Última atualização: 11/11/2020

Prólogo

tamborilava nervosamente os dedos pela grande mesa de madeira. Eram quase duas da tarde e havia mais de quarenta minutos que ele estava sentado na mesma posição, com as mãos oscilando entre o apoio da cadeira e o novo instrumento que tinha inventado à sua frente.
O som que ele produzia pareceu irritar profundamente Steve, que fez questão de parar seu monólogo furioso, para fuzilar com os olhos e encará-lo em silêncio por alguns segundos antes de dirigir a palavra especificamente a ele.
— Você ouviu alguma coisa do que eu disse? — o agente perguntou, irritado, soltando um longo suspiro em seguida e pegando um copo de água em cima da mesa.
se contentou em balançar a cabeça para cima e para baixo algumas vezes. Se resolvesse falar, muito provavelmente pioraria toda a situação, que já não estava muito ao seu favor.
Ok, estava querendo enganar a quem? Não tinha nada a seu favor naquele momento. Até seus colegas de banda o olhavam atravessado do outro lado da mesa, certamente incomodados por terem que estar escutando também aquele discurso, que claramente estava sendo direcionado somente a ele.
— Desculpe por estarem ouvindo isso, meninos. — Steve confirmou as suspeitas do vocalista enquanto olhava para Benji, Bob e Bondy, que se olharam rapidamente sem saber muito bem o que responder.
O olhar do homem se voltou novamente para , que encarava os dedos finos, agora quietos, estendidos em cima da mesa.
— Quanto a você. — ele disse numa voz cansada, suspirando e procurando os olhos baixos do rapaz. — O que faço com você, ? — balançou a cabeça, largando o copo de vidro. — Tem noção de que é a terceira vez que cancelo com o estúdio? Tem noção de que não irão nos aceitar mais se eu cancelar novamente? — e o monólogo recomeçava. Não que tivesse acabado efetivamente em algum momento. — Nenhuma música, ! Nem uma. O que está acontecendo? Vamos ter que cancelar o álbum? Tem noção de que posso ser demitido?
apenas balançava a cabeça, pois, sim, ele tinha noção de tudo aquilo. O último álbum tinha sido lançado em 2016. Deste então, o vocalista do Catfish and the Bottlemen tinha entrado em uma espécie de comodismo. Não que ele gostasse de admitir isso, mas era algo evidente para todos naquela pequena sala de reuniões.
O comodismo, que no começo achava que era nada mais do que uma consequência natural e merecida de um longo e exaustivo processo de produção de músicas para o The Ride, foi se tornando algo muito maior. E, agora, enquanto Steve o encarava furiosamente esperando por respostas, tinha certeza de que o que estava tendo, afinal, era um gigante e insuportável bloqueio criativo.
Evitou pensar nisso nas duas primeiras vezes em que o estúdio havia sido reservado. Já era quase 2018 e não havia nenhum indício de álbum novo para fãs que o pediam diária e incansavelmente. pensava que conseguiria se conectar novamente com seu eu-compositor assim que entrasse em contato com a rotina outra vez. Não foi o que aconteceu.
Agora, já quase no meio de 2018 — fala sério, quando especificamente haviam chegado em maio? —, a reserva no estúdio havia sido cancelada pela terceira vez, e Steve tinha no rosto o mesmo olhar que dirigia a quando ele chegava atrasado para algum show ao vivo. As sobrancelhas juntas, a pupila anormalmente dilatada, a veia enorme saltando na testa, o maxilar travado e o nariz soltando ferozmente uma enorme quantidade de ar. Um olhar nada amigável, que o vocalista sabia que merecia.
Com certeza não lançariam nada naquele ano. E odiava saber que, além do olhar de Steve, teria que lidar com mais uma temporada de reclamações de patrocinadores, donos de gravadoras e, principalmente, dos fãs.
, ouviu? — o homem perguntou mais uma vez, levantando as sobrancelhas.
balançou a cabeça para cima e para baixo, mesmo não tendo escutado uma palavra.
— Ótimo. — ele retomou, arrumando alguns papéis em suas mãos. — Me avise se precisar de alguma coisa. Ouvi dizer que terapeutas são úteis nessas horas.
rolou os olhos, escutando algumas risadas discretas de seus companheiros. Decidiu se levantar logo, antes que o agente lembrasse de mais alguma coisa e recomeçasse a falar.
— Claro, Steve, obrigado. — disse já em pé, pegando o casaco, que estava apoiado na cadeira, e o colocando sobre os ombros.
O mais velho suspirou alto uma última vez, encarando os três rapazes sentados e o vocalista em pé, já dirigindo-se à porta da sala.
É melhor que façamos esse álbum dar certo. — ele falou, mas já tinha saído do local.


Capítulo 1: It’s like I’m on the outside

— Tudo bem. Entendo. — balançava a cabeça afirmativamente, como se a pessoa no outro lado da linha conseguisse ver seu gesto. Aliás, seria ótimo se conseguissem. Assim poderiam ver a tristeza claramente estampada em seu rosto, e sentir pelo menos pena dela naquele momento. — Nem como uma auxiliar? Posso ajudar algum professor mais experiente. — ela suplicou uma última vez, ouvindo a senhora negar novamente e sentindo seus ombros pesarem. — Tudo bem, obrigada.
Ela tentou sorrir enquanto desligava o telefone, mas seus olhos ardiam e ela não tinha vontade de fingir que estava minimamente feliz. Jogou o aparelho em cima da cama e suspirou, passando as mãos pelo rosto.
— Nada? — Jordyn, sua melhor amiga, perguntou apreensiva ao entrar no quarto com uma tigela e uma colher nas mãos.
Ela encarava , tentando adivinhar alguma resposta — embora o suspiro alto já a tivesse dado uma dica. balançou a cabeça, negando, e Jord soltou um suspiro pesaroso, indo em direção à amiga e batendo carinhosamente em seu ombro.
— Calma, você vai conseguir. — ela falou, tentando lhe passar força, e levou a colher à boca. — Olha, os meninos fizeram feijão e eu roubei um pouquinho, se você quiser. — disse com a boca ainda cheia.
fez uma careta, negando com as mãos e sentando-se na cama.
— Você tem que tomar cuidado com o que come. — ela disse, enquanto se acomodava e pegava o notebook aberto ao seu lado. — Não confio na comida do Mason. — ela balançou a cabeça, com a expressão séria. Ela arregalou os olhos de repente, olhando para Jordyn, que levantou as sobrancelhas. — E amanhã, quem limpa o banheiro sou eu. Larga isso agora.
Jordyn riu, colocando a tigela na estante ao lado da cama e sentando-se ao lado de , que procurava algo no notebook em seu colo.
— Sabe que dia é amanhã? — Jord perguntou, com um sorriso divertido estampado no rosto e uma voz animada.
— Sexta-feira. — respondeu simplesmente, sem tirar o olhar da tela à sua frente. — Escola de Música do Sr. Pérez. Acha que eles estão precisando de alguém? — virou-se rapidamente para a amiga, observando ela rolar os olhos.
— Você é tão chata, . — cruzou os braços, bufando.
— Desculpa, preciso de um emprego. — ela deu de ombros enquanto alcançava o telefone que havia jogado por ali minutos antes. — Nem vou conseguir pagar o aluguel do mês que vem se o Sr. Pérez não me aceitar na sua escola.
, você já ligou para todas as escolas de música do condado. — Jordyn choramingou, recebendo um olhar esperto da amiga.
— Não para a do Sr. Pérez. — ela piscou, fazendo com que Jord bufasse pela terceira vez em menos de um minuto. — Já sinto que ele será um ótimo chefe.
O cômodo ficou em silêncio por algum tempo, enquanto digitava algo em seu celular e Jordyn a encarava com um semblante que misturava surpresa e decepção.
Amanhã — a menina retomou o assunto anterior, impaciente. — É o Indiependence.
demorou alguns segundos para processar a informação e fazer as devidas conexões, e então arregalou os olhos antes de fechá-los com força, batendo com a palma da mão na cabeça e se sentindo a pior pessoa do mundo.
Antes de encarar a amiga, direcionou rapidamente o olhar para o canto inferior da tela do computador, onde a data piscava, e não entendeu como haviam pulado de março para maio em tão pouco tempo. Não se lembrava de nenhum dia de abril e não acreditava que, com todo esse desespero, tinha realmente esquecido que o dia seguinte já era dia 11.
— E, se não se lembra... — Jordyn fez questão de frisar as palavras, fazendo com que a menina se sentisse mil vezes pior. — Também é o aniversário da sua melhor amiga.
— Jord, eu… — largou o celular e colocou o computador de lado, virando-se para a garota, que tinha os braços cruzados e uma expressão abatida.
— Compramos os ingressos há meses, . — ela falou, realmente triste, e engoliu em seco.
Ótimo. Outro detalhe relativamente importante que fora totalmente esquecido. Tinham comprado os ingressos do festival Indiependence há pelo menos cinco meses. O que significava que também havia os comprado, junto com elas, nesse mesmo quarto em que se encontravam, quando tudo ainda era bom e feliz. A mente de trabalhava rapidamente para tentar entender como diabos ela podia ter simplesmente esquecido que esse dia chegaria em algum momento. No que ela estava pensando todos esses meses, afinal?
— Compramos, sim. — ela confirmou, balançando a cabeça e pensando que não seria nada mal vendê-los agora. Pelo menos já garantiria o aluguel do mês seguinte.
Mas ela sabia o quanto Jordyn havia planejado seu aniversário de vinte e um anos, e o quanto havia ficado feliz quando viu que ele cairia justo no primeiro dia de seu festival favorito. Fazia três anos que ela, Jord e não o perdiam por nada nesse mundo, e, nesse ano, além do aniversário de Jord, Catfish and the Bottlemen seria um dos headliners. Eles definitivamente não perderiam.
sentiu o ar sumir enquanto tentava sorrir, ou pelo menos parecer visivelmente normal.
— Você sabe se… — limpou a garganta antes de continuar, ou tentar continuar. — Bem, se… — “se ele vai”, era o que queria perguntar, mas ao invés disso, fez gestos com as sobrancelhas e com os olhos para que a amiga entendesse o que ela queria dizer sem que ela tivesse que fazê-lo propriamente.
— Não sei, . — ela deu de ombros, entendendo os sinais e olhando para baixo. — Não falo com ele há tanto tempo quanto você.
balançou a cabeça, assentindo, e virou-se para frente, encostando a cabeça na parede atrás de si e soltando a respiração calmamente. e Catfish and the Bottlemen no mesmo lugar, e na mesma hora, seria definitivamente demais para ela. Já sentia o choro lhe subir pela garganta.
Observou Jordyn calada ao seu lado, mexendo nos dedos das mãos e encarando qualquer coisa no quarto menos ela, e forçou-se a abrir um sorriso antes de pegar nos ombros baixos da amiga e balançá-los.
— Então vamos ter que acordar bem cedo para pegar o primeiro ônibus pra Mitchelstown.

[...]


Depois de abrir o sorriso mais largo que já tinha visto, e repetir “obrigada” pelo menos umas trezentas vezes, Jordyn pegou seu pote de feijão e deixou o quarto da amiga, dizendo que iria arrumar sua mochila e prometendo que lavaria o banheiro para ela assim que chegassem do festival no dia seguinte. Claro que aceitou, era uma troca bem justa, aliás, pois 1) ela sabia que Jordyn com certeza havia voltado a comer o feijão no minuto em que pisou para fora de seu quarto; e 2) as chances de encontrar por lá eram de, pelo menos, 75 em 100.
Respirou fundo antes de levantar da cama. Já passava do horário comercial, então teria que deixar para receber o “não” do Sr. Pérez no dia seguinte. Não que quisesse receber outro “não”, mas, visto o histórico das últimas quatorze escolas, era o que ela esperava.
Sentiu sua barriga roncar e até pensou em ir até a cozinha e pegar um pouco do tal feijão, mas desistiu assim que lembrou da última vez que havia comido algo que Mason havia feito. Duas horas no banheiro deveriam ser algum tipo de recorde. Será que ela conseguiria algum dinheiro com isso caso se inscrevesse no Guiness?
Riu de seus pensamentos enquanto abria o pequeno guarda-roupas para pegar uma mochila.
morava em uma casa alugada, que dividia com Jordyn e outros quatro meninos, uma espécie de república, desde que havia se mudado para Dublin, há quase quatro anos. Assim que terminou o Ensino Médio no pequeno vilarejo de Menlough, no interior de Galway, onde nascera e vivera a vida toda, a menina deixou os pais e o irmão mais novo para seguir seu sonho na capital da Irlanda: trabalhar com música.
Óbvio que, depois de alguns meses tentando, a garota não conseguiu mais do que algumas demos gravadas e algumas letras vendidas a gravadoras, o que não a rendeu muito dinheiro. Então se contentou em trabalhar como professora de violão, guitarra, piano, bateria e todos os outros instrumentos que sabia tocar — e que havia aprendido sozinha — por pouco mais de um salário mínimo. Bom, pelo menos era um salário que dava para ela pagar o aluguel de seu quarto e viver razoavelmente bem — bem razoavelmente, na verdade. Foi demitida há duas semanas porque a escola em que trabalhava decidiu que queria alguém com diploma.
Ainda não havia contado aos pais, pois estava certa de que conseguiria facilmente um emprego em uma outra escola de música, mas parecia que o tal do diploma tinha virado moda de uma hora para outra. Deveria ter escutado seu pai quando ele avisou que seria melhor fazer uma faculdade antes de tentar seguir seus planos, para não acabar como ele. Mas, bem, dizem que palavras comovem, mas exemplos arrastam, e a carreira de seu pai era o que a impulsionava quando ela decidiu imitar seus passos.
Não parecia uma ideia tão boa agora.
Desistiu de procurar a mochila quando seus olhos bateram em uma caixinha roxa de madeira no fundo do armário. Geralmente, ela ignorava aquela caixa, porque nela tinham memórias, e memórias faziam ficar nostálgica e triste por algum tempo. Mas, enquanto pensava no rumo que sua vida vinha tomando, achou que aquele fosse um ótimo momento para recordar algumas coisas. Sabe, quando se está na merda é comum procurar coisas que te afundem mais ainda. Para , geralmente músicas tristes realizavam esse papel, mas aquela caixa pareceu estar no lugar certo na hora certa. Então ela respirou fundo antes de pegá-la e sentar-se na cama com ela nas mãos.
Fotos de seus pais, de seu irmão, Phil, e de seus cachorros, Janis Joplin e John Coltrane, fizeram seu nariz arder instantaneamente. Entradas de cinema, tickets de trem e papéis de bala fizeram com que ela sorrisse, relembrando bons momentos que nunca esqueceria.
No fundo da caixa, onde ela sabia que tinha escondido muito bem, estava entocado aquilo que ela sabia que estava procurando, mesmo que inconscientemente: as fotos com e de , os bilhetes em papéis de caderno ou post-its cheios de corações, os ingressos dos shows do Catfish and the Bottlemen e um colar de conchas.
Ela fechou os olhos, como se isso a fizesse voltar no tempo, e pegou o colar, o cheirando, como se ele ainda guardasse um resquício do perfume do ex-namorado.
No próximo dia 13, faria quatro meses desde que e haviam terminado seu relacionamento de três anos e alguns dias. Fazia quase quatro meses que não se viam ou se falavam, sequer tinham notícias um do outro, e fazia quase quatro meses que sentia falta dele todos os dias, culposa e silenciosamente, quase como se fosse uma criminosa.
Consequentemente, também fazia quase quatro meses que se recusava a escutar Catfish and the Bottlemen, sua banda preferida. Havia conhecido num show deles, e praticamente todas as suas memórias afetivas se relacionavam com alguma música deles.
Transaram pela primeira vez ao som de Business, foi pedida em namoro ao som de Cocoon, e foram juntos em tantos shows deles que ela não saberia quantos se não tivesse guardado cada um dos ingressos. Depois de três anos e alguns dias apaixonada e com essa trilha sonora, ela simplesmente não conseguia mais escutar a voz de sem que começasse a chorar imediatamente.
E é claro que, além de tudo o que estava acontecendo em sua vida, o destino a forçaria a escutá-los no dia seguinte, ao vivo, com a poucos metros de distância. É óbvio que Catfish and the Bottlemen teria que ser um dos headliners do festival estúpido, que também havia feito parte da história deles.
segurava o choro que prendia em sua garganta enquanto imaginava o quão péssimo seria encarar escutando a banda favorita deles, o quanto ela teria que se segurar para não chorar na frente dele ou, pior, para não correr de volta para ele, mesmo depois de tudo. Isso era o cúmulo da humilhação. E, se não amasse tanto Jordyn, faria questão de rasgar o ingresso naquele instante, sem nem se importar com o quanto ele tinha custado.
Depois de pensar por alguns minutos, decidiu que o melhor seria entrar em um banheiro químico assim que o show do Lewis Capaldi, que cantaria antes do CatB segundo a programação do site, terminasse. Lá, poderia chorar à vontade e não correria o risco de esbarrar em , nem vê-lo cantando a plenos pulmões. Não sairia de lá até ouvir os últimos acordes de Tyrants, que era sempre a última música que eles tocavam. Ou até que alguém chamasse os bombeiros para tirá-la de lá à força. Pensaria nisso mais tarde, de qualquer forma.
Quando estava pronta para fechar a caixa, certa de seu plano quase-infalível, seus olhos se estreitaram ao enxergarem um papel azul-claro em meio aos bilhetes de coração. Seu peito apertou assim que seus dedos o pegaram.
Na letra cursiva nada organizada de , entre notas musicais e desenhos de cubos e espirais — que ela geralmente desenhava quando estava se esforçando muito em alguma coisa —, estava escrito Dreams.
Não conseguiu mais segurar as lágrimas, que caíram uma a uma no papel em suas mãos. Aquela era a última coisa que ela precisava ver naquela noite. Ou em qualquer outra.
Diante de seus olhos marejados, estava a letra da música que havia escrito para assim que começaram a namorar. Era o gatilho perfeito para que ela chorasse como um bebê a noite inteira.
A letra retratava o quanto estava, e era, totalmente entregue a , desde o começo. As noites em que ficavam juntos, depois de já terem perdido a vergonha um do outro, e riam e cantavam até o amanhecer. E os sonhos...
Ela não conseguiu terminar de ler. Também desistiu de arrumar qualquer coisa naquela noite. Enquanto colocava a caixa de volta no guarda-roupas, decidiu procurar pela mochila no dia seguinte, antes que Jordyn acordasse.
Antes de fechar as portas do móvel, porém, sentiu o coração apertar e abriu a caixa novamente, retirando o papel azul-claro antes de fechá-la definitivamente.
Colocou-o em cima da estante e apagou a luz do quarto antes de deitar na cama, sem se preocupar em tirar a calça jeans que usava, e puxando o cobertor branco para cima de si.
não era de chorar, mas, naquela noite, lembrando-se de , de Catfish and the Bottlemen, dos nãos que havia recebido o dia todo e da letra de Dreams no papel azul, deixou que as lágrimas banhassem seu rosto e seu travesseiro.

[...]


Já passava das nove quando Jordyn e entraram no ônibus para Mitchelstown, onde ocorreria o festival. O plano era pegar o primeiro da manhã, mas acordou às oito aos gritos desesperados de Jor, que já estava completamente pronta e com uma feição nada amigável, e ainda teve de explicar o porquê de suas coisas ainda não estarem nem perto de prontas. Claro que não explicou o real motivo, inventou que a mãe tinha ligado e que isso teria lhe custado as últimas horas de disposição da noite. Felizmente, Jordyn não perguntou mais nada e nem reparou nos olhos um pouco inchados da amiga, que arrumou a mochila em poucos minutos depois que Jor a achou embaixo da cama.
A viagem duraria um pouco mais de três horas, o que significava um pouco mais de três horas de Jordyn falando incansavelmente enquanto tentava simplesmente não entrar em pânico. Sua mente ainda estava presa na noite anterior, e focava em elaborar planos para que não esbarrassem com de jeito nenhum pelo festival.
Era tudo questão de probabilidade. Tinha calculado uma porcentagem de 75% de chance de ele efetivamente ir. Ele estando lá, qual seria a possibilidade de realmente se esbarrarem, no meio de umas 5 mil pessoas? A parte racional a dizia que era mínima, de uns 20%, no máximo. A parte pessimista a dizia que tudo o que estava pior, tendia de alguma forma a piorar, e que o destino sempre gostava de pregar esse tipo de peças nas pessoas, então seria de uns 90%.
Achou melhor fazer uma média entre os dois, para não ficar muito paranoica, e concluiu que a chance, no final das contas, era de algo próximo aos 55%.
O papel azul-claro que estava no bolso secreto de sua mochila e o colar de conchas que pendia em seu pescoço, porém, a deixavam em dúvida se ela realmente não queria o ver. Eram quase quatro meses sem notícias. A mente de trabalhava ininterruptamente, e sequer prestava atenção no que a amiga ao seu lado falava sem parar.
? — Jordyn estalava os dedos na frente do rosto da menina, que balançou a cabeça, atordoada, assim que os viu.
— O que foi? — ela perguntou, encarando a amiga pela primeira vez desde que tinham entrado no ônibus.
— Sei lá. — Jor fez uma careta, tentando entender a expressão indecifrável no rosto de . — Você tá aí toda pensativa, não ouviu uma palavra que eu falei. — deu de ombros, observando a menina dar um sorriso amarelo. — E olha que eu falei umas quinhentas. — ela riu consigo mesma, ficando séria de repente, assim que seus olhos desceram para a mão direita de , que segurava com força um colar em seu pescoço.
… — ela falou baixo, fazendo a menina olhar para onde ela estava olhando e encarar a própria mão por alguns segundos antes de soltar o colar rapidamente, balançando a cabeça. — Isso é do…
— Faltam menos de duas horas para chegarmos. — a cortou, mostrando para ela a hora que brilhava em seu celular. — Eu trouxe Skittles. — sorriu, antes de abaixar o corpo em direção à mochila que estava entre seus pés.
Jordyn assentiu, sem saber o que pensar. Daria tudo para saber o que se passava na cabeça da amiga naquele momento. sempre fora muito fechada, então Jor ainda não sabia o que ela pensava quando escutava a palavra “”, pois ela sempre mudava de assunto antes que Jor descobrisse. Algo a dizia, porém, que ela estava bem perto de descobrir.

[...]


— ISSO NÃO É O MÁXIMO?! — Jordyn gritava enquanto seus pés saíam do chão constantemente em pulos desengonçados. — ,ISSO É O MÁXIMO! — ela repetia, se referindo a Lewis Capaldi no palco a poucos metros de distância.
se perguntava o porquê de a amiga estar tão feliz, e extremamente agitada, se as músicas que o cantor escocês performava eram majoritariamente tristes e deprimentes. Estava preocupada demais em fingir não procurar para questioná-la, por isso se contentou em responder:
— Claro, o máximo!
Jord continuou pulando e sorrindo, e continuou virando a cabeça ocasionalmente para os lados enquanto as músicas tristes tornavam aquela cena ainda mais dramática.
Quando Lewis anunciou que aquela tinha sido sua última música e se despediu, arregalou os olhos. Tinha esquecido de seu plano do banheiro químico por alguns instantes, e agora estava cercada por uma multidão agitada que aplaudia incessantemente o cantor que saía do palco e aguardava pela próxima atração, que ela sabia muito bem qual era.
— Jordyn, preciso ir ao banheiro. — ela falou alto no ouvido da amiga, que ainda estava extasiada.
— O QUÊ? — a mais nova gritou, sem entender nada.
A música de transição entres atrações parecia ainda mais alta do que o som das bandas que tocavam. Os gritos das milhares de pessoas em volta também não ajudavam muito a compreensão de qualquer conversa.
— PRECISO IR AO BANHEIRO! — repetiu, fazendo gestos, e Jord balançou a cabeça, apreensiva.
, AGORA É O CATFISH. — ela apontou para o palco, sabendo que era a banda preferida da amiga e preocupada que ela pudesse perdê-los.
— ESTOU MUITO APERTADA. — mentiu, colocando a mão no pé da barriga, onde acreditava ser a bexiga, e fazendo uma careta de dor.
...— a expressão de Jord explanava que ela não acreditava nas palavras de , ainda mais porque elas tinham ido ao banheiro antes do show de Lewis, mas a amiga não deixou que ela continuasse.
— VOLTO ANTES DE ELES COMEÇAREM. — mentiu novamente, sabendo que já estava bem perto de isso acontecer e tentando ser o mais rápida possível.
Não esperou outra resposta de Jordyn e pegou a mochila, que estava entre seus pés na grama, antes de começar a andar por entre os corpos colados demais.
Os gritos começavam a acentuar, o que indicava que Catfish and the Bottlemen subiria a qualquer momento no palco. As mãos de suavam e ela não sabia bem o porquê de estar fazendo aquilo.
Estava fugindo de ? Não. Seria bem mais difícil encontrá-lo na aglomeração em que estava antes, nem notariam a presença um do outro caso estivessem a duas pessoas de distância. Estava com medo de escutar CatB após quatro meses? Em parte, sim. Tinha medo de como seria sua reação ao escutar as músicas que tanto tinha evitado no meio de tantas pessoas.
De qualquer forma, isso talvez não justificasse o esforço que ela estava fazendo para se ver livre da concentração de pessoas que começava a deixá-la nervosa. Alguma força apenas a expelia para fora, talvez nem exatamente para o banheiro, mas para algum lugar em que pudesse sofrer dignamente ao escutar as músicas que talvez ainda não estivesse pronta para escutar.
Ouviu os gritos se intensificarem absurdamente assim que conseguiu sair do tumulto. Uma ovação interminável a confirmou que a banda já tinha subido ao palco.
Respirou fundo pela primeira vez, encarando a grama verde e o espaço livre do enorme campo onde o festival estava acontecendo. Algumas pessoas caminhavam livremente e numa distância ideal uma das outras. Procurou rapidamente pelos banheiros químicos entre as outras tendas de comércio que se espalhavam pelo local.
O que seus olhos encontraram, porém, ao invés de pessoas enfileiradas na frente de caixotes azuis, foram os olhos dele, a alguns passos de distância e com outro par de olhos bem cravados nos seus.
À essa altura, a banda já tinha se instalado e os primeiros acordes de Outside já explodiam nas caixas de som. sentiu que poderia vomitar a qualquer momento quando escutou a primeira linha da música. olhava para ela sem nenhuma reação enquanto seu pescoço era enrolado pelos braços de uma moça loira de olhos castanhos e sorriso estonteante.

We’d let them knock like crazy, cause I’d not seen her in months
Nós deixamos que eles batessem na porta feito doidos, porque eu não via ela há meses



percebeu os olhos dele descerem até o colar em seu pescoço e sentiu a garganta apertar como se ele estivesse a enforcando. A música parecia entrar em seus ouvidos queimando e descer de alguma forma por todo seu corpo, o fazendo tremer involuntariamente.
Se sentia ridícula. E nada parecia algum dia poder mudar aquele sentimento. Sempre fora assim durante sua vida toda, afinal. Todos sempre passavam à sua frente e ela sempre ficou para trás. Por isso não tinha conseguido, e nunca conseguiria absolutamente nada num ramo tão competitivo quanto a música — ou em qualquer outro ramo, ela chegou a pensar —, todos sempre a ultrapassavam.
Enquanto observava atentamente, sem que sua nova namorada percebesse que ele também a observava, soube que ele, como todos as outras pessoas no mundo, tinha passado à sua frente, com bastante facilidade inclusive, enquanto ela, mais uma vez, ficava para trás. sempre ficava para trás. E nada, nunca, iria mudar aquilo.

I just came along for the ride
Eu só vim para dar uma volta
And I tried my best to keep away from you
E tentei o meu máximo para ficar longe de você


Enquanto os olhos atentos de ainda pousavam sobre ela, levou a mão até seu pescoço e puxou dele o colar com a maior força que conseguiu, fazendo com que as conchas caíssem espalhadas na grama fofa aos seus pés. Ela jurou ter ouvido o som de cada uma delas encontrando o chão, apesar de a música sair de forma quase ensurdecedora dos alto falantes.
O contato visual entre eles durou menos de um minuto, mas, para ambos, pareceu durar bem mais de um século. sentia o papel-azul em sua mochila pesar mais do que oitenta pedrinhas de chumbo e seus ombros caíram com o peso, que parecia também afundar aos poucos seu pulmão.

I used to carry you through town
Eu costumava te carregar pela cidade
You used to smother me in lippy
Você costumava me sufocar com batom


Como se estivessem ambos em um lapso de tempo, e ambos prendendo a respiração, o contato apenas se quebrou quando simplesmente virou-se de costas, pisando nas conchas e começando a caminhar na direção contrária. Seu peito doía, seus olhos e seu nariz ardiam, e sua cabeça latejava no ritmo da música.

Now, if we ever get an hour together,
Agora, se algum dia passarmos uma hora juntos,
It’s like I’m on the outside
Parece que estou do lado de fora.


Sem saber muito bem para onde estava andando, se sentia do lado de fora.
Do lado de fora da vida de todos, como que em escanteio. Do lado de fora da indústria da música. Do lado de fora de Dublin, e do lado de fora de Galway. Do lado de fora de tudo o que queria, e de tudo o que havia sonhado para si. Se sentia do lado de fora da sua própria vida. E queria mais do que tudo entrar em si mesma.
Sentou-se na grama, um pouco afastada de tudo e de todos, e permitiu-se chorar pela primeira vez naquele dia, ouvindo a voz de estourar seus tímpanos e tendo ainda estampados em sua mente os olhos vidrados de e os olhos castanhos de sua acompanhante.
O papel azul-claro parecia gritar em sua mochila fechada. E, como num estalo, ele pareceu ser a solução para seus problemas naquele momento.
Enquanto a melodia de Homesick se iniciava, sentia seu coração vibrar e secou rapidamente as lágrimas que desciam por sua bochecha.
Aquela era a sua banda favorita. Aquela era a sua vida. E o papel que pesava e gritava em sua mochila eram seus sentimentos transcritos em uma música sua.
Ela respirou fundo, sentindo o ar entrar livremente pelas narinas e finalmente alcançar plenamente seus pulmões, antes de levantar-se. Iria aproveitar as músicas do Catfish and the Bottlemen pela primeira vez depois de quatro meses. E, depois disso, ela sabia exatamente o que faria.

Capítulo 2: I am never going back to thinking straight

A melodia de Tyrants chegava ao fim quando começou a caminhar em passos agitados e nervosos em direção ao backstage. Sabia que escutaria Jordyn buzinar em seu ouvido durante todo o trajeto de volta à Dublin por simplesmente ter dado um perdido nela no dia de seu aniversário. Sabia também que estava errada em fazer isso, mas não conseguia se sentir culpada. Pelo menos não no momento.
Ela quase podia sentir a adrenalina correr em suas veias e acelerar seu sangue enquanto ouvia gritos intermináveis denunciarem que o show tinha realmente acabado. Não sabia por que iria fazer o que estava prestes a fazer, nem por que estava tão esperançosa em relação a isso, mas seu coração pulsante, batendo no ritmo das palmas do público, a fazia sentir que, sim, era exatamente aquilo que ela deveria estar fazendo
Depois que teve seu pequeno momento de recaída, voltou ao tumulto de gente que curtia animada as músicas que ela tanto amava. Até tentou achar Jordyn novamente, no mesmo lugar que acreditava estarem antes, mas fora impossível no meio de duas mil pessoas desesperadamente agitadas e incrivelmente grudadas umas nas outras.
A solução foi fechar os olhos ali mesmo, rodeada por corpos desconhecidos que se balançavam sem parar, e sentir. deixou-se sentir e entregou-se a uma experiência catártica quase sobrenatural. Cada nota tocada pelos diferentes instrumentos tocava diretamente a sua alma, e cada palavra que saía da boca de entrava continuamente por seus poros e eriçava todos os pelos de cada parte de seu corpo. Ela estava energizada. E sentia que poderia ficar nesse estado para sempre que não se importaria nem um pouco.
De repente, toda a sua vida fazia sentido. Aquela era sua paixão. Música era e sempre seria a única coisa que a deixava do jeito que ela mais gostava de ficar. Daquele jeito que se encontrava enquanto ouvia cantar maybe i don’t mind just getting high in mine. E, naquele momento, simplesmente não lhe importava o fato de estar desempregada, sem nem um centavo na carteira; não lhe importava o fato de ter ou não uma nova namorada de cabelos loiros e olhos castanhos; não lhe importava o fato de ainda não ter conseguido o que queria. Porque, ali, naquele instante, a única coisa que realmente importava era a música. E, cantando a plenos pulmões que (Cristo!) nunca voltaria a pensar direito, ela simplesmente sabia que, independentemente de tudo e qualquer coisa que pudesse ocorrer de ruim em sua vida, no final daria certo. Não sabia como, nem de que forma daria certo, mas simplesmente sabia que daria.
Twice it brought me down, but it’s the last time
. prometeu para si mesma que aquela seria a última vez que ficaria para baixo. E era com esse pensamento que seguia confiante para o backstage do festival, as mãos suadas segurando firme as alças da mochila em seu ombro.
Pessoas vestidas de preto com fones de ouvido gigantes na cabeça e carregando os mais diversos instrumentos andavam rapidamente em todas as direções e se esbarravam apressadas entre os fios coloridos que se estendiam no chão. Todos pareciam extremamente ocupados para sequer perceberem a presença da garota ali. Também não era como se fosse necessária qualquer segurança por aquela área, os mais fortes e mal encarados se encontravam na porta que dava acesso ao corredor de camarins. Ali ela nem arriscaria tentar se enfiar, por isso a pressa em tentar alcançar a banda logo que eles saíssem do palco.
Teria que disputar com alguns jornalistas e com o pessoal da produção, mas, novamente, estava extremamente confiante enquanto abria o bolso de fora de sua mochila para pegar o papel azul-claro. Suas mãos tremiam e amassavam ainda mais a folha, já totalmente amassada.
Bob e Benji já tinham descido as escadas que os colocavam para fora do palco e já estavam próximos aos seguranças quando ela conseguiu se aproximar, afobada. Infelizmente não a tempo de alcançar os dois, que já entravam pelo corredor de camarins quando ela os gritou.
Bondy desceu do palco e fez o mesmo trajeto dos companheiros de banda, de forma tão rápida que não teve nem tempo de tomar fôlego para poder chamá-lo.
Quando já estava prestes a choramingar como uma criança mimada que tem seus planos frustrados pela mãe, pensando que já teria entrado no camarim antes de ela chegar, pôde observar o vocalista descer calmamente os degraus, um por um, secando o rosto com uma toalha branca que contrastava completamente com suas roupas pretas.
A menina soltou um suspiro alto, dignamente aliviada, antes de andar até ele.
— Oi, ! — ela disse, animada, não conseguindo conter a emoção que era estar frente à frente com um de seus ídolos, dirigindo a palavra diretamente a ele.
O rapaz pareceu não escutar, apesar do tom relativamente alto que ela usara, pois continuou fazendo seu percurso como se nada tivesse acontecido, colocando a toalha por cima dos ombros e balançando os cabelos sem sequer dirigir o olhar a ela.
balançou a cabeça, fazendo uma careta antes de segui-lo até uma mesa que se encontrava em um dos cantos do local, onde ela conseguiu enxergar ele pegar uma garrafa d’água.
— Oi, ! — ela repetiu atrás do rapaz, um pouco menos empolgada.
O vocalista sequer virou-se para ela. Continuou de costas enquanto abria a garrafinha e a levava à boca. A menina sentiu-se levemente irritada por estar sendo ignorada, mas pigarreou antes de continuar amigavelmente:
— Meu nome é , sou uma grande fã…
Ele então virou-se, com a garrafa em mãos e uma expressão totalmente indiferente no rosto. Percebeu a menina à sua frente olhando diretamente para ele e mexendo a boca sem parar. Juntou as sobrancelhas antes de levantá-las e colocou a mão na frente de seu corpo antes de perguntar, gritando:
— DESCULPE, ESTÁ FALANDO COMIGO? — ele levou a mão livre ao ouvido esquerdo e então ao direito, fazendo com que dois fones de retorno de palco, que bloqueavam quase que totalmente os ruídos externos, caíssem sobre a toalha em seus ombros.
se sentiu idiota quando percebeu que o rapaz sequer a ouvia e fechou os olhos, envergonhada, antes de sorrir e voltar a falar:
— Desculpa, não percebi que você estava com o retorno.
assentiu, sem mudar a expressão de sua face, como se deixasse claro que pouco lhe importava o que ela tinha percebido ou não.
Estava irritado e impaciente. Tinha passado o dia anterior inteiro tentando compor uma mínima frase, mas nem uma mísera palavra havia saído da caneta que jogara com força contra uma janela depois do tempo desperdiçado. Estava com raiva de tudo, e principalmente de si mesmo.
Junho logo chegaria e, com ele, a quarta reserva de estúdio sem que ele tivesse sequer uma composição. Podia sentir o olhar de Steve fulminar sobre si toda vez que ele ligava perguntando sobre o andamento das músicas.
Tudo ainda piorava pelo fato de estarem na Irlanda. E pelo fato de que seria ali, daqui menos de um mês, onde estariam novamente para a gravação do terceiro álbum. Steve achou que um tal de Grouse Lodge seria o estúdio ideal para se concentrarem, longe de tudo, no meio do nada e logo na Irlanda. Por que não gravavam logo em Llandudno? Pelo menos ficaria perto de sua família.
Sabia que não estava em condições de exigir nada, mas sinceramente, queria voltar para casa, entrar no chuveiro e esquecer que era uma pessoa pública pelos próximos meses, ou quem sabe para sempre. A última coisa que precisava no momento eram fãs o cobrando por um álbum, ou fãs o procurando pelo backstage.
Levou a garrafa à boca novamente e deu dois longos goles, esperando que a garota continuasse o que quer que estivesse falando, mas ela tinha ficado muda e o encarava com uma expressão estranha. Então ele abaixou o olhar novamente para ela, a encontrando parada no mesmo lugar, e levantou as sobrancelhas, como se dissesse que estava esperando sua pronunciação.
Ela se embaralhou, balançando a cabeça, e piscou várias vezes os olhos antes de continuar:
— Meu nome é , sou uma grande fã do seu trabalho. — ela falou, envergonhada, apertando cada vez mais o papel em suas mãos.
— Bem, obrigado, . — ele disse simplesmente, depositando a garrafa já vazia na mesa e forçando um sorriso antes de voltar a seguir seu caminho para o camarim.
A menina arregalou os olhos, surpresa com o comportamento do ídolo, e demorou alguns segundos para entender que ele estava realmente a deixando ali plantada enquanto caminhava para longe dela, sem ao menos dar a oportunidade para que ela continuasse.
— Ei! — ela gritou ao perceber que ele caminhava apressado em direção aos seguranças.
Ele não parou, apesar de ter ouvido claramente o chamado dela dessa vez, mas apressou o passo para que conseguisse alcançá-lo. Ele a olhou por um momento, mas continuou andando, fazendo com que a menina o acompanhasse e quase tropeçasse em seus próprios pés para poder terminar de falar.
— Queria que desse uma olhada no que eu escrevi. — disse rapidamente e esticou a mão trêmula, que segurava o papel azul, em direção a ele, que continuava olhando para frente. — Ficaria feliz se me dissesse o que achou…
— Claro, claro, vou dar uma olhada. — ele balançou a cabeça, assentindo, e pegou a folha de qualquer jeito, impaciente, passando rapidamente pelos seguranças e deixando para trás com a cara de quem tinha presenciado um enterro de alguém que sequer conhecia.
Então aquele era ? O cantor que a inspirava e cujas músicas a faziam entrar em um estado catártico? Não passava de um filho da mãe egocêntrico que sequer podia escutar por um minuto alguém que admirava seu trabalho há tanto tempo.
estava totalmente puta da vida. Sentia-se enganada pela imagem que as letras de passavam dele. Ele não era nada sensível como parecia ser através das músicas, e isso a irritava profundamente. Estava com raiva dele, de suas músicas ridiculamente boas, e de si mesma, por achar que aquele plano idiota de entregar sua composição para o vocalista do Catfish and the Bottlemen seria uma boa ideia.
O que esperava, afinal? Que ele lesse Dreams em sua frente e batesse palmas, a elogiando pela letra, e talvez a comprasse dela? Sim, era basicamente isso que ela esperava. E se sentiu idiota e burra quando ele sequer olhou direito na sua cara e pegou o papel azul-claro que tanto significava para ela com tanto descaso.
— Que ódio! — ela soltou um gritinho fino para si mesma, segurando ambos os pulsos com força, e chutou a grama embaixo de seus pés num impulso irritado e raivoso, quase involuntário.
Pôde sentir o olhar dos seguranças sobre si e pensou que até eles estivessem com pena dela, ou com vergonha alheia pelo papelão que tinham acabado de presenciar.
Sabia que tinha acabado de prometer a si mesma que não ficaria para baixo, e irritou-se consigo por sentir-se impotente, mas tudo parecia conspirar contra ela naquele dia 11 de maio. 2018 definitivamente não era o seu ano, e ele nem havia chegado ao meio.
Ela sorriu amarelo para os seguranças, que retribuíram sorrisos tão amarelos quanto, antes de pegar o celular no bolso e discar o número de Jordyn.

[...]


deixou o papel azul-claro em cima de uma mesa qualquer assim que entrou no camarim, uma sala pequena com pôsteres de diversas bandas colados pelas paredes bege. Tirou a toalha que pendia em seus ombros e a jogou no sofá antes de jogar a si mesmo por cima dela. Desde quando era inútil daquele jeito?
Benji, Bob e Bondy conversavam sobre o show, que aliás tinha sido ótimo, enquanto se afundava cada vez mais no couro preto e macio do móvel. Parecia que, nos últimos tempos, ele só conseguia ser ele mesmo e sentir alguma coisa quando estava no palco, tocando e cantando e expressando tudo o que queria falar e tudo o que sentia. Assim que saía daquele ambiente mágico, a pressão do mundo tomava conta da mente e do corpo dele e ele simplesmente se transformava. Não aguentava nem mais pensar na figura de um estúdio sem que se irritasse profundamente ou fosse consumido por calafrios.
Ali, deitado naquele sofá, não era o que estava no palco há poucos minutos, mas alguém totalmente desprovido de vontade e energia. Alguém que nem ele mesmo conhecia e alguém que ele odiava profundamente ter parcialmente se tornado.
— Tudo bem, cara? — Bob perguntou para quando os outros meninos pararam de rir de algo que ele falava.
O rapaz apenas assentiu com a cabeça, sem forças para responder qualquer coisa verbalmente.
— Você mandou muito bem lá! — o amigo continuou, referindo-se ao show. — A energia do pessoal tava incrível!
— Realmente. — falou, sem mover um músculo e sem que sua face alterasse a expressão de tanto faz que ele carregava desde o backstage.
— Cara, não fica assim. — Benji disse, aproximando-se do vocalista. — Esse bloqueio vai passar.
Na cabeça de , aquele bloqueio parecia infinito. Para alguém que escrevia músicas desde que se entendia por gente e que aos catorze anos escreveu a obra prima que acabara de encerrar o show, aquele tempo em que sua criatividade se esvaía por completo parecia ser eterno.
O rapaz chegava a pensar que nunca mais conseguiria expressar seus sentimentos, uma vez que era na música, e somente na música, que eles conseguiam sair das profundezas da sua alma. Um de seus únicos talentos havia simplesmente se esgotado de uma hora para outra, sem mais nem menos, como se nunca houvesse realmente o pertencido e estivesse somente de passagem por sua vida.
Não conseguir se comunicar através das letras de suas canções o deixava totalmente deprimido, e drenava absolutamente toda a sua vontade de continuar e de seguir em frente com a sua carreira.
— Pelo visto, esse bloqueio já passou. — Bondy comentou, dando um meio sorriso enquanto olhava fixamente para um papel em uma das mesas do local. — Here’s to the nights we’d come in, having lost all judgement, and those dreams that we made would remind me of the ways… — ele lia num tom sério, embora estivesse quase saltitante por dentro.
O bloqueio de afetava todos os membros da banda indiscriminadamente, eles funcionavam como um conjunto. Lendo aquela letra, Johnny Bond sentia-se extremamente feliz pelo vocalista, que era inegavelmente um de seus melhores amigos e para o qual Bondy sabia muito bem a importância que tinham as composições.
Deitado no sofá, a alguns passos de distância, escutava tudo o que o amigo falava e não reconhecia uma palavra sequer.
— Você escreveu isso, ? — Bond perguntou, maravilhado, apesar de tentar manter sua personalidade séria.
Ele juntou as sobrancelhas, finalmente levantando seu corpo do sofá. Era óbvio que ele não tinha escrito aquilo. Nunca tinha ouvido aquela letra em toda sua vida. E era mais do que óbvio que, mesmo se tivesse ouvido, não teria tido condições de escrever nada nem parecido com aquilo em sua condição atual.
Bondy terminava de ler silenciosamente a letra quando aproximou-se, sem entender de onde o guitarrista estava tirando aquelas palavras. Foi quando enxergou a folha azul amassada que ele estava segurando.
Não era possível. Ele sequer havia olhado o conteúdo daquele papel amarrotado, tinha pensado que era só uma carta de fã ou alguma bobagem irrelevante que aquela menina empolgada o entregara. Mas não. Era a porra de uma letra de música. A porra de uma letra de música boa. Era exatamente o que ele estava precisando no momento.
Bondy o encarou rapidamente com um sorriso orgulhoso antes de estender o papel para ele e dar dois tapinhas em seu ombro. Na folha azul-claro, numa caligrafia que considerou horrorosa, estava escrito “Dreams”.

I push back all my plans
Eu adio todos os meus planos
You’ve stayed up, Christ, I love it
Você ficou acordado, Cristo, eu adoro isso
And I’d write off every chance that I’ve ever had with someone
E eu anotava todas as chances que já tive com alguém


O menino encostou-se na mesa e levou a mão que não segurava o papel à boca, puxando com os dentes a pele que envolvia sua unha. Hábito que tinha adquirido desde pequeno e que mostrava que ele estava nervoso ou tentando se concentrar em alguma coisa.
está de volta, pessoal! — Bondy falava com Bob e Benji, que pareciam tão animados quanto ele.

If should this mean the start
Se isso deveria significar o começo
You switch my faith then phone off
Você muda minha fé e então desliga o telefone
Just sat there sifting through my demos that I never had with someone
Só sentou e ficou examinando minhas demos que nunca mostrei a ninguém


Certo. Aquela letra era muito boa e parecia ter caído do céu nas mãos de na hora certa. Não pôde deixar de sentir-se animado com o que lia e com a animação dos companheiros de banda. Seria Dreams o início do fim de uma era? Seriam aquelas palavras a resposta para todas as suas perguntas e o final de todas as suas crises?
Não sabia. Mas sabia que, primeiramente, teria que mudar aquele nome. Dreams era cafona demais.

[...]


Quase três semanas haviam se passado desde o Indiependence. Havia quase três semanas que estava totalmente na fossa, mesmo tendo prometido a si mesma que nunca mais ficaria assim. Era meio impossível.
Tinha conseguido o emprego como auxiliar na escola de música do Sr. Pérez, mas auxiliar, no caso, significava fazer todo o trabalho que não fosse realmente ensinar música. Limpar, atender telefonemas, imprimir partituras e oferecer café ou chá com bolachas às pessoas que passavam pela recepção em alguma hora do dia. Não podia reclamar, de qualquer forma. Não tinha a merda de um diploma e recebia um salário que a permitia pagar as contas, afinal. Era o que precisava. Mas não era o que sonhava para a sua vida.
Jordyn também não falava direito com ela há duas semanas. Desde o festival, onde ela ficara sozinha enquanto quebrava a cara para nada. Como ela pensou que ir atrás de um cantor famoso para mostrar uma música idiota seria boa ideia? Como se ele tivesse tempo de sobra para ouvir uma garota inútil ou ler uma letra ridícula escrita por ela. Ele deveria estar bastante ocupado fazendo tudo o que ela gostaria de estar fazendo.
Era quarta-feira e estava na recepção da escola, pronta para desligar o computador, pois seu turno chegaria ao fim em exatos quatro minutos, quando o telefone tocou. Ela sinceramente pensou em não atender e ir logo bater o seu ponto antes que alguém ouvisse o barulho irritante e reclamasse com ela, mas ela estava tentando ser uma boa funcionária — quem sabe ganharia um aumento ou seria promovida por passar dois minutos de seu horário. Além do mais, era melhor ficar por ali mais tempo mesmo e demorar o máximo possível no metrô do que ir para casa e ver a cara emburrada da melhor amiga ou ouvir músicas latinas vindas do quarto de Mason pelo resto da noite.
Por isso, ela tirou rapidamente o aparelho do gancho.
— Escola de música do Sr. Pérez. Boa noite, com quem falo? — ela esboçou seu melhor sorriso ao atender a ligação. Tinha que parar com aquela mania de expressar-se visualmente através do telefone como se alguém pudesse a enxergar.
A ligação ficou muda por alguns segundos, como se a pessoa no outro lado da linha estivesse tomando coragem para falar. Uma respiração pesada era o único barulho que saía pelo alto-falante do telefone vermelho da escola do Sr. Pérez e isso assustou um pouco a menina, que chegou a tirá-lo do ouvido para desligá-lo quando ouviu uma voz masculina pigarrear nervosamente e finalmente se pronunciar:
...

Capítulo 3 - If you’re a blessing in disguise

simplesmente não conseguia acreditar que estava escutando aquela voz. Todo o seu sangue pareceu ir, de repente, para os extremos de seu corpo, o que fez suas mãos formigarem enquanto seu rosto adquiria a tonalidade exata de um tomate maduro.
Pensou que talvez pudesse ter escutado errado, ou que seu cérebro estivesse, por algum motivo, confundindo os seus sentidos, mas conhecia aquele timbre o suficiente para reconhecê-lo até mesmo numa multidão muito barulhenta ou num show com três mil pessoas. E não precisou aguçar os ouvidos para ter certeza de que não era um engano do seu subconsciente quando as ondas que saíam do telefone vermelho voltaram a vibrar no seu tímpano:
... — a voz repetiu, provavelmente imaginando que a menina estaria chocada ou confusa demais para responder. — Sei que provavelmente não quer falar comigo, até porque você me bloqueou de todos os meios de comunicação possíveis... — o tom ficou meio baixo, como se estivesse falando a última parte mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa. — Mas eu precisava falar com você, a Jordyn me falou que você estava trabalhando aí e então eu procurei o número na internet.
olhava fixamente para a parede branca em sua frente, sem saber como reagir sequer a uma de todas as palavras que acabara de ouvir. Sua cabeça estava literalmente vazia, assim como a parede insossa que encarava. O estômago dava voltas como as dos ponteiros do relógio, que parecia tiquetaquear muito mais alto e marcava um minuto para o fim de seu expediente.
A voz do outro lado suspirou:
, fala alguma coisa. — estava um pouco impaciente, quase como se tivesse algo muito importante para falar.
A cabeça da menina girava. Quatro meses e dezesseis dias. Era tempo demais sem ouvir sequer um oi para, de repente e do nada, receber uma enxurrada de palavras sem sentido. Seu cérebro simplesmente não sabia como processar, não tinha mais os mecanismos de resposta para o estímulo daquela voz em específico.
— A-alguma coisa. — ela balançou a cabeça, atordoada, se martirizando por ter gaguejado.
respirou aliviado e quase pôde sentir que ele dava um pequeno sorriso do outro lado da linha.
Ufa, pensei que ia me mandar para o inferno.
juntou as sobrancelhas, confusa. Seria possível que tenham ficado tão distantes durante esse tempo que o rapaz se esquecera de como ela era? A menina se imaginava fazendo muitas coisas antes de mandar alguém para o inferno.
Com a falta de resposta, o sorriso no rosto de murchou um pouco.
Bom, sei que não nos falamos há algum tempo, mas eu simplesmente precisava te dar os parabéns!
Parabéns?
pensou que essa conversa — ou monólogo — não poderia ficar mais esquisita. Não tinha nada, literalmente nada, pelo que merecia parabéns nos últimos dias — ou nos últimos anos.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar. — resolveu encurtar o papo. Estava confusa. O seu horário já havia passado em três minutos. E já havia passado de sua vida há quatro meses e dezesseis dias.
Não seja modesta, ! — ele falou e a menina fez uma careta. — Queria que você tivesse me contado. Estou tão feliz por você!
Ok. Isso era algum tipo de piada?
Por acaso estava tirando sarro de sua situação? Estava feliz por ela estar trabalhando meio período como assistente em uma escola de música? Limpando, imprimindo partituras e oferecendo cafézinho?
E, fala sério, contar algo de sua vida para depois de mais de quatro meses sem notícias? Poderia ser boba, mas não a esse ponto.
— Muito engraçado, . — ela forçou uma careta, como se ele pudesse ver, e colocou a mão que não segurava o telefone na cintura. — Olha, pode parecer interessante para você, tirar sarro da minha situação, mas é única forma que estou conseguindo sobreviver e, aliás, meu expediente acabou há cinco minutos e você está me prendendo, sabia? Você deveria ter mais empatia…
! — ele aumentou o tom, cortando a fala da menina. — Para de bancar a engraçadinha, eu já vi o vídeo!
— Vídeo? Que vídeo? — ela juntou as sobrancelhas, sem entender absolutamente nada. — , querido, acho que você está me confundindo com outra pessoa da sua imensa lista de ex-amores.
Muito engraçado. — ele revidou. — Quem está zoando com a minha cara agora é você.
balançou a cabeça, estressada, e pensou em desligar o telefone bem ali, sem mais nem menos. Mas alguma coisa dentro dela — provavelmente algo perto de seu estômago, porque ele continuava se contorcendo —, estava realmente intrigada com sobre o que possivelmente estaria tentando falar com ela depois de quatro meses. Se ele inventou toda essa história de vídeo e parabéns só como uma desculpa para falar com ela, isso poderia significar alguma coisa, não?
— Sete minutos me segurando, . — ela suspirou, encarando o relógio. — Vá direto ao ponto.
Ele pareceu entender.
O vídeo do Catfish com a nossa música, . Eu vi.
Mais uma pegadinha? O que diabos estava acontecendo?
Por que você não me contou que tinha vendido a música para eles? Eu fui pego totalmente de surpresa, fiquei “caramba, não é possível”! — ele continuava a falar sem parar, parecia realmente animado. — E aquele arranjo que eles colocaram, , ficou incrível! Confesso que até me emocionei um pouco.
Foi aí que, além do estômago, a visão de também começou a girar e ficar turva. Preferia acreditar que não estava começando a entender o que poderia ter acontecido.
, eu realmente não sei do que você está falando. — ela falou pausadamente. A mão do telefone começou a tremer involuntariamente e as pernas ficaram meio moles.
Como assim, ? — ele riu. Parecia realmente acreditar que a menina estava totalmente a par da situação. — No show de sexta, em Newcastle, o cantou uma música nova. — o nariz da menina ardeu como sinal de que o choro subia pela garganta e as mãos, que antes tremiam, começaram a ficar duras. — Você vendeu Dreams para nossa banda preferida!
sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. De todas as coisas que imaginou que poderiam acontecer quando entregou o papel azul-claro com a letra de sua música para no festival há três semanas, ter ela roubada dessa forma certamente não era uma delas.
A mão que segurava a cintura passou para o balcão vermelho, onde cravou forte suas unhas.
— P-pode me mandar esse vídeo, ? — a voz trêmula denunciava que o sangue que corria pelas veias da menina borbulhava.
Pensei que você já tivesse visto. — ele respondeu, confuso. — Tá tudo bem, ?
tentava disfarçar que por suas bochechas desciam lágrimas de raiva enquanto ela encarava a parede branca e o relógio colorido na parede. Não podia estar acontecendo. Não imaginou que pudesse acontecer em seus piores pesadelos.
— Eu não vendi música nenhuma, .

[...]


passou os 32 minutos do trajeto que a levava da Escola de Música do Sr. Pérez até em casa assistindo e reassistindo o vídeo que a mandara — tivera que o desbloquear, afinal. Ela chorou nas primeiras vezes, mas, nas outras, estava tão, mas tão, puta, que as lágrimas não conseguiam mais descer.
Estava experimentando um ódio que nunca tinha sentido, ou que pelo menos não se lembrava de sentir, em seus vinte e quatro anos de existência. Ódio de e de toda a Catfish and the Bottlemen, é verdade, mas o que machucava em seu peito, lá no fundo, era o ódio que estava sentindo por si mesma. Tudo aquilo era culpa sua. Tinha entregado sua música para o vocalista de uma banda famosa, o que esperava que ele fizesse?
Sentiu-se tão idiota quanto se podia sentir enquanto ouvia, por algo em torno da vigésima sétima vez, cantar um trecho da sua música para uma plateia admirada. Idiota, idiota, idiota.
Era a sua música ali. Aquela que transmitia os seus sentimentos e a qual ela tinha trabalhado duro para escrever. Se lembrava de passar dias anotando coisas sobre e sobre seu relacionamento e de ficar horas acordada à noite tentando encontrar rimas e palavras que pudessem realmente captar tudo o que ela queria passar.
Se lembrava de tentar procurar combinações de notas no violão enquanto tentava não ouvir a música latina de Mason no último volume. De treiná-la no dia seguinte no teclado da escola que trabalhava e receber broncas de seu chefe. De tocá-la para pela primeira vez e de como tinha sido gratificante vê-lo colocar as mãos para cima, antes mesmo de ouvi-la cantar a parte que fazia referência justamente a esse ato tão marcante do namorado.
Agora, ao ver a banda tocando-a repetidamente, sem sequer mencionar seu nome — não que parecesse realmente ter sequer escutado quando ela se apresentou ou quando ela falou todo o resto —, todo o sentido da canção parecia ter simplesmente se esvaído, como uma piscina que perde toda a água quando alguém abre o seu ralo.
So pull the love over my eyes, cause I fluctuate about you? odiava que a única parte que não era dela naquela música tenha ficado tão boa e se encaixado tão bem à melodia. E que o arranjo tinha ficado tão bom que a fazia repensar as notas que ela tinha usado originalmente.
Se sentia insuficiente, insignificante, enganada e, o pior de tudo, sentia que não podia fazer nada em relação a isso. Não era como se tivesse entrado armado em sua casa no meio da noite, aberto o seu pequeno guarda-roupas e pegado o papel azul-claro dentro de sua caixinha roxa de madeira. tinha facilitado o trabalho e entregado a letra direto em suas mãos, como uma boa protagonista idiota de filme de terror que segue o barulho assustador ao invés de ficar quieta e protegida em seu canto e acaba ajudando o vilão a matar a si mesma.
Mandou mensagens nas DMs do Twitter e do Instagram da banda quando se acalmou, mas não tinha expectativas de que alguém de fato a respondesse, já que, ela observou, eles sequer utilizavam muito as redes sociais.
Estava tão chateada que, assim que chegou em casa, subiu direto para o seu quarto. Ignorou Mason, Philip e Jordyn, que conversavam animados na cozinha, e soltou o mais gutural dos gritos assim que colocou seu rosto sobre o travesseiro.

[...]


Os pés de batiam descontroladamente no solado do avião. Estava tão nervoso que poderia vomitar ali mesmo se Johnny não estivesse bem ao seu lado.
Estavam a caminho da Irlanda. Em algumas horas estariam adentrando o estúdio para começar a gravar o terceiro álbum. O único problema era que ele não tinha nenhuma música e, graças à letra irritavelmente boa da estranha que caíra do céu em suas mãos — literalmente, uma benção disfarçada —, todos estavam com expectativas altíssimas em relação a ele. Até Steve, sempre mal humorado ultimamente, lhe dera uns sorrisos e uns tapinhas nos ombros nos últimos dias, como se dissesse “esse é meu garoto, que não vai fazer com que eu seja demitido ao cancelar um estúdio pela quarta vez”.
quase podia sentir seus ombros afundarem com a pressão de suas responsabilidades.
Abriu a mesinha que ficava no banco à sua frente e procurou por um papel e uma caneta no bolso de seu casaco. Achou o papel azul, que já quase se esfarelava de tão amassado.
Embaixo da caligrafia de , estava a caligrafia do próprio , na primeira letra que havia produzido em quase dois anos.

So pull the love over my eyes, cause I fluctuate about you
If you're a blessing in disguise, how did I realise?


Estaria mentindo se dissesse que não estava minimamente orgulhoso consigo. Mas infelizmente não devia isso a si mesmo, e sim a uma menina a quem sequer tinha dado atenção e cujo nome sequer conseguia se lembrar.
Pediu uma caneta emprestada a Steve, no banco da frente, que o olhou com os olhos brilhando antes de entregar-lhe duas.
Virou o papel do outro lado e começou a escrever algumas palavras que vinham à sua cabeça. Queria escrever uma letra baseada nos dois últimos versos que tinham complementado a música da menina. Afinal, não poderia simplesmente roubá-la e colocá-la no álbum. Seus princípios o impediam de fazer isso, mesmo que todos ao seu redor achassem que ele a tivesse escrito.

[...]


