Última atualização: 27/09/2020

Capítulo 1 - Apostas da Madrugada

- Juro por tudo, se você não parar de passar essa colher na panela, eu mato você, . – encarei com um olhar fulminante, conseguindo apenas um longo e duradouro barulho irritante, e um sorriso cínico. – Eu vou matar seu irmão. – avisei para minha amiga ao meu lado, que deu de ombros sem tirar a atenção do filme.

- Ok, ok. Eu parei. – assim que levantei para ir em direção à sua poltrona, ele largou a colher e levantou as mãos, em um claro sinal de rendição.

O filme não havia marcado sequer 15 minutos completos e aquela já tinha sido a terceira ameaça de morte que eu tinha dito para ele. A primeira foi quando ele decidiu se jogar no sofá ao meu lado, enquanto estava na cozinha terminando a pipoca. Não parou de me encarar com um sorriso idiota até que eu ameaçasse acabar com todos os seus dentes. Não passaram nem 5 minutos, e ele já estava mandando áudio para Logan, falando sobre alguma festa. Mais uma ameaça que ele ficaria sem suas cordas vocais se não calasse a boca. E aquela havia sido a última, ele sabia que eu odiava o barulho da colher arrastando no fundo da panela e não cansou até que, mais uma vez, eu gritasse com ele. , por outro lado, sequer olhara para o seu irmão. Segundo ela, o ideal era não dar atenção, mas sinceramente, eu tinha pouquíssimos pontos fracos. Meu pai sempre disse que eu puxei a frieza da minha mãe em momentos de estresse, meus professores sempre elogiaram a minha postura, mas provavelmente, porque eles nunca me viram por muito tempo ao lado de , o irmão gêmeo da minha melhor amiga.

- Por que você não matou seu irmão quando estavam no útero da sua mãe? – perguntei, me jogando na poltrona do lado direito do sofá. tinha decidido que treze minutos já tinham sido o suficiente para ele ficar na mesma sala que nós duas.

- Impossibilidades biológicas de gêmeos bivitelinos. – respondeu, sem nenhuma emoção, ainda prestando atenção na televisão. – Agora esquece isso e assiste o filme. – disse, pela primeira vez levando seu olhar até mim.

Quando decidi voltar para minha cidade natal, para concluir o Ensino Médio, tive que me instalar no quarto da bagunça de . Meus pais não podiam voltar por causa de seus respectivos empregos, e apesar de eles confiarem em mim o suficiente para saber que iria me cuidar bem sem eles ao redor, eu tive que vir morar na casa da minha amiga de infância.

Quando eu cheguei, não foi muito fácil me adaptar à saudades, ou ao fato de ter que dividir o banheiro com todos os dias, mas por outro lado, morar com a minha melhor amiga tinha pontos positivos. Um ano foi necessário para que eu conseguisse um emprego de meio período como professora de dança na primeira academia que frequentei. As notas altas eram o combinado para que eu não tivesse que voltar para Nova Jersey. Eu estava me saindo bem no meu plano.

Aquele seria meu último ano do Ensino Médio e tudo que eu precisava era manter as notas altas, e ganhar créditos para conseguir minha bolsa na Universidade de Dança em Nova Iorque. Não podia mentir para ninguém que já tinha, pelo menos, dez contatos de pequenos apartamentos para alugar circulados no jornal. Tudo estava perfeitamente planejado, e por mais que achasse que às vezes eu exagerava com tanto planejamento ou Mary achava enlouquecedor minha agenda de compromissos programados para daqui alguns meses, eu não poderia ser alguém diferente daquilo. Nada podia dar errado e não daria. Festas, amor, namoro, garotos ou qualquer coisa desse tipo, ficaria para depois. Afinal ter que conviver com me ensinou que minha paciência é muito mais curta com meninos da minha idade. Para ser bem sincera, eu já tinha me esquecido de como era conversar com alguém do sexo oposto sem querer revirar meus olhos ou bocejar de impaciência. E tinha uma grande parcela de culpa nisso.

Eu me lembrava de todas as vezes que tinha jogado algum bichinho do jardim na minha cama quando éramos menores. Na escola, ele inventou dez vezes que eu tinha piolho, mesmo que ninguém fosse acreditar mais. Bastava você perguntar qualquer coisa que ele diria “ está com piolho”. Mesmo indo embora, nada mudou. Nos três aniversários que passei longe, ele me mandava uma caixa com todas as coisas que eu odiava. Sempre tinha um CD demo da sua banda, e chocolate crocante. O garoto me conhecia, eu tinha que assumir.

Mas eu não deixava tão fácil para ele. Eu escondia todas as suas paletas, desafinava os seus instrumentos todos os dias. Assumo que aprendi sobre educação sexual apenas para inventar doenças sexualmente transmissíveis para, casualmente, contar para as meninas que ficavam com ele. E o meu favorito, mas ainda assim vergonhoso plano. Eu tinha perdido dez minutos da minha vida apenas para criar uma página no Facebook de ódio puro e genuíno para criticar todas suas músicas. O que eu admito ser um pouco infantil e nada a minha cara, mas era exatamente isso que tornava tudo genial, já que ele realmente não pensava que era eu quem faria algo tão idiota daquele jeito.

- Vou sair com Logan, se nossos pais perguntarem, falem que estou ensaiando na casa dele. – disse, chamando a nossa atenção enquanto descia as escadas e passava por nós. Revirei meus olhos assim que percebi sua jaqueta jeans e os óculos escuros. O típico papel de adolescente rockeiro e revoltado.

- Foda-se, . – comentou, levantando apenas a mão para que o irmão pudesse ver seu dedo do meio enquanto passava por de trás do sofá. – 10 dólares que a garota de hoje vai ser loira. – assim que ouviu a porta da frente bater, sentou rapidamente e me encarou sorrindo.

- Não, foi loira semana passada. Aposto 20 que hoje a menina vai ter algum cabelo colorido. – aquele era quase um ritual entre nós duas. Todas as vezes que saia uma sexta à noite com seu amigo, era sinal de que sozinho não voltava. Depois de anos, resolvemos capitalizar em cima disso. – E piercing na língua.

- Ah, qual é, isso significa que vamos ter que ficar acordadas esperando, apenas para ter certeza. – resmungou .

- Eu estou sem sono e quero uns 30 dólares hoje. – sorri, animada, e apertamos as mãos. Eram dez da noite ainda, e deveria voltar apenas lá pelas três. – Então, que tal uma maratona framboesa de ouro?

***


Eram quatro e meia da manhã quando ouvi a porta bater e risos abafados na sala. já tinha desistido da prova de resistência que era sobreviver aos piores filmes enquanto esperava seu irmão chegar em casa, e já estava em seu quarto dormindo há horas. Eu, por outro lado, era muito competitiva para perder qualquer coisa. E, acima de tudo, queria provar que era pateticamente previsível. Coloquei meu Kindle na mesinha de centro e não me surpreendi quando e uma garota de mechas rosas passaram em direção às escadas.

- Ei, pombinhos. – chamei, ganhando reações distintas. levantou a cabeça como se não pudesse acreditar que eu ainda estava ali atrapalhando uma foda mágica que teria. O que era muito nojento se fosse parar para pensar. A menina ao seu lado parecia apenas assustada de ter sido pega no flagra. – Ei, você tem piercing? – perguntei, antes que fosse tarde demais.

- Quê? – a garota me encarou, com um olhar confuso. tentou puxá-la para começar andar, eu tinha certeza de que ele pensava que eu ia falar alguma coisa que pudesse estragar com a noite dele.

- Você tem algum piercing, só responde logo que eu quero dormir. 一 a menina ao seu lado o encarou, buscando algum tipo de resposta, mas quando não conseguiu, voltou seu olhar para mim.

- Ah, sim. Eu tenho dois, só isso? – respondeu, meio incerta.

