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Finalizada em: 16/12/2019

Capítulo Único


piscou os olhos lentamente, tentando acostumar-se com a claridade do cândido quarto hospitalar. Piscou mais algumas vezes até conseguir enxergar com clareza. Sua cabeça latejava de uma maneira que não lembrava ter sentido antes; ajeitou-se no catre de forma a sentar-se e levou uma das mãos à cabeça. Estava enfaixada.
O movimento assustou a moça loira que ocupava a poltrona em frente à cama, lendo um periódico qualquer que deixavam sobre as mesinhas dos quartos de hospital. Ela estava em pé em um átimo.
‘-!’ – exclamou, indo até ele – ‘Como você está se sentindo?’ – inquiriu, preocupada, pronta para- chegar mais perto, para tocá-lo, quando notou um movimento de hesitação.
‘-O que você está fazendo aqui?’ – retorquiu ele, sisudo, inconscientemente se esquivando para o lado.
‘-Você não se lembra de mim?’ – perguntou, os olhos brilhantes marejados.
‘-Eu me lembro de você, ’ – disse com aversão, fitando-a dos pés à cabeça – ‘Embora preferisse não lembrar.’
A mulher afundou na cadeira que repousava ao lado do catre, as mãos nos joelhos, os olhos fixos, completamente aturdida. Uma lágrima ameaçava escorrer; ela limpou-a sem que se desse conta.
‘-Qual é a última coisa de que você se lembra?’ – decidiu-se, por fim, tentando racionalizar em meio àquele turbilhão de sentimentos – ‘Os médicos disseram que sua memória podia ter sido afetada.’
‘-Minha memória não foi afetada!’ – exclamou, rude – ‘Eu me lembro de tudo, . Só não descobri ainda porque tenho que estar falando com você. Meu aniversário foi semana passada.’
‘-Seu aniversário de quantos anos?’ – replicou, tentando evitar a parte da grosseria dirigida a ela. Precisava primeiro saber se ele ficaria bem. Aquela grosseria remetia a um tempo bastante distante de ‘semana passada’.
‘-Dezoito, é claro.’ – respondeu de mau grado, revirando os olhos, impaciente, para a mulher à sua frente.
Se não se recusasse a encará-la, preferindo um ultrapassado quadro de flores à sua esquerda, teria visto um par de lágrimas escorrer dos olhos cor de mel da mulher ao seu lado.
‘-, seu último aniversário foi há duas semanas. Seu aniversário de vinte e três anos.’ – contou, engolindo as lágrimas e finalmente atraindo a atenção do homem acamado.
franziu o sobrolho, fazendo cálculos. Não podia ser. Cinco anos. Ele não tinha como não lembrar-se dos últimos cinco anos de sua vida. Era impossível.
‘-E por que eu deveria acreditar em você, ?’ – inquiriu, rispidamente, mirando-a nos olhos pela primeira vez – ‘Como você saberia disso? O que você é, por acaso? Minha médica? É por isso que está me assombrando?’
Dessa vez ela precisou reunir todas as forças de seu corpo para manter-se firme e sem lágrimas – ‘Eu sou sua esposa, .’ – contou, devolvendo o olhar.
Ele gargalhou alto, desacreditado.
‘-O que é isso, afinal, um programa barato de TV? Onde estão as câmeras?’ – ele ainda ria debochadamente – ‘Eu jamais me casaria com você, .’
Ela engoliu as lágrimas e mordeu o lábio inferior. Tinha esquecido que essa versão de um dia existira.
‘-Eu estava dormindo. Ontem fizemos uma festa, os caras estavam em casa, nós bebemos e...’ – ele parou e tocou a cabeça novamente – ‘Eu devo ter caído de skate e eles estão pregando uma peça em mim.’
A loira calmamente foi até a mesinha do outro lado da cama, próxima de , e pegou um saquinho de plástico, entregando ao rapaz.
‘-Suas coisas.’ – foi só o que ela conseguiu dizer.
franziu o cenho mais uma vez, e ia começar a discutir novamente, quando viu uma correntinha prateada que sua mãe havia lhe dado e ele sempre levava consigo. Abriu a embalagem. Carteira, moedas soltas, a correntinha – que ele analisou com mais cuidado, fones de ouvido, um celular e uma aliança de ouro branco.
Ele estacou no último item, olhando de soslaio para a companhia de quarto, que aguardava ansiosamente por uma reação, como se aquele pequeno pedaço de metal fosse repentinamente reavivar toda a memória de .
– lia-se no interior da aliança, e a suposta data de casamento.
‘-Quem diabos é ?’ – indagou, bufando, sem tirar os olhos do anel.
‘-Eu, . .’ – disse, suspirando e sentando-se novamente na cadeira.
‘-Por que eu me casaria com você, ?’ – perguntou, como um ultimato, o semblante pesado e contraído.
levou alguns segundos para pensar.
‘-Porque eu estava grávida.’ – admitiu, sem conseguir fitar o homem nos olhos.
A expressão mudou para a surpresa em milésimos de segundo. estacou. Aquilo fazia mais sentido.
‘-Nós não estávamos apaixonados ou nada do tipo?’ – certificou-se, buscando os olhos de .
Ela suspirou antes de fitá-lo.
‘-Não.’ – mas os olhos desviaram dos dele assim que a moça abriu a boca – ‘Nós íamos ter um bebê, então nos casamos.’
Ele acenou com a cabeça, os olhos fixos ainda arregalados em surpresa, sem saber o que dizer. Quando mirou-a novamente, pôde ler a pergunta que ele não sabia formular.
‘-Nós temos uma filha, . Ela tem três anos.’ – contou, as lágrimas teimando em se formar em seus olhos novamente – ‘Você não se lembra dela?’
Ele negou com a cabeça, pensativo, sem encarar a loira.
‘-Eu não posso ter uma filha, ’ – bradou, sisudo – ‘Eu disse para mim mesmo que jamais teria filhos.’
‘-É . Ou .’ – repreendeu, começando a irritar-se – ‘E, bom, você tem uma filha.’ – ela deu de ombros.
‘-Você nunca se importou antes.’ – retrucou, referindo-se ao sobrenome da loira.
‘-Eu não era sua esposa antes.’
‘-Então me explique, , como eu posso ter uma esposa e uma filha e não lembrar de absolutamente nada?’ – desafiou-a, ainda descrente.
Pelo modo irônico como usara seu nome, a moça pensou que deveria ter continuado com o ; seu nome pronunciado daquela maneira, com aquela frieza, doía mais.
‘-Você sofreu um acidente de carro. Bem sério. Bateu a cabeça e precisou ficar sedado por duas semanas, .’ – contou, arrepiando-se ao lembrar das últimas semanas – ‘Os médicos avisaram que, pelo local da contusão, sua memória poderia ter sido afetada. Só não sabíamos o quanto.’
suspirou ao final da sentença, encarando as mãos em seu colo.
Ficaram em silêncio por alguns minutos. precisava de tempo para processar tudo aquilo e sinceramente não sabia o que dizer. Estivera tão ansiosa pelo seu despertar que jamais cogitaria esse panorama do qual agora estava fazendo parte.
‘- está ansiosa para vê-lo. Posso trazê-la mais tarde?’ – inquiriu, receosa, quebrando o silêncio depois de um bom tempo.
‘-?’ – franziu as sobrancelhas, sem conseguir associar esse nome.
‘-. Nossa filha.’ – disse baixinho – ‘Esse nome não te remete a nada?’
Ele acenou em negação – ‘Eu estou muito cansado. Minha cabeça dói.’ – proferiu, desviando os olhos do olhar ansioso da mulher ao seu lado – ‘Talvez não seja bom ter crianças por perto hoje.’
O coração de apertou no peito em uma dor que se tornara física. Ela não aguentaria mais muito tempo trancada no quarto com esse . Piscou para recobrar a consciência e foi levantando, indo até a poltrona no outro lado do quarto para pegar sua bolsa.
‘-Está bem, então. Vou chamar a sua mãe, ela deve estar ansiosa para falar com você. Nós já levamos tempo demais.’ – disse tudo junto, rápida e incoerentemente. Só precisava sair daquele quarto.
nada disse, mas teve uma sensação estranha quando os cabelos loiros sumiram ligeiros pela porta que ele continuou a encarar.
bateu a porta atrás de si e jogou-se em uma das cadeiras da fileira que repousava em frente ao quarto, afundando a cabeça nas mãos e deixando-se chorar copiosamente.

***


‘-Ele já acordou?’ – a loira perguntou, decidida, assim que avistou a mulher mais à frente, perto apenas o suficiente para conseguir ouvir claramente as palavras da mais nova. Ela falava com firmeza, mas os olhos estavam tão marejados que mal podia enxergar mais que borrões a sua frente, e a menininha que ela trazia pela mão parecia assustada.
‘-’ – constatou a mulher, os olhos também arregalados – ‘Ele acabou de ser transferido para o quarto, depois de retirarem a sedação’ – contou, aflita, puxando a menininha para si pela mão e a trazendo-a para seu colo – ‘Os médicos disseram que ele ainda está recobrando a consciência, querida’ – finalizou, não conseguindo segurar as próprias lágrimas.
acenou com a cabeça, concordando, e deixando escapar, também, as lágrimas que estava segurando no percurso até ali, sem querer assustar a filha.
Quando finalmente limpou os olhos e olhou ao redor, para além da mulher e da criança, pôde notar William, George e Mary em um canto mais afastado, todos portando o mesmo semblante preocupado.
Will aproximou-se ao ver que a moça chorava olhando fixamente para a porta da suíte em que se encontrava .
‘-’ – ele abraçou-a com carinho – ‘Ele vai ficar bem, você sabe. O tem a cabeça bem dura.’ – ela sorriu em meio as lágrimas, apertando-o em seus braços.
O rapaz, então, direcionou sua atenção para a garotinha assustada no colo da avó. , sempre falante e demandando muita atenção, estava calada desde que chegara, abraçando o bicho-preguiça de pelúcia recostada à mulher.
‘-Ei, !’ – ele cutucou-a de leve – ‘Você trouxe o Peludo.’ – ele sorriu para ela, tentando animá-la.
‘-Tio Will’ – ela sorriu fraquinho para ele, passando os braços pelo pescoço do rapaz e pulando para o colo dele.
‘-Eu fiquei sabendo que têm uns donuts bem gostosos na cafeteria. O Peludo gosta de donuts?’ – inquiriu, tentando tirá-la daquele ambiente de espera pesado.
A avó da menininha, ao ver o que William estava tentando fazer, sorriu para ele e apertou de leve seu braço, demonstrando seu apoio e agradecimento no gesto.
Antes que pudessem deixar o corredor, George aproximou-se do filho e da garotinha.
‘-Oi, princesa’ – sorriu para ela – ‘eu nem consegui te dar um beijo ainda e o tio Will já está fugindo com você’
‘-Oi, vovô’ – cumprimentou, amuada, segurando o brinquedo com força. Era o olhar mais preocupado que eles já tinham visto alguma vez naqueles olhinhos cinza infantis.
‘-Nós vamos comer uns donuts’ – contou William, demonstrando no olhar que estava tirando-a daquela atmosfera e a distraindo um pouco – ‘O Peludo me disse que está com fome.’ – brincou, apertando a menininha em seus braços.
‘-Bons donuts para vocês’ – deu um beijinho na cabeça da neta – ‘Coma um por mim, princesa.’ – disse baixinho para .
Quando eles desapareceram pelo corredor incrivelmente branco do hospital, George e Mary aproximaram-se das outras duas mulheres.
e Louise tinham se acomodado nas cadeiras estofadas de fronte ao quarto 513 e aguardavam aflitas. chorava bastante, nervosa, deixando escapar tudo que tivera de segurar desde que soube que acordaria naquele dia, já que a filha estava sempre por perto, para não assustá-la.
Louise aguardava ansiosa notícias do filho, os olhos vermelhos e o rosto ainda molhado, mas já não escorriam mais lágrimas. Ela segurava firmemente o braço da nora, consolando-a.
‘-’ – George chegou mais perto e a abraçou. Mary acenou para ela e sentou-se ao seu lado, segurando a outra mão da loira – ‘Will levou a baixinha para a cafeteria... é bom, pelo menos até conseguirmos saber o estado dele.’
concordou com a cabeça – ‘O Will é um tio maravilhoso.’ – disse para George, ensaiando um sorriso – ‘Essa espera está me matando!’ – admitiu, afundando o rosto nas mãos.
‘-A todos nós, querida’ – Louise concordou, acariciando o braço da moça.
O clima estava pesado; já fazia muito tempo. George, Mary e Louise estavam lá há horas: desde que souberam da possibilidade do despertar de . William chegara depois, quando conseguiu ser dispensado das aulas da faculdade, levando comida chinesa para os pais e Louise, que tinham ficado ali o dia todo.
chegara só depois. Ela tinha para cuidar. Deixou que a pequena seguisse sua rotina normal; ainda estava na escola quando a mãe recebera a ligação de Louise informando que os sedativos seriam retirados. O esforço maior foi o de esperar longe, cuidando dos afazeres normais do dia. Ainda levaria a filha para a aula de balé.
teve o ímpeto de buscá-la logo que a sogra ligou, chorando, avisando sobre a possibilidade do despertar naquele dia mesmo. Achou melhor, porém, resolver tudo que seria necessário antes que acordasse. Louise garantira que ela e George já estavam indo para o hospital, de forma que ela não se preocupasse com essa parte.
Um considerável tempo depois da chegada de , um médico aproximou-se da família, as mãos nos bolsos do jaleco, carregando um olhar que fez com que se levantasse abruptamente, sendo seguida por Louise.
‘-O efeito do sedativo já passou, ele está estável e pode acordar a qualquer momento. Vocês poderão falar com ele daqui a pouco.’ – apertou a mão da sogra, lágrimas de alívio escorrendo livres – ‘Pedimos para que só uma pessoa fique no quarto neste momento, já que ele acordará um pouco confuso. A memória pode ter sido afetada... Não descobrimos o quanto ainda.’
O semblante da loira mudou. De alívio transmutou-se em preocupação. Mordeu os lábios, suspirando. Rezando para que estivesse bem.
‘-Vá, querida.’ – ofereceu Louise, ainda segurando uma das mãos da nora.
Ela apertou a mão da sogra, agradecendo, mirando-a em questionamento, esperando uma confirmação.
‘-Vá, , nós já, já o veremos também.’ – sorriu para ela em meio à lágrimas de alívio.

‘-Querida? O que houve?’ – inquiriu Louise quando avistou a nora deixando o quarto em que se encontrava .
‘-Ele não lembra, Lou. De mim. Da nossa filha.’ – afundou o rosto nas mãos novamente – ‘Na verdade, ele se lembra de mim – o que é pior. Ele se lembra da época do colégio.’
Louise estacou. Não podia ser. Aquela tinha sido a pior fase do filho.
‘-Vá falar com ele, Lou.’ – aconselhou – ‘Ele está te esperando. Eu vou lavar o rosto’ – falou, cabisbaixa, deixando a companhia da sogra.

‘-? – chamou a mãe, abrindo a porta e atraindo a atenção do homem, que estivera mirando fixamente a janela do lado oposto da porta.
Ele voltou-se para a mãe. Louise estava diferente do que ele se lembrava; os cabelos mais curtos e mais claros, as bochechas mais rosadas, uma aparência saudável de modo geral, devia até mesmo estar um pouco mais magra. Estava bonita.
‘-Você está bem?’ – inquiriu, e em um ímpeto já estava ao lado do filho, sentando-se na beira da cama hospitalar.
‘-Estou’ – rosnou, sem mirá-la de volta – ‘Por que é que todo mundo fica me perguntando isso? Mas que merda!’ – olhou de soslaio para o olhar reprovador da mãe e concluiu: ‘Só minha cabeça que está latejando.’
Agora entendia, com apenas uma sentença proferida pelo filho, o que tinha abalado a nora tão profundamente.
‘-Não era bem dessa parte que eu estava perguntando.’
‘-Ah. Você quer saber se eu estou bem depois de ter perdido as memórias dos últimos cinco anos e de repente ter uma esposa e uma filha?’ – inquiriu sarcástico, rindo debochadamente – ‘Não, eu não estou nada bem.’
‘-A me disse que você não se lembra delas...’ – começou, sendo interrompida pelo filho.
‘-Eu quero o divórcio.’ – disse num ímpeto, encarando furiosamente a mãe.
Louise esboçou um sorriso de deboche.
‘-Você iria gostar de pensar melhor sobre isso’ – falou somente, dando de ombros. ameaçou contradizê-la e Louise completou, interrompendo-o: ‘De qualquer forma, não é para mim que você tem que pedir o divórcio.’
‘-Por que justo ela? Por que você me deixou casar com ela, inferno?’ –inquiriu , lançando um olhar culposo e mal-educado para a mãe.
Louise também não se lembrava mais dessa versão do filho. Suspirou.
‘-A é uma boa pessoa, ’ – proferiu, o olhar sério e certeiro que desconhecia na mãe de cinco anos atrás – ‘Ela é uma ótima mãe e uma ótima influência pra você.’ – pontuou.
fazia caretas de desgosto enquanto a mãe falava, típico de quando ele era adolescente.
‘-Ela é uma ótima mãe’ – debochou, imitando a fala de Louise – ‘O que isso deveria significar para mim?’ – deu um riso sarcástico e acenou em negação.
‘-Muito, já que ela é a mãe da sua filha.’ – a mãe respondeu sisuda.
‘-A mãe da filha que eu nem me lembro que tive’ – deu de ombros – ‘Não deve significar muita coisa.’
‘-, olhe aqui’ – pediu, furiosa – ‘Você sofreu um acidente feio, passou por procedimentos complicados, ficou muito tempo sedado e ainda não conseguiu recuperar a memória, mas a não tem nada a ver com isso. Ela é só uma criança. Então não me importa se você ainda não se lembra, você nunca, jamais, a trate com esse desprezo.’ – proferiu, mais séria do que nunca.
não disse nada. Não sabia o que dizer e preferiu calar-se a falar para a mãe o que realmente se passava em sua mente. Ele não era pai de ninguém.
‘-Filho, eu amo você e só quero que você se recupere bem.’ – Louise optou por dizer, depois de alguns minutos de silêncio - ‘E isso inclui recuperar sua rotina e sua vida normal, com a e a . Vocês têm uma vida boa.’ – reaproximou-se dele, tocando-o no braço.
‘-Uma vida boa, mãe? O que é uma vida boa? Hein? É ser obrigado a casar com uma pessoa que você detesta por ter uma filha com ela?’ – retorquiu, afastando a mão de Louise.
A mais velha estacou. Parando o movimento das mãos que tentavam acariciar o filho repentinamente.
‘-Foi isso que ela te disse?’
‘-Sim, ela já me contou.’ – bufou, encarando as mãos no colo – ‘Não tem mais como você aproveitar minha perda de memória pra inventar uma historinha sobre como nossa vida era boa.’ – frisou, arisco.
‘-A vida de vocês era boa, . Mas acredite no que quiser.’ – deu de ombros, ainda refletindo sobre as falas anteriores do filho.
‘-Eu não sei se a mencionou, mas está muito ansiosa pra te ver. Vou dizer a para que a traga daqui a pouco.’ – continuou Louise, após alguns minutos de reflexão em silêncio.
‘-Ela mencionou. Eu disse que não estou no clima para crianças.’ – deu de ombros, menosprezando a situação.
‘-Isso não é sobre você, . É sobre a .’ – disse, determinada – ‘Você está em recuperação e vamos cuidar para que ela aconteça da melhor forma possível, mas esse acidente não afetou só você. Nós precisamos cuidar do resto também. E o mais importante do resto é a sua filha.’

entrou insegura, acompanhada da mãe. Todo aquele ambiente hospitalar era estranho a ela. parara de chorar, mas o vermelho ao redor de seus olhos permanecera. A criança olhava tudo com curiosidade e atenção, até focar no pai, deitado no catre.
‘-Papai!’ – disse, empolgada, e correu na direção dele.
A mãe alcançou-a rapidamente, colocando-a de pé na cadeira ao lado da cama.
‘-Calma, querida. Lembra que a mamãe falou que o papai ainda está bem machucado?’ – inquiriu retoricamente, focando sua atenção na filha e evitando o olhar de , que reparara na presença delas apenas quando a menininha gritara.
O homem focalizou, então, a garotinha. Era bem loira e bem pequena, carregava um bicho de pelúcia pela mão. Se admitisse, ela parecia muito com as fotos dele de quando era criança.
A menina olhava para ele, esperando uma reação.
‘-Papai?’ – inquiriu, os olhinhos brilhantes.
‘-Err, oi.’ – foi tudo que ele conseguiu dizer, ainda não conseguindo desviar o olhar da criança – sua filha.
‘-Meu amor, o papai bateu bem forte com a cabeça...’ – começou , tentando explicar o que parecia ser inexplicável a uma menininha de três anos – ‘E ele não se lembra de algumas coisas.’
concordou, e continuaria a tagarelar se não tivesse percebido o olhar vazio do pai. Não era assim que ele olhava para ela; ela era uma criança deveras esperta.
‘-O papai não lembra de mim?’ – os ombros de caíram com essa simples sentença da filha. Ela não pensava que a menina deduziria tão rápido.
‘-Ele está com dificuldade em lembrar de coisas mais recentes, filha’ – tentou, suspirando e sentindo os olhos marejarem.
‘-Mas eu tenho tudo isso, mamãe’ – ela mostrou três dedinhos, inconformada.
‘-Eu sei, querida.’ – foi tudo que conseguiu, com pesar, responder.
acompanhava atentamente o diálogo delas e a indignação da garotinha.
‘-Você vai ficar bom logo?’ – inquiriu, depois de alguns minutos encarando fixamente o pai.
‘-Eu espero.’ – ele disse, sendo pego de surpresa pela pergunta direcionada a ele.
‘-Aí você vai lembrar das coisas e vamos poder te levar pra casa?’ – completou ela, esperançosa.
‘-, talvez não nessa ordem. Pode ser que o papai demore para lembrar das coisas.’ – respondeu no lugar de , receosa.
Três batidas na porta e William apareceu por uma frestinha.
‘-Fale tchau para o papai, . O tio Will veio te buscar’ – recomendou a mãe, empurrando a cadeira da filha para mais perto da cama.
‘-Tchau, papai. Fique bom logo.’ - deu um beijinho no rosto do pai, pegando-o totalmente de surpresa.
ficou mais alguns minutos, explicando para um atônito o último parecer dos médicos.

‘-Porra, !’ – gritou, irritado.
‘-Eu estou tentando limpar seu machucado’ – respondeu, calma – ‘E olha a boca. está em casa.’
Uma semana e uma longa bateria de exames depois, estava finalmente em casa. Os médicos concluíram que não havia nada a ser feito no hospital pela memória dele e que a rotina de casa talvez o ajudasse a recuperar as lembranças com mais eficiência.
‘-Deixe o machucado assim’ – exclamou, sisudo – ‘Eu não aguento mais isso, , que...’
olhou fixamente para o marido, parando a tarefa de limpar o machucado.
‘-, eu não vou continuar casada com alguém que me chama pelo sobrenome.’
‘-Ótimo, então’ – bufou, e sentiu a cabeça latejando. Quando viu que a esposa não esboçara reação nenhuma e continuava a encará-lo, continuou: ‘Como eu te chamava?’
‘-’ – respondeu ela, dando de ombros.
‘-O tempo todo?’ – inquiriu, curioso. Ela recomeçara a tratar do machucado, o que fizera-o torcer o rosto em uma careta de dor.
‘-Claro, . Nós éramos... um casal normal.’ – deu de ombros novamente, focando sua atenção na atadura que usava para cobrir parte da cabeça do marido.
‘-E o que quer dizer um casal normal pra você? – perguntou, alfinetando.
‘-Quer dizer que superamos o ensino médio, .’ – bufou, apertando a faixa na cabeça do marido – ‘E que você costumava me tratar bem.’
‘-Como isso aconteceu?’ – perguntou novamente, num tom mais baixo, ainda surpreso.
‘-Isso o quê?’ – replicou ela, prestando mais atenção na faixa e nos esparadrapos do que na fala do marido.
‘-Você acabar grávida de mim.’ – disse, encarando o chão.
‘-Bom, sobre a gente...’ – começou, terminando com a faixa e sentando de frente para – ‘Começou como todas as coisas estranhas começam. Com muito álcool.’ – ela deu uma risada sem emoção – ‘Eu estava bêbada.’
Não era mentira, ela ponderou. Realmente tinha começado assim.
Ele franziu o cenho. Ela sempre fora tão certinha e estudiosa – motivo pelo qual sempre caía nas zoações de – que ele simplesmente não conseguia imaginá-la bêbada – ainda mais bêbada o suficiente para transar com ele.
‘-Você, bêbada?’ – ele riu baixo – ‘Esta história só fica cada vez menos crível.’
Ela deu de ombros – ‘Acredite no que quiser, .’
‘-E então nos casamos?’ – inquiriu, tentando saber mais detalhes.
‘-Quando descobri que estava grávida, nos casamos. E tínhamos uma vida conjugal suportável até você sofrer o acidente e acordar sem memória.’
‘Ei, eu não estou sem memória’ – rebateu ele – ‘Eu só esqueci de você.’
Nisso, a menininha loira chegou ao final das escadas, indo ao encontro da mãe, ainda de camisola, despertando.
‘-E da .’ – completou antes que a loirinha os tivesse alcançado.
‘-E dela.’ – ele concordou.

