Lado a Lado

Última atualização: 22/02/2019

Capítulo I

A lua cheia iluminava a estrada escura do município de Vassouras, nascida e criada no interior do estado do Rio de Janeiro, estava mais do que acostumada a dirigir por aquelas estradas abandonadas e esburacadas, com o som do carro ligado e na companhia dos seus dois melhores amigos – e – ela viajava todos os dias à noite para cursar Direito na cidade vizinha, local mais próximo de sua casa.
Desde pequena sempre soube que queria atuar no ramo jurídico, sempre sentiu seu coração gritar em seu peito por essa realização, porém, na Universidade Severino Sombra – localizada em sua cidade natal Vassouras – não era oferecido o curso de Direito, como nunca gostou da ideia de ir para a capital do estado e enfrentar a loucura de uma cidade grande, preferiu tentar o vestibular para a Faculdade mais próxima.
Estava no nono período, com vinte e um anos, sabia exatamente o que queria, surpreendeu-se quando se deparou com a grandeza do mundo jurídico, para ela, quanto mais estudava, mais sentia que precisava aprender, era como uma fonte inesgotável de descobertas e conhecimento, estava maravilhada.
- Ele é gato – ouviu a voz de sua amiga , depois de um longo período de silêncio.
- Ah não, por favor! – , que estava sentado no banco do carona, interviu. – Não vou até Vassouras ouvindo vocês elogiando outro professor.
- Meu amor, você nos obrigou a ouvir sobre a professora gostosa de Direito do Trabalho por um período inteiro. – reclamou – Eu vou sim falar do cara, ele é gato, não é, ?
Milena sorriu de lado, negando levemente com a cabeça, concentrou-se para desviar de dois buracos imensos, aquela estrada era realmente perigosa, principalmente à noite, reacendeu o farol alto que tinha abaixado ao cruzar com outro veículo e comentou:
- Não mais que o professor de Penal, mas, é gato sim!
- Tá aí uma coisa que eu nunca vou entender – riu –, como você pode ser tão louca no professor de Penal.
riu, ajeitando-se entre os dois bancos da frente e apoiando os cotovelos em seus joelhos antes de falar:
- Tesão intelectual, meu caro, nós não somos como vocês, homens. – explicou – Nós conseguimos enxergar além da beleza física, né, ?
- Isso! – concordou – O cara é mega inteligente, isso é extremamente sexy.
- Ele fala como se estivéssemos no Brasil Colônia – o rapaz rolou os olhos –, além do mais ele deve bater no seu ombro.
- Altura não importa.
- Ele parece um pug, ! – todos riram do comentário de , ele continuou – Sim, o cara é inteligente, e sim, até admito que isso possa ser um charme, mas, ficar de quatro por um cara desse não da pra entender.
- Mas vamos voltar a falar sobre o novo professor de Administrativo. – retomou o assunto principal – Eu achei que ele super combina com você, amiga.
Milena riu, ela não sabia de onde sua amiga tirava essas coisas, mas já tinha desistido daquela ideia de ficar com professor, fez isso uma vez, no terceiro período, quando estava bêbada demais para pensar em ser no mínimo sensata, encontrou seu professor de Civil II no churrasco da turma e a mistura de álcool com fantasias que as alunas geralmente têm só piorou a situação. Aconteceu, ela ficou com o professor, tirou dez em uma prova – por total mérito seu pois havia estudado bastante – mas levou a fama de só conseguir aquela nota devido ao fato de ter ficado com seu tutor, sentiu-se péssima por ser mulher e ver seu mérito arrancado de suas mãos pelo simples fato de beijar um homem, prometeu a si mesma que nunca mais faria essa loucura novamente.
- Realmente, ele faz meu tipo – deu de ombros, se precisasse exemplificar o homem ideal para ela, com certeza, ele se enquadraria nos padrões –, mas não vai rolar, não quero fofoca com meu nome de novo, demorei muito para provar à todos que eu realmente podia ser boa sem precisar de troca de favor com professores.
- Garota, último ano nesse hospício, eu vou meter o louco, se ele me der mole eu to pegando.
Milena e soltaram uma gargalhada alta e sincronizada, era assim, totalmente extrovertida, meio maluca as vezes, mas completamente fã da ideia de viver com intensidade, ela repetia constantemente o mantra "you only live once" e tentava levar para o mesmo estilo de vida, não que a garota fosse certinha, tinha seus momentos de loucura sim, principalmente em ocasiões em que o álcool corria em suas veias em uma quantidade maior que seu próprio sangue, mas, no geral, era bem mais focada nos estudos e no seu futuro profissional, não dava muita importância para sua vida social.
- Participa dessa tal olimpíada então.
Milena sugeriu e torceu o nariz, naquele dia o professor de Direito Administrativo havia dito que, pela primeira vez, uma espécie de olimpíada dessa matéria seria organizada no Rio de Janeiro, onde universidades de todo o Estado deveriam mandar representantes para competir, podendo ganhar os mais variados prêmios.
- Eu nunca seria escolhida. – bufou – Até pensei em me inscrever, mas, pelo que tenho visto das aulas dele, eu não vou me sair muito bem e a última coisa que eu quero é parecer burra.
- Eu pensei em me inscrever – sorriu –, tenho achado as aulas interessantes, é o primeiro contato que temos com a matéria, se eu fosse você, não descartaria essa possibilidade, além do mais, uma competição na UFRJ com alunos do Rio todo, isso me parece tentador demais – deu um sorriso sugestivo.
- Agora você está falando minha língua, bebê! – sorriu – Vamos nos inscrever nessa merda e seja o que Deus quiser.
apenas negou com a cabeça sorrindo de lado, desejando internamente que não encontrasse ninguém muito melhor que ele, mas no fundo sabendo que, nem em um milhão de anos, a garota desconfiaria dos sentimentos que ele nutria pela sua melhor amiga.
Todos os dias o itinerário era o mesmo, era a primeira a descer do carro e, logo após, seguia com para a casa dela, onde deixava sua moto guardada, os dois estavam em silêncio enquanto aguardavam em um cruzamento para ir até o bairro onde morava quando a voz feminina se fez presente:
- Você vai se inscrever também? – perguntou, engatando a primeira marcha e dando mais uma olhada para sair em segurança.
- Nessa olimpíada? – fez uma pergunta retórica e soltou o ar pelo nariz – Eu acho que não, quase não tenho tempo, não da para colocar mais isso na minha rotina.
Milena negou com a cabeça e olhou de soslaio para o rapaz ao seu lado soltando mais uma pergunta:
- Não vai por não ter tempo ou não vai porque não quer ver a se jogando para os caras que vão estar lá?
arregalou os olhos e começou a rir de forma a fingir que aquilo era a coisa mais louca que já ouviu na vida, mas, para que o conhecia bem, soava como um desespero para disfarçar o nervosismo.
- Claro que não! – exclamou, sua voz saiu mais fina que pretendia e ele quis sair do carro e pedir para que sua amiga o atropelasse – Quer dizer. – clareou a garganta tentando voltar ao seu tom de voz normal – Não viaja, .
- , ! – ela negou com a cabeça – Eu conheço você, convivo contigo desde que você usava fraldas, eu sei que há tempos você sente alguma coisa pela e essa coisa vai muito além da nossa amizade, você olha para ela de um jeito completamente diferente do que olha para mim!
- , mesmo que essa loucura que você está falando fosse verdade, isso nunca aconteceria, eu e a ...enfim, nunca aconteceria.
- E porque não? – estacionou em frente ao grande portão azul que conhecia bem, apertando o botão do controle remoto vendo as grades se movendo, abrindo passagem para que ela entrasse com o carro na garagem – Olha, ela tem esse jeito dela extrovertido e tal, mas no fundo, eu acho que se você tentasse, ela corresponderia.
- Ela já te disse alguma coisa? – o garoto deixou toda sua expectativa saltar em seu tom de voz o que arrancou um sorriso presunçoso de sua amiga – Droga, numa escala de zero a dez o quão parecido eu fiquei com um moleque de treze anos virgem?
- Onze! – gargalhou – Mas eu achei fofo, de verdade.
- Fofo é tudo que um homem não que parecer, . – ele riu – Eu não tenho a menor chance. – recostou completamente no banco do carro e escondeu o rosto em suas mãos – Você sabe o tipo de cara que ela gosta, e definitivamente, eu não me encaixo nos padrões da .
- "" e "padrão" são duas coisas que não combinam! – a garota riu abrindo a sua porta e saindo do veículo, sendo acompanhada por – A única preocupação dela é ser feliz, e eu acho que é uma questão de tempo até ela reparar isso que você tem tentado, sem sucesso, esconder. E, de verdade, eu acredito que você possa fazê-la feliz e até colocar um pouco de juízo naquela cabeça dura.
O garoto riu e deu uma piscadinha de despedida em direção à amiga antes de colocar seu capacete, posicionou as alças da mochila em seus ombros e se ligou sua moto, falando na fresta da viseira entreaberta:
- Sinceramente, , eu prefiro que a nunca tenha juízo algum – confessou –, pois é justamente isso que me faz gostar dela.
- Deus, eu não sei o que será de mim com vocês dois juntos! – a garota terminou de trancar seu veículo e se virou novamente para ele – E pode ficar tranquilo, não contarei nada a ela.
- Obrigado, de verdade. – ele sorriu agradecendo não só aquela atitude, mas a amizade de anos que eles tinham – Valeu pela carona também, você é a melhor.
- E sei, meu amor! – piscou para ele – Boa noite, e me avisa quando chegar.
Ele acenou em concordância e partiu. caminhou calmamente até sua casa, achando o quão incrível seria se seus melhores amigos se entendessem pois no fundo, ela torcia pela felicidade deles mais do que pela sua própria.