- Sim, só isso. – sorri largamente. – Ah aliás, eu não sei se ele te contou, mas ele tem andado com um sério problema de herpes. – comentei rapidamente, voltando a pegar meu Kindle na mesa para terminar aquele capítulo, sem me importar com os palavrões que soltava enquanto puxava a menina para cima. Talvez nós dois fossemos previsíveis ao final de tudo.

***


- Você precisa transar, Anne. – comentou assim que entrou na cozinha e me viu tomando meu café da manhã. Ele estava em um péssimo humor, e eu sabia que tinha total parcela de culpa nisso.

- Bom, pelo visto, você também. – sorri sem mostrar os dentes, mastigando lentamente a comida na boca enquanto encarava o garoto sentado na minha frente. Só estávamos nós dois na mesa. continuava dormindo, ela era sempre a última acordar. O senhor e a senhora cuidavam de afazeres no jardim. Aquela cozinha tinha se tornado o epicentro de uma nova grande guerra.

- Graças a você, não é? – disse, lançando um sorriso claramente falso. – Herpes? Jura? Achei que seria mais criativa.

- Bom, não precisou né? – levei a xícara de café até meus lábios, sem desviar o contato dos olhos azuis raivosos de . – E, além disso, eu estava particularmente cansada demais para ser criativa.

- Você é uma merdinha. – nem se preocupou se o café estava muito quente ou a torrada muito seca, ele engolia tudo rapidamente. Levantei a xícara brindando com o ar. Eu podia ter certeza de que no nosso placar imaginário, eu já estava ganhando. – Agora eu entendo por que seus pais te jogaram para o outro lado do país. – comentou, ainda com a boca cheia. Fiz uma careta ao encarar seu rosto. Ele era nojento em todos os sentidos. Realmente nunca entenderia como todo final de semana, uma garota diferente ia para a sua cama. Antes que pudesse responder à altura, a senhora , que tinha acabado de entrar na cozinha pela porta dos fundos, bateu na cabeça dele, que resmungou.

- Não fale assim com , . – rapidamente me endireitei na cadeira e lancei um sorriso agradecido. Aquela era outra regra clara do nosso jogo. Se quer pessoas no seu lado naquela guerra, então você precisa ser completamente amável quando não estávamos sozinhos. E eu já tinha conquistado a sua família como grandes aliados. Era quase como uma filha para eles, e sabia disso. Por outro, ele tinha toda a escola do seu lado. Cada um tinha conquistado alianças diferentes. Consegui ouvir resmungar enquanto passava geléia na sua torrada. – ainda está dormindo, minha querida?

- Sim, ficamos vendo filme até tarde ontem. – encarei a mulher de meia idade e cabelos tão loiros quanto os do filho. Ela era quase uma mãe para mim. Uma grande advogada, assim como seu marido, e mesmo de manhã já parecia impecável com seu vestido até o joelho e os cabelos arrumados em um coque.

- Ah, bom. Eu ia pedir para vocês duas irem no supermercado comprar algumas coisinhas para o almoço de hoje. – e eu rapidamente nos encaramos, já sabendo onde aquilo ia parar. O garoto começou a limpar suas mãos e se a levantar.

- Bom, eu combinei de me encontrar com Logan e Trevor hoje... – antes que pudesse ficar completamente em pé, sua mãe colocou as mãos em seu ombro e o fez permanecer sentado.

- Acho que vocês conseguem fazer isso sem matarem um ao outro. 一 o olhar de desespero era a única coisa que e eu compartilhávamos. Afinal, a única coisa que tínhamos em comum era esse sentimento puro e genuíno de querer ficar o mais distante possível um do outro. – Eu já tenho uma lista aqui. Pouquinhas coisas, mas é muito para apenas um de vocês. – sem tirar seu apoio do filho, usou apenas uma mão para pegar o pedaço de papel na bancada atrás dela e colocou na mesa.

- Mãe, eu realmente combinei de ensaiar com os meninos hoje. – tentou inutilmente argumentar. Ok, era horrível a ideia de passar a manhã ao lado dele, e a comida já começava a revirar no meu estômago com essa possibilidade, mas ao mesmo tempo, deveria estar tendo o pior início de dia dele em algumas semanas, então, no fundo e bem lá no fundo, não poderia esperar pra infernizar mais sua vida pelas próximas horas.

- Ah, pelo amor de deus, , se você se preocupasse com as suas notas o tanto que se importa com essa brincadeira de banda, você não estaria tão mal no colégio. – sua mãe disse, impaciente, e o filho bufou. Eu sabia que aquele sonho de ser músico dele era um problema para família. Odiava estar naqueles momentos em que eles discutiam sobre isso porque, naquelas vezes, eu até conseguia sentir alguma coisa diferente de ódio sobre ele. – Vão logo antes que eu coloque os dois de castigo em um quarto juntos.

- É para já, senhora . – levantei rapidamente, pegando a lista na mesa e puxando pela manga da camisa. – Vamos logo, quanto mais rápido a gente fizer, mais rápido eu vou poder ficar longe de você. – sussurrei entre um sorriso, para que ninguém pudesse ouvir além dele.

- Se você quisesse ficar longe de mim, não teria vindo morar aqui, . – o jeito arrastado que meu nome soou nos lábios de , fez com que eu revirasse meus olhos e o empurrasse de maneira nem um pouco gentil em direção ao carro. Qualquer rápida simpatia que eu pudesse sentir, já tinha sumido tão rápido quanto aparecera.

Capítulo 2 - O Dia Antes De Um Desastre

Eu me lembrava exatamente da primeira vez que tinha visto , com seus cabelos loiros arrepiados e seus olhos azuis desafiadores. Eu tinha acabado de me mudar para a rua, e já estava muito animada em fazer novos amigos. Meu sonho nessa época era apenas que meus novos vizinhos tivessem filhos para que eu pudesse brincar. Obviamente, tudo deu errado. De fato, o vizinho tinha dois filhos, mas apenas um deles parecia um humano decente.
Quando eu encontrei no meio da rua, pela primeira vez, realmente me pareceu uma boa ideia me aproximar. Ele estava usando um rádio de comunicação, e parecia estar se divertindo, então não era como se eu soubesse o que aconteceria. Acho que ninguém poderia imaginar na verdade. Foi quando eu toquei em seu ombro para chamar sua atenção que eu percebi, eu tinha iniciado a terceira guerra mundial. Ele me encarou, com seus olhos azuis semicerrados, e eu tentei sorrir da maneira mais amigável possível, eu era uma criança adorável, mas tudo aconteceu muito rápido. Ele aproximou o rádio da boca dizendo para seu amigo Logan, que eu teria o desprazer de conhecer semanas depois daquilo, sobre alguma invasão no território, e antes que eu pudesse perguntar seu nome, senti um impacto e a metade de baixo do meu corpo ser molhada. Olhei assustada para todos os lados procurando de onde aquilo tinha vindo, mas logo ele disse para atacar, e bexigas de água vieram em minha direção. Corri o máximo que pude até estar em segurança em casa. Meus pais perguntaram, preocupados, o que tinha acontecido e eu contei tudo, esperando que eles fossem lá e brigassem com aquele garoto, mas tudo que eu ganhei foi uma risada e “é apenas uma brincadeira de criança, , logo ele vem pedir desculpas”. nunca pediu. E não faltaram oportunidades.

