nunca o vi dar, parecia ser real, um sorriso que ele dava sozinho em seu quarto sem que ninguém tivesse olhando. Apertei meus braços em volta do seu corpo, e ele fez o mesmo, quando vi que ele se aproximou em direção aos meus lábios, uma luz se acendeu sobre nós, e sobre todo o corredor em que estávamos.

Ouvimos passos e nos afastamos quebrando todo toque de nossos corpos, e até mesmo quebrando o olhar de um para o outro. Vi que e DeJei, e outros dez rapazes se aproximavam com uma lanterna chamando o meu nome e de . Olhei para que tentava encontrar os rapazes, mas não foi preciso, logo eles estavam no lugar com olhares estranhos.

— O que vocês estão fazendo aqui? Procuramos em toda parte e não encontramos vocês — DeJei perguntou se direcionando para mim e para .
— Cara, eu apenas estava saindo e encontrei com , decidimos vir pra cá e esperar a luz voltar — respondeu DeJei e assenti observando que mal me olhava, ele estava com a cara totalmente fechada, talvez tenha sido pelo que aconteceu anteriormente na festa.
— Mas não procuramos você pra isso, temos que conversar. — disse quebrando o silêncio que ficou por um minuto.
— Conversar o quê? — me intrometi perguntando a que desviou o olhar para mim.
— O por que de mentir que te trouxe pra cá apenas para esperar a luz voltar, sendo que sabemos que foi você quem invadiu a cabine, desligou os aparelhos e colocou um programa quase impossível de retirar do computador.

Olhei para que estava parado sem alguma reação, ele apenas me olhou de volta. Acho que agora eu deveria a minha explicação, já que eu já havia feito o que eu precisava fazer, e sabia que Ashley estava fora de perigo, contaria a eles.

— Eu não sei o motivo de me trazer pra cá, sei que ele viu que foi eu que fiz tudo aquilo na cabine, mas eu tenho uma razão pra isso tudo… — falei tirando o bilhete da minha jaqueta que estava no chão — Encontrei pendurado na maçaneta do meu quarto, quero que vocês leiam e depois me acompanhem.
— Ah, acho que você sabe bem, linda — me respondeu não dando importância alguma pelo que eu disse, e da forma mais sarcástica que ele podia falar.

Enquanto nos fuzilamos com o olhar, os rapazes e o próprio concordaram e leram com atenção o bilhete. Sem questionar algo, comecei a andar deixando o lugar sendo guiada pelos demais que iam se espalhando e caminhando até o prédio em que meu quarto ficara. Os acompanhei até fora do local da festa, ainda havia algumas pessoas bêbadas e deitadas desmaiadas no gramado. Assim como eu ia andando em direção ao meu prédio pude sentir o olhar de ambos sobre mim, até mesmo o de DeJei. Os outros rapazes também nos seguiam, mas ficaram um pouco mais para trás.

Logo chegamos e fomos pela escada, mesmo que era tarde ainda haviam algumas pessoas acordadas, encaram de forma curiosa, até eu mesma ficaria curiosa se visse uma garota com uns dez rapazes entrando em um quarto aparentemente destruído, por que nem a porta deixaram intacta, então, com certeza, as meninas do prédio e do meu andar viram o estrago todo. Entrei no local e encontrei o que eu tinha deixado há algumas horas. Dei espaço para eles entrarem e vi a expressão de cada um deles mudarem totalmente.

— Que horas foi isso? Você está machucada? — disse vindo imediatamente em minha direção, e segurou em minhas mãos como ele fez alguns dias atrás — Me responde .
, eu estou bem. Eu cheguei aqui depois do banho, a festa de vocês já haviam começado, eu estava certa de que não iria — falei olhando para que me encarava também — Então tudo estava quebrado, assim como está agora.
— Você fez o certo . — DeJei disse me dando uns tapinhas nas costas, assenti com a cabeça.
— Com certeza quem fez isso está envolvido naquele atentado — disse andando pelo quarto — Precisamos levar isso para o Carlac.

se aproximou de e parou em sua frente com uma expressão bem , sarcástico como antes ironizando a situação toda.

— Saia da barra do Carlac maninho, você não vai querer que ele se envolva nos problemas de , não é mesmo? Você sabe o por quê. Nós mesmos podemos cuidar disso — dizia e pude ver a raiva de ambos crescendo. Ainda mais de , que fechava os punhos semelhante com a expressão em seu rosto.
— Eu nunca fico na barra de ninguém, todos aqui podem confirmar isso. Já você, eu não posso dizer o mesmo, nem mesmo eles podem. — respondeu ríspido, direcionando a que não suportou a provocação e deu um passo a frente ficando mais próximo do irmão. Com receio de acontecer algo tirei uma coragem de dentro de mim e fui imediatamente no meio dos dois que agora me lançavam olhares confusos.
— Eu disse sim, por que talvez a porra do seu entregador de cocaína seja um dos mensageiros do Blal, e tenha ameaçado de feri-la por nossa culpa, por estarmos próximos dela. E diferente de você, eu me importo, e isso não é por Ben, isso é por ela — gritou cuspindo as palavras pra , mesmo que eu estivesse ali no meio tocando no peito de ambos. De forma delicada, com suas mãos tirou a minha, o engraçado foi que mesmo com tudo aquilo acontecendo, senti um choque assim que nos olhamos. O homem ignorou , tomou o bilhete das mãos de um de seus rapazes e deixou o quarto rapidamente.

Eles falavam como se eu não estivesse ali, como se eu não estivesse escutando tudo aquilo, assim como foi no dia em que cheguei e fiquei parado no tatame sem entender nada. As palavras de pesaram em mim, pois nelas haviam remorso e culpa. O quarto aos poucos foi ficando vazio, restou apenas eu e e mais alguns dos rapazes que estavam com ele, mas logo ele os mandou embora restando apenas nós dois.

— Você está acabado , você precisa ir para o seu quarto e tomar um banho. Também cuidar desse machucado nas suas mãos — falei colocando a mão em seu machucado pra ver se estava inchado ou não, e percebi quando ele me perguntou se eu estava bem, também quis perguntar como ele havia feito aquilo mas desisti de prontidão.
— Como você pode se preocupar comigo depois do que eu te disse hoje? — ele perguntou e sorri sem querer, mesmo estando com raiva dele, não ia lhe negar uma resposta.
— Eu não acreditei totalmente naquelas suas palavras… Talvez um pouquinho. Mas o frio ríspido que logicamente eu acreditaria me dizendo aquilo tudo seria o , e não você. — ok, isso não é bem uma verdade, já que estive com um outro agora mesmo, e minha cabeça estava maluca, por que sim, praticamente era um “outro” ele.
— Mas hoje eu acho que você pôde perceber que não é tão frio assim… por que encontramos vocês e…
— Não te devo satisfações mas saiba que não aconteceu nada, e ainda mais que eu sei que é comprometido com a Vaiot Delavaris.
— É por isso então? Por ele ser comprometido?
— Não, não ficaria com ele…Eu… — falei sem pensar e virou o rosto, ele parecia com raiva. Como eu odeio não conseguir entendê-los, logo eu, em que as pessoas são livros em minhas mãos. Sem paciência, continuei — vá, eu vou ficar bem.
— Não, eu não vou te deixar aqui — ele tocou meu braço e me conduziu até a porta — Venha dormir no meu quarto.
— O quê? — perguntei sem graça, minhas bochechas e meu rosto todo certamente estavam coradas, não sou nenhuma santa, mas o efeito que esse homem causa em mim é como se eu me tornasse virgem uma outra vez, e nem sei por que estou pensando nisso — Eu vou para o quarto de Bea, sem problemas.
— Bea, a menina de olhos puxado e cabelo tingido? — afirmei e ele riu baixo colocando as mãos na nuca — Ela está com um dos meus, agora deve estar gemendo algo em coreano.
— Você é nojento — falei enquanto ele me puxava de lado fechando a porta do quarto, e descemos juntos rindo, que eu sei que, com certeza, acordou metade das pessoas daquele andar. Então deixei com que ele me levasse antes que eu me arrependesse.

Quando fui perceber, eu já estava na cama de com uma das suas blusas que eram como um vestido, mas sem na cama. Ele deitou em um lençol no tapete do chão que dava pra eu vê-lo por inteiro, com um travesseiro extra. Eu queria poder falar algo, mas apenas o que saiu foi uma respiração profunda. se virou e olhei para baixo vendo que seu olhar estava vidrado no teto. Fiz o mesmo mas quando retomei meu olhar para ele, percebi que ele me olhava com um sorriso no canto da boca. Li os seus lábios e sorri de volta, “durma bem, pastërti”.

Capítulo VI

“Estou em uma sala rodeada de homens, e mesmo que eu não queira, um deles me afeta demais pelo modo como meus músculos se contraíram ao vê-lo tirar a máscara de um determinado e específico homem. Seu rosto poderia ser lembrado com duas cicatrizes que vinham da testa até o queixo, e as malditas pálpebras cobertas por veias aparentemente roxas. Eu o olhava e sentia ódio. Mas eu sabia que ele poderia machucar o homem que estava a sua frente, então dei dois passos mesmo sabendo que não podia me mover, e então senti meu corpo ser machucado, como se tivessem dando um tiro em mim...”

— MERDA! — acordei dando um pulo tão grande pelo susto do meu pesadelo que durou uma eternidade. Como era real e ao mesmo tempo tão improvável. Ao olhar ao redor com a cabeça latejando de dor me recordei da noite de ontem que foi completamente insana, isso era uma coisa que eu tinha certeza assim quando percebi que estava deitada em uma cama diferente da que costumo acordar aqui. Parei com os pensamentos óbvios e me perguntei o que exatamente estou fazendo com essa blusa? Apressadamente me levantei e saí da cama sentindo meu pé pisar em algo, e então meu corpo cambaleante caiu ao lado de . PORRA, era . É mesmo, ontem depois de tudo aquilo que aconteceu acabei vindo dormir no quarto dele. Esse pesadelo mexeu demais com a minha cabeça, ou me deram um soco na cabeça que foi forte demais.

Ele resmungou algo mas apenas o olhei sentindo o lençol fino sobre o tapete, quis levantar de imediato porém algo me barrou, e esse algo fui eu mesma pelo meu achismo tão inegável, de como ele é bonito, tinha uma feição tão leve, diferente de quando ele estava acordado, onde tudo parecia ameaça fazendo com que ele colocasse um escudo, assim como . Ah não, . Me lembrei de , porra, o que foi aquilo naquele corredor? E todos aqueles toques? Como aquilo aconteceu tão de repente?

O barulho de toque na porta fez com que eu me assustasse, então finalmente tentei me levantar porém senti as mãos de passarem pela minha cintura e me puxar de volta para onde eu estava, porém mais perto dele. Ele estava com o olho inchado assim como os seus lábios, não aguentei e tive que rir, como o seu rosto parecia tão frágil e lindo daquele jeito, e onde que eu estava com a cabeça por pensar isso? Acho que estou mais doida do que o comum.

— Pastërti, por que quer fugir tão cedo? Não vá… — disse encostando seus lábios nas minhas bochechas, eu queria sair dali mas ao mesmo tempo não, aquela voz rouca dele me confundia — Hoje é o dia do baile, e caso você não saiba, as aulas todas são suspendidas.
— Eu sei … Eu sei — respondi baixo permitindo que suas mãos tocassem meus cabelos, engoli seco enquanto eu me xingava em meus próprios pensamentos — Mas eu preciso sair daqui, nessas horas encontraram o quarto destruído, e devem estar a minha procura.

