Última atualização: 26/04/2019
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Capítulo I

A lua cheia iluminava a estrada escura do município de Vassouras, nascida e criada no interior do estado do Rio de Janeiro, estava mais do que acostumada a dirigir por aquelas estradas abandonadas e esburacadas, com o som do carro ligado e na companhia dos seus dois melhores amigos – e – ela viajava todos os dias à noite para cursar Direito na cidade vizinha, local mais próximo de sua casa.
Desde pequena sempre soube que queria atuar no ramo jurídico, sempre sentiu seu coração gritar em seu peito por essa realização, porém, na Universidade Severino Sombra – localizada em sua cidade natal Vassouras – não era oferecido o curso de Direito, como nunca gostou da ideia de ir para a capital do estado e enfrentar a loucura de uma cidade grande, preferiu tentar o vestibular para a Faculdade mais próxima.
Estava no nono período, com vinte e um anos, sabia exatamente o que queria, surpreendeu-se quando se deparou com a grandeza do mundo jurídico, para ela, quanto mais estudava, mais sentia que precisava aprender, era como uma fonte inesgotável de descobertas e conhecimento, estava maravilhada.
- Ele é gato – ouviu a voz de sua amiga , depois de um longo período de silêncio.
- Ah não, por favor! – , que estava sentado no banco do carona, interviu. – Não vou até Vassouras ouvindo vocês elogiando outro professor.
- Meu amor, você nos obrigou a ouvir sobre a professora gostosa de Direito do Trabalho por um período inteiro. – reclamou – Eu vou sim falar do cara, ele é gato, não é, ?
Milena sorriu de lado, negando levemente com a cabeça, concentrou-se para desviar de dois buracos imensos, aquela estrada era realmente perigosa, principalmente à noite, reacendeu o farol alto que tinha abaixado ao cruzar com outro veículo e comentou:
- Não mais que o professor de Penal, mas, é gato sim!
- Tá aí uma coisa que eu nunca vou entender – riu –, como você pode ser tão louca no professor de Penal.
riu, ajeitando-se entre os dois bancos da frente e apoiando os cotovelos em seus joelhos antes de falar:
- Tesão intelectual, meu caro, nós não somos como vocês, homens. – explicou – Nós conseguimos enxergar além da beleza física, né, ?
- Isso! – concordou – O cara é mega inteligente, isso é extremamente sexy.
- Ele fala como se estivéssemos no Brasil Colônia – o rapaz rolou os olhos –, além do mais ele deve bater no seu ombro.
- Altura não importa.
- Ele parece um pug, ! – todos riram do comentário de , ele continuou – Sim, o cara é inteligente, e sim, até admito que isso possa ser um charme, mas, ficar de quatro por um cara desse não da pra entender.
- Mas vamos voltar a falar sobre o novo professor de Administrativo. – retomou o assunto principal – Eu achei que ele super combina com você, amiga.
Milena riu, ela não sabia de onde sua amiga tirava essas coisas, mas já tinha desistido daquela ideia de ficar com professor, fez isso uma vez, no terceiro período, quando estava bêbada demais para pensar em ser no mínimo sensata, encontrou seu professor de Civil II no churrasco da turma e a mistura de álcool com fantasias que as alunas geralmente têm só piorou a situação. Aconteceu, ela ficou com o professor, tirou dez em uma prova – por total mérito seu pois havia estudado bastante – mas levou a fama de só conseguir aquela nota devido ao fato de ter ficado com seu tutor, sentiu-se péssima por ser mulher e ver seu mérito arrancado de suas mãos pelo simples fato de beijar um homem, prometeu a si mesma que nunca mais faria essa loucura novamente.
- Realmente, ele faz meu tipo – deu de ombros, se precisasse exemplificar o homem ideal para ela, com certeza, ele se enquadraria nos padrões –, mas não vai rolar, não quero fofoca com meu nome de novo, demorei muito para provar à todos que eu realmente podia ser boa sem precisar de troca de favor com professores.
- Garota, último ano nesse hospício, eu vou meter o louco, se ele me der mole eu to pegando.
Milena e soltaram uma gargalhada alta e sincronizada, era assim, totalmente extrovertida, meio maluca as vezes, mas completamente fã da ideia de viver com intensidade, ela repetia constantemente o mantra "you only live once" e tentava levar para o mesmo estilo de vida, não que a garota fosse certinha, tinha seus momentos de loucura sim, principalmente em ocasiões em que o álcool corria em suas veias em uma quantidade maior que seu próprio sangue, mas, no geral, era bem mais focada nos estudos e no seu futuro profissional, não dava muita importância para sua vida social.
- Participa dessa tal olimpíada então.
Milena sugeriu e torceu o nariz, naquele dia o professor de Direito Administrativo havia dito que, pela primeira vez, uma espécie de olimpíada dessa matéria seria organizada no Rio de Janeiro, onde universidades de todo o Estado deveriam mandar representantes para competir, podendo ganhar os mais variados prêmios.
- Eu nunca seria escolhida. – bufou – Até pensei em me inscrever, mas, pelo que tenho visto das aulas dele, eu não vou me sair muito bem e a última coisa que eu quero é parecer burra.
- Eu pensei em me inscrever – sorriu –, tenho achado as aulas interessantes, é o primeiro contato que temos com a matéria, se eu fosse você, não descartaria essa possibilidade, além do mais, uma competição na UFRJ com alunos do Rio todo, isso me parece tentador demais – deu um sorriso sugestivo.
- Agora você está falando minha língua, bebê! – sorriu – Vamos nos inscrever nessa merda e seja o que Deus quiser.
apenas negou com a cabeça sorrindo de lado, desejando internamente que não encontrasse ninguém muito melhor que ele, mas no fundo sabendo que, nem em um milhão de anos, a garota desconfiaria dos sentimentos que ele nutria pela sua melhor amiga.
Todos os dias o itinerário era o mesmo, era a primeira a descer do carro e, logo após, seguia com para a casa dela, onde deixava sua moto guardada, os dois estavam em silêncio enquanto aguardavam em um cruzamento para ir até o bairro onde morava quando a voz feminina se fez presente:
- Você vai se inscrever também? – perguntou, engatando a primeira marcha e dando mais uma olhada para sair em segurança.
- Nessa olimpíada? – fez uma pergunta retórica e soltou o ar pelo nariz – Eu acho que não, quase não tenho tempo, não da para colocar mais isso na minha rotina.
Milena negou com a cabeça e olhou de soslaio para o rapaz ao seu lado soltando mais uma pergunta:
- Não vai por não ter tempo ou não vai porque não quer ver a se jogando para os caras que vão estar lá?
arregalou os olhos e começou a rir de forma a fingir que aquilo era a coisa mais louca que já ouviu na vida, mas, para que o conhecia bem, soava como um desespero para disfarçar o nervosismo.
- Claro que não! – exclamou, sua voz saiu mais fina que pretendia e ele quis sair do carro e pedir para que sua amiga o atropelasse – Quer dizer. – clareou a garganta tentando voltar ao seu tom de voz normal – Não viaja, .
- , ! – ela negou com a cabeça – Eu conheço você, convivo contigo desde que você usava fraldas, eu sei que há tempos você sente alguma coisa pela e essa coisa vai muito além da nossa amizade, você olha para ela de um jeito completamente diferente do que olha para mim!
- , mesmo que essa loucura que você está falando fosse verdade, isso nunca aconteceria, eu e a ...enfim, nunca aconteceria.
- E porque não? – estacionou em frente ao grande portão azul que conhecia bem, apertando o botão do controle remoto vendo as grades se movendo, abrindo passagem para que ela entrasse com o carro na garagem – Olha, ela tem esse jeito dela extrovertido e tal, mas no fundo, eu acho que se você tentasse, ela corresponderia.
- Ela já te disse alguma coisa? – o garoto deixou toda sua expectativa saltar em seu tom de voz o que arrancou um sorriso presunçoso de sua amiga – Droga, numa escala de zero a dez o quão parecido eu fiquei com um moleque de treze anos virgem?
- Onze! – gargalhou – Mas eu achei fofo, de verdade.
- Fofo é tudo que um homem não que parecer, . – ele riu – Eu não tenho a menor chance. – recostou completamente no banco do carro e escondeu o rosto em suas mãos – Você sabe o tipo de cara que ela gosta, e definitivamente, eu não me encaixo nos padrões da .
- "" e "padrão" são duas coisas que não combinam! – a garota riu abrindo a sua porta e saindo do veículo, sendo acompanhada por – A única preocupação dela é ser feliz, e eu acho que é uma questão de tempo até ela reparar isso que você tem tentado, sem sucesso, esconder. E, de verdade, eu acredito que você possa fazê-la feliz e até colocar um pouco de juízo naquela cabeça dura.
O garoto riu e deu uma piscadinha de despedida em direção à amiga antes de colocar seu capacete, posicionou as alças da mochila em seus ombros e se ligou sua moto, falando na fresta da viseira entreaberta:
- Sinceramente, , eu prefiro que a nunca tenha juízo algum – confessou –, pois é justamente isso que me faz gostar dela.
- Deus, eu não sei o que será de mim com vocês dois juntos! – a garota terminou de trancar seu veículo e se virou novamente para ele – E pode ficar tranquilo, não contarei nada a ela.
- Obrigado, de verdade. – ele sorriu agradecendo não só aquela atitude, mas a amizade de anos que eles tinham – Valeu pela carona também, você é a melhor.
- E sei, meu amor! – piscou para ele – Boa noite, e me avisa quando chegar.
Ele acenou em concordância e partiu. caminhou calmamente até sua casa, achando o quão incrível seria se seus melhores amigos se entendessem pois no fundo, ela torcia pela felicidade deles mais do que pela sua própria.


****************


- Eu não acredito que estamos aqui! – reclamou – Ninguém vem em vista de prova, !
- Eu realmente preciso saber se fui bem na prova dele. – disse – Eu quero participar da olimpíada e o professor disse que os seis melhores irão com ele.
- Eu não tenho a menor esperança. – deu de ombros – Por que o não veio?
Milena mordeu o lábio inferior, tentando disfarçar um sorriso, estacionou o carro próximo ao bloco onde teria aula e puxou o freio de mão, respondendo à amiga:
- Ele não conseguiu sair a tempo do trabalho – explicou –, pediu para pegarmos a prova dele.
- Beleza! Você já vai para a aula? Eu tenho que ir na biblioteca entregar alguns livros e inventar uma história triste para não pagar a multa imensa que tenho lá – riu sapeca.
- Você nunca lembra de renovar esses livros! – negou com a cabeça – Eu já vou subindo, te espero na sala.
sorriu e seguiu o caminho oposto ao de , que, por sua vez, passou no banheiro rapidamente para retocar seu batom antes de terminar de subir a escadas rumo a sua sala.
A faculdade estava vazia, eram pouquíssimos os alunos que iam para lá em semana de vista de prova pois os professores, geralmente, só corrigiam as provas e entregavam, não davam nova matéria e logo liberavam os alunos.
Assim que entrou em sua sala viu que era a única ali, ninguém havia chegado ainda, apenas o professor, que, quando a viu entrar, sorriu levemente e disse:
- Se fosse manhã eu perguntaria se você tinha caído da cama!
Ela sorriu com o comentário e olhou para seu relógio constatando que nem era tão cedo assim, respondeu:
- As pessoas não costumam vir essa semana – explicou, achou que, por ser um professor novo na instituição, não saberia dessa informação.
- Os outros professores comentaram – ele explicou, voltando a olhar o papel em suas mãos –, mas achei que o resultado sobre quem iria comigo para a olimpíada atrairia um número maior de alunos.
- Com certeza mais alguns virão – ela sorriu.
- Você se inscreveu? – ele perguntou – , certo? Desculpe-me se não acertei, é que são muitos alunos.
- Isso, sou a sim! – respondeu – E eu me inscrevi, mas é a primeira vez que vejo Direito Administrativo, não sei se me saí bem.
, o professor, cruzou os braços e analisou a garota a sua frente, negou com a cabeça sorrindo levemente antes de falar:
- Seu nome surgiu algumas vezes na sala dos professores – confessou e pode ver uma expressão de espanto surgir no rosto da garota –, não devia ser tão insegura, "melhor aluna da sala" – fez aspas com os dedos.
Não pode responder nada, um grupo de alunos entrou no local rindo e falando alto, quando perceberam a presença do professor ali logo puxaram assunto sobre a tal competição, pareciam animados e confiantes, porém, no fim das contas, entre as seis vagas disponíveis, e foram escolhidos, bem como que, assim que ouviu seu nome ser anunciado, percebeu que ninguém parecia exatamente surpreso com o fato dela ter conseguido, mas pode jurar que viu piscando para ela quando entregou sua prova com um dez bem grande e em destaque na folha da frente e logo abaixo da nota, um recado:
"Até a olimpíada, garota prodígio"
- ADIVINHA! – gritou quando viu saindo do portão de sua casa, as duas correram até lá assim que chegaram da faculdade para avisar o amigo – NÓS TRÊS CONSEGUIMOS! – terminou o raciocínio sem deixar que ele falasse qualquer coisa e praticamente pulou no colo dele, comemorando.
- Eu já sabia, nós três somos incríveis! – riu, se gabando, e esticou os braços pegando sua prova das mãos de – Oito e meio, é, poderia ter sido melhor.
- Eu to me sentindo muito nerd. – comentou, soltando o garoto – Eu acho inclusive que vou comprar um óculos daqueles de farmácia para parecer mais intelectual.
Todos riram da ideia da garota e completou:
- Você tirou dez, né, . – afirmou, não precisaria perguntar pois já sabia a resposta – Acho que temos grandes chances com você no time.
- O professor avisou que teremos alguns encontros com ele até o dia da competição. – explicou – Ele irá nos treinar, por isso, teremos que chegar mais cedo nas segundas para ter essa aula de reforço com ele, acha que consegue ser liberado do trabalho?
- Eu acho que consigo sim – sorriu –, vou conversar com meu chefe essa semana mesmo.
- Nós também passamos seu número de telefone para ele – falou –, ele vai criar um grupo no WhatsApp para compartilhar alguns vídeos e apostilas como material extra de estudo.
- O cara tá levando isso bem a sério – riu.
Milena passou a língua entre os lábios antes de falar:
- É a especialidade dele e pela primeira vez terá uma competição só sobre Direito Administrativo, acho que ele está bem empolgado. – deu de ombros – Imagina que louco o time que você está treinando ser campeão da primeira olimpíada desse tipo entre todas as faculdades do estado!
- Você sabe que nossa faculdade não é das melhores, não sabe? – sorriu – Não é das piores também, mas, teremos muitos times bem fortes para enfrentar.
- Eu estou ciente, mas, se me permite o comentário, eu também estou ciente que eu sou foda!
e riram alto, era sim extremamente inteligente e disso todos sabiam, mas ela raramente se achava por isso, sempre escondia suas notas para não parecer nerd demais, nunca chamava atenção para si e odiava de todo seu coração quando um professor comentava o quão brilhante ela era, preferia manter suas conquistas acadêmicas bem escondidas.
- É assim que se fala, ! – levantou a mão fazendo o high-5 com a amiga – Eu mal posso esperar para beijar o máximo de bocas cariocas.
Milena negou com a cabeça fingindo achar graça daquele comentário ao mesmo tempo que olhava que apenas deu de ombros e riu também, não era como se ele tivesse chegado no nível de sofrer por .
Pelo menos não ainda.


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- PAPAI!
As duas perninhas gordinhas se moveram o mais rápido possível e não pode evitar o sorriso que surgiu em seu rosto ao ver sua filha correndo em sua direção com os bracinhos abertos, abaixou-se e a ergueu com facilidade, pegando-a no colo e retribuindo o abraço apertado que ela lhe dava.
- Posso saber o que a senhorita faz acordada à essa hora?
Ouviu a menina dar um sorrisinho baixo enquanto deitava a cabeça no ombro do pai, respondendo dengosa:
- Saudade.
se perguntou se uma criança de apenas quatro anos sabia o que era sentir saudades, mas, de qualquer forma, seu coração se aqueceu com aquela declaração. Toda semana tinha que viajar até o interior do estado para dar aulas, era sempre o dia mais difícil da semana pois saía bem cedo e voltava tarde, não conseguia ver sua filha com calma, ao sair pela manhã ela ainda dormia e quando voltava ela geralmente já estava dormindo também.
- Eu também estava com saudades, minha princesa. – afagou os cabelos castanhos da menina em seu colo – Você já papou?
- Já! – dessa vez foi Sheila, a babá, que respondeu – Comeu tudinho, não é, ?
- Aham! – a garota completou – Arroz, feijão e ovinho mexido.
- Certo – ele sorriu –, você pode ir deitar, Sheila, eu coloco ela na cama.
A mulher concordou e se retirou dali, indo para a suíte que tinha na casa, a babá era a única do corpo de empregados domésticos que dormia ali, ela havia sido contratada depois de uma demorada procura pela profissional perfeita, queria ter certeza que sua filha estaria em boas mãos, e, para isso, foi até a agência que sua irmã lhe indicara.
Depois de colocar sua filha na cama, contar uma historia e observá-la dormir calmamente, ele respirou pesadamente e se levantou, indo até seu quarto. Retirou a gravata e a camisa social, sentindo-se extremamente cansado, preparou a banheira da forma que lhe agradava e terminou de se despir, afundando o corpo naquela água morna sentindo cada músculo do seu corpo relaxar.
Fechou os olhos por pouco tempo antes de seu celular começar a tocar na pedra de mármore ao seu lado, secou as mãos antes de pegar o aparelho e sorrir involuntariamente com o nome que aparecia na tela, atendeu:
- Fala, pirralha!
- Eu não deveria ter ligado se fosse para você me atender dessa forma – a mulher resmungou do outro lado da linha, ele riu.
- Você é minha irmãzinha caçula, será sempre minha pirralha! – disse – O que você manda?
- Só estou com saudades. – a mulher confessou – Nunca pensei que seria tão difícil ficar longe.
suspirou, lembrou-se da despedida de sua irmã, há alguns meses atrás, quando ela conseguiu uma grande oportunidade para trabalhar em uma grife parisiense e se mudou para a cidade luz com os dois filhos, depois de um divórcio difícil, no fundo, todos concordavam que aquele recomeço seria o melhor para ela, apesar da distância.
- Não vamos pensar nisso. – ele tentou ser positivo – Me conte, como estão as coisas aí? E como estão os meninos?
- Eles estão ótimos! – sorriu – Estão se adaptando bem, já aprenderam bem o idioma e até fizeram amizades, para as crianças você sabe, tudo é mais fácil. Lá na empresa também está tudo maravilhoso, tenho uma estrutura surreal para criar minhas peças, a equipe têm aceitado bem meus croquis e na próxima coleção terão peças com a minha assinatura.
- Isso é ótimo! – exclamou – Eu estou muito orgulhoso de você, de verdade.
- Eu sei disso. – Helena sorriu, convencida – E aí? Soube pela mamãe que você está dando aula em outra universidade.
- Sim, estou! Fica no interior do estado, mas como tenho que estar lá só uma vez por semana não é tão custoso enfrentar a estrada. – explicou – Eu estou empolgado, ainda mais agora, passamos pela primeira bateria de provas e a minha turma se saiu muito bem, isso me deu mais confiança, principalmente entre os diretores e coordenadores do curso.
- Você me mata de orgulho, irmãozinho! E a equipe é tranquila?
- Os outros professores? – ele perguntou tentando entender melhor a indagação da irmã, ela resmungou concordando – Bom, digamos que, tirando a péssima mania de pegar as alunas, a equipe é boa sim.
Helena soltou uma gargalhada alta, ela mesma, em sua época de estudante de moda, chegou a ficar com alguns professores, não de seu curso, claro, pois pouquíssimos eram os professores do sexo masculino e eles eram todos gays – para a tristeza dela que não podia ver um homem estiloso que já ficava apaixonada – mas sua melhor amiga cursava engenharia e ela sempre dava uma escapada para o prédio de exatas a fim de garantir suas experiências professor-aluna.
- Em toda universidade é assim, ! – riu – Fala sério que você nunca pegou nenhuma professora quando estudava e nem nenhuma aluna agora que está do outro lado da moeda.
- NÃO! – ele exclamou, interrompendo sua irmã e se fazendo de ofendido – Nunca peguei professora nenhuma e também não olho para as minhas alunas dessa forma, por Deus, eu tenho uma filha! Só de imaginar que ela vai chegar à universidade um dia e será encarada por marmanjos como se fosse um lanchinho da madrugada isso embrulha meu estomago.
- , você é muito certinho, isso é irritante. – Helena soltou uma risada anasalada antes de concluir – Eu acho que o que falta em você é justamente esse espírito de aventura, desde que a Carla faleceu você...
- Não, Helena, nem toca nesse assunto – ele a cortou novamente e pode ouvir sua irmã suspirar, sabia que no fundo ela só queria que ele fosse feliz.
- Só pensa nisso, sendo aluna ou não, você precisa conhecer alguém, sexo não faz mal a ninguém, muito pelo contrário. Não é possível que não tenha ninguém nessa nova faculdade que não desperte em você o mínimo de desejo.
- Não, não tem. – ele respondeu, sério – Agora vamos mudar de assunto pois é muito desagradável falar de sexo com a minha irmã.
- Eu tenho dois filhos, meu querido, e nenhum deles foi entregue por uma cegonha. – os dois riram – Mas tudo bem, como está minha sobrinha mais linda?
sorriu ao pensar em sua filha , e logo engatou uma conversa animada com sua irmã sobre as descobertas diárias daquela garotinha que tanto enchia seu peito de amor e orgulho.
Depois da longa ligação, ele terminou seu banho com calma, vestiu apenas uma cueca e foi se deitar, acabou pegando no sono com um livro de filosofia jurídica em mãos, porém, um pouco antes de amanhecer, ele acordou ofegante e em uma situação completamente vergonhosa, encarando o volume entre suas pernas tentou respirar fundo para organizar seus pensamentos que insistiam em reviver as cenas do sonho que acabara de ter.
Praguejou sua irmã por ter colocado aquelas coisas em sua cabeça, mesmo que inconscientemente, e se sentiu um adolescente quando apertou seu membro rígido tentando aliviar o estrago feito por sua mente, desistindo de lutar contra as imagens que se repetiam em seus pensamentos.
O sonho havia sido maravilhoso, e ele imaginou a loucura que seria se fosse real.
Não iria se enganar, se realmente fosse da forma que seu cérebro fantasiou, ele adoraria tê-la daquela maneira.

