Inocência

Última atualização: 03/02/2019

Capítulo 1. Minha Vida de Merda


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O salto do meu sapato era o único som que eu escutava no corredor daquele hotel silencioso. Era só mais uma noite de trabalho do qual eu nunca me acostumaria, odiava o que fazia, mas era a única coisa que eu conseguia fazer, e o dinheiro era uma necessidade. Quando dei de cara com o quarto trezentos - meu destino - respirei fundo, percebi que meu corpo tremia e que não conseguia parar de lembrar do meu último cliente, o que havia me dado um tapa na cara tão forte, que doía até agora.
Esfreguei com cuidado o lado do rosto que ainda ardia, lembrando de que quando voltasse para meu apartamento, não encontraria quem me sustentasse, ou qualquer pessoa que me apoiasse a mudar de vida. Pensei em Emma, e para onde a maior parte do dinheiro ia, então mais que depressa bati na porta, rezando para que ninguém me machucasse.
— Pode entrar. — Escutei a voz de um homem do outro lado. — A porta está aberta.
Entrei rápido quando percebi o elevador parando no andar em que estava, sempre gostei de ser discreta. Ou seria vergonha? O quarto estava escuro e tudo que eu conseguia ver era as costas de um rapaz que encarava a vista para além da janela. Quando entendi que minha presença era indiferente para ele, tossi para tentar chamar a atenção, mas foi em vão, ele continuava concentrado no nada. Sua postura era curva, não estava seguro estando ali. Quando cheguei mais para o lado eu vi, pela claridade que entrava da rua, que seus olhos estavam parados. Ele não olhava para lugar algum de verdade.
Um minuto depois e nada tinha acontecido ainda, aquela situação era no mínimo incômoda para mim e eu já estava sem paciência. Para acelerar o processo e chamar a atenção dele para mim, resolvi desabotoar o casaco, deixando à vista o vestido preto, curto e bastante decotado, que por consequência me deixava muito vulgar. Para ser sincera, era uma das roupas que eu menos gostava, mas uma das melhores para trabalhar, porque me deixava seminua. Os clientes gostavam disso.
— Suas horas já começaram a ser contadas, sugiro que comecemos logo. — Eu disse a ele quando ao observar que meus movimentos sequer o deixaram curioso.
Talvez a falta de vergonha nas minhas palavras o fez virar, e finalmente consegui ver seu rosto. Ele era lindo, mas tinha algo que pesava na sua imagem. Virei minha cabeça, para analisá-lo melhor, por um instante tinha esquecido meu propósito naquele encontro e... Droga, eu conheço esse cara! Pelo menos sei quem é, já que Emma vive suspirando por ele enquanto observa o pôster na parede suja do seu quarto.
— Quantos anos você tem? — Ele perguntou enquanto me olhava de cima a baixo.
— Vinte e um. — Eu não escondia estar irritada, já tinha perdido tempo demais sem fazer nada, queria terminar com aquilo logo. — Vamos começar de uma vez, certo? Se você não gostar de preliminares podemos ir direto ao ponto, por mim tanto faz, você é quem manda.
Ele contorceu o rosto mostrando o desconforto, eu já estava acostumada a ver a cara de nojo deles para mim antes de começar meu serviço, e principalmente depois de fazer tudo que eles pagaram para que eu fizesse. Eu odiava aquele tipo de palavreado, e isso nunca aparecia quando eu estava “de folga”, mas, naquela situação, eu tinha aprendido que meu modo de falar excitava os clientes e os deixava intimidados, o que era um modo tolo de tentar me sentir segura.
Dei de ombros, afastei qualquer pensamento ruim da minha cabeça, chegando mais perto do homem em minha frente - que por mais famoso que fosse eu não conseguia lembrar do nome. Talvez fosse Tom, toda boyband tinha um Tom como integrante, não é? - Pude ver o azul de seus olhos, de longe mais bonitos do que nas fotos, porém não tinha brilho, parecia frio. O rosto, vendo melhor agora, também era sombrio, difícil de distinguir qualquer sentimento que se passava por ele. “Tom” era uma incógnita.
— Qual o seu nome? — Ele estava imune a minha aproximação, não demonstrava nenhuma reação, continuando a beber o que é que tivesse em seu copo.
— Isso é sério? — Rolei meus olhos e me joguei na cama, sentando na ponta que estava perto dele. — Jenna. Me chamo Jenna.