Ouvi mais batidas impacientes na porta, e então percebi que ela foi aberta. Me levantei rapidamente, e colocou a mão no rosto, ele parecia estar bravo por ver .

— Então você está aqui disse se aproximando e me olhando de cima a baixo, vi que ele ficou desconfortável mas sem entender percebi que sua voz estava carregada de raiva, ou poderia ser coisa da minha cabeça — E com ele. Por essa eu não esperava.
— Não esperava o quê? Ontem você saiu de lá e não se preocupou nem um pouco comigo, você não voltou pra ver se eu estava bem — falei irritada, ele estava pensando que era quem pra falar daquela forma comigo? — E não devo nenhuma satisfação pra você, se você veio até ao quarto de com a intenção de me achar, é por que sim, você esperava me encontrar aqui.
— Não! Pensei que você seria um pouco mais difícil dele conseguir ter… achei que você não seria mais uma das coleções infinitas de — a voz de omitia um som alto, e frio. Como isso era possível? Em um momento ele parecia desesperadamente me querer por perto, em outro, ele demonstrava raiva e ciúmes me afastando complemente dele. E por que diabos pensei em ciúmes? “Talvez seja por que ele está demonstrando isso, mesmo que ele não queira”.
— Você está com raiva por que ele conseguiu primeiro que você? É isso que ele costuma fazer, não é? — perguntei com um pouco de cinismo, é claro que não aconteceu nada entre eu e , mas se isso atingia de alguma forma, eu usaria.
, o que você está fazendo aqui cara? — perguntou se aproximando de nós dois, então a tensão cessou por um momento.
— Preciso conversar com você , e com ela também — respondeu sem emoção, deu vontade de virar e falar “querido, estou aqui, pode se direcionar pra mim e fingir que a sua raivinha idiota passou”.
— Ok, pode ser daqui uma hora? Lá no refeitório? — perguntou mais uma vez e assentiu virando de costas batendo a porta com um pouco de força. Olhei para que parecia um pouco constrangido e agora sério.

Andei em direção a cama e me sentei na ponta da mesma. se sentou ao meu lado.

— Desculpe, ele está nervoso por que está resolvendo algumas coisas bem tensas, e isso que aconteceu ontem, acabou afetando todos nós. É por isso que não culpo ele ou ninguém por esses roxos — disse e assenti da melhor forma possível. Coloquei as mãos delicadamente em seu machucado, ele precisava de um analgésico e também uns curativos, agora seria a hora ideal já que o mesmo não havia permitido na noite anterior. Me levantei e fui até ao banheiro do quarto, abri a pequena gaveta da pia e peguei um kit de primeiro socorros.
— Você me permite, sr. ? — perguntei fazendo uma voz mais séria e ao mesmo tempo engraçada, tirando uma gargalhada de . Me sentei novamente na cama ao lado dele, e consequentemente ele se virou para mim.
— Espero que se sinta honrada, costumo me curar na raça mesmo, entende? Odeio remédios, e esses curativos bobos — ele disse um pouco baixo mas foi o suficiente para que eu entendesse. Senti uma pontada de felicidade e espanto, aquilo era mínimo mas ele estava se abrindo comigo, e isso era bem estranho pra ser sincera.
— Eu também não gosto nada de remédios, mas sofro bastante de enxaqueca, então sempre estou prevenida com alguns remédios na bolsa — falei observando o rosto dele de quem não estava gostando nada da ardência do remédio que coloquei em seu machucado, mas fiz tudo delicadamente, sem que ele pudesse sentir dor ou algo além disso. Corei percebendo que ele me olhava de uma forma diferente das outras vezes, não sei definir, apenas desviei o olhar guardando o algodão com sangue e analgésico. — E não chame meu curativo de bobo, ele é uma… graça.

Rimos quando finalizei a frase, ele analisava o curativo-senhor-graça e repetia isso há cada segundo. Estar com me lembrava estar com meus primos, nós fazíamos brincadeira de tudo e deixava tudo menos pesado, ainda mais quando havia brigas em casa que se estendiam por horas. E por mais que seja difícil entendê-lo por detrás desse seu sarcasmo, a sua companhia e a pessoa em si me fazia me sentir leve.

— Eu preciso te perguntar uma coisa — disse se levantando junto a mim, que agora estava procurando o meu vestido de ontem — se você achar que não vai ser legal, que vai ser desconfortável pra você… É apenas me dizer.
— Posso tentar adivinhar? — perguntei já com o meu vestido na mão, ele estava embaixo da cama de , organização é o meu ponto forte. Ele assentiu parado em minha frente — Você vai me perguntar se sou virgem. Aposto.

Ele negou com a cabeça deixando um sorrisão escapar. É claro que ele não ia perguntar isso, mas a questão é que realmente eu não faço ideia.

— Eu gostaria de saber disso, é uma boa, posso pensar em algum dia te perguntar isso — ok.ok. Dei uma ótima ideia pra ele — Mas não é isso.
— Fala logo, eu estou indo pro quarto de Bea, vou me trocar lá — falei indo para a porta, coloquei a mão na maçaneta fazendo uma expressão com o rosto para ele falar logo, apenas fiz com que ele risse, e eu acabasse rindo também.
— Você… Você vai querer me acompanhar hoje no baile? — perguntou e gelei. O que eu respondo? Que não por ter praticamente jogado na cara que eu era mais uma na coleção dele, mesmo que não tenhamos nada? Porém a raiva de ardia cada vez mais dentro de mim, e mesmo que eu não saiba o que exatamente sente, sei que estar com desperta uma raiva também dentro dele em relação a mim. E por que diabos estou pensando em ?

Seus olhos estavam ansiosos, e percebi isso pelas suas mãos, ele estava em si ansioso, e eu sei que eu preciso responder algo. Mas não posso. Não posso magoá-lo, não posso usar essa situação pra fazer uma raiva estúpida de colegial em um homem maduro já compromissado, não posso usar a pessoa , porque por mais que ele tenha sido um idiota na noite anterior, eu pude entender os seus motivos, ele sempre foi atencioso, engraçado e me recebeu bem aqui. E ainda por cima, tem essa coisa que eu sinto, que não consigo distinguir quando estou com ele, ou quando fico – mesmo que for de longe - o olhando.

Me vi em um beco escuro, porém fui ilimitada por Dejei. DEJEI! Quase pulei no colo do garoto de felicidade por ele bater à porta e quebrar aquele silêncio agonizante.

está chamando vocês lá no refeitório, ele mandou te entregar isso . — DeJei disse enquanto vi que passou por nós sem me olhar. Abri o envelope e tinha uma ficha pequena com instruções do prédio 2, era um número de um novo quarto. Era isso o que ele estava fazendo tão cedo. E por isso pareceu tão zangado ao me encontrar com , talvez seja por isso.

Comecei a pensar em mil coisas ao mesmo tempo, e eu queria saber o por que de tudo isso. Nós não tínhamos tempo pra sentimentos, eu sei que havia muita coisa envolvida nisso que eu não sabia, porém mais do que nunca estou decidida que vou arrancar tudo o que eles sabem, cada informação, cada pontinho no i. Preciso saber, preciso entender tudo o que está acontecendo. E principalmente como fui parar no meio de dois homens, que me dividem em duas partes completamente diferentes, e isso está se tornando totalmente insano, não sei se consigo sobreviver dentro de mim mesma por tanto tempo. Preciso descobrir logo se isso vai ser possível, ou terei que me desdobrar pra fazer o impossível.

***

não tinha me enrolado ou mentido pra que eu fosse dormir no quarto dele, por que Bea realmente não estava no seu quarto e a sua cama estava totalmente arrumada, sem nenhuma evidência de que ela estava ali na noite passada. Ri olhando as horas, senti a necessidade urgentemente de um banho mas já se passavam das 9h00am, então me apressei vestindo uma calça aleatório de Bea, e coloquei a minha jaqueta do dia anterior por cima do vestido que dei uma encurtada fazendo de blusa. Os sapatos ainda era a botinha preta de cano curto.

Deixei o prédio 2, em direção ao prédio principal, onde os meninos estavam me esperando. Sinto que eles conseguiram encontrar alguma pista ou algo que faça com que eu fique mais por dentro das coisas, e caso eles tentassem me afastar, provo que sou capaz de encontrar tudo sozinha. Sem nenhuma ajuda de nenhum deles. E sim, é o momento certo.

Subi as escadas do prédio principal chegando a porta do refeitório, que estava fechada. Dei uma empurrada com o auxílio do rapaz que parecia me esperar do lado de fora, e de longe já vi e sentados em uma mesa rodeada de alguns garotos, incluindo DeJei. Andei até a mesma em passos largos, e logo eles olhavam atentamente para mim, que fiz o mesmo. Me sentei observando cada um deles, até que quebrou o meu ato fazendo com que eu retomasse a minha atenção a ele.

— Percebemos que a folha do papel é semelhante a uma família inimiga, isso não foi apenas um aviso para você, foi para nós também, por que não tinha como você saber disso, contando que no bilhete não pediram para que você mantenha isso em sigilo, eles sabiam que chegaria em mim ou em disse e as perguntas atolaram em minha garganta.
— E , quando eu disse no quarto sobre um traficante que infiltrou para fornecer as drogas, não era bem quem estávamos pensando. Ele ameaçou de machucar você, e disse que não éramos pra ficar na sua cola — falou num tom sério, sua voz estava mais rouca do que o normal.
— Talvez seja ele quem destruiu todo o meu quarto e deixou o bilhete… — sussurrei mas eles acabaram ouvindo e balançaram a cabeça de acordo com o que eu disse.
— Sempre tomamos cuidado com quem se infiltra, mas há cada dia são informantes novos. E alguns caras o reconheceram do dia do seu atentado — gelei por completo e engoli seco me recordando, era horrível me lembrar daquilo e estar em pé. Me sentei rapidamente, agora ouvindo com atenção — Ele é um dos homens do Norte, eu não sei qual é a sua relação com ele, mas há uma possibilidade dele não ter sido o homem que você viu no seu quarto.
— Vocês tem uma fotografia? Ou um nome? — perguntei e um segundo o envelope com a fotografia do rapaz foi me dado. Olhei me recordando das vezes que comprei dele, e como ele tinha cuidado toda vez que me entregava as drogas.
— E aí? O reconhece? — Dejei se aproximou e os olhei afirmando com a cabeça.
— Não tenha medo de falar, ou vergonha, todos nós já passamos por isso alguma vez — se aproximou de mim colocando a sua cadeira ao meu lado, ele disse me olhando nos olhos tentando passar algum tipo de conforto — Se preferir, eu peço para eles saírem.
— Não… Está tudo bem, é sério. Obrigada — falei colocando uma mecha de cabelo pra trás e sorri de canto para o mesmo. É óbvio que não me orgulho de ter usado quaisquer tipo de droga, até mesmo que isso não tenha sido há tanto tempo, porém realmente eu estive tentando me livrar da dor, e me entreguei a distrações que nunca considerei ser um hábito em minha vida.

