Última atualização: 01/08/2020

Capítulo 01

Nunca fui como as outras pessoas, que trocam de profissões várias vezes até realmente decidirem o que querem, sempre fui apaixonada pela fotografia, desde que era criança e havia ganhado uma pequena câmera de plástico dos meus pais. Agora, com 23 anos, sabia que estava vivendo meu sonho. Sendo conhecida profissionalmente, trabalhando com artistas e pessoas de grande influência, não me importava em passar horas trancada dentro de estúdios realizando photoshoots, ou inclusive me submeter a situações desfavoráveis e as vezes até perigosas, pois era feliz fazendo isso. Claro que, apesar de estar satisfeita com minha atual situação, não podia dizer que era completamente realizada profissionalmente. Era uma dessas pessoas que achava que sempre podemos conquistar mais e que contentamento não leva ninguém para frente.
Eu era conhecida profissionalmente, sabia agir perto de pessoas famosas, havia passado parte da minha vida estudando para isso. Então por que diabos eu sentia aquela ansiedade? Afinal, seria apenas mais um trabalho, eu sabia o que fazer. Mas desde que havia recebido aquela ligação, não conseguia parar de repeti-la várias e várias vezes na minha cabeça:

O píer de Santa Mônica em Los Angeles era um dos maiores atrativos da cidade, sendo uma das primeiras paradas dos turistas e também um local muito escolhido como um ponto de fotos, em qualquer momento do dia você encontraria várias pessoas tentando sua melhor pose e sorriso em uma selfie, sem contar que possuía uma das melhores vistas da cidade. Não só isso, também era uma ótima opção de passatempo e eu particularmente gostava de passear pelo lugar, fotografando todos os rostos novos e curiosos que estavam de passagem. Vez ou outra, gostava de simplesmente perder horas olhando para o mar, apreciando a calmaria que me trazia. O lugar é simplesmente um daqueles clichês que valem a pena.
Fui tirada dos meus devaneios pelo toque incessante do meu celular, antes de atender o aparelho, pude perceber que a ligação era de um número desconhecido:
- Alô?
- Boa tarde, gostaria de falar com . - A voz do outro lado da linha soou educada e muito formal ao mesmo tempo.
- Está falando com ela. - Respondi, esperando que a pessoa se apresentasse e falasse do que se tratava aquela ligação.
- Bom, , meu nome é Henry Campbell, faço parte da equipe de assessoria do cantor Harry Styles, o motivo da minha ligação é que, estamos procurando uma fotógrafa para trabalhar com o cantor. Harry gostou muito do seu trabalho com Ed Sheeran, e gostaríamos de te encontrar para que possamos conversar melhor, temos uma proposta para te fazer.
Eu havia trabalhado com Ed Sheeran havia pouco mais de um ano, fizemos um trabalho maravilhoso para a QG britânica, Ed era uma pessoa muito gentil e simpática, trabalhar com ele foi uma ótima experiência que abriu muitas portas para minha carreira.
Ao ouvir o nome de Harry, foi impossível conseguir conter as memórias que invadiram minha mente.
- , não quero que você se sinta pressionada a responder agora. - Continuou. - Sugiro que nos encontremos primeiro. Você conhece o Urth Caffé?
- Sim, sei onde fica.
- O que acha de nos encontrarmos lá amanhã às 15:00? Fica bom para você?
- Claro, é perfeito. Agradeço por pensarem em mim, Henry. Nos vemos em breve.
- Até lá.
Mesmo após desligar, continuei mais alguns minutos segurando firmemente o aparelho em mãos, tentando de alguma forma acalmar o caos que havia se formado em minha mente devido aos sentimentos que aquele nome trazia.

Eu não era uma pessoa vaidosa, quer dizer, eu gostava de me arrumar como qualquer pessoa gosta, gostava da sensação de me sentir bonita. Mas fazia meia hora que eu me encontrava sentada olhando para meu guarda-roupa, carrancuda e aparentemente esperando que magicamente alguma roupa viesse até mim, sem que eu precisasse tomar decisão alguma.
Decidida a parar de enrolar, peguei um macacão preto que combinei com uma blusa que deixava meus ombros a mostra, junto com boa parte das minhas tatuagens. Apesar de ser uma “reunião”, não quis utilizar de nada muito sofisticado, afinal, eu estava indo conversar com um assessor num café e não indo para uma entrevista de emprego com um CEO numa multinacional.
Estava quase na hora de ir encontrar Henry e eu decidi que iria até a cafeteria a pé, coincidentemente o lugar que ele havia escolhido ficava perto do meu apartamento, o que foi vantajoso para mim.
O local escolhido era bem movimentado e eu mesma já havia ido lá algumas vezes, a parte de fora do café possuía algumas mesas que continham guarda-sol para proteger os clientes ao ar livre do sol forte que fazia na Califórnia. Apesar do tempo agradável, escolhi ficar na parte interna, pois tinha um fluxo menor de pessoas. Por dentro, o café era ainda mais bonito, o local possuía um estilo vintage muito aconchegante e também continha diversas janelas espalhadas para ajudarem na iluminação.
As paredes também tinham um tom creme e eram cobertas de quadros, dando um charme a mais ao lugar. Querendo ter um pouco mais de privacidade, escolhi uma mesa que ficasse um pouco mais ao fundo, onde não havia tanta gente e, consequentemente, tanto barulho.
Enquanto esperava, sentia o nervosismo começar a me abater, minhas palmas suavam e eu tentava amenizar esfregando minhas mãos em minhas pernas. Eu ainda tinha uns bons minutos até que o assessor chegasse, decidi então falar com minha mãe, única pessoa que eu sabia que seria capaz de me distrair até a reunião começar.
Durante momentos de estresse era quando eu mais sentia o peso da falta que meus pais me faziam, especialmente minha mãe. Não havia um dia em que eu não sentia sua falta.
Sempre fui muito próxima dos meus pais e agora enfrentava uma realidade onde tinha que passar meses sem vê-los.
Incomodada com o sentimento de saudade que me abatia, disquei o número que me era muito familiar, no terceiro toque, minha mãe atendeu:
- Oi, querida. Eu estava prestes a ligar para você. - Atendeu, conseguia sentir a felicidade na voz de minha mãe falando comigo, mesmo que fizesse isso praticamente todos os dias.

- Parece que eu senti saudade primeiro. - Respondi risonha.
- Você está tentando competir comigo? - Disse com uma voz falsamente brava. - Como está a vida na Califórnia?
- Está boa... - Ponderei por alguns segundos, pensando se contaria ou não a notícia para minha mãe. - Estou perto de fechar um trabalho novo. Na verdade, estou agora mesmo no local de encontro, esperando que cheguem.
- É mesmo? Com quem? Eu conheço? É algum artista que sou fã? É COM O LEONARDO DICAPRIO - Disparou, eufórica. Minha mãe possuía dois amores na vida dela, o primeiro era meu pai, o segundo era Leonardo DiCaprio.
- Mãe, respira, por favor. - Em meio a risadas, tomei fôlego para continuar. - Sinto muito, mas não é o Leonardo DiCaprio.
- E quem é?
- É uma surpresa.
- , me poupe. - Ficou em silêncio por alguns segundos. - É seu namorado?
- Eu não tenho namorado.
- Nenhumzinho? - Disse provocativa. - Tem certeza? Eu queria tanto um genro.
- Lamento, mas você vai continuar querendo. - Eu conseguia visualizar direitinho a carranca que se formava no rosto da minha mãe naquele momento.
- Você é sem graça. - Respondeu brava.
- Enfim, mãe. Não foi para isso que liguei, - Soltei um longo suspiro. - Estou nervosa.
- Oh, querida. Eu tenho certeza que vai dar tudo certo, você é maravilhosa e eu tenho muito orgulho de você.
- Obrigada. Estou com saudade. - Disse chorosa.
- Nós também estamos, querida.
- M-mãe, desculpa. Preciso desligar, mais tarde nos falamos. - Desliguei apressada, pois, naquele momento, pude avistar ao longe o homem que eu imaginava ser o assessor, e o motivo de eu ter certeza de quem era, se dava pelo fato de que, logo atrás, estava Harry.

Holmes Chapel, Cheshire - Inglaterra.

17 anos atrás

A Inglaterra é conhecida pelos seus invernos rigorosos que cobriam as cidades de neve e, agora que havia finalmente diminuído seu fluxo, eu e Harry imploramos as nossas mães que nos deixassem brincar lá fora, usando do argumento de que tínhamos pouco tempo juntos até a mudança e precisávamos aproveitar. Depois de muito choramingar, finalmente conseguimos a permissão que tanto queríamos e disparamos porta fora, ansiosos. Queríamos tentar construir nosso primeiro boneco de neve, pouco nos importando com o frio.
- Sabe, eu acho que se nós pedíssemos o suficiente sua mãe deixaria você morar com a gente. - Começou Harry, desde que tinha recebido a notícia da mudança, meu amigo tentava com muito esforço pensar em alguma solução que me permitisse ficar ao seu lado.
- Hazza.. - Usava do seu apelido para que não ficasse bravo ou magoado com o que eu diria a seguir, - Você acha mesmo que minha mamãe vai querer me deixar?
Após soltar um suspiro pesaroso, Harry parou de me ajudar na construção do boneco de neve e juntou nossas mãos, balançando as para frente e para trás num ato infantil e carinhoso.
- - Chamou com a voz levemente chorosa. - Você promete que não vai esquecer de mim?
- Eu prometo, Harry. – Respondi. - Promete que não vai também?
- Eu prometo de dedinho. - Respondeu e, assim que o fez, desgrudou nossas mãos para levantar seu dedo mindinho coberto pelas luvas que usava, levando o braço na altura do meu, a fim de selar a promessa que havíamos feito. Quando entrelacei nossos dedos, Harry abriu um sorriso enorme que deixava suas charmosas covinhas em evidência, tornando impossível a tarefa de não sorrir também.

Eu me recordava perfeitamente do dia que tínhamos feito aquela promessa, éramos apenas duas crianças inocentes, procurando uma forma de tirar o peso que aquela mudança nos causava. Apesar de me lembrar, sabia que não podia cobrar isso de Harry. Fizemos aquilo há 17 anos.
Por mais que tentasse me convencer do contrário, eu esperava sim que ele me reconhecesse. Patética e esperançosa demais? Talvez. Não que eu fosse admitir isso para alguém, afinal, eu tinha meu orgulho.
É claro que já havia pensado em Harry muitas outras vezes no passado, como não pensaria em alguém que vive com a cara estampada em programas de tv ou revistas que até mesmo eu já havia trabalhado?
Eu tinha visto todo o avanço da sua carreira, desde o dia que cantou “Isn’t she lovely?” no The X Factor até o dia em que o mundo inteiro ficou sabendo que a One Direction havia acabado e que cada um, a partir daquele momento, seguiria carreira solo.
Não que eu acompanhasse a carreira dele. Claro que não.
Conforme se aproximavam da mesa em que eu me encontrava, pude ver Harry melhor. Ele era alto agora, o cabelo era propositalmente arrumado para que parecesse “bagunçado”, usava uma camiseta estampada que tinha os três primeiros botões abertos, junto com calças jeans apertadas e botas. Não sabia descrever o que senti no momento em que o avistei, era um sentimento diferente. Éramos tão pequenos quando nos falamos pela última vez…
Ao chegaram até a mesa, o primeiro a falar foi Henry, o assessor do cantor.
- É um prazer conhecê-la, . - Disse estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
- Igualmente. - Retribui.
- Olá, . Eu sou o Harry. - Falou, abrindo aquele sorriso ladino que lhe era característico e que mostrava suas adoráveis covinhas.
- É um prazer, Harry. - Respondi.
Havia apenas uma coisa me incomodando. Por que ele se apresentou? Estava apenas sendo educado ou não se lembrava de mim?
Enquanto nos sentávamos, tentava tirar aquelas questões da minha mente. Sabendo que mais cedo ou mais tarde eu descobriria se ele se recordava de mim ou se realmente havia esquecido.
- Então, , seremos diretos. - O assessor começou. - Você sabe porque estamos aqui. Gostamos muito do trabalho que fez com Ed Sheeran e também do seu portfólio. - Harry se limitou a apenas acenar a cabeça em concordância.
- Fico feliz, é gratificante saber que meu trabalho rendeu tantos elogios. - Continuei educada e legitimamente feliz com o que escutava.
- Vamos a proposta, então. Eu gostaria de poder dizer que você terá tempo para pensar e nos responder, pois sabemos que é algo grande, mas infelizmente o trabalho começa em duas semanas e tempo é um luxo que nós não possuímos neste momento.
- ... - Harry disse, finalmente se pronunciando. - Nós queremos que você seja a fotógrafa oficial da Live on Tour. A primeira turnê da minha carreira solo.



Capítulo 02

Faltavam algumas horas para que precisasse sair de casa e me deslocar até o local de encontro, onde partiríamos para a cidade onde o primeiro show da Live on Tour aconteceria, que era em San Francisco. Eu já estava com tudo pronto, meu equipamento já estava devidamente organizado, embalado e pronto para ir. Tudo estava em ordem, com a exceção da minha mala. Afinal, o que você precisa levar para passar praticamente um ano fora?
- Eu não acho que você precisa levar muita coisa, afinal, você sempre pode fazer compras nos países novos que vai visitar. - Minha amiga disse.
Allyssa era minha melhor amiga e uma das primeiras pessoas que conheci quando me mudei para Califórnia, nos conhecemos quando fui trabalhar para a revista onde ela atua como produtora de moda e, desde então, não nos desgrudamos. Desde que eu havia contado que passaria um ano fora, ela não havia saído do meu lado, me ajudando com todos os perrengues que encontrei.
- Você sabe que não gosto de fazer compras. - Respondi com uma voz tediosa. Eu gostava de ter roupas novas, mas passar horas andando de loja em loja era um pouco demais para minha paciência.
- Lamento ser a pessoa a ter que te falar o óbvio, mas você não tem roupa para tanto tempo aí. - Me limitei a apenas lhe lançar um olhar feio, até porque ela tinha razão e eu não poderia mesmo contestar.
- Queria poder levar você comigo, talvez te esconder em uma das minhas malas. - Lamentei me sentando ao lado de Ally e encostando minha cabeça em seu ombro, eu ainda nem tinha partido e sabia que sentiria sua falta, ficar longe dos meus amigos era algo que conseguia tirar um pouquinho do meu ânimo de ir.
- Você até poderia, eu acho que consigo entrar naquela ali. - Falou apontando para maior mala que tinha no chão, me fazendo rir levemente. - Eu te perdoo se você me trouxer um autógrafo do Harry.
- Credo, como você é interesseira.
Continuei mexendo no meu guarda-roupa, tentando selecionar o que mais levaria, e me esforçando para arrumar tudo o mais rápido que podia, já que eu deveria estar com tudo pronto. Pelo o que eu havia entendido, nos encontraríamos em Downtown Los Angeles, onde eu pegaria um carro enviado pela produção que me levaria até o The Masonic, em San Francisco.
Eu não via a hora de chegar no auditório, me sentia animada em estar começando algo totalmente diferente de tudo que eu já havia feito, seria um ano desafiador e eu gostava disso.
Mil coisas se passavam pela minha cabeça, estava ansiosa para conhecer toda a equipe, queria conhecer as pessoas com quem eu iria conviver durante aquele um ano e me perguntava se eu iria gostar deles e eles de mim. Eu tinha certeza que seria uma experiência mais do que enriquecedora, afinal, eu conheceria diversos países, mesmo que não estivesse indo a passeio.
No final, eram quatro malas. A maior delas continha todo o equipamento que eu julgava necessário para trabalhar na turnê. As outras três se resumiam a roupas, acessórios e maquiagens. Ainda tinha muita coisa que eu estava deixando para trás, mas era impossível conseguir levar absolutamente tudo.
Com a ajuda de Alyssa, colocamos todas as malas no elevador até que chegássemos no térreo e então, no estacionamento onde estava o carro da minha amiga, que tinha concordado em me levar até o local de encontro.
Assim que deu partida no carro, deixei com que meu olhar ficasse fixo na janela, observando a paisagem de Los Angeles pelo o que eu achava que seria uma última vez, pelo menos por algum tempo. Sentiria falta da cidade e do seu clima quente constante, da alegria que sempre exalava. Em qualquer canto que você olhasse em LA, você encontrava um artista. Tinha do pintor até o dançarino, do mímico até o músico, e por aí vai. Arte era algo que nunca faltava.
Estava absorta demais nos meus pensamentos para notar que havíamos chegado até nosso destino, sendo acordada pelo barulho do freio de mão sendo puxado, fazendo com que eu olhasse para Ally.
- Nervosa? - Perguntou, já sabendo muito bem da resposta. Era realmente difícil esconder a ansiedade que começava a tomar conta.
- Estou.. - Comecei. - Mas estou feliz também e animada.
- Você vai arrasar, . Eu tenho certeza disso - Disse me encorajando. - Acho que você precisar ir.
Acompanhei seu olhar até encontrar o motorista me esperando do lado de fora de um Ford Explorer preto. Com toda coragem que possuía, abri a porta para sair do carro, ao mesmo passo que o motorista se aproximava.
- ?
- Sou eu. - Com um leve sorriso, levantei a mão para cumprimentar o homem à minha frente.
- Sou Dominic, sou o motorista encarregado de te levar até o auditório. - Disse dando um leve aceno de cabeça. - Vou levar suas malas até o carro.
Quando o motorista saiu, me virei até minha amiga, puxando-a para um abraço apertado, tentando espantar a tristeza da despedida.
- Juízo, ok? Nada de fazer coisas imprudentes em países estranhos, viu, Dona . - Começou, listando mil outras recomendações, entre elas pedindo para que eu, por favor, não esquecesse de lhe trazer um presente ou um autógrafo.
- Vou sentir sua falta, por favor, não arrume nenhuma outra melhor amiga enquanto eu estiver fora, se não, sem presentes para você.
- Pode deixar. - Separamos nosso abraço e enquanto acenava. Fiquei observando ela até que entrasse no seu carro e partisse, fazendo com que eu me dirigisse até onde o motorista me esperava.
San Francisco, aqui vou eu.

