Lúcidos

Última atualização: 21/04/2018

Capítulo 1


Ele

Era apenas um coração quebrado dentro de um corpo inteiro. E por algum motivo ele ainda insistia em bater, em fazer com que continuasse vivo.
Morrer. Esse era o seu único desejo naquele momento. Na verdade, só queria acabar com aquela dor, mas não se importava se para isso, fosse necessário acabar com a sua vida também.
Queria que tudo aquilo fosse o seu pior pesadelo, que fosse uma brincadeira sem nenhuma graça ou que ele estivesse ficando louco e que tudo aquilo fosse fruto da sua imaginação. Ele só não desejava que fosse real o que os seus olhos viam.
Negou algumas vezes com a cabeça antes de sair do quarto sem dizer uma palavra sequer, fechou a porta atrás de si e respirou fundo antes de pegar o seu casaco, as sua chaves e sair daquela casa.
Ele não sabia para onde estava indo, ele só tinha certeza de que precisava sair dali o mais rápido possível. Para onde ele ia, ou que ia fazer depois de tudo o que presenciou não tinha nenhuma importância naquele momento.
A primeira dose deixou um gosto amargo em sua boca, mas aquilo não era um incômodo para ele. Nada era pior que a dor que ele estava sentido, nada o incomodaria mais.
Se precisasse descrever, diria que alguém estava abrindo o seu corpo sem usar nenhuma anestesia, mesmo achando que não era uma comparação justa. O que ele estava sentido era pior que qualquer outra coisa.
- O que você tiver de mais forte. - Foi o que pediu para o garçom assim que sentou no assento vazio em frente ao balcão do bar.
A segunda dose parecia ser mais fraca, mesmo sendo a mesma bebida. Talvez o primeiro gole o pegou desprevenido e agora ele já estava preparado para sentir o sabor daquele líquido em seus lábios.
O garçom assistia beber com um olhar de pena. tinha certeza que estava com um semblante horrível e era por isso que ele não havia questionado o rapaz que o observava descaradamente.
A partir da quinta dose, ele já conseguia sentir um sabor agradável na bebida. Talvez já estivesse acostumado com o seu gosto ou talvez já estivesse bêbado o suficiente para não se importar com isso.
não sabia por que estava naquela balada, como chegou ali e como ainda conseguia ficar sentado depois de secar tantos copos.
Naquele momento a única coisa que ele queria era beber até esquecer o que aconteceu naquela noite, nem que fosse só por algumas horas.
Seus pensamentos estavam distantes, a música alta não o incomodava e a loucura que estava em sua mente parecia ter diminuído depois que ele tentou preencher o vazio que havia em seu corpo com bebida.
- Uma cerveja, por favor. - Uma voz feminina o tirou dos seus pensamentos, fazendo com que ele levantasse o olhar.
Sua cabeça estava baixa e ele o questionou silenciosamente se havia cochilado enquanto estava encostado no balcão.
Uma mulher muito bem vestida havia ocupado o assento vazio ao seu lado, ela já estava bebendo a cerveja que pediu segundos antes.
Ela talvez tenha percebido que estava sendo observada, pois virou seu rosto para onde estava.
O movimento fez com que os seus cabelos caíssem em seu rosto, usou uma de suas mãos para jogá-los para trás, deixando a mostra um sorriso acolhedor.
- Está tudo bem? - Ela perguntou depois colocar a mão no ombro de .
- Olhe para a minha cara e me diz se está. - Respondeu sem pensar, se arrependeu no momento seguinte.
Não queria soar grosso, mas o problema é que sua cabeça estava longe demais para fazer com que ele pensasse em uma resposta mais delicada.
- Desculpe, eu só pensei que... - Tentou se explicar, mas não encontrou as palavras certas para usar.
- Você nem me conhece, saber disso não vai mudar nada em sua vida. E o que você pensa também não me interessa. - O álcool em seu corpo impediu que as palavras saíssem de sua boca corretamente, mas isso não foi o suficiente para que a moça em sua frente não entendesse o que ele queria dizer.
O sorriso que estava no rosto da mulher se desfez com a mesma rapidez em que ela sumiu no meio da multidão.
O próximo rosto que encontrou foi o do garçom, que assistiu a cena de perto.
- Você pegou pesado, cara. - Ele comentou enquanto negava com a cabeça.
nem lembrava ao certo o que havia falado, mas imaginava que, pelo comentário do garçom, não foi nada agradável.
E quando ele pensou em ir atrás da garota pra tentar consertar o seu erro, já era tarde demais. Com a quantidade de gente na balada e com a quantidade de álcool em seu corpo, ele jamais a encontraria.
Só esperava não ter descontado naquela mulher, a raiva que estava sentindo.
“Você é um babaca, ”, foi o que ele pensou.
Depois de algum tempo concluiu que era hora de ir embora, fechou a sua conta e foi em direção ao estacionamento.
Em um outro momento, amaldiçoaria qualquer pessoa que dirigisse depois de ingerir uma gota de álcool. Mas ele estava tão fora de si, que não sabia mais dizer o que era certo ou errado.
Para a sua sorte, e de outras pessoas, o prédio onde os seus pais moravam era bem próximo dali. Não gastou muito tempo para chegar no condomínio, poderia afirmar que sua viagem até lá durou de dez minutos.
O porteiro que trabalha naquele lugar já o conhecia e por isso ele não precisou falar muita coisa antes de subir, também não estava em condições para isso.
Não demorou muito para que seus pais autorizassem a sua entrada no local. Deixou o carro no estacionamento e se apoiou na parede enquanto esperava o elevador.
A porta do apartamento estava aberta e assim que os seus pais o enxergaram, suas expressões mudaram de preocupação para pena.
- Meu filho, o que aconteceu? - Sua mãe perguntou enquanto o puxava para dentro e trancava a porta atrás de si.
- Sente aqui, meu querido. - Josh, o pai de , o conduziu até o sofá quando enxergou os olhos marejados do filho.
A relação de com os seus pais sempre foi a melhor possível. Apesar do horário e da cara de sono, seus pais estavam ali ao seu lado. Sabia que merecia e escutaria alguns sermões dos dois depois, mas no primeiro momento eles estavam mais preocupados em saber o que aconteceu do que em criticar o estado em que o seu filho se encontrava.
E seria eternamente grato por isso.
Não segurou suas lágrimas em nenhum momento depois que entrou no apartamento de seus pais, sabia que nenhum deles o julgaria por isso e o ajudariam no que fosse preciso.
- Acabou tudo, mãe, acabou. - Ele conseguiu responder alguns segundos depois.
Isso fez com que as cenas de mais cedo ressurgissem em sua mente, fazendo com que ele chorasse mais ainda.
Os dois mais velhos não o questionaram mais, apenas deixaram que colocasse toda sua dor para fora.
No fundo eles já imaginavam o que poderia ter acontecido. Só não sabiam como e por que as coisas haviam chegado naquele ponto e muito menos que o problema era bem maior do que eles poderiam imaginar.
Depois de algumas horas, tomou um copo de água e um remédio que seu pai havia lhe dado, mas que ele não sabia dizer qual era. Aos poucos o seu choro foi indo embora, parecia que estava levando consigo um pouco do álcool que estava presente no corpo do rapaz, pois ele já conseguia conversar com facilidade e já sabia o que estava fazendo ou falando.
Contou tudo o que aconteceu para os seus pais, se segurou para não chorar novamente.
- Eu não consigo acreditar em tudo isso. - Bethany pensou alto, enquanto termina de tomar o seu copo de café. Provavelmente não dormiria tão cedo e aquele líquido ajudaria Beth a ficar acordada para fazer companhia para o filho.
estava deitado no sofá, enquanto seus pais dividiam o outro que estava em sua frente. Observava a luminária no teto como se aquilo fosse mais importante do que qualquer outra coisa.
- Eu também não acreditaria se eu não tivesse visto com os meus próprios olhos.
- Mas filho, não estou defendendo ela, mas talvez ela tenha algo para falar com.... - Bethany teria continuado se o seu esposo não tivesse interrompido.
- Querida, não tem explicação para isso. Ela jogou muito sujo com o nosso filho, jamais vou perdoá-la. - Josh expôs a sua raiva, sempre foi o mais calmo da família, mas sempre tomava as dores de seus filhos.
- Duvido muito que ela tenha algo para me dizer e, mesmo se tiver, eu não tenho interesse em ouvir uma palavra que saia da boca dela. - alterou o seu tom de voz, sentia nojo só em pensar na possibilidade.
Nada justificaria o que havia acontecido e nenhuma palavra faria com que as cenas que estavam vivas em sua mente desaparecessem.
Ficaram algum tempo em silêncio, olhou em seu relógio e viu que já se passavam das três horas da manhã, provavelmente os seus pais não sairiam dali enquanto não tivessem certeza de que ele estava bem.
- Podem ir dormir, eu só vou tomar um banho e me ajeitar aqui mesmo no sofá. - Tentou falar com uma voz segura, para tentar convencer os seus pais de que ele estava melhor.
- Durma no quarto do Nick, ele saiu com a sua irmã e vão dormir na casa de um amigo. Tem algumas peças de roupa no guarda roupa dele que eu acho que te servem. Amanhã eu arrumo o quarto de hóspedes pra você, você pode passar um tempo aqui com a gente. - Sua mãe informou, fazendo com que lembrasse dos irmãos. Estava com o pensamento tão longe, que acabou esquecendo de perguntar por eles.
- Não precisa se preocupar, mãe, não quero dar trabalho e amanhã mesmo já vou procurar um novo lugar pra morar. - Disse sem jeito, não queria incomodar os seus pais com os seus problemas.
desde os dezenove anos de idade morou sozinho, sua maturidade e responsabilidade fizeram com que ele se tornasse o braço direito do seu pai nos negócios e ganhasse um simples apartamento, como o Josh descreveu na época, de presente de aniversário.
Agora ele não tinha vontade nem coragem de voltar naquele lugar, por isso arrumar uma nova moradia era a melhor opção. Sabia que ao cruzar a porta da sua moradia, lembraria de tudo o que aconteceu ali.
- Não é incomodo algum, meu filho, você sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser. - Josh reforçou as palavras da mulher.
abraçou os pais com força, tentando passar o amor e a gratidão que tinha através daquela demonstração de afeto. Suas lágrimas de agora não eram por tristeza, eram de emoção em saber que, independente de qualquer coisa, seus pais sempre estariam ao seu lado.
- Eu perdi duas pessoas que tinham uma enorme importância minha vida, vocês são tudo o que tenho agora. - Confessou depois de soltar os dois mais velhos, que beijaram a testa do filho, como se concordassem com o que ele havia acabado de dizer.


Capítulo 2


Ela

Aquele sábado chuvoso deixou o dia mais triste, mas isso não interferia em nada no humor de . A garota dirigiu animadamente até a loja onde trabalhava, cantarolando todas as músicas que tocavam na rádio.
Já estava acostumada a fazer aquele trajeto todos os dias e em poucos minutos ela já estava em seu local de trabalho. Acordar para ir trabalhar era uma das suas maiores alegrias, fazia o que gostava ao lado de pessoas que ela gostava ainda mais, não tinha motivos para reclamar.
- Bom dia. - Cumprimentou o seu amigo com quem ela dividia a sala.
trabalhava em uma famosa loja de roupas há mais de um ano, começou como vendedora junto com a sua melhor amiga, Hope. Acabou subindo de cargo depois de alguns meses e agora dividia o trabalho burocrático da loja com o seu companheiro de sala, .
- Como faz pra ter essa animação contagiante as nove horas da manhã de um sábado frio e chuvoso? Teve aumento no salário e não me avisaram? - perguntou, sua cara de desânimo era mais um motivo para que não parasse de sorrir.
- Não, apenas acordei feliz, não posso? - já organizava alguns papéis em sua mesa, enquanto esperava o seu computador ligar.
A sua relação com sempre foi a maravilhosa, desde quando ela chegou na loja o rapaz sempre a tratou com carinho e sempre a ajudou quando necessário.
- Mas é claro que pode. - Sorriu para a sua companheira de trabalho que piscou para o rapaz como resposta.
Ouviram passos no corredor e já imaginaram quem seria. Hope entrou na sala com cara de poucos amigos, como sempre, os dois já estavam acostumados a ouvir a garota reclamar do seu trabalho todos os dias.
- Bom dia, Hope. - cumprimentou a amiga que apenas revirou os olhos.
- Eu não quero mais trabalhar como vendedora, quero trabalhar aqui com vocês. - Os olhos fundos de Hope davam a impressão de que ela podia chorar a qualquer momento. precisou segurar a risada para não rir na cara da garota.
- Amiga, nem é tão cansativo assim, tenha um pouco de paciência. - falou com calma, tentando aconselhar a amiga da melhor forma possível.
- Não esquece que a e eu viemos lá de baixo também. Reclamar não vai fazer com que você suba de cargo mais rápido. - quase sempre usava um tom de deboche para falar algumas verdades para a amiga.
Muitas vezes precisava entrar no meio de discussões dos dois; Hope não gostava de ouvir ninguém e não conseguia ficar calado, então, quase sempre rolava alguns estresses entre os dois.
Mas no fundo eles se gostavam e quando não tinham trabalho envolvido no assunto, a conversa entre os dois fluia muito bem.
- Vocês são muito chatos, sabiam? Tchau pra vocês. - Hope se despediu antes de sair da sala e voltar para o trabalho.
e se entreolharam antes sorrirem um para o outro. Eles já estavam acostumados com o jeito da amiga.
- Dá pra você parar de provocar a Hope? - levantou de onde estava sentada e cruzou os braços em frente ao corpo enquanto olhava para , esperando uma resposta.
O rapaz lançou um sorriso em direção à enquanto se levantava e ia até ela.
Ficou bem próximo da garota, que matinha um expressão confusa devido a aproximação de , antes de responder.
- É mais forte do que eu, não tenho muito paciência com ela.
E de fato ele não tinha, não entendia como ela conseguia reclamar o tempo inteiro, nada nunca estava bom, nada a agradava.
- E eu não tenho paciência com vocês dois. - Fingiu estar nervosa, já se preparava para se sentar em sua mesa novamente, mas foi impedida pelo rapaz.
A mão forte em sua cintura fez com que parasse no mesmo momento, finalmente os seus pensamentos estavam se concretizando.
sempre chamou a atenção de desde quando ela começou a trabalhar na loja. A beleza, a educação, o corpo e a mente do rapaz formavam um conjunto de tudo o que admirava em um homem.
Em pouco tempo, e Hope se aproximaram do rapaz, dando início a uma grande amizade.
O problema é que mesmo depois de se tornarem amigos e confidentes, por muitas vezes imaginou como seria se tivesse a oportunidade de ter algo a mais com o amigo.
Poderia estar ficando louca, mas podia jurar que o seu interesse em era recíproco. A forma como ele a olhava quando os dois estavam sozinhos deixava a entender que havia segundas intenções presentes ali.
Como nunca comentou sobre esse seu interesse com ninguém, ela não sabia dizer se aquilo de fato estava acontecendo ou se ela estava ficando louca.
Sorriu antes de se virar para , que mantinha um sorriso no rosto.
Arqueou a sobrancelha enquanto esperava uma explicação do rapaz.
- Bom, é... Quer fazer alguma coisa hoje à noite? Ir em algum barzinho, ver um filme... Acho que seria legal a gente sair juntos, só nós dois.- Coçou a cabeça deixando claro o seu desconforto em estar tendo aquela conversa com ela.
- Claro, conheço um barzinho que é ótimo. - Respondeu de forma rápida, pensar demais poderia fazer com que se perdesse nas palavras que pretendia falar.
- Que horas eu te pego?
- A hora que você quiser.
Os dois se olharam durante alguns segundos antes de perceber o duplo sentido na frase e caírem na gargalhada.
- Então eu passo nas sua casa às 8 da noite, combinado? - Viu sorrir e acenar de forma positiva com a cabeça, antes de voltar ao trabalho.
Durante toda a parte da manhã, e trocaram olhares e sorrisos cúmplices. Não tiveram muito tempo para ficarem conversando devido a grande quantidade de trabalho que tinha para os dois.
- Vamos almoçar? - repetiu a mesma pergunta que fazia todos os dias para o amigo quando estava no horário do almoço.
- Não vai dar, tenho uma papelada para assinar aqui, mais tarde eu como alguma coisa.
concordou com a cabeça antes de sair da sala, arrumou seu cabelo no espelho do corredor antes de entrar no elevador para ir encontrar com a Hope.
Decidiu compartilhar a novidade com a amiga, quase não existia segredos entre as duas. Já conhecia muito bem a amiga que tinha e sabia que provavelmente ela enxergaria algum lado negativo nisso, mas não deixaria isso interferir na sua decisão.
- Sério que você vai sair com o ? Como um casal? - Questionou após ouvir e não acreditar no que a amiga havia falado.
mantinha sem olhar focado no caminhada que estava fazendo até o restaurante, mas podia jurar que a cara da sua amiga ao lado não era uma das melhores.
- Sim, algum problema? - Encarou a amiga depois que parou os seus passos para esperar o sinal que indicaria que elas poderiam atravessar a rua.
- Claro, vai dizer que você nunca percebeu a cara de mulherengo que ele tem? Tenho certeza que ele só quer te usar e depois sair fora, até parece que você não aprendeu nada com o Austin. - Pensou alto e viu o semblante da amiga mudar no mesmo instante.
- Hope! - repreendeu a amiga no mesmo instante. - Quantas vezes eu vou ter que te pedir para não falar o nome dele perto de mim?
Era difícil ouvir aquele nome depois de tudo o que aconteceu. A ferida ainda não havia cicatrizado e ela tinha certeza que demoraria muito para que isso acontecesse. Bastava ouvir o nome de Austin para que aquelas tristes lembranças invadissem a sua mente.
Tudo o que ela passou naqueles dias parecia voltar para o seu presente só de ouvir falar sobre ele.
Já havia deixado bem claro para todas as pessoas próximas dela que ela não queria ouvir falar sobre nada que envolvesse o rapaz, porém, muitas vezes Hope tocava no nome do garoto sem querer, fazendo com que as lembranças daquele fatídico dia viessem à tona.
- Desculpa, eu não queria...
- Você nunca quer, né? Pelo amor de Deus, esquece esse cara e me ajude a esquecer também. - Interrompeu a amiga que olhava para qualquer outra coisa na rua.
- Tá bom, tá bom, não precisa descontar a sua raiva em mim também. - Hope aumentou o tom de voz assim que viu a sua amiga respirar fundo. - Não tenho culpa das idiotices que ele fez.
No mesmo momento o sinal para que as duas atravessassem a rua se abriu, Hope começou a andar novamente, mas parou quando viu que a amiga continuou parada no mesmo lugar.
- Você vai atravessar agora ou vai esperar os carros começarem a se movimentar de novo?
negou várias vezes a grosseria da amiga antes de responder, não era Hope, mas sim ela quem tinha motivos para estar nervosa.
- Pode ir sozinha, perdi a fome. - Fez o caminho de volta para o escritório sem olhar para trás.
Tentou limpar os resquícios de lágrimas que ficaram em seu rosto durante o caminho, mas assim que entrou em sua sala novamente, já percebeu que alguma coisa havia acontecido.
- O que foi que a Hope fez dessa vez? - Ele já tinha certeza que, independente do que havia acontecido, envolvia a garota. As duas amigas eram complemente diferentes uma da outra e não era a primeira vez e nem seria a última que elas discutiriam.
não queria contar sobre o que Hope pensava a respeito dele e por isso resolveu deixar os detalhes de lado.
- Estávamos conversando e sem querer ela tocou no nome do Austin... Preciso dizer mais alguma coisa? - Seus dedos passeavam pelo seu cabelo enquanto sua imaginação parceria estar bem longe.
- Hope não aprende nunca.
- Até perdi um pouco da fome que estava sentindo, mas tudo bem, já passou. - Lembrou por que ela havia voltado para o trabalho, amava comer, mas momentos assim acabavam com o seu apetite.
- Olha, se você quiser eu tenho um beijinho aqui, pode matar a sua fome e te adoçar um pouco. - Ofereceu e recebeu um olhar assustado de como resposta. - Calma, , é do doce que estou falando, sei que você é uma formiguinha e isso é o máximo que eu posso te oferecer aqui no trabalho. - Sorriu de canto, tirou o doce da bolsa e levou até a mesa em sua frente, enquanto se divertia as custas da amiga. - Que cabecinha maliciosa, hem?
sabia que ele só estava fazendo aquilo para levantar o seu astral. Ele poderia muito bem ter questionado os detalhes do que a fez ter voltado para o escritório antes do horário, mas só de saber o motivo que levou a fazer isso, preferiu ignorar aquela conversa desagradável e animar a amiga de alguma forma.
- Não fala nada com a Hope não, tá? Eu sei que ela não falou por mal. – Pediu, já prevendo que falaria um monte para a amiga quando tivesse uma oportunidade.
- Não vou falar nada só porque você pediu com carinho.
lançou um sorriso acolhedor em direção ao rapaz. Ele trazia consigo uma alegria, uma energia boa e uma paz que ela não conseguia explicar, só sabia dizer que queria tê-lo ao seu lado para sempre.
- Você não existe, . - Sua boca cheia de doce fez com que suas palavras saíssem emboladas, mas conseguiu entender perfeitamente o que ela queria dizer.
- Existo sim e sou de carne e osso, a noite eu deixo você me apalpar só para ter certeza. - Piscou para a garota antes de voltar para a sua mesa.
Se ele queria deixá-la sem jeito, ele havia conseguido.