Eu podia sentir os meus batimentos cardíacos à flor da pele. Cada batida era como se fosse um estouro dentro de mim, isso me arrebentava e por mais que eu pudesse ser forte e poder lidar com esses fatos, me sentir ameaçada acaba com qualquer tipo de segurança que tenho em mim mesma. Perco cada vez mais o sentido das coisas. E ainda bem que nunca deixo transparecer isso.

— Logo após a morte de Ben, comecei a frequentar os lugares em que nós dois íamos juntos, e esses lugares se tornaram cada vez mais frequentes pra mim. Acabei o conhecendo em uma dessas festas, e sempre conversávamos, tanto que ele me apresentou outros também. Nunca tivemos um relacionamento, não sei o nome dele, mas ele sempre me deixou claro que eu devia pegar apenas com ele, não podia ser com mais ninguém. Achei estranho de início porém ele me fez ter confiança nele com o passar do tempo, e apesar de tudo, nunca me importei.
— Ele é um dos homens do Norte, e por estarmos em uma rivalidade mais intensa desta vez, estão tentando te proteger. — concluiu se levantando, ele estava tão tenso que era possível ver em suas veias saltadas.
— Por que eles quereriam me proteger de vocês? — perguntei com um certo receio da resposta, mas o que eles fizeram foram apenas desviar os seus olhares angustiados do meu.
— Tem muita coisa que você não sabe , e é melhor continuar assim, ou podem usar isso contra você — DeJei falava se sentando ao meu lado — enquanto você não sabe, é a única coisa que te mantém longe deles. Você é importante, saiba disso.
— Como isso é possível? Eu não me cansarei de repetir: eu nunca estive envolvida com esse mundo de vocês. Estou aqui por consequência, pela vida das pessoas que eu amo, e também por alguém que já não tem mais vida e vocês sabem muito bem disso. Então não venha me dizer que eu sou especial, ou que tenho valor em algo, pois eu não tenho — eles pareciam decepcionados, mas, ao mesmo tempo, aliviados. Talvez com que eu pensasse assim, poderia estar os ajudando mais do que prejudicando — Isso não faz com que eu não possa saber das coisas que me envolvem. Se você fala que sou tão importante dessa forma, então me prove. E ficarei calada, não falarei mais nada, não vou questionar, ou se quer me dirigir a vocês.
— Você quer assim? — perguntou e assenti, eu não sei o que estava por vir mas eu não me importava, tantas coisas aconteceram, essa seria mais uma — Então vai ser assim.

A porta foi aberta e percebi que eles olhavam para os rapazes que traziam consigo um enorme livro que era tão antigo que toda a limpeza do pó não foi o suficiente, ainda aparentava estar sujo. O livro foi colocado em cima da mesa e logo em seguida aberto, se levantou assim como e começaram a folhear com ajuda de DeJei e mais alguns meninos. Eu não sei o que de fato estava acontecendo mas sei que logo eu ia descobrir.

— Olhe na página 111 em diante — falou colocando o livro na minha frente. O olhei para ver se aquilo era sério, e vi que ele não estava de brincadeira, todos estavam sérios e atônitos me olhando.

Fiz o que pediu, abri na página e comecei a ler, tinha algumas imagens de pessoas que eu não conhecia, e o prédio do IMAM sendo fundado. Logo as páginas foram sendo descobertas, as datas mudavam, de 1902 foi para 1905. O que me chamou atenção é que em todas fotos, as legendas retratam as famílias, e a minha estava ali junto de mais quatro: I- , sendo os principais fundadores. II- Delavaris. III- Bannet (me lembrei de Jamber, aquele que meu pai tem como aliado, e pai de Tom). IV- Hostings. V- Del Rose.

Folheei descobrindo mais coisas que me deixaram perplexa. Minha antepassada Mirna Del Rose causou uma guerra contra a família Hostings, provando que eles sempre esteve contra os , e por conta do seu casamento com Norton , os Hostings renunciaram toda aliança com o IMAM e todo o sistema que os envolvia, pois sabiam que não poderiam se livrar das acusações de Mirna pois a família fundadora obviamente estaria do lado da mulher, apesar que a mesma tinha todas as provas das tramas dos Hostings.

Há cada coisa que eu lia, tentei absorver ao máximo, e fiquei pasma por tanta coisa que eu não tinha consciência. tomou da minha mão o livro assim que o fechei, e passou uma pasta com datas, fotos e nomes de pessoas específicas. Continha os seguintes nomes: Annabelle Bennet-(1980); Lexi Delavaris-(1990); Nílton -(2000); Reynnald Bennet-(2010); Benjamin del Rose-(2015).

O que o nome do meu irmão estava fazendo ali? Sei que eles poderiam ter ligado os pontos, mas essa guerra da família Hostings com o IMAM e o sistema é antiga, fora que esses nomes são de famílias importantes tendo muito inimigos, mesmo antes de nascerem. No meu luto com a morte de Ben, eu apenas queria pegar uma arma e simplesmente ir atrás de quem fez isso, mas descobri que matar não é a solução, matar o assassino de Ben não traria meu irmão de volta. Apenas quero que ele conviva com isso, que conviva com a culpa de matar alguém, de tirar a vida de alguém, para que quando chegar a sua hora, recordar do que fez e pagar tudo pelo que causou de sofrimento ao outro. Mas talvez eu não seja mais essa garota, e isso me causa medo.

— Essa guange inimiga, seria a família Hostings? — perguntei receosa e eles afirmaram com a cabeça me fazendo revirar os olhos — Não tem como ser, essa história é antiga. E esses assassinatos, o que tem a ver?
— Tem como ser , como são. — disse se aproximando de mim folheando alguns papéis com imagens das pessoas que foram mortas, aquilo fez com que meu estômago embrulhasse, mas eles foram sensíveis de deixar o do meu irmão separado — eles deixam sempre um bilhete. Esse mesmo papel é o que foi deixado no seu quarto.
— Mas como vocês podem identificar que foram eles? Vocês têm provas pra isso? — perguntei tocando nas imagens e vendo cada uma delas.
— Não temos o suficiente para que possamos tomar providências contra eles, aliás você já deve saber como são as nossas providências — DeJei me respondeu e assenti com um nó na garganta — O que temos são as pessoas que eles mandaram assassinar, e um desses confessou estar a serviços dos Hostings, assim como nós havíamos suspeitado desde o começo. Ao todo foram cinco, de dez em dez anos.
— E o meu irmão está nessa lista de vocês, e consequentemente deles — falei baixo tentando não demonstrar o tanto que aquilo me feria, porém não tentei pensar naquilo e focar apenas em uma coisa — Como você disse DeJei, as mortes são de dez em dez anos, mas com Ben, eles não esperaram todo esse tempo, o intervalo foi de cinco anos desde a última morte, que foi do Reynald Bennet.
— Não sabemos ao certo o que levou a ter um intervalo mínimo de tempo, desde que Carlac nos entregou e nos envolveu nesse caso, estamos tentando para nos proteger, por que não sabemos ao certo quem será o próximo, e se vão continuar com as famílias fundadoras, talvez as alianças e de níveis superiores podem se encaixar também — um dos rapazes disse, ele era alto e tinha um cabelo preto raspado do lado esquerdo da cabeça, suas mãos estavam trêmulas e havia um suor em sua testa, não senti firmeza naquilo.
— Ok, se Carlac sabe disso, por que ontem vocês dois brigaram que nem dois idiotas por um querer ir contar pra ele aquilo tudo que aconteceu? — perguntei apontando pra e que balançaram a cabeça desconfortáveis, percebi umas risadinhas dos meninos que estavam em volta de nós.
— Ele sabe que isso te envolve… ele sabe muitas coisas de você. Mas você é um assunto particular, entende? Conversaremos uma outra hora sobre isso. — respondeu com cautela e assenti, tinha certeza que aquela outra hora ia me fazer esperar, porém meu tempo estava curto e o faria falar de qualquer forma o mais rápido possível.
— Espere… eu preciso saber. — falei tentando me concentrar — Vocês podem estar nessa lista, não é?

e assentiram com a cabeça. Engoli seco colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, tudo estava acontecendo tão rápido que estava sendo difícil até de assimilar.

— Mas vocês são irmãos, um de vocês quem está nela — respirei fundo, tentando encontrar algum tipo de fôlego — Vocês têm ideia disso?
— Na verdade não — disse preocupado, era evidente em sua voz — eu e temos a mesma idade, ele apenas nasceu meses depois que eu. E somos de mães diferentes. Carlac era casado com as duas.
— Como? — até os garotos pareciam surpresos.
— Para não entrar em muitos detalhes, Carlac foi casado por anos com minha mãe, ela era uma Delavaris — fiz cara de “claro, óbvio” me recordando de Vaiot, ao ouvir falar — Mas Carlac havia um caso com a mãe de , mais de que um caso. Então assim que a minha mãe, Irina, me teve, foi a deixa de Carlac com ela.
— Tentou de todas as formas proteger Johanna, no caso a minha mãe, e mesmo assim, se casou com ela, tendo que deixar e quebrar uma das suas alianças. — tomou a palavra. Eu gostaria de saber mais, porém entendi que já era o suficiente. Ambos eram de um casamento, um de aliança e outro consumado.

O clima de tensão estava pairando naquela sala, eu podia sentir o nervosismo e o cuidado de todos nos mínimos detalhes, com certeza aquele caso, como disse o garoto, era algo valioso para eles, aliás se tratava de vidas… E vidas importantes, aos olhos do IMAM. Por um momento me senti bem por estar ciente de todas essas coisas e por, pelo menos, meus olhos terem sido abertos nem que seja 1% nesse caso que me envolve. Vi que se aproximou de mim. Também vi em seus olhos que ele queria me dizer algo.

, eu sei que você pode aguentar isso — falou me olhando nos olhos, vi que os meninos o olhavam com uma mistura de indignação tentando repreender o mesmo.
— Não, ele não tem nada pra te dizer — falou entrando na frente de , aquilo estava ficando fora do comum, era meu direito saber e direito de falar o que fosse preciso.
— Fala logo , ou vocês estão pensando que vai acontecer o quê? Eu vou sair daqui e deixar tudo isso? Vou desmaiar ou ter um colapso nervoso? — gritei expressando toda raiva que eu estava sentindo dentro de mim, minhas palavras já estavam se transformando em lágrimas porém quis conter cada uma delas, eu não desabaria na frente daqueles homens, de modo algum — Estou aqui, estou lidando com isso sem questionar o por que de vocês ficarem se esmurrando dizendo que sou o motivo disso. Não estou questionando nada desde que cheguei, mas agora é a hora de vocês abrirem o jogo, preciso saber, preciso de informações.
— Todos esses nomes são dos últimos filhos da última geração, e os primogênitos de cada líder independente de que família eles compõe. Pois é essa a ordem no sistema, e ainda mais para entrar no IMAM, você é o primogênito do seu pai ou mãe que é o líder do sistema da sua família, ou caso houver uma morte e você sendo o segundo filho, pode assumir o cargo do primogênito.

Senti meu coração parar. Tudo estava revirando dentro de mim. Não queria ouvir o que diria, eu não queria. Talvez tivesse razão.