*******

Apesar de já morar na Califórnia há alguns anos, nunca tinha visitado San Francisco antes, o que julguei ter sido um grande erro assim que cheguei. A cidade era muito bonita e possuía diversas árvores e palmeiras espalhadas pelas ruas, onde várias pessoas iam e vinham. Além disso, as faixas continham trilhos onde os bondinhos trafegavam juntamente com os outros veículos, lotado especialmente com visitantes tão encantados quanto eu estava.
Desejando poder olhar a cidade com os olhos mais atentos e calmos, me contentei a apenas contemplar tudo pela janela do carro, tentando captar todos os detalhes que conseguia, extremamente fascinada com o estilo vitoriano que possuía.
Não demorou muito para que chegássemos até o auditório onde o show aconteceria, o local possuía uma arquitetura muito bonita e sofisticada na parte externa, me deixando curiosa para conhecer a parte interna, imaginando que também ficaria surpresa com o seu interior.
Assim que o motorista estacionou o carro, logo tratei de saltar, pegando apenas a mala que tinha meus equipamentos, sentindo muita dificuldade em conter a euforia que se alastrava. Esperei até que o homem saísse do veículo, me guiando no momento seguinte até a sala onde eu sabia que parte da equipe de Harry me aguardava.
Como imaginava, o local era extremamente elegante por dentro, as paredes do teatro eram mescladas em tons de marrom e dourado e tinha cadeiras do mesmo tom. No teto, grandes lustres pendiam, deixando o ambiente bem iluminado e com um ar aconchegante.
Todos os instrumentos da banda e equipamentos necessários já estavam devidamente organizados no palco, algumas pessoas da produção ainda corriam para lá e para cá, apenas ajustando os últimos detalhes que ainda faltavam, já que em apenas algumas horas, o The Masonic estaria lotado por fãs, sendo que muitos deles já esperam ansiosos na parte de fora do auditório.
Seguimos por um corredor estreito que nos levava até a parte traseira do auditório, onde estava maior parte da equipe e, também, os camarins.
Dominic parou em frente a uma porta completamente preta, indicando com a cabeça para que eu entrasse. Assim que coloquei a cabeça para dentro da sala, avistei dois homens, um deles era o assessor que havia me contratado, o outro era Jeffrey Azoff que, depois das devidas apresentações, eu descobri ser o empresário de Harry.
Os rapazes logo trataram de me deixar a par de tudo, me explicando de forma calma meu papel na turnê. Boa parte do meu trabalho envolvia passar maior parte do tempo com Harry, fotografando tudo que fosse de interesse. Eu tinha que admitir que não era um trabalho nada ruim, já que Styles não era uma visão ruim para os olhos.
Depois que Jeffrey e Henry saíram da sala, decidi tirar minha câmera da mala e comecei a organizar e limpar tudo para que pudesse iniciar meu trabalho. Em alguns minutos eu teria que tirar algumas fotos de Harry juntamente com a sua banda, que era chamada de CHASM.
Levemente distraída, me assustei ao ouvir a porta abrir repentinamente, revelando um Harry confuso ao ver que eu não era quem ele procurava.
- Ah, ! - Começou, levemente envergonhado. - Achei que Jeffrey estivesse aqui...
- Ele estava, saiu agora pouco. - Respondi e, aproveitando o momento a sós, resolvi indagar a pergunta que não saia da minha cabeça desde que nos encontramos no café.
- Harry... Você se lembra de mim?
A expressão de Harry passou de envergonhada para confusa, ao mesmo passo que coçava a parte de trás da cabeça, aparentemente tentando lembrar de alguma forma se me conhecia de algum lugar.
- Nós éramos melhores amigos quando crianças, nossas casas eram próximas uma da outra e vivíamos juntos... - Disse, tentando refrescar sua memória, mas pelo semblante que mantinha, era visível que ainda não se recordava.
- - Falou cuidadoso. - Sinto muito, mas realmente não tenho nenhuma lembrança com você.
Quando nos reencontramos, a desconfiança de que Harry não possuía recordação nenhuma minha veio de forma quase imediata. Apesar de já saber no fundo, nada me preparou para a mágoa e decepção que sentia ao receber a confirmação.
Ainda que estivesse triste, eu sabia que a tristeza não se dava pelo fato dele ter esquecido, e sim porque eu não havia. Numa última tentativa de resgatar sua memória, disse:
- Estudamos juntos Holmes Chapel Comprehensive School..
E, ao perceber que ele não se lembraria, desisti de perguntar algo mais, temendo comprometer ainda mais minha dignidade que, naquele momento, já era quase nula.
Antes de continuar, limpei a garganta, me certificando de que minha voz não falharia devido a vergonha que sentia por ter perguntado aquilo.
- Acho que seria melhor se a gente fingir que essa conversa nunca existiu, não tinha a intenção de te deixar numa posição delicada. - Antes que tivesse a oportunidade de responder, continuei: - Acredito que Jeffrey esteja no palco, resolvendo alguns problemas com a produção, irei terminar de organizar as coisas por aqui e já encontro com você e a banda para que possamos começar.
- Certo, obrigado. - Agradeceu e antes que pudesse sair completamente, colocou parte do corpo pela fresta da porta, apenas para completar: - E , você não me deixou em uma posição delicada, tenho certeza que teremos tempo suficiente para nos conhecermos e também, tempo para que eu me lembre de você.
E com isso, Harry se retirou. Fazendo com que eu ficasse pensando se ele havia dito aquilo apenas por educação ou se realmente significava algo. Isso seria algo que só o tempo poderia me dizer, de qualquer forma.
Assim que terminei de me arrumar, sai da sala contendo minha câmera que era suspendida por uma faixa presa ao meu pescoço. Quando retornei ao salão, toda a banda já estava lá fazendo a última passagem de som antes do show começar, quando cheguei, consegui reconhecer a melodia de “Sign of the Times”.
Me contentei a apenas ficar ao lado do palco os observando, esperando até que finalizassem a última canção.
Quando terminaram, fui capaz de perceber os diversos olhos curiosos em minha direção. A banda de Harry era formada por mais quatro pessoas além dele mesmo. Clare e Sarah eram tecladista e baterista da banda, respectivamente. Mitch era o guitarrista da banda e também co-autor de boa parte das músicas do álbum, restando Adam que era o responsável pelo baixo.
Sarah e Clare eram extremamente simpáticas e fizeram com que eu me sentisse acolhida instantaneamente, puxavam assunto e pareciam verdadeiramente interessadas em me conhecer.
- Então, , há quanto tempo você trabalha com fotografia? - Indagou Clare.
- Profissionalmente faz quatro anos, mas a paixão veio desde pequena. - Falei orgulhosa da profissão que havia escolhido.
- Você é da Inglaterra, não é? O seu sotaque é igualzinho ao do Harry! - Comentou Sarah, não fazendo ideia de que eu, na verdade, era mais similar ao Harry do que ela imaginava.
- Sim, na verdade, também cresci em Holmes Chapel, mas passei maior parte da minha vida morando em Durham.. - Revelei, lançando um olhar discreto ao rapaz que conversava distraidamente com os outros integrantes da CHASM.
- Uau, que mundo pequeno. - Sarah falou enquanto a amiga balançava levemente a cabeça em concordância. Naquele momento, eu fazia muito esforço para segurar a risada que queria sair devido a ironia daquilo tudo, esquecendo um pouco o quão magoada havia ficado minutos mais cedo.
Após passar mais alguns minutos conversando com as meninas, a prosa infelizmente precisou ser interrompida já que todo mundo precisava se arrumar para o show. Cada integrante seguiu para o seu devido camarim e depois de alguns minutos fui chamada até o camarim de Harry, pois era hora de eu entrar em cena.
Anunciei minha chegada com três batidinhas na porta, recebendo a autorização que esperava apenas alguns segundos depois. A primeira coisa notável no camarim do cantor era o quão espaçoso era, a sala contava com um grande sofá de couro que aparentava ser extremamente confortável. Mais a frente, podia ver uma enorme penteadeira, que tinha desde produtos de cabelo, a maquiagem e também alguns perfumes.
Logo que terminei de analisar rapidamente a sala, meu olhar automaticamente recaiu sobre Harry, que estava... Bem, muito bonito. Vestia um terno de fundo branco decorado com diversas rosas, combinado com uma camiseta de botões também branca, o cabelo devidamente arrumado em um topete bagunçado davam o toque perfeito a sua aparência. Harry possuía um estilo diferente, não que isso fosse de alguma forma ruim.
- Nervoso? - Indaguei, em uma tentativa de puxar assunto.
- Era de se esperar que eu não estivesse, já que eu faço isso há anos.. Mas devo dizer que estou um pouco sim, nunca fiz isso sozinho antes.
- Tenho certeza que vai dar tudo certo e que você vai se sair bem, é sua primeira turnê solo, o frio na barriga é mais que compreensível. - Falei apaziguadora, me sentindo satisfeita ao ver que minhas palavras tiveram um efeito positivo no cantor, que agora esboçava o seu característico sorriso torto em forma de agradecimento.
- Obrigado. - Apenas balancei a cabeça como resposta, mostrando que não havia nada demais.
Não demorou muito para que o resto da banda chegasse no camarim, ficariam lá até que o show começasse, o que não demoraria muito, tendo em vista que a apresentação de abertura já começava a se encaminhar para o final. Aproveitando o momento de distração, peguei minha câmera e comecei meu trabalho. Passaria completamente despercebida se não fosse o talento que Harry tinha para descobrir exatamente quando tinha uma câmera apontada para si. Vendo o que eu estava fazendo, começou a fazer graça no mesmo momento, Styles não se continha nas poses, que complementava com caras e bocas, que me renderam boas fotos e boas risadas.
A bagunça teve que cessar com o aviso da produção de que estava na hora, no segundo seguinte a banda se reuniu para um rápido abraço grupal, desejando sorte uns para os outros e um bom show. Ao desmanchar o abraço, cada um seguiu seu caminho até o palco, que estava coberto com uma cortina. Os membros da banda silenciosamente se posicionaram em frente aos seus respectivos instrumentos, até mesmo Harry que começaria o show tendo uma guitarra em mãos. Do lado de fora, era possível ouvir os gritos ensurdecedores das fãs que já haviam notado os movimentos no palco. Assim que os primeiros acordes de “Ever Since New York” eram tocados, os gritos foram potencializados. Styles não cantava sozinho, era acompanhado por fãs que entoavam a música com paixão.
Eu me mantinha na parte central e lateral do palco, tirando fotos tanto da banda quanto dos fãs. The Masonic estava especialmente mais bonito agora com todas aquelas pessoas cantando, dançando e se divertindo. Era possível avistar boa parte dos cartazes que eram levantados com a intenção que o cantor os visse, tinha os mais clichês que apenas teciam amor e elogios a Harry, e até mesmo aqueles de meninas que escreviam cantadas e flertes, dentre outras coisas.
Era maravilhoso ver a energia que Styles emanava enquanto cantava, realmente demonstrava o quanto amava o que fazia e que se divertia fazendo. Eu havia escutado boatos de que Harry era narcisista em relação ao trabalho e vê-lo em ação me fez entender o porquê.
Vez ou outra, o cantor interrompia as canções e resolvi entreter o público apenas conversando e fazendo gracinhas, lia cartazes, tecia comentários sobre os mesmos e contava até mesmo piadas. Era visível que se esforçava para conversar com a maior quantidade de fãs que podia, perguntava seus nomes e tentava conhecer cada um pelo menos um pouquinho. Ver o quão atencioso era com sua audiência fazia qualquer pessoa derreter, era visível o carinho e amor que tinha por quem o acompanhava e isso era extremamente admirável. Saber que a fama não havia tornado o meu amigo de infância em um adulto arrogante era reconfortante de formas que eu não conseguia explicar. Harry havia crescido, mas o coração permanecia o mesmo.
Apesar de termos perdido o contato há anos, eu não podia evitar em sentir orgulho. Ele havia conquistado seu sonho e era mundialmente reconhecido por todo o trabalho que teve até atingir a tão esperada recompensa. Gostava de pensar que Harry também teria orgulho por eu ter crescido e realizado meu sonho, se ao menos se lembrasse.
Resolvi espantar os sentimentos ruins ao mesmo tempo que Harry começava a cantar “What Makes You Beautiful”, canção que eu sabia ser uma das mais conhecidas da One Direction, canção essa que na verdade os colocou nos holofotes. O astro havia modificado parte da melodia da música, agora possuía um pouco do seu estilo próprio, o que não surtiu muito efeito no público, já que cantavam a plenos pulmões a versão que era da sua ex-banda.
Eu tentava capturar toda a empolgação que o público emanava, fotografando de perto a reação de alguns dos fãs, imaginando como seria em dias que o show não ocorreria num auditório e sim em alguma arena.
O show agora ia se encaminhando para o final e a música de encerramento era o single de maior sucesso da sua carreira solo, “Sign of the Times”. Enquanto cantava, agora todo mundo tinha as lanternas ligadas, deixando o The Masonic completamente iluminado e proporcionando ainda mais emoção a música. Para finalizar, Harry agradeceu a presença de todos, mandando beijo para todas as pessoas na plateia, e antes de sair do palco disse:
- Thank you. I love you all. Treat people with Kindness. Goodbye. - Acenando uma última vez e finalmente rumando até os fundos, seguindo os outros integrantes que também se retiravam.

