Última atualização: 27/06/2018

Prólogo

Se isto é um sonho, não vou abrir meus olhos
Estou dormindo? Não, estou viva.


CAPÍTULO 1 - SONHANDO

Não costumava fazer frio no Rio de Janeiro. Não que as estações fossem definidas a risca, mas, normalmente as noites eram quentes e úmidas, aquela estava sendo diferente, era um frio aconchegante. Já se passavam das 22h da noite e a garota de longos cabelos pretos observava o céu. O céu em um azul marinho profundo naquela noite fria de agosto. A lua banhava o corpo da garota com sua luz brilhante deixando uma aura em sua volta.
Era , a garota segurava em suas mãos uma xícara cor de rosa que havia ganhado de sua avó em um de seus aniversários, era um presente simples porém que agora aprendeu a gostar, o vapor quente do chá que tomava se misturava ao ar gélido daquela noite fria a confortando por alguns segundos antes de dissipar no ar e se misturar com o frio da noite. Essa noite, o chá que bebia era de capim limão o que a fazia lembrar de sua infância quando corria livre pelos campos e se escondia atrás das grandes árvores. De como o vento batia em seu rosto, e entrava por suas vias aéreas relaxando-a de dentro para fora. De como a liberdade lhe era dada sem pedir nada em troca, como nenhuma preocupação a assolava.
Agora não poderia mais.
Estava presa àquela cadeira com rodas por sua própria culpa.
Era impossível não pensar com clareza no dia do acidente, era fechar seus grandes olhos castanhos que toda a cena vinha como flashs nítidos em sua mente.
Há dois anos um grupo de adolescentes dirigiam embriagados pelas ruas do Rio de Janeiro, aproveitando como suas vidas eram fáceis e sem obstáculos, poderiam fazer tudo que quisessem porque o dinheiro não era problema, se fizessem algo de errado, seus pais sempre resolviam pagando caro por suas bobagens de adolescentes.
Essa noite, resolveram apostar algum tipo de corridas em uma das várias ruas fechadas por contas de obras na cidade, mas, mau sabiam eles que estavam apostando com a própria vida.
estava em um dos carros, no banco da frente, o vento quente do verão batia em seus cabelos fazendo com que chicoteassem em seu rosto pálido deixando um formigamento por onde as pontas de seus cabelos batia lhe dando uma sensação de êxtase. Ela adorava aquela sensação de sentir o vento, de se sentir livre, de se sentir invencível.
Mas queria mais.
- Mais rápido, Max! – gritou em plenos pulmões tentando soar mais alto que o ronco do motor da bmw prata que voava em quatro rodas. E seu pedido foi aceito, Max então pisou mais fundo no acelerador.
A sensação era ótima.
- Nós vamos ganhar! Ganhar! – Max olhou para e gritou.
Foi então que em frações de segundos o carro colidiu em um poste e o pequeno corpo da garota atravessou o vidro e acabou com todos os sonhos e expectativas.
A deixando paraplégica.
Suspirando pesadamente, tomou um último gole de seu chá, depositando cuidadosamente sua xícara em um mesinha que se encontrava no meio de sua pequena varanda. Com cuidado e maestria virou sua cadeira e voltou para dentro de seu quarto, seu santuário, onde ela podia se esconder de tudo e de todos, onde ela poderia ser ela mesmo, onde ela, finalmente poderia entrar no mundo dos sonhos e então poderia encontrar seu conforto.
Com dificuldade subiu em sua enorme cama, não aceitava mais ajuda de ninguém, todos a olhavam com pena e ela estava cansada disso, fechou os olhos e em silêncio, perguntou a Deus em uma oração quem ela era e porquê estava ali ainda. Então se aconchegou no meio de todos aqueles lençóis de seda e caiu no sono.

A garota estava deitada em uma campina de rosas brancas no topo de um monte, se ela quisesse, apenas com o levantar do braço, conseguiria tocar as nuvens brancas que dançavam no céu azul celeste. As flores balançavam ao ritmo do vento dançando junto a ele. Os passarinhos cantavam no topo das árvores e algumas borboletas voavam em volta de como se a chamassem para brincar.
Como queria levantar e atender ao chamado das borboletas amarelas, mas não podia ou podia ? De repente uma onda de esperança pairou dentro do corpo da garota e, com ela a comandando levantou calmamente do chão e para sua surpresa estava em pé sem auxílio de barras ou pessoas a segurando. Não podia acreditar no que estava acontecendo, levantou a barra de seu vestido florido, mirou seus pés descalços e com muita facilidade mexeu os dedos dos pés.
Ela estava de pé, conseguira mexer seus dedos.
Será que poderia pular? Com esse pensamento tirou os pés do chão em um saltinho mínimo, ficou extasiada e colocou a mão na boca com espanto. Olhou para as borboletas em sua frente e como se fosse algum tipo de sinal todas elas voaram como se soubessem que a brincadeira havia começado.
olhou incerta para o campo em sua volta, para seus pés e para as borboletas. Será que conseguiria correr também? Bom, ela tentaria ao menos. Primeiro o pé esquerdo e depois o direito em uma velocidade quase parando, a garota se equilibrava perfeitamente. Era como se estivessem colocado energético em sua bebida matinal, começou a correr atrás das borboletas amarelas e que juntaram ao grupo com algumas cor de rosa, verdes e para a surpresa da garota, haviam até algumas brilhantes. Soltou uma gargalhada de tanta felicidade e esqueceu de todo os seus problemas, ela só sabia que conseguia andar e correr naquele mundo onde as borboletas podiam ser brilhantes.
Cansou-se de tanto correr e parou embaixo de uma árvore tão grande que quase não conseguia ver o seu topo, a sombra da árvore ia tão longe. Jogou-se com nenhuma delicadeza no manto branco de rosas que havia em volta da grande árvore, era como se deitasse em nuvens. Com curiosidade, levantou suas pernas em direção ao céu e ficou observando e mexendo-as.
- Eu posso andar novamente! – falou sem nem acreditar no que estava acontecendo.
- É. Eu posso ver isso e outras coisas também. – Uma voz masculina, melodiosa pode ser ouvida deixando assustada. Em um rompante sentou-se novamente ajeitando seu vestido com estampa de flores. procurou, de onde estava vindo, mas, não conseguiu enxergar o dono de voz tão maravilhosa.
- Hey. Pode aparecer estou tão feliz que acho que não vou fazer mal pra você – falou com um tom de humor em sua voz.
- Ah! Agora estou mais aliviado. – Então ele surgiu de trás da grande árvore, o garoto estranho usava uma calça jeans surrada que combinava perfeitamente com sua blusa branca de mangas compridas que cobriam até seus pulsos, suas mãos grandes e brancas com dedos longos e finos onde algum tipo de aliança residia em seu dedo médio da mão esquerda.
Seu rosto angelical ostentava olhos verdes brilhantes e juraria que as esmeraldas sentiram inveja só de estarem perto, em seus lábios grossos e rosados um sorriso de canto deixava-o ainda mais bonito. Seus cabelos eram revoltos com alguns pequenos cachos em suas pontas, seus cabelos eram pretos como petróleo, queria tocar naqueles cabelos, envolver seus dedos naqueles cachos, sentir a maciez.
Ele andava em sua direção com tamanha leveza que juraria que ele estava voando.
- Posso me sentar ao seu lado? – O estranho da voz melodiosa falou mais uma vez.
- Ah! – pigarreou para tirar o nó que se formou em sua garganta por tamanha perfeição. – Claro que pode. Senta aí, o lugar é nosso já que não vejo mais ninguém por aqui. Sei lá, se tiver alguma coisa pra comer ou pra beber podemos dividir também, fazer um piquenique debaixo dessa árvore tão grande. Aliás, que fruto essa árvore dá, hein? Será que é gostoso? Será que é maça ou laranja? Seu nome? Você não me disse. - A garota disparou a falar como uma metralhadora e o garoto apenas riu com amabilidade da recepção tão bem feita.
- Vejo que além de corredora profissional é uma grande oradora. - Ele sorriu com sinceridade e a menina abaixou os olhos, envergonhada. - Não precisa se envergonhar, é bom você falar bastante, assim não deixa nada guardado em seu coração. É melhor colocar pra fora tudo o que lhe faz mal ou bem. E assim nós nunca vamos ficar sem assunto, porque sou péssimo nisso. – Ele riu e acompanhou. - E me chamo , e o seu nome, agradável senhorita ?
- ‘’’’ – repetiu o nome para lembra-lo. - Que nome diferente, parece aquela peça de roupa que aquece as pessoas. Gostei bastante. ‘’ ‘’ – Repetiu o nome do garoto novamente. - Meu nome é mas pode me chamar de mesmo, eu nunca tive apelidos se você quiser pode fazer as honras, nem vou reclamar, sempre quis ter um mesmo porque nunca gostei do meu nome.
ria com sua alma, estava tão feliz de estar conversando com aquele estranho lindo. Colocando tudo pra fora sem medo de qualquer coisa, sem medo do que ele possa pensar dela e das coisas que saíam de sua boca sem filtro algum.
- Fico feliz que tenha gostado do meu nome, sério, acho que você é a primeira pessoa que gosta desse nome estranho. Meu pai é um tanto quanto excêntrico. - Ele riu – Seu nome é encantador, . - olhou para trás como se estivesse sido chamado. Mirou o chão e fez um mixoxo com os lábios, visivelmente desapontado.
- Tenho que ir agora. - falou.
Inesperadamente, sentiu um aperto no seu coração, queria ficar mais um pouco com ela.
- Eu te vejo amanhã? - perguntou esperançosa.
- Claro, se você quiser. Então eu te vejo amanhã, minha querida – Então beijou suas mãos e voltou caminhando até a grande árvore.
estava maravilhada com tudo aquilo. Deitou-se novamente no campo e deixou que as flores lhe fizessem massagem por toda a extensão de seu corpo relaxado e feliz, fechou seus olhos e deixou que tudo aquilo tomasse conta de seu ser como se fosse uma bateria sendo recarregada.


