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Última atualização: 31/12/2020

Prólogo

São Paulo, Brasil.

Sonhos.
O que eles significam para você? O que eles dizem sobre você? O que eles são para as pessoas que convivem com você?
Para mim, eles sempre significaram metas de vidas, algo que eu deveria alcançar e que me ajudaria a ser quem sou; já para outras pessoas que conviviam comigo não pensavam assim sobre os meus sonhos, mas isso nunca me fez desistir deles, nunca. Realizá-los era importante para mim e mais ninguém precisava entender isso.
Sempre tive vários sonhos, não posso negar; uns grandes, outros nem tanto assim já que eles variavam de acordo com as minhas fases de vida. Mas o maior deles, o que sempre esteve no topo e que sempre atormentava a minha cabeça, sem dúvida alguma, era o de morar fora do Brasil. Aprender a cultura, a língua e os hábitos de outro país era algo que sempre tive em mente desde criança, mas infelizmente minha família nunca teve condições para que eu fizesse um High School ou intercâmbio, então esse sonho foi ficando de lado, adormecido e guardado no meu coração. Fui vivendo a minha vida ao decorrer dos anos, trabalhando e dando lugares a outros sonhos, como o de me formar na faculdade.
Por ser a primeira da minha família a conseguir cursar uma faculdade, a minha maior meta era conseguir terminar e dar esse orgulho para os meus pais e avós. Terminar a faculdade sempre esteve atrelada àquela vontade de conseguir dar algo que eles nunca puderam ter e eu consegui: me formei com honras. Foi emocionante o dia em que vi todos eles me aplaudindo enquanto pegava o meu diploma; uma imagem que nunca esquecerei. E foi exatamente durante a graduação também que o meu maior sonho de todos voltou à tona: morar fora.
Há um ano, um processo seletivo para uma Universidade em Londres surgiu e obviamente que participei dele, mas devido ao meu inglês em nível básico acabei sendo desclassificada nas últimas etapas porque o nível que eu tinha não era o suficiente para ter uma vida acadêmica fora do Brasil. Aquilo acabou me despedaçando e me frustrando muito, mas também me deu coragem para não desistir e continuar. Com esse sonho negado, decidi que precisava me aprimorar cada vez mais e tornar o meu inglês fluente e, por isso, comecei a fazer alguns bicos de babá para conseguir juntar um dinheiro a mais e investir num curso melhor de inglês, o que mais uma vez consegui. Estava me tornando cada vez melhor em algo que eu gostava e indo em busca do meu sonho.
A rotina exaustiva de trabalhar meio período, fazer faculdade, aprender um novo idioma e fazer bicos de babá acabou gerando dúvidas em minha cabeça. Será que sempre seria assim? Eu sempre teria que ter uma rotina exaustiva para conseguir conquistar um sonho? Será que a fisioterapia era algo que eu realmente queria ou era algo que fiz para agradar a minha família? Será que eu estava indo pelo caminho certo? Será que desistir de um sonho para agradar outras pessoas seria bom para mim? Aquele sonho tão latente dentro de mim seria só um sonho e nunca uma realidade? Eram perguntas e mais perguntas, dúvidas e mais dúvidas, porém não tinha resposta para nenhuma delas.
E foi então que, no meio de tanto cansaço, voltei a pensar no meu maior sonho. Eu merecia ter o sonho que tanto quis virando realidade e ter a oportunidade de vivê-lo, porém precisava arrumar uma forma de fazer isso. Assim, nos intervalos de tempo entre faculdade, trabalho, os bicos de babá e o inglês, comecei a pesquisar formas de conseguir fazer um intercâmbio e foi assim que conheci o programa de au pair, que basicamente consiste em você trabalhar de forma remunerada de babá para uma família nos Estados Unidos. Você mora com eles, conhece a cultura, vivencia tudo o que eles fazem, além de aprimorar o idioma. Obviamente que já tinha ouvido falar, mas nunca soube de fato como funcionava ou todos os detalhes que envolviam ser uma au pair e, quando finalmente de me dei conta de que era possível para mim, vi meu grande sonho sendo capaz de ser realizado.
Comecei a correr atrás e viver minha vida de forma que esse sonho fosse realizado. Primeiro, decidi que me formaria e me tornaria fisioterapeuta por mim e pela minha família, depois de formada seria au pair, quando acabasse meu programa, voltaria para o Brasil com o meu grande sonho concluído e então, finalmente, trabalharia com fisioterapia. Claro que para dar início ao programa não foi fácil, como nada nunca foi para mim; tive que trabalhar ainda mais para conseguir o dinheiro da agência e investir no programa. A minha sorte é que os outros requisitos eu já tinha preenchido, como ter carteira de motorista e também ter alguma experiência com crianças.
O Match com a família aconteceu dois meses após eu me formar. Já estava há quase 9 meses cadastrada na plataforma de au pairs e achava que não teria mais chance por já ter completado 25 anos, mas, para minha sorte, um casal com apenas uma filha acabou se interessando pelo meu perfil e o achando ideal para eles. Conversamos algumas vezes por videoconferência e, assim que eles confirmaram que me queriam, todos os documentos foram providenciados.
E foi assim que vi o meu sonho finalmente bater à minha porta, eu finalmente viveria em outro país.
— Aqui está. , certo? — A moça do guichê da companhia aérea me tirou de meus pensamentos enquanto entregava meu bilhete de embarque e o passaporte.
— Isso mesmo! — respondi pegando-os em mãos.
— Pode embarcar. Boa viagem! — ela disse, apontando para o portão que eu deveria seguir. Sorri para a moça em agradecimento e segui por aquele corredor que levaria diretamente para o portão de embarque.
Minhas mãos suavam de nervoso, mas não era para menos. O meu sonho estava oficialmente começando e aconteceria em São Francisco, na Califórnia. O que mais eu poderia querer?


Capítulo I

. .


New Jersey, Estados Unidos.


