FFOBS - I've Been Thinking About You, por superieronico

Última atualização: 15/07/2018

Prólogo

Ela saiu do carro nervosa. O tecido pesado e branco estava embolando um pouco em suas pernas, mas tentou ignorar o fato, apenas desenrolando o emaranhado que tinha se formado em suas pernas. Seu pai já esperava, com a mão estendida, pelo lado de fora. Os olhos do homem marejavam. Ela não sabia se sorria ou chorava junto.
"Está tão linda".
Era o que ele dizia. O caminho todo. A todo tempo.
Depois de posicionada ao lado de seu pai, segurando o braço dele com firmeza, ela o olhou, pra saber se estava pronto. Ele só assentiu.
Sonhara com esse dia durante anos. Só que, em seus sonhos, a pessoa que estaria no altar não era aquela que realmente estaria. Mas ela não podia negar que estava feliz com sua escolha.
Ao ver as portas abrirem e a música invadir seus ouvidos, ela sentiu as pernas fraquejarem pela primeira vez naquele dia.
— Pai. — ela o chamou — Acho que não posso fazer isso.
O mais velho só fez sorrir, olhando a filha com ternura.
— Claro que pode, . Sua mãe não deu a luz a um rato! — ele brincou. Era bom com isso, tinha o mesmo senso de humor da filha. Que tinha o mesmo senso de humor de.... Não, não o noivo que estava esperando, mas o noivo de seus sonhos.
A mais nova sorriu, meio nervosa.
— Tudo bem, vamos...
Enquanto a marcha imperial tocava — sim, a música do Darth Vader — a moça dava passos lentos até o altar. Como se fosse queimar se desse passos mais largos, ela evitou olhar os convidados. Permaneceu sorrindo para seu noivo, que sorria bobo pra ela do altar. As tatuagens em todo seu corpo e seu terno caro, faziam um belo contraste. Ela estava feliz de poder casar com ele.
Conforme ela se aproximava, o sorriso de aumentava ainda mais. As mãos suando. O maxilar doendo, de tanto sorrir.
Ao chegar no altar, finalmente, o pai de passou a mão da filha para o noivo, que não sabia se segurava as lágrimas ou o sorriso.
— Cuida bem da minha menina, .
O tom era ameaçador, mas ele sabia que era brincadeira. Seu futuro sogro o amava mais que a própria filha, se duvidasse.
só fez sorrir, rindo um pouco.
— Pai... — riu do jeito dele, sorrindo, quando ele foi para o lado de sua mãe no altar.
Algumas pessoas olhavam de fora. A noiva estava linda. A música do Star Wars chamava a atenção dos meninos da rua que, boquiabertos, queriam saber se aquilo tinha sido uma escolha da própria noiva.
Ela riria se visse a cena.
"Queria que ela visse isso de fora...", ele pensou. Mas era tarde demais. Ela não poderia ver mais nada de fora, pois seu destino tinha sido selado. E, por mais que ele quisesse entrar lá e fugir com ela, sabia que não podia.
Não deixou com que ninguém o visse, mas teve atrevimento suficiente pra entrar na igreja, quando ouviu o padre pedir silêncio.
— Estamos aqui hoje para celebrarmos a união de King e Jr., que, com muito amor, selam uma parceria...
Ela permitiu dar uma olhada para os convidados, esperando o padre terminar o sermão. Quando virou pra trás, ela o viu e sentiu seu corpo inteiro gelar.
As palavras do padre foram entrando no mudo em seus ouvidos. Ela só conseguia olhar para aquela imensidão verde e brilhosa. Infelizmente, aquele par de olhos verdes brilhavam de tristeza. Aquele brilho que ela odiava ver.
Ele sabia que ela estava o vendo dali. Mas nada fez.
Não fez escândalo, como o irmão pensara. Não fez cena, como o outro amigo também pensara que ele faria. Ele só ficou quieto. Assistindo, sentindo dor e tristeza ao ver a mulher de sua vida se casando com outro.
Em um sobressalto, voltou a olhar para o padre. Se continuasse olhando pra ele, seus convidados saberiam para onde ela estava olhando, e isso era a última coisa que ela queria no momento.
Quando o padre finalmente chegou nos votos, ela pode relaxar um pouco os ombros, tentando esquecer os olhos verdes que sempre a puxavam para fora da realidade.
Ela se focou em seu noivo, com quem namorou dois anos e meio, após... Após ele ter ido embora. O vazio que ficou no lugar, depois que ele partiu foi... Irreparável. Até aparecer, e fazê-la sorrir pra vida de novo.
Mas, como um fantasma, ele sempre voltava. E ela sempre aceitava. Mas daquela vez... Daquela vez, ele tinha chego tarde demais.
O homem enxugou as lágrimas com a mão aberta, deixando à mostra seu mindinho pra fora, na mão direita.
Ele espantou as lágrimas travessas, mas continuou olhando a cena, maravilhado com a beleza dela naquele modelo caro da Dolce e Gabana que ela tanto sonhara.
A silhueta perfeita, a cintura desenhada... Os seios fartos, ele pode ver, estavam escondidos por um decote em formato de coração, que prenderia muito sua atenção se fosse um padre.
, você aceita como seu legítimo esposo, e promete amá-lo e respeitá-lo por todos os dias de sua existência, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
A moça excitou por segundos, o que foi o suficiente pra arregalar os olhos.
Ela riu baixo depois, e bem rapidamente disse:
— Aceito.
fechou os olhos, enquanto encostava a cabeça no banco. As lágrimas lavavam seu rosto juvenil. Ele não emitia som algum.
— E você, ? Você aceita como sua legítima esposa, e promete amá-la e respeitá-la por todos os dias de sua existência, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte os separe?
Sem pestanejar, respondeu que sim, com força exagerada.
riu mais, achando engraçado o noivo falando sim.
— Se há alguém que tem algo contra essa união, fale agora, ou cale-se para sempre.
Ele tentou juntar forças e levantar, ir ao meio do altar, revelar seu rosto coberto pelo capuz, para que os pais dela o reconhecessem.
Ele tentou achar voz para gritar "PAREM ESSE CASAMENTO", como ele tinha prometido que faria, quando eram jovens, se ela decidisse casar com outro.
Ele só respirou fundo, e pensou nas vezes que foi embora durante anos, bravo com algo que ela não fez. Bravo com coisas bobas. Coisas bobas que viraram coisas sérias, porque ele sempre fazia muito drama, e ela não entendia o motivo. Eles eram como água e óleo. Não tinha como ficarem juntos. Não era o que o destino queria. Ou era?
nunca poderia saber.
Por um instante, desejou que ele fizesse algo típico dele. Corresse pro meio do corredor, todo cheio de si, e dissesse "Sim, eu tenho. Você está casando com a mulher da minha vida, e eu não vou deixar isso acontecer", e ela ia sorrir pra ele, largando a mão do noivo e indo ao seu encontro. Como fez em todos esses anos, com os outros namorados que teve.
Mas ela sabia também que era diferente dos outros. Ela não tinha o mesmo amor que nutria por . Sim, ainda o amava, mas estava machucada demais para voltar atrás. Ela amava à sua maneira, obviamente, mas amava.
O silêncio prevaleceu na igreja. O padre sorriu.
— Então... Pode beijar a noiva!
se aproximou dela sorrindo, e ela retribuiu a altura a alegria do noivo, agora marido. Ele a beijou com vontade, apesar de estarem na igreja. Suas mãos segurando com força sua cintura, apertando o tecido caro.
Ela segurou seu rosto e, por um instante, ela viu o rosto de em sua mente, mas, diferente das outras milhares de vezes em que isso ocorria, desta vez ela não o espantou. Aquilo seria a despedida.
Quando ele se afastou, suas mãos se entrelaçaram. Todos olharam sorrindo pro casal, que saiu rindo até o carro que o esperava para levar à festa.
Quando passou por , ela olhou pra ele uma última vez. sentiu uma lágrima solitária descer pelo seu rosto. Os olhos verdes dele estavam inchados de tanto chorar.
"..." — ela pôde ouvir baixinho.
Ela sorriu triste pra ele, confessando seu sentimento sem emitir som.
Ao sair da igreja e entrar no carro, ela se desprendeu de todo o passado, apesar dos olhos dele não saírem de sua mente.
Olhou a igreja uma última vez, depois olhou pro marido.
— Enfim casados. — ela disse baixo, sorrindo boba.
— Enfim juntos. — ele respondeu, segurando a mão dela com firmeza, beijando-a.
Depois que todos foram embora, ainda permaneceu um tempo na igreja, olhando o teto, distraído.
Ele sentiu um peso a seu lado, sentando-se no banco, mas ele não olhou para o lado.
— Você é um burro.
Ele riu. A voz era conhecida, ele sabia. Era a melhor amiga de , e uma das pessoas que torciam por eles.
...
— Não, não me venha com essa! Você não fez nada... Eu fiquei muito... Impressionada com isso.
— Eu não posso privá-la de ser feliz.
Ele finalmente a encarou. O vestido de festa longo a deixava mais bonita. O cabelo cacheado e comprido batia na altura de seus seios. Seus olhos estavam duros, repreendendo o amigo.
— Ela seria mais feliz com você.
Ele a olhou.
— A me odeia. — disse duro, fatídico. — E... Nós não daríamos tão certo quanto ela e o , então... Deixa.
suspirou. Sua mão apertou a coxa esquerda de .
— Você sabe que as duas coisas são... Totalmente mentirosas.
Ele riu.
— É...
Suspirou de novo e ambos se levantaram.
— Espero que fique bem.
Ele sorriu e a abraçou forte.
— Eu estou bem, sim... Cuida bem dela por mim. — ele segurou as lágrimas quando disse a última frase. Olhou pra uma última vez, e saiu da igreja.
Assim que virou a esquina, a chuva caiu forte sob sua cabeça, disfarçando suas lágrimas que, teimosas, insistiam em cair.

"Você é um idiota! Porque você sempre faz isso, ? Você gosta de me ver sofrer?"
Ele lembrava das últimas palavras que ela disse quando ele foi embora pela enésima vez, há dois anos e pouco. Ela já tinha conhecido , que diferença ia fazer? Ela não queria mais ele na vida dela, e ele não queria arruinar mais um relacionamento dela. Então disse adeus, deixando uma desolada atrás de si.
Ele suspirou e respirou fundo. Chamou o primeiro táxi que viu passando na avenida e foi pra casa. Depois decidiria o que fazer. Ele sempre tinha uma solução pra tudo... Pra isso não seria diferente, não é mesmo?
Por um instante, pensou que não. E , mesmo feliz enquanto cumprimentava familiares e amigos, sabia que não teria jeito para o sentimento que ela nutria por ele. E os olhos verdes que não sairiam tão cedo da cabeça dela. E o sorriso torto, e o mindinho mais aberto que os outros dedos da mão. Os detalhes. Os malditos detalhes.

A chuva era um sinal pra eles, mas não houve nenhuma resposta. Então as portas fecharam e o destino foi selado.
Pelo menos por enquanto.

