Gypsy Blood

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Última atualização:22/10/2020

Aviso Importante

Essa fanfic foi inspirada em algumas artistas que admiro, como, por exemplo, Jorja Smith, Kali Uchis, IAMDDB e outras. Por isso, irei usar ao decorrer da história algumas músicas das mulheres citadas como forma de compor o repertório de canções da nossa PP. Todas as faixas usadas serão devidamente creditadas no final de cada capitulo.
Além disso, para quem se interessar, criei uma pasta no Pinterest onde juntei traços da personalidade da PP. Por lá vocês conseguem ter um pouco de ideia sobre o que eu quero passar com a personagem, tanto no sentido de senso estético, roupas e maquiagem, quanto personalidade e estilo de vida mesmo. Em resumo, é pra sentirem a vibe da nossa cantora fodona. Para acessar basta clicar aqui.




Prólogo

Los Angeles
Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2016 – 10:30 AM



A sensação de inércia que domina todas as terminações nervosas do corpo humano quando o mesmo passa por uma situação de extrema emoção é poderosa. Em momentos assim, o cérebro é capaz de emudecer até o mais alto dos sons e empalidecer até a mais vibrante das paisagens, nos ligando, completamente, à um único ponto de atenção que aguça os sentidos e arrepia deliciosamente a pele. O suor nas palmas das mãos, sem precedentes, também se faz presente, assim como o frio na barriga que parece estar conectado diretamente às pulsações frenéticas do coração que por muito pouco não sai pulando da boca sem desvios. Intensidade sempre foi uma maneira certeira de descrever . Isso porque a paixão desde cedo corria pulsante e violenta pelas veias da mulher que, como um furacão, se portava com imponência, enchia de fascínio até o mais cético dos homens, e devastava com elegância os paradigmas de todos os lugares por onde passava. Sua maneira de compreender sentimentos sempre foi febril, demasiada e voluptuosa.
Entretanto, naquele dia, parada com o carro há mais de uma hora na Sunset Strip, a jovem de 22 anos, miscigenada, fruto do amor arrebatador entre um mexicano e uma brasileira, experimentava pela primeira vez um novo tipo de intensidade. Ali, em uma das principais vias da cidade dos anjos, encarava, com lágrimas tímidas presas nos cantos dos expressivos olhos, um dos momentos mais emocionantes de sua carreira. Uma sensação mescla de dever cumprido, orgulho e vaidade explodia em seu âmago e destruía qualquer concepção pessimista e fajuta que tinha dos próprios sonhos. Vislumbrava, finalmente, a prova palpável do sucesso: um imenso Billboard que preenchia inteiramente a lateral de um dos edifícios mais expressivos do badalado endereço, o qual promovia seu primeiro álbum de estúdio em nome de uma grande gravadora dos Estados Unidos.
O sabor adocicado que vinha junto da realização de um objetivo de uma vida era diferente. Música sempre havia sido o propósito da mulher da pele dourada e dos emaranhados cabelos . Com a influência dos pais latinos e também músicos, se tornou uma eximia e multifacetada instrumentista, apaixonada por sua arte de maneira tão profunda que chegava a assustar. Nascida na Inglaterra, local onde Santino e Laura Xavier se conheceram e formaram família, a garota teve de se mudar aos sete anos para Nova Orleans, na Luisiana, depois que o pai e a mãe conseguiram, finalmente, investir em um sonho antigo: um típico bar musical na Bourbon Street, coração da cidade berço do blues e do jazz. Sempre rodeada por artistas das mais diversas escalas e vivências, cresceu em um ambiente de atmosfera mágica, envolvida pelos ritmos sedutores que comandavam o estabelecimento dos pais, assim como as ruas da cidade que esbanjavam a irresistível mistura das culturas francesa, africana e americana. Conforme os anos passavam, sua verve artística se tornava cada vez mais poderosa e a alma inquieta não a deixava parar. Aprendeu a tocar piano, saxofone, clarinete, bateria e todas as variações de instrumentos de corda, além de cultivar a imponência de seu timbre com afinco. Ao ultrapassar a barreira da infância, e chegar à adolescência, recebeu incentivo tanto da mãe, quanto do pai, para começar a dividir com o mundo - ou pelo menos com o público fiel do bar da família – toda a poesia que guardava dentro de si. E assim o fez. Conquistou seu espaço em algumas noites de apresentação do estabelecimento, além de começar a performar pelas ruas de Nova Orleans, que abraçava com calor todos os artistas independentes e sonhadores que ousavam se aventurar por ali.
As referências de , que passeavam entre Louis Armstrong, Jimi Hendrix, Billie Holiday, Miles Davis, Nina Simone, Amy Winehouse, Janis Joplin, Tim Maia, Ray Charles, James Brown, Stevie Wonder, e aterrissavam em ritmos mais urbanos, como o hip hop dos anos 90, com foco em Lauryn Hill, 2Pac, NWA, Racionais MC’s e Notorious B.I.G, a fizeram idealizar uma identidade estética muito singular. Logo, o interesse por uma cultura mais marginalizada e de resistência, além da literatura e fotografia, a levaram, durante o colegial, à se aventurar em outros meios. Criou curtas-metragens experimentais e capas para as mixtapes que produzia sozinha com seu laptop, e acabou fazendo muito sucesso na internet. Então, logo após se formar, uma de suas produções que transbordava influências do R&B do início da década de 2000, além de jazz e um toque de reggae, chegou às mãos dos produtores executivos do rapper Snoop Dogg, o que acabou abrindo muitas portas para a musicista. Por isso, resolveu abrir mão da vida confortável em Nova Orleans e se mudou para Los Angeles com apenas mil dólares no banco e um objetivo. Lá, na cidade das oportunidades, conciliar o emprego de barista, que servia para pagar o aluguel, com a rotina de compositora não foi fácil. Noites de insônia aconteciam com mais frequência do que o esperado e os bloqueios criativos à deixavam frustrada. Entretanto, quando seu primeiro single foi lançado, todo o esforço valeu à pena. O número de streams foi às alturas e a canção ainda acabou sendo escolhida por Rihanna como sua faixa favorita do momento durante uma entrevista. Meses depois lançou seu primeiro extend play, projeto que foi produzido por grandes nomes da cena, como Tyler, the Creator e Rick Rubin, que a colocou na terceira posição da lista das 15 estrelas mais promissoras na música da BBC Music. Depois de diversas participações especiais em trabalhos de artistas importantes, além de participar como convidada em turnês milionárias, o próximo passo para era assinar com uma grande gravadora e lançar, finalmente, o seu tão esperado álbum. Foram anos de trabalho árduo, muito foco e paixão, somados à noites em claro em estúdios e incontáveis maços de cigarro fumados. O caminho em busca da fama nunca foi fácil, mas a levou em direção à um contrato com a Columbia Records.

Parada no meio da rua, escondida dentro do carro de vidros escuros, a mulher se pegou relembrando de toda sua trajetória e passeando com os pensamentos por cada momento que resultou no que ela vivia naquele instante. O apoio dos pais quando decidiu sair de casa para se arriscar em uma cidade localizada a 3000 km de distância foi imprescindível. Havia pensando em desistir milhares de vezes, mas os dois sempre estavam ali, por trás, dando empurrãozinhos que não permitiram que ela desmoronasse. Todos os anos dedicados à uma única paixão, finalmente estavam gerando frutos mais do que concretos. Havia vencido, afinal. O nó de emoção que se formava na garganta da mulher era mais forte do que poderia controlar, então se permitiu soltar algumas lágrimas durante o momento introspectivo. Tão rápido como veio, o choro também se foi, e uma vontade avassaladora de rir tomou conta do carro silencioso. Gargalhou, gritou, bateu com as mãos no volante e se concentrou para acalmar as batidas do coração. Suspirando e saindo do transe, a artista puxou o moderno celular da bolsa, apontou em direção da placa que exibia um retrato seu gigante e, em seguida, bateu uma foto. Resolveu, então, publicar o clique para seus 3 milhões de seguidores no Instagram, escrevendo na legenda: "Encontrei essa menina cheia de histórias para contar na Sunset Strip. Tratem ela com carinho e escutem o que ela tem para dizer. ‘Gypsy Blood’ já disponível em todas as plataformas". Finalmente satisfeita, deu partida e logo se viu longe do local. Enquanto dirigia tranquila em direção a sua casa, porém, um calafrio repentino correu por toda a extensão de sua espinha, fazendo com que todos os pelos do corpo da mulher se arrepiassem. Naquele instante, uma ficha havia caído. "Nada será como antes", pensou. Realmente... nada, nunca mais, foi como antes.



Capítulo 1

Los Angeles
Segunda-feira, 12 de abril de 2021 – 07:00 AM


O perfeccionismo é um traço de personalidade um tanto quanto ambíguo. Ele é capaz de levar qualquer um do céu ao inferno em questão de segundos, transformando até o mais simples dos processos na obrigação mais maçante e irritante que já existiu ao redor do sistema solar. Como se não bastasse isso, ainda existia o brinde que sempre o acompanhava, aquela sensação constante de que poderíamos estar fazendo melhor, entregando algo mais palpável, ou sendo, simplesmente, mais centrados e objetivos. não aguentava mais a ansiedade que seu perfeccionismo lhe causava. O pequeno moleskine que o acompanhava para todos os lados - quase como um documento obrigatório -, já exibia sua folha de tonalidade parda e espessura grossa completamente amarrotada, próxima do ponto de rasgar e se desfazer em milhares de pedaços depois que o homem, desgostoso, a atacou com borrachadas frenéticas para tentar se livrar das ideias ali incorporadas em grafite escuro e denso. Aquilo não estava dando certo. O suspiro frustrado que se manifestou em seu interior não poderia ser evitado, fazendo com que soltasse um riso nasalado enquanto passava as mãos grandes pelo rosto em claro sinal de cansaço.
era um letrista brilhante. Tão brilhante que chegava a ser insuportável com sua imutável mania de se cobrar demais. Por outro lado, foi exatamente por tal hábito irritante que se encontrava no auge da carreira. Com apenas 27 anos, o rapaz nascido na Inglaterra era um dos nomes mais importantes da indústria da música mundial, sendo consagrado em premiações de diferentes vertentes ao redor do mundo pelo seu talento único, senso de estilo provocador dos bons costumes, e coração mais receptivo do que o de qualquer mãe. Entretanto, naquele momento em que se encontrava sozinho no estúdio, não conseguia lembrar de seus grandes feitos artísticos pelo simples fato de não estar sendo capaz de escrever sequer uma estrofe digna de seu premiado repertório. Depois de dois álbuns mais do que aclamados pela crítica especializada, passava agora pelo processo de criação de seu terceiro trabalho na carreira solo. Sabia que precisava manter o padrão de qualidade, profundidade e poesia que transmitia por meio de suas músicas e, por isso, enfrentava um dos piores bloqueios criativos que já teve durante toda sua trajetória. A pressão era tão esmagadora que já cogitava a possibilidade de se isolar em algum canto aleatório do globo terrestre para, dessa maneira, conseguir focar – porém, não poderia simplesmente desaparecer. Precisaria continuar em Los Angeles ao menos pelos próximos meses, onde teria de comparecer em outros compromissos profissionais, não tão importantes quanto seu álbum, mas, ainda assim, necessários. Pensar em outra solução para o problema não era mais uma opção, e sim uma necessidade. Já fazia dias que não conseguia dormir direito por causa da angústia instaurada em sua zona de conforto e as olheiras roxas, visíveis em seu rosto bonito e viril, entregavam facilmente a insônia. não entendia em que ponto uma atividade que sempre foi prazerosa para ele havia se tornado tão maçante. Costumava ser criativo sem se esforçar, e era melhor do que ninguém na função de transformar pensamentos em palavras.
Precisava, urgentemente, chegar à uma resposta que fosse resolver aquele marasmo, entretanto, antes que conseguisse dar início à mais um momento introspectivo de raciocínio, a pesada porta antirruído de uma das milhares de salas de gravação da Columbia Records se abriu, revelando Lalo Poulsen, produtor musical e amigo que acompanhava praticamente desde que o mesmo começou a dar os primeiros passos como cantor e compositor solo, logo depois que a banda da qual participava entrou em hiatos. O homem de baixa estatura, rechonchudo e de descendência asiática, era um dos profissionais mais consagrados do mercado em que atuava. Quando se lembrava de que a figura parada em sua frente, o encarando com o típico semblante tranquilo e debochado, já havia vivido momentos históricos com alguns dos artistas que o britânico mais admirava, mal conseguia acreditar que ele havia mesmo aceitado acompanhar sua carreira. Apesar de não ser tão mais velho, ostentando seus quase 34 anos, Lalo possuía um currículo absurdo. Ele já havia trabalhado com gigantes da indústria, como Jay-Z, Kanye West, Madonna, Rolling Stones, Pearl Jam, entre vários outros. Não só havia produzido alguns dos discos de tais personalidades, como também era amigo pessoal e extremamente respeitado pela maioria. Ter alguém do nível de Poulsen em sua equipe era algo que trazia um orgulho arrebatador ao coração de , que não fazia questão de esconder o quanto o achava foda.

– Porque você está aqui tão cedo, ? – o homem foi arrancado do transe pela voz grossa e imponente de Lalo, que o entregou um copo de chá quente cheiroso enquanto o encarava com um semblante confuso, logo indo se sentar na grande e confortável cadeira em frente ao painel de mixagem do estúdio.
– Acordei bem antes do despertador sequer pensar em tocar. Resolvi me adiantar e aproveitar o silêncio que fica por aqui essa hora para tentar tirar algumas partituras – respondeu enquanto inspirava o aroma confortável da bebida que havia ganho do amigo – mas, como esperado, estou travado e tudo que consegui foi fuder com as folhas do meu moleskine – finalizou amargo.
– Bom... ainda bem que te trouxe um chá de camomila então. Sua cara está péssima – disparou o mais velho debochado, observando o outro bufar – Relaxa, ! Você sabe que bloqueio é normal na rotina de qualquer artista. Não entendo porque você tem ficado tão desesperado com isso.
– Malandro, Já faz duas semanas! Da última vez as coisas desenrolaram muito melhor e nem foi por causa do ácido que a gente tomou. Eu estava diferente, sei lá... – Refletiu, enquanto relembrava todo o processo de construção do álbum que havia lançado no ano passado. Eram tempos divertidos. A pressão não se manifestava tão esmagadora e suas viagens psicodélicas na companhia dos amigos lhe renderam uma obra prima. Se sentia tão orgulhoso do trabalho, que às vezes se questionava se seria capaz de criar algo parecido no futuro.
– Nem é tanto tempo assim, cara. Aliás, várias músicas que você escreveu da última vez não entraram no CD... Não dá para aproveitar nenhuma? – Questionou o mais velho.
– São vibes diferentes. Eu estava em um momento que não se encaixa no hoje. Quero ser fiel ao que eu estou sentindo no presente, mas estou completamente perdido para seguir essa linha de raciocínio – ponderou , ao mesmo tempo em que continuava a bebericar o liquido doce e aconchegante que realmente cumpria com seus ditos poderes calmantes – Queria viajar. Foi ótimo para mim ter ido ao Japão, se lembra? Esse contato com outra cultura, ficar meio distante dessa rotina caótica de Hollywood... foi ideal.

Poder escolher qualquer lugar do globo para ir, com certeza, era uma das melhores liberdades que o dinheiro que acompanhava a fama poderia proporcionar. Viajar era algo fundamental na vida de . Costumava ir para países diferentes sempre que começava a trabalhar em um novo projeto, trazendo referências locais para a maneira que produzia as faixas e para a essência do instrumental. Adorava trocar experiências com profissionais locais e se afundar de cabeça na esfera étnica que o rodeava. Era inspirador, necessário e elucidativo. Conseguia tirar a perspectiva de dentro de sua bolha e passar a olhar além do que estava no alcance de sua visão. Durante a construção de seus dois últimos álbuns, fez isso. No primeiro, aterrissou na Jamaica, e no segundo, foi à Tokyo. Não poder sair de Los Angeles dessa vez, de fato, estava o incomodando de maneira demasiada e, de certo modo, era um dos fatores responsáveis pelo seu atual bloqueio criativo.

– E porque você não vai? Só vai. A gente joga um dardo em um mapa mundi e onde atingir se transforma, automaticamente, no seu destino – Disparou Poulsen divertido. A ideia de Lalo, por mais que fosse baseada em uma brincadeira, era tentadora e até excitante. Escolher um lugar para ir pelo acaso é algo que faria sem pensar duas vezes. Mas a realidade era outra e ele não poderia se dar ao luxo da inconsequência.
– O Jeff me mata se eu sair da Califórnia – Pontou, fazendo com que o produtor se lembrasse da extensa agenda de compromissos do amigo. Poulsen se esquecia, às vezes, de que o garoto cheio de vida, bem humorado, e naturalmente galanteador com quem convivia há quase 4 anos era um dos rostos mais valiosos do mundo. Era tão fácil estar na presença de , que o mais velho sempre interpretava as situações por meio de uma perspectiva que o beneficiasse. Jeff Azoff, por sua vez, era o responsável por gerenciar todos os passos do astro. O empresário, apesar de ser uma das pessoas mais queridas na vida de , também sabia ser carrasco quando precisava, mantendo a carreira do britânico em completa harmonia e em constante evolução. Por mais que quisesse ver desenrolando os nós que vinham se formando em sua mente, também não podia deixar de focar nas oportunidades únicas que a fama crescente do rapaz vinha conquistando. Precisava aproveitar a fase dourada para consagrar o cliente em outras vertentes da arte, não só na de músico. O queria sendo astro de cinema, voluntariando em missões de paz na África e seguindo com seu caminho de queridinho de grifes e designers de luxo. O mundo era pouco para , e ele sabia disso, por isso não afrouxava as rédeas.

– O Azoff é um capitalista desenfreado. Eu amo o cara, mas não podemos negar que ele exagera com a sua agenda, né? Custava te dar uma folga agora que a gente vai começar a produção do disco? – Esbravejou Lalo enquanto conectava o computador que o acompanhava por todos os lados à aparelhagem da mesa de comando.
– Segundo o Jeff, descanso e show business são conceitos antagonistas. Mas foda-se... pelo menos não tenho que gravar em cabines improvisadas dentro de quartos de hotéis aleatórios, que nem na época da banda – pontuou, se recordando, em seguida, do stress que ele e seus companheiros passavam nas grandiosas turnês que estrelavam ao redor do mundo. Eram obrigados, mesmo exaustos e com shows consecutivos rolando, à continuarem produzindo CDs para cumprir com a agenda de pelo menos um lançamento por ano.
– Isso que escuto é um sinal de otimismo? Louvado seja o chá de camomila, poderoso, soberano! – Brincou Poulsen arrancando, pela primeira vez naquela manhã, uma gargalhada alta do homem largado no sofá de couro, posicionado do outro lado da sala – Enfim, vamos trabalhar! Trouxe alguns samples¹ para você dar uma olhada. Quem sabe eles não conseguem resgatar algum tipo de inspiração de dentro de você...

Sem pensar duas vezes, se aconchegou ao lado do mais velho e passou a manhã avaliando a sequência de batidas, ritmos e texturas sonoras que o amigo havia selecionado. De fato, a ação conseguiu relaxar os ânimos e arrancar uma estrofe ou outra da cabeça do artista inquieto. Mas não era o bastante, ele precisava de mais. Quando o restante da banda chegou ao estúdio e se espalhou pelo recinto, já se sentia mais tranquilo e disposto, recuperando sua típica essência leve e brincalhona, se esquecendo, por um segundo, que horas atrás estava a ponto de destruir seu moleskine já surrado por pura frustração. Ao anoitecer, o cantor já havia conseguido chegar à um esboço de letra que, de certa maneira, o deixou satisfeito. Apesar de ser genial escrevendo sozinho, sua poesia ganhava muito mais força quando estava rodeado por pessoas que o inspirava. Os insights ácidos de Mitch, seu guitarrista, assim como o grave do baixo de Adam, o baixista, que ia buscar um arrepio no fundo da alma de qualquer um que o escutasse, traziam boas vibrações criativas para o processo de . Por mais que amasse quem se tornava ao redor daquela grande equipe – ou família –, sabia que precisava se desafiar mais e buscar referências em fontes alternativas. Queria inovar, queria ser provocado, instigado e estimulado. Não entendia muito bem ainda como iria fazer isso, mas sentia uma constância de que a resposta para suas crescentes dúvidas estava próxima de virar a esquina. Quando se viu sozinho na sala novamente, onde estava há mais tempo do que gostaria, soltou um suspiro ao encarar a partitura que haviam criado. Guardou o papel em sua bolsa, deu uma última olhada ao redor do recinto para ter certeza que não estava esquecendo de nada e, então, finalmente, desligou as luzes e se dirigiu à saída.

