Última atualização: 10/08/2019

Prólogo

00. Dinastia é designada como uma sequência de governantes, um período de sucessão onde pessoas de uma mesma família permanecem no poder.


Um rosto angelical, mas que poderia se tornar em uma feição diabólica em dois segundos. Mãos frágeis, corpo pequeno e ao mesmo tempo um porte alto e forte. Tinha um sorriso torto em dias ensolarados, nos dias nublados um sorriso largo, o de canto era no frio que ela tanto ficava emburrada sem querer estar, e aquele que ela dava apenas para ele, o qual ela negava transparecer. Seus cabelos com o cheiro de flores, e a alma com o odor forte de morte. Ela era a mistura certa. A mistura em que ele se perdeu profundamente, e agora pouco se importava em gritar aos céus o quão apaixonado estava, afinal, sempre esteve. Apenas a queria. E parecia tão distante essa ideia, esse fato, essa metáfora, tudo o que relacionava a eles – de modo singelo e prévio – era difícil de definir.

Em meio a pensamentos percebeu a movimentação no prédio, estava acontecendo algo, e precisava saber logo o que era, já estava machucado o suficiente para enfrentar outra invasão. Correu imediatamente para trás da porta do ambiente em que estava. Preparou as mãos na alça da calça, pronto para tirar a arma, mas falhou por um momento e deixou a arma cair por conta das mãos trêmulas que o remédio causava, nesse momento ouviu passos e deduziu que já estavam dentro do cômodo. Atentamente, e surpreso, percebeu que não haviam mais movimentos, apenas o barulho da porta sendo aberta e ao mesmo tempo fechada bruscamente por Nait.

Ele suava frio, parecia fugir de algo. Ele levantou o celular que estava em sua mão direita sem dizer uma palavra, com o rosto preocupado, sua respiração ficava cada vez mais ofegante. Nait não vacilou, e se aproximou, agora entregando o celular nas mãos do homem parado à sua frente. Fixou o olhar e não conseguia acreditar no que vira. Porra, aquelas imagens eram reais? A sequência de fotos eram em dez, todas elas havia uma garota em um casarão aparentemente antigo, algo dentro dele apertou tanto por que sabia que não era nenhuma outra qualquer garota, era a sua.

del Rose. Ela tinha o cabelo preso, roupas formais, e todo detalhe que podia absorver, o homem o fazia. Não quis prestar atenção nos olhares curiosos que o cercavam, apenas permitiu-se sentir quando a sequência parou na última foto, e as perguntas em sua mente perturbada por demônios esgueirados surgiam. A informação era que ela estava prestes a entrar no THE-MK. OK. O homem colocou uma das mãos atrás do cabelo segurando ao máximo as suas cordas vocais para não estourá-las e não se machucar mais em quebrar toda aquela sala. OK. Foco novamente. A segunda informação questionável, por que ela estava de costas apontando o dedo do meio para a câmera? Como ela sabia que havia uma câmera?! Dude, o que ela está fazendo? Aquilo já bastava. Precisava agir mas não conseguia. Nait ao perceber a frustração no olhar, e a inquietação evidente do amigo, tomou o celular de suas mãos e guardou o mesmo no bolso. Sem dizer nada puxou uma cadeira e fez o mesmo que o amigo, fitou o chão com o olhar perdido tentando buscar alguma forma de ajudar.

— Precisamos pensar em algo — Nait sugeriu, enquanto sentia o celular vibrar mais do que o comum, não queria tirá-lo do bolso e encarar mais uma vez aquelas imagens de , ainda mais na frente do seu amigo.
— Pegue-o Nait — recebendo a ordem do homem desamparado a sua frente, ao mesmo instante, os dois olharam o aparelho, e se surpreenderam ao perceber que as imagens de já estavam circulando, não apenas no sistema do Institute de São Francisco, mas em todas as redes de todos sistemas disponíveis, detalhe: do mundo.

Logo tudo começou a fazer sentido, andando de um lado para o outro sob controle de um ser que não conhecia, sentiu o coração ser espremido, e se perguntava em como era tão estúpido assim?

— Ela quer se matar Nait — Nait olhou atentamente para o homem enquanto ele dizia com tom de desespero na voz, e complementou clareando a mente do mais novo — esse dedo do meio não foi para o pai dela. Foi para mim.

Virou as costas, sentindo cada parte do seu corpo despedaçar, pois o que Nait, ou qualquer pessoa não sabia, era que aquele gesto agradável com os dedos que fizera, foi exatamente como no primeiro dia em que eles se conheceram. Era uma mensagem. Ela tinha-lhe perdoado. Não o odiava, como foi dito tantas vezes. Havia se rendido, e mal sabia ela, que ele enfrentaria céus e inferno, tudo para tê-la novamente. A dinastia havia apenas começado, com ambos rendidos um ao outro.


Capítulo 1

São Francisco, City of California.
Exatamente seis meses antes.


O parque estava meio solitário, assim como eu estava me sentindo naqueles últimos meses, e a minha única amiga para suportar não está me caindo tão bem como antes. Me refiro a cocaína. As vezes cafeína, e bem provavelmente coca, algo que apenas os devaneios de meus pensamentos ficam distantes da realidade que às vezes era difícil de encarar. Apertei o punho sentindo a leve ardência na ponta do meu nariz e a euforia em meu corpo sentado na estreita do lago. O vento socou o meu rosto fazendo-o arder um pouco por conta do ar gélido. Abracei meu corpo com vontade nenhuma de levantar dali. Olhei as horas no relógio de pulso, e já marcava mais de oito horas da noite, sabia que precisava ir, ou me atrasaria para um compromisso com meu “querido” pai. Quando decidi vir para o parque cancelei uma pós com Ash e mais alguns amigos, e a deixei em casa com a nossa única chave, Deus, queira eu que ela estivesse por lá, ao contrário, alguém ficaria extremamente desapontada, como ele dizia tantas vezes, ainda quando raramente eu frequentava a sua casa.

Passei por dois estudantes conhecidos da University of San Francisco, eles me cumprimentaram com um breve tchauzinho, e céus, não sei como ainda existem essas baboseiras de rivalidades entre as universidades, a University of San Francisco é ótima, assim como a SF State, que é a minha faculdade, onde atualmente curso o terceiro período de Ciência da Computação.

Andei mais um pouco, até avistar meu carro, o meu querido e bom amigo. Também posso dizer que é meu amante, Nissan Altima 16, da cor prata e um retrovisor quebrado, dispenso melhor apresentação. O relógio já marcava quinze para as nove, e meu encontro com meu pai seria daqui quarenta e cinco minutos. Entrei dentro do carro, jogando a pequena bolsa com a garrafinha de água no banco de trás, em que eu estava segurando. Liguei o carro logo saindo do estacionamento, com um pouco de pressa passei dois carros que buzinaram e xingaram algumas palavras, porém não ouvi, o som estava ligado ao som de Cage the Elephant, talvez a minha banda preferida do momento, se eu não estivesse tão viciada nas músicas do novo álbum do The Lumineers.

Dei uma acelerada chegando na avenida Toun, o que me chamou atenção era que pude ter passado sem perceber em alguma rua que tinham placas impedindo os carros de passarem por conta de alguma reforma, pois não havia carro nenhum ali, nem mesmo os sinais dos semáforos estavam ligados. Bufei revirando os olhos, afinal, sério isso? Justo agora que estou atrasada. Avistei o contorno da rodovia para retornar e fazer um outro caminho em que eu não gostava muito, o mesmo era longo e demorava uns quarenta minutos a mais pra chegar em casa. Em direção, olhei no retrovisor – o não quebrado – e vi um carro totalmente preto, parecia ser blindado, e mal podia enxergar o motorista. Dei uma freada brusca, senti meu seio bater de leve no volante enquanto aquele carro desconhecido acelerava, cada vez mais. Procurei meu celular rapidamente, mas percebi que estava perdendo tempo assim quando vi meu vidro traseiro sendo quebrado, e porra, eles estavam atirando no meu carro.

Não pensei duas vezes, a aflição e o medo estavam presos em minha garganta, mas tentei me manter firme e claro, não deixaria que esses sentimentos me paralisassem. Logo afundei o pé no acelerador conseguindo ter uma distância de aproximadamente 5 metros do carro que por algum motivo havia cessado com os tiros. Minha mente gritava, mas meu corpo ficou totalmente imóvel, era como se eu estivesse vivendo algo que não era real. A cada manobra, a cada esquina, senti que eu pudesse acordar e que tudo aquilo era, de fato, real, e não um sonho, pesadelo, talvez.
Foquei nas curvas, e usei o acelerador junto ao freio como meus aliados. Os tiros retornaram, mas entre os dois carros, assim que um entrou na pista ao lado desse que atirava, os que o diferenciava era apenas o modelo, percebi que era um Evoque, blindado também. Apenas consegui concentrar em não tremer. PORRA, CADÊ A POLÍCIA DESSA CIDADE? A cada tiro, era um risco a mais do meu carro capotar ou de me acertarem. Mano, como eu fui parar aqui? Por que isso está acontecendo? O que foi que eu fiz? É O MEU PAI? Aquele maldito imprestável, ele não pôde ter soltado algo… Ele não era capaz disso.

Tentei deixar as lágrimas não rolarem, mas não consegui não chorar, haviam tantos motivos para aquilo acontecer, e eu apenas me importava com um, por que basicamente aquilo seria o meu fim. Apertei minhas mãos suadas no volante, e conduzi os meus pés. A avenida Toun eu já havia conseguido passar, agora atravessar a ponte Golden, não sei se conseguiria ser capaz, pois eu tinha duas opções no momento, conduzi-los para a ponte e correr o risco de bater nos outros carros, ou, me levar para a minha própria morte. Troquei a marcha, e pedi perdão pelo que estava prestes a fazer.

Acelerei no último, nunca havia passado de 120 km naquele carro, agora eu já estava beirando aos 200 km. Faltava exatos 3 minutos para eu me aproximar da ponte, e consequentemente eles também. Pude ver que havia dois homens no carro, mas não consegui decifrar os seus rostos, eles estavam se movimentando de uma janela ou outra para acertar o Evoque que ainda permanecia na estrada. Nossa distância, de um carro para o outro, estava maior, talvez já haviam percebido os meus planos. 2 minutos. E os tiros voltaram, mas em minha direção, o Evoque apenas se distanciava em rodopios, em um instante pensei que ele fosse capotar na pista, pois o pneu era evidente o estrago.

