Última atualização: 09/05/2020
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Capítulo 1 - Back

Os paramédicos estavam tentando de tudo. Nada trazia Rian de volta, eles já estavam há 15 minutos fazendo RCP para reanimá-lo. Cresci rodeada por isso, meu pai era médico e, à essa altura, eu já sabia, que mesmo que o trouxessem de volta. Ele jamais acordaria — morte cerebral — é isso que seria declarado depois de algumas horas.
Eu já o tinha perdido, não agora, mas há muito tempo. Muito antes de toda essa merda acontecer, muito antes de os paramédicos chegaram aqui.
— Hora da morte, 23h! — O paramédico que tentou de tudo, declarou a morte de Rian.
— NÃO! — Gritei, finalmente. Eu nem percebi como o desesperado estava entalado, bem na minha garganta. E eu conseguia ouvir de novo as pessoas, a nossa volta, o choro desesperado da minha mãe abraçada ao meu pai, que nem sequer chorava, precisava ser forte, por nós.

Dei um pulo na cama. Meu corpo estava todo suado e meu coração completamente acelerado. Joguei minha cabeça para trás, tentando não pensar muito no sonho que tinha acabado de ter. Eu sabia que não deveria ter bebido tanto, mas é uma pena que eu sempre me lembre disso só quando bate a ressaca, ou quanto tenho esses sonhos. Tentei levantar, mas a minha cabeça latejava tanto, que me obriguei a ficar deitada por mais alguns minutos. Eu estava exausta, não só fisicamente, mas mentalmente também. Não tinha nem 12 horas que eu estava em Nova York de novo e já tinha tomando as piores decisões.
Para ser sincera, eu nunca pensei que voltaria. Ir embora, depois da morte de uma das pessoas que eu mais amava no mundo, foi uma decisão muito difícil, mas estar aqui de novo, foi ainda mais. Contudo, já era hora de voltar, pela minha família, meus amigos e por mim também.
No banheiro, agradeci mentalmente, quando senti a água quente cair sobre meu corpo dolorido. Fechei meus olhos e encostei a testa na parede, alguns flashes do sonho vieram a minha mente, o que fez com que cada parte do meu corpo estremeceu.
Desliguei o chuveiro, não queria pensar demais, não ainda.
Depois de me trocar, peguei minhas coisas e desci as escadas — com um pouco de dificuldade — devido à bebedeira de ontem. Para variar, não tinha nada para eu tomar café, nem sequer fiz compra de mercado. Só cheguei em casa e sai para uma festa, com alguns antigos “conhecidos”.
O clima em Nova York estava ainda mais gelado do que eu me lembrava, e ele me envolveu completamente, me fazendo bater os dentes. Revirei os olhos e me repreendi por estar usando um vestido curto, mas soltinho, que chegava apenas à metade das minhas coxas. O frio me fez sentir ainda mais saudade da Califórnia. Calor, pessoas que não preciso dar explicações sobre como estou me sentindo, um sentimento de conforto me envolveu, mas já era hora de voltar para casa.
Ao menos, eu estava usando uma jaqueta.
A cidade não tinha mudado nada, desde que fui embora. Ainda cheia de prédios enormes e pessoas apressadas andando para todo lado. Enquanto caminhava, decidi passar em algum lugar para comer alguma coisa, afinal, só tomei uma xícara de café antes de sair e já conseguia sentir meu estômago pedindo por comida.
? — Escutei alguém chamar meu sobrenome, enquanto esperava pelo meu café da manhã na fila de uma cafeteria qualquer, mas ignorei, na tentativa de que a pessoa desistisse e pensasse que tinha se enganado. — , é você?
Suspirei antes de me virar, o mais devagar que consegui, desejando que não fosse ninguém que eu não estivesse pronta para reencontrar. Ensaiei este momento várias vezes, na minha cabeça, e pensei que estaria pronta, mas enquanto me virava, percebi que não estava e que gostaria de ter uma máquina do tempo para sair dali.
— Stephanie Hughes! — Soltei um suspiro, pois foi única reação de consegui ter ao ver a garota loira, de olhos bem azuis, me encarando.
— Eu não sabia que você tinha voltado! — Ela sorriu calorosamente.
Antes que eu conseguisse ter qualquer reação, a garota se jogou em mim e me abraçou forte.
— Não tem nem 24 horas que voltei. Ainda estou me adaptando a esta cidade fria! — Stephanie deu uma risadinha leve, acho que por causa da minha resposta, e me soltou rapidamente, devido ao abraço mal correspondido. — O que foi? — perguntei abruptamente e sem nem um pouco de simpatia.
— Nada. — A garota soltou um suspiro. — É que você amava esta cidade! — A loira movimentou os braços, como se quisesse apontar para a cidade.
— Ah. Não sou mais a mesma pessoa. — Sorri fraco antes de continuar meu raciocínio. — Me acostumei com o calor da Califórnia, as pessoas, o lugar... Enfim! — Olhei para ela, que parecia tão desconfortável quanto eu, nesta situação.
Steph — que é como eu costumava chamá-la — era minha melhor amiga de infância, antes de nossas vidas tomarem rumos completamente diferentes. Éramos muito próximas. Nos conhecemos na terceira série, duas crianças inocentes, mal tínhamos ideia de tudo que ainda passaríamos juntas. Ela sempre foi a minha maior confidente, a pessoa para quem contava meus maiores segredos e quem esteve ao meu lado nos piores momentos.
Os últimos dois anos em que estive fora, ela me fez uma falta que não consigo nem expressar em palavras. Steph sempre foi uma pessoa incrível, engraçada, inteligente e que colocava todo mundo para cima. Jamais poderíamos imaginar que, o que começou com um trabalho de escola, terminaria com duas amigas sendo separadas por um amor em comum.
Não posso negar, estava feliz por reencontrá-la, mas também apreensiva. Por mais que eu sentisse vontade — de retomar nossa amizade — não sabia até onde era uma boa ideia. Voltei para recomeçar, não para cometer erros do passado.
— Você, fez uma tatuagem. UAU! — disse apontando para uma parte do desenho, que cobria praticamente toda a minha coxa esquerda e sorriu maravilhada, mas surpresa ao mesmo tempo. — Você mudou muito, . — A garota sorriu para mim, como se eu fosse um tipo de robô, ou sei lá o quê.
Por um momento, agradeci por estar de jaqueta, evitando que ela conseguisse ver o resto das tatuagens que tenho em ambos os braços. Ai sim, ela teria uma reação muito mais exagerada.
— Você também, Steph! — rebati, tentando disfarçar meu desconforto. — Bom, eu preciso ir, ainda tenho que passar na NYU para fazer minha matrícula de transferência… Enfim, eu preciso ir! — respondi e peguei meu pedido, que parecia já ter saído há algum tempo. Queria sair correndo, nunca tinha me sentido tão desconfortável em toda minha vida, ainda mais com alguém que me conhecia tão bem.
— Foi bom te ver, ! — disse enquanto procurava algo na bolsa e alguns segundos depois, retirou um cartaz, que parecia ser de alguma festa.
Fiquei observando enquanto ela pegava uma caneta e escreveu algo no papel.
— Vai ter uma festa, em uma das fraternidades da NYU… Como você disse que vai se transferir, pensei que seria legal você ir… Conhecer o pessoal, que meio que você já conhece, a maioria. — Ela riu. — Coloquei meu número, qualquer coisa me liga...Bom, nos vemos por aí! — Sugeriu e estendeu o papel na minha direção, peguei e saí andando antes que ela falasse mais alguma coisa.
Caralho!
Aquele sem dúvida foi o momento mais estranho e constrangedor desde que voltei. Eu sabia que uma hora ou outra encontraria algumas pessoas, mas eu nunca pensei que seria tão rápido, embaraçoso e estranho. Meu coração estava disparado e por um momento senti uma sensação de conforto, um sentimento que não saberia explicar, algo que já não sentia mais — não na Califórnia.
Quando cheguei ao lado de fora da cafeteria, parecia que a cidade estava ainda mais gelada, e me odiei pela roupa que estava vestindo, ainda mais. Senti meu celular vibrar enquanto tentava chamar um táxi que finalmente se aproximava. Assim que adentrei o mesmo, vi uma mensagem na tela do meu celular, da minha mãe, dizendo nada menos que: “Não se esqueça de passar aqui, !”.
Bufei irritada, falei para o motorista onde ele deveria ir e me recostei no banco do carro.
O caminho até a minha antiga casa foi tranquilo. Enquanto o motorista dirigia calmamente, sem trânsito algum, pensei sobre o que acabou de acontecer, o que me levou a concluir que precisaria estar mais bem preparada caso encontrasse mais alguém.
Eu estava me sentindo estranha, como se eu não pertencesse mais aquele lugar de alguma forma. Reencontrar Steph me fez perceber que eu esperava que as coisas ainda estariam iguais, nossas conversas, intimidades. Mas, obviamente, eu estava enganada. Foi a maior estupidez, pensar que tudo ainda estaria igual.
A casa ainda era a mesma, não tinha mudado nada, por fora. Com uma piscina imensa cobrindo a frente, um jardim perfeitamente arrumado em volta, com cadeiras de descanso e um quiosque todo bem mobiliado e com uma cozinha perfeitamente planejada. Passei pela mesma, ainda tentando não me sentir arrepiada a cada passo que dava, literalmente.
Sem conseguir evitar, acabei indo parar no espaço de jogos da casa, empurrei a porta pesada para ter acesso à parte interna. Como eu podia imaginar, nada mudou, estava tudo exatamente como deixei antes de ir embora.

Escutei todos rirem. Estávamos “brincando” de mímica, Rian fazia movimentos estranhos e ninguém conseguia adivinhar o que ele estava imitando. Enquanto ele continuava sua encenação — que parecia mais um mico — observei todas as pessoas a minha volta. Um grupo de sete amigos praticamente inseparáveis. Eu tinha acabado de voltar da minha audiência para a Juilliard, como sempre, eles estavam aqui para me dar apoio moral — eles gostavam de chamar assim.
Eu ainda conseguia sentir meus dedos doerem, nunca foi tão difícil me apresentar na frente de tanta gente. Meu corpo estremeceu, só de lembrar a multidão que me observava, enquanto eu tocava o piano com maestria. Foi emocionante, mas assustador, ao mesmo tempo.
— Esquilo! — Stephanie gritou, comemorando. Tirando-me dos meus pensamentos. — Acertei, certo? — A garota perguntou, completamente exaltada.
— Não vale! — Seth protestou. — Ele sussurrou para ela, não vale!
— Eu não vi nada. — falei finalmente, tentando segurar a risada.
— Ah, claro que vai defendê-lo, é seu irmão. — O garoto protestou e cruzou os braços, tentando fingir que estava bravo.
— Dude, quem faz um esquilo? — Hunter fez uma cara de “interrogação” e riu logo em seguida.
— Acho que deveríamos ver um filme. — sugeri com cara de quem não sabia sobre o que eles estavam falando e apontei para a enorme televisão que tinha na sala de jogos.
— Concordo, amor. — Adam beijou minha cabeça com delicadeza.
— O amor é lindo. — Eleanor sorriu para nós, fazendo uma cara de quem estava apaixonado.
— Ah, o amor jovem — Rian, meu irmão, riu de maneira engraçada.
— Calem a boca, vamos ver o filme logo.
Todos riram, eles adoravam tirar uma com a minha cara e do Adam. Porque estávamos sempre grudados e não tínhamos vergonha de demonstrações de afeto em público, ainda mais com nossos melhores amigos.

Sete amigos inseparáveis, que nos últimos dois anos não trocaram nem sequer uma mensagem — não comigo. Hunter naquela época, era um dos meus melhores amigos, mas depois que fui para a Califórnia e com tudo o que aconteceu, envolvendo não só ele, mas Steph também, julguei que o melhor era nos afastarmos.
Com Steph as coisas não foram diferentes, eu não tinha mais como olhar para ela, não depois de todas as minhas atitudes. Fui egoísta, em todas às vezes em que pensei que eu merecia ficar com Hunter, pelo simples fato de termos crescido juntos. Nada daquilo foi justo, para nenhuma de nós.
Seth sabia de todos os meus segredos, tínhamos um dia da semana — toda quarta-feira — onde nos encontrávamos no ’s Coffe para que eu me abrisse com ele, e ele comigo. Consigo lembrar visivelmente, de nós dois deitados na minha cama, com um monte de besteiras espalhadas pela cama, a tv ligada na Netflix em Grey’s Anatomy — nossa série favorita — e ambos rindo igual dois idiotas. Eu nunca, jamais, consegui uma amizade como a dele de novo.
A única com quem mantive contato, por um tempo, foi Eleanor. Ela me ligava todos os dias, para me contar sobre Trevor, que espero ser ex-namorado, mas que na época era extremamente agressivo e ciumento. Não demorou muito, para que perdêssemos contato também.
No final, o único que me restou foi Adam, que desistiu de tudo o que tinha em Nova York para se mudar para Califórnia comigo, mesmo depois da minha traição, apesar de tudo que fiz ele passar.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, a lembrança me consumiu. Passamos por tanta coisa juntos, foi uma época maravilhosa, eu daria tudo para voltar naquele tempo, mas era tarde demais.
Bati a porta com força.
Assim que entrei na casa, notei que algumas coisas tinham mudado. A mesa que ficava no canto direito da entrada para se deixar chaves, celulares e outras coisas foram trocadas por um “tipo” de prateleira sofisticada, grudada na parede. A enorme escada, que leva até o outro andar da casa, agora estava coberta por um tapete vermelho.
Meu coração se acelerou, a cada passo que eu dava. Depois da morte de Rian, eu decidi que não queria mais pisar nesta casa, não para morar. Estar de volta, era algo estranho para mim, ainda conseguia ouvir o barulho das sirenes daquela noite.

A chuva caía incessantemente, do lado de fora do consultório. Eu odiava essas consultas semanais com a Dra. Sullivan, mas meu pai achava necessário, depois que Rian morreu e passei a acordá-lo aos berros, por conta dos meus pesadelos.
Também era importante, porque, segundo ele, eu estava com: estresse pós-traumático.
O que ele esperava? Depois do que presenciei, passar quase cinco dias sem dizer sequer uma palavra, pareceu algo bem sensato para mim. Mas, para ele e a minha mãe, eu estava doente.
Nenhum deles — nem mesmo meus amigos — conseguiam enxergar, que eu só precisava de um tempo, para processar as coisas. Quando se perde alguém que ama, mais do que qualquer coisa, é natural que o seu modo de lidar com o mundo fique um pouco confuso.
— No que você está pensando, ? — Dra. Sullivan, interrompeu meus pensamentos sutilmente.
Um riso saiu inesperadamente. Coisas assim aconteciam o tempo todo, meus sentimentos estavam confusos e eu nem sempre conseguia controlar o que sentia.
— Aconteceu alguma coisa?
— Estou cansada, só isso. — menti, depois de três meses, eu estava exausta demais de ter que me explicar.
Eu ainda olhava a chuva, de alguma forma, me acalmava.
— Na última consulta, você se abriu comigo, me disse que Rian era não só um irmão, mas seu melhor amigo também.
Mesmo sem olhá-la, eu sabia que estava escrevendo algo no meu prontuário. Odiava a maneira como me analisava. — É, eu disse.
— Mas, você disse que não sentia mais isso. Que agora, sentia vergonha do que estava sentido. Você acha que não a conheço bem, mas depois de três meses, tendo você como minha paciente, posso dizer que sente ódio.
Segurei as lágrimas, cerrei os punhos e respirei fundo. Conforme minha respiração — que não notei estar acelerada — foi se estabilizando, me virei para olhá-la. Como sempre, estava com seu olhar impassível e meu prontuário em mãos, escrevendo algo.
Caminhei para longe da janela e para mais perto dela. Pela primeira vez, minha médica tinha razão, de fato, ela me conhecia sim e eu estava errada o tempo todo.
Ódio era a única coisa, que eu conseguia sentir nos últimos meses. Não tinha amor, nem felicidade e nem nada do tipo dentro de mim. Eu odiava a pessoa que um dia amei tanto e isso me consumia, mais do que qualquer coisa.
, você odeia seu irmão? — Ela perguntou sem fazer rodeios.
Assim que as lágrimas caíram, voltei para a janela. Aquilo era muito difícil de se admitir — ainda mais para mim — que tinha feito uma promessa e não estava conseguindo cumprir. Eu estava falhando, assim como falhei miseravelmente em manter Rian vivo.
— Sim, odeio.

Meus joelhos falharam por um momento.
Só me dou conta da quantidade de lembrança que tenho, guardada em mim, quando elas surgem e desde que voltei para Nova York, tenho me recordado de coisas, que eu já tinha esquecido há muito tempo.
? — Escutei a voz da minha mãe me chamar, e não demorou muito para que ela saísse da cozinha, usando um vestido bege, que ia até um pouco abaixo dos seus joelhos, sapatos pretos de um salto de, mais ou menos, 10 centímetros, cabelos perfeitamente arrumados e sua maquiagem impecável.
— Achou, que eu não viria mais? — Abri um sorriso amarelo. — Eu ia passar na NYU, para finalizar minha transferência, mas achei mais fácil passar aqui primeiro.
— Não é nada disso. — se explicou, aparentemente irritada. — O que é isso? — perguntou apontando para minha coxa esquerda.
Bufei.
Mais uma vez, feliz por estar de jaqueta.
— Uma tatuagem, fiz já tem um tempo. — Sorri, tentando não demonstrar minha irritação por causa da sua pergunta idiota. — Então, o que você queria falar comigo? — perguntei, mudando de assunto antes que eu me irritasse ainda mais com ela.
Ainda consigo lembrar, das 200 vezes que ela me ligou na noite anterior, dizendo que eu deveria ficar aqui em casa. Minha mãe, é o “tipo” de pessoa que você pode explicar mil vezes o porquê da sua decisão, que ela ainda assim, vai tentar te convencer do contrário.
— Mike iria gostar de te ver. — disse, fazendo com que eu me lembrasse de Michael, meu irmão mais novo. — O seu carro já está pronto. O Robert foi buscar, hoje de manhã.
— Mãe. — Suspirei. — Eu disse que não precisava do carro, falei que ia comprar um assim que desse. Você já me deixou ficar no apartamento… A mesada que você me dá é o suficiente, para eu me virar e tentar comprar um carro. — respondi, visivelmente irritada. — E você sabe, que ele não fala comigo — acrescentei, me referido ao Mike.
! — me repreendeu — Será que você pode deixar eu te ajudar? Participar da sua vida? Você já me afastou o suficiente desde que foi para Califórnia. Talvez seja por isso, que nem seu irmão fala com você.
Ela sabe como machucar alguém.
— Ok. — Foi única consegui dizer, não estava com paciência para discutir com ela. Nem mesmo falar, sobre o Mike. — Vou pegar o carro, então.
— Ótimo, as chaves estão dentro do carro.
— Ok, mãe — sorri fraco. — Obrigada. Assim que der apareço e trago o Adam! — beijei a testa da minha mãe, que me olhou surpresa com a minha demonstração de afeto, algo que ignorei com prazer.
— É o carro verde-escuro, ligue para o seu irmão! — Minha mãe gritou, antes que saísse da casa.
Depois de muitas voltas, finalmente consegui encontrar uma vaga no estacionamento da NYU. O “campus” era absurdamente maior do que o da UCLA, com pelo menos uns seis prédios, parecia mais uma cidade do que uma universidade, o que me dava um certo nervosismo. Os corredores eram enormes, todos deviam ter mais de 10 salas, com armários grandes, para que os alunos conseguissem guardar suas coisas e não precisassem ficar carregando livros durante as trocas de aula.
Enquanto aguardava na “salinha” de espera, observei um pouco o ambiente. Pensei em quantos planos fiz. Que há dois anos, eu teria horror de estar matriculada nesta universidade, mas obviamente as coisas tinham mudado. Não que fosse ruim, é que, meus planos não se encaixavam para estudar na Universidade de Nova York. Julliard era o meu maior sonho, mas as coisas mudaram tanto, que hoje mal consigo me reconhecer. Às vezes, nós fazemos planos, e parece que eles simplesmente fogem do nosso controle.
Mas até aí, fazer Medicina também não estava nos meus planos. Porém, lá estava eu, fazendo a minha transferência para iniciar o fim do meu segundo ano.
! — escutei uma voz masculina me chamar e levantei. Caminhei em direção ao balcão, mas ao ver quem era o dono daquela voz que acabara de me chamar, não consegui sequer sair do lugar. — Não é possível. Li o nome, mas nunca pensei que pudesse ser você.
— Sou eu, Seth. — falei abrindo um sorriso, tentando não demonstrar meu nervosismo. — Parece que hoje é o dia dos reencontros, hum? — Peguei meus documentos na bolsa.
, quando foi que você voltou? Por que não ligou? — Seth perguntou ainda com os olhos fixados em mim, cheio de confusão em sua expressão. Eu sabia que reencontrar as pessoas, ia gerar um monte de perguntas.
Ainda mais com Seth, a maneira como me afastei dele, não foi justo. Nossa última conversa foi uma briga muito feia. Porque ele pensava que eu estava sendo egoísta, no fundo, ele estava certo.
— Desculpa, eu não sabia como… Aparecer. Muita coisa mudou. — respondi enquanto assinava os papéis, que ele colocou sob o balcão a minha frente. — É só isso?
— Meu Deus! — Seth estava muito surpreso em me ver.
Abri o meu melhor sorriso, involuntariamente.
Seth me pegou completamente de surpresa, quando senti os braços dele me envolverem e me levantarem no ar. Ele me rodou e depois me colocou no chão, ainda me envolvendo em um abraço. — Você está de volta garota, finalmente, !
Sua felicidade era contagiante.
— Que exagero! — respondi rindo. Não conseguia me conter, Seth conseguiu despertar em mim um sentimento tão bom, que todo aquele nervosismo que senti no momento que o vi, simplesmente desapareceu e o abracei forte, envolvendo meus braços em seu pescoço. — Desculpa. — O soltei finalmente, depois de longos minutos abraçando-o.
— Ei, , está tudo bem! — Sorriu calorosamente para mim. — Olha, tenho que trabalhar, mas vai ter uma festa hoje, na fraternidade. Você tem que ir. — Ele já tinha voltado para o lado de dentro do balcão e alguns jovens começaram a chegar.
— Eu sei, esbarrei com a Steph, ela me passou o endereço. Com certeza, estarei lá. Foi, muito bom te ver, Seth!

Soltei um suspiro de alívio ao entrar no apartamento e perceber que estava sozinha, sem Adam, sem ninguém para discutir. Depois de jogar minhas coisas na “mesinha” de centro, me joguei no sofá enquanto olhava o cartaz da tal festa de hoje, que Stephanie me entregou mais cedo. Nem conseguia me lembrar a última vez em que estive em uma festa com ela.
Virei o cartaz e encarei o número atrás, uma parte de mim, queria ligar, chamá-la para irmos juntas escolher alguma roupa, como sempre fazíamos, mas o outro não sabia se era uma boa ideia. Reencontrar Seth, ver a maneira como ela me tratou, foi ótimo, mas ao mesmo tudo parecia um pouco estranho.
Por fim, depois de algum tempo encarando o papel, decidi ir pegar algo para beber na cozinha. Enquanto pegava a jarra de água na geladeira, reuni toda a coragem que tinha dentro de mim e peguei meu celular, digitei o número dela e esperei que atendesse o mais rápido possível, me poupando a tortura de esperar.
— Alô? — Uma voz saiu suave do outro lado da linha.
— Oi, Stephanie... — Soltei um suspiro antes de continuar, estava nervosa. — É a .
! — ela respondeu animada. — Está tudo bem?
— Sim, está. Eu… Bom, vou sair para comprar uma roupa para hoje. Gostaria de saber se quer ir comigo.
— Claro. Te encontro na Time Square, nona com a sexta, em quarenta minutos. Pode ser? — sugeriu Steph.
— Ótimo! — respondi e desliguei, antes que eu desistisse.

Assim que estacionei carro, consegui ver que Steph já estava na esquina à frente me esperando.
Ao me aproximar, reparei na roupa que ela estava usando, uma saia preta de couro que chegava um pouco acima do meio de suas coxas, regatinha branca básica colocada por dentro da saia, jaqueta jeans escura e uma bota preta cano curto, com o cabelo solto e uma maquiagem em tons de preto, que realçava muito sua beleza. Muito diferente de como ela costumava se vestir há alguns anos.
Parece que não fui só eu que mudei nesses últimos tempos. — O pensamento me ocorreu.
Depois de nos cumprimentarmos, concordamos em começar a procurar as roupas. Enquanto caminhávamos, Steph contou um pouco sobre como foi nos últimos tempos, entre suas confissões, ela me disse que entrou para o curso de Psicologia na NYU — o qual sempre foi o seu sonho.
— Então, como se sente voltando para Nova York? — Steph perguntou, enquanto procurávamos roupas em uma loja que tínhamos acabado de entrar.
— Estou me acostumando ainda. — respondi. — Principalmente com o frio, já a movimentação é a mesma, Los Angeles é uma loucura.
— Eu nunca imaginei que você fosse voltar, depois de tudo... — Minha amiga me lançou um olhar compreensivo. — Então, você falou com mais alguém além de mim?
— Não. Eu e o Adam, andamos meio ocupados. — Dei meia volta enquanto procurava um cropped branco para combinar com a calça preta de cintura alta que escolhi. — Só encontrei o Seth hoje, ele está diferente.
— Você e o Adam, ainda estão juntos? — Steph não se preocupou em esconder a surpresa. — Ah sim, ele mudou muito.
— Hum. — resmunguei pensando em uma explicação. — Sim. Tivemos alguns problemas, mas nada que não conseguimos resolver.
— Legal, sempre gostei de vocês juntos. — Me retrai ao perceber que ela pegou minha mão. — Senti sua falta, .
— Eu também, Steph — retribui o sorriso e logo desviei meu olhar. — Bom, eu já achei tudo que queria, inclusive os sapatos. Podemos pagar e depois ir tomar um café, o que acha?
— Ótimo!
Não conseguia parar de rir, enquanto lembrava com a Steph de todas as loucuras que fizemos no passado. Para mim, era como se eu tivesse entrado em uma máquina do tempo, causando-me uma sensação de conforto e saudade. Apesar de termos passado estes dois últimos anos sem trocarmos nem mesmo mensagens, parece que nada mudou entre nós. Que o nosso vínculo continuava o mesmo, como se nós só tivéssemos nos separado por causa das férias de verão.
— Bom, acho melhor irmos. Já são mais de seis horas. — falei já me levantando.
— Claro, você pode me deixar em casa?
— Posso sim. — respondi já indo em direção a saída. — Steph, posso perguntar uma coisa antes? — Parei, encarando-a.
— Claro, o que quiser — respondeu, parecendo um pouco nervosa ao me encarar.
— Como está o Mike? — Sei que a minha pergunta era muito idiota, ele é meu irmão, eu deveria saber dele, mas as coisas andam muito difíceis entre nós, desde Rian.
— O quê? — Steph parecia confusa. — Aconteceu alguma coisa, com ele?
Respirei fundo. Desde que voltei, não falei com ninguém sobre meus problemas e como estou me sentindo com tudo isso. Eu não queria chorar, ou sei lá o quê. — Olha, as coisas ficaram um pouco difíceis entre nós, depois do Rian. Só queria saber, se ele está bem.
— Ah, claro. — Steph suspirou. — Bom, você sabe... O Mike sempre foi bem temperamental, ele acabou de terminar o ensino médio. As brigas eram constantes, mas ele está bem .
— Obrigada! — respondi, mesmo querendo perguntar sobre as brigas. Eu soube de algumas, mas não pensei que fossem constantes, mas não era o momento para falar desse assunto.
Já eram quase sete horas quando deixei Stephanie na casa dela. O caminho até o prédio foi rápido, e só quando entrei no estacionamento percebi que Adam já tinha me mandado diversas mensagens.
O apartamento estava completamente vazio, o que indicava que eu ainda ficaria sozinha por mais algumas horas. Algo que eu nunca reclamaria, gosto da solidão, ter um tempo só para mim é bom às vezes.
Tomei um banho rápido, já que não estava com muito tempo. Enrolei as pontas do meu cabelo em cachos bem soltos, fiz uma maquiagem com tons de marrom-claro e passei um batom de cor vermelho mate, algo que gastei quase três horas para fazer. Então, coloquei minha calça preta, com rasgos na região da coxa, dobrada na barra um pouco acima do meu tornozelo e meu cropped branco. Terminei de colocar minha bota quando escutei a porta da frente bater, soltei um suspiro já me levantando, peguei minha bolsa e minha jaqueta.
Assim que cheguei no topo da escada dei de cara com Adam, parado na ponta de baixo, ele provavelmente escutou o barulho dos meus saltos enquanto eu andava até o topo da escada.
— Sinto muito pela briga de ontem. — Adam se manifestou primeiro, assim que terminei de descer as escadas.
— Tudo bem. — Sorri. — Então, encontrei a Stephanie hoje. Ela me chamou para uma festa de uma das fraternidades da NYU. Você quer ir?
— Ok... — Adam pareceu confuso, com a minha informação.
— Fala logo. — falei, esperando que ele fosse dizer algo sobre Steph. — Diz que estou errada, que eu não deveria ir… Que não paro de ir em festas.
— Eu só ia perguntar se você quer que eu te leve. — Adam respondeu calmamente.
O encarei por um momento.
Já tem algum tempo que venho tendo reações assim com Adam, que a minha paciência com ele já não é a mesma. Não porque voltamos, afinal, só faz 24 horas que isso aconteceu. Mas, não me sinto mais a mesma pessoa com ele há muito tempo e isso se intensificou nos últimos meses.
Namoramos desde o ensino médio, tudo começou com uma amizade de laboratório e terminou com um namoro entre dois adolescentes apaixonados — foi o que pensamos — naquela época. Agora, parecemos dois estranhos. Por um lado, sabemos que somos apenas bons amigos agora, que tem momentos “românticos” quando se sentem carentes, mas que, no fundo, sabemos que não existe mais aquele amor entre nós, pelo menos não dá minha parte.
— Não precisa, peguei meu carro hoje com a minha mãe — respondi finalmente.
— Tudo bem, então.
— Ok. Eu já preciso ir, falei para Steph que ia buscar ela às 10 horas e já são 10 e 15! — expliquei e ele assentiu concordando. — Bom, vou nessa! — Dei um beijo o rosto dele e sai.

Depois de longos 30 minutos, em um clima tenso dentro do carro enquanto tocava uma música agitada do David Guetta, finalmente cheguei à fraternidade. Encostei o carro e disse para a Steph que ela poderia ir na frente, que eu ia só fazer uma ligação e a encontraria lá dentro.
Minha tentativa de ligação foi frustrada, já que só chamou e ninguém atendeu.
Droga. Sempre que eu preciso, ela some.
No fundo, dizer para a Stephanie que eu tinha uma ligação para fazer, foi só uma desculpa. Sabia que muitas coisas poderiam acontecer dentro da casa, nesta festa, eu não estava preparada para elas. Voltar para Nova York foi uma decisão minha, eu sabia que teria que me adaptar novamente e reencontrar pessoas que talvez eu não saberia mais como reagir ao lado delas, o que está sendo mais difícil do que eu esperava.
Por fim, liguei o rádio e permaneci mais alguns minutos dentro do carro, aproveitando que os vidros são bem escuros e ninguém iria me ver, parada igual uma idiota, enquanto poderia já estar lá dentro bebendo e me divertindo.
Qual seu problema, ? É passado, certo? — Minha mente gritou, tentando me convencer que estava tudo bem, se algo desse errado hoje.
Ignorei meus pensamentos e saí do carro. Eu não poderia fugir para sempre, logo as aulas iriam começar e a maioria das pessoas que conheço, estudam na NYU.
Coloquei meu celular no bolso de trás da calça, enquanto caminhava em direção a entrada da casa, subi um dos degraus e parei ao notar que um grupo de garotos estavam me encarando e logo ouvi um deles gritar: “Gostosa, em. Que isso!”.
Suspirei contendo o riso de deboche, mostrei o dedo do meio na direção deles e entrei na casa.
Por dentro ela era perfeitamente decorada, com móveis em um estilo que não consegui identificar muito bem, devido à minha falta de entendimento sobre móveis, mas pude notar que era de um estilo antigo clássico e com certeza devia custar o olho da cara. Tudo em um tom de madeira escura.
Enquanto observava todo o ambiente, desde a decoração até os estilos de jovens bêbados que passavam ao meu lado, senti alguém me dar um copo vermelho que continha uma bebida de cor rosa-claro. No mesmo instante avistei Stephanie, sentada entre um grupo de amigos, ninguém que eu conhecia.
— Fui eu que te dei a bebida. — Um garoto de cabelos loiros sorriu para mim. — Foi mal, não me apresentar. Sou Jake!
— Oi, Jake. — Sorri para ele, ainda meio confusa. — Sou , mas pode me chamar de .
— Ah sim, a amiga da Steph. Ela falou muito sobre você. Na verdade, todo mundo fala.
Sorri sem graça, apenas concordando.
! Você veio! — Steph sorriu para mim, falando um pouco enrolado, ao mesmo tempo, em que levantava o copo de bebida em sua mão, para fazer uma saudação devido a minha chegada. Demonstrando que ela já estava alegre.
Enquanto Steph falava alguma coisa, observei a “galera” a sua volta. No momento não tinha nenhum dos nossos antigos amigos, tinham dois sofás um de frente para o outro e na lateral de ambos uma poltrona. No sofá em que eu estava próxima, tinham duas garotas e três garotos, e um deles não parava de me encarar.
Meus olhos pararam nele, notei que ele ainda estava me encarando, mas não me importei. Seus olhos permaneceram mim, ele desviou o olhar e abriu um sorriso — lindo a propósito — por causa de algo que o pessoal estaria discutindo. Seu cabelo parecia recém-cortado, minha visão desceu pelo seu corpo e consegui ver algumas tatuagens coloridas em seu braço. Certamente eu também não o conhecia, acredito não ter visto ele nem mesmo em algumas festas em que estive aqui, antes de me mudar.
Era um completo desconhecido para mim e percebi que já o encarava há um bom tempo, então desviei meu olhar e por fim dei um longo gole na minha bebida.
— Você quer mais bebida? — Escutei Jake perguntar e olhei para o meu copo, que já passava da metade.
Meu gole tinha sido mais longo do que o pretendido.
— Sim. Por favor! — O garoto levantou e pegou o copo da minha mão. — Vou com você!
— Então, você é de Nova Iorque? — Jake gritou, por entre a música extremamente alta.
— Sim, mas eu estava morando na Califórnia!
Enquanto o acompanhava, aproveitei para dar uma olhada nas pessoas à nossa volta. Cheio de jovens com muita testosterona para gastar, dançando e se pegando sem, nem se importar com a plateia a volta deles. Festas em fraternidade, nunca foram a “minha”, mas fiquei sem jeito de recusar o convite não só da Steph, mas do Seth, que foi um amor em me convidar.
— Legal, sério, muito legal! — disse abrindo um sorriso, assim que chegamos à cozinha. — Sempre quis ir para Califórnia, dizem que as baladas de lá são muito maneiras.
— Você não faz ideia! — respondi e peguei o copo, que ele encheu com a bebida rosa novamente e dei um gole — E você? É de onde… Você não tem o sotaque deste lugar.
— Sou do Texas! — ele sorriu.
Além de um sorriso muito bonito, Jake também era lindo. Com cabelos loiros, corpo bem definido, sem dúvidas foi atleta a vida inteira e usou seu talento para conseguir entrar em uma boa faculdade.
— Legal!
Depois de tomar mais um pouco de bebida e dar muita risada com Jake, resolvi que finalmente precisava ir ao banheiro para ficar um pouco sozinha, porque já tinha bebido mais do que o planejado para a noite. Falei para o Jake que já voltava e saí rápido da cozinha, antes que ele percebesse que eu estava alterada.
Parei abruptamente devido ao que tinha acabado de avistar, sabia o que — ou melhor — quem eu estava vendo, mas uma parte de mim não queria acreditar. Cada músculo do meu corpo se enrijeceu, assim que nossos olhares se cruzaram, assim como eu, ele estava parado encarando, provavelmente tão surpreso quanto eu. Ensaiei como seria encontrar Steph, Seth e todas as outras pessoas de quem senti tanta falta, mas nunca ensaiei como seria reencontrar Hunter Price.
Nunca pensei que precisasse, todas às vezes em que pensei nele, imaginei que algum dia ele me ligaria e diria que eu ter ido embora foi loucura. Mas, os meses foram se arrastaram e meu celular nunca tocou. Então, certo dia, reuni todas as coisas que tinha sobre nós e mandei de volta para minha mãe, para que ela as guardasse de modo que eu nunca mais teria de ver. Nunca mais pensei sobre ele, sobre nós ou nossa amizade.
Hunter sorriu, ele ainda se encontrava parado e me encarando. Um turbilhão de sentimentos tomou conta de mim, senti meu estômago embrulhar.

O lugar estava lotado, eu mal conseguia me mexer. Pessoas bêbadas esbarravam em mim à toda hora, enquanto eu tentava desesperadamente chegar até a escada para poder encontrar Hunter. Era impressionante como ele sempre tinha ideias idiotas, como me atrair para lugares assim. Ele sabia muito bem que eu odiava. Mas, que quando se trata dele, eu simplesmente não sei dizer não.
! — escutei uma voz grossa gritar meu nome. — , não finja que não está me ouvindo — reconheci a voz de Hunt.
Como poderia não reconhecer?

Eu mal conseguia acreditar que estava ouvindo a voz dele. Foram longos seis meses. Nos falávamos todos os dias, desde que tive que ir para o maldito concerto de música. Mas não era como ouvi-lo bem ao meu lado.
Me virei assim que consegui me desvencilhar das pessoas à minha volta. Nossos olhares se cruzaram quase que instantaneamente e um sorriso se formou em meu rosto ao olhar para ele, quase do outro lado da sala.
— Finalmente! — Me joguei em seus braços, assim que consegui chegar até ele.
. — Hunter pronunciou meu sobrenome de forma calma, de modo que só eu, pude escutar. — Senti tanto sua falta — disse e me soltou, mas permaneceu me encarando.
— Nunca mais vamos nos separar assim! — O abracei novamente, não conseguia conter felicidade.

Saí andando abruptamente, assim que o vi dar um passo em minha direção. Ainda não estava preparada para me encontrar com ele, por mais que uma parte de mim, quisesse muito.
Quando finalmente cheguei ao andar de cima, andei o mais rápido que consegui em direção a porta no final do corredor, entrei rapidamente e liguei a luz. Fechei a porta atrás de mim e me encostei nela, meu coração estava tão disparado que eu mal conseguia respirar, minhas mãos estavam suando e uma crise de risos tomou conta de mim.
Por sorte, achei o banheiro rapidamente, afinal já estive em fraternidades. São quase todas iguais.
— Droga, Hunter, sempre me causando essas sensações. — falei em voz alta, enquanto tentava parar de rir.
É horrível ser alguém que dá risada quando se está nervosa.
Depois de alguns minutos, me virei para o enorme espelho do banheiro. Enquanto arrumava minha maquiagem, tentei me lembrar qual foi a última vez que o vi ou que escutei a voz dele. Todos meus músculos se enrijeceram ao pensar nisso. Joguei os pensamentos para longe, quando percebi que meu celular estava tocando e vi o nome de Adam na minha tela. Respirei fundo por um momento e atendi tentando não parecer alterada.
— Alô? — Foi a única coisa que consegui dizer e me sentei no vaso.
? — Adam me chamou com uma voz suave, e fiquei aliviada por ele não ter notado minha embriaguez. — Eu só queria saber se você chegou bem… Você não me mandou mensagem nem nada.
— Ah.
— Tudo bem? — perguntou, como se estivesse lendo meus pensamentos.
— Sim, estou bem. — respondi calmamente, enquanto tentava tirar algo que grudou no meu sapato. Eu estava pronta para dizer a ele que ia desligar e que ligaria mais tarde, quando a porta do banheiro se abriu e levantei abruptamente, derrubando meu celular com tudo no chão.
Pensei que a minha noite não podia piorar, até agora.
O garoto que estava sentado ao lado da Stephanie, agora se encontrava parado na porta do banheiro, ele parecia bêbado. Como podia ser tão folgado? Tudo bem que eu não tranquei a porta, mas o que custa bater antes de entrar? Por isso odeio fraternidades.
Ele estava com um olhar sério, mas não parecia irritado. Para falar a verdade, aparentava estar bem calmo, apesar de ter entrado em um banheiro ocupado e pareceu não se importar, de nem sequer bater na porta antes de entrar.
— Mas que porra é essa? — gritei finalmente.
Estava irritada, mas feliz por não ser Hunter.
— Você que deixou a merda da porta destrancada. — Escutei ele dizer, com uma voz calma e cheia de controle, ainda mais irritante do que em silêncio.
— Ah, claro! — falei enquanto pegava meu celular no chão. — Você, não sabe bater porra? — dessa vez gritei.
— Dá para parar de gritar comigo, porra? — Agora ele estava com a voz um pouco mais exaltada e seus olhos estavam vermelhos, mostrando que eu conseguia irritá-lo com a minha maneira de falar. — Isto aqui é uma fraternidade. Você acha que alguém se importa em bater nessa merda de porta? Está todo mundo chapado.
Ele entrou no banheiro.
— Claro, pode usar o banheiro. Eu já terminei! — respondi e sai.
— Foi mal. Tá bom? — ele me olhou fixamente e segurou meu braço.
O encarei por alguns instantes, tinha algo familiar nele, mas eu não saberia dizer o que era.
— Tanto faz. — respondi e sai andando.
Antes de ir procurar pelo pessoal, decidi passar na cozinha e pegar mais uma bebida, já que com o rumo que as coisas estavam tomando, não pensei que conseguiria aguentar até o final da noite estando sóbria.
Me recostei na bancada enquanto dava um gole na minha bebida. Vez ou outra, apareciam algumas pessoas na cozinha, até conhecidos. Eles diziam o de sempre: que sentiam muito pela minha perda e que estavam felizes que eu finalmente tivesse voltado.
Resolvi sair de lá, respirar outros ares.
— Ei, estava te procurando. — Steph apareceu do nada. Ela estava com um sorriso no rosto e parecia mais bêbada do que antes.
— Precisei ir ao banheiro. — Olhei à minha volta, esperando que Hunter não estivesse por perto, era muito cedo para me enfiar em uma situação onde eu tivesse que encarar os dois ao mesmo tempo.
Minha amiga me puxou, antes que eu conseguisse dizer alguma coisa. Ouvi ela falar algo sobre pista de dança, mas não consegui ter certeza se era isso mesmo, porque o barulho estava muito alto dentro da casa. Mal conseguia ouvir meus pensamentos, quem dirá outra pessoa.
Ela empurrou as pessoas, a nossa frente, como se estivesse procurando por algo ou alguém. Steph parecia conhecer muita gente aqui, porque ela cumprimentava todo mundo. Minha cabeça estava rodando, já tinha tomado a bebida do copo que estava na minha mão e, à essa altura, uma das pessoas por quem passamos, já tinha me oferecido um novo copo de bebida que tomei, sem questionar.
A pista de dança era melhor que eu esperava, por ser dentro de uma casa. O lugar estava lotado e era decorado por enormes bolas de disco no teto, espelhos que cobriam o ambiente todo e iluminava-o com cores variadas.
Exagerado, mas muito bonito.
Steph me puxou para o centro da sala, fazendo sinal para que eu começasse a dançar. Estava tocando Blow That Smoke, da Major Lazer e ela dançava animada ao ritmo da música, e me puxava para fazer o mesmo. Exatamente como fazíamos nos velhos tempos.
Decidi me soltar e comecei a dançar. A sala à minha volta estava rodando e as luzes coloridas, que invadiam o ambiente, faziam com que eu me sentisse ainda mais zonza e bêbada. A sensação era indescritível, é como se eu fosse totalmente livre.
— É disso que eu estava falando, Dude. — Jake apareceu ao meu lado, acompanhado de Seth.
, você veio. — Seth envolveu o braço na minha cintura, me puxando para um abraço, que eu retribuí.
Sorri para eles e puxei os dois para se juntarem a nós. Jake puxou Steph, para mais perto, que ainda dançava animada ao som da música. A maneira como lidamos, uns com os outros, quando estamos juntos, me fazia sentir que nunca ficamos tanto tempo separados, que a última festa em que estive com eles foram no final de semana passado e não há dois anos.
A música entrou em um ritmo mais lento e Seth segurou minha cintura. Encaixou minha perna entre a dele e começamos um ritmo sincronizado, quando a música começou a aumentar gradativamente.
— Love that fire! — cantei, com a música.
— Memories! — Seth me acompanhou, enquanto dançávamos.
Estou morta e ofegante quando a música termina. Concordamos que precisávamos descansar e tomar um ar, eu estava me sentindo acabada depois de toda a dança e agitação.
Seth me puxava pela mão, enquanto seguíamos Jake e Steph, que pareciam saber onde estavam indo. No fundo, eu estava torcendo para que eles nos levassem para um lugar calmo e que tivesse um sofá bem confortável, para eu me jogar. Porque os meus pés e minhas pernas, estavam me matando.
A casa estava muito mais vazia do que antes. O que me fez pensar no horário, eu não olhei o relógio nenhuma vez, desde que cheguei, nem mesmo na hora em que eu estava no banheiro e aquele estúpido entrou.
— Uau, o que foi aquilo, meninas? — Jake disse, enquanto se jogava no sofá enorme, da sala que ele e Steph encontraram.
— A aqui, não perdeu o jeito. — Seth sorriu para mim, enquanto apertava minha coxa.
— Ah, qual é. — Soltei um riso. — Foi você que dançou todo sensual, lá dentro.
— De fato, você estava todo sensual, dançando com a . — Steph, que estava sentada ao lado de Jake, comentou e soltou uma gargalhada.
Obviamente, ela estava bêbada e o resto de nós também. A maneira que dancei com Seth, não era algo que eu faria com qualquer cara, nem mesmo com Adam. Somos amigos de longa data e sei que não tem nenhuma segunda intenção entre nós, apesar de eu saber que é isso que nossos amigos estavam querendo insinuar.
— Somos ótimos parceiros de dança. — Pisquei para Seth, que sorriu como retribuição.
O silêncio tomou conta da sala, então aproveitei para dar uma olhada no meu celular. Tinham algumas chamadas perdidas de Adam, que eu não fiz questão nenhuma de me preocupar, mas o que me pegou de surpresa, é que já eram quase quatro horas da manhã.
Eu tinha perdido totalmente a noção da hora, meu plano era ficar apenas umas duas horas na festa, rever alguns velhos amigos e fazer uma social com a Steph, já que ela foi tão legal comigo mais cedo e eu não queria fazer essa desfeita.
Minha vontade era de ficar para sempre jogada no sofá, mas eu precisava ir embora, ainda hoje teria muitas coisas para fazer e resolver. Sem contar, a briga que eu teria que comprar ao chegar em casa.
Às vezes me pergunto, porque eu nunca tomo coragem de simplesmente terminar com Adam e dizer para ele que deveríamos ser somente bons amigos. Sei que por parte é porque ele é praticamente tudo que tenho agora e não quero perder isso. De uma coisa, Dra. Sullivan — minha antiga terapeuta — estava certa, tenho medo de mudanças.
Voltei para a realidade.
— Bom, eu preciso ir — falei já me levantando. — Vocês precisam de carona?
Seth engasgou, me deixando confusa.
— Tá maluca?
— O quê? — perguntei, ainda confusa, com a reação dele.
— Você não vai dirigir assim bêbada. — advertiu. Por um momento, eu tinha mesmo me esquecido que não deveria dirigir, depois de toda a bebida que ingeri.
— Eu me esqueci. — soltei um riso. — Mas, não posso deixar meu carro aqui né...
— Ué, amanhã você busca, vamos de táxi.
— Vocês vão conosco? — falei me referindo aos nossos dois amigos, jogados no sofá.
— Acho melhor eu ficar com eles. — Seth disse, se referindo aos dois bêbados que não pareciam nem um pouco animados em sair do sofá confortável que se encontravam.
— Tudo bem, cuida dela também, foi ótimo. — dei um beijo no rosto de Seth e sai da sala.
Quando cheguei ao lado de fora, o ar estava gelado e me causou uma sensação de alívio. Soltei e puxei a respiração várias vezes, enquanto caminhava para longe da casa. O lugar estava deserto, levemente iluminado por aquelas lâmpadas de chão e fez com que eu me sentisse um pouco menos zonza.
Peguei meu celular no bolso da calça, para poder olhar que horas eram e caminhei em direção a um muro que tinha mais para o canto. A sensação que eu tinha é que minhas pernas iam quebrar a qualquer momento de tanta dor, provavelmente porque o efeito do algo estava começando a passar.
Mais um pouco e eu não precisaria deixar meu carro aqui.
Assim que sentei no muro, desbloqueei meu celular, que me revelou ser cinco horas da manhã. Passei uma hora naquela sala, o que para mim, pareceu ser 15 minutos.
Foi muitas emoções para um dia só. Rever Steph depois de eu ter ido embora com tantos assuntos inacabados entre nós. Ver Hunter, ridiculamente igual, da mesma forma que ele sempre olhou para mim, desde a primeira vez que nos demos conta de que estávamos apaixonados e, ainda ter que fingir, que estava tudo bem, que nada disso estava me trazendo um milhão de lembranças.
Sinto falta de Rian, muita falta.
Fechei meus olhos, e quase conseguia sentir a presença dele. Me dizendo, sempre a mesma coisa.
— Você se cobra demais, . — Rian abriu um sorriso brincalhão.
— Rian? — Chamei pelo seu nome, enquanto permanecia de olhos fechados.
— Sei que está com medo, mas está tudo bem. — Rian pegou minha mão, um arrepio me consumiu.
— E se eu for, alguém diferente agora? — Perguntei, porque sabia que era só com ele que eu poderia me abrir assim.
, você pode ser duas pessoas, não significa que está diferente! — Rian se virou para mim, apesar de estar com os olhos fechados, sabia que estava com a cabeça apoiada sobre a mão, enquanto me encarava.
— O quê? — Soltei uma risada, porque nada do que ele estava dizendo, fazia sentido.
— Você pode ouvir Beethoven, ler Jane Austen e mesmo assim curtir umas baladas de vez em quando, é estranho, mas você pode. — disse com sinceridade.
— Não é só sobre isso que estou falando. — expliquei.
— Você pode amar Adam e Hunter também. — Senti ele se aproximar. — Mas, lembre-se, você não pode estar apaixonada pelos dois.
Pensei no que ele acabou de dizer, mas meu telefone tocou, interrompendo nossa conversa e os meus pensamentos.
Meu celular tocou e o nome do Adam apareceu na tela. Cliquei em recusar sem pensar duas vezes, porque já perdi incontáveis ligações dele e sabia que se eu atendesse, começaríamos uma briga, que eu não estava no melhor momento para encarar.
Mas lembre-se, você não pode estar apaixonada pelos dois.
Rian me disse isso só uma vez, mas eu sempre pensei muito sobre. Acho que nunca estive apaixonada por Adam, mas também nunca amei Hunter, meus sentimentos em relação aos dois sempre foram difíceis de explicar.
Hunter revelava um lado meu, que eu nem sabia que existia. Eu sabia que com ele eu poderia ser a que lia Jane Austen e aprendia notas de Beethoven, mas eu também poderia ir para festas e tomar uns “porres”, que ele ainda assim me olharia da mesma forma, de alguma maneira, isso sempre mexeu comigo.
Sempre achei que as coisas entre nós sempre foram mais carnais.
Já com Adam, eu sabia que ele sempre gostou mais da que lia e tocava piano, que estava sempre preocupada com o que as outras pessoas diriam. Ainda conseguia lembrar qual foi a reação dele quando fiz minha primeira tatuagem, ou a primeira vez que ele precisou me carregar embriagada de uma festa. Não falou comigo por uma semana.
Nossa relação, sempre foi de muito carinho.
De certa forma, eu sempre quis ter os dois por perto. Não só por ter sentimentos, mas por me sentir tão sozinha, sempre que Rian chegava chapado em casa. Depois que meu irmão foi ficando cada vez pior, eles eram tudo que eu tinha e deixei as coisas saírem do controle com o passar do tempo.
? — A voz de Hunter, me tirou completamente dos meus pensamentos mais profundos.
Ele estava com a mão nos bolsos da calça preta, com um casaco preto e seus cabelos estavam levemente bagunçados. Sua expressão era neutra, com um leve sorriso aberto, dando espaço para suas covinhas. Foi exatamente assim, que o imaginei, toda vez que eu pensava como seria revê-lo.
Seus olhos verdes brilhavam. Ele sempre foi muito bonito, um metro e 80, nem malhado, mas também nem muito magro. Sempre com seu estilo reservado, usando roupas pretas e brancas. Sem falar no cabelo, levemente ondulado e as diversas tatuagens que o deixavam ainda mais atraente.
— Oi. — foi tudo o que consegui dizer.
Meu coração se acelerou gradualmente, não saberia dizer se era pelo álcool, ou por ele.
— Está tudo bem?
— Sim.
— Tem certeza?
Hunt deu um passo à frente, mas fiz sinal para que ele ficasse onde estava.
— Sim, eu já estou indo embora.
Passei direto por ele, que permaneceu no mesmo lugar.
Uma parte de mim queria que ele viesse atrás de mim, mas a outra, sabia que a melhor coisa a fazer, era continuarmos bem longe um do outro. Nos tratando como se fossemos apenas velhos amigos, que o tempo afastou com o tempo.
Isso acontece com todo mundo, certo? Uma hora aconteceria conosco.
Sei que disse para o Seth que iria embora de táxi. Mas, eu estava longe do centro de Nova Iorque e não queria passar mais nenhum minuto na presença do Hunter, queria evitar de tomar qualquer atitude estúpida.
Também não estava mais bêbada.
Eu sabia que Hunter tinha muitas coisas a dizer e que. de novo, eu o estava privando de falar. Mas, o que estava feito não iria mudar. Nada traria de volta o que já fomos um dia — ao menos é o que eu achava.
Enquanto caminhei até meu carro, que estava estacionado do outro lado da rua, escutei passos atrás de mim. Sabia que ele estava andando na minha direção, então apressei meus passos o máximo que consegui, mas minhas pernas estavam muito doloridas e meus pés estavam me matando.
, qual é. — ele gritou.
Entrei no carro o mais rápido que consegui, travei as portas e arranquei com o carro, vendo a imagem de Hunter com os braços para cima, desaparecer no retrovisor.