abriu seus olhos preguiçosamente, e o que viu foram paredes brancas de seu quarto.
Tudo aquilo era um sonho, mas um sonho tão real que pediu ao fechar seus olhos com força para que ela voltasse para o campo florido e para o novo amigo de nome estranho, mas, ao abrir seus olhos novamente a única coisa que viu foi uma escrivaninha com seu computador e vários papéis jogados.
Fechou suas mãos em punho e socou o colchão com raiva.
Por que as coisas não poderiam ser fáceis? Fazer um pedido e tudo voltar ao normal? Ou pelo menos conseguir voltar a sonhar.
No mesmo instante sua enfermeira e amiga, Sandra adentrou pela grande porta branca com alguns respingos de tinta de várias cores.
- Bom dia, menina! Vamos, vamos levantando dessa cama porque hoje o dia está como você gosta. Chuvoso.
Falando isso, Sandra abria as cortinas deixando o vento gélido da manhã tomar conta do ambiente. respirou fundo deixando que todo aquele ar gelado entrasse por suas vias aéreas e a relaxasse, para que toda raiva da invalidez fosse esfriada.
A chuva fina caía lá fora e dentro da podre garota rica.
- Feche essas janelas, Sandra, por favor. Não quero sair daqui, não quero sair daqui nunca mais, já pode abrir uma cova aqui mesmo. Vamos fazer o enterro porque o corpo já está aqui, inerte. - levou seu cobertor até cobrir todo seu corpo novamente.
- Nem adianta ficar fazendo esse showzinho. Toda manhã você faz a mesma coisa. – Sandra revirou os olhos.
Sandra puxou o edredom e estava imóvel com os olhos fechados e os braços em um ‘’x’’ em seu peito, como se estivesse em um caixão.
- E está vindo aí para a aula de artes. Não acredito que você vai fazer essa desfeita, ... - Sandra sabia como atiçar a curiosidade da garota.
- A volta hoje, é ? – abriu um de seus olhos e continuou imóvel, fazendo Sandra rir.
- Sim, volta. E você vai continuar ai deitada? Vou trazer seu café e não se atrase. - Sandra caminhou lentamente para fora do quarto fechando a porta.
era a melhor e única amiga de Depois do acidente, se isolou do mundo, não queria a presença de ninguém porque os olhares que lhe eram direcionados pelas pessoas que achou a vida toda que eram seus amigos, eram de nojo e de pena. Algumas meninas continuaram frequentando sua casa por mais alguns meses, mas, sempre que havia alguma festa, nunca chamavam . Ela havia se tornado um incômodo, um estorvo para todos. E ela não queria ser aquilo, apesar do acidente, era a mesma pessoa de sempre. A mesma garota alegre, sonhadora, que gostava de pintar e desenhar, que gostava de festa e música alta. Mas com o tempo e todas as pessoas a ignorando, tudo isso se desfez como um emaranhado de ilusões. E então Sandra e apareceram em sua vida.
era a única filha de Sandra. Uma vez foi visitar sua mãe e encontrou enquanto ela pintava em uma grande tela branca rabiscos que para pessoas que olhassem de longe não significariam nada mas, que para aquela garota significavam muita coisa. Conversaram sobre tudo, desde pinturas de Picasso até a vida amorosa de atores de Hollywood.
voltou, mesmo que por metade, a viver.
Vivia as aventuras de por osmose, enquanto a amiga cursava medicina em uma das melhores faculdades do Brasil que, com ajuda do pai de , era paga. contava tudo o que vivia, todos os rapazes que conhecia e que queria que conhecesse também. Mas os pedidos de eram em vão, sempre dizia que não e continuava nessa vida de osmose.
Estava ansiosa para a volta da amiga que estava viajando de férias na Austrália.
Por um momento, havia se esquecido da frustração de que tudo que viveu a noite passada tinha sido apenas um sonho. suspirou e com todo cuidado levantou-se da cama passando as mãos em seus cabelos para, ao menos, abaixar a bagunça que se formava com seus cachos, foi então que sentiu algo macio demais que não poderia ser apenas seu cabelo, puxou do emaranhado e então reconheceu que era uma pétala de rosa branca.
Olhou estranhamente para a pétala analisando-a e ficou sem entender, ela não tinha flores no quarto, não flores vivas apenas de plástico em algumas de suas pinturas. Posou a pétala em seu criado mudo e com toda maestria do costume de levantar da cama para a cadeira de rodas, o fez. Desviando de tudo que estava espalhado por seu quarto, finalmente chegou ao banheiro e fez todos os seus anseios matinais. já saía do banheiro, secando seus longos cabelos com uma tolha quando um furacão entrou em seu quarto pulando, gritando e sentando em seu colo.
- , meu amor ! Voltei e estava com saudade dessa sua cara séria e carrancuda, por incrível que pareça. - depositou vários beijinhos pelo rosto da amiga.
- Ai, para, com essa melação. Acabei de tomar banho e agora vou ficar com cheiro de baba. empurrava a amiga para que saísse de cima dela aos risos.
- E também senti falta dessas suas frescuras idiotas de garota mimada. – puxou o cabelo de .
- Ai, , acabou de voltar e já está querendo que eu faça você voltar de onde veio? – puxou o cabelo da amiga também.
- Ai, como eu senti sua falta, grande reclamona. Queria tanto que você estivesse lá comigo, sério, muito sério mesmo. - sentou-se em uma poltrona lilás que residia no canto direito do quarto. – O lugar é maravilhoso,, as praias, o clima e sem falar nos garotos, né? Eram quentes. – abanou-se como se estivesse sentindo um calor terrível.
- E o garoto que você estava ficando e que foi junto com você? – perguntou confusa.
- Ta vendo, você e esse seu problema de não querer usufruir da internet e nem de responder meus sms. Está por fora de tudo.
não curtia ficar horas e horas usando a internet, ela preferia estar sonhando e imaginado com seus vários livros ou pintando um mundo diferente em suas telas brancas,não havia respondido os sms da amiga, porque em um de seus vários acessos de raiva, jogou pela janela e o celular espatifou-se no jardim em milhões de pedaços.
- É, aconteceu um acidente com o celular...
- , você jogou o celular pela janela de novo?
- Você me conhece tão bem que nem preciso dizer. – riu sem graça. – Mas continue falando, onde Peter se meteu?
- Quando eu cheguei lá e tinha todos aqueles caras a minha disposição, tratei logo de mandar Peter pastar. Eu não gostava dele realmente, e estava com ele só pra não me sentir sozinha lá.
- Ainda bem, não aguentava mais aquele cara todo cheio de tatuagem e que, a maior parte do tempo, cheirava a cigarro, tinha um péssimo senso de humor e musical. Pelo amor de Deus, né, . Você tem é que voltar a falar com o .
- Mas então, vejo que você andou fazendo novos projetos, né? – desconversou, não queria falar sobre . Não agora, estava recente demais. revirou os olhos com a mudança de assunto.
- Usou até a porta. levantou-se da poltrona e foi até a porta fechada passando a ponta dos dedos pelos respingos de tinta.
- É. Tô tentando novos horizontes. – Agora foi a vez dela de mudar de assunto. - Mas cadê Sandra que sumiu e até agora não apareceu?
- Vi mamãe saindo com as sacolas do mercado. jogou-se na cama de com tudo e um berro foi escutado.
- NÃO! – desesperou-se. levantou em um pulo como se brasa quente estivesse tocando sua pele.
- O que foi, ? - perguntou com as mãos no peito como se estivesse tendo um AVC.
- Quase que você amassa minha rosa. – levou sua cadeira até sua cama e com todo cuidado pegou a pétala entre dos dedos.
- Que rosa, , isso aí é só uma pétala... Agora ta cultivando flores?
- Eu não sei sinceramente de onde veio isso, mas eu sinto que eu tenho que cuidar. Sei lá. Ela é tão perfeita e branca, tão imaculada. Acho que até brilha um pouco. - olhava para a pequena pétala com carinho e admiração. - E... Não sei se estou ficando maluca, acho que sonhei com ela essa noite, talvez seja um milagre eu tenho que cuidar. Talvez seja igual à história da bela e a fera que se a última pétala caísse, ele morreria então a pétala veio para minhas mãos pra ele não morrer. Pra ele continuar vivo e eu vou cuidar dela para que nunca morra. - As lembranças do sonho da última noite voltaram deixando ainda mais entorpecida.
- E tinha um cara no sonho também, , ele era lindo. Não lindo como os garotos que a gente costuma ver em revistas, ele tinha uma beleza extraordinária. Era o garoto dos meus sonhos. Será que ele existe? Talvez não, talvez ele só exista lá.
- ... Amiga...- falava baixinho. – Lá aonde? Você parou de tomar os remédios? Porque que papo de louco é esse.
- Lá nos meus sonhos, suspirou.
Dois toques foram escutados na porta e então Sandra entrou novamente no quarto.
- Meninas, Carmen chegou, só está esperando vocês duas. Vão logo, porque o café está esfriando. - E com a mesma velocidade que entrou, saiu do cômodo.
pegou a pétala das mãos de e depositou, novamente, em cima do criado mundo.
– Vamos deixar a pétala milagrosa aqui porque agora vamos colocar as fantasias pra fora.
Quando pintava, consegui colocar tudo que ficava guardado em seu coração em uma tela branca, rabiscos sem sentido, paisagens de florestas ou até rostos perfeitamente desenhados eram feitos pelas mãos da garota. Tudo que era reprimido dentro do coração da garota, ela conseguia expor por meio da arte.
Tomaram o café em meio a sorriso e risos cheio de alegria e de saudade. Para , a melhor parte do dia era quando Carmem chegava para mais uma de suas aulas. E não foi diferente. Era bom ocupar o tempo com alguma coisa prazerosa, já que por opção própria, não frequentava a faculdade. Seu sonho era ser uma designer de sucesso, mas com tudo que aconteceu em sua vida, preferiu se isolar do mundo e achou na arte um refúgio.
No meio da tarde, Carmem já havia ido embora porque a senhora era voluntária em um abrigo e não poderia passar o dia com
exalava felicidade por estar novamente com sua amiga, mas, ao mesmo tempo, sentia uma tristeza por ver se isolar do mundo e preferir a companhia de livros cheio de poeira a pessoas.
olhava a chuva fina cair através de sua janela. Ela olhava fixamente para o horizonte onde ela podia ver um antigo balanço que seu pai construiu para ela e seu irmão, Max. A madeira do acento estava gasta e escurecida por conta da chuva, o balanço balançava-se lentamente para trás, para frente. se perguntava todo dia como as cordas não poiam já que ele era usado sempre do modo mais louco possível. Max sempre a empurrava com força e pedia ainda mais forte, Max sempre atendia os pedidos de sua irmã e por isso ele havia falecido. Uma lágrima teimosa escorreu por sua face corada e com rapidez, tratou de afastá-la com a ponta de seus dedos. Ninguém poderia saber de sua dor, não agora, não por estar tão felizes de estarem ali juntas novamente. Fechou seus grandes olhos castanhos e pode ver o irmão sorrindo em suas memórias. E era aquela lembrança que mais gostava.
Um sorriso singelo apareceu em seus lábios rosados. E, em meio a suas memórias um rosto novo, porém já conhecido apareceu. Era do estranho incrivelmente bonito que havia sonhado e ele estava abraçando Max.
Com rapidez abriu seus olhos. E o que pode ver foi o balanço parando lentamente o seu vai-e-vem.
- , você vai ficar realmente ai olhando pro nada? Eu já tenho que ir embora, amiga – falou indo até sua amiga.
- Só... Só tava pensando em que outra pintura vou fazer. - virou-se para - Mas já vai? Tão cedo.
- Tenho que arrumar as minhas coisas. Cheguei de viagem e vim correndo pra cá. Nem falei com minha mãe direito, precisamos passar o dia juntas pra matar a saudade.
foi até sua amiga e lhe deu um abraço apertado.
- Fique bem, . - E depositou um beijo nas bochechas de .
saiu. O silêncio tomou conta novamente daquele grande cômodo.
ficou olhando pela janela sua amiga entrando no carro e dando a partida, continuou ali olhando para o horizonte como se estivesse esperando que algum milagre aparecesse correndo e entrasse pelos portões daquela enorme casa vazia e silenciosa.
Seus pais estavam em alguma viagem de negócios em algum país que ela nem fazia questão de saber qual era, depois que toda essa situação aconteceu, sua mãe nem olhava mais para ela. Também a culpava pela morte de seu irmão.
E isso deixava tudo ainda pior.
Levando sua cadeira de rodas até o outro lado de seu quarto onde ficava sua estante de livros que tomava conta de toda uma parede. Alguns respingos de tinta também estavam por toda a extensão da grande estante, mas nada em seus preciosos livros.
passou a ponta dos dedos até os livros que eram possíveis ser alcançados por sua mão e pousou seus dedos em um especial, A megera domada de William Shakespeare. Uma peça não tão reconhecida como Romeu e Julieta, mas, que amava. Fora o primeiro de Shakespeare que leu e ali, se apaixonou pelo autor.
Começou a lê-lo como se fosse a primeira vez que o fazia, adorava a história de como uma garota prepotente acabou caindo de amores por um homem grosso e rude. O amor pode sim fazer mudanças drásticas nas pessoas, para o bem ou para o mal.
passava seus olhos pelas linhas com frases perfeitamente escritas, porém não lia nada, não conseguia compreender nada, seus pensamentos estavam indo para o rosto não familiar com quem havia sonhado e estranhamente tido algum tipo de visão junto com seu irmão Max. Será que ficar tanto tempo sem andar, ser paraplégica estava começando a afetar seus neurônios e a deixando louca? Quem era aquele homem com quem havia sonhado a noite passada um sonho tão real e tão intenso? Queria conhecê-lo.