Eu tinha apenas sete anos quando percebi que tinha um novo objetivo de vida. Quando os adultos me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, definitivamente, bailarina não era mais a primeira resposta que pairava pela minha mente. A única coisa que eu pensava era “destruir ”. E quando eu conheci , eu finalmente tinha conseguido uma aliada para os meus planos. Meu encontro com a irmã dele foi muito mais agradável. Alguns dias após aquele incidente, eu sempre avistava correndo pela rua com seus amigos. Eu gostava de observá-lo brincando, para uma criança, eu assumo que talvez fosse um pouco assustador, mas ao mesmo tempo era divertido ter um arqui-inimigo naquela época. Em uma dessas vezes, eu estava sentada na frente de casa quando vi brigando com uma menina tão jovem e loira quanto ele. Na hora eu não pensei que eles pudessem ser irmãos, apenas pensei que ele tinha feito mais uma vítima inocente. Os dois pareciam discutir algo muito sério para crianças. Eu não me lembro de pensar muito antes de correr até eles e derrubar todo o meu sorvete na cabeça de , apenas para defender a menina. Lembro do olhar matador que ele me deu, a risada distante de seus amigos ao ver a cena, e de como eu me senti bem vendo ele ficar furioso. Ele não saiu correndo e chorou como eu fiz, o pequeno garoto apenas deu as costas e começou a andar até seus amigos. não me agradeceu verbalmente, ela só estendeu a mão e eu a apertei com força. Nós selamos nossa aliança naquele momento.
Uma semana depois, pedimos rádios para conversar e eu tive o prazer de jogar balões de tinta no , como um claro sinal de que aquela guerra tinha acabado de começar. E ela dura até hoje.

- Fica com essa parte. Quem terminar primeiro, volta e espera no carro. – assim que o carro parou no estacionamento, peguei a lista do bolso e rasguei na metade. Durante toda a viagem até o mercado, disputamos ferozmente o domínio do rádio. Assim que colocava alguma música de seu gosto, eu rapidamente desligava. Não trocamos nenhuma palavra além de olhares raivosos.
- É algum tipo de competição? – desviou seu olhar para o pedaço de papel.
- Claro que não, seu idiota. Eu só não quero ficar por aí fazendo comprinhas com você. – tirei o cinto e sai do carro sem olhar para trás. – Mas, se fosse, eu ganharia de qualquer jeito. – virei-me rapidamente, e falei através da janela meio aberta.
Como era de se suspeitar, apesar de não ser declaradamente algum tipo de competição, discutimos antes mesmo de entrar no mercado. Se não fosse uma mulher aleatória pegar o nosso carrinho, acho que ficaríamos parados lá discutindo sobre quem o achou primeiro, pelas próximas horas. Que fique bem claro que sim, eu achei o carrinho primeiro. Quando conseguimos nos dividir não foi muito diferente. Eu mesma tinha dito que aquilo não era uma competição, mas toda vez que passava por ele pelos corredores e via que já tinha muita coisa em seu carrinho, eu apertava o passo para que pudesse acabar antes. O mundo me achava muito madura para minha idade, mas perto de , eu costumava agir como se tivesse metade dos anos do que eu realmente tinha. Era como se estivéssemos na nossa eterna disputa pelo espaço na casa da árvore que usávamos para brincar na infância. Mas agora, tudo era a casa da árvore. A escola, a sua casa, o carrinho de supermercado... Absolutamente tudo.
- Parece que temos um vencedor. – fingiu levantar um troféu, acenando para pessoas imaginárias assim que eu cheguei para ficar atrás dele na fila. Apenas revirei os olhos, tentando ignorá-lo. – Achei que você usaria sua enorme inteligência para me vencer nessa.
- , você definitivamente me deixa mais burra que o normal. – murmurei muito mais para mim do que como uma resposta para ele. O garoto realmente trazia à tona o pior da minha personalidade.
- Sim, muitas meninas dizem que esse é o efeito que eu causo nelas. – ele me encarou, claramente se divertindo.
- Você é nojento. – fiz uma careta
- Elas dizem isso também. 一 ele sorriu, o sorriso mais que ele poderia dar para mim.
Aquele sorriso que ele usava quando queria conquistar as garotas no corredor ou as meninas da festa. Aquilo só conseguia fazer com que eu quisesse vomitar e bater até que aquele rosto tão, injustamente, perfeito ficasse da pior maneira possível. O garoto era bonito, eu não podia negar isso por mais que quisesse ou por mais que tentasse. Deus tinha sido muito injusto nesse jogo. Os cabelos arrepiados da infância tinham dado lugar a uma coisa mais despojada e menos rockeiro de banda de garagem. Os olhos pareciam ficar cada vez mais claros com o passar dos anos, e sem contar aquele piercing idiota no lábio inferior que ele colocou no último verão. Sua mãe quase teve um troço quando ele apareceu daquele jeito. Foi engraçado na época, mas agora, vendo o resultado, era como se ele soubesse que ficaria muito mais poderoso.
- e juntos em uma fila? – ouvi uma voz lenta dizer atrás de mim, interrompendo qualquer briga que pudesse iniciar naquele momento. Não precisei me virar para saber que era minha outra melhor amiga, , provavelmente, parada, nos encarando, sorridente. – Realmente, talvez comece a chover hoje.
- Acho que cheguei no meu purgatório mais cedo, . – disse, de maneira exageradamente dramática, me virando para encará-la. Como sempre, seu cabelo cacheado estava em uma trança de lado, quase que desfeita completamente. Em suas mãos, ela segurava as suas batatinhas favoritas.
- Ah, não seja tão exagerada, . – sorriu, e eu bufei. Ela não era tão participativa naquela nossa disputa. A garota era a própria bandeira branca toda vez que estava com a gente. Quase uma enviada da ONU para impedir qualquer explosão nuclear. – Tudo bem com você, ? Ouvi a nova música de vocês, ela é muito boa. – coloquei um dedo na boca, fingindo uma ânsia de vômito, observando os dois.
- Valeu, . A gente está pensando em colocar no novo álbum… – seus olhos praticamente brilhavam quando falava sobre música. Até parecia um humano minimamente decente quando conversava com . Eu resolvi encarar o rótulo da caixa de cereais no carrinho, para tentar não me matar assistindo aquela cena. Eles realmente não se odiavam. Provavelmente, era a minha única amiga que ele não odiava ou fazia questão de perturbar. Não era tão difícil, já que era apenas ela ou sua irmã. – Vamos tocar em uma festa amanhã, você pode ir se quiser.
- Ah, valeu, mas não quero ser um peso para Logan. – pela primeira vez desde que aquela troca de elogios tinha começado, olhei por cima dos ombros para ver ainda sorrindo, mas dessa vez, não tão feliz quanto antes. não era a única com problemas com o irmão.
- Eu não ia deixá-lo ser babaca com você. – sorriu, eu o empurrei com o carrinho para que ele andasse mais para perto do caixa e tirasse aquele sorriso do rosto. Nem por um decreto ele ia jogar charme para minha melhor amiga. Já não bastava eu ter que conviver com ele no mesmo teto.
- , não caia nesse papinho, por favor. – falei, me voltando para ela e evitando qualquer tipo de contato com o garoto. - é tão babaca quanto seu irmão, talvez mais.
- Logan é definitivamente mais babaca que eu… – ouvi-o murmurar atrás de mim e apenas gesticulei para que ele ficasse quieto.
- Aliás, você tem planos comigo amanhã. – a lembrei.
- Eu sei, . Não esqueci disso. – falou, visivelmente mais desanimada que antes.
Eu conseguia perceber que ela queria ir naquele show idiota, mas também sei que ela nunca iria sozinha. Eu sempre achei a relação dela com o irmão muito mais estranha do que a de e . era adotada, e talvez Logan nunca tenha aceitado muito bem isso, o que eu nunca entendi. A garota era um anjo, praticamente. Sempre amável com todo mundo, sorrindo e tentando fazer todos ficarem confortáveis, mesmo que ela não estivesse. Mas, ainda assim, Logan era um babaca completo com ela. Ele a ignorava completamente.
Lembro de conhecê-la no aniversário de dez anos de . Ela era um ano mais nova do que eu e tinha acabado de ser adotada. Estava sentada, sozinha, em um banco afastado, Logan sequer a encarava. Eu e decidimos então ter mais uma aliada nessa guerra contra seu irmão e melhor amigo. Mas, assim que a conhecemos, percebemos que ela seria muito mais aquela que iria querer distribuir rosas para o inimigo do que bombas. E a vendo daquele jeito, eu percebi que aquele era um momento de hastear a bandeira branca.
- Estaremos lá, . – voltei para encará-lo, e ele, que já estava entregando as coisas para a atendente, parou, surpreso.
- Eu não lembro de ter convidado você. – continuou, pegando as coisas do carrinho e voltando a agir normalmente. – Mas você é bem-vinda, . – olhou por cima dos meus ombros para minha amiga.
- , você definitivamente não precisa fazer isso. – ela tentou argumentar, mas eu já sentia uma animação na sua voz.
- Realmente, você definitivamente não precisa fazer isso. – disse, sério, jogando as coisas na esteira sem nem um cuidado. - o fato dele não me querer lá, estava fazendo com que eu ficasse muito mais animada com a ideia de ir.
- Estaremos na primeira fila, . – sorri, já o empurrando completamente para passar as minhas coisas. – É tudo junto. – avisei a moça, que trabalhava e parecia muito focada no seu trabalho para notar qualquer briga que estivesse acontecendo.
- Você é a melhor amiga de todas. – senti me abraçar por trás. enfiava as compras na sacola da maneira mais desorganizada e irritada possível. Sua testa estava franzida, e ele não parava de resmungar sobre alguma coisa. – Não avise para o Logan, . Eu realmente não quero discutir com ele de novo hoje. – o garoto levantou o olhar apenas para assentir, e voltou a focar no que estava fazendo. Estávamos agora em um claro sinal de ignorar um ao outro, e por mim, tudo bem.
- Eu realmente acho que você deveria falar para os seus pais sobre isso, . – falei baixo, para que apenas ela pudesse ouvir. Sempre tínhamos aquela conversa, eu odiava com todas as forças o relacionamento conturbado que ela tinha com o irmão. Quase me fazia querer dar uma trégua com e iniciar uma quarta guerra muito pior com Logan. Eu sempre o achei muito estranho. Não tinha a língua afiada, ou o sorriso cínico de , muito pelo contrário, ele era bem mais calado que o amigo, só falava se fosse chamado, e não parecia gostar tanto do exército de fãs no colégio, porque eu nunca nem tinha o visto com alguma daquelas garotas. Sempre chegava sem ninguém enquanto tinha uma de cada lado. As únicas vezes que conversamos, foi para que eu pudesse gritar com ele por causa de . – O que ele disse dessa vez?
- Ah, o de sempre… – deu de ombros. – Acho que nossos pais compararam a gente de novo.
- Tá, mas e daí? Só por causa disso ele tem que ser um babaca com você? Ninguém tem culpa dele ser tão estranho. – já deveria estar me esperando no carro, pois suas sacolas já não estavam mais lá. Comecei a empacotar minhas coisas enquanto pagava pelos biscoitos.
- Eu sei, . – suspirou, derrotada, vindo me ajudar a terminar mais rápido. – Eu não o odeio como deveria.
- Tudo bem, eu e podemos odiá-lo por você. – a empurrei com os ombros, tentando arrancar um sorriso. – Você quer que eu jogue ovo nele no show? – perguntei, como se não fosse nada demais, e ela riu.
- Claro que não, além disso, eles realmente são bons. – revirei meus olhos como resposta. – É sério, você deveria dar uma chance.
- Eu tenho uma página de ódio para manter. – respondi, séria. – Além do mais, eu sei bem por que você gosta tanto da banda. – comentei, apenas para irritá-la.
- Pelo amor de Deus, fica quieta. – agarrou meu braço para que a gente parasse de andar até o carro. Eu já podia ver nos esperando, encostado no capô. Uma cara nada boa e braços cruzados. – É tão óbvio assim? – murmurou, parecendo realmente preocupada. – Será que Trevor já percebeu?
- Duvido muito, ele é amigo do , então claramente inteligência não é algo que ele tenha muito. – voltamos a andar, e entrou no carro sem sequer se despedir de . – Vou tentar convencer a para irmos juntas amanhã.
- Você é a melhor amiga do mundo, sabe disso, né? – sorriu enquanto eu puxava a porta do carro para entrar.
- Você está me devendo uma das grandes, . – antes que eu pudesse me sentar, ela me puxou para um desengonçado e rápido abraço. Ela sempre quis ir em um show da banda do irmão, mas, sem companhia, apenas restava ouvir os comentários no corredor do colégio. – Envio uma mensagem depois, caso eu sobreviva à fúria de . – ela acenou e fechou a porta para mim, assim que eu me sentei. não disse uma palavra, ligou o carro e voltamos em completo silêncio para casa.