****************


- Eu não acredito que estamos aqui! – reclamou – Ninguém vem em vista de prova, !
- Eu realmente preciso saber se fui bem na prova dele. – disse – Eu quero participar da olimpíada e o professor disse que os seis melhores irão com ele.
- Eu não tenho a menor esperança. – deu de ombros – Por que o não veio?
Milena mordeu o lábio inferior, tentando disfarçar um sorriso, estacionou o carro próximo ao bloco onde teria aula e puxou o freio de mão, respondendo à amiga:
- Ele não conseguiu sair a tempo do trabalho – explicou –, pediu para pegarmos a prova dele.
- Beleza! Você já vai para a aula? Eu tenho que ir na biblioteca entregar alguns livros e inventar uma história triste para não pagar a multa imensa que tenho lá – riu sapeca.
- Você nunca lembra de renovar esses livros! – negou com a cabeça – Eu já vou subindo, te espero na sala.
sorriu e seguiu o caminho oposto ao de , que, por sua vez, passou no banheiro rapidamente para retocar seu batom antes de terminar de subir a escadas rumo a sua sala.
A faculdade estava vazia, eram pouquíssimos os alunos que iam para lá em semana de vista de prova pois os professores, geralmente, só corrigiam as provas e entregavam, não davam nova matéria e logo liberavam os alunos.
Assim que entrou em sua sala viu que era a única ali, ninguém havia chegado ainda, apenas o professor, que, quando a viu entrar, sorriu levemente e disse:
- Se fosse manhã eu perguntaria se você tinha caído da cama!
Ela sorriu com o comentário e olhou para seu relógio constatando que nem era tão cedo assim, respondeu:
- As pessoas não costumam vir essa semana – explicou, achou que, por ser um professor novo na instituição, não saberia dessa informação.
- Os outros professores comentaram – ele explicou, voltando a olhar o papel em suas mãos –, mas achei que o resultado sobre quem iria comigo para a olimpíada atrairia um número maior de alunos.
- Com certeza mais alguns virão – ela sorriu.
- Você se inscreveu? – ele perguntou – , certo? Desculpe-me se não acertei, é que são muitos alunos.
- Isso, sou a sim! – respondeu – E eu me inscrevi, mas é a primeira vez que vejo Direito Administrativo, não sei se me saí bem.
, o professor, cruzou os braços e analisou a garota a sua frente, negou com a cabeça sorrindo levemente antes de falar:
- Seu nome surgiu algumas vezes na sala dos professores – confessou e pode ver uma expressão de espanto surgir no rosto da garota –, não devia ser tão insegura, "melhor aluna da sala" – fez aspas com os dedos.
Não pode responder nada, um grupo de alunos entrou no local rindo e falando alto, quando perceberam a presença do professor ali logo puxaram assunto sobre a tal competição, pareciam animados e confiantes, porém, no fim das contas, entre as seis vagas disponíveis, e foram escolhidos, bem como que, assim que ouviu seu nome ser anunciado, percebeu que ninguém parecia exatamente surpreso com o fato dela ter conseguido, mas pode jurar que viu piscando para ela quando entregou sua prova com um dez bem grande e em destaque na folha da frente e logo abaixo da nota, um recado:
"Até a olimpíada, garota prodígio"
- ADIVINHA! – gritou quando viu saindo do portão de sua casa, as duas correram até lá assim que chegaram da faculdade para avisar o amigo – NÓS TRÊS CONSEGUIMOS! – terminou o raciocínio sem deixar que ele falasse qualquer coisa e praticamente pulou no colo dele, comemorando.
- Eu já sabia, nós três somos incríveis! – riu, se gabando, e esticou os braços pegando sua prova das mãos de – Oito e meio, é, poderia ter sido melhor.
- Eu to me sentindo muito nerd. – comentou, soltando o garoto – Eu acho inclusive que vou comprar um óculos daqueles de farmácia para parecer mais intelectual.
Todos riram da ideia da garota e completou:
- Você tirou dez, né, . – afirmou, não precisaria perguntar pois já sabia a resposta – Acho que temos grandes chances com você no time.
- O professor avisou que teremos alguns encontros com ele até o dia da competição. – explicou – Ele irá nos treinar, por isso, teremos que chegar mais cedo nas segundas para ter essa aula de reforço com ele, acha que consegue ser liberado do trabalho?
- Eu acho que consigo sim – sorriu –, vou conversar com meu chefe essa semana mesmo.
- Nós também passamos seu número de telefone para ele – falou –, ele vai criar um grupo no WhatsApp para compartilhar alguns vídeos e apostilas como material extra de estudo.
- O cara tá levando isso bem a sério – riu.
Milena passou a língua entre os lábios antes de falar:
- É a especialidade dele e pela primeira vez terá uma competição só sobre Direito Administrativo, acho que ele está bem empolgado. – deu de ombros – Imagina que louco o time que você está treinando ser campeão da primeira olimpíada desse tipo entre todas as faculdades do estado!
- Você sabe que nossa faculdade não é das melhores, não sabe? – sorriu – Não é das piores também, mas, teremos muitos times bem fortes para enfrentar.
- Eu estou ciente, mas, se me permite o comentário, eu também estou ciente que eu sou foda!
e riram alto, era sim extremamente inteligente e disso todos sabiam, mas ela raramente se achava por isso, sempre escondia suas notas para não parecer nerd demais, nunca chamava atenção para si e odiava de todo seu coração quando um professor comentava o quão brilhante ela era, preferia manter suas conquistas acadêmicas bem escondidas.
- É assim que se fala, ! – levantou a mão fazendo o high-5 com a amiga – Eu mal posso esperar para beijar o máximo de bocas cariocas.
Milena negou com a cabeça fingindo achar graça daquele comentário ao mesmo tempo que olhava que apenas deu de ombros e riu também, não era como se ele tivesse chegado no nível de sofrer por .
Pelo menos não ainda.


*********************


- PAPAI!
As duas perninhas gordinhas se moveram o mais rápido possível e não pode evitar o sorriso que surgiu em seu rosto ao ver sua filha correndo em sua direção com os bracinhos abertos, abaixou-se e a ergueu com facilidade, pegando-a no colo e retribuindo o abraço apertado que ela lhe dava.
- Posso saber o que a senhorita faz acordada à essa hora?
Ouviu a menina dar um sorrisinho baixo enquanto deitava a cabeça no ombro do pai, respondendo dengosa:
- Saudade.
se perguntou se uma criança de apenas quatro anos sabia o que era sentir saudades, mas, de qualquer forma, seu coração se aqueceu com aquela declaração. Toda semana tinha que viajar até o interior do estado para dar aulas, era sempre o dia mais difícil da semana pois saía bem cedo e voltava tarde, não conseguia ver sua filha com calma, ao sair pela manhã ela ainda dormia e quando voltava ela geralmente já estava dormindo também.
- Eu também estava com saudades, minha princesa. – afagou os cabelos castanhos da menina em seu colo – Você já papou?
- Já! – dessa vez foi Sheila, a babá, que respondeu – Comeu tudinho, não é, ?
- Aham! – a garota completou – Arroz, feijão e ovinho mexido.
- Certo – ele sorriu –, você pode ir deitar, Sheila, eu coloco ela na cama.
A mulher concordou e se retirou dali, indo para a suíte que tinha na casa, a babá era a única do corpo de empregados domésticos que dormia ali, ela havia sido contratada depois de uma demorada procura pela profissional perfeita, queria ter certeza que sua filha estaria em boas mãos, e, para isso, foi até a agência que sua irmã lhe indicara.
Depois de colocar sua filha na cama, contar uma historia e observá-la dormir calmamente, ele respirou pesadamente e se levantou, indo até seu quarto. Retirou a gravata e a camisa social, sentindo-se extremamente cansado, preparou a banheira da forma que lhe agradava e terminou de se despir, afundando o corpo naquela água morna sentindo cada músculo do seu corpo relaxar.
Fechou os olhos por pouco tempo antes de seu celular começar a tocar na pedra de mármore ao seu lado, secou as mãos antes de pegar o aparelho e sorrir involuntariamente com o nome que aparecia na tela, atendeu:
- Fala, pirralha!
- Eu não deveria ter ligado se fosse para você me atender dessa forma – a mulher resmungou do outro lado da linha, ele riu.
- Você é minha irmãzinha caçula, será sempre minha pirralha! – disse – O que você manda?
- Só estou com saudades. – a mulher confessou – Nunca pensei que seria tão difícil ficar longe.
suspirou, lembrou-se da despedida de sua irmã, há alguns meses atrás, quando ela conseguiu uma grande oportunidade para trabalhar em uma grife parisiense e se mudou para a cidade luz com os dois filhos, depois de um divórcio difícil, no fundo, todos concordavam que aquele recomeço seria o melhor para ela, apesar da distância.
- Não vamos pensar nisso. – ele tentou ser positivo – Me conte, como estão as coisas aí? E como estão os meninos?
- Eles estão ótimos! – sorriu – Estão se adaptando bem, já aprenderam bem o idioma e até fizeram amizades, para as crianças você sabe, tudo é mais fácil. Lá na empresa também está tudo maravilhoso, tenho uma estrutura surreal para criar minhas peças, a equipe têm aceitado bem meus croquis e na próxima coleção terão peças com a minha assinatura.
- Isso é ótimo! – exclamou – Eu estou muito orgulhoso de você, de verdade.
- Eu sei disso. – Helena sorriu, convencida – E aí? Soube pela mamãe que você está dando aula em outra universidade.
- Sim, estou! Fica no interior do estado, mas como tenho que estar lá só uma vez por semana não é tão custoso enfrentar a estrada. – explicou – Eu estou empolgado, ainda mais agora, passamos pela primeira bateria de provas e a minha turma se saiu muito bem, isso me deu mais confiança, principalmente entre os diretores e coordenadores do curso.
- Você me mata de orgulho, irmãozinho! E a equipe é tranquila?
- Os outros professores? – ele perguntou tentando entender melhor a indagação da irmã, ela resmungou concordando – Bom, digamos que, tirando a péssima mania de pegar as alunas, a equipe é boa sim.
Helena soltou uma gargalhada alta, ela mesma, em sua época de estudante de moda, chegou a ficar com alguns professores, não de seu curso, claro, pois pouquíssimos eram os professores do sexo masculino e eles eram todos gays – para a tristeza dela que não podia ver um homem estiloso que já ficava apaixonada – mas sua melhor amiga cursava engenharia e ela sempre dava uma escapada para o prédio de exatas a fim de garantir suas experiências professor-aluna.
- Em toda universidade é assim, ! – riu – Fala sério que você nunca pegou nenhuma professora quando estudava e nem nenhuma aluna agora que está do outro lado da moeda.
- NÃO! – ele exclamou, interrompendo sua irmã e se fazendo de ofendido – Nunca peguei professora nenhuma e também não olho para as minhas alunas dessa forma, por Deus, eu tenho uma filha! Só de imaginar que ela vai chegar à universidade um dia e será encarada por marmanjos como se fosse um lanchinho da madrugada isso embrulha meu estomago.
- , você é muito certinho, isso é irritante. – Helena soltou uma risada anasalada antes de concluir – Eu acho que o que falta em você é justamente esse espírito de aventura, desde que a Carla faleceu você...
- Não, Helena, nem toca nesse assunto – ele a cortou novamente e pode ouvir sua irmã suspirar, sabia que no fundo ela só queria que ele fosse feliz.
- Só pensa nisso, sendo aluna ou não, você precisa conhecer alguém, sexo não faz mal a ninguém, muito pelo contrário. Não é possível que não tenha ninguém nessa nova faculdade que não desperte em você o mínimo de desejo.
- Não, não tem. – ele respondeu, sério – Agora vamos mudar de assunto pois é muito desagradável falar de sexo com a minha irmã.
- Eu tenho dois filhos, meu querido, e nenhum deles foi entregue por uma cegonha. – os dois riram – Mas tudo bem, como está minha sobrinha mais linda?
sorriu ao pensar em sua filha , e logo engatou uma conversa animada com sua irmã sobre as descobertas diárias daquela garotinha que tanto enchia seu peito de amor e orgulho.
Depois da longa ligação, ele terminou seu banho com calma, vestiu apenas uma cueca e foi se deitar, acabou pegando no sono com um livro de filosofia jurídica em mãos, porém, um pouco antes de amanhecer, ele acordou ofegante e em uma situação completamente vergonhosa, encarando o volume entre suas pernas tentou respirar fundo para organizar seus pensamentos que insistiam em reviver as cenas do sonho que acabara de ter.
Praguejou sua irmã por ter colocado aquelas coisas em sua cabeça, mesmo que inconscientemente, e se sentiu um adolescente quando apertou seu membro rígido tentando aliviar o estrago feito por sua mente, desistindo de lutar contra as imagens que se repetiam em seus pensamentos.
O sonho havia sido maravilhoso, e ele imaginou a loucura que seria se fosse real.
Não iria se enganar, se realmente fosse da forma que seu cérebro fantasiou, ele adoraria tê-la daquela maneira.

