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Última atualização: 18/06/2022

Prólogo

She looked incredible just turned 17
I guess my friends were right
She's out of my league
So what am I to do?
She's too good to be true
(That Girl - McFly)

Dia dos namorados: época em que as pessoas enlouquecem por uma caixa de bombons, um buquê de rosas, uma reserva num restaurante e uma demonstração de carinho em público. não gostava daquilo tudo, ela era simples e prática. Um jantar em casa, uma taça de vinho e uma música agradável e ela ficava realmente satisfeita. Afinal de contas, nada melhor que o seu lugar preferido para demonstrar qualquer tipo de amor que quisesse. Mas isso não queria dizer que ela não era romântica, ela era e muito. E, por esse motivo, naquela noite aceitou ir a um dos seus restaurantes favoritos, mesmo sabendo que corria o risco do lugar estar lotado, super barulhento e com uma música terrivelmente melosa e cafona tocando ao fundo.
Ao contrário de , Harry gostava de sair com a esposa em público, aproveitar as noites pelas ruas de Londres, em qualquer época do ano. Ainda que a sua carreira tirasse um pouco da privacidade que eles gostavam de ter, ele não negava nada que estivesse afim de fazer por causa de um paparazzi aqui ou ali. e Harry eram totalmente o oposto um do outro, ela gostava de coca-cola, ele preferia vitamina; ela gostava de sushi, ele ia no hambúrguer; ela escolhia o lado da pizza sem azeitona, ele comeria todas que fosse possível; ela dormia sem meias no inverno, ele tapava até a cabeça. Esses eram e Harry, e mesmo com todas as diferenças, eles não conseguiam enxergar mais suas vidas um sem o outro.
Bem, até aquela noite.

chegou em casa um pouco apressada, ela estava atrasada. E odiava quando se atrasava. Saiu da rádio um pouco antes das oito horas, mas não quis chegar com a maquiagem borrada e o cabelo bagunçado, resolvendo então passar em casa e tomar um banho. O vestido preto era muito melhor que a calça jeans de cintura alta que estava usando antes; do mesmo jeito que seu cabelo ficava muito mais bonito solto do que preso num rabo de cavalo com os fios bagunçados. Mas os seus pés, eles imploravam por um descanso, e mesmo assim, ela preferiu colocar a bota de salto para combinar com o vestido.
— Por favor, não diga que desmarcou algo com a Maddy para ficar com a Lily? — disse, encontrando com Dougie na sua sala de estar. Lily tentava colocar a peruca da Elsa em Dougie, mas não estava dando muito certo.
— Relaxa, ela tá trabalhando ainda. — Os dois adultos fizeram uma careta.
— Ah, eu entendo. Aquela rádio quase explodiu hoje com tantos recados apaixonados. — se abaixou para falar com a filha. Emily, ou Lily como costumava ser chamada, tinha apenas três anos, e acredite, ela dava muito trabalho. — Ei, princesa, se comporta com o tio Dougie, ok? Ele vai me contar se você fizer alguma coisa errada.
— Eu sei, mamãe. — Lily fez uma cara de sapeca, tentando esconder o sorriso em seu rosto, sabendo que costumava aprontar algumas travessuras com os seus tios.
— Aproveite sua noite, senhora Judd. — Dougie levou até a porta. Ela não gostava muito daquele nome, mas já estava tão acostumada que não se importava mais.
— Obrigada, baixinho, te devo uma. — deu um beijo no rosto do amigo e saiu da casa.

— Boa noite, senhora Judd. O senhor Judd já chegou, vou te acompanhar até a mesa. — Susan, a recepcionista, direcionou até onde o marido a esperava. — Tenham uma ótima noite.
O casal agradeceu e assim que Susan voltou para o lugar que estava antes, sorriu e deu um beijo no marido.
— Oi, babe, desculpe o atraso. — se acomodou na cadeira em frente a Harry sorrindo para ele.
— Tudo bem, amor. Como foi seu dia? — Harry perguntou, após servir uma taça de vinho para a esposa.
— Ótimo, fiquei sabendo que uma banda irá na rádio semana que vem anunciar o primeiro single depois de alguns anos. — Ela estreitou os olhos.
— Era pra ser surpresa. — Ele começou a rir.
— Harry! — começou a rir, balançando a cabeça em seguida. Ela olhou o restaurante em volta, realmente estava cheio, mas ainda permanecia agradável. — Obrigada por ter escolhido esse lugar.
— É o seu favorito. — Ele sorriu. — Eu tenho um presente para você.
— Harry… — gemeu, ela não tinha comprado nada, ainda que tivesse uma notícia para dar que seria quase como ganhar um presente.
Harry entregou uma caixinha fina de veludo quadrada para , ela estranhou já que ele não era de dar joias para ela. Não por não ter condições, porque ele tinha, mas porque ela não gostava. A única joia que costumava usar no dia a dia era a aliança de ouro na mão esquerda.
— Lembrei de você.
Assim que abriu a caixinha, ela tirou dali uma corrente de ouro branco com um pequeno pingente de patins. Ela amava patinar e foi um dos motivos que os levaram a engatar o namoro. Harry não sabia patinar, mas o resto do grupo de amigos sim, e foi a única pessoa com paciência para ensiná-lo.
— Às vezes eu acho que você não é real, não é possível que eu tenha tanta sorte. — Ela analisou a corrente mais uma vez, admirando cada detalhe da joia e contente por aquilo significar algo para Harry também. — Bem, eu não comprei nenhum presente, mas tenho uma notícia.
ficou por alguns segundos nervosa, e por instinto ela acabou mordendo o lábio inferior. Harry permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.
— Acho que está na hora da gente tentar. De novo. — Ele pareceu confuso por um breve momento. — Eu parei com o anticoncepcional já faz um mês, fiz alguns exames e está tudo bem. Acho que está na hora de aumentar a família.
Eles tinham o sonho de ter mais filhos, ambos queriam no mínimo dois, e se fosse uma menino e um menino, melhor ainda. Emily não tinha sido planejada, e foi um período conturbado na vida de ambos, mas em nenhum momento quis desistir da gravidez. Contudo, agora já havia se passado um ano, eles estavam estáveis em seus trabalhos. Harry tinha voltado com a banda, tinha o seu próprio programa na rádio, eles tinham uma casa própria e a situação financeira também era favorável.
O rosto de Harry se iluminou ao ouvir aquelas palavras, era o que ele mais queria no último ano e agora eles estavam prontos para uma nova fase. Não esperou para puxá-la para perto de si e beijá-la. Quem visse de fora, não teria dúvidas que eles eram um casal apaixonado. E o que não faltava entre e Harry era amor.
— Podemos pular direto para a sobremesa e ir para casa começar o nosso trabalho? — tinha uma feição inocente, mas sua voz transbordava malícia.
— Podemos ir direto pra casa agora. — Harry manteve o mesmo tom de voz.
— Ótima ideia.
Enquanto os dois esperavam o manobrista voltar com o carro de Harry, o abraçou. Sentindo a tranquilidade e o aconchego que ela sabia que ele transbordava.
— Te amo muito. Não esqueça disso, ok? — Harry acariciou o rosto da mulher, e concordou com um aceno de cabeça. Ela também amava Harry, muito, mais do que um dia imaginou amar alguém.
— Se eu tiver que voltar mil vezes nessa vida, em todas eu vou escolher me apaixonar por você. Te amo, babe.
Sim, também sabia ser romântica, e quando estava com Harry não se importava de soar cafona, o que ela sabia que acontecia muitas vezes. Logo eles estavam dentro do carro, prontos para irem para a casa. Harry deixou a música baixa, enquanto se acomodou no banco do passageiro, soltando um bocejo e encostando a cabeça no banco. Harry sabia que ela estava cansada, talvez até dormisse no meio do caminho.
Quando Harry parou no sinal vermelho, já mantinha os olhos fechados e a cabeça para o lado, descansando. Ele sabia que a chance disso acontecer era grande, admirou a mulher dormindo, sempre com o rosto sereno e a boca entreaberta. Ela odiaria se soubesse que ele a viu dormindo desse jeito, mas Harry não se importava, ela amava tudo em .
Mas de repente, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. Uma luz forte invadiu a visão de Harry, o barulho do choque com o carro dele foi ensurdecedor, os vidros quebrando e o carro girando no meio da pista. Ele não sabia como e nem da onde tinha surgido o outro carro, em alta velocidade, que se chocou com o dele. No lado de .
.
estava com o rosto sangrando, desmaiada ao seu lado. Harry queria gritar, chamar por ela, pedir por ajuda, mas sua voz parecia ter sumido. Então, sua visão começou a ficar turva, a garganta seca, e tudo se apagou.



