Última atualização: 23/11/2019

Capítulo 01

Nunca fui como as outras pessoas, que trocam de profissões várias vezes até realmente decidirem o que querem, sempre fui apaixonada pela fotografia, desde que era criança e havia ganhado uma pequena câmera de plástico dos meus pais. Agora, com 23 anos, sabia que estava vivendo meu sonho. Sendo conhecida profissionalmente, trabalhando com artistas e pessoas de grande influência, não me importava em passar horas trancada dentro de estúdios realizando photoshoots, ou inclusive me submeter a situações desfavoráveis e as vezes até perigosas, pois era feliz fazendo isso. Claro que, apesar de estar satisfeita com minha atual situação, não podia dizer que era completamente realizada profissionalmente. Era uma dessas pessoas que achava que sempre podemos conquistar mais e que contentamento não leva ninguém para frente.
Eu era conhecida profissionalmente, sabia agir perto de pessoas famosas, havia passado parte da minha vida estudando para isso. Então por que diabos eu sentia aquela ansiedade? Afinal, seria apenas mais um trabalho, eu sabia o que fazer. Mas desde que havia recebido aquela ligação, não conseguia parar de repeti-la várias e várias vezes na minha cabeça:

O píer de Santa Mônica em Los Angeles era um dos maiores atrativos da cidade, sendo uma das primeiras paradas dos turistas e também um local muito escolhido como um ponto de fotos, em qualquer momento do dia você encontraria várias pessoas tentando sua melhor pose e sorriso em uma selfie, sem contar que possuía uma das melhores vistas da cidade. Não só isso, também era uma ótima opção de passatempo e eu particularmente gostava de passear pelo lugar, fotografando todos os rostos novos e curiosos que estavam de passagem. Vez ou outra, gostava de simplesmente perder horas olhando para o mar, apreciando a calmaria que me trazia. O lugar é simplesmente um daqueles clichês que valem a pena.
Fui tirada dos meus devaneios pelo toque incessante do meu celular, antes de atender o aparelho, pude perceber que a ligação era de um número desconhecido:
- Alô?
- Boa tarde, gostaria de falar com . - A voz do outro lado da linha soou educada e muito formal ao mesmo tempo.
- Está falando com ela. - Respondi, esperando que a pessoa se apresentasse e falasse do que se tratava aquela ligação.
- Bom, , meu nome é Henry Campbell, faço parte da equipe de assessoria do cantor Harry Styles, o motivo da minha ligação é que, estamos procurando uma fotógrafa para trabalhar com o cantor. Harry gostou muito do seu trabalho com Ed Sheeran, e gostaríamos de te encontrar para que possamos conversar melhor, temos uma proposta para te fazer.
Eu havia trabalhado com Ed Sheeran havia pouco mais de um ano, fizemos um trabalho maravilhoso para a QG britânica, Ed era uma pessoa muito gentil e simpática, trabalhar com ele foi uma ótima experiência que abriu muitas portas para minha carreira.
Ao ouvir o nome de Harry, foi impossível conseguir conter as memórias que invadiram minha mente.
- , não quero que você se sinta pressionada a responder agora. - Continuou. - Sugiro que nos encontremos primeiro. Você conhece o Urth Caffé?
- Sim, sei onde fica.
- O que acha de nos encontrarmos lá amanhã às 15:00? Fica bom para você?
- Claro, é perfeito. Agradeço por pensarem em mim, Henry. Nos vemos em breve.
- Até lá.
Mesmo após desligar, continuei mais alguns minutos segurando firmemente o aparelho em mãos, tentando de alguma forma acalmar o caos que havia se formado em minha mente devido aos sentimentos que aquele nome trazia.

Eu não era uma pessoa vaidosa, quer dizer, eu gostava de me arrumar como qualquer pessoa gosta, gostava da sensação de me sentir bonita. Mas fazia meia hora que eu me encontrava sentada olhando para meu guarda-roupa, carrancuda e aparentemente esperando que magicamente alguma roupa viesse até mim, sem que eu precisasse tomar decisão alguma.
Decidida a parar de enrolar, peguei um macacão preto que combinei com uma blusa que deixava meus ombros a mostra, junto com boa parte das minhas tatuagens. Apesar de ser uma “reunião”, não quis utilizar de nada muito sofisticado, afinal, eu estava indo conversar com um assessor num café e não indo para uma entrevista de emprego com um CEO numa multinacional.
Estava quase na hora de ir encontrar Henry e eu decidi que iria até a cafeteria a pé, coincidentemente o lugar que ele havia escolhido ficava perto do meu apartamento, o que foi vantajoso para mim.
O local escolhido era bem movimentado e eu mesma já havia ido lá algumas vezes, a parte de fora do café possuía algumas mesas que continham guarda-sol para proteger os clientes ao ar livre do sol forte que fazia na Califórnia. Apesar do tempo agradável, escolhi ficar na parte interna, pois tinha um fluxo menor de pessoas. Por dentro, o café era ainda mais bonito, o local possuía um estilo vintage muito aconchegante e também continha diversas janelas espalhadas para ajudarem na iluminação.
As paredes também tinham um tom creme e eram cobertas de quadros, dando um charme a mais ao lugar. Querendo ter um pouco mais de privacidade, escolhi uma mesa que ficasse um pouco mais ao fundo, onde não havia tanta gente e, consequentemente, tanto barulho.
Enquanto esperava, sentia o nervosismo começar a me abater, minhas palmas suavam e eu tentava amenizar esfregando minhas mãos em minhas pernas. Eu ainda tinha uns bons minutos até que o assessor chegasse, decidi então falar com minha mãe, única pessoa que eu sabia que seria capaz de me distrair até a reunião começar.
Durante momentos de estresse era quando eu mais sentia o peso da falta que meus pais me faziam, especialmente minha mãe. Não havia um dia em que eu não sentia sua falta.
Sempre fui muito próxima dos meus pais e agora enfrentava uma realidade onde tinha que passar meses sem vê-los.
Incomodada com o sentimento de saudade que me abatia, disquei o número que me era muito familiar, no terceiro toque, minha mãe atendeu:
- Oi, querida. Eu estava prestes a ligar para você. - Atendeu, conseguia sentir a felicidade na voz de minha mãe falando comigo, mesmo que fizesse isso praticamente todos os dias.

- Parece que eu senti saudade primeiro. - Respondi risonha.
- Você está tentando competir comigo? - Disse com uma voz falsamente brava. - Como está a vida na Califórnia?
- Está boa... - Ponderei por alguns segundos, pensando se contaria ou não a notícia para minha mãe. - Estou perto de fechar um trabalho novo. Na verdade, estou agora mesmo no local de encontro, esperando que cheguem.
- É mesmo? Com quem? Eu conheço? É algum artista que sou fã? É COM O LEONARDO DICAPRIO - Disparou, eufórica. Minha mãe possuía dois amores na vida dela, o primeiro era meu pai, o segundo era Leonardo DiCaprio.
- Mãe, respira, por favor. - Em meio a risadas, tomei fôlego para continuar. - Sinto muito, mas não é o Leonardo DiCaprio.
- E quem é?
- É uma surpresa.
- , me poupe. - Ficou em silêncio por alguns segundos. - É seu namorado?
- Eu não tenho namorado.
- Nenhumzinho? - Disse provocativa. - Tem certeza? Eu queria tanto um genro.
- Lamento, mas você vai continuar querendo. - Eu conseguia visualizar direitinho a carranca que se formava no rosto da minha mãe naquele momento.
- Você é sem graça. - Respondeu brava.
- Enfim, mãe. Não foi para isso que liguei, - Soltei um longo suspiro. - Estou nervosa.
- Oh, querida. Eu tenho certeza que vai dar tudo certo, você é maravilhosa e eu tenho muito orgulho de você.
- Obrigada. Estou com saudade. - Disse chorosa.
- Nós também estamos, querida.
- M-mãe, desculpa. Preciso desligar, mais tarde nos falamos. - Desliguei apressada, pois, naquele momento, pude avistar ao longe o homem que eu imaginava ser o assessor, e o motivo de eu ter certeza de quem era, se dava pelo fato de que, logo atrás, estava Harry.

Holmes Chapel, Cheshire - Inglaterra.

17 anos atrás

A Inglaterra é conhecida pelos seus invernos rigorosos que cobriam as cidades de neve e, agora que havia finalmente diminuído seu fluxo, eu e Harry imploramos as nossas mães que nos deixassem brincar lá fora, usando do argumento de que tínhamos pouco tempo juntos até a mudança e precisávamos aproveitar. Depois de muito choramingar, finalmente conseguimos a permissão que tanto queríamos e disparamos porta fora, ansiosos. Queríamos tentar construir nosso primeiro boneco de neve, pouco nos importando com o frio.
- Sabe, eu acho que se nós pedíssemos o suficiente sua mãe deixaria você morar com a gente. - Começou Harry, desde que tinha recebido a notícia da mudança, meu amigo tentava com muito esforço pensar em alguma solução que me permitisse ficar ao seu lado.
- Hazza.. - Usava do seu apelido para que não ficasse bravo ou magoado com o que eu diria a seguir, - Você acha mesmo que minha mamãe vai querer me deixar?
Após soltar um suspiro pesaroso, Harry parou de me ajudar na construção do boneco de neve e juntou nossas mãos, balançando as para frente e para trás num ato infantil e carinhoso.
- - Chamou com a voz levemente chorosa. - Você promete que não vai esquecer de mim?
- Eu prometo, Harry. – Respondi. - Promete que não vai também?
- Eu prometo de dedinho. - Respondeu e, assim que o fez, desgrudou nossas mãos para levantar seu dedo mindinho coberto pelas luvas que usava, levando o braço na altura do meu, a fim de selar a promessa que havíamos feito. Quando entrelacei nossos dedos, Harry abriu um sorriso enorme que deixava suas charmosas covinhas em evidência, tornando impossível a tarefa de não sorrir também.