Malibu
Segunda-feira, 12 de abril de 2021 – 01:15 PM



Los Angeles sempre foi um sonho. Mas Malibu, ali sim, ali era onde a magia acontecia. As extensas praias de areia branca quente e mar azul quase turquesa, que abrigavam algumas das mansões mais espantosas do mundo, era um ponto de equilíbrio em meio ao caos que a vida de uma estrela podia ser.
, após o estrondoso sucesso de seu debut² álbum há 5 anos, persistiu por algum tempo na rotina frenética das ruas da cidade dos anjos, mas logo seu coração se rendeu aos encantos da comunidade à oeste de LA, onde vivia tranquila em uma morada pé na areia localizada na MariSol Comunity, um condomínio de luxo ao lado norte do município praiano. A vida era leve por ali. Apesar de não estar muito distante da metrópole, ela conseguia, de certo modo, manter uma distância segura e saudável dos brilhantes holofotes de Hollywood.
Prestes à lançar seu quarto trabalho, tudo que queria antes da temporada de entrevistas, gravações de vídeo clipes e, claro, apresentações e turnês, era um pouco de paz de espirito. Amava poder descer a comprida escada localizada em seu quintal e chegar em questão de minutos à areia fofa da praia. Aproveitava os dias ensolarados para surfar ou até mesmo para se bronzear enquanto lia algum livro estirada na famosa canga tie dye, que era sua favorita. Se sentia bem, completa e vibrante. Morava sozinha com seu majestoso Doberman, Hendrix- o amor de sua vida -, mas também vivia rodeada de amigos que passavam mais tempo em sua casa do que em qualquer outro lugar.
Aos 26 anos, tinha tudo. Quando ‘Gypsy Blood’ foi lançado, a fama maciça atingiu a cantora de maneira impactante e repentina. Ela, que já era bem quista na área, colocou ainda mais força em seu nome depois do repertório impecável que entregou. A base de seguidores de seu Instagram cresceu quase em 100%, e seu álbum foi extremamente elogiado por críticos especializados e incluído na lista de melhores do ano da Billboard. Saiu em tour para promover o disco e embarcou em uma constante ponte aérea para mais de dez países durante seis meses. Depois disso, também se saiu maravilhosamente bem no lançamento de seu segundo trabalho de estúdio, entretanto, foi no terceiro que realizou o sonho de qualquer musicista: o Grammy. Foi indicada para cinco categorias, conquistando quatro, as quais incluíam ‘Melhor Performance Vocal Solo de R&B’, ‘Canção do Ano’, ‘Artista Revelação’, e ‘Melhor álbum de música urbana’, perdendo apenas ‘Álbum do Ano’ para Billie Eilish. Se lembrava até hoje do que sentiu naquele noite, quando subiu diversas vezes naquele palco para aceitar da mão de artistas que admirava os gramofones registrados em seu nome. A emoção era fluida, reconfortante e até um pouco narcisista. Sabia que ia ser premiada - ou melhor -, tinha certeza.
Durante toda sua carreira, deu 100% de sua alma e coração nas composições, arranjos e produções de seus trabalhos. O reconhecimento mor, que era, de fato, aquela cerimônia, era apenas uma questão de tempo até acontecer. Claro, não que isso significasse que era dona de um ego que não deixava espaço para mais nada no recinto, pelo contrário, a mulher era o próprio sol. Brilhante, alegre, receptiva e calorosa. A certeza que a rodeava se dava apenas pelo fato de que a moça sabia seu valor e, acima disso, tinha consciência do tamanho do talento que carregava dentro de si. Música era sua paixão, o ar que respirava, o chão que a suportava e o teto que a abrigava e aquecia. Seu destino estava traçado e cimentado desde muito cedo. Apesar de ser soberana de um mundo de possibilidades, costumava passar a maior parte de seu tempo no moderno estúdio construído no sótão de sua mansão, acompanhada de , sua melhor amiga e backing vocal, Robert ‘Zion’ Mellot, seu baixista (e namorado de ), e Parker Boyd, assistente/pau para toda obra e melhor amigo, apenas fumando maconha e criando. Era genuinamente feliz.

, está me ouvindo? ? ! – arrancada no susto do transe que se encontrava, a cantora deu um pulo da onde estava encostada depois que a mulher de cabelos crespos, parada em sua frente, berrou em sua orelha e bateu com força a palma da mão em seu braço descoberto – Chega de baseado por hoje! Você está muito lesada, cara. Estou que nem uma ridícula falando sozinha há 15 minutos.
– Ai, ! Esse seu tapinha é ardido, não precisamos chegar nesse extremo – disparou enquanto acariciava o pedaço quente e vermelho de pele atingido pela amiga – Desculpe, me perdi em pensamentos. Do que você estava falando?
– Eu não vou chegar nesse extremo se você, a partir de hoje, começar a prestar atenção em mim e parar de deixar que eu realize monólogos extensos para plateias de zero pessoas – bufou dramática, arrancando uma risada da mulher deitada na espreguiçadeira em sua frente, localizada na parte rasa da brilhante piscina da casa – Falei que o Colton ligou e você precisa ir na Columbia na semana que vem.
– E por qual motivo precisarei levar meu belo corpinho até lá? Que eu saiba, o álbum só vai ser lançado daqui dois meses. Estou de folga – respondeu enquanto recolocava os óculos escuros no rosto e ajeitava a posição, se sentando para poder encarar melhor a amiga.
– Burocracias, ! Até a maior celebridade do mundo precisa lidar com burocracias de vez em quando. Eu só estou passando o recado, princesa latina – disparou , ao mesmo tempo que se aconchegava no lugar vago ao lado de .
Qué pedo³! Que bicho te mordeu hoje? Tá’ venenosa, eu hein! – respondeu irônica, virando os olhos em claro sinal de tédio – Tudo bem, né... já que tem quer ir, tem que ir. Ele falou, pelo menos, que dia exatamente eu tenho que dar as caras?
– Ele me disse que o ideal seria na quinta-feira, pois ele não está com quase nada marcado na agenda. Você saberia de tudo isso se checasse suas mensagens – pontuou , por fim, jogando o celular de em seu colo.
– Estou me desapegando da tecnologia, mamacita. Meu próximo passo é conseguir atingir o ponto de nirvana elevado de um monge tibetano – brincou, ficando em posição de meditação e recebendo em retorno outro tapinha ardido de – Ai, Bitch!!
– Para de falar merda, ! Todo mundo sabe que você é viciada em postar foto da sua bunda no Instagram. Você só é assim desapegada com mensagem. O dia que você desapegar da tecnologia em geral o mundo acaba – disparou a mulher dos cabelos volumosos, arrancando um riso alto da outra.
– Minha bunda está explodindo de gostosa e eu não tenho ninguém que possa usufruir! O que me resta é compartilhar na internet e manter o aesthetic do meu feed vivo – explicou, enquanto alcançava o maço de cigarros apoiado na mesinha lateral, logo depois selecionando um e o acendendo com seu isqueiro rosa shock, personalizado com pedrinhas brilhantes.
– Tudo pelo conceito, claro! – pontuou debochada, enquanto mexia no próprio celular – Escuta... podíamos aproveitar essa ida à Los Angeles e fazer uma festa na sua casa em Hollywood Hills. Já faz dois meses que você comprou aquele palácio e ainda não fizemos nada para estreá-lo – comentou, lançando uma ideia que não soou nada mal na cabeça de . A cantora aprendeu, ao decorrer de seus anos como jovem milionária, que uma das melhores formas de investimento na cidade dos anjos era o mercado imobiliário. Aquela região era uma das mais caras ao redor do país e a tendência era que as casas apenas valorizassem e aumentassem de valor. Por isso, a mulher, assim como outros famosos, costumava comprar uma coisa ou outra no território. Era até bom, já que quando precisava ficar na cidade por mais tempo, tinha onde se hospedar com mais conforto.
, se um dia te critiquei, eu não me lembro! Acho uma ótima ideia. Além disso, temos tempo mais do que suficiente para chamar as pessoas e organizar tudo por lá – exclamou a cantora e, antes que a amiga pudesse responder, uma voz grave se fez presente logo atrás de suas cabeças. Ao se virarem de súbito, avistaram Zion se aproximando com um enorme sorriso no rosto.
– O que as duas malucas estão tramando? – O homem, que exibia a beleza negra em um look ideal para o dia quente, cumprimentou a artista com um tapinha na cabeça e logo se virou para a namorada, depositando um carinhoso beijo em seus lábios.
– Vejo que essa mania irritante de dar tapinhas é hobby de casal... pinche gringos! – disparou azeda, enquanto encarava os amigos rindo de seu ataque – Não estamos tramando nada, só decidimos que já está na hora de inaugurarmos a casa de Hollywood Hills. Tudo ideia da sua prometida!
– Ideia que você amou de paixão, né ! Estou estranhando você quieta todo esse tempo por aqui. Estava quase mandando um exorcista ver se alguma entidade casta tinha se apoderado do seu corpo – alfinetou brincalhão o rapaz.
– Só faltava o palhaço para completar o circo mesmo – pontuou debochada, ao mesmo tempo que se divertia com o senso de humor ácido de seu baixista – Toda alma festeira precisa de um período de recesso para alinhar os chacras Mellot, porém, todavia, entretanto, estamos de volta!
– Cadê o Parker? Ele já podia ir montando a lista de pessoas que vamos convidar e começar à ligar para os fornecedores – logo cortou o papo furado dos amigos que tinha tudo para se estender, cumprindo com louvor seu papel de mãe da roda.
– Eu dei folga para ele resolver algumas coisas pessoais já que eu não estava planejando fazer nada demais hoje – explicou a cantora, separando a bituca do cigarro que havia finalizado no cinzeiro posicionado ao seu lado.
– Bom, então podemos ir pensando na lista nós mesmas e amanhã ele cuida do restante – sugeriu , arrancando um barulhinho de tédio do namorado, que decidiu se levantar e sentar na mesa ao lado da piscina, onde as moças estavam tomando sol – Que foi, Zion? Não estamos fazendo nada, para de ser insu.
– Não foi nada... eu só vou bolar um! Melhor passar por isso chapado, do que sóbrio – disparou o homem, arrancando uma gargalhada alta de e fazendo com que a namorada revirasse os olhos em sinal de desprezo.
– Que seja! Vai , foco. Qual vai ser? – perguntou, já puxando o próprio celular e abrindo o aplicativo de notas – Lizzo? Claro que sim, ela é ótima. SZA, maravilhosa, Tyler, Bella Hadid e o The Weekend, A$AP Rocky... quem mais?
– Renell Medrano, Ferg, Sarah Feingold, Amber Asaly, pode chamar todo o clã Kardashian/Jenner também, Travis Scott, Rosalia, Drake... – respondeu pensativa – Ah, coloca o Rickey Thompson e o Denzel, perco horas nos vídeos deles, maravilhosos.
– Você já falou com eles alguma vez na sua vida? – questionou , acompanhando a risada empolgada da amiga.
– Não, mas vivemos em Hollywood, mami! Além do mais, pessoas imersas em energia criativa são mais do que bem-vindas na minha casa. Também não acho que eles recusariam o convite – respondeu , por fim, dando de ombros.
– Ah, isso com certeza não! Acho mais fácil os dois surtarem... são claramente seus fãs – a mulher dos cabelos crespos brilhantes pontuou, fazendo com que a amiga soltasse um riso nasalado e logo em seguida abrisse um sorriso ladino.
– Meu fandom é uma comunidade de criativos – piscou para a outra, que continuava anotando nomes na lista virtual – Enfim, vamos pensar em mais alguns convidados e amanhã o Parker termina de ver isso com a assessora. Estou faminta.
– Você sabe falar a coisa certa, na hora certa, né ? Vamos comer, pelo amor de Jah!! – disparou Zion derepente, já se colocando em pé e seguindo sozinho para a área interna da casa, a qual se interligava ao exterior por enormes portas de correr de vidro, um dos principais traços da essência modernista e sofisticada da mansão praiana da cantora. Logo, os amigos preparavam em conjunto, na espaçosa cozinha branca, uma caixa de hambúrgueres de cogumelo caseiro, enquanto curtiam e dançavam com a playlist especial de para momentos como aquele. Claro, outra curiosidade sobre a estrela: ela era vegana há quase 7 anos. Havia abdicado dos derivados animais alguns anos antes de se mudar para Los Angeles, e ficou muito feliz ao chegar na cidade da fama e se deparar com uma infinita seleção de restaurantes, supermercados e lojas especializadas na filosofia de vida que seguia. Levava muito à sério a escolha e direcionava a mesma quantidade de paixão e intensidade usada em seu trabalho na defesa do planeta terra e no apoio a causas de cunho sociológico que acreditava. Poderia ser interpretada como militante forçada na internet por pessoas que não conheciam sua verdadeira essência, mas, na realidade, era uma figura mais do que necessária. Os trabalhos filantrópicos que realizava ganhava cinco vezes mais peso graças à enorme visibilidade de sua plataforma e as enormes doações que fazia em seu nome. Gostaria de mais para frente, quem sabe, criar uma fundação que abraçasse temas de justiça social e a luta pela salvação do meio ambiente, pontos de discussão extremamente interligados. Se dedicava absurdamente à este lado de sua vida e usava como maneira de se manter sempre com o pés no chão e em contato com suas origens de imigrante.

Depois de algumas horas, e quando já começava à escurecer, se despediu dos amigos e resolveu tomar um banho para se aconchegar com mais conforto em seu pijama de seda rosa, que abraçava as curvas de seu corpo quase como um carinho. Mandou uma mensagem para a mãe, perguntando como estavam às coisas do outro lado do país, e se aninhou na macia poltrona da varanda de sua suíte no segundo andar, com Hendrix deitado aos seus pés. Ali, observando o oceano que brilhava e refletia a luz tímida da lua que não havia chegado completamente ao céu, e sentindo o aroma adocicado das velas que acendeu em seu quarto, finalmente pode abrir o caderno de anotações gasto e encardido – ou, como gostava de chamar, sua penseira. Assim como em um horizonte trovejante, uma tempestade se fez presente dominadora no interior de , não demorando muito para que começasse a escorrer pelos braços e dedos, atingindo, por fim, a ponta da caneta que se desenrolava firme pela extensão da folha branca. Momentos, visões, estrofes, esboços, e mais uma infinidade de ideias foram sendo despejados nas páginas abertas do objeto que as recebia quase como um portal mágico para outra dimensão. Era assim todas as noites. Precisava de alguns minutos sozinha para realizar aquele hobby simplório e de imenso significado. Concluindo a linha de raciocínio, pode relaxar e se esgueirar para de baixo das grossas e fofas cobertas brancas de sua cama, se perdendo em meio a sonhos que ultrapassavam a barreira da imaginação e, descontroladamente, se misturavam a realidade.

Los Angeles
Quinta-feira, 15 de abril de 2021 – 08:20 PM


A música que tocava no set era animada e o clima do local não poderia ser mais receptivo. Apesar da pouca roupa, e das milhares de pessoas trabalhando na produção daquela sessão de fotos, se sentia extremamente bem. Nunca foi uma pessoa tímida, muito pelo contrário, tinha o carisma e o atrevimento como alguns dos mais sinceros traços de sua personalidade. Porém, era cantor, não modelo, e por mais que possuísse uma marcante beleza à seu favor, sempre ficava um pouco apreensivo quando precisava realizar algum photoshoot. Naquele momento, entretanto, se sentia mais liberto do que nunca. Estava trabalhando em parceria de Casper Sejersen, um fotógrafo underground de Londres que havia aterrissado em Los Angeles apenas para fazer as fotos de uma matéria de capa que ele iria estrelar. O conceito do ensaio, criado pelo profissional, permitia que o cantor fosse o mais fiel possível à quem realmente era. Por isso, fez uso de sua criatividade ímpar, se livrou de amarras que poderiam surgir em meio ao processo, e abusou de elementos que faziam sentido para ele. Roupas que fugiam do padrão heteronormativo entraram em cena, assim como densas maquiagens nos expressivos olhos e nas desenhadas maças do rosto, as quais foram marcadas com tons coloridos de blush que as evidenciavam ainda mais. Durante todas as horas em que esteve no estúdio, explorou todos os cantos do espaço: posou sentado em uma poltrona e se equilibrando em um pé só; exibiu as várias tatuagens distribuídas pelo corpo ao usar apenas uma meia arrastão; demonstrou costume ao ficar apenas de cueca e meias na frente das câmeras; e ainda fez carão de mistério quando trocou o figurino para um terno alinhado e de época. estava lindo e radiante. Era o verdadeiro sinônimo da mais pura das artes.

– Isso , continua nessa posição, só levanta um pouquinho a cabeça – pontuou Casper enquanto fotografava o astro relaxado em uma poltrona marrom, trajando apenas um roupão azul com meias e um arranjo burlesco na cabeça, o qual possuía uma pena amarela gigantesca no topo – Está perfeito!
– Talvez eu tenha nascido para usar um chapéu basiquinho assim no dia-a-dia. Achei ideal para ir no mercado comprar umas frutas – brincou , com seu característico senso de humor, ao mesmo tempo em que continuava posando para o profissional em sua frente.
– Ele é, de fato, sua cara! – respondeu o homem sorridente, que logo depois passou a conferir os cliques na tela do equipamento digital – Acho que conseguimos tudo que precisávamos. Você foi ótimo, ! As fotos estão lindas, a edição vai ficar incrível.
– Que bom! Fico feliz que tenha rendido um material bacana, juro que me esforcei – comentou o rapaz, já se levantando do lugar onde estava e seguindo em direção aos bastidores acompanhado de Casper – Quando vai ao ar mesmo? Já dei a entrevista e tenho certeza que a jornalista me disse, mas confesso que esqueci.
– A edição está programada para o mês que vem! Mas assim que as fotos estiverem tratadas, compartilho com você através do Jeff. Depois mandamos também alguns exemplares físicos da revista, claro – explicou o fotografo solicito, arrancando um sorriso agradecido de .
– Valeu, irmão! O dia foi excelente, espero te encontrar de novo em breve – o cantor enunciou por fim, se despedindo do mais velho e do resto da equipe, e tratando de ir se desfazer de toda a produção. Depois de alguns minutos, já estava com sua roupa normal e com o rosto limpo. Quando terminava de amarrar os cadarços do vans preto que usava, a porta do camarim se abriu revelando Jeff falando ao telefone com uma expressão alegre no rosto.
– Certo! Obrigado você, Jason, a gente se fala. Abraço – exclamou desligando a ligação e encarando pela primeira vez até o momento o semblante confuso do cliente – E ai cara, mandou bem no ensaio, hein... Dei uma olhada por cima nas fotos e elas estão ótimas, suas fãs vão pirar.
– Foi incrivelmente fácil trabalhar com o Casper, me senti confortável o tempo todo – explicou, dando de ombros – claro que a minha beleza sem igual ajudou também, sabe como é – disparou o cantor por fim, debochado e abrindo um sorrisinho de lado, fazendo com que o mais velho revirasse os olhos com bom humor.
– Dá uma segurada no narcisismo, , não faz bem para a pele – retrucou o empresário, dando risada quando o astro lhe mostrou o dedo do meio – Enfim, tenho novidades!
– Sou todo ouvidos – pontuou , dando abertura para que o outro continuasse o diálogo.
– Acabei de desligar uma ligação com Jason Miller, o RP da Ruth Davison, CEO da Comic Relief – a mera menção do dito nome fez com que a atenção que o jovem dava ao assunto aumentasse consideravelmente, fazendo até com que se ajeitasse melhor no sofá onde estava sentado – Sei que você está em um momento muito confortável da sua carreira, fazendo cada vez mais sucesso, e está disposto à usar toda sua visibilidade para gerar atenção para assuntos importantes... me corrija se eu estiver errado.
– De maneira nenhuma – disparou , sem pensar duas vezes – Continua, cacete! Estou curioso!
– Certo. Eu já estava em contato com o time da Comic Relief há algum tempo (na verdade tinha contato com eles desde a época da banda), mas comecei a cercar com mais fervor nessas últimas semanas porque recebi informações de que eles estariam preparando um evento separado do Red Nose Day, que acontece na Inglaterra, aqui em LA – explicou Jeff, por fim.
– Aqui? Mas porque aqui se a sede é em Londres? – questionou o cantor intrigado, apoiando os cotovelos no joelho e encostando o rosto nas palmas das grandes mãos.
– Na verdade faz sentindo, pensa comigo: praticamente todas as maiores celebridades do mundo vivem aqui, certo? – enunciou, recebendo um aceno de cabeça como resposta, logo retomando a linha de raciocínio – Por conta disso, seria muito mais fácil reunir a maior quantidade delas se um dos locais dos shows fosse, exatamente, onde elas estão. É uma maneira muito prática de arrecadar ainda mais fundos para a causa.
– Realmente, faz sentido. Mas onde eu entro nessa história? – disparou ansioso, enquanto o empresário abria um sorriso sincero com a empolgação demostrada pelo cantor.
– Eu como profissional dedicado que sou, consegui descobrir os planos e marcar uma reunião com o Jason, que se encontra aqui em Los Angeles à pedido da Ruth. Expliquei os próximos passos que você quer dar e ele ficou de conversar com a chefe sobre o formato de festival que sugeri. Agora a pouco ele me ligou confirmando seu nome como um dos headliners e anfitriões da noite – explicou sem pausas, de uma só vez, fazendo com que o cliente arregalasse os olhos e batesse com força uma mão na outra em claro sinal de comemoração.
– Porra Jeff, isso é maravilhoso cara! – praticamente gritou ao mesmo tempo que se levantava para cumprimentar o mais velho com um abraço apertado – O trabalho que a Comic Relief faz é muito necessário e acho que podemos ajudar muito. Mandou muito bem, Azoff!
– Eles meio que já estavam te cotando, só ajudei com um empurrãozinho – comentou modesto – O mérito é todo seu, !
– Você disse que eu serei um dos anfitriões... quem serão os outros? Aliás, quantos vão ser no total? – questionou o artista, ao mesmo tempo que ia recolhendo seus últimos pertences da sala e seguia para a saída do local com o empresário em seu encalço.
– São dois, você e mais uma pessoa, mas ainda não sei de quem se trata, Jason não quis dizer. Parece que ainda estão negociando. Mas o evento já está marcado para o último final de semana do mês que vem e a divulgação de convidados acontece até o fim dessa semana. Por isso o Jason está na cidade – pontuou, por fim, dando de ombros.
– Bom, então logo teremos a resposta de quem me acompanhará na vaga de apresentador. Não esquece de me avisar se tiver mais alguma novidade, hein... Quero estar à par de tudo! – comentou , recebendo como resposta um aceno de cabeça do mais velho. Aproveitou, então, para tirar as chaves do carro da bolsa, já que já se encontravam na garagem do prédio – Mudando de assunto, pensei que ia conseguir sair daqui mais cedo para ir ao estúdio, mas está meio tarde e vou para casa. Vai precisar de carona?
– Não cara, está tudo bem, vim dirigindo também. Aproveita esse resto de dia e descansa, as próximas semanas vão ser longas. Ah, antes que eu me esqueça, te mando uma mensagem mais tarde com o dia da reunião com a Comic Relief para oficializar o contrato. Só estou aguardando o Jason me voltar com os horários para alinharmos direitinho – finalizou Jeff, acenando e seguindo até a outra ponta do local, onde havia estacionado.

