Última atualização: 17/07/2018

PRÓLOGO

Três Anos Antes
Não! Não, não, não, não, não, não! Não pode ser! Isso não podia estar acontecendo!
- , está tudo bem? - perguntou enquanto me abanava com as mãos.
Eu a encarei, os olhos arregalados e a mão levemente trêmula. Quero dizer, levemente o cacete. Eu estava tremendo mais do que a galera dançando Harlem Shake na pista de dança.
O que diabos eu fui fazer, meu Deus?!
- Tudo bem?! Tudo bem?! - exclamei, procurando uma parede para me apoiar. - Como posso estar bem? Você viu o que eu fiz?
suspirou alto, me puxando pela mão delicadamente. Ela tinha traços finos e um cabelo marrom escuro encaracolado, que contrastavam perfeitamente com sua pele extremamente pálida e suas bochechas rosadas. Às vezes eu a chamava de bonequinha, pois sua aparência lembrava muito o de uma boneca de porcelana. Não que isso fosse completamente bom também - às vezes, no escuro, ela me lembrava a Annabelle e eu tinha calafrios.
- Eu vi, mas a culpa não foi toda sua. Eles também poderiam ter evitado, né? Caramba, quando você tem um irmão gêmeo solto por aí, não pode sair beijando qualquer uma que vê pela frente! Tem que perguntar primeiro, uai. Ainda mais quando os dois vão para uma festa usando a mesma cor de camiseta!
Lancei meu olhar mais mortal para ela, estreitando os olhos ao me lembrar da merda que fiz essa noite. Mamãe com certeza me mataria se soubesse! E não duvido que ela descubra, já que metade da nossa turma veio curtir a mesma balada que eu essa noite.
Lei de Murphy: o que tiver que dar errado, VAI DAR ERRADO!
Grunhi baixinho, escorregando pela parede até parar sentada no chão.
- Eu nunca mais quero olhar pra cara de nenhum dos dois!
Minha amiga riu, abaixando-se para se sentar ao meu lado.
- E você não vai. Confie em mim, eu conheço esses dois. O pai deles veio pra cá apenas para inaugurar uma das lojas, mas eles voltam para São Paulo semana que vem. É só evitar comprar doces na Carmelos e pronto, esse carma vai sair da sua vida.
Assenti mesmo sem estar muito convencida. Afinal, quando você pega dois irmãos gêmeos na mesma porcaria de noite o universo só pode estar contra você!
Ok, agora você provavelmente deve estar horrorrizado. Mas ei, em minha defesa, eu não sabia que eles eram gêmeos! me sugeriu uma baladinha antes das aulas começarem, e cá entre nós, eu só tinha quinze anos e estava apavorada com a ideia do ensino médio começar no dia seguinte. Queria desestressar, caramba. Apenas isso!
Porém, como nem tudo são flores, assim que colocamos nossos pés na matinê, meu olhar se cruzou com dois pares de olhos azuis que fizeram minhas entranhas se derreterem. O estranho tinha uma boca fina e um porte um pouco magro demais, porém definido. Aquele típico corpo de quem havia começado a malhar há pouco tempo. Ele abriu um sorriso em minha direção e com seus um e noventa (SIM!) de altura, veio caminhando em minha direção.
Essa era a hora em que eu deveria ter corrido e fugido para as colinas!
Entretanto, ele foi tão fofo que acabei me deixando levar.
- Meu nome é - ele sussurrou no meu ouvido, já que a batida da música nos impedia de escutar qualquer coisa.
Corei imediatamente ao sentir o hálito quente em minha pele. Eu não estava acostumada com flertes em festas como aquela.
- - respondi.
Ele abriu um sorriso tímido, e droga! Que sorriso! Puxa, as pessoas deveriam realmente tomar cuidado quando tinham sorrisos como aquele. Não podiam sair abrindo para qualquer um daquela maneira! Meu braço já estava todo arrepiado.
Conversamos por uns vinte minutos e, quando dei por mim, estávamos (literalmente) engolindo um ao outro. beijava tão bem que só por uma noite eu esqueci quem eu era. Ou a minha idade. Ou o ensino médio. Ou o futuro. Ou o... tá, você já entendeu.
A noite estava perfeita. Até ele decidir que iria buscar uma bebida... e voltar dois minutos depois. Caramba, o cara era muito rápido!
Dei de ombros, ignorando o fato de que ele não estava com bebida nenhuma.
- Oi - ele gritou. - Tenho observado você. Você é linda, menina, sabia?
Franzi o cenho, confusa. Contudo, abri um sorriso ao me dar conta de que claro que ele havia me observado! Ficamos nos beijando por, no mínimo, uma meia hora.
- Não precisa do flerte todo de novo. Agora, aonde estávamos? - perguntei, puxando-o pela gola da camisa.
Tá vendo?! É por isso que não se deve tomar atitudes ousadas. Se eu fosse tímida a minha vida seria bem mais fácil!
O beijo me pareceu estranho da segunda vez, mas bom, de qualquer maneira. Meus dedos dos pés ainda estavam se contorcendo dentro dos meus sapatos, e meu coração batia tão forte que fiquei com medo de que ele pudesse sair voando do meu peito. Entretanto, parecia diferente também. Parecia mais... bruto. Me segurou pela cintura em uma possessividade bem esquisita, prensando seu corpo contra o meu. Quando seus lábios deixaram os meus por alguns segundos, pensei em fazer algumas perguntas, mas então ele desceu a boca para alcançar meu queixo, maxilar, pescoço... e a sensação se espalhou por todo o meu corpo. Caramba!
Joguei a cabeça para trás, aproveitando a sensação. Deus, o que foi que aconteceu com esse menino?! Uma hora é todo fofo, me dando selinhos e passando a mão pelo meu cabelo, e na outra é todo másculo, me beijando como se fosse a última vez que fizesse isso.
Abri os olhos lentamente para perguntar se algo estava errado quando então eu o vi. Logo atrás do garoto que agora devorava meu pescoço, estava sua cópia idêntica segurando dois copos de bebida com uma carranca assassina em seu rosto.
- AAAAAAAAAH! - gritei, me soltando do estranho que me encarou, espantando.
- O que foi? - ele perguntou.
Abri a boca para perguntar, mas palavras me faltaram. MERDA! O que tinha acabado de acontecer?!
- Vejo que conheceu meu irmão gêmeo , - cuspiu entredentes, o rosto denunciando cada vez mais seu estado raivoso.
- Puta que pariu! Porra! Eu não acredito - me encarou como se eu tivesse alguma doença transmissível, e se afastou o máximo que pôde. - Merda, desculpa, Ben. Juro que não sabia que ela tava contigo, mano.
Os dois se voltaram para mim, ambos com expressões de... nojo. Aquilo foi como um soco no estômago. Maneira bem legal de começar a semana, a propósito.
Fechei os olhos e procurei sair dali o mais rápido possível, sem dizer mais nenhuma palavra. Precisava encontrar e ir embora para casa. Não podia acreditar! Burra, burra, burra, burra!
e . Gêmeos. Olhos azuis. Beijos inesquecíveis. Eu. Fiquei. Com. Irmãos. Gêmeos. Na. Mesma. Noite! E isso tá escrito pausadamente porque nem eu acredito.
Quando encontrei e disse aos berros o que tinha acabado de acontecer, sua reação foi me puxar para o banheiro feminino e exigir que eu contasse os mínimos detalhes. Foi aí que ela me explicou, de maneira bem didática, que eles eram os filhos gêmeos de , fundador de uma franquia de lojas de doce chamada Carmelas. O nome foi dado em homenagem à esposa falecida do empresário, Helena Carmela. Eles não moravam em ; só estavam aqui porque o pai estava inaugurando uma de suas lojas na capital. Isso fez meu sangue correr de volta em minhas veias e fez com que eu soltasse a respiração devagar. Alívio. Eu estava aliviada.
- Eu agradeceria, universo, se eles nunca mais cruzassem no meu caminho outra vez - implorei, encarando o teto. Eu tinha a mania de pedir coisas ao universo na esperança de que ele se compadecesse de mim.
Mas quem disse que o universo me ouve?!


CAPÍTULO 1: PAGANDO A CONTA.

Dias Atuais
Soltei um longo suspiro e levei mais uma garfada de macarrão à boca enquanto escutava meu pai falar pela milionésima vez sobre o maravilhoso curso de direito. Meu irmão mais novo, , revirou os olhos discretamente - o que me fez sorrir por dentro. Que saco! Será que ele nunca ia se conformar com o fato de eu não ter vocação para a carreira jurídica?
- É importante que escolha a carreira mais rentável, . Essa crise não nos deixou opções e agora que você já tem dezoito anos, precisa pensar no seu futuro. E se fizer direito terá um leque de oportunidades, não precisa necessariamente advogar - ele deu uma pausa para poder tomar um gole do seu refrigerante. - Na minha opinião, acho que será uma boa escolha. Ainda mais porque você ama ler.
- É uma boa escolha sem dúvidas. Mas eu ainda prefiro Comunicação ou Relações Internacionais. Tem mais a ver com o que eu gosto - respondi.
Ele bufou, revirando os olhos de uma forma dramática. Papai simplesmente não conseguia aceitar minhas escolhas.
- Amor não paga as contas, já cansei de dizer isso.
- E dinheiro não traz felicidades, também já cansei de repetir - argumentei, sem paciência.
Não me levem a mal, eu amo meu pai mais do que tudo na vida! Mas uma das maiores desvantagens em passar as férias na casa dele são essas discussões sobre o meu "futuro". Desde que completei meus dezoitos anos e me formei no ensino médio, minha vida se resume a apenas uma única palavra: o vestibular. Por mim, não teria nem dúvidas: Jornalismo! Mas como tenho um pai advogado e uma mãe empresária (dona de um salão de beleza), fui coagida a pensar em segundas e terceiras opções. Sem contar, é claro, na incessante busca por emprego.
Quem foi que disse que atingir a maioridade era libertador e maravilhoso? Quero esganar a pessoa com as minhas próprias mãos!
- Mudando de assunto, sua mãe já te ligou? - ele perguntou, mastigando sua comida. Uma mania de família nada charmosa, mas que infelizmente eu também havia herdado.
Neguei lentamente com a cabeça, buscando no bolso de trás meu celular. E não, não era um IPhone 7 Plus como os de todos os meus amigos e sim um Moto G 5, um pouco desatualizado, mas que supria todas as minhas necessidades.
- Ela deve estar na casa do "namorado misterioso" - fiz aspas com as mãos para enfatizar minha fala. - Acho ridículo querer esconder isso da própria filha.
- Sua mãe merece ser feliz, . Fique feliz por ela.
- Eu estou feliz por ela! - afirmei, me ajeitando melhor na cadeira. - O problema é todo esse segredo. Um ano e meio de namoro e nunca me disse nada sobre o cara além do primeiro nome: . Nunca me mostrou foto, falou sobrenome ou disse com o quê o homem trabalha.
- Mas você aceitou o meu namoro muito bem. Por que não tenta entender sua mãe?
- O senhor nunca me escondeu que namorava a Vanessa, pai. É diferente.
Ele se calou, me encarando brevemente. Algo em seus olhos me dizia que ele sabia o motivo de mamãe esconder com unhas e dentes a identidade do cidadão que ultimamente a fazia cantar no chuveiro, mas também me avisava que não iria me dizer uma única palavra sobre o que sabia.
Ter pais separados era de boa. Sério, era até legal. Meus pais nunca se casaram e se separaram quando eu era um bebê de apenas cinco meses, ou seja, não fazia a mínima diferença pra mim. O problema era ter pais separados que eram muito amigos. Do tipo que se apoiavam em todas as decisões e davam os mesmos conselhos e sermões! Às vezes eu pensava que eles talvez tivessem feito um pacto antes da separação - do tipo que se protegeriam mesmo se estivessem errados.
Um saco, eu sei.
- Já acabaram com esse papo de faculdade? - Gui perguntou, colocando o smartphone em cima da mesa. A cara de tédio era evidente.
- Logo, logo será a sua vez - papai respondeu, bagunçando os cabelos castanhos dele. - Acabou de fazer quatorze anos, moleque. Faltam só quatro agora.
- Eu é que não quero ir pra faculdade! - ele balançou a cabeça, irritado. - Quero ser uma alma livre! Viajar o mundo todo e conhecer muitas mulheres e não ficar quatro anos preso num lugar vendo as mesmas pessoas.
- Serão cinco anos. Você fará engenharia, .
- Aham, vai - resmungei, irônica.
Papai olhou pra cima, semicerrando os olhos.
- O que eu fiz, meu Deus?! Por que meus dois filhos não querem ser bem sucedidos?
e eu nos entreolhamos e não pudemos conter as gargalhadas que se seguiram. Apesar das nossas diferenças, nós nos amávamos muito e era a única coisa que realmente importava.
Conforme nossas risadas foram cessando, o barulho já conhecido do WhatsApp se fez presente na mesa, e dei uma olhada no meu celular para ver quem havia mandando mensagem. Era mamãe, avisando que já estava em casa e que me esperava ansiosa. Aparentemente, tinha novidades.
Avisei ao meu pai sobre a chegada precoce de dona Emília e pedi que me levasse pra casa depois da sobremesa. A torta de sorvete de Vanessa era magnífica e eu não perderia o doce por nada.
Que se dane a dieta, eu nunca seria uma musa fitness de qualquer jeito.
- Sua mãe avisou o motivo de voltar mais cedo, ? - Vanessa perguntou, sentando-se à mesa conosco.
Neguei com a cabeça, concentrada no manjar dos deuses que estava em meu prato.
- A essa altura, eu espero qualquer coisa dela, acredite.
Assim que acabamos de almoçar, papai não perdeu tempo e resolveu me levar pra casa. Peguei a minha pequena mala no quarto que ficava reservado pra mim na casa dele e agradeci mentalmente ao universo por ter tido a decência de arrumar minhas roupas hoje mais cedo. Eu era simplesmente péssima com organização - não que isso seja uma novidade pra ninguém se tratando de uma adolescente/jovem adulta -, entretanto, ultimamente eu vinha tentando mudar esse hábito. Afinal, ser organizada era bem prático!
A viagem de carro passou rápido devido à minha playlist maravilhosa no Spotify, e, quando dei por mim, estava entrando na casa simples em que fui criada. Eu odiava quando mamãe viajava pra São Paulo por ter que ficar com meu pai. Não que eu não gostasse de ficar com ele, mas como Dorothy mesmo diz "não há lugar melhor que o nosso lar". Eu gostava do aconchego da minha rua, de ter minha melhor amiga ao alcance, de dormir na minha própria cama. Mas, infelizmente, minha mãe não confiava em mim de jeito nenhum.
Humpf! Como se eu fosse atear fogo no sofá ou inundar um dos quartos! Além do mais, isso aconteceu apenas uma vez e eu ainda tinha meus molares quando cometi esses "acidentes". Enfim...
- ! - mamãe sorriu, correndo em minha direção e puxando-me em um abraço demorado. Podiam ter se passado apenas três semanas, mas a saudade era grande.
Sua pele morena estava ainda mais vibrante, e os cabelos cacheados pareciam ter mais vida. O que o amor não fazia, não é mesmo? O sorriso que se estendia em seu rosto e os olhos brilhando faziam todo o receio e a mágoa dentro de mim sumirem. Ela estava radiante e apaixonada, e depois de tudo que tinha passado, merecia ser feliz.
- Mamãe, o que aconteceu? Voltou uma semana antes!
Ela segurou meu rosto entre as mãos, abrindo um sorriso de orelha a orelha antes de dizer:
- Estou noiva! me pediu em casamento!
Senti o medo e a felicidade me invadirem em um misto de emoções, e não consegui fazer nada além de gritar e pular com ela. Era estranho pensar que minha mãe iria se casar com um cara que eu nunca havia visto, mas também era emocionante saber que ela teria alguém pra amar assim como papai tinha Vanessa.
- E não é só isso! - ela exclamou, eufórica. - Ele está em com os filhos e pediu pra ser apresentado pra você hoje. Vamos nos encontrar em um restaurante a noite para oficializarmos o pedido!
Fiz que ia gritar, mas me contive ao prestar atenção em toda a sentença. Meu sorriso foi murchando conforme eu juntava todas as peças do quebra-cabeça.
Filhos?!
Quer dizer... como crianças que ele havia gerado com outra mulher?
era... pai?!
- Mãe, como assim filhos?! - perguntei, a raiva impregnada em cada palavra.
Ela mordeu o lábio inferior enquanto enrolava um dos seus cachos no dedo.
Eu não me importava com o fato dele ser pai. Eu me importava com o fato de a minha própria mãe não avisar sobre meus futuros irmãos postiços. E era no plural! NO PLURAL! Preferia saltar de asa delta do que ter mais irmãos com quem dividir atenção, era mais do que suficiente!
- São meninos tão bons, ! Me trataram super bem. Educados, amorosos, uns fofos! Um deles até me chama de mãe, acredita?
Arregalei os olhos, sentindo a raiva invadir minhas veias. Então quer dizer que eu não podia conhecer o tal do , mas os filhos dele podiam conhecer minha mãe? E pior, eles chamavam ela de "mãe"? Pera lá, meu querido, aqui não é a casa da mãe Joana não!
- Quando conhecer esses bastardos hoje à noite farei questão de lembrar que sou filha única! - gritei, cruzando os braços.
- ! Eles são órfãos de mãe, sabia?
- E o problema não é meu! Você é a minha mãe e só minha, eles tem esse pai imbecil deles pra tomar conta, não tem? Pois bem, que deixem a senhora em paz!
- ! Olha essa boca! Já tem dezoito anos na cara, não acha que tá grandinha demais pra ter ataque de ciúmes nessa altura do campeonato?
Grunhi, irritada com suas suposições. Eu não estava com ciúmes, caramba! Só muito irritada com o fato de dois desconhecidos acharem que podiam chamar a MINHA mãe de mãe. APENAS ISSO!
- Eu não estou com ciúmes! E acho melhor eu subir e ficar quietinha no meu canto antes que acabe ficando com raiva de verdade.
- Não vai subir enquanto não terminarmos a conversa.
- Tchau, mãe - resmunguei, indo em direção ao meu quarto.
- ...
- Foi muito bom conversar com você, nos vemos mais tarde.
- .... - ela voltou a chamar, mas ignorei.
Bati a porta do quarto o mais alto possível, ouvindo um sonoro "!" do outro lado, mas eu não me importava. Até a hora do jantar eu ignoraria qualquer coisa que pudesse me fazer lembrar da mudança que nossas vidas estavam prestes a sofrer.
Eu odiava mudança. ODIAVA. Por que as coisas não podiam permanecer as mesmas pra sempre? Tipo, por que mudar os jurados do The Voice? Ou por que trocar as séries do Disney Channel, poxa? A Hannah Montana era tão mais legal do que a maioria dos seriados que passam nesse canal hoje em dia. Mudar é algo muito arriscado. Nem sempre dá certo. E quando começa com o pé esquerdo... aí que a coisa pode ficar feia.
Eu só esperava, com todas as forças, que essas mudanças não alterassem nada realmente significativo na minha vida. Como as nossas prioridades ou companheirismo. Por todos esses anos, apesar de papai sempre estar ao alcance, fora eu e minha mãe. A gente sabia das séries que mais gostávamos de assistir (Friends e Glee) e também de nossos livros favoritos. A nossa comida favorita era lasanha e a bebida suco de goiaba. Era tão simples nos agradar!
Ter uma família nova implicaria em muitas mudanças. Algumas até radicais. Será que teríamos que nos mudar pra São Paulo para viver com eles?!
Bate na madeira, .
Sem contar nos filhos de . Certamente seriam duas crianças chatas que acabariam por se tornar obrigação da minha mãe também. E, cruzes, eu não me colocaria na condição de babá pros pombinhos saírem pra namorar! Já é demais!
Esse jantar poderia definir toda a nossa dinâmica como família - e eu me arrepiava só de pensar nisso.
- Eu agradeceria, universo, se essa noite fosse a mais tranquila possível - pedi, me jogando na cama.
Eu só não esperava que o universo fosse me dar justamente o contrário.

- Arruma esse vestido! - mamãe murmurou com os olhos fixos na estrada.
Revirei os olhos me ajeitando melhor no banco carona enquanto alisava pela décima vez o vestido florido. Minhas mãos suavam frio entrelaçadas no meu colo, e tentei me concentrar na letra da música Take Me To Church. Cantarolei baixinho enquanto observava os prédios iluminarem a cidade pela janela do carro - uma das melhores sensações do mundo.
Mamãe, por outro lado, tamborilava os dedos no volante e tomando longas respirações para se acalmar. Estava nervosa sem motivo, afinal, ela já conhecia a família perfeitinha de seu querido noivo. Eu, em contrapartida, não sabia nem qual a cor dos cabelos deles! Se eu visse na rua não saberia distinguir (e isso não é uma hipérbole!).
Assim que mamãe estacionou o carro, travou as portas do veículo me deixando confusa. Ao ver sua expressão receosa, senti o estômago embrulhar. Coisa boa não podia estar vindo por aí!
- O que aconteceu? - perguntei, colocando uma mecha do cabelo castanho ondulado atrás da orelha.
Mamãe respirou fundo e soltou o ar pela boca lentamente, enquanto tomava coragem para me contar alguma coisa.
- , chegou a hora de você saber porque não te apresentei pro antes. Ele tem um emprego que o tornaria facilmente... reconhecível.
- Ok... - tentei acompanhar o raciocínio.
- Ele é empresário, como eu. Só que diferente. Igual mas diferente, entende? Droga! Tô me embolando toda! - ela praguejou baixinho e eu sorri, contente por ver que certas coisas nunca mudavam.
- Mãe, sabe que pode me contar qualquer coisa, não é? Eu nunca vou te julgar ou coisa parecida. Agora me fala. Seja honesta!
Ela me encarou por alguns segundos, pensando se deveria abrir o jogo ou não. Infelizmente, não tínhamos muito tempo uma vez que o carro estava no estacionamento do restaurante em que nos conheceríamos.
- Eu estou noiva de , o empresário dono da Carmelos, aquela rede de confeitarias e doces. Por isso nunca te disse o sobrenome, filha. Tinha medo de assustá-la com a ideia de estar namorando alguém rico. Mas juro que ele é um cara legal, super honesto e gente boa! E os filhos dele, meu amor, além de lindos são gêmeos! Aposto que vocês todos vão se dar super bem.
Senti meu coração acelerar e a minha boca ficar seca.
?! NÃO. PODE. SER!
O flashback de três anos atrás voltou com força na memória, e senti os olhos marejarem em desespero. Não! Não! Não! Não! O destino não podia ser tão cruel comigo assim! Ao sentir que estava começando a hiperventilar, abri as janelas do carro e tirei minha jaqueta de couro enquanto tomava longas respirações em uma falha tentativa de me acalmar.
Mamãe estava noiva do pai de e . Meu maior mico na adolescência, as pestes que me confundiram em uma matinê qualquer antes do ensino médio começar e a razão por eu NUNCA mais ter comido nada na Carmelos.
ISSO SÓ PODIA SER BRINCADEIRA!
- Filha, tá tudo bem?! - ouvi minha mãe ao fundo e tentei forçar a voz e responder, mas a única coisa que eu consegui fazer foi fechar os olhos e implorar baixinho para que aquilo não passasse de um pesadelo. E um bem irônico, a propósito.
Infelizmente, aquilo agora seria minha realidade e não havia nada que eu pudesse fazer pra mudar essa situação.
Parecia que após três longos anos o carma finalmente havia me mandado a conta, e eu estava pagando da maneira mais dolorosa possível.



CAPÍTULO 2: UMA NOITE DE TRÉGUA.

Ok, ok, sem pânico. Você consegue fazer isso, . É só abrir os olhos, sair do carro, respirar bem fundo, entrar no restaurante e fingir que nunca viu nenhum dos dois. O jantar se seguirá normalmente e ninguém ficará constrangido. Vai ser moleza. Você consegue fazer isso.
É claro que eu consigo. Eu consigo fazer isso.
Eu consigo fazer isso!
- Filha? Está tudo bem? Precisamos entrar - a voz da minha mãe se fez presente, me tirando do meu transe.
Eu não consigo fazer isso!
- Eu acho que não estou me sentindo muito bem - disse a primeira coisa que passou pela minha cabeça. - Acho melhor voltar pra casa e tomar um remédio.
Mamãe encrespou a testa, desconfiada. Eu nunca havia sido uma boa mentirosa e ela sempre percebia quando eu tentava enganá-la.
- E ficou doente assim do nada?
- Na verdade... estou me sentindo assim desde que voltei da casa do papai mais cedo. Eu só não disse nada para não te preocupar.
- E o que você está sentindo?
- Ér... - tossi, tentando ganhar tempo. - Dor de... barriga. É, dor de barriga!
Ela curvou os lábios em um sorriso e cruzou os braços, me olhando sugestivamente.
- Suponho que um remédio possa resolver em poucos minutos esse seu probleminha. E uma ida ao banheiro, é claro.
Ai, que droga! Por que as mães tem que tentar resolver tudo?!
- Pode até ser que sim, mas... eu prefiro não arriscar. Você sabe como eu sou neurótica com essa coisa de doenças, tem até um nome pra isso... pera, deixa eu pensar...
- Hipocondria? - ela sugeriu.
- Isso! Eu acho que sou hipocondríaca, também. Coisa chata, não é? Não precisa me levar pra casa não. Eu pego um Uber pra dar menos trabalho pra senhora - respondi, enquanto tentava abrir a porta do carro, que continuava travada.
- ...
- Eu acho melhor a senhora abrir a porta, não é? Vai que eu passo isso pra você!
- Essa doença não é contagiosa.
- Até onde sabemos! Não vai querer ser a primeira vítima a pegar, não é? Melhor me deixar sair. Eu peço pra ficar lá comigo hoje! Acho que ela ainda não tem muita coisa da faculdade pra fazer, e eu juro que passamos na farmácia pra comprar um remédio e uma daquelas máscaras de hospital, para o caso da doença acabar sendo contagiosa, essa tal de hipocondrise...
- Hipocondria.
- Isso!
Ela soltou uma risada alta, balançando a cabeça como se não acreditasse no que estava ouvindo. Pra ser franca, eu não a culpava. Nem eu acreditava que essas baboseiras estavam saindo da minha boca!
- Eu sei porque você está nervosa assim, filha.
Arregalei os olhos, olhando de soslaio a silhueta dela. Apesar das palavras, mamãe não parecia brava nem nada do tipo.
- Sabe? Co-como você sabe?
Será que uma daquelas pestes stalkeou ela na internet e viu uma foto minha? Pior, e se eles tivessem falado que eu tinha planejado ficar com os dois? Serão três meses de castigo vivendo em cárcere e privado e sobrevivendo de comida congelada, sem dúvidas. Merda, aonde eu fui me meter?!
Ela apenas deu de ombros, mexendo no cabelo armado.
- Eu entendo que você esteja nervosa por conhecer o e os meninos. É uma grande mudança. Mas eu juro que vai ser bom pra nós duas. E eu também prometo que vou tentar mudar o mínimo possível da nossa vida, deixando tudo o mais confortável pra todos nós. Não precisa ficar tão nervosa. É só um jantar - ela piscou, cúmplice, com um olhar de quem sabe das coisas.
E na verdade, ela não sabia de nada...
Suspirei, aliviada por mamãe não ter nem ideia de minhas reais preocupações. E pensar que eu achei que a palavra "mudança" seria minha maior inimiga daqui pra frente... quem dera.
- Está pronta? - ela arqueou a sobrancelha, fazendo menção de destravar as portas do carro.
Senti vontade de gritar um bom alto e sonoro "NÃO!", mas resolvi pensar que o estrago já estava feito e que o nosso encontro seria inevitável. Infelizmente.
- Seja o que Deus quiser... - murmurei, saindo do veículo.
- O que disse?
- Eu disse que estou pronta pro que der e vier! - respondi, sorridente. - Vamos conhecer a nova família.
Ela então me encarou, desconfiada, mas não me perguntou mais nada e eu agradeci aos céus por isso. Minha barriga agora doía de verdade, mas por conta da ansiedade que me tomou dos pés à cabeça. Depois de três anos eu teria que encarar novamente os dois! E pior do que isso, eles passariam a ser parte da minha família e teríamos que conviver diariamente. Isso era tão injusto! O karma simplesmente veio em... dobro! Deveria existir alguma lei no universo que impedisse castigos como aquele para uma única pessoa!
Minha mãe esticou o braço e eu apertei sua mão, e conforme andávamos até a entrada do restaurante, sentia meu coração ainda mais acelerado. Eu nunca tinha me sentido tão indefesa e insegura, esperando para que uma bomba caísse sobre mim a qualquer momento. No entanto, cá estava eu: agarrada no braço da minha mãe como um filhotinho medroso enquanto espiava através das paredes de vidro do restaurante para ver se encontrava um rosto familiar.
Dois rostos, pra ser mais específica.
- Boa noite, tenho uma reserva no nome de - minha mãe conversou com a atendente, que sorriu e nos indicou a mesa reservada.
Ai, droga. É agora.
Calma, mas onde já se viu?! Até parece que eles vão se lembrar de você! Isso já passou, foi há três anos atrás, caramba! Ninguém consegue guardar tanto rancor assim. Além do mais, não foi proposital. É só explicar de uma maneira simples e racional e pronto, tudo não vai passar de um grande mal-entendido! Vai ver eles são até gente boa.
É, com certeza vai ser assim. Com cer...
- O que você está fazendo aqui?! - um grito alto me fez quase pular de onde estava.
Eu disse quase.
Percebi que enquanto eu me perdia nos meus devaneios, um dos gêmeos havia vindo em nossa direção "nos buscar". E, uau, não poderia ficar mais surpresa! O que antes era um físico magro, hoje eram ombros largos e um corpo tão grande que me fazia sentir uma anã. E olha que eu media mais de um e setenta! Os cabelos estavam cortados em um estilo militar, e percebi que em seu pescoço havia uma tatuagem que se perdia dentro de sua camisa social azul clara. Os olhos azuis, porém, continuavam os mesmos: expressivos ao extremo. Eles amenizam a "cara de mau" que sua barba desenhada causava.
, com certeza!
- , querido! - mamãe gritou, correndo em sua direção e o esmagando em um abraço.
É claro que eu sabia que era o , óbvio.
- Essa daqui é a minha filha - ela apontou pra mim, com um sorriso de orelha a orelha. - Estou tão contente em finalmente apresentar vocês dois!
Eu continuei sem fala, travada no mesmo lugar. , por sua vez, engoliu em seco e arregalou os olhos ao perceber o que eu havia descoberto fazia poucos minutos: estávamos ferrados.
- E-ela é mesmo sua filha? Tem certeza? - ele perguntou, sem desviar os olhos de mim.
Parecia até que estava vendo um fantasma.
- Que tipo de pergunta é essa?!
- É, , que tipo de pergunta é essa? - eu imitei, tentando emitir com os olhos um aviso claro: deixe nossos pais fora disso.
Ele relutou, mas pareceu entender o que eu queria dizer. Sem nenhum entusiasmo, abriu caminho para que eu passasse e indicou com a cabeça a nossa mesa nos fundos. Mamãe, nem um pouco contida, correu até o seu amado . Tentei segui-la, mas fui impedida por uma mão forte que agarrou a minha cintura e me puxou para trás com violência.
- Tá ficando maluco?! - rugi, tentando me soltar.
Como estávamos em um restaurante renomado e haviam dezenas de pessoas jantando, ele me soltou de bom grado. Melhor pra ele!
- O que você pensa que está fazendo?
Soltei uma risada irônica, cruzando os braços na frente do peito.
- Estou acompanhando a minha mãe em um jantar. E você?
Ele não pareceu achar graça, pois fechou a cara e se aproximou alguns passos. Antes de dizer qualquer coisa, olhou para ambos os lados para verificar de que não estávamos sendo o centro das atenções.
Com um sorriso extremamente falso nos lábios, ele disse:
- Nunca esqueci a merda que você fez três anos atrás, porra. Meu irmão e eu ficamos sem nos falar por quase dois meses. Dois meses, caralho! Tem noção do que é isso? Nunca brigamos em toda a nossa vida.
Revirei os olhos, abrindo um sorriso em resposta para que todos pensassem que estava tudo ocorrendo bem.
- O problema não é meu se vocês resolvem sair pra uma matinê usando a mesma cor na camisa e exibindo a mesma cara também! Você queria que eu fizesse o quê? Adivinhasse que vossa alteza dividiu o útero com um outro indivíduo? Desculpa aí, cara, mas minha bola de cristal fica em casa sempre que eu saio.
- Tá se achando engraçadinha, não é? Mas saiba que vai ter volta!
- Tá ficando louco, garoto? Não quero ser engraçadinha porra nenhuma. Só quero passar por essa noite em paz e agradeceria se você fingisse que essa é a primeira vez que nos vemos. Nossos pais não merecem ter o casamento arruinado por causa de um mal entendido - fiz questão de frisar as últimas palavras.
Ele travou o maxilar, pensativo, e não parecia nenhum pouco disposto a ceder. Entretanto, acabou relaxando os ombros e se dando por vencido. Quem diria que seria tão fácil assim, não é mesmo?
- Vamos selar uma trégua essa noite. Mas só hoje - ele afirmou, esbarrando com força em meu ombro ao passar por mim.
- Cretino - murmurei, massageando o local atingido.
Sem mais empecilhos, caminhei vagarosamente até a mesa da discórdia. Mamãe falava ao ouvido de um homem maduro, que aparentava ter seus cinquenta anos. O cabelo grisalho lhe dava um ar pra lá de sexy, e eu imediatamente entendi o que dona Emília havia visto nele.
- , que prazer! - ele fez questão de se levantar, me esmagando em um abraço apertado.
Como era bom ser bem vinda por ao menos uma pessoa!
Um barulho alto de engasgo capturou minha atenção, e percebi que havia sido o gêmeo dois, mais conhecido como . Ele havia cuspido o vinho tinto caro que estava em sua taça e me encarava com um misto de surpresa, mágoa e... felicidade?
Não, eu devia estar lendo os sinais errados. Como sempre.
Ele, ao contrário do irmão, estava com um terno bem alinhado e usava o cabelo um pouco mais comprido, que me lembrou bastante o fliphair de Justin Bieber no início da carreira. O rosto era liso como um bebê, e os olhos azuis mostravam uma seriedade difícil de encontrar em pessoas daquela idade. O corpo... bem... só podia presumir que eles eram tão unidos que faziam maratona na academia juntos. Não tinha outra explicação!
Agora realmente não dava mais pra confundir.
, que agora jazia ao seu lado, murmurou algo no ouvido do irmão, que assentiu depressa e desviou o olhar, constrangido pela bagunça que sua reação inesperada havia causado.
Ah, é. Vai ser uma longa noite...
- Não acredito que finalmente estou conhecendo a famosa . Emília não para de falar em você um segundo sequer - começou, todo simpático.
Senti minhas bochechas esquentarem e me apressei para tomar o meu lugar do outro lado da mesa. Infelizmente pra mim, ficava a centímetros de .
Espera aí, eu tinha beijado primeiro quem? ... ou ? Cacete, eu estava mais perdida do que cego em tiroteio nessa mesa.
O gêmeo um não tentou disfarçar o desgosto ao me ver assumir o lugar ao seu lado, e se afastou o máximo que pôde. Fingi que não liguei, mas por dentro um bolo se formou na minha garganta. Exatamente como ambos agiram depois que descobriram sobre "a troca". Como se eu fosse uma espécie de doença contagiosa que eles tinham medo de pegar.
- Mas me diga, , o que pretende fazer agora que acabou de terminar o ensino médio? - meu padrasto perguntou, levando a taça de vidro até os lábios.
Ai, merda. Eu odiava esse tipo de pergunta.
- Hã... eu quero fazer vestibular pra Comunicação, provavelmente. Apesar do meu pai ameaçar me deserdar se eu não fizer Direito - respondi, nervosa.
Ele abriu um sorriso genuíno que chegou até seus olhos, e imediatamente senti que ele não estava julgando minhas escolhas.
- Comunicação é um curso muito bom. Você é comunicativa, gosta de ler pelo que a sua mãe me falou, e tem carisma. É uma boa pra você.
- Verdade. Já sabe mentir e enganar como ninguém. Vai conseguir muito bem chegar onde quer bem rápido - murmurou baixinho para que só eu ouvisse.
Lancei meu olhar mais mortal em sua direção da forma mais discreta que consegui, e fingi arrumar o cabelo para mostrar pra ele meu dedo do meio. Eu não era obrigada a aturar suas brincadeirinhas sem graça.
- Ah, meus dezoitos anos... - continuou . - Como me lembro dessa época. Quando meus meninos completaram dezoito anos foi uma loucura dentro de casa. Graças a Deus eles sempre souberam o que queriam cursar.
Espera aí... como assim "foi uma loucura dentro de casa?"
"Foi" no sentido de passado?
- Mas eles não têm dezoito anos? - deixei escapar, me arrependendo logo depois.
Ambos os gêmeos olharam em minha direção, e senti meu corpo corresponder rapidamente a esse ato. Meus pelos se arrepiaram e um calor inexplicável tomou conta de mim.
Controle-se, . Eles são irmãos e te odeiam no momento, pelo amor de Deus!
soltou uma risada, balançando a cabeça.
- Eles têm vinte. São dois anos mais velhos do que você. está cursando Engenharia Civil, enquanto escolheu Direito. E olha, não é só porquê são meus filhos não, mas serão ótimos profissionais. Só tiram nota alta. Meus maiores orgulhos.
- Pai, por favor - pediu, constrangido.
bagunçou seus cabelos, com um orgulho no olhar que me tocou profundamente. Como eu gostaria de ser olhada assim pelo meu pai...
- Só estou dizendo a verdade, filho. Te amo demais.
O menino abaixou a cabeça, visivelmente envergonhado, e cortei o assunto ao perceber que aquilo o incomodava. De soslaio, pude perceber que ele havia percebido o que eu tinha feito, e murmurou um "obrigado".
Afinal, eu ainda tinha esperança.

(...)

O jantar se seguiu sem muitos problemas, o que foi ótimo pra mim. Tirando o fato de me chutar o tempo todo por de baixo da mesa (e eu revidar, claro), as coisas até que ocorreram bem. às vezes me mandava alguns olhares profundos, e percebi que ele me encarava muito enquanto eu estava distraída. Quando eu devolvia seu olhar, ele desviava o rosto, constrangido.
A comida era mais do ótima - era espetacular! Rico sabia mesmo como viver a vida. Apesar de ser uma quantidade quase ínfima, o gosto de todos os ingredientes dançava em minha língua. Finalmente havia entendido o conceito de "Master Chef".
Depois de todos jantarmos (em um clima amigável graças as piadas de e as perguntas incessantes da minha mãe), decidimos pedir uma sobremesa. Como eu não tinha a mínima ideia de como pedir, meu padrasto decidiu fazer o pedido em meu lugar, me garantindo de que haveria muito chocolate.
Estávamos em silêncio na mesa quando um barulho estridente de celular se fez presente. Era de , que pediu licença para atender o telefone no lado de fora do restaurante.
deixou uma risadinha sacana escapar, chamando minha atenção.
- Deve ser a namoradinha...
- - seu pai chamou sua atenção. - Respeite seu irmão.
O menino deu de ombros, despreocupado.
- Briana deve estar preocupada com o "bebezinho" dela.
- Ela chega amanhã. Talvez só esteja nervosa com o voo e queira que seu irmão a acalme. Kimberly não te ligou também?
revirou os olhos, dando uma rápida conferida no celular.
- Ela sabe que não sou um cara com muita paciência pra essa merda melosa.
- Garoto, há duas damas na mesa. Olha a boca!
Mamãe soltou uma risada, passando a mão nos braços do amado a fim de acalmá-lo.
- Não se preocupe, querido. Sei bem como são esses jovens. Esse linguajar eu escuto muito em casa, acredite.
Então quer dizer que e tem namoradas? Se sim, por que não me deixavam em paz e seguiam suas vidas?! Isso que eu chamo de rancor, cruz credo.
- Desculpem-me, pessoal - pediu, sentando-se à mesa novamente.
- De boa, cara. Nós todos entendemos que você é um cachorrinho adestrado - cuspiu, dando um longo gole na bebida em sua taça.
- Tá com raiva por que estou com uma garota descente que não quer ficar com você também? - retrucou.
Senti minhas bochechas queimarem com essa indireta. Se começarem com uma guerra, eu iria até o fim!
- Se um de vocês já é ruim, quem é a louca que vai querer os dois? - perguntei, casualmente.
- ! - mamãe me repreendeu, o rosto sendo tomado por uma raiva selvagem.
Eu, ein.
- Calma, meu amor. Eles só estão brincando. Fazendo piadas - tentou, acariciando suas costas.
- É isso, ? - ela me pressionou.
Dei de ombros, me recostando melhor na cadeira.
- Que seja.
Minha mãe fez que ia se levantar, mas tocou sua mão em um sinal claro para que ela deixasse pra lá.
- Eu não sei se a Bri iria querer ficar com os dois - começou, os olhos azuis me encarando fixamente com uma frieza que antes me faria encolher. - Mas conheço uma vadia que ficou.
Aí já é demais!
- Vadia porque ficou com você? Não acho que seja. Estúpida, burra e uma garota com mal gosto, são palavras que se encaixam melhor.
travou o maxilar, a raiva estampada em seu rosto tão boni... argh.
- O que é isso?! - mamãe perguntou, levantando-se.
- Mamãe, não precisa se exaltar - pediu.
Ah, fala sério!
- Mamãe o cacete. Ela é minha mãe, não sua! - explodi.
- , se eu tiver que falar com você mais uma vez... - ela ameaçou.
Me levantei de supetão, cansada daquela situação. Eu não precisava estar passando por aquilo.
- Não vai precisar. Minha noite se encerra por aqui.
E dei as costas, tentando segurar as lágrimas de raiva. Como eu odiava ser libriana! Apesar de me exaltar nas brigas, sempre acabava me arrependendo ao sair de uma.
- , volte aqui! - ouvi a voz de me chamar, seguida de um "NÃO SE ATREVA A PASSAR POR ESSA PORTA!", de minha mãe.
As pessoas ao redor começaram a levantar a cabeça para tentar entender o que estava acontecendo, mas não liguei. Um dos garçons veio até mim perguntar se estava tudo bem, mas eu assenti rapidamente e passei por ele o mais rápido possível.
Saí do restaurante e andei até um comércio perto, para tentar me esconder caso algum deles resolvesse correr atrás de mim. Chamei um Uber e liguei pra , contando os mínimos detalhes sobre a descoberta e a fatídica noite de hoje. Minha amiga disse que estaria me esperando quando chegasse em casa, e agradeci aos céus por ter alguém como ela na minha vida.
Ao chegar em casa, lá estava ela. Com os braços abertos me esperando na entrada, me esmagou em um abraço apertado, deixando que todos os meus problemas fossem esquecidos pelo menos naquele momento.
O que me apavorava nessa história toda é que se essa havia sido "uma noite de trégua", então eu não queria nem pensar em como se seguiriam os próximos dias.



CAPÍTULO 3: O "PROBLEMA".

Acordei no dia seguinte com a cabeça latejando e uma dor nas costas que me fez gemer antes mesmo de abrir os olhos.
, pensei.
Minha amiga, que dormia feito um bebê ao meu lado, lutava MMA durante o sono. Os chutes e socos que eu levava sempre que passava a noite com ela não compensavam os ótimos conselhos que ela me dava. Sinceramente, não mesmo.
Me sentei na cama tomando todo o cuidado para não acordá-la e, assim que estralei o pescoço e apertei lugares estratégico das costas para aliviar a dor, me pus de pé. A fome falava mais alto.
Mais alto até da possibilidade de encontrar mamãe essa hora...
Ai, droga. Com certeza eu escutaria um bocado pela noite de ontem!
Abri a porta do quarto e coloquei só a cabeça pra fora, olhando de um lado para o outro a fim de me certificar de que não teria ninguém no corredor a essa hora. Pra minha alegria e infinita surpresa, realmente não tinha.
Com certeza ela não deve ter dormido aqui essa noite, pensei, confusa. Ela sempre me avisava quando passava a noite fora!
Desci até a cozinha e coloquei um café para fazer, logo em seguida entrando no banho. A água quente a essa hora da manhã, ainda mais no friozinho gostoso que estava fazendo, era divina. Sentia como se todos os meus problemas fossem lavados e levados pelo ralo, mas infelizmente a vida não era tão simples assim.
Após o banho, fui até o quarto para me trocar e (tentar) acordar . Vesti apenas uma calcinha, meias, e uma blusa de alças finas sem sutiã. O bom de estar em casa com a sua melhor amiga de infância era isso: poder ficar bem à vontade.
- - chamei, alto, enquanto cutucava suas costas. - Já são dez da manhã. Eu sei que hoje é sábado, mas tá na hora de levantar.
Ela resmungou algo inaudível e se virou, cobrindo o rosto com o cobertor.
Mereço, pensei.
- Anda, ! O café já está pronto.
- Só mais cinco minutinhos... - ela reclamou.
- Vou sair daqui e deixar cinco minutos contando no relógio. Esse é o tempo de terminar de arrumar a mesa para o café da manhã. Se eu voltar aqui e você ainda estiver dormindo, jogo uma xícara de café quente em cima de você!
- Credo, . O certo seria um copo com água fria - sua voz saiu abafada por conta dos travesseiros.
- Exatamente. Você vai ser a primeira a experimentar essa nova técnica - provoquei, saindo de fininho.
Desci as escadas cantarolando uma música baixinho, e quando cheguei até a cozinha, coloquei a música no celular para que eu escutasse enquanto arrumava a mesa.
- Up in the club with my homies, trying to get a lil V-I, keep it down on the low key - cantei, rodopiando para colocar a garrafa com o café perto das xícaras. - 'Cause you know how it feels I saw shorty she was checkin up on me...
Corri até a dispensa para pegar alguns bolos e doces, e enquanto isso, a voz de Usher continuava potente na música "Yeah!". Meu Deus, como eu adorava dançar!
- Yeah (yeah) Shorty got down, saying "come and get me"! - gritei, terminando de arrumar todos os alimentos. - Yeah (yeah) I got so caught up I forgot she told me!
Me abaixei rapidamente para pegar alguns talheres na gaveta que ficavam na parte de baixo do armário e gritei a música um pouco mais alto, rindo ao perceber que havia errado uma parte da letra.
Quem liga pra esse tipo de detalhe, não é mesmo?
Me levantei, ainda mexendo os quadris. Estava terminando de arrumar os talheres quando um movimento capturou minha atenção.
- Olha, vejam só! - a voz debochada pertencia, incrivelmente, à... .
Soltei um grito, assustada e acabei deixando cair no chão um pedaço do bolo que eu tinha acabado de cortar. O que ele estava fazendo aqui?!, pensei, enquanto me dava conta do meu estado. EU ESTAVA PRATICAMENTE SEMINUA E... DANÇANDO!
- NÃO OLHA PRA MIM! - reagi, colocando a mão na parte da frente a fim de tentar cobrir alguma coisa.
riu alto, desviando o rosto. Foi aí que percebi que ele estava sem camisa e UAU! Acho que não teria expressão melhor para descrever aquele abdômen. Senti um calor se espalhar da minha cabeça aos pés, mas ignorei terminantemente. Ele tinha namorada e ainda por cima me odiava.
- Gostei da dança. Você até que tem jeito pra coisa, sabia?
- E você é um puta intrometido. O que você está fazendo na minha casa? - grunhi, nervosa.
- Eu dormi aqui. Mas relaxa, sua mãe, meu pai e estão na casa que meu pai comprou pra gente. Você fez café? - ele perguntou, mudando de assunto.
Abri a boca, surpresa, semicerrando os olhos em sua direção. Esse garoto pensava que era quem?!
- Por que você passou a noite aqui?
Ele deu de ombros, finalmente olhando pra mim e ignorando o fato de eu estar SÓ DE CALCINHA E BLUSA SEM SUTIÃ, e sentou-se na mesa, servindo-se com a comida que EU HAVIA PREPARADO.
- Queria ter mais privacidade. Minha namorada chega hoje de viagem e o trânsito daqui até o aeroporto é mais tranquilo - deu de ombros, colocando uma boa quantia de café na xícara azul claro que ganhei em uma feira de livros no ano passado.
- Você é bem abusado, não é, garoto?
- Se você tá dizendo...
Mordi a bochecha, me segurando para não dizer algo que o ofendesse de verdade.
Por fim, me rendi e me sentei à sua frente. Já que não pode vencer o inimigo, junte-se a ele, certo? Sem contar, é claro, que isso iria esconder minhas pernas (as quais havia olhado descaradamente).
- E o gêmeo mau? Vai se esconder nessa tal "casa" - fiz aspas com as mãos - pra sempre?
não conseguiu evitar deixar escapar uma risada.
- Gêmeo mau? É, é um bom nome pra ele - ele revirou os olhos. - ficou um pouco revoltado quando percebeu que era você. Por incrível que pareça, nunca esquecemos aquela noite.
- Não é surpresa a essa altura - murmurei, me servindo de café.
Eu era assumidamente viciada em cafeína e não tinha vergonha nenhuma de admitir isso.
- Digamos que aquela noite teve algumas consequências...
- Dois meses sem se falar. fez questão de me contar isso ontem.
- É, dois meses. E uma confiança que nunca mais voltou a ser a mesma - ele murmurou, encarando fixamente o copo em suas mãos.
Alerta de silêncio constrangedor! Alerta de silêncio constrangedor!
Pigarreei alto, tomando um longo gole do café quente em minhas mãos.
- Eu não fiz por mal - murmurei.
levantou o olhar até este se encontrar com o meu e disse, por fim:
- Eu sei. Mas isso não importa mais. São águas passadas e o melhor a ser feito agora é seguir em frente e fingir que aquela noite nunca aconteceu.
Revirei os olhos, irônica.
- Avisa pro seu lindo irmãozinho, então. Ele praticamente me declarou guerra ontem a noite!
cruzou os braços, se recostando na cadeira e me secando de cima a baixo na maior cara de pau!
- Me diz uma coisa, : você sequer lembra de qual de nós dois você pegou primeiro?
Touché, pensei.
Merda! Pera, claro que eu me lembrava. Era o...
? ? Espera, qual dos d...
, claro! Por isso ele estava com tanta raiva de mim. Tínhamos criado uma conexão e eu, sem saber que ele era gêmeo, fiquei com seu irmão logo em seguida. Mancada, eu sei. Não que isso justificasse o fato dele me chamar de vadia e bancar o babaca a noite toda ontem, mas agora tudo fazia mais sentido!
- ! Por isso ele quer minha cabeça, não é? - perguntei, orgulhosa do meu raciocínio rápido.
Entretanto, o rosto de expressava o oposto de orgulho. Algo entre... mágoa e decepção tomaram conta de seu semblante agora vazio.
- Eu, . Foi comigo que você ficou primeiro - disse ele, firme.
MERDA! Merda, merda, merda, merda!
Tentei esconder o rubor que subitamente tomou conta da minha pele bebendo uma quantidade exagerada de café. Quem sabe ele se esquecia de todas as besteiras que eu vinha dizendo se eu simplesmente fingisse que não existia, certo?
É, isso podia dar certo.
- Eu já deveria saber... - ele murmurou.
Eu disse podia.
- estava certo, afinal. Você não se importa. Nós fomos só uma espécie de fetiche pra você... e isso é doentio. Como soube que estaríamos naquela festa, ?
Alguém pode por gentileza segurar meu queixo? Acho que ele está no meu pé agora.
- Só pode tá de sacanagem, não é? Fala pra mim que isso é brincadeira sua - respondi, entredentes.
Ele se recostou na cadeira e cruzou os braços, me encarando seriamente. Ah sim. Mereço isso a essa hora da manhã.
- Eu não conheço você e apesar de achar a sua mãe um amor e torcer muito por esse casamento, ainda continuo te achando um problema - deu de ombros. - Precisamos resolver o "problema" antes que nossos pais descubram.
Revirei os olhos, ficando cada vez mais irritada.
- O "problema" - fiz aspas com os dedos - não tá a fim de ser resolvido e tá ficando de saco cheio dessa sua conversinha. Achei que você era o gêmeo "bom", mas pelo visto vocês dois são a cópia um do outro em todos os sentidos. A única diferença é que o ao menos mostra quem é, enquanto você fica se fazendo de bom moço. Vou ser bem clara, então presta atenção: aquele dia foi a porra de um acidente. Eu mal saía de casa e quando a me forçou a ir na festa eu pensei que ia ser um maldito porre. Mas aí eu conheci você e realmente pensei que o que tínhamos poderia evoluir... Confiei em você, cara. Por que não me contou que tinha um irmão? - balancei a cabeça, triste. - Não sou eu o problema.
Ele me encarou, surpreso, enquanto eu me levantava e ia em direção às escadas. Subitamente a minha fome havia sumido.

Ouvi o barulho de pneus cantando e respirei aliviada, sabendo que estava indo buscar a namorada. Mais cedo recebi uma mensagem da minha mãe avisando que estava a caminho de casa com seu futuro maridinho e satanás em forma de gente carinhosamente conhecido como . Aparentemente tínhamos muitas coisas para conversar.
- Estou caindo fora - murmurou entre um bocejo. - Tenho uma pilha de exercícios pra resolver antes de fazer as provas finais e eu tô uma lástima em cálculo - me explicou enquanto arrumava suas coisas para ir embora.
Eu a levei até a porta e senti uma pontada de medo me fisgar quando me dei conta de que ficaria sozinha com minha "nova família" em instantes. Instantes não, segundos. Porque durante nossa despedida exageradamente longa em frente a casa, observei um carro preto estacionar na nossa garagem. O carro de é prateado, então isso só pode significar uma coisa...
- MANINHA! - gritou ainda dentro do veículo.
Fechei os olhos bem apertado e soltei lentamente, tentando normalizar a minha respiração.
Motivos para não assassinar seu irmão postiço:
Um: você pode ser presa e não vale a pena perder a liberdade por causa do idiota.
Dois: sua mãe ficaria muito brava e quando você saísse da cadeia iria ficar automaticamente de castigo.
Três: não causaria uma boa impressão com o novo padrasto e isso poderia prejudicar a relação de vocês.
Agora os motivos para você esfaquear seu irmão postiço e acabar logo com isso:
Um: ele é um idiota.
Dois: ele é um babaca.
Três: você iria se sentir muito bem arrancando as tripas dele.
desceu do carro com um sorriso extremamente falso nos lábios e correu em minha direção, me esmagando em um abraço extremamente acolhedor e que fez as minhas pernas ficarem em consistência de gelatina. Aqueles músculos duros e enormes me segurando com tanto afinco daquele jeito estava me deixando confusa.
- O que tá acontecendo? - consegui me libertar de seu aperto depois de muita luta.
abriu um novo sorriso, mas esse combinava mais com a sua personalidade. Esse era cruel e bem sádico, e já me preparei para ouvir o pior:
- Arrume as malas, - ele reproduziu meu apelido carregado de ironia. - Nós vamos viajar.
Ah não, não, não!



CAPÍTULO 4: COMPLICANDO.

- Como assim "vamos viajar?" - perguntei, me esquivando de e ficando cara a cara com mamãe, que desceu do carro sendo prontamente acompanhada por .
Ela abriu um sorriso culpado, dando de ombros.
- Depois da confusão no restaurante, chegamos à conclusão de que tudo que vocês precisam é de um ambiente agradável e familiar para se conhecerem melhor. Os meninos vão levar as namoradas, e pode vir também, se quiser. Vai ser uma espécie de pré-lua-de-mel. - Fixei meu olhar no seu, pronta para iniciar uma verdadeira discussão. Entretanto, ela foi mais rápida e ao perceber minha intenção resolveu mudar de assunto. - Mas de qualquer maneira, não deveríamos estar discutindo isso aqui. Que tal entrarmos?
Tentei fechar minha boca, mas ela continuava escancarada enquanto eu tentava assimilar o que meus ouvidos tinham acabado de escutar.
- Não, não e não! - vociferei, olhando de soslaio para , que parecia bastante desconfortável em presenciar a cena. - Não pode me obrigar a passar o resto das minhas férias longe do meu pai e sabe disso!
Mamãe suspirou alto, acenando com a cabeça para que e entrassem em casa e nos deixasse sozinhas. Fiz o mesmo com , que murmurou um "tchauzinho" enquanto iam em direção ao seu carro. Fiquei observando ela entrar no veículo, acenar mais uma vez e dar partida, sentindo como se a única pessoa que realmente se importava comigo tinha acabado de me deixar sozinha de vez.
Quando enfim ficamos a sós, cruzei os braços e encarei a mulher a minha frente, séria.
- Não adianta, eu não vou.
- , você não é nenhuma criança, então pare de agir como uma. tem uma casa de praia em Los Angeles e nos convidou para ficar uma semana lá. Seu sonho sempre foi morar na Califórnia, se me lembro bem...
Uma. Casa. Em. Los. Angeles. Mas é claro que ele tinha que ter uma casa JUSTO EM LOS ANGELES!
Ok, respira.
- Chantagem emocional também não vai colar hoje comigo.
Ela revirou os olhos, parecendo perder um pouco da paciência.
- Você vai e ponto final. Precisamos resolver os problemas dessa família. E eu tenho certeza absoluta de que se conhecer os meninos como eu conheço, vai aprender a amá-los como verdadeiros irmãos. Eu sei o quanto você viva reclamando sobre o fato de só ter o , e agora estou te dando mais dois companheiros para a vida toda. Gostaria muito que você fosse conosco por vontade própria, mas se for preciso, te carrego daqui arrastada. Fui clara?
Mordi minha bochecha, me segurando para não responder algo a altura ou pior, algo de que eu realmente me arrependesse logo em seguida. Ponderei se deveria insistir um pouco mais na birra, mas, infelizmente, essa batalha já estava aparentemente vencida. - Só tenho uma condição - eu disse, por fim.
Mamãe arqueou a sobrancelha, desconfiada.
- E qual seria?
- A vai com a gente. E quando estivermos lá, nada de me prender. Vamos poder sair sozinhas e faremos o que bem entendermos.
Ela pareceu ponderar por alguns segundos, mas acabou suspirando, derrotada.
- É justo. Mas todos os dias jantaremos em família, na casa, e conversaremos sem gritaria e como pessoas normais. Sem discussão.
Revirei os olhos mas assenti, concordando. Já havia feito muito progresso por hoje.

(...)

Briana, a namorada de , estava falando agora sobre o maravilhoso ravioli de carne que havia aprendido a fazer em sua última viagem a Itália. Ela continuava tagarelando enquanto mamãe e absorviam tudo, fascinados.
Ela era uma garota bonita, eu tinha que admitir. Tinha grandes e incríveis olhos azuis, e suas madeixas loiras pareciam realmente macias, mesmo com tanto babyliss. O único problema é que ela era bonita de um jeito óbvio, do tipo que você vê e pensa: "Uau! Que menina linda!". Me diz, qual a graça disso? Não é bem melhor quando você vê aquele menino magrelo de óculos no fundo da sua sala e não dá nada por ele e de repente, em uma festa qualquer, ele tira aquele negócio do rosto, joga o cabelo pro lado e BAM!, ele é a sósia do Ryan Gosling? Com certeza é muito mais interessante.
e estavam no andar de cima, se arrumando para o maravilhoso restaurante que ela jurava de pés juntos que havia ganhado um prêmio gastronômico europeu super incrível. E, sério, ela adorava falar "super incrível".
- Que maravilha, Briana! - mamãe exclamou, sorrindo.
A menina loira abriu um sorriso de orelha a orelha, parecendo contente por agradar os... sogros.
Argh. Complicado me acostumar com isso.
- Ah, isso não é nada, tia - revirei os olhos, de saco cheio. - Uma boa comida é o melhor remédio para qualquer coisa nessa vida. Posso estar no meu pior dia, mas é só comer algo gostoso que ele já fica melhor.
- Diga isso para as pessoas com quadro terminal em um hospital público - murmurei, me levantando para ir até a cozinha.
Eu só não contava com o silêncio constrangedor que se instalou depois do meu comentário inofensivo. Qual é, foi uma verdade! Uma verdade dolorida, mas ainda sim...
- , você não tem nada para fazer agora? - mamãe me encarou, nervosa.
Ah, vai começar...
- Na verdade sim. Marquei uma balada com a mais tarde. Ela conseguiu ingressos VIP's pra nós duas na Bamboa, a balada chique que vai inaugurar do outro lado da cidade. Preciso me arrumar.
- Achei que fosse conosco para o restaurante - disse, confuso, juntando as sobrancelhas.
Abri um sorriso cínico em sua direção.
- Eu também achei que ficaria livre no resto das minhas férias, . Veja só como a vida é imprevisível!
- Eu acho que é melhor você ir se arrumar, então - minha mãe me cortou, séria.
Era tão fácil deixá-la irritada...
Sorri com esse pensamento, assentindo rapidamente e correndo em direção as escadas. Com a pressa, acabei tropeçando em um dos degraus, mas me mantive em pé, pois um par de mãos firmes me seguraram com força, me dando a chance de equilibrar-me novamente.
Levantei o olhar e dei de cara com , que parecia verdadeiramente preocupado comigo. Senti um choque gostoso subir por toda a minha espinha, e cruzei os braços, tentando evitar que ele percebesse o estado arrepiado em que meus braços se encontravam.
- Você está bem? - ele perguntou, buscando meu olhar com o seu.
Tossi, tentando quebrar aquele "clima" e assenti rápido, desviando de seu caminho e correndo até meu quarto.
Por Deus, a namorada dele estava na nossa sala! O que diabos eu tinha na minha cabeça?
Suspirei, balançando a cabeça de um lado para o outro. Não podia me permitir pensar sobre isso.
Coloquei uma música alta do Paramore, e sorri comigo mesma quando Still Into You começou a tocar. Ignorei a pontada estranha que senti no coração e abri um sorriso de orelha a orelha, me preparando para dançar e pular enquanto escolhia a roupa perfeita para a noite que se seguiria.
Ah, sim. e eu faríamos valer muito a pena, pode ter certeza! A Bamboa não era só uma balada qualquer. Era a balada. Todos queriam um convite para a inauguração, e os ingressos custavam o olho da cara. Um jovem adulto que tinha acabado de entrar na faculdade não tinha toda essa grana, mas graças a minha amiga que estudava na mesma sala do irmão mais novo do dono do lugar, não tínhamos precisado gastar um único centavo. Me lembro de todos os gritos e pulinhos histéricos quando percebemos que aquilo era real e estava mesmo prestes a acontecer.
A boate estava tão em alta que o instagram do evento já tinha mais de duzentos mil seguidores! Muitos dos comentários nas fotos da preparação do local eram de pessoas implorando para terem seu nome colocados na lista, e eu ri satisfeita ao pensar que esse não era mais um problema meu. Meu nome estava entre os VIP's e eu tinha quase certeza de que algum famoso estaria naquele lugar.
Me levantei da cama e fui até o guarda-roupa, dando uma olhada em todas as opções. Escolhi o que vestiria, espalhei pela cama todas as minhas maquiagens e revirei os olhos ao perceber que assim que Still Into You acabou, Get Back da Demi Lovato começou a tocar. O destino realmente estava de palhaçada com a minha cara!
Tirei toda a roupa e me enrolei em uma toalha branca felpuda, me preparando para entrar no banho. Fiz um coque bem firme no topo da cabeça e dei uma olhadinha no espelho, sorrindo com o que via. Eu gostava muito da minha aparência física, apesar de não me encaixar em todos os padrões de beleza. Eu não tinha a barriga chapada, apesar de ser bem magra e as minhas coxas serem bem grossas e firmes. Eu também tinha uma bunda e peitos grandes, o que me fazia comprar calças tamanho quarenta e sutiãs enormes.
Ouvi um click alto e virei o rosto, espantada ao perceber que a maçaneta do quarto estava sendo girada. Tentei me levantar e correr para algum lugar, mas em questão de segundos estava no local, com sua cara de deboche usual. Arregalei os olhos, apertando a toalha ainda mais rente ao corpo.
Ele abriu um sorriso sacana, mordendo o lábio inferior e me encarando de cima a baixo descaradamente.
Droga. Por que eu estava achando isso tão excitante? Ele era o irmão mau, caramba!
- O que você está fazendo aqui?! - consegui encontrar minha voz.
Ele deu de ombros, se jogando na minha cama como se fôssemos íntimos.
- Ouvi que você tem ingressos para a Bamboa. Só queria que a minha linda irmãzinha descolasse um deles pra mim - ele disse, dando de ombros.
Soltei uma risada irônica, encarando-o com desprezo.
- Não vou te dar e acho que você deve ter batido a cabeça se pensou por um segundo que eu sequer iria considerar a possibilidade.
- Eu não seria tão radical se fosse você. Na verdade, eu consideraria a possibilidade com muito carinho...
- , você é um cretino. Sério. Sendo honesta, eu te apelidei de "gêmeo mau" e espero do fundo do coração que um carro te atropele quando for a sua vez de ir buscar a namoradinha no aeroporto. Não ligo pra você e de todos os membros da sua família, a sua existência é a que menos faz diferença pra mim.
Ele franziu o cenho, se levantando da cama incrivelmente rápido. Seu semblante não parecia nada feliz, no entanto. Ao contrário disso, seu rosto estava retorcido em uma carranca brava, e tremi na base, apesar de continuar com a pose firme e decidida.
- Retire o que disse - ele mandou, entredentes.
Sorri, cínica, negando com a cabeça lentamente.
E foi questão de segundos até sentir minha cabeça bater na parede atrás de mim, sentindo o corpo de pressionado no meu. Não era um aperto bom, contudo. Ele estava segurando com muita força, e aquilo estava realmente me incomodando.
- Não se finja de vítima aqui, ! - ele rosnou bem perto do meu rosto. - Gêmeo mau? Huh? Tem certeza? Porque eu não me recordo de ter descido até lá embaixo e de ter dito que você ficou comigo e com o meu irmão na mesma porra de noite e depois ter ido pra casa como se nada tivesse acontecido.
- Pode dizer! Eu vou dizer que você sabia muito bem que eu tinha ficado com o seu irmão e quis ficar comigo porque sempre foi um CRETINO! - berrei, sentindo-o se enfurecer ainda mais.
Não tenho sangue de barata não, amigão, pensei, inundada pela raiva que subitamente tomou conta do meu corpo. Sinceramente a prepotência de já havia ultrapassado todos os limites!
- Você não é tão esperta quanto pensa que é, - ele sussurrou, do nada com o tom da voz mais baixo. Se não o conhecesse bem, diria que até... suave.
Arqueei a sobrancelha, desconfiada de sua mudança de humor repentina.
- E você não é tão inteligente como pensa, - frisei seu nome, com os olhos fixos nos seus.
E foi aí que a coisa mais maluca aconteceu.
Ele me beijou.
Ele. Me. Beijou.
E não foi um selinho rápido e despreocupado como eu achei que seria quando senti seus lábios nos meus. Não. Foi um toque bruto, carregado de raiva e... vingança?! Sim, sim, vingança! Se a vingança tinha um toque, cor ou sabor, definitivamente era aquele.
Não sei se foi a confusão, a tensão ou a adrenalina, mas depois de poucos segundos em choque, resolvi me afastar minimamente e dizer umas poucas e boas pra ele! Diria o quanto ele era imprestável e faria questão de dizer que qualquer tática de sedução que ele pensasse fazer comigo cairia por terra, pois eu já era imune a qualquer truque que possa se passar em sua cabeça.
Entretanto, quando abri meus lábios para poder xingá-lo de todos os nomes possíveis e dizer para ficar o mais longe possível de mim, abriu um sorriso de canto e entendeu como um convite. E foi aí que sua língua entrou no jogo, e olha, posso afirmar que ela não é afiada apenas com as palavras. Sua boca se movia comigo de uma maneira estranha, mas que não evitava de sentir todos os arrepios da ponta do pé até o couro cabeludo. Eu já havia beijado algumas bocas - não muitas -, mas aquele beijo realmente parecia ser coisa de outro mundo. Ou então as borboletas no estômago e a queimação que começava a se alastrar por todo o meu corpo (como se eu estivesse em chamas, e fosse a labareda que havia começado tudo aquilo), não podia estar mais errônea. Afinal, éramos quase... irmãos!
Com meus pensamentos, não percebi que havíamos caído em cima do colchão e, ai meu Deus, sentir seu peso distribuído em cima de mim foi ainda mais gostoso do que tê-lo contra a parede. Todos os seus músculos apertavam cada parte minha, e soltei um longo suspiro em sua boca quando senti suas mãos adentrarem a minha toalha e apertarem bruscamente a minha bunda.
Ele rosnou, selvagem, enquanto descia os beijos pelo meu pescoço e maxilar. Eu sentia como se pudesse derreter a qualquer momento, ou melhor, como se minhas asas fossem aparecer do nada e então eu alçaria voo. E devo admitir, nesse momento, seria a melhor coisa que poderia me acontecer.
Felizmente, uma batida na porta nos fez pular um para longe do outro o mais rápido possível, como se fôssemos criminosos a beira de serem capturados. E o invasor não podia ser o mais certo para o papel do oficial.
- ? O que faz aqui? - perguntou, entrando de mansinho no quarto e fechando a porta atrás de si.
Merda, eu realmente deveria começar a trancar a porcaria da porta!
Arrumei minha toalha no corpo e agradeci mentalmente por não ter passado hidratante ou gloss labial, caso contrário, e eu seríamos capturados no ato e com provas do delito.
me encarou por um segundo, confuso, mas logo balançou a cabeça e tossiu, abrindo o sorriso cafajeste que eu mais odiava.
- Eu vim até aqui porque descobri que a nossa linda irmãzinha tem convites para a Bamboa que vai inaugurar essa noite - ele deu de ombros. - Pensei que poderia descolar uns três. Sabe, seria um lugar bem legal pra levar a Bri, certo ?
pareceu desconfiado no início, mas logo abriu um sorriso, concordando com a cabeça.
- Acho que podemos ir pra lá depois do jantar com os nossos pais.
Fingi uma tosse bem audível para que ambos olhassem em minha direção.
- Não quero bancar a chata, mas eu não vou dar os convites. E só pra deixar claro, caso não tenham notado, eu estou só de toalha!
- Eu notei, sim - soltou, encarando-me sem vergonha nenhuma.
Abri a boca, ultrajada e ficando completamente vermelha. Não só por suas palavras, mas porque seu olhar queimando em minha direção me causavam sensações que eu sinceramente não estava preparada. Ele não podia ficar fazendo esse tipo de coisa comigo assim.
- CAIAM FORA! - gritei, apontando para a porta.
abriu um sorriso, piscando pra mim antes de sumir no corredor. , entretanto, continuou lá, de braços cruzados e me encarando enigmático.
Revirei os olhos, tentando apagar os momentos anteriores.
- O que foi agora? - perguntei, sem a menor paciência.
Ele deu de ombros (uma mania sua realmente insuportável, convenhamos) e andou lentamente em minha direção.
- Você vai descolar os ingressos da Bamboa sim, minha irmãzinha - ele frisou o "irmãzinha", fazendo meu estômago embrulhar. - A não ser que quer que eu diga ao meu pai, ou pior, o meu irmão, o que acabamos de fazer.
Desviei o rosto, sentindo o pânico crescer só com a mera possibilidade.
Ele não faria isso... será?
- Quer mesmo destruir a pouca relação que tem com o seu irmão? - perguntei, nervosa. Ele abriu um sorriso cínico.
- Que relação? Nunca mais conseguimos conversar como antes. Ele desconfia de mim o tempo todo. Não tem mais relação. E eu quero vingança. Acha que eu não percebi o modo como olha pra ele? Ou melhor, como vocês se olham? - ele arqueou a sobrancelha, me encarando como um sádico. Honestamente, nunca havia ficado com medo dele antes até agora.
Apenas engoli em seco, sentindo o meu cabelo cair como cascata pelas minhas costas. havia soltado o coque, e dei um pulo, surpresa, ao sentir seus lábios quentes em contato com o meu pescoço.
- Prefiro você com o cabelo solto - ele sussurrou baixinho perto do meu ouvido, me fazendo reprimir um suspiro. Não daria a ele o gostinho.
- O que quer de mim? - fui direta, me afastando rispidamente de seus toques.
Ele molhou os lábios, se virando para sair.
- Por agora, apenas os ingressos. Três deles. Consiga com quem conseguiu os seus. O resto... ah, nós vamos saber durante a nossa viagem em família, certo? Afinal, somos irmãos - ele piscou, batendo a porta ao sair.
Deixei meu corpo cair na cama, e abafei meus gritos no travesseiro macio.
Droga, droga, droga, droga, droga! Por que as coisas sempre tinham que ser tão complicadas quando se tratavam de mim? Senti lágrimas de raiva ameaçarem a descer, mas as segurei. Não iria derramar uma só lágrima por nenhum dos dois nunca mais, isso era uma promessa!
Peguei o celular, furiosa, discando o número da única pessoa que eu sabia que realmente poderia me ajudar.
- Alô? - ela atendeu, com a voz sonolenta.
- ? Sou eu, . Eu... preciso de um favor.



CAPÍTULO 5: VOLTA POR CIMA.

Explicar para minha melhor amiga o motivo de precisar de três ingressos de emergência para a inauguração da balada mais cara da cidade não foi a parte mais difícil, acredite se quiser. Complicado mesmo foi explicar, didáticamente, o porquê de estar tentando conseguir os malditos ingressos para satanás em pessoa, sua réplica idêntica e a namorada Barbie insuportável do mesmo. Então quando estacionou o carro em frente a minha casa, entrei rapidamente e sem olhar pra trás. O medo de estar sendo observada por alguém (ou mais precisamente, mais de alguém) me deixava em pânico e me fazia sentir calafrios por todo o meu corpo.
E por falar em calafrios...
Ainda não conseguia esquecer os beijos de . Eles foram bons (quem eu estou querendo enganar? O cara sabia como usar a língua muito bem!), mas o problema foi o sentimento que veio logo em seguida. Beijar foi excitante, bruto, violento... me deixou com tesão em instantes. Então por que mesmo depois de todos os toques (por mais errados que fossem) eu ainda sim senti meu corpo queimar ainda mais apenas com o olhar que me lançou quando eu estava de toalha?
Ou só de calcinha.
É. Eu definitivamente precisava parar de me esbarrar em quando estivesse só de roupa íntima, ou com a falta dela.
Deixei todos os meus pensamentos e devaneios de lado quando, finalmente, me encarei frente a frente a balada mais esperada do ano. Bamboa.
Senti o meu estômago embrulhar de ansiedade e sorri para a minha amiga, descendo do carro o mais rápido possível. Agradeci aos céus por não ser uma refém do salto alto, e apostei nas sapatilhas sem dó. Meu vestido de alcinha preto ficou bem colocado em meu corpo, e não me recordo da última vez que eu havia me sentido tão... sexy.
também não estava nada mal. Seu rostinho de boneca estava provocante por conta da maquiagem bem aplicada, e o batom vermelho escuro lhe dava um ar de mulherão. O vestido também vermelho se colou em todas as suas curvas, e o salto preto destacava ainda mais suas pernas. simplesmente amava saltos. Como sempre fui alta, nunca precisei de nada para que minhas pernas fossem facilmente notadas. Ao contrário da minha melhor amiga que sonhava em ter altura o suficiente para usar uma sapatilha (mesmo que eu me cansasse de dizer que ela JÁ tinha altura o suficiente para fazer o que quisesse!).
- Preparada? - ela me perguntou assim que tirou as chaves do carro e a guardou dentro da bolsa.
- Tá brincando? - arqueei uma sobrancelha, andando decidida até a entrada.
A fila estava enorme, realmente grande o suficiente para dar uma verdadeira volta ao redor do quarteirão. A maioria das pessoas que esperavam ali não pareciam nada contentes, e uma ou duas meninas tentavam aumentar mais o decote ao falar com o segurança da casa noturna. Pelo visto, existia gente maluca o suficiente para aparecer na balada sem nenhum convite e tentar a sorte.
- Se não tem convite vão para o final da fila, moças - um dos grandalhões disse, ríspido, sem nem olhar na nossa cara.
pigarreou, chamando sua atenção. Ele a encarou, parecendo realmente furioso. Provavelmente deveria estar achando que era mais uma das garotas desesperadas por convite e que tentaríamos alguma tática maluca de sedução para que ele nos colocasse pra dentro.
Observei melhor a espécie que estava na minha frente e quase retorci meu rosto em uma carranca de nojo.
Tentador, amigão, mas hoje não, pensei.
Minha amiga estendeu os dois convites na altura do rosto e os balançou, mostrando um sorriso convencido. O segurança pareceu espantado, e se apressou em verificar se os ingressos eram reais. Quando ele constatou que eles realmente eram pra valer, pegou duas pulserinhas VIP's e estendeu em nossa direção, constrangido.
- Tenham uma boa noite, meninas - ele desejou, abrindo espaço para que entrássemos.
- Obrigada, fofinho - respondeu, irônica.
Quem tá rindo agora, ein?
Infelizmente, nossa comemoração durou pouco, porque assim que passamos pela cortina e demos de cara com o que estava bem na nossa frente... bem, as palavras simplesmente sumiram de nossas bocas.
- Uau - murmurou, maravilhada.
- Uau - concordei prontamente.
Não era uma simples balada. Aliás, eu teria que me lembrar de enviar alguns e-mails furiosos para a campanha de marketing daquela festa, porque apesar de frisar constantemente o quão exclusiva e importante aquela casa noturna era, eles não mencionaram nem sequer uma vez sobre o design e a estrutura da coisa toda.
Pra começo de conversa, estávamos dentro de um prédio de três andares feitos quase que completamente de... vidro. E isso significava que ao olhar pra cima tínhamos quase um infarto, já que a sensação que dava era que as pessoas iriam despencar sobre nossas cabeças a qualquer instante.
E não era só isso que nos deixou boquiabertas não, senhoras e senhores. O bar dava uma volta completa na balada, e haviam, no mínimo, uns cinco barman's espalhados em posições específicas daquele bar infinito. O que isso significava? Nada de fila quilométrica apenas para pegar um simples drink. O negócio ali era muito bem feito.
Sobre a música? Não havia tanta novidade, assim como qualquer outra balada estava tocando as músicas do momento. Me segurei no lugar quando escutei as batidas da nova música da Katy Perry. Que Taylor Swift me perdoe, mas eu amo essa mulher com todas as minhas forças!
- ! - um estranho gritou, se aproximando da gente.
Minha amiga abriu um sorriso de orelha a orelha e pulou no sujeito, o que me fez abrir um sorriso desconfortável.
Quem diabos era ele?
- Lucas! - ela berrou, soltando-o apenas para poder avaliá-lo dos pés à cabeça. - Tu tá um arraso ein, novinho?! E esse lugar? Maravilhoso!
- Sim! Meu irmão caprichou dessa vez, tenho que admitir - ele confessou, e foi aí que tudo fez sentido.
Então esse era o "tal amigo" que havia descolado nossas entradas.
Lucas tinha olhos castanhos doces, que combinavam perfeitamente com seu cabelo comprido da mesma cor. Sabe, sempre tive uma quedinha por caras que deixavam seus cabelos um pouco maiores. Achava muito sexy. E ele estava arrasando ainda mais, pois seus músculos salientes eram notáveis mesmo com todas aquelas roupas. Se não tivesse reparado em todos os olhares que ele lançava para (lê-se comendo-a com os olhos), eu totalmente investiria nele essa noite.
- Diga ao seu irmão que eu estou disposta a fazer um teste do sofá com ele se eu conseguir mais ingressos VIP's para os outros dias - ela gritou, sorrindo.
Lucas franziu o cenho, parecendo bastante incomodado.
- Posso te arranjar os ingressos e aí você vai ter que fazer o teste do sofá comigo - ele murmurou, confiante.
Uuuuuh.
corou e desviou o rosto, parecendo finalmente notar minha presença. Minha amiga que não é boba e nem nada me puxou pelo braço rapidamente, tratando de nos apresentar como se nada tivesse acontecido.
- Essa aqui é a minha melhor amiga - ela ainda segurava minha mão com certa força. - , esse aqui é o Lucas. O menino da minha sala que eu te falei.
- Ah, então você fala de mim? - Lucas perguntou, abrindo um sorriso galanteador.
Pensei que veria desmaiar de tanta vergonha, então resolvi salvar minha amiga de mais constrangimento.
- Na verdade, eu perguntei sobre o tal cara que tinha arranjado ingressos pra gente e ela me falou de você. Muito obrigada, a propósito.
Ele pareceu decepcionado, mas deu de ombros, disfarçando muito bem qualquer sinal de desconforto.
- Não foi nada. Meu irmão me deu uns vinte desses, e quase todos estão na gaveta do meu guarda-roupa. É impressionante a quantidade de gente que tenta forçar amizade com você só pra tirar vantagem.
- Imagino. Esse lugar parece ser incrível. Tem três andares, né?
Ele sorriu, orgulhoso.
- Tem sim. O piso e o teto de vidro são bem resistentes, então não precisa se preocupar com nada. Meu irmão Ulysses investiu uma grana preta pra ter certeza de que essa coisa aguenta toneladas sem ameaça de quebra. Meu pai ficou uma fera quando viu a conta, mas depois de todas as notícias sobre a estrutura da balada e também da procura desesperada pelos ingressos, viu que fez um bom negócio e estão até pensando em abrir mais algumas filiais pelo país.
- Uau, dê os parabéns pro seu irmão por mim! - respondi, empolgada. - O que tem nos outros andares? Mais pistas de dança?
- O primeiro andar, no qual estamos, é pra galera que quer dançar e se divertir. Aqui as músicas são mais os hit's do momento, eletrônicas e essas coisas. No segundo andar - ele apontou pra cima, aonde podíamos ver algumas pessoas dançando sobre nossas cabeças. - É o andar pra quem curte uma baladinha mais casalzinho, sabe? Lá as músicas são mais lentas e os drink's mais sofisticados. E no terceiro.... bem, digamos que se alguém se empolgar demais não vai precisar procurar um motel. Há camas e suítes privês luxuosas, com hidromassagens e ofurôs - ele deu uma encarada de leve em , que, pra minha surpresa, mordeu o lábio inferior.
Peraí... não era ela que estava toda tímida a alguns minutos atrás?
- E aí, , em qual andar você quer ficar? - Lucas perguntou.
Minha amiga abriu um sorrisinho cúmplice, se aproximando mais de mim.
- Vou ficar com a até ela encontrar alguém. Hoje a noite é das garotas - ela explicou, e eu fiquei com dó da expressão desapontada que ele fez.
Tem alguém se apaixonando por aqui...
- Bom, se precisarem de qualquer coisa, meninas, estou à disposição - ele disse, se retirando.
Esperamos inteiros cinco segundos antes de começarmos a pular e a falar ao mesmo tempo:
- ELE TÁ TÃO NA SUA! - eu gritei.
- EU SEI! ELE É TÃO FOFO, NÉ?
- SIM, MUITO FOFO! VOCÊS SERIAM O CASAL PERFEITO!
- CREDO! NÃO TÔ PENSANDO NISSO AINDA. MAS VOCÊ ACHA MESMO?
- DEMAIS! VAI PRO TERCEIRO ANDAR COM ELE, SUA SAFADA?
- NÃO SEI! Até que deu vontade...
Soltei uma gargalhada, balançando a cabeça de um lado para o outro.
- Antes de te perder para o príncipe encantado ali, que tal uma dança? - sugeri, vendo minha amiga abrir um sorrisão e assentir.
Ah... a nossa noite só estava começando.

De Katy Perry passamos para Flo Rida e então perdi a conta de quantas músicas havíamos dançado. Meus pés já estavam me matando (e, Deus, eu nem queria saber como estavam o de ). O suor já escorria por todo o meu pescoço, e prendi meu cabelo em coque desarrumado, me abanando rapidamente enquanto me sentava em uma das cadeiras do bar. Pedi uma água sem gás pra tentar recuperar o fôlego e dois Sex on the Beach, porque sem álcool para anestesiar nossos músculos não seríamos mais capazes de encarar a pista de dança mais uma vez.
- Na minha lápide eu quero escrito: "avisei que estava mal" - murmurou, enterrando a cabeça entre os braços no balcão.
Tirei as sapatilhas do pé e cruzes as pernas na cadeira, pouco me importando se o meu vestido havia levantado.
- Na minha eu quero escrito: "Foi tudo culpa da " - respondi, logo em seguida agarrando a garrafinha de água que o barman me estendeu.
apoiou a cabeça em uma das mãos, soltando um suspiro dramático.
- A gente tá fraca, ein? Dançamos por... sei lá, uma hora?
- Uma hora e meia - respondi, tomando um longo gole daquele líquido sagrado. - Sinceramente, acho que não tem como nossa noite piorar.
- Credo! Nossa noite não está ruim. Esse cansaço quer dizer que nos divertimos. Quando você estava dançando até o chão ao som de Katy Perry e se esfregando naquele moreno gostoso parecia estar tendo uma ótima noite.
Revirei os olhos, apertando a tampa da garrafinha com certa força.
- Eu não estava me esfregando nele.
- Aham, sei. Sério, achei que o cara fosse te engravidar naquela pista - ela disse, sarcástica.
- Engravidar quem? - uma voz surgiu logo atrás de nós duas.
Ai não. Eu conhecia essa voz e ela só podia ser de...
- ! Chegou tão cedo - murmurou, parecendo nada feliz.
- Te conheço? - ele franziu o cenho, confuso.
- Graças a Deus, não - minha amiga murmurou, pegando um dos drink's rosa que o barman havia acabado de colocar em nossa frente e dando um pequeno gole.
abriu um sorriso cafajeste, mirando aqueles olhos de águia em mim.
- Vejo que você tem espalhado uma boa reputação minha ein, .
Dei de ombros, dando um gole na minha bebida.
- Faço o que posso. Por que saiu tão cedo do jantar?
- Porque sem você lá, acredite se quiser, foi apenas um jantar comum. Sem barracos, brigas ou discussões. Sentamos, pedimos, comemos, vazamos. Tivemos uma prévia de como nossa família seria perfeita sem a sua presença a tira-colo.
- Que engraçado, pois foi exatamente o que eu pensei quando vi vocês dois naquele restaurante infernal. Seu pai parece tão gentil e doce. Uma pena que os filhos não valham um centavo e ainda sejam cínicos ao ponto de fazerem chantagem e ainda acharem que estão por cima. Acredite em mim, , você não me quer como inimiga - avisei, virando o resto do líquido em meu copo em segundos.
Ele sorriu, sarcástico, andando lentamente para trás.
- Acredite você, . Eu tô louco pra começarmos a jogar de verdade!
E então ele sumiu na pista, enquanto eu sentia meu coração acelerar algumas batidas. Parecia que quanto mais eu me queria ver livre dele, mas ele conseguia ficar preso sob minha pele.
A vida é uma merda.
Pedi mais um drink pro barman, tentando desesperadamente esquecer das ameaças do meu querido meio-irmão. Ou melhor, irmão postiço. Sim, essa expressão me fazia sentir menos culpada pela pegação de hoje mais cedo.
Mas se ele estava louco pra começar a jogar de verdade... ah, eu iria com certeza dar as cartas.



CAPÍTULO 6: A VIAGEM.

Acordei com a cabeça latejando, e murmurei irritada ao escutar o som estridente do meu despertador. Quem é que tinha ligado essa merda mesmo, ein?
Levantei-me de supetão, bocejando enquanto esfregava os olhos. A minha vista estava um pouco embaçada, mas nada que fugisse muito do habitual. Eu tinha voltado pra casa por volta das três horas da manhã, e não conseguia me lembrar muito bem do que tinha acontecido depois de ter dado as caras.
", onde vc tá?", enviei por mensagem, preocupada com a minha amiga. Pelo pouco que me recordava, ela não havia saído de lá comigo.
Enquanto esperava ela responder a mensagem, me arrastei da cama completamente morta. Os pés ainda continuavam doloridos por causa de toda dança da noite anterior, e minha cabeça latejava recorrente a todos os drink's cor de rosa inofensivos que eu tinha tomado.
Andei como um zumbi por todo o corredor até chegar ao banheiro principal da casa. Ele era o único que tinha uma banheira, e eu pretendia ficar de molho ali por um longo tempo.
- Ei! - reclamei ao girar a maçaneta, notando-a fechada. - Quem é que tá aí?
Mas ninguém respondeu.
Continuei batendo na porta repetidamente feito uma desesperada, até o dito cujo resolver mostrar as caras. Era , que colocou apenas a cabeça pra fora pela fresta da porta, escondendo o resto do corpo nu dentro do banheiro.
- Quer parar com a gritaria, ? Tem gente que quer tomar banho!
Revirei os olhos, ignorando o formigamento que me tomou dos pés a cabeça. Eu nunca iria me acostumar com a visão de sem camisa...
- Eu preciso tomar banho também! E urgente!
- E o que eu tenho haver com isso?
- Você tá na porra do banheiro!
Ele revirou os olhos, irritado.
- Eu acordei cedo e cheguei primeiro. Só vou sair quando terminar.
- Eu não quero saber! A casa é minha!
arqueou a sobrancelha.
- Então chama a sua mãe - ele me desafiou. - Eu duvido que ela me tire daqui só pra deixar a filha mimadinha curar a ressaca na banheira.
Abri a boca, ultrajada, desferindo um tapa em seu ombro molhado.
- Imbecil! Você também tá todo acabado que eu sei!
- Ai, garota maluca! - ele gritou, se escondendo mais ainda atrás da porta. – Ah, , vai usar o banheiro do andar de baixo e me deixa em paz!
E então ele bateu a porta na minha cara, me deixando em um estado ainda maior de fúria.
- ! ABRE ESSA MERDA! - gritei, enquanto continuava batendo incansavelmente.
- TAKE ME DOWN TO THE PARADISE CITY - ele gritou de volta, cantando uma música do Guns N' Roses.
Devo admitir que me surpreendi sobre seu gosto musical. Quem diria que um babaca como ele teria tanto bom gosto, ein?
- EU NÃO TÔ BRINCANDO! - voltei a bater.
- WELCOME TO THE JUNGLE, WE GOT FUN AND GAMES - ele cantou ainda mais alto.
- AAAAAAAAAAH! - gritei, frustrada, desistindo de ter uma conversa decente com ele.
Desci até o segundo andar com uma cara de poucos amigos. Mamãe e estavam tomando café da manhã na cozinha, e ambos abriram o maior sorriso ao me verem chegar.
- Filha, vai tomar café? - mamãe perguntou, sorrindo.
Dei de ombros, prendendo o cabelo num coque firme no topo da cabeça.
- Quero tomar banho primeiro, vou usar o daqui.
Ela franziu a sobrancelha, confusa.
- Mas você gosta muito mais do andar de cima.
- É, mas tem um garoto chamado que tá demorando um ano pra sair do banheiro - revirei os olhos, sentindo a boca salivar ao perceber a quantidade de frutas e pães que havia na mesa.
- Esse garoto é impossível - murmurou, balançando a cabeça. - Pode deixar que eu vou até lá mandar ele se apressar.
- Não precisa, querido... - mamãe disse.
- Precisa sim - eu a respondi, cruzando os braços. - Tira ele de lá pelo amor de Deus!
- !
- Mamãe!
abriu um sorriso constrangido enquanto passava por mim em direção ao primeiro andar. Quando ficamos sozinhas, mamãe balançou a cabeça, desacreditada.
- Que falta de educação! O que eles vão pensar da gente?
- Eles não têm que pensar nada! Aquele garoto é muito folgado - reclamei, revirando os olhos. - Vou usar o banheiro daqui mesmo porque eu realmente preciso e tô morrendo de fome. Daqui a pouco eu volto.
Segui em direção ao banheiro que ficava do lado do quarto da minha mãe (que era a única suíte da casa, portanto, ela não precisava se preocupar com pessoas usando o seu banheiro. Antigamente, nem eu, já que ao todo são três banheiros e sempre moramos apenas as duas. Contudo, agora com esse negócio de casamento e irmãos postiços, a coisa ficava feia pro meu lado).
Forcei a maçaneta para entrar, mas essa também estava fechada. Tentei abrir mais algumas vezes, mas realmente não consegui, e revirei os olhos, imaginando o que possivelmente estava acontecendo.
- ... - murmurei, irritada.
Já estava pronta para xingá-lo de todas as formas possíveis e arrancá-lo dali pelas orelhas, mas as risadas que se seguiram me pegaram completamente desprevenida. Com um bolo se formando na garganta, encostei minha cabeça ainda mais na porta, escutando finalmente o barulho da água caindo no chuveiro, e pequenos sussurros, como se duas pessoas estivessem conversando de uma forma bem íntima.
- ! - a voz de Briana se fez presente, e senti meu coração acelerar.
Eles estavam tomando banho juntos!
- Bri, vem cá... - a voz de , carregada de desejo, surgiu logo depois.
Bater ou não bater na porta? Eis a questão...
- Eu não bateria se fosse você - a voz de me pegou de surpresa, me fazendo dar um pulo. - Eles ficam numa melação sem fim quando resolvem tomar banho juntos.
Fiquei sem jeito, nervosa por ter sido pega no flagra.
- Não precisa ficar com vergonha... - ele murmurou, se aproximando ainda mais de mim.
Revirei os olhos, empurrando-o um pouco quando ele me encurralou contra a porta do banheiro.
- Saiu rápido demais do banheiro, não acha?
- Como se você não fosse à culpada do meu pai praticamente arrebentar a porta e me expulsar de lá - ele reclamou.
Não consegui segurar a risada, me dando por satisfeita.
- Ninguém mandou demorar tanto lá! A culpa foi inteiramente sua, camarada.
- Camarada? Você tem quantos anos? Cinco?
- , eu gostaria muito de te xingar e continuar com essa discussão, mas eu tô com uma dor de cabeça dos infernos e adoraria que você caísse fora.
Ele revirou os olhos, entediado, tirando de dentro do bolso de sua bermuda uma cartela de comprimidos.
- Toma dois desses e depois me devolve. Fazem mágica e acabam com a sua ressaca em dois segundos - ele me estendeu o remédio e eu aceitei, comovida de certa forma.
- Por que tá fazendo isso por mim?
- Considere como um presente por você ter me arranjado os ingressos da Bamboa. Eu simplesmente adorei o lugar. Uma das melhores baladas que eu já fui!
- Eu sei, né! O lugar é incrível! - me empolguei, feliz por ter achado algo em comum com .
- Sim, e a arquitetura é fantástica! Nunca tinha visto nada igual - ele me confidenciou, com os olhos brilhando.
Eu estava prestes a respondê-lo, dizendo tudo o que eu sabia sobre a construção do prédio, quando senti a porta do banheiro ser aberta me fazendo desequilibrar e cair em cima de algo bem próximo de um muro. Bem, não tão próximo, mas...
- Opa! - me segurou, surpreso com o fato de e eu estarmos juntos de lado de fora do banheiro.
Ele estava apenas de toalha e completamente molhado, então tratei de me afastar o mais rápido possível de seus braços, corando violentamente ao perceber que sua namorada se encontrava na mesma situação.
- Ai, meu Deus, vocês queriam usar o banheiro? - ela perguntou, abrindo um sorriso nervoso. - Nós estávamos... ocupados. Nos desculpem!
ainda segurava meu braço, seu olhar queimando sobre mim, enquanto ele olhava de pra mim, parecendo furioso. Seus olhos inquisidores pousaram sobre os meus, em uma pergunta clara. Sem paciência, puxei meu braço do seu com violência, irritada com aquela situação.
- Como foi na balada ontem? - perguntou, cruzando os braços. O problema, é que eles ficavam enormes e incrivelmente definidos quando ele fazia isso, e senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem em resposta.
- Você quer mesmo falar sobre isso estando pelado desse jeito, cara? - perguntou, irônico.
devolveu um olhar de desprezo, irritado com o irmão.
Oh-oh. Eles realmente não se davam bem.
- Foi legal, dançamos pra caramba, mas agora eu preciso tomar banho, então vou subir. Você vem, ? - perguntei, tentando evitar uma possível discussão entre os dois. Não queria mais nenhum deles dizendo que a relação deles ficou horrível depois que eu entrei na vida de ambos.
- Você tá me convidando, ? - ele perguntou, provocativo.
Arqueei a sobrancelha, surpresa com seu atrevimento.
, entretanto, deu um passo em direção ao irmão, com os punhos cerrados.
- ! - Briana chamou, confusa.
- Ele não respeita ninguém! - ele reclamou, emburrado.
Engoli em seco, surpresa com o seu instinto em me defender. Ver esse lado todo másculo e bravo dele havia despertada borboletas em meu estômago, e eu não fazia a mínima ideia de como parar.
- O vai pra cozinha tomar café, eu vou subir pra tomar banho, e vocês dois vão se trocar. Melhor assim? - perguntei, começando a ficar irritada.
Todos concordaram e eu não os dei tempo de resposta, me virando a tempo de sentir o meu celular vibrar.
Era , que respondeu: "Tô desmaiada na cama do Lucas. Transei a noite toda, ao contrário de você haha. Tô indo pra aí daqui a pouco pra te ajudar a arrumar suas malas."
Balancei a cabeça, abrindo um sorriso. Só a minha amiga mesmo pra me fazer sorrir mesmo quando chorar parece ser a coisa mais plausível a se fazer.
(...)

e eu suspiramos, aliviadas, ao colocarmos a última mala no carro. tentava, sem sucesso, arrumar todas as malas de Briana enquanto , imprestável como era, tirava um cochilo já dentro do veículo. tinha alugado dois carros para irmos até o aeroporto; Os gêmeos iriam em um deles com a Briana, e e eu vamos com meu padrasto e minha mãe no outro.
- E a namorada desse aí? - minha amiga perguntou, colocando os óculos escuros no topo da cabeça.
Lancei um olhar rápido para , que continuava no décimo quinto sono enquanto escutava alguma música nos fones de ouvido.
- Ela vai pra lá hoje à noite. Vamos chegar praticamente todos juntos em Los Angeles - respondi.
- Finalmente vamos tirar férias juntas! Eu já estava cansada da faculdade. Esse primeiro semestre acabou comigo.
Senti uma pontada no coração, triste por não ter conseguido entrar na faculdade no mesmo ano que ela.
- Queria ter tido essa sorte - murmurei.
- Relaxa, . Com certeza você passa no final do ano.
Assenti, mesmo sem estar tão confiante. Sentia que a cada dia sem estar na faculdade, era um dia de atraso na minha vida. Problemático, eu sei.
- Bom, temos que ir, né? - perguntou do batente da porta, sorridente, segurando suas duas malas na altura dos quadris.
Mamãe sorriu, vindo em nossa direção.
Olhei pra trás e vi de relance fazer um sinal de positivo com o polegar, sentando no banco do motorista. , ao meu lado, já havia se aconchegado no Audi preto do meu padrasto. Revirei os olhos, entrando no carro também. Essa seria uma longa viagem...



CAPÍTULO 7: CASAL 20.

O ar fresco de Los Angeles encheu meus pulmões assim que pisei os pés pra fora do avião. , extremamente desanimada, ajeitou melhor os óculos escuros no rosto fino.
- Que sono - ela murmurou. - O ficou com aquele treco alto do nosso lado o voo todo!
- Nem me fale - resmunguei.
O gêmeo mau decidiu que ser um pé no saco não era o suficiente, então passou a porra da viagem inteira ouvindo um jogo de futebol americano no seu IPhone. O problema? Ele fez isso sem o maldito fone de ouvido, e como tinha sido ele o felizardo a se sentar entre e eu nas cadeiras (usando como argumento que: odiava a janela, pois tinha medo de altura e detestava sentar no corredor porque ficava aflito em ver as pessoas caminhando pelo avião), ele acabou tornando a nossa noite um inferno!
- Aaaah, bom dia, meninas! - o dito cujo exclamou, os óculos escuros lhe dando um ar jovial e descontraído. - Tive uma ótima noite de sono! E vocês?
Ele abriu um sorriso cínico e eu simplesmente o desejei uma morte lenta e dolorosa. Seria mais do que justo.
- Eu juro que eu vou acabar com a raça desse diabo - murmurei entredentes, vendo confirmar na mesma hora.
- Se precisar de uma cúmplice, pode contar comigo.
e Briana apareceram logo em seguida, prontamente acompanhados de mamãe e . Os casais haviam conseguido sentar todos juntos, o que eu achei extremamente injusto. O universo ultimamente quis descarregar toda a raiva que reprimia de mim em uma semana só! Sinceramente, ficava com medo de imaginar o que ele aprontaria nos próximos dias.
- O carro deve chegar a qualquer momento - disse, puxando minha mãe um pouco mais pra perto, movimento que me fez revirar os olhos. - A casa de praia que tenho perto de Santa Mônica é incrível. Vocês todos vão adorar.
- Já estive aqui algumas vezes, pai, se não se lembra - murmurou entre um bocejo.
- Sim, me lembro. Lembro-me também do prejuízo que seus amiguinhos me deram na última vez que te emprestei a casa.
abriu um sorriso maroto.
- São águas passadas, meu velho. Aposto que esse ano as coisas vão ser diferentes.
- Ou vão ser piores - murmurei, me espantando ao perceber que todo mundo havia escutado o meu "complemento".
Ops.
- Acho melhor comermos em algum lugar do aeroporto - finalmente se pronunciou. - A comida do avião era péssima.
- Mas comida de aeroporto não é nada saudável - Briana reclamou. - Poxa, aqui tem tantos restaurantes legais e famosos. Não vale a pena ir nesses... fast foods.
- Mas não vai ter nenhum restaurante aberto uma hora dessas, Briana. Sejamos racionais.
- Sejamos racionais - e eu repetimos ao mesmo tempo, olhando de relance um paro o outro ao percebermos isso.
- Ei, não impliquem com ele! - Briana disse, nervosa.
- Fica tranquila - a segurou pela cintura, abraçando-a por trás.
- Vocês dois fiquem aí com uma garota só - brincou. - Eu tenho duas!
Ele passou os braços por cima do meu ombro e do de e nos puxou pra perto, dando um beijo rápido na bochecha de cada uma.
- Que nojo! - reclamei, me soltando dele o mais rápido possível.
- Aquela vez no seu quarto você não reclamou... - ele sussurrou próximo ao meu ouvido, me fazendo encolher em vista dos arrepios que senti. Tentei disfarçar cruzando os braços, mas os olhos ágeis de capturaram muito bem o movimento.
- ! - uma voz aguda e extremamente fina o chamou, fazendo com que todos nós nos virássemos.
- Puta merda! - o gêmeo mau exclamou, passando a mão pelos cabelos.
- A Kimberly finalmente chegou! - comemorou, dando tapinhas no ombro do filho que continuava boquiaberto. - Agora ela vai colocar juízo nessa sua cabeça.
- Meu fofuxo! Você não atende minhas ligações, meu amor, eu fiquei super preocupada com você! - Kimberly gritou, apertando-o de todos os lados e o enchendo de beijos. - Briana minha amiga querida! Como você está? E , cunhadinho! Quanto tempo, ein? ! Sogrinho, que saudades! Essa linda do seu lado é minha sogrinha agora, é? E cadê minha nova cunhadinha? - ela exclamou, e arregalei os olhos ao constatar que essa seria eu. Dei um passo para trás na esperança de não ser notada. Infelizmente minha capa da invisibilidade havia ficado em casa, então a matraca ambulante me encontrou e se chocou comigo, me dando o abraço de urso mais longo de toda a minha vida. - Cunhadinha! Você deve ser a , não é? Posso te chamar de ? Eu estava em Paris e trouxe umas roupas pra você, queria que fôssemos amigas! Aahhh, agora somos irmãs! Que demais! Bri, você e eu vamos nos divertir taaanto! Nunca fiquei tão animada assim e... quem é ela? - Kimberly apontou pra , as faces coradas ficando cada vez mais vermelhas.
- Essa... - eu comecei, passando o braço ao redor dos ombros da minha amiga. - É a , minha melhor amiga desde sempre.
abriu um sorriso tímido e murmurou um "oi", esse que não foi retribuído.
- Você não me contou sobre ela, - Kimberly mirou seus olhos verdes para o gêmeo mau, que revirou os olhos. - Por que quis esconder ela? O que mais você não me contou?
- Kimberly, para de show! Ela é amiga da minha irmã postiça, o que você queria que eu fizesse?
- Não sei! Me avisar sobre ela, talvez?
pareceu incomodado, e puxou pra dentro do aeroporto junto com mamãe e o casalzinho feliz do outro lado. Eles acenaram pra que eu fosse junto, mas queria ver até onde a matraca iria.
- Se você estiver de caso com essa garota magrela, , eu juro que acabo com a sua vida!
- Você é completamente paranoica! Eu nem olhei direito pra essa menina!
- É bom mesmo, viu? Se eu ver você de gracinha pra cima dessa vagabunda, eu juro que...
- EI! - exclamei, chamando atenção dos dois. - Primeiro, Kimberly, que você pode até ser namorada desse encosto aí, mas não é casada com ele ainda, portanto não faz parte da família. Esse seu showzinho aí foi ridículo e deixou todo mundo constrangido! Eu posso trazer a amiga que eu quiser pra casa do meu padrasto, que, aliás, deixou, inclusive, esse seu namoradinho te trazer também. Você disse que quer ser minha amiga, não é? Pois vai aí uma novidade: eu não gosto de nenhum desses dois imbecis. Pra mim, os dois podiam se explodir e morrer bem longe de mim! Infelizmente eu preciso aturar esses dois satanases pelo bem da felicidade da minha mãe, mas uma garotinha mimada eu não preciso! Então ou você aprende a respeitar os outros e começa a agir feito um ser humano, ou eu vou ter que intervir. E acredite em mim, eu não sou uma pessoa muito paciente. Fui clara?
segurou uma risada, enquanto Kimberly ficava cada vez mais vermelha e sem graça.
Não esperei uma resposta e os dei as costas, deixando o casal 20 resolver seus problemas.
(...)

A casa de praia de não poderia ser mais linda do que era, porém, como não estava muito a fim de encher a bola daquele cara, chamei para curtirmos um pouco a praia de Malibu. O dia estava fresco e apesar de não estar tão no clima de areia e mar, conseguimos aproveitar bastante e tirar muitas fotos.
- Como será que aqueles dois estão com as duas idiotas lá na casa perfeita deles? - minha amiga perguntou, segurando o riso.
Fiz um meneio com a cabeça, dando de ombros.
- E eu é que sei? Mas aposto que a Briana deve ter arrastado o imbecil do pra algum canto da cidade.
- E o uma hora dessas com certeza deve estar tentando comprar a passagem da Kimberly de volta.
Revirei os olhos, limpando um pouco a areia do short.
- Você ouviu aquela louca ciumenta? Eu tive que me segurar pra não pousar minha mão na cara dela - resmunguei.
abriu um sorriso.
- Aw, você fica tão fofa me defendendo! - ela zoou. - Mas sério, essa menina deve ter alguma demência se ela realmente acha que mais alguém nessa Terra quer aquele encosto do namorado dela.
- Nem me fale. Essas duas cegas deveriam se internar numa clínica, isso sim.
- Elas até podem ser loucas... mas cegas, não. Eles são lindos, vai. O problema é só a personalidade.
Arqueei a sobrancelha, surpresa.
- Jura? Não acredito que você pensa isso.
- Não se faz de sonsa, . Não fui eu que fiquei com os dois no mesmo dia...
Franzi a testa, me levantando de supetão. Só podia ser sacanagem mesmo!
- Ah, chega! Eu vou nadar. Fica aí pensando na personalidade ruim daqueles dois enquanto eu curto essa maravilha - ironizei, dando as costas para a minha melhor amiga.
Fato é que eu nunca fui muito fã de praia. Havia algo com a água salgada, areia quente e corpos seminus que me deixava extremamente receosa. E isso não melhorava nem quando eu me esforçava. Entretanto, confesso que a imagem de uma cidade praiana me fazia suspirar. Sou do time que concorda que admirar as paisagens naturais muitas vezes é bem melhor do que curti-las de fato.
Fechei os olhos e me joguei com tudo na água gelada, rezando para que não engolisse nem uma única gota daquele mar salgado, ou que o mesmo não respingasse no meu olho. Papai sempre me chamou de bicho do mato por preferir passar as férias trancada no quarto lendo pilhas de livros de ficção e fanfics ao invés de curtir ao ar livre, mas qual a graça em se arriscar desse jeito? Sério, muito melhor ler a respeito.
Afinal, foi me arriscando que acabei me envolvendo no meu maior problema pra começo de conversa.
Gastei bons minutos na água e quando não aguentava mais, decidi por voltar pra perto de . Minha melhor amiga, entretanto, não estava mais no local em que eu a havia deixado.
- Porra... - murmurei, procurando uma toalha nas minhas coisas para me secar.
Coloquei minha saída de praia as pressas, irritada com esse sumiço repentino de . Quando ela ficava a fim de me irritar, conseguia como ninguém.
- Da próxima vez eu deixo em casa - resmunguei, pescando do chão alguns dos pertences que a louca deixou para trás.
Ela me ofende e depois fica com raiva! Aonde já se viu? Depois de eu ter me prestado a defendê-la daquele jeito.... ah, mas isso não vai ficar assim mesmo!
- ! - uma voz me chamou, parecendo irritada. - !
Girei sob os calcanhares até encontrar quem estava me chamando, e qual não foi minha surpresa ao perceber que era... Kimberly!
- ! - a desesperada chamou mais alto, começando a atrair olhares de outros banhadores.
- Merda - murmurei, acelerando o passo para longe da maluca.
E com um timing perfeito, percebi finalmente as mensagens e chamadas perdidas que havia no meu celular.
De .
"Miga, tive que sair. A matraca ambulante chegou e eu não estava muito a fim de lidar com criança. FOGE QUE EU ACHO QUE O RESTO DA TURMA TAMBÉM FOI. xoxo"
Poxa... eu ficando puta com ela e a coitada só queria se livrar. Que péssima amiga eu sou.
Conforme fui andando até o lado oposto da praia, a voz esganiçada de Kimberly passou a ser um mero sussurro.
Soltei um suspiro, aliviado, ao constatar que estava longe o bastante para me livrar da louca.
Bom, foi o que eu pensei.
- ? - uma voz rouca perguntou, arrepiando todos os pelos do meu corpo.
Não...
- ? - perguntei, confusa, sentindo o coração acelerar ao vê-lo no carro conversível do outro lado da rua, usando óculos escuros e com os cabelos ao vento.
Ele parecia ter saído de um filme, e honestamente? Não estava contando com todas as imprevisíveis reações do meu corpo ao vê-lo tão... lindo. Lindo como um astro de TV, o que seria irônico se não estivéssemos em Hollywood.
colocou seus olhos em mim e arqueou a sobrancelha, se arqueando para conseguir destravar a porta do carro.
- Quer uma carona? - ele perguntou, sério.
Dei uma boa olhada ao redor, me certificando de que não havia mais ninguém por perto.
- Não acho uma boa ideia - respondi, tentando soar simpática.
Afinal, ele ainda era o meu irmão posti... Eca.
Ele, entretanto, apenas revirou os olhos.
- Qual é! O que você acha que eu posso fazer? - seus grandes olhos não desviaram dos meus um segundo sequer quando ele continuou: - Além do mais, acabou de me enviar uma mensagem avisando que nossos pais pretendem sair pra almoçar e a não parece estar por perto.
- Ela foi embora quando eu estava no mar - deixei escapar, balançando a cabeça logo em seguida. - Mas não precisa se preocupar. Eu dou um jeito.
- Você já esteve em Los Angeles antes?
Neguei lentamente com a cabeça.
- Quer mesmo se arriscar só por que tem medo de uma carona? - ele ajeitou melhor os óculos escuros, encarando veemente o sinal vermelho.
Engoli em seco, mordendo o lábio inferior ao ponderar os prós e contras dessa... carona.
Encarei o carro atentamente, me dando por vencida ao perceber a mudança do sinal de vermelho para amarelo.
Sem pensar nas consequências, me atirei no carro de luxo do gêmeo bom, rezando para qualquer força sobrenatural que tivesse um pouco de piedade de mim.
- Não precisa se encolher tanto assim - ele murmurou, abrindo um sorriso de canto que fez as minhas entranhas se retorcerem. Por que ele precisava ser tão lindo? - Eu não mordo.
E, sem dizer mais nenhuma palavra, nos colocou na estrada.



CAPÍTULO 8: PERDIDOS.

- Como assim PERDIDOS? - gritei, nervosa, encarando a estrada escura em minha frente. - Você não tem a porra de uma casa aqui na Califórnia?
revirou os olhos, nervoso, apertando mais o volante em suas mãos enquanto encarava o caminho tortuoso que se seguia.
- Primeiro, olha a boca! Esse tanto de palavrões não combinam com você. E segundo, quem tem a casa é o meu pai, não eu. A única coisa que eu tenho é um apartamento que mal acabei de pagar e esse carro.
- Que foi seu pai que te deu - complementei.
- Mas que me pertence. A casa é uma coisa que não é minha.
Revirei os olhos.
- É engraçado essa crise de consciência sobre o que é seu ou não, mas, cara, o problema aqui é sobre estarmos rodando essa merda a mais de duas horas!
- Eu sei! Já era para estarmos na casa de praia duas horas atrás. Mas eu acho que me confundi...
Arqueei a sobrancelha, nervosa.
- Você acha?
- O tem mesmo razão. Você não para de reclamar!
- E desde quando vocês dois ficam conversando sobre mim?! - exclamei, me voltando completamente para ele. - Isso tudo é amor reprimido?
estreitou os olhos, abrindo um sorrisinho de canto.
- E se for?
Ok, fui pega de surpresa.
Desviei o rosto, tentando disfarçar o meu rubor ao prender o meu cabelo num coque no topo da cabeça.
- Acho melhor pararmos em algum lugar e ligar pra alguém vir nos buscar - mudei de assunto. - Ou então ligar o GPS.
balançou o celular, desligado.
- Tá sem bateria - reclamou.
Revirei os olhos, pescando no bolso meu amado Android. Sim, porque meu orçamento não comportava o IPhone mais caro do momento como meus irmãos postiços e suas irritantes namoradas, não.
- Eu ligo - avisei, exibindo meu telefone com a bateria cheia. Graças a Deus eu o havia carregado bem antes de sair de casa!
Acabei ligando pra , que pediu ajuda ao satanás também conhecido como . Ele nos orientou a pararmos em algum lugar com sinal e, com meu 4G, consegui me conectar ao GPS do meu telefone e logo em seguida enviei o endereço para os dois, que avisaram já estarem a caminho.
- Vamos ficar um pouco por aqui - disse, bufando alto.
- Graças a você - frisei, apoiando minha cabeça em meu braço. - Sabia que não deveria ter entrado nesse carro contigo.
Ele franziu o cenho.
- E por que entrou, então?
- Porque eu estava sem opção! Não sabia como voltar pra casa. Mas se eu soubesse que você também estava no mesmo barco que eu, eu jamais entraria aqui.
Ele bateu com as mãos no volante, me fazendo dar um pulo no banco carona.
- Eu acho engraçado que nada nunca tá bom pra você. Sempre reclama de alguma coisa ou é grossa com a gente. Eu vejo o jeito que você trata a Briana. Não precisa ser hóstil assim.
Soltei uma risada alta, irônica, realmente duvidando do que meus ouvidos estavam escutando.
O mundo realmente pode parar porque eu preciso descer.
- E eu um dia duvidei do karma - resmunguei, segurando o riso. - Sua namoradinha tapada não significa nada pra mim, fofinho. E, aliás, eu sou "hóstil" porque vocês dois me trataram mal desde a primeira vez que estivemos juntos. Ou eu devo esquecer a palhaçada que fizeram comigo na matinê?
- Ah, você quer dizer quando você ficou com nós dois no mesmo dia?
- FOI A PORRA DE UM ACIDENTE, CARALHO! PAREM DE FICAR FALANDO ASSIM!
- E você para de xingar tanto! - ele respondeu, nervoso. - Nunca vi alguém com a boca tão suja.
- Seu irmão estava completamente certo - respondi, sarcástica. - Vocês realmente não se conhecem, porque ele fala palavrões em quase todas as frases que diz.
- O não conta. Ele não é ninguém pra mim.
- Para de drama, garoto! - me recostei melhor no banco, curtindo o fato do carro ser um conversível. Como estávamos um pouco mais afastados da parte urbana da cidade, o céu estrelado ficava mais evidente, com uma vista de perder o fôlego. - Vocês são irmãos querendo ou não e pior, dividiram o útero um com o outro. Não importa quantas meninas passem na vida de vocês, o laço deveria ser maior. Vocês são sangue, família. Nada é mais importante do que a família.
suspirou, tirando (finalmente) os óculos escuros que o deixavam tão sexy. Reprimi um suspiro ao vê-lo bagunçar seu cabelo com as mãos, dando-lhe um ar mais rebelde e que definitivamente combinava bastante com ele.
- Você não o conhece como eu.
- Ah, disso eu sei - reclamei, me ajeitando melhor no banco, fechando os olhos para esquecer onde estava e no que estava me metendo.
- Você não foi à primeira, sabia? Ele já tinha feito isso antes.
Ok, isso era novidade.
- Como assim? - encarei fixamente os olhos do gêmeo bom, que abriu um sorriso sem graça.
- Eu tinha uma namorada... e ele meio que se apaixonou por ela. Na verdade, os dois se apaixonaram. Ela era dois anos mais nova que a gente, assim como você. Ela era virgem, fofa, carinhosa e sempre me dizia que queria ter uma primeira vez especial - ele parecia constrangido, o que eu achei bem fofo, mas ignorei para que ele contasse o restante da história. - Passamos o mês inteiro planejando como seria isso. Encomendei flores, chocolate, as bebidas e comidas preferidas delas, jantar a luz de velas, aluguei um quarto de hotel incrível com uma vista de tirar o fôlego e planejava ser o mais carinhoso possível. Até que um dia, voltando da faculdade, encontrei o transando com ela em cima do nosso sofá, como se ela fosse qualquer coisa. E sabe o que é pior? - ele se virou, parecendo revoltado. - Aquela não era a primeira vez dela. Eles vinham fodendo juntos há uns bons meses, e ele tinha tirado a virgindade dela na caminhonete dele.
Coloquei a mão sobre a boca, chocada, tentando reprimir o choque que senti ao escutar aquela história tão... escrota. Que tipo de irmão fazia esse tipo de coisa?
- Que filho da puta! - exclamei, me dando conta tardiamente que eles dois dividiam a mesma mãe. - Com todo respeito, é claro - completei.
, entretanto, apenas balançou a cabeça, indiferente.
- Eu acabei perdoando porque eu achei que eles estavam realmente apaixonados. Mas aí, meses depois, ele fez o que fez com você na balada. Traiu a namorada, que era a minha ex, e não teve respeito nenhum por mim. Ele simplesmente não se importa. Acha que pode fazer o que bem entende e que todos precisam aceitar. Eu não vou ficar parado só aceitando, não.
Engoli em seco, me sentindo subitamente culpada pela pegação que tive com dias atrás. O cara realmente não valia nada.
- E a garota? - perguntei. - Soube que teve a traição?
arqueou a sobrancelha.
- A garota é a Kimberly e ela nem sonha com isso. Depois de me trair ela virou uma psicopata a respeito de traição e acha que a qualquer momento isso vai acontecer com ela. Mal sabe ela que ele já traiu ela sim. Com você.
E mais de uma vez, quis complementar, mas apenas engoli em seco, balançando a cabeça.
Mas isso explicava o surto de ciúmes que ela teve no aeroporto com a .
- O karma não falha - concordei.
- Aquela noite foi o estopim - ele continuou. - Quando ele ficou com você. Porque quando você colocou os pés naquela boate... - se virou pra mim, fixando seus olhos nos meus, sério. - Eu juro que todo mundo parou pra te encarar. Você praticamente estava reluzindo com aquela roupa... e quando você me deu bola, eu pirei. Aquele beijo foi perfeito, e mesmo depois de tudo, eu ainda sonhava com ele, sabia?
Senti um arrepio percorrer por toda a minha espinha, e cruzei os braços, nervosa com a situação. Porque sim, eu havia sonhado com aquele beijo e eu, muitas vezes nos últimos três anos, pensei várias vezes em pesquisar sobre a família a fim de ter alguma informação sobre o garoto dos olhos bonitos que me puxou com tanto carinho e admiração que me fez sonhar por alguns segundos.
Contudo, nunca havia criado coragem para realmente encontrá-los. Mas então o universo se encarregara disso muito bem.
- Mas agora não importa mais - umedeci meus lábios, sentindo o coração acelerar. - Agora você está com a Briana e eu estou seguindo em frente. E além de tudo isso, nossos pais vão se casar. Somos irmãos agora.
- Irmãos postiços.
- Tanto faz, ! A questão é que o que passou, passou. Eu só quero sobreviver a esses meses antes do casamento e depois entrar pra faculdade. Vou finalmente morar sozinha e só vou ver vocês nos jantares obrigatórios de família ou em ocasiões especiais como natal.
- A questão não é essa! - ele protestou, se voltando completamente em minha frente. - A questão é que a gente ainda se gosta. Vai, confessa. Eu vi como você me olhou quando nos reencontramos.
Mordi o lábio inferior, encarando-o atentamente.
- Você é legal. Mais legal do que o seu irmão, com certeza. Mas a gente não se ama e nem nada, é só uma atração. Uma faísca. E, confie em mim, não é uma boa ideia começarmos um incêndio agora.
desviou o rosto, encarando o nada com o olhar perdido. Por um único segundo me peguei pensando se deveria fazer algo. Mas eles eram tão diferentes... era como um furacão, e a calmaria que vinha depois de uma grande tempestade. Os dois eram idênticos, mas, ao mesmo tempo, inegavelmente distintos um do outro.
E ainda tinha a Briana. Tudo bem que a paixão dela por restaurantes caros não devia ser algo fácil de bancar, mas ele não podia simplesmente decidir que queria tentar algo comigo. Afinal, nossa história (que nem teve capítulos o suficiente), durou apenas dez minutos em uma balada escura quando éramos bem mais novos. Somos praticamente outras pessoas!
- A gente podia tentar ter uma relação de, você sabe... uma coisa tipo irmãos - eu disse.
Ele apenas suspirou profundamente, se recostando ainda mais no banco do motorista.
- Você tem razão. Eu fui um pouco longe demais - ele concordou por mísero dois segundos, apenas para voltar seu olhar em minha direção, encarando atentamente meus lábios. Suas órbitas queimavam sobre mim, e me peguei admirando aquele rosto tão lindo. - Mas eu não ligo.
E, sem aviso prévio, se debruçou sobre o meu banco e agarrou a minha nuca, chocando nossas bocas em um beijo que parecia que poderia durar pra sempre. Seus lábios macios eram ainda mais doces do que eu me lembrava, e a sua pegada, ai meu Deus... ele realmente havia aprendido alguns truques novos com o passar dos anos. Sua língua fazia movimentos bem habilidosos em minha boca, e reprimi um suspiro ao senti-lo aprofundar ainda mais o beijo.
Sem saber onde colocar as mãos, afundei-as em seus cabelos macios, e ouvi soltar um pequeno rosnado antes de descer seus lábios até o meu pescoço, dando beijos de boca aberta por toda a minha carne. Soltei um gemido baixinho ao sentir suas mãos em meus quadris, firmes, decididas e ao mesmo tempo tão delicadas.
- Você é tão linda, ... - ele murmurou antes de abaixar a cabeça até o meu colo, depositando vários beijos naquela região.
Todo o meu corpo reagiu ao movimento, e mesmo desconfortável com o biquíni que havia secado por baixo das minhas roupas, consegui aproveitar todos os toques de seus lábios sobre a minha pele agora quente.
- ... - suspirei, sendo calada por sua boca, que me roubou mais uma dúzia de beijos. Não consegui evitar e retribui o mesmo, mas logo me afastei. - Não é certo fazermos isso. A Briana...
- Shhh - ele pediu, colocando o dedo sobre meus lábios agora inchados. - Não pense nela. Pense em mim. Em nós.
E então ele pegou minhas mãos e as apertou, guiando-as por de baixo de sua camisa branca. Mordi o lábio inferior ao sentir seu abdômen duro sob minhas mãos, e levantei meu rosto devagar, me deparando com o olhar intenso dele.
O que estamos fazendo?, pensei, espantada. Isso é loucura!
E eu realmente queria escutar a parte sã da minha consciência, mas, infelizmente, acabei beijando novamente e já podia sentir todo o meu corpo se encher de adrenalina. Entretanto, não seguimos em frente graças à buzina alta que nos despertou do nosso transe.
- Ei, vocês dois! - chamou, acenando.
e ela haviam finalmente chegado e eu não sabia onde enfiar a minha cara. Pior, eu não sabia se eles tinham visto ou não o que e eu estávamos fazendo.
- Eu acho melhor ir no carro com a e o - murmurei, sem conseguir encará-lo. - Será que você pode ir sozinho seguindo a gente?
me encarou, sua expressão não revelando nada mais além de... desapontamento. Por fim ele apenas assentiu, sem fixar seus olhos em mim.
Aquilo foi burrice! BURRICE!
Andei um pouco apressada até o Audi preto que veio dirigindo, me sentando no banco de trás com a minha melhor amiga um pouco nervosa. E se eles de fato assistiram tudo?
- Vocês duas atrás e eu aqui dirigindo. Desde quando eu virei o chofer particular das duas madames? - reclamou, finalmente ligando o carro.
- Cala a boca! - e eu berramos em uníssono.
- Me desculpa por isso - eu continuei, encarando-a. - O estava sem bateria e esqueceu de ligar o GPS e...
- Mas ele tinha avisado que chegaria tarde - disse, confusa. - Há duas horas atrás ele avisou pro que demoraria a chegar e que estava com você.
Arqueei a sobrancelha, ainda mais confusa.
- Mas ele disse que o celular estava descarregado.
- E então como foi que ele me mandou a localização exata de onde vocês dois estavam? - perguntou, entediado.
Ele parecia ter entendido tudo.
Mas eu não.
- A gente se perdeu - continuei, nervosa.
balançou a cabeça.
- Ele conhece essa cidade melhor do que ninguém, . Ele não te trouxe aqui por acaso.
- Parece que ele não é tão bonzinho quanto você pensava, não é mesmo, ? - ironizou, frisando meu apelido.
Ah não.




CAPÍTULO 9: DOIS LADOS.

Tentei ignorar de todas as formas as cutucadas de em minhas costelas e me virei de lado, cobrindo todo o meu rosto com a manta gostosa que havíamos comprado no Walmart na noite passada. Minha amiga, insatisfeita, continuou com a sua (falha) tentativa de tentar me acordar.
- ! Eu juro que vou testar a sua técnica de café quente se você não se levantar agora.
Eu resmunguei, irritada, coçando os olhos ao me sentar desajeitadamente na cama.
- Todo mundo vai pra praia hoje, como sempre. E eu não tô a fim.
- Eles querem almoçar fora hoje. Vamos, por favooooooor!
Revirei os olhos.
- Se quiser ir, , fique à vontade! Mas eu não - fui firme, me jogando na cama novamente.
Minha amiga bufou, cruzando os braços antes de se sentar na beirada da cama.
- Você sabe que eu não me sinto confortável com a sua família sozinha. Sem contar na Kimberly que vive jogando indiretas pra cima de mim!
- A Kimberly é maluca, é só ignorar que ela fica quietinha.
- Mas poxa, nossas férias estão sendo resumidas a praia e compras! Eu não aguento mais!
- Se quiser voltar pra casa fique a vontade também - resmunguei, a voz abafada pelo travesseiro.
- Eu não acredito que você disse isso! Sua vaca! - ela gritou antes de atingir minha cabeça com um travesseiro.
- ! - protestei, me virando de frente a fim de tentar parar seu próximo ataque.
Infelizmente pra mim, minha melhor amiga já possuía mais dois enormes travesseiros, um em cada mão, e me acertava de todos os lados possíveis. Sem pensar duas vezes, procurei uma almofada que estava próxima de mim e a atingi com toda força, desequilibrando-a e fazendo-a cair deitada na minha cama.
Com um sorriso vitorioso, subi em cima dela e me sentei em sua barriga, segurando suas duas mãos rentes ao rosto. se debatia desesperadamente tentando se soltar, mas eu fui firme.
- Diga que eu sou a melhor amiga do mundo e que você se arrepende de ter me chamado de vaca! - mandei, taxativa.
- JAMAIS!
- Eu não tô brincando! Posso ficar aqui o dia inteiro...
Ela tentou se debater mais uma vez, mas eu intensifiquei o aperto em seu punho, fazendo-a gemer de dor.
- ME SOLTA! - ela choramingou, mas eu sabia que era tudo fingimento.
Não era à toa que conseguia sempre as melhores notas na equipe de teatro do colégio. A garota era boa.
- ... - ela me advertiu.
- ... - eu respondi, arqueando a sobrancelha.
Continuamos nos encarando por alguns segundos, até uma voz insuportavelmente familiar brotar do nada: - Ai meu Deus, eu morri e fui pro céu e ninguém me avisou?
, folgado como sempre, bateu a porta ao entrar no quarto.
Revirando os olhos eu saí de cima da minha amiga, libertando-a da minha armadilha.
- Não, não, não parem, por favor! - ele implorou, o olhar malicioso queimando sobre nós duas. - Eu não sabia que vocês faziam guerra de travesseiros. Pelo amor de Deus, vocês precisam me deixar participar!
- Pra sua namorada te dar uma surra quando você voltar pro seu quarto de manhã? - arqueei a sobrancelha, me enfiando de baixo das cobertas. O meu short de pijama era bem curtinho e não deixava espaço para a imaginação e, convenhamos, se tratando do qualquer pedaço de pele a mostra era uma grande coisa.
Ele fechou a cara, mal humorado.
- Ela não manda em mim coisa nenhuma. Eu só tô suportando aquele ser humano porque temos assuntos inacabados.
Abri um sorriso irônico, não conseguindo acreditar na sua cara de pau.
- E esses assuntos inacabados tem algo a ver com o fato de você ter roubado a namoradinha maluca do seu irmão? - perguntei, arqueando a sobrancelha.
, ao meu lado, deu um pulo.
- VOCÊ FEZ O QUÊ?! - ela perguntou, curiosa.
Entretanto, eu apenas balancei a cabeça.
- Longa história - respondi, fazendo pouco caso.
abriu um sorriso maligno, mas pude perceber em suas órbitas e na maneira que o peguei desprevenido de que tinha mais coisa nessa história que eu deveria saber. E é como dizem: O lobo mau sempre será o vilão se você ouvir apenas o lado da Chapeuzinho Vermelho. E se tem uma coisa que eu sempre odiei na vida, essa coisa é a injustiça.
- Vejo que meu irmãozinho... - ele cuspiu a palavra com desprezo. - Quis bancar o bonzinho contando o lado dele da história sobre a própria ex-namorada, certo? Eu não te devo satisfação nenhuma e nem preciso ficar me explicando. Mas se você é tão burra ao ponto de acreditar nas palavras de um cara que claramente só quer te comer, aí já é um problema seu!
Abri a boca, ultrajada, arrancando os cobertores de cima de mim e voando em direção a ele.
- Lave essa boca antes de falar alguma coisa sobre mim! Eu não me importo com o que você pensa sobre nós dois, mas não vou admitir que me trate dessa maneira! E quer saber mais? Eu acredito nele sim! Pelo menos ele não é um covarde que vai atrás sempre das meninas que gostam do irmão porque simplesmente não tem capacidade de conquistar uma mulher sozinho! E tem mais! Como eu posso duvidar de um cara como ele e acreditar nessa espécie que é você? Você é cruel, vingativo, um filho da puta de marca maior e ainda por cima gosta de ameaçar as pessoas. Você não vale nada, , então não tente jogar esse jogo comigo porque você vai perder - cuspi, entredentes, sentindo cada nervo do meu ser tremer de ódio.
, assustada, se levantou da cama e se dirigiu até a porta.
- Eu vou tomar café. Te espero lá em baixo, ... - ela avisou, mas não dei à mínima.
continuou me encarando, os olhos travados nos meus, as narinas infladas, o peito subindo e descendo em um ritmo assustadoramente rápido. Ele estava furioso.
- Dois.
Franzi a sobrancelha, confusa.
Estava esperando confusão e gritaria... não uma palavra tão aleatória.
- Dois o quê?
Ele abriu um sorriso fraco, a expressão magoada ficando cada vez mais evidente.
- Dois lados, . Toda história tem sempre dois lados.
E com isso ele também saiu, me deixando sozinha.
Completamente sozinha.
(...)

O restaurante que minha querida família havia escolhido era bem calmo, e tinha vista pro mar. A comida é bem leve, de um jeito bom, e nem mesmo o calor insuportável me deixou com o mau-humor elevado hoje.
, sentada à minha esquerda, dá um gole no suco de melancia que pediu.
- Obrigada por ter aceitado vir - ela agradeceu, sorrindo.
, que estava fazendo um carinho no braço de mamãe, sorriu ao ver todos nós juntos sentados a mesa.
- É bom estarmos todos aqui como a família que somos. Espero que a união entre vocês só se fortaleça. É tão lindo de ver essa dinâmica... com certeza faremos mais viagens em família assim.
- Vai sonhando - murmurei.
Mamãe me lançou um olhar de advertência, mas eu apenas revirei os olhos.
Por que todos eles precisavam ser tão sensíveis?
- Esse vestido está me incomodando - murmurou, de repente. - Eu odeio usar renda. Essa merda pinica!
Minha amiga veio vestindo um vestidinho de verão curto e florido, com um pouco de renda no contorno do decote. Sou apaixonada nesse vestido desde que ela me mostrou na loja, mas infelizmente esse era o último e ela o viu primeiro.
- Quer trocar de roupa comigo? - perguntei.
Ela avaliou meu short jeans e minha blusinha de alça fina branca, e assentiu sem pensar duas vezes.
- Vamos pegar mais comida. Não vamos demorar - avisei, puxando pela mão.
Vasculhei o pequeno restaurante em busca de algum lugar (mais precisamente um banheiro) onde nós pudéssemos nos trocar. Infelizmente, o único sanitário daquele estabelecimento estava com uma fila tão grande que gememos em uníssono ao encararmos o final de toda aquela gente.
- Deixa pra lá, . Depois a gente dá um jeito...
- Ah, tá. Até parece!
Agarrei pela mão e a puxei pra fora do restaurante, em direção a praia linda e reluzente, que, com o horário, estava com um sol tão gostoso que a minha vontade na verdade era de tirar todas as roupas e dar um belo mergulho. E olha que não é todo dia que estou receptiva a água gelada e salgada e areia grudenta.
Passando os olhos rapidamente pelo local, consegui encontrar o que procurava. Ah! Uma espécie de depósito de lixo, logo ao lado do restaurante onde minha querida família agora estava.
- Vamos nos trocar ali! - apontei, abrindo um sorriso orgulhoso.
Já mencionei que sempre que quero algo, acabo conseguindo?
- Tá maluca, ? Um depósito de lixo? Imagina se pegam a gente!
Revirei os olhos, ignorando sua preocupação.
- E quem é que iria encontrar a gente aqui, ?
Abri a porta de metal, me deparando com um cubículo até que bem limpinho. Daria pra fazermos a troca em poucos minutos.
Minha amiga, entretanto, torceu o nariz ao vasculhar o lugar.
- Não sei, não...
Sem pensar, puxei pra dentro do espaço e fechei a porta. Ela deu um gritinho assustado, mas ignorei seu estado enquanto tentava (ou melhor, lutava) para tirar a blusa e o short. Estava tão apertado que até eu comecei a pensar que aquilo podia ter sido uma péssima ideia...
- ! Você tá só de calcinha e sutiã! - ela constatou o óbvio.
- Dã! Agora tira logo o vestido pra gente poder sair daqui logo!
pareceu ponderar por alguns segundos, mas devido ao meu estado seminu, ela acabou se apressando.
- Mais que merda! - ela ralhou, enquanto tentava passar o vestido pela cabeça.
- Anda logo, ! - pedi, afoita.
- Não quer sair, !
- Como assim não quer sair?!
- Me ajuda aqui! Ficou preso!
Revirei os olhos, percebendo tarde demais o erro da minha amiga. A renda do decote do vestido havia se enroscado nos brincos que ela usava. Tentei ir com calma para resolver tudo da melhor forma possível, mas, como o universo nunca colabora ao meu favor e o karma está sempre querendo curtir com a minha cara, o impensável aconteceu.
A porta se abriu, de supetão, revelando... 3, 4, 5... 6?
Seis pessoas?
finalmente conseguiu se ver longe do vestido, e abriu um sorriso de agradecimento em minha direção. Contudo, esse foi morrendo conforme ela se dava conta da situação em que nos encontrávamos.
Estávamos de langerie na presença de , e mais quatro desconhecidos!
Minha amiga rapidamente recolheu o vestido do chão e o colocou rente ao corpo, tentando se cobrir da melhor forma possível. Já eu? Ah... eu ainda não tinha processado tudo que tinha acontecido ainda.
E nem queria, pra ser honesta.
, entretanto, conseguiu quebrar o silêncio.
- Isso é bem melhor do que a guerra de travesseiros... - ele murmurou, o olhar queimando sobre mim. Ele parecia quase hipnotizado encarando meu corpo quase completamente exposto, e revirei os olhos, nem um pouco surpresa com o seu descaramento.
Limpei a garganta, irritada.
Doze pares de olhos pareceram sair do transe em que se encontravam, e a maioria pareceu constrangida ao desviar o olhar.
- Hã... esses são alguns amigos que moram aqui perto... - tentou explicar, ainda me encarando de cima a baixo. - E-eles... eles... hã... eles tocam violão e queriam cantar aqui e... e o violão do Alex ficou guardado aqui - Ele suspirou alto, parando o olhar um pouco acima do decote.
Olhei para trás apenas para constatar que havia, de fato, um violão escondidinho ali atrás. Bem, a minha vida era uma merda de qualquer maneira.
- Nunca viu uma mulher seminua antes, maninho? - perguntei, ácida.
Ele abriu um sorriso cretino, lambendo discretamente o lábio inferior.
- Já sim. Mas nunca tinha visto uma mulher tão gostosa assim antes...
Eu já tinha uma resposta na ponta da língua, todavia, elas não tiveram tempo pra saltar da minha boca devido à rapidez com o que resto se seguiu.
- DESGRAÇADO! - rugiu, pegando o irmão pelo colarinho e lhe desferindo um soco certeiro.
- AAAAAHHH! - gritou, assustada.
Puxei o vestido de sua mão e o vesti em poucos segundos, correndo até os meus irmãos postiços que agora rolavam no chão e trocavam socos e xingamentos em plena luz do dia.
Os seus amigos, desesperados, tentavam afastar os dois a qualquer custo, mas parecia missão quase impossível. A briga já começava a atrair os olhares das pessoas que passeavam por ali, e, em um ato total de desespero, resolvi intervir.
- PAREM JÁ COM ESSA MERDA! - berrei, me enfiando no meio dos dois brutamontes.
Demorou um tempinho até que ambos entendessem como eu havia conseguido manter uma pequena distância entre os dois, que agora se encaravam raivosos e com a respiração ofegante. Eu definitivamente não estava sendo paga pra ser babá de marmanjo não!
- ESSE BABACA PRECISA APRENDER UMA LIÇÃO! - rugiu, tentando passar por cima de mim pra chegar ao irmão.
Felizmente um dos amigos gringos dele o segurou pelo braço.
Encarei-o com um olhar de advertência, realmente irritada.
- E você precisa aprender a controlar os nervos! Onde já se viu? Olha só o vexame que vocês estão fazendo eu pagar no meio da rua! Bonito, né? Rolando no chão como se fossem dois moleques...
- Ele ainda É um moleque que parece não entender que tem namorada e que não é normal ter ciúmes da meia irmã! - cuspiu, puto da vida.
- Cala essa boca e para de falar besteira! - eu lhe dei um tapa no ombro, nervosa. - Imagina se alguém da nossa família escuta isso! O que é que a gente diz?
- Não vai ser necessário dizer nada, - a voz de se fez alta e clara enquanto ele caminhava, com um olhar assustador, até onde todos estávamos no momento. - Porque eu quero explicações nesse exato momento.
Mamãe, Kimberly e Briana estavam com olhos arregalados, encarando o olho de que já estava ficando roxo, a boca de que sangrava, e eu, ali, no meio, com o vestido da minha melhor amiga.
Ah, universo... você ainda me paga!



CAPÍTULO 10: FESTA!

- E então? Vão começar a me explicar por bem ou vou ter que começar a interrogar os curiosos que viram tudo por aqui?
Arregalei os olhos, dando um beliscão no braço de em busca de ajuda.
- Aaai! - ela reclamou, recebendo em troca meu olhar desesperado. - Aaai q-que confusão! Não aconteceu nada demais não, tio! É que... Hã... Tivemos alguns desentendimentos! Só isso! Mas felizmente já conseguimos resolver tudo...
- Conseguiram? Sério? Pois não parece nenhum pouco! - ele retrucou, furioso, se voltando para os filhos. - Não criei vocês dois para ficarem agindo feito dois moleques e se atracando no meio da rua!
revirou os olhos, enquanto respirava fundo, constrangido.
- Foi o Sr. Perfeitinho que começou com os socos. Eu só revidei - respondeu, fazendo pouco caso. - Aliás, a culpa foi da sua enteada dessa vez.
Mamãe se virou pra mim com o olhar mais mortal de todos os tempos.
Engoli em seco, dando um passo em falso pra trás. Infelizmente esbarrei em alguém, mas a pessoa pareceu não se importar. Muito pelo contrário, ele me segurou pelos ombros com força enquanto afirmava com a sua voz de tirar o fôlego:
- A culpa não foi dela. Foi minha - constatou, sério. - E do também. Ele foi desrespeitoso com a e eu acabei perdendo a cabeça por isso. Foi o que aconteceu.
se voltou para o gêmeo mau, a carranca assumindo uma expressão assassina.
Retiro o que eu disse, esse foi o olhar mais mortal de todos os tempos.
- O que se passa na sua cabeça, rapaz? Perdeu todo o juízo?
- O problema é exatamente esse, pai! Ele tem uma cabeça, mas não usa - destacou, sombriamente.
abriu um sorriso de canto, irônico.
- Melhor isso do que usar a cabeça errada pra pensar. Como você faz quando se trata da , mano.
Arregalei o olho, indo para trás em reflexo.
Uou! Eu não conseguia acreditar que ele havia... Ele havia insinuado que... Que eu e ... Ai, meu Deus!
- Agora chega, seu filho da puta! - O gêmeo bom rugiu, partindo pra cima do irmão.
Felizmente para o bem de todos, se colocou no meio dos dois irmãos, que se encararam, furiosos.
- Se algum de vocês ousar dar mais um passo eu mesmo chamo a polícia e mando prender os dois! Essas férias deveriam ser para unir a nossa nova família, e não separá-la ainda mais!
Continuei parada ali, estática, sem conseguir mover um único músculo. , também em choque, segurou meu braço e apoiou a cabeça no meu ombro.
Mamãe apenas nos observava, curiosa. Ah, isso ia acabar sobrando pra mim também...
- Acho que trocar de roupa na lixeira não foi a melhor das ideias, afinal - ela murmurou.
Soltei uma risada, sem conseguir conter, concordando prontamente.
Era bom ter uma amiga com um senso de humor tão único!
- Qual é a graça? - perguntou, irritado.
- Nada demais. Desculpe - pedi, me dando conta da situação complicada em que eu estava.
franziu o cenho, dando mais um passo para perto de onde minha mãe estava, esta que continuava com seu olhar desconfiado mirado fixamente em mim.
Eu precisava achar um jeito de limpar a minha barra e continuar com a razão, mas como? Desde que chegamos a Los Angeles eu não fazia nada além de piorar cada vez mais as coisas! Minha mãe e precisavam de uma pré lua de mel, ou qualquer outra merda parecida pra esquecer a implicância aparentemente gratuita que nós três tínhamos.
Limpei a garganta, chamando a atenção da galera que ainda estava extremamente tensa, devo ressaltar.
- Eu concordo com o ! Essas férias deveriam nos unir, nos deixar mais conectados como uma família! E olha só, mal temos passado algumas horas juntos...
arqueou a sobrancelha, me encarando de cima a baixo.
- Você quer que a família se conecte mais? O quê?
- Cala a boca - sussurrei, quase inaudível, para que só ela conseguisse me ouvir.
Ela balançou a cabeça, confusa, mas concordando com o meu plano maluco.
- Hm... É... A tem razão.
Agradeci com um sorriso, me sentindo ainda mais confiante em prosseguir.
- O que acham de Vegas? - perguntei, animada.
Ouvi uma gargalhada irônica em resposta, que só podia vir de uma pessoa...
- O que foi, ?
Ele continuou sorrindo.
- Vegas tipo Las Vegas?
Revirei os olhos, sem paciência.
- Não, Vegas tipo a Disney. Claro que é Las Vegas! Mas não pra gente. Pra eles. Nossos pais merecem uma pré-lua de mel. Não concorda?
Por alguns instantes, houve apenas o silêncio constrangedor daquela pequena roda de pessoas problemáticas, tendo ao fundo o barulho das ondas quebrando no mar e os olhares e sussurros curiosos de quem passava ao redor.
Entretanto, a última pessoa que eu pensei que iria me apoiar agora, resolveu se pronunciar.
- Las Vegas não fica tão longe daqui, querido - mamãe concordou, abrindo um sorriso. - E eu tenho esse sonho desde a adolescência de poder jogar em um desses cassinos de hotel.
- Seu sonho? - fechou o semblante. - E por que não me disse? Podíamos ter ido pra lá direto!
Ela balançou a cabeça, emocionada, dando um passo mais próximo ao noivo apenas para tocar-lhe o rosto carinhosamente.
- A tinha o sonho de conhecer Hollywood, meu bem. Eu nunca colocaria um sonho meu acima do dela!
Confesso que escutar isso fez com que meus olhos marejassem. Eu não merecia mesmo a mãe maravilhosa que eu tinha...
- Gente, não é querendo atrapalhar esse momento emocionante e tal... - um dos garotos desconhecidos que me viu seminua começou a falar, sem jeito. - Mas tem muita gente aqui fora assistindo ao show. Melhor voltarmos para o restaurante.
Uau, só agora havia reparado nos cabelos loiros compridos e olhos azuis. Esse garoto definitivamente cumpria o requisito na questão surfista sarado.
sorriu, balançando a cabeça.
- Na verdade não, Kayo.
Ah, então Kayo era o nome dele...
- Temos que ir pra casa - mamãe completou, sorridente. - Tenho uma mini viagem para planejar!

(...)

- Você sabia de tudo, não sabia? - perguntou, risonha, se jogando na cama que estávamos dividindo na casa.
- Sabia o quê? - Fiz pouco caso, colocando os fones de ouvido para escutar melhor meu maravilhoso Axl em "Civil War".
- Sabia que o sonho da sua mãe era ir pra Vegas! Sua maluca - ela jogou um travesseiro em mim, mas consegui agarrá-lo no ar.
- Mas é claro que eu sabia! Você tem que ver o jeito que ela fica possessa quando estamos jogando poker e eu tento dar uma roubadinha. Juro, da última vez quase arrancou meu fígado com a unha!
Minha melhor amiga caiu na gargalhada, incrédula.
- Não acredito que você se aproveitou da queda que a sua mãe tem por jogos pra se livrar dos dois... Você não existe, !
- Eu não me aproveitei coisa nenhuma, ! Sempre foi o sonho dela, não se esqueça disso.
- Ok, tudo bem, mas e agora? Vamos ficar oficialmente trancadas nesse quarto pelos próximos dias?
Revirei os olhos, ignorando o tom dramático que ela havia utilizado em sua fala.
- Eles vão ficar fora só durante o fim de semana. Quando voltarem, ainda teremos longos cinco dias antes de voltarmos pra casa. Então para de reclamar! Obrigada.
Continuamos conversando sobre banalidades quando, eventualmente, a fome começou a bater com força. Dada a nossa história catastrófica no restaurante mais cedo, preferimos não dar mais um gostinho ao azar (mais conhecido como karma) e comer algo em casa.
- Será que não é melhor irmos ao mercado? Sabe, antes que fique muito tarde... - comentou, enquanto descíamos as escadas.
Mas não foi necessário responder ao passo que vimos os gêmeos e suas lindas namoradas chegando em casa cheios de sacolas. Abri um sorriso, feliz pela primeira vez desde que chegamos à Califórnia!
- O lado bom de ter irmãos! - comemorei, me apressando em ajudá-los com as compras.
Kimberly e Briana fizeram questão de desviar quando me aproximei. É, elas ainda não haviam processado muito bem a briga envolvendo seus respectivos namorados e eu de mais cedo.
- Vocês vão cozinhar? - perguntei, hesitante.
A verdade é que eu sou uma procrastinadora! Amo ficar deitada assistindo Netflix o dia todo sem parar, e me levanto quando as refeições estão prontas pra mim. O máximo que já tinha feito era assar uma lasanha congelada (e, acredite, isso já havia drenado um enorme esforço de mim!). Mas entre a preguiça de sair de casa e ir comer em um restaurante (ou melhor, fast-food) superava a preguiça de levantar do sofá e colocar a mão na massa, literalmente.
- Nope - respondeu, concentrado. - Nossos pais acabaram de sair.
- Isso eu sei...
- Sim. E estamos nos Estados Unidos. O que acontece quando os pais deixam uma casa dessas para jovens como nós?
Franzi o cenho, sem entender. Que espécie de enigma era esse?
apenas revirou os olhos.
- Vou deixar para os rapazes te responderem.
Observei com atenção ao vê-lo tirar inúmeras garrafas de bebidas de dentro das sacolas marrons, uma por uma. A maioria das garrafas ali custavam um rim, e me peguei pensando em como esses garotos conseguiam tanto dinheiro.
- Que rapazes?
- Opa! - Kayo, o surfista sarado apareceu, me aparando pelos ombros. - Não nos conhecemos. Sou Kayo.
- , prazer. O que é que tá rolando?
Ele franziu o cenho, colocando algumas daquelas garrafas dentro da geladeira.
- Os meninos não te contaram? É tradição por aqui. Quando os pais dão o fora, nós temos festa!
- Festa? Aqui? Pode ir sonhando - desdenhei.
- Como se precisássemos da sua permissão - a voz de fez a minha espinha gelar. Que babaca! - Só pra te lembrar, docinho... - ele se aproximou ainda mais de mim pelas minhas costas, mas não lhe daria o gostinho de me virar. - Que não estamos mais na sua casa. Quem manda aqui somos nós. E nós vamos ter essa festa. Já convidamos metade dos nossos amigos da cidade. Se não quiser participar é só se trancar no quarto com a sua amiguinha patética.
A respiração de deixou os pelos da minha nuca completamente arrepiados, mas consegui manter a postura completamente inabalável.
me puxou pela mão, evitando um grande desastre. Quem o pensava que era? Tudo bem, ele até tinha um ponto: eu realmente não vinha facilitando a vida deles. Mas, cara, eles tinham uma namorada! Será que uma festa se fazia de fato tão necessária?
- Relaxa, . A gente dorme rápido e amanhã saímos cedo para fazer compras. Deixa que a zona da casa eles arrumem e então vão se arrepender disso.
- Ah, mas isso seria fácil demais... Tenho certeza de que teremos ideias melhores.
- Ideias? - perguntou, nervosa.
Eu sempre metia a gente em encrenca. Mas ela sempre topava as minhas loucuras porque sabia que, de uma forma ou de outra, eu sempre conseguia fazer com que saíssemos ganhadoras. E se eles queriam tanto uma festa... Ah, pode apostar que eles teriam uma festa!



CAPÍTULO 11: VINGANÇA

- AAAAH, QUE INFERNO! - gritei, nervosa, tapando os ouvidos com os dois travesseiros que estavam sobre a cama.
O barulho enlouquecedor que vinha do primeiro andar estava me deixando cada vez mais irritada. Essas duas pragas iam pagar caro por isso!
, entediada, suspirou alto enquanto entornava o que restava da sua garrafa de cerveja artesanal.
- Ai, que saco, ! Por que a gente não pode descer e curtir a festa também?
Lancei o meu olhar mais mortal e ela se encolheu de medo. Ai, agora só me faltava isso! Minha própria melhor amiga querendo compactuar com meus dois inimigos!
- Sua traíra!
- Traíra por quê? Por que eu quero me divertir um pouco, pra variar? Olha, vamos encarar os fatos: eles não vão parar com a festinha deles tão cedo e com isso não vamos conseguir dormir bem essa noite. Como é aquele ditado mesmo, ein? Se não pode vencê-los, junte-se a eles!
Revirei os olhos, me jogando sobre os travesseiros.
- AARRRRGHH! QUE SACO! - gritei, esmurrando as fronhas inocentes.
- Pensa bem - ela continuou, persuasiva. - Se ficar aqui estará dando exatamente o que eles querem! Os dois estão lá, se divertindo, enquanto estamos trancadas nesse quarto sem absolutamente nada pra fazer.
Ah, pensando por esse lado, ela tinha um ponto...
- Continue.
Minha amiga abriu um sorriso, ficando cada vez mais empolgada.
- A gente podia descer e sugerir um jogo, sei lá! Só isso já iria cortar esse barulho infernal - ela resmungou.
Um jogo? Tipo verdade ou desafio? Isso podia ser interessante, mas não éramos mais adolescentes ali. Quero dizer, aos dezoito anos você não é exatamente um adulto, mas também já não é mais uma criança. Se fosse pra jogarmos alguma coisa que fosse...
- Sete minutos no céu! Já ouviu falar? - perguntei, animada.
- Na verdade, não. Isso não é coisa de filme?
Revirei os olhos, abrindo um sorriso travesso.
- Sim, é. Mas eu tive uma ideia genial pra nossa vingança, ! Presta atenção. O jogo consiste em uma roda com várias pessoas. Escrevemos os nomes de todas elas em papéis pequenos e os jogamos dentro de algum recipiente. Balançamos bem e pegamos dois. As duas pessoas sorteadas entram dentro de algum lugar normalmente escuro e apertado, e ficam sete minutos. Não podem levar os celulares e também não podem negar ir com a pessoa que foi sorteada.
- Tá bom, mas o e o tem namoradas. E eles vão perceber de cara que alguma coisa não está tão certa...
Revirei os olhos.
- Dã! Eu sei! É por isso que precisamos convencê-los a jogar. - Abri um sorriso, travessa. - Mas o que eles não sabem é que eu vou escrever o seu nome em quase todos os papéis, junto com o nome .
- Opa, isso é trapaça! E qual é, ? Vai querer me jogar na cova do leão mesmo?
- Eu achei que você queria dar o troco na Kimberly e de cara no que te chamou de patética hoje mais cedo. O que poderia ser melhor do que ferrar mais um pouquinho com esse relacionamento que já não vai mais pra frente?
mordeu o lábio inferior, pensativa. Eu sabia que ela era muito boazinha, mas mesmo assim ainda torcia para que ela embarcasse na minha.
- Não sei não...
- Ah, qual é! Não tenho ascendente em Escorpião à toa, não. Sei me vingar como ninguém. E se tudo ocorrer bem, ela vai acabar indo embora de volta pra Europa ou qualquer outro lugar da qual ela veio. E aí as nossas férias vão ficar ainda mais inesquecíveis! Confia em mim. No final, até o vai me agradecer. Ninguém suporta ela mesmo - dei de ombros, me preparando para trocar de roupa.
franziu o cenho, confusa.
- O que você está fazendo?
- Trocando esse pijama por uma roupa mais sexy. E acho bom que você faça o mesmo! Vamos descer em poucos minutos. Pode ir pensando em uma desculpa para a nossa mudança de humor.
- Só você mesmo, . Aonde eu fui me meter, meu Deus?
- Foi se meter com a pessoa mais maluca do mundo, confesso. Mas mesmo assim você ainda me ama.
- Pior que amo mesmo - ela resmungou, e nós duas caímos na risada.

(...)

- , eu sei que você me acha infantil e tal, mas você sabe que eu já tenho vinte anos e não treze, certo? - perguntou, risonho.
Os copos vermelhos vazios em cima da mesa explicavam seu humor tão volátil.
- Hã... Sim, eu sei. Mas acredite em mim, isso deixaria as coisas bem mais... Interessantes.
Ele soltou uma risada anasalada, entornando o líquido do copo em sua mão.
- Você é muito esquisita, sabia? De vez em quando conversa normalmente, só para em seguida agir como uma completa maluca. Às vezes berra aos quatro ventos que nos odeia e logo em seguida aparece sugerindo um jogo de adolescente virgem. Juro que eu tento te entender, mas é quase impossível!
Revirei os olhos, me apoiando na parede atrás de mim.
E ele por um acaso achava que era um doce?
- Só estou dizendo que eu de fato gostaria de ter um relacionamento mais amigável com vocês, oras. Eu já topei vindo até aqui, não foi? O que custa levar em consideração a minha sugestão?
- Custaria algo bem caro, sim. Esqueceu que eu não te conheci ontem?
Bufei alto, batendo o pé, impaciente.
- Caramba, ! Será que não dá pra ter um pouco de fé em mim?
- Sinceramente? - ele me encarou, risonho. - Não. Você não é digna de confiança.
- Ah, sinceramente! Quem é você pra falar sobre confiança? Não se esqueça de que foi o senhor que me fez acreditar que estávamos perdidos enquanto, na verdade, tudo não se passava de uma estratégia para tirar proveito de mim!
Ele soltou uma gargalhada alta o suficiente para que todos os pelos do meu corpo se manifestassem. Deus, chegava a ser patético o quanto o meu corpo reagia ao dele.
- Tirar proveito de você? Não foi o que pareceu no carro quando você me beijou daquele jeito.
Soltei uma risada, irônica, encarando-o em um claro sinal de desafio.
- Você quer dizer, depois que você me agarrou primeiro? Ah sim.
ergueu a sobrancelha, abrindo um sorriso que mostrava as covinhas que eu ainda não tinha reparado. Ele cruzou os braços, fazendo com que seus músculos se sobressaltassem e me mediu de cima a baixo, descaradamente.
- Olha só pra você. Linda desse jeito, quem não agarraria?
AI. MEU. DEUS.
O QUÊ TINHA ACABADO DE SAIR DA BOCA DELE?
Engoli o choque, nervosa, e me descolei da parede. De repente eu sentia como se todas as palavras me fugissem da boca. Justo eu, a matraca ambulante e respondona! Mas também, o que eu supostamente deveria fazer? sempre foi o garoto bom, pelo amor de Deus! Eu conseguiria visualizar o falando daquele jeito perfeitamente... Mas ele?
O álcool realmente revelava a verdadeira natureza das pessoas.
- Um cara comprometido não agarraria - respondi, convicta, me virando para sair.
Antes mesmo que eu pudesse passar pela porta, agarrou meu braço, firme, me deixando com nenhuma escolha a não ser me virar novamente pra ele. Seus olhos, sempre muito apáticos, pela primeira vez em alguns dias me mostrava o que ele realmente vinha sentindo: culpa. Dizem que nossas íris são o espelho da alma; Bem, nunca quis tanto que uma afirmação fosse verdadeira como naquele momento.
Ele respirou fundo, afrouxando o aperto de sua mão sobre mim enquanto tomava fôlego para dizer:
- Sinto muito, . Sei que deveria ter dito isso antes, mas me desculpe. De verdade. Sei que fui um moleque imbecil que pensou com a cabeça do próprio pau, como fez questão de gritar aos quatro ventos hoje mais cedo, mas... Porra. Olha só pra você! Não que isso seja desculpa. Mas eu realmente não consigo entender a atração que sentimos um pelo outro. Essa coisa... - ele gesticulou com a mão, exasperado. - Essa coisa enorme que acontece comigo quando chego perto de você. Eu acho que só preciso entender que não éramos pra ser. Mas... Dentro de mim, tem esse caralho de sentimento que diz que talvez éramos, sim. E eu me fodo quando passo a ouvi-lo mais do que a razão diz. Ou as pessoas ao meu redor.
Finalmente consegui piscar, ainda atônita, chocada demais com suas palavras para conseguir rebater alguma de suas afirmações. E ao fazê-lo, percebi que estavam marejados. Meu coração começou a bater tão depressa em determinado momento que pensei que a qualquer instante ele alçaria voo e me levaria junto com ele. e eu tínhamos uma conexão, isso era mais do que óbvio.
Mas ainda assim... Não consegui evitar pensar em um nome. Um nome que me atormentava, me desestabilizava, me provocava, me tirava do sério... Mas que também me dava margem para agir da forma que eu bem entendesse: .
- ? - ele perguntou, após um tempo do meu silêncio, parecendo visivelmente agoniado. - Não tem nada pra me dizer?
E eu por acaso tinha? O que eu poderia possivelmente falar para que amenizasse essa agonia e mal estar que havia se instalado na boca do meu estômago?
Felizmente pra mim, não precisei pensar mais nisso. Briana entrou na cozinha, os cabelos completamente emaranhados e embaraçados enquanto ela segurava duas garrafas de tequila, uma em cada mão, e tentava desajeitadamente equilibrar um copo de plástico vermelho em cima da cabeça.
- MEU AMOR! FINALMENTE TE ACHEEEEEEI - ela berrou, serelepe, deixando o copo cair no chão ao se jogar no colo do namorado.
- Briana?! O que diabos você acha que está fazendo?
- ME DIVERTINDO, SEU CHAAAATOOOOO! - ela continuou, aos gritos, mal conseguindo se manter de pé. - O ME DESAFIOU E EU VENCIII! - Ela se embolou na última palavra, e soltou um soluço, rindo compulsivamente depois.
- Eu vou matar esse cachorro - rosnou, segurando a namorada de maneira protetora.
Não posso negar que a realidade daquela cena me atingiu em cheio e sem piedade. Ele era dela. E precisava lidar com as consequências dessa escolha. Não era justo brincar com o coração de alguém que não tinha culpa nenhuma da situação onde estava inserida.
- EI, IRMÃOZINHOOOOOOOO - surgiu, vermelho como um pimentão, imitando uma Briana bêbada e sorridente.
- Desgraçado! - grunhiu, tentando partir para cima do irmão, mas sendo prontamente impedido por uma Briana mole que começava a ficar inconsciente.
- Qual é, cara. Relaxa aí - pegou um cigarro do bolso, acendendo-o e levando-o até os lábios. Reparei em como sua boca o sugou, firme porém, ao mesmo tempo... Leve. Da mesma maneira que ele havia me beijado no meu quarto, dias atrás.
Ai, meu Deus. ALGUÉM ME PARA!
EU ESTAVA REALMENTE PENSANDO NO DESSA MANEIRA?! ARGH!
- Olá, - ele murmurou, sua voz me lembrando muito um miado de um gato.
Doce, mas feroz, ao mesmo tempo.
- Olá, anticristo - balbuciei, ainda muito hipnotizada pelos movimentos leves que sua boca faziam. - Não sabia que você fumava.
Tá, eu sei, eu era completamente patética. Sem tirar nem pôr. O cara literalmente me humilhou há algumas horas e agora estou aqui, babando em cima de sua visão máscula e maravilhosa. Mas não era culpa minha se, do nada, ele apareceu em uma encarnação pura dos bad boys dos meus livros preferidos, tinha?
- É, eu fumo de vez em quando. Principalmente quando meu pai some.
E lá se foi todo o tesão.
- Ah, sim. Eu esqueci que você continua sendo um filhinho de papai. Deve ser realmente chato ter tudo que sempre quer, né? Se rebelar é preciso. Clássico, clássico.
estreitou os olhos, confuso, dando uma tragada mais forte ainda no cigarro em suas mãos. Por um mísero momento, continuei encarando a pontinha que queimava lentamente, até que ele resolveu me responder.
Infelizmente para , também resolveu se manifestar.
- Será que vocês poderiam parar de conversinha? Eu preciso de ajuda aqui! - ele bradou, nervoso, enquanto jazia uma Briana desmaiada no colo.
Não perdemos tempo em ajudá-lo a colocá-la de pé. Briana estava realmente mal. Com certeza não devia ter muito contato com bebida, porque o PT estava sendo muito forte. Entretanto, apesar dos soluços altos e das risadas escandalosas, ela ainda estava completamente inofensiva.
a deitou em sua cama, e não pude evitar encarar o beijo na testa carinhoso que ele depositou ali, segundos antes de passar a mão carinhosamente pelos cabelos da namorada. Eu não valia nada. Ele não valia nada. Estávamos brincando com os sentimentos de uma pessoa que não tinha culpa nenhuma de estar inserida nessa situação.
Eu precisava crescer. Crescer de verdade.
- Tá na hora de festejar de verdade nessa porra! - berrou, sem se importar com o sono da cunhada.
Mas esse dia não seria hoje. Ah, não. Eu poderia muito bem crescer na semana que vem, não podia?
- Concordo, . O que acha de um jogo?
Ele encrespou a testa, desconfiado.
- Um jogo tipo Verdade ou Desafio? Somos todos adultos aqui, .
Revirei os olhos, puxando-o pelo cotovelo e o levando para longe do quarto aonde agora embrulhava cuidadosamente a namorada bêbada.
- Podemos ser todos adultos, sim. Mas... - abaixei o tom de voz propositalmente, me aproximando cada vez mais dele. - Eu estava pensando em um joguinho um pouco mais divertido. Já ouviu falar de sete minutos no céu?
soltou uma risada de escárnio, como quem quer constatar o óbvio.
- Acha que eu não fui um pré-adolescente normal?
Claro que não!
- Mas é claro que sim - respondi, sorridente. - Só acho que ficar presa com alguém em um cubículo minúsculo deva ser muito... - Passei minhas mãos por toda a extensão do seu tórax bem devagar, descendo lentamente até a região da barriga. - Excitante.
Ele engoliu em seco, hipnotizado pelos movimentos que minha mão subia e descia por seu corpo. Eu sabia que estava extremamente atraído por mim, mas ao olhar para baixo e me deparar com seu membro à ponto de bala, literalmente, senti as bochechas corarem. Essa história tinha que dar certo e valer MUITO a pena!
- E então? O que acha? - voltei a sussurrar, em uma tentativa desesperada de parecer sensual.
Eu agradeceria muito universo, agradeceria PRA CARALHO, se pelo menos uma vez na vida você me escutasse!
- Eu sei que você tá tramando alguma coisa, - sua mão rodeou a minha cintura, firme e possessiva, como ele era. - Mas eu não vou fugir disso.
E, sem aviso prévio, me deu um beijo. Um beijo na verdade seria eufemismo. Sem esperar por uma reação minha, ele agarrou minha nuca e enfiou a língua dentro da minha boca, me dominando por completa ao fazer com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem. Tentei resistir, mas sua mão foi descendo, descendo... Até fincar em minha coxa. levantou minha perna até que esta ficasse na altura do seu quadril, e continuou a me pressionar contra a parede enquanto esfregava seu corpo contra o meu.
Minha nossa Sen...
Aaahhh!
Seus lábios, quentes e famintos, desceram até meu pescoço, depositando dezenas de beijinhos por ali. Não estava pensando em nada, mas a forma bruta na qual ele parecia se apossar do meu corpo estava me deixando louca. Parecia que ele estava com fome há milênios e que eu fosse a primeira refeição quente que ele encontrava no meio do deserto.
foi descendo seus lábios cada vez mais, e eu senti um gemido entalar na garganta ao passo em que minhas mãos agarraram seus cabelos macios. Eu estava completamente entregue e sabia disso. Pega na própria armadilha!
Contudo, para o nosso azar (ou minha sorte), um barulho alto de vidro se espatifando no chão fez com que voltássemos para a realidade.
- FOI MAL, GÊMEOS! - Alguém gritou do andar de baixo. - CAIU UM GARRAFA DE VODKA, MAS VOU LIMPAR A SUJEIRA!

Obrigada, universo. Fico devendo uma!

Minha respiração estava ofegante, e eu senti meu rosto esquentar conforme me dava conta da situação em que nos encontrávamos. Qualquer um poderia ter nos visto ali! Qualquer imbecil dessa casa poderia ter nos pego no flagra. Maldito corpo fraco!
Limpei a boca com as costas da mão, tentando normalizar a minha respiração enquanto terminava de ajeitar o vestido. Algumas partes do meu corpo estavam latejando com o calor, mas sabia que algumas doses de vergonha na cara misturadas com gelo na nuca me ajudariam a resolver o problema.
A situação de , entretanto, poderia ser resolvida talvez no banheiro de sua suíte.
- Chame o para jogar e me encontre lá em baixo daqui a meia hora - disse eu, simplesmente, esbarrando em seu ombro propositalmente ao descer as escadas.
Dizem que a vingança é um prato que se come frio. No meu caso ela vai ser quente... Muito quente!



CAPÍTULO 12 - SETE MINUTOS NO CÉU.

- Kayo e... ! - Kimberly gritou, animada, arrancando os dois papéis de dentro do chapéu.
Sim, era um chapéu velho que eles haviam encontrado perdido no closet de e estávamos perdendo completamente a noção.
- Eu não vou! - protestou, as bochechas adquirindo um forte tom de vermelho.
- Ah, para com isso. Vai ser estraga prazeres mesmo, cara? - Kayo sorriu, dando um gole direto da garrafa de tequila que nós dois estávamos dividindo.
Já estávamos jogando sete minutos no céu há um tempinho e até agora nada demais havia acontecido. ainda não havia sido escolhido, tampouco . Eu também não. Estava do lado do surfista sexy, vulgo Kayo, enquanto evitava olhar o gêmeo mau. Briana continuava desmaiada no andar de cima, e nossa rodinha gigante se divertia com os casais que entravam dentro do armário de casacos a cada rodada.
- Eu sei que você é louco pra me pegar, cara - Kayo abriu um sorrisinho meio cafajeste. - Não precisa ficar envergonhado, não.
- Olha quem fala! É você que está me pressionando pra entrar naquele cubículo contigo.
Revirei os olhos, empurrando Kayo com certa força.
- Parem de gracinha e vão logo! O jogo tem que continuar. Vou cronometrar os sete minutos aqui - Mostrei o celular, preparada para apertar o botão do cronômetro.
se levantou, contra a sua própria vontade, parecendo realmente puto. Eu não consegui segurar a risada. Por que homens tem que ter a masculinidade tão frágil? Chegava a ser patético.
Enquanto esperávamos que os dois voltassem de seus sete minutos no céu (ou no inferno, se levássemos em conta a cara de ódio de ), continuamos conversando e rindo a respeito de coisas banais. Nós éramos um clichê ambulante, mas pela primeira vez na vida isso não estava me incomodando de fato. Pelo contrário, eu diria. Eu estava aproveitando de verdade o momento.
Quem poderia dizer isso, não é?
- Pronto, felizes? - perguntou, sentando-se bruscamente ao lado de uma garota platinada.
Soltei uma risada, balançando a cabeça freneticamente.
- Felizes, não! Queremos os detalhes!
Kayo revirou os olhos, o sorriso aberto de orelha a orelha.
- Eu até tentei avançar o sinal, mas o estava cheio de "não-me-toques" - Ele brincou, passando o braço pelos meus ombros. - Mas isso não importa. Quem é o próximo?
Era só eu ou mais alguém havia sentido algo estranho vindo daquela frase?
- Quem tira agora? - Uma das garotas perguntou, e senti meu coração acelerar.
- Eu tiro! - Anunciei, me inclinando pra frente a fim de conseguir ver melhor os dois papéis com os nomes que iriam fazer com que toda a minha humilhação de mais cedo valassem a pena.
Sim, eu sei, trapaça é feio e errado. Meus pais já me disseram isso um milhão de vezes! Mas trapaça às vezes pode ser justificada. Como nesse caso, por exemplo.
- e... ! - gritei, sentindo a euforia tomar conta do meu corpo.
As coisas iriam ficar mais interessantes a partir de agora...
Minha melhor amiga engoliu em seco, me lançando um olhar de apreensão. Ela não tinha com o que se preocupar. Havíamos arquitetado um plano perfeito!
- Eu não sei se gosto disso - Kimberly protestou, emburrada, cruzando os braços.
expressava a sua cara mais cínica de completo tédio, e eu sabia que isso estava deixando cada vez mais nervosa.
- Ah, qual é? É só um jogo. Ninguém precisam fazer nada! - Respondi, dando de ombros.
Mas com muita sorte, esses dois fariam...
terminou de matar a cerveja que ele estava tomando e fez um sinal com a cabeça, chamando minha melhor amiga para entrar no jogo. Eu sabia que seria fácil.
- O quê? - Kimberly se empertigou, a expressão se tornando mais séria.
Eu sabia que ela tinha um problema sério com , mas também não precisava de tudo aquilo. Beirava o ridículo, pra ser honesta.
- Relaxa, Kim. A gente já volta - respondeu, desdenhoso.
Ah, sim, . Agora é com você!, pensei, receosa.
e foram se afastando da nossa rodinha de amigos e eu engoli um sorriso, tentando parecer calma.
, pelo contrário, sorria de uma forma nervosa.
- E então... o quê aconteceu lá dentro? - perguntei, brincando.
Era muito engraçado fazer com que homens ficassem constrangidos. Qualquer mísera insinuação de contato com outro rapaz era motivo para vergonha e muito silêncio constrangedor. E eu, como a boa menina que era, não podia ficar calada e perder uma oportunidade dessas...
- Não tô a fim, - murmurou, as bochechas ficando cada vez mais vermelhas.
Chegava a ser bonitinho.
- Ele nunca está - Kayo respondeu, sério e enigmático.
Olhei de um para o outro, tentando juntar as peças desse quebra-cabeça esquisito e confuso. Eu podia sentir que havia algo ali; algo maior e da qual nenhum dos dois gostaria de falar. Só não sabia exatamente o porquê.
Peguei um pedaço do chocolate que Kayo havia aberto e dei uma mordida, puxando o assunto para um lado diferente. A sorte deles é que o meu alvo agora era o , e por isso não me importei em desvendar esse mistério-sete-minutos-no-céu.
Mas a vez de ainda ia chegar.

(...)

- Ai, ! - sussurrou, fincando suas unhas no meu braço.
- Que porra, . Tá me arranhando toda - Acusei, balançando meu braço na tentativa de me soltar.
- Então segura essa lanterna direito. Fica balançando essa coisa e eu acabo tropeçando - Ela reclamou.
Depois de várias rodadas do bendito jogo (na qual eu saí apenas uma vez com um dos amigos dos gêmeos, Froy), resolvi subir com a desculpa de que teria que arrumar minhas malas para a nossa volta. Mas a verdade é que estávamos esperando apenas a galera toda desmaiar de tão bêbada para que nosso plano pudesse ser colocado em ação.
Antes de darmos início ao jogo, e eu havíamos posicionado estrategicamente uma câmera de mão dentro do armário de casacos da sala de estar. A bateria dela estava completamente carregada, e como foi um dos primeiros a entrar com a , sabíamos que tínhamos conseguido filmar tudo que precisávamos para ter na palma da mão.
Andamos na ponta dos pés e evitamos qualquer tipo de ruído ou barulho enquanto passávamos pelo mar de bêbados inconscientes jogados no meio da sala. Uma verdade precisava ser dita: os gêmeos sabiam mesmo como dar uma festa! Tirando os copos vazios pelo meio da sala, todo o lixo espalhado por toda a casa que estava fazendo a mão do álcool em gel LITERALMENTE tremer, do vômito a qual havíamos ACABADO de desviar e do restante de, no mínimo, seis objetos que haviam sido destroçados ainda sem terem sido devidamente recolhidos pelo chão, essa festa seria lembrada por muito tempo.
Ah, se ia.
- Shhhh - Coloquei a mão sobre os lábios enquanto passava de mancinho ao lado de Froy, que estava praticamente morto no tapete da sala.
Ele era lindo, e o que aqueles lábios rosados podiam fazer... Bem... Digamos apenas que fui, literalmente, ao céu.
Ao chegarmos no quarto que estávamos dividindo, não consegui conter a minha euforia. A gente tinha conseguido!
- Eu quero palmas, aplausos, gritaria e muitos elogios! - Disse eu, pulando em cima da cama de casal.
tentava segurar o riso, mas eu sabia que ela compartilhava da mesma euforia. Principalmente por conta de uma pessoa em particular - Kimberly. Essa implicância gratuita com a minha melhor amiga iria ter um fim muito em breve. Só não gostaria que fosse, hã, um fim muito trágico.
- São seis e meia da manhã! - Ela murmurou, arrancando a câmera da minha mão. - E ela está completamente descarregada. Vou conectar no notebook...
- Anda, anda! Quero ver tudinho.
limpou a garganta, enquanto partia em busca de sua mala. Assim que a encontrou, passou a vasculhar todas as suas roupas em busca dos cabos da filmadora.
- Você sabe que é esquisito pra caralho querer assistir a uma gravação da sua melhor amiga pegando seu irmão postiço, não sabe? - Ela arqueou a sobrancelha, constrangida.
- Sim, eu sei. Mas já que ela não quis me contar os detalhes, eu suponho que preciso ver com meus próprios olhos - Argumentei, mordendo o lábio inferior. - Tem certeza de que tem coisa o suficiente aí pra acabar com o namoro daqueles dois, né?
Minha amiga pareceu insegura, receosa até. Parou o que estava fazendo e me encarou, nervosa, tentando juntar forças para falar alguma coisa.
- Bom... eu meio que tenho certeza. Mas não quero que você veja, . Na verdade, eu gostaria que cancelássemos esse plano todo.
Como é que é?!
- , tá ficando maluca? Depois de todo o trabalho que a gente teve pra conseguir isso?
Ela suspirou alto, rendida.
- Eu só quero entender o motivo por trás disso tudo. Quer dizer, essa guerrinha de vocês já tá indo longe demais e envolvendo mais gente do que deveria. Você não acha?
Arregalei os olhos, surpresa demais para esboçar qualquer reação.
- Vale lembrar que eles que começaram isso tudo, ! Eles tinham problemas de confiança, o foi atrás de mim naquela matinê sabendo que eu havia acabado de beijar o , ele que sugeriu a viagem, me ameaçou, me beijou mais umas duas vezes o que o faz um traíra completo, abriu a porta quando a gente estava se trocando e...
- Espera aí! Você beijou o ? DUAS VEZES?
Oh-oh.
Engoli em seco.
- Eu não te disse isso antes?
juntou as sobrancelhas, parecendo tentar montar um quebra-cabeças. Para o azar dela, haviam muitas peças e eu torcia mentalmente para que ela não conseguisse achar os cantos. Todo mundo sabe que conseguimos montar toda a imagem quando começamos por eles.
- EU NÃO ACREDITO! Você ficou com o antes da Bamboa, não é? Por isso quis os ingressos extras! E... - Ela pareceu pensar, arregalando os olhos em seguida. O pulo que ela deu da cadeira me fez tremer, pois eu sabia o que ela havia deduzido. – AI, MEU DEUS, ! VOCÊ FICOU COM O QUANDO VOCÊS FICARAM PRESOS PERTO DA PRAIA, NÃO FOI?
Voei sobre ela, tampando sua boca com certa força. Minha melhor amiga conseguia ser bastante escandalosa quando ela queria.
- Quer parar de gritar?! E se a Briana escuta, ein?
tentou se soltar, se balançando até se ver livre do meu aperto.
- Se ela escutar então vai ser bem feito! Vai ter se livrado de um namorado traidor! E o que deu em você, ein, ? Ficou com os dois de novo? Antes você até podia ter alguma desculpa, mas agora não passa de canalhice!
Suspirei alto, me jogando na cama com as mãos sobre o rosto. Por que estava sendo tão doloroso ouvir tudo aquilo?
- Eu sei, eu sei! Eu não presto. Sou a pior pessoa do mundo! Isso já está bem claro pra mim. Eu só... não consegui resistir.
- Que desculpa de merda, . Desculpa, mas isso não tem justificativa. Eles são comprometidos!
- O que os torna mais culpados do que eu! Se quer saber, o quase me agarra hoje antes do jogo e eu disse exatamente isso: ele tinha uma namorada e precisava respeitar ela independente das vontades toscas dele.
levantou uma sobrancelha, irônica.
- Fala isso pro só pra se agarrar com o minutos depois. Que grande moral você tem, não?
Ai, ela não ia por esse caminho MESMO!
- Quem é você pra falar algo sobre isso, dona ? Você também pegou o ! E só por aí já podemos ver o quanto esse cretino não presta! Ele ficou com nós duas hoje e além de desrespeitar a Kimberly, fez isso com a gente também. E antes de se sentir culpada lembre-se que a maravilhosa Kim traiu e humilhou o sem dor na consciência. É só o Karma agindo, meu bem.
pareceu ponderar, a expressão magoada e enfurecida ainda bastante visível em seu rosto.
- É isso que me preocupa. O Karma age, e tudo que vai, volta. Você não acha que as nossas ações também não vão acabar voltando uma hora pra gente?
Um arrepio percorreu por toda a minha espinha, fazendo com que meus pelos ficassem todos em pé. Qualquer um que me visse naquele estado juraria que eu tinha acabado de tomar um choque, mas foi só medo mesmo.
- Vamos parar de falar nisso! Quando o Karma resolver dar as caras pra gente, vamos ter que estar preparadas. É a vida. Agora coloca no vídeo porque eu tô morrendo de curiosidade - Mudei de assunto, nervosa.
Ninguém gosta de pensar que o universo está contra você. Mas quando se faz coisas erradas, é preciso estar preparado também. E eu sabia, bem lá no fundo, que eu já havia perdido o meu posto de mocinha dessa história.
foi adiantando quase meia hora de uma imagem escura, meio azulada, de casacos e cabides em um cubículo vez ou outra mexidos pelo vento. A cada frame que ela passava, mas sentia minhas mãos suarem.
- Imagina que louco se víssemos um espírito aí dentro. Ou melhor, se aparecesse a imagem de alguma entidade - Divaguei, observando bem os detalhes da imagem.
- Vira essa boca pra lá, ! Credo - berrou, pausando o vídeo. - Isso não foi uma boa ideia...
Revirei os olhos, tirando o mouse da sua mão para clicar no botão de "play".
- Agora não é hora para arrependimentos, . Pode ir parando com essa desistência. Agora vamos até o fim - fui firme. - Aí! Finalmente!
O primeiro casal apareceu na imagem, e eu mal podia conter a minha ansiedade. Eles não fizeram nada demais, só ficaram conversando. Chatos. Bom, os seguintes também não foram muito melhores. Alguns chegaram até a pegar nas mãos, mas não fizeram mais nada. Eu me senti no meio dos anos cinquenta, aonde um roçar de braços já era um escândalo. Essa galera estava muito morna. O casal seguinte, entretanto, superou as minhas expectativas. Eles mal entraram e já começaram a se agarrar, só se via mãos em cabelos e mãos apertando fortemente um quadril.
- Quem são eles? - perguntou, apertando os olhos para tentar ver melhor.
- Juro que não sei. E aparentemente eles também não queriam ser vistos.
O menino continuou empurrando a menina fortemente contra a parede, e demos um salto na cadeira ao percebermos aonde a mão dele estava.
- Ele colocou a mão dentro da saia dela mesmo ou eu tô vendo coisa demais? - Perguntei, mortificada. Que loucura!
- Hã... ele colocou. Também estou vendo - respondeu, em transe.
Se caísse uma bomba na casa ao lado não iríamos perceber.
- Não é melhor adiantarmos esse casal não? - ela perguntou, constrangida.
Estava prestes a responder, mas o rapaz do vídeo levantou a blusa da garota e voou em direção aos peitos dela.
- É! Melhor mesmo! - Respondi, pulando o que seriam os últimos três minutos e meio mais constrangedores da minha vida.
Para a nossa sorte, os próximos eram Kayo e , e confesso que me peguei com uma faísca de empolgação. Os dois estiveram agindo de forma tão estranha depois que voltaram do quartinho que me fizeram, hã... duvidar de certas coisas.
- Vamos pular logo esses dois. e eu somos os próximos - sugeriu, tentando pegar o mouse de mim.
- Não! Deixa aí. Quero ver o que eles fizeram lá dentro.
Minha melhor amiga me olhou, desconfiada, mas apenas deu de ombros. Ela já conhecia a minha cabeça nenhum pouco normal, e sabia que se eu estava querendo ver o que tinha ali, é porque havia algum motivo.
Os dois entraram, cabisbaixos, encarando os próprios pés. Pareciam realmente constrangidos, e até aí eu sabia bem o porquê. A masculinidade é uma coisa tão frágil.
- Homens... - Murmurei, revirando os olhos.
Eles ficaram meio escorados na parede, em lados opostos, apenas conversando. A conversa, aparentemente, durou apenas bons dois minutos. Logo em seguida começou uma discussão acalorada, passiva-agressiva, envolvendo muitos gestos e hesitação.
encrespou a testa, confusa.
- Por que eles estão discutindo?
Continuei olhando pra tela do computador, confusa, negando com a cabeça.
- Sinceramente? Não faço a menor ideia.
As coisas só pareceram piorar quando, de repente, Kayo pareceu realmente puto! Ele bateu a cabeça repetidas vezes na parede, parecendo desesperado. caminhou lentamente em sua direção, colocando a mão sobre seu ombro.
Engoli a respiração, ficando cada vez mais tensa.
- Será que ele tá devendo algo? - Perguntei, nervosa.
deu de ombros, sem desviar o olhar da cena que se desenrolava nas filmagens.
- Tipo pra um traficante? - Ela perguntou.
Entretanto, não tivemos tempo pra responder, pois o que eu no fundo temia havia acabado de acontecer.
- PUTA MERDA! - e eu gritamos em uníssono, os olhos arregalados, mãos tremendo, totalmente descrentes do que nossos olhos haviam acabado de ver.
- E-eles... eles...? - gaguejou, nervosa, sem acreditar.
Não consegui proferir nenhuma das palavras que, normalmente, não me faltavam, pois o meu estado de choque havia me deixado sem reação. Na minha cabeça vinha em looping a cena de passando a mal carinhosamente pelos ombros de Kayo e, logo em seguida, o surfista-loiro-bronzeado se virando para agarrar meu irmão postiço pelo pescoço e lhe meter um beijo com direito a mão boba e tudo.
- O é gay?! - Tentei processar a informação, mas a minha surpresa não iria me deixar absorver aquilo tão cedo.
- Como é possível ele ser gay? - perguntou, em transe, a cena do beijo dos dois pausada no notebook.
- Talvez ele seja bissexual - Tentei, dando de ombros.
- Que cretino! Além de trair a Briana com uma mulher por aí, - que é você no caso -, ainda trai com homem? - O lado feminista da minha amiga aflorou, e eu cruzei os braços, enfurecida.
- Não precisa acabar comigo também! Vamos fingir que não vimos isso. Não é da nossa conta - respondi, avançando os últimos minutos para assistirmos a tão esperada cena de X .
- Talvez não pra você. Mas tem uma mulher sendo enganada e ferida nessa história, e nós duas sabemos que se o for gay, bi, ou o que quer que seja, ele pode estar sofrendo ao esconder isso. A gente devia fazer alguma coisa!
- Chega! - Perdi a paciência. - Vamos ver a cena do primeiro, tudo bem? É com ele que eu quero acabar! Depois eu dou uma volta com o Kayo, tento descobrir alguma coisa através dele. Satisfeita?
Não esperei resposta e tentei me acalmar ao ver através das imagens entrar no local fechado, sendo seguido por .
- Ai, não... - Ela murmurou ao meu lado, tensa, e minha curiosidade só aumentou.
Os dois pareceram bem acanhados no início, enrolava uma mexa do cabelo no dedo tão repetidamente que, por um instante, acreditei que ela estava mentindo e nada havia acontecido entre os dois. Contudo, conforme o tempo foi passando, eles começaram um diálogo a base de sussurros.
- O que vocês estavam falando? - Perguntei, interessada.
mordeu a bochecha, inquieta, dando de ombros.
- Nada demais. Ele só me perguntou a minha idade e o que eu fazia na faculdade.
Levantei uma sobrancelha, abrindo um sorriso sugestivo.
- Ele tem uma lábia boa, não é?
não respondeu mais nada e apenas desviou o olhar, constrangida. Tadinha. Só eu sabia o que aquele canalha conseguia fazer com uma mulher...
pareceu dizer algo que agradou a minha amiga, pois ela abriu um sorriso tímido e finalmente largou o cabelo. Eles foram se aproximando enquanto conversavam sobre alguma coisa que, aparentemente, era de interesse dos dois.
Lancei um olhar de esguelha para a minha amiga que encarava o chão, roendo a unha furiosamente.
De repente, o clima da imagem pareceu mudar. disse algo, soltou uma risadinha. O ar de cumplicidade aumentou... E eu não podia ficar mais confusa. Ele pegou alguns fios do cabelo dela e os enrolou no próprio dedo, enquanto enfiava a mão por de baixo de seus cabelos e agarrava sua nuca, firme. Quando grudou os lábios dele nos dela, sorrindo entre o beijo, não me restava dúvidas.
Aquela não havia sido a primeira vez que os dois tinham se pegado.
O meu olhar questionador poderia ter queimado as costas da minha melhor amiga, mas antes de dizer qualquer coisa, voltei a encarar a gravação. Eles se beijavam loucamente, famintos. agarrou a cintura de de uma forma possessiva, puxando para si mesmo, como se estivesse devorando sua refeição favorita. Parecia quase devoto.
Minha amiga, no entanto, se preocupava em puxar os cabelos do meu irmão postiço com certa força. Ele sussurrou algo contra a boca dela; ela sorriu e assentiu. Ela enroscou as pernas ao redor da cintura dele e ele as agarrou, firme, possessivo, e a encurralou contra a parede. desceu os lábios para o pescoço dela e minha amiga jogou a cabeça para trás, lhe dando mais acesso.
Pausei o vídeo e cruzei os braços, pronta pra brigar mais um pouco. Como ela se atrevia?
Limpei a garganta, deixando claro as minhas intenções.
- Quer começar a se explicar ou vou ter que perguntar para o meu maninho? - Perguntei, enojada.
Eu não estava sentindo ciúmes. Não, não... ciúmes era algo diferente daquilo. Ciúmes eu senti do ao vê-lo com o Kayo e Briana. e soaram mais como uma grande... traição.
- Me desculpa, tá legal? - Ela soprou, os olhos marejados. - Eu sei que eu devia ter te dito. Mas, poxa, isso aconteceu no dia em que você se perdeu com o . e eu estávamos sozinhos em casa, seus pais tinham saído pra jantar, e mesmo no carro quando fomos procurar vocês... A gente estava muito sozinho.
- O não estava sozinho. Ele tem uma namorada, se não se lembra.
Ela revirou os olhos, limpando com certa força uma lágrima de raiva que rolou em seu rosto.
- A namorada dele simplesmente sumiu pra fazer compras com a Briana. Você não é a única carente, .
Sem dizer mais nada, puxei para um abraço apertado. O que passou, passou. Eu também havia minha parcela de culpa. Principalmente por ter convencido ela a fazer parte desse plano maluco quando ela claramente tinha seus motivos para negar tão fervorosamente o convite.
- Puta que pariu. A gente tá muito na merda - Murmurei, finalmente me dando conta do que tínhamos acabado de descobrir.
- E bota na merda aí - Ela completou, mordendo o lábio inferior.
A insegurança estava me matando.
- A gente solta essa bomba na Kimberly mesmo assim ou abortar a missão?
- Tá aí uma pergunta que eu não sei te responder...
Encarei o notebook por breves segundos, apoiando os cotovelos na mesinha do quarto. Apoiei meu queixo nas mãos e comecei a contar até dez, inspirando pelo nariz e soltando pela boca.
Universo, sério, sei que te peço muita coisa idiota e que provavelmente sou a maior errada nessa confusão, mas eu preciso de um sinal. Qualquer sinal para que eu entenda de uma vez a melhor forma de agir. Qualquer mísera cois...
- Por que vocês estão acordadas uma hora dessas? Vocês duas são o quê? Vampiras? - Kayo perguntou, entre um bocejo e outro, enquanto bagunçava os cabelos e coçava o olho, morto de sono.
e eu nos entreolhamos, de olhos arregalados, e voamos ao mesmo tempo em cima do notebook para escondermos as provas que tínhamos contra nós mesmas.
- Vampiras? Não, a gente só não bebeu - Respondi, tentando manter a voz o mais calma possível.
Valeu aí, universo. Sério mesmo. Fez exatamente o contrário de tudo que eu pedi!
- Ah, então é por isso que as duas estão berrando feito loucas a quase uma meia hora.
- É... pode se dizer que sim... - começou, mas uma outra parte de sua frase chamou minha atenção.
- Meia hora? Você tá ouvindo atrás da porta a quanto tempo, Kayo? - Perguntei, o meu coração começando a bater furiosamente.
Ah, merda. A minha vida não podia ficar pior.
Kayo andou lentamente até minha cama, só para se jogar entre os lençóis macios e se enroscar no meu colchão. Ele fechou os olhos e parecia estar prestes a hibernar quando, de repente, respondeu:
- Tempo o suficiente para ouvir sobre a câmera escondida e sobre a curiosidade de vocês a respeito da sexualidade do . E, só pra deixar claro, ele não é gay. Eu é que sou. E estou com bastante sono, então se não for pedir muito, vocês duas poderiam fazer silêncio?
E então ele simplesmente dormiu.
e eu nos encaramos, confusas, irritadas, e insanamente... cansadas. Tinha sido um longo dia.
- Eu bem que avisei - Ela começou, bocejando logo em seguida. - O Karma nunca falha. Sempre manda a conta. O problema, é que a nossa, ou melhor, a sua - Ela frisou, se jogando na cama ao lado de um Kayo capotado. - Sempre chega rápido demais.
Como se eu já não soubesse que, se tratando de mim, o Karma sempre vinha em dobro.





Continua...



Nota da autora: GENTE EU TAVA MUITO INSPIRADA QUANDO ESCREVI ESSE, SOCORRO. Fiquei muito ansiosa pra soltar logo pra vcs! Hahaha AGORA A HISTÓRIA TÁ ANDANDO PRA ONDE EU QUERO E ISSO ME DEIXA MUUUUITO FELIZ. Quero agradecer também os comentários, todo o carinho de vocês com a fic, sério, tô muito feliz. MENINAS TEMOS UM GRUPO NO FACEBOOK MARAVILHOSO, eu sempre aviso sobre as atualizações lá, então quem quiser entrar (Cliquem no ícone abaixo).
AAAAH EU TAMBÉM TENHO OUTRAS HISTÓRIAS.
BOYS [SHORTFIC/FINALIZADA] +18
15.KM [FICSTAPE/FINALIZADA] +16
18. 3 HORAS DE MOTEL FOI POUCO [FICSTAPE/FINALIZADA] +16

E CLARO, não posso deixar de agradecer a Nataly por ser minha beta oficial e betar tudo que eu escrevo AHUSHAUSAHU haja paciência pra ler tudo o que sai dessa cabecinha aqui. <3
COMENTEM QUE EU RESPONDO TODO MUNDO, BEIJOS ATÉ A PRÓXIMA!!!!





Nota da beta: Meu Deus, eu estou sem palavras para essa atualização, pqp, Miles! KKkkkkk joga mais coisas na minha cara que tá pouco, viu? Como assim o Gêmeo Bom deu uns pegas no Kayo e o Kayo ainda é gay e escutou tudo? Outra coisa, a melhor amiga e o Gêmeo mal se pegaram duas vezes hahahaahah, mas gente, não tem como não resistir a ele, hahahahaha! Ainda tô aqui passando mal kkkkkkk
Não precisa agradecer, virei a beta oficial lindamente kkkkkkk <3
Leiam as outras bebezinhas da Miles, meninas, são histórias maravilhosas, e ela é bem modesta, viu? Escreve muito <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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