Eu me recordava perfeitamente do dia que tínhamos feito aquela promessa, éramos apenas duas crianças inocentes, procurando uma forma de tirar o peso que aquela mudança nos causava. Apesar de me lembrar, sabia que não podia cobrar isso de Harry. Fizemos aquilo há 17 anos.
Por mais que tentasse me convencer do contrário, eu esperava sim que ele me reconhecesse. Patética e esperançosa demais? Talvez. Não que eu fosse admitir isso para alguém, afinal, eu tinha meu orgulho.
É claro que já havia pensado em Harry muitas outras vezes no passado, como não pensaria em alguém que vive com a cara estampada em programas de tv ou revistas que até mesmo eu já havia trabalhado?
Eu tinha visto todo o avanço da sua carreira, desde o dia que cantou “Isn’t she lovely?” no The X Factor até o dia em que o mundo inteiro ficou sabendo que a One Direction havia acabado e que cada um, a partir daquele momento, seguiria carreira solo.
Não que eu acompanhasse a carreira dele. Claro que não.
Conforme se aproximavam da mesa em que eu me encontrava, pude ver Harry melhor. Ele era alto agora, o cabelo era propositalmente arrumado para que parecesse “bagunçado”, usava uma camiseta estampada que tinha os três primeiros botões abertos, junto com calças jeans apertadas e botas. Não sabia descrever o que senti no momento em que o avistei, era um sentimento diferente. Éramos tão pequenos quando nos falamos pela última vez…
Ao chegaram até a mesa, o primeiro a falar foi Henry, o assessor do cantor.
- É um prazer conhecê-la, . - Disse estendendo a mão para que eu o cumprimentasse.
- Igualmente. - Retribui.
- Olá, . Eu sou o Harry. - Falou, abrindo aquele sorriso ladino que lhe era característico e que mostrava suas adoráveis covinhas.
- É um prazer, Harry. - Respondi.
Havia apenas uma coisa me incomodando. Por que ele se apresentou? Estava apenas sendo educado ou não se lembrava de mim?
Enquanto nos sentávamos, tentava tirar aquelas questões da minha mente. Sabendo que mais cedo ou mais tarde eu descobriria se ele se recordava de mim ou se realmente havia esquecido.
- Então, , seremos diretos. - O assessor começou. - Você sabe porque estamos aqui. Gostamos muito do trabalho que fez com Ed Sheeran e também do seu portfólio. - Harry se limitou a apenas acenar a cabeça em concordância.
- Fico feliz, é gratificante saber que meu trabalho rendeu tantos elogios. - Continuei educada e legitimamente feliz com o que escutava.
- Vamos a proposta, então. Eu gostaria de poder dizer que você terá tempo para pensar e nos responder, pois sabemos que é algo grande, mas infelizmente o trabalho começa em duas semanas e tempo é um luxo que nós não possuímos neste momento.
- ... - Harry disse, finalmente se pronunciando. - Nós queremos que você seja a fotógrafa oficial da Live on Tour. A primeira turnê da minha carreira solo.



Capítulo 02

Faltavam algumas horas para que precisasse sair de casa e me deslocar até o local de encontro, onde partiríamos para a cidade onde o primeiro show da Live on Tour aconteceria, que era em San Francisco. Eu já estava com tudo pronto, meu equipamento já estava devidamente organizado, embalado e pronto para ir. Tudo estava em ordem, com a exceção da minha mala. Afinal, o que você precisa levar para passar praticamente um ano fora?
- Eu não acho que você precisa levar muita coisa, afinal, você sempre pode fazer compras nos países novos que vai visitar. - Minha amiga disse.
Allyssa era minha melhor amiga e uma das primeiras pessoas que conheci quando me mudei para Califórnia, nos conhecemos quando fui trabalhar para a revista onde ela atua como produtora de moda e, desde então, não nos desgrudamos. Desde que eu havia contado que passaria um ano fora, ela não havia saído do meu lado, me ajudando com todos os perrengues que encontrei.
- Você sabe que não gosto de fazer compras. - Respondi com uma voz tediosa. Eu gostava de ter roupas novas, mas passar horas andando de loja em loja era um pouco demais para minha paciência.
- Lamento ser a pessoa a ter que te falar o óbvio, mas você não tem roupa para tanto tempo aí. - Me limitei a apenas lhe lançar um olhar feio, até porque ela tinha razão e eu não poderia mesmo contestar.
- Queria poder levar você comigo, talvez te esconder em uma das minhas malas. - Lamentei me sentando ao lado de Ally e encostando minha cabeça em seu ombro, eu ainda nem tinha partido e sabia que sentiria sua falta, ficar longe dos meus amigos era algo que conseguia tirar um pouquinho do meu ânimo de ir.
- Você até poderia, eu acho que consigo entrar naquela ali. - Falou apontando para maior mala que tinha no chão, me fazendo rir levemente. - Eu te perdoo se você me trouxer um autógrafo do Harry.
- Credo, como você é interesseira.
Continuei mexendo no meu guarda-roupa, tentando selecionar o que mais levaria, e me esforçando para arrumar tudo o mais rápido que podia, já que eu deveria estar com tudo pronto. Pelo o que eu havia entendido, nos encontraríamos em Downtown Los Angeles, onde eu pegaria um carro enviado pela produção que me levaria até o The Masonic, em San Francisco.
Eu não via a hora de chegar no auditório, me sentia animada em estar começando algo totalmente diferente de tudo que eu já havia feito, seria um ano desafiador e eu gostava disso.
Mil coisas se passavam pela minha cabeça, estava ansiosa para conhecer toda a equipe, queria conhecer as pessoas com quem eu iria conviver durante aquele um ano e me perguntava se eu iria gostar deles e eles de mim. Eu tinha certeza que seria uma experiência mais do que enriquecedora, afinal, eu conheceria diversos países, mesmo que não estivesse indo a passeio.
No final, eram quatro malas. A maior delas continha todo o equipamento que eu julgava necessário para trabalhar na turnê. As outras três se resumiam a roupas, acessórios e maquiagens. Ainda tinha muita coisa que eu estava deixando para trás, mas era impossível conseguir levar absolutamente tudo.
Com a ajuda de Alyssa, colocamos todas as malas no elevador até que chegássemos no térreo e então, no estacionamento onde estava o carro da minha amiga, que tinha concordado em me levar até o local de encontro.
Assim que deu partida no carro, deixei com que meu olhar ficasse fixo na janela, observando a paisagem de Los Angeles pelo o que eu achava que seria uma última vez, pelo menos por algum tempo. Sentiria falta da cidade e do seu clima quente constante, da alegria que sempre exalava. Em qualquer canto que você olhasse em LA, você encontrava um artista. Tinha do pintor até o dançarino, do mímico até o músico, e por aí vai. Arte era algo que nunca faltava.
Estava absorta demais nos meus pensamentos para notar que havíamos chegado até nosso destino, sendo acordada pelo barulho do freio de mão sendo puxado, fazendo com que eu olhasse para Ally.
- Nervosa? - Perguntou, já sabendo muito bem da resposta. Era realmente difícil esconder a ansiedade que começava a tomar conta.
- Estou.. - Comecei. - Mas estou feliz também e animada.
- Você vai arrasar, . Eu tenho certeza disso - Disse me encorajando. - Acho que você precisar ir.
Acompanhei seu olhar até encontrar o motorista me esperando do lado de fora de um Ford Explorer preto. Com toda coragem que possuía, abri a porta para sair do carro, ao mesmo passo que o motorista se aproximava.
- ?
- Sou eu. - Com um leve sorriso, levantei a mão para cumprimentar o homem à minha frente.
- Sou Dominic, sou o motorista encarregado de te levar até o auditório. - Disse dando um leve aceno de cabeça. - Vou levar suas malas até o carro.
Quando o motorista saiu, me virei até minha amiga, puxando-a para um abraço apertado, tentando espantar a tristeza da despedida.
- Juízo, ok? Nada de fazer coisas imprudentes em países estranhos, viu, Dona . - Começou, listando mil outras recomendações, entre elas pedindo para que eu, por favor, não esquecesse de lhe trazer um presente ou um autógrafo.
- Vou sentir sua falta, por favor, não arrume nenhuma outra melhor amiga enquanto eu estiver fora, se não, sem presentes para você.
- Pode deixar. - Separamos nosso abraço e enquanto acenava. Fiquei observando ela até que entrasse no seu carro e partisse, fazendo com que eu me dirigisse até onde o motorista me esperava.
San Francisco, aqui vou eu.