1 minuto e 32 segundos. OUTCH! A dor no meu braço direito ardia como se tivessem colocado uma faca de ponta fina pelando a fogo. Olhei rapidamente, e sim, isso foi um tiro de raspão!!! O sangue escorria por toda concentração, pingando em minha perna coberta. 1 minuto. Eu precisava aguentar, eles já estavam distantes. 30 segundos. PORRA COMO DÓI. Finalmente! Não haviam muitos carros, ultrapassei todos que estavam minha frente, os tiros destinados a mim acertavam os carros atrás e todos pararam em uma espécie de barreira impedindo a passagem dos supostos homens que estavam ali para me matar. Já não olhei mais para o retrovisor, porém sabia que a perseguição havia acabado. Ou não, nunca se sabe o que está por vir.

Meu estômago revirou ao ver o sangue todo caído e espalhado pelo meu braço. E estava doendo, porra, como doía. Porém eu preciso pensar. Agora. O que fazer? Como ficar segura? A única pessoa em que eu pensei em ligar era Ash, mas eu não podia envolvê-la, aquilo estava arriscado demais. Eu podia ir para um hospital, mas seria óbvio demais, algum deles poderiam estar me esperando por lá, e simplesmente “terminar o serviço”. Atravessei a ponte em uma velocidade menos reduzida, e minha cabeça já estava totalmente ferrada, se eu ousasse tocá-la sei que explodiria. Rodei algumas ruas em função de despistar e estar ao máximo longe da ponte, e estas estavam um pouco vazias, outras cheias por conta de bares e baladas. Resolvi estacionar perto de um bar, havia muito movimento, e eu poderia estar de alguma forma segura no meio de pessoas.

Tirei a jaqueta em que eu estava vestindo, ainda bem que não estava muito frio, mas ainda sim, meu corpo sentia mais do que o normal. Amarrei a jaqueta no meu braço baleado para tampar o sangue, e impedir que escorresse mais. Em movimentos rápidos desci do carro e me infiltrei em uma fila com mais ou menos vinte pessoas, todas com olhares curiosos, mas pouco me importei, apenas disquei o número de Paul no celular o mais rápido que pude.

— A onde você está, ? — assim que meu pai atendeu a ligação, ouvi.
— Eu vou te mandar a minha localização, venha me buscar o mais rápido possível. — falei em um tom preocupado, e sério. Notei alguns cochichos e me irritei — Eu estou falando sério Paul, eu preciso que você venha me buscar, eu estava indo para casa e me perseguiram, estou com o braço todo sangrando por conta do tiro que tomei, eu apenas preciso de você aqui.

Não quis dizer que precisava dele aqui, ele nunca foi um pai presente, pelo menos não para mim, mas senti que era necessário.

— Estou em Londres, — Como ele estava em Londres, sendo que iríamos em sair juntos hoje à noite? — Eu estava te ligando por isso, tive que vir resolver uns assuntos pendentes de último caso, eram importantes.
— Eu sei, papai — disse cínica — Qualquer coisa é mais importante do que a sua família, pergunte ao Ben.
— Não coloque o nome de Benjamin em suas provocações .
— Ou o quê? Você vai trazê-lo a vida, Paul? — engoli seco — Eu não preciso de você. A partir daqui, eu me viro.
— Só me diz onde você est…

Desliguei o telefone sem chances de ouvir mais alguma coisa que ele pudesse me disser. Saí do meio da fila e andei em direção ao carro não muito distante, dei uma olhada ao redor do carro e na roda de trás, o pneu não estava furado mas em qualquer momento ele explodiria, assim como eu, que logo entraria em ebulição por conta do meu estado de pós-adrenalina. O frio fez com que meu braço ardesse mais, e fiz uma careta sentindo algo no meu ombro. Assustada me virei e dei um passo para trás.

— Você precisa de uma ajuda com o seu carro? — um homem de cabelos pretos, e um cigarro na boca, que , o deixava sexy, perguntou, se aproximando. Minhas bochechas coraram levemente por pensar aquilo, porém eu poderia usar a desculpa do frio.
— Não, eu já estou indo embora — falei enquanto eu ia em direção a porta, mas percebi que ele vinha logo atrás de mim. Apenas pare de ser ingênua, ele pode ser um dos caras que estavam dentro do carro atirando em você, dizia minha mente sem efeitos bárbaros.

Andei não dando muita importância, mas ele segurou no meu pulso, na tentativa de me parar, porém fui mais forte, e soltei bruscamente a minha mão da dele. Os passos eram longos, então ele parou em minha frente com as mãos na porta em que eu tentava abrir. O que esse cara queria, afinal? A minha mente estaria certa?

del Rose — ele disse praticamente fazendo eu sentir todo o cheiro do seu hálito de menta misturado com cigarro.
— Quem é você? — perguntei sentindo o medo tomar conta de mim, mas não demonstrei, permaneci com a postura pedindo aos meus bons deuses para que minhas pernas parassem de tremer.
— Eu estou aqui, mas não é por você — sua voz cada vez ficava mais baixa — Facilitei a vida dos ²roscas, eles me devem uma agora.
— Do que você está falando?
— Você não precisa saber disso agora. Faça o que eu disser. E confie.

Assenti com a cabeça, e percebi a sua mão em minha cintura. Fechei os olhos com medo do que poderia vir pela frente, mas, de qualquer forma, estranhamente, eu sabia que ele não iria me machucar.

— Entre no carro, mas antes disso, finja uma cara de brava e faça algo que demonstre que você está com raiva de mim.

Sem saber o que de fato fazer, o olhei nos olhos, aqueles olhos tão escuros e indecifráveis… Juntei toda minha raiva, e chutei sua barriga, me livrando da sua mão em minha cintura. Percebi um sorrisinho no canto dos lábios do garoto, era óbvio que aquela expressão de dor era fingida, nenhum soco que eu desse em alguém pudesse doer, não tinha força nem para levantar dois pesos. Virei abrindo a porta do carro, e entrei. Sem mais delongas, mostrei-lhe o meu dedo do meio, ele deu outro sorriso, mas agora era um sorriso espontâneo, fazendo com que minha vontade era de sair daquele carro e ir perguntar se eu o conhecia de algum lugar, e como ele sabia o meu nome, digo, o meu verdadeiro nome.

Coloquei as mãos na cabeça percebendo um pequeno corte, olhei para o lado, e vi muitas pessoas se aproximando do meu carro, não consegui distinguir quem era e muito menos o que estava acontecendo por que senti meu corpo pesar sobre o banco e a vista cada vez mais embaçada. Me rendi, encostando por completo na capa evidentemente suada, deixando apenas meus ouvidos atentos, logo após de fechar os olhos por completo somente quando vi que o perdi de vista.

*¹damn: é uma palavra expressiva em inglês com o significado de “merda” “poxa” dependendo do sentido e contexto da frase ou situação.
*²roscas: gíria para o significado de policiais, autoridades da lei
.


Capítulo 2

“As águas percorriam pelo Green River, calmo e esverdeado desde sempre. A minha surpresa foi quando vi de longe Ben descer com uma cesta, apesar de estarmos ali para festejar, ele queria cumprir uma de nossas tradições: comer as maçãs do pé da Dona Áurea enquanto sentávamos à beira do rio. Sorri largo, deixando meu corpo ser abraçado pelo meu irmão, e logo nos sentamos como planejado. Trocamos poucos diálogos, nessa altura eu já podia imaginar o quão louca a sua vida estava, mas da mesma forma, sentia orgulho por ver meu homenzinho crescer. Nos distraímos observando os patos, e rimos muito com isso. As maçãs acabaram, mas a música começou. O som era da festa, já estávamos ouvindo fazia um tempo, mas algo nos chamou a atenção, que foi a nossa música. Dear God, Avenged Sevenfold. Como uma proposta indecente aceitei o pedido de meu irmão assim que nos levantamos, e dançamos lentamente como se fosse a última vez. E sim. Essa foi a última dança que fiz com meu irmão, e se eu pudesse de alguma forma saber, teria eternizado aquela dança como se também fosse a última de minha vida...”


— Onde estou? — em um tom baixo, consegui dizer alguma coisa. Desesperada e com uma força que meu corpo negou em produzir, tentei abrir meus olhos, mas tudo o que eu conseguia ver era um borrado, as imagens tudo distorcidas.

O pânico tomou conta do meu corpo, comecei a tentar me impulsionar pra frente, mas senti algumas mãos me segurando. Onde eu estou, afinal?

, amiga — reconheci a voz de Ash, assim me esforcei mais um pouco para abrir os olhos — está tudo bem agora, ok? Você está em um hospital, eu estou aqui, seus primos Tom e Kaith também estão, e até mesmo o seu pai. Você está segura agora.

Senti a mão dela acariciando o meu braço esquerdo, queria poder fazer o mesmo mas eu não conseguia ter forças nem para abrir os olhos.

— Você quer que eu vá chamá-los? — Ash perguntou mas eu neguei com a cabeça. Eu gostaria muito de ver meus primos, mas o meu pai, de modo algum. A última vez que eu marquei algo com ele, acabou aqui, idiota em uma cama de hospital sem saber porra nenhuma do que estava acontecendo.

Minha cabeça latejou, resmunguei baixo, mas Ash percebeu. Aos poucos eu estava conseguindo abrir os olhos definitivamente, e a tontura estava passando.

— Ash, me diz o que você sabe — falei enquanto ela me olhava e se sentava ao meu lado da cama.
— Eu acho melhor você descansar mais um pouco , não é bom você ficar falando sobre essas coisas agora — ela disse e novamente neguei com a cabeça.
— Eu preciso saber, isso vai apenas me ajudar — pedi agora segurando em sua mão, ela me olhava aflita e receosa do que dizer.
— Ok ok, mas se a sua família perguntar finja que você não sabe de nada, não quero ser a linguaruda, tá? — demos um riso fraco quebrando o clima tenso que estava no ambiente — Até que parte você lembra de ontem à noite?
— Eu estava no meu carro, e porra, Ash, o meu carro, destruíram ele — lamentei ao lembrar do meu carro, eu queria o filho da puta morto que fez aquilo com ele — Tirando isso, eu conversei com um cara, foi uma conversa bem estranha e breve, então eu entrei no meu carro, e eu apaguei totalmente, Ash.
— Pois é , te encontraram desacordada, aliás, foram várias pessoas, até algumas relataram que você teve uma briga com esse cara aí mesmo. Inventaram muitas coisas por que logo te reconheceram por conta dos jornalistas que estavam por lá — Ash dizia e eu prestava atenção em cada detalhe — Eu estava na casa do Luke e como nós havíamos combinado havia mais alguns amigos, tinha deixado a chave embaixo do nosso vasinho, e quando era quase umas dez da noite os noticiários começaram a bombar, assim como a casa do Luke. Do nada começou uma galera a me gritar, falando “a sua amiga está na tv”.

