Última atualização:25/07/2020

Capítulo 01

Carlisle – Massachusetts

O pequeno fórum fervilhava de pessoas em seu entorno. Todos os funcionários do único jornal da cidade estavam no local para cobrir o desdobramento do maior crime já visto por aquelas bandas.
Dentro dele, exatamente na posição de vítima e pronta a dar seu depoimento, estava a mulher pela qual tudo aquilo havia acontecido.
Ela não conseguia olhar para todas aquelas pessoas, somente para seu advogado, que se preparava para fazer as perguntas. Por mais que não tenha encarado nenhum canto daquela sala, sabia que muitos rostos conhecidos estavam ali, só não tinha estruturas para erguer os olhos até eles.
_ Confirma que seu nome é Coleman? - o advogado iniciou sua narrativa, caminhando até a cliente. - Esposa de James Coleman?
_ Sim. - respondeu muito baixo, não dando vazão ao microfone. Um murmurinho começou e aquilo lhe fez respirar fundo e ser mais forte em suas palavras. Repetiu, enchendo o peito de ar. - Sim.
Patrick Thomas, o advogado, balançou a cabeça em afirmação, andando de um lado para o outro.
O juiz tinha seus olhos sobre o profissional, não perdendo a atenção nas outras pessoas que assistiam aquele interrogatório.
_ E quando vocês se conheceram?
Pela primeira vez, seu subconsciente a levou para os bancos a sua frente. Não demorou para encontrá-lo, afinal, sua mente conhecia muito bem aquele homem.
A barba branca e bem desenhada contornava um sorriso que nem fazia parecer que estava vendo a filha ser torturada por aquela situação. Ao contrário de seu pai, seus irmãos, Billy e Hanna, não se mostravam satisfeitos por estarem ali. Acontece que, George não estava feliz com toda aquela história sobre o nome de sua família, mas - ainda sim - haviam holofotes sobre si. O papel de pai do ano que acreditava na inocência da filha lhe caiu muito bem no que se diz respeito a ganhar sobre aquele caso.
_ No meu aniversário de 13 anos. - ela disse friamente enquanto olhava para o pai.Patrick já sabia muito bem sobre aquela história, mas fazia parte de sua estratégia fazer a cliente expor cada fase daquela trama.
_ E quantos anos James tinha naquela época?
, como gostava de ser chamada, abaixou os olhos, tendo o vislumbre de alguns machucados visíveis na pele exposta sobre o blazer.
_ 30.
Os cochichos continuaram.
_ E não é, no mínimo, muito estranho que um homem 17 anos mais velho demonstrar interesse em uma menina que estava apenas entrando na adolescência?
_ Sim.
_ Me diga, senhora Coleman... - umedeceu os lábios.- O que aconteceu naquela noite?
Ela não conseguia continuar encarando o público. Olhou para o juiz, que também esperava uma resposta. E, depois, preferiu dar voz a sua coragem ao invés de defender alguém que lhe fez tanto mal.
_ James Coleman ofereceu bens materiais e uma grande quantia de dinheiro pela minha mão. - contou, fazendo a conversa ficar ainda mais alta. - Meu pai aceitou.
O sorriso de George se desfez na hora.
Patrick foi até a mesa, pegou alguns papéis e os levou diante de .
_ Esses são os documentos que confirmam que James passou três fazendas e mais de um milhão de dólares para o nome de George , seu pai. Um mês após seu aniversário de 13 anos.
balançou a cabeça em afirmação e o advogado levou os papéis até o juiz, voltando-se para a cliente para continuar contando aquela história de horror.
_ E então, nesse mesmo ano, James deu entrada nos papéis do casamento e seu pai concordou. Entretanto, o juizado de menores interviu, impedindo que a união acontecesse naquela época. Estou certo?
_ Sim.
_ E como você se comportava perante esse assunto?
_ No incio eu não sabia. James frequentava minha casa e conversava muito comigo, era simpático, mas não passou disso. - continuou a contar, olhando em direção ao pai. Ele a encarava com um olhar penetrante, como se estivesse prestes a matá-la sem precisar encostar. - Ele começou a investir a medida que fui crescendo, mas só descobri sobre o casamento no meu último ano do ensino médio, meses antes da segunda tentativa de união.
_ Nessa mesma época, testemunhas contam que viram você pegar um ônibus para Boston na rodoviária, sumindo durante dias. - Patrick disse e ela afirmou. - Por que voltou?
_ Porque meu pai ameaçou oferecer minha irmã no meu lugar. Ela tinha só 15 anos.
Hanna se remexeu no banco, olhando incrédula para o pai.
George se levantou, pegando a mão de Billy e ameaçando deixar o local. Todavia, dois seguranças impediram sua passagem, o guiando novamente para seu acento.
_ Então o casamento aconteceu quando tinha apenas 18 anos. - Patrick afirmou. - E agora entramos na sua convivência com James e os fatos que desencadearam esse acontecimento. A senhora disse que ele nunca se mostrou um homem perigoso antes do casamento... E depois?
umedeceu os lábios, tentando não fazer com que sua angustia e tristeza surgissem naquele momento. Porém, todas aquelas lembranças despertavam uma imensa vontade de cair no choro e nunca mais parar.
_ Eu estava em um casamento contra a minha vontade e ele sabia disso. - começou a contar. - Tentou conseguir as coisas de forma mais fácil no início, mas tudo mudou após o primeiro mês.
Pensar naquilo a fazia ter vontade de vomitar.
Por mais que estivesse vivendo um grande horror ao ser entregue a um homem que não desejava, se sentia segura ao acreditar que James a amava e por isso havia chegado ao ponto de comprá-la. A medida que o tempo foi passando, isso ia se transformando nos mínimos detalhes. Ele começou a escolher suas roupas, de forma que era obrigada a andar sempre elegante, mesmo que dentro de casa. Sua comida era cuidadosamente preparada, livre de qualquer alimento que lhe trouxesse calorias desagradáveis. Ele pagava seus estudos, mas era obrigada a entrar e sair da faculdade na companhia de um segurança. Não podia ter amigos e qualquer pessoa que lhe dirigia a palavra era um dos alvos principais de seu marido.Era obrigada a tomar injeções anticoncepcionais para evitar uma gravidez indesejada, já que James odiava crianças e alegava que um filho iria tomar o tempo e transformar o corpo da esposa.
Lea participava de todas as reuniões e já presenciou diversas conversas entre James e matadores de aluguel contratados para eliminar quem aparecesse em seu caminho na disputa por terras. Por isso, não mediu esforços em acusá-lo das mortes que assombravam Carlisle nos últimos anos.
Ficava muito tempo sozinha, mas todas as portas e janelas da fazenda estavam sobre monitoramento dos seguranças. Eram poucos os funcionários que lhe ajudavam, mas, para sua sorte, a amizade que fez com essa pequena quantidade melhorou seus dias dentro daquela casa.
_ Eu sei que é um assunto delicado, mas nós precisamos falar sobre as agressões.
Ela balançou a cabeça em afirmação, mas seu olhar foi novamente as marcas em seu corpo e, mesmo que estivesse de roupa, podia se enxergar nua.
_ Pode descrever uma? Alguma que deixe bem claro do que James era capaz?
Uma lágrima escorreu por seu rosto, mas ela não deixou de ser forte.
_ A primeira, eu a-acho. - a voz falhou, mas continuou. - Foi poucos meses depois do casamento. Eu lhe negava qualquer contato e ele dizia que matava sua vontade em um bordel na cidade vizinha. Mas, em uma noite, ele voltou de surpresa. Eu estava na cozinha comendo alguns chocolates que estavam na despensa. James ficou furioso, arrancou as coisas da minha mão e me empurrou no chão. Ele dizia ter feito de tudo, mas que eu não colaborava e, por isso, ele não seria mais bonzinho.
_ Ele apenas te empurrou naquele dia?
As lágrimas saiam com voracidade e não tinha mais controle sobre elas.
_ Não. - ela limpou o rosto. - Ele me levou para o quarto, me colocou ajoelhada e me chutou até o momento que apaguei.
Um soluço profundo ecoou por sua garganta e ela se derramou ainda mais em sua tristeza.
_ Podemos parar por aqui de desejar. - Patrick disse, se sensibilizando.
_ Não. Eu consigo. - em meio a todo o choro, ela arrumou a postura, disposta a ir até o final. - Quando acordei, estava sobre a cama, nua. Foi a primeira vez que ele...
Ela perdeu as palavras, recebendo um aceno do juiz que lhe livrava do dever de continuar.Todos já haviam entendido que seu pai havia lhe forçado a casar com um monstro.
_ Quantos anos de casamento?
fungou.
_ Cinco.
_ E quando Henry Coleman entra nessa história?
Quando ela pensava que não podia ficar mais triste, aquela pergunta lhe surpreende. Ouvir aquele nove fazia uma pequena chama esquentar seu coração. Luz que foi responsável por sua força durante todo esse tempo.
_ Após dois anos, quando ele voltou da França.
_ Já havia conhecido seu cunhado antes?
_ Não, ele não veio para o casamento.
_ Algum motivo em especial?
_ Não concordava com o comportamento do irmão perante seus bens. - ela recebeu um lenço. - James e Henry nunca se deram bem.
Patrick olhou para o júri e, depois, voltou-se para sua cliente.
_ Mas isso não o impediu de frequentar sua casa diariamente e nem de vocês se tornarem próximos.
_ James passava boa parte do dia fora de casa, era quando Henry surgia. - dissertou. - Alguns funcionários de confiança o ajudavam.
Patrick foi até sua mesa, pegando um papel.
"Henry foi o primeiro a perceber que eu não era a fachada que sustentava. Sob toda a maquiagem, as roupas e os hematomas cobertos, ele viu meu espírito. De alguma forma, sabia que eu estava sofrendo." - ele leu, mostrando para as palavras que haviam saído de sua boca. - Esse é o seu primeiro depoimento na delegacia. Discorda de algo que disse nele?
_ Não.
Ele foi até o juiz e lhe entregou o papel, usando daquilo como estratégia e confiando que a cliente seria fiel a tudo que disse antes. Lá havia as mesmas respostas que Patrick torcia para dizer e, até então, nada havia mudado.
_ Pode continuar contando o que falou nesse depoimento?
Ela afirmou.
_ Eu disse que ele podia ter seguido com sua vida e não se metido nos assuntos do irmão, mas Henry continuou. Foi meu refúgio durante esses anos, era a alegria dos meus dias.
_ Alguma vezes tentaram fugir?
_ Sim, mas sempre dava errado. Os entornos das propriedades de James eram bastante vigiadas.
_ E quando começaram a se relacionar amorosamente?
Ela engoliu em seco.
_ Por volta de dois anos após nos conhecermos. Ele não sabia sobre as agressões, mas acho que imaginava. Eu era relutante a qualquer tipo de contato e ele nunca tentou. Demorou para que eu percebesse que estava apaixonada e que tinha coragem de me deitar com um homem que não abusava de mim. - ela contava de forma determinada. - Eu tomei a iniciativa.
Patrick voltou a andar de um lado para o outro.
_ Coleman, você assume ter triado seu marido, James, com o próprio irmão dele, Henry Coleman?
_ Sim.
Vozes alta fizeram com que o juiz se desprendesse daquele depoimento, exigindo ordem no tribunal.
_ Por que Henry nunca enfrentou ou denunciou seu marido?
_ Ele ficava a cada dia mais dependente do irmão. Estava perdendo dinheiro e o círculo ia se fechando a nossa volta. - ela passou o lenço pelos olhos. - Ele tinha medo e eu também.
Patrick olhou para o júri, sabendo que aquela era uma explicação para as diversas especulações que a mídia havia feito.Ninguém tinha certeza sobre as agressões, mas a teoria sobre Síndrome de Estocolmo já circulava por Carlisle. Como uma mulher inteligente como havia aguentando tanto tempo ao lado de James? Essa questão havia acabado de ser solucionada. As pessoas que estavam de fora podiam - ainda - não compreender, mas só quem havia passado pela situação sabia como o psicológico é transformado e a forma que o agressor se torna um grande vilão aos olhos da vítima, despertando pavor.
_ Conte-nos o que aconteceu na noite de 15 de Janeiro de 2015.
Ela passou o lenço mais uma vez sob os olhos, precisando ter forças para contar sobre o pior dia de sua vida.
_ Com todos os detalhes. - Patrick reforçou.
Ela respirou fundo, olhando diretamente para o advogado.
_ Era uma quarta-feira, James nunca voltava para casa nesse dia e, por isso, Henry e eu conseguíamos nos encontrar. Eu sempre ia para o estábulo e ficava horas por lá, Henry subornava um dos seguranças que conseguia deixá-lo entrar sem despertar a atenção dos outros. Ele me levava livros, comida... Eu nunca fui tão apaixonada por um Burger King quanto naquela época. Mas já devíamos saber que não podíamos confiar em ninguém. O mesmo segurança que aparentemente nos ajudava, foi quem contou tudo para James. Ele surgiu um pouco antes de nos despedirmos. Estava transtornado e parecia ter se drogado. - as lágrimas voltaram a escorrer, mas aquele era o único indício de dor. continuava mantendo uma postura determinada. - James atirou em uma das pernas de Henry, forçando-o a não sair do lugar enquanto me agredia. E, quando pensamos que aquela tortura havia acabado, ele atirou na cabeça do próprio irmão.
"Eu sentia muita dor e era como se tudo a minha volta tivesse se transformado em dois. Não podia confiar na minha cabeça. Permaneci jogada ao chão enquanto James preparava a cena para dar a entender que eu matei Henry com o intuito de me defender. Não sei como, mas sabia que precisava correr. No seu primeiro descuido, me levantei gritando de dor, pois percebi que meu braço estava quebrado. Ele estava do outro lado do estábulo, dispensando os seguranças para que não houvesse testemunhas sobre o ocorrido. Não demorou para que ele percebesse. Consegui ir até a garagem e pegar um de seus carros, mas ele me seguiu."
"Como eu disse, tudo estava confuso na minha cabeça e dirigir não era algo que eu faria bem naquele momento. Foi quando bati o carro na árvore à beira do desfiladeiro. Acordei com as mãos de James a minha volta, me jogando para fora do carro. Eu não tinha mais forças. Ele me colocou a beira do precipício, me ameaçando, dizendo que voltaríamos para casa e eu teria que fazer o papel de vítima que foi agredida pelo cunhado. Mas, em algum momento, foi ele quem escorregou. Só me lembro de ver seu corpo desabar e de ouvir o barulho de sua cabeça se chocando contra as pedras durante a decida."
O juiz respirou fundo quando terminou de ouvir o que a mulher tinha para dizer. Viu James Coleman crescer e nunca imaginou que um dia veria alguém passar por essas coisas pelas mãos dele.
Ele bateu o martelo, liberando o juri para se decidir. Quando retornaram, a decisão já era clara: era inocente.

|•••|

Seu braço latejava sobre o gesso que o revestia. Entretanto, por mais que sentisse essa dor, não iria parar até que todas as suas coisas estivessem naquela mala.
_ Você não vai levar o resto? - Hanna surgiu, apontando para o local que havia saído. - O closet continua cheio.
olhou para ela e, depois, para o grande quarto branco onde estavam. Sua mala estava sobre a cama de lençóis de seda, bem de frente aos animais empalhados que James colecionava.
_ Não quero nada que venha do dinheiro sujo dos Coleman.
Após o julgamento, todo dinheiro de James foi direcionado a sua esposa. Marta Coleman, mãe dos dois homens mortos no dia 15 de janeiro daquele ano, não estava satisfeita com a escolha do júri, muito menos com o depoimento de que difamava seus filhos.
Sua revolta foi ainda maior ao descobrir que a nora não pretendia ficar com o dinheiro.
doou tudo o que conseguiu, ficando apenas com as propriedades. As quais ela não tinha o mínimo interesse de administrar.
Hanna a ajudou a carregar a mala pelos corredores da mansão, mas, ao descer as escadas, encontraram com a figura do pai. Já era de se esperar que George não perderia a oportunidade de se despedir da filha.
_ Mais de cinco fazendas e uma quantia esmensurada de dinheiro jogados fora. - ele bateu palmas ao ver a filha descendo as escadas. - Meus parabéns, , você construiu um belo show.
_ . - corrigiu, ríspida.
_ ! - George insistiu. - Como sua mãe escolheu.
_ Não tenho o mínimo interesse em dar ouvidos para a preferência de alguém que me abandonou. - ela continuou caminhando ao lado da irmã, na intenção de deixá-lo falando sozinho.
George era um homem muito peculiar e com a vida bastante curiosa. Era carregado de avareza e fazia de tudo para conseguir dinheiro do jeito mais fácil, até vender sua própria filha. Tudo era tratado como comercial e ele usava e abusava de sua família para isso. Talvez seja por esse motivo que nenhuma mulher o aguentou. A mãe de era uma dançarina que passou por Carlisle fazendo alguns shows. Se encantou com o jovem George, mas descobriu que a vida ao lado dele não era fácil. Abandonou a filha antes que ela completasse um ano, alegando amar a vida nos palcos e que o marido a impedia de continuar com esse sonho. A mãe de Hanna, entretanto, foi a que mais aguentou o casamento. Foram dez anos até o momento que o homem desejou uma companheira mais nova, conhecendo a atual esposa e mãe de Billy, Dona, uma alcoólatra viciada em beleza e procedimentos estéticos. A mãe de Hanna faleceu um pouco depois do divórcio, obrigando a filha a voltar aos cuidados do pai até completar a maior idade.
Billy, o irmão mais novo, estava encolhido no sofá. E só se sentiu mais seguro quando Lea foi até ele, se despedindo.Queria levá-lo consigo, mas George sabia ser persistente e teimoso. Ele não tinha amor por filho nenhum, mas adorava as oportunidades de ganhar dinheiro sobre eles. Billy era seu único homem e sua grande aposta para o futuro.
_ Como você espera deixar seu irmão depois de tudo que me fez? - George continuou. - Perdi compradores, funcionários... Vai abandonar sua família pobre mesmo com todos esses luxos?
olhou em volta e seu estômago se contorceu enquanto observava as pilastras brancas daquela grande sala. Era realmente uma mansão esplêndida, mas tinha más lembranças de cada ponto daquele lugar.
_ Fique com tudo. - jogou a chave para o pai, deixando os irmãos boquiabertos. - Nada disso me interessa.
George pegou a chave com um sorriso no rosto, voltando-se para o sofá e nem ligando para a filha que descia as escadas do lado de fora em direção ao carro.
Hanna, que estava assustada com a cena, deixou de lado a imagem fria de seu pai e correu atrás da irmã. Ajudou-a com a mala e segurou seu braço bom quando a viu seguir para dentro do veículo.
_ Tem certeza que não quer ir para Concord comigo? - a mais nova perguntou. - Sabe, pelo menos, para onde está indo?
_ Boston, talvez. - ela deu de ombros, sorrindo. - Conheci alguns contatos, acho que finalmente vou ter um emprego. Um emprego como professora, Hanna! James nunca me deixou ter um.
Ela estalou a língua ao ouvir aquilo, sabendo que a irmã buscava por uma nova vida. A abraçou, se despedindo.
_ Me liga assim que chegar. - pediu, vendo-a assentir.
sentou-se de frente para o volante, dando uma última olhada na grande mansão. Aquela nunca mais seria a sua casa.
_ Eu te amo. - Hanna falou enquanto enxugava uma lágrima.
sabia que sua partida mudaria muita coisa. Nunca havia ficado tanto tempo longe da família e sentia que devia se afastar de toda luta que George impôs em sua vida. Todavia, amava os irmãos. Iria embora com a promessa que só voltaria para buscar Billy no momento certo e daria a ele a chance de ter um começo de vida melhor do que o dela.
Carlisle ficaria para trás de uma vez por todas e ela mal podia esperar para começar a sua nova vida.
_ Eu também te amo, irmã. - respondeu, dando a partida no carro e levantando a poeira do chão.


Capítulo 02

Boston - Massachusetts.

Era o primeiro dia longe de tudo...
Escolheu Boston como lar aleatoriamente e, se James deixou alguma coisa de bom, foi o dinheiro que lhe dava a oportunidade de reconstruir sua vida. Comprou o apartamento a vista, até assustando o antigo dono, mas ela pouco ligava. Não era apaixonada por dinheiro, mas sabia que podia se dar ao luxo depois de tudo que passou. Não era um lugar semelhante ao que viveu nos últimos anos. Era simples e perfeito para um recomeço.
sentia seu corpo deitado sobre a cama, mas não estava confortável. O braço enfaixado ainda doía e o colchão sem lençol incomodava. Além disso, as janelas ainda não tinham cortinas e a luz da rua insidia dentro do quarto com tanta voracidade que ela tinha vontade de colocar algo sobre os olhos. Entretanto, aquilo não era o pior.
Era como se algo sob a sua pele estivesse lhe deixando inquieta. Sua cabeça trabalhava a todo vapor, mesmo depois da quantidade absurda de remédios que havia tomado.
Lea estava ansiosa e feliz, mas a mente humana pode ser uma grande vilã em momentos como esse. Ela ansiava por uma vida nova, mas tinha marcas.
Conseguia ouvir o som da voz de James, o seu toque, a repudia... Podia sentir-se sendo machucada e, com isso, seu coração continuava se desfazendo em dor.
não esperava que isso passasse imediatamente, mas estava cansada de sofrer.
1 ano depois.
observava a pequena criança de cabelos cacheados olhar para a prova como se aquele pedaço de papel estivesse quase lhe matando. Mais da metade da sala já havia saído, mas Connor David continuava perante suas dúvidas, martelando em sua cabeça a resposta para a única questão a qual não se lembrava.
A professora se levantou de sua mesa, esticando as pernas e pegando as provas de mais dois alunos, restando apenas Connor. Ela começou a caminhar pela fileira na qual ele estava sentado. Em nenhum momento ele ergueu os olhos para ela, tamanha sua concentração. Observou o papel sobre a mesa dele, tomando ciência de qual questão ele tinha dúvida.
Alguém bateu a porta, não esperando uma resposta para entrar.
_ Pronta para o almoço? - Shanna perguntou de início, não percebendo a presença do aluno. - Ah, não o vi. Desculpe, Connor.
Ele balançou a cabeça debilmente, voltando sua atenção para a prova.
sorriu para a amiga, dando uma piscadela.
_ Connor? - ela chamou.
Ele finalmente a encarou.
_ Sim, professora.
_ Hoje é o aniversário da tia Shanna e vamos almoçar fora para comemorar. - ela contou, atuando. - Mas estou em dúvida e pensei que você poderia me ajudar. Tenho duas opções de prato: "a", um cozido de legumes e "b" uma lasanha de frango bem deliciosa. Qual você escolheria?
Shanna segurou o riso, entendendo muito bem o que a amiga pretendia.
sentou-se sobre sua mesa, esperando que ele respondesse.
_ A lasanha de frango, com certeza. - Connor afirmou com um sorriso.
_ Então a opção "b" é a correta. - ela piscou mais uma vez, levantando-se e indo para atrás de sua mesa para juntar as coisas.
O menino marcou no papel e lhe entregou a prova com um lindo brilho no olhar.
_ Obrigado, Senhorita .
pegou o papel, passando a mão na cabeça dele e o liberando para sair.
Assim que ficaram sozinhas na sala, Shanna estava livre para falar.
_ Acha que isso foi bom para ele? - sentou-se em uma das carteiras enquanto esperava a amiga arrumar seus materiais.
_ Connor é um aluno excelente, mas tem passado por muita coisa.
Shanna estalou a língua.
_ É, eu soube da morte da mãe dele.
Lea colocou a bolsa sobre os ombros, saindo da sala e sendo acompanhada pela mulher.
_ É um peso muito grande para uma criança de dez anos. - ela acenou para o zelador e para alguns alunos que passaram por perto. - Sabe alguma coisa sobre como vai ficar a situação dele na escola?
A outra assentiu.
_ Ele vai ganhar uma bolsa.
_ Ótimo.
Shanna destravou o carro, ajudando a colocar a pilha de materiais no banco traseiro.
A amizade das duas já estava se tornado longínqua. Houve uma empatia instantânea assim que Lea pisou naquela escola pela primeira vez, há pouco mais e um ano. Shanna, como orientadora estudantil, precisava de alguém que lhe entendesse e fosse sensível aos problemas dos alunos. era essa pessoa.
Em pouco tempo, a relação das duas ultrapassou os muros da escola e foram se tornando cada vez mais próximas. Tinham gostos muito parecidos e se perdiam por Boston todo final de semana. Já havia virado rotina. Todo sábado Lea estacionava em frente a sua casa, pegava a amiga e as duas saiam sem rumo por aquela cidade.
Para , Shanna foi uma das peças principais para seu recomeço. Ela não tinha coragem de contar pelo o que passou e decidiu guardar todas as histórias no passado. A amiga tinha um complexo de curiosidade muito grande, mas a única coisa que sabia de Lea, era que ela tinha família em Concord, não tendo nem ideia de presença de George, Billy e de todas as fazendas em Carlisle.
O primeiro ano havia sido muito difícil. Estava de luto pela perda da única pessoa que amou. Henry surgia em sua mente todas as noites, mas sua imagem era tóxica, pois era acompanhada da figura de James. Em seu apartamento, sozinha, ela relembrava todo o terror que passou e, mesmo que tentasse, as lembranças eram muito fortes.
Felizmente, o tempo a curava aos poucos e os choros noturnos passaram a acontecer com menos frequência.
Shanna estranhava a falta de interesse da amiga em se relacionar com alguém. Entretanto, há pouco mais de um mês, Lea havia saído com Noah, um dos professores de educação física da escola. Por mais que não quisesse continuar, foi a primeira vez que teve contato com alguém depois de Henry.
Seu apartamento não tinha muita coisa quando se mudou, mas, assim como a vida, cada espaço estava sendo preenchido pelo tempo e cada ferida ia cicatrizando, mesmo que de forma demorada.
_ Você trouxe suas roupas ou vamos nos arrumar no seu apartamento? - Shanna perguntou durante o trajeto.
_ Para que?
A amiga revirou os olhos.
_ Você se esqueceu da minha festa de aniversário na casa da minha mãe?
Lea se afundou sobre o assento do carro. Havia esquecido completamente.
_ Na minha casa. - olhou brevemente o celular. - Não precisamos nos desesperar, é menos de uma hora até Sudbury.
Shanna afirmou, trocando a música ambiente.
_ Estou tão animada! - ela bateu com os dedos no volante ao ritmo da música. - Você vai conhecer o Graham, ele é um gato e espero que hoje tome alguma iniciativa.
gargalhou. Shanna falava daquela paixão o tempo todo.
_ Ah, e o meu irmão também.
Lea olhou para fora, bufando ao perceber que haviam pegado engarrafamento.
_ Mas eu já conheço o Scott.
_ Não estou falando do Scott. - ela começou a buzinar que nem uma doida. - Você ainda não conheceu o Chris.
Claro! O astro de Hollywood.
soube do parentesco de Shanna com o ator na primeira semana de trabalho e não pela boca da amiga. Algumas pessoas, mulheres em especial, adoravam usar esse fato para se aproximar. A mais nova dos Evans contou que já estava acostumada, pois lidava com essa situação desde que o irmão estourou com Quarteto Fantástico.
Lea, por sua vez, tinha que confessar... Ela nem sabia o que era Marvel até um ano antes. Não tinha uma vida onde estava livre para assistir e se entreter com o que quisesse e passou a ver os filmes do irmão da amiga só depois de saber que eles eram da mesmo família. Por mais que amasse, não se surpreendia ao saber que iria conhecê-lo. Em sua vida, aprendeu não esperar muito de ninguém, mas soube valorizar os poucos que não lhe feriram. v era extremamente seletiva perante as pessoas e não era o status de fama que faria com que isso mudasse.

[***]

Chris Evans era o nome mais chamado dentro daquela casa. Afinal, Lisa estava inconformada com o atraso do filho. Boa parte dos convidados e a própria aniversariante já haviam chegado, mas o ator estava enfiado no quarto, não saindo por nada.
_ Christopher, por favor! - sua mãe bateu a porta novamente, abrindo a mesma e encontrando o filho de cueca sobre a cama. Ele dormia de barriga para cima e com a boca aberta. Aquela visão fez a mulher berrar. - Você ainda não se arrumou?
O homem acordou no susto, buscando a roupa que estava sobre a cadeira de imediato, nem olhando para a figura furiosa de sua mãe.
_ Eu estou cansado! - falou enquanto vestia a roupa. - As gravações estão intensas.
Ela estalou a língua, sentindo pena do filho.
_ Eu sei, eu sei. - foi até ele, desamassando a camisa e entregando para ele depois que o viu terminar de vestir a calça. - Mas é o primeiro aniversário da sua irmã depois que se mudou para Boston. Ela sente falta de ver sempre a família, principalmente você.
Evans suspirou, jogando o cabelo tingido de loiro para trás. Viver o Capitão América era incrível, mas ele não via a hora de voltar para sua cor de cabelo original.
_ Eu também sinto falta dela. - ele se virou, arrumando a manga sobre o braço. - De todos vocês.
Lisa sorriu, segurando o rosto do filho. Todavia, sua expressão de ternura não demorou a ir embora.
_ Então desça logo!
Chris riu ao ver a mãe sair do quarto com a expressão mandona que ele tanto conhecia.
Ele nem se importou em olhar no espelho, apenas bateu nos bolsos, procurando pelo celular. No mesmo instante, escutou o barulho de algo vibrando e seguiu o som, encontrando o aparelho camuflado pelas cobertas. O nome brilhando no visor fez com que sua fagulha de tranquilidade fosse embora.
Jennifer Smart, sua ex namorada, era responsável por boa parte de suas dores de cabeça nos últimos tempos. Ela era realmente uma pessoa incrível e linda, mas mudou rapidamente depois que iniciaram o namoro. Chris já lidava com um peso muito grande depois de toda a fama e, por mais que tivesse fãs maravilhosos, era muito difícil lidar com toda exposição. Jennifer sofria muitos ataques e ele se sentia culpado por isso. Entretanto, ela o fazia se sentir pior. A mulher sempre estava disposta a jogar na sua cara as situações que passava por conta daquele relacionamento e Evans percebeu que o namoro estava desandando quando ela começou a querer se meter em sua carreira como forma de pagamento por aquilo. Em menos de um mês, Smart reclamava desenfreadamente da falta de interesse de Chris em divulgar fotos nas redes sociais, coisa que ele sempre foi muito privado em fazer. Além disso, ele era uma pessoa bastante independente e não precisava de alguém monitorando seus passos vinte e quatro horas por dia.
Um bom exemplo disso eram as frenéticas ligações que ocorriam todos os dias, mesmo duas semanas após o término.
Ele gostava dela e sabia ver sua beleza nos mínimos detalhes, mas era maduro o suficiente para sair daquela situação antes que as coisas piorassem.
_ Tio? - Stella, sua sobrinha, abriu a porta.
_ Oi, princesa.
Ele recusou a ligação, indo até a menina e a pegando no colo.
_ Vovó disse que vai te deserdar da família se você não descer em menos de cinco minutos.

-

Chris desceu as escadas com Stella nos ombros, recebendo um olhar de alívio de sua mãe. A casa estava relativamente vazia, pois Shanna havia convidado apenas a família e alguns amigos. Conhecia todas as pessoas do recinto, exceto por uma que, naquele momento, se encontrava de costas.
Ele começou a caminhar em direção a irmã que estava ao lado da mulher, mas se esqueceu da sobrinha em seus ombros.
_ Tio, eu quero descer. - Stella apontou para o chão, chamando a atenção de Chris.
Ele colocou a menina sobre os próprios pés, e, quando pensou que iria falar com Shanna, seus tios se colocaram no campo de visão, o cumprimentando. Seus avós também não perderam a oportunidade e ele precisou ouvir uma surra de comentários sobre como os filmes estava lhe deixando com a cintura fina e os braços a ponto de explodir.
Quando deu por si, havia abraçado quase todas as pessoas do recinto, menos aquela pela qual ele procurava.
_ Se esqueceu que tem irmã, Christopher? - Shanna surgiu ao seu lado, falando alto.
Ele jogou os braços sobre ela, gargalhando.
_ Não, a Carly está bem ali. - falou, sentindo um beliscão em suas costas, fazendo-o rir ainda mais.
_ Idiota. - ela também sorria.
_ Feliz aniversário. - beijou sua bochecha, tendo que se abaixar devido ao tamanho.
_ Muito obrigada. - ela segurou sua mão, o guiando em direção a mulher misteriosa. - Vem, quero que conheça a .
... Ele já havia ouvido falar sobre ela. Era a amiga Shanna conheceu algum tempo depois de se mudar. Lisa também falava muito bem sobre ela e Chris já ouviu diversas histórias envolvendo a mulher e suas visitas a Sudbury, as quais sempre aconteceram quando ele não estava.
Ela conversava com Carly, Scott e Zach, seu cunhado, e ria animadamente de algo que seu irmão tagarelava.
Shanna tocou nos ombros da amiga, fazendo-a virar - finalmente - de frente. E, naquele momento, o coração de Chris parou de bater por alguns segundos, voltando aceleradamente depois.
Ela era linda!
_ Lea, esse é o Chris. - Shanna indicou. - Meu irmão que eu queria que você conhecesse.
sorriu, mostrando para Evans que o que ele mais havia gostado até então era o sorriso. Ele se sentia débil, afinal, era um adulto que havia conhecido vários tipos de beleza. Nunca se imaginou derretendo por uma como naquele momento.
_ É um prazer, sou . - ela estendeu a mão, mas ele demorou para perceber que devia pegar.
Shanna seu um tapa e suas costas, fazendo-o acordar.
_ Claro! - ele segurou a mão da mulher. - Shanna fala muito de você.
_ Sério? - olhou para os dois. - Espero que bem.
_ Muito bem.
Ela continuou sorrindo, começando a se sentir um tanto constrangida.
Sabia que Chris era bonito, mas pessoalmente... Ele se superava.
Pensou que não se sentiria tão animada na presença de alguém famoso, mas não podia distinguir o motivo de sua excitação naquele momento. Ela o enxergava como uma pessoa qualquer, mas não podia negar que era ele quem estava fazendo suas bochechas corarem.
Shanna se virou para o irmão.
_ E então, você vai ficar para o Natal?
Chris olhou para Lea antes de responder.
_ Na verdade, volto para gravar por duas semanas e depois venho para o Natal.
Só faltou Shanna dar pulinhos de alegria.
_ Perfeito! - ela segurou no braço de Chris. - Lea vai passar as festas de fim de ano conosco.
Uma expressão de surpresa e ansiedade foi estampada no rosto do homem e ele não conseguiu esconder.
_ Sério?
_ É... - ela riu nervosa. - Só tenho uma irmã em Concord e ela está na Espanha terminando uma graduação. Foi muito gentil o convite de sua mãe.
Chris estava prestes a dizer o quanto seria uma honra recebê-la quando Scott entrou na conversa, passando o braço sobre o ombro de Lea e sorrindo para o irmão.
_ Vejo que já conheceu nossa . - disse, fazendo-a revirar os olhos e gargalhar.
_ Conheci Scott num passeio de professores lá da escola, acredita? - falou para Chris, arrancando o semblante duvidoso.
_ O que você estava fazendo lá? - perguntou para irmão - Você nem é professor.
Scott, Shanna e Lea se entreolharam, gargalhando.
_ Tantos anos de convivência e você ainda duvida da minha capacidade, Christopher?

-

sorria enquanto organizava uma brincadeira de detetive e ladrão entre as crianças. Carly e Zach a ajudavam enquanto Shanna, que passou a maior parte da noite conversando com Graham, estava no jardim na companhia do homem. Provavelmente investindo ainda mais no cara.
Chris e Scott ajudavam Lisa com a louça. O mais velho, por sua vez, tinha sua atenção presa na mulher.
Ele não conhecia nada sobre ela, mas Lea conseguiu o cativar sem nenhum esforço. Ela tinha uma postura controlada e parecia saber dosar muito bem seus sentimento perante as outras pessoas. Era misteriosa demais, mesmo respondendo tudo que lhe perguntavam. Entretanto, mesmo com toda uma parede de bloqueio, ela era muito atraente. E não só pela beleza física. Chris não conseguia explicar, mas desde o momento que pregou os olhos nela, teve o interesse de conhecê-la mais a fundo, de explorar cada detalhe. Era um sentimento que não sentia há tanto tempo, que chegava a ser novo. Não se tratava de paixão a primeira vista, longe disso. Mas tinha que assumir que estava extremamente curioso para saber mais de .
_ Para com isso! - Lisa surgiu ao seu lado, deixando mais um prato molhado para ele secar. - A menina vai se assustar.
Scott riu.
_ Ele está olhando para ela assim desde que Shanna os apresentou.
Chris ignorou as brincadeiras.
_ Soube que ela vai passar o Natal conosco.
Lisa concordou.
_ é muito querida, não podia que ficasse sozinha em uma data tão especial.
Scott secou as mãos, indo para perto dos dois.
_ Animado para vê-la novamente? - perguntou em um tom provocativo, fazendo a mãe rir.
_ Cara, eu a conheci hoje... - voltou a secar a louça, ignorando os olhares dos dois. - As coisas não são assim.
Lisa e Scott se entreolharam.
_ Não? - a mulher perguntou. - Então a baba escorrendo da sua boca é o que?
Ele revirou os olhos.
_ Nada.
Christopher não gostava de especulações sobre sua vida, mesmo estando propício a elas todos os dias. Sempre foi um homem com um fraco por mulheres, mas se decepcionou muito na vida, se tornando bastante cuidadoso. Por isso, toda aquela atração por estava longe de ser levada ao âmbito amoroso.
_ Estou apenas curioso. - afirmou, encarando ela mais uma vez. - Só isso.


Capítulo 03

Depois de horas longe da amiga, Shanna chegou ao quarto contando a grande novidade: Graham, finalmente, havia lhe pedido em namoro. As duas comemoraram, pularam, gritaram e dançaram o começo da madrugada inteira, mas não demorou para que Shanna desabasse sobre a cama, dormindo profundamente.
, por sua vez, se remexia ao lado da amiga. Tentava dormir a todo custo, mas acabou desistindo quando percebeu que seu corpo não estava preparando para aquilo.
Enrolada no roupão e sentada no batente da janela, segurava o bolo de cartas que sempre levava consigo.
Aquela era uma daquelas noites... Bem difíceis. Eram raros aqueles momentos, mas ainda aconteciam. Ora se lembrava de James, ora de Henry. Naquela madrugada, em especial, seu coração fervilhava de saudade e, ao mesmo tempo, de dor. As cartas em suas mãos eram destinadas ao nome fictício que adotaram para que seu falecido marido não descobrisse o romance. Henry os escolheu. Ele possuía o grande sonho de ser filólogo e tinha Tolkien como maior fonte de inspiração. Além de ser apaixonado por toda a mitologia que o escritor havia criado, passou anos na França tentando desenvolver os feitos de seu maior ídolo. Henry acreditava no poder das palavras, mas tinha a ambição de formar novas. Entretendo, a volta para Carlisle simbolizava seu fracasso. Não conseguiu atingir seu objetivo e voltou para a cidade Natal para servir de funcionário para o próprio irmão. Estava sem dinheiro, sem inspiração e envolvido com a esposa da sua única fonte de renda.
pegou uma delas, reconhecendo a data. No nome do remetente, estava escrito Aragorn:

Querida Arwen, você estava linda essa noite. Minha vontade era de tê-la em meus braços, fazendo-a se sentir exuberante, como realmente é. Minha atenção estava em ti, afinal, meu coração já está contigo. Tenha paciência, a quarta-feira sempre chega e é o momento em que posso colocar em prática tudo que lhe digo.
Porém, dessa vez, venho dizer que a carta da universidade chegou nessa manhã. Me solicitaram novamente em Paris, mas não se chateie, eu recusei. Meus estudos podem ficar para depois, no momento em que você e eu estaremos longe desse lugar.Tenha paciência e me espere, pois eu sempre irei te encontrar.


Seu corpo tremeu e um soluço de choro tentou sair por sua boca, mas ela fez o possível para não deixar. Não queria acordar Shanna, nem mesmo o resto da casa quando seus lágrimas incontroláveis surgissem naquele ambiente.
Ela odiava aquela entonação romântica, pois nunca fora desse tipo antes de conhecê-lo, odiava a situação pela qual aquelas cartas foram enviadas, odiava a forma como ele nunca conseguiu tirá-la daquele inferno... Entretanto, mesmo assim, ainda o amava.
Era isso... Em todo aquele tempo livre daquela tormenta, conseguiu pensar muito sobre sua relação com Henry e, em muitos momentos, o chamava de covarde. Sabia que não devia pensar daquele jeito, mas precisava culpar e retirar todo aquele peso que carregava. Porém, ele nunca foi embora. Continuava se questionando o porquê de Henry nunca ter confrontado James, mas logo se lembrava do motivo dela não ter feito o mesmo. Enfrenta-lo só resultaria em uma morte mais precoce.
Ela respirou fundo, odiando a si mesma por se torturar com aquelas lembranças, precisava dormir e faria de tudo para focar naquilo. Guardou as cartas em sua bolsa, saindo do quarto em silêncio.
Tomou todo o cuidado do mundo ao descer as escadas, caminhando na pontinha do pé. A casa estava escura, mas, para sua sorte, as grandes janelas eram o suficiente para lhe mostrar o caminho.
Esbarrou em uma das banquetas da cozinha, xingando baixo.
O local era o mais difícil de se situar, mas foi inevitável não tomar um susto quando uma figura se mexeu próxima a janela, vindo em sua direção.
Seu coração quase pulou pela boca quando um grito involuntário saiu, mas voltou ao estado normal quando Chris Evans foi iluminando pela luz de fora.
_ Me desculpe! - se adiantou até , vendo-a pôr as mãos sobre o peito para se recuperar do choque.
_Meu Deus, você parecia uma assombração. - falou e Chris gargalhou.
_ Não quis te assustar.
Ela balançou a cabeça em afirmação, analisando-o e constatando que ele não estava ali com o intuito de lhe dar aquele susto.
Chris vestia uma bermuda folgada e uma regata leve, deixando algumas de suas tatuagens a mostra. Ela perdeu os olhos em uma por um tempo, tentando desvendá-las sob o tecido, mas cortou o contato, não querendo parecer indelicada. Além disso, o homem também segurava uma caneca que, devido a fumaça, constatou ser algum líquido quente.
_ Também com dificuldades para dormir? - ele perguntou, vendo-a caminhar até a pia para encher um copo d'água. assentiu. - Qual o problema? Shanna ronca muito?
_ Não. - sorriu de forma sem graça. Não queria ter que explicar aquilo para ele. - Só uma insônia.
Ela não o encarava, tendo seus olhos fixos no copo. Chris pôs a caneca de chocolate quente sobre o balcão, pensando no que falaria ou faria a seguir, pois já havia percebido o quanto era de poucas palavras e tornaria aquela conversa um maçante monólogo.
Entretendo, ela se pronunciou, mostrando que não tinha a intenção de prejudicar aquele momento.
_ E você?
_ O que?
_ Por que está acordado?
_ Ah. - Chris comprimiu os lábios em uma linha fina, lamentando-se mentalmente por dizer aquilo. Ele balançou o celular brevemente, mostrando para ela. - Terminando um relacionamento... Pela terceira vez.
arregalou os olhos por alguns segundos, não esperando ser colocada diante de uma situação tão complicada.
_ Eu sinto muito.
_ Não sinta. - ele riu. - É a terceira que eu tenho que explicar que terminamos. Ela é... Complicada.
A mulher balançou a cabeça novamente, mostrando que entendia. Mas, na verdade, não fazia ideia do que o homem estava falando. Por mais estranho que aquele pensamento soasse, ela se sentiu mais confortável ao saber que ele não estava sofrendo.
_ Mesmo assim, é uma pena que não tenha dado certo.
Ele voltou a bebericar seu chocolate, vendo-a tirar uma cartela de comprimidos do bolso do roupão.
_ "That's life". - disse, surpreendo-se ao escuta-la rir. - O que foi?
_ Não me faça querer cantar Frank Sinatra. - ela brincava com o comprimido entre os dedos, como se pensasse se realmente era o certo tomá-lo.
se virou, mas Chris não conseguiu encará-la nos olhos. Tentou ler o que estava escrito na cartela, mas a falta de luz prejudicava.
_ Então você conhece?
_ É um clássico. - ela cortou o contato visual novamente, olhando para o comprimido e depois para o copo d'água.
Chris estava muito curioso quanto aquilo e pareceu sentir a apreensão de ao estar diante daquele dilema.
_ É para dormir?
_ O que? - ela ergueu os olhos para ele novamente.
_ O remédio.
_ Ah! É sim. - ela estalou a língua, largando-o sobre a pia. - Às vezes tenho essa... Falta de sono. Ele me ajuda, mas me deixa baqueada por dias.
Ele se aproximou, fazendo-a estranhar. Pegou o copo de água e jogou o conteúdo pelo ralo da pia. Ela se afastou, encostando-se no outro balcão.
_ Vou fazer um chocolate quente para você, é infalível. - informou sem encará-la.
Ela voltou até onde ele estava, se ponto ao seu lado.
_ Eu posso fazer.
Chris parou, olhando para ela e sorrindo. Encarou toda a cozinha e perguntou:
_ Certo. Onde fica o chocolate?
abriu a boca, pronta para responder, mas parou antes mesmo de emitir algum som. Ela uniu as sobrancelhas, olhando para aquela imensa cozinha com uma quantidade de armários e gavetas imensurável.
_ Eu não sei. - disse, já rindo.
Chris a acompanhou, caminhando até um dos armário e tirando o pote. Ele indicou a banqueta, pedindo a que se sentasse.
Por mais que estivesse com vergonha, aceitou, observando-o enquanto preparava o que havia falado. Sem nem mesmo perceber, sua cabeça se esfriou e ela começou a esquecer o sentimento ruim que lhe acompanhava minutos antes. Estava mais leve e, mesmo com turbilhão de pensamentos em sua mente, seu corpo estava tranquilo e transformou aquela situação em fácil, deixando-a cada vez mais confortável ao lado de Chris.
Ele permaneceu em silêncio enquanto esquentava o leite e ela também.
Quando percebeu que ele estava prestes a terminar, pegou a caneca vazia sobre o balcão e foi até a pia, lavando-a e mostrando que não gostava de ser mimada. Era muito gentil de sua parte, mas ela também queria fazer algo. Entregou o objetivo a Chris, recebendo um olhar curioso. Ele encheu-a e lhe devolveu, observando a mulher voltar a de sentar sobre a banqueta.
Por alguns segundos, enquanto não o encarava, ele olhou para a cozinha e depois para a saída, pensando no que faria naquele momento. Deixá-la sozinha não lhe pareceu uma boa ideia.
_ E então... Está animada para o Natal?
assoprou o líquido, vendo a fumaça erguer-se de frente ao seu rosto.
_ Muito. - respondeu. - Vai ser divertido.
Chris afirmou, colocando os cotovelos sobre a bancada de frente para ela. Queria continuar no mesmo assunto, mas não conseguia pensar em nada.
_ Você é professora, né?
riu da mudança, mas, segundos depois, começou a se sentir incomodava. Odiava aquela surra de perguntas e tinha medo de vacilar ao responde-las.
_ Sim.
_ E o que você leciona?
_ Inglês. - falou brevemente.
_ Legal.
Mais uma vez, Chris Evans estava sem saber o que falar.
_ Certo... - ele voltou a encarar as próprias mãos. - Hã... Acho que vou tentar dormir, então.
balançou a cabeça em afirmação, mostrando-se indiferente. Na verdade, entendia que ele devia estar cansado e não queria ser um fardo para ninguém. Porém, estava gostando de sua companhia, só não queria verbalizar essa conclusão.
Já havia conhecido os demais irmãos da amiga e tinha uma ótima relação com todos, Chris era o único novo e chegou a pensar em como seria aquela recíproca. Para sua sorte, ele era tão incrível quanto Carly e Scott.
_ Você vai ficar bem ai? - ele continuou.
_ Vou sim. - ela deu um sorriso de canto. - Pode ir.
Ele deu batidinhas sobre o mármore, ainda procurando o que fazer. Voltou a sorrir nervoso, mostrando que estava um tanto perdido.
_ Obrigada pelo chocolate quente.
_ Não foi nada. - começou a caminhar para fora. - Espero que faça efeito.
_ Já me sinto bem mais relaxada.
_ Ótimo. - disse, caminhando de uma vez.
Todavia, a voz de o deteve.
_ Ah, Chris?
_ Sim? - ele voltou a encará-la.
_ Essa é a vida, mas nem sempre ela deve ser ruim. - falou, refletindo sobre a música que ele havia citado anteriormente na conversa. - Somos nós quem definimos nossa felicidade, não podemos deixar que ninguém seja ditador sobre isso.
Ele abriu um sorrindo, sabendo o quanto aquelas palavras eram verídicas.
_ Boa noite, .
Ela também sorriu, mas, ao contrário de Chris, uma chama de certeza brilhava dentro de si. Aquela era a verdade que carregava para sua vida e nunca deixaria que alguém interferisse sobre ela novamente.
Mesmo dizendo, sabia que aquele era o consolo para seu próprio estado de espírito.
_ Boa noite, Chris.