— Como assim roubaram a sua música? — Jordyn perguntou, jogando-se na cama de enquanto a amiga mexia concentrada no computador, na escrivaninha.
Estava há dois dias, desde que havia conversado com , tentando achar alguma informação útil sobre Catfish and the Bottlemen na internet. Telefones, e-mails, qualquer coisa que a ajudasse a entrar em contato com alguém que pudesse ouvir sua reclamação.
Tinha encontrado números que deram direto na caixa postal nas quinze vezes que tentou ligar e e-mails que pareciam profissionais demais para responder nove mensagens com o assunto “URGENTE!!!!!! MINHA MÚSICA FOI ROUBADA.”. Sentia que estava jogando um jogo perdido tentando encontrar algo que a ajudasse.
— Eu dei a minha música para o . — explicava pela segunda vez, sem tirar os olhos da tela. — Ele foi um insuportável, nem falou comigo direito. — revirou os olhos. — E, de repente, o me liga dizendo que eles estão tocando a minha música. — virou a cabeça para a amiga e apontou para si mesma com força, para acentuar a indignação. — Aliás, eu só não te mato por ter falado para o onde eu estou trabalhando porque senão eu só saberia dessa confusão quando a música já estivesse lançada e eles estivessem faturando às custas da minha inteligência. — bateu o dedo indicador na cabeça algumas vezes e Jordyn deu uma risada baixa.
— Eu estava chateada com você. — ela se defendeu, levantando os braços. — Isso é o que acontece quando se deixa a melhor amiga sozinha no aniversário dela para dar uma de groupie. — lançou um olhar matador para Jordyn, que abriu um sorriso amarelo. — Tô brincando.
A menina voltou a prestar atenção no computador. Havia desistido da fase de encontrar algum meio de comunicação útil e procurava pelos próximos shows na Irlanda, em que ela poderia descontar sua raiva cara a cara.
O único problema era que não havia sequer uma mísera apresentação marcada. Nem na Irlanda e nem em nenhum outro lugar do mundo. Parecia que o show em Newcastle havia sido o último por um bom tempo. E que teria que lidar com o fato de que, a menos que algo misterioso acontecesse e colocasse bem na sua frente, ela não conseguiria ter sua música e sua dignidade de volta.
— Então, de qualquer forma, graças a mim você pôde ser alertada. — Jord voltou a falar e revirou os olhos. — Isso significa que você ainda está em débito comigo, só que dessa vez, em dobro.
Só que não, né. — ela juntou as sobrancelhas, os olhos fixos na tela. — Tenho que repetir que você ajudou o meu ex-namorado a me encontrar? — bufou. — E que eu ainda tive que desbloquear ele depois de tudo, para ele ficar se sentindo como se tivesse me salvado de alguma coisa ou algo do tipo? Estamos bem quites.
Jordyn ficou calada.
— Bom, é porque ele meio que… Te salvou, né? — fez uma careta.
estreitou os olhos. Conhecia bem a amiga para saber que, nas entrelinhas, ela queria falar outra coisa.
— Desembucha, Jordyn.
Jord olhou para as unhas e se consertou na cama antes de estufar o peito e voltar a olhar para a amiga.
— Até quando vocês vão ficar assim? — ela mordeu o lábio inferior. — Sabe, ele também era meu amigo e eu sinto falta de como a gente era.
suspirou antes de largar o computador, se dando por vencida na pesquisa e na conversa com a amiga.
— Eu nunca impedi que você falasse com ele, Jord. — ela balançou a cabeça, virando-se para a cama. — Eu só não consigo mais, não por enquanto, tudo ainda é muito recente para mim…
A frase foi interrompida por um bip do celular de , em cima da escrivaninha. Os olhos das duas se direcionaram imediatamente para o aparelho, como se fosse um imã.
Por um momento, a menina pensou que finalmente recebia a resposta de um de seus nove e-mails, mas seus ombros caíram assim que viu o nome que brilhava na tela: .
Mostrou a tela do celular para a amiga e revirou os olhos antes de abrir a mensagem:

: Grouse Lodge.

Juntou as sobrancelhas e encarou Jordyn.
— Grouse Lodge? — perguntou, confusa. — O que é isso?
A amiga levantou os ombros e balançou a cabeça, indicando que também não sabia.

: Localização.

— Aparentemente algo a uma hora e meia daqui. — falou ao observar a localização que o rapaz havia mandado.

: ?


: Você tem muita sorte, .
😝

— Está falando que eu tenho sorte. — ela riu irônica para o celular, balançando a cabeça. — E ainda mandou um emoji esquisito. — tentou imitar a carinha para a amiga, levantando as sobrancelhas. — É mole?

: ?
: Eu tô literalmente afundada na merda?


: Os caras vão gravar o novo álbum aqui.
: No estúdio do pai de um amigo meu!


arregalou os olhos inevitavelmente. Levantou o olhar do celular para Jordyn, que a encarava, curiosa.
— O que foi, ? — ela se mexia meio desajeitada na cama.
O lábio da menina começava a subir em um meio sorriso enquanto a amiga começava a quase pular, querendo chamar a sua atenção.
— Jord, você está a fim de dar uma volta?

[...]


Na sexta-feira daquela semana, e Jordyn rumavam para o condado de Westmeath, onde ficava o tal estúdio de Grouse Lodge, a mais de cem quilômetros de Dublin.
Depois de mil mensagens pedindo para ir junto, de utilizar a vantagem de conhecer minimamente o dono do estúdio, a chantagem de que tinha um carro para levá-las e de contar com o apoio ferrenho de Jordyn — apesar de , a principal afetada da situação, se sentir mais afetada ainda com a presença extra —, quem dirigia o opala antigo de seu pai até a vila de Rosemount, em Westmeath, era .
— Por que eles se enfiaram no fim do mundo para gravar um álbum? — perguntou, deitada e enrolada em duas cobertas, enquanto observava árvores e mais árvores passarem por suas meias coloridas, encostas em uma das janelas do banco de trás.
— É um dos melhores lugares para se gravar na Europa. — começou a falar e ela revirou os olhos.
Ele parecia querer participar dos assuntos a qualquer custo. Até quando perguntara para Jordyn o que ela tinha usado para melhorar as cutículas na semana passada, ele fizera questão de se intrometer para dizer que cutículas eram boas para proteger as unhas e toda essa baboseira.
Sério, quem liga? pensou, mas não queria bancar a estraga-prazeres, já que Jordyn parecia muito animada no banco do passageiro — “Sério, ? Que saudade das suas curiosidades aleatórias!”
— É tipo um hotel, tem tudo lá! — ele continuava, sempre olhando no espelho retrovisor interno para observar as feições de , quase sempre se deparando com um revirar de olhos ou uma expressão nada amigável. — O intuito é que o artista se sinta à vontade para poder fazer música. Genial! Fico até surpreso que eles tenham verba suficiente para alugar um lugar como esses.
— Uau. — fingiu empolgação e bateu com as meias no vidro no ritmo da música dos Strokes que tocava nos alto-falantes. — Dinheiro para comprar a música que roubaram de mim que é bom, nada, né?
deu um sorriso quebrado. O carro ficou em silêncio novamente, o que parecia deixar e Jordyn desconfortáveis. , porém, preferia assim. Era bom que os dois entendessem que o tempo da amizade deles já havia passado. Estava feliz com a amizade de Jord, apenas, e tanto lhe fazia se ela e o rapaz fossem amigos também, contanto que não forçassem um laço que claramente não existia mais ali, tentando fingir que nada tinha acontecido entre e ela.
O som que saía do rádio era a única coisa que a interessava . Era a única coisa boa que ainda podia esperar do ex-namorado: seu gosto musical; e estava feliz em captar apenas isso dele durante essa aventura, se é que se podia chamar assim.
Jordyn, depois de uma hora e alguns minutos de viagem, pareceu entender isso e, como boa persuasiva, usou a seu favor.
, você adora essa música! — ela falou, aumentando o som de Piano Man, do Billy Joel. sorriu, encarando o retrovisor.
— Uhum. — respondeu, sem dar muita corda. — Estamos chegando?
— Em uns dez minutos. — o rapaz respondeu prontamente. balançou a cabeça, concordando, e a colocou para dentro das cobertas.
Apenas levantou quando, alguns minutos depois, ouviu os primeiros acordes de Business ameaçarem a começar.
— Pula essa, por favor, Jord. — seu rosto estava vermelho, por causa das cobertas que o abafavam e por causa das lembranças constrangedoras que a música a trazia.
Pôde ver esconder um sorriso e já estava preparada para falar algumas verdades que vinha segurando ao longo do caminho, quando ouviu a voz de Jordyn murmurar embasbacada:
Isso é um estúdio?!



Continua...



Nota da autora: Oieeee! Demorei a atualizar, pois essas últimas semanas foram as mais enroladas do ano para mim! Gostaria de agradecer imensamente à Lala, por sempre ser tão atenciosa e deixar comentários que me deixam boba!! Obrigada de novo à Paula, por acompanhar, e obrigada a Jess que fez essa capa maravilhosa exatamente do jeito que eu queria! Espero que tenham gostado dela e desse capítulo tanto quanto eu. Essa história é o que tem me mantido mais alegre nos últimos tempos!!! Estou muiiito ansiosa para dar continuidade a ela!! <3
Sugiro que pesquisem Grouse Lodge no google e fiquem tão encantados quanto eu com esse “estúdio”! O que vocês acham que vai acontecer por lá!?
Beijos, Lara. :)





Outras Fanfics:
05. Used To Be
You’re Still my Direction


Nota da beta: Primeiro: PUTA QUE PARIU, eu joguei no google! Caralho, mano, isso que é um puta lugar HAHAHAHAAH
Tem que agradecer nada nãããão, eu que agradeço loucamente por ser beta dessa fic, porque eu tô numa paixão por ela que eu só queria que você me enviasse um capítulo por dia HAAHAHA eu tô MUITO ansiosa para saber como as coisas vão acontecer, sabe? Eu quero saber o que ele vai falar e como vão se aproximar, e eu espero MUITO que o Ned fique puto quando eles estiverem juntos, AFINAL, também é a banda preferida dele e eu quero ele tipo "porra........." HAHAHAHAHA Eu já tô pensando lá pra frente, eu sei, mas meu coração tá acelerado com essa história, eu tô amando demais esses personagens! Sua fanfic tem te mantido alegre, e me mantido junto, então manda maisssssssssssssssss <3

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