FFOBS - Growing Cold, por Fernanda Gonçalves

Contador:
Última atualização: 18/01/2020

Capítulo Único

Primavera, Japão.
Os passos saltitantes que se seguiam à frente de faziam seu coração acelerar a cada movimento. A leve brisa na noite de abril não era o suficiente para fazer todo o calor que havia dentro de si diminuir. Era como se seu corpo estivesse acostumado ao ardor que sentia junto ao peito a cada vez que seus olhos pairavam sobre a figura inquieta que estava em sua frente, os longos cabelos castanhos balançando de um lado para o outro do jeito mais delicado, como se cada fio tivesse vida própria e sabia exatamente que movimento seguir.
A risada que escapava da garota a cada poucos segundos inundava-lhe os sentidos e, de repente, aquilo era tudo que ele era capaz de ouvir, os pelos dos braços se eriçando com facilidade ao receber o tom melodioso que ela emitia. Não era capaz de ver, mas sabia que os olhos dela brilhavam, ainda que na noite escura, ofuscando o brilho das estrelas, causando inveja em qualquer astro que pudesse ser visto da Terra.
À volta deles, as árvores de cerejeira desabrochadas exalavam seu perfume, suas cores contrastando com o tom escuro do céu de primavera, dançando no ritmo do vento, encantando qualquer um que pudesse passar pelo pequeno caminho cimentado da praça. Era surreal de se imaginar que aquele cenário tão maravilhoso, tão deslumbrante, pudesse fazer parte do centro de uma das cidades mais agitadas do mundo, um dos locais que já havia cansado de visitar, mas que naquelas circunstâncias, com aquela companhia, parecia completamente diferente.
A garota parou e olhou para cima: pequenas flores brancas e rosas desprendiam-se das árvores e plainavam lentamente pelo ar, carregadas pela brisa em grandes círculos até caírem no chão, forrando o caminho à frente. tentava seguir com os olhos os desenhos imaginários que faziam, tentando criar padrões que pudessem existir, mas acabava se distraindo com facilidade à medida que outras flores entravam em sua linha de visão.
E era em meio à essa cena, com as luzes da cidade piscando ao fundo, que percebeu o quanto ele havia ganhado nos últimos meses. aparecera em sua vida como um furacão, virando tudo de cabeça para baixo, mas a calmaria que vinha sempre que ela estava por perto jamais poderia ser substituída. Vê-la ali, brincando com as flores de cerejeira enquanto tantas outras caíam em seus cabelos, só fazia com que ele percebesse o quanto estava irrevogavelmente apaixonado pela garota de cabelos castanhos.
Era mais forte que ele, o impulso que sentia quando a via andando em sua direção, a vontade de puxá-la para perto dele e abraçá-la, protegendo-a de tudo que pudesse acontecer. O coreano nunca havia se sentido dessa forma antes, não com tamanha intensidade, e tudo aquilo fazia com que seu peito se apertasse da forma mais prazerosa possível.
ficou parado contemplando a garota, imaginando o que ele tinha feito para merecer alguém assim em sua vida, alguém que nunca cansava de o surpreender, alguém que sempre era capaz de fazê-lo sorrir mesmo quando ela não tinha a intenção, alguém que cabia perfeitamente em seus braços, alguém com quem compartilhar muito mais do que momentos, mas também segredos, sentimentos, decisões… Aquele alguém que ele faria de tudo para manter ao seu lado, a garota por quem ele esperaria mil anos e mais.
E foi em meio a esses pensamentos que não percebeu quando virou-se para ele, as mãos na cintura, encarando o namorado com uma expressão divertida no rosto, as sobrancelhas arqueadas enquanto voltava na direção dele.
- Achei que iríamos passear juntos, - a voz acusadora da garota chegou aos ouvidos dele, um riso escapando de seus lábios enquanto observava piscando algumas vezes, como que se acordando de um transe, e coçando a parte de trás do pescoço, levemente ruborizado por ter sido pego observando-a.
- E estamos, - ele murmurou, os pés voltando a se movimentar na direção dela, sorrindo. - Não estamos?
encarou-o por alguns segundos antes de parar próximo a ele, a mão direita entrelaçando-se à esquerda dele enquanto revirava os olhos.
- Juntos, um ao lado do outro, - sorriu. - Ou está com vergonha até disso, ?
O rapaz encarou-a por alguns segundos, a cabeça pendendo para baixo enquanto mantinha os lábios comprimidos, um leve rubor tingindo delicadamente suas bochechas pela caminhada que fora interrompida. Àquelas horas, não havia ninguém perto deles, a praça inteiramente mergulhada na mais profunda quietude e reclusão, apenas as respirações deles cortando o ar.
esperou até que ele dissesse alguma coisa, os olhos vidrados nos dele, o coração martelando contra o peito de forma violenta. Não importava quanto tempo passassem juntos, quantos momentos compartilhassem, ele sempre conseguiria fazer com que ela se sentisse uma adolescente apaixonada pela primeira vez. E, como se pudesse ler os pensamentos dela e entendesse a comparação que havia acabado de fazer mentalmente, inclinou-se sobre ela, as testas colando segundos antes de ele fechar as distância entre eles num beijo singelo e casto, os lábios encontrando-se sem muito esforço, pressionando levemente um contra o outro antes de se separarem como se nada havia acontecido.
Ele esperou até que ela abrisse os olhos antes de sorrir e segurou-lhe a mão, voltando a caminhar pelo caminho cimentado que agora estava ainda mais coberto pelas flores. Nenhuma outra palavra precisava ser dita. sentia-se a pessoa mais feliz e realizada do mundo, as mãos antes frias agora levemente suadas, a vermelhidão do rosto nada tinha a ver com a caminhada, mas sim com os sentimentos não ditos pelo homem que agora segurava sua mão enquanto andava pela noite escura de Tóquio.