Imaginei a cena e ri sem querer de Ash me contando, ela me deu um leve tapa na perna, me fazendo rir mais. A dor estava dormente e os sentidos do meu corpo já estavam aguçados, quando mencionei em meu pai ter soltado algo, quis dizer, sobre a minha pessoa. Aqui em São Francisco, sou conhecida como Derpee, que é o sobrenome da minha mãe, assim como consta na minha identidade falsa que Paul me deu, assim que me mudei para cá.

— Então, logo me preocupei. De cara reconheci o seu carro e levei um susto do caralho, , no início eu achei que você estava tirando racha, mas eu pensei, logo a toda certinha fazendo racha em uma das avenidas mais movimentadas de São Francisco?! — começamos a rir mais, definitivamente eu nunca participaria de um racha, e ninguém precisava me conhecer para saber disso — Nisso eu liguei para o número de emergência que você me deu uma vez, mal sabia eu que era do seu “amado papai”. Ele estava te procurando que nem um doido, até que no mesmo momento chegou uns caras bem grandes na festa e perguntaram meu nome, eu fui com eles e encontrei o seu pai. Ele é vistoso, hein?
— Nossa, que nojo, Ash. — fiz uma careta e a menina riu um pouco alto, chamando atenção das pessoas do lado de fora da porta.
— Mas, Ash, não foi um racha e você sabe disso — ela assentiu, mas torceu o nariz, e quando ela torce o nariz eu sei quem tem coisa.
— Por algum motivo o seu pai disse que foi um racha , eu tentei avisar pra ele que você não faria aquilo, mas ele não me deu ouvidos — como assim?! Só conseguia xingá-lo em pensamentos, como ele tem a ousadia de dizer que era um racha? Eu levei um tiro no braço, porra!
— Ash, mas como acreditaram nele? O meu carro tinha marcas de tiros e tiros de verdade! Eu estou com um tiro no meu braço, mesmo que seja de raspão, é um tiro. E as câmeras, elas podem assegurar que estou dizendo a verdade — falei a olhando.
— Olha, eu não sei como ele convenceu, mas a mídia apenas repete que pais todos os dias enfrentam batalhas de jovens irresponsáveis e blá blá blá. Sendo que , você esperaria o quê? Mesmo que você fosse a responsável disso, você não seria punida, o seu pai é o governador de toda São Francisco, ele te livraria de qualquer uma.
— Eu sei — falei sentindo uma pontada no peito, não era tão simples daquela forma, ele não era apenas um governador, ele era muito mais do que aquilo — Obrigada Ash, de verdade. Desculpe por estar aqui. Aliás hoje é o seu primeiro discurso em uma sala de aula com o Erick, aquele professor chato que sabe tudo.
— Eu não o acho chato — ela disse fazendo um movimento com as mãos, ECA — É tão suculento , só não te ofereço pra provar, porque ainda está no meu prato.
— Obrigada, mas eu não como carne — rimos juntas, apesar de Erick fazer bem para Ash, eu ainda tenho medo de algum dia alguém ficar sabendo daquele envolvimento aluna e professor e dar mal para os dois, aliás que ele é doze anos mais velho que ela. É claro que para mim não há nenhuma restrição, a idade realmente não importa nada, desde que as duas partes são responsáveis e decididas do que querem. Mas infelizmente, a maioria ainda não pensa desta maneira.

Ficamos conversando mais alguns minutos, até que Ash precisou ir, com isso, logo os meus primos chegaram. Tom, era o mais velho da nossa turma, nossa diferença era de cinco anos, depois Ben e, Kaith, sendo a mais nova. Desde sempre tínhamos uma ligação incomum, são a única família por parte da minha mãe, éramos como irmãos na infância, mas nos separamos quando minha mãe faleceu e então mudamos para Londres. Nossos contatos eram em datas comemorativas apenas, porém eles tinham um lugar especial no meu coração, de Ben e do meu pai. Retornei para São Francisco após a morte de Ben, em dezembro do ano passado, meu pai continua em Londres, mas está sempre aqui por conta da política e os seus negócios que eu não gosto de me envolver ou ter consciência disso.

Ficamos duas horas conversando e fazendo brincadeiras, eu sentia muita a falta deles e ainda mais quando ficávamos juntos, a saudade era ainda maior, mais de Ben, por que sempre fomos nós quatro e eu tenho certeza que não sou apenas eu que sinto a falta dele. Fiquei sozinha comendo e assistindo um pouco de Tv, logo me vi pensando em como eu fui parar ali naquela cama de hospital, em um sábado, onde eu provavelmente estaria em casa afundando ainda mais nos livros da Rupi Kaur.

Ouvi um barulho de dois toques na porta e logo ela se abriu. Era Paul. Meu pai. Senti um desconforto ao vê-lo, a última vez foi no funeral de Ben. Ele se aproximou e me ajudou a tirar a bandeja com as comidas do meu colo.

— Como você está? — ele me perguntou, me olhando. Percebi que seu cabelo estava um pouco mais curto e com alguns fios grisalhos. O seu rosto continuava o mesmo, tinha apenas umas marcas da idade.
— Estou muito bem, apenas esse braço que ainda dói um pouco — falei e ele deu uma risada, por mais em que eu não gostava da presença dele, eu ainda não sabia como reagir, ou o que falar certamente — As enfermeiras me disseram para não me esforçar muito, assim a recuperação será mais rápida.
— Eu quero que você vá se recuperar em casa, na sua casa — ele me falou, como ele poderia pensar que eu aceitaria aquilo?
— Eu posso saber por quê? Eu tenho a Ash! E a Marga pode ir me ajudar em alguns dias. Pensei que estivesse claro para você que, naquela casa, eu não piso.
— Você vai , eu não quero ter uma discussão com você e já está decidido — Paul se levantou, não demonstrou um sentimento qualquer em me olhar.
— Me dê um motivo para ir, Paul.
— Eu odeio que você me chame de Paul— falou se aproximando mais uma vez, com uma cara não tão muito boa.
— Isso não é um motivo para eu ir para sua casa em Londres. Isso tem algo a ver com o que aconteceu ontem?

Paul olhou previamente para o teto, estava explícito em sua cara que sim.

— Eu não queria conversar com você sobre isso agora, mas para a sua segurança, apenas aceite . Amanhã você terá alta e as suas coisas já estão arrumadas. Vamos ter muito o que resolver. Apenas descanse.

Desviei o meu olhar irritado do dele e logo ouvi o barulho da porta se batendo com um pouco de força. O que significaria aquilo de “vamos ter muito o que resolver”? Ou algo relacionado com a minha segurança? Nunca fui envolvida com nada que ele fizesse, ou deixasse de fazer, nunca foi meu assunto, sempre que pude me manter longe, até mesmo da pessoa Paul, eu me mantinha. Algo estava muito estranho e a única coisa que poderia me tirar desse lindo de um belo de um karma, eram as perguntas que rodeavam a minha cabeça. Pensamentos que me levavam principalmente a noite anterior, questionando: quem era aquele homem? Eu iria vê-lo novamente?

***

— Tem certeza que não precisa de ajuda, ? Eu posso ir pra casa do seu pai e ficar com você por lá — eu ri com o telefone na orelha, mal sabia Ash que eu já estava em Londres.
— Amiga, não precisa, de verdade — falei ouvindo ela aquietar do outro lado da linha — Apenas quero que cuide das plantas, e use todas as minhas roupas. Só não leve nenhum boy, você sabe qual, pra minha cama. E se levar, Ash, eu te mato!

Gargalhamos enquanto eu trocava o celular de lado da orelha. Percebi que o caminho estava começando a ficar conhecido, então decidi desligar.

— Eu preciso desligar, te ligo assim que der — falei tentando não olhar para a janela — Amo você Ash, se cuida!

— Também te amo ! Se cuida você, louca.

Ri sentindo o coração apertar, Ashley é uma das melhores pessoas que eu poderia conhecer e ter na minha vida. Ela sempre foi uma amiga prestativa, responsável e muito parceira. Nós nos conhecemos no campus e ela já conhecia Ben, levamos um susto quando descobrimos que estávamos na mesma sala de aula, aliás nossos cursos eram diferentes, mas empreendedorismo fizemos juntas, e acabou se tornando uma amizade muito grande, ela de fato foi e é muito importante para mim, e para minha família… Pouco que restou dela.

Finalmente chegamos, cada músculo do meu corpo se contraiu ao ver que tudo estava como eu havia deixado há dois anos. Marga me esperava em frente da casa, ela e mais uns seis empregados do meu pai, eles realmente cuidavam muito bem da casa, a humilde casa em que cresci. Olhei ao redor, a entrada com o portão de metal cinza permanecia intacto, os lírios brancos que eram os meus preferidos estavam preservados ainda na entrada da casa, por sinal, muito bem cuidados. A fonte em frente da casa estava desligada, mas totalmente limpa, não havia uma sujeira na água que no momento estava parada.
Marga veio em minha direção, junto a dois homens do meu pai para pegarem uma mala pequena que eu trouxe, aliás minha recuperação seria rápida, nesta mesma semana pretendo voltar para São Francisco e ir frequentar minhas aulas e trabalhar nos meus afazeres.

— Como você está linda , ²schatz — sorri abraçando a mais velha. Sua aparência parecia cada vez mais jovem apesar da idade que a mulher tinha. Seu cabelo agora estava curto, repicado um pouco abaixo da orelha. E suas sardas continuavam destacando o rosto redondo, assim como algumas marcas da vida, como ela mesmo dizia, até por que a vida não foi fácil com Marga, filha de alemães rústicos, apenas pôde sair de casa para trabalhar quando ficou viúva.
— Minha schatz, Marga, você está mais ainda! — falei e percebi seus pequenos olhinhos brilhando. Como eu amo essa mulher. Enquanto andávamos, ela disse algumas coisas que não prestei muita atenção, apenas observei as paredes conservadas, com os detalhes de tijolo a vista e as janelas de madeira escura, por ela toda. Passamos pela porta imensa, e dei de cara com as duas escadas que se encontravam uma com a outra, a “monstruosa”, como eu e Kaith falávamos, por ela ser muito grande.

Os móveis continuavam os mesmos, houve apenas pequenas mudanças, especialmente no meu quarto, antigo quarto. A parede roxa com tons azuis me fizeram rir, cada parte daquele quarto tinha cada tipo de fase minha, era apenas olhar para a penteadeira. Metade tons de rosa e verde, outra totalmente preta com tentativas de voltar a cor branca, porém evidentemente as tentativas foram mal concluídas.

Passei a mão pelo pequeno quadro com o mural de fotos que eu tinha, os meus amigos do ensino médio, meu pai e minha mãe no casamento deles, eu e Ben, a épica foto de Tom vencendo Ben no xadrez e a cara de emburrado de Ben por perder, ele odiava isso. A nostalgia tomou conta de mim assim que vi Marga escorada na porta me observando.