Capítulo II

caminhava apreensivo até a sala em que se encontraria com o pequeno grupo de seis alunos que o acompanhariam na olimpíada dali a alguns meses, desde o sonho que tivera com sua aluna, há uma semana, ele desejava não ter que olhar para ela, mesmo sabendo que ela nunca, nem em um milhão de anos, desconfiaria daquela fantasia, a sensação que ele tinha era que, se olhasse para ele, ela descobriria o que estava passando em sua mente.
Quando abriu a porta da sala de aula desejou em seu íntimo que a garota não estivesse ali, mas, como a boa aluna que era, estava sentada logo na primeira carteira com seu caderno sobre a mesa e uma caneta em mãos, rabiscava preguiçosamente o canto da folha em uma tentativa de passar o tempo.
- Desculpe o atraso, pessoal – ele sorriu sem jeito e colocou a pasta sobre sua mesa, conectando seu computador ao Datashow.
Em menos de um minuto a foto de – que era o plano de fundo do computador de – foi projetada no grande quadro branco e ele pode ouvir alguém dizer:
- Awn, que linda!
Quando ele se virou viu que tinha sido que soltou o elogio, a garota sorriu sem jeito, não pretendia falar aquilo, mas não pode deixar de comentar, era realmente uma criança adorável.
- A cara do pai, huh? – brincou e piscou para ela.
Milena respirou fundo, seu professor era extremamente sexy, principalmente agora que tinha decidido deixar a barba crescer, e ainda tinha a terrível mania de piscar para ela com um sorriso de lado, ela realmente não queria investir em seu tutor, mas, ele tornava tudo muito difícil. Seu celular se iluminou sobre seu caderno e uma mensagem de no grupo "trio topzera" que tinha feito para eles apareceu, na tela:
: Hello, tensão sexual
Sem saber como responder aos dois – e – ela preferiu apenas dar um sorriso para o homem a sua frente e mandou um emoji dando dedo do meio para sua amiga, pode ouvir a risada de atrás de si, rolou os olhos e digitou:
: Que ótimos amigos eu tenho!
: Que venha a olimpíada, meus amores!

Milena bloqueou o celular quando viu que iniciava a aula explicando o primeiro slide que aparecia no quadro, ela prendeu o cabelo de qualquer forma e pegou sua caneta, passando a anotar atentamente tudo que julgava importante, mal sabia que, enquanto falava, o professor fazia um esforço sobrenatural para que seu pensamento não fosse inundado pelo sonho que tivera uma semana atrás, mas isso era impossível, pois com a nuca de a mostra bem a sua frente, com aquele perfume invadindo suas narinas, ele só conseguia pensar nos beijos que poderia depositar ali, bem como havia feito de bom grado no sonho.
Vez ou outra a garota – assim como os outros alunos – fazia algumas perguntas a ele que ficava verdadeiramente feliz em saber que eles tinham lido o material que foi enviado no grupo do WhatsApp e que estavam se preparando para a competição, via que seu grupo era forte e estava confiante que poderia vencer.
- Bom – olhou para o relógio em seu pulso –, vocês estão liberados, daqui a pouco os outros alunos chegam para nossa aula, vou deixar esse tempo para que possam fazer um lanche antes de voltar para a sala.
Os alunos se levantaram e saíram do local, exceto , e , esse último se alongou na cadeira e torceu o pescoço, mostrando o quão tenso estava, pegou um pacote de biscoito na mochila e disse:
- Olha o que eu tenho, !
Os olhos da garota brilharam genuinamente, ela abriu um sorriso largo e esticou os braços como se fosse uma criança, dizendo:
- Porra, , você é o amor da minha vida!
, que até então aproveitava o pequeno intervalo para organizar o material para a aula que começaria em instantes, levantou os olhos e encarou a cena pensando que tipo de relacionamento os dois poderiam ter.
- Eu sei que sou – o garoto sorriu convencido.
- Isso não é justo! – reclamou – Por que a ganha o biscoito preferido dela e eu não ganho nem uma bala?
- Deixa de ser reclamona, , semana passada eu trouxe uma barra de chocolate pra você!
- Porque eu estava na TPM e todo mundo sabe que se eu não comer chocolate eu mordo a cabeça das pessoas! – ela respondeu – Anda, , me da um pouco desse biscoito aí.
Milena – que ria da cena de ciúmes da amiga – passou o pacote para a garota que estava ao seu lado, negando com a cabeça enquanto visualizava o futuro dos dois, eles tinham que ficar juntos logo.
- Vê se não come tudo, o presente é meu. – reforçou e levantou o dedo para a amiga, pegando mais uma boa porção do biscoito – Não acredito que você está com ciúmes do !
- Eu não tô – disse com a voz abafada pela grande quantidade de biscoito que tinha em sua boca.
- Que lady! – o garoto riu e se levantou – Vem, , vamos lá na cantina, eu vou comprar um biscoito para você também.
- Agora não quero mais – reclamou.
Milena riu pegando seu pacote de biscoito de volta enquanto viu o amigo ir até a porta, ele colocou a mão na maçaneta e perguntou:
- Tem certeza?
- Sorte sua que eu não sou uma pessoa orgulhosa. – riu e se levantou – Quer alguma coisa, ?
A menina negou com a cabeça e piscou os olhos para que saiu dali com uma emburrada do seu lado, exatamente da forma que ele achava mais adorável.
Milena pegou seu celular a fim de se distrair enquanto saboreava seu biscoito com muita felicidade, deu uma passeada pelo feed de seu Instagram até que se deu conta de que estava na sala sozinha com , olhou para ele e se surpreendeu ao perceber que ele tinha os olhos cravados nela, sem jeito, perguntou:
- Quer um pouco?
Ele, que a admirava sem imaginar que ela o olharia subitamente, sentiu seu rosto corar, odiando-se por isso, ajeitou-se na cadeira, arrumou o nó de sua gravata e sorriu agradecido, respondendo:
- Não, muito obrigado.
Fez-se um silêncio na sala, exceto pelo barulho do pacote de biscoito nas mãos de que, apesar de ainda sentir o olhar dele sobre si, não se atreveu em tirar sua atenção da tela de seu celular, achava estranho ser observada por seu professor, mas, flertar com ele não era uma opção, apesar do fato dela ser muito boa nisso.
- Então. – ele quebrou o silêncio – Você é daqui?
- Não. – ela tirou os olhos do aparelho em suas mãos e o olhou novamente – Sou de Vassouras.
- Nossa, enfrenta a estrada para estar aqui todos os dias então. – recostou na cadeira e cruzou os braços, ela não pode deixar de reparar os músculos marcados na camisa social que ele usava – Deve ser cansativo.
- É bastante – comentou, soltando o cabelo deixando que os fios caíssem de forma desorganizada pelo seu rosto, não quis arruma-lo e achou melhor assim –, mas depois de todo esse tempo eu acabei me acostumando, prefiro vir de carro, divido o combustível com a e o .
- Você vai fazer a prova da Ordem agora?
- Sim! – ela respondeu – E coloquei Administrativo para a segunda fase, alguma dica?
- Várias! – ele se empolgou – Posso te mandar um bom material que tenho.
- Seria ótimo. – ela sorriu em agradecimento – Estou estudando bastante, apesar de não ter o desejo de advogar, pretendo ter a carteira, sabe, só por precaução.
- Eu também nunca me vi advogando. – ele sorriu de lado – Fiz a prova só para provar a mim mesmo que poderia passar.
- Passou de primeira?
- Não – ele confessou em tom de lamento –, mas tenho certeza que você passará!
E mais uma vez ele piscou para ela, a garota sentiu seu coração vacilar e novamente recebeu uma mensagem em seu celular:
: E aí, já se pegaram?
Milena rolou os olhos enquanto ria, achou melhor não responder, porém, sua feição causou uma pequena curiosidade no homem que a observava atentamente.
- Eu não tenho tanta certeza – a garota finalmente respondeu.
- Bom, no que precisar, eu estou à disposição para ajudar.
Ela sorriu agradecida e o assunto terminou ali, logo em seguida os alunos retornaram para a aula e ela sentiu que, sempre que podia, olhava diretamente para ela, o que rendeu, no caminho de volta, incontáveis piadas de e .


**********************


Alguns meses haviam se passado e estava uma pilha de nervos, primeiro porque a olimpíada de Direito Administrativo estava chegando e, por mais que tivesse treinado bem sua equipe, era uma grande responsabilidade carregar o nome de uma instituição de ensino que ele havia sido contratado há tão pouco tempo. Segundo porque estava cada vez mais próximo de .
Tudo começou depois que ele tomou coragem de mandar uma mensagem para o WhatsApp de sua aluna com uma apostila que poderia ajuda-la para a prova da OAB, a princípio tudo que falavam era sobre isso, provas e apostilas de estudos, porém, com o tempo, o assunto foi se desenvolvendo e eles compartilhavam algumas coisas de suas vidas, a garota não entendia muito bem o que estava acontecendo, visto que, em sala de aula nada havia mudado, não que ela exigisse um tratamento diferenciado, sabia que não precisava disso e sabia também que ele era profissional demais para tal, porém parecia uma pessoa completamente diferente quando conversavam pelo WhatsApp, a única certeza que tinha era que não seria ela a responsável por quebrar aquela barreira.
- E então, já mandou nudes para ele?
- .toUpperCase())! – a garota gritou e ouviu gargalhar.
- Ué, , vocês estão cheios de assunto – deu de ombros.
- Claro que não, né, o cara é meu professor. – quase sussurrou, apesar de estarem em um bar, era próximo à faculdade e muitos alunos frequentavam o local – Não sou do tipo que manda nude, você sabe.
- Sei que você não sabe viver, caramba, , nem parece que aprendeu comigo!
Milena negou com a cabeça e deu um gole em seu suco, dizendo:
- Nós não estamos flertando e eu já te expliquei isso, é mais como se fossemos amigos. – torceu o nariz pois no fundo ela queria bem mais que isso – Eu não sei o que pensar, ele me olha de um jeito mas ao conversar comigo me deixa com a sensação de que eu sou intocável, sei lá, como se não quisesse quebrar essa barreira de professor-aluna.
- E pra piorar tu ainda pega o cara pra te orientar no TCC. – comentou – Ele me parece ser muito respeitador, mas, acho que se você der o primeiro passo, ele não vai se opor.
- Eu não vou ficar com ele – reclamou –, já disse isso mil vezes.
- Você sabe que está falando uma coisa mas seus olhos dizem outra, né? – apontou a garrafa de cerveja para a amiga – Enfim, vamos voltar para aula, assistir ao menos o segundo tempo, não é só porque você é namoradinha do professor que estamos livres de levar falta.
Milena rolou os olhos com o comentário desnecessário da amiga e se levantou, o trio chegou na faculdade no horário do intervalo e foi direto para a sala assistir ao segundo tempo, viu os três entrarem, alguns alunos estavam por ali aguardando o fim do intervalo.
- Ué, achei que não tivessem vindo. – comentou, olhando fixamente para , ela estava especialmente mais bonita, sem perceber, a garota passou a se arrumar mais para as aulas de segunda-feira – Você não devia beber e voltar dirigindo, especialmente em uma segunda-feira.
- Eu fiquei só no suco. – se explicou – Só esses dois aí que não podem ver uma cerveja que já estão bebendo.
- Certo. – analisou os três a sua frente mostrando-se insatisfeito com a ausência deles no primeiro período de aula – Vou mandar para você os slides do primeiro tempo de aula, não se acostume com isso – piscou e ela sorriu.
- Obrigada, mestre! – ele podia jurar que no fundo tinha um tom provocativo em suas palavras, quando ela piscou de volta para ele e sorriu sugestivamente ele precisou morder o lábio inferior para reprimir suas fantasias mais profundas.
Se quisesse jogar aquele jogo, ele precisaria se atualizar para não ficar em desvantagem, há alguns anos não flertava com uma mulher, mas por ela, tinha certeza que valeria a pena.
A garota chegou em casa bem cansada naquele dia, tomou um banho demorado e relaxante, assim que vestiu uma camisa grande de algodão se ajeitou em sua cama pegando seu celular para uma última olhada nas mensagens antes de dormir.
Perdeu um tempo conversando com até que recebeu uma foto de com a mensagem:
: um anjinho.
Milena abriu um sorriso para a foto da garotinha dormindo pesadamente embolada em seu edredom cor de rosa, respondeu:
Milena: ela é linda!
: Puxou o pai, né?!
Milena: Não conhecia esse seu lado convencido, mestre.

Se envolver com uma aluna estava despertando nele as mais diferentes sensações e fantasias, e quanto ela o chamava daquela forma, deixando claro a hierarquia entre os dois, ele não conseguia achar nada mais provocativo.
: Por que você está me chamando assim agora?
Milena riu, se remexeu na cama e ergueu os travesseiros de modo a ficar com a parte superior do corpo erguida, quase se sentando na cama, digitou:
Milena: e não é isso que você é? Eu já aprendi muito com você, e algo me diz que você ainda tem muito para me ensinar.
, que estava pronto para entrar no banho, viu a mensagem brilhar na tela bloqueada de seu celular e prendeu a respiração por alguns instantes, sentou-se na banheira e pegou o aparelho pensando no que responder, preferiu ser sincero:
: não sei, acho que em certas coisas, você pode ser bem melhor que eu.
A garota riu bem alto ao ler a mensagem, não podia acreditar que aquele cara relativamente mais velho que ela, poderia ser tão inexperiente ao falar com uma mulher, tirou um print daquela conversa e mandou para :
Milena: !!!!!!!
: Mulher, o cara só transou pra fazer a filha, né?!
Milena: hahahaha, ele só teve a mãe da , até onde eu sei...
: e o que aconteceu com ela??
Milena: ele não me contou, mas desconfio que ele seja viúvo…

O homem viu que sua mensagem tinha sido visualizada e que a garota estava online mas não o respondia, sentiu-se idiota por ter deixado tão na cara sua total falta de experiência com as mulheres, pensou em apagar o que havia mandado mas como ela já tinha lido, achou melhor deixar para lá, quando estava prestes a bloquear o aparelho e lidar com a vergonha que lhe consumia, uma nova mensagem chegou e ele não pode deixar de sorrir.
Milena: não se preocupe então, mestre, te ensinar o que eu sei será um prazer.
Ele e haviam quebrado a barreira de segurança que silenciosamente haviam erguido, não que estivessem verdadeiramente arrependidos.
Na mesma hora ele abriu a janela de sua irmã, digitando:
: eu estou fodido.

Capítulo III

Raios e trovões cortavam o céu, odiava dirigir com tempo daquele jeito, mas, era o último dia de aula antes das provas e também antes da olimpíada, ela precisava chegar à faculdade para o curso e para a aula de , não tinha conseguido sair do trabalho pois a rua em que ele estava havia alagado e também não iria devido a uma forte gripe que ela tinha pegado naquela semana.
Deixou o seu lado nerd falar mais alto que o medo de ir para a faculdade naquela estrada ruim e completamente sozinha, dirigiu da forma mais cautelosa possível e quando entrou na cidade respirou aliviada, a chuva não havia diminuído mas ao menos estava em uma estrada bem sinalizada e sem buracos, o toque do seu celular tirou seu foco da estrada e ela viu o nome do professor brilhar na tela, atendeu a chamada e colocou no viva voz.
- Onde você está?
- Oi pra você também, mestre. – ela riu – Acabei de entrar na cidade.
- Eu tentei te ligar feito um louco – ele comentou –, tive que cancelar a aula, a faculdade está sem energia.
- Puta merda! – a garota exclamou – Agora já to aqui, eu tenho que sair mais cedo para chegar a tempo, o telefone não tem sinal no caminho, mas eu devia ter imaginado, basta um cachorro fazer xixi num poste que a luz acaba nesse lugar.
riu e completou:
- Bom, se te faz sentir melhor, eu tive que vir de ônibus pois meu carro quebrou, gastei uma fortuna comprando uma passagem de uma senhora visto que não havia mais nenhuma disponível e ainda tenho que procurar um hotel para passar a noite por aqui pois sequer tenho a passagem de volta para o Rio.
- Estamos bem então. – riu baixo – Você está aonde agora?
- Na faculdade, os professores estão decidindo se ficarão para aguardar a energia.
- Estou há cinco anos nesse lugar e, sinceramente, essa luz não deve voltar tão cedo. – encarou o céu carregado sobre sua cabeça – Você quer ir para Vassouras?
Perguntou, despreocupada, ele estranhou:
- Como assim?
- Assim, ué, entrando no carro e voltando comigo. – deu de ombros – Eu não quero voltar sozinha, a estrada é horrível, e de lá você consegue passagens com mais facilidade para voltar amanha, sem contar que eu conheço os hotéis e posso te indicar um bom.
- Hm, me parece uma boa proposta. – ele sorriu – Vou explicar minha situação aqui e te espero no portão do campus para não levantar suspeitas, pode ser?
- Certo – ela respondeu –, em vinte minutos eu já chego aí.
estava um pouco molhado quando finalmente viu o carro da garota entrar na rua da faculdade, não sabia precisar exatamente quando foi que decorou o modelo e até a placa daquele veículo, só sabia que era por ele que procurava sempre que chegava no campus.
Assim que ela encostou e destravou as portas, ele primeiro abriu a de trás para colocar sua mala e seu terno, depois abriu a da frente sentando-se desajeitado enquanto tentava fechar o guarda-chuva sem molhar tanto dentro do automóvel mas sem obter tanto sucesso.
- Tem alguém enrolado aí? – ela riu manobrando o carro assim que ele fechou a porta – Como você conseguiu se molhar tanto mesmo com guarda-chuva?
- Acho que é uma tecnologia que eu não sei usar muito bem. – riu, colocando objeto dentro de uma sacola e guardando-o no chão atrás de seu banco – E oi, minha querida aluna.
- Oi, mestre – ela se permitiu olha-lo por um instante enquanto ele desabotoava a blusa social branca que estava levemente grudada em seu corpo devido a chuva.
- Você não se importa, né? – ele quis saber – Digo, eu não suporto ficar com roupa molhada no corpo, me incomoda muito, mas se você se importar eu fico.
Milena olhou para ele novamente negando com a cabeça, riu levemente antes de completar:
- A menos que você não seja tão gostoso quanto eu imagino, eu não me importo, mas, se você for, por favor, não faça isso, vai me desconcentrar.
Ele não sabia como reagir a tal comentário, parou de desabotoar a camisa e ficou pensando no que fazer, ela riu mais alto dessa vez e completou:
- Arranca logo isso, , eu posso lidar com um homem sem camisa dentro do meu carro!
- Isso é ridículo! – ele disse, se livrando da peça molhada e colocando-a sobre sua mala no banco de trás – Você me deixa completamente intimidado.
- Não sou eu que estou seminua aqui – ela o olhou novamente, mordendo o lábio inferior com a visão privilegiada que tinha –, infelizmente.
Ele abaixou a cabeça antes de dizer:
- Tá vendo, é disso que eu estou falando. – riu nervosamente – Como você pode ser tão natural assim?
- Eu só falo o que eu penso – deu de ombros.
Eles ficaram em um silêncio confortável, ele não se privava de admira-la totalmente focada no caminho que fazia, depois de observá-la por um bom tempo finalmente disse:
- Você é linda!
Milena sentiu seu coração acelerar em seu peito, não de forma apaixonada pois, definitivamente, era cedo demais para envolver qualquer sentimento naquilo, mas de forma a se sentir vitoriosa por ter um cara como aquele a elogiando de forma tão verdadeira, ela olhou para o lado encontrando os olhos dele analisando-a de forma intensa, sorriu.
- Muito obrigada! – agradeceu, pois não era, nem de longe, o tipo de mulher que faz charme ao ser elogiada, retomou sua concentração na estrada e suspirou – Você acha que é uma boa ideia isso?
Ele se encolheu minimamente em seu lugar, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, molhou os lábios antes de dizer:
- Eu não colocaria tanta coisa em jogo se não achasse que é uma boa ideia.
- Eu não quero te causar problemas. – confessou – Mas, porra, cada mínima parte de mim se sente atraída por você.
Ele não esperava por aquilo, adorava o jeito espontâneo dela, isso era bem verdade, desde que suas conversas se tornaram mais íntimas, ela era sempre mais solta que ele, e isso era, sem dúvida, uma das coisas que ele mais admirava na personalidade dela.
- O único problema que você pode me causar agora é simplesmente estar ocupada demais para que eu possa te beijar da forma que eu venho sonhando todo esse tempo – despejou em uma só respiração.
Milena, em um total reflexo, armou a seta para a direita encostando no canto da estrada deserta e sem iluminação, não se importava com o perigo de parar ali, no meio do nada, a noite e com aquela chuva, ligou o pisca-alerta do carro, soltou o cinto de segurança e encarou o homem ao seu lado com calma agora.
Apesar da pouca iluminação pode ver que ele não esperava por aquilo, mas quando viu no fundo dos olhos dela suas reais intenções, também se livrou de seu cinto, virando-se levemente para o lado.
A respiração de batia em seu queixo e ela o olhava de uma forma tão intensa que sentia que seu coração poderia explodir em seu peito, não estava nem aí se ele era o mais velho, naquela condição, ela era melhor no controle que ele, sentiu a mão da garota bagunçar seus cabelos e descer levemente até a sua nuca, arranhando aquele local de forma preguiçosa e extremamente gostosa, sorriu.
- Acho que resolvi o problema.
Foi a última coisa que ela disse antes de tomar os lábios dele com um beijo urgente, por reflexo, passou a mão pela cintura da mulher a sua frente desejando estar em um lugar mais confortável e apropriado que um carro, porém, esqueceu desse detalhe desconfortável quando sentiu a língua macia de pedir passagem e não pode achar argumentos bons o suficientes para acabar com aquela loucura, ela sabia exatamente o que estava fazendo, sabia bem demais, sabia o bastante para que ele não se preocupasse, nem por um segundo, em ser racional.
- Desculpa – ela sussurrou afastando-se minimamente dele –, não deu para esperar chegar em Vassouras.
- Oh, não, nunca se desculpa por isso. – ele roubou um selinho dela – A menos que, para se desculpar, você me beije de novo.
Ela abriu um sorriso sentindo os lábios dele encostarem nos seus levemente devido a proximidade, disse baixo:
- Não é bom ficarmos parados aqui por muito tempo – afastou-se colocando novamente o cinto de segurança –, mas não se esqueça que precisamos achar um hotel para você, e seria mesmo uma pena se essa chuva me impedisse de chegar em casa e me obrigasse a dormir fora também.
Ela piscou levemente para o homem ao seu lado que sorriu incrédulo, era maravilhoso para ele saber que ela também o desejava de todas as formas que poderia ter. Foram em um clima aconchegante até Vassouras, onde dirigiu até um hotel distante do centro, estava enrolada em uma toalha aguardando terminar seu banho para pedir a ele uma roupa confortável para dormir, quando ligou para sua mãe apenas para avisar que não dormiria em casa.
- Mas você tem dinheiro? – a mulher perguntou, pela milésima vez.
- Tenho, mãe. – respondeu – Não se preocupe, eu só não fui para casa porque o centro estava alagado – não foi totalmente uma mentira, mordeu o lábio inferior prendendo um sorriso –, mas amanhã logo cedo eu estou aí.
Viu sair do banheiro com a toalha pendurada em seu pescoço e vestindo apenas com uma bermuda vermelha, observando-o melhor agora na claridade, não deixou de sorrir, ele se sentiu um pouco sem jeito mas sustentou o olhar da garota a sua frente, afinal, vê-la apenas de toalha e com os cabelos molhados e bagunçados o atraía de todas as formas.
- Tudo bem, qualquer coisa me liga. – a mais velha falou ao telefone – Te amo, juízo.
- Também te amo, minha véia, boa noite.
riu da forma com que se despediu de sua mãe e comentou:
- Eu realmente não crio minha filha para ela me chamar de velho.
- Mas você é! – se levantou, sorrindo diante da expressão dele.
- Ah, então é assim que você vai me tratar, é?! – fingiu-se ofendido.
Ela caminhou lentamente até ele, arranhou levemente o peitoral definido do homem a sua frente, sentindo-o contrair cada músculo e prender a respiração, se aproximou da orelha dele sussurrando:
- A sua sorte é que eu tenho uma queda por homens mais velhos. – mordeu levemente o lóbulo da orelha dele que involuntariamente a abraçou pela cintura, aproximando-se dela o máximo possível – Além de que, mestre, você da de mil a zero nesses meninos da minha idade – soltou uma risada falha –, a começar por esse corpo maravilhoso.
se afastou para olhar a menina nos olhos, encontrou-os tão intensos como de costume, alguns tons mais escuros, denunciando toda luxúria presente em cada lugar daquele quarto de hotel, ficaram em silêncio por um tempo, trocando olhares intensos, até que, impaciente, perguntou:
- O que foi? – sua voz saiu bem mais baixa e rouca, demonstrando um pouco sua insegurança que tanto tentava camuflar.
- Estou procurando um motivo para desistir dessa loucura.
Milena passou a língua entre os lábios, prendendo-o entre os dentes logo em seguida, uniu as sobrancelhas em forma de preocupação e arriscou dizer:
- Achou algum?
sorriu levemente, motivos para achar aquilo uma loucura? Claro que existiam, inúmeros deles, poderia em um segundo listar dezenas, mas, sabia que aquilo era inevitável, poderia fugir agora, mas e depois? Sempre foi extremamente centrado e politicamente correto, nunca imaginaria que um dia estaria naquela situação. Sussurrou em resposta:
- Alguns – viu a expressão da garota a sua frente mudar, podia jurar que ela estava brava com aquela resposta, mas antes que ela pudesse se desfazer do seu abraço ele completou –, mas nenhum deles é bom o suficiente para me fazer desistir disso.
Milena estreitou os olhos com um sorriso presunçoso, não pode dizer nada pois logo sentiu os lábios de nos seus, silenciando qualquer resposta que ela poderia dar, não reclamou, não pretendia dizer nada de qualquer forma, estavam sozinhos em um quarto de hotel e a última coisa que passava em sua mente seria aproveitar aquele tempo com uma conversa.
Achava extremamente sexy quando estava concentrado dando aula e amava quando passavam horas conversando sobre assuntos acadêmicos, mas, por mais que amasse a versão professor intelectual dele, estava muito mais interessada na versão que ele estava apresentando naquele exato momento enquanto despretensiosamente massageava sua pele por baixo da toalha que usava enquanto a beijava com urgência.
- Ops – soltou, forçando um tom de surpresa, quando se afastou minimamente permitindo que sua toalha escorregasse por seu corpo e caísse no chão, mordeu os lábios sob o olhar atento de .
Se antes ele tinha o mínimo de controle da situação, agora, vendo a garota completamente nua a sua frente, ele perdeu todo e qualquer resquício de sua razão.
- Você é maravilhosa, ! – sorriu de lado, analisando sem pudor o corpo a sua frente, se reaproximou da mulher segurando fortemente em sua nuca, puxando levemente seus cabelos repetiu, dessa vez bem próximo ao ouvido dela – Maravilhosa!
Milena sentiu uma corrente elétrica passar em todo seu corpo assim que começou a distribuir beijos e mordidas por todo seu pescoço, concentrou-se em sentir cada carícia que recebia com maestria até que se lembrou do que havia dito a ele uma vez, com as duas mãos espalmadas no tronco do homem a sua frente o afastou delicadamente, olhando em seus olhos pode empurrá-lo até a cama, deitando-o de qualquer jeito sobre o lençol branco, levou as mãos até o botão da bermuda que ele usava, esbarrando, propositalmente e lentamente, no volume considerável da excitação dele, arfou ao ouvi-la dizer:
- Eu te disse que te ensinar seria um prazer. – destacou a última palavra, sem quebrar o contato visual com ele, desabotoou a bermuda – Hoje eu que sou a professora.
Ele não tentou retomar o controle, a forma com que ela se comportava era tão excitante que sequer fez questão de qualquer coisa além de reagir com total entrega a tudo que ela fazia, realmente, ela tinha muito mais a ensinar à ele, e ele estava adorando aprender.


