Dirty Bitch

Última atualização: 06/08/2020

Prologue

Existem poucas coisas na vida que são tão gostosas quanto um beijo. Daqueles de língua, que você sente sua calcinha pesar antes mesmo do cara enfiar os dedos no seu cabelo.
Sexo é ótimo. Ser chupada é ainda mais.
Mas tem algo no ato de beijar que eu sou totalmente obcecada. Quer dizer, não o ato em si, a sensação. O ato é totalmente nojento, quer dizer, você está teoricamente pegando restos de comida e provavelmente trocando bactérias. Às vezes tem muita língua e às vezes tem muita baba. No pior dos casos, dentes.
Por isso que esse cara, cujo nome não é tão importante para que eu aprenda, era um experimento fora da zona beijo — ele beijava até bem, mas era molhado demais para o meu gosto, e ele chupava muito minha boca.
Significa que ele era bom em outra coisa.
Steve, vamos apelidá-lo de Steve por uma hipotética habilidade oral.
Por isso, deixei-o apertar minha bunda e morder meu pescoço, porque queria que ele ficasse com vontade e cedesse aos meus desejos.
— Ei… — sussurrei entre o beijo, mordiscando meu próprio lábio — Eu tô hospedada num hotel aqui perto. Quer ir para lá?
Na verdade, o hotel era meu. Teoricamente, do meu pai. Mas eu quem tive a ideia de montar uma rede de hotéis e também era eu quem cuidava de muita coisa. Só não era legalmente a dona, porque papai disse que só ia passar as propriedades para meu nome depois que eu completar 21 anos.
Mais longos dois anos até lá.
Quão perto? Porque acho que não consigo me segurar — e, então, a espécime do sexo masculino guiou minhas lindas e caras mãos até seu pau. Nojento, mas largo e… até grande. Com certeza ia dar para o gasto.
Ai, gato, perto o bastante para você poder fazer o que quiser — seus olhos brilharam, e eu tive certeza de que o tinha em mãos — Mas eu tenho uma condição.
Tudo por você.
Homens… Dê o coração e eles te pisam. Dê a buceta e eles passam toda a fortuna para seu nome e caem tragicamente da escada.
O que você acha de ser filmado?
Dez minutos mais tarde, ali estava eu, na suíte presidencial, com o tripé já armado, a câmera com a bateria cheia e ligada diretamente à internet do MacBook. Não era uma câmera excelente, e eu a mantinha por isso. Sua imagem era cheia de ruídos e dificultava quem estava do outro lado vendo.
Facilitava a minha vida e o anonimato.
Steve sentou na cama e tirou só a camisa. Expliquei para ele o ângulo que não mostrava o rosto e o que mostrava, caso ele não ligasse. Acho, na verdade, que ele estava meio bêbado. Ou chapado. Contei que eram vídeos que eu gostava de fazer e que podiam aparecer em algum site pornô, e, aparentemente, a ideia de ter o pau exposto não era ruim para os homens. Eles amavam. Eram considerados os gostosos de pau grande e que comiam todo mundo.
Se as pessoas soubessem quem era a mulher por trás da câmera, eu não receberia o mesmo tratamento.
E é por isso que eu não contei para Steve que, na verdade, não eram sextapes. O vídeo estava ao vivo num site que as pessoas pagavam para me ver fazendo qualquer merda, desde que eu estivesse pelada ou com as pernas abertas.
O que eu podia dizer? A exposição me excita.
Tirei toda a roupa, ficando só com um sutiã de renda lindíssimo da última coleção da SAVAGE x FENTY. Não que eu costumasse comprar coisas tão baratas, mas aquele conjuntinho Flock Dot Demi Bra estava me chamando. E com a cinta-liga certa? Fatale.
Olhei de relance para o computador e percebi que o número padrão de usuários online já tinha sido alcançado, então era hora do show começar.
— Ei, bonitinho… — subi em Steve e sentei em seu colo. O pau nem estava tão duro assim para quem havia feito toda aquela propaganda. Será que eu estava meio chapada também e havia sentido maior do que geralmente era? — Você vai fazer tudo o que eu mandar, ok? — Steve assentiu como o bom cachorrinho que estava sendo e, com o anúncio já feito, voltei a beijá-lo, mas dessa vez rebolando em seu pau e deixando toda a visão da minha bunda no ângulo da câmera.
Seus lábios alcançaram meus mamilos, meu sutiã finalmente encontrou o caminho do chão e os dedos de Steve estavam brincando com o elástico da minha calcinha, puxando o tecido levemente.
Quando a brincadeira finalmente perdeu a graça, o ajudei a se livrar da peça final e, quando percebi, já estava sentada na cara dele.
A língua se movia do jeito certo, suas mãos estavam apertando minha bunda e um começo de barba arranhava minha virilha de forma tão gostosa que eu poderia gozar se ele ficasse apenas roçando a pele contra a minha. Rebolei contra sua boca e apertei meus mamilos… Aquilo era o início do paraíso.
Porque a coisa boa começaria de verdade quando eu gozasse e encontrasse todos os deuses.
Isso, me chupa, vai, gostoso — minha voz saiu gutural, e eu estava tomada pelo desejo, ia gozar a qualquer momento e…
A porta do quarto foi aberta de supetão.
!
Essa não. Eu conhecia aquela voz
Pai?
1,80. Cabelos castanhos e olhos da mesma cor. A pele perfeita de quem fazia botox preventivo desde os 30 anos. A barba bem feita e o terno feito sob medida.
Cavannaugh Cahill Howard.
Cobri meus seios rapidamente e, antes que eu percebesse, já estava no chão, com as pernas encolhidas, olhos arregalados e o coração saindo pela boca.
Os seguranças já haviam expulsado Steve do quarto, e todo o equipamento estava jogado no chão. Os olhos de meu pai expressavam puro ódio, e parecia que as veias no seu pescoço iam explodir, principalmente aquela no meio de sua testa.
— Vista suas roupas agora. Vamos conversar.
E assim, meus amigos, foi como tudo em minha vida foi ladeira abaixo.


One

— Isso é inadmissível! Horrível. Medonho! Você foi tão mesquinha com nossa família como foi consigo mesma! Se expor desse jeito na internet? Podendo ter sua identidade revelada! O que seria de seu futuro se as pessoas soubessem que a dona do hotel que eles estão hospedados faz… aquilo?
— Eu não sei, pai. Acho que eles ficariam muito felizes, mas as esposas não gostariam tanto assim — tinha tanto veneno no meu sorriso quanto uma mamba negra carregava em suas presas.
Meu pai estava gritando pela última hora enquanto os seguranças estavam do lado de fora guardando o andar, e eu mantinha toda minha dignidade coberta por lençóis de cama.
Os olhos de meu pai se esbugalharam com tanta raiva que, por dois segundos, parecia que iam pular. Será que era mesmo possível matar alguém de raiva?
— Aquele homem sabia seu nome? Pode te expor! Eu não consigo nem colocar em palavras o que eu estou…
— O que você está sentindo, papai. Eu sei, eu sei. Vergonha, decepção, pensando em como alguém pode ser tão estúpido, inconsequente e arriscar tudo, etc., etc. — estalei a língua, analisando o produtor dessa prole que vos fala com toda atenção do mundo. — Conheço seu discurso de desgosto, já o ouvi um milhão de vezes.
— E, mesmo assim, fez tudo aquilo?
Não consegui responder.
Não quis responder.
O olhar dele de decepção era muito bom de lidar.
Meu pai não era um homem difícil de decifrar, esse era seu maior defeito. Seu rosto e sua voz sempre entregavam total a situação e tudo o que ele estava sentindo, fosse isso bom ou ruim. Cavannaugh Howard já tinha perdido muitos negócios por causa disso. Eu mesma já o tinha visto um milhão de vezes mostrar total insatisfação com seu cliente e deixar de lado o caso porque sabia que não ia dar certo. Ele escolhia no dedo quem ia representar.
— Me diz, , por que você fez aquilo? Era rebeldia que queria mostrar? Tédio? — agora ele falava de forma calma, como se tivesse perdido toda a fúria. Como se tivesse desistido — Você sempre tem resposta para tudo o que eu falo. Onde estão as suas respostas agora?
Engoli em seco.
— Você não deveria descobrir! — me levantei de vez, segurando o lençol com toda força e indo em cima dele para poder igualar meu tom de voz com a sua raiva contida. — Essa era minha única distração, porque você nunca iria descobrir que sua filha perfeita estava dormindo com pessoas aleatórias e sendo paga por outros para assistir essa merda. Você nunca ia descobrir.
A realidade é bem simples e, na verdade, até entediante: quando você tem o mundo aos seus pés, as coisas se tornam muito monótonas. Eu nunca precisei fazer esforço algum para ter o que eu queria e gostava disso. Gostava de ter tudo antes mesmo de terminar de estalar os dedos.
— Mas eu descobri, . Eu descobri, e toda essa palhaçada acaba hoje. Eu tentei te ajudar, juro que tentei. Mas agora você vai seguir os meus termos.
Uhhh, morri de medo. Se existia uma coisa que papai não sabia fazer, era impor castigos. Quando eu tinha dezesseis anos e o fiz passar vergonha numa reunião com um duque de sei lá o quê, seu ponto de vista de punição foi me mandar para um internato na França que ele achava ser só de meninas, mas, pela graça da Deusa, era um internato misto. Obrigada, pai, pelos dois melhores anos da minha vida.
Mas, dessa vez, ele não parecia estar brincando. Ai de mim.
— Você vai para a faculdade.
Dei um passo para trás, tentando processar o que ele tinha acabado de dizer.
Você… — Tentei me defender, mas um pensamento seguiu a linha de raciocínio. — Cambridge não vai me aceitar de volta.
Sim, grande coisa, eu tinha passado em Cambridge, e daí? Uma coisa que minha mãe sempre me ensinou é que uma mulher tem todo o direito de ser a maior piranha do mundo, mas uma piranha com um diploma. Tudo bem que eu tranquei a faculdade logo depois que ela morreu, mas meu cérebro não tinha diminuído e nem os números do meu QI haviam caído.
— Não depois que eu dormi com um dos professores dele. O reitor sabe disso, e nem seu dinheiro vai me colocar de volta lá.
Minha voz vacilou, e eu tinha total noção disso. Papai tinha contatos e dinheiro, era o bastante para que esquecessem para quem eu levantei minha saia ou não. Pela deusa, minha vida tinha acabado. Eu ia mesmo voltar para Cambridge.
Mas papai olhou para mim e riu. Os olhos castanhos continham um brilho amaldiçoado de tanta alegria. Eu era um dos seus clientes naquele momento? Ah, não, eu era o advogado de defesa enquanto ele era o de acusação e estava com todas as provas na mão incriminando o meu cliente.
— Você vai para os Estados Unidos.
Sentei na cama, porque nem um Christian Louboutin aguentaria esse baque.
Papai… Você não pode fazer isso, eu… Os Estados Unidos NÃO!
— Para Dartmouth.
Engoli em seco. Dartmouth ficava em… em… Onde ficava isso?
— Papai, não me diga que isso é uma faculdadezinha comunitária!
— Não é, querida. É da Ivy League e deu um trabalhinho te colocar dentro, mas é a melhor. Harvard é muito popular para você, Brown fica em Providence e a cidade é muito grande. Columbia fica em Nova Iorque, e eu não confio em você em NYC. Então, eu escolhi a cidade universitária dos seus sonhos.
Cidade universitária. Ele sabia o que significava aquilo? O maior pesadelo que qualquer pessoa poderia viver.
Mas, pelo olhar de meu pai, ele sabia bem. Tinha estudado minuciosamente cada detalhe antes de chegar àquele momento.
— E não é só isso — tudo bem, eu já estava sentada mesmo, podia aguentar qualquer coisa. Nada era tão ruim quanto os Estados Unidos — Seus cartões foram cancelados e você receberá uma mesada de mil dólares todo mês. Vai ter que se virar com eles e, se quiser mais, trabalhe. Sem plano de saúde, sem motorista particular, sem personal trainer ou chef de cozinha, muito mesmo uma governanta subindo e descendo com você.
Era oficial, eu ia morrer a qualquer momento.
— Como eu sou um bom pai, vou te deixar ficar com seu carro, mas a gasolina e manutenção é com você. E o valor do aluguel da sua casa está por fora porque eu não sou nenhum monstro.
Aluguel? Eu vou morar numa casa… — a palavra saiu da minha boca ardendo como veneno — Alugada?
— Sim, e vai dividi-la com mais três pessoas.
Ok, eu podia ir para faculdade e passar um mês lá e depois sumir. Podia facilmente. Papai não era tão duro comigo. Nunca foi. Ele me deixou sair de Cambridge com seis meses de curso, por que eu não podia sair de uma faculdadezinha no quinto dos infernos dos Estados Unidos?
Ele nem ia notar. Era só eu ligar para o vovô e fazer drama. Ele sempre cedia.
Mas eu tinha que perguntar, minha língua estava coçando para eu matar a curiosidade que corroía tudo dentro de mim.
E se eu largar?
— Você não pode.
Não tinha coisa boa nisso.
— Veja bem, eu já suspeitava de suas atividades ilícitas há algum tempo. Então, deixei alguns documentos para você assinar, algo sobre propriedades em Bangkok, e você assinou, me envergonhando ainda mais, porque nenhuma filha decente de um advogado renomado assinaria documentos sem ler. Mas você o fez. E aquilo era um contrato no qual você concordava que, se não se formasse em Dartmouth, não teria direito nem acesso a nenhum centavo, seja ele mobiliário, em ouro ou em notas, ao dinheiro da família Cahill Howard. Concordou com tudo o que eu disse acima, que teria notas excelentes, participaria dos projetos da faculdade e teria uma taxa de faltas mínima.
— Você não pode fazer isso! É injusto. Você não pode me colocar para assinar contratos sem que eu saiba do que eles são! Isso é caso de processo, e você sabe disso!
— Ah, é? — não sabia de onde eu era tão debochada uma ova, aí de onde vem meu sarcasmo. — E você vai me processar, por acaso? Com que dinheiro? Qual advogado vai usar?
Tudo bem, eu merecia. Isso mesmo, , vai meter sua assinatura em onde você não sabe, sua burra do caralho.
— E se eu souber que você está por aí faltando aulas… — Ele olhou para a cama com desprezo. — Ou sentando na cara das pessoas, o trato está desfeito. Tem uma cláusula que você assinou também em relação a isso.
Quase engasguei com o ar.
O QUÊ? Você vai colocar por acaso um cinto de castidade em mim?
Ele riu, debochado.
— Se for necessário, quem sabe?
— Isso é porque eu sou mulher? Porque mulheres não podem transar? Se você tivesse filhos homens, ia liberar um cartão só para eles saírem comendo prostituta por aí!
— Eu tenho filhos homens. Seus irmãos.
Ah, verdade, né. Nem dava para usar como exemplo, que droga.
— Os dois são casados com a mesma pessoa desde sempre, a sua cunhada é namorada de seu irmão desde o colegial e o seu cunhado foi o médico do seu irmão quando ele quebrou a perna por culpa sua na Rússia.
— De nada, então. Não vi ninguém me chamando para ser madrinha de casamento, eu chamo isso de ingratidão!
— Rupert te chamou para ser madrinha de casamento sim! Mas você estava bêbada em Ibiza e disse que não sabia pegar avião, pediu pra ele casar na outra semana!
— E foi um tremendo egoísmo dele não casar na outra semana. Fica marcando casamento do nada e quer que eu cancele meus compromissos?
— O casamento estava marcado há um ano.
Quis bater minha cabeça na parede até morrer. Por que eu só fazia besteira? Quer dizer, eu realmente nem lembrava disso. Era meu irmão, caramba, e eu não tinha ido para o casamento dele porque estava em Ibiza com… com…
Eu nem sei com quem eu estava em Ibiza!
— Eu não posso mesmo dormir com ninguém? Quer dizer, não que eu seja uma ninfomaníaca e tudo mais e nem que eu queira continuar com tudo isso ou ter esse papo sobre relações sexuais com você… É que, bem…
Por incrível que pareça, papai riu.
— Não saia dormindo com todo mundo. Não que você realmente não possa, mas cuidado. As pessoas são más, e você é tão nova. Eu sou um pai preocupado, .
Ele sentou ao meu lado e passou as mãos no meu cabelo, num carinho disfarçado.
Conseguia sentir a preocupação dele, era quase palpável de tão óbvia. Senti pena, de mim e dele. Eu sabia que estava sendo miserável e que aquele era um passo para um caminho melhor. Talvez eu pudesse ter um pouco dos dois mundos, quer dizer, responsabilidades não matam uma pessoa.
E eu era rica. Não queria dizer que eu ia morrer trabalhando para conseguir um sustento mínimo ou um padrão de vida levemente interessante.
Então, assenti com a cabeça e concordei com o que ele disse.
— Me desculpe — sorri de forma tímida, olhando nos olhos do meu progenitor com toda a sinceridade e força de vontade que eu tinha naquele momento. — Eu prometo que vou tentar ser uma pessoa melhor. Juro para você, promessa de dedinho.
Estendi meu mindinho para ele, que riu e apertou com o seu.
Eu vou fazer isso, vou ser uma pessoa melhor para o meu pai.