*******

Animada após encerrar o primeiro dia de trabalho, Clare sugeriu que fossemos até algum pub comemorar, o que todos concordaram de imediato. Exceto por mim, que como boa preguiçosa, precisei de alguns incentivos para ir.
Como eu não conhecia absolutamente nada da cidade, me abstive da discussão sobre qual lugar escolher. Eu ainda me sentia envergonhada pela conversa com Harry de hoje cedo, então qualquer bar que eu pudesse beber até esquecer meu vexame estaria de bom tamanho.
O Mikkeller era um bar aparentemente bastante conhecido e bem frequentado de San Francisco, possuía um estilo simples, mas que ao mesmo tempo passava uma imagem sofisticada, era decorado com balcões e mesas de cor preta e tinha uma iluminação aconchegante. O local ainda contava com diversas opções de jogos para entreter seus clientes, tinha mesas de sinuca, dardos, drinking games e o jogo que chamou a atenção de todos nós: poker.
- Todo mundo pensando a mesma coisa que eu? - Harry disse exibindo um sorriso malicioso, já entregando que seu lado competitivo estava a todo vapor.
- Com certeza. - Respondi entrando na onda, afinal eu reconhecia que também não ficava para trás quando o assunto era competição.
Nos sentamos a mesa de forma que Harry ficasse como dealer, responsável por dar as cartas durante a partida. O começo sempre se iniciava de forma calma, cada jogador recebia duas cartas e as apostas começam de forma baixa puramente para que a partida pudesse iniciar. Ainda que fosse cedo para considerar minha mão boa ou não, decidi que além de cobrir o valor inicial, eu também iria aumentar.
Mesmo gostando muito de poker, eu sabia reconhecer que o jogo exigia muita concentração e inteligência, além de que você precisa ter familiaridade com as regras do jogo, o que sinceramente não era meu forte. A minha habilidade era o famoso blefe.
O problema era que, ao jogar com pessoas extremamente midiáticas, era que eles também sabiam mentir muito bem, já que eram até treinados para tal.
Na terceira fase da rodada, chamada de Turn, a penúltima carta comunitária era posta a mesa, carta essa que me permitiu formar um one pair, o que não era ruim, mas também não era uma mão que garantisse minha vitória, já que Harry e Mitch continuavam firmes nas suas apostas e Styles, principalmente, não parecia disposto a desistir.
- Vamos lá, . Você nos representa agora. - Sarah falou lançando um olhar feio aos rapazes, que Harry retribuiu apenas balançando a mão em sua direção, em sinal de descaso.
Enquanto discutiam, comecei a pensar no próximo movimento que faria, sendo competitiva como era e querendo colocar um Styles muito convencido em seu devido lugar, eu não queria desistir, o que significava que teria que colocar minhas habilidades de blefe a prova, torcendo para que acreditassem.
- Harry, eu cubro sua aposta e aumento 50. - Movimentei as fichas até o centro da mesa, onde o potse encontrava, na esperança de assustar meus oponentes. O que funcionou com Mitch que optou por desistir.
- Nem queria ganhar mesmo. - Reclamou emburrado enquanto cruzava os braços e se recostava na cadeira.
O cantor, entretanto, continuava com a feição serena, não esboçando reação nenhuma ao que havia acabado de fazer. A quarta fase do poker era chamada de River, nessa fase, a última carta comunitária era posta e o final da partida era decidido.
- Eu aposto tudo. - Falei, finalmente arrancando uma reação surpresa de Harry, que parecia completamente abismado com o que eu havia acabado de fazer, se dando por vencido, colocou suas cartas na mesa e anunciou sua desistência, fazendo com que eu abrisse um sorriso que mostrasse quase toda minha arcada dentária.
- O que você tem? - Indagou contrariado, sem conseguir disfarçar o quanto odiava perder.
- One pair. - Disse, virando as cartas na mesa, rindo no mesmo segundo em que Harry mostrava sua cara de total indignação, ao passo que seu rosto ficava vermelho.
- Essa é sua mão??? Eu desisti de uma TRINCA para um ONE PAIR? - Esganiçado e inconformado por ter caído, Styles virou seu drink todo de uma vez, fazendo uma careta ao terminar.
- Você nunca ouviu falar de uma coisa chamada blefe? Se quiser eu posso te ensinar.
- Sabe, , você não sabe ganhar. - Retrucou magoado com as provocações.
- Por que está chorando, Harry Styles? - Indaguei em tom de deboche, vendo o cantor se limitar a apenas revirar os olhos. - Sabe, Harry, me desculpe. Não fica triste, foi um bom jogo!
- Você diz isso porque ganhou!
- Exato, será que você poderia repetir isso, por favor? - Pedi risonha, decidindo que aquela seria a última provocação, já que quase conseguia visualizar espuma saindo de sua boca e fumaça de suas orelhas.
Durante as provocações, não notei que Clare, Sarah, Mitch e Adam haviam se retirado da mesa e se encontravam em uma disputa para ver quem era o melhor em dardos, o que não gerou bons resultados considerando que estavam todos bêbados.
- Acho que nunca vou ser capaz de confiar em você, como pôde blefar daquele jeito? - Indignado, Harry chamou novamente minha atenção até ele, que ainda estava magoado.
- Eu ofereci te ensinar... - Vendo que não achou graça da minha piadinha, bufei para o homem à minha frente. - Eu sei uma forma de você confiar em mim. Que tal um jogo amigável? Eu te falo algo sobre minha vida e você tenta adivinhar se estou mentindo ou não e vice-versa. Quem errar, tem que tomar um shot de tequila, que tal?
- Hmmmm.. - Harry parecia avaliar a proposta com verdadeiro interesse, tinha uma das mãos cheia de anéis sobre o queixo e o esfregava levemente. - Fechado.
- Ok, ok. Eu começo. - Falei animada enquanto batia palminhas. - Eu morro de medo de borboletas.
- Isso não pode ser verdade. - Harry respondeu, fiz um sinal com a mão que indicava que ele deveria beber, já que era realmente verdade. - Como alguém tem medo de borboletas? Elas são inofensivas!
- Uma vez quando era pequena, minha avó disse que as asas de uma borboleta liberam um pó que poderiam te deixar cega. - Expliquei com a maior cara de deslavada que possuía, já que eu mesma reconhecia que as chances de uma borboleta me deixar cega eram inexistentes, não que eu fosse admitir isso em voz alta, é claro.
Harry virou o shot de tequila todo de uma vez, não conseguindo conter o desgosto no rosto, já que todos terminamos o poker já levemente alterados, eu sabia que nós iríamos nos arrepender dessa decisão no dia seguinte, nenhum dos dois sairia sóbrio desse jogo.
- Eu já passei mais de dois dias sem tomar banho. - O homem confessou e eu contorci meu rosto em uma expressão de nojo, ao mesmo tempo que ria do fato.
- Por mais que seja nojento, acredito que seja verídico. - Tentei adivinhar a resposta e meu semblante se encheu de orgulho ao ver que eu tinha acertado.
Conversávamos como se nunca tivéssemos perdido o contato, o assunto fluía de forma leve e Harry parecia ter um dom de me fazer rir até que minha barriga começasse a doer. Não conseguia me recordar da última vez que havia me divertido daquela forma, ou ficado bêbada daquela forma.
O que começou como algo inocente, logo tomou proporções desastrosas. A bebida já estava tão impregnada nos nossos sistemas que o filtro que tínhamos havia sumido completamente. Agora nós falávamos de coisas realmente vergonhosas e que, na manhã seguinte, com certeza seria motivo de chacota.
- Eu já… Fiquei detida na cadeia por uma noite. - Continuei, mantendo um sorriso travesso no rosto enquanto Styles pensava.
- Essa é difícil, você não tem cara de quem passaria uma noite presa… - Começou reflexivo. - Mas eu vou dizer que é verdade.
Acenei em concordância, fazendo com que o cantor perguntasse o que todo mundo sempre perguntava:
- O que você fez? - Indagou, sem conseguir esconder o choque estampado em sua face.
- É segredo.
- Eu realmente não acho que teremos segredos entre nós depois dessa noite. - Disse e eu precisei confirmar, já que o nível continuava descendo. - Minha vez! Eu já fiquei com pessoas do mesmo sexo.
- Claro que você já ficou, afinal, quem nunca? - falei e o vi balançando a cabeça. - Mas vou tomar um shot, pois estou com sede.
Virei a bebida como se realmente estivesse apenas tomando água para matar a sede, o que me arrependi instantes depois, minha cabeça girava e eu tinha certeza que meu limite já havia sido atingido.
- Eu perdi minha virgindade com 15 anos. - Contei e fazia os números um e cinco com a mão.
- É VERDADE! - Exclamou empolgado, fazendo com que eu mexesse a cabeça em concordância.
- Eu sinto que se beber mais uma gota de tequila eu morro. - Confessei, realmente me sentindo extremamente nauseada.
- Poxa, agora que eu estava prestes a te contar minha posição sexual preferida. - Lamentou, fazendo com que eu risse escandalosa, soluçando no final.
Afundei meu corpo na cadeira, eu me sentia exausta e o mundo inteiro girava ao redor de mim, mas isso não fazia com que eu quisesse parar de conversar com Harry por um minuto sequer.
- ? - Chamou, fazendo com que abrisse os olhos e o encarasse, enquanto murmurava "hum?" em resposta. - Tem um cílio na sua bochecha. Pera, deixa que eu tiro para você.
Harry levantou do seu lugar e sentou em uma cadeira do meu lado, empurrando-a ainda mais em minha direção e ficando em uma distância que eu particularmente achava perigosamente próxima. Quando o homem se inclinou para perto do meu rosto, pude sentir minha respiração parar ao mesmo passo que Harry passava levemente o dedo na minha bochecha, ao perceber que estava sendo observado, o cantor levantou o olhar até que pudesse estar de encontro com o meu, que encarava cada detalhe do seu rosto.
Vendo-o tão de perto, eu atestava que realmente não tinha defeito algum, o seu cheiro era mais embriagante que todos os shots que havia tomado naquela noite, e ter seus olhos verdes apontados em minha direção me causavam um efeito que nunca achei que meu melhor amigo poderia me causar e, no fundo, eu esperava que tudo aquilo fosse só o efeito da tequila e rezava para que na manhã seguinte, ele voltasse a ser apenas… Alguém que eu não estava encantada.
- Você tem que fazer um desejo. - Disse, a voz que sempre tinha um tom rouco parecia ainda mais grave agora, enquanto eu via o dedo indicador de Harry no ar, esperando que eu fizesse o que ele tinha dito.
Não levei nem dois segundos para encontrar algo que desejava. Desde que soube que eu e Harry nos veríamos novamente, tudo que eu queria era que voltássemos a amizade que tínhamos. Agora que sabia que sofria de uma amnésia relacionada a infância, tudo que eu queria era que se lembrasse de quem eu era.
Fechei os olhos e assoprei o cílio que estava no dedo do rapaz e, quando os abri novamente, Harry me encarava com um olhar que esboçava sua curiosidade.
- O que você pediu?
- Eu não posso te dizer isso, se eu te disser, não vai se realizar. - Respondi risonha, tocando rapidamente o nariz do rapaz com o dedo indicador.
- Faz sentido. Por favor, me conta! - Falou birrento, fazendo com que eu apenas balançasse a cabeça em negação e cruzasse os braços.
Os quatro sumidos finalmente haviam voltado, anunciando que devíamos ir para nossos hotéis, o único problema era que, nenhum dos dois conseguia ficar de pé sem assistência.
- Eu acho que alguém exagerou nas doses. - Adam notou, olhando Harry como uma expressão quase brava. - Mitch, me ajuda com o bebum n°1, Clare e Sarah, por favor, cuidem da bebum n°2.
- Eu não preciso de ajuda, ok? Eu sou uma mulher forte e independente. - Numa tentativa de pegar impulso para levantar, apoiei meu dois braços na mesa, não durando nem dois segundos de pé até cair sentada novamente. - Ok, talvez eu precise de uma ajudinha.
Enquanto os rapazes ajudavam Styles a se erguer, Clare e Sarah se dispuseram ao meu lado, oferecendo seus ombros como apoio para que eu pudesse andar.
Tivemos que nos dividir em dois táxis pois, como éramos em seis, não cabíamos todos em um só. Sem falar que Harry não ficava no mesmo hotel que o resto da sua equipe, sendo assim, eu ficava no mesmo hotel que o resto da sua banda e produção.
Quando chegamos no hotel, as meninas fizeram questão de me levar até meu quarto, tirando meus sapatos e fazendo com que me deitasse e só saíram quando tiveram a certeza de que eu não faria nada imprudente.
Somando o cansaço da viagem e do dia de trabalho, ainda com o álcool presente no sangue, não demorou mais que dois minutos para que eu caísse no mais profundo e sereno sono.

******

Todas as ações que havia feito naquele dia tinham sido feitas no modo automático. Eu me movia a base de aspirina e muita água devido a ressaca que me abalava, a minha sorte era que, a viagem até a próxima cidade da turnê, que seria Los Angeles, era longa e eu tive tempo de sobra para descansar no conforto do ar-condicionado do ônibus. Eu e Harry nos falamos poucas vezes ao longo do dia e no fundo eu agradecia por isso, já que ainda não sabia com que cara eu o olharia depois da noite passada.
Como eu já residia em LA há alguns anos, o Greek Theatre não era desconhecido para mim. Era um espaço um pouco maior que o The Masonic e eu mesma já tinha assistido alguns shows no local.
Quando chegamos, a banda imediatamente foi fazer a passagem de som, já que se apresentariam dentro de algumas horas. Aproveitei a oportunidade para sentar em um dos assentos do imenso teatro com a companhia do meu notebook, curiosa para olhar as fotos que tinha tirado no show anterior, ou traduzindo de forma melhor, as fotos que havia tirado de Harry.
As lembranças da noite passada ainda estavam frescas na minha memória e, apesar de dizer para mim mesma que o motivo pelo qual eu estava envergonhada se dava pelas informações um pouco íntimas demais que tinha trocado com o cantor, quando no fundo eu sabia que o real motivo era o meu encantamento descabido pelo meu ex melhor amigo.
Eu lembrava que, quando éramos pequenos, era comum escutar piadas dos adultos dizendo que quando tivéssemos idade, com certeza um namoro seria originado da nossa amizade. Nossas famílias faziam planos e acreditavam fielmente que um dia aconteceria:

Harry e eu éramos apaixonados por karaokê, sempre que possível, passávamos a tarde disputando quem sabia mais músicas e quem cantava melhor. Anne e minha mãe sempre ficavam divididas entre separar a briga ou dar risada.
- Haz, você é muito bobo! - Falei emburrada, pois já era a quarta vez que Harry me ganhava e eu nunca aceitava perder facilmente.
- , não fica brava. - Pediu manhoso e, ao ver que meu bico não iria se desfazer tão facilmente, se aproximou até que estivesse perto o suficiente para me puxar para um abraço, fazendo com que um sorriso contrariado brotasse no meu rosto.
- Filha, você não pode ficar emburrada toda vez que perde algo. - Começou minha mãe, repreendendo minha atitude mimada.
- Mas, mãe, eu não perdi só uma vez, foram quatro!
- Tudo bem, tia, eu consolo ela. - Harry respondeu, enquanto abanava a mãozinha no ar, mostrando que não se importava com meu comportamento.
- Vocês farão um casal tão lindo quando crescerem! - Anne chegou na conversa, suspirando sonhadora com a possibilidade.
- Eca, que nojo! O Harry é meu amigo! - Falei me desvencilhando de Harry, que pareceu levemente chateado com minha ação.
- , você vai ver só. Quando eu crescer, tenho certeza que você vai me amar. - Disse, convencido de que aquilo realmente aconteceria.

Fui despertada dos meus devaneios com a chegada de uma mulher desconhecida que já atravessava o teatro, era alta, tinha cabelos claros, olhos azuis e o porte físico de uma modelo e caminhava até mim.
- Olá, me chamo . Você é contratada nova da produção? - Perguntei simpática, sabendo que tínhamos pessoas novas na organização desse show.
- Prazer, . Me chamo Camille, sou a namorada do Harry.



