I Know Places

Última atualização em: 28/08/2020

Prologue

Era glamuroso viajar ao redor do mundo apesar de se enxergar solitária através das fotos no Instagram. No começo, visitar lugares lindos sozinha foi o maior ato de independência e bravura que a garota já havia executado, mas após seu aniversário de 25 anos, achou que precisava refazer sua vida em um lugar sólido. Estava cansada do passageiro, das relações rasas e dos poucos laços emocionais que ainda restavam. Era doloroso se apresentar sabendo que a despedida chegaria em breve, sem permitir ser importante na vida de alguém. Queria criar vínculos e relações sólidas. Precisava de alguém que se importasse e a amasse do jeito que realmente Era, sem as maquiagens, sem os saltos, sem o uniforme, sem os corredores de hotéis luxuosos e sem o glamour. Deitada no chão do banheiro aos prantos, percebeu que aquele era o fim da sua carreira.

Já estava na hora de dizer adeus à aviação.


Capítulo 1

I used to be good at goodbyes
- Um ano depois –

A brisa fresca de New York era tudo o que precisava naquele momento. Céus! Havia esquecido o quanto era terapêutico andar de bicicleta pelo Central Park apesar de só ter experimentado a sensação por pouquíssimas vezes, era inexplicável sua conexão com a natureza.

Seus planos atuais pareciam irreais caso fossem analisados pelo seu Eu de anos atrás, que ainda estava apaixonada pela aviação, jamais passaria por sua cabeça se mudar para New York, adotar um cachorro e passar um ano inteiro sem trabalhar. Mas para a do presente, essas eram as decisões mais sóbrias que já fizera. Queria se estabelecer em um lugar pela primeira vez.

3 dias após sua ida ao parque, decidiu que precisava pedir ajuda a sua amiga californiana que havia fixado residência em New York desde o início de sua juventude. Liv Lancaster, era sem dúvidas a pessoa mais nova-iorquina que conhecera em toda sua vida. Já haviam se encontrado pelo menos 5 vezes desde que a mulher chegara a cidade há pouco mais que 2 semanas, não sabia que seria tão complicado se virar numa cidade tão moderna, afinal já havia dado a volta ao mundo no mínimo 4 vezes. Ela precisava se adaptar à uma nova rotina, achar uma boa padaria para tomar café da manhã já que não achava convidativo cozinhar logo no início do dia, precisava achar uma livraria onde iria comprar livros semanalmente para que pudesse retomar seu hábito da adolescência, uma academia e etc.
Mandou um torpedo pedindo que Liv a encontrasse quando estivesse disponível, ela não se sentia confortável em pedir favores a amiga já que a mesma era uma mulher de negócios e que não teria tempo sobrando só para ajudá-la a decidir se era realmente necessário comprar um carro numa cidade que o engarrafamento era permanente no dia-a-dia.
Liv logo respondeu dizendo que adoraria tomar um café com sua amiga e que seu timing fora perfeito já que uma de suas reuniões havia sido cancelada. As duas se encontraram pouco tempo depois num Café perto do trabalho de Liv. , que não gostava da iguaria preferiu ficar apenas na água enquanto a amiga se deliciava com um café forte.
As duas passaram pouco mais de 30 minutos juntas mas puderam chegar a conclusão de que não seria necessária a compra de um carro, não suportaria o caos e a pressão do trânsito nova-iorquino pois seu temperamento não a permitira manter a calma por muito tempo, segundo as palavras de Liv.
Sempre fora impaciente e marrenta mas precisou aprender a lidar com seu temperamento após decidir ser comissária, Liv sabia que aquele pequeno monstro ainda estava adormecido dentro da amiga que soltava palavrões e murmúrios em cada pequena irritabilidade diária. , com seu mau humor não demoraria muito tempo até se meter em uma briga de trânsito e ser presa por agressão.

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— Obrigada por me ajudar nessa nova fase, Liv. A mudança tem sido complicada mas com você me ajudando sinto que não vou foder com tudo. - Sorri para a morena que segurava minha mão direita, eu não conseguia ser muito afetiva regularmente com as pessoas que não eram meus passageiros, simpatia havia se tornado meu trabalho e mau humor nunca fora bem-vindo mas com Liv era diferente. Ela era o mais próximo de família que eu tinha fora de Los Angeles.
— Você está cansada de saber que eu faria tudo por você, a melhor coisa que me aconteceu foi sua vinda para cá, . Precisava de alguém para contar minhas aventuras com Ewan. – Liv falava seriamente mas foi só tocar no nome de Ewan que seu rosto se iluminou e um sorriso apareceu em seus lábios rosados. O casamento da ruiva com o marido, Ben, já não era o mesmo há muito tempo, os dois já estavam cientes de que precisavam da separação mas tinham medo da solidão, afinal já estavam vivendo juntos à tanto tempo que a ideia de morar sozinha causava calafrios em Liv.

***

Naquela mesma tarde que saí com Liv, recebi uma ligação da corretora de imóveis que dizia ter finalmente encontrado o lugar perfeito. A notícia fez com que eu sentisse o frio na barriga que havia se tornado recorrente à cada visita, queria poder começar minha vida nova o mais rápido possível pois viver em quartos de hotel por tanto tempo não estava em meus planos iniciais.
Suzy, a arquiteta, havia agendado a visita para aquele mesmo dia após eu soltar que estava ansiosa para conhecer o apartamento por não aguentava mais o quarto de hotel. Combinamos de nos encontrarmos em meia hora num bairro que até então nunca havia ouvido falar e lutei contra meu instinto curioso para procurar no Google sobre o lugar. Queria que fosse surpresa para que vivesse a experiência completa, sem pré julgamentos.
***

O prédio estava localizado em uma avenida não tão movimentada de New York mas pelo pouco que vira era frequentado pela alta sociedade, imaginou uma das reuniões das socialites do Real Housewives of New York em um dos restaurantes que passara e riu da ideia de um dia cruzar com algumas das mulheres por ali. Assim que virou a esquina viu Suzy a esperando enquanto mexia em seu celular, caminhou observando a rua que até então havia a agradado. Era formada por uma linha reta e larga com o chão acinzentado, ao lado esquerdo logo visualizou a entrada de um parque que não era tão grande, pelo pouco que podia ver haviam inúmeras árvores espalhada, já que estava cercado por um muro branco, bem ao lado havia uma cafeteria e um pequeno restaurante de comida Italiana, suspirou aliviada por pensar que seu café da manhã e almoço já estavam garantidos, até então era tudo do jeito que ela queria.
Tentou manter sua consciência e sobriedade pensando no preço absurdo que seria o aluguel daquele lugar, não que dinheiro fosse um problema para a mulher já que ela vinha de uma linhagem de pessoas poderosas mas diferente de seus irmãos havia escolhido uma profissão popular e que não a deixaria rica, diferente de seus familiares que adoravam esbanjar seus privilégios e status. Escolheu aviação por amor.

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Parei ao lado de Suzy e toquei seu ombro estourando a bolha que a isolava do resto do mundo, onde só ela e o celular existiam. Um sorriso doce surgiu em meus lábios ao perceber o susto que eu havia causado, que logo foi retribuído pela loira.
! Quase me matou de susto. Não sou tão nova quanto você! – Riu enquanto me abraçava.
Caminhamos lado a lado em direção ao prédio alto que estava localizado logo atrás de nós duas.

"Não aceitamos cachorros" estampava um dos primeiros cartazes na portaria. Não era perfeito. Já sentia vontade de girar meus calcanhares em direção a saída, lá se foi meu sonho de infância de ter um cachorrinho. Engolido por corretores ambiciosos que não queriam a felicidade alheia. Havia lutado contra minha criança interna que gritava misericórdia pelo meu futuro animal de estimação mas mesmo com aquela voz incessante na cabeça, concordei em seguir em frente e olhar o apartamento. Sabia que era necessário passar por cima de alguns requisitos ou então acamparia na rua pois não conseguiria me manter por tanto tempo em quartos de hotéis.

Com a paciência e ânimo se esgotando, já não havia mais tempo para tentar achar o lugar perfeito, estava decidia a torná-lo perfeito do meu próprio jeito. Não era enorme mas também não era pequeno, era agradável, gostava da luz natural e nada melhor que um apartamento com a vista para o por do sol. Dane-se o cachorrinho, viraria voluntária em um centro de adoção para preencher o vazio mas já estava cansada de andar em círculos tentando achar algo que agradasse meu gosto exigente.

Pedi que Suzy providenciasse um contrato para que eu pudesse ler as regras e saber se realmente valeria a pena pagar um preço tão alto pelo aluguel mesmo sabendo que aquele apartamento era o certo, a verdade era que eu precisava de um tempo sozinha pois só de olhar os raios de sol que invadiam a sala pelas portas de vidro da sacada, eu já sabia que aquele ali era meu lugar.
Sentei-me no chão observando o sol sumir entre as árvores do parque deixando seus pequenos raios entrarem em contato com minha pele. Aquela era a sensação que eu queria sentir todas as manhãs, queria sentir seu toque quente e suave, queria observar a vista e queria andar pelo parque no final da tarde. Precisava da tranquilidade de uma rotina.

Algum tempo depois, Suzy voltou com o contrato me flagrado sentada no chão de olhos fechados apenas curtindo o momento, pigarreou para que sua presença fosse anunciada e eu levantei um pouco apressada e envergonhada.
— Você pode ler com calma, sei como é difícil tomar essas decisões. Você já está cheia com toda essa mudança. Vá para seu hotel, descanse e então leia com atenção. Meu telefone está sempre ligado, pode tirar qualquer dúvida. – Suzy falou docemente enquanto me entregava uma pasta amarela contendo alguns papéis.
Mas já havia feito minha decisão.
Aquele era o mais perto da perfeição, e seria meu.