Os primeiros passos para dar início ao meu sonho já tinham começado. Saí do Brasil num domingo à noite e aterrissei nos Estados Unidos na segunda de manhã. Após a aterrissagem, acabei passando por toda aquela etapa de burocracia com a imigração e, duas horas depois, estava liberada para finalmente começar a dar início ao meu sonho.
A primeira etapa dele era a semana de treinamento na cidade que nunca dorme: Nova Iorque, a Big Apple. Essa com certeza era a melhor forma de dar início a tudo.
A agência que eu fazia parte recepcionou a minha chegada no próprio aeroporto na segunda, não só a minha como de todas as au pairs que chegaram naquele dia. E foi no aeroporto que acabei conhecendo duas brasileiras que iriam morar na Califórnia também, Maisa e Lara, e isso claramente me deixou aliviada. Era bom ter alguém com quem contar, com quem dividir os sonhos, principalmente por ser um país estranho e novo para todas nós. Maisa iria para Los Angeles, ficaria com uma família de médicos e cuidaria de três meninos, já Lara iria também para São Francisco e cuidaria de um casal de adolescentes. Nós três vínhamos de famílias humildes e lutamos muito para conseguir com que esse sonho se tornasse realidade, fazendo com que a nossa identificação fosse imediata.
Após a recepção no aeroporto e o aguardo para que todas as au pairs chegassem, seguimos para Nova Jersey, onde fomos hospedadas no mesmo lugar que ocorreu o treinamento: o hotel Hilton. O primeiro dia serviu mais para a integração entre as au pairs, entrega dos cronogramas de treinamento, regras e tudo o que englobaria a nossa semana ali. Nós fomos separadas em quartos de três e quatro meninas, porém nessa separação não poderia ter nenhuma au pair da mesma nacionalidade justamente para que a integração ocorresse, então eu não ficaria tanto tempo com Maisa e Lara. Acabei sendo colocada com uma espanhola chamada Esme e uma indiana chamada Amal, as duas eram bem simpáticas. Amal também vinha de família humilde, tinha mais quatro irmãos e era a mais velhas deles, então sempre esteve em contato com crianças; ela iria morar na Pensilvânia e cuidaria de uma bebê de apenas dois meses de vida. Já Esme tinha uma condição de vida melhor, era filha única e decidiu se aventurar nessa para conseguir ficar nos Estados Unidos; ela era incrivelmente simpática e com certeza seria uma amizade que eu gostaria de ter por ali mesmo com o país todo entre nós, já que Esme moraria em Nova Iorque e cuidaria de gêmeos de quatro anos.
No segundo dia, o treinamento foi iniciado. Às seis horas, já estávamos todas levantando, pois ainda tínhamos que nos arrumar, tomar o café e depois seguir para o treinamento, que se iniciava às oito horas e que só tinha fim às seis e meia da noite. O treinamento era intenso e onde aprenderíamos tudo sobre a função de au pair: primeiros socorros, alimentação infantil, segurança das crianças, comunicação com sua host family, formas de resolver desentendimentos, diferenças culturais e tudo que pudesse ajudar nessa nova etapa, não só da minha vida, mas como de todos que estavam ali e que iriam nos receber, afinal, era algo novo para todo mundo.
O treinamento ocorreu de terça até quinta de manhã e na parte da tarde teríamos o dia livre para visitar Nova Iorque. Já que Nova Jersey ficava perto e a própria agência de au pair fornecia para nós o transporte e um mini roteiro pela cidade, decidimos que nosso destino seria lá. Depois de dias trancada dentro de um hotel, nada me parecia melhor do que estar em solo americano e conhecer os lugares que sempre sonhei.
— Animada? — Esme perguntou com seu forte sotaque latino, me tirando dos devaneios e me fazendo focar nela.
— Sim! Espero por isso há anos — confessei.
Esme sorriu e então voltou a mexer em seu celular, parecendo conversar com alguém.
Voltei a olhar para a janela e percebi que nós já estávamos em Nova Iorque. Era possível ver a vida agitada passando por nós, pessoas correndo com seus casacos pesados, afinal, era inverno e a neve caía lá fora, mas ainda assim as pessoas não paravam. Os famosos táxis amarelos prevaleciam na cidade, parando com passageiros e já pegando novos; a vida era extremamente agitada aqui.
O ônibus da agência parou no ponto verde de Nova Iorque, o ponto mais tranquilo em meio àquela agitação toda: o Central Park. Rapidamente, todas desceram do ônibus e, assim que pisei fora do veículo, pude sentir meu coração acelerar, porque agora era real; eu realmente estava nos Estados Unidos.
Era emocionante saber isso e pensar sobre depois de tanto tempo tentando e sonhando com isso. Lágrimas até se acumularam nos meus olhos ao pensar em quantos desafios eu havia enfrentado para estar ali, o quanto eu havia abdicado da minha vida, o quanto eu havia ficado exausta e fazendo muitas coisas ao mesmo tempo para conseguir juntar dinheiro, aprender inglês, cumprir os outros requisitos e tudo mais. Mas o esforço tinha valido à pena, eu havia conseguido mesmo contra a vontade de algumas pessoas, mesmo deixando minha vida para trás e só seguindo em frente.
— Está tudo bem, ? — Maisa perguntou enquanto tocava no meu ombro.
— Sim! — respondi, passando a mão por um dos meus olhos e retirando uma lágrima que insistiu em sair. — É só emoção, tanta coisa que passa pela cabeça, sabe? É finalmente aquela sensação de que consegui.
Maisa me deu um sorriso cúmplice e então me abraçou. Era um abraço forte e pude sentir através dele que ela estava sentindo a mesma coisa que eu.
— Eu sei exatamente o que você está falando — Maisa confessou, se soltando de mim e olhando bem para o meu rosto. — Fiz tanta coisa para estar aqui… tranquei minha faculdade e me dediquei unicamente a conseguir estar aqui.