Obviamente menti sobre meu nome, por questão de privacidade, ninguém que tinha ido para a cama comigo soube que meu nome era , na verdade. É até contraditório pensar que gosto de privacidade, tendo em vista as condições do meu trabalho. Acompanhei, com os olhos, quando ele caminhou para o outro extremo da cama, e parando em frente ao mini bar que tinha no quarto. Reparei mais um pouco em seu modo cambaleante e deduzi que “Tom” estava bêbado, o que não me agravada nada. Eu odiava os bêbados porque eles eram os mais violentos.
— Não precisa me dizer seu nome verdadeiro, Jenna já está bom pra mim. — Ele pegou diferentes garrafinhas de bebidas e despejou todas em seu copo que já estava vazio. — Quer alguma bebida Jenna? — Acrescentou muita ironia ao falar meu suposto nome.
— Não, estou bem. — Meu tom confiante de antes já tinha sido descartado, eu confesso que agora estava receosa com aquele sujeito perto de mim.
De qualquer forma, eu nunca aceitava bebida dos clientes, preferia fazer meu trabalho sóbrio e atenta a qualquer movimento deles, principalmente se já estivessem bêbados. Ignorando a minha resposta ele serviu um pouco de vodca num copo separado e me entregou, não tive coragem de não pegar.
— Eu sou Louis, aliás. — Ele disse, mas não olhava hora nenhuma para mim, é como se tivesse falando sozinho, mas tinha muita decepção naquelas palavras.
Louis fazia mais sentido do que Thomaz para mim, abri a boca para responder que eu já o conhecia e que minha irmã era fã da banda dele, mas me segurei, preferi fingir que a vida dele fosse totalmente desconhecida. O silêncio tomou conta do lugar, em nenhum momento ele mencionou a banda ou que era cantor, diferente de todos os outros que gostavam de mostrar a fama e o poder que tinham. Baixei meu rosto, me recusando a sentir pena daquele homem, afinal minha vida era pior que a dele e eu não estava cambaleando em um quarto de hotel com uma desconhecida com pouca roupa.
— Você me chamou aqui por um propósito, então acho melhor a gente começar a ... — Antes que eu terminasse sua voz me cortou rapidamente, e não era agradável.
— Eu não quero transar com você. — Assustei-me ao ouvir aquilo. — Eu desisti. — Ele deu de ombros e voltou a me dar as costas, olhando para a janela novamente.

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Senti vergonha por me deixar ofender com aquela afirmação, nunca haviam desistido de me ter na cama, mesmo os velhos que precisavam de remédio. Queria me oferecer e mostrar que ele estava errado em desistir, mas não me rebaixaria a tanto.
— Tudo bem. — Levantei e coloquei o casaco outra vez, um pouco envergonhada por ter mostrado tanto do meu corpo para ele. — Mesmo assim você vai ter que me pagar, ok?
— Você não precisa ir embora. — Ele virou-se e olhou em meus olhos pela primeira vez desde que eu tinha chegado.
Foi nesse instante que vi a dor que ele carregava, o Louis em minha frente não parecia nada com o que Emma mostrava nos vídeos e nas fotos. O Louis ali era um homem fraco, triste e bêbado. Eu tinha pena desse homem. Os olhos dele estavam marejados o que me surpreendeu outra vez, mas tudo naquele quarto me assustava, e eu não sabia o porquê. Eu precisava ir embora e cuidar dos meus próprios dramas. Andei um pouco até chegar perto do homem que ainda me encarava, estendi a mão como sinal para receber o dinheiro do “programa”. Louis engoliu a seco, e desviou seu olhar do meu, deu de ombros e pegou um bolo em sua carteira entregando a mim. Não contei, mas sabia que era mais do que ele deveria receber, só que eu ficaria com troco por ele ter me feito andar até lá à toa.
— Se cuida, Jenna — Ele insistia em olhar para o chão como se desistisse não só de mim, mas dele também.
— Preciso te perguntar uma coisa antes de ir. — Já estava na porta, mas não ia embora enquanto não tivesse uma resposta. Ele continuava a olhar para o chão e o copo em sua mão. — Por que você me chamou aqui se não queria me usar?
— Usar? — Ouvi um riso baixo, de deboche. — Você deixa as pessoas te usarem? — Louis tomou um gole de sua bebida.
Senti muita raiva ao escutar aquilo, vindas dele as palavras tiveram um efeito mais perturbador, o que era estranho, porque poucos homens me deixavam desconcertada. Só que eu não poderia ser hipócrita dizendo que eu não passava de um brinquedo para eles, por isso sim, eu era usada por eles. Esse era o meu trabalho: ser usada por homens que pagassem por meus serviços. Eu não era cega, não era surda e por isso sabia exatamente meu lugar.