Capítulo 2 - Mike's Party

ALERTA GATILHO: Neste capítulo serão abordados assuntos como o uso de drogas, álcool. A personagem passará por uma situação de colapso psicológico, devido a uma situação extrema em sua vida. Também abordara overdose, como acontecimento na vida de um personagem, por isso, se você acha que isso pode te gerar algum gatilho, sugiro que interrompa a leitura.
Já fazia duas semanas que eu estava em Nova Iorque, 15 dias desde aquela festa. O tempo passou rápido e, desde então, tenho me concentrado em atualizar as matérias, afinal estava trocando de faculdade e não sabia como seriam as coisas na NYU.
Steph me mandou mensagem algumas vezes, perguntando se eu gostaria de ir em alguma festa, mas recusei em todas elas. Depois do meu “reencontro” com Hunter, não sabia como conversar ou olhar para ela, explicar que ainda tenho sentimentos por um cara que talvez ela seja apaixonada ainda.
Já eram oito horas da manhã quando entrei no “campus” acompanhada de Adam. Depois de rodar pelo menos uns 15 minutos, finalmente consegui encontrar uma vaga para estacionar o carro.
— Bom, te encontro no almoço? — Adam falou enquanto caminhávamos.
Ele também estava no segundo ano — assim como eu — mas do curso de arquitetura. O pai dele tinha uma empresa e ele queria seguir seus passos.
— Claro, se as nossas aulas baterem, envio uma mensagem. Pode ser?
Coloquei minha jaqueta.
, você não precisa se importar com isso. Ninguém liga, se você tem tatuagens, as pessoas mudam. — Adam disse, sem responder o que eu tinha acabado de dizer.
— Você se importou. — rebati, saiu antes que eu conseguisse pensar.
— Ok, até mais tarde. — selou nossos lábios e seguiu para seu prédio, ignorando meu comentário. — Não se esqueça, temos a festa do seu irmão hoje à noite — Adam gritou.
Mal sabia ele como eu gostaria de esquecer. Assim que entrei no prédio, fui em direção ao laboratório 265 A que, segundo a minha grade, era onde eu teria a minha primeira aula deste semestre: emergências II.
Estava finalizando o meu segundo ano em Medicina, passou tão rápido que mal conseguia me lembrar como foi a sensação de entrar pela primeira vez em uma universidade. Depois de andar por um tempo, encontrei minha sala, entrei na mesma e fiquei um pouco impressionada com o tamanho, mas feliz por ter apenas algumas pessoas, então aproveitei para observar um pouco o ambiente e me familiarizar.
Com toda certeza o laboratório era cinco vezes maior do que o que eu estava acostumada. Por um lado, não tinha sido uma decisão ruim voltar para Nova Iorque, esta faculdade tinha muito mais recursos — ao menos no meu curso.
Coloquei minhas bolsas em uma cadeira no fundo da sala e me sentei ao lado da mesma. Percebi algumas mensagens em meu celular, de Steph… Algumas de amigos que deixei para trás na Califórnia, mas travei o celular, me preocuparia com isso depois.
? — escutei uma voz levemente grossa falar atrás de mim e logo Seth apareceu na minha frente.
Uau!
Acho que eu estava meio aérea no dia que encontrei ele na faculdade e definitivamente bêbada quando o encontrei na festa. Para não notar como ele é bonito, com seu cabelo castanho levemente raspado e seus olhos cor de mel. Sem falar em seus traços do rosto, bem marcados e, de bônus, um corpo malhado. De quem gasta algumas horas da sua semana na academia. — Seth! — Me levantei para abraçá-lo, depois de quase comê-lo com os olhos. — O que está fazendo aqui?
— Bom, parece que estamos na mesma sala — riu.
— Claro! — concordei. — Mas o que você estava fazendo na diretoria aquele dia?
— Bom, sou bolsista, fiquei com uns pontos faltando no semestre passado e para não perder a bolsa, a faculdade concordou que eu poderia fazer algumas horas de trabalho na secretaria.
Eu quase tinha me esquecido que Seth não era só um “rostinho” bonito, mas também um cara muito focado no que quer. Desde que estávamos no ensino médio ele sempre precisou se esforçar muito, depois que seu pai foi embora de casa deixando sua mãe não só com ele, mas com mais três filhos para criar.
Pensei em dizer algo sobre o seu comentário, mas fui interrompida pelo professor que acabara de entrar na sala. A primeira aula e as seguintes foram como sempre são nos primeiros dias, apenas apresentação da disciplina e do professor. Contudo, a última aula com toda certeza foi de longe a pior, porque o professor decidiu que todos deveriam se conhecer, fazendo com que todos os alunos se apresentassem.
Depois da humilhação, mandei uma mensagem para o Adam que me respondeu dizendo que não seria possível me encontrar no almoço, já que ele teria mais meia hora de aula até ser liberado. Por um lado, me senti um pouco aliviada, ele andava estranho comigo e ficava me pressionando para saber como foi a festa em que estive no nosso primeiro dia aqui, algo que desconversei várias vezes.
O caminho até o refeitório foi tranquilo e, apesar de eu cruzar algumas pessoas que não via há um bom tempo, foi bom para me acostumar que agora essa seria minha vida. Que parte de algumas pessoas ainda falarem sobre Rian comigo, é porque eu simplesmente sumi depois da morte dele. O lugar era enorme, com uma quantidade significativa de mesas redondas com várias cadeiras ao redor e algumas mesas mais isoladas, para pessoas que gostam de privacidade, como eu. Coloquei minhas coisas em uma mesa no canto e me encaminhei em direção a bancada das comidas, tinha tanta coisa que mal conseguia decidir o que comer. Quando finalmente consegui escolher, me virei para voltar à mesa que estava ocupada pelo cara que entrou no banheiro, onde eu estava, naquela festa da fraternidade
Respirei fundo, era meu primeiro dia e não queria ter que me indispor com ninguém.
— O que você quer?
Coloquei minha bandeja na mesa e me sentei. — Só vim ver como você está, você sumiu das festas. Stephanie está preocupada com você. — explicou. — Sim, estou bem. — respondi tentando parecer mais simpática do que quando cheguei. — Aliás, o que você sabe sobre a minha amizade com a Steph?
— Nada, mas ela gosta muito de você.
— Também gosto muito dela, não se preocupe, vou ligar para ela.
Não sei porque estava dando satisfação para ele, era um estranho. — E estou surpreso que você está sendo educada. — Riu de maneira sarcástica. — Pronto, começou.
Revirei os olhos irritada.
— Se já vai começar a agir como um escroto, pode ir embora.
Fiz sinal para que ele levantasse e fosse embora.
— Desculpa, às vezes eu não consigo evitar. — respondeu e colocou suas coisas na cadeira vazia bem ao seu lado. — Será que posso almoçar aqui com você?
Ele me encarou. — Claro, o refeitório é público. — respondi e abri um sorriso irônico.
Para minha alegria ele permaneceu em silêncio, mas, por outro lado, eu gostaria que ele estivesse falando. Porque se quando falamos já é intimidador, quando ele não diz sequer uma palavra, me sinto ainda mais nervosa em sua presença. Enquanto comia consegui notar algumas marcas em seus braços e notei suas olheiras fundas.
Fiquei observando-o por um momento, o que me fez lembrar bastante de Rian, que ficava exatamente da mesma maneira depois de ingerir algumas drogas. Será? Estava sendo paranoica, nem todo mundo que tem marcas nos braços, é por causa de agulhas.
Você precisa relaxar. — Minha mente tentou me convencer, de ficar mais calma.
Desviei meu olhar assim que ele me olhou, fiquei sem jeito, então me concentrei na minha comida para terminar de almoçar e sair o mais rápido possível de perto dele e da situação embaraçosa que tinha me colocado.
— Bom, terminei. Te vejo na festa hoje à noite. — Ele abriu um sorriso enorme enquanto se levantava.
Festa? Ele não podia estar falando da festa de hoje à noite, do Mike. Não teria razão alguma para ir.
— O quê?
O encarei.
— A festa de aniversário do seu irmão é hoje, certo?
Minha cabeça estava muito confusa.
— Sim, isso entendi. — respirei fundo. — De onde você conhece meu irmão? Como sabe que eu e o Mike somos irmãos?
Minha pergunta poderia parecer idiota para ele, mas não para mim, porque sei que Mike jamais falaria sobre mim.
— Te vejo a noite, .
Para variar eu não sabia nada sobre a vida do meu irmão. O cara que tinha acabado de me “informar” que iria à festa de Mike, não parecia o tipo de amigo que ele gostaria de ter — ao menos era o que eu achava.
Revirei os olhos quando já estava longe e afastei meus pensamentos dele. Seja lá porque ele decidiu ser legal comigo, não me importava. Não estou aqui para fazer novos amigos e nem para arrumar mais problemas, porque é isso que ele parecia ser. Depois de andar por quase cinco minutos, finalmente consegui chegar ao prédio onde ficava a quadra de futebol e a área de musculação. Saber que tinha uma área para treinar e um time de futebol da faculdade me deixou muito animada. Afinal, na UCLA não tinha e senti muita falta, porque eu era parte de um time no ensino médio e amava. Sem contar, que depois do que aconteceu, minha antiga terapeuta recomendou que eu fizesse atividades físicas para extravasar, talvez, porque eu tenha diminuído o ritmo, tinha voltado a ter algumas “crises”.
O vestiário era enorme, muito maior do que o que eu usava — na outra universidade —, com armários enormes, cabines de ducha em um tamanho razoavelmente grande com portas de vidro ladrilhada e um espaço reservado para que a pessoa conseguisse se trocar com privacidade.
Assim que terminei de colocar meu uniforme de treino, guardei todas as minhas coisas no meu armário. Eu conseguia ouvir as vozes e o barulho da academia enquanto enchia a minha garrafa de água no corredor, comecei a ficar ainda mais ansiosa, pois não conseguia nem lembrar qual foi a última vez que fiz uma atividade física. A quadra estava lotada quando entrei, uma mistura de garotos vestindo um uniforme nas cores preto, vermelho e branco ocupavam o lugar.
Coloquei minha garrafa de água no banco com a minha toalha e caminhei em direção ao meio da quadra onde todos estavam se aquecendo. — O bom filho à casa torna.
Saí da posição que eu estava e olhei para cima, o que me deu a visão de uma garota que devia ter cerca de um metro e 70, com seus cabelos loiros presos em um rabo de cavalo. Eleanor Carter não tinha mudado nada desde a última vez que a vi, com o mesmo sorriso brincalhão no rosto e seu corpo perfeitamente malhado por conta dos treinos. — É, eu não consigo evitar. — falei olhando-a fixamente e abri um sorriso logo em seguida.
Fazia tanto tempo que não nos víamos. Estava realmente feliz em reencontrá-la, ela foi uma das poucas que ainda manteve contato comigo por algum tempo, ou pelo menos tentou manter. Eu não a culpo. — Vai ficar me paquerando ou vai me abraçar?
Ela caminhou na minha direção, já estendendo os braços para me abraçar. Retribuí o abraço instantaneamente, era reconfortante saber que ela sentiu minha falta, tanto quanto eu senti a dela.
— Você não mudou nada. — falei já a soltando. — Já não posso dizer o mesmo de você, né, . Adorei as tatuagens a propósito. — El abriu um sorriso largo.
— Bom, está tudo muito lindo, mas estamos em temporada, temos que começar os treinos. — Estou um pouco enferrujada, não jogo desde o ensino médio.
Fiz uma careta. — Eu sei, mas sou a capitã. Quero você no time! — El sorriu.
Apenas concordei, sabia que não tinha como dizer não para ela, e eu não podia negar nada. Porra, eu estava exausta quando o treino terminou. Não tínhamos jogado nem nada, apenas fizemos alguns treinos de resistência. Contudo, eu estava me sentindo como se tivesse jogado 90 minutos sem parar. Nunca pensei que ficar tanto tempo parada me causaria tanto cansaço, mas estar de volta a rotina era maravilhoso e não pretendia parar mais.
, mandou bem. — uma das garotas do time falou, enquanto andávamos até o vestiário.
Entrei no vestiário seguida de El que me dizia o quanto estava empolgada com a minha volta e que mal tinha acreditado quando Seth contou para ela.
— Sério, fiquei, ai meu Deus. — El riu e me encarou por alguns momentos.
Andei até o meu armário e ri com ela. Eleanor sempre foi assim, toda empolgada e cheia de energia. Com ela nunca tinha tempo ruim, o tipo de amiga que qualquer pessoa teria muita sorte de ter. Eu era muito sortuda e, apesar do meu sumiço, ela estava me tratando como se nunca tivéssemos parado.
Estava quase dormindo embaixo da água quando escutei Eleanor me chamar, dizendo que já estava a quase 20 minutos tomando banho. Desliguei o chuveiro, me enrolei na toalha, saí do box, passei por ela sem dizer nada e entrei em um vestiário seco para poder me trocar. Assim que terminei percebi que restava só nós duas.
— Já podemos ir, desculpa pela demora. Me distraí!
Fui em direção à saída.
Enquanto andávamos, El me contou sobre algumas coisas que aconteceram por aqui. Falou sobre Hunter, perguntou se já tínhamos conversado, mas desviei o assunto. Não acho que ela notou porque continuou toda animada, dizendo o quanto estava feliz por eu estar de volta e ter aceitado fazer parte do time.
El era aquela que unia o grupo. Pelo que ela estava dizendo, não parecia que todos tinham se afastado. Ela e o resto do pessoal ainda pareciam ser bem próximos, o que me deixou aliviada, odiaria saber que além de deixar todos para trás, ainda fui responsável pelo rompimento da amizade de todo mundo.
— Bom, acho que nos vemos na festa do Mike, certo? — El disse assim que chegamos ao estacionamento.
Só podia ser brincadeira.
— El, você também foi convidada?
Fingi surpresa, sabia que era o tipo de coisa que meu irmão faria.
— Claro, seu “irmãozinho” é parte do grupo agora. — respondeu na maior naturalidade, enquanto procurava por algo em sua bolsa.
— Parte do grupo?
Naquela época Mike tinha apenas 16 anos e não passava muito tempo com os meus amigos. Exceto quando tinha alguma festa ou quando fazíamos uma social em casa, mas tirando isso, nunca convidamos ele para as nossas reuniões semanais. Afinal, nem beber ele podia.
Tecnicamente, nós também não, já que a maior idade é 21 anos. Mas, ele ainda era muito novo.
— É , muita coisa mudou desde que você foi embora. — El sorriu para mim.
Mantive minha expressão séria.
— Amiga, isso não é nada demais. Mike sempre foi muito legal, além de estar um gato.
— Fala sério, te vejo na festa, Eleanor. — respondi e saí andando.
Minha irritação foi mais forte do que o bom senso. Acabei sendo grossa com a El que não tem culpa nenhuma se a minha relação com meu irmão é uma merda, mas ele se tornar amigo dos meus amigos, era mais que eu poderia suportar.
Entrei no carro e arranquei com ele, só queria chegar em casa e ficar sozinha em completo silêncio para esfriar a cabeça. Michael nunca demonstrou nenhum interesse pelos meus amigos, não via razão para ele ser parte do grupo agora.
Talvez ele já tenha me perdoado.
Me estiquei para atender meu celular que tocava incessantemente e selecionei para que a ligação fosse transmitida no alto-falante do carro.
— Oi, mãe. Está tudo bem? — perguntei preocupada, ela não era de me ligar.
— Oi, filha. Está sim, eu só estou ligando para confirmar se você virá a festa.
Claro. Por que mais ela me ligaria?
— Ah, claro. — bufei.
, por favor, seu irmão fez o esforço de te convidar. — tinha começado com o drama. — Ao menos, tenha a decência de aparecer.
— Tá bom, mãe, estarei lá.
Desliguei o telefone, antes que eu perdesse a minha paciência com ela também.
Ainda eram quatro horas da tarde, a primeira semana de aula passou tão rápido, a partir da segunda semana — a próxima no caso — eu já passaria a ficar das oito da manhã até as seis da tarde na faculdade, minhas férias estavam oficialmente acabadas.


Todo meu corpo doeu quando me joguei na cama. Encarei o teto pensando sobre a festa de hoje à noite, mas também pensei sobre meu irmão ter me convidado para ela, o que era bem estranho. Rolei na cama e peguei meu iPod na escrivaninha ao lado da cama, apertei o play e começou a tocar Beethoven. É impressionante como sempre me acalma.
Caí no sono.
Meus olhos se abriram com dificuldade por causa da claridade. Pisquei algumas vezes, e tive a impressão de ver alguém sentado na cadeira da escrivaninha. Dei um pulo ficando sentada ao ver que não estava imaginando coisas, tinha alguém sentado na cadeira, me encarando.
, sou eu.
Cocei meus olhos, minha visão ainda estava embaçada. É isso que acontece quando caio no sono sem usar minha máscara de dormir. Pisquei mais algumas vezes e percebi que era Hannah.
— Ah, meu Deus! — Dei um pulo da cama. — O que você está fazendo aqui?
— Bom, você me convidou para morar com você. Lembra? — A garota riu e se levantou. — Fez todo aquele discurso, sobre não vive...
— Estou tão feliz, que esteja aqui! — A puxei para um abraço, sem deixar que ela terminasse o que estava dizendo. — Quando foi que chegou? Por que não me ligou? — Bombardeei Han, com todos as minhas perguntas.
Hannah é a minha melhor amiga no momento, a pessoa que me mantive mais próxima nestes últimos dois anos — exceto Adam. Nos conhecemos no primeiro ano da faculdade, era uma cidade nova para mim, porém não tão nova para ela. Apesar de não fazermos o mesmo curso, ficamos próximas bem rápido e agora somos praticamente inseparáveis.
— Terra chamando, . — Han soltou uma risada.
Eu estava viajando nos meus pensamentos e nem tinha me dado conta.
— Como eu estava dizendo, o voo atrasou e liguei para o Adam e ele disse que tinha uma chave reserva embaixo do tapete. E aqui estou eu!
Adam!
Me esqueci completamente de mandar a mensagem que eu disse que mandaria.
— Você quase me matou do coração!
Coloquei a mão no peito, para fazer um drama e ela riu.
— Então. Porque o Adam não está aqui?
Minha amiga se jogou na cama, folgada como sempre.
— Vocês terminaram? Finalmente.
— HAHAHA, muito engraçadinha. — a repreendi. — Ele deve estar na faculdade ainda, vim direto de lá, não nos falamos durante o dia.
— Bom, parece que minha felicidade durou pouco.
Revirei os olhos. Ela sabia bem como irritar alguém com toda sua sinceridade.
— Qual é, você sabe o que penso. Não é agora que vou começar a mentir para você, . — Han usou meu apelido, enquanto soltava uma gargalhada.
— Tá, tanto faz. — Dei de ombros. — Como estão as coisas?
— Ah, não começa com isso, . Estou bem, está tudo ótimo. Se algo tivesse acontecido, eu estaria no hospital e você receberia uma ligação, sabe que é meu número de emergência. — Piscou.
Por um lado, ela tinha razão, notícias ruins sempre chegam logo.
— Mudando o assunto mórbido, o que vamos fazer hoje? Acabei de chegar, quero conhecer seus amigos, a cidade...
— Desculpa, mas hoje é a festa de aniversário do Mike.
— Quem é Mike?
— Meu irmão, mais novo.
— Claro, aquela coisinha fofa que conheci quando fui te visitar? Sei.
Han riu com o comentário dela.
— Sim, exceto pela parte da coisa fofa.
De fato, ela não tinha conhecido Mike em seus melhores momentos. Quando ele foi me visitar na Califórnia no ano passado, as coisas não saíram exatamente como o planejado, eu pensei que finalmente iríamos nos reconciliar. Porém, tudo mudou, quando ele descobriu que eu não tinha planos de voltar para casa.
— Bom, é uma festa a fantasia, me diz que você trouxe as minhas coisas da Califórnia, por favor. — fiz bico.
Eu tinha muitas fantasias que deixei lá, eu e Hannah vivíamos em festas da fraternidade. Estava torcendo para que a resposta dela fosse sim, pois não estava nem um pouco a fim de ter que sair para comprar.
— Mas é claro.
— Já disse, que te amo?
— Todos os dias. — riu.
Adam chegou em casa um pouco depois de começarmos a nos arrumar. Apesar de Hannah sempre demonstrar, ou melhor, dizer nitidamente na minha cara que eu deveria terminar com ele. Os dois se davam muito bem, sempre passava um tempão conversando e falando das séries que os dois gostavam.
Han decidiu que iria de Arlequina e Adam de marinheiro.
Eu tinha três opções: Mulher-Maravilha, policial ou pirata. Depois de algum tempo, por fim, eu decidi que iria de policial. Não só por ser preta — praticamente minha cor oficial — mas por ser a mais discreta também, chamar atenção na festa do Mike era a última coisa que eu queria.
— Nem pense em esconder essas tatuagens. — Han gritou do banheiro.
Não sei como, mas ela parecia ver que eu estava escolhendo um casaco colocar. Encarei minha imagem diante do espelho, eu estava pronta, a fantasia era composta por um tipo de colete bem colado e um short bem grudado no corpo, além de um chapéu. Era possível ver a tatuagem enorme da minha coxa e as diversas tatuagens que fechavam o meu braço direito.
Puxei um casaco só para o caso de esfriar, fechei o guarda-roupa e decidi que iria como estava. Já era mais que na hora de as pessoas começarem a aceitar essa nova versão de mim, ou não poderiam mais fazer parte da minha vida.
— Vamos?
Adam me encarou enquanto eu descia as escadas.
— Só se for agora. — Han respondeu animada.
Eu não queria estragar a noite de ninguém, mas não estava tão animada quando eles — por motivos óbvios — então apenas assenti dando a entender que já poderíamos ir.
A festa iria começar às nove horas e o relógio estava marcando 10 para as nove quando saímos da garagem. Ou seja, iremos ser os primeiros a chegar muito provavelmente. Deixei que Adam dirigisse, estava muito nervosa para pegar no volante. Vasculhei minha bolsa e peguei alguns comprimidos receitados pelo meu terapeuta da Califórnia, eles estavam acabando e eu sabia que isso significava ou voltar a me consultar com a Dra. Sullivan, ou procurar um novo terapeuta, mas isso era preocupação para outra hora.
Os encarei e desisti de tomar. Aumentei o som do carro que estava tocando uma música qualquer, me recostei na janela e observei a cidade.
Quando Adam embicou o carro na frente da garagem, meu coração disparou. Pela primeira vez em dois anos eu passaria mais de cinco minutos nesta casa e também estaria presente no aniversário do meu irmão mais novo, era tudo muito estranho, afinal meu plano nunca foi voltar até a manhã na Califórnia em que recebi uma ligação da minha mãe praticamente implorando.
Meu namorado e minha amiga entraram primeiro, depois de eu arrumar a desculpa que precisava ligar para uma pessoa. Minha sorte é que os dois não me questionaram, me conheciam mais do que ninguém para saber que eu precisava de um tempo sozinha para digerir o que estava prestes a fazer ou lidar. Certamente eles eram as melhores pessoas na minha vida, muitas vezes eu não saberia o que fazer sem eles, me entendiam, acima de tudo, até nos meus piores momentos.
Liguei o rádio e apertei o botão até parar em nada menos que: Nobody’s Home da Avril Lavigne.
Fechei meus olhos e recostei a cabeça no banco do carro.

A chuva caía forte e insistentemente lá fora. Já eram quase quatro horas da manhã e eu não conseguia dormir, Rian me prometeu que estaria em casa no máximo meia-noite e mais uma vez fui estúpida o suficiente para acreditar na palavra dele.
Me revirei na cama algumas vezes e decidi levantar para ir atrás dele. Andei até o closet e enquanto escolhia uma roupa quente para sair no tempo horrível, deixei que as lágrimas caíssem descontroladamente, eu estava tão cansada emocionalmente, fisicamente… Era um cansaço insuportável.
Desci as escadas rapidamente enquanto tentava limpar meu rosto, mas as lágrimas não paravam de cair. Caminhei até a mesinha da sala de entrada para pegar as chaves do meu carro, quando escutei a porta de entrada bater com força, fazendo com que eu me virasse bruscamente para olhar. Hunter estava carregando Rian que parecia visivelmente sem condições de se segurar em pé.
— Droga, , você deveria estar dormindo. — Hunt disse enquanto tentava se equilibrar para manter meu irmão em pé.
Meus olhos se fixaram em Rian, eu estava gritando por dentro. Mais lágrimas caíram. Ele estava com as roupas sujas e o cheiro de bebida que exalava dele era muito forte. Engoli em seco e fiz sinal para que Harry o levasse para sala e caminhei em direção a cozinha. Como sempre fazia todas as noites em que ele chegava assim, aqueci um pouco de água e procurei alguns panos no armário da dispensa.
Enquanto esperava a água esquentar peguei um pouco de açúcar e água, estava muito nervosa e não poderia perder o pouco de controle que ainda tinha. Prometi que ficaria ao lado dele de qualquer jeito, não poderia quebrar minha palavra. Coloquei um pouco de água e açúcar no copo.
Tomei um gole e escutei Rian soltar uma gargalhada. Como se toda a situação tivesse alguma graça.
Me desabei a chorar, simplesmente não aguentei mais. Antes que eu notasse, estava sentada no chão chorando descontroladamente, o copo que eu estava segurando se estilhaçou no chão e eu não tinha estrutura nenhuma para sair dali sem que alguém me ajudasse.
! — Escutei Hunter gritar.
Ele desligou o fogo e andou na minha direção.
— Hunt... — sussurrei entre soluço.
— Sinto muito. — Hunter abaixou e me pegou pelos cotovelos, fazendo impulso para que eu me levantasse. — Eu devia ter levado ele para outro lugar.
Me abraçou.
— Tudo bem... — falei e o soltei. — Vamos, tenho que limpar ele.
O caminho até a sala foi em completo silêncio, enquanto eu andava, pedi mentalmente para que Rian permanecesse quieto quando eu fosse limpar ele, porque estava tão descontrolada que não fazia ideia de qual poderia ser minha reação. Talvez eu simplesmente ignorasse — como costumava fazer — ou talvez eu perdesse completamente a cabeça.
Não tinha certeza.
Ele estava jogado no sofá com a cabeça inclinada para trás e com um sorriso no rosto. Sua expressão era de pura felicidade e isso era como uma ofensa para mim. Respirei fundo e caminhei em direção a ele que saiu da posição em que estava e lançou seu olhar para mim, ignorei totalmente e fiz sinal para que Hunter ficasse próximo de nós, caso ele fizesse algum movimento brusco. Afinal, quando ele estava drogado, não sabíamos qual reação poderia ter.
— Rian, por favor. Fica quieto — falei enquanto passava o pano em sua testa.
Ele estava se mexendo para dificultar que eu o limpasse. Seu senso de humor quando estava sob efeito de drogas era algo irritante.
— Você parece triste, . — disse calmamente.
Não respondi nada e continuei o que estava fazendo.
— Pare. — pediu.
— Você está sujo.
— Pare, por favor. — implorou, dessa vez.
— Não, você está sujo e drogado. Não tem nem noção do que está acontecendo. — falei irritada, mas ele segurou meu braço com força.
No mesmo instante, Hunt interviu segurando a mão dele e me puxou para longe. Os dois se encararam, Rian estava com uma expressão péssima, daquelas que ele tem quando não gosta de alguma coisa e sempre que ele olha para nós assim logo em seguida tem algum tipo de surto ou age de maneira agressiva.
— Price, sempre defendendo a . — Ele riu debochado.
— Rian, não começa. A só quer te ajudar, não piore as coisas. — Hunt pediu.
— O que um par de pernas não faz, não é mesmo? — Meu irmão gritou e levantou bruscamente do sofá andando na minha direção.
Ele pegou meu braço com tanta força que soltei um gemido de dor na mesma hora. Olhei para o meu melhor amigo, dando a entender que não queria que ele fizesse algo. Rian estava agindo assim por não estar sóbrio, mas sabia que ele jamais me machucaria.
— Ri, para de dizer essas coisas. — pedi com calma.
— O quê? Você pensa que eu não sei das transas de vocês? — gritou.
Tudo aconteceu muito rápido, de repente fui jogada contra a parede e ele estava apertando meus ombros e me encarando. Minha reação foi rápida e não intencional, minha mão acertou contra o rosto dele com tanta força que fez com que meu irmão se afastasse. Eu nunca, jamais tinha encostado a mão nele.
Rian me olhou assustado.
Hunt como sempre fez as coisas como eu pedi e não moveu nem um dedo para encostar em Rian. Olhei à minha volta, a sala toda decorada com móveis perfeitos, enfeites de cristal. Seria o sonho de qualquer pessoa viver neste “paraíso”, pois eles não sabem que aqui se tornou o verdadeiro inferno.
Eu estava vivendo um inferno acordada.
Peguei uma peça de cristal em formato de elefante que estava na mesa de centro e joguei longe. Ela se chocou com a parede e quebrou em vários pedaços, fazendo um estrondo enorme, provavelmente, à esta altura, meus pais já estavam acordados se estivessem em casa. A sensação era tão libertadora que peguei mais algumas coisas e comecei a jogar em direção a parede, arranquei os quadros dela e joguei no chão, derrubei os porta-retratos em cima da mesa no chão e puxei as cortinas para que elas se desprenderam.
Eu estava completamente descontrolada. Explodindo de raiva ao mesmo tempo, em que me sentia aliviada, tinha acabado de atingir meu limite. Comecei a quebrar tudo que encontrava na minha frente, apesar de saber que o que estava fazendo era completamente irracional e errado, eu não conseguia parar, eu era uma bomba e ela estava prestes a explodir por completo.
Rian era responsável por isso, ele precisava ver o que estava fazendo comigo. Que estava me destruindo a cada atitude sem pensar que tomava. Eu não me importava, só queria causar nele a mesma dor que vinha sentindo todos os dias que precisava passar ao lado dele.
, PARA! — Senti os braços de Hunter a minha volta enquanto ele gritava.
— Me solta! — implorei.
Gritei tão alto que minha garganta doeu.
Ele me virou para ele, seus olhos estavam confusos e chocados com o que acabara de presenciar.
— Para, por favor. Estou aqui, está tudo bem. — Hunt disse calmamente enquanto segurava meu rosto.
Era tarde, eu estava completamente destruída, não tinha sobrado nada dentro de mim além de dor e raiva.
— Tudo bem, estou bem. Pode me soltar. — falei calmamente, mesmo estando furiosa por dentro.
Rian me encarava perplexo.
— O que foi? Você pensou que só você poderia destruir onde pisa? — gritei.
Estava descontrolada novamente. Era incrível como a presença dele estava acabando com quem eu realmente era.
— Não é de caos que você gosta, Rian? É caos que você vai ter, porra!
, para com isso!
Hunter me segurou, eu queria partir para cima do meu irmão. Dar umas porradas nele, que meus pais já deviam ter dado há muito tempo.
— Sinto muito. — escutei Rian falar baixinho.
— Não, não sente porra nenhuma! — gritei.
Os braços de Hunt impediam que eu chegasse perto do meu irmão.
— RESPIRA! — Hunter gritou tão alto que faz com que eu tomasse um susto.
Finalmente me dei conta do que tinha acabado de acontecer. Eu não tinha mais condições de sustentar aquilo, meu irmão precisava ir para uma clínica, era eu ou ele nesta casa. Um de nós precisava ir embora. Minha cabeça estava doendo como se alguém tivesse me dado uma porrada, eu me sentia tonta e com vontade de vomitar. Um sentimento horrível tomou conta de mim, eu só queria sentar e chorar até não poder mais, mas não foi isso que fiz.
Virei de costas para os dois, respirei fundo e limpei as lágrimas que ainda estavam caindo. Meu corpo doía, minha respiração estava acelerada e o aperto no peito era incontrolável, eu não tinha mais forças para nada.
— Leva ele embora. — falei finalmente.
— O quê? — Rian perguntou confuso.
Ele só podia estar de brincadeira comigo, porra.
... — Hunt sussurrou meu nome.
— Agora. — pedi e me virei.
Minha expressão era de ódio e eu não me importei.
— Tira ele da minha frente, não quero vê-lo nunca mais. Estou cansada de ser atropelada pelos problemas dele. O que acontecer, não é mais problema meu.
Saí andando, sem me importar com o que acabara de dizer.

Desliguei o som e saí do carro.
Eu precisava muito de uma bebida depois da lembrança que tinha acabado de ter. Aquela noite foi uma das piores que tive com Rian, eu me sentia mais culpada do que nunca sempre que me lembrava, no momento em que explodi com ele, senti que aquilo era justo, porque eu já tinha aceitado muita coisa por parte dele. Contudo, hoje eu sentia que fui egoísta por um lado com ele, apesar de minha terapeuta sempre me dizer que foi uma reação completamente aceitável considerando todas as coisas que eu estava passando. Nunca concordei.
Espantei qualquer pensamento sobre meu falecido irmão para longe e entrei na casa.
Mike não estava contente só em usar o enorme salão e a área aberta da casa, ele também decidiu usar toda a casa para receber os convidados e fazer sua festa. O lugar estava todo decorando com diversos temas para uma festa a fantasias, desde coisas que lembravam uma festa de Halloween até coisas de personagens da Marvel e DC, além de toda a decoração a entrada também tinha algumas luzes que deixavam o ambiente com uma iluminação mais amena.
Entrei no salão central.
Já tinham alguns amigos de Mike — nenhum conhecido por mim — e fiquei feliz por ninguém ficar me encarando. O lugar estava cheio de luzes piscando e tinha uma enorme mesa de DJ, a música que estava tocando não era nenhuma conhecida por mim, mas era bem agitada e as poucas pessoas que se encontravam ali já estavam dançando. Tudo estava realmente bonito e bem planejado, eu não poderia negar, meu irmão tinha bom gosto para fazer festas desde que éramos mais novos, de fato, os aniversários dele sempre foram mais bem elaborados que os meus.
Vi que do lado de fora estavam servindo bebidas — eu estava implorando por uma — e atravessei o enorme salão me dirigindo para o enorme espaço aberto onde tinha a piscina. Lá tinham diversas mesas para que os convidados pudessem ficar à vontade, a piscina estava aberta para quem quisesse usar e também já tinham algumas pessoas ali, pelo jeito eu, Hannah e Adam não tínhamos sido os únicos a chegar cedo na festa. Avistei os dois conversando um pouco mais próximo da piscina.
Enquanto andava até eles, um dos garçons me ofereceu um copo de champagne — algo estranho para uma festa dessas — mas, aceitei de bom grado. Sem dúvidas a bebida sofisticado tinha sido ideia da minha mãe, algo que meu irmão com certeza tentou dissuadi-la, mas não funcionou.
Dei um longo gole na minha bebida.
— Ei. — Adam falou assim que me aproximei, ele envolveu um braço na minha cintura e beijou minha testa. — Tudo bem?
— Tudo ótimo. — abri um meio sorriso.
Eu estava mentindo, mas era melhor assim.
— Uau, , sua casa é maravilhosa! — Han falou observando todo o lugar.
Sorri para ela.
— A casa dos meus pais. — a corrigi, aqui de fato não era minha casa.
— Você acha que o resto do pessoal vai vir? — Adam perguntou tentando puxar assunto.
— Ah sim, acredito que todo mundo deve vir, segundo a Eleanor meu irmão faz “parte do grupo” agora.
Dei outro longo gole na minha bebida, o que esvaziou minha taça.
— O quê?
Adam me olhou confuso.
— Pois é. — revirei os olhos. — Vou pegar mais bebida, já volto.
Deixei os dois onde estavam e fui atrás da minha bebida, que também era uma desculpa para ter um pouco mais de espaço para mim.
Não demorou muito para que a casa começasse a ficar lotada e eu já estiver na quarta, ou quinta taça de champagne. Pensei em voltar para onde Adam e Han estavam, mas decidi aproveitar um pouco mais o ambiente e o espaço da festa, os dois ficaram me perguntando como eu estava me sentindo e isso não era o que eu precisava agora.
Passou pela minha cabeça que eu não deveria estar bebendo, porque psicológico abalado e bebida junto, não combinam. Contudo, eu preferi não pensar muito, queria aproveitar a festa, por isso caminhei até o bar, aonde vi que Eleanor estava sentada conversando — ou dando em cima — de algum barman desconhecido. Assim que me aproximei, ela abriu um sorriso largo e envolveu seus braços magros em volta do meu pescoço, retribuí o abraço e pedi ao moço que me desse uma dose de tequila e me preparasse uma caipirinha. El estava linda, usando uma fantasia de Alice, com seus cabelos loiros e longo soltos e uma maquiagem preta levemente esfumada.
Assim que meu shot de tequila chegou, o virei sem fazer cerimônia e peguei minha caipirinha. Ouvi minha velha amiga dizer algo sobre “vai com calma, ”, mas ignorei e me dirigi até a pista de dança, eu já devia estar rodando pela casa há alguns minutos e ainda não tinha visto o dono da festa — meu irmão. Olhei em volta e procurei por ele, mas não o vi, o que meus olhos encontraram foi outra pessoa que desejei desde o início do dia que não tivesse sido convidado. Hunter me avistou, abriu um sorriso largo e começou andar na minha direção. A cada passo dele, meu coração acelerava e eu sentia que minhas bochechas estavam pegando fogo.
. — Hunter disse meu nome calmamente.
Deu um gole na minha bebida e continuei me movimentando na pista.
, sério, já está ridículo esse negócio de ficar me ignorando.
— O que você quer, Hunter?
Eu nem deveria me dar o trabalho de entrar no jogo dele, mas eu sabia que ele era insistente o suficiente para não desistir.
— Conversar, talvez?
Ele me encarou, fazendo com que meu coração disparasse ainda mais.
— Não temos nada para conversar. — respondi com sinceridade.
— Deixa-me adivinhar, seu namoradinho frouxo deve estar por aí, acertei?
Ele abriu um sorriso largo.
— Vai se foder e me deixa em paz, Hunter.
O deixei falando sozinho e saí o mais rápido possível de lá. Continuar a evitá-lo era o meu plano e era isso que eu ia fazer antes de tomar qualquer decisão estúpida como acabar beijando-o ou até transando. Terminei de tomar o último gole da minha bebida, deixei o copo no bar e volte para a pista de dança bem na hora que começou a tocar I Don’t Disappoint do Jay Park em uma versão mixada e senti alguém envolver os braços atrás de mim.
Era Seth. Ele estava fantasiado do que parecia ser um agente secreto do filme Sherlock Holmes, com uma camisa branca bem apertada que mostrava bem seus músculos, calça preta colada, um suspensório e um chapéu que o deixava ainda mais bonito. Ele sorriu para mim e me puxou para que dançássemos juntos, dei risada e me juntei a ele ao ritmo da música bastante sensual.
Não demorou muito para que Eleanor se juntasse a nós, ela nos acompanhou na dança mostrando que não tinha perdido o jeito desde que fui embora. Avistei Adam e Han um pouco mais longe de nós na pista e fiz sinal para que eles se juntassem a nós. Me entreguei a música e puxei Adam para dançar comigo, ele sempre era muito tímido e eu de certa forma achava até engraçado, porque ele era meu namorado, não deveria ter vergonha de dançar comigo, nem o Seth que é meu amigo tem.
A música acabou e começou a tocar uma eletrônica muito boa, todo mundo começou a pular na pista de dança e as luzes que invadiam os espaço estavam me deixando muito zonza — além do álcool — e para completar aquelas fumaças de ambiente começou a invadir o local, junto com uma luz branca que tornava a minha visão simplesmente impossível. Segurei a mão de Adam para me equilibrar — pelo menos achei ser a mão dele — mas dei conta de que não era, quando vi que estava pegando a mão de outro cara.
— Desculpa. — falei ao ver ele se afastar.
Se eu não conseguia nem reconhecer a mão do meu namorado, com toda certeza eu estava bem alterada para estar na pista de dança e precisava tomar água e um pouco de ar. Saí de lá com um pouco de dificuldade por causa de todas as pessoas que estavam aglomeradas, sempre achei a casa grande, mas naquele momento senti que ela tinha diminuído umas cem vezes de tamanho. Quando finalmente alcancei o de entrada me senti aliviada, não tinha me dado conta do quanto estava quente lá dentro.
Senti vontade de ir ao banheiro e olhei para o andar de cima da casa. Tinha banheiro no andar de baixo, mas eu teria que atravessar novamente toda aquela multidão, então minha única escolha — a pior — era ir no do andar de cima e ignorar só uma vez a minha aversão a estar no segundo andar da casa. Minhas pernas doíam a cada degrau e foi um alívio chegar lá em cima, olhei um pouco o corredor que para ambos os lados davam acesso para os quartos e um banheiro, a parede ainda tinha a mesma cor areia e ainda tinham quadros de fotos de família presos nela.
Foi ao lado contrário de onde era o meu quarto e do Rian, caminhei lentamente para poder observar melhor o lugar. Passei toda minha infância nessa casa é toda minha adolescência, mas por algum motivo eu me sentia uma estranha ali, como se eu não fizesse mais parte deste lugar. Meu coração se apertou por um instante, vivi muitos momentos ruins, mas tinha vivido muitos momentos bons — os quais muitas vezes senti vontade de reviver.
Cheguei na porta do banheiro e rodei a maçaneta, senti uma força rodar comigo e dei de cara com o cara que eu tinha pegado a mão.
Uma risada alta saiu sem querer. Parecia que o jogo tinha virado e quem tinha invadido o banheiro era eu.
— Qual a graça? — o estranho, amigo do meu irmão perguntou.
Respirei fundo, não era hora para ataque de riso.
— Desculpa, é só que...
Procurei as palavras, mas não encontrei.
— Banheiros devem ser o nosso lance. — o garoto abriu um sorriso.
Notei que ele estava fantasiado de policial também, o que me fez rir um pouco, sempre que eu o encontrava parecia que tudo era uma coincidência. Analisei um pouco ele, a roupa realçava seu corpo e foi o único momento que percebi que ele era bem mais alto do que eu, com mais de um metro e 80.
Ele me encarou, esperando uma resposta.
— Ah, acho que sim, — concordei.
Ele riu.
— Sou . — disse e estendeu a mão para mim.
— Sou , irmão do Mike. — respondi e apertei a mão dele.


.
Processei o nome dele e o encarei por um momento. Não tinha mais nada para ser dito e até pareceu que ele conseguia ler meus pensamentos, pois fez um aceno de cabeça e seguiu em direção à escada e entrei no banheiro, já estava mais apertada do que nunca. Me sentei no vaso e foi um alívio sentir que a dor na minha barriga estava sendo aliviada, está aí um dos meus piores hábitos, sempre deixar para ir ao banheiro quando a bexiga está quase explodindo.
Depois de dar descarga, andei até a pia e encarei minha imagem no espelho bem acima dela. Minha pupila estava um pouco dilatada, minhas bochechas bem vermelhas e meu cabelo parecia um pouco desarrumado, então tirei o boné para poder arrumar o cabelo e refrescar um pouco. Me encarei por alguns instantes, eu tinha mudado muito nos últimos dois anos, minhas feições estavam bem mudadas. Parecia mais séria, meus olhos até pareciam de um azul um pouco mais claro e meus lábios mais carnudos.
Talvez fosse a bebida.
Prendi o boné no cinto do short, passei as mãos pelos cabelos e saí do banheiro. O ar parecia muito mais fresco do lado de fora agora, mas eu ainda me sentia um pouco tonta por causa das taças de champanhe que tinha tomado, além da caipirinha e a dose de tequila. Sei lá, acho que eu não estava na festa nem há duas horas e já tinha bebido mais do que o suficiente, sem passar por nenhum tipo de jogo que costumava ter nessas comemorações, como: beija e passa, verdade ou desafio, ping-pong com bebida… Nada, minha bebedeira era só consequência dos meus próprios demônios.
Meus pés me levaram ao meu antigo quarto antes que eu me desse conta. Respirei fundo e observei um pouco o ambiente, tudo parecia estranhamente igual, mas, ao mesmo tempo, muito diferente. Minha cama ainda ficava entre as duas portas da varanda, minha escrivaninha bem à frente dela fazendo um L com a parede da minha esquerda, mas a pintura estava diferente. Apesar de a luz estar apagada, eu conseguia notar que o quarto tinha sido pintado por uma cor mais neutra, provavelmente obra da minha mãe, ela sempre odiou meu gosto por cores mais pesadas.
Caminhei lentamente até minha escrivaninha e corri meus dedos sobre ela, senti meu corpo todo se arrepiar. Todas às vezes em que pensei neste lugar, nunca foi de uma maneira boa, eu não vinha aqui desde a morte de Rian quando passei a dormir em um quarto que tem no primeiro andar casa. No dia em que mudei, quem separou minhas coisas foi minha mãe depois de tanto eu implorar e fazê-la entender que ainda não estava pronta para estar no segundo andar da casa. Minhas mãos pararam em um porta-retrato meu e de Mike, estávamos na Disney, nossa primeira viagem juntos e completamente sozinhos. Sem pais, sem irmão mais velho.
Coloquei o porta-retrato de volta.
Na varanda, tudo ainda estava perfeitamente igual, com uma mesinha que eu sempre usava para colocar algumas coisas para eu comer, sem ter que sair dali e uma poltrona para lá de confortável que eu passava muitas horas do dia lendo ou ensaiando minhas notas. As lembranças pareciam tão distantes, mas os sentimentos ainda estavam muito vivos em mim, quase como se cada uma delas fosse quase tangível. Me aproximei da grade e me debrucei sobre ela observando os vários jovens que tinham no jardim e na piscina. Mais lembranças se passaram pela minha cabeça.
Me virei quando escutei passos atrás de mim.
— Desculpa, não quis te assustar. — A voz de Hunter invadiu o ambiente silencioso.
O encarei.
— Meu Deus. — falei em tom de repreensão. — Será que você, não sabe interpretar uma rejeição?
Hunter riu, ao menos o senso de humor dele não tinha mudado.
— Você voltou há duas semanas, duas semanas, .
Ele estava encostado no batente da porta, com as mãos no bolso da calça de sua fantasia de marinheiro.
— Não acha que eu merecia mais do que você sair andando naquela festa?
Suspirei.
— Hunter, eu...
Minhas palavras fugiram do meu alcance.
— Não, não, . — Hunter deu um passo na minha direção. — Éramos melhores amigos, antes de toda essa merda, éramos melhores amigos, porra. Dane-se esse lance de amor, você era a minha pessoa e só isso importava.
Um sorriso se formou no meu rosto, quase que involuntariamente.
— Éramos? — perguntei rindo.
Hunter era meu ponto fraco, não só fisicamente, mas sentimentalmente também. Ele estava comigo nos piores momentos que passei com Rian, se eu precisasse chorar, gritar ou simplesmente permanecer por horas em um silêncio enlouquecedor, ele estava lá comigo. Sempre esteve, minha pessoa favorita nesse mundo, depois do meu irmão.
— Cala boca — falou e andou até mim.
Meus braços envolveram o pescoço dele tão rápido que foi como se inconscientemente eu estivesse esperando por isso desde a primeira vez que nos reencontramos. E lá estava eu mais uma vez, quebrando outra promessa que fiz comigo, me manter o mais longe possível de Hunter Price era o meu maior objetivo desde que voltei para Nova York, mas eu sabia que seria impossível. Ele nunca foi de aceitar um não de cara ou simplesmente deixar as coisas de lado, confesso que eu também não, porém minha relação com ele não envolvia só nós dois, mas Steph também.
Hunt me soltou, colocou a mão em meu rosto e me encarou por alguns instantes.
— Estou com a Steph. — disse com sinceridade.
O encarei, não era o que eu estava esperando ouvir.
— Ah... — foi a única coisa que consegui dizer.
— Desculpa, eu não queria falar assim. — explicou.
— Não, tudo bem. — Abri um sorriso sincero. — Estou feliz que tenha sido sincero comigo e também estou feliz que esteja com ela.
Eu realmente estava feliz por eles. Apesar de ainda me sentir fisicamente atraída por Hunter, isso não era o suficiente para me fazer pensar na possibilidade de ter algo com ele além da amizade, eu queria que as coisas entre nós dessa vez fossem diferentes, não podia arriscar perdê-lo como da última vez.
Meus olhos se voltaram para o andar debaixo por um momento e vi Adam olhando para a varanda onde eu estava. Engoli em seco e desviei o olhar rapidamente, as coisas não estavam nada bem entre nós e ele me ver com Hunter não era nada bom. Me afastei um pouco de Hunt e me sentei no sofá para descansar um pouco, olhei novamente e meu namorado já não estava mais parado nos encarando.
Só esperava que ele não resolvesse subir até o quarto.
— Steph não me contou sobre vocês. — comentei. — Pensei que as coisas estivessem bem entre nós, mas estou vendo que não.
Soltei a respiração que nem tinha notado estar segurando e lancei meu olhar para ele, que se sentou ao meu lado.
— Eu pedi para ela para contar.
Olhei surpresa.
— Pensei que seria melhor, quando você foi embora pensei muito sobre tudo que aconteceu. E não queria que você pensasse que íamos cometer os mesmos erros. — fez uma pausa e apertou os olhos, como se estivesse procurando as palavras. — Aquele dia na festa, eu ia te contar, mas você saiu correndo igual uma doida, como se eu fosse te atacar, ou sei lá o quê.
Soltei uma gargalhada.
— Você tem que entender que autocontrole não era muito a nossa. — ri de novo. — Ah meu Deus, eu senti falta disso.
Hunter riu junto comigo.
— Você tem que parar de chamar o Adam de frouxo. — acrescentei.
, você ao menos o ama? — Hunter me olhou bem nos olhos. — Não estou falando sobre nós, estou falando de você. É isso que você quer? Ele é o cara que você deseja para sua vida?
Meus olhos encaram os de Hunt e abri meus lábios para responder, mas parei ao escutar passos vindo do quarto.
? — a voz de Adam invadiu meus ouvidos.
Só podia ser brincadeira, puta que pariu. Agora ele vai seguir cada passo que dou?
— Adam? O que você tá fazendo aqui?
— Vi você lá do jardim, aqui com ele.
Ele me encarou sério, esperando por algum tipo de explicação.
— E?
— E, que você me largou na festa sozinho para ficar aqui com esse cara. É sério isso, ? É assim que você quer mudar?
Mudar? Caralho.
— Porra. — gritei. — Você nem sabe o que está acontecendo aqui, eu não vim aqui para ficar... Quer saber? Não tenho que te dar explicação de cada coisa que eu faço. Isso já está ridículo, Adam.
Hunter permaneceu em silêncio, enquanto tínhamos uma DR bem na frente dele. Seria quase cômico se não fosse trágico. Entendo a insegurança dele, mas me tratar como se fosse meu dono é algo bem diferente e que eu nunca vou aceitar.
Meu celular tocou, me impedindo de falar mais alguma coisa. Era uma mensagem de Hannah.
— É a Hannah, ela me chamou para ir ficar com uma galera lá na sala de jogos. — falei e sai andando, a discussão já estava mais que ridícula e não tinha mais nada para ser dito.