Não era necessário nada mais entre eles. Nenhuma palavra, nenhum olhar. Tudo o que eles precisavam dizer, podia ser dito nos pequenos gestos.
A noite ainda estava longe de ter um fim e era exatamente assim que eles se sentiam em relação ao outro. Sem fim, lado a lado rumando ao infinito.

Verão, Fiji.
A luz que vinha através da cortina de tule branca iluminava o quarto de maneira branda, quase que imperceptível para os corpos envolvidos numa bagunça de lençóis e membros que ocupavam a cama oposta à porta que levava para a sacada do bangalô, os peitos subindo e descendo de maneira ritmada, embalados num sono calmo, um sorriso no rosto que seria difícil de se perder.
Os primeiros raios de sol da manhã, entretanto, acharam caminho pelo tecido firmemente fechado, brilhando inadvertidamente sobre a mão de , o anel que se fazia presente em seu dedo reluzindo inocentemente a luz quente, chamando atenção para a pequena, mas ainda evidente, pedra que enfeitava a aliança que até a noite anterior não pertencia à garota.
Tudo havia acontecido da maneira mais sorrateira possível, quando menos se esperava. Era apenas um jantar no resort que ela e estavam hospedados, apenas uma noite diante das inúmeras que eles já haviam passado juntos, apenas uma série de horas conjuntas que levaram até àquele momento, no qual o coreano não conseguiu se aguentar mais e, finalmente, pediu a namorada em casamento. Por um lado, era surreal; ela nunca imaginara que algo assim aconteceria a ela, nunca pensara que poderia estar vivendo seu próprio conto de fadas, vivido à sua maneira, muito menos que aquele homem à sua frente fosse tão perdidamente apaixonado por ela quanto ela era por ele. Por outro lado, era como se ela estivesse esperando por isso, como se cada passo que tinham dado levava ao caminho que estavam seguindo. Era seguro, calmo e óbvio. Era o rumo que ela sempre quisera trilhar desde o momento em que conhecera .
O primeiro movimento naquela manhã veio de , os olhos custando a abrir na claridade do quarto enquanto o par de braços que a cercavam pela cintura apenas contribuíam para que ela se sentisse ainda mais aninhada entre os cobertores, um sorriso preguiçoso aparecendo nos lábios da garota. A respiração de acariciava sua nuca, os pelos do corpo eriçando-se ao mero sinal de um suspiro vindo do rapaz, amplificando as borboletas que insistiam em fazer presentes no estômago de , que faziam questão de aparecer em todos os momentos em que estavam juntos. Era uma sensação cálida, que se espalhava por todo corpo dela, algo que nunca havia sentido antes, algo que sempre a fazia ansiar por cada momento com ele, mesmo que por alguns segundos.
A garota rolou na cama vagarosamente, o sorriso ainda nunca se perdendo, o olhar se voltando momentaneamente para a mão esquerda antes de voltar-se para o namorado - agora noivo - que dormia ao seu lado, o subir e descer de seu peito esbarrando levemente no dela, o modo como os lábios se partiam gentilmente um do outro e as pálpebras tremiam. Os cabelos castanhos escuros caíam delicadamente sobre a testa dele, e, um grande contraste de quando estava no palco, fazendo-o parecer muito mais novo e inocente do que ele realmente era. parecia tão sereno que não tinha coragem de acordá-lo, mesmo que precisasse se mexer.
E enquanto ela admirava cada pequeno detalhe do rosto dele, prestando atenção aos mínimos detalhes, ela falhou em perceber que os olhos de tinham se aberto minimamente, mas o suficiente para vê-la escaneando-o de forma que mais parecia ser com adoração e lutou contra o instinto de sorrir para a garota. Ela parecia tão concentrada em memorizar as feições dele e não podia fazer nada a não ser achar a ação carinhosa, tendo feito o mesmo muitas vezes antes. Era o modo que ele tinha de lidar com a ideia de não a ter por perto, fazendo-o se lembrar de cada pequena mudança no tom de pele dela, cada pequena sarda que pudesse enfeitar seu rosto quando passava muito tempo sob o sol.
- O que você está fazendo? - murmurou, os olhos se fechando quando sentiu uma das mãos de deslizar sob seus cabelos, puxando os fios levemente pela raiz quando ouviu a voz rouca dele no quarto silencioso.
- Nada, - ela sorriu, o sussurro combinando com o tom de voz dele, fazendo-o abrir os olhos e sorrir amavelmente para ela. - Você parecia tão confortável.
balançou a cabeça e apertou seus braços ao redor da cintura da garota, puxando-a para mais perto dele, os olhos diretamente nos dela, os lábios quase se trocando. Havia algo sensual sobre o jeito que eles sempre acordavam um próximo ao outro, com membros entrelaçados e as memórias da noite anterior, mas dessa vez parecia muito mais pessoal, junto ao coração do que qualquer outra coisa. Talvez fosse o modo como tinha uma das mãos, justamente a esquerda, pressionada contra o peito dele, sentindo o batimento acelerado de seu coração, a frieza do anel que agora enfeitava seu dedo fazendo-o lembrar de que ela havia dito sim à ele, enquanto a outra ainda estava presa em seus cabelos. O coreano ainda mantinha seu olhar treinado no dela, suas mãos traçando figuras aleatórias na pele exposta dela. Eram só os dois naquele lugar, perdidos do mundo, aproveitando a presença um do outro naquela manhã quente de verão.