Capítulo 03

Harry

Organizar uma turnê não estava sendo fácil. Eu era extremamente grato por tudo que estava acontecendo e eu não podia estar mais feliz por todo o sucesso da minha carreira solo e por toda retribuição e carinho que recebia dos fãs, entretanto, não ter mais quatro colegas de banda que carregavam a preocupação junto comigo era algo que eu considerava desafiador e difícil. O meu consolo era que, mesmo após a separação da One Direction, eu ainda trabalhava com pessoas maravilhosas que eu sabia poder contar. Principalmente Mitch que era um de meus melhores amigos.
Eu amava a sensação de estar em cima do palco fazendo aquilo que mais me deixava feliz no mundo, amava esse contato mais próximo que tinha com os fãs e também conhecer partes diferentes do mundo. Eu tinha certeza que havia nascido para fazer o que fazia. Infelizmente, como tudo na vida, minha profissão tinha o seu lado ruim, que com toda a certeza era o fato de ter que passar boa parte do tempo longe da minha família, amigos e agora, namorada.
Camille e eu namorávamos há alguns meses e, com a turnê e sua vida de modelo, o tempo que tínhamos juntos por vezes era escasso, o que tornava as coisas um pouco desgastantes. Ao chegarmos em Los Angeles para o primeiro show, eu tentava não pensar no tempo que passaríamos longe um do outro e tentava mentalizar que, pelo menos naquele dia, ficaríamos juntos.
A outra boa notícia era que minha mãe também me visitaria naquele dia, já que eu ainda teria algumas cidades dos Estados Unidos para passar antes de irmos para os shows na Inglaterra, era uma pena que Gemma estivesse ocupada e não pudesse vir também.
Estávamos passando o som para o show de mais tarde quando eu avistei a modelo conversando com uma que tinha uma feição surpresa no rosto. No mesmo instante, senti meu coração dançar dentro do peito, larguei o violão que segurava e corri em direção da mulher, que me olhava saudosa.
- Camille! - Chamei-a, descendo do palco em seguida para que pudesse a acolher em um abraço, fiquei alguns longos segundos com o rosto afundado no seu pescoço, apenas aspirando o cheiro doce característico que tinha, um dos meus cheiros preferidos e que me deixava inebriado como nenhum outro - Senti sua falta.
- Eu também senti a sua, babe. - Falou, dando um beijinho carinhoso em meu queixo. - Quando o terei só para mim?
- Ainda faltam mais algumas músicas, mas prometo que em breve - Respondi, fazendo um carinho leve no seu rosto.
- Ótimo. - Respondeu sorridente.
No minuto seguinte, todos os integrantes já tinham descido do palco para receber Camille, que retribuía todo o carinho.
Eu não era muito de ligar para o que os outros pensavam ou diziam, mas era reconfortante saber que meus amigos gostavam da minha namorada, pois tornava tudo muito mais fácil.
- Finalmente você chegou, agora o Harry para de nos incomodar com a carência excessiva dele - Adam falou, enquanto eu me limitava a apenas revirar os olhos.
- Todo mundo sabe que o verdadeiro amor da vida do Harry sou eu. - Mitch disse, fingindo estar com ciúmes, encarando-a com desprezo.
- Mitch! Era para ser segredo, ok? - Brinquei, entrando na onda.
- Ops.
- Não se preocupe, fico feliz em dividi-lo com você. - Camille respondeu.
- Fica, é? - Perguntei com uma mágoa totalmente fingida.
Por mais que todos quisessem conversar por mais tempo, pedi para que Camille aguardasse um pouquinho até que eu terminasse o que precisava fazer. A mulher se sentou na primeira fileira e prestava atenção em tudo que fazíamos, vez ou outra cantarolando junto comigo.
Varri o auditório com os olhos a procura de para que fizesse companhia a modelo, mas não a encontrei. Estranhei o fato pois, sabia que há dois minutos ela estava ali sentada com seu notebook no colo, mas tinha simplesmente desaparecido.
Foquei meu olhar na modelo que me encarava quase hipnotizada enquanto se movia ao som de "Kiwi", sorrindo ao perceber que eu a encarava.
Havíamos nos conhecido através de uma amiga em comum em uma festa. Passamos a noite toda juntos e mantivemos contato desde então. Desde que nos conhecemos havia se mostrado uma pessoa gentil e amorosa Era a primeira vez que eu estava em um relacionamento sério e relativamente longo e Camille parecia ser a pessoa certa para mim.
Exausto de ficar longe dela, deixei de lado a guitarra que segurava sob os protestos do resto da banda.
- Harry, onde você está indo? - Gritou Mitch.
- Preciso fazer um negócio, eu já volto.
Segurei Camille pela mão e a guiei até a sala onde era meu camarim, no final do corredor, quando finalmente chegamos, agarrei a cintura da mulher numa velocidade feroz, tamanha era a falta que sentia daquele contato. Guiei a modelo até o sofá e fiquei por cima, me ajeitando no meio de suas pernas.
Suas mãos seguravam firmes meus cabelos enquanto eu descia fazendo uma trilha de beijos entre seu pescoço e colo, demorando propositalmente mais na última parte.
- Ficamos tanto tempo sem nos ver.. Tem certeza que quer me provocar, Harry? - Perguntou sugestiva.
- De forma alguma.
Apressado, ergui meu tronco apenas para abrir os botões da camiseta que usava, um sorriso largo tomava conta de meu rosto ao ver que Camille olhava para meu corpo com pura luxúria e maldade nos olhos.
Voltei novamente a me deitar sob a modelo, minha mão direita passeava perigosamente por todo seu tronco. Cansado de perder tempo, adentrei a blusa da mulher, no momento que toquei na pele da sua barriga, pude sentir o arrepio que passou pelo seu corpo. Camille ergueu as costas e eu logo entendi o que ela queria, não demorando para tocar o fecho do seu sutiã.
Que eu teria tirado, se não fosse a batida da porta.
- Harry? - Imediatamente reconheci a voz que pertencia a minha mãe me chamando do outro lado da porta.
- Que hora maravilhosa.. - Praguejei baixinho ao sair de cima de Camille e ver o estado deplorável da minha calça.
- Harry, esconde isso! - Camille falou, rindo da minha situação, fazendo apenas com que eu olhasse sarcástico na sua direção.
- Não acha que já teria feito isso se pudesse?
- Harry? Está ai? - Chamou novamente, desta vez tentando abrir a porta que, obviamente, estava trancada.
- Só um minuto! - Respondi, usando um tom alto para que escutasse.
Recolhi a camiseta que tinha jogado em um canto do camarim, pacientemente abotoando a peça, tentando ganhar tempo para me recuperar. Morria de saudade de minha mãe, mas amaldiçoava diversas vezes o péssimo momento que havia escolhido para chegar.
Antes de abrir a porta, respirei fundo algumas vezes, me certificando de que estava tudo em ordem antes de abrir. Anne me esperava com um grande sorriso, me esmagando em um abraço carinhoso que aqueceu meu coração.
- Achei que chegaria só mais tarde. - Falei, fechando a porta em seguida.
- Resolvi chegar um pouquinho mais cedo para fazer uma surpresa, não sabia que tinha companhia - Falou, caminhando até a mulher que, até então, apenas observava a cena. - Como vai, querida?
Mesmo que eu já namorasse há algum tempo, Anne não era tão próxima quanto eu gostaria da minha namorada. Não que a minha mãe tivesse tratado Camille mal alguma vez, muito longe disso. Era extremamente educada e simpática e nunca havia demonstrado ter qualquer coisa sequer contra o relacionamento, apenas não eram amigas. O mesmo acontecia com minha irmã.
Minha mãe me contava todas as novidades que havia perdido, tanto dela quanto de Gemma. Apesar da fama e do dinheiro, minha mãe preferiu permanecer em Holmes Chapel, não por falta de oportunidade, pois eu já havia oferecido diversas vezes, principalmente após a morte do meu padrasto, que ainda era recente e uma ferida dolorosa. Mesmo com toda minha insistência, ela não arredou o pé da cidade, dizia ter suas amigas lá e queria preservar todas as memórias que havia feito na cidade, especialmente as com Robin.
Seguida também de algumas batidinhas na porta, uma completamente distraída entrou depois de ouvir meu “entra!’. Tinha um notebook em mãos e fones de ouvido pendurados no ouvido, o que indicava que provavelmente tinha passado todo esse tempo editando as fotos do show de San Francisco.
- Hey, Harry, olha só. Eu preciso que você aprove essas fotos do show de ontem para… - Ao perceber que eu não estava sozinho, se calou instantaneamente e direcionou o olhar para minha mãe, que estava sentada ao meu lado. - Que falta de educação da minha parte! Me chamo . , sou a fotógrafa da turnê.
Ao escutar seu nome, pude ver a boca de Anne se abrindo, a feição era de puro choque, como se estivesse vendo um fantasma na sua frente ao invés da minha fotógrafa.
- ? - Respondeu, ainda embasbacada. - Você não lembra de mim? Sou a mãe do Harry. Meu Deus, olha como está crescida!
Ao ver que minha mãe havia lhe reconhecido, arregalou levemente os olhos, aparentemente não esperando por aquilo.
- É claro que eu lembro de você, Tia Anne. - Disse gentil e sorridente, demonstrava estar tão feliz quanto minha mãe estava.
Eu observava a cena com genuína curiosidade, conforme conversavam, as peças finalmente foram se encaixando na minha cabeça. tinha falado que me conhecia, que fomos melhores amigos e que éramos vizinhos em Holmes Chapel. Apesar de não ter tido o interesse de verificar a veracidade do que ela tinha me falado, era estranho ver que era realmente tudo verdade. E mais estranho ainda porque eu ainda não me lembrava da mulher.
- Você está tão grande! Como o tempo passou.. E está tão linda! - Minha mãe, que agora estava muito mais perto de , fazia um carinho quase maternal na cabeça da mulher, que se mostrava extremamente satisfeita. - Sinto tanta falta de Felicity.. Como ela está, ? E seu pai?
- Estão todos bem, ela sente muito a sua falta também, tia. Ela lamenta muito ter perdido seu contato com o passar dos anos.
- Harry, por que não contou que sua nova fotógrafa era a ? - Indagou incrédula, mantinha as mãos na cintura e batia o pé direito num ritmo constante no chão, enquanto aguardava minha resposta.
Eu trocava olhares furtivos com a mulher que parecia segurar o riso ao ver a saia justa que minha mãe estava me pondo, nem tentando esconder a satisfação que sentia ao ver que Anne estava tomava seu lado.
- Eu não lembrava que nos conhecíamos. Ainda não lembro, na verdade. - Respondi sincero.
- Vocês eram melhores amigos, não se desgrudavam por nada nesse mundo! Você até nutria uma paixão platônica por ela!
Eu olhava para a fotógrafa que não expressava nem um terço do desconforto que eu sentia com aquela situação toda. Na verdade, me olhava com um olhar triunfante.
Eu, apaixonado pela ? E além de tudo, uma paixão platônica? Anne soava quase absurda.
- Você não está fazendo o menor sentido. - Falei, tentando tirar graça da situação. - , que tal uma ajuda aqui, por favor?
- Não sei do que você tá falando, Styles. O apaixonado era você. - Retrucou zombeteira, levantando as mãos em sinal de rendição, fazendo com que eu revirasse os olhos, descrente que estava me jogando debaixo do ônibus.
- Traidora. - Disse indignado, fazendo com que apenas desse de ombros, como se não pudesse evitar.
- Venha, , quero conversar com você sobre sua mãe. - Anne disse, puxando a garota pela mão porta a fora. - Daqui a pouco devolvo sua fotógrafa, Harry.
Me arrastei até o sofá novamente, caindo perto de Camille, que me olhava com a maior cara de escárnio que tinha.
- Babe.. Você não tinha me contado que sua fotógrafa é sua ex namoradinha de infância. - Falou em tom manhoso enquanto passava a mão por toda extensão do meu peito, fazendo desenhos aleatórios.
- Isso é porque ela não é minha namoradinha. - Respondi rindo do ciúme mascarado de Camille, que me olhava desconfiada. Eu a conhecia muito bem para saber que estava incomodada, mas que não daria o braço a torcer, orgulhosa que era.
- Sei.. - A modelo subiu no meu colo, colocando as pernas na lateral do meu corpo - Onde estávamos?
Sorri safado com a pergunta, voltando a beijar a modelo com devoção.

******

Estava recolhendo minhas roupas do chão quando escutei a notificação do celular de Camille, que fazia uma careta ao olhar a mensagem.
- O que houve?
- Nada demais, mas preciso ir. Nós marcamos uma reunião com uma editora e infelizmente eu preciso comparecer. - Respondeu dengosa, fazendo biquinho para que eu não ficasse chateado.
Resmunguei em protesto, mesmo sabendo que seria inútil, eu me sentia um pouco melhor se fizesse drama, segurei sua mão na leve esperança de que pudesse ficar, mas de nada adiantou.
Antes de se levantar, Camille me deu um selinho de despedida e, após pegar a bolsa, saiu. Me completamente deixando sozinho na sala e absorto em pensamentos. A conversa de momentos atrás ainda estava fresca na minha memória, me deixando mais reflexivo do que gostaria.
Como poderia ter me esquecido de uma pessoa que tinha sido, aparentemente, muito importante? Eu tentava de toda forma procurar por qualquer resquício de lembrança que poderia ter, e nada. Tentava encontrar algum sinal, alguma pista, qualquer coisa que pudesse acordar aquela memória, mas todo o esforço era inútil, tendo em vista que aquilo só estava funcionando para me deixar ainda mais irritado.
Inevitavelmente, comecei a pensar em como se sentia diante daquela história toda, me coloquei no seu lugar, pensando que eu odiaria lembrar e ter carinho por alguém que não podia retribuir tudo aquilo. Só de imaginar em como havia se sentido e o constrangimento que tinha passado, meu coração parecia apertar.
Frustrado, decidi que conversaria a respeito de tudo aquilo com Anne em algum outro momento, pois de nada adiantaria ficar me remoendo por tudo aquilo agora. Além disso, sentia que devia um pedido de desculpa para , que seria entregue mais tarde.
Espantei aqueles pensamentos com um leve sacudir de cabeça, dizendo para mim mesmo que, mais tarde, tudo seria resolvido. Eu faria questão de resolver.
Ciente de que me adaptar novamente ao ritmo de turnês seria difícil, decidi aproveitar raro momento livre para descansar. Tirei os tênis que calçava e me deitei confortavelmente no sofá, não demorando muito para cair no sono.

A neve havia derretido e o sol começava a finalmente dar as caras na gelada Inglaterra, a primavera era uma estação que particularmente gostava bastante, já que isso significava que as crianças finalmente poderia brincar na rua em paz. Harry empurrava alegremente sua bicicleta até uma casa que lhe era muito familiar, quando olhava para o lugar, seu coração se enchia com uma sensação de que aquele era seu segundo lar. Sem perder tempo, batia à porta de madeira com entusiasmo, esperando ansioso ver a pessoa que procurava.
Uma menininha que aparentava ter mais ou menos 5 anos de idade saiu do interior da residência parecendo tão alegre quanto o menino estava. A garota era simplesmente adorável. Como maior parte dos habitantes da Inglaterra, tinha a pele branca e sardas distribuídas por todo o rosto. Seu cabelo tinha um tom castanho claro que era um contraste para seus olhos escuros e expressivos, além de tudo, exibia um encantador sorriso banguela, que provavelmente era decorrente de um dente de leite que tinha resolvido cair.
- Só um minuto, Haz! Vou pegar meu capacete. - Falou, disparando para o interior da casa e voltando segundos depois com um capacete coberto de flores.
Devido a pouca idade, tinham autorização de andar apenas na rua de casa. Fazia pouco tempo desde que as rodinhas das bicicletas tinham sido removidas e ainda estavam na fase de adaptação, sendo necessário usar equipamento para que nenhum desastre maior ocorresse.
Apesar de todo o cuidado, nada preparou a garotinha para os resquícios de gelo que ainda estavam na rua em decorrência do recente fim do inverno, sem conseguir controlar o deslize, a bicicleta foi de encontro no chão, caindo em cima da pobre menina.
Prontamente, o Harry de cinco anos correu na direção do acidente, onde sua amiga chorava com a mãozinha segurando o joelho que agora sangrava. Desesperado, tentava com esmero acalmá-la.
- Hey, . Tá tudo bem, é só um machucadinho, olha. - Falou, tentando mostrar que o joelho estava bem e que era apenas um machucado superficial.
- Mas tá ardendo.. - Respondeu manhosa, o choro agora tinha cessado, mas o rosto ainda estava vermelho e continha dois traços debaixo dos olhos que tinham sido deixados pelas lágrimas, além de tudo, a menina mantinha um beicinho triste. - Você pode dar um beijinho para sarar? A mamãe sempre diz que ajuda.
- Claro que eu posso. - Disse de prontidão, tinha um olhar que transbordava carinho e genuína preocupação. Com cuidado, se aproximou do joelho da menininha e depositou um beijinho bem acima do machucado.
- Obrigada. - Ainda abalada, resolveu ficar mais um tempinho sentada onde estava, até que se sentisse pronta para levantar novamente, aproveitando o momento para puxar seu amigo até ele estar ao lado, repousando a cabeça no ombro do menino até se sentir melhor.

Em um só impulso, me ergui do sofá onde descansava, tinha a testa tão molhada que mechas do meu cabelo eram grudadas pelo suor repentino e minha camiseta branca não se encontrava muito diferente e eu hiperventilava. Um sentimento de tristeza profunda crescia por todo meu corpo como erva daninha e eu questionava de onde vinha tudo aquilo. Era só um sonho... Não era?

Enquanto buscava respostas para o sonho que acabara de ter, tentava compreender o que sentia. Não só a tristeza, eu sentia uma imensa saudade de um momento que eu sequer sabia se realmente tinha vivido, uma saudade que era capaz de fazer com que meu coração doesse de forma incômoda.
Contei até três e fiz esforço para controlar a respiração, a fim de me acalmar e organizar todos os pensamentos e perguntas que me cercavam. Quem era aquela menina? E por que eu parecia gostar e me preocupar tanto com ela? Lembrava com precisão o olhar que eu direcionava para a menina, a agonia em vê-la machucada era tanta que parecia que o acidente tinha ocorrido comigo.
Liguei o celular para checar o horário e percebi que não teria tempo de conversar com agora, já que em alguns minutos teria que começar a me arrumar para o show. Levantei do sofá e resolvi sair a procura de Mitch, pois precisava de alguma outra coisa para distrair minha cabeça.
Segui pelo corredor estreito do auditório e a algumas portas de distância da minha, estava o camarim da banda, só de escutar as risadas que vinham de dentro do cômodo, já me senti um pouco melhor, era disso que eu precisava, de amigos. Sem rodeios, abri a porta a minha frente e já fui logo entrando, sendo observado por Mitch, Adam, Clare e Sarah.
- Sinto saudade do tempo que você batia à porta antes de entrar. - Mitch disse, arrancando um olhar feio meu em resposta.
- Já somos íntimos o suficiente. - Respondi, piscando o olho na direção do rapaz, que me respondeu com um sorriso malicioso.
- Onde está Camille? - Indagou Sarah, estranhando o fato de eu estar sozinho.
- Ela tinha uma reunião para ir, mas diz que volta a tempo do show. - Falei num suspiro saudoso, me atirando no sofá ao lado de Adam e pegando um punhado de batatas do pacote que repousava no seu colo.
- Deve ser difícil ficar longe dela o tempo todo. - Sarah falou, fazendo com que eu apenas acenasse com a cabeça, sem muita vontade de prolongar o assunto.
- Ah, isso me lembra de algo! - Continuou. - Foi a que eu vi de altos papos com a sua mãe?
- Imagino que tenha sido, sim.
- Elas se conhecem? - Mitch disse, verbalizando o pensamento de todos na sala.
- Sim, na verdade.. - Me ajeitei no sofá, já me preparando para o bombardeio de perguntas. - e eu crescemos juntos em Holmes Chapel, quer dizer, até um determinado período.
- Por que ela não nos disse isso? - Clare exclamou indignada, sendo apoiada por Sarah. - Ou melhor, porque VOCÊ não nos disse isso?
- Não quero falar sobre isso.
- Qual é, Harry? Termina a história. - Adam falou, dando um empurrão em meu ombro como incentivo, em meio a suspiros, continuei.
- Porque a verdade é que eu não lembro da . Eu só sei disso porque minha mãe a reconheceu hoje. É isso.
- Agora as coisas fazem um pouco mais de sentido. - Sarah falou, me deixando confuso, antes que eu pudesse perguntar, continuou. - Bom, vocês são muito parecidos. Tem o mesmo jeito de falar, era uma coincidência incrível demais.
- Todo mundo que nasceu na Inglaterra tem o mesmo jeito de falar, Sarah. Inclusive você - Respondi rindo das teorias da mulher, que apenas abanou a mão na minha direção.
- Eu gosto dela. - Clare começou, quando percebeu os olhares em si, finalizou. - Digo, da . Ela é muito educada e simpática.
- Outra característica do povo inglês. - Dei de ombros, fazendo questão de não esconder que eu realmente estava me exibindo.
- Baixa essa bola, Styles.
- Vem baixar. - Falei para o Mitch, que aparentemente teria vindo se não fosse interrompido pela equipe de maquiagem e cabelo que adentrava o camarim.
- Olá, Sophie. Hoje vou querer algo diferente. Estava pensando num moicano, o que acha? - Falei para a cabeleireira, que me olhava com desaprovação enquanto me seguia até meu camarim.
Anne me aguardava pacientemente no camarim, uma revista repousava no seu colo e ela observava as páginas com atenção, desgrudando os olhos apenas quando notou que eu havia chegado.
- Lembrou que eu existo? - Perguntei, fazendo drama por ela ter se ausentado com , enquanto me sentava na cadeira para que Sophie fizesse seu trabalho.
- Eu nunca esqueço. - Respondeu risonha. - Desculpa, precisava falar com . Sinto muita falta da mãe dela.
- Afinal, o que aconteceu? Vocês brigaram?
- De forma alguma. - Falou, largando a revista na mesa que tinha ao lado do sofá. - É complicado, o pai de recebeu uma proposta de emprego irrecusável em Durham, teria um salário maior e apesar de gostar da onde estava, não podia se dar ao luxo de recusar uma oferta daquelas com uma filha pequena. Lembro que foi difícil para todos, mas nada se compara a como foi para você.
- É extremamente agonizante não lembrar. - Confessei, observando a minha mãe através do grande espelho da penteadeira.
- Eu imagino que sim, querido. Mas acho que foi a melhor solução que você conseguiu arranjar para lidar com a partida dela. - Disse carinhosa.
- E por que você e a mãe de perderam o contato? - Perguntei, não conseguindo conter a curiosidade.
- Foi apenas uma consequência da distância. Apesar de hoje em dia ser muito fácil de manter o contato com alguém, antigamente não era bem assim. No começo, chegamos a trocar algumas cartas, mas foi isso. - Falou, parecendo triste por estar lembrando da amiga que não via há tanto tempo.
- E por que você nunca falou nada sobre isso? - Indaguei novamente, apenas tentando entender melhor como tudo tinha acontecido.
- Era um assunto doloroso para mim e para você, querido. - Respondeu sincera, lançando um sorriso amoroso na minha direção, que tentava absorver todas as informações que tinha acabado de receber.