* * *


Quando disse que faria de tudo para fazer o apartamento se tornar perfeito, não brincou. Decidiu que iniciaria uma pequena reforma para deixar do jeitinho que sempre sonhou. Dessa vez criara metas e pretendia segui-las, no máximo duas semanas para que as paredes estivessem pintadas, móveis instalados, uma rede de Wi-Fi descente funcionando e alguns caprichos desnecessários como a instalação de um espelho maior em sua suíte. A mulher era vaidosa e não havia como negar, estava sempre bem vestida e perfumada, era uma exigência do seu trabalho anterior mas pretendia substituir as saias lápis e salto alto pelo uso de short jeans e tênis, merecia o conforto que fora privado por tanto tempo.
Visitava diariamente o apartamento que já estava na reta final de sua pequena reforma e até então não havia se esforçado para conhecer nenhum dos seus vizinhos, pretendia oferecer um jantar quando se mudasse. Era fã de confraternizações e sabia que aquilo fora herdado de sua mãe que não abria não de uma boa festa.
As paredes já se encontravam pintadas e a cozinha completamente pronta, havia torcido o nariz pro lustre e para o tom escuro do cômodo, diferente do ambiente claro e clássico que agora encarava maravilhada. A bancada branca de mármore esfumaçado e as cadeiras acolchoadas cinza era sem dúvidas a coisa mais linda que já havia visto e surpreendentemente foi ideia de seu irmão mais velho que desenvolveu o projeto apenas por vídeo-chamadas e fotos. A mistura do branco com cinza realmente a agradava, os raios de sol refletiam na janela e já pode se imaginar sentando na mesa para tomar seu suco da manhã, já que odiava beber café.
Seu quarto já caminhava pra finalização, a cama grande, mas não-king, já estava posicionada no meio do quarto, não gostou da ideia deitar em algo 4 vezes maior que seu tamanho pois sabia que logo sentiria vontade de preencher o espaço que sobrara com outro alguém e que ainda não se sentia preparada para um relacionamento. Nunca conseguiu se manter em um relacionamento pois sempre precisava partir na manhã seguinte e voltar para o outro lado do mundo, tinha medo de se apegar e não poder preencher as altas expectativas de um compromisso. Mal tinha tempo para si mesma, imagina para outro indivíduo que se tornaria dependente de seu afeto.
Na parede um enorme um quadro fora pendurado no centro, estampado com alguma frase aleatória em Alemão que a agradara quando havia o comprado mas agora não se passava de palavras irrelevantes já que não falava o idioma. À frente da cama um pequeno móvel preso a parede apoiava algumas de suas fotos favoritas em porta retratos pretos e prateados, uma pequena televisão também havia sido instalada mas sabia que não a usaria para nada além de ouvir música na hora de dormir, planejou a sala com um enorme televisor justamente para que não ficasse presa em seu quarto, não gostava da ideia de ficar deitada em sua cama o tempo inteiro, mesmo em seus piores dias.

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Decidi que já era hora de comer pois a última vez que pus algo na boca não era nem metade da manhã e agora já se passavam das 16:00 da tarde. Me despedi rapidamente das pessoas que trabalhavam nas melhorias do apartamento e fui em direção ao elevador, o corredor era longo mas haviam apenas dois apartamentos. Quando perguntei ao porteiro, ele me disse que este andar possuía os dois maiores apartamentos e por isso se diferia dos outros que abrigavam três ou mais imóveis, logo após deixou escapar que meu vizinho era alguém importante, que precisava de privacidade e por isso escolheu aquele prédio em específico. Até me senti um pouco curiosa para saber quem era o tal homem poderoso mas no momento aquilo era a última coisa que ocuparia inteiramente minha cabeça, meu corpo e mente funcionavam totalmente para a finalização do apartamento pois eu sabia que havia passado tempo demais em hotéis.

Comi sozinha no Mcdonald's que ficava alguns quarteirões do meu prédio enquanto deslizava pela timeline do Instagram, eu era uma grande viciada em redes sociais pois era o único meio de comunicação com meus amigos e família mas pretendia me desapegar um pouco do eletrônico. Reparei na foto que meu irmão havia postado do teste de gravidez de sua namorada de longa data, não foi surpresa já que fui uma das primeiras a saber da novidade, deixei um comentário curto expressando o quanto estava grata pela adição de um bebê em nossa família, sem dúvidas seria um pretexto para que eu pudesse me reaproximar dele e do meu irmão caçula, que eram a parte agradável da família.
Viver em outro país e em sua maioria enfiada em aviões me afastou da minha família já que minha decisão de viajar o mundo foi reprovada por todas as pessoas que me rodeavam. Decidi que voltar para a américa em segredo seria a melhor decisão já que caso minha mãe descobrisse sobre minha hesitação em ficar na profissão, ela com certeza me arrastaria pelos cabelos até Los Angeles e me obrigaria à tomar posse de um cargo em sua empresa de casamentos. Não me via organizando cerimônias para terceiros já que eu mesma não tinha paciência para organizar festanças próprias. Casamento estava fora dos meus planos, não acredito que alguém me amaria o suficiente para querer passar toda sua vida ao meu lado. Tenho defeitos que conseguem invalidar minhas qualidades.
Após terminar meu lanche decidi voltar ao hotel, minha cabeça doía e meus sapatos estavam esmagando meus dedos, preciso me acostumar com o fato de que não preciso estar sempre arrumada usando salto alto. A liberdade ainda parece irreal.

***


Finalmente a reforma do apartamento havia sido concluída alguns dias após sua última visita e já sentia os fogos de artifício explodindo dentro de si, a maior parte de suas coisas já haviam sido levadas para o edifício e organizadas pela companhia que a ajudara na mudança. Se sentia cansada mas finalmente feliz e com a sensação de dever cumprido, havia planejado sua mudança de vida por um ano inteiro e ver o resultado de sua luta era indescritível.
Fez o check-in no hotel 4 estrelas que ficara naquela semana e entregou as chaves dando um suspiro aliviado, finalmente iria pra casa. Sorriu para o Mensageiro que levava as últimas malas que ainda estavam sob domínio da mulher, a mesma carregava sua bolsa e uma caixa com alguns de seus pertences mais valiosos como joias, perfumes, alguns artigos de decoração e a única planta que conseguiu levar de Dubai.
Um dos funcionários a guiou até o táxi que já a esperava na porta de entrada, suas malas foram postas no porta malas enquanto ela entrava no veículo e checava se não faltava nada.

Pouco tempo depois já estavam entrando no bairro de seu edifício e não pôde conter o largo sorriso ao ver o parque no fim da rua que acabara de entrar, o carro virou a esquina e o motorista parou para descarregar as malas da mulher, pagou o dobro da corrida e saiu do veículo.

Olhou para o prédio espelhado e respirou fundo antes de dar o primeiro passo porém fora interrompida por uma dos porteiros que correu em sua direção se desculpando por não ter chegado antes para ajudá-la, riu de sua euforia e disse que estava tudo bem, tinha mãos e força o suficiente para levar suas coisas, não gostava de ocupar outras pessoas mas mesmo assim aceitou a ajuda do homem para entrar no prédio e no elevador, antes que as portas se fechassem exclamou "Seja bem-vinda, senhorita !".
A mulher não pode conter o sorriso enorme que tomou conta de seus lábios rosados. Apesar de se sentir grata pela hospitalidade, fez uma nota mental para avisa-lo que não aceita ser chamada de "Senhora " já que sua mãe é a única e insubstituível Senhora . Não queria ser comparada à matriarca. Esse era seu pior medo.

Primeiro, quarto e sexto.... e finalmente décimo andar, as portas se abriram e ao caminhar para fora do elevador pôde visualizar a porta do apartamento do vizinho. A mulher pôs a caixa no corredor e voltou para buscar as duas malas grandes de rodinha, liberou o elevador e virou seus calcanhares para a direita indo em direção ao fim do corredor notando pela primeira vez que o porta do vizinho era preta diferente da sua que era branca, riu do contraste enquanto destrancava sua porta e deixou as malas já dentro da sala, quando virou-se para buscar a caixa percebeu uma jovem loira de olhos azuis a encarando confusa, a menina estava parada na porta do apartamento oposto e sorriu levemente ao ser notada pela mais velha. deu alguns passos em direção a garota e estendeu sua mão que foi apertada rapidamente.
— Prazer, me chamo , . Sou a nova vizinha. - Falou apontando para porta atrás de si, estava animada para começar uma nova vida e pretendia fazer de tudo para não arrumar confusões por alí.
— Ah! Seja bem-vinda, ouvi um dos porteiros do prédio comentando sobre uma nova inquilina mas não sabia que seria nesse andar. A propósito me chamo Amanda mas por favor me chame só se Amanda. - Sorriu gentilmente mostrando seus dentes incrivelmente alinhados.
— Me perdoe a indiscrição mas um dos funcionários me disse que esse apartamento era de um homem, você é namorada dele? Eu estava um pouco apreensiva em dividir um andar inteiro apenas com um homem. - se surpreendeu em como as palavras fluíram facilmente de sua boca, tinha dificuldades em ser falante com outras pessoas mas inexplicavelmente não sentiu tensão ao conversar com Amanda.
— Sem problema algum! Eu entendo sua preocupação, quando eu era mais nova e ficava sozinha em casa também sentia medo do vizinho. E na verdade eu moro com meu pai, preferia que fosse um namorado mas é só meu pai mesmo. - Amanda riu brincalhona, sentiu tranquilidade por saber que a menina havia entendido sua preocupação e não a julgado.
— Bem, foi um prazer ter te conhecido, Amanda mas preciso terminar de desempacotar essas coisas. A gente se vê, certo? - sorriu para a menina que consentiu levemente enquanto também sorria. Se despediram e a mulher finalmente entrou em casa.
Sentia que finalmente pertencia à um lugar.
Depois de tanto tempo sem lar fixo, suspirou aliviada por finalmente ter um lugar pra chamar de seu. Não sabia o que esperar do futuro mas estava animada para sua jornada.


Capítulo 2 - New Girl

Nova Iorque, 27 de abril de 2019
's P.O.V

Acordei decidida a conhecer algumas pessoas do prédio. Fiz minhas higienes matinais e pratiquei yoga sozinha pela primeira vez, foi difícil mas no final me senti pronta para encarar o dia. Pretendia pesquisar cursos de fotografia para não ficar parada, minhas fotografias amadoras eram agradáveis aos olhos e a ideia de me especializar na área também era bem-vinda. Já estava em Nova Iorque por um período considerável e não estava feliz em passar meus dias sentada assistindo filmes ou pendurada no encalço de Liv. Quando programei meu ano sabático imaginei que seria mais fácil conviver com a calmaria mas sempre fui uma mulher proativa e sempre precisei estar fazendo alguma atividade, ficar parada nunca foi uma opção.

Me arrumei rapidamente para ir ao Le Coffe comprar meu café da manhã. Shorts, chinelo e uma blusa simples compunham meu look, raramente me vestia assim mas era tão confortável que queria torná-lo meu uniforme. Estava acostumada a sempre andar bem vestida mas no momento só queria andar com peças que me proporcionariam extremo conforto.
Peguei minhas chaves e a carteira e saí do apartamento.
Ainda era cedo e o movimento na rua era mínimo apesar de ser um bairro comercial. Atravessei a rua bem na frente da cafeteria e percebi que estabelecimento já estava cheio. Maldita hora que decidi sair de casa sem celular, poderia deslizar pela timeline de alguma rede social lendo as futilidades que meus amigos postavam enquanto esperava mas como não havia o feito, decidi que a melhor opção seria andar pelo bairro por alguns minutos e então retornar ao estabelecimento. Não havia explorado tudo do lugar então não seria um sofrimento.

À poucas quadras do meu prédio encontrei uma floricultura com a fachada cor rosa bebê e apesar de não ser a maior fã de flores e plantas, passou pela minha cabeça comprar algum buquê ou coisa parecida para presentear meus vizinhos, seria melhor do que convidar completos estranhos para jantar na minha casa como havia planejado anteriormente. Sei que normalmente é mais comum o vizinho que mora a mais tempo presentear o recém mudado mas precisava recuperar minhas habilidades sociais que foram esquecidos com o tempo. Precisava me acostumar com a ideia de que esbarraria com aquelas pessoas diariamente.
Assim que entrei na loja uma mulher de cabelos ondulados se aproximou com um sorriso gentil nos lábios e retribuí, expliquei que queria presentear meus vizinhos e fui encaminhada para um balcão onde algumas opções de flores e buquês estavam expostas. A mulher me mostrou algumas flores e explicou o significado de cada uma mas os lírios vermelhos num vaso branco que estavam num prateleira chamaram minha atenção imediatamente, a mulher estranhou e disse:
— Lírios vermelhos significam que ainda há esperança no amor. Não acho que tenha muito em comum com a situação, certo?
— Entendo mas realmente gostei aqueles. Creio que eles entenderão minha intenção através do gesto.- Sorri tentando não parecer rude, a atendente pareceu compreender minha confusa linha de raciocínio e caminhou em direção as flores para embala-las. Uma sensação de ansiedade se fez presente em meu peito, minhas mãos formigaram e a boca havia secado completamente. Talvez a frase "Ainda há esperança para o amor" havia me afetado, afinal fazia certo tempo desde que estive em um relacionamento sério, pensar em ter meu coração partido novamente não era uma sensação convidativa mas meu subconsciente sempre soube que eu sentia falta de ter alguém que tirasse meu ar e me fizesse desfocar das futilidades diárias para me imergir apenas no amor que cresceria junto a nós.
Não tinha tempo para tal coisa então sempre empurrei com a barriga mas conforme o tempo passava, sentia a urgência de ser amada. Estava cansada de ser a madrinha da noiva, não estava desesperada para subir ao altar mas passar o resto da vida solteira não era uma opção. Gostava da sensação de ter para onde voltar, de ter para quem voltar.

Paguei as flores e agradeci pelo atendimento, segui meu caminho retornando a cafeteria e finalmente comprei meu café. Após voltar para casa, me alimentar devidamente pois estava faminta e facilmente poderia comer uma pessoa como Hannibal Lecter*, peguei o papel menos amaçado em uma agenda qualquer e uma caneta par escrever um pequeno bilhete para acompanhar as flores.
"Olá, eu sou a nova moradora do 701 e espero que tenhamos um bom relacionamento nessa nova fase! Tenha um ótimo dia :)
Ps: não devolva o vaso!!!
"
Queria um relacionamento pacífico com meus novos vizinhos, os anteriores foram um pesadelo na minha vida. O prédio em que eu morava anteriormente era composto por pessoas jovens e em sua maioria intercambistas, estavam sempre dando festas até de madrugada mas como eu quase nunca dormia em casa, ignorava a situação. Não fazia questão de ter um relacionamento com eles pois sempre manti o máximo de distância das pessoas, sempre soube que a hora de partir chegaria rapidamente e ao tardar precisaria quebrar tais costumes. Talvez até levantaria a hipótese de sair a noite com Liv e seu marido ranzinza para uma noite no pub do Centro da cidade. Conhecer novas pessoas não seria má ideia. Estava numa cidade estrangeira, com pessoas desconhecidas e apesar de estar acostumada à viajar para todo canto, a situação era totalmente diferente, afinal, aquele seria o meu lar.
Coloquei o cartão num envelope preto e arrumei as flores vermelhas que compunham o enorme buquê. Peguei o vaso de flores e caminhei em direção ao apartamento dos meu vizinhos tendo um pouco de dificuldade para abrir minha porta. Coloquei o arranjo na frente da porta preta, toquei a campainha e corri rapidamente de volta pro meu apto, me senti uma criança travessa que toca a campainha dos vizinhos e se escond4 para ver suas reações mas um resquício de maturidade cruzou minha cabeça e decidi que seria melhor esperar até que alguém atendesse, assim refiz meu caminho em direção ao apartamento dos meus vizinhos tomando o arranjo em minhas mãos novamente. A silhueta de Amanda apareceu na porta e me encarou confusa até descer seus olhos para minhas mãos, um sorriso brotou em seus lábios e voltou novamente seu olhar questionativo para mim.
— Quero que vocês saibam que eu vim em paz e não vou ser a vizinha barulhenta que dá festas até de madrugada. - Minha fala fez Amanda sorrir mais ainda e eu a correspondi.
Um barulho de patinhas contra o piso do apartamento da menina vinha em nossa direção mas não parecia um gato ou um cachorro. Antes que eu pudesse analisar todas as probabilidades de qual animal fazia aquele barulho ao andar, um pequeno patinho apareceu em meu campo de visão parando ao lado da Amanda. Não pude conter minha cara de surpresa ao ver o animal, era incomum ver um pato em um apartamento refinado num bairro onde a classe alta frequentava, até esperaria um cachorro felpudo ou um gato grande, mas um pato? Essa possibilidade jamais passara pela minha cabeça antes.
O animal começou fazer seus barulhos habituais de...pato e soltei uma risada pela fofura incansável que o bichinho exalava.
— Não se preocupe, acho que eu sou a vizinha barulhenta.- Amanda riu e eu a acompanhei, ele realmente deve ser muito barulhento.
— Como conseguiu trazer ele pro prédio sem que percebessem?
— É uma longa história. O que acha de entrar? Te conto até os mínimos detalhes. - A proposta fora inusitada já que eu não esperava nada além de um bom relacionamento baseado em regras básicas da etiqueta. Fui pega de surpresa mas assenti e a loira abriu passagem para que eu pudesse entrar, observei a sala e logo tive certeza de que eles eram pessoas de bom gosto. Os tons do apartamento oscilavam entre branco, cinza e preto, o que realmente me agradava. Um grande sofá azul marinho em formato de L tomava conta de boa parte da sala e os móveis em sua maioria eram brancos. Pude notar a quantidade grandiosa de artigos de arte como quadros e vasos, ri ao lembrar do cachorro branco que Joey e Chandler tinham em seu apartamento em Friends. Amanda, que nos guiava até a sala se virou com um pequeno sorriso no rosto questionando meu riso fraco.
— Percebi que você tem alguns artigos de arte e lembrei de um dos episódios de Friends que o Chandler e o Joey tem um cachorro branco no meio da sala e os outros obrigam os meninos a se desfazerem da peça. - Falei enquanto sentávamos no sofá e o porquinho de Amanda tentava morder o frufru do meu chinelo.
— Não acredito que você também é fã de Friends! Acho que você é minha nova vizinha favorita, ! - Ri de sua empolgação, ela tinha uma facilidade tão grande de se comunicar enquanto eu estava na reta guarda tentando não parecer tão entrona. — Uma vez tentei convencer meu pai à comprar o cachorro branco mas infelizmente ele não cedeu as minhas milhares tentativas.
— Jamais pensei na possibilidade de comprar um cachorro branco gigante mas já coloquei um frango na cabeça no maior estilo Monica Geller.
— Não acredito! Me diz que era falso porque se não for, você é muito corajosa! - Ela era incrivelmente simpática, não me senti tão entediada como nos últimos dias morando sozinha, era bom conversar com alguém que entendia do mesmo assunto que eu e realmente estava interessada em saber da minha vida.
— Era falso, jamais seria capaz de enfiar minha cabeça em um frango! Tenho uma foto, quer ver? - A menina assentiu e eu peguei meu celular no bolso caçando a bendita foto de alguma das minhas viagens para parques temáticos, encontrei e mostrei meu celular para Amanda que riu da fotografia cômica onde eu e mais alguns amigos usávamos frangos gigantes de óculos amarelos em nossas cabeças enquanto nos abraçávamos.
— Preciso ir em um desses lugares um dia! Você viaja muito? Desculpas mas dei uma espiadinha enquanto você vasculhava a galeria... - Questionou enquanto mexia nas pontas do cabelo loiro ainda mantendo um sorriso tímido nos lábios.
— Sem problema algum mas na verdade viajava. Eu era comissária de vôo em uma empresa bem grande mas decidi parar por um tempo. – Falei e a menina assentiu, parecia curiosa e que ainda não estava totalmente satisfeita com minha resposta curta. — Pode perguntar o que quiser, Amanda! Não tenho problemas com isso porque sou uma pessoa curiosa e ainda quero saber como conseguiu trazer o patinho pra cá. - Ela gargalhou com o final da frase e revirou os olhos.
— Você desistiu da profissão? Eu acho tão lindo!
— É lindo mesmo mas também é muito cansativo. As vezes eu acordava na França, almoçava na Espanha e depois ia dormir na Alemanha. Parece glamuroso mas é muito desgastante. Vários fatores me fizeram desistir e o cansaço foi o maior deles. Sei que parece um pouco superficial mas foi minha realidade por um longo tempo.- lançou a cabeça em reprovação enquanto maria um pequeno sorriso nos lábios e revirou os olhos ao ouvir o final da frase.
— Pois eu amaria acordar da França, almoçar na Espanha e depois ir dormir na Alemanha. Não aguento mais essa cidade! Neve é a coisa mais sem graça do mundo!
— Eu sou apaixonada por Nova York, não seja injusta com meu lugar favorito . Eu morava em Dubai e era calor o tempo todo, aqui o clima é perfeito. Mas e você, Amanda? O que faz?. - A menina respirou fundo por um segundo e me olhou de forma preparatória.
— Quando eu começo a falar, não paro nunca. Tem certeza que quer saber? - Assenti enquanto me ajeitava no sofá fofinho.

Passamos quase duas horas falando sobre faculdades que Amanda quase cursou até que ela finalmente decidir que engenharia era seu destino mas que também tinha um pé em gastronomia, seu tempo livre era gasto com cursos e seminários dedicados à técnicas da culinária. Eu havia falado da faculdade de psicologia que havia abandonado pela metade quando decidi que dirigir um consultório não era minha vocação, eu queria conhecer o mundo e não seria possível com uma clínica para ser gerida.
— Eu tinha me matriculado ‘num curso de churrascaria e o prédio todo ficou sabendo que eu estava envolvida com culinária aí um dia no caminho para faculdade, eu encontrei uma caixinha com um pintinho dentro e no começo até pensei eu deixá-lo na polícia mas provavelmente eles não fariam nada a respeito então decidi dizer trazer ‘pra casa e agora sou mãe do Pato.

— Então o nome do Pato é Pato? - Não pude controlar minha risada ao ouvir o nome do bichinho.
— Sim! Não sou tão criativa, . - Protestou com um sorriso nos lábios.
— Nova-iorquinos não são tão criativos, percebi ao ler o nome da cafeteria da frente! – Amanda gargalhou alto e eu ri de sua risada engraçada, demorou certo tempo até que a menina recuperasse totalmente seu fôlego mesmo que nem tenha sido tão engraçado assim. — Eles nunca suspeitaram do pato? - Perguntei olhando para o bichinho que agora bicava o tapete da sala.
— Já descobriram mas pela primeira vez na vida usei a influência do meu pai para conseguir algo, fiz algumas chantagens mas recebo alguns olhares tortos dos vizinhos. Em breve levaremos ele pra outro lugar, talvez uma Fazenda...- Ri do comentário. Já era a segunda vez que me falavam que o tal vizinho é alguém poderoso e eu não ousaria cruzar em seu caminho. Sei o quão perigoso é lidar com pessoas que tem poder em suas mãos, quando escolhi manter certa distância da minha família foi para justamente encontrar paz que eu não tinha.
— Amanda, você é uma pessoa extraordinária!
— Você é maravilhosa e uma ótima companhia, ! - Amanda falou sorrindo docemente e dando um afago na minha mão.
— Pode me chamar de . Acho que já ultrapassamos a fase de vizinhas desconhecidas para vizinhas com uma amizade em potencial. - brinquei sorrindo, normalmente eu odiava ser chamada de mas também odiava ser tão formal com pessoas de idades próximas a minhas. Espiei meu celular e já se passavam das 15:30 da tarde, ficamos duas horas e meia conversando e nem percebemos. Amanda era comunicativa e gentil, sabia manter o clima agradável e tínhamos muitas coisas em comum. A conversa fluía facilmente com ela e eu estava realmente feliz por saber que não estava completamente sozinha num prédio repleto de famílias perfeitas e solteiros ranzinzas — Amanda, Já são quatro horas da tarde! Nem percebi o tempo passar.
— Mas já? Não acredito que passou tão rápido. Você é ótima para conversar.
— Digo o mesmo. Temos muita coisa em comum!
— Exatamente! Precisamos nos encontrar mais vezes. Você tem alguma rede social? Quando você for embora quero vasculhar mais sobre sua vida. - Gargalhei da sua honestidade mas confesso que também queria saber mais sobre a menina. No final do dia todos nós temos curiosidade para saber o que a pessoa ao lado passa seu tempo fazendo.
— Claro! Me passa seu username que aí eu te sigo, minha conta é trancada e provavelmente você não vai encontrar. - Amanda me mostrou a tela de seu celular onde o Instagram já estava aberto em seu perfil. Segui a menina e ouvi o barulho da notificação de seu celular.
— Como assim você tem 25 anos? , eu estava jurando que você tinha no máximo 22!
— Queria que isso fosse verdade. Vou considerar um elogio, hein?
— Mas é um elogio! Olha bem pra esse pele. E para de falar como se fosse uma idosa! - Ri lembrando da minha fase adolescente onde minha principal função de vida era tentar acabar com minhas centenas de espinhas.
Nos despedimos e eu caminhei até meu apartamento um pouco mais animada que os dias anteriores onde eu só fiquei deitada assistindo algumas séries bobas.

Amanda's p.o.v

Eu e havíamos passado praticamente a tarde inteira conversando, ela era legal e divertida, havia vivido muito mais que eu, tinha mais experiência e contato com o muito do que jamais imaginei que alguém seria capaz mas mesmo assim ela não exalava o ar de superioridade que normalmente as pessoas ao meu redor exalavam, ela era gentil apesar de parecer cautelosa com cada passo que tomava. Mesmo com nossa diferença de idade, ela tinha gostos incrivelmente parecidos com os meus, talvez eu seja madura demais ou ela infantil demais, não sei ao certo mas a combinação me agradava.
Já haviam se passado algumas horas desde que a mulher esteve aqui em casa e eu já esperava meu pai para podermos jantar juntos mas já se passavam das seis e meia da noite e nem sinal do homem, decidi ligar para meu tio Andy que na verdade era quase minha mãe, já que havia me criado junto com meu pai.
Em pouco tempo tio Andy havia chegado no apartamento com três pizzas gigantes de nossos sabores favoritos, quatro queijos, calabresa e de chocolate com morango. Assistíamos um filme qualquer quando ouvimos o barulho da porta se abrindo, o barulho do sapato social contra o piso ecoava pela sala vindo em nossa direção e meu pai logo ocupou nosso campo de visão quando se jogou no sofá à nossa direita enquanto afrouxava a gravata vermelha. Bufou levemente e bagunçou os cabelos grisalhos.
— Você está péssimo, ! - Andy foi o primeiro a se manifestar tirando uma risada anasalada do meu pai, ele realmente parecia péssimo. Acompanhei a risada dos dois e me levantei indo em direção ao sofá onde meu pai estava jogado o abraçando.
— Como foi seu dia, Amy? - Urgh, como eu odiava aquele apelido! Só ele e tio Andy usavam mas eu já estava velha o suficiente pra ser chamada só de Amanda.
— Tudo certo, fiquei horas conversando com a vizinha nova e depois chamei o tio Andy para me fazer campainha. - Papai afagou meus cabelos e me puxou para que eu encostasse minha cabeça em seu peito, o abracei pela cintura enquanto inalava o perfume que sempre me acalmou quando eu era pequena e estava assustada por conta das tempestades medonhas de Nova Iorque.
— Vizinha nova? Não fiquei sabendo que haviam se mudado.
— A mora sozinha e ela já estava frequentando o prédio para acompanhar as obras, até nos esbarramos uma vez. O síndico havia notificado sobre a mudança à algumas semanas, acho que você não prestou atenção enquanto eu lia.
— Desculpa, ando distraído esses dias.- falou com receio em sua voz.
— Já sabemos. - Andy e eu falamos em uníssimo e bom som causando algumas risadas no ambiente.
— Será que já podemos comer pizza? Eu estou faminto, a jornada dupla de ser pai solteiro e uma diva pop é complicada! – Tio Andy gritou alto. Gostava quando ele se referia como meu pai, me sentia amada e de certa forma a lacuna que minha mãe deixou não foi tão funda graças a ele, assim que Andy soube da morte da minha mãe ele fez de tudo para que o peso do mundo não caísse nas costas do amigo. Não existe um único momento da minha vida em que ele não esteja presente, desde meus primeiros passos até minha formatura e eu sou eternamente grata por cada minuto do nosso relacionamento.
— Andy, você não é uma diva pop. Você é um escritor e não a Beyoncé. - Papai argumentou com o melhor amigo que riu alto, eles são completamente diferentes mas a química entre os dois é algo inegável, são a prova viva de que em alguns casos, opostos podem dar certo juntos. Meu pai era um âncora jornalístico que apreciava a arte da individualidade enquanto Tio Andy era um escritor renomado com alguns Best-sellers em seu currículo e que não dispensava usar as redes sociais para registrar seus passos. Os dois estavam juntos o tempo inteiro e sempre implicavam entre si mas no fim do dia, sabiam que eram como irmãos que sempre se apoiariam.
Caminhamos em direção a cozinha rindo dos comentários de Andy sobre meu pai ser ranzinza e mau humorado. Logo tratei de pegar os pratos e talheres enquanto tio Andy pegava os copos e algo para bebermos na geladeira.
— Comprou flores, filha? - Papai perguntou tocando os lírios vermelhos em cima da bancada.
— Não, foram um presente da . - expôs sua cara de interrogação ao ouvir o nome desconhecido. — A vizinha nova.
— Mas normalmente flores vermelhas tem a ver com amor, não faz o menor sentido serem dadas para desconhecidos. - O papo intelectual havia começado e rolei meus olhos reprovando a atitude, Andy que pegava as caixas de pizza na minha frente gargalhou da minha reação e cutucou o braço do amigo. — Será que pelo menos uma vez na vida você pode ignorar sua intelectualidade e só apreciar o gentileza da mulher? - Andy falou repreendendo e eu ri da cara de poucos amigos feita pelo meu pai.
— Eu aprecio, só comentei sobre a escolha inusitada de flores.
— Você é muito teimoso, recuso ficar discutindo enquanto a comida esfria. Agora será que pai e filha podem se juntar a minha pessoa na mesa? - Tio Andy ordenou e logo seguimos seus comandos, eu estava faminta.
Passamos boa parte da noite conversando e assistindo coisas aleatórias na televisão. Tio Andy decidiu dormir aqui pois não estava seguro dirigir pela madrugada já que um serial killer estava solto pelas ruas, segundo as palavras do meu pai, que nos repreendeu pela nossa falta de conhecimento, segundo suas palavras “se assistissem meu jornal, ficariam atualizados das notícias” tio Andy rebateu dizendo “Cale a boca! , sei muito bem que você quer nos alienar com seus papinhos intelectuais mas lamento dizer que estamos satisfeitos com nossa futilidade e conhecimentos gerais sobre reality-shows”

4 semanas depois
e Amanda haviam começado uma amizade genuína onde as duas se completavam, era aventureira e corajosa mesmo com a timidez. Amanda, ainda se sentia uma menininha indefesa mas conseguia apreciar as novas experiências apresentadas pela mais velha. tinha apenas 5 anos de diferença com Amanda mas havia vivido anos luz da amiga, saiu de casa jovem e deu a volta ao mundo mas não se sentia superior, gostava de compartilhar o conhecimento que havia conquistado ao longo dos anos com a menina.
As duas saíam durante o período do almoço e passavam o dia inteiro procurando novos rumos pela cidade, Amanda havia levado à seus lugares favoritos e também à algumas festas em sua faculdade, andou de metrô pela primeira vez mas desejava que seu pai jamais descobrisse os lugares em que se metera junto com a amiga. estava mais ausente que nunca, desde a morte de sua mãe se ocupava e isolava cada vez mais, fazendo involuntariamente com que Amanda se sentisse imponente diante a situação. Ela sabia o quanto o pai se sentia sozinho, não era próximo dos irmãos frutos dos outros casamentos da sua mãe e da descendência de seu pai era o único que restara. Amanda entendia mas não se sentia confortável em vê-lo se afastar, o homem sempre fora um pai presente mas pela primeira vez deixou a filha em segundo plano, afinal ela já era uma jovem adulta. Havia se esquecido que Amanda ainda era emocionalmente dependente, só tinha ele e Andy. A menina precisava era do máximo apoio possível já que acabara de iniciar uma importante fase de sua vida. Ainda estava assustada com a mudança repentina de rumo, não estava mais na escola e sim, para a faculdade, estava lidando com pessoas totalmente desconhecidas, em seu colégio parte predominante dos alunos era formada por pessoas que Amanda conhecera ainda na infância. Estava encarando um novo mundo com novas pessoas.
Se sentia egoísta por colocar seus sentimentos na frente do luto do pai mas não mandava no coração carente que fora herdado da mãe.

O tempo entre os dois estava tão escasso que ainda não havia conhecido , ouvia falar sobre a garota constantemente e até viu uma foto de relance quando Amanda mostrou a fotografia para Andy, as duas estavam abraçadas perto de algumas árvores mas não era possível ver claramente seu rosto. O homem não deu tanta importância já que se tratara de mais uma amiguinha da filha, não tinha com o que se preocupar pois sabia que a menina fora bem instruída para escolher seus relacionamentos.
Amanda sugeriu um jantar onde os dois finalmente se conheceriam, as meninas já estavam próximas o suficiente, Amanda passava mais tempo com do que no próprio apartamento e queria que seu pai se tornasse familiar com a figura presente da nova amiga. O Pato também se tornou uma constante companhia para , que ainda achava o comportamento do animal um tanto peculiar.

O jantar que havia sido marcado e desmarcado diversas vezes finalmente aconteceria na casa da . As duas já estavam prontas e conversavam sobre o próximo lugar que pretendiam conhecer juntas, as férias de Amanda já estavam próximas e a loira queria aproveitar ao máximo a companhia da nova amiga pois sabia que ela não teria tanto tempo futuramente pois pretendia entrar em cursos ou até mesmo uma faculdade.

's p.o.v
— Mil desculpas pelo atraso do meu pai mas ele é sempre assim. O trabalho sempre toma seu tempo.- O toque do celular de Amanda preencheu o ambiente antes que eu pudesse a responder, a menina se levantou para pega-lo em cima da bancada enquanto sorriu levemente revirando os olhos. Encarou a tela do aparelho e o chacoalhou no ar me mostrando o nome do pai brilhante enquanto murmurou "Falando no diabo....".
Beberiquei o vinho e encarei meu reflexo no espelho à minha direita ajeitando meu batom vermelho, me sentia bonita quando usava esse batom, me fazia lembrar a minha irmã.
— Tudo bem..... Explico sim..... Ok, pai..... Não vou sair de casa..... também te amo... beijos.- Amanda bufou e voltou a mesa. Me encarou com o olhar caído e logo entendi que ele não viria, eu sabia o quanto ela se sentia solitária, afinal, me senti assim por um longo tempo mas ainda tinha as viagens que me desconectavam de todos meus problemas exteriores, já a menina estava alguns meses sem conexões diretas com pai mas segundo ela, era temporário já que em breve as curtas férias dele chegariam. Apertei sua mão por cima da mesa e sorri fracamente.
— Não fica assim! Olha o tamanho dessa torta e o melhor de tudo é que ela é só nossa. Já que seu pai bonitão não vem hoje, já posso me desmontar? - Levantei da cadeira indo até um dos armários e pegando alguns guardanapos de papel e tirei aquele maldito batom que mancharia tudo. Amanda gargalhou e assentiu enquanto acompanhava meus movimentos. — O que acha de comermos na sala? Deve estar passando uma dessas séries que você assiste. - A menina assentiu e colocamos a comida em nossos pratos e fomos em direção a sala sentando no chão e pondo nossos pratos e taças na mesa de centro. Amanda ligou a televisão e procurou pelo canal que passava o chef de cozinha que ela adorava.

Passamos a noite conversando, rindo e fazendo maratona de alguns episódios de programas que Amanda achava necessário que eu assistisse. Dormimos no tapete felpudo da sala mas logo no início da manhã ela saiu pela porta da sala, involuntariamente me acordando, levantei do chão indo em direção ao meu quarto para pelo menos ter algumas horas de sono descentes antes da minha rotina começar.

Eu planejei tanta coisa quando decidi me mudar mas até o momento nada havia saído do papel, queria me exercitar mais, encontrar minha nova vocação, me inscrever em algum curso e assistir o sol nascer numa montanha e eram só algumas coisas que estavam em minha lista interminável mas até o momento nada havia sido feito. Depois de me sentir totalmente familiarizada com a cidade e minha nova rotina, senti que já era hora de começar a riscar itens da listas.
Após o almoço me arrumei para visitar algumas agências que ofereciam cursos recreativos, precisava me ocuoar. Me olhei no espelho satisfeita com minha escolha de roupa, uma calça jeans clara, blusa preta com uma jaqueta e um scarpin.
Estava prestes a explorar novas áreas. Mesmo que a busca levasse uma eternidade, eu encontraria o amor que encontrei na aviação em outro lugar.
Mesmo que precisasse me reinventar completamente.


Capítulo 3 - See You Again

I can't wait to see you again.

Assim que pisou no hall da faculdade com seus scarpins caros, se deparou com uma imensidão de escolhas e oportunidades mas percebeu que tinha certa inclinação para fotografia. Tinha um site consideravelmente grande na internet onde postava fotografias de suas aventuras ao redor do mundo, queria eternizar os momentos e as pessoas da forma mais encantadora e profunda que pudesse. Por este motivo, achou sua escolha de curso a mais coerente.
Não tinha tantas fotos de sua adolescência, fora um período conturbado para a mulher, a irmã que tanto amava havia partido e levado consigo grande parte de . Mesmo no auge de seus 25 anos ainda não havia se acostumado com a dor recorrente que dilacerava seu peito cada vez que lembrava-se de Emma. 10 anos haviam se passado a dor ainda a consumia, foi durante período mais cru e doloroso de seu luto que decidiu deixar Los Angeles para trás já que tudo naquele estado a fazia lembrar da irmã. As flores coloridas no jardim, a casinha na árvore onde haviam passado longas noites escondidas dos pais pois estavam cheirando à bebida e cigarros, a sorveteria no fim da rua que costumavam frequentar no fim das aulas, o parque onde andavam de bicicleta, a praia onde tentaram ter aulas de Surf mas não conseguiram nada além de alguns hematomas e afogamentos.
Tudo pertencia a Emma e sentiu que precisava encontrar um lugar sem resquícios das lembranças de sua irmã. Juntou todos seus pertences dentro de seu carro e deixou um bilhete dizendo brevemente que amava seus familiares apesar das inúmeras diferenças, que passaria um tempo na casa de praia da família e que não queria ninguém indo visita-la.
Mas não foi isso que realmente fez.
Dirigiu em direção a casa do melhor amigo hippie na costa leste, que a ajudou sair do estado sem rastros, sabia que seus pais checariam cada fronteira. Eram controladores apesar de ausentes.
As fotografias faziam com que Emma permanecesse intacta em sua memória, seus detalhes delicados estavam eternizados na mente da irmã que tinha completa adoração pela mais velha.
Os pequenos pedaços de papel tão frágeis tinham o poder de eternizar pessoas e queria que cada pequena coisa fosse lembrada, desde o pôr do sol até a pessoa mais importante de sua vida. Em seu olhar, tudo havia um significado grandioso mesmo que ela ainda não entendesse a razão.

Seu nome fora chamado pela atendente de longos cabelos cacheados e logo caminhou com passos longos em sua direção tentando manter sua postura, sabia do principal motivo pela escolha de fotografia e tentou transparecer o máximo de tranquilidade que conseguia. A mulher sorriu gentilmente e pediu para que a a acompanhasse até uma das salas no enorme corredor, foi encaminhada até uma porta vermelha onde encontrou uma mulher loira sentada na mesa concentrada em alguns papéis sob sua mesa, ao perceber a presença de a tal mulher levantou-se e caminhou em sua direção com um pequeno sorriso no rosto
— Meu nome é Claire e creio que você seja , certo? - Perguntou estendendo a mão que logo fora apertada por que assentiu. — Estou aqui para te ajudar, quero que você tenha certeza do curso que quer !
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A conversa com Claire fora curta porém produtiva, poderia experimentar todos cursos até que tivesse total certeza do que fazer mesmo tendo em mente que fotografia era minha paixão. Caso nada desse certo, retomaria minha faculdade de psicologia que fora trancada à alguns anos. Não tinha um plano C para ser executado. Minha única opção era fazer dar certo.
Caminhei lentamente pelas ruas movimentadas observando cada pequeno detalhe, um hábito que desenvolvi após tantas viagens e anos. Queria memorizar cada lugar que estive. Resquícios da antiga profissão ainda dominavam partes do meu subcomandante que ainda sentia que Nova Iorque desaparecia em poucos estantes e que o próximo destino estaria decidido. Nada era constante, nada era permanente, nada era importante.
Estava difícil me acostumar com a rotina mas confesso que era gostoso saber que todos os dias eu acordaria no mesmo lugar, cumprimentaria as mesmas pessoas e tomaria café no mesmo lugar.
Me perdi em pensamentos enquanto caminhava até meu bairro que não notei que já estava entrando em meu prédio. Os porteiros adoráveis como sempre me cumprimentaram com sorrisos largos em seus rostos, eram totalmente diferentes das pessoas que eu cruzava antes da mudança. Sempre apressadas e mergulhadas em seus celulares de última geração que ignoravam os sorrisos e os olhares cordiais oferecidos.

Assim que entrei em meu apartamento, meu celular apitou com uma mensagem de Amanda convidando-me para assistirmos um filme qualquer já que a mesma não teria aulas hoje, troquei minha roupa por uma saia rodada azul marinho e uma blusa vermelha que havia pegado de meu irmão quando o mesmo me visitou em Dubai.
Apertei a campainha de Amanda incansavelmente do mesmo jeito que menina fazia quando tinha pressa, ela não gostava do corredor pois ainda tinha calafrios ao se lembrar das gêmeas de O iluminado*.
— Qual o seu problema? Eu estava ocupada! – gritou a menina ao abrir a porta enquanto fechava o botão de seu short.
! ! Não posso ficar desprotegida em um corredor vazio, você já assistiu O Iluminado, certo? – Imitei a menina enquanto entrava em seu apartamento. Me joguei no sofá observando Amanda caminhar preguiçosamente em minha direção.
— As vezes não acredito que você realmente tem 25 anos. , eu tenho traumas. Não vem de graça que eu vou por vídeos de “extraterrestres” para você assistir! – Amanda esbravejou se jogando ao meu lado e fazendo aspas com as mãos ao se referir à criaturas não identificadas que me causavam calafrios.
— Você não ousaria! – rebati. Ela sabia do meu medo inexplicável e eu estava em total desvantagem pois moro sozinha.
— Paga pra ver.
— Te mato antes.
— Eu sou uma chef de cozinha, sou boa com facas.
— Eu sou brasileira. Temos jiu-jitsu
, você não sabe lutar! Não blefe.
— Odeio esses adolescentes petulantes que se acham no direito de ameaçar adultos! No meu país eu já teria te descido a porrada.
— Você é só metade brasileira e cresceu em Los Angeles, cala a boca! – Amanda gritou logo após soltou uma gargalhada estrondosa. Não me segurei e acompanhei. Quando estávamos juntas o assunto mais sem graça se tornava um monólogo de humor. Amanda era pra cima e sempre estava com um sorriso no rosto, ela sempre demonstrou cuidado comigo por saber meu receio em novos relacionamentos. Ela era solitária e eu procurava por campainha, assim que nos juntamos a combinação fora perfeita, sentia que finalmente havia encontrado minha amiga de infância que na verdade não havia conhecido na infância porém nomeei assim pois tenho certeza que em outras vidas fomos melhores amigas de infância.

— Que filme você quer ver? – perguntei enquanto dedilhava o botão do controle e xeretava seu catálogo de filmes. Amanda que estava na cozinha preparando pipoca respondeu aos gritos que queria um musical. — Ok. Mamma mia, High school musical ou Hannah Montana? – Perguntei novamente
— Vamos começar por Mamma mia, depois High school musical e pra fechar Hannah Montana que é a melhor produção de Hollywood. – Entrou na sala carregando um pote enorme de pipoca e duas latas de refrigerante.
— Se você acha que eu vou assistir tudo isso tá enganada.

***
— Não acredito que assisti 2 filmes seguidos! Minha coluna não será a mesma nunca.
— Mas ainda falta Hannah Montana!
— Eu só vou assistir porque é o filme que marcou minha infância mas antes preciso ir ao banheiro- Me levantei do sofá enquanto me espreguiçava ouvindo as gargalhadas e murmúrios de Amanda que insistia em dizer que eu estava ficando velha.

Após 3 filmes, Amanda se retirou repentinamente para ir ao banheiro mas voltou com duas perucas loiras e dois microfones cor de rosa. A encarei confusa mesmo sabendo de suas intenções.
— Agora nos vamos fazer cosplay de Hannah Montana enquanto assistimos o show. Eu sei que você não tem nada melhor pra fazer então... – Amanda colou a peruca na minha cabeça e eu logo incorporei o espírito da minha popstar favorita, pulei no sofá empolgada soltando alguns gritinhos e menina riu da cena. — , você estava com dor na coluna, lembra?
Amanda deu play no concerto, cantávamos desastrosamente nossas músicas favoritas. Eu cresci assistindo o seriado e me trazia lembranças doces com a minha irmã. Algum tempo atrás eu jamais estaria empolgada nessa situação mas Amanda conseguia ressuscitar momentos que antes estavam adormecidos em memórias tristes e sem fim.
— ‘Cause I felt this deep connection When you looked in my eyes. Now I can't wait to see you again
(Porque eu senti esse conexão profunda quando você olhou em meus olhos e agora não posso esperar para te ver de novo.)

Gritávamos enquanto pulávamos no sofá, batíamos nossos falsos cabelos loiros enquanto o som alto ecoava por todo apartamento, arrisco dizer que talvez até por todo o andar.
Amanda apontou seu microfone rosa para minha boca quando o fim da música se aproximou e eu como uma boa fã esbravejei cada palavra.
— The next time we hang out I will redmeer myself. My heart can't rest ‘till that. I can't wait to see you again
(Da próxima vez que sairmos, eu vou me entregar. Meu coração não pode descansar até lá então mal posso esperar para vê-lo novamente.)


O barulho da porta sendo aberta ecoou pelo ambiente juntamente com o choque dos sapatos sociais contra o porcelanato. Parei imediatamente meu show particular junto com Amanda e me virei para encarar a silhueta que acabara de entrar na sala.
E foi bem naquele momento que tudo parou.
Um homem alto de olhos extremamente azuis me encarava com um olhar indecifrável, cada pelo do meu corpo se ouriçou ao notar o tamanho da beleza do homem. Sua presença era marcante e pude sentir o ar ficar pesado em meus pulmões, não estava acostumada a ter Deuses gregos me encarando diretamente.
Merda. Eu ainda usava a maldita peruca loira. Tirei o apetrecho da minha cabeça rapidamente e ouvi a risada abafada de Amanda tomar conta do ambiente.

— Papai, essa é a .


Capítulo 4 - Enchanted

I'll spend forever wondering if you knew. I was enchanted to meet you.

Papai, essa é a !
Sorri para o homem que ainda me encarava curioso, ao ouvir meu nome sendo proferido pela filha, seu rosto pareceu se suavizar e contemplar a resposta. Amanda provavelmente havia falado sobre mim, afinal, somos amigas.
— Então finalmente estou na presença de ? É uma honra conhecer a nova melhor amiga da Amanda. – Sua voz rouca ecoou pelo ambiente e a silhueta esquia e atlética do homem cruzou a sala em nossa direção, parou perto o suficiente para que eu sentisse seu perfume sutil, nunca havia sentido aquele cheiro mas minha memória olfativa identificaria como “perfume do pai gostoso da Amanda". — Sou .
Estendeu sua mão em minha direção e a apertei sem pestanejar, não precisava ponderar muito para saber que eu queria contato físico com aquele Adônis Nova-iorquino. O homem olhou no fundo dos meus olhos e analisou cada pedaço do meu rosto. Os olhos eram extremamente azuis e as rugas só acentuavam mais sua beleza, seu cabelo estava quase completamente grisalho e os fios estavam um pouco bagunçados, a gravata estava frouxa em seu pescoço o deixando ainda mais sexy. Como demorei tanto para conhecer esse homem?
.- reafirmei meu nome, que o homem já sabia, mais para minha consciência afobada do que para os outros presentes do ambiente.
— Você é famosa por aqui. Amanda não fala de outra coisa! – Falou olhando para a filha.
Encarei minha amiga sorrindo, estava feliz por saber que nossa amizade estava crescendo consideravelmente rápido. Ela é sem dúvidas o mais próximo de família que eu tenho atualmente .
— Fico feliz em saber que você fala de mim, Amanda. Também falo sobre você com as paredes do meu apartamento! – Olhei para minha amiga que gargalhou do meu tom meu debochado assim que terminei de falar. Amanda soltou uma risada escandalosa e me fez rir de sua reação exagerada mas ao desviar meu olhar percebi que nos encarava interrogativo.
— Desculpa pela piada interna! É que eu moro sozinha então não tenho com quem falar sobre a Amanda... – O homem apenas assentiu com um pequeno sorriso simpático e sentou-se no sofá enquanto me encarava. Amanda ainda controlava sua risada, nunca conheci uma pessoa com riso tão frouxo em toda minha vida!
— E quantos anos você tem, ? – Ele vai mesmo ficar me chamando de ? Nem meus chefes, que faziam questão de respeitar cada protocolo de hierarquia, me chamavam desse jeito.
— 25 mas faço 26 no próximo mês.. – Respondi.
— E por que uma mulher de 25 anos anda com uma adolescente?
— Eu não tenho tantas opções, esse prédio é repleto de casais de meia idade e viúvas! - E isso era um fato verídico, eu, Amanda e uma ruiva do oitavo andar éramos as únicas com menos de 30 naquele prédio, minhas opções para amizades eram escassas mas com Amanda foi por compatibilidade e não conveniência apesar de nossas piadas sobre o assunto.
— Pai, você consegue ser tão inconveniente quando quer! , desculpa pela gracinha do meu pai. Ele só é amigo de velhos, quando eles vem aqui em casa parece que estamos dando festa para um asilo. O problema é que ele acha que sou criança e tenho que andar apenas com os alunos do ensino médio mas eu já me graduei! – Amanda falava rapidamente enquanto gesticulava mas gritou a última parte enquanto olhava o pai. Já havia falado da superproteção paterna mas eu entendo a preocupação do homem, era sua filha única e exclusivamente sua responsabilidade já que a mãe havia falecido. Qualquer arranhão e qualquer coração partido, ele se culparia por não ter a protegido o suficiente.
— Tá tudo bem! Já conversamos sobre isso. – a confortei lançando um pequeno sorriso em sua direção. apenas riu e soltou um “Ok!” — Acho que já vou indo, já está tarde. Amiga, amanhã te ligo pra irmos almoçar juntas, tudo bem? – Me virei para Amanda que assentiu e me deu um abraço forte. levantou-se do sofá me encarando e Amanda sumiu no corredor gritando “boa noite! Vou tomar um banho! Faça o mesmo, Porquinha!” arrancando risadas minhas e do homem.
— Eu te acompanho até a porta, !
— Você sabe que não precisa me chamar de , certo? É só ..
— E por que não ? – franziu o cenho me encarando.
— Amanda é a única que tem permissão para me chamar assim.
— Tudo bem, ! Não vou te chamar de . – Revirei os olhos e recebi uma risada anasalada como resposta. Caminhei lentamente até a porta do apartamento com em meu encalço.
— Tchau, cara - respondi sem pensar e automaticamente corei ao lembrar que não se tratava de um amigo em comum entre Amanda e eu, e sim do pai dela.
Ele arqueou uma sobrancelha e pareceu levar na esportiva, então relaxei. Minha mãe me mataria por uma dessas.— Cara? Essa é nova - respondeu, se encostando no batente da porta. - Talvez eu deva te dar aulas de etiqueta qualquer dia desses.
Penso em me defender imediatamente, porque não há uma ofensa maior a um do que criticar suas maneiras. E isso se intensificou na escolha da minha profissão, etiqueta sempre foi a prioridade em tudo que fiz. Vim a NY buscando algo diferente e ser chamada atenção por isso foi um forte e doloroso chute no estômago. Mas desfiz as garras e amoleci os músculos ao pensar na possibilidade de não estar me criticando, e sim flertando comigo. Algo no tom de voz, talvez. Então, confusa com a mudança de opinião relâmpago que tive, me limitei a sorrir de canto, um tanto sem jeito, murmurei algo como "estou indo" e saí da vista de o mais rápido possível, certa de que ele não flertou comigo coisa nenhuma e que acabei de passar uma das maiores vergonhas da minha vida.
Sorri e dei as costas para o homem sentindo meus braços arrepiados pela temperatura gélida do ar condicionado do corredor ou talvez pela tensão que pairava sutilmente no ar.
Abri a porta rapidamente sentindo o conforto de finalmente estar em casa, me joguei no sofá preguiçosamente e liguei a televisão procurando algo que desfocasse a visão deslumbrante de , que ainda pairava pela minha mente à cada segundo.
Sentia-me uma adolescente no colegial por estar tão submergida em meio a beleza de . Quando encarei seu rosto pela primeira vez, surpreendi-me com a simetria de seu rosto, como a arquitetura perfeita de Madrid.
Minha consciência me alertava sobre o quão inadequado era analisar profundamente os detalhes do homem que ainda estavam frescos em minha memória mas não queria esquece-los, não queria deixá-los ir. Por mais que fosse errado, contempla-lo é meu apogeu pois minha razão jamais me deixaria fazer algo além disso.
Mas tudo o que sei, é que eu estava encantada em conhecê-lo.

P.O.V
A — até então, menina — que havia se tornado assunto recorrente nos jantares e cafés da manhã na minha casa, na verdade era uma mulher bem diferente do que Amanda descrevera, pouco olhou dentro dos meus olhos pois parecia intimidada, percebi que era um ágil por suas respostas rápidas e em alguns momentos até ácida. Amanda dissera que a amiga era um tanto recatada, diferente da imagem que tive assim que entrei no apartamento, estava de pé em cima do meu sofá rebolando com uma micro saia estilo colegial e uma blusa da Marinha azul que cobria quase toda sua peça inferior.
não se parecia em nada com tudo que eu idealizei, infantilizada e frágil, usando uma blusa rosa com estampa da Barbie e voz falha. Estava completamente errado, esbanjava sensualidade e beleza. Não parecia ser tão decidida igual Amanda havia dito mas também não parecia indefesa. Que bela amiga minha filha foi arrumar.
Entrei no meu quarto enquanto Amanda esquentava a pizza que havia pedido anteriormente com a amiga. O dia havia sido corrido e estressante após mais uma dia de debate presidencial, Dante disparou mais uma de suas acusações falsas sobre minha vida pessoal e fui obrigado a rebatê-lo em rede nacional, eu gostava de vê-los agonizando dentro de seus ternos caros com cada pergunta e comentário mas já estava cansado do jogo sujo dos bastidores.
Amanda raramente assistia meu jornal, segundo ela, é mais divertido saber de tudo no final do dia quando chego em casa e conto pessoalmente. Quando era pequena, pedia que eu mandasse pequenas mensagens secretas para ela ao vivo e agora nem se dava o trabalho de ligar a televisão. Estava muito ocupada dançando as músicas do One Direction para se preocupar com o pai.
Sempre fomos apenas nós dois e ver que minha filha está crescendo e andando com pessoas mais velhas me assustou no começo. A transição de ensino médio para faculdade foi um grande passo para ambos, e por mais clichê que seja essa soe, eu inda não estava completamente acostumado com a ideia de que minha menininha estava crescendo. Tenho receio em deixá-la experimentar o mundo que eu conheço e depois vê-la se despedaçar.
Então espero que Amanda apenas continue dançando no sofá sua amiga gostosa.

***

's p.o.v
O dia amanheceu nublado, perfeito para ficar na cama assistindo filmes e comendo sem parar mas me forcei a tomar banho e vestir algo decente para dar uma volta no quarteirão e ir almoçar com a Amanda no novo restaurante que abrira no shopping.
Naquela noite eu nem se quer dormi pois a imagem do Adônis Nova-Iorquino pairava pela minha cabeça cada vez que fechava os olhos. A sensação de ansiedade na boca no meu estômago ainda estava ali. Por que Amanda não havia me alertado sobre o pai bonitão? Eu não teria ficado tão boquiaberta com a descoberta. O imaginava sendo agradável aos olhos pois minha amiga é linda mas não esperava um homem que facilmente poderia desfilar pelas passarelas de Paris arrancando suspiros.

***

Amanda p.o.v
Acordei sentindo o cheiro de ovos e bacon, o que era incomum já que eu era a única que cozinhava naquela casa e odiava preparar seu próprio café da manhã, era muito preguiçosa para tal feito. Encarei o relógio e já se passavam das 10:30 da manhã, meu pai já estava na academia à pelo menos 2 horas. Seja lá qual for o prato que o vizinho esteja cozinhando, eu estou morrendo de inveja de quem vai comê-lo.
Saí do quarto ainda sonolenta, havia dormido além do normal, meu alarme não havia tocado aquela manhã. Felizmente não teria aula pelos próximos 2 dias. Caminhei lentamente até a cozinha e senti o cheiro se intensificar, encarei atônita a figura do meu pai na beira do fogão mexendo em duas frigideiras. Ele estava totalmente fora de sua mente ou algo muito grave acontecera, papai não era do tipo que cancelava compromissos ou burlava os horários de sua rotina regrada. Pigarreei fazendo minha presença ser notada e ele virou em minha direção com um sorriso nos lábios.
Ok, alguma coisa está acontecendo.
— Já acordou? Desliguei seu alarme pra você dormir um pouco mais. – Papai falou com um sorriso adorável nos lábios. Ele é, sem dúvidas, a melhor coisa que aconteceu em toda minha vida .
— Obrigada por isso pai! Eu estava destruída ontem..
— Imaginei que acordaria assim após aquele show com a sua amiguinha. – respondeu rindo enquanto lambida algo que havia melado sua mão.
— Meu Deus! Hoje nós vamos almoçar fora! Já são quase 11:00! Preciso pegar meu celular e...— Você vai almoçar comigo, me deram o dia de folga por todo o estresse de ontem -Fui interrompida pelo meu pai fazendo uma expressão tediosa.
— Que estresse? – Perguntei um pouco atordoada enquanto sentava na bancada da cozinha e recebendo um olhar repulsivo de papai.
— Se assistisse meu jornal saberia mas você prefere dançar as músicas da Selena Gomes com sua nova melhor amiga. E desça já daí ou eu vou mandar um guindaste te arrancar!
— É Hannah Montana. Ela marcou minha infância! E eu já convivo o suficiente com o famoso , preciso de meios de entretenimento que não envolvam você.
Ouch! Sou tão enjoativo assim? Você era a presidente do meu fanclub, acho que este é o declínio da minha carreira. – Falou dramatizando enquanto eu rolava os olhos. — Chama a para almoçar aqui, estou de folga e vou poder passar um tempo com você e conhecer sua nova amiga...

***


— O que acha de ir almoçar lá em casa? O meu pai está de folga pelo estresse de ontem e decidiu fazer o almoço daí pediu pra te convidar. Acho que ele quer te conhecer porque passamos muito tempo juntas e talvez esteja preocupado, né? Sabe como é, coisa de pai solteiro.. Mas o que acha, ? – Amanda entrou na casa de disparando suas palavras na amiga que ainda tentava processar o que Amanda fazia em sua casa de pijamas e cabelos bagunçados. Não havia entendido muita coisa além do estresse e almoço pois Amanda era uma tagarela e nunca parava para respirar no meio de suas sentenças.
— Que estresse? – Perguntou a morena jogando-se contra o sofá que acabara de ser ocupado por uma Amanda preguiçosa.
— “Se assistisse meu jornal, saberia!” Foi o que ele me respondeu, acredita? – Amanda respondeu imitando a voz rouca do pai arrancando algumas risadas da amiga.
— Ele é jornalista? Não sabia... – Respondeu que recebeu em troca o olhos arregalados de Amanda.
— Você não sabia? Que péssima amiga eu Sou!
— Eu sou sua amiga e não do seu pai.
— Mas deveria saber que é amiga da filha do âncora do jornal principal do horário nobre! Ele é famoso, . Não que eu seja perseguida por paparazzi mas existem coisas que não posso fazer, tipo postar fotos fumando ou bebendo...
— Mas é claro. Você é menor de idade. Não precisa ter um pai famoso pra saber isso. - Amanda revirou os olhos dando um cutucada com o pé na amiga.— O que acha de procurarmos no Google sobre o tal estresse de ontem... – perguntara receosa esperando que a amiga negasse o alvará para a curta investigação que começaria. Porém Amanda concordou animada pegando o IPad da amiga que estava na mesa de centro.
Sentaram-se lado à lado e procuraram o nome do homem no Google.

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E foi bem ali que o coração de se apertara. Ela sabia que o homem estaria comprometido já que o mesmo parecia ser o típico galã que teria qualquer mulher do mundo pendurada em seu pescoço por livre e espontânea vontade. Não que estava sedenta para ocupar uma posição romântica com o homem mas não desconsiderava as ideia de nutrir um pequeno crush no homem.
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— Isso é pura mentira! Ele não tem tempo pra nada, imagina uma namorada misteriosa. Já viu como ele parece um skywalker de Game of Thrones? O homem é um morto vivo que só pensa em trabalhar! Eu preciso tweetar sobre esses absurdos! – Amanda sentiu suas orelhas queimarem com o ódio que pulsava em suas veias, e exatamente por isso que não gostava de assistir ao programa do pai pois sempre levou para o pessoal cada comentário feito sobre o homem.
agradeceu aos céus pela confirmação de que seu novo crush estava solteiro. Tinha plena consciência de que não teria chances com o pai de sua melhor amiga mas gostava da sensação de que em segredo ela poderia fantasiar sem mais uma culpa pensando em seus ombros.
— Amanda, skywalkers são de Star Wars. E não vai tweetar nada, você fala muita merda e talvez possa foder com seu pai! Por favor, se controle pois ainda é de manhã e eu não acordei completamente. – tomara o controle da situação, já teve 20 anos e sabe como Jovens são impulsivos, gostam de opinar sobre tudo e resolver todos os problemas do mundo mas naquela situação talvez só pioraria a situação do jornalista. Pegou o IPad prateado das mãos de Amanda e olhou no fundo dos olhos da amiga. — Você vai pro seu apartamento e vai apoiar seu pai, sem tocar no celular. O já teve estresse o suficiente, não acha? Você é a coisa mais importante da vida dele e acho que nesse momento você é a última pessoa que ele quer ouvir comentando sobre o assunto.
Amanda encarou a amiga com os olhos arregalados, havia puxado o resto de consciência que restara para a superfície. Sabia o quão mandona a amiga era e exatamente nos momentos de descontrole que sua personalidade forte aparecia.
A loira levantou do sofá mas ao abrir a porta, ouviu a amiga falar:
— Avise ao gato do seu pai que eu não vou ao almoço, vocês precisam de um tempo sozinhos.
— Que nojo! Você acha meu pai gato? , você não tem nada de diferente das minha amigas do colegial! – Riu alto enquanto abria a porta e encarava a amiga
— Elas tem bom gosto então! – Gritou rebatendo Amanda que fez uma careta de desprezo e fechou a porta atrás de si.

's p.o.v
Meu celular apitou e a foto de Amanda brilhou no meu visor. Peguei o aparelho e abri a mensagem da minha amiga.
“Venha para o almoço. É um ultimato.
Estou na sua porta.
xx”

O pai de Amanda me mandando mensagem? Pelo celular dela? Amanda acha que nasci ontem.
Me olhei no espelho e estava uma completa bagunça, os cabelos desgrenhados e a cara amassada pelo cochilo recém tirado.
Corri até o quarto enquanto arrumava meus cabelos com as pontas dos dedos desfazendo os nós. Troquei de roupa rapidamente, vesti um vestido azul soltinho e passei um pouco de pó para disfarçar a preguiça no meu rosto.
Abri a porta do apartamento me deparando com uma figura loira e feminina reclinada no batente da porta.
— Acho que o errado está na minha porta...
— Não poderia perder a oportunidade!- revirei os olhos — Eu só queria ver sua reação, !
— Amanda, eu sabia que era você. Te conheço bem.
Amanda continuou rindo até entrarmos no apartamento. Um cheiro agradável pairava no ar tomando conta de todo o ambiente, provavelmente Amanda havia feito uma de suas receitas inusitadas e extremamente deliciosas, eu amava ser cobaia dela pois nunca havia experimentado um prato ruim.
Caminhamos em direção à cozinha onde me deparei com a beira do fogão usando apenas uma bermuda preta e o avental.
Nada de camisa
Seus músculos definidos estavam expostos para serem admirados por qualquer pessoa, o homem esbanjava sensualidade e sabia disso. Os ombros largos e as costas musculosas eram um convite aberto para pensamentos sórdidos e que eu não me privaria de ter. Nossa presença fora anunciada com um pequeno grito de Amanda ao quase cair no chão. lançou seu olhar simpático em minha direção e um sorriso brotou no canto de seus lábios, correspondi ao gesto sem dar muita importância.
— Fico feliz que tenha acatado meu ultimato, Senhorita . – O homem manifestou-se com o tom carregado de cinismo.
— Não estou aqui por vontade própria, Amanda me puxou pelos cabelos e me obrigou. – Respondi me apoiando no balcão e ouvi a risada irônica de Amanda.
— Qual é a do sobrenome? Perdi algo?
— O seu pai que começou. Ele só me chama de , acredita? – Revirei os olhos
— Mas esse é o seu nome. Certo, ? – Respondeu sendo sarcástico pela terceira vez em poucos minutos de conversa. Os mais bonitos também são os mais insuperáveis. Revirei os olhos novamente e antes que eu pudesse me manifestar fui interrompida por sua voz novamente — O almoço está pronto, crianças!

O almoço fora agradável mas era um tanto calado, se não fosse pelo magnetismo que sua beleza, ele seria quase esquecível. Totalmente diferente de Amanda, que não parou de falar um minuto sequer. Falou sobre as aulas na faculdade de gastronomia, sobre à festa que aconteceria na próxima semana e que não permitiu sua ida, falou sobre o filme de terror que assistiu. Falou até que a pauta principal se tornasse minha vida, graças à algumas perguntas de .
— E onde você morava antes de se mudar pra cá? – Perguntou enquanto limpou a boca com o guardanapo branco e logo após o colocou em seu colo enquanto me encarava.
— Dubai. As maiores companhias estão hospedadas no Oriente médio. Lá é a capital da minha profissão. – Respondi.
— E com quantos anos você começou?
— Saí de Los Angeles com 20 e fui para o Brasil trabalhar porque a maioridade é 18, com 22 recebi uma proposta para trabalhar no Oriente médio, aceitei e fiquei por quase 4 anos.
— Com 25 anos você já tem esse currículo? Com 25 anos eu estava numa jornada dupla entre ser pai e jornalista iniciante. Aproveite a casa dos 20 porque depois dos 30 a vida é um sopro.
— Nossa, é verdade. Faz tanto tempo desde que você fez trinta. – Amanda falou rindo e Anderson revirou os olhos para a filha.
— Se é gato desse jeito com mais de trinta, não quero imaginar quando tinha minha idade... – Falei baixo enquanto os dois discutiam sobre a idade do homem. Amanda, que estava mais perto, me encarou com um sorriso sapeca nos lábios, provavelmente havia ouvido meu comentário.

***


Estávamos sentados na sala assistindo um programa qualquer, a única realmente interessada era Amanda. Eu encarava a televisão mas meus pensamentos transitavam na minha vida atual, havia acabado de participar de um almoço casual na casa da minha melhor amiga. Há algum tempo eu não me imaginaria nesse cenário.
Sentia o olhar de queimando minha pele, ele estava sentado no sofá à minha direita enquanto eu e Amanda estávamos sentadas no do meio. Parecia tentar me analisar e descobrir todos os meus segredos, o encarei esperando que desviasse seu olhar mas o homem era um tanto resistente e não cortou o contanto direto.
— Amanda esse programa é uma droga, desliga isso! – falou se levantando do sofá quebrando nosso contato visual e levou as mãos até seus cabelos grisalhos, onde bagunçou os fios. A camisa preta que usava, levantou-se falhando gloriosamente em seu dever de cobrir os músculos do homem. Eu poderia congelar aquela cena e rebobinar por anos que não me enjoaria.
— O que quer fazer então? – Perguntou a menina.
— Sei lá, deixa a decidir! Vou na cozinha pegar a Verrine de chocolate para vocês.
— Sobremesa se come depois do almoço e não na hora do café da tarde! – Amanda rebateu o pai que caminhava preguiçosamente até a cozinha.
— Não estava pronta, sua metida! – gritou da cozinha arrancando risadas de nós duas.

— Sabe , meu pai não é muito receptivo mas está um poço de simpatia com você. – Amanda falou me encarando enquanto apoiava seu braço no encosto do sofá.
— A terceira idade me adora. – Respondi.
— É porque ele ainda não te conhece direito. - Revirei os olhos enquanto riamos, aquela era a mais pura verdade.
— Já decidiram o que vamos fazer? – retornou para sala nos entregando as taças com a sobremesa de chocolate e sentou-se entre nós duas.
— O que acha de andarmos no parque? Já está no fim da tarde e a sempre assiste o pôr do sol...
— Acho uma boa ideia. Poderíamos andar de bicicleta. – Respondeu .
— Agora silêncio, meu programa não acabou!
Fiquei minha atenção totalmente a sobremesa deliciosa que não percebi que o programa de Amanda havia terminado e apenas e eu estávamos na sala, sentia seu ombro encostando no meu, afinal estávamos lado a lado. O ar não estava pesado ao nosso redor mas podia ouvir claramente o som da respiração acelerada de . O perfume dele estava mais presente que nunca. Ele me encarava com o canto dos olhos me causando um misto inusitado de sentimentos pois sempre odiei ser o centro das atenções mas a sensação de vê-lo focado em minhas ações era mais que agradável.
— Você vai arranhar minha taça de cristal italiano se continuar a raspar o chocolate desse jeito, . – falou com um sorriso no canto dos lábios.
— Não tenho culpa se você é um ótimo chefe de cozinha. – O respondi lambendo a colher prateada. revisou os olhos sem tirar o pequeno sorriso dos lábios.
— Comprei na cafeteria da frente. – O pequeno sorriso se tornou uma gargalhada gostosa e doce que tomou conta de todo ambiente.
— Não acredito que você me fez esperar duas horas para comer uma sobremesa de cafeteria.
— Mas estava mole! Precisava endurecer, se eu servisse mole você e Amanda reclamariam do mesmo jeito. – Rebateu e eu dei pequenos tapas em seu ombro. Senti seus músculos firmes mesmo com o pano da camisa os cobrindo. O clima havia pesado devido nossa proximidade e toque físico por ainda não estarmos naquela fase de intimidade.
— Onde a Amanda está? – perguntei tentando mudar o foco da atenção.
— Foi tomar banho para ir ao parque. - Bufei e revirei os olhos, qualquer situação era um pretexto para Amanda se arrumar. Diversas vezes precisei esperar longos minutos e em certas situações, horas, até que Amanda ficasse pronta. — Também odeio esperar por ela. – respondeu como se estivesse lendo meus pensamentos.
— Ela sempre demora horas pra se arrumar. O parque é só do outro lado da rua! – Me lembrei que Amanda estava tentando se aproximar de um dos moradores do prédio universitário da rua ao lado. Ela havia mencionando seu nome algumas vezes mas sou uma pessoa dispersa quando o assunto é lembrar nome de pessoas que não conheço.
— Se não se sentir confortável, pode ir para o seu apartamento....
— Tá tudo bem, já fiquei sentada nesse sofá diversas vezes esperando sua filha.
dedilhou o controle que estava em suas mãos procurando algo que o agradasse o suficiente, percebi que tentava evitar canais de notícia apesar de ser um âncora. Acabou por achar um talk-show qualquer mas antes de decidir se deixaria ali, pediu minha permissão com o olhar e eu apenas assenti.
Os minutos foram se passando e Amanda já estava em seu quarto à um longo tempo. Senti meus olhos se pesando cada vez mais e essa foi a última coisa que me lembro.


Continua...



Nota da autora: Cap2: Oi gente! Sinto muito pela demora dos capítulos, vários fatores agravaram a situação mas não acontecerá novamente. Obrigada por todo o apoio, eu adoro ler os comentários de vocês e isso só me motiva a escrever mais.
Inclusive, IKP entrou no top fanfictions de julho e eu tô muito feliz. Obrigada por apoiarem minha história��
Beijos da Nat

Cap3: OI MENINAS E MENINOS, TUTUPOM? O que acharam do capítulo de hoje?

Cap4: OI GENTÊ!!!! Estava ansiosa pra ver esses dois se encontrando haha
Gente, a fanfic tem uma playlist e as músicas correspondem ao nome do capítulo. Podem conferir��




Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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