- Quanto tempo ainda temos? - murmurou, o tom de voz ainda preguiçoso, como se tivesse muita dificuldade em acordar aquele dia. Ainda que estivessem em uma batalha contra o relógio, ele queria aproveitar todo momento possível.
esticou o braço para o lado e tateou cegamente a mesa de cabeceira ao lado da cama a procura do celular para que pudesse conferir o horário. Haviam algumas notificações inundando a tela inicial do aparelho, mensagens perguntando que horas ela chegaria de volta em Seul e um lembrete dizendo que eles deveriam estar no aeroporto às 14h. A mulher suspirou deitando-se novamente na cama, nem um pouco ansiosa pelos compromissos que teria quando voltasse à realidade, pensando em mil e umas maneiras de escapar, mas não tinha como. Os números em branco no celular mostravam que eles tinham menos de duas horas para se arrumarem e saírem de lá.
franziu o cenho diante da reação da namorada - noiva, ele precisou se lembrar -, uma mão esticando-se até a dela e gentilmente tirando o celular do campo de visão da garota, ignorando todas as mensagens, mas vendo que tinham pouco tempo. Ele também não estava preparado para voltar ao mundo real.
- Não o suficiente, - ela deu de ombros, os olhos encontrando-se aos do coreano, suas mãos correndo pelos cabelos dele mais uma vez. - Mas a gente consegue dar um jeito.
Um pequeno sorriso formou-se nos lábios do rapaz. Se é que era possível, se sentia cada vez mais apaixonado por e todas as coisinhas que vinham dela, todo momento, mesmo que minúsculo, passado com ela, era o suficiente para fazê-lo sentir seu coração acelerar, as batidas num ritmo descompassado desde o primeiro momento que ele pousou os olhos sobre ela.
E talvez houvesse um tempo que tudo era mais fácil e mais simples, quando os dias não precisavam ser passados escondidos e seus sentimentos não precisavam se manter enterrados para os outros, mas tudo tinha mudado desde aquela época; eles tinham ficado grandes demais para esses tempos simples, forçados a jogar a partida dos adultos de uma forma quase ilegal, mas talvez era assim que as coisas deveriam ser com eles, talvez era isso que você deveria fazer quando estava envolvido naquela situação com um relacionamento sincero. Mas era um pensamento para outro dia. Por ora, tudo o que eles deveriam fazer era negligenciar o que se seguiria e aproveitar o tempo que tinham juntos como se não tivessem nada a perder.
O primeiro a se mover para fora da cama foi , os pés descalços tocando o chão frio fazendo-o soltar um som de reprovação, o corpo se arrepiando ao se acostumar com a temperatura levemente mais baixa do quarto que o ar condicionado proporcionava. Ele tinha certeza de que não havia deixado a temperatura tão baixa antes de ir para a cama na noite anterior, mas pensando naquele momento, com a cabeça vazia, não havia tido muito tempo para conferir isso entre abrir a porta do quarto e cambalear entre os móveis do hotel com toda sua atenção voltada para que atacava seu pescoço com beijos cada vez mais cálidos e mãos que desciam cada vez mais por seu corpo.
De seu lugar, assistia o homem, os olhos treinados em suas costas, admirando o jeito que seus músculos contornavam o torso perfeitamente, alongando-se enquanto ele andava ao redor do quarto, os ombros largos que continham algumas marcas vermelhas que ela mesma causara, sorrindo para si mesma enquanto apreciava tudo que tinha para mostrar para seus olhos apenas.
- Para de ficar me olhando, - ele disse segurando o riso, as costas ainda voltadas para enquanto procurava pelas roupas que estavam jogadas pelo chão.
riu e pigarreou, um pequeno assobio vindo dela enquanto rolava pela cama, se enrolando no edredom e deixando apenas a cabeça para fora. Mesmo quando ela tinha um dia cheio em frente, ela gostava de fingir que não e passar mais tempo deitada, rolando de um lado para o outro, algo que já tinha se acostumado a assistir àquele ponto. Eram momentos assim que fazia tudo valer a pena.
- É uma ótima vista, - ela murmurou, o rosto voltado para o teto e as costas contra o colchão.
olhou por cima dos ombros vendo a mulher enrolada em camadas do edredom do hotel e balançou a cabeça. Não haveria um dia em que ele não acharia essa situação engraçada, somente os olhos dela escapando para fora do tecido e os cabelos espalhados pelo lençol, como se ela estivesse tentando se proteger de todos os perigos do mundo ao invés de se levantar e se arrumar. Ele amava o jeito que os olhos de pareciam brilhar naqueles pequenos momentos, andando de um lado para o outro, tentando detectar se ela estava em perigo enquanto deitava envelopada, deixando-a completamente entregue a ele.
- Ah é? - ele caminhou até ela, os olhos estreitando-se enquanto via a garota tentar se desvencilhar do casulo que tinha feito ao redor de si. - Eu nunca teria imaginado.
Ele estava muito perto agora, ela pensou para si mesma, e não estava nem perto de se libertar da bagunça de tecidos que havia se envolvido. Conhecendo , ela sabia que ele iria tirar vantagem disso, fosse jogá-la por cima de seus ombros e a levá-la para algum outro lugar ou só fazer cócegas nela, como havia feito inúmeras vezes. O que quer que fosse, ela não queria que acontecesse, mas o que poderia fazer quando ele estava pairando sobre ela e ela só tinha um de seus braços livres?
- Não se atreva, - ela ameaçou quando o rosto dele estava quase no dela, os lábios do rapaz tinham se tornado num sorriso malicioso e seus olhos percorriam por todo rosto de . Ela estava vagamente ciente dos músculos dos braços dele se flexionando, suportando o peso dele naquela posição, mas não conseguiu admirar por muito tempo; parecia estar prestes a torturá-la de algum jeito e ela não gostava nem um pouco disso.