***


- Nem em um milhão de anos, . – afirmou pela quinta vez desde que eu havia contado sobre o show de amanhã. Estávamos em seu quarto, eu estava na beirada da cama a observando andar de um lado para o outro furiosa.
- É pela , você sabe que ela sempre quis ver essa coisa, que seu irmão chama de banda, ao vivo. – não era porquê tinha um coração de pedra maior do que o meu, ela se importava com , mas ser público para o seu irmão? Fora de cogitação. Assim como seus pais, ela odiava a ideia de o irmão continuar com o sonho de se tornar músico. Nunca tinha dito para ela, mas aquela era uma das poucas coisas que eu discordava sobre ele. – Qual é, podemos até vaiar ele. – tentei argumentar.
- Ele vai usar essa cartada para sempre. – parou e me encarou com a testa franzida. – Como se fôssemos fã dele ou algo assim. – seu rosto agora era de nojo.
- Ele sabe que é por causa da , foi ele quem a convidou. – seus passos pelo quarto voltaram a todo vapor.
- Nem me fala disso, eu vou explodir a cabeça dele se ele ficar dando em cima de . Era só que o me faltava mesmo.
- Ela gosta do Trevor. – a lembrei, ganhando um riso irônico.
- Como se isso fosse melhor. – a olhei com uma das sobrancelhas erguidas. – Ok, ele é melhor. Mas não é difícil ser melhor do que o . – assenti. – É bom que ela não se acostume com isso. – disse, após um tempo em silêncio.
- É um sim, então? – perguntei, prestes a ligar para e dar a notícia.
- O que eu não faço pela embaixadora da ONU? – sorriu pela primeira vez desde que eu tinha tocado no assunto. – Vamos ter uma trégua por um dia, e na segunda furamos o pneu dele para compensar. – bati palmas, animada. Muito mais ansiosa pela segunda, do que pelo show.
Naquela tarde, passamos todo o tempo no quarto, conversando sobre o que esperávamos para o último ano. estava empenhada em seguir a carreira dos pais e se tornar mais uma advogada na família . Ainda assim, quanto mais ela falava sobre isso, menos eu achava que aquilo era o que ela realmente queria fazer. Mas, mesmo sendo sua amiga há anos, eu sabia até onde podia perguntar. tinha limites que ninguém conseguia ultrapassar. O completo oposto de , que parecia desconhecer essa palavra. E como se eu pudesse adivinhar, ele estava parado na porta de seu quarto como se soubesse a hora exata que eu sairia do quarto da sua irmã.
- Sem festas hoje, ? – perguntei, sem querer realmente iniciar alguma conversa. Fechei a porta atrás de mim e assim que comecei a andar até o meu quarto do outro lado corredor, ele parou na minha frente.
- Sabe que você está quebrando as regras, certo? – seus braços cruzados e sua sobrancelha levantada eram um claro sinal de ameaça.
- Eu não precisaria fazer isso, se você não tivesse dado em cima da . – sorri, ironicamente, e andei para o lado, tentando voltar a andar, mas rapidamente ele acompanhou meus movimentos, me impedindo mais uma vez.
- Não precisa ficar com ciúmes, . – sorriu, e por pouco eu não vomitei.
- Você é muito idiota. – ainda estava parado na minha frente. A nossa distância era grande o suficiente para que eu não pudesse acertá-lo no meio das pernas com o meu joelho. Um bom limite que eu coloquei depois dele me irritar em uma noite. Eu sentia seus olhos vasculhando meu rosto, buscando qualquer sinal de desistência, mas nada que ele fizesse me faria deixar para lá aquela nossa briga. Era quase irracional o quanto eu odiava . Passei por ele, batendo em seus ombros, e fui em direção ao meu quarto. Se ele tinha uma resposta engraçadinha, foi inteligente e resolveu não usar. Fechei a porta com força e comecei a me preparar mentalmente para amanhã. O provável pior dia da minha vida.