, então, não demorou muito mais e logo embarcou em seu veículo e seguiu para as ruas alaranjadas de Los Angeles, que eram abençoadas naquele momento com o pôr do sol quente e imponente do final da tarde. Estava exausto. Só queria chegar em casa, tomar um banho quente demorado e curtir o nada deitado em sua cama macia. De fato, as próximas semanas seriam longas, assim como as últimas também foram.
Estava preso em um ciclo de trabalho infinito, mas, apesar de tudo, se sentia muito grato. A notícia do show beneficente chegou em um momento muito oportuno e a ansiedade típica já começava a brotar, sem pedir licenças, em seu peito. Precisava mesmo mudar o foco e as prioridades, e aquilo seria um ótimo ponto de partida. Se lembrava da época em que gravou um single com a banda para recolher recursos para a mesma organização, e da viagem que fizeram em grupo para a África. Aquela vivência o modificou para sempre. Nunca mais foi o mesmo depois de sair da sua bolha de privilégio e perceber como o mundo real era bárbaro, tirano e cruel. Era muito agradecido de poder ter vivido tudo da maneira que viveu, e de ter tido a oportunidade de amadurecer da maneira que amadureceu. Apesar da mídia não divulgar - até porque queria evitar dar a impressão de que estava tentando ser marqueteiro -, uma parte de todo o lucro arrecadado com as suas turnês milionárias iam para projetos sociais e ONGs das mais diversas vertentes, desde as que cuidavam do meio ambiente e tratavam de animais, até as de cunho político e social. Por isso, poder usar o seu poder de influência para o bem o fazia muito feliz. Era uma maneira justa e sincera de mostrar às pessoas que o admiravam como aquilo tudo era importante para que a sociedade em que vivemos conseguisse vencer os obstáculos que a impedem de triunfar. Estava, genuinamente, eufórico.
Quando desviou a atenção da tempestade de pensamentos que rodeava sua mente, percebeu o imponente portão de sua casa se abrindo conforme os seguranças acionavam o comando do controle. Estacionou na ampla garagem, ao lado dos outros carros, e seguiu para o interior da morada. Foi direto tomar um banho para tirar os resquícios da produção de mais cedo do corpo e, quando saiu com uma toalha enrolada na cintura, não se preocupou em trocar de roupa, apenas se deitou na cama e ficou encarando o teto do quarto sem se mexer por alguns minutos. Pensou em aparecer um pouco nas redes sociais, já que fazia dias que não dava as caras, mas o sono que se apossou de seu ser foi mais forte. Antes que imaginasse fazer qualquer outra coisa, se viu preso em sonhos, acordando apenas no dia seguinte. Nu e confuso.

Malibu
Segunda-feira, 19 de abril de 2021 – 09:45 AM


, você sabe que te amo, é minha cliente favorita – Colton Buschwell praticamente gritava na tela da vídeo chamada, tentando competir com o volume das pancadas que distribuía no saco de areia pendurado na academia que tinha nas dependências de sua casa. Ali, no meio de seu treino da manhã, foi obrigada à participar de uma reunião online de urgência com seu empresário que, claramente, não possuía notícias muito boas para lhe dar – Por isso preciso que você me escute com atenção e não surte – pontuou o executivo, por fim.
– Colt, só fala, desembucha de uma vez! Se fosse para eu surtar já o teria feito no momento que você me obrigou à atender essa call, ainda mais no meu período de férias – disparou impaciente, enquanto se livrava das luvas pretas de kickboxing que usava anteriormente.
– Certo! Sei que você está de folga, e também sei que tinha pedido para você comparecer apenas quinta-feira na Columbia, mas surgiu um pequeno probleminha e vou precisar que venha mais cedo – o homem grisalho de maxilar quadrado na faixa dos 43 anos, que encarava a cliente através da tela de seu tablet, explicou sem perder a calma.
– O que aconteceu? Devo me preocupar? – questionou sem demostrar apreensão em sua voz, apesar de já estar se sentindo incomodada com o rumo que a conversa levava.
– Não, de maneira nenhuma! É só algo que precisa ser resolvido logo, mas não é nada gravíssimo. Prefiro falar sobre isso com você pessoalmente, assim otimizamos nosso tempo e nos poupamos de uma enxaqueca antes da hora – disse Colton despreocupado.
– Esa madre ahora! Hoje já é segunda-feira, que dia quer que eu apareça em Los Angeles? – a cantora quis saber enquanto saia da sala onde estava e seguia para a casa principal com o aparelho que executava a vídeo chamada nas mãos.
– Foi pensando nessa hora que pedi para você não surtar com antecedência – pontuou o homem, soltando um suspiro profundo antes de continuar – Preciso de você hoje mesmo aqui. Se conseguisse chegar para o jantar seria ótimo – finalizou já aguardando uma reação nada simpática da cantora.
– Sabe Colt, você diz que me ama, mas claramente você me odeia! Isso é relacionamento abusivo, não tem outra maneira de descrever – alfinetou azeda, usando todo seu repertório dramático no tom que usou para enunciar as palavras.
– Juro que vou te recompensar, ! Não estaria pedindo se não fosse importante, você sabe – comentou o homem sedutor, usando todo seu charme para convencer a mais nova – Eu pago o jantar!
– Ah, mas isso é o mínimo! Até a noite, tchau – disparou a mulher antes de desligar a ligação bufando. Era sempre assim. Bastava tirar uns dias para ficar mais tranquila em casa, descansando, para que Colton Buschwell, e mais cinquenta mil pessoas, surgissem para atrapalhar seus planos. Já havia perdido as contas de quantas vezes precisou abrir mão das férias, ou diminui-las pela metade, simplesmente porque coisas que "fugiam do controle" aconteciam. Claro que não era ingênua, sabia que estava submetida à situações do tipo na área em que escolheu seguir carreira, entretanto, como uma boa jovem no auge de seus 26 anos, não podia deixar de reclamar e se irritar todas as vezes que era arrancada sem gentilezas da bolha de expectativas criadas para si própria. O gênio forte da moça não a permitia agir tranquilamente quando era contrariada, e isso, no fim, acabava gerando atritos com o empresário. Por mais que gostasse do homem, o qual havia sempre estado ao seu lado desde o começo, se irritava com toda a pompa corporativa que ele tinha. Aquilo tudo era completamente desnecessário às vezes.
Perdida em pensamentos, e chegando na cozinha sem ao menos perceber, a cantora foi direto até a geladeira de bebidas para se servir de um box de água fresca. Quando moveu os olhos do refrigerador, deu de cara com Parker saindo da porta que ligava aquela área de cunho mais social à parte profissional da cozinha, onde a chef que trabalhava na mansão começava a preparar o almoço. O jovem não tão alto, de corpo esculpido sem exageros, logo abriu um lindo sorriso ao ver a mulher com os cabelos desgrenhados e bochechas coradas que se escorava nas banquetas da extensa ilha central do cômodo.

– Bicha, a senhora está bem? Não te vi desde a hora que cheguei aqui – disparou Parker, enquanto alcançava uma bebida para si próprio e ia se sentar no lugar que ficava de frente para uma cansada, de roupa de academia, e com a boca cheia d’água.
– Estava ótima até o pendejo do Colton me ligar e, como sempre, desalinhar todos os meus chacras. Jamais vou conseguir atingir o mesmo nível de nirvana de um monge tibetano porque as pessoas simplesmente não me permitem – esbravejou a mulher, arrancando um riso alto e debochado do rapaz, que se divertia com o drama exagerado.
– E porque caralhos você iria querer algo do tipo, ? Logo você, a rainha da farofa! – disparou bem humorado, fazendo com que desfizesse o semblante fechado e finalmente desse um sorriso para o amigo desbocado – O que aquele sugar delicioso queria com você dessa vez, afinal? – questionou Boyd, exibindo sua melhor expressão maliciosa ao lembrar da beleza rústica do empresário da chefe e amiga.
– Vou precisar ir para Los Angeles hoje mesmo. Assuntos que não podem esperar, ou alguma merda assim – explicou – Quero sua ajuda para fazer a mala, não sei o tamanho da enrascada da vez e acho melhor ir preparada para passar uns dias por lá. E ainda tem a festa na sexta-feira, provavelmente seja melhor eu ficar na cidade até semana que vem mesmo... – pontuou , se lembrando da sequência de compromissos que havia arranjado em LA.
– Mulher, foca na festa porque vai ser babado! Já recebemos várias confirmações de presença e os fornecedores já estão mais do que fechados. Já acionei seu glam team para a montação e eu não espero nada menos do que dedo no cú e gritaria nesse dia – comentou Parker animado, contagiando a cantora a também tentar, de alguma maneira, focar na parte divertida da viagem e esquecer das burocracias pendentes.
– A parte do dedo em orifícios alheios deixo para você, que é quenga, mas o resto arrasou muito! Aliás, a senhora trate de ir arrumar suas coisas também, pois vai comigo para lá já hoje mesmo – disparou – Vamos sair para jantar com o Colton mais tarde e preciso de você junto para que faça anotações.
– Que tarefa dificílima ter uma refeição sensual com o Buscwell em Los Angeles... Pior emprego do mundo , sua mocreia horrorosa, vou pedir demissão! – brincou Parker, com a ironia mais do que clara em sua voz. O rapaz, que era gay, achava o empresário mais velho de a forma de pecado ambulante mais palpável que já havia visto na vida toda, e nunca perdia a oportunidade de expor o que realmente sentia para quem quisesse ouvir – Se eu sento naquele homem, nem o Rei Arthur me tira de cima!!
Dios mio! Você sabe que ele fica todo sem graça com os flertes descarados que você manda para cima dele, né? – questionou , enquanto gargalhava da forma como o amigo se referia ao executivo – Eu acho hilário!
– Um dia mostro para ele como um amor libidinoso com outro homem pode ser ma-ra-vi-lho-so! Tenho certeza que tem uma gayzona bem poderosa trancafiada atrás daqueles ternos alinhados e eu vou arrancar ela de lá nem que seja na unha – declarou, por fim, fazendo com que a cozinha fosse recheada com os sons da alta e engraçada gargalhada de . Assim como em tudo na vida, a cantora também era intensa na hora de demonstrar contentamento, sendo dona de uma das risadas mais contagiantes e escandalosas do mundo.
Depois do momento descontraído, tanto , quanto Parker, foram tratar de resolver as coisas que precisavam para antes de pegar estrada. A mulher, então, tomou um banho demorado, mandou uma mensagem para avisando que teria de ir mais cedo para Los Angeles e, depois, foi almoçar um pouco, já que o horário combinado para o jantar era bem mais tarde. Depois de algumas horas, quando já estavam com tudo alinhado, seguiram até a enorme garagem de , onde uma grande quantia de veículos luxuosos estava disposta, e entraram na alta Mercedes Classe G preta fosco, ideal para viagens. Deixaram, então, o elegante condomínio de casas para trás e foram em direção à Pacific Coast Highway, via expressa que os levariam diretamente até a cidade dos anjos.
Em menos de uma hora já se encontravam passando pelos enormes portões de Hollywood Hills e chegando em frente ao novo imóvel de . Parker, que ainda não havia visto a morada pessoalmente, ficou de queixo caído. Já estava acostumado com o mundo luxuoso da chefe mas, mesmo assim, ainda era impressionante ver de perto o real poder que ela tinha. A imensa casa, situada em um cenário verde e arborizado, possuía uma fachada minimalista e contemporânea, com traços românticos que a tornavam despreocupadamente elegante. A natureza, que se integrava delicadamente à construção, fazia com que o local, de fato, parecesse com o esconderijo de uma ninfa na floresta mais mística do reino – uma maneira muito boa de descrever , inclusive.
Ao ultrapassar o belíssimo portal de entrada, feito em vidro com esquadrias pretas, e passar pelo hall, uma das primeiras coisas à atingir os olhares dos visitantes era a grande área social, que contava com uma sala de estar confortável, completamente integrada ao exterior graças às enormes janelas de vidro que se abriam por inteiro. A área externa era um show à parte, exibia um enorme gramado verde com uma piscina incrível de borda infinita localizada bem ao centro, criando a atmosfera perfeita para receber convidados e promover festas. Além de tudo isso, a mansão ainda contava com um elevador, três cozinhas, três lavanderias, uma maravilhosa adega climatizada, área de spa, cinema, garagem para seis carros, dez banheiros e oito quartos. A decoração era completamente minimalista, abusando de materiais aconchegantes, como madeira, e requintados, como pedras e mármores. Todos os cantos daquela morada também transbordavam arte e história, com peças incríveis que falavam muito sobre – a qual participou ativamente do projeto de interiores. Aquele lugar era um sonho. Se Boyd um dia tivesse condições de comprar uma casa como aquela, ninguém nunca mais veria seu rosto na rua.

– E ai, gostou? – surgiu no campo de visão do rapaz, notando a cara de espanto do amigo enquanto ia explorando os vários cantos do imóvel recém construído – Eu achei bem aconchegante...
– Isso aqui é um castelo, mamacita! Estou me sentindo no sul da Itália, especificamente no meio dos vinhedos aguardando meu homem parar de pisotear as uvas no barril, para começar a me pisotear na cama – disparou Parker debochado, e a comparação fez com que a cantora quase tivesse um ataque de tanto que riu da maneira particular que o amigo tinha de se expressar.
Bee, eu não te aguento! Um dia ainda morro com esses absurdos que você fala. Perfeito pra mim – comentou , indo abraça-lo. Se conheciam desde que a mulher havia se mudado para Los Angeles e começado a trabalhar na mesma cafeteria que o rapaz. Tinham a mesma idade, os mesmos gostos, e logo criaram uma amizade tão cristalina que parecia que se conheciam há décadas. o acompanhava em todos os seus gigs como Drag Queen – pois sim, ele se montava e era simplesmente maravilhoso como transformista –, e ele a acompanhava em todas suas apresentações em pubs, casas de shows e afins. Um ajudava o outro sem esperar nada em troca. Quando a carreira de começou à engrenar, prometeu para o amigo que ele ia continuar sempre ao seu lado e foi exatamente o que aconteceu. Hoje, além de melhores amigos, trabalhavam juntos e Parker era seu braço direito. Ela simplesmente não se via sem o homem do senso de humor ácido e coração do tamanho do mundo.

– Sabe... eu sempre soube que a senhora ia dominar o mundo com esse seu talento destruidor e essa bunda imensa, mas ver os frutos palpáveis dessa vitória é muito emocionante. Eu sempre te falo isso, mas tenho muito orgulho do furacão de poesia e bad bitch energy que você é – confessou Boyd, enquanto ainda aconchegava em seu abraço.
– Para de ficar falando essas coisas fofas para mim, porque você sabe que esses seus momentos raros de carinho me deixam que nem manteiga derretida – brincou a cantora, ao mesmo tempo em que se separava do rapaz para poder olhar em seu rosto – Também tenho muito orgulho de quem você é! Apesar de preferir bem mais sua persona Sirena Pussy – cutucou , fazendo referência ao nome Drag de Parker.
– Não conjura esse nome pois se não serei obrigada à acuendar e catar as teta falsa de silicone. Se isso acontecer, meu amor, coitada de você para aguentar a queen mais famosa que a noite de Paris. Só exorcizando para a Miss Sirena Pussy voltar para suas catacumbas – expressou o rapaz enquanto se distanciava de como se estivesse desfilando, ao mesmo tempo que fazia movimentos com os braços no melhor estilo Vogue – Agora chega de papo, quero saber qual dos 350 quartos dessa casa é o meu. Preciso ficar bem garota pro meu sugar, e já que quero pacote completo, casa, carro e cartão sem limite, tenho que caprichar.

Acatando a ordem do amigo, o guiou ainda rindo da cena de minutos atrás e também foi para seu quarto, a suíte principal. Seguindo o mesmo conceito de integração do resto da arquitetura, o cômodo, absurdamente espaço, possuía a típica porta de vidro que tomava uma parede inteira e se abria completamente para o exterior, fazendo com que o paisagismo impecavelmente verde se tornasse um quadro vivo na decoração. A mansão já estava toda equipada para a chegada da proprietária e os empregados devidamente a postos em suas funções, graças ao trabalho impecável de Parker. Seu closet também estava pronto para uso, e já contava com uma imensa variedade de peças da mais alta costura. Seu glam room, anexado à suíte, também já estava preparado com as luzes devidamente posicionadas e com as prateleiras recheadas de produtos de beleza das mais diversas marcas. Como um dos rostos mais famosos do país – ou do mundo –, não podia simplesmente sair de qualquer jeito. Tinha uma identidade estética muito particular e, se possuía chance para tal, gostava de dedicar o tempo que fosse na montação. Por isso, assim que seu beauty squad do coração chegou nas dependências da morada, tratou logo de começar a se aprontar para mais tarde.

Los Angeles
Segunda-feira, 19 de abril de 2021 – 09:30 PM


O jantar com Colton estava sendo mais agradável do que o esperado. Depois de chegar ao restaurante combinado, e enfrentar a fúria dos flashs dos paparazzis na porta do local, e Parker riam sem parar com o homem de meia idade que, sem dúvidas, sabia como entreter. Decidiram comer tranquilos e apenas conversar de negócios depois da refeição, a qual foi feita regada à muito vinho e, claro, indiretas – ou diretas - do assistente da cantora para seu empresário. já se sentia um pouco alegre por conta das diversas taças que havia consumido e não conseguia mais disfarçar como achava toda aquela situação hilária. Buschwell, apesar de não ser casado, era uma das pessoas mais heterossexuais que já teve contato na vida. Sempre acompanhado de belas mulheres, nunca fez o estilo de homem que se prende, também pudera, era um baita pedaço de mal caminho que tinha fila de pretendentes no aguardo de uma única chance. Parker, por outro lado, sabia desse fato e não dava a mínima atenção para ele. Era desbocado, expansivo e bem resolvido. Não tinha nada a perder ao dar em cima de Colton, por isso não se importava, ainda mais porque o executivo, além de tudo, era uma pessoa do bem, com um coração enorme, e que se sentia lisonjeado em despertar interesse até de rapazes do porte de Boyd.

– Talvez seja a hora de tirar o vinho da , a rosácea já está dando as caras – disparou o amigo, que se sentava entre ela e Buschwell na redonda mesa, posicionada em uma parte mais privativa do restaurante.
, isso é um jantar de negócios, espero que você ainda esteja com plena consciência dos seus atos – cutucou o empresário, rindo da reação da garota, que revirou os olhos – Se eu não conseguir resolver as coisas que preciso depois de te obrigar à vir para a cidade, nunca vou me perdoar.
Hijo de la chingada, rosácea de cú é rola! – a mulher xingou Boyd, que gargalhava, e virou de uma vez o resto do conteúdo em sua taça – E Colton, parece que não me conhece, eu estou ótima, papi... Falando nisso, podíamos ir em alguma festa depois, a noite está linda!
– Não mesmo, Señorita Inconsequente! Depois de nos despedirmos hoje, você vai direto para a casa, pois preciso de você bem cedo na Columbia amanhã – o homem tratou de cortar a empolgação alcoólica da cliente pela raiz, pois sabia que se colocasse os pés em uma festa não haveria santo que a tirasse de lá antes do sol raiar. Sem contar que era segunda-feira, pelo amor dos deuses!
– Sabe Colt, você poderia nos levar até em casa, quem sabe conhecer os quartos da mansão nova da ... estou em uma suíte incrível, com um colchão super macio, um luxo! – Parker enunciou tranquilo e com um tom de voz, claramente, carregado de segundas intenções, enquanto bebericava o liquido escarlate e encarava profundamente o mais velho, que, por um segundo, quase engasgou com a ousadia maciça do rapaz. , por sua vez, roubou a atenção de todos ao soltar sua típica gargalhada escandalosa provocada pelo flerte descarado do assistente.
– Uau, Bee, você se supera! Se eu tivesse esse dom na hora da conquista, não estaria tão solteirona – exclamou irônica a estrela e a dupla sentada ao seu lado não pode deixar de a acompanhar na risada. A mulher era contagiante, afinal – Posso saber o que de tão urgente teremos na Columbia amanhã? – questionou, enfim, dando abertura para que os assuntos profissionais finalmente fossem trazidos à tona.
– Já que terminamos de jantar, acho que podemos tratar de negócios – pontuou Colton, já assumindo sua postura corporativa e deixando a áurea relaxada de minutos antes para trás – Na verdade, te chamei aqui hoje , pois preciso tratar de dois assuntos importantes com você. Temos uma notícia boa e uma ruim, qual prefere ouvir primeiro?
– Sempre a ruim primeiro, óbvio! Lei da vida – disparou a cantora e Parker já tirava o computador da bolsa que havia trazido consigo para começar a redigir a ata da reunião.
– Certo! Miles Draper, o produtor que participou da construção do seu álbum novo, deu para trás e não quer mais que usemos os samples e os arranjos que ele criou – enunciou Buschwell de uma só vez, fazendo com que arregalasse os olhos e todo álcool presente em seu sangue evaporasse em questão de segundos.
– O que? Está brincando com a minha cara, né? Ele não pode fazer isso... ou pode? – exclamou a artista, já um pouco exaltada. Isso não podia estar acontecendo. Trabalhou duro durante meses para criar o repertório perfeito para seu quarto trabalho e apresentou músicas completamente sincronizadas e que transbordavam os sentimentos mais puros e sinceros que possuía no coração. Tinha dado seu sangue e suor na elaboração daquele álbum, como sempre fazia, e já se sentia tonta só com a possibilidade de ter que refazer uma parte do disco. Maldito Draper.
– Pior que pode, – pontuou Colton sem massagem – Como vocês tinham um tipo de relação, deixamos a parte burocrática para quando o álbum estivesse à ponto de lançar. Foi um erro enorme, pois quando o procuramos para resolver a questão do contrato ele fez uma série de exigências absurdas, que não poderíamos atender, e então proibiu que usássemos sua propriedade intelectual nas canções – finalizou, fazendo com que um buraco negro se abrisse no estômago de , quase a obrigando colocar para fora toda a deliciosa refeição que havia feito momentos antes. Não acreditava que o ex-namorado poderia ser tão baixo à esse ponto. A relação dos dois nunca foi fácil, mas ela jamais imaginou que a pessoa com quem ficou por pouco mais de um ano, e que prometia mundos e fundos para ela, fosse capaz de tentar prejudica-la de propósito.