— Todos do sistema por um bom tempo acharam e passaram informações que você estava morta. Consequentemente Ben ganhou esse posto. É por isso que é ele naquela lista , e não você. Acreditamos que por isso que eles não tiveram mais tempo, precisam acabar com o restante da sua família, então seu pai perderia o posto dentro do sistema e algumas regalias. Se isso responde as suas perguntas, as suas dúvidas sobre a morte do seu irmão, espero que, pelo menos, algumas estejam esclarecidas.

Tentei respirar mas falhei. Se eu soubesse, como tudo aquilo seria diferente. Se eu soubesse que a vida de Ben fosse exposta por minha culpa, por negar tudo o que Paul dizia… ah, se eu soubesse. Abaixei a minha cabeça e percebi que todos deixaram a sala. Menos e .

Me sentei percebendo que as minhas mãos tremiam, eu queria gritar. De raiva. De ódio. De culpa. De não poder voltar no tempo e lidar com tudo aquilo de uma maneira diferente. De não ter sido IRMÃ, e deixá-lo sozinho nessas decisões difíceis. E principalmente, deixar de ser menina, e me tornar mulher, encarar a vida como ela realmente era, encarar e aceitar onde eu nasci, sem questionar e apenas fazer mesmo achando isso erradíssimo.

Coloquei as minhas mãos trêmulas entre o rosto, e senti algo ardente escorrer dos meus olhos e cair em minhas bochechas. Eu não queria chorar mas não pude evitar. A raiva era tanta, a culpa era tanta, como um dia eu me imaginaria sentada em um lugar totalmente diferente do que era o meu convívio, e chorar pela morte do meu irmão? Meu irmão morreu. Era isso. Ele estava morto. E eu estava caindo na real disso na frente de dois homens que me olhavam como se quisessem sair correndo. Aposto que nunca viram alguém chorar, e desconfio se algum dia cada um deles chorou na vida.

— Eu vou fazer com que eles confessam todos aqueles nomes, e vou cortar cada parte do corpo de cada um que esteja envolvido nisso — gritei com firmeza sentindo um pouco da minha dor ser jogada pra fora, mas solucei percebendo que ela não ia cessar assim do nada, ela não seria arrancada de mim por muito tempo. Talvez nunca.
— Eu estarei com você quando esse dia chegar — sussurrou em meu ouvido e vi que ele estava agachado ao lado da cadeira em que eu estava sentada. Balancei a cabeça concordando com o mesmo, e mesmo que aquilo foi algo impulsivo que eu pude dizer, havia verdade. Era verdade em que eu queria encontrar aquelas pessoas, e o que mais me assustava, é que eu realmente queria machucar cada um deles.
— Preciso sair daqui, e ficar sozinha — me levantei assim como fez. Olhei para os dois e limpei o meu rosto molhado — Vocês não viram isso, tô falando sério.

Eles soltaram uma risada fraca assim como fiz. Me virei e andei até a porta, algum dos rapazes vieram e me deram os pêsames, fiquei sem entender mas pude perceber que estava explícito na minha cara que eu havia chorado e sentir tudo o que minha expressão inconfundível aparentava. Agradeci com poucas palavras me distanciando do refeitório.

Quando cheguei perto das escadas que davam acesso à porta de saída do prédio, ouvi a voz de e então parei onde eu estava. Ele não disse nada, apenas desceu alguns degraus e parou em minha frente. E então entregou a chave do quarto, ah claro, era por isso que ele estava ali, óbvio que não teria outro motivo.

— Você sabe onde encontrar? — ele perguntou e assenti agradecendo — E … sobre mais cedo, eu não sei muito bem…Ah…você sabe.
— Você está tentando se desculpar? — ri com um pouco de humor, mas ele permaneceu com a expressão tensa — , eu e nunca tivemos nada, ele apenas me ajudou e eu aceitei. Ele é um bom amigo, e tenho certeza que pode ser um bom irmão.
— Você não me deve isso, eu nem queria saber disso — é claro que ele queria saber, ele poderia ser bom para mentir, mas comigo não funcionava. Consigo detectar cheiro de mentira de longe. E o clima apenas piorava, ainda mais com os diabos dentro da minha cabeça me cercando.
— Tá . Então… até mais — falei me virando mas ele me impediu. Parecia que ele queria dizer mais alguma coisa.
— Eu não consigo esquecer o que aconteceu na festa, no corredor, quando estávamos só nós dois — por essa eu não esperava. Fiquei sem reação tentando fazer a minha melhor cara, mas sei que não estava funcionando — Não quero que você pense que é algo que eu não me importo.
— Me desculpe mas eu tenho que pensar isso, pois não significou nada pra mim — “, não acredite em uma pessoa ferida” — E pra você também não.

Aconteceu alguns toques inesperados, mas ele não podia se esquecer que tinha alguém, ou ao menos aparentava ter. Eu gostaria de poder falar que gostei, e que por mais que eu estivesse na cama do seu irmão, eu não parei de pensar nele, mas não era o certo de se dizer. Cruzei os braços até a altura do peito e o olhei de forma dura, aquele que estava na minha frente era o outro e eu não podia e nem vou conseguir aproveitar dessa situação neste momento.

— Não minta, eu posso perceber pela sua postura — ele revirou os olhos chegando mais perto de mim, mas não me tocou, ainda bem — Se algo não tivesse efeito em você, por que tentou se justificar, agora mesmo?
, qual é a sua? — perguntei em um tom de deboche, por que afinal, quem ele pensa que é? Ao mesmo tempo que ele me deixa com vontade de chegar perto, no outro, sinto raiva e quero me afastar — Foram apenas alguns toques, nós nos conhecemos tão recentemente e muitas coisas estão acontecendo, então apenas esqueça isso.
, você está arrepiada… — olhei para o meu braço discretamente e engoli seco percebendo minha pele saltada, como ele mesmo disse. Tentei cruzar mais ainda os braços para escondê-los, mas ele ousou em chegar mais perto de mim, agora com uma das suas mãos em minha nuca. Engoli seco mais uma vez, eu queria parar aquilo, mas era evidente que algo me prendia ali, e não posso admitir que esse algo é ele, talvez seja a carência. Fiquei intacta no lugar, percebendo que seu rosto se aproximava do meu, mas seus lábios foram em direção ao meu ouvido, e ele sussurrou brevemente — Isso não foi nada, não é mesmo?

O olhar dele mudou totalmente quando se distanciou de mim, não quis deixar que a sua decepção fosse demonstrada mas por mais que ele não quisesse estava explícito em seu rosto. Ele me provocou de propósito e por um momento me senti derrotada da minha própria mentira, pois se eu realmente quisesse esquecer isso o teria afastado assim mesmo quando ele tivesse chegado perto de mim. O mesmo colocou as mãos no bolso de trás do jeans surrado, e se virou deixando o local com ar de quem venceu algo. Suspirei deixando todo aquele ar preso sair de dentro do meu peito, foi mais difícil do que eu esperei, mas eu precisava me posicionar, e não deixar que meus sentimentos fossem entregues, por que afinal, eu já estava confusa não apenas em relação a ele, também em seu querido irmão, . Porra. . O que ele estava fazendo parado na porta do meu novo quarto?

Quando deixou o lugar, andei o mais rápido possível para chegar rapidamente no meu quarto, e agora encontro . Vi que o mesmo estava com as mãos levantadas até o cabelo emaranhado por conta dos pequenos cachos e uma expressão facial leve, semelhante de hoje de manhã quando o vi dormindo, e bem diferente da que tinha alguns minutos antes. Parei em sua frente, e ele deu um passo em minha direção, senti sua pele tocar na minha assim que nossas mãos se encontraram. Estava sendo inesperado, todas essas coisas que estão me acontecendo, e me perdi nos olhos verdes de por alguns segundos.

— Diga que sim… — ele falou baixo no pé do meu ouvido, e me lembrei imediatamente da proposta em que eu o acompanhara no baile.
… eu — a verdade é que eu não gostaria de ir a esse baile. Mas eu preciso. Ficar sozinha no quarto não faz com que as minhas perguntas sejam respondidas, e como eles mesmo disseram, ainda podem haver alguns infiltrados aqui dentro do IMAM, então não posso arriscar. — Você não acha que pode ser uma má ideia de nos verem juntos? Esses homens já estão irritados e…
— Me certifico a você que não acontecerá nada, — ele respondeu com cautela enquanto se abaixava um pouco para ficar a minha altura e me olhar bem fixadamente em meu rosto — Depois de ontem e tudo o que aconteceu, a segurança dobrou, você pode ficar tranquila que estamos protegendo você…
— Eu já te disse uma vez, eu não quero proteção — respondi com firmeza — apenas preciso saber se as pessoas quais eu me importo vão ficar bem.
, eu sei que é difícil esquecer, mas…
, eu não estou te pedindo para me prometer algo, eu sei o quão difícil é para você também — falei e pela reação do homem a minha frente parece que tirei um peso das costas do mesmo — Não tem como ficar aqui neste quarto o resto do final de semana? Huh?
— Hm, deixe-me ver… — respondeu, agora estava com as mãos no queixo fingindo pensar em algo, soltei uma risada sem querer — Esta noite não.
— Mas você está muito convencido, nem sabe a minha resposta ainda — entrei na brincadeira e lhe dei um tapinha no seu peitoral. Rimos e de imediato ele segurou as minhas mãos mais uma vez, porém, ele as segurou com as duas mãos próximas dos seus lábios rosados.
— Me pergunte o por quê…
— Ok — agora ele se aproximava mais e ainda segurava as minhas mãos — Por que esta noite não?

Rimos novamente, mas algo me cutucava, aquilo estava sendo mais do que uma brincadeira e por um momento temi pela sua resposta.

— Porque nesta noite… — dizia sussurrando, como se estivéssemos bem mais próximos do que já estávamos — Você é minha.

Ele disse e não tentei não expressar nada em meu rosto, meu coração já dizia por si próprio batendo descompensadamente. Apenas dei um sorrisinho de canto, estava cansada de uma noite sem dormir direito, cansada dos comportamentos bipolares de ambos, quanto dele e de , apenas preciso ficar sozinha com meus pensamentos e colocar em ordem os meus próximos passos nesse maldito lugar, que em menos de uma semana, está me deixando maluca.

— Eu te encontro lá então — respondi totalmente sem graça, e sei que ele tinha percebido. assentiu com a cabeça e deixou o prédio me dando um tchau antes de entrar no elevador.

Com a respiração ofegante, me perguntei o que exatamente foi aquilo que tinha acontecido. Estou sentindo que a minha vida está cada vez mais louca. Preciso de um banho. Um banho é totalmente essencial nessas horas. Mas de uma coisa que eu tenho certeza, é que banho nenhum vai resolver essa situação, esses dois estão me enlouquecendo, e estou perdendo cada vez mais a sanidade que se quer um dia existiu em mim.

Sem mais delongas, abri a porta com a chave que havia me entregado há alguns minutos, e desde que cheguei no quarto, vasculhei em algumas coisas pra ver as roupas, ver também alguns acessórios no armário próximo da cama, e eles não eram diferentes do meu antigo quarto. Aproveitei para tirar um cochilo, que foi um sono de 4 horas, então agora estou aqui, pronta para o banho que eu tanto queria.