*******

Apesar de já morar na Califórnia há alguns anos, nunca tinha visitado San Francisco antes, o que julguei ter sido um grande erro assim que cheguei. A cidade era muito bonita e possuía diversas árvores e palmeiras espalhadas pelas ruas, onde várias pessoas iam e vinham. Além disso, as faixas continham trilhos onde os bondinhos trafegavam juntamente com os outros veículos, lotado especialmente com visitantes tão encantados quanto eu estava.
Desejando poder olhar a cidade com os olhos mais atentos e calmos, me contentei a apenas contemplar tudo pela janela do carro, tentando captar todos os detalhes que conseguia, extremamente fascinada com o estilo vitoriano que possuía.
Não demorou muito para que chegássemos até o auditório onde o show aconteceria, o local possuía uma arquitetura muito bonita e sofisticada na parte externa, me deixando curiosa para conhecer a parte interna, imaginando que também ficaria surpresa com o seu interior.
Assim que o motorista estacionou o carro, logo tratei de saltar, pegando apenas a mala que tinha meus equipamentos, sentindo muita dificuldade em conter a euforia que se alastrava. Esperei até que o homem saísse do veículo, me guiando no momento seguinte até a sala onde eu sabia que parte da equipe de Harry me aguardava.
Como imaginava, o local era extremamente elegante por dentro, as paredes do teatro eram mescladas em tons de marrom e dourado e tinha cadeiras do mesmo tom. No teto, grandes lustres pendiam, deixando o ambiente bem iluminado e com um ar aconchegante.
Todos os instrumentos da banda e equipamentos necessários já estavam devidamente organizados no palco, algumas pessoas da produção ainda corriam para lá e para cá, apenas ajustando os últimos detalhes que ainda faltavam, já que em apenas algumas horas, o The Masonic estaria lotado por fãs, sendo que muitos deles já esperam ansiosos na parte de fora do auditório.
Seguimos por um corredor estreito que nos levava até a parte traseira do auditório, onde estava maior parte da equipe e, também, os camarins.
Dominic parou em frente a uma porta completamente preta, indicando com a cabeça para que eu entrasse. Assim que coloquei a cabeça para dentro da sala, avistei dois homens, um deles era o assessor que havia me contratado, o outro era Jeffrey Azoff que, depois das devidas apresentações, eu descobri ser o empresário de Harry.
Os rapazes logo trataram de me deixar a par de tudo, me explicando de forma calma meu papel na turnê. Boa parte do meu trabalho envolvia passar maior parte do tempo com Harry, fotografando tudo que fosse de interesse. Eu tinha que admitir que não era um trabalho nada ruim, já que Styles não era uma visão ruim para os olhos.
Depois que Jeffrey e Henry saíram da sala, decidi tirar minha câmera da mala e comecei a organizar e limpar tudo para que pudesse iniciar meu trabalho. Em alguns minutos eu teria que tirar algumas fotos de Harry juntamente com a sua banda, que era chamada de CHASM.
Levemente distraída, me assustei ao ouvir a porta abrir repentinamente, revelando um Harry confuso ao ver que eu não era quem ele procurava.
- Ah, ! - Começou, levemente envergonhado. - Achei que Jeffrey estivesse aqui...
- Ele estava, saiu agora pouco. - Respondi e, aproveitando o momento a sós, resolvi indagar a pergunta que não saia da minha cabeça desde que nos encontramos no café.
- Harry... Você se lembra de mim?
A expressão de Harry passou de envergonhada para confusa, ao mesmo passo que coçava a parte de trás da cabeça, aparentemente tentando lembrar de alguma forma se me conhecia de algum lugar.
- Nós éramos melhores amigos quando crianças, nossas casas eram próximas uma da outra e vivíamos juntos... - Disse, tentando refrescar sua memória, mas pelo semblante que mantinha, era visível que ainda não se recordava.
- - Falou cuidadoso. - Sinto muito, mas realmente não tenho nenhuma lembrança com você.
Quando nos reencontramos, a desconfiança de que Harry não possuía recordação nenhuma minha veio de forma quase imediata. Apesar de já saber no fundo, nada me preparou para a mágoa e decepção que sentia ao receber a confirmação.
Ainda que estivesse triste, eu sabia que a tristeza não se dava pelo fato dele ter esquecido, e sim porque eu não havia. Numa última tentativa de resgatar sua memória, disse:
- Estudamos juntos Holmes Chapel Comprehensive School..
E, ao perceber que ele não se lembraria, desisti de perguntar algo mais, temendo comprometer ainda mais minha dignidade que, naquele momento, já era quase nula.
Antes de continuar, limpei a garganta, me certificando de que minha voz não falharia devido a vergonha que sentia por ter perguntado aquilo.
- Acho que seria melhor se a gente fingir que essa conversa nunca existiu, não tinha a intenção de te deixar numa posição delicada. - Antes que tivesse a oportunidade de responder, continuei: - Acredito que Jeffrey esteja no palco, resolvendo alguns problemas com a produção, irei terminar de organizar as coisas por aqui e já encontro com você e a banda para que possamos começar.
- Certo, obrigado. - Agradeceu e antes que pudesse sair completamente, colocou parte do corpo pela fresta da porta, apenas para completar: - E , você não me deixou em uma posição delicada, tenho certeza que teremos tempo suficiente para nos conhecermos e também, tempo para que eu me lembre de você.
E com isso, Harry se retirou. Fazendo com que eu ficasse pensando se ele havia dito aquilo apenas por educação ou se realmente significava algo. Isso seria algo que só o tempo poderia me dizer, de qualquer forma.
Assim que terminei de me arrumar, sai da sala contendo minha câmera que era suspendida por uma faixa presa ao meu pescoço. Quando retornei ao salão, toda a banda já estava lá fazendo a última passagem de som antes do show começar, quando cheguei, consegui reconhecer a melodia de “Sign of the Times”.
Me contentei a apenas ficar ao lado do palco os observando, esperando até que finalizassem a última canção.
Quando terminaram, fui capaz de perceber os diversos olhos curiosos em minha direção. A banda de Harry era formada por mais quatro pessoas além dele mesmo. Clare e Sarah eram tecladista e baterista da banda, respectivamente. Mitch era o guitarrista da banda e também co-autor de boa parte das músicas do álbum, restando Adam que era o responsável pelo baixo.
Sarah e Clare eram extremamente simpáticas e fizeram com que eu me sentisse acolhida instantaneamente, puxavam assunto e pareciam verdadeiramente interessadas em me conhecer.
- Então, , há quanto tempo você trabalha com fotografia? - Indagou Clare.
- Profissionalmente faz quatro anos, mas a paixão veio desde pequena. - Falei orgulhosa da profissão que havia escolhido.
- Você é da Inglaterra, não é? O seu sotaque é igualzinho ao do Harry! - Comentou Sarah, não fazendo ideia de que eu, na verdade, era mais similar ao Harry do que ela imaginava.
- Sim, na verdade, também cresci em Holmes Chapel, mas passei maior parte da minha vida morando em Durham.. - Revelei, lançando um olhar discreto ao rapaz que conversava distraidamente com os outros integrantes da CHASM.
- Uau, que mundo pequeno. - Sarah falou enquanto a amiga balançava levemente a cabeça em concordância. Naquele momento, eu fazia muito esforço para segurar a risada que queria sair devido a ironia daquilo tudo, esquecendo um pouco o quão magoada havia ficado minutos mais cedo.
Após passar mais alguns minutos conversando com as meninas, a prosa infelizmente precisou ser interrompida já que todo mundo precisava se arrumar para o show. Cada integrante seguiu para o seu devido camarim e depois de alguns minutos fui chamada até o camarim de Harry, pois era hora de eu entrar em cena.
Anunciei minha chegada com três batidinhas na porta, recebendo a autorização que esperava apenas alguns segundos depois. A primeira coisa notável no camarim do cantor era o quão espaçoso era, a sala contava com um grande sofá de couro que aparentava ser extremamente confortável. Mais a frente, podia ver uma enorme penteadeira, que tinha desde produtos de cabelo, a maquiagem e também alguns perfumes.
Logo que terminei de analisar rapidamente a sala, meu olhar automaticamente recaiu sobre Harry, que estava... Bem, muito bonito. Vestia um terno de fundo branco decorado com diversas rosas, combinado com uma camiseta de botões também branca, o cabelo devidamente arrumado em um topete bagunçado davam o toque perfeito a sua aparência. Harry possuía um estilo diferente, não que isso fosse de alguma forma ruim.
- Nervoso? - Indaguei, em uma tentativa de puxar assunto.
- Era de se esperar que eu não estivesse, já que eu faço isso há anos.. Mas devo dizer que estou um pouco sim, nunca fiz isso sozinho antes.
- Tenho certeza que vai dar tudo certo e que você vai se sair bem, é sua primeira turnê solo, o frio na barriga é mais que compreensível. - Falei apaziguadora, me sentindo satisfeita ao ver que minhas palavras tiveram um efeito positivo no cantor, que agora esboçava o seu característico sorriso torto em forma de agradecimento.
- Obrigado. - Apenas balancei a cabeça como resposta, mostrando que não havia nada demais.
Não demorou muito para que o resto da banda chegasse no camarim, ficariam lá até que o show começasse, o que não demoraria muito, tendo em vista que a apresentação de abertura já começava a se encaminhar para o final. Aproveitando o momento de distração, peguei minha câmera e comecei meu trabalho. Passaria completamente despercebida se não fosse o talento que Harry tinha para descobrir exatamente quando tinha uma câmera apontada para si. Vendo o que eu estava fazendo, começou a fazer graça no mesmo momento, Styles não se continha nas poses, que complementava com caras e bocas, que me renderam boas fotos e boas risadas.
A bagunça teve que cessar com o aviso da produção de que estava na hora, no segundo seguinte a banda se reuniu para um rápido abraço grupal, desejando sorte uns para os outros e um bom show. Ao desmanchar o abraço, cada um seguiu seu caminho até o palco, que estava coberto com uma cortina. Os membros da banda silenciosamente se posicionaram em frente aos seus respectivos instrumentos, até mesmo Harry que começaria o show tendo uma guitarra em mãos. Do lado de fora, era possível ouvir os gritos ensurdecedores das fãs que já haviam notado os movimentos no palco. Assim que os primeiros acordes de “Ever Since New York” eram tocados, os gritos foram potencializados. Styles não cantava sozinho, era acompanhado por fãs que entoavam a música com paixão.
Eu me mantinha na parte central e lateral do palco, tirando fotos tanto da banda quanto dos fãs. The Masonic estava especialmente mais bonito agora com todas aquelas pessoas cantando, dançando e se divertindo. Era possível avistar boa parte dos cartazes que eram levantados com a intenção que o cantor os visse, tinha os mais clichês que apenas teciam amor e elogios a Harry, e até mesmo aqueles de meninas que escreviam cantadas e flertes, dentre outras coisas.
Era maravilhoso ver a energia que Styles emanava enquanto cantava, realmente demonstrava o quanto amava o que fazia e que se divertia fazendo. Eu havia escutado boatos de que Harry era narcisista em relação ao trabalho e vê-lo em ação me fez entender o porquê.
Vez ou outra, o cantor interrompia as canções e resolvi entreter o público apenas conversando e fazendo gracinhas, lia cartazes, tecia comentários sobre os mesmos e contava até mesmo piadas. Era visível que se esforçava para conversar com a maior quantidade de fãs que podia, perguntava seus nomes e tentava conhecer cada um pelo menos um pouquinho. Ver o quão atencioso era com sua audiência fazia qualquer pessoa derreter, era visível o carinho e amor que tinha por quem o acompanhava e isso era extremamente admirável. Saber que a fama não havia tornado o meu amigo de infância em um adulto arrogante era reconfortante de formas que eu não conseguia explicar. Harry havia crescido, mas o coração permanecia o mesmo.
Apesar de termos perdido o contato há anos, eu não podia evitar em sentir orgulho. Ele havia conquistado seu sonho e era mundialmente reconhecido por todo o trabalho que teve até atingir a tão esperada recompensa. Gostava de pensar que Harry também teria orgulho por eu ter crescido e realizado meu sonho, se ao menos se lembrasse.
Resolvi espantar os sentimentos ruins ao mesmo tempo que Harry começava a cantar “What Makes You Beautiful”, canção que eu sabia ser uma das mais conhecidas da One Direction, canção essa que na verdade os colocou nos holofotes. O astro havia modificado parte da melodia da música, agora possuía um pouco do seu estilo próprio, o que não surtiu muito efeito no público, já que cantavam a plenos pulmões a versão que era da sua ex-banda.
Eu tentava capturar toda a empolgação que o público emanava, fotografando de perto a reação de alguns dos fãs, imaginando como seria em dias que o show não ocorreria num auditório e sim em alguma arena.
O show agora ia se encaminhando para o final e a música de encerramento era o single de maior sucesso da sua carreira solo, “Sign of the Times”. Enquanto cantava, agora todo mundo tinha as lanternas ligadas, deixando o The Masonic completamente iluminado e proporcionando ainda mais emoção a música. Para finalizar, Harry agradeceu a presença de todos, mandando beijo para todas as pessoas na plateia, e antes de sair do palco disse:
- Thank you. I love you all. Treat people with Kindness. Goodbye. - Acenando uma última vez e finalmente rumando até os fundos, seguindo os outros integrantes que também se retiravam.

