Última atualização: 22/06/2019
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O Beijo

Ela emergiu como se fosse o próprio oceano presenteando a terra com uma parte de si. A água salgada voltava para o mar, percorrendo toda extensão dos longos fios escuros do cabelo.
O contraste era espetacular. O oceano calmo trazendo sua filha furiosa. O balançar tranquilo das águas sendo bruscamente interrompido pelo surgimento dela.
Sua pele escura era banhada pelo brilho da lua, suas mãos dançavam ao tocar a areia, e seus olhos pareciam feitos de magma se solidificando – eram de um tom de cinza perfeito.
, por um momento, pensou estar vendo uma coisa só. Por um segundo, o oceano, a sereia e o céu se misturaram. Mas a cauda surgiu. Um pouco distante do feminino, não conseguia distinguir onde acabava a pele da barriga e onde começava a cauda. No ponto da junção, as cores se misturavam. O escuro da pele se transformava no branco da cauda, num místico degradê.
E em meio ao deslumbre, percebeu. Ela estava ferida.
Descalço, ele engatinhou até a beira da água, e enquanto isso, a sereia se virou. a puxou, deixando-a com as costas na areia e apenas a ponta da cauda tocando o mar. Olhou-a.
As escamas, brancas como o interior das ostras, iam escurecendo quando o vermelho do sangue escorria.
- Dói muito.
Ele se assustou. Ela sabia falar?
- Onde? Na cauda?
Mas quando a olhou, a sereia o encarava fixamente. Seus rostos estavam próximos e ela deslizou as mãos pelos longos cabelos dele, até chegar a raiz.
Nos segundos que antecederam o mágico beijo, olhou nos olhos cinzas da sereia epercebeu que a fúria da saída do mar não parecia estar mais ali.
O beijo foi salgado, molhado, sentido.
Ele sentiu. Ela sentiu.


Ancestrais e o Agora

Dia 31 de Janeiro. Domingo. 10h da manhã
Oceana considerava a biblioteca sua segunda casa. Passava dias e noites ali, estudando mapas e navegação. Da última vez que passou a noite observando os planetas, sua mãe teve de intervir e praticamente arrastá-la para casa.
A biblioteca de Madre era imensa, uma das maiores que já se tinha ouvido falar, maior inclusive que a biblioteca do palácio. Durante a semana, ficava cheia, mas aos domingos era praticamente exclusiva de Oceana. Ela se sentia à vontade, e desde muito criança se interessou por conhecer o lugar e cada canto dele.
A construção era muito antiga, mas cuidada. Tinha 3 andares, milhares de livros sobre todos os assuntos e em vários idiomas. No primeiro andar, estavam os livros mais procurados e com várias cópias, de forma que se tornou o andar mais frequentado por todos (principalmente pesquisadores do mundo inteiro). Em tons de marrom, e com prateleiras, escadas e mesas de madeira escura, o ambiente era aconchegante.
Ao longo dos anos, Oceana descobriu o segundo andar. Ela sabia que ele existia, mas nunca teve autorização de entrar. Nenhuma mulher tinha. Até o dia em que salvou o Rei de perder o trono ao interpretar um antigo mapa do castelo.
Oceana sempre foi conhecida na cidade por ser muito estudiosa. Seus pais, comerciantes muito próximos ao Rei, a adotaram quando criança e ela pôde aprender a ler e a escrever. Seu sonho era navegar. Vinha estudando mapas e diários de navegação há anos, sempre escondido, embora não cultivasse esperanças de um dia se tornar navegadora.
Naquele domingo, como em quase todos, ela entrou na biblioteca pontualmente às 10 horas da manhã. Empurrou a pesada porta de madeira e passou por ela, deixando um rastro de lama por conta da chuva. Se não frequentasse a biblioteca diariamente, Oceana ficaria com medo, pois nunca tinha ninguém ali. Ela gostava disso, da privacidade. As vezes sentia que o lugar era só dela.
Mas naquele dia tinha alguém.
- Ainda bem que você veio! – De costas, ela ouviu uma voz conhecida. Fechou a porta e se virou. – Precisamos conversar.
A amiga estava nervosa. Estalava os dedos sem parar e tinha fundas olheiras.
- Eu imaginei, você nunca deixa bilhetes. Vamos subir, aqui é muito perigoso para conversar o que eu acho que você quer conversar. – Oceana sussurrava. Passou pela amiga puxando-a, e elas andaram rapidamente até a escada. Ao passar por uma das enormes janelas do primeiro andar, Oceana pensou ter visto um vulto, mas estava tão atônica que não quis dar importância. Às vezes é só um curioso, pensou.
Subiram as escadas como se suas vidas dependessem disso e Oceana guiou a amiga pelas prateleiras enormes, até chegarem em uma sala pequena, no final de um longo corredor.
- Eu não poderia estar aqui, não é? – Madona sentou-se numa cadeira e observou o lugar.
A biblioteca possuía muitas salas de estudo. A que estavam era somente para estudar medicina. Se estivesse ali em outras circunstâncias, Madona choraria de alegria. Por anos ela quis entrar ali, mergulhar nos livros de medicina e aprender como curar doenças mais complexas e preparar remédios mais eficazes. Infelizmente, a situação daquele momento era mais urgente e não poderia esperar.
- Você deu esse chá para ela, Madona? Você fez isso mesmo? Você sabe o que isso significa? O que pode acontecer com você? E se alguém viu?
Oceana estava ficando nervosa também. Ela não poderia levar ninguém ali, era exigência do próprio Rei, tinham de ser rápidas.
- Você não está entendendo – Madona retrucou, passando as mãos pelos longos cabelos louros – eu sei que viram. Enquanto ela tomava o chá, a dona do bordel entrou no quarto e viu tudo, tudo! Você sabe que ela é amiga do padre, que ela sempre conta o que vê. Ela sabia que a filha de uma das prostitutas tinha sido estuprada, ela que deixou.