Capítulo 3 - Um Show de Nem Tantos Horrores

Quando entrei na casa noturna, não imaginei que estivesse tão lotado. Aquele era um point conhecido por qualquer jovem do bairro, ainda assim não era um lugar que eu costumava frequentar. O lugar todo era escuro, a iluminação colorida parecia ser apenas um enfeite, e o pequeno palco amontoado com instrumentos cobertos por panos que tomavam todo o espaço era a única coisa que sinalizava o local do show. De resto, um bando de jovens em grupos atrapalhando qualquer passagem. E todos animados demais para saudar o rei do colégio. Irritante para caramba.
Enquanto eu tentava andar sem bater no ombro de cada pessoa que eu encontrava no caminho, e disputavam para ver quem conseguia chamar mais atenção para nós três. praticamente pulava de animação e sorria para todos que acenavam para ela. , por outro lado, tentava passar despercebida com seus óculos escuros e se esquivando de qualquer esbarrão. Infelizmente, ainda assim, eu já conseguia ouvir os comentários de amanhã, quando as fofocas surgirem sobre a nossa presença nesse show idiota.
- Você sabe que chama muito mais atenção usando óculos escuros em uma boate noturna, não é? – abaixou a cabeça, fazendo os óculos caírem um pouco pelo nariz e me encarou com seu melhor olhar assassino.
- Ai, meu Deus, Trevor está vindo para cá. – avisou e ajeitou sua postura rapidamente. Como se ainda fosse possível, seu sorriso estava maior. Procurei o olhar de , e mesmo escondidos pelos óculos, eu sabia que eles estavam revirando de tédio, exatamente como os meus estavam.
- Eu poderia apostar que a rainha Elizabeth visitaria nosso show antes de . – disse Trevor ao se aproximar. Não precisava olhar para o meu lado para saber que poderia estar desmaiando nesse momento. – E ? – encarou minha outra amiga, um pouco confuso.
- Se você contar para alguém, eu corto sua língua fora. – Trevor não pareceu meramente assustado com as ameaças de e riu antes de virar sua atenção para novamente.
- Finalmente apareceu nos nossos shows. Aposto que foi ideia sua.
- Nada contra você, Trevor, mas nunca aparecemos aqui se não fosse pela embaixadora da paz. – interrompi a conversa dos dois.
Trevor não era de todo mal, na verdade, ele tinha o mesmo papel de do outro lado da guerra. Além disso, ele realmente era algo bonito de se ver. Diferentemente de , ele parecia quase um homem. O garoto era alto, o maxilar perfeito e um rosto de modelo ou ator de filme adolescente. Eu conseguia entender completamente a paixão de por ele.
- Vocês já sabem aonde vão assistir ao show? – Trevor perguntou, fazendo finalmente tirar seu olhar hipnotizado da direção dele e nos encarar buscando algum sinal.
- Se assistir de casa for uma opção, então é essa que eu quero. – respondeu antes que eu pudesse dizer algo.
- , o dia é seu hoje, então pode escolher. – cruzei os braços, vendo seu sorriso aumentar.
- Vocês podem assistir dos bastidores, eu coloco vocês lá. – Trevor disse e não demorou muito para ela aceitar, ao mesmo tempo que bufou impaciente ao meu lado.
- Ok, eu encontro vocês lá então... – antes que eu pudesse sair em direção ao bar, senti me segurar.
- Nem pense em me deixar nessa sozinha, , eu tenho total acesso à sua cama à noite. – aquele olhar poderia ser assustador para todos, menos para mim.
- Relaxa, , só vou no bar pegar algo para beber. Quer alguma coisa?
- Sim, veneno. – respondeu tão séria que se qualquer outra pessoa a ouvisse, teria certeza de que ela estava realmente querendo dizer aquilo.
- Vem logo, . - a puxou pelo braço e as duas seguiram Trevor pela multidão.
Os esbarrões ficavam mais difíceis de se desviar quanto mais eu me aproximava do pequeno bar. Os rostos que eu conseguia reconhecer na multidão não pareciam fazer o mesmo comigo. Isso era totalmente compreensivo, os meus momentos de fama eram graças a discussões acaloradas no corredor com , e ainda assim, todos estavam parados para vê-lo. Não era nada sobre mim.