Caminhei até o banheiro que diferente do outro quarto, esse tinha um chuveiro e eu não precisaria dividir com as outras meninas. Me despi sentindo todo o peso do dia ser levado com a água quente que agora caía sobre o meu corpo. Fechei os olhos e com os dedos sobre meus ombros, me lembrei dos toques de sobre eles. Tentei me esquivar desses pensamentos mas tudo me levava aos toques inesperados do corredor, e consequentemente mordi meu lábio inferior percebendo que quanto mais minha mente vagava na sensação de ter por perto, mais meus lábios ficavam entreabertos. Escorri minhas mãos dos meus cabelos até o meu tronco, onde as toquei em meus seios, me recordando dos toques circulares que ele fez em mim próximo ao local. Como ele podia fazer isso comigo? Me tocar daquela forma. E como eu pude deixar? Como pude me entregar daquela maneira?

O pavor da água estava pouco perto do pavor quente em que emana do meu próprio corpo. Com a mão esquerda ocupada em minha boca, desci a minha direita até a minha intimidade, e com pressa, fiz uns carinhos em meu clitóris. Conforme os movimentos do meu dedo aumentavam, significam as minhas recordações de . Ele, o modo como ele me colocou em seu colo fazendo com que eu sentisse a sua ereção, o modo como a sua pegada foi tão excitante a ponto de que a minha calcinha ficasse totalmente molhada em poucos minutos. Penso, o que ele poderia fazer comigo em horas? Em dias?

Coloquei dois dedos dentro da minha intimidade, precisando sentir. Estoquei com um pouco de força e gemi baixo, imaginando que pudesse ser os dedos daquelas mãos fortes de . Ah não, eu não posso mas não consigo evitar, eles brincam com a minha mente, e brincam com o modo de como meus pensamentos vagam ou deixam de vagar. Mordi meus dedos e me lembrei de como toquei nos dedos de quando fiz o curativo em sua mão, e por mais que nós não tivéssemos um contato físico tão próximo como tive com , eu podia imaginar toda vez em que ele segurava as minhas mãos, em como ele poderia me segurar em outros lugares do meu corpo.

Enquanto isso, minha mão esquerda acariciava os meus seios, céus, como eu gostaria que fossem as mãos fortes de . Meu bico ereto necessitava da boca carnuda dele, e nesse momento agradeci pela água escorrer pelo meu corpo, assim, com as mãos apalpei com força meus seios em meio as carícias. Fechei os olhos, e cedi os meus gemidos altos por conta da intensidade de meus dedos e pelas sensações aprazíveis em meu corpo. Quero o meu ápice, e ter esse momento meu, apenas meu.

Brinquei com meu clitóris o esfregando de cima para baixo e não parei com os movimentos dos meus dedos na entrada da minha vagina, que estava tão aberta quanto as minhas pernas trêmulas, sendo assim, sinal de que logo eu chegaria no meu limite. Mordi os lábios sentindo a minha boca sendo rasgada pelos meus dentes, agora com apenas suspiros e a respiração totalmente ofegante, deixei com que eu me rendesse totalmente, e senti meu corpo estremecer. Ah. Como é boa essa sensação. Como é bom se conhecer, e ter a mente totalmente suja entregue a esses homens por mais difícil que seja admitir, pois ao mesmo tempo que me tiram do sério, me fazem pensar neles de formas diferentes.

Lavei os meus cabelos e o meu corpo rapidamente porque precisava me arrumar, resta apenas três horas para o baile, com certeza nesta hora todos já estavam se preparando, ou não. Alguns como eu, não dariam a mínima e deixariam para última hora. Logo saí do box, e me enrolei na toalha indo para o meu quarto se vestir. Toda a minha integridade tinha ido para o ralo junto da água do chuveiro, e também toda a tentativa de tentar negar que eles não causam algo em mim. Estou perdida.

Capítulo VII

, ON

Hall.

— Pausa para a foto, se mantenham todos próximos um do outro — Carlac dizia, enquanto eu e , meus primos, e a família Delavaris se posicionavam para a típica foto. Esse baile havia toda primeira semana para as boas vindas de todos anos consecutivos no IMAM, apenas as famílias fundadoras podiam estar presente, porém neste ano, apenas a família fundadora Delavaris pôde comparecer, esta norma foi implantada por Carlac assim quando estabeleceu ordens restritas em quesito principalmente dos Del Rose e suas alianças. As demais famílias fundadoras compreenderam, e esperam o tempo necessário para se adaptarem depois de todo rebuliço e confusão.

Cheguei fazia uns trinta minutos, e a minha inquietação estava aparente. Como era o esperado, acompanhei Vaiot Delavaris, a garota cobriu as sardas com maquiagem e isso a deixava um pouco diferente, infelizmente Vaiot não gosta das suas sardas, e isso foi a única coisa que fiz questão de reparar nela. Com um beijo estalado em meu rosto notei que a mesma havia saído com algumas amigas para ir ao banheiro, como ela mesmo disse. Olhei ao redor percebendo a decoração do lugar, e na inquietação de , que dizia para Carlac esperar pois a convidada dele estava prestes a chegar, e é isso que está me deixando impaciente, porque não está aqui, e eu não gostaria de vê-la com nenhum outro rapaz, ainda mais , que usa as mulheres como um troféu da noite e no outro dia já não lhe serve de mais nada.

Tentei me concentrar em conversar com os rapazes que estavam próximos a nossa mesa, e esquecer de tentar procurá-la, porém cada vez mais ficava inevitável. Sei o quanto isso tudo não significa nada para a mesma, mas manter meus olhos nela seria melhor, para ver se ela está em segurança, e ainda estou tentando me convencer que é apenas por este motivo e que não há nada mais. Talvez seja a minha mente que está enlouquecendo. Segurei a taça de champanhe na mão e resolvi correr meus olhos pelo espaço todo até finalmente meu olhar encontrar com o dela no imenso salão.

Seus cabelos escuros e longos desciam pelo seu tronco que estava a vista, assim como o seu decote um tanto que não discreto. Percebi que seu vestido era longo, e colado ao seu corpo, deixando transparecer as suas curvas perfeitas. A cor branca do vestido destacava a pele da mesma, nele havia alguns detalhes brilhosos que subiam do final do vestido até a cintura, além de que o recorte v na parte direita do pano deixava a mostra sua perna. Ela levou a mão até a orelha que havia um pequeno brinco de pérola, e a pulseira também. Ela estava perfeita. E o batom vermelho sangue em seus lábios, chamavam ainda mais a atenção para ela.

Em um só gole terminei com a bebida no copo rapidamente. Ela me deu sede. Para não ser tão explícito, decidi desviar o olhar, mas da mesma forma acompanhei os seus passos, e logo vi que ela ia em direção a , que por mais que tentasse disfarçar, estava com a mesma expressão que a minha no rosto, assim como todos os outros homens daquele lugar.

Del Rose, ON

O salão ficava no centro do Institute, próximo a entrada do prédio principal.
Andei avistando Bea próxima ao enorme hall onde estavam os recepcionistas nos recebendo, e também recebendo os antigos “alunos”. Haviam fotógrafos para todo lado, a iluminação exigia do flash, então o local estava cercado por flashes de diversas câmeras. As mesas estavam posicionadas umas perto das outras, com enormes lustres de cristal cobrindo o espaço. Vi Bea acenar, e fiz o mesmo para ela e os demais da turma em que eu fazia parte.

Um homem de cabelos loiros me auxiliou até a minha mesa após eu dizer o meu nome, e ele se direcionava para uma específica mesa onde havia os Delavaris e os , talvez seja por que sou acompanhante de , mas ele me deu um aviso que a mesa com o sobrenome da minha família era bem próxima mesmo que alguns deles não estariam presentes. Pude perceber que ainda como estava no começo da noite, poucos haviam chegado, mas creio que logo alguns dos meus estariam aqui. Olhei ao redor como se eu estivesse procurando por algo, ou alguém… e sim, quero saber se ele já está aqui.

O espaço era enorme, porém pude perceber uma movimentação maior próximo a pista de dança, e então meu olhar se cruzou com o dele. Ele estava de pé ao lado de alguns homens que agora pouco me importavam quem eram, pois ele estava impecável… O terno preto com a gravata slim caía superbem nele, e tinha arrumado o cabelo, ri de canto percebendo que ele queria demonstrar uma expressão no rosto mas algo o impedia. Decidi cessar esse momento de segundos, e virei meu rosto percebendo que alguém chegava atrás de mim.

— Pastërti, você está deslumbrante — disse me fazendo corar. Por mais que seja difícil admitir, senti falta desse apelido que ele tanto me chamava.
— Pena que não posso dizer o mesmo pra você — falei em um tom brincalhão, tentando quebrar os pensamentos vagos. Rimos enquanto fazia uma cena de que atingi seu coração de forma dura. Logo DeJei chegou com duas taças, era algum vinho.
— Olha, eu estou saindo com uma garota daqui, saca ? — assenti tomando um gole e rindo ao mesmo tempo junto de enquanto DeJei dizia — então se ela soubesse disso, ela ficaria bem brava, minha intenção não é essa…
— Ele está tentando dizer que você é a garota mais gata desse baile, disse quase gargalhando e eu o acompanhei dando uns tapinhas no braço de DeJei.
— Precisamos ir, por que Carlac já está fazendo sinal para eu ficar na mesa — disse tentando ser discreto, mas não funcionou muito bem, a cara de bravo do pai dele só piorava.
— E eu vou pra minha acompanhante, se não ela me mata — DeJei disse andando e assenti enquanto tirava algo do bolso.
— O que é isso? — perguntei estranhando e ele sorriu segurando em minhas mãos.
— Você não sabe o que é um ¹corsage?
… sério? — deixei um sorriso involuntário escapar, o corsage era simples, havia flores pequenas e brancas, assim como o meu vestido, e era discreto. Ele colocou em meu braço esquerdo com facilidade — Fui morar em Londres assim que minha mãe faleceu, eu era criança, e você sabe, por lá não temos essa tradição, mas sempre achei incrível e… sempre quis um. Obrigada, é lindo.

Nos olhamos intensamente, e era evidente que eu me perderia novamente nos esverdeados dele, mas Carlac se aproximou e começou um diálogo comigo e com mesmo com um desconforto estampado em seu rosto em nos ver juntos. É claro que ele não gosta nem um pouco de mim, e é recíproco. Conforme o tempo ia se arrastando, mais cumprimentos formais fazíamos. Conheci alguns dos primos da família , as alianças também, os próprios Delavaris. Pareciam pessoas boas, mas assim quando viro as costas, sei que devem falar e não deve ser pouco.

Perguntei a sobre Susie, a sua irmãzinha, e no mesmo instante foi quando a vi com mais dois garotinhos que aparentemente eram da sua idade. A olhei e a chamei pelo seu nome, quando a mesma me viu, ela sorriu vindo em nossa direção. Primeira pulou no colo de bagunçando o penteado perfeito dele, ri espontaneamente assim que a mesma passou do colo de spara o meu. Brinquei com a sua tiara e ela com os meus brincos, apertei bem a menina tirando cócegas dela. Ela desceu do meu colo e correu para os garotinhos de antes depois de se despedir com um beijo estalado em minha bochecha.