Miles Draper era um sonho. Aquele típico garoto da Califórnia que é apaixonado por música e história da arte, além de talentoso, extremamente bonito, e com um porte másculo que colecionava suspiros por onde quer que passava. Se encantou intensamente por quando se conheceram em uma social na casa de Kylie Jenner e a química foi instantânea, pulsante. A amiga socialite de ambos os apresentou pois sabia que a dupla tinha, de fato, muito em comum. Eram perfeitos um para o outro, até não serem mais. Como tudo começou de maneira descompromissada e espontânea, acabaram vivendo um relacionamento incrível que, de um dia para o outro, se transformou em cobranças, ciúmes desenfreado, e brigas colossais à troco de nada. Miles começou a exigir mais do que a cantora poderia oferecer e uma espécie de guerra fria foi instaurada – não que a musicista fosse cética ao amor ou coisas do tipo, muito pelo contrário, era uma incurável romântica. Mas, simplesmente, não conseguia sentir pelo homem mais do que um enorme e forte carinho. Não possuía pretensão de namorar, porém se viu envolvida até certo ponto por uma paixão ardente que lhe era reconfortante.
Logo, entretanto, aquele sentimento que a aquecia por dentro, cheio de aconchego, revelou ser apenas um costume confortável e amigável. Não se via fazendo planos com Draper e, muito menos, deixando suas vontades de lado por causa dele. Por isso, decidiu dar um fim aquilo que já não estava sendo saudável nem para ela, muito menos para ele. Como já é de imaginar, Miles não aceitou de bom grado a separação e se transformou em uma pessoa que ela jamais pensou que ele pudesse ser. Começou a persegui-la, chegou a incomodar seus pais e amigos, além de ameaçar vazar informações pessoais suas para a imprensa. sabia que, mesmo sem querer, havia quebrado o coração do outro, porém nada no mundo explicaria a reação mesquinha e as atitudes imaturas que ele teve. Foi uma situação muito estressante e feia que, de uma hora para outra, acabou completamente tão derepente quanto começou. Achava que havia, finalmente, se livrado do homem de personalidade abrasiva, até receber aquela péssima notícia da boca de Colton. Apesar de ser uma mulher forte, de gênio explosivo e muita atitude, não conseguia evitar o sopro de angústia que a atingia naquele momento, onde batucava com a ponta dos longos dedos a superfície de madeira à sua frente em puro sinal de inquietação.

– Eu não sei ao certo o que aconteceu entre vocês, , mas ficou claro como água para mim o quanto esse rapaz quer dificultar sua vida – continuou o empresário, resgatando a cantora de seus pensamentos.
– Eu não deveria ter envolvido ele nesse projeto. Achei que seria uma maneira de nos aproximarmos mais, ele é tão talentoso apesar de tudo, que acabei não pensando racionalmente... qué chingada! – esbravejou enraivecida, dando um soco no tampo da mesa que tremeu e quase derrubou o restante da louça que ali se encontrava. Soltando um suspiro frustrado, então passou as delicadas mãos de unhas grandes e ornamentadas pelo rosto, pouco ligando para a maquiagem impecável que seu glam team havia feito mais cedo. Tinha feito merda e queria se socar por isso.
– Calma, amiga! O Miles é um fudido asqueroso e eu não vou permitir que esse bofe bagaceiro te tire do eixo mais uma vez, já chega – Parker se pronunciou pela primeira vez desde que o problema Draper veio à tona e abraçou a amiga de lado, fazendo um afago carinhoso em seu braço descoberto pelo macacão tomara que caia e justo ao corpo que usava – Você é a dona da porra desse mundo todo, entendeu? Talentosíssima, tá querida? Se tiver que refazer os arranjos e os beats das letras, que seja! Encare como mais uma forma de livramento enviada pelos céus – finalizou, segurando a mulher pelos ombros e a encarando no fundo dos expressivos olhos.
– O Parker tem razão, ! Você tem uma equipe completamente dedicada e apaixonada por você e pelo que você representa. Vamos dar um jeito logo, o lançamento só vai precisar atrasar um pouco e isso conseguimos controlar – comentou Colton, solicito, sorrindo ao tentar passar confiança para a cliente.
– Terei que refazer algumas das letras também, já que ele participou como coautor além de produtor – relembrou pesarosa, antes de prosseguir – A questão do atraso é o que mais me incomoda! Vou precisar deixar meu fãs na mão por causa de um cara com ego ferido. No mínimo, vou ser linchada online... – dramatizou , fazendo com que os dois homens que a acompanhavam revirassem os olhos.
– Ai bicha, a senhora não comece com seus shows, não estamos nem recebendo cachê para uma coisa dessa essas horas – ralhou Boyd com seu jeitinho único, automaticamente quebrando um pouco da cortante tensão que corria solta no recinto – A última coisa que seus fãs vão fazer é te crucificar, eles te idolatram de um jeito que até me assusta um pouco às vezes, confesso! Além do mais, ninguém é burro e eles já possuem algumas pistas de como a sua relação com o Miles foi conturbada, por mais que o Buschwell aqui, com toda sua beleza, tenha tentado impedir.
– Como você sabe disso, Parker? – questionou Colton interessado, ignorando o elogio nada discreto que o rapaz havia feito à seu respeito.
– Tem um negocinho chamado internet e, nesse negocinho, tem uma outra coisinha chamada Twitter, conhece? – explicou zombeteiro – Eu amo ficar entrando nas redes sociais para fuçar o que estão falando da , acompanho todos os fã clubes. Você deveria fazer isso também, ia ajudar muito na gestão de crise – finalizou sem dar muita importância para o que falava, enquanto encarava as próprias unhas pintadas em uma tonalidade neon de laranja.
– Cara, o Parker é tão farofeiro que seria perfeito como nosso publicista – disparou a cantora, adorando ver o amigo brilhar e se esquecendo por um momento de seus problemas. Por mais que amasse o fato de ter o rapaz sempre por perto como seu braço direito, sonhava em vê-lo enfrentando novos desafios e desempenhando funções diferentes no meio artístico. Ele gostava dos bastidores de Hollywood na mesma intensidade que gostava de se apresentar como sua persona Drag. A chefe famosa já havia abrido diversas portas para que Sirena Pussy transcendesse, e estava na hora de colocar também mais combustível no profissional impar que Boyd desmontado era.
– A Jaqueline é sua publicista, , esqueceu? – enunciou Colton, recebendo um ‘e daí?’ da cliente logo em seguida – Mas, de fato, uma cabeça mais jovem e uma perspectiva diferente poderia ajudar muito no dia-a-dia. Posso checar se conseguimos colocá-lo em uma posição de estagiário ou júnior, assim não entramos em conflito com as coisas que ele precisa fazer para você.
– Se for para trabalhar pertinho de você aceito até limpar banheiro montada, bicha – sem papas na língua, Boyd soltou a cantada de uma vez, pegando Buschwell desprevenido e transformando o mal estar da artista em uma gargalhada gostosa e completamente viva, assim como ela era.
Err... certo! Acho que isso não vai ser preciso, mas obrigado – sem graça, Colton limpou a garganta antes de direcionar a fala para a mulher bonita ali presente – Voltando ao assunto, nesse primeiro momento não esquente essa sua cabecinha dura cheia de cabelos. Vamos nos reunir amanhã para debater a estratégia de marketing à ser seguida na hora de anunciar o atraso no lançamento para o público. Com isso decidido, você pode começar à avaliar o estrago e como vai organizar essa nova fase do projeto, tudo bem? Já estamos com esse problema nas mãos, então não adianta nos desesperarmos agora. Vamos continuar tocando tudo com a disciplina que te colocou no topo e criar uma versão do álbum ainda melhor. Confio no seu trabalho e colocaria minha mão no fogo por você, sabe disso – finalizou o empresário.

Deixando escapar um longo suspiro derrotado, permitiu que as palavras do mais velho reverberassem por sua consciência e chegou à conclusão que, assim como sempre, ele tinha razão. Precisava acalmar os ânimos para não fazer nada no calor da emoção e acabar enfiando os pés pelas mãos. Além disso, já se sentia mais aliviada só de lembrar da forte lealdade de sua equipe para com ela, aquele apoio era fundamental.

– Você está certo, Colt! Conquistar tudo que conquistei não foi fácil, essa situação é só mais uma provação que terei de enfrentar para me tornar uma artista maior e melhor – refletiu , recebendo como resposta um sorriso do empresário, claramente mais relaxado, e um grito estridente do assistente que batia palminhas em comemoração.
– Isso é mentalidade de campeã, keridan! Não vejo a hora de ver você trucidar aquele boçal que achou que poderia te derrotar – Parker exclamou animado – Ainda mais quando esse seu rabão gigante estiver exposto pelo país inteiro em billboards do tamanho de prédios – acrescentou o rapaz com brilho nos olhos.
– Exatamente! O gostinho da vitória vai ser muito mais satisfatório – concordou Colton com a fala do mais novo – Acho que podemos mudar de assunto agora, né? Chega de problemas, vamos para a parte boa. Cause after the storm's when the flowers bloom, certo?
– Por favor! Ainda mais com você parafraseando minha música, melhor timing para irmos para um assunto bom – praticamente gritou, levantando as mãos para o alto em sinal de aleluia e ficando feliz com o empresário relacionando aquele momento a letra de uma de suas composições favoritas – Depois disso tudo, preciso de mais vinho. Esse dia está sendo infinito!
– Eu poderia fazer bom uso de mais vinho também, hein. Essa história com o imundo do Draper me deixou fudida – pontuou Boyd, já sinalizando para o garçom que desejava mais uma garrafa da bebida que estavam consumindo momentos atrás – Além do mais, dizem que vinho é afrodisíaco... sabia disso, Colt? – questionou inocente, encarando o mais velho com um sorriso divertido no rosto.
– Não sabia, eu geralmente fico com sono quando bebo muito vinho –respondeu o empresário, fingindo não perceber a malicia por trás do comentário do rapaz e seguindo com o assunto – Enfim, voltando ao que interessa. Você já ouviu falar da Comic Relief?

– Claro que sim! É uma instituição britânica de caridade super famosa, faz um trabalho lindo na África... Porque? – respondeu , enquanto dava espaço para que enchessem sua taça com o liquido escarlate novamente.
– Bom, um dos representantes da CEO me procurou no final da semana passada. Eles estão organizando um evento separado do tradicional Red Nose Day, que acontece todos os anos na Inglaterra, aqui em Los Angeles. Parece que foi tudo decidido em cima da hora como uma forma de angariar ainda mais fundos para a causa, já que as principais celebridades do mundo moram aqui – explicou Colton para a dupla sentada ao seu lado que ouvia o discurso com atenção.
– Isso é realmente muito legal! Precisamos de mais eventos do tipo mesmo para ver se o povo dessa cidade tira a cabeça de dentro da própria bunda – disparou debochada, rindo com o próprio jeito de falar antes de continuar – Onde eu assino para participar?
– Bom, na verdade esse também é um dos motivos pelo qual preciso de você amanhã na Columbia. Você foi convidada para ser anfitriã da noite, além de headliner. É um trabalho pró bono, mas se você topar podemos assinar os contratos amanhã mesmo. Até porque já marquei uma reunião com o Jason, RP da CEO da instituição – Buschwell pronunciou, observando o momento exato que os olhos da mulher em sua frente começaram a brilhar intensos e seu sorriso aumentou de tamanho, exibindo os dentes extremamente alinhados.
¡No mames! – exclamou . Como cresceu em um lar multicultural, com mãe brasileira falando português, pai mexicano falando em espanhol, e amigos da família falando inglês, a mulher era fluente nos três idiomas e costumava misturar as pronuncias hora ou outra quando se expressava – Essa notícia é incrível, Colt! Não precisava nem me perguntar, é claro que eu topo, vai ser um prazer. Mas me fala, como que vai ser isso exatamente? Já temos uma data?
– Ainda não possuo todos os detalhes, até porque vamos ter uma melhor explicação sobre tudo amanhã, quando nos reunirmos com o Jason. Sei que a produção está usando essa semana para finalizar as negociações com as atrações, e que o evento está marcado para o último final de semana do próximo mês. Já o anúncio para o público, e o começo das vendas, sai no começo da semana que vem – explicou Buschwell prestativo, contente com a animada reação da cliente.
– Era sobre isso que queria conversar comigo na quinta-feira? – questionou , se lembrando do recado dado por uma raivosa, no dia em que não havia tocado no celular por horas e que tomava sol na piscina de sua casa em Malibu.
– Bem lembrado! Me esqueci completamente disso depois do tanto de coisa que aconteceu nesse período curto de dias... – suspirou Colton, passando as mãos pelos cabelos já grisalhos e relembrando que tinha mais alguns assuntos a tratar com a cantora – Até aquele dia em que falei com a , precisava resolver com você a questão das datas da turnê europeia. A disponibilidade de alguns estádios que cotamos não batiam com o calendário que criamos, por isso você precisava dar uma olhada na nova esquematização. Mas agora, com o atraso do lançamento do álbum sendo uma realidade, vamos precisar atrasar os shows também, então tudo foi por água abaixo... Ah, e além disso, recebemos um convite interessante da Netflix e eu tinha que te apresentar a proposta.
– Não me fala que a já vai ganhar filme biográfico – gritou Parker, já com as bochechas coradas pelo tanto de vinho que havia consumido – Não deu nem tempo de ela ter umas polêmicas cabeludas para encorpar o roteiro!
– Não é nada disso... pelo menos por enquanto! – pontuou logo o empresário – Eles estão produzindo uma nova série e querem que você construa a música de abertura. A reunião de quinta-feira seria, também, para nos encontrarmos com os executivos da empresa e entendermos o conceito por trás do projeto, para ai avaliar se vale a pena você participar ou não. Mas devo adiar, já que temos muitas coisas acontecendo essa semana.

ouvia o mais velho com atenção e franziu o cenho quando pensou que ele poderia ter adiantado aquele assunto especifico em uma das dezenas de mensagens, áudios e ligações que fazia para ela todos os dias. Amava Colton de paixão, mas não podia evitar a irritação que surgia em seu peito todas as vezes que ele não otimizava o tempo.

– E porque você fica fazendo suspense com esse tipo de coisa? Já poderia ter me dado um briefing sobre isso, cabrón – disparou a cantora, revirando os olhos entediada com os meios nada objetivos do executivo.
– Eu teria dito se você tivesse atendido minhas ligações e eu não tivesse que passar o recado pela – alfinetou Buschwell, arrancando uma risada em uníssono das outras duas pessoas ali presentes – Além do mais, outras prioridades entraram em campo e acabei focando na resolução desses pepinos gigantescos.
– Tudo bem, vou aceitar sua resposta só porque ela foi plausível! Não está mais aqui quem falou – a artista admitiu a derrota de maneira bem humorada, antes de finalizar – Espero que o enredo desse seriado seja atrativo, ia ser demais esse tipo de visibilidade.
– A representante do Netflix me adiantou por telefone que a história conversa muito com o tipo de música que você faz e com a imagem que você passa para o público. Estou otimista – pontuou Colton, dando de ombros.
– Não querendo atrapalhar, mas já atrapalhando, deu de trabalho por hoje né, gente? Já são onze da noite – interrompeu Parker, lendo os pensamentos de uma alegre de vinho, que só queria sair do recinto para fumar um cigarro.
– Sim! Não vou tomar muito mais do seu tempo, – respondeu o empresário, não demorando para arregalar os olhos, logo em seguida, em clara expressão de que havia se recordado de algo – Ah, outra coisa, juro que é só um detalhe, mas acabei me esquecendo de comentar. Sobre o show beneficente da Comic Relief, outra informação que o Jason me adiantou é que você não será anfitriã sozinha – disparou, fazendo com que a artista franzisse o cenho novamente em sinal de confusão.
– Como assim? – questionou, querendo entender melhor sobre o que o homem à sua frente se referia.
– A noite vai ser comandada por você e mais uma pessoa – esclareceu, ao mesmo tempo que finalizava o restante da taça de vinho que apoiava na mesa de madeira – antes que me pergunte, não sei quem vai ser ainda.
– Tudo bem! Com tanto que não seja ninguém problemático, eu não me importo de dividir o palco – respondeu , despreocupada – Podemos ir agora? Eu só quero fumar um cigarro e me deitar, já que estou proibida de esticar essa noite para algum lugar mais interessante – acrescentou a cantora, já sinalizando para que o garçom trouxesse a conta, enquanto os outros dois concordavam e já se ajeitavam em seus respectivos lugares.
– Como promessa é dívida, nosso encontro de hoje fica por minha conta – enunciou Colton ao mesmo tempo que sacava o cartão de crédito da carteira e o direcionava para o maitre.
– E como eu disse mais cedo: isso é o mínimo! – disparou a cantora, por fim, com seu jeito divertido e debochado de ser.

Arrancando risadas sinceras dos homens que a acompanhavam, finalizaram a noite de maneira leve e agradável, apesar dos problemas que foram surgindo ao decorrer do jantar. Deixaram o restaurante fugindo da tsunami de paparazzi que tentava registrar até o menor dos movimentos da estrela, e entraram no veículo com motorista disponibilizado pela gravadora seguindo, então, em direção à casa de . Dentro do veículo, e alta de vinho, a cantora mostrou os dedos do meio para os fotógrafos que atrapalhavam a movimentação, enquanto também fazia caretas e caia na gargalhada com Parker que, por sua vez, entregava seu melhor carão aos flashs insanos que atravessavam as janelas escuras do automóvel. se irritava muito com a maneira agressiva que os paparazzis costumavam se portar para conseguir uma única foto, e não se importava de ser registrada daquela maneira. Na verdade, adorava ver o resultado depois de uns dias na internet, onde os apaixonados fãs criavam bibliotecas inteiras de memes com as expressões da ídolo. Quando o carro conseguiu, finalmente, seguir viagem, chegaram à mansão de Hollywood Hills em poucos minutos. Os amigos, então, se despediram e seguiram cada um para o seu quarto.
Assim que se viu sozinha, acendeu suas velas aromáticas preferidas, colocou o álbum ‘Malibu’ de Anderson .Paak para tocar nas caixas de som do cômodo, e se concentrou para enrolar o baseado ideal. Em seguida, já nua, se sentou por alguns minutos na confortável poltrona disposta no canto de seu enorme banheiro da suíte, com o beck acesso em uma das mãos e sua ‘penseira’ aberta no colo. Tragando a fumaça terrosa e molhada, sentiu o corpo relaxar em milésimos de segundos e uma sensação gostosa de malemolência tomar conta de cada milímetro dos seus poros arrepiados. Como amava o efeito da cannabis! O universo se apresentava tão imponente pela perspectiva da erva, que tudo e todos se tornavam insignificantes grãos de areia apenas vivendo naquela incompressível imensidão mística. As músicas que tocavam altas pelo ambiente, com batidas atraentes e envolventes, faziam com que a sensação de plenitude da cantora só aumentasse enquanto balançava a cabeça com os olhos fechados e um sorriso discreto pousado nos lábios. Com o passar do tempo, The Bird se fez presente, e a mulher se viu parada apenas consumindo com intensidade a poderosa letra da canção: "I had to wake up just to make it through/ I got my patience and I’m making due/ I learned my lessons from the ancient roots/ I choose to follow what the greatest do". Porra, poesia na sua mais pura forma! Não sabia se era a maconha falando mais alto, mas naquele momento se sentia conectada à aquelas estrofes como nunca esteve antes.
Sem escrever nada pelo que pareceu horas, finalmente uma luz se acendeu em seu âmago, fazendo com que direcionasse o grafite espesso do lápis até a folha branca, onde esboçou, rapidamente, uma simples silhueta de uma mulher ajoelhada ao chão, com uma longa serpente que se enrolava em seu braço direito, indo com o corpo escamoso desde o pulso, até o pescoço – onde surgia fincando as afiadas e venenosas presas. Muitas vezes, não conseguia descrever com palavras a confusão que se manifestava dentro de si, por isso, usava outras formas de arte para se expressar. Sempre acompanhada do baseado nesses momentos, conseguia ficar em paz com o seu ser e canalizar todo o conteúdo que criava durante o dia para o formato certo. Seu caderno, já grosso com o tempo de uso, apresentava um conjunto fascinante de textos, desenhos, colagens e rabiscos, que pareciam desconexos para meros leigos, mas que funcionavam como um mapa pela profundidade mental da jovem cantora. Sua história com Miles Draper foi um ponto de sua vida que mexeu muito com seu espírito. Recordar de tudo que havia acontecido sugou suas energias de maneira tão caótica, que se sentia mais cansada do que o esperado.
Quando terminou de fumar, fechando em seguida seu caderno, entrou em sua sala de banho e deixou que um jato de água quente caísse com força em sua cabeça, levando com ele para o ralo todos os pensamentos ruins que ela produzia naquele instante. Refazer a produção de seu álbum, definitivamente, não era algo que estava em seus planos, mas, agora, era questão de honra.




Glossário


Samples: Nada mais é do que a amostra de sons, sendo eles trechos (ou partes inteiras) de músicas já existentes, instrumentos de forma isolada ou até sons do "dia a dia", para posterior reutilização numa nova obra musical. Essa ideia surgiu na década de 40, quando uma galera decidiu fazer músicas através de pequenas amostras de sons já gravados – o que, inicialmente, era chamado de "Musique Concrète".
Debut Album: Álbum de estreia, em outras palavras, primeiro disco lançado por algum artista em sua carreira.
Que pedó: Gíria mexicana que significa expressões como "Que merda, que coisa".
Bitch: Em tradução literal significa xingamentos como "vaca", "cadela", "vadia" entre outros. Entretanto, é uma expressão bastante usada nos Estados Unidos para diversas coisas. Trata-se de uma das palavras mais versáteis da língua inglesa; é usado para expressar uma infinidade de emoções, como raiva, antecipação, desespero, carinho, inveja, excitação, medo, horror, alegria, choque, surpresa, advertência; tudo alcançado pela própria enunciação e entonação.
Aesthetic: Em tradução livre significa estética.
Pinche Gringos: Expressão mexicana que significa "malditos gringos".
Mami: Nome familiar usado por falantes nativos de espanhol quando se refere a uma mulher.
Jah: O nome Jah é muito utilizado no Reggae, não só em letras de músicas, mas também nos nomes das canções. Sua origem vem da palavra hebraica Yah, que é a abreviação de Yahweh (Jeová, Javé). Na Bíblia, as palavras Jah, Yahweh e Jeová são usadas para representar o nome pessoal de Deus.
Vegana: Pessoa que pratica o veganismo, filosofia de vida que promete se abster do uso de produtos de origem animal, procurando excluir uso de qualquer produto de origem animal, seja na alimentação ou em qualquer aspecto da vida cotidiana.
CEO: Trata-se de uma sigla em inglês para Chief Executive Officer, que traduzindo significa Diretor Executivo. Esta é a pessoa com maior autoridade na hierarquia operacional de qualquer tipo de organização ou empresa.
Comic Relief: Organização britânica de caridade que "utiliza o riso para combater a miséria". Fundada em 1985 pelo escritor de comédias Richard Curtis, a organização surgiu para ajudar a combater a fome na Etiópia. Hoje angaria fundos para países africanos e para lutar contra a pobreza no Reino Unido.
Red Nose Day: Evento de arrecadação de fundos organizado pela Comic Relief. Tipo um Criança Esperança, da Rede Globo.
Headliners: Palavra usada para definir a atração principal de algum show ou evento.
Kick Boxing: Estilo de arte marcial.
Esa madre ahora: Expressão mexicana para "essa merdinha", "essa porcaria".
Box água: Trata-se de água vendida em caixas de papelão, da marca Just Water, criada pelo ator e músico Jaden Smith, filho do ator Will Smith.
Pendejo: Palavra em espanhol para ‘Estúpido’.
Sugar Daddy: É definido como um homem maduro, rico e bem-sucedido, normalmente entre 35 e 60 anos de idade. Se relacionam com mulheres jovens e atraentes e patrocinam um estilo de vida de luxo para elas.
Glam Team: Equipe de beleza (maquiadores, cabelereiros, stylists etc).
Nem o Reio Arthur me tirava de cima: Expressão LGBTQi geralmente usada para falar o quão bonita uma pessoa é.
Dios Mio: ‘Meu Deus’ em espanhol.
Pacific Coast Highway: Trecho da rodovia State Route 1, Highway 1 ou Shoreline Highway, a maior estrada costeira da Califórnia, Estados Unidos.
Mamacita: Nome familiar usado por falantes nativos de espanhol quando se refere a uma mulher.
Bee: Além de ser uma palavra em inglês que quer dizer "abelha", é o diminutivo na gíria gay "bicha".
Gigs: Shows, apresentações etc.
Drag Queen: São personagens criadas por artistas performáticos que se travestem, fantasiando-se cômica ou exageradamente com o intuito geralmente profissional artístico.
Bad Bitch Energy: Em tradução livre seria algo como "Energia de mulher poderosa". Expressão em inglês para falar de uma mulher confiante e poderosa.
Acuendar: Ato de esconder o pênis para trás. Muito utilizado pelas drag-queens.
Vogue: Vogue ou voguing é uma dança moderna altamente estilizada que se caracteriza por posições típicas de modelos com movimentos corporais definidos por linhas e poses.
Glam Room: Camarim, quarto da beleza etc.
Beauty Squad: Outra maneira de falar Glam Team.
Rosácea: Inflamação crônica de pele que se manifesta principalmente no centro da face, mas pode se expandir para as bochechas, nariz, testa e queixo, os deixando em tonalidade vermelha ou rosa.
Hijo de la chingada: Expressão mexicana para ‘Filho da Puta’.
Papi: Nome familiar usado por falantes nativos de espanhol quando se refere a um homem.
Señorita: Senhorita em espanhol.
Que chingada: Expressão mexicana para "Que merda".
Keridan: Sonoridade usada pela comunidade LGBTQ para se referir à palavra ‘Querida’.
Parte da música ‘After the Storm’, da Kali Uchis.
Pró Bono: É uma expressão latina que significa "para o bem do povo". O trabalho pro bono caracteriza-se como uma atividade gratuita, voluntária e principalmente solidária.
No mames: Expressão mexicana para "cê tá me zoando"
Cabrón: Gíria em espanhol que quer dizer: filho da mãe, safado etc.
Parte da letra de ‘The Bird’, de Anderson.Paak.



Capítulo 2

Los Angeles
Terça-feira, 20 de abril de 2021 – 08:05 AM



O som poderoso da bateria, misturado ao intenso grave do baixo e à vitalidade da guitarra, tomava conta do amplo estúdio de gravação da Columbia Records, que acolhia nas últimas semanas as diversas pessoas que compunham a equipe de . Espalhados pelas várias almofadas e tapetes dispostos pelo recinto, os músicos passavam pelo processo de criação da melodia de uma das letras que o cantor havia conseguido terminar de escrever. Ele, por sua vez, posicionado em pé de frente para o brilhante microfone prateado, e acompanhando as batidas dos instrumentos por meio de uma contagem mental, logo fez com que sua voz rouca e afinada recheasse imponentemente a sala, enquanto Lalo e Jeff, na cabine de controle, gravavam o áudio para a realização de uma avaliação posterior. Com toda sua marra e ginga, fazia jus ao seu status de astro da música internacional. A maneira que fechava os olhos para atingir notas mais agudas, dançava despreocupado, ou que segurava firme o suporte do microfone com seus dedos cheios de anéis, era fascinante, hipnótica e sedutora. O rapaz se divertia genuinamente performando, e era nítido para quem o assistia como havia nascido para entreter. As lotações máximas de todos os shows de suas últimas turnês ofereciam ainda mais embasamento para o fato, assim como a legião de fãs completamente apaixonadas e leais que o seguiam. Depois de brincar com o ritmo, emitir sons nas pausas de um verso para outro, e ir explorando as possibilidades criativas para aquela faixa, finalizou a canção acompanhado de gritos de comemoração, palmas e risos. Abrindo um sorriso de canto orgulhoso, que exibia as desenhadas covinhas em seu rosto gentil, o cantor então fez uma sincera reverência à sua banda mais do que talentosa e logo seguiu em direção à uma das caixinhas de água disponíveis ali perto para que conseguisse se recompor da onda de adrenalina que o invadiu naquele momento.

– Porra, , ficou do caralho esse arranjo puxando mais pelo grave do baixo do Adam e com o acréscimo dos instrumentos de sopro – exclamou Mitch empolgado – combinou muito com a estrutura da letra!
– De fato, ficou finíssimo! Mandou bem na sugestão, cara – concordou o baixista, logo cumprimentando o astro que já terminava de consumir a bebida que havia pego minutos antes.
– Fiquei vendo uns vídeos do Herbie Hancock e do Donald Byrd ontem à noite e fiquei com o som dos caras na cabeça... Acabei pegando umas referências – explicou , dando de ombros, orgulhoso da própria ideia.
– A inspiração surge quando a gente menos espera! Eu te falo isso sempre – a voz divertida de Lalo se fez audível no local, depois que o mesmo acionou o botão da cabine de controle que permitia que a sala com proteção acústica onde a banda se encontrava pudesse escutar seus comandos – Agora venha aqui para fora, o Jeff quer falar com você.

Rindo do jeito do produtor, o cantor concordou prontamente e, pedindo licença para os amigos, seguiu para a grossa porta que dividia os dois cômodos. Quando adentrou ao recinto, encontrou o empresário largado no grande sofá de couro preto que compunha o design de interiores dali. Poulsen, por outro lado, se sentava na cadeira giratória de frente para o painel de comandos e já esperava virado em sua direção.

– Vejo que o bloqueio criativo deu uma trégua! Ficou muito legal a faixa, bonitão – murmurou Lalo, em seguida soltando um trecho da gravação que começou a ecoar nas caixas de som, arrancando, automaticamente, um sorriso sincero do mais novo.
– Valeu, cara! Estava passando um programa especial na TV sobre Funk e Jazz, com clipes e shows antigos, daí acabei viajando nesse universo – disse o cantor, enquanto se sentava no mesmo móvel que o executivo que gerenciava sua carreira – Fala ai Jeff, o que tá pegando agora?
– Não é nada demais, ! Só para te lembrar que hoje à tarde temos a reunião com o Jason, sobre o show da Comic Relief. Ele me mandou uma mensagem enquanto você gravava dizendo que o encontro será conjunto com o outro anfitrião do evento – explicou Jeff despreocupado, enquanto continuava digitando algo no laptop apoiado em seu colo.
– Tranquilo! Já sabemos quem é a pessoa pelo menos? – questionou, ao mesmo tempo em que puxava o celular do próprio bolso e se aconchegava no encosto fofo do sofá para se entreter um pouco.
– Vamos descobrir hoje, na verdade – retrucou desviando, pela primeira vez até o momento, os olhos da tela do aparelho eletrônico que usava e se direcionando ao cliente – Confesso que estou curioso!
– Quem você imagina que seja? – exclamou Lalo, que já se encontrava de costas para os outros dois homens ali presente, enquanto se dedicava ao que estava fazendo em sua estação de trabalho – Provavelmente é alguém que está no auge, assim como você... também chuto que, para rolar um equilíbrio, seja uma mulher, ao invés de outro homem – ponderou.
– Para ser sincero, não coloquei muito pensamento nisso ainda – confessou , dando de ombros – Mas agora que você falou, realmente acho que seja uma mulher. Talvez a Ariana Grande...? – questionou, por fim, mais para si mesmo do que para qualquer um.
– É um bom nome... mas acredito que eles tenham se direcionado para uma pessoa mais engajada com problemáticas sociais, que faça questão de evidenciar esse traço em sua persona pública – analisou Jeff, com toda sua visão de mercado e show business – Meu palpite é a Lady Gaga.
– Bom... seja quem for, pelo menos não corremos o risco do dividir o palco com alguma ex-namorada já que ele só sai com modelo – alfinetou Poulsen, se virando com um sorriso debochado para encarar a expressão do amigo.
– Há-Há-Há, você é tão engraçado, cara, morro de rir – respondeu irônico, sem perder, entretanto, seu bom humor típico. Se dirigindo à Azoff novamente, o cantor então disse: – Já que era só isso que você queria me falar, vou voltar para o que eu estava fazendo! A gente se vê mais tarde.
– Tá bem! Eu vou sair agora, tenho um compromisso no centro e vou aproveitar para almoçar por lá antes de voltar para a nossa reunião com o Jason. Qualquer coisa que precisar, já sabe, estou no celular – pontuou, enfim.

Concordando com um breve aceno de cabeça, aproveitou a deixa para sair do recinto e retornar para onde sua banda estava. Chegando lá, pegou seu moleskine apoiado em uma das caixas de som espalhadas pelo local, e se sentou em um dos fofos e fundos pufes posicionados ali perto. Tinha feito, na noite anterior, algumas anotações ao redor das conhecidas páginas amareladas, totalmente guiado pela inspiração que surgiu em seu peito logo após cair de cabeça em uma sequência de vídeo clipes antigos. Aquela dose de eletricidade foi tudo o que precisava para finalizar uma composição que estava parada há alguns dias e, ainda, esboçar uma ideia de melodia que foi desenvolvida durante a madruga e finalizada de manhã ao lado dos músicos de sua equipe. Fez com que a banda, quase aos gritos, se levantasse mais cedo do que o costume e o encontrasse na Columbia Records assim que possível. Mal havia dormido mas estava borbulhando com a euforia que o dominava com expressivo poder. Os diversos copos de café o ajudaram na missão de se manter acordado e, em uma onda impulsiva e entusiástica, conseguiu finalizar a canção antes mesmo das dez horas da manhã. De certa maneira, a angústia de dias atrás havia passado e torcia piamente para que ela não voltasse tão cedo. Já possuía duas músicas e meia prontas, mas precisava de, pelo menos, umas 10, já que era necessário opções extras para uma elaboração mais confortável do repertório do disco. Passou longos minutos trocando figurinhas com Sarah Jones, sua baterista, assim como procurando o tom ideal para o início de uma letra que tinha perdida no moleskine com Charlotte Clark, sua pianista e backing vocal, enquanto Mitch e Adam se entretinham com a melodia ainda não ideal de outra canção que só possuía, por enquanto, as estrofes. Aproveitou que teria o resto da manhã livre para se dedicar com afinco ao trabalho e se beneficiou vigorosamente do dia que havia começado otimista e proveitoso.


Los Angeles
Terça-feira, 20 de abril de 2021 – 11:00 AM



A Califórnia não era conhecida como The Golden State atoa. O sol constantemente em posição imponente no céu azul turquesa, quase sempre sem nuvens, fazia com que a maioria dos dias na cidade dos anjos fossem quentes, vibrantes e expansivos, exatamente como gostava. A cantora, de sangue latino e tropical correndo poderoso nas veias, sempre havia sido uma pessoa adepta do calor e que odiava, mais do que tudo, passar frio. Por isso, viver em um lugar que a abraçava ardentemente, assim como Los Angeles e Malibu faziam, era, de fato, um privilégio que não conseguia agradecer o suficiente. A densa sensualidade externada por cada um dos poros da mulher de quadris largos e pele , fazia com ela combinasse perfeitamente com o cenário dourado proporcionado pela maior estrela do sistema solar – a qual se manifestava muito cedo no horizonte, e ia se deitar contrariada horas depois atrás das montanhas. Apesar de ter exagerado um pouco no vinho na noite passada, havia se levantado extremamente disposta, principalmente depois que notou que o dia seria um daqueles especialmente quentes. O bafo abrasador que tomou conta de seu quarto quando abriu a grande janela que dava acesso ao jardim, logo depois que pulou da cama às 6h30min da manhã, fez com que gotículas minúsculas de suor começassem a surgir em seu rosto expressivo, assim como um enorme e radiante sorriso. Resolveu, então, aproveitar o bom humor e o clima gostoso para ir correr pelo bairro arborizado antes de se preparar para os vários compromissos do dia, e quando retornou, contou com a ajuda de Parker e de sua equipe de maquiadores e cabelereiros para realizar toda sua trabalhada produção. Assim que finalmente colocou os pés de unhas pintadas para fora das dependências de seu glam room, estava prazerosamente arrebatadora. era uma mulher espetacular. Como se já não bastasse o talento vulcânico e eletrizante, a cantora ainda possuía uma delirante beleza que emanava, quase como uma função involuntária de seu próprio corpo, uma fluída e natural sensualidade. O sol, por sua vez, funcionava como uma espécie de catalisador que evidenciava ainda mais os traços atraentes e exóticos da artista – além de criar uma aura quase que alegórica e mística ao seu redor. Mesmo se não fosse famosa, iria continuar, despretensiosamente, chamado atenção e virando pescoços por onde quer que passasse.

Se sentindo viva e pronta para enfrentar quaisquer que fossem os dragões de seu caminho, não demorou para deixar o conforto de sua casa em Hollywood Hills e seguir em direção ao grandioso prédio da Columbia Records, onde tinha uma reunião com seu time de marketing e relações públicas marcada para as 9AM. Quando finalmente chegou ao seu destino, acompanhada do fiel escudeiro, Parker, a cantora encontrou Colton e Jaqueline, sua publicista, já sentados com o resto da equipe na enorme mesa da sala de conferências do quinto andar. Depois de uma extensa apresentação sobre a atual conjuntura do mercado de entretenimento mundial, e uma pesquisa de clima feita especialmente para avaliar o melhor momento para o lançamento do álbum novo, concluíram que seria mais prudente soltar, juntamente ao anúncio do atraso no disco, algum tipo de conteúdo que despistassem os fãs. Era uma forma de tentar agradar o público e evitar que o real motivo por trás de tudo fosse descoberto, pois ninguém ali precisava adicionar manchetes sensacionalistas ao caldeirão de problemas já existentes. No fim, teria, de fato, que refazer as músicas que havia produzido com Miles e, portanto, precisaria do máximo de tempo que conseguisse.

– Bom, acho que por hora é isso, pessoal – enunciou Colton, ao mesmo tempo que olhava para o relógio de parede que já marcava 11 horas – Fica como lição de casa pensarmos em ações para promover esse single extra, que estava fora dos planos do álbum. Acho que seria legal produzir algum tipo de intervenção artística digital para que os fãs pudessem interagir. Nos reuniremos, novamente, no final dessa semana para debatermos qual é a mais indicada – pontuou, por fim, Buschwell em sua melhor pose de executivo, enquanto os outros profissionais do recinto acenavam em concordância.
– Em paralelo, a equipe de design e digital vai trabalhar no planejamento estratégico que esboçamos hoje para as redes sociais da . Assim que tivermos a arte pronta, compartilhamos com todos – acrescentou Jaqueline Stevens, jogando os cabelos loiros e pesados sobre os ombros enquanto falava.

Todo o time parecia animado para colocar as mãos na massa e fazer com que aquele projeto saísse impecável do papel onde havia sido esboçado. Entretanto, sentada pensativa na outra ponta da extensa mesa de reunião, sofria calada com uma forte onda de angústia que se apoderava de suas faculdades mentais. Depois que ficou decidido que apenas três meses seria ideal para refazer as músicas do álbum e, ainda, compor e gravar o single extra que serviria como distração para o público, o desespero - que havia sido amenizado pelo discurso de Buschwell no jantar da noite passada - acabou se fazendo presente novamente no coração da cantora. O fato era: ela nunca foi muito boa em trabalhar sob pressão. Desse modo, e por mais que soubesse que imprevistos como aquele era comuns na vida de qualquer musicista, acabava sempre sendo guiada por seu lado emocional e se sentia estranha por não poder realizar o quarto trabalho da carreira da maneira que idealizava ser a correta. Para piorar a situação, ainda não possuía um produtor musical para substituir Miles no projeto, e aquilo era o que mais preocupava a cantora. Poderia muito bem realizar aquela parte sozinha, como já havia feito em outras ocasiões, mas amava ter a oportunidade de dividir ideias e conceitos com uma pessoa que possuísse a mesma vibe artística que a sua. Draper era uma das pessoas mais desprezíveis a pisar com os pés na terra, mas não podia e nem conseguiria negar que ele a entendia como ninguém no que dizia respeito à musicalidade e poesia.

– E eu tenho três meses para conseguir um produtor e, ainda, terminar um disco inteiro ¬– murmurou chamando a atenção de todos, enquanto encarava o teto com a cabeça apoiada no encosto da cadeira giratória da ampla mesa de reuniões – Que comecem os Jogos Vorazes! – finalizou debochada levantando apenas três dedos da mão direita, recriando, assim, o icônico sinal de Jennifer Lawrence nos filmes da famosa franquia hollywoodiana.
– Mas mulher, desde quando você é tão bad vibes assim? Eu hein! Sai para lá pessimismo – exclamou Parker, revirando os olhos para o típico drama da amiga – Tenho certeza que em apenas um mês você já vai ter as músicas prontas, além do quinto álbum encaminhado. Você é insana...
– Você sabe que eu não funciono bem sob pressão, porra – disse, passando as delicadas mãos sob as pálpebras fechadas e pressionando levemente os dedos ali em claro sinal de frustração – Além do mais, não sei onde vou arranjar um produtor à essa altura do campeonato! – acrescentou.
, não tem pressão nenhuma rolando, fica tranquila! Confiamos muito no seu trabalho, por isso achamos que três meses é mais do que suficiente para termos algo concreto e não atrasarmos o cronograma tanto assim – comentou Jaqueline, tentando reconfortar a cliente.
– Exato! Sem contar que você terá todo o nosso suporte e vamos alinhando as coisas conforme o tempo for passando. Também já te disse que vou auxiliar na missão do produtor – Colton concordou, fazendo a exuberante mulher revirar os olhos e jogar os braços cheio de pulseiras Cartier para cima, enfim se rendendo.
Esta bien, esta bien! Vou começar a me organizar e em breve atualizo vocês – disse , já se colocando em pé para se despedir, mas recordando algo de súbito – Ah, Colton, antes que eu me esqueça. Você já falou para a Jaq sobre a ideia de colocar o Parker na equipe de relações públicas?
– Você não me deu nem tempo para isso, ¬– comentou Buschwell, antes de se virar para sua colega de trabalho e começar a explicar – Ontem no jantar que tivemos, o Boyd deu alguns insights bem bacanas que, assim como ele mesmo pontuou, seriam muito bons para possíveis gestões de crise. Acha que conseguimos um posição de meio período para ele? Tipo um estágio...
– Jaq, querida, prometo me comportar direitinho! Só não prometo te servir café, pois não faço isso nem para a ¬– murmurou Parker com sua maneira engraçada de se expressar, arrancando leves risos dos outros presentes ali.
– Mas é claro que sim! Até tínhamos comentado sobre como seria ideal uma ajuda extra – disse Stevens animada com a ideia, recebendo um aceno em concordância do homem grisalho parado ao seu lado – Se estiver tudo bem por você, podemos combinar um expediente de quatro horas em rodizio home office mesmo, assim você fica perto da e não precisa vir para cá todos os dias de Malibu – sugeriu a executiva, por fim.
– Se você fosse mais masculina, juro que te daria um beijo agora!! – Boyd gritou, logo indo abraçar Jaqueline que sorria sincera com a reação animada do rapaz – Por mim está ótimo! Quando eu começo?
– Amanhã mesmo! Podemos aproveitar que estamos juntos hoje para eu te passar todas as coordenadas. Daí também já passamos no TI para pegar um laptop com acesso aos nossos arquivos para você – pontuou a loira, ao mesmo tempo que checava o horário no discreto relógio de pulso – Podemos fazer isso enquanto almoçamos, que tal?
– Você que manda, chefe! – disse o jovem, se direcionando em seguida para – Chefe número dois, tudo bem se eu for?
– Me respeita Parker, eu sou a chefe número um, né? – brincou a cantora – Claro que está tudo bem! Se comporte e obedeça – concluiu, ganhando um dedo do meio de unha laranja neon como resposta.
– Você pode ir com a gente, se quiser – sugeriu Stevens. A artista, entretanto, não demorou para balançar a cabeça em sinal de negação ao convite.
– Não é por nada, mas prefiro almoçar sem ter assuntos de trabalho como trilha sonora – murmurou franzindo o cenho e criando uma careta com a expressão facial – Além do mais, o Colton vai me acompanhar, né? – se virou esperançosa para o empresário que, em pé ao seu lado, mal prestava atenção ao assunto.
– Sabe que para mim seria um prazer imenso, mas hoje, infelizmente, não vou conseguir sair da Columbia para almoçar – disse Buschwell sem tirar os olhos do smartphone em suas mãos – Como temos mil reuniões durante o dia, preciso resolver outras coisas nesse meio tempo. Vou comer um sanduiche da máquina do corredor.
– E esse, senhoras e senhores, é o verdadeiro glamour da vida hollywoodiana – alfinetou revirando os olhos, arrancando uma gargalhada sincera do executivo que logo deu de ombros – Bom, então vou mandar uma mensagem para alguma amiga, está meio cedo ainda. Vejo vocês mais tarde!

Para que não desse tempo de alguém acrescentar mais nada ao diálogo, a cantora logo saiu pela ampla porta de vidro da sala de reunião e seguiu pelo extenso corredor que levava à saída do andar. possuía boas relações com nomes de peso na indústria do entretenimento e era muito querida por algumas das celebridades mais famosas do mundo. O bom de Los Angeles é que todo mundo se concentrava ali e o contato era quase sempre certo. As irmãs Kardashians/Jenner, por exemplo, eram personalidades extremamente próximas de , por isso, não demorou para que ela mandasse um recado pelo iMessage para Kendall, perguntando se estava livre para um almoço tranquilo em algum restaurante cheio de pompa da cidade dos anjos.
Para que desse tempo da modelo responder antes que ela saísse do edifício da Columbia, resolveu então desviar o caminho para ir ao banheiro, onde também aproveitou para retocar o forte batom vermelho já apagado na boca e tirar, assim, a aparência fúnebre de horas trancafiada em um escritório. Quando saiu do local, algo em seu consciente fez com que seguisse para a saída do outro lado do andar, onde ficavam dispostos os vários estúdios de gravação do prédio - disponibilizados para todos os artistas contratados pelo selo que desejassem usar. Enquanto caminhava calmamente, o som abafado de seus saltos finos batendo contra o chão frio de mármore era uma das únicas coisas que podiam ser ouvidas por ali. Não demorou para que , então, alcançasse uma das últimas salas do corredor e notasse uma claridade escapando pelo comprido vidro que tomava metade da parede. Curiosa, a cantora olhou atenta e discreta para dentro do cômodo, logo abrindo um sorriso radiante e incrédulo. Aquilo só poderia ser obra dos anjos mais caridosos que o céus possuíam. Ali, sentado na cabine de comando e entretido com seus afazeres, estava Lalo Poulsen, um grande amigo que não via há tempos e que havia ajudado na produção musical de Gypsy Blood, o álbum que deslanchou de fato sua carreira. Refletindo na magnitude de tal coincidência, chegou à conclusão de que se reencontrar, por acaso, um dos profissionais mais talentosos com quem teve a honra de trabalhar não fosse um sinal divino, ela, de um modo ou de outro, faria ser. Jogando os compridos cabelos por cima de um dos ombros, a cantora deu passos largos em direção à pesada porta antirruídos onde uma placa sinalizava que não estavam acontecendo gravações no momento. Puxou, então, a avantajada maçaneta e logo entrou no recinto de cabeça erguida e mais decidida do que jamais esteve.



Los Angeles
Terça-feira, 20 de abril de 2021 – 11:30 AM



A manhã daquela terça-feira estava aprazível. A onda criativa que tomava conta do estúdio aconchegante da Columbia Records, acalentava, de maneira única, o coração ansioso e perfeccionista de . O cantor, que havia passado todas as primeiras horas do dia enfiado até as orelhas em trabalho, mal conseguia perceber a movimentação ao seu redor e o horário do almoço começando a bater na porta. Estava tão entretido, compenetrado e absorto, que as sensações de fome e sono ficavam completamente ignoradas no fundo escuro de seus pensamentos. Não poderia, simplesmente, se dar por satisfeito e largar de lado toda a inspiração que surgia em seu âmago de repente, pois ela havia demorado a chegar. Se aproveitaria até da última gota vinda da cachoeira de ideias que corria, sem controle, por cada uma das terminações nervosas presentes em seu corpo, e tiraria o melhor delas. Tudo com era daquela maneira intensa e calculada, não deixava nada pela metade. Portanto, logo depois que finalizou a gravação de uma das músicas mais cedo, e recebeu elogios de toda sua equipe, se dedicou à finalização de outras composições esboçadas em seu gasto moleskine. Além disso, também organizou uma roda de brainstorming com os músicos da banda e até, em um momento de descontração, se desafiou à cantar alguns covers onde brincou com os tons e encaixou perfeitamente o timbre de sua voz a eles. Agora, horas depois, aplicava toda sua atenção às orientações sendo passadas por Lalo, que se encontrava na sua típica cadeira confortável da cabine de controle, e explicava sobre o conceito e arranjos que havia pensado para o álbum do rapaz.

– Acho que podemos investir em um instrumental mais épico – murmurou Poulsen, colocando para tocar alguns samples que esbanjavam a musicalidade típica do Jazz e do Funk dos anos 60 – A referência que você trouxe do Donald Byrd e do Herbie Hancock hoje despertou algo dentro de mim. Suas letras são tão poéticas, que fiquei pensando que iriam se encaixar perfeitamente em uma sonoridade mais bruta e rítmica, como essas saindo pelas caixas de som agora. Assim criaríamos um contraste bacana entre seu lado letrista e performista. O que acha? – completou confiante, enquanto o mais novo abria um sorriso sincero em sua direção.
– Eu cheguei nesse mesmo raciocínio na noite passada, depois de imergir nos vídeos que te falei. E hoje, quando adicionamos os instrumentos de sopro ao vivo na gravação, eu só tive mais certeza que essa é realmente a linha que quero seguir para esse álbum – concordou , ficando feliz com a sinergia que possuia com seu produtor musical.

Aquele tipo de harmonia artística era um divisor de águas na hora de criar. Se você, como interprete e compositor, não está na mesma página que sua banda e, principalmente, que o seu produtor musical - responsável pela gestão de todos os pontos da gravação – as coisas simplesmente não iriam funcionar e a chance de dar ruim no final era gigantesca. Por isso, dava muito valor à Lalo, ele o entendia como ninguém.

– Sucesso então, malandrão! – exclamou feliz o homem asiático – Já que você tem as reuniões agora a tarde, vou aproveitar para entrar em contato com alguns instrumentistas que conheci ao decorrer da vida, para ver se rola complementar a banda com mais alguns instrumentos.
– Tranquilo! Amanhã vou trazer uma outra letra para você dar uma olhada, estou confiante que termino ela até o final do dia, entre um e outro momento livre que tiver – disse o cantor animado com a ideia de finalizar mais uma canção ainda aquela semana – Depois alinhamos a estrutura sonora juntos por aqui.

Antes que o mais velho tivesse a chance de responder, entretanto, Mitch e o resto da banda atravessaram a porta que dividia aquele cômodo do grande estúdio, onde os respectivos instrumentos estavam armazenados e aguardavam pelo próximo momento em que seriam tocados. Logo, os outros dois homens cessaram o assunto e deram espaço para que o guitarrista se pronunciasse.

– Cara, já são quase meio dia e estamos varados de fome – exclamou o rapaz, enquanto passava as mãos por cima do tímido estômago – Nós vamos sair para almoçar agora. Querem ir?
– Valeu, irmão, mas não estou com muita fome. Prefiro ficar por aqui mais um tempo antes de ter que sair – murmurou , logo direcionando o olhar para o produtor que meneava a cabeça em concordância.
– Ainda está meio cedo para eu ir comer... Mas obrigado pelo convite! – disse Poulsen, por fim, tranquilo.
– Sem problemas! Estamos indo, então. O fez a gente levantar antes do sol raiar hoje, por isso a hora de almoçar teve que ser adiantada também – alfinetou Mitch brincalhão, recebendo o dedo do meio do astro como resposta. Seguindo rindo em direção à saída acompanhado dos outros, o musicista logo sumiu do campo de visão da dupla que ainda se encontrava ali.

Aproveitando a interrupção feita pelos amigos, se levantou da cadeira onde estava e começou a recolher os diversos papéis e partituras jogados pela mesinha localizada no centro do cômodo, logo indo se sentar no confortável sofá preto ao canto. Lalo, por sua vez, continuava com a atenção totalmente voltada para o computador disposto no painel de controle, enquanto bebericava com calma algum de seus tradicionais chás milagrosos da caneca branca em suas mãos. Entretidos com os trabalhos que desempenhavam, cada um em seu canto, os dois homens continuaram em um confortável silêncio por bons minutos, onde era possível ouvir apenas as respectivas respirações concentradas. A composição esboçada pela metade nas folhas pardas do moleskine de , era lida e relida com afinco pelo cantor compenetrado e decidido à completa-la. Porém, sempre que começava a passear com o lápis pelas estrofes, o homem logo desistia e apagava com força o grafite usado com o auxílio de sua borracha já bastante velha. Se virou para Poulsen, então, e pensou em pedir sua opinião à respeito da escrita já pronta ali, entretanto, antes que conseguisse emitir qualquer som, foi impedido pela pesada porta antirruído do estúdio se abrindo.
O conceito de destino sempre foi algo muito engraçado para , já que nunca foi uma pessoa ligada à assuntos exotéricos, muito menos nos que se baseavam em misticismos. Contudo, naquele momento, se pegava questionando todas suas crenças e convicções graças a repentina sensação de familiaridade que tomou conta de seu peito, depois que parou para observar a imponente figura que se fazia presente no recinto. Assim que atravessou a entrada do estúdio, caminhando lentamente e se sustentando em finos saltos grifados, a suntuosa mulher fez com que a respiração de , por uma fração de segundo, falhasse e seu coração abandonasse a caixa torácica diretamente para a boca. Os cabelos longos e escuros jogados em cascata para um único lado, deixava o pescoço e ombro da bela moça deliciosamente expostos, enquanto o largo quadril se mexia ritmado de acordo com as passadas decididas que dava. A roupa, baseada em uma longa saia com fenda lateral e um top de alças finas que se cruzavam na frente, fazia com que toda a dourada pele de seu abdômen, perna, busto e braços, ficassem dissimuladamente visíveis. Forte e arrebatador, o vivo batom vermelho na boca carnuda, por sua vez, arrematava com esmero toda a aerosfera irresistível e sensual que envolvia aquela mulher, assim como os olhos de cigana oblíqua e dissimulada que enfeitiçavam e enlouqueciam até o mais comedido dos homens. Como se não bastasse, bonitas tatuagens também marcavam e cercavam de maneira quase poética algumas partes do voluptuoso corpo feminino. O cantor sentia o sangue borbulhar por dentro de cada uma de suas veias e não conseguia desviar a atenção da jovem sorridente, que o fez parar por completo tudo que fazia anteriormente. Sentia que seu atraente rosto não lhe era estranho, porém não saberia afirmar, simplesmente pelo fato de não se lembrar de um dia já ter visto uma figura tão deslumbrante e fascinante quanto aquela. De uma hora para outra, o ar condicionado do estúdio já não servia para nada, e a atmosfera densa que se criou ali fez com que percebesse pequenas gotículas de suor frio surgindo em sua testa. Antes que pudesse tomar qualquer atitude, entretanto, a voz grave de Lalo se fez audível, o tirando abruptamente de sua bolha de pensamentos pecaminosos.

– Caralho, não pode ser! Eu estou delirando – Poulsen praticamente gritou, logo se levantando de sua cadeira e indo abraçar a mulher um pouco mais alta que ele – , o que você está fazendo aqui?
– Porra, Lalo, você sabe que a Columbia é minha gravadora – disse a jovem e uma onda de entendimento tomou conta de de repente. Mas é claro! A sensação familiar na presença daquele espetáculo em forma de mulher se dava pelo fato de que ela era, nada mais, nada menos, a própria . Nunca havia a conhecido pessoalmente e também não costumava ouvir suas músicas, mas sempre via sua feição decidida e poderosa estampada em revistas ou ao redor das redes sociais. Se imaginasse que ela fosse daquele jeito ao vivo e a cores, e ainda que era contratada do mesmo selo que o seu, teria dado um jeito de se conhecerem muito antes.
– Eu sei, doidona! Quero dizer o que você faz aqui hoje, esse horário, e ainda por cima na minha sala de gravação... Pelo que me lembro, você estava se escondendo em Malibu – explicou o produtor, rindo da feição debochada da artista em sua frente.
– Burocracias, corazón! Posso dizer que o destino também – murmurou , fazendo com que um calafrio corresse solto pela espinha de no momento em que ela se virou para ele pela primeira vez, o encarando com os expressivos e brilhantes olhos – Como eu sou mal educada, nem me apresentei... É um prazer, meu nome é ! – finalizou solicita, estendendo a delicada mão de unhas longas para o cantor que não demorou para retribuir o gesto.

Ao contrário de , a mulher reconheceu a figura imponente do rapaz - e tudo que vinha anexado à ela - no momento em que posou os olhos sobre ele. Os tabloides, apesar de sensacionalistas, não exageravam nenhum um pouco nas descrições detalhadas que faziam da beleza de . Ele era suntuoso. Transmitia calor sem nem ao menos tocar e emanava de longe um aroma amadeirado adocicado que atingia com força e confundia os sentidos. A impressão de que a qualquer momento iria se afogar sem socorro nas profundas íris do cantor não abandonava o ser de nem por um segundo, a qual sustentava o olhar firme do outro resoluta. A camisa florida que ele usava, com os primeiros botões abertos, deixava expostas algumas partes das tatuagens que possuía pelo peito, além de instigar fascínio com as curvas naturais de seu corpo ao respirar. era bonito sem ao menos tentar e jamais ignoraria este fato.

– Sei disso! Inclusive, o prazer é meu – exclamou com toda sua típica educação, ao mesmo tempo em que sentia a textura macia da pele da garota que transmitia pequenas descargas elétricas pela extensão de seu braço – Eu sou o .
– Também sei disso – brincou , fitando com interesse o belo rosto do homem parado em sua frente – Já fui em um show da sua ex-banda inclusive, mas estava meio bêbada e não me lembro de muita coisa – confessou a mulher divertida, fazendo com que os mais velhos soltassem risadas sinceras encorajadas por sua espontaneidade.
– Aposto que a experiência foi muito melhor do que o esperado, então – disse ainda com um sorriso no rosto e sustentando, sem desviar, o poderoso olhar de .
– Foi bem engraçado, não posso negar! Tinha acabado de chegar em LA e o meu único amigo aqui, até então, havia ganho os ingressos de um paquera que fazia parte da organização – explicou a cantora, se lembrando do dia em que bebeu além da conta com Parker atrás da cafeteria onde trabalhavam e seguiram para o show que aconteceu no STAPLES Center logo depois. Não sabiam nenhuma música, muito menos quem era quem naquele palco, mas aproveitaram a noite como ninguém e Boyd ainda garantiu uma transa – Muito louco eu estar com aqui com você agora... Provavelmente tenho alguma foto desse data perdida nas redes sociais.
– Ela já deve ter sido encontrada pelos seus fãs clubes, fica tranquila – murmurou Lalo, fazendo com que os dois artistas ao seu lado cortassem o contato visual mútuo e se virassem para ele instantaneamente – Quanto tempo que eu não te via, estava com saudades, sua maluca!
– A vida está caótica, Poulsen! Mas te encontrar aqui hoje foi um sinal divino – exclamou , com a voz rouca se arrastando dramática. Antes de continuar, entretanto, uma ficha caiu e parou por um segundo para examinar o cômodo onde se encontrava. No box de vidro ao lado, diversos instrumentos estavam espalhados em um claro sinal de que gravações ocorriam ali frequentemente. Já na mesa de centro, algumas partituras organizadas se faziam presente, assim como um moleskine aberto com um lápis apoiado em seu meio. A estação de trabalho de onde Lalo se levantou para cumprimentá-la, por sua vez, também estava remexida, como se alguém passasse horas a fio por ali – Aliás, não sabia que você estava trabalhando aqui na Columbia – concluiu a cantora, por fim.
– Na verdade, estou trabalhando com o . Venho o acompanhando na carreira solo praticamente desde que ele saiu da banda, né cara? – respondeu o produtor, logo encarando o amigo que concordava com a cabeça – Montamos acampamento por aqui, pois estamos no processo de construção do terceiro álbum de estúdio dele.
– Não era o que eu idealizava, mas está dando para o gasto – completou , observando a mulher sorrir compreensiva, como se ela dissesse que entendia seu sentimento.
– Com o Lalo na sua cola, não tem como dar errado! Mas você já sabe disso... – disparou , ao mesmo tempo em que soltava uma piscadela na direção do astro que sentiu, instantaneamente, as mãos ficarem suadas e frias – Eu estou atrapalhando algo? Sou meio sem noção e nem percebo, posso sair e deixar vocês tranquilos se for o caso.
– Não viaja, , você nunca atrapalha – Poulsen respondeu enfático, sorrindo para a jovem. O produtor gostava genuinamente de . Com a vida conturbada de Los Angeles, acabou se distanciando mais do que o planejado da artista, a qual também saiu das ruas caóticas da cidade dos anjos em busca de mais calmaria nas areias de Malibu.
– Desculpe perguntar, mas da onde vocês se conhecem? – com a curiosidade borbulhando por dentro, logo perguntou interessado, querendo saber mais sobre a relação de seu produtor com a mulher que, com certeza, já havia visitado muitos de seus sonhos.
– Eu produzi o debut álbum da , o Gypsy Blood, em 2016. Um ano antes de te conhecer, na verdade – explicou Lalo, sorrindo com a lembrança.
– Por isso não é de surpreender que eu tenha uma carreira hoje em dia – disse , elogiando indiretamente o amigo. Claro que o mérito do sucesso de seu primeiro trabalho era totalmente dela, mas a maneira que Poulsen contribui para aquele projeto foi unicamente especial. Era muito grata pelo modo que ele lidou com tudo na época e como se comportou como um sublime mentor.
– Palhaça! Se você não tivesse a voz e o talento que tem, não haveria produção que salvasse – retrucou o profissional, arrancando uma espontânea gargalhada da cantora, que fechou os olhos e jogou a cabeça para trás em puro divertimento. Se naquele momento ela pedisse o mundo para , ele com certeza daria. Estava encantado.
Lalo, por sua vez, não mudava. Podia passar o tempo que fosse e ele iria continuar sendo o mesmo homem de humor ácido e tiradas rápidas de sempre. havia o conhecido quando participou de uma faixa do rapper Drake, um pouco antes de cair de cabeça no projeto do seu primeiro álbum. A sinergia entre os dois foi tão absoluta, que a cantora não pensou nem um minuto a mais sobre chamá-lo para participar da construção de Gypsy Blood. Por mais que ele estivesse com no momento, ela simplesmente não podia deixar de sonhar em tê-lo novamente por perto, principalmente agora.
– Bom, já que estão livres, topam me acompanhar no almoço? Gostaria de falar com você, Lalo... – propôs e se sentiu mais do que tentado em aceitar o convite, porém, achou melhor deixar que os velhos amigos colocassem o papo em dia sem interrupções.
– Seria um prazer, mas não quero atrapalhar o reencontro de vocês – o cantor respondeu educado, exibindo as charmosas covinhas ao lançar um sorriso sincero para a jovem parada em sua frente – Além do mais, preciso terminar algumas coisas por aqui antes de ter que sair mais tarde – murmurou encarando o produtor.
– O está todo atrapalhado hoje, mas eu estou mais do que ao seu dispor – disse Lalo animado, enquanto dava leve tapinhas nas costas do amigo ao seu lado.

Observando os homens interessada, logo sorriu em concordância. Antes que pudesse dar continuidade à conversa, entretanto, lembrou-se de súbito que havia mandando mensagem para Kendall e não sabia se a mesma havia respondido. Com a expressão já preocupada, e batendo com a palma da mão na própria testa, a mulher alcançou o celular na bolsinha que trazia consigo e notou as mensagens da modelo, assim como algumas ligações perdidas. Dado sua atual situação, e a incrível coincidência de trombar com Poulsen momentos depois de uma reunião de trabalho mais do que tensa, não poderia simplesmente ignorar os sinais do destino. Com certeza, sua amiga entenderia.

– Está tudo bem? – questionou , notando as sobrancelhas franzidas da moça que mexia decidida em seu smartphone.
– Ah... está sim! Eu só me esqueci de uma coisa e preciso resolver antes de irmos – explicou , se virando em seguida para Lalo – Vou fazer uma ligação e volto já.

Assim que terminou de falar, a mulher seguiu em direção à pesada porta que dava acesso ao box onde estavam os instrumentos da banda, e entrou prontamente já com o celular apoiado na orelha. O cantor, por sua vez, sem ao menos perceber, acompanhou toda a movimentação da jovem com os olhos vidrados em sua figura, sendo arrancado com força de sua bolha pela risada debochada do produtor.

– Incrível como você nem disfarça, cara – murmurou o mais velho, enquanto se divertia com o semblante do rapaz – Limpe a baba antes que ela manche o tecido fino da sua camisa, Gucci Boy.

Soltando um riso nasalado, o jovem balançou a cabeça em descrença enquanto bagunçava, ainda mais, os curtos cabelos com os dedos compridos e cheios de anéis. Encarou o amigo por poucos segundos, logo voltando sua atenção para a figura curvilínea de .

– Malandro, se ela quisesse pisar na minha cara com aquele salto agulha, eu deixava sem pensar duas vezes – respondeu sincero, sem sentir necessidade de fingir costume – Espero que esse microfone esteja desativado, aliás – acrescentou o cantor brincalhão, apontando para a aparelhagem que permitia a passagem de som da cabine de controle para dentro do box.
– Isso porque você ainda não a presenciou cantando – pontuou Lalo contemplativo, ignorando a preocupação inocente do mais novo. Subitamente, quase como um sopro, uma curiosidade genuína e fluida brotou no coração de . Para que Poulsen falasse algo como aquilo, certamente performando se compararia facilmente à uma experiência transcendental, aquelas que geralmente são descritas como de quase morte e chegada ao paraíso.
– Aliás, você nunca me falou que já tinha trabalhado com ela – ponderou , em seguida, ainda com o olhar preso na mulher que andava de um lado para o outro enquanto conversava ao celular.
– Nunca achei que fosse te interessar saber disso – respondeu o produtor, sem ceder muita atenção ao assunto – Além do mais, quando eu e você nos conhecemos, ela ainda estava começando na carreira. O nome não tinha o peso que tem hoje em dia – disse, enfim, dando de ombros.
Notando através da vidraça da cabine que havia finalizado sua ligação, decidiu não dar continuidade à conversa e se calar. Com um sorriso estampado no rosto bonito, a cantora logo se encontrava novamente no recinto de onde havia se retirado momentos antes.

– Desculpe! Tinha convidado uma amiga para almoçar antes de encontrar vocês e precisei desmarcar – explicou – Vamos, Lalo? – questionou, por fim.
– Claro, já estou pronto! Se quisesse levar sua amiga conosco, não teria problema algum – comentou o produtor, ao mesmo tempo que alcançava seu celular na mesa de controle, assim como sua carteira.
– Hoje somos eu e você, Poulsen! Você não me escapa – a cantora disparou divertida, colocando uma mão no ar para que o homem asiático pudesse dar um tapinha no melhor estilo high five – Uma pena você não poder nos acompanhar, ! Mas foi um prazer te conhecer – murmurou se dirigindo ao cantor que continuava ali parado.
– Tenho certeza que teremos outras oportunidades – respondeu sem querer parecer abusado, mas não conseguindo conter o ar galanteador que amparou suas palavras. Sustentando os olhares do rapaz, lançou seu melhor sorriso ladino e acenou em concordância.
– Te vejo amanhã, cara – Lalo, por sua vez, se pronunciou de súbito, já seguindo para a saída do local. A mulher, então, acompanhou o mais velho e, antes de atravessar por completo a porta da sala, apoiou a cabeça em seu ombro esquerdo e lançou um último olhar brilhante e letal na direção de . Logo que sumiu do campo de visão, o cantor pode soltar o ar denso que, até aquele momento, não havia percebido que estava preso em seus pulmões.

Se aconchegou novamente no amplo sofá preto do recinto e ficou por alguns minutos com a cabeça apoiada no encosto, apenas curtindo o silêncio e encarando o teto. Se sentia como um adolescente deslumbrado, mas não podia conter a vontade de pesquisar mais sobre nas redes sociais. Por isso, alcançou o celular na mesa de centro e acessou o aplicativo do Google, logo digitando o nome da cantora na barra de pesquisas. Milhares de matérias de revistas fashionistas e de fofoca surgiram na pequena tela do smartphone, assim como sua página na Wikipédia e alguns de seus clipes musicais armazenados no Youtube – o que acabou, enfim, chamando mais a atenção de . Clicou, então, em um vídeo intitulado Be Honest, o qual, sem demora, começou a ser reproduzido em um cenário que fazia referência à um apartamento bem antigo durante um dia quente de verão. Poucos segundos depois, a melodia da canção, que lembrava muito uma pegada reggaeton, se fez presente, assim como o timbre imponente da cantora e sua figura magnifica. Com os fones nos ouvidos e os olhos grudados no aparelho, se mantinha compenetrado acompanhando o conjunto de som e imagens que exibia a cantora hora deitada em um sofá, vestida em um maiô branco cavado com uma viseira transparente na cabeça, hora se divertindo lindamente em um mercado típico do centro de Londres, onde trajava um vestido verde neon com saltos pink. Mudando mais algumas vezes em seguida, a fotografia do clipe também exibiu a artista em um look futurístico enquanto pilotava uma moto, além de nadando em uma piscina cheia de luzes e efeitos. A maneira que ela se movia e cantava era enlouquecedora. Expressões faciais eram impregnadas com a hipnotizante sensualidade que a mulher carregava, sem esforços, em cada um de seus poros. Ali, não só a beleza de era digna de fascínio. A construção da composição era incrível por si só. se pegava, mais uma vez, questionando o motivo que o levou nunca ter dado a devida atenção ao trabalho de . A arte que ela criava era exatamente o que gostava de consumir, era inspiradora. Mais uma vez, sentiu os pelos da nuca se arrepiarem quando o vídeo finalizou focado na figura da mulher deitada de bruços no mesmo sofá – e maiô – do começo do clipe.

Sem delongas, decidiu migrar para o Instagram e logo digitou o inconfundível nome de celebridade da moça na barra de pesquisas. Não demorando para encontrar o perfil verificado, notou que muitas pessoas em comum à seguiam - inclusive amigos próximos -, e que sua contagem de followers era tão grande quanto a sua própria. Foi deslizando o feed com o polegar e não deixou, também, de se atentar ao fato de que todas as publicações da mulher eram completamente sincronizadas e obedeciam uma espécie de conceito - o que para alguém com traços de personalidade perfeccionista era algo agradável de se admirar. Clicou em algumas imagens e foi impossível não se sentir ainda mais atraído pela beleza sui generis de . Perdeu bons minutos apreciando um clique onde ela posava vestindo um pequeno biquíni amarelo, em frente à um enorme espelho de moldura dourada antiga, como também em um retrato ‘close up’ do seu rosto maquiado. Entretanto, foi realmente fisgado por um post que aparentava ser um ensaio abstrato para alguma revista ‘artsy’. Ali, surgia com os fios amarrados em um coque bufante no topo da cabeça, onde a franja foi jogada delicadamente em sua face bonita enquanto trajava um longo vestido preto e sensual. Como se não bastasse isso, a vestimenta ainda contava com uma enorme fenda na coxa direita e era inteiramente aberta nas costas, chegando até mesmo a mostrar um pouco do início da bunda redonda e arrebitada da artista. Encarando a câmera de lado, as linhas das encíclicas pernas de ficavam ainda mais expostas graças aos enormes saltos de acrílico transparente que usava, e sua pele dourada resplandecia quase como o próprio sol. não saberia dizer quanto tempo exatamente passou encarando aquela única imagem. Não pode conter o impulso que o invadiu quando resolveu curtir a publicação dando dois toques rápidos na tela de seu smartphone para, depois, mudar o foco e ir direto aos stories publicados. O primeiro deles se baseava em um vídeo rápido de folhagens verdes, com alguns raios de sol escapando por entre seus galhos enquanto tocava ‘Run To The Sun’ ao fundo. Já o segundo, era a capa da música ‘He Can Only Hold Her’, da Amy Winehouse, que foi compartilhada diretamente do Spotify de . Ainda guiado pela curiosidade, então salvou o nome da playlist da cantora para checar mais tarde e, finalmente, clicou no botão de ‘seguir’ e bloqueou o aparelho, jogando o mesmo para longe em seguida.

Enfim voltando a atenção para o moleskine, a tempos largado na mesa de centro, o cantor acabou passando as próximas duas horas sem que nada se concretizasse nas infames folhas pardas. De novo.



Los Angeles
Terça-feira, 20 de abril de 2021 – 13:30 PM



Poucas coisas levavam até o céu. Uma delas, sem dúvidas, eram os tacos de ervas verdes do restaurante Folia, em Beverly Hills. Quando saiu mais cedo da Columbia Records acompanhada de Lalo, a estrela sabia exatamente onde iria almoçar com o amigo de longa data naquele dia especial. Foram certeiros em direção ao Four Seasons, hotel que abrigava o bistrô, e se deliciaram com o cardápio inteiramente plant based criado pelas mãos do chef vegano das estrelas, Matthew Kenney, enquanto riam e se atualizavam com as novidades da vida um do outro. Apesar da felicidade que esbanjava, a apreensão que cercava era inevitável. Sentia no fundo do palpitante coração a certeza de que aquela era sua única chance de começar a colocar os parafusos – que ela mesmo havia soltado – no lugar, e não queria, de maneira nenhuma, estraga-la. Então, assim como costumava fazer sempre que ia até o estabelecimento, pediu um dos vinhos orgânicos que mais gostava da cartela e se esforçou para espantar os fantasmas grotescos de sua consciência. No fim, conseguiu realizar uma refeição saudável e feliz, regada à goladas da bebida escarlate, além de risadas espalhafatosas arrancadas de dentro de si pelas histórias hilariantes de Poulsen. Depois de um tempo, já com as respectivas sobremesas quase acabando, começou a relembrar com o produtor momentos icônicos dos meses de gravação de seu primeiro disco, fazendo com que as pessoas das mesas ao lado olhassem assustados para eles graças ao expressivo volume de contentamento.

– Porra, aquele maluco é insano! Lembra quando a gente achou que ele tinha desaparecido ou morrido, sei lá, e ele só tinha decidido dirigir até Albuquerque sem motivo aparente? – comentou Lalo, logo dando mais uma garfada em sua torta cremosa de coco, ao mesmo tempo que se contorcia na cadeira recordando do exato momento.
– Pior! Não foi nem sem motivo aparente, na verdade ele quis conhecer a cidade por que estava assistindo Breaking Bad na época – respondeu a cantora, limpando com cuidado a umidade no canto dos olhos com a ponta dos dedos finos – Ficou uma semana foragido logo no meio da produção do álbum. O Albert é a pessoa mais chapada que eu conheço! E o melhor é que ele nem precisa de drogas para ser assim. Ele simplesmente... é.
– Caralho, pode crer! Tinha esquecido total desse detalhe e ele muda completamente tudo na história – murmurou Poulsen divertido, batendo com a mão rechonchuda na própria testa antes de continuar – Por onde ele anda hoje em dia, aliás?
– Anda perdido por Londres, aquele noia! Foi para lá trabalhar em um projeto com o Skepta tem um mês e meio – explicou se lembrando do guitarrista de sua banda que, além de tudo, também era um de seus melhores amigos – Mas já me avisou que chega amanhã por aqui.
– Po, irado! Eu gosto muito do Albert, podemos ver de combinar alguma coisa... Toda sua banda é a mesma daquela época? – questionou Lalo.
– Sim, senhor. Todos ali são mais do que minha equipe, você sabe... são meus irmãos. Por mais brega que seja, eles são minha família longe de casa – disse , logo refletindo em uma ideia de súbito. A festa organizada por Parker ainda iria acontecer e era a oportunidade perfeita de reunir todo mundo, afinal – Aliás, podemos marcar não, já marcamos! O Al já está voltando da Europa para conseguir chegar à tempo da festa que vou promover na minha casa essa sexta-feira. Você está mais do que intimado à comparecer. O resto do pessoal também vai estar por lá. Não aceito um não como resposta, logo aviso!
– Você não muda nunca! Claro que vou, , suas festas são as melhores sempre – o homem respondeu com um sorriso tenro nos lábios – Vou ver se consigo sair mais cedo do estúdio para chegar em Malibu com mais calma.
– Ih, relaxa guapíssimo. A festinha vai rolar na minha casa em Hollywood Hills mesmo. Inclusive, vai acontecer justamente para inaugura-la, já que comprei tem pouco tempo – explicou a cantora depois de finalizar o conteúdo da taça de cristal que segurava em uma das mãos.
– Tinha me esquecido por um momento que estou conversando com uma rich bitch – Poulsen brincou, causando risos em , que logo estralou os dedos e disparou um Periodt debochado – Do jeito que você falou, achei que se tratava de um evento para comemorar algum trabalho novo. Ouvi falar que você está para lançar mais um álbum e ele já é um dos mais aguardados do ano... Diva faz assim, né?

Apesar da boa intenção nas palavras, a mera menção do dito disco, carregada de inocência por parte do amigo que de nada sabia, fez com que a palpitante felicidade de vacilasse e toda sua postura endurecesse de repente. Não sabia como trazer o assunto à tona durante um almoço tão agradável e a abertura espontânea dada por Lalo à pegou, de certa maneira, desprevenida. Suspirou derrotada e se ajeitou na cadeira de maneira mais rija e tesa, uma forma de se proteger antes de reviver todos os problemas recentes.

– Você lembra que quando nos encontramos mais cedo eu disse que só podia ser uma obra divina do destino? – questionou e o amigo logo concordou, já com as grossas sobrancelhas franzidas em sinal de confusão pelo repentino tom sério usado pela jovem sempre tão alegre – Então, é porque realmente acredito que tenha sido. Momentos antes de te avistar sentado naquela cabine de controle, eu estava em um reunião mega tensa com a minha equipe corporativa, pois vou precisar atrasar o lançamento do álbum – disse de uma vez, ao mesmo tempo que já acenava para o garçom trazer mais uma garrafa de vinho.

Antes com as costas tocando o encosto confortável da cadeira, Lalo logo se impulsionou para frente e apoiou os cotovelos na branca toalha que cobria a mesa de madeira. Com os olhos arregalados, se sentiu tenso pela amiga, a qual era uma notória workaholic e colocava toda sua alma e energia nos projetos que tocava.

– Como assim, cara? O que aconteceu? – preocupado, Poulsen logo perguntou, alcançando a mão da mulher em sua frente para um afago de apoio gentil.
– Aconteceu o meu péssimo gosto para homens – disparou debochada, soltando um riso nasalado antes de continuar – Estava meio que namorando o cara que produziu o CD, mas acabamos terminando e, em resumo, ele me proibiu de usar a propriedade intelectual dele.
– Porra , mas é exatamente para evitar esse tipo de coisa que existem contratos. Ele não assinou o dele? – murmurou Lalo incrédulo.
– Ai que tá’ a merda! Por minha culpa, acabamos demorando para tocar essa parte burocrática com ele e quando o Colton foi procurá-lo para resolver as coisas, o mano já me odiava e soltou essa bomba nuclear do tamanho da ilha de Madagascar na minha cabeça – concluiu , notando o garçom se aproximar com a nova garrafa do liquido escarlate que havia pedido. Estendeu, então, sua taça para que ele a servisse e, quando já se aconchegava na cadeira novamente, percebeu uma moça, que aparentava ter uns 16 anos, chegando com cautela perto da onde estava sentada. Lalo também avistou a garota e segurou à replica ao comentário de no início de sua garganta. Não correria o risco de alguém ouvir a conversa sem querer e o assunto acabar estampado nos destaques dos principais sites de fofoca ao redor da internet.
– Com licença, desculpe te incomodar , mas sou muito sua fã e gostaria de saber se posso tirar uma foto com você? – tímida, a jovem murmurou se sentindo apreensiva com o que a estrela poderia responder. Sorrindo sincera, logo se levantou e abraçou carinhosa a menina, que foi pega de surpresa.

Poderia estar vivendo em um inferno na Terra, mas se tinha uma coisa que a artista jamais faria, essa coisa era destratar qualquer tipo de pessoa que admirasse seu trabalho. No final das contas, era por causa deles que podia chamar de profissão aquilo que mais gostava de fazer.

– Mas é claro, my love! Como você se chama? – a cantora questionou interessada, e a mocinha logo se sentiu mais confortável perto da celebridade graças à sua educação sem medidas – Lalo, pode fazer esse clique para nós, please sweetie? – disse se dirigindo ao produtor que de pronto concordou.
– Meu nome é Meghan – respondeu já se endireitando ao lado da ídolo e sorrindo na direção do celular nas mãos do homem asiático – Eu te acompanho desde quando você participou como convidada da turnê da Rihanna. Acho seu trabalho incrível!
– Fico muito feliz com todo esse carinho, significa muito para mim! – a mulher exclamou solicita, já virada de frente para a fã – Foi um prazer te conhecer, Meg.
– O prazer foi meu! Melhor dia da minha vida. Muito obrigada, – disparou a jovem animada, acenando em despedida e logo saindo do campo de visão da dupla ainda parada em pé. Voltando a encarar o amigo, a artista então suspirou e se jogou novamente no macio assento que estava momentos antes.
– Eu sei que você deve estar pirando por causa desse atraso, mas essa menina de agora é só um pequeno exemplo do mar de pessoas que são completamente devotas à você – Poulsen pontuou derepente, chamando novamente a atenção de – Tenho certeza que o Colton dará um jeito nisso!
– Na verdade já meio que chegamos em uma solução... – sussurrou cautelosa, já se preparando para jogar o restante das cartas na mesa.
– Ah é? É porque você está surtando ainda? – questionou Lalo, com todo seu involuntário deboche, enquanto a cantora revirava os olhos e soltava um longo suspiro nasalado.
– Porque vou precisar refazer o álbum inteiro em apenas três meses – se sentindo derrotada, a jovem então confessou ao mesmo tempo em que virava um pouco do conteúdo em sua taça e dava mais uma garfada na sobremesa que ainda persistia no pequeno prato de porcelana branca – Antes que você tente me acalmar de novo, devo acrescentar a informação de que não tenho sequer um produtor decente para incluir no projeto. Quando te vi hoje pensei que as coisas iam finalmente se encaixar, mas você está com o e eu não sei mais o que fazer... – concluiu, por fim, o pensamento que rodeava sua mente desde o momento em que saiu da Columbia Records mais cedo.

Era verdade, estava com agora. Entretanto, Lalo jamais seria capaz de virar as costas para uma das melhores pessoas que já havia conhecido na vida. era rodeada de sentimentos bons. A energia que emanava de si era palpitante e ela realmente conseguia conquistar tudo e todos por onde passava sem ao menos se esforçar. Poulsen nunca foi imune ao poder da mulher, e tinha plena consciência disso. Ela era justa e se importava com o próximo, o que acabava inspirando quem a cercava à agir da mesma maneira.

, você sabe que sou incapaz de te negar qualquer tipo de ajuda, não sabe? – sorrindo compreensivo em direção da moça, Lalo tentava passar confiança através de sua fala – Vou pensar em alguma solução e vamos resolver isso juntos. Mas, pelo amor de Deus, para de pirar! Não tem motivo algum para você ficar assim, não é o fim do mundo.
– Ai, eu sei que não é, mas não consigo evitar sentir muita frustração e raiva... O repertório do disco estava simplesmente perfeito – ponderou , enquanto gesticulava freneticamente com as mãos.
– Normalmente você faz o papel da esotérica nessa amizade, mas vejo que eu vou precisar assumir este posto hoje – brincou o produtor – Tudo acontece por um motivo, ! Se a vida chegou à este momento de hoje, é porque o destino realmente está querendo te dizer algo. No final das contas aquelas músicas perdidas não te pertenciam, por isso o universo as levou. O que vier daqui para frente vai ser muito maior e significativo... Ou melhor, inteiramente seu.

Acolhendo novamente as mãos do amigo nas suas, a cantora sorriu agradecida para o homem em sua frente. Realmente, os desencontros de outrora estavam começando a virar de ponta cabeça a rotina já há muito tempo conhecida, e tudo aquilo só podia ser algum tipo de recado de forças magnânimas. decidiu, então, que não iria mais questionar o porquê, mas sim que iria aceitar e abraçar qualquer que fosse o desafio em seu caminho futuro. Era o que tinha que ser feito, afinal.
Desviando o olhar por um segundo, a artista então vislumbrou rapidamente o horário na grande tela de seu smartphone, o qual estava apoiado em cima da ampla e confortável mesa que usaram para almoçar. Se não agilizasse, ia acabar chegando atrasada em seu compromisso com os representantes da Comic Relief. Soltando as mãos de Lalo, enfim, alcançou o aparelho e mandou uma curta mensagem para Parker, perguntando se ele já estava de volta ao prédio da gravadora e informando que já estava à caminho.

– Se eu pudesse ficaria a tarde inteira conversando com você, corazón! Mas preciso voltar para a Columbia, tenho mais algumas reuniões hoje – pontuou e Poulsen concordou, já sinalizando para o maitre que gostaria de fechar a conta.
– Não tem problema! Nós temos o celular um do outro, e vamos nos falando – disse o homem – Vou pensar em uma solução para a questão que você me trouxe e te aviso – finalizou, prestativo.

Sem delongas, a dupla logo se encontrava do lado de fora do estabelecimento que, ao contrário da hora em que chegaram, estava abarrotado de agressivos paparazzi. Caminhando depressa, e Lalo conseguiram entrar no carro sem grandes problemas e chegaram ao seu destino em poucos minutos. Poulsen não era o tipo de pessoa que fazia promessas vazias, e sabia disso. Por isso, a estrela conseguiu ficar mais tranquila para sobreviver ao restante daquele dia que, por mais incrível que parecesse, ainda não havia cessado com suas surpresas.



Los Angeles
Terça-feira, 20 de abril de 2021 – 15:30 PM



– O almoço no Folia foi bom, margarida? – sorrindo debochado, Parker murmurou assim que viu atravessar a grande porta de entrada do escritório de Colton, onde se encontrava esperando pela cantora na companhia do executivo e da publicista, Jaqueline.

Assim que pisou nas dependências da Columbia Records, se despediu rapidamente de Lalo e seguiu diretamente para o andar onde ficava localizada a sala de seu empresário, pois havia combinado de se reunir à sua equipe antes de seguirem juntos para a reunião marcada.

– Foi ótimo! Você sabe que sou apaixonada pelos ‘green tacos’ daquele lugar – caminhando lentamente em direção aos sofás, a cantora então respondeu ao questionamento do amigo despreocupadamente. Antes que pudesse dar continuidade a fala, entretanto, parou por um segundo para analisar melhor a pergunta feita pelo assistente e, em seguida, franziu o cenho em claro sinal de confusão – Ué, como você sabe que eu fui no Folia? Eu não cheguei a te falar nada... – disse indo se sentar em uma das poltronas de veludo verde musgo do local.
– Um dos meus muitos poderes é a telepatia, amada! – disparou Boyd brincalhão, fazendo com que a amiga revirasse os olhos debochadamente – Sua lerdeza às vezes me cansa, ... Você é uma figura pública minha filha, claro que o local que você escolheu para fazer sua refeição ia ser notícia ao redor da internet – murmurou o rapaz zombeteiro enquanto exibia no celular fotos da cantora feitas por paparazzi.

Retrucando o assistente apenas com o ornamentado dedo do meio levantado, a artista logo se aconchegou melhor em seu assento e passou a observar Colton. O homem, com toda sua pinta corporativa à bordo de um terno de linho azul petróleo, se levantou do local onde estava sentado e seguiu para o pequeno bar do escritório, logo servindo para si - em um belo copo baixo de cristal - um pouco do whisky caro e escuro que tanto adorava. Após dar as primeiras bebericadas no liquido cor de âmbar, o executivo então se encostou no vidro de sua ampla mesa e começou a afrouxar um pouco o apertado nó de seu alinhado colarinho branco.

– Sabe... não foi só isso que a internet nos contou – murmurou Buschwell, quebrando o pouco silêncio que pairava sobre o escritório e chamando a atenção de todos para si de uma vez – Aparentemente você está para lançar um super trabalho inovador com e nós, sua equipe, só descobrimos agora! – concluiu, enfim, debochado.

, ainda sentada na macia poltrona, se virou para Parker e Jaqueline à procura de alguma explicação para o comportamento estranho do empresário. Sorrindo com o laptop aberto e apoiado no colo, a publicista então limpou a garganta com um breve pigarro antes de começar a falar.

– Você sabe que os fãs acompanham até mesmo os pequenos passos dos ídolos, não sabe? – comentou a loira, recebendo um rápido aceno de cabeça em concordância da artista – Pois bem! Parece que o começou a te seguir no Instagram mais cedo e a base de fãs dele foi à loucura online – finalizou a mulher se virando para encarar o risonho homem grisalho parado ali perto.
– Não só o dele como o seu, né? Quando as fotos do seu almoço foram publicadas, todos reconheceram sua companhia como sendo Lalo Poulsen. Uma fã que te conheceu hoje, inclusive, confirmou a informação no Twitter agora a pouco... O Boyd tem acompanhado a situação – acrescentou Colton – Aliás, você não me falou que tinha recuperado o contato com ele... Que almoço aleatório foi esse, pelo amor de Deus?
– Eu não tinha... Recuperei hoje por um acaso do destino – disse desinteressada e dando de ombros – Fico impressionada com a capacidade desse povo de criar suposições e conspirações com tão pouca informação.
– Isso porque você não escutou a melhor parte da história – Parker, que até então estava entretido com o celular, disparou animado, logo começando a ler algo com o auxílio do aparelho – Presta atenção no bafo: "Novo casal do pop? , gente como a gente, usou o Instagram na manhã desta terça-feira (20) para chamar a atenção da crush – ou pelo menos é o que parece. É que o cantor, que raramente se mostra ativo nas redes sociais, foi flagrado distribuindo likes no perfil de . A interação pode parecer normal para a maioria das pessoas, mas os fãs já começaram a shippar as celebs depois que notaram que o tal post curtido pelo astro exibia a cantora em uma pose um tanto quanto sensual. A hashtag # (junção entre os nomes dos músicos) acabou sendo criada e logo se tornou um dos assuntos mais comentado do Twitter mundialmente. Como se não bastasse isso, a voz de Gypsy Blood ainda foi vista almoçando em Beverly Hills com o amigo e fiel produtor de , Lalo Poulsen, assim acrescentando aos rumores a possibilidade de uma colaboração musical entre os dois. Nos resta agora torcer para que esse romance e esse feat de fato aconteçam. Imaginem o poder dessa dupla! Sonho!" – Boyd finalizou a leitura, em seguida encarando que não pode conter a altíssima gargalhada que subitamente escapou de seu peito.

Hollywood era uma loucura e, definitivamente, não era um lugar para amadores. Há tantos anos vivendo sob os holofotes da cidade dos anjos, já estava mais do que acostumada com as histórias que a imprensa sensacionalista inventavam sobre ela. Algumas, desrespeitosas, de fato a incomodavam. Entretanto, matérias bobinhas, como aquela lida por Parker, acabavam a divertindo. Além do mais, estaria mentindo se falasse que não havia gostado nenhum pouco de saber que havia a stalkeado no Instagram. Mal o conhecia, mas a curta interação que tiveram mais cedo havia sido o suficiente para ir com a cara do rapaz. E, convenhamos, não era cega. Como se já não bastasse a aparente educação que tinha, o homem ainda era uma visão. Em resumo: Não haviam pontos negativos na história.

– O pavor de encontrar ele pessoalmente sem querer em algum evento por ai e começarem à dizer que nosso casamento está marcado e que estou grávida de 3 meses é real – brincou a cantora, arrancando risadas da equipe com seu peculiar bom humor – Gente, pelo amor de Deus, fanficaram tudo! Eu conversei com ele, sei lá, menos de 20 minutos.
– E quando isso aconteceu que você nem me contou, ridícula? – Parker exclamou irritado, ao mesmo tempo em que cruzava os braços por não ter sido o primeiro à ouvir sobre a fofoca.
– Foi hoje, porra! Por acaso do destino encontrei o Lalo quando sai para ir almoçar e eles estavam juntos em uma das cabines de gravação aqui da Columbia – murmurou azeda a artista – Mas foi só isso. Conversamos um pouquinho e eu logo fui embora.
– Você já foi melhor... que história sem graça! Já estava prestes à te aplaudir pela conquista, porque esse homem é um pecado de bonito, mas vou guardar para outra ocasião – disse brincalhão o assistente, com sua típica sinceridade ácida – Mas pelo jeito você deixou uma bela primeira impressão, mami... Ele escolheu curtir justo aquela foto para o editorial da Paper Magazine – concluiu Boyd, por fim, com o característico sorriso ladino enfeitando o belo rosto.
PARA! A que eu estou mostrando o cofrinho? Aquela foto? gritou enquanto se ajeitava subitamente em seu assento, ao mesmo tempo que Parker concordava e ria dos trejeitos escandalosos da amiga – Ele deve ter clicado sem querer, não é possível... – exclamou, logo alcançando o próprio celular e indo checar as novas curtidas. De fato, ali se encontrava o ícone do perfil verificado do rapaz, que veio acompanhado de uma mistura de love and hate nas milhares de novas mensagens deixadas por fan pages na caixa de comentários da publicação.
– Se clicou ou não sem querer não importa, o fato é que ele clicou – Colton acrescentou de repente, fazendo com que os mais novos voltassem a atenção para ele – Esses rumores vieram no momento certo, no final das contas. É uma ótima maneira de distrair o público enquanto resolvemos os problemas do álbum.
– Com certeza! E é algo que com o tempo vai caindo no esquecimento, sem grandes consequências – completou Jaqueline, sorrindo solicita.

Confiando nos assessores, logo deu de ombros e concordou ao menear levemente a cabeça. Sabia que era uma fofoca inofensiva e sua grande preocupação no momento era, de fato, a produção de seu disco. As palavras de Lalo, que dizia que a ajudaria de qualquer maneira, continuavam pairando por seus pensamentos.

– Falando em tempo, já está quase na hora da reunião – notou Buschwell, enquanto conferia os ponteiros de seu luxuoso relógio de pulso – Acho melhor irmos para a sala de conferências. Esqueci de comentar, mas o Jason avisou que o segundo apresentador também estará presente no nosso encontro de hoje – concluiu, recebendo como resposta apenas um aceno em concordância.

Sem mais delongas, os quatro logo deixaram as dependências da sala de Colton e seguiram sem desvios para o vigésimo andar do imponente edifício. Ali, no topo, iriam ocupar a grande sala de conferências da gravadora, usada especialmente para momentos importantes como aquele. Sempre vaidosa e ajeitando os cabelos enquanto caminhava mais uma vez se equilibrando sobre os finos saltos altos verdes, logo foi tirada de sua bolha ao avistar a organizada mesa da recepcionista do pavimento. A moça, franzina e de cabelos castanhos, digitava freneticamente algo no teclado de seu grande computador e largou tudo o que fazia assim que percebeu a chegada dos visitantes.

– Oi, Colton! A reunião de agora é com você? – questionou solicita, ao mesmo tempo em que abria a pequena agenda apoiada ali perto, onde checou a programação definida para a sala naquela data.
– Oi Claire, é sim! Podemos entrar? Falta só 10 minutos para o nosso horário – respondeu o executivo, usando todo seu ar galanteador para conversar com a jovem, o que não deixou de ser notado por que soltou um riso nasalado com tamanha cara de pau.
– Podem, claro! Algumas pessoas já chegaram, inclusive – murmurou, ao mesmo tempo em que ajeitava os óculos no rosto redondo, logo se levantando para guiar os quatro ali parados até o dito cômodo – Me acompanhem, por gentileza.

Não demorou muito para que a artista e sua equipe alcançassem a imponente porta dupla da sala de reuniões. Como pede a etiqueta, Claire entrou primeiro para realizar os devidos anúncios, em seguida dando espaço para que o quarteto também passasse. Assim que a cantora se fez presente na sala, ela pode notar a incrível parede de vidro ao fundo, a qual enquadrava perfeitamente o skyline de Los Angeles e criava um cenário de borda infinita mágico ao recinto. Ao virar um pouco o olhar, pode perceber, também, dois homens conversando próximo da tal fronteira transparente. Os mais velhos, porém, logo cessaram o assunto que compartilhavam e sorriram receptivos na direção dos recém chegados.

– Jason, espero não ter feito você esperar aqui muito tempo – exclamou Buschwell, dirigindo o comprimento ao alto loiro que caminhava até onde estava.
– Não se preocupe, Colton, cheguei adiantado – o rapaz, que aparentava ter por volta de 30 anos, respondeu com o forte e notável sotaque britânico enquanto apertava solicito a mão do executivo – Além do mais, o Jeff me fez companhia nesse meio tempo – acrescentou, então, apontando para o homem que vinha logo atrás de si.

Parando rapidamente para analisar o segundo, percebeu que ele se portava um tanto quanto diferente dos outros dois. Ao invés dos alinhados ternos e enormes relógios de pulso que valiam o mesmo que uma casa popular, o tal Jeff se vestia de maneira mais despojada e, de certo modo, jovem.

– Ah, que bom! Aliás, eu conheço o Jeff, como vai cara? – murmurou Colton, tirando de sua linha de raciocínio introspectiva para que prestasse mais atenção na nova interação acontecendo na sala.
– Po, tudo certo! É bom te ver, Colt... fazia tempo – disparou o sujeito de cabelos castanhos curtos e de aspecto encaracolado, logo dando um rápido abraço no executivo mais velho e cheio de pompa.
– Nem me fale! Mas mudando de assunto... Então é você que está representando esse outro anfitrião misterioso? – Buschwell questionou rapidamente, porém, antes que Jeff tivesse a chance de responder, Jaqueline limpou a garganta discretamente, fazendo com que o empresário logo se tocasse e desse um rápido tapinha na própria testa como tivesse se lembrado de algo subitamente – Meu Deus, estou sendo extremamente mal educado nesse momento! Antes de mais nada, deixe eu apresentar meu pessoal! Essa é Jaqueline, nossa publicista, o mocinho simpático ao lado é Parker, nosso braço direito, e, por fim, , nossa eterna musa inspiradora. Galera, esses são Jeff Azoff e Jason Miller – concluiu Colton sorridente. Os homens, ali parados, então cumprimentaram todos com um aceno simpático à distância, gesto repetido pela equipe da artista sem demora.
– Senhorita , é um prazer imenso finalmente te conhecer – pronunciou, então, o executivo loiro com toda sua coloquialidade britânica - Represento a Ruth Davidson, CEO da Comic Relief e ela, infelizmente, não pode estar presente hoje aqui conosco. Mas gostaria que eu te dissesse que é uma honra contar com uma artista do seu calibre em um evento tão importante quanto o Red Nose Day.
– Magina, Jason! Eu que fico muito contente de poder usar todo esse meu privilegio para ajudar causas tão importantes – murmurou com um sorriso sincero pousado nos lábios rubros.

Passando o olhar despretensiosamente pela sala mais uma vez, a cantora notou, então, que toda a atenção do tal Jeff era dirigida para ela, como se estivesse sendo analisada profundamente naquele dado instante. Ao perceber que foi pego encarando sem pudor, o executivo logo limpou a garganta sem graça e exclamou:

– Devo admitir que estou me sentindo meio estúpido por não ter desconfiado que você poderia ser o nome cotado para o segundo posto de headliner da noite. Fiquei algumas horas tentando adivinhar e agora, de fato, faz muito sentido!
– Espero que tenha sido uma surpresa boa, no final das contas – disse a cantora com seu típico bom humor.
– Sem dúvidas! O evento tem tudo para ser um sucesso – murmurou Jeff, sorrindo educado para a imponente mulher ali parada.

Portando seu vitorioso semblante, então passeou com o olhar mais uma vez pelo restante da sala, onde não avistou mais ninguém além das pessoas que ali já interagiam. Logo, a curiosidade nativa de seu ser começou a ficar mais expressiva em seu peito, sem contar a ansiedade, sua velha conhecida.

– Agora que as apresentações foram feitas, a pergunta que não quer calar é: cadê o meu parceiro misterioso? – questionou a mulher sem mais delongas, trazendo mais uma vez a atenção de todos para si – Sinto que precisamos arrancar esse band-aid antes de começarmos para valer essa reunião.

Como se tivesse se lembrado de algo de repente, Jeff então passou a checar as informações do apple watch em seu pulso, assim como conferir se o horário batia com o aparelho instalado na parede da sala onde se encontravam.

– Claro, mil desculpas por isso! Ele me mandou uma mensagem agora a pouco falando que já estava chegando, havia se atrasado com uns afazeres no estúdio e... – entretanto, antes que o homem de cabelos castanhos pudesse finalizar sua fala o ruído da ampla porta dupla do recinto se fez audível. Claire, com seu jeito tímido e gentil, mais uma vez se fazia presente dando à entender que anunciaria a chegada de um novo participante – Ótimo! Ele deve ter chego nesse instante – disse Jeff, por fim.

Assim como o resto, direcionou sua total atenção à entrada da sala, onde acompanhou o exato momento que um vans preto surrado – um tanto quanto familiar – adentrou ao cômodo trazendo consigo uma figura despojada e incrivelmente inconfundível.

?! – sentindo o olhar de sua equipe queimando na extensão de suas costas, a cantora exclamou ao mesmo tempo em que abria um brilhante sorriso em direção ao cantor visivelmente surpreso com a recente descoberta – Você é minha dupla?!


Glossário


Herbie Hancok e Donald Byrd: Alguns dos principais nomes do Jazz mundial.
The Golden State: Nome dado à California pela grande procura por ouro nos anos 1849, além de o forte sol ser uma constante na região.
Bad vibes: Energias negativas.
Cartier: Famosa e caríssima grife de jóias.
Esta bien: Está bem em espanhol.
TI: Tecnologia da Informação.
Olhos de cigana obliqua e dissimulada: Famoso trecho do livro "Dom Casmurro", do escritor brasileiro Machado de Assis.
Corazon: Coração em espanhol.
High five: tipo de comprimento com as mãos.
Be Honest: Música maravilhosa da cantora Jorja Smith.
Plant Based: Em tradução livre significa ‘base de plantas’. Expressão usada para se referir à locais que vendem comidas veganas, ou seja, sem nada de origem animal.
Albuquerque: Albuquerque é a maior cidade do Novo México e foi cenário para a famosa série Breaking Bad.
Breaking Bad: Série de televisão que retrata a vida do químico Walter White, um homem brilhante frustrado em dar aulas para adolescentes do ensino médio enquanto lida com um filho sofrendo de paralisia cerebral, uma esposa grávida e dívidas intermináveis. White, então, é diagnosticado com um câncer no pulmão - o que o leva a sofrer um colapso emocional e abraçar uma vida de crimes para pagar suas dívidas hospitalares e dar uma boa vida aos seus filhos. Ele resolve produzir metanfetamina de alta pureza com seu ex-aluno, Jesse Pinkman. RECOMENDO MUITO!
Skepta: Trata-se de um MC, rapper, compositor, diretor e produtor musical britânico. Maravilhoso!!
Guapissimo: Espanhol para lindíssimo.
Rich Bitch: ‘Vadia rica’ em inglês.
Periodt: Significa ponto final, mas se tornou uma gíria bastante usada nos Estados Unidos pela comunidade LGBTQ e artística quando querem dizer que algo é tão bom que não tem nem discussão para aquilo, é ‘ponto final’.
My love: Significa ‘Meu amor’.
Que paso ahora?: Espanhol para ‘O que foi agora?’.




Continua...



Nota da autora: Oi gente, não tenho muito o que falar nesse momento, também nem sei se alguem vai chegar à ler, mas queria deixar registrado o quão orgulhosa estou de mim por finalmente ter conseguido subir os primeiros capitulos da minha história no site. Estou desde o começo da quarentena me desafiando a escrever uma fanfic novamente e estou animada para continuar com esse desafio <3 Espero que vocês gostem de ler Gypsy Blood o mesmo tanto que eu estou gostando de escrever. Assim como avisado no começo, criei uma pasta no Pinterest onde fiz uma espécie de moodboard da personalidade da PP. Então por lá vocês conseguem ter um pouco de ideia de como ela se veste, a personalidade dela, senso estetico, gostos, enfim, é bem um espelho de como eu imagino essa minha pp linda e cheirosa, e ela pode ser acessada por aqui. É isso!! Beju e não deixem de comentar!!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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