Hunting the hunter

Última atualização: 01/09/2019

Prólogo


– Droga! – A agente resmungou ao ver as horas em seu relógio de pulso, que se encontrava com o vidro rachado. – Tenho um compromisso. – Completou, já levantando da maca onde estava sentada e sendo examinada pelo médico da sede.
– Nós não terminamos sua avaliação, .
– Mas, se terminar, eu perco meu pescoço! Eu juro que volto logo assim que estiver livre, Sneller. – Prometeu, já saindo correndo pela porta.
Correu até o elevador, onde se desfez dos acessórios que usava. O coldre que estava preso em sua perna foi o último a ser retirado e caiu no chão da caixa de metal com um baque surdo. Abaixar para pegar o mesmo no chão fez a mulher sentir uma fincada na base da coluna. A queda na mesa realmente havia sido feia. Ainda assim, se recuperar antes de qualquer coisa estava fora de cogitação.
Hoje era a última aula de suas turmas antes das apresentações de natal. Não podia deixar as crianças na mão por uma dorzinha. Quando chegou ao estacionamento, andou em passos rápidos até o carro, tirando do porta-malas tudo o que precisaria para o resto do dia, agora exercendo sua segunda profissão, professora de ballet.
Como de costume, jogou tudo no banco traseiro e trocou de roupa ali dentro mesmo. O cabelo foi preso em um coque firme com o auxílio do retrovisor central, as pernas cheias de hematomas escondidas por uma meia calça preta e o corte no lábio, disfarçado por um batom claro. De agente acabada após uma missão para bailarina impecável em alguns minutos. Passou pro banco da frente e dirigiu até o estúdio de dança onde trabalhava.
A roupa suja foi descartada no porta-malas e a mulher entrou no prédio, já cumprimentando algumas mães e se desculpando pelo atraso.
– Lexi, cheguei! – Avisou a secretária e também grande amiga.
– Você está atrasada, ! – Apontou o relógio que mostrava seu atraso de cinco minutos. – As crianças já estão te esperando.
– Oh não! – Fez um drama exagerado que fez a mais nova rir e entrou pelas portas duplas da sala. – Bom dia, pequenos! – Disse, sorridente, enquanto era calorosamente abraçada pelas crianças que já nem eram assim tão pequenas.
A turma era constituída por crianças dos 4 aos 6 anos e era a turma mais “velha” que a professora tinha atualmente. Crianças mais velhas reparam demais, e isso era um perigo. Ali, no estúdio, já era suficiente Alexandra lhe enchendo de perguntas. Adolescentes e pré–adolescentes seriam demais para a cabeça da agente.
O ensaio correu perfeitamente bem, enchendo a mulher de orgulho. Sua versão do clássico Quebra-Nozes estava maravilhosa e aconteceria na noite seguinte, no teatro que ficava a poucas quadras do seu apartamento.
Assim que o ensaio terminou, dispensou a turma e foi até sua bolsa pegar um remédio para a dor. Seu corpo lhe implorava por um descanso, mas só poderia lhe atender após a avaliação do doutor Sneller. Depois que a última criança saiu da sala, ela engoliu o comprimido a seco, já acostumada com o ritual.
Se aproximou de um dos espelhos e abaixou as alças do collant que vestia e analisou o estrago feito em suas costas. Uma mancha escura cobria a parte de baixo de sua coluna, fazendo a mesma entender a preocupação do médico da organização e sua dor contínua. O maldito culpado por isso tinha sorte de estar morto agora, pois sua vontade era de matá–lo novamente.
ainda analisava suas costas quando ouviu três batidas na porta, fazendo–a murmurar um “entra” enquanto subia a roupa para o devido lugar.
Alexandra adentrou a sala com um semblante preocupado e bochechas vermelhas. Parou na frente da amiga e a analisou enquanto o vermelho de seu rosto diminuía.
– O que foi? – murmurou, vendo a feição da amiga.
– Você está um trapo, . Devia descansar. – Lexi respondeu realmente, preocupada com a saúde da outra. – Eu não sei o que você faz no seu tempo livre e nem é da minha conta, mas isso vai acabar te matando. – Completou vendo a outra assumir uma postura derrotada.
– Ah Lexi, se eu te contar, você nem vai acreditar, e eu teria que te matar depois.
– Você não mata nem mosca, . Não sei o que pode ser esse seu segredo tão macabro. Você pratica BDSM? – Perguntou, fazendo a mais velha gargalhar.
– Eu vou te contar, só não pode ser agora. Paciência, pequena gafanhota.
– Você me odeia quase o mesmo tanto que se odeia. Eu sou curiosa!
– Veio aqui só para me aporrinhar sobre meus hobbies secretos? – perguntou com um sorriso esperto brincando nos lábios.
– Você sabe que não. Harry Atkins está lá fora e, antes que eu explodisse de vergonha, eu fugi.
– Eu preciso te ensinar a sobreviver a pais solteiros bonitões.
– Você precisa me ensinar a ser igual a você.
– Eu não seria capaz de corromper tamanha pureza. – disse, segurando o queixo da amiga de forma carinhosa e, ao mesmo tempo, debochada. – Vamos recepcionar as crianças!
A professora jogou a cartela de comprimidos na bolsa e seguiu para a recepção, sendo seguida por Lexi.
! – Harry saudou assim que viu a mulher. – Quanto tempo, hein?
– Eu estou aqui toda terça e quinta, dando aula para a sua filha, e você tem o descaramento de sumir! Você é um péssimo amigo, Atkins.
– É você quem está deliberadamente ignorando minhas mensagens! Eu estou vendo aqueles tracinhos azuis! – Ele falou e sentiu seu um calafrio atravessar seu corpo, mau sinal. – Além do quê você sabe que não tenho tanta disponibilidade para trazer a Olive com frequência.
– Não tem como eu estar ignorando suas mensagens se você nem está enviando pro meu telefone. – Ela pontuou e viu o homem ajeitar a postura, mau sinal ao quadrado.
– Você trocou de telefone?
– Céus, Harry! Você sumiu faz tanto tempo assim? – Lexi perguntou, chocada. – Já deve ter uns dois meses ou mais que a perdeu o telefone.
– Como? – O homem perguntou curioso e ainda apreensivo.
Um fato sobre Harry Atkins: ele é agente da Interpol. Foi por isso que se tornou amigo de , trabalharam juntos em um caso de tráfico humano.
– Assalto. – respondeu, suspirando, e fez um sinal disfarçado que insinuava que explicaria depois.
Harry se permitiu rir por dentro. Ainda não sabia como a mulher conseguia esconder da melhor amiga que era uma agente do FBI.
– Bom, já que finalmente lhe encontrei e tenho o dia livre, devo te convidar para colocarmos o papo em dia mais tarde.
– Tenho uma consulta logo no fim da aula, mas te encontro no lugar de sempre às sete?
– Fechado.
– Crianças! – adquiriu um tom amável para chamar a atenção de seus pupilos. – Vamos mexer o esqueleto!
A aula se seguiu tranquilamente, ao contrário do estado de espírito da mulher. Ela estava preocupada agora. Quando perdeu seu telefone no meio de uma apreensão de dados de uma multinacional, não deu muita importância, afinal, era só comprar um novo. Mas agora que Harry disse que tentou conversar com ela, se sentiu uma amadora.
Quantas pessoas tentaram contatá–la nesses dois meses? Quanta informação sobre sua vida o portador de seu antigo telefone agora tinha? Rezava para que não fosse nenhum de seus inimigos. Afinal, é impossível exercer a lei sem despertar inimizades, ainda mais sendo um dos nomes de destaque dentro de sua equipe. Agora, caso essa pessoa seja mal intencionada, sua vida e a de pessoas próximas corriam perigo.
Precisava relatar isso na sede o mais rápido possível e não estava preparada para o esporro que levaria de seu superior. A agente amava seu capitão, tinha o mesmo quase como uma figura paterna. Afinal, Capitão Fumero havia sido o melhor amigo do pai da agente e ele esteve presente na maior parte de sua vida. E infelizmente, graças a isso, ele se sentia no direito de ser ainda mais carrasco com a mulher.
Jacob Fumero era carismático, todos adoravam o cara. Mas quem pisasse na bola com ele, estava ferrado. E esse era do destino da jovem. Mais que ferrada, estava fodida. Quando liberou as crianças, passou o novo número de telefone para Harry e saiu em disparada até o edifício do qual saíra às pressas mais cedo. Nem sequer se importou em trocar de roupa, sua urgência era grande demais.
Alexandra percebeu que a amiga havia ficado estranha, não saberia dizer o motivo, afinal, por mais amigas que fossem, o que a mais velha fazia no seu tempo vago era mistério quando não estavam juntas. No caminho até a sede, ligou para a sua operadora, pedindo o cancelamento do chip e também o bloqueio do aparelho. A atendente lhe garantiu que, em menos de meia hora, ela receberia uma notificação por e–mail com informações sobre seu pedido.
caminhou às pressas até a mesa de Pratt. Estava definitivamente afobada e precisava falar com Fumero logo. Ignorou todas as piadas de seus colegas de trabalho sobre suas vestes e os olhares de choque ao ver a durona com roupas de bailarina. Aquilo era sério demais.
– Eu preciso falar com o capitão, Pratt. É urgente. – Pediu logo que se postou à frente da mesa do secretário.
– O que você está vestindo? – Perguntou curioso.
– Estou sem tempo para papo furado, avise o capitão que estou aqui. – Ela pediu ameaçadora e o homem apenas assentiu.
Pratt discou o número do escritório do chefe.
– Senhor, está aqui fora com cara de poucos amigos, quer falar com você e está vestida de forma chocante. – Ele disse, ainda encarando a mulher a sua frente, que agora tinha os braços cruzados na frente do corpo.
O homem do outro lado da linha liberou a entrada da mesma em sua sala e ela entrou apressada. A agente adentrou a sala do capitão e, ao invés de se sentar na mesa do chefe como de costume, se acomodou de forma desconfortável em uma das cadeiras em frente à mesa do mesmo, comportamento incomum que não passou despercebido por Fumero.
– Eu estou com medo de perguntar o que aconteceu para resultar nisso. – Foi Jacob quem se pronunciou primeiro.
– Eu fiz uma bosta das grandes.
– Estou criando muitas teorias, não é todos os dias que a Professora me agracia com sua visita.
– É a primeira vez e, se ela veio, você imagina o desespero que a Agente deve estar.
– Desembucha, .
– Alguém está com o meu celular antigo há alguns meses.
– Quanto de informação tinha no aparelho, ? – O homem perguntou direto.
– O suficiente para quem ter nas mãos conseguir me usurpar.
– Eu não acredito que você deu uma mancada dessas! – Gritou nervoso. – Olhe quantas vidas você está colocando em risco!
– Eu não tenho bola de cristal.
– Quão grave você acha que é a situação?
sentiu o celular vibrar no sutiã. Por agora, ele seria ignorado.
– Não sei, só sei que a pessoa tem acesso pois Harry me disse que as mensagens estavam sendo visualizadas e ignoradas.
– O Atkins está envolvido? Céus! – O homem passou as mãos no rosto procurando se acalmar. – Isso pode custar sua carreira e até mesmo sua vida. – Ele falou dessa vez mais preocupado que bravo.
Depois de levantar todas as hipóteses possíveis, saiu da sala de seu superior com uma única missão, esperar.
E aquilo definitivamente lhe mataria.
Esperar alguém se pronunciar depois de 60 dias em silêncio seria o maior dos martírios da vida da agente. era ativa, esse negócio de reagir era conversa para boi dormir, ela pensava. E esse tipo de espera iria lhe corroer.
Passou na sala que dividia com Raymond, seu parceiro e pegou uma troca de roupas e se dirigiu ao vestiário feminino, estava precisando de um banho.
Deixou que a tensão escorresse ralo abaixo junto da água quente, desferiu socos contra a parede do box e se xingou. “Você é patética, , que errinho de principiante.” Dizia para si mesma enquanto saia do vestiário. De banho tomado, cara limpa e cabelos molhados ela seguia de volta para sua sala.
Quando entrou na mesma, ali estava Bowers sentado de maneira largada na frente de um computador.
– Parece que cheguei atrasado para o show. – Ele cumprimentou a parceira com um tom de falsa tristeza na voz.
– Você também não, Ray. – Ela reclamou jogando a toalha dentro da mochila perto de sua mesa. – Já basta todo mundo.
– Você realmente acha que eu vou perder a chance? É para isso que melhores amigos existem. – Finalmente ele desviou o olhar da tela e olhou para a mulher. – Mas me diga o que aconteceu de tão grave para a bailarina dar as caras? Isso é novidade aqui no FBI
– Eu fiz uma bosta das grandes, pensei que Fumero ia me matar.
– Você tirando o capitão do sério nem é mais novidade, .
– Dessa vez, é sério.
contou o que aconteceu ao parceiro e a primeira coisa que o homem lhe disse foi:
– É, tenho a sensação de que você vai fazer as malas.
Ir embora de Los Angeles era a última coisa que queria. Sua vida inteira estava naquela cidade.
Enquanto eles conversavam, ela estava organizando papéis e fazendo o relatório do confronto da madrugada. Somente quando terminaram o assunto é que a mulher se lembrou que tinha um celular (foram esses esquecimentos que tenham colocado ela naquela saia justa, para começo de conversa).
A primeira notificação que brilhou na tela do aparelho foi uma mensagem de um número privado, aquilo lhe deu um calafrio e ela se apressou em abrir a mensagem que tinha os seguintes dizeres:
“Agora que você sabe, os jogos vão começar a ficar divertidos. Espero que esteja pronta para brincar, .”


Capítulo 1

7 meses depois...


– Isso só pode ser brincadeira! - disse, sentindo vontade de chutar tudo o que havia naquela salinha.
Estava quase terminando o rastreamento de IPs quando a energia acabou, deixando-a bufando de ódio.
– Calma, nervosinha. - pediu, tentando acalmar os ânimos da parceira. - Eu posso ajudar se você me disser o que está procurando.
– Cuida da sua vida, . - Ela rebateu, irritada. - Acabou de chegar e quer sentar na janelinha?
– Eu tô tentando te ajudar com seu caso super secreto.
– Quem não atrapalha, já ajuda. Não se mete nisso, ok? – Pediu, tornando a ligar o computador.
– Você sempre foi péssima assim em trabalhar em parceria?
– Esse caso não diz respeito a você. Quando você chegou, já estava acontecendo, e você não vai se meter, ok?
– Beleza, . Se precisar de ajuda, eu tô na mesa em frente a sua. - Ele falou, voltando a se concentrar na papelada com a qual tinha que lidar.
Para , era intrometido demais para seu próprio bem estar. Detestava o quanto ele era pentelho e a pressionava para contar sobre o que estava investigando. Isso porque fazia apenas um mês que estavam trabalhando juntos naquela delegacia.
Pouco mais de três meses depois que foi transferida de estado, vinda do Maine, foi promovido a detetive e, por serem os mais novos na delegacia, foram escalados como parceiros. Para o azar da mulher.
Passou as mãos no rosto com força e suspirou, vendo que nada do processo tinha sido salvo quando o aparelho ligou novamente. Refez todo o procedimento de ocultação de identidade e reativou o programa de rastreio. Estava tentando encontrar um modus operandi entre as mensagens recebidas por ou burlar o sistema de vpn usado pela pessoa por trás das ameaças.
– Mayer e , um chamado de homicídio duplo no Woodlawn. Vão até lá e, por favor, tentem manter a imprensa longe. - O capitão pediu aos dois e saiu apressado com o telefone em mãos.
– Vamos logo. - falou, levantando e desligando o maldito computador de novo.
Parecia que tudo estava combinado para que ela não conseguisse completar aquela simples tarefa.
– Eu dirijo! - disse animado.
– Nos seus sonhos, novato. - Ela respondeu, pegando as chaves do carro. - Não confio em você dirigindo nem carrinho de supermercado.
– Por que você age como se eu fosse um adolescente inconsequente? - Ele perguntou frustrado, sentando no banco do carona.
– Porque você age como um adolescente. - Ela respondeu simples e deu partida no carro.
Quando chegaram ao cemitério, mesmo o lugar sendo enorme, não foi difícil encontrar o ponto onde os corpos estavam. Os seguranças do local tentavam manter os curiosos longe e nem mesmo o cheiro terrível de carne podre afastava as pessoas. O estômago de revirou e ele precisou cobrir um nariz com o antebraço para conseguir se aproximar. apenas fez uma leve careta mas continuou a se aproximar da pequena aglomeração de pessoas.
– Senhores, se afastem por favor. - Os guardas pediam.
– Polícia de Nova York, pode me explicar o que aconteceu aqui? - pediu ao guarda mais próximo dela.
– Um dos transeuntes sentiu o cheiro ruim e comunicou a equipe de limpeza. Achou que era algum animal morto ou algo do tipo. Foi quando um dos zeladores chegou encontrou os corpos. - Ele explicou enquanto andava até para onde os corpos estavam, sendo acompanhado de perto pelos detetives. – Olha, moça, a coisa é bizarra. Parece que as cabeças foram cortadas e costuradas de volta, tá começando a apodrecer. Eu trabalho num cemitério e nunca vi nada igual.
– Eu nunca senti cheiro igual. - disse, ainda com o nariz coberto.
– Nunca pegou um homicídio, ? - perguntou, debochada.
– Já, mas nenhum nesse nível. - Ele respondeu.
Pelo comunicador, a detetive chamou a perícia.
– Disperse os curiosos e a imprensa, princesa. Vou dar uma olhada de perto. - Ela falou ao parceiro, que revirou os olhos mas agradeceu por não ter que chegar ainda mais perto daquele fedor. - Vamos ver o que temos aqui. - Disse para si mesma enquanto se aproximava dos corpos em estado de apodrecimento.
A primeira coisa óbvia é que o crime não fora cometida ali, os corpos tinham apenas sido largados. A segunda coisa eram as marcas de costura cirúrgica no pescoço das duas vítimas. A terceira, e não menos importante, era que, mesmo apodrecendo, a diferença entre os tons de pele do corpo e cabeças eram gritantes. Não foi difícil deduzir então que aqueles corpos tiveram as cabeças trocadas. E isso sim fez o estômago da detetive revirar. Aquilo era doentio demais.
– O que diabos aconteceu com esses dois? - A perita perguntou ao se aproximar.
– Eu estou com medo até de tentar descobrir. - Mayer disse, fazendo uma careta. - Mas esse é o nosso trabalho, né?
– Algum exame específico?
– Além de precisarmos identificar, temos que descobrir se o dna bate com o outro corpo.
– Deve ter sido trocando entre eles, não têm condições.
– Se esse não for o caso, teremos mais corpos para procurar.
– Vou levá-los ao laboratório e começar os exames imediatamente.
– Verifique vestígios de DNA ou digitais pelos corpos. Não deixe passar nada.
– Assim que eu identificá-los, eu aviso. - Florence disse e deu um suspiro profundo, o cheiro de carne podre já nem lhe incomodava mais.
A detetive saiu atrás de alguém que pudesse lhe dar informações sobre o circuito de segurança do lugar, nem que fossem câmeras nos estabelecimentos próximos. Quando chegou perto de , o mesmo estava pálido.
– Você vomitou, novato? - Ela perguntou, achando graça do homem.
– Aquele fedor está horrível. - Ele falou com uma careta de nojo.
– Isso porque você não viu.
– A coisa tá feia assim?
– Vamos atrás da gestão desse lugar. Eu te explico enquanto procuramos câmeras de segurança.
– Por que será que eu tenho a sensação de que eu não vou ficar feliz ouvindo?
– Instinto. Realmente, a coisa é bizarra.
– Pior que o cheiro?
– Definitivamente.
Conseguiram acesso ao sistema de segurança do cemitério e verificaram as gravações dos últimos dias em todas as entradas. Nada realmente suspeito estava nelas, então teriam de levar tudo para a delegacia e repassar todos os mínimos detalhes.
– Qual a lógica de cortar cabeças e depois costurar de novo? - perguntou enquanto explicava a situação dos corpos.
– É isso que vamos ter que descobrir.
Já estava começando a escurecer quando eles voltaram para a delegacia. estava com uma pulga atrás da orelha sobre como aqueles corpos foram parar no meio do cemitério sem ninguém ter visto. se despediu do parceiro e mais alguns colegas de trabalho enquanto ficou para trás. Ele iria analisar novamente as gravações.
No caminho para casa, comprou o jantar, pois estava sem nenhuma vontade de cozinhar. Ao entrar no apartamento, foi recepcionada por Bullet pulando em suas pernas, fazendo-a rir enquanto tentava não derrubar a comida.
– Ei, garoto, calma! Assim a gente vai fazer bagunça. - Ela pediu e teve latidos animados como resposta.
Tentou fugir do carinho do São Bernardo enquanto, ao menos, salvava a comida, a colocando na mesa de jantar.
– Pronto, agora a mamãe pode te dar atenção. - Falou se sentando no chão e deixando o animal subir em seu colo.
Depois de suprir, em partes, a carência de seu cachorro, foi tomar um banho para tentar relaxar depois do que tinha feito e visto aquele dia. Ainda estava no chuveiro quando seu telefone tocou pela primeira vez e decidiu não se apressar. Seja lá quem fosse, com certeza não seria uma emergência. A chamada foi seguida por mais três e ela já estava irritada quando pegou o aparelho. Ao ver o nome na tela se irritou mais ainda.
– Que diabos você quer comigo, ?
– Eu achei uma coisa sobre o caso do Woodlawn e os corpos foram identificados.
– Isso pode esperar até amanhã, você não acha?
– Na verdade, mais dois corpos estão no local. Estou a caminho. Você me encontra lá?
– Que inferno! São corpos, leva pro laboratório e pronto.
– Mayer…
– Tá. Daqui uns minutos, eu vou pro Bronx.
Finalizou a ligação ainda irritada, desejando uma morte lenta e dolorosa para quem quer que estivesse por trás dos assassinatos. Vestiu um jeans e uma camisa preta, jogando um casaco por cima e completando o conjunto com um par de botas, e nem se incomodou de secar o cabelo. Faria de tudo para voltar para casa o mais rápido possível, estava cansada.
– Bullet, a mamãe vai ter que voltar no trabalho. Se comporta, tá? - Ela disse ao cachorro que lhe respondeu com um latido. – Infelizmente, o jantar vai ter que esperar, mas eu vou deixar o seu, ok?
Deixou o pote de ração cheio e guardou sua comida na geladeira antes de atravessar a porta do apartamento. Enquanto dirigia até o cemitério, repassava o dia e lembrou que sua investigação paralela sobre as ameaças contra não evoluiu em nada naquele dia graças aos corpos de cabeça trocada encontrados mais cedo.
notou a aproximação da parceira e indicou os corpos com um movimento da cabeça.
– Você não deveria estar em casa jantando com a sua mãe ou algo do tipo? - Foi a primeira coisa que disse ao estar próxima o suficiente do rapaz para ser ouvida.
– O dever me chama. - Ele disse numa tentativa de afastar a tensão de si mesmo.
– Pelo menos, esses não estão putrefados. - A mulher falou, olhando os corpos.
– Mesma coisa dos de mais cedo, cabeças cortadas e costuradas no outro corpo. Acha que pode ser um assassino em série?
– Sinceramente, eu não sei o que esperar ainda.
– Eu estava revisando as gravações antes de receber o chamado.
– Descobriu alguma coisa?
– Tem vinte minutos de gravação repetidos.
– Como assim?
– Alguém copiou um trecho e colou. Se você quiser, eu mostro direito.
– Certo, então é alguém com acesso ao backup do sistema de segurança.
– Exatamente. Puxei a lista de funcionários daqui de dentro e estou esperando as terceirizadas me enviarem as deles.
– Vinte minutos para despachar os corpos?
– Sim. Também pedi para alguns oficiais verificarem os arredores em busca de mais câmeras de segurança.
– Já falou com alguém? Ninguém viu nada?
– Os portões de visitação já estavam fechados, quem encontrou os corpos foi um dos vigias.
– Certo... Ele já foi interrogado?
– Um dos oficiais está fazendo isso agora mesmo.
– Mais alguém de quem podemos pegar depoimento?
– Todos que estão cumprindo turno vão ser ou já foram interrogados.
– Tá fazendo tudo direitinho, novato. - Ela deu tapinhas no ombro do homem, que revirou os olhos.
– Florence já está a caminho, e a gente tem que ir até os familiares dos outros dois corpos.
– Mande alguns oficiais, eu não sirvo para consolar mães e esposas. Mas quero a ficha dos dois.
Deixaram a perícia no local e foram embora. acabou voltando para a delegacia ao invés de voltar para casa, enquanto fora apressado, quase sem se despedir de ninguém. era um cara estranho. descobriu isso logo na primeira semana que conheceu o mesmo. Sabia que ele morava com a mãe e provavelmente tinha uma irmã mais nova pois, em sua mesa, tinha uma foto dos três juntos, mas nunca quis perguntar porque um cara da idade dele ainda mora com a mãe. Tudo sobre lhe fazia ter saudades do antigo parceiro.
Ao invés de pensar em tudo o que deixou para trás, a detetive preferiu se afundar de cabeça no caso, e essa talvez tenha sido uma piadinha de mau gosto. O relatório do laboratório e as informações sobre as vítimas foram deixadas em sua mesa por Florence assim que a perita soube que ela estava na delegacia.
Daniel Dermody McLean tinha seu registro de óbito por morte cerebral no Presbyterian Queens, enquanto Jay Haldeman Marcun era cadeirante mas não tinha nenhum outro problema que poderia levá-lo ao óbito, mas tinha visitado o hospital alguns dias antes da nota de seu desaparecimento emitida por seus familiares. Ambos tinham idades próximas, porém era aí que acabavam as semelhanças.
se perguntava o que diabos estava acontecendo, mas admitia que tinha medo de descobrir.