— Tudo bem, Jenna — Ele não esperou minha resposta, mas voltou a olhar duramente para mim. — Eu te chamei aqui para olhar para alguém tão fracassado quanto eu, foi por isso Jenna. — Ele tinha lágrimas nos olhos. — Obrigado, Jenna, por me mostrar que poderia ser pior. — Então ele estendeu o copo em minha direção como se brindasse sozinho à minha desgraça.
Tinha doído. Muito. Senti meus olhos arder. Sai o mais rápido que conseguia do quarto e no elevador deixei que as lágrimas tomassem conta de mim. De novo eu sentia nojo de mim, a humilhação tinha se tornado uma constante em minha vida, mas eu nunca me acostumava àquilo e sempre saia machucada dos “encontros”. Saí do hotel pisando forte, os hóspedes me encaravam preocupados com o estado que eu estava. Puxei meu casaco pra mais perto do meu corpo, eu não queria me mostrar para mais ninguém naquela hora.
Quando enfim cheguei na rua, virei-me, por extinto, em direção a janela do quarto que há alguns segundos eu estava. E lá estava a sombra do homem que tinha me humilhado e ele me encarava, sem pudor agora. Limpei meu rosto, encharcado de lágrimas e nesse momento vi que Louis tinha feito um pequeno movimento com a boca, parecia falar comigo, mas eu não entendi nada. Sem me esforçar para entender chamei o táxi que estava próximo. Antes de entrar, olhei mais uma vez para a janela e agora não tinha ninguém mais.
Não vi quando cheguei em casa, só percebi que estava em meu destino quando o motorista falava o valor que eu teria que pagar pela corrida. Mesmo estando em casa, não conseguia parar de chorar; tomei um banho demorado para limpar a sujeira que estava impregnada, por mais que esfregasse não saia dela. Deite na cama, ainda com o cabelo molhado, mas não conseguia fechar os olhos sem ouvir o que Louis tinha falado para mim. No impulso, enfiei a mão dentro da fronha do travesseiro buscando pelo alívio que eu havia descoberto há pouco tempo.
Levantei e fui direto para a sala, eu tinha meus costumes, e isso era um que eu não conseguia fazer em meu quarto. Senti o saquinho balançando em minhas mãos, me joguei na cadeira de ferro da mesinha redonda e ali eu enfileirei o pó branco e enrolei nota de dez libras para me ajuda no processo. Cheirei a carreira de uma vez, na hora senti minha cabeça pesar, já que vinha o alívio, aqui eu tinha esquecido, da merda que eu havia me tornado.



Capítulo 2. Farsa

Uma semana depois…
Louis.
Havia dias que eu não tirava Jenna da cabeça. Jenna. Era um nome que não combinava com a mulher que esteve diante de mim naquele quarto; do mesmo jeito que sua atitude não condizia com o que ela era de fato. Fraqueza era o que aqueles olhos tentavam esconder, mas eu reconheço alguém tão fraco quanto eu de longe. Há meses tenho sido um bom ator para o público e para a mídia, mas naquele quarto eu deixei que ela me visse da forma que sou hoje. Um imbecil!
Sentado em frente ao piano enquanto esperava terminar de se arrumar, repassei cada palavra que eu tinha dito à Jenna naquela noite e me odiava a cada palavra que lembrava. Eu costumava ser um cara legal. Tomei mais uma dose de whisky no meu copo, já estava ficando impaciente com a demora de . Bati o dedo em uma tecla branca produzindo um barulho aleatório, não lembro a última vez que toquei esse piano inspirado. Antes de ficar triste com minha falta de prazer com o que me deixava feliz antes, escutei os passos aumentando vindo em minha direção. Virei o último gole de whisky sofrendo em pensar na noite longa que enfrentaria dali para frente.
— Tô pronta. — A voz tediosa de invadiu a sala, me fazendo virar e contemplar a mulher linda que eu um dia amei.
era o modelo de mulher que muitas gostariam de ser. O cabelo ruivo contrastava muito bem com os seus olhos verdes, as sardas na região do nariz lhe davam uma aparência angelical, coisa que ela não era. era só mais uma de minhas farsas: a namorada que tinha virado ex, mas ninguém sabia.
— Você está lindo Louis. — Ela aproximou-se de mim. — Nós formamos um belo casal, meu amor.
Olhei para o espelho percebendo que ela não mentia, aparentemente éramos o casal dos sonhos. Inclusive, o casal preferido das fãs. Quando tentei levantar senti a pressão da mão de em meu peito, me alisando, meu corpo ainda reagia da forma errada ao toque dela, tentei me afastar para que não percebesse seu efeito em mim, mas ela rapidamente alcançou o nó da minha gravata ajeitando o que ainda estava mal feito.
— Você odeia quando eu te toco, não é? — Tinha tristeza em sua voz e era daí que eu sabia que ela ainda me amava. — Um dia você ainda vai me perdoar por tudo.
— Eu penso em te perdoar , mas então, lembro de você na minha cama com o personal que eu paguei para te manter em forma.
Ela não se deixou abater com isso, pelo contrário, seus olhos mostravam a satisfação ao me ver relembrar àquela noite. chegou mais perto encostando a boca em minha orelha, deslizando a mão por meu tronco até chegar no volume da calça, apertando com cuidado meu órgão, me fazendo gemer involuntariamente. — Nada se compara ao sexo que nós tínhamos Louis. — sussurrou em meu ouvido enquanto massageava meu pênis com a vontade que eu nunca havia visto antes nela. — Lembra de como éramos juntos?

Eu sentia nojo e raiva dela, mas era inegável o quanto ela era boa na cama, tão boa a ponto de me fazer sentir saudades de nossas transas. Continuei parado enquanto ela ainda investia em meu membro, fechei os olhos buscando forças para empurrá-la, mas a sensação de suas mãos em mim eram boas demais. Fechei os olhos pronto para me render, imaginando que uma recaída não seria tão ruim, mas antes de me entregar ouvi a campainha tocar.
— Nós não precisamos ir a essa festa estúpida. — Ela continuava sussurrando em meu ouvindo, mas eu já tinha perdido a vontade de tudo. — Dispense o motorista.
— Não. — A empurrei, satisfeito por ver a raiva que sentia por ela voltar. — Meu amor. — Minhas palavras foram carregadas de ironias. — Não é você que insiste em manter as aparências? — Olhei mais uma vez para o espelho, ajeitando a roupa que já estava um pouco amassada. — Vamos!
Andei até a porta ouvindo um “você me paga” de . Mais uma ameaça não me faria mal, já que eu vivia sobre constantes chantagens dela e, era justamente por isso que ela ainda morava comigo e eu aceitava posar como o casal do ano para os outros. “Se você me deixar juro que conto pro mundo toda a fraqueza que você carrega. Juro por tudo que é mais sagrado que eu conto pro mundo o que você tentou fazer Louis.” As palavras dela ainda me assombravam, e eu tinha tanto medo do julgamento que eu teria se ela contasse, que me sujeitei a aceitar tudo aquilo. Respirei fundo, me concentrando em encontrar Louis simpático que deveria ser, abri a porta e esperei até que unisse nossas mãos para então andar até o carro que nos aguardava.
— Você primeiro, meu amor. — Disse o mais normal possível para que o motorista não suspeitasse de nada.
— Obrigada. — Ela me deu um beijo rápido antes de entrar.
Revirei os olhos enquanto ela me abraçava no banco de trás do carro, eu queria empurrá-la de novo, mas percebi alguns flashes vindo do lado de fora então, beijei o rosto de da forma mais amável que eu conseguia fingir.




Na mesma noite, mais perto do que se imagina…

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Desci as escadas com cuidado para não pisar no vestido preto que eu tinha acabado de colocar, era a coisa mais bonita e cara que já tinha usado na vida. Passei a mão devagar sentindo a renda da roupa que cobria meu corpo dignamente, me deixando mais bonita do que eu já tivesse me sentido antes.
— Eu não posso aceitar senhor Klauss, ele é muito lindo. — Olhei com carinho para o senhor na cadeira em minha frente. — Posso usar por hoje, mas eu devolvo assim que a festa terminar.
— De jeito nenhum, esse vestido é seu agora . Ela não está bonita James? — Ele olhou para o mordomo em pé ao seu lado que concordou rapidamente com a cabeça. — Além de que, você não tem outro vestido para o baile de hoje.
Senhor Klauss era um empresário milionário de Londres, era dono de uma rede de hotéis, mas vivia sozinho em sua mansão depois que sua mulher morreu vítima de uma doença grave. Como não tinha filhos e irmãos ele se sentia muito só. Foi por causa dessa solidão que o senhor Klauss pediu por meus serviços, mas não fomos para cama. Longe disso. O velho queria uma amiga, e então, pelo menos uma vez por semana me chamava pra fazer companhia. Depois de três meses encontrando com ele toda semana eu sentia que éramos amigos, e gostava disso.
Sehor Klauss era o mais perto de um pai que eu já tive, tinha mente aberta e nunca se importou em andar comigo, mesmo sabendo que eu me prostituía, pelo contrário, constantemente ele me levava em festas e me apresentava como sua sobrinha. Eu me sentia bem em sua companhia, eu não queria nem cobrar pelas vezes que nos encontrávamos, mas ele insistia em pagar.
— Tudo bem. — Falei derrotada. — Mas o vestido fica como o pagamento de hoje.
— Nem pensar. — Senhor Klauss levantou apoiando-se em sua bengala. — Esse é só um mimo, minha querida. — James, o mordomo se prontificou a vestir o sobretudo no patrão. — Vamos, o motorista está nos esperando.
Xx
O evento de hoje era um baile que juntava arte e caridade, o prato cheio para os ricos manterem a fama de generosos para a sociedade. Só que nem toda essa riqueza salva aquele baile da chatice, aquilo estava cansativo e se não fosse por senhor Klauss eu já teria ido embora, mas meu velho amigo parecia estar adorando tudo. Não era sempre que o via sorrir daquela forma. Afastei-me devagar do grupo que estava conosco, ninguém percebeu que eu tinha saído. Andei por todo o salão analisando cada obra exposta, tudo era sofisticado e luxuoso. Um mundo do qual eu não fazia parte.
Peguei uma taça de champagne desejando na verdade inalar o pó que eu tinha escondido na minha bolsa. Senti um tremor só de imaginar a droga consumindo meu corpo, a cada dia que passava eu ficava mais dependente daquilo, por isso eu ainda não tinha ido para o banheiro, precisava provar a mim mesma que eu não era uma viciada. Suspirei fundo ainda segurando firme a bolsa em minha mão, sentindo o saquinho que eu tanto desejava. Bebi um gole do liquido borbulhante em minha taça, observei o velho que ria animado com um grupo de mais três homens de meia idade.
Senhor Klauss era um homem divertido e que me respeitava, eu o adorava tanto que muitas vezes me peguei desejando que ele fosse meu pai. Mas eu não era uma garota de sorte, a vida me odiava e por isso o meu pai biológico também. De repente, me vi odiando a vida que eu tinha. Odiando a mim. Pousei a taça na mesa ao meu lado e andei apressada até o banheiro. Foda-se a imagem de forte que queria ter, eu precisava daquele pó.
Havia duas mulheres retocando a maquiagem, elas nem notaram quando entrei aflita no cômodo. Escolhi o primeiro box vazio e me sentei no acento. Minhas mãos tremiam dificultando a abertura da bolsa. Eu não tremia pelo vício, mas sim de raiva. Raiva de mim. Com a ponta da chave que estava na bolsa, peguei um pouco de pó no saco, e inalei o mais depressa que pude dando ao meu corpo a sensação de alívio que eu tanto precisava. Inalei mais um pouco e recostei minha cabeça na parede atrás de mim, me sentindo finalmente relaxar.
Sai do box sem ao menos me olhar no espelho, me sentia péssima por faze aquilo em companhia do senhor Klauss, mas eu não queria que a dor tomasse conta de mim outra vez. Ele não tinha noção do meu vício, e eu temia que ele descobrisse. Aceitar uma amiga prostituta era uma coisa, mas uma amiga viciada poderia ser um pouco demais para ele. Passei discretamente a mão pelo meu nariz para tirar qualquer vestígio do erro que tinha cometido há pouco. Eu não estava mais relaxada, saí do banheiro com a intenção de ficar ao lado do meu acompanhante pelo resto da noite.
— Jenna? — ouvir meu nome de trabalho me fez gelar, eu não queria ser reconhecida naquele lugar. Senti a mão quente me virando para encarar os olhos azuis que me assombravam há dias — Eu imaginei que fosse você.
Louis Tomlinson estava em minha frente, dessa vez mais sóbrio que antes. Senti raiva e medo ao vê-lo ali. Puxei meu braço de uma vez impedindo que ele me tocasse, ele não tentou me seguir ou me fazer parar quando eu virei as costas para ele.
— Me desculpa pela outra noite. — Ouvi ele dizer ainda de em um tom que apenas eu conseguia ouvir, me virei para encará-lo outra vez. — Aquele não era eu. Me desculpe, de novo.
Não tinha sarcasmo em sua voz, mas, mesmo assim, eu ainda queria me manter afastada. Virei as costas sem dizer nada até encontrar com o grupo que eu não deveria ter me afastado antes. Eu devia sentir raiva de Louis pela noite que nos encontramos, mas só conseguia ficar desconfortável na presença dele e isso me assustava. Não me intimidava por nada e ninguém, mas por Louis sim. Sabendo que ele estava ali, no mesmo local, eu me importava com meu jeito de andar, com minha postura, se meu cabelo continuava arrumado. Eu queria provocar boa impressão para ele. Fique o restante da noite ao lado do senhor Klass, como se ele fosse me proteger dos olhares insistentes de Louis.




Capítulo 3. Emma


Um dia depois do baile
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Domingo era o meu dia preferido. Era o dia que eu não trabalhava, que me dedicava apenas a Emma. A rotina era sempre a mesma: eu encontrava com minha irmã na estação de metrô, já que eu estava proibida de entrar em casa por causa do meu pai, nós íamos ao zoológico, o lugar preferido de Emma, depois almoçávamos em um trailer que vendia comida mexicana. Sempre a comida mexicana. Por fim, terminávamos o dia indo a nossa sorveteria preferida. Todos os domingos eram exatamente iguais, mas eu amava cada segundo daquele dia. Um dia baseado na companhia de minha irmãzinha.
— ...E então a Katherine gritou para a classe toda ouvir que a Lianne era uma falsa e tinha beijado o namorado dela, da Kat. — Claro que nossas conversas eram resumidas a fofocas escolares de uma menina de catorze anos. Ainda assim eu não me importava.
— Isso foi maldade, a Katy não precisava ter feito na frente da sala toda, elas poderiam ter resolvido o assunto em particular.
— Eu concordo. — Emma tomou uma colherada do seu sorvete de chocolate. — Por isso não ri quando a Lianne começou a chorar. Eu tentei ir atrás dela, mas ela não quis abrir a porta do banheiro quando eu chamei. — Emma deu de ombro. — Sei que não foi certo ela ter ficado com o namorado da Katy, mas todo mundo erra e elas eram amigas. Tipo, muito amigas. Podiam ter conversado, afinal o Henry também tem culpa nesse beijo.
Então essa era a minha Emma, a menina de bom coração que acreditava na bondade e na inocência de todos. Era o coração grande que fazia de Emma uma menina querida e amada por todos, até por nosso pai, mesmo que ele demonstrasse isso de forma um pouco estranha. Meu pai, sempre foi uma pessoa corrompida, lembro das inúmeras brigas que ele tinha com minha mãe por causa de jogos ou do de álcool, o que piorou após a morte dela. Kenny, como o meu pai era conhecido, vivia bêbado e por isso não conseguia parar em nenhum emprego, nossa sorte era ter vizinhos bondosos o bastante para dividir as refeições com a gente, até que eu ter idade o suficiente para sustentar a casa.
Mas nunca era o suficiente. Kenny sempre queria mais, sempre precisava de mais para sustentar o vício que tinha evoluído e passado para outros tipos de drogas. Kenny nunca encostou a mão em Emma, sua raiva era toda descontada em mim que apanhava toda noite sem nenhum motivo. Foi por isso, que quando completei dezoito anos sai de casa. Tentei arrastar Emma comigo, mas ele impediu. O meu pai não era burro e sabia que se eu tirasse Emma daquela casa eu pararia de sustentá-lo também. Eu não conseguiria a guarda da minha irmã com a vida que levava e, mesmo Kenny não sendo o melhor pai do mundo, era melhor do que mandá-la para um orfanato. Meu pai nunca bateria em Emma, por isso, ainda permitia que ela morasse com ele.
, você não escutou uma palavra do que eu disse não é? — Ela me olhava impaciente tendo certeza que eu não sabia nada do que ela tinha acabado de me dizer.
— Desculpa. — Sorri achando graça da cara emburrada de Emma. — Mas prometo que agora, quando você contar de novo vou escutar atentamente.
— Só vou repetir, porque é importante para mim. Então presta bem atenção, tá? — Ajeitei meu corpo para frente prestando atenção em cada palavra de Emma. — Então, tem esse show mês que vem, e lembro que você tinha me dado um bom dinheiro de aniversário e disse que eu podia fazer o que quisesse com ele. — Ela esperou para que falasse alguma coisa, mas eu apenas a encorajei a continuar. — Eu ainda não fiz, guardei esperando que chegasse o dia certo pra gastar.
— Sim, o dinheiro era seu presente e você pode gastá-lo como quiser.
— Mas eu não terminei de dizer o que eu quero. — Olhei para ela desconfiada do que vinha pela frente, mas Emma não se abalou comigo e continuou o que dizia. — O fato é que o nosso pai disse que eu posso ir ao show se você me levar, já que eu sou menor de idade e não poderia entrar sem um adulto. — Ela formou aspas no ar com as duas mãos e com o sotaque e o tom que acreditava ser o ideal imitou a voz de Kenny. — “Eu não vou gastar meu tempo em um show desses bostas Emma, chama a sua irmã, não é ela que faz tudo o que você quer?”.
— Então você quer que eu te leve em um show? — Disse mais aliviada por não ser algo grave.
— Sim, vai se no primeiro sábado do mês que vem, e eu até já conversei com o Kenny sobre isso porque ele só deixa eu te encontrar aos domingos. — Ela colocou a taça vazia de lado e cruzou os braços por cima da mesa me encarando ainda mais, para ter certeza de que eu não mudaria de ideia. — Ele disse que você saberia convencê-lo a me deixar passar dois dias com você. — Sua expressão agora era de culpa. — Eu sei o que ele quer , e sinto muito por ele fazer isso. Eu vou entender se você não tiver dinheiro a mais para dar a ele, você já faz muito por nós. Aliás, nem sei se quero ir a esse show...
— Emma, eu vou te levar a esse show nem que me custe todo o dinheiro que tenho. — Pousei minha mão em sua bochecha observando os olhos dela ganhar novamente aquele brilho que era normal. — Eu sinto muito se aquele desgraçado te fazer de moeda de troca pra sustentar as porcarias dele.
— Não fala assim do nosso pai, . Eu sei que ele me ama, do jeito dele. — Eu sorri porque também sabia disso e era esse amor que me dava certeza de que ele nunca bateria em Emma, por mais fora de si que estivesse. — Ele te ama também apesar de você não perceber. Ele só tem os defeitos deles, mas eu sei que um dia ele vai ficar bom de novo. Eu sei.
— Eu amo essa sua fé na humanidade Emma, mas nem todo mundo tem a bondade aqui dentro. — Apontei para o meu próprio coração ciente de que aquelas palavras serviam para mim também. Eu não era boa.
— Você é. — As palavras espontâneas de Emma fizeram meu coração saltar de susto. Ela tinha a convicção em seu olhar, a certeza de que eu era uma coisa que nem eu mesma acreditava ser. — Pra mim, você é a melhor pessoa do mundo.
O jeito que Emma “jogou” as palavras em mim me deixou sem jeito, me ajeitei um pouco mais na cadeira imaginando que se Emma soubesse o que eu fazia para viver, ou do vício que eu tinha herdado de Kenny ela desistiria de me achar a melhor pessoa do mundo. Eu era um lixo, e essa constatação me fazia sentir vergonha de encarar minha própria irmã que tinha notado minha súbita mudança de humor.
— Então você tem como pedir para seu patrão te dar folga no final de semana do show? — Emma acreditava que eu trabalhava em uma lanchonete em Londres, no turno da noite. — Vai ser o melhor show da minha vida, sério.
— Pode deixar que eu dou meu jeito caçula. — A empolgação tomou conta dela que agora tinha roubado a minha taça que ainda estava na metade. — E quem vai dar o melhor show do mundo, posso saber?
— Você tem algum problema de memória, ? Quem você acha que pode dar o melhor show da minha vida?
— One Direction!
Assim que as palavras saíram da minha boca percebi o que aquilo significava: Louis Tomlinson. Minha garganta secou, mas eu me controlei para que Emma não percebesse.
— Sim. Finalmente eu vou poder ver o Louis de perto. — Emma estava tão imersa em seus pensamentos que não conseguia prestar atenção no meu incômodo. — Claro que eu amo todos, mas você sabe que meu preferido é o Tommo. Ele é tão fofo e engraçado...
Deixei que Emma continuasse a falar o quanto amava a banda e em especial Louis. Eu queria sacudir minha irmã e gritar que o ídolo dela era um imbecil e que ele não era metade do que ela achava que ele fosse, mas como eu falaria isso sem mencionar que ele tinha me contratado para um programa com a finalidade de me humilhar?! Resolvi a deixar acreditar naquilo, assim como ela acreditava que eu era a melhor pessoa do mundo.
Não, Emma era a melhor pessoa do mundo e por isso eu pagaria para vê-la feliz. Até onde eu sabia a One Direction tinha uma legião de fãs o que tornava impossível Louis me ver na multidão. E por que diabos eu estava tão incomodada assim de encontrar com ele? Louis era tão fracassado quanto eu, e Emma merecia ir a esse show.
Levei minha irmã caçula até o metrô para que ela fosse embora, entreguei uma boa quantia em dinheiro para que ela levasse para casa, sendo que a metade Emma esconderia de nosso pai, como ela sempre fazia. Dei um beijo em seu rosto e vi minha irmã se afastar de mim como em todos os Domingos, o medo tomou conta de meu coração mais uma vez. Eu queria ter Emma perto de mim, para protegê-la, e por mais que eu soubesse que Kenny não fosse um risco direto para ela eu ainda temia a instabilidade dele. Emma era tudo o que havia me sobrado na vida e eu sempre tinha medo de roubarem ela de mim.

No mesmo dia, do outro lado da cidade.
Louis.
A luz forte vinda da janela batia em meu rosto, era verão em Londres e o sol queimava o meu rosto sem pudor. Eu deixara a cortina aberta outra vez. Na verdade, nem me lembrava de como tinha pegado no sono depois que cheguei em casa. A última lembrança que tinha era de Jenna no baile da última noite. Ela estava linda, chamava atenção de todos que estavam no salão, mas ao mesmo tempo eu sentia que ela não estava a vontade, e fugia de mim sempre que percebia minha aproximação.
Eu só queria pedir desculpas pela outra noite, me sentia mal pelas palavras que eu havia dito a ela. Eu só queria me redimir, mas Jenna insistia em rejeitar minha aproximação. Então eu bebi o resto da noite. Bebi para suportar as perguntas idiotas que as pessoas me faziam; Bebi para suportar os toques de pela noite toda; Bebi tanto a ponto de não me lembrar nem de como cheguei em casa. A única coisa que me lembrava era de Jenna e de seu sorriso polido aos demais, tão contida quanto eu. Tão falsa quanto a mim.
Senti a cabeça latejar, era a recompensa por ter bebido além da conta, tentei colocar a mão na altura dos olhos para vetar a luz que me atrapalhava, porém o peso anormal me impediu de fazer qualquer movimento. Tinha alguém do meu lado, dormindo em meu peito e eu só percebi agora. Devagar abri os olhos, ignorando a dor de cabeça que só aumentava, e olhei para a pessoa que dormia tranquilamente ao meu lado. Os cabelos vermelhos eram inconfundíveis. . Senti ódio de mim por ter me deixado seduzir por ela, levantei rápido, acordando minha ex-namorada, que por me ver com raiva, fez questão de abrir um sorriso cínico.
— Bom dia meu amor. — esticava os braços enquanto eu vestia minha cueca.
— Você é muito baixa por se aproveitar da minha bebedeira. — Ela fingiu estar ofendida.
— Mas você queria tanto que eu não pude te deixar na mão Louis. Por que a gente não aproveita mais um pouco, ein?
ajoelhou-se na cama, de modo que ficasse em minha frente, com um gesto delicado retirou o lençol que cobria o seu corpo, ficando totalmente nua para mim. Mas eu não senti nada ao vê-la naquela situação.
— Eu vou tomar banho. — Virei as costas e caminhei até o banheiro. — Quando eu sair não quero te encontrar mais aqui.
Ouvi a risada sarcástica de enquanto eu trancava a porta do banheiro, demorei mais no banho do que era de costume e quando sai a garota já não estava mais lá. O resto do Domingo eu fiquei no meu quarto, remoendo a culpa de ter me deitado com . Por mais que eu não me lembrasse daquilo, me deixava com raiva, eu odiava , mais que odiava a mim.



Ainda no Domingo, mais perto do Louis do que se imagina
Senhor Klauss.

— Você tem certeza? — Minhas mãos tremiam diante do papel em minha frente. Eu sabia que ali estava a prova do que eu tanto tinha procurado, mesmo assim, precisava da confirmação do detetive. — Quais são as chances de você ter errado, Enzo?
— Quase nula senhor Klauss. — O homem em minha frente era sério demais para brincar com um velhote como eu. — Meus métodos são totalmente confiáveis, o senhor sabe disso. — Ele tomou um gole do chá que meu mordomo havia servido para nós. — Stevens é a pessoa que o as senhor procurava.
— Deus! — Eu desconfiava mas a confirmação ainda me chocava.
— E agora senhor Klauss?
— Continue de olho nela, Enzo. — Guardei os papéis que ele tinha em entregado em um fundo secreto de uma gaveta em minha mesa. — Continue o seu trabalho.
O homem concordou e sem dizer mais nada saiu, ele voltaria com mais informações sobre . Enquanto isso eu pensaria em como seguir, diante das novas informações que eu tinha.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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