- E por que você não disse que era mentira? Que era um chá para passar a dor?
- Porque a menina perguntou para mim se isso iria tirar o bebê! Eu sei que foi precipitado, que não pensei nas circunstâncias nem nas consequências, mas a mãe dela me implorou! A mãe dela me implorou! – E Madona não conseguiu terminar a frase. Chorava muito, passava sem parar as mãos no cabelo.
Oceana acendeu uma vela. Pensou em como acalmar a amiga, em como resolver o problema.
- Você tem que se acalmar. Sabe que falar algo só vai piorar a situação. Se te chamarem na Igreja, você mente. Entendeu? Você mente! – Oceana estava desesperada e com pensamentos se embaralhando em sua cabeça. – Ninguém vai te acusar de nada, mas não faça isso de novo! Fique um pouco em casa...
- E todos os pacientes que tenho? Levo remédios para a senhora Lúcia todo primeiro dia de cada mês, e se ela não tomar, ela morre!
- Se você continuar, você morre! – Oceana gritou, já desestabilizada com toda situação. – Mande alguém entregar, não sei. Mas fique um pouco fora disso, não se exponha tanto. Vão te queimar se descobrirem, isso é bruxaria!
- E você acha que eu não sei? É justo uma criança parir outra criança?
- Não é justo, sei que não é. Mas você precisa se guardar. – Oceana suspirou, apoiando as mãos nos ombros da amiga. – O que acha de levar alguns livros aqui? Você pode ficar um tempo estudando em casa, o que acha?
- Tudo bem, você está certa. – Madona suspirou também, e acendeu mais algumas velas. Com o ambiente bem iluminado, elas começaram a procurar livros. – Que vestido lindo que você está usando, combina com a faixa no cabelo.
Oceana sorriu para a amiga.
- Gostou? Minha mãe mandou fazer, tem até bolsos escondidos para guardar régua, papel e tinta! – Oceana levantou uma parte da saia, mostrando os bolsos escondidos.
O vestido era azul claro, volumoso, e ia até os pés. O espartilho, da mesma cor do vestido, vinha por cima de uma camisa branca de mangas longas, fazendo um lindo contraste com a pele negra escura de Oceana. Os cabelos crespos estavam presos por uma faixa também azul clara, e brincos de pérolas davam um toque final de delicadeza.
Mas ao virar para mostrar a fita azul escura do espartilho, um livro chamou atenção de Oceana. Ele estava em cima de uma das mesas, ao fundo da sala, e tinha muitas folhas.
- O que você está olhando? Que livro é esse? – As duas sentaram a mesa, lado a lado, e abriram o livro. – Foi recentemente traduzido, as folhas são bem novas. Mas está em outra língua.
- Latim. – Afirmou Oceana. Ela estudou latim com a filha do Rei, havia meses não frequentava mais as aulas porque queria se dedicar mais aos mapas, mas ainda dominava muito bem o idioma. – O título é “O Feminino”. Olhe, cada capítulo é destinado a mulheres diferentes.
- Parecem deusas, devem ser de mitologias ao redor do mundo. Por que esse livro está aqui?
Mas Oceana não prestou atenção na pergunta. Ela passeava pelas páginas, encantada pelas ilustrações e descrições das mulheres. Gaia, Freya, Afrodite, Durga, Jaci, Kuan Yin, Bastet, Maria, Iara...
- É uma sereia! – Exclamou Madona. – Mas ela é diferente das sereias das nossas lendas, não deve ser daqui.
Na ilustração, Iara era mesmo uma sereia. Antes, guerreira. Depois, metade mulher, metade peixe. As águas e a floresta em volta eram verdes, assim como a própria cauda de Iara. Seus cabelos lisos e longos, e a pele tinha um tom marrom avermelhado.
- Isso não parece o oceano, acho que é um rio. – Oceana confirmou com a cabeça. - Diz algo sobre má sorte? – Perguntou Madona, e Oceana não pareceu entender. – Você sabe, que mulheres dão azar em navios. – E a amiga balançou a cabeça em negativa.
- Nada, nem sobre navios. Mas no final do livro há, bem aqui. – Depois de folhear várias páginas, Oceana apontou para uma ilustração de uma embarcação bonita, onde no casco estava escrito Ísis. – Diz que é um guia para mulheres navegadoras, tudo muito estranho. Tem até uma parte que fala só sobre doenças, olhe!
E foi então que elas ouviram a porta principal da biblioteca bater.
As duas fecharam o livro às pressas. Podiam ouvir os passos nas escadas e vozes masculinas chamando o nome de Madona.
- Eu descobri o significado de seu nome, eu descobri! – Oceana subitamente lembrou da informação, e quis dizer ali como se fossem suas últimas palavras a amiga.
- Você precisa se esconder, e me promete que vai guardar esse livro. Não quero arruinar sua vida, sei que você ama esse lugar! – Madona empurrou o livro em cima de Oceana, que a abraçou e foi para outro corredor se esconder. Antes, se virou.
- Não, não é justo o que aconteceu, você estava certa. – E se escondeu atrás de prateleiras no exato momento em que os Olhos entraram na sala.
Estavam em pelo menos dez. Todos armados e preparados para levá-la. O Olho que parecia ser o chefe dos perguntou, ríspido:
- Madona, não é? – E a garota confirmou com a cabeça. - Depois de várias denúncias de assassinato de bebês e uma inspeção de urgência em sua casa, descobrimos uma série de poções e livros de magia. Você vem sendo observada pelos Olhos do Rei há algum tempo, e sabemos que pratica bruxaria frequentemente. Além disso, está roubando livros da seção proibida para mulheres. Está presa, será julgada e queimada amanhã.
Julgada e queimada, pensou Madona. Isso não é um julgamento.
Oceana, a algumas prateleiras de distância, não quis olhar a cena. Chorou em silêncio, apertou o livro contra o corpo e ouviu levarem sua amiga curandeira embora.