Tinha sido um dia pesado. entrara no quarto e despira a blusa quando se deu conta de que o marido já se encontrava ali; corou violentamente sem motivo - ou, talvez, com motivo, já que não se lembrava do quão bem conhecia aquele corpo.
Suspirou e decidiu seguir a rotina normal, tirou as outras peças sentindo que estava sendo observada e por um segundo se sentiu insegura com o próprio corpo. Ela tinha tido um bebê; seu corpo definitivamente não era como antes. Ainda era magra, mas a gravidez lhe proporcionara seios maiores e uma ligeira flacidez antes desconhecida.
observava-a com surpresa, jamais imaginara que fosse tão bem-feita de corpo. Ela era magra e pequena, mas possuía curvas: a cintura fina, o quadril bem delineado, seios pequenos. Quase não podia acreditar que ela dera luz à . Teve que controlar seus impulsos. Não era assim que ele deveria se sentir em relação a ela, não é mesmo?
estava devidamente em seus pijamas de cetim, ajeitando-se na cama quando perguntou:
‘-A gente ficou bêbado e transou, do nada?’
‘-Não’ – ela respondeu – ‘Foi em uma festa. Nessa altura do campeonato você já estava me tratando como uma pessoa.’
concordou e virou para o seu lado da cama, refletindo sobre aquilo. Você já estava me tratando como uma pessoa.

acordara sentindo uma sensação de náusea e mal-estar geral. Esfregara os olhos, mudando para uma posição sentada na cama, observando o quarto ao seu redor. Aquele não era seu quarto e muito menos sua casa. Onde estava?
Flashes da noite anterior começaram a pipocar em sua mente. A festa era de uma das meninas que estudavam com ela, uma de suas amigas, para comemorar o fim do ensino médio. Tinha bebido muito, ela se lembrava; agora a dor de cabeça fazia sentido.
Olhou para o lado e viu que tinha mais alguém debaixo das cobertas. Afastou um pouco o edredom que cobria uma parte da cabeça e assustou-se ao se deparar com ninguém menos que ).
Saltou da cama, se dando conta de que não se lembrava de nada do final da noite; saindo dos lençóis, olhou para baixo e viu que estava usando apenas o conjunto simples de lingerie preta.
Começou a procurar freneticamente por suas roupas pelo chão do quarto, quando ouviu um barulho e viu que estava sentando na cama, encarando-a com o sobrolho franzido.
‘-O que você está fazendo?’ – inquiriu, sonolento.
Ela virou-se para ele, mas se arrependeu, tapando os peitos com ambos os braços.
‘-Onde estão minhas roupas, )?’ – perguntou, explodindo de raiva.
Ele levantou-se para ajudá-la a procurar, vestindo apenas a samba-canção preta.
‘-Você deve estar feliz, não é mesmo?’ – disse, com lágrimas de raiva se formando nos olhos – ‘Ainda deve estar tudo mundo aqui. Você vai sair contando agora ou vai esperar que eu vá embora? O que é mais humilhante?’
‘-Eu não vou contar pra ninguém, .’ – certificou, do outro lado do quarto, mirando-a.
‘-Ah, não? Duvido. Por que você faria isso, então? Você filmou por acaso?’ – bradou para ele – ‘Eu sou tão burra! O que você me fez tomar pra me levar pra cama?’
‘-Você não se lembra?’ – inquiriu, surpreso, aproximando-se dela, deixando em cima da cama a pilha de roupas que tinha encontrado – ‘E eu não filmei porra nenhuma. Eu nunca planejei te levar pra cama. Aconteceu.’ – deu de ombros, chegando mais perto dela.
começara a chorar de raiva.
‘-Eu simplesmente não acredito nisso.’
‘-Ei, eu não vou contar pra ninguém. É sério.’ – ele chegou perto dela, envolvendo-a com os braços. ficou tão aturdida que não teve reação.
‘Por que você não contaria, )?’ – perguntou, tentando inutilmente limpar as lágrimas enquanto ainda se ocupava em cobrir o sutiã com os braços, dentro do abraço de .
‘-Porque foi bom.’ – ele respondeu, olhando-a sinceramente e estreitando mais o abraço. Ela tremia e soluçava – ‘É uma pena que você não lembre. Se eu soubesse que você não lembraria, não teria transado com você.’
‘-Você não se aproveitou de mim porque eu estava bêbada?’
‘-Na minha memória, nós aproveitamos um do outro. Eu também estava bêbado, .’
Depois de alguns minutos, ela parou de chorar e passou a só soluçar de leve.
‘-Mais calma?’ – ele inquiriu, soltando-a e olhando para ela.
concordou com a cabeça, indo até as roupas espalhadas na cama.
‘-Saia comigo’ – ele pediu, num ímpeto, também sem saber exatamente o porquê. Apenas precisava chamá-la para sair. Puxou-a delicadamente pela mão quando ela ameaçava deixar o quarto.
olhou-o desconfiada, só querendo ir embora.
‘-Não é nenhuma armação, .’ – garantiu, encarando-a – ‘Sexta-feira. Eu passo te pegar às oito.’ – disse, soltando finalmente a mão da garota.

acordara suado. Passou uma mão pela testa enfaixada. Olhou para o lado e não viu , a cama estava vazia. No banheiro, deparou-se com um espelho; prestando atenção a si mesmo, reconhecia que não era mais um rapaz de dezoito anos. Seus ombros estavam bem mais largos, bastante diferentes de quando era adolescente, o maxilar mais definido e quadrado, com um vestígio de barba que ameaçava nascer por toda a sua extensão. Os cabelos também estavam mais compridos do que ele costumava usar alguns anos antes, quase raspado.
Pôde ver outros pequenos sinais do acidente no desenhados no próprio corpo. O rosto tinha alguns arranhões já em fase avançada de cicatrização, além do machucado que se estendia da testa até um pedaço do couro cabeludo – este não tinha noção da extensão; não tivera coragem de ver o machucado sem as ataduras. Havia um ou outro corte mais profundo nos braços, provavelmente causados pelo estilhaço dos vidros, e um extenso hematoma na região do ombro esquerdo, devido ao impacto do cinto de segurança.
Retirou com cuidado o curativo sobre a costela esquerda, responsável por cobrir outras escoriações menores que também já estavam sarando. Ao limpar o machucado no banho, prestando atenção para não atingir o ponto em que fraturara uma das costelas, reparou na tatuagem que se escondia sob aquele curativo: um pezinho minúsculo e uma data. Ele supôs que fosse a data de nascimento da menininha.
Tudo fez menos sentido ainda. Ele nunca quisera ser pai. Primeiramente, ele mesmo não tivera um pai para saber como era. Além do mais, ainda tinha certeza de que, se chegasse a sê-lo, seria péssimo como seu próprio pai.
E se houvesse essa ligação tão grande entre ele e a menininha, como pudera esquecer-se dela? Como podia olhar para ela e ainda assim não se sentir um pai? Além de tudo, por que ele faria uma tatuagem dessas para ?
Ainda com a mente fervilhando, desceu as escadas de boxer, rumando para a cozinha; lá, um bilhete de fixado na geladeira dizendo que levara a filha para a escola e fora para o trabalho, mas só trabalharia durante meio período, além de uma lista de telefones para ligar em caso de emergência.
Pegou um copo de suco de laranja e saiu fazer um tour pela casa. Era enorme, toda de madeira e vidro, com um design arquitetônico moderno e arrojado. Perguntou-se mais uma vez como eles puderam pagar por aquilo; a sensação era de ter, de repente, acordado na vida de outra pessoa.
Durante a manhã, o sonho lhe veio à cabeça muitas vezes, mas teria que esperar chegar para descobrir. Louise, sua mãe, ligara duas vezes para se certificar de que ele estava bem e passara rapidamente para deixar o almoço dos três.
‘-Hm, valeu.’ – agradeceu, sem saber bem como – ‘É porque a está ocupada cuidando do meu machucado?’ – inquiriu.
‘-Não, filho, é porque você está machucado’ – contou Louise; olhava sem entender – ‘Quem costumava fazer a comida era você, querido.’
A feição de se transformou em extrema surpresa – ‘Mas eu não sei nem fritar um ovo...’ – disse retoricamente, mas a mãe já tinha ido embora.

chegou aturdida, falando ao telefone ao mesmo tempo em que mandava a filha guardar a mochila e lavar as mãos. Quando estavam, enfim, todos sentados para a refeição, inquiriu:
‘-Minha mãe disse que era eu quem fazia a comida. Eu achei muito estranho.’
‘-Era.’ – concordou corriqueiramente, servindo-se de mais salada – ‘Você costumava trabalhar em casa, . Então quando e eu chegávamos, você fazia o jantar.’
‘-E com o que mesmo que eu trabalhava, ... Er, ?’ – questionou, franzindo o cenho.
‘-Você é designer gráfico e ilustrador, .’ – contou, deixando o garfo de lado e passando a encará-lo nos olhos – ‘Você costumava desenvolver artes para algumas empresas bastante renomadas. E ilustrar o jornal de domingo.’
ficou atônito. Aquela seria a vida dos sonhos, se não houvesse e para complicar as coisas. Aquela casa, aquele trabalho.
‘-Eu costumava desenhar por diversão... Não acredito que trabalho com isso, .’ – disse, esperando uma confirmação.
‘-Depois passe no seu escritório e veja por você mesmo.’

Pouco mais de uma hora depois, a campainha tocou e William apareceu, cumprimentando . saiu correndo quando avistou o tio, pulando nos braços dele.
‘-Oi, baixinha!’ – ele riu, pegando-a no colo.
‘-Entre, Will’ – convidou – ‘ está conhecendo o escritório dele.’
‘-Como ele está?’ – inquiriu, preocupado, para a cunhada – ‘Como vocês estão?’
‘-Ele ainda não lembrou de nada; não que eu saiba’ – soltou os ombros, suspirando – ‘Mas o machucado parece melhor. Está finalmente fechando.’
Will concordou, pesaroso, e voltou-se para : ‘E você, como está? Feliz por ter o papai de volta em casa?’ – inquiriu, cutucando-a.
‘-Tio Will, o papai não lembra de mim’ – contou baixinho, puxando o colarinho do rapaz.
Aquilo cortava o coração dos dois adultos presentes na sala.
‘-Às vezes, acontece, princesa. Quando a gente bate a cabeça bem forte.’ – explicou, dando uma batidinha de leve na cabeça dela – ‘Mas já, já tudo vai voltar ao normal.’
A menininha abraçou-o, preocupada.
‘-Ei, olha o que eu trouxe pra você.’ – disse, tentando animá-la, e tirou um bombom do bolso do casaco, entregando a ela.
‘-Obrigada, tio Will!’ – agradeceu, feliz.
‘-’ – Will chamou quando ela ia desembrulhando o bombom, feliz – ‘Você já almoçou?’
‘-Já! E ainda não escovei os dentes.’ – completou, fazendo a mãe e o tio rirem.
retornou à sala quando William tinha acabado de sair.
‘-Quem estava aí?’
‘-O tio Will’ – foi quem respondeu, atraindo a atenção do pai – ‘Ele me deu um bombom, olha!’ – mostrou o doce, feliz.
‘-Oferece um pedacinho pro papai, filha.’
‘-Você quer um pedacinho?’ – inquiriu a garotinha estendendo o bombom para a direção do pai.
‘-Er, não.’ – sempre ficava sem jeito ao falar com a filha - 'Obrigado.' - achou importante acrescentar.
‘-O que você vai fazer lá em cima, ?’ – perguntou a mãe, vendo que a garotinha estava subindo as escadas.
‘-Mamãe, eu vou terminar de comer e tirar o uniforme’ – informou.
concordou e seguiu-a de forma a ajudar nas tarefas; tinha apenas três anos recém completos. Meia hora depois, a mulher desceu as escadas desacompanhada, a filha aproveitara para tirar a soneca da tarde.
‘-Quem é Will?’ – questionou com o cenho franzido, sentando-se em um dos sofás da sala de estar.
‘-Will é seu irmão, .’
‘-Ah, pronto, , agora eu tenho um irmão’ – ele riu debochadamente – ‘O que mais falta nessa história? Eu não teria como ter um irmão adulto e não saber, eu perdi as memórias dos últimos cinco anos, não...’
‘-Ele é filho do seu pai, , com a segunda esposa.’ – interrompeu-o, contando calmamente.
‘-Meu pai?’ – bradou – ‘Eu não tenho pai!’ – quando viu que ela continuava a sustentar seu olhar, estreitou os olhos e disse: ‘O que você poderia saber sobre o meu pai?’
‘-Eu sei sobre o seu pai.’ – continuou com a mesma calma, sabendo que esse era um assunto delicado.
‘-Eu jamais teria te contado.’ – bufou, visivelmente alterado em um misto de raiva, insegurança e medo – ‘Eu nunca contei para ninguém na minha vida, , por que eu contaria justo pra você?’ – inquiriu, bufando.
‘-, eu sei de tudo. Do abandono, de você culpando sua mãe a vida toda... Até da parte que você não se lembra mais, de vocês se reencontrando depois de tanto tempo.’
‘-Era só o que faltava!’ – gritou – ‘O meu pai é uma coisa impossível, . Não cabe nesse conto de fadas que você e minha mãe inventaram!’
‘-Não grite, , por favor. Temos uma criança em casa, e eu já tenho coisas demais pra explicar pra ela.’ – pediu, séria – ‘Você reencontrou seu pai por acaso, logo que a nasceu. Não foi nada parecido com um conto de fadas, mas ele faz parte da sua vida hoje. E você simplesmente adora seu irmão, o Will, desde o momento em que o conhecemos.’ – contou resumidamente, vendo todas as emoções passarem pelo rosto do marido.
‘-Eu jamais aceitaria ele de volta na minha vida, , jamais.’ – exclamou, levantando-se bruscamente – ‘E acho muito difícil eu ter aceitado um filho do George tão facilmente.’
‘-Você mudou bastante durante os anos’ – deu de ombros, resignada, olhando para um arranjo de flores atrás do marido, temendo que seus olhos revelassem mais do que ela gostaria – ‘George também.’
‘-Eu não mudaria tanto em cinco anos, porra, .’ – disse, acenando negativamente com a cabeça, e sentando-se em uma poltrona, abalado.
‘-Quando você chegou aqui me perguntou pela casa. Como conseguimos comprar uma casa dessas’ – lembrou – ‘Seu pai nos ajudou. Nós morávamos no meu apartamento e, quando a nasceu, achamos que uma casa seria o melhor lugar para criá-la. Seu pai é dono de uma imobiliária grande e se propôs a nos ajudar. Quando ele nos mostrou esta casa, nos apaixonamos; era exatamente o que tínhamos sonhado e um pouco mais, mas ultrapassava muito nosso orçamento.’ – contou, sendo ouvida atentamente por – ‘George manteve uma poupança para você, com todo o dinheiro que sua mãe nunca aceitou para te criar e ofereceu para que o usássemos para conseguir comprar a casa dos nossos sonhos. Ele foi entrando na sua vida aos poucos, . Eu sei que agora pode parecer que todas essas informações surgiram de uma hora para outra, mas tudo teve um processo e levou um tempo.’
Ele suspirou, resignado, passando a mão pelo que sobrava dos cabelos, a parte que não estava enfaixada.
desistiu de continuar a tentar convencê-lo e subiu para checar a filha.
‘-Eu tenho uma pergunta para te fazer, , er, .’ – informou, fitando o tapete a seus pés – ‘Você estava usando uma lingerie preta quando transamos pela primeira vez? – inquiriu, sem saber bem como fazer esse tipo de pergunta.
Ela enrubesceu.
‘-Sim.’ – concordou, encarando as mãos no colo – ‘Por que, ? Da onde veio isso?’
‘-Eu tive um sonho estranho. Muito real. Em que você acordava e brigava comigo porque tínhamos transado. No final eu te chamei pra sair. Sexta, às oito.’ – ele lembrou conforme ia contando, nunca encarando .
Lágrimas se formaram nos olhos dela com aquela informação.
‘-Isso não foi um sonho, . Foi uma lembrança.’ – disse baixinho, mas por dentro uma ponta de esperança e felicidade se iluminou – ‘Da primeira noite em que dormimos juntos.’

***

O fim de semana chegara e estava de pé cedo, exibindo olheiras de quem não dormia muito nos últimos tempos. Louise aparecera por lá enquanto e ainda dormiam, cumprimentando e sentando-se silenciosamente em um dos sofás da sala de estar na companhia da nora.
‘-Você precisa descansar, querida.’ – a mulher comentou, preocupada, segurando uma mão de .
‘-Eu não tenho conseguido, Lou. E tem sido mais difícil desde que voltou.’ – confessou, olhando para baixo – ‘Eu estou sempre alerta, com ele, com a . Enquanto esse machucado ainda estiver aberto não vou conseguir descansar.’
‘-, você tem certeza que não quer deixar ele se recuperando lá em casa, nessas primeiras semanas ou meses?’ – inquiriu delicadamente, olhando a nora com preocupação visível – ‘Você já tem a , que é pequena e demanda muita atenção; agora, além de não ter ajuda com ela, tem o machucado... Você vai se esgotar, querida.’
‘-Ele é meu marido, Lou. Eu simplesmente não posso deixá-lo desse jeito, machucado e precisando de mim mais do que nunca. Ele não se lembra de mim, mas eu me lembro dele.’ – lágrimas formaram-se nos olhos de , que limpou-as rapidamente – ‘Além de que as chances de o se lembrar da gente são maiores com ele aqui, convivendo comigo e com a .’
Louise apertou firme a mão da nora, sofrendo junto com ela.
‘-O não sabe a sorte que ele tem.’ – disse a sogra, a voz também embargada por lágrimas que ela não derrubou – ‘Eu não me lembrava mais dessa versão dele. Como é fácil esquecer das coisas ruins.’ – admitiu ela, sorrindo confidente para .
‘-Eu também não. E eu achava que estava pronta para qualquer coisa quando – se – ele acordasse.’ – deu de ombros, cabisbaixa, sorrindo triste.
‘- era uma pessoa horrível antes de você.’ – declarou, desviando o olhar da loira. Lágrimas se acumularam em seus olhos.
‘-Não diga isso, Lou...’ – pediu, apertando o braço da sogra e fazendo-a olhar para si – ‘Ele só estava perdido.’ – sorriu triste.
Quando acordou e desceu as escadas, deparou-se com a esposa, a filha e a mãe. estava sonolenta, aninhada – ainda de camisola – no colo da avó, com acariciando seus pezinhos, acomodada ao lado da sogra no sofá.
Louise murmurava algo que ele não conseguia ouvir para , enquanto tentava carinhosamente acordá-la. Era um baque ver sua mãe sendo avó. Da filha que ele não lembrava que tinha. As últimas memórias que possuía da mãe envolviam ela expulsando seus amigos de casa e gritando com ele por todas as coisas erradas que costumava fazer na companhia deles. Nas suas lembranças, Louise sempre parecia cansada e desgastada, sempre aturdida, sempre repreendendo-o, nunca em paz. Essa mulher dando beijinhos na cabeça da neta parecia até mesmo outra pessoa; parecia calma e realizada. Finalmente em paz, depois de uma vida infindavelmente conflituosa.
Como esse panorama mudara tanto em cinco anos?

***


‘-, nós estamos atrasados para a sua consulta.’ – gritou do andar de baixo, esperando que o marido conseguisse ouvi-la.
fechou a mochilinha de lhama da filha, ajeitando o grande laço que adornava a cabeça da garota quando George chegou para buscá-la ao mesmo tempo em que descia apressado as escadas.
Pai e filho ainda não tinham se encontrado desde que acordara no hospital; tinha ficado silenciosamente acordado entre todos eles que era o melhor. George o vira pela última vez enquanto dormia, na última semana do rapaz no hospital. Ele precisava primeiro melhorar para depois ter que lidar com os aspectos mais turbulentos da própria vida.
estacou no pé da escada quando se apercebera da presença agachada do pai, abraçado à sua filha, na porta de entrada. passou a mão pelo rosto, preocupada. Não queria confrontos na frente de .
‘-, olá. Como você está?’ – inquiriu cautelosamente George, segurando a garotinha no colo.
O filho apenas o encarou e fez questão de ignorá-lo completamente, bufando ao se jogar contra um dos sofás fofos da sala de estar. suspirou e entregou a mochila da filha para o avô, levando-os porta afora enquanto se despedia.
‘-, nós estamos atrasados’ – disse novamente ao entrar na casa, procurando pela sua bolsa.
‘-Eu ouvi da primeira vez’ – resmungou, levantando-se do sofá e passando a mão pelos cabelos ainda molhados – ‘Não precisa me tratar como uma criança, .’
suspirou, resignada – ‘Eu só quero que você melhore logo.’
‘-Eu não vou lembrar magicamente das coisas olhando para a cara do médico, se é isso que você está esperando.’

‘-, você vai ter que ter mais calma ao me deixar limpar o machucado agora, sem a faixa.’ – pediu, enquanto o marido se contorcia.
‘-Porra, isso dói.’
limpava o corte calma e decididamente, seguindo as instruções do médico que tinham visitado aquela tarde. O novo objetivo era que o corte sarasse o suficiente para que os pontos pudessem ser retirados no começo da próxima semana.
‘-Eu imagino que doa. É um corte bem grande.’
Quando terminou com os cuidados e começou a guardar os apetrechos, se levantou e seguiu em direção ao banheiro do andar de baixo.
‘-Puta que o pariu.’ – ele exclamou alto, colocando uma das mãos na boca devido ao susto.
O corte ia do canto da sobrancelha esquerda, deixando uma falha, até um bom pedaço do couro cabeludo, com os pontos ainda à mostra. Seus olhos lacrimejaram e não sabia bem o porquê.
‘-Você ainda não tinha visto?’ – inquiriu , que viera correndo ao encontro do marido depois do grito.
Ele apenas acenou em negação, sem conseguir expressar mais nada.
‘-Não se assuste tanto, só está com os pontos ainda. Estava bem pior.’ – tentou consolá-lo – ‘Daqui a pouco não vai dar pra ver nada.’
‘-A campainha tá tocando.’ – foi a única coisa que disse, ainda aturdido, afastando o cabelo que crescia ao redor do machucado para ver melhor sua extensão.
Quando voltou, trazia uma sonolenta no colo.
‘-Era seu pai, veio trazer a .’ – comentou para o marido, puxando-o para fora do banheiro – ‘Você já se acostuma.’ – afirmou ela, se referindo ao machucado.
concordou e puxou o cabelo mais uma vez, dando uma última olhada.
‘-AH!’ – exclamou , mais acordada do que os pais imaginavam, olhando assustada para o machucado na cabeça do pai.
soltou o cabelo, assustado com o grito da criança, que agora tinha os olhos lacrimejados. , segurando a filha, pôde sentir os batimentos cardíacos da menininha acelerarem e sua respiração ficar pesada e entrecortada.
‘-Shhh, querida, calma’ – pediu a mãe, apertando-a mais no colo e dando um beijinho em sua cabeça – ‘Tá tudo bem, o machucado do papai já está sarando... Só está com os pontos ainda’ – explicou para a filha – ‘Já, já você se acostuma. O papai também levou um susto hoje quando viu pela primeira vez.’ – falou calmamente, balançando de leve em mais uma tentativa de acalmá-la.
apenas via a cena de longe. Ele tinha ido até a sala de estar e observava enquanto mãe e filha interagiam; elas eram bastante parecidas, concluiu. Era estranho que se parecesse tanto com quanto com ele, ao mesmo tempo.
‘-Você comeu com o vovô, ?’ – perguntou a mãe à uma sonolenta recostada a ela.
‘-Sim, mamãe’ – afirmou, balançando a cabeça juntamente à sentença.
‘-Então vamos tomar banho e levar você pra dormir, mocinha.’ – falou baixinho, tirando uma mecha de cabelo loiro dos olhos da filha.
A interação entre elas era toda estranha a , também. Era um tanto quanto irreal. Ele estava ali, mas não fazia parte de nada daquilo; era apenas um espectador. Parecia um sonho – ou pesadelo – em que ele, de repente, se encontrava preso.
ia subindo as escadas, ainda com a filha no colo, quando avisou:
‘-, eu vou levar a tomar um banho, se precisar de qualquer coisa pode me chamar.’
Ele apenas concordou, o olhar fixo nelas, e respondeu um OK inaudível.

, com os cabelos mais compridos e um ar infinitamente mais jovial, subia as escadas com uma bem mais nova aninhada a ela. A bebê ria descontroladamente no colo da mãe, que a acompanhava.
‘-Fale pro papai que nós vamos tomar banho’ – dizia para a filha, que não parava de rir – ‘Tchau, papai’.
A mãe quase nem conseguia subir os degraus de tanto que a filha ria, não resistindo a rir junto com ela. , com as bochechas gordinhas, ria e acenava com as mãos para o pai.
‘-, pare de palhaçada, por favor’ – pediu , ainda rindo, tentando acalmar a filha – ‘Ela precisa urgentemente de um banho.’

piscou, assustado. Não se lembrava de rindo daquela maneira.
‘-Tudo bem, ?’ – tinha descido os poucos degraus que conseguira subir, se certificando de que o marido estava bem – ‘O que houve?’ – inquiriu, preocupada.
‘-Tudo bem, ’ – disse, ríspido, concordando com a cabeça – ‘Eu só estou cansado.’
Ele só soltou a respiração que nem percebera estar segurando quando a esposa e a filha desapareceram no topo da escada. Estava assustado. Aquilo fora uma lembrança?
só não sabia o que o assustava mais: não saber o que acontecera nos últimos cinco anos ou reaver as memórias assim, inesperadamente.