"Então, deixa que o tempo vai...
Cicatrizar...
Ele te trouxe até aqui,
Mas pode te fazer mudar...
Então, deixa que o tempo vai...
Gravar a tua voz em mim,
Pra que eu possa te ouvir,
Toda vez que eu precisar..."

— Deixa o Tempo, Fresno


Capítulo 1



Acordei com a cabeça pesada, parecendo que um trator tinha passado por cima do meu corpo. Resmunguei alto e pude ouvir meu irmão rir.
— Bebeu muito ontem? De novo?
Senti minha testa franzir bastante, provocando mais dor.
— Cala a boca, , não me faz te bater. Vai doer.
Ele riu mais.
— Isso tudo é dor de cotovelo porque a finalmente seguiu em frente sem você?
Ouvir aquilo me deixou ainda pior. Soltei um gemido um pouco alto, mas riu ainda mais.
— Porque você não vai se foder, ? — revirei os olhos — Eu tenho mais coisa pra fazer do que ficar me preocupando com… com ex-namoradas!
Tentei parecer convincente, mas meu irmão me conhecia o suficiente para saber que não era bem assim.
— Você pode tentar enganar todo mundo, inclusive a própria . Mas não pode me enganar. Você sabe disso… Não seja bobo de tentar. Vai falhar
Abri finalmente os olhos. estava sentado na cama dele, ao lado da minha. Dividíamos um apartamento em Los Angeles, desde que nos mudamos para cá, para tentar a vida. Quer dizer, eu me mudei para acompanhar minha ex-namorada, King, que hoje é formada em cinema, mas trabalha com tudo, menos com aquilo que sonhou tanto fazer. Apesar disso, eu sei que ela é feliz… Eu sinto isso.
A claridade era pouca, então eu logo não estava mais com os olhos apertados.
Olhei pra e fiz uma careta.
— Está tão na cara assim que eu estou morrendo de saudades dela?
riu em resposta.
— Eu não queria admitir pra você, mas… Você tá mal!
Me sento e bagunço mais minhas madeixas, colocando todo meu cabelo pra trás. Já faz sete dias que se casou com um dos caras que mais a tratou bem, melhor até que eu, mesmo em tantos anos de relacionamento. Mas meu lamento segue, pois por mais que eu queira o bem dela, eu queria que ela fosse feliz assim comigo, mesmo sabendo que a chance de eu dar algo assim a ela, seria quase que nula.
Olho para meu irmão e sorrio um pouco de leve, quando o vejo segurando remédios e um copo de água.
— Achei que fosse precisar… Você voltou todo vomitado ontem.
Pego o copo e os remédios, tomando tudo de uma vez, estremecendo um pouco depois.
— Não precisa me lembrar que eu passei tão mal assim. Talvez eu deva parar de beber…
sorri.
— Acho meio impossível, mas não custa tentar, não é?
Sorrio um pouco com ele, mas sem mostrar os dentes.
Deito na cama de novo, todo largado, lembrando de algumas coisas que aconteceram bem antes desse maldito casamento. Era tudo tão mais simples, éramos tão mais felizes…
Suspiro de novo, e bufa, irritado.
— Eu vou ficar na sala. Se precisar de mim, chama.
Faço que sim com a cabeça e ainda fico parado, encarando o teto. Não demora para que as lembranças me invadam como um turbilhão, querendo entrar desesperadamente.


Flashback on

, para! Assim eu vou morrer de rir! — dizia alto, enquanto corria de mim em volta da mesa. Eu era bem mais rápido, mas dava uma colher de chá, por ela ser mais nova que eu.
— Não! Não paro, não! — respondo rindo, ainda atrás da pequena.
Em um passo em falso, cai no chão, cortando um pouco o joelho no concreto duro. Vou até ela com cuidado, ajudando-a a levantar.
— Você tá bem? — pergunto preocupado, segurando sua cintura com força.
Seus lábios se abriram um pouco, e ela ofegou. Senti seu hálito mais perto do meu e fiquei um pouco em choque. O que ela tava fazendo? Quando menos esperava, seus lábios tocavam os meus com delicadeza, e eu só sabia sorrir.
Quando acabou, depois de um bom tempo só pressionando os lábios nos meus, ela me olhou corada.
— Devíamos… esquecer isso. — ela disse baixo, se afastando.
Segurei sua mão firme e a puxei de novo para mim.
— Não… Nunca esquecer. Nunca vamos esquecer isso, ouviu bem?
— Nunca esquecer. — ela repetiu, me olhando nos olhos.
Sem saber direito o que fazer, a puxei para mais um beijo, dessa vez, pedindo passagem com minha língua, que, tímida, explorava a boca da garota que, no segundo anterior, era minha melhor amiga. Há anos. E, por mais errado que poderia parecer, eu nunca tinha sentido algo tão certo na vida. Nossas línguas brincavam como se conhecessem há mais tempo mesmo que nós dois. Eram íntimas, como se o lugar delas fosse o mesmo –– em nossas bocas conjuntas. Segurei sua cintura e a puxei pra mim, diminuindo o beijo aos poucos, quebrando com selinhos depois.
Eu pude ouvi-la sorrir.
E não era a única que estava feliz.


Flashback off


Os detalhes sempre me perseguiam. Os detalhes eram malditos, eram... Eram os demônios que ficavam me sondando tanto, que me atormentavam de forma irônica e sádica até. O passado sempre me fora convidativo, todos esses anos, talvez porque eu estivesse pensando que não ia se casar com outro. Talvez porque eu estivesse convicto demais que ela ia se arrepender de suas escolhas e voltar pra mim. Como tínhamos prometido. Como tinhamos combinado.
Afastei algumas lágrimas que insistiam em cair. Era um saco. Além de ter perdido a melhor namorada do mundo, eu também perdi a melhor amiga do mundo.
e eu éramos inseparáveis na época do colégio. E antes disso também. Não tínhamos a mesma idade, mas os dois anos e meio que nos separavam nunca fora um problema.
Eu a conheci quando ela se mudou de Chicago para Newark, em New Jersey, onde eu morava com meu irmão e meus pais. Ela era a atração do bairro, e morava perto da minha casa. Todos os meninos da rua tinham dito que ela era linda, mas quieta, sóbria. Muito na dela.
De princípio, eu não liguei pra isso. Éramos tão novos, tínhamos 13 e 11 anos e meio, respectivamente, eu e ela. Achei besteira me aproximar.
Mas não demorou muito para que, quando eu a visse de perto, mudasse de ideia na hora.
brilhava. Brilhava forte, e até ofuscava a visão dos outros. Era uma injustiça ela ser tão linda. Mesmo com a pouca idade, seus olhos castanhos e grandes prendiam a atenção de qualquer um. Inclusive a minha.
Mas, pra qualquer outra pessoa, suas portas estavam fechadas, ela não queria ter amigos. Estava bem assim. Mas comigo... Comigo foi tão diferente, e lembrar disso hoje me faz sentir o cara mais merda do mundo...


Flashback on

Eu estava brincando com , meu irmão dois anos mais novo, quando ela apareceu com um giz na mão e começou a desenhar uma amarelinha, bem do nosso lado.
, como sempre, ignorou a menina ao nosso lado, mas eu fiquei curioso.
Senti uma vontade de me aproximar, sabendo que ela sempre negava a aproximação de qualquer pessoa.
me olhou com reprovação, mas eu continuei meus passos lentos até ela.
levantou o olhar e, por um instante, eu senti que estaria preso naqueles olhos pelo resto da vida. Pelo resto da eternidade.
— Oi. — falei depois de um tempo que estávamos nos encarando.
— Oi! — ela falou até que animada, sorrindo um pouco — Vocês querem brincar?
O queixo de foi ao chão. Ela estava chamando os dois pra brincar. Era um absurdo. Eu, mais que depressa, fiz que sim, deixando um cheio de raiva atrás de mim.
O sorriso dela se alargou quando me juntei a ela. Ela olhou e disse:
— Você também, vem!
Ele foi, um pouco a contragosto, mas como negar algo pra uma garota tão bonita?
Jogamos amarelinha como se não houvesse amanhã e, realmente, não havia mais amanhãs. Pra mim, naquele dia, só havia . e eu.
A risada dela eram como sinos suaves de uma igreja. Ela era toda melodiosa, toda delicada, cheia de fascínio pela vida. Ela disse que sentia falta do frio de Chicago, e que em Jersey não ventava tanto. Ela confessou em silêncio, me olhando nos olhos, que sentia falta de casa. Não da casa em si, mas da cidade, do bairro, até das pessoas – por mais que ela alegasse que não fosse tão apegada assim.
Naquele dia, conversamos mais do que brincamos.
saiu com uns colegas pra andar de bike, e eu e ficamos conversando, sentados no meio-fio, perto do parquinho.
Naquele dia, descobri que sua única amiga se chamava Julia e que, na realidade, ela não era humana. Era uma gata, que tinha batizado assim por conta dos Beatles.
Confessei a ela que me sentia sozinho, apesar da constante presença de . Me fechava no quarto e via desenhos enquanto lia quadrinhos. Era um pouco solitário, e a escola não ajudava. Ser gordinho não era muito fácil....
sorriu, o sorriso mais sincero que alguém já tinha me dado na vida. Quando vi, suas mãos seguravam as minhas, num gesto caloroso e quase que silencioso.
— Eu tô aqui.
Aquilo foi o suficiente pra eu saber que aquela menina aqueceria meu coração pelo resto da vida.
Só pude sorrir e vê-la sorrir de volta, foi a confirmação de que ela se sentia da mesma forma. Ou pelo menos, de forma muito parecida.
Seus olhos castanhos e amendoados me fitaram mais uma vez e, logo em seguida, pude ouvir um assobio. Ela se virou na hora e viu sua mãe, parada a alguns metros, sorrindo de leve.
— Vamos, ! Tá tarde!
Ela se virou pra mim, soltando minhas mãos devagar.
— A gente se vê?
Sua pergunta tinha tom de dúvida, mas eu sorri largo, olhando-a nos olhos, com muita coragem.
— Pode ter certeza.
sorriu, levantou rápido, colocou as mãos no casaco e foi ao encontro de sua mãe.
Eu fiquei observando enquanto ela ia, e, por um momento, percebi que seus pés vacilaram e quase se voltaram para mim. Quase...
Ela me olhou uma última vez, antes de desaparecer na esquina entre as casas.
Sorri de leve e me apoiei folgado na grama, pensando em como eu era sortudo.
Ela me escolheu. No meio de tantos, ela escolheu se abrir pra mim.
E eu pensava que não poderia ser mais feliz que isso em toda a vida, só por ela querer minha amizade.
Eu era a criança mais alegre do mundo.


Flashback off.