****************


- Transei com o .
Milena soltou de uma vez só assim que abriu a porta do quarto para que a amiga pudesse entrar.
- PORRA É O QUE? – a garota deu um berro, fechando a porta e passando a chave por precaução, tinha um irmão pré-adolescente que fazia questão de infernizar a vida dela – QUANDO, COMO, QUE?
- Ontem. – respondeu e estreitou os olhos unindo as sobrancelhas – E acho que você sabe muito bem como se faz isso.
riu incrédula, andou até que estava sentada bem a vontade em sua cama e se deitou ao lado da amiga, falando:
- Espera, me conta isso direito – fungou, sua gripe ainda não tinha passado totalmente. – É uma mudança muito grande de "nunca vou ficar com ele" – fez aspas com os dedos –, para isso.
- Eu fui sozinha ontem, chegando lá na faculdade não tinha luz, ele estava sem carro, precisava de um hotel para ficar a noite e voltar para casa hoje. – explicou – E eu, gentil como sou, me ofereci para indicar um excelente hotel aqui em Vassouras. – sorriu – Uma pena que o centro estivesse tão alagado, não pude voltar para casa – lamentou fazendo-se de desentendida e carregando no tom de pesar, colocando a mão direita sobre o coração de forma teatral e forçando um biquinho.
- Garota, eu sou sua fã! – riu – E como foi?
Milena não se preocupou em segurar o sorriso que surgiu em seus lábios, retirou o cachecol que usava e respondeu:
- Ia falar que foi maravilhoso, mas realmente não acho que essa palavra faça jus à noite de ontem.
- Caralho, que estrago que ele fez! – arregalou os olhos encarando as marcas no pescoço da amiga – Eu to muito orgulhosa de você e também morrendo de inveja!
- ! – deu um tapa no ombro da garota ao seu lado, rindo.
- Amiga, eu to na seca, não me julgue. – riu junto – Estou apostando todas as minhas fichas nos nerds gostosos que vão estar nessa bendita competição.
- Bom, se terão muitos nerds gostosos eu não sei, mas o meu eu sei que estará lá – ergueu uma sobrancelha –, e o seu também.
rolou os olhos negando com a cabeça, tinha entendido perfeitamente o que sua amiga estava insinuando.
- Eu realmente não sei porquê você insiste nessa ideia absurda, , o é meu amigo!
- Eu sei que você não é cega, só se faz de desentendida perto dele, mas nós duas sabemos que ele está mega na sua e você, meu amor, não me engana, já percebi você secando ele várias vezes.
- Depois que ele inventou de se enfiar nessa vida fitness ele tá gostosinho, ué, não sou cega, olho mesmo! – confessou – Mas continua sendo meu amigo.
- Tá, não vou discutir isso com você, só to te dizendo que tem certas coisas que, por mais que a gente queira, não da pra fugir.
- Uhum, tipo você e o professor gostoso.
- Exato, meu amor. – riu e se levantou – Enfim, eu preciso ir pra casa, deixei o na rodoviária e vim direto pra cá.
- ? – ergueu uma sobrancelha – Meu Deus, só falta você se apaixonar.
- Ih, nem joga praga pra cima de mim! – se levantou – To fugindo de romance, amiga, e você sabe, mas, eu passei a noite com o cara, não é um desconhecido, né!
- Tem certas coisas, Dona , que por mais que a gente queira, não dá pra fugir – repetiu as palavras da amiga.
- Tchau, fingiu que não entendeu o que a amiga tinha falado e saiu dali.

Capítulo IV

Se quando esteve em Curitiba visitando parte de sua família de lá chegou a conclusão de que aquele lugar tinha as quatro estações do ano em um só dia, sobre o Rio de Janeiro ela só tinha uma certeza: era apenas verão o ano todo.
- Deus, eu vou derreter! – reclamou, descendo da van que a Faculdade havia contratado para levar os alunos até o hotel onde ficariam hospedados durante aquele final de semana de competições na UFRJ – Não que eu esteja reclamando, viu, Paizinho. – a garota abaixou os óculos de sol até a ponta do nariz para olhar um moreno que passava correndo sem camisa por eles – Rio de Janeiro eu te venero!
gargalhou enquanto puxava a alça de sua mala ao colocar as rodinhas no chão, prendeu os cabelos buscando o mínimo de frescor em sua nuca e disse:
- , vai pegar sua mala e para de secar os cariocas.
entregou a bolsa enorme com estampa de oncinha para que nem sequer agradeceu, já estava envolvida em alguma conversa com , nenhuma das duas percebeu a cara de poucos amigos do colega, ele havia acabado de colocar os pés no Rio e já estava arrependido daquela ideia de ficar um final de semana inteiro vendo se jogar para todos os caras que passassem na frente dela.
- Mano, esse hotel é sensacional! – riu olhando seu quarto – Eu não acredito que desembolsaram essa grana toda!
- É o mínimo, né, amiga, com aquela mensalidade absurda que a gente paga. – se jogou em uma das camas – Só de pensar que daqui a pouco teremos que estar lá na UFRJ já me dá uma preguiça, queria ficar aqui, ir a praia que está logo ali do outro lado da rua me chamando.
- Parece que nunca esteve no Rio. – riu, enquanto retirava seu celular da bolsa para checar as horas – O mandou a programação desse final de semana no grupo, você viu?
- Não. – , que estava deitada de costas na cama, se ajeitou de lado apoiando a cabeça em sua mão logo perguntando – Qual vai ser?
- Temos que estar no restaurante do hotel meio dia em ponto, depois do almoço vamos pegar a van e encontra-lo lá na UFRJ, lá ele vai nos explicar como vai ser a primeira fase de competições que vai até as sete e trinta da noite. – terminou de ler e deu um sorriso – Depois vai ter um jantar de confraternização com todos os alunos, coordenadores, professores e diretores dos cursos de Direito das faculdades que estão participando.
- Esse momento é meu! – sentenciou e riu – É mesmo uma pena que você já esteja amarrada, amiga, foi bom sair pra caçar com você um dia.
A garota abriu a boca em forma de indignação e logo respondeu:
- Já te disse que não estou amarrada, apaixonada, namorando ou qualquer outra coisa que você insista em colocar sobre meu relacionamento com . – torceu o nariz ao usar a palavra "relacionamento" mas não conseguiu pensar em outra expressão – Não é só porque eu estou saindo só com ele por todos esses meses que estamos em um relacionamento sério, eu posso ficar com outras pessoas e ele também – disse mesmo sabendo que a ideia a incomodava um pouco. – Mas não vou sair me jogando pra ninguém só pra te provar qualquer coisa.
- Tua TPM é um inferno, hein, garota! – riu – Foi só um comentário, bebê, e pelo amor de Deus, melhora esse humor. – reclamou. – E, ah, não se esqueça que eu conheço você o suficiente para saber que a ideia de ver o com outra pessoa te incomoda, meu amor, e muito! Vocês estão há meses nessa de dividir aquele hotelzinho de Vassouras quase toda semana, nunca assistiu àquele filme com o Justin Timberlake e a Mila Kunis não? Que eles só transam até se apaixonar...então, não existe essa de "só sexo" – fez aspas com os dedos –, uma hora vai dar merda, é a lei da vida, amizade com benefício não funciona.
- Você devia tomar menos conta da minha vida pra ver se pelo menos assim você enxerga que é tão fodida emocionalmente quanto eu, porque não sou eu que sou apaixonada pelo meu melhor amigo e fico me esforçando para magoa-lo a fim de afasta-lo porque sou medrosa demais para viver um amor que com certeza é correspondido – quase gritou, sentindo-se realmente irritada. – Enfim, eu vou tomar meu banho.
Estressada, pegou suas coisas e se dirigiu para o banheiro deixando uma pasma para trás. A última coisa que estava era apaixonada, ela sabia bem disso, ou pelo menos gostava de pensar que estava no controle daquilo. despertava nela os mais profundos desejos carnais que poderia ter e tinha absoluta certeza que era apenas isso, apenas pele, apenas química. O beijo encaixava, o sexo era maravilhoso, ela sabia exatamente o que ele gostava e vice-versa, e era só, quando cansassem dessa brincadeirinha com certeza iria cada um para o seu lado e viveriam suas vidas de formas separadas.
Odiava a ideia de ter seu destino atrelado ao de , atrelado ao destino de alguém que já tinha conquistado tudo que ela ainda teria que lutar para ter, só de pensar que mais uma vez poderiam ignorar o que ela havia conquistado pelo simples fato dela estar envolvida com um homem já maduro profissionalmente já sentia vontade de sumir da vida de antes que fosse longe demais naquele relacionamento dos dois.
Só percebeu que estava tempo demais no banho quando alertou que não conseguiriam se arrumar e descer na hora certa para o almoço, já saiu devidamente vestida do banho e sem trocar uma palavra com a amiga pegou seu estojo de maquiagem para fazer algo bem básico e que conseguisse resistir ao calor do Rio.
Não queria olhar para , não que estivesse brava com a amiga, mas o que ela havia falado tinha deixado pensativa demais sobre a situação que se encontrava, sabia que no fundo tinha razão, ela poderia sim flertar com alguém se quisesse, mas ela não queria, simplesmente não tinha vontade de fazer isso, e sabia também que se apaixonar por não era nada indicado no momento. Deixou uma mensagem no WhatsApp avisando que encontraria e desceu antes de sair do banho.
Pode ver o amigo sentado à mesa com os outros três alunos que os acompanhavam naquela viagem e faziam parte do time que representava a faculdade deles, não quis se sentar com eles, por isso, a garota afastou a cadeira e sentou-se um pouco distante, sabia que iria para perto dela e não demorou muito até ouvir a voz dele perguntando:
- Cadê a ?
- Está terminando de se arrumar – respondeu e viu o amigo se ajeitar na cadeira a sua frente.
- Vocês brigaram?
- Mais ou menos. – apoiou os braços sobre a mesa e perguntou – Você acha que se descobrirem que eu estou com o vão dizer que eu só consegui vaga nessa competição por conta disso?
- Ah, não, , essa história de novo? Você é boa, todo mundo sabe disso, todo mundo percebe isso.
- Você é homem, esquece – riu sem humor.
olhou entrar pela porta de vidro do restaurante, ela retribuiu o olhar dele e ergueu os ombros quando percebeu que o amigo não estava entendendo o porquê de estar daquele jeito.
- Eu quero te entender e te ajudar. – ele disse, sem jeito – Me deixa tentar fazer isso.
se aproximou dos dois um pouco receosa, não sabia se estava chateada com ela por alguma coisa, e também se sentia estranha por ter feito parte da pequena discussão que elas tiveram, por isso ficou apenas parada, de pé atrás da cadeira que estava ao lado da amiga, aguardando para saber qual seria seu próximo movimento. suspirou e disse:
- Senta, , eu não estou chateada com você, é só a minha TPM mesmo!
- Ai, graças a Deus, eu achei que estivesse. – deu um sorriso sem jeito e se sentou ao lado da amiga – Te conheço o suficiente para saber que essa TPM só está potencializando algo, o que está acontecendo, ?
- Eu só estou...pensando. – respondeu – , se você ficasse com aquela professora de Direito do Trabalho que deixou todos os meninos de quatro por ela, o que você acha que as pessoas falariam?
- Com certeza que eu sou foda de ter conseguido pegar a professora mais gata de toda faculdade. – ele soltou um sorriso vitorioso, levou as mãos até a nuca e se reclinou na cadeira – Eu seria um mito!
Ele não percebeu o que tinha acabado de falar, era tão natural para ele que sequer notou o suspiro derrotado de e a compreensão iluminar o rosto de que se limitou em dizer:
- Ser mulher é uma merda mesmo!
- Você não queria me entender? – sorriu sem ânimo e se levantou para arrumar seu almoço, sem antes completar – Agora o que você acha que vão falar de mim se descobrirem que eu estou com o ? O que você falaria de mim se não me conhecesse, ? – quando ele se colocou nesse lugar, quando ele imaginou o que ele próprio falaria se não conhecesse , quis vomitar, o machismo era algo tão natural que ele não conseguiu segurar a expressão de tristeza em seu rosto, concluiu – É exatamente esse o ponto.
Um silêncio cortante se instalou na van durante todo caminho do hotel até a UFRJ, estava parado próximo ao local de recepção do evento e sorriu ao ver seus alunos, em especial, , que estava – ao seu ver – deslumbrante.
- Nervosos? – ele perguntou, sem segurar o sorriso no rosto.
- Bastante – uma das alunas respondeu.
- Vocês estudaram, treinaram, estão prontos para isso. – garantiu o professor – Hoje vamos nos subdividir em duas equipes, as provas serão escritas e orais também, e eu vou separar vocês de forma a destacar os pontos fortes de cada um. – explicou – Três vão para o stand de prova escrita e três vão para o auditório, onde serão as provas orais, no final do dia será apurada a pontuação de cada equipe e teremos uma classificação preliminar, não se preocupem com isso, eu quero que vocês relaxem, acreditem em si mesmo e se divirtam, eu acredito em vocês!
Os alunos sorriram animados com aquelas palavras do professor, até , que já estava mais calma e se obrigara a afastar todo e qualquer pensamento que não tivesse relação com a competição, respirou fundo e foi para o auditório acompanhada de e um outro rapaz da equipe, segundo , eles tinham pensamento rápido e conseguiriam responder as questões oralmente com mais facilidade.
Estavam todos caminhando em direção ao salão onde aconteceria o jantar, a equipe de tinha fechado em sexto lugar na qualificação geral naquele dia, o que não era, nem de longe, algo ruim, pelo contrário, deu a eles mais vontade para melhorar a pontuação no dia seguinte.
- Bom, aparentemente vão nos expulsar desse evento pois é necessário ter no mínimo noventa anos para participar, eu não acredito que fiquei tão animada para esse baile da terceira idade – reclamou e deu uma cotovelada no braço da amiga.
- Tem professores e mestres renomados aqui. – riu, tinha achado graça do comentário de sua aluna – Sei que vocês estão jovens e querem diversão, mas eu aconselharia aproveitar esse momento para conversar com alguns desses juristas e fazer contatos.
Os alunos se dispersaram pela multidão que enchia o salão, ficando apenas o professor, , e , que não se conteve e soltou mais um comentário:
- Aquele ali tá muito tempo parado. – apontou para um senhor sentado à grande mesa onde seria servido o jantar – Não é melhor checar para ver se ele está vivo não?
riu alto dessa vez, negando com a cabeça. interviu:
- Para de falar essas coisas, , pelo amor de Deus!
- , eu queria sair daqui com a barriga cheia de comida e com alguns contatinhos, mas olha, só tem múmia nesse lugar e comida de rico que é totalmente sem graça! – cruzou os braços e encarou – Sem ofensas.
- Falou a pobre! – riu – Vem, vamos arrumar uma coxinha bem gordurosa pra você!
mordeu os lábios totalmente sem graça quando ouviu o professor perguntar:
- Ela é sempre assim?
- Às vezes é pior. – confessou e os dois riram.
- Vem, eu quero te apresentar ao meu mestre, o responsável por eu ter escolhido a área administrativa.
apenas sorriu sem mostrar os dentes e acompanhou andando apressadamente ao seu lado, viu que atacava a mesa de frios meio contrariada enquanto conversava com algumas pessoas que ela deduziu serem alunos de alguma outra faculdade.
Pretendia fazer alguma gracinha para na tentativa dela aliviar a expressão irritada, porém, um par de olhos azuis tomaram seu campo de visão e ela foi despertada por uma voz macia e suave:
- ! – a mulher exclamou e puxou o homem para um abraço íntimo demais e demorado demais para o gosto de – Quanto tempo!
- Margot! – ele exclamou, sentindo-se estranhamente desconfortável com a situação – Pois é, você não avisou que estava de volta.
- Na verdade, eu avisei sim. – a mulher respondeu, soltando-se do abraço mas manteve-se segurando as mãos de – Deixei recado algumas vezes com a sua secretária, eu perdi seu número pessoal mas achei que você me ligaria assim que recebesse o recado.
A mulher parecia decepcionada e se sentia totalmente alheia àquela conversa, mil perguntas rondavam sua mente e ela olhava para pedindo socorro, não sabia se deveria continuar ali fingindo-se de morta, como se fosse um enfeite do salão, ou se deveria simplesmente sair, pedindo licença e chamando a atenção de ambos para si.
Noutro ângulo, um completamente sem graça tentava manter as rédeas da situação, sabia que Margot estava de volta ao Brasil depois de sua especialização na Alemanha, sua secretária havia sim passado o recado, mas ele estava com e simplesmente não julgou certo procurar aquela mulher novamente.
Margot era uma mulher maravilhosa, inteligentíssima e extremamente atraente, tinha com uma espécie de acordo, nenhum dos dois tratava aquilo como relacionamento, eles se supriam sexualmente e era apenas isso, sabiam que ela teria que partir para a Alemanha e não assumiram nada, mas ela deixou a entender, quando ele a levou no aeroporto, que quando voltasse, queria dar a devida atenção àquilo que ambos tinham.