— Nunca conheci uma menina tão doce como ela — falei ainda a olhando, me recordando da noite que cheguei e ela foi a pessoinha que me recebeu na porta.
— Sim… Susie realmente é encantadora — uma voz por detrás de nós soou, a conheci assim que percebi meus pelos arrepiarem. .
— Ainda não lhe cumprimentei Vaiot… — nos viramos para os dois que estavam com os braços entrelaçados, logo beijou a mão de Vaiot voltando para perto de mim. — Você está incrível.
— Obrigada… Cunhado — ela respondeu frisando a palavra “cunhado” olhando diretamente para meu rosto, com um tom de cinismo. Mas não me deixei levar por isso, apenas senti um desconforto me lembrando do dia na aula de Ettanora, e também me recordando de quando vi que ela e realmente eram um… Casal. Tudo isso é tão errado quanto o que está acontecendo na minha cabeça, assim como fora dela — Te digo o mesmo.

Foi a vez de vir me cumprimentar, apenas estendi meu braço para frente não saindo do lado de , ao invés dele beijar minha mão deixei claro que não gostaria dessa formalidade, apenas apertei a mão do homem a minha frente que me olhava com curiosidade e nem um pouco de espanto. Vi que ele soltou uma risada de lado ouvindo Vaiot.

— Esse seu vestido é… Uma graça, — a ruiva riu ao dizer, e meu sangue ferveu, porém ri junto da mesma com o mesmo cinismo, com a mesma expressão facial à altura. — Qual marca é?
— Sinceramente, eu não sei. Mas se quiser eu posso te emprestar, eu adoraria te ver usando algum dia — respondi passando as minhas mãos livres pelo tecido a fazendo olhar, mas eu queria que ele olhasse, porém não era preciso pra tanto, ele não tirava os olhos de mim — Não apenas eu adoraria.

engoliu seco enquanto Vaiot com o sorriso mais cínico impossível o olhava. Me vi por vencida quando ela apenas respondeu um “obrigada” e virou as costas puxando pelo braço. Como era possível tanta falsidade? Uma coisa que odeio é ser exatamente desta forma, e aqui as pessoas são mestras nessa matéria. Agem como se nada tivesse acontecido, como se uma situação grave como aquela da sala fosse algo normal que simplesmente passou. É evidente a atuação da mesma, será que não tem vergonha disso? As vezes sinceramente esqueço que estou convivendo com atores, e tenho medo disso há cada dia a mais neste lugar.

De longe, pude ver Bea, e do seu lado as meninas do prédio. Sorri andando em passos largos para finalmente abraçá-las. Com elas, estavam os seus pares que cumprimentaram , além de alguns exs participantes do IMAM. Nos sentamos na mesa com eles, deixei claro para que não ficaria no meio daquelas pessoas da família dele e principalmente os Delavaris, ainda mais depois daquele cumprimento desconfortável entre eu e Vaiot. Ele apenas consentiu sem dizer alguma palavra, era como se eu estivesse fazendo um favor para ele.

A cada hora que se arrastava, pessoas importantes vinham até a mesa nos cumprimentar, enquanto uma banda tocava várias músicas do Roy Orbison, irônico e singelo. Decidi me levantar após inúmeros sorrisos e discursos em metáforas sobre negócios em que por certamente eu estar aqui, achavam que eu estava interessada e gostaria de fazer parte, mais do que já estou fazendo, infelizmente.

— Antes que você vá, me permita te fazer um cumprimento? — o homem loiro com trancinhas no cabelo parado a minha frente me surpreendeu estendendo a sua mão.
— Eu acho que te conheço… E tudo bem, comigo não precisa de formalidades — respondi tentando fazer a conversa ser leve, obviamente a semana dele deve ter sido tão pesada quanto a minha. Sorrimos, mas da mesma forma, ele pegou em minha mão depositando um beijo rápido.
— Sou Nait Kádrov — assenti segurando em meu vestido e ao mesmo tempo fazendo uma reverência. Ele riu junto a mim enquanto dizia — Sei quem você é, mas quis me apresentar, já que estaremos juntos por tanto tempo.
— Sim, serão longo seis meses…
— Nisso também. As aulas, engraçado como se referem, não é?
— Como assim “nisso também”? Há aulas extras aqui? — perguntei fazendo aspas com os dedos.
— Assim como os , eu também era muito amigo do seu irmão. Fico feliz por você estar mais próxima deles — ele respondeu calmamente passando as mãos por seus cabelos, observei e balancei a cabeça concordando — No que for preciso para a investigação do caso dele, saiba que pode contar comigo.
— Obrigada Nait — sorri vendo o homem dar as costas e ir para a mesa em direção dos e os Delavaris. Por mais espontâneo que possa ter sido, essa conversa foi um pouco estranha. Apenas queria um drink para tudo realmente de fato ficar mais leve.

O baile já havia começado faziam duas horas, e nada de del Rose colocar um pouco de álcool em seus lábios que consequentemente estavam com um batom muito chamativo, que ela adoraria tirar. Pensei me autodenominando na terceira pessoa, talvez assim eu consiga entender tudo o que está se passando dentro de mim. Logo cheguei ao enorme balcão, do outro lado haviam as estantes de madeira que continham todas as bebidas que alguém poderia imaginar, certamente meus olhos brilham nesse momento.

Já de cara pedi três doses de tequila, pois as outras horas desse baile obviamente eu não aguentaria estando sóbria. Virei uma dose, na segunda senti descer queimando minha garganta, e na terceira eu já gostaria de mais uma. Sorri para o barman, que entendeu a mensagem. Nos três copinhos, já havia mais tequila do jeito que eu queria. Sussurrei um obrigada, e ele meu devolveu uma piscadela.

— Você tem cara de quem gosta de beber um famoso Jim Bem, não tequila — ouvi a voz conhecida em meu ouvido, me fazendo arrepiar com o seu hálito inconfundível: cigarro e menta.
— Uísque? — perguntei me virando para o mesmo que até então estava atrás de mim, percebi que ele me olhava assim que fiquei parada em pé na sua frente — acho que as suas percepções sobre mim já foram melhores.
— Você acha que tenho uma percepção sobre você?
, você não tem apenas uma — falei em um tom que ele poderia interpretar de várias maneiras, sei que iria me arrepender desse diálogo logo em que eu acordasse no outro dia, mas não pude deixar isso passar.

“Senhoras e senhores, a clássica valsa Blomeic, será representada pelos fundadores…” virei o rosto para que percebi que não tirava os olhos dos meus, isso me deixa tão confusa, se ele soubesse… O mais velho estendeu a mão para a minha rindo, depois de eu ter virado as três doses e me certificar que estava pronta.

Andamos até a pista de dança recebendo olhares por todos, inclusive Carlac que estava incrédulo, até ir ao lado de Vaiot e sua expressão mudar.
Olhei ao redor e vi conversando com um garoto de aparência específica para mim, mas não consegui ver totalmente seu rosto. O homem anunciou para irmos ao lado dos pares, mas permaneci em meu lugar, percebendo um movimento ao meu lado direito.

— Você me concede esta dança? — no mesmo instante meu coração pulou para fora da minha boca. Essa voz era de Tom. Meu primo. O que ele faria aqui? As memórias começaram a se refrescar em minha cabeça, Tom era filho de Jamber Bennet, uma família fundadora do IMAM, e por que não pensei que ele poderia estar envolvido nisso também?

Era explícito em meu rosto a raiva, aquele garoto que eu tanto admirava agora sabia o quanto eu estava decepcionada, ele me conhecia, sabia do que eu estava sentindo, sabia que por essa minha expressão no rosto o quanto por dentro eu queria sair daqui. Não quis mais encará-lo, apenas olhei confusa para que estava com uma prima dele, que me apresentou mais cedo. Provavelmente também uma fundadora, assim como Tom, e ex participante do IMAM.

Tive que voltar a encará-lo assim que o mesmo parou em minha frente, até a música começar. Tentei ao máximo evitar qualquer tipo de olhar com ele, em olhar diretamente para o seu rosto, apenas deixei me levar com os passos da valsa que todos ali pareciam estar interessados. Após uma volta inteira na pista por todos os fundadores, antes os quais assistiam com seus pares adentraram na pista e a valsa continuou com mais passos conhecidos. Não pude deixar de lembrar de minha mãe, tudo o que aconteceu com ela também está me acontecendo, por isso ela me deixou sempre preparada, até nos passos da valsa em que ficávamos horas ensaiando e se divertindo. Não sei se aquilo era o efeito do álcool, mas apenas tenho certeza de que preciso de mais.

Os aplausos foram recebidos pelos demais assim que a música parou, e não dei chances de continuar mais um segundo no meio daquelas pessoas e ainda mais perto de Tom. Soltei bruscamente da sua mão e andei em direção ao bar, percebi passos atrás de mim. Sabia que era Tom, então por isso não pararia até ele me deixar em paz.

, por favor — ele disse segurando em meu pulso levemente — Eu quero te explicar.
— Você sabia sobre isso tudo, não é? — perguntei sentindo a raiva crescer mais ainda dentro do meu peito — Sabia que eu viria pra cá, você sabia de tudo o que o Ben fazia, e o pior Tom…

Ele tentou falar, mas não dei chances.

— Você sabia dos planos de Paul, você sabia que eles forjaram a minha morte…
, eu sinto muito. Eu também sofri com a morte de Ben, eu deixei tudo isso para ir atrás das pessoas que estão envolvidas na morte dele. Eu posso te provar.
— Eu quero nomes Tom. NOMES. — gritei praticamente em seu rosto. Era evidente que eu não estava ligando porra nenhuma para as pessoas que estivessem olhando, aliás elas não podiam entender nada devido ao som alto da música. Eu apenas queria saber e tirar o máximo possível de informação de Tom. Ele era a principal pessoa que eu poderia conseguir algo.
— Não — Tom disse calmamente, me deixando sem nenhum tipo de paciência. O puxei com toda minha força, e o joguei contra o balcão segurando em sua gravata. Foda-se o que os outros pensariam.
— Não? É um não que você me deve? Enquanto eu estava em São Francisco, e ele estava passando por tudo aquilo por mim, você sabia…
— Você está envolvida com os , eu não posso te dizer NADA — ele disse me empurrando, mas pisei na barra da sua calça o deixando contra mim novamente — Ou você acha que eu não tenho informantes aqui dentro? Eu quero sim te provar, eu quero sim fazer com que esses meus erros passados agora possam ser concertados, quero ser o Tom que você admirava, pois tanto como pra você, ele também era o meu irmão…
— Como você vai me provar algo? Apenas me diga como e me poupe dessas suas palavras cheias de remorso.
— Me encontre no saguão do prédio principal quando tudo isso acabar, eu respeito caso você não queira ir, mas considere, por favor

Carlac e os meninos chegaram imediatamente, até Bea estava detrás de Dejei enquanto ele a segurava para não vir até mim. Senti os braços de me puxarem para trás, fazendo com que o meu toque e de Tom se quebrasse, mas mantive meus olhos vidrados no dele que estavam lacrimejados, e até o final da noite eu sei que ele esperaria com que eu me decidisse, era sério aquilo o que ele acabara de me dizer e o mesmo sabia que eu o conhecia o suficiente para entender.