— Aqui é vazio sem vocês — ela disse se aproximando com uma bandeja cheia de sanduíches, que me deu uma fome repentina — Mas me acostumei, agora,Paul, eu já não sei.
— Por que não sabe? Ele disse algo?
— Ele não diz, apenas o ouço. Eu não sei se posso te dizer isso, mas não conte nada — assenti com receio do que ela poderia falar — Tem dois meses que ele apenas consegue dormir assistindo os dvd's de vocês quando eram crianças, eu já vi, eu ouço sempre as risadas dele.
— Aqueles dvd's da caixa laranja?
— São todas as caixas.
— Ele sente falta de Ben, essa é a forma dele lidar com a dor Marga.
— Ele também sente a sua falta, schatz.

Abaixei a cabeça e comi um dos sanduíches que Marga me trouxera, percebi que ela se afastou e começou a desfazer a minha mala.

— Como você conseguiu lidar? — perguntei e ela me olhou sem entender — Eu digo, com a sua dor.
— Ah, eu tento me distrair com as coisas que tenho que fazer por aqui, schatz, não penso muito sobre.
— Queria ser como você.
— E você minha querida, como lida com a sua? — ela perguntou, ri com ironia como se a minha resposta já fosse óbvia.
— Nunca lidei Marga, eu não sei como fazer isso.

Ela me abraçou e logo me deixou sozinha no quarto. Já estava anoitecendo, percebi ao olhar para a grande janela do quarto. Peguei umas roupas, e me dirigi ao banheiro. Tomei uma ducha com cuidado ao me despir. Refiz os curativos no braço, alguns cortes na testa já estavam se cicatrizando. Fui para o quarto já vestida, e ouvi o toque na porta.

— era meu pai. Me sentei na pequena cadeira próxima da minha cama, e ele já estava dentro do quarto — Me desculpe não ter estado aqui para te recepcionar.

Assenti com a cabeça, ele parecia inquieto.

— Quero jantar com você ainda hoje, você aceitaria?
— Sim, eu quero saber o que você tem a me dizer — falei me levantando.
— Desça daqui uma hora — ele disse se virando para sair do quarto — Ah.. Estou feliz que você esteja aqui.

A porta bateu com um pouco de força, nunca tinha sentido aquilo, mas queria abraçá-lo, e sinceramente eu não me recordo quando foi a última vez que dei um abraço nele.

As horas se arrastaram, vesti um shorts jeans e uma blusa branca com alguns detalhes de renda. Coloquei um chinelo que eu nem me lembrava mais que o tinha e prendi o cabelo num rabo de cavalo alto. Desci sentindo o cheiro do macarrão, o coração pulou ao lembrar daquele cheiro, com certeza iria ter queijo.

Fui em direção a sala de jantar e não me agradou ao ver meu pai e mais dois homens engravatados. O jantar não seria apenas eu e ele? A raiva começou a crescer dentro de mim e evidentemente em meu semblante.

— Olá — Paul disse aguardando com que eu me sentasse — Acho que você deve estar se perguntando quem são esses homens.
— Prazer , sou Viestel Lorac — ele disse estendo a mão para mim, que fiz o mesmo.
— Sou Jamber Bannet, prazer querida — ele falou com o sorriso no rosto também estendendo a mão em forma de cumprimento. Jamber é o pai de Tom e Kaith, o reconheci assim que pousei os meus olhos sobre ele. Sem entender a presença de ambos homens olhei para Paul.
— Preciso que seja compreensiva — senti meu coração sair da boca, eu teria mais perguntas, mais questionamentos em minha cabeça? — Na noite em que eu discutiria o que nós vamos conversar hoje, foi quando você sofreu aquele atentado. Nós não chegamos a conclusão de que tentaram te matar, pois você mesma disse nos depoimentos aos nossos que eles conseguiram chegar muito perto e pararam com os tiros.
— Aos nossos? Como assim? — perguntei atordoada.
— Apenas confirme. — Viestel disse parecendo impaciente.
— Sim, isso aconteceu — falei olhando para os dois homens — Vocês são o quê? Polícia? Advogados? É por isso que estou aqui?

O homem que se apresentou como Viestel riu em deboche olhando para o outro do seu lado, que prestava atenção em mim.

— Não, nada disso — Paul respondeu fazendo com que Jamber o olhasse com reprovação.
— Somos malditos mafiosos aliados da sua família, querida — assustei apertando minhas mãos que estavam escondidas entre minhas pernas, Paul não parecia satisfeito com a resposta de Jamber, por outro lado, Viestel aumentou o seu sorriso irônico.
— O que estou fazendo aqui Paul? Eu não faço parte de nada disso.
, escute. — ele falou me impedido de levantar e me retirar do local — Nós achamos que algumas informações foram espalhadas da alta sociedade, e você está envolvida nelas, por isso, resolveram eliminar você, ou dar um susto em nós.
— Esse é um dos pontos, mas têm mais coisas, e…
— E me deixe, Viestel, eu quem vou conversar com ela — Paul o interrompeu.
— Quais são as outras coisas? — perguntei sentindo um pouco de medo.
— Bom, para permanecer em nossa sociedade requer algumas exigências e provas de fidelidade — Paul falava como se estivesse escolhendo as palavras e não era apenas eu quem estava percebendo isso — Uma das primeiras, é que as famílias pertencentes de alto poder, não apenas o líder, mas os seus herdeiros precisam passar por testes e serem avaliados, para que um dia sejam líderes e honrem o nome da família. E eu te poupei disso pela sua decisão. Você como mais ninguém sabe.
— O que você está querendo dizer com isso? — bati a mão com força na mesa expressando como eu estava irritada por não entender onde ele queria chegar!
— Chamamos de Institute, ou melhor, IMAM. É o Instituto Mundial de Aprendizes, são membros de famílias importantes em nossa sociedade. — Jamber falou me entregando uma pasta preta com as iniciais, recusei, mas da mesma forma ele colocou do meu lado.
— Pare de chamar isso de sociedade, vocês são uma máfia, são criminosos!
, não fale as…
— Paul, você quer que eu vá para este lugar? Espera que eu seja uma de vocês? Desde sempre eu nego fazer parte de qualquer coisa que te relaciona, porque além de ser errado, foi isso que matou o meu irmão, isso afastou e matou a mamãe, é tão difícil você compreender isso?

Me posicionei ao perceber que eu começaria a chorar na frente daqueles homens. Não podia. Precisava me manter forte, não demonstraria nenhum tipo de fraqueza ou que aquilo me abalava tanto. Mas da mesma forma, Paul sabia como eu estava totalmente machucada.

— Eu entendo , mas você precisa deixar um pouco esse orgulho, deixar a sua raiva de lado — Paul falou bebendo a água do seu lado — A condição diz que é obrigatório que o filho primogênito compareça, Ben iria neste ano.
— Por que Ben iria? — senti uma pontada forte no peito — Eu sou um ano mais velha que ele. Eu sou a sua primogênita.
— Ele iria no seu lugar , ele também, assim como eu, não queria que você se envolvesse.
— Como isso é possível? — perguntei.
— Anunciamos a sua morte em toda rede. — Jamber disse com tranquilidade me assustando.
— MORTE? COMO ASSIM? — praticamente gritei, como eles poderiam ser assim?
— Ainda estávamos pensando em como contatá-los que você não compareceria, nesse meio tempo, Ben estava vivo — Viestel falou com desconforto — Tivemos a ideia de fazer com que a sua imagem sumisse, apagamos os seus dados na faculdade de Londres e qualquer outra pista, te demos uma outra identidade, caso eles tentassem entrar em contato com você ou tentassem te encontrar, ou seja, você é como uma morta para eles.

Quando fui morar em São Francisco, Paul me deu realmente uma nova identidade, não era diferente do meu nome, ele apenas havia acrescentado um novo sobrenome e alegou que seria pela minha segurança em um lugar em que ele era um político de figura pública, e meios poderiam me fazer mal por suspeitaram que eu fosse algum tipo de parente dele. Tentei não surtar, mantive toda minha raiva dentro de mim mesma, não queria explodir. Eu não podia. E fora que Ben estava disposto a fazer aquilo por mim, talvez seja por isso que ele está morto. Por minha culpa.

— Eu conheço esse olhar, — Paul disse me olhando e tocando na minha mão, mas tirei ela do seu contato — Seja lá o que você estiver pensando, isso não envolve.
— Como não envolve? Meu irmão faria isso por mim! Talvez seja por isso que vocês não estão conseguindo ligar os pontos, eles descobriram e o mataram!
— Quando eu digo que você é morta para eles, eu falo sério — Viestel falou me intimidando, mas não demonstrei nenhum tipo de ação contra ele — Quando ligamos dizendo que você não compareceria, por que estava morta, culpamos nossos inimigos e eles acreditaram quando mandamos a cabeça de um deles.

Levei a minha mão até a boca, sentindo uma pontada no estômago, eu não conseguiria mais me manter firme. Precisava de ar. Aquilo estava me sufocando.

— Eles estavam convencidos da sua morte e por isso todas as papeladas foram feitas no nome de Ben, de todo custo ele iria em seu lugar — Jamber continuou a fala de Viestel, Paul apenas observava e aquilo me angustiava cada vez mais — Porém, aconteceu o que aconteceu. Esperávamos que eles ligassem dando o luto, mas não o fizeram.
— Por quê?
— Eles vieram pessoalmente e sabem sobre você, sobre estar viva. Sobre o que fizemos. — Paul disse abaixando a cabeça, como se estivesse falhando.
— Foram eles que tentaram me matar? É isso? — perguntei me levantando, aquilo bastava para mim.
— Não! Nós temos certeza que não foram eles. Eles não tinham ordem para isso. Os principais líderes do IMAM não permitiram, pois nós já havíamos feito um acordo antes de alguns descobrirem de fato.
— É por isso que ainda não descobrimos, mas estamos chegando perto, você tem que se certificar de que foi aquilo mesmo que aconteceu naquela noite, se não tem algo a mais — meu corpo paralisou, eu não tinha contado sobre o garoto que me “ajudou”. Mas estava convencida que não contaria, ele fez um bem a mim, então queria fazer a ele, por mais difícil que seja.
— Qual é o acordo, Paul?
— Ela não te chama de pai? — Viestel perguntou olhando para Paul, revirei os olhos assim como meu pai. Jamber apenas riu digitando algo em seu celular.
— Para a sua proteção, a proteção da família, e os seus amigos próximos, você de qualquer forma terá que comparecer.
— E se eu decidir não ir?
— Você não tem escolhas linda, você ainda não entendeu isso? — Viestel disse se levantando com o seu copo de whisky — Se você não for, o legado do seu pai, da família Del Rose, se perderá por completo, até não restar nada. E as ameaças a sua família serão constantes, aos seus amigos também. Esqueça Londres, esqueça São Francisco, é melhor dizer isso as pessoas próximas também.
— O que faz você confiar nesses homens, Paul?
— Eles são da família também , apesar de terem um legado com um outro ssobrenome. Tom e Kaith são filhos de Jamber e você sabe disso até então por que sua tia também era da sociedade, quando teve as crianças decidiu se afastar. Já Viestel, ele é casado com uma de nossas primas russas. Além de que, são famílias que há décadas se mantém sendo a nossa aliança com mais fidelidade e transparência.