Two

Estreitei os olhos atentamente para tentar enxergar quem estava ao meu lado na cama, sentindo um braço quente por cima de minhas costas e um ventinho correr solto lá embaixo. Ótimo, eu estava nua.
E na cama de alguém que eu não conhecia.
Suspirei pesadamente e tirei o braço de cima de mim com toda a delicadeza possível, porque a deusa que me livre de acordar quem quer que estivesse lá em seu milésimo sono, já que, né, o coitado ou coitada devia estar acabada de uma noite maravilhosa de sexo. Não que eu lembrasse de algo, não lembrava, mas eu sabia bem como era magnífica na cama.
Dei um pulo digno de algum herói que sabe dar pulos muito bons e achei meu vestido. Coitadinho, comprei na Zara mês passado e já estava no chão do quarto de alguém servindo de tapete. Coloquei a roupa, localizei minha bolsa — com todos meus documentos, diga-se de passagem, e meus cartões, que ninguém sabia que estavam cancelados, mas ainda assim pareciam valer mais que o quarto desse cara.
Mas onde estava minha calcinha?
Pela deusa misericordiosa, eu não podia sair sem minha calcinha! Principalmente porque, segundo o relógio de parede daquele quarto, eram 9h26min, e eu tinha que encontrar meu pai às dez em Upper East Side, sendo que tinha certeza de que não estava nem perto do U daquele bairro. Meu celular estava em 25% de bateria, eu não havia trazido meu carregador e não tinha achado a porcaria da minha calcinha ainda.
Procurando por isso? — Ouvi a voz masculina acima de mim e engoli em seco, quase batendo a cabeça na madeira da cama pelo susto que causou. Sim, eu estava procurando minha calcinha debaixo da cama. Inutilmente, pelo visto.
O pedaço preto de renda estava balançando entre os longos dedos de quem havia ocupado minha noite. Lambi os lábios e tentei não grunhir de raiva. Ele era gostoso, tinha um corpo bronzeado demais para quem aparentemente morava em Nova Iorque. Os cabelos tinha um tom de mel, e eu não conseguia ver a cor de seus olhos direito, mas com certeza conseguia ver seu sorriso galanteador de quem arranca as calcinhas da população feminina sem o mínimo esforço. Tanto que a minha estava em suas mãos.
— Espertinho, agora me dá — Estendi minha mão em sua direção, mostrando que, não, ele podia mostrar aqueles dentes perfeitos e o tanquinho pronto para lavar a roupa de qualquer mulher que quisesse, eu não ia cair no charminho dele. Mas, aparentemente, meu caso não parecia tão disposto assim a desistir da peça de roupa — É sério, eu preciso ir embora. Me devolve minha calcinha.
— E o que eu ganho com isso? — Ah, eu ia matar esse miserável. Matar e depois rechear um croissant com sua carne. Se eu soubesse cozinhar, pelo menos.
— Eu não sei o que você ganha com isso, precisa de uma calcinha fio dental para alguma coisa? Porque eu posso te indicar várias lojas que tem calcinhas maravilhosas, agora me devolve a minha. Eu preciso estar num brunch e, de preferência, sem que as pessoas vejam minha vagina se um vento passar.
Ele não moveu um único músculo. Continuava com aquele sorriso prepotente enquanto eu estava a dois segundos de bater os pés no chão e fazer a birra digna de uma criança de 10 anos.
Homens. No fim do dia, eles só eram aquela coisa decepcionante ao redor do pinto.
Mas, felizmente, ele jogou a calcinha em minha direção e levantou em seguida, pegando a toalha que estava pendurada perto da janela e sumindo em alguma porta que não me dei o trabalho de prestar atenção. Era minha deixa. Passei a calcinha rapidamente entre minhas pernas e segui no que parecia ser a direção da saída.
Em Nova Iorque, era fácil achar a saída em lugares fechados. Era só usar o nariz e seguir o cheiro de poluição e lixo. Ugh, eu esqueci como odiava aquele país.
Papai tinha mandado o convite do brunch ontem à noite. Pus o nome do meu hotel no Uber, tentando não chorar quando vi que a corrida ia dar sessenta dólares. Quer dizer, não era tanta coisa assim, mas eu tinha certeza absoluta de que eu não tinha isso em minha carteira. Até porque ontem à noite eu estava bebendo em Manhattan, como que eu ia adivinhar que a bebida ia me trazer para… Onde eu estou?
Olhei no mapa do aplicativo. Brooklyn. Eu estava na porra do Brooklyn! E o horário de estimativa de chegada era às 10h21min. Hoje eu morreria. Se meu pai havia deixado alguma regalia para facilitar minha nova vida de universitária, provavelmente tomaria agora.
Posso te dar uma carona? — Ele surgiu mais uma vez do nada. Praguejei e suspirei lentamente, pensando que eu provavelmente seria presa se o jogasse contra algum dos carros que estava na rua.
Você de novo.
Seu sorriso se iluminou com meu desprezo. Agora ele estava usando uma camisa de manga comprida que era um pouco colada ao seu corpo, calças escuras e aquelas clássicas botas de combate. Sua jaqueta jeans estava em suas mãos, e eu imaginei que ele ficaria ainda mais sexy se estivesse usando-a.
— Você está na minha casa, é claro que sou eu de novo. Eu estou de bom humor, então vou perguntar mais uma vez, posso te dar uma carona? Você parece perdida, british girl.
Obrigada, sotaque, você ajuda bastante às vezes. Quando eu não preciso.
— Depende, você vai para Upper East Side?
Não que eu estivesse julgando onde ele morava ou o que ele vestia. Podia parecer que sim, mas era só mecanismo de defesa.
— Não, mas você vai. Me espere aqui que eu vou tirar o carro da garagem.
Ele tinha uma garagem, o que parecia ser muita coisa diante do fato de todos os carros dessa rua estarem em frente às suas casas. Acompanhei com os olhos como ele ficava gostoso com aquele jeans e quis dar uma risadinha, mas ele provavelmente estava ouvindo e eu tinha acabado de conhecê-lo, então era melhor ele continuar com a imagem de marrenta com um péssimo humor que pode te dar um soco a qualquer momento.
Por mais que minhas roupas gritassem Regina George ou Cher. Mas numa versão moderna, é claro.
Quando ele saiu da garagem, estava dirigindo uma pick-up. Não fazia ideia de qual o modelo, porque qualquer coisa com uma caçamba em cima não era meu tipo de carro. Mas ele ficava mais gato ainda. Ótimo. Pelo menos, eu dormi com alguém gostoso.
Entrei no carro com a mesma cara emburrada que eu estava antes e coloquei o cinto, mexendo os pés e mandando uma mensagem para meu pai dizendo que eu ia atrasar um pouco.
— Para onde vamos? — O deus grego perguntou.
’s Palace — Tentei não rir ao falar o nome do meu hotel, mas eu não sei se ele sabia meu nome. Então, fiquei quietinha e comecei a rolar o feed do Instagram.
— Icarus.
Oi?
— Eu me chamo Icarus.
Não é que ele era sim um deus grego?
Pera, isso é mitologia grega, sua burra.
— Eu não me importo.
— Você tem esse bom humor todos os dias ou só depois de passar a noite inteira sendo muito bem fodida? — Arqueei a sobrancelha com sua pergunta
— Você está supondo demais para quem teve uma noite de sexo baseada em bebida. Eu não lembro e, mesmo que lembrasse, abaixa essa sua bolinha.
— Ah, você não lembra como foi parar lá mesmo, não é? Achei que eu estava bêbado, mas você se superou. Enfim, eu tenho lembranças vividas de como foi bom para você também. Acredite em mim: você não estava fingindo.
Rolei os olhos e encostei minha cabeça no vidro. O trânsito não estava tão ruim quanto parecia estar quando olhei alguns minutos mais cedo. Conspiração fodida do destino para eu ter que pegar carona com esse cara.
O celular de Icarus começou a tocar, e ele estendeu a mão para pegar o aparelho, que escorregou entre seus dedos antes mesmo de ser realmente pego.
— Você pode…?
Seu pedido estava implícito, e eu o fiz porque não era nenhum monstro. Eu podia pegar o celular para ele sem problemas.
— Quem está ligando?
— Hm — Olhei o visor em minhas mãos — .
— Certo, você pode colocar no viva-voz, por favor? E atender, claro.
Rolei os olhos, porque era óbvio que eu teria que atender antes de colocar no viva-voz, mas assim o fiz e encostei o celular em sua direção.
Aparentemente, o tal não estava muito feliz que Icarus estava atrasado para qualquer coisa que eles estivessem planejando juntos. Ah, acho que eles eram irmãos. Ou primos. tinha um sotaque que Icarus não tinha, com certeza ele era canadense. E devia ter encontrado o bonitão aqui uma hora atrás.
Que cara mau caráter.
A trama entre irmãos estava bem interessante, porque semáforos passaram, ruas esquisitas e até mesmo lojas que eu normalmente pararia para gastar uns bons dez mil dólares em bolsas — ou bolsa, dependendo do modelo, sempre valia a pena —, mas a parte mais fofoqueira dentro de mim não viu o tempo passar e aqui estava eu. Em frente ao hotel e só quinze minutos atrasada. Icarus devia ter estacionado uns cinco minutos atrás, porque agora me olhava com uma sobrancelha arqueada e um sorriso para lá de presunçoso.
Inclusive, a mão estava estendida para pegar o celular, que eu segurava como se fosse uma barra de ouro.
Doida.
— Você está devidamente entregue ao seu destino — Ele imitou uma voz de GPS, e eu contive minha vontade de rir — E ainda não me disse seu nome.
Dizer ou não dizer? Permiti a risada sair de mim e dei de ombros, entregando o celular dele e abrindo a porta para poder sair.
Katherine — Não era uma mentira, esse era meu segundo nome de qualquer forma — Adeus, Icarus.
— Até logo, Katherine.