******

A sensação de estar no palco era sempre eletrizante, era difícil explicar com precisão todas as sensações que sentia ao encarar milhares de fãs. Não importava quantas vezes eu já havia feito aquilo, eu tinha certeza que nunca me cansaria. Mesmo já acostumado com os palcos, o frio na barriga ainda era o mesmo das primeiras vezes e, em todas elas, eu era grato.
Minha mãe e Camille se encontravam na lateral do palco e uma vez ou outra, eu me pegava lançando olhares furtivos naquela direção para espionar minha namorada, que sempre que me flagrava atirava beijos, fazendo com que eu contasse os minutos para o fim do show e pudesse finalmente estar com ela, de preferência a sós e em um quarto de hotel.
Do palco, podia ver também perambulando de um lado e outro, juntamente com outros dois fotógrafos que faziam parte da equipe. Tinha um semblante sério e concentrado, como sempre estava quando tinha sua câmera em mãos. Era uma ótima profissional, isso eu precisava admitir.
Por mais estranho que fosse, toda vez que eu olhava para a fotógrafa, a saudade que ainda me judiava parecia se tornar um pouco mais amena. Agora, mais do que nunca, eu via algo familiar no olhar da mulher.
Após os acordes finais de Woman serem tocados, resolvi fazer uma breve pausa para conversar com os fãs e ler os cartazes que haviam feito.
- Estão gostando do show? - Perguntei, recebendo os gritos da plateia como resposta, menos de um rapaz que estava perto do palco que apenas deu ombros. Olhei para ele com as duas mãos na cintura, reprovando sua atitude. Repeti a pergunta, dessa vez de forma que os fãs respondessem ainda mais eufóricos. - ESTÃO GOSTANDO DO SHOW?
Agora gritavam a plenos pulmões, enquanto eu caminhava pelo palco convencido, fingindo jogar um cabelo imaginário atrás dos ombros, apenas me virando para mostrar a língua para o homem.
- Estou brincando, é um prazer tê-lo aqui. Obrigado por ter vindo. - Falei, em seguida procurando outra pessoa para conversar. Não demorei muito para encontrar uma fã que estava colada na grade.
- Qual seu nome?
- Amélie. - Respondeu, recebendo a ajuda de fãs que estavam perto.
- É um lindo nome. - Elogiei, arrancando um gritinho da menina. - Com quem você veio, Amélie?
- Com minha mãe. - Falou, apontando para a mulher ao lado dela que tinha uma expressão de quem havia sido arrastada pela filha.
- É nítida a animação dela. - Falei, sentando no degrau que tinha no palco, imitando a mãe da garota, colocando a mão no queixo e fazendo cara de tédio, bufando algumas vezes. - Qual seu nome?
Me direcionava agora para a mulher que a acompanhava, que disse se chamar Christine.
- Obrigada por ter vindo, Christine. - Falei, acenando na direção das duas e dando continuidade ao show.
Mesmo com todos os problemas que a turnê trazia, como a distância da família e amigos, pouquíssimas horas de descanso, horas e mais horas na estrada, nada disso importava quando eu estava cantando, pois naqueles momentos eu tinha certeza que estava rodeado por pessoas que gostavam verdadeiramente de mim.
Eu finalmente estava alcançando o meu objetivo. Apesar daquilo tudo ter acontecido graças a fama que a One Direction teve, a banda nunca foi o meu sonho. Não queria ser mal compreendido, era agradecido por tudo que havia ganhado, mas a liberdade que possuía agora era extremamente satisfatória, precisava admitir.
Não faltava muito para o show terminar, estava conversando quando vi uma garota se levantar e seguir pelo corredor que dava até a saída do auditório.
- Hey! Onde você está indo? - Questionei, observando enquanto a fã virava para me olhar. - Volta aqui. Volta, volta, volta. Eu ainda tenho alguns minutos de sobra.
Eu chamava a moça com a mão que voltava contrariada até sua cadeira, parando apenas quando ela estava de volta ao seu devido lugar.
- Não é muito bom para o meu narcisismo quando as pessoas vão embora mais cedo. - Expliquei, arrancando risadas da plateia.
Encerrei mais um show agradecendo a presença de todos, reverenciando os fãs ao fazê-lo. Sai do palco e segui até o camarim onde sabia que encontraria minha mãe e Camille. A primeira a falar comigo foi Anne.
- Você foi maravilhoso, querido. - Falou, me recebendo com um abraço materno que deixou meu coração quente. - Infelizmente não posso ficar mais, se não perco meu voo. Mande notícias e me ligue sempre. Nos vemos nas festas de final de ano, sim?
Acenei com a cabeça, concordando com todas suas recomendações, me doía não poder levá-la até o aeroporto, mas infelizmente era uma burocracia para a produção me deixar sair.
- Eu te amo, tenha uma boa viagem. - Disse, depositando um beijo de despedida na sua testa e a acompanhando até a porta e só entrando novamente quando a vi sumir no corredor, agradecendo por saber que não faltava muito até a pausa de fim de ano da turnê acontecer.
Camille me olhava com uma expressão de tristeza, parecendo compreender o que eu sentia, pelo o que parecia ser a centésima vez no dia, eu suspirei.
- Quer ouvir uma notícia boa? - Perguntou.
- Quero sim.
- Eu falei com meu agente e vou poder ficar com você durante mais dois dias. - Falou, me encarando com um sorriso enorme e um olhar que transbordava segundas intenções.

- Sério? - Indaguei, caminhando na direção da mulher que murmurou um “uhum” em resposta. Fui em sua direção até estar perto o suficiente para puxá-la pela cintura, arrancando um suspiro da mulher. - Já vamos para o hotel, só preciso fazer algo antes, tudo bem?
- Tudo bem, vou te esperar lá fora. - Falou, tirando as mãos que circulavam o meu pescoço e piscando em minha direção.
Sai junto com Camille, mas fomos em sentidos opostos. Eu precisava encontrar para finalmente conversarmos e eu suspeitava que estivesse na sala onde seus equipamentos geralmente estavam. Ao chegar, vi que tinha acertado em cheio quando avistei a mulher de pé em frente a uma mesa onde tinha três câmeras, lentes, um notebook, algumas malas e vários cartões de memória.
- Está muito ocupada? - Perguntei, já me aproximando da mesa, na intenção de bisbilhotar melhor o que estava fazendo.
- Não muito, estou apenas passando as fotos do show de hoje para o laptop. - Falou, me mostrando algumas das fotos que tinha tirado, e que estavam muito bonitas, por sinal.
- Você é uma fotógrafa muito boa. - Elogiei.
- Obrigada, você também dá para o gasto como cantor. - Brincou, me fazendo rir, quase esquecendo qual era o meu objetivo ali.
- Queria conversar com você sobre algo.
- Claro. - Respondeu gentil. - Vamos sentar ali.
Apontou para duas cadeiras no fundo da sala, me acomodei ao seu lado e a encarei antes de falar qualquer coisa. me olhava séria com seus grandes olhos castanhos e sobrancelhas arqueadas, como se estivesse me incentivando a falar.
Era a primeira vez que realmente parava para observá-la com atenção, já que da outra vez que tínhamos estando tão perto um do outro, estávamos bêbados demais para nos atentarmos aos detalhes. Não que eu nunca tivesse notado antes, mas era realmente muito bonita. Além dos olhos expressivos, o rosto continha sardas espalhadas por toda a extensão do nariz e bochechas, dando um olhar tão inocente para a mulher, que fazia parecer que tinha menos idade. Antes que perdesse o foco, continuei.
- Quero me desculpar com você.
- Pelo o quê? - Perguntou confusa.
Por não lembrar da gente. - Falei, vendo sua expressão suavizar diante ao esclarecimento.
- Não tem problema, Harry..
Antes que pudesse continuar, interrompi. Pois eu sabia que tinha problema e que eu precisava me redimir.
- Sim, tem. Sabe, eu fiquei pensando no que minha mãe falou, na importância que tinha para mim. Você deve ter ficado muito magoada.
- Eu fiquei sim. - Confessou, se remexendo na cadeira enquanto falava. - Mas também tem o fato de que tudo isso aconteceu anos atrás.
- Não justifica. Espero que me perdoe.
- Você já foi perdoado bem antes de pedir, Harry. - Respondeu rindo.
- Eu tenho uma proposta para te fazer. - Falei, despertando a curiosidade da mulher.
- Harry, você não precisa. Já faz 17 anos, de verdade.
- Eu insisto.
abriu um sorriso tão bonito que, naquele momento, eu tive certeza de que o que eu faria a seguir, era o certo. Percebi também que, desde que tinha tido o sonho, aquela era a primeira vez que meu peito não ardia.
Eu me sentia bem na sua companhia.
- Eu quero que você me dê um pouco mais de tempo para lembrar, pois eu tenho certeza que vou. E enquanto isso, quero que você faça memórias novas junto comigo.
pareceu ponderar por um momento, tentava manter a expressão séria, mas eu sabia que estava falhando, pois toda hora mordia o canto da boca, escondendo um riso relutante.
- Gostei, me parece uma boa proposta.
- Podemos recomeçar, então? - Perguntei.
- Podemos sim.
Levantei da cadeira que estava sentando de imediato, estendendo a mão para , que aceitou e fez o mesmo.
- Eu me chamo Harry.
- Muito prazer, Harry. Eu me chamo , mas você pode me chamar de . - Respondeu rindo gostosamente, fazendo com que eu inevitavelmente sorrisse também.



Capítulo 04



Eu sabia que a turnê me traria muitas coisas boas quando aceitei fazer parte dela. De todas as coisas que imaginei, em nenhuma delas eu pensei que encontraria amigas tão legais quanto Sarah e Clare, que desde o primeiro momento não haviam sido nada menos que maravilhosas.
Estávamos esparramadas na cama de Clare e planejávamos animadas o dia que teríamos, havíamos chegado em Nova York tinha algumas horas e as meninas decidiram que precisávamos sair.
Confesso que minha empolgação diminuiu consideravelmente quando começaram a falar das lojas de roupa que queriam visitar.
- , pode ir desmanchando essa cara. Nem inventa de furar com a gente. - Repreendeu Sarah, fazendo com que eu revirasse os olhos.
- Tá bom, tá bom... Mas vocês precisam me levar para comer depois. - Falei apontando para as duas. - E no prédio de Friends também.
Fomos interrompidas pelo celular de Sarah que começou a tocar.
- Quem é? - Indagou Clare, curiosa.
- Ninguém. – Desconversou. - Já volto.
Quando fechou a porta atrás de si, arqueei a sobrancelha e olhei para tecladista que tinha a mesma expressão que a minha no rosto.
- Isso foi estranho. - Comentei. - O que ela tá escondendo?
- Hmmm. - Concordou. - Ela tem feito isso bastante ultimamente.
Acenei com a cabeça concordando, não tive tempo de elaborar mais nada já que Sarah estava de volta e trazia consigo uma Camille que sorria animada.
- Olá, meninas. - Saudou, fechando a porta atrás de si. - Aceitam mais uma na rodinha?
- Claro, claro. - Falou Clare, dando leve batidinhas no lugar ao seu lado para que Camille sentasse. - Onde está Harry?
- Ah, ele tinha uma reunião agora, então sugeriu que eu procurasse vocês para que não ficasse sozinha.
Eu me mantive quieta, abrindo a boca apenas para cumprimentar a modelo. Eu não sabia explicar o motivo, mas tinha uma implicância sem fundamento com a mulher. Sem fundamento, pois ela era educada, gentil, divertida e, além de tudo, engraçada. Não havia absolutamente motivo algum para que eu não gostasse dela, mas eu não gostava.
- Nós já estávamos de saída, quer ir com a gente? - Convidou Sarah. - Vamos dar uma volta pelas ruas de Nova York.
- Claro, eu adoraria. - Respondeu, batendo palminhas de empolgação. - Já estive aqui algumas vezes, posso mostrar para vocês meus lugares preferidos.
- Ótimo! Vamos indo então. - Clare foi a primeira a levantar, sendo seguida por todas, com a exceção de Sarah que parecia estranhamente entretida com seu celular.
- Sarah! - Chamei. - Com quem você tanto fala?
- Ninguém importante. - Falou se levantando. - Vamos?
Desci com as meninas até o lobby do hotel, ainda tentando descobrir o que tanto Sarah escondia no celular. Há dias passava tempo demais concentrada no aparelho, mas sempre que questionada ficava com vergonha e não dava resposta alguma. Minha curiosidade não permitiria que eu deixasse aquilo de lado.
No caminho para o Central Park, eu havia decidido tentar deixar a implicância que tinha por Camille de lado, me esforçando em prestar atenção em tudo que a modelo dizia e interagir ao máximo.
- Quais são os planos? - Perguntou.
- Bom, primeiro nós vamos ao Central Park. - Comecei. - Depois as meninas pensaram em fazer compras, eu quero visitar o prédio que usaram em Friends.
- Legal. Eu não tenho nada contra Friends, sabe? Mas sempre preferi How I Met Your Mother. - Disse dando de ombros.
- Todo mundo sabe que How I Met Your Mother é uma cópia de Friends. - Argumentei indignada.
- Que tal concordarmos que as duas séries são boas? - Falou Sarah, tentando apaziguar a situação.
Me limitei a apenas acenar a cabeça concordando, sendo acompanhada por Camille. Pelo menos agora eu tinha um motivo para não gostar tanto dela, era o que eu dizia para tentar me sentir melhor.
Ao chegarmos no Central Park, foi impossível não ficar encantada. O lugar era tão grande que era fácil se perder no que fazer primeiro. Eu focava em apenas observar tudo com extrema atenção e encantamento.
O primeiro lugar pelo qual passamos foi a Bow Bridge. Era uma ponte que ficava sobreposta ao lago e tinha um lindo estilo vitoriano, os muros continham vasos que eram decorados com flores que eu sinceramente não sabia reconhecer. A paisagem toda era muito romântica e nós não éramos as únicas turistas que olhavam o local com admiração.
No mesmo lago, diversos casais e amigos se divertiam fazendo passeios de barcos, nem precisei falar nada, Sarah foi mais rápida.
- A gente precisa andar de barco!
- Concordo, mas vamos precisar nos separar em duplas. - Respondeu Clare, fazendo com que eu concordasse.
- Que tal eu e Clare, Sarah e Camille? - Sugeri, numa tentativa desesperada de não ficar no mesmo barco que a modelo.
Para o meu alívio, todas concordaram. O barco era controlado manualmente, então era necessário revezar, a primeira a remar foi Clare.
- Nossa, como você é lenta! - Provoquei.
- Hey! Isso é bem difícil, ok? - Respondeu irritada, fazendo com que eu risse. - Posso te fazer uma pergunta?
- Pode.
- Por que você não gosta da Camille? - Indagou, me pegando totalmente de surpresa e me deixando preocupada, com medo que fosse óbvio demais.
- Da onde você tirou isso? - Questionei, tentando disfarçar meu desconforto.
- Bom... Vocês não parecem confortáveis na presença uma da outra. - Falou, dando de ombros ao fazê-lo.
- Eu admito que nós não somos melhores amigas. - Disse, tentando amenizar o que eu verdadeiramente sentia pela modelo.
- ...
- Ok, Clare! Eu não gosto dela. - Respondi emburrada para minha amiga que sorriu vitoriosa. - Eu não tenho nenhum motivo para isso, mas eu não gosto.
- Tá tudo bem, eu não sou a maior fã dela também.
Bom, isso sim era surpreendente.
- Não? - Questionei, vendo a mulher balançar a cabeça em negação.
- Os meninos adoram ela, e ela é realmente muito educada, mas eu entendo sua implicância com ela. - Falou. Sem nem perceber, acabei suspirando aliviada devido a confissão.
- Obrigada. - Agradeci. - Mudando completamente de assunto, você sabe o que a Sarah tá escondendo?
- Você também percebeu? - Perguntou. - Estou há dias tentando descobrir, mas ela sempre desconversa, igual fez hoje mais cedo.
- Hmm, interessante... - Respondi ainda pensativa.
O passeio continuou de forma tranquila, na metade do percurso, eu tomei o controle do barco e tinha que admitir que era realmente muito difícil. Era preciso força e uma certa velocidade nos movimentos para que o barco saísse do lugar. Quando acabamos, eu estava exausta.
- Que tal a gente ir sentar naquele banco confortável agora? - Perguntei, sendo completamente ignorada pelas meninas que logo saíram andando.
- Vamos, a gente ainda tem vários lugares para visitar. - Falou Sarah.
O Central Park era gigantesco e tinha mais lugares para visitar do que eu poderia contar, nós passamos pelo Strawberry Fields e visitamos o Belvedere Castle, que apesar de pequeno, era lindo e proporcionava uma das vistas mais bonitas que já tinha visto.
Por mais que estivesse feliz e me divertindo, não podia evitar pensar na minha melhor amiga que havia ficado em Los Angeles e em como seria andar pelas ruas de Nova York com ela. Sentia uma saudade avassaladora de casa. E eu me referia tanto ao meu apartamento quanto a casa dos meus pais.
Eu estava no segundo com shopping com as meninas quando recebi a ligação de Katherine, ela fazia parte da equipe de produção e quando eu vi seu nome na tela, já esperava que não estivesse trazendo boas notícias.
- Hey, Kat. O que houve? - Perguntei, já alarmada.
- Hey, . Olha, sei que você está de folga com as meninas, mas precisamos de você aqui. - Falou, a voz denunciava que estava estressada.
- Tudo bem, em 15 minutos eu chego.
Peguei a bolsa que estava do meu lado e expliquei brevemente para as meninas que eu precisava ir. Nós não estávamos tão longe assim de onde seria o show, mas preferi chamar um táxi.
No caminho, fiquei pensando no que poderia ter acontecido, já que preferi não fazer muitas perguntas por celular. Podia sentir os nós se formando no meu estômago e o suor escorrendo pelo meu pescoço. Eu era uma pessoa extremamente chata com meu trabalho e eu reconhecia isso. Odiava cometer erros e torcia para que não fosse nada demais, apesar de saber que isso seria em vão.
Quando cheguei no auditório, fui direto ao encontro de Katherine, que me aguardava na companhia de parte da equipe de fotografia. Todos tinham semblantes exaustos e preocupados e quando me viram, pareciam tentar procurar as palavras certas.
- , você conhece o Alex? - Perguntou, apontando para o homem ao seu lado que mantinha a cabeça baixa.
- Vagamente... Ele estava no show de ontem, certo? - Questionei, vendo a mulher concordar.
- Alex faz parte da equipe de edição, mais precisamente, ele é o encarregado de descarregar os cartões após o show. - Ao passo que Kat explicava, minha cabeça rapidamente começou a juntar todas as peças, fazendo com que meu corpo começasse a tremer. - O que eu estou tentando dizer é que, ao invés de passar as fotos para o computador e formatar o cartão, ele apenas apagou e formatou tudo.
Inspira. Expira. Inspira. Expira.
, você não pode agredir ninguém”
Eram os mantras que eu repetia para mim mesma enquanto os olhos da equipe me observavam atentos. Se eu tivesse laser nos olhos, eu tinha certeza que Alex já teria sido reduzido ao pó, tamanha era a raiva e frustração que eu sentia.
- E essas fotos, por acaso, foram as minhas? - Perguntei, me sentando no lugar mais próximo que achei quando vi a produtora confirmar.
- , eu sinto muito.
Ignorei o rapaz aflito na minha frente e apenas me joguei no lugar mais próximo tentando me acalmar, enterrei o rosto entre as mãos numa tentativa de não surtar. Tudo bem que nós ainda tínhamos as fotos dos outros fotógrafos, mas aquilo significava que eu tinha perdido uma noite de trabalho e, mesmo com as outras fotos, eram as minhas que eram usadas pelo Harry. E eu ia precisar contar para ele.
- , eu...
- Alex, por favor. - Comecei, encarando o rapaz com raiva. - Tudo o que você disser agora só vai piorar.
- Vem, eu vou levar você para tomar uma água - Disse uma das fotógrafas.
Pensei diversas vezes em recusar e falar que eu não precisava de água ou algo do tipo, mas estava sendo educada e eu realmente precisava sair daquele ambiente. Apesar de entender que gritar e espernear não funcionaria de nada, não conseguia conter o sentimento que sentia.
Deixei que ela me levasse até uma das cadeiras da sala onde pediu para eu sentar. Saindo no momento seguinte e voltando depois com a água.
- Obrigada, Maisie. - Agradeci, jogando a cabeça para trás e respirando fundo.
- Não se preocupe. - Respondeu. - O que vai acontecer com ele?
- Bom, não sabemos ainda. - Falei, olhando para as mãos. - Ele é novo, mas foi um erro infeliz.
Murmurou um “ah” e o assunto acabou ali, a fotógrafa saiu com a desculpa de que me deixaria sozinha para esfriar a cabeça. Ela não sabia disso, mas eu agradecia por ter saído sem eu precisar pedir e correr o risco de soar rude.
Encarei o teto da sala e respirei fundo algumas vezes para me preparar para o que teria que fazer a seguir, por mais que ainda tivéssemos o registro de outros fotógrafos, as minhas fotos eram uma grande perda. Sem contar que, o erro não havia sido apenas de Alex, ele fazia parte da minha equipe e isso significava que eu também tinha errado.
Agora, com um pouco menos de raiva e a razão voltando a tomar conta de mim, eu percebia que minha explosão não tinha nada a ver com o novo rapaz, eu estava decepcionada, isso é verdade, mas essa decepção também era direcionada para a falha que eu tinha cometido como responsável pela equipe.
Andei a passos lentos pelo local a procura de Harry, se fosse ser sincera, estava comprando tempo e tentando adiar a conversa que teria com o cantor. Repassava o script que montara na minha cabeça várias e várias vezes numa tentativa completamente falha de acalmar meu nervosismo.
Atravessei o corredor que levava até o salão onde o palco estava e encontrei o cantor com o violão em mãos, entoando os versos finais de Sweet Creature. Por um momento, me permiti gastar alguns segundos observando-o, já que felizmente ainda não tinha notado minha presença.
Nos últimos dias, tinha prestado mais atenção em Harry do que gostava de admitir. Quando o assunto era o cantor, havia me tornando extremamente detalhista, naquele momento, reparava no movimento que os dedos faziam ao dedilhar o instrumento, achava encantador até os anéis que usava e as unhas pintadas com um esmalte preto que já começava a descascar.
Me aproximei com cautela de Styles que após alguns segundos percebeu que não estava mais sozinho, abrindo um sorriso contido assim que me viu, que não pôde ser retribuído devido a tensão que sentia. Antes de falar, limpei as mãos na calça que usava e soltei um leve pigarro.
- Harry, tenho algo para te contar... - Comecei, sendo incentivada pelo cantor que havia posto o violão de lado e agora depositava toda sua atenção no que eu falava. - Vou ser direta... Eu perdi as fotos do show da noite passada.
- Como assim? - Indagou.
- Na nossa equipe nós temos uma pessoa responsável pelos cartões de memória e que também trabalha com a edição. O Alex é novo e... Bem, ele formatou meu cartão antes de passar as fotos para o computador.
- Como isso foi acontecer? você é a fotógrafa principal!
- Eu sei, Harry. - Suspirei, derrotada. - Você tem toda razão, me desculpe, não vai se repetir.
- Bom, eu espero mesmo que não. - Falou, passando as mãos no cabelo. - Espero que você seja mais responsável. Alex era sua responsabilidade, , ele e todo o resto da equipe. Suas fotos são as mais utilizadas na divulgação da turnê e você não pode simplesmente perdê-las.
Eu assenti para tudo que Harry falava, pois sabia que merecia o puxão de orelha e de nada adiantaria bater o pé. Tudo que dizia eram coisas que eu já sabia, mas que precisava ouvir. Eu me sentia extremamente abalada com o que tinha acontecido, mas infelizmente eu não podia me isolar no meu quarto de hotel e ficar deitada o dia inteiro esperando até que o sentimento de incompetência me deixasse, tinha mais coisas para fazer.
Assim que terminei de falar com Styles, sai a procura do rapaz que provavelmente estava se sentindo mal depois de tudo que eu havia dito. Encontrei o rapaz na sala que usávamos para guardar parte do equipamento utilizado durante o show, estava sentando em uma cadeira no canto e tinha a cabeça enterrada nas duas mãos que eram suportadas pelas pernas.
- Alex. - Chamei, fazendo com que o rapaz finalmente levantasse a cabeça. - Te devo um pedido de desculpa, fui extremamente dura com você. Seu erro é meu erro e eu deveria ter reconhecido isso logo ao invés de ser ríspida com você.
- Tudo bem, , eu...
- Não. Eu sou responsável pela equipe e eu falhei com você. Mas isso não vai mais se repetir. - Interrompi, abrindo a porta e chamando o rapaz com a mão. - Agora vamos, vou ensinar você como se faz a formatação de um cartão de memória da forma correta.