- Ou o que? - ele sussurrou, o rosto muito próximo ao dela agora, impedindo-a de ver o que ele estava tramando.
Mas a mente de estava vazia de palavras e ações. Tudo no que ela podia pensar era no jeito que ele estava olhando para ela, como se um predador tinha finalmente capturado sua presa e estava prestes a dar o bote. E ela esperou, contando que ele seria o primeiro a se mover e mal podia esperar. Os lábios dela formigavam, a respiração era pesada e as pupilas dilatavam à medida que ele se aproximava, cada vez mais, os narizes quase se tocando, o único braço que ela tinha livre trabalhando o mais rápido possível para soltar as cobertas que a envolviam. E num movimento repentino, os lábios dele estavam sobre os dela, calmos e tentativos, saboreando o sentimento que ele causava nela.
- Eu posso me acostumar com isso, - ouviu dizer com uma voz calma, os olhos ainda fechados, mas a cabeça dele deitada sobre o peito dela. Ela murmurou em resposta, questionando as palavras dele, que se afastou um pouco dela para poder vê-la bem, o pomo de Adão subindo e descendo enquanto ele falava com ela. - Com isso, acordar com você, passar a manhã inteira desse jeito.
- Não foi por isso que você me pediu em casamento ontem à noite? - provocou, dando-lhe um tapa no peito quando ele deu de ombros.
- Ei, foi você quem começou, - provocou de volta puxando-a para si, beijando a ponta de seu nariz e escondendo seu rosto no pescoço dela. - Mas é mais do que isso, - murmurou. - É eu e você passando todo tempo juntos. É dormir com você do meu lado e acordar com você ainda lá.
sorriu para ele, uma única covinha aparecendo em sua bochecha esquerda. Ela queria tudo aquilo também. Ela queria ser a primeira e última pessoa a vê-lo todos os dias. Ela queria acordar todos os dias com ele, seu peito pressionado contra as costas dela ou a sua cabeça, usando as calmas batidas do coração dele como uma canção de ninar. Mas por ora, ela estava feliz com que poderia ter, mesmo que não fosse ideal. Ela sabia que um dia poderia tê-lo somente para si e quando esse dia chegasse, ela nunca o deixaria ir.

Outono, Seul.
As folhas das árvores caíam em redemoinhos, dançando, sem peso, com o vento que teimava em levá-las de um lado para o outro num caminho infinito que teria como o destino o chão. Assim também se sentia , andando sem qualquer fim, rumando ao que poderia apenas descrever como o chão, seu coração ao mesmo tempo que pesado, completamente vazio, descompassado.
As lágrimas ainda teimavam em cair de seus olhos, trilhando por seu rosto da mesma forma como uma cachoeira faz seu percurso pelo leito do rio até desembocar num desfiladeiro, morrendo no canto de seus lábios. Era difícil se lembrar de toda a conversa da noite anterior sem sentir que sua garganta iria se fechar, sem sentir que todos os seus batimentos iriam parar a qualquer momento, mas, ao mesmo tempo, era impossível se esquecer de tudo o que havia sido dito, de todas as decisões que eles haviam tomado juntos.
Se eles se amavam? Isso era óbvio. Todas as ações que os levaram até onde chegaram provavam isso. Todas as palavras trocadas, todos os sorrisos sinceros, tristes, alegres, resignados... Todos os pequenos detalhes sempre deixaram claro os sentimentos que um nutria pelo outro, mas talvez não fosse o tempo certo, talvez não fosse o melhor momento para que eles ficassem juntos.
Era doloroso, e muito, saber que não teria mais a presença de quando acordasse pelas manhãs ou que não ouviria a voz dele ainda sonolenta sussurrando bom dia. Doía demais saber que não poderia vê-lo sempre que quisesse, que ele já não seria mais uma constante em sua vida.
- Se um dia a gente se encontrar, talvez esse seja o nosso momento…
Ela mesma havia dito isso, as palavras saindo de sua boca como numa fraca tentativa de ainda ter algum tipo de esperança. se agarraria a toda e qualquer crença que poderia surgir em sua vida. Ela não estava desistindo; estava dando um tempo. E soube que se sentia do mesmo jeito ao vê-lo não só concordar com o que ela havia dito, mas também reafirmar tudo aquilo.
- A nossa história ainda não acabou.
E não havia acabado mesmo. Não enquanto eles estivessem respirando, não enquanto eles ainda pudessem voltar um para o outro, como as águas do mar que, mesmo depois de arrebentar no litoral e molhar a areia da praia, voltavam de encontro ao oceano, como se nunca tivessem o abandonado.

Inverno, Seul.
Aqueles malditos olhos continuavam fazendo questão de aparecer em sua mente. Não importava o momento do dia, não importava o local em que ele estava, não conseguia se esquecer de , os cabelos castanhos caindo em ondas sobre os ombros dela, o modo como franzia o nariz e fechava os olhos quando comia alguma coisa azeda demais, o sorriso bobo que reservava para ele sempre que o coreano se encontrava nervoso além do normal e falava sem parar, o brilho em suas íris castanhas, mas, principalmente, aquela expressão adorável que ela tinha sempre que tentava provocá-lo de alguma maneira, fosse brincando ou não.
sentia falta de toda e cada parte de . Cada centímetro de seu corpo desejava tocar o dela mais uma vez e chegava a doer-lhe fisicamente o fato de não poder. Seu coração havia sido despedaçado. Arrancado de seu peito e espremido até que virasse poeira. Não era fácil de entender porque eles não poderiam continuar juntos.