Capítulo 2

Não demorou para que os resultados laboratoriais dos dois novos corpos chegassem nas mãos de e . Mais uma vez, uma morte cerebral e algum tipo de incapacitação física ligavam as duas vítimas ao mesmo hospital. Era outro, mas ainda em Nova York. Fora isso e as circunstâncias em que foram encontrados, não havia simplesmente nada em comum entre as vítimas, o que os deixava sem nenhuma ideia do que e quem estava por trás daqueles assassinatos.
–Talvez a gente devesse descosturar as cabeças. – deu a ideia enquanto eles encaravam o quadro com fotos, identificação das vítimas e o mapa com endereços tanto do hospital e cemitério onde os corpos foram deixados quanto seus endereços residenciais.
– Você poderia ter o mínimo de respeito pelas vítimas?
– Não é desrespeito mas, sei lá, vai que quem fez isso deixou alguma coisa lá dentro? Não sei... É só que não temos muito além de quatro corpos, e dois deles estão podres.
– Você quer mesmo fazer isso?
– A gente tem que saber mais alguma coisa disso, . Estamos com todas as pontas soltas.
– O que aconteceu com o novato? – Ele perguntou, realmente chocado.
– Eu estou tentando falar sério aqui.
– É nossa única saída?
– Isso ou ficar de braços cruzados, esperando mais mortes.
– Ok, ossos do ofício. Vamos abrir uns corpos.
– Se ajudar, imagine que hoje é dia de tirar os pontos depois de um corte normal. – Ela aconselhou, pegando casaco e telefone.
– Não ajuda. – Ele disse, copiando as ações da mulher.
– Vamos lá.
– Arrancar umas cabeças, oba! – Ele disse, tentando brincar, mas sua própria careta não conseguiu ser disfarçada.
Caminharam lado a lado até o carro onde , como sempre, dirigiu. O caminho foi preenchido pelo barulho do rádio ligado por . Ao chegarem ao laboratório da perícia, que nem ficava assim tão longe da delegacia, foram atrás de Florence, trancafiada em seu escritório e analisando os resultados de alguns exames que não lhe faziam sentido algum.
– Bom dia! – disse, se sentando na mesa da sala da mulher.
, por favor, não sente em cima dos meus papéis. – Ela pediu, paciente.
– Ah, certo. Tudo bem. – Ela disse sem graça, se levantando e vendo que não tinha nenhum papel ali. – Hey! – Encarou a mulher que agora tinha um sorriso brincalhão no rosto.
– É a segunda vez que você cai nessa!
– Eu tenho medo de sentar em cima da foto de um morto!
– Por que você respeita mais a foto que o corpo? – Foi que perguntou.
– Eu respeito os corpos, , mas algumas coisas precisam ser feitas para a investigação.
– Alguma novidade do trocador de cabeças? – Florence perguntou.
– Nada. – Ele respondeu, frustrado. – Por isso que viemos aqui.
– Vocês não esperam que eu tenha alguma resposta, né? Tudo o que eu sei está nos relatórios.
– Queremos descosturar as cabeças pra ver se tem algo lá. – explicou.
– “Queremos” não. Você quer.
– Vai colocar o novato para dissecar corpos no segundo mês dele aqui?
– Se ele quiser desistir do caso também, tanto faz.
– Não vou. – disse, determinado.
– Ótimo então. Florence, por favor, faça as honras. – pediu, apontando para a porta e, logo, os três estavam se vestindo com jalecos, toucas e luvas.
Entraram na sala que causava calafrios em , onde os corpos encontrados na noite anterior estavam dispostos em duas macas. O rosto dos dois homens eram pálidos, os lábios roxos contrastavam com a pele branca. Se não fosse o caso anterior tão recente, provavelmente daquela vez não se poderia dizer logo de cara que as cabeças foram trocadas. As duas vítimas eram brancas e tinham cabelos loiros. Florence se aproximou de um junto a , que parecia estar entoando algum tipo de mantra que só ele conseguia entender. Era “não vomite”.
Do outro lado, já estava com uma tesoura cirúrgica, se aproximando do corpo.
– Por que estamos indo fazer isso mesmo? – perguntou.
– Estamos tentando achar algo. – Florence explicou, começando a abrir os pontos.
, se for ficar reclamando, volte pra delegacia. – murmurou, terminando de cortar as linhas.
Usou a própria tesoura para separar o encontro entre as peles e estranhou ver mais suturas por dentro, como se o assassino tivesse se dado ao trabalho de reunir todos os nervos e músculos antes de fechar de vez o pescoço da vítima.
– Florence, tem algo de estranho aí?
– Só uma cabeça costurada muito porcamente. Isso tava a ponto de soltar. – Ela disse, aumentando o espaço entre o corpo e a cabeça.
O estômago de revirou e ele engoliu em seco.
– Vem ver isso. – chamou.
– Isso sim é estranho.
– Tá tudo preso? Por quê? – perguntou confuso.
– Isso não para de ficar estranho. – disse, soltando um suspiro frustrado.
– Eu li na internet, um tempo atrás, algo sobre transplantes de cabeça. Vocês acham que é isso? – O homem perguntou.
– Isso não faz sentido. – Florence disse.
– Achar corpos com cabeças trocadas também não.
– Dá pra ver que foi tudo minuciosamente unido. – A perita disse, analisando as ligações, e notou que a jugular tinha uma falha e muito sangue coagulado ao redor. – A causa da morte não foi a decapitação.
– Não? – perguntou, levando ainda mais a sério o palpite do parceiro.
– Olha isso. Tem sangue coagulado aqui, e mais ao redor. – A mulher pegou o luminol e analisou os fios cortados pela detetive. – A linha cirúrgica não deveria estar completamente suja de sangue assim.
– A menos que tenha tido um sangramento sério. – completou, entendendo a linha de raciocínio da perita.
– Nosso assassino é neurologista. – pontuou.
– Florence, já sabe o que fazer. – indicou o corpo e tirou as luvas. – , vamos virar Nova York de cabeça para baixo, olhar um por um.
– Assim que encontrar mais coisas, entro em contato. – Florence disse mais alto enquanto a dupla de detetives saía do laboratório.
De volta a delegacia, puxando todos os registros médicos de Nova York, e estavam trancados na pequena sala que dividiam.
– Será que isso é feito com consentimento? – questionou em voz alta.
– Eu não sei quem é maluco suficiente para aceitar isso.
– Se tem um maluco achando que isso é possível… Sinceramente, não sei se duvido de mais alguma coisa.
O telefone de tocou e ele rapidamente o tirou do bolso. Olhou para , como se questionasse a si mesmo sobre atender ou não, mas a preocupação não lhe deixou ignorar.
– Vou colocar no viva-voz. Por favor, fique quieta. – Ele pediu, aceitando a chamada e, logo, largando o celular na mesa e voltando a digitar o que estava fazendo antes. – Aconteceu alguma coisa, mãe? – Perguntou e apertou os lábios, querendo rir do rapaz.
– Querido, Alisha sofreu um acidente, eu não posso levar Hailee comigo. – A voz preocupada da mulher preencheu a sala e tirou a vontade de rir da mulher. suspirou.
– Como ela está? – Perguntou, sentindo o estômago revirar.
– No hospital, foi tudo o que Matthieu disse.
– Estou indo buscá-la. – Ele disse, largando o computador e se levantando.
– Por favor, não demore, querido. Vou correr para o aeroporto.
– Está bem, mãe. Até daqui a pouco. – Ele nem esperou a chamada ser finalizada e saiu num rompante da sala, avisando que voltaria em breve.
A detetive nem mesmo se deu ao trabalho de responder o parceiro. Perguntava-se quem era Alisha e o porquê da mãe de não levar a filha mais nova com ela. Pelas contas de , Hailee devia estar chegando aos 2 anos de idade, já que a foto que adornava o plano de fundo do celular do parceiro mostrava uma criança sorridente, com vários dentinhos redondos à mostra.
Não que ela estivesse bisbilhotando, era somente muito atenta a detalhes, como a forma que o rosto do parceiro se iluminava quando falava com a criança pelo telefone durante o horário de almoço e o fato de que, a cada hora, ele envia uma mensagem para a mãe, perguntando como estavam as coisas em casa. Por mais que implicasse com o homem, sabia que ele era muito atencioso com as duas. E também não gostava de deixá-las esperando. Era até bonitinho de ver.
Saindo daqueles pensamentos bobos, teve o cuidado de esconder as fotos do caso, pois sabia que não teria como evitar levar a garotinha para o trabalho.
– Onde foi? – O capitão perguntou, colocando somente a cabeça para dentro da sala.
Haviam recebido ordens estritas de não saírem da delegacia sem motivos já que as entradas do prédio estavam abarrotadas de abutres da imprensa graças ao caso do que se popularizou como "O trocador de cabeças". Naquela manhã, quando chegou na delegacia, foi sufocada por flashes e gravadores enquanto era bombardeada por perguntas. Tentou ao máximo esconder o rosto, mesmo sendo totalmente contrária à postura necessária para uma detetive de sua patente. Um calafrio corria por sua espinha só de pensar em ter seu rosto relacionado a um caso que, provavelmente, estava apenas começando e teria proporções muito maiores.
– Foi buscar a irmã. Aconteceu alguma emergência.
– A irmã dele?
– É, a menininha.
não tem irmã pequena. Que tipo de mentira você está tentando contar?
– Essa garotinha aqui. – disse e mostrou o porta-retrato da mesa do parceiro.
– Vocês realmente estão trabalhando juntos? Como que vocês sabem tão pouco da vida do outro?
– Como assim?
– Hailee é filha de . – O capitão esclareceu, fazendo a mulher abrir a boca em choque. – Me admira que você, sendo tão atenta, não saiba disso. Que tipo de detetive você é, afinal?
– Eu tinha esperança de ele ser um pouco menos irresponsável. – se explicou.
– Você deveria ser menos crítica com o cara.
– Você também não, por favor. – Ela pediu com uma careta. – Já basta a Florence.
– Não tiro a razão dela.
Depois de uma pequena bronca sobre o desinteresse para com o parceiro, o capitão deixou a mulher trabalhando em paz, que durou pouco.
, eu sei que a gente devia focar no caso agora, mas não tava nos meus planos trazer a Hailee para cá. – falou, entrando na sala com a garotinha no colo.
Os olhinhos estudavam a sala.
– Emergências acontecem, . – Ela disse, compreensiva. – Não vai me apresentar?
– Hailee, essa é a , ela trabalha com o papai. – Ele falou. – , essa é a Hailee.
se levantou, indo até os dois para cumprimentar a menina direito. Crianças e bichinhos eram o ponto fraco da mulher, e ela nem fazia questão de esconder isso.
– Oi, mocinha, tudo bem? – Perguntou, recebendo um aceno da menina. – Seu pai fala muito de você, sabia? Eu estava curiosa para saber quem era a Hailee de quem ele tanto fala.
– Sou eu. – Ela respondeu com um sorrisinho que amoleceu ainda mais a mulher.
Naquela tarde, sentiu ainda mais saudade de tudo o que deixou para trás no seu antigo lar.


Capítulo 3

, chame a emergência pra Manida Street com a Randall Avenue. Tenho civis feridos. – disse pelo rádio.
Assim que entrou no mercado, foi recebida de forma hostil por uma mulher negra que mal chegava aos seus ombros.
– Senhora, eu estou aqui para ajudar. – A detetive disse enquanto era barrada.
– Vocês vão levar o meu filho! – Ela dizia, desesperada.
– Vou prestar o socorro necessário, ok? – Pediu, já começando a perder a paciência, e caminhou até o garoto que deveria ter, no máximo, 15 anos.
Ele segurava a perna com as mãos ensanguentadas e tinha dor por cada traço de seu rosto. sentiu todos os pelos do corpo arrepiarem com a onda de adrenalina que atravessou seu corpo. A emergência não chegaria a tempo.
Apressada, se abaixou perto do garoto, que levantou seu olhar para a mesma com seus olhos, gritando por socorro. Tirou a faca que guardava no cano da bota e cortou o jeans ensopado pelo sangue sem dizer uma única palavra.
– Vai ficar tudo bem. – A mulher disse quando tirou as mãos do menino de cima do ferimento. – Você pode conseguir álcool e uma dessas fitas de retenção? – Levantou o rosto por um segundo para a mãe do garoto e, logo, voltou de novo sua atenção para o buraco agora exposto. – Você vai ter que me ajudar enquanto sua mãe busca o que precisamos, ok? – Pediu ao garoto, que assentiu.
A emergência chegou enquanto a mulher fazia de tudo para minimizar a hemorragia do garoto, o que foi parcialmente sucedido já que ele ainda estava acordado quando foi levado pela ambulância, acompanhado pela mãe. Outros oficiais se ocupavam em fazer perguntas às testemunhas enquanto , acompanhada do oficial Miller, falava com o dono do mercado onde a troca de tiros havia acontecido.
– Por que eu tenho a sensação de que não está me contando tudo, senhor Valdez? – Ela perguntou com a sobrancelha arqueada.
O homem engoliu em seco.
– Eu te contei tudo, detetive Mayer.
A mulher pegou o telefone, enviando uma mensagem para apressar com o mandato que havia pedido assim que começou a falar com o latino mal encarado.
"Estou entrando." foi a resposta que recebeu. Assim que entrou no estabelecimento, a mulher abriu um sorriso vitorioso para o homem à sua frente.
– Senhor Valdez, meu parceiro ali tem um mandado de busca para o seu estabelecimento. Se importa de se retirar e esperar do lado de fora enquanto fazemos nosso trabalho? – O homem assumiu uma expressão derrotada mas assentiu, se levantando da cadeira em que estava sentado, e foi acompanhado por Miller até o lado de fora sem dizr uma palavra sequer.
– Esse cara é mau caráter. – disse assim que estava sozinho com a parceira.
– Eu sei, por isso pedi o mandado. Tem alguma coisa aqui que não me cheira bem.
– Algo lá dentro? – O homem perguntou, tendo a mesma sensação esquisita que a parceira.
Ele olhou para a porta de acesso restrito a funcionários e um arrepio lhe atravessou. Entraram pela passagem, que era tapada apenas por uma cortina plástica transparente, e a sensação ruim aumentou a pressão sobre os músculos de . Sua intuição o levou diretamente até a porta do refrigerador industrial e ele acenou para a mulher, indicando sua intenção.
Eles se posicionaram na porta, com a arma apontada e puxando a maçaneta da porta pesada. Ao contrário de homens armados até os dentes, o que os esperava do lado dentro da porta lhes partiu o coração. Duas garotas. Uma de, no máximo, 16 anos e outra por volta dos 6 estavam encolhidas uma contra a outra, a 16 tentando tampar a menor da melhor forma possível. As duas choravam.
– Nós vamos levar vocês para casa. – foi o primeiro a dizer algo, a voz com um tom machucado.
– O senhor Valdez… – A garota mais velha começou a dizer com a voz fraca, muito provavelmente devido ao frio, o rosto estampado pelo medo ao pronunciar o nome do homem.
tomou as rédeas da situação, ajudando as duas garotas a saírem da sala gelada e repetindo que, agora, elas estavam seguras. Pelo rádio, pediu a Miller que detivesse o dono do mercado. As garotas foram colocadas no carro da detetive e o aquecedor foi ligado, ambos os detetives torcendo para que as meninas não estivessem doentes.
– Fiquem aqui dentro até estarem bem aquecidas, ok? – O homem pediu gentil vendo os dois pares de olhos amedrontados lhe responderem com um aceno. – Eu e a detetive Mayer vamos ter uma conversa rápida. – Ele falou e os dois saíram do carro, fechando as portas e andando até estarem encostados no capô do carro.
– Manny, pode terminar a revista no lugar? – pediu ao oficial, que esperava por alguma resposta sobre as meninas. – Temos um abacaxi enorme pra descascar.
suspirou, olhando suas mãos ainda com resquícios de sangue do garoto que tentou salvar a vida. Bobeira da parte dela acreditar que aquela teria sido a parte difícil daquela chamada.
– Eu não estava esperando por isso. – Ela disse com a voz fraca.
– Nem eu. – O homem respondeu simples, deixando os ombros caírem.
– Você também está com medo de perguntar o que aconteceu com elas? – A mulher não desviava os olhos de suas mãos.
– É o nosso trabalho, não? – Não só a postura de mas também sua voz expressavam a derrota que sentia. – Vamos cuidar delas.
– As coisas aqui em Nova York são difíceis. – Outro suspiro saiu dos lábios trêmulos da detetive.
– A gente dá conta. – Ele se desencostou do capô e olhou o rosto da parceira que devolveu o olhar, encontrando um calor diferente no olhar dele. – Se recomponha, detetive. Aquelas meninas precisam de uma heroína agora, e ela vai ser você. – Ele abriu um pequeno sorriso, arrancando uma risada fraca da parceira.
– Quando eu chegar em casa, vou chorar que nem um bebê.
– Espero que seja de orgulho, . Foi a sua intuição que nos fez achá-las. – O olhar do homem alcançou as duas meninas abraçadas dentro do carro. – Ainda temos muito a fazer. Guarda o choro pra quando você estiver sozinha com seu cachorro babão.
– Não fala assim do Bullet! – Ela falou, dando um empurrão fraco no homem. – Ele ainda é mais agradável que você.
Entraram no carro num clima um pouco melhor do que antes. O rádio foi ligado e começaram a conversar sobre coisas leves com as meninas que ocupavam o banco traseiro. Descobriram que mais velha se chamava Madison e a mais nova, Marie. Eram irmãs.
Quando chegaram à delegacia, as meninas, ainda receosas, foram separadas. entreteria a mais nova enquanto conversaria com a mais velha.
– Obrigada por ter encontrado a gente. – A menina agradeceu de novo. – Depois do terceiro dia, eu pensei que não tinha mais esperanças.
– Há quanto tempo vocês estavam lá? – A mulher perguntou, indicando que a menina se sentasse no sofá que tinha na pequena sala que dividia com .
– Algumas semanas, mas não dentro do freezer. Ele nos deixava lá durante o dia e, à noite, depois que fechava, a gente era levada no porta-malas para algum tipo de galpão.
– Eu não consegui encontrar nenhum chamado de desaparecimento com o perfil de vocês. Sabe onde está sua família? – perguntou, tentando ser o mais delicada possível.
– O senhor Valdez disse que eles estão mortos. – A menina disse com um fio de voz.
– Eu vou conferir se isso é verdade, ok? – A mulher perguntou, se aproximando da menina, machucada. – Eu preciso que você me conte o que aconteceu. Aquele homem vai pagar pelos crimes que cometeu e vocês vão ficar bem.
Enquanto Madison relatava, em meio ao choro, o que lhe aconteceu nas últimas semanas, tomava notas e gravava o depoimento da menina. Em outra sala do mesmo prédio, se ocupava em cuidar da pequena Marie.
– Você está com fome? – O detetive perguntou para a menina que encarava a janela com o corpo encolhido na cadeira que ocupava.
– Vocês vão me separar da Maddie? – Perguntou, virando o rostinho vermelho do choro para ele.
– Farei de tudo para que vocês permaneçam juntas. – Ele garantiu. – Mas enquanto não podemos pensar nisso, o que acha de comer um cachorro quente lá fora?
– Eu não tenho dinheiro para comprar cachorro quente.
– Eu estou te convidando, é por minha conta. – Abriu um sorriso encorajador. – Vamos?
– E a Maddie?
– A gente traz um pra ela e um pra , que tal?
está cuidado da Maddie?
– Sim, elas estão conversando agora e, daqui a pouco, a gente pode ir encontrar com elas.
– Por que eu não posso ficar com elas também? Não é que eu não goste de você, mas foi ela quem tirou a gente de lá de dentro.
– A gente precisa saber o que aconteceu com vocês duas para ajudar da melhor maneira possível.
A garota assentiu com a cabeça e se levantou da cadeira, ainda receosa. Enquanto estavam sozinhas no calorz do carro, sua irmã explicou que aqueles dois policiais tinham salvo a vida delas, mas a menina não sabia se devia confiar totalmente nele.