Você devia raspar essa barba.
Minha avó não tinha dado nem mesmo um bom dia antes de começar a profanar ofensas indiretas pela manhã. Era claro que ela tinha que falar de minha barba.
E de minhas roupas.
E de meu cabelo.
E da minha altura, por mais que eu não tenha escolhido ser desse tamanho. Ela falava mesmo assim.
Bom dia, vovó.
— Eu estou falando sério, . Raspe essa barba, meu filho. Ela espanta as mulheres.
— Você só está me dando mais motivos para manter a barba.
Para minha avó, um homem descompromissado era um homem sem valor. Você tinha que ter alguém ao seu lado: uma mulher, um homem, até uma filha, só para te dar um pouco de responsabilidade. Porque eu pagava minhas contas, estudava por uma bolsa que eu consegui por mérito próprio, era capitão de um time renomado de hockey, trabalhava e a cada quinze dias viajava de um país a outro para atender os chiliques dela.
Mas não tinha valor algum, porque não havia alguém ao meu lado para fingir emoções fortes demais e planejar alguma baboseira que podia ou não acontecer em dez anos ou quinze.
Eu tinha muitas mulheres em minha vida, e todas elas garantiram um espaço especial no céu para mim: três irmãs mais velhas e minha avó materna. Também tinha um meio-irmão, que não servia para absolutamente nada além de dor de cabeça.
! — Alguém gritou do outro lado da casa, Gaia, a mais nova antes de mim — Você fez o café?
— Você sabe que minhas aulas voltam semana que vem, não é?
— E…?
— E eu vou estar bem longe daqui, então você não vai poder depender de mim para fazer café todos os dias.
Gaia, ao contrário de mim, tinha puxado a nossa mãe e devia medir no máximo 1,68. Talvez, sendo muito otimista, 1,70. Para algumas pessoas, essa altura poderia ser ótima e até mesmo algo classificado como alto demais. Não para mim. Eu era o infeliz que media 1,95 e batia a cabeça sempre porque as mulheres desta casa não sabiam fechar os armários.
— Acho injusto que você não more aqui — Gaia murmurou com a boca cheia de waffle. A xícara com café até o topo parecia um malabarismo em suas mãos — A comida da vovó é horrível.
— Eu não sou tão velha assim, Gaia, ainda te ouço!
Me permiti rir. Elas duas viviam em pé de guerra, mas de um jeito totalmente amoroso. Vovó provavelmente lamberia o chão que sua neta favorita passasse.
— Talvez você devesse cozinhar sua própria comida — Sugeri, piscando para ela — É o que adultos de 24 anos fazem.
— Você mora nos Estados Unidos, você sabe bem que adultos sobrevivem de fast-food e aplicativos de entrega.
— ‘Tá falando isso com a pessoa errada — Minha avó resmungou, voltando para a sala e sentando em frente à neta — Você sabe como ele é todo fresco com comida, orgânicos, vegetarianos e toda essa palhaçada cara.
— Veganos, vovó. Veganos — Porque eu já estava cansado de corrigi-la, a velha sabia que a única coisa que eu opinava demais era o que colocar na boca.
— Tanto faz. Eu li uma matéria sobre isso de veganos, faz muito mal para a saúde e você não devia ser tão psicótico com essas coisas. Só come verdura, folha, fruta…
— Eu não estou comendo com seu dinheiro, estou?
Ela se encolheu, e a culpa bateu dois segundos depois. Eu perdia a paciência com dificuldade. Comandar um time de caras com responsabilidade zero trouxe minha vida a um novo patamar de pensar muito antes de falar alguma coisa, sempre medir minhas ações e basear nas pessoas ao meu redor, como isso afetaria a vida delas.
Mas minha avó? Ela conseguia sugar qualquer pontada de energia e bondade que tinha em mim.
Não que ela fosse alguém ruim. Eu estaria cuspindo no meu próprio prato se falasse que vovó era uma pessoa terrível, mas existiam ressalvas. Você cuida dos filhos a vida inteira ao lado do seu marido e, quando finalmente se vê sem responsabilidades e aos 60 anos, perde um marido e uma filha e ganha quatro netos adolescentes. Eu não a culpava, seria trezentas vezes pior se fosse comigo.
O problema todo era unicamente comigo.
— Mas é sério, Gaia, você devia começar a cozinhar — Murmurei baixo, tentando parecer menos babaca do que eu tinha soado alguns segundos atrás — Suas veias vão ficar entupidas.
— Vovó, você está ouvindo alguém falar alguma coisa? — Revirei os olhos — Porque soa como um nutricionista enchendo o meu saco, mas eu só vejo um atleta.
— Eu acho que estou sufocado com tanto amor — Ironizei — Mas, sério, eu queria falar com vocês antes, mas não tive oportunidade. Vou ter que voltar pra Hanover mais cedo que a previsão, especificamente amanhã.
— Mas suas aulas não voltam só semana que vem?
É, mas eu não aguento mais ficar em casa com vocês.
— O treinador quer adiantar a análise dos calouros que se inscreveram para o time para a gente começar a temporada sabendo quais os pontos fortes dos novos jogadores.
Gaia estreitou os olhos, não comprando minha mentira. Mas também não se importava o bastante para mostrar isso, porque não falou nada em seguida.
— Chester vai com você? — Gaia quis saber.
Chester era nosso meio irmão e, a partir desse ano, ia trabalhar na faculdade que eu estudava. Maravilhoso, não é mesmo?
— Não, não falo com ele tem algumas semanas. Ele disse que ia viajar à procura da onda perfeita. Alguma coisa sobre o Havaí… Ou Nova Zelândia, não lembro bem.
Menininho irresponsável esse. Não sei como uma universidade tão renomada quanto Dartmouth quis contratá-lo.
Dei risada do comentário de minha avó, porque pimenta no cu dos outros é refresco. Quando ela agia com outras pessoas do jeito que agia comigo, era revigorante.
— As pessoas não vivem pela faculdade, vovó. Não é saudável, e ele está de férias. Contanto que não esteja matando pessoas ou fazendo algo ilegal depois disso, tá tudo bem — Gaia repreendeu nossa avó porque Chester era seu irmão favorito, por mais que os dois não tenham sido criado juntos do jeito que fomos. Aliás, acho que o principal motivo para eles se darem tão bem era esse.
Ninguém se gosta tanto quando é criado junto. Quer dizer, eu daria minha mão por minhas irmãs e provavelmente tentaria matar alguém que fizesse algo ruim para elas, mas falar mal das três era um hobby muito interessante.
— É, você está certa — Vovó concordou com sua cópia mais jovem e estalou a língua em seguida — Você já está com as malas arrumadas, ?
— Tudo empacotado e bonitinho.
— Já fez sua colheita?
— Vou deixar com vocês. Arranjei um revendedor na cidade vizinha que vende, e é melhor porque não como tudo na pressa com medo de apodrecer.
— Ah — Ela arregalou os olhos como se tentasse adivinhar o que ia fazer com tanta verdura e fruta em pleno outono. Comer seria uma boa opção — Trocou os pneus?
— Não estamos no inverno, vovó. Eu não vou ficar com os pneus carecas por causa da neve. Eles estão em bom estado e cheios, tudo no carro está perfeitamente no lugar, e eu nem uso tanto a caminhonete quando tô em casa.
Até porque eu sempre tinha carona ou ia de moto. Minha avó odiava motos, mas sabia que não podia fazer nada. Ela não era a pessoa mais insistente no mundo e eu não era a mais obediente. Os dois acabam sendo uma junção perfeita.
Minha avó morava num sítio em Mahone Bay, Nova Escócia. Por mais que tivéssemos nascido e sido criados em Halifax, ela não era muito fã da cidade, então, assim que vovô morreu, ela vendeu a casa antiga e trouxe todo mundo para esse lugar.
Eu gostava. Era pequeno e quieto. O mercado mais próximo ficava a 10 minutos de carro e não passava ônibus algum. O centro da cidade era quieto o tempo todo e só tinha uma escola para toda a população. A cidade perfeita de um filme de terror.
Mas minha família não ligava para isso. Éramos canadenses, oras, do interior do Canadá e cidades conhecidas por furacões.
Espaços estranhos eram nossa casa. E aquele sítio era o refúgio de minha avó. Ela criava porcos, galinhas e uns bodes que eu detestava. Tinha uma vaca de estimação e um bocado de cachorro que ela achava na rua e pegava para cuidar. Minha irmã queria ter uma cobra, mas, como minha avó achava que a cobra ia comer suas galinhas, Gaia se contentou com dois coelhos que acabaram se tornando dezoito.
Fui criado num matriarcado, sem opinião ou voz. Ninguém ligava para o que eu queria e, às vezes, nem eu ligava. Aprendi que quem eu devia ser iria se formar em algum momento e que toda a minha vida fui moldado do jeito que minha família queria.
Por isso que os dias em casa, fora da realidade da faculdade, hockey, estudos e a rotina que eu realmente gostava eram sufocantes demais.
Porque eu era obrigado a voltar para o molde que não cabia mais em quem eu havia me tornado.


Three

Eu havia feito uma semana inteira de meditação dia e noite com um dos melhores professores de yoga dos Estados Unidos. Não que eu tivesse dinheiro para pagar, não tinha. Papai estava fazendo, e eu me enfiei no meio porque eu queria me preparar psicologicamente para tudo isso.
Lembrei também que ele tinha um terapeuta em Malibu e pedi algumas sessões para que pudéssemos conversar um pouco.
Mas não adiantou.
Nem mesmo se eu tivesse passado um ano inteiro meditando no Himalaia iria ter psicológico para o que era aquela cidade.
As ruas eram estreitas, os restaurantes tinham fachadas pequenas demais e calçadas pequenas. Eu consegui localizar duas cafeterias e uma loja de roupas, mas tenho certeza de que era um brechó. Lojas de roupa não eram tão escuras.
Feias.
Estranhas.
Tudo na cidade parecia muito… obscuro? Ou era simplesmente meu olhar estagnado de quem estava sofrendo horrores com tudo aquilo? Eu não sabia dizer.
Cambridge não era assim. Era divertida, tinha o campus muito colorido e fofo. Apesar das pessoas falarem muito da Inglaterra, nós éramos acolhedores e nada frios. Franceses eram frios. Alemães eram traumatizados. Italianos eram maravilhosos. Espanhóis eram um meio termo constante e noruegueses se achavam demais. A Suíça… bem, era a Suíça, não tinha o que falar. Eu tinha também certo apreço por búlgaros e russos. Eles eram muito bons em tudo o que faziam.
Mas americanos? Norte-americanos, estadunidenses. Que espécime horrível.
Explodir os próprios prédios por petróleo, mínimo senso de geopolítica, racismo a cada metro quadrado, patriotismo extremo e de forma errônea… Isso sem falar nas comidas. Eram todas muito gordurosas e cheias de cheddar. Estadunidenses comiam como se tivessem saúde pública! O comércio era basicamente feito para fazer pessoas pobres pensarem que estão fazendo um bom negócio, quando, na verdade, elas estão com a água batendo na bunda e podendo se afogar a qualquer momento. E ainda tinha aquela mula que eles colocaram na presidência!
Pois bem, agora eu morava aqui.
— Eu conversei com o reitor, e você não vai precisar morar no campus. Já tinha te falado isso antes, mas não sei se você lembra — Meu pai, que não tinha proferido uma única palavra em toda a viagem para cá, murmurou, apontando para as casas sem graça e com cores feias — Sua casa fica relativamente perto do campus, você pode pegar ônibus ou carona. Ou vir andando, já que você não tem mais um personal particular para fazer exercícios.
Eu senti o tom crítico em sua voz. Merda, ele provavelmente descobriu que eu também dormi com meu personal.
O cara era muito gostoso e fodia bem. Era o tipo de alongamento que eu mais suava.
— Não morar no campus já é algo.
Não reclamei do jeito que eu queria reclamar. Não. Eu ia fingir estar amando tudo isso até meu pai sair de perto de mim. Ele não ia ouvir uma única reclamação entonada com minha voz. Fingiria ser a pessoa que aceitou sua punição e que vai cumprir isso de forma perfeita nos próximos meses.
— Você quer conhecer a faculdade ou ir direto para casa? Acho que as duas outras meninas já estão lá.
— Achei que eram três.
— Duas chegaram mais cedo, a terceira não veio ainda.
Estreitei as sobrancelhas. Como exatamente ele sabia daquilo?
— Falou com o locatário, foi?
Papai deu uma risada estranha e assentiu com a cabeça.
— Sim, as duas que estão hoje moram juntas desde o semestre passado e conseguiram sair do campus, daí vão pra essa casa nova.
— Vamos pra casa, eu conheço a faculdade depois — Ou nunca — E são quartos separados, não é? Ou eu vou ter que dividir quarto também?
Ele riu do desespero presente em minha voz.
— Quatro quartos, dois banheiros, um lavabo, uma sala e uma cozinha. Área de serviço e garagem com duas vagas. A casa é de dois andares e a suíte ficou com você, mas unicamente porque o seu banheiro é sua responsabilidade e você vai ter que limpar.
Franzi o nariz. Eu não sabia nem como fazia isso.
— Eu não ia me escorar nos outros para que eles limpem minhas coisas — Ia sim, talvez oferecer um vestido emprestado. Uma bolsa.
Finalmente papai estacionou em frente a um conjunto de casas iguais, e eu suspirei pesadamente. Não era terrível. Era visivelmente construída na arquitetura padrão americana: branca, com duas janelas simétricas no primeiro andar e uma no que deveria ser a cozinha; uma pequena área na entrada com um balanço; a garagem era como se fosse um quarto externo e tinha uma árvore enorme bem ao lado, as folhas alaranjadas pelo outono que estava vindo.
Nenhum carro estava estacionado, e a frente da casa logo foi ocupada pela minha Range Rover, que ainda bem que tinha sido comprada dois meses atrás, e pelo carro de carga, que estava logo atrás de nós com a minha mudança. As coisas que iam compor meu quarto e alguns eletrodomésticos, que, aparentemente, não estavam inclusos no aluguel — e que meu pai comprou, porque, como eu disse antes, ele era um bundão molenga.
Foi aí que a primeira pessoa saiu da casa.
Era uma mulher que não devia ser muito mais nova que eu, tinha cabelos loiros e longos. Os olhos eram enormes e escuros, ela usava calças de flanela, uma blusa quadriculada estranha, botas e um gorro avermelhado. Ótimo, eu ia morar com um lenhador.
Pelo menos frio ninguém ia passar.
A segunda era mais alta e parecia mais velha, cabelos castanhos e cacheados, pele bronzeada, óculos pendurados na ponta do nariz. Mesmo que estivéssemos no fim do verão, isso não parecia afetá-la, já que ela vestida um cropped tão pequeno que facilmente se passaria por um sutiã e shorts tão curtos que poderiam ser calcinhas.
E, meus amigos, que corpo. A cintura dela era tão fina que parecia que dava para fechar nas mãos e as pernas, torneadas, longas...
Se eu tivesse esse corpo, também só andaria desse jeito.
— Vá se apresentar. Vou conversar algumas coisas com o pessoal da mudança.
Assenti e engoli tão seco que desceu rasgando. Eu era péssima em fazer amizades sóbria, péssima. Não conseguia manter conversas ou puxar assunto.
Mas, mesmo assim, saí do carro com o cu na mão e vesti meu melhor sorriso.
A loira-lenhadora me olhou da cabeça aos pés de um jeito meio nojento enquanto que a gostosona-alta sorriu com todos os dentes do jeito mais sincero do mundo.
— Oi! Você é a ? — Assenti, e ela veio em minha direção — Eu sou a Rachel e aquela é a Savannah.
Tentei não a analisar dos pés a cabeça pela menção do nome que eu não gostava. , eu parecia uma bruxa quando me diziam isso.
— Muito prazer em conhecê-las — Apertei sua mão e sorri da forma mais simpática que eu conseguia — E me chama de , por favor.
Aquele é seu pai? — Savannah quis saber. Oi também pra você, delicadeza em pessoa!
— É o que diz na minha identidade, mas quem pode dizer se é mesmo verdade? — Brinquei, tentando quebrar o clima ruim que a loira havia instalado.
Garooota — Rachel tinha um sotaque forte, talvez fosse texana — Vocês dois têm o mesmo nariz e a mesma boca. Eu acho que com certeza ele é seu pai.
— Bem, nossos narizes foram feitos no mesmo cirurgião, então eu acho que sim — Respondi, olhando diretamente para Savannah e sua cara feia de quem provavelmente odiava gente rica. Ah, isso vai ser demais — Então, nossa terceira rommie… vocês já conhecem?
As duas se entreolharam, parecendo tão confusas quanto eu naquele momento.
— Achamos que talvez você conhecesse. Todas as coisas dela já estão no quarto dela e, bem, tem um bilhete na porta. Ela pagou o aluguel do ano inteiro adiantado e ‘tá bem específico na notinha que ela vai aparecer pouco na casa.
Dei de ombros, pelo menos era uma dor de cabeça a menos para lidar. Quer dizer, eu estava pagando por um quarto e o resto da casa, eu poderia morar sozinha. Facilmente.
Mas talvez convívio humano fosse bom para mim. Ser colocada diante de realidades que não faziam parte de minha vida antes e começariam a fazer agora era um bom jeito de aprender a lidar com diversas situações.
— Bem, se você não se importa, nós vamos arrumar nossas coisas enquanto os empregados de seu pai arrumam as suas — Savannah sorriu da forma mais irônica possível e saiu do meu campo de visão.
Ou talvez eu aprendesse a lidar com as coisas do melhor jeito: no soco.