CAPÍTULO 2 - DANÇA COMIGO?

A noite começava deixar seu manto cair, deixando o céu em um tom de azul escuro salpicado por estrelas por toda sua vastidão, com uma lua crescente ao longe iluminando os apaixonados que estivesse a luz do luar.
permanecia na companhia de seus livros e esquecia que o tempo passava. Ao longo do dia, seus empregados sempre checavam se estava bem, se a menina queria algo para beber ou comer, se queria que abrisse mais a janela ou deixasse a cortina ainda mais fechada. Ou se ao menos, quisesse sua companhia para conversar sobre qualquer assunto banal, a única resposta de era um simples e baixo “não”.
Tirando de sua concentração da leitura, o telefone que permanecia em silencio por tanto tempo em cima de sua escrivaninha em um tom de rosa berrante e algumas pedrinhas que emitiam um brilho toda vez que luzes encontravam com elas, tocou em um som estridente de “trim, trim” levando a garota a um susto. já havia esquecido totalmente daquele telefone inútil que sua mãe havia lhe dado em seu aniversário de 10 anos e que a mesma nunca deixava a menina jogá-lo fora, ou quem sabe, doá-lo para alguma criança que ficaria feliz em ter um pavão como telefone.
A garota então marcou a página com um de seus marcadores de texto, pousando o livro em sua cama, rumou de encontro ao exagerado telefone com seus sons.
O “trim, trim” reverberava pelos cantos de seu quarto, deixando irritada.
- Já vai! Já vai! – Falou como se a pessoa que estivesse do outro lado da linha pudesse ouvi-la esbravejar enquanto ia atendê-lo.
Quem poderia estar ligando para aquele telefone que há tanto tempo estava inativo?
- Alô – Foi apenas o que a garota falou.
- Ah! Sabia que você iria atender esse telefone. – Era . – Mentira, não sabia nada, fiquei com medo de você ter dado esse elefante branco pra alguma criança vizinha sua, e quando eu ligasse atendesse alguém achando que eu era a própria Barbie. riu da tagarelice de sua amiga.
- Não acredito que você ainda tem esse número, .
- Nem eu acredito, menina. Como você vez o favor de acabar com seu celular, fui obrigada a ligar para esse número. E, aliás, eu cheguei bem se é isso que você quer saber. Porque eu sei que você estava fazendo alguma coisa muito importante pra não se preocupar com o meu bem-estar.
- Desculpa, , eu sabia que você iria acabar me ligando ou me mandando um sinal de fumaça. Eu nem sabia que esse telefone estava funcionando. E eu sabia que você acabaria chegando bem, porque você é uma das super poderosas e nenhum mal iria acontecer com você até porque o macaco louco está trancado aqui comigo.
A conversa continuou com muitos risos e alguns gritos. evitava tocar no assunto para não fazer sua amiga chorar e não tocava no assunto Max para não deixar ainda mais deprimida. Só assim conseguia esquecer de seus problemas e medos.
Tinham assunto para um dia inteiro, de vez em quando até Sandra entrava na conversa intermediada por , apesar de Sandra ser muito mais velha que as duas, a conversa fluía sem problemas ou preocupações.
Quando a conversa finalizou e a única coisa que podia ser escutada no enorme cômodo era o tictac do relógio e o batimento do seu coração, entrou em seu mundo novamente.
Já havia passado da hora de dormir, trocou suas roupas por uma camisola leve em cor salmão, com algumas flores desenhadas e com detalhes de rendas em sua barra. Delicada como a dona daquela peça de seda.
Já deitada em seus lençóis, deixou que seu corpo relaxasse para que assim o sono a pegasse e a transportasse para um outro mundo.