*******

Animada após encerrar o primeiro dia de trabalho, Clare sugeriu que fossemos até algum pub comemorar, o que todos concordaram de imediato. Exceto por mim, que como boa preguiçosa, precisei de alguns incentivos para ir.
Como eu não conhecia absolutamente nada da cidade, me abstive da discussão sobre qual lugar escolher. Eu ainda me sentia envergonhada pela conversa com Harry de hoje cedo, então qualquer bar que eu pudesse beber até esquecer meu vexame estaria de bom tamanho.
O Mikkeller era um bar aparentemente bastante conhecido e bem frequentado de San Francisco, possuía um estilo simples, mas que ao mesmo tempo passava uma imagem sofisticada, era decorado com balcões e mesas de cor preta e tinha uma iluminação aconchegante. O local ainda contava com diversas opções de jogos para entreter seus clientes, tinha mesas de sinuca, dardos, drinking games e o jogo que chamou a atenção de todos nós: poker.
- Todo mundo pensando a mesma coisa que eu? - Harry disse exibindo um sorriso malicioso, já entregando que seu lado competitivo estava a todo vapor.
- Com certeza. - Respondi entrando na onda, afinal eu reconhecia que também não ficava para trás quando o assunto era competição.
Nos sentamos a mesa de forma que Harry ficasse como dealer, responsável por dar as cartas durante a partida. O começo sempre se iniciava de forma calma, cada jogador recebia duas cartas e as apostas começam de forma baixa puramente para que a partida pudesse iniciar. Ainda que fosse cedo para considerar minha mão boa ou não, decidi que além de cobrir o valor inicial, eu também iria aumentar.
Mesmo gostando muito de poker, eu sabia reconhecer que o jogo exigia muita concentração e inteligência, além de que você precisa ter familiaridade com as regras do jogo, o que sinceramente não era meu forte. A minha habilidade era o famoso blefe.
O problema era que, ao jogar com pessoas extremamente midiáticas, era que eles também sabiam mentir muito bem, já que eram até treinados para tal.
Na terceira fase da rodada, chamada de Turn, a penúltima carta comunitária era posta a mesa, carta essa que me permitiu formar um one pair, o que não era ruim, mas também não era uma mão que garantisse minha vitória, já que Harry e Mitch continuavam firmes nas suas apostas e Styles, principalmente, não parecia disposto a desistir.
- Vamos lá, . Você nos representa agora. - Sarah falou lançando um olhar feio aos rapazes, que Harry retribuiu apenas balançando a mão em sua direção, em sinal de descaso.
Enquanto discutiam, comecei a pensar no próximo movimento que faria, sendo competitiva como era e querendo colocar um Styles muito convencido em seu devido lugar, eu não queria desistir, o que significava que teria que colocar minhas habilidades de blefe a prova, torcendo para que acreditassem.
- Harry, eu cubro sua aposta e aumento 50. - Movimentei as fichas até o centro da mesa, onde o potse encontrava, na esperança de assustar meus oponentes. O que funcionou com Mitch que optou por desistir.
- Nem queria ganhar mesmo. - Reclamou emburrado enquanto cruzava os braços e se recostava na cadeira.
O cantor, entretanto, continuava com a feição serena, não esboçando reação nenhuma ao que havia acabado de fazer. A quarta fase do poker era chamada de River, nessa fase, a última carta comunitária era posta e o final da partida era decidido.
- Eu aposto tudo. - Falei, finalmente arrancando uma reação surpresa de Harry, que parecia completamente abismado com o que eu havia acabado de fazer, se dando por vencido, colocou suas cartas na mesa e anunciou sua desistência, fazendo com que eu abrisse um sorriso que mostrasse quase toda minha arcada dentária.
- O que você tem? - Indagou contrariado, sem conseguir disfarçar o quanto odiava perder.
- One pair. - Disse, virando as cartas na mesa, rindo no mesmo segundo em que Harry mostrava sua cara de total indignação, ao passo que seu rosto ficava vermelho.
- Essa é sua mão??? Eu desisti de uma TRINCA para um ONE PAIR? - Esganiçado e inconformado por ter caído, Styles virou seu drink todo de uma vez, fazendo uma careta ao terminar.
- Você nunca ouviu falar de uma coisa chamada blefe? Se quiser eu posso te ensinar.
- Sabe, , você não sabe ganhar. - Retrucou magoado com as provocações.
- Por que está chorando, Harry Styles? - Indaguei em tom de deboche, vendo o cantor se limitar a apenas revirar os olhos. - Sabe, Harry, me desculpe. Não fica triste, foi um bom jogo!
- Você diz isso porque ganhou!
- Exato, será que você poderia repetir isso, por favor? - Pedi risonha, decidindo que aquela seria a última provocação, já que quase conseguia visualizar espuma saindo de sua boca e fumaça de suas orelhas.
Durante as provocações, não notei que Clare, Sarah, Mitch e Adam haviam se retirado da mesa e se encontravam em uma disputa para ver quem era o melhor em dardos, o que não gerou bons resultados considerando que estavam todos bêbados.
- Acho que nunca vou ser capaz de confiar em você, como pôde blefar daquele jeito? - Indignado, Harry chamou novamente minha atenção até ele, que ainda estava magoado.
- Eu ofereci te ensinar... - Vendo que não achou graça da minha piadinha, bufei para o homem à minha frente. - Eu sei uma forma de você confiar em mim. Que tal um jogo amigável? Eu te falo algo sobre minha vida e você tenta adivinhar se estou mentindo ou não e vice-versa. Quem errar, tem que tomar um shot de tequila, que tal?
- Hmmmm.. - Harry parecia avaliar a proposta com verdadeiro interesse, tinha uma das mãos cheia de anéis sobre o queixo e o esfregava levemente. - Fechado.
- Ok, ok. Eu começo. - Falei animada enquanto batia palminhas. - Eu morro de medo de borboletas.
- Isso não pode ser verdade. - Harry respondeu, fiz um sinal com a mão que indicava que ele deveria beber, já que era realmente verdade. - Como alguém tem medo de borboletas? Elas são inofensivas!
- Uma vez quando era pequena, minha avó disse que as asas de uma borboleta liberam um pó que poderiam te deixar cega. - Expliquei com a maior cara de deslavada que possuía, já que eu mesma reconhecia que as chances de uma borboleta me deixar cega eram inexistentes, não que eu fosse admitir isso em voz alta, é claro.
Harry virou o shot de tequila todo de uma vez, não conseguindo conter o desgosto no rosto, já que todos terminamos o poker já levemente alterados, eu sabia que nós iríamos nos arrepender dessa decisão no dia seguinte, nenhum dos dois sairia sóbrio desse jogo.
- Eu já passei mais de dois dias sem tomar banho. - O homem confessou e eu contorci meu rosto em uma expressão de nojo, ao mesmo tempo que ria do fato.
- Por mais que seja nojento, acredito que seja verídico. - Tentei adivinhar a resposta e meu semblante se encheu de orgulho ao ver que eu tinha acertado.
Conversávamos como se nunca tivéssemos perdido o contato, o assunto fluía de forma leve e Harry parecia ter um dom de me fazer rir até que minha barriga começasse a doer. Não conseguia me recordar da última vez que havia me divertido daquela forma, ou ficado bêbada daquela forma.
O que começou como algo inocente, logo tomou proporções desastrosas. A bebida já estava tão impregnada nos nossos sistemas que o filtro que tínhamos havia sumido completamente. Agora nós falávamos de coisas realmente vergonhosas e que, na manhã seguinte, com certeza seria motivo de chacota.
- Eu já… Fiquei detida na cadeia por uma noite. - Continuei, mantendo um sorriso travesso no rosto enquanto Styles pensava.
- Essa é difícil, você não tem cara de quem passaria uma noite presa… - Começou reflexivo. - Mas eu vou dizer que é verdade.
Acenei em concordância, fazendo com que o cantor perguntasse o que todo mundo sempre perguntava:
- O que você fez? - Indagou, sem conseguir esconder o choque estampado em sua face.
- É segredo.
- Eu realmente não acho que teremos segredos entre nós depois dessa noite. - Disse e eu precisei confirmar, já que o nível continuava descendo. - Minha vez! Eu já fiquei com pessoas do mesmo sexo.
- Claro que você já ficou, afinal, quem nunca? - falei e o vi balançando a cabeça. - Mas vou tomar um shot, pois estou com sede.
Virei a bebida como se realmente estivesse apenas tomando água para matar a sede, o que me arrependi instantes depois, minha cabeça girava e eu tinha certeza que meu limite já havia sido atingido.
- Eu perdi minha virgindade com 15 anos. - Contei e fazia os números um e cinco com a mão.
- É VERDADE! - Exclamou empolgado, fazendo com que eu mexesse a cabeça em concordância.
- Eu sinto que se beber mais uma gota de tequila eu morro. - Confessei, realmente me sentindo extremamente nauseada.
- Poxa, agora que eu estava prestes a te contar minha posição sexual preferida. - Lamentou, fazendo com que eu risse escandalosa, soluçando no final.
Afundei meu corpo na cadeira, eu me sentia exausta e o mundo inteiro girava ao redor de mim, mas isso não fazia com que eu quisesse parar de conversar com Harry por um minuto sequer.
- ? - Chamou, fazendo com que abrisse os olhos e o encarasse, enquanto murmurava "hum?" em resposta. - Tem um cílio na sua bochecha. Pera, deixa que eu tiro para você.
Harry levantou do seu lugar e sentou em uma cadeira do meu lado, empurrando-a ainda mais em minha direção e ficando em uma distância que eu particularmente achava perigosamente próxima. Quando o homem se inclinou para perto do meu rosto, pude sentir minha respiração parar ao mesmo passo que Harry passava levemente o dedo na minha bochecha, ao perceber que estava sendo observado, o cantor levantou o olhar até que pudesse estar de encontro com o meu, que encarava cada detalhe do seu rosto.
Vendo-o tão de perto, eu atestava que realmente não tinha defeito algum, o seu cheiro era mais embriagante que todos os shots que havia tomado naquela noite, e ter seus olhos verdes apontados em minha direção me causavam um efeito que nunca achei que meu melhor amigo poderia me causar e, no fundo, eu esperava que tudo aquilo fosse só o efeito da tequila e rezava para que na manhã seguinte, ele voltasse a ser apenas… Alguém que eu não estava encantada.
- Você tem que fazer um desejo. - Disse, a voz que sempre tinha um tom rouco parecia ainda mais grave agora, enquanto eu via o dedo indicador de Harry no ar, esperando que eu fizesse o que ele tinha dito.
Não levei nem dois segundos para encontrar algo que desejava. Desde que soube que eu e Harry nos veríamos novamente, tudo que eu queria era que voltássemos a amizade que tínhamos. Agora que sabia que sofria de uma amnésia relacionada a infância, tudo que eu queria era que se lembrasse de quem eu era.
Fechei os olhos e assoprei o cílio que estava no dedo do rapaz e, quando os abri novamente, Harry me encarava com um olhar que esboçava sua curiosidade.
- O que você pediu?
- Eu não posso te dizer isso, se eu te disser, não vai se realizar. - Respondi risonha, tocando rapidamente o nariz do rapaz com o dedo indicador.
- Faz sentido. Por favor, me conta! - Falou birrento, fazendo com que eu apenas balançasse a cabeça em negação e cruzasse os braços.
Os quatro sumidos finalmente haviam voltado, anunciando que devíamos ir para nossos hotéis, o único problema era que, nenhum dos dois conseguia ficar de pé sem assistência.
- Eu acho que alguém exagerou nas doses. - Adam notou, olhando Harry como uma expressão quase brava. - Mitch, me ajuda com o bebum n°1, Clare e Sarah, por favor, cuidem da bebum n°2.
- Eu não preciso de ajuda, ok? Eu sou uma mulher forte e independente. - Numa tentativa de pegar impulso para levantar, apoiei meu dois braços na mesa, não durando nem dois segundos de pé até cair sentada novamente. - Ok, talvez eu precise de uma ajudinha.
Enquanto os rapazes ajudavam Styles a se erguer, Clare e Sarah se dispuseram ao meu lado, oferecendo seus ombros como apoio para que eu pudesse andar.
Tivemos que nos dividir em dois táxis pois, como éramos em seis, não cabíamos todos em um só. Sem falar que Harry não ficava no mesmo hotel que o resto da sua equipe, sendo assim, eu ficava no mesmo hotel que o resto da sua banda e produção.
Quando chegamos no hotel, as meninas fizeram questão de me levar até meu quarto, tirando meus sapatos e fazendo com que me deitasse e só saíram quando tiveram a certeza de que eu não faria nada imprudente.
Somando o cansaço da viagem e do dia de trabalho, ainda com o álcool presente no sangue, não demorou mais que dois minutos para que eu caísse no mais profundo e sereno sono.