******

Aproveitando o breve momento de descanso que estava tendo, me sentei no corredor e, contendo meu fiel notebook em mãos, apoiei minhas costas na parede gelada o suficiente para me causar um leve arrepio. Levantei a tela do aparelho e enquanto ligava, me permiti fechar os olhos por alguns segundos e abrindo-os quando comecei a sentir os sinais de sono chegarem.
Escutei alguns passos e alguém sentando confortavelmente ao meu lado, não precisava nem olhar para saber que era Harry, já que eu tinha sentido o cheiro do seu perfume antes mesmo de se sentar. Encarei o cantor de soslaio apenas para atestar o que já sabia, voltando minha atenção para as fotos que estava editando.
- O que você tá fazendo no chão gelado? - Indagou.
- Gosto de sentar no chão. - Falei e ao ver a confusão do cantor, logo tratei de explicar. - É geladinho e confortável.
Toda vez que Harry se aproximava, eu podia sentir um leve tremor acometendo meu coração. Ainda não tinha conseguido me acostumar a essa sensação e nem mesmo sabia se era normal, me perguntava se também me sentia assim com sua presença quando éramos pequenos, após tantos anos era difícil lembrar de tudo.
Quando percebeu o que eu estava fazendo, se moveu até estar perto o suficiente para ver o conteúdo do notebook, estava tão perto que eu podia escutar sua respiração e enxergar os poros que tinha no rosto. Reuni toda a concentração que tinha para focar no que estava fazendo, tentando controlar a respiração que sem permissão alguma tinha se desregulado.
Parei em uma foto onde Harry estava esguichando água para cima, coisa que ele fazia em absolutamente todos os shows.
- Gosto dessa foto. - Falou apontando para tela.
- Eu que te ensinei a fazer isso. - Soltei sem perceber, apenas me tocando do que tinha feito quando encontrei o olhar curioso do rapaz.
- É mesmo? - Perguntou cruzando as pernas e abrindo um sorriso tímido. - Mas eu fiz isso a vida toda.
- Bom, mas você tirou isso de mim.
Rapidamente minhas memórias me levaram para alguns anos atrás, onde em um verão eu e Harry fizemos uma guerra de água no quintal de Anne.


Eu sempre fui apaixonada por água, fosse do jeito que fosse. Amava praia, piscina e até mesmo a água do chuveiro. Era por isso que eu amava quando o verão finalmente chegava. Como de costume, Harry e eu brincávamos no quintal de casa e eu estava tirando alguns segundos para aproveitar a sombra que uma grande árvore que tinha perto da casa proporcionava.
O dia estava sendo um dos mais quentes daquele verão e eu tomava longos goles de água em busca de refresco. Olhei de soslaio para meu amigo que brincava distraído com algumas panelinhas que tinha trazido e fui até seu encontro, sentando ao seu lado com a garrafinha ainda em mãos e uma ideia mirabolante na cabeça.
- Haz, quer ver um negócio legal que aprendi a fazer? Eu sei imitar uma baleia. - Perguntei e prontamente Harry depositou toda sua atenção no que eu estava prestes a mostrar, assentindo em resposta.
Coloquei o máximo de líquido que conseguia na boca e direcionei meu olhar para o garoto que, quando percebeu o que eu estava prestes a fazer, já era tarde demais. Tentou correr, mas felizmente eu havia sido mais rápida, esguichei toda a água para cima, ensopando meu amigo.
- ! - Berrou esganiçado. - Isso vai ter volta.
- Hey, isso não vale. - Falei com certa preocupação ao ver que procurava pela sua garrafa. - Você disse que queria ver, ué.
Harry marchava na minha direção em passos largos, quando vi que estava com a boca cheia, rapidamente levantei da onde estava e comecei a correr pelo pátio, pedindo desculpas para o menino que não sossegou até me deixar igualmente ensopada.

Quando terminei de contar a história, olhei ao rapaz ao meu lado que parecia afetado pelo o que eu havia dito, não demorou muito para mudar a expressão e recostar a cabeça na parede, sorrindo ao fazê-lo.
- Quer dizer que eu não inventei esse negócio de atirar água para cima? - Perguntou brincalhão.
- Desculpa, mas eu patenteei antes de você. - Brinquei.
Eu podia ver que Harry estava incomodado com algo, seu olhar era distante e pensativo e eu desconfiava que não se lembrar o perturbava mais do que gostaria de admitir, eu também entendia seu lado e era por isso que tinha decidido que não faria nenhum tipo de pressão.
Assim como o rapaz, eu também queria entender como ele havia esquecido, queria entender o que aconteceu e como isso ocorreu, se foi gradativo ou se talvez sofreu algum trauma que fizesse com que ele apagasse essas memórias, de qualquer forma, ele teria descobrir para que eu pudesse saber também.
- Sabe... - Começou, me despertando do transe que estava. - Quando tivermos mais tempo, adoraria ouvir mais sobre nossa infância.
- Bom, não tem muito o que dizer, apenas que você era bem irritante com aquele negócio de paixão e tudo mais, não desgrudava do meu pé. - Respondi com falso desdém, atirando os cabelos para atrás do ombro.
- Ainda não acredito que Anne disse aquilo. - Falou incrédulo, revirando os olhos ao fazê-lo.
- Para que servem as mães se não para envergonhar os filhos?
- Não vejo a hora de saber o que sua mãe tem a dizer sobre você. - Falou contendo um leve brilho de vingança nos olhos.
Por um momento a ideia de Harry encontrar minha mãe pareceu extremamente assustadora, tendo em vista que Felicity era dez vezes mais sem noção que Anne e simplesmente o amava e eu sabia que havia ficado extremamente feliz e esperançosa com o fato de estarmos trabalhando juntos.
O celular do cantor tocou indicando que havia recebido uma mensagem e, pela feição que tinha, eu imaginava que Camille tinha chegado, pois tinha um sorriso de orelha a orelha.
- As meninas chegaram. - Falou já se levantando e tirando qualquer resquício de poeira que teria na calça, apenas murmurei um “uhum”, não entendendo quando o cantor continuou parado me olhando. - Você vai ficar ai?
- E onde mais eu iria?
- Pro camarim comigo. - Explicou como se fosse óbvio. - Todo mundo tá lá, Mitch quer pedir algo para comer.
Segui o rapaz até chegarmos na sala onde todo mundo estava reunido, assim que o viu, Camille rapidamente grudou no pescoço de Harry que parecia ter a mesma animação que ela. Evitei ao máximo olhar a cena e apenas me sentei no mesmo lugar que Clare e Sarah estavam.
Todos já tinham decidido em pegar uma pizza, já que Mitch não parava de incomodar dizendo que não poderia ir embora sem experimentar a “culinária local”. O divisor de águas estava sendo o sabor.
- Que tal pepperoni? - Sugeriu Sarah, recebendo a aprovação de todos.
Bom, quase todos.
- Eu sou vegetariana. - Disse Camille.
- Nós pedimos uma de brócolis para você. - Sugeri, não queria abrir mão da minha versão gordurosa e nada vegetariana.
- Não gosto de brócolis.
“Claro que não” Sussurrei, felizmente a única que me escutou foi Clare que sentava do meu lado, que não deixou passar batido e me deu um cutucão na costela que ficou dolorido por longos minutos.
Eu não gostava do que sentia por Camille, não achava um sentimento bonito ou até mesmo saudável mas, depois do tour que fizemos pela cidade, tinha ficado muito claro que talvez a opinião da modelo sobre mim também não era das melhores, eu ainda não conseguia entender da onde aquilo tinha vindo, se era uma simples implicância ou aquele clichê onde “nosso santo não bateu”. De qualquer forma, eu me recusava a tratá-la mal ou algo do tipo, eu só preferia não frequentar o mesmo ambiente que ela, especialmente se Harry estivesse junto.
Possuíam uma relação bonita, tinha que admitir. Meu amigo parecia feliz ao lado dela e era retribuído, eram carinhosos um com o outro e realmente pareciam se gostar muito. Apesar de não ser a maior fã de Camille, a modelo era uma namorada que lhe dava todo o apoio que precisava e eu sempre priorizaria a felicidade de Harry, se era ela, eu teria que engolir quaisquer que fossem os pensamentos que tinha.

*****

Os finais de show eram sempre os mesmos, ainda que fosse outono e o clima castigasse com o vento cortante da estação, eu sentia meu corpo inteiro aquecido. Tinha alguns fios de cabelo rebeldes colados no rosto devido ao suor e ao cansaço, mas me sentia bem.
Estava guardando meu equipamento quando Alex entrou na sala, tinha um semblante animado.
- Planeja fazer algo depois? - Perguntou, prontamente me ajudando
- Tenho um encontro marcado com minha cama. - Respondi sorrindo. - Por que pergunta?
- Maisie quer conhecer a vida noturna de Nova York e perguntou se você não quer ir.
- Hm. - Respondi acenando a cabeça. - Acho que vou passar, ‘tô cansada.
- Você vai realmente refutar a nossa companhia assim? - Perguntou fingindo estar ofendido.
- Isso não funciona comigo. - Respondi rindo do apelo.
- Vamos, , vai ser legal! Hoje o dia foi puxado.
Tinha um bom argumento, já que não tinha sido fácil para ambos. Suspirei, supondo que beber um pouco e escutar música alta não me fariam mal, afinal de contas.
- Tá bem, eu vou. - Falei concordando. - Só preciso trocar de roupa e estou pronta.
- Você tá bonita assim.
- Só se for aos olhos de Deus. - Falei risonha, usava uma das camisetas da marca de Harry, já que eram confortáveis, combinando com uma calça jeans simples.
- E aos meus também. - Falou galanteador.
- Vou pro hotel me arrumar, Don Juan. - Falei debochada, dando um tapinha no seu ombro. - Me manda o endereço por sms que encontro vocês lá.

