Última atualização: 29/06/2018

PRÓLOGO

Ontem a noite eu tive um sonho.
Um sonho ruim.


O som de passos num corredor estreito com apenas uma porta branca no final. Eu não percebi no começo, mas os passos eram meus e me levavam até o fim daquele corredor. Olhei para trás, devia haver outra opção a não ser seguir para o que quer que estivesse atrás daquilo.
Havia uma escada que parecia infinita, percorrendo toda a extensão de uma montanha. Então, eu senti meu chão sumir e meu corpo suspender no ar enquanto conseguia ver de relance construção branca e de pilastras perfeitas e por um segundo houve um zoom em minha mente, quando eu vi parado no meio do templo um homem em pé e de costas pra mim. Mas conforme eu caia, eu podia vê-lo se virando… Com apenas um sorriso repuxando os lábios.

Quem sou eu?


Quando acordei, eu não lembrava mais de nada. A única coisa que eu conseguia pensar era que aquela luz ridiculamente branca faziam meus olhos arderem. Onde eu estava, o que era aquele lugar…? Eu não conseguia saber, não lembrava nem mesmo de como eu era, de qual era meu nome…
A única coisa que eu lembrava era o que eu havia ouvido antes de cair no infinito durante o meu sonho.

Vocês erraram.
Sejam bem vindos à punição pelos seus erros.



Amnesia

Talvez eu seja um pouco ciumenta
Mas é tarde demais, eu vejo o fim de qualquer jeito.

Não era um local movimentado. Na verdade, era bem pelo contrário.
havia escolhido morar longe do centro da cidade, da aglomeração e tumulto. Detestava ouvir sirenes e como já tinha que lidar com isso durante o dia inteiro, então que ao menos em casa pudesse ter algum descanso e algumas horas de paz, sem ter que lembrar do barulho da ambulância que diariamente era sua trilha sonora praticamente durante todo o tempo.
Desceu do carro calmamente após estacionar a frente da bomba de gasolina, mas resolveu aproveitar a falta de movimento no local para ir até a loja de conveniências comprar um café após terminar de encher o tanque. Sentiu a necessidade de agarrar-se ao fino casaco preto que envolvia seu corpo pelo vento cortante e um tanto assustador que estava ali, tentando ao máximo esconder o vestido de saia relativamente comprida e cor branca, assim como as sapatilhas que usava.
Era um vento incomum e que fez a médica sentir-se totalmente insegura. As folhas das árvores e as próprias balançavam de forma extremamente violenta e ela acabou ouvindo um trovão que parecera passar ao seu lado, a fazendo olhar para trás por reflexo e ainda conseguir ver parte do clarão que cortara o céu, indicando que realmente havia sido perto da onde estava. Um tanto agoniada e começando a tremer de frio, entrou rapidamente na loja e tentou se lembrar de ter visto alguma previsão de tempestade próxima dali, mas a verdade é que podia jurar que quando foi se vestir, a previsão era de um dia ensolarado.
Olhou a televisão assim que entrou para ver se realmente aqueles ventos não eram presságios de algo pior como um furacão já que a intensidade era tanta que parecia, mas nada era noticiado, a fazendo arquear uma das sobrancelhas em dúvida. Talvez não estivesse tão ruim e fosse coisa da sua cabeça. Em lugares afastados e com mais natureza os fenômenos sempre pareciam ser mais fortes do que realmente eram…
― Parece que uma tempestade está vindo. ― mal percebeu que havia um rapaz de cabelos louros e um penteado que julgou no mínimo um tanto excêntrico depois de olhar estava ali ao seu lado e do aquecedor onde pegava um copo de café industrializado.
― Sim. ― ela respondeu educada, mesmo que um tanto arredia pela surpresa em ver alguém ali, enquanto calmamente pegava o dinheiro na bolsa. Geralmente quando passava não havia ninguém além do caixa, isso quando ele mesmo estava, e estranhou ainda mais quando seu olhar desceu e viu que o homem parecia vestir um uniforme de militar, inclusive com algumas insígnias. ― Estranho…
― Verdade, estava sol faz alguns minutos, não? ― o desconhecido puxou assunto, fazendo a mulher sair do próprio transe e ficar parcialmente aliviada quando o garoto achou que estava falando do clima e não de si. Mas então ele começou a andar calmamente até a saída, fazendo a sineta tocar em despedida ao passar pela porta. ― É melhor ir logo para o hospital antes que piore e seja tarde.
― Hm? ― a não digeriu o que havia ouvido no primeiro momento, apenas arregalando os olhos e olhando para trás para procurar o homem quando ele já havia saído. ― ESPERA! ― ela gritou, e nada a impediu de sair correndo até o lado de fora do estabelecimento, praticamente jogando o dinheiro em cima do caixa sem nem ver se havia acertado ou não, saindo pela porta de vidro e olhando para os lados.
Mas não havia ninguém ali. A única companhia que encontrou foi o frio intenso e o vento que lhe arrepiava a nuca. Pelo menos era o que ela pensara na primeira olhada, porque ao observar com mais atenção encontrou um garoto caído no chão visivelmente desacordado, a fazendo se aproximar rapidamente, achando que era o mesmo que estava falando consigo há pouco, mas ao chegar perto viu que claramente não era, e sua situação a fez esquecer totalmente do estranho da loja de conveniências.
Boa parte dos lisos cabelos em tom fortíssimo de preto estava grudada em sua testa em diversas mechas grossas por conta do sangue que escorria que também cobria uma porção das feições do desconhecido, formando uma pequena poça abaixo da cabeça do dono da pele levemente bronzeada, a fazendo ficar um tanto assustada com gravidade do ferimento. Como precaução, correu até seu carro e pegou o kit de primeiros socorros que estava sempre perdido em seu porta malas, resolvendo ao menos estancar o sangue antes de qualquer coisa.
― Meu Deus… O que aconteceu aqui? ― ela se perguntou enquanto abria a caixa para começar um curativo emergencial.
Estava tão distraída que não prestara atenção em algum barulho alto que um acidente poderia ter causado? Na verdade, aquilo não a importava muito, o que era uma prioridade agora era achar um jeito de colocar o homem em seu carro e levá-lo até o pronto socorro em que trabalhava antes que fosse tarde.

Ω


, você devia ter me avisado e eu mandaria ajuda. ― falava pela vigésima vez depois de sua chefe ter chegado no hospital carregando um ferido e também quase que caindo junto com ele.
― Eu sei, mas na hora nem pensei. Agora já passou, . ― concordou, mas tentou pela última vez encerrar aquele assunto para conseguir se concentrar em outra coisa. ― Ele está fazendo os exames como eu mandei? Conseguiram descobrir algo sobre quem é?
― Sim, está na ressonância agora. ― a olhou na prancheta onde estava escrito tudo o que a chefe mandara ser feito com o rapaz. ― E sim, parece que acharam a identidade dele e estão procurando ver se há algum parente aqui, mas se não encontrarmos só resta esperar que ele acorde.
― Certo… Mais alguma novidade? ― a médica questionou, ajeitando o jaleco e fechando os botões da parte debaixo, deixando abertos apenas os dois primeiros para que nada lhe apertasse, enquanto as duas caminhavam calmamente até sua sala.
― No caso de um dos cantores que bateu o carro… Parece que ele acordou nessa madrugada, mas não consegue se lembrar de nada. ― avisou para a médica que arregalou os olhos em surpresa ao ouvir a primeira parte da notícia.
― A amnésia não é novidade depois daquela batida na cabeça, mas ele acordou tão do nada, não estava apresentando reações cerebrais até eu ir embora ontem… Que estranho. ― pronunciar essa palavra enquanto andava fez com que a mulher arregalasse os olhos com a sensação de dejavu, lhe fazendo parar na porta de sua sala.
― Bem, essas coisas acontecem, não? ― nos seis meses que trabalhava ali, não era a primeira vez que vira aquilo acontecendo, então não surpreendia-se mais. ― Eu preciso voltar pra recepção. Me chame se precisar de alguma coisa. ― a mais nova avisou, esperando a confirmação para fazer o que estava falando. ― …?
― A-nh?! Ah sim, tudo bem, vai lá. Qualquer coisa eu volto a chamar você. ― a verdade é que mesmo com o desespero do momento ter lhe tirado a atenção daquele desconhecido, algo lhe dizia que havia algo muito errado ali, e ele tinha algo haver com isso. ― H-Hey, !
― Sim? ― a deu meia volta ao escutar a voz da mais velha, arqueando uma das sobrancelhas e pensando que ela estava realmente estranha aquele dia.
― Se um homem loiro e alto aparecer em algum lugar do prédio, com uma roupa militar… Me chame. ― avisou, fazendo a estagiária arquear ainda mais as sobrancelhas em dúvida.
― Ceeerto… ― não pode reprimir o tom um tanto desconfiado daquilo. Sua chefe não podia estar ficando doida também, aí já era demais. ― Mais alguma coisa?
ficou alguns segundos sem responder, apenas abriu a porta da sala de consultório onde ficava e então olhou para a janela de sua sala que mostrava a rua principal em frente ao prédio, e viu que o sol já iluminava sua mesa do mesmo jeito que odiava sempre que via.
― Você viu qual era a previsão do tempo de hoje? ― questionou, virando para trás e observando a morena ajeitando os óculos no nariz com uma expressão pensativa.
― Sim… Era sol e calor na cidade inteira.

Ω


, eu não sabia que você iria vir! ― não pode esconder até mesmo uma animação ao ver a amiga, algo que não estava ali antes pela preocupação em que tudo desse certo. Apenas a presença da era capaz de lhe deixar um tanto mais relaxada, não sabia se era pelo largo sorriso no rosto dela ou o ar despreocupado que sempre rondava a amiga.
― Eu sei, quis fazer uma surpresa! A empresa ia mandar o Ravi e o Leo, os dois cantores do LR, sabe? Mas não sei se você soube, eles sofreram um acidente de carro e estão com problemas… Parece que os dois estão com amnésia. ― fez uma expressão chateada ao falar isso, mas então abriu um largo sorriso para desviar a atenção da amiga de coisas ruins. Não era hora de pensar em coisas ruins! ― E então eu pedi pra vir no lugar deles e eles deixaram! Faz tanto tempo que a gente não se vê, foi uma ótima oportunidade!
― Que bom que você conseguiu vir, mesmo nessas circunstâncias… Eu fico feliz. ― a falou para a mais velha, com um discreto sorriso de canto. Mesmo assim, sua expressão se mantinha um tanto indiferente e qualquer um que não a conhecesse bem se perguntaria se ela estava realmente feliz com aquilo.
― AWWW! ― o quase grito da mais velha chamou a atenção dos paparazzi que infestavam o lugar e logo a chuva de flashes começou quando viram que a loira apertava a mais baixa em um abraço sufocante. ― A-Ai, me desculpa, eu esqueci que você prefere ser discreta… ― bateu com uma das mãos na cabeça como se fosse a pessoa mais burra do mundo.
― Não se preocupe, hoje eu não conseguiria isso nem se quisesse… ― a acalmou a mais alta, passando levemente o indicador abaixo de um dos olhos que lacrimejou por conta das luzes fortes. acabou suspirando aliviada, mas bateu de novo em sua própria cabeça: era tão burra que havia esquecido que a exposição era da amiga, como ela seria discreta assim?
― Senhorita , nós queríamos fazer algumas perguntas. Tem algum tempo para nos responder? ― uma parcela de críticos de arte e repórteres questionava a platinada, que arregalou levemente os olhos e virou na direção de .
― OLHA, eu não sabia que o Seo In Guk ia estar aqui! ― a abriu um largo sorriso simpático na direção tanto da amiga quanto dos repórteres, colocando uma das mãos acima do coração ao sentir o tiro de ver o crush por ali. ― Com a licença de todos… ― acenou para a imprensa rapidamente e se aproximou da amiga para lhe segurar o ombro em consolo e beijar sua bochecha. ― Fighting, Floquinho!
E aquele apelido fez com que por um segundo se perdesse em seus próprios pensamentos. Era como se tivesse certeza que havia escutado aquilo antes, e um arrepio subiu por sua espinha, um arrepio de horror que fez até mesmo suas pernas tremerem. Desde quando lhe chamava daquele jeito…? Desde quando alguém lhe apelidara daquela forma?
Era como um oco que não sabia que existia em si, mas se mostrara bem maior do que nunca pensou que fosse.
― E então… Esse é o quadro principal da sua exposição, não é? ― questionavam pela terceira vez a garota que havia se perdido em si mesma, mas acordou com uma mão tocando seu ombro e a expressão da mulher um tanto preocupada sobre seu estado mental.
Então olhou para frente e viu a enorme tela pintada com a figura de um homem com o rosto coberto por uma espécie de boina e rabiscos de cores.
― Sim, ele é…
Mas a sensação de vazio dentro da garota apenas aumentou. Faltava algo, e ela sabia o que era.

Ω


― Nós temos tido muitos casos de amnésia, isso é estranho. ― dizia com uma das sobrancelhas arqueadas, levando o dedo médio e o indicador para ajeitar os óculos no apoio de seu nariz. ― Inclusive aquele caso dos cantores, que é o mais estranho ainda. Qual a probabilidade de três pessoas sofrerem um acidente de carro e os três envolvidos ficarem com amnésia?
― Você é tão desconfiada, Sis! Não pense tanto nisso, e nem fala de probabilidade comigo que eu sou de humanas. ― riu baixo, tentando descontrair e tirar aquele peso da cabeça da irmã mais nova enquanto a via colocando a bolsa em cima do sofá após descer as escadas. ― Deve ser só uma fase, tipo aquelas epidemias. Na nossa cidade sempre diziam que essas doenças são tipo morte ou gravidez: é só acontecer com um que atrai. ― deu de ombros, colocando o prato da irmã na mesa com um copo junto com o seu.
― Céus, não fale assim, , parece que você é uma velha. ― revirou os olhos, mas não reprimiu um sorriso de canto na direção da mais velha. ― Mas você deve estar certa, eu só estou pensando demais, deve ser isso mesmo.
― Trabalhar nesse hospital tá te deixando paranoica. Agora vem comer logo antes que você se atrase. ― bateu na mesa uma vez para chamar a atenção da dona dos cabelos compridos que obedeceu em silêncio, sentando em uma das cadeiras. ― Mas como assim, as três pessoas do mesmo acidente ficaram com amnésia? ― em partes era apenas uma curiosidade infantil, mas em outras queria puxar algum assunto com a irmã.
― Sim, eu não paro de pensar nisso. Sabe aqueles dois cantores que sofreram o acidente esses dias e eu comentei? Eles estavam voltando de um show quando um universitário bêbado bateu contra o carro deles. O acidente foi sério, e os três tiveram lesões na cabeça. Quando eles acordaram, estavam todos sem memória. É assustador. ― fez até mesmo uma expressão de desconforto com aquilo. Aquela história lhe fazia ter arrepios, mesmo que não fosse à pessoa mais medrosa do mundo.
― Iiih, isso ai deve ser algum castigo lá de cima pra eles. ― a mais velha não resistiu em soltar, rindo da expressão da irmã. ― Mas e aí, algum deles é solteiro? E gato? Os dois são famosos, devem ser lindos. ― um bico manhoso se formou nos lábios pintados de vermelho da mulher, fazendo arregalar os olhos.
, você é péssima. Mas se você quer saber, o único que eu vi foi o universitário. E ele não parece ser muito o tipo de pessoa que você se interessaria. ― soltou um suspiro ao se lembrar da aparência do rapaz que estava levemente afetada por conta das faixas. ― Tenho que ir pra faculdade agora, ou vou me atrasar.
― Mas você nem comeu direito, garota! ― bronqueou, mas era tarde demais ao ver a mais alta já em pé e pegando a bolsa. Soltou um suspiro derrotado, mas então ergueu o olhar para conseguir gritar antes dela sair. ― NÃO ME ESPERE ACORDADA HOJE, SIS! EU TENHO UM COMPROMISSO!

