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Última atualização: 01/09/2020

Capítulo 1

A música alta, as várias garrafas de cervejas, os shots de tequila e outras bebidas que não lembrava quais eram passavam feitos flashes por sua mente. Piscou várias vezes antes de tentar abrir os olhos, mas a cortina aberta da sala a impedia de fazer isso. A dor forte em sua cabeça indicava o início da sua ressaca, mas nada que uma xícara de café forte e uma aspirina não resolvesse.
Quando teve coragem o suficiente para abrir os olhos percebeu que passou a noite - ou madrugada - toda deitada no chão de sua sala, algumas peças de roupas jogadas no chão e uma figura masculina também estava ali. nem ao menos tentou se esforçar para lembrar o nome do rapaz, ele também não tentaria se fosse o contrário. Deu de ombros e partiu rumo a seu quarto, pegou um top preto, uma calcinha e uma calça de moletom cinza e partiu para o seu banheiro. Um banho quente a faria bem.
Um pouco sem paciência deixou os cabelos curtos com mechas avermelhadas secarem naturalmente, apenas tirando o excesso de água com a toalha de banho. Voltou para a sala e o homem continuava desmaiado e apenas chegou perto o suficiente para se certificar de que ele estava respirando e estava. Ufa, respirou aliviada.
Well it's cold, cold, cold, cold inside darker in the day than the dead of night. Cold, cold, cold, cold inside doctor, can you help me? Cause something don't feel right something don't feel right” Berrava de algum lugar da sala de , mas a mulher ignorou o aparelho que saía o som e foi em direção a cozinha. Sua ressaca era mais importante naquele momento.
Colocou o pó de café e água na cafeteira, esperando a pequena máquina fazer o seu trabalho. Enquanto o café não ficava pronto, a mulher pegou, de dentro do armário, uma caixa de primeiros socorros onde guardava os comprimidos para dor de cabeça e mais outros utensílios para pequenos acidentes domésticos e tomou o comprimido para dor que achou. A máquina apitou informando que já tinha passado todo o café e o mesmo já estava pronto para ser servido na jarra de vidro acoplado ao equipamento. Não demorou para que estive bebendo o líquido quente e acomodou-se nos bancos altos de sua ilha pensando sobre o que faria durante o dia.
Era domingo, o celular já havia tocado antes, mas ainda faltavam exatos quinze minutos para a segunda ligação de sua mãe ligar perguntando onde a filha estava que ainda não tinha chego. A verdade era que ela nem sequer iria aparecer para o almoço. Sua mãe já sabia, mas ainda insistia para a filha tentar manter uma relação amigável com o pai. Inventar uma desculpa parecia mais interessante naquele domingo, talvez uma gripe ou tarefas demais do trabalho serviriam para salvar sua pele daquele almoço.
- Ér… eu to indo, então. - Ouviu o rapaz dizer e virou-se para ter certeza que ele sairia da sua casa. A pior parte da ressaca e de sexo com desconhecidos. Eles sempre tentavam inventar uma desculpa qualquer, mal sabiam eles que odiava essa parte e ficaria muito feliz se eles apenas juntassem suas roupas e saísse dali em silêncio, como ela costumava fazer.
- Ok, caso queira uma xícara de café fique à vontade, mas nem tanto. - deu de ombros tomando mais um gole do líquido. - caso não queira, a porta está logo ali. - Certamente o rapaz não esperava aquela resposta, mas resolveu não questionar saindo pela porta de madeira em seguida.
- WOW! Parece que alguém ficou ofendido ao ser dispensado. - abriu a porta mal fechada e adentrou a casa da amiga sem cerimônias.
- Caralho, ! Que susto. - Segurou com mais força a caneca evitando a peça de cair no chão. - Masculinidade frágil o nome. - revirou os olhos e se acomodou no sofá e esperou o amigo fazer o mesmo, depois de pegar uma xícara de café.
- A que devo a honra da sua visita a essa hora da manhã num domingo nublado?
O rapaz deu um beijo no rosto da amiga já com sua xícara de café em mãos. Intimidade era uma merda mesmo, já dizia o ditado.
- Adoro como sou sempre bem-vindo na sua humilde residência.
- Se não fosse não estaria aqui. Anda, desembucha. - Dobrou as pernas em posição de índio e esperou que ele começasse a contar o que tanto lhe afligia.
- Rebecca e eu terminamos.
- E? Ainda bem, você estava só enrolando ela né, .
- Mas…
- Mas o quê? A menina queria construir uma família, queria filhos, uma casa grande e um cachorro. E você só quer farra, encher a cara e zero filhos. Não seja hipócrita e dizer que não.
- Eu sei, só não achava que fosse vim dela a iniciativa.
- , nenhuma mulher merece um relacionamento meia boca e você estava dando isso a ela. Ela era apaixonada, mas você não. Deixe-a ir, vai ser o melhor. - O rapaz ficou em silêncio com as palavras da amiga. Não estava triste com o fim do relacionamento com Rebecca, sabia muito bem que estava sendo cretino com ela. Mas já estava acomodado em ter alguém e se esquecido totalmente das responsabilidades que manter um relacionamento trazia consigo.
- E a sua noite, como foi?
- Boa, nada demais. - Colocou a xícara na mesa de centro e pegou seu celular checando as mensagens de sua mãe. Dessa vez ela escolhera não ligar. - Quer ir num almoço comigo? - perguntou de repente, digitando algumas coisas no celular sem prestar atenção em .
- Vamos, preciso me distrair. - Ele falou carregando a xícara vazia junto da sua para a cozinha e as lavando em seguida.
trocou de roupa e optou por uma calça jeans de lavagem escura, um moletom preto e seu inseparável all star branco. Era apenas um almoço com a família, não precisaria se produzir toda para isso. Pegou seu celular e os óculos escuros na estante da sala e saiu da casa acompanhada de .

- Onde estamos indo? - apenas obedecia às coordenadas de e havia esquecido totalmente de questionar onde estava se metendo.
- Num almoço ué. - Prendeu o riso. - É ali ó, naquela casa azul. - estacionou o carro próximo da calçada e tirou o cinto já saindo do veículo.
- Espera, essa não é a casa da sua mãe? - olhou para a casa e depois para , vendo a mulher tirar os óculos escuros e concordar com a cabeça.
estava prestar a abrir a boca quando a porta da casa se abriu e Jesse saiu de lá com seu filho no colo. O garotinho loiro com os olhos cor de mel abriu o sorriso mais fofo mostrando o máximo de dentes que conseguia, tentando se livrar dos braços do homem e correr para o colo da tia. Jesse era o irmão mais velho de e o filho favorito também, mas o irmão não dava bola para as tentativas falhas dos pais de sempre deixarem os irmãos um contra o outro.
- Tia Sammy! - O garotinho pulou para o abraço de , tirando-o do chão e o enchendo de beijos.
- Marty!
- Hoje é o dia de sorte do Marty, já ganhou danone de chocolate da nossa mãe e agora está te vendo. Talvez até chova. - Ele disse limpando a boca do filho suja de chocolate e deu um abraço de lado na irmã.
- Diz pro papai quem é sua tia favorita, Marty? - A mulher fazia cócegas na barriga do sobrinho que não conseguia parar de rir para responder.
- Tava com saudade, tia! - O menino disse agarrado no pescoço da irmã mais nova do pai após cessar o ataque de riso.
- Eu também tava meu amor, morrendo de saudade. - Bagunçou seus cabelos e o beijou na bochecha. - Cadê Amanda?
- Lá dentro, ajudando a mamãe na cozinha. - Pegou o filho de volta no colo indo em direção ao seu carro. - Vamos no mercado rapidinho. Boa sorte. - Jesse acenou para ao passar por ele, já se conheciam dispensando qualquer tipo de apresentação.
e seguiram para dentro da casa da família . As vozes altas concentradas na cozinha junto dos barulhos de panelas e copos de vidro. estava ao lado da amiga com as mãos no bolso da calça, já conhecia a mãe de , mas não conhecia seu pai e a mulher ao seu lado parecia ainda mais tensa a cada passo que dava. Por um momento se questionou se não era melhor estar fazendo isso sozinha ao invés de envolver o amigo nos seus problemas familiares. Conhecia o temperamento de seu pai e não importava se tinha visita, ele nunca perdia uma oportunidade de tentar menosprezar o seu trabalho. Aos olhos dele, a filha mais nova era a ovelha negra da família desde o momento em que recusou fazer medicina. Fato que a deixava mais irritada sempre que o pai tocava no assunto, pois quando Jesse fizera o mesmo ainda era tratado como o filho favorito.
- Se meu pai for inconveniente nós vamos embora na mesma hora, ok? -
- Você é incrível, só lembre disso. - segurou a mulher pelos ombros, fazendo-a parar e respirar fundo por alguns segundos.
- Vamos lá. - Ele balançou a cabeça concordando, abriu a porta dando acesso a cozinha acabando com aquela tensão.
- Uau, quem é vivo sempre aparece. - Amanda foi a primeira a falar dando um abraço na cunhada.
- Marty estava morrendo de saudade da sua tia favorita. - Ela disse se gabando do trono que possuía - Gente, esse é o , vocês se lembram dele né?! - Apresentou o amigo para os presentes no cômodo, mas eles já se conheciam.
- Sinta-se à vontade , esquece da educação que dei a ela. - Jane abraçou a filha e sorriu terna para o rapaz.
- Será que Jesse vai demorar? Estou morrendo de fome.
- Mas continua folgada hein.
- Você me conhece Mandie.
- Como você aguenta ?
- me salva de umas poucas e boas, não posso reclamar. - Ele disse prendendo o riso.
- Mãe, o vovô me deu um chocolate. - Marty entrou na cozinha correndo com o chocolate em mãos e com um sorriso de orelha a orelha.
- Guarde para depois do almoço. Já está pronto, Marty. - A voz doce de Amanda falando com o filho só deixava com uma pontinha de felicidade com a certeza que ele cresceria da melhor forma possível, mesmo que ela não pudesse estar sempre por perto.
encarou o pai e tentou um sorriso, recebendo apenas um aceno de cabeça do mais velho. Seria um dia longo. A mesa foi posta para as oito pessoas da casa, isso incluía Marty que estava aprendendo a comer sozinho. Na mesa só se escutava o barulho dos talheres em contato com o prato, o silêncio e a tensão era sempre a mesma nos almoços em família aos domingos e nem Jesse e entendia porque a mãe tentava reunir todos se o clima não era dos mais agradáveis.
- O que anda fazendo ? - O silêncio foi cortado pela pergunta de maneira ríspida de George.
- Trabalhando, nada demais.
- E tem algum namorado? - revirou os olhos de forma discreta. Era sempre a mesma questão, qual o problema em não ter namorado ou não ter construído uma família ainda aos trinta anos?
- Não.
- Ainda bem que seu irmão nos deu um neto, se dependêssemos de você nem isso teríamos hoje.
- A não queria contar, mas a verdade é que nós estamos namorando. Vocês são os primeiros a saber. - prendeu a atenção de todos, inclusive os olhos arregalados de . O que diabos ele estava fazendo?
- Isso é verdade? - George desviou os olhos de para a filha, voltando a atenção no rapaz e o fuzilando com os olhos. sentiu a mão de apertar fortemente sua perna, imaginando a raiva que a amiga estava sentindo. Certamente estaria ferrado, pra não dizer morto, se todas aquelas pessoas não estivessem ali.
- Sim. - Respirou fundo antes de responder.
- Eu sabia que vocês formavam um belo casal. - Jane disse sorrindo para o casal. parou de prestar atenção nas felicitações que recebeu, com exceção de seu pai, dos familiares. Sua cabeça girava e ela apenas sorria fingindo entender o que falavam. Ela só precisava sair dali o mais rápido possível e socar a si mesma e principalmente pela maldita ideia. Ainda que a ideia fosse para ajudá-la, já que o amigo definitivamente não tinha pretensão nenhuma de manter um relacionamento real e ela muito menos com ele, a ideia na prática de usar e/ou mentir para alguém era ainda mais horrível do que parecia ser na teoria. Nem ao menos se deu conta de quando sua mãe já recolhia os pratos da mesa e colocava os potinhos de sobremesa, servindo um delicioso pudim de leite para todos. já havia engatado uma conversa sobre futebol ou música ou talvez os dois com Jesse, mas não fazia questão de entender sobre o que era exatamente.