***


‘-Papai!’ – chamou , entrando no quarto dos pais, em um dos dias daquela semana que parecia não terminar nunca.
parou de remexer nas gavetas – era só o que ela fazia ultimamente, remexer em todas as coisas da casa, para evitar ficar parada, para evitar pensamentos que a corroeriam – passando a prestar total atenção ao que a filha diria ao pai.
, deitado na cama lendo notícias em um iPad, também levou um susto. Levantou-se de súbito – os olhos ainda meio arregalados – e chegou mais perto da garotinha.
‘-Me coloca pra dormir?’ – pediu ela, de pijamas, uma ovelha de pelúcia em uma mão e um livro infantil na outra.
Nada poderia deixar mais temeroso. Aquela criaturinha de três anos, que há apenas algumas semanas ele não fazia a mínima ideia de que sequer existia, pedindo para ele colocá-la para dormir. Era literalmente um pesadelo sem saída.
‘-Você não tá assustada com o meu machucado?’ – replicou, na defensiva – ‘Não vai conseguir dormir.’
Ela apenas acenou em negativa, balançando os dois rabinhos para um lado e para o outro.
‘-Eu fecho os olhos’ – reafirmou depois de um tempo, vendo que o pai não a respondera.
observava a cena apreensiva. Ao mesmo tempo em que queria que pai e filha interagissem, tinha um ímpeto maior que ela de não deixar aquela versão de entrar em contato com a menininha. Esse era uma bomba relógio, ela sabia bem.
‘-Eu não posso fazer isso. Eu não faço a mínima ideia de como fazer isso.’ – disse por fim, alto demais. Nem ele sabia se estava falando com ou com a mãe dela. Respirava pesadamente depois da sentença proferida, tinha ficado nervoso demais.
‘-Venha, querida, a mamãe vai colocar você para dormir’ – chamou carinhosamente a filha, ignorando completamente o marido no meio do caminho – ‘A gente pode ler aquele livro novo que a vovó te deu.’ – cutucou de leve, tentando descontrair o clima.

Quando voltou para o quarto, as luzes já estavam apagadas, o marido havia deixado apenas as luminárias de leitura de cada lado da cama acesas. analisava uma edição antiga de um jornal ilustrado por ele.
se aconchegou debaixo das cobertas, ajeitou os próprios travesseiros e suspirou.
‘-Você sabe, , você não pode ignorar nossa filha pra sempre’ – disse, depois de um tempo pensando – ‘É bom que você comece a pensar como vai lidar com isso.’ – cada palavra continha uma dose de dor que conseguia distinguir, mas não compreendia e muito menos compartilhava.
‘-Eu não sei o que fazer, ’ – ele retrucou – ‘Eu não sei ser pai. Não adianta me dar um ultimato, eu não sei o que fazer, porra!’ – explodiu, colocando as mãos na cabeça depois – ‘E não sei se quero aprender.’ – completou, num desabafo baixo.
A expressão de foi se desfazendo até ficar completamente lívida. Não se preocupou em responder nada, em fazer nada, apenas virou para seu lado, dando as costas para o marido, indo o mais longe que podia dele.
Nunca agradecera tanto por aquela cama king-size.
Ela nem conseguiu se controlar o suficiente para certificar-se de que estava mesmo dormindo; uma vez que as lágrimas começaram a cair não pararam mais, em um choro silencioso de dor. Queria apenas acordar daquele pesadelo.
Naquela noite, diferentemente de todas as outras, não varou a madrugada trabalhando. Adquirira esse hábito quando ainda estava no hospital e ela queria evitar os pensamentos, o desespero, do tempo que antecedia o sono. Nessa época, escrevia até quase literalmente cair de sono. Às vezes, acordava com o laptop no colo.
Com voltando para casa, entretanto, a rotina de trabalhar até dormir mudara para trabalhar ao invés de dormir. Primeiro, porque ela simplesmente não conseguia. Quando tentava, acordava subitamente, ora pensando em , ora pensando em . Segundo, porque trabalhar evitava pensar, que evitava aquela maré de sentimentos dentro dela. Depois, com toda essa mudança na rotina da casa – trabalhando meio período, assumindo todos os cuidados da filha e da casa sozinha, levando o marido às consultas, aos exames – sobrara menos tempo para trabalhar, e precisava dessas horas de trabalho a mais para se manter a par com sua carreira.
Mas, naquela noite, deixara a maré de emoções que o marido despertara com as últimas sentenças invadi-la e deixou-se sentir tudo que estava adormecido. Levantou apenas para pegar um copo de água, depois de acalmar-se um pouco, sem, entretanto, trazer o laptop consigo quando voltou à cama.
Sentada recostada aos travesseiros, colocou ambas as mãos no rosto e suspirou.
Ouviu ressonar baixinho ao seu lado, da maneira engraçada que ele ressonava desde que ela conseguia se lembrar. Um sorriso mínimo, triste, estampou seu rosto e ela não resistiu a espiá-lo dormindo.
Relaxado daquele jeito parecia que nada tinha mudado.
Uma lágrima escorreu, solitária.
Não de dor. De saudade.
Ela chegou mais perto e tirou os cabelos do marido do rosto, acariciando de leve. Parecia fazer anos que não o tocava. Depositou um beijo – bem leve, com medo de que ele acordasse – na testa de .
‘-Volta pra gente, amor’ – murmurou, segurando as lágrimas – ‘A precisa tanto de você.’
acabou caindo no sono ali mesmo, próxima do marido – não tanto quanto gostaria, porém mais do que ousaria nos últimos tempos. Quando os primeiros raios da manhã invadiram o cômodo, ela piscou lentamente, apercebendo-se do quão próxima estava de ; lançou um olhar singelo a ele e deixou, mais uma vez, que seus dedos afundassem nos cabelos do esposo, mais curtos do que ele costumava usar antes do acidente, num carinho lento e singelo.
Recuou, depois, com medo que ele acordasse – o que, de fato, aconteceu.
‘-?’ – inquiriu, sonolento, tentando abrir os olhos – ‘Você estava aqui? Senti alguém mexendo no meu cabelo.’
lançou a ele um olhar mortal. Aquele , chamando-lhe pelo sobrenome, naquele tom sempre superior, sempre debochado, trouxera a noite anterior de volta.
A esposa, que já estava enfiada no closet quando conseguiu acordar o suficiente para fazer aquela pergunta, só sustentou o olhar de soslaio e respondeu – ‘Por que eu mexeria no seu cabelo, ?’
Ele, confuso, não respondeu. Apesar da negativa, podia ter certeza de ter acordado com alguém acariciando seus cabelos, que trouxe também uma sensação diferente, um aperto no peito, uma melancolia – sentimentos que, aos dezoito anos, não conhecia bem e agora não se lembrava de como processar.
‘-Eu estou me mudando para o quarto de hóspedes’ – informou, séria, separando em um cesto algumas roupas e o próprio travesseiro – ‘Não queria te acordar.’
‘-Às sete da manhã?’ – respondeu , debochado, esfregando os olhos e olhando no relógio ao seu lado da cama.

fechou a porta do quarto de hóspedes atrás de si, o coração martelando no peito. Não poderia arriscar mais ficar tão perto de , não podia deixar essa maré de sentimentos invadi-la novamente. Precisava ficar lúcida para cuidar de tudo que estava sob sua responsabilidade: a recuperação do marido, a criação da filha, o próprio emprego. Precisava estar cem por cento.

***


estava acostumado com a rotina da casa, depois daquelas semanas de volta. e saíam pela manhã, mas ele só levantava da cama depois que elas já tinham ido; aproveitava esse tempo sagrado em que podia ser apenas ele – sem as esquecidas funções de pai e marido pairando sobre si – para tentar se conhecer novamente.
Algumas memórias cotidianas apareciam inesperadamente, conforme algo da rotina da casa o lembrava de pequenas e relapsas passagens – como tinha acontecido com e subindo as escadas para tomar banho. Era sempre um lapso, um flash, que de repente surgia nesses momentos.
Não lembrara de nada que o surpreendesse; normalmente as lembranças envolviam a esposa e a filha, sempre rindo e brincando, numa atmosfera totalmente diferente da qual a pequena família vivia agora.
Começou, também, a lembrar de trechos de livros que suspeitava já ter lido naqueles anos. passava a maior parte das manhãs solitárias em seu escritório, ora revendo trabalhos antigos, ora lendo algum dos muitos livros dispostos em uma estante que cobria, de cima a baixo, uma das paredes do cômodo.
A memória era uma coisa engraçada, ele pensava. Quando segurou um lápis pela primeira vez depois do acidente, riscando distraidamente uma folha em branco no escritório, assustou-se com o resultado. Parecia muito com os desenhos que preenchiam a sala. Ele não se lembrava, mas a mão dele, aparentemente, sim.
O que mais poderia estar ali, escondido dele?

‘-’ – chamou pelo batente do escritório, alarmada – ‘Eu vou precisar resolver um problema urgente do trabalho, acabaram de me ligar do jornal. A está caindo de sono, ela precisa dormir e você vai precisar assumir isso hoje’ – atestou ela, temerosa. Também não era confortável para deixar a filha sob os cuidados do pai, na atual conjuntura.
‘-, eu...’ – começou, nervoso, passando uma das mãos pela testa.
‘-, hoje não tem outro jeito, acredite’ – reafirmou, segurando o celular que não parava de vibrar nas mãos – ‘A está pronta, esperando lá em cima; tudo que você precisa fazer é ler uma história ou duas. Eu vou trabalhar daqui de casa, mas preciso me concentrar exclusivamente nisso por algumas horas, até resolvermos o problema da edição de amanhã.’
‘-Você é escritora?’ – inquiriu, confuso com todas aquelas informações de uma vez só.
‘-Jornalista.’ – sorriu sem emoção, ainda alarmada – ‘A já escolheu o livro que quer ler hoje, você conhece o caminho do quarto dela. Eu estarei na sala de fora, se precisarem de mim.’
suspirou, nervosa com ambas as situações de casa e do trabalho, e seguiu para o pequeno jardim de inverno que dava para a área de preservação ambiental atrás da propriedade, que costumava ser seu lugar favorito para se concentrar e escrever.

entrou, cauteloso, pela primeira vez no quarto da filha. Não era o que ele esperava do quarto de uma menininha da idade dela; as paredes eram brancas, mas todo o resto era colorido, principalmente em alegres variações de amarelo – não denunciando o gênero da criança que ali vivia – apinhado de livros, bichos de pelúcia, materiais de desenho e brinquedos de madeira.
‘-Ei’ – disse, receoso, anunciando sua presença.
apenas sorriu um sorriso quase triste, se não pertencesse a uma criança de três anos. Fazia alguns dias desde que se recusara a colocá-la para dormir e a menininha parecia, em sua inocência, ter entendido. Não reivindicara mais nada do pai desde então.
Ela já estava devidamente acomodada na própria cama, segurando o livro que escolhera para aquela noite, folheando-o para olhar suas figuras. aproximou-se devagarinho, num misto de não saber realmente o que fazer e de não querer chegar lá; a cada passo lento para frente, queria, em seu íntimo, dar dois passos correndo para trás.
Na sua cabeça de dezoito anos estar dentro daquele quarto era como entrar, de livre e espontânea vontade, no pior pesadelo de sua adolescência. Ainda mais considerando o fato de que era filha de , a quem ele atormentara durante todos os anos de colegial. Parecia muito errado.
Alcançando a cabeceira da cama da garotinha, afundou em um pufe peludo rosa clarinho que parecia especialmente posicionado para o momento em que um dos pais fosse colocá-la para dormir.
‘-Oi, papai’ – respondeu somente, sorrindo sem mostrar os dentes.
A doçura daquela resposta não combinava com a explosão de receios de , deixando-o mais confuso ainda.
estendeu o livro que segurava para o pai, que aceitou ainda atônito. Franziu o cenho para o livro – que não era colorido e imensamente ilustrado como esperava que fosse.
‘-Posso começar?’ – inquiriu, sem saber bem o que fazer antes de começar a ler. apenas acenou decididamente com a cabeça, se acomodando melhor para conseguir enxergar o livro
‘Faltava-lhe uma parte
E ele não era feliz
Então partiu em busca
de encontrar a outra parte’
¹
fora corrigido por enquanto lia as partes em que o personagem cantava – ‘Tem que cantar nessa parte, papai’ – e terminou o livro com ainda mais caraminholas na cabeça do que tinha ao adentrar o quarto.
‘-Esse livro é pra sua idade?’ – questionou o pai, sem ter certeza de que ele, adulto, entendera a história completamente. Parecia mais uma aula de psicologia do que um livro de criança.
;‘-Não sei.’ – deu de ombros, fazendo uma expressão engraçadinha – ‘Você gostava de ler pra mim. Eu não entendo direito, mas gosto da bolona que canta.’ – explicou à sua maneira, sorrindo e encolhendo os ombros com a última sentença.
‘-Eu gostava?’ – perguntou retoricamente, franzindo o cenho ao encarar o livro.

‘-Sabe qual é a parte que falta?’ – perguntou, baixinho, para a filha, como se segredasse alguma coisa muito importante.
Ela acenou em negação, sorrindo para o pai em expectativa.
‘-Você.’ – contou, sorrindo em admiração e pressionando o indicador contra o narizinho da pequena – que não resistiu a fazer uma careta para acompanhar o gesto do pai, rindo abertamente depois.
‘-Eu?’ – inquiriu, de olhos bem abertos – ‘Mas a parte que falta não deixa a bolona cantar! E depois ela vai embora!’ – argumentou, preocupada.
‘-Você é a borboleta – que é a parte que deixa ele mais feliz.’ – respondeu, puxando a menininha para o próprio colo e dando um beijinho na cabeça dela – ‘A borboleta pode ficar sempre ali, em cima dele, enquanto ele anda, rola, canta...’
‘-Sobe montanhas’ – ela interrompeu o pai, acompanhando o raciocínio – ‘Porque ela é uma borboleta. Ela voa.’
deixou-se rir com a filha. O orgulho e admiração por aquela criaturinha de apenas três anos não cabiam nele.
‘-Isso mesmo, ’ – reforçou, apertando-a de leve no abraço – ‘E porque ela voa, pode estar sempre ali, juntinho.’
‘-Eu sou a borboleta.’ – concluiu, feliz, com a comparação feita pelo pai.
‘-A minha borboleta’ – cutucou a menininha, frisando o pensamento – ‘Você é a parte que faltava em mim.’ – disse, baixinho, mais para ele mesmo do que para a garotinha em seu colo.


quase teve um colapso quando a última lembrança veio à galope enquanto encarava a capa do livro. Pôs as duas mãos no rosto, arfando profundamente, tentando convencer-se de que aquilo era apenas um devaneio da sua mente.
Estava literalmente à beira de um colapso.
Olhou para o lado e notou que pegara no sono; ela estava na pontinha da cama, virada para o pai, com uma das mãozinhas repousando em sua coxa. não conseguia identificar se queria gritar, chorar, correr – tudo estava mais confuso do que nunca.
Respirou fundo e, com cuidado, tirou a mãozinha de cima de sua perna, levantando-se silenciosamente depois. Em um movimento automático, levou-a mais para o meio da cama, puxando as cobertas em seguida. Antes de sair, apagou as luzes e acendeu o abajur, regulando a luz para a menor intensidade.
Só se deu conta de que conscientemente não sabia que tinha que seguir todos esses passos quando saiu do quarto e percebeu o que tinha feito. Estava mais assustado do que nunca. Aquilo era real. Ele era pai daquela menininha há três anos.
Precisou tomar um banho gelado na tentativa de voltar a si, mas a lembrança o perseguia toda vez que ele fechava os olhos.
‘-Eu sou a borboleta.’
‘-A minha borboleta.’

Ele estava ficando louco, era a possibilidade mais crível. Secou os cabelos de qualquer jeito com a toalha e tomou dois comprimidos do analgésico que o médico receitara para as dores depois do acidente e da cirurgia; o fazia dormir como um bebê – e era disso que ele precisava: dormir. Para, quem sabe, acordar longe dessa realidade alternativa que enxergara com .

‘-Ela é tão linda’ – ele sorriu, a voz embargada pelas lágrimas quando passou a garotinha dos próprios braços para os de , que segurava a filha pela primeira vez.
‘-Ela acabou de nascer, ’ – considerou a mãe da criança, divertida – ‘Talvez daqui a algumas horas ou dias.’ – provocou, o olhar bobo de admiração não deixando espaço para que alguém acreditasse em suas palavras.
a ajeitou melhor em seu colo, encarando aqueles olhinhos que mal tinham começado a conhecer o mundo. Trazendo-a para mais perto do peito, deu um beijinho no topo da cabeça do bebê, encostando o rosto nela em seguida.
Nunca sentira nada mais forte. As lágrimas se acumulavam nos olhos e ele era todo emoção.
também nunca reconhecera o famoso cheiro de bebês – até porque nunca tinha convivido de perto com um, mas naquele momento ele soube. E soube que era um cheirinho que seria capaz de reconhecer apenas na própria filha. Um cheirinho de bebê dela.
O coraçãozinho de batia acelerado, próprio de uma recém-nascida, e o de passou a acompanhá-lo, batendo forte e rápido na frequência da emoção de conhecer – e reconhecer – a filha em todos os seus minúsculos aspectos.
‘-Oi, ’ – murmurou para o bebê em seus braços, um de seus dedos indo ao encontro da mãozinha pequena e inquieta da filha – ‘Você é a coisinha mais linda do mundo.’


acordou arfando. Ele se lembrava do sentimento de ter uma filha; aquele primeiro contato, aquele primeiro elo estava de volta. Não tinha as lembranças da vida com ela, mas recordou-se de como era se sentir pai.

***


precisara voltar do trabalho mais tarde do que o usual. Aquela semana que começara com uma ligação desesperada no meio da noite só ficara pior. Louise buscara a neta na escola e aproveitara para passar a tarde com ela, levando-a ao balé e mimando-a pelo restante do dia, até que a mãe fosse buscá-la após o trabalho.
Chegando em casa, notou as luzes acesas, mas nem sinal de . Carregava , vestida em um adorável tutu rosa clarinho, e as coisas das duas nos braços quando começou a gritar pelo marido percorrendo o extenso andar de baixo; ao alcançarem a cozinha, viu que a luzes da área externa estavam acesas, onde havia uma pequena área de lazer.
‘-?’ – chamou, sem entender bem o que estava acontecendo.
‘-O que foi?’ – respondeu grosseiro, ainda rindo de alguma coisa que tinham falado na rodinha de amigos da adolescência que se formara ali.
‘-O que está acontecendo aqui?’ – exclamou, estupefata, ainda com a filha no colo.
Ao redor de uma grande mesa de piquenique de madeira estavam todos os amigos mais próximos de da época do colegial, sete no total. A churrasqueira estava acesa e soltando uma quantidade de fumaça fora do comum, havia latas amassadas de cerveja espalhadas por todos os lados, uma garrafa de Whisky pela metade e um bong, que parecia estar sendo compartilhado entre eles, repousava na mesa, contribuindo com a fumaça proveniente da churrasqueira.
‘-Eu resolvi reunir uns amigos. Não tinha visto ninguém desde o acidente’ – respondeu, calmo, um cigarro entre os lábios – ‘Essa casa também é minha, afinal.’
‘-Você não via essas pessoas desde o colegial!’ – exclamou, atônita – ‘Fora o Steve, nenhum deles está na sua vida.’
‘-É o que eu acabei de descobrir’ – riu, debochado, dando uma tragada longa – ‘A opinião deles é que a gente se afastou por sua causa. Pelo jeito você não deixava.’
olhou questionadora para Steve – o único amigo dessa época que restara na vida deles – que deu de ombros como quem não sabia daquela informação, os olhos tão arregalados quanto os de .
‘-Eu não tenho nada a ver com isso. Você se afastou deles porque eles são zé ninguéns que não querem nada com a vida.’ – defendeu-se, chocada – ‘E você não fuma, , que droga!’ – exclamou mais alto do que deveria, ajustando o peso da filha em um dos braços e liberando o outro para puxar o cigarro da boca do marido e jogar no chão, pisando em seguida.
‘-Eu fumo se eu quiser, . E ando com os amigos que eu quiser’ – disse pausadamente – ‘Chega dessa história de você mandar na minha vida, em tudo que eu faço.’ – bradou, exasperado.
‘-Porra, !’ – gritou ela de volta, enraivecida – ‘O nosso relacionamento não é assim!’ – lágrimas de raiva se formaram em seus olhos.
‘-E como ele é, ? Você mandando e eu obedecendo?’ – provocou – ‘Se era assim antes que eu perdesse as memórias, esqueça.’
‘-Não’ – bradou de volta, colocando uma das mãos nas costas da filha – ‘Nunca brigamos na frente da . A gente se respeitava. Se tratava bem. A gente se...’ – interrompeu-se, deixando um par de lágrimas escorrer.
‘-A gente o que, ?’ – inquiriu, firme. Ele não tinha deixado aquele deslize passar.
olhou para ele com tanto significado que até desmanchou o semblante de presunção. Queria que ele entendesse, que ele olhasse para ela e entendesse. Quase gritou todas as verdades que ele queria saber de volta para ele. Quase.
Suspirou.
‘-Nada, ’ – baixou o olhar para a menininha assustada agarrada à ela e definiu suas prioridades – ‘Eu estou subindo com a e você trate de tirar esse povo e esse maldito bong daqui. Respeite a casa da sua filha, por favor.’ – assegurou, dura e séria.
‘-Eu posso tomar uma cerveja com os meus amigos, !’
‘-Fique à vontade. Da porta para fora, faça o que quiser. O que não vai acontecer é eu aceitar um bando de idiotas bêbados e chapados na minha casa.’
Dado o ultimato, o encarou até que começou a acompanhar os amigos – e o bong – para fora. Steve ficou para trás, colocando uma mão consoladora no ombro de .
‘-Eu cheguei faz pouco tempo, . Não a tempo de impedir tudo isso, pelo visto.’ – comentou, suspirando e dando de ombros – ‘Ele não lembrou, não é?’ – inquiriu tristemente, já sabendo a resposta.
apenas acenou com a cabeça em negação.
‘-Ei, gatinha’ – Steve cutucou que, aninhada no colo da mãe, respondeu um ‘oi’ baixinho e tristonho – ‘Eu vou lá falar com ele.’ – ele agora direcionava-se para .
‘-Não precisa perder seu tempo.’ – informou, desacreditada, despedindo-se de Steve e seguindo com a filha para o andar superior.

, sentado na soleira da porta de entrada, suspirou, morrendo de dor de cabeça.
Estava cansado, cansado de tudo. Ele sabia que havia mais naquela história do que o que estavam lhe contando. As poucas e esparsas lembranças que lhe ocorreram mostravam uma aura bastante diferente do que a que ele estava vivenciando.
Chamara seus amigos do colegial para tentar ter uma ideia do que realmente acontecera em sua vida durante aqueles cinco anos; talvez eles soubessem dessa parte faltante. Porém, como a esposa tinha devidamente colocado, eles não fizeram parte de seus últimos anos.
Apenas Steve estivera presente – e sabia, tinha noção, mas igualmente fizera questão de não mencionar nada.
Além de tudo, queria provocar com os amigos em casa; o tiro tinha saído pela culatra. Provocara a esposa, mas também se provocara ao olhar para ela e ver todas as respostas que tinha ido procurar nos amigos. Estavam lá, mas não sabia decifrá-las.
Alguma coisa muito importante mudara nos últimos cinco anos.

***


Que maneira de começar os vinte e três anos, pensou, abrindo os olhos naquela manhã enquanto encarava o teto do quarto de hóspedes. Depois da noite anterior, não sabia se conseguiria encarar ; além de toda a confusão com os amigos dele, o álcool e a maconha, gritara com o marido na frente de – algo que ela tinha prometido a si mesma que não faria.
Sua vontade era pegar a filha e sumir, nem que fosse somente por aquele dia; fingir que nada daquilo era real.
Descendo as escadas, ainda sonolenta e quebrada pelos acontecimentos da noite anterior, encontrou a filha – já devidamente vestida – e a sogra juntas, arrumando a mesa de café da manhã na sala de jantar. Sorriu com a cena, apesar de tudo.
‘-Ei, amorzinho, você já está acordada?’ – perguntou retoricamente a mãe, trazendo – em pé em cima de uma das cadeiras – para o seu colo e aninhando-a carinhosamente.
‘-A vovó foi me acordar’ – contou, risonha – ‘pra prepararmos o café da manhã pra você, mamãe.’
‘-Vocês são uns amores.’ – riu fraquinho, depositando um beijo da cabeça da filha.
‘-Feliz aniversário, mamãe.’ – desejou , ainda aninhada na mãe, apertando mais o abraço.
Louise chegou mais perto, abraçando a nora que ainda segurava a menininha.
‘-Feliz aniversário, querida’ – disse, sorrindo de leve para ela – ‘Vai ser um ano melhor.’ – certificou-a, apertando o braço da loira em confirmação.
‘-Obrigada, Lou.’ – agradeceu, os olhos cheios de lágrimas – ‘Por tudo.’
pulou do colo da mãe e voltou a mexer nos arranjos de flores em cima da mesa.
‘-Ei, , o que houve?’ – inquiriu, notando que a nora estava mais abatida do que o normal desde que fora ao encontro delas.
‘-Eu e o brigamos, Lou. Bem feio.’ – contou, baixinho, suspirando e tentando conter as lágrimas – ‘Na frente da .’ – completou, sentando-se em uma das cadeiras – ‘Nós gritamos um com o outro na frente dela... Nós prometemos que jamais faríamos isso. Está tudo um desastre.’
Louise segurou a mão dela por cima da mesa, tentando consolar o que não era consolável.
‘-O que aconteceu para vocês brigarem assim?’ – inquiriu, preocupada.
, então, contou a ela sobre a noite anterior, sobre os amigos do marido, sobre como a conseguira tirar completamente do sério. As duas mulheres se olharam, compartilhando das mesmas aflições.