Me surpreendo a cada informação que recebo, tudo aquilo estava acontecendo ao meu redor, debaixo do meu próprio nariz e nunca sequer percebi, nunca estava informada, achando que nem sabiam o meu nome, que não sabiam o meu paradeiro, e foi por isso que decidi ir para longe, mas isso não deu certo. Nem um pouco certo. Tudo tinha um plano, e muito menos desconfiei disso.

— É muita coisa para processar, eu entendo — Paul disse, e realmente era, eu estava sentindo o meu estômago doer de tamanha pressão, e o peso daquelas coisas todas cairem em cima das minhas costas. Precisava de uma resposta. Precisava saber o que fazer. Todas minhas forças queriam lutar para proteger a família, para proteger meus amigos, mas eu sei que não conseguiria, alguns contatos de confiança de meu pai ficariam ao nosso lado, porém outros que são a grande maioria se voltariam contra e ficariam a favor da sociedade, IMAM, seja lá o que isso for.
— Quando eu partiria? — perguntei, e na mesma hora, a atenção deles se voltaram para mim.
— Amanhã.
— AMANHÃ? COMO ASSIM EU IRIA AMANHÃ?
— Não grite , nós vamos te explicar tudo, você terá muitas informações. — Paul se levantou me olhando.
— Por que não me falaram antes? Eu não tenho tempo para pensar nisso, não tenho tempo para nada! Como eu posso decidir algo assim? Aqui e agora?
— Tentamos, mas você foi parar em uma cama de hospital. Você precisaria estar segura para saber. — Jamber respondeu a minha pergunta calmamente.
, preste atenção. Você precisa ser atenta em cada coisa que dissermos, pois quando você pisar naquele lugar, sofrerá e arcará com tudo isso que aconteceu.
— Por quê? O que podem fazer contra mim naquele lugar?
— Não é bem assim… É que todos acham que será Ben representando a nossa família, acham que você está morta. Apenas os grandes sabem sobre você, e sobre Ben.

A noite inteira absorvi cada palavra, cada informação, e a cada momento eu queria fugir. Ouvi diversas vezes que eu poderia conseguir mas senti medo, hoje mais cedo conversando com Marga admiti que não sei como lidar nem com a dor que causou a morte do meu irmão, então como eu conseguiria ir para um lugar sem conhecer ninguém? Um lugar cheio de pessoas criminosas, pessoas que já mataram outras, experientes em armas, em facas, em todos tipos de forma de luta. Apenas me sinto como uma pessoa normal, como fui a vida inteira, e sempre me neguei a isso, sempre. Porém, ouvindo aqueles homens, inclusive Paul, eu percebia em suas palavras que algo faltava, mas isso era apenas o meu consentimento, o meu particular sabia que eu deveria fazer aquilo.

Inúmeras vezes ouvi Ben me dizer que eu era forte e faria tudo por ele. O que não pude fazer em vida, o honraria em sua morte. Apertei os olhos os fechando por completo, apenas vendo o escuro e assim quieta na escuridão, consegui me recordar de uma lembrança que sonhei enquanto estava apagada no hospital. Não evitei as lágrimas assim que abri os olhos imaginando que Ben poderia passar por aquela porta e viria me contar algo inédito do seu dia para ficarmos sentados em minha cama por horas. Para conseguir dormir cantei baixinho, Dear God, mais uma vez…

A lonely road, crossed another cold state line. Miles away from those I love, purpose undefined. While I recall all the words you spoke to me, can't help but wish that I was there. Back where I'd love to be.” (Uma estrada solitária, cruzou outra linha fria de estado. Milhas de distância daqueles que eu amo, propósito indefinido. Enquanto me recordo de todas as palavras que você me falou, não posso evitar desejar estar lá, de volta ao lugar onde eu amo estar).


*¹dude: significa “cara/mano”, em inglês.
*²schatz: é “tesouro”, “precioso” em alemão.
* Clique para ouvir: Dear God, Avenged Sevenfold


Capítulo 3

"I.M.A.M / Washington, DC – USA / since 1902.
Honra. Guerra Assimétrica. Sófis & Alliance. O Sangue acima dos Ditados."

A brisa fria da manhã de Londres me acompanhou até onde estou, após me despedir de cada canto daquela minha casa, pois mesmo que eu pudesse enganar aos outros que eu seria a mesma pessoa ao voltar para lá, eu sei que não posso enganar a mim mesma, também sei que nunca vou pisar da mesma forma como antes em casa, ou em qualquer outro lugar, era como se eu estivesse me despedindo de quem sou agora. Em meio a mil pensamentos, abracei contra o meu corpo a pasta preta que Jamber havia me entregado ontem, estava comigo dentro do carro que me levava do aeroporto de Washington, DC/EUA até o ponto de encontro com um conhecido de meu pai, para que ele me levasse ao IMAM e me passasse algumas instruções. Desde a fundação em Toronto, decidiram estabelecer um lugar fixo, e então, a melhor opção foi Washington. Me recordei das despedidas com Marga, mas talvez essa tenha sido a mais difícil, e com meu pai também, de qualquer maneira. A família Del Rose em si estava em perigo, não apenas nós, os líderes, mas também toda descendência, e querendo ou não, eu sabia o que tinha que fazer.

Dei mais uma olhada na pasta, e li em voz baixa algo que me chamou atenção.
“Toda a rede é obrigatoriamente responsável por checar as famílias ativas na sociedade. Ao completar vinte e três anos, legados de níveis superiores e inferiores há de comparecer. Exceções apenas para legados em que não possuem continuidade de geração para geração, sendo assim, automaticamente retirados da sociedade com punição suprema. É de total responsabilidade nascer e morrer para a rede. Fundadores.”

A cada página, coisas que Paul me contou sobre o IMAM, faziam cada vez mais sentido. Era como refrescar a memória. E tirando o fato, de que o sobrenome que carrego é de uma família Fundadora e isso eu sempre soube. Talvez tenha sido por este motivo que ainda estamos todos vivos após tudo o que aconteceu.

Chovia sem parar, coloquei um sobretudo de couro cobrindo a blusa branca que eu vestia por conta do frio. Estava com uma calça clara de coz alto que ficava justa no meu corpo, e por isso gostava tanto dela. O meu tênis era um vans preto como de costume, e me sentia confortável desta forma. O meu braço já estava quase recuperado, porém ainda sentia uma dor se eu o forçava, e incomodava demais. Desviei o olhar para a janela a minha esquerda, entramos em uma rua um pouco isolada, o motorista dirigia atentamente por conta da chuva, e isso me tranquilizou um pouco.

Vi dois carros pretos, fora deles havia uma mulher com aparência de quarenta anos, seu cabelo estava preso em um coque, usava um vestido verde escuro bem formal. No outro, um homem com os cabelos grisalhos jogados para o lado e um terno com gravata, também formal. Ambos com guarda-chuvas em mãos.

O carro parou próximo a calçada em que eles estavam, o motorista saiu rapidamente com uma sombrinha abrindo a porta para mim. O agradeci, e em seguida fui conduzida pela mulher, enquanto o homem levava as minhas malas e colocavam em seu carro.

— Me desculpe, mas eu não iria com ele? Voce é o Oshylei, certo? — perguntei antes do motorista da mulher fechar a porta.
— Sim minha querida, mas você não irá com ele. — a mulher respondeu, e vi o homem abaixar a cabeça negativamente, antes da visão dele sumir por ter a porta fechada em minha cara.
— Paul…
— Não importa o que seu pai disse, pessoas importantes precisam conversar com você, e nós vamos agora, ande logo Aiden, quanto antes chegarmos será melhor — ela disse me assustando um pouco, como era impressionante a intimidação que aquela mulher passava. Mas não senti medo, me coloquei firme e não deixei com que percebessem a pasta, a coloquei atrás do meu sobretudo, antes que por um acaso quisessem tomá-la.

***

Percebi que chegamos quando a mulher pegou o celular e discou um número dizendo que era para abrirem os portões X. O carro entrou em uma estrada de terra, e passou por um caminho no meio da floresta, com certeza ele já tinha feito esse caminho inúmeras vezes. A sensação era estranha, por mais que o caminho condizia com toda a descrição em que li na pasta, ainda senti uns calafrios. Em cerca de 5 minutos, a estrada era cercada por árvores mas já estava asfaltada, tinha postes com câmeras em todo lado, até nas árvores pude identificar pequenas câmeras. Quanto mais perto chegávamos pude ver uma enorme faixa de boas vindas com um jardim no meio do estacionamento, haviam vários carros, jovens com malas nas mãos, pessoas se cumprimentando e conversando, era como se estivessem entrando de fato em uma “faculdade”, até me recordei em quando ingressei na SF State em São Francisco, era bem semelhante. O estacionamento ocupava todo o espaço de entrada para o prédio principal, que era capaz de visualizar através das enormes árvores. Este tinha uma escada enorme, com acesso há vários tipos de reitorias, como a mulher me explicou brevemente no carro. Demos uma volta em volta do prédio, e logo atrás era possível visualizar vários outros, no que pude contar eram cinco, todos compostos por uma decoração de granito fosco em um tom branco gélido, com estruturas personalizadas em quatro andares. Havia um grande campo de futebol/basebol, seja o que eles jogam por lá, com arquibancadas por todo lado. Além dos prédios, próximo ao campo, haviam também grandes salões imitando uma quadra.

O carro se aproximou de um lugar em que não pude identificar muito bem, ele já havia dado a volta por todo o espaço. A mulher digitou uma senha, dois portões se abriram e percebi que entrávamos em uma passagem restrita. A estrada começou novamente, mas logo chegamos. Era uma casa, inteiramente de vidro com dois andares, inferior e superior. Tinham algumas cortinas brancas que tampavam específicos lugares.

Sem dizer nada, a mulher deixou o carro e me olhou para que eu fizesse o mesmo. Andei atrás da mesma, com receio do que eu poderia encontrar. A porta foi aberta por uma garotinha, atrás dela tinha uma moça de cabelos castanhos parecendo que iria repreendê-la a qualquer momento.

