It's a Match!

Última atualização: 18/06/2019

Capítulo 1. Perfect Disaster

's point of view.
Levantei-me tentando não responder aos pedidos de minha cama para voltar a me aconchegar nela. Era mais um dia com os pirralhos, mais um dia longe de casa.
Após tomar um banho rápido me agasalhei bem enquanto corria contra o tempo para não ficar atrasada, de novo. Eu sabia que nunca conseguiria ser pontual como os britânicos, sabia também que a desculpa de que eu era brasileira não colava mais. Abri o armário em busca de uma touca para proteger minhas orelhas do vento e quando a puxei ouvi algo cair no chão.
Suspirei pegando o caderno e vendo pela milionésima vez sua capa, era tão linda, Maria, minha prima mais nova, havia feito junto de minha mãe. Eram apenas desenhos aleatórios e uma bandeira do Brasil pintada com giz de cera, no centro, uma foto pequena de nós três juntas colada. Mamãe havia pedido para que eu escrevesse nele, o fizesse de diário para registrar com detalhes a melhor experiência de minha vida.
De fato era, mas por mais incrível que fosse estar em intercâmbio na tão sonhada Inglaterra eu ainda não havia vivido grandes emoções por ali. Nem nos pontos turísticos eu tinha ido ainda, não visitei a casa da família real e nem ao menos vi, ao vivo e a cores, um daqueles guardas sérios com chapéus esquisitos na cabeça.
Eu ainda não havia começado a viver a experiência de verdade, não havia conhecido ninguém além de Jennifer e a família , que me ofereceram um emprego de baby sister. Não achava que tinha algo realmente animador acontecendo, algo que me fizesse querer registrar o momento. Estava apenas vivendo uma rotina comum, num país diferente.
Mas, mesmo assim, o levei comigo em minha bolsa, nunca se sabe quando vai acontecer algo incrível ou engraçado. Eu tinha aquela esperança todos os dias. Corri descendo as escadas do prédio onde eu moraria durante minha estadia e adentrei o carro branco estacionado no meio fio.
— Bom dia, Sr. . — Lhe sorri amarelo. Cinco minutos atrasada, era a quinta vez no mês.
Recebi um aceno de cabeça como resposta e me calei encarando a janela. Eu talvez nunca me acostumasse com toda aquela frieza, e não era apenas da temperatura das ruas de Londres que eu falava. O homem que dirigia até a própria casa me dava um pouco de medo, estava sempre sério demais, sua mulher não era diferente, apesar de ser um pouco mais sociável que ele.
! — Arregalei os olhos ao visualizar um ser saltitante correr até a mim e me abraçar pelas pernas.
— Noah, querido, não grite. — Louise, a mulher mais elegante que eu conhecia, descia as escadas enquanto colocava os brincos de pérola. Se equilibrava perfeitamente nos pares de saltos caros e barulhentos.
Peguei o pequeno no colo percebendo que talvez não devesse mais trata-lo como um bebê, ele já tinha cinco anos e parecia que ninguém havia se dado conta daquilo.
Noah foi o primeiro que conheci, na verdade acho que fui escolhida por ele dentre tantas pessoas que passavam pelo Hyde Park naquele sábado ensolarado. Noah tinha fugido da mãe e corrido pelo parque sozinho. Lembro-me bem de tê-lo visto vir em minha direção, quero dizer, na direção da barraca de sorvetes atrás de mim. Mas algo interferiu no seu percurso e ele foi ao chão, chorando imediatamente. Ninguém ali parecia empenhado em ajuda-lo, então eu mesma fui.
Aqueles olhinhos azuis me encararam enquanto lágrimas desciam por seu rosto miúdo. O levantei olhando envolta procurando o responsável por aquela criança, Louise surgiu me olhando como se eu tivesse salvo uma vida e me ofereceu a oferta de emprego. Já fazia três meses que eu estava na casa dos e foi a primeira e única vez que pensei em escrever algo no diário que minha mãe havia me dado. Mas não cheguei a, de fato, registrar o momento.
— Vamos querido, estou atrasada. — Se apressou em pegar a bolsa. — Não vamos demorar a chegar. Ah! E Brian está de castigo, não o deixe comer chocolate. — Assenti já sabendo o motivo do castigo. Louise beijou a bochecha rosada do menino em meu colo e correu até a saída acompanhada do marido.
A mãe era rígida, e o pai autoritário demais, aquilo afastava as crianças deles, e minha chegada de certa forma pareceu ser boa para os três. Sim, três. Noah era o mais novo, depois vinha Elle e depois Brian.
Para completar o time havia também , o mais velho, que era uma incógnita para mim. Não tinha fotos dele nos porta retratos da sala, para falar a verdade só tinha do menor, os pareciam ter um favoritismo irritante por Noah e eu nunca havia entendido o porquê.
— Nossa, você anda muito pesado mocinho... — O coloquei no chão assim que vi Elle se esgueirar pelo corredor e parar diante da porta. — Oi minha princesa. — Sorri abertamente analisando sua roupa. A garotinha de oito anos vestia um collant rosa bebê e uma saia da mesma coloração. Lembrei-me do ballet e não entendi seu semblante triste. — O que foi, hã? Hoje é seu primeiro dia no ballet. Anime-se!
Eu só havia sido avisada daquele compromisso na noite anterior, mas já não era novidade, o único que tinha uma programação era o caçula, eu sabia tudo o que o pequeno tinha agendado pelo resto da semana, até mesmo consultas no pediatra. Era ridículo como eu mais me parecia a mãe deles. Bem, pelo menos era mais presente que ela.
— Eu não vou mais. Papai disse que não podia me levar. — Respirei fundo controlando minha raiva.
Elle tinha tido uma febre de quase quarenta graus quando a mãe disse que não a colocaria no ballet, claro que Louise não sabia o quão importante aquilo era para Elle, não foi ela quem ficou a tarde toda empenhada em fazer a temperatura da criança baixar. O pai dela havia prometido coloca-la se ela se comportasse. Como se ele soubesse que se a menina se comportava ou não.
— Vai sim, porque eu vou te levar. — Seu rosto se iluminou e um sorriso enorme brotou em seus lábios. A garotinha soltou um gritinho agudo correndo em direção às escadas. — Ei, não corra nas escadas!
Peguei Noah no colo e também subi o deixando em seu quarto, no fim do corredor encarei a porta cheia de avisos de não entre e desobedeci as placas abrindo a porta. Aquele era o quarto de antes de ele ir para a faculdade, o mais velho tinha dezenove anos e era tudo o que sabia sobre ele. Ninguém ali falava muito dele, nunca perguntei também, não queria levar minha primeira bronca ou ser chamada de intrometida.
— Já te disse que esse quarto é incrível? — Me encostei na soleira da porta de braços cruzados. Brian simplesmente bufou irritado.
— Já, disse quando tentou ser minha amiga no seu primeiro dia. Troque o disco, não funciona. — Nossa! Aquela era eu, no auge dos meus dezoito anos levando coices de uma criança de dez.
gostava de Star Wars ou foi você quem colou aquele pôster ali? — Apontei para o pôster do Darth Vader na parede enquanto me sentava ao seu lado na cama de solteiro. Ele não pareceu gostar muito de minha aproximação forçada.
— Ele me deu de presente quando foi embora, assistíamos juntos, foi ele que me mostrou o primeiro filme.
Bingo! Eu sabia que quando o assunto era o irmão mais velho, Brian se abria, ele o venerava. Era o mais próximo dele, o que mais sentia saudades, ele nunca me disse, para falar a verdade era fechado demais e não gostava muito de expor o que sentia. Mesmo depois de três meses trabalhando ali, Brian nunca admitiu que gostava de mim.
Era uma espécie de amizade estranha aquela que havíamos desenvolvido, tinham dias que eu podia jurar que só eu era amiga dele, e que Brian não me suportava. Eu tentava ao máximo tentar preservar os momentos em que ele era meu amigo de volta.
— Vamos! — A loirinha veio correndo, porém parou diante da porta como se houvesse uma linha invisível que não a deixava prosseguir seus passos. Brian tinha uma regra para os mais novos, não os queria em seu quarto.
Eu só não tinha certeza se era por posse, pelo quarto ser um elo com ou se ele não os queria mexendo em suas coisas. Tratando-se de Brian, eu ficaria com as duas opções. Digamos que ele não tinha muita paciência com os pequenos.
— Eu não vou a lugar nenhum. — Respondeu cruzando os braços encostando-se na cabeceira da cama. Revirei os olhos e vi Elle voltar a ficar cabisbaixa. Aquilo era vingança, eu entendia, mas estava afetando mais a irmã dele do que a mim.
Tinham dias que Brian se empenhava em me tirar do sério.
— Te pago um milk-shake de chocolate. — O garoto se levantou passando por mim e empurrando a menina pelo ombro. Suspirei me perguntando se eu era insuportável daquele jeito quando mais nova.
Terminei de colocar Noah na cadeirinha e afivelei o cinto de Elle, Brian adentrou o veículo no banco do passageiro, fazendo-me encara-lo séria.
Eu era liberal até demais com aquelas crianças, comparado aos pais deles estar comigo era um paraíso, eu os deixava comer de tudo e até passava por cima de alguns castigos em troca da obediência deles. Sabia que era chantagem, mas enquanto estava funcionando por mim, tudo bem. Mas a única regra que eu não quebrava por nada era aquela.
A Sra. sempre teve medo de me deixar sair com seus filhos dirigindo o carro dela, que geralmente ficava na garagem para emergências. Eu entendia aquele receio, até eu tinha medo de dirigir, afinal de contas eu havia tirado minha habilitação no Brasil primeiro e, há apenas um mês, consegui uma em Londres, ainda era extremamente estanho ter o volante do lado direito. Era a segurança deles que estava em jogo e eu nunca me perdoaria se algo acontecesse por um descuido meu.
— Sabe que ainda não tem idade para sentar na frente. — Disse abrindo a porta e o esperando sair.
— Vai contar para minha mãe? Você é boa nisso, não é? — Revirei os olhos diante a implicância.
Quem havia causado o castigo de Brian havia sido eu, claro que fui eu também que teve que ir até a escola de mauricinhos dele resolver o problema que ele causou ao levar uma Playboy, que provavelmente pegou escondida do pai, para a aula. Quando cheguei lá simplesmente não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha que senti. Imaginem, que cena deplorável, eu, deixando o prédio com Noah em meu colo, uma revista de mulher pelada nas mãos e dois pestinhas me seguindo. Liguei para Louise imediatamente e lhe contei o acontecido.
— Vá logo para o seu lugar, Brian. — Ordenei já impaciente. — Ou eu não vou te dar seu milk-shake. — Ameacei com as mãos na cintura, tentando parecer autoritária.
O pequeno soltou um riso do banco detrás, não esbocei reação alguma á aquele som, tinha que ficar séria, para mostrar que realmente estava brava e que não estava brincando. Segundo minha mãe, aquilo se aplicava na hora de repreender crianças menores, mas como Brian insistia em agir como Noah eu abriria uma exceção para ele, tratando-o como um bebê.
— Minha mãe vai ficar sabendo que você me deu chocolate. — Sorriu maldoso ainda sem sair do lugar.
— Ah, é mesmo? E em quem será que ela vai acreditar? Em mim ou em você? — O menor bufou indo para a parte traseira do veículo esbarrando nos irmãos mais novos e fazendo Noah chorar. Suspirei fechando a porta e dando a volta, sentando-me no banco do motorista. — E coloque o cinto. — Liguei o rádio numa tentativa de parar o choro estridente, eu estava certa de que aquilo me daria dores de cabeça no fim do dia.

(...)


Aquela música lenta e repetitiva fazia-me bocejar a cada cinco minutos, estava entediada, e não era a única ali. Brian tomava seu milk-shake sentado na poltrona ao lado, concentrado nos movimentos que a professora quarentona fazia através do vidro, eu realmente esperava que as imagens da revista não estivessem recentes em sua memória, porque aquilo era, no mínimo, nojento. Pelo menos estava calado, e permaneceria assim pelo resto do da, eu previa uma pequena trégua por ter lhe dado chocolate, já que ele ficaria um bom tempo sem. Noah estava no seu décimo quinto sono com a cabeça deitada em meu colo enquanto eu mexia em seu cabelo, aquilo era tiro e queda para que ele adormecesse rápido.
Mas todo aquele tédio e a manhã estressante que passei valeu a pena, o brilho estampado nos olhos azuis de Elle poderia ser visto até de fora do prédio. Eu a observava pelo vidro da recepção e sentia uma sensação enorme de dever cumprido. De alguma forma, fazer aqueles três feliz havia se tornado um dever para mim.
Me perguntava se eu sozinha bastava para cumpri-lo, afinal de contas havia chegado de repente, caído de paraquedas na casa e na vida deles há apenas três meses atrás. Se pudesse escolher, Elle com certeza preferiria ter a mãe ali, sentada, vendo-a dançar com as outras crianças, ela sentia a falta de Louise, sentia saudades também do pai, ele costumava trata-la como uma princesa quando ela era mais nova. Noah havia largado a chupeta há algumas semanas atrás, e na noite anterior vi a Sra. chegar com uma novinha, perguntando onde foram parar as outras. Ela não via, mas ele estava crescendo. Talvez Louise não quisesse ver, afinal estava perdendo momentos importantes de mais um filho por trabalhar demais.
Nenhum dos dois parecia perceber que o tempo passava rápido demais fora dos arranha-céus em que passavam o dia trancafiados. A Sra. havia ficado horrorizada com a notícia de Brian, como se ainda não tivesse percebido de que tinha um garoto de quase onze anos dentro de casa, não havia se dado conta de que ele estava entrando na puberdade e que aquela curiosidade toda com o corpo feminino era normal.
Era triste ver que a cada dia que passava eu os substituía de alguma forma. Eles não sabiam o que estavam perdendo, tinham um garoto esperto e inteligente; uma menina brilhante, talentosa e carinhosa e um bebê crescendo e se tornando cada vez mais independente pela ausência dos pais. Noah já não chorava mais ao vê-los sair de casa todos os dias, tinha dias que Louise se tornava uma completa estranha para ele, que começou a preferir o meu colo ao dela.
Me perguntava se o mesmo havia acontecido a , o filho mais velho dos me despertava uma curiosidade enorme. Gostaria tanto de saber o motivo de ele nunca ser citado nos jantares, o pouco que sabia sobre ele foi o que ouvi de Brian, mas não era nada que poderia ser levado tão a sério já que ele o via como um super herói e tendia a enaltece-lo demais ás vezes.
Meu celular bipou chamando minha atenção, era Jenny mandando mensagem, devia estar em horário de almoço, era a única parte do dia em que ela tocava no celular. Ela trabalhava o dia todo e depois ia para a faculdade, mas sempre tinha tempo para sair com o namorado. Me chamava para ir junto, eu sempre negava por nunca estar a fim de segurar vela, mas daquela vez eu não poderia dizer não, era o aniversário dela. Combinei de me encontrar com Jenny depois de sair da casa dos , assim iríamos juntas para casa e nos arrumaríamos por lá.
Suspirei desanimada por ter sido derrotada, talvez aquilo pudesse me ajudar a relaxar um pouco, eu reclamava tanto que não conhecia ninguém além de Jennifer mas nunca conheceria se continuasse a ficar enfornada dentro de casa. Eu precisava tanto sair, me socializar, aquilo faria toda a experiência do intercâmbio valer a pena, eu teria histórias de minhas aventuras para contar a minha família quando retornasse ao Brasil.
Minhas únicas experiências adquiridas até o momento foram com as crianças, eu havia aprendido tanto com os três! A cultura deles, até o meu inglês estava melhor pelo fato da fala das crianças ser mais simples, aprendi a cuidar, dar banhos, fazer comida, aprendi a ser mãe sem ao menos precisar dar a luz para aquilo.
As primeiras tentativas foram verdadeiros desastres e, mesmo depois de meses, continuava a ser desastroso o trabalho de cuidar de três crianças, mas eu poderia afirmar que nós sobrevivemos.
E mais uma vez meus pensamentos se voltavam aos três pestinhas. Eles haviam se tornado uma família para mim juntamente com , não substituíam os que me esperavam no Brasil, mas me faziam sentir em casa apesar de tudo.


Capítulo 2. My Reasons for Escape.

Já se passava das dez da noite quando a Sra. adentrou a casa junto do marido carregando uma sacola com o logotipo de um restaurante chique do centro. Me levantei do sofá num pulo despertando Brian, que dormiu na metade do filme que passava na TV. Não era preciso dizer que eu havia ficado algumas horas a mais na residência dos , lembrava-me de ter escutado Louise dizer que voltariam cedo do trabalho para casa. Parece que houve mais um jantar com os executivos, aquela desculpa já estava ficando batida para mim.
Eu não poderia simplesmente ir embora no meu horário e deixá-los lá, sozinhos. E enquanto eu ganhava o meu salário e minhas horas extras, não tinha muito o que reclamar.
— Mamãe! — Ouvimos um grito estridente e logo Elle descia as escadas, correndo vestida em seu pijama de borboletas cor de rosa.
Quase bati em minha própria testa.
— O que está fazendo acordada à essa hora?
— Estava esperando a senhora e o papai chegarem para mostrar o que aprendi hoje no balé.
— Está tarde, Elle, outro dia você mostra. — Massageou a nuca, sem ao menos olhar para a menina a sua frente.
— Não tinham tirado ela dessa porcaria? — Sr. resmungou quase que na mesma hora que a mulher. — Não temos tempo de levar e buscar toda semana.
— Eu vou leva-la. — Respondi controlando minha raiva.
O homem que retirava a gravata parou no meio do caminho que fazia até a escada e me encarou com a testa franzida, devia estar estranhando, eu não o dirigia muito a palavra, quanto menos decidia os assuntos que envolviam seus filhos. Como se não tivesse mais motivos para se impor, voltou a fazer seu caminho.
O irlandês me irritava de uma maneira absurda. Fazia questão de me tratar como uma simples empregada, não que eu não fosse, mas acho que não custaria nada olhar para meu rosto quando fosse me dar o pagamento ou pelo menos me dar um bom dia. Ele era o típico pai que só serviu para ajudar a fazer e para dizer não. Nunca o vi trocar mais que duas palavras com Brian, a não ser quando era para brigar com ele.
O pai era tão ausente que acho que ele considerava mais o do que o próprio Sr. .
— Vamos, Elle. — A puxei pela mão e subi junto dela, no percurso, Brian passou em nossa frente entrando em seu quarto sem ao menos nos dar boa noite.
A recoloquei na cama e cobri seu corpo protegendo-a do frio, lhe dei boa noite e apaguei a luz, pronta para apanhar minha bolsa e ir logo para casa.
, — Me virei largando a maçaneta da porta. — você acha que a mamãe não gosta de mim? — Meu coração se apertou e ascendi a luz, refazendo meu caminho quase que correndo até a beirada de sua cama.
— É claro que sim, meu amor! Ela te ama muito. — Afirmei beijando sua testa coberta pela franja. — Ela só está cansada.
— Porque ela não quer me ver dançando então?
— Por que... Por que você ainda não aprendeu a coreografia. — Gaguejei tentando soar convincente na minha mentira. Para falar a verdade, nem eu sabia a razão dos pais dela agirem daquela maneira. — Talvez você devesse esperar, sabe, fazer uma surpresa e só mostrar a coreografia quando tiver aprendido tudo! Tenho certeza que eles vão ir te ver no dia da apresentação. — Consegui arrancar um sorriso da menina, que bocejou sonolenta logo depois. — Agora durma, está bem? — Elle assentiu e quando fiz menção em levantar sua mão delicada segurou meu braço.
— Eu te amo, .
— Eu também te amo, Elle. — Sorri afagando seus cabelos claros, finalmente deixei seu quarto e fechei a porta encostando-me na mesma, respirei fundo, segurando as lágrimas que surgiram junto do sorriso bobo.
Assim que desci as escadas dei de cara com Louise, ela me pediu para esperar e me entregou a sacola que trouxe do restaurante dizendo que a tinha trago para as crianças, mas como eles já estavam dormindo, eu poderia levar. Não me importei em ficar com as sobras, eu nunca iria experimentar aquela comida cara se não fosse pelos . Pelo menos teria como dizer que desfrutei da culinária de um dos melhores restaurantes de Londres.
Destranquei a porta do apartamento que dividia com e o adentrei, sentindo o calor que a casa emanava, me livrei de meu casaco pesado e de minha touca deixando a comida sobre a bancada da cozinha. Eu já poderia imaginar os xingamentos de , deduzi que iria escutar muito quando ela retornasse no dia seguinte, principalmente após checar as quatro notificações de chamadas perdidas. Não tinha sido minha culpa, mas saber o motivo de eu não ter ido ao pub com ela e Zayn só a deixaria mais possessa.
odiava a Sra. com todas as forças, achava que ela se aproveitava de mim por eu não saber dizer não, de certa forma estava certa, afinal, todas as vezes que Louise e o marido saíram para jantar depois do expediente, ela nunca ligou para me avisar que teria que ficar até mais tarde. Mas o que minha amiga não entendia era que aquelas crianças não tinham que pagar pela ignorância dos pais, eu não poderia deixá-los por causa de uma festa.
Apesar de ser insistente, tinha a melhor das intenções ao querer me levar a festas, ela dizia que éramos jovens demais para ficar em casa todos os sábados do ano. E era o que minha mãe tinha me dito na manhã em que eu embarquei para Londres. Soltei um riso fraco ao encarar sua foto no porta-retratos perto de minha cama, lembrava-me de ter dado boas risadas enquanto a ouvia dizer para eu aproveitar ao máximo a viajem, que era para eu viver tudo o que tinha me privado antes.
Sentei-me na cama, já sentindo meus olhos marejarem e a saudade apertar no peito. Ainda passaria alguns meses ali, longe do Brasil, no lugar que escolhi para realizar o meu maior desejo: Sumir.
Tive uma adolescência normal, assim como a maioria da população mundial sofri algum bullying nos primeiros anos de colegial, mas nada que minha capacidade de rir de minha própria desgraça não pudesse me fazer superar. Nunca fui alguém rodeada de amigos, mas tinha uma facilidade absurda em me aproximar das pessoas. Infelizmente, nem todas as poucas pessoas que eu pensava ser meus amigos, realmente eram.
Era complicado explicar, mas, de alguma maneira, todas as certezas que eu um dia tive na vida simplesmente desapareceram numa velocidade absurda. Fui demitida do meu primeiro emprego por conta da crise, e com ele foram alguns amigos, me formei no ensino médio e lá se foram os poucos que eu havia feito na escola, parecia que a distância realmente era capaz de acabar com sentimentos. De repente me sentia só, um desanimo me atingiu quando não consegui arranjar outro emprego e fui ficando cada vez pior. Via pessoas que um dia chamei de amigos, considerei como irmãos, colocando pessoas novas em meu lugar, como se eu fosse uma peça com defeito em meio as suas engrenagens, o mais assustador era ver que a vida de todos eles continuava a funcionar sem mim. Infelizmente a minha não era tão auto suficiente como a deles.
Após emagrecer alguns quilos e ficar visivelmente magra demais, conversei com minha mãe, me abri para ela como nunca havia feito na vida. Funguei me deitando na cama, lembrando-me do que ela havia me dito, tais palavras nunca sairiam de minha cabeça, era tudo o que eu precisava ouvir para me reerguer.
"— Teve um dia que eu cheguei em casa e fiquei preocupada, não tinha ninguém em casa, procurei por todos os cômodos me perguntando onde você tinha se metido. Pensei que talvez tivesse ido para a casa do vizinho olhar ele trocar a comida dos passarinhos, você adorava ver. Mas quando sai no quintal ouvi um barulho que vinha dos fundos, fui até lá e finalmente te encontrei, falando sozinha para variar, com suas duas bonecas envolta. Por um momento senti dó ao te ver brincando tão só, mas me lembrei de ter te deixado na manhã daquele mesmo dia sozinha em casa, vendo televisão e se divertindo com os desenhos, sozinha. Eu me toquei que não tinha o porquê sentir pena de você, pelo contrário, eu tinha que me orgulhar por ter te criado para ser independente, tão auto suficiente ao ponto de não precisar de ninguém para te fazer feliz. E você não precisa, , nunca precisou."
Me recordava de ter chorado muito deitada com a cabeça em seu colo, me sentia só por achar que não tinha amigos, mas nem ao menos tinha me dado conta de que eu tinha uma, que nunca me deixaria só.
"— Ontem eu conversei com o seu pai, o encontrei no supermercado, falei com ele sobre o intercambio que você deixou de ir por causa do seu emprego. Acho que eu e ele concordamos que você precisa de um tempo longe de tudo isso que anda te magoando e te deixando mal ao ponto de te fazer esquecer quem você realmente é. Porque essa que está aqui, na minha frente, deitada o dia inteiro e chorando escondida não é a menina que eu assistia brincar sozinha e ser feliz independente de tudo. Se lembra daquela sua amiguinha da quarta série que virou a cara para você quando mudaram de escola? Eu ainda me lembro perfeitamente do dia em que eu perguntei dela para você, consegue se recordar da sua resposta? Você simplesmente balançou os ombros dizendo que não estava nem aí e que não morreria se ela não falasse mais contigo. Sabe, eu gostava muito mais daquela , volte a ser ela."
A partir daquela decisão de ir para Londres as coisas começaram a mudar, quer dizer, voltar para seus devidos lugares. E o meu lugar era em qualquer lugar do mundo, desde que eu estivesse feliz, estando ou não acompanhada. Me despedi em uma festa de família e cheguei a aquele país sozinha, encontrei na internet oferecendo uma estadia em seu loft por conta dos gastos que estava tendo com a faculdade de psicologia mas, ainda sim, ela era uma completa estranha para mim. Tive que reaprender a ser independente, estava começando ao poucos, mas depois de quase quatro meses ali eu pude perceber que eu já havia conseguido.
Jantei e realmente pude saber o motivo do tal restaurante ser tão caro, a comida era realmente maravilhosa, mas nada superaria a da minha mãe. Peguei o celular e lhe mandei uma mensagem de voz, eu não sabia ao certo que horas ela veria, mas eu não me importava, só queria dizer que estava com saudades. Antes de fechar os olhos e finalmente dormir, fui olhar minhas redes sociais, vez ou outra tinha alguma publicação e até mensagens daqueles que deixei para trás no Brasil, me cobravam explicações pelo meu sumiço repentino, acho que começaram a me perceber depois que eu parei de incomoda-los impondo minha amizade e minha presença. Ignorava tudo, poderia parecer egoísta de minha parte, mas eu só estava seguindo outro concelho de minha mãe, ela também me disse para que eu não me sentisse culpada por pensar em mim de vez em quando.
Visualizei os Snaps de dançando e se divertindo com o namorado e alguns amigos que eu conhecia de vista, me senti mal por não estar ali, com ela, quando vi o vídeo dela cantando parabéns não pude deixar de suspirar derrotada. Minha mãe estava certa, mas ás vezes temos que pensar mais nos outros do que em nós, e merecia aquilo, fiquei chateada por não estar no presente no primeiro aniversário que passaríamos juntas. E eu nem tinha lhe dado um abraço sequer. Peguei no sono cansada e desisti de ficar no celular.
(...)


cordei sem pressa, tomei meu café da manhã e fui até o quarto de ver se ela tinha chegado, sua cama ainda estava arrumada. Passei um batom em meus lábios e deixei meu cabelo solto, peguei o ônibus e minutos depois eu já estava em meu destino. Adentrei a residência cumprimentando a governanta, que me tratava como se eu fosse um membro da família, também pudera, eu passava mais tempo lá do que em minha própria casa.
! — Ri e me abaixei pegando-o no colo, Noah mastigava algo, fazendo-me perceber que eles ainda tomavam café da manhã.
Ele já estava arrumado, eu estranhei aquilo, já tinha ido mais cedo para conseguir arruma-lo a tempo para não chegarmos atrasados. Imaginei que por eu estar ali, teria que fazer o meu trabalho e lhe dar um banho.
— Vamos logo com isso. — Brian vinha da cozinha acompanhado de Elle, que saltitava de alegria por estar indo ao zoológico pela primeira vez. O irmão dela estava com sua carranca, para variar, nem um pouco animado.
Não vi Louise nem o marido ali, provavelmente estavam na cozinha, e nem fizeram questão de me agradecer por estar levando as crianças ao zoológico no meu dia de folga! Típico deles, que chegavam em casa ás vezes horas depois do término do meu expediente e nem me davam explicações. Peguei a bolsa azul do menor e fomos para o carro, nosso destino final era o grande Zoológico de Londres.
Dei graças a Deus por ter ido de tênis e com uma roupa mais confortável, já havia previsto que teria que andar muito atrás daqueles pestinhas. Eu particularmente nunca gostei muito de ter animais presos para o entretenimento humano, para mim eles não foram feitos para nos divertir, muito menos para ficar presos longe do habitat natural deles. Fora que todos os zoológicos eram cheios de árvores e eu simplesmente odiava os insetos que a mata trazia consigo.
O sol estava dando as caras e a temperatura havia subido um pouco naquela manhã, me preocupei em passar um protetor solar em Elle e Noah, Brian protestou e não me deixou nem chegar perto dele. Ultimamente ele estava sendo insuportável, estava quase desistindo de ser legal com ele. Na verdade, eu meio que concordava com o mais velho, não via precisão em protege-los de um sol quase nulo. Mas eram frescurites da Sra. , que nunca saberia o que era um dia ensolarado de verdade como no Brasil durante o verão.
— Noah, volte aqui! — Praguejei correndo atrás do danado, que tinha insistido em soltar minha mão enquanto andávamos por uma área do Zoo dedicada aos animais peçonhentos.
Minha coluna agradecia, e ele também me agradeceria no futuro por ser a responsável de acabar com todo aquele mimo excessivo. Eu estava tentando tirar aquela mania feia dele de querer ficar só no colo. A Sra. me mandava colocar a harness buddy nele quando fôssemos sair para lugares cheios, nada mais era do que uma mochila de macaquinho que continha uma "guia de segurança" presa em si. Eu sempre achei aquilo uma palhaçada, ao meu ver era uma espécie de coleira para crianças.
Aquele lugar me dava arrepios. Todos aqueles animais perigosos dentro de vidros, camuflados, subindo em galhos, árvores e escondidos debaixo de folhas. Cobras enroscadas em outras, grandes e medonhas, aranhas enormes e peludas e mais várias outras espécies, como escorpiões. Se uma mosca me tocasse eu gritaria a qualquer minuto, já estava me coçando até. Um guia falava sem parar rodeado de crianças e seus pais curiosos, quando finalmente peguei Noah me aproximei com os outros dois.
Meu inglês estava progredindo demais, só me comunicava em português quando ligava para casa, mas mesmo rodeada de britânicos o tempo todo eu ainda sentia dificuldade em entender pessoas que falavam rápido demais. O homem a nossa frente sorria animado enquanto eu tentava decifrar sua fala, as crianças a minha volta reagiam a tudo o que ele dizia com entusiasmo, pelo o pouco que eu estava entendendo, ele nos mostraria um daqueles bichos fora do vidro. Já não estava me sentindo bem, meu medo havia triplicado. Então queria dizer que um daqueles vidros cheios de animais venenosos seria aberto?
Eu é que não ficaria para ver.
— Crianças, acho melhor irmos para outro lugar. — Anunciei pegando o pequeno no colo e puxando Elle pela alça da mochila, Brian não saiu do lugar, o que me causou uma leve irritação. Custava ele me obedecer uma vez na vida?
— Está com medo, ? — Sorriu maldoso fazendo-me revirar os olhos. Eu não demonstraria medo para uma criança de dez anos, ele me encheria por dias se eu o fizesse!
— Não, eu não estou. Vamos logo ou eu saio e te deixo aqui sozinho. — Era óbvio que eu estava blefando.
Ou não.
A verdade é que nem eu sabia o que faria quando o guia abrisse o tal vidro, dependia muito de que animal ele traria para fora, se fosse uma das cobras Brian já poderia dar adeus logo, porque eu não ficaria para ver se o homem conseguiria controlar o animal. Mas o próprio pensava que conseguia! E eu tinha que admitir, ele era realmente maravilhoso com aquele sorriso aberto e seu cabelo castanho brilhoso, mas nem mesmo aquele par de olhos azuis conseguiriam domar um animal venenoso. Ele, cujo o nome era Matt, perguntava quem seria o corajoso que iria ajuda-lo a mostrar o bicho para o resto do público.
Aquela era a minha deixa. Se eu não confiava no guia, quem diria em uma pessoa sem experiência alguma.
— Brian, eu estou falando sé...
— Ela! se oferece para ajudar! — Quando dei por mim, vi todos os olhares direcionados em minha direção. Brian sorria ainda apontando o indicador, que eu poderia quebrar se não estivéssemos em público (e não fosse crime), em minha direção.
— Olhem só, temos uma voluntária! Palmas para ela pessoal! — Ainda sem reação, observei aquele deus grego andar até onde estávamos. Eu não sabia se era ele ou se eu estava com tanto medo que até tinha perdido o fôlego.
— E-Eu não...
— Ah, vamos lá, não vai desistir agora, vai? Todos estão ansiosos para ver a Dory, você poderia me ajudar? — As palmas já tinham cessado, mas eu ainda não sabia o que fazer. Dory não era um peixe? Eu torcia para que o animal em questão fosse tão inofensivo quanto. — Deixe o garotão no chão e venha comigo. — Desci Noah, que sorria para o guia no chão. Estava com tanta vergonha que poderia jurar que estava vermelha como o batom que passei pela manhã.
— Eu cuido dele, pode ir, . — Olhei feio em sua direção.
Quem diria que a primeira vez que Brian se ofereceria para cuidar do irmão seria justamente a hora em que ele me ferraria. O pequeno ficou parado diante do mais velho, que o segurou pelos ombros. Era engraçado como Noah havia ficado quieto, de repente. Parecia querer ajudar Brian em sua vingança.
— É de que parte de Londres, ? — Indagou assim que paramos no centro das pessoas. Por incriável que pareça eu não estava nervosa pela atenção recebida, mas sim pelo que viria a seguir.
— Sou do Brasil. — Sorri amarelo.
— Você será a primeira brasileira que Dory irá conhecer, então! — Aquela animação toda estava me irritando. — Só vou pedir que mantenham distância e falem um pouco mais baixo, não queremos assustar nossa amiguinha. — Franzi a testa tentando entender de quem ele estava falando, Matt saiu de meu lado e eu aproveitei para espiar as crianças.
Um, dois, três, estavam todos ali. Quando bati os olhos em Elle, pude ver seus olhos azuis se esbugalharem de modo instantâneo. Senti algo gélido tocar meu antebraço, paralisei no mesmo instante em que uma tremedeira incontrolável me atingiu.
— Pessoal, essa é a Dory, uma linda cobra. — Fechava meus olhos com força a cada vez que a cobra se enroscava em meu braço. — Não se mexa muito, eu sei que ela se agarra em você, mas ela só está buscando estabilidade. — Falou baixo próximo de meu ouvido causando-me um pequeno arrepio. — Ela pode ser encontrada na Ásia e na África, e nossa amiga aqui pode ficar tranquila, Pítons não possuem veneno, — Arrancou risadas do público. Dory, que tinha uma coloração marrom e bege, continuava com seus movimentos lentos e passeava pelo meu corpo. — mas elas são conhecidas por terem presas afiadas, curvadas pra dentro para agarrar suas presas.
Brian se divertia, com o celular, filmava tudo de longe. Noah estava adorando tudo aquilo, ria e batia palminhas como se estivesse me encorajando. Eu estava a ponto de chorar, e Elle percebia meu estado, estava nervosa e cobria o rosto com as mãos, agoniada. Pelo menos alguém tinha dó de mim.
— As pítons africanas são consideradas uma das maiores cobras do planeta! São capazes de engolir um cervo adulto e muitos outros mamíferos. — Um sorriso malicioso tomou conta de seus lábios e seus olhos azuis focaram-se nos meus. Tentava ao máximo não me mover, nem respirar fundo eu respirava. Matt não estava me ajudando. — São mais facilmente encontradas na Florida, por gostarem do calor que faz lá.
Agradeci a Deus por Dory não ser muito grande, mas ela também não poderia ser considerada pequena, era pesada, mas seus movimentos e sua textura poderiam até serem capazes de relaxar, se eu não estivesse tão apavorada estaria curtindo a experiência. Eu poderia dizer que estava me acostumando, mas a cobra ainda me apertava vez ou outra e eu temia ser esmagada por ela. Não havia mais nenhum funcionário do Zoológico por ali, se algo desse errado, só os músculos de Matt não me salvariam.
Depois do guia bonitão selecionar algumas crianças para tocarem Dory, e de posar para uma foto com o fotógrafo local, ele finalmente tirou a Píton de meu corpo. Era um alívio indescritível.
— Palmas para a minha corajosa e linda ajudante. — Sorri ainda trêmula e tratei de pegar Noah, que se afastava dos irmãos e ia com os outros visitantes para fora. Quando me virei, avistei Matt recolocando Dory em seu lugar, que deveria ser a natureza.
Ao deixarmos o zoológico, encontramos um funcionário que me entregou a tal foto. Me peguei rindo sozinha quando notei minha cara de pavor ao lado da Píton e de Matt, que eram incrivelmente fotogênicos.
Brian me pagaria por aquilo.