******

Todas as ações que havia feito naquele dia tinham sido feitas no modo automático. Eu me movia a base de aspirina e muita água devido a ressaca que me abalava, a minha sorte era que, a viagem até a próxima cidade da turnê, que seria Los Angeles, era longa e eu tive tempo de sobra para descansar no conforto do ar-condicionado do ônibus. Eu e Harry nos falamos poucas vezes ao longo do dia e no fundo eu agradecia por isso, já que ainda não sabia com que cara eu o olharia depois da noite passada.
Como eu já residia em LA há alguns anos, o Greek Theatre não era desconhecido para mim. Era um espaço um pouco maior que o The Masonic e eu mesma já tinha assistido alguns shows no local.
Quando chegamos, a banda imediatamente foi fazer a passagem de som, já que se apresentariam dentro de algumas horas. Aproveitei a oportunidade para sentar em um dos assentos do imenso teatro com a companhia do meu notebook, curiosa para olhar as fotos que tinha tirado no show anterior, ou traduzindo de forma melhor, as fotos que havia tirado de Harry.
As lembranças da noite passada ainda estavam frescas na minha memória e, apesar de dizer para mim mesma que o motivo pelo qual eu estava envergonhada se dava pelas informações um pouco íntimas demais que tinha trocado com o cantor, quando no fundo eu sabia que o real motivo era o meu encantamento descabido pelo meu ex melhor amigo.
Eu lembrava que, quando éramos pequenos, era comum escutar piadas dos adultos dizendo que quando tivéssemos idade, com certeza um namoro seria originado da nossa amizade. Nossas famílias faziam planos e acreditavam fielmente que um dia aconteceria:

Harry e eu éramos apaixonados por karaokê, sempre que possível, passávamos a tarde disputando quem sabia mais músicas e quem cantava melhor. Anne e minha mãe sempre ficavam divididas entre separar a briga ou dar risada.
- Haz, você é muito bobo! - Falei emburrada, pois já era a quarta vez que Harry me ganhava e eu nunca aceitava perder facilmente.
- , não fica brava. - Pediu manhoso e, ao ver que meu bico não iria se desfazer tão facilmente, se aproximou até que estivesse perto o suficiente para me puxar para um abraço, fazendo com que um sorriso contrariado brotasse no meu rosto.
- Filha, você não pode ficar emburrada toda vez que perde algo. - Começou minha mãe, repreendendo minha atitude mimada.
- Mas, mãe, eu não perdi só uma vez, foram quatro!
- Tudo bem, tia, eu consolo ela. - Harry respondeu, enquanto abanava a mãozinha no ar, mostrando que não se importava com meu comportamento.
- Vocês farão um casal tão lindo quando crescerem! - Anne chegou na conversa, suspirando sonhadora com a possibilidade.
- Eca, que nojo! O Harry é meu amigo! - Falei me desvencilhando de Harry, que pareceu levemente chateado com minha ação.
- , você vai ver só. Quando eu crescer, tenho certeza que você vai me amar. - Disse, convencido de que aquilo realmente aconteceria.

Fui despertada dos meus devaneios com a chegada de uma mulher desconhecida que já atravessava o teatro, era alta, tinha cabelos claros, olhos azuis e o porte físico de uma modelo e caminhava até mim.
- Olá, me chamo . Você é contratada nova da produção? - Perguntei simpática, sabendo que tínhamos pessoas novas na organização desse show.
- Prazer, . Me chamo Camille, sou a namorada do Harry.



Capítulo 03

Harry

Organizar uma turnê não estava sendo fácil. Eu era extremamente grato por tudo que estava acontecendo e eu não podia estar mais feliz por todo o sucesso da minha carreira solo e por toda retribuição e carinho que recebia dos fãs, entretanto, não ter mais quatro colegas de banda que carregavam a preocupação junto comigo era algo que eu considerava desafiador e difícil. O meu consolo era que, mesmo após a separação da One Direction, eu ainda trabalhava com pessoas maravilhosas que eu sabia poder contar. Principalmente Mitch que era um de meus melhores amigos.
Eu amava a sensação de estar em cima do palco fazendo aquilo que mais me deixava feliz no mundo, amava esse contato mais próximo que tinha com os fãs e também conhecer partes diferentes do mundo. Eu tinha certeza que havia nascido para fazer o que fazia. Infelizmente, como tudo na vida, minha profissão tinha o seu lado ruim, que com toda a certeza era o fato de ter que passar boa parte do tempo longe da minha família, amigos e agora, namorada.
Camille e eu namorávamos há alguns meses e, com a turnê e sua vida de modelo, o tempo que tínhamos juntos por vezes era escasso, o que tornava as coisas um pouco desgastantes. Ao chegarmos em Los Angeles para o primeiro show, eu tentava não pensar no tempo que passaríamos longe um do outro e tentava mentalizar que, pelo menos naquele dia, ficaríamos juntos.
A outra boa notícia era que minha mãe também me visitaria naquele dia, já que eu ainda teria algumas cidades dos Estados Unidos para passar antes de irmos para os shows na Inglaterra, era uma pena que Gemma estivesse ocupada e não pudesse vir também.
Estávamos passando o som para o show de mais tarde quando eu avistei a modelo conversando com uma que tinha uma feição surpresa no rosto. No mesmo instante, senti meu coração dançar dentro do peito, larguei o violão que segurava e corri em direção da mulher, que me olhava saudosa.
- Camille! - Chamei-a, descendo do palco em seguida para que pudesse a acolher em um abraço, fiquei alguns longos segundos com o rosto afundado no seu pescoço, apenas aspirando o cheiro doce característico que tinha, um dos meus cheiros preferidos e que me deixava inebriado como nenhum outro - Senti sua falta.
- Eu também senti a sua, babe. - Falou, dando um beijinho carinhoso em meu queixo. - Quando o terei só para mim?
- Ainda faltam mais algumas músicas, mas prometo que em breve - Respondi, fazendo um carinho leve no seu rosto.
- Ótimo. - Respondeu sorridente.
No minuto seguinte, todos os integrantes já tinham descido do palco para receber Camille, que retribuía todo o carinho.
Eu não era muito de ligar para o que os outros pensavam ou diziam, mas era reconfortante saber que meus amigos gostavam da minha namorada, pois tornava tudo muito mais fácil.
- Finalmente você chegou, agora o Harry para de nos incomodar com a carência excessiva dele - Adam falou, enquanto eu me limitava a apenas revirar os olhos.
- Todo mundo sabe que o verdadeiro amor da vida do Harry sou eu. - Mitch disse, fingindo estar com ciúmes, encarando-a com desprezo.
- Mitch! Era para ser segredo, ok? - Brinquei, entrando na onda.
- Ops.
- Não se preocupe, fico feliz em dividi-lo com você. - Camille respondeu.
- Fica, é? - Perguntei com uma mágoa totalmente fingida.
Por mais que todos quisessem conversar por mais tempo, pedi para que Camille aguardasse um pouquinho até que eu terminasse o que precisava fazer. A mulher se sentou na primeira fileira e prestava atenção em tudo que fazíamos, vez ou outra cantarolando junto comigo.
Varri o auditório com os olhos a procura de para que fizesse companhia a modelo, mas não a encontrei. Estranhei o fato pois, sabia que há dois minutos ela estava ali sentada com seu notebook no colo, mas tinha simplesmente desaparecido.
Foquei meu olhar na modelo que me encarava quase hipnotizada enquanto se movia ao som de "Kiwi", sorrindo ao perceber que eu a encarava.
Havíamos nos conhecido através de uma amiga em comum em uma festa. Passamos a noite toda juntos e mantivemos contato desde então. Desde que nos conhecemos havia se mostrado uma pessoa gentil e amorosa Era a primeira vez que eu estava em um relacionamento sério e relativamente longo e Camille parecia ser a pessoa certa para mim.
Exausto de ficar longe dela, deixei de lado a guitarra que segurava sob os protestos do resto da banda.
- Harry, onde você está indo? - Gritou Mitch.
- Preciso fazer um negócio, eu já volto.
Segurei Camille pela mão e a guiei até a sala onde era meu camarim, no final do corredor, quando finalmente chegamos, agarrei a cintura da mulher numa velocidade feroz, tamanha era a falta que sentia daquele contato. Guiei a modelo até o sofá e fiquei por cima, me ajeitando no meio de suas pernas.
Suas mãos seguravam firmes meus cabelos enquanto eu descia fazendo uma trilha de beijos entre seu pescoço e colo, demorando propositalmente mais na última parte.
- Ficamos tanto tempo sem nos ver.. Tem certeza que quer me provocar, Harry? - Perguntou sugestiva.
- De forma alguma.
Apressado, ergui meu tronco apenas para abrir os botões da camiseta que usava, um sorriso largo tomava conta de meu rosto ao ver que Camille olhava para meu corpo com pura luxúria e maldade nos olhos.
Voltei novamente a me deitar sob a modelo, minha mão direita passeava perigosamente por todo seu tronco. Cansado de perder tempo, adentrei a blusa da mulher, no momento que toquei na pele da sua barriga, pude sentir o arrepio que passou pelo seu corpo. Camille ergueu as costas e eu logo entendi o que ela queria, não demorando para tocar o fecho do seu sutiã.
Que eu teria tirado, se não fosse a batida da porta.
- Harry? - Imediatamente reconheci a voz que pertencia a minha mãe me chamando do outro lado da porta.
- Que hora maravilhosa.. - Praguejei baixinho ao sair de cima de Camille e ver o estado deplorável da minha calça.
- Harry, esconde isso! - Camille falou, rindo da minha situação, fazendo apenas com que eu olhasse sarcástico na sua direção.
- Não acha que já teria feito isso se pudesse?
- Harry? Está ai? - Chamou novamente, desta vez tentando abrir a porta que, obviamente, estava trancada.
- Só um minuto! - Respondi, usando um tom alto para que escutasse.
Recolhi a camiseta que tinha jogado em um canto do camarim, pacientemente abotoando a peça, tentando ganhar tempo para me recuperar. Morria de saudade de minha mãe, mas amaldiçoava diversas vezes o péssimo momento que havia escolhido para chegar.
Antes de abrir a porta, respirei fundo algumas vezes, me certificando de que estava tudo em ordem antes de abrir. Anne me esperava com um grande sorriso, me esmagando em um abraço carinhoso que aqueceu meu coração.
- Achei que chegaria só mais tarde. - Falei, fechando a porta em seguida.
- Resolvi chegar um pouquinho mais cedo para fazer uma surpresa, não sabia que tinha companhia - Falou, caminhando até a mulher que, até então, apenas observava a cena. - Como vai, querida?
Mesmo que eu já namorasse há algum tempo, Anne não era tão próxima quanto eu gostaria da minha namorada. Não que a minha mãe tivesse tratado Camille mal alguma vez, muito longe disso. Era extremamente educada e simpática e nunca havia demonstrado ter qualquer coisa sequer contra o relacionamento, apenas não eram amigas. O mesmo acontecia com minha irmã.
Minha mãe me contava todas as novidades que havia perdido, tanto dela quanto de Gemma. Apesar da fama e do dinheiro, minha mãe preferiu permanecer em Holmes Chapel, não por falta de oportunidade, pois eu já havia oferecido diversas vezes, principalmente após a morte do meu padrasto, que ainda era recente e uma ferida dolorosa. Mesmo com toda minha insistência, ela não arredou o pé da cidade, dizia ter suas amigas lá e queria preservar todas as memórias que havia feito na cidade, especialmente as com Robin.
Seguida também de algumas batidinhas na porta, uma completamente distraída entrou depois de ouvir meu “entra!’. Tinha um notebook em mãos e fones de ouvido pendurados no ouvido, o que indicava que provavelmente tinha passado todo esse tempo editando as fotos do show de San Francisco.
- Hey, Harry, olha só. Eu preciso que você aprove essas fotos do show de ontem para… - Ao perceber que eu não estava sozinho, se calou instantaneamente e direcionou o olhar para minha mãe, que estava sentada ao meu lado. - Que falta de educação da minha parte! Me chamo . , sou a fotógrafa da turnê.
Ao escutar seu nome, pude ver a boca de Anne se abrindo, a feição era de puro choque, como se estivesse vendo um fantasma na sua frente ao invés da minha fotógrafa.
- ? - Respondeu, ainda embasbacada. - Você não lembra de mim? Sou a mãe do Harry. Meu Deus, olha como está crescida!
Ao ver que minha mãe havia lhe reconhecido, arregalou levemente os olhos, aparentemente não esperando por aquilo.
- É claro que eu lembro de você, Tia Anne. - Disse gentil e sorridente, demonstrava estar tão feliz quanto minha mãe estava.
Eu observava a cena com genuína curiosidade, conforme conversavam, as peças finalmente foram se encaixando na minha cabeça. tinha falado que me conhecia, que fomos melhores amigos e que éramos vizinhos em Holmes Chapel. Apesar de não ter tido o interesse de verificar a veracidade do que ela tinha me falado, era estranho ver que era realmente tudo verdade. E mais estranho ainda porque eu ainda não me lembrava da mulher.
- Você está tão grande! Como o tempo passou.. E está tão linda! - Minha mãe, que agora estava muito mais perto de , fazia um carinho quase maternal na cabeça da mulher, que se mostrava extremamente satisfeita. - Sinto tanta falta de Felicity.. Como ela está, ? E seu pai?
- Estão todos bem, ela sente muito a sua falta também, tia. Ela lamenta muito ter perdido seu contato com o passar dos anos.
- Harry, por que não contou que sua nova fotógrafa era a ? - Indagou incrédula, mantinha as mãos na cintura e batia o pé direito num ritmo constante no chão, enquanto aguardava minha resposta.
Eu trocava olhares furtivos com a mulher que parecia segurar o riso ao ver a saia justa que minha mãe estava me pondo, nem tentando esconder a satisfação que sentia ao ver que Anne estava tomava seu lado.
- Eu não lembrava que nos conhecíamos. Ainda não lembro, na verdade. - Respondi sincero.
- Vocês eram melhores amigos, não se desgrudavam por nada nesse mundo! Você até nutria uma paixão platônica por ela!
Eu olhava para a fotógrafa que não expressava nem um terço do desconforto que eu sentia com aquela situação toda. Na verdade, me olhava com um olhar triunfante.
Eu, apaixonado pela ? E além de tudo, uma paixão platônica? Anne soava quase absurda.
- Você não está fazendo o menor sentido. - Falei, tentando tirar graça da situação. - , que tal uma ajuda aqui, por favor?
- Não sei do que você tá falando, Styles. O apaixonado era você. - Retrucou zombeteira, levantando as mãos em sinal de rendição, fazendo com que eu revirasse os olhos, descrente que estava me jogando debaixo do ônibus.
- Traidora. - Disse indignado, fazendo com que apenas desse de ombros, como se não pudesse evitar.
- Venha, , quero conversar com você sobre sua mãe. - Anne disse, puxando a garota pela mão porta a fora. - Daqui a pouco devolvo sua fotógrafa, Harry.
Me arrastei até o sofá novamente, caindo perto de Camille, que me olhava com a maior cara de escárnio que tinha.
- Babe.. Você não tinha me contado que sua fotógrafa é sua ex namoradinha de infância. - Falou em tom manhoso enquanto passava a mão por toda extensão do meu peito, fazendo desenhos aleatórios.
- Isso é porque ela não é minha namoradinha. - Respondi rindo do ciúme mascarado de Camille, que me olhava desconfiada. Eu a conhecia muito bem para saber que estava incomodada, mas que não daria o braço a torcer, orgulhosa que era.
- Sei.. - A modelo subiu no meu colo, colocando as pernas na lateral do meu corpo - Onde estávamos?
Sorri safado com a pergunta, voltando a beijar a modelo com devoção.

******

Estava recolhendo minhas roupas do chão quando escutei a notificação do celular de Camille, que fazia uma careta ao olhar a mensagem.
- O que houve?
- Nada demais, mas preciso ir. Nós marcamos uma reunião com uma editora e infelizmente eu preciso comparecer. - Respondeu dengosa, fazendo biquinho para que eu não ficasse chateado.
Resmunguei em protesto, mesmo sabendo que seria inútil, eu me sentia um pouco melhor se fizesse drama, segurei sua mão na leve esperança de que pudesse ficar, mas de nada adiantou.
Antes de se levantar, Camille me deu um selinho de despedida e, após pegar a bolsa, saiu. Me completamente deixando sozinho na sala e absorto em pensamentos. A conversa de momentos atrás ainda estava fresca na minha memória, me deixando mais reflexivo do que gostaria.
Como poderia ter me esquecido de uma pessoa que tinha sido, aparentemente, muito importante? Eu tentava de toda forma procurar por qualquer resquício de lembrança que poderia ter, e nada. Tentava encontrar algum sinal, alguma pista, qualquer coisa que pudesse acordar aquela memória, mas todo o esforço era inútil, tendo em vista que aquilo só estava funcionando para me deixar ainda mais irritado.
Inevitavelmente, comecei a pensar em como se sentia diante daquela história toda, me coloquei no seu lugar, pensando que eu odiaria lembrar e ter carinho por alguém que não podia retribuir tudo aquilo. Só de imaginar em como havia se sentido e o constrangimento que tinha passado, meu coração parecia apertar.
Frustrado, decidi que conversaria a respeito de tudo aquilo com Anne em algum outro momento, pois de nada adiantaria ficar me remoendo por tudo aquilo agora. Além disso, sentia que devia um pedido de desculpa para , que seria entregue mais tarde.
Espantei aqueles pensamentos com um leve sacudir de cabeça, dizendo para mim mesmo que, mais tarde, tudo seria resolvido. Eu faria questão de resolver.
Ciente de que me adaptar novamente ao ritmo de turnês seria difícil, decidi aproveitar raro momento livre para descansar. Tirei os tênis que calçava e me deitei confortavelmente no sofá, não demorando muito para cair no sono.

A neve havia derretido e o sol começava a finalmente dar as caras na gelada Inglaterra, a primavera era uma estação que particularmente gostava bastante, já que isso significava que as crianças finalmente poderia brincar na rua em paz. Harry empurrava alegremente sua bicicleta até uma casa que lhe era muito familiar, quando olhava para o lugar, seu coração se enchia com uma sensação de que aquele era seu segundo lar. Sem perder tempo, batia à porta de madeira com entusiasmo, esperando ansioso ver a pessoa que procurava.
Uma menininha que aparentava ter mais ou menos 5 anos de idade saiu do interior da residência parecendo tão alegre quanto o menino estava. A garota era simplesmente adorável. Como maior parte dos habitantes da Inglaterra, tinha a pele branca e sardas distribuídas por todo o rosto. Seu cabelo tinha um tom castanho claro que era um contraste para seus olhos escuros e expressivos, além de tudo, exibia um encantador sorriso banguela, que provavelmente era decorrente de um dente de leite que tinha resolvido cair.
- Só um minuto, Haz! Vou pegar meu capacete. - Falou, disparando para o interior da casa e voltando segundos depois com um capacete coberto de flores.
Devido a pouca idade, tinham autorização de andar apenas na rua de casa. Fazia pouco tempo desde que as rodinhas das bicicletas tinham sido removidas e ainda estavam na fase de adaptação, sendo necessário usar equipamento para que nenhum desastre maior ocorresse.
Apesar de todo o cuidado, nada preparou a garotinha para os resquícios de gelo que ainda estavam na rua em decorrência do recente fim do inverno, sem conseguir controlar o deslize, a bicicleta foi de encontro no chão, caindo em cima da pobre menina.
Prontamente, o Harry de cinco anos correu na direção do acidente, onde sua amiga chorava com a mãozinha segurando o joelho que agora sangrava. Desesperado, tentava com esmero acalmá-la.
- Hey, . Tá tudo bem, é só um machucadinho, olha. - Falou, tentando mostrar que o joelho estava bem e que era apenas um machucado superficial.
- Mas tá ardendo.. - Respondeu manhosa, o choro agora tinha cessado, mas o rosto ainda estava vermelho e continha dois traços debaixo dos olhos que tinham sido deixados pelas lágrimas, além de tudo, a menina mantinha um beicinho triste. - Você pode dar um beijinho para sarar? A mamãe sempre diz que ajuda.
- Claro que eu posso. - Disse de prontidão, tinha um olhar que transbordava carinho e genuína preocupação. Com cuidado, se aproximou do joelho da menininha e depositou um beijinho bem acima do machucado.
- Obrigada. - Ainda abalada, resolveu ficar mais um tempinho sentada onde estava, até que se sentisse pronta para levantar novamente, aproveitando o momento para puxar seu amigo até ele estar ao lado, repousando a cabeça no ombro do menino até se sentir melhor.

Em um só impulso, me ergui do sofá onde descansava, tinha a testa tão molhada que mechas do meu cabelo eram grudadas pelo suor repentino e minha camiseta branca não se encontrava muito diferente e eu hiperventilava. Um sentimento de tristeza profunda crescia por todo meu corpo como erva daninha e eu questionava de onde vinha tudo aquilo. Era só um sonho... Não era?

Enquanto buscava respostas para o sonho que acabara de ter, tentava compreender o que sentia. Não só a tristeza, eu sentia uma imensa saudade de um momento que eu sequer sabia se realmente tinha vivido, uma saudade que era capaz de fazer com que meu coração doesse de forma incômoda.
Contei até três e fiz esforço para controlar a respiração, a fim de me acalmar e organizar todos os pensamentos e perguntas que me cercavam. Quem era aquela menina? E por que eu parecia gostar e me preocupar tanto com ela? Lembrava com precisão o olhar que eu direcionava para a menina, a agonia em vê-la machucada era tanta que parecia que o acidente tinha ocorrido comigo.
Liguei o celular para checar o horário e percebi que não teria tempo de conversar com agora, já que em alguns minutos teria que começar a me arrumar para o show. Levantei do sofá e resolvi sair a procura de Mitch, pois precisava de alguma outra coisa para distrair minha cabeça.
Segui pelo corredor estreito do auditório e a algumas portas de distância da minha, estava o camarim da banda, só de escutar as risadas que vinham de dentro do cômodo, já me senti um pouco melhor, era disso que eu precisava, de amigos. Sem rodeios, abri a porta a minha frente e já fui logo entrando, sendo observado por Mitch, Adam, Clare e Sarah.
- Sinto saudade do tempo que você batia à porta antes de entrar. - Mitch disse, arrancando um olhar feio meu em resposta.
- Já somos íntimos o suficiente. - Respondi, piscando o olho na direção do rapaz, que me respondeu com um sorriso malicioso.
- Onde está Camille? - Indagou Sarah, estranhando o fato de eu estar sozinho.
- Ela tinha uma reunião para ir, mas diz que volta a tempo do show. - Falei num suspiro saudoso, me atirando no sofá ao lado de Adam e pegando um punhado de batatas do pacote que repousava no seu colo.
- Deve ser difícil ficar longe dela o tempo todo. - Sarah falou, fazendo com que eu apenas acenasse com a cabeça, sem muita vontade de prolongar o assunto.
- Ah, isso me lembra de algo! - Continuou. - Foi a que eu vi de altos papos com a sua mãe?
- Imagino que tenha sido, sim.
- Elas se conhecem? - Mitch disse, verbalizando o pensamento de todos na sala.
- Sim, na verdade.. - Me ajeitei no sofá, já me preparando para o bombardeio de perguntas. - e eu crescemos juntos em Holmes Chapel, quer dizer, até um determinado período.
- Por que ela não nos disse isso? - Clare exclamou indignada, sendo apoiada por Sarah. - Ou melhor, porque VOCÊ não nos disse isso?
- Não quero falar sobre isso.
- Qual é, Harry? Termina a história. - Adam falou, dando um empurrão em meu ombro como incentivo, em meio a suspiros, continuei.
- Porque a verdade é que eu não lembro da . Eu só sei disso porque minha mãe a reconheceu hoje. É isso.
- Agora as coisas fazem um pouco mais de sentido. - Sarah falou, me deixando confuso, antes que eu pudesse perguntar, continuou. - Bom, vocês são muito parecidos. Tem o mesmo jeito de falar, era uma coincidência incrível demais.
- Todo mundo que nasceu na Inglaterra tem o mesmo jeito de falar, Sarah. Inclusive você - Respondi rindo das teorias da mulher, que apenas abanou a mão na minha direção.
- Eu gosto dela. - Clare começou, quando percebeu os olhares em si, finalizou. - Digo, da . Ela é muito educada e simpática.
- Outra característica do povo inglês. - Dei de ombros, fazendo questão de não esconder que eu realmente estava me exibindo.
- Baixa essa bola, Styles.
- Vem baixar. - Falei para o Mitch, que aparentemente teria vindo se não fosse interrompido pela equipe de maquiagem e cabelo que adentrava o camarim.
- Olá, Sophie. Hoje vou querer algo diferente. Estava pensando num moicano, o que acha? - Falei para a cabeleireira, que me olhava com desaprovação enquanto me seguia até meu camarim.
Anne me aguardava pacientemente no camarim, uma revista repousava no seu colo e ela observava as páginas com atenção, desgrudando os olhos apenas quando notou que eu havia chegado.
- Lembrou que eu existo? - Perguntei, fazendo drama por ela ter se ausentado com , enquanto me sentava na cadeira para que Sophie fizesse seu trabalho.
- Eu nunca esqueço. - Respondeu risonha. - Desculpa, precisava falar com . Sinto muita falta da mãe dela.
- Afinal, o que aconteceu? Vocês brigaram?
- De forma alguma. - Falou, largando a revista na mesa que tinha ao lado do sofá. - É complicado, o pai de recebeu uma proposta de emprego irrecusável em Durham, teria um salário maior e apesar de gostar da onde estava, não podia se dar ao luxo de recusar uma oferta daquelas com uma filha pequena. Lembro que foi difícil para todos, mas nada se compara a como foi para você.
- É extremamente agonizante não lembrar. - Confessei, observando a minha mãe através do grande espelho da penteadeira.
- Eu imagino que sim, querido. Mas acho que foi a melhor solução que você conseguiu arranjar para lidar com a partida dela. - Disse carinhosa.
- E por que você e a mãe de perderam o contato? - Perguntei, não conseguindo conter a curiosidade.
- Foi apenas uma consequência da distância. Apesar de hoje em dia ser muito fácil de manter o contato com alguém, antigamente não era bem assim. No começo, chegamos a trocar algumas cartas, mas foi isso. - Falou, parecendo triste por estar lembrando da amiga que não via há tanto tempo.
- E por que você nunca falou nada sobre isso? - Indaguei novamente, apenas tentando entender melhor como tudo tinha acontecido.
- Era um assunto doloroso para mim e para você, querido. - Respondeu sincera, lançando um sorriso amoroso na minha direção, que tentava absorver todas as informações que tinha acabado de receber.