Ω


Não iria conseguir dormir enquanto não tirasse aquilo de sua cabeça.
nunca fora muito de acreditar em certas coisas e tinha uma pontada cética em si, como por exemplo ciganas e derivados. Não que astrologia fosse algo como ler mãos ou algo assim, mas a verdade é que no desespero interno que se encontrava qualquer coisa que pudesse lhe aliviar era útil. Precisava falar com alguém que não ia lhe julgar louca - mesmo que tivesse certeza que a esverdeada ia achar aquilo - pelo o que estava pensando naquele dia inteiro e sabia a quem procurar quando estacionou o carro na porta do prédio e pediu para ir até o apartamento da cobertura após seu plantão, por volta das meia noite e meia.
Claro que uma visita àquela hora da noite era no mínimo algo estranho, mas o desespero da era maior do que os seus modos naquele momento e algo que lhe incentivava ainda mais em não se importar com as horas era que conhecia bem a criatura a qual estava indo ver para saber que ela estaria acordada quando bateu três vezes na porta de madeira. Ou talvez não exatamente acordada, mas que ela não se importava muito com horários, na verdade.
― Quem… ― a voz do outro lado da porta começou, revoltada em principal porque não haviam interfonado para que dissesse que não iria receber ninguém e mandasse a visita embora.
. Antes que você me xingue, é a . E é urgente. ― e então a esverdeada entendeu porque haviam deixado-a passar direto. Soltou um suspiro desanimado, mas se obrigou a abrir os trincos da porta para a mais velha.
― O que aconteceu? Já faz um tempo que você não vem aqui, principalmente uma hora dessas. ― apesar de seu tom ser um tanto acusador e incomodado pela visita surpresa - e grifado “visita”, não podia deixar de estar levemente preocupada se havia realmente acontecido algo sério para que a médica estivesse ali depois de alguns meses aos quais elas não se viam pessoalmente.
― Aconteceu uma coisa hoje de manhã comigo, e eu não consigo ficar em paz sobre isso. Preciso de qualquer coisa que me acalme… ― começou, sentando no sofá após trancar a porta e apertando fortemente sua própria nuca em tensão, olhando para a mais alta que lhe olhou ao ouvir isso.
― E aí você decidiu me procurar? ― arqueou uma das sobrancelhas enquanto sentava novamente na cadeira que ficava de frente para a sua sacada, onde pousava um telescópio apontado na direção da lua cheia em meio ao céu totalmente limpo e estrelado, sem nuvem alguma.
― Sim. Você não pode fazer alguma previsão pra mim? Qualquer coisa que me faça acreditar que eu não estou ficando louca. ― a resmungou e voltou a se levantar, indo até a cozinha para pegar um copo d’água a tempo de não ver a expressão confusa da amiga de infância.
Como assim, previsão? O que ela havia fumado? Crente que a mais velha estava bêbada ou aquilo era um tipo de pegadinha, abriu um sorriso de canto diabólico e esfregou uma mão na outra para esquentá-la.
― Tá. Conta pra mim o que aconteceu. ― pediu calmamente enquanto levava um dos olhos até a lente do telescópio e começava a observar o céu.
Naquele momento, entrou em modo automático. Apesar de ouvir tudo o que a mulher falava, a maior parte das palavras entravam por um ouvido e sumiam pelo outro, murmurando um ahaam e ooh vez ou outra só pra fingir que estava mesmo prestando atenção no que a mais baixa dizia.
― Então, a sua previsão é que a constelação da ursa menor irá desaparecer as três e meia da manhã por conta de uma nuvem que vai atravessar essa parte do céu, mas não é nada preocupante porque ela deve voltar a ser vista depois de uns vinte minutos… ― a esverdeada retirou o rosto de perto do aparelho com um sorriso largo e arteiro, quase rindo da feição da mais velha.
― O que isso quer dizer…? ― a face de era uma total incógnita com as sobrancelhas frisadas e um bico nos lábios, como se a mais nova tivesse falado grego em sua frente.
― Isso quer dizer que eu sou astrônoma, não astróloga. Mas você está com sorte e eu conheço alguém que pode te ajudar. Mesmo que você não mereça depois de errar minha profissão com oito anos de amizade.



BEGIN

Não posso ver seu rosto O amor está sendo esquecido.


Durante as entrevistas, as apresentações, ou simplesmente enquanto conversavam consigo e lhe parabenizavam pela exposição perfeita, por sua arte e seu talento… Ela não conseguia pensar em mais nada.
Toda vez que olhava aquele quadro, a voz de lhe chamando de “Floquinho” e seu desespero aumentava ainda mais. Era como se tivessem arrancado uma parte de sua memória e deixado um oco que nunca mais poderia ser preenchido, algo que estava começando a enlouquecê-la. Fingir simpatia e sorrisos, mesmo que forçados ainda não fossem dos melhores por sua natureza, estava sendo torturante para ela. Um dia que deveria ser feliz, mas estava lhe corroendo por dentro.
Batiam dez e meia da noite quando finalmente se viu sozinha no ateliê. Deveria fechar as portas e desligar as luzes, mas seus passos foram até aquela maldita pintura que não saíra de sua cabeça durante todas as horas do dia. Sem pensar duas vezes, ela a tirou da parede e colocou debaixo do braço, andando calmamente até a porta dos fundos do local e saindo. Colocou a pintura no banco do passageiro de seu carro e então foi até o outro lado.
Todas as ações de eram extremamente calmas. Desde segurar no volante e suspirar para manter-se sã, até calmamente estacionar o carro na garagem de sua casa e descer com o quadro em mãos. Em nada refletiam a agonia que ela sentia dentro de seu peito que parecia estar rasgando.
Tudo o que ela fez foi colocar o quadro de volta no cavalete e observá-lo de perto. Não sabe por quanto tempo ficou apenas ali, vendo as linhas de cores desarmoniosas cobrindo o rosto de quem quer que estivesse naquela pintura, mas de uma coisa ela sabia.

Não havia sido ela quem havia feito aquilo.


― É um quadro muito bonito. Parece até que você pintou um deus.
Uma voz masculina pareceu soprar em seu ouvido, a fazendo dar um passo para trás e virar o rosto em desespero, buscando saber o que era aquilo. Seu coração saltou e seus olhos se arregalaram, principalmente ao constatar que não havia ninguém ali. Tentou respirar fundo e fechou os olhos por alguns segundos para recobrar sua postura. Quando voltou a abri-los, não havia nada de diferente. O quadro continuava lá, com os rabiscos indecifráveis e abstratos cobrindo o rosto que sentia tanta falta.
― Não se assuste. Eu sou apenas um fruto da sua imaginação. ― novamente a voz resolveu se manifestar, e dessa vez rapidamente pegou uma tesoura próxima e apontou para trás em desespero.
― Quem está aí?
Questionou, recostando as costas na tela e olhando para todos os ângulos podia no pequeno ateliê que possuía em casa. Um quarto branco, bem iluminado e repleto de pinturas em suas paredes e alguns armários para materiais. Havia apenas uma porta que levava até a garagem e uma janela bem coberta por persianas pesadas e marrons que dava vista para o jardim.
― Eu disse. Sou apenas um fruto da sua imaginação. ― aos poucos, alguma coisa parecia se materializar e surgir da sombra que havia próxima a sua cortina, mesmo que tal fosse praticamente nula pelo tanto de iluminação que havia ali. ― Você precisa conversar com alguém. Onde estão as suas amigas quando se precisa delas, não é? sempre ocupada com plantões, sempre correndo com a faculdade e o trabalho… A não é exatamente com quem se fala disso, a deve estar em alguma boate por aí e a … Não se dá pra contar com ela, não é? Principalmente depois de vê-la sair com o cara da exposição. ― a cada palavra que o homem de cabelos loiros falava, os olhos da platinada se arregalavam mais. ― Você não pode falar com nenhuma delas. Mas pode falar comigo.
― Eu estou sonhando…? ― a se questionou, olhando para o chão, o teto e para suas mãos. Uma delas segurava uma tesoura afiada e a outra estava vazia. Teve até mesmo vontade de se beliscar.
― Você pode estar se quiser que esteja. Mas como eu disse, eu estou aqui para conversar com você, então eu vou repetir. ― o tom de voz do mais alto se tornou um pouco mais ríspido do que antes, enquanto ele encostava-se à parede e cruzava os braços acima do peitoral, fazendo que as insígnias coladas em seu peito fizessem um leve barulho metálico. ― É um belo quadro. Parece que você pintou um deus.
― E desde quando deuses não tem rosto? ― respondeu num tom irritado. Era como se tivessem arrancado o ponto principal de sua arte e ela não conseguia entender porque não havia uma face ali.
― E desde quando eles têm? Você devia ser menos cética. ― fechou os olhos, intrigado com o comentário infeliz da dona dos cabelos esbranquiçados. ― Qual foi sua inspiração?
E então o silêncio se instalou, enquanto abaixava ambas as mãos até que elas ficassem do lado de seu corpo. Aos poucos, ela voltou a virar e observar o quadro com uma das sobrancelhas arqueadas. A mão vazia se levantou e ela percorreu com os dedos os pequenos relevos da tela censurados pelo desconhecido, que lhe privavam de ver o que quer que fosse que estivesse ali.
― Eu não sei. ― sussurrou mais para si mesma, enquanto encarava o quadro com uma feição entristecida. ― Eu não me lembro… Foi em um sonho? ― continuava falando para si mesma, ignorando totalmente a tal presença que estava ali.
― Por que você não refaz? Você não consegue pensar no que está aí? ― um sorriso de canto começava a repuxar os lábios do loiro, que se aproximava lentamente da outra para conseguir falar mais perto de si. ― Vai, … Faça.
Com os olhos vidrados, a retirou sua mão que tocava delicadamente o rosto escondido. E, conforme aquela coisa repetia a palavra faça em seu ouvido, ela começou a levantar a mão com a tesoura na direção do quadro, mirando onde os rabiscos lhe atrapalhavam.

Faça, .
Faça.

Ω


… ― o homem suspirava entre os beijos, deixando as mãos descerem pelas costas da mulher, seguindo o desenho que suas curvas esculpidas traçavam por cima das roupas de frio que ela estava usando.
Era estranho a forma como o tempo havia mudado, já que a previsão era de sol e ninguém esperava que fosse chover. Mas isso não tirava a diversão da mulher, e o sorriso dela apenas aumentava ainda mais ao ouvir aquilo, mas ela levava ambas as mãos aos seus ombros e empurrava o homem para trás para contê-lo o máximo que conseguisse, ou não haveria graça alguma. O sorriso dele então sumiu e deu lugar a uma expressão decepcionada e um crispar de lábios.
― Por que você tem que ser tão cruel, Noona? ― o mais novo questionou, frisando as sobrancelhas e suspirando em uma típica expressão contrariada, o que provavelmente a faria rir na combinação adorável que aquilo surgia no rosto harmonioso.
Mas naquele momento só conseguiu se afastar ainda mais e o observar com um tanto de desgosto. Aquilo havia a assustado e mesmo que Noona não fosse algo que ouvisse todo dia e ela com certeza sabia quem eram as pessoas que lhe chamavam assim, um estalo fez com que a simplesmente virasse e abrisse a porta do carro sem dar satisfação alguma para o homem.
― H-Hey, ? O QUE FOI? ESPERA! ― os gritos dele começavam a ficar para trás, mas o barulho da porta do carro abrindo a fez virar o corpo para olhá-lo uma última vez antes de virar a esquina.
― Vai embora.
Foi à única coisa que falou antes de continuar seguindo seu caminho. Não estava longe de casa, talvez duas ou três ruas…? O salto alto não era o meio de transporte mais confortável, mas no momento o preferia a o carro do homem que nem mesmo lembrava o nome. Caminhava até mesmo rápido pelo costume, já era mais de meia noite e apenas as luzes das ruas estavam auxiliando no caminho.
A mulher levou uma das mãos até o bolso e retirou um maço de cigarros de lá, pegando o isqueiro no outro e acendendo calmamente enquanto andava em direção a sua casa. Não sabia o que havia acontecido, apenas sabia que não podia continuar com aquilo. Ao abrir a porta, encontrou o mais completo escuro e silêncio. Era claro que não estava lhe esperando e a irmã estava certa de fazer isso, afinal, nunca tinha um horário certo para chegar.
E chegar tão cedo não era algo que ela realmente queria ou imaginava. Mas sentia algo queimando seu peito, um incômodo tão profundo… Apagou o cigarro e o jogou em cima da mesa de centro com um suspiro. Tinha que lembrar de jogar aquilo fora ou a irmã ia dar uma bronca daquelas…
Mas por poucas vezes na sua vida sentiu que era ali, no seu sofá, que deveria estar. Não aos amassos com um cara de quem nem lembrava o nome… Pelo menos não enquanto não descobrisse o que lhe fizera hesitar e não ter vontade de tocar outro homem nunca mais em sua vida.

Ω


― Você se atrasou. Aconteceu alguma coisa?
Duas horas de atraso era quase um motivo para que fosse até a casa de para descobrir o que estava acontecendo. A mulher não costumava chegar após o horário nunca, quanto mais dois dias seguidos - mesmo que houvesse um motivo em especial no dia anterior - e principalmente com a cara que estava naquele momento, parecendo que havia acabado de acordar.
― Nada. ― acabou bocejando após falar, levando ambas as mãos até os olhos em tom de âmbar para os esfregar vagarosamente. ― Eu não dormi bem essa noite e quando o despertador tocou não acordei. Me desculpe. ― explicou calmamente para a mais nova que apenas deu de ombros.
― Não é pra mim que você tem que pedir desculpas. ― respondeu calmamente, levando uma das mãos para retirar o óculos do rosto e então pegar um pano no bolso da blusa do uniforme para limpá-las. ― , nós tivemos um problema enquanto você estava fora.
Provavelmente se a estivesse olhando para a expressão da enquanto ela falava, perceberia que o ar ao redor da mais nova estava levemente tenso e um tanto assustador. Não que estivesse realmente com raiva ou qualquer coisa assim, ela apenas estava intrigada e desconfiada por conta do problema que haviam tido, simplesmente porque aquilo não fazia sentido algum.
― É algo muito urgente? Não sei se estou em condições de tomar alguma decisão importante agora. ― a chefe murmurou quase em um estado de negação, distraída o suficiente com seus passos que lhe guiavam até sua sala.
― Toma um café e então me chama. Eu preciso de você acordada.
falou por último e saiu da sala da mais velha, suspirando ao fechar a porta atrás de si e deixar a outra sozinha. por sua vez apenas foi até a máquina de café que ficava na frente de sua janela e fez o que secretária dissera, observando o estacionamento vazio e o parque que ficava do outro lado da avenida. Ambos estavam curiosamente vazios pelo clima gélido e o vento cortante que balançava as árvores parcialmente distantes de onde estava.
― Calor… Aham. ― murmurou revirando os olhos ao mesmo tempo em que levava a xícara até os lábios que estavam sem batom algum naquele dia, sentando-se em sua mesa.

Previsão.


Era esse o destaque em sua tela de celular quando o observou, a fazendo frisar o cenho ao ver que era uma mensagem privada e do número que havia salvado no dia anterior como Park Sohyon, a amiga que havia lhe levado para conhecer e ficara de mandar o que quer que fosse por mensagem quando chegasse a hora certa. E ao pensar que agora era a hora certa, um arrepio até mesmo subiu pela espinha da francesa que leu a mensagem de pouco mais de três parágrafos calmamente e então suspirou, com os olhos cerrados, levando uma das mãos até o telefone.
… Pode vir.