Quando finalmente localizou os pais das garotas, seu coração virou cacos dentro do seu peito. O suspiro profundo que deu enquanto lia o relatório lhe deu a sensação de que os cacos entraram em seu pulmão. Aquelas duas meninas haviam passado por muito nas últimas semanas, e a resposta que a detetive obteve não tornaria as coisas mais fáceis.
, o aparelho recebeu uma mensagem nova. – Florence disse, entrando na sala sem bater, como sempre, e só então vendo que a mulher tinha companhia.
A tensão que tinha em sua postura foi porcamente disfarçada.
– Opa, foi mal, não sabia que estava ocupada.
– F, essa é a Madison. Madison, essa é a Florence. – A mais velha explicou para a menina, que se encolheu com a entrada inesperada.
– Oi, Madison, desculpa interromper. – Cumprimentou a menina de forma simpática e teve um aceno de volta.
Quando tornou a olhar para a detetive, seu olhar tinha a mesma tensão que segundos antes.
– Eles sabem de alguma coisa.

Capítulo 4


– Mas como? – levantou da cadeira num rompante, assustando Madison. – Foi mal, criança.
– Eu não sei, lê a mensagem. – Florence jogou o aparelho para a mulher que pegou, já abrindo a mensagem.

“E eu realmente pensei que você estava morta. Onde você está escondida, ?”

– Puta merda! – soltou depois de ler. – Foi mal. – Virou para Madison de novo. – Bloqueia todos os IPs e MACs, faz a vistoria completa em todo o sistema. Eu tenho um problemão pra resolver antes de poder fazer algo sobre isso, e pode ser tarde demais. – Pediu para a perita e indicou seu próprio computador. – Madison, você fica com a Florence enquanto eu vou chamar o , e nós vamos conversar sobre você e sua irmã de agora em diante.
saiu da sala como um tiro e encontrou saindo do elevador com a garotinha. Assim que ele localizou a mulher com os olhos e viu a expressão que ela tinha, a tensão que tinha se quebrado no pequeno trajeto até a barraquinha da esquina voltou a pesar sobre seus músculos. sabia que aquele seria um caso complicado.
– Marie, eu preciso que você fique na nossa sala com a sua irmã enquanto eu converso com o , ok? – A detetive pediu para a garotinha assim que eles se aproximaram.
– Leva o lanche dela e garante que ela vai comer direitinho também. – O homem falou para a menor que assentiu, entrando na sala.
– Florence está lá dentro, fique tranquilo. – disse enquanto literalmente arrastou o homem até o telhado do prédio.
– Você vai abusar de mim ou algo do tipo? – Ele perguntou, vendo que ela fechou a porta atrás deles.
, os pais delas estão mortos. – A mulher soltou e deu um suspiro. – E antes disso, eles venderam elas para aquele porco do Valdez para tentar cobrir as dívidas que eles tinham com uma gangue.
– Caralho! – Ele soltou no meio da explicação dela.
– Eu não quero soltar essas meninas no sistema, , elas não merecem isso.
– O que você está pensando em fazer?
– Eu não sei... Procurar alguém de confiança que possa cuidar delas?! – Ela suspirou. – Eu realmente não sei, mas não posso deixar que elas corram o risco de passar por algo ruim. As coisas que Madison me contou… Elas precisam de paz, .
– Em quem você confia aqui em Nova York, ? – Ele perguntou, já sabendo a resposta.
Ninguém.
– Ok, você tem um ponto. – Ela murmurou, derrotada. – Eu queria poder levá-las para casa.
– Se você conseguir uma liminar judicial, pode ser que...
– É perigoso demais. – Ela o cortou. – Eu não posso arriscar colocar as duas em risco, e eu não tenho tempo para cuidar de duas crianças.
– Respira fundo. – Ele pediu, vendo que a mulher continuaria a disparar razões. – Você tá tentando se convencer a não levá-las para casa, não é?
– Você não sabe nada sobre mim, . – Ela rebateu, sabendo que ele estava certo.
– Por que você não tenta?
– É uma longa história que eu não posso contar.
– E com quem você vai deixá-las? – Perguntou, fazendo a detetive suspirar.
– Com o Bullet?
– Quem é Bullet?
– Meu cachorro! – Ela explicou e ele riu.
– Você tem um fraco muito forte por crianças.
– Somente crianças específicas. – Ela falou, com um sorriso no rosto. – Sua filha está inclusa nisso, pode ficar tranquilo.
– Vai entrar mesmo com o pedido de guarda das duas, então?
– Você acha que eu devo?



– Você acha que essa é uma boa ideia? – Florence perguntou, jogada no sofá da amiga enquanto fazia carinho no São Bernardo.
– E desde quando eu tenho boas ideias? – A mulher abriu mais uma cerveja.
Não havia a mínima condição de terminar aquela semana sem nenhum porre.
– Nenhuma, desde que eu te conheci.
– E ainda espera que eu comece a ter alguma?
– Certo. E como vai ser? Elas vão pra escola ou algo assim?
– Vão voltar a ir, agora que o conselho foi acionado.
– Madison consegue cuidar da irmã e Bullet consegue cuidar das duas. – Florence completou.
– Exatamente. – suspirou. – Não tem como dar errado, não é?
Exceto que dava, e muito provavelmente daria errado. Dica número 1 quando se está sendo ameaçada por algum criminoso: em hipótese, alguma adote crianças, muito menos crianças que foram resgatadas de situações precárias. Mas nunca foi grande adepta de coisas fáceis, e sentia dentro de si que, por mais insano que parecesse, aquilo era o que precisava ser feito.
Ainda com aquilo na cabeça, se sentou para assistir ao jogo dos Clippers com Florence enquanto tomavam cervejas, pensavam no que fazer sobre o telefone de e discutiam sobre os corpos trocados, caso este que estava empacado desde que, nas dezenas de neurologistas encontrados, não tinha nada que os tornassem alvos da investigação, e procurar saber de um em um estava sendo um trabalho lento e massante para e , ainda mais naqueles dois dias que tiveram que passar trancados na sala antes da emergência no mercado e do surgimento das duas meninas que agora fritavam grande parte dos neurônios dos dois detetives.
Depois da conversa que teve com , o Conselho Tutelar foi acionado e as meninas ficariam sob os cuidados de um abrigo até que o Juizado decidisse o destino das garotas, destino esse que agora poderia ser vivendo como filhas da detetive que as salvou do cárcere.
A análise de rede feita pela perita não resultou em nada e isso preocupou as duas mulheres. Sabiam que não era impossível invadir os sistemas internos das agências, mas também não faziam ideia de como haviam sido localizadas, sendo que usavam o método mais sigiloso possível para conseguir os dados que precisavam para a investigação. estava a ponto do colapso enquanto encarava a TV quando Florence lhe cutucou, assustando-a.
– Que foi, porra? – Perguntou, desviando os olhos da tela e os pousando na mais nova.
– Seu telefone está tocando. Será que um dia você vai parar de ignorar ele? Quem sabe assim as coisas parem de dar errado para você. – Ela respondeu, jogando o aparelho no colo da outra. – Vê o que o capitão quer com você.
– Ah, não. – Resmungou, já sabendo que provavelmente nada de bom viria daquela ligação, mas aceitou a chamada e colocou no viva-voz enquanto tirava o som da TV. – Boa noite, capitão.
– Você está querendo a tutela das garotas que encontrou hoje?
– Sim.
– Você está maluca?
– Muito provavelmente, senhor.
– Não posso permitir que faça isso, Mayer.
– Mas eu vou fazer do mesmo jeito. Já está decidido, senhor.
– Você sabe o quão arriscado é que você seja a tutora delas?
– Sim, senhor, mas minha intuição não vai me deixar fazer diferente.
– Espero que saiba o que está fazendo.
– Eu nunca sei. – Respondeu, mantendo o tom irônico que sempre usava com Jacob. – Eu estou no meio de algo. Posso desligar ou você quer falar mais alguma coisa?
– Tome cuidado.
– Eu vou.
Assim que finalizou a chamada, desligou o celular e encarou a amiga, que tinha uma expressão confusa no rosto.
– Como ele sabe? – Florence perguntou.
– É exatamente isso que vamos descobrir. – disse, se levantando e voltando o áudio da televisão, o jogo acabado e os Clippers perdendo. – Só você e o novato sabem que eu estou planejando fazer isso.
– Você está desconfiando de mim?
– Não. – Respondeu mesmo que, por dentro, ainda tivesse suas dúvidas.
?
– Bom, ele é meu único suspeito.
– Acha que ele teria algum contato com o Fumero?
– Não sei de mais nada da minha vida faz algum tempo. – recolheu as garrafas da mesa de centro e levou para a cozinha.
– Quer ajuda em alguma coisa? – Florence perguntou, jogando as embalagens de chips no lixo.
– Não, vou só desligar tudo e dormir. Meu time perdeu, quero adotar crianças, um maluco está trocando cabeças por aí e eu tomei um porre de cerveja em plena quinta-feira.
– Bom, então eu vou indo. Tchau!
– Tchau! Tome cuidado nas ruas.
– Tomarei. – A mais nova falou e saiu do apartamento, levando sua mochila.
Mesmo bêbada, revirou toda a casa atrás de algum grampo ou câmera, mas não encontrou nada. O dia já estava amanhecendo quando ela se deu por vencida. Jogou-se no sofá e seu cachorro logo se aconchegou no colo da mesma.
– A mamãe está perdida, filho. – Ela falou, tendo um latido como resposta.
Seu cachorro parecia concordar com o que ela havia dito. Ela acariciou a cabeça do São Bernardo, que amoleceu.
– E sabe o que é pior? Você é o único em quem eu posso confiar de olhos fechados agora. – Ela suspirou. – Você acha que a Florence está por trás disso?
Não obteve resposta dessa vez. Seu cachorro já estava adormecido com os carinhos que recebia.


Capítulo 5


Ir trabalhar virada e pós-porre definitivamente não foi a ideia mais inteligente que teve naquela semana. Mas também não foi a mais burra. Assim que entrou na sala que dividia com , viu que o mesmo já estava lá e foi recepcionada com um bom dia caloroso que não foi capaz de corresponder na mesma intensidade.
– Caiu da cama?
– Nem deitei nela. – Respondeu, soltando todo o peso do corpo na cadeira e notando a pasta em sua mesa. – De onde veio isso?
– A assistente social deixou comigo logo que eu cheguei. – Ele mal havia terminado de pronunciar “social” e já havia avançado até a pasta.
– Eles vão levar meu pedido a júri. – Ela falou, se sentindo empolgada pela primeira vez desde que o relógio havia marcado o começo daquele dia. – Pode ser que eu consiga a tutela.
– Você tá precisando conseguir um café, . Você realmente não dormiu nada essa noite?
– Eu vou buscar um assim que terminar de ler isso aqui. – Ela respondeu, já passando os olhos pelos documentos. – Tem muitos termos aqui. Por sinal, – Tirou os olhos da papelada e os ergueu ao parceiro. – alguma coisa que eu precise me atualizar sobre nossos casos?
– Um depoimento um pouco peculiar da esposa de uma das vítimas do trocador de cabeças.
– A gente já sabe que ele é neurologista. O que você acha de chamarmos ele de Doutor Cabeça? – Ela perguntou séria enquanto voltava a ler os papéis em sua mão.
– Eu acho que você precisa parar de fazer piadas com esse caso.
, tem um cara arrancando cabeças e costurando de novo. Se a gente não levar isso com o mínimo de humor, a gente vai entrar em colapso.
– Quer saber o que a mulher falou ou não, infeliz?
– Você já comeu hoje? Está muito mal humorado. – Ela alfinetou e ele revirou os olhos. – Pode contar, meu bem. – Ela falou, rindo.
– Prefiro quando você é grossa comigo.
– Quer uma dominatrix, ? – Perguntou implicante mas não voltou a olhá-lo e, por isso, não viu as bochechas do homem adquirirem um tom avermelhado.
Para seu próprio bem, ele resolveu ignorar a pergunta da parceira e apenas resumiu a parte relevante do que a esposa de Jay Marcun havia dito aos oficiais.
– Então existem pessoas realmente aceitando terem suas cabeças cortadas por um maluco? – Foi a única coisa que ela disse depois que ele terminou de explicar.
– A coisa é mais maluca do que a gente pensou, não é?
– É bizarro, mas continua sendo vilipêndio a cadáver com a vítima de morte cerebral, então ainda temos um criminoso.
– Sim, a família de Daniel não faz nem ideia do motivo da decapitação. Eu estou me sentindo no CSI.
– A gente é o NYPD, é muito melhor. – falou, tirando uma risada baixa do parceiro.
– Você esperava isso quando veio para cá? – Ele perguntou, fazendo-a tirar os olhos do papel e encará-lo confusa.
Ele ia mesmo entregar que sabia quem era ela?
– Definitivamente, não. Por que acha que eu esperaria por isso?
– Você nunca falou dos seus motivos para ter vindo do Maine, pensei que estivesse querendo mais adrenalina. – Ele respondeu parecendo sincero, mas ainda não estava vendida por isso.
– Precisava de novos ares. – Ela respondeu.
Não era uma mentira, afinal de contas.
– E por quê aqui?
– A cidade que nunca dorme sempre me encantou. – Falou, colocando por fim os papéis na mesa e se levantando para buscar um café.
– E aí? – Ele perguntou antes que ela saísse da sala.
– E aí o quê?
– Os papéis, o que são exatamente?
– Você é enxerido demais, . – Respondeu e saiu da sala, rindo da cara fechada do parceiro.
Enquanto a parceira buscava um café para se manter, no mínimo, de olhos abertos durante aquele dia, voltava à sua aba anônima de pesquisa sobre a mesma. Sabia que aquela mulher escondia algo e, cada vez mais, se sentia tentado a confrontá-la sobre quem realmente era.
Procurava pelo nome da parceira em vários registros e até mesmo em algumas partes não tão controladas da internet profunda. Semanas de procura e nenhuma resposta. Não havia simplesmente nada sobre Mayer antes de sua transferência para a delegacia, e isso era impossível de acontecer, ainda mais com a mulher sempre deixando bem claro que era odiada. E havia também aquele caso super sigiloso no qual ela trabalhava sozinha.
Assim que a porta foi aberta, ele fechou a aba e voltou ao relatório dos oficiais que foram atrás das famílias das vítimas do serial killer. Definitivamente, eles tinham coisas demais para se preocupar.
Durante todo aquele dia, manteve em mãos – ou ao alcance das mesmas – um copo de café. Sabia que, com a quantidade de cafeína que havia tomado aquele dia, podia facilmente ter um ataque cardíaco mas, ainda assim, o líquido negro fora seu companheiro fiel durante o dia inteiro. Que Deus tivesse pena de seu estômago e não lhe presenteasse com uma úlcera. Mas um dia só não mata, certo?
– Se você tiver um ataque cardíaco, eu já vou deixar bem claro que não vou me oferecer para cuidar do seu cachorro. – falou, tomando o quinquagésimo copo de café da mão da mulher. – Esse é o seu sexto copo de café? – Ele perguntou, se sentando de volta na mesa e tomando o café da parceira.
Mais doce que o esperado.
– Nas últimas duas horas, sim. – respondeu, com a voz trêmula e ofegante.
– Tá tudo bem?
– Café demais. Adrenalina.
– Puta merda, ! – Ele falou, correndo até a parceira. – Você tá maluca? Overdose de cafeína nessa idade?
– Eu precisava trabalhar. – Ela respondeu enquanto ele tomava seu pulso.
– Você tá que nem um beija-flor. – Ele constatou, notando os batimentos acelerados dela.
Foi até sua mesa como um tiro e pegou a garrafa de água em cima da mesma, levando até a mulher.
– Bebe tudo, eu vou buscar mais. Vamos ter que te hidratar até você sair desse estado ou você vai parar no hospital. – Ele falou já saindo da sala e ela mal teve tempo de assentir.
Com algumas garrafas de água e uma caixinha de leite, retornou para a sala compartilhada e deixou tudo na mesa da parceira.
– Obrigada.
– Você só sai daí depois de beber tudo.
– Mas tem um litro e meio de água aqui.
– E, ainda assim, não é o suficiente para equilibrar com o tanto de café que você bebeu, sua maluca.
– Mas eu dei conta de aguentar o dia todo acordada, que era a meta.
– Você poderia ter cochilado no sofá, eu não teria te dedurado.
– A gente tinha trabalho a ser feito. – Retrucou, fazendo o homem revirar os olhos ao se sentar de volta na própria cadeira.
– A gente nem fez nada demais hoje e você aí se matando.
– Isso se chama responsabilidade.
– Eu chamo de burrice. Agora bebe essa água.
Sabendo que era besteira contrariar o parceiro, ela obedeceu, e já estava irritada com as frequentes perguntas de como ela estava se sentindo que ele fazia a cada dez minutos. Estavam tentando encontrar algo nas câmeras de segurança do hospital. Talvez o mesmo erro de copiar alguns minutos de vídeo tivesse sido repetido.
– Eu encontrei uma coisa. – Ele avisou depois de um tempo concentrado.
– Por favor, não me diga que vou precisar ir na rua.
– Ainda não, mas temos uma luz. – Ele disse, vendo a parceira se levantar e caminhar até a mesa dele sem pressa.
– Consegui encontrar uma invasão no sistema de segurança do hospital. A data mais recente bate com minutos depois do horário de óbito do McLean.
– Então sabemos que, além das câmeras do Woodlawn, ele tem acesso ao sistema de segurança dos hospitais também.
– Ou ele simplesmente não trabalha sozinho.
– Vamos ver quem entrou nesse sistema. – Ela falou e empurrou levemente a cadeira do parceiro para que pudesse usar o teclado.
Um minuto depois, uma caixa de aviso abriu na tela com a logo do FBI e o homem se assustou.
– O que você está fazendo, ? Nós vamos ser presos se invadirmos o FBI. Você é maluca? – Perguntou, tomando o mouse da mão da parceira e fechando a janela.
– Invadir? – Ela perguntou confusa.
Se era o contato de Fumero, por que tinha tanto medo assim de entrar no sistema? A não ser que ele realmente fosse somente um detetive recém promovido. E aí sim as coisas complicariam. Preferia mil vezes que fosse um maldito espião do que ter todas as duas suspeitas em Florence. Isso seria demais para a mulher lidar. E foi a necessidade dessa resposta que lhe fez tomar uma decisão arriscada. Por um lado, tiraria parte de suas paranóias. De outro, envolveria mais uma pessoa na missão.
, precisamos sair daqui. Agora.
– O quê?! Por quê?
– Anda logo. – Ela falou, vestindo o casaco e puxando a chave do carro dele ao invés da sua.
– Você pode me explicar o que diabos está fazendo? – Ele perguntou, seguindo a parceira de perto.
– Nós vamos colocar alguns pontos nos is.
– Eu juro que só queria saber mais sobre você. – O homem disse na defensiva, fazendo-a parar antes de abrir a porta do carro.
– O quê?
– Eu juro que só tentei encontrar mais informações sobre você antes de vir pra cá. Você nunca conta nada e eu sou curioso, droga. Afinal, que tipo de investigador eu seria?
– Cale a boca e entra no carro. – Ela pediu antes que falasse demais, e ele sabia que não teria escolha senão obedecer a mulher, que estava fumegando de raiva.
– Onde estamos indo? – Ele perguntou finalmente.
O carro seguia pela Throgs Neck Bridge, e as mãos de apertavam o volante com tanta força que parecia que a pele de seus dedos iria se fundir com o couro. Ela não respondeu, nem ao menos se deu ao trabalho de tirar os olhos da estrada. Estava pouco se importando com a bronca que levaria da Sargento Peterson ou do Capitão Singleton, iria definir de uma vez por todas se era ou não um agente de Fumero e tirar todas as dúvidas referentes à situação. Se fosse o espião, iria obrigá-lo a falar, e não mediria esforços para conseguir suas respostas.
Afinal era ele ou Lexi, e Lexi não seria capaz de entrar em sua casa com uma escuta e muito menos mentiria daquela forma, certo? Ela já tinha dificuldade demais para se passar por Florence.