— Oi, você veio brincar comigo? — a garotinha perguntou segurando na minha mão. Dei um pequeno sorriso para ela que fez o mesmo me puxando sem que eu pudesse fazer algo. Ela me levou até a sala, tinha alguns brinquedos espalhados e me pediu para que eu me sentasse com ela.
, você precisa vir querida — ouvi a voz da mulher do carro, percebia o olhar intimidador dela sobre mim. Me abaixei até a garotinha que me olhava ansiosa.
— Eu tenho que ir, mas eu volto logo e podemos brincar com o que você quiser, combinado?

Ela sorriu e fez que sim com a cabeça, sorri de volta me levantando e seguindo a mulher. As paredes na parte interna da casa eram cinzas, o piso de madeira fazia com que o barulho do salto da mulher ecoasse.

Entramos em uma sala que parecia ser o escritório de alguém, e descemos uma escada onde no final do corredor havia uma porta com uma senha. Chegamos até ela, e a mulher digitou. Ao abrir, três homens se viraram para mim, sem nenhum olhar de surpresa, mas com curiosidade.

— Entre querida Del Rosie e sente-se — o homem que tinha uma cadeira atrás da enorme mesa, disse se sentando — Devo me apresentar. Sou Carlac , sangue legítimo dos fundadores do IMAM e da sociedade. Permita-me que conheça meus sobrinhos, Lash e Camb.

Eles vieram até mim e beijaram a minha mão em forma de cumprimento. Eles tinham a aparência de quase trinta anos de idade, já Carlac tinha uns traços mais velho, aparentava a beira de uns cinquenta anos. Mantive a minha expressão séria, aquilo estava ficando constrangedor, pois percebi que um dos primos não parava de me encarar.

— Seja bem-vinda ao IMAM. Agora neste momento está acontecendo uma palestra de boas vindas a todos, lá tiramos todas as dúvidas de cada um de vocês.
— Por que eu não estou com eles? E por que não permitiram que meu pai me trouxesse até aqui?
— Como você é ingênua querida Del Rosie — os três riram de forma assustadora — Você não está com eles, talvez por que seja preciosa demais, você não acha?
— Não, eu…
— Claro que você é, somos monstros para você, mas desconstruiremos essa imagem e quando você sair daqui, será uma de nós.
— O que te faz pensar que serei como vocês? Sempre me mantive longe de todos os negócios de meu pai, tudo que envolvia vocês.
— Vejo que você não revê as palavras para falar o nome do seu sangue — ele se levantou com um sorrisinho no canto da boca em um tom de ironia — Podemos te mandar embora agora.
— E depois ameaçar todos que eu conheço? Sujar o nome do meu pai? Você pode se achar o poderoso, mas eu tenho certeza que temos alianças o suficiente para derrotar vocês.

Começaram a gargalhar praticamente na minha cara, mas mantive a postura o fuzilando com o pior olhar que eu poderia ter, se eu o conhecesse o suficiente poderia dizer que o homem estava intrigado.

— Se você acha isso, por que está aqui? Ou melhor, por que seu papai te mandou para cá? — ele me olhava com raiva mesmo que não quisesse demonstrar isso — Reconsiderei a proposta de seu pai por conhecê-lo há tanto tempo e mesmo que houve uma traição contra a sociedade, agora diante dos meus olhos, entendo por que ele fez.

Engoli seco, em partes ele tinha razão e isso fez com que eu quisesse sair dali.

— Bom, o que você precisa saber é que são jovens de vinte e três anos que ingressam aqui. Jovens de famílias comuns com níveis superiores e inferiores, que como você disse, são as nossas alianças. Você tem dezenove, não é?
— Sim, eu faço vinte daqui três meses.
— Você não é nem um pouco preparada para estar aqui, mas entenda, não temos controle sobre isso. São regras. As famílias fundadoras são divididas por sangues de vários tipos, a sua está em um nível abaixo que o meu, e por isso, você tem uma idade determinada para entrar aqui.
— Me explique sobre as alianças.
— As famílias são subdivididas por níveis superiores e inferiores. As de níveis superiores estão em uma supremacia acima na sociedade, como aqueles que são os encarregados em missões, controlam os setores dos sistemas em cada país, são pessoas renomadas com a influência de que precisamos. Os inferiores, são encarregados pelo trabalho sujo, de acordo com o seu legado e a sua marca, alguns apenas transportam e exportam cargas pesadas de drogas, como um exemplo para refrescar a sua cabecinha, Del Rosie.
— E onde as alianças se encaixam nisso?
— Eu e você Del Rosie, somos de famílias fundadoras, você sabe o peso que nosso sangue carrega? Esses são os nossos contatos de confiança. — ele falou apontando para os seus sobrinhos — Lash e Camb são meus sobrinhos, mas os tenho como meus filhos, porém carregam o sobrenome Artuho, e os Artuho são uma família que está no tópico um de confiança dos e são de nível superior vindo desde os nossos antecedentes.
— Tudo está um pouco mais claro… Paul me disse sobre as famílias fundadoras, como funciona?
— São cinco famílias fundadoras. Durante séculos desde a fundação da sociedade que se expandiu para o mundo todo, nós as temos para o controle em massa. E são as principais, apenas nós podemos ter alianças e comandar o que quisermos, e elas são separadas em níveis mas apenas entre as cinco. O seu sangue, por exemplo, está em segundo, abaixo apenas dos . Você deveria parar de negar o que está em suas veias e agradecer pelo que tem. — o menino que deveria ser Camb disse se direcionando a mim, Carlac o olhava com orgulho. Pensei em revidar, mas nada saiu da minha garganta.
— Outra coisa que está em questão… — Carlac disse puxando a cadeira atrás de si — Apenas os grandes sabem sobre você e consequentemente da morte do seu irmão. Aliás, sinto muito pela sua perda… Fizemos todas investigações, nesses três meses, sem cessar, e os resultados não foram bons, mas ainda estão em andamento. Por ele ser uma pessoa muito importante para a sociedade, decidimos não expor, porém com você aqui, que também foi declarada como morta, já fizemos isso e está acontecendo agora naquela reunião.

Vi que os demais olharam para Carlac e abaixarem a cabeça, eles conheciam Ben? Digo, intimamente? Não me importava o que os outros sabiam ou não, apenas me foquei em estudar ali o comportamento de cada um, pois desde a primeira impressão, não gostei nem um pouco.

— Eu também sinto muito pela morte do meu irmão — falei firme tentando não demonstrar o quanto falar disso me atinge — Mas eu quero saber o que terei que fazer aqui exatamente, meu pai explicou, mas ainda não entra na minha cabeça. E sobre as outras pessoas… eu não me importo.
— Isso é bom… Que você não se importa. Aqui muitos vão te rotular, é preciso erguer a cabeça — Cam pronunciou pela primeira vez, dizendo com explícita certeza em sua voz — Você estuda maneiras para liderar, maneiras de usar as armas adequadamente, preparo físico e mental. Querida, são diversos outros tipos de aprendizados que o IMAM oferece. Você se torna o patriota que a sociedade tanto anseia, compreende? - Revirei os olhos sem que ele percebesse.
— Terminamos por aqui, no final do ano avaliamos a sua competência e conforme o seu potencial decidimos se a sua família mantém o nível em que está entre os Fundadores, se ainda ela pode ter a confiança e a capacidade por todos — Carlac se levantou junto a mim e me acompanhou até a porta. O olhei pela última vez e antes de sair ele segurou o meu braço assim que tentei passar — Vi que Susie gostou de você, ela não tem muita comunicação com os outros. Você não tem pressa para ir se acomodar, vão levar as suas coisas e deixar elas arrumadas, então caso você queira vê-la, tem a minha autorização.

Deixei um sorriso de canto escapar, assenti com a cabeça. Andei mais alguns passos do corredor assim que saí daquela sala, subi as escadas e encontrei Susie no tapete com os brinquedos espalhados. Deixei a minha bolsa de lado e sentei ao lado da menina. Não vi a hora passar, muito menos ela. Sempre me dei bem com crianças e era importante com que a filha do dono da porra de tudo gostasse de mim, porém não senti a necessidade de pensar dessa maneira, apenas me vi naquela menina, mesmo que meus primos estivessem por perto, eu me sentia sozinha e talvez ela conseguia ser bem mais do que eu era e continuo sendo a maioria do tempo.

***

Prédio 4, quarto 212. As paredes têm uma cor marfim, o espaço era acomodável, não tão grande mas também não tão pequeno. A cama de solteiro ficava no centro do mesmo, havia um armário de madeira que combinava com a madeira da cama, as minhas roupas estavam todas penduradas e arrumadas dentro do mesmo. Havia uma escrivaninha com um notebook, a minha senha e conta de usuário estavam em um papel, tinha um aviso em que a internet era limitada. Tínhamos 50% para usá-la no dia, apenas para casos importantes. Nada de redes sociais. Vi meu celular dentro de um saquinho plástico, ao ligar, percebi que não havia mais nenhum contato ou algum aplicativo. Minha foto com Ben continuava no plano de fundo, assim como a outra, minha e de Ash.

No quarto havia um banheiro pequeno, apenas para necessidades básicas. O chuveiro era no final do corredor, uma senhora havia me informado que o espaço tinha horários para as duchas, mas abriria porque recebeu ordens de Carlac.
Assim que senti a água escorrer pelo meu corpo, o peso do dia caiu junto da água e tudo o que estava acontecendo. E me senti no chão. Tudo o que segurei para chorar ontem, o que segurei para chorar hoje, estavam escorrendo assim como a água que descia. Doce e salgado, ambas se misturavam, eu podia sentir a cada segundo. Apoiei a cabeça no vidro do box e apertei minhas mãos contra meu peito nu, agora, como seriam as coisas? O que de fato eu teria que lidar? Mais do que nunca preciso me concentrar no que me faz querer sair daqui, com vida. Não me importa o que essas pessoas pensam, eles são perigosos, mas não prometo tomar cuidado, nem a mim mesma eu posso prometer isso. Sempre fui do tipo que arrisca, e eu estou disposta a arriscar. Mostrar do que sou capaz. Apenas preciso sobreviver a esses dias, a esses longos seis meses.

***

Março, segunda-feira.

Acordei com uma dor de cabeça e logo tomei um remédio que fez um efeito rápido. Percebi que estava atrasada, precisava estar no bloco 3 do prédio principal, sala 555, e sinceramente não faço ideia de como chegar lá.

Corri para o banheiro, fiz a minha higiene matinal rapidamente, logo fui até a porta e percebi uma muda de roupas com a etiqueta no plástico escrita “Uniformes”. Havia calças azuis, uma jeans, moletom e legging. Três camisetas pretas com o símbolo do IMAM, era uma cobra enrolada em um trono todo dourado, ri em um tom de deboche me recordando desse símbolo em algum canto da minha casa em Londres. Também havia uma regata preta, shorts e saia azuis. Lembrei que meu pai me disse que eu poderia apenas usar minhas roupas quando fosse algum passeio ou uma festa de entretenimento que o Institute nos fornecia.