******

A sensação de estar no palco era sempre eletrizante, era difícil explicar com precisão todas as sensações que sentia ao encarar milhares de fãs. Não importava quantas vezes eu já havia feito aquilo, eu tinha certeza que nunca me cansaria. Mesmo já acostumado com os palcos, o frio na barriga ainda era o mesmo das primeiras vezes e, em todas elas, eu era grato.
Minha mãe e Camille se encontravam na lateral do palco e uma vez ou outra, eu me pegava lançando olhares furtivos naquela direção para espionar minha namorada, que sempre que me flagrava atirava beijos, fazendo com que eu contasse os minutos para o fim do show e pudesse finalmente estar com ela, de preferência a sós e em um quarto de hotel.
Do palco, podia ver também perambulando de um lado e outro, juntamente com outros dois fotógrafos que faziam parte da equipe. Tinha um semblante sério e concentrado, como sempre estava quando tinha sua câmera em mãos. Era uma ótima profissional, isso eu precisava admitir.
Por mais estranho que fosse, toda vez que eu olhava para a fotógrafa, a saudade que ainda me judiava parecia se tornar um pouco mais amena. Agora, mais do que nunca, eu via algo familiar no olhar da mulher.
Após os acordes finais de Woman serem tocados, resolvi fazer uma breve pausa para conversar com os fãs e ler os cartazes que haviam feito.
- Estão gostando do show? - Perguntei, recebendo os gritos da plateia como resposta, menos de um rapaz que estava perto do palco que apenas deu ombros. Olhei para ele com as duas mãos na cintura, reprovando sua atitude. Repeti a pergunta, dessa vez de forma que os fãs respondessem ainda mais eufóricos. - ESTÃO GOSTANDO DO SHOW?
Agora gritavam a plenos pulmões, enquanto eu caminhava pelo palco convencido, fingindo jogar um cabelo imaginário atrás dos ombros, apenas me virando para mostrar a língua para o homem.
- Estou brincando, é um prazer tê-lo aqui. Obrigado por ter vindo. - Falei, em seguida procurando outra pessoa para conversar. Não demorei muito para encontrar uma fã que estava colada na grade.
- Qual seu nome?
- Amélie. - Respondeu, recebendo a ajuda de fãs que estavam perto.
- É um lindo nome. - Elogiei, arrancando um gritinho da menina. - Com quem você veio, Amélie?
- Com minha mãe. - Falou, apontando para a mulher ao lado dela que tinha uma expressão de quem havia sido arrastada pela filha.
- É nítida a animação dela. - Falei, sentando no degrau que tinha no palco, imitando a mãe da garota, colocando a mão no queixo e fazendo cara de tédio, bufando algumas vezes. - Qual seu nome?
Me direcionava agora para a mulher que a acompanhava, que disse se chamar Christine.
- Obrigada por ter vindo, Christine. - Falei, acenando na direção das duas e dando continuidade ao show.
Mesmo com todos os problemas que a turnê trazia, como a distância da família e amigos, pouquíssimas horas de descanso, horas e mais horas na estrada, nada disso importava quando eu estava cantando, pois naqueles momentos eu tinha certeza que estava rodeado por pessoas que gostavam verdadeiramente de mim.
Eu finalmente estava alcançando o meu objetivo. Apesar daquilo tudo ter acontecido graças a fama que a One Direction teve, a banda nunca foi o meu sonho. Não queria ser mal compreendido, era agradecido por tudo que havia ganhado, mas a liberdade que possuía agora era extremamente satisfatória, precisava admitir.
Não faltava muito para o show terminar, estava conversando quando vi uma garota se levantar e seguir pelo corredor que dava até a saída do auditório.
- Hey! Onde você está indo? - Questionei, observando enquanto a fã virava para me olhar. - Volta aqui. Volta, volta, volta. Eu ainda tenho alguns minutos de sobra.
Eu chamava a moça com a mão que voltava contrariada até sua cadeira, parando apenas quando ela estava de volta ao seu devido lugar.
- Não é muito bom para o meu narcisismo quando as pessoas vão embora mais cedo. - Expliquei, arrancando risadas da plateia.
Encerrei mais um show agradecendo a presença de todos, reverenciando os fãs ao fazê-lo. Sai do palco e segui até o camarim onde sabia que encontraria minha mãe e Camille. A primeira a falar comigo foi Anne.
- Você foi maravilhoso, querido. - Falou, me recebendo com um abraço materno que deixou meu coração quente. - Infelizmente não posso ficar mais, se não perco meu voo. Mande notícias e me ligue sempre. Nos vemos nas festas de final de ano, sim?
Acenei com a cabeça, concordando com todas suas recomendações, me doía não poder levá-la até o aeroporto, mas infelizmente era uma burocracia para a produção me deixar sair.
- Eu te amo, tenha uma boa viagem. - Disse, depositando um beijo de despedida na sua testa e a acompanhando até a porta e só entrando novamente quando a vi sumir no corredor, agradecendo por saber que não faltava muito até a pausa de fim de ano da turnê acontecer.
Camille me olhava com uma expressão de tristeza, parecendo compreender o que eu sentia, pelo o que parecia ser a centésima vez no dia, eu suspirei.
- Quer ouvir uma notícia boa? - Perguntou.
- Quero sim.
- Eu falei com meu agente e vou poder ficar com você durante mais dois dias. - Falou, me encarando com um sorriso enorme e um olhar que transbordava segundas intenções.

- Sério? - Indaguei, caminhando na direção da mulher que murmurou um “uhum” em resposta. Fui em sua direção até estar perto o suficiente para puxá-la pela cintura, arrancando um suspiro da mulher. - Já vamos para o hotel, só preciso fazer algo antes, tudo bem?
- Tudo bem, vou te esperar lá fora. - Falou, tirando as mãos que circulavam o meu pescoço e piscando em minha direção.
Sai junto com Camille, mas fomos em sentidos opostos. Eu precisava encontrar para finalmente conversarmos e eu suspeitava que estivesse na sala onde seus equipamentos geralmente estavam. Ao chegar, vi que tinha acertado em cheio quando avistei a mulher de pé em frente a uma mesa onde tinha três câmeras, lentes, um notebook, algumas malas e vários cartões de memória.
- Está muito ocupada? - Perguntei, já me aproximando da mesa, na intenção de bisbilhotar melhor o que estava fazendo.
- Não muito, estou apenas passando as fotos do show de hoje para o laptop. - Falou, me mostrando algumas das fotos que tinha tirado, e que estavam muito bonitas, por sinal.
- Você é uma fotógrafa muito boa. - Elogiei.
- Obrigada, você também dá para o gasto como cantor. - Brincou, me fazendo rir, quase esquecendo qual era o meu objetivo ali.
- Queria conversar com você sobre algo.
- Claro. - Respondeu gentil. - Vamos sentar ali.
Apontou para duas cadeiras no fundo da sala, me acomodei ao seu lado e a encarei antes de falar qualquer coisa. me olhava séria com seus grandes olhos castanhos e sobrancelhas arqueadas, como se estivesse me incentivando a falar.
Era a primeira vez que realmente parava para observá-la com atenção, já que da outra vez que tínhamos estando tão perto um do outro, estávamos bêbados demais para nos atentarmos aos detalhes. Não que eu nunca tivesse notado antes, mas era realmente muito bonita. Além dos olhos expressivos, o rosto continha sardas espalhadas por toda a extensão do nariz e bochechas, dando um olhar tão inocente para a mulher, que fazia parecer que tinha menos idade. Antes que perdesse o foco, continuei.
- Quero me desculpar com você.
- Pelo o quê? - Perguntou confusa.
Por não lembrar da gente. - Falei, vendo sua expressão suavizar diante ao esclarecimento.
- Não tem problema, Harry..
Antes que pudesse continuar, interrompi. Pois eu sabia que tinha problema e que eu precisava me redimir.
- Sim, tem. Sabe, eu fiquei pensando no que minha mãe falou, na importância que tinha para mim. Você deve ter ficado muito magoada.
- Eu fiquei sim. - Confessou, se remexendo na cadeira enquanto falava. - Mas também tem o fato de que tudo isso aconteceu anos atrás.
- Não justifica. Espero que me perdoe.
- Você já foi perdoado bem antes de pedir, Harry. - Respondeu rindo.
- Eu tenho uma proposta para te fazer. - Falei, despertando a curiosidade da mulher.
- Harry, você não precisa. Já faz 17 anos, de verdade.
- Eu insisto.
abriu um sorriso tão bonito que, naquele momento, eu tive certeza de que o que eu faria a seguir, era o certo. Percebi também que, desde que tinha tido o sonho, aquela era a primeira vez que meu peito não ardia.
Eu me sentia bem na sua companhia.
- Eu quero que você me dê um pouco mais de tempo para lembrar, pois eu tenho certeza que vou. E enquanto isso, quero que você faça memórias novas junto comigo.
pareceu ponderar por um momento, tentava manter a expressão séria, mas eu sabia que estava falhando, pois toda hora mordia o canto da boca, escondendo um riso relutante.
- Gostei, me parece uma boa proposta.
- Podemos recomeçar, então? - Perguntei.
- Podemos sim.
Levantei da cadeira que estava sentando de imediato, estendendo a mão para , que aceitou e fez o mesmo.
- Eu me chamo Harry.
- Muito prazer, Harry. Eu me chamo , mas você pode me chamar de . - Respondeu rindo gostosamente, fazendo com que eu inevitavelmente sorrisse também.





Continua...



Nota da autora: Olá meninas!
Mais um capítulo quentinho pra vocês. Eu tinha prometido atualização dupla, eu sei, mas infelizmente o meu notebook resolveu me deixar na mão e pra não deixá-las sem att, eu enviei o capítulo que já estava pronto.
Mas, não se preocupem, pois o meu notebook já está na assistência e a próxima atualização será dupla, tenham fé!
Me contem o que acharam desse capítulo, vamos conversar. Será que o Harry vai começar a se lembrar? Teorias sobre o porquê dele ter esquecido? Quero saber tudo.
Até a próxima! Kissy <3





Nota da beta: Amei a cena da mãe dele se lembrando da hahha, a reação dele foi impagável, todo desconcertado. E esse sonho/lembrança dele? Que coisa mais amorzinho, gente!
Ameeei esse final, ansiosa pela continuação.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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