Capítulo 6


Assim que chegaram nas ruínas do Fort Totten Park, procurou um lugar mais afastado de possíveis turistas àquela hora da tarde, quase noite. Mal se viu longe de todos os outros ocupantes do parque e empurrou o parceiro contra a parede, começando a revistá-lo.
– O que diabos você está fazendo, ? – Ele perguntou enquanto a mulher forçava o corpo dele contra a parede velha.
– Vendo se você não tem um grampo.
– Mas o seu cabelo está preso. – Ele falou, confuso, mas logo entendeu. – Ah, o outro tipo de grampo.
– Você é um idiota, sabia? – perguntou, segurando a vontade de rir.
Sua expressão ainda era impassível.
– Eu tento não ser. Talvez evitaria que eu passasse por esse tipo de situação.
– O que você quer comigo? O que foi aquilo que você disse?
– Ninguém na delegacia sabe nada sobre você.
– E o que você sabe? – Ela falou, passando a apertar o pescoço do homem.
– Você é um fantasma antes de vir pra cá. Não tem nada sobre você em lugar nenhum. – Ele falou com um fio de voz, que era o que restava devido à força da mulher.
tinha a feição neutra. Parecia muito bem treinada para interrogatórios, mas seus olhos tinham algo a mais, talvez um brilho de pânico por acreditar no que o homem dizia.
– Eu não vou facilitar para você, . Me conta a verdade. Agora. – Ela falou, tirando a arma do coldre e a apontando para a testa do parceiro.
– Você está maluca? Abaixa essa arma, .
– Não enquanto você não me responder a verdade.
– Eu estou falando a verdade. – Ele disse, nervoso. – Eu não sei nada sobre você além do que você me fala.
– E o que Fumero lhe contou? – Ela blefou, vendo a confusão cobrir o rosto do parceiro.
– Quem é Fumero? , sério, eu sei que não devia ficar investigando você. Nós somos parceiros, eu devia ter esperado você me contar. Mas eu tenho uma filha pra criar, cara. Não faz isso.
E mesmo com toda a adrenalina correndo por suas veias, preferiu ouvir sua intuição, abaixou a arma e soltou o pescoço do homem.
– O que eu vou te contar agora é o maior segredo da sua vida a partir de hoje e, se qualquer pessoa souber, eu vou saber que foi você, e eu não vou me preocupar de deixar sua filha órfã. – Falou enquanto via o parceiro massagear o pescoço.
– Ah, eu percebi isso. – Ele falou contrariado e viu a mulher se sentar no chão.
– Eu não vim do Maine. Eu, na verdade, sou do FBI de Los Angeles. Tive que ser afastada por causa de ameaças e estou usando a como um alter-ego para continuar a investigação sem perder o pescoço.
– Por isso você não poderia pegar a tutela das meninas?
– É arriscado, mas eu vou fazer mesmo assim.
– Então esse é o seu caso super secreto?
– Sim, .
– Uau! Você é uma agente dupla? Definitivamente estamos no CSI.
– Você é idiota ou se faz?



Depois de explicar a situação e tornar a ameaçar a integridade física do parceiro, pediu que ele não dissesse nada relacionado ao assunto na frente de Florence.

– Eu não sei se devia agradecer por confiar em mim ou só por não ter me matado mesmo. – quebrou o silêncio do carro enquanto ele dirigia até a delegacia.
– Sua sorte é que a minha intuição fala muito alto. – A mulher respondeu encarando as mãos, que tremiam levemente.
– Então agora vamos usar coisas do FBI nos casos?
– Só nesse, . Não sei se você entendeu a parte de eu estar me escondendo.
– Você tem alguma ideia de quem possa estar por trás disso?
– Os meus pais tinham muitas inimizades. Eu também adquiri algumas durante a carreira. A minha lista é grande.
– Como você consegue dormir à noite? Às vezes, eu assumo que passo a noite de vigilância em casa quando alguém que eu prendi é solto.
– Sistema de segurança extremamente exagerado. Você deveria procurar um, você sabe, ainda mais com a Hailee e a sua mãe em casa.
– É, eu vou procurar olhar isso.
– É esquisito.
– Sistemas de segurança?
– Não. Você saber a verdade.
– Não mesmo! Esquisito é você dar aulas de balé. Eu juro que nunca imaginei.
Quando chegaram na delegacia, o esporro da sargento foi certeiro. Mal haviam entrado na sala que lhes pertenciam e a mulher irrompeu pela sala com uma feição nada boa. Os parceiros trocaram um olhar significativo antes de voltarem a atenção à superior.
– Posso saber onde vocês estavam? – Perguntou.
– Tivemos que resolver uma coisa. – respondeu.
– Era relacionado a algum dos casos ou à delegacia? – Perguntou, e nem precisou de uma resposta antes de continuar. – Eu não ligo pro envolvimento de vocês além do profissional, mas eu exijo que vocês deixem para resolver suas questões fora do horário de serviço. Dessa vez, vou deixar passar só com uma advertência verbal mas, caso se repita, vou ter que fazer algo a respeito.
Quando a mulher saiu pela porta e se afastou, os dois remanescentes na sala soltaram a risada que estavam segurando para não desrespeitar a superior.
– Acho que não é, de tudo, uma má ideia. – falou, por fim.
– O quê?
– Se vou te ajudar no caso das meninas, estarmos juntos vai explicar o meu interesse e aproximação.
– Eu odeio quando você tem uma ideia boa. – Ela falou. – Só aceito levar adiante se eu puder ver a Hailee mais vezes.
– Por que você está dando condições? Isso aqui é culpa sua.
– Mas nem é um sacrifício.
– Não sei se é saudável para ela conviver com você.
– O que você pensa que eu sou?
– Você deu a ideia de abrir cabeças!
– E foi só por isso que a gente descobriu que o Doutor Cabeça é doutor.
– Para de chamar assim.
– Eu já te expliquei a estratégia e você se recusa a aderir. Se você enlouquecer, eu cuido da sua filha. Ao contrário de você, que se recusa a cuidar do meu cachorro.
– Por que você gosta tanto de crianças?
– Elas não são corrompidas como os adultos.
, que agora já estava sentada em sua mesa digitando algumas coisas durante a conversa, afastou as mãos do teclado e encarou, chocada, a tela por alguns segundos. Seus olhos, descrentes das palavras que brilhavam no monitor, mas sabia que não havia como ser um erro. Havia um endereço para a invasão do sistema do hospital e o mac era registrado dentro da delegacia.
, olha isso. – Ela falou, enviando uma cópia da tela para o computador do parceiro.
– De onde saiu esse mac?
– Foi de onde aconteceu a invasão no sistema de segurança que a gente estava vendo antes de sair.
– Alguém na delegacia? – Ele perguntou, confuso.
– Precisamos descobrir qual é.
– Será que os outros também foram invadidos pelo mesmo computador?
– Quer dar um passeio pelo hospital?
– Vou pedir um mandato. – se levantou com pressa.
– Vou chamar o Jim. Ele deve ter uma lista dos macs.
– Tem, mas não acha que ele pode contar para alguém?
– Não acredito que vou ter que roubar dentro da delegacia.
– É errado eu estar animado?
– Sim.
– Droga. – Murmurou a resposta, fazendo a parceira rir enquanto ele saía da sala.
Sozinha no cubículo, começou a planejar seu pequeno assalto. Não seria a primeira vez que teria de trabalhar escondida da corporação à qual servia. Anos atrás, quando denunciou o irmão de Bowers, seu antigo parceiro, ela teve de travar toda a investigação do esquema de venda de informações sigilosas por debaixo dos panos. O serviço que o Bowers mais velho prestava era tão porco que, em poucas semanas, o tinha nas mãos e não pensou duas vezes antes de entregá-lo aos superiores. Raymond havia ficado devastado, Ela se lembrava como se fosse ontem, a decepção no rosto do antigo parceiro enquanto via o irmão ser algemado.
O que seria roubar – ou pegar emprestado – uma simples lista de computadores? Nada demais. Anotou o endereço do computador na palma da mão e se pôs a pensar em como faria aquilo. Mal pensou na idéia e já se levantou, indo até a mesa do parceiro. Abriu uma guia e pesquisou o próprio nome, sendo a primeira parte do plano. Pegou um post-it na mesa e escreveu um recado, logo deixando-o colado na lateral da tela. Entrou na sua página do Facebook, lotou o histórico de coisas irrelevantes sobre si mesma e, então, fechou tudo e saiu da sala à procura do TI.
– Jim! – Chamou ao ver o homem no corredor que ia para a cozinha. – Preciso de um favor seu.
– Não vou hackear ninguém. – Ele avisou.
– Eu juro que não é nada demais. – Ela suspirou. – Acho que o está me stalkeando, você pode me verificar isso pra mim?
– Mayer, você não acha que eu tenho mais o que fazer?
– Por favor, Jim! Você sabe que eu não ia te pedir se achasse que fosse besteira.
– Tá, pode entrar na minha sala mas, por favor, não me arruma problemas por causa desse negócio de vocês.
– Valeu, Jim, te devo uma. – Ela piscou para o rapaz e correu até a sala dele.
Não se demorou antes de ir até a lista de computadores do banco de dados, mas quase caiu para trás quando viu a quem o endereço que batia com o código anotado em sua palma pertencia.
Adeline Peterson.


Capítulo 7


– Você não vai acreditar. – Foi o que a detetive falou ao entrar na sala que lhe pertencia.
– Só vamos conseguir o mandato amanhã.
– Bom, esse é, de longe, um dos nossos menores problemas.
– Porquê?
– O mac.
– Você já conseguiu?
– Tá achando que eu brinco em serviço, ?
– Qual é o PC?
– Da sargento Peterson.
– Puta merda! – Ele exclamou.
– Pois é, , pois é.
– Não vamos mexer com isso hoje, não é?
– Não, já deu nossa hora. Preciso da minha cama. – Respondeu, já juntando suas coisas.
– Definitivamente. – Ele concordou. – Está em condições de dirigir?
– Não vim de carro, vou de metrô.
– Eu te dou carona.
– Tá achando que eu sou sua amiga? Eu só te contei porque achei justo depois de ter te ameaçado.
– É só uma carona, . Está com medo de não resistir ao meu charme? – Perguntou brincalhão e ela gargalhou.
– Você é uma gracinha mas não faz meu tipo.
– Eu faço o tipo de todo mundo.
– Vai sonhando, . – Ela respondeu, saindo da sala e deixando o parceiro rindo.
Aquele clima amistoso era novidade para ambos. Estavam trabalhando juntos a mais de um mês, mas era hostil demais para uma aproximação amigável. Funcionavam bem juntos, mas não se misturavam. já havia aberto mão de tentar uma amizade com a mulher, e os acontecimentos daquele dia o deixaram atordoado.
Ver aquela versão caótica da detetive, a expressão impassível e sanguinária enquanto ela apontava uma arma para sua testa, os olhos focados e brilhantes rastreando qualquer que fosse o vacilo no discurso dele, a força com que ela apertou ele contra a parede... Tudo aquilo parecia que não passava de um delírio em sua cabeça. Ainda mais depois de vê-la saindo rindo da sala que dividiam, sendo amigável, confiando nele, contando um novo nome e uma história completamente diferente daquela que lhe fora apresentada.
O segredo que a mulher escondia era infinitamente mais perigoso do que ele imaginava. Perigo. Talvez esse era o melhor adjetivo para relacionar com . Ou melhor, . Quando a adrenalina corria pelo sangue dela, ela se tornava letal. Ele já havia visto isso antes, logo nos primeiros dias em que eles estavam trabalhando juntos.

Haviam sido designados para irem atrás de um suspeito de assalto à uma loja de roupas de grife. O assaltante havia levado milhares de dólares numa mochila e deixado o corpo da gerente morta dentro do cofre. A cena era babélica, cédulas de dólares afogadas na poça de sangue ao redor da pobre mulher.
Haviam rastreado o sujeito, ele faria o seu segundo ato. Mesmo modus operandi, apenas mudando o estabelecimento. Agora era uma joalheria. estava encoberta, havia sido plantado informações no sistema da loja como nova funcionária. Ela estava ali a três dias quando o homem apareceu.
Toda as saídas da loja estavam fechadas e o ladrão queria negociar. A vida dos funcionários pela própria liberdade. , despercebida entre eles. O relatório com os depoimentos de testemunhas falam que a mulher nocauteou o homem em segundos.


Deixando toda a confusão mental de lado, o homem arrancou o post-it que a mesma havia deixado em seu monitor, rindo com a assinatura que ela havia usado. Enquanto dirigia para casa, analisava o tempo que trabalharam juntos até então, procurando por falhas ou ocasiões que poderiam ter feito com que ele descobrisse a verdade sobre ela, porém era um disfarce impecável. Não havia falhas em nenhuma parte da história ou da personagem. e coexistiam em perfeição.
Mal destrancou a porta de casa e ouviu o grito animado da filha, comemorando sua chegada. Assim que a porta se abriu, a pequena Haille se jogou em seus braços, como em todos os outros dias.
– Papai, hoje a vovó me deixou desenhar.
– E você desenhou muito?
– Sim!
– E você vai me mostrar seus desenhos? – Ela assentiu animadamente.
– Primeiro tem que tomar banho.
– Certo, então vamos tomar banho.
O homem trancou a porta e adentrou a casa com a garotinha ainda em seus braços, contando sobre tudo o que haviam feito naquele dia. Passou pela sala de estar e deu um beijo na testa da mãe, avisando que iria tomar banho e, em breve, ajudaria a mesma com o jantar.
Hailee foi deixada na cama do pai. Espaçosa como era, ocupava o meio exato do colchão enquanto tagarelava com seu pai que estava no banheiro. O pijama azul claro com ovelhas deixava a garotinha ainda mais adorável e, quando saiu do quarto enrolado na toalha, vê-la deitada de bruços com as mãozinhas apoiando o queixo fez com que ele não resistisse e tirasse algumas fotos dela, que adorava. Ela fazia caras e bocas, arrancando risadas do mais velho, que era completamente apaixonado pela filha.
– Agora vamos jantar pois, daqui a pouco, é hora de dormir. – Ele falou, largando o celular e se aproximando da cama.
– Hoje é meu dia de contar história, tá, papai? – A garotinha avisou, pulando no colo dele.
– Sim, senhorita!
Caminharam juntos até a cozinha enquanto Hailee perguntava sobre a parceira do pai. Havia ficado fascinada pela mulher e, todos os dias, perguntava da mesma.
– Hoje ela tomou um tantão de café e passou mal.
– E você cuidou dela, papai?
– Tentei, mas ela é muito brava e não deixou.
– Ela não foi brava comigo.
– É porque você é criança.
– Ela é boazinha com crianças?
– A maioria delas. – Ele respondeu, colocando a garota sentada à mesa e se aproximando da mãe para ver em quê poderia ser útil. – Com crianças malcriadas, ela é brava também.
– Prepara só a salada, por favor. O resto já está pronto. – A senhora pediu e ele rapidamente assentiu, já se colocando a cumprir o pedido.
– Quando eu vou poder ver a de novo, papai?
– Daqui a uns dias. – Ele respondeu apenas para fazer a menina esquecer do assunto.
– Quanto tempo é daqui a uns dias? – Perguntou, fazendo a avó gargalhar.
– Você não vai mais conseguir passar a perna nela. – Elizabeth disse enquanto levava os pratos para a mesa.
– Eu te aviso quando for o dia, ok? – Ele disse para a filha.
– Tá bom.
O jantar era um dos raros momentos de silêncio para a família . Todos os três eram extremamente falantes e0 fora do horário das refeições, só não estavam conversando quando estavam dormindo. A pequena família de três pessoas poderia ser confundida por uma multidão facilmente.
Depois de alimentados e de ter limpado a cozinha, era hora de dormir. Elizabeth foi para o seu quarto com alguns novelos de lã em mãos enquanto e Hailee foram escovar os dentes antes de se jogarem na cama.
– Qual história você vai contar pra mim hoje? – Ele perguntou, quando ela apoiou a cabeça no braço dele.
– Do Monstro do Lago Ness.
– Monstro?
– Aham, eu vi na TV hoje.
– Que tipo de coisa a sua avó tá te deixando assistir?
– Scooby-Doo. – Respondeu, fazendo o pai rir. – Posso contar? Não precisa ter medo, papai, ele é de mentira.
– Tá, pode contar.
Enquanto Hailee contava a história, sendo interrompida pelos bocejos que denunciavam sua preguiça, se permitia admirar a pequena em seus braços. Tudo o que tinha feito desde que ela nasceu era única e exclusivamente para dar o melhor de si e do mundo para aquele ser humano pequenininho.