Havia sido uma decisão mútua, tomada num momento de clareza, mas que agora, sentado à meia-luz de sua sala de estar, não parecia fazer sentido algum. Era como se o período mais feliz de sua vida havia sido jogado fora sem nenhuma cerimônia, como se nada mais restasse para ele.
Dias se transformavam em noites para que pudessem ser novamente transformadas em dias, mas era impossível determinar quanto tempo havia realmente se passado desde a última vez que havia saído de casa. Se ele fosse do tipo de pessoa que bebesse, talvez tudo aquilo teria sido mais fácil, talvez toda a dor que ele sentisse pudesse ter sido amortecida com inúmeras quantidades de álcool, numa vã tentativa de fazer com que seu cérebro parasse de fazê-lo pensar em cada toque que seu corpo se acostumara a sentir, cada tom melodioso que saía da boca de quando eles estavam juntos, cada palavra que ela tivesse proferido à ele. Mas esse não era o caso. Ele estava fadado a sofrer sem ter nenhum tipo de amparo.
A neve caía de tal forma do lado de fora que era impossível ver qualquer coisa que não fosse o branco que impregnava a janela do apartamento. De certa forma, era ótimo que o tempo não ajudasse muito o seu humor, pois assim não teria de fingir que estava tudo bem, não teria que vestir uma máscara de contentamento e sair de casa. Ele poderia sofrer no seu canto sem que ninguém pudesse julgá-lo.
fechou novamente os olhos e respirou profundamente. Parecia que aquilo era o que ele estava fazendo nos últimos tempos, como se todo o ar que estivesse à sua volta não fosse o suficiente, como se seus pulmões não tivessem mais toda a autonomia que uma vez tiveram.
A penumbra que se encontrava na casa não ajudava em nada. Era como se o coreano estivesse no fundo de um abismo sem a incidência de luz solar, sem uma parca luz que pudesse usar como esperança de um novo recomeço. E mesmo diante de todas as palavras de incentivo que havia escutado logo após o término, ele não sabia o que fazer para seguir em frente, não sabia que caminho seguir. Era mais fácil - e por que não cômodo? - deixar-se afundar no turbilhão de sentimentos que se sentia quando cada lufada de ar entrava por suas narinas? Não havia escapatória do mar de depressão que havia se enfiado, cada onda puxando-o mais para baixo.
Em algum lugar de sua mente atormentada, ouviu algo que se assemelhava à uma porta se abrindo, mas ignorou o som, seus pensamentos absortos em sua própria autopiedade. Quem conhecera o homem antes de tudo aquilo ter acontecido em sua vida, jamais julgaria ser a mesma pessoa aquele que se encontrava largado no sofá da sala, as roupas largas já puídas, os olhos vermelhos e inchados.
Para , era difícil ver o melhor amigo naquela situação tão inesperada. Para ele, e seriam o tipo de casal que ficariam juntos pelo o resto da vida e, se houvesse qualquer desavença, qualquer problema, eles seriam capazes de superar. O choque do término havia sido óbvio, não havia como negar, mas ele nunca esperaria que o amigo se comportasse daquela maneira, deixando-se levar pela mais profunda debilitação. Era incomum demais, era desesperador.
Com passos lentos, fez o curto caminho da porta do apartamento até o sofá da sala de estar onde se encontrava, tomando o máximo de cuidado para não tropeçar em um dos móveis e chamar a atenção do outro antes do momento, mas mesmo de onde se encontrava, conseguia ver o estado em que o homem à sua frente se encontrava, parecendo cada vez menor nas almofadas do sofá que pareciam engoli-lo, fotos e porta-retratos espalhados pela mesa de centro como que se em um memorial, lembrando-o dos tempos que se foram e a única coisa que se passava por sua cabeça era: ele precisava fazer algo. E rápido.

3 anos depois
A primeira vez que ele a viu, foi como se tudo ao seu redor tivesse sido congelado; pessoas pararam de andar, o ar parou de se mover, as informações nos painéis de led travaram. Havia somente ela puxando suas malas pelo chão de linóleo, olhando ao redor, tentando encontrar seu caminho enquanto caminhava por todas as colunas do saguão do aeroporto. O cabelo dela dançava ao seu redor, os olhos brilhando como se estivesse prestes a chorar, as mãos nervosamente segurando a alça da bagagem de mão. Ela parecia algo saído de um filme, tão inocente e perdida, como quando uma garota de cidade pequena finalmente vai para o lugar onde ela, supostamente, deve se encontrar. Isso explicaria as lágrimas presas e a constante dança de seus olhos, procurando por algo que ela pudesse achar familiar, mas sem ter muita sorte.
a observava de longe, os olhos completamente voltados para ela e mais nada, hipnotizado por ela. Não era a garota mais bonita do mundo, mas não significava que não fosse bonita, porque ela era. Tinha uma aura ao redor dela que fazia toda a atenção do coreano se voltar para ela, algo que fazia com que ele não quisesse desviar os olhos, como se houvesse um tipo de luz brilhando sobre ela, colocando-o num transe. não sabia de onde vinha e não se lembrava de já ter se sentido assim. Era algo estranho, como se fosse possível sair de perto da garota desconhecida, mas ele não conseguia, não queria.