George, Mary e William tinham se juntado a Louise e aos integrantes daquela casa no almoço para celebrar o aniversário de . Apesar de ninguém estar exatamente no clima, queriam que se sentisse querida, apesar de todas as complicações pelas quais sua vida estava passando ultimamente.
levantara especialmente tarde naquele dia – também não queria ver ninguém. Não se lembrava de que era aniversário da esposa, mas além da ressaca que lhe atingira, os acontecimentos da noite anterior não contribuíam para sua disposição. Ao descer, vestindo moletom e ainda coçando os olhos, deparou-se com a família toda reunida.
, Mary e George traziam a comida da cozinha enquanto Will e Louise arrumavam a mesa. tentava ajudar, passando sorridente os talheres para a avó.
‘-O que está acontecendo aqui?’ – inquiriu em tom de voz baixo, enquanto passava pela mãe.
‘-É aniversário da , querido.’ – informou, indo em direção à cozinha.
olhou para tudo desconfiado, com ímpeto de subir correndo as escadas e fingir que nunca acordara.
‘-Ei, .’ – Will chegou perto e cumprimentou-o cordialmente.
Ele não respondeu, apenas acenou com a cabeça, chegando mais perto da mesa.
‘-, tudo bem?’ – inquiriu George, levemente preocupado pelo estado catatônico do filho.
‘-O que você está fazendo aqui?’ – foi a única coisa que disse ao pai, virando-se para encará-lo desafiadoramente.
‘-É aniversário da ’ – respondeu, somente, dando de ombros.
‘-Mas por que vocês estão aqui e não os pais dela?’ – quis saber, falando mais alto do que devia – ‘Eu não deveria precisar ver vocês tão cedo.
‘-Você realmente preferia ver meus pais?’ – foi quem respondeu, replicando, ao arquear a sobrancelha – ‘Eles não estão em cena faz tempo, .’
‘-Mas e a sua família?’ – contestou, raciocinando que tinha um irmão ou irmã que estudara com eles também.
‘-Esta é a minha família.’ – afirmou, encarando-o, mais desgastada e desanimada do que nunca.
Ele não soube o que responder, mas sabia que achava tudo aquilo muito estranho. Não podia olhar para o pai ou para a família nova dele; despertava o sentimento de abandono todo de novo.

Quando estavam, finalmente, todos sentados para almoçar, parecia irreal. Mary e Louise conversavam calmamente, sentadas lado a lado, como se fossem velhas conhecidas – não a esposa e a ex. estava no colo do avô e comia com ele, que fazia aviõezinhos e outros gracejos para a neta; Will, sentado de frente para o pai, fazia caretas para a sobrinha.
apenas remexia a comida no prato, jogando-a de um lado para outro sem realmente comer. nunca tinha notado o quanto ela parecia apática; a pele pálida, os olhos rasos, olheiras fundas cavadas ao redor deles. Era o retrato de uma esposa esgotada. Se comparasse às pequenas lembranças que tivera com ela, a mudança parecia ainda mais brutal.
Por uma pequena fração de segundo sentiu-se culpado pela noite anterior.
‘-Isso é ridículo!’ – bradou de repente, batendo os talheres na mesa com força, atraindo a atenção de todos – ‘O que é isso? Vocês resolveram brincar de família? Nenhum de vocês é minha família, eu não conheço vocês.’ – continuou, direcionando-se especialmente a George, William e Mary – ‘Eu não sou obrigado a comer na mesma mesa que a pessoa que me abandonou e agora quer fingir que está tudo bem.’
‘-’ – chamou George, colocando a neta na cadeira a seu lado – ‘Você pode não lembrar, mas nós já passamos por tudo isso. Nossa relação não é maravilhosa, mas nós convivemos, coexistimos. E, por favor, não ofenda Mary ou seu irmão; seu problema é comigo.’ – pediu, encarando o filho nos olhos – ‘Nem vamos fazer isso na frente da . Se você quiser falar – ou gritar – comigo, é melhor resolvermos sozinhos.’
soltou a respiração depois da fala do sogro. Sua maior preocupação era a gritaria – de novo – na frente da filha.
‘-Eu perdi a fome’ – foi a única coisa que respondeu, tirando o guardanapo de tecido do colo enquanto fuzilava o pai com o olhar, partindo, em seguida, para a sala de TV do andar de baixo.
passou a mão na testa, suspirando; o que mais faltava para completar aquele fatídico dia?

‘-Obrigada, Lou, por tentar melhorar esse dia’ – agradeceu a sogra, sorrindo tristemente – ‘Mas acho que alguma coisa entre o e eu quebrou de vez ontem. Nada vai melhorar o dia de hoje’
Louise assentiu, compreensiva, observando a neta brincar no tapete da sala de estar com o avô e o tio, que tentavam distraí-la o suficiente depois da explosão do pai. Mary estava acomodada no sofá junto às outras duas mulheres e encarava com preocupação.
‘-Eu vou buscar o bolo’ – declarou Mary depois de um tempo, achando que talvez melhorasse o ânimo de todos – ‘O que você acha, boneca?’ – perguntou à , cutucando-a ao passar para a cozinha.
‘-Eba!’ – comemorou audivelmente e seguiu Mary, feliz.

As duas voltaram da cozinha segurando o bolo, já com as velinhas acesas, cantando parabéns para . O restante da família engrossou o coro, esperando por Mary que vinha abaixada para que também pudesse segurar o bolo da mãe, enquanto o levavam para ela. abaixou-se do tamanho da filha para aceitar o bolo que ela trazia e apagar as velinhas – com a ajuda de , como sempre.
‘-Você fez um pedido, mamãe?’ – quis saber a menininha, curiosa.
‘-Claro. A gente nunca pode desperdiçar um pedido de aniversário, não é mesmo?’ – replicou, sorridente, dando um beijinho na cabeça da filha.
‘-E o que você pediu?’
‘-É segredo’ – falou baixinho para a filha – ‘Se eu contar, não se realiza.’
E como queria que aquele único pedido se realizasse.
sorriu em confusão e ficou ali, ainda processando essa informação nova para sua cabecinha de criança enquanto a mãe levava o bolo para a mesa de jantar, de forma a cortá-lo.
A campainha tocou, ecoando pela casa toda, e partiu, apressada a atendê-la.
‘-Benjamin!’ – exclamou, feliz, abrindo a porta para que entrasse e abraçando-o.
‘-Feliz aniversário, ’ – desejou, dando um beijo na bochecha dela – ‘Espero não estar atrapalhando.’ – disse, ofertando uma garrafa de vinho com um laço.
‘-Não! Você chegou na hora certa’ – comentou, apontando para onde a sogra cortava o bolo – ‘Obrigada! Você sabe que é meu preferido.’ – sorriu grandiosamente, aceitando o presente.
saía da sala de TV com peso na consciência. Decidira tentar se controlar pelo resto do dia e tentar apaziguar a situação com a ; então, quando o coro do parabéns silenciou, seguiu de volta para a sala de jantar, sem esperar encontrar no meio do caminho sua esposa abraçando um homem extremamente bem apessoado e sorrindo abertamente para ele.
Quem era aquele?

Benjamin entrou, cumprimentando todos e parando para abraçar a pequena garotinha.
‘-Eu estava com tanta saudade’ – externou , indo atrás dele – ‘O que te traz aqui?’
‘-A minha paciente favorita, é claro’ – comentou e os dois caíram na risada – ‘Você e a não aparecem no meu consultório faz tempo, então resolvi vir te dar parabéns e ver como anda essa menininha aqui.’ – disse, fazendo cócegas em em seguida.
‘-Nós estamos bem desaparecidas, não é mesmo?’ – replicou com um sorriso culpado – ‘Desde o acidente está tudo bem confuso por aqui. Não sei quantas vezes eu remarquei a última consulta dela, até que desisti.’ – deu de ombros, rindo.
‘-Eu sei bem. Por isso essa paciente especial ganha visita à domicílio.’ – fez cócegas de novo na garotinha, dessa vez na barriga.
‘-Venha, Ben, aproveite que você chegou na hora do bolo’ – chamou ela, sorrindo. Benjamin a seguiu, levando uma também sorridente no colo.

‘-Quem era esse?’ – inquiriu , que tinha se acomodado, emburrado, em um canto da sala de estar desde que Benjamin chegara. Só ousou perguntar quando o homem já tinha ido embora.
A visita de Benjamin mudara todo o semblante de , que ficara mais relaxada e radiante como não se lembrava de vê-la.
‘-Benjamin, o pediatra da ’ – informou Louise, encarando o filho com um olhar questionador – ‘E amigo de infância da ’ – fez uma careta, torcendo o rosto em desaprovação – ‘Você está com ciúme, ?’
‘-Eu não. Por que teria ciúme da ?’
‘-Não sei. Me diga você.’ – provocou a mãe, o que só fez a aumentar o semblante emburrado do filho, que cruzou os braços em desaprovação.
Por que teria ciúme dela, afinal? Só porque ela estava, de repente, depois de semanas, toda sorridente e feliz? Porque ela ficava linda quando sorria daquela forma? Porque ela sorria e abraçava , dançando com ela e emanando luz por toda a sala?
Ou porque ela era sua esposa, e quem deveria fazê-la sorrir assim era ele?
Talvez ele não soubesse como. Talvez ele nunca aprendesse.
Pela primeira vez olhou verdadeiramente para ela e achou-a linda. Não fazia o menor sentido – ser sua esposa e ele ter uma esposa linda.
deu um soco de frustração no braço do sofá da sala de estar, levantando-se depois e indo em direção à área externa da casa, nos fundos. George reparou no movimento, estivera observando as reações do filho desde que Benjamin pisara na casa, e seguiu-o para fora.
‘-O que você está fazendo aqui?’ – inquiriu, olhando fixamente para frente, sem encarar diretamente o pai.
‘-Checando como você está’ – respondeu, sentando-se ao lado do filho no banco de madeira.
‘-Eu não preciso que você cheque como eu estou’ – disse, ríspido, ainda evitando encarar o homem ao seu lado – ‘Eu não preciso de você, nunca precisei. E, se precisei, não faz diferença; você não estava lá! Você nunca esteve!’
‘-, eu sei. Eu sei de tudo isso, por mais que me doa.’
‘-E eu não preciso de você aqui agora, fingindo se importar comigo, fingindo que é minha família!’ – bradou, agora sustentando o olhar do pai, levantando-se do banco para encará-lo – ‘Você não é e nunca vai ser.’
‘-Eu não finjo que me importo com você. Você é minha família.’ – continuou, sem perder a calma. ameaçou interrompê-lo, George o silenciou com uma das mãos – ‘Eu posso não ser a sua, mas você faz parte da minha.’
‘-Acontece que eu não quero fazer parte da sua família, George! Já não basta você esfregar sua família perfeita na minha cara, sua mulher perfeita, seu filho perfeito... Eu não faço parte de nada disso! Nunca fiz!’ – gritava, exaltado; queria passar para o pai a imagem de que aquilo não o abalava, que era indiferente a ele, a todos eles, mas falhara miseravelmente. Porque o abalava mais do que tudo. – ‘A pior parte de acordar neste pesadelo que descobri que é a minha vida foi você! Foi saber que você estava de volta. Nem de repente ser casado com a pessoa que lembro mais sentir repulsa não foi pior do que isso. Nem descobrir que eu era pai de uma mini pessoa que eu não conheço foi pior. Você destruiu a minha vida! Eu olho para aquela criança – para – e sei que jamais poderia ser um pai para ela porque eu sei o que pais fazem com as pessoas, o que você fez comigo.’
‘-, não se exalte tanto, por favor’ – pediu, preocupado, ao ver o estado do filho. estava em um tom quase purpúreo, a veia da têmpora saltada – ‘Eu nunca quis nada disso para você. Eu só queria que você fosse feliz.’
‘-Ah, deve ser por isso que você foi embora, porque queria que eu fosse feliz’ – riu irônica e debochadamente – ‘Queria tanto que eu fosse feliz que foi embora arranjar uma nova família. Você queria a sua felicidade, George. E talvez a do seu novo filho, porque vejo que ele você não abandonou.’ – disse amargamente, fitando profundamente o pai.
‘-, você está muito vermelho. Sente-se um pouco, eu vou pegar uma água para você.’ – informou, preocupado.
‘-Eu não preciso de porcaria de água nenhuma, ainda mais vinda de você’ – berrou e segurou o pai pela manga da camisa. Soltou-o no banco, sentado novamente, enquanto caminhava e falava, pensativo – ‘E quem te deu o direito de me chamar de ? Você não me conhece. Você é um estranho. Não sei como tem a coragem de pisar nesta casa, de falar com a minha mãe, depois de tudo que você fez. Você é um bastardo, um filho da puta egocên...’ – estava alguns passos longe do pai quando desmaiou, no meio de um dos gritos de exaltação.
George correu, mas não rápido o suficiente para evitar a queda, que gerou um estrondo que ecoou na casa toda. Pegou o filho nos braços, tentando sacudi-lo e acordá-lo, desesperado.
‘-? , por favor acorde. !’ – trouxe a cabeça dele mais para perto quando viu sangue escorrendo do machucado na cabeça – ‘Ah, não, não...’

***


não aguentava mais hospitais. Ainda assim, estava ali, ansiosa novamente no quarto junto ao marido. Ocupou a poltrona ao lado do catre, onde passaria a noite junto dele: mais uma noite insone, com certeza. Mesmo que os médicos tivessem dito que não fora nada grave, nunca ficaria tranquila enquanto o marido estivesse deitado em uma cama hospitalar; ele desmaiara, batera a cabeça e o corte abrira, causando o sangramento.
dormira até o começo da tarde do dia seguinte, por conta das medicações intravenosas fortes que tinham sido administradas. A esposa ficara lá o tempo todo velando por ele, segurando sua mão e querendo somente que ele acordasse e estivesse bem, nada mais. Não suportava a ideia de quase perdê-lo de novo.
‘-, não assuste mais a gente desse jeito’ – pediu para o marido que dormia, encarando o subir e descer de seu peito nu, cheio de eletrodos, coberto apenas por um lençol de hospital – ‘Volta pra gente, amor. Por favor...’ – pediu, os olhos cheios de lágrimas. Acariciou docemente o braço do marido, derrubando as lágrimas que segurara por tanto tempo – ‘Nós não aguentamos mais, nós precisamos de você.’
Deu um beijinho de leve na cabeça dele, levantando-se e mirando a janela enquanto limpava as lágrimas.
Coff, coff. acordou tossindo, tentando descobrir onde estava.
‘-?’ – chamou no mesmo momento em que ela se virou para o barulho de tossidas.
Temeu que, de alguma forma, ele tivesse esquecido tudo de novo. Fechou os olhos, tentando afastar o pensamento, e andou até ele. Era seu pior pesadelo. Nas noites em que conseguia dormir um pouco, sonhava que tinha esquecido tudo de novo – até o pouco de que se lembrara.
‘-Tá tudo bem, ?’ – perguntou, preocupada, sentando-se na poltrona ao lado dele e segurando seu braço.
não se importava mais com o que ele veria nos olhos dela. Só queria que o marido estivesse bem.
encarou o toque cuidadoso dela em seu braço e o rosto manchado de lágrimas. Quando acordou sabia que alguém estivera ali com ele, falando com ele – não podia distinguir o quê, mas sabia que sim. E sentira um beijo na testa um pouco antes de ser capaz de abrir os olhos.
De repente, não conseguiu ser rude com ela.
‘-Tá’ – respondeu, acenando com a cabeça em afirmação – ‘O que aconteceu? Por que eu estou no hospital de novo?’
‘-Você desmaiou enquanto brigava com seu pai.’ – informou, ainda segurando o braço do marido – ‘E abriu o machucado quando bateu a cabeça no chão’
levou uma das mãos à cabeça na mesma hora. Estava enfaixada de novo.
‘-Merda. Tiveram que dar pontos de novo?’ – inquiriu, preocupado, lembrando da aparência horrenda dos últimos pontos.
‘-Sim’ – confirmou, apertando os lábios – ‘Mas os médicos disseram que a parte mais funda já estava cicatrizada. A recuperação vai ser bem mais rápida.’
‘-Que dia é hoje? Quanto tempo eu passei aqui dessa vez?’ – perguntou, lembrando-se que da última vez perdera muito tempo no hospital: duas semanas em vida e cinco anos em memória.
‘-Só uma noite’ – sorriu de leve com a pergunta do marido – ‘Você desmaiou ontem e passou a noite aqui.’
‘-Você passou a noite aqui também?’ – questionou, sem saber bem o porquê. apenas acenou com a cabeça, olhando fixamente para o medidor de batimentos no dedo indicador do marido – ‘Desculpa por arruinar completamente seu aniversário.’
Ele também não sabia bem por que estava pedindo desculpas. Sentia que devia isso a ela.
‘-Não tem problema. Eu não estava mesmo no clima para festas.’ – deu de ombros, encarando-o nos olhos.
Foi então que ele viu. Devoção. Era isso que havia nos olhos dela. Só havia visto aquele tipo de devoção no olhar em filmes, nunca na vida real – ainda mais direcionado a ele. O olhar de quem estava disposta a fazer tudo pelo marido.
Era isso. era apaixonada por ele. Era isso que todo mundo escondia dele.
‘-, eu vou avisar sua mãe que você já acordou.’ – disse, de repente, lembrando-se de que era importante avisar a sogra. Apertou de leve o braço do marido antes de sair, dando um sorriso mínimo.

ficou remoendo aquele pensamento, tentando relembrar os momentos: a paciência de com ele, a frustração com sua rudeza, o olhar perdido, o abatimento. Ela provavelmente tinha se apaixonado por ele em algum ponto daquele casamento arranjado por uma gravidez; talvez pela convivência, talvez por compartilharem uma filha.
Durante o dia, várias pessoas circularam pelo quarto; médicos, enfermeiras, sua mãe, . Louise passara o restante do dia com ele enquanto checava a filha, mas a esposa voltou no começo da noite para acompanhá-lo em mais uma madrugada que o marido passaria ali.
Não conversaram mais do que o essencial; ambos estavam extremamente cansados. pegara duas mantas no armário do quarto, estendera uma sob o marido e levara a outra para si na poltrona ao lado do catre.
Planejava observá-lo até que ele dormisse, mas foi o contrário; o cansaço daqueles dias era arrebatador e carregou-a rapidamente para os braços de Morfeu. , então, passou a observá-la dormindo: como ressonava baixinho, como seu peito subia e descia devagar.
Adormecida parecia uma boneca, uma pintura. Não percebeu quando pegou no sono também, ainda encarando-a.

‘-, amor?’ – chamou pelo quarto e seguindo para o banheiro da suíte ao ouvir uma movimentação vinda de lá – ‘?’ – perguntou por ela, afastando a porta que estava somente encostada.
tentou fazer algum movimento que ele não entendera bem o que era e acabara derrubando o que estava em sua mão no chão.
‘-O que você está fazendo?’ – inquiriu, curioso, abaixando-se para ajudá-la a pegar as coisas.
‘-Não é nada’ – respondeu rápido demais, nervosa e arfando – ‘Pode deixar que eu pego’.
Ele continuou abaixado, olhando as coisas espalhadas pelo chão. Parecia uma bula de remédio. estava tão concentrada procurando alguma outra coisa que parecia importante demais que nem se ateve ao fato de que o marido pegara o papel.
‘-Merda, merda, merda’ – cantarolava ela baixinho, nervosa – ‘Onde está?’ – de quatro, engatinhava pelo chão do banheiro, procurando com as mãos.
‘-?’ – chamou mais uma vez, desdobrando a bula – ‘O que é que você perdeu? Tem outro comprimido aqui’ – sinalizou, pegando uma cartela – que caíra no chão junto à bula – contendo um comprimido.
‘-Eu sei, eu sei’ – disse, dando pouca importância e continuando em sua busca desenfreada – ‘Mas eu preciso de dois. Um não me adianta. Não me adianta.’ – completou, nervosa, mais para si mesma do que para .
‘-O que aconteceu, afinal? Para quê é esse remédio?’ – questionou, preocupado com o estado da moça.
‘-Vá embora, , eu quero ficar sozinha’ – pediu, em uma voz estranha e esganiçada. Quando ergueu os olhos da bula para ela, viu que estava quase chorando.
‘-O que houve, ?’ – inquiriu mais uma vez, preocupado, indo para mais perto dela, os dois no chão.
‘-Eu achei!’ – exclamou, os olhos ainda marejados agora arregalados de nervosismo – ‘Só preciso tirá-lo daqui...’
O comprimido ficara preso na grade do ralo, mais para dentro do que para fora. cutucava, tentando tirá-lo dali, sem sucesso.
‘-Para quê é isso, ?’ – repetiu a pergunta mais uma vez, começando a ficar frustrado.
‘-Me ajude aqui’ – pediu, ainda insistindo no comprimido.
‘-Você vai precisar me explicar primeiro’ – insistiu, puxando-a delicadamente e fazendo-a sentar-se na sua frente, sem olhar para o ralo – ‘O que está acontecendo?’
Não era para estar ali. Era para tudo estar acabado da próxima vez em que se vissem; que péssima hora ele escolhera para fazer uma surpresa em um dia de semana. Quando encarou o rapaz à sua frente e viu que não teria jeito a não ser contá-lo o que estava acontecendo, desesperou-se ainda mais.
‘-, me deixa sozinha, por favor’ – pediu, da maneira mais nervosa que já havia estado na vida, afastando-se dele – ‘Eu quero ficar sozinha’ – ela beirava a lágrimas de desespero.
‘-Não, , até você me contar o que está acontecendo’ – pediu, começando a ficar nervoso também, puxando-a novamente para mais perto e tentando abraçá-la para contê-la.
Ela se remexeu, tentando desesperadamente se soltar do abraço, socando o peito de , que continuou a abraçá-la firmemente.
‘-Me deixe ir, ’ – foi o último pedido antes de cair em um choro desesperado.
a soltou, preocupado, mas ela não saiu do banheiro; ao invés disso, levantou-se e começou a andar em círculos.
‘-Eu não posso. Não posso tê-lo...’ – falava em meio ao choro, totalmente descompensada – ‘Eu não posso... Sozinha...’
tentava acompanhar o raciocínio maluco daquelas palavras balbuciadas, mas simplesmente não conseguia. Lembrou, então, da bula que estava lendo antes. Recuperou-a do chão e leu o nome do medicamento.
‘-Eu sabia que já tinha visto esse nome’ – comentou, perplexo, ajoelhado no chão – ‘Você ia fazer um aborto.’ – constatou, olhando fixamente para cima, fixamente para – ‘Por que você não me contou que estava...’
deixou-se cair ajoelhada no chão, chorando copiosamente com as mãos no rosto.
‘-Você ia tirar antes que eu soubesse.’
‘-Eu não posso fazer isso, ’ – disse, em meio ao choro – ‘Não posso fazer isso sozinha.’
Ele não entendia mais uma palavra do que ela falava.
‘-Fazer o que?’
‘-Criá-lo sozinha’ – continuava a chorar descontroladamente.
‘-É por isso que você ia abortar?’
‘-Ainda dá tempo. Se você só me ajudar a tirar do ralo...’ – disse, pensativa, olhando na direção do ralo – ‘Eu não tenho tempo de conseguir outro.’
‘-Você vai abortá-lo porque tem medo de criá-lo sozinha?’ – perguntou mais uma vez, tentando entender a lógica daquilo tudo.
‘-Eu não queria acabar com a gente, ’ – desabafou, ainda soluçando –‘Logo agora. Eu sabia que você não ia aceitar. Eu não queria que você fosse embora.’
‘-Você ia tirá-lo e eu nem ia saber.’ – disse, mais para si mesmo do que para ela, perturbado.
‘-Era essa a ideia.’
‘Você ia abortar por minha causa?’
‘-Eu não posso, não consigo criar um bebê sozinha nesse momento da minha vida.’ – confessou, voltando a chorar desesperadamente.
estava recostada à parede, sentada no chão, as mãos cobrindo o rosto enquanto lágrimas vertiam vertiginosamente. estava perplexo, de pernas cruzadas ao seu lado, a bula ainda na mão.
’-Você não vai. Não precisa fazer isso.’ – disse ele, depois de alguns segundos. Recostou-se à parede também, ao lado dela, puxando-a para si, em um meio abraço. recostou a cabeça em seu ombro, soluçando – ‘Vamos criá-lo juntos.’ – disse, tomando uma decisão. Nunca quisera ter filhos pelo que o pai fizera com ele, abandonara-o. Sempre achara que se chegasse a ser pai faria o mesmo, ele não aprendera nada diferente. Mas ali, diante daquela chance, viu que podia fazer diferente. Não iria abandoná-lo; a partir daquele momento, acreditou que deixá-la abortar também seria abandoná-lo.
‘-Casa comigo?’ – pediu ele depois de alguns minutos em silêncio, um tanto hesitante.
ergueu a cabeça, em surpresa, encarando-o.
‘-Você não precisa casar comigo por causa do bebê, ’ – disse, limpando o resto das próprias lágrimas com a manga da blusa – ‘Nós podemos só ir indo e ver no que...’ – foi interrompida.
‘-Eu não estou pedindo pra casar com você só por causa do bebê, ’ – disse, convicto, olhando para ela de esguelha – ‘Eu quero casar com você porque eu te amo.’
quase perdeu o ar, encarando-o de volta como se para confirmar.
a abraçou de lado, trazendo-a para mais perto no chão do banheiro, repousando, depois, uma mão na barriga plana da namorada e sorrindo minimamente. assustou-se com o gesto, mas depois relaxou, abrindo um sorriso fino e temeroso para ele também.
‘-Então, casa?’ – reforçou o pedido, receoso da resposta.
apenas acenou afirmativamente com a cabeça, mais algumas lágrimas escorrendo; apoiou de volta a cabeça no ombro de , que depositou um beijinho carinhoso em sua testa.
‘-Ei, não chore mais’ – pediu, abraçando-a – ‘Nós estamos juntos. Seja pra isso’ – olhou para onde a mão dele tocava a barriga dela – ‘Ou pra qualquer outra coisa que vier. Vai dar certo.’
concordou, abraçando-o de volta o mais forte que podia.
]

acordou suando com o bipe alucinado dos próprios batimentos cardíacos. O que fora aquela lembrança disfarçada de sonho? Eu não estou pedindo pra casar com você só por causa do bebê, , eu quero casar com você porque eu te amo. Contradizia todas as verdades que sua mente criara sobre aquele casamento desde o dia em que acordara em uma cama de hospital, sem lembrar-se dos últimos cinco anos.
Além de tudo, mentira.
‘-Por que eu me casaria com você, ?’
‘-Porque eu estava grávida.’
‘-Nós não estávamos apaixonados ou nada do tipo?’
‘-Não. Nós íamos ter um bebê, então nos casamos.’

Aquele diálogo da primeira conversa que tivera com a esposa ao acordar não saía de sua cabeça. Restava a descobrir porque mentira. Depois daquela lembrança, ele sabia. O que todos estavam omitindo é que ele era apaixonado por . Isso mudava tudo.
Percebendo a alteração notável dos batimentos de , uma enfermeira viera checá-lo e aplicara uma medicação intravenosa que o fizera dormir o tenro e profundo sono das drogas.

Acordando cedo no dia seguinte, ainda encontrava-se um tanto quanto entorpecido ao tentar abrir os olhos, tateando na cama à procura da esposa, como se estivesse em casa. Quando conseguiu acordar e apercebeu-se de que estava no hospital, levou um susto.
Ele tateara à procura de com uma normalidade desconhecida. A ciência do amor por ela parecia ter destravado uma barreira de lembranças. Apertou os olhos, tentando reaver a sensação de acordar em casa, à procura dela.
Assustou-se mais com o que veio a seguir.
se espreguiçou, esfregando os olhos e virando para abraçar a namorada, mas ela não estava deitada ao seu lado como ele previra. , descabelada, estava sentada em sua metade da cama, mais para a extremidade final do colchão, mexendo as mãos nervosamente e encarando o nada. Parecia estar ali há um bom tempo.
‘-Ei’ – chamou , manhoso, cutucando-a por trás – ‘Ainda é bem cedo’ – constatou, sonolento – ‘O que você está fazendo aí?’
‘-Pensando’ – respondeu, virando-se para olhar para ele, o olhar perdido e preocupado.
‘-Vem cá’ – chamou, puxando-a delicadamente para perto dele pela cintura – ‘Vai dar tudo certo. A gente vai fazer dar certo.’ – afirmou, repentinamente sério, abraçando-a e depositando um beijo demorado entre os cabelos bagunçados da namorada.
se deixou afundar nos braços de , que voltara a se apoiar nos travesseiros, desta vez levando-a junto consigo.
‘-Eu tenho tanto medo.’ – confessou, baixinho, enquanto mordia o lábio inferior, o olhar vidrado.
Ele então, começou a depositar inúmeros beijinhos na bochecha de Charlote, em uma tentativa de fazê-la rir e se animar um pouco – o que, de fato, aconteceu.
‘-’ – chamou, rindo – ‘, pare’ – pediu, sentindo cócegas enquanto ele distribuía mais beijos, agora por seu pescoço – ‘Eu não aguento mais.’
Ele parou, observando-a continuar rindo mesmo depois de os beijos terem parado e acompanhou-a no riso.
Sentando-se ao lado da namorada depois, ainda vestindo somente uma boxer preta, esticou-se para alcançar a bochecha dela, depositando desta vez um único beijo, mais sério e carinhoso – ‘Pronta para ver essa coisinha aqui pela primeira vez?’ – inquiriu, colocando delicadamente uma das mãos contra o ventre liso de .
cobriu o rosto com as mãos e acenou negativamente – ‘Eu quero ter certeza de que o bebê está bem...’ – disse, séria, passando a encarar sua própria mão sobre a de em sua barriga – ‘Mas também estou morrendo de medo. Vai tornar tudo isso cem por cento real.’
concordou com a cabeça, aquiescendo. Ela resumira a verdade. Suspirando, deu mais um beijo demorado no topo da cabeça da namorada; continuaram ali, juntos em silêncio, digerindo aquela nova realidade pelo que pareceu uma eternidade.

Colocou as mãos na cabeça, quase não acreditando. Quase – porque com esse conjunto de lembranças, viera um conjuntos de sentimentos que pareciam estar escondidos no mesmo lugar que o amor por ; uma vez que destravados, voltavam com força indômita.
Olhou para o lado e só restara a manta que cobrira a esposa durante a noite, ela provavelmente deixara a poltrona adjacente bem cedo. Melhor, pensou. Ainda não sabia como lidaria com as lembranças da esposa, quanto mais com as lembranças e na vida real.
Apertou um pouco os olhos e tentou lembrar mais; tinha a sensação de que conseguiria ir mais longe, se tentasse. Voltou para o final da última lembrança, forçando-se a ver até onde chegava.
Na sala de ultrassom, anexa ao consultório da doutora Alexandra Fox – ou tia Alexia, como a conhecia desde pequena, o casal aguardava, mais ansioso do que nunca, encarando penetrantemente o monitor à frente deles.
A imagem cinza e borrada começara a tomar forma, transformando-se em uma miniatura de bebê. estacou e apertou a mão do namorado com força quando sentiu lágrimas começando a se formar em seus olhos. Olhou de relance para ele, buscando algum apoio, mas viu que seus olhos também estavam marejados enquanto não desgrudavam do monitor.
Alexandra sorrira ao ver a reação do casal, um pouco aliviada, um pouco comovida pela cena protagonizada por sua sobrinha de vida. ‘-Vamos checar os batimentos desse bebezinho?’ – inquiriu, atraindo um pouco da atenção dos futuros pais.
enxugava as lágrimas que insistiram em escorrer com a mão livre, concordando com a cabeça. Mal sabia ela que não estava preparada para outra onda de emoções. Quando os batimentos cardíacos ecoaram pela sala, e paralisaram, primeiro em choque, depois em comoção.
, que conseguira segurar as lágrimas até ali, soltara a mão da namorada para limpar o rosto com a ajuda das duas mãos, depois de ouvir o coração do filho bater pela primeira vez. Não era nada lógico, ele não conseguiria explicar. Só sabia que estava emocionado e feliz e surpreso e preocupado e com medo, de repente tudo ao mesmo tempo.
também não conseguira se segurar e chorava mais. Era a coisa mais emocionante que ela já tinha experienciado. Limpando as próprias lágrimas, olhou para o namorado ao seu lado. Se encararam e não puderam deixar de sorrir abertamente, compartilhando aquele momento único.
‘-Tia Alexia’ – chamou, depois que os batimentos silenciaram e a médica terminava o exame – ‘Tá tudo bem com o bebê?’ – quis saber, não conseguindo esconder o tom de preocupação.
‘-Está tudo ótimo, querida. Dimensões normais, batimentos fortes, não há com o que se preocupar’ – garantiu, sorrindo para enquanto terminava de fazer algumas anotações – ‘Ainda que você tenha descoberto a gravidez relativamente tarde. Você está com treze semanas, um pouco mais de três meses.’
acenou afirmativamente, aliviada, sentando-se na maca.
Toc, toc. Duas batidas na porta.
Alexandra espiou quem era e riu debochadamente.
‘-O que você está fazendo aqui, Benjamin?’ – inquiriu, divertida.
‘-Você disse que a estaria aqui, mãe. Passei pra dar um oi, se ela não se importar.’ – concluiu, olhando para a amiga pela fresta da porta, através da mãe, e sorrindo brincalhão.
‘-Ben!’ – exclamou, empolgada, levantando-se e indo ao encontro dele. Dra. Fox liberara a passagem depois da empolgação de , indo concluir suas notas sobre o exame.
Depois de abraçar calorosamente a amiga, Benjamin foi até .
‘-Ei, ’ – cumprimentou amigavelmente – ‘Como vai, cara?’
‘-Ben’ – deu tapinhas nas costas do amigo de infância da namorada – ‘Terminando a especialização a tempo de ganhar o primeiro paciente?’ – inquiriu, rindo, apontando para o ventre de .
‘-Para a sorte de vocês, sim’ – assegurou – ‘Falando em sorte, como vocês estão vivos depois de a aparecer grávida para os pais dela?’ – inquiriu, curioso e levemente confuso.
‘-Eu ainda não apareci, Ben’ – disse, escondendo o rosto no ombro do namorado – ‘Eles estão viajando, em um congresso. Eu não quis contar; vou esperar até eles estarem de volta.’
‘-Garota esperta’ – concluiu o amigo, sorrindo confidente – ‘Já conseguiram saber se é menino ou menina?’
‘-Esta é a primeira consulta, Ben’ – foi a Dra. Fox quem respondeu – ‘Não os apresse. Eu poderia dar um palpite, mas vamos deixar para a próxima consulta.’ – sentenciou ela, fazendo o filho rir e dar de ombros.


não sabia o que fazer ou falar. Repentinamente, tudo que acreditava conhecer sobre a própria vida não fazia mais o menor sentido. Ficou quieto, atônito, o dia todo; mal falara com a mãe e com os médicos, e evitara falar com . O que diria, afinal?
A única coisa que rondava sua cabeça era por quê. Por que – e todos os demais – tinham omitido aquele detalhe importantíssimo dele? Tão importante que destravara várias lembranças e sentimentos. Precisava perguntar à esposa, ele sabia; o que não sabia, entretanto, era se estava pronto para as respostas, para falar com ela sobre coisas tão delicadas agora que reouvera parte dos antigos sentimentos.

***


Silêncio fora no que se resumira os dias que seguiram a volta de para casa. Silêncio absoluto. Sem brigas, confrontos ou discussões. Sem tentativas ou choros. e o marido pareciam ter feito um pacto sigiloso de ignorância mútua; evitavam os mesmos ambientes, apenas se cumprimentavam com um menear de cabeça.
, entretanto, continuava determinada a cuidar da lesão do marido, mesmo que em completo silêncio em grande parte das vezes. Até mesmo parecia entender; ela nada mais reclamara do pai, apenas seguia quieta, esgueirando-se para perto da mãe durante todo o tempo.
Era uma casa sem vida. não sabia como entrar de novo na rotina delas, mesmo portando uma bagagem muito maior de memórias; ele lembrava como era a vida ali, antes do acidente, e não se parecia em nada com aquilo. De alguma maneira que ainda não compreendia muito bem, ele e tinham feito daquela casa um lar.
Aquilo corroía por dentro – mais até do que as discussões, ela descobrira tardiamente. Com a crescente recuperação do marido, a preocupação com o bem-estar dele era menor, mas a com o bem-estar da família tornara-se maior. voltara, aos poucos, a dormir – pouco, ela reconhecia – e a trabalhar, mas nada se assemelhava à normal.
Trocara as noites insones por choros trancada no banheiro do quarto de hóspedes, quando o marido e a filha finalmente dormiam. Passou a levar para a cama consigo mais vezes do que gostaria, também; ela precisava da companhia da menininha mais do que tudo nos últimos tempos.
varava os dias na solidão do escritório, redescobrindo os próprios traços, as ideias, as tiradas. Precisava voltar a trabalhar o mais rápido possível; estava ficando maluco com todo aquele tempo de sobra.
Em mais uma tarde solitária, segurava um balde de pipoca, recostado bem no canto do amplo sofá da sala de TV, tentando ver um filme que normalmente seria do seu mais profundo interesse. Essa distância toda também o estava incomodando, ainda mais ao notar o quanto a esposa piorava diariamente.
Ela vinha ficando cada vez mais magra e com olheiras mais profundas, estava perdendo aos poucos o brilho que sempre emanava nas lembranças; os olhos estavam cansados, mas acima de tudo, tristes. Desesperançosos.
Coçando a cabeça, onde o machucado cicatrizava, pensativo, pegou um punhado de pipoca com a mão que lhe sobrava. Uma das pipocas escapara, parando bem ao seu lado, no sofá. Quando esticou-se para pegá-la de volta, teve mais um dos lampejos que já estavam se tornando costumeiros.

Numa sala de TV diferente, mais clara e aberta, quando estava para alcançar a pipoca extraviada, uma mão mais rápida esticou-se do nada, pegando-a e colocando-a muito rapidamente na boca. riu depois, provocando-o ao mastigar a pipoca.
‘-Ei’ – exclamou, falsamente ofendido – ‘Essa pipoca me pertencia, mocinha.’
deu de ombros, sorrindo em provocação para ele. Quando começou a cutuca-la de lado e fazer cócegas, estendeu uma pipoca do seu próprio pote, em um gesto de paz, em direção ao namorado.
sorriu e avançou para abocanhá-la direto dos dedos de , que a desviou e colocou na própria boca, causando uma indignação geral no namorado.
‘-Você acha que pode ir roubando as pipocas das pessoas? É?’ – perguntou, jogando algumas esparsas pipocas nela, que, ao invés de se defender ou esconder, as tentava pegar no ar com a boca.
ria e tentava abocanhar as pipocas que jogava nela, apenas para provocá-lo; ele, por fim, não resistiu a rir com ela. Quando, mais por obra do acaso do que da técnica, conseguiu comer uma das pipocas que jogara, teve uma crise de riso, rindo tanto que seu nariz crispou-se da maneira que acontecia quando ria demais.
achou absolutamente adorável e ficou mais sério de repente, admirando-a rir.
‘-Eu amo você’ – ele disse, cutucando-a de leve e encarando-a com admiração.
foi pega de surpresa em meio ao riso, parando abruptamente e encarando, embasbacada, o namorado.
‘-...’ – começou, aturdida, sem saber bem o que dizer.
‘-Você não precisa dizer de volta’ – assegurou-a, beijando seu ombro com carinho – ‘Eu só... precisava que você soubesse.’ – completou, passando de leve o nariz pelo ombro da namorada e escondendo o rosto ali depois.
, ainda embasbacada e com lágrimas nos olhos, depositou um beijo na cabeça de , que repousava em seu ombro.
‘-Eu estou tão orgulhosa de você...’ – foi o que escapou, baixinho. Ela não sabia se a comoção maior era ouvir aquilo do namorado pela primeira vez ou vê-lo quebrando as próprias barreiras emocionais.
‘-Eu acho que nunca disse isso pra ninguém’ – confidenciou, distribuindo beijinhos pelo ombro de – ‘Acho que nem pra minha mãe.’
de repente achava difícil respirar; nunca esperou que essa declaração fosse vir em um momento tão cotidiano e banal quanto aquele, apenas assistindo a um filme juntos na sala de seu apartamento. Seu último namorado tinha ensaiado tanto e dito aquela mesma frase pela primeira vez ao escoltá-la para um baile da escola, munido de um enorme buquê de rosas.
Ela abraçou-o com toda força, não sabendo como transpor em gestos o que estava sentindo – ‘Como eu consegui isso?’ – perguntou retoricamente, rindo de leve.
‘-Você me conquistou.’ – disse, firme – ‘Mas não conte pra ninguém’ – murmurou baixinho, brincando.
‘-Roubando sua pipoca?’ – gargalhou com a pergunta – ‘Ou rindo de você?’
‘-Rindo.’ – afirmou, sem titubear – ‘Você me conquistou faz tempo, . Tem me conquistado todos os dias. Eu já sabia que amava você, mas te ver rindo assim e franzindo o nariz, eu simplesmente não aguentei. Precisava que você soubesse.’ – deu de ombros.
arfou de leve, mais emocionada do que achava possível. Abraçou-o forte novamente, deixando escorrer um par de lágrimas – ‘Você foi a melhor coisa que me aconteceu.’ – ela confidenciou e ele sabia que ela o amava de volta; mais: sabia que essa maneira de expressar valia mais do que as palavras que se desenhavam nas entrelinhas da sentença proferida por . Ela não precisava dizer, não naquele momento.


Aquela lembrança o fizera arfar e, de súbito, vestir um moletom e procurar pelas chaves do carro. Precisava sair dali. Subiu as escadas correndo e tateou pelo maço de cigarros que escondera em uma das gavetas de seu criado mudo.
A garagem ocupava o primeiro piso da casa, se ajustando ao relevo acidentado da encosta do terreno; lá encontrou um Jeep verde oliva que se parecia muito com o carro que essa versão futura dele teria. Não precisou de muito para girar a chave e relembrar como se dirigia. provavelmente ficaria desesperada, mas ele aproveitaria do absentismo dela e da filha naquele sábado nublado para espairecer um pouco.
Precisava pensar.
Era muito natural dirigir aquele carro, muito confortável e costumeiro - o que assustaria se ele já não se lembrasse de coisas o suficiente para atestar que aquela vida era real. Acelerou por uma estrada que não levava a nenhum lugar específico e abriu as janelas da frente. Era como poder respirar novamente.
tinha consciência de que carros e estradas o deveriam assustar; fora assim que ganhara uma cicatriz na cabeça, várias escoriações e perdera cinco anos inteiros de memória, mas era libertador dirigir de novo – até porque não se lembrava do acidente.
Em um trecho livre da rodovia, acendeu um cigarro, deixando-o descansar na boca ao tragar. Enquanto a nicotina preenchia seus pulmões e o permitia relaxar, deixou-se pensar nos motivos que o levaram até ali. Aquela lembrança ordinária e assustadora com .
Como eles podiam ter chegado àquele ponto? Àquele amor que ele não recordava somente nas lembranças, mas podia sentir dentro do próprio peito. se lembrava de antes; lembrava todas as provocações da parte dele, todo o desprezo da parte dela. Parecia impossível que tivessem não só resolvido as diferenças, mas se apaixonado.
era tudo que ele detestava na época: rica, popular, inteligente, estudiosa – o sinônimo de perfeição que a própria vida fizera acreditar que não existia. A família de , entretanto, poderia estampar outdoors; os pais – casados, essa parte importava muito para ele – eram renomados cirurgiões que viajavam o mundo em congressos e a irmã mais nova era tão linda quanto e quase tão popular quanto. Esforçava-se para se equiparar a irmã mais velha.
, contudo, não parecia fazer esforço nenhum. Nem para ser popular, nem para ser adorada, muito menos para encaixar-se. Ela se encaixava perfeitamente. Nascera e crescera naquele mundo de colégios particulares, mansões, motoristas, clubes de campo e viagens extraordinárias.
, por sua vez, morava apenas com a mãe em uma casa do subúrbio, pegava ônibus para ir à escola e só estudava em um colégio daquele nível porque Louise trabalhava duro como advogada para que o filho tivesse a melhor educação. Ele não se encaixava.
Era razoavelmente popular entre os que não faziam parte da nata tradicional e herdeira daquele colégio. A marra e o skate acabaram trazendo certo apelo feminino e popularidade – aquela temporária destinada aos bad boys, bastante diferente da popularidade de berço de e sua irmã – popularidade essa da qual se aproveitara para esnobar seu caminho até em cima.
Depois que afirmara seu lugar naquele pequeno resumo de sociedade, em algum lugar entre o último ano do ensino fundamental e o começo do médio, sentira mais liberdade para alfinetar a perfeição em pessoa que era pelos próximos quatro anos; se não fosse isso, ela provavelmente nunca teria notado sua existência.
Rebaixar os colegas – principalmente os que pareciam perfeitos demais, como – era o que costumava fazer para se colocar por cima e não se sentir inferior, mesmo que por alguns momentos. Isso costumava atrair algumas das garotas ricas e rebeldes, que teimavam em não se encaixar e buscavam refúgio em rapazes forasteiros daquele mundo, como – além de atrair eventualmente algumas patricinhas que viam nele um romance proibido.
Aproveitando o efeito relaxante do cigarro e da direção que o levaram a pensamentos tão longínquos, esfregou um dos olhos e tentou lembrar-se do início do relacionamento. nunca fora uma dessas patricinhas, nem minimamente atraída por tipos como o dele. Até onde se lembrava, ela namorava um jogador de lacrosse tão perfeito quanto ela.
Tentou relembrar como eram e ele adolescentes, a aparência, a época da escola, as festas. Passou então para seus hábitos naquela época, a casa da mãe – onde ele vivia até então, o que trouxe o segundo vislumbre de memória do dia.

, visivelmente irritada, pegava sua bolsa e se preparava para cruzar o pórtico da frente da casa de Louise e , quando fora interrompida pelo rapaz.
‘-, não vá embora.’ – pediu ele, segurando-a por um dos punhos.
‘-Por que nós estamos fazendo isso mesmo, ?’ – inquiriu, se referindo aos constantes encontros nos últimos meses.
‘-A pergunta é: o que aconteceu?’ – replicou, ainda mantendo-a no lugar – ‘Por que você está indo embora?’
‘-Não se faça de desentendido’ – pediu com um olhar ameaçador – ‘Eu não posso ficar com alguém que trate a própria mãe dessa maneira, . Isso é ridículo.’
‘-É a minha mãe, . Tanto faz. Não é você.’
‘-Hoje não sou eu, . Você precisa lidar com seus problemas, não evitá-los com ironia e falta de educação.’
‘-Por que você se importa tanto?’ – perguntou, soltando o braço da moça à sua frente.
‘-Porque eu não quero perder meu tempo à toa; ficar aqui só esperando que você me trate como trata a sua mãe – o que você já fez no passado.’ – informou, pegando novamente a bolsa e caminhando pela porta até a varanda da frente.
‘-O que eu preciso fazer pra você ficar?’ – resignado, correu atrás dela e perguntou com um leve desespero na voz, aquele ficar significando muito mais do que apenas ir embora da casa de Louise.
‘-Você precisa lidar com seus problemas, .’ – respondeu, encarando-o profundamente – ‘Não por mim; por você.’
‘Minha vida vai muito bem, .’
‘-Então não há nada que eu possa fazer por você.’ – deu de ombros, começando a descer os degraus – ‘Você não vai chegar a lugar nenhum desse jeito, . Eu não sei o que aconteceu na sua vida ou entre sua mãe e você, mas tudo que eu vejo é uma mãe desesperada pelo carinho do filho e você a tratando dessa maneira grosseira e egoísta.’
‘-Você não sabe o que acontece aqui, droga!’ – disse, ríspido.
apenas lançou um olhar gélido por sobre o ombro e continuou a andar na direção do próprio carro.
‘-Ele foi embora’ – contou olhando nervosamente para o chão, desesperado com a partida de – ‘Meu pai nos deixou quando eu era bem pequeno. Ela não teve a capacidade de segurar um casamento e é por isso que eu estou aqui, hoje, sem pai. Que eu vivi a vida toda esperando ele voltar. É tudo culpa dela!’
‘-Você realmente acha que a culpa é dela?’ – parou, virando para encará-lo – ‘Ela esteve aqui durante todos esses anos, . Ela não foi embora – pelo contrário, sempre esteve lá por você. Ela poderia ter ido, você sabe; assim como ele foi.’
a olhava fixamente com o semblante franzino, tentando assimilar as palavras da garota à sua frente.
‘-Você é adulto, . Não precisa moldar a sua vida em torno do abandono do seu pai; isso não precisa – e não pode – definir quem você é e vai ser no futuro. Você é mais do que um menino que foi abandonado pelo pai.’ – disse, séria, apenas encarando-o profundamente – ‘Você não precisa ser esse cara que tem raiva do mundo o tempo todo. Você teve uma vida boa, , uma mãe amorosa que sempre esteve presente, uma casa, uma boa educação. Você está indo para a faculdade.’
‘-Eu não sei o que fazer sem essa raiva, ’ – murmurou – ‘Eu não sei como tratar a minha mãe sem culpá-la.’
‘-Como você gostaria que eu fosse tratada?’ – inquiriu com uma calma surpreendente.
‘-Da melhor maneira possível.’ – respondeu sem pestanejar.
‘-É assim que você deve tratá-la.’
Ficaram em silêncio, a uma distância segura, por alguns minutos, apenas encarando um ao outro.
‘-Me perdoe, ’ – pediu, cabisbaixo – ‘Por tratar a minha mãe dessa forma.’
‘-Você tem que parar de tratar você mesmo dessa forma. Você tem tanto potencial, .’ – suspirou – ‘Além do mais, não é para mim que você tem que pedir desculpas.’
‘-Eu vou me desculpar com ela’ – garantiu ao se aproximar de e segurar a sua mão – ‘Mas entra comigo. Por favor.’
O coração de batia mais rápido do que ele gostaria, não suportando a ideia de talvez perdê-la de vez se ele não garantisse que voltasse para casa com ele. Era um sentimento totalmente novo.
apertou a mão do rapaz, indicando que seguiria com ele para dentro. O nó no estômago de aliviou um pouco e subiram juntos as escadas da varanda.
Chegando à cozinha, encontraram Louise com as costumeiras marcas fundas em seus olhos, ostentando o semblante desolado como todas as vezes após as grosserias do filho.
‘-Mãe’ – chamou por ela, soltando a mão da moça e indo ao seu encontro – ‘Me desculpe por ter sido rude com você.’ – pediu, olhando-a cabisbaixo.
Louise quase não acreditava. nunca pedia desculpas; ainda mais assim, espontaneamente.
Emocionada, abraçou o filho, aceitando o pedido. Ele, por sua vez, abraçou-a de volta, passando os braços pelos ombros da mãe e a apertando de leve. Os olhos de Louise ficaram marejados; era a primeira vez que o filho não se esquivava de um abraço dela em muito tempo – e até mesmo retribuíra. Por sobre os ombros de , olhou agradecida para , que apenas sorriu docemente de volta para ela.


‘-!’ – exclamou com os olhos marejados ao avistá-lo abrir o portão eletrônico; correu pelas escadas que levavam ao subsolo – onde se situava a garagem – desesperada.
Ele, por sua vez, apenas desligou calmamente o motor e saiu do carro sem pressa, enfiando as duas mãos nos bolsos do moletom e tentando entender todo o desespero da esposa.
‘-Onde você esteve?’ – inquiriu, travando uma árdua batalha contra as lágrimas e se segurando para não correr ao encontro do marido e segurá-lo com toda sua força – ‘Eu cheguei em casa e seu carro não estava aqui... nem você.’ – ela passou a mão pelos cabelos, os olhos tão marejados que mal podia enxergá-lo à sua frente.
‘-Eu... Eu precisava tomar um ar. Dirigir um pouco.’ – respondeu cabisbaixo, tentando se explicar – ‘Não imaginei que você ficaria assim. Me desculpe, .’
‘-É que da última vez, ’ – disse, com uma pausa para um soluço – ‘Você simplesmente não voltou. Eu não estava preparada para te ver em um carro de novo.’ – cobriu o rosto com as mãos e soluçou novamente.
‘-Eu deveria estar assim’ – murmurou de volta para ela, balançando a cabeça de um lado para outro – ‘Deveria ter pavor de dirigir. Mas eu não me lembro do acidente.’ – justificou-se, dando de ombros.
sabia que aquilo deveria deixá-lo tão ou mais desconfortável do que deixava , mas ele não sentia nada. Dirigir era normal. Não tinha nenhuma memória do acidente.
As mãos de ainda cobriam o próprio rosto, soluçando e tentando esconder as lágrimas que a tinham vencido. Pela primeira vez olhou-a com preocupação real; não queria que ela se sentisse assim.
Era o primeiro sentimento por ela que ele conseguia identificar que nada tinha a ver com as memórias de um tempo passado. Aquele era ele ali, ele depois do acidente, genuinamente preocupado com a do tempo presente, chorando bem em sua frente.
Já tinha sentido coisas parecidas antes em sua estadia ali, porém sem conseguir identificar.
Eram sempre os detalhes. A calma que parecia sempre emanar dela, apesar de tudo; a maneira como ela mexia distraidamente nos cabelos enquanto revisava uma matéria, como rabiscava aletoriamente papéis quando ao telefone, a maneira como ela tentava – com muita classe – manter a bagunça que era a vida deles em ordem, como ela admirava a filha nos momentos mais ordinários do dia e o tempo parecia parar; a maneira como ela olhava para a filha deles. A filha dele.
passara a reparar na esposa. Como, afinal, pudera não reparar, nas primeiras semanas? Ele agora não conseguia entender. era o centro de tudo. Das lembranças. Da casa. Da vida dele. Ainda assim conseguira ignorá-la por muito tempo. Tempo demais. Tempo suficiente para que ela acreditasse.
Quando a imaginara desesperada, antes de sair com o carro, não imaginava como ele ficaria ao vê-la daquela maneira. Naquele momento tudo que queria era saber como confortá-la, como garantir a ela que estava bem depois do pequeno passeio. Queria poder olhar para ela e fazê-la entender que estava tudo bem, porém mal conseguia encará-la. simplesmente não sabia como fazer aquilo.
Não conseguia abraçá-la, nem ir até ela e falar mais do que as desculpas que já tinha pedido, mas também não conseguia ir. Não conseguia se mexer, a ideia de sair da garagem e deixá-la sozinha ali era irreal.
Então ficaram os dois parados no subsolo da casa, com as mãos ainda no rosto, sem querer deixar que visse suas lágrimas, e com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa, apenas aturdido com toda aquela situação.
‘-Mamãe?’ – chamou a loirinha que usava um laço gigante na cabeça, descendo as escadas até a garagem, onde se encontravam os pais.
‘-Oi, linda’ – a mãe respondeu, secando as lágrimas com as pontas dos dedos antes de se virar em direção a filha.
Quando fitou a mãe, se espantou e abriu bem os olhinhos cinza herdados do pai.
‘-Tá tudo bem, mamãe?’ – inquiriu, a fisionomia de três anos contorcendo-se em preocupação. Direcionou, então, o olhar infantil para o pai, que se encontrava meio deslocado da cena – como acontecia muito nos últimos tempos – ele tinha olhar baixo e o semblante culpado.
Seus olhos se chocaram e percebeu que a filha achara o responsável pelas lágrimas da mãe. Em todas as outras vezes em que brigara com na frente de , não ousara fitá-la – evitando, justamente, esse olhar. A menininha sustentara o olhar sério para , tão infinitamente preocupada com a mãe como poderia estar uma criança tão pequena e tão desapontada com o pai na mesma proporção.
apenas respondeu à pergunta da filha com um aceno de cabeça e, ao notar o olhar que ela dispensava ao pai, andou rapidamente na direção de , pegando-a no colo: ‘Vamos subir, querida. Eu já estava mesmo indo te encontrar.’ – falou amorosamente para a criança em seus braços, fazendo cosquinhas de leve na barriga dela.
continuou ali, parado, apenas observando enquanto as duas subiam as escadas, assistindo sua vida desmoronar mais um pouco.

e raramente voltavam para casa depois daquele dia – normalmente apareciam pela porta que levava à garagem quando já estava escuro e perto da hora de dormir. não sabia onde elas estavam passando o restante do tempo, já que não convivia mais com a própria família.
Aquilo estava fazendo mal a todos.
Em uma das noites, incomumente descera as escadas até o primeiro piso depois que colocara a filha para dormir, rumando para a cozinha, quando avistou alguns desenhos sobre a mesa do marido, no escritório. Não resistiu a espiá-los.
entrou subitamente, um copo de suco de laranja na mão, assustando a esposa.
‘-’ – exclamou, estupefata – ‘Isso é novo.’ – completou, referindo-se aos inúmeros desenhos espalhados pela mesa e pelo quadro na parede.
Ele apenas acenou em afirmação, esboçando um sorriso de satisfação – ‘Acho que volto a trabalhar semana que vem, se tudo der certo’ – contou, sem encará-la.
‘-... Isso é ótimo.’ – respondeu, admirada, com um sorrisinho emocionado que continha doses iguais de alegria e tristeza.
O marido concordou com a cabeça e franziu de leve o sobrolho – ‘Como você sabia que era novo?’ – indagou, curioso.
‘-Eu conheço seus desenhos de cor, .’ – replicou apenas, olhando-o profundamente; o sorriso mais triste que o marido se lembrava de ter visto ainda estampando o rosto da esposa.
Dita essa sentença, se afastou lentamente em direção a cozinha, ruminando acerca dos progressos do marido. Era um misto de admiração e tensão.
De longe, pela parede de vidro do escritório, observava a esposa voltar da cozinha com um grande copo de água na mão; ela usava um baby doll cinza simples e ele só conseguia pensar que não tinha ideia do quão bem lhe caía. Tudo que vinha à sua mente era como ela era bonita.
Com os olhos grudados nela, saiu sorrateiramente do escritório quando se afastou de seu campo de visão. Assistiu enquanto ela subia demoradamente as escadas – provavelmente mais um reflexo de um dia intenso do que uma manobra de sedução, mas não pôde deixar de achá-la incrivelmente sexy.
chegou ao patamar superior sem ter ideia de que estava sendo observada, deixando o marido a encarar o vazio das escadas.
suspirou e uma das primeiras lembranças daquela casa lhe veio à mente, fazendo com que desse um pequeno sorriso. Já tinham sido tão felizes ali. Tentou forçar-se a lembrar do que elas tanto riam naquele dia.

, com os cabelos mais compridos e um ar infinitamente mais jovial, subia as escadas com uma bem mais nova aninhada a ela. A bebê ria descontroladamente no colo da mãe, que a acompanhava.
‘-Fale pro papai que nós vamos tomar banho’ – dizia para a filha, que não parava de rir – ‘Tchau, papai’.
A mãe quase nem conseguia subir os degraus de tanto que a filha ria, não resistindo a rir junto com ela. , com as bochechas gordinhas, ria e acenava com as mãos para o pai.
‘-, pare de palhaçada, por favor’ – pediu , ainda rindo, tentando acalmar a filha – ‘Ela precisa urgentemente de um banho.’
‘-Papai’ – ele continuava a dizer para a filha, fazendo-a gargalhar – ‘Papai’ – disse mais uma vez, ele mesmo não resistindo a rir com ela.
Tudo aquilo começara com tentando – em vão – fazer com que a primeira palavra de fosse papai, mas acabara se tornando mais brincadeira do que tentativa quando a menininha achara a palavra muito engraçada.
‘-Amor, ela precisa tomar banho’ – a esposa falou novamente, tentando parecer séria, mas não resistindo a rir com os dois.
‘-Papai!’ – disse rindo uma última vez, fingindo que ia pegar do colo da mãe, ganhando a gargalhada mais alta da noite.
ficou rindo no primeiro piso enquanto continuava a subir as escadas; quando a bebê viu que o pai não as seguia e tinha interrompido a brincadeira, virou-se de frente pra ele, apoiando-se nos ombros da mãe e gritou ‘papai!’.
parou no patamar da escada, agora rindo emocionada, enquanto o marido corria para encontrá-las.
‘-Você disse papai!’ – comemorou, pegando-a do colo da esposa e chacoalhando-a de leve em comemoração – ‘Você falou papai, coisinha!’ – reafirmou, dando beijinhos na cabeça da filha, ainda fazendo uma dança estranha que fazia e rirem.
percebeu que os olhos do marido lacrimejavam e sorriu de lado, achando adorável.
‘-E o banho dessa boneca?’ – inquiriu para a filha – ‘E o banho,
papai?’ – provocou o marido, desta vez direcionando a pergunta a ele.
‘-Ela não vai tomar banho hoje’ – respondeu, rindo, ainda afagando a filha no colo – ‘Quem precisa de banho, não é mesmo, ?’ – questionou a bebê, que ria e batia palmas como resposta.
‘-Então você cuida dessa sujinha’ – sentenciou a mãe, fazendo uma careta de brincadeira para eles e fingindo que cheirava a filha – ‘Credo, que sujinha.’
‘-A sujinha mais linda do mundo’ – garantiu , ainda derretido – ‘Vamos tomar banho com o papai. Hoje você pode até molhar o banheiro inteiro, aproveite.’ – contou para a filha, rindo, e começando ele a subir as escadas com ela no colo – ‘Fale tchau pra mamãe. Tchau, mamãe!’ – acenou com a mãozinha da menina para a esposa.
tinha lágrimas nos olhos ao final da lembrança e não sabia bem por quê.

Em uma das muitas noites chuvosas em Boston, as escutou entrar, mas não chegou a vê-las, como era de costume; isso acontecia quando trazia a filha para casa apenas para dormir.
Naquela noite, porém, escutara a falinha infantil de junto aos passos da dupla nas escadas:
‘-Cadê o papai?’ – inquiriu, incerta, a voz fina se sobressaindo ao som das passadas.
‘-Ele já deve estar dormindo, querida’ – a mãe respondeu calmamente, a voz mais baixa do que a da filha.
Alguma coisa aqueceu o peito de ao perceber que, apesar das poucas interações recentes com a garotinha, ela ainda se preocupava com ele. Perguntava por ele. Ainda com aquela sensação boa no peito, adormeceu rapidamente.
Barulhos incomuns foram o que acordaram naquela madrugada chuvosa, mas não foram o que o tirara da cama tão abruptamente. Rodinhas girando pelo chão, coisas se batendo no corredor e passos ligeiros pelas escadas – altos o suficiente apenas para acordá-lo de um sono leve.
O que o tirou da cama e o fez sair correndo pela casa vestindo somente as calças xadrez largas do pijama e uma camiseta branca, porém, fora o barulho do portão da garagem. Há meses ele emperrava um pouco assim que o motor era acionado – o que o fazia demorar mais do que o necessário no começo da subida.
No meio da corrida, lembrara que prometera checar o que estava fazendo o motor emperrar há meses, mas sempre se esquecia e ele e só se lembravam disso quando estavam atrasados para algum compromisso e o portão resistia a abrir. Tinha sido motivo de pequenas brigas e pequenos risos para o casal, dependendo do dia.
Péssima hora para uma lembrança, – pensou, correndo para alcançar as escadas da garagem, agradecendo por ainda conseguir ouvir o barulho do portão abrindo.
Assim que alcançou os primeiros degraus, pôde ouvir um motor de carro sendo acionado. Passou as mãos nervosamente pelo rosto e amaldiçoou a quantidade de degraus que levava ao subsolo, pulando de dois em dois ao tentar alcançar o piso inferior da propriedade.
Quando, finalmente, passou pelo portão aberto, já tinha dado ré em direção à chuva do lado de fora e ligado os faróis – o que dificultava sua visão do interior do carro e, consequentemente, da esposa ao volante.
Ela estava indo embora. Elas estavam indo embora.
O coração de martelou no peitou e ele não hesitou antes de pisar para fora da sombra do portão aberto, entrando no campo de visão da esposa e, sem saber o que dizer, gritou apenas uma palavra, esperando que a mulher no interior do carro pudesse ouvi-lo:
‘-!’
pisou no freio de súbito quando avistou o marido – mais vendo-o do que ouvindo-o devido à chuva que caía em um ritmo constante fora do abrigo de seu próprio carro. Checando se a filha não acordara no processo – ela lutara tanto para tirar de casa ainda dormindo – abriu a porta do motorista, motor e faróis ainda ligados, caminhando sob a chuva para encontrar no meio do caminho.
Ela também não sabia o que dizer. Estava indo embora.
‘-O que você está fazendo acordado, ?’ – disse, num suspiro, deixando algumas lágrimas misturarem-se com a chuva.
Encarando o marido ali, sob o mesmo céu chuvoso de Boston que ela, quase a transportou de volta para meses antes, antes do acidente. Não fosse pelos olhos. Apesar da obstinação para chegar até ali, agora não sabia o que dizer, não sabia o que fazer.
O dela sempre saberia o que dizer para que ela ficasse.
Encarou-a sob a chuva por mais alguns segundos antes de decidir o que dizer. O que perguntar, na verdade. Ele não tinha tempo; não mais. Precisava ser direto e perguntar o que precisava, agora desesperadamente, saber.
‘-Por quê?’ – foi a única e simples pergunta que fez, tendo coragem para encará-la nos olhos pela primeira vez desde que descobrira toda a verdade sobre eles.
, olhando para baixo e evitando o olhar do marido, estava prestes a responder por que estava indo embora. Quando desistiu de olhar para uma poça de água sob seus pés, descobriu que era um por que bastante diferente, bem maior e mais complexo. sabia.
‘-Você se lembra’ – constatou sofregamente ao fixar o olhar ao do marido, em seguida colocando as mãos no rosto e deixando mais lágrimas caírem – ‘Há quanto tempo? Por que não me contou?’ – inquiriu, desesperada; ao encará-lo de volta, entretanto, viu que aquelas perguntas não faziam a mínima diferença agora.
‘-Por quê?’ – ele repetiu a pergunta simples, o coração ainda acelerado sem que soubesse bem o porquê – ‘Por que você mentiu, ?’
A esposa respirou fundo, tentando conter as próprias lágrimas.
‘-O que você teria feito se eu te dissesse naquele dia que éramos apaixonados? Que nos casamos por amor, não por obrigação? Que tínhamos uma vida incrível? Uma filha maravilhosa que escolhemos ter?’ – respondeu em uma só, a voz embargada pelas lágrimas que teimavam em voltar.
‘-Você tinha que ter me contado, droga, !’ – exclamou, em meio à dor que ele não sabia bem de onde vinha.
‘-O que você teria feito naquele dia, ?’ – perguntou, um lapso de obstinação brilhando nos olhos verdes.
‘-Eu teria ido embora.’ – admitiu, mais calmo do que poderia imaginar, relaxando os ombros ao pensar em perspectiva – ‘Eu teria te mandado embora, depois ido direto para a casa da minha mãe.’
‘-Você jamais teria vindo para casa com a gente, . Você não teria convivido com a gente e lembrado as coisas que lembrou. Você teria se recusado.’ – um par de lágrimas dolorosas escorreu em meio à chuva que ainda caía fina sobre as cabeças do casal – ‘Eu precisava arriscar. Precisava dar uma chance para a gente, para a . E agora você se lembra, ao menos do essencial.’
‘-Você não podia ter feito isso comigo, .’ – disse, finalmente, num brado de coragem, sentindo uma dor tão profunda que não sabia reconhecer – ‘Você me escondeu minha própria vida!’
‘-Você tinha que lembrar por si mesmo, ’ – murmurou, tentando – em vão – controlar as lágrimas. Suspirou e resolveu continuar ao assistir o marido sem palavras à sua frente – ‘As coisas nunca serão as mesmas, – e eu soube disso no minuto em que o médico mencionou a palavra memória, assim como eu soube que tinha que dar essa chance. Uma chance para que um dia você, talvez, se lembrasse de tudo. Se lembrasse da gente.’ – mordeu o lábio inferior
‘-E vale a pena passar por tudo isso, , apenas para testar um jeito louco de me fazer ter as memórias de volta?’ – inquiriu , sério, depois de alguns minutos de silêncio e lágrimas de .
‘-Valeu.’ – respondeu sem pensar duas vezes – ‘Mas não vale mais, .’ – continuou ela, diminuindo a distância entre eles e segurando a mão do marido – ‘Por meses meu foco, minha energia e minha dedicação foram todos voltados para você. Eu deixei tudo de lado, minha carreira de lado, minha vida de lado, a em segundo plano para que pudesse me dedicar a você. E eu não me arrependo, nem por um segundo – você é o pai da , eu devia isso a ela, eu devia essa chance à nossa família.’ – pausou para tentar limpar as lágrimas – ‘Agora eu preciso cuidar do resto. Eu não aguento mais essa situação em casa e eu não aguento mais ver minha filha no estado em que ela está; ela não é essa criança sempre tão quieta e retraída. Nós curamos você e agora precisamos nos curar.’
apertou forte a mão do marido enquanto tentava recuperar um pouco do fôlego; ele, porém, se encontrava em um estado catatônico, olhando fixamente através do ombro de para a janela de trás do carro da esposa, onde a menininha dormia.
‘-Você ia embora na calada da noite, !’ – conseguiu dizer a ela, não no tom irritado que pretendia; a voz saíra mais triste e incrédula do que qualquer coisa – ‘Eu ia simplesmente acordar e vocês teriam ido embora, caramba!’
‘-Eu não sabia como fazer isso, . Eu não sabia como te deixar.’ – a voz de estava mais embargada do que nunca – ‘Eu planejava te ligar pela manhã, nada disso foi para te punir. Eu só consegui pensar na ... Ela apenas já tem memórias ruins demais e ir embora de casa não precisa ser mais uma delas.’ – disse, e passou a encarar as botas molhadas.
seguia estático, o coração batendo freneticamente, a mente fervilhando, os sentimentos todos misturados e conflitantes. Estava tão concentrado em abrir e fechar a mão que a esposa segurara com afinco, sentindo falta do calor da mão dela, que só reparou que não respondera-a minutos depois, quando ela falou novamente.
‘-Eu espero que um dia você possa me perdoar’ – foi tudo que conseguiu pensar para dizer – ‘E que saiba que eu esperei você estar completamente bem para ir. Eu jamais te deixaria machucado, , você com memórias ou sem.’
Aquelas últimas sentenças foram o apogeu dos sentimentos declarados por para esta versão do marido; não sentia o chão sob seus pés. Ele simplesmente não sabia o que dizer; encontrava- se parado na frente da esposa, mal conseguindo encará-la, sem saber o que dizer ou fazer. Ele não tinha a coragem, o direito de pedir a ela para ficar depois daqueles meses, mesmo quando tudo que passava pela sua mente quando abria a boca para tentar pronunciar algo coerente era ‘não vá embora’.
‘-Eu não sei como vai ser – mesmo quando, mesmo se você lembrar de tudo, . Mas eu estou sempre, sempre à disposição para qualquer coisa. Se você não estiver se sentindo bem ou se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa, não hesite em me ligar.’ – engoliu em seco, reunindo todas as forças que restavam no seu corpo depois das árduas batalhas emocionais que travara durante os longos últimos meses.
O marido ainda mirava através dela, o semblante cerrado e confuso, quando deu os passos mais corajosos de sua vida em direção ao homem com quem compartilhara os últimos cinco anos, na intenção de deixá-lo.
‘-Eu amo você’ – disse quase num sussurro, a voz completamente embargada pelas lágrimas, alcançando a bochecha do marido e depositando um beijo leve e delicado na superfície molhada.
Dito isso, seguiu resoluta para o volante, cerrando a porta do carro com a impressão de que fechava uma porta não tão literal em sua vida também. Ligou o motor e não ousou olhar pelo retrovisor ao seguir pela pequena estrada que levava à rodovia principal.
Só deixou-se cair em um choro compulsivo quando já estava longe o suficiente de casa.

ficara parado na chuva por bons minutos, mesmo depois que avistou o carro de desaparecer na próxima curva, ao longe. Não sabia o que fazer. Elas tinham ido embora; realmente tinham. Ele não pudera fazê-las ficar.
Quando chegou à sala de estar, com as roupas encharcadas, atirou um vaso que repousava sobre o console da lareira para longe – indo de encontro diretamente com uma parede. Parecia que não ia conseguir respirar. simplesmente não sabia dizer o que estava sentindo – dor, angústia, raiva, tristeza. Perda.
Mas como podia ele perder o que não tinha?,
seu cérebro insistia em tentar racionalizar.
Depois de minutos sentado no sofá com as mãos na cabeça e a respiração acelerada, partiu para a cozinha, abrindo a geladeira e pegando duas garrafinhas de cerveja de uma vez. O álcool no sangue o fazia sentir-se melhor e pior ao mesmo tempo.
Quando se deu conta, tinha bebido todo o estoque de cerveja que mantinha na geladeira. Cambaleando, conseguiu chegar até a suíte do casal; tudo ainda tinha o cheiro dela, embora já não dividisse a cama com ele há um bom tempo.
Parecia tão errado deitar naquela cama sem ela.
‘-Maldita seja !’ – bradou sem saber se estava urrando de raiva ou tristeza.

‘-Tire as mãos de mim, seu pervertido’ – uma sonolenta reclamava, ainda sem abrir os olhos, sentindo acariciar sua bunda por baixo do lençol.
‘-Não me lembro de você pedir para que eu tirasse as mãos de você ontem, enquanto a gente transava’ – sorriu enviesado, envolvendo-a delicadamente pela cintura.
revirou os olhos para ele, mas virou para o lado contrário com um sorrisinho maroto brincando nos lábios. Era a primeira vez que acordava na cama com um cara desde Jordan, seu namorado.
E justo com pensou ela, meio divertida, meio amedrontada.
‘-Era o efeito das drogas que você deve estar me dando para que eu durma com você, .’ – murmurou contra o travesseiro, brincando.
‘-Como se você não gostasse’ – sussurrou bem perto do ouvido de . Perto demais. A garota se arrepiara inteirinha – o que não passou despercebido aos olhos de .
‘-Nunca disse que gostava’ – tentou manter a pose, ainda de costas para o rapaz, mas ela admitia que era quase impossível ser levada à sério com ele ali, tão perto e tão quente.
‘-Então você deve ser uma pessoa incrivelmente masoquista, ’ – sussurrou para o ouvido dela novamente, desta vez correndo os dedos vagarosamente pelas coxas de , que precisou cerrar bem os lábios para evitar um gemido de prazer – ‘Seu corpo te denuncia, .’
, então, passou a distribuir beijos molhados pelo pescoço de – que se contorcia de leve, ainda sonolenta, aproveitando as sensações. Os beijos seguiram por toda extensão do colo, dos seios, da barriga e ela se perguntava se o rapaz possuía um mapa de seus estímulos nervosos.
Era surreal o que ele conseguia causar em seu corpo todo.
‘-Me fode.’ – pediu baixinho, quando não aguentava mais a tortura e o deleite que eram os carinhos de .
Com um sorriso malicioso nos lábios, pensara em tirar sarro de alguma maneira, visto as provocações anteriores da garota, mas desistiu assim que a mirou, os lábios entreabertos, desejando-o. Tomou-lhe os lábios e começou a beijá-la ferozmente.
Caíram, suados, um de cada lado da cama. ainda arfava encarando o teto, num derradeiro gostinho de orgasmo, sentindo cada músculo de seu corpo entorpecido depois do sexo intenso. mirava-a, um pouco admirado, um pouco presunçoso.
‘-Bom dia’ – disse, sorrindo de lado com um brilho sagaz no olhar. Era a primeira vez que ele acordava com alguma garota sem expulsá-la logo da cama ou sem sair correndo ele mesmo; nunca tivera paciência para isso. Descobrira que o sexo matinal era algo que compensava o trabalho – talvez tanto quanto a carinha sonolenta de .


acordara suado e com a cabeça latejando. Olhou para baixo e decidiu que teria que tomar um longo banho gelado para conter as consequências daquela lembrança com ; só pensar no corpo dela deitado ao lado do seu lhe causava uma pontada involuntária.
Depois de recuperar seu estado mental natural – com a ajuda de um banho e alguns analgésicos – a dura verdade recaíra sobre ele mais uma vez. , só de toalha, estava sentado na cama do quarto de hóspedes encarando o closet aberto.
As coisas que transferira da suíte do casal tinham desaparecido; algumas gavetas foram deixadas abertas, alguns cabides caídos: provas de uma arrumação às pressas. Condizia com o que ela tinha dito ao marido na noite anterior, sobre não saber como deixá-lo. Muito provavelmente aproveitara um ímpeto de coragem.
Ele nunca imaginara que seria tão difícil, afinal tinha pedido insistentemente por isso – para que elas fossem embora de sua vida, desaparecessem magicamente. Por que agora doía tanto?
Forçou-se para fora do quarto e, ao partir em busca de uma roupa, notou que a esposa não levara nada que ainda estava no closet do quarto deles. Checou até mesmo algumas gavetas do lado que pertencia a ela para confirmar.
Também, pudera, era muita coisa.
Cinco anos de coisas.
Rumando em direção às escadas, passara pelo quarto de , mas não ousava entrar. Não tinha esse tipo de coragem e queria evitar lembranças que seriam dolorosas demais. Enquanto descia, só conseguia se concentrar no silêncio que pairava à sua volta. Aquela casa era muito grande. Agora, grande demais.
O pé direito alto e as travas de madeira pareciam, de alguma forma, ampliar a solidão.
genuinamente não sabia o que fazer, estava perdido. Engolira um café da manhã rápido, querendo evitar a cozinha repleta de desenhos e evidências da filha e partira para a segurança de seu escritório. Lá não era grande demais, nem aberto demais, nem doloroso demais.
Sentado na cadeira de fronte à sua mesa de trabalho, passou a mão na testa, tentando colocar os pensamentos em ordem. Fazendo exercícios de respiração, passou a prestar atenção no ambiente, tentando concentrar-se em algo que não fosse aquele sentimento de vazio.
Remexera em tudo, organizara e reorganizara os desenhos, os lápis, os papéis, as tintas. Estava inconscientemente utilizando a estratégia de . Um dos armários do canto – o único fechado – chamou-lhe a atenção. Nunca abrira aquele armário em especial.
Tentou. Estava trancado à chave.
Quase como num sussurro celestial, lembrou-se de que já havia visto uma chave ao remexer nas gavetas, numa tarde longínqua. Tinha tanto desinteresse pela vida ali, depois que se descobrira casado e pai, que nem chegara a questionar o que abriria aquela chave.
Não precisou de muito esforço – nem para encontrar a chave, nem para abrir o armário. Muitos jornais e revistas ocupavam as prateleiras superiores de forma organizada; na última divisão, entretanto, estavam caixas com coisas saindo para fora e coisas guardadas aleatoriamente. Designer de profissão e coração, logo notou o contraste.
Abaixou-se e tratou de puxar uma das caixas para fora – a primeira coisa que viu foi uma página de jornal emoldurada. Olhou mais atentamente e viu que se tratava da coluna que ele costumava ilustrar aos domingos, porém com um texto de autoria de ; embaixo, no rodapé da página, havia uma pequena descrição do casal que assinava a coluna naquele domingo em especial, acompanhada de uma foto extremamente espontânea de e se encarando mutuamente.
Assustou-o imensamente ver a prova do casal feliz que eles tinham sido naquele quadro. Mais uma coisa lhe chamara a atenção: , constava na assinatura da coluna. Todo aquele tempo chamando-a pelo sobrenome e ainda pelo sobrenome errado; eles tinham o mesmo nome.
Outros quadros e porta-retratos o seguiram. agarrando divertidamente uma que sorria para a câmera, a família unida sob um pôr-do-sol cor de rosa, e bem jovens sorrindo timidamente, um close de beijando no dia do casamento enquanto uma lágrima solitária escorria pela bochecha dela.
Tantas memórias em uma só caixa.
respirava com dificuldade quando puxou uma segunda caixa e mais coisas vieram junto. Abriu um álbum que deveria ser dedicado à e folheou-o gentilmente. Havia uma ou outra foto de grávida no começo, seguidas por uma chuva de outras de bebê, do dia em que ela nascera, dela tomando banho, se lambuzando com uma papinha, dando passinhos, sempre rindo e brincando acompanhada de perto dos pais.
Aquilo aqueceu um pouco o coração de . Eles realmente tinham tido uma vida boa, sua mãe estava certa. Quando acordara, tudo que desejava era que ela estivesse errada, que o estivesse enganando, manipulando. Agora, no entanto, só sentia paz em revisitar o próprio passado e constatar que tinha feito boas escolhas, que não tinha repassado a maldição de seu próprio pai para a filha. Ele estivera lá por ela, todo o caminho.
Estacou em uma foto do primeiro aninho de – seu pai comparecera: ele sorria segurando-a timidamente, sozinho na foto, incerto de seu lugar. procurou uma foto do aniversário do ano seguinte e lá, diferentemente do ano anterior, posavam todos juntos – , , William, George, Louise – para a foto e comemoravam alegremente; alguns sorriam para a câmera, outros olhavam para a garotinha, em uma bagunça amigável e repleta.
Automaticamente, veio à cabeça de que deveria haver uma foto mais comportada, tirada em seguida, mas ‘é claro que escolheria aquela’. O pensamento assustou-o de imediato por ser dele próprio, não uma lembrança. Conscientemente não sabia que a esposa escolheria a foto espontânea, porém também não havia sido uma memória remota.
Ele estava começando a pensar como ele mesmo. Era arrebatador.

Passara dois dias remexendo e reorganizando o próprio escritório – exceto a mesa de , que deixara intocada – quando encontrou algumas páginas aleatórias de jornais guardadas sem o mesmo zelo das encadernações organizadas das prateleiras de cima.
Agachado no chão, levou um susto ao perceber do que as notícias unanimemente tratavam: seu acidente. Levou, distraído, uma das mãos ao local da cicatriz deixada por aquele episódio, no lado esquerdo da testa, e se perguntou como estava vivo, como ainda tinha pernas e braços.
O carro, idêntico ao Jeep estacionado em sua garagem, parecia uma lata de cerveja amassada e ele podia jurar que não tinha como alguém ter saído vivo dali de dentro. Atentou, então, às manchetes; eram sempre variações de “Carro desvia de animal e capota múltiplas vezes na I-93”.

‘-?’ – atendeu a ligação pressionando um botão no volante, sorrindo tranquilamente.
‘-
Oi, – a esposa cumprimentou do outro lado da linha, parecendo ofegante.
‘-Diga, amor.’
-Euesqueciaroupadebaléda.’ – disse tudo de uma vez, de uma forma inteligível, sendo seguida por um sonoro “hã?” do marido – ‘Eu esqueci de colocar a roupa de balé da na mochila. Desculpa, amor.’ – escusou-se, chateada.
não conseguiria sair do trabalho no horário naquele dia e, consequentemente, não conseguiria pegar a filha na escola e levá-la ao balé, como era de costume já que os horários coincidiam. Precisou ligar para o marido, ainda pela manhã, pedindo para que ele saísse do próprio trabalho um pouco mais cedo para realizar essas tarefas.
riu – ‘Tá tudo bem, linda. Estou pegando o retorno para a rodovia pra passar em casa e pegar a roupa antes de buscá-la.’

‘-Me desculpa mesmo. Eu estou um caco, não aguento mais esse dia.’
‘-Respire fundo e dê conta disso logo que te receberemos com cookies.’ – ofereceu , ainda risonho.

‘-A vai adorar te ajudar.’ –constatou, o humor melhorando um pouco com a perspectiva de estar em casa com o marido e com a filha.
‘-Eu não tenho a menor dúvida! Mas se eu fosse você eu me apressava, antes que aquela coisinha coma tudo.’

‘-Nah! Você vai me fazer um pote gigante de cookies para não corrermos esse risco.’ – foi a vez dela de rir – ‘Amor, agora eu preciso ir. Tem muito trabalho me esperando. Obrigada por me socorrer!’
revirou os olhos – ‘Você sabe que não precisa me agradecer’ – pontuou, firme, e podia imaginá-la sorrindo do outro lado da linha.
‘-Bobinho.’ – foi a única resposta da esposa.
‘-’ – chamou, mais sério – ‘Eu amo você. Demais. Não esquece disso.’ – achou importante acrescentar.
‘-Você pode demonstrar o tamanho desse amor mais tarde’ – provocou, com ar de riso – ‘Eu também amo você, .’ – completou.
Quando ia apertar o botão para silenciar a ligação, a esposa soltou:
‘-Ah, e não esqueça as sapatilhas!’
Ele riu, afirmando que não esqueceria e desligando, quando avistou um cervo passar correndo por ele. Tudo depois disso era um borrão.

não sabia como controlar aquela onda de súbita consciência; era arrebatador. Cambaleou até o andar de cima com as mãos na cabeça e os olhos arregalados. Nunca tinha passado por sua mente que não se lembrava do acidente, das circunstâncias, do medo.
Entrando no banho, ao deixar a água escorrer e começar a se ensaboar, não podia parar de pensar que tinha pernas e braços. Ele estava vivo depois de tudo aquilo. Tinha consciência de todos os dedos – todos os vinte, dos pés e das mãos. Sua cabeça funcionava, não estava vegetando.
Por mais irreal que parecesse depois de ver as condições em que o carro que dirigia fora encontrado, ele estava ali, inteiro. Perder cinco anos de memória repentinamente parecia tão pouco. A cicatriz da testa, que outrora despertara tanta indignação e descontentamento, não era nada. Nada.
As lágrimas se misturavam com a água da ducha, trilhando um misto de incredulidade e gratidão. Ao acordar do coma, sentia como se sua vida tivesse sido arrancada de si, de seu controle; agora, porém, ele percebia que ganhara muito mais do que imaginava, muito mais do que merecia.
Com a toalha já amarrada na cintura, não conseguia contar quantas vezes já tinha aberto e fechado as mãos no curto caminho até o closet. Podia sentir uma gota solitária escorrendo do cabelo descendo pelo pescoço em direção às costas. Sentia os músculos das coxas e panturrilhas e as articulações dos pés ao caminhar. Sua mente fervilhava em consciência.
Ele era um filho da puta sortudo, pensou.

Louise fazia parte da maior parte de seus dias. Ela não ficava muito, mas tinha preocupação de checar o filho sempre que possível – quando não pessoalmente, através do telefone. A mãe não fazia muitas perguntas, nem dava as respostas para as questões que pairavam na cabeça do filho, mas cuidava para que estivesse alimentado e que tivesse todos os poucos cuidados de que ainda precisava.
Depois de um almoço tranquilo e quase silencioso com Louise, descansava na sala de TV quando viu o nome de George no visor do celular. Atendeu.
Agora que tinha consciência de que realmente não sabia da maior parte de sua vida recente, não sabia como tratá-lo.
‘-Alô?’ – respondeu somente.
‘- – suspirou aliviado do outro lado da linha, temeroso de que o filho não fosse atendê-lo – ‘Olá.’
Silêncio.
‘-Olha, eu sei que eu sou a última pessoa com quem você gostaria de falar, mas...’ – deu mais um suspiro, tentando escolher as palavras – ‘Mas eu realmente queria saber como você está... E se precisa de alguma coisa. Eu estou aqui para o que você precisar, .’
não sabia o que responder, nem o que sentir. Os sentimentos estavam todos uma confusão desde que fora embora – desde um tempo antes disso, se fosse admitir para si mesmo – e aquela mísera ligação do pai fizera seu coração acelerar o ritmo. Estava grato por isso também.
‘-Eu estou...’ – começou o rapaz – ‘Bem. Eu acho.’
‘-Sua mãe me contou sobre a ... Eu não sei como isso te afeta, filho.’ – George mencionou. Louise ligara logo que ela mesma soubera – através de um choroso telefonema de – mas ele achara prudente esperar até o final daquela semana para que o filho pudesse colocar a cabeça em ordem em torno disso.
‘-Eu também não...’ – teria soltado alguma resposta ácida com a menção da palavra “filho”, mas estava muito perdido em seus pensamentos e sentimentos para se importar.
‘-Se houver algo que eu possa fazer por você, me deixe saber.’ – pediu, comedido.
‘-Obrigado, George.’ – foi a única coisa que deixou os lábios de . Ele estava se sentindo diferente em relação ao pai.
George foi pego de surpresa pelo agradecimento do filho.
‘-Me ligue se precisar de alguma coisa. Qualquer coisa.’ – reforçou – ‘Você tem meu número, . Não hesite em usá-lo.’
concordou com a cabeça, como se o pai fosse capaz de ver o gesto através da chamada de voz.
‘-Bem, é isso. Cuide-se, rapaz.’ – disse, despedindo-se.
‘-Tchau, George.’ – e desligou.
Ainda encarando o telefone, tentava digerir os sentimentos. Ele estava contente que o pai ligara? Satisfeito? Não conseguia identificar e não imaginava o porquê estaria.

e andavam calmamente pela calçada do Boston Public Garden em um dia ensolarado, depois de um passeio no parque e do banho de sol da bebê de quase um mês de vida. empurrava o carrinho enquanto o pai segurava no colo ternamente.
George, ao sair do Bistro du Midi, restaurante francês do outro lado da rua, com William, avistou de longe. Fazia anos que não via nem sequer uma foto do rapaz. No desespero, atravessou a rua no meio dos carros, seguido pelo filho, querendo ter certeza do que seus olhos estavam vendo.
Quando pôde chegar perto o suficiente, ajeitava a manta do bebê em seu colo, tapando a visão de seu rosto. Assim que terminada a tarefa, , olhando para a frente, cruzou olhares com o pai que não via há mais de uma década. Estacou.
, acompanhando o marido distraidamente, levou alguns segundos para entender. George e ele eram estranhamente parecidos.
‘-?’ – o mais velho cortou o silêncio, com lágrimas nos olhos.
‘-O que você quer?’ – replicou, estreitando a garotinha em seus braços. observava a cena com preocupação.
‘-Puxa, eu não consigo acreditar que seja mesmo você... Aqui, em Boston.’ – tagarelou, com o olhar fixo no filho – ‘E olhe só para você. Você já é um homem, .’
‘-O que você quer?’ – perguntou novamente, as narinas inflando de raiva.
‘-Eu... Só me deixe te ver, filho, faz tanto tempo...’ – disse, emocionado
‘-Eu não sou seu filho.’ – retrucou, a respiração ofegante de raiva.
Notando o estado do marido, silenciosamente pediu para que ele passasse o bebê para seus braços. George pareceu reparar no embrulhinho somente naquele momento, em meio à emoção de reencontrar o filho mais velho.
‘-Esse bebê é seu, ?’ – inquiriu, curioso – ‘Eu sou avô?’
‘-Essa é minha filha, mas você não é avô de ninguém.’ – respondeu com desprezo.
William estava parado um passo atrás do pai, de olhos arregalados, analisando o irmão mais velho com curiosidade e apreensão. , ainda no silêncio que a última resposta ao pai deixara, notou o rapaz de no máximo quinze anos atrás de George. Este, por sua vez, reparou no olhar trocado entre os dois filhos.
‘-, este é William, meu filho’ – apresentou, guiando-o para frente com uma mão nas costas – ‘Will, este é seu irmão, de quem sempre te falei.’ – completou, receoso – ‘William sempre quis te conhecer, .’
‘-É verdade. Meu pai sempre falou muito de você.’ – William se pronunciou pela primeira vez, atestando as palavras de George.
A face de ficou lívida por alguns segundos com a surpresa, mas transformou-se completamente quando ele voltou a si. Alguma coisa dentro dele aqueceu quando viu o tímido olhar de expectativa e deslumbre do irmão para ele. William também lembrava bastante o irmão mais velho na adolescência, além de tudo.
‘-Will’ – sorriu de leve – ‘Esta é minha esposa, ’ – William acenou em direção à mulher, que cumprimentou-o tranquilamente – ‘E sua sobrinha, .’ – colocou a mão sobre o bebê que ressonava no colo de .
William aproximou-se do casal cautelosamente para espiar a sobrinha.
‘-Meu deus, ela é tão pequena!’ – exclamou o mais jovem, sorrindo para o pacotinho.
‘-Se você não é meu filho, como sua filha é sobrinha do Will?’ – inquiriu George, machucado e provocativo.
‘-Porque Will é meu irmão.’ – cortou, afiado.
William não conseguiu segurar um sorriso. Tinha esperado muito tempo para conhecer o irmão mais velho. Depois da recepção fria de George, ele não esperava esse tipo de aceitação da parte de .
apenas observava a cena silenciosa, aguardando em expectativa aquele fatídico encontro com o sogro.
‘-Desculpa, eu não queria falar assim com você. Você não me deve nada.’ – pontuou George, cabisbaixo – ‘Eu só não consigo acreditar que você já é casado e é pai. O tempo passou muito rápido.’
‘-Claro que passou para quem não esteve aqui.’ – sentenciou, ríspido – ‘Eu já não te entendia, George, e olha que passei minha vida toda tentando, mas depois que minha filha nasceu eu entendi menos ainda. Você foi filho da puta o suficiente para simplesmente abandonar uma criança.’
‘-, eu errei muito com você, com a sua mãe. Mas eu realmente gostaria de poder conversar calmamente com você sobre isso, dar as explicações que nunca pude dar...’ – pediu, cansado – ‘Você fez uma falta imensa na minha vida, na vida do seu irmão.’
‘-Se o Will quiser, eu pretendo fazer parte da vida dele e que ele faça parte da minha, de agora em diante.’ – afirmou, conciso – ‘Agora sobre você, George, eu não sei o que você pensa, encontrando comigo no meio da rua, que eu vou simplesmente esquecer esses anos todos. Eu nunca precisei de você na minha vida – e se precisei, não fazia diferença, você não estava lá – não é agora que eu tenho a minha própria família que vou precisar.’
‘-Eu entendo, filho, que você já é crescido e não precisa mais de um pai. Eu sei que não estive quando você precisou. Mas o que eu quero te dar são as explicações que eu nunca pude.’
‘-Eu não sou seu filho!’ – bradou, menos controlado que outrora, virando-se para trás e ganhando uma distância do pai.
Com as mãos na cabeça e os olhos cheios de lágrimas, foi para perto de – que tinha acomodado o bebê adormecido no carrinho e sentara-se em um banco próximo com William, dando algum espaço para pai e filho conversarem. ficou alarmada ao ver o estado do marido e opinou pela primeira vez:
‘-, converse com seu pai. Não por ele, por
você. Você merece e você precisa dessas explicações para poder seguir sua vida, amor, para poder encerrar esse ciclo de dor e mágoa.’ – orientou baixinho, levantando-se para segurar a mão do marido.
a abraçou delicadamente e ela percebeu que a respiração dele estava descompassada.
‘-Uma conversa, George. Só isso. E nunca mais quero ter que te ver na minha frente.’ – sentenciou, ferrenho, encarando o pai furiosamente.


Toda a estabilidade da última conversa telefônica com o pai fora por água abaixo depois de acordar de um cochilo naquela tarde e sonhar com o primeiro encontro com George depois de adulto. Ele só conseguia sentir o mesmo sentimento da lembrança – rancor.
Ele dissera para o pai que aquela era a última vez que gostaria de vê-lo! Como ele estava em sua vida até hoje, três anos depois daquele dia?
Lágrimas vieram aos seus olhos quando conseguiu lembrar de partes da conversa – que acontecera no apartamento em que ele e moravam naquela época. George realmente se explicara e parecia se ressentir verdadeiramente de não ter feito parte da vida do filho, mas nem assim o perdoara ou deixara-o fazer parte de sua vida.
Ele voltou através de . descobrira um par de meses depois do fatídico encontro que seu pai estava visitando a neta em segredo – ele aparecia no apartamento com algum presente novo como justificativa sempre que podia, pelo menos uma vez por semana. , apiedada do sogro, permitia e percebia que a garotinha também gostava do avô.
Ele nunca ficava muito. Era sempre uma desculpa para visitá-la e segurá-la no colo por alguns minutinhos. agora lembrava que tinha ficado furioso quando descobrira, mas a esposa convencera-o de que não deveria ser poupada de amor, não importava de onde ele viesse. Isso mexera com de uma forma que ele ainda não saberia explicar. Além de tudo, os pais de , por escolha própria, não estavam presentes na vida da filha e da neta e George estava ali, tão disposto a ser avô e a amar .
, um pouco relutante, liberara as visitas do pai – contanto que ele não forçasse a barra da relação entre eles e estabeleceu regras. Seu maior medo era que George desapontasse tanto quanto o tinha desapontado quando criança. Já que faria parte da vida da menininha, o avô não poderia se ausentar por mais de duas semanas, nem combinar algo com ela e desmarcar ou não aparecer. O filho deixara claro a rigidez das regras e assegurara que, por qualquer deslize que cometesse, George não veria nunca mais. Era uma chance única.
O avô levara muito a sério o compromisso com a neta. Naqueles três anos, houve apenas uma vez em que precisou desmarcar um passeio com ela – quando sofreu um súbito rompimento de apêndice e precisou ser levado ao hospital às pressas; ele, porém, se recusara a entrar na sala de cirurgia sem antes avisar o filho e falar com .
Acessar essas lembranças fez com que o rancor causado pelo sonho fosse embora. Eles realmente tinham superado tudo isso, George realmente amava a neta e tentava compensar os anos longe do filho com ela. ficava estranhamente satisfeito em lembrar disso; acalmava seu coração (de pai).

Processar todas aquelas informações novas, apesar de ainda estar digerindo a semana sem elas em casa, deixara-o mais tranquilo do que nunca acerca do próprio passado. Não havia pontas soltas. É claro, ele ainda tinha todo um futuro incerto pela frente, mas saber que tinha tomado decisões acertadas antes, que era capaz de tomá-las, o confortava imensamente.
Ainda pensando em decisões certas, pegou o celular do bolso e discou o número de Louise.
‘-Mãe?’ – inquiriu, ao que ela prontamente respondeu com um ‘oi, querido’ – ‘Eu estava pensando esses dias, enquanto arrumava as coisas... Será que eu poderia ficar com você? A e a precisam voltar para casa. Esta é a casa delas.’
‘-É claro, filho’ – respondeu, um pouco surpresa – ‘Claro que pode.’
‘-Eu vou começar a levar minhas coisas praí hoje, então. Você pode ligar para a ? Já faz mais de uma semana, elas devem estar sentindo falta daqui.’
‘-Eu vou ligar. Você tem certeza?’
‘-Tenho. O lugar delas é aqui.’
‘-Eu estou orgulhosa da sua decisão, .’ – Louise pontuou e desligou imediatamente, sem dar ao filho chance de resposta.

***


‘-!’ – gritou da suíte do casal. O namorado veio correndo, preocupado – ‘Olha quem resolveu aparecer.’ – parou, de lado, erguendo a camisola e deixando à mostra a pequena protuberância na região do baixo ventre.
sorriu, beijando-a e arrastando-a para a cama.
‘-Agora você tem um calombo na barriga.’ – provocou.
deitou de barriga para cima e ergueu a camisola novamente, tentando ver se a barriga aparecia nessa posição também. constatou que sim, ela estava oficialmente grávida, deu-lhe um beijo rápido e partiu para o banheiro. Na volta, ajeitou-se mais para baixo da cama, na altura da barriga de .
‘-Ei, você realmente não planeja me deixar dormir hoje?’ – perguntou , bocejando sonolenta, deitada ao lado do namorado.
‘-Dá licença que estou tentando conversar com o bebê’ – ignorou-a, rindo, e voltando-se novamente para a barriga levemente proeminente de – ‘Oi, coisinha. Sua mãe está tentando boicotar nossa conversa. Acho que ela quer que você só reconheça a voz dela’ – disse a última sentença baixinho, como se segredasse algo.
‘-Pare de chamar o bebê de coisinha, !’ – pediu, divertida e falsamente indignada.
‘-Do que você quer que eu o chame, hein?’ – inquiriu, cutucando-a nas costelas e causando uma crise de riso na namorada – ‘Calombinho?’
‘-Meu deus, só piora!’ – constatou, tentando não rir.
‘-Do que você quer que eu o chame, então, me diga?’ – perguntou novamente, divertido com a situação, uma mão ainda repousando na pequena protuberância da barriga.
‘-Bebê, talvez? O que você acha?’ – ela riu, revirando os olhos.
‘-Bebê é muito comum, .’ – afirmou, contrariado e pensativo.
Ele ficou alguns minutos debruçado sobre a barriga de , enquanto ela acariciava seus cabelos, antes de falar baixinho para a barriga:
‘-, é o papai. Eu e a mamãe estamos muito felizes por conseguirmos te ver bem hoje – embora ela esteja meio ranzinza de sono. Mas tudo bem, ela tem mais quase cinco meses para se acostumar com as nossas conversas.’
riu – um pouco emocionada e um pouco indignada.
‘-?’ – franziu o sobrolho – ‘Da onde você tirou isso, ?’
‘-É um nome que me veio à cabeça, ué. Você não queria que eu chamasse o bebê de coisinha, então vou chamar por um nome até descobrirmos o que é.’ – deu de ombros, como se fizesse todo o sentido.
‘-Se for um menino, eu com certeza vou contar para ele que você o chamava de quando estava na minha barriga, você vai ver só!’ – ela ameaçou, rindo.
‘-Não se preocupe’ – ele confidenciou, confiante – ‘Não vai ser.’
‘-Como você sabe?’ – questionou, colocando uma mão na barriga protetoramente – ‘Sua mãe acha que é.’
‘-Instinto paterno.’ – ele sorriu, acariciando de leve a protuberância.
‘-Acho que confio mais na sua mãe, hein, amor.’
riu e apagou as luzes. Antes de se ajeitar devidamente em seu lado da cama, inclinou-se em direção ao ventre de e murmurou um ‘boa noite, ’ divertido.


acordou tranquilamente, espreguiçando-se entre os lençóis brancos, ainda com a sensação boa da lembrança que viera em sonho, que remetia à dias mais felizes. Um sorriso brotou em seus lábios antes mesmo que pudesse abrir os olhos; ele soubera que era uma menina o tempo todo.
Despertando, lembrou que ficara embaraçado quando realmente descobriram que teriam uma menininha – sugeriu à que escolhessem outro nome, que ela pudesse ajudar a escolher, já que ele tinha escolhido um nome muito aleatoriamente, mas a namorada insistira em permanecerem com , que soava doce e delicado aos seus ouvidos.
E realmente era doce, pensava . Combinava perfeitamente com a loirinha que o carregava.
Agora ele entendia tanta coisa; quando encontrara pela primeira vez depois do acidente, ela lhe perguntara se aquele nome não lhe remetia a nada. Porque fora ele quem o escolhera para a filha dos dois. Agora fazia sentido.

***


Não era a primeira vez que George visitava o filho, naqueles dois meses que se seguiram desde que saíra de casa. Não que acontecesse constantemente, mas o pai estava satisfeito que não mais se recusava a falar com ele ou a estar em sua companhia.
O mais novo estava acomodado em uma das poltronas da varanda frontal da casa da mãe quando avistou o pai aproximando-se e subindo as escadas na direção dele. George avisara que viria.
‘-, como vai?’ – inquiriu, sempre sem jeito nesse primeiro contato – ‘E Louise, está?’
‘-George’ – cumprimentou, polido – ‘Não, ela precisou passar no escritório hoje.’
O pai acomodou-se ao lado de , sorrindo de leve para o filho.
‘-Você disse que queria conversar’ – começou o mais velho.
‘-Sim’ – afirmou, sério e conciso, encarando os próprios sapatos – ‘Eu queria te dizer isso já tem um tempo, mas não sabia como. Eu queria me desculpar e agradecer. Principalmente agradecer.’
George encarou-o inquisitivo, sem entender o que o filho queria dizer.
‘-Eu queria agradecer por tudo que você fez por mim enquanto eu estava me recuperando do acidente, ajudando a com a , dividindo as funções com a minha mãe.’
‘-Você não precisa me agradecer por nada, . É o maior prazer da minha vida estar com a .’
‘-Eu passei tanto tempo te culpando – a vida toda e desde que acordei’ – continuou, como se o pai não tivesse falado – ‘Mas eu fui um idiota. Agora fui eu que abandonei a minha filha.’
‘-, não fale isso. Você sofreu um acidente muito grave, você não tem culpa de ter perdido a memória.’ – o pai defendeu-o, franzindo o cenho.
‘-Eu te julguei a vida inteira e estou aqui, fazendo a mesma coisa. A vida é tragicamente engraçada de vez em quando.’
‘-Você não fez a mesma coisa que eu! Eu escolhi ir embora. E depois foi ficando cada vez mais difícil voltar...’
‘-O pior é que agora eu entendo, George’ – ele riu debochadamente – ‘Voltar vai parecendo ficar cada vez mais impossível. E eu escolhi, também. Eu acordei do coma e tinha escolhas para fazer; a me deu todas as chances de tentar voltar a ser um pai, estava lá, pacientemente explicando as coisas para a nossa filha. E eu escolhi não ser. Eu escolhi me distanciar – era mais cômodo só não assumir nada e culpar minha memória.’ – desabafou , a voz trêmula.
‘-, você sabe que ainda tem escolhas para fazer. Não precisa ser assim.’ – pontuou sabiamente o pai – ‘Você está aqui corrigindo as coisas comigo, você corrigiu as coisas com a sua mãe. Você pode corrigir as coisas com as suas garotas também.’
‘-Eu não sei se tenho coragem. Não sei com que cara vou olhar para a .’
‘-Com a cara de quem recuperou mais memórias.’
‘-Eu não tenho coragem, pai.’ – repetiu, sincero e trêmulo. O coração de George bateu mais rápido ao ouvir a palavra ‘pai’ sair da boca de depois de tantos anos – ‘Nós entramos nessa juntos, e eu, e eu simplesmente as abandonei. Eu prometi a ela quando ela descobriu que estava grávida que nós faríamos isso juntos, ela escolheu ter o bebê nessas condições – não que eu ache que ela cogitaria qualquer outra possibilidade hoje, mas eu prometi.’
‘-E você esteve lá, filho, você foi o melhor pai que eu já conheci.’ – colocou uma mão no ombro de , olhando-o nos olhos.
‘-Eu não sei, tudo que consigo pensar no momento é que estou consciente demais das minhas próprias falhas paternas para expor a tudo isso de novo. Eu não quero aparecer na vida dela para fazê-la sofrer.’
‘-Desaparecer não é a solução, não cometa os mesmos erros que eu, ’ – aconselhou o pai – ‘Você sabe como isso termina. Você tem a chance de fazer diferente. Pense nisso, filho.’
suspirou profundamente, querendo evitar lágrimas indesejadas.
‘-Obrigado por ter cuidado delas quando eu não cuidei.’ – agradeceu timidamente, sem encarar o pai.
‘-Quando você não tinha condições de cuidar, filho’ – retificou – ‘Mas você precisa lembrar que agora tem.’ – segredou, levantando-se e piscando um olho para ele, uma mão ainda no ombro do filho.
só encarou o horizonte e assistiu o pai voltar para o próprio carro tranquilamente.

Quando Louise chegou, notou o filho estranhamente quieto, ajeitado em um canto da sala de TV.
‘-Mãe, eu tô com saudade da minha filha.’ – foi tudo que deixou os lábios dele, transmitindo pura aflição.
O coração da mãe pulou uma batida. Ela conseguia ver a dor dele nitidamente – era a dor de saudade que esperava ter visto nos olhos do filho desde o hospital.
‘-Querido, você sabe que pode ir visitá-la.’ – Louise proferiu e abraçou-o de prontidão. aceitou o abraço e ela pôde perceber a respiração falha do filho – ‘Você quer que eu ligue para a ?’

Alguns dias antes do Natal, ansiosamente esperava parado na soleira da porta de entrada da casa que já havia sido sua com uma garrafa de vinho na mão. Ele admirava a paisagem invernal que circundava a casa e a decoração natalina – cheia de luzinhas – o que parecia aumentar ainda mais a melancolia que vinha sentindo em relação à essa casa e às moradoras dela. Louise viera antes com a desculpa de ajudar com o jantar, mas ela sabia que a nora pediria comida de algum restaurante – admitira que era péssima na cozinha quando nasceu e tratou de garantir que, quando a comida era de responsabilidade dela, a filha comeria algo decente – Louise estava, na verdade, dando espaço para pensar e organizar as ideias antes de chegar ali e encarar um passado tão presente.
A mãe atendera a porta e dera passagem para o filho. Quando adentrou a casa, avistou William usando um gorro de Papai Noel já acomodado à mesa, e pôde ver também parada entre o hall de entrada e o caminho para a sala de jantar.
prontamente foi até ela, sem pensar duas vezes. Encarou a pequena estatura da filha um tanto sem jeito e cumprimentou:
‘-Oi, coisinha.’ – disse, sem pensar, ligeiramente encabulado. A saudade parecia emanar de cada sílaba.
‘-PAPAI!’ – ela gritou e agarrou uma de suas pernas – ‘Eu tava com saudade.’
abaixou-se e confidenciou: ‘Eu também estava, coisinha.’
Nem pai nem filha notaram que as atenções de todos ali – Louise, William e – estavam completamente voltadas para eles até que , ainda com uma menininha agarrada à sua perna direita, caminhou na direção de na intenção de cumprimentá-la. Ele tinha uma mão acariciando o cabelo da filha protetoramente e isso deixou ainda mais sem fôlego.
‘-’ – cumprimentou, sem graça, e entregou a garrafa de vinho para ela – ‘Obrigado por me receber.’
‘-Imagina, . Fique à vontade.’ – sorriu minimamente para ele – ‘Eu que agradeço pelo vinho.’
Levando a garrafa para a cozinha, o coração de batia nos ouvidos. Era o vinho preferido dela; teve que respirar profundamente algumas vezes para evitar pensar no que tanto mais o marido lembrara.
‘-Will.’ – cumprimentou, conseguindo finalmente chegar perto do irmão – a marcha lenta causada pela loirinha ainda agarrada nas pernas do pai.
‘-, como vai?’ – respondeu o irmão, sorridente – ‘Ei, , você tá parecendo o Peludo.’ – William brincou com a sobrinha, referindo-se ao bicho preguiça de pelúcia dela.
‘-Filha, solta o papai. Deixa ele andar direito.’ – pediu a mãe, voltando da cozinha.
estreitou mais o abraço na perna do pai e acenou negativamente com a cabeça, os olhos arregalados. Quem podia culpá-la, pensava .
‘-Não tem problema.’ – garantiu sorrindo timidamente para a filha.
Louise estava terminando de trazer as comidas para a mesa quando sentou-se e puxou a filha para o próprio colo.
‘-Tá com fome?’ – questionou o pai. só acenou com a cabeça, ajeitando-se melhor no colo de e encostando a cabecinha ao peito dele. Ela parecia estar com medo que falar fosse fazer o pai repentinamente desaparecer.
Ele servira-se, com ajuda de todos da mesa, já que a garotinha não planejava soltá-lo tão cedo. acariciava as costas dela quando se pronunciou.
‘-Querida, deixe o papai comer. Sente aqui do meu lado para eu colocar comida para você, filha.’ – pediu pacientemente. A menininha só afundou mais no colo do pai.
‘-Não tem problema, ’ – garantiu o pai – ‘Ela come aqui comigo, não é, ?’ – inquiriu, recebendo um animado balançar de cabeça afirmativo.
mal conseguiu se concentrar na própria comida observando a interação entre e a filha deles. Não era a mesma de antes do acidente, é claro: os gestos e expressões estavam mais congelados, mais alertas, mais tímidos, mas ele estava ali. Pela primeira vez desde que acordara pôde ver seu marido nele.
Até mesmo as roupas. Era engraçado vê-lo vestindo algo que não fosse moletom depois de tanto tempo. Ele tinha escolhido uma calça e uma camisa estampada que combinavam muito mais com a pessoa que tinha se tornado com o passar dos anos. O cabelo também estava maior, ele não tinha cortado como imaginou que essa versão pós-acidente dele faria; estava, na verdade, bem parecido com o comprimento que ela se lembrava antes de ser chamada no hospital.
‘-Só mais um pouquinho, .’ – murmurou para a filha, oferecendo mais um bocado – ‘Sua barriga vai ficar com fome.’
ficou embasbacada com como a menininha aceitou sem argumentar de volta.
Terminado o jantar, ainda estava agarrada ao pai, sem parecer planejar soltá-lo, desta vez no colo dele. Caminharam até a sala de TV juntos, seguidos por William que tinha sugerido que jogassem uma partida de vídeo game.
Quando espiou, Will e estavam sentados de pernas cruzadas no tapete, o pai com a garotinha segura no colo.
‘-Vamos ganhar do tio Will.’ – confidenciou a ela, sorrindo de leve.
concordou energicamente.
‘-São dois contra um, não vale!’ – William choramingou, entrando na brincadeira.
deixou que apertasse a maior parte dos botões e o tio deixara a sobrinha ganhar quantas vezes ela quisesse. Os céus sabiam o quanto ela estava precisando daquele tipo de diversão trivial.
Quando entrou na sala pela última vez, os irmãos, largados no sofá, conversavam baixinho enquanto A Princesa e o Sapo passava na TV e ressonava tranquilamente aninhada ao pai. chegou a achar que jamais veria uma cena parecida com aquela de novo.
‘-, deixe-me colocá-la na cama. Ela está pesada e não desgrudou de você a noite toda.’ – pediu com decoro, observando amorosamente a filha adormecida.
‘-Eu já a levo’ – garantiu, uma mão repousando na cabeça da filha – ‘Só mais um pouco. O filme já está acabando.’
não poderia deixar de concordar. Saiu da sala dando espaço para que ficasse mais um pouco com a filha e William a seguiu, despedindo-se do irmão e agradecendo a pelo jantar.
Louise entrou no cômodo em seguida, também viera despedir-se do filho.
‘-Querido, eu já estou indo’ – sinalizou, chegando perto da dupla confortavelmente acomodada no sofá.
‘-Ok, mãe.’ – concordou, acenando com a cabeça e lembrando que Louise viera com o próprio carro mais cedo.
Ela sorriu tranquilamente e deu um beijo no filho e um na cabecinha da neta.
ficou ali, observando a garotinha aninhada a ele, imerso em pensamentos enquanto se despedia das visitas. Olhar para ela ali, tão tranquila, provocava uma mistura de sentimentos; ela estava tão grande. Seu coração de repente parecia estar aberto e fora do peito. Era uma sensação boa e ruim ao mesmo tempo.
Ele queria ser aquela pessoa das fotos, das lembranças. Aquele pai. Mas, em seu íntimo, sabia que ainda não era.
Quando a música dos créditos começou a tocar, levantou-se carregando a menininha com cuidado em seus braços. Encontrando com na sala de estar, ela seguiu-os silenciosamente pelas escadas que levavam ao quarto da garotinha.
puxou as cobertas da cama da filha e o marido deitou-a delicadamente, encarando-a por alguns segundos enquanto a mãe a ajeitava e cobria. depositou um beijinho na cabeça da menina e murmurou um ‘boa noite’, enquanto segurava a mão da filha que ficara para fora da coberta.
Os pais trocaram olhares e deu um último aperto na mãozinha da garotinha, seguindo para fora do quarto. caminhou até a varanda do andar de cima, que dava vista para a área de preservação ambiental atrás da propriedade e para a paisagem invernal dessa época do ano em Boston.
(Coloquem essa música pra tocar se quiserem complementar o clima da cena – eu altamente recomendo – https://www.youtube.com/watch?v=C9vsr9i_AFM )

Tell me, where did we go wrong?
We should be singing Christmas songs
Instead of shouting all night long like we do

‘-’ – chamou ele, o tom de voz abaixo do normal. olhou para ele com os olhos brilhantes e não sabia se eram devido à iluminação quente do ambiente ou se eram lágrimas que queriam se formar.
De repente não sabia o que dizer. Mordeu o lábio inferior e continuou olhando-a nos olhos, não conseguia se concentrar em mais nada que não fosse o olhar dela.
O coração de batia acelerado ao ouvir seu apelido mais uma vez, pronunciado tão naturalmente. Fechou os olhos. Foi somente quando o contato visual entre eles foi quebrado que conseguiu abrir a boca para falar alguma coisa.
‘-Eu queria me desculpar’ – disse e mirou a janela de vidro – ‘Por tudo. Eu nem sei por onde começar.’ – colocou uma mão no bolso da calça e, voltando o olhar para a esposa, viu que ela não ia falar nada.

We keep fighting in the street
When we should be home wrapped in the sheets
Putting presents underneath the tree for me and you

‘-Eu só... Só queria que você soubesse que não foi intencional.’ – tentava evitar os olhos brilhantes dela enquanto falava, mas algo parecia atraí-lo para eles – ‘Mas eu não me isento da culpa. Eu simplesmente não posso culpar minha memória por tudo isso.’
‘-, do que você lembra agora?’ – foi a única sentença que escapou dos lábios dela, baixinho.
‘-De muita coisa’ – suspirou, tentando encontrar uma maneira adequada de respondê-la – ‘Acho que lembro de quase tudo – ou das partes mais importantes – desses últimos cinco anos.’
acenou com a cabeça concordando e mordendo o lábio inferior, também tentando processar os próprios pensamentos e emoções.
‘-Eu lembro, , mas eu não sei se sou aquela pessoa também’ – soltou , inesperadamente – ‘E essa acho que é a coisa mais estranha que o acidente me causou. Eu não sou o cara de dezoito anos que eu achava que era quando acordei e também não sou esse adulto bem resolvido e pai de família que eu me tornei, . Houve um processo para que eu me tornasse essa pessoa e agora é como se simplesmente não tivesse acontecido; na minha cabeça parece um salto de uma pessoa para outra completamente diferente.’ – abriu seu coração, ofegante e com lágrimas nos olhos.
ficou preocupada ao ver o tamanho da aflição do marido e chegou um pouco mais perto dele, que adotara uma postura completamente desamparada.

I know we had our fair share
Of breaking up, and making up
I promise you we'll get there
So don't give up, no

‘-Eu não quero ser aquele babaca que eu costumava ser, mas eu também não sei ser o cara que eu lembro que me tornei. Não naturalmente, pelo menos. Eu me sinto perdido entre os dois.’ – desabafou, respirando profundamente – ‘Então eu preciso que você saiba, , que eu tenho consciência das coisas que fiz e que eu estou tentando, tentando me achar novamente entre essas duas versões de mim que não cabem nesse momento.’
‘-Você vai precisar acolher outra versão de você, . Diferente dessas duas que você conhece e que não se ajustam mais.’
‘-Talvez.’ – disse, num muxoxo – ‘E não é como se eu não estivesse satisfeito com quem eu me tornei. Eu queria, , poder voltar automaticamente para quem eu era antes do acidente, para aquela vida feliz com você e com a , mas eu sei que não é assim que funciona. Eu não sou o único envolvido nessa situação.’ – ponderou, com o coração acelerado, quando uma lágrima teimosa escorreu e ele tratou de limpá-la logo ‘-A é com o que eu mais me preocupo, sabe. Eu não quero voltar para a vida dela para afetá-la negativamente, mesmo que eu sinta uma falta absurda dela. Eu não tenho esse direito.’ – suspirou, cansado e preocupado de todo o coração.

If we can make it through December
Maybe we'll make it through forever
'Cause all I want for Christmas
Is you and me to fix this

‘-Quando você lembrou dela, ?’ – inquiriu, curiosa, concentrada na resposta que o marido daria.
‘-Logo. Bem antes de lembrar de você.’ – replicou, baixo e pensativo.
‘-Então por que você passou tanto tempo ignorando-a?’ – perguntou novamente, sem qualquer julgamento no olhar, apenas curiosidade. sorriu triste.
‘-Porque eu lembrei que a amava. E o de dezoito anos não tinha capacidade de ser pai de ninguém, eu tinha consciência. Achei que era mais prudente me afastar do que fazê-la sofrer não sabendo ser pai – mas isso eu só percebi racionalmente que fiz depois que tive clareza de outras coisas. Na época só me pareceu certo me afastar.’ – explicou com calma e derrubou um par de lágrimas ao final da sentença.
‘-Eu sinto muito.’
‘-Eu também. Agora eu entendo porque você a levou embora – e não me entenda mal, eu concordo com o que você fez.’
‘-Nós sempre prometemos que faríamos o melhor pra ela...’ – relembrou com o olhar carregado de tristeza – ‘Eu só estava tentando cumprir, mesmo com você fora de si. Mesmo que tenha me doído mais do que tudo na vida; não era o que eu queria, .’

If we can make it through December
Every New Year we'll be together
Baby, all I want for Christmas
Is you and me to fix this

‘-Casar com você foi a melhor coisa que eu fiz na vida. Agora, com tudo em perspectiva, eu posso ver.’ – comentou, distraído – ‘Eu só queria não ter sofrido aquele maldito acidente.’
‘-Você lembrou do acidente?’ – inquiriu, preocupada, e o marido acenou positivamente – ‘, me perdoe...’ – ela pediu baixinho e começou a chorar copiosamente.
‘-, você está doida? O que...’ – não teve a chance de terminar a frase, a esposa interrompeu-o.
‘-Se eu não tivesse esquecido de colocar a porcaria da roupa de balé da na mochila’ – um soluço – ‘E você não tivesse que pegar a rodovia para voltar pra casa’ – outro soluço – ‘Nada disso teria acontecido.’
‘-, isso não é culpa sua...’ – disse baixinho aproximando-se dela.
irrompeu em um choro culpado que estava evitando desde que descobrira que o marido capotara o carro inúmeras vezes na rodovia – por uma falha dela. Antes, precisava se manter lúcida para decidir o que faria com o marido, para dar conta dos cuidados com a filha e do emprego no jornal. Agora, depois da tempestade, a culpa viera em uma avalanche.

It hasn't been the greatest year
But through thick and thin we made it here
Just keep holding onto me, and I'll hold you

‘-, por favor’ – pediu, erguendo o queixo dela para que ela o encarasse – ‘Ninguém te culpa por isso. Eu jamais te culparia. Eu também não lembrei de checar a mochila dela, isso era uma responsabilidade nossa.’
Acalmando-se, começou a soluçar, sentada em um sofá de área externa na varanda, ao lado do marido. Passou uma das mãos pelo rosto, descrente.
‘-Eu vim aqui para te pedir desculpas. Eu. Por tudo que eu fiz.’ – disse, tentando amenizar a dor da esposa.

But we made it through the hardest part
And I followed you, the brightest star
I just wanna be where you are, right where you are

‘-Eu também não consigo te culpar, ’ – replicou ela, suspirando pensativa – ‘Você não se lembrava das coisas, da nossa vida. Você acordou em um pesadelo, preso na vida de outra pessoa. Eu não consigo nem imaginar como seja isso. Agora, com você me contando dessa mistura de sentimentos e sensações, consigo entender toda a confusão pela qual você estava passando. No seu caso, se curar não era só tratar dos atributos físicos. E eu sabia. Mas também estava emocionalmente envolvida.’ – pontuou, calmamente – ‘Acho que nós dois já sofremos demais.’
concordou com a cabeça afirmativamente, tentando digerir a absolvição da culpa que vinha carregando há meses. segurou delicadamente uma das mãos dele e puxou para que se levantasse.
‘-Vem. Vamos descer pegar uma água.’ – esboçou um sorriso leve e despreocupado, depois daquele turbilhão de emoções.


I know we've had our fair share
Of breaking up, yeah, and making up
But I promise you we'll get there
So don't give up, no don't

Desceram as escadas e caminharam até a cozinha em um silêncio confortável. só conseguia pensar em como era uma pessoa incrível e não pôde deixar de ser grato por ter casado com ela, mesmo que não estivessem teoricamente juntos no momento.
Retornando à sala de estar, o rapaz teve um ímpeto de coragem e se pronunciou:
‘-Saia comigo.’ – pediu, olhando-a nos olhos para atestar sua sinceridade.
mirou-o de volta estupefata, a boca ligeiramente aberta.


If we can make it through December
Maybe we'll make it through forever
'Cause all I want for Christmas
Is you and me to fix this

‘-Tipo um encontro?’ – questionou, debochada.
‘-Exatamente como um encontro’ – pontuou, com mais certeza na voz – ‘E nem adianta me olhar com essa cara’ – repreendeu-a de brincadeira pela expressão de gozação no rosto da esposa – ‘Eu quero consertar as coisas, não tentando fazer com que elas voltem a ser como antes. Eu quero que você faça parte dessa nova versão que estou descobrindo de mim mesmo, . Um novo começo.’ – informou, embaraçado – ‘Isto é, se for o que você quer também.’
Ela concordou timidamente com a cabeça, subitamente acanhada, encarando as luzinhas de Natal, que transmitiam um estranho sentimento de esperança, no pórtico atrás do marido.
‘-Sexta-feira. Eu passo te pegar às oito.’ – informou, compenetrado. abriu o maior sorriso dos últimos tempos e não conseguiu segurar um ataque riso ao perceber a referência ao primeiro encontro.

¹ O livro citado é “A parte que falta”, de Shel Silverstein. O trecho em itálico é todo de autoria dele.
² Curiosidade inútil - o apelido era, na verdade, munchkin, em inglês, quando eu primeiramente comecei a pensar sobre a fic. Como achei que ficaria estranho no enredo, queria algo que se adequasse e “coisinha” foi o escolhido para substituí-lo.




Fim



Nota da autora: Essa fic é meu xuxuzinho que está em construção há mais tempo do que deveria e eu só posso dizer que estou regozijando em alegria em finalmente poder dividi-la com vocês <3
Estou ansiosa para saber o que vocês acharam, não deixem de comentar!
Beijos, L.




Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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