Capítulo 8

– Bom dia! – cumprimentou no elevador.
Seu rosto, agora, estava descansado e ela estava animada naquela manhã.
– Devo presumir que você dormiu essa noite?
– Sim, e mal posso esperar pela nossa folga amanhã!
– Vai dormir mais?
– Não! Nós vamos sair com a Hailee. Esqueceu que tínhamos combinado? – Ela perguntou, falsamente magoada.
Peterson, que também estava no elevador, arqueou uma sobrancelha, ouvindo a conversa dos subordinados.
– Está sério nesse nível? – A sargento perguntou aos dois.
– Eu adoro crianças, você sabe... – sentenciou como se o resto fosse auto explicativo.
– Na verdade, eu acho que ela só se aproximou de mim por causa da Hailee. – Ele falou, brincalhão, e a parceira abriu um sorriso malvado para ele.
Ele engoliu em seco.
– Não seja bobo. – Ela falou, controlando o sorriso que queria se abrir até as orelhas. – Eu estou com você porque você sabe o que está fazendo, e você sabe do que eu estou falando. – Completou com uma piscadela, que deixou o parceiro completamente constrangido.
O elevador se abriu e os três seguiram seus caminhos ignorando o acontecido. Na verdade, só as mulheres ignoraram. ainda tinha as bochechas rosadas quando entrou na sala e fechou a porta atrás de si.
– Você não pode me aprontar uma dessas, mulher. – Ele pediu para , que caiu na gargalhada.
– Sua cara foi impagável, mas a gente precisa fazer isso parecer convincente. Afinal, agora as coisas apertaram pro nosso lado.
– Dá pra fazer ser convincente sem me constranger na frente da nossa superior.
– Ah, , leve como um elogio. – Ela brincou, se sentando na beirada da mesa do parceiro. – Agora ela deve estar imaginando o que você faz. Ela não tem cara de quem tem muitos orgasmos.
Ainda que fosse um homem adulto, pensou que seu rosto fosse derreter com o calor do constrangimento. Aquela mulher era impossível e completamente imprevisível.
– Não vamos falar sobre a vida sexual dela. Nem de ninguém. São sete da manhã, vamos manter assuntos saudáveis.
– Mas sexo é saúde. – Ela falou, esperta. – Por que diabos isso te constrange tanto?
– Eu não tenho nada a ver com isso. E eu não sei se você lembra mas, ontem mesmo, você estava apontando uma arma para a minha cabeça.
– Não seja rancoroso. – tinha um sorrisinho no rosto enquanto arrumava a gravata dele. – Isso ficou no passado, agora nós somos quase namorados e temos que ir no hospital procurar o IP da nossa superior, que pode estar envolvida com um serial killer. – Sussurrou e, depois que terminou de ajeitar o nó, se afastou.
– Será que vamos ter um dia de paz?
– Se formos analisar a história, tivemos muito menos dias de paz do que de guerra, então não.
– Alguma notícia da Florence?
– Não tive tempo pra nada que não fosse dormir.
Batidas na porta foram ouvidas e foi até sua mesa antes de autorizar a entrada de seja lá quem fosse.
– Hoje começamos cedo. Chamada no Woodlawn de novo. – O capitão Singleton disse.
– Mais vítimas? Eu espero que, dessa vez, encontremos algo. – falou, puxando o distintivo e as chaves do carro.
– A gente precisa achar algo pra parar esse cara. Já são quatro corpos e nenhuma resposta.
– Qualquer avanço, me avisem. – O capitão pediu. – E quando voltarem, passem na minha sala. Precisamos conversar.
Assim que se viram livres do homem, encarou a mulher, que deu de ombros.
– Eu juro que não fiz nada. – se defendeu.
– Eu também não fiz.
– Será que a sargento falou alguma coisa?
– Não me espantaria se for o caso.
– As fofocas nessa delegacias correm soltas.
Do lado de fora do prédio, ela tomou as chaves da mão dele e caminhou calmamente até o carro enquanto ele protestava.
– Ontem eu estava impossibilitada, hoje eu já estou bem. – Respondeu simples. – Mas, por via das dúvidas, coloque o cinto de segurança.
– Agora que eu sei que tem alguém pra cuidar da Hailee, eu posso me arriscar mais.
– Não brinca com fogo, rapaz. – Falou divertida enquanto arrancava o carro.
– Às vezes, você me assusta. – Ele colocou o cinto, fazendo gargalhar.
Enquanto dirigiam pelo trânsito caótico da ilha, discutiam sobre os próximos passos a serem tomados em relação às ameaças contra a mulher.
– A gente pode rastrear as mensagens.
– Eu já tentei de tudo.
– Não tudo.
– Vai me dizer que conhece um cara?
– Eu conheço um cara que conhece um cara. – Contou, fazendo a mulher gargalhar.
– É de confiança?
– Se você apontar uma arma pra ele que nem fez ontem, com certeza é.
– Espero que não esteja traumatizado.
– Ah, eu estou sim.
– Vai passar, tá? – Ela o acalentou, dando dois tapinhas na perna dele com as mãos geladas.
– Você morreu e esqueceu de cair? Usa uma luva, sei lá. – Reclamou.
– Um mês e você ainda não acostumou com as minhas mãos frias? – Perguntou, estacionando o carro.
– Não.
– É como diz o ditado... Mãos frias, rabo quente. – Disse, já saindo do carro.
– Eu tenho quase certeza de que esse não é o ditado. – Ele falou, indo atrás dela.
Assim que passaram pela porta, foram recebidos pelo gestor do cemitério. O homem estava uma pilha de nervos. Eles foram levados até onde mais um par de corpos se encontrava: largados; dessa vez, de forma mais cuidadosa que os anteriores.
Com luvas nas mãos, examinou os corpos. Não aparentavam nenhuma deficiência visível, daquela vez. se encarregou de chamar a perícia e, assim que Florence atendeu o telefone, já disse que estava à caminho e não estendeu a conversa para além disso.
– Vou mandar fotos para identificação. – falou, tirando o telefone do bolso.
– Vou levar o gerente para a sala de segurança. – Ele disse e ela assentiu, se apressando com as fotos.
Assim que os homens estavam longes o suficiente, guardou o celular no bolso e se esgueirou até a caixa de energia do edifício da administração. Verificou o perímetro duas vezes antes de destravar o cadeado e abrir a tampa da caixa. Puxou o dispositivo sem fio que havia escondido por trás dos fusíveis e, logo, voltou a fechar a caixa e a trancou de novo, como se nunca tivesse passado por ali.
Andou escondida e apressada até o local onde os corpos estavam. Mal voltou a se abaixar perto da vítima e ouviu a voz de Florence se aproximando.
– Algo diferente? – A perita perguntou quando estava perto o suficiente para ser ouvida sem levantar o tom de voz.
– São mulheres dessa vez.
– E eu pensando que só homens eram idiotas nesse ponto.
– Ou temos alguém muito bom de lábia.
– De novo, nada nas câmeras de segurança. – disse ao se aproximar das mulheres.
– Florence, pode levar, não vamos conseguir nada aqui, mas não deixe passar nada nos corpos. Já mandei para o reconhecimento facial. Assim que eu tiver as identificações, encaminho pra você.
A perita assentiu e os dois detetives foram embora. Já estavam dentro do carro quando o homem achou seguro perguntar.
– Conseguiu pegar?
– Sim. Agora é impossível esses malditos se esconderem.
– E a Florence?
– Um caso de cada vez.
– É o seu pescoço na reta.
– Eu sei, mas vamos resolver isso depois. Agora temos que conseguir um computador fora do sistema.
– Alguém de confiança?
– Ninguém.
– E como vamos fazer isso?
– Até parece que você nunca ouviu falar em lan house.
– Vamos abrir isso numa lan house?
– Vamos pro Queens no nosso horário de almoço. – Ela sentenciou, estacionando o carro na frente da delegacia.
A viagem de volta fora muito mais rápida que a de ida, e não se demoraram em entrar na sala de Singleton, que os recebeu imediatamente. Quando fechou a porta atrás de si, o capitão pediu que ela fosse trancada e isso preocupou os dois detetives.
– Preciso que vocês assinem alguns relatórios sobre o caso do serial killer. – Ele falou, rabiscando algumas coisas no papel e o entregou para a detetive. – A central está esperando avanços nesse caso, a imprensa está um caos.
Quando bateu os olhos no papel, viu que havia um recado.

"Preciso que vocês me façam um favor."


Capítulo 9

– Vocês podem levar essas cópias para casa e trazerem amanhã em qualquer horário.
– A gente não vai estar na cidade amanhã. – falou.
– Não?
– Temos planos.
– Ah sim, eu fiquei sabendo que estão juntos. Vocês demoraram muito pra perceber a tensão entre vocês.
– Que tensão? – perguntou, realmente confusa.
– Você sabe muito bem que tensão, Mayer.
– Ok, não quero falar sobre isso com o senhor. – pediu, sentindo o rosto quente naquele dia que estava sendo puramente difícil. – Podemos trazer os relatórios no domingo?
– Certo… Leiam com atenção, não deixem passar nada. Estão dispensados.
Quando saíram da sala, foram diretamente para a deles. Trancaram a porta, fecharam as persianas e passaram um pente fino na sala enquanto fingiam estar procurando por uma evidência do caso das garotas no supermercado. O telefone de tocou no sofá e ela correu até ele, mas parou quando sentiu que uma das tábuas do chão fez um barulho diferente quando o solado da bota bateu na mesma.
! – Chamou a atenção do homem. – Tem algo aqui. – Ela gesticulou, apontando para o local.
Tirou o sapato do pé e deixou em cima da tábua antes de terminar seu caminho até o celular. Era uma chamada da conselheira tutelar.
– Detetive Mayer, pois não? – A mulher atendeu.
– Bom dia, Senhorita Mayer. Sou Megan, do conselho tutelar. Estou te ligando para confirmar a visita de inspeção na segunda.
– Ah, sim. Pode confirmar. Qual o horário?
– Depois do seu horário de trabalho, ok?
– Fechado. – Ela concordou prontamente. – E como elas estão?
– Estão se adaptando bem. – A conselheira disse, num tom animado. – As crianças se deram muito bem com elas. São ótimas meninas.
– Eu sei. Quando eu vou poder vê-las?
– Recebemos visitas todos os dias, é só ligar avisando que vai vir.
– Certo, obrigada.
– Nos vemos segunda, Senhorita Mayer.
Assim que desligou, voltou seu olhar preocupado para o parceiro.
– E então?
– Segunda-feira tenho visita de inspeção. – Ela falou, soltando um suspiro nervoso. – O que eu faço? Como eu deixo meu apartamento parecendo o de uma mãe?
– Fica calma, tenho certeza de que vai dar tudo certo.
– Não me fala pra ficar calma. Eu detesto isso.
– Certo, vamos fazer um check list para você. – pegou papel e caneta, caminhou até a bota da mulher e se sentou. – Tenho certeza de que isso vai te ajudar a manter a calma.
Sentados no chão da sala, criando uma lista de possíveis requisitos para adotar crianças, Mayer e soltaram a tábua oca do chão e, debaixo dela, descobriram um microfone. O capitão estava certo, havia mesmo grampos pela delegacia.
"Desligamos ou fingimos que não encontramos ainda?" – O homem escreveu no papel.
– Você acha que eu ela vai implicar com o Bullet? Ele adora crianças. – Ela falou e tomou o papel dele. – Levar o Bullet para tomar banho.
"Vamos deixar aí. Encontramos de quem é e, aí, colocamos contra a parede."
– Acho que vai ser a primeira vez que eu vou levar o Bullet para tomar banho.
– Você não leva seu cachorro para tomar banho?
– Esse é o dever da Florence.
– Vocês são muito próximas, não é?
– Ela é tudo o que eu tenho aqui.
– Hey!
– Ok, ela era tudo o que eu tinha aqui.
, que agora estava completamente descalça, andou até a sua mesa e pegou um dos telefones descartáveis que mantinha ali por precaução.
– Sua casa está limpa? – Ele perguntou e ela se sentiu ofendida.
– Claro que sim!
– Não custa nada perguntar.
O celular foi conectado no cabo do dispositivo e puxou a lista de MACs do histórico. anotou código por código no papel enquanto o assunto continuava sendo as garotas que haviam resgatado.
– Vamos até o hospital primeiro e depois vamos almoçar, ou o contrário? – Ele perguntou quando devolveram a tábua para o lugar de origem.
– Hospital primeiro.
– Então vamos.
– Eu busco o mandato! – disse animada e juntou suas coisas, escrevendo num post-it antes de sair da sala com o mesmo no bolso.
Caminhou até a sala do capitão com o papel e o telefone no bolso. Assim que passou pela porta o homem se surpreendeu.
– Já?
– Vim buscar o mandato que pediu ontem.
– Ah sim, está aqui em algum lugar. – O homem vasculhou a gaveta de sua mesa e, logo, tirou o envelope.
– De lá, nós vamos almoçar, ok? Você devia sair no seu horário também, o senhor precisa de ar puro. – Ela disse. – Gosta de comida italiana? – Singleton assentiu, confuso. – Vou te passar o endereço de um restaurante ótimo, e ele não fica longe daqui.
pegou um papel enquanto continuava discursando sobre o tal restaurante. Anotou o endereço e colocou discretamente o post-it no verso. Quando colocou a nota na mão do superior, o fez de forma que o homem pode sentir que havia mais de um papel ali.
– Estarei confiando no seu bom gosto, Mayer.
– Não vai se arrepender, senhor. – Ela disse com uma continência e saiu da sala.
aguardava na porta do elevador e estava tão distraído com seus próprios pensamentos que não percebeu a aproximação da mulher, que indicou sua chegada acertando o envelope no rosto do homem.
– Quer me matar do coração? – Ele perguntou, sério.
– Não assim, meu bem. – Ela respondeu com um sorrisinho no rosto. – E nem agora. – Completou. – Temos muito trabalho para ser feito e seria terrível ter de fazer tudo sozinha.
Entraram no elevador e olharam ao redor, procurando pela câmera. Encontraram a do sistema interno no canto do teto.
– Que sorte a nossa ter o elevador só para nós. – falou chegando mais perto dela.
– Tem câmera aqui, bobinho. – Ela falou, empurrando ele contra o painel.
– Não seja por isso. – Ele falou, apertando o botão que desativaria o cubículo.
As luzes apagaram e tirou o pequeno dispositivo de raio-x do bolso.
– Você trancou a sala? – Ela perguntou enquanto via apenas a fraca luz verde rodando pelo quadrado de metal.
– Achei que seria muito suspeito, mas fechei a porta e fiz o truque do papel. – O detetive respondeu, passando pelo painel. – Aqui. – Ele falou, mostrando a mulher.
– Ótimo. – Ela falou, passando as mãos pelos próprios cabelos e, então, pelos do parceiro, deixando ambos bagunçados.
Posicionaram-se próximos um do outro no escuro, o dispositivo de luz verde já havia voltado para o bolso do homem. apertou o botão novamente, reconectando o elevador ao sistema, e se afastou. Fingiu ajeitar os cabelos enquanto arrumava a gravata, ambos rezando para que isso não lhes trouxesse problemas ao invés de soluções. Agora pelo menos sabiam que, seja lá quem tivesse os grampeado, havia feito além da sala e não queria depender do sistema interno.
Quem dirigiu até o hospital foi , depois de uma vitória nada madura no par ou ímpar, fazendo-o ter de aguentar uma emburrada ao seu lado.
– Você é uma péssima perdedora. – Ele constatou quando viu que ela estava com as sobrancelhas unidas numa expressão brava enquanto olhava para o lado de fora.
– Só dirige, .
– Estamos num sinal vermelho.
– Então espera o sinal abrir em silêncio.
– Pior perdedora da história.
– E quem disse que eu estou brava sobre isso?
– E o que mais seria? – Ele perguntou.
Ela abriu a boca para responder. Em seguida, fechou-a e suspirou, derrotada.
– O sinal abriu. – Foi tudo o que ela falou pelo resto da viagem.
Ao contrário do que ele pensava, não era a direção que estava povoando os pensamentos da mulher. Era outra coisa.
A cena do elevador não havia sido nada demais e ela tinha plena consciência disso mas, ainda assim, não conseguia parar de pensar na reação de seu corpo com a proximidade do parceiro. Estava perto de concluir que era carência já que, desde que havia sido enviada para Nova Iorque, não havia se aproximado de ninguém daquela forma, quando estacionou na rua do hospital.
Saiu do carro com a teoria de que seu corpo, que teve as vontades ignoradas por todos esses meses, reagiria a aproximação de qualquer pessoa com um arrepio de ansiedade e que isso não era um privilégio exclusivo de .
– Na volta, você dirige. – O homem falou andando ao lado dela na calçada. – Agora desfaz essa cara feia.
– Tanto faz, .
A visita ao hospital fora como o previsto. Conseguiram um IP invasor e nada além disso. pediu também as fichas de controle de entrada e saída do hospital nos dias entre a visita de uma vítima e a morte da outra. Com os papéis e o pequeno drive com as imagens que haviam puxado das câmeras, saíram do hospital. A sensação de que finalmente chegariam a algum lugar preenchia ambos detetives.


Capítulo 10

, eu acho que temos algo. – Florence disse assim que a mulher aceitou a chamada.
– Não me dê muitos detalhes, falamos sobre isso mais tarde.
– Você está com alguém?
– Só o , mas a questão é outra.
?
– Ontem foi um dia, digamos, interessante…
– E você não me contou nada?
– Vou contar hoje, mais tarde. Espero que seja boa em guardar segredos.
– Só existe uma coisa que eu sou pior que guardar segredos: cozinhar.
– Realmente. Tenho que ir agora, meu almoço acabou de chegar. Te vejo mais tarde na minha casa?
– Sim, senhora.
– Até mais, querida.
Assim que desligou, ativou o vpn com joystick no celular e indicou o endereço de um restaurante qualquer. Pegou o celular do parceiro no painel do carro e fez o mesmo. Se estivessem sendo vigiados, pelo menos estariam seguros no Queens por algumas horas, caso necessário.
– Você realmente não se esquece de nada, não é?
– Foi por causa de bobeiras com celulares que eu me enfiei nessa enrascada, para começo de conversa.
– Então... Vai contar sobre o favor do capitão?
– Vou tirar dela as respostas que preciso e aí decido se continuo confiando nela ou não.
– Evite apontar uma arma pra testa dela sem motivos.
– Mas é assim que a gente tira respostas das pessoas.
– Você é maluca.
– Se eu não era antes, tô ficando.
Quando chegaram na lan house, cumprimentou o atendente na bancada, deixando a alguns passos de distância. Ele estranhou a intimidade com a qual eles se tratavam. Obviamente, se conheciam antes. era realmente uma caixinha de surpresas.
– Harvey, deu tempo de sentir saudades? – Ela impulsionou o corpo para dar um abraço no homem. – Preciso de um QSP. – Sussurrou.
– De onde?
– Esse código. – Ela entregou o papel.
– Vai pra oito, eu sei que ela é sua favorita.
– Você é o cara! – Ela agradeceu e indicou para que seguisse seus passos.
– Então você é amiga do cara da lan house.
– Eu também conheço um cara.
– Eu entendi essa referência. – Ele falou, fazendo a mulher rir.
Alguns segundos e a máquina estava pronta para uso. Ao contrário do plano de fundo padrão, esse mostrava o distintivo do NYPD assim como todos os da delegacia, e se perguntou como aquilo havia sido feito. Aquela pequena loja no Queens tinha mais segredos do que sua fachada sequer poderia mostrar.
– Estamos no computador da Sargento Peterson. – explicou, abrindo todas as pastas possíveis. – Se você tivesse que esconder algo, onde você faria isso?
– Posso? – Ele perguntou, indicando o mouse.
deu licença para ele se sentar e pediu para que ele procurasse em todas as pastas o mais rápido possível. Por mais que detestasse admitir, ela confiava na capacidade do parceiro, então sabia que ele seria capaz de encontrar o que precisavam sem a ajuda dela.
– Eu já volto. – Avisou por fim e deu meia volta, andando para a entrada do estabelecimento, onde Harvey encarava os dois.
– Acha seguro trazer ele aqui?
– Ele sabe da coisa toda. E agora temos muitos problemas pra resolver.
– Você está com o caso do serial killer, né?
– Sim, e eu tenho uma coisa pra você.
– Eu não mexo com homicídios, .
– É . – Ela corrigiu. – Essa semana, encontrei duas garotas num freezer industrial. Tenho certeza de que elas não são as únicas dentro do esquema.
– Tráfico?
– Com certeza.
– Devo mandar pra alguém da cúpula?
– Ainda não. Vou falar pra Florence entrar em contato com você. A delegacia não está segura e eu preciso de um passe livre para revistar o laboratório.
– Como assim?
– Digamos que o Bronx nunca esteve tão maluco.
– Você carrega os problemas com você ou o quê?
– Eu gosto de mantê-los por perto. – Ela falou, indicando o parceiro com a cabeça.
contou o que havia descoberto sobre as meninas e o dono do mercado até que a chamou. Havia conseguido encontrar as pastas com as gravações que precisavam.
– Encontrei algo. – Ele falou do fundo da loja.
– Por favor, me fale que é uma lista de nomes pra eu prender. Estou cansada desse joguinho.
– A versão original das câmeras. Estão todas aqui, e mais dois hospitais.
– Provavelmente as vítimas de hoje cedo.
– E a garantia de mais duas.
– Puta merda! – A mulher xingou. – Copia tudo pra esse drive, joga os dois outros hospitais no sistema, pegue tudo que tiver a ver com isso.
– Tudo bem aí, ? – Harvey perguntou à distância.
– Sim, tudo sob controle.
estava uma pilha de nervos, mas engoliu a frustração. Sua cabeça funcionava a 80km/h. Puxou uma das cadeiras próximas e se sentou.
– Precisamos descobrir com quem a sargento está entrando em contato pra chegar em algum lugar agora. – O homem começou.
– Mas não podemos simplesmente seguí-la.
– Eu sei. Precisamos encontrar uma forma de ir atrás dela sem sermos pegos.
– Não tenho ninguém em mente.
– Nem eu.
– O tempo está acabando, detetives. – Harvey avisou.
– Como assim ‘tempo’? – perguntou, confuso.
– A delegacia tem um sistema de segurança que rastreia invasões periodicamente durante o dia. Harvey tem um sistema que nos desconecta segundos antes de sermos pegos na malha fina, e reconectar mais de uma vez por dia é muito arriscado.
– Quem é esse cara?
– Um antigo amigo meu.
– Pronto. – Ele falou, desconectando o drive e, na mesma hora, a tela voltou para o plano de fundo original.
saiu do estabelecimento antes da parceira, que disse que iria apenas se despedir de Harvey.
– Arrume um aparelho pra esse número, vou entrar em contato por ele. – Ela falou, jogando o chip nas mãos do homem.
– Sim, senhora.
– E nunca mais me chame por outro nome. – Terminou ameaçadora, saindo pela porta da frente.
– Sempre bom te ver, ! – Ele respondeu alto para ser ouvido.
Caminhou até o carro, onde esperava do lado de dentro com o motor ligado. Mal se sentou e colocou o cinto quando seu estômago reclamou de fome. Pelo menos ainda tinham quarenta minutos antes do fim do tempo livre.
– O que você acha de um almoço romântico no drive thru do Burger King? – ofereceu para a parceira enquanto se aproximavam de uma das lojas da franquia.
– Eu vou ter de pedir em casamento de verdade se você me deixar comer dois whoppers.
– Ótimo, vai comer só um.
– Qual é, ? – Ela deu uma cotovelada leve nele. – Eu sei que você não vê a hora de me beijar.
– Quatro whoppers, dois refrigerantes grandes e a maior batata que vocês tiverem. – Ele pediu.
– É isso. Você está fadado a se casar comigo, senhor .
– Não. Eu gosto do status de pai solteiro, atrai garotas. – Ele falou, fazendo a mulher gargalhar.
– Eu duvido muito que o contrário aconteça.
– Então eu acho melhor você correr pra achar um pretendente antes de conseguir a guarda das meninas.
– Até parece que você tem alguém. – Ela respondeu, fazendo ele fechar o sorriso. – Ah, me ajuda aí! Tá na cara que todo seu tempo livre é da Hailee, e eu nem te julgo.
– Ela é meu bem mais precioso mesmo.
– Ah, que bonitinho! – Ela falou, apertando a bochecha dele.
Ele se esquivou.
– Eu prefiro você indiferente.
– Vamos deixar para discutir seus fetiches depois. – Brincou, ajudando-o a pegar os pedidos. – Depois do nosso horário, fique atento ao seu telefone. Pode ser que eu entre em contato com você.
– Para quê?
Agora eles estavam parados no estacionamento, saboreando o almoço que – com toda certeza – lhes renderia alguns minutos a mais de exercícios. Uma das várias minúcias que tinham em comum, eram viciados na sensação de adrenalina dos exercícios físicos. Um gastava sua energia socando um saco de areia no porão de casa, enquanto a outra gastava o solado de seus sapatos de corrida no parque próximo ao edifício que morava.
– A gente tem muito trabalho pra fazer. E talvez eu precise de ajuda pra desovar um corpo.
Depois de alguns minutos de silêncio, finalmente disse algo.
– O pior é que eu nem duvido que você me chame pra algo assim. Você é imprevisível demais.