Eu estava com tanta raiva da atitude de Adam que só no caminho até o salão de jogos do lado de fora da casa eu consegui tomar mais duas taças de champagne. Cheguei tão rápido que até fiquei surpresa, meus nervos estavam à flor da pele e eu precisava me acalmar antes que acabasse descontando em alguém. Respirei fundo, rodei a maçaneta da porta, entrei e logo dei de cara com Mike pegando algumas cervejas na geladeira do bar da sala. Fiz menção de me aproximar, mas ele apenas desviou o olhar de mim e andou em direção a uma galera sentada nos puffs espalhados pelo chão.
Além dele e Hannah — que eu conhecia, Steph, Eleanor e Seth também estavam lá, todos, próximos uns dos outros. Tinha mais uma galera eu não conhecia ou talvez não o suficiente para me lembrar, todos bebendo e rindo de alguma coisa que eu estava totalmente por fora por ter acabado de chegar. Peguei uma cerveja na geladeira e me dirigi até um puff perto de Han, que abriu um sorriso enorme para mim como resposta de que estava se divertindo.
Ao menos alguém estava achando a festa animada.
Não demorou muito para que Hunter e Adam entrassem na sala juntos. Desviei meu olhar rapidamente dos dois e aproveitei para me concentrar em um garoto moreno que estava explicando um pouco sobre o que íamos jogar. Pelo que eu estava entendendo, tinha uma roleta onde eu ia ter uma pergunta e atrás dela um desafio, se eu acertasse a resposta não teria que cumprir o que estava sendo pedido, mas se eu errasse precisaria fazer o que estava sendo mandado ali. Todos ali pareciam já ter jogado aquilo, exceto por mim e talvez Hannah, eu não tinha certeza.
O jogo começou e logo de cara uma garota errou a pergunta e o desafio foi que ela colocasse uma música e fizesse uma dança sensual. Não demorou muito para que já estivesse rolando alguns beijos, amassos e até alguns já estarem bem mais bêbados por ter tomado alguns shots de bebidas, também tinha que beber caso errasse a pergunta. Então, além de você ter que fazer algo impróprio, tinha que fazer bêbado.
Quando chegou a minha vez, fiquei feliz em acertar a pergunta e não precisar tomar nada, ou ter que me enfiar em algum tipo de enrascada.
Meus olhos cruzaram o de Adam que não disfarçava nem por um momento que estava irritado por ter me encontrado com Hunter e que também não queria que eu estivesse jogando.
— Não vou fazer isso. — escutei Han dizer.
Ela tinha acabado de errar a pergunta e Seth a tinha desafiado a pular na piscina só de calcinha e sutiã, o pior não era ficar com roupas íntimas, mas sim pular naquela água gelada a essa hora da madruga.
Mas ela fez.
Já estava na minha vez de novo e quem ia rodar a roleta para mim era , enquanto o negócio rodava ficamos nos encarando, só esperando o que poderia vir. A merda da pergunta era difícil e errei de cara, teria que fazer o desafio dessa vez, sem chance de dizer não.
— Fala logo. — pedi e Han que estava com o desafio na mão, enquanto ria.
— Você só precisa tirar esse colete aí — Han riu apontando para ele.
Meus olhos cruzaram o de Adam, que estava com o maxilar contraído e os olhos fixos em mim. Era só um jogo idiota, todos ali eram amigos e era como estar de biquíni, então tirei o colete. Mas, por um momento desejei que tivesse colocado uma blusa por baixo, poderia usar isso ao meu favor agora. Senti olhos curiosos me encararem e ignorei, até parece que os caras que estavam ali nunca tinham visto um par de peitos, talvez não os meus, mas peitos são peitos.
Ri do meu pensamento.
— Boa, , os silicones são ótimos nessas horas. — Han sussurrou para mim, me fazendo rir.
— Próximo. — Adam disse do outro lado.
Uma hora de jogo e todo mundo já estava completamente bêbado. Contando comigo que já tinha entrado no jogo alterada, e já tinha feito algumas coisas — fora o colete — tinha dançado, me jogado na piscina, tomado dois shots de tequila e dançado com Seth que mal conseguia se segurar em pé, não que eu conseguisse também, já tinha bebido demais. A roleta parou em mim de novo e dessa vez eu queria muito acertar, apesar de estar me divertindo demais, me sentia muito cansada para sair do meu puff macio.
Pela cara da Han que rodou a roleta para mim, eu tinha errado a pergunta e vinha desafio por aí. Bufei e fiz sinal para que ela falasse de uma vez o que eu tinha que fazer. Minha amiga resolveu me torturar um pouco e primeiro mostrou para todo mundo qual era o desafio, para só quando ameacei arrancar da mão dela, ela finalmente abrir a boca.
— Você tem que ficar dentro da despensa, com a pessoa que está na sua frente. — Han disse finalmente. — Por 10 minutos.
estava na minha frente, sem camisa a propósito.
— O quê? — engoli em seco.
— Quem fez essas regras mesmo? — perguntei rindo e El levantou a mão.
Lancei um olhar de ódio fingido para ela, que riu.
— Não vale não fazer, não é nada, é só ficar lá 10 minutos. — Seth disse rindo.
Às vezes odeio ele.
— Tá, tanto faz. — respondi finalmente e pareceu surpreso, com a minha decisão.
— Tá bom, então. — ele disse e se levantou.
Adam me encarou, mas desviei o olhar.
— Nada de luz acesa hem? — alguém gritou e eu apenas revirei os olhos.
O caminho até a dispensa pareceu uma eternidade para mim e eu estava tentando calcular na minha mente como ficaríamos lá dentro daquele lugar quase minúsculo, cheio de coisas, sem que ficássemos tão grudados. Enquanto eu pensava em Adam, também queria aproveitar a sensação que percorria em mim, era uma mistura de nervosismo e animação. Já fazia muito tempo desde que eu tinha ido em alguma festa onde eu fizesse coisas desse tipo ou sentisse que poderia ser eu mesma.
Era o álcool falando, sem dúvidas.
Entramos na casa e ela já estava praticamente vazia — exceto por alguns bêbados — e comecei a pensar que horas eram, sem dúvidas já tinha passado das duas horas da manhã. permanecia em silêncio enquanto caminhávamos calmamente até a cozinha onde ficava a despensa e eu resolvi fazer o mesmo, talvez estivesse tão nervoso quanto eu, ou só não quisesse conversar mesmo, era difícil saber. Desde que o conheci ele sempre teve uma expressão impassível, como se não fosse capaz de demonstrar o que estava sentindo.
Quase um mistério para mim.
Lembrei sobre alguém ter dito nada de luz acesa e comecei a curtir a ideia, deixar só a luz da lua que passava pelas janelas de vidro pareceu uma boa ideia para mim, considerando que eu ia ficar em um armário extremamente apertado com um cara desconhecido — quase, na verdade — e sem blusa. Enquanto eu rodava a chave da porta, comecei a considerar que tinha sido uma má ideia estar ali e que eu tinha um namorado, um que só pensava em querer me mudar, mas que era meu namorado.
Joguei o pensamento para longe.
— Você sabe que não precisamos entrar na despensa, né? — me encarou.
— O quê?
Olhei um pouco confusa, tínhamos que cumprir o desafio.
, essa galera aqui está para lá de bêbada, podemos só ficar aqui os 10 minutos e eles nem vão saber.
— Por que não me disse isso antes?
O encarei.
— Eu queria sair um pouco de lá e como estavam todos bêbados, incluindo você, e não perceberam que ninguém ia saber se íamos mesmo ficar dentro da despensa. Aproveitei — respondeu quase rindo.
— Ah, valeu.
Ele piscou para mim e soltei uma risada de nervoso, estava tão bêbada e com tantos pensamentos na minha cabeça, que nem tinha me dado conta de que ninguém tinha vindo junto para saber se íamos mesmo cumprir o desafio. Mas, me senti um pouco desanimada por um momento, o fato de estar prestes a entrar em uma dispensa só para cumprir algo de uma brincadeira idiota me trazia lembranças da minha adolescência, além de ficar em um lugar calmo, sem muitas pessoas a minha volta.
— A não ser, que você queira.
parecia estar lendo a minha mente.
— Tenho uma ideia. — falei e andei até o freezer.
Se era para ficarmos 10 minutos dentro daquela despensa, ao menos íamos fazer isso com um pouco de prazer. Meus olhos brilharam quando vi que o freezer estava cheio de potes de sorvete da Häagen-Dazs, peguei um de sabor baunilha, fechei a porta e peguei duas colheres na gaveta do armário bem a minha direita. Notei que estava me olhando um pouco confuso com o que eu estava fazendo, mas não me incomodei e andei até ele entregando uma colher.
— Se vamos ficar aqui, que seja comendo. — falei e entrei na despensa.
não me disse nada e só entrou atrás de mim, eu me sentei em uma pilha de pacotes de arroz do lado esquerdo e ele em um tipo de baú do lado direito. Abri o pote de sorvete sem demora, peguei um pouco de sorvete e enfiei a colher na boca, assim que senti o gosto da baunilha uma sensação de adrenalina percorreu meu corpo. Para ele, poderia ser algo estranho e talvez até novo, mas para mim era bem comum, costumava fazer muito isso com Rian, nós sempre pegávamos um pote de sorvete na madruga e ficávamos conversando até o sol raiar, era o único lugar da casa onde minha mãe não nos encontrava.
Coloquei outra colher de sorvete na boca e deixei que meus olhos percorrerem o corpo do cara distraído a minha frente. Notei que tinha algumas tatuagens no peito, uma em específico chamou a minha atenção, era um tipo de asa com um escrito não muito nítido da palavra angel. Franzi o cenho por curiosidade e continuei minha observação. Meus olhos pararam na marca do abdômen dele, além de bonito tinha um corpo gostoso.
Ah meu Deus, não posso pensar essas coisas.
Desviei meu olhar assim que ele se virou para mim de novo, seus olhos estavam fixos em mim agora e ao contrário das outras vezes, eles não estavam vermelhos. Sua expressão estava calma e ele parecia estar relaxado de estar em uma dispensa tomando sorvete com uma desconhecida. Por um momento, senti como se tivéssemos uma ligação inexplicável e todos os pelos do meu corpo se arrepiarem.
— Você tá bem?
Eu estava encarando-o demais.
— Bêbada, mas bem. — Ri.
Ele deu um gole na garrafa com vodca que estava segurando e permaneceu me encarando.
— Hum, parece que você está bêbado também. — comentei enquanto tomava meu sorvete.
— É água.
Soltei uma gargalhada com a resposta dele, só poderia estar de brincadeira comigo.
— É sério, pode tomar se quiser.
Claro que era água, se ele realmente tinha problemas com drogas como eu tinha suspeitado mais cedo ao ver as marcas em seus braços, obviamente não poderia estar bebendo, drogas mais álcool nunca dava certo para pessoas assim.
— Surpresa?
— Não, só que agora estou me sentindo mal em ser a única bêbada aqui.
começou a me falar sobre a amizade dele com Mike. Eles tinham se conhecido em um trabalho voluntário que meu irmão estava fazendo em um grupo de ajuda para pessoas com dependência química, era o primeiro dia para os dois e eles logo viram que tinham bastante em comum e desde então se tornaram realmente amigos.
O encarei por uns instantes e as semelhanças entre ele e Rian se tornaram ainda maiores, me fez pensar que Mike talvez estivesse tentando suprir a ausência do nosso falecido irmão, eu não poderia culpá-lo. Os dois eram muito próximos também e faziam muitas coisas juntos, jogavam bola, vídeo game, saiam para paquerar algumas garotas e Rian sempre dava conselhos para ele sobre a faculdade e sexo, é claro.
Apesar da minha péssima relação com Mike, me senti feliz por ele. Era bom saber que apesar de toda dor e tudo que ele precisou passar, tinha encontrado alguém com quem pudesse contar e dividir suas coisas. Mas eu também senti uma pontada de inveja, queria estar no lugar de , poder saber o que acontecia com meu próprio irmão sem precisar perguntar para a minha mãe.
Eu sentia muita falta dele.
— Fico feliz que Mike tenha você. — falei finalmente, para quebrar o silêncio.
— Vocês têm os mesmos olhos. — comentou, me pegando completamente de surpresa.
O encarei por alguns instantes.
— Você tem irmãos? — perguntei, tentando desviar o assunto.
Alguma coisa em me deixava desconfortável, talvez fosse que eu não conseguia decifrar ele como costumava fazer com as pessoas a minha volta.
— Sim, tenho um irmão. — Ele abriu um sorriso largo, de fato, o irmão era bem importante para ele. — Tem oito anos, mora comigo e com a minha mãe.
— Sempre quis ter um irmão bem mais novo.
Baixei meu olhar, meus olhos estavam queimando e por um instante senti vontade de chorar. Ou era pelo fato da minha atual relação de merda com meu irmão, ou era só a bebida mesmo.
— Ei, o Mike ama você, .
Ele colocou a mão em cima da minha e senti todo meu corpo se aquecer.
— Hum, acho que já se passaram muito mais que 10 minutos. — comentei já me levantando e fazendo menção de sair da dispensa.
O ar do lado de fora estava muito mais gelado e a música que estava tocando antes já tinha parado. De fato, tínhamos ficado muito mais do que o tempo do desafio dentro da dispensa. Já tinha acabado todo o sorvete e eu nem havia me dado conta disso, acho que me distraí com toda a conversa e o cara tatuado atraente que dividiu o espaço comigo nos últimos minutos, ou horas.
— Ei. — disse enquanto eu jogava o pote do sorvete fora.
Me virei para olhá-lo.
— Você parece com frio, pode pôr a minha blusa se quiser. — disse saltando-a do cinto em sua calça.
Eu realmente estava morrendo de frio, mas não podia aceitar a blusa dele, eu já tinha passado completamente dos limites, estava ficando sobrea e recobrando minha consciência de que hoje enfrentaria uma briga e tanto com Adam por conta de tudo que aconteceu na festa.
— Não, tudo bem, vou pegar meu colete.
— É só uma blusa, aquele colete não esquenta nada.
Estendeu a blusa na minha direção e a peguei. Minha mão raspou na dele por um instante e senti ele se retrair.
— Obrigada. —agradeci e coloquei a blusa. — Obrigada, por me ouvir lá dentro.
riu.
— O quê?
— Foi uma ótima primeira vez, .
— Primeira vez?
— É, nunca fiquei em uma despensa com uma garota. — Ele riu.
Por um momento, acreditei nele.
— Claro.
ia me dizer algo, mas desistiu quando ouvimos um raspar de garganta. Adam estava parado na porta da cozinha nos encarando, sua cara demonstrava que tínhamos passado totalmente dos dez minutos de desafio.
? — chamei o amigo do meu irmão, antes que ele saísse.
Ele virou e me encarou, já esperando por uma resposta.
— Desculpa, ter gritado com você aquele dia no banheiro.
Ele apenas piscou e saiu da cozinha.
Adam me encarava como se fosse me matar enquanto eu pegava um pouco de água para tomar e abria os armários, igual uma doida. Nós dois sabíamos que eu só estava fazendo isso para evitar a conversa.
— Que porra foi essa, ?
— O quê?
— Você ficou uma hora com esse cara aí dentro, fala sério. — Adam estava quase explodindo.
— Era só um desafio.
Dei a volta nele e coloquei o copo na pia.
— Dez minutos, não uma hora.
— Está exagerando.
— Hunter lá em cima, agora isso, você só pode estar de brincadeira comigo, porra!
Revirei os olhos, eu estava cansada e com dor de cabeça.
— Uau, que festa foi essa!
Hannah entrou na cozinha e tudo que senti foi alívio, essa garota sabe bem como me salvar.
— Vou pegar meu colete e podemos ir embora.
A festa até que não tinha sido tão ruim e aparentemente nem tudo tinha dado errado. Antes de chegar eu tinha pensando em várias coisas, como ter alguma briga com Hunter e Steph, ou até mesmo com meu irmão. Mas, Mike só me ignorou como se eu nem existisse.
Se é que isso não era bem pior, do que brigar.
Atravessei o jardim rapidamente e entrei na sala de jogos, não tinha mais ninguém, além de garrafas espalhadas pelo lugar. Peguei meu colete e estava pronta para sair quando escutei o barulho de passos atrás de mim, dei de cara com Mike recolhendo algumas coisas no chão.
Permaneci parada ali, eu não encontrava as palavras dentro de mim para conseguir falar com ele sobre qualquer coisa ou só fazer alguma pergunta idiota do tipo “você precisa de ajuda?” que ele precisava era óbvio, mas será que ele queria a minha? Duvido muito. Sem dúvidas, Mike ia preferir passar horas limpando isso aqui a ter que ficar mais de cinco minutos comigo.
Como foi que deixei nossa relação chegar a isso? Precisava tomar uma atitude, ao menos uma vez na vida.
— Mike?
Ele permaneceu em silêncio, como se eu nem existisse.
— Mike?
Ele parou o que estava fazendo e olhou na minha direção.
— O que você quer, ?
— Eu só queria agradecer por ter me convidado. — falei calmamente. — Nós nem nos falamos desde que cheguei aqui...
— Não te chamei. — respondeu com sinceridade. — E foi intencional não falar com você.
Andei até ele, que permaneceu estático.
— Mike, foi há dois anos...
Ele bufou.
, vai embora, por favor. — pediu.
Tinha sido um erro tentar falar com ele, mas eu precisava tentar. Não só pela obrigação de sermos irmão, mas, porque também sentia muita falta dele, do que costumávamos ser.
— Tudo bem. — caminhei e me aproximei ainda mais dele. — Feliz aniversário, Mike. — falei e o abracei.
Ele não correspondeu ao meu abraço, então apenas o soltei e sai de lá.

Entrei no banheiro e bati a porta, Adam já estava gritando comigo a mais de meia hora desde que chegamos a casa e eu estava cansada demais para discutir com ele. Tirei a blusa de — um dos motivos da nossa briga — e entrei no chuveiro. Assim que a água quente bateu na minha pele e soltei um suspiro pesado, eu estava toda dolorida e muito cansada.
Eu me sentia estranhamente bem — fora o cansaço —, apesar de ter ficado sem blusa em um armário com um desconhecido, não conseguia ter nenhum sentimento de culpa por ter feito algo que eu queria. Minha relação com Adam já estava desgastada há muito tempo e isso não tinha nada ver com tudo que aconteceu na festa, a questão era que depois — talvez até antes — de Rian eu não era mais a mesma e ele não conseguia lidar com essa nova versão de mim.
Desliguei o chuveiro e respirei fundo, já eram cinco horas da manhã e eu teria que enfrentar mais algumas horas de discussão, minha sorte é que ainda era sábado, então nada de faculdade. Um pouco de estudo talvez, mas depois de toda essa merda eu poderia dormir metade do dia, antes de ter que acordar para estudar quase o dia todo.
Adam estava encostado na escrivaninha, encarando a porta do banheiro.
— Você não vai dizer, nada? — perguntou, sem sair de onde estava.
Passei por ele e andei até o closet, não queria discutir mais nada, minha vontade era só de deitar na cama e dormir o máximo de horas que eu pudesse, minha cabeça estava latejando e meu corpo pedindo por algumas horas de sono.
, estou falando com você. — Adam entrou no closet, já me cobrando explicações de novo.
— Adam, estou exausta, será que podemos falar sobre isso mais tarde?
Coloquei minha blusa de dormir e o encarei.
— Você ficou em um armário, praticamente pelada com um cara desconhecido e quando chego lá, você está cheia de intimidades com ele.
— Ele só me deu a blusa, porque eu estava com frio. Foi só isso!
Passei por ele, já indo de volta ao quarto.
— Quer saber, ? — Esbravejou. — Isso não funciona, nós não funcionamos mais. Você não é mais a mesma pessoa de quando eu te conheci há quatro anos.
Me virei para encará-lo. Ele estava terminando comigo?
— Nem você é o mesmo de quatro anos atrás, porém eu não fico tentando te mudar, porra! — gritei, aquilo estava entalado. — Mas, ao menos em uma coisa concordamos, nós não funcionamos.
Adam me encarou por alguns instantes, era tarde demais para estar brigando, mas também era para estarmos juntos.
— Você está terminando, comigo?
— Acho que você já fez isso primeiro. — falei com sinceridade. — Boa noite, Adam.
Meu namoro tinha realmente, acabado? Penso que sim.
Deitei na cama e encarei o teto, Hannah já estava dormindo e eu teria que esperar até mais tarde para contar a ela. Apesar de saber que provavelmente ficaria satisfeita com meu término, também tinha certeza que ela me apoiaria se eu me sentisse triste ou arrependida. Mas, não era assim que eu estava me sentindo, esperei por lágrimas que não vieram, nem mesmo uma pontada de tristeza. Só senti liberdade.
Adormeci em poucos minutos.


O relógio marcava meio-dia quando eu finalmente decidi que precisava sair da cama e fazer as minhas coisas. Hannah não estava no quarto quando acordei e parecia não ter deixado nenhum bilhete me dizendo onde tinha ido ou o que foi fazer.
Fui até o quarto onde eu costumava dormir com Adam, mas ele também não estava lá, ou seja, eu tinha o apartamento só para mim e nada poderia ser melhor que isso. No andar debaixo estava um silêncio quase enlouquecedor, então liguei as caixas de som ambiente e deixe que tocasse Beethoven em um volume razoável.
Coloquei alguns ovos para fritar, peguei um pote de pasta de amendoim e comi um pouco enquanto esperava os ovos ficarem prontos, não era a refeição mais saudável do mundo para um café da manhã, mas era melhor que ficar sem comer nada. Assim que ficou pronto, coloquei tudo na bancada e aproveitei para dar uma olhada no meu celular.
Tinham fotos nele que eu nem tinha me lembrado de ter tirando, o Instagram então, estava lotado de fotos da festa do Mike, aproveitei para apagar algumas minhas com Adam que estavam no meu perfil, curti algumas fotos e deixei meu celular de lado para tomar café em paz.
Eu estava com uma maldita ressaca.
Bufei, assim que meu celular começou a tocar e um número desconhecido apareceu na tela.
— Alô!
— Oi, . — A voz de Seth estava calma do outro lado da linha.
— Seth? — perguntei com comida na boca.
— Bonito, falando de boca cheia. — Ele riu.
Terminei de mastigar e ri com ele.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, eu só queria saber como está indo na matéria de Emergências II.
Nem tinha começado a estudar.
— Ah, vou começar a estudar daqui a pouco. Por quê?
— Bom, pensei que poderíamos estudar juntos. O que acha?
— Claro, aqui ou aí?
Terminei de comer, comecei a guardar as coisas e coloquei os pratos na lavadora.
— Pode ser aí, me fala o endereço.
— Não precisa, estou no apartamento dos meus pais, você sabe onde é.
— Tá, em uma hora estou aí.
Ia ser bom passar um tempo com Seth, costumávamos estudar juntos na época da escola também.
— Seth? — chamei antes que ele desligasse.
— O quê?
— Onde conseguiu meu número? — perguntei por curiosidade.
— Com a Steph.
— Ah, ok. Até daqui a pouco.

Seth demorou muito mais que uma hora para chegar e eu já estava morrendo de fome quando a campainha tocou, sem contar que também já tinha estudado ao menos cinco capítulos da matéria de Emergências II. Como recompensa decidi que ele fizesse algo para comermos enquanto eu passava para ele o que já tinha estudado e anotado sobre a matéria.
Quando éramos mais novos imaginei centenas de vezes nós dois assim quando entrássemos para faculdade — mesmo com minha decisão sobre Julliard — estudando e passando algumas horas do final de semana juntos. Afinal, passávamos horas de semana estudando juntos, parecia que uma parte de mim já sabia que eu nunca chegaria a ir para minha faculdade dos sonhos. Seth sempre quis medicina e para mim, sempre foi uma possível segunda opção.
Apesar de tudo, eu estava feliz.
Passei o macarrão para ele, enquanto tentava fazê-lo entender sobre algumas regras da emergência. Odiava muito quando meu amigo questionava coisas que eram regras, só porque ele pensava que poderiam ser diferentes.
— Seth, tem que ser assim. — falei pela milésima vez.
O encarei, enquanto ele mexia na panela.
— Qual é, só estou dizendo que poderia ser melhor. — ele riu.
— Você está fazendo isso só para me provocar, né? — perguntei enquanto pegava copos, pratos e talheres no armário.
Ele riu.
— Te odeio, sabia?
— Não é culpa minha se você é uma nerd e compreende tudo de cara. — disse debochado. — E você me ama.
O encarei por um momento.
— É, você tem razão.
— Que você me ama?
— Não, que sou muito inteligente. — respondi debochada.
— Ah, cala boca. — Seth disse rindo.
Soltei uma gargalhada.
Enquanto almoçamos eu não conseguia deixar de pensar na Hannah. Ela não era de sumir e sempre que acontecia quando morávamos na Califórnia, vinha acompanhado de uma notícia ruim depois, ou ela aparecia completamente chapada. Tentei pensar apenas que minha amiga estava conhecendo a cidade e queria um pouco de espaço e meus pensamentos foram parar em Adam.
Tínhamos mesmo terminado?
Era estranho pensar que eu estava solteira, apesar de ter dado um tempo com ele algumas vezes durante toda aquela confusão com meu irmão e Hunter, é claro, eu nunca me imaginei completamente sem ninguém. A sensação não era ruim, mas era desconhecida, quatro anos de relacionamento era muita coisa para alguém que tinha namorado a mesma pessoa desde o ensino médio.
— Ei, tá pensando em que, Sammy?
Seth me encarou.
— Você me conhece bem, hein?
— Desembucha logo. — Abriu um sorriso.
Mordi o lábio e o encare.
— Acho que eu e o Adam terminamos. — falei sem cerimônia.
Seth soltou uma gargalhada.
— Seth, não é engraçado — o repreendi.
Ele continuou rindo, como se eu tivesse contado alguma piada.
— É sério, cara. — falei dando um soco no braço dele.
, sério — ele riu e me encarou em seguida. — Já estava na hora, né?
— Sério?
Me levantei e peguei nossos pratos vazios para colocar na lavadora.
, qual é, não fica brava comigo. — pediu e ficou bem ao lado da lavadora enquanto eu colocava as coisas nela.
— Então para de rir, enquanto digo que meu namoro de quatro anos acabou.
Soltei uma risada em seguida, no fundo, a situação toda era mesmo engraçada.
— O Adam é um cara legal, mas vocês dois? Nada ver. Nem mesmo quando você gostava de Beethoven, vocês tinham alguma coisa em comum.
O encarei.
— Ainda gosto de Beethoven. — afirmei.
— Só estou dizendo que você nunca olhou para ele como olhava para o Hunter.
Meu coração disparou.
— Olhava para o Hunter?
— Sim, talvez tenha uma tensão sexual entre vocês ainda. Mas você não olha nem para ele do mesmo jeito.
Desde quando Seth, tinha virado minha terapeuta?
— Ah. — Era tudo que eu tinha para dizer.
Depois da conversa constrangedora, o silêncio se formou entre nós. Me ofereci para pegar alguns livros no quarto e saí rapidamente da cozinha, precisava de um pouco de espaço depois de todas as observações do meu amigo sobre os meus relacionamentos.
De fato, meu coração ainda acelerava toda vez que eu via Hunter ou conversava com ele, mas de alguma forma eu não o olhava mais da mesma maneira. Existia sim uma tensão sexual entre nós, porém eu não tinha mais aquele sentimento avassalador que eu sentia toda vez que o encontrava, agora era apenas uma sensação de êxtase ou uma busca em sentir de novo tudo aquilo.
Já com Adam, eu não sentia absolutamente nada, além de um profundo carinho de amizade. Cada segundo com ele vinha se tornando cada vez mais insuportável, não concordávamos em nada e fui cada dia mais deixando de me importar com a opinião dele sobre minhas atitudes e a minha vida, a festa de ontem era a prova disso. Talvez Seth tivesse razão, nós não temos nada ver, na verdade, nunca tivemos.
Deixei meus pensamentos no quarto e voltei para sala. Seth já tinha começado a anotar algumas coisa e a quantidade de matérias que tínhamos para estudar parecia não diminuir nunca, o relógio já estava marcando cinco horas da tarde e o sol lá fora já estava bem mais baixo e sugeri que fossemos estudar na varanda para tomar um pouco de ar fresco e sair de dentro do apartamento, sem necessariamente ter que sair dele.
Ah, eu amava aquela vista. Todos aqueles prédios enormes, carros para todo lado e as luzes de Nova York sempre foram um dos motivos de eu amar tanto esta cidade. Anotei mais algumas coisas e senti que meus olhos estavam começando a ficar cansados quando olhei a tela do meu celular e já estava marcando exatamente 10 horas da noite.
Era hora de parar.
Abri minha boca para dizer ao meu amigo que precisávamos de um descanso ou que devíamos simplesmente deixar o resto para amanhã quando o interfone tocou.
— Já volto. — falei e fui em direção a cozinha, onde ficava o interfone.
Não fazia ideia de quem poderia ser, Adam e Hannah tinham a chave e quase ninguém sabia que eu estava morando aqui, talvez eu tenha falado para Steph — não me lembrava — e minha mãe não viria aqui sem me avisar
— Oi, Taylor — falei o nome do porteiro, assim que atendi.
— Srta. , tem um rapaz chamado aqui na recepção. Posso deixá-lo subir?
? O que ele estava fazendo aqui? Não lembrava de ter contato a ele onde eu morava, ou talvez eu tenha, estava muito bêbada para conseguir me lembrar agora.
— Srta. ?
— Ah, sim, pode deixar. — respondi e desliguei.
A roupa que eu estava usando não era bem apropriada para receber um cara que eu mal conhecia, mas considerando que eu tinha ficado ao menos uma hora dentro de um lugar apertado e sem blusa com ele, isso não tinha importância agora.
Prendi meu cabelo, para não parecer tão desleixada e andei até a porta de entrada. Não demorou muito para que a campainha tocasse, apesar de o meu apartamento ser na cobertura.
— Oi. — falei ao abrir a porta.
— Oi, . — abriu um sorriso.
Dei espaço para que ele entrasse, ainda processando como eu perguntaria para ele se ontem passei meu endereço ou marquei algo com ele, que não conseguia me lembrar agora. Ao invés de perguntar fiquei encarando-o, ele estava dessa vez com uma calça preta não muito justa, blusa básica branca, meio transparente que dava a visão de suas tatuagens por baixo e uma jaqueta preta.
Bem “sexy”.
Desviei o olhar.
— Muito difícil chegar aqui? — Seth perguntou vindo da sala.
Graças a Deus, eu não estava tão bêbada quanto tinha pensado.
— Bom, vocês dois já se conhecem, né? — Meu amigo disse, soltando uma risada fraca.
Seth, às vezes eu te odeio.
— É. — respondemos juntos.
, vamos em uma festa que tá rolando na fraternidade. Vem com a gente. — Seth disse animado.
— Não, vou tomar um banho e terminar de estudar — falei sem graça, com toda a situação.
riu.
— O quê?
Minha indignação saiu rápido.
— É sábado à noite. E pelo que Seth me disse, vocês estão nisso o dia todo.
— É, mas ainda falta bastante. Quero adiantar, mas se divirtam.
Seth revirou os olhos e me encarou por alguns instantes, esperando que eu fosse concordar, mas não aconteceu. Eu estava determinada a não ir em mais nenhuma festa neste final de semana.
— Tudo bem, então. — meu amigo disse finalmente.
— Será, que posso usar o banheiro? — perguntou, parecendo um pouco sem jeito.
— Claro, no final do corredor à direita. — informei.
Quando saiu, eu repreendi Seth com o olhar, meu amigo claro, soltou uma gargalhada. Mostrei o dedo do meio para ele e estava pronta para começar a xingá-lo de tudo quanto era nome, quando meu celular começou a tocar com um número desconhecido na tela.
Ignorei a chamada.
Não demorou muito para que o número voltasse a ligar, ignorei novamente. Mas, ele voltou a ligar e só quando já estava eu acho que na oitava ligando, atendi.
— Alô.
? — A voz de Mike saiu do outro lado da linha.
Mike? Por que ele estava me ligando?
— Mike? — perguntei surpresa.
— É, sou eu. — falou parecendo irritado. — Acredite, eu não queria estar te ligando, mas não tive escolha.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupada.
— Sim.
Ai caramba.
— Mike, fala logo! — Praticamente gritei.
Ele sempre me deixava nervosa quando fazia isso.
? O que foi? — Seth perguntou, mas fiz sinal para que ele ficasse quieto e eu pudesse entender o que meu irmão estava dizendo.
— Mike, desculpa, eu não entendi. — falei calmamente. — Você pode repetir.
Ele bufou do outro lado da linha.
— Sua amiga, Hannah...
Meu coração disparou, quando ele falou em Hannah.
, fala comigo, pelo amor de Deus, você tá pálida — Seth disse, agora mais perto de mim.
— Seth, estou tentando escutar o Mike. Aconteceu alguma coisa com a Hannah, por favor, cala boca.
Eu não queria ser grossa com ele, mas Seth estava me deixando ainda mais nervosa.
? Tá aí?
— Sim, estou. — respondi. — Mike, fala de uma vez, o que aconteceu?
, eu acho que a Hannah está tendo uma overdose.


Capítulo 3 - Nightmare

ALERTA GATILHO: Todo o capítulo vai girar em torno de um personagem que acabou de sofrer uma overdose e, será narrada por um personagem que tem dependência química. Por isso, todos os sentimentos dele e a vivência sobre esse tempo, será passada para o leito. Então, caso isso te gere algum gatilho, sugiro interromper a leitura.
Merda.
Eu estava em uma abstinência fodida de Oxy, uma droga nova que tinha acabado de chegar no mercado de Nova York e, como se não desse para ficar pior, eu me encontrava no banheiro da irmã do meu melhor amigo passando mal e colocando cada parte de mim para fora. Eu não sabia quanto tempo mais aguentaria sem nem sequer uma dose do meu vício ou até mesmo uma gota de álcool.
Dei descarga e me levantei com dificuldade do chão onde eu estava ajoelhado e vomitando no vaso. Caralho, tudo isso é muito nojento e desagradável, mas não é como se eu pudesse ter controle do efeito da substância sobre mim. Depois que você começa, é muito difícil parar e venho lutando desde os meus 16 anos contra o maldito vício.
Lavei minhas mãos e aproveitei para jogar um pouco de água no rosto, diferente da hora que cheguei, agora estava pálido e com os olhos um pouco vermelhos na pele em volta dele e minhas mãos estavam tremendo um pouco. Ignorei o meu reflexo, respirando fundo e saí do banheiro ainda um pouco perdido com o tamanho do apartamento.
Puta que pariu, essa família conseguia ficar ainda mais rica.
Só o espaço entre a sala e o banheiro em que eu tinha acabado de ir, dava mais do que a minha casa toda, se é que isso era possível. Andei pelo enorme corredor até chegar na sala, o clima estava bem diferente da hora em que cheguei e parecia que algo sério tinha acontecido.
estava sentada no sofá completamente pálida — talvez até mais do que eu — e Seth se encontrava parado como se esperasse por alguma resposta dela.
— Cara, o que tá pegando? — perguntei encarando os dois. — Ela tá passando bem?
Não queria dar um de intrometido, mas aquela porra toda estava esquisita demais.
— Ela está parada assim tem um tempo, não diz nada. Parece que o Mike ligou e disse algo… Não sei o que é. — Seth explicou, enquanto encarava a garota estática bem na nossa frente.
— Mike?
Merda, será que ele tinha se enfiado em outra briga?
— É, mas acho que o problema não é com ele. — respondeu Seth.
— Ela parece em choque. — falei e empurrei meu amigo para o lado — Dá licença.
Eu mal a conhecia, mas precisava fazer alguma coisa para ajudar já que Seth só sabia ficar ali parado, ele sempre congelava em momentos assim, não sei como queria ser médico desse jeito.
Me ajoelhei de frente a e apoiei minha mão em seu joelho, ela se retraiu, mas permaneceu em silêncio.
, você precisa dizer o que está acontecendo. — falei firme. — Aconteceu alguma coisa com o Mike?
Não queria ser duro com ela, mas eu sabia que em momentos assim ou forçamos a pessoa a ter uma reação, ou ela permanece estagnada.
, preciso que você me fale o que está acontecendo. — continuei com a voz firme, mas ela só desviou o olhar sem dizer nada. — !
Ela deu um pulo no sofá como quem se assusta com algo e voltou a me encarar.
— Você está maluco, cara? — Seth me repreendeu.
Eu era uma bosta nesse negócio de tentar acalmar as pessoas e o meu amigo lerdo não estava ajudando em nada. Deixar a garota em choque não era a solução e ele sabia disso tanto quanto eu, quando alguém fica dessa maneira precisamos trazê-la de volta para a realidade.
Eu não a conhecia bem pessoalmente, mas sabia muita coisa sobre ela, então era como se a conhecesse. No último um ano desde que conheci Mike, ele me falou muito sobre a irmã, defeitos, qualidades, gostos... Enfim, absolutamente tudo e a minha curiosidade em conhecê-la foi se tornando cada dia maior, até a festa da fraternidade, no momento em que a encarei sabia que era ela.
— Não é o Mike. — disse finalmente, tirando-me dos meus pensamentos.
, fala para gente o que aconteceu — Seth sentou ao lado dela e passou a mão por trás, segurando-a sobre os ombros.
Cara…
Nunca tinha visto meu amigo assim com alguém.
— É a Hannah. — disse e seus olhos ficaram vazios, sem sentimento algum.
Por um momento pensei que ela fosse chorar, mas isso não aconteceu.
— Ela é aquela sua amiga maneira, que estava na festa ontem. — Seth comentou e ela deu um meio sorriso. — O que houve?
respirou fundo e fechou os olhos por um instante.
— Uma overdose. — ela disse com os olhos fechados, como se estivesse tentando se controlar de alguma coisa.
Meu coração disparou.
Não era possi...
— Hannah sofreu uma overdose. — ela disse, agora com os olhos já abertos e ainda mais frios.
Puta que pariu.
Mike nunca me falou muito sobre a morte do seu irmão, tudo que eu sabia era que ele tinha morrido por consequência das drogas. Contudo, ali parado olhando para a eu sabia que aqueles olhos já tinham presenciado muita coisa e que talvez já havia visto a morte de perto.
Me retraí por um momento.
Perder alguém assim é algo que eu nunca desejaria para ninguém, é muito difícil se recuperar disso e, na minha longa jornada rodeada por pessoas com os mesmos vícios ou até diferentes dos meus, mas também uma dependência química, eu já tinha visto muitas pessoas perderem a luta assim.
— Vou ligar para o Mike. — falei já saindo da sala.
O apartamento tinha uma sacada enorme com uma vista privilegiada para as ruas de Nova York. O ar lá estava muito mais fresco e fazia eu me sentir um pouco menos enjoado do que do lado de dentro com tudo isso que estava acontecendo. Apertei no contato do Mike e esperei que ele atendesse.
— Fala, .
— Mike, que história é essa da Hannah, cara?
Ele suspirou pesado do outro lado da linha e percebi que onde ele estava era silencioso.
— Cara, como você sabe disso?
— Vim encontrar o Seth aqui no apartamento da sua irmã e ela só conseguiu dizer que a Hannah teve uma overdose. — expliquei.
Ele suspirou de novo, a coisa era séria.
— Cara, não vou conseguir te explicar tudo agora. Estou no hospital, vou te mandar o endereço. Vocês precisam vir até aqui!
A preocupação de Mike era evidente.
— Tá, tá bom.
Eu já ia desligar, mas Mike me chamou:
?
— Fala.
— Como tá a ? — ele perguntou visivelmente preocupado.
— Nada bem, daqui a pouco chegamos aí.
Desliguei antes que eu tivesse que dar mais detalhes.

O clima no carro estava pesado e o silêncio tornava o ambiente ainda pior. Seth insistiu para dirigir, mas disse que iria se sentir melhor fazendo alguma coisa, então apenas concordamos. Eu estava no banco de trás e Seth no do passageiro, uma música que parecia ser Beethoven — muito estranho a propósito — tocava no rádio, bem melancólica e só tocada, sem ser cantada.
Eu estava começando a me sentir enjoado de novo e conseguia sentir um pouco de suor se formando na minha testa. Não era uma boa hora para eu começar a me sentir mal por causa da abstinência, mas não estava conseguindo controlar. Eu devia ter arrumado uma desculpa no momento em que chegamos ao estacionamento do prédio.
Mas com que cara eu iria embora em uma situação dessas?
Meus olhos cruzaram o de no espelho retrovisor do carro assim que ela parou no farol vermelho. Ela ainda continuava com um olhar impassível como de uma pessoa que pode compreender tudo que está acontecendo a sua volta, mas que não consegue demonstrar ou sentir absolutamente nada. me encarou por alguns instantes e de repente me olhou de forma compreensiva e voltou a olhar para frente quando o farol abriu.
Ela sabia.
Naquele momento tive certeza que ela sabia sobre mim. Ninguém tinha falado nada para ela e nem a mesma tinha perguntado, só de me olhar conseguia saber quem eu realmente era com toda a minha bagagem de vício. Era compreensível considerando todas as coisas que eu ouvi a respeito de Rian — irmão dela.
Não demorou muito para que ela estacionasse de frente para o hospital. Nem tínhamos entrado e o ambiente ficou imediatamente mais pesado e a sensação era quase tangível. Nós três saltamos do carro e passamos pela porta de entrada em completo silêncio, eu não tinha coragem de tentar puxar nenhum assunto, acho que nenhum de nós ali tinha.
Na recepção fomos informados que tínhamos que ir para o andar da emergência. já parecia conhecer bem o hospital — e o pessoal da recepção — e ela nos guiou até o elevador que iria nos levar ao quarto andar, onde ficavam os casos mais graves. Dentro do elevador permanecemos em completo silêncio e pude notar que a mão da estava trêmula.
Seth segurou a mão dela assim que o elevador chegou ao nosso andar. Eu não saberia dizer se estava surpreso com a atitude ou desconfortável, ele nunca tratou nenhuma garota na minha frente como estava tratando-a.
O lugar estava um caos com pessoas correndo de um lado para o outro e eu conseguia ouvir eles dizerem que tinham uma equipe focada em um caso especial. Nossos olhares se voltaram para os enfermeiros e médicos aglomerados falando do tal "caso importante" e senti uma certa apreensão.
— Cara, finalmente. — Mike apareceu na nossa frente do nada.
Ele estava tão branco quanto as paredes do hospital.
— Mike, onde está a Hannah? — perguntou assim que viu o irmão.
Ele nos encarou por alguns instantes, depois desviou o olhar como se estivesse pensando no que iria responder.
— Mike, por favor. — ela pediu.
Ele respirou fundo, meu amigo sempre tinha o costume de fazer isso quando ficava nervoso.
— Pelo amor de Deus, se a notícia for ruim. Fala logo! — Seth pediu.
Eu estava ficando irritado, mas não era hora de gritar com ninguém, então permaneci em silêncio.
— A Hannah realmente sofreu uma overdose. — ele disse finalmente.
Porra, ele estava de brincadeira comigo? Isso ele já tinha me falado no telefone.
— Cara, isso a gente já sabe. — esbravejei. — Nós queremos saber, como ela está.
Mike revirou os olhos.
— A situação dela é bem grave, não vou mentir.
jogou o peso de um pé para o outro e por um momento desviou o olhar para outro lugar que não fosse ali, depois voltou a olhar o irmão esperando que ele continuasse o que tinha para dizer.
— Acabei de vir da sala onde ela foi levada, eles estão tentando estabilizar a Hannah. Ela teve uma parada cardiorrespiratória e convulsões também.
Puta merda.
— Eles vão vir nos avisar, quando levarem ela para o centro cirúrgico.
— Droga. — Seth esbravejou.
Eu esperava alguma reação da , mas tudo que saiu foi um "ok" muito baixo e ela se direcionou até as cadeiras que tinham na ala de espera do lugar onde estávamos. De fato não tinha muito a ser feito naquele momento, a única coisa que podíamos fazer era esperar e pedir que tudo desse certo.
Eu não conseguia conter meu nervoso e muito menos controlar minha perna que não parava de tremer, na verdade, e estava me tremendo inteiro. Toda aquela situação me trazia lembranças que eu já gostaria de ter apagado da minha memória há muito tempo.
De repente, me vi com 18 anos em uma festa da fraternidade da NYU. Era a primeira vez que eu ia naquele lugar, mas eu já vinha testando algumas substâncias e já estava até testando alguma delas. Aquela noite me marcou o suficiente para me fazer tentar uma reabilitação e conseguir ficar meu tempo recorde de um ano limpo.

Porra.
Eu estava deslumbrado com o lugar, a festa da fraternidade era exatamente como nos filmes que eu tinha assistido repetidas vezes e a maneira que eu estava me sentindo era exatamente como toda vez que imaginei a minha primeira vez em uma festa de faculdade.
Gente bêbada para todo lado, muito álcool, sexo e droga rolando. Quando Allyson me disse que íamos a uma festa como essa, confesso que duvidei um pouco no início, ela sempre me metia em umas furadas, e depois de estarmos muito chapados e bêbados acabávamos brigando. Mas, dessa vez, o único plano que eu tinha com ela era de terminar chamado, mas não brigando, e sim na cama.
Peguei um copo com uma bebida qualquer e dei uma volta pela casa enquanto ela não chegava. Passei por algumas pessoas que já estavam mais para lá do que para cá e ainda eram só 11 horas e caminhei até o lado de fora.
Por um instante me ocorreu o pensamento de que eu deveria ter ficado em casa como minha mãe sugeriu antes que eu saísse, mas joguei o pensamento de lado e peguei outra bebida já que a minha tinha acabado. Encontrei um lugar escuro e distante para ter um pouco de tranquilidade, peguei um cigarro no bolso que acendi apressado e dei um trago. Estava aí mais um maldito vício, o negócio poderia me causar muitos doenças ou pior, me matar de câncer em alguns anos. Mas eu gostava da tranquilidade que me causava.
A tranquilidade que acabou assim que vi Josh andando na minha direção.
— Cara, você precisa vir comigo. — ele disse um pouco enrolado, parecia assustado.
— Nossa, parece até que você viu um fantasma. — comentei rindo, enquanto dava mais um trago em meu cigarro.
Meu amigo — que estava prestes a se tornar ex — andou de um lado para o outro enquanto passava a mão nos cabelos demonstrando nervosismo. Ele estava suando e naquele momento comecei a ficar preocupado, ou ele estava tendo algum efeito colateral do Oxy que tínhamos ingerido há poucas horas, ou ele tinha feito alguma merda.
Eu estava apostando na segunda opção.
— Josh, você tá me assustando porra, para de andar e fala o que tá pegando. — esbravejei.
Ele parou, me encarou e parecia estar pensando no que ia dizer.
— Fala logo, porra!
— É a Allyson. — disse finalmente e senti meu coração acelerar.
Poderia ser a droga. Mas não era.
— Quê?
Levantei do muro em que eu estava sentado e caminhei até ele.
— Você precisa vir comigo, ela tá lá em cima. — falou enrolando a língua.
Esse porra tinha feito merda.
— Mano, ela disse que estava vindo para cá. Você não está alucinando por causa das merdas que ingeriu mais cedo?
— Não, cara, nós já chegamos há um tempo... Ela pediu para não te contar.
Puta que pariu.
— Puta merda, Josh, quantas vezes falei para você me avisar quando ela fosse fazer alguma coisa sem pensar? Me leva até lá!
Eu era quase capaz de contar as batidas do meu coração enquanto acompanhava Josh até o andar de cima da fraternidade. Parecia que nos poucos minutos que fiquei observando o lugar enquanto meu melhor amigo e minha namorada faziam merda, a casa tinha dobrado no número de pessoas.
Toda aquela gente estava me deixando ainda mais nervoso e parecia que a casa tinha aumentando de tamanho. Apertei o passo para seguir Josh e comece a empurrar o máximo de pessoas que eu conseguia enquanto pedia licença.
Subimos a escada correndo já que estava livre. Senti um peso ainda maior quando pisei no andar de cima, tinha uma aglomeração de pessoas em frente ao quarto no final do corredor, gente chorando, ligando para o resgate e dizendo coisas que eu não conseguia entender.
Me senti apavorado.
Escutei alguém dizer algo sobre uma garota estar inconsciente.
Entrei no quarto depois de empurrar muita gente.
Allyson era a garota inconsciente.

Essas malditas lembranças vinham sempre nos piores momentos.
— Vou tomar um ar e pegar um café. — falei e levantei de maneira abrupta da cadeira. — Vocês querem alguma coisa?
Não tinha muito a ser feito e ficar ali sentado não ia ajudar em nada.
levantou e me encarou.
— Posso ir junto? — perguntou da maneira mais calma que já a vi falar, desde que a conheci.
— Claro. — concordei.
Não era como se eu pudesse dizer que não, o que mais eu diria?
Porra, eu tava surtando já.
Com apenas meia dúzia de palavras, já no corredor e longe de onde estávamos decidimos que iríamos primeiro a cafeteria pegar um café bem forte e depois ficaríamos um pouco do lado de fora do hospital, para ver se o ar fresco daria uma acalmada nos ânimos.
Nós dois pegamos um café duplo bem forte, eu estava precisando colocar alguma coisa no meu estômago que me livrasse do embrulho que estava sentindo e precisava de qualquer coisa que a fizesse se sentir um pouco anestesiada e um bom café era capaz disso.
O hospital é simplesmente enorme, parece que tem centenas de elevadores para todo lado e os corredores são super extensos. Mas ela parece conhecer tudo por aqui, pois me guiou para chegarmos até a cafeteria e continuou me guiando até a saída mais tranquila, segundo ela.
Do lado de fora o ar estava fresco, mas bem frio. Por sorte eu estava com duas blusas bem quentes e só quando o pensamento da temperatura me ocorreu percebi que estava vestindo apenas uma calça preta colada e um casaco que estava aberto e dava para ver que ela estava com uma regata decotada por lado.
Ela é gostosa, sem dúvidas. Olha só para esses peitos.
Porra.
Esses pensamentos não deveriam estar me ocorrendo, mas eu estava nervoso com toda a situação e não conseguia raciocinar ao lado de uma garota bonita como ela me encarando com aquela cara de "sofrimento".
— Não está com frio? — perguntei enquanto me sentava em um banco que encontramos do lado de fora.
deu um gole na bebida e me encarou.
— Não, estou bem. — respondeu, como se estivesse falando sobre outra coisa e não da pergunta que eu tinha acabado de fazer.
Eu não sabia ao certo o que conversar com ela e não queria correr o risco de invadir a privacidade dela ou qualquer coisa do tipo. Apesar de termos passado uma hora — ou mais — dentro daquela despensa na casa dos pais dela e termos conversando sobre muitas coisas, era bem nítido que ela não era muito de se abrir.
A única coisa pessoal que conversamos naquele dia foi sobre Mike e talvez fosse porque ela sabia da minha proximidade com ele e cogitou que ele já havia me contado muitas coisas. Mas, diferente do que talvez ela pensava, eu conhecia muito bem mesmo só a tendo conhecido pessoalmente há algumas semanas.
Mesmo com a relação de merda — como Mike gostava de chamar — que ele tinha com a irmã, nós sempre falávamos muito sobre ela. Às vezes ele a amava acima de qualquer coisa, porém muitos momentos ele não queria vê-la nunca mais ou sequer ouvir falar no nome dele. Mas ele a amava, estava magoado e guardava rancor. Contudo, ainda consigo lembrar o sorriso que ele me deu quando disse que ela voltaria.
A está voltando, . Ele disse em uma das nossas corridas matinais.
— Parece que vai nevar. — ela comentou, tirando-me dos meus pensamentos.
Uma risada saiu sem querer, não fazia sentido estarmos falando sobre o tempo.
não teve nenhuma reação a não ser me encarar e senti minhas mãos tremerem por um momento. Segurei o banco com força e me inclinei para frente como alguém que precisava vomitar porque estava passando mal, mas não era isso, eu só estava nervoso. Me retraí quando senti pegar na minha mão.
— Desculpa, eu... — ela tentou se justificar, mas parou e retirou a mão.
Minha reação de segurar a mão dela de volta foi quase involuntária. Estava quente como de alguém que tem vida dentro de si — diferente de mim — e as unhas estavam pintadas em preto. Nos encaramos por um instante e ela virou minha mão de maneira que meu dorso ficou para cima mostrando a tatuagem com sorriso de esqueleto que tenho.
passou a unha levemente sobre as linhas do desenho.
Senti todo meu corpo se arrepiar.
Abri meus lábios para dizer algo, mas fui impedido pelo telefone dela que tocou indicando que estava recebendo uma mensagem. Ela levantou, digitou uma resposta rápida no celular e me encarou.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupado.
— A Hannah acabou de entrar em cirurgia e deve demorar pelo menos 10 horas. — explicou como se fosse algo completamente usual.
saiu andando antes que eu pudesse responder alguma coisa e me dei conta de que ela não tinha a intenção de voltar para dentro do hospital e esperar horas por uma notícia.
— Ei!
A peguei pelo braço.
— O quê?
Ela se virou para mim e me encarou.
— Você não vai voltar lá para dentro? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Ela trocou o peso de uma perna para outra, como alguém que está nervoso faz e desviou o olhar por um instante.
— Não, eu preciso ir em um lugar. — disse e pegou as chaves do carro no bolso. — Você vai voltar lá para falar com Mike e Seth, ou quer que eu te leve para casa?
Porra, que conversa louca.
— Eu dirijo. — falei e puxei a chave da mão dela com rapidez.
— Tudo bem, se não quer me passar seu endereço.
Soltei um riso.
— Não é isso. — respondi com firmeza. — Você não está em condições de dirigir e nós não vamos para minha casa, iremos para seja lá onde você precisa ir.
Ela me encarou com um olhar de surpresa, mas apenas soltou um "ok" e foi em direção ao estacionamento.
No carro a única coisa que tornava o silêncio menos enlouquecedor e irritante era uma música qualquer que estava tocando no carro. Enquanto eu dirigia, permanecia em completo silêncio no banco do passageiro olhando as ruas que deixávamos para trás à medida que avançávamos em direção a Coney Island Beach.
Eu não sabia muito bem porque ela queria ir para uma praia que ficava em um bairro no Brooklyn, mas também preferi não questionar. O lugar era maneiro para se tomar um ar e esfriar a cabeça e eu não queria piorar a maneira como ela estava se sentindo, além de que tinha me oferecido para ir com ela.
Geralmente levaríamos pelo menos 30 minutos para chegar lá, mas gastamos apenas 20 porque já passava da uma hora da manhã e não tinha quase nenhum carro na rua. Assim que estacionei o carro no acostamento, praticamente pulo do carro já indo em direção a parte da areia.
Desci e a acompanhei sem dizer nada, estava claro que ela precisava de um pouco de silêncio e privacidade e eu já tinha invadido quando me ofereci para vir com ela.
Mas o que mais eu poderia fazer? Deixá-la dirigir desse jeito?
Ela se sentou na areia da praia um pouco distante do mar e eu me sentei ao lado dela. parecia triste, mas ao mesmo a sensação que eu tinha é que ela estava extremamente calma com tudo o que estava acontecendo, se ela estivesse surtando por dentro, estava conseguindo esconder bem.
— Eu costumava vir muito aqui, antes de me mudar. — disse como que uma confissão.
Permaneci em silêncio.
— Sempre que Rian ficava em abstinência, era um dia difícil e eu vinha aqui. — disse e permaneceu encarando o mar. — Eu vinha sozinha, claro, mas pensei que faria bem para você...
A encarei, eu estava um pouco perplexo.
— Quando falei que precisava vir aqui, eu quis dizer que você precisava.
me encarou, seus olhos estavam me estudando.
Porra.
A amiga dela estava em uma cirurgia e ela estava preocupada com a minha "situação"?
— Sua amiga teve uma overdose, está em cirurgia e você está preocupada com a minha abstinência? — perguntei com sinceridade. — Que estranhamente você notou sem eu precisar dizer nada.
Ela riu.
— Porque eu já presenciei muitas vezes. — respondeu e mordeu o lábio inferior.
Caralho.
— E aprendi a lidar com o que posso controlar, Hannah não é algo que eu possa controlar agora. — continuou. — Está fora do meu alcance.
Uma lágrima se formou no canto do olho, mas ela logo limpou.
— Está dizendo que quer me controlar, ?
Ela riu mais uma vez.
— Hum... — resmungou e mordeu o lábio inferior de novo.
Ela estava fazendo essa merda de propósito?
— Quero dar um mergulho no mar. — disse por fim já tirando o casaco.
Ela se levantou e tirou a blusa que estava vestindo, deixando a mostrar os seios enormes dentro de um sutiã preto de renda. Não demorou muito para que ela começasse a tirar a calça preta e ficasse completamente de roupas íntimas na minha frente.
Porra, ela não estava facilitando as coisas.
Enquanto ela dobrava as roupas, eu a medi por completo. Na festa de Mike ela tinha nadado na piscina e eu tinha ficado com ela naquela despensa minúscula quando estava somente de sutiã, mas outras ocupavam minha cabeça naquele dia que eu nem tinha parado para reparar nas curvas que ela tinha.
Desviei meu olhar assim que ela voltou a me encarar enquanto prendia os cabelos em um rabo de cavalo.
— Não quer nadar? — perguntou na maior naturalidade do mundo, como se não estivesse praticamente nua na minha frente.

Estava um frio da porra.
— Você não está com frio?
Ela riu.
— Tudo bem, se vai agir como covarde problema seu. — disse e se virou já indo em direção ao mar.
Caralho, que bunda.
— Não vem, mesmo? — perguntou se virando para mim e rindo.
Dei uma risada e tirei minha camisa, puxei minha roupa da maneira mais rápida que já fiz na vida, puxei minhas meias e corri em direção a ela que já estava perto do mar.
A água estava fria pra caralho e ela entrou sem cerimônia alguma, então eu não poderia fazer menos do que isso e me joguei de uma vez só em um mergulho. Uma das únicas coisas boas de estar em uma praia a essa hora, era o fato de não ter absolutamente ninguém além de nós, sem falar que o mar estava calmo como uma piscina.
A expressão de tinha mudado drasticamente, apesar de ela parecer relaxada como antes, a diferença é que agora era um "relaxada" de maneira positiva. Parecia estar tirando um peso das costas e se sentindo profundamente satisfeita de estar ali, no mar que ela tanto gostava.
Ela nadou até mim e me encarou por alguns instantes, joguei um pouco de água na direção dela que retribuiu com rapidez. Me aproximei dela e a puxei para perto de mim de maneira que ela acabou se encaixando no meu colo, não era a minha intenção.
Ambos ficamos imóveis e nos encarando.
Puxei o rabo de cavalo dela que estava sobre os ombros para trás e levei meus lábios até próximo da orelha dela de maneira que nossos corpos se aproximaram mais.
— Só para constar, não sou covarde.
estremeceu e se afastou um pouco.
— Se você está dizendo. — disse e saiu do meu colo, já se afastando rápido.
O clima ficou tenso de repente.
— Ei, tá tudo bem? — perguntei ao ver ela sair do mar.
— Sim, eu só quero ir para casa.
Se eu tinha feito algo de errado não saberia dizer, então sair do mar e andei rápido o suficiente para conseguir alcançar e a peguei pelo braço.
— O quê?
— Nada, vou te levar para casa. — falei e peguei minhas coisas no chão, já indo para o carro.
Chegamos rápido até o apartamento dela e estranhamente me convidou para entrar dizendo que não queria ficar sozinha ainda. Seja lá o que tinha mudado o humor dela lá na praia, não tinha nada a ver comigo, então aceitei.
O lugar estava bem silencioso e calmo como da primeira vez em que estive aqui, todas as luzes se acenderam assim que entramos e ela foi até a cozinha dizendo que ia preparar alguma coisa para comermos e, mesmo eu dizendo que não precisava, ela insistiu.
Dessa vez tive mais tempo para reparar no ambiente, além de grande era bem decorado. Com um sofá sofisticado na enorme sala e uma TV simplesmente gigante, além de uma parede onde tinha uma fonte com um vidro enorme que jorrava água através dele.
Fui até a varanda para tomar um ar, caralho, eu poderia ficar neste lugar por horas se morasse aqui.
— Essa varanda ganha corações. — disse atrás de mim.
— É, imagino.
— Bom, já terminei a comida. — ela disse e se voltou para o apartamento.
Ela fez alguns lanches que estavam ótimos — ou eu que estava com fome — e também tinham algumas outras coisas para comer. Comemos em completo silêncio, não sei se porque eu tinha sido um pouco seco com ela na sacada ou se porque ela tinha voltado a ficar estranha sem nenhum motivo aparente.
Além da amiga ter tido uma overdose, seu imbecil.
Assim que terminamos, fiz menção de ajudá-la a limpar as coisas, mas ela deu a entender que não precisava fazer nada daquilo e voltei para a sala. O clima tinha ficado pesado entre nós e estava na hora de eu ir embora, mas eram quatro horas da manhã e eu não teria como pegar metrô essa hora e não teria grana para gastar com táxi ou Uber.
Ou seja, eu tinha me fodido.
Estranhamente o mar tinha me feito bem e eu não estava me sentido tão enjoado como tinha acontecido nas últimas horas, apesar de como acabou, não tinha sido uma má ideia ir até a Coney Island.
— Bom, acho melhor eu ir. — falei assim que apareceu na sala.
— É muito tarde, você pode ficar. — falou e me encarou.
Soltei um riso.
— O quê?
— Nada, só tive a sensação que você não queria que eu ficasse.
Ela mordeu o lábio inferior e me encarou por um momento.
— Não foi isso. — falou e saiu da sala.
Porra, garota louca.
Deixei a bipolaridade dela para lá e me joguei o sofá enorme do jeito que e estava mesmo — exceto pela calça que tirei —, não ia ficar esquentando minha cabeça com a mudança de humor dela. A situação não era das melhores e considerando tudo que estava acontecendo eu não ia tocar no assunto mais.
Eu já estava rolando naquele sofá a pelo menos duas horas, uma mistura de coisas não estavam me deixando dormir. O dia tinha sido uma loucura imensa e estar deitado na sala da irmã do meu melhor amigo não estava ajudando em nada, eu deveria ter ido para casa ou fingido que poderia ir e encontrado outro lugar para ficar.
Dei um pulo quando escutei gritos vindo do andar de cima. Por um momento pensei que estava sonhando, até os gritos se intensificaram e eu perceber que eram da .
Que porra estava acontecendo?
Subi as escadas correndo — deixando para questionar um apartamento com escadas para depois — e procurei em que quarto ela estava. Mais gritos vindo dela me ajudaram a encontrar e assim que entrei dei de cara com uma se debatendo na cama e gritando, como se estivesse lutando contra algo.
— Não, por favor. — ela deu um grito desesperado.
Caralho, que merda.
Me aproximei dela e a segurei por um momento. Os gritos pareciam se intensificar cada vez mais, eu não queria acordá-la para não criar uma situação confrangedora, mas não tinha escolha, ela não parava de se debater mesmo nos meus braços.
. — Segurei o rosto dela. — Acorda, você está sonhando.
Ela se movimentou mais uma vez e eu a chacoalhei com força. Os gritos cederam e ela abriu os olhos. Eles estavam frios e mostravam uma tristeza profunda, como se ela tivesse sonhado com algo terrível ou até alguma lembrança muito ruim para ela.
Ela levantou da cama e saiu andando.
— Você estava gritando, eu...
Um barulho de porta batendo com força me tirou as palavras e permaneci estático na cama.
Ela voltou para o quarto em pouco minutos sem me encarar, pensei em dizer algo, mas não conseguia encontrar nenhuma palavra que pudesse ajudá-la naquele momento.
Merda.
deitou no lado da cama que eu a tinha encontrado e ficou de barriga para cima encarando o teto. Esperei que ela falasse alguma coisa, mas isso não aconteceu, então me levantei e fui até a porta do quarto.
?
Me virei para olhá-la. Seus olhos me encaravam.
— Você pode ficar aqui comigo? — pediu e voltou a encarar o teto.
Andei até a cama e me deitei ao lado dela.
— Tudo bem.
ainda encarava o teto e parecia um pouco distante. Era possível notar que o que tinha acabado de acontecer não era a primeira vez, mas ela estava processando que tinha acontecido na minha frente.
— Hoje no parque...
, você não precisa se explicar. — a interrompi.
Ela bufou e se virou para me olhar.
— Hoje no parque, você não fez nada. — explicou e permaneci em silêncio.
Escutei ela respirar fundo.
— Eu só me senti culpada, por estar ali enquanto a Hannah está em cirurgia, por conta de algo grave que aconteceu com ela.
Continuei em silêncio.
— Mas essa é a única maneira que consigo lidar com isso... — a voz dela estava trêmula, pela primeira vez em horas acho que ela estava chorando. — Eu não posso lidar com outro trauma, outra perda e outros pesadelos. Esses já me deixam apavorada o suficiente.
O silêncio tomou conta do ambiente, eu não sabia o que dizer para ela naquele momento.
Apenas segurei a mão dela que estava bem ao meu lado e apertei com força.