- Você realmente apareceu. – reconheci a voz impaciente de atrás de mim, mas resolvi ignorar e continuei andando em direção ao bar. – É sério, , nós temos regras aqui. – eu sentia ele me seguir por todo o caminho. Avistei um local mais tranquilo, sem jovens bêbados, e caminhei em sua direção, ainda sem dar atenção para o garoto que parecia minha sombra.
- Eu juro por Deus, nem pense em estragar isso… - voltou a reclamar.
- Relaxa, garotão, eu estou aqui pela . – sentei-me e senti quando ele se sentou ao meu lado. – Você realmente não tem nada melhor para fazer? Afinar um violão? Se jogar de um prédio? – chamei o homem, que parecia trabalhar no local, ainda ignorando ao meu lado.
- ... – finalmente virei de frente para ele, prestes a manda-lo ir embora, mas porra, Deus, por que você fez alguém tão bonito e tão imprestável ao mesmo tempo? O garoto era a merda de toda personificação de cantor-indie-que-faz-muito-sucesso-no-tumblr. Da maneira mais irritante que podia, a beleza daquele idiota tirou qualquer piadinha da minha boca e me fez engolir por dois segundos todo meu ódio apenas para reconhecer: era apenas bonito demais. O cabelo loiro estava arrumado, seu piercing no lábio parecia mais chamativo, e sua regata estúpida me fazia questionar desde quando malhava para ter aqueles braços.
- Eu não me importo o suficiente com ele, . – disse e rapidamente virei meu corpo para frente, na missão de ignorá-lo. – Eu quero três refrigerantes. Ah, na conta de , por favor. – comentei, observando o garoto responsável pelas bebidas ir pegar o pedido.
- Ah, é? Quem disse que eu vou pagar alguma coisa para vocês? – o encarei com uma das sobrancelhas arqueadas, mas sem parar muito meu olhar na sua direção. O som alto daquele lugar deveria estar afetando meu cérebro de alguma maneira para eu achar tão atraente. – É sério, eu não vou pagar por nada.
- Qual é, faz isso pela . Eu não precisaria estar aqui se seu amigo não fosse um completo babaca. É sua obrigação pagar por tudo. – dei de ombros, ainda sem encará-lo. – De qualquer forma, eu realmente não pretendo assistir seu show. Minha missão de hoje é vencer algumas partidas de xadrez online.
- Tanto faz, mas saiba que se eu ouvir alguma vaia ou ver algo ser jogado no palco, eu apareço no seu trabalho. – finalmente ele tinha conseguido minha atenção.
Nossa regra era clara, ele não aparecia no meu trabalho e eu ficava longe dos seus shows. Aquele acordo tinha sido firmado quando (não tão) acidentalmente eu quebrei um de seus violões, e o tênis, que uso para o trabalho, desapareceu misteriosamente depois disso. De qualquer forma, aquela era uma ameaça direta aos nossos limites.
- Você sabe que eu só vim pela , e eu realmente não pretendo estragar a noite dela. – avisei e peguei os três copos da bancada para poder voltar até onde minhas amigas estavam. – Além do mais, qualquer pessoa pode vaiar. Você não é tão bom assim. - levantei-me, torcendo para que ele me deixasse em paz.
- Qual é, nem você acredita nisso de verdade, . – ouvi sua voz enquanto ele me seguia por entre as pessoas. De fato, eu realmente não acreditava, mas aquilo era algo que eu não iria confessar nem se minha vida estivesse em perigo real.
- Na verdade, toma isso aqui. – parei, rapidamente me virando e empurrei os copos com refrigerantes em seu peito sem que ele tivesse chance de recusar. – Entrega para elas e diz que eu vou assistir ao show da pista.
- Eu virei garçom agora? – eu nem me dei o trabalho de respondê-lo e me virei para continuar andando, deixando-o sozinho.
O meu plano era ficar parada em um canto um pouco mais silencioso e aumentar meu score no xadrez online enquanto fazia a cabeça de todas aquelas garotas. E tentar não ter meus olhos fora de órbita ao revirá-los tantas vezes como eu possivelmente faria vendo toda aquela gritaria. Patético demais.
- Eu realmente não esperava ver em um show de . – senti alguém se aproximando e vi uma mão estendida em minha direção. – Dave. Nós estudamos juntos. – se apresentou e eu levantei meu olhar até ele.
Eu conhecia Dave, eu definitivamente conhecia o único garoto que chamou minha atenção depois dos quinze anos. Ele era o meu segredinho, nem mesmo minhas amigas sabiam da minha quedinha pelo chefe do jornal da escola. Seu cabelo escuro perfeitamente arrumado, incrível boletim e sua coluna de resenhas na qual ele falava mal de toda a semana, o tornavam o garoto dos meus sonhos. Não tinha piercing, não tinha garotas enlouquecidas, não tinha qualquer drama envolvido.
- , mas você meio que já sabe. – sorri, guardando o celular e apertando sua mão rapidamente. – Você é o cara do jornal, né? – o encarei, tentando parecer confusa e torcendo para que minhas poucas aulas de teatro tivessem funcionado.
- Pode me chamar assim. O que você faz aqui? – sorriu, mostrando suas covinhas, e, ok, aquilo era meu coração batendo muito mais rápido do que o normal?
- Vim acompanhar algumas amigas. – encolhi os ombros, desviando o olhar para o palco afastado.
- Ah, é? Cadê suas amigas então? – perguntou, olhando ao redor de mim. – Nunca imaginei que você cairia nos encantos de .
- Claro que não! – respondi rapidamente. – Elas estão nos bastidores e eu, definitivamente, quero ficar o mais longe possível.
- Ah, então eu estava certo. – mesmo de lado, vi pelo canto de olho quando ele sorriu.
- Sobre? – as luzes já estavam apagadas e o show estava prestes a começar. O local que a gente estava, começava a ficar mais vazio cada vez que as pessoas se empurravam em direção ao palco. O lugar não era tão grande, e com aquela quantidade de estudantes parecia menor ainda. Eu e Dave continuávamos encostados na parede, vendo toda aquela movimentação.
- Você parece ser uma pessoa de bom gosto. – sorriu, voltando seu olhar para mim. Meu plano de “sem garotos até a faculdade” poderia acabar na hora que ele dissesse meu nome e me encarasse daquele jeito de novo. Dave tinha as covinhas mais bonitas que eu já vi em alguém, seus olhos ficaram ainda menores de uma maneira perfeita quando sorriu, e, acima de tudo, ele também odiava . Se o meu coração fosse um bingo, ele tinha acabado de marcar todos os números.
- Ah, mas o que você está fazendo aqui então? – tentei soar ameaçadora. – Eu tenho uma boa desculpa, mas e você?
- Touché. – riu, apontando para o grupo de meninas que parecia ter uma conversa muito animada sobre o show. – Os números do jornal não estão bons, então preciso de um público novo.
- Ah, entendi, falar mal deles não tem funcionado, né?
- Nem tudo é perfeito, né? – assenti. – Posso te fazer uma pergunta? – perguntou após uma longa pausa.
- É algum tipo de entrevista? – tentei fazer alguma gracinha apenas para ganhar a chance de ver suas covinhas de novo.
- Ainda não. – estávamos um do lado do outro, eu tentava ao máximo não ficar encarando seu rosto de perfil. Sinceramente, todas aquelas garotas eram loucas em perder seu tempo com quando tinha Dave perdido pelos corredores. – Qual é o lance entre você e ?
- O que? – gritei, chamando um pouco de atenção de algumas pessoas ao redor. - Lance? Do que você está falando?
- Ah, vocês estão sempre brigando pelos corredores. - deu de ombros, voltando a olhar para frente, parecendo quase sem graça de ter me perguntado aquilo. Bem, ele deveria mesmo. Era uma tremenda ofensa alguém achar que algo poderia existir entre nós dois.
- Talvez por que ele seja insuportável? - respondi como se fosse óbvio. - Achei que você soubesse disso. Você escreve sobre isso toda semana inclusive. - o lembrei, sem deixar de fora uma pitada de sarcasmo.
- Eu sei, mas nenhuma pessoa do sexo feminino daquele colégio, sabe… Só pensei que vocês já tivessem tido algo e por isso o ódio todo. - o encarei, surpresa. Era aquilo que as pessoas achavam? Que eu e ... Sinceramente, eu nem poderia dizer aquilo em voz alta.
- Definitivamente, e eu nos odiamos. – afirmei, cruzando os braços e voltando o olhar para o palco que já estava com as luzes apagadas e um grande pano tampando tudo.
Apesar do susto, eu realmente entendia aquela pergunta. Aparentemente, amor e ódio é um clichê que as pessoas, genuinamente, acreditam que seja real. Bom, não é. Pelo menos, não na vida real. Definitivamente não na minha vida. não poderia ser apaixonado por mim, o garoto fazia da minha vida um inferno desde os cinco anos literalmente. E eu, logicamente, tinha amor próprio o suficiente para não aceitar menos do que alguém que me tratasse como uma rainha.
Além disso, era muito clichê para minha vida. Se eu fosse usar uma metáfora musical para combinar com o momento, ele seria uma música pop chiclete igual todas as outras que atingiram o número 1 da Billboard. Chamativo, popular, mas definitivamente passageiro. E na minha lista de reprodução, não tinha lugar para refrão chiclete. Me dê uma música com mais de cinco minutos e posso pensar em olhar para você. não era isso. Nunca foi.
O pano caiu ao mesmo tempo que o som de guitarra começou a tocar. Eu já tinha escutado alguma de suas músicas, mas nunca por vontade própria. Desde que eu passei a morar na sua casa, ele fazia questão de tocar sua guitarra de manhã em todos os meus aniversários, se possível. Então, sim, eu conhecia boa parte do seu catálogo.
Ele compartilhava o palco com Logan e Trevor. Era engraçado como até ali dava para perceber um pouco da personalidade de cada um. sempre no centro, tão animado com o que estava fazendo que o pedestal que segurava seu microfone balançava cada vez que ele aproximava sua boca para cantar. Logan, por outro lado, só cantava no refrão e mal dava para ouvir sua voz, sempre próximo demais e de olhos fechados como se estivesse sozinho em seu quarto. Trevor, mesmo que escondido pela bateria, tinha um sorriso animado pelo seu rosto, e tranquilo demais para se importar com os gritos das fãs que pareciam enlouquecer de felicidade.
- É bem… Barulhento. – senti Dave se aproximar do meu ouvido para comentar. Não vou mentir que a pergunta que ele fez sobre e eu, fez o feitiço de paixão de corredor desaparecer um pouco. Não fazia sentido, mas seu sorriso não parecia tão bonito agora.
- Não faz muito meu estilo. – encolhi os ombros, ainda encarando a multidão enlouquecida à minha frente.
cantava animado sobre como uma garota de cabelos coloridos chegou à sua vida cinza. Uma pena ele não estar vendo o meu olho praticamente saindo de órbita de tanto revirar ao escutar aquelas declarações patéticas. A menina de cabelos rosas de ontem definitivamente não foi avisada que não era nada especial ganhar uma música de . Até mesmo eu tinha uma. E como se ele ouvisse meus pensamentos, seu olhar caiu sobre mim.
- Essa foi uma palinha da nossa nova música, pessoal! – praticamente gritou, ganhando mais surtos como resposta. – Agora, eu vou cantar uma em especial à uma pessoa que está pela primeira vez em um show da banda. – quase podia ouvir minha voz dizendo “eu avisei” para a garota de cabelo rosa.
Com toda a multidão enlouquecida e as pessoas tentando chamar sua atenção, ainda mantinha seu olhar em mim. Exatamente como a gente fazia quando nos encontrávamos em qualquer corredor. Uma luta muito silenciosa por controle. Ele não sorria mais do mesmo jeito que sorriu durante todas as outras músicas. Tinha uma competição entre nós dois naqueles segundos, quem será que iria desviar primeiro? A curiosidade era que ninguém nunca perdeu. Sempre chegava alguém para desviar a nossa atenção, nosso recorde era de trinta minutos, antes de alguém aparecer.
- Valeu pelo prestígio, . – senti Dave e mais algumas pessoas olhando para mim, mas não podia dar o gostinho de desviar do olhar de . Eu não iria perder. Nem mesmo quando eu reconheci a música. Eu a reconheceria mesmo se não quisesse.