A brisa leve naquela tarde fez pensar e se questionar sobre os últimos acontecimentos, enquanto estava sentada no balanço do jardim de seus pais. Acontecimentos esses que demoraram apenas um pouco mais de meia hora depois que tinha pisado na antiga casa que morara, para acontecer e o quanto esse pseudo-relacionamento poderia afetar sua vida e relação com seu pai. Como se não bastasse tudo ser mentira, ainda era o tipo de cara que seu pai abominava: metido a rockstar, sem pretensão de ter filhos e sem carreira profissional estabilizada.
Entretanto, era seu amigo, seu primeiro parceiro de apartamento e mesmo sendo totalmente o oposto dela, eles se davam bem. Conseguiam manter uma amizade saudável e podiam contar um com o outro em todos os momentos. E naquele momento ele estava provando que ela podia sim contar com ele ao se meter nessa enrascada por livre e espontânea vontade. não tinha ideia do quão complicada era sua família, mas estava disposto a fazer qualquer sacrifício e se esse sacrifício fosse manter um relacionamento de mentira, ele faria.
- Então, você está mesmo namorando? - Escutou a voz de George ao seu lado em pé.
- Sim. - Tentou forçar um sorriso, mas não conseguiu.
- O que ele faz da vida? Tem como te sustentar? Construir uma família?
- Pai, eu não preciso que ninguém me sustente e construir uma família não está nos nossos planos agora. Um relacionamento é muito mais do que ter filhos. - soltou um suspiro cansado. Seu pai nunca ficaria feliz independente da sua escolha de vida.
- Só quero que você tenha uma vida diferente da minha.
- Diferente como? Você e mamãe viveram a minha infância e a do Jesse trabalhando feito doidos em hospitais, quase nunca conseguimos passar um feriado, aniversário ou festa juntos. Não estou reclamando da vida que vocês nos deram, sempre tivemos tudo e a melhor educação possível, mas foi justamente por isso que resolvemos não seguir o mesmo caminho. Se for isso, não precisa se preocupar, porque minha vida já está sendo bem diferente da sua.
- , eu sou seu pai e só quero o melhor pra você.
- O que exatamente você pensa que é melhor pra mim? Eu amo a vida que eu levo, amo o meu trabalho, meus amigos, amo o Marty e estou feliz desse jeito. E se isso não é o melhor pra mim, eu sinceramente não quero saber o que é. - caminhou em passos rápidos para dentro da casa, a procura do amigo para que eles fossem embora o mais rápido possível ou seria capaz de vomitar mais palavras em cima de seu pai e ninguém ia gostar de ouvir o que ela ainda tinha guardado.


Capítulo 2

- QUE PORRA VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO, ? - O rapaz tinha a feição suave e estava jogado de uma forma extremamente relaxada no sofá marrom da casa de . - EU. QUERO. QUE. VOCÊ. ME. EXPLIQUE. AGORA! - disse entredentes visivelmente furiosa.
- , senta e presta atenção. - Ele se ajeitou no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos e olhando fixamente para a mulher. Ela estreitou os olhos e permaneceu séria esperando uma explicação. - Seu pai não quer tanto que você tenha um namorado? Então, você vai desperdiçar tudo isso? - Apontou para o próprio corpo fazendo revirar os olhos. - Eu tenho uma sobrinha também, não precisamos nos preocupar com filhos agora.
- Não vamos meter mais ninguém nessa loucura. Eu nem sei porque aceitei. Tem tudo pra isso dar errado e meu pai me odiar ainda mais. A gente não pode fingir pra sempre, tá entendo a gravidade da situação? - A mulher caminhava de um lado para o outro na sala pensando numa alternativa melhor para tirá-los daquela bagunça.
- Ele não te odeia, só não aceita te ver sendo independente longe dele.
- Você não entende. Ele me odeia e é capaz de odiar muito mais. - A conversa de mais cedo veio à tona e respirou fundo se acomodando no sofá. Talvez aquela ideia maluca desse certo a ponto de fazer seu pai um pouquinho feliz. Não havia chance de se envolver com e menos chances ainda da amizade deles acabarem por esse motivo.
- Então, vamos mostrar para ele o quão errado ele está a respeito de você. Aceita ser minha namorada de mentirinha? - Estendeu a mão a fim de selar o trato e começar a encenar seu personagem de namorado perfeito.
- Eu te odeio. - Apertou a mão selando o trato e desejando que no final desse tudo certo. - Só não se apaixone.
- Não prometo nada. Mas agora que o seu pinscher interior está calmo, eu to indo. Cheguei aqui solteiro e tô saindo com uma namorada mais gostosa que a anterior. - Recebeu um soco no ombro da amiga e soltou uma gargalhada vendo a cara de desgosto da garota.
- Você não presta. Vai embora logo, vai. - chutou a bunda do rapaz com o pé e se deitou no sofá ao ouvir a porta sendo fechada. Respirou aliviada e deixou o cansaço dominar seu corpo, sendo levada para um sono profundo.

acordou novamente na sala de sua casa, mas dessa vez tinha sido no sofá pelo menos e agradeceu por isso ou suas costas não aguentariam. A campainha atrapalhou sua ideia inicial de ir dormir finalmente na sua cama, mas pelo visto a pessoa não pretendia ir embora tão cedo, já que o toque soou pela casa novamente.
- Você não acabou de sair daqui? - olhou com um semblante confuso encarando o amigo.
- O convite ainda está em pé? - Ele disse com as mãos no bolso, visivelmente envergonhado, foi quando desviou os olhos do rosto do amigo para as duas malas grandes ao seu lado sem saber exatamente o que falar.

Uma semana antes

: 31 anos, formado em administração, possui um emprego meia boca, o suficiente para sobreviver e satisfazer algumas mordomias. O sonho de ser um rockstar já havia sido deixado de lado quando resolveu entrar na universidade, mas ainda passava o tempo tocando alguns covers e quebrando um galho para os amigos quando conseguiam um show num dos bares da cidade. O humor sempre sarcástico do rapaz denunciava o quanto era desanimado com o que fazia da vida, mas acabava levando daquele jeito mesmo por comodidade. Entretanto, estava sempre disposto a ajudar os amigos em qualquer situação, mesmo estando em desvantagem em muitas delas. Pode se dizer que era o Chandler da vida real.
A xícara de café quente com o líquido amargo em suas mãos parecia satisfazer e tranquilizá-lo, ajudando a colocar os pensamentos conturbados no lugar. O final de domingo tinha tudo para acabar da mesma forma de sempre, cumprindo com os objetivos de curar a ressaca, comer um lanche e dormir tarde para acordar cedo na segunda-feira. Se não fosse pela campainha tocando e a ilustre presença do senhor Morris, o síndico do prédio. Boris levantou as orelhas ao ouvir o som soar pelo apartamento e saiu logo atrás de seu dono em direção a porta.

- Boa noite senhor Morris. - Cumprimentou o senhor grisalho parado em sua porta.
- Boa noite . - O rapaz mais jovem estranhou o comportamento do velho quando este tentou lhe lançar um sorriso - numa tentativa fracassada, é claro -, pois sabia muito bem que ele não costumava ser simpático com ninguém no prédio.
- Tem alguma coisa errada? Tenho certeza que já lhe paguei o aluguel desse mês.
- Não é nada com o aluguel. Na verdade é, mas não com o valor. - Ele começou e permaneceu em silêncio. - O proprietário pediu o apartamento, se conseguir desocupá-lo até o início ou meio da próxima semana. A imobiliária vai entrar em contato com o senhor, mas já estou lhe adiantando o que eles têm pra lhe dizer.
Droga. Onde ele iria morar agora? Lembrava muito bem do sufoco que tinha sido conseguir aquele apartamento, ainda mais pelo preço acessível o qual ele foi ofertado. A localidade era ótima, próximo do centro, do seu local de trabalho e por incrível que parece próximo de . , então era ela quem o salvaria dessa vez.
- Ok, senhor Morris. Obrigada pela informação. Dou um jeito de sair até o final da semana.
- Desculpe pela notícia. Tenha uma boa noite. - se despediu com um aceno de cabeça e fechou a porta em seguida. O café já frio foi depositado na pia ao lado de outras louças antes do rapaz se acomodar no pequeno sofá branco da sala. Passou as mãos pelo rosto num sinal claro de nervosismo. A semana mal havia começado e ele já estava sendo despejado de sua própria casa. Bem, não era sua, mas pagava por ela, então era sua de certo modo.

“Preciso de um lugar pra ficar por um tempo.”

Quando percebeu a mensagem já tinha sido enviada para , o que fez o seu celular vibrar em seguida com a resposta.

“ Tenho um quarto pro Boris. Você pode ficar no jardim com a casinha dele hehe.”

- Nós vamos nos mudar, garotão. - Passou a mão pelo pêlo liso do animal e o mesmo pareceu entender o desânimo de , lambendo a mão do dono como forma de carinho.