Pude ver o rosto dos demais, provavelmente não estavam me reconhecendo, e nem mesmo a Tom. Decidi não me explicar e deixar o lugar em passos largos, não olhei pra trás, apenas queria achar um lugar onde eu pudesse ficar sozinha e pensar no que fazer a respeito do que acabara de acontecer. Entrei em um local onde havia acesso para as escadas do andar superior, as subi com um pouco de dificuldade por conta do salto que apertava os meus pés, de prontidão decidi tirá-los e os segurei em minhas mãos. Assim que cheguei no térreo avistei o imenso lago do campus, já as partes descobertas do meu corpo se arrepiou com o ar gélido, e senti meu sangue arder mais ainda, como se ele estivesse em chamas percorrendo por todas as minhas veias.

Me deixei levar em pensamentos escorando meus braços e meu corpo sobre a sacada do espaço. O vento fazia movimentos em meus cabelos levando-os para trás, e me senti assim, sendo puxada apenas para trás desde que coloquei os meus pés nesse lugar. Mas em saber de Tom, apesar da raiva que eu estava sentindo dele, algo me impulsionou pra frente, já não estou me sentindo sem um propósito, e essa é uma nova versão de mim mesma que eu nem fazia ideia que ela poderia surgir. Apenas estava escondida, com medo, carregando a raiva e a culpa em todos os lugares que eu vá.

Abracei meu próprio corpo, e fechei os olhos com força, assimilando tudo o que eu estava prestes a enfrentar, quem eu iria me tornar. O primeiro dia eu apenas tinha que aceitar, o que eram as minhas determinações – entrar nesse lugar para acabar de vez em ter obrigações com meu pai, para honrar o nome de Benjamin que lutou por mim mesmo que eu não tinha consciência disso – e no momento, a única coisa que quero é encontrar Tom e acompanhá-lo. Sei que eu não farei algo apenas por Ben, farei também por mim, e tenho aqui a culpa que me motiva e pesa mais em mim, e percebo isso estando vulnerável a dois homens em que eu não posso confiar, mesmo que eu ainda não tenha concretos motivos para tal. Também quero beber provando do sangue de cada um que esteja envolvido. E estou me perdendo cada vez mais, porém estou me redescobrindo, e descobrindo do que sou capaz, do que sempre fui. Uma lágrima caiu dos meus olhos, e percorreu até o meu pescoço. A senti quente em minha pele, e assim, pude ter a prova de que realmente estava em chamas.

— Aqui é um ótimo esconderijo, sempre vinha para pensar ainda mais depois de tanto estresse em bailes como estes — ouvi a voz rouca e ótimo, estava aqui. Não me virei para ele, o que menos eu gostaria agora era ter que trocar conversas com duplos sentidos — Eu gostava de ficar em silêncio, mas sempre quis poder dizer algo, as vezes o silêncio nem é tudo.

O homem parou ao meu lado encostando seu corpo no concreto da sacada, desviou o olhar para longe, assim como o meu estava. O vento continuava batendo em meu rosto fazendo com que meus cabelos voassem e cobrisse minha face, era bom para ele não ver a expressão péssima que eu não conseguia tirar do rosto.

— Poucos meses após a morte de Ben, eu comecei a frequentar alguns lugares em São Francisco em que ele sempre me levava quando ia me visitar, e acabei que nessas idas fiz várias amizades. — falei tentando tirar essas lembranças de dentro do meu pensamento ocupado, e tragava um cigarro atencioso em minhas palavras — Quando me viram lá me perguntavam sempre dele, aquilo me confortava, pois eles pensavam seriamente que ele estava vivo… Por um tempo e desde que comecei a usar as drogas me prendi naquele meio, comecei a inventar histórias, sobre viagens em que ele estava fazendo… Eu me prendi em acreditar que ele estava vivo.

Algo tão íntimo e poderoso, ao falar parece que tirei uma caixa de surpresas dentro de mim, pois nunca pensei que pudesse ser capaz de dizer isso a alguém. Não esperei a resposta de , apenas pensei em que Ben nunca viverá essas viagens, esses lugares. O conforto disso tudo demoraria um tempo, mas eu sei que talvez pudesse a possibilidade de algum dia eu tê-lo verdadeiramente.
— Você era pequena e seu corte de cabelo era uma franjinha brega que me fez rir de você, até isso parar por seu irmão me dar um forte empurrão e a partir dali nos tornamos amigos. Anos depois, foram os anos de colégio juntos mesmo que não fosse na mesma classe. E prometi que voltaria para a sua formatura. — permaneci sem olhar para , mas a verdade quanto a nostalgia em sua voz era evidente — Ele ficou tão feliz, por que não esperava em que eu estivesse lá, mesmo que durante todo esse tempo tínhamos nos encontrado através dos negócios em comum.

Finalmente após absorver as palavras de tomei coragem em me direcionar a ele, que fez o mesmo. A troca simultânea de momentos em que já vivemos, independente do que tenha passado, me fez ver com clareza que por mais que através dele houvesse uma pessoa casca dura também há um que se importa, um que talvez demonstre. E isso foi o suficiente para eu tomar a iniciativa de abraçá-lo.

— Eu não tenho apenas uma percepção por você … — enquanto me afundei em seu peito sentindo os braços musculosos do homem ao redor do meu corpo, ouvi sussurrar em meu ouvido — São inúmeras… Incontáveis.

Foquei em não perder esse momento que nunca voltaria, um momento em que del Rose e trocaram um diálogo sem quaisquer tipo de segunda intonação em suas falas. Quanto maior era o silêncio, mais apertada em eu me sentia. Seus dedos escorriam por meus cabelos como naquela outra noite, e sei que não deveria pois eu não conseguiria me desviar, porém tirei meu rosto de seu ombro e fixei meu olhar no mesmo.

agora passeava com seus dedos desenhando o meu rosto enquanto com a outra mão me segurava firmemente contra seu corpo. Como uma linha grossa que você quer tanto pintá-la, se aproximou desenhando com seu dedo indicador as linhas de meus lábios inferiores. A aproximação se tornava maior e todos os pensamentos que me pediam para não fazer o que estava prestes a acontecer sumiram em um estalo, assim como estalo e o choque de quando nossas bocas se selaram.

Fechei os olhos levando meus braços em volta do corpo de o abraçando enquanto nossos lábios se entrelaçavam em um ritmo perfeito. Um ritmo em que nossas línguas entendiam perfeitamente, pois há cada segundo, assim como o vento se tornava forte, o nosso beijo era semelhante. E como é intenso, é mais forte do que eu podia imaginar. Beijei desesperadamente sua boca em um compasse lento, não necessitávamos de rapidez, precisávamos apenas disso, nossos toques únicos.

Nesse momento senti que não havia mais nada no mundo, mas quando abri meus olhos e vi me olhar, tive a certeza. Quis beijá-lo mais, e percebi que era recíproco. Por mim eu ficaria a noite toda ali, mas a insistência berrando dentro de mim em voltar era precisa, pois Tom provavelmente estaria me esperando. Mordi levemente o lábio inferior de , como uma forma de me despedir daquela boca tão perfeitamente no encaixe da minha.

Soltei de seu corpo e quando ele percebeu que eu sairia, me puxou para mais perto impedindo com que eu saísse e deixei uma risada alta escapar o fazendo rir também. Não nos beijamos, mas distribuiu selinhos pelo meu pescoço e foi parar em minha boca pedindo permissão para mais um beijo. Me rendi, porém foi rápido mesmo em que eu quisesse sentir mais uma vez sua língua, e as sensações que o nosso beijo causou em mim.

...
— Shh… — coloquei o dedo indicador em sua boca não deixando ele falar mais nada, a real é que sinto medo do que ele possa me dizer, e não quero ser levada por momentos — Não precisamos conversar sobre isso agora.

Foi difícil mas decidi descer para o andar inferior, preferiu ficar mais um pouco por que queria pensar, essa foram as suas últimas palavras antes de eu deixar do local. Andei sem rumo assim que pisei para dentro do baile, e gostaria de ao menos ver se Bea ainda estava presente, e bom, . Me aproximei das mesas, e percebi que o local já estava com poucas pessoas, apenas os jovens. As famílias e os ex participantes haviam ido embora, e agora a música era mais animada pois havia um DJ.

Fui em direção a mesa em que eu estava anteriormente e havia algumas meninas mas nada de achar Bea ou Dejei, nem mesmo vi a . Meu coração ainda permanecia acelerado, talvez eu possa ter feito a maior burrada dessa noite mesmo que eu sinta que não, e olhando para todos os fatos que me cercam, tudo me indica que realmente foi algo muito precipitado, e eu sei que não deveria me sentir assim.

Não consegui me sentar a mesa, permaneci em pé com vontade de voltar para a sacada, encontrar e conversar que não poderíamos continuar com isso. Tenho medo do que possa acontecer, admito, pois quando me entrego, vou além e não quero que isso seja com , eu nem ao menos o conheço direito para confiar desta maneira. Só sei que meu coração de acelerado está mais apertado do que qualquer outra coisa, apertou mais ainda em ver vindo em minha direção com um sorriso maroto. Queria poder falar com ele, poder desabafar, mas algo me impedia.

— Venha dançar comigo — disse em meu ouvido, senti um choque em minha espinha fazendo com que eu me estremecesse, sem ele perceber, claro.
— Você não cansa de ouvir um não? — falei irônica tentando soltar as minhas mãos da dele, mas ele segurava com mais força. Os olhos verdes de era como um ímã para mim, eles me atraíam de uma forma inexplicável, talvez Tom tinha razão em uma coisa: eu estou envolvida, mas eu não sei como eu poderia deixar transparecer isso, sendo que nunca tivemos uma conversa em público sobre sentimentos, ou até mesmo toques íntimos, como um beijo.

Um sentimento de fracasso ou derrota por ter me deixado render justamente a pairou sobre mim, por que não era justo toda essa situação sendo o irmão dele. nunca demonstrou um interesse a mais em mim como a iniciativa de na noite da festa ou como ele me beijou hoje, mas sei que tudo poderia mudar, e isso me deixa confusa. Mais confusa que qualquer coisa. Apenas queria me deixar levar e ser uma boa acompanhante pra , mesmo que nada dentro de mim esteja certo.

— Não me provoque… — ele me olhava mais profundamente, e o que me intriga é o fato de que não há nenhuma evidência de sarcasmos ou ironia em sua voz, em como ele ousa falar. O que me intriga é não admitir o que está diante dos meus olhos.

(Clique aqui e coloque a música para tocar, pastërti)

A música começou a tocar, e com toda delicadeza me conduzia para próximo de seu corpo quente. Não vi Tom assim que olhei ao redor da pista de dança, apenas me concentrei no jeito que ele conseguia me acalmar, em levar toda a minha angústia pra longe. Deixei meus olhos fechados e não quis me distanciar, pois suas mãos me prendiam ao seu corpo e a dança era conforme o ritmo.

It's a long night and a big crowd
(É uma longa noite e uma grande multidão)
Under these lights looking 'round for you
(Sob essas luzes procurando por você)
Yeah, I'm steppin' outside under moonlight
(Sim, eu estou saindo ao luar)
To get my head right, lookin' out for you, yeah
(Para acertar minha cabeça, procurando por você)


Afundei meu rosto em seu peito, e pude sentir o coração do mesmo bater mais forte, era estranho aquela sensação, era estranho todo aquele efeito que eu podia causar nele, e o mais estranho, era esse efeito também estar fixo em mim. Senti as mãos de fazer carícias em minha cintura, enquanto ele envolvia os seus braços fazendo com que nossos corpos se colassem mais. Nossos passos estavam no mesmo ritmo, eu sabia que ele queria sentir aquele momento assim como eu.