Vesti a camiseta de manga curta, e coloquei a calça jeans. A sapatilha apertava meus pés, mas eu não tenho tempo para procurar outro sapato, apenas coloquei o que estava a minha frente. Em seguida, peguei a bolsa com alguns materiais necessários e deixei o quarto sentindo um frio na barriga de não saber o que viria em seguida.

O prédio estava num movimento muito grande, havia muitas garotas esperando pelo elevador, senti o olhar de todas elas em mim, pude ler a boca de uma delas, “quem é ela?” “Deixa de ser estúpida, é a garota que reivindicou o trono do pai e se fingiu de morta”, e muitas risadas debochadas, porém meu interesse era apenas em saber como me conheciam, aliás todos pensam que quem estaria aqui seria Ben, mesmo que fosse um treinamento. Ignorei controlando a minha raiva e por fim decidi descer pelas escadas, afinal, vi muitas garotas descendo por ali também. Minha cabeça deu um estalo de “acorda, ontem foi a reunião”, com certeza alguns iriam se lembrar do meu rosto estampado no telão ou algo semelhante.

Andei em longo passos, logo deixei o prédio e caminhei observando o grande jardim muito bem cuidado, a piscina ao ar livre que ontem eu não tinha reparado. Admirei os pássaros que brincavam no céu, brincavam com a sua liberdade e eu apenas queria aquilo, ser livre outra vez desse mundo que mal conheço, e definitivamente aqui me sufocaria mais do que já estou me sentindo sufocada.

O prédio principal não estava diferente do prédio em que eu estava, mas havia muito mais do que garotas, diversas pessoas de diversos lugares, eram explícitos no modo como andavam e como falavam. Não pude deixar de pensar “então a sociedade tem diversidade cultural?” Háhá, que “universidade” incrível, imagino o tanto de otários que fazem inscrições e infinitas provas para tentarem entrar aqui, e ficam se perguntando o por que de nunca conseguirem. Além do dinheiro que é investido nesse lugar para que a verdadeira identidade não seja revelada para as forças maiores, os “não-corruptos”, da polícia. Imagino também as diversas investigações que às vezes nem devem ser iniciadas por serem compradas em troca do silêncio e sigilo absoluto sobre o que realmente o “IMAM” é definido.

Olhei o número do armário que estava no chaveiro da minha bolsa, estava perto, apenas precisava subir mais algumas escadas. Logo cheguei no armário, percebi o olhar confuso de algumas pessoas em cima de mim, olhavam como se eu fosse um fantasma, mas o incrível de tudo, é que eu não me senti incomodada como esperei que me sentisse. Decidi desviar o olhar e girei a chave para abrir o cadeado do armário, mas ela ficou presa e xinguei baixo, isso era tudo o que não precisava agora.

— Você vai se atrasar para a sua primeira aula, não é? — levei um susto e falei um palavrão alto, fazendo o garoto soltar uma risadinha na minha frente. O olhei bem para analisar os seus traços, os malditos traços perfeitamente alinhados que ele possuía, como a pele branca maçã que me fez ter uma estranha vontade de tocá-la. Ele tinha o cabelo marrom escuro, era liso com uns cachos na ponta, não era tão curto mas também não tão longo. Seus olhos verdes omitiam quaisquer forma de tentar uma intimidação, e realmente, ele era bom nisso. Porém com a minha pessoa, ele teria que ser melhor. Bem melhor.
— Vou, eu preciso abrir essa merda, mas a chave está presa aqui — falei apontando e desviando o meu olhar do dele, então percebi que ele também estava me analisando. Ficou atrás de mim, sei que isso foi proposital, mas não vacilei, continuei intacta no meu lugar. Ele passou as mãos por cima dos meus ombros sem tocá-los e apenas com um movimento puxou a chave e a retirou, fazendo com que a força abrisse o armário — Obrigada.
— Eu aceito os seus agradecimentos, se você me disser o seu nome, ¹pastërti.

Eu diria, mas gostaria de saber o que significava o que ele me disse no final da sua fala. Aliás, eu nem entendia o que se passava na cabeça do mesmo pra agir desta forma. Eu hein, a minha primeira impressão desse lugar já não foi tão boa, agora parece que está apenas me surpreendendo, não sei ainda dizer se é uma surpresa negativa ou positiva.

— Meu nome é — falei colocando alguns livros dentro do armário, em seguida o fechei. Percebi que ele me olhava, queria saber mais. — del Rose.
— Sim, eu sei quem você é. — ele disse erguendo uma das sobrancelhas, revirei os olhos balançando a cabeça.
— Irônico, não é? — fechei o armário e o olhei mais uma vez — Como alguém não iria me conhecer?

Saí o deixando parado na porta do meu armário, olhei para trás uma última vez e ele sorria de forma perversa, céus, quem é esse garoto? Obtive a minha resposta em fração de segundos.

— A propósito, o meu nome é .

Ignorei o quanto aquilo estava sendo provocativo, o quanto aquele garoto que mal conheci me irritou por conta do efeito que causou em mim. O aviso que era para todos estarem dentro da sala já tinha passado, andei o mais rápido que pude identificando o número da sala. Percebi que todos já estavam em seus devidos lugares e um senhor careca com um óculos escuro conversava fazendo todas as pessoas ali na sala rirem.

— Com licença — falei sentindo minhas bochechas ficando cada vez mais vermelhas. Agora todos olhavam para mim. Andei até a segunda carteira de uma determinada fileira e me sentei, sem manter contato visual com os outros.
— Você não quer se apresentar, querida? Falar sobre a sua família? — o senhor dizia me apontando, engoli seco quando vi que era realmente preciso. Neguei com a cabeça ouvindo cochichos e recebendo olhares de diversos tipos — Vamos lá… Todos já se apresentaram.

Qual era a necessidade daquilo? Talvez não conhecessem o meu rosto, porém, quando eu dissesse o meu nome, tudo mudaria. Mas se eu não fizesse, aquele professor continuaria me encarando até que isso acontecesse. Bufei baixo tentando deixar meu corpo leve e então finalmente me levantei. Olhei para rostos desconhecidos que me encaravam com ansiedade e dúvidas, já outros nem tanto.

— Sou Del Rose, nasci em Londres, atualmente estou, ou melhor, estava cursando faculdade de Ciência da Computação em São Francisco, onde eu moro — aos poucos senti que o olhar daquelas pessoas mudaram, pareciam sentir pena de mim, e ao mesmo tempo confusas do por que a ²“dead girl” estar ali, é provável que faltaram ontem na reuniãozinha — Sobre a minha família, eu não tenho nada a dizer.

Me sentei conformada daquela situação, o senhor apenas me deu um sorriso compreensivo e continuou falando o que estava dizendo antes de eu chegar. Ficamos uma hora ouvindo sobre como o IMAM foi fundamental para a criação de líderes de extremos potenciais, e que seu nome era Otto Mourei e a sua família que foi e continua sendo a mais antiga e leal aliada dos Delavaris que é uma das famílias fundadoras entre as cinco, sendo que todo tempo repetia isso, constantemente, fazendo com que tirasse risadas da turma, ainda, tensa.

— Agora peço para que vocês façam duplas, vocês são em 28 pessoas, terá par para todos — as pessoas começaram a se juntar, até que entrou um garoto na sala chamando atenção de todos ali. O olhei mais nitidamente, espera, era aquele ? Ele cochichou algo no ouvido de Otto que pareceu conformado, como se aquilo já fosse esperado e de costume.

Virei a cabeça quando vi que ele me olhou e sorriu novamente daquela forma que eu odiei desde o primeiro momento. Odiei mais ainda o fato dele vir em minha direção.

— Está sem par? — ele perguntou puxando a cadeira e sentando ao meu lado.
— Por que não disse que estava vindo para cá também?
— Precisei ir fazer algo antes. Otto sempre me entende.

Revirei os olhos e ele riu de forma engraçada. Percebi que a sua perna balançava como quando alguém está ansioso para algo e que tinha uma marca de batom na beira dos lábios, apesar que fosse pequena, consegui ver. Resolvi prestar atenção em Otto, que passou duas folhas para cada dupla, todas estavam sentadas em seus lugares esperando. Logo ele começou a explicar.

— Nessas folhas há as instruções para vocês fazerem esse seminário. Leiam comigo — olhei para que estava com o olhar concentrado na folha — “I.Procurem pelos pertences de propriedades da sua família. II. Pesquisem e preencham dados da árvore genealógica. III. Faça a árvore genealógica de sua família. IV. Junte a sua árvore com a árvore da sua dupla. V. Ao juntarem as árvores genealógicas, juntem as propriedades e façam uma pequena análise de como liderariam esses pertencentes juntos.”"

Uma garota de cabelos ruivos levantou o braço e começou a falar as suas dúvidas enquanto ouvíamos um barulho estridente que identifiquei como um sinal para atualizar o horário para os palestrantes, ou professores.

— Vejo vocês amanhã, quero que tragam ideias de como vão começar — Otto disse se retirando da sala junto de outras pessoas. se levantou, me olhando como se eu fosse acompanhá-lo.
— Você conhece aqui? — perguntei logo após dele ter cumprimentado três garotos que passaram por nós ao sairmos da sala.
— Sim, todos os anos venho para cá, dessa vez eu vim de vez, para ficar e concretizar o que eu preciso fazer aqui.
— Por que vinha todos os anos?
— Eu era treinado, para que quando eu tivesse idade pudesse vir, assim como seria com o seu irmão.
— Como você conhece o meu irmão?
— Ora, quem não conheceu o Ben? — ele respondeu dando um sorriso nostálgico.
— Mas de onde você o conheceu?
— Faça perguntas que eu possa responder. Por favor.

Bufei. Mas respirei fundo mais de uma vez. Tentando concentrar em descobrir algo que envolva esse lugar. Conhecer afinal onde eu estou me metendo. As perguntas sobre meu irmão apenas surgiam, não é como se eu faço propositalmente.

— Você disse sobre entrar após treinamentos, apesar que aqui tem idades específicas… Porém apenas para famílias Fundadoras há exceções, não é?

Ele riu enquanto eu andava do seu lado o seguindo, podia ser mais como se eu estivesse seguindo algumas informações que eu precisava.