Capítulo 11

Quando o turno acabou, a primeira coisa que fez ao chegar em casa foi levar Bullet para o petshop que Florence costumava levá-lo, alguns quarteirões de distância da casa da detetive. Nem mesmo havia trocado de roupa, faria isso antes de buscá-lo, pensou.
– Você sabe para onde estamos indo, garoto? – Ela perguntou enquanto o cachorro lhe arrastava pela calçada.
Ele fazia exatamente o caminho que Florence descreveu logo que descobriu que, naquele pet shop, o preço era mais acessível. Assim que o cão atravessou a porta de vidro do lugar, uma voz masculina o cumprimentou. , que estava distraída olhando ao redor, demorou um pouco para se virar ao dono da voz e congelou no lugar quando reconheceu o rosto que estava atrás da caixa registradora.
– Pratt? – Perguntou em choque.
– O que você está fazendo aqui? – O homem perguntou, nervoso.
– Eu vim trazer o meu cachorro pra tomar banho. O que você está fazendo aqui? – Ela retrucou a pergunta.
– Precisamos conversar.
– Você precisa me responder.
– Fumero me mandou.
– Por quê?
– Vou fechar a loja e conversamos.
– Você vai responder enquanto dá banho no meu cachorro. Preciso dele limpo e cheiroso e... Bom, esse é o seu trabalho, não é?
Pratt trancou a loja e virou a placa que sinalizava que estavam abertos. Liberou a guia do cachorro e o canino seguiu loja a dentro, onde provavelmente ele tomava seus banhos. estava apavorada em saber que alguém além de Fumero e Atkins sabiam de seu paradeiro. E estava furiosa com Fumero.
Quando ela seguiu o homem, sua mão instintivamente alcançou a pistola escondida por baixo da jaqueta que havia vestido naquele dia pela manhã. Se Pratt sabia de seu paradeiro, quem mais saberia? Quando estavam no lavatório, o homem tirou a coleira do cachorro e o ergueu até o tanque.
– Não vamos mais precisar disso. – Ele falou, arremessando a coleira no lixo.
– Como assim?
– A coleira tinha uma escuta. – Explicou, fazendo a mulher abrir a boca em choque.
– Meu próprio cachorrro estava me espionando?
– A coleira dele.
– Vocês colocaram uma escuta no meu cachorro. Meu Deus!
– Precisávamos saber como você estava.
– Eu apontei uma arma na testa do meu parceiro e ia fazer a mesma coisa com a Lexi! Vocês não podem fazer isso!
– Você o quê?!
– Eu já resolvi essa parte. – Ela explicou. – Quando Fumero me ligou, perguntando sobre as garotas, eu pensei que um dos dois estavam tendo contato com ele. E era o meu cachorro. – Ela falou e Bullet latiu, como se defendesse. – Eu sei que você não seria capaz de tal coisa, filho.
Depois de receber uma explicação completa da situação de Pratt, deixou o cachorro sob os cuidados do homem e foi pra casa, onde iria recepcionar Florence.
– Onde está o Bullet? – A perita perguntou quando entrou no apartamento e não foi recepcionada pelo canino.
– Eu levei pra tomar banho.
– Você… – Ela começou incerta.
– Sim, eu descobri que grampearam meu cachorro e, no seu lugar, eu agradecia aos céus, porque eu estava muito perto de apontar uma arma para a sua cara até você me contar a verdade.
– Obrigada então.
– O que você descobriu?
– Não vai me explicar porque eu não podia contar isso aquela hora?
– Bom, a delegacia está completamente grampeada. O computador da sargento tem arquivos com coisas dos hospitais envolvidos no caso e eu preciso de um pente fino no laboratório pra ter certeza de que vocês também não estão grampeados.
– Isso tudo aconteceu de ontem pra hoje?
– E eu tive que cortar a verdade pro depois de ter ameaçado matar ele.
– Você o quê?
– Eu estava paranoica, ok? Fumero me ligou falando sobre a guarda das meninas e, além de você, ele era o único que sabia.
– Você é maluquinha, amiga.
– É, eu sei. Agora me fala o que você descobriu.
– Então, eu analisei a linha cirúrgica e descobri que ela é de uma empresa bem específica. É um material bem caro, por sinal. Essa empresa é a única que comercializa e ela fica bem aqui em Nova Iorque.
– Você está me dizendo que…
– A lista de compradores dessa empresa tem um suspeito? Isso mesmo.
– Finalmente, estamos caminhando com esse caso! Eu estava começando a enlouquecer.
– Você deveria voltar pro balé.
– Esse papo de novo?
– Você sabe que te ajuda.
– Não posso procurar um segundo emprego, agora eu tenho um trabalho fixo.
– Não estou dizendo pra você voltar a dar aulas, mas o segundo andar está vazio e você pode muito bem usar pra aliviar o estresse.
– Vou pensar sobre isso.
contou para Florence sobre a visita ao Queens, explicando que conversou com Harvey e passou o caso das garotas adiante.
– Bom, é o melhor a ser feito, não é? Com você afastada do caso, fica mais fácil de conseguir a guarda delas.
– Eu sinceramente não sei, não confio mais na sargento.
Enquanto conversavam, localizou a empresa da qual a perita havia dito. Main St no Downtown Flushing. Precisaria de um novo mandato.
– Como você vai continuar com a investigação se a própria delegacia está envolvida?
– Eu preciso colocar alguém na cola da sargento.
– Mas você não tem contato nenhum aqui.
O telefone da detetive tocou e, assim que viu a identificação da chamada, uma luz se acendeu em sua mente.
– Bullet está pronto para ir pra casa.
– Ligou na hora certa, Pratt.
Florence que entendeu o que a amiga queria dizer arregalou os olhos, começando a negar repetitivamente.
– Estou indo buscá-lo.
– Não demore, quero fechar a loja.
– Você realmente tá trabalhando com animais?
– Todos nós temos uma vida fora da agência, .
– Certo, certo... – Ela concordou enquanto vestia a jaqueta. – Vamos bater um papo quando eu chegar aí.
, não. – Florence pediu. – Não coloca mais gente no caso.
Ignorando os conselhos da amiga e seguindo sua intuição, ela saiu de casa com as chaves, a carteira e o celular na mão. Em segundos, o número de já estava sendo discado.
– Temos que esconder algum corpo?
– Achei uma solução pro nosso problema de vigilância.
– Sério?
– Tá ocupado?
– Posso levar a Hailee? Minha mãe foi pro bingo.
– Pode! Ela vai adorar conhecer o Bullet!
– Me passa o endereço.
Quando chegou no térreo do prédio de quatro andares, já havia saído de casa e, quando ela estava chegando na porta da loja, o parceiro estacionou o carro na frente da mesma.
! – Hailee chamou, empolgada.
– Oi, pequena!
– Papai disse que você vai me deixar brincar com seu cachorrinho! – Falou quando pulou do colo do pai para o da mulher.
– Ele tá mais pra cachorrão, mas você vai adorar ele.
Os três entraram na loja e os latidos animados de Bullet começaram.
? – A voz de Pratt foi ouvida de trás do balcão.
– Já está pronto para fechar a loja?
– Sim, pode pegar o Bullet lá dentro.
– Tô com as mãos ocupadas. – Ela falou e isso fez ele levantar.
– Dá onde você tirou essa criança?
– Ela é filha do .
– Oi. – Ele se pronunciou.
– Não é pra ficar trazendo pessoas aqui.
– Não vai ser um costume, mas nós precisamos de um favor seu.
– Você não tá em condições de pedir favores.
– Ah, me poupe. Você grampeou meu cachorro, eu posso te pedir qualquer coisa.


Capítulo 12

Enquanto os adultos conversavam, Hailee e Bullet se divertiam na área do hotelzinho da loja.
– Qual é o favor?
– Preciso de alguém vigiando a Sargento.
– O quê?!
– Protocolo Bowers.
– Os problemas seguem você?
– Ao que tudo indica, sim.
– O que é protocolo Bowers? – perguntou, perdido.
– Um caso de corrupção interna que eu investiguei em Los Angeles.
– Ela prendeu o irmão do antigo parceiro dela. – Pratt completou e assobiou.
– Você não brinca em serviço mesmo.
– Falando no Ray, tem notícias dele?
– Pergunte isso ao Fumero quando for passar o relatório semanal.
– Grosso. – Ela resmungou. – Enfim, preciso de você na cola da mulher, então dê o seu jeito.
– Você não pode me dar ordens.
– Eu tenho quase certeza de que você prefere seus segredinhos bem longe do conhecimento do Fumero. – Ela ameaçou e o homem engoliu em seco.
Detestava o quanto a mulher não deixava passar nada e descobria as coisas até quando não estava procurando. Essa característica fazia com que a mesma soubesse mais do que devia e tivesse muitas pessoas da corporação na palma da mão, incluindo Pratt.
– Eu tenho a sensação de que é por causa desse seu comportamento que você tá cheia de problemas. – falou no carro, enquanto dirigia até o endereço que a mulher tinha lhe dado.
– Muito provavelmente. – Deu de ombros, olhando para trás ao ouvir a gargalhada da menina. – Você gostou do Bullet? – Perguntou pra menor que ria, fugindo das lambidas do cachorro.
– Minha filha vai ficar fedendo a baba de cachorro. – reclamou, olhando rapidamente pelo retrovisor.
– Eles estão tendo um ótimo momento, deixa de ser estraga prazeres.
– Qual é o seu prédio?
– Aquele ali. – Apontou. – Vou abrir a garagem pra você, espera.
– Você tem mais de uma vaga?
– Moro nos últimos andares, tenho privilégios.
Assim que estacionou, saiu do carro e abriu a porta traseira para liberar Hailee da cadeirinha e Bullet aguardou pacientemente até a menina estar no colo de sua dona para sair também.
– Seu cachorro gosta de crianças igual a você. – comentou enquanto eles esperavam o elevador e o cachorro cheirava os sapatos da garotinha, que brincava com os cabelos da mulher.
– Tal mãe, tal filho.
Quando já estavam dentro do elevador, a mulher digitou a senha numérica no painel e o cubículo começou a se mover.
– Você não estava brincando sobre o sistema de segurança.
– É um apartamento por andar. O elevador para dentro de casa, tem que ser seguro.
– O que o dinheiro não faz, não é?
– A sorte de ser herdeira.
– O que é herdeira? – Hailee perguntou.
– Uma coisa que você não vai ser. – respondeu, fazendo gargalhar.
Assim que as portas do elevador se abriram, Bullet correu até Florence, que estava no sofá quase dormindo.
– Chegamos. – avisou.
– Por favor, me fala que você trouxe o jantar. – A outra mulher pediu, levantando a cabeça para ver se a amiga tinha alguma comida em mãos. – Oi, pessoal.
– Florence, pode contar pro o que descobriu enquanto eu e a Hailee vamos fazer o jantar?
– Não sei se devo te deixar sozinha com a minha filha.
– O que a gente vai cozinhar, ? – Hailee perguntou, ignorando o pai.
Depois de colocar a garotinha sentada na bancada da ilha, abriu a geladeira e analisou o que poderia ser feito.
– O que você acha de pizza, Hailee?
– Eu gosto!
– Então vamos pedir.
– A gente não ia cozinhar?
– Eu moro sozinha, não costumo ter comida em casa todos os dias, e hoje é um deles.
No telefone, com Hailee ao seu lado balançando os pezinhos, pediu pizzas e, então, desceu a garotinha para que ela pudesse brincar com Bullet. Assim que os pezinhos tocaram o chão, o cachorro se aproximou da menina, deixando uma lambida em seu rostinho redondo.
– Você gostou da Hailee, filho? – perguntou pro cachorro, que latiu feliz, fazendo a menina rir e abraçar o cachorro.
– Eu também gostei de você, Bullet.
– Você gosta de bichinhos?
– Sim!
– E o que mais?
– Princesas, heróis e bailarinas.
– Heróis?
– Sim, que nem o Batman.
– Eu adoro o Batman!
– Ele é muito forte.
– O que vocês duas estão fofocando aí? – perguntou ao entrar na cozinha com Florence.
– E por que vocês não estão fazendo o jantar? Eu vou morrer de fome.
– A gente pediu pizza. – Hailee disse animada enquanto brincava com o cachorro.
, eu te amo. – Florence disse, abraçando a amiga.
Em alguns minutos, os adultos estavam na sala trabalhando enquanto a garotinha e o cachorro brincavam pela casa, e os latidos e gargalhadas eram a trilha sonora do apartamento.
Quando as pizzas chegaram, o silêncio reinou. Vez ou outra, um grunhido sofrido de Bullet era ouvido, pedindo para comer também, e a pequena até tentou dar um pedaço ao cão, mas foi pega em flagrante e seu pai lhe explicou que comida de humanos nem sempre eram saudáveis para animais.
Ainda discutindo sobre os próximos passos em relação a investigação do serial killer de Woodlawn, por alguns minutos não prestaram atenção em Hailee e o susto foi geral quando um barulho foi ouvido do segundo andar, seguido pelo choro da menina. subiu as escadas correndo, mal tendo tempo de pensar, e soltou o fôlego aliviada quando viu a garotinha sentada no chão com as mãos no joelho.
– Ei, o que aconteceu? – Perguntou, se abaixando na altura da menina que tinha os olhos cheios de lágrimas.
– Eu caí. – Respondeu, mostrando os pequenos arranhões no joelho.
– Vamos fazer um curativo nesse joelho? Vai sarar rapidinho.
– Papai vai brigar comigo. – Ela falou enquanto a mulher pegava-a no colo.
– Eu te defendo dele, sei que você estava só brincando com o Bullet.
Mal desceram as escadas e um muito preocupado estava analisando cada centímetro da filha. Mesmo sendo pequena, a garotinha era muito ativa e adorava correr, o que sempre lhe rendia alguma queda e uma quase parada cardíaca no pai.
– O que a senhorita estava fazendo lá em cima?
– Brincando com o Bullet. – quem respondeu. – E tá tudo bem, não precisa brigar com ela, lá em cima não tem nada.
– Mas ela não pode sair achando que a casa é dela.
– Aqui em casa pode.
, nem adianta discutir com essa aí.
– Isso aí, ouve a Florence. – falou, já dando as costas para os dois e indo para o seu quarto.
– Onde você está indo com a minha filha?
– Fazer um curativo.
– A gente já volta, papai.
Enquanto as duas sumiam apartamento a dentro, suspirou e se virou pra Florence.
– Estou perdendo minha filha pra ela ou é impressão minha?


Capítulo 13

Assim que abriu os olhos no sábado de manhã, enviou uma mensagem, avisando o parceiro que já estava acordada e, minutos depois, já estava saindo para correr. Com os fones de ouvido conectados e sua playlist de corrida, se pôs a correr para o parque mais próximo de sua casa. Nem ao menos tinha alcançado o quarteirão do parque quando a música foi interrompida por uma chamada, que ela aceitou sem nem olhar quem era, já sabendo a única pessoa que ligava num sábado de manhã. Jacob Fumero.
– Bom dia, senhor.
– Bom dia, . Pronta para o relatório semanal?
– Antes de começarmos, pode me dar notícias do Ray?
– Ele pediu demissão essa semana.
– O quê?! Por quê?
– Eu não sei. Bowers teve muitas fases estranhas desde a notícia da morte da agente .
– Como assim “estranhas”?
– Não podemos enrolar mais, precisamos começar seu relatório. – O homem cortou a conversa, fazendo a mulher suspirar.
Depois de contar como estava, sobre a mensagem nova no número de , os casos da delegacia e a visita a Harvey no Queens, ainda tentou tirar mais alguma informação sobre seu antigo parceiro do capitão, mas falhou. Antes de desligar a chamada, o homem ainda aconselhou que a mulher ficasse atenta aos arredores e começasse a rondar possíveis suspeitos do caso em Los Angeles. Aquilo deixou a mulher com uma pulga atrás da orelha, e sabia que tinha algo relacionado com Raymond.
"Intuição maldita que não me deixa confiar em ninguém", praguejou enquanto fazia seu circuito. Correu até sentir os músculos de sua perna gritarem e, então, decidiu que era suficiente por aquele dia. Na volta para casa, passou no mercado e fez compras. Afinal, estaria em casa naquele dia e já havia ultrapassado a cota de comidas não-saudáveis daquela semana.
Quando passou pela porta do condomínio com as mãos cheias de sacolas, o porteiro, sempre educado, ofereceu ajuda e foi rapidamente dispensado. avisou que a entrada de estava liberada e se colocou a subir as escadas que ela jurava ser a única a usar.
Assim que estava na segurança de seu lar, largou as compras na mesa e se dirigiu para o seu banheiro. Os fios de cabelo suados grudados em sua nuca lhe davam a sensação de estar grudenta e, por mais que adorasse correr, essa parte era horrível. A camisa que usava foi tirada antes mesmo que ela entrasse para o quarto e, em segundos, a mulher já estava molhada da cabeça aos pés.
Aquele dia estava insuportavelmente quente em Nova York e nem mesmo a água gelada que descia pelo corpo da mulher aliviava a sensação, talvez porque o calor estivesse irradiando de dentro pra fora da mulher. Péssima época para a líbido dar as caras.
Sabia que não era nada além de seus próprios hormônios enlouquecendo-a, mas controlá-los estava além de sua capacidade, então sua única saída era aguentar o corpo pedindo por atenção durante alguns dias.
Tinha acabado de se enrolar na toalha quando a campainha tocou e ela revirou os olhos. Péssimo timing, .
Saiu do quarto, deixando uma trilha de gotas d'água por onde passava. Com o calor que estava fazendo, nem estava preocupada em precisar secar o chão.
– Chegamos muito cedo? – O homem perguntou com a filha sonolenta no colo.
– Eu demorei mais que o esperado no mercado. Pode ficar a vontade, eu já volto. – Ela falou e, então, parou no meio do caminho, virando o rosto pro homem. – Se ela quiser dormir mais, pode colocar ela em qualquer quarto.
– Eu quero ver desenho. – Hailee pediu, ainda com a cabeça encostada no ombro do pai, a voz manhosa de quem havia acabado de acordar.
Mi casa es su casa. – disse com um sorriso e sumiu corredor a dentro.
Depois de devidamente vestida e com os cabelos penteados não mais pingando, voltou para a sala, onde estava sentado no tapete da sala com alguma parafernália tecnológica em cima da mesa de centro e Hailee, sentada no sofá com uma caixinha de suco enquanto um desenho animado passava na TV. A cena completamente incomum naquele apartamento fez um pequeno sorriso se alojar no rosto da mulher, que queria ignorar completamente o motivo da visita do parceiro e passar o dia paparicando a garotinha.
– Vocês tomaram café? – Perguntou, indo para a cozinha.
– Aham.
– Eu vou só comer alguma coisa rapidinho e a gente começa. Vai ligando sua parafernália aí.
Depois de uma xícara de café e algumas torradas, a mulher se sentou no chão ao lado do parceiro e eles começaram a tarefa de tentar localizar o sinal de envio das mensagens do telefone de .
– Então você e a Florence estão em paz, né? – Ele perguntou quando ela contou sobre como havia conseguido contato com o homem do petshop.
– Por enquanto, sim, mas não vai durar muito. Passei o caso das meninas para um amigo da Interpol e isso ainda vai dar muito o que falar.
– Como assim? – realmente não havia entendido o que uma coisa tinha a ver com a outra.
– A gente vai ter que dizer tchau pra ela em breve.
– Você está falando a mesma língua que eu? – Ela gargalhou.
– A Lexi tem uma queda gigantesca pelo Atkins. E ela quem vai nos representar na continuação do caso. – explicou e ele colocou a mão na testa da mulher para atestar se ela não estava alucinando.
A mão fria dele em contraste com o corpo hormonalmente aquecido dela fez ela recuar.
– Caramba, ! – Ele falou, assustado. – Você tá bem? Tá com febre?
– Não tô.
– Você tá muito quente, tá com febre sim. – Ele falou, colocando as mãos em outras partes do rosto da mulher.
– Não é febre, .
– Vai dizer que você é quente assim por natureza?
– Não vamos falar sobre isso na frente da Hailee. – Ela tentou brincar, mas a única coisa que ela fez foi chamar a atenção da garota para a conversa dos dois.
– E o que é isso? – Colocou a mão na bochecha dela de novo.
– TPM. Você conhece? – Perguntou, irritada com a invasão de espaço.
– O que é TPM? – Hailee perguntou.
– Faz essa pergunta de novo daqui uns anos, filha. – Ele falou, olhando feio pra parceira. – Mas isso é normal? Você não vai morrer nem nada do tipo, não é?
– Hormônios, ! – Ela suspirou, cansada do assunto. – Daqui uns dias, eles passam. Pro seu próprio bem, eu manteria distância. Não garanto mais que não mordo.
– Vovó disse que não pode morder. – Hailee se meteu na conversa dos adultos.
– Sua avó está certíssima. – O homem disse, se afastando um pouco da mulher ao seu lado.
– Só pode morder de brincadeirinha assim. – falou, pegando o pézinho dela e fingindo mordê-lo em seguida.
A risada que preencheu a sala era tão gostosa que se deu a obrigação de ouví-la mais vezes naquele dia, só não tinha muitas idéias de como. No horário do almoço, foi para a cozinha com Hailee preparar a refeição e Bullet, que até então estava sumido devido à sua preguiça, apareceu e resolveu fazer companhia para , que ainda estava hackeando um satélite. O canino se esparramou no tapete e descansou a cabeça no colo do homem que, mesmo não sendo adepto a animais, apreciou o gesto e lhe fez um carinho.