[***]

O Natal parecia ser o feriado preferido dos moradores de Boston e nem toda aquela neve fazia com que as pessoas deixassem as ruas.
morava bem próxima do centro e tinha uma visão privilegiada do movimento de sua sacada. Ela se divertia ao ver as mães correndo atrás da crianças e as pessoas passando a todo vapor com as decorações do Natal.
Em seu apartamento, tudo parecia o caos, como nas ruas. As provas estavam sobre sua mesa, mas havia mais uma pilha para ser corrigida em seu quarto.
Ela voltou até o escritório, rindo do que havia visto lá em baixo. Ligou a TV, procurando um efeito sonoro de fundo para todo trabalho que teria naquela manhã de sábado.
Sem perceber, ouvia um canal de fofocas.
_ Chris Evans, nossos Capitão América, foi alvo de muitos elogios na noite de sexta-feira. - ela ergueu os olhos para o noticiário instantaneamente, vendo imagens do homem sendo cercado por pessoas. - O ator estava na companhia do amigo, Mark Kassen, pelas ruas de Nova Iorque quando foi abordado por um grupo de fãs. Chris não só tirou fotos e deu autógrafos como também tomou café com elas ao perceber o nervosismo de uma das meninas. As fãs alegam que Evans é um homem de outro mundo e extremamente fofo.
A apresentadora falou animada e o vídeo do homem conversando com as meninas surgiu. Nele, Chris acalmava uma das garotas, a abraçando e dizendo coisas reconfortantes. Ele era compreensível e escutava atentamente tudo que elas falavam. O vídeo se encerrou e a apresentadora voltou para a tela.
_ Fofo, não é mesmo? - ela falava com um sorriso animado no rosto. - Lindo e gentil. Chris Evans é realmente um sonho!
sorria abobada, achando maravilhosa toda a atitude do ator. Estranhamente, se sentiu em êxtase por conhecê-lo e começou a se comparar com aquelas meninas brevemente. Afinal, Chris realmente era um sonho de homem e ela tinha toda a autoridade para comparar.
Procurou o celular sob toda a papelada e fez o que toda pessoa desenformada adorava fazer, pesquisou o nome do ator no Google. Ali, de frente a todo trabalho e da vida de Chris exposta na internet, pôde conhecê-lo ainda mais.
Precisava assumir... Chris Evans era o tipo de cara que faz a pessoa se sentir bem, mesmo que de longe e totalmente alheio ao o que estava acontecendo. Diante de tudo isso, sentir-se mais animada para aquele Natal era muito fácil.


Capítulo 4

Boston - Massachusetts

, como sempre, andava pelos corredores da escola carregando uma pilha de livros. Alguns professores comentaram sobre o novo sistema que estava para ser implantado na instituição. Se tudo desse certo, os alunos teriam acesso ao acervo virtualmente e aquele era o seu maior pesadelo no momento. Teriam uma reunião para decidir aquele tópico em uma hora e ela havia passado a semana arquitetando argumentos bons para impedir.
Entrou na sala dos professores como um furacão e Shanna só não lhe chamou porque estava toda animada ao telefone com o novo namorado. gargalhou quando percebeu, mas não ligou.
Teve dificuldade para deixar os livros sobre a mesa e ligar o computador, mas - depois do esforço - tudo deu certo. Passou um tempo lançando algumas notas quando uma figura suada e atlética se pôs a sua frente. Ela olhou sob os óculos de descanso, encontrando o sorriso de Noah em sua direção.
Ele puxou uma cadeira, sentando-se ao lado dela e abaixando o rosto, querendo falar mais baixo.
- E ai, como você está?
- Bem e você? - ela olhou para os fios de cabelo colados em sua testa. - Além de suado, é claro.
Noah era bem atraente e isso, as vezes, lhe desestabilizava. Ainda mais por sempre encontrá-lo de regata e suado após as aulas de educação física. Ele era uma pessoa apaixonada pela profissão e, ao contrário do que todos os professores faziam, ele sempre entrava nas atividades com os alunos. Tinha uma pele bronzeada e bem californiana, o cabelo preto era baixo, mas um topete fazia com que alguns fios se sobressaíssem sobre os demais.
- Estou bem… Só queria te ver.
Ela estreitou as sobrancelhas ao perceber que aquele não era um flerte. Seu tom de voz estava triste.
Haviam ficado algumas vezes e isso ocasionou em um impulso naquela amizade. Todavia, tanto ele quanto ela não haviam mostrado interesse em levar aquilo a sério e, naquele momento, o temor por aquele assunto ser abordado já começou a dominar o corpo de .
- Aconteceu alguma coisa?
Ele sorriu. deduziu que algo lhe deixava feliz, mas era difícil de falar.
- Recebi uma boa proposta na Austrália, me mudo no próximo mês.
Talvez a dolorosa criação de não tenha feito com que ela desenvolvesse afeição tão naturalmente e, por isso, eram raros os casos onde ela realmente se sentia feliz por alguém. Naquele momento, entretanto, seu coração se encheu de alegria e ela o abraçou, mesmo sabendo que ele estava suado.
- Ai, meu Deus! - disse, sentindo os braços dele lhe envolver. - Estou tão feliz por você!
Quando se separaram, Noah sorriu para ela, satisfeito em receber uma reação positiva. Porém, aquilo resultaria no término de uma relação que mal havia começado e, por mais que não fosse se tornar namorado de , já eram bons amigos.
- Só vou sentir muito a sua falta. - sua expressão se entristeceu.
entendia o quanto aquilo era importante, mas não podia negar:
- Também vou sentir a sua.

Sudbury, Massachusetts.

24 de Dezembro. A neve já estava presa ao chão e Stella chorava por não poder brincar do lado de fora como os irmãos. Tinha apenas dois anos e Carly tentava lhe entreter com outras coisas, mas ela só queria saber de seguir Ethan e Milles para todos os cantos.
Enquanto isso, ajudava Lisa a preparar os enfeites, fazendo pequenas árvores de Natal com balas. Passaram a tarde inteira conversando e, em um pulo, a noite já começava a surgir.
Era estranho para estar naquela casa passando uma data tão especial com pessoas que não eram da sua família. Às vezes, era difícil compreender o motivo de nunca ter tido algo assim e já cogitou inúmeras vezes a opção de se reconciliar com George, mas era impossível se esquecer de tudo que ele a fez passar.
Lisa conversava com e fazia uma companhia maternal, sendo muito mais fácil se sentir à vontade na casa dos Evans. Ela não sabia o que era amor de mãe, mas tinha certeza que Lisa Evans se saia muito bem naquele papel.
Scott sentou-se seu lado, ajudando-a limpar as mãos sujas de manteiga. Olhou para a porta, mostrando escutar o barulho antes de todos. Lançou um olhar animado para as crianças, que entenderam o recado e correram para a entrada. Milles e Ethan acabaram sujando todo o carpete enquanto pulavam de animação ao ver Chris entrar em casa cheio de caixas e sacolas.
Scott e se entreolhamos, mas foi Carly quem verbalizou os pensamentos:
- O Papai Noel chegou! - debochou, vendo o irmão deixar algumas caixas no chão e pegar Milles e Stella no colo.
Ethan continuava pulando a sua volta, perguntando se já podia abrir o presente.
não o via desde o aniversário de Shanna e era engraçado encontrá-lo depois de ficar sabendo mais sobre sua vida. Às vezes, era proposital… Algumas pesquisas, um tempo gasto lendo as matérias nas revistas... Todavia, na maior parte do tempo, ela só prestava mais atenção. Chris estava em todo lugar, seu trabalho como Capitão América o beneficiará nisso.
Ela tinha uma insistente mania de se mostrar indiferente, mas, por dentro, começava a se sentir eufórica por finalmente perceber que estava ao lado de um astro de Hollywood.
Scott se levantou para cumprimentá-lo e, antes que Chris lançasse qualquer olhar em sua direção, ela cortou o contato, voltando a arrumar o que haviam preparado. Escutou conversas breves, deboches e uma risada alta e gostosa. Era dele e contagiante. Sentiu alguém se aproximar e logo formou-se uma sombra ao seu lado, tampando a luz que vinha da janela.
- Fiquei me perguntando se você não desistiria de passar o Natal ao lado dessa gente doida. - ouviu sua voz, mas ergueu os olhos na direção de Carly e Scott, que não se abateram com a provocação do irmão.
Sorriu, finalmente o encarando. E lá estava ele, Chris Evans e seu apaixonante sorriso.
- Talvez eu esteja precisando de um pouco de loucura. - Ela se levantou, quebrando o contato e olhando por alguns segundos ao chão.
Quando voltou a encará-lo, encontrou sua expressão lhe analisando e, por fim, um sorriso sapeca formou-se em seus lábios.
- Bom, posso te garantir que isso meus irmãos e eu podemos te dar. - ele gargalhou e se aproximou.
Pensou que só ela se comportaria timidamente, mas o abraço de Chris foi desajeitado, com mãos sem saber onde repousar e um contato por uma distância muito grande para ser um abraço. Mesmo assim, aconteceu.
Não respondeu, mas, quando voltou a me sentar, viu que Carly e Scott cochichavam.
A conversa terminou quando Shanna entrou na sala correndo e gritando ao ver o irmão.

[***]

estava empanzinada. Queria beber mais um pouco, mas a comida ainda gritava em seu estômago. Todos, sem exceção, estavam jogados pela sala com as mãos sobre a barriga e resmungando palavras inaudíveis aos ouvidos de qualquer um. Lisa foi a primeira a se retirar e ajudou Carly a colocar as crianças para dormir. Quando a irmã de Shanna retornou, começaram um mutirão para arrumar as coisas e o poder da cooperação fez com que a casa estivesse impecável rapidamente.
Era, de fato, muito divertido estar com eles, mas os pensamentos de , naquele momento, começavam a vagar ao longe. Natais como aquele eram raros em sua vida e, na realidade, era o primeiro que passava possuindo paz. Nunca foi fácil lidar com seu pai, principalmente em datas comemorativas e, muito precocemente, foi submetida a James e suas festas cheias de mentiras e que a forçava e mostrar a felicidade que não vivia. Era triste, mas, depois de tanto tempo, a única realidade que estava acostumada. Não conseguia possuir o mesmo espírito que os demais naquela sala, mesmo que estivesse se esforçando. Shanna falava a todo tempo o quanto amava o Natal e a amiga, mesmo tentando, não conseguia entender. Era difícil reconhecer que aquelas marcas estavam em todos os lugares e que a abatiam em praticamente tudo que fizesse.
Estava sentada em uma poltrona, escutando a conversa dos irmãos ao longe. Eles abriam os presentes, mas não de forma tradicional. Apenas desembrulhavam o que era para eles. A dedicatória mostrava quem havia presenteado e Carly ficou em êxtase quando viu a bolsa que lhe dera. Gritou aos quatro cantos que aquele era o melhor de todos, deixando seu marido sem graça.
sentiu o peso de ser observada e olhou para os demais, tendo uma pontada de excitação ao perceber que se tratava de Chris. Ele indicou o pé da árvore, perguntando silenciosamente se ela iria abrir os presentes. Balançou a cabeça em negação. Insistente, Evans se levantou, pegando uma caixa e levando até ela.
Sentiu uma pontada de vergonha, olhando para os demais, mas ninguém os encarava, entretidos demais com seus respectivos presentes.
- Eu não acredito que você não quer abrir meu presente. - mais uma vez, seu sorriso iluminou.
- É seu? - ela indicou a caixa, sentando-se melhor e dando lugar para ele na apertada poltrona.
- Você pensou que eu não te daria nada?
deu de ombros, pegando a caixa da mão dele e tentando ignorar o desapontamento em sua voz.
Antes de abrir, balançou de leve, com o intuito de adivinhar. Chris riu.
- É melhor você abrir de uma vez.
Ele finalmente se sentou, a imprensando contra o encosto de mão da poltrona. Colocou os cotovelos sobre os joelhos, olhando para ela enquanto, cautelosamente, abria a caixa. Uma risada saiu de sua boca quando percebeu o que era.
- Achocolatados para chocolate quente! - ela riu, pegando um deles.
A caixa era grande e continha pequenos potinhos com achocolatado. Cada um com quantidade para apenas uma caneca. Ela girou um deles em sua mão, percebendo que a diferença entre cada um era sua origem.
- Achei que diferenciar por países poderia te ajudar na hora de escolher qual tomar.
Ela não conseguia esconder o sorriso. Foi tão criativo e, ao mesmo tempo, de um zelo imenso. Ele se lembrar do que conversaram e fizeram após o aniversário de Shanna mostrava o quanto ele havia se importado e era muito bom ser agradada daquela forma.
- Eu amei! - foi a única coisa que conseguiu dizer enquanto ainda estudava todos os detalhes daquele presente.
- Para dias difíceis. - ele se recostou.
continuou sorrindo e desfrutando daquele presente, mas sua fala a despertou para outra coisa. Deixou a caixa sobre o colo de Chris, se levantando e indo até a árvore, tirou de lá um embrulho grande e pesado, tomando cuidado para não quebrar o vidro. Seu sorriso enorme a entregava e Evans já imaginava do que se tratava.
- Para dias difíceis. - repetiu, lembrando-se do que havia comprado para ele.
Chris desembrulhou, gargalhando ainda mais quando viu o grande pote de achocolatado a sua frente. Eles, praticamente, haviam comprado o mesmo presente.
não aguentou, caindo na gargalhada junto a ele.
Sem que percebessem, os demais notaram aquela felicidade gratuita dos dois, tentando entender o que estava acontecendo. Foi Scotty quem os fez perceber que estavam sendo estudados.
- Chocolate em pó? Desde quando isso é presente?
Chris e se entreolharam, rindo ainda mais.
A noite continuou a se seguir e, com o tempo, ficou mais fácil encher a cara, dando espaço para uma animação ainda maior. Eles continuavam conversando e falando sobre a vida, mas a família Evans transformava tudo em cômico.
Ninguém tomava a iniciativa de ir dormir, e o namorado de Shanna já cochilava no sofá. Jogaram cartas, conversaram, comeram e, no final, Carly levantou de fininho, puxando o marido pelo braço e finalmente fazendo aquele grupo se dispersar Era uma pena, mas estavam cansados demais para continuar.
- O que faremos no ano novo? - Zach, namorado de Scott, puxou o assunto.
- Vamos para Los Angeles, como havíamos combinado. - Shanna respondeu, procurando com os olhos cansados a amiga. - Você vai conosco, não é?
, que estava com a mente em algum lugar da galáxia, voltou-se para ela.
- Los Angeles? Por que?
Ela esperava que Shanna respondesse, mas a risada de Chris mostrou que ele poderia fazer aquilo.
- Tenho uma casa lá. - ele ergueu os lábios de forma charmosa. - Vai ser uma honra te receber.
Instantaneamente, ela também sorriu, sendo guiada pelo dele. Todavia, a lembrança de algo a fez desmanchar sua expressão.
- Eu adoraria, mas vou passar o ano novo com minha irmã.
Shanna estreitou as sobrancelhas.
- Hanna? Ela não está na Espanha?
- É, mas vai tentar vir para o Ano Novo.
A amiga não comprou a resposta e estava chateada por metade de seus planos terem se desfeito ao saber que não estaria ao seu lado na virada. Chris, por sua vez, balançou a cabeça em afirmação e disse um simples:
- Certo. É uma pena.
O que ninguém percebeu era que aquilo escondia uma pequena chama de desapontamento.
foi dormir logo em seguida, lembrando mentalmente de não fazer barulho, pois as crianças e Lisa já dormiam no andar de cima. Se despediu de todos, corando ao ouvir um “Boa noite, ” vindo de Chris Evans. Tentou esconder sua vergonha, mas se sentia patética ao pensar que não havia conseguido.
Trocou de roupa, escovou os dentes e deitou. Estava muito cansada e, mesmo que quisesse pensar em várias coisas antes de apagar, olhos incrivelmente azuis e lindos foram a última coisa que vislumbrou antes de adormecer.

-

Era por volta de três horas da manhã quando Chris olhou o relógio pela última vez. Encarando o teto e tentando fazer com que sua mente parasse de girar, ele pensava em sua vida e no quanto aquela surra de compromisso estavam acabando com seu psicológico. Estava ali, com sua família, mas já se preocupava com as inúmeras reuniões, gravações e entrevista que teria que comparecer em menos de uma semana. Viver Steve Rogers era, de longe, o maior papel de sua carreira, mas também o mais trabalhoso. Estava ficando cada vez mais difícil manter a cabeça no lugar, digerindo o jogo de interesses e sabendo diferenciar quem queria o seu bem ou não. Era desgastante pensar na invasão de privacidade e de como tudo crescia de forma desordenada. Estava feliz, mas - por dentro - extremamente confuso.
Esse jogo de coisas o faziam perder o sono e, naquela noite, não foi diferente.
Gostava de ver a neve caindo sobre sua janela e perdeu sua atenção ali por muito tempo. Entretanto, um barulho ecoou. Vinha do corredor e era perceptível que se tratavam de passos. Estranhou ao perceber que estavam apressados e foi inevitável não se levantar para saber do que se tratava.
Viu descendo as escadas e seu coração se aliviou. Todavia, a mulher parecia desesperada e, quando foi até a ponta da escada, escutou a porta da cozinha sendo destrancada. Ela estava saindo no meio de uma nevasca apenas de pijama. O vento frio o circundou, mostrando que a porta havia ficado escancarada. Chris correu até o cabide, colocando um casaco e pegando um extra antes de ir atrás dela.
não corria, mas andava apressada pela neve. Chris a seguiu, puxando o capuz ao sentir o frio. Ela tropeçou, mas logo se estabilizou e voltou a caminhar, deixando o chinelo para trás. Ele pegou o objeto, sabendo que, se não agisse, a mulher teria uma hipotermia.
Correu, tendo dificuldade de alcança-la devido a neve.
- ? - chamou, não obtendo resposta.
Continuou, percebendo que ela não estava em seu estado normal. Nos limites da propriedade havia um pequeno bosque, se circundava o local. Ela adentrou as árvores e Chris gritou outra vez, sabendo que se ela continuasse, haveria uma queda de alguns metros mais à frente.
- Não! - a alcançou, segurando seus braços e os sentindo gelados.
Os dentes dela tremiam, assim como todo seu corpo.
- Me solta! - falou com dificuldade, começando a se debater contra ele.
- , o que você está fazendo? - ele insistiu, finalmente conseguindo ver seu rosto com nitidez.
Ela não estava acordava.
- Não, por favor, não. - ela continuava brigando e Chris uniu seu corpo ao dele, abraçando com força e imobilizando-a. Escutou sussurrar. - Henry.
- Não. - ele continuou. - Sou eu, Chris. Olha para mim, acorda!
Falava calmamente, balançando seu corpo como se o ninasse. Os olhos dela, de repente, se arregalaram e seu corpo despencou, sendo sustentado por Chris. Ele imediatamente a envolveu com o casaco pegando-a no colo e voltando para dentro de casa.
tentava entender o que estava acontecendo, mas sentia muito frio e só queria encontrar um ambiente mais quente. O cheiro amadeirado de Chris a acalmou, sentindo-o se misturar com o das árvores a sua volta. Logo uma onda de calor a atingiu e uma luz forte se pôs a sua frente. Estava sentada na sala dos Evans e de frente a confortável lareira. Ele tirou o casaco de ambos, esquentando as mãos próximas ao fogo e passando nos braços de , ajudando-a a se aquecer.
- Você consegue se esquentar enquanto eu faço algo quente para você beber?
Ela se aproximou do fogo, balançando a cabeça em concordância. Era como se não soubesse falar.
Ele assentiu, indo até a cozinha. Voltou minutos depois, lhe entregando uma caneca com leite quente. bebeu, sentindo-se bem melhor. Fungou, percebendo que, em algum momento daquela confusão, havia chorado. Mãos carinhosas acariciavam suas costas enquanto ambos apenas olhavam o fogo crepitando a frente.
- Eu não sabia que você era sonâmbula. - ele disse e sua voz quase rouca pelo tempo sem falar foi como música que completava aquele ambiente tranquilo.
Ela riu, tentando formular o que responder. Tentou dizer algo engraçado, mas a dor logo tomou conta de si.
- Aconteceu algumas… Vezes.
Ele assentiu e continuou observando-a terminar de beber, estava assustado pelo o que havia acontecido e, só de imaginar a tragédia, culpou-se. Isso tornava o alívio por tê-la ajudado ainda mais reconfortante.
deu o último gole, colando a caneca sobre o carpete. Ela sentia vergonha agora que seus pensamentos estavam mais ordenados e tudo o que queria era que Chris não tivesse visto aquilo.
- Me desculpa.
Ele estreitou as sobrancelhas, procurando seu rosto. Ela não o encarava.
- E você está se desculpando por quê…?
estalou a língua.
- Por ter feito você passar por isso.
Ele teve o instinto de rir por vê-la se desculpando por algo irrelevante, mas é claro que sabia o quanto ela poderia estar desconfortável com a situação.
- Pois eu estou feliz por ter te ajudado. - ele disse de forma verdadeira. - Mais vale dois fora da cama do que um sonâmbulo desaparecido vagando por Sudbury.
Ela não queria, mas acabou sorrindo. Encarando-o pela primeira vez.
O olhar de Chris em sua direção mostrava o quanto suas palavras eram refletidas em suas expressões. Era reconfortante estar ao seu lado e, mesmo que não se lembrasse do que estava sonhando, talvez passar por aquele tormento, afinal, não tenha resultado em algo tão ruim.
- Que tal voltar para a cama agora?
Ele perguntou e sua expressão se desfez no mesmo momento.
sabia que não voltaria a dormir depois daquilo e não queria que fosse vencida pelo cansaço novamente e que, quais quer que fosse a lembrança maldosa que seus sonhos relembravam, não queria tê-las em sua mente novamente.
- Pode ir. - falou baixo. - Acho que vou ficar aqui mais um pouco.
Chris a estudou, tentando desvendar o que se passava pela sua cabeça.
- Tudo bem, nós podemos ficar aqui. - ele se levantou. - Vou pegar algumas cobertas.
- Chris, não! - disse, fazendo-o parar no primeiro degrau da escada. - Eu agradeço por ter me ajudado, mas não precisa ficar aqui comigo.
Ele a encarou, mostrando que havia pensado no assunto.
- Tudo bem. - deu de ombros, continuando seu caminho até o segundo andar.
respirou aliviada, escutando a porta do quarto se fechar e acreditando que Chris tinha lhe dado o espaço que pediu.
Era mais do que lisonjeador tê-lo ao seu lado, protegendo-a de forma tão carinhosa. Mas não podia trazer mais um peso para suas costas e precisava ficar sozinha com suas próprias turbulências.
Escutou algo ser jogado contra o sofá e, quando olhou para trás, viu Chris enrolado em um grosso cobertor.
- Vem. - ele indicou o pano. - Esse e o sofá são seus.
Ela revirou os olhos.
- Eu disse que não precisava!
- E eu só disse “ta bom”. - sorriu de forma divertida. - Vem logo para esse sofá!
Ela pensou em continuar batendo boca, mas era tarde demais para isso. Chris se mostrava bastante teimoso e não era o momento certo para expressar essa peculiaridade a qual compartilhavam.
se jogou no sofá e Chris a ajudou com o cobertor. Lançou um olhar de repreensão, mostrando que podia fazer sozinha. Ele simplesmente jogou as mãos para o ar, sentando-se no chão e repousando a cabeça no sofá onde ela estava sentada.
- Se vamos continuar aqui, é melhor encontrarmos um assunto. - ele falou enquanto olhava para a lareira.
- Não sei o que falar. - o cobertor abafava a voz dela.
Chris sorriu, se divertindo ao ver sua teimosia que mascarava uma óbvia vergonha. Estava longe de querer fazer com que se sentisse desconfortável, mas a ideia de acanhada por sua presença era como uma honra. Não podia ditar suas características, pois a conhecia muito mal, mas a visão de uma mulher durona era a primeira coisa que ela transparecia. Ser capaz de despertar sentimentos nela era, no mínimo, emocionante.
- Não seja por isso. - ele sorriu ainda mais. - Eu sei.
Ele não a encarava, mas pode jurar que ela revirava os olhos. Escutou-a se remexer sob o cobertor e sentiu os olhos dela sobre si, sabendo que tinha sua atenção.
- Tudo bem. - ela disse, por fim. - Sobre o que você quer falar?
Ele se virou para ela, vendo-a embrulhada pelas cobertas. Sorriu ao vê-la de forma tão frágil. Por mais que tivesse praticamente a salvado, nunca conseguiria enxergá-la como fraca e cenas como aquela o faziam pensar em como as aparências eram capazes de enganar. Por algum motivo, sabia que era extremamente mais forte do que transparecia.
- Sobre você, é claro. - sorriu, charmoso. - Por que não começamos com o motivo de você ter escolhido pedagogia?

[***]

Lisa acordou revigorada. O dia anterior havia sido tão exaustivo que dormir foi seu maior mimo naquela noite.
Precisava ajeitar as coisas do almoço de Natal e sabia que seus filhos não seriam de grande valia, já que tinham o costuma de ficar acordados até tarde quando se reuniam. Carly era a única já acordada, mas Stella era muito pequena e demandava do seu tempo.
Desceu as escadas devagar para não acordar ninguém, mas foi inevitável não se apressar quando viu algo se mexendo em seu sofá. A imagem que se seguiu fez um sorriso enorme surgir em seu rosto.
estava sobre o sofá dormindo com o grosso edredom que Chris tanto gostava. No chão, bem ao lado, estava seu filho. Ele dormia com o braço sobre os olhos, puxando a coberta para o rosto. A outra mão, entretanto, estava jogada sobre o sofá, faltando poucos centímetros para tocar a de .
Um suspiro de felicidade escapou de seus lábios e suas suspeitas se concretizaram naquele momento. Desde que o viu encarando a mulher, gostou de possibilidade de tê-la como nora. Aquele era o melhor presente de Natal que poderiam lhe dar.
Porém, o barulho fez com que se mexesse, acordando aos poucos. Lisa teve tempo de ir até a cozinha e encenar uma indiferença.
demorou para focalizar, percebendo que o dia estava muito claro e as finas cortinas não davam conta de bloquear a luz.
Depois de tanto conversarem, ela finalmente foi vencida pelo sono e, ao julgar pelo homem dormindo sobre o carpete, ele também. Chris e ela falaram sobre tudo... Menos os detalhes mais tristes da vida da mulher. Sempre que ele perguntava algo sobre sua infância, ela desconversava e fazia o possível para não despejar nenhuma mentira. Por isso, focou o assunto em coisas mais atuais.
Foi curioso se divertir tanto depois de uma tribulação. Geralmente, ficava sozinha quando estava triste e, aos poucos, descobria que a presença de alguém querido poderia melhorar as coisas muito mais rápido. Chris fazia bem esse papel.
Percebeu que alguém já havia acordado e bateu de leve em Chris, não querendo que a casa toda assistisse aquela cena.
Os olhos dele foram abrindo os poucos e, quando finalmente a encararam, quase perdeu o fôlego. Ela podia não se lembrar, mas seu subconsciente já havia gravado muito bem aquela imagem. Ele sorriu, se espreguiçando e cortando o contato. Mesmo assim, ela ainda os via, como na noite anterior antes de adormecer. Aqueles olhos azuis eram a nova paisagem sempre presente em sua mente.
Estava cada vez mais difícil não se encantar por ele.


Capítulo 5

Boston, Massachusetts.

O apartamento de nunca pareceu tão grande quanto naquele dia.
A diarista havia sido dispensada por conta das festas de final de ano e se recusou receber Hanna em uma casa tão bagunçada. Ela havia limpado tudo e organizado cada detalhe para aquele final de ano mais do que esperado.
Jogou-se no sofá, descansando depois de tanto esforço. Rick e Morty passava na TV e foi inevitável não se lembrar de Chris falando que gostava. Ele pensava nele com mais frequência e aquilo a incomodava. Tinha certeza que estava deslumbrada somente por ele ser famoso, mas - na maioria das vezes - só se lembrava do quanto havia gostado do jeito dele. Chris era charmoso, um verdadeiro cavalheiro e a tratava tão bem que era inevitável não pensar em como homens como ele estavam em extinção. Ela era a prova viva de como a convivência com um homem pode ser traumatizante. não tinha bons exemplos masculinos e se deparar com Chris Evans era quase como estar em um conto de fadas. Porém, ela sabia que precisava voltar para a realidade e concluir que, com seu histórico, ela era praticamente uma vilã, não a mocinha.
Seu telefone tocou e seu humor foi de bom para ótimo ao ver o nome de Hanna na tela.
- Oi, feiosa. Pensei que já estivesse no avião.
Ouviu um suspiro do outro lado da linha.
- Irmã, eu... Não embarquei.
fechou os olhos, já sentindo a decepção.
- O que foi dessa vez?
- Me desculpa, por favor. - ela fez uma pausa, esperando que a outra dissesse algo, mas não houve nada. - Passei a noite com o Lorenzo, lembra dele?
- Infelizmente. - revirou os olhos.
Lorenzo era o namorado espanhol de Hanna e ela só falava dele em todas as ligações. Não tinha problema nenhum com o cara, só desejava que ela tivesse se apaixonado por alguém dos Estados Unidos e que morasse a menos de 50km de distância.
- Acabei perdendo o vôo. - mais uma vez, ela esperou que falasse alguma coisa, mas a irmã estava com tanta raiva que só queria encerrar aquela chamada. - Mas não tem problema, não é? Sua amiga não te chamou para ir até Los Angeles? Ainda dá tempo.

Los Angeles, Califórnia.

desceu do carro um pouco enjoada depois do caminho cheio de curvas que circundavam os morros de Hollywood Hills. Shanna cantava aos quatro ventos, tentando esconder o desapontamento pelo namorado não ser liberado do trabalho naquela virada de ano. A amiga, entretanto, sentia-se triste por mais uma vez não conseguir se reunir com a única família que lhe restava.
A casa de Chris ficava em um ponto muito alto, sendo uma rua sem saída que tinha uma grande visão da capital do cinema lá em baixo. O número 7840 ficava em um muro bege acinzentado tampado por arbustos muito bem podados. estacionou o carro alugado onde Lisa havia indicado e viu a mulher passar reto pelo interfone, destrancando o portão e, depois, surgindo alguns metros à frente, abrindo a escondida garagem.
O automóvel parou embaixo de uma grande árvore e de frente a uma singela garagem que guardava dois outros carros. Porém, foi a casa que a fez suspirar. Por além dos muros havia uma mansão simples e moderna, sendo boa parte de sua estrutura apenas de um andar, mas, acima da garagem, o local se desmembrava a dois. O jardim da frente possuía um charmoso lago, com brancos de madeira a sua volta. Muitas plantas circundam o terreno e se perguntou quem era responsável por cuidar da cada uma delas. A casa era da mesma cor do muro, com grandes janelas de borda preta.
- Vem, vamos dar a volta. - Lisa agarrou no braço de , guiando-a pela lateral da casa.
Shanna sorriu com a cena, mas seguiu pela porta da frente, ansiosa por descansar da viagem.
A medida que caminhavam pelo gramado extremamente verde, a voz de Carly era cada vez mais evidente. Ela, com toda certeza, gritava com as crianças.
Quando viraram na parte de trás, foi obrigada a suspirar com a vista.
O gramado era ainda mais extenso, contendo algumas árvores e, na sua extremidade, uma fileira de arbustos marcava o limite. Além deles, só havia a vista para Los Angeles. Era incrivelmente linda.
Na piscina, mais ao longe, estavam as crianças e Carly. Milles volta e meia ameaçava se jogar contra a água e deixava a mãe maluca.
Uma mulher baixinha, morena e sorridente saiu de dentro de casa acompanhada de Chris e mais uma rapaz. Ela foi a primeira avistar as recém chegadas.
Quando viu o ator, não soube distinguir o que achava mais bonito até então. Ele apenas sorriu mais do que o esperado, indo até elas. Ele beijou a mãe no rosto e perdeu o contato com a mulher quando foi a sua vez. Chris Evans simplesmente a ergueu do chão, abraçando-a tão forte que o perfume amadeirado, com certeza, ficou impregnado em sua roupa.
- Você veio!
- Pois é. - ela sorriu sem graça. - Levei um bolo da minha irmã.
Ele gargalhou, olhando para trás e chamando os dois amigos.
- Seria rude comemorar que sua irmã não apareceu? - ele se aproximou, falando aquilo para que somente ela pudesse ouvir.
Sentiu suas bochechas corarem e uma sensação estranha em seu estômago. Já ouvira falar sobre aquilo e era estranho sentir aquelas coisas sem a adrenalina de estar fazendo algo errado. Sempre esperou que aqueles sentimentos bobos viessem com Henry, mas o apavoramento e o medo de serem descobertos encobria qualquer coisa. O mais estranho ainda, era ela estar associando aquilo de forma amorosa gratuitamente a um homem que mal conhecia.
- Sim, seria. - respondeu, simplesmente, sem distinguir o que falava e repreendendo a si mesma.
Não era certo negar para si mesma sobre o quanto estava se sentindo atraída por Chris Evans, mas não podia cair no golpe do conto de fadas que sua mente tentava formar. Ele era famoso, lindo e uma pessoa extraordinária. , entretanto, se limitava em ser apenas a mulher que queria esquecer o passado. Os dois não combinavam e ela nunca se sentiria o suficiente para ele. A prova disso era ter certeza que aqueles evasivos sentimentos não eram precipícios.
Para ela, o ator - assim como toda a família - buscava apenas sua amizade e, se em algum sonho ele se interessasse, não seria certo retribuir.
Pela expressão de Chris, aquilo foi um aviso para que comentários daquele tipo fossem evitados. Ele balançou a cabeça em afirmação, se desvencilhando aquele momento desconfortável.
Apresentou a mulher morena como Tara, sua melhor amiga de infância, outro como o marido dela.
Shanna retornou, falando que sua correria era pela grande vontade de ir ao banheiro. Ethan e ela guiaram pela casa, enquanto os demais permaneceram sentados próximos as espreguiçadeiras da piscina. Todavia, o momento com Chris não saia de sua cabeça e foi inevitável não se perguntar se ele havia se distanciado por conta de sua resposta. O problema, era seu ato foi intencional, mas ela se sentia péssima por tê-lo cometido.
A decoração também era bem simples e a casa era revestida por grandes janelas. O teto de madeira alto da cozinha era o maior charme e os quartos de camas grandes e brancas foram o que ela mais gostou. Dividiria um cômodo com a amiga e as crianças. Perguntou por Scott e descobriu que Zach e ele estavam morando juntos em West Hollywood, chegariam para festa mais tarde.
O tarde se seguiu com um pouco de trabalho e o completo desconforto de . Chris, nem ao menos, olhava em sua direção e, quando se dividiram por tarefas, Lisa e ela ficaram com a cozinha enquanto ele optou pela arrumação. Foi uma tortura passar por aquilo, uma vez que mil paranoias se formaram na cabeça da mulher. Ele havia sido tão gentil no último Natal e ela só conseguiu retribuir com um fora colossal. Se sentia uma idiota, mas, por mais que adorasse estar na presença dele, precisava impor limites. Não queria criar sentimento e já estava claro que Chris Evans era capaz de desestabilizar qualquer um. Ele era um astro de Hollywood e, na cabeça da mulher, ela precisava se colocar no devido lugar.
Uma gritaria se estabeleceu pela casa quando a noite caiu. Depois de tanto trabalharem, era a hora de se arrumar. Todavia, dois dos quartos não eram suítes e foi difícil manter a cabeça em ordem quando Shanna e Carly começaram a gritar descompassadamente. Lisa levou os netos para se arrumarem em seu quarto, deixando as filhas se entenderem no corredor. Scott e Zach já haviam chegado e faziam companhia para uma deslocada, com uma toalha e a roupa em mãos, esperando que as duas se decidissem e liberassem o banheiro logo.
Em certo momento, um perfume gostoso invadiu a sala. Chris apareceu gargalhando, com os cabelos unidos e bagunçados, arrumando a gola da camisa polo branca. O cheiro se intensificou e o impacto daquela imagem fez com que pensasse que fosse desmaiar. Sua risada soou como música e ele se sentou no braço do sofá - pela primeira vez naquela tarde - próximo a ela.
- O que está acontecendo ali?
- Shanna e Carly estão discutindo para ver quem vai tomar banho primeiro. - Scott respondeu, revirando os olhos.
Chris assentiu, vagando os olhos pela sala e os parando sobre .
- E você?
Ela mexia em um fio solto de sua toalha e não percebeu que era com ela. Zach riu, fazendo-a levantar os olhos para ele e se questionar o motivo, ele apenas indicou Chris com a cabeça.
- Sim? - olhou na direção do ator, vendo-o com seu sorriso de canto.
- Não vai tomar banho se esperar que elas tomem alguma decisão.
suspirou.
- É... Já percebi. - voltou a olhar para a toalha.
- Vem. - ele se levantou. - Usa o meu banheiro.
não respondeu nada, apenas ergueu os olhos duvidosos para Chris. Ele sorriu ainda mais com aquela reação e indicou o corredor com a cabeça. Não queria ver, mas sabia que os demais na sala observavam aquela cena.
Por fim, levantou, seguindo Chris pelo caminho e passando pelas duas malucas que ainda não haviam se decidido.
O quarto de Evans era o último e, mesmo com a porta fechada, sabia que era o maior. Ele a guiou, abrindo a porta como um cavalheiro para que ela passasse. A falta de móveis era estranha, mas, ainda sim, a mulher gostou. A cama de lençóis brancos ficava de frente a parede de vidro, a qual tinha uma porta que levava a um deque do lado de fora. Era todo branco, com detalhes em cinza e preto. Além de duas modernas mesas de canto, havia apenas uma poltrona e um baú ao pé da cama. Dois quadros coloridos completavam a decoração, mas era apenas isso.
Uma grande porta levava ao closet, que possuía um teto de vidro. Os guarda-roupas eram de madeira escura, assim como apoio no centro. O banheiro, ao lado, seguia a mesma palheta de cores que o quarto. Um grande box ficava do lado direito, de frente a uma extensa bancada. Além disso, uma banheira se encontrava a frente, próxima a grande janela que dava para a paisagem dos morros.
- Se você quiser usar a banheira, tem um controle que abaixa as cortinas. - a voz de Chris acordou-a de seus devaneios e ela pode jurar que deu um pulinho de susto.
- Não, tudo bem, fico com o chuveiro. - ela se voltou para onde indicou.
- Certo. - ele pôs as mãos no bolso, sorrindo sem graça e encostando a porta.
soltou a roupa sobre um banquinho de madeira e suspirou ao se encarar no espelho. Escutou a porta do quarto sendo fechada e finalmente percebeu que ele não estava mais por ali. A presença de Chris era impactante e, sempre que ele saia de algum ambiente, ela sentia um alivio estranho, acompanhado de tristeza. Sabia que estava despertando coisas que não eram certas e precisava manter sua sanidade diante dele.
Chris Evans era charmoso e ela tinha certeza que todo aquele cuidado e carinho não eram exclusivos dela. pesquisou e sabia que ele tinha uma longa lista de namoradas. O motivo dela se importar não era conhecido, uma vez que seu passado nunca a deixaria se envolver com alguém tão público e... Com quem gostasse. se sentia amaldiçoada e não aceitava o fato de merecer alguém tão legal quanto Chris ou qualquer um outro.
Tomou o banho com calma, mas se apressou quando lembrou que precisava, pelo menos, se maquiar antes de sair, já que tudo estava um caos. Quando terminou, pegou seu vestido, mas algo começou a tocar entre suas roupas. Correu para ver o que era e o nome na tela fez seu coração pular de nervoso.
George.
Levou um tempo para se encorajar.
- Alô. - disse com a voz ríspida.
Houve uma relutância do outro lado da linha e pôde escutar alguém dizer "toma" antes da voz de Billy surgir.
- ? - ele falou animado, fazendo se emocionar. Estava com tanta saudade. - Sou eu, Billy.
- Oi, querido. - ela foi até a pia, pegando um lenço e enxugando o rosto. - Como você está?
- Bem e você? Está com a Hanna?
Estalou a língua.
- Não. Hanna decidiu não vir.
Billy suspirou.
- No meu aniversário ela ligou. - contou, com a voz triste. - Disse que estaria aqui no ano novo e que vocês duas viriam me buscar.
Sem perceber, chorou ainda mais.
- Não podemos fazer isso... Ainda. - passou o pano pelo rosto mais uma vez. - Você ainda é de menor, ela...
- Eu sei. - ele a cortou, entendendo o que a irmã queria falar. - Não precisa dizer.
Um silêncio se estabeleceu e aproveitou para colocar o vestido.
Ficou por algum tempo com o telefone no ouvido, pensando no que dizer.
- Cadê seu celular? - sabia que Billy era novo para essas coisas, mas havia enviado um a pouco menos de um ano para que pudesse se comunicar melhor com o irmão.
- É esse. - ele disse, simplesmente. - Papai colocou o chip antigo nele e ficou para ele.
Ela fechou os olhos, controlando sua raiva.
- Por isso você não tem me atendido.
Ele demorou a responder.
- É...
Mordeu os lábios, sentindo as lágrimas saírem mais uma vez.
- Se ele quer controlar com que você fala, por que deixou que ligasse hoje?
Billy falou como se aquilo fosse normal:
- É meu presente de Natal. Tive que escolher entre você e Hanna. Como já falei com ela no meu aniversário...
Era isso... George estava oficialmente manipulando o contato delas com o garoto e, cada vez mais, sendo um ditador na vida de Billy. Ela queria largar tudo e voltar para Carlisle, confrontar o pai e fazer de tudo para conseguir a guarda do irmão. Mas não podia, não ganharia nada em um lugar onde George era considerado um rei. Deixar que ele ficasse com sua antiga casa só o deixou mais influente e, por mais que estivesse longe, sabia que ele tentava seguir os passos de James. A avareza crescia dentro daquele homem e o destruía cada vez mais.
Mesmo assim, tinha esperança de poder fazer algo quando Billy completasse a maior idade. Esse era o plano desde que decidiu ir embora e continuaria sendo até o fim.
- Preciso desligar. Foi bom falar com você, .
- Tudo bem, querido.
- Tchau.
- Billy? - ela falou rápido, temendo que ele fosse desligar.
- Oi.
- Não esquece que eu vou te buscar, tá legal?
Ela não podia ver, mas ele estava sorrindo.
- Eu nunca me esqueço.

_

Carly e Shanna finalmente se entenderam e a mais nova havia conseguido o titulo de quem se banharia primeiro. Todavia, as duas já havia retornado e , que foi bem antes, não dava sinal.
Chris tentou ser discreto, aproveitando um momento em que todos estava na cozinha. Shanna reclamava toda hora da demora, mas não havia tomado a iniciativa de saber o que estava acontecendo.
Ele bateu de leve na porta do quarto, mas ninguém respondeu. Quando entrou no mesmo, percebeu que a luz do banheiro ainda estava acesa. Fez o mesmo gesto que antes e demorou para que escutasse uma resposta.
Ouviu-a fungando antes de dizer:
- Entra.
Abriu a porta com cautela, encontrando-a de frente ao espelho de cabeça baixa. Ela mexia em sua nécessaire, mas não parecia procurar por alguma coisa.
- Está tudo bem?
- Uh-hum. - ele não sabia se aquilo era positivo ou negativo.
Se considerou ousado, mas teve que se aproximar. Era muito fácil falar, mas a expressão poderia entregá-la e estava certo. Mais perto, conseguiu ver seu reflexo no espelho e encontrou o rosto de vermelho, com os olhos marejados.
- Você está chorando.
- Não. - mentiu, pegando suas coisas e se virando para a saída.
Entretanto, os braços de Chris a impediram.
- É melhor só eu ver do que toda a minha família. - foi sensato. - E pode ter certeza, eles vão reparar.
Ela suspirou, sentindo as chatas lágrimas rolarem novamente.
Chris pegou o bolo de roupas de sua mão, colocando sobre a bancada. se sentou no banco, olhando para o chão. Ele não sabia muito bem o que fazer e ficou alguns minutos só encostado na pia, encarando-a. Por fim, quando percebeu que aquilo não ia parar, teve o instinto de sentar-se ao seu lado.
- Você quer conversar sobre o que está acontecendo?
- Não. - respondeu rapidamente.
Aquilo, pela segunda vez naquele dia, o irritou.
tinha aquele jeito de o afastar e estava ficando cada vez mais mestre nisso. Ele havia pensado em motivos para aquela aversão, mas era difícil encontrar algum outro que não fosse o desinteresse por se aproximar de alguém famoso. Não mandava em sua mente, mas tinha certeza que ela havia se apegado aos estereótipos e não queria nem mesmo uma amizade.
- Será que dá para você ser menos arrisca? - houve um tom de revolta em sua voz. - Eu só quero te ajudar.
Ela o encarou com os olhos vermelhos, mostrando que não havia gostado daquele confronto. Todavia, sua expressão foi se suavizando e ela percebeu que tinha a necessidade de desabafar... Pelo menos em partes.
- Recebi uma ligação.
Ele se surpreendeu ao ver que havia conseguido. Entretanto, aquilo fez com que sua cabeça começasse a trabalhar freneticamente.
- Alguém especial? - Chris sabia que tentava se esquivar de detalhes e, por isso, começou a perguntar de forma indireta.
Ela balançou a cabeça em afirmação.
Enquanto isso, a mente de Evans o traía. Quem poderia ser?
- Eu só... - a tristeza de a maltratava e estava impossível não continuar chorando. Sua desesperada procura por consolo a fez desabar e os braços de Chris foram a única coisa que encontrou. Ela se recostou em seu ombro, sentindo um contato relutante a envolver. Ele pousou a cabeça sobre a dela, ainda tentando pensar nas possibilidades e no motivo de ter ficado tão incomodado. Mas ela precisava de seu apoio e era para isso que estava ali. - Eu só sinto saudade.