*****

Como prometido, Alex tinha me mandado o endereço por sms e disse que estaria me esperando na frente do local. Quando me viu, abriu um dos maiores sorrisos que eu já tinha visto, pelo pouco que conhecia do rapaz, sorrir parecia ser um dos hábitos que tinha.
- A gente não tem que esperar na fila? - Perguntei olhando para as pessoas que aguardavam passar pela segurança do lugar.
- Não, a Maisie conhece um cara lá. - Falou, pegando meu pulso em seguida para me guiar dentro do lugar. - Vamos.
Assim que entrei, fiquei espantada com o fluxo de gente, Alex tinha que abrir passagem entre as pessoas para que pudéssemos nos locomover. Eu tentava me concentrar na tarefa de encontrar Maisie que segundo o rapaz, estava próxima ao bar, mas me sentia hipnotizada com as luzes que revezavam entre roxo, azul e vermelho.
Não demorou muito para que encontrássemos a mulher que estava sentada de frente para o bartender, quando nos avistou, acenou para que fossemos até ela, que tinha guardado dois lugares.
Alex fez uma reverência exagerada apontando para a banqueta para que eu me sentasse primeiro, sorri em agradecimento e pedi uma cerveja para começar.
A fotógrafa não nos acompanhou por muito tempo, acontece que o tal cara que ela conhecia na verdade era uma paquera que tinha arrumado para “passar o tempo” enquanto estávamos na cidade. Comecei a ponderar se Alex não tinha me convidado apenas porque não queria ficar de vela.
O rapaz tamborilava os dedos na cerveja ao meu lado, parecia um pouco ansioso já que também se remexia a cada cinco segundos.
- Tá tudo bem? - Indaguei.
- É só... Eu sei que estava brincando com você mais cedo, mas eu realmente queria me desculpar. - Falou sincero.
- Alex, já falamos sobre isso. Já até tomei sermão do chefe por você. - Falei rindo. - Então apenas tome sua bebida e fica de boa, tá bem?
Dei um empurrãozinho no ombro do rapaz para mostrar que realmente estava tudo bem e que ele não precisava se preocupar.
- Obrigado. Sempre admirei seu trabalho e agora também admiro você.
- Jura? - Perguntei feliz com o elogio.
- Sim. - Acenou com a cabeça. - É uma honra trabalhar com uma fotógrafa como você.
- Espero ser uma boa mentora.
- Você tá sendo.
- Se tivesse falado essas coisas mais cedo você teria me convencido a sair muito mais rápido.
- Hmm... - Falou malicioso. - Vou guardar essa informação para ocasiões futuras. Talvez eu precise.
- Você pega confiança rápido demais.
- E isso é bom ou ruim? - Perguntou curioso.
- Ainda não decidi.
- Quer ajuda para decidir?
Depois de algum tempo conversando, não sabia dizer se era a bebida fazendo efeito, mas me sentia quase inclinada a cair nos encantos de Alex. No começo, achei que flertava apenas como uma forma de descontração, mas quanto mais contato tinha, mais eu percebia que não. E se eu fosse completamente honesta, eu admitiria que não era só o álcool que estava fazendo com que eu me sentisse inclinada a cair nos encantos do rapaz. Eu já tinha notado o quão bonito era, tinha grandes olhos verdes, o cabelo era perfeitamente cortado e arrumado e era uns bons centímetros mais alto que eu.
Eu nunca tinha considerado ficar com ninguém do trabalho, era uma regra silenciosa que eu tinha posto para mim mesma, eu não gostava de misturar as coisas, priorizava sempre o meu trabalho. Mas naquele momento, tudo que eu conseguia pensar era “bom, só se vive uma vez.” E fazia tanto tempo que eu não ficava com alguém… Nem sabia quando teria outra oportunidade.
Percebi que havia perdido tempo demais o analisando quando percebi que abanava sua mão na frente do meu rosto, me fazendo corar.
- Gosta do que vê?
- É decente. - Respondi implicante, bebericando o drink que tinha em mãos, que agora era um Dry Martini, estava aproveitando a vasta lista de opções do bar.
- Deixa eu limpar para você. - Falou se aproximando com um guardanapo, quando viu minha confusão, explicou. - A sua baba.
Mostrei a língua para Alex num ato infantil, já que eu não tinha qualquer outra resposta melhor para dar, me levantei do lugar que estava sentada e estava pronta para ir ficar de vela para Maisie na pista de dança quando senti Alex me puxar, se aproximando perigosamente do meu rosto.
- Você nunca escutou aquele ditado? - “Que ditado?” murmurei contrariada. - Quem mostra a língua pede beijo.
E então ele me beijou.



Capítulo 05



Esperei que meus olhos lentamente se acostumassem com o feixe de claridade que entrava no quarto de hotel, estiquei o corpo me espreguiçando na enorme cama e precisei segurar o grito que ficou preso na minha garganta quando senti minha perna tocar em outra coisa.
Alex encontrava-se completamente desmaiado ao meu lado, o peito desnudo subia e descia calmamente, tinha impressão que se o prédio desabasse naquele momento, não seria capaz de acordar o rapaz ao meu lado.
Não queria arriscar, então tomei todo o cuidado que tinha ao levantar e caçar minhas roupas que estavam espalhadas pelo quarto. Depois de estar devidamente vestida, só respirei aliviada novamente quando já estava no corredor.
Me dirigi o mais rápido possível até o meu quarto, que por sorte era a apenas algumas portas de distância, rezando para que ninguém da equipe me visse para que eu não perdesse o restinho de dignidade que eu achava que tinha.
Quando coloquei o cartão na porta e finalmente entrei, suspirei aliviada pelo fato de ninguém ter me visto. Tirei as roupas que ainda usava da noite passada e caminhei até o chuveiro da suíte, relaxando ao ser abraçada pela água quente.
Inevitavelmente comecei a pensar em como encararia Alex, era verdade que tinha bebido, mas de forma alguma poderia jogar a culpa no álcool, pois nenhum dos dois tinham bebido o suficiente para isso.
Apenas o suficiente para perdermos o pudor, aparentemente.

Já faziam alguns dias desde que tínhamos dormido juntos, toda vez que eu via Alex, meu cérebro inevitavelmente me levava para aquele momento e, por mais que eu tentasse manter o profissionalismo, meu cérebro me sabotava. E não só ele, como meu corpo também.
- , eu sei que eu tenho uma beleza estonteante, mas você realmente não precisa corar sempre, estou começando a ficar sem graça. - Comentou.
- Presta atenção. - Falei ignorando o comentário e focando minha atenção no objeto que tinha em mãos. - É importante verificar as configurações da câmera. Por exemplo, nós não utilizamos flash, então se certifique de que ele sempre esteja desligado. As luzes do palco já são suficientes e usá-lo deixaria as fotos estouradas.
- Entendi. – Respondeu. - Você fica bonita quando tá me ignorando.
- Já vou deixar a câmera configurada para você e com a lente que vamos usar no show de hoje, quando terminar eu a devolvo para você. - Falei, saindo com o objeto pendurado no pescoço sem dar chance para o rapaz sequer responder.
Bufei frustrada com a audácia de Alex, já tinha perdido a conta de quantas vezes eu me imaginava esbofeteando aquele rosto que era extremamente bonito, não que algum dia eu fosse reproduzir a última parte em voz alta. Eu não podia nem dizer que não tinha dado aquele tipo de intimidade para ele, pois eu tinha.
Fui até onde o camarim de Harry ficava, pois tiraria algumas fotos dele e do restante da banda, quando entrei o rapaz já estava terminando de se arrumar, Clare e Adam encontravam-se esparramados pelo sofá.
- Prontos? - Perguntei, levantando a mão fazendo o sinal de joinha. - Só preciso pegar minha câmera no camarim da banda.
- E essa câmera no seu pescoço? - Perguntou Harry.
- Não é minha. - Dei de ombros.
- Vou com você. - Falou prontamente se colocando na minha frente. - Esqueci meu earplug lá.
Segui até a sala com o cantor em meu encalço, elas eram razoavelmente próximas uma da outra. Levei a mão até a maçaneta da porta e a abri de uma só vez.
- AHHHHHHHHHHHHH! - Gritei enquanto sacudia os braços. – AI, MEU DEUS! desculpa, desculpa, desculpa.
Harry, que me olhava como quem não estava entendendo absolutamente nada, esticou o pescoço para poder ver o que quer que tinha sido que eu tinha visto, quando avistou Sarah e Mitch parecendo apavorados, entendeu tudo o que tinha acontecido.
- ELES ESTAVAM SE BEIJANDO! - Berrei pro cantor que me olhava desesperado e sinalizava para que eu calasse a boca. - VOCÊ VIU EL..
Antes que conseguisse completar a frase, Harry levou a mão até minha boca enquanto olhava preocupado para os lados, tendo certeza de se certificar de que ninguém escutava o meu chilique.
Styles me empurrou para dentro da sala, deixando que eu voltasse a falar apenas quando eu lambi sua mão para que me soltasse.
- Ewww! Nojenta. - Reclamou, limpando a mão na blusa que usava.
- Você não me deixou escolha. - Falei brava. - Sua mão tava limpa, né? Na verdade, prefiro não saber.
Parei para analisar o casal a minha frente, apesar de ter muitas perguntas, não conseguia decidir o que perguntava primeiro.
- ? - Sarah chamou, balançando a mão na minha frente.
- Hm?
- Você não vai falar nada? - Perguntou.
- Era por isso que você tava agindo de forma suspeita. - Constatei, já que nos últimos dias estava mais furtiva que o normal, sumia de repente e passava boa parte do tempo sorrindo para o celular.
Enquanto Mitch e Sarah pareciam perto de ter uma síncope em minha frente, eu estava muito ocupada ligando os fatos na minha cabeça para sequer estar brava. Se eu passasse mais um segundo quieta, a baterista explodiria diante dos meus olhos.
- Seus safados! Se pegando no ambiente de trabalho. Vocês não tem vergonha, não?
- Você não tá brava?
- Um pouco chocada. - Falei encarando o casal. - E definitivamente traumatizada. Mas não estou brava.
- Desculpa não ter contado nada antes... É que as coisas ainda são muito recentes.
- Contanto que vocês estejam felizes, é o que importa. - Disse tranquilizadora. - Só não se beijem na minha frente, por favor.
- Bom, não é como se estivéssemos tentando fazer isso. - Comentou Mitch.
- Vocês estavam num camarim que várias pessoas entram, o que significa que estavam fazendo um péssimo trabalho para esconder.
- Você que deveria ter batido!
- Mas eu já sou de casa. - Falei ofendida, fazendo com que ambos revirassem os olhos. - A Clare já sabe?
- Não. - respondeu Sarah. - Mas agora que você descobriu acho que não há muito sentido em continuar mantendo segredo.
- E você sabia esse tempo todo? - Perguntei para Harry, que assentiu.
Estalei a boca em sinal de reprovação.
- É que ele também nos flagrou. - Explicou Mitch. - Acho que realmente não somos muito bons em esconder.
- É uma pena. – Falei. - Se eu tivesse descoberto antes poderia ter pedido dinheiro em troca do meu silêncio.
- Por que não pensei nisso? - Perguntou Harry.
- Porque você já é milionário. - Respondi, fazendo com que Sarah e Mitch rissem.
- Acho que tá na hora da gente ensaiar. - Comentou, mudando de assunto.
Seguimos conversando até chegarmos no palco, me certifiquei de tranquilizar minha amiga e reafirmar que eu não estava brava, sugerindo formas de como ela poderia contar para Clare e Adam que ainda não sabiam.

*****

Já faziam alguns anos que eu havia me mudado para Los Angeles e talvez por isso eu era desacostumada com invernos rigorosos, lá a estação era amena e normalmente não impedia com que as pessoas saíssem pelas ruas. A turnê estava passando pela Europa agora e a temperatura estava baixando já que nos aproximávamos de dezembro e consequentemente do inverno.
Estava do lado de fora do teatro e observava as fãs que já estavam aglomeradas no local, Harry inclusive tinha comprado chocolate quente para todas as meninas que estavam esperando na fila desde cedo, o que não pude deixar de achar muito admirável.
Levei as mãos até a boca e soprei dentro da concha que fazia, esfregando-as numa tentativa de aquecê-las, já que não podia usar luvas por causa da câmera que carregava. Peguei o objeto em mãos e comecei a tirar fotos daquela fila que ficava cada vez maior.
Boa parte das meninas carregavam cartazes que aparentavam ter sido cuidadosamente feitos, eu particularmente achava divertido ficar lendo tudo que haviam escrito, principalmente porque eram comum ver alguns um pouco indecentes.
Era costumeiro também ver fãs carregando a bandeira do seu país em questão, estávamos na França, mas também era possível ver imigrantes de diferentes lugares do mundo representando seu país de origem.
Apesar de não ter muita oportunidade de sair e conhecer os lugares que estavamos passando, Paris parecia uma cidade encantadora e incrivelmente iluminada a noite, parecia uma cidade que eu poderia tranquilamente passar horas e horas caminhando pelas ruas.
Inspirei profundamente o ar gelado, sentindo meu nariz doer. Coloquei as mãos no bolso, encontrando a foto que pedi para que minha mãe me enviasse há alguns dias.
A fotografia em questão já possuía alguns bons anos. Nela, a minha versão mais nova carregava um sorriso triste, ao meu lado, um menino de olhos verdes esboçava a mesma tristeza, meu melhor amigo.
Tínhamos tirado aquela foto no dia em que me mudei para Durham, pois queriam registrar a mudança.
Deixei com que um suspiro triste escapasse de meus lábios. Apesar de aparentar estar bem com o fato de Harry não lembrar, eu não estava. Saber que eu carregava tudo aquilo durante anos sozinha era difícil, mesmo que não fosse tão frequente, eu lembrei de Harry durante minha infância, adolescência e fase adulta. E ele não.
Quando pedi para minha mãe me mandar aquela foto, estava decidida a ajudar o cantor a se lembrar. Talvez a foto despertasse algo em sua mente, mas o medo de passar o mesmo constrangimento do dia em que perguntei se lembrava de mim era muito forte. Sem falar no quão magoada ficaria em não ver o reconhecimento nos seus olhos outra vez.
Guardei a fotografia no bolso, na esperança de um dia ter a coragem de falar com Harry sobre ela. Mas aquele definitivamente não era o dia.
Antes que congelasse do lado de fora, levei a mão até a maçaneta e girei uma, duas, três vezes. Trancada. Tentei puxar a porta e nada, na esperança de que alguém fosse ouvir do outro lado, esmurrei a porta o mais alto que conseguia, ato esse que acabou sendo em vão.
Não demorou muito para eu perceber que a porta só abriria por dentro e que o único jeito de entrar, era se alguém aparecesse. Eu não podia ligar para ninguém da banda já que estavam fazendo a última passagem de som antes do show, estavam ocupados e com certeza não escutariam o barulho do celular, contrariada, procurei entre os meus contatos o número de Alex.
- Alô? - Atendeu.
- Alex, sou eu, . – Respondi. - Pode me fazer um favor?
- Claro, qual?
- Perto da sala de equipamentos tem uma porta que leva para fora do teatro, preciso que você a abra para mim, fiquei trancada do lado de fora.
- Ok, me dá dois minutos.
Abracei os braços me protegendo do frio enquanto esperava o rapaz, parecia extremamente pontual já que em poucos minutos, abriu a porta, enfiando apenas a cabeça para fora.
- Qual é a senha?
- Me deixa passar ou você tá demitido. - Falei rabugenta.
- É essa mesmo. - Respondeu risonho, abrindo passagem para que eu entrasse.
- Não se esqueça que você vai substituir uma das meninas hoje. Qualquer coisa você pode me pedir ajuda.
- Obrigada.
- Sua câmera está na sala de equipamentos, posso te mostrar como ficou. - Falei pro rapaz, que assentiu.
- ... – Começou. - Sei que você não quer falar sobre. Mas... você se arrepende? Daquela noite?
- Não. - Respondi com um aceno. - Eu só gostaria de manter as coisas um pouco mais profissionais.
- Acha que podemos ser amigos?
- Nós podemos ser amigos. - Falei sorrindo. - Se você parar com as piadas.
- Não posso fazer promessas que não posso cumprir. - Respondeu fazendo com que eu desse um empurrãozinho no seu ombro.
- Vamos, temos algumas coisas para organizar antes do show começar.

Harry

Eu não era o maior fã de sair após os shows, turnês eram cansativas o bastante com todos os ensaios, entrevistas, viagens e fuso horário. Contudo, naquele dia a última coisa que queria fazer era voltar pro quarto de hotel, já que eu sabia que no momento que ficasse sozinho, eu voltaria a pensar em Camille e na briga que tivemos.