— Sim, mas eu tenho autoridade para entrar e sair daqui a hora que eu quero, entende? — ele abriu o armário jogando a bolsa que ele carregava dentro do mesmo — Ontem você conheceu Carlac, gostou dele?
— Isso não vem ao caso — falei sem expressar sentimento algum — O que ele tem a ver com isso?
— Sou filho bastardo, como costumo dizer ou melhor, me rotular assim — riu ironicamente ao dizer. Gostaria de perguntar, mas seria insensível da minha parte — Toda a rede Institute é comandada pelas pessoas da família de Fundadores , aqui é a base do Institute, e para não chamar muita atenção, Carlac prefere que nós ingresse na idade de que todos quanto os níveis superiores e inferiores ingressariam, pelo menos nós, da fundação . A nossa vantagem nisso tudo, é que temos os treinos, quantos anos nós quisermos, podemos vir pra cá e praticar tudo o que quisermos, todas as aulas em que temos dificuldades, missões, práticas, entre outros. É claro que não é a mesma coisa do que realmente fazer os seis meses valendo, como agora, mas ajuda na formação de tudo, principalmente no lado de fora, onde tudo isso se torna real.

Ele disse “nós”, a quem ele gostaria de se referir? Talvez poderia ser a família toda , ou não… Andamos mais um pouco chegando em um espaço vistoso e grande, haviam várias mesas, a estrutura se baseia em paredes de vidros, tinha uma vista sensacional do campo e do lago que era imperceptível. Muitas pessoas estavam comendo, percebi o enorme balcão com várias opções, e segui . Fiquei para trás quando cerca de dez ou mais garotos o cercaram, davam risadas altas e se abraçavam, como se estivessem se reencontrando. me olhou e me chamou com o polegar, logo já estava do seu lado e os garotos me encaravam esperando se pronunciar, mas fui mais rápida.

— Sou Del Rose, prazer em conhecer vocês rapazes — falei e eles se apresentaram, até que um deles me chamou atenção.
— Você é a irmã de Ben, mas não era para ele estar aqui? — assenti com a cabeça mesmo que aquilo me pegou de surpresa — Onde ele está? Até o que sabemos você estava morta.
— Cala boca cara, você não estava na reunião ontem? — um deles falou percebendo o meu constrangimento — Desculpe , ele é assim mesmo…
— Dudes, é melhor deixar isso para uma outra hora — disse segurando em meu braço com um pouco de delicadeza e me puxando com ele. Soltei a mão dele com rapidez e dei um breve tchau para os garotos.

Eu e pegamos nossas comidas, e saímos do lugar, decidi ir atrás do mesmo que me olhava com cara de poucos amigos. Ele permaneceu sem falar nada desde o que aconteceu e eu sabia que devia explicar algo para ele, mesmo tendo a convicção que ele sabia de todo o ocorrido.

, eu…
— Eu sei, ok? Você não precisa conversar sobre isso comigo.

Ele me interrompeu, mesmo se não fosse a intenção, ele foi rude. Voltei a minha atenção no meu prato, e mal toquei na comida, comi apenas as cenouras, já , parecia amar aquela comida.

— Precisamos ir — falei escutando o barulho estridente novamente.

A aula seria em um lugar aberto pelo cronograma que eu pude ver no papel que eu estava carregando pra lá e pra cá e conhecia bem, então apenas o segui após me vestir conforme pedia o regulamento daquela aula e a última do dia. Com todas pessoas que ele conhece, por que estava comigo? Será que era alguma ordem de Carlac? Ou apenas estava sentindo pena por eu não conhecer ninguém? Decidi que falaria com ele assim que ele saísse do banheiro. Vi o mesmo sentado na mureta pra fora, ele prestava atenção em um galho de folha, estava tão concentrado que até ficou surpreso ao me ouvir.

— Por que está aqui? Andando comigo? Ou se intrometendo nas perguntas dos seus amigos? — perguntei colocando as mãos na cintura, ele sorriu irônico me encarando. Aquilo realmente estava estranho para uma pessoa que acabou de te conhecer em um corredor.
— Eu não posso estar? Se não quer a minha companhia, peça.
— Apenas não estou entendendo.
— Nem eu estou entendendo a sua pergunta — como? Pensei deixando explícito em meu rosto — Eu te conheço de antes, o seu rosto foi familiarizado pra mim desde o momento em que te vi perdida naquele corredor. Como você perguntou, eu conheci sim o seu irmão e tenho certeza que se ele estivesse aqui, estaria junto dele também, assim como estou com você. Mesmo que eu não possa estar.

Pelo que entendi, eles não eram apenas colegas, eram amigos. Mesmo que através dos olhos esverdeados de não era possível encontrar algum sinal de vida, consegui ver o mínimo em como ele foi tocado por dizer aquilo. Achei melhor não perguntar mais nada relacionado, pois o tanto que estou confusa poderia piorar.

— Você pode pelo menos me responder que caminho é esse que estamos indo? Aqui no mapa não é bem esse…
— Você tem um mapa? — ele perguntou me olhando de forma inédita, com um sorriso divertido nos lábios. Respondi que sim com a cabeça, fazendo o homem a minha frente rir mais — Você é toda… brega.
— Por que é brega ter um mapa? Na “matrícula” não me falaram que eu teria um guia — fiz aspas com os dedos quando disse matrícula e entrei na brincadeira tentando me soltar ao lado dele, que andava um pouco mais depressa.
— É bom pra você conhecer novos caminhos, talvez quem sabe um dia você vai precisar… — revirei os olhos percebendo o tom malicioso em sua voz.
— Por que eu precisaria?
— “Isso não vem ao caso”, alguém que conheci me disse isso há uma hora. Você a conhece? — Revirei os olhos novamente, aquilo viraria costume quando eu estivesse perto dele. Acabei dando um sorriso amarelo para o mesmo que estendeu a mão para eu subisse as escadas, mas neguei fazendo sozinha. Apenas queria acabar logo com aquilo e ir para o meu quarto passar o resto da noite lá.

Abrimos a porta e a turma de pessoas que estava a algumas horas na sala de Otto, já permaneciam presente. De um outro lado, havia uma outra turma, porém não prestei muita atenção. Me aproximei do grupo, e perdi de vista, porém era algo bom isso, eu poderia ficar sozinha e pensar melhor, não ficaria me questionando pela sua presença.

O lugar era semelhante aos outros prédios com as paredes de vidro, observei o teto retrátil automatizado, no momento se encontrava aberto, e em volta era apenas árvores, aquela sala dava acesso à floresta. O piso de madeira laminado totalmente preto era evidenciado quando toquei os pés, e tinha vários objetos, estantes com armas enfeitando a sala para todos os lados, sacos de pancadas, máquinas para luta e defesa. Uma senhora nos chamou, fazendo com que as duas turmas se aproximassem próximo de um tatame preto com o logo do IMAM no centro do mesmo.

— Para testarmos as suas habilidades corporais, quero que peguem um papel dentro daquela pequena caixa. O nome que sair nesse papel, é o seu adversário. Vocês apenas podem parar, desde que, vejam o sangue escorrendo pelo corpo do seu inimigo — ela falava de uma forma tão comum, e a maioria das pessoas ali riam, achavam tão comum quanto ela — Com quem começaremos?
Muitas pessoas levantaram a mão, mas ela parecia querer selecionar. Andou chegando perto de mim, olhei para que também me olhava. — O que você acha de ser você a estrear nossa aula?
— Você está falando comigo? — perguntei e ela afirmou que sim com a cabeça. Como eu conseguiria lutar? Eu não sabia nem passar uma rasteira.
— Deixe que eu começo, Sânia — todos olharam para , ele entrou na minha frente e disse. Senti uma raiva crescer dentro de mim, agora ele também quereria fazer as atividades por mim? Tentei entender as suas intenções, mas meu sensor de empoderamento apitou, e apitou muito alto devido a essa situação que vou me meter.
— Não, ela me escolheu. Sou eu quem começo.

Ouvi alguns gritinhos, “vai garota!”, andei e ele segurou meu braço causando uma pequena dor no mesmo, o que me fez lembrar que eu ainda estava me recuperando.

— Você vai sair arrebentada de lá, não vai — ele cochichou, mas praticamente todos da sala ouviram.

Dei de ombros, e parei no centro do tatame com o papel na mão. Abri e li em voz alta, para mim o nome era desconhecido, exceto o sobrenome que eu identifiquei. O mesmo do pai de , o próprio Carlac...

.

Alguns olhares, até mesmo de Sânia, me assustaram e me deu uma repentina angústia. Onde diabos ele está que ainda não se pronunciou? Olhei ao redor enquanto todos da sala se entreolhavam amedontrados.

— Tire outro nome querida, não está participando desta aula hoje. — Sânia disse enquanto subia no tatame tirando com uma pequena força o papel de minhas mãos. Ela estava desconfortável com aquela situação, todos estavam com olhares receosos e assustados, imagino por mim, e a única coisa que eu gostaria de saber, era o motivo disso.

A porta abriu fazendo um barulho rígido, e de lá pude ver um jovem, aliás todos podiam ver por que afinal, todos estavam olhando para ele. Meu coração palpitou por um momento, pois eu conhecia aquele garoto de algum lugar, o garoto homem, seus braços musculosos, os cabelos mais pretos que o próprio escuro, os olhos exaltados, a boca… Aquela boca que exalava o cheiro de cigarro e menta. Era ele.

— Até que enfim , vai ter que tirar sangue de uma Del Rose hoje — alguns garotos que eu conheci mais cedo diziam enquanto ele se aproximava do tatame me olhando sem desviar o olhar assim como eu estava.

Era ele o garoto que me ajudou naquela noite. Ele me tirou da mira de uma arma.

O garoto que sonhei repetitivas noites, o dono dos olhos escuros. Ele estava ali. E não consegui mexer um músculo, assim como ele. Permanecemos intactos. Só pude sentir as batidas aceleradas que meu coração insistia tanto, fazendo com que eu tivesse a sensação de cair a qualquer momento. Eu tinha tantas perguntas, e a que mais me deixava intrigada, era o por que de ele ter estado lá justo naquela noite, e ainda mais por ter me dito que não era por mim.


* ¹“pastërti”: em albanês significa “pureza”.
* ²”dead girl”: “garota morta”, no sentido da fanfic é como algumas pessoas se referem a personagem principal.





Continua...



Nota da autora: Dispenso melhor apresentação de autora para leitora, pois se você está lendo algo meu, definitivamente você já pode me conhecer melhor do que os outros.
Bom, essa é a minha primeira história publicada no FFOBS, e estou muito feliz por isso.
Espero do fundinho do coração que você goste do desenvolvimento e da história toda em si, também vale ressaltar que críticas construtivas são sempre bem vindas. Boa leitura, que você possa morar nela.

Nota da Scripter: Se antes eu já estava curiosa, depois dessa att eu não sei se vou aguentar esperar o próximo, pode mandar Duda. xx

Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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