Capítulo 14

– O sinal veio de Los Angeles em todas as mensagens.
– Aproxima mais esse mapa, ! Que é em Los Angeles eu já sei.
– Calma! Não posso fazer tudo de uma vez ou vão notar a invasão no satélite.
– Tá bom. – Ela respondeu, contrariada, e recostou a cabeça no sofá.
Hailee e Bullet dormiam de forma desconfortável ali. Se deixassem a garotinha daquela forma, provavelmente ela teria um torcicolo. A mulher levantou e esticou as pernas que estavam dormentes e avermelhadas em alguns pontos devido a permanência naquela posição por tanto tempo.
– Espera! – pediu, vendo que a mulher iria arruinar aquele momento adorável da garotinha e o cachorro.
– Quê?
– Eles tão muito bonitinhos, deixa eu tirar uma foto antes. – A mulher riu enquanto ele tirava o celular do bolso.
– Você é um pai muito babão.
– Você tem que entender que ela tá crescendo.
– E? Não é como se ela fosse acordar amanhã com 18 anos, .
– Mas, daqui a um tempo, eu não vou mais conseguir tirar tantas fotos e ela vai ter vergonha de mim.
– Ela, definitivamente, vai evitar que você conheça as amigas dela quando for adolescente.
– Você não está ajudando…
– Eu sei. Mas, se alguma amiga minha tivesse um pai que nem você na minha adolescência, eu definitivamente teria daddy issues*. – explicou e o homem caiu na risada.
– Eu vou fingir que você não falou isso.
– Você não está sabendo aproveitar as oportunidades que a minha TPM acabou de te dar pra realizar o seu sonho de me beijar.
Enquanto o homem se recuperava do choque, a mulher pegou a garotinha no colo e a levou corredor adentro. Acomodou a menor na sua cama e fez uma barricada com travesseiros para caso a mesma se mexesse demais. Quando ela voltou pra sala, ainda estava com as bochechas vermelhas e ela achou aquilo extremamente adorável.
– Conseguiu aproximar o mapa? – Perguntou, assustando-o.
– Sim Algumas foram nesse mesmo quarteirão, a pessoa deve morar aqui ou algo assim. – Ele falou, fazendo-a correr até lá.
– Esse é o quarteirão onde eu trabalhava.
– Como agente ou professora?
– É a sede do FBI.
– Bom, agora temos uma lista de pessoas pra caçar, certo?
– Eu preciso beber. – disse, se jogando no sofá e, por pouco, não caindo em cima de Bullet.
Dito e feito, não conseguiu fazer mais nada naquele dia. Se sentia ingênua e burra. Era tão óbvio, mas seu coração preferia silenciar sua intuição. Não havia mais dúvidas sobre quem fez aquilo.
Quando Hailee acordou, a mulher já tinha tomado outro banho e estava terminando de se vestir.
– Bom dia, Bela Adormecida! – cumprimentou quando viu pelo espelho a garotinha se sentar na cama, coçando os olhos.
– Cadê o papai? – Perguntou, sonolenta.
– Está na sala. Quer ir pra lá?
– Você está bonita. – A menina constatou. – Vai passear?
– Sim! Eu até levaria você, mas é um lugar para adultos.
– Por que é um lugar para adultos?
– Essa é uma pergunta que você vai ter que fazer pro seu pai.
– Você não sabe?
– Sei, mas tenho certeza de que ele vai adorar responder.
A mulher deu uma última olhada no espelho antes de se aproximar da cama e abrir os braços pra menina.
– Pronta pra levantar, dorminhoca?
Quando chegaram na sala, o assunto ainda era o "lugar de adultos" e quase não se aguentava com a carinha de decepção que a garotinha estava enquanto perguntava se elas não podiam ir pra algum lugar de crianças. Quase.
– Uau! – elogiou quando viu as duas juntas.
– Eu tenho quase certeza de que você já viu a Hailee acordando antes, então devo levar isso como um elogio pra mim?
– Você já é bonita normalmente, mas se superou.
– Espero que o esforço valha a pena. – Ela falou, com um sorriso que tinha um quê de malícia.
– Se eu não soubesse que você é uma mulher muito letal, eu recomendaria um guarda-costas.
– Eu sou minha própria guarda-costas. – Ela piscou.
– Preciso dar tchau pro Bullet! – Hailee disse balançando as perninhas, querendo descer do colo da mulher.
– Claro que precisa! Ele ficaria muito chateado se você fosse embora sem se despedir. – disse, se abaixando para colocar a menina no chão, e a visão que isso proporcionou a fez ele engolir em seco e desviar o olhar.
Enquanto a garotinha dava tchau para o amigo canino, pegou suas chaves e conferiu se estava com o cartão e documento. Tudo certo, pronta para beber até a ficha cair e, quem sabe, resolver seu outro problema.
– Eu vou sentir muita saudade! – Hailee disse, dando um último abraço no cachorro.
– Você pode vir visitá-lo sempre que quiser.
– Papai, a gente pode visitar o Bullet amanhã? – Perguntou, tirando uma risada dos mais velhos.
– Amanhã, o papai e eu trabalhamos mas, na nossa próxima folga, eu tenho certeza de que, se você pedir com jeitinho, ele traz você.
No elevador, Hailee foi de mãos dadas com a mulher, se recusando a soltar a amiga até que fosse extremamente necessário.
– Quer uma carona pro seu lugar de adulto? – perguntou depois de ter certeza de que a filha estava segura no banco de trás.
– Aceito! – respondeu animada, entrando no carro.
– Você vai pra casa com a gente? – Hailee tinha uma expressão confusa no retrovisor central do carro.
– Não, a gente vai dar uma carona pra . – respondeu, entrando no carro também.
– Papai, a é muito bonita. Você devia levar ela pra casa. – A garotinha mal acabou de falar e já estava gargalhando e com o rosto quente.
– Hailee ! – O pai da garotinha chamou a atenção da mesma enquanto olhava para trás, incrédulo.
– E você ainda me pergunta porque eu adoro crianças. – disse em meio às risadas.
– Vocês duas são terríveis!
falou o endereço do bar que tinha o costume de frequentar e não se demorou em começar a dirigir. O trajeto foi silencioso, já que os mais velhos estavam constrangidos demais e a menina estava ocupada, prestando atenção na rua. Quando estacionou na frente do bar, a mulher tirou o cinto e se despediu da garotinha, mandando um beijinho no ar.
– Boa noite, . Te vejo amanhã?
– Por favor, não apareça de ressaca.
– Eu só vou estar de mal humor se minha noite não terminar do jeito esperado mas, se você quiser resolver isso pra mim, eu aceito a proposta da Hailee.
– Boa noite, . – Ele falou e ela gargalhou, saindo do carro.
fez questão de desfilar pela frente do carro ao atravessar a rua, um sorriso maldoso no rosto enquanto caminhava confiante até a entrada do bar. se permitiu soltar o fôlego quando se viu livre da parceira que parecia estar maluca naquele dia. E olha que ele já tinha passado por aquilo antes. Mais especificamente, no mês anterior.
Não admitiria na frente dela, mas era divertido vê-la naquela situação, mesmo que ela fosse daquele jeito irreverente o tempo inteiro. na TPM era uma metralhadora de piadas sujas e conseguia desconcertar qualquer um, ainda mais ele, que secretamente achava a mulher quase digna de adoração.
Dentro do bar, a mulher frustrada mal se acomodou no balcão e pediu a primeira cerveja da noite. Nunca se incomodou em sair para beber sozinha. Apreciava a própria companhia tanto quanto a alheia mas, naquela ocasião, precisava resolver o calor incessante que estava torturando-a durante todo o dia.
Passou os olhos pelo estabelecimento enquanto tomava sua cerveja recém recebida e notou alguns olhares em si. Um grupo de amigos numa mesa perto da porta lhe encaravam e falavam entre si sem a mínima descrição. Um deles lhe interessou, braços largos cobertos por uma blusa social com as mangas arregaçadas, a gravata frouxa e alguns botões abertos na camisa.
sorriu sem mostrar os dentes e ergueu sua cerveja na direção dos homens, que cumprimentaram de volta. Analisou o resto do lugar e, depois, colocou a garrafa agora pela metade de volta no balcão.
– Estou muito intrigado pelo motivo de uma mulher como você estar aqui sozinha. – Uma voz masculina disse ao seu lado, fazendo-a se virar e encarar um par de olhos azuis que combinavam demais com a barba loira para ser de verdade.
– Vim esquecer meu nome. – Ela respondeu, mostrando a garrafa.
– E eu posso saber caso eu precise te lembrar dele mais tarde?
. E você?
– Matthieu.
– Vai ser um nome fácil de lembrar mais tarde. – Ela falou com um sorriso insinuante.


Capítulo 15

– Estou entediada aqui. – reclamou, depositando mais uma garrafa vazia no balcão.
Havia perdido a conta de quantas cervejas já havia bebido, e nem mesmo o líquido gelado e amargo surtiu efeito sobre o calor que lhe incomodava.
– Quer ir pra casa? – O loiro perguntou, solícito.
– Se for a sua… Quem sabe? – abriu um último sorriso esperto antes de sentir o homem se aproximar dela e lhe beijar.
Estavam circundando um ao outro a noite inteira, ambos mostrando as próprias intenções sem rodeios mas, ainda assim, ninguém havia dado o primeiro passo até o momento. O papo, além do flerte descarado e recíproco, havia sido também interessante. O arquiteto de Boston estava na Big Apple naquela semana para uma convenção do trabalho, e aquele era seu último dia antes de embarcar de volta em sua rotina.
– Pensei que fosse me deixar ir embora frustrada. – Ela disse no momento em que partiram o contato.
– Não está nos planos. – Ele olhou pra ela com um sorriso esperto nos lábios. – Quer conhecer o meu quarto?
– Achei que nunca fosse convidar. – Ela rebateu e sinalizou para a bartender. – Pode fechar minha comanda, por favor?
– Forma de pagamento?
– Débito.
A atendente recebeu o cartão e efetuou o pagamento rapidamente, entregando a máquina para que a mulher digitasse a senha.
– Pode fechar a minha também, por gentileza. – O homem pediu.
– Forma de pagamento?
– Dinheiro.
– Que tipo de pessoa sai para beber com dinheiro? – perguntou, intrometida.
– O hotel fica no final do quarteirão, estou dando o benefício da dúvida para a cidade.
– O Bronx pode ser perigoso, Sr. Danvers.
– Tenho certeza que agora estou bem escoltado, detetive. – Ele piscou pra ela, que riu.
O curto trajeto até o hotel foi feito rapidamente pelo par. Na recepção, mostrou sua identidade para o check-in de acompanhante antes de subirem para o décimo nono andar. Assim que se viram sozinhos no elevador, passou a depositar beijos pelo pescoço do homem. Seu nariz inspirou o perfume amadeirado e ele nem ao menos disfarçou o arrepio que assolou sua pele.
– Você não brinca em serviço. – Ele falou quando ela se afastou dele depois de uma mordida leve.
As portas do elevador se abriram.
– A gente até brinca, mas em outro sentido. – Ela respondeu divertida enquanto ele os guiava até o quarto.
A chave destravou a porta, o casal entrou. Sem nem ao menos colocar o cartão para ativar as luzes do quarto, as bocas voltaram a se encontrar e teve seu corpo preso contra a parede ao lado da porta de forma bruta. Um sorriso surgiu entre o beijo e uma das mãos dele começou a traçar um caminho certeiro pela coxa dela.
– Não tem mulheres assim em Boston. – Ele sussurrou quando sua mão chegou na nádega dela e ele percebeu que não havia nada por baixo do vestido.
– Então aproveite a de Nova York. – O sorriso lascivo nos lábios dela aumentou gradativamente enquanto ela abria os botões da camisa social.
– Será um prazer. – Ele disse, voltando a unir os lábios dele com os dela.
As carícias ousadas do homem eram como jogar gasolina em uma fogueira e, depois de um dia inteiro tendo de lidar com sua líbido, não queria mais prolongar as preliminares, até porque precisava ir para casa descansar antes de ir para a delegacia. Mas a vontade de ir embora estava isolada em alguma parte completamente nublada de sua mente.
A camisa do arquiteto já estava no chão quando ela se dedicou a se livrar da calça dele também. As alças finas do vestido foram abaixadas e o tecido fino de seda que cobria o corpo da mulher foi ao chão. As mãos dele foram de encontro aos seios dela, fazendo-a soltar um suspiro que se transformou em gemido quando uma das pernas, agora nuas, dele entrou no meio das suas. Sentir a umidade da mulher contra sua coxa, junto ao som que saiu dos lábios dela com o contato, foi o ápice para o arquiteto.
– Assim você acaba comigo. – Ele murmurou contra os lábios dela, apertando-a pela cintura.
– A gente só começou. – Ela respondeu, entendendo o que ele queria e passando suas pernas ao redor dele.
Alguns beijos foram deixados no pescoço dele antes que o corpo dela fosse largado na cama. Devidamente protegidos, o contato mais ansiado pelos dois foi consumado e o quarto foi tomado pelo desejo. Carne com carne, unhas contra a pele, mãos pelos cabelos.



Exausta, largou o corpo na cama como um peso morto, o rosto no meio dos lençóis brancos do hotel enquanto seu tronco subia e descia, devido à respiração descompassada. A cama afundou ao seu lado e ela podia ouvir a respiração do homem. Ficaram daquele jeito até recuperarem as forças. O quarto agora estava coberto pela fraca luz azulada do amanhecer e sabia que estava ferrada.
Um par de olhos azuis diferentes daqueles que estavam ao seu lado na cama veio em sua mente e ela teve de segurar o impulso de lhe dar um tapa na própria testa. Sabia que passaria o dia inteiro feito uma zumbi e que o parceiro não tinha culpa do mal humor que ela carregaria pela noite não dormida.
Levantou da cama e procurou seu vestido pela penumbra do quarto. Seu olhar passou pelo arquiteto esparramado no colchão e ela negou levemente com a cabeça pra si mesma quando percebeu que o homem havia dormido. Com um sorriso de canto, deixou seus olhos passearem pelo corpo definido do homem e analisar as marcas de arranhões e mordidas que ela mesmo havia feito.
Vestiu sua roupa e calçou os saltos. Buscou pela pequena bolsa de mão que havia sido descartada junto da porta e encontrou, na pequena escrivaninha do quarto, uma caneta e alguns papéis em branco que o homem provavelmente havia usado durante sua conferência.
O brasão com os dois M's entrelaçados da M&M Arquitetura e Engenharia se encontrava no cabeçalho da folha que ela dobrou pela metade e escreveu o mesmo recado que escrevia em suas noites na cidade dos anjos.
"Foi uma noite incrível! Não me ligue. xx"
Saiu do quarto em direção ao elevador e em pouco tempo já estava entrando num táxi na frente do hotel. Quando passou pelas portas do edifício em que morava, o porteiro lhe desejou bom dia e ela murmurou algo em resposta, seguindo para o elevador. Estava com preguiça demais para ir pelas escadas.
Largou os sapatos e roupa em qualquer canto da entrada e foi direto pro chuveiro, o cheiro de suor e sexo impregnado pela peça de roupa e por si mesma. Seu cachorro veio da cozinha correndo, não tendo reconhecido o cheiro da mulher logo de cara. Latiu quando viu a mulher nua indo para o quarto.
– Bullet, por favor, tá muito cedo pra isso. – Ela pediu e ouviu os passos do cachorro se aproximando.
Foi direto pro banheiro e se fechou no box antes que o canino resolvesse que era uma boa ideia lhe fazer companhia lá dentro também. A água gelada correndo por seu corpo fez todos os seus músculos relaxarem enquanto a pele arrepiava. Os cabelos, encharcados em segundos, foram cobertos por espuma e, aos poucos, a sensação de renovação alcançou a mulher. Nada como um banho da cabeça aos pés.



– Bom dia! – cumprimentou ao entrar na sala. – Chegou cedo hoje.
– Sim, te trouxe um bolinho como agradecimento pela ajuda.
– Eu tô precisando mesmo de um doce.
– São oito da manhã, .
– E daí? Hoje nosso dia vai ser longo.
– Nem me fale.


Capítulo 16

– Resolveu aquela sua pendência?
– Em partes.
– Não quero detalhes. – Ele disse, se jogando na cadeira.
– Você está mal humorado ou é impressão minha?
– A gente tem muita coisa pra fazer e Hailee demorou pra dormir ontem.
– Ah sim, você está mal humorado.
, por favor…
– Você quer que eu resolva seu mal humor, ? – Ela perguntou divertida e o homem lhe lançou um olhar bravo.
– Não me enche o saco, por favor. – Ele pediu e ela levantou de sua mesa, empolgada.
– E eu pensando que não tinha como meu dia ficar melhor!
– Deus me ajude… – Murmurou, vendo se aproximar.
– Então hoje nós vamos pedir aquele mandato, né? – Sentou-se na mesa dele, mexendo no nó da gravata que ele usava.
– Assim que Singleton chegar.
– Ótimo! O que mais temos para hoje?
– Eu queria ter um pouco de espaço pessoal, se importa?
– Hoje isso tá em falta. Eu esperei tanto por esse momento! Faz dias que eu estava esperando conhecer o rabugento que a Hailee me contou.
, é sério…
– Você ainda não me disse o que mais temos para hoje.
– Os relatórios do capitão. – Ele disse e ela murmurou em concordância, ainda concentrada na gravata. – Ir no laboratório.
– Oh! O rabugento vai visitar a Florence também? Esse é o melhor dia da minha vida!
Quando terminou de arrumar o acessório do homem, deu dois tapinhas no peito do mesmo, dizendo um "prontinho". Ele afrouxou o aperto ao redor do seu pescoço, incomodado com a invasão de espaço da mulher.
– Eu já aviso que hoje é a etapa da carência e eu preciso que você seja paciente comigo. É bom que você já treina para quando a Hailee crescer.
– Se Deus quiser, ela não vai ser nem um pouco doida que nem você.
– Eu não sou doida. – Respondeu magoada. – Isso tudo é hormônio.
– Desculpinha mixuruca.– Retrucou, tirando uma gargalhada da mulher.
– Se existe uma versão sua que eu posso amar, definitivamente é a rabugenta.
– Até parece que você consegue voltar a viver sem mim.
– Eu gosto disso que a gente tem, mas não se acha muito não.
– O que quer fazer primeiro?
– A gente pode pedir o mandato e, então, ir pro laboratório.
– Parece um bom plano.
– O que melhora seu mal humor?
– Açúcar.
– Então cancela o bolinho que eu te trouxe.
se levantou e começou a prender o cabelo, pronta para finalmente começar o dia. não pode deixar de reparar no pescoço agora a mostra dela. A mancha incomum na região o preocupou ao ponto de nem pensar antes de abrir a boca e perguntar.
– O que aconteceu com o seu pescoço? – A pergunta foi direta e fez a mulher congelar os movimentos, se lembrando do porque estar com os cabelos soltos.
Suas bochechas esquentaram enquanto ela olhava pra qualquer lugar que não fosse o rosto dele. Demorou uns segundos antes de se recuperar da pergunta e, quando voltou seu olhar para o parceiro, um sorrisinho surgiu em seus lábios. Ela nem mesmo precisou responder para que ele entendesse o que havia acontecido, mas ela fez questão de dizer.
– Quanto mais bruto, melhor.
– Eu sabia que eu ia me arrepender de perguntar.
– Até parece que você não gosta também. – Ela alfinetou. – Você tem cara de quem mete com tanta força que, no outro dia, a gente anda esquisito. – Sussurrou antes de se afastar de vez do parceiro.
, eu sou um homem de família. Você não pode ficar falando essas coisas. – Ele falou, afastando a onda de pensamentos impróprios que tomou conta de sua mente.
Já não bastava o dia anterior, quando a mulher testou até a última miligrama de autocontrole do detetive, ela parecia estar determinada a continuar naquela brincadeira nada inocente.
saiu da sala antes do parceiro. Chaves numa mão, a sacola de papel da padaria na outra. O recado silencioso contava que era quem teria de pedir o mandato, e teria de ser rápido se não quisesse comer na frente de alguns corpos.
– Que parceira incrível você arrumou. – Ele murmurou, pegando suas coisas que mal haviam sido largadas.
Quando entrou na sala do capitão, tinha em mãos uma pasta com as informações conseguidas pela perícia e a pesquisa adicional que havia feito no computador da Sargento Peterson.
– Bom dia, senhor. – Cumprimentou o superior assim que se sentou na cadeira em frente à mesa. – Aqui tem tudo o que temos e precisamos.
– Aqui tem mais do que me entregaram na sexta.
– A gente fez o dever de casa.
– Devo admitir que seu trabalho como investigador está sendo melhor que como oficial.
– Eu tinha que tomar jeito, não é?
– Imagino que esse jeito tenha a ver com a sua parceira também.
– A é genial, trabalhamos juntos, mas meu desempenho não tem a ver com ela.
– Isso é bom, garoto. Sua filha vai ter muito orgulho de você. – O homem disse com um sorriso no rosto.
– É a meta, senhor.
– Enfim, tenho certeza de, quando voltarem, já terei o mandato. Passem na minha sala. Dispensado.
se levantou e saiu da sala, pensando no que o capitão havia dito. Nos primeiros dias, era verdade que havia se esforçado mais que o normal no trabalho na tentativa de provar para a mulher que ela estava errada em seu julgamento. Ele sabia trabalhar, era bom no que queria fazer e fazia porque gostava mas, desde que o caso do Woodlawn havia começado, o trabalho simplesmente fluía e ele nem se lembrava mais que, dias antes, a convivência entre ele e era quase insuportável.
Ela até mesmo havia conhecido Hailee e ele almoçou na casa dela. Definitivamente, estavam diferentes naqueles últimos dias, mas ele não ousaria reclamar.
Quando localizou o carro dela estacionado na rua, viu que ela estava encostada na lataria enquanto comia algo que devia ser de chocolate.
– Você demorou, eu não consegui te esperar para comer. – Explicou-se com a boca cheia e esticou o pacote da padaria pro homem.
– Pode ficar, você parece estar precisando mais que eu.
– O que você quer dizer com isso?
– A sua TPM.
– Eu comprei o suficiente para nós três, então trate de comer antes que eu enfie essa sacola na sua boca.
– Violência desnecessária logo pela manhã, eu acho que é isso que enriquece nossa parceria.
– A delegacia inteira discorda disso.
– E com o que eles concordam?
– Que a gente precisa resolver a sua tensão sexual. – Ela falou, segurando o riso e caminhando para entrar no carro do lado do motorista.
– E aqui temos uma bela espécime de maluca, senhoras e senhores.
– Meu Deus! Qual é a dificuldade de corresponder meu flerte? – Ela perguntou e bateu a porta.
– Não quero que você se apaixone por mim. – Ele também entrou no carro.
– Pode ficar tranquilo, eu nem mesmo lembro quando foi a última vez que eu me apaixonei.
– Vemos que eu trabalho com a Elsa. – Ele falou e ela gargalhou com a referência do desenho infantil.
Let it go, let it go! The cold doesn’t bother me anyway! cantou, dando partida. – Você saber referências da Disney e ser solteiro ainda é um mistério para humanidade.
– Eu resolvo esse mistério fácil. Três palavras: tenho uma filha.
– Ok. É uma boa desculpa.
– Não é desculpa, é um fato.
Enquanto dirigia até o IML, comeu, por fim, o brownie que a mulher havia trago como uma oferta de paz, mesmo sabendo que ele não teria paz se dependesse dela. era uma peça de produção limitada, isso era fato. Depois de ter aberto o jogo e compartilhado a existência de com , ela se sentia mais confortável na presença dele e menos receosa de estragar toda a sua missão ali, de dar um deslize e entregar sua verdadeira identidade.
As coisas estavam mais leves agora que sabia seu nome de verdade, e mais que isso, estava disposto a ajudá-la a voltar à sua vida. O primeiro passo havia sido dado no dia anterior, quando finalmente ligou os pontos e descobriu quem tinha lhe colocado naquela saia justa. Mas em breve iria atrás de Raymond para colocar os pingos nos is. E mesmo que lhe doesse o coração, colocaria o Bowers mais novo atrás das grades também.