Quando a fama veio, eu aceitei que muitas coisas mudariam. A parte mais difícil era, com toda a certeza, a falta de privacidade. Havia começado a carreira de cantor cedo e desde a adolescência não sabia mais como era sair sem ser fotografado, com o passar do tempo, consegui aprender a como evitar perseguições indesejadas.
Como minha privacidade foi tirada de mim muito cedo, agora que era adulto ela era uma das coisas que eu mais priorizava, foi por isso que quando minha namorada resolveu falar pro mundo que estavamos juntos, fiquei magoado.
Eu esperava pelo menos um simples aviso, uma conversa antes, queria que tudo aquilo tivesse sido discutido. Eu não podia dizer que não entendia o lado de Camille, imaginava o quão cansativo era ter que se esconder frequentemente, mas aquela era uma decisão importante para ser tomada sozinha.
Soltei o ar que estava segurando pela boca e disquei os números que eram gravados na minha memória, não demorou muito para que atendesse.
- Hey, babe! - Atendeu animada. - Tá tudo bem?
- Tudo sim. – Respondi. - Como estão as coisas em Nova York?
- Exaustivas. - Reclamou, pude sentir que realmente continha cansaço no tom de voz da mulher. - Estava fazendo algumas fotos para nova campanha da Vogue pouco antes de você ligar... Mas enfim, já chegaram em Paris?
- Não se sobrecarregue. - Falei obtendo um “pode deixar” como resposta. - Cheguei no hotel tem alguns minutos.
- Você deveria estar descansando. - Repreendeu.
- Queria falar com você. - Respondi passando as mãos no cabelo. - E conversar sobre a foto.
- O que tem a foto?
Antes de responder, pigarreei algumas vezes tentando ganhar tempo e coragem para dizer o que queria. Também estava pensando numa estratégia de dizer aquilo de forma que Camille não entendesse mal e tampouco ficasse magoada.
- É só que... Eu acho que a gente devia ter conversado antes de você postar essa foto, sabe?
- Eu sei muito bem onde essa conversa daria, sweetie. Além do mais, todo mundo já sabe que estamos juntos mesmo.
- Você sabe o que eu penso sobre essa exposição... - Tentei argumentar.
- Harry, qual o problema? É só uma foto.
- Eu só acho que você poderia ter falado comigo antes e... - Antes que eu pudesse continuar, me interrompeu.
- Quer dizer que eu preciso pedir sua autorização para postar algo?
- Não é isso, mas é minha vida pessoal sendo exposta sem eu nem saber!
- A vida também é minha, sweetie. - Respondeu, dessa vez claramente usando um tom pejorativo ao me chamar do apelido.
- Cams, eu..
- Sabe, Harry, eu estou cansada. – Desabafou. - Você nunca tem tempo para mim, eu sempre preciso mudar minha rotina, minha agenda para ver você! E aí você ainda me liga para brigar?
- Camille eu estou em turnê, eu não posso viajar para te ver.
- Mas eu posso? Você acha que sua carreira é mais importante que a minha?
- Eu não disse isso. Eu não estou pedindo muito, só acho que deveríamos decidir esse tipo de coisas juntos, é preciso de duas pessoas para formar um relacionamento..
- Uau, é realmente engraçado ouvir isso vindo de você. - Falou com puro escárnio na voz. - Eu sou a única que se move no nosso relacionamento! Abandono meus compromissos e sempre vou atrás de você. Tem ideia do quão sozinha você tem feito eu me sentir?
Apenas escutei em silêncio tudo que Camille dizia, incapaz de interromper minha namorada, que parecia liberar algo que estava guardado já há algum tempo.
- Você vive falando que não quer viver da mesma forma que vivia na One Direction, que queria viver sem todas aquelas regras, mas você é travado, só tem olhos para o seu trabalho!
Ouvir todas aquelas coisas doíam, doía saber que Camille tinha guardado toda aquela mágoa calada, doía saber que ela estava chateada daquela forma e principalmente por saber que tudo que ela falava era realmente verdade. Instantâneamente passei a repensar muito do que o nosso relacionamento tinha sido nos últimos meses e o quanto eu realmente tinha posto minha vida pessoal totalmente de lado em função da turnê.
- Por que você nunca me disse nada disso antes? Eu não fazia ideia que você se sentia assim, você nunca me falou isso antes.
- Porque você nunca tem tempo para mim! Porque eu não queria te indispor, porque eu me importo com você e não queria te chatear, mas até eu tenho um limite, Harry! - Pelo tom de voz, podia ver que segurava o choro que estava entalado na garganta, ouvir sua voz embargada quebrava meu coração de formas que eu não conseguia descrever.
- Cams, eu sinto muito. Eu não fazia ideia.
- E como você poderia se nunca prestava atenção na sua própria namorada?
Todo o estresse e frustração que eu estava sentindo antes daquela ligação havia desaparecido completamente, deixando espaço apenas para um sentimento latente de tristeza e decepção, não com a Camille, mas comigo. Eu não a culpava por não ter falado, pois eu carregava o fardo de não ter notado os problemas que estavam nos rodeando, não havia notado tudo o que ela tinha feito por mim e pelo relacionamento nos últimos meses, por tudo isso, eu me senti o maior babaca narcisista do mundo.
- Eu prometo melhorar, Cams, vou me esforçar mais.
O silêncio que sucedeu essa frase foi extremamente agonizante, minha boca estava seca e eu sentia uma sensação terrível na boca do estômago.
- Harry, estou cansada. Não estou vendo mais sentido, não estou mais vendo benefícios na nossa relação. Não posso mais ficar mudando minha agenda para ir atrás de você, não posso mais lidar com esse sentimento de solidão, esse relacionamento a distância. Cansada de tentar ter a aprovação da sua mãe e também ser ignorada.
- Do que você está falando? Ela nunca falou que não gosta de você ou algo do tipo.
- E precisa? - Perguntou triste. - Nunca consegui conversar com ela por mais de dois minutos durante todo o tempo que ficamos juntos.
- Desculpa não ter sido suficiente para você.
- É, você não foi.
Ouvir aquilo fez com que meu estômago queimasse, não sabia por que, mas uma parte de mim esperava que Camille fosse falar que não, que apesar de estar magoada, eu havia sido suficiente. A sua fala fez com que eu compreendesse o rumo que as coisas estavam tomando. Depois de um curto período onde ambos se manteram calados, a modelo resolveu ser a primeira a se pronunciar.
- Vamos dar um tempo.
- Eu não acho que essa seja a melhor solução...
- Para mim é, e a partir de agora eu vou fazer o que é melhor para mim. - Disse firme. - Veja isso como uma oportunidade para você repensar suas prioridades.
- Cams…
- Tchau, Harry. Me ligue quando você quiser um relacionamento de verdade.

Sacudi a cabeça tentando afastar aquela discussão pela milésima vez no dia da cabeça, por mais que eu tentasse, todas aquelas palavras pareciam ter criado raízes profundas, me atormentando sempre que tinham a oportunidade.
Os meninos decidiram por ir em um bar karaokê, eu apenas concordava com todas as sugestões que faziam, a única coisa que eu queria era ir para um lugar onde tivesse álcool suficiente para que eu pudesse afogar toda a sensação ruim que estava sentindo. Estava decidido a me divertir com meus amigos.
Fomos todos para o hotel e combinamos de nos encontrarmos no saguão dentro de 45 minutos, tempo suficiente para que pudéssemos tomar banho e vestir algo um pouco mais apropriado.
Mitch e eu fomos os primeiros a descer, nos acomodando em um dos sofás enquanto esperávamos. O hotel tinha todo clima romântico que fazia jus a fama parisiense, os pilares eram cobertos por flores que variavam dos mais diversos tons de rosa e roxo, na verdade, em todo canto que você olhasse, você encontrava vasos e decorações com variados arranjos. O centro do lobby era ocupado por uma enorme fonte que me trazia uma sensação calma devido ao barulho constante de água, as paredes eram pintadas de branco e traziam uma sensação de luz e aconchego e, por fim, o teto era decorado por enormes lustres que deviam custar mais que a estádia.
Não demorou muito para que Sarah, Clare, e Adam descessem todos bem agasalhados devido ao frio que fazia na França.
- Eu me sinto intimidada. - vinha reclamando. - Eu sou a única desafinada!
- Ninguém liga para isso - Clare falou.
- Claro que não ligam, vocês cantam bem. - Pirraçou.
- Vamos, , para de drama. - Falou Sarah, empurrando a mulher pelos ombros até sairmos do hotel.
O caminho até o karaokê era curto, mesmo assim, decidimos chamar dois táxis para ir até o local, com medo que algum fã nos reconhecesse e que isso gerasse qualquer tipo de aglomeração.
Paris era linda a noite, a cidade era completamente iluminada e mesmo que já fosse tarde da noite, as pessoas ainda andavam alegremente pelas ruas, grupos de amigos conversavam e riam enquanto conheciam o lugar e alguns casais caminhavam confortavelmente aproveitando o clima romântico que a cidade proporcionava. Por um breve momento, quis que Camille estivesse ali comigo, por um momento, desejei ser um dos casais despreocupados que andavam por ali...
Mas assim que o pensamento veio, fiz questão de levá-lo para longe, afinal, o propósito de ter aceitado sair naquele dia tinha sido justamente para não pensar no que havia acontecido.
Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, já havíamos chegado no bar. Parecia ser um lugar particularmente famoso em Paris, já que tinha um grande fluxo de pessoas. Tomando cuidado, passamos rapidamente pela onda de pessoas que se encontravam no salão principal, seguindo direto para sala privada que nos aguardava.
Era uma cabina razoavelmente pequena, como todas as outras, mas com certeza era aconchegante. Todo o ambiente possuía uma coloração rosa suave, inclusive o enorme sofá de canto tinha a mesma cor. A sala também contava com três pequenas mesas de centro com uma variedade de bebidas dispostas sob a mesma.
Logo que entrei, mirei na garrafa de whiskey que pairava em uma delas. Na verdade, todos pareciam interessados em álcool, exceto por que estava distraída comendo alguns petiscos.
- Achei que você fosse beber para conseguir cantar. - Comentei.
- Estou saindo dessa vida. - Falou séria. - Eu e o Espírito Santo fizemos um acordo depois do que aconteceu a última vez que bebi.
- O que aconteceu? - Indaguei curioso.
- Isso é entre eu e o Espírito Santo.
Revirei os olhos devido sua teimosia, tentando enterrar minha curiosidade.
- Quem vai primeiro? - Perguntou Sarah.
Mitch e Adam aceitaram, alegando terem preparado uma surpresa para me animar. Me arrumei no sofá, prestando atenção no que estavam fazendo. Quando escutei os primeiros acordes de What Makes You Beautiful, não consegui segurar a risada por muito tempo.

You're insecure
Don't know what for
You're turning heads when you walk through the door
Don't need make-up, to cover up
Being the way that you are is enough

As meninas dançavam animadas ao meu lado, seguindo a letra da música com os rapazes. Especialmente que gesticulava e pulava em cima do lugar em que estava.
- Não sabia que gostava da One Direction. - Comentei risonho.
- Gosto sim.
- Aposto que eu era seu membro favorito. - Falei convicto.
- É o Zayn.
- Quê? Como assim? - Perguntei ofendido, sentindo uma pontinha de mágoa.
- É, ué. Ele é bonito, a voz dele é maravilhosa. – Falou. - Um xuxuzinho.
- Nossa! - Comentei magoado. - O golpe sempre vem de quem a gente menos espera mesmo.
começou a rir do meu drama, sacudindo a cabeça em negação.
- Estou brincando. Você era meu favorito.
- Quer dizer que eu também sou um xuxuzinho?
- Um xuxuzão. - Falou dando uma piscadela e enchendo a boca de batata.
A música já estava quase na metade quando os rapazes tiveram a brilhante ideia de me chamar até ao palco, me entregaram um microfone e fizeram questão de me acompanhar na letra.

Baby, you light up my world like nobody else
The way that you flip your hair gets me overwhelmed
But then you smile at the ground it ain't hard to tell
You don't know oh oh
You don't know you're beautiful

O lugar já havia virado uma bagunça, dançávamos animados enquanto as meninas batiam palmas e soltavam gritinhos, vezes ou outra Sarah se empolgava e berrava elogios para Mitch.
Quando terminamos, nos atiramos no sofá, completamente ofegantes depois de tanto pular.
- Uau, mais dois membros e vocês já podem formar a nova One Direction. - brincou Clare.
- Acho que os fãs não aceitariam muito bem. - Falei rindo.
- E aí, ? - Começou Clare. - O que acha de cantar comigo?
- Acho que estou muito sóbria para isso.
- Para de graça, estamos todos meio bêbados já. Ninguém vai julgar você. - Disse Sarah, que já tinha as bochechas levemente rosadas e os braços enlaçados no pescoço do namorado. Agora que finalmente haviam assumido o romance, era difícil se desgrudarem.
- Levanta, vai. Vamos escolher a música.
O bar proporcionava uma espécie de livro, não demoraram muito até selecionarem uma canção, alegando que tinham escolhido um clássico.
As batidas de Girls Just Wanna Have Fun começaram a tocar, as mulheres se mexiam no ritmo da música e balançava os braços tentando aliviar o nervosismo. Clare foi quem começou a cantar.

I come home in the morning light my mother says "when you're gonna live your life right?"
Oh mother dear we're not the fortunate ones
And girls, they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun

ficou encarregada de cantar a próxima parte, quando começou, realmente era desafinada como havia avisado previamente. Mas não foi isso que me causou incômodo.

The phone rings in the middle of the night
My father yells "What you gonna do with your life?"
Oh daddy dear, you know you're still number one
But girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have fun

Conforme ia cantando, mais o meu coração parecia comprimir dentro do meu peito. A familiaridade daquela cena era angustiante, o jeito que cantava, a forma como fechava os olhos e como se balançava animada com a música.
Momentos como esse pareciam se tornar cada vez mais recorrentes quando estava perto de , ela era tão confiável e era tão confortável ficar perto dela. Mas naquele momento, olhando para ela... Eu sentia saudade, e não era de Camille.
Tomei um gole de bebida que desceu amarga na garganta, tentando afastar o sentimento de tristeza. Apesar da melancolia que me atingia, não conseguia desgrudar os olhos daquela cena, queria lembrar, queria entender a fonte daquele sentimento. E também por sentir que se eu desviasse, meu coração arderia ainda mais.
Quando decidi sair naquela noite, estava decidido a não pensar em Cams, queria esquecer aquela briga e a culpa que eu trazia. Imaginava que faria isso bebendo e rindo com as pessoas que eu gostava, não pensei em nenhum momento que uma angústia seria substituída por outra que estava bem na minha frente.

*****

e Mitch me ajudaram até que eu estivesse devidamente seguro e sem risco de quedas dentro do táxi, pelo o que havia entendido, iria comigo até o hotel enquanto Sarah, Mitch, Adam e Clare seguiam para aproveitar um pouco mais a noite de folga.
com certeza era quem estava mais apta para ajudar quem quer que fosse. De todos, era a que menos tinha bebido, mantendo seu acordo com o Espírito Santo.
- Você tá bem? - Perguntou, o tom de voz demonstrando estar genuinamente preocupada.
- Uhmm. – Murmurei. - Desculpa por fazer você precisar cuidar de mim.
- Aqui, toma um pouco de água. - Falou, abrindo a garrafa que tinha em mãos e se aproximando de mim em seguida, colocou a mão no meu pescoço para me auxiliar e eu não pude evitar o arrepio que atingiu o local com o toque quente da mulher, que felizmente passou despercebido. Nem eu saberia explicar o que tinha acontecido.
O caminho de volta foi tão rápido quanto o da ida, assim que chegamos, abriu a porta do seu lado e se dirigiu até onde eu estava, me dando apoio para sair do carro. Passei o braço direito pelo o ombro da fotográfa que passou o seu pela minha cintura, e assim seguimos até adentrar o hotel. Vez ou outra, podia ver as caretas que fazia ao ter que suportar parte do meu peso, o que não pude deixar de achar engraçado.
- Tá rindo do quê, Styles?
- Das caretas que você tá fazendo. - Respondi.
- Prefere que eu deixe você cair no chão? – Perguntou, brava.
- De forma alguma. - Falei adotando uma expressão séria no mesmo instante.
Passei um tempo concentrado analisando suas expressões faciais, ainda carregando uma leve queimação no peito. Estava séria e se concentrava em me ajudar, tinha um vinco entre as sobrancelhas e mantinha os lábios crispados. Deixei um sorriso estampar meu rosto ao observar o esforço que fazia, se perguntasse o porquê de eu estar sorrindo, diria que era efeito do álcool, já que eu também usava daquela desculpa para mim mesmo.
Subitamente senti uma leve pontada na cabeça e, então, parecia que havia sido levado para 17 anos atrás.

Encarei a menina emburrada que mantinha os braços cruzados e batia o pé direito de forma ritmada no sofá da sala de estar da casa, seus pais tentavam manter um semblante sério, mas brava era sempre algo cômico de ver, já que raiva não combinava com a aparência meiga que tinha.
- Ele debochou das minhas sardas! - Falou ultrajada.
- Ele é um bobão. - Falei dando de ombros, arrancando um sorriso da menina.
- Caso ele continue te incomodando, nos avise e nós falaremos com a diretora da escola, certo? - Falou Felicity em um tom calmo, recebendo a confirmação da menina pouco depois.
Um garoto novo tinha entrado na nossa turma e ele e não tinham se dado bem de primeira e frequentemente discutiam, naquele dia em questão, o menino havia a chamado de estranha devido as sardas que tinha.
- Suas sardas são lindas. - Falei, passando o braço direito pelo ombro da garota que sorriu agradecida.

Quando voltei aos meus sentidos, apertava o botão do elevador que levava até o 5º andar. Foquei novamente no rosto de , buscando por algo, e lá estava.
- Suas sardas são lindas. - Falei.
Pareceu ter sido pega de surpresa por um momento, mas logo abriu um sorriso largo em agradecimento.
- Você tá precisando descansar. - Falou desviando o assunto, tentando disfarçar o rosto corado. Para evitar constrangimentos, apenas concordei com o que tinha dito.
continuou me carregando até chegarmos na porta do meu quarto, tateei o bolso do casaco e entreguei o cartão de acesso para ela que se certificou de acender a luz assim que entramos.
Com pressa e sentindo todo o cansaço do dia abater meu corpo, me joguei de qualquer jeito na cama, buscando conforto. Senti algo nos meus pés e deduzi que fosse tirando minhas botas, já que nem isso eu tinha conseguido fazer.
A escuridão do sono veio mais rápido do que eu esperava, a inércia começando a me abater.
- ?
- Diga.
- Não me abandone, por favor. - Falei, sem realmente ter controle das minhas palavras.
- Do que você tá falando? - Perguntou rindo. - Não sabia que você era sonâmbulo.
- Eu vou ficar muito triste se você for embora mais uma vez. - Murmurei, baixo demais para que alguém pudesse escutar. E então eu apaguei.





Continua...



Nota da autora: Oi, meus amores! Estão todas bem? Eu estava com saudades!
Estou tentando cumprir minha promessa de manter um ritmo um pouco mais constante de atualizações, esses últimos dois capítulos foram bem difíceis pois foram de transição, mas era algo necessário. Agora a história vai realmente andar! Preparem o coraçãozinho hehehe.
Não esqueçam de me contar o que acharam desse capítulo, amo ler os comentários de vocês e teorias de vocês!
Kissy <3





Nota da beta: Ah, não, Aurora, isso não se faz... Você simplesmente jogou uma bomba dessas assim, eu não estava preparada, meninaaa! Socorroo!
Tá acontecendo, eu esperei tanto por isso, ele se lembrou! E essa frase final? Aiii, eu não tô bem! Finalmente a Cams saiu, ‘tô muito feliz por isso também! Ansiosa pelo próximo! <3


Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


comments powered by Disqus