Última atualização: 25/01/2019

Prólogo

Posso dizer com toda a certeza que tive uma infância muito feliz.
Passei incontáveis tardes brincando com meu irmão Josh, que era dois anos mais velho que eu, e Harry – seu melhor amigo, e que com o tempo acabou virando meu melhor amigo também. Éramos muito unidos, passando quase todo o tempo possível juntos. Mas tudo começou a mudar em 2010, quando Harry fez a audição para o X Factor e acabou ficando em terceiro lugar com o grupo no qual o colocaram, o One Direction. O sucesso foi imediato, e isso custou meu melhor amigo. As ligações foram ficando cada vez mais espaçadas e as mensagens já não eram constantes, mas esse é o preço da fama, certo? E pelo menos eu ainda tinha Josh.
Mas há quatro anos atrás, em 2012, meu irmão faleceu em um acidente de carro. Minha família estava morando em Homes Chapel. Era uma noite de sexta, durante as férias de verão, e meu irmão havia ido em uma festa com alguns amigos e, é claro, acabaram bebendo mais do que deveriam – ainda mais se planejavam voltar para casa dirigindo.
Depois disso acabamos nos mudando para Leeds, meus pais não conseguiram mais ficar lá, as lembranças eram muitas. É difícil perder um irmão, mas imagino que perder um filho deva ser infinitamente pior.
Então, há dois dias atrás, Harry me ligou – o que me deixou bem surpresa, principalmente depois de ele me contar o motivo – para me convidar para ir em uma roadtrip com ele. Uma roadtrip que ele e meu irmão haviam planejado fazer quando eles tinham 16 anos.


Capítulo Um

- Tem certeza que você vai fazer isso? - Minha mãe me perguntava pela 13ª vez em cinco minutos.
- Sim, mãe - continuei colocando algumas roupas em uma mala sem nem olhar para minha mãe, sabia que ela estaria me encarado com um olhar de censura. - E mesmo que eu pensasse em desistir o Harry não deixaria. E além do mais, devemos isso ao Josh.
Ela revirou os olhos.
- Você sabe que eu não apoio isso, mas já que não tem como eu dissuadir vocês, pelo menos se cuidem. - Me virei e fitei minha mãe, que estava encostada na porta do meu quarto, parecendo preocupada.
- É claro que a gente vai se cuidar, mãe, - fui até ela e a abracei. - Você não precisa se preocupar, vou te ligar todas as noites. E além do mais, vamos ficar fora por no máximo uns 10 dias.
- É bom que me ligue mesmo, viu? - Ela beijou o topo da minha cabeça. - Vou ir dar uma olhada no bolo.
Ouvi meu celular apitando, o sinal de um novo sms.
"Estou entrando em Leeds! Só mais alguns minutos para eu poder te ver de novo! XX"
Harry. Era estranho pensar que depois de quase três anos nos veríamos de novo, o que começou a me deixar nervosa, mas era apenas o Harry Styles, meu melhor amigo de infância. Em alguns minutos ele chegaria aqui em casa, e amanhã começaríamos nossa aventura, iniciaríamos nossa roadtrip pelo Reino Unido, iríamos para Dublin e Edimburgo, e nosso destino final seria Londres. Por dois motivos; eu planejava ir para a University of London no ano que vem, e também porque nunca tinha ido à Londres antes - ou a qualquer desses lugares, para ser honesta. Mas é claro que o objetivo da nossa roadtrip não era esse, como eu dissera à minha mãe antes, devíamos isso a Josh. Era uma coisa que ele queria fazer assim que terminasse a escola e fizesse 18 anos, junto com Harry. Essa era a ideia que Josh teve para passar mais tempo com Harry, pois ele acreditava que Harry iria se tornaria famoso depois que fosse ao X Factor - mas não previmos o quão certo ele estaria. E segundo ele, era também uma forma de dizer adeus à adolescência, antes de começar a faculdade de medicina, afinal, depois disso não teria tempo algum.
Josh faleceu alguns meses antes de terminar o colégio e completar 18 anos, Harry estava completamente ocupado com o sucesso da banda, fazendo dezenas de shows por mês, e a roadtrip foi esquecida. Durante esses quatro anos, tive vários colapsos nervosos por ser tão apegada a Josh, o que fez com que eu me formasse um ano depois do previsto. Fiquei mais um ano em casa, apenas trabalhando na floricultura do centro, enquanto tentava convencer minha mãe que não surtaria caso fosse para a faculdade sozinha, o que acabou dando certo, e há uns dois meses atrás eu havia recebido a notícia de que fora aceita na University of London. A maior surpresa, no entanto, foi receber a mensagem de Harry, me chamando para a roadtrip com ele no lugar de Josh.
Minha mãe insistiu que nós pegássemos o trem. Eu entendia o medo dela, mas fazer uma roadtrip de trem? Não é possível. E nós somos responsáveis. Pelo menos eu sou, já até tracei nosso roteiro. Espero que o Harry não se importe com isso.
A campainha tocou e não tive dúvidas, Harry havia chegado. Desci correndo e tropeçando para poder atender a porta, e quando abri, lá estava ele: mais alto, mais musculoso, com mais tatuagens, com o cabelo diferente, com um olhar diferente, cansado. Era uma pessoa - quase - completamente diferente, mas eu ainda conseguia ver os traços daquele pirralho de 15 anos que vivia mais na minha casa do que na dele. Percebi, também, que ele era quase como as fotos espalhadas por milhares de revistas e redes sociais, só que mais bonito ao vivo. Pela hesitação de Harry, pude perceber que ele também notava as mudanças que tinham ocorrido comigo. Eu também estava mais alta, meus cabelos estavam mais longos, chegando ao meio das costas, com ondas grandes e as pontas mais claras por conta das mechas californianas que eu havia feito há um tempo atrás, e eu tinha consciência de que meu corpo havia passado por algumas mudanças, me deixando mais parecida com uma mulher e menos criança.
- ?! - Ele abriu um sorriso ao mesmo tempo que abriu os braços, me convidando para um abraço.
- Harry! - Eu o abracei. Era estranho, não era mais como antes, parecia não ser a mesma pessoa que eu conhecia, mas eu sabia que era. - Tudo bem com você? Como foi a viagem? Você tá com fome? Quer entrar?
- Sim, sim, foi boa, e sim! E também senti sua falta! - Ele me abraçou novamente e eu ri.
- É, isso também, mas não achei necessário mencionar.
- Harry! - Minha mãe gritou o nome dele, parou na porta e foi logo me empurrando para o lado e puxando Harry para um abraço. - , porque não convidou ele para entrar? - Ela me lançou um olhar severo, como se eu estivesse sendo desrespeitosa. - Como você cresceu, meu querido! Está tão bonito! Estou muito orgulhosa de você! - Ela se dirigiu a ele, e logo engataram em uma conversa enquanto iam até a cozinha, e eu fui esquecida na sala.
Fechei a porta e fui para a cozinha também.
- Mas então, como é estar vivendo esse sonho? - Minha mãe e Harry já estavam sentados à mesa. - , sirva bolo para o Harry.
Minha mãe adorava me tratar como empregada quando tínhamos alguma visita em casa. Eu odiava isso.
Servi o bolo para nós três, e também suco de laranja, e então me sentei para poder participar da conversa.
- É maravilhoso! Posso fazer o que mais gosto junto com meus amigos, - ele fez uma pausa, provavelmente ainda não acostumado com o fim da banda, mas logo continuou. - E ainda pudemos conhecer muitos lugares e pessoas incríveis. Pessoas que eu achei que nunca fosse encontrar, e elas sabem quem eu sou! É insano! Nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo um dia. Mas sinto muito a falta de casa e da minha família e amigos.
- O Josh sempre disse que isso iria acontecer com você, - encarei-o enquanto sorria largamente ao me lembrar das coisas que meu irmão falava, ele também dizia que eu seria a melhor promotora de Londres. - Você é que não acreditava.
- É verdade... - Ele brincava com o copo. - Sempre me lembro disso. Ainda não consigo acreditar no que aconteceu... Eu sinto tanto a falta dele. - Ele olhou para mim e para minha mãe, que pegou na mão dele.
- Todos sentimos, querido. - Ela sorriu, um sorriso triste.

***

Algum tempo depois meu pai chegou do trabalho, e teve praticamente a mesma conversa com Harry enquanto eu ajudava minha mãe a terminar o jantar.
Durante o jantar conversamos sobre a vida em Leeds e como Harry e Anne vinham lidando com a fama dele, o fim da banda e o que Harry pretendia fazer agora. Era reconfortante ouvir Harry falar sobre a One Direction e sobre como era bom cantar para tanta gente, que gostava e se identificava com a música que eles faziam, sobre conhecer seus ídolos, e o mais incrível, sobre como era ser ídolo de alguém. Mas também era triste saber que a banda havia acabado.
- Eu nunca pensei que isso fosse acontecer. - Falei em meio a risos.
- Isso o que? - Meu pai perguntou.
- O Harry ser ídolo de alguém.
- Idiota. - Harry me falou, rindo também.
- Mas e aí, como foi o começo? Tipo, você e os meninos eram estranhos, e agora são quase como irmãos. - Falei pensativa, brincando com o meu garfo.
- Então quer dizer que você anda nos acompanhando? - Ele ergueu as sobrancelhas enquanto um sorriso aparecia em seus lábios.
- Digamos que é meio que impossível não acompanhar as vezes, - dei de ombros. - Conheço muita gente que adora vocês.
Eu não queria confessar que eu mesma adorava as músicas e sim, acompanhava a vida deles. Pelo menos o que eu tinha como acompanhar pela internet.
- No começo eu fiquei com medo que nossas personalidades fossem muito diferentes, e que por causa disso a gente fosse se desentender, mas acho que isso é o que faz com que sejamos tão bons amigos. Não sei o que faria sem eles agora. - Ele sorria. Eu sorri também. - Mas acho que vou ter que descobrir, não é? - Ele logo acrescentou.
Terminamos o jantar e fui encarregada de lavar a louça enquanto meus pais levavam Harry para sentar e conversar na sala, mas somente depois de nós três assegurarmos a ele que eu não me importaria de fazer aquilo sozinha e que sua ajuda não era necessária. É claro que eu me importava, odiava lavar a louça, mas não iria dizer nada.
Assim que terminei fui até a sala e minha mãe me informou que Harry estava tomando banho. Subi até meu quarto para terminar de arrumar minhas coisas, já eram quase 23:00 horas - o jantar tinha sido especialmente longo devido aos assuntos a serem colocados em dia - e eu estava querendo dormir, só estava esperando Harry sair do banho para combinarmos a que horas iríamos sair amanhã.
"É pelo Josh que faremos isso." Pensei, enquanto terminava de arrumar a cama. Quando me virei dei de cara com Harry, parado na minha porta.
- Harry! - Exclamei, surpresa com sua presença. Eu não tinha ouvido ele chegar.
- ! - Ele sorriu, mas logo ficou pensativo. - Você não me chama mais de H. - Não era uma acusação, era apenas uma observação, do tipo que se faz quando se está falando do tempo.
Eu costumava chamá-lo de H antes. Na verdade havia até esquecido disso. Repassei em minha memória as conversas que havíamos tido, imaginando em que momento o chamaria de H, mas sempre parecia errado. Foi apenas quando percebi que, de fato, não o conhecia mais, que entendi o porquê. Ele tinha voltado a ser o Harry Styles do One Direction, ou então o Harry Styles amigo do meu irmão, ou então o Harry Styles que morava no fim da rua. Não era mais o H, meu melhor amigo, que eu conhecia e confiava, que me conhecia muito bem.
- ocê não me chama mais de . - Falei tentando não soar acusadora.
- Justo. - Ele disse enquanto sacudia a cabeça levemente. Ficamos em silêncio por algum tempo, por alguns momentos nos encarando e por outros encarando qualquer parte do quarto. Fiquei imaginando se ele também tinha chegado à conclusão de que não me conhecia mais. Eu imaginava que de certa forma também havia me tornado uma estranha para ele. Pensei se ele estava, nesse momento, arrependido por ter sugerido essa viagem.
- Então... - Comecei hesitante. - Que horas nós sairemos amanhã?
- Acho que não precisamos sair muito cedo. Temos todo o tempo do mundo. – Ele me respondeu sorrindo, mas logo sua expressão mudou. - O que é isso? – Apontou para a minha mala. – Você não está planejando levar essa mala enorme, não é?
- Nem é tão grande assim, - falei, tentando me defender. – E afinal, vamos ficar pelo menos uma semana fora, não é?
- , essa mala não vai caber no meu carro. – Harry disse sério. – Você não consegue pegar apenas o necessário e colocar uma mochila? Foi o que eu fiz.
Não sei dizer exatamente o porquê, mas isso me irritou mais do que deveria. Talvez tenha sido o tom de voz usado por ele, ou então a pequena crítica velada. Minha mala nem era tão grande, e além do mais, eu estava tentando me preparar para todos os cenários possíveis, como frio, chuva e calor – e todo mundo sabe que roupas de frio são muito volumosas. Comecei a explicar isso para Harry, que insistiu que eu deveria levar uma mochila com algumas peças de roupa.
- , a gente está no meio do verão, o máximo que pode acontecer é a temperatura cair uns 5 graus, e com qualquer blusa você resolve isso. Pega uma mochila e leva só o que couber nela.
- Harry, se eu souber que você entupiu seu carro de roupas e por isso não tem espaço para a minha mala, eu juro que vou jogar suas roupas na estrada. – Ameacei, e ele riu.
- Não é isso, é que não tem espaço mesmo. Também estou levando apenas uma mochila.
Acabei cedendo – porque eu sempre cedia – e passei quase duas horas escolhendo algumas roupas que coubessem na minha mochila. Tive que me contentar com bem menos do que eu gostaria. “Para uma semana, isso é mais do que suficiente.” Eu ficava repetindo, tentando me convencer de que não haveria nenhum imprevisto e nenhum evento ou lugar que exigisse que eu usasse roupas diferentes.
Enquanto guardava as outras roupas deixei minha mente divagar, e logo estava me lembrando da vez em que meus pais foram viajar e Harry foi dormir na minha casa a pedido de minha mãe - não que a presença dele fosse fazer com que nós nos comportássemos, pois ela achou que já éramos grandinhos o suficiente para passar uma noite sozinhos sem pôr fogo na casa. Harry e Josh tinham 16 anos, e eu tinha 14. Comemos pizza e ficamos jogando vídeo game até umas 02:00 da manhã, e quando não aguentávamos mais olhar para a TV eu tive a brilhante ideia de fazermos guerra de almofadas, o que durou menos de cinco minutos, pois Josh quebrou o vaso da mesa de centro enquanto tentava acertar uma almofada particularmente grande em mim, o que acabou desencadeando uma grande crise de risos em nós três, que só aumentou após a família vizinha reclamar do barulho que estávamos fazendo.
Ri sozinha dessa lembrança, e involuntariamente, comecei a comparar a relação que eu tinha com Harry há 4, 5 anos atrás, e a relação que eu tinha com ele agora. Parecia que havia uma barreira entre nós, que eu não sabia como derrubar. Ainda não havíamos passado muito tempo juntos desde que ele chegara, mas já era possível sentir essa estranheza que não existia antes. Embora eu odiasse isso, Harry tinha se tornado um estranho novamente.
O que eu sabia sobre ele? O que eu sabia sobre quem ele era hoje? Algumas coisas que eu li na internet, ou então alguns vídeos e entrevistas que eu vi, mas não tinha como conhecer ele de verdade apenas com isso. Conhecer alguém não é saber que banda ele está ouvindo com mais frequência ultimamente, ou saber qual é seu filme ou comida favorita. Conhecer alguém, de verdade, é saber porque ela está ouvindo uma música triste sem que ele tenha lhe contado, ou porque ele decidiu ver seu filme favorito aquele dia, ou, até mesmo, saber porque aquele filme, justo aquele filme, é o seu favorito. É saber o que a pessoa está pensando ou sentindo mesmo que ela tente disfarçar, é saber quando fazer – ou onde comprar – a comida favorita dela, seja porque ela está triste ou porque você quer fazer uma surpresa.
Eu não sabia mais como fazer essas coisas com o Harry. Eu nem lembrava mais como conversar com ele direito, parecia difícil e artificial. Eu não queria que isso tivesse acontecido, não com ele. Comecei a me perguntar novamente se fazer essa roadtrip ainda era uma boa ideia. Não seria totalmente constrangedor e desconfortável ir adiante com isso, agora que parecia que não nos conhecíamos mais?
Fui dormir torcendo para que amanhã as coisas fossem diferentes.

***

No outro dia acordei perto das 10 da manhã, quando minha mãe veio me chamar, e após um café da manhã reforçado e muitas despedidas – minha mãe não queria mesmo que eu fosse – saímos de casa. Quando fechei a porta da frente da minha casa e olhei para o carro que Harry estava entrando meu queixo caiu.
- Harry, que carro é esse? Não é aquele... - Deixei a frase morrer.
- O carro que eu estava reformando desde adolescente? – Ele perguntou, com um sorriso enorme. – Esse mesmo. – Era um Mercury Comet 1963 conversível. Harry havia comprado esse carro quando tinha uns 15 anos em um ferro velho, com a ajuda do padrasto dele, e durante seu tempo livre ele consertava o carro. Aparentemente havia terminado.
- Eu não vou nesse carro. Ele é velho e pouco seguro.
- Que carro você queria? Um prius? – Ele me perguntou, irônico. – Entra logo, o carro é antigo, mas está em perfeitas condições de uso.
- Harry, eu não sei, não acho que seja uma boa ideia. – Eu disse, hesitante.
- Olha, , se você demorar mais uns minutos sua mãe vai aparecer na porta para ver porque ainda não saímos, e aí ela não vai deixar você ir.
Me dei por vencida e entrei no carro, irritada comigo mesma, por não me sentir segura naquele carro, e com Harry, por ter escolhido justamente esse veículo para a nossa viagem.




Continua...



Nota da autora: Oi, gente, tudo bem?
Talvez você leia as fics do site há alguns anos e esteja tendo algum tipo de déjà vu depois desse capítulo, mas é porque eu postava essa fic em 2014/2015, e agora resolvi reescrever ela. Bem vindo de volta!
Se você nunca tinha lido essa fic, bem vindo! Espero que você goste da viagem que estou planejando. :D
E se você leu até aqui, deixa um comentáriozinho me contando o que você achou, que logo logo o capítulo 2 chega.
Beijinhos!


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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