Judith

Dia 31 de Janeiro. Domingo. 5h da tarde.
Criadas. Assim eram chamadas as cinco moças que cuidavam exclusivamente de tudo que dizia respeito a Judith. Mas ela não gostava do nome, já que nenhuma das moças havia crescido no castelo. De qualquer forma, as elas não pareciam se incomodar com a palavra.
Judith passava as tardes na biblioteca do castelo. Ela tinha aula de segunda a sexta-feira. Aos sábados, ficava na Igreja e rezava; aos domingos, ia a eventos da nobreza de Madre e confraternizava. A vezes, seu pai a deixava participar de reuniões oficiais, e ela sempre recebia os convidados importantes do Castelo. Dormir à tarde não era permitido, mesmo que Judith estivesse muito cansada. O Rei dizia que o tempo tinha de ser muito bem aproveitado, e que já eram reservadas muitas horas para descanso.
Mas naquela tarde, foi tudo diferente.
Judith era esperta. Quando as criadas entraram no quarto, naquela manhã de domingo, dizendo que o dia seria de cuidados especiais e que sua mãe tinha exigido que descansasse antes do jantar, Judith entendeu que algo estava errado.
A princesa nunca vira sua mãe contestar o Rei, isso significava que a ideia tinha partido dele. Mas por quê?
Durante todo o dia, Judith foi cuidada. Tomou banho de leite, recebeu massagens, teve o longo cabelo liso lavado e escovado. Suas unhas foram limpas – mesmo que já estivessem – e não teve de sequer ir tomar café da manhã no salão do Castelo.
Algo definitivamente estava errado.
Às cinco da tarde, sentiu o ambiente clarear, e abriu os olhos. Espreguiçou devagar, enquanto duas criadas abriam as janelas e outra puxava a cortina do dossel da cama.
- Boa tarde, Alteza. – Mia, uma das criadas, sorria. Estendeu a mão para ajudar Judith a descer da cama. – Dormiu bem?
Ela sorriu em resposta. O quarto da princesa era gigante, desenhado num formato retangular. Em uma das paredes maiores, as portas e janelas tinham o mesmo tamanho: o triplo da altura de Judith; e iam de ponta a ponta, com altas e longas cortinas douradas feitas de tecido fino chegando até o chão. Na parede menor, oposta, ficava a cama dossel que media quase três metros quadrados, tinha cortinas delicadas feitas à mão, na cor branca.
Após Judith descer da cama, Mia prendeu as cortinas com dois finos tecidos de cetim, e enquanto isso as outras criadas já tratavam de esticar os lençóis e arrumar o edredom. A princesa foi levada para uma banheira branca deixada no centro do quarto, com muitos tapetes em volta. Ela não usava pantufas, gostava de sentir com os pés o gelado do piso de mármore, mas rapidamente o que sentiu foram os tapetes debaixo de si. Tirou a longa camisola rosa, e entrou na banheira. Mia abriu as outras cortinas, e Judith pôde se banhar vendo o pôr-do-sol, enquanto outra criada penteava novamente seus cabelos.
Ela deitou a cabeça, fechou os olhos, e pediu um momento a sós para as moças.
Quando todas saíram, ela abriu os olhos. Encarava o teto de seu quarto, ilustrado com anjos tocando flautas. Os cabelos feitos de ouro, assim como as flautas, e nuvens em tons de azul eram pano de fundo. Todo o quarto seguia a mesma paleta de cores. Um quarto claro, banhado pela luz natural, às vezes ela até ouvia os passarinhos cantando na janela.
Judith sentiria falta disso tudo. Quando me casar, pensou, quero ao menos ter um teto assim no meu quarto. Será que é pedir demais?
Sabia que sim. Em alguns meses, estaria casada com um homem muito mais velho e que mal conhecia, tudo para manter laços com o reino próximo. Madre era uma capital grande, mas o reino de seu prometido era maior e mais próspero. Negócios, seu pai dizia. Você deve fazer a vontade do Senhor, você sabe. Não há nada melhor que se casar, ter filhos e servir a sua família, Judith. Seu nome é bíblico, o Senhor tem planos para você. Você sabe disso.
Mas Judith não queria. Ela continuava frequentando as aulas normalmente, indo à Igreja, recepcionando as amigas de sua mãe. Tentava não lembrar de que em pouco tempo não poderia mais estudar, nem ler os livros de aventura que gostava, nem usar vestidos mais despojados. Ela não queria ser rainha, ela queria ser Rainha. Infelizmente, as mulheres não podiam reinar. Elas se casavam e seus maridos reinavam.
Judith lá no fundo sabia que era disso que se tratava o jantar daquela noite. O casamento. Seu pai abrira muitas exceções naquele dia para que não fosse algo dessa importância, dessa magnitude. Mas ainda assim, tinha mais alguma coisa que ela não estava a par, que não conseguiu descobrir.
Seus pensamentos foram interrompidos com as criadas entrando no quarto novamente.
- Alteza, a rainha exigiu que voltássemos aqui, ela não quer que você se atrase. Veja, Mia está com seu vestido.
E estava ali a felicidade de Judith. O vestido.
A princesa saiu da banheira, se secou com ajuda de uma criada e por um segundo esqueceu do que se tratava aquele jantar. Depois de vestida, foi até a outra extremidade do quarto e fez questão de puxar as cortinas, revelando um espelho alto e largo, tanto quanto as janelas. Sua mãe não gostava de espelhos, dizia que eles deixavam as mulheres de Deus egoístas, imodéstias e orgulhosas. Se olhar muito, exclamava, te fará pensar muito em si, quando deves servir ao Reino.
Mas naquela tarde, foi inevitável.
Judith de sentia linda e, de fato, estava. Os longos cabelos escuros foram penteados para trás, como se se estivesse acabado de emergir de um rio. O vestido possuía a gola alta, de modo que a ponta do tecido roçava nas orelhas de Judith. Escorria apertado pelo colo e pelo busto, em um tom de azul claro. As mangas apertadas, no antebraço davam lugar a mangas folgadas, feitas do mesmo tecido e que iam até a metade das mãos da princesa. Ao chegar na cintura, o vestido também ficava solto e assim seguia até os pés. A peça inteira era bordada à mão, tinha desenhos ovais e circulares, e alguns discretos pássaros dançavam no tecido quando Judith se mexia. Saltos baixos, feitos de material transparente, abraçavam seus pés.
- Esse tom de azul claro fica lindo em Vossa Alteza! – Exclamou uma das criadas. – Contrasta com o tom de sua pele.
A princesa sorriu em resposta. Ela gostava de vestidos claros pois realmente contrastavam com seu tom de pele âmbar. Todos frequentemente a perguntavam se tinha passado o dia se banhando no rio, pois parecia sempre bronzeada. Com os olhos cor de mel, a princesa era feita de uma paleta de cores própria.
Passou um tempo se olhando, e não percebeu que a rainha lhe observava também.
- Todos os convidados já chegaram, mas você só vai aparecer daqui a trinta minutos.
A rainha olhava a princesa com os olhos cheios d’água- sim, rainha, pois ninguém a chamava por seu nome de verdade. Ela estava emocionada, feliz pelo momento que viria e esperava que sua filha também ficasse.

Dia 31 de Janeiro. Domingo. 7h da noite.
Judith andava pelo Castelo em passos largos, quase correndo. Ela passava por quadros pintados por artistas famosos, exibindo vários santos diferentes e anjos cantando em diversas posições. O Castelo era enorme, e a distância de seu quarto até o salão principal era grande, de modo que chegar lá demorava um pouco.
Seu vestido, mesmo sendo lindo, pesava um pouco. Aquela parte do Castelo estava silenciosa naquela noite, mas em cada corredor ela encontrava um guarda parado em seu posto. O som suave do tecido se arrastando pelo chão era a única coisa que Judith ouvia, e aliás adorava. Virou à esquerda, à direita, e seguiu num longo corredor. Cortou caminho pelo salão dos empregados, que desajeitadamente se curvavam, surpresos pela aparição da princesa ali. Seguiu novamente por um corredor, de volta a um corredor com portas que levavam aos quartos de hóspedes. Quando Judith estava prestes a virar outro corredor, ela ouviu um barulho. Parou abruptamente, encostou na parede e escutou a conversa. Olhou para trás, e fez sinal de silêncio para uma de suas criadas que vinha percorrendo o caminho por onde ela tinha acabado de passar. A moça assentiu, e parou.
- ... Ísis, é como essas putas o chamam. – Uma voz masculina sussurrou, mas Judith não conseguiu identificar quem falava. – A hora da fogueira não pode ser remarcada, a única coisa que o Rei pode fazer é aumentar a segurança.
- Por que não? – Sussurrou outra voz, também masculina.
- Você não entendeu ainda, Duque? Aquele velho que se denomina Padre, disse que nenhum homem ou mulher pode interferir nos “planos do Senhor”. – Uma terceira voz, feminina desta vez, terminou a frase imitando outra pessoa. - Ele não aceita a remarcação, e você sabe como o Rei desse lugar é religioso.
Judith conhecia essa voz, estava tentando lembrar de quem era, uma voz extremamente familiar.
- Que seja! Essa conversa já está se estendendo demais. Vocês não estão com medo de meia dúzia de mulheres, não é? Contra homens do Castelo, armados e treinados, não sobra ninguém.
As vozes iam diminuindo, e por um momento tudo ficou silencioso de novo. Judith chamou a criada com as mãos, e apenas mexeu a boca proferindo “faça barulho”, e ela fez. Alguns segundos depois da moça passar, Judith finalmente virou o corredor e foi para o lado contrário das vozes. Tinha muito com o que se preocupar, a curiosidade do motivo daquele evento estava corroendo-a por dentro, mas ela não deixou de pensar naquela conversa, e como tudo parecia suspeito.
Mal sabia Judith que, em pouco tempo, ela iria descobrir as duas coisas.

Dia 31 de Janeiro. Domingo. 7h11min da noite.
- Eu apresento a vocês Sua Alteza Judith, Princesa de Madre.
O salão inteiro sorriu e reverenciou a princesa. Ela desceu as escadas cuidadosamente, com um modesto sorriso nos lábios e a cabeça se revirando por causa dos acontecimentos do dia.
Assim como em seu quarto e no restante do Castelo, o chão do salão principal era de mármore. As paredes brancas davam a impressão de que o espaço não tinha fim, sem se saber o que era chão e o que era parede. Judith sabia que as cortinas haviam sido trocadas pela manhã, e as que foram colocadas no lugar eram de um tom muito claro de cinza. A escada, no entanto, era de madeira.
Judith não se atrevia a olhar para baixo, e foi só quando chegou a base da escada que olhou para seu pai. Seus cabelos e sua pele vinham dele, mas os olhos eram inegavelmente da rainha. Os olhos do seu pai eram escuros, os mais escuros que Judith já tinha visto. No entanto, ali a palavra “pai” não era permitida. Ali, Tomé era muito mais que pai, era o Rei.
Ele abraçou Judith, beijou o topo de sua testa e deu dois passos para o lado, deixando com que a princesa visse o homem que estava atrás dele, e com um largo sorriso no rosto. Francis.
O príncipe se aproximou, e os dois se reverenciaram. Judith estendeu uma de suas mãos, Francis a beijou e puxou a princesa para perto.
Por fora, ela estava implacável. Não vacilou o sorriso nem por um segundo desde o topo da escada. Por dentro, ela queria fugir. Fugir mesmo. Pela primeira vez, o sentimento de desespero tomou conta dela, e tudo pareceu não funcionar direito.
Como Francis, o Rei de Mère apareceu. Sorriu para Judith, e não precisou pedir silêncio para fazer o anúncio, já que todos no salão estavam muito apreensivos e quietos.
Judith teve uma sensação que odiava: ser a última a saber de algo. Sua mãe havia lhe ensinado a não ser curiosa, a não questionar, deixar que as pessoas lhe contassem no momento certo. Mas no fundo, Judith odiava isso, odiava com todas as forças. Ela era curiosa por natureza, mesmo que tivesse abafado isso durante sua vida. Ali, teve a certeza de que todos se reuniram por um motivo, e a graça era ela ser surpreendida.
- Foi uma decisão em conjunto com Tomé, e foi tomada para que as relações entre Mère e Madre sejam aprofundadas com mais rapidez.
Rapidez?, pensou Judith. Seu sorriso começou a vacilar, e ela não precisou que o Rei de Mère terminasse a frase. Ela entendeu.
A voz da rainha ecoava em sua cabeça, como uma forma de fazê-la aguentar aquilo. Sabia que eram seus mecanismos de defesa. Se olhar muito, sua mãe exclamou, te fará pensar muito em si, quando deves servir ao Reino.
- Como todos sabem, o motivo desse evento é muito especial. Meu filho Francis, futuro Rei de Mère, irá se casar com Judith, futura rainha de Mère, em cinco dias.
CINCO DIAS? NÃO ERAM SEIS MESES? E o sorriso definitivamente sumiu. Judith engoliu em seco e tremeu os lábios. Francis fingiu não perceber, mas percebeu.
- Sorria. – A rainha sussurrou no ouvido da filha, firme.
E Judith sorriu. Nem ela soube exatamente de onde tirou forças para exibir o sorriso falso ao longo do evento todo. Mas de uma coisa ela sabia: não iria se casar em cinco dias, nem que fosse preciso fugir.

Uma Longa Manhã

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 5h e 11min da manhã.

a olhava admirado. Ele gostava de aproveitar esses momentos em que estavam a sós, conversando, dormindo, ou simplesmente em silêncio – como naquela manhã. dormia na cabine da capitã desde que tinha embarcado no navio, há algumas semanas. Todos os dias eles acordavam às 5h da manhã, quando a luz do sol começava a preencher a cabine, incomodando os olhos.
Ele gostava de vê-la dormir, no início tinha certeza de que nem sabia que ele fazia isso. Depois de alguns dias entendeu que nada acontecia naquele navio sem que a capitã soubesse, quem dirá um homem ao seu lado a observando. Mas ela parecia não se incomodar, permitia que ele observasse – mesmo que para ela isso significasse ficar muito vulnerável. Como nunca podia estar vulnerável, ela se dava ao luxo de estar com ali e naquelas circunstâncias.
Para ele, era bom acordar e ver alguma certeza, já que os sonhos o perturbavam. O cheiro natural da mulher, a presença do seu calor, a pele macia, o silêncio da cabine, o barulho das ondas do mar. Os olhos amarelos de , mapas espalhados pela mesa perto da porta da cabine, velas quase acabando, uma calça pendurada na única cadeira ali, a gata preta dormindo perto das botas da capitã; tudo era real. a observava, inevitavelmente comparando-a com a sereia de seus sonhos. Eram diferentes, mas duas mulheres do mar.
, contudo, estava com o olhar fixo no teto, alheia às observações, imersa nos próprios pensamentos. A capitã vestia um fino macacão rosa claro feito de cetim, e colares de diferentes materiais e cores “para proteção” - como ela mesma dizia.
- Você sabe que o resgate de hoje será o mais difícil, não sabe? – perguntou, quebrando o silêncio. A capitã pareceu sair de um transe, e se virou para ele.
- Sei. – Respondeu honesta, e deu um sorriso de canto. – Eu gosto desse frio na barriga, da aventura, não é à toa que...
- ... que você é a capitã de um navio pirata. – Completou , gargalhando. fez que sim com a cabeça e continuou a falar.
- Além do mais, você estará lá para trazer a moça de volta em segurança e resolver qualquer imprevisto.
- Sempre estou, não é?
Ela repetiu o gesto afirmativo, afastou a manta de cima de seu corpo e pulou para fora da cama. A primeira coisa que fez foi tirar o macacão e substituir por uma calça e um corpete ambos em um tom amarelo fechado, bem justos ao corpo como uma segunda pele, tudo para permitir movimento no caso de alguma luta surpresa. O par de botas escuras até o joelho e o chapéu tricórnio (chapéu de três pontas) da mesma cor completavam o vestuário da capitã.
- Sabe, essa é a única parte que me irrita ao atracarmos nos portos. Ter de colocar essas roupas pesadas e me cobrir. E esse chapéu ridículo... – resmungou, fazendo rir.
- Eu sei que você prefere seu turbante branco, gracinha, mas tudo isso aí – ele disse apontando para as roupas – faz parte da discrição. Você já é mulher e capitã do navio, já chama atenção o suficiente.
- E você não acha que esse amarelo chama atenção? – indagou, cruzando os braços.
- Acho. – Ele respondeu sincero, em meio a sorrisos.
gostava de . Não, ela o amava. Amava verdadeiramente, e confiava nele até demais. Sentiria saudade de acordar e ver a mesma cena todos os dias: esparramado na cama, como um gato ao acordar, olhando para ela com os escuros cabelos lisos bagunçados, os enormes olhos da cor de jabuticaba e o semblante calmo.

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 7h da manhã.

- Eu estou te ordenando, Mia.
- Mas..., mas..., mas Sua Alteza nunca me ordenou algo antes...
Judith estava impaciente e com razão. Ela sabia que corria contra o tempo, e Mia insistia em dificultar as coisas.
- Mas agora eu estou! Para você ver como isto é algo sério, Mia! Eu preciso da sua ajuda, você tem que me ajudar. – Judith andava pelo imenso quarto, passando as mãos pelos cabelos e involuntariamente apertando a fina camisola, se sentindo angustiada.
- Eu vou morrer se souberem que te ajudei, Alteza.
- Não vai. Oito e meia você sai gritando pelo castelo, diz que não me encontrou na cama. Não vão ter motivos para te culpar e não vai dar tempo de me encontrarem. Mas eu preciso sair daqui, não posso me casar com aquele... naquele lugar! Não tão cedo, eu não posso.
Judith falava o mais baixo possível, com receio de algum guarda a ouvir. Mia suspirou, também apreensiva.
- Você sabe Mia, não sabe? Do resgate da bruxa, daquelas profanas que vão salvá-la.
Então, Mia tremeu e fez o sinal da cruz com os dedos.
- Sua Alteza vai fugir com as bruxas? Jesus Amado, Santo Pai...
- Com quem mais, Judith? Vão varrer todos os cantos de Madre a me procurar, já o mar é improvável. Nove e dez o navio sai do porto, a fogueira está marcada para nove horas, eu ouvi ontem durante o jantar. Vai dar tudo certo.
- Nove horas a senhora deve estar tomando café da manhã.
- Exatamente. E às oito e quarenta você vai gritar e surtar como nunca fez na vida, dizer que chegou para me preparar para o café e eu simplesmente não estava na cama. Mia você sabe como eles são. – Judith insistiu, tentando convencer a criada. – Você esteve comigo todos esses anos, sabe que Mère não é o meu lugar; nada vai te acontecer se seguirmos o plano.
Mia aos poucos se acalmou, e parecia estar perdida em pensamentos. Judith não a culpava, sabia que estava arriscando a vida da criada, mas naquele momento só conseguia pensar na possibilidade de usar um véu branco na sexta-feira, e nada pareceu pior que isso.
- Tudo bem, Alteza. Mas teremos que dar um jeito nesse cabelo ou vão saber imediatamente que é você.
- Qualquer coisa, Mia. Qualquer coisa. – Judith pegou uma tesoura, enquanto Mia buscava um uniforme extra para que ela pudesse usar.
Bem curtinho, Judith pensou ao se olhar no imenso espelho. Ela não queria que o plano desse errado só por alguém reconhecer seu cabelo, tudo tinha de ser perfeito.

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 8h e 30min da manhã.

Coordenadas: navio pirata Ísis, primeiro andar subsolo, mesa do comando.
- Vamos repassar o plano, capitã.
As reuniões eram abertas a todas as tripulantes. fora escolhida capitã por todas as outras mulheres porque sentiam que ela sabia como planejar e organizar melhor a tripulação, mas não significava que ela teria a palavra final ou que mandava nas outras. Todas participavam de tudo, opinavam e acrescentavam à discussão. Elas estavam reunidas no primeiro andar subsolo do Ísis, em meio a mercadorias que tinham acabado de chegar ao navio, prontas para serem contrabandeadas para o próximo porto.
- Bem, já desembarcamos tudo desse porto e carregamos o que precisava ser carregado, certo? – Perguntou , e as mulheres concordavam de formas diferentes (respondendo sim, afirmando com a cabeça, fazendo sinal com as mãos). – Há algo pendente? – E todas negaram. – Então vamos para o plano.
Diferentes mulheres apreensivas como em todas as vezes que algo daquele tipo acontecia. As poucas que não estavam ali embaixo, faziam a segurança do navio, monitoravam os arredores e se infiltravam em meio a multidão que já se concentrava na praça, à espera das bruxas.
- Vamos partir nove e dez em ponto. Em ponto! Todas devem estar aqui dentro, inclusive quem vamos salvar e os dois homens.
- Dois? – Perguntou Gwen, franzindo o cenho.
- e o Fechadura. – Respondeu prestes a continuar sua fala, mas parou ao ouvir risos das mulheres que se aglomeravam ao redor da grande mesa de madeira. – Eu sei que não é o melhor nome, mas foi o nome que me passou. Até eu espero que esse tal de Fechadura não se chame realmente Fechadura.
- Mas por que mesmo que esse é o nome dele? – Perguntou, desta vez, Úrsula.
- Porque ele é um dos homens que cuida da segurança do presídio de... como chama mesmo essa cidade, Úrsula?
- Madre. – Respondeu Úrsula, rindo.
- Isso.
- Você disse que eles vão chegar no horário, mas como? – Questionou outra tripulante, Margery, enquanto enrolava os cachos de seu cabelo.
- A fogueira está marcada para nove horas, dez minutos é tempo suficiente para chegarem até aqui, principalmente porque eles vão chegar pelo subterrâneo. Enquanto a confusão se instala a procura da bruxa na praça, e as outras infiltradas virão para cá o mais rápido possível. – parou e bebeu um pouco de rum, em seguida continuou. – Deixamos alguns barris para carregar exatamente nove horas, por isso ainda estamos enrolando com os contrabandistas lá fora. Esses barris estarão perto da saída do esgoto, vão servir de cobertura para , Fechadura e a mulher entrarem no navio. Enquanto isso – a capitã bufou, batendo a caneca vazia na mesa e sinalizando um ponto no mapa que estava perto de Gwen – vou negociar com Wilson.
- Mas , esse lugar não é perto demais dos barris? – Novamente questionou Margery, incrédula com o imprevisto.
- É, Marg. Mas foi exigência de Wilson, e tenho que fingir estar fazendo alguma coisa para não ficar evidente o motivo de ainda não termos partido. Por isso vocês devem estar lá, para acobertar os três o máximo possível. – Subitamente, se lembrou de algo importante. – Gwen, não se esqueça de puxar a âncora!
- Tudo bem capit...
- , capitã! – E todas ouviram gritos afobados de uma tripulante descendo as escadas para o subsolo. Rapidamente, as outras tripulantes liberaram passagem e viu o alívio na voz da mulher em conseguir chegar a tempo. – Me perdoe por interromper assim a reunião, mas tenho notícias.
- Sim, sim, Mel. Diga logo!
- Não é somente uma mulher, mas três.
- Como? – Piscou Gwen, visivelmente preocupada.
- Sim, Gwen, eles anunciaram há pouco na praça, e têm três piras lá. O que vamos fazer, capitã? - E todas se viraram para , apreensivas e em silêncio.
- Bem, vamos continuar com o plano. Conversei com sobre isso, que poderia acontecer. Vai ser mais difícil passar por Wilson com elas, mas nunca vamos deixar alguma mulher para trás. Duas pessoas a mais não é tão difícil, né? – riu de canto, tentando passar calma para as outras mulheres que suspiraram aliviadas.
Mal sabia a capitã que não seriam duas pessoas a mais, mas sim seis.

Coordenadas: Prisão de Madre, corredor das bruxas, cela 1.
Madona ouviu os passos e segundos depois viu o familiar gosto de Fechadura aparecer em sua frente. Ele sorriu de canto e mostrou três chaves.
- Você não está adiantado? – Indagou Madona, atônica. Ela tremia ao ouvir o som dos gritos das pessoas ao longe sedentas para a fogueira. Ela suspeitava que a localização da prisão ser perto da praça era proposital, já que dava para ouvir os gritos e súplicas, uma espécie de tortura.
- Estou. – Respondeu Fechadura, desta vez alargando o sorriso. Seus olhos brilharam, e ele enfiou a chave na fechadura da pesada porta de ferro da cela de Madona. – Vocês não serão queimadas, pelo menos não hoje.

Coordenadas: Praça Principal de Madre, padaria perto da praça, a poucos metros das piras.
- Oceana!
– exclamou Judith, puxando a antiga amiga pelo braço. Desde que seu pai proibira as aulas com Oceana, Judith nunca mais a vira, e se sentia muito mal por não ter ao menos se despedido ou tomado um chá com a amiga. No entanto, estavam ali. – Graças a Deus!
Oceana se virou, ajeitando o turbante no cabelo e estreitando os olhos na tentativa de se assegurar de que era uma alucinação e não a princesa de Madre ali na sua frente.
Para sua surpresa, Judith estava bem ali. Os cabelos na altura da orelha, o olhar assustado e o tom de alarme em sua voz fizeram Oceana rapidamente deixar o susto de lado e ouvir o que a princesa tinha a dizer.
- Você precisa vir comigo, agora!
- Minha mãe está me esperando em casa, ela não gosta de ver esse tipo de evento, preciso voltar.
- Não! – E o pânico estampado no rosto de Judith fez Oceana vacilar por um segundo. Nunca tinha visto a amiga daquele jeito, algo estava muito errado. – Eles vão te prender, devem estar chegando na sua casa agora, você não pode voltar, tem de vir comigo!
Oceana vacilou de verdade. Engoliu em seco e puxou Judith para uma pequena rua ao lado da padaria.
- Como é? – Questionou encarando Judith.
- Eu estou fugindo, não quero me casar, depois eu explico tudo.
- Você está fugindo? – Questionou Oceana novamente, incrédula.
- Shh!!! Não podem nos ouvir, ou então vamos morrer aqui mesmo. Este lugar está cheio de guardas, precisamos sair daqui.
- Judith, espere! Como vamos fugir daqui? E como você sabe que vão me prender?
A princesa estava nervosa, oscilando o peso nas pernas e apertando com força as palmas das mãos com as unhas.
- Ouvi na vinda do palácio até aqui, vão te queimar; viram você entrando na biblioteca pouco antes de Oceana ser presa lá. Vamos fugir no navio das bruxas, mas não vamos conseguir se você não se apress...
- O que é que vocês estão falando? – E as duas pularam de susto ao ver uma figura masculina parada atrás de Judith. As mulheres congelaram de medo.
Judith virou a cabeça e encontrou ali parado um homem novo. Alto, deveria ter sua idade, cabelos lisos bem escuros, grandes olhos e pele branca, mas bronzeada. Um pescador, com toda certeza, pensou Judith.
- Nós..., é... – Começou Oceana já gaguejando.
- Vocês estão sendo ameaçadas? – Perguntou o homem, parecendo preocupado. Judith não iria responder a verdade, tentaria mentir. Então o homem continuou. – Vamos, eu levo vocês até o Ísis.
- Você ouviu tudo? – Oceana indagou incrédula. Aquele estava sendo o dia mais maluco de toda sua vida. - Como vamos confiar em você?
- Porque ninguém será queimada hoje, estou aqui para assegurar isso. – Ele respondeu sorrindo, depois se virou para Judith. - Nem você, princesa Judith.
- Como você...?
- Eu sou , e estava no Ísis há pouco. Vim para a praça para resolver algum imprevisto que pudesse aparecer e bem, aqui estão vocês.
Confiando no estranho, as duas velhas amigas seguiram através de ruas desconhecidas, até entrarem em uma que estava completamente deserta. Rapidamente, se agachou e puxou uma grade de ferro que estava encaixada em um buraco no chão.
- Entrem rápido, vamos! – chamou-as com as mãos, e as duas obedeceram.
Por último, ele se enfiou no buraco e puxou a grade de volta ao seu lugar, selando novamente o bueiro e saltando no chão. Não conseguia ver nada a menos de um palmo a sua frente, só porque a luz da rua iluminava um pouco. Quando saíssem dali, seria andar nas tubulações às cegas.
segurou a mão de Oceana, que segurou a mão de Judith. E guiados pelo homem, seguiram em direção ao porto.
Bem, foi o que elas imaginaram a princípio.

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 9h da manhã.

Judith rezava segurando seu terço com a mão livre, e Oceana agradecia por estar voltando da biblioteca com os bolsos cheios de mapas. Ela se sentia muito triste por não se despedir dos pais, esperava que um dia pudesse se desculpar com eles.
De repente, virou à esquerda. Isso não está certo, pensou Oceana. Era uma linha reta até o porto, não tinha porquê mudar a rota. Ela estava prestes a questionar o homem, até que viu uma luz de vela ao fim do túnel e três pessoas apressadas vindo na direção dela e de Oceana e . Eles ficaram em silêncio, se esconderam nas sombras e a intenção era esperar as pessoas passarem, mas uma voz feminina chamou Oceana.
- Menina, Oceana! Eu sei que você está aí, eu conheço você.
- Espere! – Sussurrou Oceana no ouvido de , e se desvencilhando dele, e indo de encontro às três mulheres.
Uma delas era de meia idade, e as outras duas bem mais novas que Oceana.
- Como você sabe que eu estou aqui? Como...?
- Eu sei das coisas, querida. – A mulher mais velha segurou as mãos de Oceana. Mesmo com a pouca luz, a cartógrafa podia ver que ela chorava. – Escute-me, também sei que está fugindo... Vim trazê-las para você.
- Você veio o que?
- Por favor! – Implorou a mulher, apertando mais forte as mãos de Oceana. – Eles estão atrás delas também, é por um milagre que todas vocês não foram presas.
Oceana tentava, mas não conseguia se lembrar do nome da mulher. Mas ela sabia quem era: a mãe da menina que tinha abortado. Vizinha de Madona. Olhou para o lado para conferir e reconheceu a menina e sua irmã.
- Por que as duas? – Perguntou Oceana.
- Chega, precisamos ir! – interveio, atrasado e nervoso por tantos imprevistos. – Não há mais tempo, vamos.
E a mulher sorriu para Oceana. Um sorriso em meio a lágrimas, um sorriso de gratidão. Empurrou as filhas para frente e sussurrou um eu te amo engasgado, assoprando a vela e desaparecendo na escuridão.

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 9h e 3min da manhã.

Todos ouviram a explosão. Quem estava na praça, quem estava no porto, e principalmente: as quatro mulheres e o homem que estavam nos túneis da cidade de Madre.
Tudo foi milimetricamente calculado, constatou Oceana.
Exatamente cinco segundos após a explosão, Oceana viu Madona e mais três pessoas descerem por uma escada.
havia guiado as mulheres até um outro esgoto próximo de onde encontrou a vizinha de Madona, mas nenhuma delas sabia qual era o plano de resgate. Os cinco ficaram esperando poucos segundos perto da tampa do bueiro, até rapidamente ouvirem a explosão a poucos metros. Oceana chorou baixinho, mas estava feliz. Feliz por ver a amiga viva e por estar viva. Não disse nenhuma palavra, Madona não podia vê-la e ela não queria perder mais tempo com conversas. Precisavam sair dali, e rápido.
- Vamos. – Disse o homem que desceu as escadas por último. E os nove – Judith, Oceana, Madona, , Fechadura, as duas meninas e as outras ex-prisioneiras – correram como se suas vidas dependessem disso, já que definitivamente dependiam.

Dia 1 de Fevereiro. Segunda-feira. 9h e 12min da manhã.

estava nervosa. Discutia preços e tarifas com Wilson, tentando disfarçar a angústia de saber que estava na iminência de algo acontecer. Por segurança, deixara uma adaga presa à bainha, a espera de qualquer reação anormal de Wilson. Ouvira a explosão há alguns minutos, e nada de , Fechadura e as mulheres. Ela estava prestes a checar os barris quando ouviu o contrabandista resmungar, puxando-a de volta para a conversa.
- Você sabe que não vai conseguir, não sabe? – Ele disse, com uma sobrancelha arqueada e um sorriso debochado no rosto.
Wilson era um homem em sua meia idade, com barba e cabelos brancos e olhos azuis gelados. Andava com roupas finas, como se fosse da nobreza, e com o pescoço sem espaço para mais correntes de ouro. Arrumado demais para um contrabandista – e um pirata, o que sabia muito bem que ele era. A capitã do Ísis achou graça do próprio pensamento. Eu ando arrumada demais para um pirata, pensou. Olhou para Wilson e devolveu o sorriso debochado.
- Conseguir o que? – Devolveu a pergunta, ajeitando seu chapéu na cabeça.
- Vamos, Capitã! – Ouviu Margery chamar, e se virou em direção a tripulante. Como a conhecia há um bom tempo, soube identificar o sorriso discreto em seus lábios. – Gwen já içou a âncora.
suspirou tentando manter o debochado sorriso, ao invés do vitorioso sorriso.
- Se me dá licença, capitão Wilson. – cruzou as pernas e abaixou levemente, em reverência. – O mar me chama!
E piscou para o homem, deixando-o rangendo os dentes por não dar a resposta que ele queria. Depois que deu as costas, Wilson cruzou os braços e ficou sério. Ficaria ali, esperando o navio sair e tentando se convencer que algo tinha dado errado para as bruxas.
Malditas bruxas, pensou.
Para sua surpresa, já a bordo do navio e um pouco distante do porto, Wilson conseguiu escutar as palavras que a capitã do Ísis gritava em sua direção.
- Deixei um presente para você, capitão! Espero que aproveite.
Ao olhar para o lado, Wilson viu três barris cheios de rum. Ao perceber que faziam parte dos estranhos barris que ficaram parados por horas ali naquela manhã, uma dúvida veio a sua mente. Desconfiado e sem se importar mais com o Ísis, Wilson se aproximou dos barris, e ao ver uma tampa de bueiro bem ao lado deles (o lado que ele não conseguia ver enquanto discutia com ), Wilson não conseguiu segurar a risada.
Elas tinham conseguido, as malditas bruxas tinham conseguido.


Em algum lugar bem no meio de algum oceano

2 anos antes.
O navio balançava de um lado para o outro e era possível ouvir com clareza o som das ondas se chocando contra a proa e entre si. O som do oceano era assustador, e até tentou ajudar os outros tripulantes a direcionar as velas e a embarcação, mas o capitão não deixou. Por isso ela voltou para sua pequena, mas individual cabine.
Deitada em sua cama, mergulhou em pensamentos e memórias das últimas semanas. Havia entrado no navio já ciente de que a viagem seria longa e perigosa. Aquele oceano era pouco explorado e o navio atracaria em muitos portos, aumentando a possibilidade de encrencas e confusões. embarcou um porto depois dela e iriam para o mesmo destino (ela o ouviu conversando com outro marujo durante as comemorações aos deuses).
A conexão entre os dois foi imediata, mas nunca nenhum deu o braço a torcer. Ele a olhava preparar as refeições e cuidar das velas; ela o olhava em suas negociações. de vez em quando deixava uma caneca de rum à porta de , como quem não queria nada. Mas, todos os dias ao acordar, ela sabia quem tinha deixado a garrafa ali.
Os dois se encaravam durante as tarefas diárias, durante as raras lutas e nas tavernas dos portos. Ele brindava, batia o copo na mesa junto com os outros homens da taverna e bebia rum olhando para ela. por vezes ouvia os deuses sussurrando o nome de , e ele começou a fazer parte de seus sonhos.
O elo entre os dois fora criado bem antes de nascerem, e aquela viagem aconteceu para uni-los pela primeira vez.
As águas furiosas ironicamente expressavam o que sentia naquela noite. Furioso por não a ter tocado ainda, por sentir uma atração forte pelos seus olhos amarelos e por querê-la de todas as formas.
De alguma forma, sabia que ele viria naquela noite.
O navio bruscamente se virou para um lado, e a mulher pôde ouvir os distantes gritos dos tripulantes no convés. Mas o som da porta de sua cabine se abrindo foi o que a fez subitamente pular da cama.
estava parado à porta e a encarava. Os escuros cabelos úmidos denunciavam que ele estava há poucos minutos no convés, e de perto podia ver seus grandes olhos cor de mel.
Ele bateu a porta da cabine e deu um passo, encarando-a. Quando ela fez menção de dizer algo, o oceano os ajudou. Mais uma vez o navio se inclinou, e não achou nada para se segurar a não ser os braços de . Por conta da força das águas, ele bateu as costas na porta e ela se chocou contra seu peito. Dali não saiu mais.
sentiu o calor de emanar, e a segurou pela cintura. Ele delicadamente enterrou a outra mão na raiz dos cabelos da mulher e a puxou para si. No momento em que os lábios dos dois roçaram, o navio virou para o outro lado.
Para que ele não esmagasse contra a janela, tirou a mão de seus cabelos e se apoiou na parede segurando-a o mais forte possível.
Há instantes, estava preocupada se sobreviveria à tempestade. Mas naquele momento só tinha olhos para .
Ele apertou sua cintura e puxou-a em direção à cama. Sentou-se, e ela sem pensar passou as pernas ao lado do corpo dele. No momento em que seus lábios se tocaram, ela pôde sentir o gosto salgado de sua boca. Os dois pertenciam ao mar, faziam parte do mar, nada nunca iria mudar isso.
puxou mais para si, e ela, sentada em seu colo, o abraçou.
Enquanto acariciava o pescoço dele, sentia seu beijo. a envolvia num abraço, passeando por todo seu corpo e conhecendo-a.
Ele desamarrou o corpete marrom escuro rendado que usava naquela noite, e quando chegou à camisa de manga longa, esbarrou nos colares da mulher.
Olhando-o, ela entendeu o dilema e segurou a mão de que pousava nos colares.
- Eles ficam. – Ela disse, encarando-o. Ele não protestou, e puxou-a novamente para o beijo.
A madeira que rangia sob seus pés e o som das violentas ondas eram uma trilha sonora mágica. Não havia silêncio, havia barulho. E eles gostavam do barulho.
dedilhou o caminho das costas de até sua nuca, fazendo a mulher se arrepiar. Ela o beijava como se o quisesse há muito tempo, o que era verdade. Ele desceu um pouco as mãos e envolveu os dois seios dela ao mesmo tempo, e distribuiu beijos em seu pescoço.
gemeu baixo ao sentir o toque frio, mas macio das mãos de . Ele voltou a beijá-la na boca, e não parou mais. segurou na barra da blusa surrada de e a puxou para cima.
Até com as roupas mais simples, ele era lindo. Por vezes, durante o beijo, os olhos castanhos dele encontravam os olhos amarelos dela. Um mundo invadindo o outro.
Depois de jogar a blusa em algum lugar da cabine, foi a vez dele de despi-la. Com cuidado para não estragar os colares de contas, tirou a blusa de e depois sua calça. Pôde contemplar a beleza da mulher pela primeira vez. E ela não se sentia envergonhada, mas o queria o mais urgente possível.
se deitou na cama e puxou pela nuca, para que ele a seguisse.
Continuaram se beijando, diminuindo cada vez mais o ritmo. Durante aqueles minutos, nenhum deles se lembrou do que estava acontecendo fora da cabine. Tudo que lembravam era do gosto da boca do outro, dos dois corpos se esquentando e da sensação das peles se tocando.
Em algum momento, usou os pés para puxar a calça de . Ao tirá-la por completo, as pernas dos dois se misturaram e os corpos se chocaram por completo. Ela o sentiu e puxou-o para si delicadamente. Então ele a penetrou.
No início foi realmente devagar.
Eles se olhavam: ela com as mãos nos cabelos dele; ele com as mãos no corpo dela.
, embaixo de , não conseguia desviar o olhar. Ela o sentia, e sentia também seu corpo esquentar de tesão cada vez mais. Os movimentos eram lentos, e a mulher suspirava a cada um. Olhava nos olhos, queria conhecer sua expressão, lembrar ao máximo daquele momento.
Ele a penetrava enquanto passeava pelo corpo dela, conhecendo os cantinhos e peculiaridades da mulher. A mancha que ela tinha perto do olho direito, as curvas de seu corpo, os pés dela roçando a parte de trás do joelho dele, seu peito subindo e descendo por estar excitada, como ela parecia frágil ali.
E foi ela que intensificou tudo.
Puxou, mais uma vez, para si. Enquanto o beijava, passou as duas pernas ao redor da cintura dele e levantou o corpo. Ele no início não entendeu, mas depois a deixou ficar por cima.
gemeu alto quando a mulher começou a rebolar. Ela tinha as duas mãos espalmadas em seu peito e rebolava muito, muito bem.
Ele, com a cabeça deitada no travesseiro, se inclinou e fechou os olhos, sentindo tudo aquilo.
Ela estalou os lábios e puxou o cabelo dele, fazendo-o a olhar mais uma vez.
- Eu... quero... – Suspirou, intensificando os movimentos. , como ela queria, a olhava. – Que você goze me olhando.
Ele tentou responder, mas sentiu que estava prestes a gozar e então só curtiu o momento. gozou junto com ele, e nem ela aguentou o olhar tanto pois também sentia muito prazer.
Ela deitou o corpo em cima do dele, e os dois suspiraram baixinho.
De repente, o navio se virou mais uma vez. Se não tivesse se agarrado a , ela teria caído da cama.
A mulher enterrou a cabeça no pescoço de , enquanto os dois gargalhavam.
Lá fora, o oceano continuou furioso. Lá dentro, os dois se amavam como se o mundo lá fora não tivesse importância. E realmente, naquele momento, não tinha.

Continua...

Nota da autora: Já vou começar pedindo MIL DESCULPAS para vocês, suas lindas! Me perdoem pela demora na att.
MAS CHEGUEI COM UM CAPÍTULO FORTÍSSIMO, MINHAS CONSAGRADAS. Pretendo continuar com os flashbacks e aprofundar os personagens e suas experiências.
Muito obrigada pelos comentários do capítulo anterior, vocês são incríveis!
Sejam todas bem-vindas leitoras novas <3
Espero que tenham gostado, me contem.
Um beijo com muito amor,
Americae.
PS: A PRÓXIMA ATT VEM LOGO, JURO JURADINHO.



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Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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