COntador:
Finalizada em: 09/07/2020

Capítulo Único

She sneaks out in the middle of the night, yeah
(Ela foge no meio da noite, sim)
Tight dress with the top cut low
(Vestido apertado com um grande decote)
She’s addicted to feeling never letting go
(Ela está viciada na sensação, nunca deixa escapar)
Let it go
(Deixe escapar)


Desde que acordou naquela manhã, teve a sensação de que todas as pessoas estavam lhe julgando, e sua única vontade era xingar todos eles. Ela não precisava dos olhares de pena e muito menos das palavras de compaixão, que apenas faziam com que a jovem se sentisse pior. A única coisa da qual ela precisava era estar novamente no seu tão adorado rinque, já não aguentava mais ficar longe do local que considerava sua segunda casa. Diante de toda bagunça a qual sua vida se encontrava, a única certeza que possuía era de que precisava treinar.
A patinação artística no gelo era tão importante e natural para quanto respirar, praticamente fazia aquilo desde que se entendia por gente, mais especificamente desde os quatro anos de idade. Era a paixão de sua avó, de sua mãe e acabou transformando-se na sua também. E atualmente não conseguia se imaginar fazendo qualquer outra coisa. Aquele era o seu vício, e ela nunca deixaria aquela sensação sumir.
Adentrou clube, atraindo olhar de alguns patinadores que se exercitavam antes de começar o treino e tratou de ignorá-los, seguindo até o vestiário. Retirou todo o agasalho que vestia, trajando apenas o body de mangas compridas e a meia-calça grossa alguns tons mais claros que sua pele. Pegou a saia de dentro da bolsa que sempre usava quando ia treinar, e amarrou-a em volta da cintura. Abriu o armário e retirou os patins e as meias de proteção, colocando-os ali mesmo e guardou a bolsa no compartimento. Saiu do vestiário com as proteções das lâminas dos patins e caminhou até o local mais afastado, parando próxima ao vidro e observando os patinadores que treinavam na pista.
– Se eu não te conhecesse tão bem, diria que estou surpresa por já encontrar você aqui. – falou ao parar ao lado da amiga, mantendo o olhar atento ao que encarava. – Você já se sente preparada para voltar?
– Sim. – a resposta seca e curta não foi o suficiente para que acreditasse, mas não se importava, pois sabia que nem ela mesmo acreditava no que dizia.
Sempre que fechava os olhos podia enxergar com clareza a queda, em alguns momentos sequer precisava estar de olhos fechados para que a cena se repetisse diversas vezes em sua mente. Enquanto encarava a pista de patinação, a única coisa que conseguia pensar era em seu acidente.
– Sem contar que eu preciso criar uma nova apresentação para o programa curto. – virou-se para a amiga, tentando fugir dos pensamentos que tentavam sabotá-la. – Principalmente agora que eu me encontro sozinha.
– Você vai abandonar a patinação de duplas? – questionou chocada, sabia o quanto a amiga preferia a modalidade em conjunto ao invés da individual.
– Não é como se eu tivesse muita escolha. – a risada irônica saiu fraca, afinal não conseguia achar graça de sua atual situação. – Minha outra única opção é abandonar a patinação, e sabemos que isso não é de fato uma opção.
– Imagino que a única pessoa feliz com isto seja a sua mãe. – o olhar carinhoso contrastava com o tom de voz desdenhoso da mais nova, motivo pelo qual riu verdadeiramente após longas semanas.
– Você não imagina o quanto. – resmungou ao afastar-se do vidro, começando a alongar-se ali mesmo e sendo acompanhada pela melhor amiga.
Por mais que a patinação fosse o amor de sua família, era a primeira que concorria na categoria de duplas, para imenso desprazer de sua mãe. Seguiu os passos da matriarca até os quatorze anos – ganhando diversos prêmios, troféus e medalhas – e podia afirmar com todas as letras que amava a patinação individual, porém seu coração batia mais forte apenas de observar os casais de patinação em dupla.
Conseguiu convencer sua mãe a deixar com que ela migrasse para a patinação em dupla, mas desde que trocou de modalidade, sempre tinha um novo problema ao entrar no rinque. A troca de parceiros também era algo que não ajudava , e agora, após cinco anos, não tinha um patinador que não tivesse sido seu par, exceto o jovem que sorria ao observá-la se alongar. Mas entre ele e a patinação individual, preferia patinar sozinha.
– Sabe, um passarinho me contou que está sem par. – tentou soar desinteressada ao falar, conforme encarava o jovem e retribuía o sorriso.
– Isso é um ótimo jeito de dizer que você stalkeou ele no twitter. – murmurou, mantendo-se focada nos alongamentos e ignorando o olhar de preso ao seu corpo.
– Não importa como eu descobri essa informação. – a mais nova resmungou, voltando a atenção para a amiga. – O importante é a tamanha coincidência de que vocês precisam de um par, já que os dois ficaram sem parceiros recentemente.
– Não é uma coincidência o fato de que ele não consegue manter o pau dentro das calças e por isso todas as suas parceiras vão embora, uma hora ou outra. – o tom de voz seco fez com o que apenas balançasse os ombros, indisposta a tentar mudar a visão de sobre o patinador. Após todos os anos de convívio, sabia que a amiga era muito cabeça dura para mudar de opinião.
– E o que te importa se ele transa ou não com as parceiras dele? – questionou e revirou os olhos, não poderia contestar aquilo, realmente não era algo que lhe dissesse o respeito. – A única coisa que deveria ser importante é o seu sonho de ir para as olimpíadas.
– E esse é o ponto importante, . Esse é o motivo pelo qual eu já estou de volta ao rinque. – terminou os alongamentos e sentou no banco próximo onde estavam, observando repetir os movimentos que ela mesmo fazia alguns minutos atrás. – Eu só acho que eu e não daríamos certo como uma equipe.
– Eu acho que você só vai saber se tentar. – terminou de alongar-se e sentou próxima a amiga, abraçando-a de lado pela cintura. – Por mais que você tenha toda essa aversão por ele, você não pode negar que ele é um bom patinador. – apenas deu de ombros, fazendo com que a amiga risse. – E se vocês fossem parceiros, você não seria obrigada a dormir com ele, a relação de vocês seria apenas nas pistas de gelo. Se bem que se levarmos em conta todos os comentários, não seria nada ruim ir para a cama com ele.
– Muito cedo para esses assuntos, Holf, muito cedo. – levantou-se e encarou , recebendo um sorriso do jovem assim que seus olhares se encontraram, fazendo a patinadora rolar os olhos e segurar no braço da amiga. – Vamos logo treinar, não vim aqui para ficar apenas conversando.
– Grossa. – resmungou após levantar-se, seguindo a amiga até a pista de patinação. – , e a sua equipe?
– Bom, eu preciso arrumar novos. – respondeu a contragosto, sorrindo de modo forçado para a amiga após retirar a proteção das lâminas e entrar no rinque. – Patrick os levou já que eu estaria, supostamente, impossibilitada de participar do programa.
– Um grande de um filho da puta. – resmungou ao acompanhar a amiga. – E como você vai fazer para conseguir uma equipe completamente nova em poucos meses?
– Bom, o ideal seria que eu encontrasse um parceiro disponível e com a equipe completa. – murmurou ao começar a deslizar pela pista.
Após semanas afastada, sentia-se receosa de tentar os passos que lhe eram tão familiares. Não fazia mais do que derrapar suavemente pelo rinque, mantendo firmeza em suas pernas enquanto ignorava os olhares temerosos que lhe eram direcionados. Era como se esperassem que caísse novamente, a qualquer mísero movimento que fizesse.
– Você sabe onde encontrar um. – respondeu segundos antes de saltar e rodopiar, pousando próxima a , que estava próximo à entrada da pista e encarava com uma das sobrancelhas arqueadas e um sorriso de lado.
sabia que não podia negar o quão bom era nas pistas de patinação – as diversas premiações do jovem comprovavam o quanto ele se esforçava – mas também sabia que as chances dos dois funcionarem juntos como uma dupla era quase nula. Além do mais, não era como se simplesmente pudesse chegar nele e pedir para ser sua parceira, não depois de tudo o que ocorreu no último ano e do modo como vinha o tratando nos últimos meses. Nem sequer sabia que a proposta que lhe fora feita tinha sido real.
Afastou-se de , deslizando suavemente pela pista. Deu a primeira volta completa no lugar, a segunda e a terceira, mas encontrava-se imensamente temerosa. O gelo sujo de sangue ainda era uma lembrança completamente vívida em sua mente, motivo pelo qual abortou os diversos saltos que iniciou, desistindo sempre no último momento. Contentou-se em apenas fazer os movimentos básicos enquanto observava os outros patinadores.
Ali, naquele mesmo rinque, possuía o olhar fixado em , observando atentamente a jovem mover-se com graciosidade pela pista. Não era nenhum segredo que era considerada a melhor patinadora de Crystal Lake, mas não conseguia achar a patinadora prodígio naquela pista. Em seu local estava uma receosa ainda espantada devido ao seu acidente não tão distante.


(...)

She walks in and the room just lights up
(Ela entra e todo o ambiente se ilumina)
But she don’t anyone to know
(Mas ela não quer que ninguém saiba)
That I’m the only one who gets to take her home
(Que eu sou o único que ela deixa levá–la pra casa)
Take her home
(Levá–la pra casa)
But everytime I tell that I want more
(Mas toda vez que eu digo que quero mais)
She closes the door
(Ela fecha a porta)

(...)


– Sério, qual o motivo de estarmos saindo hoje? – a pergunta em tom tedioso foi a primeira coisa que ouviu ao observar amiga adentrando em seu carro.
– Boa noite, , eu estou bem, e você? – questionou debochada ao começar a dirigir o carro, recebendo um revirar de olhos ao qual não viu.
– Nos vimos hoje de manhã, , e estávamos conversando por mensagem até uns dez minutos atrás. – viu a amiga dar de ombros e riu fraco pelo drama. – Mas me diga, o que estamos comemorando? Particularmente, acredito que eu não tenha nenhum motivo.
– Na verdade, que está. – trocou rapidamente o olhar da estrada para a amiga, rindo ao ver a careta presente no rosto da outra. – Não faça essa cara, você sabe que as festas dele são as melhores. Que outro lugar poderíamos encher a cara sem gastar um mísero centavo?
– Justo. – murmurou, arrancando um sorriso satisfeito da amiga.
– Pensei que precisaria te lembrar da última festa dele que você foi. – encarou a amiga pelo canto do olho, notando quando a mesma endireitou a postura no banco e engoliu em seco. – Acredito que faz quase um ano.
– Uhum. – respondeu simplesmente, encarando fixamente as unhas.
– Acho que você nunca curtiu tanto uma festa quanto aquela, pensei que você finalmente seria menos careta, mas aí você nunca mais foi para nenhuma outra festa. – suspirou e encarou a amiga, que possuía o cenho franzido ao encarar a estrada. – Sabe, você é estranha.
– Muito obrigada, , não sei o que seria de mim sem a sua sinceridade. – resmungou divertida, ouvindo a risada da amiga e rindo em seguida. – Eu só parei de sair para poder focar mais no programa.
– A vida não é só patinação, . – parou no sinal vermelho e pousou uma das mãos no joelho da amiga. – Eu sei que participar das Olimpíadas é um sonho, mas você não pode viver apenas em torno disso.
– Odeio ter que te dar razão. – brincou, sorrindo em seguida ao ver a amiga rir.
Sabia realmente que não podia viver apenas em prol das competições, sua situação atual demonstrava isso – tinha focado seu ano completamente no programa e agora encontrava-se traumatizada do rinque, sem um parceiro e sem equipe – mas o caminho que precisava percorrer para mudar aquele fato era extremamente complicado.
– Você sabe que sou a parte sensata dessa amizade. – falou em falso tom soberbo e piscou o olho rapidamente na direção da amiga, estacionando o veículo próximo a propriedade dos . – Quando estivermos fora desse carro, você vai ser apenas mais uma menina normal de dezenove anos que está saindo para encher a cara com a amiga.
– Não sei se vou conseguir. – resmungou ao sair do carro.
– É só você agir como se estivesse na festa do ano passado. – rebateu e parou ao lado da amiga, enlaçando seus braços.
– E esse é exatamente o problema. – chiou baixo, receosa de repetir os atos passados.
– Não seja a , patinadora prodígio. Hoje você vai ser apenas , uma adolescente normal de dezenove anos. – falou de modo decidido conforme caminhava junto a na direção da casa dos .
Poucos passos depois – ainda consideravelmente longe da casa – já era possível escutar o som alto que ecoava pelo gramado do enorme clube de golfe. e caminhavam pela grama verde e bem cuidada, seguindo a direção do som até a enorme casa que ficava nos fundos da propriedade.
– Qual é a necessidade de fazer uma festa aqui? – questionou incomodada, mas continuou a falar antes que a amiga respondesse. – Todo mundo sabe que ele tem dinheiro e que a família dele é dona daqui.
– Ele basicamente mora aqui, e não na casa deles. – respondeu simplesmente. – Sem contar que você também tem dinheiro.
– Mas eu não fico esbanjando dinheiro por aí com festas. – a mais velha resmungou.
– Cada um cuida do seu dinheiro do jeito que quer. – rebateu. – Eu não sei qual a necessidade de querer reclamar de tudo o que o faz.
– Eu só não tenho paciência com gente que fica fazendo de tudo para ganhar a aprovação alheia. – falou – o que de fato não era uma mentira em sua opinião –, e deu de ombros.
– Eu não acho que o seja assim. – a mais nova defendeu o colega de patinação, o que fez com que a outra rolasse os olhos.
– Eu preciso beber bastante para aturar você defendendo o . – falou e parou de andar, admirando a beleza da construção a sua frente.
– Uma coisa você não pode negar, possui um ótimo bom gosto. – sorriu abertamente para a amiga.
– Infelizmente. – murmurou e voltou a andar, seguindo com para dentro da casa.
precisou piscar algumas vezes para se adaptar a luz baixa do local e as luzes coloridas que piscavam por toda a sala. A música alta estrondava pelo cômodo amplo, causando uma careta na patinadora. Tirou o sobretudo, já que a temperatura ali dentro fazia com que ela se sentisse a milhas de distância de Crystal Lake e seu habitual frio, e colocou-o em um dos diversos ganchos presos na parede. Ela só esperava que dessa vez lembrasse de pegá-lo na hora de ir embora.
– Me sinto honrado por receber as duas melhores patinadoras da cidade em minha humilde festa. – falou alto, para que sua voz sobressaísse sobre a música, e abraçou as duas recém-chegadas pelo ombro.
– Humilde. – resmungou ultraja. – Metade da cidade está aqui.
– Preciso beber. – foi a única coisa que disse, saindo de perto de e mantendo-se afastada do garoto.
– Você pode beber? – questionou confuso conforme encarava o corpo de .
A verdade era que começou a análise em busca de qualquer sinal que demonstrasse que não deveria estar ali, procurando atentamente se ela ainda possuía algum machucado. Mas o vestido curto e decotado prendeu sua atenção e fez com que o motivo de sua pequena análise mudasse.
Não era a primeira vez que via com uma roupa naquele estilo. As roupas que ela se apresentava nos programas de patinação eram bem menores, mais justas e às vezes até mais decotadas – mesmo que possuísse uma segunda pele por baixo – mas não conseguia negar que ainda sim, se sentia balançado pela roupa dela. Ele não conseguia negar que ela era bonita em qualquer roupa que usasse.
Algo em prendia a atenção de nela sempre que eles estavam no mesmo lugar, o patinador não sabia explicar a razão e já tinha deixado de tentar compreender. Mas o fato era de que ele sentia que o ambiente se iluminava toda vez que ele encarava , como se a presença dela fosse a única que importasse.
– Você sabe, por causa dos remédios e tudo mais. – soou preocupado, mas estava ocupada revirando os olhos para notar o tom de voz usado.
– Só me diz onde estão as bebidas, . – murmurou cansada, fazendo com que negasse com a cabeça conforme começava a andar entre as pessoas.
O convívio entre os dois nunca foi algo que pudesse realmente ser chamado de relação, mas também não era nada similar ao que ocorria atualmente. e não eram amigos, mas eram conhecidos de toda vida e companheiros de rinque. Não se amavam, mas também não se odiavam. Isso era o que achava, até que transformasse o pouco convívio em uma relação onde ela apenas o atacava. E o pior de tudo, não fazia ideia do motivo.
Seguiram em silêncio até a cozinha. Esbarraram em algumas pessoas, causando xingamentos da parte de que sentia seu corpo inteiro doendo. Os remédios que tomava estavam fazendo efeito, mas após passar a manhã no rinque, parecia que todos os comprimidos tinham perdido a eficácia. sabia que ainda estava um pouco cedo para a sua volta, mas ela não aguentava mais ficar parada enquanto as oportunidades de vencer as competições pareciam escorrer entre seus dedos.
Agarrou a primeira garrafa de vodca que viu e pegou um copo da bancada, derramando uma generosa parte do conteúdo ali. Sentiu seu tornozelo fisgar, como um claro lembrete de que mais uma vez estava prosseguindo com suas decisões erradas. A dor foi motivo suficiente para que virasse a bebida de uma vez só, sentindo a garganta arder devido ao álcool.
– Eu gosto ‘pra caralho da . – falou animada e pegou a garrafa da mão de .
– Eu não tinha terminado. – resmungou notando que o ardor continuava presente.
– Ainda temos a noite toda pela frente. – falou de modo animado e virou a bebida de uma vez. – Droga, odeio vodca. Não sei por que te imitei.
– Aparentemente você é a e não a . – piscou marota na direção da amiga, repetindo o trocadilho dos nomes. – Sabe, acho que eu estava precisando disso.
– Você ainda não está bêbada o suficiente para começar a desabafar, . – murmurou brincalhona e recebeu o dedo do meio como resposta. – Nem como você consegue ser um pouco mais amorosa.
– Exagerada. – falou conforme despejava outra vez o líquido em seu copo. – A vida seria tão mais fácil sem as preocupações e os problemas relacionados a patinação.
– E também seria mais triste. – rebateu e deu de ombros, bebericando sua bebida. – Sei que você não consegue se imaginar fazendo mais nada além disto.
– Isso é um grande problema. – confidenciou. – Tenho medo de me sentir absolutamente perdida se nada der certo na patinação.
– E por qual motivo isso aconteceria? – questionou e não conteve o suspiro frustrado.
– Não consigo me sentir preparada para voltar a treinar, eu abortei todos os saltos hoje. – admitiu sem conter a frustração que sentia. – Como eu vou para as Olímpiadas, se nem mesmo possuo a chance de passar por uma competição já que não consigo realizar um programa curto?!
– Está tudo muito recente, você não precisa forçar a si mesma para que tudo volte ao normal. – sorriu de modo caloroso e retribuiu o sorriso, mas sua mente estava muito longe dali.

A competição anual de inverno de Crystal Lake parecia estar mais cheia a cada ano. O IceClub – local oficial da competição – estava repleto de pessoas ansiosas para verem as apresentações que o ano lhes reservou. Os patinadores, por outro lado, exalavam ansiedade por estarem ali demonstrando o quanto aprenderam nos últimos meses e por poderem observar as outras apresentações e tentarem compreender o que poderiam esperar do programa curto, que estava a alguns meses de distância.
já tinha perdido a conta de quantas vezes Patrick suplicou para que ficasse calma, que tudo ocorreria bem e que ela se sairia bem igual em todos os anos anteriores. Mas ela não conseguia acreditar. Era como se algo na atmosfera estivesse lhe dizendo que as coisas dariam errado. Talvez fosse apenas o seu nervosismo sendo externado já que a coreografia era completamente similar a do ano passado.
– Assim você vai deixar todos nós malucos. – falou ao parar de frente para a amiga, obrigando a ficar parada. – Vai dar tudo certo, você é a melhor patinadora da cidade.
– A coreografia poderia ser mais elaborada, e se não nos classificarmos? – confessou seus pensamentos e rolou os olhos, sabia muito bem quem tinha semeado aquela insegurança em .
– Você realmente ouviu o que a sua mãe tinha para falar antes da apresentação? – questionou já sabendo a resposta, mas não conteve o revirar de olhos ao receber um balançar de cabeça como concordância. – Você sabe o quanto isso te deixa mal, .
– Eu já estava insegura sobre a coreografia, e então ela me mostrou que é basicamente semelhante ao que apresentamos no último ano. – o tom de voz de demonstrava todo o seu nervosismo. – Patrick decidiu incrementar com alguns saltos, mas não acho que nós treinamos o suficiente.
– Se você não está se sentindo confiante, não faça. – aconselhou, mas recebeu um balançar negativo de cabeça como resposta.
– Eu não tenho medo de fazer, eu sei que eu posso fazer tudo. – murmurou e franziu o cenho. – A minha preocupação é o Patrick.
– Se você acha que ele não consegue, não tente. – suplicou.
– Ele acha que consegue. – deu de ombros, disposta a não confessar que ela mesma não acreditava no parceiro. Mas que credibilidade ela possuiria em futuras apresentações se nem ela mesma conseguia sentir confiança em seu parceiro? – Eu acredito nele.
– Boa sorte, preciso começar a me arrumar para a minha apresentação. – abraçou fortemente a amiga e foi retribuída. – Você vai arrasar como sempre.
estralou os dedos, disposta a dissipar todo o nervosismo que sentia, e suspirou fundo deixando todas suas preocupações para trás. Caminhou com cuidado até o espelho presente no local e admirou sua imagem refletida no espelho. O cabelo preso perfeitamente em um coque, a maquiagem básica e o vestido branco de um ombro só com manga longa – confeccionado unicamente para aquela apresentação – e detalhes similares ao de um tecido rendado em conjunto com a meia-calça grossa que faziam com que se sentisse mais calma devido ao quão bela estava.
Saiu do pequeno cômodo e se dirigiu até a entrada do túnel por baixo da pequena arquibancada que os levaria em direção ao rinque. Ouviu um instrumental começar a tocar e não conteve a vontade de assobiar o ritmo, afinal já tinha usado aquela música em uma apresentação.
Parou próxima a Patrick, mas sua atenção estava focada na patinadora solo que se apresentava no rinque. Uma das coisas favoritas de na competição de Crystal Lake era a ordem criada para que os concorrentes se apresentassem. Diferente de todas as outras competições que possuíam uma ordem específica de grupos, ali era a única que os classificava por ordem de matrícula.
Bateu palmas ao observar o fim da apresentação em um perfeito avião. sabia que Anne estava melhorando sua composição, a escolha da música era um claro sinal, mas a perfeita execução dos passos era o que impressionava a mais velha.
e Patrick Hansem. – a voz grossa do organizador ecoou por todo o local, fazendo com que encarasse seu parceiro com um sorriso ansioso nos lábios enquanto tirava rapidamente as proteções das lâminas de seus patins e entregava para sua equipe.
Estendeu a mão da direção de Patrick e assim que sentiu o toque de seu par em sua mão, tinha se transformado na patinadora. O sorriso alegre estava em seus lábios conforme adentrava ao rinque. Ali naquela pista, não se sentia ansiosa com o futuro de sua apresentação. Deslizando suavemente por toda a extensão do rinque, a única coisa presente em seu corpo era a vontade de ganhar.
parou no centro da pista e abaixou a cabeça, mantendo o olhar preso no gelo abaixo de seus pés. Sentiu quando Patrick parou próximo a si, permanecendo completamente parado até que a música começasse. A primeira nota do instrumental soou e levantou o rosto, encarando a plateia no mesmo momento que Patrick segurava em sua cintura com uma das mãos enquanto a outra levantava o braço de sua parceira.
Afastaram-se rapidamente na segunda nota e virou de costas para a plateia, ficando de frente para seu par. Começaram a deslizar pela pista assim que a música começou, repetindo os passos um do outro em perfeita sincronia como o espelho entre os dois deveria ser. Realizaram um waltz jump em um sincronismo invejável. Deram mais algumas voltas pela pista, revezando entre saltos e coreografia. Realizaram o axel triplo, recebendo diversas palmas da arquibancada e abriu ainda mais o sorriso.
afastou-se de Patrick, refazendo o caminho em um longo deslize em linha reta, pronta para entrar em seu flip . Sentiu todo o seu corpo tremer em excitação quando notou que Patrick já estava posicionado para que eles realizassem twist lift. Patinou de costas até o seu par, prendendo a respiração no exato momento em que sentiu seu corpo ser arremessado ao ar. Contou os segundos conforme rodopiava no ar – como sempre estava acostumada a fazer – e sentiu-se aflita ao notar que tinham se passado mais tempo do que o correto.
Sentiu seu corpo rodar, disposto a seguir com outro rodopio e viu rapidamente a expressão apavorada no rosto de Patrick. A perna de foi ao encontro do braço estendido de sua dupla, fazendo com que a patinadora perdesse o equilíbrio. Após isso, tudo aconteceu em uma mínima fração de segundos. Patrick recolheu o braço, já que a lâmina de cortou seu pulso. não conseguiu retomar o controle ao tentar finalizar o salto sem que acontecesse mais complicações e em sua tentativa de aterrissagem apenas uma perna tocou o chão, mas não foi o suficiente para que se equilibrasse já que Patrick não estava ali como um apoio.
A queda foi inevitável, fazendo com que um joelho de colidisse no gelo, sendo seguido de sua cabeça. sabia que após uma pancada na cabeça o menos recomendável era dormir, mas o chão gelado e a dor que sentia lhe imploravam para que ela fechasse os olhos. piscou os olhos – eles estavam demasiadamente pesados para que permanecessem abertos – e a última coisa que focou antes de tudo se transformar em um apagão foi o sangue escarlate que agora coloria o gelo próximo a si.

– Preciso ir embora. – murmurou e abandonou o copo sobre a bancada, saindo da cozinha e ignorando os chamados de .
sabia que não deveria ter voltado para a patinação tão cedo, sua mente ainda estava extremamente abalada pelo trauma e ela sabia que não se sentia devidamente pronta para voltar ao rinque ou para encarar todas as faces que tinha visualizado pouco antes de tudo dar errado. Tinha percebido isto pela manhã, quando notou que abortava no último segundo todos os movimentos que a fariam sair – mesmo que minimamente – do gelo.
Saiu apressada da casa, esbarrando em algumas pessoas pelo caminho e ignorou os resmungos e protestos que lhe eram dirigidos. Os sons não passavam de simples burburinhos inaudíveis, sua mente estava demasiadamente focada na cena presente em seu subconsciente e sequer ouvia o que acontecia no mundo real.
Saiu do pequeno transe ao parar na pequena varanda da casa, sentindo a lufada de ar fria contra seu corpo desprotegido despertar-lhe dos pensamentos obsessivos. Amaldiçoou Crystal Lake e sua maldita temperatura fria, xingando-se mentalmente por não ter pego o sobretudo.
O vestido preto, curto e decotado agora lhe parecia a ideia mais estúpida de todas as que tivera naquele dia – as quais foram muitas –, mas queria sentir algo além do medo e do receio que percorriam por cada centímetro de sua pele e emanavam de seus poros.
– Assim você vai acabar pegando uma hipotermia. – a voz de soou a suas costas e a patinadora virou, encarando o sorriso que ele lhe oferecia em conjunto com o sobretudo estendido em sua direção.
– Obrigada. – murmurou ao pegar o casaco, não contendo um suspiro aliviado ao sentir o tecido quente em seus braços.
– Já está indo embora? – questionou sem conseguir conter a curiosidade e riu fraco.
– Eu nem deveria ter vindo. – murmurou contrariada e virou–se novamente, disposta a ir embora.
– Senti falta da sua presença nas outras festas. – falou em um rompante de coragem ao segurar delicadamente o pulso de , impedindo-a de ir embora. – Não queria que você fosse embora.
– Mas estou indo. – murmurou e rompeu o contato entre suas peles. – Não consigo ficar nem mais um segundo aqui.
– Então eu te levo para casa. – falou decidido e arqueou as sobrancelhas. – Está tarde, não vou deixar que vá sozinha.
– Vou chamar um carro pelo aplicativo. – sacou o celular do bolso e começou a mexer no aparelho. – Não precisa se preocupar.
– Meu preocupo sim. – tocou em seu pulso novamente, desta vez abaixando suavemente sua mão. – Eu já estou aqui, vou te levar embora.
– Mas...
– Não adianta rebater, . – murmurou e começou a fazer o caminho para a saída da casa. – Não precisa se preocupar, ninguém vai saber que sou eu quem estou te levando para casa.
não conteve o tom de voz irônico ao pronunciar a última frase, ele sabia que o maior problema de era o fato de não querer ser vinculada a ele. Soltou o ar que nem notara que estava prendendo ao não obter nenhuma resposta de , caminhando o percurso inteiro em longo e incômodo silêncio.
Ele tinha tanto para falar e perguntar, mas sabia que seria completamente ignorado. Conhecia desde pequena e já tinha se acostumado a todos os jeitos, trejeitos e opiniões dela. A única coisa que ele não tinha se acostumado – e muito menos compreendido – era como conseguia ser tão destemida na maior parte das vezes, enquanto para outras possuía extremo medo.
Seguiram em silêncio até o carro de , que abriu a porta do carona para que entrasse. Deu a volta no veículo e sentou-se no banco do motorista, olhando rapidamente na direção de antes de dirigir para longe do clube de sua família.
– Por que tudo o que você faz é aqui? – a voz de rompeu o silêncio enquanto seguiam em direção da sua casa.
– Como assim? – encarou pelo canto dos olhos e observou quando ela deu de ombros.
– As festas, tudo o que você faz, sempre é no clube. – respondeu mantendo o olhar preso na paisagem que passava rapidamente pela janela a seu lado.
– Motivos pessoais. – murmurou seco e voltou a atenção para a estrada.
Não gostava de falar sobre aquilo, odiava quando vinham com aquele questionamento, nunca respondia aquelas questões. E com não seria diferente. Talvez no passado compartilhasse aquilo naturalmente com ela, mas não agora que a mulher parecia nutrir um leve sentimento de ódio e indiferença por ele.
Se as coisas tivessem sido diferentes na noite que ela foi em sua festa...
– Como anda a preparação para o programa curto? – questionou, disposto a não deixar que a atmosfera pesasse – ainda mais – dentro do carro.
– Não tem preparação. – respondeu de modo seco. – Não tenho parceiro, equipe ou qualquer porra que eu precise.
– Eu estou sem parceira. – murmurou tentando soar indiferente.
virou-se, de modo que seu queixo ficou apoiado em seu ombro, encarando atentamente a expressão neutra de enquanto seus olhos estavam fixos na pista a sua frente. Franziu o cenho ao encarar e mordeu o lábio inferior, sabia onde ele chegaria com aquele assunto.
– Tenho uma equipe inteira. – continuou a falar e olhou rapidamente para o lado, sorrindo ao notar que parecia estar cogitando o que ele insinuava. – Podemos ser uma dupla.
– Não sei se é uma boa ideia. – murmurou e voltou o olhar para a janela. – Talvez eu retorne para a patinação individual.
– Minha proposta está de pé. – sorriu abertamente e estacionou o carro na frente da casa.
– Obrigada pela carona e pela proposta. – direcionou-se para a alavanca da porta, mas foi impedida pelo toque singelo de em seu pulso.
– Minha proposta está de pé desde o ano passado. – falou com um tom de voz mais baixo e sentiu os arrepios percorrendo seu corpo. – Mas só posso mantê-la até segunda.
– Te deixarei ciente da minha decisão até lá. – sorriu sem mostrar os dentes e abriu a porta do carro. – Obrigada, de verdade.
realmente se sentia agradecida, tanto pela carona – já que odiava depender do Uber e ter que andar em carro de desconhecidos – quanto por saber que a proposta de – dita a ela meses antes quando os dois encontravam-se nus dividindo a mesma cama – era verdadeira e ainda continuava de pé.
– Podia me agradecer com um beijo. – falou mais alto para que o escutasse – já que a mesma saía do carro – e debruçou-se no estofado do banco, mantendo o olhar preso na feição descrente de .
– Boa noite, . – murmurou fechando a porta do carro.

(...)

She’s not afraid of all the attention
(Ela não tem medo de toda a atenção)
She’s not afraid of running wild
(Ela não tem medo de ser livre)
How come she’s so afraid of falling in love
(Como ela tem medo de se apaixonar?)
She’s not afraid of scary movies
(Ela não tem medo de filmes de terror)
She likes the way we kiss in the dark
(Ela gosta do jeito que beijamos no escuro)
But she’s so afraid of f-f-falling in love
(Mas ela tem tanto medo de se-e-e apaixonar)

(...)


fitou o grande rinque de patinação a sua frente e adentrou a pista, deixando-se deslizar sem rumo pelo gelo polido. Poderia fazer aquilo, sabia que não precisava ter medo. Respirou fundo e parou o simples deslizar que fazia, voltando a patinar novamente pela pista.
Encarou a enorme pista vazia. Gostava de treinar cedo, principalmente aos sábados, já que quase sempre era a única a utilizar o local naquele horário. Eram poucos os patinadores que iam treinar sábados, principalmente às seis da manhã. Sentia-se calma naquele local iluminado apenas pelas lâmpadas, sentia-se corajosa a tentar voltar com seus saltos enquanto ninguém ali a observava.
impulsionou a perna esquerda e dobrou a direita após levantar a mesma. Juntou as mãos na frente do corpo e deixou as pernas separadas de forma que as duas começassem a esticar. Rodou no ar com perna direita para trás e pousou com perfeição, a perna direita lhe dando apoio enquanto a esquerda estava esticada para trás. Os braços que outrora estavam na frente de corpo, agora encontravam-se estendidos e retos ao lado do corpo.
Sorriu satisfeita, tinha realizado com perfeição um axel e sentia-se satisfeita como da primeira vez que tinha aprendido aquele movimento. Sua respiração entrecortada e desregulada denunciava seu nervosismo, mas não se importava. Tinha conseguido realizar um salto – básico se levado em comparação aos que fazia antigamente –, e isso já era uma vitória.
Ouviu o som de palmas atrás de si e saiu da posição final do axel, virando-se sobre as lâminas na direção do som e encarando , que possuía o olhar preso nela enquanto um sorriso aberto ocupava os lábios do homem. Um sorriso satisfeito por ver que não abortou o salto, como tinha feito em todas as outras tentativas no dia anterior.
– Achei que você não viria hoje, ou nos próximos dias. – murmurou e arqueou as sobrancelhas. – comentou que você citou desistir da patinação.
– Não desisti da patinação e nem irei. – murmurou de modo debochado e cruzou os braços à frente do corpo. – Apenas não me sinto preparada para patinar na frente de outras pessoas.
– Observei suas tentativas ontem, você desistiu de todos os saltos. – deu de ombros. – Achei que tinha decidido se ausentar do rinque.
– Patinar é como respirar, não conseguiria viver se não o fizesse. – falou sincera, era daquela forma que sentia. – Sempre que eu paro, é como se eu não servisse para mais nada. Eu fui criada para isto, é a única coisa que eu sei fazer.
Sentia-se estranha ao confessar aquilo para , mas manter para si mesma estava fazendo apenas com que ela se sentisse sufocada. Não sabia se estaria em condições – psicológicas e artísticas – de patinar perfeitamente em uma competição, mas estava disposta a descobrir.
– Você pode ter sido criada para isto, mas não é a única coisa que sabe fazer. – rebateu de modo sincero.
– Eu aceito. – murmurou baixo, porém conseguia ouví-la com perfeição devido ao fato de que eles eram os únicos ali.
– O quê? – questionou com um sorriso nos lábios – por mais que soubesse do que se referia – aumentando o sorriso ao ver a mulher revirando os olhos.
– Ser sua parceira. – aumentou o tom de voz que antes não passava de um murmuro e manteve o olhar fixo ao de . – Eu aceito.
sabia que provavelmente se arrependeria daquela escolha em um futuro não tão distante, mas ela não estava disposta a migrar – novamente – para a patinação solo. Tinha medo do que poderia acontecer com todos os treinos e todo o contato que teria com a partir daquele dia, mas precisava se arriscar.
– Podemos começar a treinar na segunda, dispensei minha treinadora hoje. – falou ao trocar o peso das pernas.
– Sem problemas. – murmurou e voltou a deslizar simplesmente pelo rinque, sendo acompanhada de . – Achei que não estaria aqui hoje.
– O jeito que eu levo a vida não me impede de cumprir com as minhas obrigações. – responde de modo cínico e arqueou as sobrancelhas. – Sempre fui um bom patinador.
– Em nenhum momento neguei isso. – rebateu. – Apenas disse que achei que você não estaria aqui, já que, provavelmente, foi dormir altas horas da madrugada.
– Eu não dormi, . – murmurou risonho.
– Seis e pouca da manhã, de ressaca, sem dormir e com a equipe dispensada. – falou ao parar de patinar, encarando dos pés a cabeça. – Qual o motivo de você estar aqui?
– Vim patinar. – respondeu cinicamente e parou à frente de , rodando sobre as lâminas para que ficasse de frente para ela.
– Você não treina aos sábados, muito menos nesse horário. – cruzou os braços e observou quando o homem abriu um sorriso de lado.
– Queria ver se minha parceira conseguiria patinar hoje. – confessou com o tom de voz sério e fixou o olhar no de . – Agora que você é a minha parceira, não aceito nenhum lugar no pódio que não seja o primeiro.
– Traumatizado por causa de todas as vezes que eu lhe privei de ganhar uma competição? – arqueou as sobrancelhas em sinal de desafio e sorriu de modo debochado.
– Satisfeito por formarmos a melhor dupla. – piscou maliciosamente e voltou a patinar.
girou suavemente ao chegar próximo a , preparando-se para entrar de costas no salto. A perna esquerda lhe dava o apoio necessário e a direita estava reta e elevada, pousando no gelo – por meros segundos – apenas para lhe dar o impulso necessário. Juntou os dois tornozelos em sinal de x ao ser elevado e juntou os braços à frente do corpo, rodando três vezes no ar. Aterrissou de costas, porém quem lhe dava apoio era a perna direita, enquanto a esquerda estava à frente de seu corpo.
Flexionou a direita e abriu os braços conforme direcionava a perna esquerda – pelo lado do corpo – para trás. Estendeu os braços pouco mais acima da linha de seu ombro ao ter a perna esquerda na altura e posição desejada. Deslizou com a única perna no chão e virou-se na direção de , ficando de frente para a mesma ao finalizar o salto.
– Convencido. – resmungou após encarar admirada o salchow triplo realizado com perfeição e maestria.
– Sabe que isto não é nada espetacular para patinadores como nós. – sorriu abertamente ao se colocar ereto no gelo, usando as duas pernas como apoio. – Você faz um salchow vistoso desde os doze anos.
– Dez, na verdade. – sorriu abertamente. – Com doze eu já fazia o triplo.
– Exibida. – rebateu risonho e deu de ombros. – Vai querer treinar alguns passos hoje?
– Não sei. – o sorriso de sumiu do rosto e franziu o cenho.
– Não precisamos realizar saltos ou qualquer outro passo que lhe deixe insegura. – sorriu de modo compreensivo e estendeu a palma da mão na direção da patinadora. – Podemos apenas patinar pela pista enquanto procuramos uma harmonia.
analisou rapidamente a situação e a mão estendida em sua direção, cogitando em sua mente os prós e contras daquela pequena ação. Suspirou fundo, sabendo que independentemente dos contras, eles não teriam de fato uma utilidade. Ela negaria o pedido de e patinaria sozinha, mas segunda-feira não teria qualquer desculpa que pudesse lhe salvar.
Ela precisava de um parceiro, tinha se oferecido para o posto e – o mais importante de todos – ela tinha aceito. Não poderia evitar de ter contato com ele, se encontrariam no mínimo quatro vezes por semana e passariam incontáveis horas juntos. Com isto em mente, pousou a mão sobre a palma de , porém o singelo toque e os olhares fixos um no outro os transportaram para meses antes.

A música alta soava abafada dentro do cômodo escuro. prensava o corpo de contra a porta e suas mãos seguravam fortemente a cintura da mulher, forçando ainda mais o contato entre seus corpos. O beijo afobado e desesperado era a definição perfeita de como se encontrava naquele momento.
Vinha sonhando há meses – alguns anos, sendo exato – em como seria beijar e o quanto queria fazer aquilo. Agora que seus lábios se chocavam com força e o calor de seus corpos pareciam demasiadamente intensos para aquele quarto, sentia-se satisfeito por não ser igual a nenhuma das vezes cujo imaginou aquela cena. Beijar era ainda melhor do que sua mente idealizou.
mantinha uma mão arranhando a nuca de e a outra dentro de sua camisa, fazendo o mesmo. Conforme continuava a beijá-lo, apenas dois pensamentos corriam por sua mente. Primeiro, se arrependia de ter negado à vontade por tanto tempo. Segundo, agora compreendia a razão pelo qual o patinador era um tópico sempre presente nos assuntos femininos.
Romperam o beijo – clamando por falta de ar – e afastaram-se poucos milímetros, com os lábios ainda se roçando levemente e as respirações entrecortadas misturadas. Não precisavam falar nada, tudo o que queriam estava explícito na troca de olhares.
afastou-se, levando as mãos que estavam em na direção da própria blusa que utilizava. Sorriu abertamente na direção da patinadora e rompeu o contato visual apenas quando tirou a blusa, jogando-a de qualquer jeito no chão do quarto. Voltando a encarar e observando-a morder os lábios enquanto o admirava.
focou a atenção no tronco nu de , não podia negar que o desgraçado era gostoso. Os anos de patinação em conjunto com o treinamento diário proporcionaram um ótimo condicionamento físico além de uma aparência bastante agradável para os olhos.
Não esperou que diminuísse a distância – tinha medo de parar e pensar quanto arrependimento aquilo lhe proporcionaria –, puxou-o pela nuca e colou seus lábios novamente, beijando-o de modo feroz. Desceu a mão pelo dorso do patinador, sorrindo entre o beijo ao sentir a pele arrepiar e as costas arqueadas.
O baque do corpo de contra a porta fez com que a mesma soltasse um gemido, arqueando a perna até a altura da cintura de . O patinador rompeu o beijo, prendendo o lábio inferior de entre os dentes e puxando-o. Apoiou as mãos na bunda de e levantou-a, de modo que cruzasse as pernas ao redor de sua cintura.

– Eu estou na merda. – o tom de voz sofrido e rouco de ecoou por todo o rinque.
Um choque de realidade correu por todo o corpo dos dois patinadores, fazendo-os se afastarem em um rompante e cortarem o contato gelado entre suas mãos. Os olhos de estavam levemente arregalados enquanto a jovem mordia fortemente o lábio inferior. observava aquela cena com um brilho de diversão nos olhos e um sorriso aberto nos lábios, tinha certeza que tinha sido levada para a mesma lembrança que ele.
– Maldita hora que eu fui para a sua festa, . – a mais nova falou ao entrar no rinque.
– Eu estou bem. – arqueou a sobrancelha de forma irônica e lhe estendeu o dedo do meio.
– Você é um fodido. – resmungou ao parar próxima aos amigos. – Nadia chegou lá em casa me gritando. Com uma treinadora dessas eu não preciso de inimigo.
– Pelo menos você tem uma treinadora. – deu de ombros e murmurou ultrajado.
– Ei, você também tem. – rebateu e abraçou pelos ombros, encarando e sorrindo abertamente. – Somos uma equipe.
– Já deixo dito. – começou com um sorriso nos lábios e encolheu os ombros, nervosa pelo braço de ao redor de seu corpo e pelo que a amiga poderia falar. – Melhor casal da patinação em duplas.
– Não somos um casal. – rebateu e afastou-se do abraço lateral.
– Ainda, . – sorriu abertamente e revirou os olhos.
– Vai ser uma comédia ver vocês dois treinando juntos. – murmurou risonha.
– Vamos tentar axel duplo? – questionou quando se afastou e arregalou os olhos. – Não precisa me encarar assim.
– Mas...
– Você precisa tentar. – murmurou e suspirou baixo, concordando com um balançar de cabeça.
deslizou pelo rinque – não indo para tão longe de – e impulsionou a perna esquerda de modo que dobrou levemente a direita, tirou-as pouco centímetros do chão e desistiu de saltar, abortando-o instantaneamente e pousando rapidamente no chão, desequilibrando-se um pouco.
– Eu não consigo, não posso recriar esse passo. – murmurou com o olhar preso no gelo enquanto arrumava a postura.
– Você precisa confiar em mim para que isto dê certo. – segurou-a pelos ombros e apoiou uma de suas mãos no queixo de , de modo que ela não tivesse outra opção a não ser encará-lo nos olhos. – Eu nunca vou te deixar cair.


(...)
Maybe she’s just trying to test me
(Talvez ela só está tentando me testar)
Wanna see how hard I’m gonna work
(Quer ver o quão duro eu posso trabalhar)
Wanna see if I can really tell how much she’s worth
(Quer ver se eu posso realmente dizer o quanto ela vale)
What do you worth
(O que você vale)

(...)

Katarina revirou os olhos e cruzou os braços à frente do corpo, sua visão sangrava ao observar e dançando como se o mínimo toque entre eles fosse capaz de causar uma combustão instantânea no local. Tinha os dois melhores patinadores juvenis de toda a cidade e de nada lhe adiantava, já que pareciam possuir um escudo que lhes repeliam um do outro.
– PAREM. – a treinadora gritou e os dois pararam imediatamente os movimentos espelhados que faziam. – Eu não consigo assistir nem mais um minuto desse martírio.
– Mas...
– Não me interrompa, . – rebateu nervosa. – Como vocês vão encantar os juízes se nem ao menos se tocam? É mais fácil vocês arrumarem outros parceiros ou então irem para a patinação solo.
– Não gosto do fácil. – respondeu e postou-se na posição inicial da coreografia. – Vamos começar novamente.
apenas concordou com um balançar de cabeça e parou na frente de , mantendo uma distância maior do que a necessária. Sabia que a culpa era sua por Katarina estar revoltada com a forma que eles estavam coreografando, mas não conseguia ficar menos retraída estando tão próxima de .
– Vamos, , você não precisa ter medo de mim. – falou ao usar a mão pousada na cintura da patinadora para puxá-la mais para perto. – Sabe que eu só mordo se você pedir.
sorriu ladinamente ao notar o leve arrepio de ao sentir sua respiração tão próxima a nuca. Apertou a cintura da mulher fortemente e endireitou a postura, mantendo o olhar preso na patinadora a sua frente e notando que a mesma estava levemente travada.
– Vou colocar a música mais uma vez. – Katarina falou alto, completamente alheia aos pensamentos dos dois patinadores.
– Precisamos disso para ir para as Olimpíadas, . – proferiu baixo, próximo ao ouvido da parceira, recebendo um singelo balançar de cabeça como resposta.
O ritmo musical começou a soar baixo pelo local, aumentando gradativamente conforme os patinadores moviam suavemente as mãos de modo sincronizado e com os olhos fixos na plateia imaginária de frente para eles.
A mão de que estava pousada na cintura de a apertou sutilmente – em uma forma de lhe dar apoio – conforme girava a patinadora em sua direção. Manteve uma das mãos na cintura de e enlaçou os dedos da outra na mão estendida que a parceira estava no ar, de modo que a mão esquerda pousava sobre o ombro de .
O olhar de virou-se para a lateral, de modo que não encarasse mais o patinador, lhe causando um pequeno alívio. Alívio esse que sumiu segundos depois, ao sentir o rosto de levemente inclinado para baixo, com a testa contra seus cabelos.
Tudo aquilo era mais do que aguentava. A proximidade de , a respiração ansiosa que batia em seu rosto, o modo como suas mãos a seguravam com tamanha precisão. Ela não estava preparada para aquilo, não conseguia raciocinar corretamente e aquilo estava começando a balancear seu desempenho.
Não notou quando a música de fato iniciou, deixando que deslizasse sozinho pela pista. Sentiu falta do toque das mãos de contra sua pele – a única coisa ali capaz de lhe proporcionar um leve sentimento de calor – e então constatou que estava atrasada na coreografia.
– Acho melhor pararmos a coreografia por aqui. – Katarina falou ao pausar a música. – Eu disse que vocês precisavam estar conectados antes de simplesmente aprenderem a coreografia. Não se cria a conexão após a coreografia.
– Eu só queria saber se a se enquadraria bem na coreografia que já estava pronta. – murmurou e deu de ombros ao parar próximo de sua parceira.
– Claro que ela se enquadra, eu fiz pensando em vocês dois. – a treinadora – e coreógrafa – falou com um sorriso nos lábios. – Sempre soube da sua vontade de ser parceiro dela, imaginei que agora que teria a oportunidade, não sossegaria até conseguir.
– Mimado. – rebateu em um murmúrio baixo, porém os outros dois escutaram perfeitamente.
Katarina gargalhou conforme balançava a cabeça positivamente, concordando com a fala de . encarava as duas com uma expressão séria e uma sobrancelha arqueada.
– Bom, estou indo, crianças. – Katarina falou ao se recuperar dos risos. – Mas vocês não estão dispensados. Quero que vocês criem uma conexão, ou então não os inscreverei no campeonato do condado.
arregalou os olhos ao ouvir a sentença de Katarina e fixou os olhos na treinadora que caminhava calmamente na direção da saída. Virou o rosto na direção de apenas quando perdeu a mais velha de vista e notou o parceiro com a expressão usual de calma em sua face.
– Você ouviu o que ela falou? – questionou de modo nervoso e acompanhou sair do rinque.
– Sim. – respondeu simplesmente e sentou-se em um dos bancos distribuídos por ali, pegando as proteções da lâmina e colocando-as.
– Você ao menos se importa com isso? – levantou o olhar dos patins e focou na figura feminina a sua frente com os braços cruzados.
– Claro que sim, . – falou ao levantar-se, parando de frente para a mesma e imitando sua pose. – Mas Katarina está completamente certa. Precisamos de uma conexão, precisamos estar na mesma sintonia dentro daquele rinque.
– Não vou transar com você apenas por causa disto. – rebateu e franziu o cenho.
– Em nenhum momento citei sexo. – deu de ombros e suspirou frustrado. – Você é maravilhosa, . Mas tudo o que eu quero atualmente é que nos demos bem dentro do rinque, não quero você ocupando nenhum lugar em minha vida a não ser o de melhor patinadora e parceira.
mordeu o lábio inferior de forma automática – algo que sempre fazia quando estava nervosa – e engoliu em seco, sentindo o peso de suas mentiras entalado em sua garganta. Queria ser sincero, queria dizer que almejava ter em sua cama todos os dias – e não só por uma noite –, mas sabia que receberia um enorme não e que, provavelmente, ainda a perderia como parceira.
– Acho que devemos ir no Rob’s. – disse simplesmente e franziu o cenho, não tinha compreendido a mudança repentina de assunto. – Podemos conversar sobre algumas coisas, tentar criar uma conexão enquanto tomamos um milk-shake.


(...)


As unhas de batiam em um movimento rítmico e repetitivo, chocando-se contra a madeira da mesa e produzindo um barulho incômodo. Estava completamente agasalhada e mesmo dentro da lanchonete – levemente mais aquecida que o exterior – ainda sentia algumas partes de seu corpo tremerem em forma de protesto pela baixa temperatura. Crystal Lake tinha apenas três estações, cuja as quais eram outono, inverno e Antártica, como gostava de nomear.
– Seu milk-shake de menta com chocolate. – falou conforme deslizava o enorme copo na direção da parceira.
– Não sei como você consegue beber isso. – murmurou com o olhar preso no conteúdo amarronzado a sua frente.
– O de caramelo é o melhor, fim de papo. – falou com o canudo preso entre os lábios.
– Acho que vou desistir de tentar lhe dar uma chance depois dessa. – arqueou a sobrancelha e sorriu ladino. – Uma chance para a gente se conhecer melhor, não pense besteira, .
– Você é uma das poucas pessoas que me chamam de , é estanho. – murmurou com uma careta no rosto e recebeu um balançar de ombros como resposta. – Por você eu abandono o milk-shake caramelo.
– Não faça promessas que não está disposto a cumprir. – quebrou o contato visual, afinal aquela frase possuía muito mais sentido do que apenas sobre a bebida.
– Sempre estou disposto a cumprir as promessas que eu faço para você. – falou sério e manteve o olhar preso no rosto de .
Sabia o que ela queria dizer com aquela simples frase, tinha entendido muito bem o significado escondido. Mas também sabia que apenas acreditava no que queria, disposta a não crer em nada que abalasse as certezas que a mesma possuía.
– Como você se sente ao voltar para o rinque após os acontecimentos? – questionou, disposto a mudar de assunto e não deixar que um estranhamento pairasse entre eles novamente.
– Eu achei que eu me sentia com medo, mas eu me sinto ansiosa. – murmurou com o olhar preso no canudo que rodava entre seus dedos. – Não estou com medo de cair, mas não me sinto preparada para realizar a maioria dos saltos.
– Podemos começar pelo básico, ir aumentando a dificuldade dos saltos aos poucos. – o tom de voz gentil fez com que levantasse o olhar, fixando-o em , que a encarava com um sorriso leve nos lábios.
– Isso acabaria atrasando você. – rebateu. – Eu não consigo mais realizar um movimento, que era tão banal e costumeiro como caminhar.
– Não tenho pressa. – deu de ombros e retomou a falar quando notou que o contestaria. – Não me importo de acabar perdendo uma competição pelo prazo, a única coisa que importa é a minha parceira voltando a ser a patinadora que era antes.
A troca de olhares estava intensa e sentia seu corpo aquecido enquanto as palavras de confortavam sua mente. possuía um sorriso enorme e sincero nos lábios, demonstrando que tudo o que falou era verdade. Não se importava com a Quad, o Four ou qualquer outra competição. Queria ir para as Olimpíadas, mas esperaria com prazer o tempo suficiente até que se sentisse perfeitamente apta a entregar todo o seu potencial no rinque.
– Por você vale a pena esperar. – respondeu mantendo o sorriso nos lábios.
Tinha esperado anos para tê-la em sua cama, esperou meses para que ela – finalmente – fosse sua parceira. Não se importava em quanto tempo precisaria esperar para que fossem para as Olímpiadas, a única coisa com a qual ele se importava estava ali, parada a sua frente saboreando um sabor milk-shake enquanto o frio lá fora castigava a cidade.
sabia por alto a história de em relação a sua mãe e tudo o que envolvia a patinação. As coisas não eram fáceis – lhe confessou isto uma vez –, principalmente os ataques da mãe em relação ao desempenho na patinação da filha, e ele queria que compreendesse todo o valor que ela tinha.
Não podia negar que era atraído pela mesma, mas a atração era tanto por ela como pessoa e como patinadora. Adorava o jeito arisco e decidido que possuía, como amava da mesma forma o amor e dedicação que ela demonstrava sempre ao patinar.
Queria mostrar a o quanto ela valia.


(...)

Maybe all her friends have told her
(Talvez todas as suas amigas disseram pra ela)
Don’t’ get closer he’ll just break your heart
(Não se aproxime, ele vai apenas partir seu coração)
But either way she sees in me and it’s just so hard
(Mas de qualquer jeito ela vê isso em mim e é tão difícil)
So hard, cuz’ every time I tell her how I feel
(Tão difícil, porque toda vez que eu digo como eu me sinto)
She says it’s not real
(She says it’s not real)

(...)


recostou-se ao vidro que separava o gelo da pequena arquibancada e apoiou os cotovelos ali. Encarou o rinque mais cheio do que era usualmente e passou o olhar por todos os que treinavam por ali, reconhecendo alguns rostos. Não gostava de treinar à tarde exatamente por aquele motivo, preferia a calmaria que o rinque possuía durante a manhã.
Patinou sem pressa até a saída lateral e pegou a proteção das lâminas, colocando-as nos patins e caminhando para a parte do clube que ficava mais distante do rinque. Seguiu pelas mesas espalhadas próximas a pequena lanchonete presente ali e avistou sentada no local com mais duas patinadoras.
– Ao que devo a honra de sua presença? – murmurou divertida ao encarar a amiga. – Não foi almoçar com o seu par hoje?
– Ainda não treinamos. – murmurou simplesmente e arqueou as sobrancelhas. – tinha um compromisso, marcamos o treino para uma da tarde.
– E você chegou mais cedo para treinar sozinha, como sempre. – completou e deu de ombros.
A amiga já sabia que ela gostava de se aquecer e patinar um pouco antes de finalmente começar o treino em dupla, estava acostumada com aquilo desde sempre.
– Fiquei surpresa quando soube que você estava patinando com o . – Gyneth, a outra patinadora, falou.
– Não sei o motivo. – rebateu e sentou-se na cadeira livre ao lado de .
– Ah, você sabe. – Adara intrometeu-se no assunto. – Por tudo o que falam do .
mordeu o lábio inferior, sabia de tudo o que falavam do patinador e ela não negava ter ficado com um pé atrás antes de aceitar ser sua parceira. Mas não tinha do que reclamar, era o melhor companheiro de equipe que ela já teve – e olha que não foram poucos.
– Que ele é um ótimo patinador? – questionou com um sorriso cínico e arqueou as sobrancelhas. Não estava acostumada com a amiga defendendo .
– Você entendeu o que queremos dizer, . – Adara murmurou. – Todas as parceiras do acabam com a dupla porque ele sempre ilude elas.
– Ele já disse que não quer nada comigo, só ser meu parceiro. – deu de ombros e riu.
– E você acreditou? – murmurou desacreditada e a amiga concordou com a cabeça. – Você sabe que é louco por você.
– Ou era. – Gyneth replicou com o olhar além de , fazendo com que a mesma virasse o rosto sobre o ombro para encarar o que a outra patinadora tanto olhava.
caminhava de modo calmo na direção dos vestiários, com um sorriso amplo nos lábios. A mão esquerda segurava firmemente a alça de sua bolsa e a mão esquerda estava pousada na cintura de uma garota um pouco menor que ele.
virou o rosto para frente rapidamente e engoliu em seco. Seu corpo formigava e a paciência usual – que já era pouca – tornou-se mínima. Não acreditava que tinha simplesmente trocado a hora de seus treinos para se encontrar com a antiga parceira.
– Vou me aquecer. – disse para as patinadoras e levantou-se no segundo seguinte, disposta a não escutar o que quer que fosse que tentariam lhe dizer.
Ignorou o chamado de ao passar próxima a ele e continuou seguindo reto, a única coisa capaz de tirar-lhe toda a frustração era o seu amado rinque. Apoiou-se com uma das mãos no suporte de vidro e retirou rapidamente as proteções das lâminas, jogando-as de qualquer jeito no chão.
Entrou no rinque e a superfície lisa em conjunto o ar levemente mais frio a fizeram se sentir minimamente relaxada. Deslizou pelo gelo e desligou-se completamente dos pensamentos e dos movimentos que fazia.
Girou sobre as lâminas e ao ficar de costas, apoiou-se apenas na perna direita, mantendo-a no chão e elevando a esquerda. Juntou os braços – em forma de X – na frente do corpo e impulsionou o salto com a perna direita, de modo que a esquerda permanecesse levemente dobrada com o tornozelo a frente do outro pé.
Girou três vezes no ar, com os braços e as pernas cruzados, pousando graciosamente com a perna direita no chão lhe dando apoio e a esquerda levemente elevada para frente. Em questão de segundos moveu a perna esquerda para trás e abriu os braços rentes a altura de seu ombro.
Parou instantaneamente o movimento ao notar que alguns patinadores a observavam. Arrumou a postura e parou sobre os dois pés, secando a fina camada de suor em sua testa. Estava extasiada, tinha acabado de executar um toe triplo com perfeição.
– Eu disse que você conseguia. – ouviu a voz de soar próxima a si e virou-se, encarando-o parado fora do rinque com um sorriso aberto nos lábios.
– Acho que devo lhe agradecer. – murmurou irônica e observou quando o cenho de franziu.
– Não entendi a ironia. – murmurou confuso e deu de ombros, voltando a deslizar pelo rinque antes que ele falasse mais alguma coisa.
Saiu pela lateral que tinha entrado, estava farta dos olhares que recebia, e pegou as proteções da lâmina. Segurou-as fortemente pela mão – sem paciência para colocá-las – e tornou a andar com cuidado na direção do trocador.
Katarina não iria treinar com eles naquele dia – não poderia já que possuía outra patinadora durante a tarde –, então não teria problemas em simplesmente ir embora. Parou bruscamente de andar ao sentir os dedos de em volta de seu pulso, um pedido mudo para que ela parasse.
– Pra onde você vai? – questionou soltando o pulso de .
– Me trocar. – disse simplesmente e virou-se de frente para o parceiro.
– Por quê? – questionou novamente. – Eu acabei de chegar.
– Exatamente por isso. – revirou os olhos e bufou frustrado. – Estou indo embora, não vamos treinar hoje.
– E você simplesmente decidiu isso agora? – soou confuso e respondeu com um aceno positivo de cabeça. – O que está acontecendo, ?
– Eu não sou obrigada a mudar toda a minha rotina só pelo fato de que você não consegue ficar sem transar por alguns dias. – soou mais alto do que pretendia, atraindo a atenção de algumas pessoas que passavam por ali. – Era só ter desmarcado a porra do treino.
– Do que...
– Não se faça de sonso, . – rebateu mal-humorada e voltou a caminhar para o vestiário.
Caminhava forte e sabia que suas lâminas estariam fodidas, precisaria comprar novos patins, mas no momento ela não se importava com aquele mínimo detalhe. Estava com ódio de por tê-la feito de idiota ao mudar a rotina, com ódio de todos os olhares quando ela realizou o salto e com ódio de si mesma. Só estava ali pelo fato de que tinha tomado péssimas decisões.
– Eu não aceito que você não me explique o que está acontecendo. – falou próximo a . – Eu vou repetir a minha pergunta. O que está acontecendo, ?
– Talvez deva perguntar para a Alex. – respondeu de modo seco e virou-se na direção do parceiro.
– O que a Alex tem a ver? – questionou confuso e riu irônica.
– Por favor, . Não me faça de otária. – suplicou irônica. – Você podia ter dito que iria desmarcar nosso treino simplesmente porque iria encontrar sua ex-parceira.
– Eu não me encontrei com a Alex. – murmurou ao entender o ponto de vista de . – Tive que resolver alguns problemas no clube de golfe e por isso pedi para mudar o horário do treino.
– E Alex apareceu magicamente ao seu lado? – questionou irônica.
– Ela voltou para a cidade no início da semana. – deu de ombros ao falar do retorno da antiga parceira e ficante. – Nos encontramos aqui na entrada e ela queria saber se eu precisava de uma nova parceira.
– Você não precisa me dar explicações. – murmurou e cruzou os braços à frente do corpo. – Mas talvez precise de uma nova parceira.
– Não preciso te dar explicações? Você estava implorando indiretamente por isto alguns segundos atrás. – rebateu com um sorriso de lado conforme se aproximava de . – E não acredito que eu precise de uma parceira, tenho a melhor aqui, bem na minha frente.
prensou contra a parede e manteve os dois braços apoiados ao lado do corpo feminino, a prendendo contra ele e a parede. Manteve o sorriso nos lábios e fixou o olhar nos lábios entreabertos de .
– Eu não sou suas antigas parceiras, não vou dormir com você só por sermos um par. – tentou soar firme, mas as palavras não passaram de um simples sussurro contra os lábios de .
– Não precisei disso na última vez. – rebateu e diminuiu a distância entre eles, juntando seus lábios.
Permaneceram por alguns segundos apreciando apenas a sensação dos lábios colados sutilmente, mas precisavam de mais. pousou a mão no pescoço de – de modo que sua mão ficasse com alguns dedos sobre o rosto feminino – e puxou-o em sua direção.
Aprofundaram o beijo e enlaçou os braços sobre os ombros de , arranhando a nuca do patinador com uma das mãos. Beijavam-se com tanta vontade que sentia seus lábios formigarem contra os de . O ato era em tão perfeita sincronia, que não parecia que tinham compartilhado beijos apenas em uma noite e nunca mais.
– Ainda quer desistir de ser minha parceira? – murmurou sacana contra os lábios de ao romper o beijo.
– Você não presta. – afastou-se o máximo que conseguia e colou o corpo contra a parede.
– Essa é a sua verdade. – deu de ombros e fixou o olhar nos olhos da parceira.
– E em alguma verdade esse fato se torna uma mentira? – arqueou uma sobrancelha de modo desafiador ao questionar.
– Bom, essa é a sua verdade, não posso mudá-la. – respondeu frustrado.
Não se importava com o que falavam dele. Não ligava se diziam que ele gastava todo o dinheiro com festas, desperdiçava todo o seu tempo com bobagens e se quebrava o coração de todas as garotas com as quais se relacionava. Nada daquilo era verdade, mas ele não se importava que continuassem propagando aquelas pseudo-verdades. O problema é que também o enxergava daquele jeito, e aquilo era péssimo.
– Pensei que quisesse apenas que eu fosse sua parceira. – murmurou debochada e observou atentamente quando afastou-se, podendo finalmente respirar fundo.
– Eu menti, , você sabe disso. – rebateu frustrado e virou-se de costas, puxando sutilmente os cabelos. – Eu gosto de você. Sempre gostei. Talvez seja por isso que eu nunca consigo me relacionar de modo firme com alguém.
– Claro, a culpa de você ser um mulherengo é completamente minha. – murmurou ácida. Não acreditava no que estava ouvindo.
– Não posso fazer com que você acredite em mim, mas o que falei é um fato inegável. – virou-se novamente na direção da patinadora e suspirou fraco. – Não quero te magoar e nem nunca quis.
– Não consigo acreditar que isso seja real. – murmurou fraco. – Acho que não daremos certo como equipe.
Entrou rapidamente no vestiário – sabia que não entraria ali para que conversassem – e sentou-se no primeiro banco que viu. Sua cabeça pesava com o que tinha escutado e suas pernas tremiam levemente sobre os patins. Sabia que nunca deveria ter se aproximado de , todas as patinadoras tinham lhe dito as consequências daquilo. Mas foi necessário apenas uma festa para que tudo fosse para os ares. E ali estava ela, sentada encarando o nada enquanto percebia que tinha um enorme medo de estar começando a nutrir certos sentimentos por .


(...)

She’s not afraid of all the attention
(Ela não tem medo de toda a atenção)
She’s not afraid of running wild
(Ela não tem medo de ser livre)
How come she’s so afraid of falling in love
(Como ela tem medo de se apaixonar?)
She’s not afraid of scary movies
(Ela não tem medo de filmes de terror)
She likes the way we kiss in the dark
(Ela gosta do jeito que beijamos no escuro)
But she’s so afraid of f-f-falling in love
(Mas ela tem tanto medo de se-e-e apaixonar)

(...)


jogou-se no sofá e deixou um suspiro fraco sair pelos lábios sem cor devido ao frio. Estava exausta devido a rotina que seguia na última semana, os treinos exigiam mais do que ela esperava. Sabia que arrumar um novo parceiro, criar uma conexão, se adaptar à nova equipe, aprender novas coreografias e conquistar a confiança em relação aos saltos não seria algo fácil, mas também não esperava que passaria por tudo aquilo.
Sua rotina estava pesada. Acordava todo dia às cinco da manhã – antes mesmo do sol nascer – e fazia sua higiene matinal, saindo para correr logo em seguida. Corria por trinta minutos e então voltava para casa, tirando as roupas de corrida e tomando um banho extremamente quente e relaxante. Saía do banho já devidamente vestida e pegava a bolsa – a qual arrumava sempre no dia anterior – que sempre levava quando ia para o clube.
Seguia para a cozinha e tomava café da manhã sozinha, após isto ia direto para o Crystal Clube, onde se alongava e aproveitava a pista vazia para treinar, começando os ensaios com apenas às sete da manhã. Treinavam aproximadamente até o horário de almoço, se despediam de Katarina e seguiam para o Rob’s – ou qualquer outro lugar que lhes proporcionasse o que eles queriam – e comiam enquanto conversavam e passavam um tempo na companhia um do outro.
estava disposta a ignorar o beijo e não tocava no assunto, disposta a não piorar a pouca conexão que ainda estavam tendo. Até mesmo tinham começado a trocar algumas mensagens – o problema era apenas quando dividiam o mesmo espaço – e conversavam desde a coreografia e a patinação até coisas mais banais, como o que estavam assistindo.
– Passei no clube e você não estava lá. – a voz de Adele ecoou pela casa silenciosa e fechou os olhos fortemente.
– Mudei meus horários de treino. – respondeu simplesmente e abriu os olhos, encarando a matriarca parada a sua frente com os braços cruzados.
– Você está treinando menos? – o tom de voz ultrajado fez com que rolasse os olhos. – Não faça isto para mim.
– Estou treinando das sete até o meio-dia, minha rotina começa às cinco da manhã. – bufou. – Continuo me dedicando completamente a patinação.
– Sua obrigação. – Adele rebateu e recebeu um balançar de ombros como resposta.
Aquele era um enorme problema na relação entre e Adele. A matriarca ainda possuía ressentimentos pelo fato de que a filha a expulsou da equipe, Adele queria apenas que sua menina prodígio chegasse até as Olimpíadas, mas o problema era que ela não percebia o quanto algumas de suas decisões eram ruins para a filha.
patinava por amor, aquilo era o seu hobby e seu sonho, era o que queria para toda a vida. Mas sua mãe não compreendia que aquilo não era uma obrigação. Adele achava que precisava realizar todos os sonhos que a mesma não conseguiu no passado, mas a filha não concordava. Ela não queria seguir os passos de sua mãe, não estava ali para fazer o que a matriarca desejava ter feito.
– Eu falei que eu iria lhe arrumar uma nova equipe. – Adele falou ao notar que sua filha não lhe responderia.
– E eu disse que não precisava. – murmurou e notou o sorriso irônico de sua mãe.
– Mas não me disse o motivo. – rebateu ácida e engoliu em seco. – Você virou parceira do .
– Ironia do destino. – murmurou com um sorriso nos lábios – mesmo sem sentir graça – e fixou o olhar no rosto avermelhado de sua mãe. – Eu precisava de uma equipe, mas eu precisava bem mais de um parceiro.
– Eu achei que...
– Que eu iria para a patinação solo. – rebateu ácida, sem se importar se sua voz soou mais seca do que o desejado. – Eu NUNCA vou voltar para a patinação solo.
– Não seja ingrata com a arte que fez com o que você migrasse para a outra. – Adele murmurou enojada ao citar a última palavra. – Era melhor que você estivesse na patinação solo do que sendo parceira desse garoto.
– Por favor, não vamos começar com isto. – suplicou e levantou-se do sofá, parando a frente de sua mãe.
– Você quem começou. – Adele rebateu em um tom de voz duro. – Você não me contou que tinha virado par daquele garoto. Sabia o quão estúpida tinha sido sua decisão.
é um ótimo patinador. – não teve problemas para falar, estava apenas dizendo a verdade.
– Tão bom que já teve diversas parceiras. – Adele murmurou debochadamente.
– Eu também já tive diversos parceiros. – rebateu com um sorriso nos lábios e observou o rosto de sua mãe se avermelhar ainda mais.
– FINALMENTE VOCÊ ESTAVA LIVRE PARA VOLTAR ‘PRA PATINAÇÃO SOLO. – Adele gritou completamente alterada. – PATRICK NÃO ERA BOM O SUFICIENTE PARA VOCÊ E TAMBÉM NÃO É.
– Eu não vou voltar para a patinação solo, aceite isto. – murmurou e afastou-se da mãe, estava disposta a sair o mais rápido possível daquela casa. – Para você ninguém nunca é bom. É por isto que está fadada a terminar sua vida sozinha.
– Eu sou sua mãe, você deve me tratar como tal. – Adele voltou ao tom de voz usual, mas o rosto avermelhado e a respiração ofegante ainda entregavam como a mulher se sentia. – Não me diga que está defendendo aquele garoto. Não acredito que você vai cair nas histórias dele igual todas as outras parceiras dele. Não creio que será tão estúpida.
– Começarei a tratar você assim, quando você começar a me tratar como sua filha e não como seu projeto de patinadora que deve realizar todos os seus sonhos frustrados. – rebateu encarando a mãe antes de sair pela enorme porta, disposta a não focar nas últimas palavras da mãe.
Sentiu os olhos marejarem e seguiu para o único lugar onde sabia que conseguiria espairecer. Caminhou sem pressa em direção ao clube enquanto repassava em sua mente o quanto sua vida estava bagunçada. A cada dia que passava, desejava mais poder mudar o passado.


(...)

What about all the things we said
(E quanto a todas as coisa que dissemos)
Talking on the phone so late
(Conversando no telefone tão tarde)
I can’t let her get away from me
(Não posso deixá–la se afastar de mim)
When I say that I can’t do it no more
(Quando eu digo que não consigo mais fazer isso)
She’s back in my door
(Ela está de volta à minha porta)

(...)


bufou ao notar que estava – mais uma vez – distraída e parou abruptamente a coreografia. Katarina apenas observava de longe a coreografia que agora apenas fazia.
continuou a coreografia, dando conta que não seguia seus passos apenas quando rodopiou rapidamente no ar e não notou o rosto do parceiro. Estava reclusa em pensamentos desde que conversara com sua mãe – pouco mais de uma semana atrás – e a cada dia sentia-se mais perdida em sua própria cabeça.
Katarina já tinha desisto dos chamados e dos esporros, estava tão desatenta que nem mesmo ouvia o que ela falava. A patinadora os cumprimentava normalmente, dançava de forma individual e nem mesmo conversava direito com , o que estava acabando com a paciência do patinador.
– O que foi? – questionou conforme patinava na direção de .
– Você está falando sério que não sabe o motivo pelo qual eu parei? – perguntou descrente e cruzou os braços na frente do corpo.
– Se eu soubesse, não estaria perguntando. – rebateu seca e revirou os olhos poucos segundos antes de virar de costas e sair dali.
trocou um olhar rápido e confuso na direção de Katrina, que não estava muito diferente de si mesma. Seguiu e parou-o na saída do rinque, segurando fortemente no pulso do patinador para que o mesmo parasse.
, você precisa falar comigo o que está acontecendo. – falou e arqueou as sobrancelhas.
– Agora eu tenho que falar? – questionou debochado. – Eu preciso falar, mas você pode simplesmente ignorar a porra da comunicação que estamos tentando manter.
– Estou com alguns problemas, . – rebateu. – Achei que não era necessário contar.
– Nós nos vemos todos os dias, conversamos até tarde pelo celular. – murmurou desacreditado. – Você não pode guardar tudo para si, . Isso acaba estragando nosso desempenho como equipe.
– Ah, claro. A culpa é toda minha. – rebateu ultrajada e cruzou os braços à frente do corpo.
– Sim, , a culpa é sua. – afirmou e não se importou com a expressão de desagrado de . – Esse é o seu problema. Você se tranca no seu mundinho e não deixa ninguém passar dos muros que você criou. É por isso que não estamos funcionando, por isso que todos os seus parceiros desistiram.
– Como? – murmurou em um misto de sentimentos.
não queria falar tudo aquilo, mas estava extremamente puto. Sabia que não era alguém fácil de lidar, mas tinha certeza que estava ocorrendo tudo bem nas últimas semanas, era inegável o quanto tinham desenvolvido a relação entre eles. Mas nos últimos dias, estava tudo um caos.
Não conseguia possuir a mínima comunicação decente com a patinadora, mal conversavam por mensagens e estavam extremamente distantes nos treinos. não sabia o que tinha acontecido – como sempre –, mas ele não aguentava mais.
– E todas as coisas que nós dissemos, ? – questionou com um suspiro fraco. – Para dar certo você precisa confiar em mim, nós precisamos ser um só dentro daquele rinque. Mas se você for continuar se retraindo assim, é melhor participar da patinação individual.
– O que você quer dizer com isto? – murmurou temerosa com medo da resposta que receberia.
– Não consigo mais fazer isso. – fixou os olhos marejados no rosto de e afastou-se do toque da mulher. – Sou obrigado a concordar com você. Não daremos certo como uma dupla.
saiu do rinque – sem se preocupar em pegar a proteção dos patins – e rumou ao vestiário, não queria permanecer ali por mais nenhum segundo.
bufou frustrada e apoiou-se sobre a pequena divisão que ficava ali próxima, pousando a cabeça na palma da mão. Aquilo tudo era sua culpa e do seu problema de comunicação, sem contar o enorme problema de sofrer antes do tempo. Estava se afastando de pelo simples motivo de que estava com medo.
Estava com medo de criarem uma conexão que fosse além da patinação, com medo de que tudo o que falavam sobre fosse realmente verdade e, principalmente, com medo de que estivesse se apaixonando. Tinha fugido da cama de meses atrás por causa disso, tinha medo que se envolvesse com e concretizasse seu maior medo.


(...)

A cabeça de ainda latejava pelos acontecimentos da manhã. Não queria ter dito tudo aquilo para , mas precisava. Já não aguentava mais o modo como estavam se tratando, desejava possuir novamente a conexão que estavam desenvolvendo, mas parecia que a cada dia estava mais distante.
Ouviu o som de toques em sua porta ecoar pelo quarto silencioso, mas estava disposto a ignorar quem quer que estivesse do lado de fora. Fechou os olhos, desejando que o barulho lá parasse, não queria atender ninguém. Mas a pessoa estava disposta e continuou a bater, batendo na porta com ainda mais força e aumentou o som incômodo que causava. bufou frustrado, teria que atender a porta ou então a pessoa não pararia de bater. Levantou contra sua vontade da cama e seguiu até a entrada do cômodo.
? – a confusão estava estampada em seu rosto ao se deparar com a parceira na porta de seu quarto.
– Eu não posso mudar o passado, mas não tem um dia que eu não me arrependa de ter saído por essa porta enquanto você dormia. – os olhos marejados confirmavam a verdade que ela falava. – Eu estava errada ao ir embora e ignorar você, estava errada quando disse que não daríamos certo como uma dupla e estava errada quando comecei a te afastar quando notei que eu estava completamente interessada em você. Mas eu cansei disso, estou disposta a acertar.
, o que... – a frase foi interrompida pelos lábios de que se chocavam contra os de .
Nenhuma palavra poderia descrever tão bem a forma que se sentia, mas aquele beijo conseguiu.
puxou-a para dentro do quarto, ainda beijando-a e chutou a porta para que a mesma fechasse. Caminhou entre tropeços até a cama, agora que tinha novamente em seus braços, não estava disposto a deixá-la ir novamente e queria aproveitar cada segundo que teriam juntos.
Romperam o beijo apenas quando sentou-se na cama – deixando sentada sobre ele –, enquanto se livravam das peças de roupa. A blusa de foi para o chão, seguido do casaco e da blusa de , fazendo sorrir malicioso ao encarar os seios nus já que não estava usando o sutiã.
espalmou uma mão na cintura de , forçando um contato entre suas intimidades e subiu lentamente a outra mão pela barriga de , parando apenas quando sentiu o mamilo rijo entre seus dedos. Abocanhou o outro seio com a boca e distribuiu leves mordidas enquanto apalpava o outro seio e beliscava o mamilo.
jogou a cabeça para trás ao arquear as costas, roçando-se ainda mais contra a ereção de . Mordeu o lábio inferior ao sentir as unhas curtas de em sua costela e os dentes raspando suavemente em seu seio. Rebolou de forma inconsciente contra e ouviu um praguejar baixo e o aperto em sua cintura se intensificou.
– Não faz isso, ou eu arranco suas roupas agora mesmo. – murmurou contra a pele eriçada de .
Sorriu maliciosa e fixou o olhar no de , repetindo o movimento e rebolando com ainda mais vontade no colo do mesmo. Cruzou as pernas nas costas de e juntou os tornozelos, aumentando ainda mais a fricção de suas intimidades.
Em um movimento rápido, inverteu as posições, deixando por baixo e a deitando na cama. Retirou as pernas da mulher de seu quadril e levantou-se da cama, ficando longe do corpo de apenas tempo o suficiente para que se livrasse das calças e da boxer. Refez o caminho em direção a cama, mas foi impedido de subir na mesma pela mão de que pousou em sua coxa.
estava apoiada com os joelhos e uma mão no colchão, enquanto seu rosto estava levemente inclinado para cima, de modo que conseguisse observar a expressão excitada presente no rosto de . Direcionou a mão que estava na coxa de até seu membro e começou a masturbá-lo, direcionando sua mão da base até a glande e repetindo o movimento.
gemeu baixo e agarrou os cabelos de , embrenhando os dedos nas madeixas escuras. sorriu maliciosamente e ainda mantendo contato visual, lambeu o membro de , da glande até as bolas. Refez o trajeto e abocanhou o membro quando a língua roçou novamente na cabeça do pau.
Voltou a masturbá-lo com a mão – continuando os movimentos onde sua boca não alcançava – e aumentou o ritmo do oral. segurava fortemente os cabelos de contra os dedos e tentava permanecer com os olhos abertos encarando o olhar fixo de em seu rosto.
ofegou baixo ao sentir engolindo-o por inteiro e pressionou a cabeça dela para baixo, gemendo ao sentir as bochechas de flexionadas contra seu pau, de modo que o oral se tornou ainda mais prazeroso. retirou completamente o membro da boca e deitou-a novamente na cama.
Ajoelhou-se sobre a cama e retirou a calça e a calcinha de , não estava com vontade de provocar a parceira e em consequência ser provocado também. Jogou as peças de qualquer jeito no chão e aproveitou as pernas abertas de para deitar ali.
Apoiou as mãos na lateral das coxas suspensas – devido ao solado dos pés no colchão – e afundou o rosto no meio das pernas de . Passou a língua suavemente pelo clitóris inchado de , friccionando a língua ali em movimentos circulares.
arqueou as costas e mordeu fortemente o lábio inferior, mas não conseguiu impedir o gemido fraco de sair pelo lábio mordiscado. Direcionou uma mão para a nuca de e embrenhou os dedos no cabelo ralo do parceiro, forçando-o ainda mais contra seu ponto de prazer. Aumentou o ritmo dos gemidos conforme aumentava os ritmos circulares e sentia todos os pelos de seu corpo eriçados.
cessou os movimentos e gemeu frustrada, causando uma risada fraca em . O ar chocou-se contra a intimidade molhada de e a mesma estremeceu dos pés à cabeça. abriu um sorriso malicioso ao notar a reação do corpo de .
– Acho que uma parte de você está clamando por atenção. – soprou contra a intimidade de e sorriu novamente ao observar o corpo da parceira repetir a reação.
lambeu toda a boceta de arrancando um suspiro dengoso. Lambeu os lábios ao sentir um pouco da excitação de em sua boca e penetrou-a com dois dedos, fazendo movimentos rápidos de vai-e-vem. arqueou ainda mais as costas e rebolou contra os dedos de , precisava de mais contato que aquele. Arfava sem pudor e a mão que outrora segurava os cabelos de , agora revezava entre arranhar os ombros e a nuca do rapaz.
Os dedos de deslizavam rapidamente dentro da intimidade molhada de . possuía o olhar preso no movimento desesperado que o quadril dela fazia contra seus dedos, lhe implorando por mais contato.
... – a voz falha de saiu pouco mais alta que um sussurro.
– Hm? – murmurou, aumentando ainda mais o ritmo dos movimentos e fazendo gemer alto.
– Eu preciso de você dentro de mim. – falou entre arfadas.
sorriu maliciosamente e retirou os dedos da boceta de , levando-os até a boca e lambendo o gosto da parceira. Esticou-se na cama e alcançou o criado-mudo – agradecia sua genialidade em colocar os preservativos sempre ali, próximo o suficiente para que não precisasse levantar da cama –, e retirou uma camisinha dali.
Ajoelhou-se sobre a cama e colocou devidamente a proteção em seu pau, notando o olhar desejoso de em sua direção. Sorriu malicioso – sabia que gostava de comandar – e deitou na cama, deixando com que tomasse a iniciativa.
sorriu abertamente com o olhar fixo em enquanto engatinhava em sua direção. Sentou sobre as coxas do parceiro e segurou o pau do mesmo, arqueando as costas para cima e apoiando os joelhos no colchão. Encarou uma última vez antes de arquear as costas para trás e tombar a cabeça ao sentar em e senti-lo inteiramente dentro de si.
Voltou a encarar , retribuindo o sorriso malicioso que lhe era dado e espalmou as duas mãos no peitoral do parceiro, rebolando com vontade contra seu membro. O som do baque entre seus corpos ecoava no quarto misturado com os gemidos e as arfadas que os dois soltavam.
As mãos de seguravam firmemente a cintura de , forçando um atrito ainda maior em seus quadris. quicava prazerosamente contra o pau de e deixava os rastros de suas unhas pelo peitoral do parceiro. Rolava os olhos sempre que separava um pouco mais seus corpos e depois a penetrava fortemente de uma vez, fazendo-a perder ainda mais o controle.
sentiu o corpo tremer ao ter o dedo de estimulando seu clitóris em movimentos circulares enquanto ele estocava fundo. Arqueou as costas e pousou o rosto sobre o ombro, encarando com um sorriso fraco a expressão prazerosa e desejosa que a encarava.
Fincou as unhas nas coxas definidas de e sentiu o gemido rouco ecoar pelo quarto quando a penetrou ainda mais fundo devido a posição. abriu ainda mais as pernas – agradecia a elasticidade pela patinação nesses momentos – e arfou ao sentir aumentar a velocidade das estocadas enquanto a preenchia inteiramente.
O nó em seu baixo ventre se fez presente e voltou a cavalgar no pau de , sentindo a sensação pré-êxtase tomar conta de todo o seu corpo. tombou a cabeça para trás e gemeu o mais alto que conseguiu ao sentir o orgasmo que lhe proporcionou. Sorriu extasiada na direção do patinador e não conteve o suspiro frustrado ao ter os movimentos circulares no clitóris interrompidos.
– Não faz isso, . – suplicou e inverteu as posições.
Apoiou-se com os joelhos na cama e manteve as mãos na cintura de – impedindo que seu pau saísse de dentro dela –, e deitou as costas da mesma na cama, de modo que enlaçou as pernas ao redor dele. sorriu maliciosamente e voltou a estocar rápido na mulher.
A cabeça de estava deitada sobre o travesseiro, alguns fios de cabelo – do qual já se encontrava completamente bagunçado – estavam grudados em sua testa devido a pequena camada de suor e os lábios estavam vermelhos devido as mordidas e entreabertos devido aos gemidos que não conseguia conter.
manteve o ritmo rápido das estocadas e rebolava contra seu pau, ele não iria aguentar por muito mais tempo. Direcionou uma das mãos para o seio de e o segurou enquanto seu dedo médio e o indicador apertavam o mamilo rijo e sensível entre seus dedos.
gemeu alto e fincou as unhas nos ombros de , rebolando com ainda mais vontade. jogou a cabeça para trás e gemeu audivelmente ao gozar, continuando os movimentos dentro de até que terminasse de gozar. Direcionou a mão que estava no seio de até a nuca da mesma, puxando-a em sua direção e colando seus lábios em um beijo calmo.


She’s not afraid of all the attention
(Ela não tem medo de toda a atenção)
She’s not afraid of running wild
(Ela não tem medo de ser livre)
How come she’s so afraid of falling in love
(Como ela tem medo de se apaixonar?)
She’s not afraid of scary movies
(Ela não tem medo de filmes de terror)
She likes the way we kiss in the dark
(Ela gosta do jeito que beijamos no escuro)


Rompeu o beijo e saiu de dentro de , deitando-a na cama e caminhando em direção ao banheiro da suíte para se livrar do preservativo. arrumou-se sobre a cama e manteve o olhar preso ao corpo de . Estava ali, novamente naquela cama e por mais que tivesse dito que não queria repetir os erros do passado, que estava disposta a mudar, sentia a mesma vontade de sair correndo como fez na primeira vez.
Ela não sabia o que aconteceria após aquilo, nem sabia se tinha sido uma boa ideia, mas esperava não ter tomado a decisão errada. Queria ir para as Olimpíadas, esse era o seu sonho, não poderia focar apenas nisso. Era jovem e precisava viver, curtir a juventude. O problema era o medo que ela sentia. Tinha um medo absurdo que se perdesse no caminho, que perdesse seu foco e que nunca realizasse o seu sonho.
Observou refazer o caminho em sua direção e sorriu fraco, travando uma batalha mental se deveria ou não falar alguma coisa para . Ele já lhe tinha dito que gostava dela, o mínimo que ela podia fazer era ser sincera com ele. Aninhou o corpo ao sentir deitar na cama novamente e pousou a cabeça sobre o peito do parceiro, abraçando-o pela barriga com um braço.
– Eu não quero me apaixonar, . – confessou baixo contra a pele do parceiro. – Eu tenho medo.
puxou ainda mais o corpo de para perto do seu, abraçando-a fortemente. Respirou fundo e deu um beijo na testa de , enquanto seus olhos permaneciam presos no cabelo espalhado sobre seu ombro. Sentia o coração levemente acelerado da parceira e não tinha dúvidas de que o seu estava igual.
Sentia vontade de gritar para que era apaixonado por ela desde sempre, que a amaria completamente com cada parte do seu ser se ela estivesse disposta a tentar, mas conteve o ímpeto e engoliu em seco. Afundou as mãos no cabelo dela e começou a fazer um cafuné, aproveitando a sensação que o corpo quente de lhe proporcionava.
– Se quiser, podemos assistir algum filme de terror. – murmurou contra os cabelos de . – Sei que você não tem medo.


But she’s so afraid of f–f–falling in love
(Mas ela tem tanto medo de se–e–e apaixonar)







Fim.



Nota da autora: MEU DEUS DO CÉU, NÃO ACREDITO QUE CONSEGUI ENVIAR ESSA HISTÓRIA! Eu amo She’s Not Afraid e ao saber do especial eu me senti na obrigação de escrever uma história com ela, até que eu assisti Spin Out (fica aí a recomendação haha) e me apaixonei pelo mundo da patinação artística no gelo. E então veio esse plot lindíssimo inspirado na música e no casal de SO! Eu saí completamente da minha zona de conforto ao escrever uma história sobre patinação artística no gelo, mas amei as pesquisas e todo o mundo da patinação! Fiquei com medo da história não combinar muito com a música, mas gostei do resultado final e espero que vocês também tenham curtido!




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Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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