Capítulo 3

Ele

A chuva forte fazia com que o dia lá fora parecesse noite, quando na verdade ainda era onze horas da manhã. O céu estava escuro e nublado, qualquer pessoa que olhasse pela janela conseguiria ver que uma boa parte das luzes da cidade ainda estavam acesas.
demorou alguns segundos para reconhecer o lugar onde estava depois de abrir os olhos pela primeira vez naquela manhã, não sabia dizer como havia conseguido pregar os olhos na noite anterior. Não lembrava de muita coisa que havia acontecido na balada e nem de tudo o que havia conversado com os seus pais, porém, o motivo de ter bebido tanto e ter passado a noite na sua antiga casa, ainda estava bem claro em sua mente.
Alguém deixou a luz do quarto acesa e aquilo incomodava enquanto ele estava com os olhos abertos, sua cabeça estava latejando de dor, seu corpo estava mole e tudo em sua volta parecia girar.
Era a maldita ressaca lhe dando bom dia.
- Te acordei? - Ouviu a voz do seu irmão do lado da cama, virou-se no mesmo instante para onde ele estava.
Nick parecia esvaziar a sua bolsa; papéis de balas, pedaços de bolachas, duas camisinhas e duas meias que pareciam estarem usadas já estavam em cima da sua mesa de estudos.
- A mãe vai te matar se ela ver isso. - alertou após negar com a cabeça a bagunça do irmão, já havia se esquecido de como ele era desorganizado.
- Achei! - Disse enquanto mostrava um fone de ouvido todo enrolado para o irmão.
Jogou tudo o que estava em sua mesa para dentro da bolsa novamente, incluindo os lixos, depois sentou em uma cadeira de frente para o irmão enquanto conectava o fone de ouvido ao celular.
Nicholas ficou algum tempo em silêncio, pensando em um jeito de iniciar uma outra conversa com o .
- Dona Beth me contou tudo, como é que você está se sentindo? - Falou mais baixo que o normal, sua animação de sempre não estava presente em sua fala.
- Como esse fone que estava no fundo dessa lata de lixo improvisada. - Forçou um sorriso para o irmão depois de levantar da cama, tinha a impressão de que aquele dia seria longo.
- Eu sinto muito, cara. - Disse com sinceridade, se estivesse no lugar do irmão, Nick com certeza estaria explodindo de raiva.
- Eu também. - Respondeu enquanto ia em direção ao banheiro.
Nick ficou em silêncio enquanto esperava seu irmão sair do banho, depois de alguns minutos, voltou para o quarto secando o rosto com uma toalha enquanto uma outra estava enrolada em sua cintura.
- Eu não sei nem o que te falar, mas se eu fosse você, eu teria quebrado a cara daquele babaca. - Nick comentou enquanto tirava do seu guarda roupa algumas peças de roupas de que estavam lá.
vestiu as primeiras peças que ele pegou, usou também um casaco de Nicholas, já que o tempo nublado havia abaixado a temperatura.
- E você acha que isso não passou pela minha cabeça? Só não o fiz porque se não, eu estaria atrás das grades agora. Na raiva que eu estava sentindo, eu ia acabar com aquele desgraçado.
- Mas vale lembrar que não é só ele quem tem culpa. - Nick lembrou que havia mais uma pessoa envolvida na história.
prestava atenção no que o seu irmão falava enquanto arrumava o cabelo em frente ao espelho, apesar do que havia acontecido, ele não deixava a sua vaidade de lado.
- Você sabe que eu jamais encostaria um dedo em uma mulher, independente de qualquer coisa que ela tenha feito. A vida é quem vai cobrar dela, e ela bate de um jeito diferente, meu irmão, e dói bastante.
- É, você tem razão. - Disse sem jeito, era impossível falar sobre aquele assunto e se sentir à vontade.
encerrou aquela conversa com o irmão, para evitar continuar falando sobre os acontecimentos da noite anterior. Isso não faria com ele esquecesse o que aconteceu e mesmo se quisesse não conseguiria, porém, não falar sobre era o mínimo que ele pode fazer.
Foram em direção a sala de jantar e encontraram sua mãe preparando a mesa do café. Por sua culpa ela também foi dormir tarde e com certeza esse era o motivo para ela estar preparando a mesa do café naquele horário.
- Bom dia! - Cumprimentou a mais velha depositando um beijo em sua testa, observou o seu irmão fazer o mesmo.
- Bom dia, meus amores, fiquem à vontade, vou chamar o Josh e a Sam para tomar café com a gente. - Saiu em direção aos quartos, deixando os dois irmãos sozinhos na sala.
Sobre a sua família, não tinha do que reclamar, sempre foram muito unidos e presentes na vida uns dos outros. Lembrou o quanto foi difícil sair de casa pela primeira vez, parecia que ele estava abandonando aqueles que sempre estiveram ao seu lado. Com o passar do tempo, se acostumou com a mudança e com a saudade que ele sentia todos os dias.
- ! - Ouviu alguém gritar o seu nome, roubando a sua atenção que estava voltada para os seus pensamentos.
Antes mesmo de pensar responder alguma coisa, recebeu um abraço forte da irmã mais nova, fazendo com que ele se esquecesse de falar qualquer coisa. Não era necessário o uso das palavras, aquele gesto já dizia muito. Era um abraço cheio de saudades e amor, como ele sempre recebia quando chegava na casa dos seus pais. Sentiu também uma certa compaixão e deduziu que a irmã também já sabia o que havia acontecido na noite anterior, era como se ela estivesse dizendo " eu sinto muito", sem falar nenhuma palavra.
- Oi, minha princesa. - Olhou para a irmã que sorria com os olhos para ele.
- Credo, , princesa não. - Revirou os olhos enquanto tentava segurar a risada.
- E você quer que ele te chame de quê, pirralha? - Nick entrou na conversa, com a intenção de provocar a mais nova.
Samantha mostrou a língua para o irmão enquanto se virava para para continuar a conversa.
- Princesa é um apelido para menininhas e eu já sou uma adolescente. - Explicou para o irmão que ria do que Sam falava.
puxou o braço da sua irmã, que ainda estava em pé ao seu lado, para que ela se sentasse em seu colo.
- Acontece que, pra mim, mesmo quando você crescer você não vai deixar de ser a minha princesa. - Deu mais um abraço na irmã antes que ela se levantasse para se sentar em seu lugar.
Josh se sentou a mesa junto com os seu filhos e a sua esposa e iniciou uma conversa sobre algumas notícias que ele havia lido no jornal naquela manhã. seria sempre grato por nenhum deles ter falado sobre o que aconteceu com ele, com certeza aquele assunto faria com que ele perdesse o apetite.
Em seguida, Nicholas começou a contar sobre a festa da noite anterior, o que fez com que pensasse o quanto Samantha devia sofrer nas mãos do irmão.
Seus pais e Nicholas tinham um enorme ciúme da Sam, talvez por ser a mais nova, ou a única menina, ou pelos dois motivos. Devido a isso, Sam só ia para as festas acompanhada por Nicholas, mas o problema era que ele era tão ciumento quanto os seu pais e sair com ele acabava não sendo tão legal assim.
- Depois um outro garoto ficou piscando pra ela, aí eu fui lá e falei: você não percebeu que ela está acompanhada? - Nick continuou contando sobre as inúmeras vezes que ele fingiu ser namorado da irmã, só para que nenhum garoto falasse com ela.
ria e negava com a cabeça enquanto Nick contava as histórias com orgulho. Sam revirava os olhos demonstrando sua irritação e seus pais ouviam atentos o que o filho falava.
- E você acha que você está certo? - Questionou o irmão que olhou para surpreso.
- Claro, ou você acha que eu vou deixar ela ficar com esses caras? - Retrucou, achando que estava coberto de razão.
Samantha pegou uma fruta e usou a desculpa de que ia dormir mais um pouco, só para sair de lá. Ela odiava ser o centro das atenções, principalmente quando os assuntos eram sobre relacionamentos.
- Quando vocês vão perceber que a Samantha cresceu? - perguntou assim que percebeu que a sua irmã não escutaria aquela conversa, alternando seu olhar de seus pais para o seu irmão.
- Como? - Nicholas estava tão focado em comer a sua salada de frutas que não conseguiu entender o que seu irmão queria dizer.
- Tudo bem que ela vai ser sempre a nossa menininha, mas vocês não precisam tratar ela como uma criança.
Seus pais escutavam a conversa em silêncio, se era porque eles sabiam que estavam errados ou porque discordavam do filho, não sabia dizer.
- , ela só tem 16 anos, eu não vou deixar que esses garotos brinquem com ela. - Nick deixou claro a sua preocupação com a irmã, fazendo pensar se tudo o que ele fazia era apenas pra proteger a Sam.
ficou algum tempo em silêncio, parecia estar pensando no que responder para o irmão enquanto bebia um pouco do seu suco.
- Vocês precisam tratar ela como uma garota de 16 anos. Ela precisa sair, se divertir, conhecer pessoas novas, sem ter o Nicholas do lado como segurança. Vocês têm que confiar na Samantha. – Disse, olhando para os três presentes ali na mesa, não era só Nicholas que precisava ouvir aquilo.
sabia que não era certo o que eles estavam fazendo com a irmã, sabia que todas as vezes que Sam reclamava de alguma coisa com ele, era devido ao comportamento dos seus pais ou do seu outro irmão.
Tinha medo que a irmã se revoltasse e fizesse alguma besteira por causa desse ciúme desnecessário.
- Meu medo é que ela se envolva com pessoas ou com coisas erradas, não me perdoaria se alguma coisa acontecesse com ela. - Josh se pronunciou, seu semblante estava triste e mostrava que, de fato, aquele era o seu maior medo.
Viu sua mãe concordar com a cabeça assim que o seu olhar se direcionou à ela. Eles estavam certos em se preocupar com a filha, mas também não podiam exagerar na dose.
Ela era uma garota como qualquer outra, também tinha suas vontades e ficar presa dentro de casa com certeza não era uma delas.
- Eu sei, pai, mas é um risco que se corre. Você também não tem medo que ela se revolte por ser tratada assim e faça alguma besteira?
- Você ficou louco, ? - Nick encarou o irmão mais velho, como se o que ele tivesse falado fosse um absurdo.
- Não estou dizendo que ela vai fazer isso, mas é algo a se pensar. - Voltou a olhar para os seus pais. - Vocês educaram o Nick e eu muito bem e acredito que estão fazendo o mesmo com a minha irmã, mas pensem com carinho no que falei e conversem com ela, nada melhor que um diálogo para resolver as coisas. - Sorriu antes de se levantar da mesma.
- Não sei se isso é uma boa ideia... - Nick pensou alto, não conseguia aceitar que a sua irmã havia crescido, mas sentiu que o sabia bem o que estava falando.
- Obrigada, meu filho, pode deixar que nós vamos conversar com ela. - Ouvi a voz de sua mãe antes mesmo de sair da mesa e ir em direção ao sofá da sala.


Capítulo 4

Ela

Aquela tarde demorou passar e a cada momento sentia um vazio dentro dela. Não havia conversado com Hope depois daquele desentendimento e sabia que era isso que estava lhe incomodando.
Assim que acabou o seu expediente, arrumou as suas coisas com uma certa pressa, tinha a intenção de encontrar com a amiga ainda naquela tarde.
- Já estou saindo, quero falar com a Hope ainda hoje. - avisou para o seu colega de sala, que lhe deu um sorriso como resposta.
- Tudo bem, só vou terminar de guardar esses documentos aqui e já saio também. Te encontro daqui a pouco.
- Te espero na minha casa. - Sorriu para , que ainda organizava alguns papéis em sua mesa.
- Até mais tarde, . - Acenou para a garota antes que saísse da sala.
Andou em direção onde Hope estava, ela também já estava de saída. Queria se desculpar pelo ocorrido de antes, conhecia muito bem a sua amiga e sabia que ela falava muitas coisas sem pensar e que não era por maldade.
Hope também não tinha culpa de ainda se sentir mal só por ouvir falar de Austin. Se ela não havia superado, isso era um problema só dela.
- Hope? - Chamou a amiga que já andava em direção a saída da sala.
Hope se virou para onde estava, cruzou os braços em frente ao corpo e sem dizer nenhuma palavra, esperou que a amiga iniciasse a conversa.
- Queria te pedir desculpas, acabei me estressando mais cedo.
- Eu percebi. - Disse sem olhar para a amiga.
não queria ficar com aquele peso na consciência por ter discutido com ela, não queria estragar o seu dia por causa de uma pessoa que se quer merecia ser lembrada.
- Já passou, esquece isso. Rola você me dar uma carona hoje? - Hope sorriu de forma amigável para a amiga depois de falar.
- Claro que sim. - Disse aliviada, tinha certeza que as coisas entre elas estavam bem.
A casa de Hope era próxima de onde morava, elas sempre voltavam juntas. Durante o trajeto elas evitaram o assunto da conversa de mais cedo, porém, assim que estacionou o carro na frente do prédio onde Hope morava, a mais nova não conseguiu conter a sua curiosidade.
- Você vai mesmo sair com o ?
apoiou sua cabeça no volante, ficando alguns segundos em silêncio. Respirou fundo tentando não se estressar, havia acabado de fazer as pazes com a amiga, não queria brigar novamente.
- Vai começar com essa história de novo, Hope? Eu não estou te entendendo, você é amiga da gente, devia nos apoiar. - Falou de forma rápida, a sua voz não demonstrava nervosismo, mas a sua impaciência podia ser notada.
- Não é isso, eu só acho que... - Tentou se justificar, mas foi interrompida por .
- Você tem interesse nele, é isso? - Disse a primeira coisa que veio em sua cabeça. No fundo ela só queria entender o motivo de Hope estar agindo assim.
Hope lançou um olhar assustado em direção onde estava, era como se ela tivesse falado a pior coisa do mundo. Negou com a cabeça algumas vezes antes de responder alguma coisa.
- Claro que não, de onde você tirou essa ideia? Ele não faz meu tipo.
- Sei lá, só estou tentando entender porque você está desse jeito. - Tentou se explicar após relaxar o seu corpo no banco do motorista.
- Eu acho que vocês não combinam, só isso. Mas não vou falar mais nada, depois não diga que não avisei. - Disse antes de abrir a porta e sair do carro. - Até segunda, valeu pela carona.
apenas sorriu de canto para a amiga, ainda ficou pensando alguns segundos antes de voltar a dirigir.
Queria muito sair com , mas e se Hope estivesse com a razão? Sentia que com não seria uma coisa só de momento e era isso que a preocupava, ela não suportaria outra decepção.
Chegou em sua casa e encontrou sua mãe e seu irmão dormindo nos sofás que ocupavam um bom espaço da sala. Eles tinham a mania de assistir filmes juntos, mas sempre pegavam no sono antes de acabar.
O barulho da porta se fechando fez com que Victória acordasse, sorriu para a filha assim que a viu parada bem próxima dela. Era assim que era recebida todos os dias em sua casa. Depois que o seu pai faleceu, a sua mãe faz de tudo para preencher o vazio que ele deixou, e isso faz com que ela fique mais presente na vida dos filhos.
- Filha, que bom que você chegou. - Sua voz não negava que ela estava dormindo há um bom tempo.
- Está tudo bem? - Perguntou após se jogar no colo da mãe, que agora já estava sentada.
- Sim, estava assistindo um filme com o seu irmão, mas acabei dormindo, pra variar. - Sorriu fazendo com que sorrisse também.
Victória começou a fazer um cafuné na filha, adorava quando sua mãe ficava mexendo em seu cabelo. Aquilo era melhor que qualquer remédio para insônia, pois não havia se passado nem dois minutos e ela já estava sentido vontade de dormir.
- Mãe, é melhor você parar porque se não eu vou dormir e eu vou sair daqui a pouco. - Não olhou para a sua mãe enquanto falava, seus olhos estavam fechados devido ao prazer que sentia ao receber aquele carinho.
- Vai pra balada?
- Acho que sim, vou sair com o , aquele meu amigo gato do trabalho, sabe? Até que enfim ele me chamou para um encontro. - Deixou um sorriso cheio de significados escapar enquanto explicava para a sua mãe.
As duas sempre foram muito amigas e Victória sabia praticamente tudo sobre a vida da filha. Conhecia tão bem que, foi necessário apenas um sorriso para que ela entendesse que aquele não era um encontro qualquer.
- Saia mesmo, minha filha, fico feliz em saber que você está seguindo em frente. - Disse o que estava passando por sua mente, sorriu de forma gentil para a filha.
- Eu ainda não segui em frente, mãe, mas juro que eu estou tentando. - Depositou um beijo no rosto da mãe antes de sair em direção ao quarto para começar a se arrumar.
Tomou um banho demorado enquanto pensava na vida. Depois de tudo o que aconteceu entre e Austin, nada mais foi como antes. Ela continuava saindo, bebendo e se divertindo. Porém, ela que gostava tanto de sempre ter alguém ao seu lado, acabou bloqueando a passagem de qualquer sentimento novo. simplesmente não conseguia se apegar, sempre tinha a impressão de que passaria pela mesma coisa novamente.
Mas com era diferente, ela já conhecia o rapaz há um bom tempo e não tinha o que reclamar. No fundo sabia que ele jamais faria alguma coisa que a magoasse. E foi essa certeza que fez terminar o banho e se arrumar sem mandar uma mensagem inventando uma desculpa de que estava com dor de cabeça ou sentindo qualquer outra coisa, como ela já havia feito com outros rapazes.
Despediu de sua mãe, já que seu irmão permanecia desmaiado no sofá e foi em direção ao elevador assim que foi avisada de que já a esperava lá embaixo. Estava nervosa, sentindo-se como uma garota no primeiro encontro, prestes a dar o primeiro beijo.
- Quando eu penso que você não pode ficar mais linda, você me aparece desse jeito. - Sorriu antes de depositar um beijo demorado na bochecha de .
- Obrigada, . - Piscou para o rapaz que ainda a observava de boca aberta. - Pra onde vamos? - Abriu a porta e sentou assim que viu ir para o outro lado do carro.
- Eu pensei em irmos em algum lugar para dançar e beber um suco, já que estou dirigindo, e mais tarde podemos ir para minha casa comer e beber bebidas que são permitidas para a nossa idade, o que acha? - Disse enquanto colocava o veículo em movimento.
- Acho ótimo. Conheço um lugar, inclusive estava lá ontem, que é bem divertido, e é bem próximo da loja... - Deixou a sugestão no ar, aquela era a balada que mais gostava de frequentar.
- Vai me dando as direções, pois é pra lá que nós vamos. - sorriu para antes de pisar no acelerador.
explicou o endereço para e não demorou muito para que eles chegassem no local. Durante a viagem até lá, os dois foram conversando sobre o trabalho e a vida, nunca faltava assunto entre eles.
O lugar era composto por um bar, uma pista de dança e algumas mesas. Na parte de cima era o lugar onde as pessoas ficavam mais a vontade. Escolheram uma mesa bem próxima da pista dança e não muito longe do bar. Ambos conseguiam enxergar uma boa parte da balada de onde estavam.
- Então é aqui que é a sua segunda casa? - perguntou enquanto varria o lugar com o olhar.
balançava seu corpo de um lado pro outro, ouvir música e ficar parada era uma missão praticamente impossível pra ela.
- Quase isso, venho aqui sempre. - Falou alto, já que a música do local interferia no diálogo dos dois.
Era incrível como a conversa fluía bem entre os dois. Não existia falta de assunto e muito menos silêncio constrangedor.
Beberam alguns drinks sem álcool, que parecia não ter muita graça para os dois que já estavam acostumados com bebidas fortes. deixou claro para que ela podia beber o que quiser e que ele só não ia fazer o mesmo porque estava dirigindo, porém, preferiu acompanhar o amigo naquelas bebidas para adolescentes.
- Se você quiser beber outra coisa, fique à vontade, como já te disse, só não estou bebendo mesmo porque estou dirigindo. - repetiu o que havia falado mais cedo, sabia o quanto a amiga gostava de beber.
- Já que você insiste tanto, vou pegar uma cerveja. - Brincou com o rapaz antes de se levantar e ir em direção ao bar.
O local estava bem cheio naquele sábado, todos os assentos em frente ao balcão estavam ocupados e muitas pessoas em pé estavam próximos dali.
Andou devagar para não se esbarrar em ninguém, o garçom lançou um sorriso para ela assim que a viu se aproximando, ele já conhecia de vista. Em seguida, o mesmo falou alguma coisa com um homem que estava sentado em sua frente e apontou para ela logo em seguida.
teria questionado a atitude do garçom se o seu olhar não tivesse cruzado com o do rapaz no momento seguinte. Apesar de ter bebido bastante na sexta feira, se lembrava muito bem daquele rosto estranho e das poucas palavras que trocaram na noite anterior.


Capítulo 5


Ele
Por não ter absolutamente nada para fazer, aquele sábado demorou passar. Quando não estava dormindo, estava pensando em tudo o que aconteceu, ainda sentia uma pontada no peito quando as cenas ficavam nítidas em sua mente, sabia que jamais esqueceria aquele momento.
Sabia também que teria que enfrentar aquele problema e não pretendia adiar aquele momento. Quando o dia já estava quase virando noite, tomou um banho e colocou uma roupa quente antes de sair do quarto, já que a temperatura continuava do mesmo jeito. Seus pais e seus irmãos, que estavam na sala assistindo TV, lançaram um olhar confuso em sua direção quando viram ele se aproximar.
- Estou indo no meu apartamento pegar algumas coisas, não demoro. - Avisou para todos que estavam ali presentes, não queria que eles ficassem preocupados.
- Quer que eu vá com você? - Nick se manifestou, enquanto parecia responder alguma mensagem em seu celular.
Todos ali conheciam o suficiente para saber que ele não faria nenhuma besteira, mas mesmo assim eles ainda tinham medo que o nervosismo o transformasse em uma outra pessoa completamente diferente do que ele era.
- Não, é coisa rápida. Quando voltar eu vou sair, se você quiser ir, fica pronto que daqui a pouco eu passo pra te pegar. - Viu seu irmão sorrir animado. Nenhum deles gostavam de ficar em casa no final de semana. - Vou indo lá, tudo bem? - Disse para os seus pais que apenas concordaram com a cabeça.
Eles não tinham o que falar, já era um homem maduro, sabia muito bem o que fazer da sua vida. Despediu-se da sua família e foi em direção ao elevador para descer para a garagem. Não imaginava como seria voltar em seu apartamento depois de tudo, um buraco havia se formado em seu peito desde a noite anterior e só de pensar em voltar naquele lugar, já começava a sentir uma dor insuportável.
Era pior que qualquer dor física, que qualquer agressão ou mal estar, era uma dor que talvez só a morte fosse o remédio. Agora que ele estava sozinho dentro do carro, não tinha motivos nenhum para segurar as lágrimas.
- Você é um idiota, , um idiota. - Disse para ele mesmo enquanto segurava o volante com força.
Todas as pessoas que o conheciam, viam nele uma pessoa forte e determinada, porém, sobre os seus sentimentos, só ele entendia. E sentia muito. Sentia por ter presenciado aquela cena, sentia por ter visto anos de dedicação sendo jogados no lixo, sentia por ver seus planos do futuro sendo destruídos, sentia por ter perdido pessoas que ele sempre nomeou como as mais importantes de sua vida.
Não demorou muito para que chegasse em seu apartamento. Depois de passar pela portaria e ir para o estacionamento, ainda ficou alguns minutos dentro do carro tentando secar o seu rosto e controlar a sua respiração antes de subir. Apertou o botão do elevador que o levaria para o décimo andar e encostou a cabeça no espelho enquanto esperava.
Respirou fundo antes de abrir a porta do seu apartamento, seus olhos flagraram quem ele menos queria ver. Lauren estava deitada no sofá, embrulhada e com um livro na mão. Seu rosto estava inchado e seus olhos cheios de lágrimas. Em um outro momento sentiria pena em vê-la naquela situação.
- Amor, a gente precisa conversar. - Lauren ficou de pé, bem próxima de . As lágrimas em seus olhos já começavam a fazer um caminho pelo seu rosto.
caminhou em direção ao seu quarto sem responder nada e sem olhar para trás, percebeu que Lauren o seguia. Por viajar sempre, sabia exatamente onde ficavam as suas malas. Pegou a maior delas, deixou aberta em sua cama, foi para o seu closet e trouxe consigo uma grande quantidade de roupas.
Lauren assistia tudo de braços cruzados, mas assim que começou a tirar as roupas dos cabides, colocando de qualquer forma na mala, ela não conseguiu se controlar.
- O que você pensa que tá fazendo? - Gritou alto, jogando no chão todas as roupas que estavam na mala.
Lauren tirava todas as peças que guardava, na terceira vez que ela repetiu a ação, ele perdeu a sua paciência e usou toda a sua força para pegar a mala e jogar no espelho que ocupava metade da parede, quebrando o mesmo na hora.
- Dá pra você me deixar em paz? – Gritou, fazendo com que Lauren se afastasse.
A mulher o olhava com um olhar assustado, suas lágrimas ainda estavam presentes em seu rosto e o seu tom de pele estava pálido.
passava a mão pelos seus cabelos desesperadamente, andava de um lado para o outro e olhava para cima como se buscasse uma explicação para tudo aquilo que estava acontecendo.
- A gente precisa conversar. - Repetiu sua fala, falando mais baixo, quebrando o silêncio que havia se instalado no quarto. - Você nunca falou comigo desse jeito. - Prosseguiu quando viu que não pretendia continuar o diálogo.
Foi necessário apenas um olhar de para que Lauren desabasse. O olhar dele era frio e parecia distante, foi isso que fez com o seu choro aumentasse. Aquele homem que estava ali não era o que ela conhecia há quase dez anos, não era a pessoa com quem ela viveu suas maiores alegrias. se transformou em uma outra pessoa em pouquíssimo tempo e a culpa era toda dela.
- Não temos mais nada para conversar e por favor, saia do quarto e não entre até eu terminar de arrumar as minhas coisas. Eu não estou mais aguentando olhar na sua cara.
- Você não pode falar assim comigo, eu sou a sua mulher. - Disse por cima das lágrimas. Sentou-se na cama do lado oposto de onde estava, aquelas palavras pareciam ter levado a sua força.
- Você deixou de ser quando foi pra cama com o meu melhor amigo. Qual o seu problema, Lauren? - Fechou seus olhos enquanto falava, doía demais pronunciar aquelas palavras.
havia assumido o papel de um personagem assim que encontrou com ela. Sua vontade era de chorar, de gritar e de quebrar tudo em sua volta. Mas ele não queria demonstrar seus sentimentos na frente de Lauren, não queria parecer um fracassado.
E todo aquele inferno começou quando passou a chegar em casa bêbado, Lauren sempre brigava com por isso mas ele nunca ouvia o que ela dizia. Ele gostava de beber com os seus amigos, gostava da sensação de leveza que a bebida o fazia sentir. Quando a bebida se tornou mais presente em sua vida, as brigas se tornaram uma coisa comum no relacionamento do casal. Na sexta feira, quando descobriu que a sua reunião importante havia sido cancelada, ele não pensou duas vezes antes de voltar para a sua residência para tentar fazer as pazes com a sua esposa. Mas o que ele jamais esperava era pegar sua mulher e o seu melhor amigo juntos, na cama. Foi um golpe tão baixo que o deixou sem reação, não conseguiu fazer nem falar nada para os dois, a única coisa que passou pela sua cabeça, além da raiva que já estava presente em seu corpo todo, é que ele precisava sair dali para beber. E foi isso que fez.
- Eu posso expli...
- Não, você não pode. - Interrompeu a mulher que não conseguia mais encarar . - E eu não quero ouvir mais nada que saia da sua boca. Você jogou a nossa relação de anos no lixo, jamais vou te perdoar por isso. - Jogou as peças de roupa de qualquer jeito na mala e saiu do apartamento, sem dar uma chance para Lauren se explicar.
Entrou no carro e colocou uma música qualquer para tocar, era como se o silêncio desse vida para os seus pensamentos e, naquele momento, tudo que ele queria era esquecê-los.
Ligou pra seu irmão e pediu que o mesmo o esperasse na entrada do prédio em que seus pais moravam, alguns minutos depois, ambos já estavam indo em direção a balada onde se embebedou na noite anterior.
Apesar de notar que o irmão estava diferente, Nick não quis questionar sobre a ida de em seu apartamento. Ficar tocando naquele assunto não era uma boa ideia, quando se sentisse à vontade para falar, Nicholas estaria ali para ouvi-lo.
- Você leva o carro. - entregou a chave do carro para Nicholas assim que se sentou em frente ao balcão do bar.
Nick sabia que o plano de naquela noite era encher a cara de álcool. Como nunca foi fã da bebida como o irmão e não via nenhum problema em ficar sem beber naquela noite, optou por ficar sóbrio, assim ele poderia dirigir e evitar algum acidente.
- Está melhor? - ouviu o garçom perguntar após entregar o seu pedido. A sua cara de assustado fez o garçom entender que não fazia ideia do que ele estava falando. - Você estava aqui ontem... - Continuou fazendo com que tivesse alguns flashbacks dá noite anterior.
- Ah, claro, desculpe, é que eu não estava me lembrando de você.
- Então você não deve lembrar que foi super grosso com uma mulher que só tentou te ajudar. - Pensou alto, viu a preocupação tomar conta do semblante de .
- O que eu fiz? - Perguntou enquanto via o garçom alternar o seu olhar para onde ele estava e para outro canto da balada.
- Você pode perguntar pra ela mesmo, ela está vindo pra cá. - Disse antes de sair para atender outras pessoas.
Nicholas já não estava mais perto de , provavelmente já estava conversando com alguma mulher, ele não perdia tempo. Sem estender muito bem o que o garçom havia falado, olhou para onde o garçom estava olhando segundos antes. Seu olhar encontrou com uma mulher extremamente linda, ela também o olhava mais com um certo receio, fazendo com que ele ficasse confuso.
- Quero uma cerveja, por favor. - A mulher pediu depois de parar ao lado de onde estava sentado.
O garçom que antes conversava com , pegou a bebida para ela e lançou um olhar para ele como se estivesse pedindo para fazer alguma coisa.
- Ei, espera. - Segurou o braço da mulher que o olhou assustado, soltou ao perceber que ela havia parado os seus passos e estava esperando uma explicação. - Fiquei sabendo que fui grosso com você ontem, apesar de não lembrar, e eu só queria te pedir desculpas. Não sei o que te falei, mas tenho certeza que se eu não tivesse bebido, nada teria acontecido.
- Tudo bem, eu vi que você não estava bem e só quis ajudar, mas já passou. - Sorriu de forma gentil para , que retribuiu logo em seguida.
- . - Se apresentou, pegando na mão da mulher com delicadeza quando um silêncio nasceu entre os dois. - Muito prazer.
- . - Retribuiu o cumprimento sem deixar de sorrir. - O prazer é todo meu.
Sem saber mais o que falar para consertar o seu erro, disse a primeira coisa que veio em sua mente:
- Como um pedido de desculpas, o que acha de sentar aqui para tomarmos alguma coisa, ? - Foi gentil, no fundo ele só queria causar uma boa impressão e mostrar que não era um babaca. E, naquela situação em que ele se encontrava, conversar com alguém ia lhe fazer muito bem.
- Obrigada, mas eu estou acompanhada. - Sorriu de canto e apontou para um rapaz que estava sentando sozinho em uma mesa, observando os dois. Andou até lá logo em seguida.


Capítulo 6


Ela
- Algum problema? - foi questionada por assim que sentou de frente para o rapaz.
Olhou para onde mantinha a sua atenção e notou que ele observava o rapaz com quem ela havia trocado algumas palavras anteriormente.
- Não, aquele homem só estava me pedindo desculpas. Ontem ele estava aqui, estava bêbado e acabou sendo grosso comigo.
Explicou e logo em seguida eles começaram a conversar sobre outros assuntos. Para , era ótimo estar perto de , o garoto conseguia arrancar alguns dos seus sorrisos com facilidade. era sempre tão presente, carinhoso e prestativo, que mal conseguia explicar. Aquelas poucas horas em que passou com ele já havia trazido uma alegria para ela, e faria de tudo para sentir aquilo para sempre.
- Vamos pra minha casa? Estou morrendo de fome. - confessou enquanto sorria para . Pra falar a verdade ele não conseguia ficar sério quando estava perto dela.
- Vamos. - Ela se levantou e ambos se dirigiram para o caixa da balada.
Não houve muita conversa entre os dois durante o percurso até a residência de , ambos estavam ocupados cantando as músicas que passavam na rádio.
Uma outra qualidade de , era fazer com que se sentisse a vontade ao seu lado para fazer o que quiser. A garota cantava como se estivesse embaixo do chuveiro da sua casa, não ligava se estava desafinada ou fora do ritmo, também parecia não se importar.
- Não repara a bagunça. - Ele pediu assim que entrou na casa.
- Não vou reparar porque ela não existe. - Disse depois de varrer a casa com o olhar.
já tinha ido na casa dele algumas vezes, mas sempre tinha mais gente no local , e ela nunca tinha parado para reparar todo o ambiente.
Enquanto estava procurando um CD, ela teve tempo para reparar toda a sua sala. O cômodo era impecável, tudo muito bem organizado e até as cores dos móveis combinavam com as paredes. Aquilo só deixava claro que nem sempre as residências de homens são desorganizadas.
- Eu amo essa música. - falou bem próximo do ouvido de , após segurar em sua cintura.
Enquanto ela observava toda aquela beleza da casa, usou o seu tempo para diminuir as luzes e colocar uma música pra tocar. O som tomou conta do local, ficou de frente para e depositou suas mãos no pescoço do rapaz enquanto os dois dançavam lentamente.
- Ed Sheeran? - reconheceu a voz do cantor que acabou com todo o silêncio do ambiente.
- Você vai duvidar que eu sou hétero se eu te disser que sou completamente apaixonado por esse cara?
- Talvez eu duvide. - Provocou o rapaz que deu uma risada gostosa para ela.
- E o que que eu posso fazer para acabar com a sua dúvida? - Parou de dançar para olhar nos olhos dela.
Mesmo com a falta de luz, conseguia enxergar o brilho deles.
- Não pensei nessa parte ainda. - Sorriu de forma inocente para que apenas negava com a cabeça.
ainda ficou olhando para por alguns segundos, depois, os lábios do rapaz contra os seus fizeram com que ela fechasse os olhos para aprofundar o beijo.
Enquanto as mãos de pareciam estar coladas no pescoço de , as do rapaz caminhavam em sua cintura no ritmo da música.
- E então? - falou mais baixo já que os dois estavam bem próximos um do outro, depois de depositar um beijo no topo da cabeça de .
- Beijar bem não comprova que você é hétero. - Fez gargalhar com a sua resposta, antes de beijá-la mais uma vez.
E foi trocando beijos, conversas e risadas que os dois passaram um bom tempo juntos. Até esquecerem de beber como haviam combinado, eles tinham coisas melhores pra fazer. Já se passavam dá meia noite quando os dois foram pra cozinha devorar uma torta de morango. O gosto estava tão divino que só acreditou que foi que havia feito devido a aparência da sobremesa que não estava muito agradável. Não era que estava duvidando da capacidade do amigo, o problema era que a torta estava saborosa demais para ter sido feita por alguém que não fosse um chefe profissional.
- Já está tarde, né? Acho que já está na hora da mocinha ir pra casa. - A voz de despertou os pensamentos de .
Tudo que menos queria era sair dali, os seus planos era passar a noite com . Fazia tanto tempo que ela não ficava com alguém, que ela não se entregava... Não tinha dúvidas de que com ela não se arrependeria, porém, infelizmente os planos dele eram o oposto de tudo o que ela planejou.
- Você tá falando sério? Eu achei que... - Tentou explicar, mas lhe faltou as palavras.
- Eu não quero que você pense que eu te chamei pra sair só pra te levar pra cama. - entendeu o que ela queria dizer e explicou o que estava acontecendo no momento seguinte.
- Mas eu sei que você não quer só isso, quantas vezes eu já te disse que você é diferente de todos os outros caras?
não estava implorando para passar a noite ali, ela só queria deixar claro que era especial, que ele lhe passava confiança e que, de fato, era diferente de todos os outros rapazes que ela havia conhecido.
- , eu sei sobre todos os relacionamentos que você já teve e é por isso que estou agindo assim. Você sabe que eu não quero só ficar com você, não sabe? - Viu a garota afirmar com a cabeça. - Eu também quero que as coisas entre a gente sejam especiais, quero ser diferente de todos os babacas de que já te magoaram. Você pode até se assustar comigo falando isso no primeiro encontro, mas eu estou sendo sincero com você. Não estou te prometendo um relacionamento, mas se rolar eu vou te tratar como você e qualquer outra mulher merece ser tratada. E se não rolar, eu quero ter sido especial o suficiente para que as nossas lembranças não te tragam nem dor, nem sofrimento.
Respirou fundo depois de falar enquanto observava os olhos de brilharem, ele até se arriscaria em dizer que havia lágrimas ali. sabia muito sobre a vida amorosa de , principalmente sobre o seu último relacionamento que deixou marcas profundas nela. merecia alguém que cuidasse do coração grandioso que existia ali dentro, alguém que a fizesse sorrir a todo momento. merecia ser feliz no amor e, estava disposto a lhe apresentar essa felicidade.
- Esse foi o fora mais lindo que eu já levei. - Sorriu antes de abraçar que estava sentado ao seu lado. - E eu entendo você, de verdade. Obrigada por ser essa pessoa que você é, pessoas assim são raras e eu tive sorte em te conhecer. Você não imagina o quanto você é importante pra mim.
- Quem em sã consciência daria um fora em você? - Brincou para descontrair, sentiu a risada de contra o seu pescoço. - E não precisa agradecer, você sabe que vou estar sempre ao seu lado e o que eu puder fazer por você, eu vou fazer.
- Já que você não quer mais ficar comigo, acha que já pode mesmo me levar pra casa né? - Brincou, sabia que tinha intimidade suficiente para falar qualquer coisa com o rapaz sem se preocupar.
Ela já havia entendido o lado do , mas com certeza ainda ia fazer muitas brincadeiras em relação aquela conversa dos dois.
- Acha que eu sou fácil assim, garota? - Piscou para ela antes de sorrir. - Só vou ir ao banheiro e já te levo em casa, . - Avisou antes de sair em direção ao seu quarto.
Deixou na sala, sorrindo por estar ali, naquele lugar, com aquela pessoa. Apesar de tudo que ela já havia passado, ainda tinha a mania de achar que ela era uma garota de sorte.
Enquanto dirigia em direção à casa de , os dois conversavam animadamente. O momento na casa do rapaz fez com que ele lembrasse dos encontros constrangedores que tivera na adolescência.
- Eu era muito feio na adolescência, não que eu me ache bonito agora, mas o tempo foi um pouquinho generoso comigo.
- Você é muito exagerado. - negou com a cabeça, enquanto ouvia os relatos do amigo.
- Mas é sério. Uma vez uma menina do colégio disse que não ia sair comigo porque a única coisa que eu tinha de bonito era o óculos. Nossa, eu chorei por uma semana. - Disse com certo pesar, fazendo com que chorasse de rir.
- Você é ótimo, . - Limpou os vestígios de lágrimas que tinham em seus olhos. Era sempre assim, sempre chorava quando ria por muito tempo.
- Não ri não, eu sofri muito com isso tá? - Colocou a mão que não estava no volante no peito, como se estivesse sentindo alguma dor. - Vai dizer que você também não tem nenhuma história assim pra contar?
segurou o queixo com a mão, tentando lembrar dos acontecimentos passados. Sorriu quando seus pensamentos lhe corresponderam.
- Lembrei de uma coisa. Eu era BV e estava assistindo um campeonato de futebol que sempre tinha no colégio, o menino que eu gostava chegou, sentou do meu lado e me abraçou. Eu juro que ele só fez isso e eu comecei a tremer de um jeito assustador, ele perguntou por que eu estava tremendo e eu menti dizendo que era porque o meu amigo estava jogando e eu estava nervosa por causa dele. Ai eu usei a desculpa de que precisava ir ao banheiro, sai de lá e pedi pra minha amiga avisar que eu não queria ficar com ele.
- Imagina o quão emocionante é abraçar alguém que não para de tremer. - Provocou e recebeu um dedo do meio como resposta.
- Eu estava nervosa, naquela época eu só sabia usar a minha boca para comer. - Começou a rir quando viu a cara que fez ao ouvir aquela frase.
- Tá vendo? Você era a que dava os fora, e eu era o que os recebiam.
- Mas hoje em dia, parece que o jogo virou, não é mesmo? - Lançou um olhar desafiador pro rapaz, que gargalhou antes de puxar sua mão pra depositar um beijo ali.
Segundos depois já estava parando o carro na rua onde ela morava.
- A princesa já está entregue. - Aproveitou o momento para fazer um carinho na bochecha de .
- As duas da manhã? O certo seria meia noite, não?
- Tempos modernos, baby.
- Obrigada pela noite, . - Segurou a mão do rapaz, enquanto se perdia naquele olhar.
- Eu que agradeço, . - Falou antes de beijá-la novamente.
- Até segunda. - Se despediu ao sair do carro.
- Até segunda. - respondeu, antes de começar a fazer o seu caminho de volta pra casa.
E aquela noite foi tão especial para os dois que, com certeza eles lembrariam dela antes de dormir, isso se algum deles conseguisse pregar os olhos durante a noite.


Capítulo 7


Ele

Beber era mágico, era como se se transformasse em uma outra pessoa, era como se a bebida fosse capaz de amenizar todos os seus problemas e era por isso que ele sempre bebia, mais ainda quando estava mal.
Uma sensação de leveza já havia tomado conta do corpo de e aquilo era tudo que ele queria sentir no momento. começou a beber aos 19 anos de idade, mas antes disso ele já havia provado algumas bebidas. Depois disso, beber começou a fazer parte da sua rotina, e quando ele ficava alguns dias sem consumir bebidas alcoólicas, sentir o gosto de qualquer líquido forte em sua boca se tornou um dos seus maiores prazeres.
- Mais uma. - Apontou seu copo de cerveja vazio para o garçom.
O local já começava a ficar vazio devido ao horário, ainda estava sentado em frente ao balcão enquanto Nicholas trocava beijos no meio da balada com uma loira que ele havia conhecido ali.
- Olha, eu tô aqui pra vender, mas eu acho que você já passou dos seus limites, não? - O garçom questionou, viu fechar a cara no mesmo momento.
- Pega a cerveja pra mim. - Seu tom de voz estava alterado, demonstrando seu nervosismo.
ficou de pé de frente para o garçom, se apoiou no balcão para não cair, tudo isso graças a grande quantidade de álcool que ele já havia bebido.
- Você mal está conseguindo ficar em pé. Eu quero vender minhas bebidas, mas não quero que ninguém morra na minha frente não. - Falou mais alto para que a música alta não conseguisse atrapalhar o diálogo.
tentou segurar o garçom pela camisa, mas não conseguiu, era como se ele não tivesse forças. Seu rosto estava vermelho, o garçom conseguiu deixa-lo extremamente nervoso. Tentou pegar um dos copos que estavam vazios em sua frente mas o garçom conseguiu segurar as suas mãos com facilidade, ele estava bêbado demais para revidar.
- O que você está fazendo, ? - Nick se aproximou do irmão assim que viu o que acontecia no bar. - Você ficou maluco?
- Eu só quero mais uma cerveja. - Sua voz embriagada deixava claro o estado em que ele se encontrava.
O garçom o soltou quando viu o irmão se aproximar. Nick lançou um olhar envergonhado para o garçom que apenas forçou um sorriso. Ele já devia estar acostumado com aquilo.
- Você já bebeu demais, já é hora de ir embora. - Soou firme, viu lançar um olhar furioso para o garçom e se distanciar do balcão no mesmo momento, sem dizer nada.
Nicholas despediu do garçom com um aceno enquanto direcionava o irmão para o caixa da balada.
Foram o caminho todo sem dizer uma palavra e, assim que chegou, foi direto para o seu quarto, nem notou a presença da sua mãe na sala.
- anda bebendo demais. - Nicholas comentou com Bethany, que ainda estava acordada, lendo um livro na sala, provavelmente estava esperando por eles.
- Eu sei, e isso me preocupa. - Seu tom de voz demonstrava tristeza, seu olhar dizia o mesmo.
- O pior é que ele é cabeça dura, não quer escutar ninguém. - Nick comentou enquanto depositava as chaves do carro na estante da sala.
Nicholas sempre foi um rapaz responsável. Gostava de sair, namorar e até beber de vez em quando, mas sabia muito bem os seus limites.
- Amanhã vou ter uma conversa com ele, meu filho, vai ter que me ouvir. - Falou com um certo pesar, logo em seguida despediu de Nick e ambos foram dormir.
A noite passou muito rápido, ou então estava indisposto demais para enfrentar aquele domingo. Acordou assim que ouviu a voz de sua mãe lhe chamando, eles sempre tomavam o café da manhã juntos.
Tomou um banho e logo em seguida ingeriu um comprimido para dor de cabeça, ela sempre aparecia depois de uma noite de bebedeira. Desceu e cumprimentou seus pais e irmãos assim que se sentou à mesa.
- Pai, eu posso sair hoje? - Samantha aproveitou o silêncio no local para falar.
Gostava de pedir as coisas sempre quando tinha mais alguém presente, se ela levasse um não, pelo menos não seria uma resposta grosseira. Falava direito com Josh depois que notou que a resposta de sua mãe não mudava, ela sempre dizia que só deixaria Sam fazer alguma coisa se o pai dela também deixasse.
- Depende, pra onde você quer ir? - Interrogou a filha enquanto saboreava um pedaço de bolo.
- Em uma festa. É aniversário de uma amiga do colégio. - Forçou um sorriso, sabia que poderia ouvir um não do seu pai.
- Aniversário no domingo? - Nick fez seu questionamento, enquanto encarava o olhar assustado da irmã.
- O que é que tem? O aniversário dela é hoje, e é só para os amigos mais próximos. - Respondeu de forma rápida, ela só queria acabar com a dúvida do irmão.
- Já estava me animando pra ir. Deve ser festinha de pijama, tô fora.
- E por acaso você foi convidado, Nicholas? - entrou na conversa, fazendo com que a irmã segurasse o riso e o irmão fechasse a cara.
- Filha, não sei se é uma boa ideia. Ainda mais que o seu irmão não pode ir pra cuidar de você. - Beth comentou, notou a tristeza no olhar da filha no mesmo instante.
- Mas mãe... - Tentou falar, mas foi interrompida por seu irmão mais velho.
- Se vocês deixarem, eu posso levar ela e buscar, não tenho nenhum compromisso hoje. - sugeriu, para a felicidade da irmã.
Assim como Nicholas, também sentia ciúmes da irmã, mas depois que ele saiu da casa de seus país, começou a pensar de uma forma diferente. Era maravilhoso ter o seu espaço e a sua liberdade, e sabia que a sua irmã também precisava disso.
- Se for assim, por mim tudo bem. Só não quero que você demore muito.
- Obrigada, pai. - Sam sorriu para o mais velho enquanto recebia um sorriso do irmão.
Domingo era um dia para ficar em casa. Os cinco passaram a tarde toda conversando comendo e assistindo, era tudo que eles mais gostavam de fazer. Sabiam que era uma família diferenciada, sabiam que nem todos tinham aqueles momentos de lazer juntos. Apesar das correrias do dia a dia, todos eles separavam o domingo para fazerem coisas juntos, inclusive nada. Mesmo não morando lá, todo domingo se juntava a eles, as vezes quando a sua semana era estressante só ao lado da família era que ele conseguia relaxar.
Quando já estava quase escurecendo, e Sam subiram para se arrumarem. Assim que o relógio informou que já era quase oito horas da noite, desceu e encontrou a sua mãe na sala, lendo um livro.
- Achei que eu estava atrasado mas a Sam nem desceu ainda. - Disse aliviado enquanto se sentava de frente para a sua mãe.
- Filho, eu queria aproveitar que ela ainda não desceu e conversar com você dois minutinhos. - Parou sua leitura para olhar nos olhos do filho, que a ouvia atentamente.
- Aconteceu alguma coisa, mãe? - Lançou um olhar em direção à mais velha, que matinha uma expressão preocupada em seu rosto.
- Eu estou preocupada com você, meu filho. Você anda bebendo demais e eu tenho medo que aconteça alguma coisa com você. Eu sei que você é um cara responsável, mas ontem quando você chegou aqui parecia outra pessoa. Hoje o seu irmão veio me falar que você queria brigar com o garçom, é isso que você quer pra sua vida?
abaixou a cabeça enquanto ouvia tudo que a sua mãe falava, o pior era saber que tudo era verdade. sabia que estava exagerando, sabia que isso podia prejudicar a sua vida, mas ele não sentia vontade de parar. Também não queria que a sua mãe ficasse preocupada, não queria ser um peso pra ela e nem queria que os seus problemas fizessem parte da vida dela.
- Me desculpe, mãe, mas ultimamente eu ando com tanta coisa na cabeça que só a bebida consegue me distrair um pouco. - Foi sincero, de fato usava a bebida como um meio de escapar dos seus problemas.
- Eu só quero o seu bem, meu filho. Eu me preocupo muito com você.
- Eu sei, mãe, e agradeço por isso. Mas pode ficar tranquila que eu vou tentar me controlar. - Sorriu antes de se levantar para ir depositar um beijo no topo da cabeça de Bethany.
- Vamos? - Samantha apareceu na sala assim que os dois pararam de conversar.
A garota estava com os cabelos soltos, um vestido soltinho florido, e uma sapatilha cor de pele. Sam foi questionada por sua mãe sobre não estar com uma roupa de festa e sem salto, ela apenas respondeu que era uma festinha simples e que não tinha necessidade para tudo aquilo. Se despediram de sua mãe e logo em seguida os dois saíram do apartamento, quando Beth estava prestes a retomar a sua leitura a porta se abriu e ela enxergou o rosto de no vão entre a porta e a parede.
- Mãe, pode ficar tranquila que hoje eu não vou beber. - Piscou e sorriu para ela antes de fechar a porta novamente.
Aproveitou o momento a sós com a irmã para conversarem. Sentia orgulho por ter uma irmã tão nova e ao mesmo tempo tão madura. Apesar de ser tão jovem, Samantha sabia conversar, sabia opinar sobre determinados assuntos e principalmente sabia ouvir. Mesmo sendo tímida, ela conseguia se soltar ao lado de , se sentia a vontade para conversar sobre quase tudo com ele.
Quando um pequeno silêncio nasceu entre eles, Samantha sentiu vontade de questionar o irmão.
- , e como você está? Você está tranquilo mesmo ou é impressão minha?
- Eu estou apenas fingindo, maninha, e pelo jeito está dando certo. Mas por dentro eu estou acabado. - Respirou fundo e segurou o volante com um pouco mais de força antes de continuar. - Mas uma hora isso passa, sempre passa.
- Eu queria poder te ajudar, . - Sam abaixou a cabeça derrotada, sentia-se inútil por não saber o que fazer em momentos como aquele.
continuou em silêncio enquanto estacionava o carro em frente ao endereço que a sua irmã havia lhe passado, assim que o veículo parou por completo ele se virou para ela para continuar o diálogo.
- Você existe, quer ajuda maior que essa? Só em saber disso eu já tenho motivos o suficiente para continuar seguindo em frente.
Um sorriso sincero nasceu entre lábios de Sam após ouvir aquilo. Sentiu vontade de chorar, mas tudo que ela menos queria no momento era estragar a maquiagem.
- Eu te amo. - Disse com ternura antes de abraçar o irmão pelo pescoço.
- Eu também te amo, demais. - Retribuiu o carinho na mesma intensidade. - Bom, agora vá curtir a festa porque não podemos chegar muito tarde, sabe como é o senhor Josh, né?
- E como sei. - Revirou os olhos, fingindo estar incomodada antes de sorrir para o irmão.
- Então meia noite eu passo aqui para pegar a minha princesa. - Comentou assim que a irmã saiu do veículo.
- Só não se assuste se ela estiver sem o seu sapatinho de cristal. - Brincou antes de começar a andar em direção ao prédio.
- Juízo, viu? - Gritou quando ela já estava parada em frente ao portão de entrada.
- É o que eu mais tenho. - Respondeu depois que falou alguma coisa, que não conseguiu escutar, na portaria.
E assim que ela entrou, ligou o seu carro novamente e seguiu para o seu próximo destino.
Ele ainda tinha algumas coisas para resolver naquela noite.


Capítulo 8


Ela

não se lembrava a quanto tempo não acordava daquele jeito. Uma alegria e uma paz interior foram dar bom dia a ela. Aquela noite ao lado de foi especial, se ela soubesse que tudo seria tão bom assim, não teria perdido tanto tempo sendo apenas amiga do rapaz.
Depois de tomar o seu banho, sorrindo para as paredes, e se arrumar, foi encontrar com sua a mãe e com o seu irmão para tomarem café da manhã juntos.
- Bom dia. - cumprimentou os dois assim que se sentou a mesa.
- Bom dia, querida. - Victoria dirigiu a palavra filha com um sorriso nos lábios.
- Achei que ia acordar mais tarde, pela hora que você chegou... - Dylan, seu irmão mais novo, provocou, fazendo com que a irmã sorrisse enquanto negava aquilo com a cabeça.
- Você praticamente entra em coma quando dorme, impossível saber a hora que eu cheguei. - Falou para o mais novo enquanto se servia.
- Você que pensa...
- Toma seu café aí e fica quieto, porque eu estou bem humorada hoje, mas se você me provocar eu jogo uma torrada na sua cara sem pensar duas vezes. - Mostrou a língua para o irmão, arrancando gargalhadas do mesmo e de sua mãe.
Dylan aproveitou o momento para contar para a sua mãe e irmã que sua filha passaria a segunda feira com ele. Aos dezoito anos de idade Dylan descobriu que sua, até então, atual namorada estava grávida, foi um choque para todos pois não era algo que eles haviam planejado. Sabia que tudo mudaria, se pudesse voltar atrás ele teria evitado, mas naquele momento o que lhe restava era arcar com as consequências dos seus atos. Sua vida mudou por completo assim que sua filha, Julie, chegou ao mundo, mas a alegria que ele sentiu ao ver sua filha assim que ela nasceu, supriu todos os seus problemas.
Se Dylan tivesse mudando algumas atitudes antes de sua filha nascer, talvez ele ainda estaria com Emma, sua ex namorada. Foi só quando Julie veio ao mundo que ele descobriu que precisavam amadurecer o quanto antes, porém, já era tarde demais para salvar o seu relacionamento que já havia se desgastado. Mas felizmente a maturidade de ambos contribuíram para que, mesmo separados, Dylan conseguisse acompanhar o crescimento de sua filha. Ele e Emma se tornaram amigos em prol da vida de sua filha e ele seria eternamente grato por isso.
- Ah, tenho mais uma coisa pra falar. - Dylan comentou quando sua mãe e sua irmã se acalmaram, era sempre uma festa quando ele falava que ia levar sua filha pra lá.
- O que foi, meu filho? - Questionou apreensiva depois de ver o seu filho coçar a cabeça, mostrando o seu desconforto.
- Eu preciso que vocês saiam de casa essa noite, eu vou trazer uma garota pra cá hoje. - Deixou um sorriso sínico escapar enquanto via lançar um olhar significativo em sua direção.
- Maninho, sinto muito, mas não vou poder te ajudar nessa. Hoje eu não estou a fim de sair, só quero descansar. Mas por que você não a leva pra outro lugar? - Seu tom de voz mostrava que o que ela havia dito tinha um outro sentido.
- Hoje não vai dar, tem que ser aqui mesmo.
- Filho, hoje eu não vou sair também. Mas pode trazer ela que não vamos atrapalhar em nada, inclusive, vai ser um prazer conhecer sua nova namorada. - Victoria sorriu animada, enquanto Dylan revirava os olhos, se segurava para não rir também.
- Ela não é minha namorada, mãe.
- É ficante, mãe. - completou.
- Na minha época não era assim não, se andavam de mãos dadas já eram namorados. - Relembrou do passado, compartilhando as lembranças com seus filhos.
Victoria também aproveitou o momento de diálogo com os filhos para questionar sobre a noite anterior. contou para ela o que aconteceu e deixou claro o quanto estava feliz por ter ficado com , fazendo com que sua mãe ficasse feliz também. Quem não gostou muito da história foi Dylan, o rapaz morria de ciúmes da irmã.
Talvez por saber como a maioria dos garotos eram, Dylan se sentia no direito de proteger a sua irmã, já que ela não tinha mais o pai presente para fazer esse papel. Ele sempre gostava de saber onde a irmã estava, com quem e quando voltaria. Para não ter problemas, sempre avisava a sua mãe e ao seu irmão quando ia sair, mesmo achando que aquilo não era necessário. Ela sabia muito bem o que podia fazer ou não e também sabia se cuidar.
Durante a tarde, recebeu a visita de Hope, sua melhor amiga. Aproveitaram o tempo juntas para conversarem enquanto assistiam um filme. aproveitou para contar para a amiga sobre o seu encontro com , incluindo todos os detalhes. Ela estava tão feliz que queria dividir sua alegria com todos em sua volta.
- E você acha que ele vai te pedir em namoro? - Hope questionou depois de ouvir toda história.
- Não sei, mas eu espero que sim. O gosta das coisas certinhas, então eu acho que ele não vai apressar nada. - Explicou para Hope que apenas deu de ombros depois de encher sua mão de pipoca.
- Se vocês namorarem e você me abandonar, você me paga. - Fez a amiga sorrir com o seu comentário enquanto recebia um abraço da mesma. - Sai, eu não gosto de grude.
- Eu não vou te abandonar nunca, sua ciumenta.
Passaram mais um bom tempo juntas antes de sua amiga decidir ir embora. aproveitou o tempo livre para continuar a leitura de um de seus livros favoritos. Ela adorava viajar no mundo das letras, nos enredos fascinantes e nos personagens apaixonantes. Por muitas vezes se via perdida no meio daquelas linhas que tinham tanto a dizer.
Já era noite quando a sua atenção voltou para o seu quarto assim que o seu celular tocou, o nome aparecia na tela.
- Alô? - Atendeu alegremente, mantinha o sorriso nos lábios mesmo sabendo que ele não estava vendo.
- Oi, tá ocupada? - Perguntou do outro lado da linha, quase no mesmo momento em que atendeu.
- Não, na verdade não estou fazendo nada, pode falar. - Mentiu só para passar algum tempo falando com ele.
- Eu também não estou fazendo nada, aí liguei para saber como foi o seu dia.
- Digamos que foi um dia de folga normal, passei uma boa parte dele na cama. E o seu, como foi? - Foi sincera, arrancando uma risada dele.
- O meu também, dei muita atenção para a minha cama hoje, acho que ela já estava com saudades de mim. - Sorriu depois de falar, fazendo com fizesse o mesmo do outro lado da linha.
E o tempo acabou passando tão rápido que, quando desligou o telefone, percebeu que mais de duas horas haviam se passado. Em todo esse tempo eles haviam conversado sobre tudo e sobre nada, até o barulho da respiração de ambos se tornou um assunto. Não é que eles não tinham nada de mais importante para conversarem, era que qualquer assunto que aparecia no meio da conversa dos dois acabava se tornando interessante.
Depois de pensar alguns instantes sobre tudo o que já havia acontecido em tão pouco tempo, foi para a cozinha fazer companhia para a sua mãe, já que ela não tinha mais nada para fazer.
Um cheiro já conhecido invadiu as narinas de assim que ela passou pela porta que separava os cômodos. Na mesa já havia duas jarras com sucos diferentes, uma torta salgada e alguns outros lanches. E para completar o banquete, Victoria ainda estava terminando de rechear um bolo de chocolate.
- Vai ter festa e eu não estou sabendo? - questionou enquanto observava aquele exagero de comidas sob a mesa.
- Você esqueceu que o seu irmão vai trazer a namorada dele aqui? - Disse de forma inocente, como se o que ela estivesse fazendo fosse óbvio.
- Mãe, eu não estou acreditando. - respondeu, quase não conseguiu falar devido a sua risada que não podia mais ser controlada.
Sua mãe a olhava de forma confusa, apenas tentando entender o motivo para a filha estar daquele jeito.
- Mãe, a última coisa que eles vão querer é ficar comendo... - ainda não conseguia ficar séria, dava risada entre cada palavra que ela falava. - Até parece que a senhora nunca foi jovem.
- Mas eu pensei que ele estava trazendo ela aqui para apresentá-la a família...
- Mãe, ele vai trazer ela aqui para ficarem mais a vontade, por que você acha que ele pediu pra gente sair hoje? Como ele mesmo disse hoje, ela não é namorada dele. - Piscou para a Victoria que agora também ria da situação.
- É, acho que estou viajando. É assim que vocês jovens falam, não é? - Fez gargalhar mais uma vez com o que ela havia dito.
- Ai, mãe, a senhora não existe. - Disse enquanto se sentava à mesa.
Enquanto experimentava tudo o que a sua mãe havia feito, ela também ouvia tudo o que ela tinha a dizer sobre o seu irmão.
Victoria conseguia ver de longe as mudanças na vida do filho, depois que Julie veio ao mundo. Ele continuava estudando, é só não trabalhava para ter mais tempo para focar na faculdade e para cuidar da sua filha.
Apesar da pouca idade, Dylan enchia a sua mãe de orgulho por não ter abandonado a filha em nenhum momento e por nunca ter usado a idade para se ausentar das suas obrigações como pai.
- Ele me disse que a Emma vai começar a fazer um cursinho na semana, aí ele vai cuidar da Julie durante a noite. - expôs para a sua mãe parte de uma conversa que teve com seu irmão a alguns dias atrás.
- As vezes eu acho que ele ainda gosta dela, sabia? - Sua mãe disse com certo pesar, Victoria gostava muito de ver os dois juntos.
- Eu também acho, mãe. Mas se não deu certo, não podemos fazer nada. Pelos menos eles são amigos, ia ser péssimo para a Julie crescer no meio de brigas.
- É, você tem razão, minha filha.
Continuaram conversando até que Dylan apareceu na cozinha. Estava bem vestido, com o cabelo penteado e era possível sentir seu perfume de longe.
- Ai que gato. - elogiou o irmão que apenas deu uma piscadinha pra ela.
- Ela já está chegando, vocês duas fiquem quietas, sem piadinhas, por favor. - Disse antes de roubar um pedaço de bolo do prato de sua irmã.
- Sim senhor. - respondeu enquanto seu irmão atendia o interfone, que tocou para avisar que a sua convidada havia chegado. Dylan autorizou a subida da garota e desligou logo em seguida.
- Filho, nós vamos pro quarto, fiz algumas coisas aqui pra vocês comerem se quiserem. - Victoria disse e viu o filho acenar de forma positiva com a cabeça.
- Vamos? Mas eu queria conhecer a garota, mãe. - disse com certo desânimo, no fundo ela só queria provocar o irmão.
- , eu te dou dois minutos para você desaparecer daqui. - Fingiu estar bravo, apenas para entrar no jogo da irmã.
- Deixa de ser curiosa, menina, vem, vamos ver um filme comigo. - Empurrou em direção ao seu quarto, sem deixar que ela respondesse alguma coisa antes.
A campainha tocou e Dylan ajeitou a sua roupa pela última vez antes de abrir a porta. Assim que viu a garota em sua frente, não conseguiu segurar o sorriso que nasceu em seus lábios.
- Oi. - Ela disse de forma tímida, assim que ele deu passagem para que ela entrasse na casa.
- Oi. - Ele respondeu antes de presentear a garota com um abraço demorado. - Que bom que você veio, meu anjo.


Capítulo 9

Ele

Enquanto dirigia em direção à balada, seus dedos dançavam em cima do volante no ritmo da música que tocava na rádio. Dois dias haviam se passado e tudo parecia ter mudado tão rápido que nem ele mesmo conseguia entender.
A raiva não havia diminuído, mas ele estava mais controlado, nada que ele fizesse iria apagar o erro de sua ex esposa e do seu ex melhor amigo, isso estava bem claro em sua mente.
O caminho era conhecido e bem próximo, por isso não demorou muito para que ele chegasse ao seu destino. Depois de parar no estacionamento, entrou na balada e se sentou de frente para o balcão, ficou ali esperando alguém aparecer para lhe atender.
- Um refrigerante, por favor. - pediu assim que olhos do garçom da noite passada fixaram onde ele estava. Forçou um sorriso quando viu que o seu pedido surpreendeu o rapaz que trabalhava ali. - Não estou a fim de brigar com ninguém hoje. - Ele explicou, fazendo com que o garçom sorrisse.
A sua vontade de beber era enorme e ele não estava fazendo aquilo pelo seu próprio bem, ele estava controlando a sua vontade por ser preocupar com a segurança de sua irmã e por ter garantido a sua mãe que não faria aquilo naquela noite.
- Isso é ótimo. - Ele respondeu enquanto atendia ao pedido de . - Ontem você estava mal, cara, até brigou comigo só por que eu não quis te vender mais bebidas. Eu só estava preocupado com o seu estado. - Apesar de ser um estanho para o garçom, ele disse aquilo como se estivesse sentido pelo o que aconteceu.
- Me desculpe. - Disse sem jeito após saborear aquela bebida que ele já não bebia há muito tempo. - Eu não sou de brigar, mas sabe como é, né? A bebida transforma a gente.
- Relaxa, eu já estou acostumado com essas coisas. - Respondeu antes de ir atender os outros clientes.
Enquanto observava todo o estabelecimento, aproveitou para lembrar dos seus momentos vividos enquanto estava solteiro. Não havia aproveitado tanto como gostaria, começou a namorar muito cedo e, depois disso, todos os momentos que ele teve foram ao lado de Lauren. Os dois viveram uma boa parte de suas vidas juntos. Tiveram problemas, mas também foram muito felizes. As festas, as viagens, as noites em claro que eles passavam assistindo séries, tudo isso jamais esqueceria, embora fosse essa a sua vontade.
O amor que sentia por Lauren era tão grande, que ele duvidava que algum dia a esqueceria de uma vez por todas. Mas ele precisava seguir em frente, precisava seguir a sua vida e deixar para trás tudo o que aconteceu.
Diversão. Era isso que estava faltando em sua vida. Tomou o seu refrigerante, estranhando o gosto daquela bebida que há muito tempo ele não sentia e andou em direção a pista de dança. A música eletrônica estava alta demais, mas aquilo foi um incomodo para apenas no início. Ele começou a dançar no meio dos desconhecidos e depois de algum tempo, já estava conversando com algumas pessoas.
De vez em quando ele tentava ligar para a sua irmã, porém ela nunca atendia. Mesmo se divertindo, não esquecia das responsabilidades que tinha naquela noite. Concluiu que a Samantha estava curtindo a festa e decidiu fazer o mesmo.
Notou que uma garota loira que estava próxima dele, o observava com um sorriso nos lábios. retribuiu o sorriso e logo em seguida foi em direção onde a garota, que também aparentava estar sozinha, dançava.
- Dança comigo? - Ele se aproximou, falou bem próximo dela, já que a música atrapalhava o diálogo.
- Claro que eu danço. - Ela sorriu mais uma vez, antes de começarem a dançar juntos.
Enquanto dançavam, os dois conversavam como se eles se conhecessem há alguns anos. Quando o cansaço apareceu, depois de dançarem incontáveis músicas sem parar, os dois foram para o bar e lá o diálogo continuou.
Depois de alguns minutos, eles já estavam em um lugar mais reservado trocando beijos e carícias. A vontade de era de ficar ali a noite toda ou sair apenas para irem para um outro lugar em que os dois ficassem mais a vontade, mas ele não havia se esquecido de sua irmã. anotou o telefone da garota, deu mais um beijo de despedida nela, pagou sua conta e saiu da balada antes que ele acabasse cedendo as vontades do seu corpo.
Por um momento se sentiu mal por ter ficado com outra pessoa. O seu coração lhe dizia que ele estava fazendo o mesmo que Lauren fez com ele, mas sua mente sabia que aquilo não era verdade. agora era um homem solteiro, livre para se divertir e para fazer o que sentisse vontade. Aproveitou que estava indo buscar sua irmã para focar na direção e evitar pensar sobre aquela situação.
Mais de vinte e três chamadas feitas para o número da Samantha, nenhuma delas atendida. Já se passavam das duas da manhã e já estava parado há quase uma hora em frente ao prédio em que a amiga de Sam morava.
O porteiro que estava trabalhando naquele horário não sabia de festa nenhuma e ele informou ao que não poderia interfonar em todos os apartamentos, ainda mais naquele horário, já que não sabia nem o nome da amiga da irmã.
Não queria preocupar a sua mãe, mas concluiu que ela deveria saber, no mínimo, o nome da amiga da Samantha, já que ela conhecia uma boa parte delas.
E antes que ele terminasse de discar o número de sua mãe, seu celular começou a tocar, mostrando a foto e o número de Samantha na tela.
- ? - Ele ouviu a voz dela assim que atendeu o telefone, o tom de voz de Sam era baixo e ao fundo uma música tocava.
- Desce agora. - disse bravo, desligou o telefone antes mesmo que sua irmã respondesse.
Depois de uns cinco minutos Samantha entrou no carro em silêncio, percebeu que estava nervoso só pela cara dele. dirigia em silêncio, respirando fundo algumas vezes. Quando ela percebeu que seu irmão não pretendia falar nada, ela resolveu quebrar o silêncio:
- Eu não vi o meu celular tocando, quando vi a hora até assustei, a noite passou muito rápido. - Falou enquanto observava a rua através do vidro, não tinha coragem suficiente para encarar o mais velho.
ainda respirou fundo mais algumas vezes antes de responder, não queria ser muito grosso com a irmã, mas queria deixar claro o quanto ficou preocupado com ela.
- Samantha, eu não disse que passava aqui a meia noite? Por que você não atendeu a merda desse celular? Porra, eu fiquei preocupado, você não atendia, o porteiro não sabia de festa nenhuma, eu já estava ligando pra minha mãe para saber pelo menos o nome da sua amiga. Agora pensa o quanto ela ia gostar de ser acordada as duas e pouco da manhã só porque você simplesmente não me atende. - Falou de uma vez. Enquanto as palavras saiam de sua boca, as lágrimas desciam pelo rosto de sua irmã.
- Eu falei lá em casa que era apenas para os mais próximos, o porteiro não sabia porque não era festa grande. E eu já disse que não vi a hora passar e não te atendi porque não fiquei grudada no celular. - Falou entre as lágrimas, era o seu irmão mais próximo e era a pessoa que ela mais tinha intimidade em sua casa, doía vê-lo falando como seus pais.
- Você tem que aproveitar as oportunidades que eles te dão, mas tem que pensar em não pisar na bola também. Eu já tive a sua idade e sei bem como é essas coisas, e sei que pra mulher é bem mais complicado, mas isso passa, você vai crescer e vai mandar na própria vida. - Aconselhou a irmã, estava mais calmo, mas ainda estava bem sério.
- E até lá vou ter que aguentá-los me tratando como uma criança? E outra, eu não faço nada de errado para eles me tratarem assim, hoje foi só um deslize, mas já passou.
- Imagina se fosse o papai vindo te buscar, ele não ia querer nem te ouvir, ia te deixar de castigo por um ano. - Ele alertou, queria que Samantha entendesse a gravidade da situação.
- Eu já vivo como se estivesse castigada, não ia fazer diferença. - Pensou alto, recebeu um olhar triste de logo em seguida.
- Para de falar besteira, Samantha, eu não aprovo a forma como eles tratam você, mas garanto que eles só querem o seu bem. - Disse depois de ter estacionado o carro na garagem do prédio.
- O meu bem? Sei... - Ironizou antes de sair do carro e subir sozinha em direção ao seu apartamento.
Adolescentes e suas rebeldias, foi o que passou pela cabeça de .
Entrou na casa de seus pais e encontrou sua mãe acordada, assistindo um filme qualquer na TV.
- Oi, mãe, está sem sono? - Disse depois de beijar a testa da mais velha.
- Sim, meu filho, ai estou assistindo para passar o tempo. - Olhou de um lado para o outro se certificando de que estava sozinha com o filho. - O que aconteceu com a Samantha? Ela entrou aqui com a fechada e nem falou comigo.
sabia que Samantha havia pisado na bola e sabia o tamanho da bronca que ela lavaria se os seus pais soubessem o susto que ele levou com a sua irmã naquela noite. Por isso ele optou por não contar nada e resolver ele mesmo aquela situação, sua irmã merecia aquele voto de confiança.
- Tive uma conversa de gente grande com ela, e bem, você sabe como são esses adolescentes... - Deixou de lado o motivo das conversa, mesmo se sentindo mal por não contar toda a verdade para a sua mãe.
- Isso é ótimo, filho. Sei bem como funciona essa fase, por isso me preocupo tanto com ela. - Beth comentou, no fundo ela só queria proteger a filha de qualquer coisa.
- Só tenha um pouquinho de paciência com a Sam, ela vai ter os momentos dela de rebeldia, mas é só uma fase mesmo, vai passar. - Disse de forma amigável para a mãe, antes de beijá-la mais uma vez. - Agora eu vou dormir, estou morrendo de sono.
- Filho? - Bethany o chamou quando ele começou a andar em direção ao quarto, parou, olhou para ela e esperou que ela continuasse a sua fala. - É muito bom te ver assim.
Ela não precisou falar mais nada para que entendesse o que ela queria dizer. Sempre quando ele saia, ele bebia e mesmo quando não morava com seus pais, eles sabiam disso. Ver chegar de madrugada da forma como ele estava, foi um presente para Beth.
- Boa noite, mãe. - apenas se despediu, não falou mais nada, porém o sorriso que nasceu em seus lábios após ouvir as palavras de sua mãe dizia muita coisa.


Capítulo 10


Ela

O céu limpo daquela manhã de segunda feira deixava claro que aquele dia seria agradável. Não tinha como ficar indisposta com aquele sol sorrindo lá fora, não tinha como deixar aquele dia passar sem aproveitar cada segundo dele.
Um aperto invadiu o peito de assim que ela fechou a janela do quarto para descer. Se pudesse, passaria o dia inteiro admirando aquela vista, sentiu-se especial por ter aquele privilégio todas as manhãs. Aprendeu com o seu pai a admirar as coisas que passam despercebidas pelos olhos de todos, ele sempre dizia a ela que a vida era curta demais para não aproveitar simples momentos, por mais insignificante que eles fossem. Depois que ele faleceu, sempre que olhava para o céu era como se ela conseguisse sentir a presença do seu pai, mesmo os seus olhos não o enxergasse ali, o seu coração sentia. E só depois de fazer todo esse ritual era que o seu dia, de fato, começava.
Verificou pela última vez se não estava esquecendo nada antes de descer para tomar o seu café e encontrar seu irmão e sua mãe na cozinha.
- Bom dia. - Cumprimentou os dois, que lhe responderam com entusiasmo.
- Tem alguém animadinho aqui ou é impressão minha? - Olhou para o seu irmão, que tentava decifrar o que ela estava querendo dizer. - A noite deve ter sido muito boa.
- Não enche o saco, . - Não deu muita atenção para irmã, continuou tomando o seu café.
- Você nem deixou a gente pelo menos ver a garota que você trouxe aqui ontem. - Foi a vez de Victoria falar.
Era tão curiosa que, quando já era tarde, ficou na sala só para ver a menina que estava com o seu filho quando ela saísse, mas em um segundo em que ela cochilou, Dylan aproveitou para se despedir da garota, fazendo com que o esforço de sua mãe não tivesse nenhum resultado. Dylan era muito reservado, não gostava de exposições e nem de comentar sobre a sua vida. Esse era um dos motivos pelo qual Victoria pegava tanto no pé do filho. Enquanto desabafava sobre tudo com ela, Dylan comentava sobre sua vida o mínimo possível.
- Pelo amor de Deus, mãe, quando eu estiver namorando, eu apresento pra vocês. Eu não vou apresentar toda garota que eu fico. - Alterou o seu tom de voz, já estava começando a ficar irritado com aquele assunto.
- Tudo bem, eu já entendi, não precisa se estressar também. - A mais velha respondeu, enquanto só observava a situação, escondia sua risada atrás da xícara de café que estava posicionada em frente a sua boca.
- Ah, e da próxima vez, vê se não fica esperando na sala, ou você acha que você eu não percebi qual era a sua?
- Dessa parte eu não estava sabendo, depois eu que sou a curiosa. - riu enquanto sua mãe negava com a cabeça e tentava segurar o riso, Dylan era o único que continuava sério.
- Vocês são chatas, isso sim. - O mais novo pensou alto, viu sua mãe o repreender com o olhar, sem precisar dizer nada.
- Você é que está mais nervosinho do que eu quando estou na tpm. Nem parece que deu uns beijos ontem. - o respondeu, não perdeu a oportunidade de provocá-lo, aumentando ainda mais a irritação do irmão.
- Eu vou pra faculdade que eu ganho mais. - Avisou antes de se levantar da mesa e bater a porta com força logo depois de sair do apartamento.
- Você também, ... - Sua mãe a repreendeu, logo a olhou como se a questionasse. - Sabe como o seu irmão é e ainda o provoca.
- Mãe, nem vem porque a senhora tem mais culpa no cartório do que eu. E isso é frescura da parte dele, logo passa. - Ambas riram e voltaram a tomar o café da manhã, agora em silêncio, até a hora de sair para ir trabalhar.
Assim que chegou ao trabalho, Hope já veio em sua direção, havia uma certa pressa em seus passos. A loira cumprimentou as poucas pessoas que estavam próximas a entrada da loja, logo em seguida ela puxou a amiga para um lugar mais calmo, para que as duas ficassem mais a vontade.
- O chegou mais cedo hoje, trouxe flores e chocolates. - Diminuiu o seu tom de voz para que mais ninguém além de escutasse.
- Deve ser uma surpresa pra mim. - pensou alto, mal estava conseguindo conter o sorriso em seus lábios.
- Deve ser. - Hope revirou os olhos após concordar com a amiga.
- E por que você me contou? Estragou a surpresa, amiga.
- Pra ver se você acorda pra vida. Pelo amor de Deus, , vocês só saíram uma vez, não acredito que já estão pensando em namorar. - Hope negou com a cabeça, como se não acreditasse no que ela mesma estava falando.
- Hope, para de se preocupar tanto comigo, para de me tratar como se eu fosse uma adolescente. Não sei qual é o seu problema com o , quando éramos só amigos você não implicava com ele tanto assim.
- , eu conheço o tipo do , você tá imaginando mil e uma maravilhas com ele e eu sei que não vai ser assim. - Já era possível notar a sua impaciência, Hope não conseguia ficar parada e gesticulava com as mãos sempre que falava. - Eu só quero ajudar, depois não diga que eu não avisei. Quando eu implicava com o Austin,você também brigava comigo, mas depois você viu como eu estava com a razão. - Andou por um dos enormes corredores da loja, antes que a amiga lhe respondesse qualquer coisa.
ainda ficou parada por alguns minutos, processando toda aquela informação recebida. Aquele cuidado excessivo da amiga a incomodava, ela havia ficado com só uma vez, não tinha porque se preocupar. Por outro lado, tinha medo de que, de fato, Hope estivesse certa e que ela repetisse o mesmo erro de antes.
Para , Austin, seu ex namorado, era um verdadeiro príncipe, ela não tinha do que reclamar. Por vê-lo assim, não conseguia entender a implicância da amiga, foi só depois que o seu relacionamento chegou ao fim e toda aquele decepção aconteceu que ela percebeu que Hope sempre esteve com a razão. Austin não era um príncipe e ela estava longe de viver um conto de fadas.
Ela sabia que a amiga queria evitar que ela se machucasse, mas tinha que seguir em frente, tinha que tentar novamente. Assim como ela se enganou com Austin, ela poderia se enganar com , mas ela só ia saber disso se tentasse. Só que depois de pensar em tudo, não sabia dizer se estava preparada para correr o risco, embora fosse aquela a sua maior vontade.
Respirou fundo algumas vezes até se acalmar, não queria compartilhar o seu nervosismo com e nem queria estragar a manhã do rapaz como a sua melhor amiga havia feito com a dela. Deixaria os problemas para trás e assim que ela passasse por aquela porta que separava a sua sala do corredor, começaria o dia de trabalho ao lado de com um sorriso nos lábios, pronta para receber a surpresa, que ela já sabia, do mesmo.
- Bom dia, . - Cumprimentou o amigo com um sorriso nos lábios.
, que já estava revisando algumas planilhas em seu computador, foi pego de surpresa. Assim que viu a imagem de parada próxima a porta, ele sorriu e caminhou em direção a ela.
- Bom dia. – Disse, ficando bem próximo da garota, deixando presa entre ele e a porta.
Antes que ela falasse qualquer outra coisa, a beijou. Um beijo calmo, sem pressa ou segundas intenções, era um beijo acolhedor, um beijo que fez sentir a mesma sensação que sentia quando ele a abraçava.
- Quer que sejamos demitidos? - brincou depois de finalizar o beijo.
- Duvido muito que isso aconteça, é mais fácil a nossa chefe nos dar uma lua de mel adiantada do que sermos demitidos por um beijo no horário de trabalho.
- Você acha?
- Eu tenho certeza, ela me ama e gosta muito de você também. - Bem deixou claro o quanto era convencido só pela sua forma de falar.
deu risada do amigo antes de se dirigir para a sua mesa. A manhã de trabalho foi normal, com muitos afazeres e pouco tempo para conversar. A única coisa que por várias vezes recebeu a atenção de , foi o buquê enorme de rosas vermelhas e a caixa de chocolates que estavam em cima de uma pequena mesa que ficava encostada na parede, entre a sua mesa e a de . O rapaz ainda não havia tocado no assunto das rosas e ela ainda não havia entendido o motivo.
No almoço, ela e almoçaram com mais umas cinco pessoas que trabalhavam na loja, incluindo sua melhor amiga, graças a grande quantidade de pessoas na mesa, ninguém percebeu o clima entre e Hope.
Ao voltarem para o trabalho, as flores e o silêncio de voltaram a incomodar . Ela não queria ser apressada ou pressionar , mas estava doida para saber o motivo para tanto suspense. Sabia que a manhã havia sido corrida, mas aquela tarde estava bem tranquila, então o seu silêncio não era por falta de tempo.
Quando faltavam uns cinco minutos para eles irem embora e os dois já estavam arrumando as suas coisas para saírem, resolveu tocar no assunto e acabar logo com aquele silêncio desnecessário.
- Lindas essas flores. - Apontou com a cabeça para o buquê, recebendo a atenção de logo em seguida.
- Ainda bem que você falou, eu já estava me esquecendo delas.
- Eu percebi. - Falou mais pra ela mesma do que para .
- Gostou mesmo? - Perguntou enquanto se direcionava em direção a pequena mesa para segurar o buquê em mãos.
- Claro, elas são lindas, eu amei. - Respondeu com um enorme sorriso nos lábios e um grande entusiasmo em sua fala.
- Que bom que você gostou, são para a minha mãe, hoje é o aniversário dela. Acredito que ela irá gostar também. - A sua animação em contar a novidade para impediu que ele reparasse a cara que ela fez ao ouvir aquelas palavras. Um sorriso forçado agora pousava em sua boca e ela torcia mentalmente para que ele não tivesse percebido o tamanho da sua animação ao pensar que aquele presente seria para ela.
- Tenho certeza que ela vai gostar sim. Dê os parabéns a ela por mim. - Continuou a falar enquanto tentava recuperar a sua postura normal.
- Obrigada, não vou ter tempo de passar na floricultura agora, por isso fui antes de vir pra cá. Vamos fazer uma surpresa pra ela lá em casa, só para os mais próximos, você não quer ir?
- Obrigada, , mas não vai dar. Minha sobrinha vai lá pra casa hoje, quero ficar um pouco com ela. - Mentiu, aquela era a melhor maneira que ela havia pensado de recusar o convite sem ser indelicada. Ela já havia visto a mãe de apenas umas duas vezes, a sua presença naquele momento de família não era importante.
- Tudo bem, até amanhã então, . - Ele se despediu de forma carinhosa.
- Até amanhã, . - Ela lançou um sorriso antes de se dirigir até a porta.
- Ei, você não está esquecendo nada? - parou de andar assim que ouviu a voz de . Varreu a sua mesa com o olhar e, por não sentir falta de nada, olhou para ele novamente, esperando uma explicação. - Cadê o meu beijo de despedida? - Perguntou com ternura, fazendo esquecer por completo o momento anterior e andar em passos largos até onde ele estava, unindo os seus lábios aos dele, em um beijo longo.


Capítulo 11


Ele

Com tantos problemas para resolver no escritório, não teve tempo para pensar em sua vida pessoal. Mas quando o seu expediente acabou e ele voltou para casa, as lembranças daquela sexta feira apareceu em um passe de mágica, infelizmente ele teria que aprender a conviver com aquilo.
Chegou em casa e encontrou a sua mãe preparando o jantar. Seu pai, que havia saído mais cedo do trabalho, lia uma livro na sala enquanto Nick assistia um canal qualquer de esportes. Sentiu falta de sua irmã e foi informado que ela estava estudando na casa de uma amiga. Trocou poucas palavras com eles e subiu para o quarto, necessitava de um bom banho quente.
Quando desceu, encontrou as mesmas pessoas fazendo as mesmas coisas, era como se o tempo tivesse parado e os congelado naquela posição. Riu do que se passou pela sua mente enquanto se sentava ao lado de Nicholas.
- Que segunda feira mais sem graça foi essa? A faculdade estava um tédio, cruzes. - Nick resmungou, arrancando uma risada do irmão. Nada para ele nunca estava bom e dificilmente ele estava satisfeito com algo.
Quem o conhecia sabia que ele reclamaria das aulas puxadas do seu último ano da faculdade de engenharia civil e das aulas em que não tinha nada pra fazer. Reclamava das atividades porque dizia ser muita coisa de uma para uma pessoa só fazer e reclamava da falta delas por achar um desperdício de tempo ter que acordar cedo pra nada.
- Enquanto isso, o escritório estava uma loucura. - falou aliviado por saber que naquele momento ele estava livre dos seus afazeres.
Os dois irmãos ficaram um bom tempo conversando enquanto o jantar não ficava pronto, eram raros mas gratificantes momentos como aquele. Parecia que havia voltado no tempo, quando ainda morava com os seu pais. Quando ele mudou para o seu apartamento, se sentia diferente quando ia visitar a sua família, mesmo eles sempre falando que ele era de casa, não era a mesma coisa.
Depois de um tempo, todos foram para a mesa de jantar. não conseguia não elogiar a comida de sua mãe, tudo que Bethany fazia era maravilhoso, qualquer coisa que tinha o seu toque se tornava especial. Vez ou outra, durante as conversas paralelas que eles tinham sobre o dia, interrompia o assunto para elogiar novamente cada comida que ele experimentou.
- O papo está bom mas eu tenho que ir buscar a Sam, já está tarde e eu ainda preciso revisar alguns documentos. - Josh interrompeu o assunto dos filhos, que falavam sobre a necessidade de começarem a frequentar uma academia.
- Se você quiser fazer seu trabalho, eu vou lá buscar ela, pai, não tenho nada pra fazer mesmo. - se prontificou em ajudar, vendo que, diferente do seu pai, a única coisa que ele tinha para fazer naquela noite era dormir.
- Se você puder fazer isso, eu agradeço.
- Eu vou com você, , também estou atoa. - Nick disse sorrindo, viu o irmão concordar com a cabeça.
- Filho, ela está na casa da Chloe, é onde ela estava na festinha ontem, você já sabe o endereço. - Bethany avisou, fazendo com que lembrasse do sufoco da noite anterior. Saber daquele nome antes ia servir como uma grande ajuda.
Não havia conversado com a irmã naquele dia, já estava com saudades. Se Nicholas não estivesse indo com ele, aproveitaria o momento para pedir desculpas pela noite anterior, não queria que a Sam ficasse magoada com ele. Mas como não queria que mais ninguém soubesse do ocorrido, deixaria aquele conversa para uma outra hora em que ele estivesse a sós com a mais nova.
Enquanto fazia aquele caminho já conhecido, aproveitou pra contar ao irmão alguns acontecimentos da noite anterior. Além de irmãos os dois eram muito amigos e se sentiam a vontade para conversarem, independente do assunto
- Fiquei com uma garota ontem. - Falou quando o irmão começou a cantar, Nicholas cantando era um castigo para qualquer pessoa com ouvidos.
- Que rápido, já sei a quem puxei. – Brincou, pois sabia que tinha intimidade o suficiente para isso.
- Se eu te falar que estou arrependido, você acredita? Na hora foi bom, mas estou sentindo que fiz o mesmo que a Lauren. - Confessou, aquilo estava martelando a sua mente desde o dia anterior.
- Desencana, , isso não tem nada haver. Foi ela quem fez a burrada, você agora é um homem solteiro, pode fazer o que bem entender. E você tem mesmo é que aproveitar, não vai parar a sua vida por causa de um erro que não é seu. - Aconselhou o irmão que ouviu aquelas palavras com atenção.
No fundo sabia que Nicholas tinha razão, sua vida não podia parar. Aquela era a hora em que ele tinha que começar a viver, desistir naquele momento seria uma traição consigo mesmo, traição que ele jamais perdoaria, assim como a de sua ex esposa.
Ficaram o restante do percurso, que não era longo, em silêncio. Nicholas pensava no quanto o irmão devia estar confuso com toda aquela situação que o pegou desprevenido, enquanto filtrava as palavras do Nick e o que julgava ser certo ou errado.
- É esse prédio aí. - Apontou para o prédio ao lado, assim que parou o automóvel.
- Povo estranho. - Nicholas pensou alto, chamando a atenção do irmão que escrevia uma mensagem para a irmã, avisando que estava esperando por ela.
- Quem? - Quis saber enquanto apagava as palavras escritas em seu celular. Desistiu de enviar a mensagem, achou melhor ligar, seria mais prático.
- Na sexta eu fui pegar a Chloe para ir na festa com a gente, ele não morava nesse ai prédio não. - Ele explicou enquanto reparava o local por completo.
Aquela informação atingiu como um tiro a mente de . Logo as lembranças da demora da irmã no outro dia, a festa com poucos convidados, o porteiro que não sabia de nada, tudo isso veio a tona. Esperava que a sua cara não tivesse o denunciado, não queria que seu irmão percebesse o que estava passando em sua mente. Tratou de tirar aqueles pensamentos da cabeça, as pessoas mudam de residência sempre que necessário, não tinha motivos para Samantha mentir. Sentiu-se mal por ter desconfiado de sua irmã por um momento.
- Ela deve ter se mudado pra cá com a família. - Respondeu saindo do carro, foi para o outro lado e se posicionou próximo ao irmão que já estava parado na calçada do prédio, encostado no carro.
- O estranho é eles mudarem logo pra cá, é lindo o prédio, mas não se compara com o outro em que eles moravam. Sem contar que por aqui só mora gente como a gente, não eles que são ricos pra caralho.
- Vai ver eles estão querendo diminuir os gastos. E você está sabendo demais sobre a vida da garota, é a Samantha ou é você o amigo dela? - Perguntou enquanto tentava ligar para irmã novamente, já que não obteve sucesso na primeira tentativa. - A Sam não atende.
- Eu fiquei com ela no dia em que saímos, sei de algumas coisas. - O sorriso de Nicholas dizia que ele havia lembrado de algo. - Eu tenho o número da Chloe, deixa que eu ligo pra ela, aproveito e já marco o próximo encontro. - Deixou um outro sorriso cheio de significados escapar.
- Você não perde tempo mesmo. Vai, liga logo porque eu quero ir pra casa dormir.
riu da cara de pau do irmão enquanto ele procurava pelo contato em sua agenda, não demorou muito para que a garota atendesse a sua chamada.
- Oi, Chloe, é o Nick, tudo bem? - Enquanto esperava por resposta, ria das caretas que o irmão fazia. - Tudo bem também. Você está com voz de sono, depois a gente conversa, só pede para minha irmã descer, estamos aqui na frente do seu prédio esperando mas ela não atende o celular.
ficou se perguntando o que a garota falava do outro lado. O sorriso de Nicholas já havia desaparecido dos seus lábios e o seu rosto já estava começando a ficar avermelhado. Se conhecia bem o irmão, diria que aquilo só acontecia quando ele ficava muito nervoso e o pior de tudo era que não era qualquer coisa que o deixava assim.
- Como assim ela não está com você? Ela saiu de casa falando que vocês iam estudar juntas. - Gritou ao telefone, naquele momento não restava dúvidas de que, de fato, Nick estava muito nervoso.
Com a voz mais baixa, para não atrapalhar a ligação, perguntava ao irmão o que a garota estava falando. Por não obter nenhuma resposta, sem pedir permissão, tomou o celular de Nicholas, não ia aguentar esperar até o fim da chamada para saber o que estava acontecendo.
- Oi, Chloe, é o , você não sabe da minha irmã? - Ouviu a garota dizer que não, que não havia falado com a amiga nos últimos dias. - E deixa eu te perguntar outra coisa, você está morando mais perto da nossa casa? - Ela também negou, dizendo que estava morando no mesmo lugar desde que nasceu.
também estava nervoso e preocupado com a irmã, não tanto quanto Nicholas que andava de um lado pro outro, sem deixar de prestar atenção na conversa. Sabia que a amiga de Samantha não tinha culpa, e se ela não tinha informações sobre onde ela estava, logo, não tinha porque incomodá-la naquele momento.
- Pode ser que tenhamos confundido a amiga dela, desculpe te incomodar. - Ouviu a garota dizer que aquilo não era um incomodo e pedir para avisar quando tivesse notícias da Sam. - Pode deixar que eu peço pro meu irmão te avisar. - A lembrança da noite anterior apareceu novamente e ele aproveitou o momento só para confirmar o que, agora, já estava claro em sua mente. - Ah, feliz aniversário atrasado. - E antes de se desculpar mais uma vez e finalizar a chamada, ouviu a risada da menina, antes dela dizer que faltava mais de cinco meses para o seu aniversário.
A raiva e a preocupação havia tomado conta dos dois irmãos. Raiva por Samantha ter mentido para todos, preocupação por estar sem notícias, sem saber onde ela estava, com quem e o que estava fazendo.
- Não tinha aniversário nenhum, né? Sexta feira ela estava em outro lugar também. - Nicholas deduziu, viu o mais velho afirmar com a cabeça enquanto continuava tentando ligar para a irmã.
- Mas eu busquei ela aqui no dia da festa, será se a nossa mãe não confundiu os nomes das amigas? - Dentro de ainda havia uma ponta de esperança de que eles estivessem enganados e de que a sua irmã não tinha motivos para mentir.
- Claro que não, , a Sam está aprontando alguma coisa, eu tenho certeza que... - Teria continuado se o barulho do toque do telefone do irmão não tivesse atrapalhado o diálogo.
Era Samantha ligando para ele, assim que atendeu, ela desligou a ligação. Logo em seguida, viu que a garota também havia mandando uma mensagem dizendo que já tinha visto o carro dele lá na frente e que já estava descendo. Entendeu que a ligação foi apenas para chamar a sua atenção para o aparelho.
- Ela está descendo. - Assim que ele avisou. Nicholas passou as mãos pelo rosto, demonstrando a sua impaciência. - Fica calmo. - pediu mas não obteve nenhuma resposta.
Logo depois os dois viram a irmã se aproximando da saída do prédio com uma mochila nas costas, a alegria que o sorriso em seu lábios tentava colocar pra fora era do tamanho da raiva que o seu irmão do meio estava sentindo. Quando percebeu a irmã se aproximando, respirou aliviado por saber que ela estava bem e que nada havia acontecido com ela. Enquanto isso, Nicholas respirava fundo, como se buscasse uma força para colocar tudo que estava sentindo pra fora.
- Espero que a faculdade de moda compense esse tempo todo que estou perdendo estudando pra tirar notas notas boas no ensino médio, porque eu não tô aguentando mais estudar. - Falou tudo de uma vez sem olhar para os irmãos, quando terminou e seus olhos encontraram com os deles, Samantha parou os seu passos no mesmo momento. - Que caras são essas? Aconteceu alguma coisa?
- Sou eu que te pergunto isso, Samantha. - falou sério, sem mudar a posição em que ele se encontrava.
Nem precisava dizer nada pra Samantha entender que algo estava errado. Ela havia percebido isso pela forma como pronunciou o seu nome. Quando percebeu que não continuaria o diálogo ela fixou o seu olhar em Nicholas e sentiu medo no momento. Ele estava vermelho, podia jurar que estava tremendo também, nunca tinha visto o irmão daquela forma.
- Já sabemos que você não estava com a Chloe, que sexta não teve aniversário porra nenhuma e que ela não mora aqui. Você vai explicar o que está acontecendo ou a gente vai precisar obrigar você a subir novamente para descobrirmos onde você estava? - Nicholas gritou, fazendo a irmã dar um passo para trás por medo.
Uma sensação ruim invadiu o corpo de Sam ao ouvir aquelas palavras, não sabia exatamente o que falar ou fazer. Foi só quando as lágrimas começaram a percorrer o seu rosto que ela percebeu que não tinha mais controle de nada, nem mesmo das suas próprias emoções.
- Abre essa boca e fala alguma coisa, Samantha, ou você quer que a gente fique a noite inteira aqui? - Foi a vez de gritar depois de alguns minutos que só não foram em silêncio total devido as lágrimas da irmã. Odiava tratar a irmã daquela forma, mas ele não tinha outra opção no momento.
O barulho do portão do prédio se abrindo chamou atenção dos três que olharam pra a pessoa parada bem próxima a eles.
- Samantha, o que está acontecendo aqui? - Uma voz feminina entrou no meio da conversa, havia preocupação e desconfiança na fala.
Antes que pensasse em qualquer coisa para falar, lembranças vieram de imediato em sua mente. Era ela, a mulher da balada, aparecendo mais uma vez em um momento desnecessário. O mais estranho não era ela ter aparecido do nada, acreditava em coincidências, ela podia muito bem morar naquele lugar. Mas o que o intrigou foi ela ter chamado a sua irmã pelo nome. De onde elas se conheciam?


Capítulo 12

Ela

Várias pessoas, por muitas vezes, passam por momentos de questionar tudo e todos. Não sabe mais dizer o que é certo ou errado, não sabe mais distinguir o que faz bem ou mal e duvidam até do que sempre acreditaram. Enquanto a água quente do chuveiro caminhava desde o fio de cabelo até as pontas do pés de , tudo isso rodeava a sua mente. Existia uma confusão dentro dela que se alguém pedisse para explicar, provavelmente ela não conseguiria.
era o culpado por tudo isso. já sentia algo além da amizade a muito tempo, mas fazia questão de tentar esconder já que não era recíproco. Porém, com o tempo a garota notou uma mudança no comportamento de , era diferente o jeito como ele a tratava, e só teve certeza que aquilo não era fruto de sua imaginação, depois do convite para um encontro.
No fundo ela estava feliz por ter ficado com ele, foi melhor que o esperado, mas por outro lado tinha medo do depois que ainda era incerto, tinha medo de se machucar novamente e de colocar esperanças em algo sem futuro. Sabia que jamais seria capaz de fazer qualquer coisa que a magoasse, mas e se os sentimentos dele não correspondessem aos dela? Isso era algo que não podia ser controlado.
Finalizou o seu banho ainda pensativa, depois colocou uma vestido curto e saiu do quarto com objetivo de encontrar com a sua mãe que devia estar na cozinha preparando alguma coisa, mas ao passar pela sala, uma pessoa diferente lhe chamou atenção. Uma menina fazia um carinho no cabelo de Dylan enquanto ele conversava com a sua filha que estava em seu colo, como se ela entendesse tudo que ele estava dizendo. Os olhos dele brilhavam e os da garota também, não tinha quem não se derretia com uma criança tão linda como aquela.
- Olá! - parou de admirar o momento para falar com eles.
- Oi . - Dylan sorriu sem tirar os olhos da filha e a garota o acompanhou. - Ah, essa é a Samantha. Sam, essa é a minha irmã.
Ele apresentou a menina, sorriu alegremente para Samantha que retribuiu, mesmo com a vergonha e com a timidez presentes naquele momento.
- Oi. - Samantha disse um pouco sem jeito, não estava a vontade com aquela situação.
- É um prazer, Samantha. - Parou de beijar a sobrinha para responder. - Quer que eu fique um pouquinho com a Julie? Assim vocês ficam mais a vontade.
- Quero sim. - Dylan sorriu, agradecendo silenciosamente antes de entregar a filha para a irmã e ir para o quarto com Samantha.
era apaixonada por Julie, não entendia como uma pessoa tão pequena e tão indefesa conseguia trazer uma paz tão grande. A nove meses atrás a sua vida se tornou mais colorida depois que aquela garotinha veio ao mundo, além do seu irmão, também evoluiu bastante com a chegada da sobrinha.
- Bonita a sua nora. - brincou assim que visualizou a imagem da mãe na cozinha, preparando o jantar.
- Ela é linda mesmo, só é um pouco tímida. - Respondeu sem desviar a sua atenção do que ela estava fazendo.
- Dizem que a primeira impressão é a que fica e eu já fui com a cara dela, bom sinal.
Ficaram conversando por um bom tempo enquanto o jantar ainda estava sendo preparado. Quando todos foram pra mesa, teve a ideia de observar a garota um pouco mais. De fato ela era linda; seu rosto, o seu corpo, o seu cabelo, tudo parecia combinar com o seu jeito. Não sabia dizer se Samantha só estava com vergonha ou se era muito tímida, mas durante todo o jantar ela só ouviu uma palavra da boca da menina, ela respondeu que sim quando perguntou se ela queria um pouco mais de suco.
Depois de um tempo, quando assistiam TV na sala, Samantha se despediu de todos, avisou que ia embora e que o seu irmão já estava esperando por ela. Dylan e se ofereceram para levá-la até a saída, mas a mesma recusou. Assim que Samantha desceu, Dylan foi para o seu quarto com a filha, Victoria foi tomar banho para dormir e ficou na cozinha olhando a rua pela janela enquanto terminava de comer um chocolate. Enxergou Samantha parada perto de dois homens que estavam bem na frente do prédio, pouco tempo se passou e eles continuaram no mesmo lugar. Uma preocupação veio a tona: se um daqueles rapazes fossem o irmão da garota, não seria melhor conversarem em casa ou no carro do que no meio da rua a noite? Foi o que ela pensou.
Sua intuição falou mais alto e em questão de segundos desceu e foi ao encontro de Samantha, quando se aproximou percebeu que a garota estava chorando, ignorou os dois rapazes e qualquer medo que ela poderia ter naquele momento e perguntou a menina o que estava acontecendo.
Todos os olhares se voltaram para ela, inclusive um que não era muito estranho. Um deles era do rapaz que havia conhecido na sexta feira a noite, ela tinha boa memória para imagens e lembrou daquele rosto com facilidade, parecia que ele também havia se lembrado daquele dia, pela forma como a olhava.
- Samantha? Quem são eles? - Perguntou novamente, quando percebeu que Sam não ia responder a pergunta anterior.
- Somos os irmãos dela. - O rapaz que estava ao lado do homem da balada respondeu, seu semblante era sério e preocupado. - E você, quem é?
- Sou a , irmã do Dylan. - Disse o óbvio e forçou um sorriso mesmo notando que todos ali estavam sérios.
- Quem é Dylan? - O rapaz quase gritou, o outro que não era tão estranho assim, fixou o seu olhar nela enquanto esperava a sua resposta.
- É o meu irmão, ficante da Samantha. - Disse com certa inocência mas se arrependeu assim que observou as três pessoas paradas ao seu lado.
ficou algum tempo em silêncio esperando alguém se pronunciar, ao perceber que o olhar de Samantha em sua direção, entendeu que ela havia falado demais.
- Eu já entendi tudo, o papai vai amar saber disso, Samantha. - O rapaz que julgou ser mais novo que o outro, falou em alto e bom tom.
- Sam, entra no carro. - O outro que parecia estar mais calmo pediu, viu a irmã atender o seu pedido sem questionar no segundo seguinte. - Boa noite. - Disse para que só balançou a cabeça como resposta, não sabia o que falar.
Só quando o carro desapareceu naquela rua vazia foi que voltou para o seu apartamento. Estava preocupada com Samantha, tinha a impressão de que o relacionamento dela com os irmãos não era um dos melhores e pela reação deles, eles nem faziam ideia do que ela estava fazendo ali. Sentiu-se mal por ter falado demais, no fundo ela só queria ajudar. Decidiu não contar nada ao Dylan, não queria preocupar mais ninguém com aquela situação, ainda mais conhecendo o irmão que tinha, sabia o quanto ele ficaria bravo se soubesse de tudo.
Entrou no quarto de Dylan e viu que ele já estava dormindo com a sua filha, tomou cuidado para não acordá-lo mesmo sabendo que ele tinha o sono pesado.
Pegou o celular do rapaz, que para a sua sorte não tinha senha, e anotou o número de Samantha em seu aparelho, saiu de lá no momento seguinte.
- Seu irmão já dormiu? - A voz de Victoria assustou , que sorriu para disfarçar a cara de quem estava aprontando.
A mais velha estava na cozinha tomando um copo de água, provavelmente ela foi para a cozinha no momento em que entrou no quarto do irmão.
- Já sim, fui lá agora olhar e os dois já estão roncando. - Exagerou fazendo com que sua mãe sorrisse.
- E eu vou fazer o mesmo agora, só vim tomar um copo de água mesmo.
- Eu também já vou dormir. - Disse antes de dar um beijo na testa de Victoria. - Boa noite, mãe.
Assim que ela entrou no quarto mandou uma mensagem para Samantha pedindo desculpas por ter falado demais, dizendo que estava preocupada, que queria falar com ela e pedindo pra ela não comentar nada sobre o que aconteceu com Dylan. Logo depois ela deixou o telefone de lado e tentou dormir.
Um bom tempo se passou e ainda não havia pegado no sono, várias coisas rodeavam sua mente e fazia com que o sono desaparecesse. Pegou seu celular e viu que não tinha nenhuma resposta de Samantha, em seguida seus olhos fixaram em outro contato que estava em suas conversas recentes: o contato de parecia se destacar entre os outros juntamente com a sua foto de perfil com um sorriso enorme.
"Se eu te dissesse que eu estou sem sono, você me ligaria agora pra me fazer companhia?"
Mandou a mensagem para sem pensar duas vezes, seu coração acelerou enquanto ela esperava por uma resposta, vendo que o rapaz estava online.
"Se eu te dissesse que eu também não estou conseguindo dormir, você ligaria lá na portaria para avisar que chego ai em 20 minutos?"
Em menos de dois minutos ele já havia respondido, para a alegria de .
" Você está falando sério?"
Enquanto esperava uma nova resposta, lembrou dos seus momentos na adolescência, quando marcava encontros escondidos do seu pai, quando saia de madrugada sem que ele percebesse e subornava o porteiro que trabalha lá na época com a lasanha de sua mãe, só pra ele não abrir a boca.
" Claro, porque não estaria? Se você falar que posso ir, saio daqui agora. "
" Vem então, estou te esperando."
respondeu antes de começar a trocar o seu pijama de ursinhos por uma camisola mais sensual.
Só quando interfonaram avisando que estava lá embaixo foi que acreditou que ele estava falando sério. As batidas do seu coração aceleraram, o seu corpo se arrepiou por inteiro e o seu sorriso estava exposto para quem quisesse ver.
Respirou fundo e tentou se controlar assim que ouviu o barulho de batidas, deixou a porta aberta para que ele não usasse a campainha e acordasse os outros, pareceu ter entendido o recado.
- Não te falei que eu vinha. - Foi a primeira coisa que ele disse assim que viu a imagem de parada em sua frente.
apenas sorriu, não respondeu nada antes de juntar os seus lábios ao de em um beijo calmo e sem pressa.


Capítulo 13

Ele
Muitas vezes o silêncio perturba, incomoda e até atrapalha. Em outras, ele existe apenas pela falta de palavras ou por não saberem como usá-las. Mas naquele momento, o silêncio falava mais do que qualquer diálogo, ele deixava claro o quanto Samantha estava triste, com medo e preocupada com o que ia lhe acontecer. Ele mostrava o quanto Nicholas estava nervoso e evitava falava qualquer palavra porque ele só sentia vontade de usá-la s para gritar ou xingar. E principalmente, mostrava o quanto estava preocupado com a irmã. O que ela havia feito não era nada simples, não era algo que ele poderia deixar passar. Ela estava na casa de alguém que ele não conhecia, provavelmente fazendo coisas que não queria imaginar. Só de pensar nisso suas mãos já tremiam e seu coração acelerava. Em um mundo onde não se conhecem nem mesmo as pessoas com quem convivem, qualquer estranho torna-se um suspeito.
Não trocaram uma palavra sequer até chegarem ao prédio. Os três tinham muito o que conversar, mas ambos estavam nervosos, então naquele momento era impossível haver algum diálogo maduro entre eles, o problema era que uma conversa em especial, não podia ser adiada.
- Samantha, sobe que eu preciso conversar com o Nick, depois converso com você. - pediu assim que ele estacionou o carro na garagem do prédio.
A menina não respondeu, apenas saiu do carro e começou a fazer o seu caminho. Tudo o que ela poderia fazer para adiar aquela conversa entre eles, ela iria fazer. Sabia que estava errada e sabia o quanto o seu irmão mais velho era um homem que não gostava de brincadeiras. Ela ia ouvir muita coisa, tinha consciência disso, mas naquele momento ela precisar colocar a sua cabeça no lugar antes de qualquer coisa.
- , eu já imagino o que você está pensando e já te adianto: os nossos pais vão saber disso. - Nicholas disse, parecia ter lido os pensamentos do irmão mais velho.
- Eu te entendo, Nicholas, mas ainda acho que isso não é o melhor a ser feito.
- Como não, ? Nossa irmã estava na casa de uma cara que a gente nem sabe quem é, fazendo Deus sabe lá o que, e você quer que eu finja que nada aconteceu? Cara, eu convivo com a Sam todos os dias, ela ainda é muito imatura. - Apesar do nervosismo, Nicholas estava conseguindo conversar sem se exaltar com o irmão.
- Nick, pensa comigo: Por que a Samantha sai escondido? É porque nossos pais e você pegam muito no pé dela. Se a gente falar com o nossos pais, eles vão deixar ela de castigo, ou seja, ela vai se sentir mais presa ainda. Ai quando ele tiver uma oportunidade, ela vai fazer coisa muito pior. - Falou o que parecia óbvio, só estava pensando em uma forma de evitar problemas piores.
- Mas se a gente não fizer nada, ela vai continuar aprontando. E eu só pego no pé dela porque me preocupo, está cheio de caras babacas por ai, não quero que nenhum deles brinque com ela.
- Claro que a gente vai fazer, fica tranquilo que eu vou resolver essa história. Só não fala nada com ninguém tá? Pelo menos por enquanto, se eu não conseguir a gente conversa com os nossos pais, te dou a minha palavra. - pediu e viu o irmão afirmar com a cabeça.
- Não acho certo esconder isso deles, mas eu confio em você. - Forçou um sorriso em meio aquela situação desagradável.
- Ah, também não fica com cara feia pra Sam, você sabe como a nossa mãe é desconfiada, qualquer coisa diferente ela vai notar.
já sabia muito bem o que fazer, sua mente funcionava de forma extremamente rápida quando necessário. Ele não via nada de errado em sua irmã sair ou se relacionar com rapazes ou moças, o que de fato o preocupava era as intenções do outro com a sua irmã. Jamais permitiria que alguém a machucasse, não o perdoaria se isso acontecesse.
- Se a gente proibir ela de fazer alguma coisa é pior, por isso vou tentar descobrir com quem ela estava. - Voltou a falar, recebendo de volta a atenção do irmão que estava perdido entre os seus pensamentos.
- Como?
- Eu tenho uma ideia, fica tranquilo.
Nicholas confiava em de olhos fechados, sabia o quanto o irmão era responsável, o único problema dele era com a bebida, mas como naquele momento ele estava sóbrio, Nick tinha certeza que o irmão sabia do que estava falando.
Quando os dois subiram para o apartamento, foram recebidos por um silêncio que não era nenhum pouco desconfortável. Deduziram que todos os outros já estavam dormindo, por isso fizeram questão de não fazer nenhum barulho e foram fazer o mesmo, ou pelo menos tentar. Antes de dormir. a mente de fez questão de lembrá-lo de todos os acontecimentos daquele dia, principalmente os que envolviam a sua irmã. Sua vontade era ir ate e perguntar se estava tudo bem, seu coração doía só de imaginar Samantha triste, e naquele momento, provavelmente ela estaria.
Quando a noite virou dia e a claridade do sol que nascia lá fora começou a invadir o quarto onde estava, ele se levantou. Não havia conseguido dormir direito, seus pensamentos estavam confusos e ele não conseguia parar de pensar em Samantha. Em um outro momento ele brigaria com a irmã pelo susto que teve com ela, cada vez que a lembrança de que ela estava na casa de alguém que ele não conhecia voltava, sentia uma sensação ruim. Decidiu colocar em prática a ideia que teve, podia parecer loucura, mas ele precisava ter certeza de que a pessoa que a sua irmã estava conhecendo não era uma má companhia para ela. Tomou um banho, se arrumou e ficou acordado até que todos os outros se levantassem. Durante o café da manhã, um clima estranho se instalou entre eles, mas os seus pais pareciam não terem notado. Samantha quase não falava e Nicholas estava mais quieto do que nunca. Assim que terminaram, pediu a Sam que o ajudasse na escolha de uma roupa, mas aquilo era apenas uma desculpa para que eles ficassem a sós. Assim que os dois entraram no quarto, o mais velho começou a falar, não podia perder tempo.
- Sam, ontem eu fiquei muito chateado quando soube que você estava mentindo, porém eu sei como é a situação aqui em casa e eu te entendo, mesmo não achando que o que você fez foi certo. - No mesmo momento em que ele começou a falar, as lágrimas apareceram nos olhos de Samantha.
A amizade da garota com o irmão era a melhor possível, o que ela menos queria era que um vacilo abalasse a relação dos dois. Sam não tinha dúvidas de que ele queria apenas o seu bem.
- Desculpa, eu... - Ela tentou falar, mas não conseguiu, o choro impedia.
Ele a abraçou com a intenção de que seu abraço servisse como um consolo, seu coração doía em ver Samantha daquela jeito. O cuidado dos pais em acesso sufocava a garota, sabia muito bem disso. Não achava justo, sua adolescência e a do irmão foram muito bem vividas, a de Samantha deveria ser da mesma forma. Não fazia sentido em sua cabeça porque quando era com uma mulher as coisas eram diferentes.
Talvez devido a maldita sociedade e aos homens. As mulheres sempre viveram com medo: medo de ser assediada e de sair pelas ruas porque sabem que podem não voltar ou de fazer as suas vontades por saberem que serão julgadas por elas. Os homens também correm os mesmos riscos, mas parece que a gravidade de tudo isso aumenta quando do outro lado tem alguém do sexo feminino.
Por isso ele não julgava os seus pais, sabia que tudo o que eles faziam eram pensando no bem de Sam, mas que eles exageravam na dose de cuidado, não tinha dúvidas.
- Eu fiquei preocupado com você, a gente não pode confiar em qualquer pessoa de uma hora pra outra, Sam, não é certo você ir pra casa de alguém sem dizer nada a ninguém. - Ele voltou a falar quando a irmã ficou mais calma dentro de seu abraço.
- Mas se eu falasse, ai que eu não ia poder sair mesmo, . Até parece que você não conhece o nosso pai.
- Eu conheço sim, mas Samantha, isso não diminui o perigo que você corre ao ir pra casa de um estranho. - Apesar de estar calmo, não perdeu a oportunidade de falar tudo o que queria para a irmã.
- Ele não é uma má pessoa, , se fosse ele teria feito alguma coisa comigo, e eu não iria na casa dele se não confiasse.
- Eu confiava na Lauren e estava a anos com ela, e você sabe muito bem o que aconteceu, né? - Usou a sua história como exemplo e sentiu uma pontada no peito ao tocar no assunto, apesar de ser situações diferentes.
- Mas se for assim, eu nunca vou conhecer ninguém. - Falou desanimada, sentindo-se mal por ter feito o irmão tocar naquele assunto.
- Confiar desconfiando, acho que é essa a única opção. - Ele alertou a irmã, que pareceu ter entendido o recado.
- Desculpa, prometo que nunca mais vou mentir pra você. - Ela falou e abraçou o irmão novamente, selando a promessa que tinha acabado de fazer.
conhecia muito bem a irmã que tinha. Sabia que ela tinha maturidade, mas o que o preocupava era que o coração de sua irmã era grande demais. Ela sempre confiava cegamente nas pessoas, sempre enxergava só o lado bom delas, e isso fazia com que ela não visse o que de fato importava.
- Desculpo mas com uma condição. - Ele começou a falar o que estava planejado em sua cabeça, aquela era a sua única chance de saber toda a verdade.


Capítulo 14


Ela
Era como se dentro dos dois existisse um imã, pela facilidade em que seus corpos colavam um ao outro e pela dificuldade que tinham de se separarem. As mãos de souberam exatamente onde repousar sobre o corpo de , sua boca era o encaixe perfeito para a dela e o abraço era uma mistura de desejo com proteção.
Depois de aproveitar uma boa parte da noite, deitou no peito do rapaz, um filme passava em sua mente naquele momento.
- Nunca imaginei que chegaríamos a esse ponto. - Pensou alto e logo sentiu as mãos de fazendo um carinho agradável em seu cabelo.
Era bom sentir a presença e o toque do rapaz. Devido as decepções passadas, se fechou e a muito tempo não sentia aquela sensação. Não sentia vontade de se envolver com outros caras, tinha medo de se entregar e se decepcionar novamente. Porém, com era diferente, com ele era queria tudo.
- Que bom, ser surpreendida é bem melhor, não? - Ele perguntou logo depois de ouvir o comentário da garota.
- Não sei, é? - Retrucou na intenção de deixar aquela pergunta nas mãos do rapaz.
- Também não sei, eu já me imaginava te dando alguns beijos naquele escritório desde o dia em que te conheci. - Revelou e recebeu um olhar assustado de como resposta, enquanto ele tentava sem sucesso segurar o riso.
- Que imaginação fértil. Então, por que você preferiu se aproximar como amigo? - Quis saber logo em seguida.
- Porque é melhor ser só seu amigo do que ser apenas mais um em sua vida. - falou de forma segura, deixando sem palavras depois disso.
Ela apenas sorriu como resposta e se acomodou no peito do rapaz. Estava sentindo-se feliz depois daquele momento que com , porém, por mais que ela quisesse, não conseguiria deixar o medo de se machucar de lado.
não tinha dúvidas de que queria tentar com e que ela nutria um sentimento pelo rapaz. Porém, o medo de acontecer novamente o que aconteceu no passado, fazia com que ela sentisse vontade de questionar até as suas certezas.
Já de madrugada, quando avisou que ia embora, o acompanhou até a porta, apagou as luzes que estavam acesas, tomou um banho e aproveitou o restante da madrugada para dormir.
Na manhã seguinte, acordou mais tranquila, estava fazendo um grande esforço para pensar positivo e não deixar que as paranóias tomassem conta de sua vida. Quando foi tomar o seu café da manhã, notou a ausência de sua mãe, apenas Dylan estava na mesma, sua expressão não era uma das melhores.
- Bom dia, maninho, que cara é essa? – perguntou animada, na intenção de iniciar uma conversa. – E onde está a mamãe?
O mais novo continuou tomando seu café como se não estivesse ali. Preferiu ficar calado pois sabia que se começasse a falar, não ia conseguir parar.
- Ficou mudo? Eu te fiz uma pergunta. – tentou novamente, sua pouca paciência e a animação que havia acordado junto com ela já estavam se esgotando.
Sabia que, quando Dylan ficava daquele jeito era porque alguma coisa havia acontecido e que, para ele não querer tocar no assunto, com certeza era algo muito sério.
- Ela foi ao mercado. – Respondeu sem olhar pra irmã, o pedaço de bolo em seu prato parecia ser mais importante para ser observado.
- Ótimo. E você está com essa cara fechada por quê? - Ela questionou mais uma vez, precisava entender o que estava acontecendo.
- O , ? Sério? - Dylan parou o que estava fazendo e encarou a irmã sentada em sua frente pela primeira vez naquela manhã. – Eu vi ele chegando aqui ontem, e vi a hora que ele saiu também.
E então entendeu o que estava acontecendo: Dylan já havia se encontrado com poucas vezes e sempre parecia que havia um clima estranho entre os dois. não conseguia entender já que não havia acontecido nada que justificasse isso. Em poucos momentos que precisou ir até o seu apartamento, Dylan sempre ignorava a presença do rapaz e participava das conversas o mínimo possível.
- Qual é o seu problema com o ? – alterou a voz ao questionar o irmão, queria esclarecer aquela história de uma vez por todas. - Qual o seu problema em me ver feliz?
- Eu não confio nele, , ele não me passa segurança. É óbvio que eu quero que você seja feliz e que você siga em frente, mas precisa ser justo com ele? Eu estou falando isso pro seu bem. – Tentou ficar calmo para conseguir colocar tudo pra fora, não queria brigar, queria apenas que a irmã conseguisse entender o que ele queria dizer.
- Você mal conhece o , não tem o direito de falar nada.
- Não conheço porque o pouco que eu conheci já me deu vontade de manter distância. - Foi direto, Dylan sempre falava o que pensava, era sincero até demais.
- Eu vou te provar que não é uma pessoa ruim. - Falou sentindo-se ofendida por ver o irmão julgar alguém que era tão importante pra ela.
- Isso se eu não te provar que você está errada primeiro. – Disse antes de sair da mesa, deixando um tanto confusa.
Uma lágrima desceu pelo rosto de enquanto ela tentava, sem sucesso, arrumar a bagunça que estava em sua mente, quando tudo parecia estar bem, algo sempre acontecia.
Não tinha motivos para Dylan dizer tudo aquilo e isso era o que a deixava mais confusa, afinal, podia ser apenas uma implicância qualquer como também poderia ser um aviso.
Tinha plena consciência de que jamais faria algo que a machucasse, logo, não tinha motivos para ela ocupar a cabeça com aqueles pensamentos.
Decidiu ir para o trabalho mais cedo, ficar com a cabeça vazia não ajudaria em nada. Quanto mais coisas ela tivesse pra fazer, menos ela se preocuparia com isso.
- Caiu da cama? - Hope seguiu a amiga até o escritório assim que a viu chegar e percebeu que ela não estava bem. Ainda estava cedo, ou seja, elas teriam tempo suficiente para conversar até chegar.
- Hoje o meu irmão veio falar do . Primeiro você, agora ele, qual o problema de vocês em me ver tentando seguir em frente depois de tudo? - Falou sem rodeios, tinha intimidade suficiente com a amiga para isso.
Hope ainda pensou alguns instantes antes de sentar em frente a amiga que, pela sua expressão, começaria a chorar a qualquer momento.
- Eu não tenho nenhum problema com o , inclusive até gosto dele. Só acho que vocês dois não combinam, tipo a conta em que 1+1=3, não faz sentido, está errado e nem da pra explicar, só aceitar e pronto. - Respondeu enquanto observava o esmalte em sua unha, como se aquilo fosse algo mais importante.
- Meu Deus, Hope, eu gosto dele, vocês não podem me impedir de ser feliz. - Disse entre as lágrimas que agora desciam livremente pelo seu rosto.
- Ninguém vai colocar uma arma em sua cabeça e pedir pra você não ficar com ele, você pediu minha opinião e eu dei, só isso. O que eu nao vou fazer é falar algo diferente do que eu penso só pra te agradar.
- Você está me ajudando muito, Hope, muito obrigada. - ironizou antes de secar suas lágrimas e começar a mexer com os papéis que estavam em sua mesa, ignorando a presença da amiga.
- Não sei pra que você pede conselho se no final você sempre acaba fazendo o que você quer. - Disse antes de sair da sala, deixando sozinha.
Sem concentração nenhuma para trabalhar, começou a acessar algumas pastas de fotos em seu celular que nunca havia conseguido apagar. Nas imagens estavam registrados alguns momentos que ela passou ao lado de Austin. Viagens, aniversários, festas... O sorriso dos dois eram os mesmos em todas as fotos.
Qualquer pessoa que conhecesse aquele casal diriam sem dúvidas que eles eram a alma gêmea um do outro. Embora já tivesse superado, ela ainda não conseguia se desfazer das recordações dos bons momentos que viveu ao lado de Austin. Ela foi extremamente feliz ao lado dele, disso ela não poderia reclamar.
As vezes se perguntava por que o destino era tão traiçoeiro. Se não era para eles ficarem juntos, por qual motivo ele apareceu em sua vida e fez com que ela imaginasse todo o restante dela ao seu lado?
Muitas vezes sentia vontade de saber notícias dele, o que ele estava fazendo, se havia encontrado alguém... Mas isso seria humilhante demais depois de tudo o que ele fez. De fato, cortar qualquer contato que ela pudesse ter com o ex namorado foi a melhor decisão que ela fez após o término, assim, jamais teria alguma recaída.
Não soube dizer por quanto tempo ficou viajando através das imagens, mas assim que ela ouviu a voz de , guardou o aparelho para não ser pega no flagra, como se o que ela estava fazendo fosse muito errado.
- Bom dia. - foi em sua direção e a cumprimentou com um beijo na testa.
- Bom dia, . - Respondeu com um sorriso no rosto. Era impossível ver sorrindo e não sorrir também.
- Tudo bem? - Ele quis saber, não notou nada de estranho, era apenas uma tentativa de manter um diálogo entre os dois.
teria respondido se o seu celular não tivesse começado a tocar no segundo seguinte, pediu licença para para poder atender.
- Alô. - Atendeu a ligação, sua cara de surpresa não passou despercebida por que a encarava enquanto ela ouvia o que uma outra pessoa dizia do outro lado da ligação. - Você?


Capítulo 15

Ele
Mentir nunca era a melhor escolha, porém, naquele momento não teve nenhuma outra ideia que pudesse ajudá-lo. Odiava mentiras, mas entendia que as vezes elas ajudavam mais do que as próprias verdades. Não podia simplesmente dizer a Samantha que pretendia ir atrás de informações sobre o rapaz com quem ela estava saindo e foi por isso que ele preferiu inventar que tinha interesse em conhecer aquela mulher que foi ao encontro de Sam na portaria.
Sabendo da atual situação do irmão, Samantha não pensou duas vezes antes de passar o número de a ele, não passou pela sua cabeça que , na verdade, tinha outras intenções. Mas qualquer coisa que ela pudesse fazer para ajudar o irmão a superar o que havia acontecido, ela faria.
Pouco tempo depois de chegar ao trabalho, ligou para . Ele se identificou, explicou o motivo da ligação e marcaram de se encontrarem no final daquele mesmo dia. Para a sua sorte, ele não precisou insistir muito para que ela aceitasse o seu convite. só queria saber um pouco mais sobre o rapaz com quem a sua irmã estava saindo, queria conhecê-lo o máximo possível para ter confiança e não se preocupar todas as vezes em que a sua irmã estivesse com ele.
Podia ser exagerado da sua parte, mas ate onde sabia, Samantha nunca havia se envolvido com alguém, então, o fato de tudo ser uma novidade pra ela o deixava um pouco apreensivo. Sam ainda era muito nova e via o mundo de uma forma diferente do que ele realmente era. Algumas pessoas só começavam a enxergar de fato depois de quebrar a cara, mas faria de tudo para que a sua irmã não precisasse chegar a esse ponto.
O dia já estava quase virando noite quando chegou ao lugar que havia combinado com , era uma cafeteria aconchegante e bem movimentada. Não demorou muito para que chegasse também.
- ? - Ela perguntou só para ter certeza se realmente era ele que estava ali.
estava de cabeça baixa mexendo no celular, o que fazia com que não conseguisse visualizar o rosto do homem que ela tinha visto apenas duas vezes. Porém, levando em consideração que ela estava atrasada, deduziu que era ele por ser a única pessoa que estava sozinha em uma das mesas.
- ? - Ele quis confirmar também, desejava mentalmente não ter confundido o nome. Viu que estava certo quando assistiu ela sorrir e afirmar com a cabeça. - Sente-se, por favor.
- Desculpe o atraso, tive alguns imprevistos no trabalho.
- Não se preocupe, eu cheguei a pouco tempo também. - Sorriu de forma acolhedora para ela.
Assim que ambos se acomodaram, eles foram interrompidos pelo garçom que foi anotar o pedido dos dois, assim que o jovem saiu, eles continuaram a conversar.
- E então... - o incentivou a dizer o motivo para os dois estarem ali.
De uma forma bem resumida, explicou toda a situação para : o fato da irmã ser imatura, nunca ter se envolvido com alguém, a pressão dos seus pais e a mentira de Samantha para sair de casa.
- Eu tive que inventar uma história para conseguir o seu número, não queria que ela sentisse que estava sendo vigiada, por isso recorri a você, gostaria de saber um pouco sobre o seu irmão, se você não se importar em falar, é claro. - Finalizou explicando toda a situação e o motivo para os dois estarem ali.
ouviu tudo atentamente enquanto tomava o seu café que havia acabado de chegar. Entendia o lado de e conseguiu perceber nele um lado muito protetor em relação a irmã.
- Não sei se é exatamente isso o que você quer saber e nem se vai acreditar, já que quem está falando é a irmã dele, mas o Dylan é um bom rapaz e uma de suas maiores qualidades é ser sincero até demais. - Respondeu enquanto tinha a atenção de totalmente voltada para ela.
Enquanto escutava tudo o que falava, observava a garota em sua frente como se estivesse anotando mentalmente todas as palavras que saiam de sua boca.
- Então você acha que se ele não quiser alguma coisa com a Sam, ele vai chegar nela e abrir o jogo?
- Não tenho dúvidas. O último namoro dele, tinha anos de relacionamento e uma filha no meio, ele foi maduro o suficiente para decidir que terminar era melhor do que ficar do jeito em que eles estavam.
- Ele já é pai? - Viu afirmar com a cabeça e lançar um olhar duvidoso em sua direção. - Não que isso seja um problema, só uma curiosidade mesmo.
- Ele terminou o relacionamento a pouco tempo e, antes que você pense isso, não acho que ele está usando sua irmã para esquecer a ex. Não faz o tipo do Dylan, eu diria que ele está apenas seguindo em frente. Mas voltando ao caso da filha, ele é um excedente pai, mesmo após o término, ele nunca foi ausente com ela. Olhando por esse lado, você pode ver o quão responsável ele é.
- Sabe, , hoje em dia é difícil confiar até nas pessoas que estão do nosso lado. Não me leve a mal, eu estou fazendo tudo isso pelo bem da minha irmã, não me perdoaria se alguma coisa acontecesse com ela. - Explicou-se mais uma vez, não queria que nada ficasse confuso.
E o que não imaginava era que aquela conversa seria tão agradável. teve paciência o suficiente para ouvir todo a sua versão e sentiu-se a vontade para falar exatamente o que pretendia ouvir. Qualquer detalhe a mais que ele soubesse sobre o rapaz já faria toda a diferença.
- Acho que eu posso aproveitar o momento e te pedir desculpas também. - mudou de assunto assim que o anterior foi encerrado e o silêncio nasceu entre eles.
- Como?
ainda estava pensando sobre a conversa de minutos atrás. A preocupação com a irmã e o desejo de querer cuidar de Samantha, foi visto de maneira positiva por ela. Em nenhum momento aquilo pareceu errado ou doentio. apenas queria que a mais nova seguisse pelo seu caminho sozinha, mas antes disso ele estava certificando de que não existia nenhum perigo no meio dele, sem que ela soubesse, é claro.
- Por ter sido um idiota com você na balada. É muita coincidência ter te encontrado novamente depois disso, não posso perder a oportunidade de me desculpar. - Ele comentou para que entendesse e lembrasse o motivo do seu pedido de desculpas.
- Imagina, eu que peço desculpas se fui inconveniente. Mas você não estava com uma cara muito boa, pensei que poderia estar passando mal, algo assim. - Sorriu de forma gentil para , que retribuiu o gesto. - E esse mundo é realmente muito pequeno mesmo.
- Você só quis ajudar, não precisa se desculpar, o idiota da história fui eu. É que eu estava no pior dia da minha vida e com o corpo cheio de álcool, você deve imaginar a minha situação. - O sorriso de foi desaparecendo conforme ele foi lembrando dos momentos daquela noite.
- Sei muito bem. - Embora fosse muito curiosa, não se sentiu a vontade para perguntar o que havia acontecido naquela noite.
E então uma conversa paralela se iniciou entre os dois. Começaram a falar sobre baladas, músicas, bebidas e acabaram descobrindo vários gostos em comum. Os dois estavam ali por um motivo, mas a companhia um do outro estava tão boa que eles não se importaram em ficar mais um bom tempo conversando sobre coisas aleatórias.
Visto que muito tempo havia se passado, avisou que precisava ir embora. Antes disso ela tranquilizou mais uma vez em relação ao seu irmão e disse que, se ele precisasse, poderia contar com ela novamente.
- Você se importa se eu pagar a conta? - perguntou, tendo em mente que o seu dinheiro e o dela tinham o mesmo valor.
- Prefiro dividir. - Ela sorriu e viu o rapaz sorrir também e afirmar com a cabeça.
- Obrigada por ter aceitado o meu convite e vir até aqui conversar comigo. - agradeceu depois de pagarem a conta. - Eu estou bem mais aliviado. - Continuou e segurou a mão de que estava em cima da mesa, fazendo um carinho agradável nela.
foi surpreendida pelo gesto mas aquilo não foi um incômodo. Ela sabia que aquilo era apenas um agradecimento e que ali não tinha nenhuma outra intenção além disso. Ela sorriu para e antes que ela pudesse responder alguma coisa, a voz de uma outra pessoa atrapalhou o momento dos dois.
- Vocês se importam se eu me sentar aqui? É que todas as outras mesas já estão ocupadas.
- ? - olhou assustada para o rapaz, não esperava encontrá-lo ali.
- , sou amigo da . - Ignorou o susto da garota e estendeu a mão para que mantinha um semblante confuso.
- . É um prazer. - Falou um pouco sem graça, junto com o rapaz, surgiu também um desconforto entre os três.
sorriu e continuou parado de pé ao lado dos dois. permaneceu em silêncio, não sabia o que estava acontecendo mas notou um clima estranho no ar. alternava o olhar entre eles sem saber exatamente o que dizer. Se pudesse, ficaria invisível naquele momento.
- Com licença, eu já estava de saída. - Percebendo que estava sobrando ali, se levantou, quebrando aquele silêncio confrangedor. - Foi um prazer te conhecer, , e , muito obrigada por hoje. - Sorriu e saiu sem dar a oportunidade de um dos dois responderem.


Capítulo 16

Ela

não conseguia dizer por qual motivo ficou tão sem jeito ao falar com aquele rapaz no telefone, na frente de . Não tinha nada a esconder e também não sabia o motivo da ligação, mas a única coisa que passou pela sua cabeça antes de iniciar aquela conversa foi pedir licença ao e se retirar da sala. Pior que isso foi ter voltado com uma história inventada na ponta da língua para explicar a sua saída para o seu colega de trabalho, mesmo sem ele pedir.
Passou o dia todo sentindo-se mal por ter mentido, não tinha motivo para isso, mas simplesmente não conseguiu dizer a verdade. Quase no fim do seu expediente, ela se despediu de e saiu alguns minutinhos mais cedo, para conseguir encontrar com Hope e desabafar com a amiga. Hope já estava se arrumando para ir pra casa, mas ainda conseguiu encontrá-la para uma conversa.
Contou sobre o telefonema de e sobre ter inventado uma história para para não contar o real motivo da ligação. Não soube dizer ao certo por qual motivo ela mentiu, mas simplesmente não conseguiu dizer a verdade. Era como se ela estivesse fazendo lago de errado, quando na verdade, ela estava indo apenas tomar um café e conversar.
- Você casou com o e não me convidou? - Hope perguntou depois de ouvir toda a história amiga.
- Como? - Respondeu com uma pergunta inocente, sem entender o que a amiga quis dizer com aquele comentário.
- Desde quando você tem que dar satisfações ao ? - Questionou de forma mais clara, joguinhos não funcionam com ela.
A verdade era que Hope não conseguiu entender o motivo da atitude de , ela não tinha que se explicar para o rapaz, eles só tinham ficado. Até onde ela sabia, os dois não haviam assinado um contrato onde dizia que um deveria dar satisfações de tudo o que fizesse ao outro.
- Eu só acho que... - ia tentar se explicar, mas foi interrompida pela amiga.
- Você não acha nada, , você vivia dizendo que não queria mais se apegar a ninguém e já está de quatro pelo . Só não falo mais nada pra depois você não dizer que eu não quero te ver feliz.
queria dizer que a amiga havia entendido errado, que o fato dela ter mentindo foi apenas uma forma de evitar problemas. Na verdade estava confusa, talvez nem se importaria com a verdade, mas como ela já havia prestado aquele papel, seria feio demais voltar atrás.
E se tinha uma coisa que estressava era a forma como Hope falava as coisas com ela. A amiga não sabia conversar e sempre chegava com cinco pedras na mão. Já não era novidade ficar magoada depois de conversar com a amiga, sempre era daquele jeito. Foi exatamente por esse motivo que ela não tentou mais se explicar.
- E precisa falar desse jeito? - Alterou o seu tom de voz, já havia se estressado só de ouvir a opinião da Hope.
- Quem sabe assim você acorda, o não quer o mesmo que você. - Hope comentou como se aquilo fosse óbvio.
Ela conhecia muito bem e sabia o tamanho do seu interesse por , talvez fosse por isso que ela estava sendo clara e expondo o seu ponto de vista para a amiga. Hope enxergava que estava em um momento de curtir a vida, e apesar de tudo que ele dizia para , ela tinha consciência de que as intenções dos dois não eram as mesmas.
- E quem te garante isso? - Respirou fundo antes de perguntar, só para não ficar mais nervosa do que ela já estava.
- Já me envolvi com caras do tipo dele, falo por experiência, você devia cair fora enquanto é tempo.
- Eu acho que eu já sou bem grandinha pra decidir o que fazer da minha vida. - E antes de pensar ela já havia respondido Hope, quase no mesmo tom que ela sempre usava com .
- E eu acho que a partir do momento que você me conta alguma coisa, você me dá a liberdade de falar o que eu penso. Se não quer ouvir a minha opinião, não me conte mais nada. - Disse antes de sair, deixando sozinha com o seu estresse.
Lavou o rosto no banheiro, na intenção que aquilo lhe acalmasse de alguma forma. Olhou por alguns segundo seu rosto vermelho no espelho e lembrou o quanto tudo parecia complicar quando era com ela. Mas não iria chorar, não naquele momento, não fazia mais sentido ela desabar sempre que algo de errado acontecia, aquilo não resolvia nada.
Saiu da loja e foi em direção ao lugar combinado. Na ligação, já havia adiantado o assunto, ele queria falar sobre o envolvimento de Dylan e Samantha. imaginou que fosse apenas ciúmes de irmão mais velho, mas ao chegar no local combinado e encontrar com o rapaz, percebeu que estava completamente enganada. Ficou claro que era mais preocupação do que ciúmes da parte dele.
Basicamente só queria saber um pouco mais sobre Dylan e sobre as suas intenções com a Samantha. não mentiu em momento algum, e disse o que ela podia dizer, até porque ela não fazia ideia do que Dylan sentia ou pensava. Mas ela sabia que o irmão era uma boa pessoa e jamais faria lago para machucar a garota.
Depois disso recordaram o fatídico dia na balada e começaram a conversar sobre assuntos aleatórios. No início não estava tão a vontade por não ter nenhuma intimidade com ele, mas depois de alguns minutos de conversa, era como se eles já se conhecessem a muito tempo.
Ela não esperava que um simples café se transformaria em uma conversa agradável, e muito menos que essa conversa seria interrompida pela voz de . Não percebeu o rapaz se aproximando e só acreditou que de fato era ele ao vê-lo parado ao seu lado. pareceu ter notado um clima estranho, pois logo em seguida ele avisou que estava de saída, deixando os dois a sós.
- Eu posso explicar. - falou depois que se sentou onde estava antes.
- E eu tenho todo o tempo do mundo para te ouvir. - Disse enquanto olhava o cardápio do local. – Por que você mentiu, ?
demonstrava uma enorme tranquilidade enquanto tentava se acalmar daquele susto que foi encontra-lo ali. Diferente de , ele não parecia nenhum pouco incomodado com aquela situação.
- Eu não sei. Só não queria que você pensasse que eu estava vindo pra um encontro ou algo do tipo. Esse rapaz é apenas o irmão da ficante do Dylan, ele só queria sabe um pouco mais sobre o meu irmão e achou melhor me perguntar do que ir falar direto com ele. Não queria que a irmã dele pensasse que ela estava sendo vigiada. - Disse de forma rápida, soltando tudo de uma vez para não gaguejar.
- E qual o problema em me dizer isso? - Perguntou sem se exaltar, não sabia dizer se aquele excesso de tranquilidade era algo bom ou ruim.
- Sei lá, eu só achei que... - Tentou responder, mas não sabia ao certo o que dizer.
- Você não me deve satisfações, . Você é maior de idade, solteira e madura o suficiente para fazer o que bem entender. Não é porque estamos nos conhecendo que você precisa agir assim, até parece que você não sabe como eu sou. - Fechou o cardápio que olhava sem intenção nenhuma e olhou para , com um sorriso nos lábios que ela não conseguiu decifrar o significado.
Aquelas palavras de uma certa forma magoaram a garota. Mesmo falando que eles estavam se conhecendo, a forma como ele falou deu a entender que eles não passariam disso. E se estivesse, de fato, em um encontro? não se importaria?
- Se fosse o contrário, eu não ia gostar. Acho que foi isso que passou pela minha cabeça.
- Sabe por que eu não me importaria se eu chegasse aqui e te encontrasse agarrada com aquele homem? Porque se não assumimos algo, você continua sendo solteira. Eu gosto de você mas não posso te cobrar nada. Porém, eu posso te pedir uma coisa, certo? Não minta mais pra mim, por favor.
- Desculpa, , isso não vai acontecer de novo, te dou a minha palavra. - Sorriu e viu o garoto fazer o mesmo. - E como foi que você me achou aqui, eu posso saber?
- Foi uma coincidência, acredita?
E em questão de segundos, um pequeno filme passou na mente de . Lembrou do encontro na balada com , do encontro na frente de sua casa e de ter aparecido naquele local justamente no momento em que ela estava conversando com .
- Acredito, e como acredito. - Foi o que ela respondeu enquanto seus pensamentos estavam longe.


Capítulo 17

Ele

Muitas vezes o ser humano erra em agir por impulso, fazem tudo de cabeça quente e só param para pensar depois que tudo aconteceu, pensam nas consequências quando já é tarde demais.
poderia muito bem ter ido direto para a sua casa depois de ter conversado com , mas ele já estava bêbado demais dentro do mesmo bar que sempre frequentava para pensar porque não havia feito isso.
- Qual o seu nome? – Perguntou para o garçom que lhe atendia sempre, assim que ele lhe serviu mais uma bebida.
- Jordan. - Eles respondeu enquanto apoiava seus braços no balcão. - E o seu? - Perguntou já sabendo o quanto bêbados gostam de conversar quando estão naquele estado.
Ainda era cedo e por ser uma terça feira, quase não tinha movimento na balada naquele dia, isso fazia com que Jordan pudesse dar atenção a que já estava bêbado o suficiente.
- Me chamo . - Fez uma pausa para beber mais um gole da bebida que ele já não conseguia mais dizer qual era. - Jordan, você já foi traído? – Perguntou e viu o rapaz negar com a cabeça. – Eu fui, ela me traiu com o meu melhor amigo. Ela falava que gostava de mim e me traiu, Jordan.
não se importava com as lágrimas que desciam sem permissão pelos seus olhos. Embora estivesse naquele estado devido ao álcool, aquilo doía de verdade e a bebida já não estava mais funcionando como anestésico.
- Todo dia ela falava que me amava e que queria ter filhos comigo, mas ela foi pra cama com meu amigo que foi padrinho do nosso casamento. E não é mentira, porque eu vi com meus próprios olhos. – Falou entre os soluços, era estranho demais pensar que aquilo havia acontecido com ele.
Jordan ouvia aquela história com atenção, já presenciou muitos desabafos de bêbados e sabia que estava falando sério. Talvez sem a bebida ele não teria coragem de expor o quão difícil estava sendo aquele momento para ele. Sóbrio era mais fácil fingir que estava tudo bem, mas depois de beber, fingir parecia ser algo impossível e extremamente errado.
- Você já tentou conversar com ela? – Jordan perguntou com calma, como se não quisesse tocar na ferida do rapaz.
- Eu não consigo olhar na cara dela mais e sei que não adianta conversar, não tem como ela negar. - Ele mesmo negava com a cabeça enquanto respondia o garçom.
- Olha, , eu nunca passei por uma situação assim mas acredito que um erro não anula os acertos de alguém. Se tudo o que vocês passaram antes disso foi bom, vale a pena perdoar. - Sorriu numa tentativa de aconselhar que parecia estar perdido em seus pensamentos. - Quem erra uma vez, pode não errar duas.
- Mas eu fui traído, Jordan, eu não consigo mais confiar nela. - Disse antes de limpar suas lágrimas, viu o garçom negar com a cabeça antes de ir atender outro cliente que havia chegado.
Depois de beber um pouco mais, pagar a conta e sair do bar, dirigiu em direção ao seu antigo apartamento, não sabia muito bem o que faria ali, mas sabia que precisava ir até ele. Já era tarde e Lauren não estava em casa, isso fez com que automaticamente imaginasse que ela poderia estar com alguém. Seu sangue ferveu e ele foi até o bar que ficava na sala, encheu um copo de whisky e bebeu o líquido desejando que aquilo fizesse com ele se acalmasse. Foi ate o quarto e pegou uma caixa onde ficavam as fotos reveladas das viagens que o casal havia feito, comprovantes de passagens e de hotéis. Olhava cada lembrança e logo em seguida rasgava, como se aquilo fizesse com que ele se esquecesse dos momentos já vividos.
- O que você está fazendo com as nossas recordações? - Lauren perguntou assim que entrou no apartamento.
jogou no chão o restante de papéis que ainda estavam na caixa e logo em seguida bebeu todo o whisky que estava no copo. Lauren estava linda e ao observar isso, os pensamentos de que ela estava com alguém voltaram para a mente do rapaz.
- Nada do que tem aqui é seu. - Encheu novamente o seu copo enquanto falava. - Essa poltrona é minha. - Disse depois de virar o móvel no chão. - Esses quadros de fotos são meus. - Derrubou todos que estavam na estante da sala. - Tudo aqui é meu. - Por fim, quebrou o copo que estava em sua mão, o jogando na parede.
Era como se algo estivesse alertando a que ele estava errado, era como se ele soubesse que iria se arrepender depois, mas ele não conseguia parar, sua vontade era quebrar tudo o que visse pela frente, suas ações e as palavras que saiam da sua boca não podiam mais ser controlados.
Lauren se contraiu, numa tentativa de esconder-se dentro do próprio corpo. Sabia que jamais faria algum mal a ela, sabia que ele jamais seria capaz de agredi-la, porém, aquele homem em sua frente não era o que ela conhecia, e por isso ela não sabia dizer do que aquele que estava ali era capaz.
- Você enlouqueceu, ? O que você pensa que está fazendo? - Lauren gritou, embora sentisse medo, não podia ficar quieta vendo tudo acontecer em sua frente.
- Enlouqueci! Enlouqueci no dia que vi você nos braços do meu melhor amigo. Enlouqueci no dia em que vi o nosso casamento sendo jogado no lixo. Enlouqueci quando descobri que você e o meu melhor amigo eram tão baixos a ponto de ter um caso e ficarem juntos dentro da minha casa. - Cuspiu as palavras como se elas tivessem um gosto amargo e não pudessem mais ficar em sua boca.
- Eu não tenho caso com ninguém. - Ela respondeu enquanto as lágrimas caiam sem permissão pelo seu rosto. Aquele era o seu pior pesadelo no qual ela daria tudo para ser acordada.
- Vai dizer mais uma vez que eu estou ficando louco e você não estava se agarrando com aquele filho da puta?- Suas palavras se embolavam devido ao seu estado de nervosismo e ao álcool, mas Lauren conseguia entender tudo com facilidade.
- Eu não estou dizendo isso, eu sei que errei e assumo o meu erro, mas aconteceu uma única vez, eu não tenho caso com ninguém.
- E você quer que eu acredite nisso? Ah, Lauren... - Negava com a cabeça enquanto mantinha um sorriso sem alegria em seus lábios. - Eu não acredito mais em nenhuma palavra que sai da sua boca.
- ... - Tentou continuar, mas suas lágrimas disseram por si só, tudo o que ela menos queria era que aquilo estivesse acontecendo.
- Você não significa mais nada pra mim, Lauren, eu tenho nojo de você e do que você fez. Sinto ânsia só de olhar pra sua cara. - Andou em direção a saída, precisava ir embora dali o mais rápido possível antes que sua cabeça explodisse. - Pra mim você não existe mais. - Disse por fim, antes de sair e deixar Lauren aos prantos, sozinha no apartamento.
Quando gostamos muito de alguém, temos a mania de associá-la com músicas, filmes e lugares. Automaticamente as lembranças aparecem em nossa mente quando temos algum contato com essas ligações. A música que tocava na radio enquanto dirigia em direção ao apartamento de seus pais era justamente uma de sua favoritas, que trazia lembranças de um dos dias mais felizes de sua vida.
Era janeiro, aquele dia o sol sorria e a sua cor amarelada deixava o dia mais bonito. não conseguia parar de sorrir, sentia vontade de gritar pro mundo o tamanho da sua felicidade. Em poucas horas ele daria o seu sobrenome e a sua vida para a mulher que despertou o melhor que existia dentro dele. Naquele dia, assim que ele acordou, observou por alguns minutos o seu reflexo no espelho: era como se ele conseguisse ver o seu interior, era como se a sua alegria estivesse transparecendo por cada parte do seu corpo. Seu coração estava acelerado e suas mãos soavam constantemente. sorria para o seu próprio reflexo e, embora aquilo parecesse loucura, ele não conseguia controlar. Ao chegar naquela igreja, a mesma que ele dizia ser a mias bonita da cidade quando passava em frente a ela quando era criança, sua ficha caiu e ele percebeu que realmente estava vivendo aquele sonho. O local estava lotado de pessoas especiais, seus familiares e amigos pareciam estar sentindo uma alegria quase igual a dele, pois sorriam sempre que olhavam para ele. Quando a música começou e Lauren entrou pelas grandes portas, as lágrimas que ele estava segurando com grande esforço desceram sem permissão pela sua face. Ela estava linda, mais do que já era e estava ali para ele, estava ali para jurar perante a Deus que o amor dos dois seria para sempre.
- Merda de vida, merda. - gritou enquanto desligava o rádio com agressividade. Uma simples música fez com que lembrasse, em poucos segundos, dos principais acontecimentos daquele dia.
Agora todo aquele amor, aquelas promessas e aquele casamento estava no passado, não seria para sempre como ele achou que fosse. Estacionou o carro assim que chegou no prédio dos seus pais e colocou pra fora tudo o que estava sentindo antes de sair do veículo. Chorou por tudo que estava passando, por saber que não passaria o resto dos seus dias ao lado de Lauren como havia jurado, chorou por saber que aquele casal apaixonado não teria filhos como os seus amigos sempre diziam, chorou porque se sentiu fraco, inútil e insuficiente por não ter desconfiado de nada em nenhum momento.


Continua...



Nota da autora: Espero que tenham gostado, meus amores. Não esqueçam de comentar o que acharam e quais são as suas teorias. Quero muito saber o que vocês esperam da história. Ah, meu grupo no face é "Histórias Da Bruna Magalhães", entrem lá pra ficar por dentro das novidades. O meu Ask é @abrumag e do personagem principal é @chrislucidos, vão lá bater um papo com a gente. Enfim, é isso! Beijos.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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