Grandes paredes espelhadas tomavam conta do lugar com chão de madeira maciça. Alguma música podia ser ouvida ao fundo, mas o lugar de onde vinha o som não era possível ser visto. Junto aos espelhos, algumas barras atravessavam de parede a parede, e ia assim aos quatro cantos do cômodo aconchegante. Em um canto próximo, uma poltrona de uma cor azul tranquilizante residia. Seu encosto era largo e alto com alguns detalhes que pareciam ser botões em alguns pontos, deixando a ainda mais bonita. Seus braços eram altos e com certeza braços ficaram felizes de estarem ali. Ao lado da grande poltrona uma mesinha redonda com apenas um pé tomava conta de um livro aberto e uma xicara com alguma coisa que estava quente, o vapor saía da xicara fazendo uma dança com o vento.
aproximou-se da poltrona e fez menção de sentar quando foi interrompida.
- Hey, esse lugar é meu. – Foi apenas o que foi dito, fazendo levantar sua mirada e olhar em direção a voz. O rapaz da noite passada estava ali novamente.
As mesmas vestes e o mesmo sorriso encantador.
sorriu genuinamente
- Ah, desculpe. Achei que estava sozinha e a curiosidade foi maior, queria saber que livro era esse. – apontou para o livro aberto e sorriu.
- Você demorou tanto que eu tive que ocupar meu tempo com outras coisas. - aproximou um pouco mais da menina.- E esse não é um livro que você possa ler agora – Com cuidado, passando o braço bem próximo de fechou o livro. Conseguiu observar sua capa, era de uma cor marfim brilhante com alguns desenhos que, a vista de poderiam ser flores de todas as formas e tipos. Enquanto o fazia, sentiu seu perfume, ela não sabia se era seu aroma natural ou de algum perfume, mas ela gostava, era de um amadeirado com mistura de campo de flores que deixava em estado de êxtase, aquele seria seu cheiro favorito, o cheiro de .
- Achei que não viria mais. – falou enquanto sentava-se despojadamente em sua poltrona, colocando uma das pernas no braço da mesma.
- Algumas coisas aconteceram, minha amiga voltou de viagem, então matamos as saudades. Sabe como é, né. – falava enquanto gesticulava com os braços e posicionava suas mãos nas cinturas.
A morena sentia que o conhecia há anos, parecia que ele conhecia tudo dela, parecia que não poderia esconder nada dele porque uma hora, ou outra ele acabaria descobrindo apenas com um olhar.
- Seu dia foi produtivo então. Muito bem, querida. Você pintou hoje? – perguntou enquanto pegou a mão direita de onde ali tinham alguns respingos de tinta de várias cores. Em um rompante, tratou de esconder suas mãos atrás das costas, envergonhada.
- Do quê você tem vergonha, anjo? Seu talento é extraordinário. – beijou as palmas das mãos de com carinho. A garota continuava parada, em choque com o toque dos lábios quentes sobre suas mãos gélidas e trêmulas.
Que tipo de poder tinha aquele garoto incrivelmente lindo?
- Eu tenho vergonha porque tudo o que eu pinto, é tudo o que eu sinto, e tudo o que eu sinto é ruim, é problema, tudo o que eu faço é ruim, tudo o que eu já fiz foi ruim. Eu destruí a vida dos meus pais, destruí a vida do meu irmão e eu destruo a minha vida e de quem está a minha volta todos os dias. - Uma lágrima teimosa rolou pela face da garota parando na curva de seus lábios. fechou os olhos para segurar caso alguma outra lágrima quisesse fugir, foi então que sentiu quentes braços abraçando-a de ponta a ponta em um abraço quente e terno.
Aconchegou seu pequeno corpo junto ao corpo másculo de e deixou que ele a confortasse apenas com seu abraço. Sentiu-se segura naquele momento, sentiu como se toda aquela tristeza que tomava conta de seu peito naquele momento fosse retirada uma de cada vez e seu coração voltasse a bater novamente, sem peso algum. Sentiu-se mais leve e a vontade de chorar se exauriu.
- Sentimentos ruins não duram para sempre, anjo. – falou em sua voz melodiosa no pé do ouvido de , sem quebrar a conexão que aquele abraço tinha feito. – Você não precisa se martirizar por coisas do passado. Porque elas passaram, você precisa olhar para o futuro, para o seu futuro, anjo. Esquecer o que aconteceu vai ser difícil, nem estou pedindo para você fazer tal coisa, mas não se lembre das coisas ruins e sim das coisas boas, porque elas sim vão te dar força.
afrouxou o abraço, a olhou nos olhos. Naquele olhar, ele transmitia paz, naquele mar verde cristalino havia verdade e compreensão. sabia do que ele estava falando e não precisou palavra nenhuma da parte dela para ele entender que ela havia recebido a mensagem com louvor.
Com a ponta dos dedos, tratou de limpar uma última lágrima que escorria pela face corada.
- Mas você veio aqui para esquecer seus problemas, e a melhor coisa para fazê-lo é dançar.
Foi então que percebeu onde estava, era um estúdio de balé. Não era um simples estúdio, era o qual frequentava quando criança.
Os grandes espelhos, as barras douradas desgastadas por causa do tempo e mãos suadas e firmes de todas as meninas que davam duro, apesar da pouca idade, para serem as melhores da cidade. Até alguns adesivos que foram colados pelas meninas escondidas das professoras e das moças da limpeza, ainda podiam ser vistos, um pouco gastos é claro, mas ainda sim eram os mesmos.
a segurou pela cintura girando-a em 190 graus, um de frente para o outro, como um par perfeito para uma dança a dois.
- Eu não danço, . – Foi a única coisa que falou.
- Você tem certeza disso, senhorita? – levantou uma das suas sobrancelhas, aquilo o deixava sexy ao extremo. aproximou ainda mais os corpos, posicionou as mãos de em seus ombros, conectando-os.
A música que antes tocava apenas ao fundo em um tom baixo, agora era um pouco mais alta fazendo fechar os olhos para poder sentir o poder daqueles sonhos tão profundos, deixando que entrasse por seus ouvidos e saísse em seu coração. Deixou que todas as emoções tomassem conta de seu corpo. Lembrou-se de como era bom movimentar-se, de como era bom quando mexia seus membros ao ritmo de qualquer gênero musical. De como a música comandava seus músculo para o lado que queria. Movia-se como uma pluma e deixou que tudo isso entrasse em seu ser como uma cachoeira de sensações.
Quando abriu seus olhos, estava pronta para dançar novamente.
sustentava um sorriso aberto, onde era possível ver seu incríveis dentes brancos perfeitamente alinhados. Não precisou de uma ordem para começar a riscar o chão de madeira perfeitamente encerado com seus sapatos.
O som do piano com seus sonhos graves e doces, ecoavam pelo espaço claro.
A junção do contraste das notas altas e baixas deixavam a melodia ainda melhor.
rodopiava com total maestria que parecia que flutuavam. Vez ou outra fechava seus olhos para sentir os movimentos, sentir os músculos de contraírem-se junto aos seus. Movimentavam-se juntos, com maestria, pareciam ser parceiros de danças há décadas. A música continuava, mas agora em um tom mais doce, fazendo com que os dois dançassem lentamente como se não quisessem que aquele momento acabasse, como se pudessem congelar o tempo. poderia ficar ali dançando o tempo que fosse, seus sapatos nunca seriam gastos mesmo, poderia ficar nos braços do dançarino como se dependesse daquilo para viver, e naquele momento, realmente dependia. Sua mão direita encontrou com a esquerda de , entrelaçando seus dedos nos dele, eram como nós perfeitamente desenhados, precisaria de muita ajuda para que soltassem suas mãos. girou a sua frente sem soltar o contato de seus dedos. Os cabelos da garota giravam junto com seu corpo, fazendo uma cortina momentânea em frente ao seu rosto que o fez a girar novamente, foi instinto. Suas bochechas pálidas encontravam-se rosadas por conta do esforço que fazia e do prazer que sentia ao dançar. Rodopiou mais uma vez, mas dessa vez, lentamente, levando seu corpo levemente para trás e levando junto contigo, como se uma linha invisível mantivesse os dois juntos a qualquer movimento que era feito. levou suas mãos até o meio das costas de para impedir sua queda, os olhos verdes encontram com os castanhos, gerando uma conexão impressionante, poderia jurar que conseguia ler seus pensamentos e contar as batidas de seu coração com aquele olhar tão penetrante. Se sentia segura em seus braços, poderia fazer o momento que fosse que a seguraria.
Uma emoção inexplicável explodiu em seu peito, não conseguia conter, era quase que inevitável. Os dois pareciam tão íntimos em tão pouco tempo, mas e daí? Ela estava sonhando, lá, ela poderia ser quem quisesse, eles poderiam ser quem ela quisesse.
Era um milagre. Seu pequeno e perfeito milagre. Era um milagre com incríveis olhos verdes.
Em meio a tantos toques e olhares a dança continuava.
guiava, rodopiava pelo grande salão com maestria, era levada como se fosse a maré sendo levada até a costa pelo vento. Sentia suas amarras sendo destruídas e finalmente o prazer à dança tomando conta de todo seu corpo como se não tivesse problema algum que o momento de seus corpos juntos pudesse conter.
Nos espelhos, era possível ver um casal perfeitamente alinhado dançando, sem erro algum em seus passos. via em seus lábios um sorriso sincero, e em seus olhos, uma esperança revigorada.
Estava realmente feliz.
Ao menos, naquele momento;
A música começava seus acordes finais quando terminaram a dança. Eram sorrisos e olhares significantes para todos os lados.
- Para quem não dança, até que você foi bem – falou enquanto apertava a cintura de levemente.
- É, sabe como é, né? A gente não pode mostrar logo de cara nossos dotes, tem que deixar as pessoas com cara de surpresa mesmo. - falou com falso desdém na voz fazendo os dois rirem.
- E realmente me deixou surpreso, estou catando meu queixo do chão nesse momento. Hipoteticamente, é claro.
- Mas, eu tenho que admitir, você é um ótimo dançarino, fazemos uma dupla e tanto. E tem um poder de persuasão ótimo. - levantou seus dois polegares na frente do rosto do moreno em um sinal de aprovação exagerado – Obrigada, por isso, , fazia tanto que não me sentia livre, que não me sentia leve.
- Não há de quê, anjo. – apenas deixou um sorriso no canto de seus lábios. – E acho que depois de ter dançando tão perfeitamente bem, agora você pode matar sua curiosidade.
Hã? Do que estava falando ? tinha uma expressão de total falta de entendimento em sua face.
- Quando cheguei aqui, , você estava querendo ler meu livro e sentar na poltrona, oras. - balançou a cabeça em sinal de negação e riu.
- Ah! Claro, claro, claro. Só queria saber se você estava ligado. - Então lentamente, saiu dos braços de e caminhou até a poltrona, sentando-se perfeitamente nela. aconchegou-se no meio de todas aquelas almofadas.
- Entendi o porquê você ficou enciumado, esse negocio aqui é dos deuses, .
- Claro que é. - cortou o assunto. - Agora leia – deixou seu livro com a capa grossa em um tom marfim nas mãos de .
parecia uma criança novamente sentada na grande poltrona com suas pernas balançando para frente e para trás, e sua face uma expressão curiosa tomava conta. Abriu o livro com todo cuidado do mundo, como se aquilo fosse feito do mais precioso diamante e, em algum momento brusco, poderia ser quebrado. Passou os olhos por cima das palavras sem lê-las, examinando as páginas, examinando as folhas em um tom tão branco que jurava que estava iluminado ainda mais o ambiente.
estava ao seu lado, segurando sua xícara com o líquido ainda quente, não sabia se havia feito certo ao dar para aquele livro. Mas uma hora ou outra ela o faria, então que lesse agora.
Finalmente começou a lê-lo, a curiosidade que antes estava em seu semblante, foi totalmente mudada para a falta de compreensão. foleava as páginas rapidamente a procura de alguma coisa que ela conseguiria ler, mas nada conseguiu.
- , não tem nada escrito aqui. – falava enquanto continuava a folhear o pequeno livro.
- Como não? – aproximou-se de novamente e olhou para o objeto, realmente, tudo que antes havia ali, já não estava.
olhava para as folhas em brancos a procura de uma resposta para aquilo, será que estava brincando com ela? Queria fazer algum tipo de piadinha, ou realmente havia algo escrito ali? Começou a pensar que talvez fosse para a própria escrever sua nova história ali, estava recomeçando do zero, estava reescrevendo sua história com suas tintas de pinturas. Então estava decidido, sua vida agora seria como uma das suas várias dela, coloridas e cheias de vida.
- Acho que é pra eu escrever uma nova história, né? – falou dando de ombros e colocando o livro novamente na mesinha, aconchegando-se ainda mais na grande poltrona. Fechou seus olhos e, ao fundo começou a escutar alguma voz.

...
abriu seus olhos e olhou em direção a .
- Está escutando isso, ? – perguntou para o mesmo.
- O quê? A música? – já se posicionava a sua frente para levantá-la e voltarem para a dança aveludada.

Não, a música não


...

- Estou escutando meu nome, estão me chamando em algum lugar. – Levantou-se e começou a procurar de onde vinha à voz.
- Acho que você deve ir agora. - Em sua voz, havia uma pontada de tristeza.
não queria ir agora, queria ficar um pouco mais e dançar até seus sapatos gastarem e a música acabar. Mas sentia que a voz misteriosa não pararia de chamá-la até que atendesse, sentia como se fosse puxada para longe de , e enquanto o tempo passava essa força ficava ainda mais forte e a voz ainda mais alta.
- Mas não quero ir, eu preciso? – perguntou sabendo que a resposta seria sim.
levantou sua mirada até a menina a sua frente encostada na parede de espelhos. Segurou suas mãos delicadas entre as suas, apertando com cuidado como se fossem preciosas. Levantou-as até a altura de seus lábios e depositou um beijo casto em cada uma.
- Você não tem que ir, anjo, mas você sente que precisa, não é? Você precisa viver e não pode passar a vida sonhando.
A expressão de era ilegível, não conseguia lê-la, não sabia se ele estava triste ou feliz por vê-la partindo, mais uma vez.
- Mas e se eu for e você não estiver mais aqui quando eu precisar? – perguntou segurando as mãos de com a mesma intensidade que ele segurava as suas.
- Fique despreocupada, anjo, sempre que você quiser, eu estarei aqui.
Não havia testemunhas ali, a não ser seus reflexos em toda a parede espelhada. Mas sabia, de alguma maneira, que falava a verdade.
olhou mais uma vez para antes de caminhar até uma parta, que até então não estava li, ou se estava não havia notado. Ao chegar ainda mais próxima da porta, o chamado ficava mais alto.
- Eu te vejo amanhã? – fez a mesma pergunta da primeira vez, queria confirmar se ele realmente estaria ali.
- Claro. apenas assentiu em um movimento mínimo com sua cabeça, deixando seus cachos caírem por cima de seus olhos.
passou pela porta com um misto de ansiedade, tristeza e quem sabe, uma pontinha de esperança. De que seus dias seriam diferentes, e ao mesmo tempo, iguais aos sonhos que havia tendo

- ! Caralho, tô pra ver ser humano que dorme igual uma pedra como essa garota. - A voz falava irritada.
abriu seus olhos e pode ver o branco do teto de seu quarto. Quando em sua frente, dois olhos azuis apareceram.
.
- Ah! Finalmente acordou, achei que tivesse entrado em coma. – continuava olhando fixamente para com seus grandes olhos azuis e seu cabelo loiro perfeitamente desalinhado e molhado caindo por sua testa, pingando no rosto de .
- Argh! , você está me molhando. - levou seu cobertor até cobrir seu rosto completamente.
- Para com essas idiotices, . – tirou o cobertor da garota e deitou-se do seu lado na cama, completamente molhado.
revirou os olhos. sempre fazia esse tipo de coisa para irritá-la.
Antes de virar um ex-quase-atual-namorado de , sempre foi seu amigo de infância, brincavam de pique esconde, e algumas vezes até de médico. Mas não gostava de lembrar de tais coisas.
e sempre foram amigos por seus pais serem grandes amigos na faculdade, bem e como dizendo que amigos de faculdade duram a eternidade, não foi diferente com seus pais e com o tempo, viraram sócios. Brincavam juntos quando seus pais estavam em reuniões importantes e suas mães estavam no shopping fazendo compras e gastando todo o dinheiro que podiam e que não podiam. Na escola, tiveram um namoro de uma semana que, resolveram deixar de lado por acharem que seria melhor só a amizade. E realmente era melhor ser amiga de do que ser sua namorada. não queria admitir, mas sentia falta do amigo. Não o via há mais de dois anos, quando, por insistência de sua mãe fora estudar direito em Yale, provavelmente tinha fugido por isso estava aqui agora, molhando todos os lençóis.
- Eu sei que você quer ir lá pra fora comigo, curtir esse solzão maravilhoso e me ver surfar.
- Isso não é água de chuva?
- Claro que não. Não está chovendo. Eu estava surfando e vim aqui te ver.
- Então você quer dizer que você está molhando meus lençóis com água do mar, sujando tudo com areia e que provavelmente aquele elefante branco que você chama de prancha está em algum lugar dentro desse quarto?
- É. Basicamente isso.
- Saia daqui de cima agora! – gritou em plenos pulmões jogando um de seus travesseiros em . O rapaz apenas pulou da cama e seu jogou na poltrona de em gargalhadas.
- Se você não levantar dessa cama. – levantou novamente. – Terá areia em todas as partes desse quarto e quem sabe, da casa toda. - caminhava até a menina e pulando em sua cama de joelho, gritava em protesto para ele sair de lá e a parar de sujar e molhar tudo. Seu quarto era tão limpo e bem arrumado, agora parecia que um furacão havia passado por ali.
- Agora voltamos há ter 12 anos. Maravilha. – estava aborrecida por ter sido acordada e por não calar a boca ou ficar quieto um minuto.
- E se você não for lá fora comigo, voltaremos a ter 5 anos. - jogou as cobertas para o alto e pode vê-las caindo como neve no chão do quarto.
- OK! Ok! Já estou indo. Sorte sua que eu não posso correr e enterrar essa sua cabeça enorme no jardim.– levantou-se - Agora você só precisa me levar até o banheiro para eu, ao menos, escovar os dentes, seu idiota.
pegou no colo a levando até o lavabo, sentando-a em um banco longo, acolchoado com alguns desenhos de animais em várias cores diferentes, que ficava em frente a pia.
começou a fazer seus anseios matinais o mais lento possível, queria que se entediasse de tanto esperar e finalmente fosse embora ou voltasse a surfar e sumisse da frente dela, queria que ele a deixasse sozinha com suas lembranças da noite de sonhos.
A garota fechou os olhos para jogar água em seu rosto, e o que viu foi à cena revivida. Os corpos dançantes com seus reflexos nos espelhos, a alegria que pulava em seu peito.
Enquanto sonhava acordada esqueceu que tinha um ser irritante do outro lado da porta esmurrando-a querendo que ela saísse de lá mais rápido, desejou que evaporasse. Mas nada aconteceu.
entrou no banheiro como um corredor profissional colocando em seu ombro como se a menina não pesasse nada. deu um grito fino de susto.
- Me solta, ! – socava as costas musculosas do rapaz.
- Só vou te soltar quando chegarmos à areia, você demora tanto que meu bode teve uns filhotes.
Quê? Que bode? preferiu não perguntar.
saiu andando pela casa, com uma garota em seus ombros gritando histericamente por socorro, como se estivesse indo para o matadouro. pode ver Sandra na porta do escritório segurando alguma pasta branca e rindo da cena. A garota começou a gritar com mais raiva ainda.
Era tudo culpa de .
Os empregados se amontoavam nas janelas para ver a garota finalmente saindo de casa, mesmo sem sua vontade.
- Senhor Diggori! Senhor Diggori! – Carlos o motorista gritava correndo com uma prancha erguida por cima de sua cabeça. – O senhor esqueceu sua prancha.

parou sua caminhada no portão da mansão esperando o empregado chegar até ele com sua prancha branca. Com um movimento rápido, arrumou ainda melhor em seu ombro esquerdo, a segurando com apenas um braço, e com o outro, pegou sua prancha.
- Obrigado, Carlos. – agradeceu e finalmente saiu pelo portão, fechou seus olhos com força, imaginando que assim nenhuma pessoa estaria a vendo sendo carregada de camisola no ombro de um brutamonte.
Sentiu os passos de ficarem mais leves e mais fofos, e deduziu que finalmente chegaram a areia. Sentiu abaixar-se e finalmente colocá-la sentada no que seria uma Canga.
- Você já pode abrir os olhos pra poder ver o deus grego que está na sua frente, bebê. – ria da criancice de .
- Não, não e não, vou gritar e as pessoas vão pensar que faço parte de um sequestro e vão chamar a Swat e vão prender você.
- , você está vivendo demais essas historinhas que você lê nos seus livros, acorda pra vida, filha, e olha o que está a sua volta.

Ela não estava nem ai para ver o que estava a sua volta, sua maior preocupação eram as pessoas que estariam olhando para ela, e que as pessoas estariam olhando para suas pernas finas imóveis.
Mas sentiu o cheiro da maresia, o vento fresco batendo em seu rosto. Era como se fosse obrigada a abrir seus olhos e presenciar o espetáculo da natureza. E então obedeceu seus instintos. estava parado em pé na sua frente segurando sua inseparável prancha.
- Aeeee, merece até um pirulito colorido. Agora veja o astro surfar. - saiu correndo para o mar.
- Eu te odeio, . – gritou com força total de suas cordas vocais e a resposta foi o beijo soprado do loiro.
se permitiu, finalmente, a sentir onde estava, sentir a maresia entrando em seus poros, o barulho das aves ao longe. Risos de crianças em sua volta construindo um castelo de areia.
Com ajuda de suas mãos arrumou suas pernas para que parecesse o mais natural possível, já que estava ali, pelo menos que parecesse “normal” ela pensou.
Estava começando a agradecer em mente por tê-la trago a força para fora. Procurou o rapaz no meio do vasto mar e o encontrou fazendo manobras espetaculares em sua prancha, provavelmente era isso que estava fazendo quando era para estar em Yale. Em alguns momentos, caia no mar, mas logo submergia e voltava pra sua prancha sem medo algum.
admirava por essa qualidade, nada o parava, fazia o que queria, e quando queria sem medo das consequências e do que outras pessoas iriam pensar. Ela costumava ser assim.
Mas a única pessoa que conseguia parar , era seu pai Augusto. Nenhum argumento que trazia para seu pai era válido, Augusto queria que seu filho seguisse os passos da família Digorri e se tornasse mais um advogado. Queria que o legado se perpetuasse e seu filho também ensinaria seus filhos a serem advogados exemplares, e assim por toda a geração em diante, como Augusto havia aprendido com seu pai. O sonho de estava bem longe dos ternos engomados e das salas abarrotadas querendo que outras pessoas resolvessem seus problemas. queria ser músico, queria fazer música e mudar a vida de outras pessoas com suas melodias harmônicas e com a ajuda de seu velho violão que sua avó havia lhe dado quando tinha apenas 12 anos de idade. Mas, seu pai não achava que isso era profissão, não conseguia entender os sonhos do rapaz, que com 20 anos, precisava fingir que fazia o que o pai queria para agradá-lo.
amava seu amigo, apensar das incertezas dessa amizades e de várias brigas. Tinha certeza que ele estaria ali para ela a qualquer momento que fosse, e ela tinha certeza que estaria ali para ele a qualquer momento. Apoiaria seu amigo da melhor maneira possível.
- Oi - Escutou uma voz carregada com um sotaque que não reconheceu. Sua atenção foi tirada de seu amigo surfista para o ruivo que estava ao seu lado com o corpo completamente molhado e uma prancha coral ao seu lado. A garota analisou totalmente o corpo do garoto, os músculos perfeitamente desenhados de seu abdômen, os braços longos onde uma tatuagem de algum peixe tomava conta de seu anti braço direito. Os traços firmes do rosto, os lábios grossos e os olhos castanhos. Seu cabelo era raspado e pode ver que havia uma tatuagem no canto de sua cabeça também. Era um rapaz um tanto quanto peculiar, porém bonito.
– Posso me sentar aqui com você? - Uma pergunta totalmente retórica porque ele já havia se sentado ao lado dela em cima de sua prancha de borybord.
- Ah, claro. – abriu e fechou a boca e fazendo um movimento com o braço como se o espaço fosse completamente dele.