“No matter what they say about you
When Antarctica disappears
There will still be you to remind us to feel cold
Look at the girl who saved the world.”



As pessoas ao redor pareceram gostar da música que eu conhecia tão bem. voltou a ser o centro das atenções como ele tanto gostava, e seu olhar já não estava mais em mim. Sem pensar muito, resolvi agir.
- Vou ver como as minhas amigas estão, quer vir comigo? – olhei para Dave, que assentiu sem questionar.
Eu não queria saber como e estavam naquele momento. Na verdade, a última coisa que eu queria era me encontrar com , a garota provavelmente iria me matar de uma maneira tão cruel que só ela conseguiria pensar. Mas aquela música estúpida, que eu era obrigada a ouvir em todos os meus aniversários antes das cinco da manhã, não me fazia agir com a maior racionalidade do mundo. Se ele realmente queria iniciar alguma briga no show dele, que arcasse com as consequências. Dave seria uma delas.

***


- Cheguei. – avisei de maneira exageradamente animada. Como eu esperava, apenas me olhou. estava focada demais assistindo ao show.
- Suas últimas palavras? – avisou, voltando seu olhar para o telefone. Acho que sequer percebeu Dave ao meu lado.
- Você não pode me matar com tantas testemunhas. - acho que ela entendeu a dica, pois, rapidamente seu olhar caiu no garoto moreno. - Esse é Dave. E Dave, essa é .
- O garoto do jornal… - reconheceu rapidamente.
- Sim, aparentemente esse é o meu apelido pelos corredores. - sorriu, mas a carranca de não deu nem um sinal de sumiço. - Parece que você realmente veio com as suas amigas. – me encarou, divertido.
- Não tenha tanta certeza de que ainda somos amigas. - implicou, mas eu sabia que ela não falava sério. – Achei que você odiasse a banda do meu irmão. O que faz aqui?
- Tenho que ter material para matérias novas. – minha amiga ainda me encarava, provavelmente já entendendo o motivo para que eu tivesse levado ele até lá.
- Bom, venha que vou te apresentar a amiga legal. – sorri e ouvi resmungando atrás de mim enquanto eu caminhava em direção para mais perto do palco. – , por favor, essa música é péssima. – chamei sua atenção.
- Você só diz isso porque é sobre você… – seja lá o que ela fosse concluir, rapidamente desistiu ao ver Dave. – Ei, você não é…
- O menino do jornal? Sim, prazer, Dave. – ele não parecia chateado por ter sido reconhecido por todos daquela maneira. Sinceramente, nem tinha razão. Se ele quisesse seguir a carreira, aquele era um bom começo. – , certo?
- Eu mesma, a única amiga que provavelmente não vai ser presa por assassinato antes dos 30. – brincou e eu revirei os olhos, mesmo ela estando cem por cento certa. Apesar de que eu não mataria ninguém, quem faria isso seria a , eu a ajudaria a esconder o corpo e seria nossa advogada de defesa. – Achei que você não gostasse muito da banda. – ela parecia confusa, mas sei que no fundo entendia o porquê de ele estar ali comigo.
- Ah, eu preciso estudar sobre quem eu escrevo, não é? Encontrei e ela me convidou, não vi motivo para recusar. – o olhar de em cima de mim era praticamente acusatório.
- Relaxa, . não vai se importar, afinal, publicidade é sempre bom.
- Claro… – ela não parecia muito confiável que aquele show não fosse terminar em mais uma de nossas brigas.
resolveu ignorar qualquer comentário que ela tivesse para fazer e voltou a curtir seu show, continuava focada no seu telefone. Se não fosse ela, eu quase poderia dizer que era um menino, mas se tinha alguém mais fechada do que eu nesses assuntos, essa pessoa era minha amiga. Eu a conhecia desde os 5 anos e “garotos” nunca foi um assunto entre nós duas. Isso só veio à tona quando conhecemos e ela começou a se apaixonar por todos os meninos ao nosso redor a cada 15 dias.
Apesar disso, até mesmo eu já tinha gostado de algumas pessoas nesse tempo. No meu aniversário de quinze anos, eu era completamente apaixonada por James. Ele foi meu par na festa e dei meu primeiro beijo com ele. Não durou muito, mesmo assim, quanto mais ele crescia, mais idiota ficava. Na última vez que tive notícias, ele tinha sido pego praticamente transando com uma das animadoras no quartinho do zelador.
Dave não parecia ser aquele tipo de garoto. Algo que eu realmente gostava bastante. Ele parecia centrado enquanto falava sobre seu sonho de seguir na carreira de jornalista e como ter um bom jornal na escola o ajudaria nas cartas de recomendação no ano que vem.
Passamos o resto das músicas conversando, e, sinceramente, eu mal conseguia prestar atenção na voz de . Em algum momento, resolveu desmanchar a cara fechada e entrou na conversa. , por outro lado, seguia fazendo vídeos e aproveitando o show mais afastada.