•••


Se uma coisa eu poderia aproveitar dessa casa nova, era esse quarto. Como eu tinha ficado com o maior dos quatro, tinha bastante espaço e um banheiro só meu. Claro que meu quarto antigo poderia caber nesse andar inteiro, mas eu estava satisfeita com ele até o momento.
O quarto tinha um quê de sofisticado, decorado em tons pastéis e despojado como um cenário saído daquele aplicativo que as pessoas usam pra se iludir com coisas que nunca farão. Havia uma mesa minimalista em um canto e, no seu tampo, materiais de papelaria e uma cesta de arame dourada para anotações. A parede clara estava coberta por quadros e contrastava com o pelego cor de rosa da cadeira de escritório, assim como a poltrona ao lado.
Claro que com o patrocínio certo e a decoradora de papai, que havia chegado um pouco depois da gente, não tinha como sair alguma coisa ruim.
Me joguei na cama, sentindo uma pontada no peito. Era isso, talvez a ficha estivesse finalmente caindo.
Eu estava na faculdade de novo. Com um bando de americanos egocêntricos e narcisistas. Literalmente era o fim dos meus pecados. Só faltava Jesus descer e passar cada merda que fiz num telão para justificar por que eu estava aqui.
?
Agh, eu odiava esse nome com toda minha força.
— Oi, papai — Respondi, sem paciência de corrigir, porque pelo menos ele não tinha me chamado de Katherine.
— Já estou indo, suas amigas estão lá embaixo arrumando o resto da cozinha. Talvez você devesse descer e ajudá-las.
— Elas não são minhas amigas, são desconhecidas que agora moram comigo — Minha voz soou do jeito mais birrento possível, e eu me odiei por parecer tão mimada naquele momento. Era assim que eu agia todos os dias? — Eu vou descer já. Veio se despedir?
— Sim, queria acompanhar você até a faculdade, mas eu tenho que voar de volta para Inglaterra ainda hoje.
Inglaterra. Minha casa. Meu Deus, aquele país sem graça e chato nunca pareceu tão perfeito.
Até mesmo Cambridge parecia o lugar dos meus sonhos.
— Então é isso? — Meus olhos estavam no chão enquanto o salto do sapato batia freneticamente na madeira.
— Tchau, filha — Ele me abraçou todo sem graça e sem jeito. Retribuí da mesma maneira — Eu estou apostando todas minhas fichas finais em você, espero que valha a pena.
— Pode confiar em mim, pai — Sorri com todos os dentes até ele sumir do meu campo de visão — Eu tô fodida.
Minha ficha não tinha caído por completo. Na verdade, eu achava que só cairia quando eu entrasse na minha primeira aula e percebesse que aquele era meu futuro.
Inferno.
Fui até minha escrivaninha e puxei uma agenda velha e surrada, também conhecida como Diário das Conquistas. Segundo ele, a última pessoa que eu tinha transado foi Sebastian Carson, um jogador de futebol que estava numa festa de minha família, dois dias atrás.
Significava que eu precisava achar a próxima presa em até dois dias. Três, sendo pessimista. Quatro se eu for muito negativa e ficar irritada demais com a realidade atual.
Bash tinha sido uma transa muito boa, tanto que eu o deixei dormir comigo e me foder de novo no café da manhã. Estava lá tudo anotado do jeito certo.
Sebastian Carson • 09/01/2019 • Em torno de uma da manhã
Sebastian Carson • 09/01/2019 • Depois do café, quase nove horas
Era isso.
Fechei o baú de todos meus segredos e desci até a cozinha. Rachel e Savannah estavam colocando vasilhas e utensílios domésticos em um dos armários que eram altos demais para mim. Mas nós tínhamos uma escada! Já era alguma coisa.
— Oi, eu só terminei o quarto agora… — Não era uma mentira. Não totalmente — Vocês querem ajuda no quê?
Aquela frase saiu tão forçada quanto um cocô entalado.
— Nós estamos terminando, na verdade — Rachel respondeu, tão sorridente quanto um dia em São Francisco — Sav e eu moramos juntas desde o ano passado e temos um ritmo bom para fazer as coisas dentro de casa! Cola na gente que, em um mês, você estará lavando pratos como uma dona de casa experiente.
Ugh, esse era meu futuro? Lavar pratos como uma dona de casa? Por que eu não podia ser uma dona de casa como… Lorelai Gilmore? Preguiçosa, que só comia na rua, não lavava um único prato e tinha a casa sempre limpa.
— Vocês precisam de ajuda com os quartos? — Eu estava tentando o máximo que conseguia. Minha vontade era arrancar minhas cordas vocais cada vez que uma palavra soava da minha garganta — Eu sou… relativamente boa com decoração. Claro, se… se vocês não tiverem já tudo pronto.
Sorri amarelo. Eu gostava de decoração, sempre prestava muita atenção em quem estava decorando os imóveis de minha família. Quando eu comecei a fazer faculdade, estava estudando para ser arquiteta. Na verdade, meu pai me transferiu para a mesma coisa. Me deixava calma de um jeito interessante, mas a parte de decoração era a minha favorita.
— Não preciso de ajuda — Savannah respondeu e eu senti o sua implícito no seu tom de voz.
— Eu não tenho muita coisa, e nós não queremos ocupar seu tempo — Rachel era tão agradável que eu tinha sérias dúvidas de como o destino a uniu com o poço de mau-humor que estava ao seu lado — Afinal, hoje tem a fogueira de boas-vindas! Você vai amar, tem música, dança, marshmallows, bebida e, claro, a fogueira! É a parte favorita da Sav.
— Eu nem consigo imaginar o motivo disso — A alfinetada saiu de minha garganta antes que eu percebesse e sorri com toda arrogância que tinha — Essa festa é boa mesmo? — Parecia ser muito… americana.
Ugh, não tinha me acostumado ainda com isso. O carimbo marcando visto de estudante era um pesadelo terrível que havia se tornado realidade.
— É maravilhosa — Rachel entonou cada sílaba separadamente — E nossas estrelas estarão também hoje… Ah, só de pensar neles meu coração erra as batidas.
— Hm, estrelas?
— Ela está falando da liga de hockey — Relutantemente, Savannah respondeu — The Dartmouth Big Green Men’s. Rachel é obcecada por eles.
— E você já deu uns pegas em algum deles? — Me interessei logo. Não que eu estivesse muito ligada no assunto dela. Não me importava com quem o pedaço de girassol havia trocado saliva, mas… atletas têm um preparo físico muito bom. Além do quê, jogadores de hockey? Altos, malhados, brutos e muito gostosos.
Laudo médico: extremamente memorável.
— Seria esse meu sonho? — Rachel colocou uma última vasilha no armário e voltou para o chão, sua concentração toda em mim — O time de hockey não fica com calouras. Então… acho que esse ano é a minha chance, mas, mesmo assim, é muito difícil. Todo mundo sempre ‘tá em cima deles, e a competição é acirrada.
Sinto muito, Rachel. Você acabou de ganhar mais uma adversária.
Não que eu fosse lutar com unhas e dentes por um pinto. Eu nunca gostava de dar essa moral toda para alguém, ainda mais alguém do sexo masculino e que tem metade das estudantes da faculdade lambendo seu saco.
Mas ela tinha me deixado curiosa e, como já dizia minha grande parceira de compras, Ari: I want it, I got it.

Eu tinha certeza de que, se rolasse os olhos mais uma vez, eu conseguiria ver meu cérebro. Não era possível que uma pessoa, nascendo uma única vez e tendo uma criação normal, pudesse ser tão idiota, insistente e chata.
Vai ser divertido, você vai ver! — Kin murmurou pela enésima vez em cinco minutos, e eu me amaldiçoei por ter dado ouvidos a ele — Nós vamos beber, encontrar algumas gatinhas e esquecer nossos nomes!
Veja bem, qualquer julgamento pode ser feito, e esse era o momento certo para isso. Kin tinha 20 anos, era desejado por metade da faculdade e tinha mulheres o bastante ao seu redor para achar que o mundo girava em torno de três coisas: sexo, bebida e hockey.
E pelo menos uma das coisas estava certa, já que sua bolsa de hockey que garantiu sua vaga, mas era muito ruim ter que lidar quando ele estava naquelas crises de humor incrivelmente bom, em que achava que todas as pessoas ao seu redor precisavam instantaneamente de uma seringa entupida de serotonina.
Mas, nesse caso, a seringa continha unicamente álcool.
— Em primeiro lugar, você não pode beber — Kin não tinha completado 21 anos ainda, e o treinador comeria seu fígado assado se soubesse que ele estava extrapolando na bebida — Em segundo lugar, eu estou dirigindo, caso você não lembre. Não vou beber. Na verdade, eu tô indo porque você encheu meu saco e talvez Naiia vá também.
Ouvi o estalo de desaprovação vindo do banco de trás um segundo após eu falar o nome de minha ex-namorada.
— Sério isso, ? — Sam levantou de vez e enfiou a cara entre os bancos — Você não vai atrás de sua ex, não é?
— Ele vai, cara. Com certeza — Kin respondeu por mim, e eu rolei os olhos mais uma vez.
Sam e Kin eram irmãos. Esse era o único motivo pelo qual Kin foi introduzido diretamente entre os veteranos, principalmente no time. Os calouros sempre serviam de saco de pancada para o resto dos jogadores, não importava quantos gols, faltas ou vitórias tinham no histórico.
Calouros nunca eram respeitados.
— Chegamos — Anunciei, estacionando perto o bastante do campus para carregar algum bêbado rapidamente para o carro — E sem comentários sobre Naiia. Eu não gosto do tom que vocês usam pra falar dela.
Estamos falando da mesma pessoa? — Kin saiu do carro logo atrás de mim. Vestia um moletom com o logo da faculdade e calças de carga. Seu cabelo estava daquele jeito que gritava por sexo, e os óculos eram uma apelação — Naiia Marefi? Sua ex que te traiu com seu…
— Sim, estamos falando da mesma pessoa. Eu quero conversar com ela, não posso? Ou você acha que sou como você que dorme com qualquer coisa que consiga dizer duas palavras?
Sam apareceu ao lado do irmão, sorrindo arrogante e cheio de veneno. Vestia jeans e uma camisa de manga longa escura. Os dois tinham quase a mesma altura, corpos largos e a pose assustadora que só quem jogava hockey tinha.
Uh, ele quis te ofender — Sam falou numa voz que seria engraçada se ele não estivesse me irritando — Vai voltar rastejando pra ela.
— Pede uma coroa também, que combine com seus chifres. Aproveita e escreve Cachorrinho da Naiia em cima pra ficar mais claro — Kin complementou, batendo no ombro do irmão em seguida.
Eu mereço. Mereço, sim, tudo isso.
— Ei… — Sorri de orelha a orelha, encarando fixamente os irmãos à minha frente — Vocês sabem o que mais vai ter hoje? Nessa festa?
Sam e Kin se entreolharam.
— Mulheres?
— Sexo fácil?
— Bebida?
— Muitas bundas balançando?
— Tudo isso e mais um pouco — Fui até os dois e os juntei com os braços, andando e os levando comigo — E sabe o que quase todo mundo detesta?
— Tenho lista imensa de respostas para essa pergunta.
Nerds — Respondi — Nerds chatos e obcecados. E, por mais que nenhum dos dois seja realmente isso, como vocês acham que as garotas que vocês querem comer vão reagir quando descobrirem que vocês, na verdade, se chamam Samwise Gamgee e Anakin Skywalker?