Could it be your eyes?
(Poderia ser seus olhos)
Didn't know that I've been, waiting, waiting for you
(Não sabia que eu estive esperando, esperando por você)
When you're by my side, everything's alright
(Quando você está ao meu lado, tudo está bem)
Crazy, I'm crazy for you
(Louco, estou louco por você)


Ao nosso redor as pessoas se apertavam contra seus pares, elas estavam sentindo a música, enquanto eu apenas estava sentindo o calor do corpo de . Em um movimento rápido, me soltei de sentindo meus braços serem puxados e assim fiz uma clássica rodopia e já estava nos braços dele novamente, e o mesmo estava com os olhos vidrados nos meus, e um sorriso largo no canto da boca, como se quisesse fazer aquilo já um bom tempo… Dançamos de forma engraçada, ri esquecendo tudo o que estava acontecendo ao meu redor, e se divertia me vendo daquela maneira. Coloquei uma mexa de cabelo atrás da orelha, e ele se aproximou colocando os dedos em minha bochecha, em forma de um carinho.

Oh, here I go, down that road
(Oh, aqui vou eu, nessa estrada)
Again and again the fool rushin' in
(De novo e de novo o idiota correndo)
But I can't help when I feel some kind of way
(Mas eu não posso ajudar quando me sinto perdido)
Do you feel the same?
(Você sente o mesmo?)
'Coz I fall, I fall for you
(Claro, Eu vou, Eu vou me apaixonar por você)
You caught me at my weakest
(Você me pegou na minha fraqueza)
And I'll fall for you
(E eu vou me apaixonar por você)


— Eu preciso te dizer… — agora seus dedos escorregava pelos meus braços, até chegarem em minhas mãos, engoli seco tentando entender o que estava acontecendo.
— ele se aproximava cada vez mais, e sei que mesmo que eu quisesse impedir, não teria forças, apenas permiti que ele terminasse de dizer — sabe de uma coisa?

Ele apertou seu corpo mais ainda contra o meu, “O quê?” respondi tocando meus lábios úmidos em seu lóbulo, percebi a reação do mesmo, deu um sorriso como vencido, e disse fazendo que todo meu corpo que consequentemente estava quente, soltasse choques elétricos… “Isso. Você. Está me deixando louco.”

When you by side everything's alright
(Quando você está do meu lado tudo está bem)
I'm crazy, I'm crazy for you
(Eu sou louco, Eu sou louco por você)


Respirei fundo e vi o homem a minha frente vacilar, ele não estava arrependido em me dizer, ele estava com um olhar de esperança, um olhar diferente do de quando o conheci. Quis tentar dizer algo, mas eu não conseguia responder, as palavras não saíam, elas não pareciam ser o suficiente para tanto que eu gostaria de dizer a . Percebi que ele se conformou com a situação, aliás, ele não veio atrás de uma resposta, acho que pelo seu sorriso discreto que apenas eu pudesse entender, era evidente.

And now you've gone and got, a hold of me
(E agora você foi e recebeu, um abraço de mim)
Tell me what you're gonna do to me?
(Me diga o que você vai fazer comigo?)
And now you've gone and got you're hands on me
(E agora que você foi e tem suas mãos em mim)
Ohh, tell me what you're gonna do?
(Oh, me diga o que você vai fazer?)


Deixei sair após a música acabar pois ele recebeu uma ligação precisando resolver um assunto pendente, e o perdi de vista quando saiu pela enorme porta do salão. O que eu mais temia estava acontecendo. E não vou ser tola, nem mesmo idiota de querer negar o que estou sentindo, ainda mais depois de tudo o que se passou hoje. Parada onde eu estava, tinha feito a minha decisão, mas precisava fazer mais uma coisa antes de sair. Saí do meio das pessoas, e procurei por , esbarrando em corpos dançantes distraídos demais em uma realidade. Finalmente o encontrei, estava sentado em uma das cadeiras de sua mesa, olhando especificamente para mim, parecia que já fazia isso há um tempo. Caminhei em sua direção sorrindo timidamente, ele fez o mesmo se levantando da cadeira.

— Há quanto tempo está aí? — perguntei o fazendo dar uma leve risada.
— Tempo o suficiente para te ver — disse se levantando — apesar que não é o bastante.
— Quando eu voltar, nós vamos conversar sobre isso tudo. Eu prometo.
— Voltar? Como assim?

O que mais eu poderia dizer? Envolvi meus braços em volta do corpo de , e ele fez o mesmo. Não quero nem pensar em que talvez Tom realmente tenha razões para que eu me sinta enojada em ter tido toques assim com esses dois homens que me perturbam apenas pelo olhar. Também não quero pensar que isso possa acontecer, que estou parecendo uma peça de um jogo estúpido, que se desloca de canto em canto. Senti um desconforto pesar em mim, então decidi me distanciar mas cada vez mais era impossível, o ímã não era apenas nos olhos dele, são em nossos corpos também.

O homem me puxou para trás de uma cabine próxima a mesa em que estava, e beijou delicadamente o topo da minha cabeça, a minha testa, minha bochecha, e ainda de olhos fechados, senti seus lábios em meu pescoço, eram beijos cautelosos. Aquela sensação de estar em chamas retornou em mim, pois me senti fria ao perder o toque dele. A necessidade de querer mais tomou conta de mim, quando segurei com força os seus cabelos. O mais velho percebeu, e então distribuiu beijos por todo meu pescoço, nuca, ombros, e leves mordidas que me fizeram ficar anestesiada nele.

Coz I fall, I fall for you
(Porque eu me apaixono, Eu me apaixono por você)
You caught me at my weakest
(Você me pegou na minha fraqueza)
And I fall for you
(E eu me apaixono por você)

Eu precisava ir, mas como eu não queria sair dali. Por que o universo tem de ser tão cruel? E por que estou permitindo que isso aconteça? Por mais que eu queira, não é certo. Não posso me deixar entregar assim mais uma vez, quando acabei de sentir as demais sensações com , o seu irmão, sem ao menos ele ter me tocado desta forma agora neste mesmo momento.

— Voltar de onde? — ele perguntou não querendo quebrar a proximidade de nossos corpos — Me diz.
, nós vamos conversar… Você sabe, isso não é certo.
— O que é o certo, ? — agora o homem chegava perto de mim — A única coisa que eu sinto que é certo está aqui agora.
— Você não pode me dizer isso, a verdade é que você não deveria nem estar aqui… Ainda mais comigo.
— A verdade é que eu deveria estar sim em todos os lugares em que você esteja.
— Sendo assim, então me fala um lugar específico que eu não saiba.
— Eu era o Evoque naquela noite do seu atentado — ele respondeu de imediato e o soltei. Um choque tomou conta do meu corpo todo, e ainda mais as recordações daquela noite infinita em que me arrisquei mais do que em toda vida vieram rapidamente em minha cabeça.
… Como você não me contou isso antes? — perguntei expressando toda minha curiosidade, é inacreditável pois eu não imaginava que poderia ser ele — Afinal, por que estava lá?
— Havia uma missão, eu estava em Londres e tive que ir imediatamente para São Francisco, e bom, eu já tinha um relatório feito sobre você, pois você estava sendo vista com esse mesmo cara que te perguntamos sobre no refeitório — prestei atenção em suas palavras — Fui para ficar de olho e passar a correção, além de ficar de olho especificamente em você também.
— Então qual o motivo de você ter me visto no tatame no primeiro dia e não ter aceitado aquilo? Ainda mais que estava perto de mim…
recebeu o notificado do seu atentado … Ele recebeu antes de eu chegar em São Francisco, mas assim quando eu te encontrei e te vi com aquele cara, foi quando ele me ligou e não lhe dei ouvidos — perplexa coloquei as mãos sobre a boca pensando que tudo isso poderia ter sido evitado, mas não foi, pelo fato da falta de comunicação — Eu estava focado apenas em permanecer ali, te olhando. Eu pirei pois não como também era a culpa dele por ter acontecido o que aconteceu e o mesmo ter ficado de braços cruzados, foi mais da minha, eu poderia ter te pegado, te colocado em segurança em dois segundos, mas não tive como saber
— Eu sei… Eu entendo — ainda espantada com tudo isso, me questionei em voz alta — Como ele recebeu esse notificado?
— Foi anônimo, nós tentamos rastrear mesmo que tenha sido no anonimato, mas todos os IPS foram dados como bloqueados.
— Talvez eu possa tentar, será trabalhoso, mas quem sabe eu consiga… Pode nos ajudar em algo.
— Eu quero que você fique fora disso , temos especialistas trabalhando em cima.
— Como você me garante que realmente tenha ? — dei um passo a frente o encarando — Me leve na central ou ao menos me mostre como estão fazendo, preciso de um incentivo, estou cansada de ficar no escuro.
— Você não entende que eu te quero o máximo longe desta podridão toda? — ele falou expressando toda sua sinceridade — Mas eu posso te entregar os relatórios das fichas de como está o processamento, tudo bem?
— Isso pelo menos é alguma coisa… — falei e ele assentiu — Obrigada.

Com minhas duas mãos, segurei em seu queixo e o conduzi para ficar com o rosto próximo do meu. Agora, nossos olhos se entrelaçam como nunca haviam feito antes. Eu pude entender tudo o que ele estava sentindo, e sei que de alguma forma ele também estava me compreendendo mas desviei o olhar, com receio de que ele pudesse ter lido coisas demais. Senti uma pontada no peito por saber que isso não voltaria a acontecer novamente, e isso me refiro a nossa proximidade.

Andei me assegurando que não havia ninguém para fora da cabine em que pudesse ver o que tinha acontecido lá dentro, ou ao menos, ter escutado sobre o que nós conversamos. Quando percebi que estava tudo mais tranquilo, resolvi sair após dizer um tchau com poucas palavras pra , mas parei ouvindo a sua voz.

— Não deixe de voltar, seja lá onde você for.

Deixei uma risada escapar, por que mesmo que não tenha sido intencional, espontaneamente estava “brincando” em sua fala que havia um fundo e meio de verdade. Balancei a cabeça em afirmação obtendo um sorriso de volta do homem, que agora tragava o seu cigarro. Em meio a fumaça, tanto do cigarro quanto o das chamas ardentes do meu corpo, ansiosa deixei o lugar, com destino ao único lugar que sei que independente das respostas, tudo iria mudar.

¹corsage: é um mini buquê de flores, porém também é utilizado como pulseira. É dado pelo parceiro, tornando-se uma demonstração de afeto.
²música: At My Weakest, James Arthur.



Continua...



Nota da autora: Estou muito feliz pelos comentários e a forma positiva que a fic está alcançando, jamais eu ia imaginar que em pouco tempo ela estaria no Top Fictions!.

Quero agradecer a cada pessoa que comentou, só agora entendo o quanto que isso realmente motiva a escrever, e também sou grata por cada pessoa que tira um pouco do seu tempo pra acompanhar a fic. Ah, e uma coisa que quero saber de vocês, é se nessa Dinastia vocês querem levar pra casa, o mistério ou o sarcasmo? Tomara que vocês pegam a referência, e embarquem nessa comigo. Até a próxima att.

Nota da Scripter:
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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