Talvez fosse o modo como o lábio inferior da garota estivesse tremendo enquanto brincava com as mangas da blusa de moletom que usava, ou como mantinha os olhos voltados para baixo, encarando os próprios pés. Talvez nada tivesse a ver com isso e ele estivesse apenas sendo muito estranho, mas de qualquer forma, estava fixado, as mãos coçando para se esticarem na direção dela e perguntar se estava tudo bem. Ela estava sozinha e prestes a chorar. Ele poderia ser um cara legal e perguntar o que estava errado, acalmá-la se fosse preciso, mas seus pés não se moveram. Aquela pequena vozinha dentro de si gritava para não se aproximar da garota que mal conhecia, não porque ela poderia ser perigosa, mas porque ela poderia vê-lo como uma ameaça chegando perto dela, alguém que nada tinha a ver com a sua vida e ninguém gosta de se abrir com um estranho. Então ele se sentou, os olhos percorrendo por todo o lugar, voltando para a garota de vez em quando, estudando-a de longe.
Perto da hora que ele deveria embarcar no avião, porém, ele a tinha perdido. Numa fração de segundos, quando ele olhara para baixo para verificar seu telefone, a garota deveria ter se levantado e saído, escondido-se em algum lugar, porque não havia nenhum sinal dela. não poderia estar alucinando, certo? Ela tinha que ser real.
A segunda vez que ele a viu foi algumas horas depois, quando decidira dar uma volta pelo avião. Ele estava sentado por muito tempo e suas pernas precisavam de mais espaço para esticar-se, mais do que os assentos da classe executiva permitiam. O rapaz estava cansado de ficar em sua poltrona, entediado mais do que em qualquer outro dia. Nada era capaz de capturar sua atenção por muito tempo, sua mente ainda focada na garota que tinha visto mais cedo. Seria possível ela estar indo para o mesmo lugar que ele? Ela estava melhor? O coreano não tinha tido a oportunidade de vê-la entrando no avião, então não fazia ideia se estavam indo para a mesma cidade. Seus pensamentos o assombravam, por mais estranho que fosse. Ele não a conhecia, não sabia seu nome, não sabia do que ela gostava e mesmo assim não tinha como o rosto dela sair dos pensamentos dele. Era incomum o quanto ela tinha deixado uma impressão nele, algo que nunca tinha experimentado antes. Então precisava dar uma volta, talvez se perder um pouco desses pensamentos um tanto quanto excêntricos que assolavam sua mente naquela noite.
Mas o que ele não esperava era que não fosse ajudar em nada - ou talvez sim, dependendo do ponto de vista -, porque a fonte de todos os seus devaneios estava bem ali, sentada há alguns metros dele, na classe econômica, seu corpo bem menor que o dele inclinado contra o assento, as pernas escondidas por baixo do corpo, os olhos fixos na tela a sua frente sem nem se desviar por um segundo. Ela parecia muito mais cansada, com olheiras evidenciadas em seus belos olhos, o moletom que ela usava cobria o cabelo bagunçado. Não havia nenhum sinal de que ela estivesse chorando, mas ainda parecia triste, como se estivesse tentando ao máximo colocar tudo de lado e focar no que ela estava fazendo no momento.
assistia a tudo de seu lugar, os pés não se movendo um centímetro para frente enquanto estudava a garota com os ombros caídos, o peito subindo e descendo num ritmo constante, olhos passando pelo corredor que ela estava. A garota tinha o fone nos ouvidos, provavelmente o próprio porque parecia muito melhor do que os que a companhia fornecia aos passageiros, o cobertor enrolado em volta do corpo como uma forma de proteção do ar condicionado gelado na cabine. Ela não o viu, escondido nas sombras que as luzes desligadas criavam, encostado contra a porta do banheiro enquanto continuava olhando para ela, criando mil suposições sobre a morena, tentando descobrir o que ele podia sobre ela apenas a observando, como se fosse funcionar.
Ele não sabia dizer quanto tempo passou ali, com os braços cruzados sobre o peito, as costas ainda pressionadas contra a porta, mas talvez tivesse sido por muito tempo porque percebeu quando a garota olhou para cima, seus olhos se encontrando pela primeira vez desde que ele a tinha visto. Ela tinha um olhar curioso no rosto, como se tentasse entender o que poderia chamar a atenção do rapaz por tanto tempo e quando percebeu que ele estava olhando para ela, a garota sentiu todo o seu sangue correr para as bochechas, seus olhos quebrando o contato enquanto voltava a olhar para a tela em sua frente. piscou algumas vezes, de repente muito ciente do fato de que havia sido pego encarando alguém que ele nem conhecia. E, como se não bastasse, sentiu o corpo perder o contato com a superfície que o escorava, caindo para trás quando a porta do banheiro se abriu do outro lado.
De seu lugar, a garota assistiu a tudo, um pequeno sorriso em seus lábios ao assistir o bonito rapaz fazer-se um bobo, seus pés tropeçando enquanto tentava recuperar o equilíbrio antes de as mãos agarrarem-se às paredes ao seu lado. Ele era muito fofo com o cabelo todo bagunçado e os olhos de um castanho escuro, mais do que deveriam ser por causa da falta de luz no corredor.
A terceira vez deveria ter sido quando pousaram no aeroporto. iria caminhar até ela, se apresentar, dizer que ele a tinha visto quando estavam prestes a embarcar e então pedir desculpas por parecer tanto com um perseguidor. Eles iriam sorrir um para o outro, ele iria descobrir o nome dela e, se tudo acontecesse conforme os planos, ele iria chamá-la para sair. O coreano tinha pensado em tudo, cada pequena palavra que ele diria e só podia esperar e torcer que ela não fosse ignorar tudo. Mas ele não contava com o fato de que não a veria novamente. sabia que o aeroporto estaria agitado com gente entrando e saindo, mas não pensou que seria capaz de perdê-la no meio da multidão, algo que ela era muito boa em fazer. Em todos os lugares que olhava não havia sinal da garota com o moletom cinza.