***


- Caralho, um dos melhores shows que já fizemos. – ouvi a voz de distante, atrás de mim. Foi o suficiente para toda minha atenção sumir daquela conversa e ficar em .
Olhei rapidamente por cima dos ombros para ver a cena, e foi como se ele soubesse o exato momento que meus olhos chegaram nele, pois o seu olhar veio diretamente em minha direção. Primeiro, ele sorriu de maneira cínica e debochada como sempre. Se eu achava que ele podia ficar feio estando todo suado depois de um show, Deus tinha feito a questão de gritar alto lá do céu o quanto eu era burra por pensar algo como aquilo. Ele estava ainda mais bonito, pelo menos, se você gosta de jovens loiros, com cabelo grudado na testa e olhos brilhantes, o que não era o meu caso. Tão rapidamente seu sorriso veio, também sumiu assim que olhou para as costas de Dave ao meu lado. parecia ter percebido que eu não estava sozinha. Bom, era a minha deixa para sorrir.
- Quem deixou você entrar? – veio em minha direção e eu rapidamente me levantei, ficando de frente para ele. e Dave levantaram, ficando de frente para ele. – Sério? Dave Jones? – olhou para mim e eu dei de ombros, inocentemente.
- É um prazer conhecer você também . Eu poderia dizer que gostei do show, mas sinceramente, eu não prestei muita atenção. - meu sorriso foi inevitável. Ok, esqueça tudo que eu disse sobre a paixão diminuir, ela voltou à todo vapor agora. Dave meu coração é seu, por favor, só me diga o endereço de entrega.
- Deveria, né? Talvez assim você não escrevesse tanta merda sobre mim na escola. – sorria pela primeira vez naquela noite. Eu não poderia estar de outra maneira também, saber que era tão fácil irritar era muito divertido. – Saia do camarim.
- Qual é, , camarim? Isso é o depósito de um bar estudantil, e não o Coachella. – disse, parando ao meu lado com os braços cruzados e um claro sinal de deboche.
- Saia, Dave. – Coachella. Ele pareceu nem ouvir o comentário da irmã. Trevor, Logan e já estavam próximos, se preparando para separar qualquer indício de guerra.
- Ele é meu convidado, . – avisei, ganhando sua atenção.
- Sério, ? E quem caralhos te convidou? - eu sentia a raiva nos seus olhos azuis enquanto me encarava. Se antes tinha um brilho de pura excitação com show, agora tudo que saia dali eram faíscas que seriam capazes de matar. Eu poderia imaginar que os meus não estavam muito diferentes.
- Ei, culpa seu amiguinho ali. - apontei para Trevor. - Na verdade, se você não tivesse sido um babaca e dado em cima de , eu não estaria aqui. - o lembrei.
- Ele não deu em cima de mim. - gritou ofendida ao que Trevor e Logan o encararam.
- Você deu em cima dela? - os dois disseram ao mesmo tempo. Logan visivelmente irritado, e Trevor mais confuso do que qualquer coisa.
- O quê? Por que vocês estão acreditando nela? Qual é o problema de vocês? - seus amigos não pareceram muito seguros. Logan abandonou a discussão, deixando sua irmã adotiva para trás sem sequer olhar em sua direção. Trevor ficou. - Ok, foda-se. Dave, saia. - voltou sua atenção para a gente.
- Você quer que eu saia, ? - perguntou-me, ignorando completamente o garoto à nossa frente. Eu neguei rapidamente. - É, então não vai rolar.
- Bom, eu tiro você daqui com as minhas próprias mãos então…
- Ok, chega disso. - Trevor ficou entre os dois antes que ele se aproximasse mais. - Sério, ? - arregalei meus olhos de maneira inocente.
- O quê? Eu só pensei que seria bom para a banda. – disse, ironicamente. - Infelizmente, vocalista bate em jornalista nos bastidores não me parece muito apelativo. - sussurrei como se fosse uma fofoca.
- , você vai para lá. - Trevor parecia um pai, tentando colocar ordem na bagunça que estava prestes a aumentar. Era quase irritante, e, provavelmente, eu iria repassar aquele momento na minha cabeça pelo resto da noite, me amaldiçoando por deixar com que o ódio mais uma vez me cegasse e me fizesse ter atos tão infantis. Mas tudo bem, menos de um ano e eu nunca mais vou ouvir falar sobre , se tudo der certo. - Dave, você pode, por favor, ir embora…
- O que está acontecendo aqui? - uma voz grossa soou na porta e todos olharam ao mesmo tempo. Aquele senhor, definitivamente, não era algum estudante fã de . Ele deveria ter quase cinquenta anos, uma barba muito longa e um olhar muito ameaçador. - Garoto, você está arrumando briga no meu bar? - disse diretamente em direção ao , que se encolheu.
- Claro que não, eu só estava tentando resolver um probleminha de invasão… - olhou para mim com raiva.
- Invasão? Está dizendo que eu não consigo cuidar da segurança do meu próprio bar? - se aquele homem já era assustador apenas parecendo irritado, quando ele disse aquilo parecia que todos estavam segurando sua respiração para que nada saísse do controle.
- Olha… - Trevor tentou argumentar, mas rapidamente parou.
- Quero todos fora. – gritou, apontando para todo mundo. - Eu não deveria ter ouvido minha filha Ashley e permitido vocês tocarem no meu bar.
- Não é nada disso… - foi a vez de Logan interceder, logo sendo interrompido.
- Saia, saia. Todos para fora do bar. Agora. - gritou e não demorei muito para segurar a mão de e puxar para perto e começar a sair. Dave também não ficou por muito tempo. Seja lá o que Trevor, e Logan queriam discutir com aquela quantidade de músculos, definitivamente eu não estava interessada o suficiente para ficar pra ver.
- Sério? dando em cima de mim? - parou e se soltou de meu braço assim que chegamos na parte de fora do bar - Eu já não disse que quero ficar longe dessa coisa entre vocês? - ela quase parecia chateada, mas nunca se chateava de verdade, e aquela não seria a primeira vez que algo assim acontecia.
- Ele realmente deu em cima de você. Sorrisinhos e tudo mais. - a lembrei, mesmo que, no fundo, eu sabia que ele não tinha dado em cima de , principalmente, por causa de Trevor e dela ser irmã adotiva de seu melhor amigo.
- , pelo amor de Deus, você levou Dave para lá sabendo que isso aconteceria. - apontou para mim. - Nada contra você, Dave. – o encarou rapidamente.
- Tudo bem, eu meio que não ligo, realmente. - ele deu de ombros e eu procurei seu olhar e quase sorri. que me perdoe, mas eu ia falar desse menino pelo resto da semana.
- , ele é seu irmão. Era um show importante e você deveria apoiá-lo. - tentou argumentar, mas todos já sabiam que era uma briga perdida.
- Nem começa, , eu não fiz nada dessa vez. - levantou as mãos em sinal de inocência.
- Você cruzou todos os limites, . - gritou ao chegar perto da gente, seguido por Trevor e Logan, que apareceu, mas permanecia praticamente invisível em todo aquele mar de gente e ódio.
- Você também, , 17 anos atrás quando resolveu nascer. – respondi, sem dar tempo de uma tréplica e puxando Dave para longe. - Desculpa pelo fim de noite caótico, eu realmente sou mais madura que isso. É só que o me dá nos nervos…
- Tudo bem, Lau. Eu me diverti muito hoje. - ele não parecia estar mentindo. - Eu preciso ir, a gente se fala amanhã no colégio?
- Com certeza. – sorri, tentando não parecer muito animada. - Claro, sim, podemos nos falar. - ele acenou e saiu andando. Resolvi voltar para perto das minhas amigas e não foi nenhuma surpresa ver e em uma longa discussão.
- Você é invejosa para caralho, eu não tenho culpa se você odeia a sua vida. - praticamente gritava para ela, que não parecia nem um pouco abalada. Trevor e tentavam acalmar os ânimos e algumas poucas pessoas que saiam do bar começavam a encarar por tempo demais.
- Garoto, quem em sã consciência vai ter inveja de um cantorzinho de banda de garagem? Pelo amor de Deus, . - ouvi responder ao me aproximar deles.
- Vamos, meninas. – pedi, querendo ir terminar aquele dia. Um total show de horrores.
- Na verdade, eu vou com Trevor. - comentou, parecendo ainda chateada por tudo.
- É claro que vai. - murmurou ao meu lado, mas acho que fui a única a ouvir.
- Beleza, nos vemos amanhã então, . - peguei a mão da minha outra amiga e começamos a andar para ir embora. Seja lá o que quisesse fazer, não nos importávamos. Infelizmente, ele apareceria de madrugada e seria desagradável como sempre. - Parece que Trevor e será algo sério... - tentei iniciar uma conversa quando já estávamos afastadas de todos.
- É, tanto faz. - sequer me olhou, soltou sua mão da minha e apertou o passo para longe.



Continua...



Nota da autora: Esse capítulo até agora é meu xodó porque finalmente todo mundo apareceu. Um completo caos, eu sei, mas nada de novo, né? Um bando de adolescente vai sempre criar um caos. Bem, os próximos capítulos agora estarão mais no contexto colegial mesmo, e eu tô muito animada porque sempre quis escrever um clichê assim. Eu espero que vocês estejam gostando. Até a próxima <3
Ps: Eu fiz uma playlist que me ajuda a escrever a fic então caso alguém se interesse, está aqui nos links.




Outras Fanfics:

Em andamento:
Angels Can't Fall In Love

Ficstapes:
13. Love Drunk (Ficstape #155 - DNA - Little Mix)
03. Soundcheck (Ficstape #051 - The Ride - Catfish and The Bottleman)
03. Without The Love (Ficstape #018 - DEMI - Demi Lovato)

Nota da beta: Meu Deus, essa fic vai me enlouquecer, Bia! De verdade, eu tô MUITO ansiosa para quando eles perceberem que se gostam e PRINCIPALMENTE como vai ser isso para as pessoas em volta! Essas provocações dos dois me dá uma ansiedade gigante, a Lauren é maravilhosa demais hahahahahaha me manda maisssss <3

Qualquer erro nessa atualização ou reclamações somente no e-mail.


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