Uma semana depois

- Entra. - disse ajudando a pegar a outra mala e colocando próxima ao corredor. - Ei garotão, que saudade. - pegou a caixa de transporte que o cachorro estava acomodado, abrindo para que o mesmo saísse e começasse a lamber o rosto da mulher. Mas o animal saiu correndo pela casa em seguida, afim de conhecer seu novo território.
- Desculpa aparecer essa hora.
- Já dividimos uma casa antes e era menor que essa, pense pelo lado positivo. O que aconteceu?
- O dono pediu o apartamento e me deu uma semana pra sair, mas eu acabei esquecendo e enfim, tive que sair hoje.
- Pode ficar o tempo que quiser, sabe que eu não me importo. Tem que arrumar o quarto que você vai ficar. - disse subindo as escadas, indo em direção ao antigo quarto de seu irmão.
- Achei que ia dormir junto com a minha namorada. - Ouviu os passos de acompanhando os seus. soltou uma gargalhada antes de abrir a porta do quarto.
- Tá doido, é? Fingir que somos namorados na frente dos outros não é o suficiente? Além de que vamos ter que nos beijar em algum momento sabe, minha família não é tão fácil de enganar assim. Principalmente o Jesse, você o conhece.
- Eu sei. Quem dormia aqui? - olhou o quarto um pouco bagunçado. Algumas caixas amontoadas uma por cima da outra ainda ocupavam espaço.
- Jesse. Antes do Marty nascer as coisas entre ele e a Amanda não estavam muito boas, então ele passava mais tempo aqui do que na casa deles. - pegou uma caixa grande e entregou para . - Coloca lá no meu quarto, por favor. Eu nem sei o que tem aí dentro.
- Eu mal cheguei aqui e já tá me colocando pra trabalhar.
- Meche logo essa bunda daqui.
e terminaram de arrumar tudo cerca de uma hora depois, tinham mais coisas guardadas dentro do cômodo do que a mulher lembrava de ter colocado ali. Tirou os lençóis da cama e deu uma muda nova para estender na cama, o fazendo rapidamente.
- Obrigada por deixar eu ficar aqui. - Ele agradeceu quando já estava tudo arrumado.
- Não posso deixar meu namorado no olho da rua. - parou próximo da porta, encostando a cabeça no batente. - Vai ser bom ter você aqui.
- Estava com saudade de morar comigo, fala a verdade. - Ela soltou um riso baixo.
- Você é bom um parceiro de apartamento, tenho que confessar.
- Você também é. A melhor que eu tive.
- Eu sei. - Piscou para ele. O silêncio estava prestes a predominar quando barulhos de vasos caindo sendo quebrados seguidos dos passos atrapalhados pisando na terra foram ouvidos.
- Boris! - Os dois falaram ao mesmo tempo, saiu correndo em direção ao cachorro, já imaginando a arte que ele havia feito. A área de serviço de estava completamente suja de terra, os cacos de vidro do vaso quebrados espalhados pelo local e Boris com terra por todo corpo corpo e focinho, as folhas da flor de orquídea da mulher estavam presas entre os pelos do cachorro e era impossível não rir da cena.
Boris era o típico cachorro vira-lata que não perdia uma oportunidade de cheirar e futricar em tudo que via pela frente. Da sua maneira, obviamente, e isso muitas vezes causava alguns danos ao seu dono. Entretanto, quando eles encontravam o meliante com a sua verdadeira cara de cachorro que caiu da mudança era impossível resistir, desistindo de qualquer possível xingamento que estavam prestes a dizê-lo. era completamente apaixonada pelo cachorro, ainda lembrava do dia em que tinha ido com a feira de adoções de animais. Boris era o único cachorro preto e um pouco maior dos outros que estavam no cercadinho, quando olhou o casal de amigos não resistiu e balançou o rabo logo lambendo a mão de , quando a mesma estendeu para lhe fazer um carinho. não pensou duas vezes antes de adotar o filhote.
- Boris! Você vai dormir na rua. - O cachorro baixou as orelhas e escondeu o rosto entre as patas, sabia que tinha feito algo errado. - Vem! - abriu a porta dos fundos, dando espaço para o filhote ir para o jardim. deixou uma tigela com água e ração na varanda junto de sua cama. O castigo teve efeito contrário do esperado, pois logo já era possível ver o pequeno filhote (nem tão pequeno assim) correndo pelo jardim, aproveitando cada espaço daquele local.
- Ele vai ficar bem? - disse enquanto observava o cachorro correndo.
- Sim, ele adora dormir no jardim. Mas eu morava em apartamento, então não rolava. - Deus de ombros e deixou o cachorro aproveitar o espaço.
- Ok. Boa noite, Dev.
- Boa noite, .
A noite fria começava a dar as caras e o vento entrava pela fresta da janela aberta, fechou o vidro, seguido da persiana de madeira, deixando o cômodo escuro, do jeito que ela gostava. Pegou o pijama mais confortável dentro do seu roupeiro e seguiu para o banheiro, seus músculos tensos mais uma vez no dia precisavam relaxar. O final de semana totalmente atípico, a conversa com o seu pai, a mudança de para a sua casa, tudo competia por um momento de atenção dentro da sua mente e tudo que queria era que nada daqueles pensamentos viessem à tona. Seria perfeito se ela pudesse apenas deitar na sua casa, sem pensar em nada, esvaziar a mente, acordando no outro dia para ir trabalhar, já com o corpo e mente relaxados. Quando saiu do banho, se acomodou debaixo das cobertas, pegando seu celular pela primeira vez desde que havia chegado em casa após o almoço desastroso. O aparelho logo apitou com as várias notificações de mensagens de Cassie, o que fez sorrir imaginando o desespero da amiga. Não deu tempo nem de pensar quando enviou a primeira mensagem a amiga, já que o aparelho começou a vibrar em seguida anunciando a chamada de vídeo solicitada pela mesma.
- Oi, gatinha. - Casa falou com uma enorme xícara de café em suas mãos.
- Oi, meu amor. - respondeu, já deitada e devidamente tapada. - O que me conta de tão importante?
- Nada demais, só pra saber se você está bem e viva. Sumiu o dia inteiro. - Cassie deu de ombros. ficou pensativa, sabia que se contasse sobre o namoro falso para Cassie a amiga surtaria. Contudo, era a pessoa que mais confiava depois de Jesse, mas também sabia que a amiga não aguentaria guardar segredo por muito tempo.
- Eu estou bem. Se não estivesse viva você saberia, notícia ruim corre rápido.
- Credo, vira essa boca pra lá. - A amiga bateu na mesa de madeira, uma forma de espantar o que acabara de ouvir.
- Ér.. eu acho que tenho uma novidade então. - O sorriso de Cassie aumentou fazendo rir da amiga. - Eu e estamos namorando. - O sorriso de cassie se tornou em um “o”, seguido de um grito e pulos da amiga, assim que soltou a frase.
- O , aquele seu amigo gostoso? - Podia ver o sorriso
- O , sim.
- COMO VOCÊ ESCONDE ISSO DE MIM, ?
- Calma, respira primeiro. Eu vou contar tudo. - Fez uma pausa. - Mas amanhã. Almoçamos juntas, ok? - Cassie sorria e balançava a cabeça freneticamente concordando.
- Ai meu deus, tô tão ansiosa pra saber de tudo. Não se atreva a esconder mais nada de mim.
- Eu sei, mas prometo contar tudo amanhã.
- Ok. Agora eu preciso dormir, porque infelizmente ainda sou uma mera proletária. - Cassia revirou os olhos e mandou beijos, encerrando a ligação após se despedir da amiga.
Nos últimos meses passava mais tempo fora do que em casa, o trabalho realmente a estava ocupando, mas toda vez que ficava em casa se sentia sozinha. A casa parecia grande demais apenas para ela, trazendo sempre à tona a ideia de adotar um cachorro ou gato para fazê-la companhia. Mas agora e Boris estariam com ela, morando sob o mesmo teto. Isso apavorava os dois de alguma forma, mesmo já tendo morado juntos por alguns anos, eram outros tempos e não estavam fingindo manter um namoro. Entretanto, eles podiam botar tudo a perder ou fazer tudo dar certo, mesmo que de mentira.
No quarto ao lado, encarava questões parecidas. Após tomar um banho quente, deitou-se na cama para finalmente descansar, mas a sua mente ainda trabalhava a todo vapor. O domingo totalmente atípico o fez pensar o que teria acontecido se não tivesse ido ao almoço com , será que ele estaria dormindo naquela cama agora? Provavelmente sim, mas com certeza não estaria envolvido num pseudo relacionamento amoroso, o qual ele mesmo se meteu. A sua vida parecia não ser a única que estava uma bagunça, além de ter levado um pé na bunda, também tinha perdido a sua casa. O misto de sentimentos dentro do peito parecia querer pular pra fora a qualquer momento, mas o cansaço do dia falou mais alto e o fez pegar no sono rapidamente.


Capítulo 3

- Boris, devolve o meu chinelo! - corria atrás do cachorro, o qual achava que a mulher estava brincando com ele e corria cada vez mais pela casa. - Ok, eu desisto. Pode ficar para você. - Voltou para o seu escritório calçando apenas um pé do chinelo, o outro ficou na boca do cachorro. Se acomodou na cadeira novamente, dando a devida atenção para o computador.
Naquela semana havia se permitido ficar em casa e fazer seu trabalho dali. Aproveitando também que iria almoçar com Cassie e ainda tinha um pouco de tempo antes de encontrar com a amiga. Olhou mais uma vez para o logo da nova confeitaria e ficou satisfeita com o seu trabalho, enviou para a proprietária da loja e agora só restava aguardar a resposta.
Enquanto se arrumava para o almoço, repassou pela última vez a história que contaria para Cassie sobre o seu namoro com . Precisava ser convincente, pois sabia que a amiga não deixaria nenhum detalhe de fora e no primeiro furo ela descobriria toda a farsa. Tomou um banho rápido, vestindo a roupa separada já em cima da cama. Deu uma última olhada no espelho e ficou feliz com a imagem que apareceu. estava usando uma calça jeans de lavagem escura, uma blusa preta com detalhes de renda na manga, o seu coturno preto nos pés e uma jaqueta de jeans claro completava o visual. Os cabelos ondulados caíram sobre os ombros, era o máximo que eles chegavam. As mechas vermelhas começavam a ficar desbotadas e percebeu que já estava na hora de mudar, mas deixaria para resolver mais tarde, agora ela tinha uma Cassie ansiosa para enfrentar.
Não pôde controlar o sorriso ao ver a loira sentada próxima da janela, no restaurante favorito das duas, enquanto digitava algo em seu celular. Cassandra era sem dúvida linda, sem tirar nem pôr. Tudo na medida certa, a falta de filtro fazia parte da sua personalidade e quem visse somente o seu rosto angelical não imaginava o quanto determinada e segura de si ela era, muitas vezes ajudando a também ter aquela autoconfiança que tanto precisava em certos momentos. Ao contrário de , Cassie era alta, corpo bem definido valorizando todas as suas curvas. Os lábios bem definidos normalmente marcados por um batom nude ou marrom escuro, com ela era oito ou oitenta. Naquele dia, sentada na mesa mais afastada, Cassie estava vestindo um conjunto de moletom preto e um par de tênis branco, os cabelos presos num coque firme no alto da cabeça e o semblante irritado enquanto digitava algo no celular não indicava boa coisa. Cassandra Highmore nunca saía de moletom e tênis nem para ir na esquina.
- Cadê minha melhor amiga e o que você fez com ela? - disse quando chegou à mesa, atraindo a atenção de Cassie.
- Esse velho maldito vai me tirar do sério! - Ela respondeu ainda concentrada demais no celular. - Mas enfim, vamos falar de coisa boa. Minha amiga finalmente desencalhou! - Soltou um gritinho animado, após guardar o celular na bolsa, mudando totalmente de humor e atraindo olhares de algumas pessoas a sua volta. fez uma careta ao ouvir a frase, mas sabia que Cassie estava feliz por ela.
- O que o senhor Willis quer agora? - disse tentando tirar o foco da conversa de cima de si.
- Nada demais, não vamos estragar nosso almoço falando dele. - Droga! pensou. - Me conta tudo logo.
- Ok. - Murchou os ombros pensando mais uma vez como contaria tudo. - Então, você conhece o , né? - Cassie balançou a cabeça concordando. - Nós fomos no almoço de domingo da minha família e ele me pediu em namoro lá, na frente de todo mundo. A gente já estava ficando há um tempo, então não era algo que nós dois fossemos nos arrepender depois. Estamos juntos real oficial desde então. - As reações de Cassie variavam entre espanto e sorrisos apaixonados. Ao contrário do que esperava da amiga, Cass ficou quieta no primeiro instante, concentrada no seu macarrão. - Fala alguma coisa, por favor.
- E o sexo, como é? Porque ele é gostoso demais. - Se não estivesse com o guardanapo em mãos, teria feito um estrago e tanto na cara da amiga. Tomou um gole de água para a comida descer e poder respirar.
- O quê?
- Você sabe que eu sempre quis pegar aquele homem e até teria pego se vocês dois não estivessem juntos. Meu Deus, por favor, mata essa minha curiosidade. Em que nível você classificaria o sexo?
- Num nível…- pensou por alguns segundos, antes de responder. Tentou lembrar da última e única vez que tinha transado com . Alguns bons anos atrás, ainda quando dividiam o apartamento. - Num nível . - A boca de Cassie se transformava em um grande “o”, porque aquilo era sem dúvida uma confissão e tanto.
- Sua vadia! Ok, falando sério agora, se estiverem dispostos a fazerem um ménage podem me chamar.- soltou uma gargalhada, um pouco mais alta do que deveria, ao ouvir a frase de Cassie, mas era impossível não rir do que estava ouvindo.
- Eu largo o agora mesmo para ficar com você, Cassandra Highmore.
O almoço seguiu calmo, ainda que tivesse seguido de mais algumas perguntas - constrangedoras - de Cass, as quais teve resposta na ponta da língua para todas elas. Quando o horário de almoço de Cassie teve fim, aproveitou para passar no mercado e depois ir para casa, ainda tinha mais alguns ajustes para fazer antes de mandar tudo para o seu chefe. Por incrível que pareça, era designer gráfica, uma das melhores na sua área. Trabalhava para uma editora pequena, além de ter montado sua própria agência. Muitas vezes, o trabalho acabava tomando muito tempo da sua vida, mas quando o fim do dia chegava e via o ótimo resultado, todo o esforço valia a pena.
O jardim bem cuidado da casa de tinha uma trilha de pedras até a sua porta, era uma das poucas coisas que ela gostava e fazia questão de cuidar quando se tratava de jardinagem. Podia ser um pouco antiquado ou esquisito, mas ela gostava da grama bem cuidada e baixinha, alguns ramos de flores tinham sidos plantados por ela mesma em frente à casa e ao fundo gostava de manter uma horta pequena. Horta essa que estava correndo perigo quando sabia da existência de um Boris devorador em sua casa. O vaso quebrado na noite anterior foi apenas o começo, ela sabia disso. A caixinha de correio estava um pouco cheia, o que fez deixar de preguiça e finalmente esvaziá-la. Algumas cartas eram de contas da casa, outros apenas panfletos, uma carta que ela fez questão de ignorar e por último um convite. O convite atraiu sua atenção, o abrindo rapidamente. As letras chamativas e bem desenhadas foram reconhecidas por , visto que ela mesma havia feito aquela arte. Derek Wayland estava prestes a inaugurar seu novo restaurante na cidade. Alguns meses atrás ela havia trocado alguns e-mails com o homem, quando ele solicitou para que ela fizesse toda a arte de divulgação do local, assim como o letreiro e os novos cardápios. Ainda que ela fizesse muito bem o seu trabalho, raramente era convidada, principalmente, para inaugurações. Se sentiu feliz por poder participar daquele processo respondendo o e-mail do convite, confirmando sua presença. Sexta-feira, às 19 horas.
O restante da tarde tinha sido um pouco movimentada para , devido a quantidade de trabalho não previsto para o restante do dia. Mas ela conseguiu dar conta, mesmo ficando um pouquinho depois do seu horário normal. Às vezes, os clientes conseguiam ser mais chatos e exigentes do que ela pensava, no fim conseguia dar conta de todo o trabalho deixando-os mais satisfeitos do que o esperado. Quando se espreguiçou na cadeira, após fechar o notebook, percebeu que a noite já estava chegando. O cheiro de barbecue invadiu suas narinas, fazendo sua barriga roncar lembrando-a que não havia comido nada depois do almoço. Deixou o cômodo que usava como escritório e caminhou em direção a cozinha, porém a mesma também estava vazia. Resolveu ir para o quarto e tomar um banho quente, colocar uma roupa mais confortável que a calça jeans. Ouviu uma música soar dentro do quarto de , no mesmo ritmo que ele cantarolava baixinho. balançou a cabeça rindo do amigo, ainda tinha as mesmas manias.
O vento gelado da rua adentrou o quarto no momento em que a mulher saiu do banheiro, com a toalha em mãos secando os cabelos. Fechou-a rapidamente, terminando de colocar um moletom por cima do top que estava usando junto do short do pijama. Não fazia muito sentido usar uma blusa de moletom por cima enquanto ficava com as pernas de fora, mas era assim que gostava e costumava ficar. De qualquer forma, não conseguia dormir de calças e se as colocasse antes, teria que trocá-las pelo short na hora de dormir, já vestir a peça economizava esforço depois. Desceu as escadas, indo para a cozinha novamente, dessa vez já se encontrava ali. O rapaz vestia apenas uma calça de moletom e deixava as poucas gotas d'água de seus cabelos curtos caírem por suas costas, terminando no cós da calça. “Quando tinha se tornado tão gostoso?” Foi o primeiro pensamento que passou pela cabeça de , se amaldiçoando em seguida. “Foda-se, nós somos amigos. É normal, não é?” Ela certamente estava fazendo algumas caretas enquanto os vários pensamentos - alguns impróprios - rondavam sua mente, mas não se importou.
- Ei, não te vi chegar.
- Você estava concentrada demais no telefone, não quis atrapalhar. - tirava a forma do forno, colocando-a em cima do fogão. - A janta tá pronta, tá com fome?
- Muita, o cheiro está ótimo. - pegou uma jarra na geladeira, preparando um suco de laranja para os dois. Colocou os pratos e talheres na mesa, enquanto pegava os copos no armário de cima.
- Eu não sei se você ainda come carne, mas eu fiz uma costela suína com barbecue e batatas assadas. Você amava isso.
- Eu ainda amo. E, sim, ainda como carne. - Serviu-se um pedaço de carne, batatas e salada em seu prato. Sentando-se na mesa acompanhada de . - Jesse não conseguiu me converter para o veganismo.
- Marty não deveria passar muito tempo com você, caso contrário ele terá muito trabalho também.
- Ele é muito de boa com o Marty, deixa o filho experimentar bastante coisa. Mas sempre evita industrializados e essas coisas. - disse colocando um pedaço de carne na boca. - Hum, tá muito bom isso aqui. - Apontou para o prato.
- Eu que fiz né, baby.
- Modesto como sempre. - deu língua e revirou os olhos. Um mais adulto que o outro. - Ei, mudando de assunto rapidinho. Conversei com a Cassie hoje, contei sobre a gente sabe, para pelo menos parecer real.
- Aposto que ela surtou. - balançou a cabeça concordando e rindo ao lembrar da conversa de mais cedo com a amiga.
- Sim, sabe como ela é, né. Sem filtro.
- Hum, já posso imaginar como foi a conversa. Tenho um convite para te fazer. - Foi a vez de mudar de assunto.
- Eu também. - Ele a olhou risonho, esperando que ela falasse primeiro, mas fez o mesmo e foi a brecha para começar a falar.
- Hum... Interessante. - Ele terminou de comer e colocou o prato na pia, se escorando na mesma. - Meu amigo vai inaugurar o restaurante novo dele esse final de semana. Podíamos ir juntos.
- Seu amigo se chama Derek Wayland? - colocou o prato na pia, parando ao lado do amigo.
- Sim, como sabe? - começou a lavar a louça quando tudo já estava dentro da pia.
- Ele é meu cliente. Recebi o convite da inauguração do restaurante dele hoje. Vamos juntos então. - sorriu amigável pegando um pano na bancada para começar secar o que era lavado.
- Sim. Mas se algo acontecer eu não posso te pedir em casamento. É demais para mim.
- Idiota! - tocou um pedaço de guardado de papel em que ria da cara da amiga. - Eu ainda tenho vontade de te matar toda vez que lembro desse namoro.
- Eu precisava de uma casa para morar, nada mais justo você poder desfrutar desse corpinho.
- Seu interesseiro. Eu não seria capaz de deixar o Boris na rua. - Ela ria alto tentando desviar dos pingos d'água que jogava em sua direção. - Falando sério, você é doido e se não fosse meu melhor amigo eu acharia mesmo que está fazendo isso por interesse.
- De todas as coisas que eu já fiz na minha vida, essa com certeza é a mais doida delas. Eu posso morrer, . - A cara de incrédulo fazia rir ainda mais do amigo.
- Sim, meu pai vai querer matar nós dois quando descobrir tudo.
- Ele não vai descobrir. - Terminou de lavar a louça e esperou a amiga guardar o último prato, secando suas mãos com o pano que ela usara. - Vou passear com o Boris. Vamos?
- Só deixa eu colocar um calça e já encontro vocês.
foi até o jardim da casa com a coleira em mãos. Quando Boris viu seu dono, saiu em disparada balançando freneticamente o rabo e pulando ao seu redor, já sabendo que iria passear. Estar naquele enorme espaço apenas para si estava sendo uma verdadeira festa, comparado ao pequeno espaço que tinha antes dentro do antigo apartamento de . O cachorro sempre fora calmo, mas como um velho e bom vira-lata ele gostava de espaço para fazer suas artes. O jardim ainda estava intacto, mas à medida que se aproximava do cachorro ele percebeu um pé do chinelo de . O mesmo que Boris havia roubado mais cedo, porém agora ele já se encontrava num estado deplorável e impossível de ser usado.
- Ei, amigão, pelo visto você já fez coisa errada de novo, não é? - O cachorro fez sua típica cara de cachorro sem dono, baixou as orelhas e enfiou o focinho no meio das patas. - Não adianta você fazer essa cara de coitado. A vai te colocar na rua qualquer dia. - terminou de colocar a coleira no cachorro e caminhou pela lateral da casa até a sua frente, encontrando com já vestida com uma calça de moletom e tênis.
A rua pouco movimentada, àquela hora da noite, foi o suficiente para um Boris correr feliz com o espaço das calçadas somente para ele. Enquanto e caminhavam lado a lado aproveitando a brisa batendo em seus rostos. O silêncio não era incômodo, muito pelo contrário, eles gostavam apenas de estar na presença um do outro e aproveitar aquilo. Sempre foram assim, desde quando se conheceram e já sabiam as manias e jeitos de cada um lidar com as coisas e situações.
- Então, quer dizer que eu estou te devendo um par de chinelos, além do vaso de planta? - soltou uma gargalhada alta, balançando a cabeça negativamente.
- Se eu começar a te cobrar tudo que o Boris fizer de errado, você vai a falência. Não se preocupe com isso, eu perdi a guerra do chinelo. Tentei recuperá-lo antes e não rolou. - Deu de ombros, como se realmente não se importasse com as travessuras de Boris, de fato ela não se importava. acendeu um cigarro soprando a fumaça para o lado oposto ao de . Ele sabia que a amiga odiava que ele fumava, mas era mais forte que ele mesmo. Depois de um dia de trabalho, dentro de um escritório, fumar era a única coisa capaz de fazê-lo relaxar.
- Ainda bem. - Soltou uma risada nasalada. Tragando mais uma vez o cigarro, sentindo a nicotina fazer efeito em seu corpo. - Acabei esquecendo, encontrei o seu vizinho hoje de manhã. Ele é um pouco…
- Enxerido? Sim, é mesmo. Para piorar ainda é amigo do meu pai. - revirou os olhos, ao lembrar do senhor de meia idade que morava em frente à sua casa. Todo dia pela manhã fingia molhar a grama do jardim de mangueira apenas para catar a vida de todos da redondeza. Ainda desperdiçava água, ele não pensava no meio ambiente não?
- É, não existe outra palavra para defini-lo.
- Podemos levá-lo na praça que tem aqui perto amanhã. Não costuma ter muita gente no final do dia, mas vai ser ótimo para o Boris brincar lá. Por favor, por favor, por favorzinho. - parecia uma criança que acabara de encontrar seu brinquedo favorito dentro de uma loja infantil. Com as mãos juntas do rosto e fazendo um biquinho fofo com a boca foi impossível recusar o pedido da amiga.
- O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando. - Os pulinhos alegres de fez Boris latir em direção a mulher.
Boris já começava a ficar cansado quando resolveram voltar para a casa, se atirou na sua cama fofa quando o mesmo adentrou o jardim novamente. O destino de e não foi muito diferente, ambos seguiram para os seus quartos e puderam, por fim, descansar em suas camas depois de um dia longo.

As taças cintilando, o barulho do saltos no piso e a música calma no pequeno salão deixava ainda mais desconfortável de estar no meio de todas aquelas pessoas que não conhecia e ao menos sabiam quem ele era. O álcool do espumante não era o suficiente para afastar todos os pensamentos e a sensação de desconforto que o local trazia a sua mente. Entretanto, estava tentando conversar amigavelmente com quem puxasse assunto, mesmo depois de um dia longo de trabalho, onde o único lugar em que ela gostaria de estar era em sua casa. De preferência com uma calça de moletom confortável e uma camiseta velha qualquer, mas a realidade o obrigava usar um vestido colado no corpo e saltos desconfortáveis.
Kurt insistira para a namorada comparecer ao evento, uma festa que nem lembrava qual o motivo de estar acontecendo, mas decidiu, por fim, aceitar ir. A maior parte do tempo estava sendo exibida como se fosse um troféu, odiava essa atitude do namorado. Mas para evitar mais brigas, do que já acontecia normalmente, acabava ficando calada.
- Estamos livres, podemos aproveitar nosso tempo em outro lugar. - Kurt abraçou a namorada de lado cochichando de forma provocativa em seu ouvido. sentiu um arrepio por todo seu corpo, não era o típico arrepio que você gosta de sentir quando é apaixonado por alguém e quer passar mais tempo ao lado dessa pessoa. sabia que quando chegava em casa, Kurt se transformava em outra pessoa, se tornava mais agressivo e controlador.
- Eu vou para minha casa hoje, estou cansada. - Eles não dividiam a mesma casa, apesar de a mulher quase não aparecer mais na sua própria residência nos últimos meses.
- Não vai não. Te ver nesse vestido está sendo uma tortura. - os olhos de águia de Kurt podiam engolir se quisessem. Ela sabia que toda aquela situação era errada e sempre que tentava tomar alguma atitude ou terminar o relacionamento, como já havia passado milhares de vezes por sua cabeça, ele voltava feito um cachorrinho com o rabo no meio das pernas. Amolecia o coração de , fazendo-a se submeter a todas aquelas situações constrangedores, iniciando mais uma vez esse ciclo viciante. Kurt gostava de estar sob controle de tudo, não importava o que ou quem, ele tinha que estar no controle. Entretanto, quando tentou sair de suas garras as coisas se tornaram mais graves.
O barulho do clique da chave sendo girada na porta fez engolir em seco, era só questão de segundos para o inferno começar. Sentia seus olhos úmidos e seu rosto esquentando, mas tentou esconder quando subiu as escadas rapidamente indo em direção ao quarto. “É só fazer o que ele quiser, vai ser rápido e ele vai dormir” falava para si mesma, como se assim fosse menos doloroso e humilhante. A garrafa de whisky tinha sido aberta, o barulho do gelo e do líquido sendo derramado no copo podia ser ouvido. Quase como um ritual, antes de Kurt soltar o monstro que existia dentro de si. A porta do quarto se fechando com um estrondo ecoou na cabeça de , enquanto trocava de roupa dentro do banheiro.
- Docinho!

sentou-se rapidamente no meio da cama. O coração acelerado e as mãos trêmulas fizeram a mulher perceber que havia sido apenas mais um dos pesadelos que há tanto tempo não estava tendo. O pesadelo em forma de lembrança, pois já tinha vivido muitas daquelas noites e todas elas tentava apagar de sua memória. Acendeu a luminária ao lado da cama e caminhou até o banheiro, lavou o rosto e passou um pouco de água na nuca. Não sabia de onde que aquela angústia tinha surgido novamente, mas parecia querer consumi-la dez vezes mais do que alguns anos atrás. Olhou no relógio e o mesmo marcava quase quatro da manhã. Já era, dificilmente conseguiria voltar a dormir. Deixou a televisão ligada com o volume no mínimo, mesmo que não estivesse prestando atenção no que passava era melhor do que voltar a deitar com o quarto escuro novamente. Talvez fosse a hora de voltar para a terapia e tirar de vez aquele peso que carregava dentro do peito.



Capítulo 4

O despertador tocou às sete da manhã em ponto, fazendo um sonolento caminhar até o banheiro ainda cambaleando. Tinha um pouco mais de quarenta minutos até o horário de sair de casa. Tomou um banho rápido, vestiu a típica roupa social para ir trabalhar, deixando os fios de cabelos bagunçados e desceu para preparar seu café. Deixou o café passando na cafeteira enquanto colocava um pouco mais de ração para Boris e trocava a água dele. O barulho do pacote de ração em suas mãos fez o animal se alarmar e logo levantar de sua cama. fez um carinho na cabeça do cachorro e atrás das orelhas, voltando para a cozinha logo em seguida. Ao contrário do que pensara, Boris se acostumou muito rápido à casa de . Ela já conhecia o animal desde que ele era filhote, então ele estava acostumado com a presença da mulher. Ele havia o adotado logo depois que saiu do apartamento em que dividiam, na época até tinha se questionado se não era mais fácil ter um gato, já que eles eram animais mais independentes e ficaria muito tempo sozinho dentro de casa. Com o tempo, Boris estava se mostrando ser o melhor animal do mundo para e o homem jamais poderia ter escolhido cachorro melhor que aquele. Chegar em casa, independente de qual fosse, e receber aquele olhar contente, balançando o rabo de felicidade enquanto corria em sua direção era ainda melhor. Um gato com certeza nunca faria isso, no máximo ganharia uns miados pedindo por carinho e comida.
Antes que o café esfriasse, colocou o líquido amargo em sua xícara e o tomou. O relógio já marcava sete e meia indicando que estava na hora de ir para o trabalho, caso não quisesse pegar trânsito logo pela manhã. A sexta-feira finalmente havia chegado e esse era o único motivo para chegar animado no trabalho, pois nada melhor que um final de semana de descanso depois de uma semana longa. O escritório não era longe da casa de , mas ir e voltar de carro era a maneira mais rápida e prática para chegar no horário. Se não trabalhasse dentro de um escritório, com certeza iria de bicicleta, já que pedalar era uma das coisas favoritas de . Mas chegar suado não era uma boa ideia, principalmente, quando tinha que encarar reuniões importantes.
- E aí, cara, fiquei sabendo que tá namorando. - Oliver adentrou a sala de , sem nem ao menos bater na porta. e Oliver eram antigos colegas de trabalho, eram bons amigos também fora do escritório e isso às vezes fazia Oliver achar que tinha liberdade demais com o amigo, mesmo quando não tinha.
- Bom dia, Oliver. - Disse olhando concentrado para a tela de seu computador. Oliver entrou na sala e se sentou na cadeira disponível em frente ao amigo.
- Pessoal tá combinando de ir para o bar encher a cara hoje. Tá afim?
- Não, já tenho compromisso com a hoje. - A inauguração do restaurante de Derek era naquela sexta.
- Então é sério mesmo, hein? Nunca achei que fosse te ver desse jeito. - Oliver parecia ter o dia todo livre, já que se acomodou ainda mais no encosto da cadeira. Ao contrário do loiro a sua frente, estava ainda mais concentrado em seu computador lidando com as diversas planilhas e pastas de clientes abertas.
- Não tem nada para fazer, não, Oliver? Posso até te passar alguns trabalhos, tenho de sobra. - disse um pouco grosseiro, mas se deixasse Oliver passaria a tarde em sua sala batendo papo.
- Tá bom, cara, não tá mais aqui quem falou. - levantou os braços na altura dos ombros, se levantando da cadeira. - Já vi que não está de bom humor hoje. - Do mesmo jeito que ele chegou, saiu da sala. - tirou os óculos de grau que usava para o trabalho e esfregou o rosto com certa força, jogando o corpo na cadeira estofada, do mesmo jeito que Oliver fizera minutos atrás, respirando fundo. O dia seria longo.
Todo mundo sabia que estava longe de ser o cara que no fim do dia recusaria qualquer bar para ficar em casa ao lado de sua namorada, esposa ou o que fosse. Ele estava mais para o cara que iria para o bar em plena segunda-feira, por exemplo, e nem ele fazia questão de negar isso. A notícia do namoro de se espalhou rápido quando ele contou a Scott, também colega de trabalho, e o mesmo fez o favor de espalhar a notícia pelo prédio. Totalmente desnecessário, mas não podia fazer nada quando sabia que o homem desenvolvia bem o seu papel de rádio corredor. Ele precisava lembrar de agradecer o amigo pelo feito, não é todo dia que você se torna a fofoca principal dentro do seu trabalho e as pessoas, nem ao menos, tentavam ser discretas quanto a isso.

- Querida, cheguei! - gritou assim que entrou em casa, colocando o blazer em cima do sofá e afrouxando a gravata no meio do caminho.
- Aqui no jardim. Rápido! - Seguiu a voz de a passos rápidos. A cena que viu foi uma um pouco descabelada correndo atrás de um Boris eufórico com o seu brinquedo novo de borracha. - Olha aqui. - Ela apontou para a nova casinha de madeira do cachorro.
- Não acredito. - Ele ria quando o cachorro largou o brinquedo no chão e foi ao seu encontro, sem se importar se estava o sujando ou não. - Você quebra um vaso de flor, destrói o chinelo dela e ela ainda te mima com uma casa nova, tá vendo só? - Sentou nos degraus da escada que dava acesso para o jardim, ainda fazendo um carinho no cachorro. - Boris, agradece a . - No momento em que a mulher sentou ao lado de , o cachorro foi ao seu encontro a lambendo no rosto como forma de agradecimento.
- Eu te amo demais, Boris. - abraçou-o de uma forma desengonçada, enquanto ele continuava a lambendo.
- Ok, vou ficar com ciúmes. Boris, vá pegar. - Jogou o brinquedo para o jardim, o cachorro obediente foi buscar imediatamente. Balançava o brinquedo na boca, voltando a se entreter, como se os dois adultos nem estivesse mais ali. - Espera aqui, tenho uma coisa para você. - Antes que pudesse fazer qualquer pergunta, saiu da casa novamente com um vaso em mãos.
- Não acredito! Eu amo girassóis. - Pegou o pequeno vaso de flor que lhe foi entregue, ainda admirando o presente.
- Eu não sabia que tipo de flor o Boris quebrou aquele dia. Mas acho que essa é a sua cara. - tinha um sorriso de orelha a orelha, encantada demais para conseguir esconder sua felicidade.
- Não precisava me dar outra flor, é sério. Vamos, vou deixar num lugar onde o Boris não alcance. - Entraram na casa, dessa vez seguiu para o seu quarto, com logo atrás. - Essa aqui é especial.
- Por quê? - parou na porta do quarto de , enquanto a mulher caminhava rapidamente pelo cômodo. Observou-a colocar o vaso na escrivaninha próxima da janela, de uma forma que a flor recebesse raios de sol também. Obviamente, àquela hora do dia não entraria nenhum já que estava anoitecendo, mas assim que amanhecesse ele sabia que entraria sol ali, evitando que a planta morresse.
- Porque foi você que me deu. - Ela virou-se para o amigo ainda sorrindo, sendo retribuída.
- Não esqueceu do nosso jantar, né? - olhou no relógio, certificando que ainda tinha um tempinho de sobra, mas não muito.
- Jantar? - A cara de interrogação foi o suficiente para saber que a amiga havia esquecido. não conseguia lidar com datas e isso era uma coisa que não havia mudado.
- . - Ele chegou mais perto da mulher, segurando delicadamente seu rosto com as duas mãos. - Vamos sair para jantar hoje, tá bom?! Te espero lá embaixo. - Os olhos penetrantes de pareciam brilhar ainda mais devido a intensidade com que eles encontraram os de . Antes de largar o rosto da amiga novamente, um beijo calmo e quente foi depositado em sua bochecha. Próximo demais de sua boca. No instante em que os olhos de piscaram, não estava mais em seu quarto. Como num estalo, lembrou da conversa de segunda-feira, do convite de Derek Wayland e da inauguração do restaurante. Havia combinado mesmo de ir com o , já que o dono do local era seu amigo. Entretanto, lembrou-se também do pesadelo que tivera naquele mesmo dia e um arrepio passou pelo seu corpo. Para afastar aquele último pensamento começou a revirar o guarda-roupa em busca de alguma roupa que não fosse calça jeans ou calça de moletom cinza. Por fim, um vestido preto foi o mais próximo de algo chique que conseguiu achar no fundo do roupeiro.
terminou de colocar o último brinco, deu mais uma olhada no espelho sentindo-se contente com o resultado que estava vendo. Naquela noite fria de Londres, optou por colocar um vestido preto de manga longa, o comprimento do vestido ia até um pouco abaixo dos joelhos, mas com uma abertura na lateral de sua coxa. Nos pés um scarpin preto, para combinar com o seu cabelo preso num coque alto, mas com alguns fios mais soltos, deixando a atenção ser focada totalmente para o seu rosto e corpo. O batom não era vermelho, naquela noite, optara por um nude assim como uma maquiagem mais simples nos olhos marcados apenas por um delineador preto. Desceu as escadas de sua casa, encontrando com sentado no sofá da sala. O rapaz também estava simples, diferente do que costumava ver, ele vestia uma calça jeans preta, um blusão e coturnos da mesma cor da calça. Porém, o sobretudo num tom de laranja escuro por cima dava um charme a mais para .
- ‘Tô pronta. Só espero que não seja muito chique, foi o máximo que eu consegui.
- Nossa... - a encarava dos pés à cabeça. - Meu Deus, , você tá linda... Tá incrível. - deu um sorriso largo para que retribuiu da mesma forma com o rosto corado.
- Obrigada. Você também está.
- Se o seu vizinho vai catar da nossa vida, então, vamos fazer isso direito e decepcioná-lo toda vez que abrirmos essa porta. - estendeu o braço para , encaixando o seu no dele e deixou-se ser guiada até o carro estacionado já na calçada em frente à casa. O cavalheirismo de surpreendia ainda mais, principalmente quando ele abriu a porta do carro esperando que ela entrasse primeiro, para depois fazer a volta e sentar no lugar do motorista.
- Quando nos tornamos esses adultos chiques? - colocou o cinto e ligou o rádio, deixando uma música soar baixinho, quando deu partida no veículo.
- Não sei, mas gosto do que nos tornamos. - deu uma piscada rápida para , aumentando o volume quando Mr. Brightside começava a tocar.
- Coming out of my cage and I've been doing just fine. Gotta, gotta be down, because I want it all. It started out with a kiss. How did it end up like this? It was only a kiss, It was only a kiss. - As vozes dos dois se misturavam entre risadas e gritos tentando cantar a plenos pulmões a música do The Killers, exatamente como antigamente. O caminho foi percorrido exatamente desse jeito, toda e qualquer música que tocava era cantada pelo casal dentro do carro, sem se importar se estavam cantando a letra do jeito certo ou no ritmo da música. Aqueles eram e sendo melhores amigos, como sempre foram.
O carro foi perdendo velocidade parando, por fim, em frente ao restaurante. Havia alguns fotógrafos e jornalistas em frente do local. Um cenário novo e excitante para ambos. olhou em volta, observando cada detalhe do lugar e ficava encantada ainda mais. O restaurante era lindo, agora tudo fazia sentido em sua cabeça sobre as exigências de Derek em relação ao serviço solicitado. Era pequeno, charmoso e aconchegante, a parede de pedra junto das mesas a luz de velas dava um clima ainda mais romântico. E para quem quisesse, ainda tinha uma área a céu aberto e era ótimo para aproveitar a noite com a vista iluminada da cidade. Aos poucos as pessoas foram se acomodando em suas mesas, fazendo o restaurante lotar logo na sua primeira noite de estreia. Quando e pararam em frente a recepcionista lhe entregando o convite com seus nomes, a mulher abriu um sorriso colgate para eles. Não de uma maneira forçada, mas de uma maneira que parecia estar contente em vê-los, porém ambos nem imaginavam o motivo.
- Por favor, me acompanhem. - Valerie era o nome da recepcionista, e assim como , ela também estava muito bem vestida. - O Chef Wayland fez questão de arrumar uma mesa especial para vocês. - A mesa reservada para o casal era justamente a do lado de fora, a visão que mais gostou de ter do lugar. Ambos sorriram em agradecimento assim que Valerie os acomodou em seus devidos lugares. O vinho suave foi posto na mesa e decidiram escolher o menu selecionado pelo chef naquela noite, com direito a entrada, prato principal e sobremesa.
- Por acaso, você tem alguma coisa com isso aqui? - apontou para a mesa em que estavam sentados.
- Não. É coisa do Derek mesmo. - tomou mais um gole de seu vinho.
- Parece que estamos num encontro estilo Joey e Rachel.
- Concordo. A diferença é que você não está grávida.
- Ainda bem que não. E você não é um ator famoso. - Foi a vez de ingerir o líquido. - Às vezes é bom sair assim, sabe. Sem se preocupar com todo aquele lance de primeiro encontro, se beija ou não beija, se espera um segundo encontro para transar. Confesso que não tenho paciência para isso mais.
- Então, não vai haver sexo? E nem um mísero beijinho? Todo esforço foi em vão.
- Para de ser idiota. - bateu no braço de ainda rindo.
- É brincadeira, é brincadeira. Mas se você quiser, eu quero.
- ! - estava pronta para bater outra vez em , quando seu nome foi chamado um pouco mais alto naquela área em que estavam.
- Dereck, parabéns, cara. - Ele se levantou cumprimentando o amigo num abraço com direito a tapinhas nas costas. - O lugar é incrível e a comida é maravilhosa.
- Obrigado, fico feliz que tenha vindo. - Dereck se soltou do amigo, agora olhando para que permanecia sentada observando os dois homens ali na sua frente. - Você deve ser a , certo? - Perguntou em dúvida.
- Sim, muito prazer, Dereck.
- O prazer é meu. E eu tenho que te agradecer pelo trabalho impecável que você fez. Muito obrigado, de verdade.
- Não por isso, eu só fiz o meu trabalho. Parabéns pelo restaurante, tá tudo muito lindo e a comida é maravilhosa mesmo. - Agora os três se encontravam em pé conversando. e Derek engataram uma conversa animada, relembrando os velhos tempos de quando o chef ainda cursava administração e era colega de faculdade de . Sempre deixando a par de todos os acontecimentos, a fim de que ela não ficasse perdida e excluída da conversa.
- Ainda bem que você largou administração, porque esse lugar é a sua cara. - disse entusiasmado.
- Os únicos números que eu tenho que saber agora é o quanto de comida eu vou precisar e então a mágica acontece. - Derek disse estalando os dedos. - Vocês estão com pressa? Quero que conheçam uma pessoa. Ele é meu sócio e me ajudou a realizar esse sonho. - Derek falava rápido demais, às vezes deixava os dois amigos um pouco zonzo. Sem nem dar a chance de resposta, saiu em disparada para dentro do restaurante novamente.
- Eu fico imaginando vocês dois na faculdade e nada faz sentido na minha cabeça. Principalmente porque tu vivia chapado e o Derek é rápido demais pro teu cérebro.
- Exatamente por isso eu apenas balançava a cabeça e concordava com tudo que ele falava.
- Que péssimo amigo você era.
- Funcionou quando ele perguntou se deveria largar administração para cursar gastronomia. Eu só me dei conta que o incentivei no outro dia, mas olha onde ele está hoje.
- E se fosse algo grave?
- Ele não perguntaria para mim, acredite. - Os dois estavam abraçados, exatamente como um casal que pareciam ser, quando Derek se aproximou. Porém, dessa vez, ele estava acompanhado.
O sorriso estampado no rosto de naquele momento, sumiu imediatamente de seu rosto quando encontrou aquele par de olhos tão conhecido e, que por algum momento de sua vida, ela achou que nunca mais encontraria. No fundo, torcia para nunca mais encontrar. Um calafrio passou pelo seu corpo, suas pernas ficaram bambas e suas mãos começaram a tremer à medida que seu coração acelerava cada vez mais. A angústia da última semana estava fazendo todo o sentido agora. Não lembrava da última vez que se sentira assim, já que estava seguindo com a sua vida de uma forma melhor do que o esperado e agora todo o esforço para esquecer aqueles dois malditos anos tinha ido parar no lixo. Não sabia se conseguiria manter seu autocontrole por muito tempo, estava torcendo para que Derek tivesse confundido a pessoa e que sairia da sua frente o mais rápido possível. Ela não queria fingir manter uma conversa amigável com uma pessoa que quase a destruiu de todas as formas, que quase acabou com toda sua sanidade mental. Uma pessoa que quase destruiu a sua vida, se não fosse por e Jesse terem ficado ao seu lado nos piores momentos, nas piores crises e recaídas. não estaria ali hoje se não fosse por eles e ela sabia muito bem disso, era eternamente grata por todo apoio que têm recebido desde então. Antes que seu cérebro pudesse raciocinar qualquer frase para ser dita, olhou mais uma vez o rosto a sua frente, dessa vez observando todos os detalhes atentamente. Principalmente, a cicatriz no lado direito de sua cabeça, onde o cabelo não conseguia esconder, e que tinha sido causada por ela. Certificando-se de que era sim quem ela abominava com todas as suas forças a encarando de uma forma prazerosa. Como se estivesse feliz em revê-la, algo impossível de voltar a sentir ao estar no mesmo ambiente que ele ou de somente em vê-lo.
- Kurt? - Num fio de voz, foi o máximo que saiu da boca de .



Capítulo 5

ainda estava petrificada no mesmo lugar, como se não conseguisse mover os seus pés do chão. Ao contrário dela, Kurt mantinha um semblante calmo, quase como irônico ao ver a ex-namorada com traumas do relacionamento que tiveram. Sem nem ao menos conseguir elaborar uma frase que seja na sua presença. Não o bastante, fez menção de abraçá-la, se não fosse por um furioso se meter no meio dos dois, empurrando Kurt para longe de .
- Tente encostar na de novo, um dedo que seja e eu te mato. Não se aproxime dela nunca mais e se eu soubesse que você estaria aqui hoje, com certeza, não teríamos gasto nosso tempo vindo aqui. - O dedo apontado no peito de Kurt e a fala cheia de raiva de não o intimidava. Ouvir aquelas ameaças era como música para seus ouvidos, sentia o prazer correr pelo seu corpo saber que as mesmas pessoas ainda defendem e protegem . O julgando sempre como louco, apelido que ele adorava ouvir. No fundo, talvez ele até fosse um pouco louco realmente.
puxou , a abraçando pelo ombro de forma que seus corpos ficassem colados. Saiu do restaurante sem se despedir de Derek, mas falaria com o amigo em outro momento, quando estivessem sozinhos. era mais importante naquele momento e ver a amiga em estado de choque ainda, era o combustível para querer mantê-la sempre por perto e segura. Querer protegê-la de todo mal que Kurt era capaz de fazê-la passar. Entretanto, não deixaria aquilo se repetir novamente, não a abandonaria de novo. Pagou a conta do jantar e saiu dali o mais rápido possível, arrancando com o carro daquele lugar. O caminho de volta foi um pouco mais longo, já que eles não estavam indo pra casa num primeiro momento.
- Não é o caminho de casa.
- Eu sei que não, vamos passar num lugar antes.
- Eu ‘tô cansada.
- Eu sei, vai ser rápido. - O silêncio voltou a reinar no ambiente. soltou um suspiro preso, soando um pouco mais alto, quando se sentiu realmente aliviada de estar com e de não ter sido preciso lidar com Kurt. parou o carro em frente a uma sorveteria 24 horas, a preferida de . Saiu do carro e voltou logo em seguida com um pote de sorvete de chocolate e outro de creme com cookies dentro de uma sacola, os sabores favoritos dela.
- Na sexta nós fazemos maratonas filmes e séries, lembra? Acho que devemos continuar assim. - pegou a sacola olhando os dois potes de dois litros de sorvete cada. Sentia o seu nariz arder e, consequentemente, seus olhos também. Estava se sentindo tão grata por ter consigo que não conseguia expressar de outra forma além de abraçá-lo com toda força que tinha, deixando suas lágrimas serem derramadas. retribuiu o abraço, a apertando ainda mais enquanto fazia um carinho leve em seus cabelos.
- Tá tudo bem, . Eu estou aqui, ok? Nada de ruim vai te acontecer. - Beijou o topo de sua cabeça, esperando a amiga se acalmar para poder voltar a dirigir.
A cabeça de estava um turbilhão de pensamentos e o máximo que conseguiu exibir de um sorriso, foi quando chegou em casa e se deparou com um Boris eufórico indo ao seu encontro. Fez um carinho leve na cabeça do animal, não mais que isso, seguindo direto para o seu quarto.
deixou os sapatos no meio do quarto, seguiu para o banheiro já tirando todas as peças de roupas as jogando pelo chão no meio do caminho. Ligou o chuveiro no forte, deixando com que a água caísse de forma violenta em seu corpo, quase como se quisesse limpar todos os rastros de Kurt ainda em si. A verdade é que ela queria exatamente isso, tirar tudo que Kurt a provocou, tudo que ainda restava dele nela, tudo o que ele a fez passar. Se fosse possível, queria que todas as lembranças, que ainda restavam e voltavam sempre para torturá-la, descesse pelo ralo junto da água escorrendo pelo seu corpo. Assim como a sujeira impregnada, a qual não sabia se um dia seria capaz de se desfazer, escorresse junto. Esfregava seu corpo com a esponja com tanta força fazendo sua pele arder, ficando num tom avermelhado. Nem havia se dado conta, mas sua pele poderia começar a sangrar se continuasse se esfregando com mais esforça como fazia. As lágrimas salgadas já se misturavam com a água em seu rosto, tornando tudo borrões na sua frente. Seus dedos já começavam a ficar murchos de tanto tempo debaixo daquele chuveiro, tentando se livrar de uma sujeira que pensava em possuir. Assim como os soluços já não eram mais tão silenciosos, ecoando por todo o cômodo. Queria conseguir colocar tudo para fora o que estava sentindo. Infelizmente, naquele momento, só conseguia se sentir suja, não importava o quanto ficasse ali ou o quanto esfregasse seu corpo, não conseguia se sentir livre de toda aquela sujeira. De toda a sujeira de Kurt.
- ? - A voz de ecoava baixa do lado de fora, quase inaudível se não tivesse a certeza que não estava sozinha em casa. - , você tá aí ainda? - Mais uma vez ela o ignorou. - Fala comigo, por favor. Não faz isso com você mesma. - Já era tarde, não conseguia mais sair daquela bolha de pensamentos ruins que se enfiara desde que saiu do restaurante.
Como, mais uma vez, não obteve resposta, adentrou o banheiro. Sabendo que a amiga ainda estava sofrendo pelas lembranças, pelos fantasmas do passado e, principalmente, por sua própria mente sempre lhe trair. Levando-a de volta para os lugares mais obscuros e sombrios ainda existentes dentro de sua mente. Sem hesitar abriu a porta do box e puxou a amiga dali, ainda com delicadeza, enrolando-a no roupão pendurado atrás da porta. Naquele momento parecia uma criança indefesa a procura de um colo que lhe desse conforto e carinho. Que a protegesse de tudo que pudesse ser lhe feito de mal.
- Sai daqui, . Eu só quero ficar sozinha. - A voz chorosa de começava a soar mais baixa, mas ainda continha certa raiva nela. - Sai daqui! - Enrolou o roupão no corpo com força, dando um passo para trás ficando longe das mãos de . passou a mão pelo rosto, a fim de apagar todos os resquícios do choro, o que fez sua maquiagem borrar ainda mais.
- , olha pra mim, por favor.
- Eu não quero. - Ela balançava a cabeça em sinal de negação, apoiando o corpo na pia do banheiro mantendo o olhar no chão. Sem coragem de encarar o amigo a sua frente, voltou a chorar mais uma vez. Não sabia que era capaz de ter uma recaída daquelas novamente. E, dessa vez, parecia ser ainda mais doloroso. A vergonha começava a dominar o seu corpo, assim como o medo da rejeição e do abandono a cercava outra vez.
- Eu não vou a lugar nenhum, . Estou aqui para e por você, mas preciso que confie em mim de novo.
- Para você ir embora de novo? - A voz amargurada de se fez presente no cômodo.
- Eu prometo que não vou nunca mais. Não vou cometer o mesmo erro de novo.
deu um passo em direção a amiga, ficando dessa vez mais próximo de seu corpo, quase os colando. A lágrima solitária foi impedida de chegar ao final da bochecha de quando limpou-a com o polegar. O soluço alto que saiu da boca de ecoou pelo banheiro já silencioso e úmido. Ainda que tentasse se manter forte na frente de todos, os seus medos voltavam para assombrá-la quando ela menos esperava. Ter uma base para que pudesse ajudá-la a sair do fundo do poço era essencial. O problema aconteceu exatamente alguns anos atrás, quando essa base era e Jesse, porém se viu sem seu melhor amigo no momento mais difícil de sua vida. Sem um dos seus pilares, fazendo com que tivesse medo da história se repetir.
Num impulso, abraçou com força, deixando sua cabeça descansar no ombro do amigo, ele não pensou duas vezes antes de retribuir o gesto. Caminhou em passos lentos de volta para o quarto de , ainda abraçado na amiga enquanto ela colocava para fora todas as lágrimas e mágoas, molhando sua camiseta. Sentou-se no meio da cama com ao lado, agarrada em seu pescoço e sem pretensão de sair dali tão cedo. A mulher encolheu as pernas junto ao corpo, permitindo-se sentir o carinho que recebia de . O primeiro carinho que recebia em anos, um carinho tão puro e sincero que ela nem lembrava mais como era ter essa sensação.
Um pouco mais de uma hora, os dedos de ainda deslizavam pelas costas e cabelos de , já que a mulher se encontrava na mesma posição. Sem forças para sair dali, mas com a respiração já calma e os pensamentos nos seus devidos lugares, deitou na cama ficando de frente para o amigo e o encarando pela primeira vez desde que ele entrara no quarto naquela noite. Os olhos tristes de ambos diziam tudo que estava preso e que eles ainda não estavam prontos para dizer um para o outro em voz alta. A partida de , quase cinco anos atrás pesava dentro de , mas quando ele voltara deixou que ele entrasse novamente em sua vida de forma que permanecesse nela. Do mesmo jeito que estava fazendo, estava se mostrando ser mais amigo de do que jamais fora de qualquer outra pessoa. Sabia dos seus erros e, principalmente, sabia que não podia cometê-los novamente. Ainda havia muitos sentimentos nublados entre eles, contudo, não conseguiam mais viver um sem a presença do outro. Não sabiam mais quanto tempo estavam deitados naquela posição, apenas ouvindo a respiração calma um do outro. se moveu lentamente, caminhou até o roupeiro de e tirou dali um pijama confortável, de modo que ela não dormisse no roupão molhado.
Sem dizer nada, deu um beijo na testa de , acendeu a luz do abajur ao lado da cama e deixou a porta do quarto entreaberta, saindo do cômodo em seguida.
Então tinha acontecido, depois de anos estável, a primeira recaída tinha acontecido. não sabia ainda como analisar toda aquela situação, também não queria pensar naquilo àquela hora da madrugada. Sentia-se insegura com muitas questões ainda, isso era inquestionável, mas sabia que tudo se resolveria. Torcia para isso acontecer o mais rápido possível, também torcia para Kurt nunca mais cruzar o seu caminho. O sono já começava a dominar seu corpo, livrando-a de todos os sentimentos ruins. Vestiu as peças de roupas deixada pelo amigo na beirada da cama, secou os cabelos com a toalha e voltou para cama. Os músculos tensos pareciam se encaixar nos seus devidos lugares quando relaxou o corpo sobre o colchão, podendo se dar ao luxo pela primeira vez na noite de não se preocupar com mais nada e finalmente pegar no sono.
Naquela mesma noite, no quarto ao lado, se questionava se estava fazendo tudo certo dessa vez. Àquela noite sem dúvida tinha colocado tudo à prova de fogo, considerando que o mesmo motivo que o fez ir embora da cidade na primeira vez estava de volta. Sua cabeça girava e girava, mas nada parecia fazer sentido a não ser a raiva que estava sentindo escorrer em suas veias ainda. O sono não chegaria tão cedo, o que tornava a carteira de cigarro ao lado da cama ainda mais atraente. Não pensou duas vezes antes de descer as escadas da casa, indo em direção ao jardim. Ar puro era o que precisava. Mais do que isso, ele também precisava colocar todos os seus pensamentos, sentimentos e frustrações vividas nas últimas horas em seus devidos lugares. Caso contrário, enlouquecer começava a se tornar uma possibilidade.
Tragou mais uma vez o cigarro deixando a fumaça se misturar com a leve brisa do jardim. Boris já se encontrava deitado na sua cama, sem dar muita atenção ao dono. O que fez começar a futricar no seu celular, sem saber exatamente o que estava procurando no aparelho, foi então que o mesmo vibrou em suas mãos anunciando uma mensagem de sua irmã.

Jo: Espero que lembre que ainda tem uma irmã. Lola está morrendo de saudade. Dê notícias.

riu sincero ao ver a mensagem da irmã brilhar na tela de seu celular.

: Ei, não era para você estar dormindo essa hora? Estou morrendo de saudades de vocês. Até do insuportável do Ethan, com a mesma piada ruim de sempre. Mas não conte a ele.

Respondeu rapidamente. O cigarro já estava no fim, mas o sono ainda estava longe de chegar em seu corpo, o que facilitou ao acender mais um deixando a nicotina tranquilizá-lo ainda mais.

Jo: Quando você é mãe, a última coisa que você faz é dormir. Tarde demais, ele é está ao meu lado. Mas e você, o que tem feito?
: Nada demais, apenas ocupado com o trabalho. Hum, talvez você goste da sua próxima cunhada.

Não sabia ao certo se deveria contar a família, mas se precisava levar adiante aquele namoro as duas partes precisavam saber. Afinal, a família de sempre gostou muito de , então não era um problema.

Jo: Confesso que estou com medo. Não se atreva a me apresentar outra pessoa que não seja . Eu te deserdo dessa família, . Não brinque comigo.

soltou uma gargalhada alta, imaginando a cara de brava que sua irmã deveria estar fazendo. Pela primeira vez na noite, sentiu seu corpo mais leve, deixando a mente livre para memórias boas começarem a aparecer.
Joanna, era a irmã mais nova de , com apenas três anos de diferença entre eles. Ainda morava em Leeds, cidade natal do irmão, junto de seu marido Ethan e sua filha, Lola, de apenas quatro anos. Ela tentava ir para a capital inglesa sempre que dava, mas a correria do trabalho conciliada com as tarefas domésticas era tanta que acabava por aproveitar sua folga ficando em casa mesmo. Deixando o trabalho de fazer a viagem para o irmão, já que ele era uma única pessoa sem filhos e com mais tempo livre do que ela. Isso acabava resultando nos dois com muita saudade acumulada, mas sempre que se encontravam aproveitavam o máximo de tempos juntos.
era completamente apaixonado pela sobrinha e a mimava de todas as formas, às vezes até escondido dos olhares furiosos da irmã. De todas as formas, Joanna era o total oposto do irmão. Sempre calma e paciente, mas não podia negar a semelhança em estar sempre disposta a ajudar quem fosse. Porém, sua característica autoritária era igual ao de seu pai, não negava ser uma .
Jo ainda mantinha um carinho gigantesco por , pois logo que ela se mudara para o apartamento que dividia com o irmão, Jo passou por algumas situações no seu relacionamento e foi quem a ajudou a manter a cabeça no lugar e voltar para casa. Não é à toa que Joanna não gostava de nenhuma das namoradas que o irmão comentava, ela era amiga de acima de tudo. Mas, era melhor amiga de e ele não sabia por que raios Joanna sempre achava que eles acabariam juntos. De uma forma ou outra ela não estava errada, eles até estavam juntos, mas de mentira.
Sem perceber, acabou pegando no sono no banco de madeira que tinha na varanda da casa de . Como ele mesmo já estava sentado ali há algumas horas, não se deu conta quando o sono começou a dominar seu corpo, depois de algumas mensagens trocadas com a sua irmã naquela noite. Porém, os raios de sol e a língua de Boris em seu rosto, o lambendo, foi o suficiente para ele acordar no susto e cair de cara no chão. Ironicamente o pote da água do cachorro estava bem ao lado do banco e com a queda, foi impossível desviar do pote, o que fez seu rosto ir de encontro ao mesmo.
- Que ótimo. - Resmungou baixinho. Secou seu rosto com a camiseta e finalmente entrou na casa. O que ele já deveria ter feito algumas horas atrás.
A imagem que encontrou ao pisar na sala, foi de uma totalmente alegre ao som de uma música qualquer. Música que ele fez questão de ignorar ao perceber que a mulher rebolava pela sala, sem prestar atenção na sua presença. Deu alguns passos para trás e se escondeu atrás do balcão da cozinha, pelo menos que ficasse escondido da cintura para baixo já estava ótimo. Maldita ereção matinal.
- Bom dia, flor do dia! - largou o controle da televisão em cima do sofá, já que usava o objeto como microfone para a música que tocava. - O que aconteceu? - Apontou para a camiseta de molhada.
- Caí de cara no pote de água do Boris, porque dormi no banco do jardim. - Encheu um copo de água da bancada e o tomou. Tentando afastar todos os pensamentos impuros o mais rápido possível de sua mente.
- O dia que eu disse que ia te colocar para dormir com o Boris era brincadeira, tá?! Só para deixar claro, tem um quarto lá em cima só para você. - No mesmo momento em que terminou de falar tirou a camiseta que estava vestindo ficando apenas de top preto e short. - Hoje é dia de faxina! - Ela disse animada, indo para a área de serviço da casa. A deixa perfeita para subir as escadas quase como o flash, pulando alguns degraus. Se sentiu um adolescente na puberdade, ao se trancar no quarto, ainda excitado. Mas nada tirava a visão que acabara de ter de sua cabeça. Se aquilo estava sendo um teste, então ele estava completamente ferrado.
- Preciso de um banho gelado. - Falou para si mesmo partindo para o banheiro.



Continua...



Nota da autora: Oii, gente. Primeiro eu preciso pedir desculpas, porque eu sempre esqueço de deixar um recadinho e só lembrava quando a fic já estava no site. Sério, desculpas. Segundo, eu tô muito feliz de ver leitoras novas aqui e ver que Last Mistake entrou pro top vip das mais lidas.
Agora eu preciso agradecer à Nat por ter aceitado pegar minha fic, pois infelizmente a Carol teve alguns probleminhas e não tem previsão de volta. Obrigada também por todo carinho e pelos recadinhos. É isso, gente, qualquer coisa podem deixar aqui nos comentários ou me chamem lá no twitter mesmo @iwantjunes. Espero que estejam gostando assim como eu de acompanhar a e o .



Nota da beta: Sofri com a pp tendo essa recaída, tadinha, estava tão bem, estável, conseguindo tocar a vida dela e vem esse idiota e estraga tudo! Enfim, a conexão dela com o amigo foi incrível, amei, amei e amei essa cena! Enfim, gargalhei aqui com a cena final. Ansiosa pela continuação!
Estamos ai, Fer, fico feliz, e me senti muito acolhida por você! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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