Mas o universo deveria estar torcendo por ele. Havia quatro dias que tinha voltado para Coréia e seus pensamentos estavam ocupados por seus amigos. Ele ainda se lembrava da garota e de como ela era. Algumas vezes, ele parava e encarava o nada, relembrando do sorriso que ela tinha nos lábios quando ele quase caiu para dentro do banheiro. Ela era linda. O modo que seus olhos se estreitaram quando o viu olhando para ela, como estralava as juntas dos dedos diante o nervosismo. Era estranho como alguém como ela, uma pessoa passageira, ainda estava em sua cabeça. Ele desejava ter tido coragem de ter falado com ela antes, desejava ter pedido pelo seu número, mas era tarde demais. Ou foi o que pensou.
Era um dia ensolarado sem nenhuma nuvem no céu, o sol brilhando sobre o grupo de rapazes que ele fazia parte. Era um ótimo momento para se passar na praia, sem preocupações no mundo. aproveitava esses dias. Era como se a fama não tivesse chegado para eles. Claro que haviam algumas (talvez muitas) pessoas que paravam e tiravam fotos de longe, mas não parecia ser um problema no momento. Eles estavam lá há algumas horas, aproveitando o dia sem nada para fazer, curtindo os amigos e mais nada. As ondas quebravam sobre a costa, levando embora as algas e gastando a areia. O som da água se movendo era como um calmante.
- Vamos, ! - ele ouviu alguém gritar, a voz sendo carregada pelo vento na praia quase vazia, risadas ecoando por ele.
O rapaz virou a cabeça na direção da voz, tentando achar de onde vinha, sem saber porque estava tão curioso. Era como se algo dentro dele tivesse chamado sua atenção de novo e quando ele viu um grupo de garotas rindo e jogando água ao redor, tentando atrair uma outra garota para dentro do oceano, entendeu o porquê. Lá estava ela também, sentada numa cadeira de praia sob um guarda-sol, rindo das amigas que a queriam dentro da água.
- Tá muito frio! - ela gritou de volta, a risada permanecendo em sua voz e percebendo que era a primeira vez que ele tinha escutado a voz dela, um sorriso aparecendo nos lábios do rapaz quase imediatamente. O som melódico que veio dela combinava com a garota que ele via e não conseguia acreditar que não havia ouvido antes. Parecia tão familiar. Algo como se estivesse sempre próximo dele. Mas então nada disso fazia sentido; ele estava, lentamente, descobrindo quem era essa garota.
O riso dela alcançou seus ouvidos mais uma vez, sua atenção total voltada para ela, esquecendo-se de seus amigos e sobre o que eles conversavam. Mais uma vez, ela era tudo o que ele conseguia ver, tudo o que ele pensava e não era tão fora do normal vê-lo desse jeito, ainda mais se tratando de uma pessoa que só tinha visto algumas vezes, literalmente.
Mas, por mais que ele quisesse sentar lá e vê-la interagir com as amigas, sabia muito bem que ela poderia não gostar. A garota provavelmente se lembraria dele como o cara esquisito que estava a observando no avião e avisaria as amigas que era melhor elas irem embora antes que ele pudesse chegar perto delas. Era triste, mas ela seria a garota que poderia ter sido e não havia nada que ele pudesse fazer.
O que ele não sabia, entretanto, é que ela também o tinha visto lá, o rosto dele voltado na direção dela, prestando atenção nas coisas que ela estava fazendo e dizendo para suas amigas, rindo ora sim ora não do fato que eles haviam se encontrado de novo, imaginando se dessa vez ele teria coragem de chegar nela e dizer alguma coisa. Seu coração batia levemente mais rápido do que ela imaginava. Ela queria que ele viesse, queria escutar a voz dele direcionada a ela.
- Você arranjou um fã? - a garota escutou uma de suas amigas dizendo, trazendo de volta de seus pensamentos, um pequeno sorriso ainda em seus lábios.
- O que?
- O cara ali, - mencionou sorrindo de soslaio. - Ele está te observando tem um tempo. Sabia?
- Ah, sabia, - foi tudo o que ela disse, a cabeça balançando de um lado para o outro tentando ignorar o assunto. A verdade era que ela sabia que suas amigas tentariam saber de tudo, cada pequeno detalhe e então ir até o cara e perguntar se ele ia fazer algo, ou pior: elas fariam ela ir até ele e não seria capaz disso.
- O que? E você não disse nada?
Ela balançou a cabeça e suspirou.
- Nós estávamos no mesmo voo.
Houve um momento de silêncio antes de todas se virarem para , os olhos arregalados esperando que a garota continuasse e explicasse tudo.
- Ele é o cara fofo que você comentou?
- O que quase caiu quando a porta do banheiro abriu?
- Vocês estavam no mesmo voo e se encontraram de novo? Destino!
E era por isso que ela não queria dizer nada. As garotas iriam continuar dizendo coisas como aquelas o resto do dia, tentando convencê-la que deveria fazer alguma coisa, conversar com ele, dar o número dela pra ele ou algo do tipo e ela não estava no clima para lidar com aquilo no momento. Sim, ele era fofo e claro que ela estava interessada nele, mas havia tanto acontecendo em sua vida. Ela tinha acabado de voltar para o país depois de três anos fora e já era muita mudança pra ela. Levaria mais alguns dias até que ela se sentisse confortável em sair com alguém. balançou a cabeça, ignorando todos os pedidos vindos em sua direção, todas as ideias que estavam surgindo.
- Seja o que for que vocês estiverem pensando, podem esquecer, ok? - seu tom era sério, do jeito que ela nunca tinha usado com elas antes, então só aceitaram. No primeiro momento.