Four

Eu podia sentir claramente os olhos de todo mundo em cima de mim. Não era muito fã de festas em geral e, por mais que eu estivesse sempre no meio de muita gente, multidões nunca foram meu forte.
No gelo, eles sempre estavam separados por uma barreira. Tudo bem que o pior sempre estava do lado de dentro: as ofensas e brigas.
Hockey universitário não era como a liga profissional. Você não podia bater nos outros jogadores até arrancar capacetes ou tirar sangue, não, você ofendia usando o acervo mais sujo que tivesse à sua disposição. E nunca era sobre você diretamente, era sobre como você jogava, como seu time estava, sobre sua mãe que estava de quatro ontem na cama de tal pessoa ou sua irmã que chupava muito bem um pau. Ou até dois.
E eu preferia estar no ringue ouvindo xingamentos sobre minha mãe morta do que numa festa, lidando com calouros bêbados, veteranos bêbados e, no geral, pessoas irritantes bêbadas.
Sam já tinha se perdido muito tempo atrás entre duas loiras que pareciam estar muito interessada no fato de ele jogar futebol, por mais que ele tivesse dito uma única vez que jogava, na verdade, hockey. Das outras vezes, ele não quis corrigir, e elas pareciam espertas o bastante para saberem a verdade. Mas aí é com elas, não comigo.
Kin estava conversando com a galera de basquete próximo à fogueira, e eu finalmente avistei uma pessoa que era quase tão estranha quanto eu numa festa: Askel Naas.
O único negro do time e também um dos caras que não era americano e adorava criticá-los. Askel era norueguês, e, toda vez que as pessoas contestavam esse fato, ele respondia de forma educada e calma que sua mãe era do Sudão do Sul e seu pai era nativo da Noruega. Ele nunca gostou de falar como os dois se conheceram, mas o nome e o sotaque forte eram as únicas coisas que ele mantinha do seu país natal.
Askel sempre foi o mais reservado do time e olha que o meu apelido era Tarzan porque, quando entrei na faculdade, eu tinha cabelos enormes, uma dificuldade absurda de lidar com pessoas e não sabia me comunicar com a maioria das garotas.
Ele se comunicava pouco até mesmo com os pais, pelo que mostrava para a gente. Morava sozinho com o cachorro e tinha uma namorada de longa data, mas que iam e vinham toda hora. E ele tinha vergonha de apresentá-la para todo mundo porque ela é branca.
Askel provavelmente só estava aqui porque era a noite da fogueira e não uma festa qualquer de fraternidade, porque ele sempre dizia que festas de faculdade numa casa fechada tinham um aroma específico que fazia mal às suas delicadas narinas: suor, cerveja barata, sexo ruim e vômito.
E eu assinava embaixo, concordando plenamente.
— Askel Naas, quem te tirou de casa? — Perguntei e, assim que me viu, um sorriso abriu em seu rosto. Apertei sua mão e demos um abraço com tapinhas nas costas.
— Você fala como se fosse muito normal te ver numa festa, . Os Stewart te convenceram a vir?
Kin e Sam, ele quis dizer.
— Tô dirigindo o carro deles, esqueci minha moto aqui mais cedo — Dei de ombros. Tinha trazido um cobertor para colocar na caminhonete dos meninos e poder levar minha moto para casa, já que eu tinha certeza de que eles não teriam condições de voltar dirigindo — Eu não sei, algo nos Stewart te compele a fazer as coisas de um jeito que não dá pra explicar. Você precisa ver a irmã mais nova deles, Hermione. Ela me convenceu a ver todos os filmes da Barbie e eu ainda fui brincar com ela depois. Nem puder ser o Ken!
Askel começou a rir de minha cara como o bom panaca que eu era.
— Mas eram as versões antigas ou as atuais?
— As antigas, claro. Me recuso a ver as atuais, as bonecas são tão estranhas — Fiz uma careta, nem percebendo que estávamos discutindo desenhos animados — Mas você ‘tá com quem?
— Sozinho e pensando em voltar pra casa e dormir — Askel sorriu. Parecia querer genuinamente voltar para casa — Você já achou uma casa nova com os meninos?
Eu costumava morar com Kin, Sam, Lucca e Trevor. Todos jogávamos no mesmo time e, antes de Kin, a casa continha quatro pessoas e era uma ótima jogada. Nenhum de nós tinha achado uma casa que coubesse no orçamento desejado e, agora que Lucca e Trevor tinham terminado a faculdade, ia ficar apertado para nós três.
Claro que Kin amava finalmente ter seu próprio quarto, já que, antigamente, ele costumava dividir um com o irmão, mas as vantagens diminuíram.
Nossa casa era na cidade vizinha, e a gasolina estava sendo dividida por cinco. Os horários de Kin não batiam com os meus e muito menos com os de Sam. Meus empregos e bicos eram em Hanover e minha faculdade também.
Sam e Kin tinham dinheiro para pagar tudo, mas eu não queria deixar todas as despesas nas costas deles.
— Continuo procurando — Respondi, depois do que pareceu uma eternidade — Tenho uma pessoa em mente para tentar dividir algo, mas não sei ainda se é uma boa ideia.
— Quem? — Abri a boca para um desvio curto no rumo da resposta, mas graças aos deuses fui salvo pelo gongo — Eu não acredito que Anakin vai voltar a pegar o Roger, olha como elestão conversando todo chegados.
Estreitei os olhos na direção de Kin e só não fui até ele reclamar porque teria minha própria história jogada na minha cara, já que eu havia deixado claro que estava procurando minha ex, mas Roger era um caso à parte. Arrogante, prepotente e extremamente insuportável de se conviver, o capitão do time de basquete dormia com Kin numa frequência irritante, já que eu tinha que olhar para sua cara no café da manhã.
A maior vantagem de morar com Kin era que ele trazia mais homens para casa do que mulheres. Eu não sabia lidar com mulheres. Elas pareciam sempre inofensivas demais e que a qualquer momento se quebrariam ao meio. Já os homens, não, principalmente se você fosse olhar diretamente o padrão de Anakin.
Era só mandá-los irem embora depois do banho.
Fim de história.
Antes que eu pudesse ter mais divagações fora de hora sobre meu colega de quarto, Sam surgiu do nada, parecendo bem irritado.
Cara, você não sabe o que acabaram de fazer com sua moto...

Mamãe sempre tinha me dito que carros altos e grandes foram feitos para mulheres poderosas e que tinham certeza do que estavam fazendo. Meu primeiro carro foi uma SW4, era preta, linda e eu ficava extremamente gostosa nela, mas sempre tive dificuldade de estacionar em lugares pequenos e apertados, principalmente aqueles com colunas.
Hoje não tinham colunas e nem era apertado. O estacionamento da faculdade era gigante e deveria ter pelo menos cinquenta vagas livres naquela noite. Vagas enormes e que um motorista experiente poderia estacionar até um ônibus.
Mas não eu.
Eu amava dirigir em estradas vazias ou só estradas. Rodovias estaduais eram as minhas favoritas. Estacionamentos? Nem tanto.
E era por isso que a traseira do meu carro tinha destruído completamente a moto que estava bem atrás de mim. E eu tive a impressão de que também tinha um pneu a menos para contar história.
Digamos que eu use óculos. Digamos que eu não goste de usar óculos e finja que não preciso deles para enxergar. Digamos que eu não sabia onde minhas lentes de contato estava e, até aquele exato momento, nem lembrava da existência delas.
E digamos, só hipoteticamente falando mesmo, que eu não tenha visto aquela moto atrás de mim e tenha ido com tudo quando tomei coragem — num momento muito infeliz — de estacionar o carro de ré tão rápido que nem o sensor e a câmera conseguiram me avisar do momento que estava por vir.
Tipo, quando eu passei por cima da moto de uma pessoa por falta de responsabilidade.
As pessoas estavam começando a fazer tumulto ao redor do acidente, e eu senti minhas mãos começarem a tremer. Rachel tinha lágrimas nos olhos e Savannah me olhava como se pudesse perfurar meu cérebro.
— Você comprou sua carteira também? — Ela perguntou, a raiva tão presente em sua voz que eu quase chorei — Você tem menos de doze horas aqui e já bateu o carro. Que delícia.
Quis poder colocar a desculpa no lado errado, mas eu estava tão acostumada a dirigir do lado esquerdo que às vezes esquecia que na Inglaterra o comum era o lado direito. Inferno. Rachel estava chorando e falava coisas desconexas no banco de trás. Amada, menos! Quem bateu a porra de um carro fui eu, fica quietinha.
Meu Deus, eu bati a moto de alguém.
Isso envolve polícia. Notícias, talvez. Multa.
Pagar o conserto da pessoa.
Meu Deus, será que eu ia ficar sem carteira de motorista?
Eu ia ser presa. Eu não tinha nem uma PID* e nem tinha tirado uma carteira aqui nos Estados Unidos para poder dirigir legalmente.
Eu só tinha um visto de estudante que durava o restante da faculdade — que foi bem fácil de conseguir porque minha falta de bronzeado me deixou branca e eu tinha cara de rica, né? Não ia roubar o trabalho de ninguém.
Até que a realidade bateu tão forte quanto aquele acidente.
Você é americana? — Perguntei para Savannah, que me olhou ofendida como se eu tivesse perguntado se ela se limpa quando faz cocô — Troca de lugar comigo.
— Você tem que assumir seus crimes — Seu tom de desprezo me fez querer passar o carro por cima dela e ainda dar ré — Não vou trocar de lugar com você.
Por favor — Implorei, o gosto daquela palavra saindo terrível da minha boca — Eu te empresto qualquer bolsa da Channel. Gucci. Te dou, até. Eu tenho uma Birkin que tem dois anos de espera na lista para alguém conseguir, é sua.
— O que te faz pensar que eu seria comprada por bolsas estúpidas? — Inferno, inferno. Por que eu tive que ir morar com a reencarnação de Karl Marx? — Já te disse. Você assume seu erro. Agora, por favor, eu tenho que pegar minha amiga e procurar uma enfermaria antes que ela tenha um ataque de pânico.
Savannah abriu a porta e, antes que pudesse sair do carro, segurei seu braço com força o bastante para que ela olhasse para mim com raiva.
Eu faço suas tarefas da faculdade.
— Isso continua sendo ilegal. Não.
— Eu limpo seu quarto durante uma semana.
Savannah arqueou a sobrancelha de forma interessada e sorriu maliciosa. Merda.
— Um mês e também lava o banheiro social.
Duas semanas com o banheiro incluso.
— Três e se você tentar negociar mais alguma vez, eu incluo os pratos e limpar todas as folhas da garagem.
— Fechado — Apertei sua mão quando ela estendeu para mim e senti os pelos do meu corpo ficarem totalmente arrepiados. Eu tinha acabado de fazer um acordo com o diabo? Porque parecia que sim — Agora venha cá que eu cuido da Rachel.
Trocamos rapidamente de lugar e agradeci a todos os deuses pelos vidros escuros e estacionamentos sem verba para postes.
Obrigada pela corrupção estado-unidense!
Savannah bagunçou um pouco os cabelos e respirou fundo antes de se concentrar para lágrimas caírem do seu rosto. And the Oscar goes to
Rachel estava realmente tremendo quando eu abri a porta traseira para tirá-la de dentro do veículo. Seus olhos estavam arregalados, e eu tive a impressão de que alguma coisa estava por trás daquilo.
Meu Deus, ela está bem? — Ouvi uma voz masculina perguntar em meio à multidão e quase rolei os olhos. Claro que ela não está bem, seu mané. Mas alguma simpatia tinha que existir, então fiz minha melhor cara de desespero pelo sofrimento alheio — O que ela tem?
— Acho que é uma crise de pânico — Fui sincera, não fazia ideia do que ela tinha. O rapaz a segurou em um dos braços até me ajudar a levá-la para o banco mais próximo. Nem quis ver os restos mortais da moto — Ela estava bem até a batida.
Vocês estavam dentro do carro? — Assenti com a cabeça, não querendo ser grossa ao afirmar e dizer que era óbvio que sim — Puta merda, essa é a moto do meu amigo. Vem cá, me deixa ajudar sua amiga — Ele começou a resmungar coisas como “Isso vai dar merda” e “Droga” seguidos. Quem era esse amigo? O bicho papão? — A propósito, eu me chamo Sam.
, essa é a Rachel — Sorri para ele, percebendo que Sam era um gato — Eu sinto muito pela moto, a culpa é toda minha. Sou nova na cidade e pedi para minha colega de quarto dirigir, já que eu não conheço a cidade e… Bem, o sensor estava quebrado.
Que merda — Ele torceu a boca, ajudando a colocar Rachel num banco enquanto outras pessoas já tinham se mobilizado para encontrar um médico ou estudante de medicina para ela — Esse é um péssimo jeito de ter sua festa de boas-vindas à cidade, mas… seja bem-vinda. Você é britânica?
— Nascida em Londres, mas criada pelo mundo — Joguei meu charme, fingindo que Rachel não estava passando mal bem ao meu lado — Sério mesmo, eu sinto muito pela moto do seu amigo.
— Claro que sente, você não bateu de propósito — Ele suspirou e balançou os cabelos de forma sexy — Mas não é comigo que você tem que se desculpar, é meio… ciumento demais com essa moto.
Puta merda, eu bati na namorada do cara?
— Você disse ? — Rachel falou pela primeira vez e de repente, até a cor do rosto dela tinha voltado. Hm, temos uma cura imediata pela vacina do pinto? — Como… — Ela engoliu em seco, e eu tive a impressão de que tinha batido na moto do maior delinquente da faculdade — … ?
— Quem diabos é ? — Pronto, ele era o professor mais odiado da faculdade. Um carrasco. Aquela moto devia ser de colecionador… e, com minha sorte, a única herança de seu pai que morreu quinze anos atrás. Ou um presente muito importante.
— Não, não, não — Sam começou e se atrapalhou no meio do caminho — Ele vai ficar puto, claro, mas não é nada disso. é da paz — Ele engoliu em seco, e eu senti que eu era a próxima a ter uma crise — Ele é até vegano, sabe? Da paz.
Ótimo, ele não ia contar nada. Olhei para minha Wikipédia de homem e usei toda a pressão que eu sabia fazer na cabeça dos outros.
Rachel, quem é ?
Pelo jeito que ela me olhou, quis estar de volta à Inglaterra.
. 23 anos. Ele trancou a faculdade seis meses depois de entrar e ‘tá estudando alguma coisa entre psicologia e terapia ocupacional… — Ok, nada aterrorizante até agora — Ele é capitão do time de hockey desde o momento que entrou nessa faculdade, trabalha n…
Você é que tipo de psicopata? — A voz atrás de mim era rouca. Grossa. Parecia estar seriamente emputecida e, não menos importante, vinha de um lugar muito acima de minha cabeça — Qual de vocês duas destruiu minha moto?
Rachel arregalou os olhos e Sam fez uma cara de poucos amigos.
— Ele ‘tá bem atrás de mim? — Perguntei baixo, mesmo sabendo que ele ia ouvir — Ok, é agora ou nunca — Virei com tudo, estendendo a mão e estampando meu sorriso mais cínico de todos — Oi.


Five

Eu mencionei que engoli em seco? Porque eu engoli. Encarei o homem da cabeça aos pés e devo ter feito isso quinze vezes num intervalo de doze segundos.
— Você estava dirigindo aquele carro? — O tal perguntou, e eu assenti lentamente, observando suas características e entendendo por que as pessoas o tratavam como se fosse Voldemort.
devia ter algo perto dos 2m de altura, pois eu tinha certeza absoluta de que não tinha visto alguém tão alto desde que saí para jantar com o elenco de Game Of Thrones e tive uma conversa amigável com os atores que interpretavam Montanha, Brienne de Tarth e Sandor Clegane.
Seus olhos eram tão escuros que pareciam pretos, cabelos curtos, um pouco maiores do considerado corte militar. Sua barba estilo lenhador, mas não tão grande, e eu tremi internamente quando percebi o jeito que a jaqueta delineava seu corpo, músculos e músculos que deveriam ser extremamente gostosos e bons de pegar.
parecia tudo, menos um universitário que jogava hockey. Se ele tinha 23 anos, talvez tivesse começado a faculdade tarde, e Rachel tinha comentado que ele não estudou por um tempo.
O jeito que ele me olhava era algo entre Bellatrix Lestrange e Ramsey Bolton.
Tinha pena da pessoa que fosse atendida por ele caso ele fosse mesmo seguir a carreira de terapeuta ou psicólogo.
— Eu vou pagar — Me arrependi no segundo que terminei a frase. Tudo tem um preço, essa é a frase que foi inventada milhões de anos atrás quando a profissão mais antiga do mundo surgiu. Eu não tinha dinheiro para isso. Quer dizer, eu tinha $980 na minha conta nova e ridícula, porque havia usado $20 para colocar gasolina e comer pizza antes de vir para cá. Gasolina e pizza por vinte dólares? Era podre de tão barato — O conserto. Eu posso pagar o conserto.
Ele riu, e eu senti pena do meu bolso. Coitada de mim.
— Essa moto é uma Harley-Davidson Iron 883 2017 — E eu me chamo Katherine, quem liga? — Ela custa $40.000, se você conseguir um preço bom e uma moto usada. Então, eu pergunto mais uma vez, você estava dirigindo o carro que destruiu a minha moto?
— Eu estava — Savannah respondeu, saindo de algum buraco inimaginável, e eu nunca gostei tanto daquela cara feia e assustadora que eu conhecia há menos de um dia — Já foi dito que o estrago vai ser pago, . O que mais você quer? Roubar pirulitos de criança?
— Eu quero peças originais.
— E você vai levar no mecânico que quiser e a conta será paga pelo responsável — Ela arqueou as sobrancelhas e não cedeu nem 1% — Eu não tenho tempo pra estrelismo de jogadorzinho de faculdade. A moto será paga.
olhou Savannah da cabeça aos pés.
— Quem é você? — Ouch, essa doeu em mim.
— Alguém melhor que você, pelo visto — Respondi, porque eu não era nenhuma tapada — Porque já foi dito que sua moto será paga e quem estava dirigindo. Agora, além de ter uma atitude extremamente prepotente, você ‘tá fazendo ceninha. Também quer uma fita métrica para medir a masculinidade que você quer tanto provar? Ou um aviso de frágil.
Como se estivéssemos de volta ao colegial, um “Uhhhhh” foi ouvido ao fundo. Pois é, as pessoas estavam realmente paradas ouvindo a briga.
OPA, OPA, OPA — Outro homem surgiu em meio à multidão e tinha um sorriso bem parecido ao de Sam, a mesma cara preocupada com também — Mulheres lindas que dirigem carros lindos e vão pagar sua moto linda, ‘tá tudo resolvido, né? Olha só, você vai levar a Lily pro conserto, pode usar nosso carro quando quiser e todo mundo acaba feliz nessa história, né, Sam? Diz que sim, Sam.
A moto se chamava Lily. Ih, alguém namorava a moto mesmo, hein.
Segurei a vontade de rir, porque ele provavelmente deveria ser irmão de Sam, mais novo pelo jeito mais descontraído. Ou só um amigo muito parecido com ele e metido a engraçadinho.
Que gene bom.
— Eu preciso de vocês dois pra preencher o boletim de ocorrência — Savannah murmurou, sua carranca não muito melhor do que dois minutos atrás — O seguro ‘tá em dia?
Eu respondi sim no mesmo momento que respondeu não.
Que grande merda.
Minha chance de manter meus rins.
O jogador seguiu na direção do guarda que estava preenchendo a documentação necessária, e eu fiquei sentada ao lado de Rachel, esperando que ele fosse embora para poder preencher a minha parte. O carro ainda estava em meu nome, então quer dizer que os problemas, em parte, ainda eram meus.
Pelo menos os pontos iriam para a carteira de Savannah.
Já que eu não tinha uma — daqui.
— Eu esqueci de me apresentar — O suposto irmão de Sam — Kin Stewart, você é nova por aqui, certo? Eu lembraria de um rosto tão bonito quanto o seu.
Pisquei, sorrindo da forma mais felina possível. Uma batida de carro não era capaz de tirar meu charme.
— Depende, Kin, quantos anos você tem?
— Faço 21 em alguns meses.
— Que sorte a minha ter um novo melhor amigo para comprar bebida legalmente para mim em alguns meses, não é? — Estendi minha mão com toda classe que eu fui forçada a ter — .
— E por acaso minha nova melhor amiga britânica não tem sobrenome?
Howard, mas meus amigos me chamam de mesmo — Com certeza eu estava sorrindo com muita vontade, exibindo o tanto que eu tinha gasto com os dentes para ter aquele sorriso perfeito e extremamente artificial que eu amava — Seu nome é só Kin?
— Meus amigos me chamam de Kin, mas meu nome pode ficar no mistério. Você tem que merecer o bastante para saber es…
ANAKIN, VOCÊ ‘TÁ DANDO EM CIMA DA MENINA?
Segurei a gargalhada que ficou presa quando ouvi Sam gritar. Acho que a mãe deles gostava muito do Darth Vader ou só tinha achado o nome bonito. Mas sem problema, eu iria para o lado sombrio da força dominar a galáxia com ele sem hesitação alguma.
Se bem que… eu preferia o Obi-Wan. O sotaque era bem mais bonito.
E também tem o Kylo Ren. Eu pegaria totalmente a mão dele.
Bem, não só a mão.
— Culpada, eu estava me apresentando a seu irmão e elogiando o gene da família — Respondi Sam, pontuando mentalmente que Kin tinha ficado bem sem graça. Ele tinha um lado tímido? Que fofinho — E tenho que ir ali, então… — Me afastei lentamente e, assim que passei do campo de visão de Sam, voltei com meu sorriso malicioso para Kin enquanto queria rir — Me liga — Minha boca se mexeu sem entonar som algum.
Ah, que noite maravilhosa.
— Você é a proprietária desse veículo, senhorita?
Ah, verdade. Eu bati o carro. Que noite maravilhosa nada, , para de pensar em pinto.
Mas, antes que eu pudesse responder, minha colega de casa tomou a frente e sorriu estranhamente para o homem de uniforme.
— Nós não acertamos tudo já, Robbie? — O tom de Savannah foi doce demais, e eu fiquei… preocupada. Robbie? Por favor, que a mãe dele tenha uma escolha ruim para nomes — Foi só um mal entendido, nem precisa de registro na verdade, e eu já acertamos tudo! — Já? O rumo dessa conversa estava me deixando nervosa.
Savannah colocou a mão no ombro do policial e começou a andar com ele na direção contrária. Meu estômago estava se revirando naquele exato momento, e tudo que eu não vomitei na batida podia ser jogado fora agora mesmo.
Esperei-a terminar a conversa calma e horripilante com o policial/segurança/não-faço-ideia e fui em sua direção, nem conseguindo fingir que não estava aflita.
— Savannah… Ei, eu… — Engoli em seco, porque não fazia ideia de como colocar todas as suspeitas que eu tinha na ponta da língua — Como você resolveu aquilo com o policial? Eu te devo alguma coisa?
Ela gargalhou.
— Sua alma, talvez — A loira deu dois tapinhas em meu ombro e voltou com a cara emburrada — Ele é da mesma cidade que eu, amigo de infância de meu pai. Expliquei a situação, e Robbie só registrou um acidente, mas não especificou nada. Existem coisas mais importantes, principalmente relacionado a festas, jovens idiotas e álcool.
Mais que um acidente? — Eu não queria desconfiar dela, por mais que, na verdade, eu não tivesse muitos motivos para confiar nela. Tinha menos de 24 horas que eu conhecia a mulher, mas… iríamos morar juntas por sei lá quanto tempo, então era melhor tentar seguir um caminho saudável.
Savannah me olhou com aquele mesmo jeito mesquinho, como se estivesse repensando as atitudes… Na verdade, parecia bem com o olhar que eu direcionava para outras pessoas, então não doía tanto assim.
E alô? Eu tinha sido criada entre a elite do mundo, cresci recebendo aquele tipo de olhar.
— É melhor você se preocupar com o grandão ali. Ele não parece muito feliz — Savannah apontou com o queixo, e eu segui a direção, percebendo que me encarava com uma dose tão carregada de ódio no olhar que eu mesma achei que tinha matado sua criança e comido em uma sopa — E dessa parte aí ninguém vai te salvar. Boa sorte.
E, então, ela saiu, me deixando com o anticristo de 2m de altura e braços do meu tamanho.
Today is your day, Satan.

Como alguém podia ser tão pequena?, eu me perguntava.
Eu conhecia a loira, já tinha visto a cara emburrada dela em alguns lugares da faculdade. Ela era daquele tipo de pessoa que todo mundo evitava esbarrar e tinha medo. A stalker também, todos conhecíamos a stalker — e tínhamos medo dela.
Mas a britânica? Eu tinha certeza absoluta de que nunca tinha visto aquela mulher antes.
Além do tamanho, ela era igual a qualquer outra universitária. Usava “maquiagem” natural, que basicamente eram duas horas de produção e aproximadamente 3 kg de reboco para parecer que era naturalmente assim. O cabelo solto com o mesmo esquema de produção, que deveria ser natural — por mais que o dela desse a impressão de realmente ser, era um pouco desajeitado, até, e parecia ser incrivelmente cheiroso —, botas e meias que vinham até o joelho e a deixavam ainda mais baixa e, finalizando, um blusão/vestido de lã que ia até um pouco acima das meias.
Como ela não estava sentindo frio nas pernas, eu não sabia.
E, não, por incrível que possa parecer, eu não estava desprezando ou diminuindo nada que ela tivesse feito hoje. Eu tinha sido criado com quatro mulheres dentro de casa, então analisar da maquiagem até os sapatos era algo bem natural para mim — e eu falava sobre a demora da arrumação por experiência própria, já que eu tinha que dividir banheiro com essas mulheres.
Mas eu também passei vinte minutos aparando minha barba e escolhendo minuciosamente as roupas que eu iria vestir hoje na esperança de encontrar minha ex-namorada na festa. Pelo menos ela não ficou se arrumando para fazer papel de otária.
Só para esmagar a moto de alguém — e isso era um jeito e tanto de chegar na sua primeira festa da faculdade.
Então, você gostava muito daquela moto? — A risada nervosa dela estava muito próxima, e eu percebi que provavelmente tinha me perdido em pensamentos, pois ela estava bem na minha frente.
Seu sotaque estava mais pesado. Eu não sabia se ela estava nervosa ou coisa do tipo, mas demorei mais que o esperado para juntar as palavras e formar sua frase de forma mais coerente na minha mente.
— Sim.
Foi tudo o que eu consegui responder, porque, de perto, era mais interessante ainda de analisar. Os traços do seu rosto não pareciam ser 100% europeus, com certeza havia alguma mistura por baixo ou genes de ancestrais esquecidos. Seus olhos eram um pouco puxados, mas não como asiáticos, maiores. Ela era branca, mas não pálida… Sua cor era como se ela tivesse passado horas debaixo do sol. Bronzeada? Não. Será que era maquiagem?
— Você ficou muito irritado, não é? Tipo, eu sei que você tem total direito de ficar irritado e tudo mais. Eu estaria no meu décimo copo de água se isso acontecesse comigo e… — Sua boca formava um bico engraçado quando ela pronunciava água, era até um pouco fofo. Mesmo que eu não falasse como os americanos e tivesse certa facilidade para lidar com sotaques, era muito difícil entender o britânico. Será que ela era escocesa? Sempre me falaram que era o pior de todos — … ninguém está preparado para ter um baque desses tão rápido, mas nós podemos conversar e ajustar tudo isso, resolver as coisas de forma civilizada e como dois adultos resolveriam, não acha? Quer dizer, nós iremos nos encontrar na faculdade quase sempre, e não seria nada legal manter uma briga por besteira. Além do mais, eu realm…
Eu não estava entendendo mais nada.
— Me dê seu número — A interrompi, causando dúvida em seu olhar.
O quê? — Inglesa, com certeza ela era da Inglaterra. Foi isso que eu ouvi mais cedo?
— Seu número, eu preciso dele.
começou a rir. Como se eu tivesse contado uma piada muito engraçada.
— Calma aí, grandão. Quer me foder, me leva pra jantar antes.
Arqueei a sobrancelha, não começando a rir unicamente por respeito pela falta de interpretação dela ou falta de costume em situações como aquela.
— Eu preciso de seu número para que você me encontre no mecânico amanhã, ou você aprendeu a se comunicar por telepatia? Porque, sabe, isso me faria economizar uma boa grana.
Ela abriu e fechou a boca algumas vezes e de forma seguida. Seu rosto começou a ficar avermelhado, e eu me senti subitamente mal por ter feito ela ficar envergonhada. Boa parte do tempo eu não sabia lidar com pessoas que não estavam acostumados com o jeito que eu falava ou lidava com as coisas — na maioria das vezes, eu só estava sendo altamente sarcástico, mas poderia parecer que eu estava gritando com a pessoa ou dizendo que ia matá-la.
— Me dá seu telefone antes que eu fale mais alguma merda — Assenti com a cabeça e a entreguei o aparelho desbloqueado. rapidamente discou um milhão de números, e eu logo percebi o DDI diferente na frente do número. +44. Lembrar de procurar mais tarde unicamente por finalidades informativas — Pronto. Me mande uma mensagem com o endereço ou a localização. Me desculpe. Tchau.
Ela pediu desculpa? Por que ela pediu desculpa? Eu tinha que me desculpar, quer dizer, ela ficou sem graça!
, espera… — Ela já estava alguns passos a frente e, mais uma vez, seu tamanho estava me incomodando. Como será que ela enxergava as coisas? — , eu…
— Não precisa falar mais nada, eu sei — Sabe? O quê? — Você está irritado, e eu te entendo totalmente. Foi uma noite ruim. Então, amanhã me mande o endereço, e eu chegarei e farei o que tiver que fazer. Boa noite.
Não soube como reagir, então minha única opção foi ficar parado no exato mesmo lugar e com a mesma cara de paisagem.
— Você faz questão de lembrar todos ao seu redor que foi criado unicamente com mulheres e, mesmo assim, não sabe falar com uma. Uma! — Anakin surgiu ao meu lado, com o julgamento 100% presente em seu olhar — Ela saiu chorando? Você a fez chorar.
— Eu não falei nada de mais, Anakin — Homens, eu sabia lidar com homens — Ela que provavelmente é muito…
— Sensível? Que pena que ela acabou de chegar num país novo, faculdade nova e com pessoas desconhecidas, bateu um carro e vai ter um prejuízo gigante com a sua moto, não é?
Tombei a cabeça para analisar Kin e sentir o peso de suas palavras diretamente em minha consciência, afundando lentamente e atingindo aquele ponto que me fazia sentir como lixo radioativo.
— Como você sabe que ela é nova no país?
— Qual é, cara, eu perguntei para a stalker. Ela me respondeu tudo o que eu precisava saber sobre e me lembrou que eu tenho que ficar longe dela. Aquela menina dá medo.
— A loira também dá medo, não é? Savannah, acho que foi esse nome que ouvi o policial falando — Eu precisava saber se não era o único. Tínhamos um consenso geral sobre isso no time, mas eu nunca tinha parado para perguntar diretamente.
Medo? — Ele deu aquela risada nervosa que fazia seus olhos fecharem — Ela faz parecer que se eu falar mais de cinco palavras em sua presença, minhas bolas vão virar churrasco. Eu tenho pena de quem namorá-la.
— Eu também, até a voz dela faz parecer que ela come criancinhas no café da manhã.
— E se banha com o sangue de virgens — Kin completou, virando o rosto disfarçadamente para olhar na direção que Savannah se encontrava — É estranho eu estar extremamente atraído por ela depois disso?
Completamente.
— Pela também. Ela tem cara de quem flerta violentamente, e Savannah tem cara de quem gosta de bater em homem.
— E onde exatamente você se encaixaria nisso?
— Só eu? — O sorriso que surgiu em seu rosto dizia coisas que só a convivência poderia responder, e eu, naquele momento, me encontrava com extremo arrependimento de saber ler os movimentos do homem à minha frente — Você veio para uma festa, coisa que você odeia, só para tentar conversar com a ex-namorada que te traiu. Assuma, , nós estamos no mesmo barco.
Respirei profundamente, lembrando de todas as aulas de controle de respiração, calma em momentos necessários e yoga. Pense em cachorrinhos, não se estresse porque seu colega de casa só pensa em sexo como um adolescente que acabou de perder a virgindade.
— Esclareça minha mente, Anakin, por que estamos no mesmo barco?
— Ah, , acorda! Seu tamanho não engana ninguém — Kin bateu em meu ombro de forma amigável e gargalhou uma última vez — Todo mundo gosta de apanhar de mulher bonita.


Six

O treino tinha extorquido qualquer energia positiva que eu pudesse trazer para o resto do meu dia, e eu me encontrava num estado quase idêntico a ontem quando finalmente cheguei em casa: estressado, ansioso e me sentindo um completo inútil.
Completando o ânimo, meu irmão havia me ligado para informar que, em uma semana, ele chegaria na cidade e, infelizmente, significava que eu veria sua cara todos os dias. Chester viria morar comigo porque ia ficar mais barato para mim, e eu realmente precisava, mas lidar com meu irmão mais velho não era um desejo, muito menos uma opção que eu cogitaria em outra situação.
Chester era filho só de meu pai, e isso era o único motivo de minha avó desprezá-lo tanto e também o motivo pelo qual ela me tratava como merda na maior parte dos dias — eu era a cópia perfeita de meu pai, desde o tamanho até as feições. Não nasci com um único gene de sua filha, e ela me olhava como se eu fosse aquele homem e como se a aparência fosse escolha minha.
Quando eu era adolescente, minha avó me tratava pior do que hoje em dia. Tinha uma época que eu realmente cogitava a opção de não ser atraente e que todas as mulheres iriam reagir como ela. Depois de muita terapia, livros sobre aceitação e convívio com a velha, eu descobri que tudo que ela dizia era rancor e a maioria das coisas era da boca pra fora.
Não era de me gabar e nem gostava de bajulação, mas eu era muito bonito, e meu corpo também era tudo o que eu queria ser quando tinha 16 anos e magrelo, desengonçado e utilizador de aparelho.
O único problema de me olhar no espelho era ter a mesma visão de minha avó: meu pai.
Meus pais se conheceram no colegial e, como dois idiotas, se casaram cedo, achando que tudo era um conto de fadas perfeito. Logo, mamãe engravidou de Athena, e eles passaram bons perrengues até se estabilizarem financeiramente, mas, como todo jovem era burro, Core nasceu dois anos depois, e, com dois meses de nascida, eles já estavam esperando Gaia.
E, então, aos 22 anos, com três filhas — uma delas com dois meses — e um casamento não tão bom quanto ela imaginou que seria, as coisas pioraram quando uma mulher que trabalhava com meu pai apareceu com uma criança recém-nascida, disse que ele era filho dele e que precisava de ajuda financeira.
E, claro, como vinte e sete anos atrás a mulher era a única culpada de tudo, mamãe se afundou num poço de culpa e ressentimento. Ela pensava que meu pai a largaria a qualquer momento para viver com o amado filho, já que ele sempre frisava que seu sonho era ter um menino que ela nunca tinha sido capaz de gerar — biologia também não era sua matéria favorita.
Brigas. Brigas. Muitas brigas. Álcool. Mais brigas. Outras traições descobertas. Uma infância traumática para minhas irmãs e, num belo dia, Lilian — minha mãe — descobriu que estava grávida mais uma vez de Kane — meu pai.
E eu nasci. Seu amado e precioso menino — que não era um bastardo — e que deveria ser considerado uma xerox de tão parecido que era com ele.
Eu não preciso contar que minha mãe não me olhava tão bem, não é? Porque eu poderia ser seu único filho homem e caçula, mas eu ainda era filho de meu pai.
Tarde demais, ela descobriu que o país ainda tinha advogados e pediu o divórcio. Meu pai não quis assinar e disse que ia mudar. Ela continuou insistindo, e ele começou a ficar violento. Mamãe se mudou com nós quatro para perto de minha avó.
As coisas melhoraram muito, e, por três anos, não tivemos notícia de meu pai, brigas, momentos ruins ou álcool dentro de casa. Minha mãe começou a trabalhar, e tudo estava funcionando perfeitamente bem.
Estava, porque, num daqueles dias que você olha para o céu azul e cheio de raios de sol e pensa que as coisas vão funcionar perfeitamente bem, elas não funcionam. Minha mãe e meu avô estavam num supermercado quando ele foi assaltado. Minha mãe tentou socorrer uma mulher grávida, e um dos assaltantes disparou em sua direção. Daí, vovô teve um ataque cardíaco e morreu.
Eu tinha onze anos quando fui morar com minha avó. Gaia tinha quinze, Core tinha dezesseis e Athena, dezoito. Minha avó tinha acabado de completar sessenta e dois.
Minha mãe tinha trinta e seis anos quando foi assassinada.
Nossa sorte não era tão ruim, porque pelo menos meu pai também não dera sinal de vida e não quis nos criar.
E eu estou lembrando de todas essas coisas horríveis por quê?
Ah sim, uma das razões — olha só a culpa sendo colocada onde não existe, mais uma vez — da minha infância traumática estava vindo morar comigo.
E eu ainda tinha que andar com aquela caminhonete horrível porque minha moto estaria indisponível pelas próximas semanas. Ou meses.
?
— O que é? — Respondi rapidamente quem tinha me chamado e me arrependi logo depois. estava na minha frente, parecendo ainda mais delicada que ontem, quando eu a fiz chorar. Meu Deus, se essa mulher começasse a chorar agora, era capaz de eu chorar junto — Me desculpa, eu não vi que era você. Bom dia. Boa tarde, eu não almocei ainda. Você chegou cedo. Ou eu tô atrasado?
Isso mesmo, seu pedaço de merda, fala mais, passa mais vergonha que ‘tá pouco.
— Na verdade — Havia algo diferente em sua voz. No seu tom. Como se uma mudança tivesse acontecido de ontem pra hoje — Eu esperava que você pudesse me dizer um lugar para almoçar aqui por perto.
Ok, essa me pegou de surpresa. Tentei não demonstrar que engoli em seco, mas aquela mulher estava me olhando de um jeito estranho.
Meu estômago naquele momento se encontrava em estado de nervo. Desesperadamente.
— O que você come? — Essa foi uma pergunta estúpida? Soou estúpido, não foi?
— Comida, — Meu sobrenome desenrolou de forma lenta quando soou, e eu entendi em partes o que ela estava fazendo. estava arrumada. Eu não sabia se isso era um costume dela, mas ela estava realmente arrumada. Calças daquelas que parecem custar um órgão, uma blusa curta e de gola alta e um blazer enorme e, aparentemente, de couro. Maquiagem quase do mesmo jeito de ontem e o cabelo também. Então, ela era uma dessas pessoas — O que você gosta de comer?
— Comida.
Ela lambeu os lábios e tombou a cabeça, sorrindo de maneira suja quando arrastava o olhar de meu rosto até meus pés.
— Eu sou vegano, provavelmente não como metade das coisas que você come.
Dizer que eu estava sem graça era brincadeira de criança. Não que eu fosse bom nisso, mas eu era acostumado a dar em cima das mulheres. Ir até elas. Era incrivelmente desconfortável ser aquela pessoa que não sabe reagir a outra dando em cima de você.
— Agora eu estou interessada, o que veganos comem?
, o que diabos aconteceu com sua moto? — Quase gemi de felicidade ao ouvir a voz de Al atrás de mim. Um sorriso de orelha a orelha surgiu em meu rosto com tanta energia que eu quase esqueci da moto — Você passou com uma retroescavadeira por cima dela?
Eu, na verdade — sorriu da mesma forma que havia sorrido para mim cinco segundos atrás e estendeu a mão para o mecânico, não mostrando o mínimo de repulsa ou nojo ao apertar as mãos cheias de graxa do homem — Na verdade, minha amiga, mas o carro é meu, então eu resolvi assumir a culpa.
Al analisou a mulher de forma pecaminosa. Mesmo que sua roupa não fosse reveladora, ainda era uma mulher que tinha uma voz rouca, sotaque britânico — seu número era mesmo de Londres, eu havia pesquisado —, pronunciava as palavras de forma sexy e estava o olhando como se fosse sua próxima refeição.
Então, eu entendi. Ela não estava dando em cima de mim. Ela não estava dando em cima de Al naquele exato momento. Ela agia assim o tempo todo.
— Você dirige um tanque de guerra?
— Por mais que seja blindado como um, não — Sua risada era sexy como sua fala, e, se aquele resto de moto não fosse minha, eu sairia nesse exato momento para deixar os dois a sós.
Al não era um mecânico velho e barrigudo, aquele era o pai dele. Mas, como o velho Al passava metade do dia bebendo e vendo jogos antigos, o filho dele tomava conta da oficina e, bem, fazia bastante sucesso entre qualquer pessoa que gostasse do típico americano com cara de fazendeiro, trabalhador, que tinha muitos músculos e um sorriso que arrancava calcinhas. E cuecas.
Eu sabia disso porque, em particular, ele era uma das vítimas constantes de Kin.
— Me desculpe a pergunta, mas qual o seu carro?
— Na verdade, ele ‘tá aqui fora nesse exato momento. Você quer dar uma olhada?
— Um urso caga na floresta? — Al respondeu como se fosse óbvio, e eu me encontrei terrivelmente deslocado entre os dois. levou o homem até seu carro, que estava estacionado quase em frente à oficina, e eu facilmente liguei os pontos.
Ela disse que podia pagar peças originais. Seu carro era uma Range Rover. Suas roupas pareciam ser o preço de um órgão, porque provavelmente eram o preço de um órgão. Cada peça. Sua bolsa tinha o nome Dior escrito no canto e, mais uma vez, eu tinha irmãs. Uma bolsa daquelas não custava menos de mil dólares.
Ou três mil.
Ela era da Inglaterra, provavelmente não era bolsista também. Por que ela estava estudando aqui, e não em Londres?
era rica.
E com certeza ela que havia batido o carro. Provavelmente comprou a loira assustadora com alguma coisa.
Rica. Conseguiu encantar o mecânico com um sorriso e três palavras. Dinheiro fácil. Ela soou levemente preocupada com essa parte ontem, a financeira.
Mas ela tinha uma linguagem corporal que te deixa desconfortável ou obcecado. Ela sabia como usar os gestos, como mover as mãos, olhos e boca. Como jogar o cabelo para trás, e estava fazendo exatamente isso naquele momento com o pobre do Al.
Sorrindo calorosa demais. Tocando demais. Elogiando demais.
era problema.