Capítulo 01

Mad about the things you can never change
Mad about a thought that you can't explain
Mad about your heart when it breaks in two
But I'm mad about you
(Mad About You - McFly)

A entrada da casa de Harry não era mais a mesma depois do acidente, por mais que ele tentasse levar uma vida normal, sempre havia um jornalista o importunando. Às vezes, chegava a ser tão cansativo que ele quase desistia de sair de casa. Porém, naquela manhã, Harry estava saindo para ir mais uma vez ao hospital. ainda estava em coma, e ele rezava todos os dias para que ela acordasse bem.
— Vamos acordar, Pumpkin. — Harry entrou no quarto da filha, mas Lily estava desanimada naquela manhã. — O que foi, meu amor?
— Saudade da mamãe. — Harry percebeu quando o lábio da menina tremeu e ela estava prestes a chorar.
— Eu sei, Lily. Eu também estou, mas logo, logo a mamãe vai estar de volta. — Ele abraçou a menina, que deitou a cabeça no ombro do pai voltando a pegar no sono. — Vamos para casa do tio Tom agora.
Sem reclamar, Lily aceitou de bom grado a roupa que Harry separou para vesti-la. Normalmente, a menina gostava de escolher sua roupa, mas ela estava desanimada o suficiente para não contestar a escolha do pai. Judd arrumou a mochila da filha, pegou o moletom que tinha separado para vestir e saiu com a menina no colo. Eles estavam cansados, e com saudade de , mas não havia nada que eles pudessem fazer, apenas esperar que todo aquele pesadelo passasse o quanto antes e estivesse em casa novamente. Pouco mais de dez minutos de carro, ele parou em frente à casa de Tom, seu amigo e companheiro de banda.
— Bom dia, Gi. — A mulher sorriu, pegando Lily dos braços do amigo, visto que a menina já tinha voltado a dormir. — Ela tá um pouco tristinha hoje, mas qualquer coisa me liga.
— Nenhuma notícia ainda? — Tom apareceu na porta, assim que viu a esposa entrar na casa com Lily no colo.
— Não. — Harry passou a mão nos cabelos, estressado com tudo aquilo. — Eu vou para o hospital agora.
— Vai ficar tudo bem. — Tom tentou animar o amigo, mas a situação era difícil para todos.
— Eu espero que sim.
Harry se despediu de Tom, entrando em seu quarto e foi em direção ao hospital. Tentando não surtar com a ansiedade acumulada em seu peito, Judd respirou fundo mais uma vez. Cumprimentou as recepcionistas que já o conheciam, devido a quantidade de vezes que Harry aparecia por lá todos os dias, e seguiu para o quarto 309.
— Harry. — Ele estava quase chegando no corredor em que ficava o quarto de , quando escutou seu nome ser chamado por sua mãe, Emma.
— Oi, mãe, alguma notícia? — Emma tinha ido mais cedo para o hospital, justamente para tirar o filho do local e fazê-lo ir até em casa descansar ou tomar um banho. Porém, assim que Harry saiu do local, acordou e não teve a melhor reação.
— Harry, eu preciso que você seja forte, pela Lily. — Harry temia pela pior resposta. A essa altura, ele já nem sabia se queria mesmo saber. — Você lembra quando os médicos falaram que a memória de poderia ser afetada? Ninguém sabia o quanto exatamente, mas agora ela acordou.
Harry tentava se manter calmo, mas à medida que Emma explicava a situação de , ele temia pelo pior.
não lembra de muita coisa, e as partes que ela lembra de vocês dois, não são muito boas.
— O que quer dizer com isso, mãe? — Emma apertou a mão do filho, sentando-se nos bancos que tinham no corredor.
— Harry, você lembra quando te contou que estava grávida?
— Sim, foi o pior momento da nossa relação. Eu fiz uma burrada enorme, mãe.
— Você precisa estar preparado quando entrar naquele quarto, esse é o último momento que lembra de vocês. — Harry apoiou os braços nas pernas e escondeu o rosto nas mãos, sem acreditar ainda no que estava escutando.
— Mãe, esqueceu totalmente os últimos três anos da nossa vida, é isso que está me dizendo? — Harry encarou a mulher, sem acreditar ainda no que estava ouvindo.
— Eu sinto muito, meu filho. — Emma passou a mão pelos cabelos do filho, em forma de acalmá-lo. — É melhor você tentar conversar com ela.
Harry olhou para a porta fechada na sua frente, ele não sabia se queria entrar naquele quarto e encontrar o mesmo olhar que, num passado um pouco distante, já recebeu de . Pela primeira vez, em muito tempo, ele rezou para que tudo aquilo passasse. Como se não bastasse o acidente ter acontecido — coisa que ele nem sabia como tinha acontecido —, a memória de sua esposa tinha sido afetada. E ele não tinha ideia de como ela reagiria quando ele entrasse naquele quarto.
— Lily está na casa do Tom, você pode ficar com ela e pedir para Giovanna vir o quanto antes? Não sei se vai querer conversar comigo, e Gio é a sua melhor amiga.
— Claro, querido. — Emma abraçou o filho, desejando-lhe sorte. Afinal, seria um desafio e tanto para Harry.
Harry abriu a porta, estava olhando para janela, e mesmo que não pudesse ver muito da onde estava, ela não virou o rosto para olhá-lo nem mesmo quando ele já estava no meio do quarto. Nada do que ele tinha pensado se comparava com aquela cena. Aquela não era a que ele conhecia. Não era a sua .
— Oi, , como você está se sentindo? — Ele perguntou, receoso. O que finalmente a fez olhá-lo.
— Como acha que estou me sentindo, Judd? — Ele não soube o que responder, porque realmente não sabia. — Onde está a minha filha?
Nossa filha está bem, vai ficar com a minha mãe até que você possa ir para a nossa casa. — Ele explicou, vendo-a ficar em silêncio. estava tão confusa, ao mesmo tempo que queria gritar com Harry, ela sabia que ele tinha muita coisa para dizer. Ela sabia que não teria uma filha com aquele homem se não confiasse o suficiente nele.
— O que aconteceu? Sua mãe me disse que Lily está com três anos, mas a última lembrança que eu tenho dela é de quando ela ainda estava na minha barriga. E, bem, você sabe qual a última lembrança que tenho de você.
A voz de embargou, por mais que odiasse chorar na frente das pessoas, aquilo parecia doer ainda mais quando dito em voz alta. Porque de todas as coisas que ela tinha acabado de descobrir naquela manhã, não lembrar do rosto da própria filha era a mais dolorosa.
— Sim, Lily tem três anos. Muita coisa mudou entre a gente, . — Harry sentou na poltrona ao lado da cama, quando não fez menção de xingá-lo novamente. — Eu não sei o que minha mãe te contou, mas nós temos uma história, e é bem diferente da que você deve lembrar.

já tinha perdido as contas de quantas vezes tinha caminhado para lá e para cá no meio daquele corredor, mas por puro medo não tivera coragem de bater na porta ainda. Ela tinha conseguido chegar até ali, agora ela só precisava bater, dar a notícia e, dependendo da reação de Judd, sumiria das suas vistas. Respirou fundo e, com toda a sua falta de coragem, bateu na porta. Entretanto, não foi quem ela esperava que abriu a porta.
— O Judd está?
tentou manter o seu tom de voz o mais firme possível, mesmo que a morena do outro lado da porta não tivesse gostado em nada de vê-la ali. Sem dizer uma única palavra, a mulher saiu e logo um Harry seminu e com os cabelos bagunçados apareceu.
— A gente precisa conversar. — A cara fechada de foi o suficiente para Harry entender que o assunto era sério, e sem pestanejar, ele deixou-a entrar em seu apartamento. — O assunto é particular, pode dar licença? — Ela sorriu, cínica, para a outra mulher que estava, também, seminua.
— O que é tão sério? — Ele bocejou e sentou no sofá. tirou um papel dobrado de dentro da bolsa e entregou para Harry, ainda sem dizer nada. — , são nove horas da madrugada e eu não ‘tô entendendo nada do que está escrito aqui.
— Eu estou grávida. — Rápido e indolor. Nesse caso, a parte do indolor não existia.
Harry ficou em silêncio, encarando o papel em suas mãos, mesmo sabendo que realmente não estava entendendo nada do que estava escrito. Desviou os olhos do papel para novamente, mas as palavras que saíram de sua boca, mais uma vez, a surpreendeu.
— Tem certeza que é meu? — teve vontade de fazer picadinho de Harry Judd naquele momento, assim como, também, teve vontade de sair correndo e nunca mais voltar a vê-lo. Ela sabia desde o início que não deveria ter se envolvido com Judd, e ali estava o resultado de toda essa bagunça.
— Não sou eu quem está dormindo com outras pessoas. — Deu o seu melhor sorriso, a fim de controlar toda a raiva contida em si mesma.
— Eu não sei o que dizer, eu não posso ter um filho agora, .
— Ah, claro. Por que eu posso, não é mesmo? Sério, quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece. — Ela se levantou, caminhando de um lado para o outro na sala de estar. — Sabe, eu não ia te contar, mas achei que seria injusto. Agora eu vejo que não faria diferença nenhuma para você saber ou não, e, sinceramente, eu não deveria ter me dado esse trabalho.
arrancou o papel das mãos de Harry, saiu batendo a porta sem olhar para trás. Ela teria essa criança, mesmo se tivesse que fazer isso sozinha.

Até o momento, era essa a história que lembrava, e Harry também. A diferença entre eles era que ele lembrava de todo o resto, a peça fundamental que estava em falta na mente de .
— Sua mãe não me contou nada sobre nós. Apenas que Lily estava com você, ao contrário do que eu pensei, ela já tem três anos. Quando eu acordei perguntei por ela. — Ela ficou em silêncio. — Como ela é?
— Ela é linda. — Harry tirou o celular do bolso, tentando disfarçar, ele secou uma lágrima que insistiu em cair. — Parece com você, olha.
— Ai, meu Deus. Ela é uma princesa. — não conseguiu segurar as lágrimas assim que viu a foto da filha no celular de Harry. Durante toda a gestação, imaginava como seria a mistura dela com Harry, mas agora estava vendo, de novo, uma miniatura sua. Na foto, Lily sorria enquanto Harry a segurava no colo. Eles estavam na sala de estar da casa deles, foi o que previu, enquanto o gato estava deitado ao lado de Harry no sofá.
— Ela tem seus olhos, Harry. — sorriu. — Mas a boca é minha. — Ela ficou satisfeita com o fato.
— E o gênio também, tão teimosa quanto você. — fechou a cara no mesmo momento, mas não conseguiu esconder o sorriso quando voltou seus olhos para a foto.
— Ela é tão linda. — Ela sorriu mais uma vez, mas a lágrima que deixou cair em seguida foi de pura tristeza. Tristeza por não conseguir lembrar da filha, afinal de contas, Lily era apenas uma criança e não merecia passar por uma situação dessas. — Como ela está? Deve estar sendo difícil.
— Lily é incrível, . Hoje ela acordou tristinha, disse que estava com saudade de você.
— De todas as coisas, ela é a única que eu não queria ter esquecido.
Naquele momento, Harry percebeu que não existia mais Judd na sua frente, por mais que existisse uma união legal entre eles, a partir de agora, os dois eram os pais de Lily e nada mais. Era doloroso saber que os três últimos anos tinham se apagado da mente de , com certeza, reconstruir todas as memórias, que um dia ela teve, não seria nada fácil. Mas, ao contrário do Harry de três anos atrás, dessa vez ele estaria lá por ela.
— O que aconteceu para eu vir parar aqui e acordar sem saber o que aconteceu nos últimos três anos? — Agora estava séria, tentando entender uma parte da sua vida que ela deveria saber.
— Foi no dia dos namorados, nós estávamos voltando para casa e um carro bateu contra o nosso. — Harry não quis comentar o motivo pelo qual eles estavam voltando mais cedo naquela noite. — Foi uma batida forte no lado que você estava, o médico já tinha dito que sua memória poderia ser afetada. Mas a gente, com certeza, não estava pronto para isso.
Eles ficaram um pouco em silêncio, tentava assimilar tudo que Harry já tinha contado, mas o que mais a surpreendeu foi o fato de ter acontecido no dia dos namorados, eles estavam comemorando aquela data? Na sua mente, ela não tinha uma relação tão boa assim com aquele homem na sua frente. Quando o celular de Harry vibrou, mostrando na tela uma mensagem de Giovanna, ele agradeceu por ela não ter demorado. Além de ficar mais aliviado, pois sabia que com Gi, conseguiria conversar à vontade.
— A Gi chegou. Vou para casa buscar algumas coisas suas e volto mais tarde, tudo bem? Quero aproveitar para conversar com o médico e saber quando você vai ter alta.
— Claro. — Apesar da resposta, Harry não moveu um músculo para sair do quarto. — Se eu ficar mais tempo aqui, você pode trazer a Lily?
— Sim, ela vai gostar de te ver. — Ele deu um sorriso fraco e saiu do quarto.
Assim que Harry colocou seus pés para fora do quarto, relaxou o corpo no mesmo banco que tinha sentado com sua mãe, e dessa vez se permitiu chorar. Judd se culpou por ter insistido em sair para jantar naquele dia, se ele tivesse concordado com em ficar em casa, nada daquilo estaria acontecendo. A culpa já o vinha consumindo diariamente, agora, percebendo que a situação era ainda mais grave, ela o tomou de vez.
— Harry… — Gi o chamou, apertando o ombro do amigo. Ela também tinha os olhos vermelhos, provavelmente já soubera da notícia por sua mãe. — Eu sinto muito, de verdade.
Harry recebeu o abraço de Gi de bom grado, ele precisava mesmo de um ombro amigo naquele momento, mas precisava ainda mais, ser forte por ele, e Lily.
— Ela não lembra de nada, Gi. — Ele choramingou. — Ela não lembra nem da Lily. Eu não sei o que fazer, ela é só uma criança.
— Harry, vai ficar tudo bem. Você tem sido um ótimo pai para Lily em todos esses anos e, principalmente, nos últimos meses. Você não está sozinho, vamos estar sempre com vocês. — Gi tentou acalmá-lo, mas ela também entendia que era um momento difícil. Se pegou pensando o que faria se isso acontecesse com Tom e um arrepio passou por seu corpo só de pensar na possibilidade de ele não lembrar dos filhos. Ela também viveu muitos momentos ao lado de , principalmente, após a gravidez e quando ela e Harry assumiram o namoro. Mas aquilo tudo já não fazia mais parte da amiga, e isso era doloroso demais.
— Eu vou conversar com ela um pouquinho, tá? Vá para casa e descanse um pouco, Harry. Você está exausto.
— Eu vou conversar com o médico, mais tarde eu volto.
— Tudo bem, se cuida.
— Me liga qualquer coisa, Gi.
Enquanto Harry ia em direção ao elevador, Giovanna tomou coragem e entrou no quarto de . Entretanto, ao contrário do que imaginava, estava sentada na cama e chorava baixinho, como se não quisesse que ninguém a visse naquele estado.
… — A morena levou um leve susto ao ouvir seu nome ser chamado por uma voz delicada.
— Gi. — Ela pigarreou, secando o rosto rapidamente. — Entrou um cisco no meu olho.
— Não acredito que depois de todos esses anos, você tem a cara de pau de mentir para mim. — Gi disse em tom brincalhão, o que fez rir um pouco. — É bom te ver, amiga.
tentou sorrir, mas ela não fez muito esforço para isso e, então, desabou em lágrimas.
— Por que tudo isso tá acontecendo, Gi? — se questionava, enquanto recebia o abraço de Giovanna. — Eu não consigo lembrar da minha própria filha, isso é tão injusto. Ela não merece ter uma mãe como eu. Ela é tão pequena e indefesa, como vou protegê-la se nem ao menos consigo lembrar como ela é?
conseguiu colocar para fora tudo que queria desde que Harry tinha pisado naquele quarto, mas não tivera coragem antes. Agora, com Gio ao seu lado, parecia mais fácil pôr em palavras o que estava sentindo. Se sentiu uma criança indefesa, mas foi a única forma de expressar seus sentimentos, e eles não eram os melhores.
— Meu amor, isso dói tanto em mim, mas saiba que eu vou estar aqui sempre. — Gi continuou abraçada em , enquanto a amiga tentava se acalmar. — Não vai ser fácil, mas não vou sair do seu lado. Ninguém vai. Você tem uma família incrível, .
— Eu sou casada com uma pessoa que nem queria ter filho, Gi. — Ela esbravejou.
… — Giovanna sorriu, ela sabia que a história dos dois ia muito além daquela lembrança.
— Gi, e se ele pedir o divórcio e ficar com a Lily? Eu tenho uma casa? Onde eu trabalho? Espera, quantos anos eu tenho?
! — Ela se calou, ao receber o olhar reprovador da Fletcher. — Desculpe, mas você precisa se acalmar. Sim, você tem uma casa, um emprego, uma família e muitos amigos. Ah, e Harry jamais pediria o divórcio e tiraria a Lily de você.
— Eu nem sei se vou saber fazer o meu trabalho ou cuidar da minha filha, ou qualquer outra coisa.
— Algumas coisas são como andar de bicicleta, . Depois que aprende, você nunca mais esquece. — Gi sorriu, tentando passar confiança para a amiga, um pouco assustada, a sua frente.
— Eu não sei andar de bicicleta, Fletcher.
As duas se olharam e ficaram em silêncio por alguns segundos, em seguida começaram a rir.
— Eu estou com medo. — passou as mãos no rosto. — Você é a única pessoa mais próxima da minha família que eu tenho aqui.
— Não sou, e quando você sair daqui vai saber do que eu estou falando. — Gi segurou a mão de , acalmando-a mais uma vez. — Harry te ama, mas você não lembra dessa parte ainda. , aproveita essa nova chance, aproveite para reescrever a sua história. Não estou dizendo para você não cometer erros, estou dizendo para não se prender aos erros do passado. Vocês dois erraram, mas aprenderam muito com tudo o que aconteceu. E eu sei que você está com raiva e com medo do que te espera daqui para frente, mas existe um mundo de coisas boas só esperando você sair desse quarto.
— Obrigada por estar aqui. — disse, secando as lágrimas outra vez. — Posso te perguntar uma coisa?
— Claro, o que você quiser. Pode mandar. — Gi olhou atenta para .
— Como ele está? — Ela falou mais baixo dessa vez, não querendo assumir para si mesma que também estava preocupada com Harry.
— Quem? — Giovanna provocou.
— Você sabe, Fletcher. — mordeu o lábio, tentando não sorrir. — O Judd.
— Como sabe que é casada com o Judd? — Gi perguntou, curiosa.
— Emma estava aqui quando acordei, ela me contou.
— E o Harry sabe disso?
— Não, não quero conversar sobre essa parte ainda. — não encarou a amiga, sabia que não estava totalmente certa sobre aquela decisão. Mas o turbilhão de sentimentos que a invadiu naquela manhã era mais do que ela imaginava suportar.
— Ele está bem, na medida do possível, mas vocês precisam conversar. — Gi deu um beijo no rosto da amiga. — Não esquece sobre o que eu te falei. Mas, agora, você precisa descansar.
— Mas…
— Sem mais, é uma ordem, . — murchou os ombros e se deu por vencida, enquanto a amiga saía do quarto. É, talvez, ela fosse um pouco teimosa mesmo.



Capítulo 02


It feels like there's oceans
Between me and you once again
We hide our emotions
Under the surface and tryin' to pretend
But it feels like there's oceans
Between you and me
(Oceans - Seafret)

— Pare de chorar, , você está prestes a conhecer sua filha.
disse para si mesma, olhando para a sua imagem refletida no banheiro do hospital. O médico já havia passado em seu quarto, conversado sobre os cuidados que deveria tomar em casa e nas próximas consultas que ela ainda teria que fazer. sempre odiou hospitais, mas agora teria que voltar mais vezes do que gostaria em um, isso fazia parte do processo de recuperação. respirou fundo mais uma vez, secando o rosto e dando leve tapinhas nas bochechas, ela precisava estar apresentável. Harry estava parado no meio do quarto, carregava no ombro uma bolsa com os pertences de , por mais que ela dissesse que não era necessário, ele não quis que ela fizesse algum esforço. Judd se sentia aliviado por finalmente sair daquele lugar com ao seu lado, mesmo que ele estivesse saindo dali com . Sabia que o caminho para uma nova Judd era longo, incerto e cheio de desafios pela frente, mas ele estava disposto a passar por aquilo tudo.
— Podemos ir. — Ela saiu do banheiro, tentando sorrir. Deixaram o quarto, e desceram de elevador até o estacionamento, ainda em silêncio. Harry quis, por um breve momento, abraçar e entrelaçar seus dedos aos de , do jeito que eles costumavam fazer sempre que saiam juntos, mas sabia que aquilo a assustaria de certa forma.
— Minha mãe está em casa com Lily, ela ainda estava dormindo quando eu saí, então achei melhor não a trazer. — Harry explicou, afinal, não tinha levado a filha ao hospital como tinha pedido.
— Tudo bem. — Ela voltou a ficar em silêncio, sem realmente saber o que falar. Assim que chegaram no estacionamento, Harry pressionou a mão na lombar de , conduzindo-a até o carro, o que acabou fazendo-a sobressaltar. olhou assustada para Harry, automaticamente ele retirou o braço e apontou para o carro deles. — Posso te fazer uma pergunta?
— Claro. — Harry respondeu mais rápido do que gostaria, surpreso com a voz de tão calma.
— Como conseguiu voltar a dirigir depois do acidente? — Ela mordeu o lábio, nervosa, não sabia se podia fazer aquele tipo de pergunta. Até mesmo porque Harry também estava no carro no momento do acidente. sabia que, se ela estivesse dirigindo, nunca mais pegaria num volante outra vez.
— Consegui voltar mais pela necessidade do que por vontade própria. Precisava deixar Lily com a minha mãe, um dos caras ou Izzy, antes de vir para o hospital. — O último nome fez o corpo de estremecer. Izzy era a ex-namorada de Harry (a que ele ficou mais tempo, pelo menos, antes dela), mas não tinha tanto contato com ela ou, ao menos, não lembrava de ter.
— Entendi. — resolveu ficar em silêncio após a resposta de Harry, ela ainda tinha muitas perguntas para fazer, mas não tinha coragem.
O nervosismo instalado em seu corpo falava mais alto, sua mente gritava de ansiedade para chegar em casa e, logo, ter sua filha em seus braços novamente. No entanto, o seu coração se apertava só de pensar que ela pudesse não ser a mãe que Lily estava acostumada a ter. Ela sabia que era outra pessoa, principalmente após o nascimento de Emily, mas não sabia que tipo de pessoa ela tinha se tornado. Uma gravidez muda qualquer mulher, ela sabia muito bem disso, suas prioridades se tornam outras e você, literalmente, vive pelo o outro. Seus pensamentos foram interrompidos quando eles entraram num bairro residencial, Harry logo parou em frente ao portão do condomínio em que moravam, e pôde perceber o pânico se instalando no rosto de . Quando Judd estacionou o carro na garagem, onde continha uma bicicleta rosa, patins e outros pertences também, ela percebeu que era agora ou nunca. Em breve estaria abraçando sua filha, e nada no mundo a deixava mais assustada e alegre ao mesmo tempo.
— Eu não contei para Lily sobre a sua memória, acho que seria difícil demais para ela essa parte. Mas ela sabe que você estava no hospital, então acredita que você só esteja dodói, como ela costumava dizer. — Harry deu um riso fraco, quebrando o silêncio ao ver que não moveu um músculo para sair do carro. — Independente do quanto você lembre, Emily sempre vai te amar e, mesmo sem querer, você vai estar construindo novas memórias com ela todos os dias. Vai ficar tudo bem, .
— Eu só espero que ela ainda goste de mim. — Ela falou baixo, assimilando tudo que Harry tinha dito. Com um pingo de coragem saiu do carro, se pondo ao lado do marido e, naquele momento, deixou que Harry segurasse sua mão a guiando para dentro de casa.
Assim que Judd abriu a porta de casa, , automaticamente, prendeu a respiração. Nervosa demais para perceber o que tinha feito, um par de olhos azuis lhe encarava atrás do sofá da sala. Emily estava assistindo desenho, após Emma, com muito trabalho, convencê-la de que logo, logo sua mãe chegaria em casa.
Mãeee! — a garotinha de cachos dourados saiu correndo, sem dar tempo de alguém segurá-la no caminho. — Mamãe, senti saudade.
— Meu amor!
se agachou, ficando na altura da filha, segurou seu rosto delicadamente entre suas mãos e admirou cada traço da menina. Emily era igual as fotos e vídeos que Harry havia mostrado enquanto esteve no hospital, podia arriscar dizer que seu sorriso era ainda mais lindo quando visto de perto. E, claro, ela era a cópia perfeita dos dois. Sorrindo feito boba, logo tratou de abraçar a menina o máximo que pôde. Era tão bom tê-la em seus braços novamente que ela não se importou se estava a abraçando demais.
— A mamãe também sentiu saudade, mas agora estou aqui com você de novo. — não conseguiu conter as lágrimas ao sentir aqueles braços pequenos envolver-lhe o pescoço. Sentindo o aroma de morango que saía de seus cabelos um pouco bagunçados naquela manhã.
— Vem, mamãe, o Morris também está com saudade. — Lily puxou a mãe pela mão, arrastando-a para a sala de brinquedos, enquanto lançava um olhar questionador para Harry.
— Quem é Morris? — Ela perguntou baixo, para que a filha não escutasse.
— O gato. — Ela respirou, aliviada.
— Que susto. Não sei se aguentaria se tivéssemos outro filho e eu também não lembrasse.
— Morris, a mamãe chegou! — Lily fez um esforço para pegar o gato do sofá, mas ele logo saiu e começou a se esfregar nas pernas de . Ela, um pouco receosa, fez um carinho de leve na cabeça do bichano. Até onde se lembrava, o felino doméstico não era o seu animal favorito, entretanto, estava curiosa para saber como ele tinha se tornado parte da família.
— Mamãe, o papai falou que você está dodói… — Foi a vez de Lily passar as mãos pelo rosto da mãe, os olhos redondos da menina brilhavam de curiosidade em sua direção.
— Sim, pequena, mas a mamãe já está melhor. Principalmente com você ao meu lado de novo. — bateu de leve com a ponta do dedo no nariz de Lily, vendo-a enrugar o mesmo e rir em seguida.
— Ei, querida, o almoço está pronto. — Emma entrou na sala, sem fazer barulho, assustando um pouco as duas. sorriu para a mulher, não sabia como estava grata por ela ter ajudado Harry com Lily esse tempo todo. — Vamos lá almoçar com a vovó, meu amor.
— Oba! — Lily saiu correndo com os braços para cima em direção a cozinha. , que antes estava sentada no tapete com a filha em seu colo, se levantou e se sentou na poltrona do canto da sala, fechando os olhos em seguida. Seu cérebro recebera tanta informação em tão pouco tempo que ela não conseguia pensar direito.
— ‘Tá tudo bem? Às vezes Lily fica um pouco eufórica. — Harry entrou na sala, encostando o corpo na parede, ficando um pouco mais afastado da esposa. Ela observava a sala de brinquedos, ao mesmo tempo que tudo parecia tão familiar ela não conseguia lembrar de nada. Não lembrava de ter comprado todos aqueles brinquedos, móveis, de ter, sequer, escolhido a cor daquele cômodo ou, até mesmo, não lembrava se tinha sido ideia dela ou de Harry.
— É tudo novo para mim, mas… — olhou mais uma vez o cômodo, na esperança que ele trouxesse alguma lembrança, antes de voltar sua atenção para o marido. — Ela é incrível, né?
— Muito. — Ele não conseguiu conter um sorriso. Quando teve que correr atrás de , após tê-la dito que não poderia ter um filho, ele sabia que tinha tomado a melhor decisão de sua vida indo atrás da mulher . Vendo agora, Lily era a única alegria dos seus dias enquanto estava no hospital. Se não fosse por ela, ele não saberia dizer se estaria ali agora.
— Acho melhor ir almoçar. — Ela quebrou o silêncio. Para , era estranho estar na frente de alguém que sabia tanto sobre ela, enquanto ela não sabia quase nada sobre ele.
— Sim, vamos. Depois vou te mostrar o resto da casa, se a Lily deixar. — Harry riu fraco. — Se quiser descansar, pode deixar que eu dou conta dela.
— Eu acho que consigo aguentar mais uma sessão de perguntas da minha Pumpkin. apertou a bochecha de leve da filha, depositando um beijo em seguida no mesmo local, assim que entrou na cozinha. Agradeceu a Emma quando recebeu um prato com comida da mulher. Só Deus sabia o quanto estava com vontade de comer uma comida caseira, bem temperada, após tantas refeições genéricas de hospital.
— Nossa, isso tá muito bom! — enfiou mais uma batata frita na boca, tão contente quanto Lily.
— Acho que não é o seu prato favorito, mas assim que Harry me avisou que você viria para a casa, eu não podia deixar de fazer um almoço especial. — Emma disse, sorrindo, ela também tinha sentido tanta saudade de .
— Não precisava se incomodar com isso, Emma. Está maravilhoso, muito obrigada. — encolheu os ombros e sorriu, envergonhada. Não sabia exatamente como era sua relação com os Judd, apesar de ter visto a aliança no dedo de Harry e repassar, mais uma vez, a história que Emma lhe contou no hospital alguns dias atrás. A insegurança sempre dava as coisas, e odiava aquele frio na barriga quando não sabia exatamente em que pé estava a situação, ela era mais do tipo que tinha o controle. Agora, tinha que abaixar a guarda e dar espaço para que as outras pessoas ao seu redor lhe auxiliassem, lhe mostrassem novos caminhos e novas possibilidades de retomar a sua vida. E nada mais no mundo deixava irritada do que outras pessoas dizendo o que ela deveria fazer.
Após o almoço, fez questão de aproveitar o tempo com a filha, mesmo sem ter resposta para todas as suas perguntas, ela deu um jeito de contornar a situação. No fim do dia, estava deitada no sofá com Lily na sua frente, enquanto abraçava a filha pela cintura para que ela não caísse no chão. Um desenho da Disney passava na tela, mas não conseguia prestar atenção devido a dor de cabeça, por isso, acabou pegando no sono sem perceber. Porém, acordou um pouco assustada quando sentiu que não estava dormindo mais no sofá.
— Harry? — Ela perguntou, ainda um pouco sonolenta. — Onde estou?
— Shii, pode voltar a dormir. — Ele disse baixo, enquanto subia as escadas.
— Harry, você pode me soltar? Eu não estou mais grávida. — tentou falar o mais delicada possível. Não estava acostumada com aquelas demonstrações de carinho, por mais que aos olhos de outras pessoas, parecesse um simples gesto.
— Já estamos chegando no quarto, , volte a dormir. — Ele não fez o que ela pediu, e a voz rouca de Harry denunciava que ele estava cansado também.
— Nós...— Ela ponderou por alguns segundos. — Nós vamos dividir o mesmo quarto?
— Não, vou ficar com o de hóspede.
— Eu posso dormir lá. — Ela disse rápido, não queria incomodá-lo na sua própria casa. — Não quero que você saia do seu quarto.
— Ele também é seu, não tem problema. — Harry engoliu em seco. O jeito que falava era doloroso, como se nada fosse dela também. Tudo que eles tinham construído juntos não fazia mais parte dela.
— Lily já está dormindo? — Ele concordou com a cabeça, assim que colocou deitada na cama.
— Bom, fique à vontade. Suas coisas estão aqui, como eu disse, é o seu quarto também. — Ele parou próximo da porta, com as mãos no bolso. —
fitou Harry, o esperando continuar, mas naquele momento ela se perguntou se realmente queria ouvir o que ele estava prestes a dizer.
— Essa casa, tudo isso, tudo que tem aqui, é seu também. — Harry a fitava com um semblante triste, e de alguma forma, aquilo pareceu afetar tanto Harry como . O aperto que sentia em seu peito era significativo o suficiente para ela entender que precisava aceitar que construiu uma vida com aquele homem à sua frente. Por mais que não lembrasse no momento, ele também estava sofrendo, ou aparentava estar pelo menos.
— Vou tentar me acostumar, mas está sendo difícil. — Ela disse em dúvida se aquelas tinham sido as palavras certas.
— Eu sei, está sendo difícil para todos nós. — Harry saiu do quarto, visivelmente triste.



Capítulo 03

I've still got so many unsaid things that I wanna say
And I just can't wait another day
I wish she knew
I still wait up wondering if she will remember me
But there's no way for me to know
(Unsaid Things - McFly)

— A mamãe não vai com a gente, papai? — Lily perguntou, enquanto Harry vestia o casaco na menina. Ainda que insistisse em se vestir sozinha, às vezes, o pai fazia aquele trabalho para que eles não se atrasassem. Não gostava quando precisava sair correndo de casa e não conseguia dar o café da manhã para a filha.
— Hoje não, filha. A mamãe ainda precisa descansar, mas podemos falar com ela quando você chegar da escola e ver se ela gostaria de ir amanhã, tudo bem? — Harry a colocou sentada na cadeira para poder preparar o café de ambos. Lily apenas balançou a cabeça concordando, se distraindo logo em seguida com o desenho que passava na televisão.
A manhã dos dois se tornou um pouco mais atarefada para Harry desde que sofreu o acidente, já que ele ficou responsável por todas as tarefas e ainda tentava conciliar a atenção da filha, visitas ao hospital e o trabalho com a banda. Mas, apesar de tudo, ele estava conseguindo dar conta.
Harry não demorou muito para preparar um achocolatado e um sanduíche, além de um prato com frutas que deixava separado para Lily comer pela manhã. Na cozinha, Harry apenas escutava o barulho da televisão, apesar de odiar, era uma forma de deixar Lily entretida enquanto ele precisava fazer as tarefas antes de sair para trabalhar.
No andar de cima, apenas escutava as vozes baixas demais para conseguir abrir os olhos. Ainda que estivesse tomando as medicações necessárias, sentia algumas dores de cabeça e isso a impedia de acordar, mesmo quando seu corpo pedia por isso. Quando conseguiu acordar, a casa já estava silenciosa novamente. Ela, então, aproveitou para tomar um banho e preparar seu café. Não sabia ainda o que faria ao longo do dia, mas, no momento, não era algo tão urgente para resolver.
Assim que saiu do banheiro, procurou pelas suas coisas no quarto. Não lembrava de nada que tinha ali, vasculhou pelo roupeiro e percebeu que, pelo menos, seu modo de se vestir não tinha mudado tanto. Haviam algumas roupas e calçados mais sofisticados, e se estava ali dentro era porque ela usou em algum momento, disso tinha certeza. Por fim, acabou escolhendo uma camiseta de umas das turnês do McFly e uma calça jeans de lavagem escura. Porém, a camiseta acabou ficando um pouco maior do que o seu tamanho, então deu um nó na ponta da blusa e a deixou do tamanho que gostaria. Agora que estava sozinha em casa, pôde observar os móveis, a decoração e, principalmente, as fotos espalhadas pela casa. No quarto do casal, ficava uma foto de seu casamento ao lado da cama, ambos pareciam tão felizes que ao olhar a foto, desejou poder lembrar daquele momento. Lembrar do seu passado era a única coisa que ela desejava com todas as suas forças ultimamente, mas sabia que Gi estava certa quando disse que ela deveria se permitir a uma nova chance. Ao chegar na sala de estar, aproveitou para colocar uma música para que o ambiente não ficasse tão silencioso, no entanto, uma foto na estante prendeu sua atenção. pegou a fotografia, analisando cada detalhe registrado ali, deixando que um filme passasse em sua mente.

— Eu estou faminta! — se atirou no enorme sofá que tinha no estúdio da casa dos Fletchers.
Como de costume, a radialista também se reunia com a banda no fim de semana. Apesar de sua implicância com Judd, a mulher mantinha uma amizade com o restante, principalmente por sua melhor amiga ser Giovanna Fletcher.
— Você pode ir para a sua casa, . — Harry respondeu, dando um sorriso sarcástico.
— Vai se ferrar, Judd! — A mulher mostrou o dedo do meio.
— O que acham de pedirmos pizza? — Tom foi quem deu a ideia, não entrando naquela guerra de gato e rato entre os dois.
— Eu topo, vou buscar as bebidas lá em cima. — Dougie se ofereceu.
— Eu te ajudo. — se levantou rapidamente, indo para o lado de Dougie e subindo as escadas que dava acesso ao resto da casa.
— Então, quando vocês vão finalmente assumir o que rola entre vocês? — Dougie foi direto ao ponto, a intimidade que ele tinha com a morena era o suficiente para ele não precisar de desculpas.
— Credo, Poynter. — fez uma cara de nojo. — Nunca, nunquinha.
— Quero só ver o dia que você pagar essa língua. — O baixista disse, tirando o fardo de cerveja da geladeira.
— É mais fácil eu beijar você do que o Judd. Isso não é uma ofensa, você sabe que sempre te achei gato. — Os dois se olharam por alguns segundos e começaram a rir.
— Eu fico muito lisonjeado, . — Dougie ainda ria com o comentário da amiga, principalmente porque eles sabiam que aquilo era algo impossível de acontecer. De novo.
No início da relação de e Dougie, os dois já tinham trocado alguns beijos aqui e ali, mas perceberam que funcionavam muito melhor apenas como amigos, e, definitivamente, um relacionamento entre os dois estava fora de questão.
— Vamos lá para baixo de uma vez. Vão achar que voltamos aos velhos tempos e estamos nos pegando aqui em cima. Ah, e você fica com essa aqui. — pegou as cervejas, entregando uma garrafa de refrigerante para Poynter.
— Cada dia mais abusada. — Dougie puxou pelos ombros e ela o abraçou pela cintura com a mão livre.
— E como está a sua mãe?
— Bem, eu disse que te levarei na próxima vez que for visitá-la. — À medida que conhecia a banda, também criava um vínculo familiar com todos, até mesmo com Judd, já que suas implicâncias eram quase rotineiras.
— Eu vou cobrar esse convite. — cutucou Dougie de leve, o fazendo rir. — Se importa de levar para mim? Preciso ir ao banheiro rapidinho.
— Pode deixar comigo.
Dougie desceu as escadas com as cervejas e o refrigerante em mãos, voltando para o sofá que estava sentado antes. Mas dessa vez, Tom, Danny e Harry estavam numa calorosa discussão, a qual ele não conseguia entender sobre o que era.
— O que tá pegando? — Cada um pegou uma cerveja, com exceção de Poynter.
— Harry finalmente assumiu que acha a gostosa. — Danny comentou, rindo da cara do amigo.
— Não foi isso que eu disse. — Harry, por outro lado, não estava nada feliz com aquela discussão.
— Cara, você assumiu que se sente atraído por ela. — Tom confirmou, também rindo.
— Não foi nada disso. Eu odeio vocês. — Harry saiu do estúdio, mesmo que não estivesse nada bravo com os seus amigos, ele precisava parar com aquela discussão antes que a própria voltasse e escutasse aquilo. Por mais que achasse a mulher linda, nas suas palavras ela era “linda na mesma proporção que era teimosa” e foi suficiente para ser motivo de piada.
— Ou eles se casam algum dia ou eles se matam. — Dougie comentou recebendo o apoio dos amigos.
— HARRY JUDD, EU TE ODEIO. SAI DAQUI AGORA. — A voz de pôde ser ouvida mesmo dentro do estúdio, o que fez todos os presentes irem para o andar de cima da casa.
— O que tá acontecendo aqui? — Giovanna foi quem chegou primeiro, tentando entender o que acontecia ali.
— ESSA MALUCA NÃO FECHA A PORTA, COMO EU VOU SABER QUE ELA ESTAVA AQUI? — Harry apontou para a porta, como se ela fosse dar alguma resposta para ele.
— Meu Deus, eu podia estar pelada. — O rosto de estava vermelho. Um misto de raiva e vergonha a dominava.
— Então por que não trancou a porta? Existe uma fechadura para isso, . — Harry estava tão irritado quanto ela.
— Você podia ter batido, era só bater. — Ela respondeu da mesma forma óbvia.
— Eu não ‘tô entendendo esse escândalo, você já estava até vestida, . Puta que pariu.
— Porque você arregaçou a porta e foi entrando na porcaria do banheiro que eu estava usando.
A cena podia continuar até mesmo por horas, mas a discussão deu fim quando a campainha da casa soou, anunciando que a pizza havia chegado. Harry e ficaram por mais alguns minutos discutindo, mesmo sabendo que seus amigos já estavam de volta ao estúdio conversando e comendo; porém, eles pareciam não se importar a não ser com a briga de egos.
— Junta todo mundo aqui, precisamos de uma foto.
Gio estava com o celular em mãos, pronta para tirar a foto depois que todos já tinham acabado com as pizzas e as garrafas de cervejas estavam vazias. Para o azar de , o único lugar possível era ao lado de Harry, e ele também percebeu.
— Não encoste um dedo em mim, Judd. — Ela disse, séria.
— Você ficaria muito mais feliz se eu encostasse, , acredite em mim.— Ele respondeu apenas para provocá-la.
— Você é nojento. — revirou os olhos, mas teve que ficar ao lado de Harry.
Quando todo mundo já estava pronto para a foto, Harry a puxou forte, fazendo-a cair em seu colo.
— Não precisava ter se jogado, . — Ele soltou um riso baixo, apenas para que ela escutasse.
— Eu te odeio, Harry Judd. — disse entredentes, enquanto sorria para a foto.

colocou a fotografia de volta no lugar, sem se dar conta que estava sorrindo ao lembrar daquele momento. Ela realmente vivia em pé de guerra com Harry na maior parte do tempo, e não conseguia entender em como aquela relação tinha resultado na sua vida atual. Também lembrava da ótima relação com Dougie, ele era seu melhor amigo junto com Giovanna. sabia que sua vida estava confusa demais no momento, mas precisava ter paciência para colocar os trilhos de volta em seus lugares. Ela sabia que era necessário um passo de cada vez, então decidiu que mais tarde teria uma conversa com Harry. Precisava saber sobre a vida que tinham antes, sobre o seu trabalho, queria manter uma rotina novamente e não ficar de fora da vida de Lily.
— Ah, oi. Achei que estaria dormindo. — levou um pequeno susto ao ver Harry parado na porta da cozinha.
— Que susto. — Ela limpou o pouco do café que deixou cair na mesa. — Não, quando acordei vocês não estavam mais em casa.
— Como você está? — Harry se aproximou, querendo manter um contato com a esposa.
— Ainda sinto algumas dores de cabeça, mas acho que estou bem. — mordeu o lábio, sem saber o que falar a seguir.
— Acabei de deixar a Lily na escola, mas podemos ir juntos buscá-la, se você quiser.
— Eu quero. — Ela respondeu rápido, balançando a cabeça.
— O pessoal do seu trabalho ligou, eles querem marcar uma reunião com você. — Harry lembrou do telefonema de mais cedo.
— E onde eu trabalho atualmente? — Ela perguntou, confusa.
— Na Radio One. — arregalou os olhos ao ouvir a resposta.
Naquela Radio One? — estava surpresa, ela não imaginava que tinha realizado aquele sonho.
— Sim, naquela mesma. — Harry sorriu, ao lembrar do momento em que tinha conseguido o emprego dos sonhos.
— Espero que não seja uma demissão. — A surpresa em seu rosto já começava a se transformar em tristeza.
— Tenho quase certeza que não. Você é uma das melhores radialistas. — Harry foi sincero, afinal, ele não conseguia mentir para nem se quisesse. Mas foi o resquício de sorriso que ameaçou aparecer no rosto da mulher que o deixou feliz naquela manhã. — Eu ‘tô indo para o estúdio, o pessoal vai estar lá também, quer ir?
— Acho que é uma boa ideia sair de casa. Só preciso colocar um tênis, tudo bem?
— Tudo bem. Eu vim buscar minhas roupas, não tenha pressa. — Harry foi até o quarto que usava como estúdio da casa, pegou algumas coisas que deixava guardadas lá e logo também apareceu naquele cômodo.
— Você está ensinando bateria para a Lily? — Os olhos de pararam na pequena bateria montada no canto do cômodo.
— Em minha defesa, foi ela quem pediu. E ainda diz que vai montar uma banda com os primos.
— Primos? Quem mais teve filho além da Gi e do Tom? — A cada nova conversa era uma surpresa para . — Desculpe, é tudo novo para mim.
— Vem cá. — Harry a puxou pela mão delicadamente, levando-a para um outro cômodo da casa. O toque de suas mãos não passava nada além de tranquilidade para , fazendo-a confiar naquele homem que ela jurava para si mesma odiar. Dessa vez, eles entraram no escritório da casa, mas lá, com certeza, era o lugar que mais tinha a cara de .
— Acho que eu passava bastante tempo aqui, não? — Ela olhou satisfeita para o escritório. A estante de livros preenchida, as fotos espalhadas, uma poltrona próxima da janela e até mesmo uma vitrola estava no local, mais como decoração, do que para uso.
— Durante a gravidez da Lily, esse lugar acabou se tornando o seu favorito.
— Acho que você tem muita coisa para me contar. — Não era só sobre quando tinha se mudado para aquela casa, mas basicamente sobre a sua vida toda a partir do momento que descobriu que estava grávida.
— Como eu disse no hospital, nossa história é bem diferente daquela que você lembra, e estou disposto a contá-la quando você quiser ouvir.
— Eu quero muito saber, mas acho que esse não é o momento certo. — encolheu os ombros, colocou as mãos no bolso da calça sem saber o que fazer. Ao mesmo tempo que Harry transbordava confiança, ele a deixava totalmente nervosa. Às vezes, nem sabia porque se sentia dessa forma quando estava na presença dele, parecia até mesmo uma adolescente na frente de um astro do rock. — Acho que você ia me mostrar alguma coisa, não?
Harry aceitou a mudança de assunto, afinal eles tinham ido para o escritório justamente para ela entender alguns acontecimentos antes de encontrar com a banda. Não demorou muito para ele abrir a pasta de fotos no notebook, a maioria delas era de Lily com Buzz, Buddy, Max e Cooper. Judd explicou a ordem dos acontecimentos, apesar de Lily regular de idade com Max e Cooper, Buddy e Buzz tinham bastante paciência com a prima mais nova e sempre a chamavam para brincar. Quando aconteciam os ensaios na casa de um deles, as crianças montavam a sua própria banda e "ensaiavam" também. Muitas vezes esses ensaios geravam vários vídeos caseiros, que com certeza serão usados contra eles no futuro. Os olhos de já estavam cheios de lágrimas, fazendo-a soltar um soluço um pouco alto.
— Acho que é melhor você ir. — saiu do cômodo, deixando Harry totalmente perdido em seus pensamentos. Ele apenas escutou quando a porta do banheiro foi fechada com força demais.
Haviam tantas coisas que ele queria falar, mas sabia que não podia despejar tudo de uma vez, não entenderia metade do que Harry estaria falando, e, talvez, a situação se tornasse ainda pior. quase não falava sobre o que estava sentindo com Harry, o que tornava a distância entre os dois ainda maior. Judd sabia que a confiança, cumplicidade e o amor entre eles era algo que precisa de tempo e paciência para ser construído, mesmo que a parte do amor ele tivesse de sobra; essa parte, no entanto, ainda estava em falta em . Por fim, Harry decidiu que era melhor voltar para o estúdio antes que falasse mais do que deveria.
Antes de sair, Judd ainda parou na frente da porta do banheiro que estava, ele não sabia se era o certo a se fazer, mas não podia simplesmente deixá-la sem uma resposta. Afinal, ele estava tão confuso quanto ela.
… — Harry parou quando escutou a mulher fungar dentro do banheiro, pensando se deveria ou não falar o que sentia. — Se eu pudesse voltar no passado, nunca teríamos saído naquela noite. E eu não estou falando da noite que você deve lembrar.



Capítulo 04

Find it hard just to speak sometimes
How am I mеant to know the lines?
Everyone but me
Knows the final scene perfectly
(Sink or sing - McFly)

Quando não tinha respostas para as suas milhares de perguntas, ela tentava se distrair para que não surtasse ainda mais. Quando mais nova, era tão exigente consigo mesma, que muitas vezes, escondia seus sentimentos dos outros com medo de magoá-los. Ela não se permitia falhar, e agora, parecia que não conseguia e nem sabia fazer nada certo. Isso era assustador demais para alguém que sempre teve o controle da sua própria vida. Naquela tarde, se permitiu descansar. Ela não tinha feito quase nada, mas ainda se sentia exausta e o silêncio foi um bom companheiro. Até que seu celular tocou.
— Meu Deus! — se sentou, assustada, no sofá. Ela não tinha se dado conta ainda, mas não usara o celular desde que chegou em casa.
O toque do aparelho parou, mas segundos depois voltou a tocar no andar de cima. não conseguia reagir aquilo, mas a pessoa que ligava não desistiria tão fácil, então ela precisava ir atrás de seu celular. Ao chegar no segundo andar, seguiu o som do toque e descobriu que o aparelho estava na cômoda ao lado da cama, e nem mesmo tinha percebido que o aparelho estava ali todo esse tempo. O número não estava salvo na sua lista de contatos, mas por alguma razão, sabia de quem era. Resgatando toda a sua coragem, ela aceitou a chamada.
— Alô? — Ainda receosa, ela atendeu.
, onde você está? — A voz ríspida de sua mãe a fez fechar os olhos. — Estou há vinte minutos te esperando.
— Em casa, mãe. — Ela fechou os olhos ao ouvir o suspiro da mulher no outro lado da linha. — Desculpe, eu esqueci.
— Que novidade, eu sabia que era um erro aceitar o seu convite. — enrugou a testa, por questões óbvias acabara esquecendo daquele encontro e, sendo sincera consigo mesma, não era sua prioridade sair de casa no momento. Mas sua mãe, Olga, não demonstrava ter conhecimento sobre a sua vida no último mês.
— Mãe, você por acaso sab…
— Não, não quero ouvir suas desculpas, . — A mulher desligou antes mesmo que conseguisse terminar a frase. A morena ainda ficou olhando para o aparelho em mãos, isso só reforçava que a relação de mãe e filha entre as duas não tinha mudado muito desde a última conversa que lembrava.

3 anos atrás

— Você se apaixonou por um músico, . É o maior erro que uma mulher pode cometer. São poucos os que valem tamanho sacrifício, mas acho que esses já foram extintos. — A voz de sua mãe saiu tão firme do outro lado da linha. sabia que a mulher seria muito mais dura se estivesse na sua frente.
— Não precisa falar assim. — deixou escapar, mas se arrependeu no minuto seguinte.
... — Ela soltou um suspiro. — Você sabe o que eu faria, você ainda é nova.
— Você não fez quando descobriu que estava grávida de mim. — Não era a conversa que queria ter, no entanto, achou que uma voz familiar pudesse lhe ajudar num momento difícil. Pelo visto estava enganada.
— Seu pai esteve ao meu lado. — Aquela resposta foi o suficiente para entender que não teria o apoio de sua mãe. Ótimo, duas rejeições no mesmo dia.
— Boa noite, mãe. — desligou o celular, o deixando em cima da mesa de centro na sala. Não teve forças para caminhar até o quarto, então o sofá foi o lugar mais aconchegante para sentar e chorar. Se agarrou a uma almofada e ficou na mesma posição até que o sono começou a aparecer.

— Mamãe! — Lily entrou correndo no quarto, pegando desprevenida, mas a garotinha nem ao menos tinha percebido a cara de espanto da mãe. Lily apenas entrelaçou os pequenos braços no pescoço de e descansando a cabeça no ombro da mulher.
— Oi, meu amor. Como foi na escola hoje?
continuava abraçada a filha, sentia que toda a sua preocupação iria embora quando pessoas importantes estavam ao seu redor. Por alguns segundos, seus olhos se desviaram da menina em seus braços e encontraram com os azuis de Judd. O homem estava parado na porta, admirando a cena e sorriu para ela quando seus olhares se encontraram, um azul vibrante e intenso em que se perderia, caso o encarasse por mais tempo.
— Eu não quero falar sobre a escola hoje. — A menina saiu correndo do quarto, deixando sem entender o que tinha acontecido.
— Aconteceu alguma coisa grave na escola? — Ela perguntou para Harry, já que ele havia ido buscá-la sozinho.
— Lily, volte aqui, mocinha. — A menina parou no corredor, olhando para o pai com uma cara de cachorro que caiu da mudança. — Agora conte para a mamãe o que aconteceu na escola.
— Eu não quero. — Ela cruzou os braços e fez um bico com a boca.
— Filha, a mamãe está aqui para te ajudar. Pode contar o que quiser, tudo bem? — fez um carinho no rosto da filha, fazendo a menina relaxar e encarar seus olhos, transpassando toda confiança que conseguia.
— O Buddy não tá mais na minha turma. — sorriu, aliviada. — Eu ‘tô com saudade.
— Amor, o Buddy está crescendo, assim como você. Mas quando você sentir saudade dele, eu e o papai te levamos na casa do tio Tom, tá bom? E o Buddy sempre pode vir aqui em casa também.
No início da gravidez, o maior medo de era não ser o suficiente para Lily ou ser igual a sua mãe, mas agora ela sabia que nunca seria igual a Olga e estava contente com isso. era o que Lily precisava e a menina lhe mostrava que era possível ser alguém melhor todos os dias.
— Tudo bem, então eu não ‘tô mais triste, mamãe. — A ruga de preocupação de Lily foi embora de vez e a menina já estampava um sorriso em seu rosto.
— Mas está fedorentinha, vamos já para o banho. — a pegou no colo, dando beijos em seu rosto enquanto a menina gargalhava. sentia já ter vivido aquilo antes.
— Eu vou preparar o jantar, tá bom? — Harry chamou a atenção de novamente.
— Tudo bem. Eu não como carne. — Ela soltou a informação, como se Harry já não soubesse daquilo há algum tempo. Mas Judd conhecia perfeitamente a mulher à sua frente.
— Eu sei, . Moramos juntos. — Harry foi para o outro andar da casa, enquanto seguiu para o banheiro com Lily em seus braços.
No andar de cima, pegou o pijama de dinossauro da filha, deixando em cima da cama e, logo após, ligou a banheira para que a menina tomasse banho. À medida que Lily fazia brincadeiras na água e contava como tinha sido o dia na escola, o qual ela havia dito que não queria contar, conseguia perceber melhor as semelhanças dela e do baterista na filha.
— Mamãe, canta aquela música, vai. — Lily pediu, enquanto colocava as mãos no cabelo junto à mãe para passar o shampoo.
— Qual, meu amor?
— Aquela que o papai diz que fez para mim, por favorzinho, mamãe.
— Eu…eu não lembro, filha. — se sentia mal por não lembrar de algo básico que costumava fazer, por mais que fosse apenas uma música que Lily gostasse, ela sentia que estava perdendo a conexão com sua família. — Mas eu acho que você vai gostar de outra música também.
não lembrava quem escrevera, mas sabia que a letra falava sobre o momento em que estava vivendo. E torcia para que Lily gostasse, ainda que não fosse boa cantando quanto os colegas de banda de Judd.
It’s just another sunrise on another day. Just another rainbow, well they’re all the same. — começou a cantar baixinho, insegura. — Let me guess, a sunset followed by the moon. I think I’m ready for something new.
Lily estava distraída na banheira, mas sabia que a música que sua mãe cantava era exatamente a mesma que ela havia pedido. Para uma criança de três anos, Lily era bastante esperta, ainda que não compreendesse a confusão que passava na mente de . Enquanto isso, fechou os olhos e deixou que a canção servisse como um aconchego, não sabia da onde já escutara, mas a canção soava familiar.
It’s just another love song about another girl. Just another movie where they save the world. And every rollercoaster does a looptyloop. I guess I’m ready for something new.
No andar debaixo, Harry começava a preparar o jantar, mas quando escutou a voz de cantando a música que ele escrevera, ele paralisou. Um pouco depois do nascimento de Lily, Harry escrevera aquela música, algumas vezes ele cantava para a menininha, em outras era quem fazia isso. Mas se lembrava apenas dos dias "ruins" que ambos tiveram, não era possível que ela lembrasse daquela música. A essa altura, eles já estavam namorando, mesmo que não tivessem assumido nada na época. Seu coração acelerava e um misto de esperança e medo tomou seu peito, ele queria que tudo voltasse ao normal; mas sabia que essa era uma possibilidade bem distante da sua realidade. Suas vidas nunca mais seriam as mesmas, e toda vez que ele tentava uma aproximação, recuava. Era um momento muito delicado para a família Judd.

[...]

Após o jantar, colocou Lily para dormir. O cansaço do dia ajudou para que a menina pegasse no sono logo em seguida, mas ainda estava intrigada com a música que a filha pediu. Ela era curiosa demais para deixar para lá, principalmente quando se tratava da sua própria vida. Devido ao cochilo que tirou a tarde, ela não estava nem um pouco com sono, mas achou que tomar um chá poderia controlar sua ansiedade. Olhou mais uma vez Lily, certificando-se que a filha estava mesmo adormecida e saiu do quarto. Porém, assim que abriu a porta, Harry estava pronto para entrar no cômodo também e eles acabaram se trombando um no outro.
— Desculpa, desculpa. — Harry segurou pelos ombros, a fazendo se equilibrar após bater com o rosto em seu peito. — Está tudo bem?
— Sim, sim. — Ela parecia um pouco atordoada, principalmente por sentir seu perfume tão perto. — Eu já estava saindo, Lily acabou de dormir.
Harry ainda olhava preocupado para a esposa, mas não aparentava estar machucada e sim relutante com outras questões. O olhar inquieto sobre o rosto de Harry demonstrava que ela estava receosa sobre perguntar algo ou não.
— Eu fiz um pouco de chá, você quer? — Era estranho para Harry ter que perguntar coisas que, antes, ele sabia que sua esposa aceitaria sem questionar. E, agora, não sabia se a que ele conhecia ainda tinha os mesmos gostos.
— Claro, eu não vou conseguir dormir agora. — o semblante de preocupação parecia ter ido embora, pelo menos até os dois chegarem na cozinha. — Harry, eu posso te fazer uma pergunta?
mordeu o lábio inferior, um claro sinal de nervosismo. E Harry sentiu ainda mais vontade de beijá-la.
— Claro, o que quer saber? — Ele entregou uma xícara para , enquanto se acomodava melhor na bancada.
— Minha mãe me ligou hoje. — Tão rápido quanto tirar um band aid de um machucado. Judd ficou surpreso com aquela informação, só ele sabia o quão difícil era a relação das duas mulheres. — Por acaso ela sabe do acidente?
— O que ela queria? — Ele perguntou de volta.
— Por favor, Judd. Apenas me responda, ela sabia ou não? — o encarava com tanta seriedade que seus olhos verdes estavam escuros.
— Sim. — Ele respondeu, ainda relutante. — Ela sabe.
— Meu Deus. — balançou a cabeça, ainda sem acreditar no que estava ouvindo. — Ela me ligou hoje achando que eu ia encontrá-la em algum lugar. Pelo jeito Olga não mudou nada. — O tom de decepção era nítido em sua voz, mas sabia que isso era bem possível vindo de sua mãe.
— Ela não fez muita questão de querer participar da sua vida, nem antes e nem depois do nascimento da Lily. Mas ela é a sua mãe, então, por isso eu liguei para ela assim que saí do hospital. — Harry achou melhor explicar o motivo para a esposa, talvez deixassem as coisas menos confusas do que já estavam.
— Tudo bem. — Antes que o chá esfriasse, ela terminou com o líquido na xícara. — Eu acho que vou dormir. Eu posso ir com você levar a Lily na escola amanhã?
— Claro, acho que vai ser bom sair de casa um pouco. E Dougie está morrendo de saudade.
— E por que não apareceu aqui ainda? — Quando o assunto era Dougie Poynter, conseguia falar sem nenhuma preocupação.
— O Dougie não mudou nada, am-. — Ele pigarreou, constrangido. A palavra quase saiu pela sua boca, mas Harry corrigiu rapidamente. Seria estranho para os dois se ele tivesse completado a frase. Antes que o clima ficasse estranho, os dois deixaram suas xícaras na pia e subiram as escadas.
— Ah, Harry? — chamou, antes de abrir a porta do seu quarto e o baterista encarou a mulher mais uma vez. — Lily comentou sobre a música que você fez para ela. Que música é essa?
— A música que você estava cantando. — o encarou, surpresa, mas sem dizer nada. — Boa noite, .
— Boa noite, Harry.


Continua...



Nota da autora: MEU DEUS, EU NÃO ACREDITO QUE ESSE CAPÍTULO FINALMENTE SAIU! UFA!
Sim, eu sei que era pra ter escrito ele há muito tempo, mas eu não consegui. O importante é que ele finalmente chegou e temos uma evolução nessa relação. Eu amo o Harry, ele é simplesmente o homem mais gentil que eu já vi na vida e na fic não poderia ser diferente, né?
Enfim, espero que gostem e comentem!!!

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Outras Fanfics:
Em Andamento:
» Girl Next Door [Bandas - McFLY]
» Last Mistake[Restritas - Originais]
» Threat Of Joy [Originais]
» Um novo começo [Originais]


Ficstapes:
» 05. Too Much To Ask [Ficstape Niall Horan: Flicker]
» 06. POV [Ficstape McFly: Radio:Active]
» 12. Nothing Else Matters [Ficstape Little Mix: Glory Days]
» 16. Hoax [Ficstape Taylor Swift: Folklore]


Finalizadas:
» Close [Esportes - Fórmula 1 - Shortfic]
» I’m still In Love With You [Restritas - Originais - Shortfic]
» My Best Shot [Originais - Shortfic]
» We’ll All Be [Bandas - McFFLY - Shortfic]

Nota da beta: Ah, o fofurômetro desse capítulo explodiu! As interações da Lily com a são preciosas demaaais, amo tanto essas duas! Ela cantando a música... aaaa, achei tão adorável! E essa mãe? Jesus, que amargurada, credo!
Ansiosa pela continuação! 💜💜



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