Mas talvez o universo estivesse mesmo trabalhando a favor de , porque não tinha como ele ignorar o fato de que eles estavam frente a frente uma quarta vez. Era impossível, as estatísticas nunca poderiam prever isso e o rapaz não conseguia acreditar no que estava acontecendo.
Uma semana tinha se passado, não tendo superado por completo aquele dia na praia, se xingando por não ter ido até ela, assustado com suas amigas. Por que garotas sempre andavam em grupo? Por que não podiam andar com alguns metros de distância uma da outra para que ele tivesse espaço para falar com a garota que, agora ele sabia, se chamava .
. Ele gostava do jeito que soava, do jeito que o nome saía de sua boca, quase como ele estivesse destinado a dizê-lo toda sua vida. E dessa vez… Dessa vez ele não iria ignorar os sinais que estavam sendo dados a ele.
Ela estava sentada próximo ao bar, um vestido preto de veludo, mais solto na cintura, caía perfeitamente sobre ela, parando no meio de suas coxas. A cabeça jogada para trás enquanto ria do que as amigas diziam, um drink colorido em sua mão.
- Vai continuar encarando ou vai fazer alguma coisa? - ele ouviu uma voz familiar atrás dele, uma voz que ele não reconhecia, fazendo-o se virar instantaneamente, os olhos encontrando um rosto que ele achava familiar, mas não tinha certeza.
- Como é? - ele perguntou dando um passo para trás e vendo a garota que tinha interrompido seus pensamentos. Ela tinha os olhos castanhos emoldurados por óculos de armação preta, o cabelo comprido alcançando o meio de suas costas, um sorriso no rosto.
- , - ela disse virando o cabeça na direção da garota. - Eu me lembro de você no dia na praia. Você estava a observando e ela comentou que estavam no mesmo voo.
Era por isso que ele se lembrava dela. Era uma das amigas, a que continuou olhando para ele a cada poucos minutos, estreitando os olhos como se pensativa. No dia, ele suspeitou que ela estivesse prestes a chamar a polícia, mas agora podia ver que estava errado, seus olhos brilhando de um jeito que o faziam perceber o verdadeiro sentido dos olhares dela.
- É, eu sei quem você é, - ela deu de ombros, rindo da pergunta não feita que ele tinha em seus olhos. - Mas não se preocupe com isso. Eu não sou uma daquelas que se exalta. Eu só estou casualmente perguntando se em algum momento você vai chegar na minha amiga.
olhou de uma garota para a outra, seus pensamentos correndo insanamente por sua mente, o peito um pouco apertado naquele momento. Ele não sabia o que fazer. Queria falar com ela, mas estava com tanto medo de ser rejeitado que parecia não poder se mexer. Ela se lembrava dele. Ela sabia que ele a tinha visto no outro dia. E se ela tivesse se mantido distante por não querer nada com ele?
- Erm… Você acha que eu deveria ir então? - ele soava nervoso, mais nervoso do que já tinha estado em toda a sua vida e não sabia de onde vinha aquele sentimento.
- Falar com ela? - ela levantou as sobrancelhas. - Claro, - revirou os olhos. - Por que você ficaria aqui olhando para ela se não fosse para chegar junto?
Era o que ele precisava ouvir antes de finalmente achar a coragem de falar com , seus pensamentos 100% focados nisso.
Sem pestanejar, respirou fundo, os olhos focados na garota enquanto caminhava até ela pela multidão, tentando ao máximo evitar qualquer pessoa antes que pudesse chegar em quem não tinha parado de pensar por mais de uma semana. Era uma situação de “agora ou nunca” e ele iria no “agora”.
Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa, ela se virou, os olhos deles finalmente se encontrando. E foi como se algo acordasse dentro deles, todas as coisas que tinham passado levaram àquele momento, o momento que mudaria tudo em suas vidas. Era clichê e bobo pensar dessa forma, mas parecia que eles deveriam se encontrar.
- Oi, - ela foi a primeira a dizer algo, mas suspirando a palavra do que realmente falando, mas ela falou.
-Oi, - ele disse, a mão direita se escondendo na parte de trás do pescoço, um sinal claro de seu nervosismo. - Eu sou e eu… - ele respirou fundo. - Nos encontramos no avião semana passada.
- Sim, - ela sorriu, concordando com as palavras dele. Não havia muito mais que ela podia fazer, o coração batendo muito rápido.
- Certo, - ele concordou. - E eu… Eu não pude deixar de perceber que eu adoraria sair com você para tomar um café ou algo do tipo.
não sabia mais o que dizer. Estava sentindo toda a pressão do mundo, muito fora de seu elemento. Já havia chamado outras garotas para sair antes, claro, mas dessa vez parecia diferente, algo novo e ao mesmo tempo familiar. E ele estava morrendo de vontade de saber o que ela iria dizer.
- Bom, , - ela começou colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto sorria timidamente para ele. - Eu não pude deixar de notar que adoraria sair para tomar um café com você.




Fim



Nota da autora: Eu, honestamente, não sei por quanto tempo essa história tem me assombrado, me deixando inquieta querendo escrever, mas, ao mesmo tempo, não escrevendo nada. Parecia que nada estava do jeito que eu queria até que finalmente as portas se abriram e ela saiu. Primeira de 2020 e, esperançosamente, não a última. Para os que leram até aqui, muito obrigada e espero que tenham gostado!





Ain abiga, eu gosto tando dessa história, que nem sei explicar. Pensar nela, no romance, nesse casal lindo, no reencontro, eu simplesmente fico com o coração aquecedinho por dentro. Por favor, pode trazer já a continuação para mim, ok? Miu! ♥
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus