Última atualização: 29/01/2020

Capítulo Um

Bélgica, Séc. XVII


O burburinho de vozes baixas relatando o assunto do momento, confundia-se com os gritos e berros dos comerciantes das barracas. A jovem observava a confusão de olhares e passos, segurando suas sacolas enquanto conversava com Killiam. Eles haviam se encontrado por coincidência.
— Estão comentando que o caçador chega hoje, junto com o Arcebispo.
— Bruxas… – o rapaz sorriu sarcástico: — Credes nisto?
— Como não crer? Oras, Killiam! Acaso não percebes a quantidade de coisas sobrenaturais que ocorrem à nossa volta?
— Não. Não estou ocupando-me a notar bruxarias. – sorriu malicioso.
Os dois tornaram a caminhar entre as barracas.
— Pois muito surpreende-me! Outro dia encontrei um livro na biblioteca de vosso pai, que poderia julgá-lo à fogueira pelo caçador e pelo Arcebispo.
— Um livro? Sobre o quê?
— Não sei do que se tratava, mas pude ler escritos sobre uma profecia. Algo sobre uma deusa e uma criança.
— Onde achaste isso?
— Sobre a mesa de vosso pai. Mas, logo que saí da biblioteca ele voltou rapidamente, e pude espiá-lo trancando o livro na gaveta da mesa.
— Que estranho... – Killiam respondeu pensativo.
— Sim. Mas, agora vamos! Não é bom termos destes assuntos por aqui, a caça às bruxas começou.... E depois, a senhora Astrard aguarda-me com as especiarias.
Apressando seus passos a moça foi seguida por Killiam, que ao aproximar-se de sua carruagem chamou-a.
— Vamos?
A mulher olhou para os lados, e franziu o semblante que antes sorria despreocupadamente. Aproximou-se do rapaz, cuidadosamente.
— Estás fora do juízo?
— Por que estaria?
— O que vosso pai diria ao ver uma, reles serviçal chegando ao castelo em vossa carruagem?
Killiam sorriu malicioso e puxou a jovem pela cintura aproximando seus corpos. Ela imediatamente olhou à volta sem deixar de sorrir.
— Certamente dirá que eu tenho um bom gosto.
— Está bem! Assumirei o risco, apenas porque retornar o caminho a pé me fará demorar mais, e o senhor já me atrasaste por muito!
Killiam abriu a porta da carruagem para que ela subisse, e quando a moça posicionou o pé ao degrau, segurando a mão dela ele gracejou:
— Sabe qual a vantagem de andar por aí à carruagem?
— Qual? – ela olhou-o duvidosa aguardando o gracejo.
— Enquanto os cavalos a levam...
Ele fez um sinal engraçado com as mãos como se indicasse o "partir" dos equinos.
— Àqueles à cabina podem fazer o que quiserem. – respondeu sussurrado ao ouvido da moça.
Ela sorriu, embora tentasse resistir à piada, e adentrou. Ao chegarem no castelo, Killiam abriu a porta da cabina e desceu ajeitando a própria veste. A moça desceu com sua ajuda ajeitando discretamente os cabelos. Ele pegou as sacolas entregando-lhe.
— Não devíamos fazer tais coisas, senhor Killiam! – ela bronqueou referindo-se aos beijos furtivos que deram ao caminho.
— Devíamos. Sabe por que?
— Por que?
— Porque tu me amas, e eu também lhe amo.
— Não é certo. O senhor deveria guardar-se para vossa duquesa Strauss.
— Acaso, este esverdear em vossa angelical face dar-se por ciúme, minha querida?
— Não há dúvida. Embora não devesse... – ela abaixou o olhar entristecida: — Casará em breve com a duquesa e eu apenas continuarei servindo-os.
— Não irei me casar com ela. Dou-te minha palavra.
— Bem. Até lá, eu prefiro acreditar nas bruxas.
— Que ultraje, ! Minha palavra é dita verdadeira.
A mulher ajeitou-se novamente e caminhou-se rápida ao seu destino: a cozinha do castelo.

– x –

Alguns dias depois.

A noite iniciara-se há algumas horas e o jantar estava servido. Por mais que seu pai nunca comesse com ele, o rapaz decidiu tentar novamente. Havia um pedido a fazer e achou que fosse melhor trata-lo num clima de paz, à mesa. Killiam encontrou o pai pouco tempo antes dele sair, na biblioteca do castelo.
— Senhor meu pai? Posso falar-lhe?
— Mark. Entre.
O homem mais velho encarava a vista à janela, e virou sua atenção ao filho recém-chegado ao cômodo.
— Pensei que o senhor poderia me dar a honra de cearmos juntos.
— Lamento.
— Irás a outro jantar de negócios?
— Não. Apenas um encontro cordial entre amigos.
— Posso ir?
— Acaso foste convidado?
Killiam abaixou o olhar. Tinha uma tremenda vontade de saber o que o pai fazia quando não estava em casa, e por quais motivos sua rotina noturna, todos os dias, o impediam de jantar com o filho. Killiam nunca o via chegar.
— É só o que tens a dizer? – perguntou o mais velho.
— Não. Tenho outro pedido.
O mais velho silenciou aguardando, e ao notar o gesto, Killiam proferiu ainda receoso:
— Poderia comparecer amanhã, à missa de falecimento de minha mãe?
— Mark...
Killiam, o pai, já estava exausto daquele ritual anual. Havia pedido ao filho para parar com aquilo há alguns anos. A mãe do rapaz faleceu quando ele ainda era um menino, e desde que atingiu os catorze anos de idade, Killiam Mark Jr. Ruskt tomou como responsabilidade a tradição cristã de orar pela alma da falecida.
Seu pai virou-se ao filho e olhando-o sério iniciou mais uma vez, um diálogo que para ele, já deveria ter bastado há algum tempo:
— Eu já lhe disse que esta coisa de inferno e paraíso é uma grande bobagem.
— Devemos orar pela alma de nossos mortos, meu pai.
— Asneira! Almas não existem, Mark. Deus não existe. São asneiras pelas quais tu estás muito crescido para crer.
— E como as bruxas poderiam existir, se Deus não existe?
— Não sejas ingênuo! Estas fogueiras são uma grandiosa perda de tempo. Nenhuma destas mulheres queimadas, eram de fato bruxas.
— Por que não credes no Divino?
Killiam perguntou com uma certa dor. Não por seu pai ser cético quanto à existência de Deus, mas por saber que por não crer, ele não se importaria novamente com a alma da esposa falecida.
— Deus, Mark, é uma invenção dos homens do clero para fazerem o que acham que devem e podem, sem serem incomodados. Tudo uma absoluta asneira! – falou enfático o mais velho.
— Blasfemas, meu pai! E que não o ouçam! Podes me explicar quanto ao vosso livro? Se o senhor, meu pai, não podes crer em Deus, nas almas ou em bruxarias, como podes crer na profecia de uma deusa?
O pai calou-se e apertou o olhar. Analisando minunciosamente o filho.
— De que livro estás a falar?
— Daquele que noutro dia, vós esqueceis sobre a mesa e eu, na busca por um tinteiro para que pudesse escrever, acabei por descobrir.
O pai caminhou aproximando-se do filho, ainda calado e analisando o jovem. Tirou as mãos que se cruzavam às próprias costas e ajeitou suas vestes, na clara pose de quem deixaria o recinto.
— Apenas um velho livro de lendas. Se não notastes, a biblioteca está abarrotada deles. Tenha um bom pernoite, Mark.
Deu as costas ao filho e antes que passasse pela porta grandiosa, retornou o olhar a Killiam que ainda se mantinha impávido de descontentamento com o pai.
— E Mark... rompa os laços com a jovem serviçal. Vosso casamento com a duquesa Strauss se aproxima.
— Pai, sobre o casamento...
— Um divertimento, é só um divertimento. – o pai interrompeu lhe como se desse o aviso final.
— É isto. é só um passatempo, meu pai.
Killiam proferiu aquelas palavras a fim de romper com o assunto, uma vez que nova discussão surgiria. No entanto ao virar-se para encarar o pai, percebeu a jovem serviçal com uma bandeja em mãos atrás do homem mais velho. Seu pai ao notar os olhos desesperados do filho virou-se, e encarou a jovem sem o menor interesse apenas dizendo-a:
— Leve de volta. Estou de saída.
A mulher ainda sem respirar, com olhos marejados segurando as lágrimas apenas pôs-se a abaixar a cabeça em reverência ao seu patrão. Ela virou-se de volta à cozinha, em prantos após ter ficado a sós com Killiam. Ele tinha o olhar aflito, e o rosto mais pálido que o habitual. Assim que a jovem lhe fugiu, Killiam correu atrás dela a alcançando e pondo-se de frente à jovem.
! Por favor, eu só disse aquilo, pois não era um bom momento para discutir com meu pai. Eu menti! Aquilo não é verdade, eu apenas...
— Pare! Eu não me importo com o que dissestes Killiam. O fato é que jamais poderíamos nos unir, pois como vosso pai bem disse, eu sou a serviçal deste castelo. Apenas isto. E me dê licença que preciso retornar com esta bandeja.
, eu lhe amo! E não irei casar-me com a duquesa!
— Com licença, senhor Killiam.
saiu dura, mas chorosa. Se havia se apegado ao jovem Killiam, ela era a própria culpada. Sempre soubera que apaixonar-se pelo rapaz era um erro.

– x –

Na manhã seguinte.

As serviçais corriam ao preparo do desjejum do jovem Lord Killiam. O ir e vir afoito da cozinha, mal dera tempo à Astrard de procurar por sua jovem ajudante. não era de atrasar-se e certamente algo havia acontecido. Enquanto a senhora adentrava à sala de jantar do castelo e punha a mesa, seu patrão aproximou-se.
Como sempre, a aparência elegante e impecável, embora ninguém nunca o visse chegar de suas andanças noturnas.
— Onde está Mark? – pronunciou surpreendendo a serviçal.
— Bom dia senhor. – a mulher abaixou a face em respeito — O jovem Killiam ainda dorme.
O mais velho deu as costas para distanciar-se quando, ponderada, Astrard se atreveu:
— Senhor.
Ele retornou-lhe à atenção.
— Sei que não são de vossa preocupação, assuntos referentes aos servos. No entanto, minha jovem serviçal não apareceu nesta manhã. Estranho-me, pois, não é de seu feitio. Acaso... O senhor teria a visto?
— Se for a mesma jovem a qual penso, esteve aos meus aposentos pedindo-me para partir.
A mulher encarou-o pasmada e em dúvida.
— Como?
— Disse desejar partir, pois havia se iludido por um homem. Ou algo assim. Ao que me recordo sairia em retirada com a caravana de artistas da cidade. Ou qualquer asneira sem importância a mais...
— Grata, senhor. E perdoe-me tomar-lhe o tempo.
Astrard distanciou-se assim que seu patrão saiu. Não poderia acreditar que a jovem teria feito algo tão impetuoso.
O burburinho na cozinha acerca do assunto apenas rompeu-se ao perceberem a presença do jovem Killiam.
— Senhor Killiam, em que posso servi-lo? – Astrard pronunciou aflita.
— Vim para informar que não há necessidade de servir o desjejum à mesa. Comerei à cozinha.
— Sim senhor.
Astrard respondeu e fez sinal impaciente, com a cabeça, para as outras serviçais indicando-lhes que retirassem a mesa e trouxessem para a cozinha o desjejum do jovem lorde. Ele já havia se sentado à mesa dos serviçais. Vez ou outra, quando solitário, Killiam comia ali.
— Onde está ?
Astrard encarou-o surpresa, enquanto servia-lhe leite recém-fervido.
— Não soubestes ainda?
— O que houve? Fale logo Astrard. – o coração de Killiam deu um pulo assim que a mulher o encarou com o semblante preocupado.
— Não sabemos o que houve, mas nesta manhã vosso pai me informou que a jovem partiu do castelo.
— Como? – ergueu-se da mesa nervoso.
— Estamos todos surpresos senhor.
Killiam correu em direção ao pai. Certamente estaria trancado na biblioteca como era seu costume. Adentrou ao cômodo bastante eufórico.
— O que fizeste a ela?
O mais velho encarou-o impaciente.
— Ela quem?
! Sabes que é dela a quem falo! A serviçal.
— Eu? Que interesse eu teria em faze-la algo?
— Onde ela está?
— A este momento, deve estar longe. Disse que partiria com os artistas da cidade.
— Por que? O QUE FIZESTE A ELA? – Killiam aumentou o tom de voz e avançou sobre a mesa de seu pai.
Ele levantou-se para encarar o filho, e sem perder o tom elegante proferiu friamente:
— Entre todas as baboseiras que a pequena lacaia disse, se não me engano, a culpa de sua partida é o coração partido por um homem. Creio que saibamos que homem teria a feito tamanho mal, não é Mark?
Killiam encarou os olhos do pai de modo confuso e saiu imediato do recinto. Correu ao estábulo e selando um cavalo, pôs-se à galope até a cidade.

– x –

Semanas depois.

Não encontrou ou qualquer vestígio dela. A caravana dos artistas ciganos já havia partido, e com eles todas as informações. Na cidade, aqueles que conheciam os segredos e eram os olhos de todos acontecimentos, eram sempre os povos criminalizados. Ciganos, deficientes, mendigos e toda a escória que ninguém ousava atentar-se. Killiam foi de um a um, atrás de informações sobre a sua amada.
Como nuvem na noite, desaparecera.

-.-.-

A duquesa Strauss já estava ao castelo, bem como todos os convidados. Mark em seus aposentos ainda trancado, há algumas horas antes da cerimônia, pensava como manteria sua promessa de não se casar. Embora não houvesse a encontrado, ele não iria desistir. O salão de festas do castelo estava preparado para a cerimônia. Killiam Mark Ruskt e a duquesa Strauss estavam nos aposentos da mulher a falarem secretamente:
— Satisfeita com a decoração de vossa cerimônia, querida duquesa?
— Muito, Killiam. Onde está nosso cordeirinho?
— Trancado em seus aposentos a pensar como livrar-se-á de vós.
Ambos riram debochados.
— Vossa frieza me espantaria, Killiam. Se não fostes quem és.
— É o necessário. Há muito, Mark é apenas um... Fardo.
— Usaste o pêndulo?
— Sim. E pelo qual esperamos, tudo está conforme as escrituras.
— Temo que ainda não o seja. Algo como o que aguardamos, deveria ser grandioso demais para acabar de modo tão modesto.
— Tais são as nossas alternativas, Valerie: equívocos e acertos.
— Sim. Agora vá, prepare meu cordeiro para a chegada de sua noiva, e siga para vossa missão.
Killiam deixou a mulher e seguiu até o filho. Era chegado o momento da cerimônia.

Algumas horas mais tarde.

Não conseguiu. Killiam fora encurralado ao próprio desespero e não deu conta de fugir. Estava ali, em seus próprios aposentos com a duquesa Valerie Strauss. Sua esposa. E aquele momento por outros tão aguardado: a consumação do matrimônio, para ele significava o fim. A chuva que descia aos céus era o prenúncio de seu pranto. Desabotoava os botões da manga de sua camisa de linho, enquanto observava as planícies de suas terras pelo vidro alto e límpido, da janela do cômodo. Jamais imaginou que outra mulher, se não , estaria em sua cama prestes a desposar. Valerie sorria ingênua e tímida, e sentou-se de modo mais sensual à cama. Pôs o cabelo de lado a revelar o próprio pescoço. E quando Mark encarou os olhos da mulher, sentiu-se zonzo. Sentiu-se atraído. E num piscar de olhos, não era ela ali. Sua cabeça o levou a imaginar . E embora pudesse jurar ser efeito dos vinhos e bebidas das festividades, ele aproximou-se apalpando àquela ilusão que lhe parecia tão real. Até o cheiro dela, sua mente foi capaz de copiar. Alguns andares submersos ao castelo, em uma espécie de prisões ocultas, Killiam caminhava lento aos assobios. Abriu uma pesada porta e depositou a bandeja servida de comidas e bebidas ao chão.
— Trouxe-lhe alguns comeres e beberes da cerimônia, minha bela. Mark relutou um pouco, mas... fraco como é.... Está em seus aposentos a desposar a duquesa.
Encarou a mulher tristonha deitada, fraca e desnutrida, ao chão.
— E vós pensaste que seria diferente? – ele perguntou sarcástico abaixando-se a ela.
A mulher lhe cuspiu a face.
— Estou exaurida de servi-lo e temer-lhe senhor! Com toda certeza... meus votos de que vós e todos os teus vão ao inferno!
Killiam limpou o rosto e segurou a mulher pelo pescoço, com uma só mão a sufocando.
— Se ensinastes ao Mark tal ousadia, talvez ele estivesse salvando-a! Sabe por que estás aqui, sendo minha prisioneira, querida ?
A mulher pouco a pouco sufocava-se mais, embora Killiam não estivesse depositando esforço algum à sua jugular. Aquela, não era nem um por cento, da força dele. Seu olhar desesperado e arregalado fizera Killiam prosseguir com a tortura verbal.
— Porque é chegado o momento da coisa que habita em você, ser liberta! Rhikan.
A mulher franziu o cenho confusa, em meio às falhas tentativas de soltar-se e respirar.
— Uma deusa escondida por tanto tempo, mas que trará a glória que tanto aguardei! Sua maldita Rhikan!
Ele jogou-a na parede, e rindo com escárnio amedrontador. tateou o chão a esgueirar-se até a porta, mas foi inútil. Novamente foi tomada pelos cabelos.
— É inútil fugir. – ele sussurrou aspirando o cheiro dela — Já estão todos mortos.
Killiam havia matado cada serviçal do castelo. Cada um daqueles que poderia vir a atrapalhar tudo, e principalmente, dizimou com toda e qualquer testemunha.
Bastou os olhos cheios de desejo de arregalarem-se com o que foi pronunciado por ele, para a morte nada indolor ser sentida.
Valerie conseguiu ludibriar Mark em suas artimanhas. Killiam tinha a jovem indefesa em seus braços. E ao soar do grito grave da voz de Killiam de seu quarto, juntamente, o grito agudo de soou da masmorra. Valerie havia fincado as presas ao pescoço do jovem Lorde, o assassinando. Killiam havia cravado as presas grossas e pontiagudas, igualmente, ao pescoço da jovem serviçal. E assim, pouco a pouco a luz deixava os seus olhos.
O corpo mórbido da mulher caiu sobre os pés de Killiam.
Valerie deixou o corpo forte e morto de Mark aos seus pés.
O pai surgiu no cômodo segurando em seu ombro a mulher desfalecida. Jogou-a ao lado de Mark, e como se houvessem premeditado, a face de ambos estava virada um ao outro.
Valerie e ele encararam o momento, no aguardo de que que algo fantástico ocorresse.
— Tu não disseste que o pêndulo funcionou?
— De fato. O cristal acendeu-se na frente dela. Mas... como disse-lhe: erro e acerto.
— Então não sabemos ainda,como é o ritual. E agora? O menino do sacrifício está morto, Killiam!
— Não. Não está. Se Rhikan não se manifestou nesta vida, o menino também não. E morto, Mark ainda poderá desencarnar em outra época, juntamente com a jovem .
— Argh! Buscarei respostas para isto, e caso encontre algo lhe direi.
Valerie urrou irritada e caminhou até os corpos. Chutou levemente a mulher:
— Então, nos vemos em outra vida, .
— Até que ela era apetitosa. – Killiam disse encarando-a — Vou levar o corpo de Mark ao mausoléu do castelo.
— Vais enterrar o vosso rebento? – Valerie disse com zombaria.
— Um lorde tem seus princípios, mesmo na imortalidade, Valerie.
Ele arrastou o corpo do filho até o cemitério da família, e enterrou-o numa cova ao lado da mãe. Após, enterrou o corpo de ao lado do corpo de seu amado: Killiam Mark Jr. Ruskt.

– x –

Dias depois.

A mão lamacenta ergueu-se sob a chuva grossa. Os olhos raivosos e avermelhados encararam o castelo. Adentrando-o, não demorou a encontra-lo. A mansão agora vazia, sem nenhum servo ou serva denunciava facilmente a presença de seu pai. Killiam surgiu descendo as escadarias e ao ver Mark, não havia esboço algum de sentimento.
— Já vai sair, meu pai? – Killiam proferiu com ódio e ironia.
— Oras.... Então houve uma transformação completa.
— O que vocês fizeram comigo?
— Eu lhe avisei que aquela estória de almas era um absurdo, Mark. Onde está sua alma agora? Bem-vindo à imortalidade.
— O que eu sou? O que tu sois?
— Vampiros. Nós somos vampiros, Mark. É realmente uma pena que sua transformação tenha corrido após Valerie e eu executarmos o ritual.
... Por que há uma lápide dela ao lado de onde eu estava enterrado?
— Você vai revê-la, Mark. Talvez num outro tempo.
— Do que está falando?
— Você tem uma missão.
— Que tipo de missão?! Por que assassinou ela? – Mark perguntava entre dentes, cada vez mais raivoso.
— Descobrimos... na verdade Valerie descobriu, um pouco depois do ocorrido, que você, mesmo se fosse transformado ainda seria o menino da profecia. E eu lhe explicarei tudo, e quando você souber a verdade nós criaremos uma história falsa de como foi a sua transformação!
Killiam direcionou-se à saída do castelo por onde Mark havia adentrado. Encarou o recém-criado com um sorriso sombrio em sua face e perguntou-o:
— Mas, antes.... Vamos jantar?
E o vampiro mais velho saiu como um vulto rápido da visão de Mark, para a imensidão da noite.

Capítulo Dois

França, Séc. XVIII


A mulher sorria largamente ouvindo a voz mansa com sotaque arrastado francês, do belo homem ruivo ao seu lado. Havia chegado ao restaurante acompanhada de outro rapaz e durante todo o jantar riram, conversaram e foram agradáveis um ao outro. Não fosse outra dama a adentrar o local, e ao pé da mesa onde estavam bradar ofensas ao eu companheiro. Casado. Havia se envolvido sem saber com um homem casado. A esposa dirigia-se a ela como se fosse uma daquelas frívolas mulheres das "casas noturnas de chá". Extremamente chateada e humilhada, pôs-se a sair de imediato daquele estabelecimento, onde os olhares culposos lhe faziam queimar a face.
Apressada, com passos pequenos e peito estufado caminhou pela calçada. E com os olhos tão marejados ao ponto de turvar a visão, não percebeu o senhor elegante que lhe trombara. E ao sentir as mãos fortes dele, a segurarem seus braços delicados, num tom de amparo pelo descuido, Charlotte se permitiu chorar.
Foi consolada pelo homem desconhecido, que após ceder-lhe um lenço, algumas palavras e um passeio despretensioso pela Pont Notre-Dame havia deixado o humor de Charlotte melhor do que ao encontrá-la. Não saberia dizer, mas ela foi tomada de uma hipnose assustadoramente branda ao encarar o olhar tão escuro daquele homem. Havia nele, um magnetismo irreconhecível. E foi por este magnetismo que não conseguiu conter sua entrega. Após passearem na ponte, Charlotte seguiu o homem até sua nobre casa.
E desde então, eles continuavam a conversar amigavelmente. Entre suas pernas, um calor – que ela conhecia, e sabia de onde provinha – subia ao seu corpo a cada sorriso e palavra sussurrada ao pé de seu ouvido. Observava-o falar sensualmente, palavras casuais, enquanto as hábeis mãos dele picavam os legumes. Ele propôs-se cozinhar para ela. E nossa... Como era sedutor um homem à cozinha!
Se Charlotte soubesse o destino ao qual lhe esperava. Se Charlotte imaginasse que o esbarrão não fora ao acaso. Se Charlotte tivesse chamado um táxi à porta do restaurante, e seguido diretamente para casa naquela noite alta... O fato é que Charlotte não teria se livrado de seu destino. E observando melhor agora, ao menos havia tido uma agradável noite.
O grito fino da mulher totalmente entregue em seus braços denunciava o plano de Mark. E passando sua língua por suas presas, abriu os olhos na coloração habitual de um vampiro bem alimentado: um castanho avermelhado profundo, e se palpável, tão espesso quanto ao sangue da vítima.
O Ratattouille ainda deixava o ambiente com odor agradável. Mark jogou fora todo o restante que sobrara, e retirou a mesa de jantar de sua companhia. O corpo mórbido ainda estava caído sobre a mesa.
— Era uma bela moça, Mark. Imagino quão apetitosa.
Ouviu a voz conhecida de seu progenitor e virou-se lentamente a ele:
— Não me recordo de tê-lo solicitado em minha casa, Killiam.
— Pai. Eu ainda tenho autoridade sobre ti, Mark.
— Não. Pois, deixei de ser teu filho quando me entregaste à Valerie, como um cordeiro sacrificado.
— És tão dramático.... Eu lhe dou a eternidade e assim agradece-me?
— O que queres?
— Acaso não esqueceste...
Killiam, o vampiro mais velho revirou os olhos, num gesto interruptivo de sua fala e apontou para o corpo estrebuchado à mesa. Mark olhou à mulher, e irônico ergueu o cadáver colocando-a em uma pose de dama bem sentada à mesa.
— Limpe tua sujeira, e não seja inconveniente Mark!
— Estás na minha casa. Se tiveres de falar, o faça sem demoras. – Mark pronunciou desafiador.
Killiam I caminhou para dentro da mansão neoclassicista de Mark. O filho contrariado seguiu-o pacientemente.
Adentrou à própria biblioteca, ao notar seu pai parado à porta do cômodo e conversaram:
— Como eu lhe dizia... Acaso esqueceste que tens uma missão para qual foi criado?
— Eu não estou a mover um calhau para obrigação alguma.
— Não queres encontrá-la? A vossa amada?
— Sabes que tenho por honra, buscar através dos séculos por quanto for necessário! No entanto, não pretendo servir-te ou à Valerie, ou quaisquer outros repugnantes imortais para estapafúrdio ideal!
Killiam I sobressaltou-se sobre o filho prendendo-o contra uma prateleira da biblioteca, com suas garras cravadas ao pescoço do mais novo.
— Perdeste a paciência, papai? – ironizou Mark.
— Tu és minha propriedade, minha criação e eu não, o permitirei tamanha asneira, Mark! Tu és o sacrifício de Rhikan, criado para entre os séculos encontrá-la, libertá-la e enfim proporcionar à nossa raça todo o poder!
Mark enfurecido, como um vulto ágil sobrepôs ao ataque de seu pai, e o prendeu contra a prateleira contrária.
— Posso ter menos séculos de sobrevida que tu, mas compreendo como livrar-me de ti, Killiam! Coisa tal que eu deveria tê-lo feito, ainda quando percebi o corpo falecido de minha amada!
— Tua ingenuidade sempre fora teu maior defeito, Mark! Desde a morte de vossa mãe, tu foste um covarde!
— Não fale de minha mãe, seu assassino! Mentiste para mim por toda a vossa existência, e até após a minha morte não foste capaz de contar-me a verdade!
— Agora sabeis?
— Eu sei mais do que pensas, Lorde Killiam! E pode ter certeza, eu não cumprirei com esta falácia de sacrifício!
— Mark, Mark... Acaso achas que és livre?
Mark soltou-o e ouviu a risada de escárnio do mais velho.
— Há mais de nós interessados em Rhikan. Há outros de nós que aguardam o teu sácrifice. Há uma irmandade envolvida nisso, ou seja, tu não tens escolha, Mark!
— Tenho! Pois não fora eu quem escolheu tal destino. Minha vida fora usurpada por vós e eu irei, um a um nesta irmandade, matarei a todos, matarei à Valerie, e matarei a ti se necessário for.
— Encontre Rhikan. Encontre tua , e eu retornarei quando tu estiveres pronto. E por favor, Mark... Aprenda de uma vez por todos os séculos, que quanto menos asneiras disser menos tempo me toma. Seja útil, pois finalmente eu dei-lhe uma utilidade.
Deixando apenas um levantar de poeira no ar, Killiam I desaparecera. Mark sabia que não seria fácil livrar-se de sua missão. Ou melhor, de sua maldição. Mas, decidiu buscar sua amada por todos os séculos, por todas as dimensões, e por quantas vidas fossem precisas.
Havia sido transformado há um século. E desde então estudou com afinco cada uma das palavras da tal dita profecia. Arraigou-se na incansável disputa pela liberdade própria, e pelo amor impossível. Não pôde livrar-se daqueles que lhe causaram maldito destino, mas sabia que seriam necessários por um tempo. E tal qual passava o tempo, passava também a humanização de Mark. Cada dia de sua vida imortal era um dia a mais de endurecimento, frieza e crueldade.


Itália, Séc. XVIII


O assombroso castelo Volturi demonstrava a imponência daquela família. Marcus estava a postos. Aro já havia ordenado a ele que averiguasse o sácrifice.
Killiam I havia retornado como dissera, e a pedido de Aro havia entregado Mark para a primeira visita.
Enquanto os outros seguravam o vampiro mais novo, contendo-o de sua fúria, Marcus estava à sua frente olhando fixamente em seus olhos. Aro com expressão curiosa e um assombroso sorriso à espera do que o irmão lhe diria.
— O sentimento que os une, o levará a ela. Porém, Darak poderá ser útil e apressar as coisas. Pelo que vejo, há o desejo em encontrá-la, mas ele evitará para protegê-la.
Marcus disse como pouquíssimas vezes. Havia perdido Didyme há pouco tempo e ainda não se conformado. Retornou ao seu trono, da mesma maneira entediada como havia saído.
— Vosso criador nos informou que está tentando desistir do próprio destino, querido Mark. – Aro pronunciou — Oras.... Está prestes a contribuir com toda a geração de frios como nós, que existem e ainda existirão!
— Eu jamais morrerei para que impuros como vós vivam!
— Impuros? – Aro iniciou um riso que logo foi acompanhado por todos, exceto Marcus: — Ele nos chamou de impuros?
Mark mantinha-se silencioso enquanto os outros riam, e rapidamente os risos cessaram quando, Aro, com face cruel aproximou-se à face de Mark o intimando:
— É um de nós. E mais do que isso, tua sobrevida nos pertence! Ousas pensar ser quem, para desafiar o clã Volturi?! Reflita sobre nossa benevolência em não ordenar ao vosso criador que o destrua agora mesmo! Fará tudo o que nós mandarmos, e não penses que será fácil livrar-se de nós!
Aro tocou a face de Mark e desvendou todos os pensamentos do jovem. Descobriu cada passo que Mark havia planejado dar, portanto, Mark percebeu que seria escravo até que tivesse parcerias e conhecimentos suficientes para livrar-se de todos eles.
Serviu aos Volturi por todo o tempo que buscava conhecimentos a mais sobre a profecia, enquanto aguardava o reencarne de .

Anos depois…

Ao notarem que Mark os servia e após terem certeza de que, Mark não teria como fugir de sua missão por mais que tentasse, os Volturi permitiram que ele retornasse à França, para sua mansão. E sem que Mark soubesse, tempos depois incumbiram Darak de ir atrás dele, a fim de mantê-lo sobre vigia enquanto Darak exercesse também seus poderes especiais.
O silêncio da mansão era interrompido somente, pelo assobio que soava dos lábios de Mark. Lia uma carta escrita para sua . Uma das muitas cartas que ele escrevera quando humano, e mesmo após sua imortalidade. E recordando-se dos sentimentos da época, Mark minimamente reviveu o que era ser um humano. Lia a carta enquanto assobiava a música que havia cantarolado ao dançar escondido com nos jardins do castelo Ruskt.
— Espero que estas memórias sejam capazes de preservar meu lado humano, ainda que minimamente, meu amor... – ele sussurrou para si.
E após ouvir os toques fortes do metal à porta de entrada de sua mansão, Mark despertou-se de suas memórias. Seguiu até a entrada, encontrando os olhos vermelhos – antes azuis – conhecidos, e bufando descontente:
— Ora Killiam, deixe-me em paz.
— Olá filhinho. Como está? Saudades de teu querido pai? – pronunciou no conhecido tom de sarcasmo.
Killiam I adentrou sem esperar convite e Darak seguiu-o logo, cumprimentando num aceno de cabeça, discreto, ao Mark.
— Darak. – Mark respondeu cumprimentando-o — A que devo a visita dos senhores?
— Darak ficará hospedado contigo pelo tempo necessário. Creio que não saibas os dons de Darak, já que nunca se deu muito bem com nenhum dos vossos.
— Nada contra ti, Darak. Mas, não me interesso em saber o que os Volturi guardam de preciosidades.
Darak não disse nada. Apenas observava o diálogo cheio de rancor entre pai e filho.
— Darak é um exímio rastreador. Ele é capaz de descobrir onde qualquer pessoa no mundo se encontra. Só necessita reconhecer sua face, e no caso... Memórias mais profundas.
— Entendi. Então trouxeste um cão de guarda, que também pode farejar para o bel prazer dos Volturi?
— Estás ficando esperto, filho! – ironizou Killiam I — De fato, é isso. Mas, apenas com minha memória da face de sua amada, não foi possível achá-la.
— Certamente por que ela ainda não existe.
— Pode ser, mas os Volturi e eu queremos ter certeza.
— Tsc... – Mark murmurou num estalar de língua — És um capacho dos Volturi, Killiam.
— Não estás muito melhor do que eu. Afinal, eu não pretendo morrer.
— Nem eu.
Os dois encaravam-se prestes a começar uma luta. Darak que não era dado a falas, impaciente interveio:
— Sejamos breves.
Ele disse aproximando-se de Mark que o encarou desconfiado.
— Preciso que penses nela, uma memória, um cheiro, qualquer coisa que o ligue a ela. E antes que tente, estou sendo gentil em pedir, o que não significa que resistir vai impedir-me.
Mark apertou os olhos numa expressão de raiva, em direção aos dois vampiros. Darak o encarava com tédio. E logo tocou um dedo à testa de Mark, que embora tentasse não pôde evitar recordar a carta que lia momentos antes, bem como as lembranças.
Darak soltou o dedo da face de Mark e afastou-se encarando os profundos olhos vermelho escuros de Mark.
— E então Darak? – perguntou Killiam I.
— Nada. – Darak manifestou-se sem tirar os olhos de Mark.
— Bem... Então vais ficar aqui e aguardar se Mark terá algo mais a contribuir.
Darak apenas assentiu e logo, Killiam I desaparecera.
— Você não a viu? – Mark perguntou desconfiado.
— Não se preocupe em preparar-me um quarto de hóspedes. Sairei para caçar, e não sou um hóspede tão inoportuno.
— Não precisa sair, meu estoque tem o suficiente.
— Estoque? – Darak olhou-o com zombaria.
— Embora um século de sobrevida tenha passado, não sou a favor dos métodos.
— Ora Mark, precisas aceitar que é um vampiro. E matar faz parte do nosso instinto.
— A vida, e o sangue das criaturas são preciosos demais para serem desperdiçados. Eu mato por necessidade, não por tortura.
— Como queira. Já eu, mato por prazer. Nem mesmo o sabor do sangue me satisfaz mais do que perceber a vida se apagando nos olhos de minhas presas.
— Há quanto tempo está em jejum?
— Algumas horas. Desde que saí da Itália.
— Precisas aprender a controlar-se por mais tempo, Darak. Se acaso tivermos que viajar por longas distâncias, é prudente evitar exposições ao caminho.
— Eu não estou mais no castelo Volturi para receber ordens de discrição.
Darak respondeu e saiu. Mark retornou ao cômodo onde estava recordando-se de sua amada.
A noite já havia aumentado para madrugada quando Darak surgiu com duas mulheres. Mark observava o novo "hóspede" adentrando aos portões de sua mansão, enquanto as mulheres riam aparentemente bêbadas. De sua janela, olhou na direção de Darak que lhe sorriu desafiador. Negou com a cabeça e pôs-se a descer ao hall da mansão para encontrá-los. Ao surgir no alto da escada, Darak parecia outra "pessoa":
— Vejam senhoritas. Aí está o vosso anfitrião.
— Uau, olá... – as duas mulheres disseram animadas e atrevidas.
— O que significa isso, Darak?
Darak soltou a cintura das mulheres convidando-as a sentarem-se no sofá do hall. Elas riam e encaravam os homens às suas frontes.
— Ora Mark, tu disseste que é contra o desperdício de comida. Logo eu as trouxe para que após o jantar, possa contribuir com vosso estoque.
Darak explicou com sarcasmo.
— Inclusive, o convido a jantar conosco.
— Será um prazer tê-lo conosco, senhor. – uma das mulheres pronunciou sedutora encarando Mark.
— Veja Stella, ele é nobre. Olhe o brasão na parede. – a outra pronunciou ainda mais interessada.
Mark revirou os olhos e proferiu enojado para Darak:
— Prostitutas? Não é capaz de ao menos, atrair damas mais difíceis, Darak?
Uma das mulheres resmungou ultrajada.
— Claro que sou. E já acabei o serviço com as minhas donzelas da noite, mas por que negar quando o alimento se oferece de tão bom grado?
Darak sorriu olhando-as com uma face assustadora. Tão assustadora que uma delas levantou-se, desconfiada e com medo os perguntando:
— Que diálogo mais obscuro. O que os senhores pretendem?
— Agora que acompanhaste um homem suspeito, é que se preocupa senhorita? – Mark falou incrédulo pela facilidade de Darak.
— Não me sinto mais à vontade de estar aqui com os senhores, Lianne. Acho que devemos ir.
A mulher falou para a outra, Stella, que levantou-se tão alarmada quanto. Mark cruzou um dos braços à frente de seu tronco e apoiando nele o cotovelo do outro braço, levou a mão ao queixo, e ergueu a sobrancelha. Observou a face fria e obscura de Darak e proferiu:
— Acabe logo com isso, e limpe tudo. Há uma câmara frigorífica aos fundos da cozinha. E depois venha ao meu quarto, preciso falar-lhe.
Deu as instruções para Darak que apenas assentiu silencioso, e dando-lhe as costas pôs-se em direção ao corredor superior ao lado de onde estava. Ouviu o grito espantado de uma das mulheres quando Darak, provavelmente, havia encurralado a outra que tentara fugir matado-a diante dos olhos da amiga.
Algum tempo depois, os toques firmes à porta do quarto de Mark e a figura em pé na porta com uma taça de prata em mãos, chamaram a atenção de Mark.
— Pela coloração de vossas irises, creio que precisas beber. – Darak falou estendendo a Mark a taça cheia de sangue: — Não é da remessa nova, embora eu tenha deixado o que sobrou em seu estoque.
— Evite gracinhas como esta, sim? Quando eu quiser uma presa, eu mesmo a trarei.
— Certamente, apenas quis ser cordial pela recepção.
— Eu não estou sendo receptivo consigo Darak. Eu não o quero aqui.
— Sei que não. Mas, sabe... Posso ser-lhe útil.
— Pode. E sobre tal utilidade quero saber se viu a , quando a rastreou mais cedo.
— O que o faz pensar que eu teria mentido?
— Eu também tenho os meus dons. Quero entender por que mentiste.
— Não gosto de acatar ordens, embora eu as faça, Killiam.
— Refira-se a mim, como Mark. Então... Estás aqui para poder desobedecer aos Volturi?
— Eles não perguntam se gostarias de ser parte do clã, apenas o obrigam e manipulam. Eu estou tempo suficiente entre eles, para conhecer a cada um. E sei que vosso desejo é livrar-se deles tanto quanto eu. Creio que precisamos um do outro, não?
— Como saberei se é verídico o que diz?
— Por mais que a palavra de um vampiro seja corrompível naturalmente, não sou eu quem precisa de você Mark. Estar aqui consigo a vigiar-te, apenas é conveniente para que eu tenha me afastado. No entanto, não é como se eu precisasse de ti para fugir. Eu não sou um prisioneiro, embora tenha ficado tanto tempo ao lado deles.
— Não é? Então por que ficaste?
— Como eu lhe disse... Para saber tanto sobre cada um, fora necessário proximidade e confiança.
— E por que ofereces ajuda a um condenado, quando há tantos de nós rebelados contra os Volturi, pelo mundo?
— Por que tu és uma peça valiosa de ouro entre nós, Mark. E só poderei liderar meus rebelados quando o tiver ao meu lado.
Mark encarou-o com dúvida e raiva. Darak era outro que desejava ter Mark em suas mãos para que assim tivesse mais valor entre os Volturi. No entanto, Darak sabia muitas coisas. Muito sobre a profecia, muito sobre outros vampiros, era líder dos rebelados, sabia tudo sobre os Volturi e seus aliados, e principalmente... Era capaz de rastrear sua , tantas vezes quanto preciso.
— Onde ela está, e quem é ela? – Mark perguntou num fio de voz rouca.
Darak sorriu satisfeito por saber que havia, pelo menos momentaneamente, conseguido atrair Mark para o seu lado.
— Ela ainda não é Rhikan. Sei como a vida dela estará quando a deusa encarná-la, mas além de ser o receptáculo da divindade, é também uma humana com alma própria. E ela reencarnou como tal para evolução espiritual de sua própria alma.
— Então, ela não corre perigo?
— Ela sempre correrá, eles não sabem quais as encarnações são meramente humanas. Por isso, irão perseguí-la enquanto ela existir.
— Então... Não devemos dizê-los que a encontramos.
— Exatamente. Por isso menti, Mark. Para evitar que a assassinem tão cedo. Que ela morrerá pelas mãos dos Volturi é fato. Mas ao menos, eu terei dado a ti algum tempo com ela.
Mark encarou-o com a expressão mais espantada que já havia dado a um vampiro desde toda a sua existência como um frio. Não se surpreendia com os frios. Eram seres cruéis, indóceis, arrogantes e egoístas. Por isso, aquela era a primeira vez que se espantava com um resquício de humanidade em um deles. E justo, em um tão antigo como vampiro.

Capítulo Três

França, Séc. XVIII


Os dois homens bem vestidos e atraentes estavam parados espreitando na esquina do outro lado da rua.
— Encontro-te na tua mansão. Aproveite. – disse Darak.
— Ei Darak! Discrição, não esqueça.

Ouvir: (Malukah - Beauty of Dawn)

O outro sorriu friamente e saiu na direção oposta.
A mulher colocava as baguettes num grandioso cesto, enquanto sorria para pessoas que entravam no estabelecimento. Mark aguardou os clientes saírem, e em seguida adentrou.
A padaria modesta, mas organizada contava com a presença da mulher que limpava o balcão e organizava tortas no lugar.
Bonjour.* – ela disse e levantou o encarando nos olhos.
As irises de Mark, castanho-avermelhadas tinham um brilho maior. E os olhos profundos de o encaravam com dúvida, mas ao mesmo tempo, interesse. Aqueles olhos... Eram como se a hipnotizassem, e ela sentia como se algo familiar estivesse ali. Balançou a cabeça levemente rompendo o momento, e seu peito subia e descia num descompasso de respiração desconhecido pela jovem. Mark observava-a diretamente, e um sorriso sombrio e sedutor lhe surgiu ao canto da boca. A mulher bateu as mãos no avental e fechou bruscamente a porta do balcão de vidro à sua frente.
— Em que posso servi-lo monsieur*?
— Está uma bela dama. – ele disse.
Excusez moi*?

*Bom dia em francês.
*Senhor, Sr.
*Perdão?


perguntou sentindo-se ultrajada com o que o homem parecia fazer. Se ele fosse um engraçadinho interessado em cortejá-la, ela iria tratá-lo como tratava a todos os homens que ali se metiam para tal.
— O que você tem de mais gostoso aqui? – Mark perguntou cortês, abaixando-se e apontando pelo vidro do balcão, as muitas tortas.
— Temos variados sabores dos sutis aos mais fortes... O que o monsieur prefere?
— Fortes. Sabores fortes como vinho tinto.
— Certo... – a mulher o encarou novamente naquela atmosfera sedutora — Crème de cranberries com amora em calda de merlot.
— Para viagem, por favor, mademoiselle*.
— Fatia?
— Sim, uma.

*Senhorita.

A jovem assentiu dando-lhe as costas e pegando a torta. Mark pensara em levar toda a torta, mas iria jogá-la fora. Uma fatia era o suficiente para relembrar o sabor do doce favorito que sua amada lhe preparava, e sem ter ideia disso o ofereça.
Um homem forte e mais velho surgiu pela porta da padaria fazendo ressoar as sinetas. Mark olhou na direção dele e foi encarado pelo homem por um breve tempo.
O homem parecia sentir o perigo ao encarar Mark.
— Papai, conseguiu mais fardos? – perguntou ao homem mais velho que não lhe respondia, apenas encarava Mark — Papai?
— Hãn? O que disseste?
encarou o pai de modo suspeito, e em seguida encarou Mark que já não olhava na direção do homem, mas sim, dela. Embrulhou-lhe a torta e o entregou.
— Senhor. São quinze escudos*.
— Obrigada.

*escudos era o nome dado à moeda francesa entre o séc. XVII e XVIII.

Mark pagou e pegou seu embrulho, cumprimentando homem e mulher num aceno discreto de cabeça. Assim que ele saiu do estabelecimento, caminhando elegantemente e sem olhar para trás, até sumir de vista, o pai da jovem perguntou-a:
— Quem era este homem?
— Um cliente. Não sei seu nome, por quê?
— Tenha cuidado com ele, parece-me perigoso.
— Hm... Tem de fato, um algo a mais nele... – falou baixinho para si.
Seu pai que se encaminhava à cozinha apenas olhou para trás na direção da rua, onde Mark caminhara, e adentrou ao cômodo sacudindo a cabeça.
— Não me respondeste papai! Conseguistes os fardos?
— O pulha do trigueiro disse que só venderá novos fardos quando quitados os antigos!
— Os impostos altos nos levarão à falência... – desabafou enquanto pensava num meio de melhorar as finanças do negócio de família.
Mark adentrou sua mansão, e mal podia acreditar que havia a reencontrado. Era perfeito demais para ser verdade. Sentou-se no divã de seu escritório e olhou para o pedaço de torta em sua mão. As memórias eram poucas, de sua vida como humano, mas as mais fortes vividas com ela, ele conseguia lembrar-se em flashes.

Flashback

O que estás a preparar? – o jovem Lord abraçou a cintura da serviçal na cozinha de modo furtivo.
Céus, Mark! O que fazes aqui?
O que estás a preparar? Parece apetitoso.
Uma torta de crème de cranberries com amoras e calda de merlot.
Minha favorita! Nunca a preparaste. Por que agora?
A mulher fugiu-lhe o olhar, envergonhada e concentrou-se silenciosa na torta. Mark havia entendido: ela queria agradá-lo e confortá-lo pelo dia de aniversário de morte de sua mãe, que havia passado.
Minha dama favorita preparando meu doce favorito… – ele sussurrou ao ouvido dela.
Sua dama favorita? Acaso, quantas tu tens, sir Killiam Mark?
Argh... Já lhe disse para não chamar-me assim… – ele resmungou sem graça.
É o vosso nome.
Mark, apenas. E não há muitas, uma vez que minha mãe é falecida.
sentiu-se mal pela repreenda, e sorriu culposa para ele que a puxou mais para si e beijou-lhe calmo. Em seguida roubou uma das frutas para confeito e saiu apressado da cozinha, ao ouvir a voz da cozinheira chefe aproximando-se.

Fim do Flashback

Ele encarou a torta com um sorriso que há muito não dava, e sentiu o cheiro ao abrir a caixinha. Era o mesmo cheiro. Caminhou até a cozinha, e embora não existisse apetite gostaria de saber se o sabor era igual, ou se ao menos se recordava do sabor. Deu uma garfada ao doce e o levou lentamente à boca. Mastigou e não sentiu o paladar. Era como comer papel. Sentiu um ódio subir-lhe aos olhos, deixando escorrer-se em lágrima. Maldição tamanha se tornara, que nem mesmo o sabor dos preparos feitos à mão por sua amada ele poderia sentir. O pequeno pedaço de alimento posto e engolido foi o suficiente para fazê-lo mal. Seu corpo não era capaz de digerir alimento humano, por isso Mark teve de regurgitá-lo. Jogou fora o pedaço do doce comprado após um tempo encarando-o como parte de suas memórias.
Darak surgiu ao entardecer daquele dia e Mark e ele, puseram-se a pensar numa forma de ajudarem-se.
— Falastes com ela?
Darak perguntou adentrando o hall da mansão e encarando Mark no topo de sua escada observando suas terras pelo vitral ali presente.
— Sim.
— Apenas isto tens a dizer-me?
— Obrigado. – Mark disse após um tempo em silêncio e virou-se para Darak: — Ela não me reconhece.
— Não poderia, ela nunca o conheceu.
Os dois estavam em silêncio e Darak olhou para Mark reconhecendo que ainda havia humanidade nele. Humanidade que aquele amor sentido mantinha.
— Preciso falar-lhe sobre os Volturi.
Mark assentiu e desceu as escadas em direção ao estofado onde Darak havia sentado.
— O que sabes da profecia Mark?
— Apenas o que me contaram.
— Então não sabeis nada. Irei dizer-lhe como o teu futuro e o de estão entrelaçados...
— Por que fazes isso?
— Já lhe disse, porque preciso de vós para destruir os Volturi.

– x –

Monsieur Pierre acaso achas justo o que fazes conosco? Há quanto lhe temos estima e respeito? Jamais deixamo-lo sem receber vossos escudos, no entanto, avoir pitié*! Estes impostos altos tem nos levado a sérias dificuldades!
Mademoiselle , eu não posso negociar com uma mulher. Deixe que vosso pai resolva isso.
— Oras! Não negocias com uma mulher agora, pois quando lhe fora conveniente recebeste vossas quantias por mãos femininas!
— Entregar-me os escudos é diferente de negociá-los.

*Tenha piedade!

suspirou pesadamente.
Monsieur Pierre, está com tempo a perder, porém eu não. Como vos disse, preciso trabalhar para pagá-lo, portanto sejais breve na resposta: vai conceder-me novos fardos de trigo ou não?
— Lamento mademoiselle, mas assim que vosso pai pagar-me um terço da dívida, eu volto a fornecê-los.
O homem montou em sua carroça e seguiu. de braços cruzados a porta de sua padaria bufava. Entrou aflita quando Mark surgiu-lhe pelo estabelecimento.
Bonjour... Ah... – estranhou vê-lo novamente ali e recompôs-se: — Monsieur, bonjour. Em que posso servi-lo?
— Baguettes, por favor.
— Quantas?
— Todas.
arregalou os olhos e deixou o queixo cair. Mas, rapidamente recobrando a consciência apressou-se a embrulhar as baguettes.
— Dificuldades nos negócios?
— São os altos impostos do império. Não tem sido fácil aos pequenos comerciantes.
— Entendo...
— Aqui estão... – ela entregou-lhe os embrulhos — São muitas as baguettes. Perdão por perguntar, mas se for para convidados, nós também oferecemos Buffet.
— Não, não são... São para os pobres. Mas, é bom sabê-lo.
— Obrigada, sir. – sorria largamente a ele.
Mark pagou e sorriu de volta. Saiu sob o olhar intrigado da mulher que o observava se distanciar de dentro da padaria, com um leve sorriso no rosto.
Mark não fazia aquilo desde que se tornara um vampiro: doar aos pobres.
Decidiu deixar os pães num orfanato local, no qual as freiras o agradeciam fervorosamente com salvas de "Deus o abençoe". Mark assentiu-lhes e sentiu-se sujo por aquilo. Deus não poderia abençoá-lo por mais que quisesse. Decidiu que faria aquilo com frequência, mas não diretamente.
Antes da tarde cair, estava à cozinha preparando os pães para a tarde, quando olhou na direção dos sacos de trigo. Estavam diminuindo, e as finanças ainda não eram suficientes. Contudo, a venda das baguettes de manhã fora boa, então teve ideia de pegar o dinheiro recebido e entregar ao moleiro como parte do pagamento a fim de reaver poucas sacas.
— Papai! – ela disse ao pai que enchia o tonel dos vinhos fabricados por eles e que lhes renderiam bons lucros agora que estavam maturados — Podes assar a fornada para mim?
— Aonde vais?
— Não me demoro, vou ter com o moleiro. Fiz boa venda esta manhã, talvez ele aceite o valor em troca de poucos sacos.
— O vinho está pronto, a venda irá nos ajudar.
— Eu sei, mas mesmo assim.
— Certo, certo. Vá. Tenhas cuidado.
A mulher assentiu e retirou o avental. Pegou a quantia e guardou-a em seu decote dentro de seu pequeno saco de couro. Ao passar pela porta, viu a carruagem do moleiro aproximar-se abarrotada dos sacos de trigo.
Mademoiselle ! Bom vê-la!
Monsieur Pierre? – ela encarou ao moleiro, espantada.
— Vim trazer-lhes o fornecimento de trigo.
— O senhor mudou de ideia?
— Vosso pai não tem mais dívidas comigo, portanto, nosso fornecimento voltou ao normal, porém tenham mais cuidado com vossas contas. Eu detestaria não fornecer-lhes novamente.
— Como...?
encarava confusa, aos homens que desciam da carruagem e descarregavam as sacas de trigo na parte de trás do estabelecimento como sempre faziam.
— Quem lhe quitou? – ela perguntara.
— Eu não posso dizer-lhe o nome mademoiselle, apenas que é um amigo vosso.
O pai da jovem surgiu-lhe confuso com a situação, e Pierre explicou-lhe a situação como fizera com ela. Seu pai ficou intrigado em quem teria feito aquilo, tanto quanto ela.
Ambos retornaram ao próprio negócio.
— Será um pretendente? – o pai perguntou-a.
— Oras um pretendente sem face? Acaso não tenho nenhum, e nem o terei. Esqueças tal ideia de casar-me papai.
— Uma hora terá de casar-se, eu não viverei para sempre.
— Exatamente, e como única herdeira vossa faço questão de cuidar dos negócios da família.
, ... Porque tão jovem e com idéias tão teimosas?
A mulher sorriu e retirando o saco de dinheiro de seu decote, guardou-o novamente informando ao pai que serviriam par pagar os próximos impostos do império.

– x –

Mark adentrou a padaria antes mesmo que os primeiros clientes chegassem. Haviam acabado de abri-la e o cheiro dos pães já dominavam o local.
No lugar de quem estava ali, era o pai dela.
Bonjour. – disse o pai da jovem intrigado pela presença do homem novamente.
Bonjour. Gostaria de fechar uma encomenda permanente.
— Hm... – o homem proferiu olhando-o duvidoso e pegou papel e pena para anotá-lo — O que seria?
— Gostaria que vossa padaria fornecesse pães e bolos diários aos orfanatos da cidade. Estive informando-me, parece que a igreja lhes fornecesse pouco.
— Claro – o padeiro riu sarcástico — O alto clero importa-se apenas com a farta mesa dos reis, e com o pagamento das indulgências... Aos pobres lhes resta a fé.
— Poderiam fornecer, ou é muito trabalho?
— Minha filha e eu damos conta. O pagamento será mensal ou semanal?
— Como lhes for melhor, apenas envie a cobrança para...
— Vossa mansão. – o homem interrompeu e no momento sua filha adentrou a loja vinda da cozinha amarrando seu avental — Entendido, monsieur Killiam Mark.
— Conhece-me?
— Creio que tenho a agradecer-lhe. No entanto, preocupa-me o que tamanho favor necessitará em troca.
O padeiro disse encarando Mark, que não deixou de olhá-lo nenhum minuto enquanto , não tirava os olhos dele e os ouvidos daquela conversa.
— Fora uma caridade, apenas. – Mark respondeu sorrindo.
— Sendo assim, creio que vós não necessitareis de indulgências tão cedo. – o padeiro disse em tom irônico sorrindo.
— Pode ter certeza disto, monsieur. – Mark respondeu sorrindo irônico.
! A partir de hoje temos encomendas altas, e as contas deverão ser cobradas ao monsieur Killiam Mark, semanalmente. Chame Edmund para realizar as entregas, precisaremos dele com freqüência.
— Sim papai. – ela assentiu e direcionou-se ao balcão enquanto o pai saía para preparar mais pães.
Mark despediu-se e antes que pudesse dar as costas, o chamou-lhe:
— Por que fizeste aquilo? Primeiro pagastes nossas dívidas e agora nos faz tamanha encomenda?
— Como eu disse... Sou um amigo vosso a fazer caridade.
encarou-o suspeita de suas intenções, e o que ele queria dizer com "sou um amigo vosso".
— Obrigada. – ela disse apenas.
Mark sorriu e saiu deixando a mulher afoita com a quantidade de trabalho que teria pela frente.

Capítulo Quatro

França, Séc. XVIII


Mark caminhava pela suntuosa biblioteca de sua casa enquanto em suas mãos folheava o diário entregue por Darak. Ali continham todas as informações conquistadas até então, sobre a tal profecia da Deusa Rhikan. O que Darak havia lhe dito sobre o futuro com o amedrontava. Temia por perder sua amada novamente, embora a morte de fosse algo premeditado, pelo qual ele sabia que não conseguiria salvá-la. Assim que os Volturi a encontrassem, se ela não fosse a reencarnação certa, ela seria morta. Aquilo também fazia parte da profecia: "Por cada reencarnação humana de , uma morte, até que seja reencarnada a figura que aprisiona o espírito da deusa".
Mark queria muito encontrar maneiras de livrar ela daquele futuro, e também a si.
— E se eu transformá-la?
— Mark, tu transformá-la agora seria o mesmo que admitir o assassinato dela e de ti. Os Volturi não permitirão que vós vivais como vampiros, caso o faça.
— Soa absurdo demais que eu tenha que aguardar o tempo certo para transformá-la, enquanto ela morre e revive a cada século!
Mark bateu forte em sua mesa e depois do silêncio breve entre os dois, balançou a cabeça em busca de acalmar-se.
— Darak! Há algo que tu ainda não me esclareceste. Teus motivos para destruir os Volturi.
Darak respirou profundamente. Ponderou se deveria contar sua história ao vampiro à sua frente. O que lhe provava que Mark era tão vítima quanto ele, fora exatamente o resquício de humanidade piedosa presente em seu olhar.
— Eu era apenas um menino quando meus pais foram transformados por Aro. Achava que ambos estavam mortos e eu fosse mais um órfão solitário. Cresci ao relento, sem vestígio de piedade humana, mas conhecendo a total crueldade do homem. Por que minha família? Negros escravos, mortos daquela maneira. Eu havia visto tudo, mas Aro não sabia disso. Negros serem mortos, não me causava espanto. A nossa vida era uma barganha. Mas, o modo. Aquela monstruosidade...
Darak fez silêncio e um pouco depois continuou:
— Quando tornei-me rapaz uma senhora camponesa me alimentou e ofereceu-me moradia, em troca de que eu a ajudasse nos trabalhos de campo. Sua idade avançada não lhe permitia o mesmo fulgor. Ela fora a única que me mostrara piedade. Então compreendi que não era a maioria da humanidade cruel, alguns apresentavam um lampejo de misericórdia em seus olhos. Este lampejo fez-me enxergar outras possibilidades para minha vida.
— Como se tornastes o que és? A tua vingança é sobre tua família perdida?
— Eu voltava à noite para o casebre enquanto a senhora Thurman esperava-me com o jantar. Como uma mãe, ela cuidou de mim. E naquela fatídica noite, as lamparinas apagadas me mostravam que algo não estava certo. Ela estava morta, da mesma maneira que meus pais. Não era Aro ali, era outro vampiro. Um que eu jamais poderia imaginar. Meu pai. Ele havia acabado de assassinar a única família que me restara, e em seguida transformou-me.
— Parece um pouco a minha história.
— Eu sei. Por isso, eu soube desde o primeiro momento que teria em ti, um aliado.
— Então teu pai lhe entregou aos Volturi?
— Não. Ele me transformou justamente para que não tivesse que me matar, pela lei do segredo. Um humano não poderia viver após ter visto aquilo. No entanto, o que ele não sabia é que eu já havia vivido aquele tempo todo, calado e ciente da existência dos frios. Eu segui pelo mundo sozinho após minha sobrevida, até que descobri os meus dons. Rapidamente chegou ao ouvido dos Volturi que havia um vampiro com potencial rastreador, porque eu mesmo, ingênuo, não fiz questão de esconder. E foi então que eu caí nas mãos deles, como escravo novamente. Aro descobriu quem eu era, e o que eu sabia ao me sondar.
— E vossos pais?
— Tempos depois foram mortos. Quando Aro os criara ele estava iniciando a magnitude do clã. E quando me descobriu, ele percebeu que outros que não eram de seu clã apresentavam dons especiais, então dizimou todos que chamava de "espécime inferior".
— Ainda seguem esta premissa para agregarem novos vampiros ao clã?
— Seguem. Teu pai tem o dom de hipnotizar e paralisar a quem desejar, acaso não sabe.
Naquele momento Mark pensou no momento da morte de . Provavelmente ela não pôde ao menos reagir.
— Como morreste Mark? – Darak perguntou como se soubesse que a mente dele vagueava naquela lembrança.
— Eu recém me casara com a duquesa Strauss e na noite de núpcias, ela me transformou.
Darak sorriu irônico. Ele não precisava só imaginar como Valerie o ludibriara, como ele sabia. Havia escutado a história pela boca de Killiam I.
— Este é o dom de Valerie. Ela pode transformar-se na visão que a pessoa quiser, ou lhe for conveniente. Uma ilusão óptica.
— Valerie ainda vive?
— Mas é claro. Tu não a reencontraste Mark? Ela é vossa esposa, afinal! – Darak disse sarcástico.
— Onde ela está Darak? – Mark gritou.
A raiva era palpável na aura de Mark.
— Tu não podes mata-la ainda, ela levará você ao encontro de sua .
— Não me importo! Encontrarei por todas as suas vidas, através de todos os séculos se preciso for, sozinho! Mas ei de acabar com a sobrevida de Valerie!
Darak o olhou entediado. Sabia que ainda havia muita ignorância e ingenuidade em Mark e por isso estava ali. Precisava ensiná-lo muito do que o vampiro não sabia ainda.
— E tu tens quais dons, Mark? – Darak o indagou ignorando a pergunta anterior.
O olhar raivoso de Mark modificou-se a um olhar curioso. O vampiro nunca se atentara aquilo.
— Vamos descobrir. – Darak anunciou levantando-se.
Antes que Mark o compreendesse, a campainha de sua mansão fora tocada e ele sorriu.
— Tu sabes quem é? – Darak o indagou ao ver a face surpresa e animada de Mark.
— Tu não?
Mark saiu da biblioteca rumo à entrada de sua mansão. A grandiosa porta rangeu ao ser aberta, e a mulher coberta com uma grande capa preta e cachecol até metade do rosto o olhou tímida. Havia um cavalo amarrado na escadaria da entrada de sua mansão. O olhar de Mark novamente tinha o brilho fantástico da surpresa e do prazer. As maçãs do rosto dela, avermelhadas denunciavam-lhe o quão frio ela sentia.
Mademoiselle ?
Bonne nuit, monsieur.*
— Estou surpreso de fato... – Mark encarava a mulher que esfregava os próprios braços para se aquecer de forma sedenta — Estás com frio, logicamente. Por favor, entre.
* Boa noite, senhor.
Assim que lhe deu espaço, sem cerimônias adentrou ao hall. A porta grande foi fechada rompendo o frio que ali se encontrava.
observou discreta a mansão e abaixou o cachecol, dando a Mark a clara visão de sua face.
Pardon, monsieur. Mas, Edmund está doente e esta semana não poderia mandar outro aqui para pegar-lhe os escudos. Meu pai também está doente, e por isso tenho trabalhado dobrado.
Ao ouvi-la atentamente, Mark compreendeu a face cansada e as olheiras abaixo dos olhos dela.
— Não pude vir mais cedo devido ao trabalho, e amanhã também não poderei. Por isso, cá estou a esta hora incômoda para avisá-lo. Caso não possa entregar-me agora, peço que, por obséquio... Vá até a padaria amanhã pela manhã.
— Claro. Sem intempéries por isso, mas saiba que, se ninguém viesse eu teria ido até lá. Quando te aconteceres estes fardos, não saia na noite sozinha assim. Eu mesmo irei até ti.
As palavras compreensivas e também sedutoras de Mark deixaram-na imóvel. Estática encarando aqueles olhos. Havia ali, um magnetismo inexplicável e recorrente. Darak observava-os de cima da escada. não o havia notado ali.
— Bem... Eu preciso ir então... – a mulher falou sem retirar os olhos dos olhos dele.
Mark deu um passo em sua direção, e ela continuava imóvel. Mais próximo, ele a encarava cuidadoso.
— Precisas dos escudos agora?
— Como? – ela não conseguia concentrar-se na pergunta, uma vez que a boca pálida de Mark lhe chamara a atenção.
— O pagamento. Se não precisar-lhe agora, peço que tu me permitas entrega-lo amanhã diretamente. Assim, poderei vê-la novamente.
franziu o cenho, estava confusa com o jogo de palavras daquele homem, e pensativa proferiu:
— Podes entregar amanhã monsieur. Eu... Eu preciso ir. Já é tarde e não mais o incomodarei.
— Fique para pelo menos aquecer-se um pouco. Permita-me servir-lhe um chá?
— Agradeço, mas meu cavalo está lá fora e realmente faz muito frio esta noite...
Mark discretamente virou a cabeça para olhar sobre seu ombro, sem encarar de fato Darak. O outro vampiro havia entendido sem necessidade de maiores sinais. Ele saiu pelos fundos, sem que a mulher o notasse. Iria pôr o cavalo ao estábulo particular de Mark, para assim alimentá-lo e aquecê-lo. Então Mark novamente encarou a mulher que aguardava duvidosa, a face do homem voltar a si.
— Eu insisto. Apenas uma xícara. – ele disse.
queria sair dali. Ela sentia que não era certo estar ali. Mas havia algo. Algo nos lábios pálidos que a chamavam, e principalmente... Algo no brilho daquele olhar. Queria mover as pernas em direção à saída, mas seu corpo não lhe obedecia. Quando Mark lhe sorriu, e estendeu a mão apontando-a a passagem à cozinha, ela apenas caminhou para onde ele indicava.
Ao chegar à cozinha, estranhou a vaguidão dos cômodos.
— Não tens empregados, sir Killiam?
— Por favor... Dirija-me apenas por Mark.
— Eu... Não acho prudente, monsieur.
— Podes continuar com os honoríficos se preferir, mas por favor, não me chame por Killiam.
— Ah... Pardon. Compreendo sir Mark.
A mulher fugiu-lhe o olhar e Mark direcionou suas mãos ao armário. Pegou uma lata de chá de lavanda e colocou sobre a bancada de mármore ao centro de sua cozinha.
encarou aquela lata.
Lavanda era seu chá favorito. Seria coincidência?
Mark colocou a chaleira para ferver a água, após preparar a xícara sobre a bancada.
— Gostaria de conhecer minha residência, mademoiselle?
assentiu discreta, com um sorriso tímido e seguiu o homem. Ele caminhava calmo com as mãos entrelaçadas às próprias costas. Ela caminhava como se pisasse em ovos. Mark observava-a contente, de canto de olho. Não havia esquecido a pergunta feita, por sua sempre, curiosa, .
— Tenho apenas um empregado. Darak. Ele já deve ter levado tua montaria ao meu estábulo, então não te preocupes.
— Ah... Obrigada. – ela falou em dúvida. — É de fato uma mansão...
— Solitário, não?
— Perdoe-me a indelicadeza monsieur, mas... Por que o senhor esconde-se aqui? Nunca ouvimos falar muito sobre vós, apenas...
— O que diz a lenda. O homem solitário que reside numa mansão e nunca fora visto a luz do dia, que assassinara mulher e filhos... Entre outros absurdos.
— Se o confortas... Nunca acreditei nas baboseiras que dizem as línguas da cidade. Na verdade, sempre achei que a mansão pertencesse a uma família de ricos, que aqui não se encontrava. Foi uma surpresa quando papai contou-me que era vós.
— Nunca tive motivos para sair. Até agora. – ele falou encarando a mulher firmemente.
— Não me espanta o fato de nunca saíres, porém... Não tens muitos empregados para ajuda-lo a manter a mansão.
— De fato. Contudo, não é como se eu precisasse. Um homem solitário é o mesmo que manter uma casa inabitada.
— Tu és jovem, sir Mark. Acaso não pensas em casar-te? – ela perguntou sem rodeios.
Ele sorriu. era assim, direta. Embora tímida inicialmente, era mais como se sua timidez fosse uma desconfiança. Mas, não se demorava a falar como bem lhe entendesse. E ao que notara, era uma característica que perdurou mesmo em outra vida.
— Tu pensas em casar-te?
— De certo que não. Não suporto a ideia de ser escrava submissa de um homem.
Ele riu com vontade e ela o olhou, de maneira intrigada.
— És uma moçoila transgressora?
— Digamos que, uma mulher a frente de seu tempo. – respondeu risonha.
— Bem, é uma pena. Eu nunca pensei em casar-me, mas... Se tivesse a mulher certa a fim... Certamente eu estaria.
Ela o olhou curiosa, e novamente aquele brilho entorpecente em seu olhar a fazia estremecer.
— E onde está a mulher certa, monsieur?
Aquela pergunta permeou seu pensamento, mas não era sua vontade tê-la dito. Tanto que ruborizou-se após notar o que falara. Seus olhos levemente arregalados arrancaram um sorriso ladino de Mark. Ele sabia que ela diria aquilo. Ele havia escutado o pensamento dela.
— Estou a olhá-la.
E com apenas aquela resposta, o ar faltou-lhe. Mark estava tão próximo dela que a jovem não conseguiu recordar em que momento suas respirações confundiam-se. Ela sentiu a mão dele em sua cintura, e inebriou-se com o fato de estar nos braços dele. Mark direcionou a face ao pescoço de e aspirou profundamente teu cheiro. Por mais que o sangue dela lhe atraísse, e seu sentido mais carnal e selvagem de vampiro o instigasse a mordê-la ali, o som da chaleira apitando à cozinha foi o que lhe fizera recobrar o controle. No entanto, não a soltaria sem pelo menos, beijá-la. E com em seus braços após tantos séculos, ele lhe beijou os lábios doces e macios.
Ao separar-se de Mark, a mulher tinha a sensação de estar incompleta. Sua mente lhe fazia confusa. Ele sorriu e acariciou a face dela, e silencioso caminhou-se à cozinha.
permaneceu estática, quente e confusa naquela saleta lateral à entrada da mansão. As pernas bambas forçaram-na a sentar no sofá presente ali. Julgou que melhor seria levantar-se e despedir-se de uma vez, mas não tivera tempo. Rapidamente Mark já estava à sua frente com uma xícara de chá servida.
— Aqui está, beba. Vai aquecer-te.
Bebeu o chá, embora já se sentisse aquecida. Nunca seu coração havia palpitado daquela forma. Mark apenas ficou observando-a em silêncio, e olhar predador do homem sobre si a deixava com medo. Não medo dele, mas medo das sensações provocadas. Pousou a xícara à mesinha central e levantou-se, sendo imitada pelo homem.
— Agradeço imensamente pelo chá e pelo... – ruborizou novamente sem saber o que dizer, e Mark sorriu.
— Não precisa agradecer pela hospitalidade. Jamais deixaria uma dama no frio, e se não importar-se me ofereço para levá-la em segurança.
— Não. Por favor, não é necessário.
— Tu mesma disseste antes, que está tarde. Por favor, permita-me. Eu não mais a desrespeitarei.
— Bem... Não... Não encare como uma desfeita ou ofensa, sir Mark. Apenas não precisa se incomodar. Estou acostumada a passear pela noite da França.
— Não insistirei então. Embora contrariado.
Eles sorriram um para o outro, e Mark a guiou à entrada de sua casa.
— Darak já trouxera seu cavalo.
Ela agradeceu novamente despedindo-se, e desceu as escadarias da entrada. Darak lhe ofereceu a mão para subir no animal, mas estava tão afoita que nem notara. Darak recolheu-a ao seu bolso com uma feição ofendida e Mark sorriu brevemente com aquilo. Ela ainda era a sua atrevida.
agradeceu ao homem que segurava as rédeas do cavalo e a entregara, e partiu rapidamente com o animal a galope.
Darak subiu as escadas e olhou para Mark de forma travessa, mas antes que dissesse qualquer coisa, o outro interviu:
— Não me demoro.
Darak assentiu e entrou à mansão logo após observar Mark sair como um vulto, a escoltar a jovem até sua casa, de modo furtivo.


.-.-.-.-.


Quando Mark retornou, Darak estava preparando-se para sair em caçada.
— Vais a algum lugar?
— Preciso caçar antes de partir.
— Já lhe falei que não é necessário...
— O vosso estoque de sangue pode ficar completamente para ti. – Darak falou ultrajado — Embora eu esteja ansioso para vê-lo caçar como um verdadeiro vampiro.
— Aonde vais?
— Atrás de uma aliada.
— O que aconteceu que eu tenha perdido em poucas horas?
— Aconteceu, que... Tu beijaste tua . E não demorará para que os Volturi entrem em ação.
— Eles podem nos prever por isso?
— Não, mas de certo o tempo que me disseram que levaria até que voltassem está próximo. Eu não queria contar isso a você antes que sentisse que pode viver um pouco mais de tua amada.
— A quem tu vais buscar?
— Aretha. Ela tem dons de clarividência e pode anteceder os passos deles.
— Darak! Tens muito ainda a me falar sobre vossos aliados.
— Teremos muito tempo para tal. AH! Antes que eu me esqueça...
Darak deu meia volta falando ao Mark, com um sorriso desafiador no rosto:
— Tens o dom de hipnose como vosso pai. E creio que algo mais...
— Como sabes?
— Controlou-a por causa disso. Não somos todos que podemos manipulá-los. E... Tu sabias que era ela antes mesmo que abrisse a porta. Como?
— Posso ouvir os pensamentos, antes que certas ações sejam tomadas. Ela estava em dúvida se tocava ou não a sineta. Achei que todos podiam.
Darak fez sinal negativo com a cabeça, ajeitando seu sobretudo e perguntou:
— Podes ouvir os pensamentos de quem está longe?
— Nunca consegui. Creio que só de quem está próximo a mim.
— Tente desenvolver isso para acessar meus pensamentos enquanto eu estiver longe, pode ser que apenas não tenhas aprimorado vosso dom.
— Antes que vá, tenho outra pergunta.
— Sim?
— Por que se importa em permitir que eu aproveite o pouco tempo com ? Uma coisa é querer uma aliança contra os Volturi, outra é ajudar-me a estar com ela.
— A humanidade piedosa em seu olhar. O pouco que tens, vem dela.
Mark assentiu em silêncio e Darak saiu em disparada. Ele entendera o que o vampiro aliado queria dizer. Havia no olhar de Mark algo que Darak valorizava e o fazia se lembrar, do único momento em que sua vida humana teve importância. Mark subiu ao próprio aposento, e deitou-se à cama. Não poderia dormir, e nem que quisesse. Vampiros nunca dormem, nem ao dia e nem à noite. São criaturas amaldiçoadas por serem vigilantes e espreitarem. No entanto, deitou-se para relembrar as sensações vividas ao sentir os lábios de . Era no mínimo estranho que um vampiro, ainda soubesse o que é amor após tanto tempo.
Contudo, aquilo era o que fazia Mark confortar-se em não ser como diria Darak, "um vampiro verdadeiro". E Mark sabia que a cada tempo passado, este amor não bastaria para mantê-lo humano. Logo, ele seria um cruel e maquiavélico monstro. Ele seria completamente, um frio.

Capítulo Cinco

Grã-Bretanha, Séc. XVIII


Darak adentrou ao casarão abandonado. Não havia sinal de humanos ali. Era recorrente que alguns jovens – ignorantes, como ele pensava – adentrassem a construção antiga e abandonada em busca de aventuras. E era assim que se tornavam presas fáceis. No entanto, naquele dia não havia ninguém.
Direcionou-se ao alçapão no corredor principal da casa e desceu ao cômodo oculto. Por baixo da casa uma espécie de gigante porão tornara-se o esconderijo dos frios aliados. Um grupo variado de vampiros, uma espécie de "clã", cujo líder era Darak. Aqueles eram seus soldados contra os Volturi. Aretha era a responsável por coordená-los na falta de Darak, o que vinha fazendo a mais tempo do que planejaram, uma vez que o clã Volturi havia tornado Darak um escravo e depois, o próprio preferiu ficar com eles como estratégia.
Vampiros mais jovens, recém-chegados ao grupo estranharam a presença imponente de Darak ali. Era comum que vampiros recém-transformados ainda se mostrassem com humor oscilante e por isso, tentaram atacá-lo. Sem sucesso, já que Sigmund, o jovem, mas veterano vampiro no grupo os controlara com seu dom especial: imobilidade. Todos ficaram imóveis no exato momento em que pensaram em atacar Darak.
O líder caminhou até Sigmund, o cumprimentando e sorrindo orgulhoso.
— Temos quantos novatos? – perguntou Darak.
— Dezoito, entre recém-transformados e alguns deserdados.
Darak encarou a todos ali, era notório que não o conheciam ou sabiam ao certo o que acontecia, e lhes saudou:
— Bem vindos, aliados. Aqui, vós tereis proteção e uma família, como já deve tê-los sido dito. Eu sou Darak, vosso líder. E espero que se sintam... Confiáveis a mim.
O silêncio e olhares estranhos demonstrava que não havia nenhuma objeção. Aretha sempre os preparava muito bem. E até aquele momento, nenhum frio jamais cogitou abandonar ao clã. Eram fiéis, e sentiam-se valiosos.
— Sigmund, onde ela está?
— Aretha precisou sair. Sarah reapareceu.
— Pressinto que perdi algumas válidas informações, não? – Darak o olhou surpreso.
— Aretha tem me mantido bem informado, creio que posso esclarecer-te tuas dúvidas, mas... Não havia sido avisado de tua vinda, Darak.
— Foi inesperado. Vamos até lá em cima.
Dito aquilo Sigmund ordenou a Kim, a quem ele vinha treinando para suas funções, que mantivesse olhos e controle sobre todos. Ele e Darak subiram até uma saleta que era utilizada como "escritório do clã", na parte de cima do casebre. Era a última porta do corredor onde se encontrava o alçapão.
— O que vossa amada tem aprontado Sigmund?
— Sarah e eu não temos mais nada.
Darak encarou-o supresso e recostou-se à mesa velha de madeira que havia ali.
— Sarah partiu atrás de informações dos irmãos Klaus, na Alemanha. Em seguida, foi à Etiópia, onde rastreamos aliados possíveis. No percurso descobriu que os Volturi estavam lá, em busca de algo que tem a ver com aquilo que tu pediste à Aretha para nos manter atentos.
— O cálice?
— Exatamente. Sarah encontrou antes dos Volturi, por pura coincidência. Ela trouxe-o não somente, mas também, alguns vampiros e... Os irmãos Klaus.
— Eles decidiram aliar-se a nós?
— Nenhum de nós suporta mais a hierarquia dos Volturi.
— Por que Aretha foi encontrá-los? Sarah conhece nosso caminho.
— Sarah não quer mais ser uma de nós. Aretha precisava buscar "as encomendas" – disse Sigmund de maneira metafórica.
— O que houve para Sarah desistir?
— Kim.
— Quem é Kim?
— A japonesa lá embaixo que ordenei cuidar de todos. Ela chegou aqui há alguns meses, e tem sido treinada por mim. Tem grandes habilidades, aprende rápido e... É mais ágil e útil do que Sarah.
— Tem as mesmas habilidades?
— Um nível acima... A competição de Sarah com ela nos colocou em situações delicadas muitas vezes, e Aretha teve que puni-la. No entanto...
— Sarah não aceitou.
— Exatamente. Decidiu desertar. Aretha mandou-a nesta missão, como forma de fazê-la decidir depois, e também porque Kim ainda não está pronta para missões sozinha.
— E por que você não está com a sua vampira?
— Já lhe disse que...
— Trocaste Sarah por Kim?
O vampiro mais novo encarou o chão e olhou na direção de Darak, de modo óbvio.
— Sigmund... Ainda tens muito a aprender sobre isso... Não precisas ter apenas uma vampira ao teu lado, mas fazê-las estarem contigo. Entende?
— Não tenho os segredos de Darak, o conquistador.
— Meu segredo é justamente não colocar uma contra a outra. Oras, Sigmund. Sabe de minha preferência por Sarah. Por mais que esta Kim seja mais talentosa, eu tenho planos para Sarah. Não posso perdê-la.
— Sinto muito, Darak. Farei o que posso para mudar isso.
— Não adiantará. Ela não mais o quererá... Terei eu mesmo que consertar. Oras Sigmund... – Darak estava realmente contrariado — Não se fere o ego de uma mulher, ainda mais uma vampira.
O mais jovem riu desculpando-se.
— Aretha certamente sabia que virias... Não estava em seus planos poupar Sarah, mas sinto o cheiro delas aproximando-se.
— Então vamos.
Caminharam até a entrada do alçapão onde não demorou a encontrar os demais prontos para descer.
— Sarah, Aretha, Klaus... – Darak cumprimentou-os.
— Sigmund, encaminhe os novatos. – Aretha ordenou e o mais jovem abriu o alçapão os fazendo entrar.
Sarah já dava meia volta raivosa, quando a mão de Aretha a segurou.
— Ainda não.
A jovem vampira a olhou, insatisfeita. Darak pediu para que todos entrassem naquela sala onde estava antes com Sigmund.
— Primeiramente... Irmãos Klaus. Honrosamente felicito-me com vossa aliança.
— Nos comprometeremos Darak, mas não por achar isto o melhor, apenas por compreender que precisamos de quantidade.
— Fizeram bem.
Assim que ia ordenar a Aretha levá-los aos seus aposentos, Kim surgiu à porta da sala. Era uma vampira maravilhosa. Os olhos de Darak brilharam ao vê-la e notou os motivos do jovem Sigmund seduzir-se por ela. O outro vampiro havia a pedido para subir e acompanhar os irmãos Klaus quando necessário.
— És realmente eficiente, Kim.
Arigatōgozaimasu*, senhor Darak. – ela respondeu séria.
— Irmãos Klaus, podem acompanhá-la. Kim mostre-os seus aposentos.

* Obrigada.

Sarah estava a ponto de pular no pescoço de Kim, tamanho ódio que sentia. No entanto, Aretha lhe encarava firme a repreendendo. Assim que saíram ficaram ali os três.
— Aretha, preciso que vá comigo.
— Eu já sei Darak. Vou preparar Sigmund para minha ausência, e bem... Tu sabes que esta moçoila aí – falou apontando com o olhar para Sarah que a encarava de volta — Só está aqui, porque previ que tens planos para ela.
— Que planos? – a jovem perguntou.
Darak olhou para Aretha que assentiu contrariada, e saiu da sala os deixando.
Sarah encarava o líder a sua frente, e Darak caminhou tranquilo até onde ela estava. Puxou a jovem pela cintura, e a vampira nada entendia. Darak beijou o pescoço dela e puxou os cabelos da mulher.
— São estes os vossos planos antes de matar-me, senhor Darak?
— Não. Meus planos são mostrar-lhe quem são os homens, e quem são os meninos.
A vampira sentia-se com ódio de todos aqueles.
— Mentirosos. É o que vós sois! Dizem-nos que somos uma família, mas usam-nos e manipulam-nos para teus interesses.
— Sigmund apenas encantou-se com a novata. O erro dele não deveria refletir-lhe como o erro de todo o clã. É fato que preciso de vós, mas não significa que não me importo com vós. Do contrário, eu teria permitido que Aretha a assassinasse enquanto estava a caminho daqui.
Sarah estava surpresa. Realmente não acreditou que Aretha estaria lá para matá-la, mas sim para convencê-la, como foi feito. Saber que só não estava morta agora, porque Darak não queria aquilo, a deixara temerosa de sua rebeldia.
— Portanto, Sarah... Ou és fiel e leal ao clã, ou não podes ser livre.
— Isto não é ser família senhor Darak.
— Somos vampiros. Credes em que conceito de família, Sarah? Achas que posso deixá-la livre como és aqui, fora daqui? Enquanto membro do clã, és protegida, és livre de certa forma. Se saíres, com tudo o que sabes... Não podes viver.
— O que queres de mim?
— Tudo. Desde o corpo... – Darak olhou-a de cima a baixo — Até a lealdade.
A vampira bufou com raiva.
— O que devo fazer para lhe ser considerada leal?
— Há um aliado possível, na Arábia... Tua terra. Ele deve estar conosco. Mas, não deve vir para cá. Preciso que se case com ele em aliança e viva com ele até o momento em que os Volturi o procurarem. Os dois deverão jurar lealdade aos Volturi, no entanto, tu com teu dom ocultará as memórias certas para que Aro não as descubra. Ele irá propor a Mizaque que em troca da própria vida, ele deverá ser leal aos Volturi e entregar a esposa.
— Mas, eu serei a esposa!
— Exatamente. Aro vai tomar-te como mais um membro do clã, e... Creio que outras coisas mais, se é que me entende.
— Aretha viu tudo isto, não é? Desde o início!
— Não se sinta enganada. Tens a maior missão entre nós, e isto é de orgulhar-se. Será você a principal chave no futuro para nos ajudar a derrotar Aro. O cálice que encontraste para mim é um objeto precioso para realizar um ritual. O ritual de Rhikan, onde a deusa liberta vai destruir com os Volturi. Preciso de ti. Teu dom de manipular as memórias é importante, assim como preciso de tua lealdade eterna. Em troca dela peça-me algo e se eu julgar possível lhe darei.
A vampira olhou para ele desconfiada, mas também deslumbrada.
— Estás a dizer que eu sou... A peça mais importante daqui?
— Considere a todos os outros como peões, num jogo de xadrez.
— Se eu sou assim tão importante... Mereço ser tratada como rainha, não?
— O que queres dizer?
— Percebo que não posso tornar-me tua primeira esposa agora. Mas, quando acabar... Torne-me. Quero estar acima de Aretha. Quero ser comandante do clã.
Darak sorriu com tamanha ingenuidade da vampira jovem. O poder que ela queria ele prometeria, embora soubesse que aquilo não era nada.
— Queres consumar o acordo agora? – ele aproximou-se dela, novamente puxando-lhe os cabelos — Ou depois que vieres a tomar teu trono?
A vampira o beijou em resposta.


França, Séc. XVIII


estava chegando à padaria novamente. Havia levantado de sua cama muito mais cedo que o habitual. Sem a presença do pai, ela necessitava trabalhar sozinha. Por isso, às quatro da manhã assava os pães do orfanato, e quando terminava de encher os cestos para pô-los na carroça, levava ao forno os pães restantes para vendas das manhãs. Ia sempre rapidamente aos orfanatos entregá-los, e mal esperava as freiras lhe agradecerem. Ela contou-as que Edmund estava adoecido e não poderia deixar de entregar, mas como ninguém poderia buscá-los, ela o faria sempre deixando os cestos à porta dos orfanatos pontualmente. Tocava sineta, largava os pesados cestos ali e seguia para outro. Ao final do dia, recolhia os cestos no mesmo lugar, levava-os à padaria para limpá-los e recomeçava na madrugada do outro dia.
Tinha acabado de entrar à padaria, e correra para a cozinha exatamente na hora de tirar os pães. Organizou a loja antes de abri-la, e os clientes já se apinhavam apressados pelos pães.
O pai da jovem surgiu, assim que o movimento findou-se, pela porta dos fundos.
— Hoje retornarei ao trabalho minha filha. – disse com voz cansada.
— Papai! Retorne imediatamente para a cama! Eu estou dando conta de tudo, não há que preocupar-se. Agora vamos, fecharei a padaria e lhe darei vosso café.
— Fechar? Estás louca?
— Eu avisei aos clientes ontem que manteríamos a padaria fechada, e caso precisassem de algo, apenas tocassem. Mas, em todo caso, precisarei ir até a casa de Edmund.
— Não fecharás! Eu os atenderei!
— Ora, pois! Com a febre que tens capaz de falirmos! Ninguém comprará nada nas mãos de um doente.
olhava para o pai, preocupada. Mark observava de longe ao que acontecia dentro da padaria. Assim que ela entrou com o pai, ele dirigiu-se aos fundos do terreno, onde podia ver uma cerca com uma pequena casa. Eles deveriam morar ali.
Mark bateu palmas a fim de chamar a atenção dos moradores da casa, e logo surgiu na janela. Ao vê-lo, ela disse algo ao pai e veio em seu encontro.
Bonjour, monsieur Mark. – cumprimentou-o sorrindo e ele fez o mesmo — Desejas ser atendido à padaria? Perdoe-me, mas precisei fechá-la. Mas se quiseres...
. – ele disse interrompendo-a.
Deixou-a atenta e sem graça pela informalidade.
— Não é necessário. Trouxe o pagamento a vós, aqui está. – ele lhe esticou os sacos de escudos.
Ela julgou pelo peso, que havia mais do que o necessário ali.
Monsieur... Contaste certa a quantia?
— Mas é claro... Tu podes conferir.
— Não entenda mal! Acho que passou na verdade.
— Ah... Se tiver passado deixe como pagamento para o próximo.
encarou-o em dúvida.
— Vosso pai, como está?
— Bem... Preocupa-me. A febre não cessa, e Edmund que tem os mesmos sintomas, já se encontra um pouco melhor. Vou inclusive, vê-lo logo.
— Edmund é vosso pretendente?
torceu os lábios e revirou os olhos.
— Ora! Que audácia. Edmund é apenas um amigo.
Pardon. Não quis ser indelicado.
— De forma alguma. Bem, monsieur... Obrigada por vir.
— Antes de ir-me, posso ver vosso pai?
— Meu pai? – sentiu-se nervosa com aquilo — Por quê?
— Uma visita ao convalescente. Sem falar que ele... Está a nos espiar da janela.
olhou para trás e seu pai, sem graça escondeu-se. Sentiu-se envergonhada e sorriu discreta. Deu passagem a Mark que entrou. Ele reparou que a mulher era de fato, simples. Parecia-lhe que a vida dela era a mesma de "serviçal". Sentiu um nó em sua garganta. Ao encarar a face do padeiro, Mark sabia o que viria a seguir. Trocaram poucas palavras, apenas os cumprimentos. dissera que precisava ir à casa de seu amigo doente, e Mark ofereceu-lhe para acompanhá-la. Aquilo causou estranhamento no pai dela, que enquanto aguardava junto a Mark a mulher buscar sua capa para proteger-se do frio, perguntou-o novamente o que pretendia com sua filha. Mark não respondeu como queria, apenas desculpou-se se estava sendo inconveniente e disse que não iria mais incomodá-la. O padeiro não disse nada contra ou a favor. Para Mark não importava. Pela coloração dos olhos do homem, Mark sabia que a morte apareceria em poucos dias devido à forte gripe. Já presenciara aquela doença antes, e muitos foram os homens que morreram como o padeiro morreria. , no entanto, não sabia daquilo e Mark achou correto não informá-la. O sofrimento era inevitável então para quê, preocupá-la com os últimos dias do pai?
Ela surgiu no cômodo servindo novamente uma xícara de chá para o pai, e na companhia de Mark foi à casa de Edmund. No caminho, Mark perguntou-a como iam os negócios e conversaram amenidades do dia a dia. Ela disse que chegou bem em casa, e arrependeu-se um instante de não tê-lo aceitado a companhia na noite anterior, uma vez que se sentiu seguida durante todo o trajeto. Ele prometeu-a que não mais a deixaria andar sozinha a noite.
— Não creio que haverá outra oportunidade. – ela respondeu firme.
— Bem... Haverá se fores fazer caridade visitando um homem solitário em sua mansão, novamente.
O olhar que direcionaram um ao outro era repleto de malícia. E ao notar, respirou fundo e dispensou-o já próxima à casa de Edmund. Não sabia por quais motivos sentia-se tão atraída por aquele homem.
... Prepare um insumo de ervas forte, e não deixe de beber. – ele disse antes de deixá-la.
— Não te preocupe, monsieur. Não o contagiarei com a doença de meu pai. Sou modéstia à parte, especialista em ervas medicinais. Tenho me cuidado.
— Não me importaria se me adoecesse, mas me importaria se por um descuido tão tolo seu tempo comigo fosse menor.
Ao ouvi-lo o sorriso no rosto dela deu lugar a uma expressão confusa. Quão enigmático era aquele homem. E com o olhar confuso de , Mark deixou-a ali parada e seguiu caminhando lento de volta à mansão.

Capítulo Seis

França, Séc. XVIII


Darak retornara após algum tempo, e quando perguntado por Mark o que havia o levado a se afastar tanto tempo, o vampiro não hesitou. Contou-lhe que coordenava a um grupo de vampiros exilados, aos quais, formava o seu exército contra os Volturi. Mark não se importava nem um pouco com os planos de Darak. Ele aliou-se a ele apenas para que pudesse defender sua cantante.
E foi buscando defendê-la, que ao descobrir que o pai da jovem falecera, ele montou campana frente ao casebre da moça. Observou-a por dias e noites tendo que administrar a padaria do velho pai, e não deixou de ajudar-lhe como já vinha fazendo.
Certa noite, Darak retornou de uma caçada, com uma notícia que não agradaria em nada, o vampiro apaixonado.
— Mark?
Chamou-o após descobri-lo solitário, como hábito, em sua biblioteca. O outro não proferiu nenhuma palavra, nem afastou o olhar do retrato que desenhava em seu caderno. Era mais um, dos muitos retratos de . Apenas, fez sinal com a mão para que Darak falasse.
— Eles a encontraram.
E aquela frase foi suficiente para fazer Mark levantar-se rápido de sua cadeira, em direção à porta. Mas, Darak o impediu passando como um vulto à sua frente.
— Não sejas estúpido! Se fores atrás dela agora, tudo será terminado. Perderá todas as outras chances de reencontrá-la!
— Eu não posso deixar que eles a matem!
— Tu sabes que irá ter outras chances, além do mais, eu não permitirei que arrisque os meus planos, e ainda nos coloque em risco!
— Não tente me impedir.
Mark proferiu raivoso e fora de si, mas Darak já sabia que aquela seria a reação do vampiro. Então, quando viera informá-lo do acontecido, nada mais poderia ser feito.
Mark chegou a tempo de ver estrangulada sendo jogada da Pont Notre-Dame. Os Volturi saíram como vultos e Mark se aproximou em seguida do local onde sua amada havia sido jogada. Ele encarava o rio escuro com o semblante em profundo ódio e os olhos, em derradeiras lágrimas.
— Eu irei te encontrar de novo, meu amor. – sussurrou ao notar que era tarde demais para salvá-la.
— Eles estão a caminho de tua mansão, vamos. – Darak proferiu ao se aproximar dele.
A imagem entediada de Darak, e nada afetada pelo momento de dor do outro vampiro, que ainda apresentava humanidade demais pelo tempo de sobrevida que tinha, colocou-se a correr a fim de antecipar a chegada dos Volturi. O que não foi possível. Os vampiros todos chegaram juntos.
— Onde estavam, Darak? – Aro perguntou à chegada de Darak, e deparou-se em seguida com Mark aproximando-se repleto de ódio.
— Tentando conter o vampiro que ainda acha que pode salvá-la.
— Por que demorastes a nos contatar? – novamente Aro indagou para Darak.
— O quê? Fora você que os chamara? – Mark perguntou surpreso.
— Este é o meu trabalho aqui. – Darak falou convincente aos Volturi, deixando Mark confuso: — A demora foi devido ao fato de que, ainda há humanidade em Mark, e ele consegue criar uma barreira aos meus poderes. Leva um tempo, até que eu consiga quebrá-la.
— Não quero decepcionar-me com vós, Darak. – Aro ameaçou.
— E não irá. Com o tempo, aprimorar-me-ei diante os poderes dele.
— Quanto a vós, Mark... – Aro falou direcionando-se ao outro vampiro que estava transtornado por tudo aquilo — É melhor que colabore, e quem sabe não deixaremos que se divirta um pouco com sua amada, antes de a capturarmos?
Os Volturi não demoraram a partir. Haviam cumprido o segundo assassinato da humana, que não havia ainda manifestado a presença da Deusa como eles haviam testado ao encontrá-la. Assim que ficaram sós, Darak e Mark discutiram sobre o fato de Darak ter entregado aos Volturi. Mas, Darak convenceu Mark, de que era necessário agir conforme eles esperavam e que sim, ele entregaria a presença de até conseguir executar seu plano.


Grã-Bretanha, Séc. XIX


Outras décadas passadas, e Mark ainda não havia reencontrado a reencarnação de . Darak, há algum tempo, partira para a Grã-Bretanha novamente. E Mark seguiu-o. Não que quisesse de fato, mas Darak o garantiu que se quisesse vencer aos Volturi, necessitaria de informar-se cada vez mais sobre o clã e sobre a profecia. Mark comprou outra mansão, agora, na Escócia. Darak não mais passava tanto tempo em sua mansão, pois havia ali o seu próprio clã, do qual Mark havia começado a frequentar.
Aretha estava treinando alguns novatos recém-chegados, Sigmund havia ido à busca de uma missão confiada a ele e à Sarah, diretamente por Darak, e Kim ocupava o posto de Sigmund. Fora ela então, que notou a presença de Darak e outro vampiro há cinquenta quilômetros de distância de seu esconderijo.
— Aretha. – ela chamou a mais velha após ter ido até a mata onde se treinavam os vampiros.
— Por que abandonaste o esconderijo? – a outra falou bravia.
— Darak se aproxima com um desconhecido.
— Deixe-me ver.
Kim tinha o dom de conseguir compartilhar visões de seus olhos, apenas com o toque de uma mão e sua vontade.
— Não sei quem é este...
— Retornarei ao meu posto, se precisares de algo, sabe onde me encontrar.
— Kim! – Aretha chamou a japonesa e a ordenou: — Prepares a casa como se fosse uma emboscada.
A outra assentiu e partiu de volta ao esconderijo. Protegeu o local como se estivessem premeditando um ataque. E quando avistou Darak aproximando-se ainda mais, adiantou-se a ele no que seria o início da estrada para sua sede.
— Kim.
Darak pronunciou sorrindo, com os olhos brilhantes ao vê-la. Ele sempre se deslumbrava com a beleza da jovem japonesa. E não apenas pela beleza, Kim orgulhava Darak também em seus dons.
— Mestre Darak. – ela cumprimentou.
— Aconteceu algo? – Darak perguntou sorrindo simpático a ela, e estranhando a presença da garota.
Ela olhou discretamente para Mark, e Darak compreendeu.
— Ele é meu aliado. – respondeu e deu sinal para que a jovem aproximasse.
— Killiam Mark.
Mark disse estendendo-lhe a mão após vê-la se aproximar. Ele pegou a mão fina e delicada da vampira e a beijou. Kim não estava acostumada àquelas maneiras com outros vampiros, embora Darak demonstrasse-a tratá-la daquela forma. Ela olhou o vampiro de cima a baixo, e não sorriu, embora algo nele estivesse a perturbando.
— Yumi Kim. – ela respondeu apresentando-se.
— Como tem estado por aqui, Kim? – Darak perguntou.
Ele adiantou-se a caminhar, e Mark encarou a vampira da cabeça aos pés, impressionado com sua beleza, mas de maneira discreta como ele o sabia ser. Seguiu Darak, e Kim os acompanhou.
— Há nova remessa de novatos, os quais Aretha está a treinar neste momento.
— Tu estás no lugar de Sigmund, suponho.
— Ele está a voltar.
— E como está a Sarah?
Kim suspirou descontente, de forma discreta como era.
— Foi com ele.
— Estou perguntando sobre o comportamento dela, Kim.
— Bem... Ela e Aretha com frequência entram em algum desacordo... Perdoe-me mestre, mas... Sarah age como se fosse uma rainha. Isso causa desconforto entre os demais.
— Eu imaginava que aconteceria. E contigo? Como ela comporta-se?
— Não sou de dar espaços aos desmandos de Sarah.
Darak sorriu satisfeito. Kim era uma grande e segura vampira.
— E vosso... Namoro com Sigmund, ainda é alvo de Sarah? – Darak perguntou curioso e divertido.
— O mestre deve saber que para Sarah, Sigmund não é mais interessante desde que ela se tornou vossa nova esposa. E Sigmund e eu, não temos mais um namoro, como tu dizes.
Kim observou a reação de Mark ao contar a notícia para Darak, sem perceber-se curiosa por aquilo. Mark, como um exímio leitor de mentes, sorriu discreto pelo que pôde ouvir.
Os vampiros encaminharam-se ao esconderijo, onde ali ficaram até que a chegada de Sigmund e Sarah, junto aos seus acompanhantes, pudesse dar razão àquele encontro.


Continua...


Nota da autora: Minhas queridas leitoras, nossa fanfic Entre Lobos e Homens acabou. E com muito carinho a vocês todas, que me acompanharam, e por muito pesar em ter de me despedir de cada um dos personagens, que eu lhes trouxe este especial. Mark Killiam Jr.Ruskt, foi o vampiro que nos deixou aflitas e seduzidas em muitos momentos de ELEH, e nada mais justo do que conhecer um pouco da sua história. No fim, era de fato, la cantante dele. Espero que vocês apreciem, este pequeno spin-off de amor.
Com carinho, a autora.






Outras Fanfics:
(Links na página de autora)
Até a data desta fanfic constam postadas:

Longfics

○ No Coração da Fazenda
○ Linger
○ Entre Lobos e Homens: Killiam Mark
○ Western Love

Shortfics

○ A garota da Jaqueta
○ All I Wanna Do
○ Cidade Vizinha
○ Coletâneas de Amor
○ Conversas de Varanda
○ Entre Lobos e Homens
○ Deixe-me Ir
○ F.R.I.E.N.D.S
○ Intro: Singularity
○ Mais Que Um Verão
○ Nothing Breaks Like a Heart
○ O cara do meu time
○ O modo mais insano de amar é saber esperar
○ O teu ciúme acabou com o nosso amor
○ Pretend
○ Semiapagados
○ With You

Music Video

○ MV: Drive
○ MV: Me Like Yuh
○ MV: You Know
○ MV: Take Me To Church

Ficstapes

Nick Jonas – Nick Jonas #08607. Take Over
BTS – Young Forever #10304. House Of Cards
Camp Rock 2: The Final Jam #12509. Tear It Down
Descendants of the Sun #13005. Once Again
Descendants of the Sun #13006. Say It
Taemin – Move #14802. Love
Paramore – Riot #16009. We Are Broken




Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Quer saber quando esta fic irá atualizar? Acompanhe aqui.


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