Capítulo 2



Ela submergiu de novo. A água gelada tocava sua pele, e a sensação era única. Não havia pra ela sensação melhor que a água gelada beijando sua pele, enquanto seus músculos relaxavam e contorciam, durante seus movimentos debaixo da água.
Em uma espreguiçadeira não tão longe dali, observava sua esposa, o olhar carregado de admiração e carinho. Estava tão feliz por estar com ela que poderia gritar aos quatro ventos. Finalmente estavam juntos, finalmente casados. Ela era dele, ele era dela. Sem interrupções externas. Sem problemas. Sem . Sem .
riu amargo. Era difícil competir com o melhor amigo E ex-namorado da esposa. O espaço que ele ocupava no coração da morena era, sem dúvidas, maior que qualquer espaço que ela poderia lhe ceder. Apesar de já ter cedido o suficiente para que confiasse plenamente nela e saber que ela não voltaria pra ele.
Não, não dessa vez. Eles consumaram seu trato, e ele tinha prometido que ia tratá-la bem. E ele tratava. Melhor que qualquer outra pessoa, ou coisa. Era o príncipe encantado que qualquer pessoa poderia pedir, mas às vezes, achava, por mais que não tivesse coragem de expor, que vacilava em seus sentimentos por . Ele sabia, sabia que o amor dela por ele era grande. Mas o carinho que nutria por acabava por ser maior.
conhecia a história dos dois de cabo a rabo. nunca deixou de compartilhar tudo com ele, mas ele sentia que ela não se entregava pra ele, não da mesma forma que fazia quando estava com .
suspirou, tentando afastar os pensamentos mórbidos da cabeça. Voltou a olhar pra piscina, bem no momento que emergia da água, com a graça de uma sereia e a delicadeza de uma ninfa. Ele sorriu abertamente assim que a mulher pousou os olhos nele.
Ergueu-se e saiu da piscina, toda úmida, brilhando no sol.
deslumbrou a imagem por mais algum tempo, tombando a cabeça de lado, quase babando.
, que via a cena, ria por dentro e sorria largo por fora. Aproveitava pra sentir o sol em sua pele, enquanto caminhava devagar até seu esposo.
— Olá. — o saudou com um sorriso lindo, o olhando todo. Ela ainda estava um pouco longe, mas ele não se importava.
— Aproveitando a vista?
riu.
— Você nem faz ideia!
riu depois dele. Mais próxima agora, ela sentou ao seu lado, na ponta da espreguiçadeira.
— Não vai dar um mergulho? A água está ótima.
fez que não com a cabeça.
— Agora não... Mas quero que me acompanhe mais tarde.
Ainda sorrindo, ele tocou o braço gelado da esposa, fazendo um carinho leve.
— Como se sente agora, sendo a senhora ?
Ela riu como se ele tivesse contado uma piada. A risada doce e suave dela fazia com que ele quisesse rir também.
— Plena e feliz...
Ela o encarou, sorrindo de orelha a orelha. Sentia que não podia afligir sua felicidade. Não podia alcançá-la, estava muito longe. No entanto, quando ela vacilava, podia ser levada para anos atrás, quando tudo era mais simples, e ela podia julgar ser mais feliz.
era sua melhor parte. A coisa mais bonita que tinha aparecido na sua vida. O rapaz colocava cor e vida onde não havia, e preenchia as lacunas de como ninguém. Ela não podia negar, e sabia que também tinha consciência de que ela era frágil quando se tratava de .
Por um instante, ela ponderou que talvez fosse mais bonito seu nome com outro sobrenome no final. E se puniu mentalmente depois pelo pensamento estapafúrdio.
sorriu pra ela, subindo mais a mão por seu braço, em um toque mais firme desta vez.
— Não quer tomar um banho?
Ele sorriu um pouco mais malicioso e recebeu o mesmo sorriso de volta.
— Claro, mas só se depois eu for bem recompensada.
abriu mais o sorriso, subindo mais a mão até o rosto da mulher. Acariciou o rosto dela, enquanto a mesma tombava a cabeça em sua mão, carinhosamente.
— Te compensarei da melhor forma, pode apostar.
se sentou e a puxou pra si, engatando um beijo lento e apaixonado. puxou sua nuca e foi pra mais perto. Havia um contraste entre peles, enquanto tinha a pele quente e seca, tinha a pele molhada e fria, o que causava arrepios em ambos quando se tocavam.
Por mais que amasse o jeito que a beijava, não podia negar que não sentia o mesmo que sentia com . Os arrepios que lhe causavam eram mais semelhantes à pequenos choques, diferente dos que causava, que eram mínimos e mais contidos.
Quando transavam, não conseguia se sentir completa. Não conseguia sentir o seu corpo se estremecer como quando estava com . Não se entregava da mesma forma que fazia como quando transava com ele. era o cara com quem ela conseguia fazer tudo às claras.
acabava por ser o cara com quem fazia tudo no escuro. Ambos, por opção dela.
não entendia muito bem. Das namoradas que tivera antes dela, todas não tinham preferência, mas tinha. Ele suspeitava que isso fosse algo relacionado a , mas não quis perguntar, com medo de se decepcionar com a resposta positiva.
vacilou, como fez durante quase todos os dias de sua breve lua de mel, que estava completando sete dias naquele exato momento.
Seu cérebro a levou pra longe e, em meio ao beijo que dava em , ela desejou que ali fosse , e, pelo que julgou ser a milésima vez só naquela semana, ela se odiou por desejar aquilo e, diferente do que houve nas outras vezes, ela deixou se guiar para o passado, em uma viagem nostálgica.


Flashback on

Os fones estavam altos o bastante para o barulho lá fora não incomodá-la. A chuva caia forte e ela observava da janela do quarto, enquanto se distraia com as canções que variavam muito em seu walkman. No auge de seus 15 anos, já sentia a dor de ser apaixonada por alguém que talvez não pudesse ter. Patrick era o garoto mais distante do colégio pra ela. Mesmo sendo da mesma idade que ela e despejar olhares sugestivos, ela sabia que não conseguiria o que queria com ele, mas, mesmo assim, ela não deixava de despejar algumas lágrimas solitárias por ele.
, seu melhor amigo, sabia de toda a história e sempre a consolava, mas nunca a encorajava. Ela não achava aquilo esquisito, pensava que era porque ele tinha medo dela se machucar, mas, no entanto, se dilacerava todas as vezes que ela começava a falar sobre os olhos perfeitos do ruivo, que variavam de cinza para azul, ou de azul para verde, dependendo de seu humor. Ela ria e corava nas bochechas quando falava de alguma piada que ela ouvira ele contar para seus amigos. só queria sumir por ter que ouvir aquilo tudo e não poder declarar seu sentimento verdadeiro. Ele se quebrava por dentro ao vê-la chorando por outra pessoa, escrevendo e sonhando acordada por outro cara que não ele.
Era egoísmo, mas queria que fosse ele no lugar de Patrick. Ele com certeza faria diferente.
, apesar de encarar a janela pelo lado de fora, estava distraída demais com a música e não viu quando chegou, às quatro horas em ponto, como combinavam sempre, toda sexta.
Era a noite dos filmes de romance, para agonia de . Era tão difícil não segurar a mão dela e se declarar de uma vez...
Em duas batidas silenciosas, esperou que ela abrisse a porta. Demorou um tempo, mas ela ouviu. Sentiu seu coração bater um pouco mais forte. Apesar de ser seu melhor amigo – e mais velho – ela sentia algo dentro de si quando ele aparecia.
— Oi!
abriu seu melhor sorriso e sentiu ela abraçá-lo com força, chocando seus corpos.
— Isso tudo é saudade?
Ela riu, ainda abraçada nele. Sentia o perfume de entorpecer seus músculos. Estava cada vez mais fácil esquecer Patrick, principalmente com por perto.
Apesar de mais velho, era atrasado na escola. Tinha repetido duas vezes e estava no mesmo ano que , mas, infelizmente, eles não tinham as mesmas aulas juntos. Pelo menos não todas. E ela não podia fugir para o colo dele cada vez que ficasse insuportável aturar a presença de Patrick.
— Você é um bobo! Nos vimos hoje...
Finalmente o soltou, para o desagrado de ambos.
entrou no quarto em dois passos e depois encostou a porta atrás de si.
— Com aquele abraço, parecia que eu tinha ficado fora pelo ano todo!
revirou os olhos.
— As sextas são os melhores dias, só externei minha felicidade!
sorriu largo. Em um instinto, ele pegou a mão da amiga e juntou com as dele.
— São os meus melhores dias também...
corou e desviou um pouco o olhar.
— Errrrrr... Vamos ver o filme?
riu um pouco.
— Claro...
pegou a VHS em cima da TV e colocou no aparelho, esperando começar.
se segurou, respirando fundo quando foi para seu lado. Ele passou o braço pelos ombros dela e ela encostou a cabeça em seu ombro.
sentia um arrepio subir sua espinha. Ela se lembrou do incidente da mesa, meses atrás, onde ela beijou , em um impulso louco.
Ele a beijou de volta naquele dia, mas ela o fez prometer que não passaria disso.
Mas ela sabia que não conseguiria manter sua promessa.
O calor que emanava era diferente, era acolhedor. A menina fechou os olhos, apertando um pouco as pálpebras. Por um instante, achou que ela tinha dormido e se permitiu deixar a mão brincar em sua bochecha, em um carinho silencioso, amoroso.
Ele suspirou, com os olhos sob ela.
Devagar, subiu o olhar até ele. Um pouco séria, um pouco pensativa. Mas muito perto, com a respiração irregular batendo na boca dele.
arregalou os olhos verdes, assustado.
— Achei que tava dormindo...
Ele confessou baixinho.
sorriu.
— Shhhhhhh...
Ela pediu silêncio. Em um ato que surpreendeu , ela deixou tudo o que supostamente sentia pelo garoto da aula e se entregou ao que sentia pelo amigo.
a encarou, sorrindo de leve. Uma mão dela tocou seu rosto, o puxando pra si. Antes de unir seus lábios, ela respirou fundo, juntando coragem.
Por um minuto, ele ficou com medo de ter que esquecer o incidente da mesa novamente. Ele ficou com muito medo de ter que esquecer daquele beijo, mas algo nos olhos dela dizia que ele não iria esquecer daquilo.
— Por favor, ... — ele falou baixinho — Não faça nada se eu tiver que esquecer...
Ela riu, e coisas se remexeram dentro dele.
— Não vou...
sorriu e, quando menos esperava, os suaves lábios dela estavam indo ao encontro dele, novamente. E dessa vez, ela não tinha intenção de fazê-lo esquecer.