Ele julgou conveniente à época, uma mulher como Margot realmente não era para qualquer um, porém, algo aconteceu no meio do caminho e esse algo estava bem ao seu lado e se ele pudesse cavar um túnel e sumir dali, com certeza já o teria feito.
- Minha secretária anda com alguns problemas pessoais. – inventou uma justificativa – Tem se esquecido de alguns recados, desculpe.
A loira ostentou uma fileira de perfeitos dentes brancos e alinhados e sentiu como se levasse um soco no estômago, não poderia competir com aquele monumento, ela sabia.
- Tudo bem, , eu entendo. – tombou a cabeça levemente para o lado antes de cravar os olhos em – Desculpe, não falei com você!
respirou fundo, apesar de se sentir intimidada com a presença daquela mulher que parecia ter acabado de sair da capa de uma revista, não queria transparecer sua vulnerabilidade, sempre tinha sido tão cheia de si, não poderia deixar se abalar por aquele momento. Apenas sorriu e respondeu:
- Que isso, não precisa se desculpar. – respondeu de forma tão natural que a encarou, surpreso – Eu já estava mesmo de saída. – estreitou os olhos de forma a parecer o mais simpática possível e concluiu – Obrigada, professor, pelas dicas, tenho certeza que nos sairemos melhores amanhã.
não conseguiu responder nada, já se movia graciosamente até a mesa de frios onde a esperava com um ponto de interrogação estampado no rosto, a amiga mal se aproximou quando ouviu:
- Quem é aquela vagabunda?
- Margot. – forçou a voz tentando imitar o timbre da loira. – Pelo pouco que percebi, era o lanchinho certo do , ou ainda é, não sei.
- Ela acha que ainda é. – comentou, apontando com queixo para onde estava.
se virou disfarçadamente para ver as mãos de Margot subindo e descendo carinhosamente pelo braço do homem a sua frente, ele estava paralisado, acuado e totalmente sem reação, mas a mulher parecia não perceber, falava e falava animadamente, soltando algumas risadas e parecendo bem à vontade na presença de .
logo percebeu, ele tentava esconder a situação, mas o pânico estampado no rosto dele denunciava tudo, ele e Margot tinham intimidade, até demais, e isso a deixava meio tonta.
- Se te serve de consolo, a mulher é maravilhosa e eu me sentiria lisonjeada de ser a substituta dela.
negou com a cabeça enquanto beliscava alguns aperitivos da mesa a sua frente, se aproximou delas perguntando:
- Quem é essa que a gente odeia?
- Margot – as duas amigas responderam juntas, ambas imitando a voz da mulher.
- Você quer sumir, ? – o rapaz perguntou, preocupado.
- Daqui não, o está certo, esse lugar está cheio de gente fera e eu quero fazer alguns contatos e pegar algumas dicas. – olhou ao redor, seus olhos pousaram nos de seu professor, ele esboçou um sorriso mas ela se manteve indiferente – Mas não quero ficar vendo isso, vamos para o outro lado do salão.
Durante todo o jantar a sensação que corroía era a de que ela e pertenciam à dois mundos completamente diferentes, ele conversava com Margot e outros doutores e mestres com uma clara intimidade enquanto ela, por mais que tivesse conversado com um ou dois professores, não se sentiu a vontade em momento algum e por isso optou em trocar palavras apenas com e .
Estava odiando a situação, mal tinha entrado na vida de e já sentia perdendo sua própria identidade, sentia como se estivesse sempre atrasada em relação à ele, não sabia dizer se estava ficando paranoica ou se, como sua amiga tinha acusado mais cedo, a TPM estivesse tirando seu raciocínio, o fato era que sentia como se aquele salão estivesse sufocando-a com uma corda de realidade que ela não conseguiria se livrar tão facilmente.
- Eu acabei de falar com o motorista da nossa van que não voltaremos com ele. – comentou sentando-se novamente em seu lugar à frente das amigas – Vou chamar um Uber, não precisamos ficar aqui e eu estou vendo no seu rosto que você não quer ficar.
observou a movimentação do trio de amigos que se mantiveram afastados dele durante toda noite, havia mandado algumas mensagens para que até tinha visualizado mas achou por bem ignorar, nunca foi boa para lidar com a frustração, quando se sentia frustrada com ela mesma era impossível que alguém conseguisse fazê-la se sentir melhor.
Os três se levantaram dando sorrisos educados de despedida aos que estavam sentados por perto e caminharam para a saída do salão sob o olhar atento do professor que apenas acordou de seu transe quando ouviu a voz de Margot:
- Está tudo bem, ?
- Sim, tudo certo. – ele respondeu, tomando mais um pouco de sua água com gás – Eu acho que já está ficando tarde, não é?
- Ora, , você já foi mais animado! – ela sorriu para ele, um sorriso carregado de segundas intenções o que ele fez questão de fingir que não tinha reparado – Estão todos aqui ainda.
- É, mas a tem essa mania de ficar me esperando acordada. – justificou e a mulher sorriu mais ainda.
- Que saudade daquela coisinha fofa!
Ela tinha falado aquilo para ver se ele a convidaria para ir até sua cobertura, ambos sabiam disso, mas ele nem sequer tinha pensado nessa hipótese, pretendia sim levar alguém para casa aquela noite, e esse alguém não era Margot.
Ignorou a indireta da mulher e se levantou, pendurando o terno em seu braço antes de se despedir devidamente de todos os presentes e dar um abraço rápido em Margot, que o surpreendeu com um beijo íntimo no canto dos lábios, suspirou fundo com o ato, teria tempo de esclarecer as coisas com ela depois, no momento, sua mente martelava em busca de informações de onde poderia estar, visto que, pode reparar que os outros três alunos de seu time continuavam por ali pelo salão e não demonstravam menor interesse em ir embora dali.
Saiu pela porta principal já com o celular em mãos prestes a ligar para sua aluna quando a viu próxima a calçada abraçada à e com uma tagarelando ao lado dos dois, aproximou-se, cuidadosamente, sem ter certeza do que exatamente estava fazendo ali.
- Oi. – disse sem jeito, chamando a atenção dos três amigos, mas seu olhar se prendeu nos olhos de , não pode deixar de notar que eles pareciam abatidos, nada como estava acostumado até então – Será que a gente pode conversar?
soltou uma risada debochada e totalmente sem humor e ele a olhou sem entender, como ela não tinha a menor pretensão de guardar o que se passava por sua cabeça, deu voz à seus pensamentos:
- Agora o lindo quer conversar? Ah, tá!
- ! – alertou, sentindo-se exausta, voltou seu olhar para seu professor e completou – Nosso Uber já deve estar chegando.
deixou que seus olhos caíssem e encarou seus próprios pés por alguns segundos, sentia-se culpado, em momento algum colocou Margot em seu devido lugar, não queria admitir isso mas no fundo sabia que sua imagem sempre era elevada entre os outros colegas de profissão quando ele ostentava uma mulher como aquela à seu lado, para ele, era cômodo demais, não se colocou no lugar de pois não julgava grande coisa fazer aquilo, mas aparentemente, era algo muito maior que ele poderia imaginar.
- Vamos lá pra casa, a gente conversa com calma e depois eu te deixo no hotel se você quiser – pediu novamente.
escondeu o rosto no pescoço de que a abraçou mais forte, de forma protetora, como sempre fazia, não era mulher de fugir de uma conversa séria, mas sentia-se tão cansada com aquela sensação, se sentir tão distante do homem que estava ocupando seu pensamento ultimamente não era nada confortável, nunca tinha experimentado o sentimento de não ser boa o suficiente para alguém, simplesmente não conseguia lidar com aquilo.
- Tudo bem. – suspirou, derrotada.
- Tem certeza, ? – perguntou, segurando o rosto da amiga e analisando cuidadosamente sua feição – Você não precisa ir se não quiser, vocês terão tempo para conversar depois.
rolou os olhos, nada tirava de sua cabeça que tinha uma certa atração por , fingia não se importar com aquilo, mas aquela cena o deixou um pouco irritado.
- Não sou mulher de "depois" e você sabe! – ela forçou um sorriso tentando passar confiança para o amigo, abriu sua bolsa e tirou o cartão chave de seu quarto e entregou para que apenas sorriu para a amiga.
caminhou ao lado de em um total silêncio até seu carro, sentou-se confortavelmente no banco ao lado do motorista, nenhum dos dois, porém, percebeu que eram atentamente observados por um par de olhos azuis curiosos com a situação.
Os dois não trocaram nenhuma palavra por todo percurso, ela parecia atenta demais a paisagem linda que aquela cidade apresentava, observava cada detalhe enquanto tentava organizar seus pensamentos, entender seus sentimentos e alinhar o que precisava ser dito. Só acordou de seu transe quando viu o grande portão do prédio em que morava se abrir e ele quebrar a escuridão do estacionamento com o farol de seu carro, fazendo com que as luzes do local se acendessem a medida que eles avançavam.
Foi no silêncio do elevador que ela se deu conta de um detalhe muito importante, encarou e perguntou:
- A , ela...
- Está com a minha mãe. – respondeu dando um sorriso de lado, mostrando que pretendia terminar a noite com em seu apartamento de qualquer jeito.
Ela concordou sorrindo também e o seguiu até a porta, olhou em volta, o ambiente bem decorado e amplo da sala de estar, era de tirar o fôlego a cobertura em que ele morava, muito parecida com a que ela própria tinha morado por um tempo.
- Seu apartamento é lindo. – elogiou.
- Minha irmã decorou para mim, por isso é lindo. – riu – Se dependesse de mim eu teria só a TV e um sofá e tá ótimo!
- Homens. – ela rolou os olhos – Enfim, a gente tem mais um dia de competição amanhã, vamos direto ao ponto.
Ele não esperava por aquilo, apesar de saber que não era uma mulher de rodeios, vê-la tão na defensiva o deixava perdido. Como numa tentativa de se auto proteger, usando uma ferramenta que é amplamente utilizada no mundo masculino, ele tentou reverter a situação colocando a mulher no banco dos réus, ajeitou a postura e a encarou, perguntando:
- Qual é a do , hein? Há quanto tempo ele está apaixonadinho por você?
deixou que uma expressão de incredulidade tomasse conta do seu rosto, simplesmente não podia acreditar que tinha ido até ali para ser julgada e não para ter uma conversa, soltou uma risada irônica e cruzou os braços.
- Foi para ouvir um absurdo desses que você me trouxe aqui?
- Não se faça de desentendida, ! – ele não percebeu, mas elevou o tom de voz, sem saber ao certo o motivo de estar agindo daquela forma. – Eu vejo o jeito que ele age com você.
- Entenda, , que nada nem ninguém irá tirar o espaço que o tem na minha vida. – ergueu o dedo indicador para ele esperando coloca-lo em seu devido lugar. – Ele é meu amigo, ele é como um irmão, nós nunca tivemos nada além disso, não é como se ele fosse uma Margot na minha vida!
A menção do nome da loira fez se lembrar o motivo de ter levado até seu apartamento, sabia, discutir não era, nem por um momento, uma opção para ele, mas se sentia tão ameaçado com o olhar da garota que achou que virar o jogo seria uma boa ideia, mas ao sentir a mágoa no tom de voz dela, ele se desarmou totalmente.
- Eu e ela tivemos algo – confessou, agora, com a voz baixa em tom de culpa.
- Não me diga.
se jogou no largo e aconchegante sofá claro que estava a sua frente.
- Isso foi antes de você, , ela foi para a Alemanha, ficou muito tempo por lá, eu conheci você e estou com você agora, eu te prometo que não foi nada além de...
- Sexo? – ela o interrompeu – Nada além do que nós dois temos agora, não é? Como ela estava do outro lado do mundo você decidiu que precisava de uma substituta e aqui estou eu ocupando esse espaço vazio. Mas agora ela está de volta, , e eu realmente não estou interessada em me meter nessa confusão.
- Você está sendo injusta, ! – sentenciou ele, passando as mãos pelos cabelos sentindo-se desesperado – Você nunca se importou com o tipo de relacionamento que temos aqui, pelo contrário, sempre fez questão de fugir de qualquer rótulo, eu não estou entendendo o que você quer.
- EU QUERO MINHA SEGURANÇA! – sem perceber, ela se levantou e abriu os braços, sentindo um incômodo nó na garganta – Eu fui criada tendo de tudo um pouco, , melhores escolas, melhores roupas, uma casa excelente, intercâmbio nos Estados Unidos, férias na Disney e tudo mais que qualquer um pode sonhar, mas eu tive tudo isso porque os meus pais batalharam para crescer na vida, nunca foi um dinheiro meu, nunca foi uma conquista minha e eu não posso sequer imaginar a hipótese de passar o resto da vida à sombra de alguém. Eu não me acomodei à realidade dos meus pais e eu não vou me acomodar à sua!
andou de um lado para o outro se sentindo enjoado, sua mente começava a esboçar o que poderia estar sentindo, mas antes que pudesse falar qualquer coisa ela continuou:
- Olha ao seu redor, isso tudo aqui é seu, é seu pois você estudou, se esforçou, conquistou tudo isso. – sentiu uma lágrima teimosa escorrer pelo seu rosto – Esse jantar de hoje só serviu para me mostrar que você está em um patamar que eu ainda terei que ralar muito para chegar, um patamar que eu não quero alcançar com a ajuda dos meus pais e muito menos com a sua ajuda, um patamar que a Margot já está. E eu não invejo ela, de forma alguma, eu a admiro, ela é linda, , pude perceber que é bastante inteligente, com toda certeza uma mulher sensacional, e eu...eu estou aqui tentando lidar com a frustração de ainda não ser tudo que você merece, de estar querendo competir com uma outra mulher quando na verdade eu só deveria admirá-la, estou tentando lidar com a frustração de deixar que tudo isso me afete tanto.
Ele andou até ela apressadamente, segurando o rosto feminino a sua frente e enxugando as lágrimas que escorriam por ele, nunca imaginou em ver vulnerável daquela forma, e seria completamente injusto se desse para ela algo menos que sua total sinceridade, não seria fácil, mas respirou fundo antes de falar:
- Eu sabia que a Margot estava de volta ao Brasil, não imaginei que ela estaria no jantar hoje, mas sabia que ela me procuraria. Desde que ela voltou eu não a procurei, inclusive ignorei todas as tentativas dela de contato, eu poderia ter sido claro com ela, ter terminado tudo definitivamente, mas eu...Eu fui covarde, ! – suspirou, descendo as mãos pela nuca da garota, passando pelos ombros, braços, até segurar as mãos dela, sem quebrar o contato visual – Eu odeio dizer isso, minha mãe foi fundamental na minha criação, eu tenho uma irmã, e, por Deus, uma filha! Não me orgulho de dizer o que estou prestes a dizer e sei que isso é extremamente machista e que pode doer em você, me perdoa por isso, mas a verdade é que eu gostava da sensação de me sentir respeitado entre meus colegas de profissão ao ter uma mulher como Margot comigo.
fechou os olhos ao ouvir aquelas palavras, sentia-se esgotada com a carga emocional daquela conversa, principalmente, sentia-se culpada por ter caído naquela competição tola, afinal, mais uma vez, a forma com que as coisas funcionam na sociedade a fez competir, mesmo que só em seu íntimo, com Margot. Ela se comparou, se rebaixou, julgou ser menos que outra mulher, uma mulher que sequer conhecia.
- , isso é...
- Horrível, eu sei. – ele a interrompeu – Eu não me orgulho disso e prometo à você que serei totalmente sincero com ela, que irei conversar e esclarecer tudo.
- Tudo o que? – riu desanimada.
- Que eu encontrei outra pessoa. – respondeu – Que encontrei alguém que me faz sentir como se fosse o cara mais sortudo do mundo, que encontrei alguém que me faz feliz, que me completa, eu realmente quero que a gente dê certo, , e eu entendo seu lado e espero o tempo que for até você se sentir pronta para isso. Eu só te peço, por favor, não se sinta menos do que você é, pois você já é muito mais do que eu poderia merecer. Olha para mim, eu sou homem, só isso já me faz ser inferior a você.
Ele arriscou a brincadeira e ela soltou uma risada, respondendo:
- Com isso eu sou obrigada a concordar.
- Eu sei. – ele riu também – Fica aqui comigo essa noite, eu quero ficar bem com você.
- Amanhã temos mais um dia de competição, , e eu...
- Amanhã a gente pensa nisso. – ele interrompeu – Hoje eu preciso de você aqui, comigo.
Ela estudou as feições dele encontrando nada menos que sinceridade em seu olhar, sorriu derrotada, sabia que não teria como negar um pedido daquele. O motivo de insistir em um relacionamento que estava, claramente, fadado ao fracasso, parecia a maior burrice para ela, mas não podia negar, a encorajava a ser a melhor versão dela mesma e isso era tudo que precisava.
- Você ficou quanto tempo na frente do espelho treinando essa carinha de cachorro sem dono?
- Bastante tempo, na verdade. – ele riu – Deu certo?
- Vem, me mostra onde é o banheiro. – ela sorriu indicando o corredor com a cabeça – Eu preciso urgentemente de um banho.

Capítulo V

mantinha os olhos arregalados, tensa pelo filme de terror que insistia em assistir, o quarto ficava ainda mais escuro com aquelas cenas quase sem iluminação. O longa estava no ápice, o misto de expectativa e pavor agradavam a garota que soltou o maior grito de todos os tempos quando, num momento importante do filme, seu celular apitou ao seu lado.
- PUTA MERDA, , O QUE FOI? – levantou, assustado, estava quase dormindo.
- Essa piranha da mandando mensagem justo na parte mais tensa do meu filme! – pegou o aparelho. – Que porra, não acredito que ela me assustou para me falar o óbvio.
- Que vai dormir com o ?
- Uhum – respondeu enquanto digitava mil palavrões para a amiga.
- Claro que vai – rolou os olhos e se levantou. – Bom, já que você me acordou eu vou para o meu quarto que amanhã será um longo dia e eu preciso descansar esse cérebro acima da média que eu tenho.
- Nem pensar que você vai me deixar aqui, Einstein – ironizou. – Eu acabei de ver o filme mais assustador da história dos filmes assustadores e não tenho condições psicológicas para dormir sozinha neste quarto.
riu e se esticou para acender a luminária que ficava entre as duas camas, vendo o medo real no rosto de e percebendo naquele momento que, discutir com ela, seria a maior perda de tempo.
- Eu te falei para não assistir a esse filme, não foi por falta de aviso.
- Deus, será que um dia você vai largar essa vida de jogar as coisas na minha cara? Quando você vai entender que não importa seus avisos, eu vou fazer mesmo assim?
- Olha, eu to te fazendo um favor aqui, ok? Se eu fosse você eu seria muito legal comigo – brincou, percebendo o tom de voz divertido da amiga.
- Não enche, .
- Ah, é? – ele riu e se levantou, caminhando apressadamente até a porta. – Boa noite, , tenha excelentes sonhos.
fechou a porta e a pouca luz do quarto tornou o ambiente um tanto quanto assustador. A garota sentiu seu coração palpitar rapidamente com as cenas horríveis invadindo seus pensamentos sem pedir licença, parecia paralisada de tanto medo, seu cérebro demorou para reagir, quando se deu conta de que o rapaz de fato saiu do quarto deixando-a sozinha ali, ela se levantou num pulo e abriu a porta, encontrando o mesmo encostado na parede do outro lado do corredor.
Bufou.
- Não acredito que você fez isso só para piorar minha situação – rosnou.
- Só para você perceber o quão importante eu sou na sua vida.
- , entra logo aqui!
Ele riu da cena patética que os dois estavam protagonizando, mas não podia deixar de admirar totalmente linda naquele misto de irritação e medo, encolhida em uma camisa de malha três vezes maior que ela – ela nunca fora muito fã de pijamas de qualquer forma – esperneando feito uma criança assustada, com voz arrastada e infantil, cabelos bagunçados, olhos marejados e um leve biquinho nos lábios que o fazia querer beijá-la de uma vez por todas.
- Pede direito – prendeu o riso.
- , é sério? – ela estreitou os olhos, irritada, mas quando viu um sorriso sacana brotar nos lábios dele, negou com a cabeça, sabendo que ele não iria se mover caso ela não dissesse o que ele queria ouvir. – Por favor, , meu amigo mais lindo de todos, dorme comigo essa noite, eu preciso que você fique, eu estou com medo.
caprichou na carinha de pedinte como se soubesse exatamente os efeitos que aquilo causava em seu amigo. No fundo, fazia sim uma ideia, não era burra, mesmo tentando enganar e até mesmo ela própria, sabia dos sentimentos secretos de por ela, porém, a simples ideia de trazer este assunto à pauta a assustava mais que o filme que acabara de assistir, pois, talvez, só talvez, também sentisse algo confuso demais em relação ao garoto a sua frente.
- Você parece uma criança! – ele riu, atravessando o corredor e entrando no quarto.
o acompanhou e deu graças a Deus quando ele acendeu a luz do quarto e procurou pelo controle da tv, desligando o aparelho logo em seguida. A garota pulou novamente em sua cama, cobrindo seu corpo com um lençol fino e pegando seu aparelho celular.
Em uma tentativa desesperada de esquecer as cenas horríveis do filme, abriu seu Instagram e rolou a página curtindo uma foto aqui outra ali, por um breve instante esqueceu de , porém arregalou os olhos ao vê-lo sair de cueca do banheiro. Ele ergueu o rosto a fim de pergunta-la se podia apagar a luz mas desistiu de falar qualquer coisa ao encontrar o olhar dela sobre seu corpo.
- Ninguém te falou que é perigoso tomar bomba? – ela tentou brincar, disfarçando o clima entre os dois e voltando a rolar seu feed do Instagram, mesmo que quisesse admirar o corpo do homem a sua frente mais um pouco.
- Sou naturalmente gostoso, meu amor, a genética é boa – ele riu, um sorriso mais convencido por tê-la flagrado que pela sua própria piada. – Posso apagar?
- Uhum.
Ele negou com a cabeça mordendo levemente os lábios, pensando que nunca teria o mínimo de abertura para investir em afinal. Apagou a luz do quarto, voltando a contar apenas com a luminária para iluminar o cômodo, e se ajeitou novamente na cama vazia que seria de , dessa vez sentindo-se mais confortável sem a calça jeans que outrora usava.
- Posso apagar essa também? – apontou para a luminária.
- Pode! – respondeu sem sequer olhar para o amigo.
se esticou novamente para alcançar o botão para apagar a luminária, o quarto ficou ainda mais escuro, ele observou o rosto concentrado de sendo iluminado apenas pela luz do celular que ela segurava, era impressionante para ele como uma face tão familiar poderia se apresentar de forma tão diferente cada vez que ele olhasse.
Ela sentiu que estava sendo observada, como já havia se sentido em outras ocasiões, assim como soube, pelo tom de voz dele ao desejar "boa noite" e se virar de costas para ela, que ele estava ficando impaciente com essa situação.
Os dois – apesar de constantemente viverem em um relacionamento descontraído – tinham esses momentos de silêncio, vez ou outra, onde ambos sabiam exatamente o que estava acontecendo, tinham conhecimento da tonelada de palavras não ditas, mas, por alguma razão, preferiam manter tudo debaixo do tapete.
Enquanto ele tinha certeza de que estava – há um bom tempo – perdidamente apaixonado pela sua amiga, a conhecia bem demais para saber que não combinava em nada com relacionamentos sérios e todo clichê que ele pintava em sua cabeça. Respeitava isso, nunca havia dito nada nem tentado nada, era sua amiga, afinal de contas, e prezava demais sua amizade.
Em contrapartida, sentia seu coração diminuir um pouquinho a cada batida pois sabia, claramente, que nem em um milhão de anos acharia alguém como , ambos se conheciam bem demais, achava arriscado a ideia de colocar uma amizade tão bacana a prova em um relacionamento amoroso que poderia não dar certo, mas enquanto ele já havia decidido que valeria o risco, ela não tinha tanta certeza.
Deixou que o cansaço tomasse conta de seu corpo e fechou os olhos sentindo-se esgotada, relaxou toda sua musculatura e se entregou ao sono que chegava aos poucos, dormir sempre foi sua melhor fuga para todo e qualquer problema afinal.
Enquanto ela dormia calmamente, se remexia, inquieto, na cama ao lado, a sensação de tê-la ali tão perto o deixava agitado demais para conseguir descansar. Respirou fundo pedindo a Deus para que ela estivesse dormindo e arriscou deitar virado para ela. Sentiu-se derrotado ao se dar conta de que o quarto estava escuro demais para que ele pudesse enxerga-la, tudo que queria era observar dormindo calmamente e fantasiar uma situação que nunca aconteceria, onde dividir uma vida com ela fosse parte de sua rotina.
Sentindo-se cansado daquilo, se levantou achando que ela não acordaria mais e que poderia voltar para seu quarto, dormir ali com ela era uma tortura além da que ele poderia suportar. Tateou a cama de forma desajeitada até encontrar a poltrona onde havia deixado sua roupa, encontrou sua calça jeans e ao se preparar para vesti-la ouviu resmungar, logo após soltar um grito assustada e se sentar na cama, completamente ofegante.
Correu até a luminária, acendendo-a, a luz fraca invadiu o ambiente totalmente escuro, ele se abaixou ao lado da cama da amiga e fez um carinho de leve em seus cabelos, colocando uma mecha atrás da orelha e sussurrando:
- Tá tudo bem, foi só um pesadelo.
, que respirava com dificuldade, tendo as cenas do sonho ruim ainda muito presentes em seus pensamentos, passou a língua entre os lábios antes de rolar os olhos e dizer:
- Não era para eu ter assistido àquele filme, como sempre, você tinha razão.
- Como sempre? – ele sorriu presunçoso. – Gostei disso, pena que você está sonolenta demais para saber o que está falando.
Ela riu, negando com a cabeça.
- Você ia fugir de mim, é? – apontou para a calça jeans na mão dele.
- A cama da é muito dura. – inventou uma desculpa – Achei que você não acordaria.
- Troca comigo – sugeriu , já se levantando e se deitando na cama ao lado –, mas, por favor, não me deixa aqui sozinha.
Derrotado e sem ter escolha, jogou a calça na poltrona e deitou na cama antes ocupada por , nenhum dos dois se atreveu apagar a luz da luminária, ficando deitados um de frente para o outro, separados apenas pelo espaço de uma pequena mesinha ao meio das duas camas.
- De zero a dez?
- O que? – perguntou. – Meu medo?
- Uhum.
- Onze! – os dois sorriram. – Acho que não volto a dormir hoje.
- Somos dois. – "por motivos diferentes", quase completou, mas sabia que este tipo de comentário estava proibido no acordo silencioso que tinham sobre seu relacionamento.
- Tenta dormir, , eu te chamo qualquer coisa.
- Certeza?
Ela concordou com a cabeça dando um leve sorriso, ele não se virou de costas dessa vez, apenas fechou os olhos e tentou, com todas as suas forças, afastar todo e qualquer pensamento que envolvesse a mulher deitada na cama ao lado. Não soube ao certo quanto tempo passou, mas quando estava prestes a se entregar ao sono, ouviu chama-lo, era um sussurro, mas ainda assim, suficiente para despertá-lo.
- Desculpa. – ela deu de ombros, sem graça – Eu não to conseguindo dormir, realmente to me cagando de medo aqui. – riu da expressão horrível e ele riu junto. – Posso deitar aí?
O corpo todo de entrou em alerta, mas afinal, poderia negar um pedido desse? Via através dos olhos dela que de fato estava bastante assustada. Ergueu o lençol e se encolheu no canto da cama, dando espaço mais do que suficiente para se deitar ao lado dele, e assim ela fez.
se deitou de frente para , podia sentir a respiração dele em seu rosto, podia ver de perto os detalhes até então desconhecidos para ela, como uma pequena pinta próximo ao olho esquerdo, ou a volta esverdeada de sua íris, era mesmo muito bonito, tanto seu interior quanto exterior ostentavam uma beleza que ela aprendeu a admirar com tantos anos de convivência.
Ele, sem saber ao certo como agir e sentindo-se sufocado com a situação, sussurrou:
- Boa noite, , qualquer coisa é só gritar de novo.
Ela sorriu em resposta e o assistiu fechar os olhos lentamente, de repente, todo medo tinha sumido, toda a sensação de insegurança, de estar em perigo. Ali, na mesma cama que ele, ela continuava sem conseguir pegar no sono, mas agora os motivos eram outros. Pela primeira vez sua mente brincava com a possibilidade de dar uma chance real àquele sentimento, de jogar para o alto as inúmeras barreiras que silenciosamente eles tinham construído, se pegou fantasiando como seria o beijo dele, cada toque, principalmente, como seria dividir uma vida com alguém pela primeira vez.
Talvez tivesse razão afinal, na discussão que tiveram mais cedo naquele dia, ela realmente poderia estar jogando fora a oportunidade de viver algo único, tudo por ser insegura demais com relacionamentos, havia aprendido da pior forma – dentro de sua própria casa especificamente – que o amor era algo muito distante da realidade, ela era fruto de um casamento destruído e pais mentalmente desiquilibrados, por Deus, não fazia ideia de como amar alguém e se doar para fazer outra pessoa feliz.
E sabia que era importante demais para fazer parte de um experimento amoroso dela, sabia que não poderia simplesmente acordar um belo dia sentindo-se enjoada dele e decidida a expulsa-lo de sua vida como facilmente fazia com os outros homens com quem havia se relacionado.
Mas estranhamente, analisando todas as suas inseguranças, naquele momento, para ela, só fazia sentido deixar para trás a vida de solteira, se fosse com , só com ele parecia certo.
Despertou de seu transe quando ele se mexeu ao seu lado, rapidamente fechou os olhos a fim de fingir que estava dormindo, no instante seguinte ele abriu os dele, sua respiração pesada denunciando o nó em sua garganta.
Era isso.
Ele havia chegado ao seu limite.
Acreditando que ela estaria dormindo novamente, ele se levantou com cuidado e puxou o lençol para o lado, precisava sair dali. Mas antes que pudesse levantar, sentiu a mão de segurando seu pulso, virou-se para trás e encontrou os olhos dela, o medo que outrora moldava seu rosto havia sumido, e pela primeira vez ele não soube lê-la com precisão.
- Fica. – ela suplicou em um sussurro.
- Eu não posso, – ele fechou os olhos e respirou fundo, não queria chorar na frente dela. – Você sabe – mencionou o acordo mudo entre os dois, onde falavam nas entrelinhas sobre um assunto que nunca seria discutido abertamente –, eu não posso.
- Por favor, eu quero que você fique.
Ele trincou a mandíbula e fechou os olhos, ouvi-la pedir daquele jeito o quebrava em mil pedaços, se fosse antes, ficaria, mas naquele momento, ele estava cansado de se colocar em uma situação tão torturante só para satisfazê-la, estava na hora de ser um pouco egoísta e se colocar em primeiro lugar.
- Me desculpa, , mas eu não consigo mais.
- Como assim?
E então finalmente ele se viu no momento certo, o momento que ele tanto esperou para colocar para fora tudo que o sufocava por anos, respirou fundo antes de responder, com a voz embargada pelo choro:
- Você não tem ideia do quanto dói em mim saber que nunca vou ter você do jeito que eu desejo, – ela se encolheu, ele nunca tinha falado o nome dela daquela forma, como se sentisse raiva. – Eu juro por Deus que posso conviver com isso, eu já estou mais do que acostumado, você é minha amiga, é uma pessoa importante demais para mim e eu nunca, nem em um milhão de anos, colocaria tudo a perder por um sentimento que eu sei que você não tem a menor obrigação de retribuir. Eu respeito você e te prometo que nunca vou te dar motivos para se sentir triste por eu me encontrar nessa situação, não é sua culpa afinal, nem minha, nem de ninguém, só aconteceu. Eu posso lidar com isso, posso lidar com você beijando vários caras diferentes na minha frente, posso lidar com seus comentários sobre qualquer homem que você se sinta no mínimo atraída. Isso me machuca? Sim, , machuca demais, mas eu posso lidar com isso – ela sentiu sua garganta fechar ao ver uma lágrima escapar dos olhos esverdeados a sua frente. – Mas não me peça para deitar na mesma cama que você, te ver tão perto assim de mim, sentir sua respiração na minha pele e não poder fazer nada a respeito, porque isso, , isso é demais para mim, tudo tem um limite, e por mais que seja divertido para você me provocar, para mim essa situação já perdeu a graça faz tempo.
Ele se levantou sentindo-se confuso e irritado, principalmente por estar prestes a chorar na frente dela, demorou algum tempo até digerir todas as palavras dele e finalmente responder:
- O que te faz pensar que eu me divirto com isso? Caramba, , você é importante para mim também! – sentou-se na cama observando-o vestir a calça jeans. – Eu não fico feliz com essa situação!
- Jura? – ele riu num tom sarcástico. – Você sempre soube, , sempre soube, nunca falamos sobre mas todo mundo percebe o que está acontecendo aqui, e mesmo assim você nunca se esforçou para me poupar de situações e comentários que você sabia que iriam me machucar.
- Esse é o meu jeito, caramba! Eu sou impulsiva, eu falo o que eu penso, eu sou assim! Se você não pode lidar com isso então, sinto lhe informar, mas você se apaixonou pela mulher errada.
- Sem dúvida, se eu pudesse escolher, não seria você – ele despejou, irritado, e ela sentiu como se aquelas palavras fossem uma faca em seu peito. – Como eu disse, não há um culpado e eu posso lidar com isso sim – terminou de vestir a blusa e foi até a porta do quarto, colocou a mão na maçaneta e, antes de abri-la, resolveu voltar, aproximou-se perigosamente do rosto dela soltando as palavras sem desviar o seu olhar dos olhos da amiga. – Eu posso lidar com o fato de você ser impulsiva porque é justamente isso que eu mais amo em você.
, que estava sentada na beirada da cama, se levantou rapidamente. Há tempos ignorava todos os seus instintos quando se tratava de , pensava duas vezes antes de toca-lo, de abraça-lo, de fazer um carinho, mesmo com a amizade dos dois, morria de medo de piorar a situação, mas ali percebeu que não havia como piorar ainda mais o que já estava uma bagunça, por isso, já que ele amava a impulsividade dela, resolveu pela primeira vez fazer algo que sentia que devia fazer em relação à ele.
Passou seus braços ao redor da nuca do rapaz a sua frente e encostou seus lábios no dele, o sabor salgado das lágrimas de ambos não diminuía em nada a magia daquele momento secretamente desejado pelos dois. , que era o extremo oposto de e que geralmente pensava mil vezes antes de qualquer coisa, perdeu todo seu lado racional ao sentir a língua da garota profundando o beijo, passou seus braços pela cintura dela trazendo-a mais para perto a fim de tornar aquele momento eterno, mas logo seu bom senso o trouxe repentinamente à realidade e ele se afastou rapidamente dela.
- Você não quer fazer isso – ele disse –, vai por mim, você vai se arrepender depois.
- Eu quero fazer isso, – respondeu, olhando fixamente para os olhos dele. – Eu não sei como vai ser amanhã, você está pensando nisso agora, eu conheço você, mas eu não sou do tipo que pensa no futuro, eu to pensando nesse momento aqui, e nesse momento eu quero você. Sei que você já está lidando com coisas demais sobre mim, e entendo se você for embora, não sei o que será depois mas estou te oferecendo o meu agora, se você puder lidar com mais isso, eu to aqui, e eu quero você.
A voz dela estava carregada em um tom que ele até então não conhecia, transbordava desejo, pegando-o totalmente desprevenido. Realmente, sua sanidade o obrigava a sair correndo dali e se guardar de um sofrimento maior.
Era como se ele estivesse prestes a usar uma droga, que, apesar de proporcionar um extenso prazer, também seria responsável por despertar um vício que ele não poderia manter, mas já havia experimentado os lábios dela nos seus e isso já era mais do que suficiente para ele não conseguir voltar atrás.
Dessa vez foi que iniciou o beijo, agora com mais urgência e desejo, permitindo experimentar pela primeira vez todo prazer que sempre desejou sentir com a mulher que ele estava perdidamente apaixonado.


***************


observava em seu sono tranquilo ao seu lado, admirava cada detalhe de seu rosto e sentia-se atraída demais pelo que via e sentia quando estava com ele, olhou ao seu redor imaginando como seria uma vida com ali, como a filha dele reagiria se um dia soubesse da existência dela, como a família dele se comportaria com o fato dele estar envolvido com uma aluna.
Sentia-se, de certa forma, sufocada, não sabia se era pelos seus inúmeros pensamentos ou se pelo calor infernal que fazia mesmo com o ar condicionado fazendo seu trabalho, nunca se acostumaria com o clima do Rio de Janeiro.
Levantou-se com cuidado para não acorda-lo, pegou a camisa social que usava mais cedo e se envolveu nela, caminhando lentamente até a parte exterior da cobertura, o céu estrelado a recebeu de forma gloriosa e ela não pode deixar de sorrir, o vento fresco da madrugada espantava um pouco o calor, mas não o suficiente para que ela resistisse à piscina ao seu lado. Desfez-se da camisa e mergulhou, permitindo que a água afastasse a confusão de sentimentos que a rodeava, odiava de todas as formas a capacidade humana de complicar coisas que deveriam ser simples.
Nadou por um tempo até ouvir a porta de vidro abrir revelando um sonolento e confuso caminhando até a piscina.
- Você é maluca?
- Estava com calor – respondeu, nadando preguiçosamente até a borda onde ele se ajeitava em uma espreguiçadeira. – Esse Rio de Janeiro é um inferno.
- Você se acostuma com o tempo.
- Eu e o nunca tivemos nada – ela disse repentinamente o pegando de surpresa.
demorou um tempo para entender do que se tratava aquilo, olhou para a mulher a sua frente sentindo-se um pouco perdido, até que se lembrou do início da discussão dos dois mais cedo onde ele, num ato de desespero, insinuou que poderia estar apaixonado por ela. Negou com a cabeça respondendo:
- Você não me deve explicações quanto à isso, , eu queria te atacar porque eu me sentia sob ataque, foi uma coisa estúpida que eu disse e te peço desculpas por isso.
- Eu sei – ela respondeu, mas resolveu continuar. – Minha mãe é chefe do departamento jurídico de uma multinacional que por acaso meu pai é um dos diretores, como eu disse, dinheiro nunca foi um problema para mim, sempre tive uma vida sem restrições, a única restrição era o tempo livre com os meus pais que sempre trabalharam muito, mas eu tinha a Beta – sorriu ao lembrar-se da mulher –, a mãe do , minha babá que era meio cozinheira, meio governanta, meio...mãe, ela já trabalhava lá em casa há alguns anos quando eu nasci, o é alguns meses mais velho que eu e nunca conheceu o pai, por não ter com quem deixa-lo, Beta o levava para minha casa todos os dias, crescemos juntos.
estava amando o fato de conhecê-la um pouco mais, apesar de saber que se aprofundar nas histórias um do outro abriria um caminho para que aquilo se tornasse um relacionamento mais sério do que ambos imaginavam ter inicialmente. Mas se ela não se importava em se abrir, ele se importava menos ainda em ouvi-la, por isso, observava atentamente enquanto ela contava sua história. continuou:
- sempre foi excelente com as pessoas, não havia uma sequer que não gostasse dele, sempre inteligente, prestativo, comunicativo, meus pais viram nele um potencial e se ofereceram para pagar o colégio dele, parecia uma boa ideia coloca-lo para estudar comigo, e assim, ele saiu da rede pública e foi fazer o Ensino Médio no mesmo colégio que eu.
Neste ponto da história sentiu a garganta fechar e as lágrimas brotarem em seus olhos, ele percebeu a dor no rosto dela e disse:
- , você não precisa me contar se não quiser, está tudo bem, eu confio em você.
- No primeiro dia de aula eu encontrei as minhas amigas – ela continuou, ignorando os protestos dele. – Eu era uma adolescente mimada e sem ter ideia do que de fato era o mundo, conversávamos de nossas viagens de férias, das futilidades de sempre, eu achava que era a rainha do colégio, isso era patético – riu sem humor. – Até que uma amiga disse "ei, olha, , não é o garoto que limpa a piscina da sua casa?". Eu olhei para o portão e o veio sorrindo para mim, eu poderia dizer que ele era meu amigo, eu poderia dizer que ele era como um irmão, que ele era nada menos que o cara que me ouvia, que cuidava de mim, que me dava os abraços mais seguros do mundo e que sempre se importou comigo, mas tudo que eu disse foi "é ele sim, o filho da empregada". Elas ouviram a resposta e ele também, a forma com que o sorriso sumiu do rosto dele me fez quebrar em mil pedaços, eu me sentia um lixo mas sabia que, naquele momento, eu tinha acabado com toda e qualquer amizade que eu tinha com o .
- Você era adolescente, , adolescentes fazem coisas estúpidas.
Ela negou com a cabeça deixando que uma lágrima rolasse pelo seu rosto.
- Isso não é problema de adolescente, , isso é desvio de caráter – respondeu. – Eu passei metade do ano letivo sem falar com o por vergonha, a única que falava com ele na sala era a , na época, aluna nova como ele, tinha acabado de se mudar para Vassouras e eles pareciam se dar super bem, eu ficava com ciúmes, tinha perdido meu único amigo de verdade, mas não tinha direito de tentar mudar isso. Quando numa tarde quente num final de semana qualquer, minhas amigas apareceram na minha casa para tomar banho de piscina e levaram a com elas, a viu o limpando a piscina como ele sempre fazia para ajudar a mãe e ganhar um dinheirinho, foi até ele e deu um abraço apertado e ainda se ofereceu para ajudar, foi naquele momento que eu percebi que há muito tempo eu já criava essa barreira entre o e eu, quando minhas amigas estavam lá em casa eu fingia que não o conhecia, por isso ele não se surpreendeu com o que eu havia falado no colégio, eu percebi que ele já esperava aquela atitude de mim e eu me senti a pior pessoa do mundo.
sabia que nunca iria experimentar sentimento pior do que experimentou naquele dia, reviver isso ainda doía demais nela, mesmo sabendo que era parte do passado.
- Enfim – afastou os pensamentos e olhou com olhos marejados para . – Passamos por cima disso com a ajuda da que sempre foi uma pessoa muito melhor do que eu, diga-se de passagem. O resto das minhas amigas passaram a me ignorar por eu ser amiga da garota maluca e do filho da empregada, mas a questão é que, nem em um bilhão de anos, eu poderia ter a sorte de ter essas duas pessoas na minha vida novamente, por isso eu te falei aquilo, ninguém ocupa o lugar do no meu coração, eu sinto um amor indescritível por ele e isso nada tem a ver com um relacionamento amoroso, inclusive, no momento, eu só estou torcendo para que ele tenha aproveitado a oportunidade de estar sozinho com a e tenha ficado com ela de uma vez por todas!
se endireitou na cadeira e sorriu de lado, perguntando:
- Então quer dizer que ele e a ...
- Ele é louco por ela – sorriu. – Mas é a , né, nunca saberemos o que se passa realmente na cabeça dela, mas me arrisco a dizer que ela gosta dele também.
sorriu com a ideia remota de fazer parte daquele círculo tão forte de amizade, mesmo com a diferença de idade, ele aprendera a identificar pessoas boas e procurava sempre se cercar delas.
- Tomara que eles se ajeitem então – respondeu. – Agora vem, vamos entrar, ta esfriando um pouco – se levantou.
soltou um sorriso de lado e ele mordeu os lábios ao vê-la se afastar da borda da piscina e ficar de pé pela primeira vez, completamente nua, a água batia pouco abaixo de seus seios. Os cabelos molhados, os lábios vermelhos, aquele corpo que ele tanto amava sendo iluminado apenas pela luz da lua cheia no céu, nada poderia ser mais poético que aquela imagem.
- Por que você não entra aqui, hã?
Ele se livrou da cueca que usava e mergulhou para perto dela, tomando os lábios dela para si, era como se nunca se cansassem de se conhecer e se entregar um ao outro com toda intensidade que tinham.

Capítulo VI

O celular de gritava no criado mudo ao seu lado e ela tentava, com todas as suas forças, ignorar aquele som irritante, parte porque não queria acordar, parte porque não queria ter que lidar com , não sabia como iria reagir acordando ao lado dele, mas estranhamente gostava da ideia.
Quando resolveu abrir os olhos para atender o telefone, se deu conta de que o rapaz não estava mais ali, bufou sentindo-se um pouco chateada, atendeu a chamada um pouco irritada:
- Porra, , tem mais o que fazer não?
- Desculpa, , eu tive que madrugar aqui no hotel para ninguém desconfiar de nada, não podia simplesmente chegar na competição com o – sussurrou. – Abre a porta pra mim aí, por favor.
apenas desligou o celular e se levantou vestindo sua camisa de malha, olhou ao redor apenas para garantir que nada ali denunciava o que havia acontecido entre ela e , caminhou até a porta e abriu, dando espaço para uma com olheiras profundas, porém, com um sorriso leve nos lábios.
- Nossa, sua cara está péssima. – comentou, andando até sua mala para separar a roupa que usaria bem como seus pertences de higiene pessoal, sabia que não conseguiria voltar a dormir.
- Digamos que eu tenha feito coisas mais importantes que dormir esta noite.
riu com a vontade de concordar com a frase da amiga, mas optou por não dizer nada, apenas se dirigiu até o banheiro deixando uma sonolenta em sua cama. Durante o banho pensou na noite que passara com , assustando-se com o fato de que sua mente imaginava a cena em que ela o recebia com um selinho no restaurante e eles poderiam finalmente agir como um casal sem que ninguém se metesse nisso, mas ela sabia, agir dessa forma seria impossível e precipitado.
Saiu do banheiro com uma toalha enrolada nos cabelos a fim de seca-los, o vestidinho de verão estampado com flores dava-lhe um ar de menina que parecia quase contraditório a mulher que era, foi até sua mala para pegar o protetor solar para o rosto que usava diariamente e percebeu que a encarava com um sorriso no rosto, logo entendeu do que se tratava mas não pode falar nada, a amiga praticamente gritou:
- Eu sabia!
- ... – ergueu as sobrancelhas.
- Abre aspas – começou, olhando a tela do celular. – Desculpe-me não acordar do seu lado hoje, te conheço o suficiente para saber que você surtaria com isso, mas como eu disse, posso lidar com isso. A noite foi maravilhosa, obrigado por ser maravilhosa – sorriu, vitoriosa –, fecha aspas.
- Quem te deu o direito de ler as minhas mensagens? – rosnou.
- As notificações ficam na cara, eu fui ver a hora e li – ergueu as mãos. – Você e o transaram, meu Deus, você e o transaram muito!
- Cala a boca, !
marchou até a amiga recuperando seu celular e relendo as mensagens que acabara de ler, sem segurar o sorriso que estampou o seu rosto com a nova mensagem que chegou:
: E, ah! Você fica linda dormindo, viu? Babando meu braço todo e com um olho meio aberto, mas mesmo assim, posso lidar com isso também hahaha.
- Você está sorrindo – observou e fechou a cara. – Não adianta disfarçar, meu amor, eu quero os detalhes na minha mesa agora.
se sentou de frente para a amiga na cama, enquanto retirava a toalha dos cabelos e penteava os fios, sussurrou:
- Eu esperava ficar mais arrependida se um dia isso acontecesse, mas não estou nem um pouco arrependida, – confessou, e, pela primeira vez, conheceu uma versão insegura de . – Quero dizer, não é só porque ele é bom de cama, porque isso ele é, devo ressaltar – riu –, mas porque ele é bom em tudo, ele é bom em não me fazer querer sair correndo depois do sexo, sabe? Ele é bom em me deixar querendo só me deitar com ele e ficar conversando sobre coisas aleatórias até pegar no sono, ele é bom em me fazer sentir confortável na presença dele.
não escondeu o sorriso orgulhoso em seu rosto, estava tão feliz pelos amigos que mal podia se conter. Respondeu:
- Vocês são amigos, antes de qualquer coisa, amigos há anos! Desde que se conheceram tiveram uma afinidade fora do comum, você se sente a vontade com ele porque é ele, ! Não deixe que paranoias e inseguranças bobas te impeçam de viver algo tão legal, não se preocupe com isso, não jogue peso nisso, ele gosta de você justamente por ser assim, leve.
sorriu, dizendo:
- Prometo tentar, mas você sabe, eu nunca estive em um relacionamento antes, nunca me apeguei a ninguém e eu tenho esse talento natural pra fazer merda, sem contar que eu não faço ideia de como amar alguém dessa forma, . Eu nunca presenciei uma demonstração de carinho dos meus pais, nem entre eles nem deles em relação a mim, eu não sei como agir, eu sou programada para afastar as pessoas.
- Você está com medo de machuca-lo, né?
- Morrendo – confessou . – Ontem eu percebi o quanto essa situação estava machucando ele, e sinceramente, , a ideia de viver uma vida sem o nela é assustadora demais, ele é uma das pessoas mais importantes da minha vida.
- Eu sei disso, e sei também que vocês irão descobrir um jeito de fazer isso dar certo. E quanto aos seus pais, eles não são normais e nós já chegamos a essa conclusão há algum tempo – as duas riram. – A boa notícia é que você não é nem um pouco igual a eles, portanto, apenas expresse seus sentimentos, o é o cara mais certo do mundo para lidar com isso, fala sério, ele é um príncipe!
concordou, mesmo que no fundo ainda estivesse insegura demais em relação a como agir na presença dele, mas se lembrou que antes de tudo eram melhores amigos, e quando ele a recebeu com um sorriso no rosto e uma xicara de café, não tentou ter uma conversa séria e ainda debochou dela por ter tropeçado ao chegar no restaurante do hotel para o café da manhã, ela soube que sabia lidar melhor com ela do que ela mesma, e que como havia dito, não havia motivos para tornar aquilo um peso.


*********


O último dia de competição havia passado tão rápido que o grupo só se deu conta de que tinha acabado quando ocupavam o lugar destinado à equipe classificada em terceiro lugar, e os alunos estavam radiantes, não esperavam por aquele resultado, mas estavam desfrutando daquela tão merecida recompensa diante de tanto esforço.
- Como vamos fazer? – perguntou, analisando sua medalha com um sorriso no rosto. – Cara, nem acredito que nós conseguimos ficar entre os três melhores.
- Nem eu! – exclamou desviando o olhar de sua própria medalha para os olhos do amigo a sua frente, respondendo-o. – Vamos para o hotel junto com todo mundo, o vai nos buscar lá e depois vamos para a tal boate que ele falou.
- Eu dei uma leve pesquisada e, gente, sério, já frequentei lugares incríveis, mas se essa boate for tudo isso mesmo que tá no site deles, olha, eles estão de parabéns – comentou, enquanto rolava a página que lia na internet sobre o lugar que iriam.
- Com o pagando? Não duvido que seja realmente um espetáculo de lugar – comentou. – Então vamos, a van já vai sair.
Todos os alunos iriam passar no hotel apenas para pegar seus pertences e ir embora para suas casas, apenas o trio ficaria por mais uma noite, e eles estavam ansiosos pela noite que os esperava, então, estava tão empolgada que não conseguia ficar parada, por esse motivo, vendo a cara de cansaço de seus amigos, optou por sentar ao lado de outra aluna do grupo na volta para o hotel, a fim de tagarelar todo o caminho com aquela que era igualmente agitada.
aproveitou aquele momento a sós com , deitou a cabeça em seu ombro e recebeu a mão dele sobre a sua, entrelaçando seus dedos num carinho sincero que sempre externava a amizade que tinham, resolveu perguntar o que estava preso em sua garganta desde que soube superficialmente da noite que seus amigos tiveram:
- Como vocês estão? – ao ouvir a voz feminina, logo soube do que se tratava, sabia que perceberia tudo assim que chegasse, era bem transparente em todos os aspectos, as duas eram muito amigas, é claro que ela saberia.
- É difícil dizer – o rapaz suspirou. – Não é como se eu tivesse esperanças até agora, eu estou me esforçando de verdade para não cria-las, inclusive, mas é difícil, nós tivemos uma noite incrível juntos e tudo parecia tão certo, sabe?
- Sei – soltou o ar pelo nariz num sorriso discreto. – E para mim parece certo também, vocês são melhores amigos, quais as chances de dar errado?
negou com a cabeça com um sorriso quando ouviu a gargalhada de ecoar na parte dianteira do veículo em que estavam, ela agora conversava animadamente com o motorista que achava graça de tudo que a menina falava.
- Você sabe que são todas as chances do universo – ele deu de ombros. – Somos amigos e ela age como se isso fosse nossa maior barreira, enquanto eu acho que na verdade é nosso maior trunfo, ela vem de um mundo diferente do meu, os pais dela...
- , por favor – o interrompeu, erguendo a cabeça e olhando-o nos olhos. – Você sabe que ela não é nada como eles.
- Eu sei, , eu sei disso, mas isso não me impede de pensar como seria um pesadelo tê-los como sogros.
apertou ainda mais seus dedos aos do rapaz ao seu lado, tentando passar o máximo de confiança e compaixão que podia, sorriu quando ele massageou as costas de sua mão com o polegar e finalmente falou:
- Sabe o que eu acho? Que ela ama você, de verdade, não como um amigo ou como um irmão, como eu amo, ela quer você, se não quisesse, não teria dado abertura para que vocês passassem a noite juntos, talvez ela não faça ideia disso ainda, talvez ela não saiba como te falar isso, sabe que ela é um cubinho de gelo para essas coisas, né – ambos riram. – Mas eu tenho absoluta certeza que quando ela se der conta de que é você que ela quer, ela vai lutar com quem quer que seja para conseguir, e isso inclui os pais dela.
- Aí é que tá, , eu realmente preciso ser motivo para mais discussão entre eles? Eu não me sinto confortável nessa situação, sem contar que, até ela perceber, se ela perceber, eu faço o que? Continuo assistindo ela beijar vários caras estranhos por aí? Antes eu lidava com isso, realmente nunca imaginei que teria sequer um beijo dela, nunca imaginei que teria uma só chance, mas agora...agora é diferente.
- Ela vai perceber, , a cabecinha dela é complexa sim, mas ela vai se tocar antes mesmo do que você imagina, eu a vi hoje pela manhã, os olhinhos brilhando enquanto falava de você – ambos sorriram, principalmente ele, que ficou curioso para saber o conteúdo da conversa, mas sabia que o assunto que rolava entre elas nunca chegava até ele. – E sobre os pais dela, você se sente confortável abrindo mão um sentimento tão lindo desse por uma coisa tão baixa e tão suja como o preconceito deles por você ser o filho da empregada?
- Você sabe que não é só a minha falta de dinheiro que os preocupa – suspirou, sentindo-se instantaneamente esgotado com a carga emocional daquela conversa.
desviou o olhar dos olhos esverdeados a sua frente e encarou sua mão entrelaçada a de seu amigo, o contraste que aos olhos dela era lindo, a pele negra dele que sempre lhe pareceu tão agradável, ela nunca entenderia aquela incerteza que ele sentia naquele momento, por isso, escolheu não dizer mais nada, e ele achou melhor assim.
Foram despertados daquele momento em que ela, em silêncio, dividia com ele a dor que o amigo sempre carregava, quando chegaram ao hotel. Despediram-se dos outros alunos e foram para seus respectivos quartos se arrumar para a tal festa que havia prometido ser a melhor do Rio de Janeiro.
Mas não estava bem, se antes ser apenas amigo de era seu único destino, agora sentia-se confiante e sabia que não deveria, havia aprendido da pior maneira a ter toda cautela em relação àquele sentimento, e não estava nem um pouco disposto a colocar seu coração a prova dessa forma, mas o estrago já estava feito, eles haviam passado a noite juntos e ele não se arrependia daquilo.
Enquanto se arrumava, perdia cada vez mais o interesse por aquela festa, de um lado da balança teria que enfrentar as inseguranças e incertezas de , o preconceito dos pais dela, uma provável atitude dela de ficar um tempo como se nada tivesse acontecido e ficando com quem quisesse na frente dele – inclusive trabalhava com a possibilidade daquilo acontecer naquela mesma noite – contra o super bônus da amizade dos dois do outro lado da balança, o que, aparentemente, era um ponto positivo somente para ele.
Jogou uma água no rosto procurando manter-se alerta e no controle dos seus pensamentos que pareciam brigar para falar cada vez mais alto em sua mente, estalou o pescoço antes de pegar sua escova e começar a escovar os dentes encarando seu próprio reflexo pelo espelho embaçado do vapor do banho que acabara de tomar, estava terminando sua higiene pessoal quando o som da campainha invadiu o quarto trazendo-o bruscamente à realidade.
- Já vai! – gritou pela porta do banheiro e amarrou uma toalha na cintura enquanto bochechava um enxaguante bucal.
Olhou pelo olho mágico e viu de braços cruzados do outro lado, seu coração deu um leve salto mas ele balançou a cabeça negativamente numa falha tentativa de colocar seus pensamentos em ordem e abriu a porta, dando espaço para a garota desfilar graciosamente até metade do pequeno corredor que dividia o quarto do banheiro.
não poupou o olhar ao dar de cara com o rapaz com apenas uma toalha enrolada na cintura, mordeu os lábios para não falar nada do que passava em sua mente naquele momento, de uma hora para outra ficou muito mais interessante ficar ali naquele quarto com ele e não ir à festa alguma.
, por sua vez, numa tentativa de controlar seus impulsos, ergueu o dedo indicador como quem pede um minuto e voltou ao banheiro, cuspindo na pia o enxaguante e secando o rosto com uma toalha, saindo logo em seguida encontrando a mulher sentada na cama de pernas cruzadas e os cotovelos apoiados no colchão, ela usava um cropped preto com uma alça bem fina, uma calça larga estilo mom jeans e um tênis, sem qualquer maquiagem e com o cabelo todo jogado de qualquer jeito para o lado, ela era naturalmente linda e sexy, isso o deixava bastante desnorteado as vezes.
- Fiquei com o papel de apressar a princesa aí – ela sorriu sem mostrar os dentes.
- Só vou me vestir e a gente vai.
Ela o observou abrir a mala e escolher cuidadosamente a roupa que vestiria, sempre foi muito vaidoso, e aos olhos dela, aquilo era maravilhoso, para ele era a obrigação que carregava desde pequeno, ouvia sempre sua mãe dizer "não quero que digam por aí que meu filho anda desarrumado. Preto e pobre sim, sujo? Nunca!". Ele sabia, os filhos dos ricos não brincavam na rua, como ele, não corriam pelas ruas de terra atrás de pipa, como ele, nem jogavam futebol em um gramado qualquer cheio de sujeira, como ele, por isso, sempre antes do horário de sua mãe chegar do serviço, ele corria para casa, tomava um demorado banho, e a esperava bem limpinho, como se o fato de ter sido apenas criança fosse uma vergonha pesada demais para sua mãe suportar.
- Eu gosto quando você usa essa blusa – comentou , com um sorriso no rosto.
- É, eu também gosto dela.
Disse, sem esconder o desânimo da sua voz, mesmo que tentasse, sabia que ela o conhecia bem demais para perceber qualquer coisa, então nem se esforçou, afinal, já se esforçava para esconder tantos sentimentos, que realmente não se sentia bem para esconder mais nada.
- O que houve, ? – a garota se ajeitou na cama, assumindo uma posição ereta e na defensiva. – Você está arrependido do que rolou entre a gente?
O rapaz soltou o ar pelo nariz num sorriso irônico, terminando de empilhar em sua mão todas as peças de roupa que iria vestir e virando-se para ela vendo-a olhá-lo de forma intensa, estalou o pescoço mais uma vez procurando aliviar a tensão que tomava conta de seu corpo físico, respondeu:
- Como eu me arrependeria disso, ? Eu sempre quis isso, eu sempre quis você.
sentiu-se repentinamente tonta com aquela declaração, ainda não estava habituada a ter o rapaz dando voz à todos aqueles sentimentos escondidos, além disso, ela era péssima para colocar em palavras seus próprios sentimentos, e se odiava por isso, mas, sabe-se lá porque tinha esse bloqueio, e não conseguia mudar.
- Então o que é? – apesar de tudo, sua pergunta foi sincera, importava-se demais com ele.
- Eu disse que não iria te pressionar e que não iria fazer disso aqui um peso pra nós dois, então, já que você sabe dos meus sentimentos e já que você não consegue decidir o que quer, eu vou te pedir apenas uma coisa, se você puder fazer só essa coisa por mim eu juro que serei muito grato, e peço isso pela nossa amizade, e não pela noite que tivemos.
A mulher o encarava atenta, os olhos dele, antes tão cheios de brilho e vida, pareciam opacos e desanimados, sentiu uma pontada de culpa e um pouco de arrependimento por ter deixado tudo chegar naquele ponto. Suspirou levemente e disse:
- Você é meu melhor amigo, , eu faria qualquer coisa pela nossa amizade.
Ele afirmou com a cabeça e a olhou nos olhos, a fim de transparecer toda a necessidade de ter seu desejo atendido, mesmo que as palavras que estava prestes a proferir o ferissem como uma faca, ele deu voz aos seus pensamentos dizendo:
- Quando você for ficar com alguém hoje, por favor, faça longe de mim, só isso.
franziu as sobrancelhas e se levantou da cama tentando com todo esforço ler a expressão no rosto másculo a sua frente, sem, no entanto, esconder a frustração em seu próprio rosto. Ela se deu conta de que, de fato, nunca tinha sido muito legal em relação aos sentimentos do amigo, não tinha o mínimo de cuidado com ele, mas, para todos os efeitos, era como se ela nem sequer soubesse da existência destes.
Pode entender então, com clareza, o medo que ele tinha em relação a ela, mas, sentiu-se injustiçada pois havia planejado uma noite com seus amigos, apenas beber até ficar a vontade o suficiente para dançar até o dia seguinte na pista de dança, aproveitar a última noite em terras cariocas e quem sabe terminar novamente nos braços de .
Deu-se conta de seu egoísmo naquele momento, realmente, não havia planejado estar com ele durante a festa, e se conhecia bem o suficiente para saber que se alguém na boate despertasse seu interesse, ela daria todas as chances, mesmo que não fosse seu objetivo principal naquele lugar, enquanto estaria lá, como sempre esteve, aguardando-a voltar bêbada demais para se lembrar que no fim de toda noite quando eles saíam, ela terminava se declarando para ele, mesmo que não estivesse totalmente no controle de suas ações.
Ele estava programado para ignorar aquelas declarações todas as vezes, mas agora tudo era diferente, ambos sabiam.
- Eu não pretendia fazer isso, – sussurrou em resposta.
- Certo, mas se acontecer, por favor, pensa no meu pedido.
Ele caminhou a passos largos até o banheiro para terminar de se vestir enquanto ela resolveu sair do quarto e ir espera-lo junto a e no saguão, sentia-se exausta e entendia o motivo de sempre ter evitado se apegar a qualquer pessoa que fosse, estar apaixonado demandava uma carga emocional grande e pesada demais, quando, na cabeça dela, o amor deveria ser leve.
Mas o que fazer quando a responsável por complicar tudo aquilo era ela mesma? Estava extremamente esgotada.
- Tá tudo bem? – Foi o que perguntou assim que a amiga chegou até onde ela estava. – Cadê o ?
- Tá vindo – respondeu, seca. – Vocês dois! – apontou para a amiga e o professor ao seu lado. – Vocês estão namorando?
cruzou os braços e jogou a cabeça para o lado tentando entender sobre o que se tratava aquela pergunta, enquanto um igualmente perdido e extremamente constrangido sentia seu rosto arder com aquela simples indagação.
- Já disse pra você parar com essa mania de transferir pra mim os problemas que você tem, ! Somos diferentes e isso aqui – apontou para ela e para –, não tem absolutamente nada a ver com a sua situação com o .
- E como não? Era pra ser só sexo, , não é tão difícil de entender!
- Espera, então vocês dois... – perguntou.
- Desculpa, mas desde quando nós temos intimidade para falar sobre a minha vida sexual? – cruzou os braços.
- Desde o momento em que você quis saber o tipo de relação que eu tenho com a , talvez – o professor esboçou um sorriso forçado e soltou uma gargalhada, achava engraçado quando os dois se espetavam.
- Ok, o está vindo – ela olhou para um ponto fixo atrás de , que não se deu o trabalho de virar para ter que olha-lo. – Por favor, se você for ficar com a sua boca grudada na de alguém que não seja ele, faça isso longe da gente.
- Eu realmente to amando me ver através dos olhos de vocês – ironizou .
Os quatro seguiram em silêncio até a boate, exceto pelos assuntos aleatórios que e trocavam animadamente no banco da frente, eles estavam cada vez mais como um casal e acharia aquilo super fofo se fosse num outro momento, mas não era, naquele momento ela só queria proteger dela mesma.
Um manobrista se aproximou do veículo assim que eles pararam em frente a boate, olhou surpreso para o local, enquanto e – acostumadas com aquele glamour todo – não pareciam se abalar tanto.
- Toma – estendeu três pulseiras para eles. – Com isso vocês poderão consumir qualquer coisa gratuitamente aí dentro.
- Mentira! – sorriu.
- Eu conheço o dono, um grande amigo meu, eu tenho passe livre e não venho aqui há um tempo, então acho que posso dar esse prejuízo pra ele hoje, afinal, é dia de comemoração.
- A devia falar isso mas eu sei que ela não vai, então, eu falo! – segurou a camisa social que o professor usava e olhou bem fundo nos olhos dele dizendo pausadamente. – Eu. Te. Amo!
não pode deixar de rir, parte porque a cara que fez foi hilária e parte porque atitudes como aquela que faziam ele se ver ainda mais apaixonado por . Aquela cena também despertou uma gargalhada gostosa em que apenas negou com a cabeça dizendo:
- Eu só espero que seu amigo perdoe o fato de você ter trazido três opalas para a boate dele.
só pode rir também, quanto mais conhecia e os amigos dela, mais se sentia a vontade com eles e entendia o porquê deles se gostarem tanto, afinal, apesar de um pouco desiquilibrados, por assim dizer, eram pessoas excelentes para se ter por perto.
Eles entraram na boate sem sequer precisar aguardar na fila, o local era deslumbrante e dividia-se em vários ambientes diferentes e temáticos, estava lotado de gente, a pista de dança já estava cheia e ainda era relativamente cedo, mas as pessoas ali não pareciam se importar, a noite estava apenas começando.
- Ok, entrou para o meu top cinco – comentou enquanto admirava os detalhes do local.
- Venceu aquela boate de Londres – observou.
- Ah, eu amo quando vocês entram na caixa do privilégio, mas sinto informar que nada supera aquele risca faca lá perto de casa – riu e as meninas riram junto lembrando da noite louca que eles terminaram cantando forró num bar bem fuleiro no bairro em que morava.
- Temos um vencedor! – exclamou .
- Definitivamente quero conhecer esse lugar – comentou.
- Acho que não pode entrar com camisa social lá, mestre.
- ! – repreendeu a amiga e soltou uma risada alta. – Não liga para o que ela fala, eu acho um charme esse teu jeito engomadinho.
- Engomadinho? Sério? – estreitou os olhos enquanto observava ajeitar a gola da camisa que ele usava.
- Pelo menos hoje ele está de calça jeans – sorriu, claramente ela havia encontrado um ótimo alvo para implicar. – E sem gravata, senhoras e senhores! – bateu palmas.
- Quem tem que gostar do que ele usa sou eu, e, sinceramente, eu amo o jeito que ele se veste – mordeu os lábios e se aproximou do ouvido de quando ele a segurou pela cintura. – Mas prefiro quando você não está vestindo nada.
O homem apertou a cintura da mulher a sua frente tentando afastar a onda de pensamentos extremamente impróprios que invadiram a sua mente com aquele simples sussurro de em seu ouvido, ela era realmente boa demais em deixa-lo sem palavras.
- Ok, casal, eu vou explorar esse lugar antes que vocês me façam vomitar – riu. – Você quer vir, ? – perguntou, incerta, e parecendo tímida pela primeira vez na vida.
- Hm, não, acho que vou para o bar beber alguma coisa.
A garota só deu de ombros e sorriu levemente para os amigos, virando as costas e saindo dali, se tinha uma coisa que ela nunca entendia era a necessidade que as mulheres tinham de sempre andar com uma amiga para cima e para baixo quando estavam em uma festa. Sempre ficava sozinha enquanto queria, deu a sorte de ter que era tão independente quanto ela, então elas curtiam a companhia uma da outra mas quando queriam fazer algo, não faziam questão de estar juntas.
despediu-se do casal a sua frente e foi para o lado oposto de , não queria correr o risco de vê-la com alguém, entrou em um ambiente que parecia ter como tema algum país do oriente médio, sentiu-se a vontade, era um local aparentemente mais tranquilo, a música ali não era tão alta, as pessoas que ali estavam não dançavam e sim ficavam despojadas pelo chão coberto de grandes almofadas e dividido em tendas com tecidos brancos e detalhes dourados.
Caminhou até a bancada ornada de peças douradas, um trabalho artesanal extremamente de bom gosto, pensou ele. Sentou-se em um banco alto e focou seu olhar na lista de bebidas que tinham ali, a noite estava só começando e ele pretendia esquecer toda aquela confusão que havia acontecido na sua vida de um dia para o outro.
Ainda na entrada principal, encarava aquele lugar encantador tentando decidir para onde iria primeiro;
- E o que nós vamos fazer, hein? – perguntou para que sorriu esticando a mão direita para ela.
- Acompanhe-me, doce donzela.
Ela segurou a mão dele achando graça da forma com que ele tinha falado e foi gentilmente guiada até os fundos da boate, cruzaram uma porta de vidro e o vento fresco da madrugada chicoteou no rosto de ambos, o cheiro da água salgada e o barulho do mar trouxeram ânimo a mulher que sorriu ao ver um caminho feito de tochas guia-los até a areia da praia que havia nos fundos da casa noturna.
- Ok, isso também é um ambiente desse lugar maravilhoso?
- Na verdade não – ele encolheu os ombros e parou para que ambos pudessem tirar seus sapatos antes de continuar caminhando, agora pela areia fofa. – Sou amigo do dono, lembra? Não quero estragar sua noite, sei o quanto você gosta de estar lá dentro bebendo e dançando, mas queria esse tempinho com você, sem essa sensação de que estamos nos escondendo de tudo e de todos, sabe? Caminhar de mãos dadas, sentir a areia da praia, dividir esse visual com você, eu me importo com essas pequenas coisas e sinto falta de dividi-las contigo.
olhou para o homem ao seu lado sentindo seu coração diminuir a cada batida, sentia-se tão bem com ele, tão em paz, e realmente, poder apenas agir como se fossem um casal, sem quaisquer preocupações além disso, era libertador para ela também.
- Eu amei a surpresa, e não se preocupe em querer me carregar lá pra dentro tão rápido, realmente eu amo beber e dançar, mas eu também amo a sua companhia.
Sentiu-se assustada com que havia dito por alguns segundos, mas logo toda insegurança se foi quando a mão firme de a puxou pela nuca para então iniciar um beijo lento, era para ambos estranho demais ver que até os beijos entre eles estava aos poucos mudando, nem tudo era tão carregado com o tom erótico típico de outrora, as vezes eles só queriam demonstrar o quanto gostavam de estar na companhia um do outro.
Separaram-se ofegantes do demorado beijo, com sorrisos bobos nos lábios e testas unidas, observando-se bem de perto, como se ambos quisessem guardar aquele momento para sempre, mesmo que até então fosse impossível pensar em um "sempre".
- Vem, eu preparei uma tenda pra gente!
- Uma tenda? – ergueu as sobrancelhas encarando-o duvidosa, enquanto ele apontou para algo que estava atrás dela vendo-a se virar para contemplar os tecidos brancos balançando com o vento.
- Um dos ambientes da boate tem uma decoração inspirada nas culturas do oriente médio – explicou –, e apenas pedi uma das tendas emprestadas.
- Você realmente é amigo desse cara, hein.
Ele sorriu, conduzindo-a pela cintura até a tenda, sentaram-se entre as almofadas grandes que estavam por ali, ela com seu corpo envolto ao dele, as ondas a sua frente, as estrelas brilhando no céu, a brisa fresca na medida certa, queria poder congelar aquele momento.
- Fomos criados juntos, estudamos na mesma sala a vida toda, inclusive nos primeiros períodos da faculdade – explicou . – Mas ele nunca gostou de Direito, sabe? Não era para ser! Mas sempre vi nele o potencial para ser um excelente empresário, tinha boas ideias, um excelente feeling, só não tinha capital para investir em nada. Enquanto todos ao nosso redor o chamavam de lunático, sonhador e coisas do tipo, eu acreditava no potencial dele, e por isso, assim que eu comecei a ter um bom retorno financeiro, consegui emprestar capital suficiente para que ele investisse aqui.
- Então você é sócio desse lugar? – perguntou verdadeiramente surpresa.
- No começo sim, mas logo que tivemos o retorno financeiro eu vendi a minha parte para ele e recuperei o que tinha investido – explicou. – Não tem jeito, o Direito é a minha escolha para a vida, participar disso me obrigava a tomar decisões que eu nunca tive interesse em tomar, achei melhor sair antes que tudo afundasse por minha causa.
- Entendo – disse. – E esse seu amigo está aqui hoje? Quero conhece-lo – disse de forma natural e logo arregalou os olhos, retratando-se em seguida. – Quer dizer, não é como se você tivesse que me apresentar para as pessoas do seu convívio – apoiou-se em seu cotovelo para poder manter contato visual com o homem a sua frente. – Desculpa, não quis parecer como se eu tivesse apressando nada.
- É sério, ? – ele a olhou por cima dos óculos achando graça na feição envergonhada da garota, era a primeira vez que a via dessa forma. – É claro que eu te apresentaria para ele sem problema algum – fez um leve carinho no rosto feminino a sua frente –, mas isso aqui acabou rendendo mais do que imaginávamos e ele acabou abrindo outras casas pelo Brasil, então está sempre viajando, mas assim que tivermos a oportunidade vou apresenta-lo a você, vai gostar dele.
Ela sorriu de leve, voltando a se deitar no peito dele, sentindo sua respiração naturalmente sincronizar com a de , ficaram assim por um longo período, em total silêncio, ouvindo ao longe a batida da música que tocava na boate, vendo as ondas irem e virem em seu próprio tempo a sua frente, apenas curtindo a presença um do outro de uma forma que ainda não tinham experimentado.
Depois de um bom tempo ergueu parcialmente seu corpo, vendo com os olhos fechados perdido em seus próprios pensamentos. Começou a brincar com a ponta dos dedos pela pele do rosto dele, passeando pela barba que ela tanto gostava, tirando os óculos e sentindo ele dar um leve sorriso quando desceu a mão pela orelha passeando até próximo a nuca. Suspirou antes de finalmente falar:
- Sabe essa paz? – ele soltou um murmúrio em concordância, mantendo os olhos fechados focando no carinho que recebia. – Eu nunca experimentei nada sequer parecido antes – confessou e ele abriu os olhos, encontrando os dela tão intensos sobre ele, continuou. – Eu não preciso de rótulos, eu não preciso ser apresentada a ninguém, eu não preciso de status nenhum que você possa me dar, , eu não preciso mesmo, mas talvez eu precise disso – mordeu o lábio inferior, incerta do que estava falando, tinha medo de parecer uma adolescente apaixonada, mas mesmo assim achou melhor prosseguir. – Talvez eu precise dessa sensação de estar completa, das suas piadas que sempre tem graça pra mim, de acordar com as suas mensagens no meu WhatsApp com um português sempre tão correto que parece que estou lendo Machado de Assis – os dois riram, – da forma com que você revira os olhos sempre que eu estou com a e o e a gente só fala uma besteira atrás da outra e quando eu acho que nossa diferença de idade está nos atrapalhando e que você está achando um saco a nossa companhia, você finalmente se da por vencido e solta uma gargalhada gostosa e então, de uma hora para a outra, você passa a pertencer ao meu mundo, como se nada nem ninguém pudesse tirar essa atmosfera da gente, como se você já fosse meu e eu já fosse sua de todas as formas possíveis – parou de falar repentinamente ao ver que talvez tivesse passado dos limites, deu de ombros e sorriu sem jeito. – Talvez eu precise de você.
não esperava por aquilo, definitivamente, não esperava mesmo, sentia a verdade transparecer em cada palavra que ela proferia, era como se nada mais importasse, como ele desejava ter gravado aquilo, ter feito um vídeo, para lembrar para sempre daquelas palavras e daquele momento como sendo o primeiro momento – de muitos, assim ele esperava – que eles haviam falado, mesmo que indiretamente, de sentimentos que estavam invadindo aquela relação sem sequer pedir licença.
- Eu entendo tudinho que você disse – ele se ajeitou também, ficando mais próximo dela, levando a mão que passeava pelo seu rosto até a sua boca, depositando um beijo meigo sem quebrar o contato visual entre os dois. – Eu sinto da mesma forma, mas sabia que se eu tomasse qualquer atitude você sairia correndo – sorriram em concordância –, mas eu também preciso de você, pra dividir os momentos pequenos dos nossos dias, para ouvir as histórias um do outro, para achar você e seus amigos umas crianças malucas e logo em seguida estar agindo da mesma forma que vocês – negou com a cabeça entre sorrisos. – Eu não vou fazer um pedido porque sei que você não quer isso, sei que você quer conquistar muita coisa, que tem essa cabecinha aí cheia de planos e projetos, que deseja correr atrás da tua história, então, o pedido que eu te faço é que você me deixe estar por perto para te aplaudir quando você conseguir tudo que você deseja.
abriu um dos sorrisos mais sinceros que já havia dado em toda a sua vida, não se lembrava de ter experimentado uma felicidade tão grande quanto aquela desde que a perdoou por ter sido uma completa idiota com ele no ensino médio. Só pode jogar os seus braços ao redor do pescoço de e dar-lhe o beijo que transmitisse todo aquele sentimento que ela tinha naquele momento, que talvez nem ela conseguisse colocar em palavras, mas que com certeza, com aquele gesto, ele entenderia.
Enquanto isso, na boate, parecia ter se encontrado no ambiente que tinha como tema a cidade de Las Vegas, as luzes, as cores, os jogos e todo o glamour daquele lugar combinavam exatamente com aquela mulher que por onde passava chamava a atenção de quem quer que fosse.
Alguns drinks depois ela decidiu dar uma olhada nos jogos que as pessoas atenciosamente acompanhavam, achava divertido mesmo que não entendesse exatamente o funcionamento da maioria deles, até que uma voz masculina a despertou, não sabia se era pelo barulho da música ou pela voz alta dos outros que ali estavam, ela não conseguiu entender uma só palavra que o rapaz ao seu lado havia dito, ele sorriu sem jeito, coçou a nuca e arriscou em inglês:
- Desculpa, meu português é péssimo!
- Oh! – ela sorriu e respondeu em inglês. – Agora faz mais sentido pra mim.
O loiro exibiu uma perfeita fileira de dentes brancos, chegava a ser uma afronta ela ter aquele projeto de Zac Efron na sua frente e não sentir a mínima vontade de agarra-lo pois não parava de pensar em , decidiu expulsar aqueles pensamentos e ouviu o homem confessar:
- Meu inglês não é dos melhores também.
- Qual é o seu idioma? – bebericou o drink em sua mão.
- Alemão.
Agora fazia mais sentido para ela toda aquela beleza a sua frente, sorriu de lado lembrando das noites que esteve na Alemanha, realmente, o mochilão – nem tão mochilão assim pois ela e viveram de hotel de luxo e táxi – pela Europa havia valido muito a pena. Alargou ainda mais o sorriso quando viu a surpresa estampar o rosto masculino a sua frente quando ela pronunciou em um alemão invejável:
- Sorte sua que eu domino várias línguas.
Depois de um bom tempo de conversa sobre culturas e países ao redor do mundo, conseguiu convencer o gringo a dançar com ela e, de mãos dadas, os dois foram para a pista de dança principal, era a parte favorita da garota, quando o funk começa a tocar, a pista enche e ela pode seduzir qualquer um com seu show particular.
– que havia percebido que a música eletrônica tinha acabado e que também amava dançar – convenceu a entrar com ela prometendo-o uma noite inesquecível, eles passaram pelo primeiro balcão que viram e pegaram uma cerveja cada um, não pretendiam beber muito mais que aquilo naquela noite, e foram em direção às luzes coloridas da pista de dança principal.
- Eu achei que ela e o tinham se acertado – comentou, olhando um ponto fixo atrás de .
A mulher virou para a direção apontada e viu dançar animadamente com um loiro, instantaneamente seu olhar percorreu toda a pista de dança procurando por e desejando com todas as suas forçar não vê-lo presenciando aquela cena.
- Eu só queria entender porque ela faz isso.
- Ei! – puxou a garota pela cintura, colando sua boca no ouvido dela. – É a nossa noite, você pode deixar para tentar colocar algum juízo na cabeça da depois.
- Pelo menos o não está por perto, aparentemente – suspirou. – Vamos dançar, mas bem longe deles, não quero ter que fingir que estou achando essa cena legal.
apenas deixou que a garota o conduzisse para onde ela achava melhor e que a forma com que ela dançava afastasse qualquer outro pensamento que ele poderia ter.
Ainda na bancada dourada do bar, ia longe com seus pensamentos tumultuados e embaralhados em sua mente, não percebeu quando uma garota sentou ao seu lado e conversou animadamente com o barman até que seu drink chegasse, ela não pode deixar de reparar que, enquanto eles conversavam, o rapaz ao seu lado parecia alheio àquele mundo, resolveu fazer uma boa ação e tocou levemente no braço do homem apoiado sobre a bancada, ele a olhou confuso e ela sorriu de leve perguntando:
- Você está precisando de algo?
Os olhos esverdeados de passearam pela paisagem feminina ao seu lado, longos cabelos cacheados caíam pelos ombros negros descobertos, revelando uma mulher maravilhosa modelada em um vestido tomara que caia vermelho vivo, ao contrário de , ela reluzia com uma maquiagem tão bem feita, um iluminador dourado destacava a pele escura e a deixava estonteante, era, sem dúvida, uma das mulheres mais lindas que ele já havia visto.
- Não – finalmente conseguiu responder, umedecendo os lábios com a língua tentando disfarçar o tempo que ficou admirando-a, mas era tarde demais, ela havia percebido, e gostado. – Só estou...pensando.
- Bom, se me permite dizer, eu acho que existem lugares mais apropriados para se pensar que uma boate – bebericou seu drink sem quebrar o contato visual com .
- Sem dúvidas – concordou –, mas só me dei conta de que precisava pensar quando sentei aqui.
- Sei como é. Você já conhece todos os ambientes da casa?
- Não – respondeu meio sem graça. – Aqui cheguei, aqui fiquei.
- Esse ambiente realmente é o melhor para quem não quer estar aqui, mas, esse lugar é incrível, o ambiente Las Vegas é o meu favorito, as pessoas mais animadas sempre estão lá e tem sempre vários gringos, tem o ambiente com o tema circo que é até bacana, mas tem uns palhaços meio assustadores e eu não curto palhaços, e tem... – ela parou repentinamente quando viu que ele sorria. – Desculpa, eu me empolguei um pouco.
- Não, tudo bem – ele sorriu novamente achando-a adorável, de verdade. – Você parece conhecer tudo nesse lugar, hein, vou fazer aquela clássica pergunta, mas...você vem sempre aqui?
A mulher riu, tomando mais um generoso gole do seu drink e logo respondendo:
- Toda semana.
virou seu corpo para a lateral, ficando de frente para a mulher ao seu lado, cruzou os braços na altura do peito e curvou a boca para baixo, achando aquela informação surpreendente, ter dinheiro para frequentar um local daquele porte semanalmente era um fato curioso, pensou que a última coisa que precisava era de outra burguesa em sua vida, mas limitou-se a responder:
- Uau.
A mulher sorriu ajeitando seus cachos para o lado direito e rebatendo a pergunta:
- E você? Pulseira VIP, hã? – fez um biquinho apontando para o braço definido a sua frente. – Deixa eu adivinhar, você é cantor de alguma banda de pagode?
soltou uma gargalhada alta, daquelas que o fazia bater palminhas no ar como se fosse uma foca, não se orgulhava daquele gesto, mas era tão automático para ele, quando se sentia a vontade com alguém, quando ria de verdade, acabava saindo as palminhas de foca. Logo se recompôs e disse:
- Ok, mais uma chance, vai lá!
- Jogador de futebol!
- Hm, eu sou realmente muito bom no futebol, modéstia à parte, mas, errou de novo. Última chance.
- Ok – ela estreitou os olhos e sentenciou. – Eu acho que já te vi em Malhação.
O rapaz voltou a gargalhar de forma alta, atraindo inclusive alguns olhares de pessoas ao seu redor.
- Eu realmente tenho perfil de subcelebridade?
- Ei – ela estreitou as sobrancelhas. – Eu já fiz Malhação.
Se não fosse o tom escuro de sua pele, a vermelhidão nas bochechas de seria aparente, mas, por sorte, só ele sentiu enquanto seu rosto queimava de vergonha.
- Me desculpa, de verdade, eu não quis ofender, eu só...
Dessa vez a garota que gargalhou alto, achando adorável a forma com que aquele homem parecia um menino acuado pedindo-lhe desculpas da forma mais linda que ela já havia visto em alguém.
- Foi só uma brincadeira – disse. – Sério agora, o que você faz da vida?
- Nada com muito glamour – deu de ombros. – Eu trabalho em uma loja de material de construção, meio balconista, meio carregador de material, meio faz-tudo.
A mulher abriu a boca surpresa com a resposta, negou com a cabeça quando o ouviu completar:
- Desculpa, pela sua cara, acho que era melhor eu ter mentido que sou uma subcelebridade – soltou o ar pelo nariz de forma irônica.
- Não! Não mesmo – ela o interrompeu. – Não precisa ter vergonha disso, de forma alguma!
- Eu não tenho! – ele afirmou, coçando a nuca levemente. – Pelo menos você chutou empregos de brancos, me senti honrado – ironizou e ela riu.
- Chega a ser cômico se não fosse trágico. E se eu te disser que eu trabalho aqui?
- Sério? – ele foi pego de surpresa.
- Sim! Comecei como faxineira – recebeu um olhar surpreso. – Algumas pessoas ainda não se conformam de me ver hoje na direção da boate, para elas, eu sempre serei a faxineira.
- Então quer dizer que você é dona disso tudo aqui?
- Sou sócia-administradora dessa casa, especificamente, porque tem outras espalhadas pelo Brasil – disse. – E é realmente gratificante poder contar isso sem ter que jurar de pés juntos que é verdade.
- Oh, eu sou só um balconista de loja de material de construção, estou estudando uma forma de te dar um golpe.
Ela riu da cara dele e completou:
- Neste caso, sorte que eu sou a mulher, não tem como você me dar o golpe da barriga.
- Esse mundo é realmente injusto para os homens – ironizou e ela se sentiu sortuda em conhecer alguém que tivesse uma consciência social tão clara.
- Realmente, brancos e homens, tá aí duas classes sociais injustiçadas – rebateu no mesmo tom de ironia.
- Ei, seu racismo reverso está me ofendendo, tá ok?
- Talkei?
Os dois riram de verdade daquele tipo de piada que só tinha graça para eles, a verdade é que nenhum dos dois se lembrava de um momento da vida em que se sentissem de fato parte da sociedade de forma íntegra, e era bom encontrar alguém que sabia levar aquela triste realidade de uma forma leve, mesmo que para muitos parecesse impossível.
Enquanto sentia que estava se divertindo de verdade, dançava para tentar afastar a vontade de ter as mãos dele em seu corpo e não as mãos do alemão que aquela altura já estava encantado com ela.
- Eu vou ao banheiro – ela praticamente gritou para que ele entendesse e quando ele se inclinou para tentar beija-la, ela desviou saindo dali o mais rápido possível.
Andou apressadamente até o bar mais próximo pedindo uma dose de tequila, aguardou pacientemente o barman atende-la e quando olhou para o lado viu e no maior amaço, rolou os olhos, bebeu em um só gole sua bebida como se fosse água e caminhou até eles, sentindo-se alta por conta do álcool que já corria em suas veias.
- Oi casal! – disse, alegre.
Os dois se separaram rapidamente, observando a garota suada e descabelada de uma longa maratona de dança.
- Ué, cadê o seu gringo?
- Você me viu e não foi dançar comigo? – perguntou, incrédula. – Rude, , muito rude.
- Você parecia bem ocupada.
estreitou os olhos encarando a amiga, logo dizendo:
- Ah, então está aberta a temporada "vamos julgar a "? – fez aspas com os dedos. – Você está transando com a porra do seu professor, vai me julgar por que, hã?
- Eu já disse que o meu relacionamento não tem nada a ver com o seu rolo com o , , são duas coisas completamente diferentes e eu estou muito bem resolvida aqui, ao contrário de você!
- Ei, ei, ei! – se meteu entre as duas. – Por que você não vai atrás do e vocês conversam um pouco, hein? E você – virou-se para , – vem comigo, vamos tomar uma água, comer alguma coisa, enfim, mover esse corpo com algo além de álcool.
As duas trocaram olhares odiosos antes de virar, cada uma seguindo o seu rumo, sendo conduzida por até um andar superior da casa onde parecia ser uma espécie de camarote e marchou até o ambiente com tema circense rodopiando por ali a procura do seu amigo.
O rapaz, naquele momento, estava já bem mais alegre depois de alguns drinks que tinha dividido com sua nova colega, por assim dizer, os dois conversavam animadamente e riam demais – porque estavam levemente bêbados ou porque realmente eram engraçados, não sabiam.
- Sério, acho que agora já temos intimidade o suficiente para você me contar o que estava fazendo aqui nesse bar sozinho e naquela tristeza toda.
Ele negou com a cabeça, infelizmente não estava tão bêbado quanto gostaria para não lembrar a resposta daquela pergunta, mas, as imagens de invadiram novamente seus pensamentos.
- Friendzone – limitou-se a dizer.
- Outch, realmente, não é um bom lugar para estar.
- Nope – encarou o copo em sua mão. – É realmente a pior coisa quando alguém não tem certeza dos seus sentimentos e resolve brincar com o dos outros.
- Eu também acho – ela respondeu. – Sabe outra coisa que eu acho? Que você está jogando fora a chance de se divertir de verdade e esquecer essa garota nem que seja por uma noite.
Ele ergueu os olhos encontrando a imensidão escura dos olhos dela em sua frente, encarando-o com piedade.
- Você poderia me ajudar a esquece-la.
Ele era bom naquilo, ele era realmente bom, tinha um charme natural e que em quase todas as suas investidas obtinha sucesso, mas, naquele momento, a mulher a sua frente soltou um riso baixo e se afastou dele.
- Garoto, você tem um charme – admitiu. – Mas, eu curto mulheres.
Ele abriu a boca em um redondo "o" e ela riu de verdade dessa vez, estava mais do que acostumada com aquele tipo de reação.
- Ok – ele disse –, eu realmente não esperava por essa.
- Deixa eu adivinhar – bebericou sua cerveja. – Porque eu sou feminina demais, bonita demais, mulher demais...
Ele não queria assumir que tinha pensado em todas aquelas hipóteses, apenas negou com a cabeça e voltou a encarar o copo em suas mãos.
- Voltamos a estaca zero então.
- Não senhor – ela disse e apoiou a mão no braço dele. – Olha, você é lindo! Um dos caras mais lindos que eu já vi! – ele ergueu o olhar para ela sem passar qualquer resquício de que tinha acreditado naquelas palavras. – Ah, qual é, não olha pra mim como se isso fosse um elogio de mãe, eu sou lésbica, não sou cega!
Ele riu e repousou sua mão sobre a dela, dizendo:
- Ok, eu vou para a pista de dança e vou achar alguém para afogar as minhas mágoas.
- Isso mesmo – ela sorriu em resposta. – E faça isso antes que a parte do funk acabe e comece o sertanejo universitário e você comece a arrastar seu chifre no asfalto e passe vergonha na minha boate.
- É sério que toca sertanejo aqui?
- Ah, sempre pedem – deu de ombros. – Um coração partido não é exclusividade sua, meu amor.
Os dois sorriram e ele se levantou, sendo acompanhado por ela.
- Obrigado – abriu os braços num convite mudo para um abraço. – Sua companhia foi maravilhosa.
A mulher deixou seu copo sobre a bancada dourada e aceitou o convite, abraçando o rapaz a sua frente como se fossem íntimos há anos, sentiu o perfume masculino invadir suas narinas e falou:
- Eu acho que você está me fazendo repensar a minha orientação sexual.
Ele soltou uma gargalhada e se afastou, porém, manteve as mãos na cintura feminina, fazendo um leve carinho na lateral de seu corpo.
- Eu ainda to aqui, solitário, abandonado, sozinho, sofrendo...
Ela negou com a cabeça e deu um leve tapinha no ombro do rapaz antes de se livrar dos braços dele, virou-se para pegar sua cerveja, sentindo-se realmente feliz por ter ajudado alguém naquele dia, ambos se viraram a fim de seguirem em direção a pista de dança quando os olhos de cruzaram com os olhos marejados de que, em silêncio, observava aquela cena.
- , calma, não é nada disso que...
- Eu não estou pensando em nada, – interrompeu.
- Olha eu...
A mulher tentou esclarecer percebendo que a garota a sua frente era a responsável pelo sofrimento do rapaz, não conseguiu concluir sua fala, logo foi interrompida por :
- Não, isso é algo que eu tenho que resolver. Obrigado, mesmo, pela companhia.
revirou os olhos com aquela cena, sentiu-se de uma forma que nunca tinha se sentido antes. A cautela que faltava nela, sobrava em , ela nunca tinha visto o rapaz de fato ficando com alguma mulher perto dela, claro, ele sempre sumia em algum momento nas festas que iam, mas não era como se ela fosse atrás dele para ter o desprazer de presenciar cenas como aquela que tinha acabado de ver.
Não estava sabendo lidar com o sentimento de vê-lo com outra pessoa, aquela história de que o que os olhos não veem o coração não sente fazia todo sentido do mundo para ela naquele momento, preferia ter se poupado e nunca ter experimentado o que era sentir ciúme de alguém, e ainda, saber que não podia fazer nada a respeito porque não estava em condições para cobrar nada dele.
Sentiu uma lágrima teimosa escorrer pelo seu rosto e se odiou eternamente por isso, tratou de limpa-la rapidamente, não teve reação quando sentiu a mão de envolver sua cintura e conduzi-la até uma porta de vidro nos fundos da boate. O rapaz havia se lembrado que em um dado momento de sua conversa com a mulher que conhecera – quando explicou a ela que estava ali como convidado de – ela contou que conhecia o professor, justamente por ele ser amigo do dono da boate, e que ela tinha ajudado a arrumar um lugar para que ele pudesse estar com .
Apenas torceu para que o casal não estivesse mais naquela tenda – e conhecendo como conhecia sabia que ela não ficaria o resto da noite sem dançar e que provavelmente já estaria de volta dentro da boate àquela altura – e praticamente arrastou até o lado de fora, quando o som da festa foi abafado pela porta atrás dele, ele se deu conta que a mulher chorava baixinho ao seu lado, ele podia contar nos dedos as vezes que a viu chorar, e em todos esse momentos podia afirmar que nada mais o machucava tanto do que vê-la daquela forma.
Os dois caminharam pela areia em completo silêncio, até que se sentaram nas grandes almofadas, era incrível que a mesma brisa e o mesmo mar que outrora trouxe paz para e , naquele momento, só servia para embalar o turbilhão de sentimentos não compreendidos que havia entre e .
- Por favor, , para de chorar.
A voz masculina era arrastada em um tom de súplica, sabia que poucas coisas levavam a garota aos prantos, a principal delas era o péssimo relacionamento que ela tinha com os pais, sentiu-se ainda pior por ter se igualado a eles e ter se tornado um motivo que a levou ao choro, mesmo sabendo que não era exatamente culpado por aquilo. Passou seus braços ao redor da mulher ao seu lado que permaneceu abraçada em suas próprias pernas tentando lidar com a confusão que ela mesma tinha criado dentro dela, até que aos poucos, foi se permitindo recostar no peito de , que lentamente se deitou, com ela repousada em seu tórax, até que ela pudesse se acalmar.
- Eu realmente não sei nem por onde começar a te pedir desculpas – ela falou, fungando a cada palavra.
- Você não precisa se desculpar.
- Eu sei que preciso – respondeu. – Eu sempre soube que tinha algum sentimento aqui, você nunca me olhou da forma que olha para a , eu não sou idiota, , eu percebia, no começo era ótimo, você sabe, que gosto de me sentir desejada.
Ele soltou o ar pelo nariz, aquela garota era mesmo impossível.
- Eu sei – comentou.
- Eu realmente não me importava com isso, mas não era por mal, era porque não parecia que você estava sofrendo ou algo do tipo, no fundo eu tratava tudo como uma brincadeira porque eu achei que fosse uma brincadeira pra você também.
se levantou ficando sentada para que pudesse olhar naqueles olhos verdes que ela achava que conhecia tão bem mas que a cada situação se apresentavam para ela de modo diferente. entrelaçou seus dedos embaixo de sua nuca e cruzou suas pernas, ficando numa posição em que podia encara-la de volta. Com toda sua sinceridade, disse:
- Meu sentimento por você nunca foi só uma brincadeira. No começo, por sermos jovens, adolescentes, melhor dizendo, podia ser algo mais inocente e sem tanto poder, mas eu sempre levei isso a sério.
- Eu sei, eu sempre senti seu cuidado comigo, e eu nunca fui cuidadosa com você, eu fui uma pessoa horrível.
- Foi sim – ele concordou e ela o encarou, incrédula. – O que? Achei que estivéssemos sendo sinceros aqui.
observou o quase riso no rosto dele e deu um tapinha em sua barriga, forte o suficiente para que ele reclamasse e fizesse uma careta.
- Não é hora de brincar aqui – reclamou. – Olha, se você quiser ir atrás daquela musa da África lá, eu entendo.
- Musa da África? – ele se sentou também, cruzando os braços e rindo de leve. – Eu achei que conhecia todas as suas versões, mas essa sua versão ciumenta é realmente muito fofa.
- Quer levar outro tapa, né? – fez bico. – Eu estou com ciúme mesmo, a mulher é um monumento.
- É mesmo.
Outro tapa.
- Tem coisas que você não pode concordar, .
- Mas ué, você sempre falou de mil caras pra mim! Cadê o princípio da isonomia? Artigo quinto da Constituição Federal, algo bem básico pra quem está no fim do curso.
- Você sabe que eu odeio Constitucional – ela rolou os olhos e ele riu. – Eu já admiti que sou uma pessoa ruim, você não, você é uma pessoa boa de coração que não paga mal por mal, né?
Ele negou com a cabeça.
- Eu não vou atrás da musa da África, mas que fique bem claro que é só porque a musa da África é musa do vale do arco-íris também.
ergueu as sobrancelhas sem entender logo de imediato o que ele havia falado, depois seu queixo caiu e ela arregalou os olhos.
- Mentira! – exclamou. – Isso quer dizer que eu posso ir atrás da musa da África então?
- É sério isso? Podendo ter o...muso da África – ele apontou para si próprio e a garota soltou uma gargalhada alta.
- Você está ciente que muso é um termo que não existe, né?
- Eu sou o muso e o muso pode criar novas palavras.
Eles riram um pouco até ficarem em um completo silêncio, assim se estendeu por um bom tempo até que , que nunca conseguiu ficar quieta por um longo período, perguntou:
- O que gente faz agora?
fixou seu olhar no mar a sua frente, respirando fundo, os sentimentos estavam ali, os dois estavam cientes de tudo, então, sentiu como se não tivesse mais nada a perder, voltou a olhar para a mulher ao seu lado dizendo:
- Sinceramente? Por mim a gente se dá uma chance, de verdade, você derruba essas mil barreiras aí que você mesma inventou pra me afastar de você, eu continuo aqui enfrentando tudo e todos pra te ter comigo, e a gente vive esse sentimento. Até a noite passada eu achei que segurava esse rojão sozinho, , eu achei de verdade que nunca teria a menor chance com você, mas nós dormimos juntos e foi tão real, e tão certo, e você estava lá, entregue a mim de uma forma que nunca imaginei que estaria, se você me disser agora que aquilo tudo foi mentira, eu realmente não sei mais em que acreditar.
- Não foi mentira, eu não sei fingir orgasmo.
riu e negou com a cabeça.
- Você é impossível! Sabe muito bem que não é disso que eu estou falando, mesmo sendo bom saber que você não fingiu.
- Desculpa, eu levo um tempo para me acostumar com conversas sérias – torceu o nariz achando graça da forma com que ele ficou sem jeito de repente. – Então é isso, a gente tá...namorando?
Aquele termo saiu como se estivesse emperrado na garganta dela há algum tempo, ele se colocou em alerta.
- Você não vai surtar? Tipo, me bater, ir lá dentro e beijar qualquer mauricinho, ou, sei lá, me afogar nesse mar aqui ou começar a chorar de novo...
- Tá, pode parar e me dar todas essas opções que caberiam perfeitamente no meu estado mental de "não tenho estrutura emocional para um relacionamento mas estou apaixonada pelo meu melhor amigo".
Naquele momento foi como se levasse um soco, o susto que tomou, sendo pego de surpresa por aquela fala, fez com que ele arregalasse os olhos e sorrisse para ela, perguntando:
- Apaixonada pelo seu melhor amigo?
- Ah, , cala a boca!
- Repete – ele inclinou os ouvidos para mais perto dela. – Você tá o que?
- No momento, com toda essa cena, eu estou só arrependida mesmo.
Ele riu e praticamente pulou em cima dela, jogando-a de costas nas almofadas gigantes e vendo-a rir com o ato, enquanto tirava alguns fios de cabelo que tinham ficado presos em seus lábios.
- Então eu tenho uma péssima notícia pra te dar, . Eu conheço todos os seus pontos fracos, eu sei exatamente o que fazer para te irritar, e eu vou fazer você se arrepender todos os dias da sua vida.
- Tudo bem – ela o encarou, era o momento de quebrar a primeira barreira. – O arrependimento de não ter vivido tudo isso antes sempre será maior.
mal podia conter a felicidade que sentia quando viu a garota tomar a iniciativa para que eles se beijassem ali, sob a luz das estrelas, com o barulho das ondas sendo a trilha sonora de algo que os dois não imaginavam ainda o quão lindo e verdadeiro era.
Naquele mesmo momento, era conduzida por até o andar superior da boate onde o isolamento acústico não permitia que a música alta da parte de baixo invadisse o local.
A decoração era de tirar o fôlego e ela estava verdadeiramente encantada com tudo que tinha visto até então, apertou a mão do homem que a segurava e disse:
- Eu estou seriamente apaixonada por esse lugar.
- Essa é a minha parte favorita – disse assim que a porta atrás deles foi fechada e o som alto foi substituído por uma música ambiente que permitia que as pessoas conversassem em um tom normal.
O camarote era um lugar amplo e bem mais iluminado se comparado ao andar de baixo, porém, a luz ainda era um pouco fraca, tinha algumas mesas de sinuca e um palco em que um rapaz se apresentava com apenas um violão, tocando músicas calmas e acústicas, havia mesas com garçons servindo todo tipo de bebida e petiscos e também algumas poltronas e sofás.
- Entendi, é o espaço da terceira idade – provocou e ele riu.
- Eu diria que é mais o espaço para quem não sabe dançar e não aguenta aquelas batidas repetitivas na cabeça – corrigiu ele. – Vem, vamos nos sentar, não sei você mas eu estou morrendo de fome!
Ela o acompanhou até uma mesa mais afastada do palco, queriam ter um momento para conversar enquanto ouvia uma boa música e se deliciavam com alguns petiscos. Estavam ambos envoltos numa conversa animada com muitas risadas e assuntos em comum, a mão de repousava carinhosamente na coxa de que por sua vez mantinha um braço no encosto da cadeira dele, fazendo um carinho discreto em suas costas vez ou outra.
Os dois estavam tão presentes ali naquele momento deles que sequer repararam quando, entre uma música e outra, uma voz feminina os despertou tirando-os bruscamente de seu mundo particular:
- , que surpresa vê-lo aqui.
Os dois se viraram separando-se rapidamente, numa tentativa inútil de disfarçar que estavam juntos, infelizmente, nenhum dos dois pretendia agir daquela forma, mas era tão natural entre eles se esconder que sequer pensaram antes de fazer o que foi feito.
Enquanto não se abalou com o fato de ser Margot a mulher que falava com eles, sentiu-se repentinamente constrangido com a situação, casou-se com sua primeira namorada, afinal, e foi fiel a ela por todo o tempo que estiveram juntos, nunca esteve em um momento sequer parecido com aquele ali, e agora via-se de mãos atadas e completamente perdido, não tinha tido a oportunidade adequada para se retratar com Margot ainda e deixar tudo esclarecido entre eles.
Havia prometido a si mesmo que o faria assim que voltasse para Vassouras, mas, naquele momento, não sabia como agir.
- Margot! – finalmente exclamou, bastante sem graça. – É uma surpresa vê-la aqui também.
- Estou com algumas amigas – ela sorriu sem mostrar os dentes. – Sabe como é, matando a saudade, colocando o papo em dia...enfim, só vim desejar uma excelente noite para você – estreitou os olhos azuis e virou-se para , completando –, ops, vocês.
Apesar da grande vontade de responder com o mesmo nível de ironia, não o fez, apenas apertou levemente a coxa do homem ao seu lado numa tentativa de pedir para que ele não prolongasse aquele desconforto, sem saber se ele havia entendido o recado ou se o próprio também não tinha o menor interesse em dar continuidade àquele momento constrangedor, ouviu apenas agradecer à Margot e ambos observaram a mulher praticamente desfilar com toda a sua elegância e seu perfume forte para longe deles.
O professor respirou fundo tomando um grande gole de sua cerveja antes de olhar para e pedir da forma mais sincera:
- Mil desculpas por isso.
- Você não precisa se desculpar – tentou disfarçar o desconforto umedecendo os lábios com a língua. – Eu realmente estou surpresa com o fato dela ter vindo até aqui.
- Eu também – concordou . – Agora alguém além dos seus amigos sabe sobre nós.
- Isso não é um problema para mim, é para você?
pareceu pensar nos prós e contras daquela descoberta e, em seu interior, só conseguia achar que aquilo geraria um grande problema em algum momento, mas ainda assim, em todos os cenários que sua mente montava, ele preferia encarar o que fosse para continuar com , por isso respondeu com convicção:
- Nenhum – os dois permaneceram em silêncio por um bom tempo até ele completar. – Me desculpa mesmo, , eu queria poder fazer algo para melhorar o clima e voltar ao nosso momento de antes, eu estava tendo uma das melhores noites da minha vida com você aqui.
virou-se para beber mais um pouco do seu drink e seus olhos esbarraram nos olhos azuis de Margot que sentiu-se constrangida por ter sido flagrada acompanhando todos os movimentos do casal. A aluna tratou de desviar rapidamente seu olhar, se a mulher veria aquela cena ou não, não dava a mínima, só não queria deixar que algo tão pequeno estragasse a noite que tinha vivido até então. Por essa razão, tornou a olhar para o homem ao seu lado fazendo um carinho meigo em seu rosto dizendo:
- Quem disse que você não pode fazer nada?
E então se inclinou para beijá-lo, sabia que não estava fazendo aquilo para provocar Margot – mesmo sua ação tendo este efeito também – mas o fez porque não queria mais esconder o que estava sentindo, ambos eram maiores de idade e sabiam bem o que estavam vivendo, não parecia correto privar-se de algo tão lindo por uma situação tão pequena quanto a que ocorreu.
E o beijo de demonstrava toda a sua intenção, foi lento e carregado de um sentimento que até então não estava acostumado. Não se separaram totalmente após o beijo, mantiveram as testas encostadas e ele pode sussurrar:
- O que foi isso exatamente?
abriu um sorriso mostrando-se feliz por ele ter percebido que ela tinha uma intenção com aquele ato.
- Isso foi a minha forma de te dizer que se essa informação se espalhar por aí através da Margot ou de qualquer outra pessoa, eu não me importo porque não me arrependo, nem um pouco, de ter vivido tudo que eu vivi até agora com você.
sorriu e dessa vez ele próprio tomou a iniciativa de beijá-la, cena que fez o estômago de Margot revirar de raiva, sentia-se traída e injustiçada por ter que presenciar aquilo. Sabia que não devia ter ido até lá, mas o que para o casal era apenas mais uma demonstração de afeto, para ela não passava de provocação e isto estava tirando-a do sério.
Quando viu se levantar caminhando em direção ao banheiro, não pode evitar seus próprios impulsos de caminhar novamente até , mesmo diante de protestos das suas amigas. Era advogada no final das contas, vivia para entender os acontecimentos através de fatos consistentes, e alguns fatos da história dela com apenas não se encaixavam.
O homem reparou na aproximação da loira dessa vez e apenas negou com a cabeça achando tudo aquilo inacreditável, não pode dizer nada quando ela puxou a cadeira posta a sua frente e se sentou, ergueu uma sobrancelha e perguntou:
- O que deu em você para ficar com uma de suas alunas?
- Margot – disse, em tom de súplica –, eu realmente não queria que as coisas fossem desse jeito, eu pretendia conversar com você, você acreditando ou não, mas, já que presenciou todo esse momento meu com a eu só queria te dizer que, mesmo estando com a minha consciência limpa e não sentindo como se tivesse te traído, eu entendo que você ache que as coisas estejam mal resolvidas e por isso te peço desculpas.
A mulher não podia acreditar no que ouvia, cruzou os braços tentando se controlar para não gritar, nunca foi de sua natureza fazer escândalo pelo que quer que fosse.
- É inacreditável isso que estou ouvindo, é óbvio que eu me sinto traída, , você me levou ao aeroporto, você se despediu de mim com um beijo, você disse que quando eu voltasse nós resolveríamos as coisas – ela disse entre dentes. – Você levou a sua filha, você envolveu a na nossa história, o que quer que eu pense?
- Eu achei que resolveria as coisas, mas depois desses anos a vida resolveu por mim, Margot, e tem coisas que acontecem que nós só não temos controle sobre – bebericou seu drink. – E quanto a , nunca te proibi de aproximar dela, e você já a conhecia antes de nos envolvermos, quem parou de ligar para ela quase que diariamente foi você, ela sentiu sua falta, inclusive.
- Em contrapartida o pai dela não sentiu um pingo de saudade – ironizou. – Eu realmente achei que você sentia algo por mim, . Mas, por trás dessa pose de bom moço você é só mais um cara que não presta igual todos os outros.
- Eu não tenho culpa de ter me apaixonado, Margot!
Ele subiu um pouco o tom de voz da conversa, mas nada que demonstrasse que ambos estavam discutindo, ou que chamasse a atenção de alguém além de , que chegou no momento exato de ouvir aquela frase.
Diferente do que pensava, não se sentiu mal ou pressionada com aquela informação que tinha recebido sem querer, encarou com naturalidade porque parecia burrice negar que havia algum sentimento entre ela e seu professor, tinha razão, amizade com benefício não dava certo, pessoas são programadas para se envolver, criar laços e cultivar sentimentos. De fato, não era daquela forma que queria conversar sobre aquilo, mas, já que estava ali, aproximou-se perguntando:
- Atrapalho?
era sim consideravelmente mais nova que Margot, mas, diferente do que pensavam, não era, nem de longe, menos experiente. Sempre teve certeza do que queria e de quem era, precisava de muito mais para se sentir abalada. Sentia-se sim intimidada com a presença daquela loira deslumbrante, mas tinha prometido a si mesma que não deixaria que o passado dele fosse um problema. Sentou-se novamente em sua cadeira ao lado de e segurou a mão do homem que repousava sobre a mesa, numa tentativa de demonstrar que estava tudo bem.
- De forma alguma, – ele disse, sorrindo de lado.
- Margot, certo? – a mais nova estreitou os olhos como se exigisse um esforço mental muito grande lembrar o nome da loira a sua frente. – Você precisa de algo? Está com algum problema?
A mais velha achou graça do tom irônico usado pela garota e soltou uma risada debochada, respondendo:
- Desculpa mas meu assunto é com o . Sabe como é, conversa de adulto.
- Margot – o homem a chamou em tom de alerta.
- Não, tudo bem, sorriu para ele antes de voltar sua atenção a loira a sua frente. – Se seu assunto diz respeito ao meu relacionamento com ele, então, sinto informar, mas a criança aqui vai ter que participar também.
quis rir do tom irônico que a garota usava mas se conteve, considerando que os olhos azuis de Margot soltavam faíscas de raiva.
- É realmente inacreditável que você tenha me trocado por uma aluna, – ignorou a presença de e se voltou para o homem a sua frente.
Ele não pode responder pois logo ouviu a voz de chamando a atenção de ambos:
- Sabe o que mais é inacreditável? Uma mulher como você mendigando amor de alguém. Sinceramente, Margot, esse papel que você está se prestando é baixo demais para alguém tão linda e inteligente, eu juro que achei que você fosse um pouco mais segura, mas acho que me enganei, né? Em pensar que até então eu tinha criado uma certa admiração por você, mas, infelizmente, você não é como eu imaginei.
Margot sentiu o rosto esquentar de raiva, cuspiu as palavras entre os dentes:
- E quem você pensa que é para falar comigo desse jeito? O que você sabe da vida para vir me acursar de qualquer coisa? Você não me conhece, garota.
- Eu? – apontou para si mesma e sorriu, irônica. – Eu não sei absolutamente nada da vida, realmente, sou só uma aluna, ou como você disse, só uma garota – fingiu-se de ingênua –, ainda tenho muito a aprender, mas ele é livre para escolher o que quiser, quem quiser... – cruzou os braços antes de continuar –, e mesmo tendo que aprender muita coisa ainda, outras eu sei fazer tão bem, mas tão bem, que ele escolheu a pirralha aqui. Eu até poderia descrever exatamente o que eu estou falando, mas, acho que você não precisa ficar ouvindo como ele fica louco por mim, e só por mim.
estreitava os olhos e ostentava um sorriso no canto dos lábios a cada palavra que pronunciava e que atingiam Margot em cheio, realmente, não queria se prestar àquele papel, mas não podia deixar que a mulher lhe humilhasse gratuitamente, muito menos que ela insistisse em estragar a noite dos dois que havia sido tão boa até então.
Margot apenas se levantou e saiu dali antes que as lágrimas rolassem na frente do casal, arrependendo-se amargamente de ter ido até aquela mesa, no fundo, tinha razão, ela era boa demais para se prestar àquilo.
- Uau – ergueu as sobrancelhas –, que furacão é esse que eu inventei de colocar na minha vida?
- Não é um bom momento para piadas, , que situação chata – ela reclamou. – Não me sinto a vontade falando dessa forma com outra mulher, ela só é apaixonada por você e não tem culpa disso, e eu odeio qualquer tipo de competição, realmente não quero começar nada se for para envolver isso.
- Mas ela pediu por isso – deu de ombros. – E você é surreal, sério, quanto mais eu te conheço mais eu fico louco por essa sua personalidade.
Ela riu enquanto brincava com as gotinhas que escorriam do copo a sua frente que transpirava devido ao liquido gelado, umedeceu os lábios antes de olhar novamente para o homem ao seu lado, dizendo:
- Eu me senti intimidada da primeira vez que a vi, mas agora eu só consigo sentir pena dela, mas, isso não é um problema nosso. Eu estou com você e sinto verdade nisso aqui, , só te peço uma coisa, seja sempre honesto com a gente. Se você quer que isso dê certo tanto quanto eu quero, não enrole para falar o que quer que seja, não deixe coisas mal resolvidas, se um dia você não quiser mais, tudo bem, eu realmente não acho que relacionamentos devem ser vividos debaixo de obrigação. Não faz comigo o que fez com ela, deixar subentendido algo que no fundo você não tem a pretensão de que se realize. Se quiser ir, você sempre será livre para fazê-lo, mas se quiser ficar, saiba que estou disposta a ir até o fim por nós dois, mas eu não sou uma mulher de metades.
- Eu sei – ele disse, acariciando o rosto feminino a sua frente. – É muito bom saber que você está nessa junto comigo, eu também não estou aqui pela metade, eu sou inteiro seu e você estava cem por cento certa, tu me deixa louco, garota.
abriu um sorriso contagiante e permitiu-se trocar mais alguns beijos com o homem que, de uma hora para outra, tornou-se uma pessoa bem importante para ela.


Continua...


Nota da autora: Essa fic tem todo meu amor e ultimamente tudo que tenho pensado é em como debater assuntos tão importantes como feminismo, preconceitos, diferenças sociais e etc de uma forma leve e que nos levem a refletir...espero que vocês gostem desses personagens que, com muito carinho, eu tenho criado. E ah, se você está aí se privando de viver algo, meu conselho é: VIVA O QUE TE FAZ FELIZ.
Não esqueça de deixar seu comentário <3
Beijinho da Lala!





Outras Fanfics:
02. This Town
My Best Four Years
Welcome Back, Jonas



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