[***]

- And you can tell everybody this is your song, it may be quite simple, but now that it's done, I hope you don't mind... - depois de tanto brigarem, a bebida foi o que fez Carly e Shanna finalmente fazerem as pazes. E nada como um karaokê com Zach e as duas para fazer com que aquela noite melhorasse cem por centro. Os três cantavam com fervor, mostrando o quanto estavam bêbados. - I hope you don't mind that I put down in words. How wonderful life is while you're in the world.
- Perfeitos! - Scott gritou, mas se virou para com o intuito de cochilar. - Espero que ninguém tenha filmado, Elton John ficaria decepcionado.
Ela gargalhou, mas outra risada gostosa fez o mesmo ao seu lado.
Quando o encarou, viu Chris segurando uma garrafa de cerveja em uma mão e, a outra, repousada contra o peito enquanto ria.
Aquilo estava cada vez mais estranho... E bom.
Depois do drama no banheiro, Chris a fez companhia por toda a noite, deixando de lado a revolta por ser tão fechada. Ela havia despertado mais uma curiosidade em sua mente, mas ele tinha consciência que poderia ser muito difícil para ela passar dois feriados consecutivos com uma família que não era a sua. Mesmo sendo todos muito acolhedores, era fácil se sentir sozinha e Evans não queria que isso acontecesse. Todavia, o questionamento sobre quem era a tal pessoa na ligação ainda o acompanhava.
Quando a música acabou, Chris observou Shanna ir até a cozinha e pediu licença quando a seguiu. Encontrou-a preparando outra bebida e fingiu procurar o mesmo, esperando que ela puxasse o assunto. Não estava errado.
- É impressão minha ou você está dando em cima da minha amiga?
Ser confrontado daquela forma era estranho.
Se considerava bem velho para investidas daquele tipo, mas não podia negar que despertava sentimentos revigorantes, fazendo-o se sentir um adolescente. Ele não entendia ao certo o seu interesse, mas a dificuldade de desvendá-la acabou se tornando uma diversão.
Ele enfrentava problemas com toda aquela exposição propicia do trabalho e estava cada vez mais complicado encontrar situações que prendessem sua atenção. havia conseguido aquilo facilmente.
- Não estou dando em cima de ninguém.
Ela estreitou as sobrancelhas.
- Por qual outro motivo você se aproximaria dela?
Ele deu de ombros.
- Ela é legal.
Shanna não havia comprado aquele argumento, mas o aceitou a priori.
- Mas eu tenho uma pergunta e adoraria que você me respondesse.
Ela riu, deixando o copo sobre a mesa.
- Diga.
Chris arrumou a postura, pensando como perguntaria aquilo sem ir contra o seu argumento anterior.
- Ela tem algum namorado? Alguém morando longe, sei lá?
Shanna não conseguiu se controlar e gargalhou, vendo o irmão totalmente vulnerável à sua frente.
- Você quer saber sobre isso e ainda tem coragem de me dizer que não está dando em cima dela?
Ele revirou os olhos.
- Será que dá para me responder?
Ela se recuperou, questionando até que ponto poderia falar sobre a vida da amiga.
- Tem a irmã que estuda na Espanha. - falou algo que ele já sabia. - Mas se seu medo é que goste de alguém, isso não sei te dizer. Ela teve um envolvimento com um dos professores lá da escola, o Noah, e ele foi para a Austrália. Mas nunca achei que ela gostasse dele de verdade.
Shanna não esperou que ele respondesse, apenas pegou o copo e se retirou. Chris continuou na cozinha, pensando no que a irmã havia acabado de lhe contar.
Ligar os pontos foi inevitável e fazia todo o sentido estar se referindo ao tal professor. Ele havia se mudado e ela estava com saudades. Certamente, aquilo explicava ainda mais a forma que ela o repelia.
Naquele momento, mais do que nunca, não sabia como se sentia em relação a aquela mulher. Ele era sensato e entenderia completamente se ela estivesse interessada por outro, mas, ao contrário do que esperava, sentia-se mal ao imaginar pensando em outro cara. Estava tão emocionante, mesmo que algumas vezes frustrante, se aproximar. No fundo, ele desejava que Shanna tivesse lhe assegurado de que não havia nenhum empecilho.
- Tio? - a voz de Ethan o fez acordar para a vida. - A contagem já vai começar.
Ele assentiu, seguindo o menino de forma automática. Quando chegou a sala percebeu que não havia ninguém por ali. Encontrou-os próximo a piscina, olhando para o céu e esperando que os fogos de Los Angeles começassem a estourar.
Todos tinham uma companhia. Carly e Tara com os respectivos maridos, as crianças com Lisa, Shanna ao celular com o namorado, Scott e Zach... Exceto . Ela não estava se vitimizando, apenas havia sobrado naquela equação. A mulher estava mais afastava, bem próximas aos arbustos, provavelmente aproveitando aquela virada com a própria companhia. Chris não sabia se era o álcool, mas não exitou em se pôr ao seu lado, ignorando tudo o que sua irmã havia plantado em sua cabeça minutos antes... Ou quase isso.
- Sinto muito que seu namorado não esteja aqui. - ele falou, colocando a garrafa de cerveja sobre a grama.
estreitou as sobrancelhas, se virando com um sorriso na direção de Chris. Por mais que aquele ato era claramente um deboche, ele não conseguiu deixar de se impactar com aquela imagem. Aquele rosto sendo iluminado pela fraca luz da cidade o fez suspirar. Os olhos dela tinham mais brilho e, desde que se conheceram, ela nunca pareceu se divertir tanto como naquele momento. era linda de todos os jeitos e ele, pelo menos, pôde entender o motivo de não conseguir distinguir seus sentimentos quando estava perto dela. era de tremer as estruturas, literalmente.
- Eu não tenho namorado.
Ele não sabia o que responder, mas, certamente, havia ficado mais feliz.
- Pensei que a ligação era de...
- Ninguém que eu me envolva amorosamente. - ela o cortou, ainda rindo.
Ele se segurou para não sorrir, mas foi inevitável. Ela perdeu o olhar sobre a cidade novamente, e Evans fez o mesmo.
- Não esquece o beijo a meia noite! - Scott gritou para Tara.
Chris e se entreolharam e, mesmo com a pouca luz, ele a viu corar. Todavia, sua missão não era fazê-la se sentir desconfortável, muito pelo contrário.
- Espero que esteja se sentindo melhor.
- Eu estou. - ela o encarou, mostrando que falava a verdade. - Obrigada por me ajudar... Mais uma vez.
Ele pegou a garrafa, erguendo para ela. bateu seu copo na mesma, formando um brinde. Beberam, selando aquele momento.
A televisão alta mostrou que a contagem na Times Square havia começado e a família Evans iniciou a fala em conjunto, vidrados no céu.
Todavia, Chris, enquanto observava a mulher os acompanhando, não conseguiu fazer outra coisa a não ser estudá-la. Seu coração estava bobo e se agitou com aquela imagem sendo completada por um sorriso verdadeiro da mulher e se tornou a única coisa que importava naquele momento. Ele não entendia, muito menos sabia o que estava fazendo. Podia jogar a culpa na bebida mais tarde, mas era muito bom encará-la daquela maneira.
, no meio de sua contagem, percebeu os olhos de Chris sobre si e, por mais que quisesse expressar algo negativo, apenas sorriu e deixou que ele continuasse.
- Três, dois, um. - disse, vendo os primeiros fogos brilharem no céu.
A luz fez com que seu rosto se iluminasse e, como se fosse guiado por elas, Chris segurou a mão da mulher.
sentiu o contato, se virando para ele novamente e jogando os braços sobre seu ombro.
- Feliz ano novo! - disse, sentindo-o estático.
Chris demorou para desfazer o contato e cedeu, só se afastando quando sentiu suas fortes mãos em sua cintura. Encontrar com os olhos de Chris foi o que lhe mostrou que só aquele abraço não era o suficiente. Ele a encarava com urgência, perdendo a atenção em cada canto de seu rosto. Eles continuaram naquela posição e, quando percebeu que Chris encarava sua boca, seu único instinto foi fechar os olhos.
As mãos dele contornaram suas costas e a puxaram para mais perto. O contato era quente e acolhedor. Todavia, ao mesmo tempo, era excitante tê-lo tão perto e sentir o calor do peito dele contra o seu. Os lábios, porém, estavam gelados e aquilo era perceptível antes mesmo de se encostarem. Ele se demorou, torturando-a. Beijou seu lábio inferior delicadamente, como se perguntasse se aquilo era o certo. levou as mãos para a nuca de Chris, embrenhando seus dedos pelo liso de seus cabelos e unindo suas bocas de forma mais intensa. No início, foi calmo e, a cada toque, o coração de cada um batia em sintonia. Ela sentia o peito dele subir e descer enquanto suas mãos passeavam por suas costas, tentando unir ainda mais. A língua de Chris pediu passagem e, como em um delírio, sentiram uma eletricidade inexplicável sair daquele contato e percorrer todo o corpo. Aprofundaram o beijo, afundando-se cada vez mais naquele momento. A mistura de sentimentos os circundou e, se antes ambos se questionavam a origem daquilo, a partir dali tinham certeza que toda aquela enxurrada de reações eram propícias um do outro. E era simplesmente perfeito.
Não sabiam quanto tempo ficaram ali, mas quando o ar começou a faltar, foram obrigados a se separar. Continuaram abraçados, mas se encararam como se não entendessem o que haviam feito e, de fato, não compreendiam.
Os olhos azuis de Chris diminuíram, mostrando que sua boca formava um sorriso. Os pensamentos de correram por sua cabeça e ela, aos poucos, começou a pensar no que havia acabado de acontecer e no quanto se sentiu envolvida. Era um erro, mas Scott a impediu de verbalizar.
- Nossa! - ele falou, próximo a eles. Quando deram por si, encontraram os olhos de todos sobre os dois e puderam ver um sorriso mais aberto que o outro. Lisa era a que parecia mais feliz. - A tradição é apenas selinho, não um desentupidor de pia igual a esse.


Capítulo 6

Los Angeles, Califórnia.

Os raios solares adentravam o pequeno quarto de hóspedes e, insistentemente, repousavam sobre o rosto de , acordando-a. De início, sentiu a boa sensação depois de uma satisfatória noite de sono, mas não demorou para se lembrar de como foi difícil finalmente dormir na noite passada.
Não conseguiu falar com Chris novamente, tamanha a sua vergonha depois de serem flagrados. Não estava nem um pouco constrangida pela exposição, em si, mas por ter cedido tão fácil e, de quebra, feito isso diante de telespectadores. Para sua sorte, todo mundo parecia animado demais para lhe cobrar uma explicação e Chris, igualmente confuso e perdido no emaranhado de dúvidas que aquela situação gerou, não insistiu e respeitou seu espaço. Talvez, no fim, aquele tenha sido apenas um momento.
A porta abriu e já era de se esperar que se tratava de Shanna, pois só ela faria aquilo sem bater.
_ Bom dia, bela adormecida.
O comentário da amiga a fez procurar pelo celular no criado mudo. Se passava das dez da manhã e se sentiu constrangida por ter dormindo tanto na casa em que era visita. Além disso, seu voo sairia dali à algumas horas. Por mais que estivesse evitando contato com determinada pessoa daquela família, seria rude se trancar no quarto e apenas esperar o momento de partir.
Precisava fugir e sentia uma imensa culpa por isso, mas não podia fazer algo tão extremo naquele momento.
_ Me desculpe. Não sabia que estava tão cansada.
_ Não, tudo bem. - enquanto se levantava, Shanna se jogava sobre sua cama. - Mas talvez meu irmão não diga o mesmo.
O sorriso da mulher fez a amiga a encarar com dívida. Havia começado a arrumar a cama, mas foi surpreendida pelas palavras de Shanna.
_ O que você quer dizer com isso?
A Evans mais nova deu de ombros, ainda sorrindo.
_ Ele quer conversar com você, provavelmente. Não para de passar na frente desse quarto e, mesmo de longe, encara a porta como se fosse sair a Oprah daqui.
estalou a língua, não conseguindo sustentar o próprio corpo com o peso daquelas palavras. Não podia mentir, havia amado aquele beijo e, para piorar sua situação, Chris Evans era extremamente encantador. Entretanto, depois de tudo que passou, era difícil acreditar que deveria sentir-se vulnerável perante a alguém. Mesmo que ele fosse o melhor cara desse mundo, não se sentia a melhor mulher. Sabia que Chris merecia algo melhor, mesmo que aquele tenha sido apenas um beijo e, além disso, tinha ciência do abismo que os separava. Seria um escândalo para ele se relacionar com alguém como ela.
_ Você está gostando dele ou foi só...? - Shanna não precisou completar aquela frase, sabia o que ela lhe perguntava.
_ Eu não sei. - sua voz saiu rouca.
A amiga balançou a cabeça em afirmação, esperando que finalmente a encarasse. Sentou-se na cama ao lado dela, segurando sua mão.
_ Eu só não quero que vocês dois se machuquem. Se for algo que vocês queiram, tudo bem. Mas não quero ter que consolar nenhum de vocês depois.
Shanna queria que aquilo desse certo, mesmo que nenhum dos dois soubesse o que estava acontecendo. Para ela, era muito fácil observar os detalhes que para o pseudo casal ficavam imperceptíveis. Chris sempre olhava para de canto de olho, mesmo que outra pessoa estivesse falando com ele e, enquanto isso, sua amiga buscava repousar o olhar em outro canto, sabendo que se derreteria se o encarasse demais. Ele ouvia atentamente tudo o que ela falava e escolhia muito bem as palavras quando estava perto dele. Ela também sustentava sua postura, parecendo mais elegante, mas não era isso que o encantava, ele a observava com carinho até quando ela estava de guarda abaixada. Ambos faziam de tudo para chamar atenção um do outro, mesmo que não percebessem. Passaram o ano novo visivelmente interessados e aquele beijo foi só a confirmação do que todos daquela família já haviam percebido.
Entretanto, por mais que amasse a ideia dos dois juntos, Chris estava bastante entretido com o desafio que proporcionava. Ele achava cativante a forma como precisava desvendá-la e isso fez com que Shanna se remetesse à época em que o irmão se relacionava com mulheres apenas por diversão. Esperava que aquele não fosse o caso e confiava que Chris não seria imprudente a ponto de magoar .
afirmou, sabendo que a amiga estava certa.
_ Então é melhor eu sair e ir conversar com ele.
Depois de tomar um banho, vestir uma calça jeans e uma blusa branca folgada, se dirigiu para fora.
Scott e Zach faziam o almoço enquanto Lisa os auxiliava. A professora ofereceu ajuda, mas recusaram.
A matriarca da família tentou fazer com a mulher tomasse café, mas ela acabou optando apenas por uma maçã.
Shanna, que estava na sala, lançou um olhar significativo sobre a amiga quando viu que a mesma havia percebido onde Chris estava. Ele brincava com os sobrinhas no gramado próximo à piscina.
, decidida, retribuiu o olhar da amiga, vendo-a se levantar e seguir para o lado de fora. Chamou as crianças, deixando Chris confuso, mas, quando o mesmo viu , agradeceu mentalmente à irmã.
Um sorriso débil se formou em seu rosto ao vê-la se aproximar, mas se desmanchou quando percebeu que seu semblante era sério demais e que, apenas por educação, ela havia retribuído o sorriso.
_ Dormiu bem? - perguntou assim que a mulher parou ao seu lado de braços cruzados.
Ela murmurou em concordância, olhando para trás e percebendo que as crianças tentavam espiar a conversa pela porta de vidro. olhou para baixo, sentindo que suas bochechas estavam coradas.
_ Por que não andamos um pouco? - sugeriu e Chris concordou.
Começaram a caminhar pela extensão do terreno e o silêncio era tudo que os dois poderiam fornecer de imediato. Seus ouvidos eram preenchidos pelos sons dos pássaros, do vento e, volta e meia, de algum carro que passava na rua abaixo.
Chris respirou fundo, tomando coragem para falar alguma coisa.
_ Você está bem?
colocou as mãos nos bolsos, ainda olhando para frente.
_ Confusa, talvez... E você?
Ele umedeceu os lábios.
_ O mesmo.
A mulher suspirou, suplicando mentalmente para que ele dissesse aquilo que, de fato, tinha para dizer. Chris apenas parou, sabendo que já estavam longe o suficiente para não serem mais ouvidos.
_ Me desculpe se passei dos limites ontem.
Ela riu sem humor.
_ Não precisa se desculpar quando não foi só você que passou.
Ele ergueu as sobrancelhas, não esperando aquela resposta.
_ Então acha que realmente fizemos algo que não deveríamos?
A verdade era que Evans esperava que ela dissesse que havia gostado, ou que estava tudo bem, pois seus limites não estavam assim tão estipulados. Mas, ao contrário do que desejava, estava a sua frente reafirmando que aquilo foi um erro.
Ela estalou a língua, tendo dificuldade para encará-lo.
_ Eu sou amiga da Shanna, você é irmão... Seja o que for que esteja acontecendo entre a gente, se der errado, irá magoá-la. - ela suspirou, ocultando a maior parte da verdade. - Essa é a última coisa que eu quero, então é melhor pararmos por aqui.
Chris mordeu os lábios, coçando a barba rala e unindo as sobrancelhas, mostrando claramente que estava tentando entendê-la.
_ Você esta me dizendo que me beijar foi um erro porque minha irmã, que é adulta o suficiente para entender as coisas, pode ficar magoada?
Nos lábios de Chris, aquilo parecia cômico.
Ela começou a andar, tentando fugir dos sentimentos que aquela conversa lhe causava. Queria muito poder estar dizendo o contrário para ele.
_ Será que não podemos, apenas, sermos amigos? - pediu. - Não quero me envolver com ninguém agora.
Ele riu pelo nariz e, assim como ela, pôs as mãos na cintura e começou a andar.
_ Desde o momento que te conheci, você é um mistério. - disse com a voz firme. - Agora está na minha frente me dizendo essas coisas... É um grande sinal para que meu orgulho fale mais alto e aceite que para você foi só mais um beijo. Mas, alguma coisa dentro de mim, diz que você mentiu, como em muitas outras vezes.
A expressão de se enfureceu. Mesmo sabendo que ele falava a verdade, odiava ouvir de sua boca que era mentirosa. Todavia, ao mesmo tempo, uma dúvida intrigante a preencheu.
Para ele não foi apenas mais um beijo?
Ela riu sem humor mais uma vez.
_ Se seu orgulho fala tão alto, porque perde tanto tempo comigo se já disse que isso não vai dar certo?
Ele também riu, encarando-a nos olhos.
_ Porque sei dos meus sentimentos e, mesmo com todo esse mistério, gosto de você.
Os lábios de se ergueram involuntariamente. Aquela era uma das melhores coisas que já havia ouvido. Chris, vendo isso, também sorriu.
Ele se aproximou, passando a mão pelo braço de e segurando sua mão. Ela não relutou.
_ Esse não é um pedido de casamento... Só quero a oportunidade de te desvendar.
Uma placa de perigo brilhou na cabeça da mulher. Ele não podia entrar no meio daquela confusão que, em sua mente, nunca se encerrava. Chris merecia mais do que isso e presava pela vida que tentava reconstruir. Todavia, ele merecia saber mais sobre ela e, em algum pontinho de seu ser, queria ser desvendada. Mas seus princípios eram firmes e ela sabia o quanto poderia prejudicar a vida de Evans.
Não queria repeli-lo e, então, fez o que sua mente julgou necessária para o momento.
_ Amizade, é a única coisa que posso te oferecer.

•••

Boston, Massachusetts.


A Salem St era uma das ruas mais charmosas e movimentadas de Boston. , muitas vezes, não sabia dar o devido valor para a localidade onde seu apartamento se encontrava, mas nada como Shanna para fazê-la apreciar a oportunidade de morar no centro da capital de Massachusetts.
viu a amiga descer as escadas de seu apartamento animada, falando calorosamente sobre o final de semana que havia passado ao lado do namorado. Sentiu a neve grossa quando seus pés alcançaram a calçada e, no mesmo instante, tapou os ouvidos devido ao barulho da máquina que limpava a rua.
Revirou os olhos, olhando para o que vestia. Usava apenas uma calça de malha quente e um casaco do mesmo tecido, cinza. Se não soubesse sobre o tempo do lado de fora, estaria de chinelo, mas teve que enfiar um tênis confortável nos pés. Não importou com o dever de se produzir demais, sabendo que almoçariam a menos de vinte passos de seu apartamento.
Caminhou ao lado da amiga, ainda escutando seus relatos felizes. Não estava em um bom dia e ouvir Shanna preenchia sua mente. Por mais que a felicidade não fosse exatamente sua, as conquistas de sua amiga eram capazes de tapar o buraco que havia em seu peito naquele momento.
O La Famiglia Giorgio's, restaurante que costumavam comer, estava lotado quando chegaram e tiveram dificuldade até em entrar para esperar por uma mesa. Ficaram por estendidos minutos do lado de fora, enquanto Shanna falava e se perdia com o olhar nas pessoas que passavam pela rua.
Foi quando sua cabeça começou a lhe pregar peças.
Alucinações eram constantes no início, depois de toda a sua história de horror. Os remédios eram seus únicos meios de se manter sã, mas estava se tornando dependente. Por isso, havia reduzido a dosagem por conta própria e, nos últimos tempos, recorrido a eles somente quando o necessário. Fazia duas semanas que não os tomava, desde o dia que retornou para Boston depois do surpreendente ano novo na casa de Chris Evans. Sua mente havia ficado perturbada após ir totalmente contra suas vontades para repeli-lo. E então, ela seguiu, aproveitando que os remédios a faziam apagar. Todavia, depois de tanto tempo e de deixar os efeitos passarem, aquelas malditas visões a aterrorizavam novamente.
Do outro lado da rua, sentando em uma das mesas de um café, estava James. Ele lia um jornal e, sob a folha dobradiça do mesmo, lançou um olhar para , pegando sua xícara de café e erguendo-a em sua direção como comprimento. Seu sorriso era de embrulhar o estômago.
_Vamos? - Shanna tocou no braço da amiga, chamando sua atenção.
olhou para ela, mostrando-se atordoada e, quando voltou sua atenção para a cafeteria, encontrou a mesa vazia.
_ Está tudo bem? - a outra mulher estranhou, olhando para a mesma direção que encarava.
A professora balançou a cabeça em afirmação, tentando apagar aquela imagem de sua mente e parecer coerente.
_ Vamos.
Por mais que não tivesse comido nada naquela manhã de sábado, sentia-se demasiadamente cheia. Shanna, já na metade de seu prato, percebeu que a amiga brincava com a comida, mas deu o espaço para que a mesma pudesse falar ou agir no seu tempo. Quando percebeu que essa atitude não viria, foi obrigada a se pronunciar:
_ Você mal tocou na comida. - fez um comentário doce, exibindo o companheirismo em seu tom de voz.
_ Só não estou com fome. - sorriu de lado, agradecendo pelo zelo.
Shanna limpou os lábios, esperando o garçom passar ao lado da mesa para voltar a falar:
_ Eu estava esperando que você dissesse algo, mas estou começando a ficar preocupada. Você anda bem abatida nos últimos dias.
Por mais que odiasse quando as pessoas tentavam decifrá-la mais afundo, não podia culpar Shanna por querer seu melhor. Tinha ciência das boas intenções da mulher e sabia que, caso tivesse a coragem de partilhar suas angústias, a amiga seria a primeira a lhe dar colo.
_ Eu estou bem cansada, acho que pode ser isso. - ela sorriu novamente, finalmente largando o garfo e constatando que não conseguiria comer.
Estavam sentadas bem próximas da janela e era inevitável que uma força invisível insistisse em querer lhe fazer encarar o café do outro lado da rua. Sua mente repetia aquela maldita imagem e, com ela, o medo de vê-lo novamente.
Shanna também largou a comida, respirando fundo e buscando palavras para iniciar aquele assunto.
_ Eu pensei que, talvez, você estivesse triste e um pouco arrependida por ter repelido o Chris. - soltou, encarando a amiga apenas quando terminou sua frase. Recebeu um olhar assustado, aquele que tentava lhe mostrar o quanto suas palavras eram equivocadas, mas era uma expressão mascarada e totalmente teatral. - Eu ainda não consigo acreditar que seus sentimentos são tão contrários assim.
revirou os olhos, tentando firmar sua postura novamente.
_ Seu irmão e eu seremos amigos, apenas isso.
_ Amigos? - a mais nova dos Evans riu. - Você me proibiu de dar seu número ou qualquer informação referente a você para ele. Que tipo de amizade é essa?
A outra suspirou, sabendo que não tinha muitos argumentos contra aquilo.
_ Só não quero que nada saia do controle.
Shanna analisou a amiga e pensou em sua revelação.
Tudo que falava parecia ser muito bem premeditado, como se ela já houvesse ensaiado toda aquela conversa antes.
_ Você fez isso por mim? Por medo de me colocar entre a relação de vocês?
deu de ombros.
_ Não sei, talvez isso tenha colaborado. - mentiu. - Eu só não tenho a confiança de me arriscar nisso agora.
viu a amiga morder os lábios, mexendo insistentemente no piercing do nariz. Ela sempre fazia aquilo quando estava nervosa.
_ Eu sei que não sou uma especialista, mas eu posso dizer que te conheço. - respirou fundo, pronta para tentar dar um choque de realidade na mulher a sua frente. - Com o Noah, por mais do seu evidente carinho por ele, era óbvio que você não estava tão envolvida e eu estava prestes a acreditar que seu coração era de gelo até vê-la com o meu irmão. Me desculpe, , mas você se tornou mais atriz do que ele ao tentar encenar essa aversão.
Se Shanna continuasse analista daquele jeito, descobriria até sobre cada hematoma que James já deixou pelo corpo de . Ela sabia ser observadora e isso assustava.
Ela estava certa e havia atingido um patamar mais elevado do que a razão, pois jogou na mesa tudo o que queria tapar com o pano.
_ Você quer sinceridade? - a professora falou, exibindo uma expressão cansada enquanto seu peito sofria de um tremor estranho.
_ É o mínimo que eu te peço.
colocou os cotovelos sobre a mesa, visivelmente derrotada. Ela não estava disposta a contar tudo, mas também não se importava com os questionamentos que aquela resposta poderia gerar.
_ Não me sinto segura para me relacionar com alguém e o Chris faz com que eu me sinta na beira de um precipício. Eu sei o quanto isso soa preconceituoso e eu não me afasto por duvidar do caráter dele, mas tenho medo das consequências e, no caso dele, consequências que podem tomar uma dimensão na qual nós não podemos mensurar. - suspirou. - Eu sei que nunca falamos que seria algo sério, mas, se der certo, uma hora vamos nos expor. Mesmo que dê errado depois ou antes disso, não quero sentir essa dor.
Shanna riu da forma dramática que havia verbalizado seus sentimentos. Ao seu ver, era algo tão mínimo… Mas apenas a mulher a sua frente sabia do tipo de dor que estava falando.
_ Mesmo sabendo que dentre todos esses seus argumentos, também há a possibilidade de dar certo, definitivamente?
Nada vai dar certo depois que a verdade aparecer, pensou.
Pretendia esconder seu passado pelo resto de sua vida, mas sabia que estar com uma pessoa aumentaria as chances de toda a sua história ser desenterrada. Ninguém suporta viver ao lado de alguém tão misterioso. sabia do valor de sua amizade com Shanna porque a amiga suportava todo o seu individualismo e, tentava, ao máximo, ser compreensiva.
_ Não sou de me arriscar por baixas proporções, sabe disso.
Shanna balançou a cabeça em afirmação, se dando por vencida.
_ Então não vai se jogar desse precipício?
estava decidida. Chris Evans não entraria no fogo cruzado ao seu lado.
_ Não.
A neve fina caia lentamente sobre a janela fechada, mostrando o quanto aquele ambiente contrastava com o de fora. O som da TV baixa e do fogo que crepitava na lareira preenchiam a sala, sendo as únicas coisas que conseguiam acalmar naquele momento. Ela esperava que o sono viesse, mas ele estava cada dia mais longe.
Se remexeu sobre o sofá, aconchegando-se sob as cobertas. Sentiu-se mais aquecida do que deveria, e logo uma gota de suor fria escorreu por sua espinha, arrepiando seu corpo. A imagem da televisão estava cada vez mais embaçada e, em alguns momentos, ela sentia o ar ir embora de seus pulmões. Jogou o cobertor para o lado, sentando-se. Ficou de olhos fechados por alguns segundos, tentando recuperar sua respiração. Por mais que se sentisse melhor, um choro insistente e involuntário mostrou que aquilo estava longe de acabar.
Uma gargalhada grossa soou ao seu lado, fazendo-a abraçar o próprio corpo e buscar refugio na outra extremidade do sofá. Tudo a sua volta continuava embaçado, menos ele.
_ E então, como vai a vida depois de se apaixonar, a)?
A voz era áspera e, assim como se lembrava, nenhum comentário que saia daquela boca poderia ser bom.
_ Você é uma alucinação. - ela sussurrou, apertando os olhos com força na esperança de que ele fosse embora, mas a figura tenebrosa do homem continuava sentada ao seu lado. - Você morreu.
James riu mais uma vez, se aproximando de novamente. Ele jogou os cabelos dela para trás, cheirando seu pescoço. Ela não conseguia se mover.
_ Sou o seu eterno terror.
finalmente encontrou forças para se mover, mas seu corpo se impulsionou para o chão e um tremor tomou conta de seu peito. O liquido quente subiu de forma corrosiva, fazendo-a vomitar no tapete da sala.
Ela precisava se dopar.
Apoiou-se no sofá, indo até a cozinha da forma que conseguia. A imagem de James a seguiu.
_ Ele só quer te comer. - continuou. - Do mesmo jeito que o meu irmão.
Abriu a geladeira as pressas, procurando por oque quer que fosse. Não se lembrava onde havia deixado o comprimido. Bateu a porta da mesma com força, escutando as coisas caindo lá dentro. Pegou um copo qualquer sobre a pia e encheu-o de água, indo para o quarto. Ele estava deitado em sua cama.
_ Chris não é assim. - falou, mesmo sabendo que aquilo era apenas uma miragem. - Henry não era assim.
_ Então por que ele nunca te levou embora? Henry podia até te fazer juras de amor no celeiro, mas quem dormia na cama com ele era qualquer puta do bordel que ele pagava com o meu dinheiro!
Ela começou a revistar a gaveta do criado mudo, achando a maldita cartela. Tomou dois comprimidos, deitando-se no chão para esperar que aquilo finalmente fizesse efeito.
_ Ele não era igual a você. - disse baixinho, vendo James deitar ao seu lado.
_ Todos são iguais a mim.
Ela virou-se para ele, sentindo o chão duro sob sua cabeça. Ele parecia mais vulnerável naquele momento ou que estava mais confiante. Pelo menos, sabia que ele iria embora.
esticou a mão, elevando-a sobre o rosto de James. Ele não emitiu nenhuma emoção, apenas sumiu no momento em que ela estapeou o chão onde antes estava a cabeça do homem.
_ Todos podem ser iguais a você, menos o Chris.

[***]

A sala dos professores estava silenciosa naquela terça-feira. Shanna tomava café próxima a janela enquanto conversava com o namorado ao telefone. preparava uma aula e Molly, uma outra professora, fazia o mesmo.
As crianças estavam no intervalo e a gritaria no corredor chegava a ser ensurdecedora. O bom de ser professora era que aquilo não incomodava com a mesma intensidade que antes.
Muitas delas, por sua vez, estava paradas, observando algo que vinha da mesma direção que a porta de entrada. Alguns cochichavam, principalmente as meninas e aquela súbita aglomeração acabou chamando a atenção das mulheres que estavam do lado de dentro.
_ Amor, depois falo com você, ok? - Shanna se levantou, passando pela cadeira de e esbarrando no ombro da amiga.
As duas seguiram para o corredor e Molly foi atrás, igualmente curiosa.
Um adolescente de aparência indiana caminhava entre os alunos, procurando pelo local que estava indicado no papel que tinha em mãos. Ele usava um avental verde escuro sobre uma blusa polo que continha o mesmo logo que estava em seu boné. A julgar pelo imenso buquê de rosas vermelhas, ele trabalhava em um floricultura.
Shanna foi até o rapaz, sabendo que as crianças estavam de olho para saber quem seria presenteado com aquela surpresa. se recostou no batente da porta, rindo da forma como seus alunos estavam curiosos.
_ Precisa de ajuda?
O menino assentiu, sorrindo de forma simpática.
_ Tenho uma entrega para ser feita na sala dos professores.
O sorriso de se desmanchou. Ela e Molly se entreolharam.
_ Pode ser para qualquer um. - a outra professora disse.
se remexeu.
_ Não pode ser do seu marido?
Molly gargalhou.
_ É bem provável que aquele lá só me dê flores no dia que eu morrer.
As duas riram, mas logo se voltaram para Shanna e o rapaz, que caminhavam em sua direção.
_ A sala dos professores é aqui. Mas posso perguntar para quem são?
O menino, perdido, mexeu na encomenda, arrancando um cartão do meio das flores. Shanna suspirou ao ver o nome Narrative estampado no mesmo.
_ Droga, nem precisa falar.
Ela pegou as flores das mãos dele, lhe dando uma gorjeta logo em seguida. As três professoras entraram novamente na sala enquanto Shanna trancava a porta. Do lado de fora, os alunos ficaram decepcionados por não saberem quem receberia aquele presente.
mexeu nas rosas, achando-as lindas.
_ Que fofo o Graham te mandar flores.
_ Não foi ele. - ela entregou o buquê para . - Narrative é a agência de relações públicas do meu irmão. Foi, provavelmente, a Megan, agente do Chris que encomendou.
gelou. A última coisa que esperava era que Christopher continuasse investindo. E muito menos, de forma tão ousada.
Molly se aproximou, analisando o presente. Pegou o cartão sobre a mesa, mas arrancou de sua mão. Sorriu para a mulher, tentando não soar rude.
_ Seu irmão? - virou-se para Shanna. - Chris?
_ Scott. - foi mais rápida ao responder. - Nos tornamos amigos e esse é provavelmente um agradecimento por alguma coisa.
A professora semicerrou os olhos, mas assentiu, voltando ao o que fazia antes.
Shanna e se entreolharam, mas, ao contrário da amiga, não sorria.
Olhava das flores para o cartão e, cada vez que fazia isso, sentia-se mais confusa.
_ Abre logo. - escutou Shanna sussurrar.
_ Por que ele fez isso? - ela também falava em tom baixo.
_ Eu não sei. - a amiga deu de ombros. - Esse é o Chris, ele gosta de ser imprevisível.
fechou os olhos, tomando coragem para ler aquilo. Seu coração se agitava em um misto de ansiedade e apreensão. E sua mente estava prestes a lhe fazer desmaiar diante do turbilhão de pensamentos diversos que lhe rodeavam.
Abriu o cartão, encontrando uma caligrafia masculina:

“Achei desafiador quando percebi que sua conversa no primeiro dia do ano sobre sermos amigos era apenas para que eu me sentisse melhor naquele momento. Desafiador porque continuo tendo a certeza de que você me repele por motivos contrários dos que diz. Acho que precisamos nos juntar para tomarmos chocolate quente mais uma vez, não acha? Somos mais sinceros quando fazemos isso.
Não me deixe no escuro, , isso torna tudo ainda mais intrigante.
Espero que não me julgue ou me chame de insistente, não tenho culpa pela afeição que criei por você. Espero que goste das flores e que, finalmente, entenda que minhas intenções são as melhores possíveis.

Chris.”


Capítulo 7

Boston, Massachusetts.

Although loneliness has always been a friend of mine
I'm leavin' my life in your hands
People say I'm crazy and that I am blind
Risking it all in a glance
And how you got me blind is still a mystery
I can't get you out of my head
Don't care what is written in your history
As long as you're here with me


O clima quente finalmente começou a surgir em Boston e julgou aquela ser a desculpa perfeita para ir fazer compras. Era libertador usar sua típica blusa branca larga e seu confortável short jeans. Estava tão satisfeita que nem se importava com a importuna brisa fria que volta e meia a atingia. Com seus fones de ouvidos, ela quase dançava pela rua.
Entrou em seu prédio gargalhando, rodopiando ao entrar no elevador e encontrá-lo vazio, segurou a sacola de compras com força, temendo que tamanha alegria a fizesse cair. Quando o mesmo chegou ao terceiro andar, continuou caminhando, ainda dançando.

I don't care who you are
Where you're from
What you did
As long as you love me
Who you are
Where you're from
Don't care what you did
_ As long as you love me
- cantarolou, procurando pelas chaves no bolso.
Policiou quando percebeu que alguém se aproximava, tentando segurar o riso ao perceber que a pessoa podia ter ouvido. Porém, se surpreendeu quando o homem parou ao seu lado.
Ela tirou o fone do ouvido, ainda chocada com a presença dele.
_ Chris? - a pergunta fez com que ele sorrisse.
_ Eu não acredito que você está cantando Backstreet Boys!
arregalou os olhos, sentindo o rosto ficar quente. Ele continuava sorrindo, satisfeito por ter presenciado aquela cena. Não se considerava uma pessoa tão solta e, mesmo para alguém que fosse, momentos como aquele seriam de grande diversão para quem estivesse de telespectador e de extrema vergonha para o artista.
Ao contrário de , Chris vestia uma calça jeans comum e um moletom preto, mostrando que o tempo ameno ainda não era o suficiente para usar roupas tão leves.
_ O que você está fazendo aqui?
Ele ergueu as sobrancelhas com a pergunta, mas continuou com sua postura.
_ Estou ótimo, obrigada por perguntar. - debochou. - E você?
revirou os olhos, sabendo que ele tinha a mania de contornar qualquer situação. Levou as chaves até a porta e abriu, dando passagem para que ele entrasse.
_ Estou bem.
Chris caminhou para dentro com as mãos no bolso enquanto observava ir até a cozinha para deixar o que havia comprado.
Era um apartamento muito moderno e grande. Ele era todo branco, com poucos detalhes de cor. havia alternado a decoração entre o bege, branco e o amadeirado. A sala era bastante espaçosa e dividida lugar com uma mesa de jantar redonda; mais adiante, separados apenas por uma porta grande, havia a cozinha. Os dois quartos ficavam lado a lado, com portas viradas para a sala. , provavelmente, havia usado um deles como escritório, pois havia uma mesa com o notebook e várias prateleiras infestada de livros. O quarto dela, porém, era incrivelmente vazio. A cama grande ficava ao centro e uma penteadeira a direta. Uma porta levava a uma grande varanda enquanto a outra, provavelmente, a um closet e banheiro.
A mulher indicou o sofá para que ele se sentasse, mas Chris recusou, seguindo-a até a cozinha.
não sabia exatamente o que fazia, mas começou a guardar as compras na tentativa de não estabelecer um contato visual. Para a má sorte de seu acanhamento, Chris pegou as sacolas, mostrando que queria ajudar. Ele não sabia onde colocar as coisas, por isso, apenas pegava e entregava a ela.
_ Deixa eu adivinhar... Shanna deu o meu endereço? - ela arriscou, escutando o riso dele.
_ Na verdade, ela me deu seu número e endereço um dia depois do ano novo. - confessou, fazendo lhe encarrar boquiaberta. - Mas não quis ser rude quando soube que você não queria esse contato direto.
Ela tinha todos os motivos para ficar chateada, mas a forma como Chris falava a fez rir. Deixaria o assassinato de Shanna para depois.
_ E o que te fez mudar de ideia? - ela pegou a caixa de ovos da mão dele, levando até a geladeira.
Christopher deu de ombros, observando-a.
_ Eu esperava que você devolvesse as flores com um cartão não muito agradável. - riu. - Como não fez isso, pensei que, talvez, pudesse ter gostado.
mordeu os lábios, olhando para baixo.
Naquele momento, sua mente estava clara e sã, algo que acontecia muito raramente. E ela percebeu que, quando seu estado de espírito estava limpo, não conseguia ver problema na presença dele. Na verdade, sua razão desejava continuar o repelindo, mas seu corpo mostrava ações contrárias, a ponto de não deixá-la discordar.
Estava envergonhada e sentia uma estranha sensação em sua barriga. Aquilo resultava em uma inquietação e torcia para que Chris não percebesse.
O ator se aproximou, entregando a manteiga para ela. , mesmo que tão próxima, ainda não conseguia ter o olhar sobre ele.
_ Seu silêncio é sinal de que eu estou certo? - a pergunta fez com que ela sorrisse.
respirou fundo, tentando procurar a coragem que havia em seu ser. Precisava sustentar uma conversa coerente ou aquela visita logo se tornaria o maior constrangimento de sua vida.
_ Eu amei as flores. Obrigada.
Chris dobrou as sacolas, deixando-as sobre a bancada. Deu a volta na mesma, sentando-se no banco e apoiando os cotovelos na superfície a sua frente. se mostrava mais confiante e, pelo menos, naquele momento, conseguia encará-lo.
_ Então fico mais aliviado.
Ela sorriu de canto, se recostando na bancada onde ele estava apoiado.
_ Você quer alguma coisa? Uma água, café... - o olhar da mulher se perdeu sobre o presente de Natal que ele havia lhe lado. não havia usado nem a metade, tamanho seu medo por ver o fim daquilo e, por isso, o pote havia se tornado um objeto decorativo na sua cozinha. - Um chocolate quente?
Ele seguiu o olhar dela, sorrindo ao ver do que se tratava.
_ Estou bem. - ele sentia-se mais a vontade a medida que ela parecia menos relutante e vê-la daquela forma lhe trazia uma boa sensação. - Na verdade, eu vim te chamar para sairmos...
A expressão de se desfez e ela, instintivamente, se afastou.
_ Eu não acho que seja uma boa ideia...
_ Garanto total privacidade.
Ela estalou a língua, andando pela cozinha. Por fim, quando soube exatamente o que falar, voltou-se para bancada e se pôs de frente para ele.
_ Posso te perguntar uma coisa e exigir sua sinceridade?
_ Claro. - ele gesticulou com a mão para que ela seguisse em frente.
umedeceu os lábios.
_ Por que esta aqui depois de eu, claramente, mostrar que não queria me aproximar?
Chris ponderou a questão por alguns segundos, restando um pouco de tempo para que o analisasse.
Ele passava a mão no cabelo constantemente, quase como um processo para mascarar seu acanhamento. Ela gostava da forma como a barba dele estava incrivelmente desenhada e perguntou-se se ele havia feito especialmente para aquela ocasião.
_ Não posso te dar essa resposta agora. - respondeu, sorrindo.
_ Por que não?
_ É uma confissão delicada.
Ela queria soar séria, mas era impossível quando um homem como ele sabia ser incrivelmente cativante ao escolher as palavras e sustentar uma postura extremamente charmosa.
_ Então acho que ficaremos nesse apartamento.
Chris gargalhou.
_ Não que eu ache uma má ideia, mas preciso realizar meu experimento social com você.
Ela também riu.
_ É para isso que esta aqui? Pesquisa de campo?
_ Exatamente. - ele respondeu em tom divertido, se levantando. - E agora tenho um motivo para negociarmos.
se recostou na bancada novamente, achando graça daquela situação. O mais estranho era que ela estava extremamente envolvida pelo momento e disposta a entrar em qualquer que fosse o desejo de Chris.
_ Diga.
_ Você sai comigo, me ajuda na minha pesquisa e, no final, respondo a pergunta que me fez.
Você não devia aceitar, se repreendeu.
Exigir a honestidade dele era a porta de entrada para que Chris cobrasse o mesmo futuramente e ela nunca poderia ser sincera da forma que ele merecia.
Ela só queria não se sentir tão envolta por aquela presença. Desejava não se enlouquecer pelo cheiro que ele deixava por onde passava ou não se arrepiar a cada sorriso de canto que ele dava.
Havia acordado se sentindo leve, sabendo que o dia lhe traria coisas boas. E Chris apareceu. Pensava que se sentir bem era sinônimo de estar mais forte e longe de todas as tormentas, mas estava fraca e disposta a jogar outro indivíduo no turbilhão de problemas que era a sua vida.
queria, e muito. Precisava de desculpas para virar inimiga da sua razão e finalmente ir com ele.
Você consegue manter uma amizade com a Shanna, continuou pensando, talvez com o irmão não seja diferente.
_ Tudo bem. - a resposta imediada fez com que Chris arregalasse os olhos. - Mas temos que rever algumas condições.
_ Claro que temos. - ele sabia que não seria tão fácil.
Ela começou a numerar em sua mente antes de falar:
_ Vamos no meu carro e eu dirijo. Caso alguém te reconheça, abortamos o experimento na hora. E, por último, não farei nada em que eu não me sinta confortável.
Ele deu de ombros.
_ Parece justo para mim.
não esperava que ele não fizesse nenhuma relutância, por isso, ficou perdida por alguns segundos.
_ Tudo bem, vou tomar banho. - começou a caminhar para fora da cozinha, mas voltou quando se lembrou de algo. - Como devo me vestir?
Chris caminhou até a sala, sentando-se no sofá para espera-la.
_ Você decide.
Ela apoiou-se sobre o encosto do sofá, próxima a cabeça dele. Olhou diretamente para Chris, mas ele a ignorava, olhando atentamente algo no celular.
_ Não vai me dizer o que você quer com isso tudo?
Ele continuou sem encara-la.
_ Apenas seja você.
O cheiro de lanche e batata frita preenchia o interior do Corolla 2016 de , o que a fez abrir os vidros quando percebeu que a rua em que passavam não oferecia nenhum perigo de serem fotografados.
Ele havia pedido para que ela escolhesse a trilha sonora, mas não possuía muitas opções em seu carro. Quando deu play no pen drive que achou por acaso, viu que ele havia aprovado.
Chris gargalhou quando viu a expressão da mulher se tornar preocupada ao avistar o Fenway Park. Ela passou a olhar a rua com mais atenção, procurando por algum torcedor ou aglomeração que estivesse se destinando ao local.
_ Fica tranquila, não tem nenhum jogo hoje.
Ela semicerrou os olhos.
_ Se não vamos assistir a um jogo de Baseball, o que fazemos aqui?
Ele apontou para algo do lado de fora.
_ Pensei que você ia me deixar te surpreender.
revirou os olhos, seguindo pela entrada que ele havia indicado.
Assim que saíram do carro, Chris pegou os lanches que haviam comprado no meio do caminho. se ofereceu para ajudar, mas ele, cavalheiro, recusou. Ele a guiou por um longo caminho até chegarem ao campo, o que a surpreendeu, pois após cumprimentarem alguns funcionários, o portão que se abriu a frente de ambos dava diretamente para o gramado.
Tudo estava extremamente vazio, com exceção dos funcionários que faziam a manutenção. Andaram até as arquibancadas do meio, e ele a ajudou a pular o muro. Quando se sentaram, Chris olhou no relógio e disse:
_ Já vai começar.
Os olhos de se arregalaram.
_ Começar o quê?
Ele riu, entregando um sanduíche para ela.
_ O teste de funcionamento do telão.
nunca havia se sentindo tão perdida quanto naquele momento. Estava completamente leiga sobre o que estava acontecendo enquanto Chris se comportava como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
_ Teste de telão?
Dessa vez, ele a encarou com dúvida.
_ Você nunca veio aqui, não é?
Ela afirmou, se recostando no assento.
_ Nunca estive em um jogo de Baseball, na verdade. - disse, desembrulhando o seu lanche. - Não é meu esporte favorito.
Chris ficou espantado.
_ É pior do que eu imaginei.
_ O que você esta querendo dizer?
Ele abriu o suco, servindo-a.
_ Eu sabia que você vivia em um mundinho só seu, mas não pensei que era tão grave. - ele riu e ela o acompanhou. - O Fanway Park é um clássico, não acredito que nunca esteve aqui!
_ Eu já disse, - deu uma pausa para beber. - não é meu esporte favorito.
_ Nem o meu, mas é um clássico americano!
Ela deu de ombros, comprando seu argumento. Enquanto comiam, ficaram e silêncio por algum tempo, até perguntar:
_ E o que vamos assistir no telão?
Chris olhou para por alguns segundos, ainda mostrando sua expressão leve. Ele costumava se sentir na defensiva para falar sobre as coisas que gostava, mas não conseguia fazer isso com ela. Tinha ciência que aquela resposta poderia desencadear pensamentos diversos na mulher e não se importou, pois, por mais louco que aquilo pudesse soar, não tinha medo de ser ele mesmo ao lado dela.
_ Eles passam as propagandas do Christopher's Haven nos jogos de sexta-feira e usam para fazer os testes de telão. Eu gosto de vir aqui e imaginar esse estádio cheio de pessoas se sensibilizando com a causa.
Claro, a organização de ajuda as crianças com câncer e suas famílias... Chris amava. Ela sabia apenas o que Shanna havia lhe contado e, até, chegou a esquecer. Todavia, naquele momento e diante daquele fato, não sentia mais medo algum por estar ali. Já era difícil não ser entregue a situação, e, depois disso, Chris transformou o ambiente por inteiro.
Ela o encarava com admiração e nem percebeu quando a luz do telão finalmente se ascendeu. O som da propaganda foi ouvido e, aos poucos, ela foi prendendo a atenção no que se passava a sua frente. Não disseram nada pelo o que ela julgou ser mais de uma hora, apenas sorrindo no anúncio a qual Chris aparecia. Quando os leds voltaram a ficar cinza, não havia mais nenhum sinal de sanduíche, batata ou suco.
Eles se levantaram, indo novamente em direção ao gramado. Enquanto Chris jogava o lixo fora, percebeu, pelo canto do olhar, que rodopiava pela grama.
_ É um bom lugar para você dançar ao som de Backstreet Boys.
Ela colocou a mão no rosto, rindo.
_ Por favor, não conte isso para ninguém. - disse, olhando para baixo enquanto passava o tênis sobre a cama e repousava suas mãos dentro dos bolsos da jaqueta jeans.
_ Será o nosso segredo.
Chris se aproximou, pegando na cintura de e a girando.
O contato, por mais prazeroso que fosse, a fez se distanciar no minuto em que pararam e, quando seu rosto encontrou o dele, percebeu o quanto pareceu rude. Não podia culpar seus instintos, mas Chris não tinha como saber sobre seus temores.
Para a surpresa dele, voltou a se aproximar, pegando sua mão e colocando-a sobre sua cintura novamente. Chris sentiu-se aliviado ao perceber que não havia passado dos limites e sorriu junto a ela enquanto os dois dançavam pelo gramado sem precisar de música.
_ Como vai sua pesquisa de campo? - ela ergueu o rosto para ele e seus olhos se encontraram.
_ Bem produtiva.
deitou a cabeça sobre o ombro de Chris, sentindo-o a guiar.
_ Algum resultado?
Escutou sua risada.
_ Ainda é cedo para dizer.

-

A noite havia caído e, com isso, tiveram que sair do estádio. Ambos não queriam voltar para casa e, por isso, respiraram aliviados quando pegaram um engarrafamento torrencial.
Christopher gargalhava toda vez que tinham que parar, afinal, era uma péssima motorista. Passaram perto de bater no carro da frente ou de trás inúmeras vezes e ela não tinha o mínimo pudor na hora de xingar em reclamação. Ele amava isso.
Demorou para que finalmente chegassem ao centro de Boston e, quando isso aconteceu, perguntou em um tom desanimado:
_ Eu te deixo no meu apartamento e de lá você pega seu carro?
Chris pareceu um pouco incomodado com a pergunta.
_ Tudo bem... Pode ser.
Como que em um protesto, o corpo de guiava o carro da forma mais lenta possível e odiou perceber que havia uma vaga no estacionamento do prédio bem ao lado do Jeep Grand Cherokee de Chris.
Saíram do automóvel em silêncio e se colocaram entre os dois carros.
_ E então... - começou dizer, mas não encontrou palavras para finalizar.
_ É... - Chris se encontrava no mesmo estado, colocando as mãos nos bolsos e se recostando no próprio carro.
Ela olhou para todos os lados, tentando decidir o que faria a seguir. Ele, por sua vez, apenas esperava uma atitude dela, já que não era certo forçar a barra.
_ Esse é o momento em você me fala o motivo de ter me procurado? - ela fez o mesmo que Chris, se encostando no Corolla e ficando de frente para ele.
O ator riu pelo nariz.
_ É, acho que sim.
ergueu um sorriso de canto, abraçando o próprio corpo ao sentir a brisa gelada soprar dentro do estacionamento.
_ Vá em frente. - gesticulou. - Por que me procurou depois de eu querer me afastar?
Chris respirou fundo, olhando para o chão e erguendo o rosto para ela logo em seguida. Ele tinha um sorriso escondido sob a barba.
_ Porque estou extraordinariamente atraído por você. - confessou, fazendo o sorriso de se desfazer. - E não me julgue, eu tentei fazer o que você queria. Eu quis seguir minha vida acreditando que você era indiferente. Mas ai, Scott surgiu com um comentário muito coerente sobre nós.
Ela não conseguia tirar os olhos dele.
_ E qual foi?
_ "Vocês são muito parecidos" - contou. - "Duas pessoas com visões extremamente individualistas para relacionamentos." E então, eu percebi que era verdade... Sempre tive defesas muito bem estabelecidas sobre a forma como me relaciono. Nunca quis que ninguém tomasse minha vida para si e, por algum motivo, você também não. Além disso, eu não conseguia parar de pensar em você.
continuou em choque, ainda sem se entender e de que forma agiria diante daquela sincera revelação.
Sua mente gritava para que ela fugisse, para que fizesse o que Chris estava dizendo: impor seus limites. Nunca poderia contar seus motivos e o ator já estava ciente de que eles existiam. Seu coração, porém, nunca se sentiu tão vivo. As palavras do homem à sua frente foram as mais verdadeiras que já havia escutado e, nem mesmo Henry foi capaz de despertar sentimentos tão avassaladores e confusos.
Ela sabia que, talvez, aquela era a sua única oportunidade de viver um grande amor, mesmo depois de ter pensado que aquilo nunca seria possível.
_ Não posso agir de forma incoerente contigo. Você me pediu para desistir uma vez e, pelo o que estou vendo, vai me pedir para fazer isso novamente. - Chris continuou. - Pelo menos agora você sabe, de todo o meu coração, a verdade. Eu nunca teria feito isso, mas, por sermos tão parecidos, acho que você me compreende.
Ele respirou fundo, percebendo que não teria nenhuma resposta. apenas olhava para o nada, abraçada no próprio corpo. Chris não podia fazer mais do que aquilo.
_ Bom, eu to indo...- disse, mas não obteve nenhuma resposta.
Ele se virou, destravando a porta do carro e se dando, finalmente, por vencido. Entretanto, um cheiro forte e delicioso preencheu suas narinas e surgiu ao seu lado. Ela estava visivelmente confusa, mas nunca pareceu tão ela mesma ao agir daquela forma.
levou as mãos ao rosto de Chris, unindo seus lábios de forma calorosa. Ela sentiu os braços do homem envolverem sua cintura a ponto de a tirar do chão enquanto sua mão fria tocava a pele quente sob a blusa que vestia. Quando aprofundou o beijo, sentindo a língua dele se juntar a sua, um arrepio tomou conta de seu corpo.
Chris encostou-a no carro, sentindo uma eletricidade os consumir em cada toque. Nunca pensou teria um beijo mais especial do que aquele no ano novo, estava enganado.
E então, finalmente sentia-se entregue.
Quando o ar faltou e tiveram que se separar para respirar, colaram as testas uma na outra e ficaram encarando-se por algum segundos. fungou, passando as mãos pelo peito de Chris.
_ Qual era o seu experimento? - perguntou, em um sussurro.
Chris sorriu, lhe dando um selinho antes de responder:
_ Saber, de uma vez por todas, se era um sentimento recíproco.

[...]

Quando fechava os olhos, podia sentir paz e uma presença envolvente ao seu lado. Era puro, simples e singelo. Era o céu em meio ao inferno que conhecia.
Ela nunca havia se divertido daquela maneira, nunca tinha reparado nos mínimos detalhes como ele fazia. Se lembrava de tudo daquele dia e sabia que seu sorriso poucas vezes havia abandonado seu rosto quando estava com Chris.
No carro, eles riam das pessoas do lado de fora vestidas para o desfile público; no estádio, dançavam sem nem precisar de música. ainda podia sentir os braços dele a sua volta, seu perfume e o cheiro que ele havia deixado em suas roupas.
Chris repetiu mil vezes o sabor de sanduíche preferido dela para que nunca se esquecesse. Segurou sua mão, olhou de forma verdadeira em seus olhos. Ela nunca havia passado por isso. Nunca havia se sentido importante daquela maneira.
E se fosse, de fato, passageiro? nem mesmo se importava mais. Ela precisava se sentir assim constantemente, mesmo sabendo que não merecia.
Deitada em sua cama depois do dia mais incrível de sua vida, finalmente se sentiu alguém. Um ser humano bem mais valioso do que o passado que carregava.
Não havia nada no mundo que ela quisesse mais do que a presença dele ao seu lado naquele momento. Queria ter tido coragem para chamá-lo para subir, mas - ao contrário - respeitou seu próprio tempo e decidiu que os passos deviam ser dados um de cada vez.
Chris havia dito o quanto eram individualistas e encarou isso como uma boa desculpa para ficar perto dele o maior tempo possível. Afinal, depois de acreditar que merecia sofrer, ela finalmente abriu a porta para algo que podia lhe fazer feliz.


Capítulo 08

Boston, Massachusetts.

Uma chuva fina caía, mas o sol tímido também preenchia a visão e, de frente para aquela paisagem, sentia-se exausta após noites sem dormir. Boas noites...
Sentada no banco de frente ao gramado vazio da escola, seus olhos fechavam e um sorriso se formava em seu rosto. Ela sentia uma força invisível a envolver ao se lembrar dele e todas as vezes que recordava a risada de Chris, seu coração quase ameaçava parar após tanta agitação. Era como se ele estivesse ao seu lado, sentado ao ver a grama verde iluminada ser regada pelo sereno. O cheiro era de terra molhada, mas ela era capaz de transformar no dele, lembrando-se de cada detalhe, cada toque.
_ Ah, graças a Deus, você ainda esta ai. - a voz de Shanna fez-a saltar do banco, tomando um susto. A amiga riu, mas pensou que estava apena cochilando. - Pensei que você não fosse me esperar.
abriu e fechou a boca várias vezes. Realmente não ia esperar por ela...
_ Eu... - tentou argumentar, mas a amiga começou andar, apressada.
_ Vamos almoçar juntas? Podíamos encontrar um lugar diferente hoje.
No mesmo momento, sentiu seu celular vibrar e, ao longe, viu um carro preto estacionar onde haviam combinado.
Era tão difícil querer esconder aquilo de Shanna, principalmente porque já omitia muitas coisas. Não sabia, exatamente, o que estava acontecendo com Chris. Só tinham combinado de seguir de acordo com os acontecimentos. E, aquele almoço, inicialmente, seria apenas o último momento que teriam antes dele voltar para Los Angeles à trabalho.
_ O que deu em você? - a amiga a encarou com um sorriso no rosto, mas expressava o ar de dúvida. - Onde está seu carro?
Ela era sua melhor amiga, merecia saber.
deu um sorriso tímido.
_ Vim de Uber.
Shanna semicerrou o olhar.
_ Você tem medo de andar de Uber.
riu.
_ Sim, mas eu já sabia que teria carona para voltar.
Shanna olhou para todos os lados. Aquilo já estava começando a ficar estranho pelo simples fato de odiar andar em qualquer carro que não fosse o próprio. Era uma péssima motorista, mas tinha uma grande aversão a carros alheios. E, além disso, era uma pessoa tão fechada que imaginá-la de amizade com outra pessoa era, no mínimo, duvidoso.
_ Ele está esperando a gente do outro lado de campo. - a professora continuou. - Vai amar que você almoce conosco.
_ Ele?
_ É. - gargalhou e começou a andar.
As duas caminharam em silêncio e sentia seu rosto enrubescer a medida que se aproximavam do carro. Ora pela presença de Chris, ora pelo olhar penetrante de Shanna para descobrir o que estava acontecendo.
A Evans mais nova parou no meio da calçada, chamando a atenção da amiga. Olhou para e, depois para o automóvel a frente.
_ Eu conheço esse carro.
gargalhou.
Chris, que ria com a inesperada decisão de de contar para Shanna, saiu e viu o olhar espantado da irmã ao constatar que, de fato, era ele. Ele recostou-se no Jeep, colocando as mãos no bolso e esperando pelas duas.
Shanna, quando chegaram, cruzou os braços e encarou os dois.
_ Qual de vocês que vai me explicar o que está acontecendo?
Ele respirou fundo, vendo que tentava, inutilmente, esconder o sorriso.
_ e eu estamos...
_ Dando uma chance para a nossa amizade. - ela o cortou, temendo que algo mais intenso fosse dito.
Chris entendeu o que ela queria dizer. Não desejava esconder a verdade de Shanna, só tinha medo de qualquer que fosse o estereótipo daquela relação. Mais um ponto em que ele perdia-se facilmente no mistério que era aquela mulher. Shanna também compreendeu, tomando rapidamente um posicionamento que julgou ser coerente para aquela situação. Conhecia muito bem a amiga e sabia que fazer um alarde sobre aquele assunto só a deixaria mais desconfortável.
_ Certo... - a mulher falou, descruzando os braços e seguindo para dentro do carro. - Já que vocês são apenas amigos, eu vou na frente.
Christopher gargalhou, colocando a mão no peito e jogando a cabeça para trás. Assim como , sentiu-se aliviado por Shanna ter tratado daquela forma.
escondeu o rosto, sentindo o nervosismo fazê-la querer rir daquela forma. Todavia, seu sorriso se transformou ao ver que Chris, com os lábios levemente erguidos, abria uma das portas de trás para que ela entrasse. Foi até ele, sendo acompanhada pelas borboletas que voavam soltas pelo seu estomago.
_ Obrigada. - sussurrou.
Chris piscou, fechando a porta e seguindo para o banco do motorista.

Belle Isle Marsh Reservation, Boston - Massachusetts.

Após almoçarem com Shanna no apartamento da mulher, foram gentilmente liberados para fazerem oque quer que pretendiam antes da irmã do ator surgir. Ela, apesar de encenar uma decepção por não ser convidada para o próximo ponto do roteiro, estava extremamente feliz em vê-los irem sozinhos.
, em contra partida, por mais que estivesse bastante curiosa, começou a se preocupar a medida que o destino demorava a ser alcançado. Mais uma vez, temia por ser um lugar público, mas Chris lhe garantiu descrição.
Queria sentir-se mais leve e estava se esforçando para aquilo pois percebia que tudo que Evans fazia era para que se sentisse melhor. Após estacionarem, caminharam alguns minutos pela reserva até encontrarem o primeiro aglomerado de pessoas vindo de encontro à eles.
Chris colocou os óculos que estavam pendurados na gola da camisa sob o casaco vestiu o boné que estava no bolso do mesmo.
gargalhou, não segurando o deboche:
_ Uau! Agora você está irreconhecível.
Ele também riu, aproximando-se dela e a guiando para a beira de uma ponte próxima. Recostou-a na madeira e virou de costas para as pessoas que estavam vindo. Sorriu, vendo a expressão perdida da mulher. Ele pegou a mão de , jogando-a sobre seu ombro e, delicadamente, segurou seu rosto, unindo seus lábios. Ao compreender o que ele queria fazer, tentou prender a gargalhada e ajudar no plano. Ele desceu uma de suas mãos e depositou sobre a cintura dela, apertando de leve.
Quando se separaram, o grupo havia passado e, enfim, podiam rir daquela situação.
_ Gostou? - ele perguntou em um tom de provocação. - "Capitão América: O Soldado Invernal", já assistiu?
_ Não. Foi lá que você aprendeu isso? - perguntou, perdendo a atenção nas suas mãos entrelaçadas enquanto Chris voltava a caminhar.
Aquilo a fez parar por alguns instantes, analisando a situação.
_ Sim. - de início, respondeu à pergunta alheio aos questionamentos internos que enfrentava.
Ela nunca havia apreciado o quanto aquele gesto era reconfortante. Nunca teve a oportunidade de andar dessa forma com Henry. Com James, por sua vez, não lhe faltou ocasiões. Todavia, seu falecido marido tinha o costume de andar com as mãos em suas costas, a segurando pela roupa para que pudesse impedi-la caso tentasse fugir. Quando queria lhe repreender, aproveitava a posição de suas mãos para beliscar a esposa, deixando marcas.
Estava cada vez mais nas nuvens por detalhes que qualquer outro consideraria fútil. Mas apenas ela sabia a importância daquele toque.
Chris percebeu que aquilo era o motivo do súbito silêncio da mulher. Acariciou a mão dela com o polegar, sentindo um alivio ao vê-la voltar para a realidade e sorrir.
_ Tudo bem?
Ela olhou para as mãos novamente.
_ Tudo.
Ambos voltaram a caminhar, seguindo pela ponte.
Era um local muito aberto e o barulho do vento forte que os circundava fazia com que se lembrasse das brincadeiras com Hanna no imenso campo de Carlisle quando eram crianças. Era curioso o fato de que Chris lhe transmitia tamanha paz que até lembrar de sua cidade natal era menos doloroso.
Um coiote saiu de dentro dos arbustos, parando próximo ao lago de água pantanosa sob o qual se encontrava a ponte onde caminhavam. Chris apontou para ele e ambos se encostaram na madeira para observá-lo.
_ Eu estou curiosa... - começou a falar, encarando o homem ao seu lado. - Por que me trouxe aqui?
Chris riu pelo nariz.
_ Porque sei que nunca veio.
Ela continuou tentando estudá-lo e algo dizia que aquela não era a completa verdade.
_ Sou professora e leciono em uma escola extremamente patriota. Você acha que nunca ensinei sobre esse lugar para os meus alunos?
Chris, que estava com os cotovelos sobre a madeira, se ergueu, ficando de frente para ela.
_ É mesmo?
_ Sim. - continuou sorrindo. - Não me leve a mal, eu estou amando o passeio, mas está na cara que sua intenção vai muito além de me mostrar os últimos remanescentes de pântano salgado da baía de Massachusetts.
Ele mordeu o lábio, olhando para onde antes estava o coiote e voltando-se para ela.
_ Você é boa.
_ Eu sei. - cruzou os braços, arrancando uma gargalhada dele.
Ele respirou fundo, escolhendo as palavras.
_ Eu posso te dizer, mas vamos ter que continuar com as nossas trocas. Respondo uma pergunta sua, quando responder uma minha.
Desconfortável, olhou para outra direção enquanto tentava disfarçar. Sabia que era uma troca mais do que justa, mas, se aceitasse aquilo, suas omissões logo atingiriam o grau que sempre temia, o da mentira. Naquele momento, questionamentos desconfortáveis começaram a aparecer e em seu subconsciente piscava o alerta de que a decisão de se entregar à aquela relação, mesmo sem rotulação, estava passando dos limites.
_ Qual a necessidade de fazer isso? - ela tentou soar descontraída.
Chris umedeceu os lábios.
_ Você age como se fosse um livro aberto, mas não é.
Ela respirou fundo, apoiando os cotovelos na madeira e passando as mãos no cabelo. Ela precisava sair daquela situação, mas, se não concordasse, tornaria aquele momento extremamente desconfortável. Além disso, no fundo, havia uma imensa vontade de se abrir para ele.
_ Tudo bem... - respondeu, ainda receosa, olhando-o pelo canto do olho. - O que você quer saber?
Aliviado, Chris colocou-se na mesma posição que ela, abrindo um sorriso enquanto, obviamente, percebia que não estava extremamente satisfeita com aquele trato. Ficou por alguns momentos em silêncio, pensando se aquilo era o certo a se fazer. Porém, por mais que não fosse o tipo de pessoa que se abria, pensou que poderia se sentir bem fazendo aquilo.
_ Como é sua família?
riu de nervoso, erguendo-se e deixando suas costas eretas.
_ Eu tenho uma irmã que está na Espanha e um irmão que mora com o meu pai.
Chris ergueu as sobrancelhas.
_ Eu não sabia sobre esse outro irmão.
_ É... Não tenho uma boa relação com o meu pai e ele possui a guarda. Minha família não é tão agradável quanto a sua.
_ Entendi. - ela nem precisou terminar para que Chris percebesse que estava arrancando mais do que ela queria falar.
não tinha a intenção de conta tudo para ele, mas sentiu que aquilo era o certo a se falar. Afinal, estava contando a verdade, mas omitindo toda a parte tenebrosa.
_ É só que... - ela ainda olhava para outro ponto. - Meu pai e eu somos muitos diferentes e estar longe do meu irmão não é uma escolha minha.
O ator balançou a cabeça em afirmação, também se erguendo e segurando a mão da mulher. Voltou a caminhar, puxando-a delicadamente para perto de si. Sentia-se mais aliviado ao saber daquilo e que, aos poucos, estava se sentindo confortável para se abrir.
_ Respondendo a sua pergunta, não quero que me entenda mal. - ele começou a dizer, fazendo-a lhe encarar. - Minha intenção em te trazer aqui é testar uma das milhares de teorias que criei para você.
A fala dele fez com que ela sorrisse, mesmo achando aquilo um tanto bizarro.
_ Mais um estudo de campo?
_ Talvez. - ele também sorriu. - Como eu disse, para mim, você é um livro fechado. Eu não sei nada sobre o que você gosta, o que prefere fazer. E eu posso estar louco, mas sinto que nem mesmo você sabe. É como se estivesse começando a viver agora e estivesse finalmente se descobrindo.
parou subitamente, digerindo todas aquelas palavras. Tentou pensar em algo que rebatesse aquela ideia, mas não conseguiu pensar em - nem ao menos - uma coisa que gostasse muito de fazer além de ir para onde Shanna a levava. Chris estava certo, mais uma vez.
Ela olhou para todos os lados em uma tentativa falha de entender o resto daquela conclusão.
_ E por que os passeios?
Ele deu de ombros.
_ Não é algo que eu faço com frequência, na verdade. Eu viajo tanto a trabalho que meu único lazer fora de casa é a Disneyland com minha família uma vez no ano. - ele sabia que não estava confortável com aquela situação e sua voz começou a se descompensar ao se ver de frente ao temor de tê-la magoado. - Mas pensei que para você, talvez, pudesse ser algo bom. Simplesmente imaginei, pelo o que tento desvendar, que esse era o certo a se fazer.
fechou os olhos, sentindo uma pontada de culpa em seu coração. Aquela verdade era tão mais significativa que as palavras que Chris havia dito. Suas ações e seu companheirismo eram algo que ela nunca havia recebido. Só queria ser honesta com ele e se livrar, de uma vez por todas, do peso que se instalava em sua garganta todas as vezes que se via a beira de revelar tudo. Ela desejava, mais do que tudo, ser uma pessoa diferente, mais digna. Tentava, todos os dias se convencer que merecia o melhor e Christopher era muito mais do que ela havia esperado encontrar.
_ Você pode me achar maluca. - olhou para as próprias mãos, sentindo uma lágrima cair sobre elas. - Mas talvez isso seja a completa verdade.
Chris estalou a língua, olhando diretamente para ela. À aquela altura, ele já havia percebido que escondia algo que a torturava e, mesmo tendo ânsia por descobrir, seu maior alívio era saber que, na sua presença, o peso que carregava desaparecia. Ele só queria vê-la bem.
_ Pensei que quando ouvisse que estou certo, me sentiria feliz.
Ela enxugou os olhos.
_ Sinto muito.
Ele pensou por alguns instantes, colocando seus pensamentos no lugar. Sempre havia desconfiado sobre o mistério proposital que havia criado em volta de si, mas nunca havia se preparado para o momento que ouviria que estava certo. No início, ele foi infantil, tratando como uma disputa pessoal idiota. Ele queria conquistar a afeição da mulher, saber o que lhe tornava tão atraente. Mas, no fim, estava ele, conflitando internamente sobre o que faria para que se sentisse da forma que ele a via: uma pessoa especial.
Ele segurou a mão dela, olhando por alguns segundos para os dedos que brincavam distraidamente com um dos anéis da mulher. Depois, subiu com suas mãos pelos braços de , puxando-a para um abraço. Sentiu o perfume dela no momento em que a mesma repousou a cabeça em seu ombro.
O mistério, as dificuldades para dormir, o violento sonambulismo... O que mais pode surgir? Ele se perguntava a todo momento.
Sabia que era extremamente forte, a ponto de carregar o mundo, mesmo que não reconhecesse esse poder. Todavia, Chris queria ser necessário. Nenhuma hipótese do que poderia acontecer lhe abalava naquele momento. Ele só desejava fazer o melhor para ela.
_ Não sinta. - beijou o topo de sua cabeça. - Podemos fazer outro trato?
Ela se afastou, mas continuou abraçada a ele. Olhou diretamente em seus olhos, sentindo a verdade daquele momento. balançou a cabeça em afirmação.
_ Sem cobranças. - enfatizou, buscando fazê-la se sentir a vontade para se abrir no momento em que desejar. - Apenas deixe-me continuar buscando o que te faz feliz.
Ela sorriu de canto, o encarando com ternura.
_ O que nos faz felizes. - corrigiu, vendo-o sorrir também.
Ele encenou um suspiro, como se aquilo fosse lhe custar caro, mas logo embrenhou os dedos pelo cabelo dela, aproximando seus rostos.
_ É, eu posso lidar com essa contra proposta. - soprou antes de beijá-la.
Envolveu-a da maneira que seu coração pedia e sentiu que aquele abraço seria o maior conforto que os dois encontrariam.
A verdade era que, assim como , Chris também precisava ser concertado. Ele era apenas mais um homem perdido no meio de um mundo onde tudo a sua volta era caótico. Ele necessitava dela e, talvez, até mais do que imaginava.

-


O final da tarde foi tranquilo. Caminharam a maior parte do tempo, rindo de assuntos bobos. adorou o lugar e constatou que era bem mais divertido do que falar sobre ele dentro de uma sala de aula.
Por não poderem se aproximar, ficaram por muito tempo isolados enquanto imitavam um grupo de idosos que faziam o turismo de observação de pássaros. Ambos tentaram observar os animais e distinguir suas diferenças. Quando perceberam que não entendiam nem um pouco o interesse por aquilo, começaram a gargalhar.
Chris tinha o costume de olhar diretamente para ela enquanto falava, não importava qual era o assunto. Quando percebeu, passou a ficar corada, imaginando o que estaria se passando na cabeça dele, mas não questionou. Gostava daquilo.
E, no fim, perceberam que não queriam ir embora.
_ Que horas é o seu voo? - perguntou enquanto colocava o cinto de segurança.
O ator ainda estava do lado de fora, olhando algo que havia surgido na lataria do carro. Mas, ao vê-lo sentando e dando partida no mesmo, viu que não era nada demais.
_ Às 8 de amanhã. - informou, alheio ao verdadeiro questionamento da mulher.
Chris teria que voltar para Los Angeles antes de partir para Atlanta e realizar algumas pendências sobre o filme que gravava. E, nem mesmo ele, sabia quando estaria de volta. A promessa implícita era de manterem o contato, mas talvez a prática fosse tornar as coisas diferentes e temia por isso, mesmo não tendo ideia do que, exatamente, tinha medo.
_ Quer pedir uma pizza? - ela levou sua atenção para o caminho que seguiam em direção à saída da Reserva e tentou soar indiferente para que sua vontade de mantê-lo mais tempo por perto não fosse percebida.
Chris engoliu em seco, começando a perceber que, assim como ele, talvez ela não quisesse que aquele dia terminasse. E, se não tivesse temendo passar dos limites, já teria proposto algo do tipo.
_ No seu apartamento ou no meu?
deu de ombros.
_ Pode ser no meu.
Ele olhou para o outro lado, tentando esconder o sorriso de satisfação por aquilo. Todavia, o que não percebeu, era que fazia o mesmo.

-


_ O que você acha de Vermont? - pegou um pedaço de pizza sobre a bancada, mordendo e sentindo a boca ficar suja.
Chris, que estava de frente, riu da cena.
Estavam ambos debruçados sobre a bancada da cozinha enquanto comiam aquela deliciosa pizza. Comportavam-se como duas pessoas que tinham acabado de encontrar comida depois de dias a deriva no deserto. Se divertiram tanto durante a tarde que haviam se esquecido que sustentaram o resto do dia apenas com o almoço.
Chris analisou a proposta, pensando nas possibilidades.
_ Uma viagem de carro seria interessante, mas três horas é muito pouco. - sorriu, charmoso. - Vai precisar achar um lugar mais longe, de preferência algum em que fiquemos bastante tempo no carro, só eu e você.
, instantaneamente, engasgou, escutando a gargalhada do homem. Ela estava visivelmente envergonhada e abalada - no bom sentido - pelas palavras que ele havia dito.
Chris sorria, sentindo-se vitorioso.
Ela revirou os olhos, tentando esconder a vergonha por vê-lo tão confiante.
_ O que você pensou, então?
Ele terminou de mastigar antes de responder.
_ Na verdade, eu estava pensando em algo mais longe... Talvez uma praia.
Ela pensou, buscando no fundo algo que a despertasse a ânsia pela ideia, mas, surpreendentemente, não encontrou nada. Suspirou, ajeitando a postura antes de empurrar os restos de pizza na direção de Chris e se sentar sobre a bancada.
_ O que foi? - ele percebeu seu desconforto.
procurou palavras, mas foi difícil formulá-las.
_ Você não me parece do tipo que gosta de praias. - jogou sobre ele, vendo-o concordar brevemente.
_ Na verdade, eu gostava antes de toda a fama. - contou, também deixando a pizza de lado ao perceber que estava satisfeito. - Agora é difícil ir para lugares que costumam ficar muito cheios, mas sei que há mais opções.
Ela balançou a cabeça, compreendendo.
Chris apoiou-se na superfície a frente para terminar de beber seu suco, mas continuou estudando-a a espera de uma reação.
estalou a língua, tomando coragem.
_ É que... - fez uma pausa, rindo de nervoso para o homem. - Eu nunca fui à praia.
Era difícil contar aquilo, principalmente por ser algo que soaria bobo na boca de outra pessoa. não sentia desejo de ir até a praia porque, nem mesmo, sabia como era. Suas experiencias com o mar estavam apenas limitadas a momentos em que passou de carro pela orla e, mesmo assim, algo que ocorreu poucas vezes. Ela não sabia como era afundar o pé na areia e sentir a maresia.
O ator arregalou os olhos, não crendo naquela afirmação. Seu primeiro instinto foi rir, mas, quando percebeu que ela estava falando sério, sua expressão voltou a ser de espanto. Ele caminhou até , se pondo entre suas pernas e olhando fixamente para o seu rosto enquanto repousava suas mãos sobre as coxas dela.
_ Isso é verdade?
Ela continuou rindo.
_ Sim.
_ Como... - ele não achou palavras para continuar.
A mulher jogou as mãos sobre o ombro dele, achando divertida a reação do rapaz.
_ Nunca tive oportunidade, eu acho.
Chris ficou em silêncio por alguns segundos, digerindo aquela revelação. E, por fim, sorriu junto a ela.
_ Então preciso te levar à praia.
olhou para baixo por alguns segundos, tentando esconder o sorriso bobo que havia em seu rosto.
Achava incrível a forma como ele conseguia aqueles sentimentos tão facilmente.
Chris puxou-a para mais próximo, beijando seu rosto e a abraçando. Ficaram assim por alguns segundos, apenas sentindo o conforto e o cheiro um do outro. Pelo ombro da mulher, viu que o relógio na parede indicava que a noite havia passado voando e que, mesmo desejando o contrário, teria que ir embora.
Não disse nada, apenas encarou novamente, pegando uma mecha de seu cabelo e colocando atrás da orelha. Passou o polegar pelo rosto da mulher, olhando em seus olhos e vendo a luz fraca ser refletida nos mesmos. Sua pele era macia e parecia um imã, era como se ele estivesse querendo se afastar, mas os dois polos fossem extremamente conectados. Seu sorriso era doce e o que mais lhe transmitia paz. Ele amava cada detalhe daquela imagem à sua frente e sentia-se abobado ao perceber que estava tão envolvido.
Sorriu, depositando um breve beijo no canto de sua boca. Viu-a fazer o mesmo e, novamente, uniu seus lábios, beijando-a com mais intensidade.
apertou os ombros de Chris quando sentiu ele puxar seu corpo para mais perto, descendo com as mãos pelas suas pernas e fazendo com que elas o envolvessem. De início, ele apenas repousou seu toque sobre a blusa folgada que ela usava, mas, ao senti-la apertando suas pernas e passando as mãos pelo seu corpo, seu instinto o fez procurar pela pele de , depositando seu toque sob o tecido. Sentiu um choque ao encostar em sua pele quente e aquilo o impulsionou a beijá-la com mais urgência.
suspirou, sentindo seu corpo ficar mais mole quando Chris mordeu seu lábio inferior, passando a mão por suas costas até chegar ao fecho de seu sutiã.
Ele parou, colando a testa na sua e recuperando o fôlego. Ela observou o movimento de suas próprias mãos, descendo pelo seu braço coberto pela camisa de manga comprida. Depois, desenhou coisas irreconhecíveis por seu tórax, começando a levantar o que ele vestia com a outra mão, por fim, repousou seu toque no cós de sua calça, segurando o cinto e o puxando novamente para um beijo.
Chris a envolveu novamente, se atrapalhando com voracidade do momento ao tentar fazer com que se livrasse daquela maldita blusa. Desceu suas mãos até a bunda da mulher, a apertando e a pressionando contra o seu quadril.
gemeu baixo ao sentir aquilo, levando suas mãos para dentro da camisa de Chris e sentindo os músculos de suas costas.
_ Eu sempre soube que você não demoraria para abrir as pernas. - uma voz áspera de James soou próxima de seu ouvido, enquanto Chris quebrava o contato para beijar seu pescoço.- Você nunca gemeu desse jeito comigo, o que esse merdinha faz para conseguir isso?
Ela respirou fundo, piscando várias vezes e enquanto sentia o carinho de Chris sobre sua pele.
Vá embora, pensou.
Ela não via a imagem de James, mas podia ouvir sua risada de embrulhar o estômago.
_ Claro que não, preciso lhe ensinar algumas coisas que tenho certeza que ele vai gostar. Por que você não chora, como fazia comigo?
apertou os olhos com força, tentando se livrar da lembrança. Porém, sua mente estava fraca e ela não ia embora. Ela estava sobre uma cama, a qual se recordava muito bem e sabia o quanto era um lugar podre. Ela chorava enquanto James jogava todo o peso do corpo sobre o seu e lhe machucava com o que ele chamava de caricias.
Chris segurou o rosto de , mordiscando sua orelha. James gargalhou no mesmo momento.
_ Isso, rapaz. - podia o imaginar falando. - Até arrancar sangue!
E então, sem perceber, empurrou o corpo de Chris, respirando pesadamente e tentando se livrar da tortuosa memória de James fazendo aquilo. Segurou a própria orelha esquerda, podendo sentir a dor que ele causou no dia em que a mordeu com tanta força a ponto de lhe machucar. olhou para própria mão, enxergando o sangue, como naquele dia. Porém, era só a sua mente lhe pregando peças.
Chris Evans nunca faria aquilo.
Ela sentiu uma presença tóxica ao seu lado e logo sua cabeça foi capaz de colocar aquele homem tenebroso a sua frente.
_ Eu sempre soube que você não era capaz. - James disse, antes de sumir.
Ela encarou a imagem de Chris alguns centímetros ao longe. Ele estava assustado, mas visivelmente preocupado. nem mesmo sabia distinguir quanto tempo havia ficado naquele estado de choque e sem falar nada. Uma ânsia estranha preencheu o peito da mulher e ela impulsionou seu corpo para baixo, descendo da bancada a abraçando o homem a sua frente.
Chris relutou no início, ainda perdido pelo o que acabara de acontecer, mas logo sentiu a extrema vontade de proteger a mulher em seus braços e compreendeu que aquilo não deveria acontecer naquele momento. Ele a abraçou, passando-lhe conforto.
_ Me desculpe. - disse, ainda com o rosto escondido pelo abraço dele.
O ator acariciou sua cabeça, apertando-a ainda mais contra si.
_ Não se desculpe, tudo será no tempo certo.
Christopher era humano e sabia que o que carregava era mais importante do que ele imaginava. Tinha a extrema vontade descobrir o que se passava na cabeça daquela mulher, mas, ao mesmo tempo, sentia que tamanha curiosidade poderia afastá-la. Ele não podia negar, se fosse qualquer outra pessoa, já teria sumido. A última coisa que procurava para sua vida era algo que simbolizava problema, mas nunca foi tão fácil se entregar a um dilema como naquele momento.
Nem mesmo ele era capaz de se entender.
desfez o abraço, olhando em seus olhos. Sentiu-se suja por fazê-lo passar por aquilo, mas estava fraca.
Durante todo o tempo, havia enfrentado seus medos sozinha, lutando durante dias em uma guerra que existia apenas em sua cabeça. Sabia o quanto estava sendo egoísta em manter Evans dentro do fogo cruzado, mas tudo era muito mais fácil quando ele estava por perto. Na noite de Natal, quando os pesadelos a fizeram perder o controle e sair sonâmbula pela propriedade da família dele, Chris foi seu refúgio e, pela primeira vez, ela havia conseguido dormir depois de uma crise, pois ele passou a noite ao seu lado. Ela queria mandá-lo embora e lutar contra seus próprios demônios sozinha, mas não conseguia.
_ Você pode ficar aqui hoje? - disse com a voz baixa.
Chris sorriu, passando as mãos pelo braço da mulher para aquecê-la.
_ É claro.

-


Após horas conversando no sofá, ambos adormeceram profundamente.
Chris estava deitado com sobre si, babando sobre sua camisa. Estavam claramente desconfortáveis, mas nunca havia se sentido tão relaxado. Pouco antes das seis da manhã, o ator despertou e, ignorando seu possível atraso, continuou na mesma posição, zelando pelo sono daquela mulher.
Estava tão hipnotizado que não conseguia tirar os olhos dela, imaginando todas as coisas que poderia acontecer com ambos futuramente. Ele não pensava em estereotipar um relacionamento, não era esse tipo de homem sonhador. Mas queria um propósito e temia pelo fim daquele momento. Não sabia sobre nada, estava se entregando nas mãos do destino, só tinha a ciência de que desejava que fosse seu futuro, independente de qualquer coisa.
Chris Evans sentia a imensa necessidade de lhe apresentar a vida, de fazê-la viver da maneira que merecia. Mas, no final, quem estava se sentindo extremamente vivo era ele.


Capítulo 09

Los Angeles - Califórnia.

A água quente caía sobre o corpo de Chris, escorrendo pelos cabelos e descendo por suas costas. Era relaxante e, se não estivesse tão agitado para arrumar as malas e ir para Atlanta, continuaria ali por mais alguns estendidos segundos.
Saiu do banheiro enrolado em uma toalha, ignorando debilmente o fato de estar molhando o carpete. A cama de lençóis cinza estava perfeitamente arrumada e, por isso, não demorou para que encontrasse seu celular e digitasse uma mensagem para . Conversavam bastante e naquele momento, não paravam de rir sobre o grude entre Shanna e Graham. estava almoçando com os dois e, por se sentir segurando vela, acabou achando em Chris a graça para aquela situação.
Saiu para a sala, pisando no chão frio e deixando o aparelho pela mesa de centro.
Seu apartamento em Boston ainda não era extremamente familiar quanto aquela mansão, afinal, ficava mais em Los Angeles. Além disso, depois que voltou a residir a maior parte do tempo em uma casa, não conseguia se acostumar com a problemática de um apartamento.
Estava decidido a encontrar uma casa em Boston.
O interfone tocou, interrompendo seu trajeto até a cozinha.
_ Sim? - disse assim que atendeu.
_ Sou eu, Jennifer.
Chris apoiou a mão na parede ao lado do interfone, respirando fundo. A última coisa que precisava era discutir uma relação que já havia acabado. Odiava ser o vilão, mas Jennifer insistia em não entender.
_ Entra - suspirou, destrancando o portão.
Esqueceu completamente do que iria fazer e voltou-se para o quarto, colocando uma roupa.
Foi até a sala, vendo a mulher caminhar com uma bolsa grande pelo hall de entrada. Ela olhou para todo os lados e depois para ele, buscando algo de diferente.
_ Vim buscar minhas coisas.
Chris riu pelo nariz, se sentando no sofá.
_ Não tem nada seu aqui.
Ela revirou os olhos.
_ Você acha que não tem. - disse, seguindo para o corredor e indo em direção ao quarto do rapaz.
Evans, sem entender, levantou e foi atrás dela, procurando se lembrar do que ela estava falando.
_ Eu sei que você tem todo esse complexo de cara independente no relacionamento e que cada um deve respeitar o espaço do outro. Eu super entendo isso, mas venhamos e convenhamos, você é completamente surtado! - ela estava ajoelhada dentro do closet quando ele entrou, abrindo algumas gavetas e pegando peças de roupas que ele nunca havia visto naquela casa. - Achou mesmo que eu ia passar a maior parte do tempo na sua casa e ficar carregando bolsa cheia de coisas toda vez que tivesse que ir embora? O que custava me liberar uma gaveta, Chris? Esse closet é enorme, você nunca descobriu que minhas roupas estavam aqui porque sabe que essa parte ficava vazia!
Ele estava visivelmente incomodado e não era só pelas gavetas.
_ E por que estamos tendo essa conversa depois que nos separamos? - ele coçou uma das sobrancelhas. - Se estava incomodada, era só me dizer.
Ela riu de deboche.
_ Como se eu não tivesse tentando.
E Jennifer tentou, ele se lembrava. Ela havia conversado com o ator sobre o assunto e ele, sem mais nem menos, discursou sobre estabelecer espaços e entender que cada um possui a própria vida. Foi uma péssima metáfora sobre juntar as escovas de dentes ser a mesma coisa que pegar carona na fama um do outro.
A verdade era que Chris havia tido muitos relacionamentos e todos foram arruinados pela forma como suas namoradas o usavam para crescer em Hollywood. Ele só havia criado algumas defesas.
_ É, mas agora não adianta, está tudo acabado. - reforçou. - Você até está levando tudo.
Ela balançou a cabeça em afirmação, levantando e indo para fora do quarto.
_ Sim, mas eu me senti no direito de te avisar isso, caso encontre outra pessoa. - Jenny tinha uma voz mais séria, procurando soar como alguém que o alertava. - Você precisa entender o que é um relacionamento, Christopher, ou nunca vai conseguir sustentar um.
Ela foi até a cozinha conseguindo o efeito que, no fundo, desejava. Chris estava desestabilizado com aquilo, logo levando seus pensamentos diretamente para .
Ele não era completamente leigo e sabia que possuía um jeito singular, mas tinha motivos pelos quais havia se mostrado não oferecer nenhuma ameaça e, por isso, havia sido tão fácil aderir uma postura diferente com ela.
O ator se sentou sobre o banco, vendo Jennifer abrir todas as prateleiras da cozinha.
Pensou em tudo aquilo que sua mente trabalhava e, nem ao menos, questionou se ela era a pessoa certa para lhe responder:
_ E se, porventura, eu encontrasse alguém com o mesmo jeito?
Jenny se ergueu, olhando para ele. Imaginou se a tal pessoa havia parecido, já que Chris parecia muito mais em paz do que da última vez que haviam se encontrado. Porém, queria que o homem se tornasse uma página virada em sua vida. Só estava extremamente enfurecida pelo término e desejava que Evans se sentisse mal por ela escolher ir embora, já que ele havia feito isso tantas vezes.
_ Então você vai sentir na pele o que fez comigo. E espero que sinta.

Carlisle - Massachusetts.

O barulho do pneu passando sobre a estrada cheia de areia era de rasgar os ouvidos, fazendo fechar o vidro e preferir o ar sufocante de dentro do carro.
Os grandes portões da propriedade se abriram no momento em que estacionou de frente para os mesmos e a mulher revirou os olhos ao passar por alguns seguranças que falavam no rádio.
Ao longo do caminho revestido por árvores havia a imagem do lago como paisagem e percebeu que os jardineiros que cuidaram de seu entorno haviam se levantado para vê-la entrar.
Chegar até onde desejava era, praticamente, seguir por uma estrada que era escondida pelas árvores. Sempre achou aquilo lindo, mas nunca pôde apreciar da maneira deveria. Fazer aquele trajeto trazia lembranças horríveis.
Após uma curva fechada, ao longe, já era possível enxergar a mansão a sua esquerda e, à direita após as copas das árvores darem espaço ao céu aberto, havia os inúmeros hectares de plantação. O casarão era exageradamente expressivo, deixando claro em sua fachada o quanto havia sido caro. Os jardins a sua volta estavam perfeitamente cuidados e as quatro grandes portas abertas da garagem exibiam carros de valor imensurável.
O estômago da mulher se embrulhou ao ver aquilo.
Tentou não se sentir intimidada pela grande mansão de pedraria cinza e de janelas extremamente brancas, como se fossem pintadas todos os dias.
Estacionou o carro atrás de uma caminhonete de preço claramente dispendioso e respirou fundo antes de sair.
O barulho de seus saltos sobre as pedras foi alto e se não fosse pelos passos pesados de quem se aproximava não teria percebido devido ao barulho que ela mesmo emitia.
_ Senhorita White. - um homem bem afeiçoado e de terno elegantemente desenhado a cumprimentou, vendo-a sair do veículo com o casaco em mãos. - Sou Spencer. Posso guardar seu veículo na garagem?
Ela não parou, já andando em direção a porta de entrada e deixando o pseudo mordomo para trás.
_ Ninguém encosta nele.
Foi cumprimentada por mais dois empregados ao passar pelos portais da frente e, assim que se viu no hall de entrada, foi obrigada a desacelerar.
O ambiente era muito pesado e parecia que, a partir do momento que passará por aquela porta, todo o peso que havia deixado sobre aquela casa caía sobre si novamente. Ela sentia-se a mulher que um dia foi senhora daquele lugar. Conseguia sentir seu temor ao andar por aqueles corredores e a falta de autoridade lhe causar desespero. Era capaz de destinguir o nojo que a acompanhava todos os dias e o medo de que James passasse por aquela porta.
_ Senhorita. - Spencer se pôs ao seu lado, respirando pesadamente e mostrando que havia corrido para alcançá-la. - Seu pai está em uma reunião no escritório.
Ela respirou fundo, buscando a postura que escolheu adotar no momento em que decidiu ir até aquele lugar.
_ Ele pouco me importa. - se virou para o homem. - Cadê o Billy?
_ Está na aula de hipismo no haras.
Ela olhou para o lado de fora, buscando na memória em que direção ficava aquele lugar.
_ Ótimo.
Começou a andar, mas Spencer a alcançou.
_ Tenho ordens para pedir que a senhora continue aqui até que seu pai possa recebê-la.
Ela olhou para o homem com uma expressão cansada, imaginando por qual motivo ele imaginava que aquele pedido seria acatado.
Se não fosse por sua singular intensão de estar ali, apenas sairia pela porta e buscaria Billy.
Ela suspirou, virando-se novamente em direção a sala principal e voltando a andar.
O homem se encontrou perdido, não sabendo agir diante daquela ação.
_ Onde a senhorita vai?
apertou os olhos com força, já sentindo sua cabeça latejar na presente daquele homem.
_ Não te interessa. - gritou, subindo as escadas. - E, se me seguir, se prepare para um escândalo.
O corredor do segundo andar continuava com a mesma decoração brega que a mãe de James havia escolhido. George era tão inútil que, nem ao menos, havia redecorando a casa.
O cômodo que procurava estava bem diante de si, uma vez que a porta era de frente para o corredor. Caminhou até ela, vendo sua madeira escura mais desgastada do que se lembrava.
Até mesmo o cheiro daquele quarto era o mesmo.
Ainda havia um exagerado lustre em seu centro, destacando o teto alto. As bregas e gigantes cortinas ainda deixavam o ambiente mais escuro do que deveria ser. A lareira estava mais branca do que quando estava acostumada, mas as cabeças abatidas dos animais continuavam de frente para a imensa gama de seda branca.
caminhou até ela, sentindo o tecido sob seus dedos. Era triste lembrar que um dia havia dormido ali.
O celular começou a tocar em seu bolso e, ao tentar saber sobre quem se tratava, percebeu que sua visão estava embaçada por um choro silencioso.
Caminhou até uma das poltronas que ficam de frente para lareira, normalizamos sua voz antes de atender.
_ Oi. - forçou um sorriso, por mais que estivesse feliz em saber que ouviria a voz dele.
_ Ei! Te acordei? - Chris questionou, provavelmente percebendo algo estranho em sua voz.
fez uma pausa, se odiando por mentir.
_ Sim.
Ele riu do outro lado da linha.
_ Me desculpe. É que estou quase chegando no estúdio e pensei que seria bom ouvir sua voz.
Ela sorriu, dessa vez, verdadeiramente.
_ Não se desculpe, fico feliz que ligou.
A realidade era que já havia se passado duas semanas desde a partida do ator e aquela era a segunda vez em que se falavam por ligação. Trocavam alguma mensagem no final do dia, mas Chris estava sempre cansado ou atrasado para algum compromisso. Sentia falta dele, mesmo sendo difícil de admitir, mas escondia uma pontada de decepção pelas coisas não estarem acontecendo da maneira que imaginou.
Não se sentia no direto de questionar sobre o assunto, então apenas guardava seus sentimentos para si.
_ E então, hoje é sábado. Você está em casa?
Ela odiava aquelas perguntas.
_ É... Eu estou em casa. Por que?
_ Minha família vai fazer a noite do cinema com as crianças e Shanna disse que ia te convidar.
começou a coçar a cabeça de nervoso, buscando as palavras.
_ Ela falou comigo, mas achei melhor ficar em casa para descansar e preparar minhas aulas da semana. Talvez eu consiga ir para Sudbury mais tarde, não sei.
Houve um silêncio enquanto Chris buscava qualquer assunto para que aquela conversa não se encerrasse, mas caiu em si e percebeu que talvez não estivesse tão afim de continuar conversando, já que não fazia o mesmo que ele.
_ Tudo bem, vou te deixar descansar então. - disse, tendo esperança em uma boa resposta.
apenas perguntou em tom baixo, sentindo-se derrotada.
_ Você sabe quando volta?
Chris suspirou.
_ Ainda não.
Ela balançou a cabeça de maneira como se Chris estivesse a sua frente, tentava se conformar.
_ Certo. Boa gravação, então.
Ele esperou alguns segundos, ainda tendo esperança de que aquela conversa não havia terminado, mas estava errado.
_ Se cuida, .
escutou aquela frase antes de desligar, subindo as pernas e abraçando-as enquanto digeria a saudade que aquela conversa deixava explícita.
Não agia daquela forma por mal, realmente sentia falta dele e, por estar completamente envolvida, decidiu ir até Carlisle naquele dia. Precisava colocar a cabeça no lugar para dar continuidade àquela relação, Chris merecia isso.
Depois de sua partida, sofreu intensamente com a desagradável presença de seu passado, sendo atormentada por noites. Entretanto, não era como antes pois ela não queria mais se entregar. Antes, por falta de força, apenas lutava contra a imagem de James e tomava seus remédios quando estava a beira do desespero, se vitimizava a todo momento. Era só uma batalha para que os próximos dias fossem melhores até outra crise surgir. Após Chris, algo lhe revigorou. Ela estava sendo assombrada, mas não podia aceitar aquela situação e, todas as vezes que uma crise acontecia, ela fazia de tudo para revertê-la. Corria, lia, cozinhava, dirigia… Não importava, ela só não aceitava ficar trancada dentro de seu apartamento esperando que aquela situação passasse. Todavia, era algo difícil de controlar. Quanto mais forte parecia, mais insistente eram seus incômodos.
Estava decidida, faria de tudo para melhorar. E, por isso, escolheu encarar seus maiores medos de frente, indo até o lugar onde todo seu terror aconteceu.
_ Então você mente para os seus amigos. - ouviu a voz de George vinda da porta. - Sabe, eu quase fiquei ofendido quando a escutei dizer que estava em casa.
Ela revirou os olhos, olhando brevemente para ele com a expressão cansada.
_ Cadê o Billy?
George vestia um terno vinho escuro com detalhes em veludo. Aquilo, unido ao seu caminhar formal, era ridículo. Ele andou mais para dentro, parando próximo a filha.
_ Na aula de hipismo, como Spencer lhe informou.
Ela bufou, jogando a cabeça para trás. Odiava a voz daquele homem.
_ Por que está me impedindo de vê-lo agora?
Ele riu.
_ Não é óbvio? Só quero passar um tempo ao lado da filha que não vejo há mais de um ano.
Ela se levantou, erguendo consigo o ar de deboche.
_ Quer me manipular para saber o que vou falar para ele. - afirmou.
George não mudou sua expressão, continuando com um sorriso controlado estampado no rosto.
_ Apenas venha, .
Ele começou a caminhar, não esperando por uma resposta.
queria tomar uma postura diferente, recusando a presença do pai a qualquer custo. Mas ele estava incluído no pacote superação e ela precisava se dar a chance de suportar estar com ele, nem que fosse um pouco.
_ É nojento ver que você usa aquele quarto. - disse enquanto estavam no corredor.
Não podia ver o rosto do pai, pois ele caminhava a sua frente, mas ouviu sua risada.
_ Acha mesmo que sou tão desprezível assim? Nunca dormi naquele lugar, tudo o que você deixou ainda está dentro daquele closet.
pensou sobre o que havia acabado de descobrir. De fato, não havia explorado o resto do cômodo, apenas imaginando que George era vaidoso o bastante para querer ficar no maior quarto da casa. Ser revelada sobre o contrário era surpreendente, mas ele ainda era o mesmo homem de antigamente.
_ Idolatra o agressor da própria filha a ponto de querer seguir seus passos e não quer ser considerado desprezível? - disse, ríspida. - Um campo de golfe dentro de uma fazenda? Fala sério, você é muito engomado para bancar um fazendeiro.
Chegaram ao escritório no andar de baixo e ela viu George dispensar os empregados que estavam por perto, fazendo com que ficassem a sós. Ele indicou a cadeira da frente para que ela se sentasse e a mesma o fez, vendo-o servir duas xícaras de chá e se acomodar na grande cadeira por de trás da mesa.
_ Precisa aceitar que devemos tudo à James. Ele era inteligente, fez um império.
Ela riu pelo nariz, balançando a cabeça em negação ao ouvir aquelas palavras.
_ Não devo nada à ele.
Ele bebericou o chá, falando com a xícara próxima aos lábios.
_ Mas vendeu duas das fazendas que ele lhe deixou e usa do dinheiro para se manter na capital.
_ É o meu direito depois de tudo que passei.
George suspirou, colocando o chá sobre a mesa.
_ Veja como quiser. - encarou a xícara da filha, ainda intacta. - Não vai beber?
Ele passou uma das mãos no rosto, suspirando.
_ Não.
Ele balançou a cabeça em afirmação, sabendo o quanto a mulher a sua frente estava incomodada.
_ Sua mãe me procurou. - contou, esperando uma reação diferente, mas apenas lhe encarou novamente, ainda com o cansaço em sua expressão. - Queria dinheiro.
_ E o que você disse à ela?
George riu.
_ “Vá se foder.”
se remexeu na cadeira, arrumando sua postura e suspirando mais uma vez.
_ Também me procurou assim que me mudei para Boston.
Ele achou interessante.
_ E o que você falou para ela?
riu de nervoso.
_ “Vá se foder.”
George riu, sentindo seu ego se inflar.
_ Tal pai, tal filha.
A mulher revirou os olhos, se levantando.
_ Infelizmente.
Ela caminhou até a janela, observando os campos do lado de fora. Estava começando a se sentir claustrofóbica, mas era apenas a presença daquele homem que tentava bancar um bom pai.
_ Sabe, sinto falta de você e sua irmã aqui.
riu em deboche.
_ Não acredito que estou escutando uma coisa dessas.
Mais uma vez, George não se abalou, continuando com um sorriso enquanto falava.
_ Você pode pensar o que for, mas é verdade.
olhou para ele por alguns segundos, mostrando que estava odiando aquela afirmação.
_ Onde está a Donna? - desconversou. - Não vi nada cheio de purpurina na decoração até agora, esse não parece um lugar onde ela mora.
_ E não é. - ele falou um pouco mais alto, recostando-se na cadeira e unindo as mãos frente ao corpo. - Nós nos separamos.
Aquilo, enfim, despertou o interesse da mulher, ganhando sua atenção.
_ Jura?
_ Sim. - ele não expressava tristeza. - No final sempre fica apenas meus filhos e eu.
Por mais que aquelas palavras tivessem saído com objetivos específicos, não comprou aquela conversa. Sabia que George estava tentando manter as aparências, como sempre havia feito e, por algum motivo, achava que deveria reforçar isso diante da filha. Mas aquela fachada era a última coisa que a mulher queria aderir.
_ Não conte tanta vantagem. Duas de suas filhas já foram, é questão de tempo para que Billy faça o mesmo.
Ele sorriu, mas estava tão ocupada em evitar o contato visual que nem percebeu.
Pegou a xícara, desistindo de tentar digerir aquele chá, foi até uma das plantas de canto e jogou o conteúdo sobre elas, indo até o mini bar e pegando um copo de whisky. Ficou por alguns segundos observando a silhueta da filha de frente para a janela. Não era a melhor das pessoas, mas tinha lembranças e ainda era difícil de acreditar que a menina que um dia ele entregou para James havia se tornado aquela mulher.
_ Por que veio até aqui, ? - perguntou, ainda próximo ao bar.
Viu os ombros dela subirem, mostrando que ela respirava fundo.
_ Para ver meu irmão.
Deu um gole em seu whisky e continuou a estudá-la.
_ Não entraria naquele quarto se fosse apenas por isso. - disse, mostrando o quanto podia ser esperto. - Elas ainda aparecem para você, não é? As lembranças.
fechou os olhos, sentindo uma raiva subir pelo seu peito. Ninguém era digno de falar sobre aquilo, principalmente ele.
_ Isso não é da sua conta.
Ele suspirou, caminhando até ela. Se pôs ao lado da filha, encarando a paisagem estampada na janela.
perguntou, por míseros segundos, se George podia estar se sentindo culpado ao tocar naquele assunto. Mas percebeu que, mesmo o pai lhe implorando por perdão, ela não seria capaz de reverter aquela relação.
O observou pelo canto do olho enquanto ele colocava o copo vazio na mesa próxima.
_ Vem, vou te levar até seu irmão.

-


Os campos eram demasiadamente verdes e a brisa era extremamente acolhedora. Por que não conseguia perdoar aquele lugar? Se fosse qualquer outro ambiente, amaria estar ali, mas mesmo reconhecendo todas as qualidades daquela fazenda, continuava a odiando.
Ela caminhava sobre a grama, ignorando o caminho de pedras que descia até o haras ficava em um nível mais abaixo. O local estava maior do que se lembrava, mostrando que havia sofrido reformas. Era um ambiente equipado para treinar uma equipe, mas apenas Billy corria pelos obstáculos.
Viu o instrutor olhar para a mansão, recebendo ordens de George - que ficará na varanda - para que o menino fosse liberado. O homem gritou para o aluno que parou seus movimentos sem entender. Enquanto caminhava, pôde ver o irmão deixar o circuito cabisbaixo, provavelmente chateado por seu treino ser interrompido, mas não foi necessário ir até o professor para ser informado sobre o que estava acontecendo. Em meio ao seu caminho, ainda sobre o cavalo, Billy viu a irmã e abriu um largo sorriso.
Ela deu a volta, entrando grande construção de madeira e atravessando todo o haras às pressas para chegar até o garoto. Quando estava no meio do corredor cheio de pequenos estábulos, viu Billy correr, jogando as luvas pelo meio do caminho.
Os dois se abraçaram cheios de saudade e tentou o erguer do chão, mas fora ele quem a elevou, girando-a no ar.
_ Meu Deus, como você está grande!
Depois de deixar Carlisle, viu o irmão apenas uma vez e percebeu o quanto a chegada da adolescência estava o transformando. Todavia, pelo o que se lembrava, ele ainda era mais baixo do que ela e se deparar com um homem com mais de 1,80 fez a mulher se surpreender. Não acreditava que ele tinha apenas treze anos.
Os dois se separaram, mas não tirava as mãos dele.
_ Está crescendo barba. - Billy apontou para alguns pelos que surgiam de forma aleatória em seu rosto, fazendo-a gargalhar. - Está dando para ver?
_ Eu não acredito que você está se tornando um homem!
O menino sorriu com o elogio.
_ Um homem bem bonito, não é? - zombou, deixando-a ainda mais alegre.
Ele a abraçou de lado, guiando-a para a parte aberta do haras.
Conversaram durante muito tempo enquanto caminhavam pelos estábulos e Billy apresentava todos os cavalos para a irmã. Até perderam a noção da hora, mas nem se importavam com isso.
, pela primeira vez desde que chegara naquele lugar, conseguia se sentir mais leve. A presença do irmão era capaz de tapar algumas feridas e ela apreciava isso, dando verdadeira importância para aquele momento.
Assim como Hanna, Billy era bastante falante, não deixando a conversa morrer. Ele era atencioso e queria saber sobre tudo o que ela fazia. foi transparente, apenas escondendo o fato de que estava se relacionando com alguém. Por mais que amasse o irmão, sabia que George conseguia arrancar algumas informações dele e, por isso, preferiu deixar para mencionar Chris em outro momento.
Foram para o ambiente aberto, passando pelos circuitos e se sentando sobre a cerca de madeira que circundava o haras. Pela primeira vez em muito tempo, ficam em silêncio, apenas apreciando o campo verde a frente.
_ Você vai ficar? - a voz fraca de Billy o entregou.
Aquela era uma pergunta esperançosa e sabia que a resposta o decepcionaria.
Ela umedeceu os lábios, olhando para ele no intuito de lhe transmitir confiança.
_ Não. - tentou soar doce. - Mesmo que eu amasse esse lugar, ainda tem o George…
Billy estalou a língua, saltando da cerca e dando alguns passos para frente da irmã. Ele mediu as palavras por um tempo, mostrando que tinha grandes questionamentos.
_ Sabe… Eu não entendo o motivo de você querer ir embora daqui. O problema era o James e ele já morreu.
balançou a cabeça em negação.
_ Você era apenas uma criança quando tudo aconteceu e ainda é muito cedo para entender meus motivos.
Aquela frase o deixou visivelmente enfurecido.
_ A única coisa que não consigo entender é você abrir mão da sua família! Até Hanna, antes de ir para Espanha, vinha mais aqui do que você.
olhou para ele por alguns segundos, buscando compreender onde Billy queria chegar. Ele nunca havia a questionado daquela maneira e era a primeira vez que mostrava tão pouca empatia.
_ George me vendeu! - a voz dela também se exaltou. - Qual parte dessa história você está escolhendo esquecer? Hanna não vem aqui porque se não fosse eu, ela seria a mercadoria. Eu não venho porque fui agredida em cada canto desse lugar!
Ela não queria se vitimizar e estava se sentindo muito bem ao dizer aquelas palavras, afinal, o garoto estava merecendo um choque de realidade.
Aquilo fez com que Billy abaixasse um pouco a guarda, sendo sensibilizado. Entretanto, tinha muitas resoluções sobre aquele assunto e nenhuma delas eram iguais às da irmã.
_ Você e Hanna dizem que não podem me levar daqui pois ainda sou de menor, mas por que só ela me visita?
suspirou.
_ Eu ainda sou aterrorizada, Billy. Ainda me lembro de tudo o que vivi aqui e, algumas vezes, sinto como se James me perseguisse, me torturando da mesma maneira que antes.
O menino ficou em silêncio, digerindo aquela confissão. De fato, nunca entenderia a irmã, pois nunca passou pelo o mesmo que ela. Seu único problema sempre foi uma mulher extremamente vaidosa que o proibia de a chamar de mãe, pois um filho, segundo ela, envelheceria sua imagem perante as pessoas. Donna foi embora de sua vida por livre e espontânea vontade quando o divórcio com George aconteceu e ele não se vitimiza, pois não sentia a menor falta dela. Era trágico, mas sabia que o drama de tomava dimensões totalmente diferentes.
_ Você acha que, talvez, pudesse fazer algo para melhorar isso?
_ Como o que?
Ele deu de ombros, dando voz aos seus questionamentos.
_ Dizem que perdoar liberta a alma. Talvez pudesse começar por George. - sugeriu, alheio ao espanto da irmã por ouvir aquelas palavras. - Ele não tem sido tão ruim assim.
estreitou as sobrancelhas, erguendo o rosto para o irmão e tentando crer que ele havia proferido aquelas palavras.
Saltou da cerca como ele havia feito antes, caminhando para a sua frente.
E, então, aos poucos, tudo começou a fazer sentido na cabeça da mulher. O haras reformado, todos os cavalos, a conversa para descobrir as intenções dela antes de ser levada até Billy… George estava jogando, como sempre havia feito e não queria enganar a ela, somente ao filho.
Ele havia planejado todo aquele momento e sabia que ela explodiria e que Billy, depois de muita manipulação, não veria mais o pai como ameaça e se colocaria contra a irmã.
se sentiu uma tola por não perceber as coisas de início. O menino não poderia formular tantos questionamentos em sua mente se alguém não tivesse lhe jogado as informações. George estava fazendo isso.
Ele esperava uma reação explosiva e estava cansada de ter que fazer o contrário.
Deu as costas para Billy, subindo novamente para a mansão em passos pesados. Escutava os protestos d garotos, mas ela não parava.
George observava os dois enquanto fingia jogar o ridículo mini golfe. Quando os seguranças perceberam a agressiva aproximação da mulher, se colocaram de prontidão para detê-la, mas o patrão ergueu uma das mão sinalizando que ficassem no mesmo lugar.
_ Você não se cansa de ser um desgraçado! - vociferou no momento que se colocou de frente para ele. - Está satisfeito agora que conseguiu manipular seu filho para que ele faça as suas vontades?v Para sua completa aversão, George ainda estampava sua feição controlada.
_ Não creio que fiz algo de errado. - ele largou o taco no apoio, voltando-se novamente para ela. - Billy será meu sucessor nos negócios, é claro que ele e eu precisamos nos aproximar.
_ Você está o comprando e colocando ideias contra tudo que não lhe convém na cabeça dele!
O menino, mais afastado, ouvia a conversa apreensivo, temendo o que podia acontecer ali.
George suspirou, provavelmente encenando. Encarou o filho por alguns segundos, ainda sob o olhar raivoso de . Quando se voltou para a mulher, expressava uma feição mascaradamente triste.
_ É o Billy quem pode dizer isso. - falou calmamente. - Se acha que sou um pai tão ruim, pode o levar, como você sempre quis.
A feição de se desfez e ela deu alguns passos para trás, medindo as proporções para saber até onde aquilo poderia ser real. Todavia, não poderia perder aquela oportunidade, pois sempre esperou que George tomasse aquele posicionamento.
Ela respirou fundo, começando a caminhar para dentro da casa.
_ Vem, Billy. Vamos arrumar as suas coisas. - passou pelo menino, segurando sua mão e o puxando.
Ele deu alguns passos junto a ela, mas parou no meio do caminho, chorando. Quando o encarou, compreendeu o que aconteceria.
Ele queria ficar.
O menino a abraçou e ela precisou corresponder, não podendo negar o quanto o amava. também chorou, se culpando por permitir que aquilo acontecesse. Billy era apenas um menino e George conseguiu o que queria. Sentia-se mais uma vez destruída e percebeu que a partir dali, a vida do irmão estava destinada ao mesmo fim que a dela e Hanna. Assim, como elas, em algum momento da vida, o pai o arruinaria.
_ Me desculpe. - ele disse entre soluços.
Ela o abraçou com mais força, molhando a camisa dele com suas lágrimas. Se afastou, segurando o rosto de Billy e dizendo aquilo que seu coração pedia:
_ Está tudo bem. Eu te amo.
O soltou, enxugando o rosto e procurando firmar suas emoções para sair daquela maldita fazenda.
George a encarava de forma fria e, se não o conhecesse tão bem, poderia jurar que ele estava tentando mascarar uma tristeza sobre aquele acontecimento. Ele acenou com a cabeça para a filha, não conseguindo sustentar o contato por muito tempo. O olhar de desprezo que ela o dirigia era doloroso.
E então, assistiu a mulher ir até a garagem, demorar algum tempo para ligar o carro e, em um ato de raiva, acelerar contudo contra a caminhonete que estava estacionada a frente, fazendo a porta da caçamba cair quando o Corolla deu a ré. O carro de estava claramente danificado na frente, mas ainda estava andando e aquele era o motivo perfeito para que ela cantasse os pneus e fosse embora.
Se o objetivo da mulher era causar ira e George, ela havia conseguido. O homem comprara aquela caminhonete há menos de uma semana.

Beadford - Massashucetts.

parou o carro no estacionamento de um café ao longo da estrada. Havia acabado de sair de Carlisle, já alcançando a cidade de Breadford, no caminho para Boston.
Ainda sentia as mãos trêmulas e o grande instinto de voltar para aquela cidade e trazer Billy a força, mas não podia fazer isso, havia sido uma escolha dele. Naquele momento, precisava se acalmar para seguir pela estrada em segurança e, pelo caminho que já havia feito, um único desejo a acompanhava.
Não podia ser verdadeira e contar sobre tudo, mas precisava se abrir. E sentia que talvez fosse o destino lhe pregando uma peça para que finalmente fizesse o que Chris tanto queria, e de livre e espontânea vontade, sem ele precisar ficar lhe enchendo de perguntas. só precisava dele e sabia que falar a livraria do fardo de passar os próximos dias de vitimizando inconsequentemente por aquele assunto.
Buscou o celular dentro da bolsa, procurando o contato às pressas.
Ele atendeu no segundo toque.
_ ? - Chris não conseguiu esconder a voz de surpresa.
_ Você está ocupado? - ela ainda estava acelerada, impactando na voz.
_ N-não… Ainda estou em gravação, mas vim descansar um pouco no meu trailer. Aconteceu alguma coisa?
Um carro estacionou ao seu lado e uma família animada saiu do mesmo. Aquilo fez com que ela perdesse a atenção por alguns segundos.
_ Sim…
Chris suspirou, não sabendo se estava preocupado ou completamente realizado pelas palavras de sua ex namorada não serem reais. estava mostrando mudança e, finalmente, iria se abrir.
Depois da chata visita de Jennifer, passou dias se perguntando o quanto poderia lhe afetar. E, pela primeira vez desde que se envolveram, ele teve medo. Como tudo o que sentia, não podia explicar o motivo de seu temor, mas sabia que, caso as coisas não saíssem como o esperado, sentiria-se despedaçado. Porém, naquele momento, viu que seus temores foram em vão. Assim como ele, ela também estava disposta a tentar mudar.
_ Certo. Eu estou aqui para te ouvir.
deitou a cabeça sobre o volante, buscando forças para começar a falar. Ela precisava daquilo, necessitava desabafar sobre como foi doloroso o momento em que Billy escolheu ficar… Chris ainda estaria alheio sobre os reais motivos daquela loucura que havia vivido. Para ele, George seria apenas um péssimo pai, com atos aos quais ela não revelava e Billy seria o irmão ingênuo que recusou seguir a irmã porque fora manipulado.
Seria mais uma história cheia de pontas soltas e omissões, mas foi a única chance que encontrou para expor sua dor.
E ela não podia mais passar o pano para si mesma. Suas omissões eram o mesmo que mentira.
_ Procurei meu pai e meu irmão hoje…


Capítulo 10

Boston - Massachusetts.

Chris viu Milles e Ethan atravessarem o apertamento em meio segundo, correndo com alguns dos presentes que haviam ganhado de Natal. Era estranho vê-los tão agitados, mas já era de se esperar um comportamento menos controlado na ausência da mãe. Os dois não perderam a oportunidade quando viram a avó se arrumar às pressas para ir até Boston na intenção de passar o estreito final de semana ao lado do filho.
O ator estava ausente há um mês e, por mais que fosse uma curta folga, não podia perder a oportunidade de ver a família. Infelizmente, Scott não poderia sair de Los Angeles e Carly estava muito atarefada com a produção de algumas peças. Stella, a contragosto, estava sob os cuidados do pai enquanto a mãe enlouquecia com o trabalho. Lisa também levá-la até Boston, mas optou por deixar a neta o mais próxima da mãe, uma vez que a menina era muito nova e agarrada aos pais.

_ Shanna só vai conseguir vir amanhã de manhã. - Lisa se aproximou do filho, que descansava um pouco sobre o sofá.

A afirmação fez com que ele despertasse, demorando para raciocinar o que aquela informação significava. Chris, por fim, mostrou uma expressão desanimada. Ele não estava apenas triste pela ausência da irmã, pois mais um nome gritava na cabeça do rapaz.

_ Por que?
_ Parece que tem um evento acontecendo na escola, e ela vão ficar presas até a noite. - Lisa falou com pesar. - Pensei em irmos até lá, mas são crianças, vão ficar eufóricas quando encontrarem com o Capitão América.

Chris balançou a cabeça em afirmação, concordando com ela e fingindo um sorriso ao saber que a mãe queria melhorar seu humor ao falar naquele tom.
Naquele momento, queria ter o poder de se dividir em dois, mas aquilo não lhe pareceu problema quando decidiu se arriscar e ir até Boston. Pensou que, como era muito próxima de sua família, poderia passar o tempo com todos juntos. Estava enganado. A mulher não sabia sobre sua volta, uma vez que ele desejou lhe fazer uma surpresa.
Tudo estava extremamente melhor depois que ela começou a se abrir. Chris havia ficado muito abalado com a história que lhe contará algumas semanas antes. Mesmo sem conhecer, odiava o pai da mulher e sentia pena do irmão. Todavia, ele só tinha ciência que George era um pai manipulador, apenas isso. Por mais que Christopher estivesse imensamente realizado pela relação com a mulher finalmente ter começado a ganhar âmbitos de confiança que nem mesmo cogitava a hipótese de ter muito mais história por de trás do que ela havia lhe contado.
Ele respirou fundo, observando Milles e Ethan passarem mais uma vez. Desejou que Scott estivesse ali. Ele, com toda certeza, faria algo engraçado para prender sua atenção e melhorar seu humor.
Chris foi até o quarto, encontrando o celular sobre o criado mudo. Procurou pelo contato da mulher, não segurando o riso quando a mesma atendeu.

_ Você não pode correr pelas arquibancadas! Connor, vá para a sua formação, por favor! - ele escutou uma gritaria do outro lado da linha e logo se voltou para o telefone, percebendo que já havia atendido. - Chris, oi!
_ Dias difíceis? - ele riu.
_ Alunos difíceis. - ela também sorriu. - Então quer dizer que o senhor está em Boston?
Ele gargalhou com o tom que ela lhe perguntava.
_ Bom saber que Shanna estragou minha surpresa.
Uma aluna perguntou algo para , fazendo-a demorar para responder.
_ Ela acabou de me contar, na verdade.

Ele suspirou, sentando-se sobre a cama.

_ Tentei planejar um dia com todo mundo reunido, mas não deu muito certo.

instantâneamente sorriu, mas Chris não conseguia ver. A mulher achava incrível a forma como ele unia ela e a família de forma tão natural.

_ Eu queria muito, mas isso aqui está uma loucura. - e estava, ele podia ouvir. - Talvez seja bom, você vai ter tempo de sobra para aproveitar sua família.
_ É... Vou sim.

Escutou um barulho de suspiro e logo a voz aguda de Shanna chamando por outros alunos e pela amiga.

_ Eu preciso desligar. - falou mais baixo de que antes e Chris perguntou internamente se ela estaria tão chateada quanto ele.
_ Boa sorte com os alunos.

sorriu.

_ Vou precisar.

×


10 minutos.
ficou exatamente 10 minutos paralisada enquanto olhava fixamente para o gramado do campo de futebol da escola. Ela podia escutar Shanna conversando com as famílias de dois alunos que haviam saído no tapa durante uma partida, mas não tinha reação para se mexer. Estava atordoada, completamente enlouquecida pelo o que seus alunos acabaram de fazer.
A escola estava no promovendo um dia de esportes, mas sem o melhor professor de educação física que já teve. Com a ausência de Noah, várias professores tiveram que se distribuir entre as categorias, muitos em duplas. Shanna e logo se uniram.
Começaram, bem após o almoço, a coordenarem o torneio de xadrez, o qual foi tranquilo, tirando o momento em que uma aluna do quarto ano quebrou três mesas após perder a última partida. A corrida também havia sido mais calma, embora muitos alunos que não estavam inscritos tivessem invadido o circuito. Um dos professores de matemática quase ganhou uma medalha após correr atrás deles. E, por fim, foram encaminhadas ao futebol e foi a partir daí que o desespero começou...
O grupo mirim de líderes de torcida era angelical, mas os meninos, desde o primeiro momento, entraram no campo feito touros, dando a entender que haveria uma luta livre, não uma partida de futebol inglês. E, no final, foi o que realmente aconteceu.
Ambas amigas estavam orgulhosas vendo as escadas cheias quando um dos alunos começou a ir para cima do goleiro após a defesa de um gol. Eles tinham por volta de 10, 11 e 12 anos e estavam entrando na puberdade, gerando uma discussão desorientada, com vozes que iam do fino ao grave nas mesmas frases. Tentaram separar, mas logo o time todo partiu para cima, transformando o campo em um ringue de boxe. Até chegar ajuda, muita gente se machucou. Os alunos que assistiam, principalmente os mais velhos, começaram a jogar coisas em direção ao gramado e o local, naquele momento, parecia um verdadeiro lixão.

_ Um desastre, pois é. - ouviu Shanna dizer. - Talvez um genocídio se não tivéssemos impedido.

ainda se encontrava paralisada.
Amava seus alunos, mas será que, um dia, aguentaria ser responsável integralmente por alguém como eles? Ela já não era o tipo de mulher que considerava ter filhos, embora amasse crianças. Tinha fortes teorias sobre como o mundo pode ser cruel, mas, naquele momento, considerou que a crueldade também possa partir deles. De todos os casos, não conseguia se ver como uma mãe.

_ E quem fez isso? - uma voz familiar começou a ficar mais nítida para ela, fazendo-a despertar do transe.
_ Os alunos, é claro. - Shanna respondeu.

olhou em direção as vozes, sentindo algo sair da boca de seu estômago e fazer com que seu coração se acelerasse.
Chris sorriu para ela, expressando seu olhar de pena pelo o que aconteceu. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia esconder que achava graça.
Ele usava uma camisa de mangas compridas verde limão, jens preto e um tênis com detalhes em marrom. Ela adorou aquela visão, principalmente por perceber que o tempo deixava que ele usasse roupas mais leves.
Shanna também sorriu, caminhando até a amiga e informando quando passou por ela:

_ Vou pegar os sacos de lixo, Chris vai nos ajudar.

afirmou com a cabeça, indo até ele.
Ele abriu os braços, imaginado que ela precisasse de um pouco de consolo, mas a mulher não o abraçou apenas por isso. Estava cheia de saudade.

_ Pensei que você fosse ficar com a sua família. - ela falou enquanto seu rosto ainda estava sobre o peito dele.

Escutou-o gargalhar.

_ E fiquei, são quase nove da noite.

Ela realmente não tinha a mínima noção de horário.
se afastou, olhando para ele, era engraçado vê-lo depois de tanto tempo. Ele abaixou o rosto, dando-lhe um breve selinho quando percebeu que a irmã retornava. Shanna viu tudo, mas preferiu não falar, escondendo o sorriso de aprovação.

_ Algum aluno te viu? - Chris ouviu a irmã perguntar.

Os três começaram a se espalhar pelo gramado.
Shanna e o ator pegavam o lixo com o espeto, colocando-os no saco. havia calçado as luvas, pegando os restos de comida.

_ Não. Do estacionamento dava para ver vocês, esperei que todos saíssem. - Chris, apesar de ainda achar graça, estava preocupado com as duas. - Mas como isso tudo foi acontecer?

Shanna riu, percebendo que a medida que a tensão ia embora, mais cômica ela achava a situação.

_ Eles tinham uma antipatia antes de jogo, usaram o momento para colocá-la em prática.

fez cara feia ao jogar um cachorro quente pisoteado dentro do saco.

_ Nós também perdemos o controle, Noah está fazendo muita falta.

No mesmo instante, Shanna gelou. Ela parou, encarando o irmão e depois a amiga, mas apenas Chris percebeu sua apreensão. Ela fazia gestos para impedir que ele fosse adiante com as perguntas, mas ele não entendeu.

_ Quem é Noah?

, ainda alheia ao o que estava acontecendo, continuou seu trabalho, respondendo sem encará-lo.

_ O antigo professor de educação física daqui, só ele conseguia controlar os alunos. - elogiou. - É um ótimo professor.

A expressão de Christopher escureceu no mesmo momento e ele encarou a irmã, que deu de ombros, tentando mostrar que não era tão grande coisa como estava pensando. A verdade era que Shanna havia lhe contado sobre o envolvimento de e Noah, mas não teve má intenção, muito pelo contrário. Ao ver que o irmão estava incomodado com alguma coisa referente a ao perguntar se ela estava em um relacionamento, Shanna tratou de dizer que só tinha conhecimento sobre o antigo lance entre os dois professores, mas que a amiga não havia mostrado interesse em levar para frente.
Chris, porém, sentia algo preso na garganta. Um sentimento estranho o calou, fazendo-o beirar brevemente o desespero ao ouvir a mulher falando tão bem do tal professor. Era muito genuíno e maduro da parte dela, mas o lado menino de Chris desejava que ela dissesse algo como "ele não é nada comparado a você".

_ Eu não acredito que você está com ciúme. - Shanna se aproximou, sussurrando.
_ Quem disse que eu estou?
_ Essa sua cara de cachorrinho raivoso.

Com medo de que escutasse, ela logo caminhou para o outro lado, deixando o irmão de lado.
Os três engataram outra conversa, terminando aquela tarefa mais rápido do que imaginavam.
No final, após deixaram tudo em seu devido lugar, Chris foi com até a parte interior da escola enquanto Shanna ficou esperando no carro.
passou a bolsa dela e da amiga para Chris enquanto trancava a sala dos professores e logo o escutou pigarrear.

_ Eu sei que você deve estar muito cansada, mas pensei em fazermos alguma coisa antes de eu ir embora amanhã.

A proposta de Chris fez um arrepio percorrer a espinha de .
Desde o último e trágico encontro dos dois, ela havia lutado muito para que conseguisse se entregar inteiramente à aquela aventura. No início foi difícil, mas depois da conversa pelo telefone no estacionamento de um café em Breadford, tudo pareceu mais correto. Ela ainda possuía temores, mas também bastante coragem.
Entretanto, não imaginou que ficaria sozinha com ele tão cedo. E, por isso, sentia-se nervosa. Em sua mente, tudo levava ao anseio por aquele momento, mas e se na prática fosse diferente? Se sua cabeça desse indícios de fraqueza novamente?
Ela fez uma careta, se virando para ele. Estendeu as mãos para pegar as bolsas, mas Chris a impediu, jogando as mesmas para trás das costas e caminhando junto a mulher até a saída.

_ Podemos comprar alguma coisa para comer pelo caminho. - ele continuou.

coçou as sobrancelhas e, mesmo sem expressar, já havia amado a ideia.

_ Tudo bem, só preciso passar em casa para tomar um banho. - olhou para si, imaginando o quanto sua aparência estava desgrenhada. - Estou o dia todo com essa roupa.

Chris sentiu um alívio ao ouvi-la aceitar. Estava singularmente ansioso por aquela noite, principalmente por finalmente ter o anseio de fazer algo que não tinha vontade há muito tempo…
Ele se abriria para ela, provando para si mesmo que a fachada independente que construiu havia caído no momento em que aquela mulher entrou em sua vida.

Concord - Massachusetts.

O carro de Chris deslizava silenciosamente pelas ruas vazias de Concord, há alguns minutos de Boston. conhecia muito bem aquela cidade, pois Hanna possuía uma residência lá, a qual estava vazia enquanto a mulher estudava na Espanha.
Os dois haviam comparado algo para comer e a única coisa que se ouvia era o som de ambos mastigando. Chris, quando estava muito concentrado em dirigir, pedia para que desse em sua boca. Ela gargalhava, sujando-o de ketchup. Mas tudo estava salvo, pois a mulher tirou alguns lenços umedecidos da bolsa, entregando a ele.
Um certo temor tomou conta do peito de quando percebeu que faziam um caminho muito semelhante ao de Carlisle. De Concord até sua cidade natal era menos de 10 minutos, mas, com relação a Boston, as duas possuíam caminhos diferentes. Para Carlisle, o trajeto mais próximo era pela Breadford Road, enquanto para Concord, a Cambridge Turnpike. Todavia, Evans havia pegado a Breadford, seguindo pela mesma por alguns minutos até virar em uma bifurcação e contar que a outra estrada estava engarrafada.
A medida que iam avançando, perceberam que tinham algo em comum: ambos tinham boas recordações daquela cidade.
Enquanto havia estudado o ensino médio por lá, Chris estudou teatro.

_ Esse é o antigo Concord Youth Theater. - Chris informou, estacionando o carro de forma escondida ao lado da construção. - Foi aqui que estudei.

encarou o local que, um dia, havia sido bem cuidado. Não o conhecia, nem mesmo havia ouvido falar. A madeira branca do teatro estava envelhecida e muitas janelas quebradas. A porta da frente estava presa por uma corrente juntamente a um grosso cadeado e, quando Chris tirou as chaves do bolso, ela começou a ficar curiosa.

_ O que aconteceu aqui? - perguntou enquanto ele destrancava a porta.
_ Foi abandonado alguns anos após eu me mudar para Nova Iorque. - ele deu espaço para que ela entrasse. - Minha mãe e Carly ficaram devastadas, elas eram professoras daqui e amavam esse lugar.

percebeu que a tinta das paredes estava sendo maltratada pelo tempo. Algumas madeiras do chão estavam soltas e a muitos objetos jogados pelo hall principal.
Ela olhou para trás, vendo Chris encadear a porta novamente. Na vidraça da mesma haviam algumas cruzes desenhadas e, sendo iluminada pela luz do lado de fora, criava sombras perfeitas dentro do local.

_ Vem. - Chris pegou a mão de , guiando-a para um local divergente ao palco que era indicado por uma placa acima da maior porta que havia no hall.
_ Por que você tem a chave? - questinou enquanto caminhavam.
_ Como disse, minha família amava esse lugar e foi muito difícil vê-lo fechar. - respondeu. - Prometi a mim mesmo que, se tudo desse certo, um dia eu reabriria esse local.

Ela riu.

_ Então esse teatro é seu?

Ele deu de ombros.

_ Pode se dizer que sim, mas Dona Lisa quem vai administrar tudo.

Ele se virou, ainda procurando a sala específica.

_ Uau!
_ O que?

Ela continuou sorrindo, cheia de ternura.

_ Nada... Só é engraçado a forma como sua história deixa esse lugar ainda mais bonito.

Chris também sorriu, sentindo seu rosto corar. Ele procurou algumas palavras, tentando parecer menos bobo ao lado dela, mas havia conseguido, ele estava incrivelmente desestabilizado a ponto de querer falar tudo o que sentia desenfreadamente apenas por ouvir um comentário dela.
Todavia, ele encontrou a sala.
O local era uma espécie de exposição, com fotos e prêmios que o teatro já havia recebido. Muitas imagens estava bastante envelhecidas, pois muitos dos vidros foram quebrados. Alguns troféus e medalhas também estavam enferrujados e Chris, vendo que a janela estava com muitos buracos, começou a mudá-los de posição, imaginando que qualquer chuva poderia degradá-los mais rápido.
vagou com os olhos por alguns segundos, mas não demorou para apontar em direção a um retrato na parede e se aproximar do mesmo.

_ Esse aqui é você?

Chris foi até ela, gargalhando algo ao ver a foto.
Ele não estava fantasiado, mas era engraçado vê-lo daquela maneira. O cabelo castanho estava perfeitamente cortado, como se alguém tivesse o partido no meio, colocado uma panela sobre sua cabeça e passado a tesoura nos fios que estavam para fora. O sorriso de aparelho era incrivelmente grande, mostrando o quanto estava feliz. Era tão magro que qualquer roupa que usava parecia que era maior do que seu tamanho. Ele estava sobre o palco, provavelmente ensaiando, não se recordava, mas algo dizia que estava se divertindo.

_ É, sou eu.

ficou mais um tempo observando. Era impressionante como aquela foto tinha significado.
Para alguém como Chris, ser enxergado da forma como ela o via o deixava lisonjeado. Muitas pessoas iam até ele pela imagem que a fama lhe dera e Christopher nunca mais foi visto como aquele garoto novamente. Era inevitável que sua popularidade falasse mais forte quando alguém o conhecia, mas aquele menino magricela ainda existia dentro dele, sendo o verdadeiro Chris Evans e, muitas das vezes, as pessoas não estavam dispostas a conhecê-lo. Escolhiam o Chris másculo, ator e famoso, ignorando seu passado. , entretanto, fez o contrário. Ela não se importava com o que a fama tinha para oferecer, estava encantada pelo mesmo garoto daquela foto.

_ Charmoso. - brincou, fazendo-o gargalhar. - Eu pegava.
_ Então você seria a única.

Ela também riu, o abraçando de lado.

_ Bom para mim, menos concorrência.

O comentário da mulher havia acendido uma luz em sua cabeça.
Por mais que a presença de tivesse feito com que suas dúvidas ficassem menos inquietas, elas ainda existiam e, durante o pequeno descanso, ainda cresceram.
Noah não era o único que o incomodava... No Natal, quando teve o ataque de sonambulismo, outro nome saiu de sua boca: Henry. Ele não fazia ideia de quem era, uma vez que Shanna nunca havia comentado sobre o mesmo.
Queria perguntar para ela, mas a mulher estava se saindo muito bem em se abrir no momento em que se sentia à vontade. Por isso, ele não conseguia questionar. Aliás, precisava ser menos inseguro, pois não tinha o costume de agir daquela forma e sabia que os péssimos anseios surgiam dos sentimentos que o bombardeavam naquele momento. Era ele quem estava com naquele momento, não eles.
Os dois caminharam para o auditório e Chris estalou a língua ao se lembrar de uma coisa.

_ Está sem cadeira. - informou, soltando a mão de mulher e se voltando para o hall. - Vou buscar uma coisa no carro.

uniu as sobrancelhas, girando os calcanhares e se voltando para o auditório novamente. Quando entrou, entendeu o que Chris estava falando.
Na verdade, havia algumas cadeiras, só estavam destruídas. O ambiente era revestido por paredes vermelhas, o deixando muito escuro. O grande palco estava coberto por cortinas, também vermelhas e tudo era muito vazio.
O ator retornou com um embrulho em mãos, caminhando até o palco. o seguiu, ainda sem entender. Quando ele se desfez do papel, revelou a embalagem de um edredom.

_ Isso é novo?
_ Minha mãe me deu para levar até meu apartamento. - disse, tirando o pano de dentro do plástico e o forrando sobre o chão. - Está no meu carro desde o Natal.

Ela continuou calada, tentando entender o que estava acontecendo.
_ Senta. - ele continuou quando o edredom já estava estendido ao chão.
_ Por que?

Chris sorriu, cheio de charme.

_ Você vai ver.

Ela o encarou por um tempo, cruzando lá braços e estreitando os olhos. Pensou em possíveis ideias, mas Chris era imprevisível.
Por fim, se sentou, vendo-o desaparecer por entre as cortinas do palco.
Escutou um estouro, como se algo muito velho tivesse começado a trabalhar depois de tempos sem ser utilizado e, então, pouco a pouco, varais de luzes começaram a se acender. Primeiro, pequenos pontos iluminaram o palco, mostrando que desciam do teto pelas cortinas vermelhas. Depois, perambulavam pelo chão até se erguerem novamente, cobrindo todo o teto do local e, no fim, cascatas de neon se formavam no final do auditório. Era como estar bem perto de um céu estrelado.
Sentiu Chris sentar-se ao seu lado.

_ Gostou?
_ É lindo! - os olhos de brilhavam, mas ele não sabia dizer se era o reflexo das luzes ou a emoção que causaram. - Como você fez isso?
_ Carly quem fez, na verdade. Encontrou as luzes em um baú junto com outros entulhos e, para a sua surpresa, elas ainda funcionavam.

Ela jogou o peso do copo sobre os cotovelos, podendo olhar melhor para a maravilha que estava a sua frente. Ficam minutos em silêncio, apenas sentindo a paz que aquele momento trazia.
abriu um sorriso, olhando para Chris. Ele fez o mesmo, descendo os olhos para a boca dela um pouco depois.
O ator, que estava apoiando o peso do corpo em um dos braços, se inclinou até ela, beijando-a. Foi um selinho breve, interrompido por uma gargalhada gratuita e sem contexto de . Ele riu junto, sentindo-a se ajeitar e colar seus lábios novamente.
sentia um formigamento na boca do estômago que, aos poucos, se espalhava por todo seu corpo. Possuía um sentimento único, algo que nunca distinguiu em si e, por fim, soube que era coragem.
Com a outra mão, Chris embrenhou seus dedos nos cabelos dela, aprofundando o beijo. Uma onda de calor circundou os dois, fazendo com que toques mais firmes intensificassem o sentimento que ambos estavam possuíam. Uma ansiedade os dominou e, em sintonia, eram guiados por adrenalina.
Chris envolveu a cintura de com um dos braços, deitando-a sobre o edredom e apoiando o peso dos dois com a outra mão.
Desceu com o seu toque por uma de suas coxas enquanto ela arranhava de leve as costas dele, procurando pela barra da blusa. Ele desfez o beijo, se afastando para se livrar daquela peça de roupa. começou a tirar a sua própria, erguendo-se do chão e ficando sentada. Chris a ajudou a tirar, encarando seu tórax e seus seios apertados pelo sutiã de renda preta. Ele deitou-se novamente sobre ela, sentindo-a desafivelar seu cinto enquanto ele depositava beijos e mordidas em seu ombro e orelha.
Chris não segurou o suspiro ao senti-la beijando seu pescoço no mesmo momento em que ele ergueu a saia de , apertando sua bunda.
Ela o empurrou, invertendo as posições e o deitando. Sentou-se sobre Chris, desfazendo o beijo novamente.
Ele abriu os olhos, fidelizando aquele momento ao encará-la com a mesma intensidade, vendo que o ar lhe faltava, assim como com ele.

_ Eu quero. - verbalizou, jogando seus temores para longe e mostrando que, pelo menos momentaneamente, havia os vencido.
_ Tem certeza? - ele queria beija-la no mesmo instante que ouviu aquelas palavras, mas precisava fazê-la se sentir bem, acima de tudo.

E, como se ambos compartilhassem dos mesmos pensamentos e desejos, não respondeu, apenas segurou o rosto de Chris, o beijando novamente e mostrando que estava mais do que decidida.

Boston - Massachusetts.

Lisa serviu o café da manhã das crianças, vendo Shanna brigar com a cafeteira que demorava a ligar. Ela havia chegado no apartamento de Chris há alguns minutos e não mostrará um bom humor ao perceber que o irmão ainda não tinha retornado.
Todavia, assim como a mãe, ela sentia um imenso alívio ao saber que o motivo do atraso era . Há muito tempo não o viam tão feliz a ponto de largar tudo tarde da noite para ir atrás de alguém, de se sentir jovem, transpor limites e viver da maneira que merecia. Era impossível não se sentir feliz como ele.
Ouviram o barulho de chave na fechadura, levando a atenção até a porta instantaneamente. Chris surgiu no hall um pouco desgrenhado, com a cara de sono. , bem mais acanhada, usava um casaco que Lisa reconheceu ser do filho e tinha o cabelo preso.

_ Bom dia. - ele disse, segurando a vontade de rir.

Foi até a mãe, beijando seu rosto, batendo na mão de Milles e Ethan e abraçando Shanna de lado.
continuou no hall, olhando para cima e criando coragem para ir falar com todo mundo. Estava muito vermelha e, se fosse possível, sairia correndo dali, principalmente por conhecer muito bem a melhor amiga.
Shanna, ao saber que Chris não estava em casa, ligou para o irmão, fazendo com que e ele percebessem que haviam passado da hora. Os dois acordaram, se vestiram às pressas e saíram do teatro como dois adolescentes.
Ela estava constrangida por passar aquela imagem de frente à família dele, mas, por fim, caminhou até a cozinha em passos curtos. Os meninos lhe deram um breve aceno, enquanto Shanna escondia o rosto com o pano de prato, caindo na gargalhada. Chris estava apenas debruçado sobre o balcão, encarando-a com um sorriso de canto, mas, quando percebeu que a irmã estava rindo, lhe lançou um olhar de repreensão.
Lisa também estava achando graça, mas era a mais controlada do local.

_ Está com fome? - perguntou, indicando a cadeira ao seu lado para que se sentasse.

A mulher obedeceu e esperou Lisa que passasse as coisas sobre a mesa para o seu lado. A mãe de Chris segurou o rosto de por alguns segundos, sorrindo matenalmente e incentivando-a a sentir a vontade para comer seu café da manhã.

_ Vou tomar um banho. - Chris anunciou, mostrando que estava começando a ficar constrangido também.

Shanna, que esperou o irmão sair da cozinha, sentou-se ao lado da amiga e falou:

_ Você vai ter que me contar tudo!

Lisa arregalou os olhos instantemente.

_ Shanna!
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Enquanto Chris terminava de arrumar a mala que levaria para Atlanta, Lisa estava sentada na cama, ajudando-o a dobrar algumas roupas.
O ator analisava muito a pequena mala à sua frente, imaginando se não estaria levando muita coisa. Volta e meia ele parava, colocava as mãos na cintura e, como se a dúvida fosse uma desculpa para poder perder a atenção em outra coisa, ele olhava em direção a porta, vendo e Shanna brincando com os meninos na sala. Quando Lisa percebia, Chris tentava disfarçar, coçava a barba com o dedão, passava a mão pelo cabelo ou apenas encarava sua mala, como se esperasse que ela fosse se fazer sozinha.

_ Querido? - ele escutou a mãe chamar.
_ Sim? - respondeu sem encará-la, conferindo se havia colocava os produtos de higiene.
_ Como você está se sentindo?

Chris se virou para a mãe, questionando-se sobre aquela pergunta.

_ Bem.

Lisa sorriu.

_ Como seu coração está se sentindo? - corrigiu.

Pela primeira vez, ele olhou para a sala descaradamente, respirou fundo e se sentou sobre a cama, de frente para ela.

_ Está perguntando isso pela ? Alguma coisa está te preocupando?
_ É claro, meu filho. - ela deixou algumas blusas sobre o lençol, levando toda a sua atenção para ele. - Vocês estão se divertindo, é visível. Mas uma relação não de baseia apenas nas aventuras. Ela é uma boa menina, Chris. Você precisa ter responsabilidade.

Ele balançou a cabeça, concordando.
Lisa e filho eram muito próximos. Não havia nada na vida do ator que a mãe não estivesse ciente. Ela era uma confidente, sua melhor amiga. E ele considerava muito a sua palavra, sentindo a necessidade de conversar com ela toda vez que se encontrava em conflito para tomar uma decisão. Poucas coisas eram definitivas antes de Lisa as dizer, mas Chris já tinha conhecimento sobre a importância de , mesmo antes de ouvir aquilo da boca de outra pessoa.