Capítulo II

caminhava apreensivo até a sala em que se encontraria com o pequeno grupo de seis alunos que o acompanhariam na olimpíada dali a alguns meses, desde o sonho que tivera com sua aluna, há uma semana, ele desejava não ter que olhar para ela, mesmo sabendo que ela nunca, nem em um milhão de anos, desconfiaria daquela fantasia, a sensação que ele tinha era que, se olhasse para ele, ela descobriria o que estava passando em sua mente.
Quando abriu a porta da sala de aula desejou em seu íntimo que a garota não estivesse ali, mas, como a boa aluna que era, estava sentada logo na primeira carteira com seu caderno sobre a mesa e uma caneta em mãos, rabiscava preguiçosamente o canto da folha em uma tentativa de passar o tempo.
- Desculpe o atraso, pessoal – ele sorriu sem jeito e colocou a pasta sobre sua mesa, conectando seu computador ao Datashow.
Em menos de um minuto a foto de – que era o plano de fundo do computador de – foi projetada no grande quadro branco e ele pode ouvir alguém dizer:
- Awn, que linda!
Quando ele se virou viu que tinha sido que soltou o elogio, a garota sorriu sem jeito, não pretendia falar aquilo, mas não pode deixar de comentar, era realmente uma criança adorável.
- A cara do pai, huh? – brincou e piscou para ela.
Milena respirou fundo, seu professor era extremamente sexy, principalmente agora que tinha decidido deixar a barba crescer, e ainda tinha a terrível mania de piscar para ela com um sorriso de lado, ela realmente não queria investir em seu tutor, mas, ele tornava tudo muito difícil. Seu celular se iluminou sobre seu caderno e uma mensagem de no grupo "trio topzera" que tinha feito para eles apareceu, na tela:
: Hello, tensão sexual
Sem saber como responder aos dois – e – ela preferiu apenas dar um sorriso para o homem a sua frente e mandou um emoji dando dedo do meio para sua amiga, pode ouvir a risada de atrás de si, rolou os olhos e digitou:
: Que ótimos amigos eu tenho!
: Que venha a olimpíada, meus amores!

Milena bloqueou o celular quando viu que iniciava a aula explicando o primeiro slide que aparecia no quadro, ela prendeu o cabelo de qualquer forma e pegou sua caneta, passando a anotar atentamente tudo que julgava importante, mal sabia que, enquanto falava, o professor fazia um esforço sobrenatural para que seu pensamento não fosse inundado pelo sonho que tivera uma semana atrás, mas isso era impossível, pois com a nuca de a mostra bem a sua frente, com aquele perfume invadindo suas narinas, ele só conseguia pensar nos beijos que poderia depositar ali, bem como havia feito de bom grado no sonho.
Vez ou outra a garota – assim como os outros alunos – fazia algumas perguntas a ele que ficava verdadeiramente feliz em saber que eles tinham lido o material que foi enviado no grupo do WhatsApp e que estavam se preparando para a competição, via que seu grupo era forte e estava confiante que poderia vencer.
- Bom – olhou para o relógio em seu pulso –, vocês estão liberados, daqui a pouco os outros alunos chegam para nossa aula, vou deixar esse tempo para que possam fazer um lanche antes de voltar para a sala.
Os alunos se levantaram e saíram do local, exceto , e , esse último se alongou na cadeira e torceu o pescoço, mostrando o quão tenso estava, pegou um pacote de biscoito na mochila e disse:
- Olha o que eu tenho, !
Os olhos da garota brilharam genuinamente, ela abriu um sorriso largo e esticou os braços como se fosse uma criança, dizendo:
- Porra, , você é o amor da minha vida!
, que até então aproveitava o pequeno intervalo para organizar o material para a aula que começaria em instantes, levantou os olhos e encarou a cena pensando que tipo de relacionamento os dois poderiam ter.
- Eu sei que sou – o garoto sorriu convencido.
- Isso não é justo! – reclamou – Por que a ganha o biscoito preferido dela e eu não ganho nem uma bala?
- Deixa de ser reclamona, , semana passada eu trouxe uma barra de chocolate pra você!
- Porque eu estava na TPM e todo mundo sabe que se eu não comer chocolate eu mordo a cabeça das pessoas! – ela respondeu – Anda, , me da um pouco desse biscoito aí.
Milena – que ria da cena de ciúmes da amiga – passou o pacote para a garota que estava ao seu lado, negando com a cabeça enquanto visualizava o futuro dos dois, eles tinham que ficar juntos logo.
- Vê se não come tudo, o presente é meu. – reforçou e levantou o dedo para a amiga, pegando mais uma boa porção do biscoito – Não acredito que você está com ciúmes do !
- Eu não tô – disse com a voz abafada pela grande quantidade de biscoito que tinha em sua boca.
- Que lady! – o garoto riu e se levantou – Vem, , vamos lá na cantina, eu vou comprar um biscoito para você também.
- Agora não quero mais – reclamou.
Milena riu pegando seu pacote de biscoito de volta enquanto viu o amigo ir até a porta, ele colocou a mão na maçaneta e perguntou:
- Tem certeza?
- Sorte sua que eu não sou uma pessoa orgulhosa. – riu e se levantou – Quer alguma coisa, ?
A menina negou com a cabeça e piscou os olhos para que saiu dali com uma emburrada do seu lado, exatamente da forma que ele achava mais adorável.
Milena pegou seu celular a fim de se distrair enquanto saboreava seu biscoito com muita felicidade, deu uma passeada pelo feed de seu Instagram até que se deu conta de que estava na sala sozinha com , olhou para ele e se surpreendeu ao perceber que ele tinha os olhos cravados nela, sem jeito, perguntou:
- Quer um pouco?
Ele, que a admirava sem imaginar que ela o olharia subitamente, sentiu seu rosto corar, odiando-se por isso, ajeitou-se na cadeira, arrumou o nó de sua gravata e sorriu agradecido, respondendo:
- Não, muito obrigado.
Fez-se um silêncio na sala, exceto pelo barulho do pacote de biscoito nas mãos de que, apesar de ainda sentir o olhar dele sobre si, não se atreveu em tirar sua atenção da tela de seu celular, achava estranho ser observada por seu professor, mas, flertar com ele não era uma opção, apesar do fato dela ser muito boa nisso.
- Então. – ele quebrou o silêncio – Você é daqui?
- Não. – ela tirou os olhos do aparelho em suas mãos e o olhou novamente – Sou de Vassouras.
- Nossa, enfrenta a estrada para estar aqui todos os dias então. – recostou na cadeira e cruzou os braços, ela não pode deixar de reparar os músculos marcados na camisa social que ele usava – Deve ser cansativo.
- É bastante – comentou, soltando o cabelo deixando que os fios caíssem de forma desorganizada pelo seu rosto, não quis arruma-lo e achou melhor assim –, mas depois de todo esse tempo eu acabei me acostumando, prefiro vir de carro, divido o combustível com a e o .
- Você vai fazer a prova da Ordem agora?
- Sim! – ela respondeu – E coloquei Administrativo para a segunda fase, alguma dica?
- Várias! – ele se empolgou – Posso te mandar um bom material que tenho.
- Seria ótimo. – ela sorriu em agradecimento – Estou estudando bastante, apesar de não ter o desejo de advogar, pretendo ter a carteira, sabe, só por precaução.
- Eu também nunca me vi advogando. – ele sorriu de lado – Fiz a prova só para provar a mim mesmo que poderia passar.
- Passou de primeira?
- Não – ele confessou em tom de lamento –, mas tenho certeza que você passará!
E mais uma vez ele piscou para ela, a garota sentiu seu coração vacilar e novamente recebeu uma mensagem em seu celular:
: E aí, já se pegaram?
Milena rolou os olhos enquanto ria, achou melhor não responder, porém, sua feição causou uma pequena curiosidade no homem que a observava atentamente.
- Eu não tenho tanta certeza – a garota finalmente respondeu.
- Bom, no que precisar, eu estou à disposição para ajudar.
Ela sorriu agradecida e o assunto terminou ali, logo em seguida os alunos retornaram para a aula e ela sentiu que, sempre que podia, olhava diretamente para ela, o que rendeu, no caminho de volta, incontáveis piadas de e .


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Alguns meses haviam se passado e estava uma pilha de nervos, primeiro porque a olimpíada de Direito Administrativo estava chegando e, por mais que tivesse treinado bem sua equipe, era uma grande responsabilidade carregar o nome de uma instituição de ensino que ele havia sido contratado há tão pouco tempo. Segundo porque estava cada vez mais próximo de .
Tudo começou depois que ele tomou coragem de mandar uma mensagem para o WhatsApp de sua aluna com uma apostila que poderia ajuda-la para a prova da OAB, a princípio tudo que falavam era sobre isso, provas e apostilas de estudos, porém, com o tempo, o assunto foi se desenvolvendo e eles compartilhavam algumas coisas de suas vidas, a garota não entendia muito bem o que estava acontecendo, visto que, em sala de aula nada havia mudado, não que ela exigisse um tratamento diferenciado, sabia que não precisava disso e sabia também que ele era profissional demais para tal, porém parecia uma pessoa completamente diferente quando conversavam pelo WhatsApp, a única certeza que tinha era que não seria ela a responsável por quebrar aquela barreira.
- E então, já mandou nudes para ele?
- .toUpperCase())! – a garota gritou e ouviu gargalhar.
- Ué, , vocês estão cheios de assunto – deu de ombros.
- Claro que não, né, o cara é meu professor. – quase sussurrou, apesar de estarem em um bar, era próximo à faculdade e muitos alunos frequentavam o local – Não sou do tipo que manda nude, você sabe.
- Sei que você não sabe viver, caramba, , nem parece que aprendeu comigo!
Milena negou com a cabeça e deu um gole em seu suco, dizendo:
- Nós não estamos flertando e eu já te expliquei isso, é mais como se fossemos amigos. – torceu o nariz pois no fundo ela queria bem mais que isso – Eu não sei o que pensar, ele me olha de um jeito mas ao conversar comigo me deixa com a sensação de que eu sou intocável, sei lá, como se não quisesse quebrar essa barreira de professor-aluna.
- E pra piorar tu ainda pega o cara pra te orientar no TCC. – comentou – Ele me parece ser muito respeitador, mas, acho que se você der o primeiro passo, ele não vai se opor.
- Eu não vou ficar com ele – reclamou –, já disse isso mil vezes.
- Você sabe que está falando uma coisa mas seus olhos dizem outra, né? – apontou a garrafa de cerveja para a amiga – Enfim, vamos voltar para aula, assistir ao menos o segundo tempo, não é só porque você é namoradinha do professor que estamos livres de levar falta.
Milena rolou os olhos com o comentário desnecessário da amiga e se levantou, o trio chegou na faculdade no horário do intervalo e foi direto para a sala assistir ao segundo tempo, viu os três entrarem, alguns alunos estavam por ali aguardando o fim do intervalo.
- Ué, achei que não tivessem vindo. – comentou, olhando fixamente para , ela estava especialmente mais bonita, sem perceber, a garota passou a se arrumar mais para as aulas de segunda-feira – Você não devia beber e voltar dirigindo, especialmente em uma segunda-feira.
- Eu fiquei só no suco. – se explicou – Só esses dois aí que não podem ver uma cerveja que já estão bebendo.
- Certo. – analisou os três a sua frente mostrando-se insatisfeito com a ausência deles no primeiro período de aula – Vou mandar para você os slides do primeiro tempo de aula, não se acostume com isso – piscou e ela sorriu.
- Obrigada, mestre! – ele podia jurar que no fundo tinha um tom provocativo em suas palavras, quando ela piscou de volta para ele e sorriu sugestivamente ele precisou morder o lábio inferior para reprimir suas fantasias mais profundas.
Se quisesse jogar aquele jogo, ele precisaria se atualizar para não ficar em desvantagem, há alguns anos não flertava com uma mulher, mas por ela, tinha certeza que valeria a pena.
A garota chegou em casa bem cansada naquele dia, tomou um banho demorado e relaxante, assim que vestiu uma camisa grande de algodão se ajeitou em sua cama pegando seu celular para uma última olhada nas mensagens antes de dormir.
Perdeu um tempo conversando com até que recebeu uma foto de com a mensagem:
: um anjinho.
Milena abriu um sorriso para a foto da garotinha dormindo pesadamente embolada em seu edredom cor de rosa, respondeu:
Milena: ela é linda!
: Puxou o pai, né?!
Milena: Não conhecia esse seu lado convencido, mestre.

Se envolver com uma aluna estava despertando nele as mais diferentes sensações e fantasias, e quanto ela o chamava daquela forma, deixando claro a hierarquia entre os dois, ele não conseguia achar nada mais provocativo.
: Por que você está me chamando assim agora?
Milena riu, se remexeu na cama e ergueu os travesseiros de modo a ficar com a parte superior do corpo erguida, quase se sentando na cama, digitou:
Milena: e não é isso que você é? Eu já aprendi muito com você, e algo me diz que você ainda tem muito para me ensinar.
, que estava pronto para entrar no banho, viu a mensagem brilhar na tela bloqueada de seu celular e prendeu a respiração por alguns instantes, sentou-se na banheira e pegou o aparelho pensando no que responder, preferiu ser sincero:
: não sei, acho que em certas coisas, você pode ser bem melhor que eu.
A garota riu bem alto ao ler a mensagem, não podia acreditar que aquele cara relativamente mais velho que ela, poderia ser tão inexperiente ao falar com uma mulher, tirou um print daquela conversa e mandou para :
Milena: !!!!!!!
: Mulher, o cara só transou pra fazer a filha, né?!
Milena: hahahaha, ele só teve a mãe da , até onde eu sei...
: e o que aconteceu com ela??
Milena: ele não me contou, mas desconfio que ele seja viúvo…

O homem viu que sua mensagem tinha sido visualizada e que a garota estava online mas não o respondia, sentiu-se idiota por ter deixado tão na cara sua total falta de experiência com as mulheres, pensou em apagar o que havia mandado mas como ela já tinha lido, achou melhor deixar para lá, quando estava prestes a bloquear o aparelho e lidar com a vergonha que lhe consumia, uma nova mensagem chegou e ele não pode deixar de sorrir.
Milena: não se preocupe então, mestre, te ensinar o que eu sei será um prazer.
Ele e haviam quebrado a barreira de segurança que silenciosamente haviam erguido, não que estivessem verdadeiramente arrependidos.
Na mesma hora ele abriu a janela de sua irmã, digitando:
: eu estou fodido.

Capítulo III

Raios e trovões cortavam o céu, odiava dirigir com tempo daquele jeito, mas, era o último dia de aula antes das provas e também antes da olimpíada, ela precisava chegar à faculdade para o curso e para a aula de , não tinha conseguido sair do trabalho pois a rua em que ele estava havia alagado e também não iria devido a uma forte gripe que ela tinha pegado naquela semana.
Deixou o seu lado nerd falar mais alto que o medo de ir para a faculdade naquela estrada ruim e completamente sozinha, dirigiu da forma mais cautelosa possível e quando entrou na cidade respirou aliviada, a chuva não havia diminuído mas ao menos estava em uma estrada bem sinalizada e sem buracos, o toque do seu celular tirou seu foco da estrada e ela viu o nome do professor brilhar na tela, atendeu a chamada e colocou no viva voz.
- Onde você está?
- Oi pra você também, mestre. – ela riu – Acabei de entrar na cidade.
- Eu tentei te ligar feito um louco – ele comentou –, tive que cancelar a aula, a faculdade está sem energia.
- Puta merda! – a garota exclamou – Agora já to aqui, eu tenho que sair mais cedo para chegar a tempo, o telefone não tem sinal no caminho, mas eu devia ter imaginado, basta um cachorro fazer xixi num poste que a luz acaba nesse lugar.
riu e completou:
- Bom, se te faz sentir melhor, eu tive que vir de ônibus pois meu carro quebrou, gastei uma fortuna comprando uma passagem de uma senhora visto que não havia mais nenhuma disponível e ainda tenho que procurar um hotel para passar a noite por aqui pois sequer tenho a passagem de volta para o Rio.
- Estamos bem então. – riu baixo – Você está aonde agora?
- Na faculdade, os professores estão decidindo se ficarão para aguardar a energia.
- Estou há cinco anos nesse lugar e, sinceramente, essa luz não deve voltar tão cedo. – encarou o céu carregado sobre sua cabeça – Você quer ir para Vassouras?
Perguntou, despreocupada, ele estranhou:
- Como assim?
- Assim, ué, entrando no carro e voltando comigo. – deu de ombros – Eu não quero voltar sozinha, a estrada é horrível, e de lá você consegue passagens com mais facilidade para voltar amanha, sem contar que eu conheço os hotéis e posso te indicar um bom.
- Hm, me parece uma boa proposta. – ele sorriu – Vou explicar minha situação aqui e te espero no portão do campus para não levantar suspeitas, pode ser?
- Certo – ela respondeu –, em vinte minutos eu já chego aí.
estava um pouco molhado quando finalmente viu o carro da garota entrar na rua da faculdade, não sabia precisar exatamente quando foi que decorou o modelo e até a placa daquele veículo, só sabia que era por ele que procurava sempre que chegava no campus.
Assim que ela encostou e destravou as portas, ele primeiro abriu a de trás para colocar sua mala e seu terno, depois abriu a da frente sentando-se desajeitado enquanto tentava fechar o guarda-chuva sem molhar tanto dentro do automóvel mas sem obter tanto sucesso.
- Tem alguém enrolado aí? – ela riu manobrando o carro assim que ele fechou a porta – Como você conseguiu se molhar tanto mesmo com guarda-chuva?
- Acho que é uma tecnologia que eu não sei usar muito bem. – riu, colocando objeto dentro de uma sacola e guardando-o no chão atrás de seu banco – E oi, minha querida aluna.
- Oi, mestre – ela se permitiu olha-lo por um instante enquanto ele desabotoava a blusa social branca que estava levemente grudada em seu corpo devido a chuva.
- Você não se importa, né? – ele quis saber – Digo, eu não suporto ficar com roupa molhada no corpo, me incomoda muito, mas se você se importar eu fico.
Milena olhou para ele novamente negando com a cabeça, riu levemente antes de completar:
- A menos que você não seja tão gostoso quanto eu imagino, eu não me importo, mas, se você for, por favor, não faça isso, vai me desconcentrar.
Ele não sabia como reagir a tal comentário, parou de desabotoar a camisa e ficou pensando no que fazer, ela riu mais alto dessa vez e completou:
- Arranca logo isso, , eu posso lidar com um homem sem camisa dentro do meu carro!
- Isso é ridículo! – ele disse, se livrando da peça molhada e colocando-a sobre sua mala no banco de trás – Você me deixa completamente intimidado.
- Não sou eu que estou seminua aqui – ela o olhou novamente, mordendo o lábio inferior com a visão privilegiada que tinha –, infelizmente.
Ele abaixou a cabeça antes de dizer:
- Tá vendo, é disso que eu estou falando. – riu nervosamente – Como você pode ser tão natural assim?
- Eu só falo o que eu penso – deu de ombros.
Eles ficaram em um silêncio confortável, ele não se privava de admira-la totalmente focada no caminho que fazia, depois de observá-la por um bom tempo finalmente disse:
- Você é linda!
Milena sentiu seu coração acelerar em seu peito, não de forma apaixonada pois, definitivamente, era cedo demais para envolver qualquer sentimento naquilo, mas de forma a se sentir vitoriosa por ter um cara como aquele a elogiando de forma tão verdadeira, ela olhou para o lado encontrando os olhos dele analisando-a de forma intensa, sorriu.
- Muito obrigada! – agradeceu, pois não era, nem de longe, o tipo de mulher que faz charme ao ser elogiada, retomou sua concentração na estrada e suspirou – Você acha que é uma boa ideia isso?
Ele se encolheu minimamente em seu lugar, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, molhou os lábios antes de dizer:
- Eu não colocaria tanta coisa em jogo se não achasse que é uma boa ideia.
- Eu não quero te causar problemas. – confessou – Mas, porra, cada mínima parte de mim se sente atraída por você.
Ele não esperava por aquilo, adorava o jeito espontâneo dela, isso era bem verdade, desde que suas conversas se tornaram mais íntimas, ela era sempre mais solta que ele, e isso era, sem dúvida, uma das coisas que ele mais admirava na personalidade dela.
- O único problema que você pode me causar agora é simplesmente estar ocupada demais para que eu possa te beijar da forma que eu venho sonhando todo esse tempo – despejou em uma só respiração.
Milena, em um total reflexo, armou a seta para a direita encostando no canto da estrada deserta e sem iluminação, não se importava com o perigo de parar ali, no meio do nada, a noite e com aquela chuva, ligou o pisca-alerta do carro, soltou o cinto de segurança e encarou o homem ao seu lado com calma agora.
Apesar da pouca iluminação pode ver que ele não esperava por aquilo, mas quando viu no fundo dos olhos dela suas reais intenções, também se livrou de seu cinto, virando-se levemente para o lado.
A respiração de batia em seu queixo e ela o olhava de uma forma tão intensa que sentia que seu coração poderia explodir em seu peito, não estava nem aí se ele era o mais velho, naquela condição, ela era melhor no controle que ele, sentiu a mão da garota bagunçar seus cabelos e descer levemente até a sua nuca, arranhando aquele local de forma preguiçosa e extremamente gostosa, sorriu.
- Acho que resolvi o problema.
Foi a última coisa que ela disse antes de tomar os lábios dele com um beijo urgente, por reflexo, passou a mão pela cintura da mulher a sua frente desejando estar em um lugar mais confortável e apropriado que um carro, porém, esqueceu desse detalhe desconfortável quando sentiu a língua macia de pedir passagem e não pode achar argumentos bons o suficientes para acabar com aquela loucura, ela sabia exatamente o que estava fazendo, sabia bem demais, sabia o bastante para que ele não se preocupasse, nem por um segundo, em ser racional.
- Desculpa – ela sussurrou afastando-se minimamente dele –, não deu para esperar chegar em Vassouras.
- Oh, não, nunca se desculpa por isso. – ele roubou um selinho dela – A menos que, para se desculpar, você me beije de novo.
Ela abriu um sorriso sentindo os lábios dele encostarem nos seus levemente devido a proximidade, disse baixo:
- Não é bom ficarmos parados aqui por muito tempo – afastou-se colocando novamente o cinto de segurança –, mas não se esqueça que precisamos achar um hotel para você, e seria mesmo uma pena se essa chuva me impedisse de chegar em casa e me obrigasse a dormir fora também.
Ela piscou levemente para o homem ao seu lado que sorriu incrédulo, era maravilhoso para ele saber que ela também o desejava de todas as formas que poderia ter. Foram em um clima aconchegante até Vassouras, onde dirigiu até um hotel distante do centro, estava enrolada em uma toalha aguardando terminar seu banho para pedir a ele uma roupa confortável para dormir, quando ligou para sua mãe apenas para avisar que não dormiria em casa.
- Mas você tem dinheiro? – a mulher perguntou, pela milésima vez.
- Tenho, mãe. – respondeu – Não se preocupe, eu só não fui para casa porque o centro estava alagado – não foi totalmente uma mentira, mordeu o lábio inferior prendendo um sorriso –, mas amanhã logo cedo eu estou aí.
Viu sair do banheiro com a toalha pendurada em seu pescoço e vestindo apenas com uma bermuda vermelha, observando-o melhor agora na claridade, não deixou de sorrir, ele se sentiu um pouco sem jeito mas sustentou o olhar da garota a sua frente, afinal, vê-la apenas de toalha e com os cabelos molhados e bagunçados o atraía de todas as formas.
- Tudo bem, qualquer coisa me liga. – a mais velha falou ao telefone – Te amo, juízo.
- Também te amo, minha véia, boa noite.
riu da forma com que se despediu de sua mãe e comentou:
- Eu realmente não crio minha filha para ela me chamar de velho.
- Mas você é! – se levantou, sorrindo diante da expressão dele.
- Ah, então é assim que você vai me tratar, é?! – fingiu-se ofendido.
Ela caminhou lentamente até ele, arranhou levemente o peitoral definido do homem a sua frente, sentindo-o contrair cada músculo e prender a respiração, se aproximou da orelha dele sussurrando:
- A sua sorte é que eu tenho uma queda por homens mais velhos. – mordeu levemente o lóbulo da orelha dele que involuntariamente a abraçou pela cintura, aproximando-se dela o máximo possível – Além de que, mestre, você da de mil a zero nesses meninos da minha idade – soltou uma risada falha –, a começar por esse corpo maravilhoso.
se afastou para olhar a menina nos olhos, encontrou-os tão intensos como de costume, alguns tons mais escuros, denunciando toda luxúria presente em cada lugar daquele quarto de hotel, ficaram em silêncio por um tempo, trocando olhares intensos, até que, impaciente, perguntou:
- O que foi? – sua voz saiu bem mais baixa e rouca, demonstrando um pouco sua insegurança que tanto tentava camuflar.
- Estou procurando um motivo para desistir dessa loucura.
Milena passou a língua entre os lábios, prendendo-o entre os dentes logo em seguida, uniu as sobrancelhas em forma de preocupação e arriscou dizer:
- Achou algum?
sorriu levemente, motivos para achar aquilo uma loucura? Claro que existiam, inúmeros deles, poderia em um segundo listar dezenas, mas, sabia que aquilo era inevitável, poderia fugir agora, mas e depois? Sempre foi extremamente centrado e politicamente correto, nunca imaginaria que um dia estaria naquela situação. Sussurrou em resposta:
- Alguns – viu a expressão da garota a sua frente mudar, podia jurar que ela estava brava com aquela resposta, mas antes que ela pudesse se desfazer do seu abraço ele completou –, mas nenhum deles é bom o suficiente para me fazer desistir disso.
Milena estreitou os olhos com um sorriso presunçoso, não pode dizer nada pois logo sentiu os lábios de nos seus, silenciando qualquer resposta que ela poderia dar, não reclamou, não pretendia dizer nada de qualquer forma, estavam sozinhos em um quarto de hotel e a última coisa que passava em sua mente seria aproveitar aquele tempo com uma conversa.
Achava extremamente sexy quando estava concentrado dando aula e amava quando passavam horas conversando sobre assuntos acadêmicos, mas, por mais que amasse a versão professor intelectual dele, estava muito mais interessada na versão que ele estava apresentando naquele exato momento enquanto despretensiosamente massageava sua pele por baixo da toalha que usava enquanto a beijava com urgência.
- Ops – soltou, forçando um tom de surpresa, quando se afastou minimamente permitindo que sua toalha escorregasse por seu corpo e caísse no chão, mordeu os lábios sob o olhar atento de .
Se antes ele tinha o mínimo de controle da situação, agora, vendo a garota completamente nua a sua frente, ele perdeu todo e qualquer resquício de sua razão.
- Você é maravilhosa, ! – sorriu de lado, analisando sem pudor o corpo a sua frente, se reaproximou da mulher segurando fortemente em sua nuca, puxando levemente seus cabelos repetiu, dessa vez bem próximo ao ouvido dela – Maravilhosa!
Milena sentiu uma corrente elétrica passar em todo seu corpo assim que começou a distribuir beijos e mordidas por todo seu pescoço, concentrou-se em sentir cada carícia que recebia com maestria até que se lembrou do que havia dito a ele uma vez, com as duas mãos espalmadas no tronco do homem a sua frente o afastou delicadamente, olhando em seus olhos pode empurrá-lo até a cama, deitando-o de qualquer jeito sobre o lençol branco, levou as mãos até o botão da bermuda que ele usava, esbarrando, propositalmente e lentamente, no volume considerável da excitação dele, arfou ao ouvi-la dizer:
- Eu te disse que te ensinar seria um prazer. – destacou a última palavra, sem quebrar o contato visual com ele, desabotoou a bermuda – Hoje eu que sou a professora.
Ele não tentou retomar o controle, a forma com que ela se comportava era tão excitante que sequer fez questão de qualquer coisa além de reagir com total entrega a tudo que ela fazia, realmente, ela tinha muito mais a ensinar à ele, e ele estava adorando aprender.


****************


- Transei com o .
Milena soltou de uma vez só assim que abriu a porta do quarto para que a amiga pudesse entrar.
- PORRA É O QUE? – a garota deu um berro, fechando a porta e passando a chave por precaução, tinha um irmão pré-adolescente que fazia questão de infernizar a vida dela – QUANDO, COMO, QUE?
- Ontem. – respondeu e estreitou os olhos unindo as sobrancelhas – E acho que você sabe muito bem como se faz isso.
riu incrédula, andou até que estava sentada bem a vontade em sua cama e se deitou ao lado da amiga, falando:
- Espera, me conta isso direito – fungou, sua gripe ainda não tinha passado totalmente. – É uma mudança muito grande de "nunca vou ficar com ele" – fez aspas com os dedos –, para isso.
- Eu fui sozinha ontem, chegando lá na faculdade não tinha luz, ele estava sem carro, precisava de um hotel para ficar a noite e voltar para casa hoje. – explicou – E eu, gentil como sou, me ofereci para indicar um excelente hotel aqui em Vassouras. – sorriu – Uma pena que o centro estivesse tão alagado, não pude voltar para casa – lamentou fazendo-se de desentendida e carregando no tom de pesar, colocando a mão direita sobre o coração de forma teatral e forçando um biquinho.
- Garota, eu sou sua fã! – riu – E como foi?
Milena não se preocupou em segurar o sorriso que surgiu em seus lábios, retirou o cachecol que usava e respondeu:
- Ia falar que foi maravilhoso, mas realmente não acho que essa palavra faça jus à noite de ontem.
- Caralho, que estrago que ele fez! – arregalou os olhos encarando as marcas no pescoço da amiga – Eu to muito orgulhosa de você e também morrendo de inveja!
- ! – deu um tapa no ombro da garota ao seu lado, rindo.
- Amiga, eu to na seca, não me julgue. – riu junto – Estou apostando todas as minhas fichas nos nerds gostosos que vão estar nessa bendita competição.
- Bom, se terão muitos nerds gostosos eu não sei, mas o meu eu sei que estará lá – ergueu uma sobrancelha –, e o seu também.
rolou os olhos negando com a cabeça, tinha entendido perfeitamente o que sua amiga estava insinuando.
- Eu realmente não sei porquê você insiste nessa ideia absurda, , o é meu amigo!
- Eu sei que você não é cega, só se faz de desentendida perto dele, mas nós duas sabemos que ele está mega na sua e você, meu amor, não me engana, já percebi você secando ele várias vezes.
- Depois que ele inventou de se enfiar nessa vida fitness ele tá gostosinho, ué, não sou cega, olho mesmo! – confessou – Mas continua sendo meu amigo.
- Tá, não vou discutir isso com você, só to te dizendo que tem certas coisas que, por mais que a gente queira, não da pra fugir.
- Uhum, tipo você e o professor gostoso.
- Exato, meu amor. – riu e se levantou – Enfim, eu preciso ir pra casa, deixei o na rodoviária e vim direto pra cá.
- ? – ergueu uma sobrancelha – Meu Deus, só falta você se apaixonar.
- Ih, nem joga praga pra cima de mim! – se levantou – To fugindo de romance, amiga, e você sabe, mas, eu passei a noite com o cara, não é um desconhecido, né!
- Tem certas coisas, Dona , que por mais que a gente queira, não dá pra fugir – repetiu as palavras da amiga.
- Tchau, fingiu que não entendeu o que a amiga tinha falado e saiu dali.


Continua...


Nota da autora: Essa fic tem todo meu amor e ultimamente tudo que tenho pensado é em como debater assuntos tão importantes como feminismo, preconceitos, diferenças sociais e etc de uma forma leve e que nos levem a refletir...espero que vocês gostem desses personagens que, com muito carinho, eu tenho criado. E ah, se você está aí se privando de viver algo, meu conselho é: VIVA O QUE TE FAZ FELIZ.
Não esqueça de deixar seu comentário <3
Beijinho da Lala!





Outras Fanfics:
02. This Town
My Best Four Years



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