Capítulo 17

Assim que os detetives entraram na sala da perita, Florence percebeu que havia algo estranho ali. mantinha a maior distância possível da parceira enquanto , estranha por si só, ostentava os cabelos soltos e um olhar travesso que só aparecia quando ela tinha alguns orgamos.
– Bom dia, F. – quem cumprimentou primeiro.
– Bom dia… – Retribuiu o cumprimento, incerta se devia ou não perguntar algo.
– O que foi? – perguntou, notando que a mulher não respondeu com o cotidiano sorriso.
– Vocês estão esquisitos. – Ela constatou, ignorando a sua própria mente que dizia que ela se arrependeria de se meter no que quer que fosse aquilo.
– Eu não estou esquisita.
– Aham, com certeza você anda de cabelo solto em horário de trabalho. – A perita retrucou e um sorriso malvado tentou se abrir no rosto de , mas ele o controlou antes de abrir a boca e falar o que desencadearia no melhor diálogo que presenciara no dia inteiro, talvez até na semana.
– Ela está com o cabelo solto para esconder as marcas da noite passada. – O tom de malícia na voz do detetive fez os olhos da mais nova se abrirem mais que o normal.
– Vocês transaram?! – A pergunta saiu mais alta e mais chocada do que deveria e quase riu, quase. – Finalmente!
– Eu transei, ele não. – disse, completando logo em seguida. – E não foi por falta de convite, eu juro.
– Ok, sua estranheza está explicada. – Florence disse antes de se virar pro homem. – Mas e você?
– Eu o que?
– Tá ácido, e faz minutos que você entrou aqui.
– Ele está rabugento hoje.
– Aconteceu alguma coisa? – A perita estava realmente preocupada.
– Não.
– Mas podia.
, pelo amor de Deus! – Ele implorou e ela riu.
– Eu tô falando sério, eu tenho um método que é tiro e queda pro mau humor.
– Meu mau humor é culpa sua!
– Minha? – Ela disse parando de rir e confusão passou a moldar sua face.
– É!
– Mas o que eu fiz?
– É, o que ela fez?
– Você é maluca e quer me deixar maluco também. – Ele passou a mão direita no cabelo e passou a língua pelos lábios numa tentativa de não se exaltar.
– Eu não tô acompanhando. – Florence estava completamente perdida.
é a culpada pela minha frustração sexual. – Ele explicou e explodiu em gargalhadas.
– Tá frustrado porque quer! – Ela rebateu.
– Mulher, você é doida! – Ele constatou.
Florence se levantou enquanto os dois debatiam sobre o assunto e nem mesmo perceberam a movimentação dela. Caminhou até a porta e, quando já estava do lado de fora com as chaves na mão, colocou apenas a cabeça pra dentro enquanto colocava a chave na fechadura.
– Eu vou deixar vocês resolverem isso e depois eu volto pra liberar vocês. – Ela interrompeu a fervorosa discussão e fechou a porta com pressa, trancando-a logo em seguida.
Florence sabia que iria ouvir por horas sobre aquilo quando os soltasse da prisão improvisada, isso se eles não dessem um jeito de fugir antes disso, mas estava cansada daquele morde e assopra entre os dois. Era explícito para qualquer um que tivesse dois olhos, e até mesmo se não enxergasse, que as faíscas entre os dois iam além de uma implicância ou competitividade no trabalho. Além do mais, ela estava cansada de como, desde que a amiga foi apresentada ao homem, semanas atrás, ela sempre trazia o mesmo como tópico nas reuniões de quinta à noite. " isso, aquilo" e então, quando já tinha álcool suficiente para não se lembrar no dia seguinte dentro do corpo, " intrometido, fica se metendo onde não é chamado, mas podia se meter entre as minhas pernas" e outros comentários até mais baixos. E como o homem parecia um adolescente bobinho encarando quando ela não estava vendo?
A perita poderia não ter ⅓ da experiência em solucionar casos que os detetives tinham, mas de relações humanas entendia até demais, e aquele era um caso já solucionado para ela.



Os detetives encaram a porta estáticos por alguns segundos, o silêncio contrastando com o barulho de segundos atrás. Esperavam que ela abrisse a porta e dissesse que estava brincando. Mais alguns segundos se passaram e então suspirou, sabendo que a amiga havia falado sério.
– Olha a situação que você colocou a gente. – Ela reclamou.
– Eu? Você quem está agindo como uma ninfomaníaca!
– Primeiro que, se você tivesse dito que se incomodava com as brincadeiras, nada disso teria acontecido, mas você não disse nada.
– Eu não me incomodo mesmo, mas eu ainda sou homem, porra!
– Sem palavrão!
– Foda-se o palavrão, minha filha não tá aqui.
– Grosso!
– Surtada!
– Isso não é uma discussão de novela adolescente!
– Eu não quero nem saber da onde você tirou isso.
– Eu não ia contar mesmo. – Deu de ombros de forma infantil.
Ficaram em silêncio por um tempo, rezando para que Florence voltasse e eles pudessem trabalhar e esquecer o momento constrangedor.
– Eu ainda não ouvi vocês se resolvendo! – Florence disse do lado de fora, assustando levemente aos dois.
– Você tá ouvindo por detrás da porta? Que coisa feia! – zombou.
– Será que vocês podem agilizar? Temos trabalho para fazer, mas só depois que vocês tiverem resolvido suas diferenças.
– Agora vai ser muito mais esquisito porque sabemos que você está escutando.
– Nem tem nada pra resolver.
– Tem sim, ! – Ela falou com a voz mais distante agora. – Estou indo tomar café. Se resolvam ou eu tranco vocês na geladeira.
– Sua amiga tem uns métodos esquisitos.
– Você está mesmo bravo comigo? – Ela perguntou direta e ele suspirou, a mão direita correndo pelo cabelo de novo.
Não era raiva, e ele sabia disso. Havia colocado em palavras exatamente o que era aquilo, a mais pura e deteriorante frustração. A noite anterior havia sido complicada, Hailee demorou a dormir e, quando finalmente o fez, a imagem da mulher que agora sentava ao seu lado povoou seus pensamentos. Com o vestido de seda que ela usava quando saíram do apartamento, com roupas de ginástica, de toalha com os cabelos molhados. Chegava a ser desconcertante assumir o efeito que as brincadeiras do dia anterior tiveram em sua mente à noite. E a vontade de ter algo que sabia que não teria lhe deixava ainda pior.
– Não é raiva.
– Você estava falando sério? – Perguntou e ele sabia exatamente do que era.
– Você tem espelho em casa? – Respondeu com outra pergunta. – Sua sorte é que eu sou muito profissional. – Ela riu.
– Pode ser que eu não esteja falando só pelos meus hormônios… Mas para ter certeza disso, eu preciso que eles calem a boca.
– Eles vão te dar uma folga em algum momento. Aí a gente descobre se você está mesmo querendo que eu te beije. – Ele não olhava pra ela enquanto dizia mas ela, pelo contrário, tinha o olhar dela sobre a boca dele.
Ela passou a língua entre os lábios antes de responder.
– E se a gente fizesse isso agora só pra resolver seu mal humor e matar a minha curiosidade? – A pergunta fez ele olhar para ela incrédulo antes de rir.
– Você é terrível, .
– Então estamos entendidos?
– Você vai parar?
– Não. Até porque você não quer que eu pare.
– Tenho direito a réplica?
– Você? – Ela perguntou, soltando uma risada logo em seguida. – Não consigo pensar em você flertando.
– Mas hoje mesmo assumiu que pensa em como eu fodo. – Pontuou e ela riu.
– Ah, , vamos ser sinceros, você não pode ter essa cara e foder fofinho. Seria muito decepcionante. Se bem que quando você está com a Hailee… – Ela ponderou.
– Que cara? O que a Hailee tem a ver com isso?
– Você é fofinho com ela, faz o tipo "Eu trago ela de volta às nove, senhor". E essa é realmente a definição da sua personalidade. Mas quando você está tenso ou nervoso… Aí é definitivamente "Sua filha me chama de papai, tam.." – se interrompeu com uma risada alta que se sobressaiu aos risos do homem.
– O que foi agora, maluca?
– Nada.
– Ah, não foi nada não. Continua a linha de raciocínio.
– Eu só lembrei que eu passei o dia quase todo te chamando de papai ontem. – Ela falou, fazendo ele acompanhá-la na risada.
Duas batidas foram ouvidas na porta, e então a voz de Florence foi ouvida.
– Estão rindo, isso significa que é seguro entrar?


Capítulo 18

– Então, o que tem pra nós? – perguntou quando a perita entrou na sala de novo.
– Nem um xingamento?
– Eu estou de bom humor hoje, querida.
– Ok. Vocês estão muito esquisitos hoje, tem certeza de que não trocaram de corpos?
– Essa é uma pergunta péssima pra se fazer nessa altura do campeonato.
– O Doutor Cabeça com certeza ficaria orgulhoso se soubesse o tanto de piada que esse caso rende.
– Ok, nem tudo está perdido, a ainda chama ele do jeito certo e o ainda está sensibilizado.
– Você sabe que a gente tá ouvindo, não é? – O detetive perguntou e a mais nova riu.
– Sei. Ao contrário de vocês, estou completamente certa das minhas faculdades mentais.
– Então, o que temos de novo?
– Escaneei o edifício inteiro. Não estamos grampeados, então imagino que isso seja algo específico para dentro da delegacia. Entrei em contato com o número que você pediu, e eu vou comer o seu rim assim que tiver a oportunidade. – Falou pra . – Pratt me mandou um relatório sobre a Sargento Peterson e disse que Fumero quer o seu fígado para o jantar.
– Uau! Muita coisa que você tem aí.
– Enquanto vocês estavam no bem bom ontem, eu estava trabalhando.
– Tão eficiente! – esticou o braço para apertar a bochecha da outra.
– As informações que vocês conseguiram sobre o Valdez e a corja dele estão todas com o seu contato na Interpol. Agora podemos focar no caso e no trocador de cabeças.
– E os grampos da delegacia? – perguntou, ainda tentando digerir a torrente de informações que a perita estava entregando.
– Tá com o nosso amigo do Queens.
– O tal Harvey?
– Isso!
– Quem é aquele cara, afinal de contas?
– Meu contato e crush da Florence aqui.
– Ele não é meu crush.
– Aham, e eu não sei dançar. – rebateu irônica, fazendo a outra revirar os olhos e rir.
resumiu o que haviam conseguido do caso na noite anterior, e se assustou quando Florence deu um soco no mesa quando explicou quem havia enviado as mensagens.
– Aquele bastardo, filho da puta!
– Gente, vocês já foram menos desbocados. – brincou, tentando aliviar o clima.
– Até agora ninguém me contou quem é esse tal Raymond. – disse, tentando conseguir uma explicação.
– Lembra do Protocolo Bowers? – perguntou e ele assentiu. – Raymond era o meu parceiro. Eu prendi o irmão dele e, agora, ele parece querer se vingar.
– Então não é só você ir pra Los Angeles e pegar ele em flagrante?
– A última mensagem que recebi foi quando ele pediu demissão para o Fumero.
– Então você está me dizendo que o cara que quer te matar e tentou isso meses atrás pediu demissão e não tem mais nada segurando ele longe de você?
– Certo, eu não tinha ligado os pontos ainda. – A mulher deixou o corpo afundar na cadeira.
– Eu odeio como tudo me lembra o caso das cabeças. – Florence disse, sacudindo a cabeça levemente.
– Falando no dito cujo, surgiu algo novo?
– Temos pessoal nos hospitais que vocês encontraram, foi difícil pra caramba pra explicar da onde aquilo veio.
– E o que exatamente eles estão procurando ou esperando lá? Que um médico resolva se entregar?
– Entrada e saída de corpos, .
– Eu odeio esperar.
Com a identificação das duas vítimas da última chamada em mãos, a dupla de detetives tinha o álibi perfeito para a saída antes de irem até a fábrica de material cirúrgico. Terem conseguido uma visita naquele dia era, no mínimo, um esforço da companhia com a colaboração – e também mantinha a empresa longe do escândalo midiático que estava sendo aquele caso.
Aquela era, definitivamente, a pior parte de estarem liderando a investigação: a mídia. estava fazendo das tripas coração para não ter seu rostinho que deveria estar morto estampado em notícias. também evitava a exposição, não queria que as pessoas voltassem a pará-lo na rua com perguntas inconvenientes.
Demorou tanto tempo para que esquecessem que ele estava relacionado ao caso de sua ex para que pudesse andar na rua sem notar os olhares de pena para si ou a pequena Hailee que, só de pensar em voltar a ser abordado na rua, seja por qual fosse a razão, lhe enchia de pavor.
A visita na fábrica fora comum, se levassem em consideração que era domingo e não tinha ninguém ali, a não ser por alguns seguranças e a secretária, que os levou até o escritório onde eles receberam das mãos da mesma um relatório com todos os clientes da empresa, antigos e atuais. Ah, a tecnologia fazia mesmo milagres…
Com os papéis jogados no banco de trás do carro, os detetives foram para o Queens. Uma mensagem de Florence para anunciava que ela estava no internet café que visitaram anteriormente naquela semana. E foi lá que os quatro se encontraram.
– Espero que vocês tenham comprado comida porque o meu horário de almoço não pode ser jogado fora. – falou enquanto ela e o parceiro passavam pela porta de vidro que tinha a placa “Fechamos para o almoço, voltamos em breve!”.
– Eu falei na mensagem pra vocês comprarem comida! – Alexandra berrou do fundo da loja.
– Eu estava dirigindo, não li tudo. – explicou.
– Desde quando a deixa alguém dirigir? – Harry perguntou, realmente chocado.
– Ok, isso é novidade para mim também. Se eu soubesse, eu tinha mandado mensagem para ela de uma vez.
– Muito papo, ninguém ligando para restaurantes… Vocês já foram mais prestativos. – falou, pegando o próprio telefone e abrindo no aplicativo de delivery.
– Desde quando ela deixa você dirigir? – Lexi perguntou para , ignorando a amiga.
– Desde o tiroteio no mercado.
– O relacionamento de vocês tá mais adiantado que a nossa amizade! – A perita reclamou, dando um tapa estalado no braço da detetive. – Nem eu dirijo pra você.
– É por quê eu não confio no seu talento para piloto de fuga. – rebateu, mostrando a língua.
– Então... , certo?
– Isso, e você é Harvey. Florence fala muito de você.
– Na verdade, é Harry. Sabe como é, né? Programa de proteção à vítima. Mas aqui dentro é território seguro, somos nós mesmos.
– Tô me adaptando com o uso dos alter egos.
– Se um dia você precisar de um, seja mais criativo que certas pessoas. – se intrometeu.
– Pelo menos eu não uso o nome da minha irmã morta. – Harry rebateu e Lexi e prenderam a respiração, sem nem perceber esperando o surto da mulher.
– Vai se foder, Atkins. – Ela disse, mostrando o dedo do meio para ele.
– Você já percebeu como ela não sabe ser carinhosa com os amigos? – Alexandra sussurrou para o detetive.
– Quando a esmola é demais, o santo desconfia. – Ele respondeu num sussurro também.
– Pedi o almoço. – disse por fim, se sentando com os outros, sua perna passando por cima da de Harry que, automaticamente, começou a fazer carinho no joelho dela.
Ação que não passou despercebida pelos outros dois, que achavam completamente esquisito como parecia uma pessoa muito mais relaxada na presença de Harry.
– Então, estamos aqui reunidos e esperando um digníssimo almoço bancado pelos . Por quê? – A detetive perguntou olhando para Lexi, que desviou o olhar do joelho da amiga assim que a pergunta foi feita.
– Precisamos resolver o que fazer agora.
– E por que eu estou aqui? – perguntou, confuso.
– Você faz parte da equipe agora, cara. Elas não te contaram, não?
– Mas eu tô só na parte da investigação ou minha cabeça vai estar a prêmio também? Porque eu não posso morrer não, tenho uma filha pra criar.
– Definitivamente, caso resolvido, Lexi. – Harry disse, relacionado à conversa que estavam tendo antes dos outros dois chegarem.
Lexi havia explicado o que estava acontecendo e porque parecia ser o chaveirinho novo de . E agora Atkins entendia o que estava acontecendo entre os dois. era a personificação do desejo mais secreto de : estabilidade. E ninguém melhor que Harry Atkins para dar o veredito final sobre aquilo. Era um fato, aqueles dois estavam apenas começando.
Lexi sabia que seria divertido ver aquilo acontecer, conhecia a amiga bem demais para saber que ela negaria para Deus e o mundo que aquilo já havia passado dos limites comuns para .
– Que caso? – A própria envolvida na dedução dos dois perguntou.
– Não estou numa distância segura para te explicar, mas em breve.
– Eu sabia que ia ser a conta de trocarem uma ligação e iam começar a ficar cheios de segredinhos.
– Todo mundo tem segredinhos, .
– Eu sou um livro aberto. – disse desconfortável, vendo que Lexi o encarava.
– Todo mundo tem segredinhos, menos o . – Ela se corrigiu, a ironia escorrendo pelo tom de voz.
– Será que podemos focar na estratégia para achar aquele bastardo do Bowers agora? – Harry perguntou.
Os minutos que se seguiram dentro da loja foram usados para traçar o perfil psicológico do antigo parceiro de . Nem mesmo quando a comida chegou eles interromperam o trabalho, precisavam correr contra o tempo para que conseguissem se preparar antes que Raymond aparecesse em Nova York.


Continua...



Nota da autora: "Galera eu tentei ao máximo não dar descrição física dos pps, mas como podemos ver, eu falhei. E aí vem a descoberta de que o nosso pp tem olhos azuis (eu imagino ele como o Sebastian Stan aka amor da minha vida todinha), pode ser que eu tenha falhado com vocês, sinto muito.
Um quê de comédia antes das coisas ficarem feias não mata ninguém, não é? Finalmente o caso da pp caminhou e eu assumo que tô chocada com a minha capacidade de criar um personagem fdp tal qual Raymond.
Eu ainda estou em choque com o retorno que estou recebendo com essa história, muito obrigada mesmo!"





Outras Fanfics:
Olhar 43
Nota da beta: Se vocês ficarem putas com o último capítulo, saibam que a beta também ficou!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus