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Última atualização: 21/12/2020

Prólogo

, Setembro de 2020

Quando tirou o capacete seu corpo estava inundado de sensações. As mãos estavam duras, os nós das juntas dormentes por causa da força que colocou no volante. Seu corpo parecia em transição do estado liquido para em ebulição, devida a quantidade de calor que emanava por sua pele, jamais se lembrava de ter transpirado tanto na vida. Talvez fosse por causa do macacão ou pela proteção em volta de sua cabeça, mas desconfiava que estivesse ligado a todos os sentimentos entorpecentes que a embriagavam.
Tristeza.
Medo.
Amor.
Saudades.
Tudo que a envolvia ao mesmo tempo, tudo relacionado à mesma pessoa.
Seu pai.
Em todos os anos nada nunca mudou, sempre chorava de saudade, sempre se perguntava o motivo de sua morte, quantas pessoas ruins ainda permaneciam vivas no mundo e ele teve que partir tão cedo. Costumava sentir a presença dele consigo em todos os lugares que ia, mas nunca como naquele exato momento.
No autódromo, dentro de seu carro.
Aquele era o lugar preferido de seu pai em todo o planeta terra, em todos os seus diários e relatos ele sempre dizia o quanto esta naquele ambiente lhe trazia paz. E agora sabia o motivo.
- Ah pai, sinto que está aqui comigo. - Murmurou de olhos fechados com a mão no coração - Eu sinto saudades. Te amo paizinho,obrigada por me proteger hoje.
A mulher caminhou ainda com o capacete em mãos, estava indo em direção ao motor home da McLaren, queria tirar aquela roupa quente, beber bastante água e descansar, estava exausta. Parecia que tinha escalado uma montanha a pé, e não dado algumas voltas em um carro. Agora entendia a necessidade de pilotos terem preparador físico, e talvez devesse ter se alongado direito antes de entrar no carro, bem que Lale avisou que não podia simplesmente vestir uma roupa e pilotar o carro, deveria ter escutado a melhor amiga, afinal ela tinha estudado para aquilo. Já podia prever o tanto que a fisioterapeuta lhe encheria os ouvidos quando lhe pedisse uma massagem relaxante.
Seu caminho foi interrompido pela figura que Alain Prost* estacionado em sua frente. assustou-se e tropeçou com a aparição do ex-piloto em sua frente, mas de onde ele havia saído?
Fazia algum tempo que ela não o via, mas ainda era a mesma coisa que se lembrava talvez a exceção fosse os cabelos estarem mais grisalhos e a pele com um pouco mais de rugas, marcas que o tempo deixava.
- Você foi incrível. - Elogiou - Ver aquelas curvas perfeitas, a velocidade, a segurança. Foi quase como se o tempo não tivesse passado. - O tom de voz era saudoso e podia imaginar como era para ele ver tudo aquilo.
- Obrigada. Foi uma sensação incrível.
- Sua mãe sabe que está aqui, ? - Questionou arrumando os óculos escuros no rosto. - A Vivian surtaria se soubesse que colocou os pés em um autódromo.
respirou fundo levando as mãos aos cabelos presos em um coque, estralou o pescoço na tentativa de fazer o corpo relaxar.
- Eu já sou bem grandinha Alain. - Respondeu. - Minha mãe está no Brasil, muito ocupada não há necessidade de preocupar ainda mais aquela mulher.
Prost deu um sorriso e balançou a cabeça negativamente.
- Você fala exatamente como ele. - sorriu com a comparação.
- Nossa genética é abençoada. - Deu de ombros. - Não está falando comigo enxergando o fantasma dele, está?
- Não. Seu pai me assombra de várias maneiras, não através de você. - O ex-piloto passou o braço esquerdo pelos ombros da mais nova, um gesto explicito do carinho que nutria pela mulher. - Venha, você precisa descansar e Ron deseja falar com você.
- Sim, como vocês conseguem fazer isso por horas sem beber água? - Questionou enquanto voltavam a caminhar. - E sem ir ao banheiro? Eu achei que fosse fazer xixi na roupa, acho que nas corridas deveriam ter a pausa para o xixi.
Prost gargalhou divertido observando o senso de humor dela, e o tipo de questionamento que quase todas as pessoas faziam. Na voz dela, porém era quase que uma piada, devido ao sorriso moleca que brincava em seus lábios.
- É tudo uma questão de costume, pequena gafanhota. - Usou apelido que tinha aprendido com o pai da mesma, que adorava chama-la assim. – E nós temos alguns meios para resolver esses dois problemas, mas isso eu te conto outra hora. Eu já quase fiz xixi no carro uma vez, não espera, eu realmente fiz.
- Eu me lembro, ficamos uma semana rindo da sua cara. E você fugiu de todas as entrevistas, pós-corridas. - A voz estrondosa de Ron Dennis fez se ouvir. - Depois disso sempre ia ao banheiro antes de sentar no cockpit.
- Vivendo e aprendendo. - Deu de ombros.
- , querida, precisamos conversar. - O homem estreitou a voz para um tom sério, o que fez arquear a sobrancelha preocupada. - Tome uma ducha, coma algo. Estaremos te esperando no escritório.
- Tudo bem. - Concordou sorrindo. - Espero que pelo menos tenha água quente aqui.
XX

sentiu os músculos do corpo se endureceram novamente, quando abriu a porta do escritório do diretor da McLaren.
Agora já estava de banho tomado, de fato a água era quente, também pudera Londres estava gelada, totalmente diferente do clima do Brasil, motivo que fez a brasileira se agasalhar.
Na sala, Prost estava escorado na janela com uma xícara de café em mãos, Ron por sua vez estava mais sério sentado na confortável cadeira de couro detrás da enorme mesa.
O clima estava pesado, ela podia sentir. A energia exposta no ar insinuava que a conversa tinha conteúdo sério, o que fez a brasileira se perguntar mentalmente, o que tinha haver com aquilo.
- , querida, entre. Fique a vontade - Ron chamou-a com a mão. - Quer um café ou algo do tipo?
- Não, obrigada.
- Sente-se. - Alain se deslocou da janela aproximando-se da mulher e arrastando a cadeira para ela.
- O que está acontecendo? - Questionou incerta.
- Você sabe que eu não sou mais o diretor da McLaren, certo? - assentiu. - Mas as coisas na escuderia estão horríveis, alguns patrocinadores desistiram de nós. E eu fui consultado sobre o que pode ser feito, eu não tinha ideia do que fazer, até hoje quando eu te vi na pista.
franziu o cenho sem entender, Ron parecia ter jogado as palavras sem sequer as escolher e a maneira como os dois homens a olharam com expectativa, entretanto a morena não tinha sequer começado a entender.
- O que tem eu na pista? Eu estava homenageando meu pai. Não fiz nada demais.
- Foi tudo demais. - O ex-diretor da escuderia respondeu. - Foi a primeira vez que dirigiu esse carro e fez um tempo tão incrível como se o conhecesse como a palma da mão. As curvas fechadas em perfeita sincronia, um controle do carro que vi poucos fazerem.
- Meu pai me deixou os macetes do carro dele com os diários que escreveu. Tudo que fiz naquele carro foi o que ele me disse para fazer.
- , eu gostaria que você fosse piloto da McLaren nessa temporada. - Ele pediu, mas soou como uma ordem. O som das palavras dele não foram claros aos ouvidos da brasileira, pareceram somente um monte de borrões confusos que se embaralham em seus tímpanos causando uma péssima sensação em seu corpo.
E de repente as imagens de seu pai vieram à tona. Quando os dois corriam de Kart, brincavam no quintal de casa, nos almoços em família e após as corridas de domingo.
Tudo que conseguia enxergar eram as lágrimas que se formaram nas pupilas a impedindo de ver qualquer coisa que não fosse à imagem de seu pai batendo naquele muro. Uma mão invisível apertou seu pulmão, tirando toda capacidade de puxar o ar que conseguia, trazendo dificuldades para respirar.
Ela tossiu uma, duas, três vezes chamando para o corpo todo oxigênio que havia se perdido, precisava respirar com calma para evitar que seu corpo entrasse em apneia.
-Tome beba um pouco de água. – Prost lhe entregou o copo com o liquido e quase engasgou ao levá-lo a boca, ao contrário do que pensou a água não lhe trouxe qualquer tipo de alivio físico.
- Eu não posso fazer isso. – Disse – Eu não quero correr. Eu amo a fórmula um, amo a McLaren, meu pai amava vocês. Mas eu não sou um piloto, eu não corro e não posso ajudar vocês, existem bons pilotos que podem ajudar vocês.
Ron suspirou e tomou mais um gole de seu café antes de falar.
- Eu lembro quando seu pai descobriu que Vivian estava gravida. Ele disse que desejava ter um menino, para que corressem nas pistas juntos. E que levasse o legado dela a frente. - O relato iniciado fez com que o coração de se apertasse pelo que viria a seguir. - Quando soubemos que era uma menina, a emoção dele foi tripla e disse: minha filha andará pelo Paddock como uma deusa intocável, arranco os dedos com um alicate de qualquer engraçadinho que se meter com ela. - A mulher riu.
-Correr não é meu plano de vida. Eu só queria homenagear meu pai no que ele mais amava. – Ela enrugou a testa, os olhos dançando em brilho sobre o rosto.
- Eu convivi muito com seu pai. É muito egoísta eu ter vivido tanto e você tão pouco. - concordava plenamente, era uma tremenda maldade seu pai ter ido tão cedo de sua vida. - Seu pai tinha luz, um legado para seguir.  Você tem a mesma luz. Seu pai não teve um menino, mas ele tem um piloto. Leve adiante o legado de seu pai , corra na próxima temporada da fórmula um, seja campeã. Coloque mais uma estrela no legado do seu pai.
- Eu sinto muito. - largou o copo sobre a mesa, pegou a bolsa e colocou-se de pé. - Eu não posso fazer isso.
No encosto da janela estava Alain, com os olhos fechados e uma sensação estranha gelando seu corpo, como se um sopro de vento sussurrasse palavras soltas em seu ouvido que chegava ao coração e faziam frases conexas antes de proferir.
-Sabe a diferença de um bom piloto para um piloto extraordinário? – balançou a cabeça de um lado para o outro, negando. – Dom. Algumas pessoas nascem para fazer isso, outras aprendem a fazer isso. Seu pai nasceu para isso. Um gênio do automobilismo, que corria na chuva e jamais era derrotado, que calculava cada milímetro da curva, que andava pelas pistas como se quisesse sentir elas.
Prost sorriu com os lábios presos entre os dentes, os olhos fechados e uma expressão de tristeza no rosto.
-Você herdou dele, . – Afirmou. – A vocação das pistas está em você.
- Se o seu pai estiesse vivo, ele te incentivaria a ser um piloto. – Ron se levantou para rodear a mesa e se aproximar de Auroa.
- Se meu pai estivesse vivo, ele ainda seria um piloto. – Andou até a porta, assim que seus dedos tocaram a maçaneta gelada, a voz de Prosts rajou mais uma vez.
- . – A mulher não se virou ao escutar seu nome, o ex-piloto, entretanto, não se importou com a postura dela e continuou a falar. – Eu não sei onde seu pai está, mas tenho certeza que ele está enchendo a paciência de alguém lá. – Os dois homens riram juntos identificando a nostagia daquela fala. – Eu tenho certeza que ele está entupido de orgulho da mulher incrivel que você se tornou.
- Obrigada.
- Espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, eu estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.
A bolsa que estava em sua mão caiu, a força se esvaiu de seu corpo abandonando toda a concentração necessária para permanecer de pé, a combustão que seu peito entrou era como a erupção de um vulcão derramando larva para todos os lados, na tentativa de se livrar de todo sentimento sufocado preso em suas entranhas.
Virou-se bruscamente para o ex - companheiro de equipe de seu pai, o rosto já tomado pelas grossas e dolorosas lágrimas que representavam a confusão de seus sentimentos.
-Repete o que você disse. – Andou apavorada até o homem. – Repete. – Enfatizou emocionada segurando com força a camisa social de Prost, os punhos embolados no pano branco puxando o francês para perto de si.
- Espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, eu estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.. – Alain repetiu calmo, no mesmo instante que uma brisa entrava na sala varrendo todo o ambiente e levantando os papéis da mesa, tornando o local uma bagunça, meio a tudo que se misturou conseguiu enxergar um objeto no prateleira de troféus, antes que pudesse raciocinar soltou Prost e seus pés arrastaram seu corpo mole até lá.
Era um dos colecionáveis de seu pai.
A miniatura da Lotus Honda amarela 99T, o carro que seu pai mais era apaixonado. Estendeu a mão para segurar o pequeno carro, porém não teve forças para prosseguir, todos os comandos que seu cérebro emitia não eram obedecidos por seu sistema nervoso, suas células entraram em rebeldia e juntas decidiram não cooperar com a brasileira. Tantas lágrimas desciam por seu rosto, que se perguntou se era possível morrer de tanto chorar, a respiração estava falhando conforme o coração batia em descompasso dentro de si.
E ela sabia o motivo.
Na noite anterior, teve um sonho com seu pai.
Os dois estavam no autódromo de Interlagos, caminhavam de mãos dadas sentindo o sol escaldante da cidade queimar suas peles, o sorriso de felicidade quem brilhava no rosto de Ayrton encantava de uma maneira surreal, todas as vezes que olhava o progenitor o via com lábios curvados em sorrisos doces e gentis.
Em determinado momento da caminhada, os dois tomaram seguimentos diferentes, as mãos entrelaçadas iam se soltando a medida que os pés levavam os corpos para longe, chorava e tentava impedir o distanciamento, Ayrton por outro lado, permanecia sorrindo embora sentisse os olhos marejarem. Ele abriu a boca, a voz saiu como um sopro que presenteou a audição da mais nova.
-Eu preciso ir espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.
Ela acordou soada e com o peito amargo de saudades, e agora Alain repetiu as mesmas palavras de seu pai, era como um aviso. Durante seus anos de vida, procurou honrar seu pai através de suas atitudes, era a diretora financeira do instituto Ayrton Senna, cuidava das crianças e ajudava famílias. Acreditou piamente que era isso que seu pai desenhou para que ela seguisse com tudo que ele havia construído, toda via jamais sentiu-se plena, estava cansada e parecia que andava em círculos já que nunca parecia sair do lugar, sentia-se fraca e não uma sobrevivente como era.
Com tudo que estava acontecendo naquele momento em sua mente, chegou a conclusão que nunca foi aquilo que seu pai havia preparado para ela, ele estava pedindo para que ela ressurgisse e movesse todas as montanhas que a prendiam no solo.
Finalmente conseguiu tocar no carro em miniatura, e o trouxe para o peito abraçando o objeto como se fosse um pedaço de sua alma. E era.
-Eu vou. – Disse entre sussurros. – Eu vou correr com o carro do meu pai e levar o sobrenome dele as alturas novamente.
Os dois homens na sala sorriram e vibraram em alegria, indo abraçar a mulher que chorava copiosamente sobre o objeto no peito.
No lado oposto da sala, Ayrton Senna estava encostado na janela bem onde Alain Prost estava segundos atrás. Como em todos os momentos tinha um sorriso aberto nos lábios, o punho esquerdo estava erguido como sempre fazia ao vencer um grande prêmio, era seu gesto característico.
Tinha conseguido mais uma vitória, dado a direção de vida para sua garotinha e agora permaneceria guiando seus passos toda vez que entrasse nas pistas.
estacionou o carro rente ao meio fio e segurou o volante com firmeza, o pescoço tombou para frente totalmente pesado, sentindo o cansaço liberar todos os pensamentos de sua mente. A música que saía do carro, era um pagode qualquer e ela não conseguia prestar atenção na letra, somente o ritmo ecoava em seus tímpanos, fazendo seus pensamentos odiarem a concorrência e aumentarem o fervor dos questionamentos.
O principal deles era: Que merda ela tinha aceitado fazer? Sua mãe iria matá-la.
Correr na Fórmula Um?
Mudar de país?
Deixar o instituto para viajar o mundo, vivendo em autódromos?
Estava fodidamente ferrada e agora não conseguiria voltar atrás.
Uma das coisas que tinha aprendido com o pai era honrar sua palavra, uma vez dada, não poderia voltar atrás. Era um princípio e agora teria que entender os meios para continuar com aquilo que propôs.
Ao mesmo tempo em que o medo corria por seu corpo, uma sensação de satisfação era o seu companheiro. Cada centímetro de seu coração estava encantado com a possibilidade de viver os sonhos de seu pai, de reproduzir o que mais amou na vida e conseguir reviver em todas as pessoas a felicidade que o herói brasileiro despertava.
soltou o volante e massageou as têmporas, relaxando o pescoço para que conseguisse fazer o que planejava. Estava em São Paulo e precisava contar para sua mãe qual seria seu novo emprego.
Três dias atrás, havia dito sim para Ron Davies e Alain Prost, concordando com a proposta maluca de pilotar na próxima temporada. Em menos de 24 horas os dois homens mobilizaram um arsenal de coisas para ela, acharam um apartamento para que morasse, foi apresentada ao departamento jurídico da escuderia e até um carro já tinha ganhado.  Em menos de um dia toda a sua estrutura foi modificada. Isso porque ela vivia reclamando da vida ser monótona.
No dia seguinte voltou ao Brasil para ajeitar as coisas, primeiro iria conversar com sua mãe e depois iria ao instituto, pedir sua demissão. Caso não fosse morta por sua mãe, sua tia Viviane Senna a mataria. Pensar nisso arrancou um sorriso de seus lábios, estava ferrada de qualquer maneira, então não adiantaria ficar preocupada.
Foi despertada dos pensamentos pela batida na janela do carro, assustou-se e levou a mão direita a boca para conter o grito, olhou para o vidro e viu a cabeleira loira de sua mãe do lado de fora. balançou a cabeça negativamente e emitiu um sorriso, desligando por completo o carro, tirou a chaves da ignição, pegou a bolsa no banco do carona e saiu do carro.
- O que aconteceu, filha? Tem uma hora que está parada olhando para o nada. - A mais velha questionou com as mãos na cintura, permaneceu sorrindo e abriu os braços para abraçar o corpo da mãe.
- Estava pensando um pouco. - Murmurou sentindo o cheiro agradável do shampoo de amora de Vivian. - Benção, mãe?
- Deus te abençoe. Está tudo bem? Venha, vamos entrar. - Enlaçou os dedos com os da filha e saiu a puxando em direção a porta de casa que estava aberta esperando as duas entrarem. - Como foi de viajem?
- Foi tudo bem, eu dormi o voo inteiro. - Respondeu. - E a senhora, como está?
- Tudo bem. Acabei de tirar do forno um bolo de laranja, vou fazer um café e você me conta o que está acontecendo. - Os olhos da progenitora fixaram em esquadrinhando cada pedaço de sua expressão, franziu o cenho e arregalou os olhos.
- Como assim, o que está acontecendo? - Questionou com os ombros encolhidos, enquanto colocava sua bolsa no sofá.
- Sou sua mãe há 32 anos, quando você está preocupada com alguma coisa aparece uma ruguinha bem aqui. - Tocou entre a testa da filha. - Você fica olhando para o nada e fala sozinha. - Finalizou caminhando para a cozinha, vendo pelo canto dos olhos se a filha estava lhe seguindo.
- Não consigo esconder muitas coisas mesmo. - passou as mãos no cabelo cacheado e foi direto para o filtro, enchendo um corpo com água gelada. - Nós precisamos conversar mesmo, mãe.
 - Nós vamos, mas primeiro o café. - Apontou o bule que estava colocando sobre o fogão, o recipiente já estava cheio de água e pó de café. - Me conte, como estava o clima em Mônaco esse final de semana? - piscou, puxou fundo o ar e virou-se para encarar a mãe que permanecia de costas para ela, olhando o café que começava a borbulhar, terminou de beber sua água, caminhou até a pia abriu, a torneira e lavou o copo transparente, ao perceber a demora da filha em responder Vivian virou-se para olhar a jovem e percebeu a tensão nos ombros da filha. - ?
- Eu não estava em Mônaco, mãe. - Respondeu secando as mãos na calça jeans. - Eu estava em Londres.
 - O que foi fazer em... Céus. - Interrompeu a fala quando viu o líquido preto do café derramar sobre o fogão. Ela pegou as luvas penduradas no gancho da parede, resgatou a vasilha e começou a passar o café. andou até a mãe para ajudá-la, o coração começava a disparar no peito. - Como sou desastrada, esqueci que estava fervendo.
- Está tudo bem, mãe. - pegou duas xícaras no armário e colocou sobre a mesa da cozinha, adicionou o bolo de laranja que sua mãe tinha feito e esfriava sobre o forno, esperou –a terminar de passar o café e somente quando a mais velha caminhou para a mesa com a garrafa preta em mãos que as duas se sentaram. – Delícia. – Esfregou as mãos enquanto Vivian servia na xícara branca o café primeiro para a filha e depois a si mesma.
- O que foi fazer em Londres ? E por que mentiu para mim?
- Eu fui até a sede da McLaren. – Ela respondeu com os olhos fixos no líquido da xícara e não viu que Vivian parou o braço que iria completar o movimento de levar o café até a boca e os olhos se arregalaram.
- Foi onde?
- Na sede da McLaren. – A Senna mais nova repetiu. – Liguei para o Prost, pedi para ele me levar até o carro do meu pai, eu queria correr nele para homenagear meu pai, então eu cor... – Vivian não esperou que a filha terminasse o relato.
- Você entrou em um carro de Fórmula Um? Com Alain Prost? – Perguntou em um tom mais alto. – Você enlouqueceu?
- Mãe, por favor, eu preciso que se acalme. – Pediu. – Eu preciso terminar de contar.
- Eu não quero ouvir, . – Vivian se levantou, o rangido da cadeira soou como um trovão no céu. – Não continue. Não quero saber de você ligada a nada de Fórmula Um. – A loira tremia as mãos e por causa disso precisou apertar as palmas buscando um equilíbrio próprio que não veio. A cabeça de Vivian pareceu rodar e seu chão afundou quando tentou dar um passo, rapidamente se levantou amparando a mãe para que a mesma não caísse.
puxou todo ar que conseguiu e então expirou com calma, contando todos os números que conseguia, procurando equilibrar seu sistema nervoso e não entrar em colapso. Se ao saber que deu apenas umas voltas no carro de seu pai, sua mãe agiu daquela forma, imagina quando descobrisse o resto?
- Mãezinha, vem aqui você precisa sentar de novo. – Guiou a mais velha até a sala e sentou-se no enorme sofá com a mãe ao seu lado. – Você quer um pouco de água?
- Não. Eu quero que me prometa que não vai mais entrar em um carro de Fórmula Um. – Pegou as duas mãos da filha apertando e levando ao peito, lágrimas já tilintavam nas órbitas. – Promete , promete que não vai mais fazer isso, essa coisa de correr como loucos é bizarro, você não pode fazer isso, não como seu pai.
fechou os olhos com força, me ajude pai, pediu em pensamentos, enquanto tentava organizar a situação crítica que se encontrava seu coração, no momento que a mãe começou a chorar, iniciou-se o esquartejo do órgão que bombeava sangue por uma faca totalmente cega. 
Precisava entender e achar as palavras corretas para se comunicar com a mãe, infiltrando-se na penumbra da dor dela, dor que compartilhava, mas acima daquilo precisava conseguir expressar para a mãe o que aquilo significava.
- Eu não posso prometer isso, mãezinha. – Sussurrou aproximando o corpo da mãe. – Eu decidi fazer parte desse mundo e eu preciso que você tente entender os meus motivos para tomar a decisão de correr.
- Correr? Não , não. – Balançou a cabeça negativamente. – Eu estava certa que se você não se enfiou nessa loucura mais nova, não faria mais isso. Isso é um pesadelo.
- Mãe, eu preciso fazer isso. Eu preciso sentir o meu pai. – Lágrimas também começavam a dar sinal no rosto jovem da brasileira, a necessidade de pronunciar palavras parecia ser nula, seu maior desejo era chorar, como se aquilo fizesse o aperto em seu peito diminuir. – Eu preciso que meu pai...
- Seu pai está morto! – Vivian exclamou irritada. – Esse esporte matou seu pai, você quer morrer também? Quer fazer como ele e deixar pessoas para trás? Quer triturar meu coração de novo? – Ela colocou-se de pé andando para longe de evitando cruzar seu olhar com o dela.
- Não se trata das pessoas mãe, se trata de mim. – A executiva pronunciou. – Do vazio que existe no meu peito. Nesse buraco onde meu pai costumava viver. – Bateu no peito com força, exemplificando de onde a pronúncia vinha. – Passei a minha vida inteira vazia, oca por dentro. Tentando achar situações, pessoas que me fizessem entender o que eu faço nessa terra. – Ficou de pé, seu sangue começou a esquentar na medida em que seu coração batia mais rápido. – Eu nunca me senti como naquele carro, jamais senti a presença dele daquela forma, eu preciso descobrir a vida, mãe.
- Você está viva, . – A loira andou até a filha e segurou seus ombros. – Seu coração bate e você respira. Se isso não é viver o que é então?
- Existir mãe. Eu não vivo, apenas existo. Desde que meu pai morreu, desde que partiu e...
- Eu o vi morrer. O país perdeu o piloto, eu perdi o marido, o homem que amei. As pessoas choraram pelo Senna do Brasil, eu chorei pelo Beco*, pela cama que ficou vazia, pela casa que ecoava a voz dele, pelo maldito carro na garagem .... Eu não vou suportar isso de novo. – Ela suspirou pesadamente desejando que aquela conversa fosse um pesadelo e sua menina não estivesse pensando naquela insanidade, piscou os olhos várias vezes e em todas que abriu permanecia na mesma sala ainda vivendo dentro daquela conversa. – Você acordava a noite perguntando que horas ele chegaria, eu segurava minha dor e ninava você. Acha que não sei o que é perder a vida?
E lá estava a faca cega novamente penetrando as entranhas de em forma de dicção, conforme as lágrimas corriam pelas bochechas rosadas de Vivian e palavras voavam de sua boca, mais a jovem sentia seu peito inflar e mais parecia doer.
- É isso que você deseja para mim, mãe? Que eu passe a minha vida inteira existindo e sentindo a falta dele?
- Eu quero que você respire. Quero que seu coração continue batendo. – Vivian ainda estava incrédula com as palavras da filha, depois de tantos anos mostraria seu lado mais parecido do pai, cada traço do rosto da filha a lembrava o marido. Por anos chorou ao olhar dormir, conseguindo identificar traços físicos que a ligavam a Ayrton, questionando a Deus o motivo cruel que estava por trás da morte de um homem tão bom.
Vivian havia deletado de sua memória o momento em que se viu sem ele, em que acordou e a cama estava vazia, que a casa não estava barulhenta com o som do rádio nas músicas que mais amava ou quando tudo de repente ficou preto e branco e morreu.
Até que sorriu, junto do sorriso mais puro veio uma caixa de lápis de cor e trouxe novamente a vida para a sua própria vida. Dali em diante, a única coisa que pediu foi para que não ficasse mais sem aquele sorriso.
Conforme a menina foi crescendo as orações de Vivian eram para que ela não se apaixonasse pelas mesmas coisas que o pai, que o mundo do automobilismo não fosse atraente, mesmo aos 15 anos quando recebeu uma caixa com todos os diários de seu pai, que ele havia deixado para que ela conhecesse um pouco mais dele, não manifestou nenhum interesse incomum que indicasse seu desejo de pertencer aquele mundo.
Mas agora, parecia que o espírito de Ayrton estava cutucando e soprando caraminholas em sua cabeça, para aceitar estar perto de qualquer coisa que a ligasse aquele maldito esporte.
- Ele vai continuar batendo, mãe. Só que agora será muito além de bombear sangue, ele vai bombear a vida. – Andou até a mãe segurando suas mãos. – Eu não suporto mais viver assim, eu ando em círculos, não chego a lugar nenhum, trabalho para caramba, saio com as minhas amigas, me divirto e eu permaneço sem vida.
- Você não vai. Eu te proíbo, Senna da Silva. Você não vai correr, não vai nunca mais chegar perto de nada relacionado a esse caos que chamam de esporte, apague o número de Alain Prost de sua agenda e nunca mais fale com esse homem. – A voz já estava alta e cortante atingindo em cheio o coração da morena, a ordem de sua mãe era clara, dura e a viúva de Senna parecia acreditar que a filha seguiria o comando, entretanto passou as mãos no cabelo exalando uma calmaria que havia herdado do progenitor, o sorriso que pintou seus lábios fez a mãe se irritar por ser idêntico ao do ex-marido.
- Achei que tinha combinado com meu pai que jamais me impediria de fazer minhas escolhas. – Foi como se um soco invisível atingisse o estômago de Vivian, não soube decifrar se o motivo fora a fala da mais nova ou a memória que acompanhou suas palavras.

São Paulo, 1987.

Vivian Senna estava sentada no sofá confortável de sua casa, os cabelos faziam cascatas sobre o encosto do móvel e o vento que entrava pela janela balançava a saia de seu vestido e também a impedia de morrer de calor naquele dia ensolarado da cidade paulista, mesmo que estivesse no inverno o seu estado fisiológico esquentava sozinho as células de seu corpo, que juntando ao peso de sua barriga enorme de sete meses de gestação completavam o cenário infernal que exalava de seus poros.
- Trouxe mais um ventilador para ajudar a refrescar. – A voz de Ayrton a fez abrir os olhos enxergando a face serena do marido que estava de fato com um ventilador em mãos e logo conectou na tomada, virando em direção a loira todo o vento que saia do objeto. – Está melhor assim, querida?
- Sim, obrigada, amor. – Forçou um sorriso tentando aliviar a preocupação que estampava o rosto do piloto. – Sente-se aqui comigo.
Ayrton assentiu tomando o lugar ao lado da mulher e passou o braço direito por sobre os ombros dela trazendo-a para repousar em seu peito, pousando a mão esquerda sobre a barriga onde estava bem quietinha, algo que não era comum já que a bebê se mostrava agitada desde o inicio da gravidez.
- O que foi, Senninha? Qual o motivo de estar tão quietinha? – O homem começou a fazer um carinho no ventre de Vivian enquanto conversava com a filha. - Pode chutar sua mãe, o papai deixa. – Vivian sorriu se aninhando melhor no peito do amado.
- Ela está quietinha desde cedo, deve ter sentido o clima pesado da conversa com meus pais. – Resmungou e Ayrton soltou o ar com força, tentando controlar a raiva que sentia pelas atitudes recentes dos sogros se opondo totalmente a mudança da filha para a Europa com Senna, alegando que devia deixar o piloto ir sozinho e ficar no Brasil cuidando de junto com eles, já que a profissão do homem era perigosa e ela acabaria viúva cedo demais.
- Não fique triste querida. sente quando você não está bem.
- Meus pais me deixaram, Beco*. Disseram que não aprovam minha decisão. Pediram-me para escolher entre eles e você. – Uma lágrima correu de sua bochecha, Ayrton sentiu-se mal detestava ver a mulher chorar. – Eles não aceitam que eu vá com você, que sua profissão é perigosa e eu posso ficar sozinha, eles realmente acreditam que ficarei melhor ser você.
- Querida, seus pais te amam e te querem por perto, eles desejam sua felicidade.
- Longe de você? Com a crescendo longe do pai?
- Eu te amo Vivian, amo nossa família. Jamais seria egoísta e te obrigaria a me seguir, se deseja ficar com seus pais, nós daremos com a distân...
- Não. – Ela desencostou de seu peito e segurou seu rosto lhe beijando os lábios. – Eu amo você, Beco e não vou ficar longe, eu e vamos com você, não importa para onde ou como será, eu vou com você.
Ayrton sorriu e beijou os lábios da mulher mais uma vez e então beijou sua barriga.
- Nós seremos incrivelmente felizes. Nossa filha vai nascer em meio ao amor e isso que importa.
- Sim, eu quero que seja feliz. - Tocou a barriga e Ayrton colocou sua mão por cima da dela enlaçando seus dedos. – Jamais vou impedir que ela faça suas escolhas e prometo sempre criar e educa-la para que tenha autonomia e consiga traçar seu próprio caminho.
- Sempre. Nossa pequena será muito forte como nosso amor e tenho total certeza que será grande nessa terra. – No mesmo instante a barriga de Vivian tremeu em chute e o casal sorriu entendendo que a pequena concordava com a conversa deles. – Agora voltou a aparecer, Senninha?
- Claro. Ela sabe como sou feliz em ter escolhido você.
Ayrton beijou mais uma vez os lábios da mulher, colocou-se de pé puxando as duas mãos de Vivian para que o acompanhasse, deixou-a sozinha por um instante e ligou o rádio. A música que inundou o ambiente foi Roupa Nova Linda Demais, o piloto era completamente apaixonado por aquela música e vivia cantando ela para a amada.
Aproximou-se novamente e abraçou a mulher iniciando alguns passos ao som da música, começaram a dançar para comemorar a felicidade em que viviam e como a chegada da filha contemplaria mais o momento do casal, a batida do coração de ditava o ritmo do amor deles.

Vivian piscou e novamente estava em 2020, ainda em sua frente com os olhos marejados aguardando uma resposta da mãe, por um breve segundo Vivian teve a certeza que era Ayrton que estava diante dela. Os mesmo olhos brilhantes, o mesmo sorriso aberto.
Ah, merda!
Aquele homem ainda tinha completo poder sobre suas vidas, mesmo após a morte.
- Como estar lá te fará sentir mais viva? – Questionou por fim, começando a sentir que não tinha como impedir que a filha fosse, de fato ela e Ayrton tinham um combinado quanto as escolhas de vida da filha.
- Ele estará lá. Parece que em cada canto daquelas pistas, meu pai vive. Aquele carro tem o cheiro dele, o mesmo cheiro que me lembro dos cabelos dele. O volante foi o mesmo que ele segurou, quando toquei nele senti as mãos dele sobre as minhas. Pisar no mesmo lugar que ele reinou, me faz estar caminhando para ele.
- Que merda, . Eu tenho medo de perder você, por isso não quero que vá. – Vivian enquadrou o rosto magro de , o calor do toque da mãe irradiou sobre o corpo dela fazendo suas pernas fraquejarem. – Eu não suporto perder você, é tudo que eu tenho.
- Eu sempre estarei aqui. – Encostou sua testa na da mãe. – Mas estarei vivendo, não só existindo.
- Você está mesmo decidida, já vi que não vou conseguir te fazer mudar de ideia.
- Não vai mesmo.
- Você é como seu pai. Quando coloca uma coisa na cabeça, ninguém te faz mudar de ideia. – Vivian iniciou um carinho na bochecha da filha.
- Não é só dele que puxei isso. Eu sei que não será fácil me ver correr, mas eu preciso do seu apoio, quero que torça por mim.
- Eu vou torcer por você sempre. – Ela era incapaz de acreditar que estava concordando com aquela insanidade. Era impossível que iria viver de novo aquela agonia aos domingos, porém amava mais que a própria vida e desejava que sua filha encontrasse a felicidade, mesmo que significasse correr naqueles malditos carros. - Você é uma Senna, vai sempre brilhar onde quer que esteja. Tem certeza que essa é a única saída? Tem certeza que só assim sua vida fará sentido?
- Eu não tenho certeza de nada, a única coisa que sei é que não aguento mais essa vida. Eu sinto que meu pai iria querer isso, que ele está me direcionando para essa nova jornada. – sorriu saudosa e uma lágrima solitária brincou na bochecha, Vivian estendeu a mão para secar.
- Me promete que vai tomar cuidado? Promete que não vai parar de comer e se entupir de besteiras como seu pai fazia?
soltou uma gargalhada gostosa e Vivian a acompanhou.
- Eu prometo. – Beijou a bochecha da mãe. – Prometo que vou me cuidar e que sempre vou voltar para você.
- Eu amo você, pequena gafanhota. – Usou o apelido que Ayrton a chamava e abraçou a filha com força, parecendo querer fundir seus corpos. repousou a cabeça sobre o ombro da mãe deixando-a afagar seus cabelos, os músculos do braço de Vivian estavam duros e rígidos mesmo que quisesse jamais seria capaz de conseguir soltar a jovem, esperava conseguir dar abraços como aquele pelo resto da vida em . A cada batida de seu coração pedia que Ayrton estivesse mesmo olhando pela garota deles, que a protegesse e guiasse para que nada lhe acontecesse e ela sabia que minucioso como aquele homem era, sequer tiraria seus olhos dela.
Ela está sem suas mãos, cuide bem dela. – Falou em seus próprios pensamentos sentindo um sorriso involuntário surgir, ele nunca deixou de cuidar.
sentiu algumas lágrimas escorrerem por seu rosto, a mente tilintava na projeção de seu futuro, uma luz estava começando a nascer em seu coração, uma luz que brilhava na escuridão que sua vida antes se encontrava, o fulgor que agora iluminaria sua alma, trazendo paz e amor.
Para onde aquela cintilância a levaria?
Por instinto abriu os olhos e suas pupilas enxergaram a fotografia na estante da sala, o registro de sua família. Ayrton e Vivian posavam lado a lado, estavam em algum momento importante da carreira dele, já que ex-piloto vestia um terno antigo e a esposa um vestido azul. Ambos sorriam para a câmera e os olhos pareciam escapulir das orbitas tamanha intensidade que a felicidade exalava deles.
Sentiu o coração aquecer conforme uma leve brisa corria pelas células do corpo, as mãos se firmaram ainda mais ao redor do corpo da mãe aproveitando ao máximo o sentimento de amor que moldava o gesto de afeto.
Ela não sabia para onde aquela luz a guiaria, mas iria seguir seu caminho acreditando nela.

Beco: É o apelido que Ayrton tinha na infância, devido a uma prima que não conseguia pronunciar seu nome e o chamava assim.


Capítulo 1

MAX VERSTAPPEN

Silverstone, Inglaterra, 2020.

Ao cruzar a linha de chegada e receber a bandeira quadriculada, Max não conseguiu conter a euforia que o invadiu. Vencer era delicioso. Era um sentimento que, quando você experimentava pela primeira vez, não tinha mais volta. Impregnava em seu DNA e tudo o que você quer é sentir novamente. Como uma maldita droga que te motiva todos os dias. Era o que fazia Max respirar todos os dias. Vencer o motivava. Ser o primeiro, sempre.
Max aproveitava cada segundo daquele gosto e não haviam muitas coisas no mundo que pudessem tirar a emoção de ser o primeiro. Ele pulou para fora do carro direto para os braços de sua equipe. O piloto não conseguia parar de sorrir, suas mãos estavam inquietas, seus pés não pareciam parar no chão. Com as mãos na cintura, ele gargalhou quando Hamilton e Bottas o parabenizaram, socando o ombro do holandês. Ele estava em puro êxtase. Sua vida era ganhar. Sua vida era estar no topo. Sua vida era aquele esporte, era ser vitorioso naquilo que amava acima de qualquer coisa. Não conseguia enxergar a existência de Max Verstappen sem aqueles carros, sem a velocidade e sem toda a honra e glória de ser campeão.
- Max! – O repórter chamou sua atenção, iniciando a entrevista que antecedia o pódio. – Antes de tudo, quero te parabenizar. Que corrida espetacular, foi impecável. Você acertou em tudo.
- Obrigado. – Max assentiu com um grande sorriso. – Muito obrigado.
- A estratégia de sua equipe foi perfeita. Vocês realmente pensaram fora da caixa ao decidir largar de pneus duros. Sua briga pela conquista da posição, quando passou por Bottas na saída do pit stop... – O homem assoviou. – Aquilo foi insano! Você esperava por isso?
- Por essa, eu realmente não esperava. A estratégia foi arriscada, mas valeu a pena. O calor da Inglaterra foi um fator muito importante e eu devo essa vitória à minha equipe. É por eles e com eles que consigo esses resultados.
- Ótimo. Gostamos de ouvir isso. – O repórter sorriu, agradecendo Max pelo tempo.

O piloto se distanciou, mas parou em meio ao caminho e virou o corpo para a pista, onde os fãs já se reuniam e puxavam um coro alto e divertido, cantando e balançando bandeiras. Era a sua própria festa.
Max abriu um sorriso largo com a cena, virando-se mais uma vez e finalmente dirigindo-se ao local onde receberia seu troféu. Seu nome foi anunciado e os gritos de comemoração encheram seus ouvidos. Ele subiu ao pódio mais alto, sentindo como se estivesse sobre o ponto mais alto do planeta e observando a imensidão do mundo. O mundo de Max era a Fórmula 1 e estava em sua frente, exaltando-o. Sua pele quente era um contraste agradável ao frio do material de seu troféu, as gotas de champanhe respingaram em seu rosto, sua risada se misturou à risada do campeão mundial ao seu lado. Aquele momento sempre acontecia lentamente, uma sucessão de cenas que ficariam eternamente em sua mente.
Max pertencia àquele lugar. Tinha feito de tudo para chegar até ali. Ele era jovem e destemido e recebera diversas críticas. Diziam que ele era um piloto agressivo, chegaram a chamá-lo de perigoso. Tinha muitas batidas, destruíra o carro diversas vezes, mas era arriscando que extraía os melhores resultados e realizava ultrapassagens dignas de prêmios.
Não importavam as condições, Max dava seu show. O sol poderia estar queimando o asfalto da pista, como na Inglaterra naquele domingo, ou o céu poderia estar castigando com uma chuva torrencial, o garoto realizava ultrapassagens lindas com as quais nenhum piloto sonharia. Era como se algo ou alguém o protegesse do céu. Como se alguma força o abençoasse.
Seja o que fosse, essa força ainda tinha muito trabalho pela frente, porque nada poderia parar Max Verstappen. Não tinha nascido para ser segundo ou terceiro. Arriscaria tudo para ganhar.
Max caminhou até o local onde seria a coletiva de imprensa, adentrando o salão e encontrando-o lotado. Ele se sentou entre Lewis Hamilton e Valtteri Bottas, no lugar reservado ao primeiro colocado.
Os três pilotos começaram comentando sobre a corrida, sobre o calor e o desgaste de pneus. Max foi parabenizado diversas vezes por seu desempenho naquele dia enquanto Lewis e Valtteri falaram das dificuldades que haviam encontrado.
Então, as perguntas a respeito das últimas mudanças de pilotos entre equipes para a nova temporada iniciaram.
- Max. – Um repórter da Sky Sports chamou. É claro que o holandês seria o primeiro a responder. – Na semana passada, a RBR anunciou a volta de seu tetracampeão, Sebastian Vettel, à equipe. Como você se sente com isso?
No início da temporada, a Ferrari declarou que não renovaria com Vettel e que Carlos Sainz assumiria sua vaga. Daniil Kvyat estava no último ano de seu contrato com a AlphaTauri e, dessa forma, Alexander Albon voltaria para a equipe-filha da Red Bull para adquirir mais experiência. Diversas especulações rondaram o paddock sobre quem tomaria o segundo assento como colega de equipe de Max e, com o anúncio daquela semana, a grande suspeita havia sido confirmada. Sebastian retornaria à sua antiga casa.
- Eu acho que Seb irá acrescentar bastante à equipe. – Max anuiu. – A RBR deu início à carreira dele e é bom vê-lo de volta. Acho que será bom para ele.
- Você o vê como um mentor? Alguém com quem você pode aprender? – O repórter continuou.
- Seb é um excelente piloto. Nós dois já tivemos bons combates em pista. Vamos ver como será tê-lo como colega. Acho que cada um de nós possui um estilo de pilotagem diferente e próprio, então devemos focar em nós mesmos. – O holandês disse.
Percebendo que era o máximo que tiraria de Max, o repórter agradeceu e voltou a sentar. Outro homem levantou-se em seguida, representando a Motorsport.
- Mais uma pergunta para o Max, por favor. – Ele pediu, olhando para o piloto. – Max, desde a sua entrada na Fórmula 1, vários pilotos reclamaram de seu estilo, vamos dizer, “agressivo” de pilotar... Vettel foi um desses pilotos e, como você disse, vocês tiveram bons combates em pista, mas nem todos acabaram bem. Como você acha que vai ser a relação entre vocês dois no próximo ano?
Max apertou os olhos. Ele era conhecido por seu pavio curto quando se tratava de certas perguntas e muitos repórteres pareciam buscar um jeito de lucrar em cima disso. Mas, para o azar deles, Max ainda carregava a euforia da vitória naquele dia e não deixaria que fizessem a cabeça dele tão facilmente.
- Acho que todos nós, como pilotos, sabemos diferenciar o que acontece em pista dos nossos relacionamentos fora dela. Eu e Sebastian realmente não temos nada um contra com o outro.
- Então você acha que vão conseguir trabalhar juntos sem problemas? – O homem insistiu. – Acha que com ele vocês vão poder brigar pelo título de construtores?
O piloto holandês assentiu e, quando voltou a falar, o tom era de finalidade.
- Só posso dizer que, da minha parte, não iremos parar até conseguirmos isso.
Os olhos dele brilharam, provando a veracidade de suas palavras.

ALMA TORRES

Comuna Treze, Medellín – Colômbia
Novembro de 2018

- E aí, tia ! – Miguel acenou feliz ao enxergar a mulher que subia a comuna pelas escadas rolantes.
- Olá, Miguel! – Ela sorriu e balançou a mão, depois juntou os cabelos com uma das mãos livres e pôs-se a abanar a nuca.
E a escada rolante continuava seu rumo, vagarosamente subindo.
- , como vai? – Uma mulher cumprimentou quando pisou fora da escada.
- Muito bem, Paulina. Como estão as coisas em casa? – quis saber.
- Bem, bem. Tudo está certo. – A mulher respondeu sorrindo.
caminhou alguns metros, até a simples casa bege com as florezinhas roxas. Aquela era sua segunda casa, a aconchegante casa do professor Oscar, a primeira era um pouco mais acima, o galpão amarelo onde se encontravam com as crianças e jovens da comuna, região periférica de Medellín, a terceira era o sobrado verde de três andares em que ela vivia com sua família.
Antes que pudesse alcançar as escadas, o professor já a havia visto e sorria com doçura, como sempre fazia desde que se conheceram. Oscar se encontrava encostado ao batente da porta, com um livro em mãos, camisa florida e chapéu panamá. 
- Menina! – O professor abriu os braços para recebe-la num abraço.
- Professor. – sorriu e o abraçou com carinho. – Como está hoje?
- Ah, você sabe...poderia subir até Machu Picchu e voltar sorrindo. – O mais velho brincou.
- Isso o senhor poderia se estivesse tomando seus remédios. – o repreendeu enquanto balançava uma das sacolas que tinha em mãos, revelando a logomarca da farmácia.
- A vida é como ela é, não vou fugir das consequências das minhas ações. – Professor Oscar deu de ombros, entrando casa a dentro seguido por .
- Se a minha única preocupação fosse com as consequências...- A mais jovem suspirou enquanto traçava sobre si o sinal da cruz ao passar diante do Cristo de ferro que o homem possuía. 
- Eu joguei tudo fora, os charutos, a tequila também. – Oscar cruzou os dedos atrás de si quando falou.
- Então eu não vou encontrar nenhuma caixa debaixo da cama? – Ela arqueou uma sobrancelha e Oscar levantou os ombros e sorriu sem mostrar os dentes.
soltou o ar de seus pulmões com força e fechou os olhos, sabia que era difícil deixar todos aqueles velhos hábitos, mas também sabia que só assim conseguiria cuidar de Oscar do jeito que ele merecia.
- Professor. – deixou as sacolas sobre a pia e se aproximou do homem segurando suas mãos, ele sorriu culpado sem mostrar os dentes. – Você precisa se cuidar melhor, precisa parar com os charutos, com o álcool e se preocupar com sua saúde. Por favor, por mim.  – Ela enfatizou o que dizia olhando em seus olhos e Oscar assentiu.
- Como foi hoje? – Ele balançou uma das mãos na tentativa de afugentar o assunto.
- Foi bom, muito bom. – sorriu, encheu um copo com café e se sentou na mesa da cozinha, roubando algumas rosquinhas de leite de um pote. – Se lembra de Andre, um rapaz que morava naquela praça com o monumento do relógio? – Oscar murmurou um sim e se sentou na mesa, frente a jovem. – Eu o encontrei hoje, está trabalhando num restaurante do centro, tem uma namorada agora.
- Vejo aí algum avanço. – O professor sorriu e roubou uma rosquinha de .
- Sim. – A jovem riu e balançou a cabeça enquanto mastigava e engolia uma rosquinha. – Veja como são as coisas, há menos de um ano atrás ele estava nas ruas, roubando para viver, sofrendo com as crises de abstinência e hoje em dia até pode trazer os filhos para passar o fim de semana com ele. – Ela contou orgulhosa.
- Ele teve uma boa terapeuta ocupacional no caminho dele. – Oscar piscou.
- Não, qualquer um que faça o trabalho direito teria feito isso. – desconversou.
- Mesmo depois de ser assaltada por ele? – O mais velho arqueou uma sobrancelha. – Existem coisas que só poucas pessoas no mundo fazem, isso é o que torna elas tão especiais.
- Eu só...- sorriu entredente, sem humor e respirou fundo de olhos fechados. – Pensei que poderia ser o meu pai, eu gostaria que se fosse, alguém o ajudasse.  – Confessou ela.
- Genuíno. – Oscar riu e várias memórias invadiram sua cabeça. – Seu pai ficaria orgulhoso de você, com certeza.
- Você acha mesmo? – pôs-se a delinear as flores da toalha da mesa com a ponta do dedo.
- Claro que sim. Uma terapeuta ocupacional formada, quase mestre, mas acima de tudo, uma boa alma. – A mulher riu da piada. – Não ria, quero dizer que você tem uma essência boa, é bondosa e tem certo talento...todos se sentem acolhidos por você, você escuta, não julga, acolhe...isso é o que te diferencia dos outros. Dom.
- Aprendi com o senhor, professor. – piscou e o homem riu.
- Quando eu me mudei para a Comuna Treze, vi que havia muito o que ser feito. Muitas crianças, jovens por aí sem direção, lançados no mundo de qualquer jeito... – Oscar lembrou.
- O senhor já morava aqui quando meu pai morreu? – Ela o interrompeu.
- Sim, foi na mesma semana, mas você já está cansada de saber disso. – Ele respondeu e deu de ombros. – Eu me lembro de quando te conheci, aquele olhar profundo e desconfiado, arrisco e cheio de expectativas. Eu senti, essa moleca vai me dar trabalho. – Os dois riram juntos. – E aí está você, até hoje me impedindo de fumar meus charutos.
- Você vai acabar se matando, professor. – o repreendeu de novo.
- Não, antes disso Consuelo vai fazer a passagem. – Oscar zombou.
- Professor, <i>abuelita</i> Consuelo não fuma charutos, eu a vigio de bem perto. – lembrou.
- Mas ela vigia os vizinhos e faz fofoca, isso leva a morte bem mais rápido. – Implicou o homem.
- Professor, minha bisavó está muito bem, o senhor devia se cuidar para alcança-la. – A terapeuta sorriu e levantou. – Eu preciso ir, dia dos mortos. O senhor vai, não é? Estaremos todos te esperando.
- Ah, mas é claro...- Oscar fingiu desdém enquanto assistia lavar a louça do café. – Juan vai estar lá, suponho.
- Sim, professor, ele irá. – girou para encarar o homem. – Como sempre esteve nos últimos vinte e seis anos.
- Quando ele virá aqui? Preciso saber quais são as intenções dele com você.
- Professor, o senhor conhece o Juan desde menino. – gargalhou.
- Mas não como namorado da minha menina, nós vamos ter uma conversa séria. – Oscar respondeu, suas sobrancelhas estavam juntas e a testa enrugada.
- Papa Oscar, o Juan que eu namoro é o mesmo Juan que nos ajuda no projeto, o mesmo que te leva para passear e apostar. – se inclinou na direção do mais velho e o olhou nos olhos. – É o mesmo rapaz, não precisa se preocupar comigo.
- Eu não me preocupo assim com você, me preocupo com o pobre rapaz. – Oscar falou. – Eu te conheço, ele devia ser alertado sobre isso.
- Há. – balançou a cabeça negativamente. - Eu direi isso a ele, não se preocupe. – abraçou o mais velho, deixando um beijo em sua testa e saiu da casa.

XX

Nada resumia melhor a família Torres que uma boa e animada festa, era um costume passado de geração em geração. Não eram festas muito modernas ou que interessavam a todos pelas presenças importantes, eram festas de família com muita comida, risadas e pessoas tocando suas músicas favoritas. Geralmente músicas antigas e cheias de significado, sobre amor, amizade ou lições para os mais jovens.
sempre soube que antes de aprender a andar já batia no velho violão do pai, tentando arrancar algum acorde, desde então aquela era a forma com que expressava sua alegria, suas dores e seu medo. Nas festas da família a terapeuta se sentia livre para liberar toda aquela energia, tocava, dançava, cantava e se divertia como ninguém.
Talvez tivesse algo a ver com as lembranças de seu pai, ela não conseguia desvincular a imagem do homem a uma música animada, uma dança ou uma boa festa. Quando diziam Hector, a primeira palavra que pensava era pai, depois festa, a terceira era Verdolagas, forma com que eram conhecidos os torcedores do Nacional de Medellín.
Suas memórias dos jogos e festas com o pai eram perfeitas, como se não tivessem acontecido há tantos anos atrás. Papa Hector fazia falta, num dia como aquele, de celebração, ele já estaria com seu violão andando pela casa e chamando os filhos para que fossem logo para a fora para que tudo começasse.
- Acha que ficou bom? – quis a opinião da prima sobre o vestido alaranjado que vestia.
- Como a Frida, se ela tivesse mais de um e oitenta e olhos verdes. – Mariangel, sua prima, respondeu sorrindo enquanto terminava a maquiagem.
- Me considere uma versão king size. – riu alto e espirrou um pouco de perfume na nuca. – Ou melhor, queen size.
- E que comece o matriarcado. – Mariangel bradou quando saiu do quarto.

- Aí está você. – Juan sorriu quando seu olhar cruzou com a da namorada, na sala de estar. – Aí, papa, me apaixonei...me pergunto o que fiz para merecer uma mulher tão bonita. – Ele brincou e desfez a distância entre eles, abraçando a terapeuta que sorria e a beijando. – Mami, eu sei que tem namorado, mas será que pelo menos hoje você não poderia abrir uma exceção?
- Só por hoje? Só por essa noite? – mordeu o lábio, fitando Juan intensamente.
- É, sabe...- Juan enrugou o nariz e maneou a cabeça. – Soube que ele é um promotor entediante, chato, hoje quem sabe te interesse ficar com alguém que queira dançar com você...
- Ah...não sei, acho que prefiro meu advogato. – fingiu desdém e se afastou de Juan, observando-o de soslaio.
- O que? Eu posso colocar uma gravata ou tirar a camisa. – Juan seguiu a namorada rindo. – Posso fazer os dois, o que acha? Tirar a camisa e deixar a gravata.
- Ele acha que me manipula...- jogou os cabelos sobre o ombro.
Juan e haviam crescido juntos, eram melhores amigos desde que se lembravam. Depois da faculdade, quando numa noite beberam além da conta e acordaram nus e juntos no quarto de Juan, resolveram que poderia ser interessante tentar.
Juan era um lindo e promissor promotor de justiça, alegre, gentil e inteligente, tinha adoração pelo homem desde a infância, seus ideais, seus sonhos e a imensa vontade de mudar o mundo sempre a cativaram.
- Hector, está vendo a crueldade com que sua filha me trata, não é? – Juan brincou quando os dois pararam em frente as fotos de seus entes queridos.
- Papa, não o escute. – se inclinou até a foto do pai e fingiu sussurrar. – O que? Ele devia se conter? Eu falo isso para ele, papa, não se preocupe. – Ela fingiu conversar com ele e Juan sorriu.
- Vamos acender? – Juan sussurrou no ouvido da namorada quando a abraçou, apontando para as últimas velas apagadas.
respirou fundo e observou atentamente todas as fotos, velas, presentes, cravos e lembranças de todos que já partiram. Não que a terapeuta precisasse de um dia para pensar nos que perdeu, todos os dias do ano serviam para isso, para sentir saudades, mas no dia dos mortos ela escolhia celebrar a vida, os bons momentos. Comemorar a chance de ter convivido com todos aqueles.
Era uma tradição para a família Rodriguez de Juan e a sua, Torres, passar o dia dos mortos juntos. Todos se reuniam e as fotos ficavam juntas, uma do lado da outra, enfeitadas com flores, velas e coisas que os finados amavam em vida.  No centro, duas fotos maiores chamavam atenção, a foto de Juan, pai de Juan e a de Hector, seu papa.
Juan sorria e fazia sinal de positivo, estava apoiado em seu carro e sobre o retrato a camisa do <i>Independiente de Medellín</i>, principal rival do time de Hector o <i>Nacional de Medellín</i>, que tinha seu verde representado também sobre o retrato de Hector, que vestia a camisa do time e levantava dois espetos de churrasco.
- Isqueiro? – pediu.
- Por que acha que eu teria um isqueiro? – Juan indagou.
- Porque cheira a charuto cubano. – sorriu e estendeu a mão para o namorado.
- Não cheiro não. – Ele retorquiu entregando um isqueiro azul e puxando a gola da camisa, para confirmar.
tocou com o fogo a ponta do pavio que estava sob a foto de seu pai, a terapeuta se lembrava daquele dia, seu pai celebrava seu último aniversário em vida, estava radiante, animado e cheio de ideias. Era exatamente daquele jeito que se lembrava dele, feliz.
- Vamos comer? Meu estômago está chorando, posso sentir. – falou de repente e se afastou das fotos, puxando Juan pela mão depois que ele acendeu a vela para seu pai.
Não era dia de se lamentar, devia sorrir, sentir seu pai próximo a ela e celebrando junto. rumou até a grande mesa com todo tipo de comida que se pode imaginar e pôs-se a se servir, enquanto isso, Juan se juntou a mais dois primos e passou a dedilhar algumas canções no violão.
Campesina Santandereana soava bem melhor quando cantada por Juan, o sorriso aberto, os lábios vermelhos, o topete bem penteado, o olhar doce e alegre... era viciada naquele homem. A terapeuta sorriu com os primeiros versos e largou seu prato sobre a mesa, correu até o abuelito Jose e o puxou para uma dança. Aqueles momentos eram seus favoritos na vida, eram o auge de sua felicidade sempre.
- Ay! – Abu Jose gritou animado e foi acompanhado por outros familiares que também dançavam.
aproveitava a longa saia do vestido para gira-la quando dançava, girava com o avô, depois com Carlos, seu irmão, com sua mãe e com Juan, enquanto ele ainda tocava. Era a celebração do dia dos mortos, mas no mundo, naquele momento, ninguém tinha no rosto um sorriso maior que o de .

XX

Comuna Treze, Medellín – Colômbia
Fevereiro de 2019

e Juan voltavam para casa sem pressa, enquanto aproveitavam a vista que a subida pela escada rolante proporcionava. Estavam felizes e Juan sentia o anel em seu bolso pulsar, como uma ferida inflamada. O promotor mal podia esperar para fazer o pedido, tudo estava combinado, mas ele estava a ponto de desmaiar de ansiedade.
- Quem diria, não é? – suspirou depois de algum tempo em silêncio. – Quem poderia imaginar que eu e você, dois remelentos do lugar mais violento do mundo estaríamos aqui hoje. Você promotor e eu...aprovada...com título de mestre. – riu e apertou as bochechas do companheiro que sorriu.
- Mestra e especialista, não se esqueça dos anos de residência. – Juan tocou a ponta do nariz de .
- Claro que não, nunca me esqueceria.- sorriu e abriu os braços paralelos ao corpo. – Eu estou tão feliz! – Ela gritou e Juan abraçou sua cintura, sorrindo. – Mal posso esperar para ver a cara do professor Oscar, mama Celeste, Abu Jose e Abue Inez e Consuelo, de Carlos, Mariangel e Pedro, tio Felipe e tia Rosa...sua mãe e teus irmãos.
- O professor está muito orgulhoso de você, assim como todos nós. – Juan beijou-lhe a testa.
- Eu devo tudo a ele e ao seu projeto. Eu sempre fui uma forte candidata a completar trinta anos na prisão, como ele sempre disse. – e Juan riram. – Se eu estou onde estou, é por causa dos conselhos do professor.
- Você colocaria fogo na prisão. – Juan soltou um riso nasalado. - Vamos parar de papo e ir logo para casa, quero tirar essa roupa chique, estou morrendo de calor. – Ele disse enquanto saltava da escada rolante.

O advogado e correram enquanto riam alto, como as duas crianças que foram um dia. Ao passarem pela porta da casa de foram recebidos por gritos, assovios, balões e música. Uma festa surpresa em comemoração ao título da terapeuta.
- Você sabia disso, não sabia? – Ela questionou o namorado que apenas sorriu. – Mama! Professor! – os abraçou ao mesmo tempo.
Os dois estavam com olhos marejados e com enormes sorrisos no rosto, apertou os lábios e os olhou.
- Nós conseguimos, conseguimos. – Disse ela.
- Minha menina! – Oscar gritou para todos enquanto levantava uma das mãos de . – Minha menina!

perdera a conta de quantas pessoas abraçou, todos os vizinhos estavam ali, toda família e várias crianças e jovens que participavam do projeto do professor Oscar. Havia música, risos, comida e mais comida. Era uma verdadeira celebração, celebrar que enfim mais um passo fora dado, enfim concluíra seu mestrado.
- Você está com ele aí? – Oscar sussurrou para Juan.
- Sim. – O advogado deu duas batidinhas no bolso da calça. – Sempre estou com ele.
- Eu vou falar algumas coisas enquanto você toma coragem. – O professor piscou e se levantou. - Eu tenho algumas coisas para dizer, depois podemos comer, se assentem. – Pediu, ele estava de pé segurando um copo.
Juan se aproximou de e se sentou ao seu lado, fitando a mulher ansiosamente, vigiando cada ação ou reação.
- Eu já vou passar a palavra para o Juan, mas antes existem algumas coisas que eu queria dizer...-  encarou o namorado, como se perguntasse o que ele diria, mas Juan apenas deu de ombros e sorriu. – Eis aí a filha que a vida me deu. – Oscar apontou para com os olhos marejados e continuou.- Eu ganhei muitos filhos durante a vida, mas não me levem a mal, ela sempre foi minha favorita. – riu e Juan fingiu estar magoado. – Você...- O professor apertou os lábios para conter o choro. – , minha querida, eu não tenho...- Tentou dizer novamente, já com a voz embargada. – Eu tenho tanto orgulh...- Oscar pousou a mão sobre o peito e abriu a boca duas vezes, tentou continuar o discurso e então caiu.

Como uma estátua que é derrubada, simplesmente caiu, sem avisar. e os outros gritaram, todos o chamavam, todos se aproximaram dele. Oscar tinha os olhos arregalados e a mão estava no peito, parecia sentir dor. Juan e estavam ajoelhados ao lado dele, do outro lado estava Mariangel, que era enfermeira e tentava ajuda-lo.
- Professor! – o chamava incessantemente. – Oscar! Profe!
Quando ele fechou os olhos e Mariangel começou a massagem cardíaca, já chorava de desespero e gritava, tudo ao seu redor era uma confusão, mas ela sequer notava, era como se estivessem sozinhos ali, só os dois.
- Papa! Papa Oscar! Papa! – chamava enquanto tentava se desvencilhar do abraço apertado de Juan. – Papa! Oscar! Por favor, não. Não! Papa!

XX

Comuna Treze, Medellín – Colômbia
Agosto de 2019

O violão chorava com o dedilhar de La Llorona, a noite era fria e a lua cheia iluminava a sala através da janela aberta. Pela porta era possível olhar toda Medellín, todas as comunas, todas as montanhas, todos os prédios. não sentia vontade de cantar, apenas queria tocar aquela canção.
Todas as paredes da simples casa bege continham tantas lembranças. Às vezes era como se ele fosse passar pela porta a qualquer momento, rindo de algum livro, escondendo um charuto ou brigando por alguma besteira. Ah, o que ela não daria para ouvir uma bronca dele só mais uma vez...
Sentia tantas saudades.
Desde a morte do professor passava quase todo tempo que tinha em sua casa, sentada em seu sofá, tocando seu violão, lendo seus livros. Tentava deixar tudo do jeito que sempre fora, com exceção a apenas uma coisa, agora o pequeno altar na sala, estava enfeitado com cravos, uma garrafa de tequila e charutos, junto com o Cristo de ferro que sempre esteve ali, havia também uma foto do professor Oscar.
desejava que ele pudesse atravessar para o lado dos vivos todos os dias e não apenas no dia dos mortos, por isso insistia em deixar tudo ali, tudo pronto e arrumado.
Cumpria seus compromissos, trabalhava no hospital, tocava o projeto do professor e no fim do dia voltava sempre para a casa dele. Alguém precisaria cuidar de tudo, cuidar de Pablo a curica-verde de Oscar, era o que ela dizia a quem perguntasse a razão daquilo.
Era mais fácil também, quando estava sozinha ali não precisava se preocupar com as perguntas da família, com suas preocupações e nem fingir estar feliz e alegre. Também era um ótimo lugar para fugir de Juan.
o amava, sabia disso, mas não queria responder perguntas sobre como estava, falar sobre seus sentimentos, conversar sobre qualquer coisa. Só queria ficar sozinha, em silêncio, pensando consigo mesma.
Juan também insistia na ideia de se casarem, tocava no assunto constantemente e se magoava quando negava, aquilo a chateava profundamente. Odiava magoar seu amado Juan, mas não via alternativa, não queria se casar, não queria sequer pensar naquilo, não tinha cabeça para preparar um casamento e nem se imaginava casar sem seu pai ou o professor. Estava casada com o trabalho e com o projeto no momento, por mais que doesse a distância do namorado, se sentia melhor assim, só.

XX

Comuna Treze, Medellín – Colômbia
Outubro de 2019

- Então nós vamos todos pensar nisso, pensar em que legado queremos deixar para o mundo. – disse ao grupo de adolescentes reunidos no galpão. – E se puderem, tracem planos, meios para que consigam alcançar isso. O que vocês vão ter que fazer. – sorriu e bateu uma palma. – Agora já está tarde, já extrapolamos o horário, vocês precisam ir. A gente vai se esbarrando por aí. – Finalizou com um sorriso e se levantou para se despedir do grupo.

Aquele era o último grupo da noite com os adolescentes. amava aqueles momentos, ouvi-los e discutir seus assuntos, falar sobre a vida e aprender, era para aquilo que o projeto Casa Pablo servia, o projeto do professor Oscar.
Quando Oscar se mudou para a Comuna Treze, vindo de Cuba, era um professor idealista que queria mudar o mundo através da educação e da escuta. Não conseguiu mudar o mundo, mas mudou Medellín, era o que ele dizia a todos sempre que lhe davam abertura. 
Um homem negro, alto e magricela, que amava pássaros e festas. Quando pisou pela primeira vez no alto daquela comuna, teve certeza de que ali seria seu lar, a visão imponente de um rei, um rei do povo, ele sempre dizia.
Havia no ponto mais alto da comuna um velho galpão que anos antes servira de depósito de armas, era rodeado por helicônias e palmeiras imperiais. O professor cubano se apaixonara à primeira vista, decidiu que ali seria a sede do seu sonho, do projeto que acolheria os jovens e adolescentes daquela vizinhança. O que inicialmente atenderia apenas a população da Comuna Treze, passou a acolher a juventude de toda Medellín e em pouco tempo, apenas Oscar já não era suficiente.
O professor que fora tão repreendido, julgado e desaprovado inicialmente, contribuiu para a melhora de muitas vidas, como exemplo a dos filhos de Hector Torres e Juan Rodriguez. se lembrava perfeitamente da primeira vez que o vira, o homem de suspensório e chapéu panamá no velório de seu pai, oferecendo-lhe um livro.
pensava em tudo isso, uma sopa de lembranças, enquanto empilhava as almofadas e ajeitava a sala.
- Fazia tempo que não te via sorrir. – Mama Celeste se fez ser notada, estava de pé, próxima a porta.
Celeste era uma mulher baixinha e com olhar doce, conhecida por seus biscoitos e sorriso tímido. Os cabelos estavam sempre milimetricamente arrumados num coque e quase sempre tinha um avental amarrado a cintura, uma das paixões de Celeste era definitivamente a culinária, ali era onde a mulher demonstrava todo seu amor pela família.
Amava os momentos em que podia contar com toda a família ao redor da mesa, quando isso não ocorria era como se uma formiga beliscasse a sua alma e Celeste não parava até conseguir resolver aquela situação. Por isso toda a preocupação com a filha mais velha, não era do tipo que se demonstra as fraquezas, que deixa que saibam como realmente se sente.
Desde a morte de Oscar, Celeste soube que não seria fácil tirar a filha daquele espaço em que ela se colocara, abaixar seus muros e se aproximar. Celeste perda a conta de quantas vezes ouvira os lamentos de Juan sobre a distância da namorada, sobre os pedidos de casamento e sobre como ela parecia não se importar com mais nada, com mais ninguém. Ela sentia o coração apertar por possivelmente assistir a filha abrir mão da felicidade por estar segurando com muita força as mãos da dor.
- Mama. – levantou o canto da boca num sorriso fechado. – Não vi que estava aí.
- Ultimamente eu preciso vir aqui se quiser ver você. – A mais velha reclamou franzindo a boca.
- É que estou muito ocupada. – tentou se explicar.
- Sempre está. Mama estou ocupada, mama estou cansada, mama preciso ir ao centro. – Celeste imitou o tom da filha e fechou o cenho numa careta mal-humorada, depois se sentou e deu dois tapinhas na cadeira ao seu lado. – Vamos ter uma conversa agora.
respirou fundo, não queria ter a conversa que sabia que a mãe puxaria, não estava disposta a ouvir discursos motivacionais de como o professor gostaria que ela estivesse ou não. Mas aprendera desde pequena a ser obediente, então se sentou sem reclamar.
- Diga, mama. – A jovem assentiu.
- Você não pode continuar fazendo isso, fugindo das pessoas. Há semanas que não te vejo, teu noivo não te vê...
- Eu não aceitei o pedido, não tenho um noivo. – interrompeu a mãe e virou-se para frente, desviando o olhar da mãe.
- Eu estou me perguntando o porquê. Você o ama, por que não se casar com Juan? Ele se preocupa com você, , todos nós nos preocupamos. – A mãe tocou gentilmente o joelho de .
- Mama, acha mesmo que eu consigo pensar em me casar agora? Depois de tudo? – inclinou a cabeça e mordeu a língua, não queria chorar.
- Eu sei que não, pelo que sei de você, provavelmente nunca mais queira. – Celeste suspirou. – Pobre Juan...
expirou o ar que tinha em seus pulmões, a mãe tinha razão, pobre Juan.
- Eu conheço você, conheço porque você é simples. Não terá mais casamento por tempo indeterminado, vai ficar naquela casa encarando as paredes por tempo indeterminado, se mantendo ocupada o máximo que puder para não precisar pensar no que sente. – A mãe falou. - E vai se fechar, como uma concha.
- Está dizendo que não sei lidar com meus sentimentos, mama? – indagou com o cenho franzido.
- Estou, estou sim. Por isso estou aqui.
- Ah, vai me ensinar? – zombou e a mãe deu-lhe um beliscão na costela. – Aí! Mama, por que fez isso? – Perguntou enquanto esfregava o local.
- Me escute e feche a boca. Eu pensei, conversei com a família, nós decidimos que você devia fazer uma viagem, sair um pouco daqui. – Celeste contou e ajeitou a saia sobre os joelhos.
- Ah, vocês decidiram que eu preciso viajar?
- Isso mesmo. – A mais velha balançou a cabeça. – Você sempre disse que queria viajar, conhecer o mundo. Deve ir agora, esvaziar a cabeça, quando voltar, vai estar mais ajuizada. Quem sabe até se case com Juan, se o santo ainda te esperar...
- Mama, não vou viajar. – pôs-se se pé e cruzou os braços.
- Você vai, Torres. Vai nem que eu tenha que contrabandear você, pagar coiotes para te levar daqui. – Celeste se levantou para encarar a filha.
- Mama...- franziu o cenho, chocada com as palavras da mãe.
- Menina. – A mãe sorriu e acariciou o rosto da filha. – O que você falava aos meninos quando cheguei? Ah, legado. O legado de Oscar foi construído, mas não foi trancado em casa que ele o fez, Oscar desbravou o mundo, desbravou Medellín. – Celeste olhava nos olhos da filha e sorria com doçura. – E Oscar não dedicou a vida a terminar de criar você para que você ficasse plantada em casa como uma samambaia.
- Mas mama, eu não poderia viajar...tem o projeto e meu trabalho. As coisas não são tão simples. – lembrou.
- Que nada, eu sei que você já devia ter tirado férias, além disso nós podemos cuidar de tudo. Juan também pode...- Celeste sussurrou.
- Mas e ele? Eu... – pensou no que advogado diria sobre aquela ideia maluca.
- , pense nisso, pense com cuidado. Oscar viveu a vida dele, agora vá viver a sua.

XX

Comuna Treze, Medellín – Colômbia
Janeiro de 2020

Com o tempo a dor se tornara um pouco mais suportável, não passou ou diminuiu, mas pelo menos se sentia capaz de domina-la. A saudade era cada dia mais sufocante, era isso que mais doía, a saudade e a certeza de que não veria Oscar tão cedo.
Desde que a mãe plantara a semente sobre se afastar, viajar um pouco, a terapeuta não conseguia não pensar na possibilidade. Seria bom, poderia trazer novidades, ensinar muito e contribuir não só para que ela se encontrasse, mas também para que se tornasse alguém melhor.
Até já havia comentado sobre o plano com Juan, o namorado não se opôs, exatamente como previra, mas se preocupou com a ideia. Não eram mais como antes, não depois da morte do professor. Era como se não fosse capaz de ser feliz da mesma forma novamente, como se sempre fosse faltar aquele pedaço, aquela parte que a impediria de ser completa de novo e isso era uma barreira no relacionamento dos dois.
Certa de que seria a melhor coisa a se fazer no momento, tomar certa distância de tudo, chegara ao galpão aquela manhã. Sabia que Juan estava ali e precisava resolver tudo o mais rápido possível, retirar o curativo de uma só vez.
- Miguel, Juan está aí dentro? – perguntou ao garoto de cabelos cacheados quando ele saiu de uma das salas e fechou a porta atrás de si.
- Olá, tia . Está sim, estamos tendo prova oral de inglês, só falta uma pessoa. – O garoto contou e assentiu.
Juan...ele era realmente alguém especial. pensava se acaso o perdesse, se algum dia encontraria alguém tão maravilhoso quanto ele. Sentia o coração apertado pelo que faria, pelos planos que sufocou, por tudo, mas não era como se tivesse escolha. Não seria justo fingir estar bem e contente ao lado de Juan, ele merecia mais que isso.
- Até semana que vem! – ouviu Juan dizer a uma garota que deixava a sala e aproveitou o momento de distração do homem para observa-lo arrumar a mesa e ajeitar a sala.
- Olha quem está aí. – Juan sorriu quando percebeu que ela o observava da porta. Ele abriu um braço, a convidando para perto e abriu mais o sorriso.
- Olá, Juan. – cumprimentou e abraçou o namorado com força.
- Estava numa prova de inglês. – Ele contou.
- É, eu soube. – assentiu. – Como eles foram?
- Essa é a turma avançada, eles estão com dúvidas gramaticais que nem eu sei responder. – Ele confidenciou e gargalhou em seguida. – Estão tão animados e cheios de expectativas. Acho que em breve poderão se tornar professores, eu estou confiante com meus alunos.
- Eu fico muito feliz, tenho certeza que não poderia haver professor melhor. – sorriu e se apoiou na mesa.
- Poderia...- Juan suspirou tristemente. – Mas agora cabe a nós continuar o que ele começou. – Disse sorrindo.
assentiu e suspirou, enquanto tomava coragem para dizer o que precisava, correu os olhos pela sala de aula, tentando guardar todos os detalhes em sua memória.
- O que houve? – Juan quis saber.
- Como assim?
- Você está com aquela cara de novo. O que quer me dizer? – Ele indagou, era chocante como Juan podia desvenda-la com facilidade.
- Você tem lê mentes, não é? – empurrou o ombro do namorado e riu.
- Eu me dedico a estudar e prestar atenção em você, digamos que estou prestes a concluir meu doutorado. – Juan puxou para mais perto de si e beijou o topo de sua cabeça.
- Como você pode me amar mesmo depois de tudo? – mordeu o lábio para conter o choro.
- Por que o amor é isso, pelo menos numa relação verdadeira e saudável. – Juan sorriu e segurou o rosto da terapeuta com doçura. – Eu amo você apesar dos apesares, sempre amei...como amiga, namorada...- Ele mordeu o lábio e expirou. – Não vou entrar no assunto casamento de novo, prometo.
- Eu queria ser como você, conseguir lidar melhor com tudo que aconteceu. – desabafou. – Queria conseguir seguir em frente e voltar ao meu antigo normal. Ontem eu passei por uma roda, estavam cantando e dançando uma música qualquer...eu não senti vontade nenhuma de ficar ali, parecia tão sem graça, tão sem sal...cinza. – A terapeuta mantinha os olhos presos ao ombro de Juan e aos poucos sentia a voz embargar.
- Você dispensar uma roda é algo muito preocupante. – Juan sorriu empático.
- É, pois é.... correndo de uma boa roda...parece mentira. – A mulher disse e se afastou, parando frente a uma grande janela com vista para toda Medellín. – Isso fazia parte da velha , a minha nova versão parece não se importa com nada disso. Eu sei...sei que não sou boa em falar sobre o que eu sinto e tudo mais...
- Assumir já é um caminho. – Juan se aproximou e se encostou na janela, encarando ansioso.
- Eu sei disso. E eu...sei lá, acho que não quero me sentir assim...na verdade eu quero, por mim eu ficaria nesse estado de inercia, é confortável. – deu de ombros.  – Mas tem alguma coisa que fica me dizendo que tenho que fazer alguma coisa, uma voz na minha cabeça, talvez seja consciência.
- Ou talvez o professor. – Juan comentou.
- Talvez. Se lembra daquela viagem que comentei?
- Ah. – Juan abaixou a cabeça, sorriu de canto e expirou, mas não parecia nada contente. – É isso, você decidiu ir.
- Decidi. – deu as costas para a janela e se recostou nela, como Juan fizera. – Eu preciso tentar, preciso fazer alguma coisa...não quero continuar sendo esse corpo sem alma, inabitado.
- Sabe, eu também sofro com isso. Digo, com a morte dele...- O homem recostou a cabeça na janela e suspirou. – Eu sinto falta dele todo santo dia, sinto dor quando passo pela casa dele e não o vejo na janela. Quando ele não aparece aqui de repente me apresentando alguém que precisa de assistência jurídica, quando ele não me entrega uma pilha de livros sobre algum assunto que achava que eu me interessaria. – Juan sorriu. – Quando não invade minhas aulas, quando não aparece de surpresa em alguma audiência apenas para me ver em ação...me doí muito. Eu também perdi alguém importante aquele dia.
- Eu... – tentou falar, mas ele pareceu não perceber.
- O que piora tudo...o que tem mais me doído é ver você ir com ele. Assistir a mulher que eu mais amo no mundo simplesmente se esvaindo, sumindo e eu só posso assistir...como se tentasse fechar as mãos para segurar água do mar. – Juan fechou uma das mãos em punho tentando ilustrar o que dizia. – Cada dia sentindo você mais distante, sentindo esse espaço angustiante se formando entre nós dois...
se afastou três passou e deu as costas para Juan, não queria que ele a visse chorando, ouvia a respiração dele, o ouviu fungando, com certeza o namorado também chorava.
- Eu sei de tudo isso, o pior de tudo é que eu sei. Mas eu não posso, simplesmente não consigo fazer nada a respeito...eu só...- não soube o que falar.
- Você realmente acha que essa viagem vai te fazer bem? Vai te ajudar a se sentir melhor? – Juan questionou limpando os olhos com as costas das mãos.
- Eu não sei mais o que é o melhor, perdi a noção desse conceito há muito tempo. – respirou fundo, piscou algumas vezes e secou os olhos, voltando-se a Juan. – Mas acho que preciso tentar, preciso fazer alguma coisa, tentar encontrar um sentido para ainda estar aqui, para estar viva.
- E eu? – Juan perguntou olhando nos olhos da terapeuta.
- Eu não posso pedir que você me espere...não posso pedir isso de você, seria abusar dos seus sentimentos...eu... – balançou a cabeça tristemente.
- Então é isso. – Juan assentiu devagar e fechou os olhos.
abriu a boca algumas vezes, queria dizer que mesmo não podendo, ela adoraria que ele a esperasse, que depois pudessem tentar mais uma vez. Juan estava interpretando aquilo de maneira equivocada, ela não pensava em terminar assim, não pensava em terminar, ainda o amava. Mas ao mesmo tempo, depois de fazê-lo sofrer com sua frieza e distância, como ela poderia pedir para que ficassem juntos.
- Eu não...- disse enfim, depois expirou e balançou a cabeça negativamente.- Eu entendo.
- Eu sei que sim.
- Eu te amo. – Ela declarou e o homem voltou a encara-la.
- Eu também, eu amo você de tantas formas e intensidades diferentes...- Juan suspirou e sorriu tristemente. – Que talvez o melhor jeito de demonstrar isso seja impedindo que nós nos machuquemos mais.
- Eu só queria...queria não estar tão quebrada por dentro. – confidenciou.
- Então nós temos que cuidar para que nada mais se quebre. – Juan se aproximou da mulher, olhou em seus olhos e depositou um beijo demorado em sua testa, depois olhou em seus olhos mais uma vez e levantou rapidamente o canto da boca num sorriso discreto e triste. – Vou estar aqui torcendo.

            Dizendo isso, ele se afastou, deixando-a sozinha na sala. não quis ou tentou conter as lágrimas, não entendia o que sentia, uma mistura de alivio com dor. Detestava vê-lo ir, mas não podia pedir para que ficasse. As lágrimas pesadas enchiam seus olhos e embaçavam sua visão.  A terapeuta se sentou em uma das cadeiras próximas, apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos. E chorou.
Chorou copiosamente, como em poucas ocasiões tivera chorado na vida.

XX

Aeroporto Internacional José María Córdova, Medellín – Colômbia
Setembro de 2020

Era isso, adíos, Colombia!
tentava mentalizar todas as coisas boas que a esperavam na viagem, só assim não desistiria e correria para fora do aeroporto. Por que mesmo estava fazendo aquilo? Para seguir em frente, ela respondia para si mesma.
A despedida da família fora feliz, nada de muito choro ou drama, apenas lágrimas felizes de um até breve. Aparentemente todos estavam felizes com aquela viagem, menos a viajante. Não que estivesse viajando contra a vontade, longe disso, mas era estranho sair de sua zona de conforto depois de tanto tempo.
Devia estar em casa, pensando no projeto, cuidando do professor, pensando em se casar, mas a vida nunca é como esperamos. Em menos de um ano tudo mudara completamente, tudo que tinha de certo e concreto em sua vida despencara de repente. Para vermos a ilha é preciso sair da ilha, dizia Saramago, então se ela quisesse organizar toda a bagunça que estava morando, devia sair de si, deixar seu centro e se afastar, se reconstruir. Além do mais, para se receber coisas novas é preciso estar de mãos vazias, era o que o professor Oscar sempre dizia, a lembrança aqueceu seu coração.
Agora a colombiana estava ali, na fila para o embarque rumo a um novo capítulo de sua vida. Era a última da fila, sem pressa alguma para que tudo aquilo se concretizasse. Na sua vez, sorriu e secretamente imaginou como seria se por acaso não pudesse viajar e infelizmente tivesse que voltar para casa.
- Senhora, eu lamento muito. – Uma moça de grandes olhos amendoados sorriu depois de algum tempo consultando uma tela. – Infelizmente houve um problema com esse voo, existem mais passageiros do que o possível.
arregalou os olhos e abriu a boca tentando dizer algo, mas não pode. Maldita hora que fora ter aqueles pensamentos...
- E agora? O qu-que acontece? -  gaguejou.
- Infelizmente o seu assento foi vendido duas vezes, ele já está ocupado. – A jovem explicou.
- Eu não viajo? – se sentia perdida. – Mas minha passagem está correta...
- Não, de forma alguma. – A jovem respondeu. – Foi um erro nosso, vamos realoca-la em outro assento disponível, se assim quiser ou poderemos aguardar o próximo voo.
Quem está na chuva, é para se molhar, pensou.
- Me realoque nesse mesmo voo, por favor. – Respondeu sorrindo.

Quando pôs os pés no avião, foi direcionada a um lugar que não conhecia, sequer tinha pisado algum dia, a primeira classe.
Só pode estar brincando, pensou quando entrou na cabine privada da primeira classe. O lugar cheirava a gente rica e a fazia lembrar da comuna treze e de como o mundo era injusto. Uma passagem ali devia custar mais de vinte e cinco mil pesos colombianos, pensava em quantas coisas poderia comprar com aquele dinheiro, pensava no que Juan acharia daquele lugar, precisou até controlar o impulso de enviar uma mensagem contando da experiência para o antigo parceiro.
O assento se transformava em uma cama totalmente reclinável, a comida era preparada especialmente por um chef renomado e havia um banheiro privativo, além kits de cuidado para a pele e um bar. se sentou engessada, não sabia sequer se portar naquele ambiente.
O que o professor diria se a visse ali, ela sorriu ao pensar. Devia aproveitar a oportunidade, observar o outro lado da moeda, conhecer o inimigo, era o que Oscar diria. Depois de ver dois filmes do catálogo, comer toda a comida disponível e ler dois capítulos de Amor em Tempos de Cólera, resolveu dar uma volta e conhecer o bar, não se sentia vestida apropriadamente para a ocasião, mas era o que tinha para o momento.
O bar possuía uma atmosfera dourada que a remetia riqueza, ouro e a fazia se sentir ainda mais pobre. Estava praticamente vazio, com exceção ao barman que mantinha um sorriso plástico no rosto e uma senhora vestida elegantemente, que bebia alguma coisa escura num copo quadrado.
- Uma gin tônica. – pediu sorrindo, sempre quis pedir aquilo, como nos filmes.
correu os olhos pelo lugar, a mulher parecia nervosa, estava séria, trêmula e muito coberta, como se sentisse muito frio, a colombiana preferiu não socializar. Quando foi que colocaram bares nos aviões, pensava ela, mas que coisa mais chique e desnecessária.
A terapeuta acendeu a tela do celular, queria confirmar as horas, sorriu triste ao notar que foto com Juan ainda ocupava a tela de bloqueio. Ainda não tinha tido animo para trocar aquela foto, para substituir Juan por completo. correu os olhos pelo bar, procurando algo para fotografar, pousou o olhar na taça de bebida que o barman colocara a sua frente e rapidamente fotografou a bebida e substituiu a foto, se queria se remontar, não precisava mais daquela foto ali.
A senhora ao seu lado ainda chamava sua atenção, parecia nervosa, sofrendo, se sentia incomodada, tentada a se aproximar. Mas conhecia bem como ricos agiam, seria escorraçada, para dizer o mínimo, então desistiu e se focou em saborear a bebida.
Às vezes, você escolhe uma profissão, mas outras vezes ela é que escolhe você. E diante de um chamado assim, você não corre, pode tentar fugir e se esconder, mas aquela sombra sempre estará a sua espreita aonde quer que vá. E por isso, não pode ignorar aquela senhora.
Ela respirou fundo duas vezes, analisando com calma a situação. Tentaria, se não desse certo, pelo menos poderia dormir tranquila, pensou ela.
- Com licença. – se aproximou e atraiu o olhar injetado da mulher para si. – Está tudo bem? Precisa de algo?
- Estou bem como se pode estar, obrigada. – Respondeu a senhora num tom seco que fez recuar.
Aquela mulher devia ter algo perto dos cinquenta e cinco anos, seus cabelos brancos eram elegantemente cortados na altura das orelhas e o casaco de pele e a maquiagem bem-feita finalizavam o visual Cruella de Vil. Contudo, notou a dor em seu olhar, não uma dor subjetiva, uma dor física e lancinante.
O faro de terapeuta ocupacional a fez analisar os membros daquela distinta senhora. A mão esquerda segurava o copo, mas a mão direita estava protegida pelo casaco, imóvel como se fosse de vidro. As unhas pareciam fracas, a mãe estava inchada, brilhante e avermelhada.
- Como está a sua mão? – perguntou e a senhora voltou-se a encarar a jovem. – Está com dor, não é?
Ela não respondeu, mas seu olhar firme e inquisidor vacilou por alguns segundos e então sorriu.
- Eu já volto, por favor, não saia daqui. – Ela disse a senhora. – Por favor, você pode conseguir dois recipientes, um com água quente e outro com água gelada? – Pediu ao barman e ele assentiu.
Em seguida, correu até sua cabine e pôs-se a remexer sua bolsa, sabia que tinha aquilo ali em algum lugar. Aí está, celebrou quando encontrou o gel de massagens e as fitas de compressa, então voltou correndo para o bar, onde os recipientes com água já a esperavam.
- Meu nome é , Torres. – Se apresentou sorrindo, mas a senhora ainda mantinha o mesmo olhar ameaçador. – Sou terapeuta ocupacional. – A senhora arqueou uma sobrancelha desconfiada. – Se me permitir, poderia tentar...
- Não toque na minha mão! – A senhora puxou o braço com violência e em seguida o abraçou e fechou os olhos, devido a pontada de dor.
- Eu sei o que está sentindo. – insistiu.- Doí até quando o ar a toca, não é? Deve ser quase insuportável.  – falou e a senhora franziu o cenho, mas de maneira assustadora. – Eu posso tentar amenizar um pouco, se me permitir.
O barman encarava a cena curioso com o desfecho, estava ansiosa para agir e a senhora tinha o medo e incerteza estampados na testa.
- Por favor, eu só quero ajudar, prometo que não vou te machucar. – insistiu.
- Você sabe quem eu sou? – A senhora indagou arqueando ainda mais uma sobrancelha.
- Não, senhora. – sorriu. – A senhora não disse.
- Tudo bem. – Respondeu depois de um longo suspiro e ofereceu a mão para .
puxou os recipientes de água para mais perto e sorriu quando o barman ofereceu uma toalha branca.
- Isso que vou fazer se chama banho de contraste, a princípio pode ser meio desconfortável, mas vai ajudar a diminuir o inchaço a sua mão. – Explicou olhando nos olhos da outra.
E então ela mergulhou a mão da mulher na água gelada e percebeu o rosto da outra se contorcer de dor, depois de alguns minutos mergulhou a mão na água quente e repetiu aquilo por mais algumas vezes.
- Eu sei que pode ser ruim, mas prometo que vai se sentir melhor depois disso. – sorriu e a senhora assentiu.
- Mais um drink? – O barman perguntou.
- Sim, adoraria. – assentiu sorrindo.
Depois de alguns mergulhos, o inchaço havia diminuído visivelmente e a mão já não parecia tão sensível ao toque.
- Agora vou fazer uma massagem, tudo bem? – perguntou e a mulher assentiu.
A terapeuta começou a massagear cada dedo da mão, das pontas até o centro da palma, com delicadeza e firmeza.
- Eleonor Sleagle. – A senhora disse de repente.
- Perdão. – levantou o olhar.
- Meu nome é Eleonor Sleagle. – A senhora sorriu de canto rapidamente.
- Muito prazer, Eleonor. – sorriu. – Está vendo como o inchaço está sumindo? – mostrou orgulhosa.
- Você é médica? – O barman perguntou curioso.
- Não, sou terapeuta ocupacional. – sorriu mostrando todos os dentes.
- Você é boa nisso. – Eleonor falou. – É formada há muito tempo?
- Cinco anos. – respondeu balançando a cabeça.
- É de onde? – Quis saber a mais velha.
- Medellín, na Colombia e você?
- Nova York. – Contou Eleonor.
- Bom, Eleonor. – sorriu mais uma vez. – Agora eu vou enfaixar sua mão, vai perceber que isso ajudará a controlar o inchaço, vai precisar ficar com a mão elevada. – Eleonor assentiu enquanto assistia enrolar a tira em toda sua mão.
- Acho que vou me deitar um pouco. – Anunciou ela.
- Eu te acompanho. – disse e sorriu para o barman. – Está fazendo reabilitação com alguém em Nova York, Eleonor?
- Não, tenho nada. Deve ser apenas uma questão de circulação, algo assim. – Eleonor disse entredentes enquanto se dirigia a sua cabine.
- Na verdade, eu acredito que se trate de síndrome da dor regional complexa ou distrofia simpático-reflexa, ou os outros vários nomes que ela pode ter. – disse atraindo a atenção de Eleonor. – Se a senhora ainda não está se tratando, deve começar imediatamente.
- E você se baseia em? – Ela indagou desconfiada.
- Bom, eu posso estar equivocada, é claro, como disse eu apenas olhei. Mas eu fiz minha residência com pacientes neurológicos, com lesões nervosas de todo tipo, desde traumatismos cranianos até cortes, queimaduras e outras coisas que envolvessem nervos. – contou. – Eu já perdi a conta de quantos pacientes atendi com este mesmo problema. Eu precisaria de bem mais que isso, mas não mudo minha posição.
- Você tem coragem, pelo menos. – Eleonor deu de ombros e entrou em sua cabine.
- Sou uma mulher que cresceu no lugar mais violento do mundo, o mínimo que tenho é a coragem. – disse com firmeza enquanto auxiliava Eleonor a reclinar seu assento e a posicionava com a mão elevada. – Como está a mão?
- Bem melhor, obrigada. – Eleonor disse e assentiu. – , não é?
- Sim. – A colombiana assentiu.
- Por que resolver me ajudar?
- Por que eu não ajudaria? – arqueou uma sobrancelha e franziu o cenho.
- Você simplesmente sentiu que eu precisava de algo e quis me ajudar? Gratuitamente? – Eleonor ainda parecia desconfiada.
- Sabe como é, quando estamos no céu as legislações são meio frouxas e o conselho permite que eu atenda de graça. – sorriu pensando no quão idiota aquela piada fora e Eleonor semicerrou os olhos e inclinou a cabeça sobre o ombro.
- Acho que tenho um trabalho para você. – Eleonor suspirou.

Lewis Hamilton

O vento gélido de Londres parecia cortar a pele de Nicolas, mesmo com um casaco grosso, tocas e luvas o homem permanecia sentindo frio, motivo que estava o deixando irritado pela demora do irmão mais velho em abrir a porta. Tinha exatos sete minutos que o irmão respondeu a mensagem dizendo que estava indo e Nicolas se perguntava o que aquele “estar indo” de fato significava. Quanto tempo uma pessoa demorava em sair do quarto andar até a sala e apertar um botão?
Aparentemente uma eternidade para o irmão mais velho e olha que ser rápido era característica determinante em sua profissão já que o mesmo era piloto de Fórmula Um.
Quando o barulho do portão sendo destrancado moldou seus tímpanos, mais rápido que pôde pensar se arrastou para dentro, fechando com força e convicção a porta certificando-se que o frio ficasse lá fora.  Bem longe dele.
Cruzou a enorme garagem emoldurada por vários carros em passos rápidos, indo para o elevador onde apertou o número para subir ao primeiro andar, meio segundo depois as portas metálicas se abriram e o britânico escorregou para fora, entrando finalmente em casa.
- Que bom que chegou. – A voz do pai soou seus ouvidos enquanto o filho mais novo se livrava das luvas e casaco, colocando-os pendurados no cabideiro.
- Oi pai. – Sorriu e abraçou o mais velho. – Senti saudades, onde está a mamãe?
- Essa é uma noite só de garotos. – Respondeu dando um gole na cerveja. – Seu irmão está colocando mais cerveja no freezer. O jogo está para começar, vamos.
Os dois andaram juntos para sala de cinema, era enorme e continha um gigantesco sofá de couro e um monitor de televisão de 110 polegadas que já estava ligada em um canal de esportes, onde em instantes os homens assistiriam a final da NBA entre Los Angeles Lakers e Miami Heat, era o quarto jogo da série que poderia chegar a sete, para definir o campeão de 2020 da maior liga de basquetebol do planeta.
- Como estão os preparativos para o campeonato? – Anthony perguntou ao filho mais novo, que atualmente competia no campeonato Britânico de Carros de Turismo.
- Muito bem. O carro está ficando incrível e da maneira que pedi. Será uma grande temporada. – Respondeu com um sorriso enorme nos lábios, o progenitor acompanhou o gesto totalmente orgulhoso. Tinha dois filhos incríveis.
- Estou orgulhoso, garoto. Você vai brilhar.
- Obrigada pai. Cadê o dono dessa casa? Me convida e não aparece para me receber? – Nicolas falou alto para que o irmão conseguisse ouvir e surtiu o efeito desejado já que em poucos instantes a figura do outro cruzou a porta.
Com um pote de petiscos na mão direita e na esquerda  algumas cervejas. Os cabelos com tranças estavam presos em um rabo de cavalo, ao seu lado estava o cachorro e fiel companheiro bulldog que mais parecia uma parte do corpo do outro.
- Estava pegando cervejas para te receber, irmão. – Ele sorriu se aproximando, colocou o que carregava sobre a mesa de madeira e então abraçou com ternura o outro. – Como você está?
- Muito bem. E você, como está? – Pegou uma cerveja desenroscou a tampa e tomou um gole, vendo o irmão sentar no sofá e o acompanhou.
- Estou muito bem. Estou onde sonhei em estar, não tenho nenhum motivo para reclamar. – O negro sorriu tirando os chinelos da Tommy Hilfiger colocando-os sobre o sofá.
- Nessa próxima corrida, tenho certeza que vai conseguir as 91 vitórias. – O pai bateu os ombros do filho. – Nas corridas passadas devia ter conseguido, mas sei que será nessa e por ser na Alemanha será duplamente incrível.
- Eu concordo. Não vou ficar pensando nisso, vou trabalhar duro e eventualmente a vitória chegará. – O piloto de Fórmula Um respondeu com sinceridade, de fato não vivia seus dias pensando quando se tornaria o maior vencedor da história do esporte, ele somente trabalharia para fazer um bom trabalho e seria recompensado.
- Mas eu não posso deixar de comentar como fiquei irritado com... – Nicolas foi interrompido pelo nome citado na televisão, eles não estavam prestando atenção, mas ao escutar o nome do maior ídolo do irmão, parou de falar.– O que aconteceu que tem relação com Ayrton? – Perguntou ao irmão mais velho.
- Não sei.  – Respondeu sem desviar os olhos da tela.
- Boa noite, hoje viemos trazer em primeira mão a maior notícia do automobilismo dos últimos anos. – O apresentador, James, iniciou sua fala.  Ao seu lado havia uma bancada com mais dois homens que eram comentaristas do esporte. – Acabamos de receber em primeira mão de fontes seguras que a escuderia McLaren assinou um contrato de um ano para a temporada 2021 com Senna, vamos chamar o repórter Eric, que está neste momento em frente à escuderia e trará maiores informações. Boa noite, Erick! Como assim terá uma mulher como piloto principal da escuderia e mais ainda, novamente o sobrenome Senna às pistas?
O Apresentador chamou e o foco da câmera mudou para um homem jovem loiro que estava em frente a sede da McLaren, era possível perceber a multidão de jornalistas aglomerados no local.
- Boa noite , James. Boa noite para quem está em casa. – O jovem arrumou os óculos de grau sobre o rosto e passou os olhos no papel em sua mão lendo as informações. – É isso mesmo que você disse, hoje por volta das seis da tarde a McLaren assinou o contrato por duas temporadas com Senna, a filha do tricampeão do mundo Ayrton Senna que será a primeira mulher a pilotar pela escuderia inglesa. – Começou a falar e conforme pronunciava o conteúdo em seu lugar começaram a aparecer imagens de mais cedo quando a mulher deixava a escuderia. – Ela saiu daqui acompanhada por Alain Prost e Ron Dennis, dois dos principais companheiros de Ayrton nos tempos de McLaren e agora às nove horas teremos a coletiva de imprensa aqui na sala de reunião da escuderia onde perguntas serão respondidas a respeito dessa decisão.
O piloto sentado no sofá estreitou os olhos para conseguir enxergar a figura da mulher que passava em sua tela. Estava com cabelos soltos e  eram levemente cacheados, vestia um sobretudo preto e botas de salto, em alguns momentos parecia sorrir para as pessoas, mas era nítido seu desconforto ao estar rodeada por muita gente.
Alain Prost segurava em seus ombros e a guiou a entrar em um carro preto enquanto eram escoltados por enormes seguranças.
- Como foi acontecer , Erick? Não há histórico dela correndo em nenhuma das categorias de base. Até onde sabemos ela é diretora financeira do instituto Ayrton Senna no Brasil.
- Nós ainda não temos maiores informações, tudo aparentemente será esclarecido na coletiva. – O jovem repórter respondeu. – Mas é verdade, nós não sabemos de qualquer histórico relacionado às categorias de base, a única coisa que sabemos é que ela foi campeã mundial de Kart em 1990 quando disputou o torneio e seu pai era seu treinador, depois disso não existe qualquer registro de Senna em carros profissionalmente. O trabalho oficial dela era no instituto fundado em memória ao pai em São Paulo, Brasil.
Uma foto de estampou a tela. Ela estava sentada em uma enorme mesa no instituto Ayrton Senna, atrás dela havia um enorme quadro do piloto em uma das pistas de Mônaco no inconfundível carro branco e vermelho da McLaren.
A mulher tinha um sorriso aberto e os cabelos cacheados estavam soltos e volumosos, a face era serena e os olhos emitiam um brilho fora do comum, era possível perceber as semelhanças entre a mulher e o progenitor. Detalhes que não eram gritantes, mas visíveis para pessoas que eram observadoras.
Lewis Hamilton era um cara extremamente observador e detalhista.
Ele conhecia , já a tinha visto muitas vezes, tinham fotos juntos e conversas marcantes. Todo ano quando corria no Brasil visitava o instituto de Senna em São Paulo, era sempre recebido com carinho por todos os funcionários e pela família Senna, já que todo o planeta sabia como ele era o maior fã de Ayrton Senna, que foi sua maior inspiração nas pistas.
Em 2017, quando bateu o mesmo número de pole positions na carreira recebeu das mãos de Senna, a réplica do capacete amarelo que seu pai corria, foi um presente da família para Hamilton. Nunca imaginou que veria aquela mulher doce e gentil na fórmula Um, aquilo sim era a maior surpresa do ano de 2020.
- Você sabia disso, Lew? – O irmão perguntou curioso.
- Não. Estou bem surpreso. – Permaneceu sem tirar os olhos da televisão enquanto mais fotos de mesclavam na tela, algumas de Ayrton também brilhavam com os carros que correu e segurando os troféus do GP’S que foi campeão. – Muito surpreso mesmo. – Uma pontada foi dada em seu coração enquanto corria as fotos de seu maior ídolo, não soube dizer o motivo ao certo, mas algo dentro dele se alegrou ao saber que veria um sobrenome que amava tanto tão perto de si.
- Nós vamos sair do ar e deixar a programação seguir com o final da NBA, a entrevista coletiva será transmitida nas redes sociais e você pode acompanhar os comentários por lá, até mais. – O apresentador se despediu e logo a imagem da quadra dos Lakers apareceu em destaque onde o grande astro do time, Lebron James aquecia seus arremessos.
- Que loucura. Eu vivi para ver uma mulher na fórmula um. – O pai de Lewis comentou embasbacado. – Esse esporte vai mesmo mudar o mundo.
- De fato. O jogo já vai começar, vamos às apostas? – Nicolas Hamilton bateu palmas animado com a disputa do título que veriam a seguir.
- Vocês podem ficar à vontade. – Lewis calçou novamente os chinelos e colocou-se de pé. – Eu já volto.
- Aonde você vai? O jogo já vai começar. – O irmão caçula levantou as mãos surpreso com a atitude do outro que sequer o respondeu, somente saiu desesperado pela porta em direção às escadas que davam ao segundo andar.
Hamilton subiu dois degraus por vez em direção ao seu quarto, seguido por Roscoe que não se afastava em nenhum momento do dono. Abriu a porta do quarto com certa brutalidade correndo os olhos pelo cômodo atrás do controle da TV, levantou as cobertas emboladas da cama onde estava deitado pouco tempo antes de seu pai chegar e encontrou o aparelho jogado por ali.
Ligou a televisão e conectou a internet procurando onde conseguiria ver a coletiva de imprensa, clicou no primeiro link e enquanto esperava carregar sentou-se na ponta da cama, mordendo o lábio ansioso. Assim que abriu por completo ele conseguiu enxergar o tão conhecido salão da McLaren, várias vezes deu entrevista ali durante o início de sua carreira. Estava lotado de pessoas e a enorme mesa já estava composta por alguns integrantes famosos da escuderia como Ron Dennis ex- diretor, Alain Prost ex- piloto, Zak Brown atual diretor executivo, advogado e também relações públicas da escuderia, e por fim, ,  que estava centralizada e naquele momento tomava com gole de água.
Hamilton aumentou o volume do aparelho e arrastou o corpo até estar no topo da cama em seus confortáveis travesseiros, Roscoe deitou a cabeça em sua perna e ambos começaram a assistir a coletiva que já estava sendo iniciada com a primeira pergunta.
- Aqui, Mark Zalik do Guardian – Um jovem moreno levantou a mão. – Boa noite , tudo bem? – A mulher assentiu. – Foi uma surpresa para todos sua chegada à fórmula um, sendo a primeira mulher nessa escuderia e também filha de uma dos melhores pilotos da história. Como acha que vai ser correr já que você não tem experiência nas categorias de base?
- Boa noite. – respondeu em inglês que tinha um pouco de sotaque devido a sua língua materna ser totalmente diferente. – Ele não era um dos melhores, ele era o melhor. – Afirmou séria e Prost ao seu lado balançou a cabeça negativamente com um sorriso aberto nos lábios. –  Eu não corri na fórmula 3 ou 2, mas já disputei campeonatos e tenho experiência dentro de carros de corrida. Devfato não passei a vida inteira em carros e autódromos como a maioria dos pilotos, mas com certeza vou trabalhar duro para melhorar.
- Gostaria de saber o que te motivou a tomar essa decisão? Por que não fez isso mais cedo quando ainda era nova e tinha mais chances de se desenvolver nesse esporte? – O mesmo jornalista tornou a perguntar.
pareceu pensar um pouco, ela levou as duas mãos aos cabelos bagunçando-os, fechou os olhos e soltou o ar com força.
- Amor. – Ela respondeu com um sorriso aberto. – Existem coisas que começamos a fazer porque amamos, com o tempo esquecemos o motivo que nos fez começar. Vim para descobrir o verdadeiro amor, o amor que muda a vida de crianças, amor que tira pessoas do crime, amor que nos transforma e faz ser melhor. Ele deixou um legado, plantou sementes em um jardim que não viu os frutos, compôs uma canção que outras pessoas cantam por ele, mostrou que  até mesmo imigrantes órfãos podem deixar suas digitais, ascender e ressurgir. As fotos dele serão esquecidas com o tempo, os títulos, as vitórias, recordes e feitos, um dia todo mundo vai se esquecer, mas quando as pessoas encontram seu caminho por ter se inspirado em alguma atitude ou ação, vale a pena todo e qualquer esforço. Eu vim para sentir o que sentiu e saber o que fazia ele feliz nesse esporte. Vim por amor. Amor ao meu pai. Amor ao meu povo. Amor às crianças sonhadoras que veem esses carros na televisão. Amor pela vida. Amor pela liberdade. Amor por amor. Puro e simples.
Quando terminou de falar Hamilton sentiu o corpo entrar em ebulição, todas as células de seu corpo tremiam e por um instante se esqueceu como se respirava. As palavras dela acenderam um fogo diferente, fogo que ele já teve um dia quando viu Ayrton correr e decidiu que queria ser como ele. Aquela mulher tinha luz ao seu redor, ele podia enxergar sem qualquer esforço a energia que rondava seu corpo e alma, não era possível que mais uma vez estivesse sendo tocado por um Senna.
Dessa vez em circunstâncias diferentes, não mais como a criança que chorava nas vitórias do ídolo, mas como o homem que colhia os frutos da influência que ele causava.
Ele correria com uma Senna afinal, teria o privilégio de aprender mais uma vez com aquele sobrenome que era a representação do sonho. O sonho que virou realidade.
- Senna. - Hamilton pronunciou o nome sentindo que tinha muita coisa para aprender com aquela mulher, mal podia esperar pelo momento em que estariam frente a frente.
O piloto pegou o celular que estava ligado na tomada e abriu o aplicativo do instagram, procurando pelo user de . Assim que encontrou, abriu o link de mensagens e rapidamente mandou algo para ela, voltando a prestar atenção na coletiva. Foi então que viu quando a mulher pegou o aparelho que estava sobre o balcão enquanto Zak Brown respondia algumas perguntas.
No mesmo instante apareceu en seu próprio celular que ela havia acabado de ler sua mensagem e abriu um enorme sorriso. Tão puro. Tão lindo. Tão nostálgico. Tão mágico. Tinha algo além daquele sorriso e quando ela digitou uma resposta e o telefone em suas mãos apitou, ele soube que os céus estavam mesmo lhe preparando uma enorme surpresa.
"Hamilton: Seja bem-vinda a sua nova morada, Senninha. Tenho certeza que seu pai está orgulhoso te ter inspirado você.!"
": Obrigada, Hamilton. Ele sente orgulho de ter te inspirado também."



Continua...



Nota da autora:Olá, meu povo!
Espero que vocês estejam gostando de ler essa história tanto quanto estamos gostando de escrevê-la. Ela é muito especial para nós. Eu tenho um carinho e uma admiração enormes pelo Max. Fico muito feliz de poder escrever sobre ele e compartilhar com vocês. Não sei quantos conhecem ele ou o acompanham, mas espero que vocês se apaixonem por esse personagem inspirado na pessoa incrível que ele é. O Max amadureceu muito ao longo desses anos, mas escolhi retratar aqui o Max que ele já foi e mostrar um pouquinho do crescimento dele. Ele entrou no universo da Fórmula 1 novo, um garoto sedento por vitória e extremamente apaixonado por tudo o que faz. Com ele, nós vamos aprender muito da vida e teremos grandes momentos. Espero que cada um deles os cative!


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber se a história tem atualização pendente, clique aqui


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