Capítulo 4 - Memories

ALERTA GATILHO: A personagem está enfrentando questões psicológicas e um trauma ligado ao passado, que pode gerar gatilho ao longo da leitura. Então, sugiro que caso isso aconteça com você, interrompa.
Eu me sentia anestesiada e paralisada ao mesmo tempo. Diferente de quando eu estava na praia com e pude me sentir completamente livre, agora toda sensação que eu tinha era de que os problemas finalmente tinha me arrastado para uma dor difícil de digerir.
A porra da realidade.
Hannah teve uma overdose.
Nada poderia mudar esse fato ou me convencer de que isso não estava acontecendo, não que fosse uma novidade para mim, foram incontáveis às vezes em que precisei buscá-la inconsciente em uma festa ou chapada demais para conseguir chegar em casa. Mas as proporções disso eram muito maiores. Uma cirurgia de ao menos 10 horas foi o bastante para deixar bem claro que a situação tinha fugido do meu controle.
Eu tinha decisões a tomar, mas não estava em condições alguma de fazer isso.
Fiquei de lado na cama e encarei deitado ao meu lado. Ele ainda dormia tranquilamente e o vendo assim era difícil imaginar todos os problemas que ele tinha que enfrentar por conta do vício, diferente de ontem — que ele estava ansioso — agora aparentava estar extremamente calmo. Apesar da abstinência e os sintomas às vezes insuportáveis, ele me apoiou cada minuto e estar com ele foi como respirar ar puro, tínhamos muito em comum, além do meu irmão, é claro, ele era tão tatuado quanto eu e tão ruim quanto para expressar sentimentos.
Por um instante, enquanto eu o observava, meus pensamentos correram até Adam. Tanta coisa aconteceu em um dia — que pareceram dois — que eu nem tinha me dado conta de que ele havia sumido desde ontem. Por incrível que pudesse parecer ele não tinha me enviado nenhuma mensagem ou me ligado.
Joguei os pensamentos sobre Adam para longe e saí da cama o mais silenciosamente possível.
Enquanto a água do chuveiro esquentava, tirei minha roupa e encarei meu reflexo no espelho. Meus cabelos estavam um pouco bagunçados e eu tinha olheiras enormes, afinal, apesar de ter aceitado ficar a noite comigo eu não tinha quase pregado o olho. Passei boa parte dela pensando no pesadelo que tive e ele ainda rodeava meus pensamentos.
Suspirei quando senti a água quente bater na minha pele. Eu tinha tomado uma ducha muito rápida quando cheguei da praia e ainda me sentia cheia de água do mar. Fechei meus olhos e me enfiei completamente embaixo da água, flashes do meu sonho passou bem diante de mim, estremeci por um instante e sai da água já abrindo os olhos.
Eu precisava ligar para Dra. Sullivan, isso era óbvio, mas não queria.
Terminei de tomar meu banho e saí do banheiro. Por sorte eu tinha uma roupa reserva no banheiro já que eu quase sempre esquecia de pegar uma antes de entrar no banho, vesti a calça e a blusa que tinham lá. já não estava mais deitado na cama e por um momento me perguntei quanto tempo gastei no banheiro.
Desci as escadas assim que escutei barulho vindo da cozinha, parecia que alguém estava procurando algo nos armários. Dei de cara com , abrindo todas as portas e procurando desesperadamente por algo. Ele estava com uma cara de quem acabou de acordar e diferente da hora que deitou comigo, estava vestido, e não só de cueca.
? — O chamei enquanto me sentava em um dos bancos de frente para o mármore.
Ele parou o que estava fazendo e me encarou um pouco sem jeito.
— Eu estava procurando uma frigideira para poder fazer ovo e bacon para o café da manhã. — respondeu parecendo um pouco sem jeito.
Apontei para a prateleira atrás dele.
— Fica ali. — falei rindo.
Pensei em dizer que eu não estava com fome e que planejava ir para o hospital rápido, mas fiquei sem jeito devido à boa vontade dele. Era estranho tê-lo por perto, além de me trazer muitas lembranças de Rian, éramos muito parecidos e ainda tinha o fato de ele ser melhor amigo do Mike.
Eu já tinha problemas suficientes com meu irmão, não precisava de mais um.
Enquanto preparava o café da manhã incrivelmente à vontade, como se pudéssemos fazer isso todos os dias, aproveitei para enviar uma mensagem para o Mike perguntando sobre a Hannah. Eu tinha simplesmente ido embora sem avisar e o conhecendo, eu sabia que ele: ou passou a noite no hospital, ou a essa hora já estava lá.
Não demorou muito para que uma resposta chegasse.

" me avisou que você não estava se sentindo bem para ficar… Ela já saiu da cirurgia. Eu ia avisar agora. XX Mike".


Ele não parecia bravo comigo, algo não muito comum de acontecer sempre que eu reagia dessa maneira diante de algo sério.

"Obrigada por avisar. Vou daqui a pouco para o hospital, você pode ir para casa xoxo "
— respondi, mesmo sem saber se ele realmente tinha passado a noite lá.

Permaneci em completo silêncio enquanto me encarava, eu não saberia dizer se ele estava esperando que eu desse alguma explicação sobre o que ele presenciou ontem ou se ele simplesmente estava checando se eu estava bem. Desviei meu olhar dele e dei um gole no meu suco, estava me deixando nervosa me encarando assim.
Terminei meu café da manhã e me levantei já levando as coisas até a lavadora. Avisei ele que ia pegar algumas coisas no andar de cima e que poderíamos ir para o hospital e segui para o meu quarto. Meu coração estava disparado e eu me sentia estranhamente nervosa, não só pelo fato de ele ter me presenciado em um dos meus momentos mais frágeis, mas também porque finalmente eu ia enfrentar parte do que estava acontecendo.
Meu celular não parava de tocar com diversas mensagens e eu não estava com cabeça para olhar nenhuma delas, então o desliguei. Enquanto atravessava a porta de entrada e ia em direção ao elevador, escutei dizer algo sobre Steph e Hunter terem ligado para ele perguntando sobre o que tinha acontecido. Provavelmente as mensagens que eu estava recebendo poderiam ser deles, mas eu não tinha cabeça para pensar nisso.
O caminho até o hospital foi rápido — infelizmente — e comecei a me sentir um pouco mais nervosa. já estava comigo desde o dia anterior e me perguntei por um momento se ele não estaria sem jeito de ir embora e me deixar sozinha depois do que aconteceu ou se ele não tinha mais nada para fazer em pleno domingo.
Você não sabe nada sobre ele, . O pensamento me ocorreu por um instante.
Assim que cheguei na sala de espera em que fiquei ontem por alguns agonizantes minutos, dei de cara com Mike, Hunter, Steph e Adam sentados em completo silêncio. Encarar meu irmão já seria difícil, mas dar de cara com Adam depois do nosso talvez término, Hunter e Steph me fez ter vontade de dar meia volta e sair dali.
Mas, já era tarde para fazer isso, então apenas dei um meio sorriso.
Os meus braços envolveram o pescoço de Hunter antes mesmo que eu me desse consciência do que eu estava fazendo. Só tive noção da besteira que tinha feito, quando vi Steph desviar o olhar de nós.
— Como você tá? — Hunt perguntou e se afastou de mim.
Abri um meio sorriso.
— Bem. — afirmei.
Ele passou a mão pelos meus cabelos e sorriu compreensível.
— Sinto muito, . — disse e depositou um beijo na minha testa.
Mike raspou a garganta e me afastei dele.
— Ei. — falei abraçando Steph e tentando quebrar o clima que tinha se formado. Ela retribuiu o abraço meio sem jeito.
— Mike, como ela está? — perguntei já me virando para o meu irmão.
Mike suspirou e me encarou.
— Ela saiu da cirurgia há algumas horas, o pai vai vir aqui explicar tudo. — Ele disse me encarando.
Meu pai? Merda.
— O pai fez a cirurgia da Hannah? — praticamente gritei, sem intenção.
, ele é o melhor, para quem mais eu poderia ligar? — Mike me olhou irritado.
Ele tinha razão, meu pai era o melhor, mas depois de Rian, ele se afastou de qualquer caso como o da Hannah. Logo, deve ter sido muito difícil para ele.
— Certo. — concordei.
— Ei. — Adam disse e envolveu um braço na minha cintura.
Nem tinha me dado conta de que estava ao meu lado ainda, até Adam o afastar para se aproximar de mim.
A situação não poderia ficar mais estranha do que isso. Adam estava tentando marcar território e isso era algo que me tirava do sério, se as coisas não estivessem tão ruins eu provavelmente gritaria com ele. Mas eu não tinha nem forças para fazer isso, então apenas sorri para ele.
Apesar do clima que estava naquela sala, com me encarando a todo momento, Mike que parecia inquieto. Meus dois melhores amigos — que agora eram um casal — e meu talvez ex-namorado, com a mão apoiada na minha perna, a única coisa que eu conseguia pensar era em Hannah.
Ela tinha um dom incrível de me tirar de situações assim ou fazer com que eu visse tudo como uma grande comédia com suas piadas. Eu tinha acabado de terminar um relacionamento que ela me aconselhou a acabar com ele nos últimos dois anos e agora eu não podia contar isso a ela, eu me sentia frustrada e impotente.
Fechei meus olhos e minha mente viajou até ela, o que minha amiga diria se estivesse aqui agora.
Três “steps” , você é uma vadia mesmo.
Isso seria bem a cara dela, algo totalmente sarcástico.
De repente não me vi naquela sala de espera e sim em uma seção de ajuda onde eu costumava fazer meu voluntariado na Califórnia e onde conheci Han.
O grupo de apoio para dependentes químicos estava bem cheio hoje. Tinha cerca de seis meses que estou na Califórnia e exatos quatro meses que vinha duas vezes na semana ser voluntária, ajudar as pessoas que frequentam o grupo com conselhos e também mostrando para eles como são para quem está do outro lado, ou melhor, como é para o família da pessoa que é usuária de drogas.
Hoje era dia de conhecer novos integrantes do grupo, é sempre muito difícil. Porque eles ainda estão muito presos às drogas e nem sempre são gentis e compreendem quando queremos ajudar. Particularmente, eu não me importo com esse dia, como as outras voluntárias. Não saio daqui me sentindo ofendida, nem nada do gênero. Sei o que é ter um usuário na família e ele conseguiu me destruir de uma maneira que ninguém jamais será capaz de fazer de novo.
Todos já estavam sentados em suas cadeiras. Observei algumas pessoas que eu já conhecia e outras que nunca vi na vida, provavelmente eram os novos integrantes.
— Bom dia, pessoal! — Mirian, a coordenadora do grupo, levantou de sua cadeira fazendo sinal para que todos que estavam sentados se levantaram.
Me direcionei até minha cadeira, deixei a pasta que estava carregando sobre ela e fiquei parada na frente da mesma. Como era de costume, todos demos as mãos e ficamos em silêncio por alguns minutos. Segundo a nossa coordenadora, era um momento para refletirmos e já pensarmos o que podemos dizer nesta reunião para ajudar o próximo.
Depois, voltamos a nos sentar.
Enquanto a pessoa mais velha do grupo — a que estava mais tempo sóbria — começou a falar sobre suas experiências, como era estar no grupo e estar limpa há dois anos, aproveitei para observar um pouco o pessoal novo. Eram cinco homens e duas mulheres, uma delas aparentava ter mais ou menos uns 30 anos e a outra ter no máximo 20.
Meus olhos pararam na mais jovem.
A garota estava usando uma calça jeans com rasgos na região das coxas, uma regatinha branca e seus cabelos ruivos estavam presos em um coque feito de qualquer jeito. Dava para ver que sua maquiagem era do dia anterior, porque o lápis e o rímel que ela passou já estavam escorridos e borrados abaixo da marca d'água do olho, ela parecia ter saído de uma festa há poucas horas e causava a impressão de que estar aqui era sua última chance para se livrar do seu vício.
— Isso é uma idiotice. — A ruiva se manifestou, fazendo-me dar um pulo na cadeira.
Lancei meus olhos para longe de sua direção.
— Querida, qual seu nome? — Mirian perguntou gentilmente.
Essa era a maneira “delicada” dela de lidar com pessoas com problemas, como ela sempre gostava de lembrar. Mas, às vezes eram bem irritante porque parecia forçado.
— Não me chame assim. — A garota revirou os olhos irritada e se ajeitou na cadeira. — Parece que você tá se esforçando para ser gentil comigo e isso é um saco!
— Tudo bem... — Mirian engoliu em seco.
Sabia que por dentro ela estava se sentindo péssima, afinal ela realmente se importava com essas pessoas que estavam aqui. A mulher passava quase a semana inteira nesse lugar.
— Bom, . Que tal você contar para os novatos qual é seu trabalho conosco? Ela tem ajudado muito os parentes de pessoas que precisam da nossa ajuda, para abandonar o vício.
Engoli em seco. Sei que o que passei com meu irmão foi horrível. Mas o que ele passou também foi. E toda vez que ela me fazia contar como é para os parentes, parecia que eu estava tentando ter pena de mim mesma e que não considerava, nem mesmo por um minuto, que Rian estava preso a uma droga, que muitas de suas atitudes eram impulsos causados por ele estar drogado.
Me levantei da cadeira um pouco tensa. Todos estavam me encarando, mas a garota rebelde que “retrucou” nossa coordenadora alguns segundos atrás pareciam que ia voar no meu pescoço dependendo do que eu dissesse aqui. Andei mais para o centro da roda, todos estavam me encarando esperando pelo que eu tinha a dizer, já tinha feito isso em muitas reuniões, fazia em quase todas que vinha.
— Oi, meu nome é . Mas, podem me chamar de . — Iniciei com uma apresentação. — Bom, convivi com uma pessoa viciada em cocaína, heroína… Bebidas alcoólicas. Meu irmão.
— Conviveu? Ele se livrou das drogas? — Uma garota loira sorriu entusiasmada com a ideia.
— Não, ele teve uma overdose e morreu. — respondi enquanto engolia em seco.
Todos me lançaram um olhar de cumplicidade, menos a garota ruiva. Ela parecia não sentir absolutamente nada, nem por ela, nem por ninguém. No fundo, ela me lembrava bastante Rian que quando começou a fazer uso das drogas ainda se arrependia ou sentia algum tipo de remorso por suas atitudes. Mas, depois de algum tempo meu irmão deixou de se importar com absolutamente tudo.
— Bom, ele começou com drogas fracas. Até que chegou em heroína, metanfetamina... — Fiz uma pausa, as lembranças ainda eram muito fortes para mim. — Vou ser breve, tudo bem? O que eu faço aqui é mostrar para vocês que as pessoas que estão à sua volta, seus parentes, sofrem e se importam muito com vocês. Que cada um aqui pode usar isso como um motivo para largar este vício! — Terminei e caminhei em direção a minha cadeira, estava me sentindo tonta.
— Ah, tá bom! — Ouvi a voz da garota que foi extremamente grosseira com Mirian antes que eu me sentasse. Fazendo com que eu me virasse para ela. — Então, você acha que você sofreu muito mais que seu irmão?
— Não, eu não disse isso! — Rebati.
Como ela conseguia ser tão arrogante?
— Desculpa, mas foi o que você fez parecer! — Ela levantou da cadeira e andou na minha direção, ficando bem próxima de mim. — É o seguinte, o seu irmão deve ter comido o pão que o diabo amassou. O problema é que vocês que não têm nenhum vício, pensam que é um problema fácil de se resolver. Mas não é bem assim. Você mereceu que ele morresse, pelo menos agora vai saber o que é viver com uma dor que não passa nunca, pelo resto da sua vida.
— Hannah... — Um rapaz atrás dela sussurrou, chamando-a.
Hannah, esse é seu nome.
Não sabia o que dizer. Eu não esperava ouvir algo assim de alguém que nem ao menos me conhecia. No início dessa reunião eu estava confiante que ninguém poderia me destruir como Rian fez, mas obviamente eu estava enganada. Hannah iria destruir tudo o que restou depois que o meu irmão se foi, inclusive todos os muros que construí nos últimos meses.
Mordi o lábio inferior e segurei as lágrimas que se formaram em meus olhos.
Pela primeira vez desde que recebi a notícia, eu senti que precisava sentar e chorar por horas até que eu aceitasse o que estava acontecendo, mas eu precisava ser forte, Hannah iria precisar muito mais de mim quando tudo isso passasse e eu não poderia fraquejar agora.
Saltei da cadeira assim que vi meu pai vindo do final do corredor. Eu não tinha controle sobre os meus pés, eles me guiaram tão rápido até ele que quando meus braços envolveram seu pescoço, foi como se eu estivesse prestes a desmaiar e precisasse de alguém para me segurar.
Um suspiro forte saiu através dos meus lábios.
Eu não o tinha visto desde que voltei para Nova York e naquele momento desejei que o tivesse reencontrado em um momento muito melhor. O apertei no abraço o mais forte que consegui e ele retribui e envolveu a mão na parte de trás da minha cabeça.
Eu precisava abraçá-lo enquanto podia, porque no momento em que ele se tornasse médico da minha amiga, eu não poderia mais deixar que ele tentasse me tratar como filha.
. — Meu pai sussurrou enquanto ainda me abraçava.
O encarei assim que me afastei, seus olhos estavam calmos e me senti aliviada. Odiaria saber que cuidar de Hannah o trouxe más lembranças.
Suspirei forte.
— Pai, podemos conversar a sós? — perguntei assim que ouvi passos atrás de mim.
Eu precisava de um tempo a sós com ele, eu tinha que processar seja lá o que ele tinha para me dizer, sozinha.
— Pai, como está a Hannah? — Mike disse atrás de mim.
— Eu preciso conversar com a primeiro, se vocês não se importarem. — Meu pai disse encarando a todos.
— Qual problema que não pode ser dito na frente de todo mundo? — Meu irmão insistiu.
Troquei o peso de uma perna para a outra, uma maldita mania que tenho sempre que fico irritada com algo.
— Quero falar com ele a sós, se vocês não se importarem. — falei virando-me para encarar Mike.
Todos concordaram um aceno de cabeça e segui meu pai até uma sala no final do enorme corredor. Ele me deixou lá e pediu para que eu esperasse um pouco assim que um enfermeiro apareceu dizendo que estavam solicitando a presença dele, na sala de emergências.
Minhas mãos estavam tremendo e eu me sentia um pouco enjoada. Apesar de estar acostumada com o cheiro de hospital e o ambiente também, ele sempre me trazia algumas lembranças que eu já gostaria de ser esquecido. Me sentei em uma cadeira na pequena sala em que me encontrava e a observei por uns instantes. Nela tinha a cadeira que eu estava sentada de frente para uma mesa branca vazia, com outra cadeira do lado oposto, uma poltrona preta bem grande e apenas uma janela na parede bem a minha frente. Rolei meus olhos pelo lugar e me imaginei na sala da minha antiga terapeuta, branca, silenciosa e sem vida alguma. Tudo parecia igual, exceto que a sala dela tinha uma janela enorme com uma vista linda para o centro de Nova York.
Foram incontáveis as seções que tive com ela e por um momento me imaginei bem ali com a Dra. Sullivan, despejando o monte de merda que estava acontecendo comigo. Mas, dessa vez eu não estaria falando sobre como meu irmão me enlouqueceu na última semana ou sobre como foi vê-lo se afundar, agora eu estaria falando de sua morte e do medo que eu tinha que algo assim pudesse acontecer de novo.
Eu estaria falando sobre Hannah e a primeira vez em que a encontrei inconsciente no banheiro, com uma agulha enfiada no braço.
Naquela noite fria de dezembro, pré véspera de Natal, peguei um voo da Califórnia até Nova York de última hora, algo que ninguém nunca soube, além de mim e a minha terapeuta.
O aeroporto estava lotado, afinal, era pré véspera natal e eu era a única maluca que pegaria um voo de última hora para Nova York às 10 horas da noite do dia 23 de dezembro. Minhas mãos tremiam tanto que a aeromoça me encarou por alguns minutos antes de rasgar meu “ticket” e desejar uma boa viagem.
Era a primeira vez que eu ia voltar para Nova York desde que meu irmão morreu. Se eu não estivesse tão fodida, provavelmente não estaria nesse avião, tremendo e desesperada como eu estava.
A viagem foi tão rápida quanto a minha chegada ao consultório da Dra.Sullivan, o relógio estava marcando exatamente 10 horas da manhã quando atravessei a enorme porta de vidro de entrada. Meu coração estava disparado e eu mal conseguia respirar direito.
Entrei na sala de atendimento antes mesmo que a minha terapeuta chegasse. A enorme janela do prédio de frente para a cidade movimentada me trazia uma certa calma, eu costumava passar as horas da minha terapia olhando por essa janela enquanto a chuva caia lá fora, mas hoje, o dia estava claro e ensolarado.
Nada mai, era igual.
, tentei chegar o mais rápido que pude. — A voz da minha terapeuta fez com que eu me virasse abruptamente.
— Tudo bem. — falei baixo ainda a encarando.

Eu tinha muitas coisas para dizer, mas, ao mesmo tempo era como se eu não fosse capaz de formular nem sequer uma frase. A imagem de Hannah jogada no banheiro ainda estava presente na minha cabeça e por mais que eu tentasse, não conseguia me livrar dela.
Às vezes se misturava com a última vez em que vi meu irmão, era como se eu estivesse revivendo tudo em câmera lenta. Cada parte do meu corpo se recusava a sentir qualquer coisa, mas eu estava completamente despedaçada.
Destruída demais para lutar contra.
— Não sei se posso fazer isso de novo. — falei assim que a vi sentada em sua poltrona já me analisando.

— Preciso que me conte o que aconteceu, .
Uma risada nervosa saiu dos meus lábios de forma não intencional.
Meus olhos estavam ardendo e eu me sentia extremamente cansada depois das horas de voo e às três noites direto que eu já tinha passado no hospital. Gostaria de dizer que era por isso que eu estava ali totalmente instável, mas estaria mentindo, o cansaço físico era o menor dos meus problemas. Se eu tivesse outro colapso nervoso, aí sim seria um problema muito maior.
Puxei as mangas da minha blusa de forma que minha terapeuta me encarou, seu olhar de cumplicidade me dizia que ela sabia o que tinha acontecido antes mesmo de eu dizer.
, tire a blusa por favor.

Meus olhos a encaram por um momento e tirei a blusa de frio que eu estava vestindo.
Dra. Sullivan suspirou, ao ver meu braço esquerdo completamente tatuado.
— Você fechou o braço de tatuagens. — Ela sorriu de ponta a ponta.

— Eu precisava te mostrar isso.
O restante da consulta foi tranquila e conversamos sobre tudo o que tinha acontecido com Hannah, mais uma vez contei a ela os meus piores medos e ela fez com que eu os encarasse.
? — Sullivan me chamou antes que eu saísse da sala.

Me virei para encará-la.
— Gosto muito mais das tatuagens do que das cicatrizes. — ela disse e fez uma pausa como se estivesse pensando em algo. — Não importa o que as outras pessoas digam, elas são muito melhores, elas definem você e não as cicatrizes. Lembre-se disso.

Passei a ponta dos dedos sobre as tatuagens em meu braço esquerdo e pude sentir um certo relevo abaixo delas. Ali estavam minhas cicatrizes que já tinham sido apagadas pelos diversos desenhos coloridos, uma espécie de ramo de flor pintada em algumas partes, entre outros desenhos que escolhi com Hannah para completar o desenho, depois que ela saiu do hospital.
Só tinham se passado cinco minutos dentro da sala e para mim, é como se eu estivesse lá há mais de uma hora. Quando meu pai entrou e se sentou na mesa bem à minha frente, senti cada músculo do meu corpo de enrijecer com o que ele estava prestes a dizer. Eu costumava gostar da forma como ele era sempre sincero comigo, mas por um momento desejei que mentisse para mim, que me dissesse que estava tudo bem.
— Pai. — falei como que implorando por algo.
Ele suspirou e se inclinou na minha direção depositando um beijo em minha testa.
— A quantidade de droga que tinha no organismo da Hannah era muito alta. — meu pai disse e colocou a mão sobre a minha. — É impressionante que ela esteja viva, então preciso que esteja pronta para tudo.
Respirei fundo e me levantei da cadeira. Eu não podia encará-lo.
— Você está dizendo que ela pode não acordar, é isso?
Meus olhos estavam queimando por causa das lágrimas que já começavam a se formar, eu não podia chorar, não queria.
. — Meu pai colocou a mão no meu ombro.
Me afastei limpando o rosto e me virei para encará-lo.
— Preciso que seja o médico da Hannah agora. Tudo bem? — falei e passei por ele.
— Filha...
— Não! — Praticamente gritei. — Você não pode ser meu pai agora, eu preciso que seja o médico dela, por favor.
Desviei meu olhar dele e mordi o lábio inferior para segurar o choro.
— Você não pode...
— John, você não pode me tratar como louca de novo. — falei com calma. — Dr. John, é isso que você é agora. Será que posso ver a minha amiga?
Os olhos do meu pai, estavam confusos e eu conseguia ver dor neles, mas mesmo assim não voltei atrás numa decisão. Por mais cruel que pudesse parecer falar com ele e chamá-lo dessa maneira, eu não podia dar espaço para ele agir como meu pai e como se eu fosse a pessoa mais frágil do mundo.
Se ele tinha tomado a decisão de ser médico da Hannah, precisava agir como tal.
— Então?
— Claro! — Respondeu já abrindo a porta da sala.
— Você pode contar aos outros tudo que está acontecendo? — falei já na porta.
— Claro, o Carter vai te levar até sua amiga. — Ele disse se referindo ao enfermeiro que se encontrava na porta. — Mas, , você precisa estar preparada. Se ela acordar, vai precisar ir para uma clínica, isso já fugiu do controle.
— Obrigada. — falei e sai da sala, ignorando a sugestão dele.
Como eu internaria Hannah? Ela me odiaria, para sempre.
O hospital não era um lugar estranho para mim e enquanto andava através dos corredores até onde Hannah estava, eu conseguia me lembrar das vezes em que estive aqui quando era criança. Minha mãe nunca foi muito boa na parte da maternidade e meu pai sempre me trazia para os plantões na creche que tinha aqui e, quando eu acabava fugindo, algum enfermeiro me encontrava vagando pelos corredores.
Tudo ainda parecia igual, mas, ao mesmo tempo, estranho para os meus olhos. Desviei meu olhar do homem de ombros largos a minha frente e passei a observar as salas em que passávamos, estávamos na ala de emergência do hospital, onde os piores casos ficam e onde passei muitos dias ao lado do meu irmão muitas vezes.
Estremeci assim que o enfermeiro informou que tínhamos chegado.
Engoli em seco ao ver Hannah, ela estava ligada a diversas máquinas e com um tubo em sua boca. Isso indicava que seu caso era tão grave que ela não era capaz de sequer respirar sozinha e que ela precisava que seu corpo se recuperasse de um trauma muito grande, se é que isso seria possível.
Fiquei parada na porta encarando minha amiga e procurando forças para me aproximar. Enquanto o enfermeiro tirava os sinais vitais dela e realizava alguns outros exames para saber como ela estava, permaneci apoiada ao batente e totalmente imóvel, minha respiração apesar de tudo, estava calma e eu me sentia anestesiada, como se a qualquer momento alguém fosse me acordar de um sonho. Uma parte de mim, queria muito gritar, mas a outra só desejava sentar em um canto e chorar por horas.
Quando ele terminou os exames, tomei coragem de me aproximar de Han.
Segurei a mão dela, estava fria e seu corpo parecia completamente sem vida. Respirei fundo e a encarei por alguns instantes, me odiei pelo simples pensamento de que por um lado eu a preferia exatamente como ela estava, talvez porque uma parte de mim, sabia que esse era o único momento em que ela não estaria se matando por causa das malditas drogas.
Sou uma pessoa horrível.
Seria incrível se a vida fosse como em filmes ou até mesmo em histórias que lemos todos os dias, em que a mocinha passa por algo assim e ela acorda no minuto em que sua melhor amiga a pega pela mão no leito de hospital. Eu adoraria se isso acontecesse, até esperei alguns minutos por isso, mas a única coisa naquele quarto que demonstrava qualquer sopro de vida, era minha respiração pesada e o barulho que a máquina fazia sempre que dava oxigênio para minha amiga se manter viva.
... — A voz de Steph me trouxe de volta a realidade.
Maldita realidade.
Respirei fundo e me virei para encará-la sem soltar a mão de Han.
— Ei. — falei e abri um sorriso, não queria dar espaço para ela me interrogar sobre como estou.
Apesar do que aconteceu na sala entre mim e Hunter, ela parecia não estar se importando com isso agora.
— O Seth ligou e os meninos foram para o seu apartamento. — Ela disse e olhei um pouco confusa.
Steph pareceu entender minha cara de interrogação e continuou:
— Ele pensou que seria uma boa ideia, reunir todo mundo na sua casa… Claro, se você não se importar.
— Tudo bem. — concordei e voltei a encarar Hannah.
— Liguei para a Eleanor, ela vai nos encontrar lá. — concluiu.
Steph estava esperando alguma resposta minha e eu sabia disso, mas eu não conseguia pensar em nada para responder. Ela tinha razão sobre eu precisar sair do hospital e provavelmente estava sugerindo porque a essa altura meu pai já tinha contado a todos sobre a condição de Hannah.
Ir para casa e não ficar com ela me apavorava, pensar que minha amiga poderia ir sem que eu estivesse aqui me assustava. Mas ficar sentada segurando a mão dela também não parecia a coisa mais sensata a fazer, eu precisava tomar decisões, pensar em tudo que estava acontecendo.
?
Eu nem tinha me dado conta de que ainda não a tinha respondido de fato.
— Ah, sim. — falei e soltei a mão de Han. — Vamos! — concordei.
Eu já estava saindo do quarto quando a senti segurar meu braço.
— O pediu para te entregar isso — Steph disse e estendeu um pedacinho de papel.
A encarei por um momento, mas peguei.
— Ah. — falei. — Ele não foi para o apartamento?
Nem sei porque esse pensamento me ocorreu, ele já tinha ficado comigo todo aquele tempo.
— Foi. — Steph me encarou curiosa.
Eu sabia que ela estava esperando alguma explicação sobre o motivo de ele ter mandado ela me entregar um papel, mas eu não tinha nenhuma. O que eu poderia dizer?
“Ei, tenho namorado e venho trocando bilhetinhos com o amigo do meu irmão.”
“Ei, é isso que ando fazendo enquanto minha amiga está entre a vida e a morte.”
Soltei uma risada nervosa com os pensamentos.
? — Steph me chamou, nem tinha me dado conta de que ainda estávamos paradas na porta da UTI. — Vamos?

O caminho até o apartamento foi calmo apesar de Steph tentar puxar assunto comigo a todo momento, sei que ela só queria que eu sentisse que não estava sozinha e que também estava preocupada com a minha reação, afinal ela viu de perto tudo que passei com Rian. Mas eu não queria me abrir com ela e nem com ninguém.
Enquanto esperávamos o elevador chegar no andar, comecei a me questionar porque tinha concordado com a ideia de todos virem para o meu apartamento.
Eu só queria ficar sozinha.
Abri a porta e assim que atravessei a parede que dividia a entrada e a sala principal dei de cara com , Mike e Hunter sentados na sala conversando. Eu conseguia ouvir barulho vindo da cozinha, provavelmente Seth e Adam estavam lá conversando e preparando algo para a galera comer, o clima parecia calmo e os três me encararam com um sorriso de cumplicidade.
! — A voz de Eleanor invadiu o ambiente.
Eu tinha me esquecido que ela viria para cá.
— Ei. — falei sorrindo com sinceridade.
Eu realmente me sentia à vontade com ela.
— Sinto muito! — Ela me envolveu em um abraço.
— Tudo bem! — Respondi e a abracei mais forte. — Então, tá rolando uma reunião na minha casa, é isso? — comentei para descontrair e a soltei.
— É. — Ela concordou me encarando.
Todos estavam me encarando esperando que eu dissesse mais alguma coisa, o bilhete que Steph tinha me dado ainda estava na minha mão e meus olhos correram até . Ele estava com uma roupa diferente da hora que fomos para o hospital, seu cabelo estava molhado — como quem acaba de sair do banho — e sua expressão muito melhor, provavelmente os meninos tinham passado na casa dele para ele tomar um banho.
Espero que ele não tenha mencionado nada sobre ontem na frente do Adam. Pensei enquanto o encarava.
Desviei meu olhar que estava sendo sustentado por ele no momento em que Adam saiu da cozinha acompanhado de Seth, informando que eles iam pedir algo para comer porque a despensa estava praticamente vazia.
— E aí, o que vai ser ? — Seth perguntou próximo de mim ao depositar um beijo no topo da minha cabeça. — Você escolhe.
Retribui o gesto abraçando-o.
— Hum, pode ser McDonald’s. — Dei de ombros. — Vou trocar de roupa e tomar um banho, daqui a pouco volto.
Adam deu um passo para me acompanhar e deixei ele me seguir até a escada onde ninguém poderia nos ver para me virar na direção dele.
— Tudo bem? — Ele perguntou pegando minha mão de forma carinhosa.
— Eu preciso de uns minutos sozinha, tudo bem?
O encarei mordendo o lábio inferior, eu já sabia que ele ia despejar um monte de coisas sobre mim. Ele provavelmente ia começar a dizer que tudo o que falamos na noite anterior foi bobagem e que a gente poderia consertar as coisas, mas eu não estava com cabeça para resolver o meu relacionamento agora e parte de mim nem sabia se queria.
, a gente precisa conversar sobre o que aconteceu...
— Sei, mas agora eu preciso de um tempo sozinha. Não estou com cabeça para fazer isso. — respondi e comecei a subir as escadas.
Me joguei na cama me sentindo completamente aliviada, o silêncio do quarto era aconchegante e minha vontade era de não sair de lá nunca. Fechei meus olhos e deixei que minha mente descansasse um pouco, a imagem de Hannah no hospital ainda estava presa em mim e eu ainda conseguia sentir o cheiro hospitalar que tinha nela, era como se eu ainda estivesse sentada ali tocando a mão fria dela.
Abri meus olhos de novo e encarei o bilhete de ainda dobrado, pensei no que Hannah me diria agora. Uma risada saiu abafada só de imaginar ela toda animada com a ideia de eu estar me envolvendo com uma nova pessoa, esse seria o tipo de coisa que ela estaria me dizendo agora e provavelmente eu diria a ela que não é nada de mais e que ele é amigo do meu irmão, também diria que ele apenas me ajudou em uma situação difícil.
“Qual é, , você nunca ficou tão na defensiva com alguém...”
É, eu nunca fiquei.
Fechei meus olhos de novo e tentei a imaginar bem ao meu lado, um exercício que minha terapeuta me ensinou na minha primeira consulta. Pensar na pessoa que eu gostaria que estivesse comigo e lembrar de um momento bom que tivemos… Apenas relaxe, .
Estávamos jogadas na cama rindo igual duas idiotas, minha barriga estava doendo de tanto dar risada com Hannah. Eu tinha uma prova de anatomia para estudar e ela tinha uma de processos civis também na segunda-feira, mas não conseguimos parar de rir.
Ela tinha tido um encontro bizarro com um cara do Tinder e tinha sido um fracasso.
— Não, sério, foi horrível, ! — Han concluiu já parando de rir.
Ela estava encarando o teto, mas virou-se de repente ficando de lado para me encarar.
— O quê?
Sempre que ela me olhava assim é porque estava tramando algo.
— Como sabe que vou dizer algo? — perguntou rindo.
— Eu te conheço, Hannah. — A encarei esperando pela bomba.
— Eu estava pensando...
— Hum...
— Podíamos fazer um perfil no Tinder, como duas mulheres que querem se divertir. Só para dar umas boas risadas.
A olhei boquiaberta.
— Qual é, vai ser divertido! — Me cutucou insistindo.
— Tenho namorado, sabia?
Han não respondeu nada e simplesmente levantou da cama já indo em direção ao banheiro do quarto, eu sabia que ela ia soltar alguma pérola antes de entrar e fiquei esperando.
, você tem uma desculpa para não estar sozinha. — concluiu, já de dentro do banheiro. — É deprimente.
— Hannah!
Nem sei porque eu ainda me surpreendia com a sinceridade dela.
Respirei fundo e abri os olhos de novo.
Encarei o bilhete de e desdobrei, tinha o número de telefone dele e uma frase.

“Se precisar fugir, é só me ligar.”


Abri um sorriso e disquei o número dele antes que pudesse pensar direito no que eu estava fazendo.
, é a , não fala meu nome. — falei assim que ele atendeu.
— Hum. — Ele disse e percebi que estava se afastando do resto do pessoal, pois a conversa foi diminuindo. — Onde você tá?
— No meu quarto — respondi rindo. — Tem uma porta, dos fundos...
— O quê?
Ele parecia um pouco surpreso com o que eu estava dizendo.
— Pensei que seu precisasse fugir... — conclui.
— Te espero na garagem. — Ele disse e desligou.


Capítulo 5 - When it Rains

Cada andar que o elevador passava parecia uma eternidade. Tudo bem que eu moro na cobertura, mas se fosse em qualquer outra situação, eu teria chegado ao subsolo em um curto espaço de tempo, sem dúvidas é a minha ansiedade de sair do prédio e me afastar de toda a pressão que estava sofrendo só aumentava a demora.
Suspirei de alívio, assim que o elevador indicou que tinha chegado ao meu andar de destino.
estava recostado no meu carro com uma expressão neutra e ele só se deu conta da minha presença quando eu já estava bem próxima dele.
— Não vou criar problemas para você? — perguntei quando já estava ao lado dele.
sorriu, um sorriso que ele nunca tinha me lançado.
— Tenho cara de quem se importa com isso? — perguntou jogando uma bituca de cigarro no chão, que até então, eu nem tinha notado estar na mão dele.
Entortei o nariz.
— Eu sei, devia parar com essa porcaria. — ele disse e foi em direção ao passageiro, enquanto andei até a porta do motorista.
— Isso não é da minha conta. — falei e entrei no carro.
De fato, não era mesmo. não precisava me agradar e nem corresponder às minhas expectativas, mas eu não poderia negar que ficaria feliz se ele parasse de usar aquela porcaria ou qualquer outra coisa em que ele tenha vício. Desejei isso por muitos anos para o meu irmão, mas ele não conseguiu, então, o mínimo que eu poderia fazer era continuar ajudando quem ainda tinha chance de se livrar de tudo isso.
Ele ligou o rádio e me olhou intrigado ao escutar uma nota suave tocando.
Era Beethoven.
— Pode trocar. — falei enquanto fazia uma conversão à direita.
— O que te faz pensar que quero trocar? — Rebateu.
Soltei um riso.
— Hoje você está estranho. — comentei sem pretensão alguma.
— Só não gosto que deduzem o que eu quero fazer.
— Não fiz isso, só pensei que Beethoven fosse sua praia. — Revirei os olhos e segui para o caminho que ele me indicava.
Eu não tinha ideia alguma de para onde estávamos indo.
— Ah! Então, não posso ter gostos musicais sofisticados? — perguntou e notei que estava me encarando. — Também não achei que fosse a sua.
Não pude conter uma gargalhada.
— Por que está fazendo isso, ? — perguntei, mudando completamente de assunto.
— Fazendo o quê?
— Isso tudo. — falei e virei para encara-lo ao parar no farol vermelho. — Sendo legal comigo, passando seu tempo com alguém que nem conhece.
passou a mão pelos cabelos, como se estivesse nervoso ou pensando no que dizer e riu baixinho.
— Conheço você melhor do que imagina. — Ele me encarou e desviei o olhar assim que o farol abriu. — E gosto de você.
Engoli em seco, não era a resposta que eu estava esperando.
— Vira à direita e segue até o final, você vai ver um portão de condomínio fechado. — informou.
Pensei em perguntar o que iríamos fazer em um condomínio fechado, mas preferi deixar como surpresa. Não importava onde estávamos indo, qualquer coisa era melhor do que ter que ficar enfiada no meu apartamento tendo que ver meus amigos naquele círculo vicioso, onde coisas desse tipo acontecem a minha volta e eles não conseguem fazer nada para me ajudar.
Parei de frente para o portão enorme e logo ele se abriu. O condomínio era extremamente sofisticado e muito bonito, enquanto eu seguia o caminho que ele me informava através do lugar desconhecido pude ver algumas casas com piscinas enormes e outras um pouco mais simples, mas todas de muito bom gosto e, provavelmente, bem caras.
Estacionei de frente para uma casa quase toda de vidro — exceto pelas paredes de cor areia em volta das janelas — e desliguei o carro. continuou sem me dizer nada e eu apenas desci do carro seguindo-o, ele abriu a porta e eu fiquei ainda mais encantada com a casa, bem no começo passávamos por um lago cheio de peixes bem abaixo de onde estávamos pisando, tudo muito bonito.

Eu estava um pouco confusa e, fiquei ainda mais, quando chegamos a uma área gigantesca onde tinha uma piscina enorme e estava cheio de pessoas. Estávamos em um churrasco de família, tudo que eu não esperava.
parou de repente e se virou para mim.
— Talvez ele comece a fazer muitas perguntas, você não é obrigada a responder nada.
— Tudo bem. — falei. — Mas onde estamos, ? — perguntei, mais confusa do que nunca.
— Na minha casa e, essas pessoas, são a minha quase família — ele sorriu e me pegou pela mão, me guiando por entre as pessoas.
Eu senti uma forte ênfase no quase, mas pensei que aquela não era hora para perguntar sobre.
, meu garoto, você veio! — Um homem, de cabelos loiros e pele levemente queimada por consequência de algumas horas de sol, abraçou .
Aproveitei o momento para soltar a mão dele.
— E quem é a moça bonita? — O homem perguntou, soltando .
— Essa é a , uma amiga e irmã do Mike. — Ele disse e sorriu para mim, totalmente sem graça.
O homem abriu um sorriso largo e estiquei minha mão para cumprimenta-lo, mas fui surpreendida por um abraço e colocou a mão no rosto e balançou a cabeça, como se estivesse constrangido e não pude conter uma risada abafada.
— É ótimo conhecer amigos do . — O loiro disse empolgado e eu apenas sorri. — Sou Andrew, pai do .
— Bom, eu sou a , como ele já disse. — Sorri simpática. — Pode me chamar de .
— Bom, vou deixar vocês a sós, fiquem à vontade.
Andrew saiu, tão rápido, quanto apareceu.
— Ok, isso foi constrangedor. — riu e me encarou.
— Por quê? — perguntei com sinceridade.
Para mim, Andrew parecia gostar muito dele.
— Bom, essa animação toda dele… — Ele disse e desviou o olhar.
— Andrew, parece gostar muito de você — comentei com sinceridade.
— É, acho que sim. — colocou as mãos no bolso, me fazendo perceber que o assunto o deixava nervoso, ou até mesmo, constrangido.
— Não acredito que me trouxe para conhecer sua família — falei rindo na intenção de descontrair.
— Qual problema? — perguntou enquanto voltava para dentro da casa.
— Nunca ouviu falar em primeiro encontro? — perguntei e escutei ele rir. — Acho que não.
— Cala boca! — Ele respondeu com tom de brincadeira.
— Onde estamos indo agora?
Já tínhamos passado pela sala — enorme — e também por um salão de jogos ainda maior.
— Olha, se não quiser que eu fique lá com a sua família, posso ir embora. — comentei e fiz uma pausa para pensar. — Você não precisa ficar comigo.
riu e entramos em uma cozinha espetacular. Tinham tantos móveis planejado que eu mal conseguia parar de olhar. Sem dúvidas, tinha alguém na casa apaixonado por culinária.
— Não é nada disso. — ele disse enquanto abria os armários e retirava panelas. — Vou fazer alguma coisa para você comer.
— Está tendo churrasco. Sabia? — comentei e me sentei em um banco, próximo da bancada bem no meio da cozinha.
riu.
— Qual a graça?
— Você não vai querer comer aquela gororoba. — ele disse, enquanto eu o observava andar pela cozinha e pegar várias coisas. — Andrew é um cara legal, mas cozinha super mal.
Soltei uma risada.
— Se a Jillian fosse a responsável pela comida, sem dúvidas a comida estaria espetacular e comeríamos.
O observei por alguns instantes, ele não tinha mencionado a tal “Jillian” como mãe e senti uma certa curiosidade sobre isso, mas decidi não abordar o assunto, mais uma vez.
— Certo. — falei. — Posso te ajudar?
— Você odeia cozinhar. — disse e franzi a testa. — Seu irmão, ele me contou.
— Só para você saber, meu macarrão com queijo é incrível! — Me defendi, enquanto ele esboçava uma expressão de quem estava achando graça.
— Imagino, tanto que ele grudou no teto uma vez, segundo o Mike. Certo?
Soltei uma gargalhada.
— Já ficou pior. — comentei ainda rindo.
deu a volta na bancada e pediu licença para que ele pudesse pegar uma panela no armário bem abaixo da bancada, onde eu estava sentada de frente.
— Me conta. — ele pediu e voltou para a pia.
— Hum. — resmunguei enquanto pensava. — Bom, uma vez, a Hannah entortou a colher ao tentar pegar meu macarrão.
, que estava de costas para mim, me encarou.
— É sério! — confirmei e ele gargalhou.
Seja lá porque estava sendo tão legal comigo, não me importava mais, se a intenção dele era fazer com que eu me sentisse melhor e não tivesse a sensação de estar desmoronando, ele estava conseguindo. Pela primeira vez, desde a notícia sobre a overdose da Hannah, eu senti que poderia falar sobre ela sem parecer que meu mundo todo iria cair sobre a minha cabeça.
Eu conseguia ter esperança, de que talvez, as coisas se resolvessem.
Talvez.
— Então, parece que você sabe tudo sobre mim. — falei enquanto observava ele cortar alguns pedaços de queijo. — Mas não sei muito sobre você.
— Sabe sim. — Ele afirmou e um barulho de faca batendo no mármore ecoou na cozinha. — Meu sobrenome.
Fiz cara de interrogação, mas logo consegui me lembrar de como Andrew o havia chamado.
.
?
— Isso!
— O que você está fazendo? — perguntei, me referindo à comida. Não foi muito difícil perceber que ele não queria falar sobre ele.
— Macarrão com queijo. — disse e deu a volta na bancada, indo em direção a outro armário e tirou uma vasilha de lá. — Só que gostoso e de verdade.
Ri fraco.
— Muito engraçado. — Dei de ombros. — Minha comida favorita.
parou e me encarou.
— Imagino que tenha a ver com Mike. — afirmei, dando de ombros mais uma vez.
Ele sorriu de leve e empurrou uma panela na minha direção.
— Consegue colocar o macarrão para cozinhar?
Revirei os olhos com o comentário.
— Lógico.
Coloquei água na panela, a coloquei no fogão e liguei. Enquanto eu esperava que a água estivesse no ponto, separei o macarrão e cortei alguns pedaços de queijo para ajudar a ir mais rápido. Ele fez algumas piadas sobre eu ser péssima até cortando queijos e nós dois rimos, fazendo piadas um com o outro.
Estar com ele parecia estranhamente leve e sem preocupação alguma. Da mesma forma que ele era capaz de fazer piadas, também era de parecer completamente misterioso e às vezes até irritado com alguma coisa. Não toquei mais no assunto da família dele e ele pareceu mais relaxado depois disso, me instruindo de como fazer as coisas e onde pegar o que ele precisava.
Não demorou muito e a água começou a ferver, coloquei o macarrão e voltei a me sentar na bancada, que a essa altura, já estava limpando. Ele já tinha terminado de cortar todo o queijo e separar tudo que iria precisar para a macarronada, também tirou dois pedaços de bifes da geladeira e me instruiu a como passar sal neles, como se fosse algo difícil.
Claro que ele não perdeu a oportunidade de dizer “vai que você salga demais”.
— É, até que você fez um bom trabalho colocando o macarrão para ferver. — ele disse debochado, ao abrir a geladeira.
— Muito engraçado, .
Ele riu.
— O que foi? — perguntei.
— A maioria das pessoas me chamam de . — falou, ainda procurando algo na geladeira.
— Desculpa.
— Não, tudo bem, eu gosto — afirmou, fazendo com que eu me movesse desconfortável onde estava sentada.
Toda vez que dizia alguma coisa que se referia a gostar que eu dissesse, fizesse ou fosse, algo em mim despertava.
— Se importa de beber água? — ele perguntou e apontou uma garrafa para mim. — Sei que combina com vinho, mas não posso ingerir álcool.
Pude ver algo sombrio se formar no olhar dele e meu coração apertou, por um instante.
— Tudo bem! — afirmei.
— Você pode colocar a mesa? Vou fritar os bifes e aí podemos comer. — disse e vi ele me analisar por uns instantes.
— Claro.
Depois que ele fritou os bifes e arrumei tudo, nos sentamos em uma mesa que parecia ter espaço para mais de 15 pessoas. permanecia em silêncio e me observava em alguns momentos e, eu decidi não dizer mais nada, a comida estava maravilhosa e acabei comendo não só um, mas dois pratos. De fato, ele tinha muito talento na cozinha.
— Posso lavar. — falei me referindo a louça.
— Não precisa, tem alguém que faz isso. — ele disse e colocou as coisas na pia.
— Não sei, não quero deixar sujeira para sua mãe. — A palavra mãe saiu mais rápido do que pude raciocinar e me odiei por isso, ainda mais depois de ver a expressão de .
Uma expressão sombria.
— Desculpa, eu quis dizer Jillian.
— Tudo bem, só deixa as coisas aí. — falou firme e o vi caminhar em direção a saída da cozinha.
— Onde você vai?
— Preciso tomar um banho, a banda deve chegar daqui a pouco. — disse, como se fosse óbvio.
— Você tem uma banda? — perguntei animada.
— É.
Mordi o lábio inferior.
, desculpa pelo que eu disse sobre a sua mãe...— falei, não conseguia fingir que ele não tinha ficado estranho comigo.
— Tudo bem, . — ele disse já saindo da cozinha. — Pode dar uma volta por aí ou ficar com o pessoal.
— É ! — gritei e o ouvi gargalhar.
Estava tudo bem entre nós, afinal.
Fiz o que ele disse e fui dar uma volta na casa, meu celular não parava de vibrar e conforme eu desbloqueava pude ver que a maioria das mensagens eram de Adam. Provavelmente, a essa altura, ele já tinha se dado conta de que eu tinha saído sem que ele visse. Nem me dei o trabalho de ler nada, apenas bloqueei o celular e coloquei ele de volta no bolso da calça.
Depois de algumas voltas, cheguei a um salão enorme com alguns instrumentos musicais, mas um deles me chamou muito atenção. Um piano Fazioli modelo F156, um dos melhores do mundo, não muito grande, com teclas suaves e perfeito para ser de uso pessoal. O sonho de muitos pianistas, jovens.
Passei meus dedos por ele ao me aproximar, a conexão foi imediata e pude sentir cada parte do meu corpo se arrepiar. Eu gostava de me convencer que eu não me lembrava da última vez que tinha tocado, mas era impossível esquecer, ficaria marcado em mim para sempre.
No velório do Rian.
Me sentei na banqueta a frente do piano e levantei o tampo harmônico. Um teclado muito bem equipado, passei meus dedos por eles sentindo uma espécie de "eletricidade" percorrer pelos meus braços. Tudo nele era como uma lembrança, o toque, cheiro e cor. Não demorou muito, para que minha mente divagasse para um lugar distante, lá no fundo da minha mente.
As pontas do meu dedo tocavam o piano, aquela seria a última vez e a necessidade de guardar na memória era importante. Eu precisava me lembrar, desfrutar de qualquer sensação que eu pudesse sentir e me desprender dela para sempre, não teria volta, eu sabia disso. Eu sempre soube.
Fechei meus olhos e deixei que meu corpo fizesse o resto. Minhas mãos passearam por toda extensão do teclado, eu nem saberia dizer o que estava tocando, mas estava. Eu tinha nascido para isso, era outro fato que eu reconhecia.
Era uma atitude precipitada, mas necessária. Eu precisava fazer isso, se quisesse me desprender de qualquer coisa que me fizesse lembrar dele. Rian não só morreu, como levou tudo que um dia eu tive.
Eu estava pronta. Soube disso, no momento em que escutei passos atrás de mim e parei de tocar quase que instantaneamente.
— Ah, eu sabia que você ia mudar de ideia! — Escutei minha mãe dizer empolgada.
Nem me dei o trabalho de virar, sabia que meu pai estava com ela, assim como Mike e o homem que compraria meu piano.
? — Meu pai me chamou.
Me levantei me virando devagar para olhá-los. Seus olhos eram de pura preocupação e desespero ao mesmo tempo.
Pobre , como sobreviveria a isso? Eu também não sabia, mas sobreviveria.
— Só estava me despedindo. — falei calmamente. — Pode testar, se quiser.
O homem — que nem me dei o trabalho de reparar muito — caminhou sem jeito em direção ao piano e o analisou. Eu sabia que a chance de ele não gostar, ou desistir de fazer a compra era absolutamente nula, qualquer um seria maluco de recusasse com Fazioli F156.
— Então? — perguntei.
. — Meu pai deu um passo na minha direção.
— Pai, não faz isso, por favor. — pedi.
— Só quero saber se é isso mesmo que você quer. — Meu pai me olhou com pena, como costumava fazer nos últimos meses.
Sorri fraco.
— Sim, eu tenho. — afirmei, sem encará-lo.
Minha mão e meu irmão permaneciam parados, sem dizer nada.
— Algum problema? — O homem, que reparei ter cabelos loiros, perguntou.
— Não, nenhum. — Sorri simpática. — Você vai comprar ou não?
O homem sorriu, ele ia comprar, eu já sabia.
— Onde podemos fechar o negócio? — Ele perguntou animado.
— Venha comigo. — Meu pai disse, fazendo sinal para o homem seguisse.
Respirei fundo, assim que os vi sair e fui em direção a porta, mas minha mãe me segurou pelo braço.
— Não quer se despedir? — Ela perguntou carinhosamente.
Sorri para ela.
— Não, mãe. — afirmei e sai andando, mas parei antes de sair. — Aquilo que é nosso, sempre nos encontra, uma hora ou outra.
Era meu piano, eu tinha certeza. O homem que o comprou, era Andrew, eu sabia que o conhecia de algum lugar. Andrew Calvin, um dos maiores pianistas dos Estados Unidos, que eu só descobri algumas semanas depois, ter comprado meu piano.
Fechei o piano, assim que escutei passos vindo.
entrou na sala em pouco segundos, vestindo uma blusa branca tão transparente que era possível ver boa parte de suas tatuagens no peito e uma calça preta larga. Seus cabelos estavam molhados, o deixando ainda mais bonito e, ele tinha acabado de fazer a barba.
— Desculpa, não queria xeretar. — comentei sem graça.
riu e andou até ficar mais próximo.
— Poucos músicos resistem a essa sala. — ele comentou e foi em direção ao piano, passando a mão por ele.
— Bom, acho que está na hora de eu ir. — comentei olhando meu relógio, que já marcava quatro horas da tarde. — Obrigada por tudo.
— A banda acabou de chegar, não quer ficar? — perguntou, enquanto me encarava.
— Não, eu preciso ir para o hospital.
— Mike está lá, com a Hannah, ele disse que está tudo bem. — ele disse com calma e mostrou o celular para mim. — Acabou de me mandar mensagem.
— O que meu irmão está fazendo lá?
Eu sabia a resposta, mas preferi pensar que poderia ser loucura.
— Isso você sabe. — riu e o encarei. — Qual é, , seu irmão já é bem grandinho.
Revirei os olhos.
— Só queria saber quando isso aconteceu, porque não tem tanto tempo assim que estamos na cidade. — comentei.
riu de novo.
— Bom, você vai ficar ou não? — perguntou. — É legal, a galera canta também, com a banda.
Ele parecia empolgado e incrivelmente relaxado.
— Bom, acho que não tenho muita escolha. — falei e deixei escapar uma risada. — Vamos?
— Antes... — ele começou a dizer e o vi passar a mão sobre o piano. — Esse piano tem uma história, interessante.
— Qual?
— Andrew, comprou ele há dois anos. — me encarou.
Eu sei, o piano era meu.
— O que tem? — perguntou, para saber até onde ele iria.
— Sempre achei curioso, ele nunca tocou, tem um SH gravado nele. — ele falou como se isso fosse óbvio para mim.
Realmente era, mas ele não sabia disso.
— Na verdade, ninguém nunca tocou. — comentou.
Respirei fundo, eu não queria falar sobre isso, não agora.
— Por quê?
— Quando eu perguntava, ou qualquer outra pessoa, ele dizia que tudo que é nosso nós encontra uma hora ou outra.
Um sorriso se formou no meu rosto.
Ele tinha comprado para guardar, a pedido do meu pai, eu sabia disso. No fundo, sempre soube.
— Ele está certo. — afirmei.
— Bom, agora que você já sabe a história, podemos ir — disse e caminhou com rapidez até a saída da sala.
Do lado de fora já estava bem mais frio do que antes e me perguntei como podiam ter pessoas na piscina, talvez tivesse aquecedor, era a única explicação plausível. Tinham chegado algumas outras pessoas e a banda já estava montando os equipamentos, ela era composta por mais três garotos, todos de cabelos pretos como e cheios de tatuagem. Desviei meu olhar pelos equipamentos e me perguntei quem tocaria o violão — que parecia ser um Folk — nenhum deles ali parecia ser do tipo que tocava violão, eles tinham mais o estilo guitarra, baixo e bateria.
Me aproximei deles e fiquei apenas observando, enquanto os cumprimentava. Me distraí por uns instantes e vi que Andrew me encarava, a ideia de que ele tinha me reconhecido me apavorava de certa forma, então tratei de olhar para outro lugar.
— Essa é a . — disse aos companheiros de banda.
— Oi. — Abri o melhor sorriso que consegui.
Um cara de cabelo mais curto veio na minha direção e esticou a mão.
— A famosa . — Ele sorriu de maneira simpática. — Sou Fred.
Apertei a mão dele e sorri.
— Famosa? Não sei, ? Sim.
Ele riu com o comentário e os outros dois vieram me cumprimentar. Brad e Anton, os dois tão simpáticos quanto Fred.
— Podem me chamar de .
apenas observava.
— E aí, vai querer ser a primeira? — Fred perguntou e olhei confusa. — A cantar, tem violão também.
— É, fiquei mesmo me perguntando quem ia tocar o violão — comentei rindo e eles riram também. — Não eu....
— Ela vai cantar, sim! — Uma voz feminina, que eu conhecia, invadiu o ambiente.
Stephanie. Era ela.
Abri minha boca para dizer algo, mas fui surpreendida por braços a minha volta.
Era Eleanor.
— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntei surpresa.
me encarou.
— O ligou para nós, disse que precisava de reforço. — El disse animada.
Puta que pariu.
— Eu não... — Procurei alguma explicação, mas olhou para mim, querendo rir. — Eu estou bem, sério.
— Sabemos. — Steph disse e segurou minha mão. — Porém, somos suas amigas e queremos te apoiar neste momento.
Encarei as duas, uma do lado do outro e as abracei.
— Amo vocês! — Sussurrei e elas me apertaram no abraço.
— Não quero atrapalhar o momento — Brad, acho que era ele, começou a dizer — mas, você vai cantar? Porque com a empolgação da loirinha, eu acho que você deve mandar bem.
Revirei os olhos e as soltei.
— Não, eu estou enferrujada.
, fala sério. — El revirou os olhos. — Você manda bem.
— O pode fazer um dueto com você primeiro, aí depois você canta sozinha. — Anton sugeriu e apenas ficou encarando.
Ele cantar? Essa era nova.
— Se você quiser, claro. — O rapaz concluiu.
— Por favor! — Minhas amigas pediram empolgadas.
— Quer que a gente peça para o pessoal insistir? — Brad ameaçou e todos riram.
— Tá bom, eu canto. — Peguei o microfone. — , se não quiser...
riu.
— Relaxa, estou acostumado a me ferrar — ele disse rindo. — O que vai querer cantar?
Depois de muito debate e luta, porque parecia não conhecer a mesmas coisas que eu, decidimos que iríamos cantar "Up" da Demi Lovato com Olly Murs. Uma música um pouco lenta, mas que poderíamos modificar um pouco o ritmo de acordo com as notas que decidir íamos tocar no violão.
Todas as pessoas perceberam a movimentação e se concentraram em olhar para o palco improvisado que estávamos, todos os meninos pareciam bem calmos, eu supostamente deveria estar também, considerando que já tinha até me apresentado para Juilliard, mas eu estava nervosa, não cantava há anos.
— Está pronta? — perguntou antes de ligar o microfone.
Ele estava sentado em um banco ao meu lado, assim como eu. Ele ia tocar o violão — para minha surpresa — e cantar também.
— Sim. — afirmei, tentando não demonstrar o nervosismo.
começou a tocar o violão e fiquei impressionada com cada nota dele.
— I drew a broken heart, Right on your window pane , Waited for your reply, Here in the pouring rain… — começou a cantar.
Algumas pessoas batiam palminhas e cantavam junto. Ele continuou a música e todo mundo continuo acompanhando, ele tinha uma voz grave e muito boa, totalmente diferente do que eu estava esperando.
Estava chegando minha vez e, por um momento, senti meu coração disparar de ansiedade, havia anos que eu não cantava nada para outras pessoas.
me encarou, indicando que começaria minha parte.
— I never meant to break your heart. — Comecei a cantar e vi El e Steph sorrindo na minha direção. — Now, I won't let this plane go down. I never meant to make you cry. I'll do what it takes to make this fly.
Na segunda parte eu já estava mais empolgada e até levantei do banco em que eu estava sentada e retirei o microfone do apoio.
— Oh, you gotta hold on. Hold on to what you're feeling. That feeling is the best thing. The best thing, alright. — Cantei a terceira parte com mais intensidade e me aproximei de Brad que tocava a bateria.
continuou a música e me encarou quando a música chegou em uma parte um pouco mais lenta, até que chegamos em uma parte que cantaríamos juntos.
— I'm gonna place my bet on us. I know this love is heading. In the same direction. That's up!
Cantamos a última parte e logo em seguida, palmas começaram a ressoar pelo ambiente, não consegui evitar um sorriso. Eu quase tinha me esquecido, qual era a sensação de cantar na frente de algumas pessoas.
, você devia entrar para a banda. — Brad disse apertando meus ombros.
Soltei um riso fraco.
— Que tal mais uma música, pessoal? — Fred gritou e o pessoal se empolgou.
Não devia ter nem 30 pessoas ali, mas o barulho foi grande.
— Precisa de mim? — perguntou, ainda por perto.
— Não, posso cantar sozinha. — afirmei.
Depois do que tínhamos feito, eu estava pronta para fazer isso. Eu já tinha decidido que música iria cantar, falei para os meninos e vi pegar a guitarra e ficar um pouco atrás de mim. Brad tirou o banco e o apoiador do microfone que antes estava usando e foi para a bateria, Anton decidiu que ia descansar um pouco e os outros três fizeram sinal para que eu falasse quando estivesse pronta.
Todos me encaravam e me sentei em meu banco, ajeitei o microfone na altura certa de novo e respirei fundo.
— Eu vou cantar uma música, que me lembra duas pessoas muito especiais para mim. — comecei a dizer enquanto olhava as pessoas que me encaravam — e uma delas está no hospital, em estado muito grave.
Hannah me veio à mente.
Eu tinha escolhido "When It Rains" do Paramore, uma das minhas músicas preferidas na adolescência.
O som do baixo foi tocado primeiro, seguido da bateria e da guitarra, até todos os instrumentos serem tocados juntos.
— When it rains on this side of town it touches, everything. Just say it again and mean it (Quando chove neste lado da cidade, toca tudo. Diga isso de novo com seriedade.) — comecei a cantar e fechei meus olhos, para deixar me levar pelo momento.
Eu conseguia ver Hannah.
Meu irmão.
Minha adolescência.
Continuei a música e algumas pessoas já estavam animadas e começando a cantar baixinho. Me apoiei melhor para segurar o microfone e me preparei para aumentar um pouco o ritmo, de acordo com os instrumentos. El e Steph estavam bem ao lado do palco batendo palmas muito animadas, as encarei também, mais lembranças rodearam a minha cabeça, tentei jogá-las para longe, afinal, estava próximo de acabar.
— You can take your time. Take my time! — Cantei por fim e, quando o barulho da bateria cessou, palmas vieram em seguida.
Meu coração estava disparado e eu senti minhas mãos frias. Vi se aproximar, mas eu passei por ele e corri para dentro da casa em direção a um banheiro que eu lembrava de ter visto no meu breve passeio mais cedo. Entrei e tranquei a porta atrás de mim, meu estômago estava embrulhado e senti como se eu fosse desmaiar.
Era tudo psicológico.
A quem eu estava querendo enganar? Aquela música tem história para mim e, mesmo assim, me desafiei a cantar na frente de todas aquelas pessoas. Hannah estava internada, eu não tinha ideia alguma de como ia resolver toda a situação e muito menos se era capaz de lidar com algo assim de novo, da última vez, me devastou demais, levou tudo que eu tinha e mais um pouco.
Respira, .
Abri o vaso rápido, meu estômago não se demorou e empurrou tudo que tinha dentro dele para fora e uma batida na porta fez com que meu coração batesse mais forte. Steph entrou no banheiro, seguida de El, as duas me encararam sem saber o que dizer, eu também não sabia.
O que eu diria?
"Ei, a minha melhor amiga sofreu uma overdose, eu decidi cantar uma música que toca na minha ferida e tive um colapso nervoso, mais um para conta."
, você está bem? — El perguntou simpática, mesmo sabendo a resposta.
Fechei a tampa do vaso, dei descarga e me sentei tentando respirar com calma.
? — Steph me chamou.
— Tudo bem. — afirmei. — Acho que comi algo estragado, só isso.
— Mesmo? — Steph insistiu.
— Sim. Vocês podem me dar cinco minutos?
Tranquei a porta assim que elas saíram e voltei a me sentar no vaso, eu ainda estava nervosa demais para ir lá fora. Peguei meu celular e vi que não tinham se passado nem duas horas, desbloqueei o mesmo e fui na conversa do WhatsApp com meu pai, eu queria digitar alguma mensagem, perguntar como Hannah estava, mas desisti. A julgar a maneira que uma música foi capaz de me deixar, eu ainda precisava de mais algumas horas fora do hospital para colocar as ideias no lugar e, talvez, tentar relaxar de verdade.
Mordi o lábio inferior e apertei os dentes ainda mais forte contra a carne, quando vi uma mensagem escrito "Dra. Sullivan" no contato. Senti meus olhos queimarem e bloqueei o aparelho, me levantei e encarei meu reflexo no espelho, fora as olheiras pelas duas últimas noites mal dormidas eu estava perfeitamente normal. Liguei a torneira e joguei um pouco de água fria no rosto, isso com certeza ia ajudar a acalmar os ânimos, terminei tudo que eu tinha para fazer ali e sa do banheiro tão rápido quanto eu entrei.
Do lado de fora o clima estava tranquilo e ninguém parecia estar comentando da minha saída repentina do palco. estava no palco com a banda e eles estavam tocando uma música animada — que eu não fui capaz de identificar — enquanto o pessoal cantava animado. Ele parecia estranhamente calmo e descontraído ali, eu conseguia visualizar facilmente ele movimentando os cabelos se eles fossem longos. Existia uma harmonia entre eles, algo muito importante, para que uma banda desse certo.
— Adorei sua voz! — Uma mulher de cabelos pretos apareceu no meu campo de visão, me tirando dos meus pensamentos.
Acreditei ser Jillian.
— Obrigada! — Sorri simpática.
— Eu sou a Jillian, mãe do . — ela disse e sorriu gentilmente.
— Sou , uma amiga. — Sorri mais uma vez e ela segurou minha mão.
— Sabe, , nunca trouxe nenhuma amiga aqui. — Eu a encarei, não saberia o que dizer. — Você deve ser uma garota muito especial.
— Ele trouxe mais duas amigas, Stephanie e Eleanor. — Apontei para as duas, que estavam ao lado do palco cantando.
Jillian riu.
— Ele as trouxe, mas não apresentou para Andrew.
me disse que morava com a mãe e o irmão. Você e Andrew... — comecei a dizer, mas percebi que nada daquilo era da minha conta. — Desculpa.
Ela riu e finalmente soltou minha mão.
— Bobagem. — Deu de ombros. — Nós adotamos o , ele já tinha 14 anos e o irmão mais novo, Christopher, tinha cinco.
Adotado?
Nada daquilo era da minha conta.
— Desculpa, eu não queria ser indelicada. — afirmei. — É só que é difícil conhecer o .
— Ele falou sobre a mãe e o irmão, o conhece melhor do que muita gente, .
Balancei a cabeça e o observei no palco, ele estava me encarando e sua expressão ainda era calma.
— Jillian, nunca me contou essas coisas — expliquei. — Não quero ser indelicada, mas eu não quero saber mais nada, isso não me diz respeito. A hora que ele se sentir pronto, poderá me dizer qualquer coisa.
Ela continuou sorrindo. Jillian parecia ser uma pessoa muito boa, uma mãe exemplar, a típica mulher que provavelmente não conseguiu ter filhos e escolheu adotar, ou simplesmente, ela preferiu optar pela adoção e ajudar alguma criança que precisasse. Eu torcia para que a segunda opção fosse a verdadeira.
— Sua lealdade, é disso que precisa. — ela disse e se aproximou me dando um abraço, totalmente inesperado.
Agora me encarava com uma expressão confusa. A música já tinha parado e eles pareciam estar guardando os instrumentos.
— Adorei conhecer você, ! — Ela sussurrou e me soltou.
Pensei em dizer algo, mas ela se afastou tão rápido quanto apareceu e vi andando na minha direção.
Já estava me preparando para qualquer coisa que ele me perguntasse, eu negaria. Jillian tinha revelado muitas coisas que não eram da minha conta, eu devia ter a cortado no instante em que ela começou a falar, mas...
— Tudo bem? — perguntou, cortando minha linha de pensamentos.
— Sim, tudo ótimo. — afirmei. — Por quê?
Eu estava dando na cara.
Ótimo, .
— Você saiu do palco correndo, achei que pudesse estar passando mal. — Ele me encarou.
— É, eu acho que a comida não me fez muito bem. — Ri fraco.
— Só isso? — Insistiu.
— Sim. — afirmei sem tirar meus olhos dele. — A banda é incrível.
riu.
— É, os garotos são muito bons. — ele disse sorrindo.
— Você é muito bom — afirmei. — Não esperava te ver cantar daquele jeito.
— Digo o mesmo, sobre você.
— Já vão embora? — perguntei, vendo que eles já tinham guardado tudo e que boa parte do pessoal já estava saindo.
— É, hoje é domingo, não dá para ficar até muito tarde. — disse e quase engasguei com a minha própria saliva. — Está tudo bem?
Eu tinha me perdido completamente nos dias, se hoje era domingo, isso significava que eu não tinha estudado nenhum dia além do sábado com Seth e que amanhã eu teria aula logo de manhã, voltaria para a realidade e seria obrigada a tomar muitas decisões.
?
— Desculpa, é que eu me perdi completamente no tempo. — respondi rindo. — Preciso ir, ainda tenho que ficar no hospital.
me encarou e assentiu.
— Te vejo na faculdade? — perguntei já me virando para ir embora.
— Com certeza.
Fiz sinal para as meninas que já estava indo embora e fui me despedir dos garotos da banda, eles disseram que deveríamos marcar sociais só para ficarmos cantando e concordei trocando número com eles. Eu estava me sentindo exausta e por isso quase não conseguia prestar muita atenção na conversa de El e Steph, tudo que eu queria era chegar em casa, tomar banho e ir direto para o hospital saber como Hannah estava. Provavelmente eu passaria a noite lá e iria direto para a faculdade no outro dia.
Entrei no carro e travei as portas assim que as duas entraram também, coloquei meu cinto e rodei a chave, o motor fez um ronco forte e perdeu força. Rodei mais uma, duas, três, quatro e desisti. Aparentemente meu carro tinha acabado de quebrar, como se eu já não tivesse outros milhares de problemas para resolver, isso também tinha que acontecer. Desci do carro e toquei a campainha da casa de . Logo pude ver Andrew através do vidro vindo pelo enorme corredor, ele olhou um pouco sem entender, mas logo abriu a porta e deu de cara comigo ali parada.
— Desculpa, é que eu acho que a minha bateria deve estar com algum problema, você teria algo para recarregar? — perguntei da melhor maneira que consegui, já que meu entendimento sobre carros era zero.
Andrew riu.
— Tenho, já volto. — ele disse e se virou voltando pelo enorme corredor.
Fiz sinal que esperava lá fora e voltei para perto do carro, ao menos eu sabia abrir o capô e assim fiz.
— Amiga, você precisa de um banho de sal grosso. — El disse brincalhona e Steph a cutucou.
— É, acho que preciso mesmo. — afirmei revirando os olhos.
Andrew logo apareceu com um negócio cheio de fios nas mãos.
— Eu nem sei como agradecer — falei ao ver ele conecta-los na bateria do meu carro.
— Tudo bem. — Ele sorriu de maneira muito simpática.
— Você pode entrar e tentar ligar o carro?
— Claro.
Entrei e girei a chave algumas vezes, mas nada. Meu carro não queria pegar de jeito nenhum.
— Aconteceu alguma coisa? — A voz de invadiu o ambiente.
— Parece que o carro da quebrou. — Steph foi quem respondeu.
— Andrew, me empresta o carro? — perguntou.
— Não precisa se incomodar.
— Claro, já falei que pode pegar quando quiser. — ele disse e jogou a chave para .
— Vamos? — ele perguntou e fez sinal para que seguíssemos ele.
Eu não estava com vontade de discutir e muito menos de chamar um táxi, o que ia demorar, considerando que eles moravam em um condomínio um pouco afastado do centro. Eu entrei no lugar do passageiro e minhas amigas foram atrás, Andrew tinha um Porsche, que eu não saberia dizer o modelo, só que era bem confortável.
ligou o rádio e perguntou primeiro para Steph e El onde elas moravam, então deduzi que ele me deixaria por último e decidi não me opor a isso. Vez ou outra ele me encarava e meus pensamentos correram até as coisas que Jillian me contou, se ele havia sido adotado isso significava que não conhecia a mãe biológica ou que até conhecia, talvez ela tivesse problemas com drogas como ele.
Ele não parecia ser o tipo de cara que falava muito sobre si, muito menos sobre a família, por isso eu sabia que demoraria para ter essas respostas, mas isso não diminuía a minha curiosidade sobre ele. Quando mais eu o encarava mais eu tentava decifrá-lo e parecia que menos ainda eu sabia. , era a pessoa mais intrigante que eu tinha conhecido até hoje.
Não demorou muito para que ele deixasse tanto Steph quanto Eleanor em casa e eu senti o silêncio ficar ainda mais enlouquecedor. Me perguntei se ele não estaria falando comigo por conta do que aconteceu mais cedo, se ele cogitava a ideia das coisas que Jillian tinha dito para mim, mas eu duvidava um pouco, ela não parecia ser do tipo que diria essas coisas para qualquer pessoa.
Você é qualquer pessoa, .
Ri do meu próprio pensamento e o vi entrar no estacionamento do meu prédio.
— Você não precisa entrar. — falei, ao vê-lo estacionar em uma vaga de visitante.
puxou o freio de mão com força e me encarou.
— Eu quero. — afirmou. — Se não tiver problema para você.
— Tudo bem. — concordei e desci do carro.
Seguimos para o elevador e ele já estava no andar, foi até que rápido para chegar na cobertura e desceu comigo. Eu sabia que ele não ia entrar, que quando falou sobre me acompanhar ele queria apenas me trazer até a porta, não sei porque, mas uma parte de mim sabia disso.
— Você vai ficar bem? — Ele colocou a mão em meu rosto, me arrancando um suspiro. — Obrigada por ficar comigo. — Falei sem tirar os olhos dele e segurei sua mão. Estávamos de frente para o meu apartamento, ainda. — Sempre que precisar. — Soltei a mão dele e ele a tirou do meu rosto.
se virou e seguiu em direção ao elevador.
Meus pés foram tão rápidos que eu poderia dizer que a reação foi quase involuntária, eu cheguei perto dele e meus braços envolveram seu pescoço com a mesma velocidade. não se retraiu como aconteceu na festa do meu irmão, muito pelo contrário, os braços dele envolveram minha cintura e senti sua respiração quente próximo do meu ouvido e ficamos assim por alguns instantes, até que ele se afastou e beijou minha testa.
Abri minha boca para dizer algo, mas escutei a porta do apartamento se abrir.
— Até amanhã, .


— É por isso que você, sumiu? — Adam perguntou, dava para ver que ele estava se segurando para não gritar.
Revirei os olhos e fui para a cozinha pegar algo para beber, sabendo que estava sendo seguida por Adam.
, estou falando com você.
Abri a geladeira e peguei a garrafa de água.
— Eu sei, Adam. — respondi e fui até o armário pegar os copos.
— Por que não me responde, então?
— Adam, qual seu problema? — gritei e deixei o copo sobre a bancada. — Eu acabei de chegar, me dá cinco minutos, por favor.
Minha paciência estava se esgotando e ele parecia estar testando isso.
— Meu problema? — Adam passou a mão pelos cabelos. — Você passou o dia todo fora, , nem me avisou e ainda volta com um cara pra cá.
Revirei os olhos e coloque a jarra na geladeira.
— Adam, nós terminamos, lembra disso? — perguntei com calma.
— Você não pode estar falando sério. — Adam me encarou.
Talvez eu não estivesse falando sério naquela noite, mas deveria, e agora eu estava.
— Eu estava. — respondi e saí da cozinha.
Subi as escadas rapidamente e pela primeira vez me senti irritada com meu próprio apartamento, as vezes não é tão confortável morar em um apartamento por ser mais compacto se ele for duplex. Entrei no meu quarto e peguei a primeira mala que achei, eu precisava separar ao menos uma muda de roupas para passar a noite no hospital e assim fiz, fui passando pelo closet e pegando algumas outras coisas como pasta de dente reserva, escova de dente e cabelo, e até mesmo uma toalha para tomar banho por lá mesmo se eu não conseguisse passar na faculdade.
Enquanto eu terminava de organizar tudo e separar uma troca de roupa para quando eu saísse do banho, eu conseguia ouvir os passos de Adam na escada. Peguei minha toalha, a troca de roupa e entrei no banheiro o mais rápido que consegui, já trancando a porta atrás de mim.
— Você não pode fugir para sempre, . — Escutei ele gritar.
É, infelizmente não.
Liguei o chuveiro para deixar que a água esquentasse, tirei minha roupa e entrei no box. Uma parte de mim sabia que Adam estaria no quarto quando eu saísse, mas a outra queria que ele simplesmente aceitasse as minhas meias palavras e o meu "término" nada apropriado, arrumasse as coisas e fosse embora sem insistir em algo que está fadado ao fracasso.
Tínhamos quatro anos de relacionamento, eu tinha plena consciência disso, não que eu precisasse já que ele fazia questão de jogar isso na minha cara o tempo todo, isso era importante para ele. Em contrapartida para mim, não era justificativa para se ficar com alguém, tempo não queria dizer nada, eu sempre acreditei que amor, paixão, tesão, companheirismo e ter alguém que te aceita como você é, estavam entre as coisas mais importantes para se manter com alguém. Tempo, era o de menos.
Bufei irritada com a turbulência dos meus pensamentos e decidi que levaria o cabelo, teria de secar depois, mas ao menos ganharia alguns minutos a mais no banho. Coloquei shampoo na mão e apliquei no cabelo, aproveitei para massagear um pouco a região na intenção de também me fazer relaxar, eu estava mais do que tensa, enxaguei, passei condicionador e suspirei pesadamente antes de fechar o chuveiro.
Eu não tinha escolha, teria de enfrentar isso.
Me troquei tão rápido que até fiquei surpreendida, parte de mim queria continuar evitando o inevitável, talvez porque eu nunca tenha sido boa com mudanças e isso não estava diferente agora. Eu gostava que as coisas na minha vida se mantivessem ali, talvez fosse isso, que me causasse tanta dor quando eu não tinha controle do que iria ou viria nela.
Enrolei a toalha no cabelo e saí do banheiro, como esperado, Adam estava sentado na minha cama.
— Desculpa, eu não queria ter falado com você daquele jeito. — Adam disse, sem sair do lugar.
Eu conhecia bem essa jogada, ele ia se desculpar, dizer que não queria me tratar assim e que as coisas iam se resolver.
Quatro anos de relacionamento.
— Adam... — falei e parei na frente dele. — Para, por favor.
— Não, eu fui um idiota! Revirei os olhos e tentei manter a calma.
— Não se trata disso, não estou terminando com você por causa disso. Não é o fato de estarmos gritando um com o outro constantemente. — expliquei e ele desviou o olhar. — Olha para mim, por favor.
— Qual problema então, ?
— Eu não amo você, Adam. — falei com sinceridade, mesmo que aquilo fosse doer, ele precisava saber.
Era a primeira vez que eu dizia aquilo em voz alta. Eu não o amava, não da maneira que ele queria.
— Está dizendo que ficou todo esse tempo comigo, sem me amar?
Por que as pessoas sempre distorcem o que nós dizemos? É tão difícil assim aceitar que nós deixamos de amar? Que nem tudo dura para sempre?
— Não foi isso que eu disse. — afirmei. — Eu amei você, mas isso foi há muito tempo. Tínhamos 16 anos quando nos conhecemos, temos vinte, quase vinte um. Muita coisa aconteceu, eu me tornei alguém diferente, na verdade, eu sempre fui essa pessoa. Você nunca conseguiu aceitar isso, sou essa , a que perdeu o irmão e ainda está achando uma forma de superar isso...
. — Adam me cortou.
— Me deixa terminar. — pedi educadamente e puxei um puff para me sentar.
— Eu ainda estou procurando uma forma de superar isso, sou a que escuta Beethoven e lê Jane Austen, mas eu também sou a garota que vai para festas, dá uns porres e curte com os amigos. — Falei encarando-o. — E eu não posso ficar com alguém que não consegue aceitar isso.
— São quatro anos, . — Adam disse com os olhos vermelhos, ele queria chorar e eu sabia disso, mas me mantive firme. — Eu posso mudar, a gente...
— Não! — interrompi. — Eu não quero que você mude, quero que encontre alguém que te faça feliz. Eu não sou essa pessoa, Adam.
Eu não tinha mais nada para dizer, então fiquei em silêncio, esperando que ele falasse alguma coisa.
— Pode dizer o que quiser.
— Não sei o que dizer, . — Adam desviou o olhar. — Não foi isso que eu planejei.
— Eu sei, nem tudo sai como nós planejamos. Eu sinto muito se o que eu estou dizendo te magoa, mas eu não posso mais mentir para você, para mim. Você acha que me ama, mas não ama.
— É esse o problema? — Adam perguntou e respirei fundo.
— Não, não é esse o problema, você sabe disso. — O encarei e ele negou com a cabeça. — Bom, não posso dizer que você vai conseguir fazer isso agora, mas sempre serei uma amiga e estarei aqui para você.
Adam me encarou e levou a mão até meu rosto.
— Tudo bem, se é assim que você quer, vou respeitar.
— Certo. — Levantei do puff e o coloquei onde estava antes. — Uma semana está bom para você decidir o que vai fazer? Onde vai ficar?
— Você tem certeza?
— Tenho. — falei com convicção.
— Tudo bem, em menos de uma semana eu saio.
Não tinha mais nada para ser dito, então tirei a toalha da minha cabeça e comecei a passar a escova nele para desembaraçar. Adam não estava mais sentado na minha cama e sim parado ao lado da porta, encostado na parede com as mãos no bolso me observando, eu sabia que ele não sairia dali tão cedo, então terminei o que estava fazendo e optei por não secar o cabelo. Coloquei minha bolsa no ombro e caminhei para sair do quarto, mas parei para me despedir dele.
O encarei, ia dizer para onde estava indo, mas me dei conta de que não precisava mais fazer isso e só o abracei.
— Até mais, Adam.


Eu me sentia estranhamente leve depois das coisas que falei para o Adam, era como se eu tivesse me livrado de um peso enorme e isso me fazia sentir um certo desconforto. Contudo, não poderia ser diferente, nós tínhamos empurrado demais com a barriga e se não tivéssemos feito isso, muito sofrimento teria sido poupado.
Fiz sinal para um táxi e entrei assim que ele parou já dizendo onde iríamos, o relógio já estava marcando 11 horas da noite e pude sentir o cansaço bater com força total no meu corpo, mas não era hora de dormir. Enquanto o moço seguia o percurso, mandei uma mensagem para minha mãe perguntando qual era o seguro do carro para que eu pudesse acionar, expliquei exatamente o que tinha acontecido e aproveitei para contar a ela sobre o meu término de namoro.
Meu celular tocou na hora.
— Mãe. — falei assim que coloquei o celular no ouvido.
, como você está? — Ela perguntou demonstrando estar preocupada.
Não pude conter um riso.
— Qual a graça, ?
— Nada, mãe, é só que você fica agindo como se não soubesse que era isso que eu queria. — falei com sinceridade.
— Você é muito fria, , vocês namoravam há quatro anos. — Ela não se conteve em me repreender.
— Você até parece o Adam. — Soltei um riso fraco. — Eu só te contei porque quero evitar que o convide para alguma coisa ou que invente alguma gracinha.
— Eu não faria isso!
— Faria sim, como faria. — afirmei e ela riu do outro lado da linha.
Faltava pouco para que eu chegasse ao hospital.
— O Mike ainda está no hospital? — perguntei para me certificar.
Minha mãe bufou.
— Sim, seu pai já tentou de tudo, ele só veio tomar um banho e voltou. — Minha mãe parecia um pouco irritada com a atitude do meu irmão.
O motorista estacionou na frente do hospital.
— Mãe, espera aí, vou pagar o táxi aqui. — falei e tirei o celular do ouvido.
— Quanto deu? — Perguntei já abrindo a carteira.
— 50 pratas.
— Certo. — Tirei o dinheiro e entreguei para ele.
Sai do carro passando a alça da mochila no ombro e coloquei o celular de volta no ouvido.
— Pronto — informei minha mãe de que já estava de volta.
— Onde você está?
— Eu vim para o hospital, Hannah é minha amiga — informei e passei pela porta de entrada.
, você sabia que seu irmão estaria aí. — Escutei ela bufar.
— Mãe, não vou discutir isso com você. — Entreguei meus documentos assim que cheguei na recepção. — Eu te ligo depois, te amo.
Desliguei antes que ela dissesse mais alguma coisa e me voltei para a recepcionista.
— Quem é o paciente? — A moça perguntou de forma simpática.
— Garbin, Hannah — informei.
A mulher começou a procurar pelos pacientes no computador e eu fiquei apenas esperando, até que ela me devolveu os documentos.
— Na ala da UTI. Sabe onde fica?
— Sei sim, obrigada. — informei e sai andando.
Entrei no elevador e apertei o botão para chegar ao andar da UTI, o que foi bem rápido já que era no terceiro andar. O lugar estava bem vazio por conta do horário, tinham apenas umas quatro pessoas sentadas na primeira sala de espera que passei e nenhuma na segunda. O único barulho que se podia ouvir eram o das máquinas.
Mike estava sentado bem ao lado da cama de Hannah, ele estava lendo algo no celular e só notou a minha presença quando cheguei perto o suficiente. Meu irmão parecia estar bem cansado, suas olheiras eram evidentes, sem falar nas roupas simples que estava vestindo, calça de moletom, tênis e uma camiseta branca bem solta no corpo.
Nos encaramos, ninguém queria ser o primeiro a falar.
— Oi. — falei, já que eu sabia que ele não iria dar o braço a torcer.
— O que você está fazendo aqui, ? — Seu tom de voz era calmo e ele continuava sentado.
Me esforcei para não revirar o olho.
— Hannah é minha amiga, vou passar a noite aqui no hospital. — falei.
Mike soltou um riso fraco.
— Claro, você sempre acha que é a pessoa mais adequada para cuidar de todo mundo. — Mike me olhou com a mesma calma de antes, mas suas palavras foram agressivas.
— Mike, eu não vou discutir isso com você, não agora.
— Não se preocupe, — meu irmão disse e levantou. — Você não precisa mais se segurar, sempre disse o que quis e não tem mais nada que você diga que me machuque. Já disse tudo.
Respirei fundo e saí da UTI, não ia ter uma discussão com ele enquanto minha amiga estava bem ao meu lado respirando por aparelhos para sobreviver.
Mike veio atrás.
— Olha, Mike, eu não estou me opondo...
— Quem você pensa que é para se opor a alguma coisa aqui? — Ele me encarou, falando um pouco mais alto.
— É sério, isso? — perguntei. — Eu não sou ninguém, Mike. Só estou dizendo que não é por causa de, seja lá o você estiver tendo com a minha amiga, que estou aqui. Eu vim porque ela é importante para mim, você goste ou não.
— Bom, ao menos alguma coisa não mudou.
— Do que você está falando? — Olhei sem entender.
— Você quer controlar tudo. — Meu irmão disse e ficou mais perto, mas me afastei indo para o corredor ao lado do quarto, onde eu não tivesse visão de Han.
— Isso não é verdade.
— Não? Bom, eu perguntaria ao Rian, mas ele não está aqui para se defender. — Mike estava sendo cruel e sabia disso.
— Não vou ficar aqui alimentando isso. — Encarei. — Vou ficar com a Hannah está noite, podemos revezar em um dia sim e um dia não, até ela melhorar.
Me virei para voltar ao quarto, mas Mike segurou meu braço.
— Devia ter sido eu, né? — Me virei para encarar meu irmão. — Você sempre quis que fosse eu, .
Mike saiu andando antes que eu pudesse dizer alguma coisa, enquanto eu permaneci estática.

Mal conseguia acreditar que em menos de 24 horas estaria bem longe desse lugar. A sensação era libertadora, finalmente consegui convencer meus pais que seria melhor se eu fosse para Califórnia, passar ao menos um ano lá, começar a faculdade na UCLA ia ser bom para mim.
Terminei de fechar a última mala, mas ainda tinha muita coisa que eu precisava empacotar para a mudança, decidir se iria levar ou não. A maior parte do que tenho, iria ficar aqui para doar ou para minha mãe guardar, até que eu sentisse vontade de vir buscar, quem sabe um dia.
Por fim, peguei duas malas e decidi levar para o carro. Sabia que que ainda tinha algumas horas, mas eu já queria adiantar tudo, talvez até conseguir sair de casa antes do planejado seria ótimo. Desci as escadas e logo atravessei a porta de entrada. Enquanto procurava a melhor maneira de colocar as malas no porta-malas, escutei alguém se aproximar.
— Eu achei que era só uma ideia estupida. — Mike, meu irmão mais novo, se manifestou.
— Mike... — sussurrei e me virei para ele.
Meu irmão estava com as mãos no bolso da calça enquanto me encarava. Sua expressão era tanto de tristeza quanto de raiva, desde que decidi que iria para Califórnia, as coisas se tornaram ainda mais difíceis entre nós.
Ele achava que eu deveria ficar aqui e apoiar nossos pais, apoiar nossa família. Como se a minha presença fosse fazer alguma diferença depois do que aconteceu.
— O quê? — Indagou. — O que você espera que eu diga?
— Não disse que esperava algo. — respondi, um pouco irritada. Já estava cansada dessas brigas com ele, tentando me dizer o que devo ou não fazer.
— Pare de agir assim, como se minha opinião não importasse. — Mike se balançou para frente e para trás, estava nervoso.
— Também não disse...
— CHEGA! — Ele gritou, me interrompendo. — Eu estou cansado. De você agindo como se ninguém mais estivesse sofrendo.
— Não estou fazendo isso, Mike. — Expliquei e dei um passo na direção dele, que se afastou. — Eu já te expliquei, eu preciso de um tempo. Você até poderia ir comigo, se quisesse...
Ele me encarou, seu olhar era vazio. Meu irmão nunca tinha me olhado assim antes. Nós sempre nos demos muito bem — mesmo com algumas brigas —, sempre passamos muito tempo juntos, demos risadas. A nossa semelhança, o fato de todos acharem que somos gêmeos, sempre nos tornou muito próximos.
Não tanto quanto eu era com Rian, mas o suficiente para dividirmos muitos segredos.
— Você nem fala dele, . — Mike agora estava com um sorriso no rosto. — Você nem fala sobre nosso querido irmão. Que Deus o tenha.
Mike soltou uma gargalhada.
Fechei o punho. Agora eu estava ainda mais irritada do que nunca e precisava me controlar para não falar algo que piorasse as coisas.
— Mike, por favor.
— Ele era um drogado, . O que você achou que ia acontecer? — Ele estava sendo cruel e sabia disso.
— Cala boca! — Gritei.
Ele estava passando totalmente dos limites. Ou porque estava tão cansado, que nem percebeu o que estava falando ou porque sabia que iria me atingir.
— NÃO! — Mike andou até mim, ficando bem próximo. O suficiente para eu socar a cara dele, se eu quisesse.
Meus pais apareceram na porta, seguidos de Adam. Ninguém deu nenhum passo, estavam esperando qual iria ser a próxima reação do meu irmão, ou até mesmo a minha.
Meu coração estava acelerado, queria gritar com ele, bater nele, para que nunca mais dissesse algo assim.
— Ele era.... — Minha mão acertou o rosto dele, antes que ele conseguisse terminar o que estava prestes a dizer.
Fiquei totalmente sem reação, chocada. Meu tapa no rosto do meu irmão, foi totalmente inesperado. Achei que para meus pais também, porque Adam agora estava me segurando, enquanto tudo que eu queria era terminar o que comecei. Consumida pela raiva.
— Então, é isso? Você queria que fosse eu, né? — Mike perguntou gritando. — Responde. Eu sei que pensou nisso, todas as vezes que olhou para mim, nas últimas semanas.
Eu estava chocada, não conseguia acreditar no que ele está dizendo.
— É isso que quer ouvir? — Gritei, enquanto Adam ainda me segurava. — Sim, deveria ter sido você. Porque assim talvez eu estaria indo para Julliard e não para UCLA.
As palavras saíram de forma rápida. Me arrependi na hora, nada aquilo era verdade. Nem por um minuto, mas eu não conseguiria nem me desculpar. Aquelas palavras não tinham volta.
Adam me soltou, estava tão chocado quanto todos ali.
— Eu nunca mais quero te ver.


Um mês passou voando e eu achei que não aguentaria aquela rotina por uma semana. Hospital, faculdade, casa e hospital de novo e, então, tudo começava de novo e eu ainda precisava me dividir entre estudar e voltar a fazer meu trabalho voluntário em apoio às pessoas com dependência química, muitas vezes eu sentia como se eu fosse encostar em algum lugar e dormir até alguém me achar ali jogada.
Na segunda semana eu já estava mais habituada a nova rotina e meu único problema, era sempre ter que encarar Mike quando chegava meu horário de ficar com Hannah e ter que ouvir os comentários irônicos dele. Na terceira, eu já não me importava mais, até porque tínhamos coisas mais importantes para nos preocupar, Hannah estava com um sangramento intracraniano e foi preciso uma intervenção, já que essa poderia ser a causa de ela não ter acordado ainda. Havia atividade cerebral, seu corpo estava respondendo as medicações, era a única possível explicação.
Na quarta, estávamos esperando para que ela acordasse e que se recuperasse logo, todos os médicos — inclusive meu pai — diziam que tudo estava saindo como esperado, que algumas pessoas demoravam mais tempo para se recuperarem após um procedimento como esse e que sua atividade cerebral estava ainda melhor do que antes da cirurgia, então, logo ela acordaria.
Quando? Era só isso que eu conseguia me perguntar.
Contudo, eu não me sentia completamente sozinha. El, Steph, Seth e até mesmo Hunter sempre apareciam para checar como eu estava e saber se tudo estava correndo bem, sem falar em , que almoçava todos os dias comigo na faculdade e me acompanhava até em casa vez ou outra, nós estávamos bem mais próximos, mas isso me fazia sentir que poderia ter um problema no futuro com Mike.
Respirei fundo e enfiei a chave na fechadura, ao menos era sexta-feira e eu não teria aula no dia seguinte, hoje eu iria tirar uma noite de folga por ordem do meu pai e de todos os médicos de Hannah, que diziam que eu precisava fazer outra coisa ao invés de passar o final de semana todo encarando ela, como se ela fosse acordar de repente.
— Ei, peludo — falei para um gato que apareceu trançando minhas pernas.
Deduzi que deveria ser o gato da vizinha e vi que a porta dela estava trancada, aquela mulher parecia nunca lembrar de colocar o próprio gato para dentro de casa.
— Bom, parece que você vai ficar um pouquinho em uma nova casa. — falei pegando-o no colo.
O coloquei no chão assim que entrei e tirei meus sapatos, apesar de eu estar de tênis os meus pés estavam me matando. Caminhei até a despensa e procurei por ração de gato, apesar de eu não ter nenhum, sempre deixava comida guardada porque sabia que a vizinha era muito descuidada com Félix, o gato dela.
— Ei, você está com fome? — perguntei me agachando já com a vasilha na mão e ele se aproximou. — É, acho que sim.
Coloquei um pouco de ração no pote e deixei no chão para que ele comesse.
Quase levei um susto quando entrei no meu quarto, a maioria das coisas ali tinham sumido, principalmente os meus porta-retratos com Adam. Andei até o closet e ao abrir as portas vi que a maior parte estava vazia e que só tinham minhas coisas ali, nem sapatos dele tinham mais e me senti aliviada, já que ele demorou muito mais do que uma semana para ir embora e ainda mais para terminar de pegar as coisas dele.
Me joguei na cama e fechei os olhos respirando pesadamente, eu estava cansada, mas não o suficiente para fazer planos de dormir. Abri meus olhos e encarei o teto, pensando no que eu poderia fazer, era difícil pensar em alguma coisa já que eu tinha me acostumado com a rotina de sempre chegar, estudar um pouco, tomar banho e ir para o hospital.
Senti meu celular no meu bolso e me contorci para puxá-lo.
Era .
— Ei. — falei assim que coloquei o aparelho no ouvido.
— Está em casa? — Ele parecia estar dirigindo, eu conseguia ouvir o barulho dos carros.
— Sim, é minha noite de folga, ficou sabendo? — Me sentei na cama.
— Já era sem tempo. — riu do outro lado da linha, me arrancando um meio sorriso.
— E você? Está fazendo o quê? — Perguntei curiosa, já que ele não tinha o costume de dirigir.
— Estacionando no seu prédio.
— O quê? — Dei um pulo da cama e fiquei de pé.
— Achei que podíamos fazer algo. — ele disse sem pretensão alguma e escutei o barulho do freio de mão.
Ou ele estava mesmo aqui, ou queria ser engraçadinho.
?
— Desculpa. — Sai do quarto, já descendo as escadas em seguida. — Você está falando sério?
riu do outro lado da linha.
Ele estava falando sério.
— Você é maluco.
Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa e eu caminhei até a porta e a destranquei para que ele entrasse sem que eu precisasse abrir, já tinha virado um hábito entre nós, sem falar que eu nem precisava mais avisar ao porteiro para liberar a entrada dele. A verdade é que eu não sabia dizer quando nos aproximamos assim, se foi na noite em que ele me deixou em casa e eu o abracei ou se foi nas diversas em que ele me fez companhia enquanto eu estudava e ele também, apesar de ele cursar Direito e eu Medicina.
— Estou aqui na cozinha. — gritei ao ouvir a porta da frente bater.
entrou na cozinha logo em seguida.
— Está com fome? — perguntei.
— Sim. — Ele sorriu simpático e sentou em um dos bancos de frente para a bancada, colocou os cotovelos apoiados e me encarou.
— O quê?
— Sabia que ia esquecer! — riu.
Eu não fazia ideia do que ele estava falando.
— O jantar, hoje.
É, , você está mais velha do que parece.
— É, eu esqueci. — afirmei rindo.
— Você tem um tempinho ainda para se arrumar, Jillian nem vai notar o atraso. — riu fracamente. — Ela está muito empolgada, na cozinha.
Ri fraco e caminhei em direção a saída da cozinha.
— Não sabia que tinha um gato. — Escutei ele dizer atrás de mim.
— Não é meu. — comentei já próxima da escada e virei para encará-lo.
— Que lindo, . — comentou e pegou o gato no colo. — Roubando gatos.
Gargalhei.
— Cala boca!
Subi o mais rápido que consegui e já entrei no quarto indo direto para o banheiro. O banho foi bem tomado, mas rápido. Olhei no celular como estava a temperatura e decidi que daria para usar algo mais fresquinho, logo, a escolha da roupa também foi rápida e eu terminei tudo em exatos 40 minutos, tempo recorde para mim.
dirigia com a mesma concentração de sempre, as vezes trocava a música e vez ou outra me olhava, como se quisesse checar que estava tudo bem. Era bom estar na presença dele, porque ele era o único que não ficava me perguntando a cada cinco minutos como eu estava me sentindo ou se podia fazer algo por mim. Ele simplesmente sentava e esperava que eu dissesse algo, ou não dissesse nada.
Ele estacionou e nós descemos, com ele fazendo alguma piada sobre Jillian ser muito paranoica. Eu a achava uma mulher incrível, apesar da revelação que me fez naquele churrasco, na última vez que estive aqui com ele, ela foi extremamente gentil e conversamos sobre diversas coisas nas outras vezes em que voltei para cá. Acabei descobrindo que ela era médica e que além de ter e Christopher, como filhos adotivos, ela também tinha um mais velho que era casado.
! — Jillian disse assim que atravessei a porta da cozinha. — Fiquei com medo que não viesse.
— Nunca! — A abracei.
— Talvez, ela tenha esquecido, né, ? — disse rindo e mostrei o dedo do meio para ele, sem que ela visse.
— Deixa de ser chato, . — Jillian disse em tom de brincadeira e riu.
— Onde está o Andrew? — Ele perguntou.
— Você sabe como ele é, sempre deixar tudo para última hora. — Jillian voltou a mexer em suas panelas em cima do fogão. — Ainda dando banho no Chris.
— Certo. — disse e me encarou. — Quer ir um pouco lá fora?
— Claro.
O clima estava exatamente como eu pensei que estaria, fresco. O céu estava cheio de estrelas e isso indicava que teríamos um dia de sol amanhã, o que seria bom, já que em Nova York parecia só fazer frio o tempo todo. Às vezes era bom, sair de casa sem ter que se preocupar em usar um monte de blusas, ou casacos que não ficassem todo molhado por risco de nevar.
— Obrigada, por ter concordado que eu viesse. — falei ao me sentar em um banco na varanda.
riu.
— Eu não poderia te proibir. — me encarou, sentando-se no muro a minha frente. — Ao menos, não foi essa intenção quando falei que não gostaria que viesse.
— Qual era, então?
Eu ainda conseguia me lembrar da reação dele no telefone, me dizendo que era ridículo eu jantar com Jillian e a família dele, que não tinha nada ver e que era total bobagem.
— Não sei, não sou bom nisso. — desviou o olhar. — Nunca precisei ser.
Agora ele estava me encarando.
, não tenho a intenção de me meter na sua vida, nem na sua família.
— Eles gostam de você, mais do que gostam de mim, às vezes. — Ele riu.
— É o que acontece quando você tem amigos. — Dei de ombros.
— Deixa o Mike ouvir isso.
Ele gargalhou alto, achando a maior graça da própria piada.
— Muito engraçado. — falei revirando os olhos.
— Amigos, então? — Escutei ele dizer, como se estivesse falando mais para si, que para mim.
Me preparei para responder, mas fui pega de surpresa por pequenos braços envolvendo meu pescoço. Era Christopher, o irmão mais novo de . Ele era praticamente uma miniatura do mais velho, com os mesmos cabelos e olhos, sem falar no jeito todo sério de falar, mas eu acho que isso, era mais uma tentativa de tentar se parecer ainda mais com o irmão.
— Ei, Chris. — Depositei um beijo na bochecha dele, que se retraiu.
— Viu, é assim que se ganha beijo de uma garota. — Ele disse se referindo a . — Não ficando parado aí.
Não pude conter a risada.
— Cala boca, pirralho. — disse e puxou ele, fazendo cócegas. — A Jillian já terminou o jantar?
— Sim, disse para vocês pararem de namorar e entrarem. — Chris riu.
Encarei e ele desviou o olhar.
— Já mandei calar a boca. — Ele disse e bagunçou o cabelo de Chris. — Vamos logo.
Jillian tinha feito tanta coisa que até me senti perdida, tinha opção para todos os gostos. Carne vermelha, frango, peixe e ainda tinham algumas opções vegetarianas, já que Andrew era vegetariano. Tudo estava uma delícia, sem falar na mesa maravilhosa que ela tinha montado, cheio de velas e flores, parecia até que estávamos em uma ceia de Natal. não se conteve em fazer piadinhas dizendo que era exagero da parte dela.
Eu estava adorando, não era sempre que me alimentava bem. Na maioria das vezes, eu comia um miojo ou pedia alguma comida, morar sozinha tem suas vantagens, mas também as suas desvantagens. Cozinhar não era bem o meu talento, então eu tinha que me virar como podia e, quando surgia uma oportunidade assim, eu precisava aproveitar.
, como está sua amiga? — Jillian perguntou enquanto cortava um bife em seu prato.
lançou um olhar na direção dela e eu notei isso.
— Ela está se recuperando, passou por outra cirurgia. — expliquei e dei uma garfada na minha comida.
— Como vocês se conheceram?
— Jillian. — chamou a atenção dela.
— Está tudo bem — falei e sorri para ele. — Eu morei na Califórnia por dois anos, nos conhecemos no Campus.
— Uau, como foi morar lá? — Jillian só queria ser simpática, como sempre.
permanecia em silêncio, assim como Andrew e Christopher, mas eu sentia que ele estava um pouco desconfortável com as perguntas dela.
— Foi uma experiência muito boa, mas já estava na hora de voltar. — Sorri simpática. E você, já morou em algum outro lugar?
— Não, sempre gostei muito daqui. — Ela sorriu simpática e senti que a conversa tinha acabado ali.
O resto do jantar foi em completo silêncio, inclusive a parte da sobremesa que foi regada por ótimas opções de sorvetes e coberturas para ele. Depois disso, me ofereci para ajudar Jillian com a louça enquanto brincava do lado de fora com o irmão, ele parecia bem irritado com a necessidade da mãe de saber mais sobre mim.
— Obrigada por ter vindo! — Jillian me abraçou.
— Eu que agradeço, estava tudo maravilhoso. — Abri o melhor sorriso que consegui. — Eu não comia bem assim, faz tempo.
Ela riu.
— É, você parece que emagreceu mesmo.
— Essa correia, hospital, faculdade e casa. — Bufei. — É um pouco cansativo.
— Eu imagino, espero que descanse, disse que é seu final e semana de folga. — Jillian disse e andou até o armário para guardar uma panela.
Permaneci próxima da bancada.
— Ele disse? — Perguntei enquanto olhava para o lado de fora através da porta de vidro, ele estava brincando com Chris.
— É, também fiquei surpresa.
não é muito de falar, sobre a vida pessoa, né, Jillian? — Voltei a encará-la.
— Pode me chamar de Jill. — Ela se aproximou e se serviu com um pouco de café. — Quando eu o adotei, foi muito difícil.
Eu sabia que deveria cortá-la dessa vez, mas não queria. Agora a minha curiosidade sobre era maior, estávamos mais próximos.
— Por que? — Falei dando um gole na xícara de café que ela tinha colocado para mim também.
— Ele era muito traumatizado, uma mãe drogada. — Jill deu um gole em seu café. — Você deve imaginar.
— É, eu sei bem como é. — Suspirei pesadamente.
, me desculpa, não sabia...
— Tudo bem, não precisa se desculpar! — A cortei, minha intenção não era constrangê-la.
Vi que ela ia dizer algo, mas parou assim que a porta de correr fez barulho.
Era .
— Vamos na piscina. Tem algum biquíni que sirva na ? — Ele perguntou nos encarando, parecia calmo, apesar de eu estar ali conversando com ela.
— Não precisa se incomodar, eu posso ficar de fora. — falei sem jeito.
riu.
— Fala isso para o pirralho, ele quer que você o ensine a boiar de novo. — riu. — Ficou me enchendo com esse negócio a semana toda.
Olhei para fora, onde Christopher estava e um sorriso se formou em meu rosto.
— Eu devo ter algo. — Jill disse já se retirando. — Já volto.
não disse nada e simplesmente saiu da cozinha, me deixando sozinha.
Às vezes era muito difícil acompanhar as mudanças de humor e os pensamentos dele, era simplesmente impossível saber se ele estava bravo ou se o que tinha acabado de acontecer era indiferente para ele. tinha me dito que eu poderia perguntar, sempre que tivesse dúvida sobre algo, mas não é como se fosse a coisa mais simples do mundo, ficar questionando as atitudes dele.
— Aqui, . — Jillian esticou um biquíni na minha direção. — Eu acabei comprando e não serviu.
— Obrigada, Jill! — A agradeci e segui em direção ao banheiro para me trocar.
O biquíni serviu até que bem, ele era todo preto e simples, exatamente do jeito que eu gostava. Deixei minhas roupas dobradas em cima do banco na varanda e fui para a área da piscina, Chris estava dentro da piscina e se preparando para pular e atacar o irmão, provavelmente os dois estavam brincando de pega-pega dentro da água.
— Legal! — Chris disse animado ao me ver.
— A água está ótima — disse e pulou.
Mergulhei na piscina sem dizer nada, a água realmente estava uma delícia graças ao aquecedor. Voltei para a superfície com rapidez e logo Chris agarrou meu pescoço, ele realmente estava empolgado para que eu continuasse ensinando a ele como boiar e assim eu fiz. Pedi que ele ficasse de costas e que abrisse bem os braços, apesar de Chris ficar um pouco ansioso para conseguir fazer sozinho, ele até que estava indo bem.
Umas três vezes e ele já estava conseguindo fazer tudo sozinho. só observava tudo, com os braços apoiados na borda da piscina, seus cabelos estavam bem molhados e suas tatuagens pareciam ainda mais evidentes. Ele era bonito e, acho que o jeito sério e na dele, fazia com que eu quisesse passar horas tentando decifrá-lo.
Desviei meu olhar, assim que escutei passos do lado de fora.
— Ei, acho que está na hora de alguém dormir, né? — A voz de Jill saiu calma.
— Não quero! — Chris protestou e eu me virei para encarar Jill.
Ela estava com uma expressão séria.
— Não vou repetir, não é mais hora de criança estar acordada.
Vi Christopher fazer cara feia e ela permaneceu encarando-o, então ele me deu um abraço se despedindo e saiu da piscina.
? — Escutei ele me chamar e o encarei. — Podemos fazer isso mais vezes?
— Claro!
— Você não vai embora, né? — Escutei ele perguntar e encarei , que ficou com uma expressão de espanto. — Tipo para sempre?
Jillian arregalou os olhos.
— Não, Chris, eu estarei aqui. — Nadei até a borda da piscina. — Se eu não estiver, é porque tenho algumas coisas para resolver.
— Promete?
— Christopher, vai dormir. — Escutei dizer em um tom irritado.
Jillian só encarava tudo.
— Chris, você pode pegar meu celular? — Pedi e ele correu e pegou.
— O que você vai fazer? — Ele perguntou curioso.
— Jillian, pode me passar seu número?
não dizia sequer uma palavra.
— Claro. — Jillian concordou.
Ela me disse o número e eu anotei o celular e enviei uma mensagem no WhatsApp para ela.
— Pronto, mandei uma mensagem para sua mãe, sempre que quiser falar comigo. Ou quiser que eu venha aqui, é só me mandar uma mensagem. — Respondi sorrindo e devolvi meu celular para ele. — Agora guarda para mim.
— Boa noite, ! — Ele disse e me abraçou.
O abracei de volta.
— Boa noite, Chris.
saiu da piscina e o vi andar até a varanda, ele pegou uma toalha e começou a se secar. Sua expressão era de bastante irritação, eu não tinha certeza se ele estava bravo com a minha atitude ou com a do irmão.
Sai da piscina e caminhei até ele.
— Pensei que íamos nadar. — falei ao me aproximar.
Ele não respondeu.
— Sabe, , amigos conversam — brinquei.
— Perdi a vontade. — Ele continuou se secando e puxei a toalha da mão dele — !
— Você está bravo, pelo que Christopher disse. — O encarei.
— Sim, porque agora tenho que te dar explicações de coisas que eu não estou pronto. — Ele me encarou.
— Não lembro de ter pedido por explicações — rebati.
Vi dor em seus olhos, ele tinha perdido alguém, assim como eu.
— Escuta, você pode achar que eu não entendo, mas eu entendo. — expliquei.
— Está vendo?
— Eu quero dizer, que sei como é ter que se explicar, por isso não cobraria isso de você. — O encarei olhando bem em seus olhos.
Um sorriso se formou no rosto dele e o vi colocar uma mexa do meu cabelo atrás da orelha.
— Estou com vontade de nadar de novo. — Ele disse rindo.
Dei de ombros.
— O que?
— Agora eu que não quero! — respondi rindo.
Vi ele se abaixar e envolver os braços entre minhas pernas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ele me jogou sobre os ombros e andou até a piscina. Soltei um grito quando o vi ganhar impulso e correr em direção à piscina, minha única reação foi colocar a mão no rosto e depois disso senti a água.
me soltou e me afastei dele mergulhando mais fundo, a água de fato estava realmente boa e eu estava feliz de ele ter mudado de humor e aceitado continuar na piscina. Eu precisava desses momentos de distração, o último mês tinha sido uma loucura e eu sempre passava de sexta a domingo dentro do hospital esperando que Hannah acordasse.
— Eu podia ter me afogado, sabia? — Falei assim que subi para a superfície.
gargalhou.
— Quanto drama.
— Eu, né? — Ri fraco. — Você está sendo um péssimo amigo.
— Eu?
— É, querendo me tirar o pouco de momento relaxante que tenho — comentei rindo. — com esse drama todo.
riu e nadou até mim.
— Então, eu estou te relaxando? — Ele perguntou e ficou apenas com a cabeça para fora da água.
— A piscina está me relaxando. — Dei de ombros. — Obrigada por ficar comigo.
— Já disse, . — me encarou e se aproximou um pouco mais. — Sempre que precisar.
Permanecei com meus olhos nos dele e vi se aproximar ainda mais.
, sabe que não podemos...
O toque do meu celular me interrompeu. Saí da piscina na mesma hora, apesar de eu querer ter aquela conversa com ele, eu também precisava ver quem estava me ligando porque poderia ser do hospital com alguma notícia sobre Hannah.
— Alô. — falei assim que atendi.
? — A voz do meu pai estava calma, mas com uma certa ansiedade.
— Oi, pai — falei e me sentei no banco. — Aconteceu alguma coisa?
— Preciso que venha até o hospital — ele disse firme.
— Aconteceu alguma coisa?
Senti meu coração disparar.
— É a Hannah.
— O que aconteceu?
— É melhor você vir até aqui. Consegue fazer isso? — Meu pai insistiu.
— Claro, estarei aí em no máximo 30 minutos.
Desliguei a ligação e encarei , que já tinha saído da piscina.
— O que foi? — Ele perguntou parecendo preocupado.
— É meu pai, ele disse que precisa que eu vá até o hospital. — falei já pegando minha roupa.
— Não deve ser nada grave, vai ver ela acordou, fica calma.
— É, pode ser.
— Vem, vou te dar uma toalha para tomar um banho quente e se trocar. — disse já indo para dentro da casa.
— Não, vou só me secar — falei seguindo-o.
— Certo. — Escutei ele dizer e se virar para mim. — Vou me trocar também e vamos.
Ele me deu uma toalha e segui para o banheiro.
— Não precisa ir comigo. — falei antes de entrar.
— Vou fingir que nem ouvi isso. — O vi revirar os olhos.
Fiz menção de fechar a porta, mas ele colocou a mão e a segurou.
— O que foi?
— Nada, deixa para outra hora.


Seria loucura dizer que eu conseguia contar as batidas do meu coração? Talvez.
Os meus batimentos estavam tão fortes e a ansiedade era tão grande que eu achei ser possível contar cada batida sem errar nenhuma. O caminho até o hospital foi rápido pelo horário, mas eu tive a sensação que levou muito mais do que 20 minutos como havia dito.
Atravessei a porta de entrada junto com ele e nem me dei o trabalho de ir até a recepção para me anunciar, todos já sabiam o que eu estava fazendo ali, eu até conseguia ouvir os comentários ao longo dos dias que tinha passado naquele lugar. Entrei no elevador com e o senti apertar minha mão e me lançar um olhar de compreensão, nem me atrevi a recusar, naquele momento eu precisava de qualquer apoio que pudessem me dar.
Eu tinha que me preparar para o pior, estava acostumado com ele, já que na minha experiência, as coisas que aconteceram com Hannah não costumavam terminar muito bem.
— Pai! — O abracei quase que em um gesto involuntário.
Ele depositou um beijo no topo da minha cabeça e me afastou com delicadeza.
— Como está, ? — Meu pai o cumprimentou com um aperto de mão e assentiu.
— Então, o que aconteceu? — Perguntei com um pouco de pressa.
Meu pai me encarou.
— Pai, ela morreu? — Perguntei nervosa.
— Não, . — Meu pai sorriu carinhoso. — Sua amiga é muito forte.
— Ela acordou? — Minha voz estava começando a ficar trêmula.
segurou minha mão e vi meu pai afirmar com um sorriso no rosto.
Eu senti como se tudo tivesse ficado em câmera lenta à minha volta e meus pés tomado vontade própria. Eu corri tão rápido que foi como se o quarto de UTI onde Hannah estava fosse realmente muito longe, porque foi essa a sensação que eu tive, que andei um bom tempo até que eu finalmente conseguisse chegar até onde ela estava.
Ela acordou!
Minha amiga estava acordada, ainda tinha muitos fios ligados a ela, mas estava viva e respirando. Me aproximei dela mesmo com Mike ali e a encarei, ela estava com o sorriso de sempre no rosto. Levei minhas mãos até os cabelos dela e com a mão livre segurei sua mão, me abaixei e depositei um beijo no topo de sua cabeça.
...
Minhas mãos estavam trêmulas e é como se minha voz estivesse travada. Tudo que eu sentia era um nó enorme na garganta, a sensação era de que eu estive evitando por tanto tempo todos os sentimentos de medo e de dor, que eles vieram com toda força de uma vez só. Lágrimas escorreram rápido e senti meus olhos, cabeça e corpo pesados.
— Eu sinto muito. — sussurrei.
— Não é culpa sua. — A voz dela estava bem fraca.
Provavelmente consequência da intubação.
— Não precisa falar. — Limpei meu rosto, mas as lágrimas pareciam não cessar.
Escutei passos e me virei para a porta, tinha acabado de entrar no quarto.
— Você está bem? — Ele perguntou e desviou o olhar para Mike, que apenas nos encarava.
Eu nem tinha me dado conta de que ele estava ali, até então.
— Sim. — respondi enquanto limpava as lágrimas. — Só preciso absorver tudo isso.
Respirei fundo e os encarei.
— Será que podem me deixar a sós com a Hannah? — Pedi com calma.
Ao contrário do que eu pensava, Mike não se opôs e saiu do quarto junto com . Eu precisava ficar a sós com ela por pelo menos alguns instantes, eu tinha tanto para dizer, mas também queria ouvir o que ela tivesse para falar. Hannah tinha passado um mês em coma e eu não sabia dizer ainda se ela tinha essa noção de tempo, ou se sequer lembrava do que tinha acontecido e porque estava nesta cama de hospital.
— Então? — Escutei a voz fraca da minha amiga e me sentei na poltrona de frente para a cama.
— Você sabe o que aconteceu? — perguntei com calma, sem tirar os olhos dela.
— Lembro de estar na festa. — Ela falava com calma, mas não parecia estar incomodada com a intubação, então eu imaginei que já tinham algumas horas que ela havia acordado. — Lembro de me sentir mal e apagar.
— Certo. — afirmei. — Quer saber? Não precisamos falar disso agora.
Achei que mudar de assunto agora seria a melhor solução, não queria colocá-la em nenhuma situação de estresse, tínhamos muito tempo para falar sobre tudo o que aconteceu. Assim eu esperava.
— Então, ? — Hannah riu fraco e tossiu um pouco.
— Ele me ajudou muito nesse tempo. — comentei desviando o olhar. — Mike, então?
Ela riu e desviou o olhar.
, posso explicar...
— Não precisa me explicar nada — a cortei. — Não agora.
— Certo.
— Eu estou tão feliz que você acordou. — falei já sentindo lágrimas em meus olhos. — Achei que fosse te perder para sempre, Hannah.
— Isso não vai acontecer, . — Hannah me encarou e desviei o olhar limpando a bochecha.
— Terminei com Adam. — falei sentindo um peso sair dos meus ombros. — Precisava te dizer isso.
Hannah abriu um sorriso imenso.
— Ao menos algo bom aconteceu enquanto eu estava em coma.
Soltei uma gargalhada.
— É.
— Como se sente?
Comecei a contar em detalhes para ela como tudo tinha acontecido, também falei da briga com Mike e sobre . Ficamos conversando por um tempo, mas logo Hannah adormeceu e eu decidi que esperaria até ela acordar de novo, eu não tinha coragem de ir embora antes de vê-la desperta uma segunda vez.


Capítulo 6 - Feelings

Hannah havia passado o final semana bem e eu nem conseguia acreditar que ela tinha realmente acordado. Fiquei no hospital com ela o final de semana todo, depois de ter insistido para que meu irmão cedesse ao menos dessa vez, foi preciso muito argumento, mas funcionou depois que o convenceu de que ele precisava ir para casa descansar.
.
Ele não saía da minha cabeça nenhum momento, o que ele pretendia me dizer ainda estava rodeando meus pensamentos e depois de virmos para o hospital nenhum de nós dois tocou no assunto para retomar a conversa. Parte de mim estava curiosa para saber o que ele tinha para dizer, mas a outra queria deixar as coisas como estavam, eu realmente já o via como uma pessoa que era parte da minha vida agora e não queria estragar nada disso.
Encarei as ruas de Nova Iorque através da janela, o dia ainda estava amanhecendo e eu sabia que precisava ir para casa. Era segunda-feira e as responsabilidades estavam me chamando, eu tinha que ir para a faculdade independente dos problemas, não havia deixado de ir quando Hannah ainda estava em coma, não era agora que ia fazer isso.
A encarei dormindo e levei meus olhos até a porta, ao perceber que alguém tinha acabado de entrar no quarto. Era Hunter, ele estava parado me encarando, com um sorriso enorme no rosto que mostravam suas covinhas, que caiam muito bem nele.
Não pude deixar de sorrir.
— Ei. — Falei ao me aproximar e me inclinei para abraçá-lo.
Hunter passou um de seus braços pelo meu pescoço e deu um beijo no topo da minha cabeça, fazendo com que eu o apertasse no abraço antes de soltá-lo.
— Como você está? — Ele perguntou me encarando.
— Bem, mas o que você veio fazer aqui? São... — Parei para olhar meu relógio e saber exatamente a hora. — Cinco horas da manhã.
Hunter riu da minha reação.
— Não tem graça. — o repreendi de brincadeira. — É sério, aconteceu alguma coisa?
— Não aconteceu nada, , só que faz tempo que não nos vemos.
O encarei e coloquei as mãos dentro do bolso da minha blusa. Eu sabia que tínhamos nos resolvido aquele dia na festa do meu irmão, ele tinha me contado sobre estar com Steph, mas era difícil não me sentir nervosa na presença dele. Uma parte de mim sempre se agitava quando ele sorria para mim, fazia alguma demonstração de carinho ou simplesmente me encarasse.
— Você está bem mesmo? — Hunter insistiu, me tirando dos meus pensamentos.
— Sim, só estou cansada. — Dei de ombros.
— Bom, o que acha de irmos tomar um café? — sugeriu ainda sem tirar os olhos de mim.
Desviei meu olhar para Hannah, ela estava dormindo e tudo parecia bem. Contudo, de qualquer forma eu teria mesmo que ir para casa tomar banho e tomar um café, minhas refeições já estavam desreguladas demais.
— Tudo bem, mas antes tenho que passar em casa. — falei e caminhei até e poltrona onde estavam minhas coisas.
Ele estava de carro, o que era bom, não demoraríamos muito para chegar na minha casa e assim eu poderia tomar um banho até que mais demorado para tentar relaxar um pouco e ainda teríamos tempo hábil para tomar café da manhã sem ter que correr. Não estava muito trânsito por causa do horário e gastamos apenas 20 minutos até minha casa.
Deixei Hunter na sala pedindo que ele ficasse à vontade — não que ele precisasse — já tinha vindo muitas vezes nesse apartamento, e segui para o meu quarto. Procurei por uma roupa mais quente, separei algumas coisas que eu iria precisar para a faculdade, principalmente aula de laboratório e fui para o banheiro.
A água estava bem quente, do jeito que eu gostava e aproveitei para lavar meu cabelo também. Fiquei pelo menos 30 minutos naquela água quentinha antes de sair, me troquei, só passei a toalha no cabelo e terminei de separar mais algumas coisas quando desci. O relógio ainda marcava seis e meia, ou seja, eu tinha um bom tempo até começar minha primeira aula, as nove horas, geralmente começava as oito, mas hoje era o único dia que iniciava mais tarde.
— E aí, quer tomar café onde? — Perguntei já na sala, Hunter estava olhando para minha parede cheia de fotos.
— O que acha do Mayson? — Ele perguntou, mas sem tirar os olhos das fotos. — Nossa, essa viagem foi incrível.
Ele estava se referindo a uma foto de uma viagem que fizemos para o Alaska. Realmente tinha sido uma viagem incrível, mas eu ainda me lembrava o frio insuportável que tínhamos passado naqueles 20 dias que ficamos lá.
— Passamos um frio do caralho. — comentei rindo, enquanto me sentava no sofá para colocar meu tênis.
— Sim, mas foi incrível. — Ele concluiu e se virou para me olhar e vi ele sorrir.
— O que foi? — perguntei e me abaixei para amarrar o tênis.
— Esse casaco que você está usando... — Hunter disse e se virou para a parede de novo. — É o mesmo da foto.
Caramba, ele sempre foi muito detalhista.
— Sim, você que me deu. — respondi e me levantei, eu estava pronta para ir.
Vi Hunter sorrir mais uma vez.
— O que foi?
— Estou surpreso que ainda esteja usando.
— Vamos logo, você está ficando muito sentimental! — Falei já pegando minhas coisas e indo em direção a saída.
— Cala boca! — Escutei ele dizer e gargalhamos juntos.
Íamos ao Mayson Kayser, uma cafeteria muito famosa, onde muitos turistas costumam ir para tomar um bom café da manhã — que dependendo da sua opção está mais para um brunch — localizado bem na 1800 Broadway. Também tínhamos o costume de ir quando ainda estávamos no ensino médio, era quase um ritual. Todos os dias nos encontrávamos na porta da minha casa e íamos até lá para tomar café da manhã antes de ir para aula, também era nosso ponto de encontro para conversar, estudar ou simplesmente ficarmos juntos por horas. Eu ainda me lembrava desses momentos e daquele lugar como se fosse ontem.
Acho que não faria diferença quanto tempo passasse, essas memórias estavam todas fixadas a mim. Eu tinha chegado em Nova Iorque com a intenção de me desconectar de coisas do meu passado, mas a verdade é que eu não seria capaz de fazer isso, elas faziam parte de mim, da minha vida e de quem eu era e sou até hoje.
Hunter fazia parte da minha vida, eu sabia disso, mesmo não querendo admitir.
O encarei dirigindo e não pude deixar de sorrir, nós dois tínhamos mudado muito, mas ao mesmo tempo eu sentia como se esse tempo nunca tivesse passado para nós. Ainda conseguia ouvir nossas risadas no meu quarto quando ambos concordávamos sobre algo, a gente estudando até tarde para passar nos exames, ou assistindo ao nosso filme favorito.
Uma parte sentia-se culpada por ainda pensar em tudo isso, a outra queria desesperadamente estar ao lado dele. Eu sabia que ele e Steph estavam juntos, eu tinha plena consciência sobre isso, mas não era como se eu pudesse simplesmente fingir que não tinha sentimentos por ele. Seth estava errado, eu ainda olhava para ele da mesma forma, só tinha passado as últimas semanas lutando desesperadamente para me afastar dele e...
— Está pensando em quê? — Escutei Hunter perguntar enquanto parava no farol que tinha acabado de fechar, cortando totalmente a minha linha de pensamentos.
— Lembrando dos velhos tempos. — respondi e desviei meu olhar para a rua.
Era sempre assim, eu não podia encará-lo.
— Só isso?
— Sim. — afirmei. — O que mais seria?
Estava tocando "You should be sad" da Halsey, uma das minhas músicas atuais favoritas e aumentei um pouco o volume.
— Não sei, me diz você.
Eu não estava olhando para ele, mas era fácil saber que estava sorrindo.
— É incrível como está cidade está sempre assim, linda. — falei encarando a paisagem de prédios que passavam. — Sempre amei este lugar.
— E ele você. — Hunter afirmou, se referindo a cidade me amar e deu partida no carro.
O resto do caminho foi calmo e silêncios e não demorou muito para que chegássemos. Ele deixou o carro em um estacionamento próximo ao Mayson e nós fomos andando até lá. Ele parecia descontraído e eu me sentia da mesma forma apesar dos sentimentos que se acumulavam em mim.
O Mayson era composto de uma decoração bem moderna, mas muito chique ao mesmo tempo. Indo para o fundo era onde ficavam as comidas, iam desde salgados até doces maravilhosos, como se tudo aquilo fosse para enfeitar o lugar e não para comer. Pedimos Waffles para nós dois, a diferença é que eu iria tomar um suco de laranja e ele escolheu tomar um café latte.
Nos sentamos em uma mesa no andar de cima do salão para esperar nossos pedidos e ficarmos mais confortáveis também. O lugar não tinha mudado muito, só o que tinha de novo era um espaço onde você podia ficar para ler alguns livros e ali tinha uma estante com alguns livros, caso você não tenha nenhum com você.
— Lembra quando vínhamos aqui? — Escutei Hunter perguntar com um sorriso no rosto enquanto olhava ao redor.
— Sim, nós sempre vínhamos aqui antes da aula e depois do... Como é o nome mesmo? — Perguntei tentando me lembrar do bar que costumávamos ir aqui perto.
— Still Golden?
— Isso! — Afirmei sorrindo, foram bons tempos. — Meu Deus, nós saíamos de lá muito bêbados de tanto tomar cerveja, com aquelas identidades falsas.
— Nem me fala. — Hunter afirmou rindo.
Tinha algo em seus olhos agora, alguma coisa diferente.
— O que foi? — perguntei curiosa.
— Às vezes parece que foi há tanto tempo... — Hunter disse me encarando. — Mas também parece que foi ontem.
O encarei por alguns instantes.
— É, sei exatamente como é essa sensação — afirmei, pensando em Rian.
Hunter abriu a boca para dizer alguma coisa, mas parou assim que a moça chegou com nosso café da manhã.
— Meu Deus, isso é delicioso! — Falei após dar uma garfada no meu waffles que tinha acabado de chegar, arrancando uma risada de Hunter.
— Não tinha isso na Califórnia? — Perguntou em tom de brincadeira.
— Não como essas.
Era verdade, de fato não tinham panquecas assim na Califórnia, aqui sempre foi muito mais famoso por suas cafeterias sofisticadas.

O café da manhã com Hunter tinha sido ótimo, nós conversamos sobre algumas coisas. Ele acabou contando que as coisas com o pai dele ainda não eram das mais fáceis, ele ainda não aceitava o caminho que ele estava seguindo e nem a faculdade que ele tinha escolhido para fazer, queria que o filho tomasse as rédeas da empresa dele de advocacia, mas tudo que Hunter queria era seguir os próprios sonhos e se tornar um grande publicitário no mundo esportivo.
Eu sempre tive muito contato com a família dele, ainda lembro das brigas que ele comprava com o pai por conta disso quando já estávamos quase terminando o último ano. Teve algumas vezes que eles quase chegaram a partir para cima do outro, mas as coisas começaram a ficar ainda mais sérias depois da doença da mãe dele, Hunter passava a maior parte do tempo na minha casa e o pai dele não se importava em sempre lembrá-lo que ele devia ser mais como Trevor, o irmão dele.
Rian queria seguir o mesmo caminho que Hunter e os dois sempre falaram muito em como seria abrir uma startup juntos, coisa que nunca aconteceu. Mas eu sentia que meu amigo ainda tinha o sonho de fazer isso, mesmo sem meu irmão ali, ele parecia querer realizar esse sonho pelos dois. Eu conseguia ver isso, enquanto ele me contava os projetos que já tinha enquanto entrávamos no prédio da NYU.


HUNTER
Quando Mike comentou comigo que passaria a noite com Hannah no hospital, na mesma hora eu vi aquilo como uma oportunidade de passar algum tempo com ela. Depois de Mike, quando nos resolvemos, nunca mais tivemos tempo de fazermos algo juntos ou ao menos conversar, muitas coisas tinham acontecido, não só a overdose da Hannah, mas eu também estava enfrentando vários problemas com meu pai, sem falar que Steph ainda estava insegura com a nossa reaproximação.
Tomar café da manhã com ela seria uma boa hora para podermos conversar um pouco e foi isso que eu fiz, apareci no hospital as cinco horas da manhã — para termos tempo antes do horário da aula — e sugeri que fossemos tomar café, acabamos escolhendo o Mayson e nós dois nos divertimos muito, ao menos eu me diverti. estava diferente de dois anos atrás, mas ali sentado com ela, é como se ainda fosse a mesma, com aquele sorriso sempre no rosto e a capacidade de sempre fazer você se sentir especial.
Para mim ainda era surreal que ela tinha voltado mesmo para Nova York, a noite em que ela foi embora ainda estava fresca na minha memória, as coisas horríveis que dissemos um para o outro antes da partida dela, ainda me incomodavam. Incomodaram por muito tempo, mas isso já não tinha mais importância. Quando eu a vi aquela noite na festa, eu tive certeza de que uma parte de mim ainda a amava.
O problema é que uma parte de mim também ama Steph, afinal foi ela quem esteve comigo nesses últimos dois anos, nos momentos mais difíceis que eu enfrentei. Nosso relacionamento ainda era recente, começamos a namorar apenas seis meses antes do retorno da , eu estava feliz, tinha certeza do que queria, até a chegar.
Eu não conseguia parar de falar, ainda tinha muitas coisas para contar para ela enquanto passávamos pela porta da faculdade. Eu precisava contar coisas importantes para ela que aconteceram na minha vida ao longo desse tempo que passamos um longe do outro, mas eu não queria que fosse assim, queria que estivéssemos sozinhos e realmente fazendo algo juntos. Achei que teria tempo no café, mas isso não foi possível.
— Rian, ficaria orgulhoso de você. — Escutei dizer enquanto colocava e tirava algumas coisas do armário dela.
Eu não devia ter falado sobre ele, sabia como era um assunto delicado para ela.
— Ei, tudo bem. — disse me encarando assim que fechou o armário atrás dela. — Não posso ficar para sempre sem falar sobre ele.
— Desculpa, é que eu...
— Ainda sente saudades. — completou, sem demonstrar nenhuma dor, apenas compreensão. — Eu sei como é.
Apenas assenti e ela começou a caminhar pelo corredor, então eu a acompanhei. Ainda tínhamos um tempinho até a nossa aula começar. Voltamos a falar sobre minha vida e ela falou algumas coisas sobre a Califórnia também, mas vi ela parar assim que apareceu na nossa frente.
— Ei! — disse e o abraçou.
Não foi um abraço qualquer entre eles, ela envolveu os braços no pescoço dele e ele passou os braços pela cintura dela apertando-a contra ele.
— Eu fui ao hospital, mas você não estava. Aconteceu alguma coisa? — perguntou visivelmente preocupado e nem sequer tinha falado "oi" para mim.
Eu estava achando aquilo tudo muito estranho, se algo estava rolando entre eles eu não sabia. Porque até onde sei ele é amigo do Mike e, apesar de termos o mesmo grupo de amigos e irmos a várias festas, não somos "próximos" assim, para eu saber este tipo de coisa sobre ele.
— Não, eu fui tomar café da manhã com Hunter, só isso. — disse apontando para mim.
— E ai, cara! — Falei encarando-o.
— E aí. — respondeu olhando rápido para mim e depois voltou a olhar para a .
— Já está quase na hora da sua aula, não está? — Perguntei me referindo a .
Ela se virou e me encarou franzindo o cenho, afinal eu não tinha falado nada sobre isso até ele chegar.
— Sim. — afirmou trocando o peso de um pé para o outro, conhecendo bem a , era fácil saber que ela estava desconfortável. — Eu vou indo, falo com vocês depois.
se despediu de mim com um abraço forte, dizendo que tinha adorado o café da manhã, agradeceu por ele e disse que me mandaria mensagem depois. Com ela o abraçou e eles terminaram de se despedir com ele dando um beijo na testa dela e falando "até mais tarde" e nós dois ficamos parados ali, igual dois idiotas vendo-a sumir na multidão que já se formava no corredor.
Se a tinha sentimentos por ele eu não saberia dizer, mas ele com certeza tinha muitos por ela — poderia não ter consciência disso — mas ele tinha, e muitos. Essa ideia me incomodava de uma certa forma e por isso preferi deixar isso para lá e ir para minha aula depois de me despedir dele com um aceno de cabeça, o clima já tinha ficado estranho o suficiente entre nós. Manter a concentração estava muito mais difícil que o habitual, eu simplesmente não conseguia tirar dos meus pensamentos, como também não conseguia deixar de pensar no possível envolvimento dela com . Parecia que eu estava vivendo tudo de novo, vendo-a com outra pessoa, como eu tinha que vê-la todos os dias com Adam a tiracolo, era impossível não pensar em todos os momentos que senti que ia perder a cabeça sempre que via os dois juntos.
Era mais uma daquelas sociais organizadas por Rian, eu não estava no melhor dos meus humores e, para piorar, estava com Adam a tiracolo. Vê-la ao lado dele estava tornando tudo cada dia mais insuportável, cada vez que ela sorria para ele ou que eu tinha que olhar ele tocá-la me fazia sentir vontade de vomitar.
Ela não sentia por ele o que sentia por mim, e eu sabia disso.
Revirei os olhos quando vi ele passar a mão em volta da cintura dele e respirei pesadamente. A única coisa que me faria sobreviver a essa noite era muito álcool, então me levantei de onde eu estava e fui em direção à cozinha para pegar mais bebida, como sempre Rian tinha comprado bebida suficiente para um batalhão e agradeci meu melhor amigo em pensamento por isso.
Eu já tinha bebido bastante, mas não era o suficiente para aturar toda essa palhaçada.
Peguei uma garrafa de uísque e despejei um pouco do líquido em um copo, o primeiro gole foi de uma vez só e enchi mais um pouco, mas dessa vez eu tinha a intenção de apreciar a bebida, então me recostei na bancada e levei o copo até os lábios para dar um leve gole enquanto tentava me acalmar, eu estava realmente puto.
Levei meu copo mais uma vez até os lábios, mas parei assim que vi passar pelo corredor ao lado da cozinha e ir em direção a parte de cima da casa. Eu pude vê-la subindo a escada, ela estava usando um vestido branco que ia até o meio de suas coxas, deixando bem marcada suas curvas, resumido, ela estava gostosa demais naquela roupa, qualquer um seria louco se dissesse o contrário.
Ela tinha ido para o quarto dela e eu parei na porta encostado no batente. parecia só estar tirando um tempo para ela e eu gostava de observá-la, de ver como ela era quando estava sozinha e distraída, sem que ela percebesse que estava sendo observada. Era meu passatempo preferido.
— Você é linda demais. — falei, não consegui me conter.
deu um pulo e se virou para mim, com um sorriso enorme no rosto.
— Deus, Hunter, você me assustou. — Ela levou a mão ao peito, demonstrando que tinha se assustado.
— Desculpa. — Falei e entrei no quarto, mas ainda sem me aproximar muito dela. — Cansou de ficar com... Como é nome dele mesmo?
— Adam. — afirmou, sem tirar os olhos de mim.
Eu sabia que estava sendo ridículo, mas era difícil não sentir ciúmes se agora ela vivia com ele.
— É, Adam. —
afirmei sem me preocupar em demonstrar minha irritação.
— Hunter, não começa com isso. — Ela disse e se recostou em sua escrivaninha, ficando quase sentada ali.
Eu estava irritado ainda e não conseguia fingir isso, já estávamos nisso há meses e eu não conseguia mais fingir que estava tudo bem, que eu estava bem vendo-a com outro cara enquanto eu sabia que ela tinha sentimentos por mim, ou não estaríamos nesse rolo todo.
Me aproximei de o suficiente para que ela se inclinasse na minha direção e apoiasse a cabeça no meu peito respirando pesadamente. Eu sabia o efeito que tinha sobre ela, seus olhos na estavam com as pupilas dilatadas e suas bochechas também estavam rosadas, ela também causava tudo isso em mim, talvez até mais.
... — Sussurrei e levei o copo de bebida que ainda estava na minha não até os lábios, dando mais um gole.
Escutei respirar pesadamente e, em seguida, ela levantou o rosto apoiando o queixo no meu peito. Deus, ela era linda e eu sabia que ia perder o controle a qualquer momento.
— Não faz isso, por favor. — falei encarando-a.
— O que?
— Isso. — me afastei dela. — Se aproximar assim, me olhar como se eu fosse a sua pessoa preferida no mundo e depois ficar exibindo Adam bem na minha cara.
— Eu não...
— Não! — Pedi. — Não diz que não estava fazendo isso, porque você estava.
Ela apenas me encarou, como se não soubesse o que dizer. agora não estava mais encostada na escrivaninha, eu continuava de frente para e seus olhos estavam fixados em mim. Me aproximou e a encarei nos olhos.
Caralho, eu estava de quatro por ela.
— Hunter... — Escutei ela sussurrar.
Minha reação foi muito rápida, me inclinei de forma que pude ouvir a respiração dela falhar e deixei meu copo ali, já puxando para junto de mim em seguida e colando meus lábios ao dela. Pedi permissão para começar um beijo e ela me deu passagem, eu estava sedento por ela e sentia que ela também estava por mim. A empurrei contra a escrivaninha ali e só pude ouvir o barulho de coisas caindo enquanto ambos empurrávamos as coisas que estavam ali em cima, mas sem desgrudar nossos lábios.
A coloquei sentada ali e quase explodi em tesão quando senti seus dedos entrarem na minha calça f...
Eu quase dei um pulo onde estava sentado assim que escutei o barulho de cadeiras sendo arrastada à minha volta na sala, a aula tinha acabado e todos já estavam saindo de lá, enquanto eu permanecia sentado na minha cadeira ainda em choque pela lembrança que tinha acabado de ter. Fazia tempo que eu não pensava sobre essas coisas com a e pareceu tudo tão real, que meu coração estava até disparado.
— Pensando em mim? — Escutei uma voz feminina falar comigo e pulei mais uma vez na cadeira.
Os braços de Steph envolveram meu pescoço por trás em forma de abraço e senti seus lábios tocarem minha bochecha e depois ela apareceu no meu campo de visão.
— Claro... — afirmei sorrindo.
Deus, era a mentira mais deslavada que eu estava contando em muito tempo e me sentia mal por isso, mas o que eu poderia dizer? Que estava pensando na melhor amiga dela?
— Hunter, você está bem? — Ela perguntou parecendo preocupada.
— Tudo sim. — falei já me levantando. — Só estou meio cansado.
— Certo. — Steph respondeu e me encarou por alguns instantes. — Vamos almoçar?
Passei o braço pelo ombro de Steph e caminhamos para fora da sala. Assim que viramos no corredor, pude ver mais à frente próxima do armário dela conversando com , os dois pareciam bem próximos e estavam rindo de alguma coisa. Meu olhar cruzou o dela, mas desviei entrando no corredor seguinte com Steph, não podia deixar de me sentir desconfortável ainda, principalmente depois da lembrança e segui em direção ao refeitório.
Mais uma vez, eu estava preso a ela.
Steph parecia não perceber a minha mudança de humor e nem o meu jeito calado, porque ficou o tempo todo me contando como tinha sido a aula dela e entrou em alguns outros assuntos que eu tentei acompanhar o máximo possível. Eu me odiava por me sentir assim, ainda mais ao lado dela, ela sempre esteve comigo e não merecia ser tratada assim, mas ela também sabia dos meus sentimentos pela amiga dela, sempre soube.
. — Escutei Steph gritar e quase dei um pulo na cadeira onde estava sentado ao lado dela, algo que ela notou, mas não disse nada.
estava em pé junto com , os dois pareciam estar procurando uma mesa vaga para almoçar. Fiquei um pouco confuso, já que na nossa última conversa séria, Steph trouxe à tona meus sentimentos por .
— Steph, achei que...
— Eu achei que seria uma boa ideia tentarmos colocar uma pedra no que aconteceu. — Ela respondeu rápido me cortando e eu apenas assenti.
— Ei. — disse ao se aproximar da nossa mesa. — Está impossível achar uma mesa vazia para almoçar hoje.
Meu olhar passava dela para e vice-versa.
— Senta aí. — falei apontando para as cadeiras.
— Esta faculdade está ficando mais lotada a cada dia ou é impressão? — comentou e sentou-se em uma cadeira ao lado de , do lado oposto onde eu estava sentado com Steph.
— Com certeza — afirmou rindo. — Isso é algo que a Califórnia tem em comum, tudo sempre cheio.
— Está sentindo falta, ? — Steph perguntou.
Eu só permanecia em silêncio, enquanto comia e prestava atenção na conversa deles.
— Da cidade? Sim. Das pessoas? Não. — afirmou, enquanto encarava nós dois.
Aquela estava sendo a situação mais embaraçosa que eu estava passando desde que a voltou para Nova Iorque, achei que já estaria habituado, mas o tempo que ela passou longe daqui me fez perder o jeito para isso.
— Estava pensado... — Steph começou a dizer, mas parou, como se estivesse pensando em algo. — Podíamos marcar algo para sábado, o que acham?
Meu Deus...
— Tipo o quê? — perguntei, sem encará-los.
— Pensei em algo mais íntimo — Steph disse e levei meu olhar até ela. — Podíamos chamar o Seth, Eleanor, Mike...
— Eu não sei, com a Hannah no hos...
— Eu acho ótimo, a está mesmo precisando se divertir. — cortou e passou o braço pelos ombros dela.
Desviei meu olhar, não queria dar na cara que aquilo estava me incomodando.
— Ei. — chamou a atenção dele, virando o rosto para encará-lo. — Eu sou muito divertida.
— Veja bem. — disse rindo e deu uma cotovelada nele.
Era estranho, ver os dois tão íntimos. Eu quase já tinha me acostumado ver ela com Adam, mas com ele, era algo bem incômodo.
— Cala boca. — ela disse e soltou-se dele, que riu. — Christopher me adora.
revirou os olhos.
— Christopher é uma gracinha mesmo. — Steph comentou e olhei para ela com cara de interrogação, eu era o único que estava fora da conversa. — É o irmão do , conheci ele o dia que fui à festa na casa dele, o dia que ele me ligou...
— Ah, sim, claro. — afirmei sem jeito.
— Então, o que me dizem? — Steph perguntou, se referindo ao assunto anterior, que era a ideia dela de nos reunirmos.
Todos ficamos em silêncio, encarando .
— Está bom! — Ela disse dando de ombros.
Eu apenas ri da reação dela e me perdi em pensamentos, não queria nem imaginar o que poderia acontecer nessa reunião.



Eu estava exausta e saber que o final de semana tinha finalmente chegado me trazia uma paz imensa. Tinha dias que eu acordava e só queria ficar na minha cama o resto do dia, saindo dela apenas para comer e fazer minhas necessidades, mas, infelizmente, isso não era possível e eu só voltava para ela no final do dia — quando tinha sorte — se eu não fosse para o hospital passar a noite com Hannah.
Como já era de se esperar, Hannah não estava encarando muito bem a abstinência das drogas e seu humor mudava constantemente, o que vinha tornando minhas visitas cada vez mais difíceis, alguns dias, ela não tinha sequer permissão de receber ninguém. Meu pai estava tentando entrar com o tratamento e a desintoxicação aos poucos, porém, eu sabia que não era tão simples, tentamos isso por anos com Rian, e olha só onde chegamos.
Eu sabia que tinha decisões a tomar, mas a verdade é que não queria pensar em nenhuma delas agora, eu precisava de pelo menos um final de semana com zero preocupações e esse era o meu plano para hoje, então joguei qualquer planejamento para o fundo da minha mente e segui em direção ao banheiro, na intenção de tomar um banho bem demorado e relaxar embaixo da água quente.
Já no banho, apesar de eu não estar pensando nos meus reais problemas atuais, eu não conseguia tirar da cabeça a reaproximação que tive com Hunter na última semana e sobre o dia que tomamos café da manhã. Por mais que eu me esforçasse para manter a relação entre nós somente uma amizade, as vezes era um pouco difícil não sentir alguma conexão com ele e me lembrar de nós dois há dois anos.
Fechei meus olhos e dessa vez foi quem veio nos meus pensamentos. Ele sem dúvidas era uma amizade que eu achei que nunca aconteceria, com todo aquele jeito fechado dele e os problemas que ele já tinha para enfrentar, nunca pensei que algo assim se iniciaria entre nós, principalmente em um momento tão difícil e que o afetava diretamente, apesar de ele não demonstrar.
, você não deveria estar pensando nessas coisas. — Afirmei enquanto saía do banheiro e seguia de volta para o quarto.
Estava frio, muito frio.
— Que você era doida, eu já sabia, agora falar sozinha é demais. — Escutei a voz de e dei um pulo.
Me virei para a entrada do quarto, eu estava só de toalha, mas ele não estava ali.
— Eu sabia que... — disse e apareceu na porta do quarto, mas virou rápido. — Porra, , você poderia ter dito que estava assim.
Caí na gargalhada, eu realmente não achei que ele fosse entrar no quarto.
— Não achei que você fosse entrar. — afirmei rindo. — Como entrou aqui?
Escutei bufar, ainda de costas.
— Sua porta, você sempre deixar aberta, sabe... — Ele disse, eu não conseguia ver, mas tinha certeza de que estava sorrindo.
— O que você sabia? — Perguntei e segui em direção ao closet, para pegar uma roupa para vestir.
— Que você ia esquecer. — Escutei gritar e pelo barulho, eu sabia que ele tinha entrado no quarto.
— Não esqueci, só estou atrasada. — Gritei em resposta.
Escutei ele resmungar duvidando de mim, mas nem dei bola. Peguei um casaco grosso, uma blusa para colocar por baixo, calça e um tênis e fui em direção ao fundo do closet para me trocar sem que ele corresse o risco de me ver sem roupa. Enquanto fazia isso, não pude deixar de rir ao lembrar da reação dele quando me viu de toalha, não é como se eu estivesse pelada, mas a reação dele foi cômica.
Voltei para o quarto e ele estava sentado na minha cama, e só agora que eu já estava vestida pude reparar que dessa vez ele estava todo de preto, ao invés de estar vestindo a camisa branca que ele sempre costumava usar, que mostravam suas tatuagens. Eu meio que gostava, e me peguei sentindo falta desse detalhe.
— Algum problema? — perguntou, tirando-me dos meus pensamentos.
Desviei meu olhar e caminhei até a cama, onde me sentei para poder calçar meu tênis.
— Não. — respondi finalmente. — Só achei engraçada sua reação, quando me viu de toalha.
Preferi abordar outro assunto, que não fosse eu reparando nele.
— Não sei qual a graça.
— Você, todo sem graça. — afirmei rindo.
— Eu não estava sem graça. — se levantou da cama, ficando de pé para me encarar.
— Estava sim. — Afirmei.
— Não, eu não estava. — Ele afirmou rindo. — Só não queria invadir sua privacidade.
Sorri com a resposta dele e me levantei, estava pronta.
— Não invadiu, . — Afirmei. — Vamos?
Ri fracamente, e parei para encará-lo.
— Aconteceu algo? — parecia surpreso, afinal eu tinha dito para irmos.
— Gosto mais da camiseta branca. — Afirmei e vi ele arregalar os olhos, nem eu estava acreditando que falei mesmo aquilo.
Me virei para sair dali, já que nenhum dos dois ia dizer mais nada, mas senti a mão de agarrar meu braço e me virei para ele. se aproximou de mim, ele tinha um sorriso diferente no rosto.
— Vou me lembrar disso da próxima vez. — ele afirmou me soltando, e saiu do quarto.
Respirei pesadamente e sai do quarto, tentando não pensar no que tinha acabado de acontecer.

Steph tinha inventado aquela reunião e eu e tínhamos ficado responsáveis por ir ao mercado comprar as comidas e bebidas. De qualquer forma, eu não me importava, gostava de passar o tempo com ele e qualquer coisa era melhor do que ter que ficar sentindo um climão todas as vezes que ficávamos eu, Steph e Hunter no mesmo lugar.
O caminho até o mercado foi tranquilo, não estava muito trânsito e chegamos na metade do tempo. A lista era imensa e até parecia que ia ter um batalhão lá, mas eu acho que não ia passar de 15 pessoas, porém, estava acostumada com o exagero dos meus amigos e preferi nem questionar quando me deu o papel explicando que estava tudo dividido por setores do mercado, algo que me deixou satisfeita.
— Não acredito que a Steph dividiu tudo por setores do mercado. — comentou, enquanto empurrava o carrinho.
Ri fracamente.
— Que bom. — Afirmei enquanto caminhava ao lado dele. — Isso significa que gastaremos muito menos tempo aqui.
Segui na frente e fui em direção ao corredor de bebidas, que era o primeiro da lista. Tinha tanta opção, que cheguei a me perguntar quantos dias duraria a festa, porque era uma quantidade absurda de bebidas.
— Eles vão mesmo beber tudo isso? — Perguntei enquanto pegava o primeiro engradado de cerveja.
— Parece que sim. — respondeu rindo. — Vocês sempre foram assim?
— Assim como? — perguntei enquanto lia a lista.
— De se encontrarem e tal... — escutei ele explicar e ri fracamente. — Qual a graça?
— Nada. — Dei de ombros. — Éramos até bem mais, estávamos juntos quase todos os dias da semana.
ficou em silêncio, como se estivesse analisando o que eu tinha acabado de falar e deixei ele com os pensamentos dele e segui pegando o restante das bebidas da lista. Depois disso, segui para o próximo corredor sem olhar se ele estava atrás de mim, o próximo item eram os petiscos.
— Faltou esse aqui. — Escutei dizer atrás de mim, enquanto eu tentava encontrar um dos petiscos. — Acho que você vai gostar.
Ri fracamente e me virei para olhar, ele estava segurando uma garrafa de gim e outra de vermute seco. O combo perfeito para fazer um Dry Martíni.
— Não acredito que lembrou! — Falei rindo, me referindo a um dos jantares que fui à casa dele e Andrew preparou alguns para mim.
— Ah, impossível — começou a dizer enquanto caminhava até o carrinho, sem tirar os olhos de mim —, você fica bem divertida quando o Dry Martíni te deixa alta.
Ri fracamente e dei a língua para ele.
— Cala boca e me ajuda. — falei e ele assentiu rindo.
O restante da compra foi mais rápido, já que nós decidimos nos dividir. Eu segui por entre os corredores do mercado, procurando pelo próximo corredor que eu precisava parar e foi quase impossível não deixar algumas memórias se instalarem nos meus pensamentos. Era muito fácil eu me recordar de quando costumava vir aqui com meu irmão nas sextas-feiras depois da aula, onde comprávamos um monte de coisas para o final e semana com nossos amigos.
Eu nem tinha me dado conta do quanto eu ainda sentia saudades disso até me pegar ali, parada em um corredor de "besteiras" observando as prateleiras igual a uma estátua e me lembrando de nós dois ali, rindo, conversando, como se nada de ruim pudesse acontecer.
Obviamente, eu estava enganada.
Era mais um dia gelado como qualquer outro em Nova Iorque — exceto pela neve, é claro — e eu desejei ter ficado em casa, mas lá estava eu, acompanhando meu irmão até o mercado para compramos comida para nossa "reuniãozinha" com nossos amigos. Isso já tinha virado quase um ritual entre nós, toda sexta-feira ele me buscava na escola e nós íamos direto para o Trader Joe's, depois passávamos em uma sorveteria e só então, íamos para casa.
— Qual problema, ? — Escutei Rian perguntar, enquanto caminhávamos pelos corredores.
Abri a boca para responder, mas parei ao avistar Hunter caminhando em nossa direção.
— Você o chamou? — Perguntei enquanto caminhava até Hunter.
Nem me dei o trabalho de esperar meu irmão responder e me aproximei do meu amigo.
— O que você está fazendo aqui? — Perguntei.
— Estou feliz em ver você também, . — Hunter comentou rindo e me abraçou.
— É sério, Hunter...
Torci para que Rian não viesse até nós e assim aconteceu.
— Não posso mais passar um tempo com a minha melhor amiga? — Hunter perguntou de forma brincalhona. — É sério, ....
Deus, ele conseguia ser muito irritante.
— Hunter, eu estava falando sério quando disse que precisávamos nos afastar depois daquela festa, lembra? — perguntei séria. — Nós não podemos continuar com isso, isso é errado.
Hunter segurou minha mão e me puxou, indo para um corredor mais vazio.
— Você não me escuta, não é mesmo? — perguntei irritada.
— Eu escuto, . — Ele respondeu visivelmente irritado.
— Os sentimentos da Steph importam, sabia? — perguntei firme, mas sem gritar para não chamar atenção das pessoas.
— E os meus sentimentos, ?
Eu sabia que ele tinha razão, mas nós tínhamos começado esse rolo e precisávamos dar um fim nele.
— Eu sei... — falei desviando o olhar. — Isso tudo é...
— Loucura? — Hunter perguntou com os olhos fixados em mim. — Eu sei, só que agora não tem volta, . Eu me apaixonei quando coloquei os olhos em você, então não venha me dizer que isso é errado.
Fiquei paralisada, boquiaberta com as palavras dele. Eu sabia que tínhamos sentimentos muito fortes um pelo outro, mas ele nunca disse dessa forma tão aberta que era apaixonado por mim.
— Não me olha como se não soubesse disso. — Hunter continuou e deu um passo na minha direção. — Qualquer pessoa que olhe para mim, quando estou perto de você, sabe disso. Então, você sabe disso mais do que ninguém, .
Abri a boca para responder, mas parei quando Hunter se aproximou ainda mais de mim. Seus lábios tocaram o canto do meu e fechei meus olhos aproveitando aquela sensação, que me dizia ser errada, mas que ao mesmo tempo me causa tantas sensações.
— Te vejo na festa. — Hunter disse e se afastou, me deixando ali sozinha, completamente sem estrutura.
Encarei a prateleira tentando me lembrar do que eu tinha ido pegar ali e fazendo o possível para jogar aquela lembrança para longe. Li a lista mais uma vez e terminei de pegar as coisas que tinha ficado por minha conta, já seguindo em direção ao caixa, onde avistei no de número 30 e caminhei até lá.
Ele estava distraído, parecia preocupado com alguma coisa.
— Nossa, você está bem? — perguntou ao notar minha presença e virar para mim.
Olhei sem entender.
— Você está vermelha. — Afirmou apontando para minha bochecha.
— Deve ser o frio. — Dei de ombros e desviei o olhar.
A lembrança com Hunter tinha me afetado muito mais do que pareceu no começo.
— Tem certeza? — perguntou visivelmente preocupado.
— Tenho — rebati.
— Certo.
— Vou deixar você na sua casa com as coisas, depois vou para o hospital e aí volto para sua casa, certo? — perguntei para mudar de assunto.
me olhou confuso.
— Para você não ter que ficar me acompanhando. — expliquei.
— Não ligo de te acompanhar.
Ri fracamente.
— Você podia ter falado antes, ao invés de ficar me olhando como se eu tivesse falado algo realmente grave. — falei e comecei a colocar as coisas em cima da esteira, para passarmos os produtos.
Segui enquanto ele empurrava o carrinho e nós riamos sobre alguma piada que ele tinha acabado de contar. Depois de colocarmos tudo no porta-malas do carro nós seguimos para o hospital em completo silêncio, ele parecia perdido em pensamentos sobre algo que o preocupava e eu não conseguia deixar de pensar na lembrança que acabei tendo no mercado.
Era ridículo eu estar pensando sobre Hunter, mas ridículo ainda eu me sentir tão afetada por lembranças do passado que só trariam ainda mais sentimentos à tona. Eu sempre soube, que quando o deixasse voltar para a minha vida — como fiz naquela festa — me levaria exatamente a isso, porque parecia que estávamos fadados a isso, viver para sempre neste círculo vicioso.
Puxei a chave do contato e desci do carro ainda em silêncio, enquanto me seguia. Fiz o mesmo de sempre, me identifiquei na recepção, peguei meu passe de visitante e depois segui para o elevador que me levaria ao andar de Hannah. Me senti aliviada, porque se a recepcionista tinha me liberado para visitá-la, é porque minha amiga estava apta para receber visitas e muito provavelmente, tendo um dia bom.
— Te espero aqui. — disse assim que chegamos à porta do quarto e eu apenas assenti.
Hannah abriu um sorriso largo assim que me viu, os olhos dela aparentavam calma e sua aparência parecia bem melhor do que da última vez que vim visitá-la, quando ela praticamente teve um ataque.
— Ei. — Falei e me aproximei, para abraçá-la.
— Não sabia que viria hoje. — Hannah disse e retribuiu o abraço. — Podia ter me avisado, eu ficaria mais apresentável.
Ri fracamente com o comentário dela e a soltei, para me sentar na poltrona que tinha ali.
— Bobagem. — Dei de ombros. — Como você está?
— Cansada de ficar aqui. — Han disse visivelmente desconfortável.
— Eu sei, Han — afirmei encarando-a. — Só que isso é importante para você, e você precisa se recuperar sabe...
, podemos falar de outra coisa? — Hannah pediu de forma calma. — Já tenho que conversar isso com meus médicos, por favor.
Respirei fundo e desviei o olhar.
— Tudo bem. — Respondi voltando a olhar para ela. — O que quer saber?
— Quero saber como você está, a faculdade, tudo... — Ela me olhou com um olhar que eu conhecia bem, ela não queria saber só isso.
Ri fracamente.
— Fala logo, ou melhor, pergunta logo o que quer realmente saber.
Hannah caiu na gargalhada e meus olhos foram parar na porta, de frente para o quarto tinham algumas cadeiras onde estava sentado, mas por sorte o quarto tinha uma porta de vidro de correr e caso ela falasse algo, não tinha chances de ele escutar.
— Bom... — Hannah começou a dizer e me virei para olhá-la. — Você saiu daqui naquela segunda de manhã com Hunter, acho que é esse o nome dele.
Afirmei com a cabeça um pouco surpresa, achei que ela estivesse dormindo aquele dia.
— E depois passou a aparecer sozinha — Hannah continuou e vi que ela estava olhando para o lado de fora, onde estava. — E hoje apareceu com o .
— Qual problema? — perguntei em um tom de curiosidade, achando graça.
— Você sabia que é um saco arrancar as coisas de você? — ela disse e jogou uma almofada em mim, me arrancando uma gargalhada. — É sério, eu abri o jogo sobre o Mike.
— Despois de dois anos.
— Justo. — Afirmou Hannah. — Porém, eu contei tudo...
De fato, ela tinha me contado mesmo tudo. Que ela e Mike começaram a se envolver quando ele foi me visitar uma vez na Califórnia, me deixando pensar depois disso que os dois se odiavam.
— Me fazendo pensar por dois anos que vocês se odiavam. — Respondi fingindo estar chateada.
— Não acredito que está brava com isso.
Soltei uma gargalhada.
— Não estou — afirmei e sorri para ela. — Eu não tenho jogo para abrir, só isso.
Hannah revirou os olhos.
— Qual é, ...
— Somos amigos, só isso. — Afirmei encarando-a. — Hunter e eu. e eu. Amigos.
— Parece que não para eles. — Han disse com sinceridade, tinha um sorriso de canto no rosto dela.
Soltei uma gargalhada, mas ela ficou séria.
— Hannah — comecei a dizer e desviei meu olhar para onde estava e depois voltei a olhar para ela. — O Hunter tudo bem, porque temos um passado. Agora, ? Não mesmo.
Precisava me convencer da última parte, já bastava os sentimentos pelo Hunter me confundindo. Com , eu só queria algo tranquilo, como a nossa amizade vinha sendo.
— Por que não? — Ela questionou, como se minha resposta fosse absurda.
Levantei-me da poltrona, a conversa estava me deixando agitada.
— Porque sei que o não tem sentimentos assim por mim. — Afirmei. — Nos tornamos amigos em um momento inesperado, só isso.
— Você gosta mesmo de se enganar.
— Não, eu sou realista, é diferente... — Ri.
— Não estou dizendo que ele está apaixonado, até porque é tudo muito recente para isso. — Hannah disse como se estivesse analisando algo.
— O que mais?
— Porém, tenho certeza de que ele sente algo a mais do que amizade por você. — Ela concluiu, me fazendo rir.
— Você parece que teve tempo para bastante teorias. — Afirmei rindo.
— O Mike me disse que vocês vão fazer uma social hoje. — Hannah comentou me encarando, sabia que vinha alguma coisa dali. — Eu disse para ele ir, mas você sabe como ele é.
Abri a boca para responder, mas parei ao ouvir a porta do quarto ser aberta. Falando em Mike, lá estava meu irmão junto com .
— Falando de mim? — Mike perguntou e caminhou até a cama de Hannah, depositando um beijo na testa dela.
Eles eram fofos, eu não podia negar, mas era um pouco desconfortável ver a minha amiga com meu irmão. Jamais algo assim tinha passado pela minha cabeça.
— Sempre. — Hannah afirmou rindo.
Eu apenas permanecei em silêncio, junto com .
— Eu estava dizendo para a , te convencer a ir hoje. — Ela disse encarando-o, era fácil ver no olhar dela o carinho que tinha por ele. — Eu iria, se pudesse.
Mike riu fracamente e olhou para mim.
Eu não queria opinar, porque temia a reação de Mike e por isso encarei , esperando que ele entendesse e encorajasse meu irmão a ir.
— É, acho que você deveria ir, Mike — disse desviando o olhar de mim para o meu irmão.
— Não, eu quero ficar com a Hannah. — Ele disse com firmeza, realmente não tinha intenção alguma de ir.
— Bom, você poderia ficar um pouco, e depois voltar para cá... — sugeriu um pouco apreensiva. — Acho que, seria um meio termo.
Nossa, era incrível como eu estava sempre pisando em ovos quando precisava me direcionar ao meu próprio irmão.
— Por favor. — Hannah pediu fazendo biquinho. — Aí quando vier, você traz um filme para assistirmos.
Caramba, eles eram mesmo fofos juntos e eu estava estranhamente torcendo para que eles realmente dessem certo como casal. Odiaria ver qualquer um dos dois com o coração partido.
— Tudo bem. — Mike concordou, cortando meus pensamentos sobre o relacionamento dele. — Vocês já estão indo para lá?
— Sim, fomos no mercado, vim para cá e agora já vamos para a casa do . — Expliquei. — Você precisa de carona?
— Pode ser.
Estranhamente meu irmão aceitou e eu apenas assenti.
— Posso ficar um pouco sozinho com a Hannah? — Mike perguntou.
— Claro. — afirmei e caminhei até a cama para me despedir de Hannah. — Eu volto amanhã.
— Certo! — Hannah afirmou e a abracei.
Nosso abraço durou alguns segundos, eu estava realmente sentindo falta dela e odiava toda vez que tinha que me despedir.
? — Escutei Hannah me chamar e me virei para olhar, antes de sair. — Não esquece do que conversamos.
A fuzilei com o olhar, ao ver que ela encarava não só a mim ao dizer aquilo, mas também. Saí do quarto, sem dizer nada.

Apesar de estar rodeada por Mike, Steph e Hunter no mesmo ambiente o clima na casa de estava calmo. Estranhamente eu me sentia muito bem quando estava na casa dele, já que desde que Hannah teve uma overdose isso virou quase uma rotina, principalmente depois que fomos ficando cada vez mais próximos. Quando eu não estava na casa dele porque ele me chamou, eu estava porque Jillian tinha me convidado.
Já passava das sete horas da noite quando fui até o quarto de onde ele disse que eu poderia usar o banheiro dele para tomar banho, algo que eu também já tinha feito nas outras vezes que estive na casa dele e ele sugeriu que eu dormisse aqui. Só analisando esses fatos agora, eu comecei a perceber como estávamos ficando íntimos e como nossa amizade tinha evoluído em um mês e pouco.
— Droga. — Falei ao ver minha blusa caída no chão molhado do banheiro, era a única que eu tinha trazido.
Encarando minha blusa molhada antes de tomar uma decisão percebi que deveria ter trazido mais trocas de roupas, já que ia dormir fora de casa.
Usar a outra estava fora de cogitação, afinal tinha passado o dia todo com ela, seria nojento. Ponderei a ideia de pegar uma blusa de e fui até o closet dele, eu odiava ser invasiva, mas mandar uma mensagem para ele pedindo uma blusa ia ser bem ridículo e eu sabia que ele ia dizer algo como "Você está de brincadeira, né, ?" por isso escolhi por pegar alguma na gaveta dele.
Escolhi uma camiseta preta dele com o desenho de asas em prata nela e a vesti. Ela ficou um pouco larga, mas não me importei, de vez em quando era bom, só para sair um pouco do habitual.
O andar debaixo estava bem mais cheio do que eu esperava, e parecia que a Steph tinha chamado muito mais pessoas do que nos informou, mas isso explicava bem o porquê de tanta coisa na lista de mercado. Passei por aquelas pessoas na esperança de encontrar os meus amigos de verdade e segui em direção a cozinha, já tinha me familiarizado muito com a casa e era um dos meus cômodos favoritos dela.
estava lá e abriu um sorriso enorme ao me ver, mas desviei meu olhar dele para a outra porta que dava para a parte de fora, por onde Adam tinha acabado de entrar.
O que ele estava fazendo aqui?
— Oi, . — Adam disse sorrindo e caminhou na minha direção, fiz o mesmo, indo na direção dele.
apenas olhava tudo.
— É, o que você está fazendo aqui? — Perguntei sem fazer rodeios.
Adam riu fracamente.
— Olha eu sei que...
— Não estou aqui por sua causa, , não se preocupe. — Adam disse de forma grosseira e revirei os olhos. — Steph me chamou, eles são meus amigos também, lembra?
Steph? Até onde eu sabia, eles não eram exatamente amigos.
Fiquei em silêncio encarando-o e por um instante desviei meu olhar na direção de , que encarava tudo com uma cara fechada.
— Eu sei que são. — Afirmei, depois de um tempo. — Só não sabia que você e a Steph eram assim tão próximos.
, você vai querer que eu coloque muita azeitona? — A voz de quebrou o clima, ele estava me perguntando sobre o meu Dry Martíni que ele estava preparando.
Vi Adam revirar os olhos, mas simplesmente ignorei.
— Não, pode colocar só um pouco. — Respondi sorrindo e depois voltei a encarar Adam.
— Bom, , tem muita coisa que você não sabe. — Adam disse me encarando com um olhar que eu nunca tinha visto antes. — Bom, isso não importa, o que faço da minha vida não te diz mais respeito.
— Está me dizendo tudo isso porque quer, não perguntei nada. — Afirmei irritada, ele tinha me tirado do sério.
Escutei rir fracamente e tive que me segurar para não rir também.
— Quer saber? — Falei e me afastei dele. — Se quer agir como um babaca, vai fazer isso com outra pessoa, porque eu cansei de me desculpar por fazer as coisas que tenho vontade.
Me afastei dele e caminhei até próximo da bancada onde estava, na intenção de não dar oportunidade para que ele me respondesse. Se ser sincera com ele e deixar que ele procurasse alguém para fazê-lo feliz de uma maneira que eu não poderia não funcionava, então essa era a que ele ia ter daqui para frente.
— Você está bem? — perguntou assim que me sentei de frente para a bancada.
Me virei para olhar antes de responder e Adam já tinha saído.
— Sim. — respondi com sinceridade, eu realmente estava. — Vou ficar mal acostumada desse jeito.
Eu estava me referindo a minha bebida, que ele preparava.
, não muda de assunto. — disse me encarando e me debrucei sobre a bancada e peguei uma azeitona do pote que tinha ali. — Você é terrível.
— Eu sei. — Respondi rindo e comi minha azeitona. — Só não quero falar sobre isso, porque minha vontade era de meter a porrada na cara dele.
caiu na gargalhada.
— Gostei da camiseta. — Ele respondeu, agora tinha expressão diferente em seu rosto e principalmente nos olhos ao me encarar.
— Desculpa, minha blusa...
, gostei dela em você. — afirmou me cortando e eu apenas sorri para ele.
Ele tinha terminado de fazer minha bebida.
— Prometo que devolvo. — Afirmei.
— Pode ficar com ela. — Ele afirmou e eu apenas assenti, sabia que contrariar ele não ia me levar a nada.
Me estiquei ainda mais na bancada e peguei a minha taça com Dry Martíni e levei até os lábios em seguida, estava divino.
— Nossa, isso está ótimo. — afirmei, dando mais um gole em seguida.
— Estou ficando bom nisso. — afirmou todo convencido.
Ficamos mais um pouco na cozinha conversando e depois seguimos para a parte de fora da casa onde ficava a piscina. Ali já tinham muitas pessoas conversando, bebendo, dançando e se pegando, é claro. Cumprimentei algumas pessoas que eu sabia que faziam faculdade na NYU também e depois segui mais para o fundo da área aberta, onde pude avistar meus amigos reunidos.
Steph e Hunter estavam lá também e isso quase me fez desistir de ir, mas eu precisava parar com isso. Eu tinha que encarar que agora eu os veria juntos sempre, eles estavam em um relacionamento, dois anos já tinha se passado e eu era uma pessoa diferente agora, precisava começar a enfrentar meus demônios do passado — que eram muitos — então, decidi que começaria com esse.
Cumprimentei todos ali presentes e meus olhos caíram em Adam e vi que os olhos dele estavam fixados na minha blusa, porque logo depois o olhar dele foi parar em que estava bem ao meu lado. Me sentei junto com ele em um pufe enorme que tinha ali, dando até para nós dividirmos e desviei meu olhar do meu ex-namorado, me concentrando no que os meus amigos estavam conversando.
— Isso é péssimo. — Escutei dizer, se referindo a algo que Hunter tinha acabado de falar.
Observei à minha volta, eu até então não tinha reparado muito nos companheiros de banda de e aproveitei para fazer isso. Eu sabia que Brad tocava bateria e isso talvez explicasse os braços mais fortes que ele tinha, ele também possui um cabelo loiro um pouco longo e seus olhos eram de um azul muito bonito, sem falar no sorriso dele, ele era o típico astro de rock que se vestia todo de preto e parecia misterioso. Depois dele, meus olhos passaram em Fred e Anton, eles eram gêmeos idênticos, os dois com cabelos pretos iguais aos de e olhos claros, muito bonitos também, eu sabia que Fred tocada o baixo e Anton ficava na guitarra e segunda voz. Os dois tinham um estilo mais alternativo.
era a voz principal.
— Pensando em quê? — Escutei uma voz me chamar bem perto de mim, e me assustei ao ver que Hunter estava sentado bem ao meu lado.
Procurei por Steph, mas ela não estava ali. Eu tinha de fato me distraído.
— Nada, só observando — afirmei e levei minha bebida até a boca, aquele era o último gole. — Cadê a Steph?
— Foi dançar. — Hunter disse e apontou para a parte onde tinham algumas pessoas dançando e desviei meu olhar até lá. — Você estava distraída mesmo.
Ri fracamente ao encarar minha amiga, coloquei minha taça no chão ao lado do puff e me levantei.
— Vou me juntar a ela, e a Eleanor, que acabou de chegar. — Falei e sai andando.
Segui para onde Steph estava junto com Eleanor e me juntei a elas, que sorriram assim que me viram. Fazia muito tempo que eu não tinha uma noite onde poderia aproveitar com as minhas duas melhores amigas e eu queria fazer isso, ao invés de tomar qualquer atitude que poderia me levar aos mesmos erros do passado.
Estava tocando uma música animada e logo nós três já estávamos dançando juntas. Para mim era fácil ter muitas lembranças de nós três dançando na minha casa, nas festas que íamos ou simplesmente no meu quarto quando decidíamos fazer uma noite só de garotas, algo que eu sempre senti muita falta depois que me mudei.
Pela primeira vez desde que voltei, eu sentia vontade de resgatar tudo isso.
De onde eu estava, eu conseguia ver que os olhos de estavam fixados em mim. Sustentei o olhar dele e continuei dançando, ao mesmo tempo que me deixei reparar naquele cara que eu achava tão misterioso desde que tinha chegado a Nova Iorque. O cabelo dele estava raspado, a barba crescendo e ele estava usando uma calça preta dessa vez, com uma camiseta branca que me deixava ver os desenhos de suas tatuagens, do jeito que eu gostava.
Gostava. A observação me pegou de surpresa, era a primeira vez que eu chegava à conclusão de que gostava realmente de algo nele.
Desviei meu olhar sem jeito e voltei a dançar com Eleanor e Steph, que sorriram para mim.
— O é um cara legal. — Eleanor disse, agora apenas se movimentando no ritmo da música.
Eu fiquei em silêncio. Será que ela tinha me visto olhando para ele?
— Qual é, , não se faça de desentendida. — Ela insistiu e Steph caiu na risada.
— Você é terrível, Els. — Steph comentou rindo.
— Não sei do que está falando. — Afirmei dando de ombros enquanto dançava.
Els riu fracamente.
— Vocês têm passado o que... — Eleanor começou a dizer e desviou o olhar para ele, mas a cutuquei para que não fizesse isso. — O tempo todo juntos?
— Ele tem me apoiado, nos tornamos amigos, só isso Els. — Afirmei.
— Ele é bonito. — Steph disse, me pegando de surpresa. — O que? Não sou cega.
Nós três caímos na gargalhada. Estava sendo exatamente como nos velhos tempos.
— Olha só aquela cara dele, te encarando. — Eleanor disse e meu olhar parou nele de novo, ele estava mesmo me encarando e sorriu quando olhei em sua direção. — Não estou dizendo que ele está apaixonado, só estou dizendo que a maneira que ele te olha, pode te render umas boas fodas.
Arregalei o olhar e dei um tapa de leve no braço da minha amiga.
— Você não presta. — Afirmei rindo.
Abri a boca para responder Eleanor, mas parei assim que vi caminhar na nossa direção. Engoli em seco, geralmente eu não me sentia apreensiva com a possibilidade de ficar na presença dele — já que isso agora era recorrente —, mas agora seria diferente, graças aos comentários sórdidos da minha melhor amiga.



A noite estava calma para variar e até que eu tinha gostado da ideia da Steph de fazer a festa na minha casa. subiu para tomar banho quase depois que chegamos e eu fiquei com o pessoal organizando todos os detalhes da festa, ela desceu logo depois que terminamos e fiquei surpreso ao ver que ela estava usando uma das minhas camisetas preferidas, e eu teria elogiado ela se não fosse pelo ex-namorado dela ter entrado na cozinha e começado uma discussão ridícula com ela.
Quantos anos aquele cara tinha? 12?
Porra, tem cara que mesmo estando na cara o desinteresse da garota ele continua insistindo em algo que está na cara dele que não é correspondido.
Eu apenas acompanhei toda a discussão deles com o olhar, aquele cara estava conseguindo irritar até a mim que mal o conhecia, não queria nem imaginar o inferno que deve ter sido para ela namorar com ele. Pensei em interferir, mas nem precisei, cortou Adam lindamente e depois andou até mim.
Nós ficamos conversando, tive a oportunidade de falar que minha camiseta ficava bem nela e depois seguimos para o lado de fora onde já tinha uma galera aproveitando. O pessoal que conhecíamos estava no fundo da área aberta onde tinha um espaço para se reunir e nós caminhamos até lá, cumprimentamos todos e logo se sentamos em um puff que dava para dividirmos.
parecia distraída observando tudo e foi minha vez de observá-la. Seus cabelos estavam soltos e até um pouco molhados por causa do banho, ela não estava usando maquiagem nenhuma e eu confesso que até gostava de vê-la em sua beleza natural, com aqueles olhos azuis que as vezes fazia meu coração disparar, sem falar no sorriso dela que era o que realmente as vezes me quebrava.
Parei de encará-la quando vi Hunter sair de onde estava e se sentar bem ao lado dela. Eu sabia que já tinha rolado algo entre eles no passado, não sabia exatamente o que era, mas me incomodava um pouco ver a forma como ele parecia atraído por ela ainda, principalmente sabendo que ele estava em um relacionamento com Steph.
Os dois iniciaram um papo que não durou muito, porque logo vi levantar-se do puff que estava dividindo comigo e andar em direção ao lugar onde as meninas estavam dançando. Meus olhos a seguiram sem nem sequer piscar, ela estava usando uma calça jeans apertada, nada curto e nada que mostrasse demais e mesmo assim e a achava a garota mais gostosa daquela festa.
Puta que pariu, eu estava fodido.
Tomei um gole da minha cerveja e engoli em seco enquanto observava ela dançar, ao ver que os olhos dela estava fixado em mim enquanto ela se movimentava exatamente no ritmo da música. Sustentei o olhar dela e fiquei ainda mais curioso, quando vi que ela começou a falar com Eleanor e Steph, até me perguntei se elas estavam falando sobre mim. Bom, a única forma de saber isso era indo até lá e foi isso que eu fiz.
— Oi, meninas. — Falei ao me aproximar e minha voz saiu até um pouco rouca, acho que era o nervosismo.
Steph e Eleanor sorriram para mim, enquanto apenas encarava.
— Bom, nós vamos nos sentar lá com o pessoal... — Eleanor disse um pouco sem graça e confirmou a minha desconfiança de que elas estavam falando sobre mim.
permanecia em silêncio.
— É, estamos cansadas. — Steph concordou quase rindo e vi fuzilar as duas com o olhar, quase me fazendo rir, mas me segurei.
— Atrapalhei algo? — Perguntei me virando para .
— Você nunca atrapalha. — Sorri com as palavras dela.
Fiquei em silêncio, eu não tinha planejado o que falar, afinal meu ato foi de total impulso.
, está tudo bem? — perguntou me encarando, com aqueles olhos azuis que as vezes me deixava confuso.
Afirmei com a cabeça e dei graças a deus, quando começou a tocar outra música, que eu não sabia qual era, mas muito boa para dançar. Joguei minha garrafa de cerveja em uma lixeira que tinha ali perto e depois me voltei para puxando-a pela mão, que me olhou um pouco surpresa.
Confesso que até eu estava surpreso com a minha atitude.
— Não sabia que você dançava. — Ela comentou rindo enquanto me encarava.
— Só quando eu bebo. — Afirmei encarando-a e a puxei para mais perto de mim.
Falando em beber, eu sabia que não deveria estar bebendo, mas nada disso importava agora. Levei minhas mãos a cintura dela e vi se aproximar mais de mim e encaixar uma de suas pernas entre as minhas, seu olhar sustentava o meu enquanto nos movíamos fazendo com que despertasse um turbilhão de sentimentos dentro de mim.
Ficamos assim por um tempo, até que ela ficou de costas para mim e continuou fazendo os movimentos no ritmo da música. Observei aquilo admirado com cada movimento dela, eu não sabia se só olhava ou se continuava dançando com ela, não queria ultrapassar nenhum limite entre nós — que eu nem sabia se existia — e acabar estragando o vínculo que tínhamos criado.
Ela puxou minha mão ainda de costas me pegando completamente de surpresa e colei meu corpo ao dela. Ela se movimentava de forma sensual, o cheiro que vinha do cabelo dela fazia todo meu corpo de arrepiar e não querer sair dali tão cedo, era a primeira vez em muito tempo que eu me sentia assim em relação a alguém como estava me sentindo com ela.
tinha entrado na minha vida de forma repentina, era irmão do meu melhor amigo e alguém que não merecia passar por coisas que eu saberia que talvez a faria passar, mas, desde aquela noite na praia, eu não conseguia ficar longe dela. Eu sabia que os dois anos que passei com Mike falando dela quase todos os dias para mime estavam influenciando as minhas atitudes, aguçando minha curiosidade, mas eu também sabia que o jeito dela me fazia querer saber sempre mais, a maneira como ela me explicava as coisas, falava comigo ou simplesmente ria das minhas piadas idiotas.
Sem contar que quando eu estava com ela eu conseguia me sentir um pouco livre do meu vício, ao menos por algumas horas, esse estava sendo meu maior período sóbrio nos últimos meses. Desde aquele dia na praia eu não tinha ingerido mais nada e eu sabia que ela tinha grande parte na minha decisão. Um mês passou rápido desde que eu a tinha conhecido de verdade e foi fácil querê-la na minha vida depois disso.
Meus olhos estavam fechados quando a música acabou, me fazendo respirar pesadamente.
... — O nome dela saiu dos meus lábios antes que eu pudesse processar.
já tinha virado e me encarava, era difícil saber o que se passava na cabeça dela.
— Vou pegar mais bebidas... — Ela disse parecendo um pouco nervosa. — Você quer?
Apenas afirmei com a cabeça e fiquei ali parado, até ela sair do meu campo de visão.
Fiquei mais um pouco na pista de dança para me recompor e depois voltei para onde o pessoal estava reunido, onde eu estava antes. Me sentei no mesmo puff que ainda estava vazio e fiquei ali só observando tudo, a galera estava jogando verdade ou desafio, mas eu não estava no clima, então preferi só ficar ali mesmo.
Eu estava inquieto por causa do que tinha acontecido com a . Ela estava demorando para voltar com as bebidas e me peguei passando os olhos pelo lugar procurando por ela, mas ela não se encontrava ali e isso começou a me deixar ainda mais ansioso. Parar piorar tudo, Adam não parava de me encarar porque provavelmente tinha presenciado o que aconteceu entre nós, mas eu não estava nem aí, ele podia pensar o que quisesse.
Peguei meu celular na tentativa de tentar me acalmar, mas não funcionou. Tinha ficado uma tensão entre nós e eu não queria que isso estragasse tudo, então me levantei decidido a procurá-la. Olhei primeiro na cozinha — que eu sabia ser o lugar preferido ela na casa —, mas ela não estava lá, então segui em direção ao salão de jogos que tinha no primeiro andar.
Parei na porta, quando escutei a voz dela misturada com a de Hunter.
— Você é maluco. — Escutei dizer, ela parecia um pouco irritada.
— Eu sou maluco? — Hunter perguntou para ela, eu não conseguia ver os dois de onde estava, só escutar.
— Nutrindo esses sentimentos ainda, Hunter. — afirmou.
Eu não estava errado, ele ainda tinha sentimentos por ela.
— Você só veio até aqui porque me viu dançando com . — Escutei afirmar, mais uma vez.
Ele estava com ciúmes de mim?
— Você sabe que eu... — Hunter começou a dizer, mas parou.
— Você o que, porra? — praticamente gritou. — Eu sabia que era uma péssima ideia me reaproximar de você, olha só isso, está acontecendo tudo de novo.
Eu sabia que era errado estar escutando aquilo, mas eu simplesmente não conseguia sair dali.
— E você quer que eu faça o quê? — Hunter perguntou irritado. — Você sumiu por dois anos, voltou sem que ninguém soubesse. Não me preparei para isso, . E agora, se não bastasse o Adam, tenho que te ver com a tiracolo.
Caralho. Eu queria entrar lá e eu mesmo gritar com ele.
— Você precisa entender que não devo satisfações para você, de nada do que eu faço. — disse com firmeza e sorri com a forma dela de falar. — Você tem uma namorada, deveria se preocupar com ela e não comigo.
, por favor... — Hunter insistiu.
— Eu não terminei com Adam, para...
— Você o que? — Escutei ele cortá-la.
Eu achei que todo mundo sabia disso.
— Sim, isso que você ouviu. — afirmou. — Mas, isso não muda nada entre nós. Ou você começa a aceitar que somos amigos, e nada além disso, ou até a nossa amizade vai acabar.
Ficou tudo em silêncio e eu jurei que aquela briga entre eles tinha acabado, até Hunter voltar a falar.
— Você sabe que o ...
— Hunter, chega! — quase gritou, interrompendo-o. — Sai daqui, agora.
O que ele ia falar sobre mim? Ia falar do meu vício? Não somos tão próximos, mas ele sabe disso. Todo mundo sabe.
Tudo ficou silencioso por alguns instantes e depois, escutei passos vindo em direção a porta. Então entrei no corredor ao lado da sala e fiquei ali parado, torcendo para que não fosse visto e logo vi Hunter passar furioso e seguir reto para o lado de fora da casa.
Esperei sair de lá, mas isso não aconteceu, então eu entrei na sala.
. — disse ao me ver, suas bochechas estavam vermelhas e seus olhos um pouco arregalados.
— Desculpa, não queria invadir sua privacidade. — Falei encarando-a, ela estava perto da parede da janela.
riu fracamente.
Eu não sabia ao certo o que dizer e ela parecia também não saber. Desde que passamos a conviver isso nunca tinha acontecido entre nós, vez ou outra ela me pegava encarando-a, mas logo nós dois mudávamos de assunto, nunca tinha acontecido nada como hoje.
Caminhei até ela, enquanto apenas observava o olhar sobre mim.
— O que aconteceu lá fora... — comecei a fizer, tentando encontrar as palavras, mas era difícil.
— Você escutou? — perguntou, me pegando totalmente de surpresa, não era o que eu estava esperando.
— O que?
— Não faz isso, . — pediu.
— Isso o que?
— Fingir que não sabe do que eu estou falando. — Ela afirmou de forma calma.
— Sim, eu ouvi que o Hunter estava com ciúmes de você. — Falei com sinceridade e ela arregalou os olhos com as minhas palavras.
Me aproximei dela e em um gesto inesperado levei minhas mãos ao rosto dela, colocando uma mecha de cabelo dela atrás da orelha.
— Eu também estaria se fosse ele. — Afirmei, eu estava sendo completamente sincero.
moveu os lábios para dizer algo, mas ficou em silêncio e eu fiz o mesmo.
, eu... — começou a dizer, mas parou ao ver eu me aproximar e mordeu o lábio inferior.
Ri fracamente com a reação dela.
Porra, um milhão de coisas indecentes estavam percorrendo minha mente ao olhar para ela mordendo o lábio daquele jeito.
— É só me dizer não e eu paro. — Falei com sinceridade.
A última coisa que eu queria era fazer algo que a deixasse desconfortável.
— Não posso. — Ela disse me arrancando um sorriso.
— Ótimo, então. — Falei e colei meus lábios a ao dela, prensando-a contra a parede.


Capítulo 7 - Like Me Better

ALERTA GATILHO: Uso de drogas, álcool, violência, questões psicológicas relacionadas a conflitos familiares e pensamentos suicidas.
Os personagens vão passar por algumas situações psicológicas extremas, por isso, se você acha que não vai conseguir lidar com essas questões, sugiro interromper a leitura desse capítulo.

I like me better when I'm with you
I don't know what it is but I got that feeling
Waking up in this bed next to you swear the room
Yeah it got no ceiling

Like me better — Lauv.



Eu não sabia dizer o que tinha passado na minha cabeça naquele momento, e preferi não pensar nisso, a consciência ficaria para depois. Tomei os lábios de e pedi passagem para aprofundar o beijo entre nós ao mesmo tempo que levei uma mão até a nuca dela, entrelaçando meus dedos em seu cabelo e a outra usei para puxá-la mais para perto.
levou as mãos até a barra da minha calça e aproximou nossos corpos, enquanto dávamos passos indo em direção a mesa que tinha ali, onde a coloquei sentada em um gesto rápido e me encaixei entre suas pernas. Porra, nossos lábios se encaixavam perfeitamente e quanto mais aumentávamos o ritmo, ainda mais eu me sentia em um puro ecstasy.
Estremeci ao sentir a mão dela adentrar minha camiseta e me perdi em meio ao misto de sensações que beijá-la me proporcionava. Concluindo que, eu estava criando laços com , os quais eu usaria em algum futuro, para me sufocar em meio ao misto de sentimentos e caos que nos tornaríamos, muito provavelmente.
Eu não queria parar, mas sabia que era preciso. Não tinha a intenção de ir além disso com ela — ao menos não agora —, então diminui o ritmo do beijo e selei nossos lábios algumas vezes me afastando de . Os olhos dela estavam arregalados, os lábios vermelhos e suas bochechas rosadas, ela estava linda, mas algo parecia ter mudado em seu olhar.
Eu não poderia culpá-la.
disse meu nome como em um sussurro, fazendo com que um arrepio percorresse minha espinha.
O que essa garota tem? Porra!
— Desculpa — falei com sinceridade. — Não sei o que deu em mim...
riu fracamente, me fazendo arquear a sobrancelha em confusão.
— Tudo be...
— Achei você! — A voz de Brad reverberou no ambiente fazendo com que nós dois déssemos um pulo de susto, interrompendo o que ela ia dizer.
Revirei os olhos e virei na direção da porta.
— O que foi? — perguntei um pouco irritado.
Péssima hora para ser interrompido.
— A banda. — Brad disse e franzi o cenho. — Íamos tocar, lembra? A música Like...
— Sim, eu sei! — respondi já cortando ele, a música era surpresa.
Virei meu rosto para , ignorando a presença do meu companheiro de banda.
— Eu te vejo lá fora? — perguntei de forma calma, queria saber se estava tudo bem entre nós depois do que tinha acontecido.
— Sim, eu só vou pegar alguma coisa para beber na cozinha. — ela disse um pouco sem jeito, provavelmente por causa da presença do Brad.
— Não vai cantar com a gente hoje? — Brad provocou e me virei para ele, lançando um olhar de repreensão.
Meu amigo deu uma risadinha, ele já tinha entendido tudo e eu sabia que seria bombardeado de perguntas ao sair dali.
— Não, hoje vou deixar os holofotes para vocês. — Brincou, com os olhos fixados em mim.
— Certo. — Brad disse rindo. — Vamos?
— Pode ir na frente, eu já vou. — falei, me virando para Brad, que me lançou um sorrisinho e saiu logo em seguida.
Me virei para , que surpreendentemente estava com um sorriso no rosto. Ri fracamente e caminhei para mais perto dela, não sabia ao certo o que fazer, se deveria dizer algo ou simplesmente sair da sala. Optei pela última opção.
? — me chamou, fazendo com que eu parasse na porta e desistisse de sair.
— Sim? — perguntei me virando para olhá-la.
— Está tudo bem? — a pergunta saiu de forma calma, mas me pegou totalmente de surpresa.
Desviei meu olhar por um instante, para só depois voltar a olhar para ela. A olhei por alguns segundos e caminhei para perto dela mais uma vez, que me olhou parecendo um pouco confusa.
— Sempre, . — falei e depositei um beijo em sua testa, para então sair da sala.


Minha cabeça estava um misto de confusão, eu não conseguia tirar dos pensamentos e eu havia prometido para a banda que hoje iriamos cantar, já que tinha me mantido um pouco afastado deles devido aos últimos acontecimentos. Eu sabia que era só para uma galera no quintal da minha casa, mas Brad sempre foi muito exigente e ele queria que déssemos cem por centro de nós, em qualquer situação.
Os instrumentos já estavam no palco improvisado que tinha do lado de fora e a galera que tinha na festa parecia empolgada em nos ouvir tocar, considerando que a maioria já tinha nos escutado por serem nossos amigos e outros pareciam curiosos para ouvir pela primeira vez. Peguei minha guitarra e fiz sinal para que Brad me ajudasse a arrumar tudo e ajustar as coisas para eu pudéssemos começar, enquanto eu tentava não pensar em .
A primeira música que iríamos tocar era uma que eu tinha escrito recentemente e até tinha mostrado para ela em um dia que passamos juntos. Eu estava nervoso, mas ela havia gostado, a banda queria tocar e não tinha por que ficar guardando uma música que ficou realmente muito boa e era uma das minhas melhores composições.
— Pronto? — Brad perguntou, assim que terminamos de preparar tudo.
Ri fraco.
— Eu nasci pronto. — afirmei, fazendo-o rir, que apenas assentiu.
Passei a alça da guitarra no pescoço e andei até o microfone, para só então olhar para frente. Meus olhos pararam diretamente em , que estava logo à frente com um sorriso estampado no rosto e o celular em mãos para poder gravar, o que ao invés de me deixar nervoso, me deixou confiante. Não tinha mudado nada entre nós, apesar de eu saber que precisaríamos falar disso depois.
— Oi, pessoal, — falei no microfone enquanto todos me olhavam concentrados, mas eu só tinha olhos para uma pessoa. — Hoje eu vou cantar uma música especial.

Sugiro colocar Like Me Better do Lauv, para tocar.


A batida da música começou e pude ver os olhos de se arregalarem, ela tinha reconhecido a música que eu ia cantar e abriu um sorriso largo. Ver a reação dela me desmontou inteiro, fazendo com que eu me sentisse empolgado em cantar a música e iniciei a primeira parte.


To be young and in love in New York City
(Ser jovem é estar apaixonado na cidade de Nova Iorque)
To not know who I am but still know that I'm good long as you're here with me
(Sem saber quem eu sou, mas saber que estou bem se você estiver aqui comigo)
To be drunk and in love in New York City
(Beber muito e estar apaixonado na cidade de Nova Iorque)
Midnight into morning coffee
(Da meia-noite, até o café da manhã)
Burning through the hours talking
(Passando horas conversando)
Damn
(Droga)



A música tinha um ritmo animado e uma letra boa de se cantar, por isso não foi preciso de muito para que a galera se animasse logo com o primeiro refrão. já estava cantando, isso mostrava que ela tinha realmente prestado atenção na letra e guardado o papel que dei para ela com toda a canção escrita e isso fez algo se acender dentro de mim, para que eu continuasse a música, indo para os segunda parte com ainda mais empolgação.

I like me better when I'm with you
(Eu gosto mais de mim quando estou com você)
I like me better when I'm with you
(Eu gosto mais de mim quando estou com você)
I knew from the first time, I'd stay for a long time cause
(Eu sabia desde a primeira vez que eu ficaria por um longo tempo, porque...)
I like me better when
(Eu gosto mais de mim quando…)
I like me better when I'm with you
(Eu gosto mais de mim quando estou com você)


A sensação que eu tinha, era de que só nós dois estávamos ali naquele momento, e não foi preciso muito para que eu divagasse em lembranças do dia em que mostrei a música para .

Depois daquele dia que dormi na casa de e passei a noite em sua casa, até que ela conseguisse cair no sono de novo após de ter um pesadelo, nós tínhamos nos aproximado muito e descoberto várias coisas em comum. Um dos pontos que tínhamos em comum era a paixão pela música, e acabei descobrindo, que antes da tragédia que matou seu irmão, ela tinha planos de entrar para Julliard.
Tínhamos marcado para que eu a encontrasse na casa dela, pois ela queria ver algumas das minhas composições e eu decidi que mostraria uma música que tinha acabado de compor, onde ela foi a minha inspiração — algo que eu ocultaria é claro — e por isso, aqui estava eu, mais uma vez, esperando o elevador chegar na cobertura para poder encontrá-la, enquanto tentava controlar o mesmo nervosismo de sempre.

Minha abstinência de Oxy nem estava tão ruim, para falar a verdade, eu andava tendo até que dias muito bons desde que havia conhecido e me aproximado tanto dela, mas mesmo assim, eu me sentia inseguro de ficar tão próximo dela, eu não era idiota, tinha consciência de que poderia fazer mais mal, do que bem a ela.
— Achei que não viria mais. — a voz de reverberou no corredor, assim que a porta do apartamento foi aberta.
Eu tinha acabado de descer do elevador.
— Eu sempre venho. — afirmei e a vi sorrir com a resposta.
estava encostada no batente da porta, e reparei que diferente das outras vezes, agora ela só vestia uma camiseta larga, com um short curto e seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo mal feito. Como sempre, essa garota não precisava de muito para estar bonita.
— Vem! — ela falou e deu passagem para que eu entrasse, já fechando a porta atrás de si. — Pedi pizza, você come?
, quem não come pizza? — perguntei achando graça.
— Vai por mim, tem muita gente estranha por aí que não come. — respondeu rindo e a vi sentar no chão, onde estava seu notebook, duas latinhas de refrigerante e uma vasilha com petiscos.
A encarei e tirei meu tênis, já que ali tinha um tapete e eu não queria ser o responsável por deixar ele sujo.
— Não precisa, pode ficar de sapato, se quiser. — falou enquanto se ajeitava e pegava seu notebook.
Ri fraco e me sentei ao lado dela.
— Tudo bem, a Jillian sempre me obriga a tirar os sapatos para pisar no tapete. — expliquei.
me encarou assentindo e a vi pegar uma latinha de Coca e estender na minha direção.
— Eu notei que você prefere evitar bebidas alcoólicas, então achei que refrigerante seria uma boa ideia.
Sorri com a palavras dela e abri a latinha, para então dar um gole.
— Obrigado. — agradeci.
— Então, com o que você vai me surpreender hoje, ?
Soltei uma risada abafada com a pergunta dela e peguei meu notebook, que estava na mochila que tinha levado.
— Primeiro vou te mostrar uma música que compus recentemente. — expliquei enquanto abri o aparelho. — Ninguém viu ainda, nem a banda, então você vai ser a primeira.
— Assim vou começar a me sentir importante. — falou de forma brincalhona e parei o que estava fazendo, para poder olhar em sua direção.
— Você é importante, . — afirmei.
A vi engolir em seco e me encarar, talvez porque não sabia o que responder sobre o que eu tinha dito.
— Certo, me mostra logo. — pediu, mudando de assunto. — Porque agora fiquei curiosa.
Voltei a atenção para o notebook e abri a letra, só para o caso de eu ainda não ter decorado ela inteira, apesar de ser o autor. Peguei minha outra mala e tirei o violão de dentro, para que eu pudesse cantar a música, e percebi que me olhava atentamente, apesar de não ter falado mais nada.
Me virei para ela e posicionei o violão de um jeito que desse para eu tocar sem perder ou errar alguma nota. Comecei tocando as primeiras notas, para me familiarizar com o ritmo, porque era a segunda vez que eu ia tocar essa música desde que tinha escrito e ainda estava me acostumando.
Comecei a cantar a primeira parte do refrão e a vi sorrir, ao mesmo tempo que dividia a atenção na letra que se encontrava na tela do meu computador. Continuei cantando e a vi anotar algumas coisas, provavelmente alguma sugestão do que eu poderia mudar nas notas e depois voltar a olhar para mim, enquanto eu iniciava a segunda parte.

I like me, I like me
(Eu gosto de mim, eu gosto de mim)
Look who you made me, made me, oh no
(Olhe quem você fez, me fez, oh não)
Better when
(Melhor quando)
I like me better when I’m with you
(Eu gosto mais de mim quando estou com você)



Terminei de cantar a última parte e permaneci encarando .
— É linda, . — ela disse enquanto me olhava.
Sorri e coloquei o violão de lado.
— Eu andei inspirado desde que nos conhecemos. — admiti.
sorriu e abriu a boca para me dizer algo, mas foi interrompida pelo barulho da campainha tocando.

Terminei o último refrão e todos começaram a bater palma. Meus olhos ainda estavam fixados em e, por um momento, tive a sensação de que ela teve a mesma lembrança que eu ao me ouvir cantar. Me aproximei de Brad e perguntei qual música cantaríamos agora e depois de saber, voltei para minha posição perto do microfone, já iniciando a canção seguinte.
Mesmo que eu estivesse tocando com a minha banda no quintal de casa era emocionante, eu conseguia sentir a energia das pessoas que estavam ali e ter noção do quanto eu gostava de fazer isso, a música era parte de mim. Cantamos mais algumas músicas e depois encerramos, pois já estávamos bem cansados, sem contar que queríamos aproveitar a festa.
Deixei os instrumentos no palco improvisado e caminhei até o local onde ficavam os pufes, lugar que eu tinha ficado com e o pessoal logo que a festa começou. Eles pareciam estar decidindo jogar verdade ou desafio e me sentei ao lado dela, que ficou entre mim e Seth.
, mandou muito bem. — Seth disse fazendo um toque de mãos comigo.
sorriu para mim e depois voltou a se concentrar em algo que Hunter estava falando.
— Valeu, cara. — agradeci.
Encarei , eu queria falar com ela, mas não sabia ao certo o quê.
— Não vale mandar beijar. — Eleanor disse de forma brincalhona, com a voz enrolada, me fazendo constatar que ela estava bêbada.
Ri fraco e virou para me olhar.
— Alguém bebeu demais. — comentei e a vi dar um gole em sua bebida.
— Ela sempre bebe. — afirmou e riu fraco.
Abri a boca para falar, mas fui interrompido por Hunter chamando nossa atenção para que prestássemos atenção porque o jogo ia começar. Para ser realista, eu não sabia por que estava ali prestes a jogar aquele jogo idiota, eu sempre odiei verdade ou desafio, mas ao olhar para a garota sentada ao meu lado, quase com a cabeça encostada em meu ombro, a resposta ficou bem clara.
Brad foi o primeiro a rodar a roleta e logo parou em Eleanor — a amiga de — que bateu palminhas animadas, arrancando risadas de todos ali. Ela escolheu verdade, como já era de se esperar e o jogo seguiu seu curso, e a próxima pessoa que parou com ela, fui eu. Revirei os olhos e disse que queria verdade, agradecendo por ela não ter feito nenhuma pergunta íntima demais e que eu pude responder com facilidade.
Dessa vez, a roleta parou em .
— Não pega muito pesado. — ela pediu baixinho, me fazendo rir.
Adam não tirava os olhos de nós, e até aquele momento eu nem tinha me dado conta da presença dele, que ignorei descaradamente.
— Eu não faria isso. — me defendi, com a maior cara deslavada.
me olhou com aquela cara de “faria sim” e ri fraco.
— Verdade ou desafio? — perguntei, ao me dar conta de que nem tinha perguntado ainda.
— Desafio.
— Essa é minha, . — Seth disse empolgado.
— Alguém tem que ser corajoso nesse jogo. — Ela deu de ombros, rindo.
Ponderei o desafio, não queria desafiá-la a fazer algo que a deixasse desconfortável.
— Eu te desafio a cantar sua música favorita do momento.
riu fraco, para então dizer:
— Essa é fácil. — respondeu convencida.
— Pode cantar, então, — Seth a desafiou e ela mostrou a língua
— I like me better when I'm with you. — ela começou a cantar a música que eu havia cantado há pouco e um sorriso involuntário se formou nos meus lábios.
Porra, se não estivéssemos no meio de tanta gente, sem dúvidas eu a beijaria agora mesmo.
— I knew from the first time, I'd stay for a long time cause. — ela continuou e todos estavam concentrados, tinha uma voz muito bonita. — I like me better when I'm with you.
Batemos palmas e ela fez uma reverência.
A encarei com um sorriso no rosto e sorriu de volta, e depois voltamos a nos concentrar no jogo que tinha recomeçado.


Já passava das quatro horas da manhã quando todo mundo começou a ir embora, eu não tinha bebido mais nada além daquelas cervejas do início da festa e, por isso, o cansaço tinha vindo com tudo. Depois do jogo de verdade ou desafio — que não durou muito — todos se jogaram na piscina e vi ficar junto com Seth e os amigos dela, e eu aproveitei para falar com a banda e ficar um pouco sozinho.
Eu sabia que nada tinha mudado entre nós, e mesmo assim me sentia incomodado. Ter beijado parecia a coisa mais errada que eu poderia ter feito nas últimas semanas, mas eu também sabia que não tinha volta, já estava feito, e isso estava me corroendo por dentro mais do que qualquer coisa, e eu precisava me controlar, a ansiedade e a necessidade das drogas são duas coisas que não combinam.
Terminei de fumar o quarto cigarro da noite e voltei para dentro, a casa estava completamente vazia e fui tomar um banho no banheiro do Christopher, já que quando tentei abrir a porta do meu estava trancada, o que me fez constatar que provavelmente ainda tinha sobrado algum bêbado na casa. Não fiquei muito tempo e logo voltei para o meu quarto, estava cansado demais dos últimos dias e precisava de um descanso urgente.
Mais do que isso, tinha que tirar dos meus pensamentos.
Deitei, já colocando minha mão atrás da cabeça e fechei meus olhos, o que não durou muito, pois dei um pulo ao ouvir a porta do banheiro se abrir. saiu de lá — como se fosse a coisa mais natural do mundo — vestindo apenas uma camisa minha, outra que ela deve ter pegado na gaveta, com os cabelos molhados e só de calcinha.
Respirei fundo e raspei a garganta.
... — ela disse calma, virando para me olhar. — Eu suei, precisei de outro banho. — se justificou, agindo como se ela não estivesse no meu quarto de blusa e calcinha enquanto eu estava vestindo só uma bermuda do pijama.
Fiquei em silêncio, estava tentando procurar as palavras.
— Também peguei outra blusa. — ela continuou e soltei um suspirou pesado. — Você está bem?
Caralho. Ela estava de brincadeira comigo, né?
— Achei que você tinha ido embora. — falei finalmente, antes que ela começasse a pensar que eu estava surtando.
Eu meio que estava, na verdade.
— Você disse para eu dormir aqui, lembra? — ela perguntou em um tom brincalhão e caminhou até minha cama.
Tomei nota de cada movimento dela e a vi deitar bem ao meu lado, dando graças à deus, porque a cama era de casal.
... — comecei a dizer e a vi me encarar, com uma das sobrancelhas arqueadas. — O que aconteceu entre nós...
... — falou meu nome em um tom carregado. — Eu amei o dia de hoje.
Arregalei os olhos, não era o que esperava ouvir.
— Desde que a Hannah teve uma overdose, meus dias têm sido muito difíceis. — explicou e se deitou por completo ao meu lado, encarando o teto.
Assenti sem dizer nada, não queria interromper o que ela estava dizendo.
— E você esteve comigo em todos eles. — ela afirmou e virou o rosto para em encarar.
Porra. Se ela continuar me olhando assim...
O silêncio pairou entre nós depois disso e percebi que precisava dizer algo.
— Eu só não quero as coisas mudem entre nós. — admiti. — Odeio sentir que invadi seu espaço.
riu fraco e se aproximou de mim, fazendo algo totalmente inesperado. Ela deitou a cabeça no meu peito e se aninhou, de modo que seu corpo ficou colado ao meu, fazendo com que eu colocasse meu braço ao lado de seu corpo, envolvendo-a em um abraço.
— Se as coisas tivessem mudado entre nós, eu não estaria aqui, . — ela disse e senti meu coração acelerar.
Merda. Se eu estava sonhando, não queria ser acordado.
? — ela me chamou, provavelmente esperando por uma resposta.
— Tudo bem, linda. — O apelido saiu de forma natural.
me apertou contra ela em resposta e beijei o topo e sua cabeça. Por hora, deixaríamos as coisas assim, e estava tudo bem para mim.


*****



.

Não era nem 10 horas da manhã quando perdi o sono, então imaginei que tinha dormido menos de seis horas. Depois disso, fiquei olhando algumas fotos no Instagram de amigos que foram tiradas na festa de ontem e postei três — que eu tinha gostado muito a propósito — e naveguei na internet até me sentir enjoada de fazer isso.
Encarei que dormia tranquilamente e um sorriso involuntário se formou em meus lábios, eu não sabia dizer ao certo o que estava acontecendo entre nós, mas por ser a única parte boa da minha vida ultimamente, decidi adiar qualquer pensamento negativo e me apeguei apenas àquele momento. Respirei fundo e me afastei um pouco dele, estava calor e eu não tinha planos de ficar até a hora que ele acordasse, apesar de ser domingo, eu tinha algumas coisas para fazer.
A motivação para que eu acordasse veio no minuto seguinte, quando meu celular começou a vibrar em meu colo e o número do meu pai apareceu na tela do meu celular. Recusei a chamada e levantei tentando fazer o mínimo de barulho possível, já indo em direção ao banheiro e destravei o aparelho, para poder retornar à ligação, mas não foi preciso, o número dele apareceu de novo.
— Oi. — falei ao atender.
, onde você está? — A voz dele saiu em um tom de acusação, o que fez com que eu revirasse os olhos.
— Na casa de um amigo. — informei, mesmo sabendo que não tinha obrigação alguma de fazer isso. — Aconteceu algo com a Hannah?
Meu coração já estava disparado.
— Não, ela está bem. — ele disse e o escutei bufar do outro lado da linha. — Até demais.
Seu tom de voz mostrava claramente o descontentamento em cuidar da minha amiga, e eu sabia disso desde aquela noite em que ele me "consolou", meu pai sendo bonzinho era bom demais para ser verdade.
— Você pode me falar o que aconteceu, por favor? — pedi.
Minha paciência com ele, era o total de: não existe.
— Eu queria saber se você poderia vir até aqui, precisamos conversar.
Bufei frustrada, para variar, minha paz também não ia durar muito.
— A gente não pode resolver por telefone? — perguntei, enquanto me sentava na privada, que estava com a tampa fechada.
, eu preciso que venha até o hospital. — Sua voz saiu calma.
Eu não queria piorar ainda mais as coisas, então decidi concordar.
— Tudo bem. — Levei uma mão até a testa, acariciando a região já tensa. — Logo chego aí.
Desliguei antes que ele pudesse falar mais algumas coisa e comecei a me arrumar para sair.

Sugiro colocar “Breathe” do Lauv para escutar.


O clima em Nova York estava frio e agradeci ao menos por ter levado um casaco, já que tinha me esquecido completamente de levar uma troca de roupa extra. Eu estava me sentindo exausta, só queria ir para casa e descansar mais um pouco, antes de fazer as coisas que tinha planejado para hoje, mas pelo tom de voz do meu pai no telefone, o assunto parecia ser bem sério.
Estacionei o carro e fiquei encarando aquele prédio enorme por alguns minutos, antes de tomar coragem e descer, já indo em direção a entrada. Como sempre, precisei me identificar na recepção, avisar que estava ali para falar com o Dr. John e fui instruída a ir até o andar de tratamento intensivo, que é onde meu pai passa a maior parte do tempo dele.
Desci do elevador e segui rapidamente por aqueles corredores — tão conhecidos por mim — já indo em direção a sala onde tínhamos conversado no dia em que Hannah sofreu a overdose. A porta estava aberta e, apesar de ele não estar ali ainda, eu preferi entrar para já me acomodar e ir pensando qual seria o assunto da vez, muitas coisas se passavam na minha cabeça naquele momento e um detalhe em especial, me trouxe lembranças.

Já tinha algumas semanas que Rian estava internado, desde que ele havia sofrido uma overdose — que quase o matou — minha rotina tinha mudado completamente. Eu ia da escola para casa, apenas para tomar um banho e pegar uma troca de roupa, e depois ia para o hospital e para casa de novo, recomeçando toda a minha rotina da semana.
O hospital, que eu já conhecia bastante, vinha ficando cada vez mais íntimo dos meus dias. Eu me sentia cansada mas, como sempre, tinha escolhido atropelar meus sentimentos e qualquer coisa que pudesse me fazer desmoronar naquele momento, o que fosse relacionado a mim, seria varrida para debaixo do tapete nesse momento.
Rian era minha prioridade.
Eu mal tinha pisado no hospital, quando uma enfermeira veio na minha direção dizendo que meu pai estava me esperando em uma sala no andar da UTI. Eu achei estranho, porque ele geralmente nem estava lá naquele horário, mas segui para lá o mais rápido que minhas pernas me permitiram, enquanto tentava não pensar no pior.
— A Lucy me disse que você queria me encontrar. — falei ao adentrar a sala.
Meu pai estava de costas para a entrada e olhando através da janela.
— Eu vim ver o Rian, se pud....
, sente-se, por favor. — ele pediu, já se virando na minha direção.
Tinha alguma coisa errada, muito errada, na verdade.
— Pai, aconteceu alguma coisa com Rian? — perguntei, se a notícia era ruim, eu queria ouvir de uma vez.
Sempre odiei esse jeito que alguns médicos têm, de tentar adiar a dor do outro.
— Sempre admirei esse seu jeito direto. — Um sorriso de formou em seus lábios.
Apenas assenti, se ele conseguia fingir que as coisas entre nós iam bem, eu não.
— O que eu vou dizer, já me faz prever sua reação. — ele começou a falar e me remexi na cadeira.
— Fala de uma vez, por favor. — implorei, praticamente.
— Eu quero que você pare de visitar seu irmão.
A voz dele era carregada de uma frieza — muito comum — que me fez desviar o olhar. Eu esperava muita coisa dele, depois de tudo o que tinha acontecido, mas me impedir de ver meu próprio irmão, em um momento como esse, ia além de qualquer coisa que eu poderia suportar.
— É uma recomendação médica? — perguntei.
Ele riu fraco, isso me irritou ainda mais.
— Não, , estou dizendo isso como seu pai. — A irritação em sua voz, era evidente.
Me levantei da cadeira e me afastei da mesa, ficando de costas para ele.
— Bom, eu dispenso a sua recomendação como pai. — afirmei, ainda de costas para ele.
Deus, eu estava a ponto de explodir em meio a tudo isso.
— Não é uma recomendação, é uma ordem. — Escutei ele se levantar da cadeira e caminhei para mais longe.
Ri fraco, acho que era o nervosismo, que me impedia de chorar e me fazia rir.
— Não sou sua propriedade para me ordenar algo. — falei firme. — Não ver Rian, está fora de cogitação.
Meu pai caminhou para mais perto de mim, sustentando meu olhar.
— Você precisa parar de acreditar que isso tem salvação.
— Isso? — indaguei. — Isso é seu filho!
A nó na garganta era tão grande, que eu achei que fosse me sufocar em meio as palavras.
— Ele era. — Suas palavras eram frias e vinham carregadas de uma sinceridade inacreditável.
Passei a mão nos cabelos e apertei os olhos, na tentativa de não desmoronar ali mesmo.
— Não sei por que se importa tanto, . — disse calmo. — Nós sabemos o fim de um dr...
Ele parou o que ia dizer, quando meu olhar se fixou nele.
— Pode falar. — pedi. — Um drogado. Todos sabemos o fim de um drogado.
Meu pai se aproximou de mim, mas me afastei, já ficando perto o suficiente da porta para poder sair dali.
— Eu não quis...
— Você sempre quis, estava só se segurando, até agora. — falei e sai, antes que aquilo ficasse ainda pior.
Se é, que já não tinha ficado.


O barulho de porta abrindo fez com que eu saísse da minha memória que parecia tão real e palpável. Me virei e dei de cara com meu pai parado ainda na entrada da sala, segurando uma pasta, todo vestido de pijama cirúrgico — como sempre — e sua expressão não era das melhoras, mas não me importei. Apenas assenti para ele e caminhei até a cadeira, exatamente como tinha acontecido na minha lembrança, e me sentei.
Meu pai deu a volta e se sentou na cadeira do outro lado da mesa, que ficava de frente para mim. Seus olhos me encaravam como quem estava me estudando, e eu conhecia bem aquele olhar, sabia exatamente o eu ele estava tentando com aquilo, e por isso decidi não o sustentar e olhei para o lado, esperando ele falasse alguma coisa.
Um silêncio parou entre nós, enquanto ele mexia em sua pasta.
— Bom, você me chamou aqui. — comecei a dizer e o olhar dele levantou-se e parou na minha direção. — Então, o que quer falar comigo?
— Como você está? — ele perguntou e desviei o olhar mais uma vez.
Só podia ser brincadeira.
— Certo. — falei de forma retórica. — Vamos pular a parte que você se importa e, pior ainda, que me chamou aqui para perguntar como eu estou. O que você quer falar comigo, John?
Seus olhos eram frios e impassíveis como sempre, e por isso, ele não esboçou absolutamente nada ao ouvir minhas palavras.
— Aquele dia que sua amiga ficou internada, eu achei que estivesse tudo bem ente nós.
Ri fraco.
— Eu precisava de alguém, você estava ali... — falei e desviei o olhar mais uma vez, era difícil olhar para ele. — Bom, foi o calor do momento.
— Soube que tem andado com o amigo do seu irmão, como é o nome dele mesmo? — Meu pai soltou um risinho.
Ele sabia o nome, mas preferi responder.
. — afirmei. — O seu “soube”, é uma desculpa para “estou te vigiando”. Por que me chamou aqui?
Eu só queria saber o que ele tinha para me dizer e ir embora.
— Hannah teve uma boa melhora. — Um sorriso se formou em meu rosto instantaneamente, mas não no dele.
— Isso é bom, não é? — questionei.
— Seu irmão tem passado bastante tempo nos corredores desse hospital. — ele disse firme e sua expressão era de descontentamento.
Eu sabia, estava bom demais para ser verdade.
— Eu sei, ele tem cuidado da Hannah. — expliquei, mesmo sabendo que ele já tinha consciência disso. — Por que está me dizendo isso?
Meu pai cruzou os braços e me encarou, como se esperasse que eu fosse ler a mente dele.
— Essa garota tem família? — perguntou e voltou a analisar os papéis em sua pasta.
Naquela hora, eu entendi tudo, ele estava com uma pasta de informações sobre Hannah.
— Você está fazendo de novo. — falei com a voz carregada de dor e raiva.
O olhar dele passeou da pasta sobre a mesa, até mim.
— Eu só estou tentando saber quem ela é. — informou.
Soltei uma risada nasalada e me levantei da cadeira em que estava sentada, me afastando da mesa.
— Não, você não está. — afirmei. — Eu sou a família da Hannah.
Os olhos do meu pai estavam ainda mais frios, mas me mantive ali, encarando-o.
— Só fala de uma vez o que você quer.
— Eu quero que ela saia desse hospital, o mais rápido possível. — Sua sinceridade era sempre presente.
— Acha que tirá-la desse hospital vai afastar o Mike? — perguntei. — Nem eu o afastei, e olha que ele me odeia, mudá-la de hospital não vai fazê-la desaparecer da vida dele.
— Bom, então acho que eu vou ter que me encarregar disso. — ele disse e senti meu coração disparar.
Minha vontade era de gritar com ele, mas nem isso eu conseguia, estava cansada demais dessa luta.
— Não se preocupa. — falei. — Eu vou resolver isso.
Não era nada novo.
— Só deixa o Mike fora disso, por favor — pedi.
Meu pai se levantou e sentou com uma perna apoiada na mesa.
— Obrigado.
Quase gargalhei na cara dele.
— Não é nada novo — afirmei. — Já me acostumei, a varrer sua sujeira para debaixo do tapete.
....
— É só isso? — perguntei, só queria sair dali.
— Eu salvei a vida dela. — ele disse, como se isso não fosse o trabalho dele.
— Bom... — comecei, mas fiz uma pausa para poder respirar e engolir o que parecia ser uma bola na minha garganta. — Fez o que deveria ter feito naquela noite.
Ele levantou da mesa e o vi cerrar os punhos e caminhar até a janela.
— Aquela noite...
— Bom, se era só isso que queria falar comigo... — falei cortando-o, não ia entrar nesse assunto, nunca mais. — Te aviso quando resolver tudo.
Saí daquela sala sentindo como se meu coração fosse saltar pela boca, eu estava com as pernas tremendo e todo meu corpo parecia ter perdido a força. Mesmo prevendo que ele poderia ter uma atitude assim de novo, uma parte de mim tinha passado as últimas semanas tentando acreditar que agora seria diferente, que ele poderia ter mudado.
Mais uma vez, me enganei.
Andei por entre os corredores procurando pelo quarto de Hannah e, quando o encontrei, parei na porta. Infelizmente, ela estava acordada e logo abriu um sorriso ao me ver, e caminhei até sua cama, me sentando bem ao lado dela, mas sem dizer nada, naquele momento eu não conseguia encontrar palavras para o que se passava dentro de mim, e também não queria contar nada para ela, não agora.
Hannah segurou minha mão, como se estivesse entendendo o que se passava comigo e me encarou, para então dizer:
, o que aconteceu?
Não precisou de mais nada, a explosão de sentimentos no meu peito veio como um terremoto atinge o solo e lágrimas rolaram dos meus olhos. A sensação que eu tinha naquele momento era de que eu estava sufocando, eu não conseguia falar, pensar ou respirar direito, desde que tinha chegado em Nova Iorque, aquela era a primeira vez que eu me sentia tão esmagada pelos demônios do meu passado.
Respira, . Repassei na minha mente, exatamente como acontecia nas minhas consultas com a dra. Sullivan.
, me conta o que aconteceu. — Hannah pediu enquanto me encarava.
A encarei e limpei meus olhos, enquanto tentava controlar a respiração.
— Eu não consigo — falei. — Não agora, então por favor, vamos só ficar em silêncio até isso passar, tudo bem?
Hannah apenas assentiu e apertei a mão dela, deixando que as lágrimas rolassem.


********



Era a primeira vez que eu ia até lá desde que tinha voltado para Nova Iorque. Tinha passado até algumas vezes na frente, mas, em nenhuma delas tive coragem de entrar, porque sempre parecia que eu iria desmoronar ou tornar as memórias do pior dia da minha vida, tangível demais. Contudo, a conversa que tive com meu pai mais cedo e a lembrança naquela sala, me fizeram pensar demais naquele lugar, no quanto eu precisava estar ali.
O carro estava desligado e eu me encontrava a pelo menos 30 minutos parada dentro dele, encarando aquele lugar, desde que tinha estacionado. A música que tocava no rádio era uma das favoritas de Rian, e uma das minhas também, e isso só fez com que tudo que eu estava sentindo naquele momento se intensificasse, porque sempre compartilhávamos gostos musicais e listas de reprodução.
Respirei fundo pela milésima vez naquela meia hora e decidi que estava na hora de sair do carro e fazer o que eu tinha me proposto, indo até ali. Puxei a chave do contato e desci, caminhando lentamente até a entrada e segui o caminho, afinal, eu conhecia muito bem o lugar em que estava, apesar do tempo que tinha passado sem sequer pisar ali.
O cheiro ainda era de terra molhada — tinha chovido na madrugada anterior — e o ar gelado fazia com que meus cabelos balançassem e batessem em meu rosto, me trazendo até que um certo alívio. Parei de frente para a lápide e respirei fundo, tentando controlar meus sentimentos, mas era difícil, as lágrimas pareciam sair sem precedentes.


RIAN HALL CROWFORD

★ 15/02/1998 - † 15/02/2018

“A vida é como um sopro. Apenas viva.”




Encarei o teto em busca de qualquer sensação, mas tudo que eu sentia naquele momento, era o piso gelado do banheiro sob minha pele. Não era capaz de sentir absolutamente nada, eu não sentia amor, ódio, remorso, dor, frustração, arrependimento ou desespero. Eu era só um vazio, como um lugar com muito espaço para preencher, mas nenhum conteúdo para se colocar ali dentro.
Eu me sentia morta por dentro, e eu poderia dizer, que estava provando do pior tipo morte, a da alma, quando se está vivo em presença, mas morto em pensamento. Se algum dia eu estive viva, seja por dentro ou por fora, não conseguia me lembrar.
Respirei fundo mais uma vez e encarei aquele teto branco, mais uma vez.
Procurei no fundo da minha mente qualquer coisa me fizesse sentir alguma coisa, na tentativa de não desistir completamente, e não encontrei. Tentei chorar, mas as lágrimas também não vieram, seja lá o que estava acontecendo comigo, eu não saberia explicar o que era, e nem queria. A única coisa que eu tinha consciência, é de que pessoas entravam e saíam dali, falando comigo, esperando que eu tivesse alguma reação diante do que tinha acontecido, do que eu tinha visto e eu só queria fazer uma pausa, uma que esperei tanto tempo.
Eu estava livre ou presa?
... — Uma voz sussurrou e senti alguém tocar minha mão.
A pele era quente e cheia de vida. Virei meu rosto e dei de cara com Rian, deitado bem ao meu lado.
— Você precisa sair daqui. — ele disse enquanto me encarava.
Era a primeira vez que eu olhava para ele e não conseguia esboçar nada.
— Ficar aqui, não vai apagar o que aconteceu. — Seus olhos estavam calmos, bem diferente das últimas vezes em que estive com ele. — Muito menos, o que você viu.
Fechei os olhos, as palavras dele só me traziam as lembranças.
— Você me prometeu. — falei com a voz trêmula.
— Priya, promessa nunca foi minha maior qualidade. — Um sorriso se formou em seus lábios.
Sorri ao ouvir o apelido. Rian tinha adotado ele depois de ter ficado viciada em um livro chamado “A Saga do Tigre” e ter feito o mesmo com ele, levando nós dois a estudar um pouco de hindi.
Fechei os olhos mais uma vez.
— Uma parte de você, sempre viverá em mim, Rian. — afirmei.
... Você precisa acordar. — A voz agora era diferente.
Virei meu rosto e voltei a abrir os olhos, que me deu a visão de Seth, que estava deitado bem ao meu lado.
— Ele nunca esteve aqui... — sussurrei.
Meu amigo sorriu de forma carinhosa e apertou minha mão.
— Ele sempre estará. — afirmou. — Pelo tempo que quiser, .
O encarei e apertei sua mão, voltando mais uma vez, a fechar meus olhos. Qualquer coisa naquele momento, era melhor do que a realidade.

Saí daquela lembrança sentindo como se tivesse sido arrastada por uma avalanche de sentimentos. Encarei a lápide de Rian e passei a mão no meu braço direito, onde estava escrito a frase de sua lápide e respirei fundo, sentindo o relevo que tinha ali, embaixo das tatuagens que se misturavam entre desenhos e escritos.
Levei minha mão até a boca tentando controlar o desespero que me consumia, enquanto as lágrimas escorriam sobre minha bochecha de forma descontrolada. Eu tinha consciência que precisava sair dali, mas não tinha força alguma, era como se meus pés estivessem tão fincados ao chão que eu não era capaz de me mover, mesmo com todo esforço do mundo.
Eu precisava de alguém para me tirar dali.
Entre soluços, peguei o celular em meu bolso e fui até a minha lista de contatos do celular. Liguei para a única pessoa que eu sabia que entenderia o que eu estava passando e esperei que ela atendesse, desejando desesperadamente, para que não caísse na caixa postal.
— Seth... — falei o nome dele de forma sussurrada, o nó na garganta era enorme.
! — A voz de Seth era de preocupação, ele me conhecia bem demais. — O que aconteceu?
Suspirei, tentando controlar o que eu sentia.
— Eu não... — Procurei as palavras, mas não encontrei.
, onde você está? — Seth estava visivelmente preocupado e eu conseguia ouvir o barulho de chave do outro lado da linha. — Estou ficando preocupado.
Limpei as lágrimas e respirei fundo.
— Eu estou no cemitério — falei baixo.
Escutei ele bufar do outro lado da linha e um silêncio pairou entre nós.
— Seth? — o chamei.
, você não...
— Não! — o cortei. — Eu só... Senti saudades, depois de uma briga com meu pai. Só isso.
Seu pai. — Seth rosnou. — O que você precisa, ?
— Eu preciso que você venha e me tire daqui. — admiti. — Seth, eu não consigo sair de onde estou.
A sensação de sufocamento estava voltando.
Não sai daí, , por favor — ele pediu. — Eu estou indo... Só, não sai daí.
— Tudo bem. — afirmei.
O silêncio pairou e imaginei que ele iria desligar, mas o chamei:
— Seth?
Sim — ele afirmou.
— Obrigada... — agradeci.
Eu sempre estarei aqui, você sabe — falou e um sorriso fraco se formou em meus lábios. — Eu estou indo!
A ligação foi encerrada.

*******



Deixei que Seth dirigisse, porque eu não tinha condições de fazer absolutamente nada. Meus pensamentos eram tomados pela briga com meu pai, a situação de Hannah — que mais uma vez eu teria de resolver —, como Mike reagiria ao que eu teria que fazer e, claro, ao Rian. Enquanto eu olhava a cidade de Nova Iorque passar pelos meus olhos, Bethoven tocava no rádio em uma melodia calma, fazendo com que eu fechasse meus olhos e me perdesse naquelas notas, que um dia amei tanto.
Entrei no meu apartamento e o vazio que aquele lugar me fez sentir era diferente de tudo que eu havia sentido nas últimas semanas, aquele era o único lugar que eu um dia compartilhei com Rian que não me fazia sentir sufocada, mas dessa vez, tudo naquele ambiente parecia diferente, pesado. Joguei as chaves na mesinha de centro e tirei meus sapatos, já indo em direção à cozinha, eu precisava tomar alguma coisa, minha garganta estava seca demais e doendo.
Meu amigo apenas me observava e parecia estar se limitando as palavras, e eu me sentia mal com isso, tinha me arrependido de ligar para ele, fazê-lo passar por isso de novo parecia egoísta demais da minha parte.
... — A voz de Seth reverberou no ambiente.
Eu estava de costas para ele, pegando uma jarra de água na geladeira.
— Eu estou preocupado com você. — A voz dele era calma, mas tinha aquele tom de preocupação e cautela.
Terminei de colocar água no meu copo e me virei para ele, que estava sentado de frente para a ilha que tinha na cozinha. Seus olhos claramente me estudavam, esperando que eu dissesse ou fizesse a alguma coisa, mas a verdade, era que eu não sabia o que fazer.
— Eu preciso de um banho — falei encarando-o. — Você não precisa ficar comigo, Seth.
Ele riu fraco.
— Sabia que ia dizer algo do tipo — Seth disse firme. — O fato de ter me ligado, mostra que precisa sim.
— Seth...
, por favor — pediu. — Eu vou pedir algo para comermos enquanto você toma banho.
Apenas assenti para ele, porque sabia que meu amigo não me deixaria sozinha e segui para o meu quarto assim que terminei de tomar água. Minha cabeça estava quase me matando de tanta dor, era como se um estádio de futebol inteiro estivesse gritando dentro da minha cabeça, meus olhos estavam pesados e meu corpo parecia ter sito atropelado.
Eu estava péssima.
Deixei a banheira encher enquanto tirava minhas roupas e aproveitei para olhar meu celular. Tinha algumas notificações de Hannah perguntando se eu estava bem — e que poderia desabafar com ela se quisesse — e outras de , querendo saber onde eu estava e se tinha acontecido algo, me limitei apenas a responder os dois dizendo que estava tudo bem e bloqueei o aparelho assim que vi uma notificação de Hunter.
A água estava quente e eu me enfiei por completo embaixo dela assim que adentrei a banheira, já fechando meus olhos e me deixando ser tomada por todos os sentimentos que me consumiam. As palavras do meu pai reverberavam na minha cabeça de maneira repetitiva, me trazendo a confirmação e que ter ficado dois anos na Califórnia foi só uma forma de adiar tudo o que estava acontecendo agora, ele nunca mudaria, talvez nada do que aconteceu pudesse ser apagado ou amenizado.

O barulho dos meus amigos rindo no andar debaixo da casa foi abafado no instante em que fui tomada pela água, trazendo uma paz inexplicável
Eu me encontrava cansada demais para lutar, de todas as batalhas que eu já tinha enfrentado nos últimos tempos, essa era de longe a pior. Eu não tinha forças para nada, só queria deitar e ver a vida passar bem diante dos meus olhos, nada mais importava, não como antes, e eu queria poder dizer isso em voz alta sem ser julgada por me sentir assim.
Um mês tinha se passado desde a morte de Rian. Alguns momentos eu tinha a sensação de que me encontrava presa àquele dia e, em outros, eu podia jurar que meses já tinham se passado, porque a falta que ele me fazia era dolorosa demais, algo impossível de se colocar em palavras. Eu ainda sentia seu cheiro, escutava sua voz, risada e tinham momentos que eu poderia jurar que sentia sua presença, bem ao meu lado, me dando um conselho ou passando um sermão.
Era nada menos, que a porra da saudade.
Sem ar, era assim que eu me sentia naquele momento enquanto encarava o ambiente turvo acima da água. Algumas coisas passaram pela minha cabeça, a principal delas, era que eu deveria estar me debatendo ou sentindo um desespero alarmante, mas era o oposto disso, tudo que eu conseguia experimentar, era um alívio quase corrosivo.
Levei um susto, ao ser puxada bruscamente para fora da água.
! — O grito de Seth reverberou no banheiro. — Meu deus...
— Seth, eu... — Abri a boca para me explicar, já esperando o julgamento dele e fui pega completamente de surpresa.
Ele me abraçou, como se nunca tivesse feito isso antes, sem se importar se eu estava sem roupa.

Saí daquela lembrança com uma batida na porta, À essa altura eu já tinha emergido da água e me encontrava apenas sentada na banheira perdida em pensamentos.
? — Escutei a voz de Seth vindo do lado de fora, que me fez sorrir.
— Eu. — respondi, tentando segurar a risada.
Eu deveria ter imaginado que caso demorasse muito, ele fizesse algo do tipo.
— Você está aí já tem um tempo... — Ele disse e fez uma pausa. — Está tudo bem?
— Sim. — respondi, já me levantando para sair da banheira. — Só me distraí, estou saindo já.
Me sequei e troquei de roupa no banheiro mesmo e, ao sair, dei de cara com Seth sentado na minha cama. Ele não disse nada e eu também me limitei a falar algo e seguimos para o andar debaixo, onde ele me disse que já tinha pedido uma pizza e enquanto esperávamos, coloquei Grey’s Anatomy para assistirmos e peguei cerveja para nós.
Nos sentamos na sala com um episódio qualquer passando na tv — já tínhamos visto a série muitas vezes — e o silêncio pairou entre nós. Seth sempre respeitava meu espaço e essa era uma das coisas que eu mais amava em estar com ele, mesmo que eu me encontrasse no fundo do poço, ele jamais interferia ou me cobrava algo, sempre esperava quando eu estivesse pronta par falar sobre como me sentia. Estar com ele era leve, sua companhia vinha acompanhada de uma segurança e aceitação, algo que eu costumava sentir só com Rian.
De tudo que eu tive medo ao voltar para Nova Iorque, que as cosias tivessem mudados entre nós era a maior delas, mas, sentada ali ao lado dele, assistindo uma das nossas séries favoritas, bebendo cerveja e trocando olhares como se ele fosse capaz de ler cada pedacinho do que se passava na minha cabeça, eu soube que tudo continuava igual.
Ainda éramos Seth e . Os amigos inseparáveis, e a sensação, era libertadora.
— Desculpa, pelo que eu fiz no banheiro. — Seth virou para me encarar e deu um gole em sua cerveja.
O encarei por alguns instantes, para então dizer:
— Tudo bem.
— Eu confio em você, . — disse ao me encarar. — É só que...
— A lembrança daquele dia veio a sua mente. — completei, interrompendo-o e ele sorriu assentindo. — Veio a minha também.
— Eu não queria te fazer pensar que não confio em você. — ele disse com um pesar nos olhos. — Desculpa.
Sorri para ele e dei um gole na minha cerveja.
— Seth... — falei e o encarei. — Você é a melhor coisa que já me aconteceu um dia, não precisa me pedir desculpas por nada. Eu nem sei, o que teria feito se você não tivesse atendido.
— Sempre atendo. — Sorriu, me fazendo sorrir de volta.
Abri a boca para continuar nossa conversa, mas o interfone tocou e Seth se levantou já indo até lá, a pizza tinha chegado. Ele se ofereceu para ficar na porta e eu aproveitei para dar uma olhada no meu celular que não parava de chegar notificação desde que eu havia saído do banheiro, quase todas as mensagens eram de Hunter, o que me fez revirar os olhos .

, a gente precisa conversar.”

Li a primeira mensagem e passei os olhos pelas outras, eram alguns pedidos de desculpas e ele tentando explicar sua reação na festa.

“Eu preciso de um pouco de espaço, por favor.”

Foi tudo o que respondi e, à essa altura Seth já tinha entrado no apartamento com a pizza e eu bloqueei meu celular e fui até a cozinha, onde peguei mais cerveja, prato, talheres e guardanapo.

— Caramba, você precisa olhar seu celular. — Seth disse assim que me sentei ao seu lado, no chão. — Não para de tocar, pode ter acontecido algo no hospital.
Revirei os olhos, pois eu sabia quem era.
— É o Hunter. — falei de cara.
Eu precisava falar sobre aquilo com alguém, e eu sabia que Seth era a única pessoa que jamais me julgaria. Ele sempre acompanhou de perto a minha situação com Hunter e sabia muito bem, que as vezes ele ultrapassava todos os limites, chegando a ser insistente demais.
— O que está rolando, ? — ele perguntou, enquanto colocava pizza no prato para nós.
— Eu e o nos beijamos — joguei a informação e logo peguei meu pedaço, dando uma mordida generosa.
Seth virou para me encarar com os olhos um pouco arregalados e depois um sorriso se formou em seu rosto, me fazendo revirar os olhos.
— O Hunter pegou vocês se beijando? — perguntou. — Não que isso seja da conta dele, porque não é.
Ri fraco.
— Não. — Ri abafado e dei um gole na minha cerveja. — Eu dancei com na festa.
— Eu vi. — afirmou com um sorrisinho no rosto e dei um tapa nele. — , o que rolou?
— Ele surtou, agindo como se eu devesse satisfação da minha vida para ele. — expliquei. — E ainda teve a coragem de abrir a boca para jogar na minha cara que tem problema com drogas.
Seth arregalou os olhos.
— Ele não fez isso.
— Não fez. — afirmei. — Porque eu o cortei e não deixei que ele terminasse a frase.
. — Seth começou a dizer e fiz sinal para que ele continuasse. — Você precisa resolver sua vida com Hunter.
O encarei e apoiei meu braço no sofá, apoiando a cabeça em minha mão, ficando com a cabeça levemente inclinada.
— Eu sei. — afirmei. — Só que é complicado.
— Por quê?
Meu amigo me encarava sem julgamento nenhum, eu sabia que ele só queria ouvir e me ajudar.
— Porque eu ainda tenho sentimentos por ele. — fui sincera. — Hunter é uma pessoa muito importante para mim, esteve comigo em um dos meus momentos mais difíceis... È como se eu não conseguisse me desconectar dele.
Ele apenas me olhava.
— Só que ao mesmo tempo, eu não me sinto como antes. — expliquei. — Também tem a Steph. Você sabia que eles estão juntos?
— Sim. — Seth deu um gole em sua cerveja, antes de continuar. — Eles começaram a se envolver alguns meses depois que você foi embora.
— É diferente agora. — falei bufando frustrada. — Não temos mais 16 anos, e eu não sou mais a mesma pessoa... Steph é minha melhor amiga, Hunter é importante para mim. Eu só queria, poder ter os dois na minha vida, como já tive um dia.
— Você pode. — Seth disse me encarando. — Só precisa escolher, .
— Esse é o problema. — afirmei e dei uma risada nasalada. — Eu nunca fui boa com escolhas, e tem o ...
Ele arqueou uma sobrancelha e ri fraco.
— O que tem ele?
— O que eu tenho com ele. — comecei a dizer e desviei o olhar, pensando sobre o que queria dizer. — Se é que tenho algo. O jeito dele, a forma como me sinto quando estou com ele, é diferente de tudo que eu já senti, Seth.
Meu amigo me encarou e afirmou positivamente, mostrando que estava ouvindo tudo e que eu poderia continuar.
— Só tem um mês e pouco que nos conhecemos. — continuei. — E ele esteve comigo em momentos tão difíceis, sabe? As coisas com ele são fáceis, não sinto que preciso estar sempre esperando que algo vai dar errado com ele, exceto...
Eu parei de falar, não sabia como continuar.
— Exceto a questão das drogas. — Seth completou e eu assenti. — Você acha que ele é uma pessoa que não deveria ter na sua vida?
Ri fraco me amaldiçoando mentalmente e dei um longo gole em minha cerveja.
— É o oposto disso. — confessei. — Eu acho que ele é exatamente o que eu deveria ter na minha vida.
— Só que... — Seth me encarou, ele sempre sabia que tinha algo mais.
— Só que tem toda essa carga. — expliquei. — Eu acabei de terminar com Adam, tenho meus sentimentos mal resolvidos com Hunter.
Bufei frustrada encarando meu amigo, que só esperava que eu continuasse.
não merece ficar no meio disso. — afirmei.
— Você foi embora da casa dele por causa do beijo? — Seth perguntou e arregalei os olhos. — Qual é. , não sou bobo, qualquer pessoa ontem conseguia sentir que quando vocês estão juntos, é como se só vocês existissem ali.
Desviei o olhar do meu amigo, não esperava ouvir aquelas palavras.
— Eu sei que vocês ficaram bem próximos desde o que aconteceu com a Hannah. — explicou. — Como acha que recebi notícias suas nas últimas semanas?
— Certo. — afirmei rindo. — Não, eu não fui embora por causa do beijo. Nós não temos 12 anos.
Me inclinei para deixar o prato na mesa, onde peguei outra cerveja e me voltei para o meu amigo.
?
— Sim. — afirmei.
— Você quer ter o na sua vida? — perguntou me encarando.
— Sim. — minha resposta saiu de prontidão, sem que eu precisasse pensar.
— Então, tenha. — afirmou. — Comece a fazer o que quer fazer, . Os problemas que vem a seguir, a gente aprende a lidar com eles.
— Eu acho que sim. — afirmei rindo.
— Sobre o Hunter... — deu um gole em sua cerveja. — Não que seja da minha conta, mas eu acho que o que vocês tiveram já acabou faz tempo, você só tem medo de abrir mão.
Era a primeira vez que alguém me dizia algo sobre o Hunter de forma tão sincera.
— É, eu acho que sim. — expliquei. — Só quero que ele volte a ser parte da minha vida como era antes de cogitarmos sentir algo um pelo outro, quero poder ter a Steph na minha vida também, sem sentir uma culpa enorme por sentir o que sinto pelo cara, que agora é namorado dela.
Bufei frustrada mais uma vez e meu amigo sorriu para mim, levando uma das mãos até a minha.
— Você pode começar se reaproximando da Steph. — sugeriu. — E sendo totalmente honesta com Hunter, impondo limites, que convenhamos, ele precisa.
Gargalhei com as últimas palavras dele e assenti.
— Obrigada. — agradeci. — Você sempre sabe o que dizer.
— Achei que você já tivesse entendido que sempre vou estar aqui por você. — Seth afirmou enquanto me encarava.
— Eu senti falta disso, da gente... — comecei a dizer e senti meus olhos queimarem.
... — Seth disse e se aproximou. — Você precisava, está tudo bem.
— Obrigada, mesmo. — agradeci mais uma vez, já me levantando para recolher as coisas.
Peguei algumas coisas que estava na mesa, com a ajuda de Seth e segui para a cozinha.
— Sabia que tenho um gato agora? — gritei.
— É, o me disse que agora você é uma ladra de gatos. — meu amigo gritou.
Gargalhei com a menção de .
Eu me sentia leve, apesar de tudo que tinha acontecido mais cedo, Seth tinha conseguido salvar meu dia. Me lembrando que era sempre assim, não importava o que estivesse acontecendo, ele sempre vinha e me tirava de seja lá qual fosse o buraco que eu tinha me enfiado.


*******



O meu dia tinha começado com muita correria, eu havia acordado atrasada devido a minha bebedeira em casa com Seth. Só tive tempo de tomar um banho, pegar minhas coisas e sair ainda de cabelo molhado, com aquela cara de quem realmente tinha caído da cama, e minha sorte foi que o campus hoje não estava tão cheio, pois alguns alunos já tinham entrado em recesso, o que me permitiu encontrar uma vaga rápido.
Eu ainda estava no primeiro tempo de aula e me sentia extremamente cansada, mas precisava manter as minhas energias, pois eu teria provas a semana toda e tinha que estudar e também conseguir fazer o exame. O professor estava falando algo sobre as políticas de segurança em UTI quando o sinal tocou, informando que estava na hora do almoço, algo que eu nem queria, pois o cansaço era tanto, que eu só tinha vontade de ficar sentada onde estava.
Bufei frustrada e saí seguida de Seth, que dizia algo sobre o assunto da aula, mas eu não conseguia prestar atenção. Minha mente estava perdida em todas as coisas que eu tinha para resolver, minha conversa com meu pai e o fato dele não ter parado de me enviar mensagens desde que acordei. Eu me encontrava a ponto de explodir, mas não queria deixar isso transparecer, o que tinha acontecido com meu pai ontem, eu queria poder manter só para mim por enquanto.
, está tudo bem? — Seth perguntou, tirando-me dos meus devaneios.
— Sim. — afirmei enquanto caminhávamos até o refeitório. — Só estou cansada, a gente bebeu bastante ontem.
Ele riu.
— Você viu o ? — perguntei, antes que ele pudesse dizer algo.
— Não. — falou correndo os olhos pelo refeitório assim que entramos. — Estou achando estranho, ele não é de faltar.
Franzi o cenho e peguei meu celular no bolso para olhar se tinha alguma mensagem dele, constatando que não.
— Pode ser que ele estava cansado da festa. — Dei de ombros, enquanto pegava a bandeja e meu prato.
— É, acho que sim. — Seth concordou enquanto pegávamos a comida.
O nosso assunto terminou ali e depois seguimos em busca de uma mesa. Eu tinha encontrado, quando vi Eleanor acenar para mim, me chamando para se sentar na mesa em que ela se encontrava almoçando com Steph.
— Eu preciso falar com uma pessoa, te vejo depois? — Seth perguntou e eu apenas assenti.
Segui caminhando em direção a mesa e dei graças a Deus por Hunter não estar ali com elas.
— Você sumiu depois da festa. — Els disse de forma sugestiva, assim que cheguei na mesa.
Ri fraco e me sentei.
— Você foi embora antes de mim, Eleanor. — afirmei rindo.
— Já falei para ela parar com isso. — Steph comentou com um sorriso no rosto. — Foi só uma dança.
— Exatamente — concordei. — Estou exausta, vocês não estão?
Eu só queria mudar de assunto, falar sobre com elas estava fora de cogitação.
— Nem me fala. — As duas falaram juntas.
— Ainda bem que estamos nas provas finais. — comentei enquanto abria meu refrigerante.
— Tudo que eu precisava era ir para algum lugar e relaxar depois dessas provas. — Steph falou.
Por um momento, algo cruzou meus pensamentos.
— Parece que alguém pensou em algo. — Els disse, provavelmente tinha notado meu olhar.
— Tem a casa dos meus pais, de praia, na Califórnia — expliquei. — Poderíamos reunir o pessoal e passar o recesso lá.
— Nossa, eu super topo! — Els respondeu animada.
— Steph? — perguntei.
— Não sei nem porquê pergunta. — Steph disse rindo.
Sorri para as duas, era bom sentir que as coisas entre nós não tinham mudado.
— Tem outra coisa. — falei e dei um gole na minha bebida. — É aniversário do Seth na semana que vem, queria preparar algo surpresa para ele. Estava querendo dar uma volta hoje, procurar alguns lugares que preparam ambientes para festas... O que acham?
Eu poderia muito bem fazer tudo isso por telefone, mas achei aquilo uma boa desculpa para passar um tempo com as minhas amigas.
— Claro. — Els concordou e Steph fez um aceno de cabeça. — Minha última prova é a 13h, e a de vocês?
— Mesma coisa — eu e Steph respondemos juntas.
— Nos encontramos no estacionamento? — Els sugeriu.
— Isso. — afirmei.
Era bom saber que eu passaria um tempo com elas, e organizando algo especial para alguém tão importante na minha vida.


O segundo período passou muito mais rápido e, assim que terminei a última prova, segui para o estacionamento onde encontrei Steph e Els, que já me esperavam — coincidentemente — bem perto de onde eu havia estacionado meu carro. Enquanto eu dirigia até o centro de Nova Iorque, aproveitamos para pensar em alguns temas para a festa surpresa de Seth e fazer uma lista de quem poderíamos chamar, já que ele é amigo de muita gente.
Seguimos primeiro pela Time Square — um dos meus lugares favoritos nessa cidade — enquanto conversávamos sobre como seria a festa surpresa do nosso amigo, já pensando em todos os detalhes que gostaríamos de acrescentar. Fomos primeiro a dois lugares que fornecia serviço de organização de festa, que eram bem famosos e depois decidimos ir a um outro, que eu havia contratado quando fiz 16 anos.
Enquanto caminhávamos até o último lugar, acabamos passando de frente para uma loja de fantasias, o que nos levou a tomar a decisão que faríamos uma festa a fantasia para o aniversário de Seth, mas não como a de Mike, que foi sem tema, na dele, escolheríamos um tema específico para que as pessoas fossem fantasiadas.
— Algum tema em mente? — Els perguntou assim que adentramos o último lugar que iriamos fazer orçamento.
— Pensei que poderia ser egípcio. — falei.
As duas me olharam surpresas.
— Nome dele é Seth. — expliquei. — Irmão de Osíris, o Deus da violência e da desordem...
— Você é um gênio. — as duas falaram, me fazendo rir.
— O tema está decidido, então. — afirmei.
A moça que iria nos atender chegou logo em seguida, nos mostrando algumas opções para o tema de festa que queríamos, como ela poderia tornar a parte do cardápio com detalhes que combinariam com a cultura egípcia e optamos por fechar com ela. No pacote estaria incluso a comida, bebida, decoração e a única coisa que ficaria por minha conta era o local, e eu acabei decidindo que seria no meu apartamento, já que era uma localização boa e com espaço bom.
— Vocês gostariam de alguma apresentação? Para apimentar a festa? — A moça perguntou e nos entreolhamos.
— Não sei se entendi. — Steph disse, nos fazendo rir.
— Strippers e Gogoboys — explicou.
— Com certeza. — Els respondeu prontamente, me fazendo rir.
Dei de ombros, para mim não fazia uma real diferença.
— Tudo bem. — a moça concordou rindo, enquanto anotava em seu notebook. — Bebidas com fogo?
— Sim. — afirmei. — Vocês teriam essas bebidas sem álcool?
Eu sabia que não podia beber e queria garantir que ele se sentisse inteirado na festa.
— Claro, podemos preparar. — A mulher sorriu enquanto ainda anotava. — Eu vou pegar os papéis para você assinar, já volto.
Aproveitei que ela tinha saído para dar uma olhada em meu celular que tinha apitado algumas vezes enquanto conversávamos. Meu pai tinha me ligado algumas vezes e continuava me bombardeando de mensagem, o que me fez bufar em frustração e levantei, me afastando das minhas amigas para que pudesse responder.

, você já resolveu para onde sua amiga vai?”

Revirei os olhos ao ler aquela mensagem e passei os olhos pelas outras.

“Não. Eu preciso de um tempo, não sei se lembra, mas você jogou essa bomba em cima de mim ontem.”


Ele estava atingindo todos os meus limites, me pressionando daquela forma.

? — A voz de Steph reverberou no ambiente que eu me encontrava agora e virei para encará-la. — Está tudo bem?
— Sim. — afirmei sorrindo enquanto guardava meu celular no bolso. — Só respondendo algumas mensagens.
— Você sabe que pode falar comigo, se precisar. — Minha amiga falou sorrindo para mim.
— Eu sinto muito, Steph. — As palavras saíram da minha boca muito mais rápido do que eu pude processar.
Ela me encarou um pouco confusa.
— Por tudo que aconteceu, no passado. — expliquei. — Eu deveria ter sido mais madura, sentado com você e ter dito tudo que pensava, mas ao invés disso, eu só fui empurrando as coisas e escondendo tudo.
— Tudo bem, . — disse de forma calma. — Nós éramos muito jovens, é uma idade difícil para se controlar o que sente.
— Mesmo assim. — falei encarando-a. — Você era minha melhor amiga, e eu te magoei.
— Eu também te magoei, . — Steph disse e se aproximou. — Ainda somos melhores amigas.
Sorri com as palavras dela.
— A moça está chamando para assinar os papéis. — Els disse, aparecendo em nosso campo de visão.
— Certo. — falei e segui de volta para sala em que estava antes.
Depois de terminar de assinar todos os papéis, decidimos ir tomar um café e dar uma volta em Nova Iorque, o que resultou em uma tarde toda com as minhas duas melhores amigas, me dando a chance para que eu pudesse me sentir um pouco mais leve, em meio a tudo que vinha acontecendo.


ZED.

Uma droga, era assim que o meu dia tinha começado.
A dor de cabeça, boca seca e o corpo dolorido, não eram nada comparado a abstinência que eu estava sentindo hoje. Por isso, quando escutei o despertador tocar as oito da manhã, eu o desliguei e joguei do outro lado do quarto, não tinha intenção nenhuma de ir para a faculdade, e não via problema, pois minhas provas haviam sido adiantadas e eu só teria três nessa semana e nenhuma delas, seria hoje.
Tentei voltar a dormir, mas isso também não funcionou, eu estava agitado demais para conseguir ter pelo menos mais alguns minutos de sono. Encarei o teto irritado e me dei por vencido, levantar e fazer alguma coisa talvez me ajudasse muito mais do que ficar deitado olhando para o nada, procurando alguma resposta para os meus problemas.
Tomei um banho gelado — isso sempre me ajudava a despertar e relaxar — e depois decidi que iria visitar minha mãe biológica, já tinha pelo menos um mês que eu não a via, não só por falta de tempo, mas também por uma escolha própria, a carga emocional que estar com ela me trazia era grande demais, e digamos que eu não estava no melhor dos momentos. Não que eu esteja agora, mas era preciso visitá-la.
O dia em Nova Iorque estava mais ensolarado que o normal, para o meu azar, já que não sou o maior fã do calor quando não se pode estar em uma praia ou algo do gênero, a única coisa boa, é que a cidade se encontrava estranhamente vazia o que facilitou a minha ida até o Brooklyn, onde minha mãe morava.
— Vão ser só algumas poucas horas. — falei para mim mesmo, tentando me convencer de que vir até aqui não me afetaria.
Respirei fundo ao encarar o prédio velho a minha frente e em passos curtos, caminhei em direção a entrada dele, já passando por dois bêbados largados na porta e segui pelas escadas, o apartamento dela ficava no terceiro andar, então não tinha necessidade de usar o elevador. Talvez me exercitar — não que fosse muito — me ajudasse a descarregar um pouco da energia em excesso que habitava meu corpo hoje.
Dei dois toques na porta, levei minhas mãos até os bolsos da calça e fiquei esperando que ela abrisse e, no fundo, eu estava desejando que ela não estivesse em casa. Não demorou muito, para que minha sorte se transformasse em azar e a porta fosse aberta, não pela minha mãe, mas pelo meu irmão mais novo.
— Porra, não me diz que ela te deixou sozinho de novo. — ralhei irritado enquanto adentrava o lugar, que estava um caos.
Oliver levou as mãozinhas até a boca, soltando uma risadinha. Ele tinha apenas cinco anos, mas sabia que eu havia acabado de falar um palavrão, segundo ele, uma palavra proibida e feia.
— Ei! — A voz da minha mãe reverberou no ambiente e virei meu rosto na direção do som. — Essa casa ainda é um lugar de respeito.
Revirei os olhos.
— Você podia ter avisado que vinha. — Minha mãe disse e foi em direção ao quarto. — Eu teria arrumado a casa. — gritou.
Enquanto ela tinha ido para o quarto — provavelmente trocar de roupa — eu aproveitei para olhar melhor o ambiente. O apartamento estava um caos, tinham garrafas de bebidas jogadas para todo lado, pacotinhos vazios que deviam ser de cocaína, roupas, pacote de comida, entre outras coisas, ficando longe de ser um ambiente adequado para se cuidar de uma criança.
Aproveitei que ela não tinha voltado ainda e comecei a retirar as coisas do chão, na intenção de deixar mais limpo e apresentável, enquanto Oliver me ajudava, fazendo meu coração cortar por ele ter que fazer aquilo, nenhuma criança deveria crescer da forma como vinha acontecendo com ele. Ela já tinha perdido a minha guarda e a de Chris há alguns anos, e depois acabou engravidando de Ollie, porém, sempre que a denunciavam, ela sumia com ele antes mesmo que a justiça pudesse descobrir a verdade.
Ninguém sabia quem era o pai de Ollie, o que tornava tudo ainda mais difícil.
— Pronto. — ela disse entrando na sala de novo. — Você sabe que não precisa arrumar nada disso.
Parei o que estava fazendo e a encarei.
— Oliver, por que não vai jogar um pouco de videogame no meu celular? — falei e estendi o aparelho para ele, que pegou prontamente.
— Achei que não ia vir nunca mais. — Minha mãe falou da cozinha, que era uma copa com a sala, então eu conseguia vê-la.
— Mãe, o Oliver não deveria viver assim... — falei baixo, não queria perder a paciência e deixá-la irritada.
Me aproximei da cozinha e pude ver que seus braços tinham roxos, o que demonstrava que ela havia se drogado há pouco tempo.
, será que podemos ao menos almoçar, sem você querer me passar sermão? — ela perguntou e eu apenas assenti.
Não estava ali para passar um tempo com ela, eu só ia até lá porque sempre esperava que fosse chegar algum dia e encontrá-la morta no chão do apartamento, enquanto Ollie estivesse em um canto qualquer do lugar chorando diante do corpo dela. Eram incontáveis as vezes que sonhei e me peguei pensando sobre isso, porque o que a levou a perda da minha guarda e de Christopher, foi algo muito parecido.
A comida era a única coisa que minha mãe fazia direito e, por coincidência, ela tinha preparado um dos meus pratos favoritos. Nos sentamos para comer e Ollie não parava de falar o quanto estava empolgado com a nova escola em que tinha sido matriculado, dizendo que tinha feito muitas novas amizades.
— Eu perdi a aguarda do Ollie. — Lisa, que era o nome da minha mãe, falou enquanto tirava os pratos da mesa.
Olhei confuso, aquilo não era surpresa, mas não achei que fosse acontecer tão cedo.
— Como? — Perguntei enquanto ajudava. — Digo, quando isso aconteceu?
— Tem um mês. — explicou.
— Ele vai para qual abrigo? — O nervosismo já me consumia naquele momento e eu podia sentir minhas mãos tremerem.
— Nenhum. — falou calma.
Como ela podia estar tão calma?
— O pai dele, nos encontrou — admitiu.
A encarei tentando conter a raiva, aquilo realmente era uma informação nova, até então ninguém sabia quem era o pai dele.
— Você disse que não sabia quem era. — ralhei.
Ela estava na cozinha agora, e se virou para me encarar, seu olhar era inexpressivo.
— Eu não queria que você soubesse, mas eu sempre soube quem era. — Ela me encarava, como se esconder aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Tem alguma coisa que você não está me contando — falei. — Por que agora?
Ela desviou o olhar.
— Lisa, o que você não está me contando? — Insisti, a chamando pelo nome dessa vez. — ‘Pera, como você conseguiu autorização para ver o Oliver? Considerando sua condição, isso nem seria possível.
A mulher mordeu os lábios nervosa, eu estava certo sobre tudo que dizia.
— Nós fizemos um acordo. — explicou. — Ele só entrou com recurso dizendo que eu não tinha condições financeiras.
— O que mais? — Insisti. — Você não faria isso de graça.
! — Esbravejou.
Me virei tentando controlar o nervosismo, eu não queria perder a paciência com ela.
— Escuta, o que importa é que o Oliver vai ter uma vida melhor. — explicou.
— Não! — esbravejei. — Quanto custou esse acordo, mãe?
Ela passou a mão pelos cabelos demonstrando o nervosismo e, sem me responder, foi até o quarto e eu não fiz questão alguma de segui-la, pois sabia que voltaria. Não demorou muito, para que retornasse à sala com um cigarro na boca e o isqueiro em mãos enquanto o acendia.
— Uma boa quantia. — disse de forma sincera, mas sem me olhar nos olhos.
Caralho.
Eu sabia, mas ouvi-la falar daquela forma tão natural me enojava.
— Vendeu seu próprio filho. — afirmei.
— Eu não o vendi, . — explicou. — Ele é o pai do Oliver, também tem responsabilidades.
— Não é disso que estou falando. — A encarei sério. — Oliver merece uma vida melhor, sem dúvidas. Porém, você o sacrificou todo esse tempo nessa vida, para tirar vantagem e se desfazer sabendo o quanto ele te ama, no momento que se tornou conveniente para você?
— Não fala assim...
— Assim como? A verdade? — esbravejei.
Um silêncio pairou entre nós.
— Ele vai morar em um lugar melhor, vai ter a vida que merece. — falou, como se realmente se importasse com isso.
— Parece até que você realmente fez isso pensando nele. — Ri fraco. — Me dá nojo.
Me virei e fui em direção ao quarto onde Ollie estava, eu não tinha mais nada para dizer.
! — Ela gritou meu nome, mas ignorei, antes que as coisas ficassem ainda pior do que já estavam.
Meu irmão estava jogando no meu celular quando entrei no quarto e seus olhos logo pararam em mim, com o mesmo brilho de sempre, como se eu tivesse acabado de chegar ali.
— Esse jogo é maneiro; — ele falou, me fazendo rir.
— Onde andou aprendendo a falar assim? — perguntei, me deitando na cama ao lado dele.
Ele deu uma risadinha e me entregou o celular.
— Pode jogar. — falei. — Não vim pegar o celular.
— Acho que sua namorada te mandou mensagem — ele disse com um sorrisinho no rosto e peguei o celular da mão dele.
Tinham algumas mensagens da , perguntando se estava tudo bem.
— Não é minha namorada. — Dei de ombros. — Pode jogar, depois eu vejo isso.
Ele riu e segurou o celular, voltando a jogar, como estava fazendo antes.
— A mamãe falou que você vai morar em um lugar legal. — falei para puxar assunto e tentar descobrir como ele estava se sentindo sobre isso.
— Eu tenho um pai agora sabia, ? — perguntou animado.
Bom, ao menos ele parecia feliz com a ideia.
— É mesmo? — perguntei curioso, como se fosse surpresa para mim.
— Sim. — respondeu e parou de jogar, para me encarar. — Eu vou me mudar amanhã.
Deus, como essa criança é esperta.
— Ele é legal? — perguntei.
Saber se Oliver seria bem cuidado, era importante para mim, principalmente porque agora eu sabia que passaria a vê-lo com menos frequência.
— Muito. — Meu irmão respondeu empolgado e voltou a pegar o celular.
— Oliver... — Segurei a mão dele, baixando o celular. — Eu ainda vou ser seu irmão e ainda vou te visitar, tudo bem?
Aquilo estava acabando comigo.
— Vai mesmo, você é o melhor irmão do mundo. — ele disse e me abraçou.
— Se qualquer coisa acontecer, eu quero que me ligue. Tudo bem? — pedi.
— Sim, . — ele sorriu e voltou a mexer no celular.
Encerrei minha conversa com ele ali, não queria pressioná-lo demais e se o cara era legal, não via por que implicar e não dar uma chance, então preferi só ficar ali com ele, aproveitando o tempo que tínhamos.


Eu saí da casa da minha mãe por volta de uma hora depois de ter "brigado" com ela e já sentia uma falta imensa de Oliver, porque eu sabia que agora diminuiria muito as vezes que eu conseguiria vê-lo, contudo, eu estava tentando me manter com o pensamento positivo, e pensar que seria melhor para ele desse jeito. Quando saí de casa de manhã, eu sabia que seria um dia pesado por ir até lá, só não esperei que fosse ter um peso tão grande.
Por sorte, era dia de reunião e eu estava indo para lá — quase chegando, na verdade — e eu sabia que ao menos naquele momento, eu poderia me abrir sobre o que estava sentindo e como isso estava afetando meu dia e a falta que sinto das substância que me "ajudam" a manter as coisas um pouco mais leves de suportar.
A reunião não estava tão cheia e eu me sentia melhor por isso, mas ao mesmo tempo preocupado, porque isso significava que as pessoas que costumavam vir tinham faltado, o que me levava a concluir que só tinham duas razões para isso, ou aquelas pessoas estavam se drogando, ou tinham perdido a luta para as drogas.
Nenhuma das alternativas eram boas.
— Pensei que não viria mais. — Escutei a voz de Mike atrás de mim, e me virei para cumprimentá-lo, fazendo um toque de mãos.
— Só me atrasei um pouco. — me justifiquei.
— E perdeu aula também. — ele completou enquanto em encarava.
— Não é nada do que está pensando. — expliquei. — Só não acordei muito bem e precisei resolver umas coisas.
Não ia dar muitos detalhes, até porque Mike não sabia dessa parte da minha vida.
— Relaxa, acredito em você. — Mike disse enquanto nos sentávamos.
— A reunião está vazia. — falei, para mudar de assunto.
— É, isso me deixa preocupado. — Meu amigo disse enquanto olhava seu celular e percebi uma preocupação em seu olhar.
Parecia que mesmo sendo um voluntário, ele se sentia como um "pai" de todas as pessoas ali.
— Você tem falado com a ?
— Sua irmã? — perguntei para provocá-lo e o vi revirar os olhos. — Não, ela me mandou mensagem hoje, mas não a vejo desde a festa. Por quê?
— Porque a Hannah me enviou uma mensagem. — explicou.
O silêncio pairou entre nós, porque eu estava esperando-o continuar.
— Mike, já disse que odeio quando você faz isso. — Bufei. — O que aconteceu?
— Parece que ela não tem respondido as mensagens dela. — explicou. — E ela disse que a foi lá no domingo, estava bem mal e hoje também, saiu de lá parecendo que algo bem grave tinha acontecido.
Não me demorei e peguei meu celular, já digitando uma mensagem para a , mas ela não chegou.
— A mensagem não chega — expliquei.
— Agora a Hannah pediu para eu te perguntar, se você pode ir ao hospital comigo depois que sairmos daqui. — Mike falou e olhei confuso. — Não me olha assim, não faço ideia do porquê ela quer falar com você.
— Tudo bem, eu vou. — concordei.
Nosso assunto parou ali, pois a reunião já tinha iniciado.
— Alguém quer começar? — Joana, que era a orientadora da reunião, perguntou e eu me levantei. — Por favor, .
Encarei aqueles poucos olhos sobre mim, eu sempre ficava um pouco nervoso, mas hoje eu estava estranhamente confortável em falar como me seria, talvez fosse porque eu precisasse desesperadamente.
— Meu nome é . — me apresentei. — Eu usei minha primeira droga aos 14 anos.
Todos me encaravam, mas sem nenhuma expressão de julgamento, e eu poderia dizer que essa era a melhor parte das reuniões para dependentes químicos.
— Voltei de uma reabilitação recentemente, então tem sido difícil — admiti. — Hoje mesmo, senti uma vontade desesperadora de usar algo.
Mike me encarava, era bom saber que eu o tinha como voluntário no grupo e meu melhor amigo também.
— Bom, eu acho que o melhor conselho que posso dar... — comecei a falar, mas fiz uma pausa tentando procurar as palavras. — É que fiquem calmos, em qualquer situação extrema, para não fazer nada sem pensar.
Terminei de falar e voltei a me sentar ao lado de Mike, que sorriu para mim, como um sinal de força.
— Muito obrigada, — Joana falou simpática. — Ficamos felizes que quis compartilhar esse momento difícil conosco.

*****



O clima de hospital era o mesmo de sempre, frio, sem vida e totalmente desagradável. Se não fosse por Hannah querer falar sobre , eu não estaria ali, sentado na sala de espera com Mike enquanto esperávamos o médico terminar de fazer alguns exames nela. Ela parecia bem, e perto de conseguir alta e meu amigo estava muito empolgado com isso, os dois já estavam namorando e eu me sentia feliz por ele, apesar de sentir uma certa preocupação.
Não ficamos tanto tempo esperando, pois logo o médico saiu dizendo que poderíamos entrar. Mike foi na frente e os dois se cumprimentaram com um selinho e eu pude observar que ela parecia muito bem, ainda melhor do que dois dias atrás, que foi quando a vi, no dia da festa que aconteceu na minha casa.
— Mike, você pode nos dar licença? — Ela pediu, pegando não só a mim, mas ele de surpresa.
— O que está rolando, Han? — Mike perguntou preocupado.
— Nada que você tenha que se preocupar. — explicou. — É que eu quero falar algumas coisas sobre a , coisas pessoais dela, que talvez você não saiba.
Meu amigo a encarou e depositou um beijo na testa dela.
— Tudo bem, é só me chamar quando terminarem. — ele disse e saiu.
— Você parece bem melhor. — falei na intenção de tentar quebrar o gelo.
Ela riu fraco.
— É, estou sendo bem cuidada. — disse com um sorriso no rosto e seu olhar parou do lado de fora, onde Mike estava sentado.
— Claro! — afirmei rindo. — Hannah, aconteceu algo com a ?
— Não, e sim — respondeu calma.
Olhei um pouco confuso, porque aquela resposta não fazia sentido.
— Ela veio aqui no domingo, estava péssima — explicou. — Aconteceu alguma coisa na festa?
Desviei o olhar, eu não sabia se contava para ela sobre o beijo, e a ideia de que isso poderia ter afetado dessa forma, me assombrava.
— Mais ou menos — expliquei.
, seja claro, por favor — pediu.
— Nós nos beijamos. — falei de uma vez.
Hannah abriu um sorriso de ponta a ponta, me pegando de surpresa.
— Definitivamente, não é isso que a deixou assim. — falou de forma sincera. — Com isso, ela deve estar bem feliz.
Ri fraco, mas não pude deixar de sorrir com as palavras dela.
— Eu sei que ela está preocupada comigo. — Hannah continuou. — Mas tem algo a mais... Que a não quer me falar.
— Ela não me falou nada. — expliquei, me sentando na ponta da cama e aproveitei para ver se minhas mensagens tinham chegado para ela, constatando que não.
— Ela também não responde suas mensagens? — A garota perguntou enquanto me encarava.
— Nem chegam, na verdade. — expliquei. — Você não tem nenhuma ideia do que pode ser?
— Eu a vi com o pai hoje, a parecia bem desconfortável quando ele veio me examinar. — explicou. — Ela me disse algumas coisas que rolaram entre eles no passado, mas não sei...
— Ele a machucaria? — perguntei preocupado.
— Acredito que não. — Hannah respondeu com sinceridade.
Todo esse papo estava começando a me deixar preocupado, e eu só conseguia pensar em ir até o apartamento dela, só para ter certeza de que estava tudo bem.
— Se você puder...
— Vou sair daqui e ir direto para a casa dela. — falei, antes que ela terminasse o que tinha para me dizer. — Obrigado por me avisar.
Hannah sorriu.
— Também queria falar sobre outra coisa. — explicou e eu assenti, dando a entender que ela poderia continuar. — Eu sei que dessa vez minha situação é complicada...
Seus olhos encheram de lágrima e ela desviou o olhar, para então voltar a me olhar alguns instantes depois.
— A esconde o que sente, ou ela tenta. — Riu fraco. — E eu só quero ter certeza, de que ela vai ter alguém ao lado dela.
— Certo... — afirmei, tentando entender onde ela queria chegar com isso.
— Ela não pode se afundar, não de novo. — explicou. — Eu vi a forma que ela olha para você, .
Meu coração disparou na hora, com as palavras de Hannah.
— Preciso que a mantenha com a cabeça no lugar, por favor. — pediu. — Isso vale para o Mike, ele vai... Sofrer, quando eu precisar ser internada.
— Você tem consciência que vai precisar? — perguntei surpreso.
— Eu já estou há muito tempo nessa estrada, . — falou calma. — Só quero me certificar que os dois tenham as pessoas certas ao seu lado.
— Tudo bem. — afirmei. — Sempre estarei aqui, para os dois.
— Obrigada. — agradeceu sorrindo. — Bom, acho que é isso.
Apenas assenti e me virei para sair do quarto, mas parei, ao ouvir Hannah dizer:
?
— Sim. — falei me virando para olhá-la.
— Por favor, não machuque a . — pediu.
A encarei por alguns instantes, antes de falar:
— Vou fazer meu melhor. — respondi com sinceridade e sai do quarto.
Eu adoraria dizer que isso nunca aconteceria, mas somos seres humanos, e eu odiaria fazer promessas que não poderia cumprir.
— Tudo bem? — Mike perguntou ao me ver.
— Sim. — respondi sem dar explicações. — Você vai ficar?
— Eu adoraria, mas tenho algumas provas e preciso estudar. — explicou. — Vou só me despedir da Hannah e já volto.


Me virei para sair do carro, mas Mike segurou meu braço.
— Esqueci alguma coisa? — perguntei encarando-o.
— Não é nada sério, né? — Mike perguntou.
— Por que você não fala com ela, cara? — O encarei, não queria pressioná-lo, mas ele precisava se resolver com a própria irmã.
Meu amigo se endireitou em seu banco e encarou a rua à sua frente, como se estivesse pensando em algo.
— Mike, não te entendo. — falei com sinceridade. — Você se preocupa com ela, por que ficar insistindo nisso?
— Você não entende, . — disse e se virou para me encarar. — É complicado, toda minha relação com a , é.
— Por quê? — perguntei sem nenhum tom de acusação.
— Não sei se consigo perdoá-la. — afirmou.
— Só cuidado para não ser tarde demais. — falei já abrindo a porta.
— Cara, só... — Mike disse e apertou os olhos. — Cuida dela, por favor.
— Nem precisava pedir. — falei e sai do carro, porque sabia que aquela conversa não ia convencê-lo a mudar de ideia, já que é cabeça dura demais.
Segui rapidamente para a recepção do prédio e minha entrada foi liberada rápido, afinal o porteiro estava acostumado com a minha ida ali já tinha pelo menos um mês. O elevador não demorou muito para chegar, e confesso que isso me deixou satisfeito, eu não sabia como ia encontrar , em que situação ela estaria e isso me deixava um pouco ansioso, apesar de já ter a visto em uma situação muito difícil, eu odiava pensar que poderia estar assim de novo.
Toquei a campainha do apartamento dela e levei as mãos até o bolso esperando que ela abrisse e fui pego totalmente de surpresa, quando a porta abriu e braços tomaram o meu pescoço. estava me abraçando de forma quase desesperada e envolvi meus braços em sua cintura como um gesto involuntário, fazendo com que nossos corpos praticamente se fundissem enquanto nos mantínhamos ali parados e abraçados.
Porra...
Eu conseguia sentir sua respiração pesada em meu pescoço, pois ela tinha afundando o rosto próximo a ele. Eu não saberia dizer se ela estava chorando e odiaria se estivesse, mas também não tinha coragem de soltá-la e poder olhar, ou perguntar o que estava acontecendo, por isso, esperei até que ela falasse alguma coisa ou me soltasse, para que eu pudesse olhar seu rosto.
— Desculpa... — ela disse ao se afastar.
... — falei encarando-a. — Não precisa me pedir desculpas.
Ela sorriu e me deu passagem para que eu entrasse no apartamento, e assim fiz.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupado.
— Sim. — afirmou. — Mas parece que aconteceu algo com você também...
Caralho, eu não sei como ela conseguia fazer isso, me ler dessa forma...
— Você já comeu? — perguntei mudando de assunto, o que a fez rir.
— Não. — respondeu de forma calma. — Quer pedir alguma coisa ou quer que eu faça?
Gargalhei alto.
— O quê?
— Com certeza pedir. — falei já pegando o celular. — Qualquer coisa é melhor que a sua comida.
— Eu te odeio. — ralhou, com uma falsa braveza.
Nós pedimos comida Tailandesa e eu sugeri que víssemos algum filme, e acabamos escolhendo Jogos Mortais, um dos filmes de terror favoritos de , que coincidentemente, era um dos meus também. Nenhum dos dois tinha tocado no assunto do beijo no dia da festa, e muito menos no que poderia estar afetando-a e parecia que estava tudo bem para ela, ao menos para mim sim.
Durante o filme trocávamos alguns olhares e ela estava sentada encostada no lado oposto do sofá, então não tínhamos contato nenhum. A sensação que eu tinha, era de que o ar dessa vez, entre nós, estava mais pesado do que ultimamente, não porque tinha uma tensão ruim ali, mas, devido ao beijo que tinha acontecido entre nós, eu a olhava de forma mais intensa, se é que isso era possível.
pausou o filme do nada, como se pudesse ler meus pensamentos.
. — ela falou meu nome e virou para me encarar, com aqueles olhos que me faziam sentir um milhão de coisas ao mesmo tempo.
— Sim. — respondi calmo enquanto retribuía o olhar.
— Eu odeio me meter na sua vida. — falou e se aproximou, colocando sua mão sobre a minha que estava no sofá. — Só que também não consigo fingir que esse seu jeito não está me incomodando.
Puta que pariu!
, está tudo bem. — falei sentindo um nó se formar na minha garganta.
— Eu sei que não está. — afirmou. — Eu sei sobre a sua mãe biológica.
Eu não sabia o que dizer, porque não esperava que ela fosse me dizer aquilo.
— Não sei só sobre ela, mas tudo que você enfrenta com ela. — ela disse de forma completamente sincera, mesmo sabendo o que aquilo poderia causar.
Desviei meu olhar, sentindo meus olhos queimarem.
— Como você ficou sabendo? — perguntei, ainda sem olhar para ela.
— A Jillian acabou me falando um pouco sobre você. — explicou. — Eu sei que ela não deveria ter me falado, e eu pedi que ela parasse.
— Está tudo bem, . — falei, mas não conseguia olhá-la.
Senti o peso no sofá na parte que era próxima de mim aumentar e respirei fundo, eu sabia que tinha se aproximado. Fechei os olhos, deixando que as lágrimas caíssem sobre meu rosto e logo em seguida, senti a mão de em minha pele, fazendo com que eu virasse meu rosto para ela.
— Você não precisa me explicar nada. — falou me encarando.
...
— Tudo bem. — disse e um sorriso se formou em seu rosto. — A gente pode só ficar aqui vendo filme e, quando você estiver pronto para falar, eu estarei pronta para ouvir.
Sorri para ela e me recostei no sofá, puxando-a para os meus braços.
Seja lá no que isso ia dar, eu não me importava, ter na minha vida, já bastava.




Continua...



Nota da autora: Oi, lovers, tudo bem?
Nossa, que capítulo, hem?!
Eu confesso que esse foi um dos capítulos de Euphoria que mais gostei de escrever, achei ele cheio de sentimentos (alguns bons e outros não). Realmente mexeu muito comigo, a parte de cada um dos personagens que abordei neste capítulo, e eu espero que vocês tenham gostado tanto quanto eu.
Até a próxima att.

Com amor, Vane! <3




Outras Fanfics:
  • Road So far (Restritas - Supernatural - Em Andamento)
  • Oblivium (Restritas - Bandas - One Direcition - Em andamento)


    Nota da beta: Amei saber um pouco mais da história do Zed e sinto que esse pai do Oliver vai mexer no enredo! E que paizinho inescrupuloso, hein?! PQP!
    Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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