— Acho que para você ainda foi mais difícil do que para mim, porque eu cheguei a terminar a faculdade. Mas eu não seria feliz sem tentar esse sonho, sem conseguir viver um tempo em outro país — falei e Maisa apenas concordou com a cabeça, depois desviou seu olhar para o grande corredor branco e coberto de neve que nos guiaria pelo Central Park.
— Vamos? — Maisa perguntou, apontando em direção a ele. — Vamos aproveitar porque depois a gente só vai trabalhar muito! — E riu ao falar a última parte.
— Você com certeza vai trabalhar bem mais do que eu — confessei também rindo.
— Nem me fale! — Maisa disse por fim.
Nós duas então seguimos em direção ao coração do Central Park. Mesmo com a neve densa que deixava tudo branco e cinza, aquela era uma das cenas mais lindas e emocionantes que eu havia visto na vida. Neve era algo que eu sempre havia tido vontade de conhecer e presenciar, mas nunca imaginaria que teria essa experiência fantástica logo no meu primeiro passeio e na minha primeira semana ali.
Nosso passeio pelo Central Park não foi longo, porque, além dele, nós tínhamos outros lugares para conhecer e pouco tempo para fazer isso. Porém havíamos tido tempo de tirar algumas fotos e conhecer alguns lugares marcados na minha memória por algumas séries e filmes, como a escadaria a qual já vi em várias cenas de Gossip Girl e a Bethesda Terrace, onde aconteceu a cena final do primeiro Avengers. Foi também no Central Park que eu, Maisa e Lara conseguimos comer o famoso cachorro-quente americano, que não era ruim, mas também não era o melhor do mundo; eu ainda preferia o brasileiro com suas mil coisas do que apenas pão, a salsicha, ketchup e mostarda, nada superaria o do Brasil.
Depois do Central Park, foi a vez de conhecermos a Times Square. Fomos andando até lá porque não era longe, cerca de 20 a 30 minutos. Aproveitamos a caminhada para conhecer novos lugares, como o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, o famoso MoMA, com sua arquitetura esplêndida e toda de espelhos e vidros. Passamos em frente a algumas grandes lojas famosas até que finalmente chegamos a Times Square.
Ela era exatamente da forma que eu imaginava e via por foto: aquele monte de gente amontoada no mesmo lugar e andando rapidamente. Não que eu gostasse disso, porque não gostava, mas era um marco e algo que eu precisava conhecer e vivenciar, que na verdade era até fantástico de se observar. Algumas pessoas paravam e olhavam os grandes painéis presos nos prédios com seus anúncios de filmes, músicas, produtos, programas de TV ou jogos, enquanto outras passavam por ali sem nem ao mesmo se dar conta de onde estavam, provavelmente moradores e trabalhadores de Nova Iorque, com seus telefones na orelha, andando rápido e tentando não esbarrar em ninguém, além dos turistas que paravam em cada parte para tirar uma foto diferente, o que era exatamente o caso de Amal e Lara.
— Vocês não vão tirar fotos? — perguntou Amal, já se aprontando para tirar mais uma foto de Lara com o famoso prédio central que tinha o maior letreiro brilhante ao fundo.
— Nós estamos tirando — respondi confirmando. — Mas não a cada dois passos.
— Isso é verdade. Para que tanta foto? — perguntou Esme.
— Para guardar momentos, oras! Que pergunta! — Lara retrucou bravinha, fazendo com que eu e Maisa caíssemos na risada.
Enquanto as meninas seguiam tirando fotos, resolvi dar mais uma olhada nos letreiros e um em especial me chamou a atenção.
— Olha! Está passando jogo em um dos letreiros! — constatei dizendo para Maisa.
— O que é? Beisebol ou Futebol Americano? — Maisa perguntou e, pela cara dela, realmente não sabia do que se tratava.
— Futebol Americano — respondi. — Eu nunca entendi ao certo o que acontece nesse esporte. Na verdade, nunca entendi nada. — Sorri com o pensamento. — Talvez aprenda algo agora, já que meu host dad trabalha para um time desses, mas não me lembro o que ele faz ou qual time é — confessei rindo.
— Como assim você não sabe em que ele trabalha? — Maisa perguntou me acompanhando.
— Sei que ele trabalha para um time de futebol famoso, nada além disso — respondi.
— Okay — Maisa disse, levantando as mãos enquanto ainda ria.
Voltei minha atenção para o telão e percebi que a visibilidade da transmissão era péssima e a neve castigava os jogadores dos dois times. Tinha milhares de pessoas ali paradas, assistindo e comentando o jogo, já que parecia ser algo importante para elas, mas não era para mim. Sendo assim, desviei minha atenção daquela transmissão e continuei minha caminhada por aquele lugar fantástico. Ainda tinha muitas outras coisas para conhecer antes de voltar para o hotel e a próxima delas, a nossa última parada, seria o Empire State Building.
— Vamos na Applebee's? — Esme disse animada, chamando nossa atenção.
— Você não tem fundo, menina? — perguntou Lara abismada, nos fazendo cair na gargalhada.
Mas o que Lara havia perguntado era realmente verdade, afinal, não fazia tanto tempo assim que havíamos comido o cachorro-quente no Central Park.
— Mas é a Applebee’s! — Esme constatou como se fosse algo óbvio.
— Podemos pegar algo e sair comendo? — perguntei. — Ainda quero ver mais coisas aqui e precisamos seguir para o próximo centro de fotos da Lara e da Amal.
Todas rimos de novo e, mesmo em meio às gargalhadas, Esme concordou com a cabeça, fazendo com que todas nós seguíssemos para comprar algo na Applebee's e voltar para nossa aventura por Nova Iorque, que infelizmente estava acabando, mas a aventura pelos Estados Unidos estava apenas começando.


. .


Green Bay, Wisconsin.


Lambeau Field Stadium
17ª rodada da NFL
San Francisco 49ers X Green Bay Packers

! ! O Duncan está livre! O Duncan está livre! Doze jardas à sua direita, lança!
— Escutei Morgan falar de forma rápida no ponto eletrônico presente no meu capacete.
Morgan é o técnico dos quarterbacks e aquele que sabia cada passo que eu poderia dar para sair dali vitorioso. Só que o maior problema nesse momento em Green Bay é a presença de uma forte nevasca que caía pelo local e, para minha infelicidade, o estádio não tinha teto e fazia com que eu não enxergasse um palmo de distância do meu nariz. A adrenalina estava nas alturas e por isso não sentia frio, porém enxergar era algo fundamental para saber para onde eu poderia lançar.
, você vai ser sacado! Lança essa bola, caralho! — Morgan esbravejava na minha orelha e era uma pena que eu não conseguia gritar com ele da mesma forma; precisava de concentração e ficar focado.
Infelizmente, o que Morgan tinha acabado de me dizer aconteceu e só pude sentir o impacto da defesa do time dos Packers me atingir e logo fui arremessado ao chão. Para minha sorte, eu agarrei aquela bola como se fosse a minha vida. Já tinha sido sacado e não podia sofrer um fumble também, já que perder a bola naquele momento do jogo seria o nosso fim.
— Eu vou acabar com você hoje! — Hitchcock, defensive tackle do Packers, gritou no meu ouvido enquanto ainda me segurava no chão.
Respirei fundo para não cair naquela pressão toda, já que eu não podia e nem deveria, apenas o fuzilei com os olhos e me coloquei de pé novamente, pensando em qual melhor estratégia poderia fazer, já que a visibilidade era péssima.
Vamos, , você consegue! — Morgan me encorajou no ponto. — A gente precisa desse touchdown!
Obviamente eu sabia disso. Estávamos na semana 17 e o nosso time, o São Francisco 49ers, estava empatado com o Green Bay Packers na classificação geral da liga nacional, os dois times tinham 13 vitórias e 3 derrotas, e o jogo de hoje, como era o último, definiria quem ficaria em primeiro lugar de cada uma de suas divisões e iria direto para as playoffs, enquanto o outro time teria que disputar uma vaga como wildcard. Estávamos perdendo, faltavam exatos 3 minutos para o fim do jogo e o placar estava 30 a 35; um touchdown e seríamos os classificados. Eu precisava conseguir e iria.
— Vamos, vamos! — escutei James gritando para que todo mundo se posicionasse.
— Agora conseguimos, vamos ganhar a divisão! — gritei encorajando meu time.
Todo mundo tomou a sua devida posição e então escutamos o apito para iniciar a jogada. Recebi a bola de James e comecei a observar para quem eu conseguiria lançar para que first down fosse marcado; já era a 3° descida para 10 e eu necessitava conseguir. Morgan gritava loucamente no meu ponto, mas eu mal o ouvia, só prestava atenção em conseguir arremessar e não ser sacado novamente.
Avistei no meio daquela neve toda o nosso melhor wide receiver, Aaron. Ele estava olhando para mim, então coloquei toda a minha força no braço e arremessei, porém no momento em que fiz isso me arrependi amargamente: uma dor dilacerante irradiou por todo meu braço direito e parecia que algo tinha se rompido. Cheguei a ficar zonzo de tanta dor, pois nunca tinha sentido nada como aquilo. Levei a outra mão até o braço e o massageei; eu não podia ter uma lesão agora e meu time não poderia sonhar que eu estava sentindo essa dor. Tinha que ignorá-la porque precisava conseguir a vitória.
Ainda meio zonzo por causa da dor, pude ouvir os gritos e, com a vista meio embaçada, vi meu time comemorar porque provavelmente tínhamos conseguido o first down. Ótimo, tínhamos entrado no campo de ataque, então pelo menos um field gold conseguiríamos tentar.
— CARA, ESSE PASSE FOI SENSACIONAL! — James gritou, vindo ao meu encontro e me abraçando em seguida.
Senti a dor piorar. Meu braço parecia que estava sendo dilacerado pedaço por pedaço.
— Você está bem? — James perguntou assim que viu minha cara.
Eu sentia gotas de suor escorrerem pelo meu rosto, tamanha era a dor.
— Sim — menti, soltando o braço e me posicionando para mais uma jogada.
Meu braço parecia pesar 200 quilos naquele momento e a dor estava insuportável, mas eu iria aguentar porque precisavam de mim.
Todos se posicionaram novamente e o apito para a nova jogada foi acionado. Mesmo com a vista levemente embaçada, eu conseguia focar onde James estava e recebi a bola perfeitamente depois do seu passe, segurando em minhas mãos, mas, no mesmo momento, parecia que eu tinha levado um tiro naquele braço, tamanha era a dor ao levantar. Olhei, procurando qualquer um que fosse para passar a bola, mas nada focava nos meus olhos; eu só sentia dor e mais dor, até que minha cabeça começou a girar e pude sentir meu corpo sendo arrematado por ela também.
, VOCÊ VAI SER SACADO! — Morgan gritou no ponto e, segundos depois, senti o impacto do corpo de Hitchcock me levando ao chão novamente.
Assim que meu corpo atingiu o chão, escutei um estalo e uma dor mil vezes pior se alastrou pelo meu braço; provavelmente a merda da lesão tinha piorado. Senti Hitchcock sair de cima do meu corpo e gritar algumas coisas perto do meu rosto, mas eu não conseguia ao certo discernir o que ele falava, pois só sabia sentir dor, dor e mais dor.
Consegui perceber que um aglomerado se formou ao meu redor enquanto eu gemia, mas não entendia nada. Minha vista estava extremamente embaçada, minha cabeça girava e eu só sentia aquela dor piorar a cada minuto que se passava.
! ! — Escutava Morgan me chamar longe no ponto.
— Isso está muito feio. O braço dele está torto, porra! — Escutei a voz de James dizer assustado de longe e alguma coisa eu finalmente tinha entendido.
Se realmente aquela era uma lesão feia, eu ficaria o resto da temporada fora e isso não poderia acontecer. Eu estaria acabado, meu time estaria acabado; tinha ainda que passar pelos playoffs, precisava ser campeão da divisão, da conferência e do superbowl. Eu não aceitaria essa derrota e não seria uma lesão que me tiraria isso, pois eu tinha que estar presente nos jogos porque meu time confiava em mim.
Tentei levantar a cabeça para mostrar que estava bem e que conseguiria continuar a jogar, mas assim que fiz isso, tudo ficou preto e senti meu corpo chegar ao chão mais uma vez. Meu sentidos e a dor foram sumindo para então minha audição também sumir e simplesmente apaguei.


. .


Nova Iorque, Estados Unidos.


A semana de treinamento havia acabado e, apesar de ter sido uma semana exaustiva, foi muito proveitosa também com todos os ensinamentos, técnicas e tudo o que seria necessário para essa nova vida nos Estados Unidos. Agora havia finalmente chegado a hora de ir ao encontro da família que me hospedaria. Estava ansiosa para poder conhecê-los pessoalmente e saber mais sobre como seria a nossa convivência e como ajudaria na criação da criança pelo próximo um ano ou dois.
Assim que acordei no hotel em Nova Jersey, já deixei todas as minhas malas arrumadas e desci para o café da manhã com minhas companheiras de quarto e, já que aquele seria o nosso último momento juntas, aproveitamos para nos despedir e prometer que manteríamos contato. Amal ainda teria mais um dia de treinamento e viajaria amanhã para a Pensilvânia e a família de Esme viria buscá-la logo após o café. Mesmo convivendo apenas uma semana com aquelas meninas, meu coração apertou ao abraçá-las, afinal, elas estavam ali pelo mesmo motivo que eu, deixando tudo para trás apenas para viver um sonho e era algo que realmente mexia comigo. Por isso, as achava tão importantes e tão marcantes na minha vida.
Logo após tomar o café da manhã, voltei para o quarto a fim de pegar as minhas malas e realizar o check-out no hotel, já que meu voo seria no fim da manhã. Depois peguei a van que levaria todas as meninas que tinham voos naquele horário e seguimos para o aeroporto, que era onde eu estava agora.
Não podia negar que a ansiedade tomava conta de cada parte de mim. Cada nervo do meu corpo tremia, cada músculo se contraia e era tudo acontecendo ao mesmo tempo: a excitação por estar finalmente vivendo o que tanto planejei, o certo medo por conviver com pessoas que eu nem ao mesmo conhecia direito, o receio de que eles me odiassem ou vice-versa… Inúmeras coisas que se passavam pela minha cabeça.
— Chegou a minha hora — Maisa avisou, fazendo com que minha atenção se voltasse para ela.
Maisa iria para Los Angeles, então, infelizmente, não seria o mesmo voo que o meu e de Lara.
Abracei minha amiga que tinha tanto em comum comigo e uma que eu queria ainda mais perto de mim.
— Vai me visitar em Los Angeles, você sabe que será bem-vinda! — Maisa disse após se soltar de mim.
— Com certeza! — concordei. — Quem sabe não encontro um famoso e acabo vivendo algum romance com cara de fanfic?
Maisa e Lara acabaram rindo, assim como eu.
— Espero que isso aconteça comigo! — Maisa confessou ainda em meio a risadas.
— E vai! — respondi, voltando a abraçar minha nova amiga. — Boa viagem e avisa quando chegar!
Maisa se soltou foi até a sua mala e mandou um beijo para mim e Lara.
— Aviso e vocês também me avisem! — Maisa disse.
Em seguida, começou a andar em direção ao seu portão de embarque e então desapareceu de vista.
— Como é possível as pessoas se conectarem tanto, né? — falei baixo para mim mesma, sem que Lara pudesse ouvir.
E era verdade. Eu e Maisa havíamos nos conectado de verdade e tinha certeza de que esse era só o início de uma grande amizade.
Voo 51226, com destino a São Francisco, embarque no portão 9. — Ouvi a moça da companhia aérea dizer no alto falante perto de onde estávamos.
— Chegou a nossa vez — falei para Lara, indo em direção à minha bagagem de mão.
— Sim, chegou! — Lara confirmou, indo em direção à sua também.
Havia realmente chegado o momento. Agora tudo seria diferente, São Francisco seria meu novo lar e eu estava ansiosa para viver tudo isso.


Capítulo II

. .


São Francisco, Califórnia.

O dia que eu andava esperando tanto finalmente havia chegado. Eu começaria uma nova aventura que vinha sonhando há anos e que envolvia tantas coisas como: tempo, dedicação, trabalho e empenho. Eu realmente coloquei esse sonho à frente de tudo até conseguir, e,agora estava aqui.
Não tinha como negar que o medo e a ansiedade também corriam por minha veias. Eu já era naturalmente assim, mas agora em um país estranho e indo morar com pessoas que nunca vi na vida aumentava ainda mais, principalmente pelos relatos de tantas outras au pairs que já havia visto pela internet.
O bom de decidir ser au pair é que há vários grupos pela internet de meninas que também são e que contam suas experiências, oferecem ajuda, amizade e dicas, ou seja, absolutamente tudo. Porque apesar de ser um sonho de todas nós viver em outro país e ter novos conhecimentos, nem para todas a experiência é boa, infelizmente.
Basicamente, o programa de au pair diz que você está ali para uma troca cultural, auxiliar as crianças e se tornar parte da família, mas muitas só te veem como uma funcionária e que eles não podem ter nada de bom vindo de você. Alguns pesam no psicológico, te tratam como escravo, não cumprem com o combinado… Infelizmente, são inúmeros relatos ruins que realmente me fizeram pensar duas vezes antes de tentar, porém tentei na cara e na coragem e com o coração cheio de medo e receio. Eu sabia que da mesma forma que eu poderia ter uma família ruim, eu também poderia ter uma família incrivelmente boa que faria com que eu tivesse a melhor experiência, além de que, se caso algo não me deixasse confortável ou coisas ruins acontecessem, o programa oferecia a opção de rematch, o que me proporcionaria mudar para outra família e tentar mais uma vez, afinal, não movi céus e montanhas para desistir.
A família que eu havia dado o match morava em São Francisco e eu ficaria apenas com uma criança chamada Jasmine; eles estavam tentando ter outro filho, mas ainda não haviam conseguido. Nosso primeiro contato foi através de entrevistas antes do match e realmente era uma família que eu havia me encantado de cara: simpáticos, sempre preocupados com tudo, perguntaram sobre mim, sobre os meus sonhos, o porquê de eu estar querendo ser au pair e tudo o que envolvia isso, falaram sobre eles próprios, profissões e o que esperavam dessa nossa troca mútua de cultura. Madison Ward era a host mom, tinha uma beleza esplêndida, que eu até jurei não ser real quando a vi pela câmera do notebook, e trabalhava em uma empresa ambiental voltada para a conscientização na bay area. Já Travis Ward tinha uma função importante em algum time de futebol americano, mas não havia entendido ao certo o que era e a minha kid, Jasmine Ward, havia puxado a beleza da mãe, tinha 4 anos e falava mais do que qualquer outra criança que eu conheci nessa idade. Lembro de na entrevista ela me perguntar absolutamente tudo sobre mim, quantos anos eu tinha, o que gostava de fazer, se gostava de dançar, ver filmes da Disney e outras mil e uma coisas. Senti que era a família certa, então tudo foi providenciado para que isso acontecesse e agora era a hora de saber se realmente tinha feito a escolha certa.
O avião aterrissou em São Francisco no meio da tarde, mesmo depois de um voo direto de um pouco mais de seis horas, devido ao fuso horário, o que já era algo ao qual eu teria que me acostumar, ainda mais quando tivesse que falar com meus familiares.
— Isso vai me deixar maluca — falei para mim mesma enquanto esperava as malas chegarem pela esteira do aeroporto.
— Falou algo, ? — Lara perguntou. Ela ainda estava comigo, provavelmente veríamos as nossas novas famílias juntas, já que ela também estaria pela mesma área que eu.
— Só pensei em como esse fuso vai deixar a gente meio louca nesses primeiros dias — confessei.
— Realmente! — Lara concordou. — Agora mesmo são quase 4 da tarde aqui e eu estou morrendo de fome, pois se estivéssemos em New Jersey era hora do jantar.
— Nem me fale! — respondi.
Assim que encerrei aquela frase, vi minha mala passar pela esteira, a peguei e Lara pegou a sua em seguida. Ambas levantamos as alças das mesmas e seguimos para o portão de desembarque onde passaríamos e finalmente encontraríamos o que seria, possivelmente, a nossa família pelo próximo ano.
Eu sentia as minhas mãos suarem de nervoso, mas a felicidade no meu coração era maior do que qualquer coisa.
— Acho melhor a gente se despedir antes de passar por aquela porta — disse para Lara e ela imediatamente parou onde estava e veio até mim para me abraçar.
— Foi muito bom passar esses dias com você — Lara disse me abraçando.
— Digo o mesmo e se caso estiver numa família “perigo” e precisar de abrigo, estou à disposição — falei assim que nos soltamos.
— Você também — Lara respondeu sorrindo.
Voltamos então a andar em direção à porta de desembarque. Quando a mesma se abriu e nós passamos por ela, acenei um tchau para Lara, que seguiu para uma direção oposta à minha, e assim que virei para a frente novamente, pude notar um cartaz que tinha o meu nome e uma mensagem de boas-vindas junto sendo segurado por uma menininha linda que eu já havia visto pelo computador. Jasmine pulava animada e atrás dela estavam Madison e Travis com grandes sorrisos também e imediatamente sorri; pelo menos a primeira impressão era boa.
Andei em direção a eles, já sorrindo, e quanto mais me aproximava, mais Jasmine parecia animada, então decidi que seria a primeira com quem eu falaria e cumprimentaria.
— Olá! — disse me aproximando e abaixando para ficar na altura de Jasmine. — Esse cartaz é para mim?
Jasmine pareceu ficar tímida assim que falei e apenas acenou um sim com a cabeça.
— Você quem fez? Porque está lindo! — Voltei a falar tentando puxar papo.
— Sim, fiz com tinta e a mamãe me ajudou — ela finalmente me respondeu, mas ainda parecia tímida.
— Ficou realmente lindo, posso guardar comigo? — pedi sorrindo para ela e Jasmine pareceu ainda mais animada enquanto me esticava o cartaz. O peguei em mãos o olhando com o maior carinho do mundo.
— Jas, vamos para casa? deve estar cansada da viagem. — Escutei a voz de Madison dizer, na parte do meu nome ela acabou tendo uma certa dificuldade para falar.
Nesse momento, me levantei, ficando novamente em pé e me aproximei de Madison esticando a mão.
— Desculpe, nem me apresentei direito — disse levemente envergonhada para ela enquanto Madison recebia os cumprimentos e me puxava para um abraço, me fazendo ficar levemente surpresa. — É um prazer estar aqui com vocês.
— Espero que a gente supere as suas expectativas — Madison disse assim que me soltou. — E seja bem-vinda a São Francisco!
— Obrigada! — agradeci.
Travis então me estendeu a mão todo sorridente.
— Seja bem-vinda a São Francisco! — Travis disse assim que aceitei o seu cumprimento. — E espero que goste de futebol americano, porque essa família ama!
Ri sem graça quando ele disse aquilo; mal imaginava ele que eu não gostava de nenhum esporte na realidade.
Assim que os cumprimentos acabaram, todos nós seguimos em direção ao estacionamento, onde logo entramos no carro da família e então fomos para casa. Durante todo o caminho fui conversando com Jasmine, que às vezes ria do meu sotaque. Ele não era algo tão forte como vemos em vários latinos, porém em alguns momentos ele se tornava presente e denunciava que não era dali. Mas eu também não me importava com isso, queria mais é que todos soubessem das minhas origens, de onde eu realmente era e que estava ali para realizar um sonho e tentar ter uma vida melhor.
A casa da família ficava a mais ou menos quarenta minutos do aeroporto, também era mais afastada do centro, em um bairro bem tranquilo e com grandes casas que aparentavam ter quintal, o que era um pouco difícil em São Francisco, já que, para mim, as casas pareciam estar sempre próximas demais. Nesse bairro também senti que parecia que estava num filme, pois as casas eram de dois e três andares, sem nenhum tipo de cerca ou portão, muitas árvores, grama, além de que o bairro que eu iria morar era mais no alto, então se tinha uma vista privilegiada de alguns pontos da bay area.
Quando o carro finalmente parou, pude notar que realmente estava nos Estados Unidos. A casa dos meus hosts era grande, não do tamanho de uma mansão, mas espaçosa, com um jardim que circundava a casa toda e era possível ver que ela tinha mais de um andar, toda na cor cinza médio com detalhes brancos. Era linda e nem nos meus maiores sonhos imaginei algo assim.
— Sei que você está cansada, mas temos uma pequena surpresa para você antes de a levarmos aos seus aposentos — Madison disse animada, era evidente ver o quanto ela estava empolgada comigo ali e isso tranquilizava demais o meu coração.
Quando descemos todos do carro, Travis não deixou que eu carregasse minha mala, então ele mesmo a pegou e levou para o meu novo quarto. Jasmine segurou em minha mão e começou a me guiar para dentro da casa e quando a porta se abriu, pude ver praticamente a casa toda, que era em conceito aberto, mas meus olhos se focaram na grande sala de estar com lareira e logo depois na cozinha, que era integrada com uma sala de TV, onde pude notar alguns balões reluzentes com meu nome e uma faixa de boas-vindas, além de uma mesa cheia de petiscos para uma pequena comemoração; eles realmente estavam animados com a minha vinda.
— A gente fez isso para poder celebrar a sua chegada — Madison disse, apontando para a ilha cheia de coisas. — Você quer beber algo? Coca? Vinho?
— Madison, não precisa se preocupar, de verdade — respondi surpresa com aquela recepção e Madison deu um sorriso cúmplice e veio até mim, pegando nas minhas mãos.
— Quero que você se sinta parte da família e totalmente em casa aqui — Madison começou a dizer. — Não deve ser fácil sair do seu país para tentar novas coisas, então quero que você tenha a melhor experiência aqui, do fundo do meu coração.
Aquilo fez com que meu coração se preenchesse totalmente com amor e carinho por aquela família. Podia ser que amanhã ou daqui a alguns meses tudo mudasse? Poderia, mas naquele momento eu preferia acreditar que ela realmente queria isso.
Jasmine se aproximou de mim e puxou a minha mão para que eu olhasse para ela e quando a olhei, vi que ela segurava uma caixa de presente.
— A gente comprou esse presente para você — a doce menina à minha frente falou toda sorridente e me abaixei na direção dela, peguei o presente em mãos e depois a abracei como forma de agradecimento. Ela pareceu feliz com esse gesto, pois me abraçou ainda mais forte.
Quando a soltei, ela me olhava ainda mais sorridente e na expectativa de que eu abrisse logo o presente. Puxei o laço que estava em cima da caixa, retirei a tampa e quando abri, fiquei surpresa e emocionada: havia um ursinho vestido com uma blusa do Brasil, o que fez meus olhos encherem levemente de lágrimas.
— Pedi para a mamãe comprar para o caso de você sentir saudade da sua casa — Jasmine disse na maior delicadeza. Aquela menina já havia conquistado meu coração e eu nem havia passado uma hora com ela direito ainda.
— Muito obrigada, pequena! — agradeci à minha kid com outro abraço e depois passei a mão pelos meus olhos só retirando algum resquício de lágrima antes que elas descessem.
— Obrigada a vocês também — disse para Madison e Travis. — Estou realmente me sentindo amada nesse momento.
Todos eles riram para mim e apontaram para que eu me sentasse em um banquinho ao redor da ilha. Madison se sentou ao meu lado e começou a puxar papo comentando o quanto estava feliz por eu estar ali. Travis colocou Jasmine ao meu lado, que logo perdeu a timidez e começou a falar muito também. A pequena realmente falava muito e isso seria bom, porque conversar também era algo que eu gostava demais, aliás, desde pequena era um problema, principalmente na escola, e provavelmente com Jasmine acontecia a mesma coisa.
Nós quatro ficamos ali imersos num papo, falando de absolutamente tudo: de como havia sido a minha viagem, se eu estava gostando dos Estados Unidos, dessas primeiras semanas, no caso, e também o que eu esperava que ainda acontecesse ali. Madison também perguntou se eu já havia buscado algum curso para fazer por ali, já que era um dos requisitos do programa a família pagar um curso no valor de 500 dólares, seja ele qual fosse. Eu ainda não havia escolhido, porque talvez quisesse algo mais perto da área que tinha me formado no Brasil, a fisioterapia, mas ainda não tinha certeza, precisava pesquisar bem para finalmente encontrar algo que realmente chamasse a minha atenção.
— Nós precisamos te levar para conhecer a Golden Gate. Lá é sensacional! A vista, tudo em volta… — Travis disse animado, mas do nada parou, pois foi interrompido pelo toque de seu celular e rapidamente apalpou os bolsos da calça e depois tirou o celular dali, lançou um olhar confuso para o celular e depois para Madison.
— Aconteceu algo, meu bem? — Madison perguntou a ele.
— É o médico do time, vou atender rapidinho — Travis apenas avisou e saiu dali, atendendo de imediato o celular.
Madison o observou com o olhar, mas logo depois voltou a olhar para mim e soltou um sorriso leve.
— Ser casada com um cara que trabalha com time de elite tem dessas coisas — Madison disse, dando um risinho.
Apenas concordei com a cabeça, devolvendo o sorriso, pois ainda era muito cedo para eu me intrometer em qualquer coisa que fosse nesse sentido. Na verdade, não era apropriado e Madison também não parecia triste, então concluí que ela apenas disse aquilo meio como uma justificativa do porquê de Travis ter saído dali.
— Jasmine me chamou toda graciosa, tentando falar meu nome da forma brasileira.
— Pode me chamar de , Jasmine — disse para ela, que abriu o maior dos sorrisos para mim.
— E você pode me chamar só de Jas — Jasmine disse rindo e confirmei com a cabeça.
— A gente pode te mostrar o seu quarto agora? — Jasmine perguntou para mim com uma cara animada.
— Calma, meu amor. A ainda está comendo — Madison falou para Jasmine, que deu uma leve entristecida.
— Na verdade, eu já acabei — falei para Madison e pisquei em seguida para Jasmine, vendo-a se animar novamente.
Madison entendeu na hora e então se levantou do seu banco, já indo retirar Jasmine do dela. Também desci do meu e estendi minha mão para Jasmine.
— Você me leva até lá? — perguntei para Jasmine, que veio toda saltitante pegar na minha mão. Porém antes mesmo que saíssemos da cozinha, Travis voltou com uma cara nada agradável e parecia preocupado com algo.
Baby — Travis chamou Madison de forma carinhosa e se encaminhou para perto dela. — Os médicos do time querem dar a notícia ao agora — ele disse para ela, mas era impossível que todos não ouvissem.
— Agora? — Madison perguntou fazendo uma cara triste. — É muito grave?
Travis apenas concordou com a cabeça, em seguida deu um beijo na testa da mulher e então caminhou para fora da casa.
Jasmine começou a me puxar, chamando a minha atenção para ela.
— Vamos mostrar o quarto, mamãe! O quarto! — Jasmine disse na maior animação do mundo e então começou a me puxar para segui-la de mão dadas com a mesma. A escada que levava para o andar de baixo era na cozinha, então não precisamos andar muito. Depois de dois lances curtos de escada, estávamos no lugar que seria o meu canto, o basement da casa.
Na primeira vista, a minha animação já foi a mil, pois eles haviam feito uma pequena cozinha, além do lugar também ter uma lareira com um sofá enorme e uma TV.
— Nós equipamos esse lugar para que você possa ter sua própria privacidade, para descansar e fazer o que quiser — Madison começou a dizer enquanto andávamos e víamos os detalhes do lugar que me encantava ainda mais a cada pedacinho. — Tem uma porta aqui — ela apontou para a escada que havíamos acabado de descer — e ali com saída privativa para rua. — Era uma porta com saída própria, não tinha como ser melhor que isso.
— E aqui é seu quarto — a pequena Jasmine disse, apontando para uma grande porta branca que abria em duas partes e que tinha uma plaquinha escrita de forma personalizada.
A pequena foi correndo e abriu a porta, já dando uma pequena vista de como era lindo lá dentro. Assim que passei pela porta, pude ver o quão lindo e a minha cara eles haviam deixado aquele lugar: o quarto era todo lilás, havia uma parede toda decorada com flores brancas, uma cama de casal enorme com roupas de cama combinando com o quarto, do lado dela uma mesinha de estudos com cadeira e abajur, uma poltrona e um grande espelho na parede.
— Aquela porta é um pequeno closet — Madison disse, me chamando a atenção para ela. — E aquele ali é seu banheiro.
Apenas confirmei com a cabeça, admirando tudo.
— Jas, vamos subir? — Madison chamou Jasmine. — A precisa descansar um pouco. Vamos deixar ela se ajeitar e ter a privacidade dela.
A pequena concordou com a cabeça, mas antes veio até mim e me deu um abraço.
— Estou animada para poder ficar com você e brincar! — Jasmine disse para mim e me abaixei ficando na altura da mesma.
— Eu também, Jas — disse tocando seu nariz em seguida, a fazendo rir.
Ela então voltou a correr até a mãe e pegou na mão da mesma.
— Descanse, . E qualquer coisa nos chame, por favor. Estaremos lá em cima e não precisa ficar com vergonha de nada! — Madison disse, já se retirando do lugar.
— Obrigada por tudo — agradeci e Madison apenas sorriu e depois saiu do quarto, levando Jasmine com ela.
Assim que as duas saíram da minha visão, fui até a primeira porta que vi, o closet, que não era tão pequeno da forma que elas falaram. Logo saí dali e fui em direção à outra porta, a do banheiro, e assim que o abri a surpresa foi maior: ele era enorme, com uma bancada de mármore grande e toda branca, um espelho que ocupava toda a parede e, além de tudo, havia um chuveiro e banheira separados. Um sorriso de orelha a orelha tomou conta do meu rosto.
Voltei meu olhar para o quarto todo e parei bem na cama, não pensei duas vezes e corri em direção a ela e me joguei, sentindo a maciez e o quanto ela era confortável. Fechei os olhos lembrando que nem nos meus maiores sonhos havia pensado que poderia ter algo assim, mas estava tendo e vivendo meu sonho, finalmente.


. .


A dor ainda era dilacerante e descia rasgando pelo meu braço, mas graças ao remédio em minhas veias ela havia diminuído e estava mais suportável. Assim que o jogo acabou em Green Bay, acabei sendo trazido direto de avião para o CT do time em São Francisco, onde eu permanecia internado, com o braço imobilizado e sobre supervisão. Eles precisavam me avaliar e entender absolutamente tudo o que havia acontecido comigo, o quão grave era aquela lesão, o quanto de tempo ela iria me tirar de campo e até quando eu ainda teria que ficar cuidando dela para voltar a jogar.
Com a minha lesão, era óbvio que não conseguimos pontuar o que precisávamos e por isso estávamos nos playoffs, mas como wildcard não passaríamos direto para a próxima fase com folga, infelizmente. Mesmo que os playoffs fossem mais curtos, essa lesão não podia me tirar tanto, principalmente porque o meu maior objetivo era conseguir ir para a final do Super Bowl e ganhá-lo. Esse era o meu melhor ano e eu sabia que conseguiria, mas tudo dependeria da gravidade da lesão.
Escutei alguém batendo na porta e quando virei a cabeça para ver quem era, vi George Kittle ali: o melhor tight end do meu time e, além de tudo, o meu melhor amigo. Kittle era a pessoa que dividia absolutamente tudo comigo — todas as dores, as vitórias, coisas boas e ruins —, quem mais entendia minhas visões de jogo e que, inclusive, recebia meus passes e fazia touchdowns perfeitos.
— Vim ver se você estava acordado — George disse, passando pela porta e a fechando em seguida.
— Sim, acordei agora pouco — respondi, vendo George pegar uma cadeira e colocá-la perto da minha cama, se sentando depois.
— Cara, o que exatamente aconteceu? — ele perguntou confuso, querendo saber, mas eu não tinha essa resposta. Não fazia ideia do que tinha acontecido, o porquê de ter acontecido ou o que ainda estava por vir.
— Eu realmente não sei — respondi sincero. — Nem ao menos me lembro exatamente o que aconteceu.
Kittle balançou a cabeça, parecendo pensar em algo.
— Lembro de ver você procurar alguém para lançar e ser sacado depois — George falou por fim.
— Eu só lembro de sentir muita dor e apagar — constatei.
Um silêncio tomou conta da sala em que estávamos, porque não tinha muito o que falar sobre o que realmente tinha acontecido comigo e nem como saber até a equipe médica vir me atualizar de tudo.
— Quem vamos pegar no wildcard? — perguntei querendo puxar algum assunto.
— Os Vikings. O time não tá grande coisa, mas sem você… — Kittle começou a dizer, mas o cortei antes mesmo que terminasse.
— Vocês não vão ficar sem mim. Provavelmente será só um jogo e nada mais, George. — Quis parecer confiante e também era algo que eu queria que acontecesse do fundo do meu coração. Não havia possibilidade de ficar mais longe do que isso ou esse seria o fim do meu time nessa temporada.
George abriu um sorriso amigável e concordou com a cabeça.
— Te quero bem para gente poder comemorar — Kittle começou a falar com aquele ar que só ele tinha e naturalmente. — Conheci umas garotas em Green Bay e seria maravilhoso a gente numa social com elas. — Eu caí na gargalhada. — Rapaz, não tenho nem palavras para falar sobre elas!
— Você não tem jeito, George, não tem jeito! — constatei ainda rindo. — Quando é que você vai sossegar e achar alguém?
Kittle pareceu pensar novamente e depois virou olhando bem para mim.
— Quando você fizer isso, — Kittle respondeu rindo. — Você fala de mim, mas ainda não abandonou a vida de garanhão e galã mais bonito da NFL que eu sei! — Apenas neguei com a cabeça. — Mesmo você sendo o cara mais privado e que menos expõe a sua vida, eu sei bem o quanto você apronta por aí...
— Eu só me dedico ao meu time, nada além disso — disse somente, o que fez Kittle rir ainda mais.
— Conta outra, ! Não se esqueça que eu te conheço muito bem — George disse apontando para mim e caímos na gargalhada.
George ainda permaneceu no meu quarto por alguns longos minutos e ficamos ali conversando sobre absolutamente tudo, o que foi bom para espairecer e esquecer aquela dor que, apesar de menos constante, ainda doía muito e me deixava nervoso. Nós dois ali lembramos de jogos antigos, de festas que havíamos ido juntos, das vezes que fizemos tantas coisas escondidas que ninguém do time ou da imprensa sonharia, das vezes que ficamos completamente bêbados após um jogo difícil e de uma semana pesada de treinamento. Kittle e eu morávamos perto, então era mais fácil para a gente.
— Quando a offseason começar, acho que devemos ir para o Hawai e ficar por lá pelo menos um mês — Kittle disse quando engatamos num papo sobre nossas férias.
— Acho uma ótima ideia — concordei. — Já fiquei lá com a minha família e foi fantástico.
, esqueça família. Seria para farrear mesmo, levar quem quisesse e fazer o que quisesse — Kittle disse rindo, parecendo pensar em tudo que ele poderia fazer num lugar privado.
— Eu sei, eu só preciso saber exatamente como vai ser daqui para frente — respondi apontando com a cabeça para o braço.
— Vai ser tudo tranquilo, tenho certeza — Kittle disse confiante.
Apenas assenti com a cabeça, querendo acreditar nessa confiança dele também, que eu ainda poderia jogar o resto dessa temporada e depois aproveitar os frutos que ela me daria.
Porém, antes que pudéssemos engatar outro papo, a porta do quarto foi aberta e pude ver passando por ela a médica do time, Andrya, o técnico dos quarterbacks, Travis, e o nosso Head Coach, Peter. E quando esses três estavam juntos, algo bom não estava por vir.
— Kittle, você poderia deixar a gente sozinho com o ? — Peter pediu e George imediatamente se levantou e já se retirou da sala, sem falar nada. Andrya se aproximou dos aparelhos perto de mim, observou algo e depois voltou a sua visão para mim.
— Como você está se sentindo? — Andrya perguntou.
— Com dor — respondi e não era mentira. Doía e doía muito.
— Numa escala de 1 a 10, o quanto dói, ? — Andrya perguntou, me observando ainda.
— 7. Dói muito, mas eu consigo suportar — respondi com sinceridade.
— Isso não é bom. — Ouvi Andrya dizer para Travis e Peter. — Amanhã mesmo precisamos realizar o próximo passo.
Peter e Travis apenas concordaram com a cabeça.
— Que próximo passo? — perguntei nervoso. — Por que vocês estão agindo como se eu não estivesse aqui e que quem não estivesse fodido fosse eu?
— Calma, . Você precisa ficar calmo — Travis disse, se aproximando de mim.
— Calmo? Como vou ficar calmo, Travis? Vocês claramente sabem a minha situação e não me falam! — joguei tudo o que estava achando para fora e podia sentir meu rosto queimar de nervoso e raiva, afinal, aquilo estava acontecendo comigo e eles estavam agindo como se eu não estivesse ali deitado naquela merda de cama.
— Nós vamos te contar, mas você precisa pelo menos ficar calmo — Travis disse, já puxando uma cadeira e se sentando ao meu lado.
Comecei a respirar fundo, buscando a sanidade necessária para ouvir o que viria a seguir e, pelas expressões dos que estavam ali, não era nada de bom.
— A Andrya vai te explicar tudo, — Travis falou, já olhando diretamente para a médica, que estava em pé aos pés da minha cama, e Andrya apenas olhou para mim, deu um sorrisinho amigável, mas que logo se transformou em uma expressão de pura pena. Eu sabia que coisas muito ruins estavam por vir.
— Você se lembra exatamente quando sentiu a primeira dor no jogo? — Andrya perguntou e eu apenas neguei com a cabeça.
— Olhando o jogo de ontem, eu achei exatamente o momento em que você lesionou um dos ligamentos do seu braço direito — Andrya começou a explicar. — E se você tivesse parado naquele lance, em dois jogos você poderia estar de volta, mas…
— Eu não parei — constatei alto.
— Exato! — Andrya confirmou. — Sempre falamos da sua teimosia, , e dessa vez foi ela que te colocou na pior situação possível.
A minha teimosia era algo muito recorrente e comentado, principalmente por Travis, porque desistir não estava no meu vocabulário; eu sempre dava o melhor de mim e ultrapassava meus limites, mas dessa vez pode ter me custado muito caro.
— Como disse, se você tivesse parado na primeira vez que sentiu a dor, seria fácil — Andrya voltou a falar. — Mas não foi assim, então você lançou mais uma vez, acabou lesionando ainda mais o ligamento, fazendo com que o do lado se rompesse. E para piorar ainda mais a sua situação, quando você foi sacado pelo Hitchcock e ele caiu em cima do seu braço, ele praticamente esmagou o seu osso e, com o impacto, o ligamento lesionado foi rompido. — Andrya deu uma pausa e olhou para Travis e Peter. — Sendo assim, o seu saldo é de dois ligamentos rompidos e um osso praticamente esmagado e quebrado em pelo menos 3 lugares.
Só senti as lágrimas arderem nos meus olhos. Eu sabia que realmente aquele era o pior cenário possível; estava praticamente perdido todo um ano impecável de trabalho e uma temporada em busca do meu grande sonho, o Super Bowl.
— Amanhã mesmo você entra em cirurgia — Andrya disse. — Vai ser bem complicada, mas vai dar certo!
Ela então sorriu para mim, tentando me reconfortar.
— Você já deve imaginar o que irá acontecer, — Travis começou a dizer e apenas confirmei com a cabeça, sentindo uma lágrima descer pelo meu rosto. Levantei a cabeça para olhar para o teto e tentar ficar calmo e respirei fundo algumas vezes até meus olhos pararem de arder.
Era isso.
O que eu mais temia havia acontecido: eu estava fora do resto da temporada, não jogaria os playoffs, não iria para o Super Bowl e nem veria o meu sonho acontecer. Não nesse ano.


Continua...



Nota da autora: Olá, rainhas, como estão? Bem? Espero que sim!
Atualização de final de ano, atualização do especial. Lógico que eu queria que entrasse mais capítulos dessa história que estou AMANDO desenvolver, mas como também me comprometi com as outras histórias, então só deu para escrever um capítulo.
Mas, me digam, o que acharam dessa atualização? Sei que as coisas estão lentas, mas é preciso disso para que toda a história se desenvolva.
Não esqueçam de comentar e deixar essa autora feliz, e vocês também estão convidadas a entrar para os meus grupinhos.
Feliz ano novo para todas vocês e que 2021 seja melhor em todos os sentidos. Até ano que vem, amo vocês.
Love, Kels.



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