_ Sei que não dei bons exemplos, que não via futuro com muitas pessoas que me envolvi...
_ Que pensou que todas as mulheres só se aproximavam de você por interesse. - ela acrescentou.

Chris riu de nervoso.

_ É, mas eu sei que não é assim. E a última coisa que quero é que ela se machuque.

Lisa segurou a mão do filho, mostrando o quanto aprovava aquele pensamento. Desejou por muito tempo que ele amadurecesse, mas, quando isso aconteceu, Chris criou barreiras muito fortes ao se relacionar com pessoas que não eram sua família. Já o viu sofrer muitas vezes por isso. Mas, naquele momento, também temia por . Gostava da mulher e não queria que nada abalasse a amizade que ela tinha com a família, principalmente com Shanna.

_ Então você realmente gosta dela? - ela segurou a não dele.

Chris abriu um sorriso com o toque esperançoso da mãe.

Era difícil verbalizar qualquer coisa, mas se perdia muito facilmente nos sentimentos que lhe causava, principalmente ao perceber que ela havia restaurado sua confiança de que encontraria alguém especial, que provaria o quanto havia sido rude ao pensar que nunca encontraria e se envolveria assim.

_ Como um adolescente que se apaixona pela primeira vez e fica todo abobado.


Capítulo 11

Um sonho gostoso passava pela cabeça de Chris, mas ele não era muito claro. Envolvia cheiros, toques e palavras. Uma voz quente soprava em seu ouvido e ele estremecia toda vez que sentia os lábios tocaram sua orelha. Ele sorriu, começando a perceber que também fazia isso fora de sua mente. Estava entre o sonho e a realidade, acordando as poucos.
Sentiu o rosto amassado pelo travesseiro em que ele abraçava. Ele estava de barriga para baixo, sentindo um vento morno pairar sobre suas costas nuas. Sua visão ainda não estava focada, mas ele percebeu a movimentação do outro lado da cama e, sob o olhar semicerrado, viu levantar.
Chris esfregou os olhos ao vê-la sentada na ponta da cama, procurando algo entre os lençóis e se vestindo.
Ele começou a se erguer, mas ela não percebeu.
jogou os cabelos para trás, fazendo-o roçar pelas costas descobertas. Estalou o pescoço, mostrando que ainda estava despertando e, por fim, levantou usando apenas uma parte de baixo. Foi até uma poltrona no canto do quarto, pegando a camisa de botão que Chris havia usado na noite anterior e a vestindo.
Ele grunhiu em reprovação.

_ Estava bem melhor antes. - disse, fazendo-a finalmente perceber que estava sendo estudada.
_ Palhaço. - jogou, evitando cair nos gracejos do homem.

foi até o banheiro, vendo, pela fresta da porta, que o olhar de Chris a acompanhou até lá.
Ele riu, jogando a cabeça para trás e se recordando da calorosa recepção que havia recebido na noite anterior.
Finalmente havia terminado as gravações e, de quebra, ganhou um grande comemoração.
Gargalhou sozinho, se levantando e tratando de agir com a vida.

-


ainda estava vestida com a camisa do homem quando saiu do quarto e escutou barulhos vindos da cozinha. Curiosa, caminhou em direção ao som e viu Chris, já devidamente vestido com uma roupa folgada, preparando o café da manhã.

_ Vou te ajudar. - ela anunciou, passando por ele e mexendo em algumas frigideiras.

O ator, que mordiscava um pedaço de bacon, limpou as mãos e foi até ela, pegando-a no colo. Caminhou com em suas costas sob protestos e recebeu um grande olhar de repreensão quando a colocou sentada de frente para a mesa.

_ Você fica bem aqui. - disse de boca cheia, voltando para frente do fogão e ignorando a teatral cara de brava da mulher.

Ele serviu os dois, sentando-se de frente para ela enquanto comiam. Não haviam percebido o quanto estavam famintos e demorou para que voltassem a conversar.
Chris limpou a boca, puxando assunto:

_ O que acha de irmos a outro lugar hoje?

Ela deu de ombros, ainda comendo.

_ Pode ser. Só preciso passar no meu apartamento para trocar de roupa.

Ele concordou, bebendo um pouco do suco antes de falar.

_ Sem problemas, é caminho.



Elton John preenchia o ambiente do carro, mas a melodia estava tão baixa que era difícil distinguir de qual se tratava. Chris estava em completo silêncio, enquanto digitava freneticamente no celular em uma conversa com Shanna.
O tempestuoso tempo em que ficaram quietos se tornou lancinante, fazendo com que o ator voltasse aos seus irritantes temores. A noite anterior havia sido diferente das demais que haviam passado juntos. Desde o natal não apresentava nenhum sinal de sonambulismo, mas - naquela madrugada - mostrou que estava tendo um sono turbulento. Ela se remexeu muito na cama, e mesmo que o ator dormisse de forma pesada, acordou com toda agitação. Ele tentou acalmá-la e, então, disse a seguinte frase: “Vá embora, Henry.”
Mais uma vez o nome daquele homem que ele nem mesmo conhecia havia surgido novamente. Chris queria ser respeitoso e estava disposto a esperar o momento certo para que ela se abrisse, mas aqueles questionamentos eram muito fortes para continuarem guardados.

_ Sabe, nós podíamos conversar um pouco. - ele falou, mas não tinha os olhos sobre ela.

Se orgulhava da sua capacidade de atuar, mas naquele momento considerou que poderia desvendá-lo em segundos.
Ela fez uma careta, desconfiando da forma como Chris havia falado, mas guardou o celular, ajeitando-se sob o cinto e se virando um pouco para ele.

_ Tudo bem… Para onde estamos indo?
_ Freedom Trail. Só estou com um pouco de dúvida sobre onde fica a entrada.

Ela pensou na resposta, olhando pela janela e constando que não fazia ideia de onde estavam.

_ Estamos perdidos, não é mesmo?

Chris respirou fundo, um pouco nervoso.

_ Estamos, mas vou achar o caminho.

Ela ergueu as sobrancelhas, adquirindo um ar de riso.
Ele tossiu, raspando a garganta e tomando coragem para perguntar.

_ Por que a gente não fala sobre seus antigos relacionamentos, nunca falamos sobre isso. - jogou, percebendo que a mulher havia congelado na mesma posição ao ouvir aquilo. - Você já teve outros namorados, certo?
_ Já… - ela teve dificuldades para responder, pensando em mil maneiras para fugir daquele assunto. - Mas não posso considerar, exatamente, como namoro.

Ele queria saber o motivo de sua insegurança ao rotular, mas já estava conseguindo a abertura que queria e, talvez, se não tivesse uma atitude, ela conseguiria escapar de suas perguntas.

_ Quem é Henry?

o encarou instantaneamente, ignorando qualquer que poderia ser a sua reação. Por alguns segundos, sentiu que seu coração não batia mais e, talvez, aquilo fosse bom. Ela sentia a estranha sensação de quem aceitaria qualquer fim para não bater de frente com aquele questionamento.
Então Chris havia descoberto alguma coisa?

_ Como você sabe sobre ele?

A resposta, que na verdade foi uma pergunta, o deixou incomodado, imaginando que tivesse a intenção de escondê-lo para sempre. Esse pensamento o chateava.
_ Você fala o nome dele dormindo, as vezes.

jogou a cabeça para trás, estava aliviada por Chris só saber sobre um nome, mas sentia-se extremamente constrangida ao ouvir aquilo.
Naquele momento, Chris não negava que havia estragado aquele passeio e a mulher não podia lhe culpar. Quem acharia normal ouvir o nome de outro depois de uma noite juntos?

_ Então qual é o lance entre vocês? Você não o esqueceu?

precisava ser compreensiva e, por isso, só conseguia expor suas emoções em suas atitudes. Ela apoiou o cotovelo no vidro da janela, segurando o rosto com a mão e o escondendo. Fechou os olhos e respirou fundo.

_ Eu tive que esquecê-lo.
_ Teve? Por que? - sua voz era rígida, meio enraivada.

Ela finalmente o encarou, vendo que poderiam bater a qualquer momento, pois Chris tinha toda a sua atenção sobre ela. O ator segurava o volante com tamanha firmeza que seus dedos estavam avermelhados nas extremidades. Ele havia segurado o sentimento por muito tempo e, no momento que decidiu extravasa-lo, percebeu o quanto era forte.

_ Porque ele morreu, Chris.

A expressão de Christopher foi suavizando aos poucos à medida que sua mente absorvia aquela informação. Ele não estava aliviado por constatar que Henry não era uma pedra em seu caminho, mas por ter questionado de forma tão invasiva e de maneira infantil. E, mais uma vez, aquela situação estava lhe mostrando o quanto era importante esperar o tempo certo da mulher, mesmo achando que ela nunca contaria sobre aquilo.

_ Me desculpe.
_ Não, está tudo bem. Só não acho que é o momento certo para entrarmos nessa conversa.

Ele balançou a cabeça em afirmação, voltando sua total atenção para a pista a frente.
, mais aliviada e podendo agir de forma coerente ao perceber que havia driblado a situação, começou a se sentir culpada pelo clima que se estabeleceu, pois compreendia o quanto estava sendo difícil para Evans. Por outro lado, uma chama aqueceu seu coração ao pensar que ele estava gostando dela ao ponto de agir daquela maneira.

_ Você não precisa ficar com ciúme. - brincou, arrancando uma risada nervosa do homem.
_ Não estou com ciúme…

Ela deu um sorriso de canto, tentando esconder o quanto o achava fofo.
Chris continuou sem encará-la por algum tempo, pensando em algo que só ele era capaz de saber, depois, olhou para novamente.

_ Mas, se eu estivesse… Teria algum problema?

Nenhum dos dois conseguiu esconder o sorriso, tamanha foi a interpretação daquela pergunta. Ele, indiretamente, estava lhe questionando sobre até onde o limite daquela relação iria e, se sentir ciúme não a deixava incomodada, era um sinal de que grandes expectativas poderiam ser criadas.

_ Não vejo problema nenhum nisso.

Ele batucou no volante, sustentando um sorriso maroto nos lábios.
Olhou para a rua e depois para novamente, admirando cada detalhe que a expressão risonha dela emitia.
E então, um baque forte os assustou. Um lixeira foi arremessada ao bater de frente com carro e ambos se entreolharam assustados ao ouvir um resmungo baixo, seguido de um latido.
O som alto dos pneus sendo freados preencheu os ouvidos de e, de olhos fechados e por alguns segundos, ela se imaginou no volante e pôde recordar o mesmo impacto que sentiu na noite em que James havia morrido. Era como se estivesse dentro daquele terror novamente.
Ao voltar para si, encontrou Chris com uma expressão de temor, segurando o volante com força. Ele tinha a atenção em algo a frente, mesmo sabendo que o que importava se encontrava ao lado do carro.

_ Um cachorro, . - ele falou em um sussurro. - Ele estava atrás da lixeira, não vi nada…

Ela olhou pela janela, encontrando apenas o lixo espalhado sobre a calçada.

_ Calma. - segurou o braço de Chris, se virando para a porta e saindo o veículo.

sorriu sem graça para uma senhora que dirigia o carro de trás, agradecendo quando a mesma apontou para algo. Ela finalmente viu a lixeira estirada ao chão bem próximo da faixa de pedestre, mas não era por aquilo que procurava. Do outro lado da rua, dentre alguns arbustos do jardim de uma casa típica de subúrbio, havia algo de pelagem marrom - quase laranja - se mexendo. soltou um sorriso de alívio, correndo para o carro.
Destrancou a porta de trás de veículo, encontrando Chris no mesmo estado.

_ Vamos levar ele no veterinário, ta bom? - falou, se esticando para pegar o casaco de Chris.
_ Eu o matei, não é? - ele apertou os olhos de forma desesperada.

gargalhou.

_ Não, ele esta bem. - ela bateu a porta traseira, indo até a do motorista e a abrindo. - Só vamos levar por precaução. Vem me ajudar a pegá-lo.

Ela se virou, começando a caminhar, mas logo percebeu que Chris não a acompanhava.

_ O que foi? - a mulher insistiu.

Ele respirou fundo, revelando que nenhuma de suas palavras haviam feito com que se sentisse menos preocupado. Encarou os arbustos, e, se estivesse mais próxima, poderia afirmar que ele estava tremendo.

_ Não consigo pensar que posso tê-lo machucado.
_ Chris, ele ta bem! - ela riu, mas logo sentiu-se incriminada ao finalmente distinguir sua expressão.
Evans estava em estado de choque e, tamanho era seu temor que ele nem mesmo conseguia sair do lugar. Não era para menos, afinal, sabia que ele amava animais e era óbvio que se sentiria culpado por ter feito o pobre cão passar por aquilo.
Ela foi até ele, acariciando seu rosto e sorrindo.

_ Tudo bem. Ele parece dócil, acho que consigo pegar.

Chris balançou a cabeça em afirmação rapidamente, sentindo-se um pouco mais aliviado por ter lhe compreendido.
atravessou a rua, abrindo o casaco cinza em mãos. O cão, que estava espremido entre uma cerca e a moita a qual havia se escondido, era de tamanho médio, quase pequeno e aparentava ser um filhote. Seu pelo era marrom alaranjado, sendo a barriga, o pescoço e as patas brancas. O focinho, também branco, era grosso, mostrando que havia alguma raça exótica misturada em sua genética. achou o rabo felpudo o mais engraçado.
Ele tinha as orelhas abaixadas, mas as ergueu em curiosidade ao ver a mulher se aproximar com o casaco aberto para lhe envolver. Sentiu medo quando o pano caiu sobre seu pelo, mas foi mais rápida e não demorou para que o cão se sentisse extremamente confortável em seu colo.
Enquanto caminhava, analisou alguns pontos do corpo dele, tentando encontrar algum machucado, mas não encontrou. Abriu a porta traseira e se acomodou bem atrás de Chris, com o cão ainda em seus braços. O ator olhou brevemente pelo retrovisor, mas logo deu a partida dizendo:

_ Sei de um veterinário bom.

-


Chris batia os pés nervosamente sobre o chão do hospital veterinário. Já havia mordido todos os cantos da boca e tinha o olhar fixo nas mãos entrelaçadas sobre o próprio colo. , assim como ele, também estava impaciente. Andava de um lado para o outro, volta e meia conversando com alguém da recepção. Todavia, por mais que parecesse ter se passado horas, não estavam no local há tanto tempo assim.
foi a primeira a avistar a veterinária caminhando pelo extenso corredor. A professora sorriu para a mulher, escutando Chris levantar rapidamente e se colocar ao seu lado.

_ Ele está perfeitamente bem, foi só um susto. - deu a notícia, deixando todos aliviados. - Claro, vai precisar de todas as vacinas antes de ser encaminhado para a adoção, mas acredito que vá ser adotado rápido. É bem jovens, tem por volta de seis meses.
_ E onde ele está? - perguntou.
_ No abrigo lá atrás. Só está separado dos outros cachorros que já foram vacinados.

se virou para Chris, vendo-o visivelmente mais calmo.
Ele estava extremamente aliviado ao saber que não havia machucado cão. E, ao contrário da forma tensa que havia mostrado dentro do carro, agora podia - finalmente - constatar aquele fato.

_ Podemos vê-lo antes de ir? - perguntou suplicante à ele, uma vez que ele havia se recusado a encarar o animal por todo o trajeto.

Sem a dor no coração e o medo de tê-lo feito mal, Chris achou aquela ideia maravilhosa.

_ Vamos, claro.

foi a frente, saltitante como uma criança. Se demoraram muito mais no corredor do abrigo, já que ela queria acariciar todos os animais. Um gato mal encarado não pareceu gostar, mas a mulher nem mesmo se importou.
Durante o trajeto a veterinária lhe dava mais informações sobre o cão em questão, como se, involuntariamente, já soubesse o que aconteceria a seguir.
O animal era misturado com Boxer, o que explicava seu focinho mais grosso do que de um vira-lata. Estava nas ruas provavelmente por abandono, por isso era muito dócil. Tinha anemia por causa da má alimentação, mas a veterinária lhe garantiu que três dias de uma boa comida já mudariam aquele quadro.
O canil estava vazio e o primeiro portão já era aquele pelo qual procuravam. Latidos altos começaram a preencher o local, uma vez que os outros cães haviam se agitado com a movimentação.
se ajoelhou de frente para o portão e, mesmo que de longe, Chris conseguia ver o cão se agitando enquanto tentava alcançar a mulher pela fresta da grade. enfiou os braços para dentro, acariciando o animal. Foi inevitável não gargalhar quando ele começou a lamber seu rosto.
Um sentimento diferente surgiu em Christopher ao observar aquilo. Era amor, mas posto de forma controversa ao que já havia sentido antes. Era como se aquilo lhe pertencesse, mesmo que não falado explicitamente. Ele sabia que, dali em diante, seria o responsável para que cenas como aquela sempre se repetissem.
Não havia encontrado o cão de propósito. Nem mesmo a presença de naquele momento era mera coincidência.

_ Vem. - ela se virou para ele, sorrindo abertamente. - Você precisa ver isso.

Ele balançou a cabeça em afirmação, se aproximando da grade.

_ Olha, Bubba. Foi ele quem te deu o susto, mas não fez por mal. Ok? - falou com o cão de forma fofa, fazendo Chris gargalhar. - Seja legal.

Chris se ajoelhou, rindo para a mulher.

_ Bubba?

deu de ombros, se levantando e dando espaço para que Chris pudesse ter seu momento com o cão.
nunca tinha tido um cachorro antes, nem mesmo um gato. Apenas alguns cavalos que, depois do casamento com James, era raros tê-los por perto. Todavia, sempre gostou de animais.

_ Meu irmão sempre chamava os animais dessa forma quando criança. - contou. - Acabei pegando.

Ele continuou rindo, compreendendo e, então, virou-se para o portão e viu o cão sentado sobre as patas como um cavalheiro. Ele não se aproximou por espontânea vontade como havia feito com . Ficou sentado, apenas abanando o rabo e esperando que Chris fizesse alguma coisa. Mas nem mesmo o ator conseguiu agir de forma coerente, pois um questionamento torturante havia surgido em seu coração.
Eles estavam ali com o animal, mas e depois? Iriam embora, o deixando a espera de uma adoção que podia ou não acontecer? Chris não podia fazer isso, não depois de perceber, ao ver a cena anterior, que o cachorro deveria fazer parte da sua vida pelo simples fato de lhe despertar um amor imensurável e a primeira vista. Era apenas um bichinho indefeso que, tão rapidamente, já havia roubado seu coração.
Chris se levantou, pegando o celular do bolso e começando a filmar. ergueu as sobrancelhas em dúvida, mas cruzou os braços e se recostou na parede ao lado, observando-o.
Ele voltou a se ajoelhar, estendendo a mão para o animal e vendo-o vir em sua direção e começar a lamber.

_ Oi, cara. - falou baixinho. - Olhe para você… Olhe para você, Bubba.

não conseguia esconder o sorriso e, por pouco, não começou a se derramar em lágrimas na frente da veterinária.
Eles pareciam terem sido feitos um para o outro.

_ Oi, cara. - o cão começou a tentar se espremer por entre a grade para alcançar Chris. Seu rabo balançava freneticamente, mostrando o quanto estava feliz. - Oi, oi, oi…

Chris parou de gravar, mas ficou ali por muito mais tempo, apenas acariciando o cão. Quando enfim percebeu que aquela grade era um mundo entre os dois, olhou para a veterinária como uma criança e ela gargalhou ao abrir a porta. Bubba, como todos estavam chamando, simplesmente pulou no colo do ator, o lambendo todo.
se ajoelhou, colocando a mão sobre a cabeça do cão que se inclinou para ela, agora ainda mais agitado por estar recebendo atenção de duas pessoas ao mesmo tempo.

_ Por que você filmou? - ela perguntou de forma doce e, por mais que tivesse suas dúvidas, no fundo sabia o que estava acontecendo.

Chris demorou para responder, agarrando o pelo do animal e brincando com ele.

_ Queria deixar esse momento registrado. - ele olhou para a mulher ao seu lado, se inclinando e dando um breve beijo em sua bochecha. - Vou levá-lo para casa.

[***]


escutou alguns passos apressados por trás da porta, estranhando a forma como eles iam e voltavam rapidamente. Ela tocou a campainha mais uma vez, escutando Chris gritar para que esperasse um pouco.
Deu de ombros, esperando por ele.

_ O elevador está fechado? - Chris perguntou por trás da porta, fazendo estranhar.

Ela olhou para o elevador.

_ Sim.
_ Tá legal. Eu vou abrir e o Dodger vai sair correndo, ele provavelmente vai pular em você e então eu o pego e o coloco para dentro de novo. Ok?

estreitou as sobrancelhas.

_ Dodger? Quem é Dodger?

Mas não houve tempo para respostas. Chris abriu a imensa porta de madeira polida e logo o cão marrom alaranjado saiu em disparada pelo pequeno corredor que a única saída era a porta do elevador. Assimilando a repentina notícia de que Dodger era o cão que Chris havia adotado. se ajoelhou e, quando o mesmo percebeu sua presença, começou a balançar o rabo a todo vapor, pulando em seus braços. Ela o acariciou por um tempo, até Chris o pegar no colo enquanto o via protestar por aquilo. Ele seguiu para dentro do apartamento e fechou a porta, fazendo com que ele finalmente pudesse soltar o cão.
Dodger correu para a porta novamente, parando enquanto olhava de para a saída, como se pedisse para que lhe ajudasse a fugir.

_ Ele está se sentindo confinado, esse apartamento é muito pequeno. - Chris, um pouco cansado, foi até , a abraçando.

A mulher lhe deu um beijo, mas logo voltou sua atenção para o cão.
Chris foi até o sofá, se jogando sobre o mesmo. , por sua vez, tirou da bolsa alguns brinquedos que havia comprado no meio do caminho após o almoço com a melhor amiga, Shanna.
Ela os mostrou para o cão, que voltou a abanar o rabo em animação ao começar a brincar.

_ Acho que isso vai distraí-lo.

Chris olhou de canto de olho, mais aliviado.

_ Obrigado.

Depois de pouco mais de uma semana, o ator finalmente pôde levar o cão para casa. Estava extremamente feliz mais cedo ao telefone e aquela não era a cena que esperava encontrar.
Ela tirou o casaco e a bolsa, se aninhando a ele no sofá.

_ O que você pretende fazer?

Chris massageou as têmporas, suspirando.

_ Não queria, mas acho que vou ter que levá-lo para Sudbury.

se remexeu, de forma que pudesse olhar o rosto do ator.

_ Você não estava procurando uma casa para a sua mãe aqui em Boston?
_ Sim, mas até lá não é justo mantê-lo preso aqui. - mais relaxado, Chris começou a acariciar os braços dela, fazendo movimentos delicados com os dedos. - Além do mais, preciso deixá-lo com alguém quando estiver trabalhando.
_ Posso ficar com ele. - ela deu de ombros. - Ele teria que ficar no apartamento enquanto trabalho, mas moro perto do parque, posso levar o Dodger para passear quando chegar.

Ele sorriu, extremamente agradecido. Era incrível vê-la tão comprometida com aquilo. E, nesses mínimos detalhes, Chris percebia o quanto estava mais à vontade com aquela relação.

_ Seria incrível. - ele se aproximou, beijando-a delicadamente.

Sua intenção era esquentar um pouco mais as coisas, mas interrompeu o beijo.

_ Aliás, por que Dodger? Pensei que os Dodgers fossem nossos inimigos - falou, se referindo ao time de futebol americano de Los Angeles.

A pergunta fez Chris gargalhar.

_ Está duvidando do meu amor pelo Patriots? - o ator questionou, apontando para a bandeira do time sobre a televisão. - E não, Dodger só me pareceu ser o nome perfeito. Ele é alegre, esperto…

Ela revirou os olhos, fazendo-o rir ainda mais. Compartilhavam do mesmo time - o New England Patriots -, mas, ao contrário de Chris, não era extremamente fanática.

_ Não, não estou. - ela também sorriu, jogando as mãos sobre os ombros de Chris e voltando a beijá-lo. - E você fez uma boa escolha, não o vejo com outro nome.

Ficaram assim durante alguns bons minutos, até Evans descer com suas mãos até as coxas de e impulsionar seu corpo para frente, deitando sobre ela.
escutou um barulho estranho enquanto o beijava, separando seus lábios de imediato. Dodger, que estava sentado de frente para o sofá, se aproximou ainda mais, colocando a cabeça próxima da de , pedido por carinho. Os dois se entreolharam e começaram a gargalhar.
A mulher empurrou Chris, fazendo-o se sentar.

_ Nós podemos levá-lo para passear nos campos de Weston. Você pode aproveitar e olhar algumas casas. - ela sugeriu, vendo-o concordar silenciosamente, absorvendo a interrupção e se recompondo. - Certo. Só vou no banheiro antes.

se levantou, sumindo da sala.
Chris deu palmadinhas no local ao seu lado no sofá e, quando Dod subiu no mesmo, seu dono o abraçou e o encheu de carinho. Enquanto o cão começava a brincar de morder, o ator soltou:

_ Depois vamos conversar seriamente sobre essas interrupções, meu amigo.


Capítulo 12

Boston – Massachusetts

abraçou uma de suas alunas e depois observou-a sair da sala ao lado de alguns colegas.
Mais uma cansativa semana havia se encerrado e a professora sentia-se esgotada. Era um daqueles períodos que só se dedicava ao trabalho e a única diversão que teve nos últimos dias fora a insistente companhia de Shanna em seu apartamento. Gostava tanto de ter a amiga por perto que já havia cogitado chamá-la para morarem juntas. Estava ficando mal acostumada e era difícil ficar sozinha em sua casa novamente.
Enquanto juntava suas coisas, escutou a porta se abrir e logo viu sua melhor amiga caminhar apressadamente em sua direção.

_ Meu irmão está na sala dos professores, vá disfarçadamente e feche a cortina da porta. - falou entre os dentes, temendo ser ouvida. - Vocês tem cinco minutos.
_ O que? - se levantou, mesmo sem entender nada.

Ela saiu apressada da sala, largando suas coisas por lá mesmo.
Shanna caminhou ao seu lado, agradecendo mentalmente ao ver que a maioria das crianças já haviam ido para o lado de fora da escola.

_ Shan, o que está acontecendo? - insistiu, parando repentinamente no momento em que alcançaram a sala dos professores.
_ Agora vocês tem quatro minutos. - ela empurrou a amiga para dentro, fechando a porta. - A cortina!

fechou a mesma, ainda sem compreender tudo que estava acontecendo.
Virou-se para trás, tão confusa que chegou até a pensar que o irmão em questão fosse Scott, mas era - de fato - Chris. Ele estava colado em uma das paredes do fundo da sala e só se desgrudou da mesma quando teve certeza de que era que havia entrado no local.

_ Eu pensei que você estivesse em Nova Iorque.

Ele caminhou até ela apressadamente, usando uma camisa branca de mangas curtas e uma bermuda escura. nunca havia o visto de bermuda fora de casa.
Ele a beijou rapidamente.

_ Acabei de chegar. - ele disse. - Desculpa toda essa urgência. Você não atendia o celular.
_ Chris, eu estava dando aula. O que está acontecendo?

Ele segurou os braços dela, passando a mão sobre eles e os apertando leve. Ele fazia gestos assim todas as vezes que estava nervoso.
Chris também se preocupava com o tempo que tinham.

_ Tem algum compromisso para o final de semana?

Ela pensou, mas não foi preciso muito tempo.

_ Não.

Ele mostrou-se mais aliviado.

_ Topa fazermos uma pequena viagem?

A proposta a fez se assustar, pensando incoerentemente devido a desestabilidade que aquilo lhe causou. Além disso, estavam escondidos na sala dos professores, correndo o risco de serem pegos a qualquer momento.

_ Nesse final de semana?

Chris coçou a cabeça, fazendo uma careta.

_ É, tipo agora. - jogou, mesmo que a urgência daquilo pudesse assustá-la. - É o tempo de você passar no seu apartamento para pegar suas coisas. Eu preciso da resposta rápido para poder confirmar nossa presença.

pensou um pouco sob o olhar desesperado o homem à sua frente. Na verdade, ela não conseguia formular muita coisa, sua cabeça estava muito confusa. Além disso, sua mente estava cansada de uma semana absurdamente puxada.

_ Vamos. - ela disse, dando de ombros e o fazendo sorrir. - Que tipo de roupa devo levar?

Chris alargou ainda mais o sorriso.

_ Vou amar te ver usando biquíni.

Diggs – Virginia

Nove horas!
Nove horas dentro de um carro vagando sem rumo ao sul do país.
Nove horas e Chris ainda cantava como se estivesse entrado no carro há poucos minutos. havia dormido, acordado, comido bastante e nada, absolutamente nada fazia com que Chris ficasse menos animado. A mulher nem sabia onde estavam, mas - definitivamente - haviam deixado Massachusetts há muito tempo. No início, questionou a escolha de Chris em levar Dodger para Sudbury, mas, ao ver quanto tempo permaneceram nas limitações daquele automóvel, sentiu-se aliviada pelo cão não ter que ser obrigado a passar por aquele confinamento.
Chris virou a esquerda da rodovia, entrando por uma estrada de chão e seguindo por um caminho mais estreito do que o de antes. Ele virou outra vez para a direita e pôde escutar o som dos vidros automáticos abaixando e uma brisa fresca com um cheiro diferente a atingir. Ela, que tentava cochilar mais uma vez, abriu os olhos, não tendo muita dificuldade para focar sua visão, afinal, já era noite e logo logo se aproximariam da virada de dia. E, então, sob a claridade das estrelas que ficavam expostas pela falta de nuvens no céu, ela visualizou uma imensidão azul, praticamente preta pelo contraste da noite. O som das ondas quebrando era como música e o cheiro do mar era um perfume. Por mais que estivesse dentro daquele automóvel, só de olhar, sentia-se livre.
Ela se virou para Chris com um brilho nos olhos. Ele havia desacelerado para que ela pudesse apreciar a vista, mas continuou seguindo pelo caminho.

_ Onde estamos? - voltou-se para a janela, sentindo o vento fresco bater em seu rosto.
_ Haven Beach, Virgínia.

Ela gargalhou, olhando para todos os lados e percebendo que se tratava de uma praia muito isolada e, à medida que Chris ia dirigindo, maior era o espaçamento entre as casas. Quando chegaram na última casa da rua, não conseguiram nem ver os vizinhos. O ator estacionou ao lado de mais dois outros carros.
A casa a frente era bastante isolada, fazendo com que a mulher percebesse que tudo a volta poderia pertencer a propriedade. Era branca e de madeira, com dois andares. Era revestida por grandes varandas, provavelmente para facilitar a vista para a praia em um agradável final de tarde.

_ De quem são esses carros?
_ Scott, Zach... - disse, fazendo a mulher se surpreender. - Tara e Guilhermo também estão aí. É a comemoração de casamento do Guilhermo.

Ele foi até o porta-malas, pegando a sua bolsa e a de .

_ Por que não vieram conosco?

Chris trancou o carro, guardando a chave no bolso. Pensou um pouco para ver se havia esquecido algo, mas logo voltou a andar.

_ Eles vieram de avião até Nortfolk, depois alugaram esses carros.

Ela balançou a cabeça em afirmação, pensando nos motivos pelos quais Chris não havia escolhido a mesma opção. Mas, na verdade, sentia-se feliz com ele. Passar nove horas ao seu lado não era nenhuma tortura e, por mais que estivesse sentindo-se confinada naquele carro, seu desconforto não tinha nada a ver com o homem. Muito pelo contrário, ficaria ali por muito mais tempo só por causa da presença dele.
Ele abriu a grande porta de madeira branca e gargalhou antes mesmo de entrar.

_ Finalmente! - escutou Scott dizer, vendo, sobre a cabeça de Chris, que ele se aproximava.

O ator deixou as bolsas em um canto, rindo ao ver o irmão passar reto por ele e ir logo abraçar .

_ Como foi a viagem, aventureiros? - Scott perguntou, passando o braço pelo ombro de e só a soltando quando Zach veio cumprimentá-la.
_ Cansativa, mas legal.

Ao contrário do que esperava, Scott revirou os olhos, olhando friamente em direção ao irmão. Chris apenas gargalhou, estendendo a mão para ele.

_ Cem pratas. - disse enquanto Scott pegava a carteira.

olhou para Zach.

_ O que está acontecendo?
_ Scotty apostou que você ia odiar uma viagem de nove horas pela estrada.

Os dois se aproximaram e o irmão mais novo estava visivelmente emburrado.

_ Mas eu sabia que ele estava errado. - Chris disse, colocando as mãos na cintura de , a guiando para a sala de jantar onde os demais comiam.

Quatro pessoas conversavam animadamente e foi Tara a primeira que notou a presença dos dois. Todavia, não conseguiu esconder o espanto quanto ela se levantou.
A melhor amiga de Chris estava grávida!
_ Pois é. - ela deu de ombros quando percebeu a surpresa da mulher. - Esse é um presentinho que descobri um pouco depois do ano novo.

As duas se abraçaram e pôs as mãos em sua barriga para senti-la.
_ Então você já estava grávida quando nos conhecemos? - ela perguntou, extremamente feliz pela mulher. - Quantos meses?
_ Sim. - Tara ria gratuitamente. - Quando descobri já estava com três. Agora estou saindo do quinto mês.

sorriu abertamente, alheia as pessoas a sua volta. Chris cumprimentou todos, esperando que as duas terminassem o reencontro. Todo mundo a volta sorria com a cena.

_ Estou tão feliz por você. - a abraçou mais uma vez e Tara deu um gritinho de alegria.

Ela cumprimentou Jason, o marido da mulher, com breve abraço de canto. E, depois, virou-se para os dois que não conhecia.
Chris raspou a garganta, tirando a mão da cintura e indicando o casal.

_ , esse é Guilhermo e sua esposa Jesse. Ele é um dos meus agentes e, também, amigo de infância.
_ É um prazer. - , primeiro, abraçou Jesse e, depois, apertou brevemente a mão do homem.
_ Finalmente te conhecemos. - a mulher falou, risonha.
_ É, queríamos saber quem era a mulher que Chris tanto falava.
O ator ficou constrangido, começando a ficar inquieto.
_ Então você fala de mim? - perguntou, fazendo todos gargalharem.

Chris colocou a mão em suas costas, indicando a escada.
_ Vou deixar nossas coisas lá em cima. Você vem?

Ela, mostrando claramente que estava com segundas intenções, negou com a cabeça.

_ Vá na frente. Daqui a pouco eu subo.

Chris olhou de canto de olho para ela e depois para os amigos, indo até as bolsas e subindo escada a cima com elas em mãos.

_ Então ele realmente fala de mim? - se virou no momento em que Chris sumiu de vista.

Tara gargalhou alto.

_ Toda hora.



O barulho do vento chiava ao passar pelos ouvidos de . Ela fechou a janela, um pouco inquieta. As sensações que sentia eram um pouco semelhantes as de uma criança exorbitantemente empolgada. E ela estava. Pisaria na areia de uma praia e estaria, pela primeira vez, dentro do mar. Era estranho pensar que nunca havia feito isso. Além disso, devido a sua ingenuidade naquela situação, também nunca teve muito em que se importar ao colocar um biquíni, mas se surpreendeu ao ver a escolha de Shanna para a amiga. Era, simplesmente, um biquíni vermelho marsala bem menor do que esperava. Não podia esperar menos de sua melhor amiga. Ela foi até a bolsa, pegando um short e o vestido depois de rodar por vários minutos de frente ao espelho.
Desceu as escadas devagar, aproveitando o tempo para passar um pouco de protetor solar.
Pela porta escancarada da sala, pôde ver todos espalhados pela areia.
Zach e Scott estavam na água, enquanto Tara e Jesse riam do casal enquanto aproveitavam a sensação das ondas tocando seus pés na beira da praia. Chris e Guilhermo estavam mais atrás, próximos a um cooler que haviam abastecido com bebidas assim que acordaram.
O ator estava com uma bermuda folgada e sem camisa. Sua falta de interesse por praias estava evidente em sua clara necessidade por sol. Christopher estava branco, quase se confundindo com areia da praia. A tatuagem de touro em homenagem a mãe era muito visível daquela maneira e, se não fosse pela distância, conseguiria ler a frase que havia em seu peito. Mas ela gostava daquilo e, ao contrário do que ela provavelmente implicaria mais tarde, aquela visão lhe agradava bastante, principalmente ao ver seus músculos expostos.
Ela respirou fundo antes de sair, olhando para os próprios pés e prevendo que, finalmente, pisaria num lugar como aquele.
Era tão estranho dar tanta importância para algo que, se tratando das outras pessoas, era extremamente banal. E, era ainda mais difícil de assimilar que a de antigamente estaria tendo aquelas oportunidades um dia. Ir a uma praia parecia algo tão distante durante seu passado... Era importante demais e ela podia sentir a adrenalina percorrer seu sangue naquele momento.
Christopher, como em um chamado, olhou em direção a casa no momento em que pisou na areia. Ela sorriu largamente, afundando seus pés no local. Ergueu a cabeça, procurando por ele e, naquele instante, Chris soube que aquele olhar era um agradecimento.
Ela ajeitou os ombros, se recompondo para não parecer uma completa alienada na frente de seus amigos. Ele sorriu com o ato, vendo-o caminhar para a praia com seu pequeno biquíni vermelho escuro e ele não acreditou que não havia visto aquilo antes de qualquer coisa. Mas era de se esperar, afinal, o sorriso dela era o que mais lhe cativava.
Ela passou reto pelos dois, dando apenas um sorriso de canto na direção de Guilhermo. Chris a seguiu com os olhos, vendo-o parar próxima de Tara e Jesse, arrumando os cabelos bagunçados pelo vento. Quando seu deslumbre foi se tornando distante e a realidade lhe pediu licença, voltou-se para o amigo, encontrando um olhar sugestivo e um ar risonho em sua direção. Guilhermo já sabia o quanto ele estava envolvido e Chris não podia negar, seus atos o denunciavam.
Chris deu um gole em sua cerveja, o ignorando. Deixou a garrafa sob a tampa do cooler e foi em direção às mulheres, escutando os gritos estridentes de Tara para Scott.
gargalhava com as piadas de Jesse sobre o casal que fazia graça no mar. Eles tentavam, de alguma forma, pular algumas das pequenas ondas e, por motivos que não era capaz de distinguir, não conseguiram.
Sentiu uma mão gelada em suas costas e Chris falou um pouco mais alto devido ao vento e o barulho do mar.

_ Está preparada?

Ela olhou para ele e depois para água. Sentiu um impulso na boca do estômago e, se não tivesse compostura, começaria a demonstrar sua ansiedade em seu corpo.
balançou a cabeça em afirmação, segurando a mão dele. Apertou os olhos por alguns segundos e começou a andar.
Ela sentiu a água gelada cobrir seus pés, fazendo com que todo o seu corpo se arrepiasse.

_ Vamos andando mais um pouco. Quando a água ficar mais alta, você pode se desequilibrar com a onda, mas eu tô aqui para te segurar.
_ Tá bom. - disse com os dentes batendo.

Eles continuaram andando e percebeu que a faixa de areia era bem grande até finalmente começarem a afundar.
Uma onda veio em sua direção quando a água havia atingido sua cintura e ela, em um ato um tanto desesperado, imitou Scott, pulando-a.

_ Muito bom! - Chris falou.

Andaram até ficarem com a água nos ombros e Chris a erguia todas as vezes que havia uma onda. Todavia, ainda estavam muito longe de Zach e Scott.

_ Você quer ir para lá? - o ator perguntou ao ver que ela olhava em direção ao casal.

jogou a cabeça para trás, molhando o cabelo. Estava distraída com a estranha sensação que a água salgada causava em seu rosto e a maresia fazia com que ela apertasse ainda mais os olhos contra o sol.

_ Eu não sei nadar.

Chris ficou quieto por alguns segundos, imaginando que havia uma menina no lugar da mulher a sua frente. Era tão estranho ver alguém falar aquilo com tanta naturalidade que foi até difícil dizer algo de imediato. Ela simplesmente foi verdadeira com algo que, se fosse outra pessoa, demoraria para assumir.

_ Tudo bem. - ele deu um sorriso de canto, se aproximando mais dela. - Vamos andar por aqui, te aviso quando estiver fundo.

Ela balançou a cabeça em afirmação, alheia a qualquer coisa que Chris poderia estar pensando.
não se importava em estar parecendo uma criança guiada pelo pai. Ela estava tendo um dos melhores momentos de sua vida e dava todo o valor para isso. Queria se concentrar na água gelada a sua volta, no sol que queimava seu rosto, no homem que era como uma bússola. Ela se sentia única e sabia que tinha todo o direito de pensar assim. Sua maior libertação não foi quando James morreu ou quando aquele tribunal lhe julgou inocente. havia criado sua própria prisão, na qual pensava que nunca seria merecedora de momentos como aquele. E, então, Chris Evans chegou e lhe mostrou o que, de fato, era liberdade.



Diggs, na Virginia, era um local tão isolado que tiveram dificuldade até de se encontrarem no mapa. Scott não parava de questionar Guilhermo sobre como ele havia encontrado aquele lugar. Diggs possuía apenas fazendas, sem exceção, e era bem menor do que o centro de Boston. Eles procuraram por um bar, mas só foram encontrar algo que valesse a pena em Moon, cidade vizinha igualmente pequena, mas com algumas atrações a mais.
O local era lindo, mas cheirava como uma fazenda. E Chris não parava de sorrir ao ver que o dono estava encantado com sua presença. Eram os únicos clientes no local e o senhor de meia idade não poupou esforços para lhes dar toda atenção. Afinal, não era todo dia que o Capitão América entrava em seu bar.
O estabelecimento era todo de madeira, cercado por um fino riacho. Havia uma ponte de acesso, mas, na parte de trás, um imenso pasto. Estavam no meio do nada, exceto por um galpão na rua a frente que emitia uma música alta.
O senhor indicou uma mesa mais ao fundo, com espaço para todos.
sentou-se próxima da janela, com Chris ao seu lado. Ela não escutou as opções de cardápio, pois estava bastante curiosa sobre o lugar ao lado e, sem perceber que estava cortando uma conversa, perguntou ao dono do bar:

_ O que há ali?

O homem ergueu a cabeça para olhar sobre os arranjos de flores da janela e sorriu instantemente ao constatar para onde ela indicava.

_ Nossa população é, em sua grande maioria, de fazendeiros. Ele se reúnem todo último sábado do mês.
_ Uma espécies de baile da terceira idade? - Zach questionou, fazendo o homem gargalhar.
_ Exatamente isso.
Todos pareceram estar interessados na informação, mas Scott foi o primeiro a falar.
_ Chris, saindo daqui, você pode ir para lá. Tem idade para isso.

-


riu abertamente ao ver Guilhermo encher os copos de Zach e Scott com uma bebida que ela não conhecia. Os dois viraram ao mesmo tempo, mas a cara do Evans mais novo foi a mais impagável. Chris, não acreditando na força da bebida, bebeu um pouco, fazendo uma expressão ainda mais desagradável. Ele deitou a cabeça no ombro de , fingindo a necessidade de consolo quando todos gargalharam.
Estavam se divertindo demais e mesmo que, volta e meia, perdessem o assunto, sempre se encontravam.

_ Você já sabe o nome? - Jesse perguntou ao servir Tara com mais suco. Ela não podia beber devido a gestação e todos haviam combinado de não exagerar para não dar trabalho para amiga grávida. Seu marido também não bebia.

Ela colocou os cotovelos sobre a mesa, pensando um pouco.

_ Na verdade, não. - confessou. - Tenho medo de escolher um nome e, quando ver o rosto dela, perceber que não combina.
_ Faz todo sentido. - foi a única a dizer.
_ E vocês? - Jason continuou o assunto. - Qual nome escolheriam para uma filha menina?

Todos se entreolharam e desejou que, assim como ela, mais alguém nunca tivesse pensado nisso. Não queria dizer abertamente que não sentia a mínima vontade de ter filhos e sabia que aquele não era o momento certo para tomarem ciência disso.

_ Eu não sei. - Scott deu de ombros. - Foi eu quem escolheu o nome da Stella. Não sou tão criativo assim para pensar em outro.

Tara jogou uma batata no amigo, percebendo que ele, claramente, só não estava afim de pensar.

_ E você, Chris? - a mulher perguntou, vendo ele erguer os olhos do copo em suas mãos.

Ele pensou um pouco, mas percebeu que era apenas um ato para não falar tão rápido.

_ Marie. - disse, por fim. - É o nome do meio da minha mãe.

Houve um silêncio e, depois, Guilhermo soltou algo como "sempre sentimental" e todos começaram a rir novamente. Chris e entraram na brincadeira, mas, em determinado momento, ele apenas olhou para a mulher, vendo-a sorrir com ternura em sua direção.

-


Tudo estava muito tranquilo enquanto estavam sentados à mesa, mas tranquilidade não era o que procuravam. Não fora assim que Guilhermo e Jesse haviam planejado o aniversário de casamento. Queriam estar com os amigos e estavam, mas não imaginavam que Scott estaria dormindo no colo de Zach antes das dez horas da noite, nem que Tara ficasse falando com sua barriga na frente de todos, pois não tinha assunto para falar com os amigos.
estava jogada sobre um sofá aleatório no bar, enquanto Chris estava ao seu lado.
Ela sentiu a mão do rapaz repousar sobre sua coxa, fazendo carinho no local. O encarou, vendo que não demoraria muito para que ele logo tivesse o mesmo destino que o irmão. Chris estava igualmente esparramado pelo couro do assento, de olhos fechados.

_ O que você gostaria de fazer?

Ele riu com a pergunta, mas não abriu os olhos.

_ Talvez só algo que eu normalmente nunca faria vai conseguir fazer esse sono ir embora.

Ela também sorriu, julgado aquilo impossível de se fazer. Na real, havia perguntado só por uma pequena força de vontade de fazer com que o momento melhorasse. Não tinha tanto ânimo para pensar em algo, também estava cansada.
O bar era um lugar agradável, mas projetado apenas para atender ao povo daquele calmo município. Não havia ninguém além deles e a única música que todos escutavam vinha do baile ao lado de fora. Foi ao perceber isso que teve a ideia que poderia mudar a noite. No final, sua mínima vontade foi mais forte do que ela imaginava.

_ Vamos para o baile. - ela falou baixo para que só Chris escutasse, mas Guilhermo e a esposa ouviram.

Chris abriu os olhos, procurando constatar se ela estava falando sério ou não.

_ Tem certeza?

Ela pensou um pouco na ideia, considerando-a ainda mais quando Chris não a recusou de primeira.

_ Claro que ela tem. - Jesse falou alto e todos começaram a tomar ciência da conversa. - Podemos dançar, pelo menos.

Àquela altura, até Scotty havia acordado.
Chris fez uma careta e riu nervosa. Ela nunca o viu dançando e se recordava de uma breve conversa onde ele dizia que fazia certas coisas apenas por ser o preço que pagava para entreter os amigos. Cogitou que, talvez, ele só não quisesse lhe dizer não e que a melhor escolha a se fazer era aproveitar que tinham vindo em carros separados e voltar para casa de praia. Todavia, ela se deu ao luxo de ser um pouco egoísta. Ela, nem mesmo, tinha o costume de dançar para entreter alguém. Ela sempre se imaginou livre para rodopiar e fazer movimentos estranhos ao som de uma música. Era isso que sempre imaginava quando ficava dançando na frente do espelho. Queria fazer aquilo e seria ainda melhor se fosse com ele.
Todos começaram a se levantar e Chris fez a menção de fazer o mesmo, mas quando os amigos e o irmão estavam mais à frente, o ator se voltou para .

_ Se você não tivesse tido essa ideia, eu teria. - falou sussurrando. - Mas não conte para o Scott.

gargalhou, segurando a mão dele e seguindo para fora do estabelecimento.
A porta do grande ginásio estava aberta e nela havia um simpático segurança que não se importou com a entrada de seis turistas. Aquela era uma cidade pequena, era obvio que ele sabia que o grupo de amigos não era dali. Quando viraram o corredor e se viram de frente para a pista, todos ficaram boquiabertos. A pista estava cheia de casais dançando animadamente por todo o local. Algumas senhoras até se divertiam em pé na arquibancada. No camarote havia sido improvisado várias mesas com algumas degustações e bebidas e não era um local restrito, todos na festa poderiam ir até lá. Havia também pessoas mais jovens, mas eram poucas, como previam.
Tara e Jason foram os primeiros a correr para a pista de dança e a mulher apontava loucamente para a decoração. O jogo de luzes coloridas iluminava todo o local e os panos brancos que caiam do teto refletiam todas as cores.
Chris puxou a mão de e ambos já gargalhavam antes mesmo de começarem a dança.
A banda sobre o palco improvisado tocava animadamente e foi inevitável não seguir no ritmo da música.
Quanto mais conhecia Chris Evans, mais se surpreendida. Havia descoberto um grande senso de humor no homem e uma personalidade totalmente palhaça ao lado dos amigos. Ele era muito brincalhão, ao ponto de ser difícil não ficar rindo igual uma tonta ao seu lado. Naquele momento, ela percebeu que aquilo não possuía barreiras, Chris nunca teve vergonha de ser ele mesmo perto dela.
Pularam, fizeram passos sincronizados, gritaram e, no final, até fizeram pares com senhores e senhoras aleatórias, tamanha a diversão.

_ E agora, encontre o seu par. - a cantora de voz doce disse no microfone enquanto a banda iniciava uma calma melodia. - Que tal uma dança lenta?

viu várias pessoas a sua volta procurando por uma outra metade. Duas mulheres a sua frente se abraçaram. Ela não sabia se eram amigas ou amantes, mas era lindo. Um senhor se ajoelhou, estendendo a mão para uma moça que teve certeza ser sua esposa ao ver a imensa aliança brilhando sob o jogo de luzes. A senhora tirou os óculos dele quando o mesmo se ergueu e a abraçou, e, então, colaram suas testas uma na outra, balançando o corpo no ritmo da música.
Braços fortes a envolveram pela cintura, rodopiando seu corpo antes de firmar seus pés no chão e a virar de frente. Era difícil ver o azul dos olhos dele em um ambiente escuro, mas tinha boa memória. Os enxergava da maneira que eram, mesmo com todo os empecilhos. Ela não percebeu quando ele começou a guiá-la com a música. Só soube que, durante toda a melodia, sua atenção estava toda em seus olhos.

_ Eu tive uma ideia. - ele disse, erguendo um sorriso de canto que a deixou intrigada.
_ Certo, mas qual ideia? - ele passou a mão pelos braços dela, alcançando sua mão e começando a andar, puxando-a consigo.

Chris passou pelos amigos, fazendo um sinal para Guilhermo e, depois, começaram a se espremer por entre as pessoas que dançavam no salão.

_ Ele sabe para onde vamos? - ela parou bruscamente, buscando entender.
_ É uma surpresa, . - ele foi até ela, colocando a mão em suas costas e a guiando novamente. - Confie em mim.

Saíram do ginásio às pressas e, volta e meia, Chris encarava e e sorria, se divertindo com a expressão de dúvida que ela fazia.
Teve dificuldades para destrancar o carro e, quando percebeu que estava com a chave do carro alugado de Guilhermo, voltou correndo para dentro do baile, retornando alguns segundos depois. O ator estava eufórico enquanto a mulher só queria entender o que aconteceria a seguir.

_ Isso tudo foi planejado? - perguntou, de braços cruzados, enquanto Chris dava a partida no carro.

Ele deu de ombros.

_ Posso ter comentado com Guilhermo que queria fugir com você.

Ela, pela primeira vez, riu.

_ Então estamos fugindo?
_ É claro. - ele deu um sorriso de canto, mas não a encarou. - Me surpreende você ainda não ter percebido.

Ela jogou a cabeça para trás, rindo. E, a partir daí, resolveu confiar nele. Permaneceu em silêncio durante todo o caminho, mesmo com Chris provocando. Não comentou nada, nem mesmo quando entraram na estrada de chão de Haven Beach. Queria questionar sobre que tipo de fuga era aquela, sendo que estavam indo em direção a casa de praia, mas permaneceu firme em seu voto de silêncio, provocando Christopher de volta.
E, por fim, a casa onde estavam hospedados ficou para trás e Chris entrou com o carro em uma estrada ainda menor, quase escondida por alguns arbustos. Parou quando percebeu que o carro não entraria mais.
Ele desceu primeiro, contornando o automóvel e abrindo a porta de . Fez uma menção de cavalheiro, mas a mulher apenas desceu silenciosamente enquanto o encarava pelo canto do olho.
Ele foi até o porta malas com o semblante risonho, tirando de lá o mesmo edredom que sempre ficava em seu carro.
Caminhou com ele nas costas, resolvendo dar o espaço que desejava para lhe provocar, mas voltou atrás quando percebeu que a descida da praia poderia ser perigosa, ainda mais com a pouca luz da noite.

_ Para onde estamos indo? - não conseguiu mais esconder sua curiosidade.

Ele a abraçou de canto, erguendo seu corpo com apenas um dos braços e descendo de um nível de areia para outro.

_ É uma outra praia. - ele contou, apontando com a cabeça para o local quando a colocou no chão.

se virou para onde ele indicava e precisou segurar o fôlego quando viu o local. Estava escuro, mas a luz da lua era capaz de fazer com que tudo fosse visível. A areia era mais branca e a água, sob os efeitos daquela noite, estava absolutamente preta e reluzente. Uma grande gruta pegava toda a extensão da areia até uma parte do mar. Era magnífico.

_ Como você descobriu esse lugar?

Ele riu pelo nariz.

_ Lembra da competição de natação com o Scott hoje? - ele lembrou. - Aquela que você ficou desesperada pensando que a gente tinha chegado em alto mar e se afogado.

Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.

_ Vocês nadaram até aqui?
_ Pois é. - ele riu, mas, depois enrugou sua expressão, mostrando uma dúvida e olhando para o edredom. - É melhor eu deixar isso no carro para não sujar de areia.

Chris não esperou uma resposta, apenas correu novamente para o Jeep, abrindo o porta malas e forrando o pano por ele. se virou para o mar por alguns instantes, apreciando a paisagem. Fechou os olhos e escutou o barulho do mar, como havia feito muitas vezes naquele dia. Todavia, os abriu quando percebeu que Chris demorava.
E, quando olhou em direção ao carro novamente, sentiu que, se não tomasse fôlego e controle do próprio corpo, desabaria alí mesmo. Ele, simplesmente, caminhava em sua direção vestindo apenas uma cueca box preta.

_ O que... - ela tentou formular uma pergunta, mas Christopher sabia fazer com que ela perdesse as palavras.

Ele caminhava com seu típico sorriso de canto, enquanto seus olhos refletiam a claridade da lua. O ator, até, arriscou morder os lábios, como fazia quando a barba rala coçava perto da boca.

_ O que foi? - ele perguntou como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. - Você não quer entrar na água usando toda a sua roupa, não é?

Ela olhou para o mar e depois para ele.

_ Nós vamos entrar?

Chris riu.

_ Bom... Eu vou. Você decide se vai ou não.

Ela ficou estática e não soube o que fazer quando ele, simplesmente, correu até a água.
Chris sentiu os pelos de seu corpo se arrepiarem ao entrarem em contato com a água gelada e se deteve ao se lembrar de que não poderia ir mais fundo do que seus pés alcançavam. Mergulhou, fazendo sua pele se acostumar com a temperatura. Ficou embaixo d'água o tempo que conseguia, fazendo uma boba competição consigo mesmo. E, então, assim que emergiu, se virou para praia novamente. Sua visão não focou de imediato por causa do sal na água, mas, aos poucos, ele foi percebendo algo diferente se movimentando sobre a areia. Quando tudo se tornou mais nítido, abriu um sorriso que nem mesmo ele foi capaz de controlar.
parou na beira, sentindo a água gelada nos pés e o esperando, mas ele se demorou. Chris queria apreciar mais.
Ela abraçava o próprio corpo, mas, quando percebeu o olhar dele, uma coragem absurda a dominou e , simplesmente, caminhou para dentro do mar. Ela usava apenas uma lingerie roxa e, se não estivesse andando em um lugar onde não possuía domínio, Chris poderia ficar encarando-a a noite toda. Ele, por fim, andou em sua direção, sentindo mais uma vez a brisa se misturar com a água que escorria de suas costas e o fazer ter calafrios. Porém, quanto mais se aproximava dela, mais aquecido se sentia.
E então, ela sorriu. O lindo sorriso que ele tanto amava.
simplesmente pulou em seu colo e Chris a ajeitou, fazendo com que suas pernas envolvessem sua cintura enquanto caminhava novamente em direção ao fundo. Parou numa altura onde a água ficava um pouco abaixo do ombro dos dois.
Ela ainda tinha os olhos sobre ele, assim como o ator. E ambos gargalharam quando uma onda repentina quase os desestabilizou.

_ Prenda a respiração. - ele pediu.

sorriu nervosa, concordando e fazendo o que ele havia pedido. Fechou os olhos no momento em que sentiu a água a envolver e apertou os ombros de Chris, temendo se soltar. Sentiu o rosto dele se aproximar, mas começou a se debater, precisando respirar.
Ambos emergiram sobre gargalhadas, enquanto Chris jogava os cabelos dela para trás.
Por fim, voltaram a ficar em silêncio, pensando em tudo que aquele momento representava.
Chris sentiu o coração bater a mil por hora, como nunca havia sentido antes.
Ele aproximou seus rostos, beijando-a lentamente. Um beijo salgado, mas cheio de significado.
-


Assim como no mar, a luz da lua também era capaz de refletir sob a pele de Chris.
Estavam deitados no porta malas aberto do carro, coberto apenas pela jogo de edredons que Lisa havia dado ao filho. E, juntos, se deleitavam com a visão daquela praia.
fazia círculos sob o peito de Chris, às vezes contornando os desenhos que a luz formava em sua pele. Ele estava quase dormindo com o toque, mas não queria perder nenhum momento daquilo. Nem .

_ Chris?
_ Hum?

Ela se ergueu para olhar o rosto dele, com os cabelos - já secos - caindo sobre o próprio rosto.

_ Você estava certo. - disse, fazendo-o abrir os olhos. - Eu pensei nisso mais cedo, mas agora eu tenho tanta certeza...

Ele acariciou seu rosto, colocando o cabelo para trás da orelha como costumava fazer.

_ O que você está querendo dizer?

tentou dizer olhando em seus olhos, mas não conseguia. Deitou-se novamente sobre seu peito, tomando coragem para ser extremamente sincera.

_ Eu não sabia o que era viver. Não antes de você.

Chris olhou para ela, vendo-a, em sua fragilidade, uma força que nunca havia percebido até agora. Algo que ele sempre teve certeza que encontraria nela e que, finalmente, havia achado. Ele não precisava mais do passado, pois não havia mais dúvidas de que aquela era a mulher que ele tanto procurou e que tinha acabado de remover todas as suas barreiras.
Era ainda mais linda e, totalmente surpreso, percebeu que aquele sentimento só cresceria. Chris não tinha mais dúvidas, era a mulher que marcaria sua vida.

_ Eu sinto o mesmo. - sussurou. - É como se nada tivesse sentido antes de você chegar.

Boston – Massachusetts

Já de volta a Boston na noite de domingo, Chris e subiram pelo elevador do apartamento da mulher, planejando o que comeriam e assistiriam durante o pouco que restava do dia.
Ela brincava sobre como seria difícil desembaraçar o cabelo depois de tanto sol e água do mar, enquanto Chris reclamava das evidentes queimaduras de sol que adquiriu. Todavia, enquanto falava, ele parou bruscamente, se assustando.

_ Tem alguém na sua porta. - ele reconheceu ser uma mulher e, instantaneamente, segurou a mão de para impedi-la de continuar andando.

O ator já havia passado por temores semelhantes. Não foi uma, nem duas vezes que alguém estava de prontidão o esperando em algum lugar. Na maioria das vezes, eram fotógrafos.
Ela uniu as sobrancelhas, imaginando o que ele provavelmente estava pensando. Mas, em um ato de coragem que ela nem mesmo imaginava que teria, deixou Chris para trás e foi enfrentar quem quer que fosse. Porém, a medida que se aproximava, mais reconhecia a pessoa.

_ Hanna? - a mulher estava sentada de frente para porta e de costas para o corredor. a viu tirar os fones de ouvido e olhar em sua direção.

De fato, era sua irmã.
Chris se aproximou mais aliviado ao ver as duas gritavam em animação e, chegando mais perto enquanto se abraçavam, viu que ela tinha consigo - pelo menos - umas três malas.
e a irmã eram muito parecidas, o mesmo formato de rosto e cor de cabelo. Possuíam expressões similares e o olhar de uma podia facilmente fazer com que se recordasse da outra. Hanna, porém, era bem mais baixa.

_ Não acredito que você está aqui! - não conseguia soltá-la. - Por que não me avisou?
_ Queria fazer uma surpresa. - falou assim que a irmã lhe deu espaço para poder voltar a respirar e falar. - Surpresa!

As duas gargalharam e, até então, Chris continuava como telespectador.

_ E a Espanha? O seu namorado? - perguntava rapidamente, atropelando as palavras. Mas, no fim, percebeu a quantidade de malas. - Por que isso tudo?

Hanna respirou fundo, mas não deixou de sorrir.

_ Voltei para ficar. - contou, fazendo os olhos de brilharem. - É uma longa história, depois conversamos melhor.

gritou mais uma vez e a abraçou novamente. As duas ficaram pulando em comemoração, até que, finalmente, Hanna viu Christopher.
De início ela apenas parou e ficou o encarando durante muito tempo.
fez uma expressão assustada, se lembrando que a irmã não sabia de nada sobre sua relação com o ator. Ela sorriu sem graça para ele, o incentivando a chegar mais perto.

_ Chris, essa é minha irmã, Hanna. - ela falou e ele imediatamente abriu um sorriso e lhe estendeu a mão. - Hanna, esse é o Chris.

Mas a mulher não emitiu palavra alguma, apertou a mão do homem com os olhos fixos no rosto dele, pensando nas mil coisas que poderia estar acontecendo ali.
Depois de um tempo ela finalmente falou:

_ O que... - mas não conseguiu terminar a frase.
_ É uma longa história. - falou, nervosa, repetindo o que a própria Hanna havia falado antes.

De fato, as irmãs tinham muito o que conversar.
Chris pigarreou, sabendo que aquela era a sua deixa.

_ Vou buscar o Dodger e deixar vocês matarem a saudade. - ele disse para , beijando sua testa logo em seguida. - Te ligo depois.
_ Ta bom.

Ele fez a menção de sair, mas antes riu de forma nervosa para Hanna, sem saber o que fazer. Ela continuou sem dizer nada e, por fim, ele foi embora, colocando as mãos no bolso e caminhando tranquilamente pelo corredor.
Hanna o acompanhou com o olhar, ainda fazendo a cara de assustada que muitas pessoas faziam perto dele. Naquela altura, o sorriso de já era de divertimento.
Viu a irmã se virar novamente e a encarar com uma expressão de urgência. Ela segurou seus braços, chacoalhando seu corpo.

_ Você precisa me contar o que está acontecendo!


Capítulo 13

Boston - Massachusetts.

_ Não entendo como você diz que isso não é um namoro. - Hannah falou mais alto do que deveria enquanto saiam do Fanueil Hall Marketplace, onde haviam almoçado.
Shanna olhou para a irmã da amiga de rabo de olho, mais uma vez a repreendendo por elevar a voz enquanto falavam daquele assunto no meio de uma multidão. Todavia, não evitou o olhar de concordância em direção a .
_ Também não compreendo. - a Evans mais nova falou.
revirou os olhos, jogando um pouco da cabeça para trás e sentindo os raios quentes de sol sobre sua pele. O verão logo chegaria e ela se sentia mais ansiosa do que de costume. Quando firmou sua visão a frente, sentiu-se tonta, caminhando calmamente em meio as pessoas, mas temendo esbarrar em alguém. Havia perdido a noção de quanto tampo descansou o peso de seu pescoço enquanto apreciava o sol.
_ Já disse... Estamos nos divertindo.
_ Então porque estamos fazendo um passeio turístico que ele ia fazer com você?
semicerrou os olhos ao encarar a amiga.
_ Como sabe disso?
_ Quando estamos em Sudbury, ele fica horas pesquisando lugares para te levar.
sorriu, lisonjeada ao saber sobre aquela informação, mas optou por não demonstrar.
_ Nós estávamos vindo para cá no dia que encontramos o Dodger.
_ Não é essa a questão. - Hannah interviu. - Você nunca teve tanto anseio por essas coisas antes. Ficar em casa fazendo nada era o seu programa mais satisfatório.
_ E o Chris... - Shanna acrescentou. - Quando Guilhermo teve a ideia de passar o aniversário de casamento uma casa de praia, ele simplesmente pulou de alegria com a possibilidade de te levar. , você já viu a cor do meu irmão? Acha que, com aquela palidez, ele tem o recorrente interesse de ir a praia? Faça-me o favor e raciocine, ele mora em Los Angeles há quase dez anos e simples ignora o mar.
respirou fundo, finalmente parando e olhando para as duas.
_ E qual a finalidade disso? - ela bateu os braços contra o corpo em sinal de cansaço. - Por que vocês ficam me dizendo essas coisas?
Hannah sorriu de forma gentil.
_ Para fazer com que você entenda que não é uma coisa qualquer. Não é apenas diversão.
olhou para as duas, mas não tinha palavras. Era, de certa forma, muito revigorante ouvir aquilo, mesmo que por delírios de terceiros. A irmã e a amiga eram telespectadoras, pessoas de fora do tal relacionamento e ela podia estar se iludindo ao ouvir as duas, mas não ligava. Mesmo tendo ciência de seu possível devaneio, pensar como elas despertava sua ansiedade, assim como percorrer um local que ela sabia que ele ia adorar.
Havia escolhido o famigerado passeio pela ... pois ambos - e Chris - haviam percebido o quanto teriam se arriscado ao fazê-lo juntos. Os pontos turísticos ficavam exatamente no centro de Boston e eram locais muito mais frequentados do que Chris imaginou quando o escolheu da última vez. Por isso, decidiu aproveitar a breve estadia de Hannah para conhecer os lugares da rota. E, com isso, finalmente começou a colocar em prática a virtude de se aventurar, a qual Chris Evans havia despertado. Guiou Hannah e Shanna ate o local sobre protestos, mas o sorriso não abandonou o seu rosto ao perceber o quanto cada detalhe a lembrava de Chris. Aquilo era simplesmente tudo o que ele gostava, pontos turísticos carregados de cultura e história. Era uma pena ele não poder estar com elas.
Porém, as boas sensações causadas pela lembrança dele deviam ser guardadas para si. Afinal, não via a irmã há um bom tempo e queria apreciar cada momento ao seu lado.
_ Será que podemos falar sobre outra coisa?
_ Como você quiser. - Shanna deu de ombros. - Só não tente se enganar.
E ela não estava. Pelo menos não naquele dia.
passou um dos braços sobre o ombro da irmã enquanto Shanna ria da forma como a amiga escapava daquele assunto - mais uma vez. As três continuaram a trilha cultural e, por mais que a história dos EUA não fosse de grande interesse para Hanna, ela aproveitou o passeio ao lado das duas.
Ao contrário do que imaginou, continuou sentindo-se um tanto desconfortável ao decorrer do dia e, sem saber distinguir o que sentia, passou a tentar esconder a sensação de ânsia na boca do estômago e a estranha premonição de que algo desagradável iria acontecer. E, com isso, seu sensor de alerta foi involuntariamente ativado e passou a olhar a sua volta de forma apreensiva, sentindo que havia atenção sobre elas.
Atravessaram a ponte até Charleston e Hannah instantemente quis parar para tirar algumas fotos. Tirou algumas com Shanna e, depois, pediu que a mulher tirasse uma dela e de sua irmã.
De início, sorriu ao abraçá-la, mas logo a aglomeração de pessoas a sua volta começou a bagunçar sua concentração. Seus olhos vagaram pelos turistas e trabalhadores do local, procurando por algo que ela nem mesmo sabia o que era. Tentou fixar em Shanna, que estava de frente as duas enquanto tirava a foto, mas esconder o desconforto só a deixava mais tonta. E, então, algo atrás da amiga lhe chamou muita atenção.
Um homem - ainda sobre a ponte - estava parado olhando em direção as três. E, mesmo sendo um dia muito quente, ele usava um casco verde musgo grosso, com um capuz que era capaz de esconder todo o seu pescoço. Ele podia ser apenas um turista como todos os outros, mas o conhecia, só não conseguia se lembrar de onde.
_ O que foi? - Shanna, ao ver que a amiga não dava atenção para a foto, virou-se para trás a procura do que ela poderia estar encarando. - O que você está olhando?
_ Tem um homem olhando para nós.
Ele tinha uma barba grossa e quase ruiva, isso impedia que ela pudesse distinguir mais pontos sobre a sua expressão.
Hannah ficou na ponta dos pés, afim de poder enxergar o homem sobre as cabeças que passavam a todo vapor a sua frente, atrapalhando a visão.
Shanna também observou, vendo-o começar a caminhar sem se mostrar constrangido por aparentemente ter sido pego encarando as três mulheres. O homem seguiu o caminho, indo até a lateral do monumento onde as três tiravam fotos e se voltando para algumas barracas de comida. Elas continuaram paradas o observando comprar algo para comer e voltar novamente para perto da ponte, onde lhe dava vista para a baía.
Shanna se aproximou das duas, entregando o celular para Hannah.
_ Ele é só um turista.
balançou a cabeça em afirmação, agora acreditando na teoria de que, talvez, ele só fosse bastante parecido com alguém que ela conhecia.

Concord - Massachusetts.

O quarto alugado que Hannah havia selecionado era bem próximo do centro da cidade e não levaram muito tempo para chegar no local após deixarem a rodovia. já era familiarizada com o lugar, já que era o mesmo onde a irmã morava antes de ir para a Espanha.
_ Você já procurou algum emprego? - disse a mais velha, abrindo o porta-malas do carro para que a outra pudesse tirar suas coisas.
_ O Trail's End Cafe está contratando, talvez eu tenha sorte. - Hannah virou as chaves na mão assim que colocou suas malas no chão.
pegou duas, já as empurrando em direção a entrada da construção. Queria poder ajudar, mas sabia que não poderia ficar muito. Ainda estava com a roupa que havia usado durante o dia no trabalho e nem queria imaginar a quantidade imensurável de provas para serem corrigidas que a esperava.
Hannah compreendia, mas não escondia a tristeza por não poder ficar. Assim, sentou-se sobre os degraus quando chegaram a entrada do complexo.
_ Você tem certeza disso? - a mais velha colocou as mãos na cintura, sentindo-se mais cansada do que o normal pelo esforço de ter empurrado as malas. - Você podia ficar comigo em Boston, consigo te arrumar algo na escola.
Hannah riu pelo nariz.
_ Você sabe que não gosto disso. - e sabia. A irmã possuía um orgulho muito grande. Além disso, Hannah tinha a intensa força de vontade de conseguir as coisas por mérito próprio. gostava disso. - E, na verdade, gosto da ideia de que Concord fica exatamente entre Boston e Carlisle, assim estou tão perto de você quanto do Billy.
balançou a cabeça em afirmação, sentando-se ao lado da irmã por um tempo. Seu celular vibrou e a notificação com o nome de Chris rapidamente subiu pela tela.
Chris
Acabei de buscar o Dod. Me avisa quando estiver voltando.
Ela sorriu e sentiu a ansiedade na boca do estômago por finalmente vê-lo novamente. Chris mal teve tempo de conversar com Hannah, já que tinha muitos assuntos para resolver em Los Angeles. Já havia, mais ou menos, duas semanas que não se encontravam e esse fora exatamente o tempo que as irmãs tiveram juntas.
_ Você pensou na minha proposta de irmos até Carlisle no final de semana? - Hannah cortou o silêncio.
suspirou.
_ Pensei e minha resposta continua sendo não. - não conseguia olhar nos olhos da mulher ao lado, apenas encarava os próprios pés. - Mas tudo bem você ir sem mim.
_ Billy ia gostar tanto de te ver...
_ Eu sei que ia, mas eu simplesmente não consigo. - ela estalou a língua. - Ele está cego.
_ Esse não seria mais um motivo para você ir? - Hannah firmou a voz, tentando soar mais dura. - Será que você não percebe que esse seu posicionamento acaba dando brecha para que George consiga manipula-lo? Se nosso pai dizer a ele que você o abandonou, Billy com certeza vai acreditar. Afinal, você realmente não o procura.
enfureceu a expressão ao olhar para a irmã.
_ É claro que eu o procuro! Quantas vezes já pedi para que ele pudesse passar uns dias em Boston comigo e George simplesmente não autorizou?
Hannah balançou a cabeça em concordância, tendo ciência sobre aquele fato.
_ Mas será que o Billy sabe disso? Você não pode viver esperando que George vai deixar com que nosso irmão reconheça esforço que fazemos para ficar com ele. - a irmã mais nova, por mais que tivesse a intenção de dar um choque de realidade em , tentou soar doce. - Não me leve a mal, eu também o odeio. Não consigo trocar duas palavras com ele quando chego naquela casa. Mas amo o Billy e a última coisa que quero é perdê-lo. Tenho certeza que você me entende. Nosso amor por ele é muito maior do que qualquer tormenta do passado.
queria retrucar, mas sentiu-se exausta em pensar na continuação daquele assunto. E, além disso, odiava que outra pessoa a mostrasse o quanto suas atitudes estavam sendo egoístas. Ela sabia sobre tudo aquilo que sua irmã havia lhe falado e entrava diariamente no mesmo dilema. Tentava, todos os dias, ser mais forte a ponto de ignorar George para ficar mais perto de Billy.
_ Não sei, Hannah, talvez eu vá. - disse, por fim. - Ainda temos uma longa semana pela frente, vamos ver no que vai dar.

Boston - Massachusetts.

Dentro daquele escritório, os barulhos frenéticos da caneta de eram as únicas coisas que eram ouvidas. Ela havia pegado uma prova com respostas tão absurdas, que sua vontade era de rabiscar todo o papel a sua frente. E, quanto mais corrigia, mais as avaliações se multiplicavam a sua frente.
Escutou algo fazer com que uma das cadeiras da cozinha se arrastasse e, logo, dois olhos extremamente castanhos apareceram na porta e lhe encararam fixamente.
_ Ei, Bubba! Vem aqui.
Dodger, que antes tinha uma expressão fechada, abriu a boca e colocou a língua para fora no momento em que lhe chamou, mostrando sua felicidade.
Ele pulou no colo de , fazendo com a cadeira fosse para trás com o impacto. Ele ainda não compreendia o quanto era grande. A presença dele lhe trouxe paz, mas - ao mesmo tempo - a cabeça da professora matutava a afirmação de que, se ela continuasse procrastinando, mais tarde iria terminar as correções.
Pôs Dodger no chão, mas o cão não se afastou. Ele deitou ao seus pés e, as vezes, levantava a cabeça para que pudesse acaricia-la enquanto a mulher escrevia sob a mesa a sua frente.
Ficaram assim durante um bom tempo até Chris, finalmente, retornar.
_ Você demorou! - ela gritou assim que ouviu o barulho da porta, se levantando e vendo Dodger fazendo o mesmo.
Ele pulou sobre o dono como se não o visse há dias, o que é compreensível, já que Chris havia voltado para Boston naquela tarde.
_ Quando você disse que comeria qualquer coisa, fiquem em dúvida do que escolher.
_ Estou vendo. - riu pelo nariz, se referindo as várias sacolas que ele carregava.
foi até ele, tirando os pacotes de sua mão para que ele pudesse dar a devida atenção ao cão. Levou-os até a cozinha enquanto dava saltos de alegria, tamanha a sua fome. Lavou as mãos rapidamente e logo Chris apareceu ao seu lado, fazendo o mesmo.
Ele foi diretamente até a embalagem maior, que era claramente uma pizza. Porém, enrugou a expressão, olhando para as outras sacolas.
_ Só a pizza não estava bom? - perguntou em tom de brincadeira.
Ele riu de lado, já pegando um pedaço e apontando para os outros pacotes enquanto mastigava.
_ Tacos, frango frito e pizza. - sorriu. - Você pode escolher.
Ela gargalhou, se esticando até a outras sacolas. Tudo parecia muito suculento para escolher apenas um.
_ Vai me chamar de esfomeada se eu disser que quero um pouco de cada?
_ Se você preferir, posso não comentar sobre meus pensamentos. - zombou.
continuou a sorrir, pegando um dos tacos. Ela se demorou um pouco enquanto Chris servia o suco e ficou um bom tempo o encarando de rabo de olho, achando engraçada a forma como ele acabava com uma fatia de pizza em apenas três mordidas.
_ Trouxe algo para o Dodger também. - ele limpou as mãos em um guardanapo e se levantou. - Vou pegar o pote dele.
Ela o observou sair e logo se voltou para a comida a sua frente. Ouviu a própria barriga roncar, como se estivesse chamando por aquilo e, então, mordeu o taco.
De início, não sentiu nada, apenas apreciou o gosto do alimento, aprovando o recheio. Todavia, quando sentiu singularmente o gosto do bacon, seu estômago se embrulhou. No intuito de entender a sensação estranha que tinha, cheirou o Taco já mordido e uma ânsia a preencheu ao sentir o cheio do próprio bacon, mesmo que não muito forte.
Ela largou a comida, se agachando para procurar a lixeira às pressas e, por sorte, a encontrou antes que não aguentasse mais segurar o vômito.
Chris ouviu algo estranho, olhando sobre os ombros e vendo ajoelhada ao chão enquanto se debruçava sobre a lixeira.
_ ! - ele foi até ela, segurando a cabelo da mulher enquanto ela tossia. - O que foi?
Ela recuperava a respiração aos poucos e, por isso, teve dificuldades de falar de início.
_ O taco tá estragado.
Chris uniu as sobrancelhas, estranhando aquela afirmação, já que havia acabado de comprá-lo.
Ele a ergueu do chão, levando-a até o banheiro para lavar o rosto e escovar os dentes.
Não sabia muito o que fazer, por isso, ficou com a mão na cintura dela para que pudesse estar preparado caso ela voltasse a vomitar ou perdesse a força das penas.
_ Eu sei que você teve uma ótima intenção, mas acho que quero dormir agora. - ela mostrava os olhos cansados e Chris sentiu pena. Ele sabia o quanto aquele dia havia sido exaustivo para .
_ Claro, vem. - ele a levou até o quarto.
se encolheu como uma criança assim que deitou sobre a cama e Chris riu ao jogar a coberta sobre ela e começar a embrulha-la enquanto a envolvia com o tecido. também riu.
_ Vou jogar aqueles tacos fora antes que o Dodger suba na bancada e os coma.
_ Ele não devia comê-los nem se estivessem bons. - disse baixinho enquanto sentia o homem beijar seu rosto.
_ Exatamente. - ele gargalhou enquanto saia.
Assim que virou em direção a cozinha, ouviu o som da embalagem sendo revirada e constatou que sua desconfiança estava certa. Dodger agiu mais rápido do que ele imaginou.
_ Ei! - correu até o cão, que estava em pé tentando pegar o pacote sobre a bancada.
Chris foi rápido, pegando-o no colo e o colocando longe, pois ele já estava com o focinho dentro da sacola.
Evans pensou um pouco, se lembrando da desconfiança que havia tido alguns minutos antes. Afinal, havia acabado de comprar o alimento. Todavia, assim que viu o estrago que Dod havia feito, percebeu que não seria uma boa ideia conserva-lo. O cão não chegou ao ponto de comer, mas com a agitação para alcançar a embalagem, fez com que o mesmo de desmanchasse. E, além disso, era melhor prevenir do que remediar, pois já havia passado mal com aquilo.
E, assim, Chris fechou o pacote e o lançou em direção ao lixo.



Chris sonhava com uma fazenda em Boston onde ele costumava ir com os irmãos quando era criança. Via Scott correndo a frente enquanto Lisa o repreendia. Carly e ele passeavam por entre as macieiras enquanto Shanna chorava no colo da irmã mais velha. O ator não compreendia muita coisa sobre aquele sonho, mas tinha consciência do quanto estava frio. Todavia, seu eu - o Christopher criança - sentia um calor anormal. Ele tirou o casaco e o enrolou na cintura e ninguém o questionou. Tentou voltar para o que fazia antes, mas continuou sentindo-se dentro de um forno.
Um barulho chato começou a ecoar em sua mente e demorou alguns segundos até ele perceber que estava em um estado entre o sonho e a realidade. O barulho vinha de seu celular.
Ele despertou às pressas, raciocinando rapidamente que o toque poderia acordar . Se esticou para pegar o aparelho, não olhando o nome no visor.
_ Alô. - sua voz saiu rouca.
se remexeu, virando-se para o outro lado e ficando de costas para ele. Chris, então, percebeu o motivo de estar sentindo tanto calor. Uma colcha grande e grossa estava caída sobre os dois. , provavelmente, havia sentido frio durante a noite. Porém, aquilo continuava sendo estranho, já que aquela noite havia sido uma das mais quentes do ano.
_ Ei, Chris. Temos uma reunião daqui a pouco. - era Megan Moss, sua agente. - O Guilhermo me avisou que você estava na casa da e que estava propício a esquecer.
Ela dizia em um tom de brincadeira e Chris riu pelo nariz ao ouvi-la. Entretanto, continuou encarando .
_ Moss, só um minuto. - pediu e escutou-a murmurar em concordância.
O ator se levantou, deixando o celular sobre a cama enquanto dava a volta na mesma para ficar de frente para a mulher. A colcha cobria quase todo seu rosto e ele teve todo cuidado para não acorda-la ao tirar. Porém, despertou aos poucos quando percebeu o homem ajoelhando a sua frente. Ele colocou a mão na sua testa, verificando sua temperatura.
_ Você ainda está com frio? - ele sussurrou enquanto ela se mexia sem abrir os olhos.
_ Um pouco. - respondeu com o mesmo tom de voz.
Chris estalou a língua, não querendo deixá-la sozinha.
_ Tenho uma reunião agora, mas vou pedir para a Shanna vir ficar com você.
Ela se virou novamente, ficando de costas para ele e resmungando:
_ Não, só quero dormir. Quando você voltar ainda vou estar dormindo.
Ele ergueu o canto dos lábios, olhando para o tapete e vendo Dodger dormindo profundamente sobre ele.
_ Posso deixar o Dod cuidando de você, pelo menos?
Ele não via o rosto dela, mas pôde escutar a risada.
_ Ele pode.
Chris se levantou. Pensou em levar o cão para cima da cama, mas imaginou que a exagerada colcha fosse o motivo dele ter abandonado a companhias dos dois durante a noite e ter buscado um fresco tapete.
O ator pegou o celular novamente, rumando para fora do quarto.
_ Moss, tem alguma noção de quando essa reunião vai acabar? - perguntou, entrando no banheiro. - não está se sentindo bem, não queria deixá-la muito tempo sozinha.
_ Antes do almoço. Não é algo muito longo.
Ele se agachou, abrindo algumas gavetas sob a pia.
_ Perfeito. Precisa de carona?
Escutou-a gargalhar.
_ Sempre! - disse, fazendo rir também. - Vou me arrumar.
_ Ok. Até daqui a pouco.
Desligou, colocando o aparelho sobre o mármore e voltando a procurar o que desejava.
Não poderia ficar com nas próximas horas, mas precisava se certificar de que ela ficaria bem. Procurava por algum remédio que pudesse deixar perto da cama caso a mulher voltasse a passar mal.
A pia daquele banheiro era particularmente grande e ele demorou até se prender em algo que pudesse ser relevante no jogo de gavetas. A última do lado esquerdo era mais difícil de abrir e, quando Evans obteve êxito, percebeu que havia um rolo de receitas médicas na única fresta vaga da gaveta. O resto do recipiente, porém, era tomado por uma caixa. E, ao julgar pela finalidade dos papéis ao lado, aquilo só poderia guardar remédios.
Ele se ergueu, colocando a caixa sobre o mármore e olhando as indicações dos medicamentos. Não entendia muito bem do assunto, mas sabia o que eram remédios controlados e ali havia um monte deles. Chris pegou-se lendo o frasco de um antidepressivo forte e, por um momento, ficou paralisado tentando assimilar quais deveriam ser seus próximos passos. Se voltou para outro, pegando o celular com a outra mão e pesquisando seu nome na internet, mas se arrependeu quando as informações apareceram:

"Geralmente indicado em casos de distúrbios mentais"

Ele tremeu, largando o celular e fechando a caixa com uma velocidade absurda. Chris já ia devolver o objetivo para onde havia encontrado, quando escutou uma voz nervosa.
_ O que você pensa que está fazendo? - olhou assustada para a cena, entrando disparada dentro do banheiro e arrancando a caixa de suas mãos. - Quem te deu direito de mexer nas minhas coisas?
Chris se afastou com a expressão fechada, tendo ciência do quarto ela poderia estar brava. _ Eu só estava procurando um remédio para deixar perto de você.
estava sem chão, ainda mais do que ele. Chris podia ver tantos sentimentos expressos em seu rosto e seu coração doía ao constatar que nenhum era bom. Ela estava com medo, envergonhada e totalmente desesperada.
Evans se aproximou, pegando a caixa delicadamente de suas mãos e a levando para dentro da gaveta novamente. Passou as mãos pelos braços de , sentindo-a rígida e extremamente fria. A situação só piorava com o fato de que ele não conseguia encará-la.
_ Eu... - ela tentou falar, mas não possuía palavras.
_ Preciso me arrumar para ir agora. - ele fez uma careta, procurando palavras. - Vou pedir para minha irmã levar o Dod e depois voltar para ficar com você.
Por mais que fossem palavras doloridas, ele não a soltou. respirou fundo, mostrando a postura forte que sempre carregava, mas seus olhos a denunciaram, ela estava chorando.
_ Tudo bem, já era de se esperar...
Tentou dizer, mas Chris a cortou, elevando um pouco a voz.
_ Que uma coisa fique bem clara: pouco me importa o que tem naquela caixa, . O que dói é você ter escondido.
Ele finalmente a soltou, dando as costas e seguindo para a sala.
_ Não era para você ter encontrado.
o seguiu, vendo-o pegar sua bolsa sobre o sofá e retornar ao banheiro.
_ É claro! É óbvio que você não ia me contar.
Chris abriu a bolsa e separou algumas roupas, começando a se trocar. continuava a porta, assistindo-o vestir a calça com a expressão mais fechada do mundo.
_ Eu ia esperar o momento certo.
Ele riu de nervoso.
_ E qual seria o momento certo? Depois de você conhecer minha família ou de ter certeza de que eu estou apaixonado por você? - bradou, pegando-a de surpresa com o poder de suas palavras. - , estou aqui hoje, mesmo depois de você tanto me repelir. Como isso não pode ser uma prova de que sou louco por você?
Ela ficou em silêncio, ainda assustada e procurando absorver aquela confissão.
Chris terminou de se vestir.
_ Você nunca me disse isso.
o viu encará-la, sentindo um soco na boca do estômago a cada batida do seu coração.
_ Disse sim... Disse e demonstrei todos esse sentimento quando fui verdadeiro com você.
Ele voltou a andar, conferindo o celular e tateando os bolsos para verificar se estava com as chaves. Percebeu que, por devaneio, havia se esquecido de que acabara de colocar as calças. Pensou em onde havia deixado as mesmas e rumou até o balcão da cozinha, encontrando o que procurava.
Dodger saiu do quarto, chamando a atenção dos dois. Chris se agachou, fazendo carinho no amigo enquanto apenas observava a cena de longe. Em certo momento, Evans elevou os olhos a ela, sentindo-se culpado pelo seu estado.
Caminhou até ela em passos largos, mas ainda tinha dificuldades de encara-la devido a raiva. Beijou a testa da mulher, sabendo que - em algum momento - aquele sentimento iria passar e que ele finalmente poderia estar apto para aquele diálogo.
_ Vamos conversar depois. - disse em uma voz mais doce do que a que usou nos últimos minutos. - Só preciso esfriar minha cabeça.

[***]


Para alguém como , era fácil contar nos dedos as vezes em que se sentiu tão triste como naquele momento.
Em uma de suas consultas, um antigo psiquiatra lhe falou sobre como pessoas naquela situação se tornavam tão amigas de sua própria tristeza, que já a conheciam muito bem. Mas que, no final, tudo era um conjunto de si próprio a melancolia era apenas aquilo o que a mente do individuo havia criado para si. era uma dessas pessoas e havia segmentado suas atribulações de forma extremamente organizada. Havia as piores dores, a qual sentiu apenas uma vez no dia em que Henry e James morreram. Tinha também aquela que sentia diariamente durante seu casamento de horror. A tristeza e a vergonha por ser filha de alguém como George. O sentimento de impotência por Billy... Mas aquela, em particular, poderia ser considerada até nova. Talvez, em algum momento de sua vida, pôde associar aquele sentimento a culpa, mas não se recorda. Naquele instante, porém, era a única coisa que conseguia sentir.
Sempre soube que era a vítima de sua história e repetia isso todos os dias em uma mente, embora lutasse para não viver se vitimizando. Não queria se diminuir, apenas deixar claro para sua cabeça que os culpados eram outros e não ela. Mas não podia fazer aquilo perante aquela situação.
só conseguia se culpar.
Pensou em tomar algum remédio e tentar, de alguma forma, preencher sua mente com outra coisa, mas não conseguia nem mesmo levantar daquele sofá para buscar uma maneira de se sentir melhor.
Nem a presença de Shanna estava ajudando.
Escutou a porta do banheiro se abrir, sentindo instantaneamente o cheiro forte de jasmim lhe atingir, a enjoando. Sentou-se sobre o sofá - onde antes estava deitada - e olhou em direção ao som.
Shanna amarrava uma toalha na cabeça, mas logo foi para fora do banheiro, se voltando para a amiga e mostrando que falaria algo. , porém, perguntou antes.
_ Você usou meu shampoo?
Shanna fez uma careta e engraçada.
_ Sim e, a propósito, ele acabou.
revirou os olhos, voltando a se deitar. Shanna se debruçou sobre o encosto do sofá, olhando a amiga.
A Evans mais nova estava muito animada e não era para menos. Estava ali para ajudar a melhorar e acreditava que sua fatídica indisposição era o único problema. não havia comentado sobre o desentendimento com Chris e, pelo andar da carruagem, ele também não.
_ Você tem absorvente aí? Minha menstruação está para descer e eu esqueci.
balançou a cabeça em negação.
_ Não, esse mês eu já... - começou a dizer, indo pela lógica de suas contas.
Entretanto, a mulher se sentou instantemente, assustando Shanna ao encará-la com os olhos arregalados. Pelos seus cálculos, estava próximo do final de Maio e ela sempre menstruava durante a primeira semana, o que não havia acontecido naquele mês. E como se uma rota fosse se formando em sua mente, todos os pontos começaram a ficar interligados e ela, finalmente, percebeu que algo maior poderia estar acontecendo.
_ O que foi, maluca? - Shanna perguntou, ainda assustada, esperando a amiga se recuperar do choque.
A mente da mulher trabalhava a mil por hora e, em menos de minutos, suas mãos já suavam. Onde antes havia a indisposição, agora fora tomado por uma intensa ansiedade.
Não podia ser o que ela estava pensando...
O que a amiga não esperava era que respirava fundo para que ganhasse tempo e contornasse a situação.
_ Nada. - falou rápido. - Acabei de lembrar que tenho um pacote a mais.



Com o começo da manhã, o som dos carros no tumultuado centro de Boston já era audível e aquele, ao que parecia, era um alerta para Shanna que lhe fazia medir o quanto estava atrasada.
_ Vou pegar um cordão seu. - disse a mulher enquanto saia apressada do banheiro.
_ Tudo bem. - falou baixo.
Ela ainda estava sobre a cama, encenando uma famigerada expressão de cansaço.
Shanna ajeitou a roupa de frente para o espelho, se voltando para amiga.
_ Tem certeza que não precise que eu fique com você? Podemos ir ao hospital.
engoliu em seco, se culpando pela milésima vez ao ver a preocupação de Shanna.
_ Não, pode ir tranquila. É só um mal-estar. - ela se sentou, forçando uma careta teatral. - Não esquece de levar o material para a professora substituta, por favor.
apontou para as atividades que havia preparado de última hora naquela madrugada. Havia uma considerável pilha de papeis sobre sua mesa no escritório.
_ Já ia me esquecendo. - Shanna deu uma corridinha para fora do quarto, voltando com os envelopes e beijando a testa da amiga. - Deixe meu número na chamada de emergência, qualquer coisa volto correndo.
sorriu instantaneamente, sentindo sua visão ficar turva, mas Shanna não percebeu, pois já havia se virado em direção a saída.
_ Pode deixar.
esperou e, enquanto fazia isso, tentava se recompor da forma como a culpa lhe deixava abatida. Mas tinha um propósito e precisava fazer aquilo sozinha.
Ela se levantou rápido demais para alguém que, até então, estava doente. Tomou um banho apressado e se arrumou com a mesma agilidade. Quando saiu do elevador e parou perto do seu carro no estacionamento, teve que se recostar no automóvel para tomar fôlego.
Estava extremamente ansiosa.
Respirou fundo, guardando as chaves na bolsa e decidindo seguir a pé. Afinal, seu destino não era tão longe.
caminhou devagar, tentando - ao máximo - desacelerar o próprio coração. Qualquer pessoa em uma situação como aquela pensaria nas consequências das duas opções que, em breve, estariam a sua frente. Porém, , só conseguia se concentrar em sua própria euforia. Se sim ou se não, ela sentia-se desesperada.
Chegou em frente ao prédio de vidro, olhando para cima e constatando que ele continha apenas três andares. Na recepção, foi informada que o local que procurava ficava no segundo piso.
Foi recebida pela recepcionista simpática, que lhe ofereceu um café ou água.
Se é para me acalmar, será que posso tomar os dois? pensou, mas recusou as duas opções.
Esperou por alguns minutos até que uma moça morena e extremamente sorridente surgiu.
_ Senhorita ?
, que olhava para os próprios pés, levou um leve susto, fazendo a mulher sorrir ainda mais. Ela afirmou com a cabeça, segundo a moça até uma sala.
_ Pode se sentar ali. - ela indicou uma confortável poltrona e se sentou, começando a olhar fixamente para o que a mulher ajeitava.
_ E então... - ela disse enquanto separava as agulhas. - Fez algum de farmácia e quer confirmar?
estreitou as sobrancelhas.
_ O exame. - July, a julgar pelo crachá, riu. - A maioria das mulheres opta pelo exame de sangue como uma forma de confirmar o de farmácia.
compreendeu o que ela quis dizer, mas não gostou da intromissão. Ela demorou para responder e observou atentamente enquanto a mulher prendia o elástico em seu braço.
_ Não fiz o de farmácia. Não há motivo para fazer alguma coisa que necessite de confirmação depois. - disse, ríspida. - Se só esse me dá a certeza, então é melhor fazer ele de uma vez.
July sorriu novamente, ignorando o desconforto da mulher à sua frente.
sentiu o álcool gelado em sua pele assim que sua veia foi encontrada e logo July espetou o acesso em seu braço e o sangue rumou pelo tubo até o recipiente.
_ Engraçado. - July tagarelou mais uma vez. - A maioria das pessoas viram o rosto, você nem mesmo expressou dor quando espetei.
Ela tirou a agulha, segurando o furo com o algodão e buscando o band-aid.
_ Existem dores maiores do que essa.
July, finalmente, compreendeu que aquele não era o momento de tantas perguntas e, ao olhar para a paciente a frente, encontrou o olhar dela perdido no próprio braço. Imaginou, por um instante, quais motivos haviam levado aquela mulher a pensar daquela forma.
dobrou o braço assim que o furo foi tampado e se levantou, sentindo-se claustrofóbica naquela sala.
July a acompanhou até a saída, tentando ser menos inconveniente dessa vez.
_ O resultado fica pronto em uma hora.
apenas balançou a cabeça em afirmação, sentando-se na mesma cadeira que antes ocupava na sala de espera.
Uma hora se passou e não se levantou, nem mesmo, para ir ao banheiro. Era confuso, pois ao mesmo tempo que o tempo parecia não passar, estava aérea demais para perceber. Ela não olhava para fora, nem para ninguém que entrava ou saia do consultório. Só aquele exame existia. Tinha os olhos fixos nas próprias mãos sobre o colo e respirava pesadamente. Talvez, se seu consciente não estivesse tão perturbado, teria constatado que estava passando mal.
Ali, fronte a mais um assombro, ela finalmente se deu conta das consequência da suas opções. Se sim, sua vida mudaria completamente e, se não, aquele seria apenas um medo bobo que fora esclarecido.
Ela não queria ser mãe, nem podia. Chris era uma pessoa incrível, mas não eram nem mesmo namorados. Seria tachada de aproveitadora e não estava pronta para ser exposta na mídia. As pessoas são rápidas, logo seu passado seria descoberto e sua vida se tornaria um inferno novamente.
queria sentir que aquelas eram as piores circunstâncias, mas sua mente só se remoía com a ideia de que ela não podia ser mãe. Não tinha psicológico para colocar alguém em um mundo tão cruel.
_ Senhoria ? - a recepcionista lhe chamou e, ao julgar pela sua expressão, não era a primeira vez.
_ Sim.
Ela ergueu um envelope em mãos.
_ Seu exame ficou pronto.
piscou algumas vezes, paralisada enquanto encarava o envelope. Seu coração palpitava freneticamente e suas mãos estavam mais suadas do que nunca.
Ela engoliu em seco quando o pegou e, calmamente, o abriu. A recepcionista poderia imaginar que aquela era uma cena um tanto anormal, mas via muitas mulheres tendo a mesma apreensão. Todavia, não teve a mesma reação. Ela levantou a cabeça após ler, confusa, olhando para todos os lados.
Nesse mesmo momento, July voltou a sala de espera para conduzir outro processo de exames e , imediatamente, se adiantou até ela.
_ Você precisa me ajudar. - ela mostrou o envelope para a mulher e foi evidente a forma como suas mãos tremiam. - Não consigo entender.
July sorriu, pegando o papel das mãos de e a conduzindo para a cadeira novamente. Sentou-se ao lado, se virando para a paciente enquanto analisava o exame.
a viu abrir um sorriso ainda maior do que aqueles que July havia dado naquela manhã.
_ Meus parabéns! Deu positivo!


Capítulo 14

Sudbury - Massachusetts.

O céu extremamente limpo era como uma coberta sobre Sudbury naquela manhã de sábado, uma semana após a triste briga entre Chris e . O ator estava sentado nas escadas de entrada de sua casa, vendo os sobrinhos andando de bicicleta e aproveitando o sol da manhã para se enriquecerem de vitamina D - palavras de Carly, a propósito.
O ator passou os longos dias tentando organizar seus pensamentos afim de ordenar suas ações. Christopher tinha a total consciência que aquilo era ainda mais difícil para e que ele, antes de qualquer coisa, deveria ajudá-la. Porém, as coisas eram ainda mais complicadas. não aceitaria ser tratada como vítima ou diferente por sofrer coisas que ele não sofre. E, também, Chris não queria enxergá-la dessa maneira. A vontade do homem era que, com os pensamentos bem estabelecidos, conversassem sobre confiança e que, depois de toda essa confusão, finalmente pudesse tê-lo como confidente nele.
Chris, depois de tanto refletir, sabia que aquele era o momento daquela conversa. Ainda estava com raiva e, até, temendo como seriam as coisas a seguir, mas estava disposto, como sempre esteve ao se tratar de . Chris sempre teve problemas em seus relacionamentos. No início, não era maduro o suficiente para se ter uma relação, no final, descobriu que era difícil confiar nas pessoas. Muitas de suas namoradas mostraram características ruins. , por sua vez, mentiu para tentar ser melhor, sem saber que - para Chris - ela já era perfeita. E, além disso, estava apaixonado. Por muitas vezes durante aqueles dias, quis tapar os olhos e voltar para ela, mas precisava ter sanidade se queria que aquilo durasse bastante.
E, se dependesse dele, duraria.
Segurou o celular, o encarando um pouco enquanto pensava nas palavras. Procurou o nome dela em seus contatos e respirou fundo antes de colocar para chamar.
atendeu ao terceiro toque.
_ Oi. - sua voz era baixa, como se tivesse acabado de acordar.
_ Como você está?
Ela demorou para responder.
_ Bem e você? - ele sabia que ela estava mentindo e pôde, até, imaginá-la um pouco desesperada.
_ Talvez eu fique melhor depois de conversarmos.
Ela fez um barulho de concordância, mas não disse mais nada.
_ Você está livre hoje?
_ Sim.
Chris ainda esperava que ela tivesse mais palavras.
_ Quer que eu vá para o seu apartamento?
Escutou-a respirar fundo.
_ Melhor você me esperar no seu.
_ Tudo bem. - por mais que não entendesse qual seria a diferença, resolveu não perguntar. - Te mando uma mensagem quando eu chegar lá.
_ Certo.
E, finalmente, o tão temido silêncio apareceu. Chris estava se perguntando quando ele surgiria, pois aquele - de fato - era um dos momentos mais difíceis de se lidar de todas sua vida.
Ele queria dizer mais, talvez assegurá-la de que tudo estaria bem. Mas algo estava duvidoso. não parecia estar se importando tanto com aquela conversa, o que é estranho, pois ela havia concordado em ir.
_ Até mais.
Ela foi rápida ao dizer e desligar:
_ Até mais, Chris.

Boston - Massachusetts.

No apressado caminho entre a cozinha e seu quarto, quase caiu ao passar por cima de um dos brinquedos de Dodger. Ela ficou alguns segundos encarando o objeto e, por fim, começou a se perguntar se deveria levá-lo para Chris. Resolveu guardá-lo em sua bolsa, mas tentaria não entregá-lo de forma tão constrangedora. Foi até o banheiro, tirando a toalha enrolada na cabeça e se esforçando para secar o cabelo. A tentativa de não durou nem cinco minutos e decidiu ir com ele molhado.
Estava nervosa porque iria conversar com Chris, porque Hannah estava lhe cobrando que fosse até Carlisle naquele dia e, é claro, porque estava grávida! Ninguém senão ela e o pequeno bebê apenas um mês sabiam e aquilo parecia um grande fardo para ambos.
Desde que descobrirá - há uma semana - praticamente pirou. Considerou todas as possibilidades e, até, tomou a iniciativa de outras. Mas um peso em sua consciência se fez presente e, por mais que não soubesse como lidaria com a situação de se tornar mãe, Chris tinha todo o direito de saber. Além disso, a pequena criança já estava fazendo muito, pelo menos para . Estar grávida era seu motivo de maior desespero, mas também o que mais lhe acalmava. Teve todos os pensamentos ruins, mas - em alguns dias - já sabia que precisaria fazer o melhor por aquela criança. Uma semana depois, nem imaginava como tinha pensado em tirá-la.
Bateu levemente nas bochechas, tentando lhes dar um pouco de cor. Ficou algum tento se fitando no espelho, como fez durante a última semana. A barriga ainda nem havia aparecido, mas e quando aparecesse? Teria que tirar a tal licença a maternidade? Chris teria que expor ao mundo que seria pai? Ela seria uma boa mãe?
E era isso que mais lhe transformava. Chris merecia aquela criança, mas não pensava o mesmo sobre si. Como seus traumas lhe deixariam exercer um bom papel? Como faria aquela criança crescer saudável dentro de sua excessiva bolha de proteção? Não conseguia se imaginar colocando uma pessoa no mundo sem ser extremamente paranoica.
A campainha tocou, desprendo-a de seus pensamentos.
Chris havia mandando mensagem há alguns minutos, mas ele entenderia se ela atrasasse.
olhou pelo olho mágico, constatando que era a vizinha do andar de cima.
_ Oi. - disse ao abrir a porta.
_ Olá. - ela sorriu simpática, lhe estendendo a mão e mostrando-a cheia de papéis. - Uma correspondência sua estava jogada pelo chão do hall, talvez você tenha deixado cair.
forçou um sorriso no rosto novamente, apreciando a gentileza da mulher. Ela não recordava seu nome, mas talvez poderia ser Liz. Ela tinha cara de Liz.
_ É provável que isso tenha acontecido. - pegou o envelope, sentindo algo um pouco mais pesado do que somente papel. - Muita obrigada.
A mulher continuou sorrindo, mas se demorou um pouco para ir embora. Tentou esperar que desse intimidade para que ela pudesse comentar sobre o péssimo estado que a professora se encontrava. Tinha olheiras fundas e andava com os ombros caídos, como se estivesse fraca. Porém, não disse mais nada, apenas colocou a mão na porta e fez a menção de fechá-la.
_ Até mais. - disse.
_ Até mais, querida.
respirou fundo quando fechou a porta, seguindo com o envelope até a mesa de centro da sala. Jogou-o sobre a mesma, deixando para ler depois. Todavia, houve um barulho de algo se chocando contra o vidro da mesa.
Ela se sentou no sofá, abrindo e encontrando um papel muito pequeno para um envelope pardo daquele tamanho.
Começou a sentir medo quando viu que o conteúdo havia sido digitalmente escrito e, em conjunto, havia as primeiras palavras que fizeram sua espinha se arrepiar.

"Minha adorada esposa, Espero que esteja feliz pela sua gravidez, a aberração que é prole de mais uma de suas traições. Isso não me agrada nem um pouco.Aqui vai um aviso: caso você conte para o playboy sobre essa criança, ele amanhece morto.
Sabe que não faço promessas falsas.

Vou adorar voltar a brincar com você, minha querida."


não sentia nada. Um zumbido preencheu sua mente e ela, ainda assim, não emitia nenhuma reação. Era como se tivesse saído do próprio corpo e estivesse pairando sobre o mesmo, pedindo para ser levada.
Ela automaticamente pegou o envelope novamente, o virando de cabeça para baixo e deixando o que restava dentro dele cair.
Era sua aliança de casada, a qual ela havia jurado ter jogado fora.
Alguns minutos depois, Liz, que na verdade se chamava Georgia, escutou alguns ruídos estranhos no andar de baixo. Seus três filhos que brincavam na sala também pararam para tentar compreender o barulho. Distinguiram algo parecido com madeira se estraçalhando e, depois, um gemido baixo.
A mulher instantemente percebeu que havia algo de errado. Pediu para as crianças ficarem no apartamento e desceu as pressas até ficar de cara com a porta de . Ela bateu, mas ninguém atendeu. Girou a maçaneta, percebendo que não estava trancada e teve que segurar o grito de espanto. A TV da mulher estava quebrada no chão, assim como sua mesa de centro. O sofá estava arrastado e inclinado, como se alguém tivesse tentado virá-lo. , por sua vez, estava sentada aos prantos no chão do banheiro.
Aquela era a cena mais terrível que já havia visto em toda a sua vida.
Georgia correu até ela, que não conseguia fazer nada a não ser chorar. Além disso, percebeu arranhões em seus braços e pernas, além de duas facas jogadas pelo piso.
_ Você quer se matar. - afirmou, soando mais espantada do que gostaria.
chorava como se estivesse sentindo muita dor. Além disso, revirava a mão como se, involuntariamente, seus músculos estivessem atrofiando. Ela olhou pela primeira vez para Georgia, mostrando que também tinha fortes arranhões no rosto.
_ Me tira daqui. - pediu, suplicante e entre lágrimas. - Não posso fazer isso com o meu bebê.

{•••}


Chris deitou sobre o sofá com o celular no ouvido, escutando a mulher dizer que o número em questão só estava disponível para a secretária eletrônica.
não apareceu e ele, miseravelmente, estava sem chão.
Havia estranhado toda a indiferença da mulher ao telefone mais cedo, mas não imaginava que algo como aquilo pudesse acontecer. A que ele conhecia iria aparecer, nem que fosse para dizer que aquela era a última vez.
Pegou o celular novamente, vendo uma das fotos que haviam tirado na praia. Ela ria abertamente enquanto o encarava, Chris havia falado algo engraçado antes de abraça-la e erguer o celular para a imagem. Estavam tão felizes... Tentar compreender aquilo resultava em um vazio tão torturante e Evans tinha certeza de que nunca havia sentido algo igual.
Pela primeira vez antes da briga, ele estava convivendo com o medo de viver uma vida sem . Sempre ouviu dizer sobre o amor avassalador que todas as pessoas encontram pelo menos uma vez na vida. Aquele inesquecível mesmo para aqueles que seguem em frente. era o seu e Chris não queria aceitar o fato de que precisaria superá-la.
Devia ter uma explicação. Ele tinha certeza que ela ia procurá-lo.

{•••}


Hannah batia os pés freneticamente contra o piso extremamente branco do hospital. Veio correndo para Boston quando recebeu a notícia da internação de , deixando Billy chateado pela visita ter durado tão pouco. Sua irmã havia sido clara no telefone ao dizer que só ela poderia ter ciência do que aconteceu. O irmão e nem mesmo Shanna deveriam saber da tentativa de suicídio. Isso fez com que Hannah logo constatasse que Chris também não sabia sobre aquilo.
Ao contrário do que imaginou que encontraria, estava calma demais e super centrada. Obedecia firmemente aos medidos e se comportava como se não houvesse inúmeros arranhões em seu corpo. Além disso, exigia receber os médicos sozinha, deixando a irmã alheia a qualquer coisa que os profissionais falassem.
_ Você não vai desfazer essa cara feia? - escutou dizer.
Hannah estava sentada no sofá, enquanto a irmã continuava sobre a cama fingindo que sua atenção estava presa sobre a TV. Ela teria alta naquele dia, só estavam esperando a chagada do médico responsável. Outro motivo que fazia com que a irmã mais nova continuasse estranhando. Com exceção dos arranhões, não havia chegado a se machucar. Georgia foi clara ao dizer que as facas estavam jogadas ao chão, mas que não teve nenhum corte profundo. Entretanto, viu sua irmã ser encaminhada para uma série de exames e, ao invés de ser liberada no dia seguinte, que era domingo, permaneceu por mais uma noite no hospital.
_ Você quer mesmo que eu me faça de falsa e finja que está tudo bem?
Ela se levantou, caminhando brevemente pelo apertado quarto de paredes bege, logo se sentando na cama.
_ Eu já disse, está tudo bem. Foi só outro surto repentino.
_ Então por que você chamou o Patrick? Para que você precisa de um advogado?
suspirou.
_ Não preciso de um advogado, chamei um amigo.
_ Não seja por isso, Shanna é sua amiga.
se ajeitou, bufando ao sentir o desconforto da agulha em seu braço e do sangue preenchendo o acesso do soro.
_ Mas ela não sabe o motivo pelo qual eu surto!
Hannah revirou os olhos. Levantando-se e desistindo de entrar em outro assunto com a irmã. Já havia dissertado milhões de vezes sobre o quanto se arriscava em perder suas amizades por causa de tanto mistério.
observou a irmã ir até o banheiro e fechar a porta, se sentindo mais aliviada para respirar da maneira que seu corpo necessitava. Ela estava desesperada, tremia da ponta dos dedos dos pés até o último fio de cabelo.
Abraçava sua barriga como se fosse o mundo para aquela criança e, na noite de sábado, soube que realmente era.
Em seus mais tenebrosos pesadelos, acordava novamente na casa da fazenda e sentia os braços de James lhe impedindo de sair da cama antes dele. Ela chorava, como fazia antigamente e ficava assim até o seu subconsciente lhe dar o alívio de acordar. Sonhos como aquele lhe fizeram perceber que não poderia viver em um mundo com aquele homem novamente. E que se, por amargura do destino, ele retornasse dos mortos, ela preencheria a cova de James Coleman com a própria vida. E ele realmente voltou, mas não vivia mais sozinha.
No momento em que decidiu se matar, lembrou que levaria um inocente bebê consigo. Minutos depois, até Georgia chegar, se corroeu com a ideia de que havia fadado aquela criança a viver uma vida medonha. James não as deixariam em paz.
nem mesmo conseguia se perguntar como aquilo era possível. Talvez seu medo já tivesse lhe preparado para aquilo. Ela não estava se saindo bem em se libertar daquele terror, talvez porque ele - de fato - não havia ido embora.
Patrick Thomas bateu na porta no momento em que Hannah saiu do banheiro. viu a irmã lhe cumprimentar e, quando o homem se aproximou da cama e abraçou a amiga, um silêncio se estabeleceu entre os três.
_ Hannah, será...
_ Deixar vocês sozinhos, já sei. - a mais nova revirou os olhos. - Vou tentar agilizar seu procedimento de alta.
_ Você é maravilhosa. - falou mais baixo do que desejava.
Sua encenação não estava sendo boa.
_ Não tente me agradar. - Hannah disse e saiu do campo de visão dos dois.
respirou fundo novamente, não escondendo de Patrick seu nervosismo. O homem percebeu, indo em direção a porta e fechando a mesma. Deixou sua maleta sobre o sofá e voltou para a cama da amiga, dando toda atenção à ela.
_ O que está acontecendo?
umedeceu os lábios, levantando o corpo brevemente e passando a mão sob ele, apalpando o colchão abaixo de si. Tirou de lá o pequeno papel e entregou ao homem.
Patrick precisou se sentar ao ler o conteúdo.
_ Isso só pode ser uma pegadinha. - falou ainda com os olhos fissurados no papel. - E você está grávida?
balançou a cabeça em afirmação.
_ Mas seja discreto. Hannah não sabe e tenho medo do que pode acontecer com ela.
Patrick ficou em silêncio novamente, analisando o papel. Começou a andar de um lado para o outro, deixando cada vez mais desesperada.
_ O que devo fazer? Se eu for à polícia, posso prejudicar qualquer um que está perto de mim. James é capaz de tudo!
_ James está morto, ! - disse com a voz firme. - Nós precisamos descobrir quem está te ameaçando.
jogou a cabeça para trás, segurando o choro novamente.
_ Não tenho tanta certeza disso, escreve igual a ele! - apontou para o papel. - "Minha adorada esposa", era assim que o desgraçado me chamava.
Patrick sentou no sofá, ainda com o papel em mãos. Não podia expressar, mas sentia medo de que aquilo fosse verdade. Não conhecia antes do caso, era de Boston, foi procurado exclusivamente por ela para representa-la, mas se envolveu demais e além disso, comprometeu muita gente ao ganhar a causa e desmascarar James. A família do homem era poderosa, seus capangas perigosos. Ele passava por cima de qualquer pessoa que entrasse em seu caminho e não fazia mal apenas para o indivíduo, sua família também corria perigo caso aquele bilhete não fosse uma grande pegadinha de mal gosto.
_ Eu posso entrar com o pedido de análise dos restos mortais. Posso alegar que você quer que abra o caixão, mas isso pode ser demorado. Só se pode fazer isso em acordo com o cemitério depois de, no mínimo, três anos. Talvez haja alguma disputa judicial com os país dele quando souberem.
se ajeitou novamente.
_ Quanto tempo?
Patrick foi até ela, segurando a mão da amiga e tentando lhe passar um pouco de segurança.
_ Vou tentar ser rápido. - disse. - Um mês, talvez dois...
não conseguiu esconder a mistura de sentimentos que lhe afligia.
_ E o que eu faço até lá?
O advogado estalou a língua.
_ Sugiro que conte para a sua irmã e peça que ela venha até Boston. Concord pode ser muito isolado para vocês duas e Carlisle é o berço dessa discórdia. Tente viver a sua vida da maneira mais normal possível e evite ficar sozinha. Tanto você, quanto Hannah.
A mulher, por fim, deixou que o choro fosse visível.
_ E o Chris?
Patrick abraçou a mulher de lado, se acomodando sobre a cama novamente.
_ Ele é o pai do seu bebê? - sentiu a mulher concordar com a cabeça. - Creio que, por hora, seja melhor fazer o que o bilhete manda.

Carlisle - Massachusetts.

A brisa morna do verão batia no rosto de enquanto ela apenas fechava os olhos e sentia paz. O momentâneo equilíbrio antes da tempestade. Ela ali, em um carro dirigido por Hannah e seguindo em direção à maior controvérsia da sua vida.
Seu celular vibrou mais uma vez.
12 chamadas perdidas de Shanna e uma mensagem:

Shans
Você pediu demissão? Isso é verdade?

Respirou fundo, fazendo a menção de desligar o celular, mas logo sua cabeça quis recordar algo para lhe deixar ainda mais triste. Foi até a última ligação de Chris, no sábado a tarde, depois dela receber a ameaça e não ir encontrá-lo. Ele não tentou outro contato desde então.
E, por fim, desligou o aparelho, sabendo que não deveria voltar a ligá-lo por um bom tempo.
Hannah olhou para irmã pelo canto de olho, não disfarçando o alívio pela escolha que havia feito, mas estranhando aquela repentina decisão. sabia sobre seus questionamentos, mas não queria e nem podia dar mais explicações. Patrick tinha razão, ela precisava estar ao lado de alguém para que tivesse - no mínimo - um pouco de segurança. Mas contar à irmã não era uma forma de colocá-la em perigo novamente? Viver as duas sozinhas em uma casa não era ainda mais arriscado?
Ela teve certeza que podia ter feito a escolha certa quando viu a exorbitante quantidade de seguranças assim que o carro ultrapassou o limite da propriedade. Estavam sendo tão monitoradas que alguns deles entraram em outro automóvel para fazer um comboio. A mansão estava mais fechada do que o de costume, como se - mesmo sem saberem - estivessem preparados para algo repentino.
O carro de seguranças estacionou assim que Hannah fez o mesmo e dois deles desceram para ajudar as mulheres com as malas. A irmã mais nova foi a frente, conversando com os rapazes. apenas parou, observando aquele pesadelo.
Em algum lugar de Boston, naquele momento, Chris estava pensando o quanto havia errado em se envolver com alguém como ela, alheio sobre toda aquela aquela situação e, principalmente, sem o privilégio de saber que seria pai.
Ela desabou no chão, agarrando a grama entre os dedos e sentindo as lágrimas molharem o seu rosto. havia fugido tanto e, no final, percebeu que só retrocedeu.
Viu luvas de jardinagem caírem na grama ao seu lado e logo George se sentou, fazendo um barulho estranho com o esforço. Ele não encarou a filha, mesmo sabendo que estava chorando. Olhava para sua propriedade, um pouco abafado depois de horas cuidando do jardim por distração.
_ Billy não vai gostar de te ver assim.
fechou os olhos, respirando fundo.
_ É temporário, não precisa se preocupar com a minha influência sobre ele.
Ele estalou a língua, vendo-a lhe interpretar de forma indesejada. George precisava ser menos rude para transparecer suas emoções. Ele colocou uma das mãos no ombro da filha, apertando a região de leve. lhe encarou tão incrédula com aquele tipo de contato que nem mesmo sabia o que fazer.
_ Disse que seu irmão não irá gostar, mas na verdade o que você precisa saber é que somos sua família. - olhou para ela. - Não sei o que está acontecendo, mas nada vai te acontecer.
Ela riu de nervoso, se levantando e enxugando as lágrimas.
sabia que aquela ideia não daria certo.
_ Você já deixou muita coisa acontecer comigo. - começou a andar, deixando o homem para trás. - Não me venha com falsas promessas.

1 MÊS DEPOIS


Patrick bufou ao ver virar na esquina cantando os pneus. Havia escutado boatos em suas vindas à Carlisle, mas nunca imaginou que ela realmente havia feito aquilo. Sua cliente e amiga dirigia nada mais do que um Jaguar F-Type, claramente pertencente a George .
Ela desceu do carro como uma atriz hollywoodiana, tirando os óculos escuros e jogando o sobretudo sobre o vestido folgado. Mais uma de suas táticas para esconder a barriga que começava a aparecer.
Aquela, talvez, pudesse lembrar a de antes do fenômeno James. Ela costumava ser uma adolescente arrogante, uma típica filha de George. Não desprezava nem um pouco aquilo que seu pai ganhava através de seus golpes. Gostava das aparências, mesmo sabendo que as conseguia de forma errada. Era estimulante desfilar por aí com coisas caras, causando inveja nas outras meninas de sua idade. Porém, acima de tudo, a adolescente tinha a segurança de que podia conseguir tudo o que quisesse e, naquele momento, a atual desejava ser mais como o seu eu do passado.
_ Quando eu disse para você fugir do inimigo, não significava que precisava se aliar a outro.
Ela sorriu, bem mais segura do que lhe pareceu há um mês.
_ Se James está mesmo de volta, é melhor eu começar a usar tudo o que ele me deixou ao meu favor.
Ele se inclinou para dentro do próprio carro, pegando alguns documentos.
_ Isso é o que vamos descobrir agora.
seguiu o homem até a entrada do cemitério, sentido que - finalmente - teria uma resposta.
Aguentar um mês naquela cidade não fora uma tarefa fácil, mas as coisas melhoravam quando Billy e Hannah estavam por perto. George tinha ciência que sua presença não era bem vinda, por isso, ficava a maior parte do tempo longe, para a alegria de . Só se encontrava com o pai durante as refeições.
Continuou cuidando de Chris e Shanna a distância, mesmo sem falar com ambos. Shanna era a única que ainda lhe procurava e parecia bem triste pelas mensagens que mandava. Soube de Chris apenas pela amiga, que lhe disse que o irmão estava preocupado. não respondeu nenhuma das tentativas da contato dela.
Sentia-se cada dia pior com toda aquela situação, mesmo estando mais corajosa. Era corrosivo estar desenvolvendo algo incrível dentro de si e estar privando Chris daquele momento. Tinha saudades dele, mas, acima de tudo, sabia que ele merecia aquela criança mais do que ela. Talvez fosse daí que toda a sua coragem surgiu. O anseio pela paz e pela oportunidade de ver Chris sendo pai, Shanna pulando de alegria ao descobrir que seria tia, Lisa ganhando mais um neto... Pensar nisso lhe dava ânsia para querer sair o mais rápido possível de todo aquele pesadelo.
O túmulo da família Coleman era exagerado, se destacando dentre os outros. Era a primeira vez que o via, pois não havia ido no velório dos irmãos.
Nunca fora uma pessoa sádica, mas estar ali trazia as mesmas sensações de quando os dois se encontravam na mesma sala. Ela poderia se imaginar perfeitamente sentada no braço da poltrona de James, sendo aprisionada pelos braços do marido, enquanto o mais novo falava com o irmão sobre negócios e lançava olhares para que deixavam bem claro que suas intenções ali eram outras.
Depois de tanto tempo, se perguntava porque aquela relação nunca lhe despertou a adrenalina de ter o coração disparado por estar fazendo algo contra a vontade de alguém. Deve ser porque sempre soube que, se James descobrisse, a vida dos dois acabaria.
Patrick ficou mais a frente, resolvendo com os funcionários os trâmites para aquela situação e, de repente, escutou a amiga dizer:
_ Será que podemos ver o de Henry também?
Ele a encarou por alguns segundos, se perguntando como que ela pôde achar que podiam fazer isso, mas logo viu que realmente estava falando sério.
_ Certo, vou te explicar novamente. - ele respirou fundo, se virando totalmente para ela enquanto os funcionários já realizavam a operação. - Estamos aqui porque solicitamos um DNA para provar que quem está no caixão é o seu falecido marido e você tem todo o direito sobre isso, como esposa. Os Coleman's foram contra, mas você ganhou o processo. Ganhou porque está subjugada como mulher de James Coleman, não de Henry.
Ela sabia disso, seu subconsciente a fez lembrar, mas por uma fração de segundos ela acreditou que poderia vê-lo.
Mas Patrick compreendeu.
_ Não vai ser uma visão muito boa, você não vai querer vê-lo assim. - colocou a mão sobre o ombro dela. - Só te pedi para estar aqui porque, infelizmente, eles só tiram o corpo na presença de alguém da família.
Ela balançou a cabeça em concordância, esperando que o pessoal terminasse de fazer seu trabalho.
Eles colocaram o pesado caixão de madeira escura sobre o chão, o qual um dia poderia ter sido mais bonito.
_ Madame, acho melhor a senhora tampar o nariz. - um dos funcionários lhe alertou e logo o fez.
Ao levantarem a tampa, o cheiro lhes atingiu em cheio, mas não era tão ruim quanto imaginou. Na verdade, naquele momento, ela respirou mais aliviada. Não havia muitos ossos, apenas alguns dos braços e fêmur. A roupa, que um dia fora um terno caríssimo, não se passava de trapos. A única coisa que se encontrava intacta era o anel de mindinho com a letra "E" que ele sempre usava.
, sem conseguir se controlar, começou a gargalhar. Patrick lhe olhou de canto de olho, assim como os funcionários do cemitério. Quando percebeu sua indelicadeza, tentou se conter, mas não conseguia.
_ De quem foi a brilhante ideia de enterra-lo com esse anel? Marta Coleman, não é?
_ Provavelmente. - Patrick deu de ombros, ainda envergonhado.
riu ainda mais.
James havia mandado fazer aquele anel no dia em que se casaram e desfilou com o mesmo durante os anos que se seguiram. Aos olhos da sociedade, era uma homenagem à sua adorada esposa. Para , a prova de amor mais controversa que já havia recebido.
_ A senhora pode levá-lo. - outro coveiro disse, finalmente acabando com aquela situação desconfortável quando parou de rir.
_ Maravilhoso, vou ficar com ele.
Ele entregou a outro homem, que o levou para longe para limpá-lo.
Patrick anunciou que estava tudo certo e que eles poderiam iniciar o processo para colocar os restos em uma caixa.
observou todo o processo, levando sua atenção para o grosso anel quando o funcionário lhe entregou.
_ É ele, eu tenho certeza. - disse para o amigo do forma convicta. - Esse corpo é dele.
Sentiu o advogado colocar a mão em suas costas, lhe guiando para a saída do cemitério.
_ Isso só o DNA pode dizer. E não fique tão feliz, ainda precisamos descobrir quem anda te ameaçando.
_ Eu enfrento qualquer um, Patrick, menos o James novamente.
O advogado deu apenas um sorriso de lado, apontando o exagerado Jaguar estacionado a frente.
_ Vá desfilar por essa cidade maldita com o seu carro, preciso continuar por aqui. O exame deve ficar pronto em dois dias.
Ela quase deu pulinhos de alegria, tamanha a sua vitória naquele dia. Ela tinha certeza de suas convicções.
_ Será que agora posso contar para o Chris?
A cara que Patrick fez já era uma resposta.
_ É melhor você esperar, não sabemos o quanto você e ele podem estar em perigo.
A felicidade de se desmanchou, mas ela poderia esperar. Abraçou o amigo, logo seguindo para o seu carro.
Sentou-se sobre o assento e olhou para o céu, respirando fundo. Ela sentia que estava cada vez mais perto de resolver toda aquela situação.
Ficou ali por alguns minutos, apenas apreciando o gosto de uma batalha quase vencida. Até que, em um susto, se deparou com uma mulher lhe encarando do outro lado da rua.
Parada próxima a um carro todo preto, um dos vários em que a placa levava o nome "Coleman", estava Marta, mãe dos irmãos da trágica história de . Ela deixava clara suas intenções, queria mostrar para a antiga nora o quanto a repudiava. Os pais de James nunca o julgaram errado pelas coisas que o filho fazia com , muito pelo contrário, acreditavam que a viúva dele havia sido a desgraça para aquela família.
Marta lutou contra aquele DNA. Não queria ver o corpo do filho, mas precisava estar naquele lugar para lembrar de que ela havia destruído sua vida.
a encarou, pensando momentaneamente no que fazer, mas não abaixaria a cabeça, muito menos daria o gosto de lhe dirigir palavras. Ela apenas cantou os pneus, encarando a mulher mais uma vez antes de colocar o óculos e dar a partida no carro.

{•••}


Billy brincava com a comida, completamente entediado diante da família à mesa. Ele costumava passar boa parte do dia na escola, mas havia inventado uma febre para não ir naquele dia. Era fácil enganar George, já que ele nem mesmo foi conferir se o filho estava realmente doente. Todavia, já que ficaria em casa, o pai ordenou que seu professor de francês viesse mais cedo, fazendo com que Billy ficasse trancado com ele a manhã inteira enquanto estudava o idioma. Ele não era o único entediado. Hannah já começava a mostrar sinais de que aquela estadia estava se estendendo além do que desejava. Tinha sua própria casa e queria voltar para ela.
entendia completamente os irmãos, mas não conseguia compreender o pai. George estava visivelmente feliz pela presença de todos, como se os filhos fossem realmente importantes para ele. Aquilo começava a lhe despertar certo receio. Será que ele estava tramando alguma coisa? Queria acreditar que não.
deixou a comida de lado.
Os enjoos provenientes da gravidez aconteciam com mais frequência e ficava cada vez mais difícil esconder seu mal-estar. George já havia brigado com a cozinheira, mesmo afirmando que não era nada com a comida. Ela passava horas na cozinha apreciando da companhia da mulher e, também, tentando se redimir.
_ Senhorita ? - o mordomo adentrou a sala de jantar, chamado a atenção de todos. - Seu advogado a aguarda na biblioteca.
limpou os lábios, fazendo a menção de se levantar.
_ Por que você precisa de um advogado? - George, que estava sentado na cadeira principal da mesa, olhou para a filha.
abriu um sorriso de lado, supondo o motivo do tom apreensivo do pai.
_ Fique tranquilo, não vou tomar nada que dei para o senhor. - ela se levantou, parando próxima a porta. - Muito pelo contrário, preciso de um advogado para sair daqui o mais rápido possível.
A feição de Billy logo se fechou, completamente desgostoso perante a afirmativa da irmã. Por um tempo, ele já estava acreditando que os poderiam voltar a ser uma família novamente. _ Tudo bem. - George fez um sinal para que ela prosseguisse. - Só peça licença para sair da mesa da próxima vez.
semicerrou os olhos, estranhando a rápida rendição de George. Era do feitio de seu pai querer saber sobre tudo que acontecia em sua casa, mas ela decidiu ignorar.
_ Hannah? - chamou a irmã, que a encarou com dúvida.
Sabia que estava em uma enrascada, não havia outro motivo para ter procurado refúgio em Carlisle, mas não tinha ciência sobre o conteúdo de suas conversas com Patrick.
Ela se levantou, seguindo com a irmã para a biblioteca.
Os seguranças internos costumavam sair de todo o ambiente em que as irmãs estavam, ordens de George para que dessem privacidade às filhas. E assim o fizeram, abandonando a biblioteca assim que as duas entraram na mesma.
Patrick se levantou quando as avistou, cumprimentando-as rapidamente e olhando de canto de olho para quando Hannah foi fechar a porta.
_ Eu quero que ela saiba. - afirmou para o advogado.
_ Certo. - Patrick se sentou e as irmãs fizeram o mesmo, o observando tirar os papéis de dentro da bolsa. - Mas antes, acho que você precisa atualizá-la sobre toda a história.
voltou para si, finalmente percebendo que precisava abrir o jogo com Hannah. Sorriu, sem graça, procurando palavras.
_ Tudo bem... Primeiramente, parabéns. - disse de forma divertida. - Você vai ser tia.
Hannah arregalou os olhos, ficando assim por um bom tempo assimilando aquela notícia. já estava ficando preocupada quando a viu abrir um largo sorriso.
Ela pulou sobre , a abraçando cheia de felicidade.
_ Eu não acredito! - disse quando se separaram. Hannah chorava. - Eu estou tão feliz por você. Não, não... Estou mais feliz por mim que vou ser tia!
gargalhou e Patrick também. A irmã mais nova era claramente mais histérica que .
Todos ficaram em silêncio novamente até que Hannah, finalmente, ligou os pontos.
_ Espera... Esse bebê é do Chris? - perguntou, vendo a irmã balançar a cabeça em afirmação. - Você engravidou do Chris Evans?!
tampou a boca da irmã depois que ela gritou. Hannah compreendeu que aquele era um segredo, se desculpando enquanto a mão da irmã ainda estava sobre sua boca.
_ Espera, me deixa contar tudo. - a mais velha disse, esperando-a se recuperar para começar a dissertar sobre a pior parte da história.
Hannah escutou atentamente, sem interrompe-la, mesmo nos momentos mais tensos. Ela se recostou na poltrona a qual havia sentado, se encolhendo a medida que a irmã e o advogado lhe deixavam a par de toda a situação. No final, ainda continuava sem palavras.
_ Então você trouxe o resultado do exame de DNA? - perguntou para Patrick, que pegou um dos envelopes que havia colocado sobre a mesa de centro e entregou para .
Hannah observou o documento sobre os ombros da irmã.
leu e o analisou por alguns minutos, tentando constatar que cada pedaço daquele papel era verdadeiro, desde as palavras até sua composição. Uma lágrima molhou a folha perto de seu dedo e sentiu que a irmã havia voltado a se recostar sobre o couro da poltrona ao lado.
_ É o James. - disse em voz alta. - Aqui diz que o DNA é dele.
precisaria se preparar para enfrentar um novo terror, desconhecido e, de certa forma, aliviador por não ser o fantasma de seu falecido marido.
_ Se não é o James, quem pode ser a pessoa que está te ameaçando? - Hannah soltou a enigmática pergunta.
_ Tenho algumas suspeitas. - Patrick anunciou, chamando ainda mais a atenção das duas.
Mostrou os papéis e algumas fotos dispostas sobre a mesa, virando-as em direção as duas. Hannah foi a primeira a começar a analisar os papéis.
_ Alguns dos capangas de James foram acusados de envolvimento em seus crimes e, cinco deles, de assassinato.
_ Pensei que eles já estivessem presos.
_ Dois deles, apenas. Martin e Lornard Harrinson, os Irmãos do Pânico - ele mostrou a foto dos homens.
A pele de se arrepiou.
_ Me lembro dos dois, os funcionários morriam de medo de cruzar com eles. Eram uma espécie de capatazes de James. - contou. - Quanto aos outros?
_ Julian Coleman, primo de James. - entregou a foto para .
_ Duvido que seja ele. Julian era um escravo do primo, acatava todas as suas ordens. Ele pode ser tudo, mas é incapaz de fazer algo sem ser ordenado.
_ Devoção não é um bom motivo? - Hannah deu de ombros e a irmã a observou por alguns segundos, considerando a suposição.
_ Temos também Bob King e, - mostrou as últimas duas imagens para a amiga - Quil Clearwater.
Finalmente estava diante de uma resposta.
pegou a foto de Quil com rapidez e de forma inquieta, mostrou a imagem para a irmã, se levantando e andando de um lado para o outro, tentando buscar em sua mente todas as imagens possíveis daquele homem.
_ Esse cara nos perseguiu em Boston. - Hannah se ajoelhou próxima da mesa de centro, contando para Patrick e mexendo nos papéis para encontrar a ficha do homem. - Quer dizer, ele nos encarou por um tempo, mas depois fingiu fazer outra coisa e nós pensamos que tinha sido coisa da nossa cabeça.
_ Não reconheci. - falou com rapidez - Não me lembrei na hora, tenho poucas recordações desse homem, ele não vinha muito aqui.
_ Quil e Bob eram os que cometiam os assassinatos para James. - Patrick contou, fazendo suspirar e sentir seu corpo ser tomado pelo terror. Hannah se levantou, guiando a irmã para a poltrona novamente, temendo que ela tivesse uma queda de pressão e passasse mal.
_ Há quanto tempo foi isso? - o advogado se referia ao encontro das duas com Quil.
_ Pouco mais de um mês. - respondeu, vendo-o escrever algo em seu bloco de notas. - O que vamos fazer agora? Não podemos avisar a polícia, ele faria alguma coisa.
_ Ele é foragido, uma denúncia anônima pode levar os investigadores até Boston. Posso acompanhar o processo de perto sem revelar, no momento, sobre as ameaças.
Hannah voltou a se sentar, abraçando a irmã de lado. tremia, pensando em todos os detalhes daquela situação de forma desordenada e apavorante. Estava de frente para um assassino que, por vingança, queria arruinar sua vida. Não conhecia as malícias de Quil e estava totalmente às cegas perante ele.
E Chris, ainda, corria perigo.
_ Chris precisa saber que vai ser pai. - sussurrou, mas Patrick escutou.
_ A escolha é sua... Mas não sabemos do que Quil é capaz e, pelo seu histórico, pode fazer muitas coisas.
Ela enxugou as lágrimas, por um momento decidida a ser corajosa. Chris poderia lutar ao lado, ela sabia que ele não abandonaria o filho. Mas ficaria despedaçada se não o tivesse ao seu lado com vida.
_ Não tenho outra opção.
Patrick respirou fundo, se repudiando por falar aquilo.
_ Na verdade, você tem. - ele olhou em volta, tentando mostrar com os olhos aquilo que seus lábios não queriam dizer.
entendeu a mensagem.
_ Não posso ter um filho perto do meu pai.
Ele foi até ela, sentando no braço da poltrona ao seu lado.
_ Essa casa é cheia de seguranças armados, quase que impenetrável. George pode te proteger. Na verdade, você mesma. Isso tudo é seu. - segurou a mão da amiga. - Peça a casa de hóspedes, fique o mais longe possível dele, mas aproveite a oportunidade de ficar afastada de Boston e protegida.
Ele olhou para Hannah, que pensou na ideia durante um bom tempo.
_ Talvez você deva contar para o nosso pai. - a irmã mais nova finalmente disse. - George nunca quis uma filha morta.
a encarou, incrédula.
_ Nunca quis, mas me fez casar com um homem que me fazia chegar perto da morte todos os dias. - ela se levantou, saindo de perto dos dois. - Essa não é uma opção, Chris precisa saber.

Boston – Massachusetts

De todas as coisas mais belas que Chris já havia visto na vida, poucas se comparavam a ela.
Ele tentou seguir em frente, mas era difícil enquanto carregava uma grande incógnita. Teve muito trabalho nos últimos dois meses, mas passava o tempo todo se perguntando o que estava perdendo em não procurar por .
Ela havia sumido por vontade própria, deixado o emprego. Shanna estava mal, com saudade e decepcionada com a amiga, isso o enfurecia. Não queria acreditar que ele e toda a sua família haviam aberto os braços para uma pessoa de má índole. Logo , que ele pensava ser diferente de todos os outros.
Mas seja qual foi o intuito de , ele não o compreendia. As pessoas costumam se aproximar para aparecer, não o contrário. Cogitou ser o medo de se envolver com alguém famoso, mas por que Shanna também estava sofrendo?
Naquela manhã de sábado, ele apenas saiu de seu apartamento e dirigiu sem rumo. Estava cansado de se forçar a transparecer que estava tudo bem, pois não estava. Nem mesmo Chris imaginou que sentiria tanto a sua falta. Sabia que estava envolvido, mas não ao ponto de sofrer por alguém que, claramente, não queria estar com ele.
Sentia desejos reprimidos, vontades que só seriam expostas de forma satisfatória se fossem para . Queria contar a ela que havia comprado uma boa casa para a mãe no subúrbio de Boston, queria que ela estivesse presente na mudança e em todos os outros momentos que viriam. Nada era capaz de satisfazer o desejo de estar ao lado de .
Por um instinto, ele se viu diante ao prédio da mulher, ficando estacionado durante um longo tempo.
O pior era se lembrar da forma como havia falado com ela, em como devia estar amedrontada em pensar que Chris se assustaria com os remédios. E não, não fora isso que o chateou. Ele só queria que lhe dissesse a verdade, justamente para que pudesse dar apoio. Christopher chegou até a se culpar pelo seu desaparecimento.
Desceu do carro às pressas, jogando o capuz do moletom preto sobre a cabeça para que não tivesse nenhuma intervenção indesejada. Subiu pelas escadas, evitando qualquer contato no elevador.
Não tocou a campainha de imediato, mas ficou encarando a porta, imaginando se ela poderia aparecer sem que ele fizesse nada.
Se odiava por estar ali, mas precisava vê-la.
Deu dois toques, como sempre fazia. Ficou esperando que alguém atendesse, mas nada aconteceu. Apertou novamente, continuando sem resposta.
Recostou-se na parede ao lado, tirando o celular do bolso e tomando a decisão de mandar uma mensagem, mesmo sabendo que talvez ela não respondesse, como fazia com sua irmã.
_ Ei! - escutou alguém dizer, guardando o celular novamente em um impulso.
Um homem mais alto que ele se pôs ao seu lado, ele tinha uma barba ruiva e o cabelo levemente encaracolado. Seu rosto era bastante queimado de sol, dando muitas manchas a sua pele. Ele sorriu simpático, mesmo tempo o porte físico grande e uma expressão fechada.
_ Você é amigo da Senhorita ?
Chris pensou ao responder, abrindo e fechando a boca algumas vezes.
_ Sim, sou. - se virou mais para o homem, colocando as mãos nos bolsos.
_ Sabe quando ela vai voltar? Estou com as contas dela no meu apartamento, já estavam saindo pelo vão do armário dela na recepção.
Chris respirou aliviado com a pergunta. Pelo menos, ele não estava lhe chamando para saber por que o famoso Chris Evans estava tocando a campainha de sua vizinha.
_ Não sei. - respondeu, desanimado. - Na verdade, vim justamente para saber se ela já havia voltado.
O homem coçou a barba, estalando a língua.
_ Será que poderia avisa-la? Não gosto de ficar com os documentos dos outros.
Chris balançou a cabeça em concordância, tirando o celular do bolso e mostrando para ele.
_ Claro, eu já ia mandar uma mensagem para ela. - ele começou a andar, mas logo se virou novamente para o homem. - Como é o seu nome? Para eu dizer com quem as contas estão.
O cara riu, dando um sorriso que deixou Chris desconfortável. Era como se ele tivesse forçando o tempo todo.
_ Quil! Quil Clearwater, ela vai saber quem é.

Carlisle - Massachusetts.

Hannah ria alto, tentando se mostrar o mais animada possível para a irmã. Estava com o celular de , enquanto ela apenas ficava deitada sobre a cama, vendo-a andar de um lado pra o outro.
A irmã mais nova havia inventado de ver coisas para o bebê e pulava de alegria todas as vezes que encontrava algo que lhe agradava. Isso conseguiu animar , uma vez que Hannah tinha um péssimo gosto.
_ Esse conjunto de berço? É azul. Você pode comprar se for menino. - ela se jogou do lado de , mostrando a foto pra irmã e finalmente sossegando.
_ Cor não define gênero. - respondeu baixo.
Hannah revirou os olhos, passando para as outras fotos.
_ Você prefere menino ou menina?
A mais velha se mexeu, passando a mão sobre a barriga que ficava cada vez mais grande. Ficaria difícil escondê-la nas próximas semanas.
_ Menino, você já me fez essa pergunta.
Hannah deixou o celular de lado, se virando para .
_ Mas você nunca me disse o motivo.
Viu-a dar de ombros.
_ Em outra situação, amaria ter uma menina, mas nós somos a prova viva do como é difícil conviver em uma sociedade machista. - disse. - Se eu fosse homem, não teria passado por todo aquele terror.
Hannah ficou em silêncio, odiando cada palavra da irmã.
_ Mas nós precisamos ser fortes. Acabar com as mulheres não é a solução, pelo contrário, só diminuiria nossa causa.
riu, começando a se levantar.
_ Eu nunca disse que quero acabar com as mulheres. Mas, como mãe, vou ficar muito mais preocupada pelo simples fato de ter que ensinar minha filha sobre como se defender. Ela vai precisar ser constantemente lembrada que a vida vai ser mais difícil porque vai ver homens conseguindo coisas que ela merecia ganhar. Ela terá que aprender a trocar de calçada quando se sentir perseguida, a levar o próprio copo quando for em uma balada, a saber sair de uma emboscada, a reconhecer o assédio desde criança. Se for uma menina, vou amar incondicionalmente, da mesma forma que amarei se for menino. O que estou querendo dizer é que penso há todo momento em como é dizer essas coisas para uma criança e sinto medo de privá-la de viver só porque não consigo nem imaginar esse tipo de coisa acontecendo à ela.
Hannah balançou a cabeça em afirmação, vendo a irmã ir para o banheiro para o seu décimo xixi do dia.
_ Um menino também pode passar por situações difíceis.
Escutou rir.
_ Agora você entende como eu estou ferrada. - escutou-a gritar.
E, de fato, estava. O isolamento em Carlisle fazia com que restasse muito tempo para pensar em como criaria aquela criança e constatou que, menino ou menina, ainda seria um mundo cruel. De uma coisa estava certa, lhe ensinaria a amar, independente de qualquer coisa. Se seu filho tivesse amor pelo próximo, ele compreenderia que não se deve fazer mal à alguém, nem tolerar o contrário.
A irmã mais nova se deitou sobre a cama, pegando o celular de novamente. Deixou a sessão de berços de lado, seguindo para os carrinhos. Estava apreciando alguns de três rodas quando uma notificação desceu pela tela.
Sentou-se, esperando sair do banheiro para que pudesse falar.
lavou as mãos e voltou para o quarto, acariciando a barriga novamente. Fazia isso tantas vezes que tinha até medo de parecer patética.
A imagem de Hannah sentada de forma apreensiva a deteve.
_ Chris mandou mensagem.
Seu coração disparou e ela, em sua cabeça, se viu correndo diretamente para o celular. Mas fora apenas um devaneio, continuava estática e em sua mesma posição anterior.
_ Lê.
Hannah umedeceu os lábios, erguendo o celular para a irmã. Ela tremia.
_ Eu já li.
olhou do aparelho para ela, se perguntando o motivo daquele choque. Pegou o celular, vendo a mensagem em seu visor:

Chris
Estive em seu apartamento. Quando vai voltar? Precisamos conversar. Ah, seu vizinho, Quil Clearwater, pediu que eu te avisasse sobre as contas que estão com ele.
Me retorne, , por favor.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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