Capítulo 3. It's a Match!

Deixei os pestinhas em casa no final da tarde, deixei também o conforto do carro e fui cansada para meu apartamento de ônibus. Ao chegar na porta, pude ouvir a TV ligada e me peguei receosa com a reação de . Ela devia estar uma fera, mas eu não poderia ficar lá fora para sempre, então entrei devagar e logo senti que era observada. me encarou do sofá e não demonstrou reação alguma.
, eu...
— Eu já sei, teve que ficar até mais tarde no trabalho. — Fingiu tédio na voz. Coloquei minha bolsa sobre o sofá e suspirei culpada. — Eu sei que você adora aqueles pirralhos mas não posso evitar de sentir ciúmes. — Sorri instantaneamente com o bico que se formou em seus lábios. — Era meu aniversário, poxa.
Era estranho aquela sensação boa que tomava conta de meu peito, nunca havia me sentido tão especial ao ponto de ter alguém sentindo ciúmes de mim, era a primeira vez que eu soube o que era ter uma amizade de verdade.
- Deixa de ser boba e me deixa te dar um abraço. — se levantou rindo e eu a envolvi em meus braços, apertando-a forte. — Feliz aniversário!
, você está me sufocando... — Gargalhei ainda no abraço.
Eu nunca fui a pessoa mais carinhosa do universo, mas , aliás, os britânicos em geral, eram mil vezes mais frios que eu. Me divertia com toda aquela fuga de calor humano deles, e claro, tentava ensina-los a serem mais calorosos. Eu era daquelas que acreditava que um simples abraço da pessoa certa curava qualquer coração partido.
— Que cheiro é esse? — Fez careta, afastando-se de mim.
— Ah, esse é o aroma de Dory, a minha amiga Píton. — Respondi tirando minha blusa e ficando de sutiã, realmente, estava com um cheiro esquisito. A cara de foi impagável, fui ainda rindo até minha bolsa, pegando a foto e mostrando-a.
— Meu Deus! Que homem maravilhoso é esse ao seu lado? — Bufei. Pensei que ela comentaria da minha bravura ao pegar uma Píton em meus braços. Mas não, Matt era mais interessante. E o pior é que ele era mesmo.
— Esse é Matt, muito abusado ele por sinal, me pegou pela cintura com a desculpa de me aproximar das crianças que queriam tocar em Dory e ficou me botando medo ao invés de me tranquilizar. — Observei-o ao meu lado, sorridente. Ele era uma exceção da regra de frieza, era o contrário, vai ver era porque trabalhava com o público. — E você tem namorado, tinha que reparar somente na cobra.
— Não sou cega para ver um homem desses e não comentar. — Revirou os olhos. — Aliás, ele estava implicando contigo, deu seu número para ele? — Soltei um riso incrédulo e peguei minha bolsa, indo para o quarto com minha blusa na mão.
— Até parece. — Murmurei do corredor.
— Você perdeu, Nina ficou bêbada e subiu em cima do balcão do bar. — Apareceu na soleira da minha porta minutos depois. — Foi muito divertido, queria que tivesse ido.
— Eu iria ficar mais deslocada do que nunca, você sabe que não gosto de lugares barulhentos, e eu seguraria vela de dois casais ainda por cima. — Ri fraco, sentando-me na cama retirando minhas botas.
— Talvez se você arrumasse um namorado não precisaria ficar só... Poderíamos sair como casais! — Animou-se sentando-se ao meu lado. A olhei com as sobrancelhas arqueadas, para ela parecia ser muito fácil arranjar um namorado, assim, do nada! — Volte naquele zoológico e pegue o número daquele gato!
— Você está ficando louca? Eu não tenho coragem de chegar nele e simplesmente pedir o número dele! E outra que ele nem deve se lembrar de mim, na certa Matt deve fazer o que fez comigo com todas. — Falei tirando minha calça e a dobrando. Precisava de um banho, isso sim.
Nunca fui de ficar neurótica procurando namorado pelos cantos, para falar a verdade nunca tinha namorado na vida. Se eu tinha vontade? Muita! Apesar de não ser nada romântica eu admito que ás vezes me pegava desejando ter um menino ao meu lado. Mas, repetindo, não era tão fácil assim. Ou pelo menos não parecia ser para mim. Toda a minha falta de, digamos assim, desespero em procurar alguém acabou me deixando sem ninguém por muito tempo. Eu era daquelas que quando recebia olhadas dos outros garotos não conseguia olhar de volta, por mais que eu quisesse. Pior, daquelas que se apaixonava por aqueles que nunca me olhariam de volta.
Eu acho que a NASA poderia me estudar, não era normal. As pessoas com quem eu convivia me diziam o tempo todo o quanto eu era seletiva em relação a garotos. Eu discordava arduamente, não era seletiva, eles que me empurravam meninos que não tinham nada a ver comigo. Suspeitava que não existia no mundo alguém que tivesse "tudo a ver comigo". Vai ver ele acabou de nascer, só podia ser, mas mesmo assim não seria possível ficarmos juntos, eu provavelmente seria presa por pedofilia.
Simplesmente odiava quando tentavam me empurrar para alguém, não era daquele jeito que eu idealizava encontrar o garoto dos meus sonhos. Já havia passado por poucas e boas por conta daquela urgência que as pessoas tinham de me arranjar um namorado ou ficante, era como se eu fosse morrer se não beijasse alguém logo.
Já haviam se passado dois anos, eu estava muito bem e viva. Yeah!
Fora que sempre dava merda quando eu tentava, como no clássico "vou ficar com um menino, vamos comigo? Ele leva o amigo dele para ficar com você!" Da última vez o encontro de casais forçado acabou com eu e um babaca olhando minha amiga e o amigo dele se engolindo. Eu não o deixei me beijar, ele era bruto demais, chegou me puxando pela cintura sem nem ao menos me dizer oi. Como se estivesse ali apenas para me distrair enquanto o amiguinho dele pegava uma menina.
— Não, eu não estou ficando louca. já passou da hora, não é? Daqui a pouco você se esquece como se beija! — Levantei o indicador receosa, mas desisti de dizer que ela estava certa, parecia que eu nunca havia beijado na vida de tanto tempo que fazia! — A não! Você não sente falta, não? — Indagou ainda incrédula depois de ter entendido o recado.
— Você quis dizer carência? Sim, eu sinto. Mas não vou sair por ai pegando o primeiro que me aparecer. E não venha me dizer que eu escolho demais, porque sim, eu escolho mesmo. Não esperei dois anos para beijar qualquer um. Tem que ser especial, .
— É só beijar, não vai tirar sua virgindade! — Exclamou rindo, a acompanhei na risada.
— Eu só queria alguém que conversasse primeiro comigo, fosse com calma, entendesse o meu jeito e gostasse de mim pelo o que eu sou, é tão difícil de entender?
— É impossível de se achar um assim, amiga, estamos falando de garotos, eles beijam depois conversam, e olhe lá quando conversam. — Revirou os olhos, soltei um muxoxo desanimada. — Mas acho que eu sei como te ajudar a tentar achar um.
era a pessoa mais legal que eu havia conhecido na vida. Mas, ás vezes ela me dava um pouco de medo, ela parecia estar sempre querendo me tirar de minha zona de conforto, o que nem sempre dava certo, como no dia que ela tentou me levar para uma balada.
— Baixa o Tinder.
Não sabia se ficava aliviada por não ser um plano mirabolante ou se a xingava por ter me indicado um aplicativo de relacionamentos. Eu sinceramente achava que baixar o Tinder era chegar no fundo do poço, não, na sombra do fundo do poço. Era um desespero total, eu era completamente preconceituosa com aquele aplicativo.
— Eu não sei não, . — Torci o nariz diante da ideia. — Não se encontra meninos assim lá.
— Lógico que encontra! Eu encontrei! — Fiquei boquiaberta.
Eu já tinha ouvido falar de pessoas que encontraram o amor de suas vidas no aplicativo, mas mesmo assim ficava com o pé atrás imaginando quantos meses ou dias aqueles relacionamentos duraram. Em minha cabeça, o melhor jeito de se conhecer alguém é de fato conhecendo, pessoalmente quero dizer. Via casais que estavam juntos há anos que se conheceram no trabalho, na escola, na balada e até por meio de amigos em comum, aquilo havia se tornado normal para mim. Mas, sabendo de como conheceu Zayn, comecei a ficar confusa sobre o que pensar, afinal eles estavam juntos há um ano e alguns meses e se davam extremamente bem.
— Mas...
— Só tenta, ok? — Suspirei assentindo. — Vá tomar o seu banho que estou te esperando na sala para instalar e arrumarmos o seu perfil juntas.
Fui tomar meu banho que deveria ter sido relaxante, mas havia se tornado uma briga mental comigo mesma. Eu tinha um problema enorme com meu orgulho, odiava dar o braço a torcer, parecia que eu estava levando um tapa na cara dado pela vida apenas por ter achado alguém com bons argumentos para me fazer mudar de ideia sobre algo. Eu parecia minha avó, rabugenta, e aí de quem discordasse de mim.
— Primeiro de tudo: Conectar-se ao Facebook. — Arregalei os olhos de imediato. — Não, Sa, ninguém do Facebook saberá que você tem Tinder.
— Ok, e o que eu faço agora? — me olhou como se fosse óbvio. E era. O aplicativo me pedia informações minhas para completar meu perfil. O problema era que eu não sabia me descrever. — O que eu escrevo!
— Sei lá, coloque algo que você acha que vá atrair o menino que você tanto procura. — Deu de ombros.
— Acho melhor não. — Disparei receosa.
— É, melhor eles gostarem primeiro do que vão ver, depois você joga a bomba atômica que é essa sua personalidade. — Lhe bati rindo de sua piada. — Funcionou para mim, e é mais fácil, coloca o básico do básico. Vai instigar a curiosidade dos boys. — Sorriu maliciosamente fazendo-me revirar os olhos.
Meu Deus, onde eu estava amarrando o meu burro.
"Uma brasileira recém chegada|
— Que tal me mostrar o seu lugar favorito de Londres? Eu adoraria conhecer a cidade do seu ponto de vista. — A encarei com a testa franzida. Não parecia o tipo de coisa que eu falaria para alguém. Mesmo assim, digitei o que ela ditou.
"Uma brasileira recém chegada.
Que tal me mostrar o seu lugar favorito de Londres? Eu adoraria conhecer a cidade do seu ponto de vista. "
A encarei esperando mais alguma sugestão.
— Só isso. — Respondeu simplesmente.
Como que alguém iria gostar de mim sabendo apenas minha nacionalidade, meu primeiro nome e minha idade? Se eu escrevesse minhas características iriam me achar uma estranha, eu gostava de ser curta e grossa, já deixar avisado que eu era péssima em paquera e que era tão encalhada que faziam dois anos que não beijava alguém. Mas eu afastaria todo e qualquer candidato. Afinal, para eles, ter dezoito anos e ser encalhada era sinal de que tinha algo errado comigo.
— Agora me dê aqui seu celular, vamos ver que fotos vamos colocar. — Fuçou minha galeria por algum tempo, fez caras e bocas em reprovação. — Você não tem nenhuma foto de corpo inteiro?
Minhas fotos eram todas do mesmo jeito, sorrindo e da cintura para cima, não era por querer, eu só não sabia e nem tinha paciência para tirar fotos diferentes. Lembrei-me de uma que não era tão antiga, tirada no espelho do banheiro do shopping, estava de cropped e uma calça cintura alta, até que estava bonita.
— Essa! — Sorriu entusiasmada. — Vamos colocar uma de rosto para eles não repararem apenas no seu corpinho. — Riu.
Não a acompanhei na risada. colocou a minha foto de corpo de perfil, havia a segunda, mas eu tinha quase certeza que ninguém passaria para o lado para ver a outra. Não queria alguém que gostasse apenas do meu corpo. Mas deixei aquela, por hora.

(...)


Levei os três pestinhas para comer fora, já eram cinco da tarde e pelo o que parecia a governanta não havia feito compras porque tinha sido demitida. Confesso que havia ficado com medo de ser a próxima. Ultimamente andava vendo o Sr. transitar pela residência preocupado, quando estava em casa se trancava em seu escritório, quando estava viajando com sócios e clientes quase não ligava para casa, eu só conseguia ligar aquele comportamento á uma crise na empresa. Por outro lado me tranquilizava ver Louise não demonstrar nada, e a Chanel caríssima que ela havia adquirido me deixava com dúvidas sobre minha própria teoria. Ela talvez poderia ter sido a responsável pela demissão da moça, Louise andava olhando torto para a governanta, que estava na casa desde que Noah nasceu.
Não fomos de carro daquela vez, aquelas crianças precisavam andar um pouco, tomar um sol, ver pessoas desconhecidas e interagir com elas. Temia que eles crescessem sem conviver com pessoas de classe diferente, via o estrago feito pelos pais deles todas as vezes que via Elle sair da escola e levar consigo algumas amiguinhas para casa, eu preferia manter distância de algumas delas de tão esnobes que eram.
Eu tentava fazê-los sair, até deixei o portão aberto uma vez, os mandei irem para a calçada, mas os três não saíram nem no quintal. Elle preferia mil vezes ficar no quarto pintando e desenhando, Noah tinha seu vício com a TV e seus desenhos animados e Brian não desgrudava os olhos do celular, quando descarregava ia para o tablet, quando a bateria acabava, ia para o videogame.
Sempre me perguntei se a mãe deles nunca teve a preocupação de tentar não deixá-los mimados e mal acostumados, mas cheguei a conclusão de que ela simplesmente não ligava! Para ela era mais fácil lhes dar o que eles queriam do que lidar com os três. Parecia que suas únicas funções eram ter dado a luz e repreender seus erros com castigos e julgamentos. E olhe que estávamos falando de duas crianças e um bebê, não havia uma conversa para explicar o motivo do castigo, ou pelo menos ensinar o certo. Eu não queria nem ver quando eles crescessem.
Achava os castigos tão desnecessários que estava dando chocolate a Brian pela segunda vez, não adiantava apenas priva-lo de algo se ela não estaria com ele caso Brian fizesse algo errado outra vez. Não, ela não conversaria com ele sobre sexo quando chegasse a hora, muito menos o pai, pelo visto ele teria que aprender sobre com os amigos. Pensar que eu não estaria mais com eles quando o intercâmbio acabasse quebrava meu coração em mil pedaços, só me fazia tentar ao máximo ensina-los a se virar sozinhos no futuro.
— ... E então, São Valentim foi preso e condenado à morte, porque os casamentos eram proibidos pelo imperador. — Elle terminava de ler a história que lhe foi contada na escola.
14 de fevereiro estava se aproximando, era meu primeiro Valentine's day, e só de pensar que dia 12 de junho iria ter que "reviver" toda a melação do dia dos namorados brasileiro nas redes sociais já me batia a carência.
— Eu nunca tinha ouvido essa história. — Apoiei meu cotovelo na mesa do Starbucks em que estávamos. — Sempre tive curiosidade em saber quem era o tal Valetin que recebeu uma data tão importante em sua homenagem. — No brasil, chamamos de dia dos namorados mesmo, e não comemoramos no mesmo dia que vocês.
Mastigava meu brownie enquanto espiava o que Brian tanto pintava com o lápis de cor vermelho, descobri ser um coração e prendi o riso. Quem diria, tínhamos mais alguém comemorando o dia dos namorados pela primeira vez. Assim que percebeu, fechou seu caderno dando um gole grande em seu chocolate.
— Quer ajuda com o seu cartão, Sa? Comprei glitter rosa mas sobrou muito. — A loirinha me mostrou seu potinho ainda cheio.
— Ela não tem namorado, El. — Brian riu.
— É, Elle, eu não tenho um, mas o Brian deve querer um pouco para o que ele está fazendo. — Sorri para o garoto, que bufou disfarçando. — Mas você vai dar para quem o seu?
— Para o papai. — Suas bochechas ficaram rosadas me arrancando um leve riso.
— Eu posso te ajudar a fazer uma máscara de carnaval. Quando eu tinha a sua idade, era isso o que eu estava fazendo na escola nessa época do ano.
— Que legal! Eu quero!
— Eu quero! — Noah repetiu a frase da irmã com a mesma empolgação.
Ele adorava ajudar a irmã a pintar desenhos que ela trazia da escola. Estava louco para entrar também, porém ainda era novo demais.
— Como vocês comemoram o carnaval? — Brian deu o braço a torcer e entrou na conversa.
Meu celular bipou chamando minha atenção, eu havia acabado de dar mais uma mordida em minha comida e mastigava antes de responder a pergunta do garoto. Era uma notificação do Tinder, eu havia ficado o domingo inteiro naquele aplicativo maldito, estava viciada! No fundo era até divertido "conhecer" pessoas totalmente diferentes de mim apenas lendo seus perfis.
Haviam algumas combinações com alguns garotos, eu tinha dado pouquíssimos likes. Só dava quando o jeito da pessoa combinava de alguma forma com o meu, séries, páginas curtidas no Facebook, artistas que ouve no Spotify, e nem sempre apareciam pessoas com tais gostos. Meu coração se acelerava sempre que eu recebia algo do Tinder por ninguém ter falado comigo ainda, e eu tinha medo do que podia acontecer se alguém falasse. Era idiota, eu sabia daquilo, mas não deixava de sentir aquele receio todo.
I'ts a match!
"You and have liked each other."



Capítulo 4. First Conversation

Me assustei ao lembrar-me de quando dei like no tal , havia sido tão despretensiosamente que eu não esperava que fosse haver uma reciprocidade. Eu tinha que admitir, tinha uma mania feia de me inferiorizar, ver um cara bonito demais e pensar que ele nunca me olharia de volta, e levava aquele comportamento comigo para o Tinder. Havia dado like nele e em tantos outros deuses gregos que me apareceram apenas por acha-lo maravilhoso. Foi como se eu dissesse "Está de parabéns, hein", só que sem ele saber.
O susto só não foi maior porque eu já previa que ele seria apenas mais um nas minhas poucas combinações ali, eu não tomaria iniciativa, e , assim como os outros, também não.
— As pessoas costumam se fantasiar e ir para as ruas, onde eles fazem uma espécie de festa.
— Nossa! É tipo uma festa de Halloween ao ar livre! —Ri com a fala de Elle.
É, só que sem os doces e com o dobro de travessuras, como beijar mais de dez desconhecidos num dia só, por exemplo.
— Sim, só que eles usam fantasias mais coloridas e engraçadas. As festas duram uma semana inteira, é um feriado.
— Uau! Ficar uma semana sem ir a escola! — Brian exclamou.
— Quem vê até pensa que você não gosta de ir para ver sua chush. — Zombei deixando-o vermelho como um pimentão.
— Você ia na festa, Sa?
— Não gostava muito de festas daquele tipo. — Respondi Noah, que prestava atenção na conversa enquanto pintava um desenho.
Nunca havia dado uma chance ao carnaval, para mim não tinha graça beber todas e sair pegando meio mundo ao som de axé. Depois que desembarquei em Londres pude perceber que, apesar de ter muito orgulho de ser brasileira e de amar meu país, eu parecia mais uma britânica no meio das outras, se estivesse de boca fechada, é claro.
Fisicamente eu não me encaixava no estereótipo de brasileira por lá, não era nem um pouco bronzeada, muito menos tinha um corpão. Ah, e se me pediam para sambar eu dizia a verdade, que eu não sabia. Era difícil para alguns gringos receber a informação de que nós não sambávamos 24 horas por dia. Apesar de tudo, eu não os julgava, também tinha pré conceitos de britânicos, achava que todos os garotos de lá eram verdadeiros príncipes e já esbarrei em alguns sapos.
— Arrumem suas coisas, está ficando tarde já. — Levei o pequeno ao banheiro e quando retornei os dois já estavam prontos para irmos.

(...)


Cheguei em casa encontrando na mesa jantando enquanto lia um livro qualquer sobre psicologia. Lhe cumprimentei indo rápido até o banheiro, estava apertada e havia passado um sufoco e tanto no ônibus de volta para casa. Levei meu celular junto de mim, claro, era minha distração em momentos como aquele, assim como antigamente me distraia contando os azulejos da parede ou lia algum rótulo de shampoo.
Meu celular bipou enquanto eu checava meus emails, era o Tinder.
te enviou uma nova mensagem.
: "Oi"
De olhos arregalados praticamente joguei o celular sobre o mármore da pia e me apressei em me ajeitar para sair do banheiro, lavei minhas mãos rapidamente e peguei o aparelho com elas ainda molhadas indo correndo até .
! ! Tem um garoto falando comigo! — Surgi na cozinha assustando-a.
é só um oi, que desespero, eu hein. Para quem não queria você está animada demais com o aplicativo, é só responder de vol... — Falava com o meu celular em mãos, viu a mensagem e clicou na miniatura da foto de , entrando em seu perfil. — Meu Deus do céu, que homem lindo é esse? — Exclamou de boca aberta fazendo-me rir de todo o seu discurso.
— Está vendo? Não é só um garoto, ele é maravilhoso! — Sorri abobada para a segunda foto que passou na tela.
Não era um exagero meu dizer que ele parecia mais uma miragem do que uma pessoa normal. A primeira foto estava em branco e preto, o que me dificultou ver a real cor de seus olhos, que mais pareciam duas esmeraldas, os cabelos castanhos e sedosos e o sorriso aberto, dentes brancos e perfeitamente enfileirados acompanhados de lábios rosados e um par de covinhas nas bochechas.
— Responda logo! — Àquela altura já havia largado o livro e a comida de lado, tinha me puxado para sentar na cadeira ao seu lado.
: "Oi!"
— Esse ponto de exclamação não me faz parecer desesperada? — Cocei a cabeça encarando-a indecisa.
— Não seja boba, ! Garotos não ligam para isso, além do mais ele já deve estar mais do que acostumado com desesperadas. — Rolei os olhos diante a sua fala.
— Então é melhor eu nem tentar, não quero garotos que são rodeados de garotas, não vai dar certo... — Não me dando tempo de terminar meu raciocínio, o celular notificou uma nova mensagem.
: "Tudo bem?"
— Responde! — Ás vezes tinha a impressão de que era surda, ou apenas me ignorava quando eu falava algo que ela não concordava muito.
: "Tudo sim
E você?"

Eu sinceramente não sabia o que falaria depois que todas aquelas formalidades a acabassem. Também pudera, eu nunca havia chegado naquela parte! Enquanto não me abordavam eu estava tranquila, mas eu sabia que uma hora ou outra alguém iria querer conversar comigo. Até porque era daquele jeito que se combinava encontros.
: "Estou bem."
Ele perguntou de onde eu era, quando respondi me disse que fazia faculdade em Oxford, uma cidade a 95 km de Londres, mas que pretendia voltar a cidade natal assim que se formasse. E a conversa acabou ali.
— Puxe assunto, oras! — Me repreendeu assim que eu lhe mostrei o fim de nossa conversa.
Estávamos deitadas no sofá vendo pela décima vez um episódio repetido de Friends, que era como Chaves para mim, não importava quantas vezes eu assistia ou se eu já sabia as falas de cor, sempre riria das mesmas coisas.
— Você sabe que não sou boa com isso. Se ele quiser, que puxe assunto. — Larguei o celular na mesinha de centro e voltei a assistir a TV.
Antes de ir dormir, escovava os dentes quando recebi outra notificação.
: "Conte-me mais sobre você, brazilian girl."
A mensagem veio acompanhada de um gif engraçado, era uma loira dando uma piscadela sedutora. Gargalhei com a boca cheia de pasta de dentes. adentrou o banheiro olhando-me estranho. O mesmo olhar que minha mãe tinha quando me pegava rindo sozinha.
— Ele é engraçado. — Dei de ombros e ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas.
com certeza estava me julgando. Ela era completamente a favor das mulheres tomarem iniciativa também, eu concordava plenamente, não achava que aquilo era só papel do homem, porém, nunca tinha tido coragem de chegar em um garoto ou coisa do tipo. No fundo, estava feliz por estar tentando.
: "Você é engraçado.
Gostei de você."
Mordi o lábio incerta se deveria ter dito aquilo ou não.
: "Obrigado. Você é a primeira aqui que riu dos meus memes."
Você é a primeira.
Eu tinha plena ciência de que ele devia estar falando comigo e com mais outra garota, e que devia ter falado com várias outras antes de falar comigo, mas eu não sabia explicar, apenas tinha sentindo-me incomodada. Talvez eu não estivesse acostumada a flertar sem interesses maiores. Algo que eu deveria aprender logo, principalmente tratando-se do Tinder.
: "Bom, eu nunca sei falar sobre mim, acho que percebeu pela minha descrição super resumida, né?" Coloquei alguns emojis de risada antes de voltar a escrever. "Eu sou tímida demais, e, sei lá, gosto de conversar sobre tudo."
Quase bati em minha própria testa, que tipo de pessoa fala aquilo de si mesma? Ele devia estar pensando que eu me escondia das pessoas com aquele meu tímida demais. Eu não me considerava mais tão tímida, já havia sido do tipo que se escondia, mas amadureci com o passar dos anos e passei a não ligar tanto para o que os outros falavam ou pensavam de mim. Mas, por outro lado, eu era um poço de timidez quando se tratava de garotos. Quando ficamos a fim de alguém, ás vezes o que a pessoa pensa sobre você importa.
: "Hum... Entendi."
Meus ombros caíram depois daquilo. Saí do banheiro dando boa noite a , que tomava banho dentro do box, e fui me deitar. Era oficial, tinha acabado ali. "Hum", "Ok", "Ah, sim", "pois é" e "Haha" colocavam um fim em qualquer conversa. Ajeitei meu travesseiro e ouvi o celular bipar na cômoda.
: "Então quer dizer que você é daquelas que fala pelos cotovelos"
: "Que calúnia! Eu não sou uma matraca" Digitei ainda rindo e estranhando a sensação boa que tomava conta de meu corpo.
: "Não era para ser uma ofensa, a não ser que você fale muita merda." Fiquei boquiaberta com o que li.
: "Você é um pouco sincero demais." Ele me respondeu com risadas, o que me deixou feliz, pelo visto eu estava agradando.
: "Era brincadeira, tá? Gosto de brincar com as pessoas."
: "Também gosto, apesar de ás vezes me segurar por não saber muito bem como vão reagir."
: "Quer me passar seu número? Não gosto muito de conversar por aqui."
Meu coração se acelerou da mesma forma que reagia quando o celular me notificava das mensagens de . Tirei um print e mandei para , que já estava no quarto ao lado. A tecnologia estava me acostumando mal com toda a comodidade de não ter que ir até a pessoa próxima de você para falar com ela.
: "Hum... Pediu seu número! É assim que começa."
Ri de sua mensagem confirmando minha suspeita de que aquilo era algo muito bom, significava que ele queria prolongar a conversa. Lhe passei meu número esperando ansiosa para que ele me chamasse no WhatsApp. Após algum tempo, percebi que ele talvez tivesse dormido, e ao julgar pela hora eu também deveria estar.
Quando ia fechar os olhos o celular bipou, fazendo-me pegar o aparelho com rapidez. Até eu me assustava com meu comportamento. Conversamos por horas sobre assuntos banais, falamos sobre signos, apesar de não sabermos nada sobre o assunto, falamos nossos filmes favoritos, comidas favoritas, falamos sobre sonhos e fomos de fato sonhar enquanto dormíamos lá para ás três da manhã. teve que ir, no dia seguinte iria retornar para a faculdade.
Havia me esquecido de perguntar o que ele cursava, mas estava tudo bem, afinal eu poderia perguntar a no outro dia ou na semana seguinte. Sentia algo bom dentro do peito, estava feliz e aliviada por não ter começado a conversar com um babaca, afinal, eu estava no Tinder. Cai no sono, mas, se dependesse de mim, conversaríamos até o amanhecer de tão boa que estava a conversa.

(...)


— Che... guei. — Fechei a porta de entrada casa.
A sala estava silenciosa, assim como a cozinha, o segundo cômodo mais frequentado da casa. Retornei indo subir as escadas, vendo a mochila de Elle sobre o sofá, avistei o Sr. e Sra. descendo as escadas, como sempre apressados. Ele falava ao telefone e passou reto por mim, ajeitando sua gravata azul, já sua mulher parou no último degrau.
, querida, não se esqueça da consulta de Noah, hoje ás duas. — Assenti ainda procurando algum sinal de vida das crianças. Louise foi até a porta e desapareceu tão rápido quanto o marido.
No meu primeiro dia ali, tive a impressão de que os dois estavam fugindo da obrigação de ficar com os próprios filhos, fugindo literalmente, saindo praticamente correndo. Tinha feito um teste numa noite de sábado, o casal iria sair para jantar e me contataram para ficar com seus filhos por algumas horas até que eles retornassem, lembro-me de ouvir Louise comentar que antes eles chamavam babás aleatórias com um aplicativo famoso, mas na maioria das vezes elas desistiam de ficar por mais dias.
A porta se fechou e eu me vi sozinha num lugar desconhecido, o menor deles chorava incessantemente, a menina estava emburrada com algo e se negava a falar, e o mais velho, nem na minha cara olhava, juro que pensei seriamente em imitar o casal e correr porta a fora.
Com o tempo consegui me adaptar as diferenças de cada um, os pais não sabiam, mas tinham três crianças com personalidades fortes, até mesmo Noah tinha um modo de agir e pensar característico, e ele só tinha cinco anos. Eu enxergava aquilo como uma qualidade incrível, mas a mãe deles discordava, e tentava a todo custo fazê-los mudar seus jeitos. Louise queria que os filhos agissem como robôs, que falassem e pensassem como ela e o marido.
Cruzes!
Já as crianças se acostumaram com minha presença, acho que eles estavam cansados de ter cada dia uma mulher diferente frequentando sua casa e ainda por cima cuidando deles. Noah, Elle e Brian precisavam ter alguém para ter um vínculo afetivo, e com o passar dos dias em que estive naquela casa percebi que era eu quem teria que criá-lo. Fui me aproximando aos poucos e quando vi já tinha a amizade de Elle, por ela sera única menina, Noah foi o mais fácil de me apegar, já Brian era duro na queda, tanto que mesmo depois de tanto tempo juntos ele não dava o braço a torcer.
Mas ele gostava de mim, não demostrava, era rude e me fazia passar nervoso, mas no fundo, bem no fundo ele gostava. Ou eu estava me iludindo mesmo.
— O que aconteceu? — Suspirei encostando-me no batente da porta.
Os menores estavam em cima da cama de Brian, que se encontrava debaixo das cobertas. Me perguntei como era possível eu estar presenciando uma cena daquelas. Como Brian ainda não havia jogado os irmãos para fora de sua cama? Como ele ainda não tinha gritado com os dois até que eles saíssem de seu quarto "A prova de irmãos"?
— Ele está dodói. — Noah escorregou desajeitadamente pelo colchão e correu até mim, pegando-me pela mão e puxando-me até a cama.
Franzi o cenho. Mas a mãe deles não tinha me dito nada. Ou será que ela não tinha visto? Aquela história estava muito mal contada. Me aproximei e desci Elle, puxando as cobertas em seguida. Ele vestia o uniforme azul do colégio, assim com a irmã.
— O que você tem, Brian?
— Ele saiu mais cedo da escola hoje, papai teve que ir busca-lo. — A menina contou.
Eu já imaginava o humor do Sr. naquela manhã, deveria estar péssimo, mais do que já era. Ele sempre deixava nítido o quanto odiava sair da preciosa rotina dele, e ter que buscar Brian era algo que ele não devia ter gostado muito de fazer. Mas foi preciso, já que eu não estava lá. Ficava naquela casa mais tempo do que no apartamento onde de fato morava. Entrava na hora do almoço, quando os filhos mais velhos retornavam da escola, e permanecia até ao anoitecer, quando os pais saiam do trabalho.
As manhãs na residência dos eram completamente desconhecidas por mim, agradecia silenciosamente por aquilo, os cômodos quando ocupados pelo casal ganhavam um ar pesado. Sempre que eu chegava a aquela casa havia um problema a ser resolvido, e sempre era recorrente de uma discussão interna que o Sr. e Sra. tinham com as crianças antes de minha chegada.
Eu só sabia que todos acordavam muito cedo. A governanta era responsável por acordar, arrumar as crianças, e coloca-los no transporte escolar. Noah geralmente dormia até mais tarde, e quando despertava era responsabilidade da mesma até que eu chegasse. Acho que ela agradeceu a Deus por ter sido demitida, fazia duas funções e ganhava apenas por uma. Mas, mesmo assim, ela não tinha todo o trabalho que eu tinha, afinal, ela cuidava do Noah, o mais fácil de cuidar dos três.
Mas eles já estavam a procura de outra para substituí-la. Era o primeiro dia sem a antiga governanta e eu imaginava o caos que havia sido aquela manhã para Louise. Na certa ela deve ter colocado Noah na frente da TV quando ele acordou, apesar de ela ser a mãe dele, eu duvidava muito que ela soubesse lidar com o pequeno.
— Está quente. — O analisei após colocar a mão em sua testa e checar sua temperatura. E minha teoria de que ele estivesse fingindo já não existia mais. — Vou buscar o remédio.
Desci até o andar debaixo pensando em como o meu dia não tinha começado bem, pelo menos eu não era a única. Não que eu estivesse feliz por Brian estar de cama, mas aquilo era tão atípico, geralmente quando eu não estava em um dia bom as pessoas a minha volta estavam totalmente ao contrário.
Quando retornei ao quarto lhe dei o comprimido acompanhado de um copo de água, sabia de sua resistência com remédios de gotas, e aquela era uma das nossas pouquíssimas características em comum, eu também dava trabalho na hora de ser medicada quando criança, sem contar os escândalos já feitos na hora das injeções. Tirei as cobertas de cima dele ouvindo-o resmungar, eu não sabia direito como aquilo funcionava, mas minha mãe dizia que não podia.
Elle fazia sua lição de casa em seu quarto enquanto eu dava de comer a Noah, meu celular estava sobre a mesa, e qualquer notificação que chegava fazia meu coração quase saltar para fora. Me frustrava a cada vez que via que não era ele falando comigo. nem sequer me deu bom dia. E eu havia acordado esperando por aquilo após praticamente virarmos a madrugada conversando. Foi, no mínimo, desanimador checar meu telefone pela manhã.
Observava o pequeno loirinho sentado frente a mim, comendo e derrubando metade de tudo na mesa, eu teria que limpar, mas estava tudo bem, afinal era bom vê-lo começar a ser independente. Minha mão coçava para mandar mensagem, mas eu não o fazia, mesmo assim eu desbloqueava o celular no ônibus enquanto ia trabalhar e relia nossa conversa. Os mesmos sorrisos bobos dados quando eu recebia suas respostas eram repetidos.
Mas eu ainda tinha muito a descobrir sobre ele, e a cada vez que ele me contava algo sobre si aquela coisinha estranha que eu sentia no peito aumentava. Eu sabia que estava indo rápido demais com aquilo, mas simplesmente não conseguia frear meu corpo de sentir todas aquelas sensações novas. Talvez eu não devesse, era tão absurdo assim deixar rolar, ver o que poderia acontecer?
me apoiava, porém estava com o pé atrás, eu não a entendia, havia sido ela quem me empurrou para o Tinder. Ela dizia que era para eu ir devagar. Eu dizia que estava tentando. E falhando miseravelmente naquilo.
: "E aí, ele mandou mensagem?"


Capítulo 5. First Date?

Apesar de tudo estava feliz por mim, eu havia lhe contado sobre tudo em nosso café da manhã, e suspeitava que minha animação excessiva tinha assustado um pouco minha amiga, estava estranhando me ver daquele jeito, boba apaixonada. Eu também estava, afinal era a primeira vez que aquilo acontecia. Sentia-me uma pré-adolescente em plenos 18 anos.
: "Não! Será que ele desistiu?"
Era tanta frustração que nem metade daquela fileira de emojis chorando conseguiria demonstrar.
: "Não sei amiga, mas acho melhor não criar expectativas, vai ser muito melhor na hora de lidar com a rejeição."
Eu amava , realmente devia tudo a ela, não sabia o que faria sem tê-la para me acolher num país tão diferente do meu. Mas, como tudo tem um porém, eu odiava quando ela me tratava como uma possível paciente e me vinha com papo de psicóloga quando o que eu mais precisava era de uma amiga. Ignorei meu coração se quebrando e coloquei Noah, que já havia acabado de comer, no chão.
: "Obrigada por acabar com os meus sonhos."
Mandei risadas após aquilo. Estava rindo, mas com certeza era de nervoso.
: "POSSÍVEL rejeição, esqueci de uma palavrinha antes.
Mas de qualquer forma, disponha."

Neguei com a cabeça largando o aparelho sobre a mesa, tinha que trabalhar para não ficar pensando e pensando nele. Esperando mensagens como uma louca? O que eu havia feito da minha vida para chegar a aquele ponto?
— Está melhor? — Observei Brian sentado na cama com o tronco encostado na cabeceira. Ele estava tão calado, quieto, olhava para o nada pensativo.
Eu estava começando a ficar preocupada. Aquele não era a peste que eu conhecia. Brian apenas balançou a cabeça, fui até ele, sentando-me na beira do colchão. Após sentir seu pescoço, coloquei as costas de minha mão em sua testa e bochechas. Seus olhos azuis, antes opacos, ganharam um brilho diferente, até que começaram a transbordar. De repente, seus braços estavam ao meu redor, ainda confusa e surpresa, lhe abracei de volta.
— O que houve? — Sussurrei passando a mão em seus cabelos loiros.
ligou ontem anoite, depois que você foi embora. Eu não consegui falar com ele porque papai não me chamou, estava bravo com ele. — Soluçou ainda agarrado a mim, ele estava tão magoado que eu conseguia imaginar como estava se sentindo.
— Ele pode ligar novamente, talvez seu pai achou que já era tarde para conversar no telefone.
Mesmo sabendo que ele havia feito de propósito, o defendi. Tentei justificar sua atitude. Apesar de tudo, o Sr. ainda era o pai de Brian, portanto cabia a ele decidir as coisas relacionadas aos filhos, por mais que eu não concordasse, não poderia fazer nada. Muito menos colocar Brian contra ele, apesar de ver que o menino e o pai não tinham um bom relacionamento.
Eu sempre tomei cuidado com aquilo, me policiava ao máximo na hora de responder as crianças quando o assunto eram o seus pais. Os dois eram distantes e frios com os filhos, e apesar de eu não entender como aquilo era possível, não seria bom para os três crescerem com a mesma visão que eu tinha do Sr. e da Sra. , porque ela não era nada boa. Talvez eles perceberiam sozinhos no futuro que tiveram pais ausentes, mas eu definitivamente não seria a responsável por dizer aquilo a eles.
não vai ligar de novo tão cedo, mamãe disse que eles discutiram. Ele não veio para casa nas férias, e quer sair da faculdade.
Mesmo sem saber nada sobre o irmão mais velho de Brian, eu já imaginava o motivo da briga. Quando passei a ficar fixamente na casa, ouvi muito pouco sobre . Tudo o que eu sabia era através do menino, os pais não falaram muito sobre o filho mais velho, só soube de sua existência quando Louise o citou, dizendo que ele já estava na faculdade e que cursava direito, assim como o pai.
— Bom, eu entendo o seu pai, afinal ele ajuda seu irmão com as mensalidades, não é? Deve ter ficado realmente bravo com a decisão dele.
— A culpa não é de ! — O Brian que eu tanto conhecia se fazia presente, seu rosto ficou vermelho e as lágrimas foram secas de forma bruta pelo mesmo. — Papai o obrigou a estudar o que ele não queria! Você não sabe de nada. — Se afastou levantando-se e correndo em direção ao banheiro, batendo a porta em seguida. Suspirei indo atrás.
— Tome um banho e se arrume, vamos levar Noah a consulta. — Não obtive resposta. — Estou esperando lá embaixo, não me faça perder a paciência, Brian. Eu também não estou tendo um bom dia.
Dar banho em Noah não era lá uma tarefa fácil, eu sempre saia molhada, por outro lado, era um momento de diversão para o mesmo. Era ali, naquela banheira, onde criávamos as mais loucas histórias de sereias, piratas e tubarões. Ele era muito criativo, via filmes e adaptava tudo o que assistia para a própria aventura no banho. O pequeno nem sempre foi daquele jeito. No começo era retraído e calado, tinha vergonha de ter uma estranha lhe dando banho.
A minha infância havia sido completamente oposta a deles, considerando as diferenças culturais e econômicas, eu poderia dizer que eles tinham mais oportunidades que eu, quando tinha meus cinco, oito e dez anos de idade. Eu achava aquilo um máximo, mas também tentava inseri-los na minha realidade, quando comecei a contar histórias para Noah ele me olhava como se eu fosse uma lunática! Elle era muito tímida para, algum dia, pensar em fazer balé, para ela dançar em público era fora de questão, a incentivei em casa, no Just Dance, e depois lhe contei como a vida ficava chata quando não fazíamos algo só porque ficávamos com medo da opinião alheia. E sempre tentei incentivar Brian a praticar esportes, algum tipo de luta ou a tentar um curso diferente, mas ele ainda não tinha me dado ouvidos como os irmãos, mas eu não desistiria dele.
Enquanto esperávamos a princesa Diana se aprontar, senti meu celular vibrar no bolso da calça, assim que visualizei a notificação meu coração se acelerou. Tampei minha própria boca para prevenir caso o grito que eu segurava escapasse.
— Gente, vou no banheiro, já venho. — Corri até a porta no meio do corredor próxima a cozinha, a primeira que eu vi pela frente. Quando fechei a porta atrás de mim percebi que estava dentro da dispensa da casa. Ignorei meu equivoco e desbloqueei o celular, após respirar fundo, dei play no áudio.
: "— Oi, tudo bem por aí? ... Sei que não dei bom dia, desculpe por isso, é que saí atrasado para a faculdade, acabei dormindo demais. Estou atarefado no serviço... Mas não pense que me esqueci de você. Quando eu chegar em casa, mais tarde, eu te chamo, ok? Beijo."
Encostei-me numa das prateleiras sentindo minhas pernas ficarem bambas. Meu senhor amado, que voz era aquela? Eu devia estar parecendo uma retardada de tanto que sorria e tentava não surtar ali dentro. Estava solando fogos de artificio, parecia mais uma festa de réveillon, eram tantos motivos para comemorar. Era um alívio ver que ele não havia desistido, e um maior ainda finalmente poder ouvir a voz dele.
Na nossa conversa anterior ele havia me prometido um áudio contando como era o curso dele, mas não enviou por já estar tarde demais. Desde então fiquei curiosa para saber como era sua voz. Quando voltei ao Tinder, meu antigo vício que tinha sido completamente substituído por nossa conversa pelo WhatsApp, vi o seu perfil novamente e com mais atenção, li sua descrição. Lá dizia que tinha uma banda com uns amigos, o que aumentou milhões de vezes mais minhas expectativas com relação a sua voz.
E ele havia superado todas elas. Sua voz era rouca, grossa, e ele falava deliciosamente devagar, arrepiando-me por um simples áudio. Me peguei pensando qual deveria ser o defeito de , por que tudo o que eu conhecia dele até então, beirava a perfeição, o que me levava a crer por um segundo que ele não era real.
Trêmula e feliz da vida, tratei de responde-lo.
: "Oi! Estou bem, e você?
Sem problemas, também estou ocupada por aqui. Está bem, até mais tarde então. Beijos."

Ok, a parte em que eu disse que estava ocupada era mentira, eu poderia falar com ele ou com qualquer outra pessoa o dia inteiro. Mas ao ouvir sua voz soar tão cansada, o barulho dos carros a sua volta e parar para imaginar o quão ocupado poderia ser e me sentia mal por não ser da mesma forma, então disse aquilo.
Não era inveja. Era apenas um sentimento ruim que eu tinha comigo desde o dia em que completei meus dezoito anos, lá em outubro do ano passado.
Desde muito nova eu planejava minha vida, era muito estranho para uma simples criança pensar num futuro tão distante, eu sei. Mas, mesmo assim eu o fazia. Aos dezoito eu planejava já estar na faculdade, na época eu não sabia o que queria fazer, só sabia que era onde tinha que estar. Talvez tenha me deslumbrado demais com os filmes que assisti em minha infância, tinha plena certeza de que iria começar minha vida adulta da melhor forma possível, com direito a até um namorado. A única coisa que não estava em meus planos mas era muito melhor do que ter um namorado era aquela viajem. Mas, mesmo vivendo o sonho de morar em Londres, eu ainda me sentia frustrada por nenhum dos meus planos terem dado certo.
Parecia ser tão fácil ser adulto quando eu era criança.
Fui até minha conversa com e digitei uma mensagem rápida, afinal, havia passado tempo demais ali dentro.
: "ELE RESPONDEU!!! Disse que não se esqueceu de mim! OMG!
Mas... Ele é muito ocupado, não sei se isso é um bom sinal. Por que eu sou completamente o contrário dele amiga. Tenho medo de que isso possa atrapalhar."

— O que estava fazendo na dispensa se disse que ia ao banheiro? — Elle me encarava com uma expressão estranha, já Noah me olhava com a cabeça inclinada, não entendendo absolutamente nada.
— Olha, a noiva ficou pronta. — Avistei Brian no topo da escada e encontrei uma forma de desviar o assunto. — Vamos crianças, já estamos atrasados.
: "Huum... Alguém ficou pensando em você!
Eu discordo! Será ótimo ele ser ocupado, afinal, você também vai estar em breve não é mesmo? Vai ser bom para vocês não ficarem de muita melação o tempo inteiro. Blé."

Ri lendo sua mensagem. Sobre eu estar ocupada em breve... Bom, talvez eu tenha dado esperanças a comentando sobre o curso de publicidade na faculdade onde ela fazia psicologia. , assim como eu, gostava de fazer planos com antecedência, e eu não estar mais morando com ela daqui há alguns meses não parecia estar nos planos dela.
De qualquer jeito a saudade iria me atormentar, se eu ficasse, não sabia se seria capaz de ficar tanto tempo longe de minha mãe e de minha família. Se eu fosse, teria que me afastar das crianças e de , que se tornaram uma segunda família para mim.
Não gostava muito de ficar pensando no fim do meu tempo ali, estava tentando aproveitar aquele sonho ao máximo antes que alguém me acordasse. Ainda não sabia o que iria fazer, apesar de ter certeza que a faculdade seria algo muito bom para mim.

(...)


— Você está me deixando preocupada, parece que te abduziram, fizeram uma lavagem cerebral em você e te colocaram de volta no lugar. — Revirei os olhos e continuei a digitar. A morena sentou-se ao meu lado no sofá, bebendo seu chá.
— Eu estou normal, . Você que está vendo coisa onde não tem.
: "Tem uma teoria que diz que se as duas pessoas gostarem de azeitona, elas não podem ficar juntas."
Franzi o cenho lendo aquilo. Mas não deixei de rir, talvez estivesse certa, não tinha uma mensagem que me enviava que não me fazia sorrir de alguma forma, ele me mandava memes fazendo-me gargalhar vez ou outra. Tudo o que tinha a ver como ele fazia-me agir como uma idiota. Mas eu estava adorando ser uma idiota.
: "Você gosta de azeitona?"
: "Eu odeio."
: "Eu gosto!"
: "Era o que faltava para marcar nosso casamento. Vai ser no dia..."

Seus emojis de risada fizeram-me rir ainda mais. Infelizmente era uma brincadeira, se ele acreditava naquilo ou não pouco me importava, só de pensar na possibilidade de ter um marido daqueles eu já aprovava a ideia.
Eu simplesmente adorava seu bom humor, sempre pensei que pessoas muito ocupadas como ele eram chatas e estressadas, como o Sr. , mas não era. Combinávamos tanto naquilo, parecia que qualquer assunto renderia milhões de mensagens, todas as referências eram entendidas, bom, menos a tal teoria da azeitona, aquela eu não entendi e nem tive coragem de perguntar de onde era.
Mesmo com toda a sintonia entre nós, eu ainda tinha medo, pisava em ovos, sabia que estávamos apenas no começo, que qualquer discussão poderia tira-lo da minha vida em menos de um minuto. Infelizmente, virtualmente é muito mais fácil excluir alguém de sua vida e fingir que nunca se falaram. Eu tinha medo de perder aquilo, que eu ainda não sabia bem o que era, se estava sendo precipitada demais ou me iludindo, mas era algo que me fazia tão bem.
— Pelo visto ele é um palhaço igual a você. — Comentou quando deitei em seu colo por cima da almofada. — Se marcarem casamento serei a madrinha. É bom que você já consegue um visto fixo se casando com um britânico.
— Era sobre isso que eu queria falar contigo. — Levante-me sentando-me de pernas cruzadas ao seu lado. — , eu comentei sobre a faculdade mas não sei se vou ficar. Minha família está lá, no Brasil.
— Eu sei, mas você também tem nós aqui, Sa. Se quiser, tiro férias do trabalho, viajamos para lá para visitar sua família e você volta comigo. Pense em tudo o que conquistou aqui, nesses míseros quatro meses, e você pode muito mais! — Suspirei já sabendo onde ela queria chegar com aquilo. — Sei que ama aquelas crianças mas você pode conseguir um emprego muito melhor falando duas línguas, pode crescer mais com a faculdade, e se estiver realmente apaixonada pelo tal , pense bem se vai querer manter um relacionamento à distância com um deus grego daqueles. Os chifres não vão nem te deixar passar pelas portas! — Ri junto dela, que tinha lágrimas escorrendo pelo rosto. — Sei também que sou egoísta, mas você e eu sabemos que não estou apenas pensando em mim.
— Acha mesmo que vou dar certo com o ? — Mordi o lábio, incerta.
— Já te disse para ir devagar com ele, mas já você não me escutou agora o que nos resta é torcer para que isso tudo seja recíproco. — O celular vibrou indicando uma mensagem dele.
: "Estará livre esse fim de semana?"
Olhei para de olhos arregalados. Ela pegou o meu celular e quando terminou de ler soltou um gritinho agudo, pulamos no sofá completamente eufóricas. era a melhor amiga que eu um dia poderia ter, diferente das que eu havia deixado no Brasil, ela comemorava minhas conquistas comigo, não sentia inveja ou algo do tipo.
— Calma, calma! O que pensa que está fazendo? — Praticamente arrancou o aparelho da minha mão apagando o que eu já havia digitado. — Espere, não seja tão precipitada! Vamos nos acalmar, ok? — Ainda estávamos ofegantes pela bagunça feita, ajeitei meu cabelo normalizando minha respiração. — Escreva talvez, e pergunte por que ele está perguntando.
— Pra que? — Exclamei. — Eu vou estar livre mesmo.
, minha querida, se você aceitar de cara ele vai pensar que está desesperada, se disser não, vai achar que está se fazendo de difícil, o talvez é um meio termo, entende? Como se dependesse dele achar um lugar tão bom para te levar que vai te fazer cancelar qualquer compromisso e dizer um sim. — Ainda tinha um ponto de interrogação enorme estampado em minha testa, mas fiz o que ela instruiu, mesmo não entendendo a razão para ficar fazendo joguinhos.
: "Talvez. Por quê?"
: "É que eu estava aqui pensando... Que lugar você gostaria de ir com um garoto chamado ?"
: "Não sei... Não me peça para escolher as coisas, por favor!! Sou péssima em tomar decisões. Eu gosto de ir ao cinema, não sou muito de sair para lugares agitados demais."

— Cinema, ? Sério? Ele vai te achar uma velha de quarenta anos! — Exclamou fazendo-me bufar. — Não dá para ter um bom primeiro encontro no cinema, vai ser justo na primeira vez que vai vê-lo pessoalmente e vão ficar no escuro?
Sabia que era antiquada para a minha idade, que não saia para me divertir nem bebia ou estava envolvida em aventuras pelas madrugadas a fora. parecia ser o contrário de mim, e todas as nossas diferenças descobertas me deixavam preocupada.
: "Eu até gosto de pegar um cineminha, mas tenho planos de te levar em um outro lugar."
— Você tem sorte que é gata, porque esse aí deve ser um baladeiro nato. — Riu levantando-se e indo até a cozinha. Não sabia se agradecia pelo elogio, não tinha sentido algo bom ao ouvi-la ser tão sincera como sempre.
: "Eu e os meninos conseguimos fechar com um pub daqui para tocar nos fins de semana. Começamos neste sábado, seria bom ter você lá me dando sorte."
Meu sorriso se desfez.
: "Aí, em Oxford?
Eu adoraria ir, mas não faço a mínima ideia de como chegar até aí."

— Também não sei, Sa. Se soubesse te levaria com certeza, seria uma honra ser a responsável pelo seu desencalhamento. — A acompanhei na risada e apoiei meu queixo em minha mão, cabisbaixa.
: "Ah... Podemos marcar outro dia então, quando eu for para Londres posso dar uma fugida para te encontrar e aí iremos no cinema, vai ser meu primeiro encontro em um cinema."
: "Você pelo visto já teve muitos encontros na vida."

Mandei juntamente om risadas, para disfarçar o meu tom, talvez eu já estivesse sentindo um pouco de ciúmes, mas só talvez. Já que eu não tinha coragem de perguntar coisas sobre o passado amoroso dele, deixaria frases no ar e esperaria que ele se tocasse e suprisse minha curiosidade.
: "Sim, vou te contar que meu passado me condena um pouco, mas meus dias de glória já passaram, agora com a faculdade e o trabalho não tenho tido tempo para essas coisas."
como sempre estava certa, ela nunca errava, seu faro era aguçado, e apesar de estar namorando com Zayn, minha amiga já teve seus "dias de glória" como o próprio gostava de chamar. Não era preciso ter a experiência de para saber daquilo, ele era lindo, era óbvio que fazia sucesso entre as garotas, algo que particularmente me incomodava.
Mas eu não deixava de me sentir feliz, se ele falava comigo durante a noite depois de um dia cansativo de trabalho, queria dizer que de alguma forma me considerava alguém importante, apesar do pouco tempo de conversa. Ser inserida sem sua vida tão corrida era muito bom.
— Chegou a hora. — arregalou os olhos enquanto corria até mim, ela nunca havia feito o trajeto da cozinha até a sala tão rápido.
— Não, , eu já te disse que é melhor não! Isso é tão desnecessário.
, eu preciso fazer isso, não vou me sentir bem se não contar a ele! — Dizia afastando o celular, tentando tirar o aparelho de seu alcance.
Havíamos discutido aquilo em algum momento daquela tarde, simplesmente surtou quando lhe contei da minha ideia de contar a que faziam anos que eu não ficava com alguém.
Poderia parecer uma idiotice tremenda para as outras pessoas e até para minha amiga, mas eu tinha uma espécie de trauma que envolveu o meu primeiro beijo. Eu havia beijado o primeiro menino da minha vida aos dezesseis anos, tinha sido a última das minhas amigas, por medo. Eu sempre tive medo de não saber o que fazer na hora, temia que o garoto percebesse meu nervosismo e caçoasse de mim, que ele contasse para todos.
Eu não sabia bem o motivo daquele meu receio, mas era tanto medo que fui beijar pela primeira vez numa viajem de fim de ano, lá em outro estado, para evitar que a informação de que eu não sabia beijar se espalhasse onde eu morava.
E, depois de dois anos, eu me sentia como se estivesse prestes a dar o meu primeiro beijo novamente. conhecia bem a história, e achava que era coisa da minha cabeça, me perguntava se na psicologia existia tal diagnostico.
— Você mesma disse que era melhor eles verem minha foto antes de saber sobre minha personalidade, já é o segundo dia que conversamos, eu quero que ele me conheça de verdade. Vou travar na frente dele se eu não contar para o antes de encontra-lo!
— Ok, faça o que quiser, você tem razão. — Respirei fundo. Estávamos discutindo algo tão estúpido, eu nem deveria tê-la avisado sabendo que ela não aprovava. — Se vocês dois derem certo, e vão dar, vai ser por mérito seu e dele, eu não tenho que ficar opinando em nada. — Segurei sua mão de volta, sorrindo fraco.
— Claro que tem, . Eu confio em você, não entendo sobre homens e relacionamentos, te mostro minhas conversas porque sei que você pode me ajudar a me sair melhor com ele. Mas você sabe o quanto isso é importante para mim.
— Ei, você é incrível, não precisa de ajuda, se gostar de você irá gostar pelo o que você realmente é! Vai, conta logo para ele. — Colocou o celular em minhas mãos. — Só não digita "Eu não beijo na boca há dois anos, a propósito, vai chover hoje." entre no assunto primeiro.
: "Nunca tive meus tempos de glória, sou totalmente ao contrário."
: "Como assim ao contrário?"
: "Nunca tive um encontro na vida."

Suspirei digitando trêmula com as mãos suando.
: "Não tenho muita experiência com relacionamentos, na verdade, só beijei dois garoto na minha vida inteira, há muito tempo atrás. Tenho até vergonha de dizer isso."
E eu não havia gostado de nenhum dos dois, ocultei aquele detalhe enviando a mensagem. Pensando bem, poderia estar me protegendo de algo, para ter toda aquela resistência da parte dela. Perguntei-me se era correto contar aquilo a ele, afinal deveria estar me achando tão infantil que eu queria enfiar minha cabeça num buraco como um avestruz.
— Já me arrependi. — Fiz bico enquanto ria. Fazia a famosa cara do eu te avisei, mas para a minha sorte não abriu a boca.
: "Não acho que é algo com que deveria se envergonhar. É algo muito legal, sabe? Não se encontra muitas de você por aí.
Você deve ser muito difícil, porque você é definitivamente muito beijável."

Gargalhava alto, não sabia se era de vergonha, de alívio ou de felicidade. Talvez os três juntos. Tínhamos apenas algumas horinhas para conversarmos antes de nos despedirmos e irmos dormir juntos. Era engraçado como aquilo soava com duplo sentido. Toda aquela distância estava me deixando cada vez mais ansiosa para finalmente conhecê-lo.
: "Sou muiiito difícil, haha."
: "Menos para mim, não é?"

— Tudo bom contigo? — sorriu maliciosa ao meu lado no sofá enquanto eu me abanava sentindo um calor estranho se apossar de meu corpo.
: "Você é todo cheio de si, não é?
Não pense que já me ganhou rápido assim ;)"
: "Haha. É uma pena você não puder vir esse fim de semana.
Estou ansioso para te ver, te beijar."

Mandei alguns emojis envergonhados. Olhava para as últimas mensagens de , encarava o teclado do celular, e não sabia o que dizer, só sentir. Meu rosto esquentava a medida em que meu coração se acelerava. Pior que parecia que ele sabia o que causava em mim, já suspeitava que tinha me ganho desde a primeira conversa, mesmo que eu custasse a admitir.


Capítulo 6.I'm not your dear

Cheguei na casa dos um pouco atrasada, havia sido cerca de vinte minutos parada no trânsito por conta de um pequeno acidente envolvendo um ônibus e um carro. Não era o melhor dia para chegar àquela hora, afinal de contas, Louise já deveria estar se descabelando tento que ficar com os três filhos de uma vez, e só eu sabia como eles chegavam elétricos da escola. Era bom que ela passasse por aquilo, talvez até aumentasse meu salário.
Ao contrário do que eu pensava, vi as crianças no sofá, sentadas e estranhamente quietas. Parei na porta após fechá-la e fui até eles começando a desconfiar de que aquilo fosse um holograma de tão surreal que era a cena. Talvez depois eu perguntaria a Louise qual foi a ameaça de castigo que ela havia usado para conseguir a proeza que era fazê-los ficarem parados e calados.
- Papai mandou te avisar que quer falar com você. - Elle disse, ainda encarando a TV ligada nos desenhos animados, porém o único que realmente parecia assistir era Noah.
Após deixar minha bolsa no sofá, andei em direção ao escritório do Sr. . Sim, o homem que nem me dirigia a palavra, meu chefe, cujo o primeiro nome eu nunca soube já para evitar de me dirigir a ele de modo informal.
Não era difícil lembrar-me do pensamento que tive quando soube da demissão da antiga governanta, então era aquilo, eu iria para o olho da rua sem mais nem menos. Eu não tinha estabelecido nenhum vínculo empregatício com o casal, provavelmente sairia dali com meu último pagamento em mãos e muitas, mas muitas lágrimas nos olhos. Afinal, já tinha ficado sabendo o que o Sr. havia planejado para os filhos caso não encontrassem uma babá.
Antes de eu chegar, Louise pesquisava colégios de período integral para colocar os dois mais velhos, iriam cedo para a escola e só retornariam a noite, provavelmente cansados demais para darem algum tipo de trabalho aos pais, já Noah ficaria numa creche, porém ao entardecer seria deixado em casa pelo transporte escolar e ficaria com a governanta até que anoitecesse. Ao meu ver, aquilo era ridículo, era como se eles só os tivessem colocado no mundo, mas não quisessem educá-los ou conviver com os filhos.
Eu sabia que, mesmo tendo alguém para cuidar dos três, tudo dava na mesma considerando o fato de que Louise e o marido mal falavam com os filhos. Mas, pelo menos, eles estavam em casa, eu não achava que trancá-los num colégio seria a melhor opção.
- Agora terá que cuidar de Noah pela manhã? Para que a estrangeira serve afinal? Você a paga para cuidar dos três! - Parei no meio do corredor ao escutar a voz masculina resmungar. Torci o nariz ao ouví-lo me chamar de estrangeira, eu tinha um nome, oras!
- Se não tivesse me feito demitir aquela...
- ...Não comece novamente com isso, Louise! - A interrompeu aumentando seu tom de voz. - Você é louca? Aquilo não era motivo para demitir a mulher.
- Não a defenda! Eu não sou uma louca, George, eu vi ela se insinuar para você! - Tampei minha boca torcendo para que minha pequena exclamação não tenha sido ouvida pelo casal dentro do escritório. - Não pense que eu sou tola, sei o que vi, e se não tivesse tirado aquela vadia de minha casa te encontraria qualquer dia com ela em nossa cama!
Sua voz se calou por um segundo, um barulho foi ouvido e me fez cravar meus pés no chão para não entrar por aquela porta. Ele havia acabado de desferir um tapa no rosto de Louise, e eu não precisava ver para ter certeza daquilo. Sabia que não era certo ouvir e ficar calada, eu tinha vontade de ir defendê-la, porém estava sem ação demais para ter sororidade*.
Eu já havia visto o modo com que Louise tratava a mulher, porém nunca tinha presenciado nada entre a governanta e o Sr. , que a propósito, descobri que se chamava George. Ela usava um uniforme justo, e eu tinha entendido perfeitamente bem o motivo do tapa levado, Louise havia insinuado que o marido correspondia as investidas da empregada, o que eu não duvidava, já que estávamos falando de uma mulher mais jovem e muito bonita.
- Já te disse que não quero essa palhaçada de ciúme, eu vou embora desta casa e você sabe que eu não volto mais! - Louise soltava alguns soluços enquanto eu checava para ver se nenhuma das crianças havia me seguido ou escutado alguma coisa.
- O que você quer que eu faça? - Indagou, com a voz rouca. - Se aumentar o turno dela, terei que lhe dar um aumento.
- Que seja! Dê mais dinheiro a ela! - Não sabia se era algo para se comemorar, pelo menos não sentia vontade de fazê-lo. - E contrate outra governanta logo.
- Vou chamar aqui. - Arregalei os olhos e fui em passos rápidos até a porta, batendo antes mesmo da Sra. terminar sua frase.
- Elle disse que queriam falar comigo. - Evitei ao máximo olhar para a mulher a minha frente, preferi esperá-la secar as lágrimas e disfarçar o que estava acontecendo antes de minha entrada.
Não queria admitir, mas naquele momento tudo o que eu sentia era dó dela, e apesar de aquele ser um sentimento totalmente solidário, eu sabia que ninguém gostava de causar pena em ninguém. Eu não a conhecia direito, muito menos tinha conhecimento de suas ações, se eram boas ou não, mas mesmo que Louise fosse uma pessoa má, ela não merecia aquilo.
Mulher nenhuma merecia passar pela humilhação que ela havia acabado de passar, eu realmente esperava que aquele tapa fosse uma infeliz casualidade, porque ouvir o que ele falou e ainda apanhar deveria ser coisa demais para se aguentar sozinha, e calada. Me sentia mal, perguntava-me se aquilo era recorrente e eu não tinha percebido.
- Louise, nos deixe a sós, por favor. - Enquanto me sentava na cadeira que o homem me indicou, a vi me lançar um olhar característico, o mesmo que ela direcionava a governanta. Me bateu o medo real de ser demitida.
- Vou cuidar das crianças, seja breve, estamos atrasados já.
A porta foi fechada e eu respirei mais fundo, parecia que o ar me faltava ali, sozinha numa sala com ele. Nunca tinha me sentindo confortável na presença dele, na verdade, não me sentia acolhida enquanto o casal estava em casa. Eu sabia que a casa era deles e não fazia o menor sentido eu não gostar deles lá, mas era daquele jeito que eu me sentia.
- Então...
- , - O interrompi arrependendo-me logo depois. - meu nome é .
- . Como pode ver não tenho muito tempo para negociar, mas sei que você provavelmente irá aceitar de bom grado qualquer oferta minha, afinal não quer perder seu emprego, não é? - Assenti ainda respirando fundo. Ali eu confirmava que realmente não deveria comemorar aumento nenhum, o Sr. era um pão duro de mão cheia, principalmente quando se tratava de remunerar seus funcionários. Suspeitava que aquele fosse seu segredo para ser bem sucedido. - Então Louise te informa o que eu decidir depois, só queria lhe comunicar que daqui para frente você chega às nove.
- Mas, Sr. , Elle e Brian não...
- Eles vão começar a se aprontar para a escola sozinhos, pelo menos até contratarmos uma substituta para Vivian. - Coçou levemente a barba distraído com alguns papéis em sua mesa.
Naquela manhã, eu estava finalmente começando a saber dos nomes das pessoas com quem convivia há meses, a tal Vivian me dirigia a palavra muito pouco, apenas para avisar quando alguma refeição estava pronta. No restante do dia ela sumia por entre os corredores e quartos da casa, eu conseguiria adivinhar muito bem o que ela tanto fazia no closet da Sra. , um dia cheguei até pensar em procurá-la no Instagram, apenas para ver ela passando vergonha tirando fotos e ostentando coisas que não lhe pertenciam.
- Só preciso que cuide de Noah, a senhora não sabe como acalmá-lo pela manhã e eu preciso de silêncio na casa para programar o meu dia. - Seria engraçado se não fosse absurdo, ouvir da boca do pai que ele não suportava o próprio filho. Perguntei-me como ele achava que uma criança de cinco anos deveria agir. - Você pode fazer isso... - George finalmente ergueu seus olhos prepotentemente azuis para me encarar, meu sangue fervia a medida em que ele conferia meus seios cobertos pelo sutiã e marcados pela blusa preta justa que eu usava. - Querida?
Arquei minhas sobrancelhas. Eu não acreditava no que havia escutado. Não sabia nem o meu nome e de repente eu era "querida?". Àquela altura eu já deveria estar vermelha de raiva, o que deve ter sido facilmente interpretado como outra coisa pela mente nojenta do homem a minha frente, que soltou uma risada baixa. Certamente pensou que me deixou vermelha de vergonha.
- É só isso, Sr. ? Preciso ir, tenho que dar o almoço das crianças. - Levantei-me atraindo seu olhar para minhas coxas, devidamente cobertas pela minha calça jeans. Eu já estava começando a me estressar.
Minha fala tinha deixado bem claro minha função naquela casa, cuidar dos filhos dele. Somente aquilo.
- Ah, claro, está dispensada, . - Ignorei seu sorrisinho e sai porta a fora, meus punhos cerrados estavam loucos para encontrar algo que eu poderia socar a fim de extravasar meu ódio.
Quem aquele babaca achava que eu era? A Vivian? Louise estava certa, e mesmo estando estampado na cara do marido sua infidelidade, ela se passava como louca, era coisa da cabeça dela. Mas porque uma mulher bem sucedida como ela se prestava a um papel daqueles? Não era pelos filhos, já que aquilo parecia ser apenas um detalhe para ambos, só poderia ser pelo dinheiro então.
Era triste ver que alguém poderia chegar a aquele ponto apenas por medo de ficar alguns milhões mais pobre.
- Elle, vá para o banho, tem balé hoje. - A menina se levantou me obedecendo, subiu sendo seguida por Brian, ambos de uniforme escolar e com suas mochilas em mãos.
Ainda me intrigava o fato de Louise conseguir deixá-los quietos no sofá. Encarei Noah e tive a certeza de que ele não sairia dali enquanto eu estivesse ocupada na cozinha, afinal estava passando seu desenho favorito. Meu celular bipou indicando uma nova notificação, coloquei a mão no bolso pronta para pegá-lo quando fui surpreendida pelo casal adentrando a sala.
Tive que disfarçar, não poderia simplesmente sacar o celular e responder mensagens, não na frente deles, aquilo acabaria com minha pose de profissional que eu insistia em tentar manter. Para falar a verdade, eu sabia muito bem meu destino caso o Sr. e a Sra. soubessem o que acontecia naquela casa quando eles se ausentavam, seria demitida, e sem alarmes falsos daquela vez.
Não que eu fizesse algo de errado com as crianças, longe daquilo, eu apenas os deixava serem crianças! Tudo bem, burlava alguns castigos vez ou outra, mas fora aquilo eu tentava ao máximo fazê-los levar uma vida normal, fazerem coisas que pessoas da idade deles faziam.
Não conseguia me sentir mal por enganá-los todos os dias, afinal, desde que cheguei naquela casa, só pude ver mudanças positivas. Não era mais apenas pelo salário que eu estava ali.

: "Bom dia"
: "Bom dia!"

Era tão raro eu desejar bom dia a alguém pelo celular que chegava a parecer estranho estar fazendo aquilo. Mas me fazia dizer coisas que eu normalmente não diria. Eu estava apaixonada, aquela era desculpa de para aquilo, e tinha que ser obrigada a concordar.
Mais raro que digitar e mandar uma simples mensagem, ou respondê-la rapidamente, outra coisa que eu não fazia antes dele era me apaixonar. Tão rápido principalmente. A verdade é que eu nunca havia ficado daquele jeito por ninguém e poderia se orgulhar de ser o primeiro a conseguir tal feito. Se ele soubesse, claro.

: "Dormiu bem?"

Aquela pergunta, ai, ai...
Eu encarava aquela pergunta e o famoso "se cuida" como uma clara demonstração de cuidado, de carinho. Não sabia se era o meu lado iludida se aflorando ou se só eu achava aquilo, só sabia que adorava quando ele me perguntava aquilo. Qualquer pergunta que me fizesse eu adoraria responder, só de vê-lo interessado cada vez mais em mim fazia-me alimentar mais ainda minhas esperanças de que nós poderíamos dar certo juntos.

: "Sim, e você?"

Eu poderia escrever um texto, um livro de quinhentas páginas apenas dizendo tudo o que andava imaginando antes de enfim cair no sono ainda pensando nele, então não, eu não andava dormindo muito bem por não estar indo dormir cedo como de costume, mas eu não me importava com alguns minutos de sono roubados. Desde a conversa sobre o nosso encontro me peguei pensando sobre aquilo, sobre como seria vê-lo pessoalmente pela primeira vez.
Acho que minha reação diante dele seria imprevisível, só de imaginá-lo parado, na minha frente, sorrindo como nas fotos para mim, já me fazia querer sorrir como uma idiota. Não seria nenhuma novidade se eu começasse a rir descontroladamente de nervoso se nos encontrássemos. Algo me dizia que minha timidez excessiva com garotos, mais uma vez, seria um grande empecilho no começo da conversa. Se não me achar completamente esquisita como os outros já será um grande progresso.
Nossa conversa fluía bem, na medida do possível, e era ali que morava o perigo. Não nos conhecíamos pessoalmente, era óbvio, e apesar de saber que irei morrer de vergonha quando finalmente estivermos cara a cara, eu tinha a certeza de que após me acostumar com sua presença o papo ira fluir milhões de vezes melhor do que pelo celular. Mas eu tinha medo de perder o interesse antes mesmo que pudéssemos nos ver.
De repente já estávamos no carro, nos aprontando para ir de novo ao balé. Daquela vez fomos todos preparados para não morrer de tédio, Elle poderia se considerar bastante importante e amada por nos arrastar para aquela seção de tortura lenta e dolorosa toda semana.
A verdade era que a menina era sim muito querida, até por Brian, que ás vezes se mostrava cuidadoso com e irmã mais nova, principalmente na escola onde os dois estavam "sozinhos". Já Noah adorava os dois, apesar de Brian não demostrar interesse em brincar com ele, Elle estava sempre o convidando para o chá da tarde imaginário junto de seus ursos e bonecas.
O mais velho havia levado três HQs do Flash para ler enquanto esperávamos, já Noah levava o tablet com a bateria completamente carregada consigo para assistir desenhos e os vídeos bizarros de histórias contadas por massinhas de modelar no Youtube. Eu levava comigo um pacote de bolachas, meu celular e a esperança de que e eu conversaríamos pelo resto do dia. Caso fosse abandonada, tinha um livro na bolsa. Éramos uma espécie de esquadrão suicida, mas toda a felicidade de Elle compensaria nossa morte, que parecia durar mais do que apenas uma hora.
Dramático, eu sei.

: "Sempre me esqueço de te perguntar, do que você trabalha?"
: "Sou babá, consegui o emprego há uns meses."
: "Legal. Qual a idade da criança?
Veio do Brasil como Au pair?"
: "Não, consegui o emprego quando já estava aqui.
Das crianças, você quis dizer, haha. O mais velho tem dez, a do meio oito e o menor cinco."
: "Wow! Bom saber que consegue cuidar de três, porque pretendo ter cinco filhos."

Gargalhei tão alto que chamei a atenção da recepcionista. Como se ela já não estivesse achando estranho o bastante ter três pessoas praticamente acampando na sala de espera.

: "OMG! Eu acho melhor procurar outra mulher para ter filhos, eu não dou conta dos três que cuido, imagine de cinco!"
: "Não, escolhi você para ser a mãe dos meus filhos, seus genes combinados com os meus vão resultar em crianças lindas."

Abaixo, tinha um GIF da Rihanna sorrindo de forma sugestiva.

Continuava a rir, atraindo um olhar de repreensão de Brian, que queria continuar a ler sem barulhos em sua volta, o que era meio impossível com a música lenta e os gritos da professora de Elle ao fundo.
Eu sabia que aquilo tudo era uma grande brincadeira, mas nem por isso meu coração deixava de bater rápido em reação. sabia como brincar com meus sentimentos, parecia fazer aquilo de propósito. E não era a primeira vez.

: "Então é só pela minha beleza?"
: "Claro!
Que não, haha.
Ok, cinco é demais, mas uns três está ótimo. Você pode até escolher os nomes de dois deles, mas uma das meninas tem que se chamar Sophia."
: "Caraca! Sophia é o nome que eu quero colocar na minha filha."
: "Está vendo? Não pode ser apenas coincidência, é o destino, minha cara ."

Mandei risadas sem saber direito o que falar. Se era o destino ou não pouco me importava, na verdade eu não acreditava naquela baboseira toda, só conseguia achar engraçado termos o mesmo nome para uma filha, que nem sabíamos se iriamos ter e estarmos discutindo quantos filhos teríamos sem nem ter a certeza de que ficaríamos juntos.

: "O que te trouxe a Londres se não foi o trabalho?"
: "Problemas. Eu precisava sair para espairecer e tive a oportunidade de vir para cá, fugir do que me fazia mal."
: "Então é temporário?"
: "Sim, não posso ficar muito tempo por aqui, meu visto só me permite mais alguns meses."

Após digitar e enviar a mensagem, peguei-me olhando a minha volta. Elle estava fazendo a coreografia na barra, de frete para o espelho, e eu só conseguia pensar em quantas apresentações eu iria perder quando eu fosse embora, perguntava-me se ela iria continuar a dançar. Brian se viraria bem sozinho, agora Noah eu já não tinha a mesma certeza, e me doía pensar que ele teria que se acostumar a ficar com outra pessoa que não fosse eu.
Como se estivesse ali, me batendo e sentindo ciúmes, me veio à cabeça. E, logo em seguida o próprio , que era recém-chegado em minha vida, mas mesmo assim já me trazia a sensação da perda. Talvez e não devesse ter baixado o Tinder, me apegar a mais alguém de lá só faziam as coisas piorarem quando chegasse a hora de partir.

: "Eu posso saber que problema te fez deixar o Brasil?"
Sororidade*: É o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo.



Capítulo 7. No Messages.

Encarei o celular mordendo meu lábio inferior.

: "Não sou uma criminosa procurada pela Interpol, fique tranquilo, haha.
Falando sério agora. Foi por conta da rejeição de meus amigos somada ao meu desemprego, de repente me vi sozinha e trancada dentro de casa. Me sentia descartável, não comia nem dormia direito. Precisava respirar novos ares.
Isso pode até soar clichê, mas realmente funciona, estou bem melhor agora."

Digitei uma resposta que parecia incrivelmente idiota para mim, fazia-me sentir estúpida por algum dia ter deixado aquilo me atingir como atingiu. Minha mãe sempre me dizia que quando olhamos para trás e nos sentimos idiotas por algo que fizemos quer dizer que superamos, que já não doía mais, ás vezes eu até me permitia rir daquilo tudo, fazia até piadas sobre. Era engraçado comparar todos os que algum dia chamei de amigos com , eu nunca tinha tido uma amizade de verdade, e achava que as migalhas de atenção que recebia de uns era uma.
Mas, apesar de tudo eu agradecia do fundo de meu coração ter passado por aquilo, talvez eu nunca fosse à Londres se tudo não tivesse acontecido. E era mil vezes melhor chorar em um apartamento em Londres do que trancada num quarto sozinha no Brasil.

: "Sei como é, pode parecer bobagem mas nossos amigos são realmente importantes, não deve ter sido fácil para você vê-los se afastarem.
Pobrezinha. Queria muito poder te abraçar agora."

Sorri boba compartilhando do desejo dele. Eu já havia superado, mas um abraço vindo dele não seria nada mal, vai! O que tornava tudo entre nós ruim era a distância, trazia uma sensação de impotência querer abraçar e não poder, querer beijar, estar perto e ter alguns quilômetros sempre nos separando.
Era como correr numa esteira. Digitando palavras e não saindo do lugar.

: "Até que um abraço agora cairia bem, haha."
: "Talvez seguido de um beijo..." : Está lendo meus pensamentos, Sr...? : " Sim, eu estou, está vendo? Somos feitos um pro outro, você veio a Londres somente para me encontrar. É destino."

Era completamente estranho conversar e até desenvolver sentimentos por alguém que não se sabe nem o sobrenome! Bom, após descobrir era impossível não me sentir na pré-escola ao me pegar vendo se combinaria com o meu nome, ... É, parecia bom para mim.

: "Meu Deus, você é muito presunçoso! Mas eai, como está sendo o seu dia?"

Eu estava mudando de assunto, mas estava gostando muito do rumo que a conversa estava tomando. Ou estava sendo completamente sincero comigo ou ele sabia muito bem como enganar uma garota. parecia saber o que dizer para me deixar vermelha e me roubar suspiros, mesmo que ele não estivesse me vendo, parecia ter a certeza de que havia conseguido.
Sempre tive o pé atrás com garotos como ele. Sabe? Bonitos até demais, conquistadores. Tinha preconceito, assumiria para qualquer um que perguntasse, achava que todos eram babacas e galinhas. Ignorava os avisos de , e tentava não pensar em daquele jeito.
Sabia que aquilo poderia ser fechar os olhos para algo que poderia estar praticamente em minha cara, não queria me iludir daquela forma, imaginá-lo de uma forma que podia não condizer com a realidade. Não queria quebrar a cara confiando meu coração em alguém que não conhecia direito. Mas eu fazia aquilo automaticamente. Confiava nele de olhos fechados.
Quando voltei para a realidade, Elle já estava saindo, vindo até nós com sua roupa cor de rosa e as sapatilhas nas mãos. Ajeitei os casacos nos três e saímos do prédio indo até o carro. Parecíamos tão absortos que cada um continuou o que fazia na sala de espera. Menos eu, é claro, quando estava no volante esquecia da existência de meu celular. Mas Brian continuava a ler sua HQ dos novos 52 e Noah ainda estava vidrado no tablet, não o largou nem quando eu estava prendendo sua cadeirinha no banco, o que me irritou profundamente.
Elle cantarolava The Chainsmokers, que tocava em volume baixo no carro. Eu estava ali, com o cinto e atenta ao trânsito, mas ao mesmo tempo não estava. Meus pensamentos só conseguiam ir até . Perguntava-me se aquilo era possível, fazer duas coisas ao mesmo tempo, dirigir com segurança e pensar nele, mas acho que mesmo que fosse impossível minha cabeça ainda arranjaria um jeito de me fazer lembrar dele.

(...)


Escovava os dentes e já estava com meu pijama, sem sono e com vontade de teclar com , mas infelizmente ele parecia estar ocupado no momento, desde o anoitecer não nos falamos. Não me importava muito com aquele detalhe, nunca fui de pedir mais atenção do que o necessário para as pessoas, tampouco fazia questão de falar o dia inteiro, vinte e quatro horas por dia, mas minhas noites não pareciam completas sem que conversássemos antes de irmos dormir.
Éramos como um banho quente num fim de um dia cansativo, falávamos sobre como foram os nossos dias, eu geralmente não tinha muito o que contar, então apenas o ouvia descrever suas "aventuras" no curso de direito e descrever como era incrível se apresentar com a banda. E devia ser mesmo, minha curiosidade de ouvi-lo cantar só aumentava a medida em que me atiçava contando-me dos covers que ele e os amigos faziam.
Queria pedir para que ele cantasse para mim. Mas eu sabia bem como seu dia era agitado, e ele não teria tempo de se gravar cantando. Nos dias da semana, trabalhava com o pai em sua empresa e fazia faculdade, nos fins de semana ensaiava com a banda ou escrevia músicas. O que me levava a outra curiosidade, sobre o que ele escrevia nas músicas que compunha?
Como se estivesse escutando o próprio nome meus pensamentos, me enviou uma mensagem, ajeitei-me no sofá e dei pause no filme que acabava de começar, me olhou feio com a apostila em mãos. Eu já havia dito milhões de vezes a ela que não dava para estudar e assistir ao mesmo tempo, mas ela dizia que sim, era possível.

: — "Oi de novo. Acabei de chegar, tive uns problemas para resolver no trabalho por isso não falei mais com você, espero que não tenha morrido de saudades. — Sua risadinha fez meu sorriso se abrir ainda mais. E minha vontade de ouvir aquela voz cansada em meu ouvido sem ser através de um celular, fazer um cafuné e deitar sua cabeça em meu colo só aumentava. — Vou tomar um banho e deitar. E você, está fazendo o que?"

— Manda um áudio também. — Parei de digitar e a encarei em dúvida.
— Deus me livre! Com essa minha voz horrível é capaz de ele parar de falar comigo! — Ri nervosa. Ela parecia não ter acabado de ouvir aquela voz incrível que ele tinha.
Havia estranhado a falta de veneração da parte dela ao ouvir falar, talvez a voz dele só surtia aquele efeito em mim. Eu suspirava a cada palavra proferida por ele.
— Para de ser boba, ! Sua voz não é nada bonita, mas uma hora ele vai ter que te ouvir falar! — Lhe joguei uma das almofadas que estava ao meu lado a acertando em cheio.

: — "Você parece cansado, pobrezinho. Deve ser difícil trabalhar com o pai, ele deve te cobrar muito, não é? Ah! Estou viva, sim. — Ri encarando minha amiga, que me olhava atenta ao que eu ia falar. — Bom, eu estou jogada no sofá, meu trabalho não é o mais complicado do mundo, mas aqueles três pestinhas acabam comigo. Vou assistir um filme de terror que minha amiga me obrigou a ver e dormir."
:— "E como! Mas não quero falar sobre o meu trabalho, é chato. Vamos falar de você, não acredito que não gosta de filme de terror! Eu adoro. Aliás, oi amiga da ."

Era perceptível o quando não gostava de falar do trabalho, todas as vezes que era questionado mudava de assunto. A única coisa que eu sabia era que ele trabalhava com o pai na empresa da família.

: — "Oi cunhadinho! — Arregalei meus olhos tentando tirar meu celular das mãos dela. Não fazia nem um mês que conversávamos e ela já estava chamando-o de cunhado? — Ah, ela é uma chata, medrosa! Aposto que vai querer dormir comigo hoje."

— Eu vou te esganar!
— Relaxa, ele sabe que estou brincando! — Gargalhou desdenhando enquanto encarávamos os dois pontinhos do WhatsApp ficarem azuis. Eu não sabia onde enfiar minha cara.

:— "Me tira dessa. — Gargalhou alto fazendo-me encarar minha melhor amiga boquiaberta. — Brincadeira!"

— Calma! Ele está brincando, . Não o leve tão a sério! — Respirei fundo negando com a cabeça. Talvez eu não estivesse levando na esportiva. Soltei um riso de nervoso encarando a tela do celular.

: — "Se estiver reclamando mande-a para cá, tenho espaço de sobra."

— Olhe só, alguém sabe muito bem como se redimir. — Sorriu maliciosa fazendo-me corar.

:— "Vou mandar sim, pode deixar. Se bem que você me mandou te tirar dessa, talvez eu devesse manda-la para o apartamento ao lado, tenho um vizinho bem gato." — Piscou para mim arrancando-me uma risada.
: — "Acho que ela não vai querer ir não, e eu já estamos quase de casamento marcado. Mas se quiser tentar, vá em frente. Vou ir tomar banho, quando eu voltar me dê a resposta. — Riu. — Beijo!"

— Gostei dele, acho que vocês realmente combinam. não me pareceu ser um babaca. E o mais importante, pareceu ir com a minha cara. Aprovadíssimo. — Sorri com seu comentário, ela só estava reforçando algo que eu já sabia, mas ter a aprovação dela já me fazia um pouco mais feliz.
Voltamos nossa atenção ao filme, eu voltei, quero dizer, continuava a escrever em sua apostila vez ou outra comentando algo sobre como aquele filme era previsível. Todos do gênero eram, chegava a ser entediante ver a mocinha quase morrer o filme inteiro e já saber que ela será a única sobrevivente no fim, mas aquilo não me impediria de sentir medo depois. Coloquei meu celular para carregar no quarto e terminamos o filme já sonolentas.
Desejei boa noite para e fui para o meu quarto, surpreendentemente a mocinha morreu junto das outras vítimas no final, o que somente reforçou ainda mais o meu medo. Ao me ver ali, sozinha, no escuro, tratei de pegar meu travesseiro e correr ás cegas até a porta ao lado.
— Por que será que não estou surpresa? — Murmurou levantando seu cobertor e dando-me espaço. Ri subindo em sua cama.
— Eu estou tão fodidamente apaixonada. — Cobri meu rosto com uma das mãos enquanto a outra segurava o celular.

: "Espero que o vizinho não tenha te roubado de mim.
Vou dormir agora, e acho que você também. Durma bem, beijos."

— Fique despreocupado, . Ela já é toda sua. — Ri fraco ouvindo sua voz de sono, estava quase dormindo, mas não perdia a oportunidade de zombar de mim.

(...)


E lá estávamos nós, jogados no sofá assistindo a mais um episódio de Peppa Pig. O desenho poderia ser facilmente utilizado como um instrumento de tortura, cinco episódios seguidos e não haveria mais nenhum criminoso reincidente no mundo. Lembrava-me de minha primeira professora de inglês, ela havia dado a dica de assistirmos ao desenho legendado, dizia que a linguagem dele era mais fácil e que eu poderia aprender como se pronunciava e os significados de várias palavras. Não fiz o que ela havia instruído, continuava a ver meus filmes e minhas séries legendadas, mas parecia que eu não escaparia de assistir a família de porquinhos daquela vez.
Observava Noah imitar os roncos dos personagens e ria ainda estranhando o silêncio que estava a residência dos . Levante-me indo até o andar de cima e encontrando os outros dois em seus respectivos quartos não fazendo nada de produtivo para variar, só de olhar já me dava preguiça. Decidi então propor alguma atividade, chamei Brian e Elle e reuni os três pestinhas na sala.
— Chega de ver Peppa Pig, pelo amor de Deus, vamos lá para fora! Vocês têm esse quintal enorme e não aproveitam! — Desliguei a TV e Noah abriu o berreiro.
O pequeno tinha aquela mania feia desde que eu havia chego para cuidar deles. A mãe o acostumou a ter tudo o que ele quisesse em mãos, bastava apenas ele começar a chorar, e na maioria das vezes nem eram verdadeiras as lágrimas derramadas. Se eu ligasse a televisão, seu choro cessaria imediatamente. Era manha, e eu já havia tirado aquele costume dele juntamente com a chupeta, mas Noah ainda tentava ás vezes retornar aos velhos hábitos.
Meu celular bipou interrompendo minha pose de mandona. O peguei do bolso dando de cara com uma notificação do Tinder, havia uma nova combinação, e não era a primeira que me aparecia, todas do tempo em que eu ainda não conversava com . Até tinha iniciado uma conversa com um garoto antes de combinar com ele, mas não prosseguimos, e eu também não tinha mais interesse. Não iria me sentir bem falando com dois ao mesmo tempo, e parecia que eu já tinha achado o que tanto procurava ali.
Talvez fosse a hora de desinstalar.
— Fala da gente, mas vive nesse celular. — Brian revirava os olhos enquanto a irmã concordava com ele.
Até tu, Brutus?
— É... Diferente , estou conversando com uma pessoa importante.
— A tem um namorado! — A garotinha sorridente e sua voz estridente fizeram-me enxergar a mim mesma quando , de fato, me pedisse em namoro.
— Vamos logo lá para fora. — Desconversei rindo fraco. Até que seria uma boa dizer para eles que eu tinha, pelo menos, um pretendente, só para esfregar na cara de Brian, que riu de mim no dia dos namorados.
E, também, aqueles três não sabiam, mas eles faziam parte do meu minúsculo ciclo de amizades em Londres. E nós contamos sempre as novidades aos amigos, certo? Talvez fosse melhor esperar uma confirmação de que as coisas realmente dariam certo entre mim e para contar a novidade.
Peguei a bola que já estava criando teias de aranha no fundo da garagem da casa e propus que jogássemos algo, Brian negou a todo custo, dizia que não era bom com esportes.
— Mas você nunca tentou! — Argumentei.
Daquele jeito, os outros dois não iriam se juntar a nós, já que tinham vezes em que Brian era usado como modelo para Elle e Noah, e os três realmente precisavam brincar de verdade, com direito a ir para a rua e sujar as roupas. Suspeitava até que eles nunca haviam ralado o joelho na vida.
Brian era duro na queda, desde sempre eu vinha tentando puxar assuntos relacionados a futebol para tentar ter um assunto com ele, mas ao que parecia o mais velho não gostava. Lembro-me de ficar chocada com a informação, até eu, que era uma garota, gostava! Depois de um tempo percebi que estava equivocada, meninos podem sim não gostar de futebol, e Brian preferia mil vezes seus quadrinhos de super heróis, eu também adorava HQs, o que me fazia sentir idiota por tentar colocar gêneros em simples atividades.
— Não consigo! — Exclamou bravo e foi se sentar num banco que havia no jardim, próximo dali. Era meramente decorativo, pois ninguém ficava lá fora, nem que fosse para admirar as flores.
— Ele tentou entrar no time da escola ano passado, o treinador conhecia e achou que Brian fosse bom como o nosso irmão, mas derrubaram ele no chão em cinco minutos de jogo. — Elle confidenciou, fazendo-me abrir a boca em surpresa. Fui até onde o menino loiro estava, sentando-me ao seu lado.
— Ninguém vai machucar ou caçoar de você aqui, Brian. Somos só eu e seus irmãos mais novos, vamos lá, vai ser divertido! — O cutuquei levemente com meu cotovelo.
— Elle é uma fofoqueira. — Praguejou fazendo-me rir baixinho. Um breve silencio se instalou ali, observei a garotinha brincar de chutar a bola para Noah, que fazia o mesmo que ela. — Ele e os amigos fizeram parte do time, o melhor amigo dele era o capitão. — O ouvi suspirar ao meu lado. — Papai nos levou para o último jogo deles, ganharam contra os Lions, a escola rival. Ele estava tão orgulhoso de .
Outra descoberta sobre o irmão-mais-velho-perfeito, ele realmente devia ser popular na época da escola. Conseguia imaginar a pressão que Brian sentia, tanto na escola, tanto em casa, que parecia ser pior, porque por mais que ele tentasse seguir os passos do mais velho, não adiantaria.
Parece que no tempo de o Sr. tinha tempo para a família ao invés de apenas para os negócios.
— Já tentou ficar no gol? — Sorri sugestiva em sua direção. — Não precisa ser igual a ele para ser especial ou lembrado por todos na escola. Você não é , você é Brian , e pode ser um ótimo goleiro para o time... Ou não, mas nunca vamos saber se você não tentar. — Levantei-me e fui em direção aos mais novos, olhei de canto de olho e pude ver Brian se levantar me seguindo.
Um puta discurso motivacional, eu sei.
Ficamos um tempo ali, apenas nos divertindo e jogando, não sabia bem se existia algum time de futebol com apenas três jogadores, mas acreditava que Brian poderia levar jeito para ser goleiro. Paramos um tempo para bebermos água, na cozinha, chequei meu celular em busca de uma nova mensagem, mas só tinha uma de avisando de uma colega que jantaria conosco. Um longo suspiro escapou de meus lábios.
— Qual o nome dele? — Dei um pulo de susto ao ouvir a voz de Elle, apoiei-me na pia normalizando a respiração.
Minha língua coçou para que eu lhe contasse tudo, eu andava tão feliz com a entrada repentina de em minha vida que queria falar dele para todo mundo. Talvez só para Elle não tivesse problema, os meninos saberiam na hora certa.
. — Sorri boba. A loirinha soltou um gritinho agudo e puxou uma das banquetas do balcão, eu sabia o que aquilo significava, toda garota sabia, Elle queria detalhes. Sentei-me ao lado dela, eu estava mesmo louca para compartilhar aquilo.
— Eu conheço um , ele é amigo do meu irmão. — Comentou pensativa. Realmente era um nome muito comum. — Mas me conta! Ele mora por perto?
— Não. — A vizinhança dos não era lá muito agradável, eles basicamente eram como os pais de Elle, o que já deixava claro que ninguém ali era lá muito sociável. — Como vou explicar isso... Eu não o conheço pessoalmente ainda...
— Ele é do Tinder? — Interrompeu-me. Arquei minhas sobrancelhas, era óbvio que Elle, no auge de seus oito anos, sabia o que era Tinder. Perguntei-me o motivo de meu receio por não saber como explicar, as crianças de hoje em dia sabem mais sobre tecnologia do que nós mais velhos.
— Sim. Ele não mora por aqui, está fazendo faculdade em outra cidade. Conversamos há alguns dias e espero que possamos nos ver logo pessoalmente. — Falei ansiosa, enquanto Elle sorria entusiasmada para mim.
! — Observei confusa o pequeno ser vir correndo até nós. — Venha ver, venha ver! — Puxou-me cozinha a fora, saímos no quintal com Elle bem atrás de nós. Por um momento fiquei com medo de algo ter acontecido a Brian, mas me tranquilizei ao vê-lo próximo ao portão... Com a mangueira do jardineiro?
— Brian, o que... — Aproximei-me visualizando o animal de grande porte tomar a água de modo desesperado, o garoto tinha uma das mãos espremidas nas grades do portão enquanto fazia carinho no labrador preto. — De quem é esse cachorro?
— Não sei. Ele apareceu aqui em frente, estava com a língua para fora, com sede. — Olhei o pescoço do cão procurando por uma coleira, não tinha nada, nenhuma identificação. Nunca tinha ouvido latidos naquela rua, e o modo como o cachorro se coçava com a pata traseira me fez perceber que talvez ele realmente não tivesse um dono.
Elle desligou a água e ficamos diante do portão, olhando o cão calados. Ele se levantou apoiando as patas dianteiras nas grandes, abanando seu rabo, fazendo Noah se aproximar e lhe fazer carinho rindo. Olhei para o céu e vi as nuvens escuras, iria chover.
— Vamos entrar.
— Mas ele vai ficar na chuva? — Noah exclamou manhoso, com dó do animal, que latiu, como se soubesse que estávamos falando dele.
— Sim, Noah, infelizmente sim. — O peguei no colo e o vi acenar para o cachorro, que ficou um tempo do lado de fora ainda latindo.
As crianças foram tomar banho e nos reunimos na sala para ver um filme, fiz pipoca e chá e ali ficamos pelo resto do dia, enquanto a chuva caía do lado de fora da casa. As horas passaram rápido, o mais novo acabou dormindo no sofá, também, depois de tanta energia gasta. Os pais chegaram um tempo depois, e já era a minha hora de ir. Meu celular bipou assim que abri a porta de entrada da residência dos , ainda chovia, o que me fazia agradecer a mim mesma por ter lembrado de levar um guarda-chuvas na bolsa para emergências.
— Chegou mensagem do ? — Vire-me encarando Brian, que sorria sarcástico no sofá.
Ele infelizmente tinha razão, Elle era uma tremenda fofoqueira. Mas não tinha como ficar brava com a menina, afinal não havia pedido segredo a ela, e mesmo que tivesse, Elle iria contar de qualquer maneira. Lhe dei a língua e saí enfrentando a chuva, o celular foi guardado de volta na bolsa, iria ser torturante esperar até estar no ônibus para ver quem era.
— Olá de novo. — Murmurei para o cachorro, que mesmo molhado ainda estava ali, em frente da casa. Ele havia me feito companhia durante o meu trajeto até o ponto, e esperou até que eu entrasse no coletivo para dar as costas indo novamente para a casa dos , eu suspeitava.
No ônibus, peguei o celular assim que consegui um banco para me acomodar, percebi que o costumeiro frio na barriga ainda estava ali, era só a expectativa de ler algo mandado por ele. Já estava me acostumando com a ideia de estar apaixonada, depois da fase de negação vinha a aceitação. Eu poderia dizer que sim, estava caindo de amores por , apesar disso, ainda era incomodo admitir que estava daquele jeito por alguém que não conheço.
Mas a realidade era dura, e eu me peguei frustada encarando a mensagem de meu pai, perguntando-me como tudo estava indo. Soltei um riso baixo ao perceber que estava ficando brava por não ser , era ridículo! Não falava com meu pai há tanto tempo que deveria estar soltando fogos de artificio!
Escutei sua mensagem de voz permitindo que algumas lágrimas de saudade escapassem de meus olhos com o rosto virado para a janela, por sorte o coletivo estava vazio, mas eu não me importaria de chorar na frente das pessoas. Não costumava chorar de saudades, estava sempre em contato com meus pais e familiares mais próximos, mas tinham dias que só de lembrar que estávamos tão longe me fazia desabar.
Tentei ignorar durante muito tempo a vontade de pegar minhas malas e voar de volta para o Brasil, porque eu sabia que quando as coisas começassem a dar errado, - e em algum momento elas iriam dar - não teria o colo de meus pais para correr. Os dois sempre foram meus melhores amigos, o que somente havia se confirmado quando fui rejeitada pelas pessoas que eu pensava serem confiáveis. Mesmo de longe, meu pai conseguia ser presente em minha vida, minha mãe e ele se separaram antes mesmo que eu viesse a esse mundo. Sempre achei que eles não nasceram um para o outro, ou talvez não tinham tentado realmente ficar juntos.
Respondi meu pai engatando numa conversa animada pelo WhatsApp, eu digitando e ele com a mania de mandar áudios. Costumava reclamar quando papai fazia aquilo, mas eu só sabia agradecer por poder ouvir sua voz de novo.
Cheguei em casa molhando o piso com meus tênis molhados por conta da chuva, cumprimentei Nina, a amiga de , e fui direto para um banho. A comida estava cheirosa, o que fazia minha barriga roncar alto.
Debaixo do chuveiro minha mente teimosa criava suposições que explicassem porque não havia falado comigo o dia inteiro, nem mesmo quando entrei no banho, que era a hora em que ele costumava mandar mensagens. Eu me contrariava mais a cada minuto, tentava ocupar meus pensamentos com outras coisas, mas ao mesmo tempo que minhas teorias surgiam. Saí do banheiro já vestindo meu pijama de mangas cumpridas, sentei-me no sofá com as garotas, que jantavam em frente a TV e bebiam taças de vinho.


Capítulo 8. Ex?

— O que houve? — me conhecia tão bem que chegava a assustar. Não queria falar nada, não na frente de Nina, eu nem a conhecia direito para começar logo a expor meus problemas.
Não pensava nem em contar a , ela com certeza iria me ouvir reclamar de e depois, quando tudo se resolvesse, não confiaria mais nele.
— Nada. — Dei de ombros encarando a televisão. Neguei com a cabeça quando vi Nina oferecer a garrafa de vinho para que eu me servisse. — Eu não bebo. — Sorri amarelo.
— Está com cara de quem está precisando. — A moça do cabelo rosa nas pontas me analisou. Digamos que eu estava em desvantagem por ali, e o pior, cercada por duas futuras psicólogas. Soltei um risinho e neguei com a cabeça discordando, talvez ela estivesse certa.
— O que o fez? — indagou depois de muito me olhar em silêncio.
— Nada. — Repeti, me encolhendo no sofá. Nina nos observava sentada na poltrona, suspirei e resolvi me abrir logo, talvez fosse até bom ter a opinião de alguém de fora. — É isso o que ele fez, nada! Nenhuma mensagem hoje. — Cruzei meus braços enfurecida.
— Vocês por acaso brigaram? Porque eu e meu namorado quando discutimos...
— Ele não é meu namorado. — Suspirei interrompendo Nina. Bem que eu queria que fosse. — E não, não brigamos. Na última vez que nos falamos estava tudo certo. — Remexi meu prato perdendo o apetite.
— É, ontem a noite realmente vocês estavam bem. — Colocou a mão no queixo pensativa. — Vai ver ele ficou ocupado. — Deu de ombros. Obrigada por me falar o que eu já tinha pensado milhões de vezes, ! — Quando Zayn e eu teclávamos era complicado arranjar tempo para mandar mensagens, vai te chamar, tenha paciência e não fique criando suas teorias malucas. — Ela realmente me conhecia.
— Ah, ele é do Tinder?
— Sim, estamos conversando há algum tempo, mas é a primeira vez que ficamos um dia sem nos falar. — Expliquei.
— Conheci alguns garotos do Tinder, já se viram pessoalmente? — Neguei com a cabeça. — Hum... Isso é um problema. — Murmurou pensativa, fazendo meu corpo inteiro ficar tenso. — Ele já te pediu nudes? — Arregalei meus olhos assustada, Jessica se levantou num segundo indo até Nina e tampando sua boca.
— Nina estava no Tinder a procura de sexo casual, ao contrário de você, , que quer um relacionamento sério. — Olhou sugestiva para a amiga antes de soltá-la.
Mas aquilo havia ficado em minha cabeça, quando um garoto está interessado em uma garota geralmente tem algo que vai além de apenas uma boa afinidade, e um relacionamento envolve não apenas o famoso companheirismo, mas também desejo, algo mais carnal. E eu estava me lembrando do jeito com que falava de , sobre ele ser incrivelmente lindo e, possivelmente, pegador. Estava na cara que ele não era virgem, e também era óbvio que eu era.
Será que me achava infantil demais? Porque seria normal se ele demonstrasse um interesse "a mais" em mim, não apenas sobre a minha personalidade, se é que dá para entender. De repente me bateu um medo, comecei a temer assim que pensei sobre nossas mensagens de texto trocadas, onde parecíamos ser amigos se tirássemos alguns flertes dele.
— Você devia chamar ele. — Encarei Nina, que olhou com medo para quando abriu a boca, até eu ficaria com ela tão próxima de mim e ameaçando tampar minha boca.
— Nunca pensei que falaria uma coisa dessas, mas Nina está certa. — concordou fazendo-me gargalhar. Mordi meu lábio inferior incerta. — Você também tem que demonstrar interesse, . — Peguei meu celular e mandei um Oi para ele, como eu já previa, elas estavam certas.
Eu estava com um medo irracional, temia que não me respondesse. Não gostava de me sentir daquele jeito, ninguém gosta de sentir insegurança, mas me arriscava a dizer que a sensação parecia ser pior quando se tratava dele, a pessoa que eu havia me apaixonado. Apesar de tantas mensagens trocadas eu ainda não sentia segurança em relação a ele.
Duas horas se passaram, Nina já havia ido para casa, a louça já estava lavada e eu estava em minha cama, deitada e com uma imensa vontade de chorar. Estava frustrada, eu havia dado o braço a torcer, chamado e ficado sem nenhuma resposta. De repente, meu celular vibrou sobre o criado mudo, o peguei visualizando a nova notificação. Sorria como uma imbecil novamente, era ele!

: "Oi! Acabei de chegar, porque não chamou mais cedo?"

Ele não tinha especificado de onde estava chegando tão tarde, e eu não perguntei, apesar de me perguntar internamente e torcer para que tenha ficado até mais tarde no trabalho. Talvez fosse ingênuo da minha parte pensar aquilo, mas era melhor do que criar suposições e sentir ciúmes do que ainda não me pertencia.

: "Ah, não queria te atrapalhar."
: "Você nunca atrapalha, linda."
: "Como foi seu dia?"
: "Cansativo, e o seu?"
: "Foi bom..."
: "Estou sem sono... Quer conversar?"
: "Claro! Quer falar sobre o que?"
: "Tenho uma curiosidade...
Como seria o cara ideal para você?"

Sorri apoiando o celular em meu queixo. Eu soaria muito desesperada se dissesse que era ele? Do jeitinho que ele é? Um sonoro sim ecoou em minha cabeça, fazendo-me analisar o que me chamava atenção em um garoto.

: "Hum... Ele tem que ser engraçado, ter gostos parecidos com os meus. Gostar de mim do jeito que sou, sem tentar me mudar ou me prender. Ah! E ser muito paciente, porque sou muito complexa.

Eu nunca fui muito exigente quanto aquilo, nunca tentei descrever alguém ideal para mim, até porque não andava por ai procurando requisitos nos garotos. Sempre achei que quando encontrasse a pessoa certa pra mim, eu saberia. E que, do jeito que a vida me pregava peças, ele não teria nem a metade das coisas que eu planejaria encontrar nele.

: "E a sua garota ideal? Como seria?"
: "Ela tem que gostar dos meus amigos e de mim, é claro. Nunca deixar o que temos acabar por besteiras ou mentiras, gosto de sinceridade e acho que a falta dela acaba com qualquer relacionamento. E claro, me apoiar em tudo o que eu fizer.
Bom, eu me acho engraçado"

Mordi meu lábio com força esperando que terminasse de digitar e acabasse com minha agonia. Ele estava tentando se encaixar nos requisitos que eu havia citado e eu surtando com aquilo. Nunca pensei que aquele dia chegaria, o dia em que eu finalmente começaria a ser correspondida por alguém da forma que estava sendo com .

: "Gosto de você, pelo menos do que me mostrou até agora. E sinceramente? Acho que só melhora com o tempo. Gosto mais ainda depois do que você falou, não acho saudável manter um relacionamento com alguém que quer te moldar. E sobre te prender, fique tranquila, acho incrível o modo como você é independente, é até sexy.
Não acho que temos muitos gostos parecidos, afinal temos culturas diferentes, mas você já ouviu falar que os opostos se atraem?"

Soltei um gritinho de alegria. Me dei conta do que estava fazendo, pulando na cama como uma adolescente e correndo o risco de acordar os vizinhos. Sentei-me ofegante e comecei a digitar. Tive que ler as mesmas palavras várias vezes para me dar conta de que estava realmente lendo tudo aquilo.

: "Já sim, Sr. ."
: "E você? Acha que tem os requisitos da minha garota ideal?"
: "É cedo para saber, afinal ainda não conheço seus amigos, haha.
E quanto a sinceridade, não se preocupe, penso do mesmo jeito."

Não sabia o porquê, mas minhas mãos pareciam incapazes de digitar o restante da resposta, porque tudo o que eu dissesse ali seria admitir meus sentimentos. E eu não sabia como expressá-los ainda, mal tinha acabado descobrir o que era estar apaixonada.

: "Hum... Está faltando algo nessa sua resposta, .
É tão difícil admitir que gosta de mim?"
: "Sim, é difícil."

Mandei emojis rindo, apesar de estarmos nos falando pelo celular, senti meu rosto esquentar em vergonha.

: "Estou desistindo de você, ... Você não demonstra o que sente."

Não sabia como interpretar aquilo, mas esperava que fosse apenas uma brincadeira dele.

: "Ok, eu admito, eu gosto de você.
Não sei expressar meus sentimentos direito, por isso peço que tenha paciência comigo, é tudo muito novo para mim."
: "Nunca se apaixonou por ninguém?"
: "Nunca.
E você, já?"
: "Sim, e estou torcendo para que dessa vez as coisas sejam diferentes."

Franzi minha testa diante daquilo. Controlei meu ciúme que crescia novamente dentro de mim, não tinha motivo para aquilo, e eu não tínhamos nada. E de repente doeu pensar aquilo.

: "Posso perguntar o que aconteceu?"
: "Não gosto muito de falar sobre isso, ainda é recente."

Meu coração vacilou por um segundo, será que ele seria capaz de me usar para esquecer outra pessoa? Meus olhos marejaram e me peguei sem saber o que dizer a ele. Estava completamente sem palavras, curiosa, mas fui compreensiva.

: "Tudo bem."
: "Sei que o que está rolando entre nós ainda está apenas no começo, mas eu já posso sentir uma grande diferença com o meu relacionamento passado."

Freei meus pensamentos, eles estavam me perturbando, analisando tudo o que me escrevia e usando para me fazer acreditar que prosseguir com aquilo era loucura. Naquele exato momento eu tentava tirar da minha cabeça que ele estava me comparando com a ex.

: "E porque acha isso?"
: "Porque eu adorei você desde nossa primeira conversa."

Meu coração havia se acalmado um pouco com aquela resposta, mas ainda estava receosa. Claro que seria quase que impossível encontrar um pretendente e se livrar de ter que lidar com uma ex namorada, mas eu tinha esperanças de achar. Não sabia muito lidar com o fato de substituir alguém, mesmo que não fosse intencional. Esperava que aquele não fosse o caso, se estivesse me usando para esquecer o relacionamento passado dele seria o fim do que tínhamos começado, porque eu realmente não serviria para aquele papel.
Não seria justo comigo, tinha esperado tantos anos para me relacionar com alguém, demorado tanto tempo para enfim me abrir para algo novo, e quando baixo minha guarda recebo alguém pela metade? Um coração machucado que me usará como Band-Aid?
Eu merecia algo melhor, e estava apostando minhas fichas nele, torcendo desesperadamente para não quebrar a cara. Minha cabeça confusa, absorta em pensamentos e completamente congestionada por prós e contras começou a doer, fui tomar um analgésico e me despedi de dizendo que iria dormir, o dia havia sido agitado. Quando estava ali, prestes a fechar meus olhos pela última vez naquele dia, fiz uma prece, do fundo do meu coração, para que ele refletisse do mesmo jeito que eu refleti.
Esperava que ele parasse, pensasse em tudo o que falamos naquela noite, considerasse cada palavra, cada ponto e cada vírgula, percebesse que poderiam ser apenas palavras digitadas, mensagens trocadas, mas que não perdiam seus significados e muito menos tinham os seus pesos diminuídos. Se chegasse a conclusão de que estava me usando, que parasse por ali, porque seria tudo mais fácil se eu não me apegasse ainda mais nele.



Capítulo 9.

's point of view.
: "Porque eu adorei você desde nossa primeira conversa."
: "É recíproco, tenha certeza disso.
Vou dormir, minhas pálpebras já estão pesando. Boa noite, beijos."

Encarei a tela do celular soltando um longo suspiro. Aquilo não estava sendo tão difícil quanto eu imaginava que seria. Começar tudo de novo. Do zero.
Aquela era uma parte importante no trato que havia feito comigo mesmo desde que tudo aconteceu, conhecer outra pessoa, tentar outra vez. Mas, a outra parte envolvia algo que eu não sabia bem se conseguiria ser capaz de fazer com a mesma facilidade.
Tentar esquecê-la.
Não seria nada fácil cumprir aquilo, não quando tudo e todos a minha volta pareciam fazer questão de me fazer lembrar-se de meu relacionamento com Megan. Ver sua mãe visitar minha casa e escutar noticias sobre ela fingindo não me importar não estava ajudando, muito menos ainda ter que responder a familiares e conhecidos se ainda estávamos juntos. Eu até entendia aquele curiosidade das pessoas, afinal, Megan e eu estávamos sempre lado a lado nos eventos e festas em que frequentávamos. Era natural que quem me olhasse desacompanhado tivesse dúvidas, as quais eu ainda não me sentia cem por cento confortável em responder.
Megan e eu nos conhecíamos desde crianças, nossas famílias eram próximas e quando começamos a nos envolver e engatamos o namoro nossos pais demonstraram um interesse mútuo numa sociedade com as empresas. Os Patterson eram muito bem sucedidos e toda a boa fama de minha família no ramo da advocacia sempre chamaram a atenção do pai de Megan, estávamos juntos há quase dois anos e o Sr. Patterson já falava em casamento, algo que me assustava um pouco.
Não que eu não a amasse, muito pelo contrário, Megan era uma mulher maravilhosa, quatro anos mais velha que eu, o que fazia-me admira-la ainda mais por sua maturidade. Eu a conhecia como ninguém e tinha a certeza de que Meg também não queria se casar tão cedo, principalmente pelo fato de concordar com meu pai sobre eu assumir a empresa futuramente e termos divergências sobre o futuro. Como ela não concordar em morar em Londres, para onde eu planejava voltar após a faculdade.
Aquilo me despertava uma insegurança enorme, será que abrir mão dos meus sonhos por ela valia a pena? Minha namorada - ex namorada - simplesmente odiava o fato de eu estar numa banda, achava um perca de tempo eu sequer cogitar a ideia de algum dia viver de música. Não importava a quantos shows nossos ela assistia, Megan sempre desacreditou que algum dia iríamos conseguir dar certo e ter fama. E dizia ter motivos para aquilo.
Ela até tinha um tio no ramo da musica, um produtor musical, ou seja, alguém que poderia ser nossa chance de mostrar nosso trabalho, mas Megan nunca nos apresentou. Greg Patterson era considerado a ovelha negra da família, justamente por ter renunciado um cargo importante na empresa do pai para seguir seus sonhos trabalhando com música. Aquele era o principal motivo para nunca termos nos trombado por aí nas frequentes festas que o Sr. e a Sra. Patterson davam, e, também, o meu sogro não estava nem um pouco a fim de perder um genro com um futuro promissor no ramo da advocacia para a música.
Nunca havia escondido de ninguém o meu sonho, e não ser apoiado por ninguém de minha família não foi um empecilho grande para mim. Formamos a One direction muito cedo, aos quinze ensaiamos no porão da casa de . e , assim como eu, não tinham o apoio dos pais, então decidimos na época manter tudo em segredo, nos apresentávamos em festas de colegas e eventos na escola, quando nos descobriram, nossos pais não levaram a sério, e não reclamaram da banda ao verem que ela não nos atrapalhava nos estudos. E aquela foi à opinião deles até entrarmos na faculdade. A banda nem sempre esteve na ativa, as frustrações nos afastava por longos períodos de tempo mas a saudade da música nos juntava novamente.
A verdade é que após tantos "nãos" que levamos, começamos a considerar desistir de tentar fazer a banda deslanchar. Nossa primeira oportunidade de nos apresentarmos fixamente, sendo remunerados e com um público razoavelmente grande havia acabado de surgir, e apesar daquilo me deixar extremamente feliz, havia me causado grandes problemas na relação com meu pai.
Lembrava-me claramente da discussão que tinha tido com Megan no dia em que recebi a noticia de que ela iria para tão longe e pior, por tempo indeterminado. O pai dela havia passado por alguns problemas de saúde e coincidentemente precisavam dele na filial de Nova Iorque, para poupar o Sr. Patterson de ficar longe de casa, Megan foi em seu lugar. Era a oportunidade que ela tanto queria de provar para o pai que poderia assumir os negócios da família, irônico vê-la querer algo que eu estava praticamente dispensando. Na realidade, Dan tinha medo de deixar o controle de seu patrimônio nas mãos de uma mulher, ele nunca admitiria aquilo para ninguém, mas aquele homem exalava machismo.
A maior prova disto era ele querer usar a própria filha para conseguir muito mais do que uma sociedade na empresa, também queria transformar as famílias Styles e Patterson em uma só.
As palavras envoltas da mágoa que tinha carregado saíram de minha boca sem que eu tivesse tempo para raciocinar, só havia me dado conta do que tinha falado quando vi seus olhos verdes se arregalarem e encherem-se de lágrimas.
Sim, eu havia jogado em sua cara que seu pai queria que nos casássemos porquê era conveniente para seus negócios. Sim, tinha finalmente desabado na frente dela, dizendo o quão doloroso era vê-la abrir mão de nós dois por uma merda de cargo. Lhe disse o quanto eu odiava seu egoísmo, que já estava farto de ouvi-la me dizer para abandonar o meu sonho com a música e me dedicar ao que "realmente importava", mas quando uma oportunidade surgiu para ela, não quis pensar em mim, simplesmente jogou tudo para o alto.
Meus gritos ainda ecoavam em minha própria cabeça, eu tinha a memória fresca guardada, poderia sentir novamente o impacto de sua mão em meu rosto. Megan saiu pela porta e desapareceu pelo corredor repleto de funcionários, que certamente haviam escutado cada palavra dita por nós. Eu havia esperado dias antes de ir procurá-la novamente, tinha a esperança de que Megan tinha me ouvido e refletido sobre tudo, porque eu podia ter gritado como um ogro, mas estava com razão.
Quando fui vê-la, uma semana depois, Meg já tinha o passaporte comprado, data e hora de embarque. Abaixo de seus olhos, olheiras arroxeadas, e no lugar de seu sorriso, seu famoso bico, aquele que ela fazia quando estava prestes a chorar. E ela o fez, assim que a envolvi em meus braços Megan chorou copiosamente. A pedi desculpas não só uma, mas cinco, dez vezes, mas já não adiantava mais. Nada a faria ficar.
"— Eu não quero ter um relacionamento á distância."
Foi o que ela disse antes de terminar comigo. Eu lhe dei as costas saindo pelo mesma porta que entrei, me perguntando se tudo o que nós tínhamos poderia um dia ser acabado com uma desculpa esfarrapada daquelas.
Depois de uma semana, não conseguia me decidir o que era pior, se era saber que seu avião já estava pousando em Nova Iorque ou contar o que houve para os meninos, era humilhante demais ter que dizer que eu havia sido chutado. Foram tantos sacrifícios em prol daquele relacionamento, festas perdidas, eventos com a banda e até garotas que eu poderia ter ficado. Por mais canalha que isso possa soar, era a mais pura verdade. Sentia como se tudo tivesse sido em vão, porque, no final, só eu havia me sacrificado para que nosso namoro desse certo.
Depois de um mês, as coisas começaram a ficar mais fáceis, era como se eu fosse uma peça num jogo de tabuleiro, onde eu avançava algumas casas a medida em que me acostumava com a rotina sem ela. Já havia ficado com outras garotas, mas nada sério, afinal eu ainda não me sentia a vontade em me apegar a alguém tão cedo, Meg ainda era muito recente. Num belo dia completamente aleatório, ouvi minha mãe comentar com meu pai que Megan estava trabalhando junto de David Hoult, um filho da puta que nunca havia escondido que gostava dela. Depois daquilo havia regressado milhares de casas e retornando para o inicio do jogo.
Ser substituído não era uma boa sensação. E eu sempre havia pensado que nunca a experimentaria. A vida estava mais uma vez me provando que ela era uma grande caixa de surpresas, e infelizmente aquela frase clichê caia como uma luva para minha situação. E apesar de odiar aquilo, eu aceitava minha nova condição, havia me tornado um clichê ambulante, escrevendo músicas para Megan e saindo com amigos do campus para encher a cara e esquecer da existência dela por uma mísera noite.
Quatro meses depois ali estava eu, encarando o teto do meu quarto, recapitulando tudo aquilo. Sentia-me aliviado ao ver que já não era um gatilho para eu pensar em Megan, sentia sua falta, mas não tanto como antes. Havia proibido a mim mesmo de continuar sofrendo pelo nosso término já que ela aparentava estar muito bem sem mim, as fotos e marcações no Facebook não me deixavam mentir. Tinha parado com o hábito de visitar suas redes sociais, alem de um ato um tanto psicótico, me pegava sorrindo vendo seu sorriso, esquecendo-me completamente de que eu já não era mais um dos motivos de sua felicidade.
Aos poucos, seu perfil nas redes sociais foi desaparecendo da tela do meu celular, dando lugar ao Tinder.
Oh, sim, muita gente tinha preconceito com o aplicativo, eu sabia bem daquilo, até os próprios usuários tinham, as garotas principalmente, se questionadas, noventa por cento negariam ter o Tinder instalado no celular. Nunca havia entendido o motivo daquilo, nós homens não tínhamos toda aquela vergonha de dizer que tínhamos perfil por lá, e boa parte das meninas com quem saí nos últimos meses conheci ali.
Era tão simples. Eu deixava bem claro que queria algo mais casual, marcávamos, ficávamos juntos e depois nunca mais nos víamos.
Mas, após viver aquela coisa repetitiva tantas vezes me vi enjoado de tudo aquilo, as garotas com quem eu saía eram todas iguais, um tanto fúteis. Comecei a perceber que a culpa era minha, afinal eu sempre distribuía likes nos perfis que continham fotos de biquíni ou em garotas com características parecidas com minha ex. As saídas começaram a ficar mais escassas e eu começava a querer um relacionamento sério novamente. Até que numa tarde qualquer, alguém chamou minha atenção.
Olhos azuis, claros como o céu num dia ensolarado, a pele pálida e cabelos loiros cortados na altura do queixo. era o completo oposto de minha ex namorada, o que me causou uma confusão de inicio. O que tinha naquela garota que havia me feito parar os movimentos de meu dedo e ir visitar seu perfil?
Não tinha um tipo certo de garota, não me considerava seletivo a aquele ponto, mas tinha preferência por morenas, as achava sexy, aparentavam serem mais maduras, confiantes. Havia sido aquilo que tinha me feito cair praticamente de quatro por Meg, eu simplesmente adorava seus longos cabelos castanhos escuros, onde eu emaranhava meus dedos e sentia sua maciez. Cabelos longos sempre foram minha perdição, nunca havia achado fios mais curtos interessantes. Mas, a garota do Tinder tinha algo em si que me deixava intrigado, de repente me vi curioso para saber se todo aquele ar de inocência que sua aparência demonstrava era verdadeiro. Se fosse, seria uma experiência totalmente nova para mim, nunca fui bom em lidar com a pureza, não me achava digno de corromper alguém.
Em sua descrição descobri sua nacionalidade, não aparentava, mas era brasileira, e mais uma vez me pegava com aquela vontade de conhecê-la mais a fundo, nunca havia conhecido alguém do Brasil. E, para ser franco, sempre tinha ouvido maravilhas sobre as mulheres de lá. Quando me dei conta, vi que havia ficado tempo demais encarando sua foto, imerso em pensamentos, e pior, fazendo comparações com minha ex. Tomei a decisão de tentar algo novo e arrastei o dedo sobre a tela sorrindo satisfeito com o aviso que me apareceu no mesmo momento.
I'ts a match!
" You and have liked each other."


(...)

Meu despertador soou acordando-me de meu sono profundo, era a hora de levantar e eu nunca quis tanto na vida virar para o lado e voltar a dormir. Enquanto saía de minha cama indo em direção ao banheiro não pude evitar pensar que aquele desânimo todo tinha muito a ver com a retrospectiva que eu tinha feito sobre Megan na noite anterior. Era como uma ressaca, idêntica as que eu costumava a ter após as noites de bebedeiras que frequentava no passado.
Megan Patterson era tóxica, e pensar tanto nela ainda conseguia me fazer mal.
Infelizmente, ela não era a única coisa que me assombrava nos últimos dias, a pressão que meu pai fazia sobre mim também andava me tirando o sono. A cada dia ele me delegava mais tarefas importantes. Era sempre a mesma desculpa, a boa e velha chantagem emocional, dizia que se algum dia ele não pudesse comparecer a empresa, eu saberia resolver os problemas sozinho. Mas era nítido que ele planejava deixar-me só permanentemente, ocupando o seu cargo. Eu entendia que eu era seu sucessor, mas não era aquilo que eu havia sonhado para mim, e se eu renunciasse a empresa continuaria com a tradição de ser dirigida por um , um dos meus tios, por exemplo.
Andava pelo campus cumprimentando conhecidos, enquanto procurava os garotos entre as pessoas espalhadas pelo gramado. Os encontrei no lugar de sempre, próximos da porta da universidade. Poderia parecer extremamente gay dizer aquilo, mas era um alivio saber que estávamos todos juntos, mesmo depois do ensino médio ter acabado. Havíamos optado por ir para a mesma faculdade, afinal, a banda era algo que tínhamos em comum e que planejávamos fazer dar certo onde quer que estivéssemos.
Eu não era o único ali forçado a fazer o que não queria, os pais de eram praticamente iguais aos meus e queriam que ele seguisse a profissão de advogado, fazia engenharia, um desejo do pai também. era o único que havia escolhido o que cursar, era bolsista, e apesar de terem o pé atrás pelo filho querer cursar música, o apoiaram desde o inicio. Eles acreditavam em nós, o Sr. sempre nos dizia que tínhamos potencial.
— Que cara é essa? Você está parecendo um zumbi.
— Obrigado, . — Sorri irônico, encostando-me na parede sendo analisado pelos três, o que estava começando a me irritar. — Não dormi quase nada essa noite, satisfeitos?
— Conversando até tarde com a loirinha do Tinder, é? — sorriu malicioso arrancando risos dos outros. Ali me lembrei de nunca mais contar nada para aqueles três, tudo o que eu falava era usado contra mim depois.
— Não. Só estava pensando na vida. — Suspirei encarando meus próprios pés, os risos cessaram, e eu senti uma mão em meu ombro, obrigando-me a olhar para cima.
— Não me diga que estava pensando nela. — Encarei os olhos castanhos de , vendo sua expressão de pena tentar ser disfarçada.
Eu odiava quando eles faziam aquilo. Quando contei para eles da discussão com Megan pensei que ririam de mim, mas as reações foram contrárias, meus amigos sabiam o quanto eu gostava dela, nunca havia sido de sair por ai falando sobre meus sentimentos, mas quem me conhecia de verdade, como eles, saberia dizer quando eu estava apaixonado. Apesar do apoio que eu tinha deles, Megan nunca escondeu que não os suportava, e aquilo de certa forma me deixava com raiva, afinal, aqueles garotos eram como irmãos para mim.
Não podíamos sair junto deles sem que ela colocasse, pelo menos, três defeitos em cada um quando entrávamos a sós em meu carro. As brigas eram constantes, eu os defendia enquanto Meg ficava histérica, até que decidi sair separadamente com os meninos e ela, e ai as reclamações eram outras, como o fato de eu não ter tempo para ela, por exemplo.
— Eu disse que ia parar, estou tentando! Foi só uma recaída. — Passei as mãos em meus cabelos e desencostei-me de onde estava, andando ao lado dos garotos para dentro do prédio.
Olhava para frente ignorando os olhares apreensivos que eles trocavam ente si. Eu entendia toda aquela preocupação, depois que superei o fim do meu namoro percebi o modo como estava agindo. Minha situação era preocupante, estava entrando num vicio de bebidas e discutindo todos os dias com meu pai no trabalho, isso quando eu aparecia na empresa. Havia me tornado uma pessoa explosiva, machucava todos a minha volta para impedir que se aproximassem, ou para que sentissem pelo menos metade do que eu estava sentindo. Na minha cabeça, ninguém entendia pelo que eu estava passando, e aquela era a única maneira de fazê-los entender.
Adentrei a sala ao lado de e fui para o meu lugar, que infelizmente ainda era ao lado dele.
— Não precisa ficar me olhando desse jeito, tá bom? Eu já superei, , você sabe disso. — Disse ríspido, enquanto avistava o professor de Direito civil começar seu seminário. Seu olhar duro pairava pela sala, certificando-se de que ninguém falava junto dele, por isso, abaixava minha cabeça e tentava falar o mais baixo possível. — Megan não é meu único problema.
— Cara, seu pai ainda vai te deixar louco. — Ri sem humor da fala do loiro, tinha razão, se é que eu já não estava. — Mas quem sou eu para rir de você? Não ligo lá para casa há tempos, e não ligarei tão cedo se for para discutir de novo.
No final das contas, e eu estávamos no mesmo barco. A única diferença era que seu pai não queria passar toda a responsabilidade para dele no futuro, só desejava que o filho seguisse sua profissão. Até porque tinha irmãos que poderiam assumir o controle da empresa quando crescessem. Aquela era uma das vantagens de se ter irmãos, ter alguém para dividir o peso de responsabilidades e expectativas que os pais colocam em nossas costas.
Suspirei junto dele em pura frustração. Deveríamos ter nos rebelado contra nossos pais enquanto ainda éramos simples adolescentes de dezessete anos terminando a escola, aceitar que decisões importantes fossem tomadas por nós e ir direto para a faculdade sem nos opor foi um grande erro. Acho que demos falsas esperanças a eles, deveríamos tê-los decepcionado logo, porque abrir mão dos nossos sonhos havia nos machucado também.
— Será que os já pensaram na nossa oferta de adotar três marmanjos? — deu sua gargalhada característica atraindo olhares para nós. Como sempre, fazendo os amigos passarem vergonha.


Capítulo 10. The Chance.

Saí da faculdade e fui direto para a empresa, aquela era a minha rotina, indo de um lugar para o outro, gastar horas parado no trânsito e só ir para casa ao anoitecer. Eu não poderia dizer que odiava completamente tudo aquilo, estaria mentindo. Tinha uma grande admiração pelo trabalho do meu pai e por tudo o que ele ao lado de meu já falecido avô construíram ao longo dos anos. Aquela empresa havia sido nossa fonte de renda por anos, e seu sucesso sempre nos garantiu uma ótima vida financeira.
Meu pai continuava focado no caso que tinha nas mãos, toda aquela tensão estava me dando dores de cabeça. O cliente em questão era um homem que havia sido acusado de assassinar a esposa, o réu ainda tinha acusações de agressão contra a mulher e até de assédio sexual. Ele negava que tinha cometido tais crimes, mesmo com tantas provas concretas contra si. Era um homem poderoso, e se meu pai não conseguisse deixá-lo livre, tentaria ao máximo diminuir sua pena. Aquilo fazia meu estômago se revirar.
Não conseguiria viver a vida inteira ajudando homens como aquele se livrar de pagar por seus crimes. Dinheiro nenhum deveria livrá-los daquilo.
Meu pai estava disposto a começar a me inserir em alguns casos para que eu colocasse em prática o que estava aprendendo na faculdade. Falava e falava, mostrava-me as provas encontradas pela policia e me explicava sua estratégia para favorecer seu cliente diante do juri. Como se fosse a coisa mais incrível do mundo livrar um homem daqueles da cadeia.
— É desconfortável no começo, eu sei. — Disse pesaroso, afrouxando a própria gravata assim que percebeu meu olhar perdido na pilha de livros atrás de si.
Desconfortável? Era brincadeira, só podia ser! Ele sabia o quanto eu odiava ser pressionado daquela maneira, eu já tinha conversado com ele, dito milhares de vezes que não queria aquilo para mim, fazer uma coisa que não tinha escolhido. Será que meu pai não via que nunca iria deixar de ser desconfortável para mim pelo simples fato de eu não querer fazer aquilo?
Se você não fizer o que gosta, não irá ser feliz.
Eu sempre tive aquele pensamento, de que quando você nasce está destinado a fazer algo, não era nada muito filosófico como as outras pessoas falavam, aquele "algo" era apenas um oficio. E passamos a infância e a adolescência inteira sendo estimulado a descobrir qual será o nosso, o fim do ensino médio era nosso prazo para decidir. Mas, e se eu quisesse ser algo diferente de um médico ou um advogado? Se o que eu fosse destinado a fazer dispensasse todos os anos trancafiado numa sala de aula?
Desde muito novo eu já sabia o que queria, qual era meu oficio, descobri o dom da música, mas não podia usá-lo. Como alguém que descobriu que tinha jeito para cuidar de feridos e decidiu ser médico.
— Mas é o nosso trabalho, e temos que fazê-lo da melhor forma possível. Fora que terá que se acostumar, já que será o que você irá fazer pelo resto da vida. — Sorriu antes de seu telefone começar tocar em seu bolso. — Cinco minutos. — Saiu porta a fora deixando-me só em minha sala com palavras engasgadas em minha garganta.
Pelo resto da vida...
Recostei-me na cadeira, girando-a para lado da vidraça que me dava uma vista incrível de Oxford. Peguei meu telefone desbloqueando e verificando as notificações, haviam algumas mensagens dos garotos combinando alguns detalhes da apresentação no pub mais tarde. Era sexta feira e a semana parecia ter passado num piscar de olhos. Eu não gostava nem um pouco daquela sensação.
Como se minha vida estivesse passando rápido demais, odiava pensar que não tinha tempo suficiente para fazer tudo o que queria. E eu queria tantas coisas, tudo ao mesmo tempo. Aquela era a pior característica de ser jovem, toda aquela pressa, aquela euforia e com ela o medo de não conseguir realizar nada.
Tinha dias que eu queria jogar todos aqueles papéis, processos e procedimentos legais para cima, pegar meu carro e dirigir até a praia para fugir de tudo e todos. Algumas vezes queria pegar um avião e ir atrás de Megan, talvez beijá-la, na maioria das vezes queria gritar com ela. Mas ultimamente andava querendo pegar a estrada e ir até Londres, onde eu tinha alguém para conhecer.
Encarei sua foto no ícone da nossa conversa no WhatsApp. ainda era uma espécie de mistério para mim, não saberia explicar como ela me fazia bem mesmo longe e sendo uma quase desconhecida. Muito menos saberia dizer se era minha saída para me livrar de vez de Megan de meus pensamentos, só poderia garantir que enquanto conversava com ela minha ex e meu pai pareciam ser problemas minúsculos.
Eu me via ansioso para enfim vê-la pessoalmente, ela conseguia despertar em mim sentimentos completamente opostos do que senti algum dia com Megan. Tinha vontade de tomá-la em meus braços, sentir seu cheiro e testemunhar o momento em que suas bochechas ficarão vermelhas quando finalmente conseguir beijá-la. tinha um jeito especial, lidar com ela era algo novo para mim, sempre tive preferência por mulheres mais velhas, ou garotas mais experientes. Ainda era estranho para mim, ponderar minhas palavras e até minhas intenções com .
Tinha receio de assustá-la ou de magoá-la. Poderia não saber tanto sobre ela, mas tinha a certeza de que era uma boa garota. E eu nunca havia me relacionado com uma boa garota. Megan era diferente, ousada, sexy e eu sabia interpretar seus desejos, já era uma grande caixa de surpresa, delicada, que me fazia ter medo de tocar para não quebrar.
Assim que desbloqueei meu celular para lhe mandar uma mensagem, meu pai adentrou a sala e recomeçou todo o falatório anterior. O guardei no bolso e me preparei para passar o resto do dia ouvindo sua voz e fazendo o que ele me pedia. O que me consolava era saber que em fim era sexta-feira.

(...)


Os aplausos preencheram o local que antes de chegarmos estava vazio.
Já havíamos tocado quatro músicas e o cover de FourFiveSeconds da Rihanna, que seria nossa deixa para fazermos uma pausa para beber algo e descansar, enquanto estivéssemos fora do palco tocariam músicas eletrônicas como faziam nos outros dias da semana, quando não tocávamos lá.
— Cara, tem uma garota aqui que se parece muito com a Megan. — riu batendo em meu ombro, chamando minha atenção enquanto saíamos pela parte traseira do palco. Franzi minha testa.
— Onde? — Indaguei vendo os olhares tortos que os outros lhe lançaram.
— Vou te mostrar, venha.
O segui e caminhamos entre as várias pessoas dançando ao som de alguma música do Major Lazer, abri a garrafa de água em minhas mãos e tomei um gole grande acabando com minha sede, procurava em todos os cantos o rosto que me lembraria o dela. Não sabia o que iria fazer se a tal moça fosse realmente parecida com minha ex. Não era justo beijar alguém pensando em outra. E eu estava indo muito bem na tarefa de esquecê-la.
Meu coração vacilou em seus batimentos quando a vi no bar, sentada acompanhada de duas garotas e um cara.
— É ela. — Afirmei com convicção.
Não teria como confundi-la com ninguém, sua beleza era única e eu sempre achei que nunca iria encontrar outra igual. Minha certeza era reforçada pelo fato de eu ter identificado suas amigas, mas o homem ao seu lado era um completo desconhecido para mim, o que me fazia sentir uma pequena pontada no coração.
Havia me surpreendido por não estar louco de ciúmes, muito menos ter ido praticamente correndo até ela desejando beijá-la.
Eu apenas fiquei ali, parado, sem saber como agir, indeciso entre ir até onde ela estava e lhe cumprimentar ou apenas ignorar sua presença e fingir que não a vi. Como se sentisse que estava sendo observada, Megan virou sua cabeça e seu olhar se cruzou com o meu.
! — Exclamou sorrindo animada, levantando-se e vindo em minha direção.
Ainda sem ação, a senti colocar os braços envolta de mim, abraçando-me como se fôssemos velhos amigos. Sorri amarelo, e antes mesmo que eu pudesse tocar suas costas descobertas pelo vestido, ela me soltou encarando-me sorridente.
— Há quanto tempo, não?
— Cinco meses. — Me arrependi assim que terminei de falar. Não queria ter deixado explicito que havia contado o tempo que ficamos separados. A vida dela parecia ter seguido em frente, eu deveria aparentar ter feito o mesmo.
O homem que estava atrás dela sorrindo para mim me provava aquilo. Se ele soubesse que um dia já a tive em meus braços não se mostraria tão simpático daquele jeito.
— Esse aqui é o , , esse é Greg, meu tio. Você já me ouviu falar dele.
Minha mão trêmula tocou a dele e me peguei nervoso de repente. Greg Patterson, o produtor musical, estava no pub nos ouvindo tocar! Mesmo que não estivesse a trabalho, aquela era uma oportunidade única. Eu tinha que avisar os garotos.
— Não sabia que estavam tocando. — A morena comentou olhando em volta.
Não saberia nem que estivéssemos juntos, se eu contasse a ela nossa conquista, iria entrar por um ouvido e sair pelo outro. Afinal, Megan nunca se interessou em nada que fosse relacionado à banda.
— Vocês são muito bons, cara. — Sorri agradecido enquanto meu corpo todo reagia com entusiasmo á aquele elogio. — Só tocam covers?
— Não, compomos nossas próprias músicas. — Respondi rapidamente. — Tocamos umas até, chegaram agora?
— Sim, acabamos de chegar. Vim comemorar minha volta com as meninas. — Arqueei minhas sobrancelhas e acenei para as duas garotas que sorriram em minha direção.
— Como andam as coisas? — Indaguei com as mãos no bolso, tentando não parecer interessado.
Aquela era a pergunta mais patética que eu já havia feito na vida. Era típica no reencontro de ex, porém era necessária. Megan me responderia tudo o que eu queria saber de uma vez só. Eu não sabia o que havia mudado em sua vida durante minha ausência, não sabia se a cor do seu batom preferido havia mudado, se seu costume de tomar sorvete no frio havia parado ou se Megan já havia me substituído por outro como eu suspeitava. E nem perguntaria.
— Bem. Papai retornou a empresa e está bem de saúde. — Sorriu olhando em meus olhos, causando-me o bom e velho arrepio. Desviou sua atenção para algo acima de meu ombro. — Acho que seu amigo está te chamando. — Olhei para trás encontrando todos os garotos no palco e me chamando para voltar.
— Vamos tocar uma nossa. — Avisei a Greg, indo até os garotos.
Nos organizamos e a banda começou a introdução de Midnight memories. Senti a adrenalina tomar conta do meu corpo, não sabia direito o porquê, mas estava sentindo algo diferente, a sensação de que talvez as coisas dessem certo para nós. Era totalmente novo para mim ter aquela esperança toda, afinal, nunca tivemos uma chance daquelas. E a presença daquele homem ali era o mais próximo que já chegamos de ter uma oportunidade.
Depois de tocar mais duas músicas nossa participação ali acabou, contei para os garotos quem tivemos como platéia e eles ficaram tão empolgados quanto eu. Naquela noite decidimos ficar mais um pouco no pub, comemorar sei lá o que, talvez estivéssemos esperançosos demais. Aquilo não acontecia sempre, eu geralmente me despedia dos caras e ia para casa, a faculdade e meu pai me sugavam as energias.
— Não olha agora, mas sua ex está olhando para cá. — Virei meu rosto ouvindo o suspiro de , talvez eu devesse ter escutado o que ele disse, para variar. Meg deu um sorriso carregado de segundas intenções e me vi obrigado a voltar a minha posição antiga, de costas para a mesa onde ela estava sentada.
— Vocês já conversaram? — quis saber. Ele era o único dos três que ia com a cara dela, foi o primeiro a conhecê-la, e o pai dele conhecia o Sr. Patterson por já terem trabalhado juntos no passado.
— Não sei se quero conversar, eu estou muito bem sem ela.
A verdade era que eu achava injusto, se Megan estivesse pensando em voltar comigo ela só provaria o quanto egoísta era. Ir do jeito que foi, sem aviso prévio, e retornar achando que encontraria tudo o que deixou nos devidos lugares? Aquilo não iria acontecer, eu não a deixaria brincar comigo daquele jeito. Mesmo com todos os arrepios que ela ainda me causava, mesmo que minhas pernas vacilem a cada sorriso dela, eu não jogaria todo o esforço que fiz para esquecê-la pelos ares.
— Ela está vindo. — Daquela vez não me movi, apenas esperei que seu perfume estivesse perto o suficiente e fingi surpresa ao vê-la ali, parada diante de mim e dos meus amigos.
— Meu tio adorou a banda! Disse que vocês tem um potencial gigantesco! — Observei por cima do ombro dela, Greg se afastar falando ao telefone. Era uma pena ele não ter ido até nós para nos dizer aquilo, pior, termos criado tantas expectativas para no fim não ter dado em nada.
— Bom, acho que essa é a nossa deixa. — nem se preocupou em disfarçar o desânimo, levantou-se e nós fizemos o mesmo, pegando nossas carteiras para pagar as poucas cervejas que consumimos na noite.
— Espera! — Senti meu braço ser puxado e olhei para trás, encontrando aquele par de olhos verdes penetrantes.
Me vi olhando para meu passado, tudo o que desejei por tanto tempo, ali, me encarando, Megan estava de volta. Eu mal podia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Talvez tivesse fantasiado aquela situação tantas vezes que de repente me via sem reação. Meus instintos me diziam par correr dali, fugir daquela encrenca em forma de pessoa.
me veio a cabeça de repente, era engraçado me lembrar dela justo quando pensava em algo relacionado a fuga. Mas aquela era a história dela, se não tivesse se distanciado do que a magoava, talvez ainda estivesse sofrendo. E sua fuga a levou para Londres, onde ela estava recomeçando e sendo feliz.
Ela era um exemplo de que nem sempre fugir era uma atitude covarde, na verdade, era um ato de coragem. Não deve ter sido fácil para ir embora do próprio país e dar as costas para as pessoas que amava, mesmo que eles a tivessem magoado.
Assim como não estava sendo fácil para mim resistir a garota que amava há meses, mas eu esperava que tivesse minha recompensa após renunciar a minha ex. Aguém melhor poderia aparecer no futuro, alguém que, mesmo que há um tempo atrás eu tivesse desconfiado não existir, eu amasse mais do que um dia amei Megan.
Quem sabe eu já não havia conhecido minha recompensa?
— Ainda tem meu número?
Neguei com a cabeça, vendo-a estender a mão para que eu a entregasse meu celular. Após um suspiro fraco lhe dei o aparelho, que foi desbloqueado por ela em questão de segundos. Talvez eu devesse ter mudado a senha, afinal de contas a data em que começamos a namorar já havia perdido seu significado, tinha se tornado apenas mais um encontro banal que tinha resultado num relacionamento duradouro, mas que foi terminado sem mais nem menos.
— Me liga quando puder. — Me devolveu o celular, inclinando-se e beijando o canto de minha boca. Fechei os olhos sentindo-a se afastar e sai dali o mais rápido que pude, tentando alcançar os meninos.
Fui em direção ao meu carro e me despedi dos garotos, o carro de saiu primeiro, e nele, os outros dois iam de carona. Vi alguém se aproximar e encarei o homem que fumava próximo a entrada do pub.
, não é? — Assenti e o observei jogar o cigarro no chão e pisar em cima para apagá-lo. — Gostei do que ouvi, vocês tem potencial. Te interessa fazer uma audição para os caras na gravadora?
Meus olhos se arregalaram e eu voltei a sentir aquela euforia perdida minutos atrás, só que maior, meu coração estava prestes a sair pela boca de tão acelerado que estava. Abria e fechava a boca, sem voz, a única solução foi assentir, e de novo, e de novo, causando o riso fraco do mais velho a minha frente.
— Vou pedir seu número para Megan, essa semana entro em contato.
De repente, me vi dentro do carro acelerando o máximo que o tráfego das ruas de Oxford me permitiam, tentava chegar até a casa de antes que o deixasse e fosse levar para o campus. Minha despedida com Greg foi tão rápida e desajeitada que parecia que todo aquele dialogo só havia acontecido em minha cabeça. Eu não via à hora de contar para os garotos, pessoalmente, e com todos juntos.
— O que está fazendo aqui? — indagou saindo de seu veiculo. Curiosos, os outros fizeram o mesmo enquanto me esperavam parar e ir até eles. Eu estava tão elétrico que apenas larguei o carro no meio da rua e desembarquei, encontrando os três confusos.
— E-Eu encontrei Greg P-Patterson na porta do pub, e-ele perguntou se estávamos interessados numa audição na gravadora, caras! — tinha os olhos azuis arregalados, enquanto me encarava de boca aberta. E claro que foi que soltou o primeiro grito de felicidade, levando todos a fazerem o mesmo.
Passavam-se das duas da madrugada, mas nenhum vizinho reclamou da nossa pequena festa, nos abraçávamos como se tivéssemos ganhado na loteria, como se tivéssemos assinando um contrato com a gravadora, comemorávamos a primeira chance que tinham nos dado. Aquele momento era esperado por todos, sabíamos que uma hora alguém iria acreditar em nós. E aquela noite havia chegado.
Carros paravam detrás do meu e buzinavam, por estarem sendo barrados, mas nem aquilo estragava o momento.


Capítulo 11

's point of view.

Observava a vista da grande janela da casa enquanto Noah desenhava com giz de cera nos papeis espalhados pela mesa de centro. Eu dava graças a Deus por ele ter esquecido da existência das canetinhas coloridas, se aquele pestinha riscasse o sofá branco como a neve daquela casa eu teria que vender um rim para comprar outro. A chuva fraca que tinha caído na minha ida ali havia cessado, e eu via o cachorro de pelos escuros latir no portão.
Era o mesmo do dia anterior, me perguntei se ele estava me esperando para me acompanhar até o ponto de ônibus novamente, ri fraco, ainda estava cedo para ir embora, infelizmente. Dias frios como aquele me tiravam totalmente a vontade de sair da cama, e aquela tarde estava sendo digna de uma caneca gigante de chocolate quente e uma maratona de série na Netfilx.
Havíamos retornado a velha rotina repetitiva, Brian e Elle estavam em seus quartos trancafiados, mas eu não os julgaria ou tentaria arrasta-los para o quintal novamente, estava frio demais para fazer qualquer coisa que não fosse deitar e dormir. Chamei o pequeno e fomos para a cozinha, já que não havia como ficar debaixo das cobertas em casa, improvisaria algo ali. Colocamos pipoca para estourar no microondas e fui preparar um chá.
Por incrível que pareça, as três crianças gostavam, alias, todos ali adoravam todo o tipo de chá. Nunca havia sido a fã número um deles, preferia milhões de vezes café com leite ou um achocolatado, mas como não tinha outra opção, tive que me adaptar com os costumes britânicos.
, vem ver! — Eu conhecia aquela frase. Quando dei por mim, estava sozinha na cozinha, suspirei já prevendo que algum dos três tinha aprontado algo.
Ou não.
Da última vez era apenas Noah querendo me mostrar o cachorro no portão. Respirei fundo rindo de minha própria paranoia, aqueles três já tinham aprontado tanto comigo que tudo o que fugia do normal me preocupava. Fui até a sala e quando me deparei com aquela cena tive vontade de me bater por ser tão ingênua. Eu estava certa, certíssima! Noah realmente iria apenas me mostrar o cachorro.
QUE ESTAVA DENTRO DE CASA.
— Quem foi que deixou esse pulguento entrar! — O tom de minha voz havia subido e eu tinha a certeza que estava completamente vermelha de raiva ao julgar pela minha temperatura, que havia subido consideravelmente de repente.
— Não o chame de pulguento! — Elle defendeu o labrador, passando a mão em sua cabeça e recebendo uma lambida em agradecimento.
O piso claro da casa havia ganhado enfeites novos, várias patas desenhadas mostrando o trajeto que o cachorro tinha feito para entrar ali. Puxava meus próprios cabelos desacreditada.
Eu gostava de cães, não achava certo que eles ficassem sozinhos e largados na rua, era realmente a favor de todos os animais de rua terem um lar. Mas aquele era o meu emprego, e a Sra. me mataria se visse a sujeira que aquele cão fez em sua sala de estar. Na verdade, ela me mataria se soubesse que algum dia um cachorro pisou ali. Louise não parecia simpatizar muito com animais.
— Fui eu. — Soltei uma risada com a resposta.
Claro! Quem mais poderia ter sido? Quando eu achava que não seria possível Brian levar aquela rixa que tinha comigo para o lado pessoal ele vinha e me surpreendia com aquilo! Ao contrário do usual, Brian não tinha um sorriso maldoso como fazia sempre que aprontava algo para me irritar. Ele estava sério, como eu nunca tinha visto antes. Apesar de assumir a culpa, algo me dizia que Elle também tinha participado daquilo.
O cachorro, agitado por ter tantas crianças por perto, correu pela casa fazendo-me grunhir de ódio e segurar a vontade de chorar. Aquilo só podia ser um pesadelo. Eu me recusava a acreditar no que estava acontecendo, não parecia ser real, principalmente pela calma com que as crianças estavam encarando aquilo. Como um balde de água fria, ouvi algo se chocar contra o chão e por um milagre dos céus não se quebrar. Era o vazo grande de flores que decorava um dos cantos da sala, que com toda certeza custava os olhos da minha cara.
— Brian, dessa vez você passou de todos os limites imagináveis! Sua mãe vai me demitir quando chegar e ver toda essa zona! — Esbravejei sentindo lágrimas molharem meu rosto. Odiava chorar na frente dos outros, mas sempre acontecia quando eu perdia o controle das minhas emoções. — Mas que droga! Você sabe que ela odeia cachorros, por que o colocou para dentro?
Eu sabia o que estava fazendo, via os pares de olhos azuis arregalados encarando-me como se eu fosse uma espécie de monstro. Mas não consegui me controlar por muito tempo, aquele era, com certeza, o pior dia da minha existência na face da Terra! Ok, Talvez não fosse, mas minha TPM fazia-me acreditar que sim. Apesar de ter consciência de que eu estava gritando como uma louca eu estava certa.
Não cuidava de bebês, cuidava de três crianças que já tinham idade o suficiente para saber que era errado colocar um cachorro enorme para dentro de casa sem avisar ninguém. Até mesmo Noah sabia daquilo. Estava farta de tentar ser legal com eles, porque tinha dias que as crianças pareciam se esquecer de tudo o que eu lhes dizia e de todos os castigos que eu os tinha livrado e se voltavam contra mim, desobedecendo e contrariando tudo o que eu dizia ou fazia.
— Eu não me importo se ela vai te demitir ou não! — O encarei incrédula, a frieza que Brian tinha usado para falar aquilo olhando no fundo dos meus olhos me fez parar no tempo por alguns segundos.
Sabe quando tem duas pessoas discutindo no calor do momento e chega alguém pedindo para que ambos se acalmem e pensem um pouco? Eu estava tentando ignorar o que havia escutado, mordia minha própria língua para não responde-lo e continuar aquela discussão. Iria deixa-lo se acalmar e evitar que falássemos alguma besteira.
Mas sabe como é, né? Era óbvio que minha TPM não me deixaria fazer aquilo.
— Ele estava lá fora sozinho no frio desde ontem!
Passava minhas mãos pelo rosto tentando manter a calma, contrariando meu próprio corpo que praticamente implorava para que eu gritasse e extravasasse aquela raiva de uma vez por todas. Meu coração batia tão rápido que me sentia uma bomba relógio prestes a explodir.
— Eu sei, Elle, eu o vi lá fora. Mas nem por isso eu o trouxe aqui para dentro, olha a bagunça que ele fez! — Passei pela menina e entrei num dos corredores da casa, encontrando o cachorro deitado no chão.
Depois de muito esforço, consegui leva-lo de volta para a sala sem ser mordida. Não que eu estivesse com medo dele, o cão parecia ser dócil e eu sabia que ele tinha ido com a minha cara desde a noite passada. O guiei para fora, e quando finalmente chegamos no quintal, as três crianças vieram atrás de nós.
— Não coloca ele para fora, você não manda em nada nessa casa, é só uma empregada. — Ignorava Brian, fingia não ouvi-lo.
Eu realmente não era paga para aquilo. Era um maldito sábado a tarde e eu estava ali por conta de uma viagem de emergência que os tiveram que fazer. Mesmo com um aumento de salário recente, mesmo recebendo por estar trabalhando num fim de semana, me arrependia amargamente de ter deixado Louise pensar que poderia me chamar para trabalhar nos fins de semana sempre que quisesse. Minha saúde mental agradeceria se eu tivesse negado desde o inicio.
Amava Brian assim como os outros dois, mas aquilo não me impedia de sentir raiva dele, todos tinham um limite, e o meu já havia se excedido há muito tempo. Não ia mais tolerar sua má educação como a mãe dele fazia, ele tinha que me respeitar porque eu não estava disposta a aceitar que uma criança de dez anos descontasse suas frustrações em mim.
Abri o portão, o colocando para fora ouvindo protestos até mesmo de Noah. Eu sabia da vontade deles de ter um cachorro, também tinha quando era da idade deles, mas como não era possível me contentava. Aquele era o pior defeito deles, e infelizmente a culpa era de Louise, que deveria ter ensinado desde cedo que não se pode ter tudo o que quer na vida.
A fina garoa já voltava a cair, fazendo-me ir em direção a casa para me abrigar, ainda tinha que dar um jeito na confusão que o ser de quatro patas havia criado. A residencia estava sem uma governanta, a Sr. havia prometido ao marido que iria contratar outra logo, mas parecia que o precioso tempo dela não deixava. Para que eu não tivesse múltiplas funções na casa, ela estava pagando alguém para fazer a limpeza da casa aos finais de semana.
Como não fui seguida por nenhum deles, resolvi ficar olhando pela janela, uma hora eles teriam que ceder e entrar. Pelo vidro avistei Brian abrir o portão. Respirando fundo fui em passos firmes de volta para quintal. Aquele realmente não era o meu dia.
— O que pensa que está fazendo? — Tranquei no portão a tempo de impedir que o cachorro entrasse novamente. — Já disse que ele fica lá fora. Vamos, entrem, está chovendo e eu não quero ter que levar ninguém ao médico por um resfriado. — Ninguém moveu um músculo sequer. Resolvi fazer algo que minha mãe vivia fazendo comigo quando eu era criança, e, bom, funcionou durante anos. Peguei Noah no colo e andei até a porta da casa.
— Largue o meu irmão! Você não manda em nós!
— Vou contar até cinco. — Ameacei já com uma das mãos posicionada na fechadura. — Um... Dois. Três. — Fechava a porta lentamente. — Quatro.
— Acho melhor nós irmos, Brian. — Elle cedeu, correndo até mim. Já era tarde, sua roupa já estava molhada pela chuva.
— Cinco. — Fechei a porta colocando o pequeno no chão e tirando suas vestes. — Elle, vá tomar um banho. — Murmurei sem ao menos olha-la, estava brava com ela, que se virou contra mim justo no dia em que eu mais precisava que cooperassem.
Ele não havia mandado mensagem.
E eu, tinha decidido não chama-lo como tinha feito da última vez. Queria checar se sentiria a minha falta, e a cada hora sem noticias dele fazia-me duvidar mais daquilo. Não era justo comigo tudo aquilo acontecer no mesmo maldito dia que antecederia minha menstruação. Normalmente eu estaria até calma, mas meus hormônios estavam me deixando louca.
Há um tempo, já tinha tido dias ruins com as crianças, e também já tinha ficado um dia inteiro sem trocar uma mísera mensagem com , mas ali, tudo parecia três vezes pior!
— Mas que droga! — Fechei os olhos com força ao ouvir o estrondo que Brian havia causado ao bater a porta.
— Está de castigo. — Peguei Noah no colo e recolhi suas roupas do chão. Quando me levantei para ir até o banheiro dar banho no menor, o encarei ainda parado diante da porta, ensopado.
— Você não é a minha mãe. — Disse entredentes, vermelho de raiva. Parecia que eu não era a única de TPM por ali.
— Graças a Deus.

(...)


Chegar em casa foi um alívio tão grande que eu nem poderia encontrar palavras para descrever. Encarei sentada no sofá e larguei minha bolsa no chão. Meu corpo implorava por um banho, me dirigi ao banheiro sem sequer cumprimenta-la.
Estava segurando minhas lágrimas há tantas horas, que eu nem sabia se ainda as teria quando enfim pudesse ter um tempo sozinha para libera-las. Minhas costas doíam, parecia ter um peso invisível nelas, talvez fosse pelo fato de eu ter passado o resto da tarde esfregando o chão da residência dos a fim de tirar as marcas de patas de cachorro do piso.
Meu choro foi se misturando com a água quente, que molhava meu cabelo junto de meu corpo cansado, os soluços, disfarçados pelo som do chuveiro. Tinha ficado ali debaixo por tempo o bastante para que meus dedos enrugassem, quando saí enfiei-me num pijama de frio e fui até a única pessoa que era capaz de amenizar meus problemas naquele momento.
— O que houve, ? — Encarei seu rosto confuso ainda de pé, apesar de pensar ter chorado tudo o que tinha para chorar no banho, me surpreendia com mais lágrimas saírem de meus olhos.
— Por que ele está fazendo isso, ? Descontando as coisas em mim, como se eu fosse um saco de pancadas? — Murmurava chorosa aconchegando-me em seus braços. — Eu sei que a mãe dele não liga para ele, que eu não posso substitui-la, mas o que custa me agradecer por me esforçar para suprir a falta dela? Eu não tenho culpa nenhuma, .
— Você sabe o que eu acho sobre esse seu emprego, . — Assenti ainda soluçando. — Te disse desde o início que três crianças era demais, te avisei que não seria tão fácil quanto parecia lidar com eles.
Era doloroso de ouvir aquele "eu te avisei", doía porque me fazia lembrar do dia em que ela me disse aquilo, e eu a ignorei. Quando aceitei o emprego estava tão feliz que meio que tinha fechado os olhos para todos os sinais de perigo que via pela frente. Logo em meu primeiro dia havia percebido a rejeição dos pais, que acarretaram os problemas de se relacionar de Brian. Mas para mim estava tudo bem, achava que aprenderia a lidar com ele com o tempo.
Mas a verdade era que, depois de três meses, havia progredido muito pouco com Brian.
— Eu não sei o que fazer, . A forma como ele me falava, parecia tão real, como se não ligasse para o que eu sentia. — Minha amiga ainda passava a mão em meus cabelos curtos, tentando me acalmar.
— Brian é só uma criança, . Deve ter se acostumado a ser assim com os pais, é um jeito dele de chamar atenção.
— Eu sei, mas não acho justo ele descontar em quem não tem nada a ver! Alguém tem que colocar limites nele!
— Você parece a mãe dele falando assim. — Riu fraco. Minha barriga roncou fazendo-me sair de seu abraço e secar meu rosto com as mangas da blusa. — Não cabe a você fazer isso, ! Você se apegou demais a essas crianças em tão pouco tempo, eu sei que eles são responsabilidade sua, mas você tem que parar carregar esse peso todo nas costas. Se os pais dele não lhe deram limites Brian vai aprender a ter sozinho, no futuro.
Estremeci diante de sua fala. Não gostava daquela frase, discordava totalmente dela.
— Eu não quero que ele aprenda sozinho, não quero vê-lo ter que se machucar para saber como as coisas realmente são.
Eu era um exemplo daquilo, estava ali por conta de meus machucados. Ter que ir para longe de todos para reaprender a não depender tanto das pessoas foi tão doloroso quanto ser descartada, tive que me afastar até que as feridas cicatrizassem. Minha mãe sempre que me privava de fazer algo dizia que estava fazendo para o meu próprio bem, porque ela sabia que não seria possível estar comigo o tempo todo e que um dia eu teria que me virar sozinha. E o mundo nunca foi caridoso com quem ainda estava aprendendo a lidar com ele.
— Não seja boba, ! Você não vai estar ao lado de Brian, Elle e de Noah a vida toda. — Suspirei alto a encarando ainda chorosa, estava coberta de razão. — O que você fez a respeito?
— Eu gritei com eles! — Exclamei chorosa, fazendo-a ficar surpresa com minha resposta, ela sabia que eu sempre mantinha a calma com as crianças, e se cheguei a aquele ponto era porque algo realmente tinha me tirado do sério. — você precisava ver a cara de assustados que eles ficaram, eu me sinto um monstro! — Ri fraco com os olhos marejados.
— Não acho que tenha funcionado, sinceramente, acho que só aumentou a ira de Brian. — Assenti concordando. Eu sabia bem daquilo, nunca tinha gostado dos gritos de minha mãe e nem achava que surtia algum efeito berrar com as pessoas.
— Dizer que estou de TPM me livra da culpa? — A olhei receosa, encolhendo meus ombros.
— Ah sim! Com certeza, inclusive vou aderir essa desculpa se um dia eu gritar com o meu chefe. — Sorriu irônica. — Mas você tem um desconto, vai! Nunca te vi reclamar do seu trabalho e sei que você ama aquelas crianças. Estava até demorando para começar a surtar. — Gargalhei junto dela enquanto me levantava indo até a cozinha, onde procurei algo para comer.
Sentei-me ao seu lado no sofá enquanto devorava a caixa de bombons que eu havia comprado no caminho de volta, o cachorro tinha me acompanhado até a porta da loja de conveniências do posto de gasolina e depois até o meu ponto de ônibus. Havia lhe feito um carinho na cabeça antes de partir, sentindo-me cada vez mais culpada por tê-lo colocado para fora.


Capítulo 12

— Por que não estou te vendo grudada no celular? Brigou até com o coitado do ? — Bufei ao ouvir seu nome.
— Nem cheguei a falar com ele... — Sussurrei cabisbaixa. — Não vou chamá-lo de novo, já fiz isso uma vez, agora é a hora de demonstrar interesse. — Dizia com convicção, torcendo para parecer totalmente certa no que estava falando.
Daquela vez, fer) não me faria voltar atrás na minha decisão de não chamá-lo. Estava começando a ficar farta daquela insegurança toda, minhas únicas certezas sobre eram externas, sua aparência, sua voz incrível e seu senso de humor, mas não achava que era possível dizer conhecer alguém com apenas aquelas características. Iria roer minhas unhas esperando que ele sentisse a minha falta. O que claramente eu não tinha certeza de que ia acontecer.
Aquilo de certa forma era um teste, se ele viesse atrás de mim me provaria que também estava apaixonado. Em nossas várias mensagens trocadas, apenas deixava claro a sua vontade de me ver, e aquilo poderia ser um mal sinal.
— Eu não ia sugerir isso, você já fez uma vez, agora é a vez de . O interesse tem que ser mútuo para as coisas derem certo.
— E que coisas, ?
— Ué, o que vocês dois tem. — Até a própria fer) se enrolava para explicar, e eu realmente esperava que ela pudesse me ajudar a entender, já que ela era a voz da experiencia.
— E o que nós temos? Hã? — Me remexi no sofá para encará-la melhor. — Eu nem sei se ele realmente gosta de mim ou só quer ficar comigo. Não sei se sente o mesmo que eu.
— Sabe que as pessoas entram no Tinder para algo mais casual, não sabe? Talvez ele também tenha, mas pode mudar de opinião, , eu acredito que sinta o mesmo. Já tentou perguntar?
— Ontem eu disse para ele, falei que gostava dele, aquela não era a hora de dizer que sentia o mesmo? — Indaguei com a voz esganiçada, eu tinha o direito de estar brava daquela maneira, tinha o direito de saber onde estava me metendo. — Que eu sabia esse tipo de coisa não se é perguntada, e sim demonstrada.
, você está de TPM. — Suspirou. — Ainda bem que ele não falou com você hoje, se não era capaz de vocês brigarem. — Bufei encarando o chão. De certa forma fiquei aliviada por não ter teclado com ele. — Calma, você só está estressada. Não estava preocupada com isso ontem, está de cabeça quente.
— Não estava até ele me dizer que tem uma ex. — Cruzei os braços irritada, até ouvir um riso fraco vindo da minha amiga. O que aumentou minha irritação, diga-se de passagem. — Qual é a graça disso?
, todo mundo tem ex. — Antes mesmo de eu protestar, lembrei-me da típica frase de mãe: "Você não é todo mundo." — Qual o problema nisso? Ele disse que não a esqueceu ou algo do tipo?
— Não. Mas disse que era recente, e que não queria falar sobre. Quando alguém não quer falar sobre uma mágoa é porque ainda dói.
— Vai ver só não gosta de falar sobre, não precisa criar caso em cima disso. O relacionamento pode ter terminado mal, sei lá... são tantas possibilidades amiga, se ficar pensando demais nisso vai enlouquecer.
— Eu não sei, . E se ele estiver me usando para esquecê-la? — Encostei minha cabeça em seu ombro.
— E se ele estiver? O que tem de mal nisso? Às vezes a única forma de superar um relacionamento é se apaixonando de novo. — Deu de ombros.
— Não quero sobras, . — Encolhi-me já sentindo o choro vir. — Você realmente acha certo eu esperar tanto para me abrir para alguém e quando finalmente consigo, ter que dividir espaço no coração dele com outra?
— Você não entende, . — Passou a mão em minha cabeça acariciando meus cabelos. — Talvez um dia entenda. Ás vezes precisamos seguir em frente. E isso significa abrir mão de uma pessoa que não nos faz bem para ir em busca da pessoa certa, e você pode ser o alguém que está procurando. — Beijou o topo da minha cabeça. — Só não seja precipitada, espere mais um pouco. Se estiver apaixonado vai te dizer na hora certa, e quando essa hora chegar, , a demora vai ter valido a pena.

(...)


Peguei meu caderno passando o dedo indicador devagar sobre o rosto de minha mãe na foto colada em sua capa, como se estivesse acariciando-a. Mas a distância me impedia de senti-la, de olhá-la diretamente nos olhos. Deixava algumas lágrimas escaparem enquanto me amaldiçoava por ter nascido mulher e ter TPM. De todas as que já tive, aquela foi a mais sofrida. Tudo parecia ter desandado e eu me via novamente perdida num mar de incertezas.
Parecia um karma que me cercava, que dizia que não importava o quão longe eu fosse para fugir das pessoas que confiei cegamente e me magoaram, sempre iriam aparecer novas versões deles para me fazer sofrer novamente.
Olhei pela janela do ônibus e vi um trânsito enorme se formando, bufei e em meio às buzinas, procurei uma caneta em minha bolsa e abri o caderno, apoiando-o em minha coxa. Dizem por aí que escrever é uma forma de desabafar, e como eu já havia feito me ouvir demais, preferi recorrer a escrita. Era minha última tentativa antes de ligar para minha mãe, eu sabia que ela era a única que conseguiria realmente me confortar, mas não queria preocupá-la.
Era apenas uma má fase, minha menstruação iria embora e levaria consigo toda aquela paranoia minha de que tudo ia de mal a pior. Encarei a folha em branco e me pus a escrever.
É apenas uma fase.
Uma semana mergulhada em lágrimas por qualquer coisa, sei que prometi a minha mãe que usaria o caderno para contar sobre minha experiência na Inglaterra, mas aquilo também fazia parte.
Mãe, quando estiver lendo isto, e eu tenho certeza que vai, não fique brava comigo por não ter te procurado. Eu sei que posso te ligar a qualquer hora do dia ou da madrugada, sei que a senhora largaria tudo o que estava fazendo apenas para me ouvir e me aconselhar, mas no momento em que me despedi naquele aeroporto eu decidi ser mais independente. E isso significa sair debaixo de tuas asas e resolver meus problemas sozinha.
E eu estou tentando. Acredite.

Estou agora num daqueles ônibus vermelhos e lindos que a senhora adora, sabe? Prometo que vou te levar uma miniatura quando voltar. A caminho do trabalho, onde as coisas começaram desandar, mas estou indo disposta a esquecer o que ouve com Brian. fer) tem a mesma opinião que a senhora teria, então vou fazer o que minha amiga me aconselhou, ignorá-lo. Mesmo que doa virar as costas para ele sabendo que vou me igualar a Louise.
Mas nada vai doer mais do que ouvir Brian dizer que eu era apenas uma empregada quando eu os considerava como uma segunda família.
E também tem , eu não queria te contar sobre ele sem ter certeza do nosso futuro. Você sempre esteve a par de tudo o que acontecia em minha vida, mas essa é a primeira vez que estou preferindo me controlar e guardar segredo. Não quero te dar falsas esperanças, já basta eu tendo ilusões com um futuro incerto.
Mas eu preciso desabafar, então mesmo que a senhora não possa me dar uma resposta agora, vou te contar tudo o que estou sentindo.
Estou com medo. Medo dessa minha dependência que desenvolvi por ele, eu nem o conheço! Como isso pode ser possível? Chega a ser engraçado como não me reconheço mais. Imagino qual seria a reação da minha versão de dezesseis anos ao me ver tão apaixonada, correndo atrás de alguém. Ela riria alto, ou talvez me xingaria por ser tão fácil de ser "levada no papo".
Essa não sou eu. O que eu mais temia está acontecendo e eu não sei como frear esse sentimento que cresce a cada dia mais, eu estou completamente apaixonada, e não que isso seja algo ruim, muito pelo contrário, eu sempre sonhei em me apaixonar, até mesmo aos dezesseis. Mas o que me fazia fria ao ponto de sair por aí dizendo que homem nenhum merece que a gente corra atrás era o medo de não ser correspondida. E eu continuo tendo esse medo.
A senhora sabe, nunca fui a pessoa mais conhecedora de assuntos do coração, e talvez o meu encanto seja consequência disso. sempre me trata tão bem, me faz sentir desejada e me faz rir como ninguém jamais fez. Nunca fui tratada dessa maneira por um garoto, e é tão bom saber que tem alguém nesse mundo que possa gostar de mim do jeito que eu sou, que eu acabo me rendendo tão rapidamente. E agora sumiu, por três dias. Mas foi tempo o suficiente para me deixar com medo de perder algo que eu nem sei se tenho de verdade."<\i>
Guardei minhas coisas de volta na bolsa e sai no ponto onde costumava descer, ajeitava a alça da bolsa em meu ombro sentindo-me nervosa, como se fosse minha primeira vez naquela casa. Esperava que aquela sensação ruim fosse passageira.
Segunda feira nunca foi o meu dia favorito da semana, mas naquela manhã eu tinha acordado disposta a tentar parecer pelo menos um pouco menos destruída. Havia passado maquiagem em minhas olheiras para disfarçar o estrago que elas causavam em meu rosto, vestia meu casaco favorito, um que havia pego de minha mãe para levar comigo e me lembrar dela. Adentrei a sala de estar receosa, dando de cara com o casal de saída para o trabalho.
— Noah já está acordado. — Louise murmurou passando por mim e indo até a porta, desaparecendo. Com as sobrancelhas arqueadas assenti, mesmo sabendo que ninguém veria.
Louise não precisava me informar aquilo, eu sabia que estava apenas começando no horário novo, mas eu sabia perfeitamente bem os horários das três crianças. Mais do que ela, a própria mãe dos três.
Apoiando-me no corrimão, terminei de subir, degrau a degrau me perguntando o que tinha para temer tanto. O pior estava por vir apenas mais tarde, era só o caçula, o meu favorito dos três naquele momento. Entrei no quarto pintado de azul claro e encarei a criança deitada, sonolento, Noah ainda vestia seu pijama do Toy Story e se espreguiçava despreocupadamente.
— Você chegou. — Sua vozinha baixa aqueceu meu coração por um segundo, me encostei no batente da porta como uma estranha que precisa ser convidada a entrar. — Ainda está brava com a gente?
— Não estou brava, estou magoada. — Suspirei enquanto me decidia a cada passo me abrir com o pequeno, sabia que Noah era novo demais para entender sobre mágoas, para ele a vida ainda era tão fácil quanto pedir perdão quando fazemos algo sem querer, o que não era o caso ali, Brian queria dizer tudo o que disse. Falou na intenção de me atingir, e era aquilo que me deixava mais machucada, era a certeza que ele tinha demonstrado ter enquanto me atingia com suas palavras.
— Você desculpa a gente? Queríamos muito ficar com o cachorro. — Engoli minhas palavras duras, aquelas que iria usar contra Brian para que ele aprendesse a me respeitar. Noah não tinha culpa do que havia acontecido. Soltei um riso fraco acariciando seu rosto pequeno.
— Não pode se desculpar pelos outros, Noah. — Beijei o topo de sua cabeça. — Mas eu te perdoo, só se me prometer que não irá me desobedecer nunca mais, ouviu?
Eu precisava ensiná-lo aquilo. Algo que achava que nunca haviam feito com Brian, Noah saberia desde aquele momento que não se podia fazer coisas que atingiriam outras pessoas e depois apenas pedir desculpas sabendo que repetiria o ato.
— Eu prometo.
— Olha lá, hein! Não pode prometer algo que não vai cumprir. — Peguei seu nariz, arrancando uma risada dele.
— Eu prometo, ! — Disse manhoso. — Não gosto de te ver triste.
— Agora sim eu acredito! — Lhe abracei de modo inesperado, fazendo Noah gargalhar alto em resposta. — Vamos lá tomar café da manhã.
— Me leva de cavalinho? — Revirei meus olhos diante daquele ser incrivelmente fofo com os braços levantados em minha direção.
— Você ainda vai acabar com a minha coluna, sabia? — Me virei agarrando suas pernas enquanto o sentia segurar em meus ombros.
Apesar de realmente ter o peso de Noah em minhas costas, aquela conversa havia tirado boa parte do peso que andava carregando nas costas. Me perguntava como uma criança de apenas cinco anos conseguiu um feito daqueles, mas Noah já havia deixado de me impressionar com sua inteligência precoce há muito tempo.
Horas depois, ouvi o barulho da perua escolar se aproximar da entrada e meu corpo começou a ficar tenso involuntariamente. Era patético uma garota de dezoito anos temer duas crianças, mas eu tinha uma razão muito forte para aquilo, afinal de contas eles eram o meu trabalho, e ter conflitos com os dois me daria bastante dores de cabeça.
— Oi, . — Elle entrou receosa, tirando a mochila das costas. Já Brian passou reto, nem ao menos me olhou, foi direto pro quarto.
Nossa relação regrediu tanto que eu chegava a pensar que estava pior do que na primeira vez em que cuidei deles. Pelo menos antes Brian não tinha motivos para me odiar, só virava a cara para mim por simples birra. Na verdade, quem deveria estar com raiva era eu, mas é como eu havia falado para Noah mais cedo, estava magoada. Não conseguia odiar nenhum dos três, por amá-los demais, e era por aquilo que doía tanto em mim vê-lo agir daquela forma.
— Oi. — Respondi com a voz baixa, após um breve silêncio de minha parte. O clima não estava dos melhores, mas eu não poderia fazer nada. estava certa, eu não podia passar a mão na cabeça deles a cada vez que cometessem erros, e se os perdoasse tão facilmente, daria margem para futuras desobediências.
Apertava meu coração não ganhar um beijo na bochecha e não poder perguntar a ela como havia sido seu fim de semana, queria conversar com Elle, perguntar como andava o balé e colocar os outros milhares de assuntos que tínhamos em dia. Porém precisava ser fria até que ela se desse conta do que havia feito e me pedisse desculpas.
Seus olhos azuis me encararam por um tempo, após olhar para os próprios pés, Elle suspirou levando a mochila consigo para o andar de cima. Parecia que só Noah tinha senso moral, e eu tinha certeza de que ele havia nascido com ele, até porque eu duvidava que Louise tinha se preocupado em passar valores para os filhos.
E mais uma vez aquela tarefa era delegada a mim. E naquele momento eu comecei a entender o motivo de Louise fazer o que fazia, não era fácil ensinar o uso do perdão para crianças, fazê-los entender que só devemos usá-lo quando estivermos realmente arrependidos, caso o contrário seria da boca pra fora. E tudo o que era dito da boca pra fora soava falso.
— Noah, querido, chame seus irmãos para almoçar. — O menininho loiro assentiu e foi obediente, indo até as escadas.
Fui para a cozinha, onde a comida já havia sido preparada por mim mais cedo. Louise ainda não havia se encarregado de contratar outra governanta, e algo me dizia que ela não moveria um dedo para encontrar outra logo. Eu estava recebendo mais, mas não me importava com aquilo, apesar de ter mais horas de trabalho, só tinha a tarefa de fazer as refeições deles.
Não virei o pescoço para olhar quem eram os donos dos passos que tinha ouvido. Peguei um prato e coloquei a comida de Noah, após colocar o recipiente ao alcance dele retornei ao fogão fazendo o mesmo para Elle. Brian já se levantava e se servia, o que não me causou tanta estranheza, já que ele poderia ser tão orgulhoso que chegava a assustar pelo seu tamanho. Se atrapalhava com os utensílios vez ou outra mas eu não ia até ele auxiliá-lo.
Encostada na pia de braços cruzados o observava e, apesar de tudo, achava até bom aquilo estar acontecendo. Só daquele jeito Brian aprenderia a se virar sozinho.
Comemos num silêncio perturbador. O barulho dos nossos talheres e o som que fazíamos enquanto mastigávamos dariam para serem ouvidos do lado de fora da enorme casa dos . Olhava para aquelas três cabeleiras loiras e sentia meus olhos se encherem de lágrimas. Parecia que eu estava ali perdendo o pouco tempo que tinha ao lado deles sem aproveitar.
Eu só tinha mais dois meses em Londres e estava numa contagem regressiva para retornar ao Brasil. Meus planos sempre foram aproveitar ao máximo as pessoas que estavam em minha volta antes que o prazo do meu visto terminasse. Mas eu não iria dar o braço a torcer. Meu orgulho poderia ser tão gigante quanto o de Brian.
Apesar de ser orgulhosa, eu não conseguia deixar de me sentir mal. Era horrível sentar e esperar uma atitude de alguém, e eu estava experimentando aquela sensação em dobro. Aguardava uma mensagem de desde a última vez que conversamos e esperava Brian e Elle me pedirem perdão. Aquilo me lembrava dos meus antigos amigos no Brasil, e aquelas lembranças eram as que eu mais tentava esquecer. Era como se minha felicidade não dependesse de mim, como se eu vivesse parada apenas esperando que algum deles viesse até mim e fizesse minha presença ter alguma utilidade.
E eu havia prometido a mim mesma que nunca voltaria a ser aquela garota. Eu não dependia mais de ninguém para ser feliz, era dona da minha própria vida e me bastava sozinha. Aquelas recaídas eram apenas sinais de que eu, talvez, não desejasse realmente ficar sozinha, mas me forçava a acreditar que sim, não precisava de ninguém.
Colocava Noah em sua cadeirinha e voltava ao meu lugar, estávamos todos absortos em pensamentos, e assim foi nosso caminho todo em direção ao prédio onde Elle fazia ballet. A rotina de sempre nunca foi tão estranha, estávamos nós três, Noah, Brian e eu fazendo o de sempre, nos distraindo para não morrer de tédio. Mas pela primeira vez, aquilo estava me incomodando.
E mais uma vez a culpa de não estar desfrutando o pouco de tempo que teria com as crianças me tomou. Porquê tínhamos que nos distrair como se estivéssemos sozinhos? Não precisávamos de celulares ou HQs quando tínhamos uns aos outros. Eu poderia usar aquilo para tentar me aproximar melhor de Brian ou até ensinar algumas coisas para Noah, que no próximo ano já ingressaria na escola.
A tecnologia realmente afastava pessoas, muitas vezes colocamos os fones de ouvido para ignorar o resto do mundo, mas nos esquecemos de que ele nem sempre deve ser ignorado, ás vezes temos que ouvi-lo melhor. Ter consciência de que a vida não é apenas o que uma tela quadrada nos mostra, e sim tudo o que há em volta. Me arrependia de não ter tirado meus fones para ouvir a voz de minha mãe, eu daria tudo para ouvi-la pertinho de mim, não através de uma ligação.
Assim que terminou sua aula, Elle veio em nossa direção, ainda vestindo sua roupa rosa mas sem o costumeiro sorriso aberto no rosto. Não abri minha boca para perguntar o que havia de errado. Era nítido que as coisas entre todos nós estavam erradas desde a última sexta feira.
Parecia que estávamos todos com problemas, justo quando estávamos separados por nossos orgulhos. Brian andava inquieto, já Elle mal humorada, eu achava que tinha sido dispensada e Noah...Bom, ele era apenas um menino de cinco anos, ninguém tinha grandes problemas naquela idade.
Saímos do prédio completamente calados, contemplei o céu completamente cinza e pensei em como meus problemas poderiam estar contrastados até com a coloração das nuvens, iria chover mais tarde, e eu não havia levado meu guarda-chuva. Parecia que quando eu pensava que não tinha mais como piorar, algo acontecia e ria na minha cara por ser tão ingênua ao ponto de pensar que eu já tinha problemas o suficiente na vida. Peguei Noah no colo e estava prestes a colocá-lo para dentro do veículo, quando escuto um barulho alto muito próximo de onde estávamos.
Tudo aconteceu tão rápido, literalmente num piscar de olhos. Quando abri meus olhos já estava no chão, tentando não depositar todo o meu peso em cima dos três corpos menores debaixo de mim. A traseira do carro preto da senhora parou muito próxima de mim, em cima da calçada onde caímos. Os pedestres, assustados com o que presenciaram, correram até o local do acidente, temendo que tivéssemos sido acertados.


Capítulo 13

Noah chorava alto, Elle estava tão pálida quanto um pedaço de papel, e Brian tremia da cabeça aos pés, visivelmente assustado. E eu?Bom, estava a junção dos três. Tirei meus cabelos do rosto encarando o pneu tão perto de meu corpo, um arrepio me atingiu e meus olhos encheram-se de lágrimas, eu estava sem fala, completamente sem ação. Levantei-me ainda ofegante, minha cabeça girava, fazendo-me quase cair desmaiada ali por conta do susto.
Peguei Noah com as mãos trêmulas, mexendo em todas as partes de seu pequeno corpo a procura de algum machucado, fiz o mesmo com os mais velhos, esquecendo-me completamente da tensão entre nós. Elle também estava sem machucados, já Brian tinha ralado o joelho que sangrava, mas ele estava tão em choque que nem ao menos reclamou quando ergui a barra da sua calça para ver o ferimento debaixo de sua roupa rasgada pelo impacto.
Após analisa-los, procurei ferimentos em mim, mas eu estava ilesa, apesar de sentir uma dor incomoda no pulso. Quando vi o carro vir em alta velocidade em nossa direção, coloquei Noah no chão atrás de meu corpo e caí puxando Brian e Elle para perto de mim. Meu instinto foi protegê-los, e eu estava muito aliviada por ter feito aquilo com sucesso.
Assim que consegui me acalmar, sequei minhas lágrimas e deixei as crianças com a professora de Ballet de Elle, que ouviu o barulho e correu para fora para ver, assim como os comerciantes e clientes dos estabelecimentos em volta. Ainda transtornada, dei a volta no carro encarando boquiaberta a lataria completamente amassada, os cacos de vidro pelo asfalto e principalmente, o parachoque do veiculo praticamente irreconhecível ao carro da Sr. .
O airbag tinha sido acionado por conta da batida, e o motorista do outro carro se encontrava debruçado sobre ele, inconsciente. Sirenes começaram a soar e a luz vermelha e piscante invadiu meus olhos, a viatura freou bruscamente e seus ocupantes desembarcaram já portando suas armas. Assustada, recuei assim que os observei dar voz de prisão ao homem que causou o acidente. Ao que parecia, se tratava de uma perseguição policial, que havia se encerrado ali, por conta da colisão.
— A senhorita é a proprietária do veiculo?
— Não, é da minha patroa. — Disse baixo, abraçando meu próprio corpo.
Eu sabia que não tinha culpa naquela história toda, mas mesmo assim não consegui deixar de estremecer ao me lembrar que provavelmente levaria uma bronca daquelas dos . Não só por conta do carro, mas também pelas crianças, que poderiam ter se machucado de verdade.
— Preciso dos documentos do carro e de sua habilitação.
— E-Eu não tenho os documentos do carro — me repreendi silenciosamente por ter gaguejado, parecia até que eu havia causado o acidente! Estava tão nervosa por estar sendo interrogada por um policial que nem ao menos havia me lembrado de checar as crianças.
— Então a senhorita terá que me acompanhar até a delegacia — arregalei meu olhos e fui até o outro lado do carro, pegar minha bolsa que havia colocado no banco do passageiro. Lhe entreguei, quase que correndo, minha PID*, esperando que aquilo o fizesse me librar. Afinal de contas eu já havia explicado que o veiculo não era meu. — É estrangeira... — Me mediu com o olhar fazendo-me ficar ainda mais nervosa. — A mocinha vai ter que me acompanhar e entrar em contato com a proprietária do veiculo para que ela possa me trazer os documentos.
Suspirei derrotada e assenti, eu não tinha escolha mesmo. Ainda com a bolsa em meu ombro, fui atrás das crianças, que estavam na sala de espera do prédio onde Elle fazia ballet. A recepcionista junto da professora ainda tentavam acalma-los, lhes deram água e sentaram os três nos sofás. Mesmo com todo aquele aparato, nenhum deles parecia ter se acalmado por completo.
Peguei Noah que ainda chorava com a mão na boca e levei os três junto de mim, agradecendo as mulheres por terem cuidado deles durante a minha ausência.
— Mais alguém se machucou? — Neguei observando ao fundo o homem que causou tudo aquilo ser algemado e retirado de dentro do carro, ele estava meio grogue e seu rosto sangrava por ter sido atingido por alguns estilhaços.
— Não, Brian apenas ralou o joelho. — Apontei o mais velho, que ainda estava agarrado a Elle, que não aparentava estar no mesmo planeta que nós.
O homem pegou o rádio murmurando algo, logo depois, abriu a porta traseira da viatura nos dando espaço para entrar. Eu nunca imaginaria na vida que entraria numa viatura, quanto mais em Londres. Chegamos na delegacia e adentramos o prédio, as crianças, curiosas, encaravam tudo e a todos ali, desde suas armas, seus distintivos e uniformes e até os diferentes modelos de viaturas no estacionamento. Se não fosse pelo acidente, eles estariam feito loucos de tão fascinados com aquele lugar. E eu precisava admitir, também estaria achando aquilo um máximo.
— Leve o garoto para fazer um curativo. — Sua voz grave soou no corredor em que passávamos, a mulher devidamente fardada apenas assentiu pegando Brian pela mão.
... — Ouvi meu nome e me virei para encara-lo, seus olhos azuis estavam marejados, e sua testa franzida. Brian estava com medo de ir sozinho.
— Me dê o número de telefone da sua patroa. Você fica com eles enquanto eu entro em contato com ela. — Sorri minimamente, agradecendo por aquilo. Anotei o nome, o número de Louise e segui com as crianças e a policial para uma das salas no térreo do prédio.
Sentei-me na fileira de cadeiras azuis junto de Elle e com Noah em meu colo, à nossa frente, Brian estava sentado enquanto observava a mulher que nos levou até ali remexer alguns utensílios de primeiros socorros. Ele encarava o chão, e eu não conseguia tirar os meus olhos dele. Não conseguia parar de passar as mãos nos cabelos lisos de Noah e nem deixar de sentir aquela vontade de chorar.
Vendo-o ali, reclamando de dor enquanto a policial limpava o machucado em seu joelho, sentindo o corpo de Elle junto ao meu, ainda tremendo, recapitulei os últimos acontecimentos e me vi desesperada. A ficha estava começando a cair, após conversar com o policial, ver o condutor do outro carro envolvido na batida ser preso e ir até a delegacia eu finalmente pude parar para pensar no que poderia ter acontecido.
Me arrepiava por inteira só de pensar na possibilidade do carro de Louise não estar ali no meio fio para nos proteger do impacto. E se, mesmo que protegesse, ele não desse conta de nos cobrir, como estaríamos agora? Provavelmente desacordados numa cama de hospital ou até mortos. Sequei as lágrimas que caíram pelo meu rosto sem que eu me desse conta e peguei o mais velho me encarando, Brian também chorava.
Sem qualquer tipo de aviso prévio, Louise adentrou a sala quase que correndo, assustando-me com a rapidez em que ela conseguia andar sobre aquele par de saltos. Praticamente arrancou o filho mais novo de meus braços, o abraçando forte. Elle se levantou, indo em direção a mãe, que apenas se deixou ser abraçada pela menina.
— Vocês estão bem? — Sua voz fraca denunciava o quão instável o emocional dela estava, mas não cheguei a ver lágrimas em seu rosto quase tampado pela cabeleira loira de Noah.
— Sim. — Respondeu Brian pelos mais novos assim que a mulher terminou seu curativo. — nos protegeu.
Todos os olhares da sala se voltaram para mim, até mesmo a policial me encarou, com um pequeno sorriso ela apenas se retirou do local, nos deixando a sos.
— Obrigada.
Eu sabia o quão difícil era para Louise agradecer alguém. Ela sempre andava com seu nariz empinado e ótima postura desfilando por aí em seus saltos caros, se achava superior aos outros que não tinham os mesmos números na conta bancária ou que não pudessem manter um estilo de vida similar ao que levava. Não que eu já não houvesse ouvido um agradecimento dela, mas eles eram tão raros que eu já não me lembrava da última vez que recebi um.
Seus olhos claros estavam focados em mim, até fazia-me ficar sem jeito de tão intenso que era. Eu cheguei a ver um brilho diferente neles, e ali sim consegui identificar que o que ela me disse tinha sido completamente real, não uma mera obrigação como das últimas vezes. Apesar de ser praticamente um iceberg, Louise amava aquelas crianças e mãe nenhuma deseja mal aos próprios filhos. Amava do jeito dela, um pouco insensível, e que ás vezes não era tão visível.
— Não precisa agradecer, eu prometi que cuidaria deles. E esse é o meu trabalho. — A mulher assentiu em concordância e pegou Noah no colo, coisa que eu não a via fazendo há um tempo.
O policial que nos levou até ali adentrou a sala, chamando Louise para conversar. A mulher por sua vez o acompanhou, levando o filho mais novo e Elle, que não desgravada da mãe, consigo.
Soltei o ar que eu não percebi estar segurando e me levantei dando passos incertos, numa direção qualquer dentro da sala. Passava as mãos no cabelo tentando convencer a mim mesma que tudo aquilo já havia passado, forçava-me a ficar tranquila, afinal estávamos todos bem.
— Virei-me encontrando Brian ainda ali, sentado na mesma posição sob a maca. Um lado de sua calça jeans estava cortada na altura de seu joelho enfaixado. Seria engraçado se não estivéssemos naquela situação.
— O que foi? Está doendo em mais algum lugar, quer que eu...
— Me desculpe. — Me interrompeu fazendo-me parar de falar abruptamente, suspirei olhando em seu rosto pela milésima vez naquela tarde.
Perguntei-me se ele estava esperando acontecer um acidente que nos colocasse em perigo para enfim se reconciliar comigo. Talvez ele também tivesse refletido sobre tudo após o que nos aconteceu. Afastava aquele pensamento de minha cabeça, não importava o que o havia feito dar o braço a torcer e me pedir desculpas. O que realmente importava era que Brian parecia estar sendo sincero e principalmente, estava arrependido.
— Eu estava nervoso naquele dia, o que eu disse não é verdade. — Engoli a seco assim que o ouvi fungar baixinho, algumas lágrimas caíram de seus olhos claros e me vi sem saber o que dizer. — E o que aconteceu só confirma isso. , você se jogou na nossa frente, sem se importar com o que te aconteceria! Acho que nem minha mãe teria esse instinto.
— É claro que ela teria! — O interrompi de imediato. Eu sabia que não poderia sair afirmando coisas que nem mesmo sabia se eram reais, mas eu realmente acreditava que Louise faria o mesmo no meu lugar. — Ela é a sua mãe, Louise morreria se algo acontecesse com um de vocês. Ela só não sabe demonstrar isso direito. — Sentei-me ao seu lado encarando meus próprios pés.
— Talvez você esteja certa.
— Sim, você viu o jeito como ela entrou aqui, estava desesperada. — Argumentei, encolhendo meus ombros.
— Não, , Você estava certa em dar graças a Deus por eu não ser seu filho. — O fitei confusa. — Eu acho que estou ficando como ela e o papai. E eu não quero ser assim, não quero ser um pai ausente para os meus filhos. Vou querer abraça-los, ouvir o que eles terão pra dizer e estar ao lado deles. Mas, se eu continuar frio como minha mãe, nunca vou conseguir demonstrar o que sinto.
— Sabe, eu já ouvi dizer que nós geralmente não daremos aos nossos filhos a mesma criação que recebemos.
— Você acredita mesmo nessas pesquisas idiotas? — Fungou secando as lágrimas que escorreram pelo seu rosto.
— Não. — Soltei um riso fraco arrancando um pequeno sorriso dele. — Eu acredito que você possa mudar o seu jeito, sem pressa, um passo de cada vez, com um sorriso ali, um abraço aqui... — Passei o braço ao redor de seu ombro fazendo Brian se encolher rindo. — E quando você for ver já estará demonstrando tudo o que sente, assim, sem ao menos perceber. Brian, você só tem 10 anos, tem tempo de sobra para amadurecer, muita coisa para aprender. Até para começar a planejar ter filhos e paranoias quanto a ser um péssimo pai. Os adolescentes já estão tão evoluídos assim? — Gargalhei junto dele. — Mas tenho certeza de que você dará o melhor de si a eles, e se isso significar tentar cria-los do seu jeito, você será um pai incrível apenas por tentar faze-los felizes.
— Você quer ter filhos?
Encarei a parede branca a nossa frente e soltei um pequeno suspiro. Era claro que a resposta era sim, eu achava a maternidade algo incrível e adorava crianças. me veio a cabeça instantaneamente, e abaixei minha cabeça ao me dar conta de que eu estava indo longe demais com aquele lance de ser iludida. Tudo bem, já havíamos escolhido os nomes dos nossos filhos, mas depois de tantos dias sem nos falar eu duvidava que nós iriamos tão longe ao ponto de procriarmos.
Após aqueles três dias, um mísero encontro com ele soava demais para mim.
Fora que eu estava parecendo uma adolescente que realmente acreditava que o grande amor da minha vida seria o meu primeiro namorado, que iriamos nos casar e ter filhos lindos e uma vida bem sucedida juntos. Obrigada por me enganar Hollywood!
— Queria. Mas depois de ver como vocês três aprontam estou começando a mudar de ideia sobre isso. — Coloquei a mão no queixo rindo.
— Você vai ser uma ótima mãe. — Arquei minhas sobrancelhas surpresa com o elogio repentino. E mesmo que não fosse tão repentino assim, vindo de Brian, soava até estranho. — Nos trata como se fossemos seus filhos, como hoje, quando se arriscou para nos deixar seguros. Sempre nos escuta, até mesmo eu, que estou sempre me queixando de algo, nos apoia em tudo, como fez com a Elle e o ballet. — Sorri abertamente com os olhos marejados. Brian ficou envergonhado e vermelho, mas aquilo não o impediu de continuar a falar. — Você é muito mais que uma empregada lá em casa, , Você é como nossa irmã mais velha, como .
Arfei assustada, meu Deus! Ser comparada com pelo Brian, era um elogio e tanto! O abracei tão forte que quase sufoquei o garoto, que tentava a todo custo se soltar de mim. Brian odiava demonstrações de afeto, mas ele havia praticamente implorado por aquele abraço.
— Olha só quem está aprendendo a dizer o que sente!
! Me solta! — Gargalhei finalmente largando-o. Brian, emburrado, passou as mãos pelos cabelos loiros tentando coloca-los no lugar. — Você e essa mania de ficar abraçando os outros.



Capítulo 14 - Love You Goodbye

— Ah, meu Deus! Você foi demitida!
Aquilo não era um pergunta, era uma afirmação. Não tive tempo nem de me levantar do sofá, minha colega de apartamento já me encarava incrédula.
, o que fez com aquelas crianças? — levantei-me assustada ao ver uma pálida feito papel parar na minha frente, tampando a imagem da Tv.
— Não fiz nada, ué
— Então o que está fazendo aqui uma hora dessas?
Estava explicado. sempre chegou antes de mim em casa, saía da faculdade enquanto eu ainda estava na casa dos . Ela fazia o jantar e eu lavava a louça depois que comíamos. Era daquele jeito que funcionava desde o meu primeiro dia ali, mesmo que tivesse dias em que eu desejava trocar por estar muito frio para lavar pratos.
— Aconteceu um imprevisto e a Sra. teve que ir pra casa mais cedo.
Fingi desdenhar enquanto a observava largar a bolsa no sofá e se jogar ao meu lado no estofado. Eu tinha que preparar o terreno antes de contar o que houve mais cedo. e eu não tínhamos uma diferença de idade muito grande, mas havia momentos em que ela praticamente incorporava minha mãe, e podia ser tão super protetora quanto.
Fora que iria praticamente me forçar a ligar para o Brasil e contar o que houve. Digamos que minha mãe era o completo oposto de Louise e surtaria se soubesse que algo tinha me acontecido. E eu não queria aquilo. Se Louise tinha reagido daquela forma, minha mãe faria três vezes pior.
— Que tipo de imprevisto? Por acaso os vizinhos chamaram a polícia por ouvirem você maltratando aqueles pirralhos?
— HÁ, muito engraçada — olhei séria para o seu rosto risonho. era uma ótima pessoa, mas seu senso de humor era, no mínimo, questionável. — Fiz as pazes com as crianças, não precisei maltratar ninguém — cruzei os braços. Respirei fundo e decidi contar logo. — Mas você quase acertou, o tal imprevisto realmente envolve a polícia. E um pequeno acidente com o carro — a encarei receosa com os ombros encolhidos.
, o que houve? Você se machucou? Alguém morreu? — arregalei meus olhos. — Tem que ligar para sua mãe e contar o que houve!
Não disse?
— Calma! Meu Deus, você acha mesmo que eu estaria calma desse jeito se alguém tivesse morrido! — exclamei incrédula. — Não foi nada demais, Ok? Estávamos saindo do ballet de Elle quando um carro bateu na lateral do veículo da Sr. . Brian ralou o joelho e o resto de nós saiu ileso. Não preciso ligar para o Brasil, minha mãe vai surtar!
— Caramba, . Ainda bem que não foi nada sério como eu estava pensando — assenti agradecendo mentalmente pelos pensamentos de não serem reais, porque aquela imaginação dela era um tanto fértil quando era para imaginar alguma tragédia.
— É, ainda bem. Eu ia colocar Noah na cadeirinha, que estava bem perto da outra porta — senti um nó enorme em minha garganta, mas engoli o choro, já tinha derramado lágrimas demais. Era o momento de apenas agradecer e não ficar pensando no que poderia ter acontecido. — Não quero nem pensar no que faria se Noah tivesse sido atingido — apoiei meu queixo em minha mão e recebi um abraço.
— É melhor não pensar mesmo — beijou o topo da minha cabeça. — Ou talvez seja bom, já pensou se você morre virgem? Temos que resolver esse seu problema logo, antes que seja tarde demais.
Lhe bati enquanto ela gargalhava. Só mesmo para me fazer rir daquilo tudo. Talvez as piadas dela não fossem assim tão péssimas como eu havia falado anteriormente. Algumas até eram engraçadas. E aquela havia me feito lembrar de alguém que, apesar de ocupar a maioria dos meus pensamentos, no meio da confusão ficou um pouco esquecido.
Talvez ela, como sempre, tivesse razão. Não sobre perder a virgindade! Quero dizer, não que eu quisesse morrer virgem, mas não concordava com aquele desespero todo. De qualquer forma, havia sido apenas uma brincadeira. Mas me peguei pensando se não deveria mandar uma mensagem para .
Aquele papo todo de morte e acidente me fizeram pensar em como eu poderia perder aquela oportunidade de conhecê-lo se não desse o braço a torcer. Perder no sentido de ir embora em apenas dois meses, mas eu também pensei em como eu poderia ter morrido se o acidente tivesse sido mais sério. De qualquer jeito, ir embora sem ao menos conhecê-lo, ver seus olhos de perto, sentir seus lábios nos meus e ouvir sua voz ao pé do ouvido, me parecia desperdício demais.
Desperdício do tempo que gastei lhe mandando mensagens, das horas de sono perdidas imaginando como seria tê-lo junto de mim antes de dormir e, principalmente, dos sentimentos que preencheram o meu coração que nunca havia sido tão cheio antes de sua chegada em minha vida.
— Sabe, acho que vou mandar um oi para o — suspirei pensativa. ponderou o que eu disse e apenas concordou com a cabeça. Provavelmente incerta sobre o que pensava sobre aquilo. — O que eu tenho a perder?
Me levantei indo em direção ao quarto, onde eu havia deixado o celular carregando.

: "Oi"

Larguei o aparelho sobre a cama já prevendo que não seria respondida tão cedo, deveria estar muito ocupado trabalhando uma hora daquelas. Ou, como meu coração realista até demais me dizia, ele poderia ter desistido de nós.

: "Oi! Há quanto tempo.
Você não aparece mais, não me ama mais?"


Revirei os olhos pensando no quão dramático aquilo soava. Mas, depois daqueles dias sem receber uma mensagem, qualquer coisa que ele me dissesse me faria sentir novamente aquelas famosas borboletas no estômago.

: "Acho que você descobriu o que eu estava adiando para te contar.
O que houve entre nós foi apenas uma coisa de momento.
Inclusive eu já estou em outra."


Mandei uma fileira inteira de emojis rindo.
Acho que nunca poderia dizer que o que e eu tínhamos fosse algo banal. Se parasse para pensar, o que havia acontecido entre nós não era tão comum quanto alguns relacionamentos normais, que começaram naturalmente, por exemplo. Gostávamos um do outro como se já tivéssemos nos encontrado pessoalmente, e aquilo era incrível para duas pessoas completamente diferentes que tinham quilômetros de distância os separando.
E eu realmente acreditava que tudo o que sentíamos só ficaria mais intenso quando finalmente nos encontrássemos. E, também, tentava colocar em minha cabeça que se sentia do mesmo jeito que eu, porque se eu não acreditasse naquilo, me sentiria tola por trocar mensagens com alguém que nem ao menos tenho certeza que também gosta de mim. Eu estava novamente fazendo o que me aconselhou, iria aguardar confirmar minhas suspeitas.
Valeria a pena.
Eu nunca havia vivido um relacionamento com reciprocidade antes. Nunca tinha vivido nenhum relacionamento, diga-se de passagem. Mas aquela palavra esquisita estava deixando de ser estranha para mim, e eu já havia adorado aquela sensação. Acreditava que com a fazia ser milhões de vezes melhor.

: "Uau, você é rápida! haha
E eu aqui, pensando em você."

: "Está blefando."

Mandei um emoji desconfiado.
Tinha sentido falta de falar com ele, e de repente me veio uma vontade de fazer o que aconselhei Brian a começar mas quase nunca fazia: Demonstrar o que sentia. Quando dei por mim, já estava digitando outra mensagem. Uma coisa que, se algo ruim tivesse me acontecido mais cedo, eu nunca poderia falar para .

: "Saudades de conversar com você."
: "Também senti sua falta.
O que andou aprontando nos últimos dias?"
: "Nada, apenas o de sempre.
E você? Trabalhando muito?"
: "Você nem imagina. Aconteceram algumas coisas nesse fim de semana que me deixaram preocupado.
E você ainda sumiu, foram os três dias mais conturbados da minha vida."


Gargalhei alto. tinha que parar de brincar com meus sentimentos daquele jeito. Era engraçado vê-lo fazer aquele dramalhão todo, se estivesse realmente sentindo minha falta, me procuraria. Não deixei de estremecer imaginando o que teria lhe acontecido. Resolvi perguntar, mesmo que ele não se abrisse sobre seus sentimentos comigo, talvez quisesse desabafar com alguém. E eu estaria sempre disposta a ouvi-lo.

: "Você é tão dramático, haha.
Comigo aconteceu o mesmo, foram dias difíceis
Quer me contar o que houve?"
: "Mas é sério! Ultimamente, conversar com você é uma das únicas coisas que me acalma. Além da música, é claro.
Não se preocupe, não é algo ruim. Tenho uma novidade incrível para te contar!"


Suspirei sentindo meu coração se acelerar. Acho que nunca iria me cansar daquela sensação incrível tomando conta do meu corpo. era tão viciante que nem me lembrava a razão para eu ter toda aquela resistência em chamá-lo no WhatsApp, não importava quem chamava quem, não sabia como havia ficado tantos dias sem sentir aquele turbilhão de sentimentos.
Repentinamente eu sentia segurança com ele, pela primeira vez na verdade. O fato de querer me contar o que o afligia queria dizer que ele confiava em mim. O que ele me disse, sobre eu o acalmar, Deus! Era um alívio ver nossa relação - se é que eu poderia chamar daquela maneira - progredir àquele estágio. Meu coração se explodia em felicidade ao ser comparada com música, que devia ser algo muito importante para ele.
Quem diria que após três dias sem trocar um mísera mensagem só serviria para nos aproximar.

: "Lembra que te contei que eu e os garotos estamos tocando num pub?
Um conhecido estava por lá e nos ouviu, e ele era simplesmente Greg Patterson!"


Franzi a testa imediatamente. Quem diabos era Greg Patterson? Para não perguntar quem era para o próprio e sair como a desinformada da história, fui consultar o meu velho amigo Google. Assim que digitei o primeiro nome do fulano, seu sobrenome já apareceu junto na sugestão.
Segundo minha pesquisa, o cara era um grande produtor musical. Um homem muito charmoso, moreno alto, olhos claros. Na página que entrei, apareciam mais fotos do Instagram do tal Greg, com alguns famosos e com a família, uma delas com sua sobrinha como dizia a legenda. A genética deles era incrível, uma garota linda estava ao seu lado, morena como o tio, da pele bronzeada e com um par de olhos verdes acompanhados de lábios carnudos. Megan era seu nome.
Minha auto estima havia diminuído um pouquinho, eu poderia assumir a qualquer um.
Fechei a aba lembrando-me de que ainda estava conversando com e que tinha que parar de stalkear desconhecidos.

: "CARAMBA! Que incrível ! Estou tão feliz por você! Sei que ainda não conheço a banda mas tenho certeza que é maravilhosa.
É uma oportunidade única!"
: "Sim! É algo muito importante. É o nosso sonho."


Estava confusa com muita coisa. O que uma notícia boa daquelas poderia trazer de ruim ao ponto de preocupá-lo tanto?

: "Mas, eu não entendo. O que aconteceu de ruim?"
: "O que vai acontecer.
, meus pais não querem que eu seja cantor. Meu pai praticamente me forçou a seguir carreira no direito, para assumir a empresa futuramente. Se eu falar que vou largar a faculdade, eles vão surtar!
Não tenho dormido direito pensando nisso. Não quero decepcioná-los, mas também não posso perder uma oportunidade dessas."


Não pude deixar de comparar a infeliz situação de com a de . Era impossível entender o que se passava na cabeça de homens como o pai de e o Sr. , que sabiam que seus filhos seriam infelizes a vida toda fazendo o que não queriam, mas mesmo assim os forçava. Para a minha mãe, minha felicidade vinha antes de tudo.
Será que eles não entendiam que ambos tinham que fazer suas próprias escolhas? Que nem , nem eram duas crianças e sim dois homens adultos? O pai de ainda conseguia ser pior que o de , queria não apenas escolher sua profissão, mas também deixá-lo em seu lugar na empresa.

: "E também não pode deixar seus amigos agora que conseguiram algo concreto, não é?
Sua cabeça deve estar uma bagunça agora, e eu sinto muito por isso.
Se eu puder dar a minha opinião, acho que você deveria seguir o seu sonho. Tenho certeza de que vocês são talentosos, se não fossem não teriam chamado a atenção do tal produtor. Não sei se posso te afirmar que vai dar tudo certo daqui para frente, mas se der tudo errado, tem que saber que independente do que fizer, seus pais sempre vão estar lá para você.
E eu também estarei aqui, não que isso deva mudar alguma coisa, haha."


E novamente meu coração se apertava com a mesma força que eu queria usar para apertá-lo em meus braços num abraço demorado. Maldita distância.

: "Você é a única que ficou feliz por mim, , a única que me apoiou até agora. É mais incrível que eu pensava, sabia?
Mas vamos parar um pouco de falar de mim. E com você, o que aconteceu?"


Suspirei enquanto ainda sentia as bochechas esquentarem e tendo a certeza que estava vermelha por conta do elogio. Decidi omitir a parte em que chorei por algumas vezes nos últimos três dias por não ter recebido nenhuma mensagem dele. Era melhor.

: "Tive alguns problemas com as crianças. Brigamos, e para completar, ainda estava de TPM.
Ah! E hoje um carro acertou o veículo da minha patroa, passei o resto do dia na delegacia com as crianças.
Maas, pelo menos saí mais cedo, estou tirando o resto do dia de folga!"
: "Meu Deus, ! Mas vocês estão bem? Alguém saiu machucado?"
: "Não, íamos entrar no carro quando aconteceu. Ainda bem que não fomos acertados.
Mas o estrago foi grande."
: "E você tirou o dia de folga. Só você para achar um lado bom nisso."


Seus emojis rindo me fizeram sorrir instantaneamente.

: "E o que está fazendo em casa?"
: "Estou apenas jogada no sofá refletindo sobre como é bom estar viva.
E você? Não deve estar muito ocupado, nunca fala comigo esse horário."
: "Talvez eu tenha mentido sobre estar doente para ficar em casa..."
: "Voltando ao ensino médio, Sr. ?
Eu fazia isso quando tinha prova de matemática, mas minha mãe nunca acreditava em mim."
: "Estou compondo algo para apresentarmos na audição na gravadora."


Mordi o lábio inferior tentada a querer saber sobre o que era a tal música. Chegava até a me iludir ao pensar que talvez fosse sobre mim. Aproveitando que estávamos íntimos, que tínhamos compartilhado nossos problemas, eu decidi arriscar e pedir para ouvir.

: "Posso ouvir alguma música sua?"
: "Claro! Tenho um trecho gravado há uns meses atrás, quando tive uma ideia para mostrar aos meninos."


Em expectativa, esperei me enviar o tal vídeo. A internet parecia querer me deixar ainda mais ansiosa, carregava tão lentamente que eu chegava a roer as unhas. Quando finalmente carregou, fui atrás dos meus fones de ouvido quase que correndo. Voltei a me aconchegar e dei play.
No vídeo, ele aparece em frente a câmera, de pé, com o violão nas mãos. Assim que abriu a boca, soltei um suspiro involuntário.
It's inevitable everything that's good comes to an end, (É inevitável que tudo o que é bom chega ao fim,)
It's impossible to know if after this we can still be friends, yeah. (É impossível saber se depois disto ainda podemos ser amigos, yeah.)
Eu, que até então só o conhecia por fotos, pude comprovar sua beleza através daquela gravação, e claro, comprovar o que eu já suspeitava há algum tempo, que sua voz soava melhor ainda quando ele cantava.
I know you're saying you don't want to hurt me, (Eu sei que você está dizendo que não quer me machucar,)
well, maybe you should show a little mercy. (bem, talvez você devesse mostrar um pouco de misericórdia.)
Estava tão concentrado em acertar todas as notas do instrumento que nem ao menos percebia que tinha a testa levemente franzida, algo que me fez quase morrer diante daquele gesto fofo.
The way you look I know you didn't come to apologize. (A maneira como você olha, eu sei que você não veio para se desculpar.)
Soltou um sorriso triste e acelerou o ritmo para ir para o refrão.
Oh, why you're wearing that to walk out of my life? (Oh, por que você tem que usar isso para sair da minha vida?)
Oh, even though it's over you should stay tonight. (Oh, mesmo que esteja acabado, você deveria ficar esta noite.)
Sua voz era tão suave que chegava a me deixar relaxada.
If tomorrow you won't be mine, (Já que amanhã você não será minha)
won't you give it to me one last time? (Você não vai se entregar para mim uma última vez?).
E então, focou aquele par de olhos verdes na direção da câmera, tão intenso que parecia me olhar do outro lado da tela.
Oh, baby let me love you goodbye. (Oh, meu bem, me deixe te amar uma última vez.)


Capítulo 15. You Again?

: "Que lindo! Eu amei!"
Assim que as setinhas mudaram de cor e indicaram que ele havia recebido a mensagem, me senti estúpida. Não que eu fosse uma jurada de um reality show musical ou entendesse de música. Mas eu era capaz de escrever um comentário melhor! Pelo menos a altura daquele video.
: "Muito obrigada! haha"
: "Eu não cheguei a te dizer, mas eu adorei a sua voz desde o primeiro dia que ouvi."
: "Gostou, é?
Dizem que é melhor pessoalmente, ao pé do ouvido..."
: "Dizem…
A pesquisa deve ter sido bem ampla para você dizer isso com tanta certeza."
: "Deve ficar linda com ciúme.
: "E porque eu teria ciúme?
Haha, que engraçado. Estou morrendo de rir."
: "Bravinha."


Revirei os olhos e ri diante da implicância. Não deveria ter demonstrado o incômodo que senti naquela hora. Ouvia tanto por aí que não se podia deixar o ciúmes explícito, que era algo que afastava pessoas, principalmente os garotos, que eles não gostavam e nem queriam meninas pegando no pé deles. Mas eu não gostava daquilo. Esconder o que sentia.
Odiava joguinhos. E achava que não precisava ficar escondendo o que sentia de , mesmo sem nunca termos nos encontrado, eu sentia que ele me conhecia bem o suficiente para saber que eu não era uma louca que tinha um ciúme possessivo.

: "A banda deve ser incrível, nem sei se preciso te desejar uma boa sorte na gravadora."
: "Precisa sim. Você me apoia, isso me motiva a ser melhor e me traz sorte."


(...)


Cheguei no outro dia na casa onde trabalhava sentindo-me diferente. O tempo ainda estava fechado, o trânsito havia me pego no meio do trajeto novamente, mas algumas coisas estavam diferentes. Era uma alegria sem tamanho livrar-me da Tpm, tinha deixado meu caderno em casa, ele estava de volta ao lugar onde sempre ficou. Estava aliviada, então não via motivos para escrever minhas lamúrias, até porque eu não as tinha mais.
Sorria leve, enquanto andava até a casa grande. E no final das contas, era apenas uma fase mesmo, tudo estava voltando ao normal. Ou quase, eu já não me sentia tão insegura com tantas coisas que sentia vontade de pular e gritar para todo mundo o quão feliz eu estava.
Havia perdido as contas de quantas vezes já me senti inferior as minhas antigas amigas por ser do jeito que era, insegura em relação a tudo. Mas depois de passar aquele tempo longe delas, percebi que não deveria sentir inveja de toda a confiança que elas exalavam, porque era tudo tão falso que chegava a ser estúpido. E quem realmente confiava em si, não precisava ficar provando nada a ninguém.
As conversas que tive com e Brian, acalmaram a confusão que tinha se instalado em meu coração. Eram duas pessoas importantes para mim que conseguiram me deixar mal se algo não ia bem entre nós.
Sabia que não fazia tanto tempo que eu havia chego em Londres, mas eu me conhecia tão bem que tinha certeza que nunca conseguiria deixar de ser tão intensa. Não me importava há quantos dias, anos ou meses eu conhecia alguém, se eu me apaixonasse pela pessoa, o tempo era apenas um detalhe.

: "Bom dia!"
: "Bom dia linda."


Eu adorava quando ele me chamava de linda. Normalmente, eu nunca acreditava em elogios que recebia, mas quando vinham dele, eu realmente me sentia linda.

: "Está bem?"
: "Tô sim, e você?"
:
"Também tô bem."

— Caiu da cama, foi? — sorri para o garotinho sentado no sofá.
— O seguro vai cobrir os danos do carro — Louise chegou na sala sem dar tempo a Noah me responder. — Vai ter que começar a andar com as crianças de Táxi.
— Ou de transporte público? — sugeri incerta. A mulher loira parou o que estava fazendo e me olhou de forma irônica.
— De táxi — assenti tentando controlar minha risada.
Meu Deus, que exagero!
Ela falava como se as crianças fossem pegar alguma doença se dividissem um veículo com pessoas desconhecidas. Louise havia dado sorte na vida. Era nascida na família e no país certos, eu não conseguia imaginar como ela agiria dentro de um ônibus lotado, num dia ensolarado e no trânsito em pleno horário de pico no Brasil.
— Ah, já ia me esquecendo — parou seus passos em direção a porta e me olhou rapidamente. — Ontem eu falei com a nova governanta que me recomendaram. Ela começa na semana que vem, poderá voltar ao seu horário antigo — eu estava feliz pelo simples fato de poder dormir mais um pouco, nem tinha como me lamentar por meu salario voltar a ser o valor de antes.
— Tudo bem.
— Eu iria recebê-la, mas O Sr. está viajando e não vou estar aqui. Você poderia fazer isso por mim?
— Posso sim — sentei-me ao lado de Noah no sofá. Louise assentiu abrindo a porta.
— Não se preocupe com o salário, ele continua o mesmo — abri e fechei a boca algumas vezes sem saber o que falar. Aquele era o melhor dia da minha vida. Estava até estranhando aquela sorte repentina.
— Não precisa Sra. — sorri sem graça. Mas por dentro estava fazendo a dancinha mais tosca possível.
— Encare como um agradecimento pelo que fez ontem — Louise saiu porta a fora sem nem me dar tempo de negar.
Era óbvio que eu queria aquele dinheiro, não seria hipócrita dizendo que não. Mas aquilo não, eu não queria receber por ter feito algo que qualquer uma faria em meu lugar.
Por hora, iria me ocupar em cuidar das crianças como fazia antes da confusão começar. Podia soar bobo da minha parte, foram poucos dias de tensão, mas eu sentia tanta falta, que pareciam ter sido meses.
Encontrava-me no sofá junto de Noah, abraçada ao mais novo vendo desenhos na Tv. Eu não sabia o que era, mas o pequeno era totalmente o contrário do mais velho, era carinhoso até demais. Noah havia se acostumado tanto comigo ali que tinha pego até alguns dos meus costumes. Estávamos esperando os dois que chegariam da escola, para então decidirmos o que fazer pelo resto da tarde.
Não mandei mais mensagens, para falar a verdade, nem toquei mais no celular depois de ver que tinha visualizado o que mandei e não ter respondido nada. Decidi não me preocupar mais com aquilo, ele iria me responder mais cedo ou mais tarde. E eu não queria que o que eu tinha com ele voltasse a ser como era antes.
me fazia bem, e eu não queria mais me sentir insegura.
, posso falar com você? — Brian, que estava um pouco calado desde que chegou, finalmente abriu a boca.
Tinha percebido que por mais que ele fosse o mais distante de mim, era o que menos tinha momentos a sós comigo. Talvez fosse daquilo que Brian precisava, de um pouquinho de atenção.
— Claro — deixamos a sala e os mais novos, indo em direção a cozinha.
Eu não fazia ideia do que era. Apesar de conhecer bem o temperamento do menino, eu pouco sabia sobre sua vida. Claro, a vida dele não se resumia as paredes daquela casa enorme, tinha a escola também, onde eu não sabia como Brian costumava se comportar.
Apesar de ter uma ideia do quanto ele deveria aprontar por lá, principalmente depois do episódio da Playboy.
Mas Brian já devia saber que não importava o que estava acontecendo com ele, eu estava ali para ouvi-lo. Aliás, eu era a única ali. E talvez não fosse apenas por o Sr. e Sra. serem distantes, mas por que eu era mais nova e minhas experiências estavam mais frescas em minha memória.
Mesmo assim, eu ainda tinha medo. Temia ser algo grave, algo que eu não pudesse aconselhá-lo. A partir daquele momento, minhas mãos começaram a suar de nervoso enquanto Brian puxava uma cadeira para se sentar ao meu lado no balcão.
— Se lembra daquele dia em que nos levou para jogar bola lá fora? — assenti me acalmando, parecia que eu tinha me precipitado um pouco. — E você me disse para tentar ser goleiro? — repeti meu gesto tentando saber onde Brian queria chegar. — Abriram vagas para o time.
— Isso é incrível! Você vai tentar? — exclamei animada.
— Não sei se consigo, . Ainda estou com o joelho ralado, e papai não vai gostar nada de saber que vou entrar para o time. Ele acha que eu deveria fazer aulas de francês ao invés de correr atrás de uma bola.
— Ué, mas seu pai não tinha ficado orgulhoso por quando ele jogava? — o que tinha de diferente agora?
— Sim. Mas ele diz que é porque o decepcionou quando quis se negar a cursar direito. Ele acha que eu posso me interessar por outras coisas, como .
— Brian, me desculpe pelo que vou dizer. Eu geralmente tento defender seus pais quando você e seus irmãos os criticam, mas agora não tenho como defender seu pai.
Respirei escolhendo bem as palavras que iria usar. Era para eu ser sincera, mas sem manchar a imagem do Sr. . O que era uma tarefa difícil para mim, que encontrava tantos defeitos naquele homem que daria para organizá-los em ordem alfabética. Brian já tinha dez anos, já era capaz de formar suas próprias opiniões, e eu não queria e nem iria influenciá-lo naquilo.
A conversa que havia tido com no dia anterior me veio a cabeça apenas confirmando o que eu já sabia. Como os pais deles queriam forçá-los a seguir uma carreira indesejada com dezenove anos, sendo que Brian, com dez, já não queria ceder às vontades do pai?
— O Sr. não pode simplesmente decidir sua vida por você, o futuro é seu! Cabe a você decidir o que é melhor! — Brian suspirou encarando as próprias mãos em cima da bancada. — Minha mãe, que sempre está certa para variar, vivia dizendo uma frase que faz todo o sentido do mundo para mim — seus olhos azuis focaram-se em meu rosto novamente. — Ela diz que quando somos pais, devemos nos conformar que criamos os filhos para o mundo, não para nós.
— E o que isso quer dizer? — inclinou a cabeça para o lado confuso.
— Quer dizer que quando você atingir uma certa idade, será livre para fazer suas próprias escolhas. Mesmo que seus pais não aceitem, porque você não vai poder depender deles para sempre, e também não irá tê-los ao seu lado para sempre, então terá que se virar sozinho. Você e o mundo.
— Você já aprendeu?
— Já. Olhe para mim, Brian — apontei para meu próprio corpo. — Eu estou aqui, não estou? E isso foi uma escolha minha, meus pais aceitaram a ideia de eu vir para tão longe, mas se eles se opusessem eu viria do mesmo jeito.
Brian riu junto de mim. Naquele momento comecei a me perguntar se não estava lhe dando um mau exemplo.
— E não foi a coisa mais fácil do mundo. Eu tive tanto medo! Medo do avião, medo de não conseguir me comunicar com as pessoas daqui. Era tudo tão diferente que eu cheguei a chorar nos primeiros dias querendo voltar para casa. Mas eu não o fiz, e estou aqui para provar a quem quiser que aprendi a me virar sozinha.
— Tá, mais o que isso tem a ver com eu ser goleiro? — arregalei os olhos. Meu Deus, quantas voltas demos até eu concluir o que eu achava sobre o pai de Brian.
— Tudo a ver! Eu quis dizer que você não tem que dar ouvidos ao seu pai, ou fazer algo só porque fez. Você tem que fazer o que gosta, porque o que decidir, é o que vai fazer para a vida toda. E se ficar com essa falta de ânimo toda, não vai conseguir fazer nada! — cruzei os braços. — Brian, acha que se eu continuasse achando que nunca seria capaz de ir para outro continente sozinha, estaria aqui?
— Não.
— Então! Pensa positivo menino! Se quiser eu vou assistir seu teste, sabe, para torcer para você — encolhi meus ombros. — Se não acreditar em si mesmo, como é que os outros vão?
— Obrigada, — lhe sorri, satisfeita e aliviada por ter conseguido ajudá-lo.
Nunca pensei que passaria por aquilo tão cedo, temer a curiosidade de um adolescente da mesma forma que minha mãe tinha quando ingressei na puberdade. Eu tinha medo de Brian ter dúvidas sobre relacionamentos ou até sexo, porque era nítido que eu não seria a melhor pessoa para aconselhá-lo.
Por sorte, Brian ainda não tinha começado com indagações daquele tipo. Porém sua maturidade repentina me surpreendeu. Talvez não fosse tão repentina assim. Eu ainda tinha muito o que descobrir sobre o garoto, e pela rapidez com que os dias passavam, eu não teria tal oportunidade, já que meus dias em Londres estavam contados.
Mesmo sem ter tempo de conhecê-lo ainda mais, eu tinha a certeza de que Brian era um garoto incrível. Era o que eu menos me preocupava em deixar, não que fosse fazer menos falta que os outros, mas porque eu sabia que Brian saberia se virar bem sozinho. Bom, pelo menos era aquilo que eu estava tentando ajudá-lo a aprender: Crescer sem a ajuda de ninguém e cuidar dos irmãos mais novos.
Rumamos de volta para a sala, onde ficamos por um tempo até que eu precisasse me levantar para preparar nosso almoço. Enquanto estava na pia, vi pelo grande vidro da janela o velho conhecido labrador deitado sobre a calçada do outro lado da rua aproveitando o sol.
Chamei as crianças para almoçar e após terminarmos, os chamei para o quintal. Saí pelo grande portão que dava acesso a rua e andei pela calçada, a procura do labrador. Assim que me avistou, o cachorro levantou as orelhas, porém continuou deitado. O chamei e depois de alguma insistência, ele veio até mim, andava com dificuldade por conta de uma das patas estar machucada. Senti meu coração se apertar instantaneamente.
— O que houve com ele? — Brian parou ao meu lado, encarando curioso o cachorro, que ainda receoso cheirava minha mão.
— Não sei — suspirei. — Provavelmente foi atropelado, ou alguém o machucou — passei a mão em sua cabeça. O cão tinha a língua para fora, parecia estar com sede, e algo me dizia que com fome também.
— Podemos dar água para ele? — sorri quando ouvi Brian pedir permissão. Havíamos progredido tanto que eu não tinha como ficar mais feliz. Assenti me levantando, puxando-o devagar pela coleira, guiando o cachorro para dentro do portão.
— O cachorro! — Elle exclamou feliz, correndo até nós.
— Vamos ficar com ele? — Noah se abaixou próximo ao cão, que abanava o rabo animado.
— Não podemos ficar com ele — Brian disse me encarando, assenti para o garoto concordando. — Mas vamos cuidar dele quando ele aparecer por aqui, não é ? — confirmei sua fala ainda sorrindo.
— Ok, mas vamos dar um nome a ele — Elle decretou. — Que tal Bob?
— Tanto faz, Elle — Brian implicou com a mais nova, que apenas sorriu satisfeita por ter dado um nome ao labrador. — Vou buscar a mangueira para dar água a ele.
Enquanto os três foram para os fundos do quintal, fiquei na companhia de Bob, acariciando seu pelo escuro e olhando em seus olhos cansados castanhos. Quando toquei em sua pata machucada, Bob demonstrou sentir muita dor e se esquivou. Olhei para cima encontrando as três crianças paradas olhando para o recém chegado cão com pesar.
— Acho que ele precisa de um veterinário.
Depois de muito pensar, decidi ligar para uma clínica próxima que havia encontrado na internet, eles viriam até nós, como uma espécie de ambulância veterinária. O veículo da Sra. estava no concerto, eu não imaginava que fosse surgir uma emergência tão rapidamente enquanto estivéssemos sem o carro.
Aguardávamos a chegada dos veterinários sentados no banco próximo do jardim da casa. Levou apenas alguns minutos, mas o veículo caracterizado logo estacionou perto do meio-fio. Uma mulher acompanhada de um homem desembarcaram, e eu fui atendê-los.
— Onde está o cão? — reconheci aquela voz e dirigi meu olhar ao homem, que quando me viu abriu um sorriso divertido e coçou a barba. Provavelmente se recordando do dia em que colocou uma Píton em minhas mãos e riu de meu desespero.
— Matt?




Continua...



Nota da autora: Eu amo como a pp é orgulhosa de si mesma por ter tomado a decisão de recomeçar sozinha!
Vocês também tem isso? De fazer algo e pensar: Que mulherão da porra que eu sou hein! hehe
All the love

Nota de beta: Amei essa conversa da pp com o Brian, realmente, Sabrina, é incrível o orgulho como ela fala da história dela. Capítulo maravilhoso pro crescimento da pp. Amei.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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