Ω


― Sério, é semana de reencontros ou o quê? A cada dia vai vir uma aqui? ― questionou ao abrir a porta e encontrar uma sorridente segurando uma sacola enorme e a soltando no chão para lhe agarrar num abraço, lhe fazendo revirar os olhos e bufar.
― Não fala assim, nem faz tanto tempo que a gente se viu! ― a italiana finalmente soltou a mais baixa, pegando a sacola novamente e entrando, porém olhando para trás ao perceber que a amiga continuara na porta. ― Mas eu estava com saudadesss!
― Não faz tanto tempo? ― a esverdeada lhe questionou com uma das sobrancelhas arqueadas em dúvida, mas então cortou o contato visual para fechar a entrada do apartamento e ir até o sofá.
― Tá, eu sei, faz um tempo. Eu estive ocupada com algumas viagens do trabalho, mas agora eu volteeeeei! ― a sentou no sofá ao lado da mais nova e sorriu largamente, deixando a sacola em cima da mesa de centro e a abrindo rapidamente. ― E eu juro que vou te recompensar! Você não sabe o quanto eu senti falta disso. ― a loira fez um bico nos lábios rosados e começou a falar tanto quanto se lembrava que ela falava, lhe fazendo respirar fundo para manter a sanidade.
Se estava sentindo alguma falta de antes, com certeza agora isso havia sumido.
― O que você trouxe aí? ― questionou, levantando o pescoço para conseguir olhar o que quer que fosse que estivesse dentro da sacola.
― Nuggets, batata frita, hambúrguer, refrigerante e tudo de gordo! E os dois filmes de fenômenos paranormais! Eu acho que dois tá bom, né? Eu tirei folga amanhã, mas trabalhei hoje então acho que eu não devo aguentar muito mais que quatro horas… Mas se eu aguentar você coloca alguma coisa. ― deu um tapinha amigável no ombro de que só conseguia olhar para a com uma expressão um tanto confusa.
Era como há algum tempo atrás, que a loira simplesmente ia até o apartamento sem motivo algum para se matarem de comer besteiras e ver vários filmes trash de terror na televisão até dormirem uma em cima da outra. O que não entendia era porque ela estava fazendo aquilo depois de passarem tanto tempo sem se falar - tempo esse que não sabia exatamente quanto era, mas era o suficiente para achar que aquilo nunca mais aconteceria. Era confuso principalmente porque também havia aparecido do nada em sua casa no dia anterior… Acabou suspirando e sorrindo de canto. Fazia algum tempo, mas já que estava acontecendo, não tinha problema algum em simplesmente aceitar.
― Você que vai lavar a louça.

Ω


Nem mesmo as persianas pesadas foram capazes de bloquear a ventania que as fazia balançarem sem ritmo e fazendo a fraca luz do sol entrar no lugar.
Porém, não fora isso que conseguira retirar a platinada daquele estado indescritível de sono, como se há muito tempo não dormisse daquele jeito, sentada em um banco de madeira e com o rosto em cima dos braços recostados no apoio do cavalete, ela ainda segurava um pincel quando ouviu o barulho de seu celular tocando.
não pode reprimir acordar com um pequeno sorriso. Passara praticamente a noite toda em claro, mas havia valido a pena. Agora sua obra estava totalmente completa e não havia mais nenhum borrão que pudesse atrapalhá-la em mostrar toda sua magnitude.
Levantou a cabeça após esfregar os olhos para tirar todo o resquício de sono dali, ignorando completamente o toque do celular. Queria que a primeira coisa que visse no dia fosse o rosto da sua obra prima. Mas sua felicidade foi completamente embora quando ergueu o olhar e constatou uma coisa.
Não havia rosto ali. Apenas um borrão de cores desarmoniosas.



B.O.D.Y

Você não sabe o que eu quero dizer?
Eu vou te fazer se sentir bem como ninguém jamais conseguiu.

Era apenas mais um dia normal na vida da mulher, nada fora da rotina que estava acostumada.
A sala espelhada do Colégio de Artes Corporais ao qual dava aulas estava vazia quando a dona dos cabelos compridos e acastanhados entrou calmamente, abrindo a porta e ligando as luzes do local, colocando sua mochila no chão em um dos cantos do espaço e abrindo a janela para refrescar o ambiente enquanto começava a se aquecer.
A mente de era uma total incógnita até mesmo para quem convivia com ela todos os dias, como sua irmã mais nova, . Apesar de ser uma pessoa relativamente popular em todos os locais que frequentava e costumeiramente estar com um sorriso entre simpático e malicioso no rosto de traços juvenis, ninguém conseguia conhecê-la verdadeiramente. Nem mesmo ela.
Mas gostava daquela imagem que criara, era perfeita para conseguir tudo o que queria. Afinal, era esse o objetivo inicial da morena e ela não costumava desviar sua atenção de suas metas quando as colocava na cabeça. Verdadeiramente, não era uma pessoa sentimentalista e nem mesmo via necessidade de tal coisa na vida. Mas desde a noite anterior havia algo mexendo com a sua cabeça.
Era como se estivesse sentindo falta de alguma coisa que não lembrava o que era, mas a fazia se sentir extremamente desconfortável. Desde quando sentia falta de qualquer coisa que não fosse seus irmãos? Não conseguia acreditar que havia uma pontada de sentimentalismo em si depois de tantos anos livre daquilo, era como se um remorso enorme tivesse sido implantado em sua cabeça. Remorso de simplesmente ser daquele jeito.
Suspirou e balançou a cabeça, tentando tirar aqueles pensamentos da sua mente. Desde quando se importava com aquilo, não é mesmo? O papel de sua consciência quem fazia era , e ela não estava presente no momento. Aquela reflexão não ia trazer coisa alguma além de fazê-la se sentir mal consigo mesma, então faria o que estava acostumada a fazer sempre que começava a questionar seu estilo de vida: iria ignorar aquilo até que a crise existencial passasse e pudesse novamente voltar ao que estava acostumada a fazer.
Levemente obcecada em dinheiro e em beleza, ela preferia ter apenas casos esporádicos e constantes com desconhecidos e pessoas as quais nunca correria o risco de lhe encontrarem novamente ou ligarem no dia seguinte para incomodar com pedidos incessantes de que ela lhes desse uma chance que ela nunca dava. Não precisava de um relacionamento vazio e com promessas mentirosas, já que essas coisas apenas serviam para iludir e machucar o elo fraco entre o casal. E ela realmente não se importava com isso, porque ela nunca havia amado outra pessoa romanticamente. Pelo menos era o que ela achava.
― A senhorita tem uma ótima técnica. Faria muito sucesso aonde eu vim.
A concentração que a professora depositava na coreografia não deixou que ela percebesse a materialização do desconhecido próximo a janela aberta, de braços cruzados e expressão curiosa na direção da mulher. Ela pensou que não percebera por sua falta de atenção, mas não fez diferença já que logo parou os movimentos com o susto para olhar o garoto de cima a baixo, sem fazer questão alguma de disfarçar. Tirando aquele penteado estranho e a farda, ele até que devia ter algum potencial…
― Você ― começou com um tom simpático, jogando os cabelos para trás e sustentando um olhar intenso na direção do desconhecido. ― Também tem uma ótima técnica entrando assim nos lugares. Não é muito útil, mas eu adoraria aprender, soa sexy.
― É bem fácil quando não se está no mesmo plano que vocês humanos estão. ― o homem respondeu num tom debochado, mas acabou sorrindo com a forma que a mulher havia lhe recebido. Porém, lembrou-se que não deveria se passar em nada mais que um homem aleatório na vida delas. Como sempre um burro, esquecendo de suas responsabilidades. ― Mas não dê atenção a isso, querida. Estou aqui por outra coisa.
― Ah é mesmo? ― sempre fora uma mulher curiosa e isso não era novidade alguma para quem a conhecia. Apesar de inicialmente ter achado o loiro provavelmente louco, afinal, se ele estava praticamente a sua frente, no plano sobrenatural é que não era. Ao menos ela achava. Mas o fato de querer saber o que ele viera falar a fez ignorar o que quer que ele houvesse tentado falar com aquilo. ― E o que você veio dizer, então?
― Ooh, não é nada demais, na verdade. ― aos poucos, o mais alto ia calmamente andando até a porta da sala de treinamento da mulher, mas ao passar ao lado da dona dos cabelos escuros ele parou e virou levemente o rosto para o lado, sorrindo. ― Eu só vim dizer que você deveria ir ao hospital hoje. ― e então, continuou andando como se não houvesse falado nada demais.
― H-Hospital…? O que você sabe sobre o… ― arregalou os olhos ao ouvir isso, pensando em no mesmo segundo e então virando-se para correr atrás do rapaz. O desconhecido já estava próximo à porta, mas a morena conseguiu alcançá-lo e tentou o segurar pelo pulso.
Porém foi obrigada a parar de falar e também de andar quando “tocou” no homem, fazendo com que sua mão passasse reto como se não houvesse nada ali, e aos poucos a figura desaparecesse no ar como se jamais houvesse existido. observou a sua frente com uma expressão de horror, olhando sua mão logo depois que tocara apenas o ar.
Mas nada fora capaz de lhe preocupar tanto quanto o risco de ter acontecido algo a uma das duas pessoas que ainda amava naquele mundo.

Ω


― Todos os exames foram feitos e não apontam nada mais que o trauma na cabeça. ― explicava para a médica enquanto andavam pelo corredor de quartos onde os pacientes estavam.
No começo desse corredor estavam os casos mais graves no qual a maioria dormia com a ajuda de sedativos ou simplesmente os que não estavam com tantas dores assistiam televisão esperando que algo acontecesse. E então, os quatro quartos da amnésia dois de cada lado, sendo o segundo da direita do que descobrira se chamar , o homem que havia ajudando um dia antes e pelo conhecimento de , estava desacordado desde então.
― Eu quis que você viesse aqui comigo por um motivo. Vocês conversaram antes de chegar aqui ontem? ― questionou a mais velha com uma das sobrancelhas arqueadas e fechando a porta atrás de si, olhando logo depois que estava dormindo tranquilamente.
― Eu disse que não. Ele estava inconsciente quando eu o encontrei. ― não entendia o porquê daquela pergunta, e por isso cruzou os braços na frente dos seios em impaciência, querendo logo que falasse o que tinha pra falar, já que pelo andar da carruagem era esse o problema que haviam tido.
― E vocês não se conhecem, certo? ― a questionou, levando uma das mãos até os óculos e os ajeitando calmamente no rosto enquanto a outra assentiu com a cabeça. ― Então por que ele chamou seu nome quando acordou mais cedo? ― isso fez a dona dos cabelos longos arregalar os olhos em descrença, sentindo até mesmo suas pernas tremerem por um segundo ao se lembrar.

O seu nome é um stigma.
Não importa se não se lembrar do resto, ele sempre estará gravado.

― Eu… Não sei? ― se perguntou mais do que afirmou, o que fez a lhe encarar em dúvida, se aproximando alguns passos do homem que dormia para observar seu rosto que era parcialmente coberto por ataduras na região da testa. ― Eu nunca o vi antes, .
― Eu vou deixar você sozinha com ele. Quem sabe isso não refresca sua memória… ― na verdade, a mais nova só tinha mais o que fazer agora que já havia exposto o problema e não tinha nada mais para falar, então abriu a porta apenas por um segundo para sair e fechá-la de novo.
se viu sozinha com o homem, o que lhe deixou levemente desconfortável. Era uma sensação estranha de um clima intenso mesmo que ele estivesse desacordado, mas não podia controlar suas pernas que se moveram até que recostasse na cama e pudesse enxergar os traços delicados e belos de perto. Mesmo que houvesse um ou outro arranhão de seu rosto, nem tudo aquilo era capaz de nublar a beleza do desconhecido e a mulher se viu abobalhada por tal, observando-o com uma avidez que não se lembrara de ter tido nunca antes.
Era como se estivessem conectados, como se já se conhecessem mesmo que nunca tivessem se visto antes e isso a deixava extasiada enquanto o tempo passava e ela só conseguia se concentrar em como o corpo dele se movia de cima para baixo em uma respiração calma.
― Por quanto tempo você vai ficar me olhando sem falar nada? ― a voz um tanto grave e certamente rouca pelo tempo que ele ficara sem falar fora o que despertou a médica de seu estado inebriado, a fazendo olhar para o moreno um tanto assustada.
― Há quanto tempo você está acordado? ― ela questionou, dando um passo pra trás pelo susto dele estar desperto e não ter dado atenção a isso, além de sentir uma leve quentura na região de sua bochecha, provavelmente emburrada pelo fato de não ter percebido isso.
― O suficiente pra perceber que você deve ter alguma coisa comigo… ― o acabou comentando e sorrindo de canto ao constatar isso. Não sabia o que ela era sua, e nem se lembrava se chegava a ser alguma coisa, mas pela forma que a mulher estava lhe olhando, seja lá o que fosse estava é bem feliz.
― Eu sou sua médica. ― frisou as sobrancelhas em descrença com a audácia do rapaz que automaticamente fez uma careta de decepção, a olhando um tanto em choque. ― Me chamo . ― falou num tom um tanto ríspido, mas propositalmente citando seu nome para ver se agora o paciente teria alguma relação com ele.
… É um nome bonito. Eu sinto como se já tivesse ouvido antes…

Ω


, qual o seu problema? Já faz uma hora que você está passando maquiagem. ― reclamava da demora da amiga em se arrumar e sumir logo de sua casa.
A havia dormido lá, como a esverdeada previra. E não era capaz de reclamar pelo único motivo de que ela cozinhava bem o suficiente para não ter vontade de expulsá-la enquanto ela estava quieta, e de bônus ainda lavava a louça e deixava comida pronta para quando sentisse fome mais tarde. Era como estar na casa de sua avó, mas com mais lasanha e menos peixe.
― Me desculpa, docinho! ― pediu com um bico nos lábios ainda sem cor já que ela não havia passado nenhum batom. ― MAS VOCÊ POR ACASO SABE QUEM É SEO INGUK? ― e seguido do bico, o surto combinado com um sorriso largo e uma expressão empolgada.
O silêncio se instalou entre as duas enquanto a mais baixa pensava numa resposta. , apesar de não ter muitos namorados na coleção, ainda tinha muitos crushs e isso dificultava e muito sua situação. A loira parecia trocar de paixonite como trocava de roupas - e ela era uma modelo que não repetia roupas, então - e isso desencadeava que nunca soubesse quem era quem quando ela citava nomes, geralmente os identificando por apelidos, como quando ela acabou se relacionando com um estudante otaku.
A verdade é que nem a própria lembrava de todos, apesar de ter uma lista em seu celular de todos aqueles que acabaram se tornando coisas mais sérias ou sentimentais, havia a visto no dia anterior. Mas era estranho porque tinha certeza que faltava um nome… Tinha um espaço vazio com um coração que a fazia se sentir estranha, nenhum dos outros nomes com exceção de Joshua tinham isso, era como se fosse alguém especial que ela havia excluído de sua memória, mas ainda estava em seu coração. Mas não se lembrava de nenhum dos rapazes ao qual tivessem saído que merecesse um coração.
O único que merecera era Joshua e isso apenas porque a realmente se sentira apaixonada por ele, o que implicava que quem quer que fosse que estivesse com o nome ao lado daquele coração, fosse uma paixão como a que tivera com o rapaz. Mas quem era…? Resolveu ignorar aquilo, provavelmente colocara o coração sem querer apertando uma tecla aleatória, ou só uma impressão, não? Sua memória sempre fora péssima mesmo e nem se quisesse ia lembrar como diabos aquilo havia acontecido.
― Não…? ― a outra respondeu um tanto em dúvida. Por acaso deveria saber quem era esse Seal, Sean, Seo…? O cara que havia ligado para a loira há meia hora a chamando para sair. Quem chamava as pessoas para sair às nove da manhã? O que dava pra fazer essa hora além de dormir?
― Ele é simplesmente lindo. Um gato. ― fez uma expressão tão admirada que até mesmo os olhos azuis chegaram a brilhar enquanto ela levantava uma das mãos e juntava o dedo indicador e polegar, deixando os outros três levantados em um sinal de “ok”. ― Então eu tenho que estar linda também pra encontrar com ele.
― … Eu não vou nem falar nada. ― fechava os olhos em indignação e balançava a cabeça negativamente.
― Nhooom, fica com ciúme não! Eu juro que eu vou aparecer mais vezes, tá? ― piscou um dos olhos azuis na direção de e essa hipótese pareceu assustá-la ainda mais, a fazendo olhar feio para a loira. ― E eu trago comida, porque nós duas sabemos que é por isso que você ainda me suporta.
― É bom saber que você me conhece. ― não pode deixar de concordar, afinal aquilo não era nada mais do que a pura verdade.
― Tão cruel… ― fez uma expressão extremamente chateada enquanto passava finalmente o batom de tom avermelhado nos lábios. ― Mas já que você não liga mesmo, eu estou indo. Da próxima vez que eu vier eu juro que ligo antes! Beeeijo! ― jogou o beijo de longe para não acabar borrando a maquiagem e acenou animadamente para a mais nova.
― Tchau, . Não esquece de fechar a porta.

Ω


, a ainda não chegou? ― uma das enfermeiras questionava um tanto desesperada, chegando à recepção que ficava a frente da sala da médica que estava trancada e falando com a secretária que organizava alguns papéis.
― Chegou, mas ela está ocupada. O que aconteceu? ― a questionou com uma sobrancelha arqueada na direção da mulher. Dependendo da gravidade da situação chamaria a diretora para dar um jeito, mas como as enfermeiras costumavam se desesperar por qualquer coisa…
― Um paciente acordou e ele quer ir embora de qualquer jeito! ― a resposta à fez ficar um tanto em dúvida sobre quem era e o que estava acontecendo ali, desde quando o local deixara de ser um hospital e se tornara um hospício, afinal? Mas a expressão indiferente se manteve mesmo que por dentro sua curiosidade em saber quem era fosse enorme.
― Quem foi esse paciente? ― voltou a questionar com um suspiro, aqueles dias estavam incontestavelmente agitados e, para melhorar ainda mais, o estado mental de não parecia estar sendo dos melhores segundo as últimas situações, será que deveria mandá-la tirar uns dias de folga e colocar alguém mais velho e mais experiente em seu lugar temporariamente até que tudo se acalmasse? ― Simplesmente o dopem até dormir.
Não que realmente tivesse autoridade para isso, mas na verdade costumava escutar todos seus conselhos já que além de uma espécie de secretária, era amiga pessoal da médica e em partes, por isso que estava ali. Quando chegara do seu país de origem e começara a procurar um emprego, as apresentou e a gostou tanto de si que acabou criando aquele cargo para a ajudar no hospital que é diretora.
nunca soube na verdade o porquê disso apesar de agradecer a gentileza, mas com o tempo e conforme conhecia melhor a francesa, começou a perceber que a verdade é que parecia simplesmente não gostar de ficar sozinha, principalmente em ambientes de pressão. Apesar de geralmente manter uma postura impecável na frente dos outros médicos e enfermeiras, se pudesse estaria sempre arrumando desculpas para que alguma das cinco amigas ficasse próxima de si e sempre escolheu pensar que ela resolveu lhe ajudar com o emprego para ter algum tipo de apoio moral ali dentro.
― É o… ―
! ― a voz que cortou as duas parecia num misto de fúria e preocupação, mas o que mais assustou a japonesa é ela estar no seu ambiente de trabalho, o que a deixou extremamente preocupada.
? ― para ter ido até ali, alguma coisa séria devia ter acontecido… Levou a cabeça para trás, olhando a irmã mais velha que andava até onde estava e com uma expressão um tanto aliviada, mesmo que a raiva não estivesse menor por isso. ― Aconteceu alguma coisa…?
― Por que diabos você não atende ao telefone?! ― a mais velha falou inconformada, mas puxou a mais alta para um abraço um tanto desengonçado. ― Eu fiquei tão preocupada!
― Me desculpa, eu acho que descarregou… ― o engraçado era aquilo não fazer muito sentido, já que tinha certeza de que ele estava carregado e ligado quando saiu de casa e também quando o deixou em cima de sua mesa. ― Mas por que você tá tão preocupada, afinal? Aconteceu alguma coisa com o… ― apenas a hipótese a fez arregalar os olhos, mas por sorte foi interrompida antes que pensasse demais nisso.
― Não, não aconteceu nada com ele, não é isso.
, eu não quero te atrapalhar, mas… ― a mesma enfermeira de antes chamou a mais nova e apontou para o corredor onde os gritos do paciente podiam ser escutados até onde estavam.
― Eu vou chamar a

Ω


Ainda na garagem do conglomerado de apartamentos, lembrara que a amiga não necessariamente demonstraria um bom humor se aparecesse sem um aviso. Deixaria isso por conta do porteiro, para o qual murmurou vagamente o número do apartamento referente à cobertura e seu nome, já que simplesmente se encontrava com uma incrível pressa de conseguir aquilo que buscava.
Secou as mãos no vestido assim que se descobrira sozinha dentro do elevador, não entendendo muito bem o porquê de estar demonstrando tantos sinais de nervosismo quando já havia passado completamente ilesa pela sua estreia como pintora. Supostamente, a pior parte já havia sido deixada para trás, mas não conseguia deixar de observar como suas próprias feições naquele espelho do ambiente, essas estranhamente eram contrárias aos batimentos que persistiam tranquilos em seu peito.
O som e a sequência de luzes que a interface de números reproduzia se tornavam demais para mente da jovem que estava completamente absorta com os padrões de cheiro e sonorização da galeria e de seu ateliê. O aroma daquilo que aparentava ser normal nunca tinha sido tão excêntrico ao seu olfato, aquela viagem até ao apartamento de parecia estar sendo mais longa que o necessário. Suas mãos já se encontravam suadas novamente.
― Cadê?! ― surpreendia até a si mesma com o modo agressivo que empurrou a porta, quase acertando a anfitriã. Estava sendo completamente absorvida pela vontade de conseguir o esboço de sua obra.
― A sua educação? Espero que tenha ficado com a . ― sorriu amarga, não esperava que entendesse a piada, mas não se incomodaria se o pedido se tornasse realidade. Naquela altura do espetáculo de visitas, não duvidava nem um pouco que a sênior seria a próxima.
― Ah, desculpa. ― coçava o próprio pulso, definitivamente não estava agindo como si naquele dia, era quase como se seus ouvidos estivessem entupidos por algum barulho descomunal e pra lá de desconfortável. ― Posso entrar?
― Sinta-se em casa. ― deixava de recostar-se na porta, permitindo a entrada da outra. ― Vai querer uma leitura do seu mapa astral também?
― Se não for muito incomodo. ― se divertia com a retórica da mais nova. Diferente de , a sabia muito bem a diferença entre astronomia e astrologia de algumas situações que aparentavam ser estranhamente distantes naquele momento. ― Eu tô procurando, eh? Um pedaço de papel? Um esboço, eu não lembro de como e nem onde tá? Eu devo ter deixado aqui mês passado, eu não tenho certeza.
― Você soa tão segura disso quanto eu sei onde está. ― levantava a sobrancelha direita, claramente intrigada com o desespero que estava se manifestando não apenas na indecisão da amiga, mas também na maneira como contornava o pulso direito com a mão esquerda e parecia transpirar de modo constipado. ― Eu jogo todos os bagulhos da ali no quarto de hóspedes, eu devo ter botado lá também. Isso se ela mesma não jogou no lixo hoje mais cedo. ― bocejou, indo em direção aos quartos e encostando a mão na maçaneta do seu, pronta para adentrá-lo. ― Vou tirar uma soneca, apaga as luzes na hora de sair.
Não deixou com que a mais velha respondesse, simplesmente entrou por aquela porta em sua frente e sumiu do campo de visão da outra. Felizmente, ainda parecia saber qual daquelas portas escondia o objeto de seus desejos e a angústia que tinha visto em suas pupilas traduziam o fato de que ninguém a impediria até que o adquirisse.





Shadow

Me deixe ouvir você dizer
O amor é assim tão fácil pra você?

assobiava e movia a cabeça calmamente ao ritmo da música enquanto seu carro parava e ela esperava que checassem que a saída era segura para poder descer do mesmo em direção ao simples café, onde havia sido marcado seu encontro com o tal crush que havia lhe ligado antes mesmo de sair da casa de . E era na verdade, o único motivo de ter saído de lá, ou estaria infernizando a mais nova até agora - estava com saudades!
― Eu acho que está tudo bem, pode sair agora. ― um dos seguranças afirmava, ao abrir a porta do automóvel colocando a cabeça dentro do carro para poder falar para a loira que estava distraída com a própria cantoria.
― Oh, okaaay! ― ofereceu um largo sorriso na direção do homem enquanto levantava levemente para conseguir descer do carro, com a ajuda do próprio segurança já que ela estava com um salto enorme nos pés. ― Obrigada.
O homem respondeu ao sorriso da loira apenas com um aceno de cabeça. Conhecida por sua simpatia com relação a todos, isso era parte da justificativa a qual todos utilizavam para fundamento de seu sucesso, além da excessiva beleza incontestável que a mulher possuía, genuína dos padrões de beleza impostos pela sociedade. Os cabelos em tons de dourado eram perfeitamente ondulados após um certo comprimento e os olhos azuis celeste estavam quase sempre levemente fechados em um eyesmile.
Diferentemente da maioria das pessoas de seu âmbito profissional, se mantinha tão sociável e alcançável quanto quando era apenas uma anônima. E por isso seus pais a obrigavam a andar com seguranças para todos os locais que frequentava, com medo de que sua ingenuidade e contato excessivo com os fãs acabassem lhe prejudicando, afinal, a parecia não entender que apesar da maioria das pessoas apenas a admirar seu trabalho como cantora e modelo, ainda haviam aqueles que passavam dos limites. E era desses que ela devia ter medo e, aparentemente, não tinha.
não resistiu em olhar ao redor e por uma das poucas vezes não havia ninguém ali a esperando ou assediando. Seu encontro era parcialmente secreto, afinal, qual era a necessidade e quem divulgaria um café entre dois “amigos”? No início não precisava muito se preocupar com a atenção que deveria dar aos fãs, mesmo que fosse comum que alguns a observasse em dúvida ás vezes, tentando saber se realmente era quem achavam.
― CUIDADO!
Uma voz aleatória gritou no meio de todo o movimento da cidade, fazendo arregalar os olhos e olhar para trás assustada, encontrando uma cena que deixou-a simplesmente paralisada. Uma caminhonete atravessava descontroladamente o sinal vermelho do cruzamento e arrastava tudo o que vinha em seu caminho, não demorando muito para chegar até a própria que estava na direção a qual ela vinha.
E pelo medo do impacto e de tudo o que poderia suceder a tal, ela viu tudo ficar preto e perdeu as forças de suas pernas, não podendo identificar o que aconteceu depois.

[...]

Não pode reprimir acordar com um grito agudo e assustado. Parecia que todo seu corpo havia sido moído e estava completamente dolorido, assim como sua cabeça latejava principalmente ao abrir os olhos azuis que foram incomodados pela total claridade do local onde estava numa cama deitada, aparentemente um hospital, mas não tinha certeza já que não conseguia ver muito mais que o teto.
Piscou algumas vezes, observando a lâmpada um tanto desnorteada, mas logo algo a distraiu. Um rosto aos poucos entrava em sua linha de visão, de um homem com os cabelos loiros cortados de um jeito um tanto bizarro e uma franja que cobria todo seu olho direito, deixando apenas parte de seu rosto visível, mas mesmo assim ele ainda parecia consideravelmente borrado através da visão de , mas como ela também estava levemente perdida, não podia julgar muito pelo o que via no momento.
― O que…
― Sem perguntas clichês. “O que aconteceu?” “Eu mooorri?!” Sempre as mesmas. ― revirou os olhos em descontentamento com a falta de criatividade daqueles que lhe apareciam. ― Mas não, você não morreu. Mas já se conforma, um dia todos vão.
― Então… ― fechou os olhos levemente, não aguentando encarar tanta luz por tanto tempo e colocando ambas as mãos acima do rosto, mesmo que com um pouco de dificuldades pela dor que sentira nas ligações dos membros superiores. ― Onde eu estou? Quem é você? Me explica alguma coisa, eu quero saber!
― Ai, eu disse pra não fazer pergunta clichê. ― o loiro bufou irritado, deixando as bochechas cheias de ar e um bico irritado nos lábios. ― Você está… Num quarto. E não precisa saber quem eu sou, de qualquer jeito, eu já tô indo embora mesmo…
― Tá, mas esse quarto é onde? Eu tô no purgatório, por acaso? ― a não resistiu em perguntar. Queria ter forças para levantar as costas e conseguir observar se havia alguma coisa ali além daquela imensidão de branco, mas a verdade é que mal tinha forças para respirar direito.
― Caraca, ein, tu fala mais que todas as outras que eu falei até agora. ― o garoto arregalou levemente os olhos, um tanto em choque com a facilidade da loira de metralhar palavras. ― E olha que elas estavam em perfeito estado… ― levou uma das mãos até o queixo, imaginando como ela deveria falar quando estava bem também. Talvez tanto quanto o próprio falava normalmente.
― As outras…?
― Você pergunta pra caramba, também. Mas eu só vim aqui pra falar uma coisa. E eu vou falar antes que você pergunte o que é…

Quando você acordar, não confie em ninguém.

Ω

― Isso é um hospício ou um hospital? ― não resistiu a pergunta, arqueando uma das sobrancelhas com uma expressão sarcástica. Mesmo assim, foi capaz de perceber que a irmã estava levemente diferente e um tanto estressada, o que lhe preocupou.
― Um pouco dos dois… Vem comigo, vou chamar a . ― a mais nova falou, suspirando logo depois e então indo até o corredor dos quartos aonde um lado vinham os gritos e do outro estava o quarto que lembrara de ter deixado a médica há um bom tempo. O que será que ela ainda estava fazendo ali, afinal…?
― Que gritaria é essa?!
Não fora necessário que entrasse no quarto, já que a própria saíra dele, ajeitando os cabelos e com uma cara nada feliz por conta de todo o barulho que aquilo estava desencadeando, já que a agitação no quarto a frente do que estava começava a perturbar toda a ordem dos quartos, onde os outros pacientes acordavam ou se assustavam com aquilo e começavam os gritos generalizados.
, é você mesmo quem precisa ir lá. As enfermeiras estão te chamando. ― informou assim que viu a passando do seu lado e erguendo o olhar para si, suavizando levemente a expressão, mas ela ainda se deu ao luxo de ignorar suas palavras por alguns segundos e sorrir de canto para quem estava atrás de si.
― Oi, . Faz tempo que você não vem aqui. ― acenou com a cabeça na direção da morena que abriu um sorriso típico de si, com um ar um tanto provocativo mesmo que não fosse exatamente a intenção, afinal, a única provocação que tinha em relação a eram aquelas que não envolviam exatamente nada sexual, e sim uma boa dose de risadas.
― Estava com saudades, tia. ― a não resistiu a provocação, piscando um dos olhos na direção da amiga e a fazendo balançar a cabeça negativamente e suspirar. Lembrava de não terem se visto muito frequentemente, mas nunca mudaria aquele jeito mesmo se passassem anos.
― Eu tenho que ir, depois a gente se fala. , eu não sei porque a tá aqui, mas vocês devem estar resolvendo alguma coisa, então pode ir com ela. ― as duas irmãs assentiram, assim como observaram a mais velha virando as costas e indo rapidamente até o quarto onde os gritos aos poucos se tornavam mais baixos, porém ainda eram existentes.
― Então… Você ainda não me disse por que está aqui. ― questionou a irmã mais velha quando finalmente ficaram a sós, a olhando um tanto curiosa e preocupada ao mesmo tempo.
― Ah… Nós podemos conversar sobre isso em casa. Eu só precisava saber se você estava bem. ― sorriu amarelo para a mais nova, colocando uma das mãos em seu ombro em forma de dizer que não era nada, assim como em um alívio silencioso ao tocá-la.
Alívio em ver que ela ainda estava ali, não se dissipara como ar como aquele que havia tentado segurar mais cedo…
― Então não é nada de tão importante, certo…? ― mesmo que já houvesse falado que não, a maknae das duas parecia desconfiada e bem descrente daquela ação da irmã, afinal, a expressão facial que ela fez de reflexão e dúvida por alguns segundos não deixou com que a pulga que estava atrás da orelha sumisse.
― Não, nada! ― confirmou de novo, mas logo resolveu mudar de assunto antes que começasse a pressão. ― Ah, eu cancelei a aula de hoje, por que nós três não passamos na exposição da na hora do almoço? Eu aposto que ela ia gostar. ― ofereceu com um sorriso largo, mas em contrapartida na mente de a única coisa que estava preocupada naquelas horas era: por que diabos sua irmã havia cancelado as aulas?
― Ann… Por mim tudo bem, quer falar com a ? Ela não deve demorar muito, eu acho. ― a resolveu porém, ignorar suas dúvidas e questionamentos por enquanto. Querendo ou não estava feliz pela visita da irmã e não queria estragar o clima entre ambas, principalmente se iriam se encontrar com e .
A mais velha apenas confirmou com a cabeça e bateu uma palma sem som em comemoração, ofertando um sorriso para sua irmã e indo rapidamente até a porta do quarto. Não era exatamente isso que tinha em mente, afinal, não queria que a irmã interrompesse o que quer que estivesse fazendo lá dentro, mas pareceu congelar assim que colocou um pé próximo da entrada da porta aberta. E o motivo foi ouvir a falando um nome que não se lembrava de ter ouvido nunca, mas fez um arrepio subir por sua nuca.

Ω

― Bom, aparece lá se você quiser. Porque poder a gente sabe que pode, né.

A voz de sinalizava que ela havia pegado o telefone de volta após e lhe aplicarem um sermão de como deveriam apoiar naquele momento ao qual ela estava feliz e conseguindo um novo passo na carreira blá, blá, blá, tentando lhe convencer que as quatro deveriam ir juntas até a exposição. Enquanto as duas tentavam apontar motivos plausíveis para lhe fazer levantar, a maknae apenas fazia questão de lhe jogar aquilo na cara o quão preguiçosa costumava ser enquanto estava jogada no sofá com uma expressão de desgosto por ter de estar falando no telefone quando elas podiam simplesmente lhe mandar uma mensagem que só seria visualizada num aplicativo e posteriormente ignorada pelo horário da proposta já ter passado.
― Tá, eu vou pensar. ― respondeu apenas, ouvindo um “até mais” e encerrando a chamada logo após, lhe fazendo suspirar e abaixar o braço, jogando o celular ao lado de seu corpo no sofá.
Não mentiu, realmente pensou, mas não foi por mais de um segundo. Afinal, quantos centésimos levava pra pensar a palavra não…? Não era nada pessoal, nem estava raiva de nenhuma delas pelo o que tinha acontecido, só que pensar em ter de se arrumar, sair de sua casa e posar ao lado das quatro em fotos que provavelmente sairiam em revistas depois falando em como era a friendship delas lhe deixava desgastada só da primeira parte.
alcançara o controle remoto que estava em cima da mesinha de centro da sala de estar com a pontinha dos dedos pela distância, ligando a televisão e apertando insistentemente o botão de trocar os canais. Seus olhos quase fechados para uma soneca quase não prestavam atenção nas imagens que passavam conforme mudava as emissoras, como se tudo fosse completamente entediante.
Até mesmo o canal que mostrava a foto se passou, sem nem olhar bem o que a legenda abaixo dizia, porém uma palavra em especial lhe deixou extremamente desconfiada e fez com que voltasse até a matéria onde explicava o que havia acontecido. Sequestrada?! Aquilo não era possível, a amiga havia saído dali não fazia nem uma hora e estava completamente bem. Não que precisasse estar mal pra ser vítima de sequestro, mas…
Segundo as matérias, o acidente de carro que acontecera fora apenas uma desculpa para que o sequestrador conseguisse um momento de distração e a levasse. Quando os ânimos se acalmaram que perceberam que enquanto todos tentavam se proteger ela fora levada por um homem ao qual não conseguiam ver o rosto por conta da fumaça do acidente. As imagens da câmera do local onde ela devia ter se encontrado com o cara que ela disse que ia se encontrar eram borradas, rápidas, a fumaça da batida entre os carros cobria tudo e não dava pra ver se ela havia mesmo sido levada por alguém.
se sentou no sofá claramente assustada e até mesmo um pouco preocupada com a situação da loira, pegando o notebook em cima da mesma mesa de centro e começando a pesquisa em busca de novas informações sobre o que havia acontecido. Aquilo era no mínimo suspeito, a Polícia não queria assumir que era um sequestro e fazer um rebuliço e dizia que ela apenas fora levada para um local seguro para não se machucar já que havia risco dos carros explodirem, porém a mídia forçava isso pelo fato dos próprios seguranças da garota não terem saído do lugar e ainda a procurarem depois. Em qualquer caso, ela ainda estava desaparecida.
A dona dos cabelos verdes nunca fora de acreditar naquelas manchetes principalmente em relação a que estava sempre envolvida em algumas polêmicas que na maioria das vezes eram mentirosas. Acreditaria muito mais se fosse , que nunca estava no meio daquilo, mas mesmo assim resolveu pegar seu celular para ligar para a , apenas para se certificar que estava tudo bem, porém seus olhos se arregalaram ainda mais quando discou o número e o aparelho começou a tocar em cima de seu balcão.
― Ah, sério? ― revirou as íris escuras nas órbitas dos olhos, indignada que tenha esquecido o celular ali quando saiu.
Levantar fora praticamente um sacrifício, mas acabou o fazendo e pegando o telefone rosa com vários pingentes pendurados. Não hesitou em colocar a senha que sabia que era um H um tanto defeituoso, torceu para que ela não tivesse mudado desde os seis meses atrás, e por sorte ainda era a mesma. Não fazia mínima ideia porque ela mantinha, já que costumava mudar a letra da senha depois de ter pego o dono da inicial, mas na verdade nem se lembrava de ela ter pego alguém que o nome começava com H… Mas afinal, do que lembrava? Era um milagre ainda saber que era essa letra.
Mas a sua preocupação apenas aumentou ao ver a quantidade de chamadas perdidas do empresário e dos seguranças de , que passavam das cem, mesmo que estivesse no quarto até lhe ligar, como não havia escutado aquele barulho infernal que era a música das Girl’s Generation? Não teve muito tempo para olhar as coisas já que a bateria do celular acabou quase um minuto depois de tê-lo desbloqueado.
suspirou, pensando no que deveria fazer agora e levando uma das mãos até a testa, deixando o aparelho em cima do balcão novamente. Planejava ligar para as outras garotas e saber se elas tinham alguma informação, mas imaginava que não já que estavam todas felizes e contentes combinando rolêzinhos… Ouviu um barulho vindo do celular de de novo e por reflexo olhou pra tela, acreditando que era apenas um aviso de que ele havia sido desligado, porém seus olhos se arregalaram ao ver que havia uma mensagem escrita no meio do preto.

Ela está comigo.
Você devia se preocupar.

Ω


As horas pareciam passar lentamente durante todo o dia ao qual tinha que passar batendo com os saltos altos contra o piso de mármore branco e encarando aquela maldição sem rosto pendurada no meio do salão, ao mesmo tempo que tinha de sorrir e fingir que estava completamente bem, mesmo que por dentro estivesse fulminando de completo desgosto e também de agonia, tentando aos poucos se convencer que tudo o que havia pensado naquela noite era apenas isso: um pensamento, um sonho.
Não via a hora de poder tomar um ar do lado de fora do local, com um chá e um pouco de ar fresco para melhorar seu humor. Sua fissura em relação a pintura estava se tornando completamente nítida mesmo que tentasse escondê-la, e não conseguia passar nem mesmo cinco minutos sem virar para trás e encará-la, algo extremamente tóxico a sua sanidade. Os repórteres e críticos pensavam que era apenas o amor de uma artista por sua obra, mal imaginavam o que era que estava passando realmente pela cabeça da platinada. Nem cogitavam que fosse ódio.
Mas seus pensamentos foram parcialmente cortados com a movimentação que começara a se formar em frente a porta, onde as câmeras se aglomeraram e os flashes eram insuportáveis até mesmo para ela que estava de longe. Por um tempo, a distração da curiosidade de querer ver quem estava chegando a fez esquecer toda a agonia, e aos poucos a platinada conseguia enxergar que não era apenas uma pessoa, mas sim três.
― Vocês vieram… ― murmurou um tanto confusa com a aparição das três, enquanto as cumprimentava brevemente e lhe agarrava pelo pescoço para marcar sua bochecha com um beijo de batom vermelho. Podia jurar que haviam conversado na outra semana e elas disseram que não sabiam se poderiam ir por conta do trabalho e agora estavam lá, ainda por cima juntas.
― Eu não perderia isso por nada, docinho! ― respondia com um tom malicioso, piscando um dos olhos na direção da mais nova e ajeitando os cabelos escuros enquanto se afastava e ficava ao lado da , levando a palma da mão até os lábios para explodir um beijo na direção da platinada.
― Mas infelizmente nós não podemos ficar muito, estamos no meio do plantão. ― ajeitava os óculos no nariz e então fazia questão de falar para estragar a felicidade de sua irmã mais velha que fez um bico nos lábios com isso.
― Tudo bem, o importante é que vocês estão aqui. ― até mesmo esboçou um sorriso. Algo na visita das amigas era extremamente reconfortante em meio ao caos que sua cabeça estava naquele último dia, como se o que aquilo houvesse falado fosse mentira. Elas tinham sim tempo para lembrar de si.
― Nós chamamos a também, mas você sabe como ela é. ― finalmente comentou alguma coisa. Era a única das três que se ocupara em olhar os quadros mais do que falar com a , alguns deles lhe traziam uma sensação de déjà vu e familiaridade tão grandes que só conseguia sorrir ao pensar que levara em consideração os momentos que tiveram para usar de inspiração. Mas ao mesmo tempo, era agoniante como parecia que não lembrava de boa parte do tempo retratado nas pinturas da amiga. Voltou a se afastar, andando pelo salão para olhar o resto da exposição.
― Eu não esperava que ela viesse, de qualquer jeito… ― não resistiu ao comentário. Não que isso fosse esperar o mal da amiga, mas na verdade era apenas a realidade. Se queriam ver , era só ir até a casa dela como havia feito no dia anterior, chamá-la para sair ia fazer com que continuasse querendo encontrá-la.
― Hey, … ― chamou a melhor amiga a se deparar com o maior quadro do local, exposto sozinho em uma parede totalmente branca e central. A arte da amiga sempre fora linda, e isso não era uma surpresa aos olhos da La , o que a incomodava na verdade era ter a sensação de que havia um pedaço fora do lugar, algo que a nunca faria.
A distração entre as quatro não as deixaram perceber que houvera outra movimentação na porta, porém dessa vez bem mais rápida já que a garota ultrapassou a barreira de repórteres sem dó nenhuma, não dando tempo nem mesmo de tirarem uma foto dela direito.
― Obrigada pela confiança em mim, sempre soube que vocês acreditavam no que eu sou capaz. ― a voz da segunda mais nova entre o grupo interrompeu a pequena convenção que acontecia ali, juntamente com um sorriso amarelo dela que acentuava ainda mais seu sarcasmo.
― Meu Deus… ― olhou para trás assustada, como se estivesse vendo um fantasma em sua frente. E depois do que havia passado de manhã talvez fosse mesmo, a hipótese era mais plausível, menos sobrenatural e assustadora do que ser a própria ali.
― Não acredito nisso. ― murmurou ao lado da irmã, também virando para encontrar a dona dos cabelos verdes com os braços cruzados e uma expressão impaciente com todo aquele drama e aquele teatro de “ai num é possível”.
― Nossa…
― Antes de mais nada… Parabéns, , mas não foi isso que eu vim fazer aqui. ― interrompeu já que a própria se manifestara, lhe fazendo respirar fundo algumas vezes para não ficar irritada, principalmente porque a situação pedia que estivesse calma.
Claramente nenhuma delas sabia do que estava acontecendo da porta daquele estabelecimento para fora, estavam ocupadas demais trabalhando antes de irem até ali ou ali mesmo, e sabia que algumas - - fariam um drama totalmente desnecessário ao receber a notícia, por sorte - ou não exatamente - a mais dramática de todas era a vítima da situação e não podia estar junto para chorar seu próprio sequestro.
O fato de estar com uma expressão infeliz e de desgosto não era nenhuma novidade e nem nada demais, o problema que começava a preocupar a cabeça das quatro era pensar no porquê diabos ela havia saído de casa, pois ela já deixara claro que não era só pra prestigiar a , isso na verdade ela poderia fazer mandando uma mensagem de parabéns em algum aplicativo de celular e olhe lá, isso se lembrasse e estivesse em um bom dia com disposição de digitar. Isso apenas deixava as garotas mais ansiosas e por saber de tal coisa pensando demais em como falar e não falara nada.
― Então…?
― As cinco estão juntas por conta do que aconteceu?! ― um repórter gritou de um lado do salão, fazendo suspirar e as quatro se entreolharem com uma cara total de desentendimento. Os malditos com certeza eram mais rápidos porque estavam pouco se lixando pra merda que ia dar aquilo. ― Vocês precisam se apoiar!
― Uma pergunta pra , em especial. Como você se sente com isso? Ontem mesmo ela estava aqui com você. ― e então o grupo começava a se acumular ao redor das cinco, ignorando totalmente o fato delas estarem completamente confusas e não saberem do que estavam falando.
― Como assim? Me sinto com o que? ― respondeu com uma pergunta, totalmente leiga sobre o que quer que fosse que estavam perguntando, nem mesmo entendendo quem eles queriam dizer com “ela”.
― Alguma de vocês sabe se é verdade que ela estava indo se encontrar com um namorado secreto antes do acidente? ― agora fora uma voz feminina que questionara, piorando ainda mais a situação.
― Acidente…? ― já se manifestou, olhando a mulher como se ela realmente fosse lhe dar mais informações sobre o que estava acontecendo ali.
― É isso que eu estou tentando dizer. ― ignorou todas as perguntas gritadas para as cinco, se cansando de tentar ser sensível e fechando os olhos para falar finalmente. ― A se envolveu num acidente e está desaparecida desde hoje de manhã.

Ω

Café com leite ou chá?

Aquela era, misteriosamente, a pergunta mais interessante que passou pela mente da garota durante todo o dia. Mais estranho ainda era o fato de que, quando ela e estavam almoçando no refeitórios, ambas haviam recebido biscoitos chineses da sorte - aparentemente o almoço viria a ser especial por conta de alguns eventos históricos referentes a construção do prédio.
Agora, na frente da maquininha de vendas alimentícias, era enfrentada pelo dilema de qual bebida escolher e se lembrava do extremo absurdo que tinha sido abrir o biscoito na hora do almoço para encontrar a seguinte sentença: Chá de camomila. Afrontosa como era, escolheu café com leite porque jamais que levaria em consideração uma previsão tão bizarra.
Quando abaixou para retirar a garrafinha de dentro da máquina, sentiu um arrepio confirmando que talvez tivesse sido melhor ter escolhido o chá pra começo de conversa. Mas não iria se importar muito com isso no momento, uma vez que ainda estava de plantão e tinha que verificar, uma última vez, os quartos do terceiro andar antes de se dar ao prazer de finalmente ir para casa.
O terceiro andar era obviamente um dos menos movimentados de todo o hospital, uma vez que dava lugar aos pacientes com a possibilidade de algum problema cerebral decorrente de acidentes, no caso os principais vinham a ser os de carro. Esses, muitas vezes, demoravam dias para acordar e mais ainda para que fossem encontradas suas identidades, normalmente chegavam ali apenas com as roupas do corpo sendo carregados por completos estranhos. Alguns facilmente se reencontravam com a família porque possuíam personalidades públicas que vinham a ser facilmente reconhecidas, embora a maior parte dos resgatados acabassem sendo dados como desconhecidos até que os próprios parentes começassem uma busca. Havia dias em que pessoas de outras cidades acabavam no hospital, normalmente adolescentes amargurados e em fuga.
Na primeira sala, a mais próxima da máquina de vendas, era possível ver uma sombra que se remexia de maneira árdua, mas não em uma das camas e sim numa cadeira de acompanhante.
Se não lhe falhava a memória, aquela era uma mãe cujo filho, que estava internado no hospital fazia alguns dias. O garoto, nas faixas dos dezesseis anos, havia planejado uma fuga de casa com alguns amigos da escola assim acabaram chegando em bares um tanto quanto perigosos para novatos que buscavam diversão em Nova York sem pensar que, na maior parte do tempo, existia gente mais morta ali do que viva. Enquanto metade dos garotos morreram pelas mãos de criminosos, outros dois tentaram uma fuga apenas para que acabassem em coma.
Felizmente, aquele que assistia acordara alguns dias antes, embora estivesse sofrendo um caso de amnésia seletiva no qual se recordava de praticamente todos os acontecimentos de sua vida, inclusive da noite do acidente, entretanto se recusava por completo a recordar suas memórias sobre a mãe, uma mulher solteira já tendo passado dos quarenta anos. O motivo seria que, provavelmente, o modo como sua figura materna, em questão, se apresentava no subconsciente seria o responsável pelos atos de rebeldia e, assim, viria a ser tudo aquilo sobre o que gostaria de se esquecer no momento em que sofrera o acidente. Basicamente, a culpa sobre seus atos caia sobre sua mãe e a não podia deixar de perceber sobre como a mulher chorava durante todas as noites que passava pelo andar no plantão da noite, embora jamais houvesse visitado o quarto durante o dia.
Atrás da porta número dois se escondia mais um dos inúmeros casos que surpreendiam a garota. Um homem de aparência extremamente rudimentar, provavelmente um dos muitos moradores de rua que acabavam acolhendo, se encontrava naquele quarto desde muito antes de ter conseguido aquele emprego. Aquele humano adormecido num estado de coma provavelmente nunca sairia daquele hospital assim como uma família jamais entraria ali na espera de encontrá-lo. Havia sido abandonado ainda antes de entrar na emergência com uma contusão na parte de trás do crânio.
Alguém, uma vez, lhe disse que a melhor forma de ter uma visão ampla daquilo que se significa sociedade era observar cada uma das vidas perdidas dentro de um prédio hospitalar. Às vezes, não podia deixar de discordar.
O último, mas não menos importante, era um paciente que, de alguma maneira, conseguia amplificar o gosto azedo que o café havia deixado na boca da . Havia passado muito pouco tempo desde que aquele paciente entrara pelas portas e mesmo assim criara um certo apreço por aquela face que, ainda que desacordada, fazia com que recobrasse sobre nada que pudesse pontuar em específico, embora aparentasse ser sobre uma questão pra lá de importante… ?
Com as luzes do quarto apagadas seria meio impossível reconhecer aquele rosto, se não fosse pela iluminação colorida emitida pelo enorme quantidade de equipamentos médicos, e pela sua capacidade de memória fotográfica transmitida a partir de seu sangue raro e asiático, a própria garota não o reconheceria. Mas havia o observado suficiente durante o dia para não ter questões sobre mais nenhum poro que habitasse aquela pele. Sabia que esse tipo de pensamento devia ser mantidos para si mesma, ou viria a ser julgada de maneira exagerada por suas companheiras, embora pudesse jurar que era apenas a sua capacidade eidética se manifestando de modo um tanto quanto estranho ao ponto de priorizar tanto um dos milhares de pacientes do hospital.
Colocando a mão sobre o vidro lateral que lhe permitia observar o interior da sala, quase se assustou ao ver uma espécie de reação num mísero segundo em que o corpo de Leo se virou completamente em sua direção, quase que respondendo a possibilidade de contato que poderia ocorrer entre os dois. Ao invés de observar uma pessoa em coma, parecia quase como olhar alguém que se movia antes de acordar ao seu lado após uma noite de sono.
Numa espécie de suspiro pesado, observando como o ar gelado marcava a pequena janelinha com a forma da sua mão, a morena resolveu se retirar dali antes que sua sanidade sucumbisse por completo à uma afeição que estava sendo formada pelo desejo do paciente jamais ter de acordar.
Quando chegasse em casa e deitasse na cama quentinha, apenas um devaneio assombraria seus pensamentos: Seria ótimo se você nunca acordasse, não é mesmo? O quão psicótico aquilo soava? Entretanto, no momento, se contentaria com aquele que ainda lhe provocava, ignorando todo o resto.

Talvez tivesse sido melhor tomar o chá de camomila.

Ω

O quão ridículo era estar tendo pesadelos?
Não sabia se era pelo o que havia acontecido consigo durante os poucos minutos que ficara na sala espelhada do trabalho, ou sobre o fato de ainda não terem tido nenhuma notícia de desde que ela sumira, mas simplesmente não conseguia pregar os olhos por cinco minutos sem começar a sonhar com o homem de cabelos loiros vindo lhe assombrar e lhe roubando seu sono. Era meia noite e quinze quando desistiu completamente de dormir e sentou na beirada da cama, olhando pela janela do quarto com um suspiro, pegando o celular para mandar uma mensagem.
Não tinha vontade alguma de ir para qualquer balada ou beber até cair, estava dormindo calmamente no outro quarto e também não iria perturbar o sono da mais nova que precisaria acordar mais cedo no outro dia para ir trabalhar. Eram meia noite e trinta e três quando se viu pegando o elevador que lembrava-se de ter pego não fazia nem mesmo duas semanas, mas era uma sensação como se aquilo lhe fosse totalmente desconhecido, como se fizesse bem mais tempo que não fosse até ali… Era estranho, mas se distraiu rapidamente ajeitando os cabelos no espelho grande.
Quando bateu na porta do apartamento, ela já estava aberta. Havia avisado sobre sua visita por mensagem e até mesmo pedido permissão, quase um milagre uma vez que era a primeira a simplesmente arrombar a porta se quisesse, e isso fazia a dona do local não segurar um sorriso ao pensar na sua fala da noite passada com . Parecia mesmo que a educação da platinada havia ficado com
― Licença, já entrei. ― a anunciava ao pisar na sala de estar e cartão de entrada da casa de , procurando a esverdeada com os olhos enquanto fechava a porta.
― Oi. ― a mais nova levantava a cabeça do balcão da cozinha com uma panela nas mãos, fazendo a morena arquear uma das sobrancelhas em total dúvida. estava cozinhando…? ― O que te traz aqui? Quer uma leitura da sua sorte no amor?
― Ah não, eu não preciso, a gente sabe que nisso eu tenho muita sorte. ― não resistiu em piscar um dos olhos castanho escuro para , não reprimindo também um sorriso de canto e aproveitando para tirar o casaco de lã agora que o ambiente era mais aquecido, revelando que estava de pijama por baixo, o que a fez ficar levemente confusa.
― O que foi então? Você quebrou a cama, o sofá, a não deixou você dormir com ela e quer dormir aqui? Eu até deixo, mas só se não tiver mais ninguém com você, eu não gosto de barulhos noturnos. ― apesar do tom sarcástico da mais nova, a verdade é que aquelas realmente eram condições para autorizar com que ficasse por ali. A morena sentou no banco de frente a ilha onde estava atrás, apoiando o cotovelo no granito e o rosto na palma da mão, lhe observando abrir a geladeira e pegar um semi congelado que havia deixado mais cedo.
― E nem diurnos, né gata. Eu te conheço. ― a piscou um dos olhos na direção de que não viu, já que estava de costas empurrando a porta do eletrônico. ― Mas não, felizmente eu não quebrei a minha cama, eu costumo quebrar a dos outros.
― Então? ― a dona dos cabelos verdes perguntou, encorajando logo a mais velha a falar o que quer que fosse, um tanto apreensiva porque desgraça já tinha acontecido demais naquele dia pra ter paciência de aguentar uma nova.
― Não é nada, é só… Hey, isso não é a lasanha que a faz? ― questionou ao vê-la colocando o conteúdo do prato na panela, e a vendo também levantar o olhar em sua direção. ― Não se preocupe, eu não quero. Estou de dieta e a só cozinha coisa de gordo.
― É sim. Tem mais uns quatro desses na geladeira… Ela estava aqui ontem. ― deu de ombros, como se não fosse nada demais, tampando a panela e ignorando o comentário sobre a dieta de , que não era novidade nenhuma, tipo os namorados de . A loira sempre lhe mandava preparar as coisas no fogão e não no micro-ondas, por acreditar que ficava mais gostoso. E apesar de na frente dela sempre fazer no mais rápido, sozinha tinha que admitir pra si mesma que ela estava certa.
― Aposto que é o estoque até ela vir aqui de novo. ― acabou rindo baixo com isso. Algumas delas ainda se preocupavam com não acabar morrendo de fome e claro que não era uma dessas, ser uma mãezona não eram bem o seu estilo, pelo menos era o que queria acreditar.
― Isso se ela vier, né. ― não resistiu ao comentário, mesmo que ele tenha soado maldoso e feito à professora mudar sua expressão para uma chorosa. Não era para tanto ainda, estava desaparecida há umas dezesseis horas, não era motivo para desespero, a Polícia mesmo só consideraria após as vinte e quatro, não é mesmo…?
― Que horror, garota. ― fez uma expressão ofendida, mas mordeu o lábio pra acabar não rindo daquilo, mesmo que aquilo houvesse lhe feito soltar um suspiro. ― Eu tive um pesadelo horrível com ela, comigo e com todas nós… Como se ela estivesse com alguém ruim, ou alguém ruim estivesse vigiando a gente. Será que eu devo começar a me preocupar?

Ω

A cena se repetia pela segunda vez na memória da loira, que acordou num sobressalto. Porém, diferentemente da primeira vez ela não gritou, apenas se sentou quase que automaticamente, recostando as costas na cabeceira da cama e sentindo o suor escorrendo por sua testa pelo nervosismo do que acreditava ter sido só um pesadelo.
Olhou para o teto novamente e, dessa vez a cor dele era bem diferente do branco incômodo que vira mais cedo naquilo que julgava ter sido apenas um sonho. O tom de marrom era algo que trouxera certo alívio a , ao menos não estava em um hospital e isso quer dizer que devia estar fisicamente bem, já que não sentia dor alguma a não ser seu corpo dolorido, provavelmente por estar há muito tempo deitada.
Conseguia sentir que estava dormindo há horas e também se lembrava bem do que havia acontecido. Ou não exatamente bem, mas sabia o que pudera perceber no momento daquele acidente de carro. Não houve tempo para instrução alguma, logo o outro carro colidiu com o seu que estava estacionado e o empurrava na direção onde estava. Pelo choque, a loira se lembra de ter apenas desmaiado e não sabe se caiu no chão ou se alguém lhe segurou, apenas o que sabia agora era que havia caído em uma cama… Mas se não estava no hospital, onde diabos tinha ido parar?!
Rapidamente ela se sentou na cama, apoiando os braços no colchão e jogando as pernas na direção do chão, olhando por todo o quarto e tentando reconhecer a decoração e o local onde estava. Uma estante pequena e marrom estava em um dos cantos, sustentando uma televisão e alguns objetos decorativos, e ao outro lado estava um pequeno sofá cinza embaixo da janela coberta pela cortina marrom, o que a fez arregalar os olhos ao ver que em cima desses, um homem dormia tranquilamente, de costas para a loira que ficou em choque com a cena.
Observou bem os cabelos em tom de castanho avermelhados e o porte físico para ter certeza de que não conhecia quem estava ali, e ao se certificar disso sua primeira reação foi tentar aproveitar que quem quer que fosse estava dormindo para conseguir sair dali e sumir daquele lugar para voltar até sua casa, porém foi ao tentar levantar que soltou um grito ao perceber que não tinha força alguma na perna esquerda que doeu insistentemente ao colocar o peso de seu corpo. Olhando para baixo, viu que estava enfaixada com uma grossa camada de ataduras e mesmo assim ainda possuía uma mancha de sangue.
― V-Você acordou! ― ouviu a voz masculina vindo do outro lado do quarto, enquanto se conformava com a sua situação de caída de bunda no chão e segurando-se na cama com um dos braços, enquanto deixava a perna machucada esticada no tapete e tentava controlar o choro que se acumulava nos cantos de seus olhos pela dor aguda que sentia. E foi então que finalmente resolveu olhar para cima, agora ainda mais com medo de tudo o que tinha acontecido e de quem quer que fosse que estava de pé ao seu lado.

Quando você acordar, não confie em ninguém.



BREATHE

Confie você a mim
E então você nunca mais sentirá medo dessa tempestade.


Não sabia que horas ia chegar aquele dia, mas sabia que estava com medo o suficiente para nem mesmo ter coragem de levantar e pegar o aparelho telefônico no andar debaixo da casa para pedir a irmã que voltasse logo. Estava sozinha e estava assustada, não conseguiria dormir nem mesmo se tomasse remédios pra isso.
Quando a irmã saíra, por volta de meia noite e pouco, o céu estava limpo e estrelado. Agora eram uma e dez da manhã, e a tempestade torrencial lhe deixava completamente desesperada com o barulho dos raios e trovões a cada segundo. Se escondera debaixo do cobertor, mas aquilo parecia trazer a sensação de que a qualquer segundo alguém poderia tirá-lo de seu rosto.
Chuva. Medo. Ela nunca parecia chegar, mesmo que houvesse saído há pouco tempo.
O sentimento desesperador de ansiedade toda vez que a luz azulada cortava o céu e fazia com que a sombra da árvore que ficava à frente de seu quarto parecesse uma mão, era sufocante para a que se via em um de seus diversos pesadelos, porém na realidade.
O que a lembrava do por que acabara acordada, sem conseguir dormir nem mesmo antes da chuva começar. Esfregou o rosto com as duas mãos, fungando algumas vezes e segurando o choro. A porta estava trancada, mas por que tinha a sensação de que a qualquer minuto alguém ia entrar por ela?
Assim como no seu pesadelo. Alguém entrava em seu quarto, no carro de , no ateliê de , na sala espelhada de , na mente de e até no apartamento de . Isso era um mau presságio para as seis, não…? Com certeza era, afinal os problemas já haviam começado.
Talvez parte de sua agonia se dava a preocupação excessiva com o desaparecimento de , mas quem não estaria preocupado se uma de suas melhores amigas simplesmente desaparecesse após um acidente? Sua mente lhe condicionava a pensar que ela estava bem, mas ainda havia uma parte, uma baixa voz, que lhe questionava se não estava sendo otimista demais…
Balançou a cabeça negativamente e respirou fundo várias vezes, fazendo o exercício de respiração que aprendera com para se acalmar quando começassem as chuvas, após ter uma crise no hospital. Tentando distrair sua mente, olhou para o criado mudo ao lado da cama, onde havia uma foto virada para baixo e outras duas para cima.
A primeira das que estava virada para cima era uma onde estava com Kero e , da última vez que eles se encontraram no Japão. Era um Hanabi Matsuri e por isso lhe obrigara a vestir uma yukata e ainda fizera sua maquiagem, assim como Kero no meio das duas também usava a vestimenta tradicional e a própria , que sorria largamente em um dos cantos da foto. As pétalas de cerejeira que caíam com o vento eram o que deixava aquela foto tão especial, além da presença de Kero. Pensar nele a fizera se acalmar parcialmente e até mesmo suspirar. Como sentia falta do irmão…
A segunda era uma foto do primeiro evento de tapete vermelho que foram obrigadas a ir por , para acompanhá-la. Até mesmo estava, e não parecia exatamente infeliz, mesmo que também não sorrisse. A reunião há três anos em frente à mídia consolidara a amizade que se formaria entre elas, e a mais nova entre todas também sentia falta daqueles dias. Era como se no meio dessa linha do tempo algo houvesse se perdido. Um pequeno fragmento, mas que era capaz de mexer completamente em toda a sua continuação.
Com isso sobrava apenas a foto que estava virada para baixo e, curiosamente, não conseguia se lembrar do que era o retrato mesmo que estivesse se esforçando para tal. Encarou a madeira por algum tempo enquanto tentava trazer a memória o que estava ali em baixo, mas a frustração em não conseguir fez com que esticasse a mão naquela direção, tentando pegar o objeto, esticando o corpo para tentar alcançá-lo com a ponta dos dedos.
Como não conseguia se lembrar de algo que era importante o suficiente para estar na cômoda de seu quarto…? Só o que faltava era a amnésia dos pacientes estar lhe afetando agora… Bufou por não estar conseguindo chegar perto do objeto e ajeitou levemente as costas no colchão, tentando se esticar mais para enfim pegá-lo, quando sentiu um vento extremamente gelado passando por todo seu quarto e fazendo o quadro se afastar ainda mais de sua mão. Arregalou os olhos, assustada, não entendendo de onde vinha aquele vento. Olhou para a janela e ela estava fechada sem fresta alguma, com as cortinas calmamente cobrindo parte do vidro sem se mover um centímetro.
Respirando fundo para manter a calma, jogou as pernas para fora da cama e finalmente pegou o quadro de uma vez, mas foi interrompida quando o vento voltou vezes mais forte do que antes e o fez derrubá-lo no chão. Um grito ficou preso em sua garganta, mas que tipo de adolescente medrosa estava sendo, afinal? Mesmo que quisesse falar que não, estava agindo como quando eram crianças e não aguentava ficar mais um segundo sozinha naquele lugar.
― É melhor fechar a janela.
― A janela está fechada. ― se perguntou por que estava respondendo se queria acreditar que o que ouvira era apenas fruto de sua imaginação.
A voz que soava atrás de era baixa e masculina, fazendo com que ela arregalasse os olhos conforme se abaixava para pegar o quadro novamente. Seu corpo escorregou até o chão e sentiu as costas baterem contra a madeira da cama, ao mesmo tempo, não tinha coragem alguma para olhar para trás e confirmar que não havia nada ali. Suas mãos suavam frio e as pernas insistiam em tremer mesmo que não houvessem sustentando nada.
― Tem certeza? Parece que não está mais.
E então a olhou de soslaio na direção da parede finalmente, encontrando as cortinas esvoaçando com o vento e o chão começando a ficar molhado por conta da chuva que entrava por conta das duas folhas da janela que estavam abertas. Mas antes fosse isso que houvesse lhe assustado.

Ω

― Mas senhorita, eu já disse tudo o que sabia para a Polícia...
― EU QUERO É QUE SE FODA! ― a mulher se inclinou pela mesa e pegou o homem pela gola da camisa com uma força que fora completamente assustadora por partir de alguém tão menor que ele. ― Agora você vai ME contar tudo. Acredite, você não vai querer ter problemas comigo. Eu sei bem onde cortar para doer mais e eu tenho dinheiro o suficiente para que ninguém se importe com isso. ― a ameaça sussurrada era ainda pior naquela ocasião.
O hospital estava completamente vazio e todos os pacientes dormiam sendo com sedativos ou não. Não se ouvia nem mesmo um passo ou algo que não fosse a respiração pesada do homem que não conseguia controlar o medo e mesmo que quisesse se defender estava em território inimigo. Qualquer passo em falso que desse poderia ser sua morte, e aquela mulher era famosa pelos rumores que rondavam sobre ela, e eles não eram dos melhores.
― E-Eu… Eu e o outro segurança olhamos para todos os lados! ― ele começou a falar, fazendo a médica sorrir de canto, satisfeita e soltar sua gola. ― Não tinha NINGUÉM suspeito. A rua mal estava movimentada. Mas assim, do nada quando ela foi descer… O outro carro surgiu. DO NADA. Eu e o outro segurança fomos atingidos porque quando o carro bateu ele veio para trás e se não fosse o poste provavelmente teria nos prensado… Mas na hora, não subiu tanta fumaça quanto nas câmeras. A gente não sabe o que aconteceu, por milagre não nos machucamos quase nada. Mas quando olhamos para procurar ela já tinha sumido. Sem nenhum grito e a gente também não viu ninguém. Não passou mais nenhum carro, eu não sei como pode ter sido um sequestro, mas eu também não entendo como ela sumiu desse jeito!
O desespero do homem na pronúncia de suas palavras comprovava a veracidade do que dizia, e o silêncio se instalou novamente na sala enquanto ela encostava as costas na cadeira de couro e começava a pensar em tudo o que poderia fazer para conseguir montar as peças do que ouvira ao decorrer do dia, respirando fundo.
― Você já pode ir. ― murmurou após um tempo, apontando para a porta de vidro trancada e com as persianas fechadas, coisa que havia feito para amedrontá-lo ainda mais.
O homem não esperou muito para praticamente sair correndo e sumir, deixando apenas que o barulho dos passos ecoasse pelo corredor enquanto a buscava o celular no bolso do jaleco e digitava uma mensagem para . Sabia que eram duas da manhã, mas ainda tinha esperanças de que ela acordasse alguma hora para lê-la. Em pior caso, poderia perguntar para ela depois quando se encontrassem novamente, o que não aconteceria naquele dia já que dera o dia de folga para a mais nova.
― Por que tem gente saindo da sua sala tão tarde, Doutora?

Ω

― ESSE! Esse quadro é tão diferente de toda a sua exposição… O que o rosto riscado quer dizer? Qual o conceito por trás do homem misterioso?
Essa pergunta fora capaz de tirar a calma da mulher por alguns segundos. Apesar de muitos críticos terem ido até sua exposição e claramente a peça de destaque ser aquele quadro, nenhum deles havia lhe questionado diretamente sobre aquilo, e na verdade nem ela mesma pensara… Porque não era aquele seu conceito inicial. Mas claro que não poderia contar o que estava acontecendo, iria afundar sua carreira ao ser dita louca em seu primeiro grande evento.
― Eu acho que a arte deve ser decifrada por cada pessoa individualmente. ― respondeu, voltando a sua calma após respirar fundo. ― Para mim, esse quadro é um quadro triste. Ele mostra que às vezes nós nos prestamos tanta atenção no que está a volta, que esquecemos o que é mais importante.
A forma que a encarou a pintura borrada fora até mesmo assustadora de tão intensa. Mesmo que não passasse de uma tela, parecia que havia uma conexão muito maior entre artista e obra. Como se ela estivesse completamente fissurada pelo seu trabalho e ele significasse bem mais que ser apenas um trabalho.
― Eu com certeza vou escrever uma ótima crítica sobre a sua exposição! Esse conceito é encantador. ― a mulher se dirigia a enquanto andava calmamente um pouco a frente da platinada para olhar o quadro mais de perto. ― É uma pena que o que esteja acontecendo roube um pouco do seu brilho.
― Quanto a isso, não precisa se preocupar. ― a artista respondeu no tom tão apático quanto o de sempre, mas a confiança que transbordava de si era admirável. ― Eu sei que vai ficar tudo bem.
― Sua fé é comovente, . Espero que realmente fique tudo bem… Mas… Você está realmente tranquila assim? ― a mulher virou para ficar de frente para , a observando curiosamente. ― Você está com olheiras, parece que não dormiu essa noite…
― A-Ah, isso… ― a pintora levou uma das mãos, mostrando os dedos manchados de tinta que foram até abaixo dos olhos como se isso pudesse amenizar o escuro em sua pele. ― Não foi nada… Apenas preocupação. Minhas noites vão melhorar quando voltar.
Talvez tudo estivesse dando errado em sua cabeça como um presságio do que viria… Talvez se lembrasse do que acontecera com seu quadro quando a amiga voltasse e estivesse bem. Até lá, passaria suas noites em claro.

Ω

― Você deu o dia de folga para ela, mas isso não te fez nada bem, ein. Você tá horrível.
A voz aveludada e feminina foi a primeira coisa que ouviu quando entrou em sua sala após chegar ao hospital. A dona dos cabelos escuros estava sentada em sua cadeira com as pernas cruzadas, lhe esperando atravessar a porta e claramente não perdendo a oportunidade de zoar com a sua cara.
― E você está ótima como sempre, mas não entendi o porquê de estar aqui de novo. ― juntou as sobrancelhas na direção da mais velha, mostrando que não era apenas sua cara que estava horrível, como seu humor também.
― Iiih, estressada. ― a fez um bico nos lábios com aquela grosseria, fechando os olhos para retomar a seriedade e entrar no assunto. ― Eu conversei com os pais da … A mãe dela me ligou.
― Katherine?! ― a médica pareceu meio chocada com aquilo e parte ofendida também, buscando até mesmo o seu sofá para sentar. Se era pra ligar pra alguma delas, era bem mais indicado que fosse para si ou para ou que eram as mais responsáveis.
― Em pessoa. ― não pôde deixar de soltar uma risadinha com a expressão de choque da amiga. ― Ela me disse que ia pegar o primeiro voo pra cá assim que falasse com o pai dela.
― Puta que paariu… ― colocou uma das mãos na testa em total indignação, massageando um pouco o local.
― E não é a pior parte, doçura! ― falou com um sorriso largo e sarcástico, assustando ainda mais a médica. ― Ela já marcou uma coletiva de imprensa para assim que ela chegar e faz questão da nossa presença. As cinco.
― Você só pode estar brincando, né…?
― EU JÁ DISSE QUE VOU EMBORA DAQUI!
O grito fez com que as duas amigas esquecessem o assunto e se assustassem, se entreolhando. rapidamente levantou do sofá e correu até a porta para abri-la e sair no corredor, com uma curiosa logo atrás. A mais nova, claro, já tinha quase certeza de quem era que estava fazendo o escarcéu no hospital, e suas suspeitas só foram confirmadas quando o viu fora do quarto, a fazendo suspirar. Quem mais seria, não?
― Han SangHyuk! ― já até mesmo decorara o nome da peste, pois a cada dia ele lhe dava um problema referente ao fato de querer ir embora. sentiu o mesmo arrepio do outro dia subir por sua espinha, ficando na ponta dos pés para conseguir vê-lo por cima do ombro da amiga.
De início, o garoto ficara meio confuso e olhara para os lados para saber se era ele mesmo que ela estava chamando. Sabia que falaram que aquele era seu nome, mas ninguém sabia o quão horrível era não conseguir se relacionar com seu próprio nome. Olhou então para a médica, mas a pessoa que viu atrás de foi que fez com que parasse de se debater entre as duas enfermeiras.
O olhar que os dois trocaram fora intenso e até mesmo olhou para confusa. Por mais que ela tivesse pegado tantos caras na vida e aquele podia ser um deles, naquele olhar tinha mais do que um reencontro de quem nunca tivera um relacionamento. Inclusive, se não fosse assim, apostava que a nem lembraria dele… E muito menos ele dela.
Afinal, Hyuk estava com amnésia.
― Eu conheço você. ― o rapaz murmurou, mas antes que tentasse andar até , ele acabou perdendo a consciência nos braços das auxiliares.

Ω

“― Se um homem loiro e alto aparecer em algum lugar do prédio, com uma roupa militar… Me chame. ― avisou, fazendo a estagiária arquear ainda mais as sobrancelhas em dúvida.
― Ceeerto… ― não pode reprimir o tom um tanto desconfiado daquilo. Sua chefe não podia estar ficando doida também, aí já era demais.”

Suas memórias estavam meio borradas, mas a imagem do homem loiro de roupas militares ao lado de sua janela não saía de sua cabeça, e nem as palavras de .
Sabia que a tinha achado louca quando ouviu aquilo, mas agora não conseguia entender. Talvez estivesse sonhando e seu subconsciente trouxera as palavras da amiga para seus sonhos de tão estranha que foram, mas por que quando acordou sua janela continuava aberta e seu porta retrato no chão…? Por que suas mãos tremiam agora, ao apertar o botão do elevador vazio?
Aquilo só podia ser estresse pelo trauma do sequestro de , era o que pensava, e esperava que realmente fosse.
Mas sua preocupação aumentou ainda mais quando viu a porta do apartamento de entreaberta, lhe fazendo arregalar os olhos e empurrá-la sem o mínimo de dó, entrando correndo dentro do lugar para encontrar a esverdeada jogada no sofá, dormindo confortavelmente de boca aberta.
, por que você deixou a porta aberta. Tá ficando louca? ― questionou irritada, jogando a bolsa em cima das pernas da mais velha para acordá-la e a fazendo abrir os olhos tranquilamente, apesar do grito e da agressão da outra.
― Ah, … Tava te esperando. ― a mais velha bocejou largamente, passando uma das mãos abaixo da boca e se despertando aos poucos.
― Como assim, me esperando…? ― a morena franziu o cenho, ajeitando os óculos com o dedo médio e resolvendo dar uma olhada no local.
A pia estava tão suja quanto a mesinha de centro, uma com potes de miojo e outra com de pudim e algumas caixinhas de nuggets, tudo vazio assim como uma garrafa de suco de laranja também na mesa de centro da sala. O notebook estava no meio dessa segunda, piscando bateria fraca e com uma matéria sobre aberta. E alguns pingentes rosas e roxos cobertos por sujeira foram conhecidos aos olhos de , que arrancou tudo de cima para confirmar.
― O celular da … ― murmurou para si mesma, passando a mão pela tela e olhando para confusa.
― Ela esqueceu aqui quando veio me ver antes do sequestro. ― a esverdeada jogava as pernas para fora do sofá preguiçosamente, suspirando logo depois e esfregando os olhos.
― Como você sabe que foi um sequestro…?
― Ainda bem que você foi à última a vir, . Têm alguma coisa muito estranha acontecendo, e você é a única que pode me ajudar.



Mess

― V-Você desmaiou de novo… ― a voz do garoto ecoou em seu ouvido antes mesmo de seus olhos conseguirem focar no teto branco.
A vontade que teve foi de levantar e se afastar do homem que estava sentado ao lado da cama que estava deitada naquele tempo que não conseguia calcular qual era, mas mal tinha forças de falar. Ainda estava tonta e com a visão nublada, sentia que acabaria perdendo a consciência de novo mais cedo ou mais tarde, principalmente caso se esforçasse tanto e mesmo que estivesse se forçando contra isso.
― Me leva de volta… ― murmurou, deixando a cabeça cair para o lado onde o desconhecido estava.
― Eu não posso. ― o tom dele se tornou muito mais rude e baixo do que das outras vezes que ela o ouviu, a fazendo ficar intensamente assustada. ― Você ainda não está bem. Eu preciso cuidar de você.
― Minha amiga é médica, ela pode cuidar de mim…
― Eu também posso. Suas amigas estão muito longe agora, e estão todas ocupadas. , , … Suas Noonas não podem te ajudar. ― ele discursou com uma expressão chateada por conta do desejo da loira de ir embora. ― Mas eu posso e eu estou aqui com você…
O dono dos cabelos avermelhados levou uma das mãos até a da garota para segurá-la carinhosamente, mesmo que houvesse tentado afastá-la fracamente. Sabia que ela ainda não estava entendendo o porquê, mas mais tarde ela iria. Conversariam quando a loira estivesse melhor e pudesse lhe responder sem sentir dores, e então sabia que ela ia entender o que havia feito… Afinal, era tudo para protegê-la, como ela não aceitaria?!
Mas por enquanto, nem mesmo a voz falha de e os assustados olhos azuis entreabertos eram capazes de fazê-lo repensar sua decisão. Não, não importa o quanto ela pedisse isso, não poderia levá-la de volta. Não poderia perdê-la de vista… Ao menos não enquanto ela não estava viciada em si como ele estava nela.

Ω

A ligação de explicando as instruções do que deveriam fazer naquele dia fizeram com que praguejasse diversas vezes ao ver que deveria voltar para a casa de mais tarde. Se a irmã tivesse ligado para si quinze minutos antes, não precisaria andar o mesmo caminho duas vezes no mesmo dia, mas agora não faltava mais do que três ruas até chegar em sua casa…
No momento não teve muito que fazer que a ajudasse quanto a isso, praticamente já atravessara o bairro todo para querer voltar tudo agora, não valia a pena refazer o caminho para o apartamento da amiga. Ao menos faria com que a irmã lhe buscasse de carro quando fosse para o apartamento, já havia gastado sua cota de andar de um mês em um dia só.
Além disso, havia algo a incomodando que só conseguiria resolver em casa. Ao acordar recebera uma mensagem de , questionando o que poderia descobrir sobre os ex namorados de e isso conseguia a deixar meio confusa. A médica não dera folga para si para inventar de bancar a detetive, não…? Esperava que ela não estivesse fazendo merda e se controlasse, já bastava os processos que estava respondendo…
Não sabia bem da história além de que o pai e o irmão de foram assassinados em seu país natal e por isso ela se mudara para a Coreia do Sul. Entretanto, aparentemente, ela desconfiava de seu tio e por isso ficara fissurada durante algum tempo, tentando provar que ele era o assassino de qualquer forma e chegando a ameaçá-lo mais de uma vez. Como ainda não se conheciam na época, nunca chegou a saber exatamente o desfecho do caso, mas acabara estando presente quando a amiga recebeu a intimação do tribunal...
Graças aos céus existia e parecera ajudar a salvar a pele da médica. Sinceramente não era uma história a qual se interessava muito, não queria cortar pela metade sua vontade de ficar perto de ao confirmar sua teoria de que ela era relativamente psicopata e sociopata. Principalmente agora que ela andava tão estranha desde o aparecimento do tal e praticamente não saia do quarto dele, estava meio assustada.
Não que pudesse falar muito e nem querendo julgar a chefe, afinal… Eram até parecidas mesmo que não admitisse isso, mas desde quando não era meio sociopata também? A única diferença entre ela e era que estava acordado, enquanto TaekWoon não… E, pior do que a mais velha parecia ser, isso lhe deixava internamente feliz e esperava que se mantivesse assim.
― Ah, ótimo… Era tudo o que eu queria…
murmurou quando sentiu o primeiro pingo grosso da chuva caindo em seus óculos e borrando parte de sua visão. Que trocassem logo a garota do tempo, aquela era péssima, depois de tantos dias de previsão errônea deveria esperar aquilo. A maldita previsão dizia que faria Sol assim como em todas aquelas merdas de dias, mas não sabia onde que estava fazendo Sol quando estava chovendo ininterruptamente há quase uma semana…
Mais exatamente desde o dia que chegara com … E dissera ver o homem loiro. Ao pensar em tudo isso como conjunto, a até mesmo parou no meio da rua por alguns minutos, ignorando as buzinas revoltosas na sua mente encobertas com a própria respiração pesada. Havia mesmo algo muito estranho acontecendo ali.

Ω

?
A voz masculina a chamava a atenção ao entrar na sala da dançarina, acompanhada por duas batidas na porta de madeira, a fazendo desviar seus pensamentos de que deveria ir até em casa buscar antes de ir para . Ergueu os olhos da bolsa a qual abria para achar e pegar a blusa de frio que estava dentro e olhar o colega de trabalho de soslaio.
― O-Oh, olá. ― a fingiu surpresa com a presença do homem junto com uma simpatia natural, sorrindo largamente ao mesmo tempo que forçando a memória por alguns momentos para tentar lembrar do nome dele, mas desistindo ao perceber que seus esforços não teriam efeito algum.

― Me desculpa incomodar, eu sei que faz um tempo que a gente não se fala… ― a surpresa na verdade para a morena era eles terem se falado um dia, porque ela realmente não lembrava da cara dele além do corredor da Academia e alguns bom dia aleatórios que dava por aí. ― Só queria dizer que eu sinto muito pelo o que está acontecendo…
― Aaah, sobre isso… ― levou uma das mãos até a testa, coçando levemente a pele e cerrando o olhar que desviara do homem, não o vendo se aproximar de si sorrateiramente. ― Obrigada pela consideração. ― a mulher deu um sorriso reto, voltando a levantar a cabeça para encontrar o “desconhecido” a poucos centímetros de si.
― Sabe, se você precisar de companhia pra se distrair dessa coisa ruim… ― o colega de trabalho levava uma das mãos até o rosto da mulher ao terminar com o espaço entre os corpos, tentando tocá-la. ― Eu estou livre hoje.
― Oh… ― fez uma falsa expressão surpresa, olhando o mais alto com as orbes arregaladas, quase transbordando uma inocência inexistente no coração daquela mulher e virando levemente o rosto para evitar que ele encostasse em si. ― Então, sabe o quê que é? ― retribuiu o contato físico que não o deixara fazer, levando uma das mãos até o ombro do terno e dando batidinhas seguidas ali, como se o tivesse limpando, fazendo um barulho de decepção com a língua. ― Não vai rolar não, tá? Beijo.
não hesitou nem mais um segundo antes de pegar sua bolsa e sair em direção a porta, ignorando completamente a cara de indignação do homem e os balbucios que ele começou a soltar. Aquilo era praticamente inacreditável e ele se sentia até ofendido, as lendas diziam que a não recusava ninguém que fosse julgado ao menos bonito e ela lhe dera aquele fora…
Mas não, não era aquilo. Por alguma maldição, havia algo na cabeça da que a impediria de sair com alguém mesmo se quisesse. Aquilo não saia da sua cabeça. A voz, a aparência e principalmente as palavras.
Sabia que tinha de encontrá-lo de novo. O mais rápido possível.

Ω

― Assim que ela chegar, deixe-a entrar e a leve até o quarto de .
A enfermeira assentiu para a mais velha, saindo logo depois agarrada em sua prancheta e deixando a mulher na sala. ouviu a batida da porta e encheu as bochechas de ar ao estar sozinha no lugar, o soltando lentamente num barulho um tanto irritante enquanto seu cotovelo estava apoiado na mesa e sua mão entre seus cabelos, lendo o exame que ditava o diagnóstico do garoto.
Não demorou muito a se levantar, mesmo que a contragosto, para andar até o lugar que dissera que estaria.
estava acordado, uma raridade aos olhos da mulher que só o visitava à noite e o via quase sempre dormindo. Ele observava a tarde cair vagarosamente pela janela, enquanto a médica se encostava à porta após fechá-la para observá-lo por algum tempo. Com o rosto virado para o outro lado, só conseguia ver parte do cabelo que estava bem mais arrumado do que a primeira vez que se viram, a pele morena e algo que ainda não havia percebido existir: três pintas formando um triângulo, no pescoço, orelha e bochecha do rapaz.
― Você tem alguma coisa pra me dizer? ― a voz do garoto a despertou do transe pela segunda vez naquela semana, a fazendo piscar algumas vezes para controlar a surpresa. Tinha que parar de olhá-lo daquele jeito, por algum motivo o sempre acabava lhe pegando no flagra…
― Na verdade sim, … ― começou, respirando fundo para juntar coragem e andar lentamente até a ponta da cama do rapaz, observando-o manter o olhar no pôr do sol. ― Você sofreu um trauma muito forte na cabeça, porém nós já tratamos disso. Eu acredito que sua amnésia seja temporária, mas existem coisas que podem ajudar a fazê-la passar mais rápido. Infelizmente, essas coisas são relacionadas a pessoas do seu passado, mas nós não temos registros algum de parentes seus… E é por isso que eu estou aqui. Precisamos conversar…
― Você vai agir como se nós já nos conhecêssemos…? ― ele questionou, finalmente virando o corpo na direção da mulher e então sentando na cama, encostando as costas na cabeceira para poder olhá-la calmamente.
― Do que… ― ignorou suas palavras, mas não conseguiu as deixar passar completamente. Acabou engolindo em seco, desviando os olhos amendoados dos dele para conseguir se concentrar. Não era nada demais. Devia apenas fazer seu trabalho. ― Do que exatamente você lembra?
O silêncio que se instalou entre eles não fora nada confortável para a médica, que após alguns minutos naquilo subiu o olhar para encará-lo como pedido de resposta. O coreano apenas se mantinha da mesma forma, respirando tranquilamente e encarando de uma forma tão compenetrada que era difícil para ela conseguir manter aquilo sem demonstrar seu desconforto.
― Minha mente… É um completo vazio, agora. ― murmurou mais para si, finalmente desistindo do contato que seus olhares trocavam para encarar o branco dos lençóis que cobriam suas pernas. ― Mas eu realmente sinto… Quer dizer, nós dois. Nós dois temos uma conexão. ― suspirou, levando uma das mãos até sua cabeça que doeu ao tentar forçar tanto suas memórias. ― Você também não lembra de mim, ?

Ω

― Essa mulher…
suspirou desanimada ao chegar na recepção do hospital e receber o recado da recepcionista que dizia que a diretora estaria no quarto 51 de , no terceiro andar do prédio. Sabia que esse andar era o de traumas neurológicos apenas porque sempre fora o favorito da amiga, mesmo que isso soasse estranho. sempre parecera ter certa fixação por amnésia ou o cérebro em si, mas haviam combinado de que apenas passaria lá para irem juntas até a casa de e não precisaria passar da recepção do hospital...
Ao contrário disso, agora a médica estava a fazendo subir três lances de escada com um salto alto fino e uma bolsa que apesar de parecer pequena, pesava bem mais do que se imaginava ao visualizá-la, principalmente depois da boa caminhada que era subir todos aqueles andares… Mas mesmo assim, no momento preferia isso ao elevador mórbido e solitário com uma parede inteira de espelho, que lhe faria ver seu próprio rosto cansado.
Quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove, cinquenta…
Geralmente não se incomodava com hospitais, mas aquele andar… Estava estranhamente quieto, apenas com os barulhos de aparelhos funcionando ecoando no fundo de sua mente. Suspirou e então balançou a cabeça levemente antes de olhar o cinquenta e um, encontrando a porta do quarto trancada. Isso a fez se perguntar se estava mesmo no lugar certo, porém ao chegar um pouco mais perto para poder confirmar que sim. Conseguia ouvir a voz de e também perceber que ela estava um pouco alterada, em contraste com a voz masculina calma que a respondia.
Bateu duas vezes, mas a amiga pareceu não lhe ouvir. Arqueou uma das sobrancelhas com isso, batendo novamente e vendo a situação se repetir, ao mesmo tempo em que as vozes do outro lado da porta aumentaram de tom. A não hesitou em levar sua mão até a maçaneta, a puxando rapidamente para abrir a porta e prestaria atenção na cena normal da médica conversando com o homem se não fosse o barulho do medidor cardíaco do quarto a frente daquele que entrou em total colapso, sinalizando bem alto que os batimentos do paciente haviam cessado.
De repente sentiu uma coisa estranha… Havia algo escorrendo de seu nariz. E ao levar os dedos até lá e ver o sangue, só conseguiu ver preto em sua frente e uma dor de cabeça insuportável a consumiu, fazendo suas pernas fraquejarem quando a correria para socorrer quem quer que estivesse no outro quarto começasse, sentindo o apoio de antes que caísse de uma vez para frente.

Ω

Ainda não conseguia entender aquela súbita reunião daquilo que um dia fora um grupo de amigas, mesmo em situações emergenciais como era aquela, por que todas queriam ir até sua casa agora juntas, após naquela semana terem ido uma por uma, sozinhas…? Sabia que era difícil lhe verem se não fosse assim, mas também não entendia porque diabos elas queriam a ver depois do que acontecera.
O mais intrigante é que parecia que para elas nada havia acontecido, que estava tudo bem e então num estalar de dedos tudo voltara ao normal, tudo voltara a ser como era há seis meses. Também não era como se estivesse ofendida, magoada ou incomodada com isso, não… Ela não se importava com como elas iam e voltavam segundo suas agendas de trabalho ou compromissos pessoais, mas na verdade algo estava a incomodando. Alguma coisa não se encaixava…
Mesmo que ela mesma não se ofendesse com isso, não conseguia entender porque as outras não se ofendiam, principalmente as mais sensíveis e orgulhosas como e que sempre foram mais suscetíveis a se incomodar com essas coisas, mas agora nem mesmo citavam ou jogavam na cara frases como “Você nem sentiu minha falta” nunca chegara a ficar mais de uma semana sem lhe ver, mas durante esse tempo nem mesmo mandara uma mensagem… Além disso, a forma como elas falavam, como se o “hiatus” em sua amizade nunca houvesse acontecido. Como se elas não soubessem disso.
Isso por nem mesmo ter citado ainda a forma estranha que em destaque, e estavam agindo, totalmente desesperadas e sem rumo, buscando só uma coisa que nem mesmo as duas sabiam direto. E aquela mensagem sobre o sequestro de … Eram muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, mas não conseguia tirar da cabeça o que falara com no dia anterior, ignorando todo o drama dos “seis meses fora”.

“― Eu não sei como eu posso te ajudar, se nem eu estou entendendo o que está acontecendo… ― a amiga murmurava ao tomar um gole de chá que havia feito, sentada em seu sofá e a observando brincar com o telescópio na varanda. ― Eu não sabia sobre a e a , mas é muito despretensioso julgar que é tudo coincidência.
― Você e a também? ― questionou mexendo no ajuste de foco para conseguir enxergar melhor o que queria.
― Huh…? A-Ah, sim. Nós também. voltou a fumar e está chegando cedo em casa há quase uma semana, além de ter cancelado uma aula ou outra na academia. Isso não pode ser normal. ― a suspirou, fechando os olhos e encostando a cabeça no macio do sofá.
― E você, ? O que aconteceu com você?
Silêncio. se remexeu incomodada e olhou para as paredes, como se fosse culpada de algo antes de finalmente responder baixo.
― Eu acho que estou apaixonada, … Mas o que nós podemos pensar? ― tratou de mudar de assunto rapidamente antes que lhe fossem indagados mais detalhes, mesmo que conhecendo bem a mais velha como conhecia, soubesse que era algo que até ela preferia fingir que não ouvira. ― Assumir que tem algum ser poderoso brincando com as nossas vidas, ou que simplesmente é karma…? O que nós fizemos de ruim, pra estar pagando agora? Se fosse pra alguém pagar algo de ruim aqui, deveria ser você que é a pior, e mesmo assim a única que tá de boas. ― até não aguentou e riu baixo da piada da mais nova, revirando os olhos.
― Ah, vai se ferrar, .”

“Assumir que tem algum ser poderoso brincando com as nossas vidas agora”. pudera falar isso brincando ou apenas para mostrar o quão irracional a ideia parecia, mas na verdade não conseguia não pensar nisso depois da mensagem que recebera. Respirou fundo e se jogou no sofá de olhos fechados, sentindo até mesmo sua testa doer depois de pensar tanto. O que estava acontecendo consigo? Talvez a crença de naquelas baboseiras que vira há alguns dias tivesse afetando seu cérebro. Era claro que havia uma explicação lógica para todos aqueles acontecimentos, mas mesmo assim não tinha nada o que fazer, deveria esperar até que as coisas se resolvessem sozinhas…
Com a distração em seus pensamentos, claro que não vira na sua varanda, parado num dos cantos de braços cruzados a observando com um sorriso de canto, um homem com roupa militar e cabelos loiros bagunçados.
― Você é mesmo diferente das outras cinco, não é, …?
A voz surgiu no fundo da mente da garota, a fazendo abrir um dos olhos em dúvida e soltar um muxoxo. Ainda se deu ao trabalho de erguer as costas para procurar de onde aquilo havia vindo, apenas para se deparar com o mais intenso nada em todo seu apartamento.



Continua...




Nota da autora: Sejam muito bem vindas ao pagamento de pecados na Terra!
Eu não sei se alguém aqui é familiarizado com o Ker Conception do VIXX, mas essa fanfic é praticamente toda baseada nele, isso pode ser considerado spoiler? :o AUHUAHAUH Kratos é o começo de uma trilogia que vem por aí e eu espero que vocês tenham gostado dessa básica introdução a cada uma das pps, e tenham ficado curiosas para continuar acompanhando! Eu amo esse squad dessas seis garotas e a pp principal é minha favorita, qual a sua? ♥
Eu também sou apaixonada pelo pp principal, mas tenho que pedir desculpas se alguém se sentiu incomodado com o fato de o Hongbin ser uma personagem mentalmente instável AUHUAHAUAUH PERDÃO, mas tudo faz parte de um plot que um dia será explicado, eu juro - e não só é ele que é pirado então, se preparem AUHAUHAUHA
Os capítulos de Kratos são propositalmente curtos, porque essa não é uma história que eu me forço a fazer, apesar de levar ela mais a sério do que todas as minhas outras, ironicamente HAUAHAUAHAUA esse é o meu gênero favorito e o que eu mais escrevi durante toda minha vida, então sai naturalmente e eu deixo que meu cérebro vá no ritmo dele. Quando ele me manda parar, eu paro e vou pro próximo capítulo. Então me desculpe se a irregularidade em tamanhos ou eles serem todos curtos incomoda alguém, HAUAUAHAUAHA
Eu espero que você tenha gostado e se sim, por favor, me deixe saber nos comentários!







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Please Don’t…
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Very NICE








Nota da beta: Essa história tem um quê de mistério totaal, fico aqui roendo minha unha enquanto beto tentando entender o que se passa, quem é o militar loiro? Quem rapitou a ? Quer protegê-la do quê? E esse homem, pseudo PP de onde ele conhece a ? AAAAAAAAAA kkkkkkk.

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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