Eu não precisaria ter um terceiro olho ou um sentido de aranha para perceber os olhos de em cima de mim. Daquele mesmo jeito que ele me encarava ontem antes de eu passar por um dos momentos mais constrangedores de minha vida.
O homem era bruto. Curto e grosso.
E, por mais que o jeito dele de parecer um lenhador prestes a arrancar sua cabeça com um machado fosse muito forte, tinha olhos meigos. Quando você olhava de perto e com a iluminação certa. Minutos atrás, ele estava sem graça comigo e chegava a ser adorável.
Ele provavelmente não tinha noção de como parecia assustador encarando as pessoas de forma analitica naquela distância.
— Bem, aquele moço não parece muito feliz, então acho melhor a gente sentar para ver quanto isso vai me custar… — Sorri para Al, e ele assentiu com a cabeça, como o bom boboca que era. Um batom vermelho, tudo que eu tinha precisado fora um batom vermelho e um tom de voz sugestivo, e ele estava me tratando como se eu fosse a rainha do baile.
Fomos para a parte de dentro, e eu franzi o nariz ao ver os restos mortais da moto de . Devia ser uma coisinha linda antes de ser esmagada. A moto não estava completamente perdida, eu sabia disso, mas, pelo preço mencionado, não era preciso ser muito inteligente para juntar 2 + 2. Seria caro. Levaria um pedaço de mim junto.
Não caro. Caro.
Tipo, o que podia ser considerado caro? Quer dizer, aquela moto tinha custado quarenta mil dólares. Eu tinha um vestido desse valor, mas… não tinha sido eu quem havia pagado.
Será que isso era ter consciência de gasto?
É assim que pessoas pobres pensam constantemente?
E elas ainda tinham que trabalhar para isso, devia ser horrível ser pobre.
Metade do mundo vivia assim? Eu sabia que existiam pessoas realmente pobres e o meio termo, mas como que… Que bundinha redondinha.
Al fica uma delícia naquele macacão de mecânico. Eu nem sabia que isso era uma coisa real, mas tinha acabado de descobrir que essa fantasia existia na parte mais profunda e pervertida que vivia dentro de mim. Ele poderia abrir aquele zíper e se divertir horrores no capô de qualquer um desses carros… Ou só ficar falando esse tanto de palavra estranha e explicando a função de cada peça e essas coisas que ninguém ligava, contanto que ele estivesse usando aquele macacão… Será que tinha aquelas aberturas na bunda que serviam para ir no banheiro? Porque, olha, eu conseguiria ficar linda se usasse a maquiagem certa com aquele mesmo macacão esquisito…
Tudo fica dez mil.
Engoli em seco, agradecendo ao raciocínio rápido e habilidade de me acostumar rapidamente com pessoas e situações não esperadas. Sorri de orelha a orelha. Deixei meu corpo relaxado e numa postura despreocupada.
Eu preciso de cinco minutos, se vocês me derem licença.
Coloquei meus pertences rapidamente na primeira superfície limpa que achei e nem me importei de perguntar onde exatamente era o banheiro, só andei elegantemente e de forma rápida — não o bastante para mostrar que eu estava realmente correndo — até a calçada e inalei o ar poluído, esquisito e gélido que pareceu descer azedo — e, mesmo assim, foi como a melhor coisa do mundo.
Eu não iria chorar. Não. Eu não tinha chorado quando meu cartão havia sido bloqueado, por que choraria com isso?
Dez mil. Não era muito dinheiro.
Minha roupa havia custado isso.
Será que ele aceitava minha roupa como pagamento? Eu tinha $965,00 na conta. Gastei 15 dólares mais cedo num livro que me olharia com julgamento até a próxima vida. Livro estúpido.
Eu poderia ter esperado pelo filme.
— ‘Tá tudo bem por aí? — A voz masculina chamou minha atenção, e eu sorri trêmula para , olhando em sua direção e agradecendo que saltos o deixavam menos intimidante. Tipo, 1%.
— Nada bem. Nada.
Nada era a palavra que definiria meu dia perfeitamente.
Ei, , quanto você tem na sua conta? Nada.
O que você tem para passar o resto do mês? Nada.
O que você sabe cozinhar para sobreviver com a comida que tem em casa? Nada.
— Al fez um preço bom pelas peças, provavelmente seriam mais caras — deu de ombros, e eu percebi que ele estava tentando parecer relaxado. Não entendi se ele estava pensando que eu não pagaria sua moto ou se aquilo em seus olhos era um real sinal de preocupação — Você não tem o dinheiro todo, não é?
Não — Fui sincera. Mentir não me levaria a lugar algum. Aquele não era meu pai que eu dobrava e colocava no bolso. Muito menos meu avô, que derretia com qualquer olhar de cachorro abandonado — Eu vou ser presa? Meu Deus, eu não posso ser presa. Eu vou ser deportada. Eu não aguento mais pensar em ser presa, e tem dois dias que eu tô aqui.
Presa? — Ele franziu a testa e me olhou como se eu tivesse sugerido que comêssemos um gato no almoço — Por que diabos você seria presa?
Tombei a cabeça e me perguntei que brincadeira cruel era aquela.
— Você vai ter como pagar mês que vem? — Assenti com a cabeça. Mês que vem eu era uma pessoa não tão pobre de novo — Então por que você não divide o valor com ele?
Dividir? Como funciona?
— Sabe, processo de divisão geralmente é ensinado quando nós somos crianças e tudo mais — Debochado e grosso, era isso que aquele homem soberbo, irritante e incrivelmente alto estava sendo — Você divide o valor com ele e vai pagando aos poucos. Mês por mês. Prestações. Boletos.
Tentei não demonstrar meu espanto.
Eu sabia o que era dividir o valor. Foi uma brincadeira — não tinha cara de quem havia acreditado na minha desculpa e, honestamente, nem eu acreditei — Vamos voltar para dentro. Eu preciso ter mais momentos olhando a bunda do Al antes de pensar em dinheiro que eu não tenho.
Tomei a frente e, com todo charme que eu tinha nos quadris, voltei para perto de quem tiraria todo meu sustento e olhei com desgosto para aquela moto miserável. Você estava no lugar errado e na hora errada, sua lambisgoia. E, se não fosse tão caro te consertar, eu te quebraria mais.
Al começou a explicar o processo de divisão. As pessoas realmente faziam aquilo, dividiam as coisas, e tinha um outro detalhe chamado juros. Parece que, quando você adiciona muitas parcelas — esse é o nome das divisões de dinheiro, você tem que pagar prestações/parcelas —, esse valor tem juros adicionados. Para eu dividir no cartão, ele precisaria ser de crédito — que eu descobri que não tinha, já que crédito é o tipo de cartão quando você não tem dinheiro e, no fim do mês, fica devendo ao banco.
Então, fizemos um contrato formal — que a contadora de Al iria mandar a qualquer momento —, e meu cérebro desmiolado achou interessante oferecer o carro como pagamento. , você só afunda mais.
— Quanto você vai dar de entrada?
Ok, eu sabia o que era aquilo. O Google me ensinara cinco minutos atrás.
— Ou você quer começar a pagar só a partir do mês que vem?
Passei a língua lentamente ao redor dos lábios e tentei não estar pensando na possibilidade de deixar aquele dinheiro na minha mão por mais tempo e começar a ficar sem só a partir do mês que vem… Quer dizer, talvez. Mas isso me daria um mês a mais devendo a ele?
Então era melhor ficar sem dinheiro agora do que depois?
Agora — Respondi mentalmente, mas acabou saindo alto e meio que serviu para ambas coisas — Posso transferir a entrada agora mesmo. Novecentos dólares.
Eu não iria passar fome. Quer dizer, isso dava pra gasolina? Eu nunca olhei quanto dava no cartão… E se minha base quebrasse? E se minha cozinha pegasse fogo e toda a comida fosse embora? E se meu xampu acabasse? Ou meu sérum? Minha hidratação? Eu teria que comprar hidratações baratas? E se meu cabelo acabasse igual ao de Savannah?
Eu não posso mais comprar roupas novas. Sapatos novos. Maquiagens novas.
O que uma pessoa pode fazer com $65?
Eu teria dinheiro pra comprar comida, pelo menos? Eu realmente consigo sobreviver com essa quantidade?
? — Sua voz ecoou como se ele já tivesse chamando meu nome por um tempo, e eu fingi um sorriso, nem me importando que era óbvio que eu parecia abalada. tinha a mesma expressão de poucos amigos, não parecia se importar muito com meus problemas — Al perguntou se você tem onde anotar a conta.
— Sim, claro que sim — Entreguei meu celular para o mecânico e percebi meus dedos tremendo. Sessenta e cinco dólares. Sessenta e cinco. Ele anotou sua conta bancária, e eu nem quis olhar por muito tempo antes de inserir números e apertar botões. Sessenta e cinco — Vocês precisam de mim para mais alguma coisa?
— Tem alguns outros ajustes no contrato, mas você deixou seu número também, então eu posso te ligar ou mandar mensagem e nós ajeitamos todo o resto, ok? — Al perguntou, e eu apenas assenti e fui embora.
Não me despedi de nenhum dos dois.
Entrei no carro e, pela primeira vez na minha vida, olhei onde estava a seta que apontava quanto de combustível eu tinha. O bastante. Ontem, eu tinha colocado um pouco mais, nada como encher o tanque totalmente como costumava fazer, mas só por costume.
Coloquei no GPS meu campus da faculdade e fui dirigindo sem prestar muita atenção até realmente chegar no local.
Não estava vazio como eu pensei que estaria, mas nada muito amontoado. Sem aglomerações ou muitas pessoas que vissem a cara de bosta que eu carregava naquele exato momento.
Sentei num banco qualquer e me permiti respirar com vontade. Sentir o ar gélido atravessar meus pulmões e rasgar tudo dentro de mim. Era só dinheiro, aquele pedaço de mim que eu não sabia que existia disse. Era só dinheiro. Poderia ser sua saúde. Poderia ser um incêndio. Era só dinheiro.
Nunca era só dinheiro.
E, por mais que eu ouvisse uma das minhas conselheiras dizendo: “, há pessoas que estão morrendo”, aquela parecia ser minha morte.
Do tipo que nem um diamante perdido no oceano poderia bater cabeça.
Espera aí, alguém achou aquele diamante já? Hmmmmm.
De qualquer forma, era longe demais, e eu precisava de um banho com urgência.
Voltei para casa e pensei em questionar Savannah e Rachel sobre como elas viviam normalmente, já que eram pobres, mas eu tinha a impressão de que aquilo não era a coisa certa a se fazer, principalmente perguntar a Savannah sobre algo assim.
Fui direto para meu quarto, me livrei das roupas e liguei meu Kindle, procurando qualquer romance água com açúcar para poder ler enquanto eu apodrecia na banheira. Graças a deusa, papai me conhecia bem demais para saber que eu precisava de conjuntos completos de sais de banho, bombas, sabonetes perfumados e muita espuma.
Aquele sim era um local muito melhor para pensar do que o campus da faculdade.
Mas eu acabei dormindo e acordei enrugada e com fome.
No armário da cozinha tinham muitas opções, mas eu não sabia fazer nada. Na geladeira, tinham frutas, mas eu poderia comer todas para passar o tanto de fome que estava sentindo.
Rachel? Savannah?
Nenhuma das duas respondeu, então não estavam em casa. Olhei para minha bolsa em cima da mesa, para a calça de moletom que eu vestia e o top de academia. Pensei nos meus míseros sessenta e cinco dólares e em como eu poderia comprar alguma coisa pronta na rua…
Foda-se.
Eu já estava no inferno mesmo, podia muito bem sentar no colo do diabo e chamá-lo de daddy.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Outras fanfics:
Barakah – Restritas/Originais/Em Andamento
Flamingos – Restritas/Originais/Finalizada
Nicht Mögen – Restritas/Originais/Finalizada
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