Flashback off


já estava no colo de e, por conta das memórias que a invadiram, ela nem sabia como tinha chego ali.
— Vamos pro quarto...
A voz manhosa e arrastada de a despertou. Ela sorriu maliciosa pra ele, que a levantou com facilidade. passou as pernas pela cintura de e ele a guiou pela mansão luxuosa.
A família era dona de uma grande empresa, com filiais em vários estados dos EUA. era o vice-presidente, e praticamente mandava e desmandava em tudo. Existiam várias casas no nome de e aquela, em Santa Bárbara, era uma delas. Era tão luxuosa, que se deslumbrou a primeira vez que entrou.
O piso negro e a decoração em móveis claros fez ela suspirar, ainda vestida em seus trajes de noiva.
Agora, uma semana hospedada em um paraíso, ela já tinha se acostumado com o luxo, que seria presente em sua vida pelo resto dos anos.
a deitou na cama, indo pra cima de seu corpo com vontade, sem ligar por ela estar meio úmida da piscina.
Seus lábios exploravam seu colo, colocando um de seus seios na boca, apertando o outro. Um ronrono saiu da boca de , que sorria de prazer. observava suas reações, sorrindo malicioso. Seu membro já estava duro na sunga preta, em formato de boxer.
Ele desceu os lábios pela barriga dela, provocando arrepios. Ele lambeu toda a extensão do corpo da esposa, mordiscando a pele branca dela devagar, descendo para sua intimidade. Ele logo se livrou da parte de baixo do biquíni dela, enquanto ela tirava com facilidade a parte de cima.
colocou os lábios em sua intimidade e começou a lambe-la com vontade. gemia baixinho, já apertando e puxando o lençol com força, começando a arrancar o tecido pelas beiradas.
Ela arqueou a coluna, gemendo mais, incentivando mais , que mordiscava seu clitóris e a penetrava com um dedo, enquanto intercalava as mordidas com chupadas e lambidas intensas. passou a gemer mais alto, o que antes eram só grunhidos, agora eram gritos. parou de lambe-la, mas ainda a penetrava com o dedo. Subiu os lábios para o rosto dela, beijando-o todo, enquanto ela ofegava, já sentindo seu orgasmo próximo. Ele tirou sua sunga com uma mão, em uma praticidade invejável. Retirou seu dedo dela e esfregou seu clitóris enquanto encaixava seu membro entre suas pernas.
Em um suspiro pesado, ronronou. sorriu e a penetrou devagar.
Ela ronronou de novo, sentindo ele inteiro dentro dela.
Ela arqueou a coluna e rebolou no pau dele, sentindo toda sua intimidade pulsar e ficar mais úmida com isso. aumentou os movimentos, intensificando o vai e vem. Encarou sua esposa de olhos fechados, que ainda segurava o lençol com força descomunal.
Ela gemeu junto dele, um pouco alto demais. Ele sorriu mais largo, segurando as pernas dela, de forma que elas ficassem abertas.
Ele só sabia gemer, e ela o acompanhava, em uma sinfonia que denunciava para os poucos funcionários o que o casal recém-casado estava fazendo ali, no quarto enorme, com uma cama maior que qualquer outra que já tinha dormido na vida.
continuou os movimentos, se esforçando um pouco para dar um prazer ainda melhor para , que agora arranhava as costas de com vontade, deixando vergões que provavelmente iam arder em contato com a água mais tarde.
Não muito tempo depois, sentiu o orgasmo vir, tremendo abaixo dele. gemeu alto, e logo gozou dentro dela, rebolando na intimidade dela, que pulsava e escorria de excitação.
Ele caiu exausto sob o peito de , que, ainda de olhos fechados, gemia baixinho, tremendo de leve.
sorriu, beijando a esposa com paixão e carinho.
Ela sorriu, e suspirou.
Por um instante, deixou novamente a mente vagar, e se perguntou, pela centésima vez naquele curto período de tempo, o que estria fazendo e se estaria pensando nela.


Capítulo 3



Por incrível que pareça, não foi a minha primeira namorada. Apesar do amor incondicional que sentia, e ainda sinto, por ela, que queimava minhas veias por dentro e que me fazia pensar que ia morrer se ela não estivesse ao meu lado, ela não foi a primeira pessoa com quem me relacionei. Talvez por nossa diferença de idade, e por ela ter somente 13 anos quando eu estava entrando na puberdade, ou só por eu precisar de alguém pra me ajudar a superar essa paixão avassaladora que sentia por ela. Na verdade, eu acredito que a última parte me parecia mais real. E, por um momento, quando percebi que tinha a perdido, achei que pudesse fazer isso novamente, mas não seria justo.
Desde o primeiro dia que a vi, preencheu meu coração. Era ela por todas as partes. Era nela em quem eu pensava quando à noite meus pais brigavam e chorava sem parar no meu colo. Era ela quem eu queria ao meu lado, para me ajudar a superar a dor. Era difícil ser forte por . Era difícil demais suportar tudo. Ela fazia as coisas serem mais leves, só de bater à minha porta de tarde, me chamando pra brincar, e me tirar do inferno que eu chamava de quarto.
Era assim desde que nos conhecemos, mas, a cada vez que ela fazia isso, meu amor por ela aumentava. Cada olhar profundo, cada suspiro... Ficava cada vez mais duro não dar um beijo naqueles lábios bem desenhados. Era muito duro segurar suas mãos nas minhas e não a puxar para um beijo caloroso, como eu gostaria de fazer depois que nossa amizade se intensificou.
Por essas e outras coisas, eu achei que fosse mais prudente arrumar uma namorada. E, Deus, como isso foi difícil. E não digo pelas pretendentes, porque quando eu tinha 15 anos, já era um cara legal, mas só Jesus na causa; nenhuma garota chegava aos pés da minha , e isso me deixava muito, mas muito frustrado.
Até que, quando eu estava quase desistindo, uma menina chamada Gabriella entrou na escola. Ela era linda, um pouco mais nova que eu, mas com a diferença mínima de meses. Confesso que ela deve estar ainda mais bonita hoje em dia, mas vou focar em contar a história.
Ela tinha um jeito meigo, o cabelo descolorido em algumas partes, e tinha uma personalidade forte. Claro, nada comparado a , mas… já era alguma coisa que pudesse substituí-la à altura.
Obviamente, eu não deveria ter substituído uma pessoa por outra em meu coração, mas eu já estava entrando em desespero e não podia dizer a tudo aquilo que sentia, porque, por mais que diferença fosse pouca, eu ainda a julgava como a minha criança. Eu tinha conhecido ela com a idade que ela tinha, seria óbvio que eu não ia querer ser chamado de aproveitador ou coisa assim… E ela era minha melhor amiga. Qualquer movimento em falso poderia estragar tudo.
Gabriella começou a se aproximar aos poucos e, conforme ficamos amigos, acabei dando mais atenção a ela do que para e, como eu não esperava, ela agiu da forma que me fez pensar: “que merda eu tô fazendo com outra pessoa?”


Flashback on

Eu andava apressado pelo corredor. tinha me mandado um bilhete, por meio de amigos em comum, dizendo que precisava falar comigo e que o assunto era sério. Meus passos largos quase me fizeram cair no meio do corredor, mas tentei manter a calma.
Gabriella ficou preocupada e me olhou com aqueles olhos claros e cabelos da mesma cor intensa de mel com confusão.
“Você não desgruda dessa menina”.
Era só isso que aquela inútil sabia dizer. Só para me irritar a ponto de brigarmos. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes, no mínimo, nós brigamos por causa de . Mas eu não ligava. vinha primeiro que qualquer coisa e quem quer que fosse se relacionar comigo teria que saber disso!
Cheguei ao ginásio e a vi, sentada na arquibancada, plena e serena, mas com uma cara de quem chorava há dias. Me aproximei dela e sorri.
— Como vai, ?
Deus, como eu conseguia ser um idiota, um bobo da corte, perto dela.
Apesar da minha animação, ela só respondeu com um suspiro, o que me fez sentar rapidamente ao seu lado.
— Precisamos conversar.
Ah, não… Eu odiava quando ela falava isso, e provavelmente seria para me dar um sermão daqueles. às vezes era mais minha mãe que a própria. Mesmo sendo mais nova.
Fiz que sim com a cabeça e cutuquei seu ombro com o meu, de leve. A encorajando um pouco.
Ela sorriu bem de leve, um sorriso mínimo que me quebrou em mil pedaços.
— Por que você está com ela?
Eu odiava como poderia ser tão direta. Merda… ela era direta demais, eu ficava sem fala quando ela fazia isso comigo. Era tão injusto! Eu era tão cheio de palavras com qualquer outra pessoa, até meus pais, mas com ela… ela sugava tudo aquilo que eu sabia e engolia minha língua. Se alguém me perguntasse se um gato a comeu, eu poderia falar que sim, uma gata chamada King!
Fiquei algum tempo em silêncio, tentando pensar na resposta.
“Talvez seja porque eu te amo tanto que chega a doer e você não faz absolutamente nada a respeito porque não sabe, e talvez nunca venha a saber!”
Acho que fiquei tempo demais para responder, porque ela mudou de triste para irritada em um piscar de olhos.
Eu suspirei.
— Porque… ela é legal. E eu tô me sentindo só esses dias…
Eu e Gabriella estávamos juntos há menos de um mês, mas era o suficiente para reclamar de eu aparecer pouco na pracinha, ou até mesmo na casa dela.
só revirou os olhos.
— Isso não é desculpa… Você tem a mim, como pode se sentir só?
Então eu vi, por um instante, a máscara de durona dela cair. Ela não era mais aquela garota corajosa, ela era alguém indefesa. Era alguém que tinha… tinha medo de perder outra pessoa. Era isso que dava pra sentir, tão palpável, na garota parada ao meu lado. Ela encarou o chão e eu vi as lágrimas. Por um instante, meu coração perdeu bem mais que uma batida.
— Eu sei disso… Não me sinto só nesse sentido…
Deus, só ele poderia saber como eu me sentia ao ver ela chorar assim. Peguei suas mãos e juntei com as minhas, me aproximando dela.
— Eu achei que você tinha dito que eu quem completava você… Que você nunca mais precisaria de alguém… quer dizer, de qualquer outra garota ao seu lado…
Ah… então era ciúmes. Era por isso que ela andava tão azeda ultimamente.
— Mas… você é a minha melhor amiga. E namoradas… são diferentes.
Tentei dar uma explicação com cara de triste, mas eu me entreguei. Estava feliz por ela ter ciúmes. não era ingênua. Quer dizer, não muito, e isso significava que ela sentia algo por mim, sim. Ela não falaria algo assim se não sentisse.
Por um momento, eu senti uma pontada de esperança, mas chegou até mesmo a doer.
soltou minha mão da dela, deixando cair em seu colo. Seu olhar vazio se encheu de lágrimas de novo.
— Você vai me trocar por ela…
Suspirei pesadamente e passei a abraçar seus ombros com cuidado.
— Não, eu não vou… — falei perto de seu ouvido, bem sério.
Ela chorou baixinho, escondendo o rosto no meu pescoço. Eu a abracei mais forte e, quando estava prestes a tomar fôlego e dizer o que sentia, ouvi passos apressados entrando no ginásio
— Ahhhh!!!! Aí estão vocês!
A voz de taquara rachada de Gabriella invadiu meus ouvidos antes mesmo que eu pudesse vê-la.
Suspirei profundamente.
se levantou e ficou de pé. Encarou a menina dos pés as cabeça e depois soltou aquele riso que eu conhecia bem...
Era puro deboche.
— Sim, aqui estamos... Melhores amigos conversando no intervalo das aulas. Algum problema?
Na arquibancada, parecia mais alta e imponente, e eu confesso que sorri quando ela enfrentou a Brownt.
— Hahaha! Você sabe qual o problema, ... Meu namorado e você não vão ficar mais juntos do jeito que eram. Não se eu ainda existir como par dele!
olhou pra mim, em ameaça.
— Escolhe.
Ela disse baixo, mas firme. Ainda olhando nos olhos da menina.
Eu suspirei. Gabriella rosnou pra .
— Eu sou a namorada dele, óbvio que vai me escolher.
riu amarga.
... Escolhe.
Eu suspirei de novo.
— Desculpa, mas... — falei olhando pra ainda, que sorria convencida — Eu não consigo escolher, de qualquer forma... Fico com a .
Ela sorriu mais largo, ao que se resultou em uma Gabriella nervosa e irritada.
— O QUÊ?
nada disse e simplesmente saiu do ginásio. Gabriella tentou segui-la, mas eu a impedi.
— QUAL O SEU PROBLEMA, ?
Ela berrava e me batia. Eu não fiz nada, apenas esperei que ela desistisse.
— Eu a amo.
Seu olhar se tornou mais furioso, no entanto, ela entendeu o recado.
— É, eu deveria saber...
Ela foi embora, me deixando sozinho e desolado naquele ginásio. Eu não sei qual era a da com aquilo tudo, talvez só uma birra. Mas eu não compreendia. Se ela não tinha intenções de ficar comigo, por que diabos ela queria que eu ficasse só com ela?
Aquilo mexeu comigo por dias, e acho que aquela semana foi a mais dolorosa, pois me afastei de quase que por completo, o que se deu em muitos protestos da mesma.
Na sexta, como era habitual, fui até a casa dela para ver filmes. Dessa vez, veríamos Star Wars, a franquia favorita dela. Fui mais arrumado que o costume, e sua mãe, Elizabeth, abriu a porta sorridente.
— Entra... Ela tá no quarto!
Subi pro quarto e respirei fundo. Antes que pudesse abrir a porta, ela escancarou a mesma.
— Ah, me ignorou a semana toda, mas pra vir ver o filme você veio?
Ela estava com uma cara péssima.
— Me perdoa — falei sem jeito —, e é sobre isso que queria falar com você.
Ela ficou branca. Me deu finalmente espaço para passar, quando eu entrei, ela me fez sentar na cama.
Eu respirei fundo algumas vezes e finalmente comecei a falar.
— Eu e a Gabriella terminamos, você sabe. Eu queria saber porque você fez aquilo, ....
Ela me olhou com a expressão assustada.
— Aquilo o que?
Acabei rindo baixo.
— Ter me feito escolher.
não respondeu na hora. Mas eu dei seu tempo. O que pareceu uma eternidade, mas aguardei paciente.
— Eu... Eu não queria te ver com outra pessoa... Na verdade, eu não suportei te ver com outra pessoa, e sabia que você me escolheria...
Fiquei incrédulo, mas com um sorriso idiota que não quis sair da minha cara.
— E você fez isso por...?
— Porque eu gosto de você... — ela confessou baixo — Mas, olha... Eu não tenho intenção de te beijar. Seria estranho.
Ri alto daquilo.
, vem cá... — a chamei pro meu lado, sorrindo de lado — Você topa fazer um acordo comigo?
Ela me olhou nos olhos e fez que sim com a cabeça.
— Bom, vamos combinar assim... Só vamos nos casar se for um com o outro. Isso é pelo resto da vida, você não se esqueça disso, por favor! E, se por acaso, mudarmos de ideia, vamos impedir o casamento um do outro. Pode ser?
Ela sorriu largo, e me abraçou.
— Mas isso implica que vamos ser namorados um dia?
Eu ri.
— Se você quiser, mas não agora, ok? Agora somos só bons amigos. E... Eu vou te esperar.
Ela sorriu largo, e eu também. Naquele dia, não assistimos Star Wars, nem nenhum outro filme. Naquele dia, nos preocupamos mais em jogar conversa fora, ouvimos música feito loucos, e o mais importante: deixamos que nosso sentimento saísse do coração, coisa que raramente acontecia.


Flashback off


Eu nunca tinha sido tão feliz. Pena que não durou muito tempo. E, no fim, nenhum de nós dois acabou cumprindo com nossa promessa.


Capítulo 4



Existiam poucas coisas no mundo que faziam feliz, mas se qualquer coisa que ela não gostasse muito viesse acompanhada de , essa coisa se tornava o melhor passatempo de todo o mundo.
Ela odiava praias, mas, se fosse junto na viagem, por que não aproveitar com o melhor amigo o tempo que tinham de sobra juntos?
Odiava dias de chuva, mas, se estivesse brincando lá fora, provavelmente ela iria logo atrás, com galochas maiores que seus pés e uma capa de chuva amarelo canário que ela odiava mais que tudo – mais que chuva –, mas, por ... Por , ela usava.
Existiam coisas que gostava ao dobro por causa de . Andar de metrô era um deleite para a garota, que andava três estações a mais só pra encontrar o garoto no curso de desenho, no centro de NY, aos sábados.
Passear no Central Park e desenhar, era outra coisa que eles amavam fazer juntos.
e eram praticamente uma pessoa só. Onde um estava, o outro ia atrás, inconscientemente.


Flashback on

, vamos logo! — disse pela vez que pensou ser a quinquagésima do dia.
— ‎Eu já vou! — ela respondeu do andar de cima e ele bufou de dentro da picape do pai.
— ‎Meu pai vai desistir de nos emprestar o carro, !!!
Ela gritou que já estava indo, e dessa vez estava mesmo. Desceu as escadas com pressa. A mochila tombada em um ombro só, com remessa de roupas, materiais de artes e a câmera que ela tinha ganho da mãe uns dias antes, em seu aniversário.
a olhou entrando no carro com pressa. Jogou a bolsa pra trás do banco e logo pulou no pescoço dele, tascando-lhe um beijo estalado na bochecha, ao que se deu a enrubrecer a pele branca por baixo dos lábios dela.
— Valeu esperar, bobão?
Ele riu.
— Valeu...
Ela se afastou sorrindo.
— Então vamos, vamos logo! Quero saber que surpresa é essa que você tá aprontando...
Ele riu sem graça.
"Se ela soubesse..."
— Você vai ver só. Não vai se arrepender.
Ela sorriu mais ainda.
— Eu sei. Você nunca decepciona!
Ele sorriu e deu partida, levando-a pra seu destino misterioso.
As horas passaram rápido; logo eles já estavam afastados da cidade grande, perdidos e imersos em suas conversas nostálgicas de quando eram mais novos, com as mãos entrelaçadas em meio às paradas bestas para tirar fotos ou só ver o céu.
Mesmo estando tão próximo de , não conseguia dar o primeiro passo. Já tinham tentado quando mais novinhos, mas era estranho. Eles iam entrar na faculdade logo. Se ela conhecesse alguém mais interessante lá? Se... Ela esquecesse do que sentia por ele? Várias coisas passavam em sua mente, desde os melhores cenários – eles juntos mesmo na faculdade, saindo juntos, namorando e planejando morar juntos –, até cenários onde ela acaba com um cara alto, loiro, musculoso, diferente dele (e até dela), um cenário onde ela não gostava mais dele.
Ele tremia só de pensar.
— Ei, ... Acorda!
Ele respirou fundo.
— Foi mal, ... O que você disse?
Ela suspirou.
— O que você tá pensando...
Ele olhou nos olhos dela e respirou fundo.
— Queria esperar chegar até onde vamos, mas... — ele soltou um pigarro, limpando a garganta, tentando desfazer o nó que se formou. — Eu tenho pensado, ... Pensado em como é ficar sem você, quando você chegar e ir pra faculdade. Você vai se esquecer de mim?
Ela ficou sem jeito pela forma que ele estava olhando pra ela.
, que papo é esse? Lógico que não!
Ele fez ela olhar pra ele, sem desviar.
— Você me entendeu... Não tô falando de amizade, King.
Ela ficou vermelha na hora. Respirou rápido várias vezes.
...
— ‎Responde...
Ela respirou fundo.
— Não. — falou baixinho, totalmente sem jeito.
Ele estava tão nervoso que não conseguiu entender.
, eu não entendi, desculpa.
— ‎Eu falei que não, ! — falou mais alto, até meio irritada — Porra, você sabe que não vou!
Ele ficou ficou sem fala, realmente não esperava por isso.
— Você não...
Ela suspirou e tomou o rosto dele pra si, dando um beijo nos lábios dele, o calando. Depois de se beijarem por muito tempo, o que pareceu muito pouco, ela finalmente falou:
, você acha mesmo que eu ia esquecer você? Esquecer nós dois? , por favor... Você não entende quando eu disse que te amo?
Ele encheu os olhos de lágrimas
— Eu entendo, mas eu não acredito...
Ela riu, enxugando as lágrimas dele.
, você é tão parrudo, tão... Cabeça dura! E consegue mesmo assim ser sensível...
Ele segurou o rosto dela em mãos.
— Você entende quando digo que quero te fazer muito feliz?
sorriu. Lógico que ela entendia.
— Você entende quando eu digo que você me faz feliz?
Não tinha mais o que fazer além de se beijarem e se entregarem um para o outro, como já deveriam ter feito há tempos.
Estavam completos, finalmente.


Flashback off


abriu os olhos e se encontrou em seu escritório. O apartamento que dividia com era enorme, maior que qualquer coisa que ela poderia desejar na vida, mas, mesmo assim, às vezes ela se sentia sozinha no meio de toda aquela fortaleza.
não podia ficar ao lado dela sempre, tinha que fazer reuniões e cuidar do que era de sua família, e responder sempre como vice-presidente da famosa ’s Company, empresa que crescia a cada vez mais, trazendo mais dinheiro para eles.
Ela suspirou, soltando o ar de forma pesada pela boca.
Sentia falta de .
Suas hábeis mãos abriram a gaveta da escrivaninha e de lá ela retirou um caderno. Dentro dele, várias fotos e escritos, com e ela em todas as idades. Ela sorriu boba com aquilo e pensou se ele também guardava o dele, com o mesmo carinho que ela cultivava o livro dela.
Passou os dedos pela camurça velha, lembrando de quando fizeram juntos aquele livro e, tão novinhos, disseram que era para nunca se esquecerem de onde vieram.
segurou as lágrimas ao chegar na última foto. Rasgada, amassada. O sorriso de mais deformado ainda pelos amassados da foto. Foi a última foto que tiraram, e ela arrancou do livro dele, amassando-a por completo. Foi a última coisa que fizeram um para o outro naquele caderno.
Ela o fechou e guardou na gaveta novamente. Sentindo um aperto enorme no peito, saiu do escritório e foi dar uma volta pela cidade, imersa demais em pensamentos, pensando em todos os meses com até agora, se perguntando se valia mesmo a pena ou não.
Los Angeles era o sonho, tanto para ela, quanto para . Ainda se pegava pensando nas vezes em que eles sonhavam com o sol e com roteiros e criações. Fazer artes e mais artes, como as tardes que passavam no Central Park, podendo estar frio ou calor, eles estavam lá. E aquilo era o combustível de . Era inegável.
Ela suspirou pela enésima vez no dia, e se deu por vencida.
Ele estava certo o tempo todo, ela nunca o esqueceria.
Já ele, por sua vez… Bom, ela pensava ao contrário. Mas talvez, só talvez, ela estivesse errada por suas suposições sobre ele.
Ou era isso que ela esperava, no fundo de seu peito.
Talvez algum sinal divino, para que ela largasse tudo e fosse atrás dele. Mas a vida não era tão simples assim, então, ela logo voltou para sua vida corriqueira, deixando no passado, de onde ele não deveria nunca ter saído.


Capítulo 5



Meses já tinham se passado desde que se casou com aquele idiota do . Seis meses, para ser exato, e, mesmo assim, eu continuava com esperanças de que ela se tocasse que, por mais que aquele baixinho tatuado tivesse dinheiro e condições para dar o mundo para ela, de nada valeria se ela não fosse verdadeiramente feliz, e, por mais que ela quisesse acreditar que era, eu sabia que não. também sabia que não era feliz e que nunca seria, mas, por mais que eu colocasse a mão no fogo por isso, eu sei que ela não cederia tão facilmente.
Amassei o que seria a décima tela do dia. Não estava fazendo um bom trabalho, talvez por estar com a cabeça cheia demais, tentando achar um bom plano pra tirar dessa.
Quer dizer, de MAIS essa.
Estava imerso em pensamentos quando apareceu, salvando o dia com um grande café em mãos.
Tenho que lembrar de agradecer esses mimos depois.
— Eu vou ser bem bonzinho com você e te convidar para ir no aniversário da ... Ela vai fazer numa boate, porque parece que o marido mauricinho dela vai estar viajando... É a sua chance de fazer ela perceber que está fazendo a coisa errada. — suspirou — Ou desencanar de vez dessa menina!
Sorri largo com a notícia. Não podia ser verdade!
— Eu gosto mais da primeira visão...
revirou os olhos.
— Você não vai desistir tão cedo, né?
— Claro que não. Você sabe que já faz anos que eu amo essa garota, ...
Meu irmão bufou, meio bravo.
— Eu espero que você tenha algum resultado disso então... — resmungou.
— Onde vai ser a festa?
Tomei mais do café, curioso sobre a informação nova.
— Em uma boate aí. Conhece a , ela não gosta de nada muito chique, mas tem bom gosto... Parece que o nome é Nin9, ou coisa assim.
— Ela não mudou nada... Quando é?
Tomei mais um gole do café, mas me arrependi assim que respondeu minha pergunta.
— ‎Hoje.
— O quê? Por que não me disse isso antes, ?! Onde vou arrumar roupas?
Comecei a entrar em um desespero precoce. Como faz isso comigo? Ele quer me matar, só pode!
— Você tem roupas boas pra ir. É só uma festa, .
Tomei o café todo de uma vez, queimando minha boca toda.
— É a festa da , . Não é qualquer festa! Como pode falar algo assim!
O bastardo riu mais.
, ela nem sabe que você vai... Mas a disse que ela não se importaria se você aparecesse... Acho que é um bom começo, não é?
Sorri largo. Quem precisa de roupas?
— Ah, você tem razão... Acho que tenho algo no guarda roupa... Que horas saímos?
— ‎As 20. vai passar aqui, não se atrase.
— Sim, chefe. — prestei continência e revirou os olhos.
— ‎Pare de ficar tão animadinho... Sabe que não vai ser tão simples...
Bufei. tinha sempre que me puxar para a realidade?
Só balancei a cabeça que sim e ele saiu do quarto, enquanto eu caçava uma boa roupa que pudesse impressionar e ainda por cima me deixasse lindo. O que não era tão difícil, mas esses tempos sem me fizeram cultivar uma barba, que antes nem existia, e deixar os cabelos crescerem pra mais.
Provavelmente, precisaria de um cabeleireiro, mas um banho já melhoraria as coisas.
Fiz minha barba, me arrumei e fui ao salão dar um corte. Acabei pintando o cabelo de preto, deixando curto e com franja, como eu sabia que gostava. Voltei pra casa e tomei um outro banho para me arrumar para a festa.
Às 19:30, eu já estava pronto, esperando na sala, já na porta, ansioso.
Às 20 horas em ponto, a buzina do carro de foi ouvida e eu fui o primeiro a sair, com praguejando em meu encalço.
Entrei no carro, animado, e dei de cara com uma sorridente, mas com um semblante um tanto contido.
, que bom que vai com a gente! Acho que a vai ficar feliz. Em te ver. — ela sorriu, mas logo me encarou, depois de cumprimentar . — Mas quero que se comporte, . Por favor. Quero todos inteiros quando voltarmos... Inclusive eu.
Sorri pra ela e segurei sua mão.
— Eu não vou fazer nada que a não queira...
riu e balançou a cabeça em negativo.
— Você não tem jeito mesmo, hein? Tudo bem, vamos logo antes que comecem sem nós.
deu partida no carro e seguiu para a boate. Fazia um dia quente e eu já imaginei em um daqueles vestidos soltos que ela usava para essas ocasiões e o famoso vans nos pés, para se sentir mais confortável.
Espero que ela não tenha mudado muito.
Entramos na boate rapidamente e eu já dei uma boa olhada para ver se a encontrava. , no entanto, foi mais rápida.
Segui os passos de minha nora e a vi. Encostada no bar, com um semblante meio triste, um copo na mão, sentada em um daqueles bancos altos de madeira.
Dei uma boa olhada nela, quase babando. chegou até ela, que abriu um lindo sorriso. Abraçou a amiga forte e levantou o olhar pra mim. Arregalou os dois olhos castanhos, como se tivesse visto um fantasma, mas algo passou por ali, algo que eu não via há tempos. Era aquele olhar, aquele que ela me dera no carro, na viagem antes da faculdade. Aquele que ela me dera tantas outras vezes durante todos aqueles anos: era um misto de saudade com outros sentimentos juntos, e eu juro que, se continuasse olhando, perderia mais batidas no coração.
soltou a amiga e depois abraçou , dando um tapinha em seu braço, talvez reclamando por ele ter me trazido, mas, no entanto, ela não tinha parado de sorrir.
Me aproximei devagar e pude vê-la melhor. Estava como eu imaginava, em um vestido rodado e preto, com transparência no tule que o cobria. A maquiagem simples, os lábios sempre vermelhos... A única coisa diferente era aquela maldita aliança dourada, enorme, quase sendo a algema que a separava de mim. Literalmente.
levantou o olhar pra mim e sorriu de lado.
— Eu tinha uma leve certeza de que você apareceria, Han...
Sorri bobo quando ela me chamou assim.
— Sabe que não consigo ficar longe muito tempo, Chewie...
Ela riu e desviou o olhar. Aquilo eram lágrimas?
Era difícil dizer, estava muito escuro e, além disso, a música alta também atrapalhava um pouco.
... — ela falou baixinho, e o que veio depois eu nem soube o que dizer.
jogou os braços em meu pescoço e me apertou com força.
Retribui seu abraço, apertando sua cintura com força.
— Senti sua falta...
Sorri com isso, afastando o cabelo dela de seu pescoço
— Eu também senti. — falei em seu ouvido, segurando o bolo em minha garganta, que se formou com a aproximação repentina.
Pude sentir que ela estava levemente alcoolizada, o que pode ter levado a essa reação.
Olhei para , que só deu de ombros e puxou pra longe. Os dois sorriram.
Me afastei de para olhá-la e ela sorriu de lado, ainda mais linda.
— Limpa a baba, ... Tá escorrendo.
Eu ri alto e passei uma mão pelo cabelo.
— Certas coisas não mudam...
Ela deu de ombros.
— Vem, vamos dançar!
Ela me puxou pra pista e começamos a dançar.
Dançamos e bebemos, e eu pensei que estava sonhando a todo o tempo.
Ela sorria o tempo todo e muitas vezes parecia se esquecer da aliança em seu dedo.
Uma música lenta começou a tocar e eu me senti nervoso.
mordeu o lábio e se aproximou.
— Me dá a honra dessa dança, senhor ?
Eu sorri de lado, encantado com ela.
— Sim... — falei baixo, a puxando pela cintura.
Deixei-me levar e me peguei prestando atenção na música.

"Hey, what you doing? Not a lot.
Shaking and moving at my local spot.
Baby, don't ask me why, don't ask me why
Why, why, why, why, why, why".


Olhei pra ela e a vi encostada no meu peito, se movendo pra lá e pra cá. Apertei seu corpo em mim, sentindo seu cheiro.
... — ela falou bem baixinho.
— ‎O quê?
— ‎Estou com uma vontade muito estranha de te beijar
Fiquei sem fala, e não tomei a iniciativa.

"Lay, Lady, lay on that side of a paradise
In the Tropic of Cancer
'Cause if I had my way, you would always stay
And I'd be your tiny dancer, honey".


Ela levantou os olhos pra mim e me encarou. Aquela imensidão de chocolate, brilhando pra mim.
Respirei fundo e não disse nada, só sustentei seu olhar.

"I waited for you
In the spot you said to wait
In the city, on a park bench
In the middle of the pouring rain
'Cause I adored you
I just wanted things to be the same".


Ela se aproximou de mim, o hálito batendo nos meus lábios.
— Não vai fazer nada?
Respirei fundo de novo e fechei os olhos. Me deixei aproximar, mas ainda estava ouvindo a música e só pensava que ela poderia estar pensando no mesmo que eu com relação à melodia.

"You said to meet me up there tomorrow
But tomorrow never came
Tomorrow never came
Hey, what you thinking? Penny for your thoughts
Those lights are blinking on that old jukebox
But don't ask me why, just swallow some wine
Wi-wi-wi-wi-wi-wi-wi-wine"


Os lábios dela tocaram de leve nos meus e eu vi estrelas. Puxei ela pra mim, selando de vez nossos lábios. Senti eles formigarem, implorando por mais.

"Stay, baby, stay on the side of a paradise
In the Tropic of Cancer
'Cause if I had my way, you would always stay
And you'd be my tiny dancer, baby
I waited for you
In the spot you said to wait
In the city, on a park bench
In the middle of the pouring rain
'Cause I adored you
I just wanted things to be the same
You said you'd meet me out there tomorrow
But tomorrow never came
Tomorrow never came".


Ela abriu os lábios devagar e me invadiu com sua doce língua. Estava tão urgente quanto eu. Apertei mais sua cintura, a puxando mais pro meu corpo. Ela colou em mim, enfiando a mão em meu cabelo, fazendo um leve carinho.

"Roses out in your country house
We played guitar in your barn
And everyday felt like Sunday
And I, I wish we had stayed home
And I could put on the radio to our favorite song
Lennon and Yoko, we would play all day long
"Isn't life crazy?", I said now that I'm singing with Sean
Whoa".


A beijei devagar, sentindo sua língua acariciar a minha. Matando as saudades. Depois, senti um molhado preencher nossos rostos. Ela estava chorando. Eu estava chorando.

"I could keep waiting for you
In the spot we always wait
In the city, on the park bench
In the summer, on the pouring rain
Honey, don't ignore me
I just wanted it to be the same
You said you'd love me like no tomorrow
I guess tomorrow never came, no, no, no
Tomorrow never came, no, no
Tomorrow never came, no, no, no
Tomorrow never came".


Quando a música acabou, continuamos nos beijando, ambos com medo de estragar o momento.
Aos poucos, foi quebrando o beijo, encerrando com um breve selinho.
Encostei a testa na dela e fiquei de olhos fechados, ofegando.
Ela me olhou, eu senti seu olhar quente sob o meu.
Mas eu fiquei quieto, com os olhos fechados.
— Por que você fez aquilo, ?
Sua voz estava vacilante. Chorosa. Ela estava quase desmoronando.
— Eu não tive coragem de pedir desculpas.
— ‎E nem de aparecer para colocar um fim! — ela falou mais alto, finalmente chorando.
A encarei, assustado. A abracei com força e ela retribuiu, abalada.
— Me desculpa. — falei baixinho.
Ela negou com a cabeça.
— É tarde demais, Han...
Fiquei sem fala. A encarei e a senti soltar do meu abraço.
, não...
— ‎Isso foi um adeus, .
Seus olhos eram duros, apesar das lágrimas.
— Não... — falei bem baixo.
— Me desculpa… — ela segurou minha mão e depois soltou, sumindo na multidão.
Encarei o vazio.
Aquilo era mesmo um fim?


Capítulo 6



A viagem tinha sido exaustiva. Muitas reuniões com pessoas frescas e cheias de si, que travavam sempre uma luta de ego para saber quem tinha mais zeros em sua conta bancária.
Aquilo o desgastava tanto, ainda mais por saber que era aniversário de e que ele não pode estar com ela. Mesmo mandando mensagens e ligando todos os dias enquanto esteve fora, sabia que ela estava chateada. Mas era óbvio que ela estaria...
passou as mãos no cabelo e olhou para janela do táxi. Estava chegando em casa, finalmente.
Quando o carro parou, ele olhou para a mansão que dividia com sua esposa.
Tudo estava aceso. Ele sorriu, pensando que ela estaria esperando-o com uma taça de vinho, com aquela camisola de seda que ele tanto amava, tocando piano ou violão, pronta para recebê-lo.
No entanto, quando entrou em casa, percebeu que algo estava errado.
? — ele chamou alto o bastante para que ela o ouvisse.
— Estou aqui em cima! — a voz baixa da mulher ecoou e ele subiu correndo, indo ao seu encontro.
estava na cama, com cara de quem tinha chorado por dias, e encarava a TV desligada do quarto quando entrou.
— Meu amor, o que houve? — ele se aproximou dela, sentando-se ao seu lado na enorme cama.
passou a mão por seu rosto e sentiu as pontas dos dedos molharem com as lágrimas dela.
o encarou, sentindo o peso do mundo em suas costas. Tinha um combinado com , e o seguia à risca, pois a base do relacionamento era a confiança.
Ela o encarou e respirou fundo. já sabia. Ele sabia que iria na boate. Ele também sabia que a esposa recairia, e, juntando os pontos, ele já sabia a explicação para o pouco assunto entre os dois nos dias que se sucederam a festa.
permaneceu quieta e apertou suas mãos nas dele.
— Você o beijou, não foi? — ele falou baixinho. Não estava bravo, sabia o quanto a esposa lutava contra o sentimento que nutria pelo ex. Sabia o quanto era difícil, pois ele também era seu melhor amigo, mas mesmo assim, isso o machucava. Muito.
— Eu não queria... Só...
apertou mais a mão dela, fazendo com que ela olhasse pra ele.
— Eu sei... Não tô bravo com você. — ele falou baixinho e manso.
— Deveria...
riu baixinho.
— Você foi pra cama com ele?
Ela franziu a testa.
— Não...
— Então não há motivos para nos preocuparmos... — ele sorriu e levou a mão dela aos seus lábios, dando um beijo carinhoso — Eu sei o quanto isso é difícil pra você, ... Você sabia que o melhor era não ver mais ele, mas sei que também é mais forte que você...
suspirou.
— Você não existe mesmo, ...
Ele deu de ombros.
— Eu não vou te deixar só porque você teve uma recaída. Você teve outras antes, e eu também não te deixei. Não lembra?
riu baixinho.
— Você tem razão... — falou em um murmúrio, brincando com os dedos do marido.
— Viu? — ele se soltou dela e deu um beijo em sua testa.
tirou o paletó e afrouxou a gravata.
— Você quer um vinho? — perguntou sorridente, apesar do semblante cansado.
— Ah, podemos... Tomar aqui? — ela mordeu o lábio, causando sensações em , que a achava sexy mesmo com uma roupa velha dele e de olhos inchados.
— Claro, eu vou pegar! — ele foi até a adega e pegou um vinho chileno, o favorito de . Depois, retornou ao quarto com duas taças em mãos.
Ele se sentou na cama e os serviu, sem tirar os olhos dela um instante sequer.
, por sua vez, evitava olhar diretamente para ele, pois seus pensamentos sempre voltavam até aquela noite. Seria difícil esquecer aquilo...
Ele estendeu a taça a ela, e depois abriu a outra mão. Em sua palma repousava uma caixinha azul de veludo, que pensou ser da Tiffany's.
Ela pegou a taça e a caixinha, abrindo a segunda antes de tomar o vinho.
— O que é isso? — ela sorriu pra o marido, ainda segurando a taça com delicadeza.
— Presente de aniversário. Com alguns dias de atraso...
riu, fazendo sorrir junto.
Dentro da delicada e pequena caixa, estava um lindo pingente, que deveria custar mais do que todo o guarda roupa de . Era em formato de clave de fá, uma das notas favoritas da garota.
— É lindo, ! — ela disse, admirada. O rapaz sorriu abertamente e foi recebido por beijos pelo rosto todo. — Eu não mereço, mas muito obrigada.
revirou os olhos.
— Merece, sim! Claro que merece! Para de bobagem! — ele segurou o rosto de perto do dele — Eu te amo... Muito. E isso não me faz te amar menos, entenda isso, tá bem? — ele falou baixinho, fazendo carinho na bochecha dela.
assentiu com a cabeça, perdida nos olhos de , e, por um instante, a espinha de gelou ao perceber que aquele olhar, aquele brilho neles... Não eram mais dele, e de novo e seu sentimento arrebatador por fizeram ela voltar atrás em tudo o que sentia.
pensou em mil coisas olhando para aqueles olhos enormes e castanhos, e a última coisa que ele pensou — até pode se dizer que sentiu — foi que ela o deixaria.
E aquilo o assustava mais que qualquer coisa no mundo.
No entanto, os lábios dela roçaram nos dele, bem de leve, e o gosto de vinho recém tomado preencheu sua língua. Em poucos minutos, já estava sobre ela, a beijando com vontade, acariciando sua língua com todo cuidado, passando a mão em cada curva, como que para memorizar e eternizar aquele momento em sua mente.
abriu as pernas e se encaixou entre elas, roçando as intimidades de ambos. já tinha se livrado da blusa, e estava só com uma boxer velha de , totalmente excitada.
a segurou pelo pescoço, sem apertar muito, e a ergueu até seu rosto, beijando sua boca com urgência.
por sua vez já tinha arrancado a camisa de , que estava só de cuecas, de joelhos, na cama.
— De quatro... — ele falou baixo, apertando um pouco o pescoço da esposa. sorriu maliciosa, ficando como ele havia pedido. arrancou a última peça que a cobria, deixando-a inteiramente nua. Passou a mão por suas costas devagar, provocando arrepios. Depois, sem que ela esperasse, ele proferiu um tapa em sua bunda, que ficou vermelha ao toque.
Ela gemeu um pouco mais alto, arrancando um sorriso de
, que por sua vez se livrou das boxers com facilidade, já se colocando na entrada de , que se arrebitava ainda mais na cama. enrolou o cabelo dela em uma mão, puxando um pouco. Na última puxada, o corpo dela foi pra trás, em encontro com o membro dele, que entrou com tudo, fazendo
gritar e depois gemer, mais excitada ainda.
— Eu sei como você gosta... — ele falou no ouvido dela, se inclinando todo enquanto se movia dentro dela, ainda devagar, mas sem deixar de ser intenso.
Um gemido escapou dos lábios dela, provocando reações no corpo de , que pulsou forte nela.
Ele apertava seus seios e lambia seu lóbulo, mordendo vez ou outra.
Ela se arrebitou mais ainda na cama, fazendo com que ele fosse mais fundo. sorriu disso, e continuou os movimentos, descendo uma mão até o clitóris de , dando pequenos toques, ato que só fazia a garota gemer mais alto.
Aqueles sons eram como música para , que sentia próximo de seu ápice a cada vez que apertava sua intimidade extremamente úmida.
Quando ela começou a dar sinais, ele diminuiu as estocadas e esperou até que ela tivesse seu orgasmo. Logo em seguida, ele gozou dentro dela, caindo exausto ao seu lado.
Ela o olhou, ofegante e com as bochechas coradas, e ele suspirou aliviado — mesmo que em segredo — pelo brilho que ele tanto amava estar refletido nos olhos dela.
, no entanto, sentiu um buraco enorme no peito. Ela tinha se decidido, ficaria com , pelo bem de sua sanidade mental. Mas o coração dela gritava por outra pessoa, e ela, sangrando e se doendo por dentro, ignorou o nome que seu peito chamava, mesmo sabendo que continuaria tendo carta branca em seu peito, pra ir e voltar e fazer a bagunça que quisesse, porque por mais que ela negasse, ou se queixasse, sempre arrumaria tudo de novo, só pra ter o prazer de bagunçar.
Era um beco sem saída, sem muitas chances de melhora ou mudança em seus sentimentos.
aceitou seu destino, e torceu para que se alguém se saísse machucado, que esse alguém fosse ela.

"The weight of lies will bring you down
And follow you to every town 'cause
Nothing happens here that doesn't happen there
When you run make sure you run
To something and not away from 'cause
Lies don't need an aeroplane to chase you anywhere"

The Weight of Lies — The Avett Brothers


Capítulo 7

Aquela noite foi a mais estranha da minha vida. Depois que saiu correndo no meio de todo mundo e sem se despedir, meu irmão e minha cunhada me olharam feio quando eu voltei para perto deles.
- Cadê a ? - perguntou, percebendo minha cara de bosta de pronto. - Foi embora - respondi de forma nasalada, meio chateado.
- Como? Sem se despedir? Você deixou ela ir embora sozinha, ?! - estava irritada - Como você consegue, ?!
Só respirei fundo, e permaneci do mesmo jeito, chateado, amuado e ainda por cima lembrando e sentindo os lábios dela nos meus.
- , eu tô falando com você! - ela aumentou a voz não somente pela música alta, mas também por estar nervosa, então tentou acalmá-la, mas sem sucesso.
- , conta o que houve... E , menos. - falou baixo, repreendendo a noiva.
- A gente se beijou e ela simplesmente foi embora. Disse que era um adeus e que não podia mais. Foi isso. - respondi sem emoção.
Me virei pro bar e pedi um drink. Se não teria a garota da minha vida pra mim, seria melhor encher a cara... Bebida nunca pode te desapontar, o máximo que ela consegue, é te deixar de ressaca. Mas a ressaca passa rápido. Um coração ferido, não.
- Calma... Ela te beijou? - falou, embasbacada, e eu só assenti.
- Ela não quer mais nada comigo, . Ela só fez isso pra se despedir de mim, de nós, e eu só posso fazer a mesma coisa que ela, : seguir em frente.
franziu as sobrancelhas, deixando-as unidas. Ela estava brava, e eu sei que não era comigo.
- Ela não tinha esse direito. Você sabe.
revirou os olhos.
- Você sabe que sempre foi assim, . Ela é sua amiga, você a conhece, mas não sabe da história toda, eu tenho certeza - falou, sério. E depois continuou:
- Meu irmão realmente teve erros nesse relacionamento, mas esse jogo... Essa coisa de se despedir... Sempre foi assim. Eles são incomuns, . Não são um casal normal. E nunca foram. Tanto quanto ... Ambos possuem a maldita carta branca para o coração um do outro…
se interrompeu com um suspiro, continuando depois:
- Talvez, encontre alguém que faça ele se sentir como faz. Mas acho difícil... Assim como ela não vai achar alguém que a faça sentir assim, por mais que procurem. Eles são realmente feitos um pro outro. Eu nunca vi casal tão perfeito junto. Nem mesmo a gente, e como eu os invejava...
olhou pra mim, com aquele olhar de pesar, e eu só consegui ouvir baixinho, a última frase que ele falou, carregado de emoção:
- Mas simplesmente, não foi pra ser... Pelo menos não agora...
Olhei para meu irmão e minha cunhada e logo senti que já estava chorando de novo.
- Entende quando eles dizem que é complicado? - perguntou, acariciando o rosto da noiva.
só assentiu e depois se retirou, indo ligar para a amiga, que obviamente não atendeu nenhuma de suas ligações.
foi pro meu lado e me abraçou pelos ombros.
- Eu sei que é difícil, bro... Mas eu prometo que uma hora vai passar - ele falou contigo, visivelmente preocupado.
- Eu não quero que passe. Eu não me imagino casando e tendo filhos com outra pessoa, . Ela é minha kriptonita. Ela é... - suspirei cansado - Ela é tudo pra mim, você sabe... Eu não quero deixá-la ir assim! Já foi um sacrifício enorme... Não impedir aquele casamento…
me abraçou propriamente, e eu finalmente desabei em seu ombro, chorando horrores.
- Se você a ama, ... A deixe ir…
E bem nessa hora, mais uma música lenta invadiu meus ouvidos, despertando memórias antigas...

Flashback on
[Let Her Go, Passenger]
Tinha sido uma briga feia e daquelas, tanto que me deu uma tremenda dor de cabeça durante horas.
Era sempre um saco brigar com , primeiro porque ela sempre te fazia sentir errado, segundo... A gente pegava pesado demais, justamente por sermos amigos e nunca ter problema em falar coisas ruins um pro outro.
Geralmente, quando estávamos com o modo "amigos" ativado, isso vinha depois de uma sessão com uma erva boa, ou então depois de muitas cervejas e quase sempre, em ambos casos, acabava em sexo.
Quando isso acontecia em momentos de sobriedade, as faculdades mentais ativadas pela maconha ou pelo álcool não faziam mais efeito, e quase sempre alguém chorava.
Esse alguém sempre era a . Só que ela deixava a tristeza sair e dar lugar a raiva. Ela deixava a raiva entrar e não tinha Cristo no mundo que a fizesse ficar mais maleável sem muito esforço.
Respirei fundo. Umas 30 vezes no mínimo. Sei que ela faria uma cena na frente das pessoas, porque ela era assim, mas não era por mal, ela era assim até mesmo em quatro paredes... Mas isso era ruim, ela ficava com fama de louca, e eu com fama de filho da puta. Simples assim.
Terminei de me arrumar e fui pro bar. ia se apresentar sozinha, em um setlist de covers previamente ensaiados - que foram, inclusive, o estopim de nossa briga, sabe-se lá porque explodimos, talvez por estarmos cansados, e por sempre saber que era ok descontar um no outro, mas com conversa, com risadas... Não aos berros e prantos.
Me ajeitei, peguei as chaves do carro e saí. Estava um pouco frio, principalmente para Los Angeles, então me abracei até chegar na minha confortável picape velha. Dirigi até o bar em silêncio, sem querer ouvir nenhuma música, esquecendo completamente que algum dia as ouvi na rádio.
Queria me lembrar somente dela cantando e tocando, daquele jeito meigo e simpático, mas ao mesmo tempo intenso, voraz... Ela era uma caixinha de surpresas tão deliciosa de se apreciar... Eu não cansava nunca, porque ela sempre tinha algo novo para descobrir, pra experimentar... Ela era tão, mas tão imprevisível, que era muito difícil prever qualquer coisa que ela faria. Tanto que eu chegava a pensar mil coisas quando brigávamos, e pensava, principalmente, que um dia, irremediavelmente, ela me deixaria.
Era algo que eu pensava de forma tão corriqueira, que cheguei a ficar muito inseguro, ciumento e até mesmo chato, por conta de problemas que eu só inventava na minha cabeça, como ela demorar demais pra atender o telefone porque estava usando o banheiro, ou então porque ela se atrasou meia hora para me encontrar porque tinha trabalho inacabado no estágio, e muitas outras coisas que eu sabia que estavam erradas, só não conseguia parar de fazer.
Eu sabia que aquilo desgastava tanto a mim quanto a ela, mas eu não queria enfrentar, então fugia e deixava de falar sobre as coisas que eram importantes.
Respirei fundo antes de entrar no bar, me preparando para ver qualquer tipo de cena, mas eu sabia que não era assim. Eu sabia que ela me amava acima de qualquer coisa, mas aquilo me matava tanto, a cada momento…
Finalmente sai do carro e entrei no bar. Estava movimentado, várias pessoas da faculdade, muitas pessoas conhecidas... Mas o rosto que eu queria ver, não estava por ali. Pude vê-la entrar no palco, e logo já me aproximei um pouco mais, para ter certeza que ela me veria. Eu a vi sorrir de lado minimamente antes de voltar sua carranca habitual pós-briga. Aquele sorriso... Eu estava semi-perdoado.
Então todos fizeram silêncio ao ouvir a leve microfonia que se deu quando ela ligou o aparelho. Logo, sua voz se fez ouvir.
- Olá Los Angeles, como estão hoje? - disse sorrindo pra todos. - Imagino que estejam animados, eu espero! - alguns deram gritinhos, e ela sorriu contente.
- Agora sim! Espero que gostem do show... A propósito, meu nome é King, e eu sou de New Jersey!
Todos aplaudiram e ela logo começou a tocar. Foram várias bandas, desde Paramore até Audioslave, quando estava chegando na última música, do lineup que eu ajudei a montar ela parou de tocar e falou algumas palavras:
- Bom, eu mudei o setlist porque tem uma pessoa aqui que merecia ouvir umas coisas malcriadas, mas eu preferi cantar, e eu sei que ele vai entender o recado. Não tô falando como namorada, ok?
Ela olhava diretamente pra mim, e eu só sorri e senti as bochechas corando.
Todos me olharam e eu só quis sumir. Quando os primeiros acordes começaram, eu senti meus olhos marejarem e foi difícil não chorar antes mesmo do primeiro verso.

"Well you only need the light when it's burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go
Only know you've been high when you're feeling low
Only hate the road when you're missing home
Only know you love her when you let her go
And you let her go"


Seus olhos fechados, sua boca se movendo com delicadeza entre as palavras. Ela tinha escolhido a música certa. Era a medida exata para me lembrar com quem estava lidando... Era minha , minha namorada. Minha melhor amiga.

"Staring at the bottom of your glass
Hoping one day you'll make a dream last
But dreams come slow and they go so fast
You see her when you close your eyes
Maybe one day you'll understand why
Everything you touch surely dies".


Lágrimas já lavavam meu rosto todo, e eu não conseguia desgrudar os olhos dela, que também pude ver, quando a luz pousou em suas bochechas, pequenas lágrimas escorrendo por seu rosto. Ela estava tão concentrada, que nem deve ter percebido as lágrimas encharcarem seus olhos.

"'Cause you only need the light when it's burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go
Only know you've been high when you're feeling low
Only hate the road when you're missing home
Only know you love her when you let her go".


Para mim, naquele momento em específico, eu só enxergava ela ali, e aquela música que foi escolhida a dedo para me afetar, e muito provavelmente por ela achar que eu não apareceria. Ledo engano, King...

"Staring at the ceiling in the dark
Same old empty feeling in your heart
Love comes slow and it goes so fast
Well you see her when you fall asleep
But never to touch and never to keep
'Cause you loved her too much and you dive too deep".


Seus olhos agora tinham foco total em mim, e mesmo sem olhar para o violão, nenhuma nota saía errada com ruídos. Ela era perfeita em tudo, realmente, tanto que provocava raiva em muitas.

"Well, you only need the light when it's burning low
Only miss the sun when it starts to snow
Only know you love her when you let her go
Only know you've been high when you're feeling low
Only hate the road when you're missing home
Only know you love her when you let her go".


Ela encerrou a música olhando nos meus olhos, e eu só pude sorrir pra ela, com a cara inchada de choro, e os olhos brilhando em lágrimas e orgulho, orgulho por ter uma pessoa como ela ao meu lado. Orgulho por ela saber me afetar tão bem. Orgulho por ela não desistir de mim. E certeza, uma única certeza na vida: eu nunca a deixaria ir.


Flashback off
E no fim... Eu a deixei ir.





Continua...



Nota da autora: ALÔ ALÔ, GRAÇAS A DEUS! TÔ DE VOLTA!
Falei que logo dava as caras, não falei? E já temos bomba! Dona King saiu correndo do nosso boy magia. Será que ele vai deixar a ex/melhor amiga no passado e finalmente seguir em frente? Vamos acompanhar os próximos acontecimentos para ver! Me contem o que acham que vai acontecer, façam suas apostas! Estamos chegando bem perto do ponto de virada da fic, então aconselho estocar lencinhos de papel e preparar BEM o coraçãozinho pro que vem por aí *insira uma risada maléfica aqui*
Bom, eu sei que nem preciso dizer, mas se você está lendo até aqui, por favor, faça uma leitora feliz e deixa um comentáriozinho? ): um emoji, um alô, qualquer coisinha já alegra meu dia e ainda apoia minha estória, que faço com tanto carinho e amor para vocês. É rápido, fácil, e eu juro que vou ficar feliz com qualquer coisinha! Espero vocês lá embaixo, hein?
Ah! Não se esqueçam que a fic já tem playlist no Spotify e grupo no Facebook! Não deixe de participar e fique de olho nas novidades =)
Beijos da G. e até breve!





Nota da beta: Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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