Tinha um cara lindo do seu lado e estava apenas com uma camisola fina, seus cabelos desgrenhados e que provavelmente estariam cheios de penas de seus travesseiros. Suas olheiras estariam evidentes. E agradeceu , por ao menos ter escovado os dentes.
Como odiava .
- Você é amiga do ? Por favor, que eu esteja falando com a garota certa. – O ruivo perguntou olhando diretamente em seus olhos.
- Se for o mesmo , completamente doente e com um sério problema psicológico que eu conheço, acho que sim. – sorriu com os lábios fechados.
- Então acho que estamos certo. – O rapaz riu e olhou para o horizonte.
- Parece que você me conhece, mas eu não sei ao menos seu nome. – falou não contendo a curiosidade para saber o nome do deus grego que estava ao seu lado apenas de sunga e com o incrível peitoral a mostra.
- Ah, claro, me chamo Sebastian. E eu não posso deixar de ressaltar que você é ainda mais bonita pelo o que havia me falado.
não precisava olhar-se no espelho para saber que estava corando, havia tempos que não era elogiada, normalmente quando ou até o faziam, ela nunca acreditava, porque eles a amavam. queria muito acreditar no que Sebastiam havia acabado de falar para ela, mas as palavras do rapaz, foram em vão.
- Obrigada. – Realmente estava agradecida. – Você é de onde? – Queria mudar logo de assunto, não queria que sua aparência fosse o foco de tudo naquele momento.
- Sou do Havaí, vim para cá pra estudar. Conheci por lá, ai ele me convenceu de vir para cá, e vejo que fiz uma ótima escolha. – Havia uma pitada de flerte em sua voz.
- Você vai se surpreender ainda mais com tudo aqui.
- Eu espero que sim. Já estou completamente apaixonado por essa cidade. – Sebastian levantou uma de suas sobrancelhas olhando diretamente em seus olhos.
Sebastian era bonito, não poderia negar, será que depois de tanto tempo conseguiria entrar em um relacionamento de novo? E por que estava pensando em “relacionamento” estava conversando com ele no máximo há 20 minutos e já estava querendo casar e ter um papagaio de estimação? Por favor, , quando ele descobrisse de sua situação correria para longe dela como se fosse tirar o pai da forca. Nunca aceitaria tudo aquilo. A morena então suspirou derrotada e pediu a Deus que ele não pedisse para darem uma caminhada na areia. queria mudar de assunto e tirar o foco dela ou do flerte que estava visível ali.
- Vai ou já faz faculdade de quê?
- Faculdade? Quem falou em faculdade? Vim estudar música aqui, visitar bares ou artistas de ruas, o ritmo daqui é completamente diferente de lá. Vim descobrir a diversidade dos sons daqui. – Sebastian falava com paixão nos olhos, aquele era o sonho dele pelo que parecia.
- Aqui a diversidade é grande, você vai ter muito que aprender por aqui. - Sorriu sincera para ele. Foi então que sentiu gotas d’agua caindo por sua face. Era sacudindo-se completamente molhado, em cima dela.
- Nossa, , pelo amor de Deus, aprendeu direitinho com teu cachorro. – ria da brincadeira do amigo.
- Alguma coisa aquele pulguento tinha que me ensinar antes de fugir. - sentou-se entre os amigos
- Calma, amigo. - dava tapinhas em seu ombro. – Ele te amava também, tanto que preferiu fugir.
- Tão delicada você, . – fingiu cara de nojo olhando para amiga e todos ali riram. – Vi que já se conheceram, e a monstrinho aqui não te arranhou com essas garras que ela chama de unha! Parabéns, Sebastian, você operou uma milagre. - A morena revirou os olhos.
Passaram a manhã e o inicio da tarde toda conversando sobre tudo, o que haviam feito e também o que não haviam feito. As suspeitas de sobre o que estava fazendo se concretizaram, realmente ele não estava estudando direito como seus pais haviam mandado, estava no Havaí “pegando onda” como ele mesmo havia dito, e aprendendo um pouco mais sobre a cultura do local e sua musicalidade. , finalmente estava levando a sério sua vida, não do jeito que seus pais queriam, mas de seu jeito completamente torto. De algum modo ele conseguiria sucesso naquilo que tanto almejava.
contou que conheceu várias pessoas e que aprendeu algumas palavras em havaiano que até arriscou dizê-las fazendo todos ali rirem.
tentava, ao menos esquecer seus problemas e impossibilidades quando estava com seus únicos amigos, e era, apensar de tudo, uma pessoa importante. Não queria deixar seu estado de espírito deprimido, tirar a alegria do antigo amigo, e do novo amigo adquirido, então com bastante esforço, entrou na atmosfera alegre que, naquela praia vazia se manifestava.

- Cara, acho que vou ará uma última caída. – Sebastian falou levantando-se e pegando sua prancha.
- Vai lá, cara, depois a gente se fala, tenho que levar a garotinha aqui pra casa. - apontou para que não se moveu um minuto sequer em todo o momento da conversa.
- Sabe, né, tenho que tomar o leite da tarde. - olhou para ela com estranheza por conta da frase mal colocada. - É bom vocês entenderam, tomar café, ou sei lá, bolo – tratou de corrigir o mal entendido. Sebastian e riram do desconcerto da menina.
- Então, eu já vou indo. - Sebastian agachou-se novamente perto da menina e lhe depositou um beijo em sua bochecha. E finalmente passou pela sua cabeça porque a menina não levantou ao menos para molhar seus pés no mar, mas preferiu não perguntar. – Até depois. E foi rumo ao mar atrás de suas ondas.

deixou toda a tensão que estava em seus ombros saírem em um único suspiro pesado colocando as mãos em seus olhos.

- Será que ele percebeu?
- Percebeu o quê? – perguntou. E apenas apontou para suas pernas imóveis.
- Se notou, não falou nada, e ele pareceu bem interessado em você, garanhona.
- Até que ele é bonito, interessante e absurdamente, gostoso. - A garota mordeu o lábio inferior.
- Não tem vergonha de falar isso na minha frente, não? - fingia indignação.
- Sabe que você vai ser sempre o meu preferido, né? - beijou a testa do amigo. – Mas uma garota tem suas necessidades também. - Os dois riram – E agora quero saber como você vai me levar de volta pra casa.
- Do mesmo jeito que eu te trouxe. - E então a colocou novamente em seus ombros
- Não, , assim não, chama a Sandra e pega a cadeira, assim eu fico parecendo um saco de batatas e minha calcinha provavelmente esta aparecendo. - protestava em vão, já fazia o caminho de volta.
A garota estava se divertindo, mas não admitiria isso para ele, nem em um milhão de anos. Todos os olhavam, mas ela não estava nem ai porque estava finalmente gostando da brincadeira.
Aquele dia na praia revigorou suas forças e sua autoestima, se sentiu desejada novamente. Queria outros vários dias de sol assim na praia, mesmo que não viesse todos os dias para a praia. Dali em diante, ela faria com que ela mesmo fosse o sol, ela queria que desse certo, ela queria ser renovar. E estava finalmente percebendo que tudo estava voltando ao normal, mesmo que por alguns instantes naquele momento, ela pensou, nada poderia tirar sua chama de felicidade.



CAPÍTULO 3 - LEMBRANÇAS

havia ido embora.
se pegou pensando em Sebastiam e seus incríveis cabelos ruivos e de como suas sardas eram de um jeito fofo e sexy, talvez ela poderia dar uma chance para o garoto novo, ele até que tinha um sorriso bonito. sempre foi apaixonada por sorrisos, sempre fora a primeira coisa que a atraia em um homem. Não podia esquecer dos incríveis bíceps que pareciam pular para frente como se quisessem ser beijados por ela. Ele tinha uma conversa legal e parecia interessado nela.
Será que ele havia percebido seu problema?
Será que era coisa da sua cabecinha enrolada ele está interessado nela?
Era isso que impedia todas as possibilidades que criava em seu cérebro sobre ter algo com o garoto com sotaque estranho. A incerteza e a insegurança eram como agulhas enfiadas uma a uma e lentamente em seu cérebro.
Ele era completamente lindo, e seu complexo de inferioridade não a deixava ver o quão linda e desejável ela poderia ser.
Precisava afastar aqueles pensamentos de sua mente. Com Urgência.
Não queria pensar na possibilidade de estar interessada no garoto e ele não a querer, a rejeitar como todos faziam uma hora ou outra. Era melhor afastar aquela fagulha de seja lá o que fosse para o fundo da sua inconsciência.
O silêncio se instalou novamente naquela casa enorme e vazia que parecia ser assombrada por fantasmas de seu passado. Sandra havia voltado para sua casa e os empregados não ousavam chegar na porta de seu quarto, até porque sempre recebiam palavras de xingamento e opressão. encontrava-se sentada a frente de uma cavalete com uma tela em branco, punhava um pincel limpo e várias cores de tintas em sua palheta. Estava pronta para começar um novo quadro, talvez aquele seria um novo quadro cheio de cores que sua vida finalmente estava voltando a ser.
Mas o que seria sua inspiração?
Fechou seus olhos, respirando profundamente, procurando em sua mente algo tão profundo e importante que poderia dar vida aquela tela branca e aquela mistura de cores. Recordou-se das ondas batendo na areia e desfazendo-se em espuma do mar, das crianças correndo uma atrás da outra enquanto rolavam na areia de praia com seus pais correndo em seus encalços, lembrou-se dos corpos bronzeados e do sol tão majestoso fazendo seu show diário que nunca perdia a glória.
Abriu seus olhos, olhou fixo para a tela em branco, mas nada vinha de seu interior. queria criar algo profundo, e nada daquilo ajudava em sua criação.
Fechou os olhos mais uma vez e deixou seu coração a guiar para o mais profundo de seu subconsciente, viu olhos verdes, cachos negros e um sorriso encantador.
Viu .
Um sorriso se instalou em seus lábios quase que instantaneamente.
Lembrou-se de rodopiar com ele pelo grande salão, de ver seus rostos sorridentes nos grandes espelhos daquele lugar, da música calma que não parava de tocar um segundo sequer. Lembrou-se das pernas ágeis que dançavam e eram guiadas pelo rapaz forte, do sorriso que lhe era destinado a ela, de entusiasmo e encorajamento. De como era dançar novamente, mesmo que em seus sonhos. Lembrou-se do toque delicado que eram seus lábios em suas mãos.
Ainda com o sorriso em seus lábios, largou o pincel e foi em busca de um lápis de ponta grossa e começou a fazer rabisco no fundo branco.
Saia de sua alma e ia diretamente à ponta do lápis, terminando em rabisco que, futuramente seria algo perfeitamente harmônico.
Não notou o tempo passar, quando escutou barulhos vindos de fora de seu quarto, quebrando toda atmosfera que havia criado. Depositando seu lápis em um dos vários potes coloridos que ali havia, deu as costas para seu desenho e foi até a porta, então ouviu uma voz familiar.
- Onde está aquela inútil? – Era a voz da mulher que se dizia sua mãe.
Seus pais haviam voltado da viagem
Sua mãe havia voltado da viagem.
Seu tormento estava de volta.
engoliu em seco e seus olhos arregalaram-se tanto que pareciam que sairiam das órbitas. Seu coração pareceu que parou de bater por milésimos de segundos, e logo em seguida batia tão rápido que parecia que, a qualquer momento poderia parar de bater. Bombeava tanto sangue tão rapidamente para seu cérebro que uma vertigem a atingiu.
Fechou seus olhos e passou as mãos em seus olhos, como se aquilo fosse espantar qualquer vestígio da voz de sua mãe, como se tivesse escutado coisas e foi obra de sua imaginação.
- O quê? Falar mais baixo para quê, Antonio? Me poupe dessas suas frescuras. - A voz estridente era abafada pela porta fechada.
Sua mãe realmente havia voltado. Não era nenhuma pegadinha de sua mente perturbada.
- Merda. – única coisa que conseguiu pronunciar naquele momento. Orava em pensamentos para que Marta não chegasse nem perto de seu quarto, ou que pronunciasse a palavra a ela. Queria distância dela e de qualquer coisa que fosse dela.
Respirando pesadamente, levou sua cadeira, com esforço para trás em “ré”, batendo com muito força nos pés da cama, fazendo com que a mesma arrastasse no piso de madeira, executando um barulho alto e irritante. E então em um rompante a porta rabiscada foi aperta abruptamente.
- Ah, claro você está aqui na caverna. – Marta revirou os olhos e adentrou o quarto com seu copo de vodka nas mãos.
apenas olhava para sua mãe com o olhar mais cortante que poderia ter.
- Claro, porque é um bichinho malcriado. – Marta chegou perto da menina dos olhos castanhos e apertou suas bochechas com as unhas pintadas de vermelho - Tem que ficar preso mesmo.
soltou seu rosto das mãos de Marta em um movimento rápido, não queria que aquela víbora encostasse em um fio de cabelo sequer.
- Sai daqui, Marta. – falou baixo em uma voz fria.
Marta começou a caminhar lentamente por todo o cômodo, olhando todos os quadros e desenhos espalhados pelo quarto. – Vejo que continua com essas idiotices. – Marta parou em frente ao cavalete onde estava o último trabalho recebem-começado de .
- Sai daqui, Marta, eu já avisei. - Um ódio tomava conta do pequeno corpo.
- Eu não vou sair daqui sabe por quê? Por que eu posso ir a qualquer lugar que eu quiser, diferente de você, aleijadinha inútil. A única coisa que me consola do fato de você ter matado seu irmão, é que você ficou presa nessa cadeira de rodas.
Sua mãe havia pegado no lugar mais profundo das feridas de , havia falado de Max e de como se sentia culpada pela morte de seu irmão. A dor dilacerante vinha de dentro pra fora, era como se esquentasse uma faca cega e estivessem a cortando fora a fora, cortando todas as suas terminações nervosas e todos os muros que foram construídos ao redor desse assunto.
E odiava sua mãe por estar fazendo isso com ela.
Pode sentir as lágrimas quentes chegarem em seus olhos e lutarem para sair, mas não daria esse gostinho da vitória para Marta e suas pernas firmes e esguias. Não choraria na frente dela.
Marta a culpava por todos os desastres que haviam acontecido em sua vida, e sempre que podia, expunha o problema de para quem quisesse escutar, queria que a menina sofresse o dobro do que sofreu com seu filho. Bem no fundo, Marta sabia que tudo que fazia com era de mais e que, ela também era sua filha, mas logo lembrava da dor que foi enterrar seu primogênito e esquecia de todos os pudores de sua mente em consideração a . Isso ocasionou muitas brigas com Antônio, cogitando até o divórcio. Mas sentia algo por aquele homem, e com todos os problemas foi seu alicerce, não conseguia entender como ele, depois de tantas brigas e xingamentos da parte dela continuava ao seu lado, Marta preferia acreditar que era também amor. Mas há muito tempo não sabia o que aquela palavra significava, e por conta disso, torturava a filha mais nova.
Marta continuava a caminhar pelo quarto, usava um curto vestido preto que era um tanto inapropriado para o lugar, seus cabelos perfeitamente pintados de loiro iam até sua cintura em uma simetria perfeita, sem nenhum fio fora do lugar. Chegou até a cama perfeitamente arrumada da garota com seus lençóis em tonalidade esverdeada e sentou-se cruzando suas pernas brilhantes por conta do creme hidratante, bebericou mais uma vez sua vodka e continuou proferindo palavras cortantes para a menina.
- Como consegue levantar todos os dias dessa cama e se olhar no espelho sem lembrar que a culpa é sua por seu irmão ter morrido? Ah, você só se levanta daqui para voltar a sentar nessa cadeira.
A menina de grandes cabelos cacheados olhou para mãe como se fosse seu pior inimigo, e naquele momento, era. Juntou todas as forças que ainda restavam em si e jogou a primeira coisa que estava em seu alcance em sua mãe, seu estojo de pincéis, para que assim ela saísse do ambiente.
- Sai daqui agora! Sai daqui! Sua maldita. – jogava seus pincéis, suas almofadas, qualquer coisas que poderia machucar, ou não, a mais velha.
Marta levantou-se da cama e foi em direção a porta e a fechou com tanta força que as paredes tremeram. pode escutar o riso histérico atrás da porta enquanto fazia o caminho de volta para o inferno de onde não deveria ter saído.
Com um grito agudo, tentou tirar de dentro dela toda a frustração e culpa que aquela mulher trazia a tona. Lágrimas quentes escapavam de seus olhos castanhos e escorriam por sua bochecha rosada, o gosto salgado das lágrimas a lembraram de Max. Por quê? Por que aquela mulher tinha que voltar logo agora e acabar com tudo que ela havia construído novamente de onde tudo era ruína por conta da morte de seu irmão? Poderia ficar longe para sempre que não fazia a menor falta. Não aguentava mais os gritos de insultos que lhe eram impostos desde o momento que havia voltado do hospital com vida, paraplégica, porém com vida. Havia trago consigo uma consequência grave e ela era uma lembrança ambulante de que seu irmão havia morrido, e sua mãe fazia questão de esfregar-lhe na cara que tudo era culpa dela, e que não havia morrido, mas um castigo a altura agora a assolava.

Flashback on

As luzes do local eram fortes, fazendo a garota piscar os olhos várias vezes para conseguir acostumar com a claridade agressiva. A primeira coisa que viu foram lâmpadas fluorescentes no teto do lugar, em seguida uma porta fechada. O lugar era completamente branco e com alguns tons em azul. Olhou para o outro lado e pode ver uma janela, galhos da árvore batiam no vidro da janela por conta do vento causando um barulho irritante e naquele momento, reconfortante. Seu cérebro trabalhava lentamente, não sabia onde estava e o porquê estava ali, seus olhos foram para seu braço e pode ver que algum tipo de borracha fina estava dentro de sua carne onde passava um líquido incolor. Em seu dedo médio, algo o apertava, provavelmente estaria roxo. Seus lábios estavam secos e colados um ao outro, passou a língua entre eles e sentiu a garganta pedindo um pouco de água. Em um movimento, tentou levantar-se da cama, porém suas pernas não a obedeciam.
Os “bips bips” do monitor ao seu lado, eram a trilha sonora macabra do local.
estava sozinha e não conseguia mexer suas pernas, quis gritar por seu irmão, mas lembrou do que havia acontecido. Onde estaria Max? No quarto ao lado talvez? Seu coração começou a bater cada vez mais rápido e os “bips” do monitor ao lado começaram a intensificar deixando a menina ainda mais nervosa. Seus olhos corriam por todo o quarto procurando algum indício de que alguém estava ali antes da mesma acordar.
Com um barulho estranho, a porta branca foi aberta, e dela surgiu seu pai com um semblante cansado e um homem alto em um jaleco branco.
Os olhos de seu pai iluminaram-se quando viu que a filha estava acordada.
- ! Graças a Deus! – sentiu os braços de seu pai envolver seu corpo frágil.
- O que... O que aconteceu? Onde está Max? - pode escutar sua voz rouca.
- Querida... – Seu pai falou hesitante.
- O quê? O que aconteceu? Onde está Max? Onde está mamãe? Por que minhas pernas não se mexem? – Seu desespero era evidente e no mesmo momento, sua mãe entrou no quarto com os olhos inchados de lágrimas, o rosto cansado e suas roupas amassadas.
- Assassina! Assassina! - Marta vinha em sua direção como uma leoa.
Antônio logo pegou a mulher pela cintura e a levou para fora do ambiente, com a ajuda do homem de jaleco, deixando uma confusa.
Por que sua mãe a havia chamado de assassina? Não, não era possível, ela estava em algum tipo de dimensão paralela e nada daquilo estava acontecendo. Fechou os olhos com força e os abriu novamente, não, nada daquilo era mentira.
Seu irmão estava morto. E era total culpa dela.

Flashback off

chorava copiosamente, as lágrimas escorriam dos seus olhos sem parar como uma avalanche de sentimentos que a perturbavam todos os dias de sua vida idiota e sem sentido. Odiava lembrar-se do dia que descobriu que seu irmão estava morto, odiava ter aquelas lembranças.
Foi até seu guarda-roupa, e de lá tirou uma caixa de madeira pintada de amarelo. Abriu a caixa novamente, e pode ver tudo que ali havia guardado há tanto tempo: fotos e mais fotos de seu irmão, dos antigos amigos, lembranças que queria enterrar, mas não conseguia, por isso, as deixou guardadas e escondidas. A saudade era tanta que escorria pelos seus olhos, deixando sua visão embaçada.
Pegou umas das fotografias onde Max ria fazendo uma pose estranha no jardim de casa. Conseguiu sorrir mesmo que um pouco.
- Seu idiota! Por que você foi embora antes de mim? E ainda me deixando sozinha com essa megera. – passou a ponta dos dedos sobre a foto, uma lágrima caiu bem em cima do rosto do irmão.
As lembranças de seu irmão vinham á tona.

Flashback on

O sol era brilhante no céu azul límpido. Os empregados estavam de folga e seus pais em alguma viagem de lua de mel que tiravam todos os anos para celebrar o casamento.
Dois adolescentes sozinhos para a casa só para eles.
vinha correndo pelos corredores da casa com a cabeça cheia de espuma de banho. Os sons das gargalhadas eram ecoados pela casa vazia e clara naquela manhã de verão. Max corria atrás com uma mangueira ligada molhando o lugar todo enquanto tentava esguichar água na irmã mais nova.
Os dois haviam montado uma piscina no jardim e com a ajuda de sais de banho, e muito sabão em pó, fizeram uma piscina de “bolhas”’ como tinha batizado.
- Não adianta, Max! Você não vai conseguir tirar meu cabelo igual o da vovó – corria segurando seus cabelos para que a espuma não caísse, em vão, é claro.
- Claro que vou. – Max mirou mais uma vez acertando o ombro da menina e soltou um grito agudo. Fazendo a garota escorregar no piso molhado caindo com tudo no chão duro de madeira.
- Ai! – começou a rolar no chão gritando de dor como se sua perna tivesse quebrado. Max correu até a mais nova, preocupado, achando que a brincadeira havia ido longe demais.
- ! . - Max largou a mangueira jorrando água de lado e pegou a irmã pelo braço. – Onde está doendo? Ai, Meu Deus, vamos precisar ir ao hospital ?
- Sim... - falava em um fio de voz fechando os olhos.
Em um movimento rápido, pegou a mangueira que o irmão havia largado apontando para ele – Por que você vai se afogar. - Apertou o bico da mangueira fazendo com que a água jorrasse com força no rosto do garoto ajoelhado no chão. Levantou-se rapidamente, assustando a garota que largou tudo que estava em suas mãos e voltou a correr para o jardim com seu irmão mais velho em seu encalço.

Flashback off

Agora as lágrimas já haviam cessado um pouco, e em seus lábios um sorriso tímido fazia moradia, lembrava que, quando seus pais voltaram de viagem, no mesmo dia, a casa estava praticamente alagada e os dois deram a desculpa de que deram folga para os empregados para que eles próprios aprendessem a limpar a casa, óbvio que a desculpa não tinha dado certo, e seus pais os colocaram de castigo por um mês que não foi cumprido nem em dois dias, eles nunca os obedeciam mesmo.
Continuou olhando, revirando dentro da caixa, onde tinham pulseiras, cordões, antigas cartas...
Em uma das fotografias os dois estavam juntos com uma loira que lembrava odiar, Paola. Além dos momentos de alegria, também lembrou dos momentos em que brigavam.

Flashback on

- Por que você trouxe aquela loira maldita pra cá, Max? – gritava enquanto levantava da mesa de jantar. Seus pais nem se preocupavam em mandar abaixar o tom porque não resolveria mesmo, a briga era entre os irmãos. Marta e Antônio saíram da sala de jantar deixando uma furiosa e o Max irritado por conta da criancice da irmã.
- Porque ela é minha namorada, oras. – Max apenas deu de ombros mordendo uma cenoura que estava em seu prato.
Os haviam organizado o jantar para oficializar o namoro entre Max e Paola. O qual só descobriu quando no meio do jantar, Antônio levantou um brinde parabenizando o mais novo casal da alta sociedade carioca. Seus pais estavam muito felizes com aquela união, pensavam até em casamento, unirem as empresas coma empresa Bancks e assim, formando um monopólio na hotelaria mundial e advogados. Mas não se importava com isso, queria mais que Paola explodisse com aquele ar prepotente e aquele cabelo que mais parecia palha de milho.
- Você não pode namorar com ela, Max.
- Por que não? Só por que você tem uma implicanciazinha com ela que eu nunca entendi?
- Porque ela é uma vaca. Se você quer comer carne vermelha, é só pedir pra cozinheira fazer e não precisa transar com essa ridícula.
- Que comparação ótima. - Max riu.
- Ela não te ama, seu grande idiota, só quer ter o status que você pode dar a ela. E se você casar com ela... Juro que mato os dois no altar. - havia pego uma das várias facas que estavam na mesa e apontou para o pescoço do irmão.
- Que casamento, , parece que não conhece meu pai e esses devaneios dele. - Max revirou os olhos. - E é melhor você tirar essa faca do meu pescoço se não serei obrigado a enfiar o garfo nessa sua carinha que você tanto ama. - Max levou uma garfada de ervilha até sua boca, às mastigando vagarosamente.
- Ah! Eu te odeio! – jogou a faca no chão e saiu correndo para seu quarto.
- Você me ama e amará meus filhos com Paola. - Max gritou de onde estava.

Flashback off

E para felicidade de , o “namoro” de Max com Paola não durou um mês.
Adorava as brigas que sempre tinham, porque Max sempre se sentia culpado no final e levava para ela alguns mimos. Um deles era um cordão feito a mão por algum artesão da praia. Era feito de palha e o pingente era uma prancha cor de rosa com os dizeres “não deixe as boas lembranças morrerem”. então tirou o cordão da caixa o colocando em seu pescoço. Olhando atentamente para os dizeres.
- As boas e as ruins, meu irmão, nunca deixarei morrer. - A garota falou para que o irmão, onde estivesse, pudesse escutá-la.
Procurou na memória o dia que Max havia dado para ela aquela lembrança tão simples, mas de tamanha importância.

Flashback on

Marta gritava alguma coisa dentro do closet de sobre ela não ser “vaidosa ao ponto certo” enquanto a garota continuava deitada em sua cama com uma revista sobre quadrinhos em suas mãos. Marta esbravejava, queria que sua filha deixasse de ser mais uma adolescente com atitudes de meninos e se tornasse uma dama da sociedade, estava para fazer 15 anos e continuava tendo atitudes de 12.
A loira tentava, em vão, mudar a menina.
- ! Larga essa revista inútil e venha aqui! – Marta saiu do closet com um vestido em uma coloração rosa berrante.
- Você está redondamente enganada que eu vou vestir esse troço ridículo.
- Você vai sim, ou vou enfiar pela sua cabeça a baixo a força, . – Marta falava em uma voz firme e apenas ignorava a mãe com sua atenção totalmente voltada para sua revista de quadrinhos e seu super-heróis. – Por favor, , pelo menos uma vez na vida faça alguma coisa que eu te peço – Marta amoleceu a voz, queria tanto que a filha se vestisse como uma “mocinha” pelo menos em seu aniversário de debutante.
Era a tradição da família há gerações, foi passado de mãe para filha que aos 15 anos deveria ser dado uma baile, aos status imperiais, convidando todas as pessoas importantes do momento. E agora era a vez de que estava completamente desinteressada em ser feita de bobo da corte para pessoas, que, ao menos sabia os nomes. Não estava a fim de sair de sua confortável cama e fazer “sala” para pessoas insuportavelmente perfeitas.
Mas Marta estava tão ansiosa e animada para aquilo, que ao ver a mãe naquele estado de suplicar rendeu-se ao seu pedido.
- Ok. - Suspirou pesadamente levantando de sua cama e pousando a revista na mesma. – Mas eu vou fazer questão de quando tudo isso acabar, farei uma fogueira no jardim com esse vestido. - O rosto de Marta se iluminou e seus olhos verdes tornaram-se mais claros de felicidade.
olhou-se no espelho, e mais parecia uma daquelas bonecas de porcelana, em seu rosto uma maquiagem leve, seus cílios estavam incrivelmente maiores que o normal, suas bochechas rosadas em um tom perfeitamente harmonioso ao tom de seu batom rosa.
Seus cabelos cacheados estavam soltos em cascata caindo sobre seus ombros e costas, o vestido rosa perfeitamente alinhado a suas curvas.
Estava incrivelmente bonita. Mas não se sentia ela mesma.
- Você está linda, filha – Marta tentava conter as lágrimas.
No mesmo instante, Max entrou no quarto correndo e pegou a irmão no colo a abraçando forte, depositando um beijo molhado em suas bochechas pintadas. Max estava completamente molhado e sujo de areia fazendo Marta gritar exasperada
- Max! Não! Solte-a agora! – a mãe gritou.
- Ah! Qual é, mãe, preciso dar os parabéns para minha irmãzinha, né?
- Sai! Sai – Marta puxava o filho pelo braço para que se afastasse da mais nova.
Os irmãos riam do desespero da mais velha.
- Trouxe um presente pra você, . - Max tirou de seu bolso um cordãozinho e entregou nas mãos da irmã mais nova. observou que o pingente era uma pequena prancha de surf e que nela, havia uma frase “nunca esqueça das boas lembranças”.
- Eu adorei, Max! – abraçou o irmão. Fazendo Marta proferir mais um grito.
colocou o cordão em seu pescoço a contra gosto de sua mãe que havia separado uma gargantilha com um pequeno pingente de coração cravejando de diamantes. Mas, acabou cedendo no final por conta de sua filha ter aceitado participar de tudo aquilo.
participou da festa toda com aquele cordão simples, porém que significava muito.

Flashback off

Lágrimas quentes rolavam de seus olhos, com a ponta dos dedos, tentava afastá-las, mas o movimento era em vão.
atenderia o pedido de Max e deixaria apenas as boas recordações em sua mente.
Será que Max estaria bem onde quer que esteja? Fechou os olhos para as lágrimas teimosas finalmente caíssem de uma vez, pode ver novamente Max abraçado a .
De onde conhecia aquele rosto tão expressivo que estava se tornando tão familiar. Não era possível que toda aquela perfeição era criada por apenas sua imaginação, ela precisava encontrar alguma indício de que conhecia de algum lugar, talvez um rosto que havia visto no aeroporto em meio a tantas pessoas ou algum amigo de Max que não via há muito tempo.
revirou a caixa das lembranças atrás de um rosto parecido com aquele que tanto estava vislumbrando. Nada. Ninguém era ele ou ao menos parecido com ele.
estava começando achar que, finalmente estava ficando completamente maluca e estava criando alguém que não existe para sanar suas dores. Um amigo imaginário, que dali em diante seria seu confidente e, a pessoa que provavelmente mais confiava.



Continua...




Nota da autora: Espero que vocês estejam gostando tanto quanto eu gosto de escreve essa história <3. Qualquer coisa vocês me acham no instagram @eitamisha xx




Nota da beta: Quanto sofrimento na vida dessa garota... Continue, Mi! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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